O Desenvolvimento do Currículo na disciplina de Educação Visual e Tecnológica A Obra de Arte como um caminho para uma Literacia

Maria Alice Sousa Dias Gradíssimo
diasgradissimo@gmail.com

Escola E.B. 2,3 Professor Gonçalo Sampaio - Póvoa de Lanhoso

Ana Paula Viana Caetano
apvc@fpce.up.pt

Faculdade de Psicologia e de Ciências de Educação da Universidade de Lisboa

Resumo A publicação do Decreto – lei nº 6/2001, de 18 de Janeiro e as “Competências do Ensino Básico” desafiam a escola e os professores no sentido da (re) contextualização de práticas curriculares. Torna-se pertinente desocultar o desenvolvimento do currículo na disciplina de EVT e compreender se a obra de arte é, ou não, um caminho para uma literacia artística. Pretendemos conhecer, (re) interpretar e (re) criar as práticas e os discursos dos alunos e professoras relativamente à utilização da obra de arte na disciplina de EVT. A nossa investigação permitiu-nos verificar que a obra de arte é uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento curricular de EVT, permitindo aprendizagens significativas e consequentemente o desenvolvimento da literacia artística nos alunos facilitando, simultaneamente, a inter e a transdisciplinaridade curricular prescrita pelo Decreto lei 6/2001. Palavras chave: Literacia artística; currículo; educação Visual e Tecnológica; obra de arte; conceito de arte. Abstract The curricular reorganization of the Basic Teaching, prescribed through the Decree-law number 6/2001, of the18th of January and the “Competences of the Basic Teaching”, challenges the school and the teachers towards new curricular practices. In this sense, it is relevant to discover the development of the curriculum in the subject of Visual and Technological Education (VTE) in the second cycle of Basic teaching and it’s also important to understand how a work of art is a way to improve an artistic literacy. We intend to understand the practices and perspectives of the teachers and students concerning the use of the work of art in the classroom and realize if and how the dimensions of the artistic literacy are considered in their curriculum.

Our investigation showed us that the work of art is an important tool for the curricular development of the VTE allowing the students to active significant learning and knowledge, and therefore developing their artistic literacy as a way to connect several subjects’ knowledge. Key Words: Artistic Literacy; Curriculum; Visual and Technological Education; Work of art; art concept. Résumé La publication du Décret - loi nº 6 /2001 du 18 Janvier et les «compétences de le enseignement Basic» défient l´école et les professeurs à la (re) contextualisation des pratiques curriculaires. Il faut dévoiler le développement du curriculum dans la discipline de Éducation Visuelle e Technologique (EVT) et comprendre si l’ouvre art est ou n’est pas, un chemin pour la literatie

artistique. Nous voulons connaître, (re) interpréter et (re)créer les pratiques et les discours des élevés et des professeurs, en ce qui concerne l’utilisation de l’ouvre d’art dans la discipline de EVT. Notre recherche nous a permis de vérifier/ de conclure que l’ouvre d’art est un instrument fondamental pour le développement curriculaire de EVT, permettant des apprentissages significatives et pour conséquent le développement 6/2001. Mots clés : literatie artistique, curriculum, éducation visuelle et technologique, ouvre d’art, concept d’art. de la literatie artistique chez les élèves facilitant, simultanément, l’inter et la transdisciplinarité curriculaire prescrite par le Décret-loi

Introdução O presente artigo é uma das temáticas desenvolvidas num trabalho de investigação. O âmbito da nossa actuação foi o de apresentar um estudo de caso enfatizando a dinâmica da arte no contexto escolar, nomeadamente no desenvolvimento curricular de uma unidade didáctica em Educação Visual e Tecnológica, numa turma de 5º ano. Este artigo está estruturado em dois pontos: um enquadramento teórico da literacia em meio escolar e outro de apresentação de dados. Neste trabalho procurámos evidenciar as temáticas que organizamos por questões que se encontram referenciadas como sub pontos. Pretendemos aprofundar o desenvolvimento do currículo e os procedimentos existentes nesse percurso, por parte dos intervenientes na acção: professoras e alunos. Desejámos observar a interacção pedagógica e desenvolvimento de actividades escolares e, decorrendo desta situação, a presumível literacia artística no desenho e pintura, áreas de exploração da disciplina em estudo.

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e por isso os caracteriza. nomeadamente no que respeita às dimensões de literacia? Procurámos responder às questões de investigação tendo como referencial a interligação de três eixos estruturantes.  Compreender em que medida e como a obra de arte constitui. O próprio mundo. tal como refere Joaquim Rosa (2005). um caminho para uma literacia artística. Os humanos caracterizam-se por esta capacidade (“in-finita”. já levamos connosco a nossa herança familiar. a saber: “Fruição. não os “de-fine”) de criar e recriar significações em resposta às 3 . Perceber como é que as dimensões da literacia artística são consideradas na organização e desenvolvimento do processo de ensino aprendizagem (incluindo a avaliação). Quando chegámos à escola.Tal como o método que verificámos ser uma prática corrente no desenvolvimento curricular desta disciplina – resolução de problemas – também nós teríamos uma série de situações e problemas para resolver no sentido de responder às questões de investigação (re)equacionadas. Para este trabalho desenhámos os seguintes objectivos:   Compreender as perspectivas das professoras acerca da literacia artística. no processo ensino/aprendizagem e que se pautam pelo desenvolvimento de competências. O Homem desde que nasce até que morre está sempre em constante aprendizagem. Nós também não podemos precisar com exactidão o início da nossa aprendizagem. A literacia é. Os caminhos para a literacia são abertos e crescentes. A aprendizagem é algo que se assemelha à espiral que se desenvolve a partir dum ponto e vai circulando até ao infinito. torna-se escrita para ser relida e reescrita. As perguntas mais focalizadas na literacia foram as seguintes:   Que perspectivas têm os professores acerca de literacia artística? Como se relacionam as actividades com o desenvolvimento de literacia artística nos os alunos?  Que processos e critérios de avaliação são usados.contemplação” de “Produção – criação” e a “Reflexão – interpretação”. no caso estudado. uma leitura da vida. não tem um princípio nem fim. social e secular. criado e recriado pelos humanos.

significações que acolhem e recolhem. é que o mundo seja compreensível”.) – Compreende-se que. que apontam a (re) significação da 4 . permitam-nos a metáfora “é como um camaleão em constante mutação”. e também o mais assombroso. como capacidade ontológica de agir sobre o mundo e as significações. não acidental. Também neste nível de pensamento.Competências Essenciais (2001). as proposições da modernidade.)a cultura e o contexto educativo são factores importantes da aprendizagem. o apre(en)dente constrói os seus saberes. A visão da ligação da literacia-educação-cidadania. Por isso a ligação entre literacia. seus valores e sua sensibilidade em arte a partir do diálogo que estabelece entre: suas imagens internas e imagens externas da natureza e da cultura.. O nome mais comum para designar esta característica é “liberdade”. . o enfoque surge numa dimensão imagética cujo referente é a arte. a capacidade ontológica de criar e recriar o mundo e as significações (p. Tal como o Homem se vai modificando. que vai construindo o seu próprio conhecimento. Um cidadão para quem o mundo fosse “ilegível” não seria um cidadão.. pois não poderia exercer a “liberdade”. isto é. as mentalidades e ocorrem transformações e reformas culturais. desde pequena. É com um diálogo manifestamente integrado entre aquilo que conhece e aquilo que recebe.. tivemos como referência as competências inerentes ao Currículo Nacional do Ensino Básico. a autora Rosa Iavelberg (2003) considera que «(. No contexto deste trabalho. Einstein afirmou que “o mais maravilhoso que tem o mundo. educação e cidadania é ontológica..42).38).seus conhecimentos e os conhecimentos construídos pela sociedade (aos quais tem acesso)»(p. No sentido duma transformação cultural e educativa. seus fazeres. a criança constrói e transforma seus saberes. O Homem constrói e reconstrói. arquitectada por factores e contextos diversos. Nesta perspectiva. faz e refaz. alteram-se os costumes. são progressivamente transformadas: . – Observam-se as relações entre a aprendizagem e o desenvolvimento (.recupera-se e ressignifica-se o conceito de originalidade e de criatividade usados na modernidade. no ensino da arte. Com o avanço do construtivismo. Parece-nos interessante esta ideia da “liberdade” estar associada à capacidade de criar e recriar novos caminhos e direcções ou novas (re) significações. aprende e reaprende.

poderá surgir dum cruzamento funcional entre várias literacias. As competências formuladas não devem. considerado como sendo (. «desenvolver a literacia artística é um processo sempre inacabado de aprendizagem e participação que contribui para o desenvolvimento das nossas comunidades e culturas.. cada vez mais propício a uma navegação sem fronteiras e sem muros. interactivo. fulcral e mediático. e de acordo com o mesmo documento. a sua conceptualização.. tudo eclode 5 . ibid. para percepcionar e converter mensagens e significados. por isso.)» (p.) Nesta linha de pensamento.. Nesta perspectiva. Coloca-se a questão: estabelecidos por quem? 1.) a capacidade de comunicar e interpretar significados usando as linguagens das disciplinas artísticas. distintos em cada arte. e há certamente muitas escolas/professores a nortearem-se por um ensino baseado em.Competências Essenciais (2001): “Literacia em artes” é. O saber não é compartimentado. Vivemos na era da informação. Vivemos numa era que se crê de adequação. Requer ainda o entendimento de uma obra de arte no contexto social e cultural que a envolve e o reconhecimento das suas funções nele. Implica a aquisição de competências e uso de sinais e símbolos particulares. (p. as mentalidades não se mudam por Decreto. do ponto de vista do desenvolvimento curricular.Literacia Artística em Educação Visual (Desenho e Pintura) – Desenvolvimento de Competências O conceito de literacia artística ou como está designado no documento Currículo Nacional do Ensino Básico. ele autentica-se cada vez que se é capaz de o (re)definir e inserir noutros contextos. parafraseando a autor acima referido “repetição dos significados estabelecidos”. sinónimo de adaptação. mesmo que.. sendo que.aprendizagem como «um processo ao longo da vida.. Contudo.9). ser entendidas como objectivos acabados e fechados em cada etapa (. emerge um mundo multicultural. onde domina um saber mais abrangente.» (id.151) Ao conceptualizar-se a literacia em artes através do uso de capacidades e desenvolvimento de competências. num mundo onde o domínio de literacias múltiplas é cada vez mais importante. estamos ainda a focalizar-nos num tomo inicial. é sabido que. desde sempre.

uma correlação entre o conceito “literacias múltiplas” com o de “inteligências múltiplas..) A literacia visual e as actividades expressivas de cunho criativo e artístico são saberes estruturantes integradores da personalidade. Emergem actualmente trabalhos científicos com conceitos isolados de literacia.. num processo contínuo ao longo da vida.... contribuindo directamente para que 6 . evidencia que «(. que todos se (co)relacionam. de mnemónicas. Esta ideia está subjacente no documento Currículo Nacional do Ensino Básico Competências Essenciais (2001).) A aprendizagem dos códigos visuais e a fruição do património artístico e cultural constituem-se como vertentes para o entendimento de valores culturais promovendo uma relação dialógica entre os dois mundos: o do Sujeito e o da Arte. (. no entanto e partindo do princípio que não há saberes estanques.. Também nesta linha de pensamento se posiciona Emilia Nadal (1999)2. tornando-se condição necessária para alcançar um nível mais elevado. tenha implicações no desenvolvimento estético-visual dos indivíduos. (. da palavra lida à combinação de aprendizagens desenvolvidas através de analogias. a área visual abarca um “mundo de saberes”. Consolida-se.(.. A titulo de exemplo.. Da imagem. o caminho para a prevenção de novas formas de (i)literacia passam pelo desenvolvimento estético – visual. entre outras formas de aprender com processamentos múltiplos neurais. num fragmento de segundos temos o “mundo na ponta do dedo”.)» (p. literacia visual e literacia estética. A literacia visual pode ser definida como capacidade de reconhecer. que se nos tem deparado na nossa reflexão.155) De acordo com a ideia anteriormente explicitada. traduzido numa multiplicidade de literacias ligadas ou não às áreas das artes. no nosso entender.) a um novo tipo de literacia essencial a todos os cidadãos como condição de acesso ao conhecimento (..”1 Que (co)relação existe? Inteligência surge como sinónimo de literacia? O que é uma pessoa inteligente? O que é uma pessoa literata (nesta acepção pessoa culta)? É uma questão. compreender e exprimir correctamente um assunto em qualquer meio de expressão visual. prevenindo novas formas de iliteracia..) a educação em Artes Visuais. como expressão de cultura. ao assumir que «(…) educar para a Comunicação Visual corresponde.numa vertiginosa rapidez.

tornando as pessoas mais autónomas no acesso ao conhecimento e mais esclarecidas na participação social (.) o paradigma da aprendizagem ao longo da vida (.. Há dados a equacionar e a questionar.) a ser constantemente auto-questionada. levanta uma série de questões em torno desta problemática. mencionando que a arte hoje em dia se regula a ela própria. aqueles que não se comprometem especializadamente com a sua produção ou crítica. 212-213). carece de vínculo assertivo. ibid). Está subjacente no seu discurso a aprendizagem para toda a vida. e quando existem agentes preparados para as promover» (actas) Para esta autora.. (. Neste registo... A experiência e a vivência de situações de aprendizagem. publicado no seu blog3. grosso modo. a própria concepção “literacia artística” é de cariz amplo e vago.) que o desenvolvimento de competências está intimamente ligado ao conceito de aprendizagem significativa e funcional. criativas e expressivas do ser humano não nascem da geração espontânea» (id. XXI”. Porém estas recorrências e interdependências ao nível das várias literacias só são reais e frutificam quando os sistemas o reconhecem e prevêem. Luisa Alonso (2004) referiu no colóquio debate “Saberes Básicos de todos os cidadãos no séc. pelo que se complexificam os modos como ela é lida pelo comum dos humanos. Corroboramos com a autora quando defende que as «competências perceptivas.) torna-se imprescindível identificar algumas competências que são essenciais ou nucleares enquanto processos cognitivos e sociais que facilitam a aprender a aprender.. Cidadãos mais esclarecidos e autónomos. referindo que não se pode despertar ninguém para uma situação que nunca se experienciou.. ou seja está (. ser condição obrigatória os alunos receberem formação ou educação artística. mas daquele nível em que se espera que a educação básica actue. Que literacia em arte.) falo. escrever e a contar.. que requer uma intencionalidade pedagógica continuada para criar contextos significativos.. A autora Ana Caetano.. que literacia visual se espera? A que níveis de autonomia e a que contextos de 7 .. num artigo de opinião. «(. é conceptualizada através dos seus “modus – vivendi” o conceito de literacia em artes..os alunos melhor aprendam a ler.)» (pp.. a condição primordial para que a literacia visual ocorra por forma a ser um factor positivo para o desenvolvimento de outras literacias é o facto de. Não é deste nível especializado que (. é o ideal que se preconiza no caminho para uma literacia artística que contemple uma miriade de intersecções entre saberes. quando os currículos o permitem.

.. parecendo atribuir-se um valor predominantemente instrumentalista às linguagens artísticas.) (p. A estética está intimamente ligada ao belo mas é crucial que esta seja fruída através do raciocínio crítico. partilhá-los. Esta perspectiva parece decorrer de uma concepção de estética entendida como ciência que se dedica ao conhecimento e ao estudo de fenómenos relativos à arte e ao exercício das actividades artísticas (. faz parte da construção da literacia artística de cada um. a estética esta relacionada com expressão. Foi alvo de dissertações filosóficas durante séculos.. aceitá-las quer sejam agradáveis ou desagradáveis.. reflecte na problemática de muitas dessas imagens não terem qualquer preocupação estética. hoje em dia está fluida na linguagem artística e geralmente está ligada ao conceito de arte. reflexivo e tal como defende a autora anteriormente citada.. comunicação e conhecimento. Assim a estética..) (13/02/2005) Esta autora ao constatar que vivemos imersos em imagens.)a educação estética enquanto fruição da natureza e da cultura relaciona-se com a área de Expressão e Comunicação e também com o Conhecimento do Mundo».. é “ela” também um reduto de literacia. Apesar de termos defendido no corpo deste trabalho que não há saberes estanques. ao longo da escolaridade? (. Esta autora afirma ainda que (…) aprender a representar o modo pessoal e único de sentir e perceber a realidade através de produtos artístico-criativos.18) A formação estética é entendida num contexto para além da educação artística. temos consciência que não obstante os conceitos terem “vida própria”. como temos vindo a verificar. Emília Nadal (1999) ilustra esta afirmação ao dizer que (.)a necessidade de uma formação estética de uma educação artística. «deve ser uma componente basilar e constitutiva» (idem. apresentadas como coincidentes e sem distinção entre si.. serão outras vertentes de um caminho pela educação estética 8 . é fundamental no processo artístico.19). Reflectir sobre experiências estéticas. empregá-los de modo lúdico e criativo. dar nome às emoções.p. saber que podem ser aceites por outrem. Para a autora Isabel Kowalski (2001) «(. Não se restringindo à área artística.autonomia nos reportamos? Como se evolui nesses níveis. não pudemos descurar o carácter lato que podemos encontrar na educação estética..

) o objecto do conhecimento lógico é a verdade. pode parecer às vezes de cariz subjectivo.Nesta acepção. tal como refere a autora supra citada. Tolstoi (2002) in “o que é Arte”.. a “ciência do Belo”. em Educação Visual:    A primeira ideia que apresenta: “aprender a representar o modo pessoal e único” traduz-se na “Produção/Criação”. cada um constrói o seu percurso criativo e artístico e assim vai construindo a sua literacia. quando não são figurativas. A segunda ideia: “perceber a realidade através de produtos artístico-criativos”.. A terceira ideia: “reflectir sobre experiências estéticas” faz parte do terceiro eixo “Reflexão/Interpretação”. estas competências estão estruturadas de modo a desenvolver determinadas competências que lhes permitirão de forma não sequencial ou directiva empreender no mundo da literacia artística. o objecto do conhecimento estético (isto é sensual) é a beleza. especialmente quando se trata de obras que retratam a alma. A reflexividade sobre as experiências estéticas surge como caminho nas incursões da educação estética. na adversidade. nesta acepção temos o eixo “Fruição/Contemplação”. De acordo com o currículo referido. A beleza é o perfeito (o absoluto) percebido pelos sentidos. «(. “reflectir sobre as experiências estéticas. Neste “caminho”para uma “literacia artística”. a articulação destes três eixos focaliza-se em dois domínios das competências específicas: “a comunicação visual” (significado) e os “elementos da forma” (significante). isto é.Competências Essências. refere que de acordo com o fundador da estética. O bem é o perfeito atingido pela 9 . a reflexividade sobre a acção/ experiência estética é na nossa opinião uma fonte inesgotável de crescimento entre a “razão e o coração”. Fazendo uma análise ao discurso da autora. A “Literacia estética” é um conceito complexo. De certo modo. A verdade é o perfeito percebido pela razão. quando transcendem para o ininteligível (conceitos abstractos). sugere-nos uma similitude com os três eixos estruturantes do Currículo Nacional do ensino Básico . dar nome às emoções e aceitá-las” é quanto a nós crescer racionalmente e emocionalmente. Baumgarten. Esta problemática da experiência estética. Aceitar a critica é a direcção para o conhecimento mesmo que.

ou julgar. actividade e crítica. Bosi (2003) afirma que «a palavra latina ars. Carmelo (2000) define este conceito como estabelecimento de beleza sentida através de sensações perceptivas. linguagem é o significante. ligada sobretudo à ideia do ‘sentir’.vontade moral (. Nesta perspectiva.. O que realmente queremos dizer é que a arte é o conhecimento e a sua linguagem é o que a torna compreensível.)... refere « A ‘estética’(. crítica e actividade viriam..) O objecto deste novo julgar.. Gostaríamos de aplicar uma metáfora para responder à questão – a arte (obra) é a manifestação material e técnica e a linguagem a sua simbologia. Associaremos a estética ao “belo” “a “coisas belamente pensadas”. mas sim com os sentidos.. portanto.) O estabelecimento da beleza constituíase agora como objectivo supremo deste novo saber. enquanto área autónoma e unificadora de vários agires humanos. Neste contexto.. viria a ser designada por Baumgarten a partir da raíz verbal do Grego ‘aisth’. “não com o ‘coração’ e o sentimento. Partimos mais uma vez da ideia do todo para a parte.41) O mesmo autor defende que a beleza pode ser de três tipos: a beleza da forma. contudo. Essa reflexão pressupõe conhecer a própria arte e a sua linguagem. Queremos dizer que se pode articular este conceito com dois paradigmas dos teóricos da aprendizagem: “inteligência da cognição” e “inteligência emocional”. a formar a nova hermenêutica moderna do círculo reflexivo: arte-estéticaarte» Resumindo. a beleza da ideia e a beleza da expressão...) o objectivo da beleza em si é ser agradável e excitar o desejo (. que denota a ação de fazer junturas entre as partes 10 . (. O que se entende por arte e sua linguagem? Entendemos que a arte é o significado. rapidamente viria a evoluir para uma metalinguagem da própria arte.. Sublinha a ideia que a beleza depende de quem a contempla e que por isso ela está localizada não no mundo mas sim na alma bela. temos o “conhecimento” associado à razão e à “emoção”. com a rede de percepções físicas” (. Por esta ordem de ideias. matriz do português arte está na raiz do verbo articular. de uma forma muito pragmática pensamos que o conceito: “literacia estética” se pode traduzir em conhecer o belo. centrado no belo.) » (p. reflectir sobre ele e comunicar.

)» (p. ibid. Esta ideia de saber teórico e prático parece-nos importante na dimensão em que nos é colocada a intervenção do currículo nacional e os seus eixos: fruir/contemplar.)... logo a arte é uma produção.. estes três eixos estruturantes são operacionalizados por dois domínios: Visual e Formal.. Kunst. (. com o latim cognosco e com o grego gignosco (= eu conheço) a raiz gno. nela postula-se que a construção do conhecimento em Arte acontece quando há intersecção da experimentação com a codificação e com a informação..66-67)» 11 . que indica a idéia geral de saber.. reflectir/interpretar. a autora Ana Mae Barbosa (2002). aborda com muita frequência as relações da aprendizagem no ensino de artes. é um “fazer” e o “fazer” é representar. a pesquisa e a compreensão das questões que envolvam o modo de inter-relação entre a Arte e o Público (. Bosi refere que a arte sendo uma manifestação humana. Tal como já afirmámos no corpo deste texto. Pode aludir à mera imitação de traços e gestos humanos. partilha com o inglês Know.).) o ensino de Arte seja elaborado a partir das três ações básicas que executamos quando nos relacionamos com a Arte: ler obras de arte. Pode também significar a reprodução selectiva do que parece mais característico em uma pessoa ou coisa.) “Proposta Triangular do Ensino da Arte”. O seu significado preciso depende.13)..28).. dos contextos. Considera-se como sendo objecto de conhecimento dessa concepção. questionado-se o “como se conhece a arte”. (.).de um todo (. Este autor considera que o “ser” da arte é o modo específico de como os homens se entrosam com o universo e consigo mesmos. o “como se sabe que se conhece a arte” e por fim o “como se possibilita a todos que conheçam a arte”... produzir/criar. uma operação que revele aspectos típicos da vida social. Adoptam para si um saber teórico – prático explicado pelo autor pela linguística indo-europeia.. naturalmente.) o conceito de arte como mmímesis. Emerge deste binómio que estabelece o significado e o significante a “representação”. portanto. «(. fazer arte e contextualizar» (pp.) o termo alemão para arte. Neste sentido.. e ser. o artista escolheria os perfis relevantes do “original” antes de figurá-los (... teórico ou prático» (ibid. assim «(. a arte é a representação de algo.p.. Para o autor supra citado (Bosi) a representação é «(.)» (id. A arte resulta duma interacção entre vários factores. que postula o norteamento da acção concertada para evolução de literacia artística. É nesta triangulação de questões que emerge um aspecto muito interessante: uma teoria sistematizada.. neste sentido.. tem representado a sua actividade desde a pré-história.

(re)acção – solução definição de novos caminhos. A construção do conhecimento em arte acontece quando há acção – produção. consideraram ser importante para os alunos a leitura de imagens e particularmente de obras de arte. movimentos artísticos. Referiu que «(…) é uma aprendizagem para a vida toda. o fazer arte e o contextualizar a arte. Que perspectivas têm os professores acerca de literacia artística? Conceito de Literacia. 12 . Face à questão – Que perspectivas têm as professoras acerca da literacia artística? As professoras (Rita e Soraia). reflexão – manifestação interpretativa. 4 alvo do nosso estudo. Pintores.. na leitura e na vida. técnicas de expressão. escultores e respectivas obras estão a caminhar na literacia em artes. por isso. 2. entrevista 2 de Julho de 2004). tudo isto é literacia em artes!» (Soraia. Estas concluíram que assim se poderia caminhar na senda do conhecimento e evoluir na linguagem plástica inerente à disciplina. encontra-se central e numa abrangência circular.Esta proposta triangular no ensino de arte privilegia a leitura de obras de arte. Literacia tem a ver com o conhecimento que se tem das artes. Nas artes é a mesma coisa. As relações interpessoais e o contexto histórico–social são primordiais no desenvolvimento da literacia que é o princípio e o fim em si mesma. ao afirmar que se está sempre a aprender e que os alunos ao conhecerem determinados pintores. A aprendizagem acontece nos caminhos que cada um percorre e é diferente de indivíduo para indivíduo.Apresentação e interpretação dos dados. Uma das professoras considerou que o desenvolvimento da literacia em artes acontece tal como na evolução da literacia na escrita. também é assim. com a certeza de que é necessário treino e empreendimento. 2.1.

a repetição de tarefas. não tem necessidade de o fazer sempre. Ao tentarem defini-lo conceptualizaram-no através de exemplos relacionados com “outras literacias”. que a aprendizagem será uma (con)sequência destas situações. implica construção e progressão.. Inferimos do discurso da professora Soraia que esta pudesse ter explicado o que pensa sobre o processo da aprendizagem e o desenvolvimento de literacia. dou-te o seguinte exemplo: uma pessoa aprendeu a ler e a escrever mas apenas utiliza a escrita e a leitura em situações do dia a dia em que é obrigado a fazê-lo. Realça a importância do treino e o empreendimento e.. para estas professoras. deste modo enfatiza a recorrência da acção que se transformará em conhecimento. também é assim».) desenvolver uma literacia em artes (. com a certeza de que é necessário treino e empreendimento.. Na nossa opinião esta professora fez emergir conceitos que poderão ser elucidativos na sua conceptualização sendo que o desenvolvimento de literacia.Tanto uma professora como outra consideraram o conceito de literacia de difícil definição. essa pessoa nunca desenvolveu nem desenvolverá a sua literacia na leitura e escrita...) pelos órgãos de direito (. Nas artes é a mesma coisa.. é importante. Tanto uma como outra. O desenvolvimento da literacia implica ainda.. (…)» A professora Soraia remeteu a explicação para o conceito de (an)alfabetismo e referiu a sistematização como pilar da literacia.) é preferível partir dos professores que lidam com as crianças (.) 13 . considera deste modo. Refere que a literacia artística «(…) é uma aprendizagem para a vida toda. deverão ser os professores a adequarem o processo de desenvolvimento da literacia em artes «(. É também a professora Soraia que refere a literacia artística como aprendizagem para toda a vida.) do que ela já ser estipulada (. uma adequação pessoal e organizada. são unânimes na opinião de que.. Considera que se o indivíduo não treinar diariamente uma tarefa não poderá desenvolver a sua literacia. por exemplo a professora Soraia referiu: «É de facto um conceito difícil de explicar. Para esta professora....) compete ao professor (..

referiu que poderia haver um ou outro aluno com uma perspicácia diferente.» (Rita) «(…) o desenvolvimento da literacia em artes e o uso da obra de arte é uma adequação personalizada (.. Inferimos das suas palavras que considera a literacia uma capacidade ligada à sagacidade e argúcia podendo. «Os alunos neste ano concreto têm níveis diferentes de literacia (. Verificámos que os olhares das professoras divergiram em relação a esta categoria..) talvez uma outra criança com uma perspicácia diferente. as diferenças de que fala. Inferimos do seu discurso que..A integração curricular e o uso da obra de arte está adequado ao nível etário dos alunos. As respostas sobre níveis de literacia são sempre vagas e nestas respostas remetem para a dimensão da comunicação e expressão em termos de domínio técnico. não é visível um grande contraste (utilizando a linguagem das artes!).. mais reflexiva e mais crítica. uma grande expectativa.)» (Soraia) Importância do estabelecimento de níveis de literacia. não são muito marcantes. O Estabelecimento de níveis de literacia.. corresponder àqueles em que os alunos já integraram de tal forma os conhecimentos acerca das artes que os conseguem utilizar de forma mais espontânea e talvez mais criativa. afirmou que sentiu uma grande harmonia no seu trabalho «(…) mas mais ou menos senti ali um grande equilíbrio no desenvolvimento do meu trabalho». mas na qual depositámos. 14 . A professora Rita considerou que os alunos tinham diferentes níveis de literacia.) com alguns ajustes que o professor. neste caso o par pedagógico. com uma forma mais espontânea de chegar a determinadas situações (…)» (Rita) Esta professora expressou que os alunos tinham diferentes níveis de literacia. possam adaptar. Pois a mesma refere que sentiu uma grande harmonia no seu trabalho. os níveis mais complexos. inicialmente. não teve grande expressão no que diz respeito à frequência dos discursos das nossas interlocutoras.[ (...

) procurámos despertá-los. 15 .. a um nível micro... produção e interpretação auxiliam o desenvolvimento dos quatros eixos interdependentes da literacia artística.. «(. «Não sei se é assim tão importante que se estabeleçam níveis de literacia (..) de uma mais ligeira não aprofundámos muito os conhecimentos (. Não aprendeste nada na escola primária?] Na primária nós não fazíamos trabalhos de Expressão Plástica) Sim! Não fazíamos. Com os mais pequenos falamos dos pintores (. mas eu penso que ela vai fluindo.) se calhar é mas.) é importante que se estabeleçam níveis de literacia... já aprendíamos na escola primária só que não era tão aprofundado e nós metade das coisas não sabíamos As professoras desconvergiram os olhares em relação à (des)valorização de níveis de literacia. Com os alunos do 3º ciclo já é possível desenvolver um trabalho mais profundo (.. assim obtivemos os seguintes discursos. mas não mostrou muita convicção em relação à categoria enunciada... não é preciso estipular se calhar grandes etapas. Clara: Para dizer a verdade eu não sabia nada! [Inv..O nosso estudo também privilegiou as opiniões e percepções dos alunos5 acerca desta temática. Como se relacionam as actividades com o desenvolvimento de literacia artística nos alunos? Dimensões de literacias As actividades que favorecem a fruição. A professora Rita desvalorizou o estabelecimento de níveis de literacia.) para o desenvolvimento do currículo» Esta professora referiu-se à imposição pelo estabelecimento ao nível macro escolar. Emanuel: (…) Nós na Primária não pintávamos. não considerou pertinente o uso de níveis e de criações de etapas. A professora Soraia considerou importante estabelecer-se níveis de literacia. As professoras mandavam-nos cá para fora e tirávamos coisas da floresta e isso Júlia: (…) Dantes não sabia.)» A professora Soraia transpôs a definição de níveis para a esfera escolar..2. diferenciando diferentes graus de aprofundamento. 2. consoante os níveis de escolaridade. divisões (.

verifica-se que há duas componentes vincadas: interpretar e executar. “Compreensão das artes em contexto” e “Apropriação das linguagens das artes”. Grosso modo. a participação na produção artística. Este facto incidiu ainda noutro aspecto que nos pareceu interessante. visita a exposição. favorecendo contactos com obras de arte e solicitando trabalhos artísticos. Este documento refere que as competências artísticas estão assim organizadas em eixos estruturantes. Deste modo obtivemos grelhas de análise que colocaram em relação actividades e dimensões de literacia desenvolvidas em sala de aula. entre elas reproduções de obras de arte. aos alunos. que a nosso ver corresponderam a uma evolução sincronizada. assim. que esta dimensão deve privilegiar e valorizar a expressão espontânea. representação criativa de temas livres e representação de retrato sobre suporte de lixa colorido a lápis de cera. mostra de obras de arte em suporte informático. várias actividades. Neste sentido actuaram as professoras. admitimos que estes eixos referenciados no documento poderiam ser apropriados como dimensões de literacia. Ao estudarmos as relações entre a aprendizagem e o desenvolvimento de literacia e consequentemente de aprendizagens. permitiu-nos analisar os seus discursos à luz das dimensões de literacia em consonância com o desenvolvimento curricular. As professoras proporcionaram. está patente no CNEB-CE. quanto ao Desenvolvimento da criatividade. trabalhos de pesquisa. entre outras. a procura de soluções originais e diversificadas. determina que a literacia em artes implica as competências comuns a todas as disciplinas artísticas e que são sintetizadas em quatro eixos interdependentes: “Desenvolvimento da criatividade”. O documento Currículo Nacional Ensino Básico – Competências Essenciais (CNEB-CE). “Desenvolvimento da capacidade de expressão e comunicação”. isto porque foram evoluindo nas reproduções de obras e cópia de 16 . identificámos nos seus discursos uma recorrente alusão a processos e produtos no desenvolvimento de actividades.Da análise de conteúdo efectuada nas entrevistas às professoras. interrelacionados e que constituem a literacia artística.

a par de outra dimensão (apropriação das linguagens elementares das artes).. São eixos já referenciados que nos conduzem para o âmbito da comunicação e expressão verbal e gráfica. os nossos alunos foram surpreendentes.). uma componente ligada à fruição e à reflexão/interpretação. é ela a força motriz capaz de desenvolver sinergias que fomentam novas criações e conhecimentos. a evolução que observou nos seus alunos. Participaram em momentos de improvisação descritiva no processo de leitura de obras de arte. tem. no caso do retrato «No caso concreto do retrato. No que diz respeito à dimensão em análise.. 2001. sendo que esta torna possível a comunicação artística porque é a gramática que a torna “comunicável” assumindo uma linguagem própria de «(…) símbolos e códigos que representam o material artístico. (…)» (Rita) É visível nos seus discursos que há sempre uma ligação entre a expressão e o desenvolvimento da técnica. há uma 17 . apontaram para uma tónica discursiva espontânea em que (re)criam as suas vivências e colocam-nas em cenários diferentes.) no uso da técnica em estudo. a professora Soraia sublinhou. considerou que melhoraram e que até os próprios alunos se admiravam com os resultados obtidos no retrato que fizeram. Foram bastante criativos e expressivos (. a técnica do lápis de cera sobre lixa. [É muito giro!] » (Soraia) «(…) davam largas à imaginação(…) trabalharam a expressividade e a criatividade. considerámos que a criatividade sendo uma dimensão de literacia. Esta leitura está subjacente uma das competências específicas da literacia artística: «Participar em momentos de improvisação no processo de criação artística» (CNEB-CE. nesta dimensão.154). Realçamos algumas das competências associadas e que dizem respeito ao desenvolvimento de capacidades de expressão sempre duais: linguagem e execução.p. no fundo do trabalho. (. Também verificámos nos discursos dos alunos que. Isto é.fotografia com inclusão.. de elementos decorrentes da imaginação dos alunos. Deste modo. A professora Rita enfatiza no processo o uso da técnica e o uso de elementos gráficos. 2001:154). No que diz respeito à dimensão Desenvolvimento da capacidade de expressão e comunicação.» (CNEBCE. neste caso..

As professoras. Vieira da Silva) Em relação à “Apropriação de linguagens elementares das artes”. ou seja. porque surgiu a questão de quem terá sido o primeiro pintor a pintar os jogadores de cartas (…)» (Soraia) «[(…) começamos (…) por (…) observar essas obras de arte (…) criamos um fio condutor entre professor e alunos e através da observação.. houve uma apropriação dos significados que emergiram das imagens (obras de arte em suporte informático) e uma aplicação desses significados em produções artísticas. Aprenderam por mútua convivência e exploração de aspectos que emergiram da observação e reflexão em torno das mensagens que as próprias imagens devolviam. neste percurso.) chegamos a dialogar sobre isso na sala de aula.Observação de obras de arte em suporte informático (jogadores de cartas de: Cézanne. (…) procurámos trabalhos realizados por diferentes pintores com a mesma temática (…) obras com diferentes interpretações (…) procurámos que fossem os alunos a analisar obras sem sermos nós a darmos as informações (…)Recorri com frequência a imagens de trabalhos de pintores (…) (Soraia) (…) chegaram (…)a pintar a partir do mesmo título da obra (…) do mesmo tema (…)do mesmo assunto (…) um trabalho óptimo para eles fazerem um confronto a partir do mesmo tema e do mesmo título (…) chegaram á conclusão que se pode 18 . (…) por frutos e cereais ](…) olharam para aquela composição artística (…) com outros elementos (…) eles detectassem que era um rosto humano» (Rita) Os alunos por sua vez também davam a voz e a expressão através de diversas actividades: Primeira actividade . Assistimos. «(.dicotomia no ser e no fazer. a um maior envolvimento por parte dos alunos nos processos da aprendizagem em que eles foram co-autores deste processo. Equipo Crónica. realçaram o fio condutor. reproduções de obras de arte. transmitiram (…) sentimentos. Rafael de Solbes. a observação de obras de arte em suporte informático permite uma visão poligráfica da intervenção artística com ênfase em acepções: cognitivas e construtivistas. as mensagens que elas podiam transmitir (…) Arcimboldo (…) aquele rosto foi constituído.. a sequência requerida das obras de arte visionadas na sala de aula.

Por outro lado. Iremos apresentar o volume de categorias encontradas nos seus discursos. as cores. ligada à situação da observação centrada no interesse da produção. a propósito da questão “Importância da visita de estudo no desenvolvimento do seu trabalho”. A este propósito evidenciaremos a actividade “Visita de Estudo” nos “olhares dos alunos”. passaremos a enunciar as categorias proferidas pelos autores. as linhas. correntes diferentes (…) (Rita) Destes discursos. As professoras pronunciaram-se sobre trabalhos de pesquisa mas dando um carácter geral. por diferentes pessoas.pintar a mesma coisa de diferentes maneiras. temos a professora Soraia a referenciar a apropriação das linguagens numa atitude mais prática. 19 . Esta dimensão é ainda potenciada pela acção de visitas a museus e pela vivência de acontecimentos artísticos em directo. a propósito da questão “ Pertinência dos trabalhos de pesquisa do pintor seleccionado”: Segunda actividade – Trabalho de pesquisa sobre dois pintores portugueses De modo geral os alunos referiram que aprenderam muitas coisas com este trabalho e recordaram os quadros. deram-nos conhecimento destes trabalhos e pudemos verificar que os alunos transpuseram a pesquisa para outros pintores por auto-recriação. Esta dimensão privilegia entre outras competências o desenvolvimento de projectos de pesquisa em artes. esta foi associada à actividade da observação de obras de arte. No que respeita à dimensão de literacia designada por Compreensão das artes em Contexto . Estas professoras solicitaram trabalhos de pesquisa sobre dois pintores portugueses. virada para o produto que decorreria dessa observação. não se referiram à turma em concreto e valorizaram essa pesquisa em termos de interdisciplinaridade. poderemos verificar que a professora Rita destaca a actividade da exploração da obra de arte pela via da discussão participada e gradativa autonomia dos alunos nessa discussão e análise. Deste modo apresentarmos o “olhar dos alunos” sobre o que pensaram da execução do trabalho de pesquisa.

Para a aluna Clara. desenhamos o nosso rosto.». este tipo de resposta enquadra-se na transição do terceiro estádio.. ele se calhar pintava sobre a sua profissão. “de médico”. e é emergente o facto de já haver uma ligação entre a obra e o artista. o que é que a gente deve fazer. pronto como ele tinha feito a forma do rosto (…) Foi importante porque ajudava-me a saber como havia de fazê-lo.) A exposição foi importante porque nós ficámos a saber algumas coisas sobre aquele pintor que já morreu. neste caso concreto nenhum dos oito alunos respondeu. Todos referiram que aprenderam “coisas” ligadas à técnica: Fernando: Serviu para aprender melhor. nesta actividade. aprendi que a obra de arte não é só pintura (. A associação da visita de estudo a conhecimentos do autor vida e obra foram evidenciados só por alguns alunos. Segundo Parsons (1992).(…)» (p.81) 20 . aprendi como se fazia o rosto.. diz. como agora na lixa. estes pronunciaram-se pouco. porque da imagem nós aprendemos a fazer os formatos a ver as texturas a saber com fazia. apenas o Rodrigo deu uma resposta muito vaga «Sim (é importante). Aplicámos o mesmo instrumento de recolha de dados. não há registos. era português e chamavam-lhe o pintor e o mito Paula.Visita de estudo Curiosamente.Terceira actividade . Carla: Sim foi importante a exposição. Porque aprendemos a fazer alguma coisa. tivemos que fazer algumas coisas arredondadas. (…) Rodrigo: Aprendi a saber mais as linhas (…) aprendi a fazer melhor os desenhos. Torna-se a ver evidenciado o tema da obra. os alunos na sua grande parte não responderam. sob forma de entrevistaconversa e verificámos que esta actividade foi muito mais valorizada pelos alunos. Eles demonstraram o facto de haver uma correlação de efeito na dupla actividade do pintor Mário Botas. Mas não relacionam o estado do espírito de um artista com o carácter específico da sua obra. refere: «Respostas como estas dão conta da prática do artista: indicam motivos que podem levar alguém a assumir o papel do pintor. lembrava-me como tinha visto e assim desenhava melhor. no primeiro momento (questionário) de abordagem aos alunos. Podemos verificar que consideraram que a visita de estudo foi importante porque os ajudou a compreender os elementos formais dos quadros/pinturas. Não estabelecem a ligação entre as motivações do artista e a expressividade dos seus quadros. Foi porque ajudou-nos a ver mais como havíamos de fazer o nosso trabalho Emanuel: Foi (importante).

.p. Rodrigo: Mário Botas tinha lá um quadro pequenino que era o retrato dele e era muito bonito (. Dando a vez aos seus discursos: «(…) surgiu a questão de quem terá sido o primeiro pintor a pintar os jogadores de cartas (…) estivemos a comparar (…) datas (…) vimos qual era o mais antigo (…) pintores pertencentes a diferentes épocas (…)»Soraia «(…) o que sabíamos do pintor perante a época (…) que os artistas (…) mais actuais (…) seguiram uma escola (…) dum ou outro pintor (…) confronto entre diferentes épocas (…) diferentes artistas (…) ao longo dos séculos (…)»Rita 21 . No que diz respeito à visita em si.. e o dinheiro com os gastos foram apontados por ambas. e assuntos a vários saberes interdisciplinares. afirmaram que superou as expectativas e que ficaram surpreendidas pela positiva pela forma como os alunos conseguiram relacionar temas. No que disse respeito à ponte para outras observações de obras e artistas diferentes e que é de resto uma das competências desta dimensão « Comparar diferentes formas de expressão artística» (CNEB-CE.154). 2001. Referiram em diálogos estabelecidos que era importante fazer mais visitas a museus. esculturas entre outros). mas que havia muitos constrangimentos a ultrapassar.Finalizamos esta abordagem à actividade de visita de estudo com as reacções emotivas dos alunos.) foi um quadro com uma mulher sentada com um vestido cor de rosa e o homem estava a limpar os sapatos Os olhares das professoras enfatizaram esta actividade como um importante momento de partida para outras aprendizagens e sentiram-na como motivação. o factor distância. Fernando: (Gostei) do último. pintores diferentes e formas de expressão artísticas diferentes (apresentaram pinturas. gostei eram dois cavalos. as professoras realçaram épocas diferentes.

Este discurso proferido por ambas põe em evidência uma das realidades que observámos no campo. adequando. reflectindo e encontrando sentido para a “escola” que há em si. as professoras referem o processo e os critérios considerados pertinentes pelo par pedagógico. Se anotarmos a literacia como processo e reduto duma aprendizagem com significados díspares e consequentes. embora os discursos das professoras evidenciem que a avaliação da criatividade e expressividade. por si. não obedece a parâmetros nem há limites definidos. Consideram por exemplo. poderemos afirmar que é um desenvolvimento de competências entre as quais o individuo vai acumulando.3. sintetizando. Que processos e critérios de avaliação são usados. de desenvolverem projectos e ideias diferentes utilizando técnicas e conhecimentos numa nova realidade. A Avaliação da criatividade e expressividade. as questões do empenho e dedicação referindo que o aluno pode não conseguir obter um produto final bom mas se revelar empenho e dedicação não será penalizado. 22 .2. É ainda valorizado o método de trabalho e neste a capacidade de desenvolver técnicas e projectos e ainda a capacidade de cooperar com as professoras e com os colegas. referindo que os alunos terão. Esta capacidade de desenvolver ideias é subtilmente referida pela professora Rita como factor de criatividade. é outra dimensão considerada. É também enfatizada a capacidade de assimilar as aprendizagens. nomeadamente no que respeita às dimensões de literacia? A respeito da avaliação. por vezes um aluno com melhor desempenho acaba por ser “penalizado” por não demonstrar as características referidas e que se colocam ao nível dos valores e atitudes. organizando.

Os quatro eixos de literacia trabalhados a partir da observação de obras de arte. trabalhado com duas professoras que valorizam. não sendo. o desenvolvimento das dimensões de literacia relativas ao desenvolvimento da expressão comunicação. assim. e o desenvolvimento da literacia1 que potencia a descoberta. Ainda que no nosso estudo tenhamos. admitimos a possibilidade desta visão poder ser partilhada por outros professores. fácil defini-lo ainda que este seja valorizado enquanto elemento catalisador duma aprendizagem ao longo da vida. a (des) construção teórica de novos conceitos que têm vindo a invadir o quotidiano escolar.Conclusão A literacia artística é um conceito recente no contexto escolar e de difícil interiorização conceptual. quer no contacto indirecto potenciado por trabalhos de pesquisa com recurso a vários suportes documentais (manual escolar. Dispostas em quatro eixos interdependentes: Apropriação das linguagens das artes. em espiral. aqui. 1 23 . a existência de níveis de literacia. e trabalhos de produção plástica livre utilizando técnicas diversas de pintura. Um outro aspecto relevante neste trabalho diz respeito à correlação que podemos estabelecer entre os estádios de compreensão da obra de arte. a construção autónoma de conhecimento e o desenvolvimento. desenvolvimento da capacidade de Expressão e Comunicação. para as professoras. Estas actividades revelaram-se importantes na aprendizagem dos alunos e interpelaram as professoras para a adopção de estratégias de actuação em conformidade com as indicações metodológicas expressas nas Competências Essenciais do Ensino Básico. de competências. apenas. quer no contacto directo com as mesmas (visitas a museus). da apropriação das linguagens elementares das artes e do desenvolvimento da criatividade. Desenvolvimento da Criatividade e Compreensão das artes em contexto. entre outros). simultaneamente. pelo que nos parece pertinente a existência de espaços de reflexão e discussão nas escolas promovendo. Saliente-se. apresentados por Parsons (1992). diapositivos. Internet. A inexistência de níveis de literacia no programa de EVT é encarada. de modo diferente. como constrangimento e margem para a autonomia curricular da escola e do professor. com especial incidência para o conhecimento das artes. em particular.

com 4 Os nomes atribuídos ficcionalmente foram: Rita e Soraia. dependem do fascínio subjectivo que os mesmos possam provocar. 3 Para mais informações consultar www. essencialmente. Kowalski. diríamos que a obra de arte é uma ferramenta de trabalho transversal ao currículo. (2005) Literacia. Emilia (1999). 5 Os nomes dos alunos são todos fictícios. Leon (2002). Porto Decreto Lei nº 6 / 2001 de 18 de Janeiro IAVELBERG.l. Porto Alegre. A formação para a Educação Artística / Expressão Dramática na educação de infância e no 1º ciclo da Educação Básica.l.Uma última nota para a questão da avaliação da literacia. VV. que potencia o desenvolvimento da literacia em artes e que pode servir de suporte à construção de aprendizagens contextualizadas e significativas para os nossos alunos. ROSA. BOSI. Publicações Europa-América. Joaquim.1htm Nadal. S. CAETANO.Inquietações e Mudanças no Ensino da Arte. como par pedagógico da disciplina de Educação Visual e Tecnológica. 7ª edição. Fórum da Ciência. Fundação Mário Soares. Currículo Nacional do Ensino Básico – Competências Essenciais. Rio de Janeiro.pt. Alfredo (2003). Artmed Editora.. www. 8ª Edição. A Estética como Desconotação Praticada pela Modernidade.blogger. Neste processo valorizam-se. Ler imagens. ESEL. Editora Ática. Ana Mae (org. em que a capacidade de expressão e o uso de elementos pessoais. A avaliação da criatividade é remetida para uma crivagem técnica.pt/cied/educare. António (2000). Para gostar de aprender arte – Sala de aula e formação de professores.). Blog Desassossegos educativos http://www.blogspot. educação. Reflexões Sobre a Arte.bocc. s. Rosa (2003). a Emoção e a Neurobiologia da Consciência. Ler arte. Actas. 2 Emília Nadal é conselheira do Conselho Nacional de Educação.desassossegoseducativos. São Paulo.ipl. Paulo.A. 2001. Luís (2000). critérios de natureza metodológica (métodos e técnicas aplicados na produção artística) e atitudinal (empenho e dedicação nas actividades).g?blogID=17377139&postID=113087938433510672 CARMELO. AA. escolaridade – Diálogos com a Literacia. O que é Arte? – A Polémica visão do autor de Guerra e Paz. Cortez Editora.ubi. Ler cultura visual. TOLSTOI. Lisboa. enfatiza uma combinação de inteligências e defende diferentes modalidades de desenvolvimento cognitivo. Publicações S. Em síntese.. Esta teoria é defendida por Howard Gardner. 1 24 . Bibliografia: BARBOSA. in “Caminhos para a Literacia – A Visualidade” .)(2002).(s. depende das opções curriculares de cada escola e de cada professor pelo que desejamos que este trabalho possa contribuir para a reflexão e a construção do mesmo. Caminhar neste sentido. O Sentimento de Si – O Corpo.com/comment. http://eselx. Funcionaram em sala de aula. Lisboa. Ana Paula(10/25/2005). Isabel (2001). DAMÁSIO.