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Araguaia-Tocantins: fios de uma
história camponesa

Rogério Almeida
-2006-
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O livro é uma homenagem aos 40 anos de militância em defesa da Reforma Agrária
de Manoel da Conceição Santos, dirigente sindical maranhense.

Dedicado aos homens e mulheres do Bico do Papagaio que conspiram por dias
melhores no campo e na cidade.

À paciência e afeto de Rosa Rocha (companheira).
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Agradecimentos

Quantos braços podem somar na travessia de uma canoa à outra margem do rio? Na
modesta travessia que se realiza através deste livro sou grato a Rildo Brasil, que cedeu o
desenho da capa. Brasil é artista radicado no município de Marabá, sudeste do Pará.

Não é menor a gratidão a Luciana Carla, que fez a revisão, e ao chapa Francisco
Junior, que se empenhou no processo de edição, e ainda fez a orelha do livro. Seria um
herege em não ressaltar o talento do punk e quadrinhista Joacy Jamys na diagramação.

Agradeço ainda aos professores, colegas de curso, aos companheiros do Fórum
Carajás.

Bem como à gentileza da cessão de fotos por parte do Centro de Educação e Cultura
do Trabalhador Rural (CENTRU-MA), Centro de Educação Pesquisa e Assessoria Sindical
e Popular (CEPASP-PA), Comissão Pastoral da Terra (CPT/Marabá-PA), Federação dos
Trabalhadores na Agricultura do Estado do Pará (FETAGRI- Regional Sudeste do PA),
Antônio Marques (Gordo). Enfim, aos homens e mulheres das terras do Araguaia-
Tocantins.

E Dona Nelba (genitora), de quem roubei muitas noites de sono.
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EXPEDIENTE
Capa: Caboclo quebrando ouriço da Castanha do Brasil - Rildo Brasil
Fotos: CENTRU, CEPASP, CPT de Marabá, FETAGRI, Antonio Marques (Gordo)

Ilustração da folha de rosto: Jornal Arca

Revisão: Luciana Carla

Edição Francisco Junior

Programação visual: Joacy Jamys

Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP)
Ficha Catalográfica elaborada por Vivyanne R. das Mercês

Almeida, Rogério Henrique
Araguaia-Tocantins: fios de uma História camponesa / Rogério
Henrique Almeida.
160 p.: il., 15,5x21cm

Referência bibliográfica
Índice
1. Movimentos Sociais – História – Araguaia, Rio (PA) –
Tocantins, Rio (PA). 2. Camponeses – Jornalismo – Araguaia, Rio
(PA) – Tocantins, Rio (PA). I. Título.

CDD 21.ed. 307.72098115
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Sumário

Sobre o autor
Apresentação
Antes do primeiro ato
Capítulo I – Chão palmilhado: 40 anos de militância de Manoel da Conceição Santos

Capítulo II – Araguaia: Uma história mal contada

Capítulo III – Sangue, suor e lutas

Capítulo IV – Dezinho, uma morte anunciada

Capítulo V – Políticas públicas para a Amazônia: na contramão da vida

Capítulo VI – Cerrado: Um solo fértil de lutas e sonhos.

Capítulo VII – Visões do Estreito: uma peleja em torno de uma hidrelétrica no rio
Tocantins.

Capítulo VIII - Apanhados do chão: folhas sobre a história recente do campesinato no
sudeste do Pará

Capítulo IX – Comunicação popular em Marabá: um sobrevôo.
Bibliografia
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Sobre o autor

Rogério Almeida veio ao mundo no fim de agosto do ano de 1967, na cidade de São
Luís, Maranhão. É graduado em Comunicação Social, habilitação em rádio, pela
Universidade Federal do Maranhão (UFMA), mas prefere se indispor com a palavra escrita.
Desde 1999 está radicado no Pará. Entre 1999 a 2003, morou em Marabá, trabalhando para
o Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (CEPASP). Atualmente
reside em Belém e cursa o mestrado em Planejamento no Núcleo de Altos Estudos
Amazônicos (NAEA), da Universidade Federal do Pará (UFPA), onde fez especialização
na mesma área. É colaborador do MST/PA e do Fórum Carajás. Nutre afeição pelo samba,
choro, maracatu, tambor de crioula, coco, bumba-meu-boi, e deseja um dia ter a elegância
de Paulinho da Viola.
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Apresentação
O trem que vai, o trem que vem!
Jorge Néri*1
A maioria expressiva dos paraenses nunca viu de perto um trem. Uma outra parte
considerável sequer sabe que um trecho de aproximadamente 1000 Km de terras, entre o
Pará e o Maranhão, é costurado por uma ferrovia que rasga a parte oriental do coração da
Amazônia rumo aos portos do Atlântico, de onde partem cargueiros para quase todos os
pontos do mundo, levando para além-mar ferro, cobre, ouro...
Estas pessoas não sabem também que, agregado às riquezas minerais incalculáveis,
esta ferrovia leva também suor, lágrimas, dor, sangue, fantasmas da miséria social e da
catástrofe ambiental que assola a população amazônica, que apesar disso ainda resiste, seja
ela ribeirinha ou extrativista, que paga às vezes com a vida a busca do sonho dourado nos
garimpos, e vê sua esperança definhar feito o sorriso das meninas prostituídas nas
corrutelas de beira de estrada.
Posseira, sem terra, quebrando coco. Escravo branco nas fazendas, cercadas por
marcas medievais do atraso e violência contra os direitos humanos. Rebelde como cabanos,
e balaios. Sorridentes como os Onalícios e Expeditos. Meninos como os do Araguaia. Com
traços de Fonteles, Oziel, Dezinho, Zé Goiano e tantos outros combatentes mortos. Vivos
como Manuel da Conceição e legiões inteiras de sem-terra que cortam para lá e para cá com
suas bandeiras vermelhas, sobre terras e história, como locomotiva vindo na contramão da
neocolonização, com a velocidade dos sonhos pintados de pátria, soberania, independência
e nação.
E aqui estamos. Fincados no coração da Amazônia, como um empecilho aos
grandes projetos dos “milicos do atraso“ ou do “Avança Brasil” dos ditadores
subservientes ao capital internacional.
Aqui estamos por séculos no coração da Amazônia. Aqui estamos, quem sabe, há
milênios antes que a história conhecesse o registro e a palavra portuguesa, com seus
códigos judaico-cristãos. Aqui estamos, e ficaremos pelos séculos que inda virão. E quando

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*Jorge Néri integra o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST Pará).
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acreditarem todos que já não mais existimos, crentes de nosso extermínio, ainda assim
estaremos, feito memória, que há de cutucar um presente que desconhece a importância
civilizatória de nosso papel na história. Pretensão?
Em cada registro jornalístico de elementos de nossa realidade, produzido pela
pena crítica de Rogério Almeida, há dor e indignação. Há opressão violenta, mas também
lampejos de subversão. Há morte gotejando sangue em noites chuvosas, e vida,
conspirando nas madrugadas dos acampamentos.
É dessa matéria que são forjados os homens e mulheres da Amazônia do amanhã,
do Brasil do amanhã. Pretensiosamente seremos – ao destruir, sepultar o último símbolo da
opressão do capital sob os escombros da velha sociedade – aqueles cuja generosidade e
visão humanizadora e socialista do mundo, já presente em nossa herança, na vida comunal
de nossos antepassados, poderá ser um componente sem igual para a formação da grande
nação, do porvir de uma nova humanidade.
“Araguaia-Tocantins: fios de uma história camponesa” é lâmina de navalha
afiada e flor poética de resistência. Ligeireza da escrita de Rogério Almeida, que crava
profundo nos dados e na suavidade da palavra. Palavra escrita, que deve ser o registro
histórico daqueles que a escreveram com sangue nas terras dos Carajás, com águas do
Tocantins, com sonhos dos meninos do Araguaia.
Ói o trem... está passando...

Retratos da luta (orelha do livro)

Conheci Rogério Almeida,“Pixote”, em meados dos anos 90, nos agitados
corredores do Curso de Comunicação Social da UFMA. Fomos apresentados por um amigo
em comum, Ricardo Borges, e nos unimos na produção de um fanzine com um nome
bastante atual: “Krise”. Dono de um texto mordaz e implacável que retrata bem sua postura
diante das injustiças e absurdos do “pais das maravilhas”, Pixote conhece como poucos a
realidade do Araguaia-Tocantins.
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Em quase dez anos de atuação nesta região, realizando trabalhos para entidades do
movimento social e popular, ele resolveu documentar neste livro, momentos cruciais da
trajetória de lutas, dores e conquistas de milhões de brasileiros que resolveram desafiar a
violência dos coronéis e palmilhar às custas de sangue o caminho da Reforma Agrária e da
Justiça Social, em um terra onde a lei da bala ainda impera, protegida pela vergonhosa
omissão do poder público.

Poeta, jornalista, e acima de tudo brasileiro, Pixote traça com maestria um
diagnóstico do cotidiano deste pedaço de Brasil, considerado um barril de pólvora no mapa
dos conflitos pela posse da terra, onde interesses de multinacionais, latifundiários, grileiros
e políticos “corruptos” se digladiam com os sonhos de terra, trabalho e dignidade,
cultivados nos acampamentos do Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra, nas
passeatas dos sindicatos, na determinação das entidades que pelejam por paz e Justiça
Social e principalmente no rosto de cada cidadão ou cidadã que abraçou este pedaço chão
como morada.

Tive o prazer de ajudar “Pixote” na edição deste livro e pude constatar em cada
palavra, um grito de alerta sobre as sementes de impunidades, plantadas nos assassinatos de
trabalhadores rurais, cujos processos adormece na burocracia do Judiciário. Estas e outras
mazelas inerentes não apenas à região do Araguaia-Tocantins, e construídas por décadas de
abandono e impunidades são retratadas de forma incisiva, sem rodeios nem meias palavras.

O livro antes de tudo um testemunho honesto de quem soube traduzir em prosa a
saga desta gente, que apesar de tantos percalços se nega a “jogar a toalha” e se recusa a
abdicar dos seus sonhos.

Francisco Junior
Jornalista
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Antes do primeiro ato

“O rio corre e vai sem ter começo
nem foz, e o curso, que é constante, é vario.
Vai nas águas levando, involuntário,
luas onde me acordo e me adormeço. “
Ferreira Gullar
Sete poemas portugueses

Araguaia-Tocantins: fios de uma História camponesa é uma fotografia em
3x4 de uma região repleta em história a ser recuperada da memória dos que a fizeram e
fazem ter vida. São personagens simples, cravados na beleza dos rios Araguaia e Tocantins.
Numa terra quase sempre ensolarada, onde o brilho da cidadania não reluz em todos os
semblantes.
Trata-se de uma região ainda rica em beleza natural, apesar das cicatrizes de
destruição deixadas pelo processo de colonização. Onde estão as árvores gigantes: o
mogno, a castanheira? Interrogou uma visitante de além-mar. Mas isso aqui não é a
Amazônia? Continua a visitante, perplexa diante do desmatamento provocado com a
implantação da pecuária.
A tessitura dos fios do tapete dessa terra tão repleta em história, o Araguaia-
Tocantins, resulta da minha atuação por quatro anos (entre fevereiro de 1999 a fevereiro de
2003) na equipe do Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular
(CEPASP), uma ONG com sede no município de Marabá, sudeste do Pará.
Este período me possibilitou o contato com as entidades que dão corpo ao
movimento social de luta pela reforma agrária no sul e sudeste do Pará e vizinhança, como
os estados do Tocantins e Maranhão.
O regime ditatorial (1964-1985) é um marco da ocupação amazônica. Trata-se
da integração da região ao restante do país. Integração periférica. No mesmo momento,
insurge o movimento social em busca de afirmação política, ampliando as bandeiras de luta
para além da posse da terra.
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Contestando a lógica de um Estado autoritário, tutelar, patrimonialista e
conservador em uma região marcadamente violenta, as entidades sociais de cunho popular
esgrimam contra os que fecham os olhos para as execuções daqueles que ousam alimentar
sonhos coletivos de dias melhores.
Cada vida ceifada pelos tiros da intolerância reforça ainda mais a luta de
milhares de homens e mulheres que trilham uma caminhada árdua. Marias e Josés estão ali
organizados em diversas formas: sindicatos, associações de produtores, associação de
mulheres, movimento de atingidos por barragens, associações indígenas, associações de
defesa de direitos humanos, organizações ambientalistas. As modestas iniciativas ganham
corpo e se articulam em vários fóruns, redes de ação em busca do reconhecimento de suas
reivindicações em todas as esferas de poder.
A massa que dá vida ao livro parte da vivência com dirigentes, camponeses,
quebradeiras de coco, extrativistas, pescadores, assessores, pesquisadores e tantos outros
personagens. Gente empenhada na construção coletiva. Processo que não se desenvolve de
forma linear e ou mesmo sem conflitos de ordem política.
Outra fonte importante foi a leitura de publicações que tratavam sobre o
processo de colonização da região, além de entrevistas gravadas com personagens da
história, registros diretos, participação em encontros que debatiam a questão da reforma
agrária e o processo de implantação de grandes projetos na região.
Há ainda dados extraídos do boletim eletrônico Contraponto, que foi editado
entre 1999 a 2003, bem como de jornais regionais, locais, nacionais e internacionais.
Também foram usadas como material de pesquisa reportagens publicadas em jornais de
entidades populares. São essas teias que compõem os fios da História.
A idéia de compilar o presente material em livro emerge de um acaso. Ocorreu
quando da seleção de material que deveria permanecer no arquivo de um computador do
CEPASP. Ao iniciar o processo de seleção do que deveria ser mandado para o espaço ou
ser mantido do arquivo de um surrado PC, ponderou-se que o material consistia em
importante registro histórico acerca do movimento popular, o qual poderia colaborar para
compreensão dessa caminhada, e ainda como auxílio à pesquisa de estudantes, cientistas do
Pará e outros rincões do planeta.
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O capítulo que abre o livro enfoca a história de 40 anos de Manoel Conceição
Santos e resulta de um pedido do próprio dirigente que conheci em 1997, quando passei a
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percorrer a região, e integrava o grupo do processo de avaliação do Fórum Carajás na
condição de entrevistador.
Além de umas seis horas de entrevista com Manoel da Conceição, tivemos
como fontes depoimento de familiares do dirigente camponês e de pesquisadores e
parlamentares que acompanharam de alguma forma a sua trajetória. Contribuíram ainda
para a construção do material, leituras de jornais nacionais e internacionais.
Este material foi publicado pela primeira vez na revista Democracia Viva, do
Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas-IBASE, ONG com sede no Rio de
Janeiro, na edição de número 19, de dezembro de 2003.
Parte do material compilado neste livro também foi publicado no jornal Gazeta
Mercantil (Caderno do Pará), e nas revistas do Rio de Janeiro Ecologia e Desenvolvimento
e Cadernos do Terceiro Mundo, da Editora Terceiro Milênio, e no Jornal Opinião de
Marabá, Pará.
O segundo capítulo trata das ações do senhor Sebastião Rodrigues de Moura, o
Major Curió, um representante do Exército Brasileiro presente da região desde a década de
70, quando da insurgência dos militantes do PC do B, conhecida como Guerrilha do
Araguaia (1972/1974). A motivação para produção do texto surgiu por conta da leitura de
diversas publicações sobre, bem como do livro A Justiça do Lobo, de Ricardo Rezende.
O militar candidatou-se e foi eleito prefeito do município de Curionópolis no
ano de 19993, uma cidade surgida com remanescentes do garimpo de Serra de Pelada, numa
homenagem ao próprio coronel da reserva. Foram colhidas entrevistas com duas pessoas
daqueles distantes dias, além da leitura do livro de autoria de Rezende e pesquisa em
jornais da época.
Os terceiro e o quarto capítulos abordam a questão da violência, um tema que
permeia o processo de expansão do capital rumo ao coração da Amazônia, a sua parte

1. O Fórum Carajás é uma rede de organizações populares dos Estados do Pará, Maranhão e Tocantins, que debatem o
processo de colonização da região de Carajás, e a construção de propostas que viabilizam a reprodução econômica, social
e cultural das organizações populares.

2. O major foi reeleito a prefeito em 2004.
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oriental. As suas marcas podem ser encontradas nas estatísticas de dirigentes sindicais,
assessores, advogados, religiosos assassinados ao longo de três décadas de registros
organizados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), entidade vinculada à Igreja Católica e
criada em 1975.
O capítulo seguinte, Políticas Públicas para a Amazônia: na contramão da
vida, desnuda uma inquietação quanto ao modelo de desenvolvimento adotado na região. O
capítulo tem como fonte de interpretação da agenda de projetos para o vale do Araguaia-
Tocantins e a experiência do Programa Grande Carajás. Um dos desdobramentos é
internalização de passivos sociais e ambientais. Se na década de 1970 a inserção da região
ao resto do país orientava os planejadores, desde 1980 com a inauguração da Ferrovia de
Carajás para o escoamento do minério da serra do mesmo nome, o mundo passou a ser o
parâmetro.
O sexto capítulo, intitulado Cerrado: um solo fértil de sonhos e lutas, tenta
traçar a trajetória do que foi a experiência de ocupação do cerrado no sul e oeste do
Maranhão. Ele foi produzido a partir da leitura de trabalhos de pesquisa produzidos pelo
Fórum Carajás e da vivência com os camponeses do oeste e sul do Maranhão. Também
subsidiaram a elaboração deste texto a participação em espaços de discussão sobre o bioma
cerrado, além de visitas de campo, coletas de relatos diretos, produção de jornais murais
para as diversas entidades que atuam nesta região e a leitura do projeto Cerrado é Vida.
Durante o processo de debate sobre os textos pré-selecionados e revisão,
participei de audiências públicas no Maranhão e Tocantins. As mesmas tinham como tema
central a implantação da usina hidrelétrica de Estreito, município do oeste do Maranhão. O
acompanhamento destas audiências resultou na inclusão de mais um capítulo – Visões do
Estreito: uma peleja em torno de uma hidrelétrica no rio Tocantins. O texto traz
informações que podem ajudar a elucidar a assimetria do poder nos sertões do Brasil,
quando um projeto de grande porte envolve interesse de empresas multinacionais.
Novidade?
Já o oitavo, Apanhados do chão: folhas sobre a história recente do
campesinato no sudeste do Pará batizou a monografia de especialização em planejamento
no NAEA/2004. O capítulo tenta recuperar a história dos grandes acampamentos de
trabalhadores rurais realizados a partir de 1997.
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O capítulo que encerra o livro apresenta sobrevôo sobre a experiência de
comunicação popular em Marabá e vizinhança. A construção do texto teve como fontes a
participação no movimento das rádios comunitárias, além da pesquisa em arquivo do
Cepasp. A leitura de impressos considerados populares nas décadas de 1980 e 1990 do
século passado, além de jornais produzidos no calor das organizações sociais, como o
“Mandi”, “Bafo de Bode”, entre outros, configuraram como fonte inestimável de pesquisa.
A idéia inicial era que os protagonistas envolvidos no que se convencionou
chamar de Núcleo de Comunicação das Entidades Populares de Marabá, no fim da
década de 1990 e o começo do novo século, produzissem uma publicação sobre a
experiência de comunicação junto a essas entidades. Como a caminhada não avançou, ficou
o presente fruto.
Uma coleção de imagens passeia na lembrança. As caminhadas dos sem-terra
com as suas bandeiras vermelhas na Transamazônia, a lona preta nos históricos
acampamentos em frente à sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária –
INCRA. Os rostos de alguns dirigentes mortos, os enterros, o sentimento de impotência das
viúvas ante o assassinato dos maridos, numa lógica de impunidade dada quase como certa.
Os caixões fechados. Os semblantes tristes. Um caldeirão de sentimentos.
As bandeiras da luta camponesa do vale do Araguaia-Tocantins estão renovadas.
Como alterada se encontra a configuração geográfica do que se chamou Polígono dos
Castanhais até a década de 70, quando se inicia de forma mais sistemática o processo de
colonização.
A colonização dirigida e espontânea funcionou como força motriz para a
penetração do capital na selva, incentivada por projetos que consideravam as terras do
coração da Amazônia como um vazio demográfico, em um ato de desprezo à presença
indígena na região.
As oligarquias rurais eram as senhoras da vida e da morte de dirigentes sindicais
até a presença do capital industrial e financeiro se instalar de mala e marketing no sul e
sudeste do Pará, e mandar para o escanteio os “coronéis” da castanha. Lógica que tinha no
Estado o principal indutor.
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É possível que a presença do capital industrial tenha mandado em definitivo as
oligarquias rurais para o córner da História? Ou elas continuam a reinventar outras formas
de reprodução social? Como a garantia de financiamentos públicos para os seus projetos, e
a barganha de parentes no assento em órgãos públicos, ou mesmo em câmaras de
vereadores e prefeituras locais?
É possível afirmar que a atmosfera da doutrina de Segurança Nacional se
dissipou do ambiente do Araguaia-Tocantins? Se isso realmente ocorreu, como explicar a
“descoberta” de um serviço de espionagem do Exército Brasileiro direcionado para
monitorar as ações dos movimentos sociais da região no ano de 2001?
É correto salientar que o movimento camponês se encontra numa fase de
emancipação, ao se instalar uma regional da Federação dos Trabalhadores na Agricultura
do Pará (Fetagri) no sudeste desse estado?
Ou, é necessária uma análise mais calma, como sugere Martins (1989, p.91) na
obra Caminhada no chão da noite,

“O fim da ditadura militar não pôs fim ao cerco e esvaziamento das lutas camponesas
na Amazônia nem ampliou as possibilidades políticas de os trabalhadores rurais da
região construírem ou efetivarem um modelo alternativo de agricultura. Em princípio,
o enfraquecimento político e a repressão privada e pública contra os trabalhadores
rurais, ao longo do regime militar, deixou feridas que levarão muito tempo para
fechar. Enfraqueceu-os politicamente, enfraquecimento agravado pela já mencionada
fratura, que divorcia a luta camponesa e os grupos políticos. Ao mesmo tempo,
enfraqueceu em conseqüência de política deliberada de forçar o consórcio entre a
propriedade da terra e o grande capital, gerando as bases sociais e políticas de uma
nova elite da região”.

Quanto à trilha do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST),
como esta se configura na região que concentra o maior número de projetos de
assentamento no Brasil? Tem o principal ator da cena recente da história camponesa no
Brasil uma pista para a definição da política de assentamentos rurais para a Amazônia?
Eis alguns fios da História camponesa do Araguaia-Tocantins, qualquer
incoerência interna na distribuição dos textos resulta do fato dos mesmos terem nascido de
diferentes demandas. Já o uso de verbos no presente, em algumas passagens, mesmo
expressando ações pretéritas, configuram como manutenção do contexto em que os fatos se
deram. A moldura dos textos segue a linha jornalística, e sobre esse prisma deve ser
considerada. Ainda que em determinados instantes ocorram inflexões.
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A possibilidade do convívio direto com a diversidade de atores sociais que
vivem nessa região tão dinâmica do sertão do Brasil é fonte indispensável para a construção
deste material apresentado. A partir dessas pessoas estendo o meu agradecimento a todos
(as) com quem pude conviver: dirigentes, assessores, técnicos e trabalhadores rurais. Que
fazem a roda da História de mover.
Não posso deixar de agradecer a atenção dos professores da Universidade
Federal do Pará (UFPA) Rosa Acevedo Marin e Gutemberg Guerra, que leram e
recomendaram observações (espero que tenham sido cumpridas), e incentivaram a
produção do presente trabalho. Um agradecimento especial ao estimado amigo Francisco
Carlos Júnior. Como eu, filho de humildes da cidade de São Luís. Jornalista de
sensibilidade e pena afiada. Parceiro de abissal paciência que realizou a edição final e
revisão dos textos. Exaustiva empreitada. E à Luciana Carla com o empenho no processo
de revisão.
Essas páginas confrontam a inquietação do colaborador (militante) de
movimentos sociais camponeses do Bico do Papagaio, com o mestrando do Núcleo de
Altos Estudos da Amazônia (NAEA) da Universidade Federal do Pará (UFPA). Aqui o
militante com o pesquisador se complementam e se diluem. Nessas páginas ocorre o
amálgama da busca do rigor científico com a vivência de campo. É assim que deve ser o
processo de construção científica na Amazônia?
São muitas as inquietações. A presente publicação reúne apenas alguns fios
desse vasto e complexo tapete de realidades, redes sociais, econômicas e culturais, como
num mosaico. E aguarda as críticas, que sejam bem-vindas. Como um passeio na vale do
Araguaia- Tocantins.
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“Todos estes que aí estão,
atravancando o meu caminho,
passarão.
Eu, passarinho.”

Mário Quintana

Um dos mais expressivos militantes pela causa da Reforma Agrária no Brasil
veio ao mundo na primeira metade do século passado. Anos em que Vargas, Lampião e
Prestes engrossavam o caldo de nossa história e a segunda grande guerra tomava forma.
Nascido em 1935, em Pedra Grande, povoado do município de Coroatá, no interior do
Maranhão, Manoel da Conceição Santos, ou “Mané”, como prefere ser tratado por
familiares, amigos e companheiros de caminhada, é filho e neto de camponeses, sendo o
mais velho de seis irmãos, tendo ainda mais dois irmãos do primeiro casamento da mãe.
As primeiras letras foram decifradas com o socorro da velha cartilha do ABC e
da Bíblia, na Assembléia de Deus, quando era evangélico e hoje, após mais de quatro
décadas de caminhada, ele se constitui numa reserva moral da esquerda. Esquerda que
parece atordoada, quando, nesta época, conduz pela primeira vez o leme do principal país
da América Latina.
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Nascido no colo de um dos estados mais pobres da nação, ele conseguiu escapar
das muitas enfermidades que vitimaram milhares de crianças pelos sertões do Brasil. No
Vale do Pindaré iniciou a construção de uma história de 41 anos de trabalho aprumada em
princípios humanistas e socialistas.
“São quarenta e um anos de estrada. Para a história, esse tempo não significa
nada”, sentencia Mané, um dos colaboradores na organização do Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no Maranhão. O militante histórico do PT
reconhece a importância do MST, mas admite que se desligou do mesmo por divergir de
metodologias. Mané avalia que os segmentos de oposição devem equacionar as diferenças.
“Ninguém deve queimar ninguém. Ato comum em algumas relações internas do
movimento popular. Devemos entender que o adversário se encontra do outro lado”, indica
Mané.

Negro, trabalhador rural e nordestino. As
credenciais propícias para engrossar os índices de marginalidade não foram para ele um
problema. Manoel Conceição tem pouco mais de um metro e meio de altura. Estatura que
não se coaduna com a ternura que emana.
Apesar da idade e de toda a vida dedicada ao movimento popular, prossegue
incansável. Mantém as mesmas convicções de antes, quando iniciou sua caminhada, idos de
1962, quando os militares ensaiavam o golpe de Estado. Ex-companheiros que optaram
pelo poder institucionalizado, ocupando cargos em ministérios ou secretarias do governo
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quando o PT ainda não havia chegado ao poder ainda hoje o respeitam e admiram. Para o
guerreiro de tantas batalhas, a ditadura não acabou. Só ganhou um novo colorido.
Sobre o cenário atual do movimento sindical (MS), faz a seguinte leitura:
“A conjuntura tem empurrado o MS para a prática que considero como o
novo peleguismo. O peleguismo da negociação, fechar a boca. Devemos
trabalhar a edificação da socioeconomia solidária. Pois é certo que se o
capitalismo puder arrancar o nosso olho, ele arranca. Já está
acontecendo isso”.

Sobre a CUT, vaticina que:
“a Central não deve pensar apenas em garantir emprego dentro da
estrutura capitalista, onde cada vez mais menos gente é necessária na linha
de produção. O horizonte deve ser um projeto que se contraponha ao
capitalismo”.

As palavras de “Mané” traduzem o conhecimento de causa de quem já
conheceu de perto a dor e a covardia, que durante anos habitaram os porões do regime
militar, onde milhares de brasileiros sentiram na pele o terror imposto àqueles que ousavam
construir uma resistência ao autoritarismo dos generais.
Neste período, ele foi preso nove vezes. Entre 1972 e 1976 ficou encarcerado
ininterruptamente durante três anos e meio: “Fui preso no Pindaré. Depois segui para São
Luís, Rio de Janeiro, Salvador, Maceió, Recife e Fortaleza. Enquanto nos outros quartéis a
tortura comia solta, em Fortaleza a tortura era psicológica”, relata.
Em uma dessas “visitas” à cadeia, quando esteve misturado com presos
comuns, um deles confessou que assassinava militantes em troca da redução da pena. Tinha
um lá que contava: “Seu Manoel, sempre que atendo uma encomenda de morte minha pena
reduz uns sete, dez anos. A história é deixar a pessoa dormir. Aí a gente pega caneta ou
lápis e um martelo. É só bater no ouvido. O bicho entra no ouvido. Sai no outro. Não sai
nem sangue. Pela manhã o pessoal acha o cara morto. O que foi? Se matou”, recorda.

O SEMEADOR DE SONHOS

No chão palmilhado por Mané surgem marcas de prisão, tortura, sangue, amor,
exílio, trabalho com educação popular, construção do Partido dos Trabalhadores (PT) e da
Central Única dos Trabalhadores (CUT), militância na Ação Popular Marxista Leninista
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(AP), entidade formada por jovens oriundos da Igreja Católica, onde chegou a exercer a
coordenação, além da fundação do primeiro sindicato de trabalhadores rurais no Maranhão,
o de Pindaré-Mirim.
Arando sonhos de um Brasil mais justo, ele colheu quatro filhos, oriundos de
dois casamentos e de um namoro e traz cravadas em suas lembranças as cicatrizes do exílio,
ocorrido entre 1976 a 1979 na Suíça. Para um dirigente camponês, que dedicou parte dos
seus dias pela garantia de dignidade, sair obrigado do país era uma humilhação, mas não
havia alternativa. Passar alguns anos fora do Brasil era a única opção para salvar sua vida,
que até hoje é dedicada ao movimento popular.
Poucos jovens que se identificam como de esquerda nunca ouviram falar ou
leram algo sobre o autor do livro Essa Terra é Nossa, resultado de 20 horas de depoimento
colhido em Paris, em 1979, por Ana Maria Galano, e publicado pela Editora Vozes em
1980.

Lançamento do livro “Essa terra é nossa”
Atualmente com 70 anos, Manoel da Conceição mora no oeste do Maranhão, na
cidade de Imperatriz, terra banhada pelo rio Tocantins, e segundo município mais
importante do Estado. Junto com outros trabalhadores (as) rurais coordena a organização
não governamental Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural (Centru), que tem
sua matriz em Recife, Pernambuco.
Fundada em 1985, a ONG tem a diretoria formada somente por trabalhadores
rurais. O empenho na organização de trabalhadores e trabalhadoras rurais no projeto da
Central de Cooperativas Agroextrativistas do Maranhão (CCAMA) no oeste e sul do
Maranhão, região de cerrado, baseado na economia solidária e no desenvolvimento
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sustentável, tem funcionado como motivador do trabalho realizado por “Mane” nos últimos
anos.
Apesar de reconhecer a importância da militância durante a ditadura militar,
quando se consolidou como um dos maiores expoentes da esquerda brasileira, ele prefere
conversar sobre o que vem fazendo atualmente e esbanja um entusiasmo juvenil ao falar de
projetos preocupados com o meio ambiente, organização popular, desenvolvimento de
sistemas agroflorestais, discussão e proposição de políticas públicas voltadas para o
pequeno produtor rural.
Manoel da Conceição semeia tudo isso em uma região marcada pela presença
de grandes projetos como a Ferrovia de Carajás, e vitimada pela destruição do cerrado, seja
para a implantação de soja ou para alimentar os fornos das siderúrgicas situadas na Ferrovia
de Carajás, além de uma floresta de eucalipto da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD),
que deveria desaguar na implantação de uma fábrica de papel celulose, hoje sem
perspectiva.
A perspectiva é o socialismo, acredita Manoel Conceição. “Não basta ganhar
governo. Temos que trabalhar organicamente,’ avalia. É com os pés na terra, aliás, o pé na
terra, e alma nas nuvens que participou da construção do Centro de Estudos do Trabalhador
Rural (Cetral), espaço de realização de encontros e seminários de trabalhadores rurais
situado no município de João Lisboa, situado as uns 18 km distante de Imperatriz. Nessa
perspectiva percebe-se uma organização centrada nas seguintes organizações: CENTRU,
CCAMA e CETRAL que irradiam o Projeto “Cerrado é Vida”
Mané e sua luta foram o foco da dissertação de mestrado da jornalista e
professora universitária, Helciane Araújo. O trabalho que traça um raio-x do líder
camponês foi apresentado, em 2000 no Mestrado em Políticas Pública/UFMA, com o tema
“Memória, mediação e campesinato: estudo das representações de uma liderança (Manoel
Conceição) sobre as formas de solidariedade assumidas por camponeses na chamada Pré-
Amazônia Maranhense”.
Helciane Araújo explica que em seu estudo sobre Manoel Conceição, ela
procurou analisar como o líder camponês a partir da posição do presente interpreta o seu
passado e quais as representações que ele tem da história que viveu. “Vejo que Manoel hoje
fala não apenas de uma posição, mas de múltiplas posições: do partido, da ONG, da
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cooperativa, sendo que enquanto coordenador de uma ONG e da cooperativa se auto-define
como um ambientalista.” analisa
Sobre a atuação no movimento popular, Helciane Araújo considera que,
“Manoel é a própria resistência do movimento popular no Maranhão, mas não é uma
resistência cristalizada, congelada, colada em princípios dos anos 60, ou dos anos 70. “Pela
experiência de vida, Manoel consegue ter uma visão cosmopolita da realidade brasileira e
da realidade maranhense, e percebe que as estratégias de luta do presente não podem ser as
mesmas de anos atrás”, complementa.
Ela pondera que a forma como ele defende a mudança interior das pessoas face
a qualquer projeto de novo modo de vida o coloca muitas vezes na posição de profeta, de
apaziguador”
Através da leitura de suas representações sobre seu passado, percebemos o
quanto que o agente social (o camponês) mudou, exigindo uma mudança de postura
daqueles que o tentam compreendê-lo, mudança esta que deve levar a uma ruptura com os
conceitos cristalizados. Infelizmente os maranhenses não conhecem essa história e Manoel
Conceição não assiste em vida o seu reconhecimento sequer entre seus parceiros!”, sintetiza
a pesquisadora.
Helena Heluy, deputada estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT/MA),
comunga da mesma opinião e observa a falta do reconhecimento devido à história de
Manoel de Conceição por seus pares de movimento popular e partido a nível estadual e
nacional. “A história de Mané é fantástica”, resume , a procuradora aposentada do
Ministério Público, e histórica militante dos direitos humanos no Maranhão.

A CADEIRA DO DRAGÃO
Um dos momentos mais dramáticos desta trajetória elogiada por Helena Helluy
e que deixou cicatrizes físicas e psicológicas foram as atrocidades sofridas por Manoel da
Conceição nos quartéis durante os governos Médici e Geisel. O período é marcado pelo
acirramento da repressão e da violência contra os opositores do regime. Uma parte desta
trágica experiência vivida por “Mané” está registrada no livro do cardeal D. Paulo Evaris
Arns, Tortura Nunca Mais, que narra algumas da muitas atrocidades cometidas pelos
militares .
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Ele se recusa a falar novamente sobre o assunto, e as informações mais
detalhadas a respeito dos dias em que conheceu o inferno nos porões da Ditadura Militar
foram recolhidas no livro Essa Terra é Nossa e no requerimento de indenização baseado na
Lei Estadual 10.726/2001 encaminhado ao Governo do Estado de São Paulo em 2002, e
deferido no dia 17 de setembro de 2002.
No requerimento entregue ao governo paulista, Manoel Conceição conta que no
dia 02 de janeiro de 1972 foi preso em Trufilândia, região do Vale do Pindaré- Mirim e
levado para o DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social) de São Luís, capital do
Maranhão.
Ele narra que já estava preso há mais de um mês, chegando a receber visitas de
padres e do então deputado João Alberto, hoje senador pelo PMDB-MA, sendo também
entrevistado por um jornal que divulgou a sua prisão.
Na madrugada do dia 24 de fevereiro, foi seqüestrado por agentes do DOI-
CODI (um dos mais temidos órgãos de repressão do regime militar) e colocado num avião.
Manoel só veio saber qual era seu destino quando o avião pousou no Rio de Janeiro e foi
entregue ao Comando do I Exército e levado para o quartel de polícia do Exército no bairro
da Tijuca.
Ele teve a sua perna mecânica arrancada e foi colocado nu dentro de uma “cela
geladeira” (cubículo), onde era alimentado apenas com pão e água, tendo que defecar e
urinar no mesmo local em que estava preso. Só era permitida a sua saída da cela para
interrogatórios e sessões de tortura, executadas em sala 3 por 4 metros vedada com se fosse
um cortiço, para ninguém ouvir do lado de fora.
Os métodos de tortura variavam de acordo com a preferência sádica dos seus
algozes. Primeiro, colocaram-no na “cadeira do dragão”, feita com ferro e equipada com
braços e um buraco no assento.
Depois de amarrá-lo na cadeira, os torturadores enfiavam uma barra de ferro e
viravam-no de cabeça para baixo para que ele ficasse com se estivesse em um “pau de
arara”. Nessa posição, ele era espancado com cassetete e recebia choques elétricos nos
órgãos genitais e por todo o corpo. Em seguida, era retirado da “cadeira do dragão” e
espancado com palmatória, cassetete de borracha, murros e a golpes de caratê em todas as
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partes do corpo. Nu e sem a perna mecânica, seu corpo não resistia em pé, e sofria várias
quedas. Em uma delas, sofreu uma fratura no maxilar do lado direito.
Em uma dessas sessões de tortura, ele foi colocado em um carro e levado para
um local que tinha piscina, onde foi amarrado com os braços atados às pernas. Em seguida,
jogaram-no três vezes na água até que ele ficasse sem fôlego. Não satisfeitos com as
atrocidades, os torturadores de Manoel colocaram-no em um poste com os braços atados
para trás, as mãos algemadas ainda sem a perna mecânica. Ele permaneceu neste local,
onde foi espancado por várias horas e ao ser retirado teve de ser hospitalizado, tomando
banho de gelo para espalhar o sangue coagulado no corpo.
Após sair do hospital, Manoel foi levado para o quartel onde as torturas
continuaram com a mesma brutalidade. Os agentes, de capuz na cabeça, amarram-no em
uma grade e prenderam seu pênis com uma corda para impedi-lo de urinar. Ele foi deixado
nessa situação por vários dias, sem direito a água e comida.

Manoel em sua casa no exílio em Genebra, Suíça, com Dom Fragoso, bispo de Cratéus.

Quando foi retirado da cela, estava com o corpo cheio de dor e não conseguia
dar um passo. Mesmo assim, as sessões de torturas prosseguiam. Mal seu corpo
apresentava os sinais de uma melhora, ele era novamente dependurado no mesmo lugar, nas
mesmas condições e espancado com os mesmos aparelhos e com a mesma violência
durante horas.
Ao final de cada sessão de tortura, ele perdia até a noção do tempo e sempre era
levado para um hospital, onde tomava banho de gelo e recebia tratamento com antibióticos.

O DOUTOR “CLÁUDIO”
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As sessões de torturas se tornaram mais dolorosas para Manoel da Conceição
quando ele foi transferido para o Cenimar (Centro Nacional de Informações da Marinha).
Neste local, ele conheceu agentes mais dedicados ao regime. Naqueles anos turbulentos,
enquanto, o discurso ufanista anunciava as proezas do milagre econômico, a ida de
qualquer prisioneiro político do regime às dependências do Cenimar era considerada uma
sentença de morte.
O grau de atrocidade das torturas aumentava proporcionalmente com a
debilidade física e psicológica da vítima. Esta tática quase sempre resultava na morte do
prisioneiro e era usada com extrema eficácia no Cenimar.
Inúmeras publicações narram a violência das atrocidades cometidas contra
dirigentes políticos presos pelo regime militar. As práticas mais comuns eram choques
elétricos nos genitais dos prisioneiros, espancamento com barras de ferro e afogamento. Os
dias de Manoel Conceição no cárcere também registram esse tipo de brutalidade.
Durante sete meses vivendo na ante-sala do inferno, ele esteve “desaparecido” e
chegou a receber a ameaça de ser colocado em avião e jogado em alto-mar, método usado
com freqüência para dar “sumiço” aos prisioneiros políticos. Durante as sessões de tortura
no CENIMAR, um homem chamado Dr. Cláudio era o responsável pelo comando do
festival de covardias. Tempo depois, Manoel descobriu que se tratava do inspetor Solemar
Moura Carneiro, agente do órgão de informação da Marinha.
Após sair da prisão, Manoel da Conceição foi julgado em Fortaleza em maio de
1975, pela Auditoria Militar, e condenado a três anos de cadeia e cassação de direitos
políticos por dez anos, mesmo sem nunca ter votado ou sequer possuir título de eleitor.
Como já estava preso há três anos e meio, foi posto em liberdade e depois apelou da
sentença na instância superior em Brasília. Em 1976, foi absolvido por unanimidade pelo
Superior Tribunal Militar, embora ainda continuasse na mira dos torturadores do governo
Geisel.

MARCADO PARA MORRER

No requerimento encaminhado ao Governo de São Paulo, consta que em maio
de 1975, após a sua libertação, foi levado para a casa do Bispo Dom Aloísio Lorscheider,
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então presidente da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). “Eu era um
cabra marcado para morrer. Doente, ameaçado de morte e precisando de tratamento
médico, o bispo possibilitou a minha vinda para São Paulo, onde fui recebido pelo Dom
Paulo Evaristo Arns e pelo pastor presbiteriano Jaime Wrigth, que providenciaram a minha
internação no hospital Santa Catarina”, relembra.
Após recuperação no hospital, Manoel foi levado para descansar em Vinhedo, e
depois para Osasco, ficando na casa do padre Domingos Barbe, de onde foi seqüestrado por
policiais do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), no dia 28 de outubro de
1975.

Com Mário Carvalho de Jesus, advogado da Frente Nacional do Trabalho (FNT), São Paulo, em frente à
casa do padre Dominique Barbé, Osasco, onde foi preso em 1975.

No DOPS, o reencontro com os torturadores foi marcado pelo medo. Nas
sessões de espancamento ele era encapuzado e recebia choques elétricos por todo o corpo.
Sarcásticos, seus carrascos lhe diziam que a sua prisão não tinha nada a ver com a Justiça,
era uma questão “pessoal”. Durante 48 dias ele esteve nas mãos dos homens comandados
pelo conhecido delegado Sérgio Paranhos Fleury, um dos mais empenhados torturadores do
regime. A cada sessão de espancamento e de interrogatório, Fleury dizia para Manoel que a
Justiça fora incapaz de fazer seu julgamento e que o maior crime cometido no Brasil foi
quando o soldado deixou de atirar na sua cabeça e acertou-lhe apenas a perna.
A sua libertação só foi obtida através de batalha judicial, a qual foi travada pelo
advogado Mário Carvalho de Jesus. Além da luta nos tribunais, Manoel contou com o
apoio de amigos e companheiros de caminhada que se mobilizaram no Brasil e exterior. O
Papa Dom Paulo VI, temendo mais sessões de tortura, enviou telegrama para o presidente
Geisel, exigindo a sua libertação. No dia 11 de dezembro de 1975, sob a proteção da Igreja
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Católica e Presbiteriana e da Anistia Internacional, ele deixa a prisão e segue para o exílio
na Suíça.

O EXÍLIO
A escolha da Suíça foi motivada pela solidariedade demonstrada por um grupo
de militantes de esquerda deste país, que organizou o Comitê Internacional Manoel
Conceição, sediado em Genebra. Marguerit Emirie ocupava a coordenação do comitê, que
por sugestão de Manoel, passou a ser chamado de Comitê em Solidariedade ao Povo
Brasileiro. Além da Suíça, ocorreram manifestações organizadas na Inglaterra, França,
Alemanha, Itália e Estados Unidos pela libertação do líder camponês.
A preocupação internacional com a situação dos presos políticos no Brasil, a
qual foi decisiva para a libertação de Manoel da Conceição, bem como a sua ida para o
exílio são comprovadas em um documento da Comissão Internacional de Direitos Humanos
(CIDH), da Organização dos Estados Americanos (OEA), datado de 1972.
O documento requere ao Estado Brasileiro informações sobre a detenção de
Manoel da Conceição Santos e do militante Luiz dos Santos, atualmente desligado da luta
popular, e morando em Goiás.
Ao responder à solicitação da OEA, o governo militar classifica Manoel como
elemento de elevada periculosidade e ameaçador da ordem estabelecida, definindo-o ainda
como terrorista, produtor de panfletos e de documentos subversivos. Na resposta à
solicitação, os militares voltam a negar as acusações de tortura e violação dos direitos
humanos nos quartéis do Brasil.
Enquanto a imprensa no Brasil era obrigada a silenciar, por conta da censura, as
atrocidades praticadas contra Manoel da Conceição e outros opositores do regime militar
começam a ganhar destaque na imprensa internacional.
Na edição de 05 de outubro de 1972, o The New York Review of Books, editado
nos Estados Unidos, publica as arbitrariedades do regime militar brasileiro. Sobre o caso de
Mané, o periódico noticia: “O exemplo de Manoel Conceição e Luiz dos Santos é uma
amostra dos milhares de casos do povo brasileiro, de todas as classes, que estão nas mãos
dos executores da ditadura brasileira, sendo torturados e assassinados, às vezes a sangue
frio”.
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A matéria, produzida a partir de um manifesto organizado no Brasil, solicita
que sejam abertas investigações contra as violações dos direitos humanos ocorridas no
regime militar.
Apesar de ter sua luta reconhecida no exterior, Manoel despreza o tratamento
recebido por setores da imprensa brasileira, cuja linha editorial, por obediência ou
alinhamento, maculava a militância contra o regime. Enquanto era torturado nos quartéis,
uma reportagem de 1972 assinada pelo jornalista Cláudio Rocha e publicada pela Revista
Cruzeiro desqualificava a trajetória do líder camponês, taxando-o de terrorista, assassino,
analfabeto e massa de manobra dos comunistas. A matéria, escrita em um tom depreciativo,
é definida por ele como uma “vergonha” e, no seu palavreado de “ camponês”, o deixa
“injuriado” até hoje.
Além das cicatrizes da tortura, as lembranças de amigos ainda povoam a
memória de “Mané”. Uma pessoa de quem ele não esquece é a mulher que o levou de
madrugada de São Paulo Para o Rio de Janeiro após a perda da perna. “Estendo o meu afeto
a todos a partir da lembrança dessa moça, a Beatriz”, desabafa.

Manoel Conceição em frente da sede do Centru, João Lisboa-MA

Ele também cita nomes como do Rui Frazão, dado como desaparecido pelo
regime militar; Betinho, o Herbeth de Souza, de quem fala com extremo carinho, o mesmo
externado ao comentar sobre Jair Ferreira de Souza, ex-secretário geral da Ação Popular, já
falecido. “Cabra porreta. Muito solidário. Nutro grande respeito por ele.”, comenta.
Uma rede de solidariedade formada por sindicatos, igrejas, Anistia
Internacional e governo suíço colaboraram para a manutenção de Mané, da sua filha
Mariana e da sua companheira Denise durante o exílio. O período em que passou fora do
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Brasil foi dedicado à participação em manifestações políticas, ocorridas em alguns países
da Europa, África e até no Oriente Médio.
Quando os dias no exílio estavam se encerrando, organizou, ao lado de outros
exilados, um encontro internacional. Algumas das propostas ventiladas nesse encontro
foram a criação do Partido dos Trabalhadores (PT) e da CUT (Central Única dos
Trabalhadores), que teriam uma proposta de orientação socialista. No fim de 1979, com a
Anistia, Manoel Conceição integra a comissão de criação do PT. Na opinião do Barão de
Itararé, Aparicio Torelli, a Anistia foi a forma que os militares encontraram para se auto-
absolverem dos crimes que cometeram.

A FAMÍLIA
Com as idas e vindas de uma vida dedicada à coletividade, sobrou pouco tempo
para a família, porém o rosto de Manoel da Conceição é pequeno para comportar o brilho
de orgulho nos olhos quando ele fala dos quatro filhos. “Amo e admiro todos. Mariana foi
concebida em São Paulo após a saída do cárcere e nasceu na Suíça. Acaba de concluir o
curso de Agronomia em São Luís”, confessa. Fruto do segundo casamento, com a advogada
Denise Leal, Mariana foi a cria de que o líder camponês mais esteve próximo. “Acredito
que ela siga as pistas deixadas por mim”, revela.
Os outros dois filhos de Mané nasceram do primeiro casamento, com Maria
Rita. Manoel Filho é pedagogo, Raquel é dirigente sindical em Boqueirão, cidadã sitiada no
interior do Piauí e mãe dos cinco netos que Mané possui.
Rosa Rocha Albuquerque é o nome da caçula nascida do relacionamento com a
alagoana Neide, na época secretária da Diocese em Recife, Pernambuco. Ele se alegra ao
falar que a “Rosinha” deseja cursar História e Antropologia.
Manoel da Conceição lamenta ter ficado tanto tempo longe dos filhos sem
poder ajudá-los, colaborar na educação, ou simplesmente acalentá-los durante a noite
quando eram crianças. Ele admite que isto lhe provoca profunda dor. Sobre as mães de seus
filhos, as considera guerreiras e reconhece que tiveram um papel fundamental na educação
das crianças, enquanto seguia a vida de militante, ou estava foragido ou preso.

O PARTIDO
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Parte do tempo ausente da convivência familiar, após voltar do exílio, foi
dedicada por Manoel da Conceição à tarefa de ajudar a organizar o Partido dos
Trabalhadores (PT). “O primeiro manifesto do PT, organizado por Lula, Jacó Bittar e
Olívio Dutra, que compunham o grupo dos autênticos, foi considerado “meio fraco”,
lembra. Ele recorda ainda que aglutinou junto com Paulo Matos Skromov um outro grupo,
e que gerou uma segunda proposta de manifesto. “Motivamos um debate mais ampliado. O
manifesto foi gerado nessa discussão de grupos de trabalho”, ressalva.
Depois de Mário Pedrosa e Apolônio de Carvalho, segue o nome de Manoel
Conceição Santos no livro de fundação do Partido dos Trabalhadores, no Colégio Sion, São
Paulo, em 1980. Na ocasião do lançamento do manifesto de fundação do PT, Mané dividiu
a mesa com Sérgio Buarque de Holanda, Lélia Abramo, Mário Pedrosa e Moacir Gadotti,
que representava o educador Paulo Freire na ocasião.

Manoel Conceição na sede onde Centru desenvolve o Sistema Agroflorestal (SAF), João Lisboa-MA.

Manoel Conceição colaborou diretamente na organização do PT em
Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, além de animar núcleos no Ceará, Bahia e
Sergipe. Com a certeza de que não sairia vitorioso, encarou uma candidatura ao governo de
Pernambuco em 1982. “Na propaganda da TV, só a foto. Aí alguém dava o currículo:
trabalhador rural, preso não sei quantas vezes, expulso do país. Fiz o maior sucesso na
periferia de Recife,” conta o camponês.

“ESSA TERRA É NOSSA!”
A caminhada de Mané, marcada por inúmeros percalços, já começa a sinalizar
desgastes. No fim de dezembro de 2001, ele teve um acidente vascular cerebral (AVC), que
o obrigou a cumprir uma dieta rigorosa. Os problemas provocados por este tipo doença não
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comprometeram sua memória. Ele lembra da conversa que teve com Mao Tse Tung, líder
comunista chinês. O encontro ocorreu em 1969, em Pequim, quando Mao presenteou
“Mané” com uma perna de madeira, repleta de ideogramas (símbolo usado no alfabeto
chinês).
Assim como outras lideranças de esquerda vindas do movimento camponês,
Manoel tem pouca escolaridade, mas a labuta do movimento popular serviu de faculdade e
o graduou como referência na luta pela Reforma Agrária.
Ele reforça que sempre sonhou e trabalhou por uma sociedade diferente. Em
São João das Mangabeiras, cidade situada na região sul do Maranhão, Mané atua junto com
outras famílias na luta para a construção de uma área de uso coletivo da terra. “Na área há
terra reservada para uso das famílias e uso da cooperativa. Nada de história de posse.”
Ele lamenta que alguns companheiros de caminhada tenham perdido o “prumo
da luta”, mas se alegra ao citar os nomes dos que ainda dividem com ele o mesmo sonho na
construção de um mundo menos desumano. “Não podemos labutar tanto e o atravessador
ganhar tudo. Na minha cabeça não cabe essa história de propriedade da terra. A terra para
nós é dos animais que nela vivem. Quando chegamos tava tudo aí. Que história é essa de
propriedade privada? Essa terra é nossa!”, finaliza.

Uma fonte inesgotável de esperança

O cotidiano de lutas de Manoel da Conceição não propiciou muito tempo para a
família e muito menos para acompanhar de perto o crescimento dos filhos que reconhecem
a importância do pai na história da esquerda brasileira e na luta pela Reforma Agrária.
Manoel da Conceição Filho, um dos rebentos do velho Mané, relata:
“Confesso-me incompetente para falar da importância de Manoel Conceição
para o Movimento Popular, conforme me fora solicitado. Pra ser sincero,
ultimamente tenho estado acometido por uma extrema dificuldade para discernir
com nitidez a face e a natureza do movimento popular; mais ainda, para
identificar seus reais propósitos e projeto. Entretanto, proponho-me, na direção
inversa, expressar minha leitura sobre a importância do dito movimento popular
para o cidadão Manoel Conceição Santos.”
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Ele ressalta que uma das grandes virtudes de seu pai é ter construído uma vida.
A única que por opção desconheceu o sentido da particularidade.
Manoel Conceição é, seguramente, um dos poucos companheiros que não
apenas aderiu ao coletivo como causa maior, mas que efetivamente abdicou,
conscientemente, de sua dimensão pessoal, para decididamente assumir a identidade da
Classe Trabalhadora. ”MINHA PERNA É MINHA CLASSE”, frase proferida por ele,
quando em 1965, teve sua perna amputada, conseqüência da voracidade do regime militar;
traduz com muita propriedade o significado vital de seu compromisso com o então
aspirado Movimento Popular.
Seu filho recorda que a imagem guardada da infância, na curta convivência que
teve com Mané é a de um pai totalmente ausente, absorvido em intermináveis reuniões
secretas com outros companheiros e algumas companheiras de semelhantes perfis.
“Lembro-me também, de meu estado permanente de reclusão, pelo fato de apresentar
fortes traços de semelhança fisionômica com meu pai, o que se convertia em natural
ameaça à minha segurança e à segurança de minha família; isso, uma criança com apenas
quatro anos de idade.”, revela.
Manoel Filho conta que antes de completar seis anos, foi, juntamente, com sua
irmã Raquel, que era dois anos mais velha, e com Maria Rita totalmente separado do
convívio com seu Mané; só voltando a reencontrá-lo onze anos depois – em 1979 – quando
ele retornou do exílio, com igual ou maior disposição para dar continuidade à luta em prol
da causa da classe trabalhadora.
O momento histórico do início dos anos 80 transpirava esperança. Finalmente,
vinha à tona o grito da classe trabalhadora que por mais de 20 anos ficara abafado nos
porões da ditadura militar. As mais legítimas forças do Movimento Popular culminaram
com a constituição de dois instrumentos sócio-políticos estratégicos para a construção de
um novo país – o Partido dos Trabalhadores (PT) e a Central Única dos Trabalhadores
(CUT), dos quais Manoel Conceição foi co-fundador, juntamente com outros valorosos
companheiros.
Fazia parte da estratégia de luta de classes, expressa nos fundamentos, tanto da
CUT como do PT, a construção de um Movimento Popular autônomo e autêntico,
traduzido sob forma de um sindicalismo classista e combativo e de um partido político
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revolucionário que disputaria o poder para colocá-lo a serviço da construção de uma
sociedade sem explorados e sem exploradores.
Em 1985, após uma breve temporada de militância no estado de Pernambuco,
Manoel Conceição retornou ao Maranhão – sua terra natal – estabelecendo morada na
cidade de Imperatriz, na região Tocantina. Aqui, mergulhou novamente em uma luta
intensa em prol da reforma agrária e por um sindicalismo combativo comprometido com a
ampliação dos direitos da Classe Trabalhadora.
Dezoito anos se passaram, a luta gerou e continua gerando conflitos
avassaladores; muitos companheiros e companheiras pagaram com as próprias vidas o
preço por ousar sonhar com um mundo de Justiça.”, retrata Manoel Filho.
Ao fazer um balanço deste período, ele ressalta que houveram muitas
conquistas como a hegemonia no movimento sindical em nível nacional – no campo e na
cidade. Muitos latifúndios foram convertidos em assentamentos da reforma agrária e
diversas lideranças do movimento popular foram projetadas na esfera institucional,
tornando-se vereadores, deputados, prefeitos, governadores, senadores e até presidente da
república.
“Durante os últimos vinte anos, nos quais tive o privilégio de conviver com seu
Mané, o que mais tem chamado a minha atenção nele é a sua profunda esperança e vontade
de viver”, confessa.
Ele define como sendo de uma grandeza incomensurável a pré-disposição para
sempre recomeçar, presente em Manoel Conceição, mas ressalva que tamanha solidez
ideológica, no entanto, não tem conseguido ocultar, sobretudo nos últimos anos, as
profundas marcas de decepções com muitos acontecimentos presenciados ao longo de sua
história de vida.
“Ele se mostra triste frente à vulnerabilidade de expressiva ou talvez
majoritária parcela de históricos companheiros e companheiras que, com relativa
facilidade, encantam-se com os apelos do consumismo e com a ilusão do pseudo- poder de
um estado (neo)liberal e burguês; esquecendo-se dos nominais e anônimos companheiros
que, para ver brotar a esperança, regaram a causa com o próprio sangue”, desabafa.
Manoelzinho, como é chamado pelos amigos e familiares, revela que apesar
destes contratempos, a importância que Manoel Conceição atribuiu ao Movimento Popular
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e à classe, só é igual à que ele atribui à sua própria vida, e deixa bem claro que a esperança
ainda pulsa forte no coração do seu pai.

O GUERREIRO DE UMA PERNA SÓ
Quem é Manoel da Conceição aí? Interrogou o chefe dos policiais militares
durante uma reunião de trabalhadores rurais em Pindaré-Mirim, um dos sindicatos mais
atuantes do Estado que, na época, possuía quatro mil filiados. No turbulento ano de 1968,
marcado pelo acirramento das tensões no campo, os sindicatos de trabalhadores rurais eram
vistos pelos militares como “vespeiros de comunistas” e recebiam violenta repressão.

Recebendo título de cidadão imperatrizense e medalha Frei Epifânio d´Abadia do Prefeito Jomar
Fernandes

Uma saraivada de balas seguiu à resposta afirmativa dada pelos participantes da
reunião. O calendário marcava 13 de julho de 1968. O governador José Sarney e José
Antônio Haickel, prefeito da cidade na época, foram apontados como mandantes do
atentado. “Mais de cem tiros foram disparados”, recorda Manoel da Conceição.
Depois de baleado, ele foi levado para a cadeia e, apesar de estar ferido, não
recebeu atendimento médico. Esta situação durou oito dias, o tempo necessário para a perna
gangrenar. Mercúrio era o único medicamento aplicado. Quando um enfermeiro começou a
atendê-lo, os dedos já estavam podres e tiveram que ser arrancados com um alicate. Em
seguida, ele foi levado para um hospital em São Luís, onde teve a perna amputada.
Mesmo ao recontar um fato trágico e que lhe custou sua perna, Manoel da
Conceição lembra um episódio engraçado, ocorrido durante o atentado. O médico João
Bosco havia chegado da capital para tratar da malária que assolava a população rural no
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interior do Estado. “O coitado não conhecia nada. Tava em nossa assembléia. Quando
começaram os tiros correu varando cerca. Caiu dentro do mato umas dez horas da manhã.
Só apareceu umas três da tarde. Morto de fome”, relata.
Após o atentado, três secretários do governo Sarney o procuraram oferecendo
assistência médica, casa, emprego, uma perna mecânica e carro. A permuta consistiria em
ajuda política e foi recusada por Manoel da Conceição que respondeu à proposta com uma
frase transformada em palavra de ordem na sua militância: “Minha perna é minha classe”.
A perna mecânica só foi obtida mais tarde graças ao dinheiro arrecadado junto
ao movimento popular.

“Valentes, conheci muitos.
E valentões muitos mais.
Uns só valentes de nome.
Uns outros só de cartaz,
uns valentes pela fome,
outros por comer demais,
sem falar dos que são homem
Só com capangas atrás.”

Ferreira Gullar
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História de um valente

Durante os anos em que Manoel da Conceição enfrentava as dores da tortura
nos porões da Ditadura Militar, a região onde líder camponês construiu parte da sua
trajetória foi berço no movimento armado organizado pelo Partido Comunista do Brasil
(PC do B), a Guerrilha do Araguaia, há 33 anos, em uma área conhecida como Bico do
Papagaio (Norte do Tocantins – na época Goiás –, oeste do Maranhão e sul do Pará).
Terra farta em recursos naturais e minerais e alvo de interesses econômicos
diversos, a região é minada por conflitos agrários e palco de intensa disputa ente
latifundiários e sem terras. Passadas pouco mais de três décadas, a história da Guerrilha do
Araguaia ainda é uma “caixa preta” sob a qual paira um horizonte nebuloso que até hoje
permanece encoberto.
Os primeiros passos na construção da guerrilha foram dados em 1969, quando
os militantes do Partido Comunista do Brasil (PC do B) chegaram à região e passaram a
preparar as bases para a instalação da guerrilha, que foi dizimada em uma operação que
envolveu mais de 10 mil homens do Exército. A operação, que contou com apoio da
Marinha e Aeronáutica, deu-se entre os anos de 1972 a 1975, nos governos Médici e Geisel.
Militares americanos e portugueses com experiência em combater guerrilha estiveram ao
lado dos militares brasileiros.
O contexto político brasileiro era regido pelo “milagre econômico” e a
conquista do tricampeonato mundial de futebol. Na cena mundial viviam-se revoluções de
cunho socialista, a exemplo da Rússia (1917), China (1949) e Cuba (1959). Eram em 69 os
militantes do Partido Comunista do Brasil (PC do B), travestidos de pessoas comuns,
embora letrados e vindos de outros estados.
A decisão pela luta armada teve como epicentro a VI Conferência do Partido
Comunista do Brasil, ocorrida em São Paulo, no ano de 1966, explica João Amazonas em
artigo intitulado Memórias do Araguaia, publicado no livro Uma epopéia pela liberdade:
Guerrilha do Araguaia – 30 anos (1972-2002), publicado pela editora do PC do B, Anita
Garibaldi.
Combater o regime militar, restaurar a democracia e travar uma oposição ao
imperialismo constavam como metas. Radicados na região a partir de 1967, os militantes
procuravam angariar a simpatia dos camponeses, faziam trabalhos de roça, colheita de
38

castanha, erguiam pequenos comércios. Como conta Glênio Sá, na publicação Araguaia:
relato de um guerrilheiro.
A maioria dos camponeses se solidarizou com a luta do PC do B, uns deram
guarita, e outros decidiram entrar no combate armado. As cicatrizes deixadas pela repressão
à guerrilha explicam o receio em falar sobre o assunto na região de Xambioá, cidade do
Estado do Tocantins, separada de São Geraldo, no Pará, pelo caudaloso rio Araguaia, e
coração das atividades realizadas pela guerrilha.
Usando diversos instrumentos de repressão, dentre os quais a prisão e a tortura,
sem deixar de lado a tática da cooptação, muitos camponeses acabaram por colaborar com a
Guerra Suja, nome dado à última ação das forças armadas destinada sufocar o movimento.
Helicópteros, aviões, barcos e até o uso de Napalm, – produto químico para
desfolhamento utilizado pelos americanos na guerra do Vietnã – foram empregados na
operação. Nas lembranças dos moradores mais antigos desta região ainda estão vivas as
lembranças das execuções a sangue frio, usadas para espalhar o terror entre os camponeses
e acelerar o processo de “entrega” dos guerrilheiros.
Em 2001, após a visita de representantes da Comissão de Direitos Humanos da
Câmara Federal à região, com o intuito de encontrar vestígios que indicassem a localização
das ossadas dos guerrilheiros mortos, a população do Araguaia recebeu novamente a visita
de militares, que neste período decidiram realizar na área a Ação Cívico Social (ACISO).
Nesta atividade o exército promoveu a extração de dentes e a emissão de
documentos à população camponesa, buscando a simpatia de pessoas que ainda trazem na
memória recordações da guerrilha. Após a visita dos parlamentares, motivada por uma série
de notícias publicadas na imprensa, sobre a existência de ossadas de guerrilheiros
desaparecidos, o Exército Brasileiro decidiu engavetar o assunto e em 10 de março de 2004,
o ministro da Defesa, José Viegas, declarou a ausência de documentos oficiais nos arquivos
das Forças Armadas brasileiras sobre a Guerrilha do Araguaia, ressaltando que eles teriam
sido incinerados.

O ALGOZ
Em leituras de documentos, livros, depoimentos, um nome se sobressai. Trata-
se do major Curió, hoje coronel da reserva. Ele é colocado como um dos protagonistas da
39

operação de repressão à guerrilha. Na época atuava no serviço de inteligência do Exército.
Quando o assunto é a ação no Araguaia ele se esquiva. Avisa a jornalistas e pesquisadores
que o procuraram que estaria produzindo um livro sobre o assunto, embora se recuse a falar
da guerrilha.
O militar da reserva, aposentado com a patente de coronel, é prefeito no
município de Curionópolis, uma pequena cidade do sudeste do Pará, fundada por
remanescentes do Garimpo de Serra Pelada em homenagem ao próprio Curió, que exerce
seu segundo mandato.
Sebastião Rodrigues de Moura, conhecido como “Curió” é mineiro de São
Sebastião do Paraíso, sul de Minas Gerais. Ele iniciou sua carreira política em 1982, ao ser
eleito deputado federal pelo PDS, partido de sustentação dos militares. Essa candidatura
configurava-se muito mais como uma imposição a ser cumprida, do que por qualquer
inclinação política.
Em 1982, os generais Octávio Medeiros e Newton Cruz, ministro chefe e chefe
da Agência Central do Serviço Nacional de Informação (SNI), respectivamente, ordenaram
que o coronel saísse candidato, em uma celebração conhecida com o uísque das oito. Na
edição do Jornal do Brasil de outubro de 1986, o coronel lembrava: “é missão? Se for
missão, sou candidato”, indagava Curió aos seus superiores após receber a ordem: - Você
vai ser candidato. Setenta e oito mil votos asseguraram a sua eleição e em termos
proporcionais, ele foi o deputado mais votado da época.
Um dos colegas de farda de Curió, o Coronel-Aviador Pedro Corrêa Cabral de
Araújo, que ficou 13 meses na região, entre janeiro de 1974 a fevereiro de 1975, na
derradeira fase da Guerrilha do Araguaia, aponta-o como o responsável pela “Operação
Limpeza”, destinada a apagar qualquer vestígio que indicasse a existência de uma guerrilha
no local.
Cabral, que hoje é evangélico, se diz arrependido e escreveu um livro sobre o
assunto: Xambioá: Guerrilha do Araguaia. Em depoimento registrado com o número de
429/01, dado à Comissão de Direitos Humanos da Câmara (CDH), no dia 23 de maio de
2001, ele rememora detalhes desta operação. A derradeira fase da operação tinha por
finalidade eliminar da área qualquer vestígio que indicasse que ali ocorrera uma guerrilha.
“A descaracterização das aeronaves, das pessoas que ali combateram também tinha esta
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finalidade: não caracterizar, jamais, perante a opinião pública nacional como também
perante a internacional de que havia uma situação de guerrilha no nosso país”, relata.
No depoimento, ele conta que a operação durou uns 10 dias, e sua missão era
pilotar um dos dois helicópteros que teriam transferido os corpos dos guerrilheiros para um
local conhecido como clareira de Manoel das Luas, na Serra das Andorinhas, entre
Xambioá (TO) e Marabá (PA). O aviador não soube precisar a quantidade de viagens,
ressaltando que transportava de dois a três corpos em cada vôo.

CHAFURDO NA SELVA

“Chafurdo” foi o primeiro código repassado a Cabral quando aportou na região
da Guerrilha. A palavra designa o encontro de militares com guerrilheiros. E que havia tido
combate. Mas nem sempre era isso ao pé da letra. Cabral rememora que: “quando se usava
a palavra “chafurdo” estava-se dizendo que uma patrulha encontrou guerrilheiros e que teve
combate. Em uma das suas primeiras missões, recebeu mensagens via rádio, de uma
patrulha chamada Curió. “Perguntei sobre sua missão – perguntei o que tinha que
perguntar-, e me disseram, entre coisas, que houve chafurdo. Voltei a Marabá. Cheguei ao
comando, vamos dizer assim, eufórico, e disse que a Patrulha Curió teve chafurdo.
Ninguém deu a mínima. Ao voltar ao alojamento e contar o fato, o pessoal falou: Cabral,
fica na sua. Essa patrulha aí o chafurdo dela é entre aspas. Essa patrulha saiu de manhã com
dois ou três prisioneiros, e eles viajaram. Eles foram eliminados”, recorda.
O depoimento de Cabral foi reforçado três anos depois, em março do ano de
2004, quando um soldado, identificado apenas por Ferreira, confirma ao Procurador da
República do Estado do Pará, Adrian Pereira Ziemba, que oficiais e sargentos cometeram
torturas e mortes de guerrilheiros.
Artigos, livros, depoimentos e outros documentos surgidos após o fim da
ditadura militar em 1984, indicam Major “Curió” como o responsável pelo comando de
várias operações de organização de emboscadas, prisão, sessão de torturas e eliminação de
guerrilheiros. Pesam sobre ele as acusações de perseguidor, seqüestrador, coordenador de
sessões de tortura de religiosos e lideranças sindicais ligadas à luta pela reforma agrária.
A sua carreira como agente da repressão começou na década de 70, sudeste do
Pará, região do Araguaia/Tocantins, onde ele chegou como homem do SNI com amplos
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poderes para mandar e desmandar. Marco Antonio Luchini, doutor “Paulo” e doutor
“Tibiriçá”, foram alguns pseudônimos usados para se aproximar dos posseiros. A missão de
Curió no Araguaia era sufocar a Guerrilha, tendo na sua retaguarda o apoio da Polícia
Federal e do Exército.
Sufocar a Guerrilha foi o primeiro passo para a fama de Curió correr o país.
Não é difícil encontrar nos arquivos de entidades populares no Pará recortes de jornais,
revistas, livros, cópias de documentos que narram as peripécias do homem de confiança de
General Figueiredo. Com o respaldo dos generais, Curió tinha amplos poderes e encarnava
o Estado em lugar desprovido de todo tipo de serviço público. Em terra de ninguém, o
Estado vinha do céu, de helicóptero, como um milagre. Era assim que Curió percorria a
região.
42

Em artigo de Luiz Carlos Antero, no livro acima citado, declara-se em sua
página 33, que estava “entre outros homens do Centro de Informação do Exército (CIEx), o
núcleo central da “comunidade”-, Sebastião Rodrigues de Moura, o Curió, enviado à região
como Marco Antônio Luchini, “engenheiro do INCRA”, para montar uma operação de
inteligência à frente de militares sem farda. Curió é tido como principal responsável pelo
massacre do dia 25 de dezembro de 1973, quando tombou, entre outros combatentes, o
jornalista Maurício Grabois, ex-deputado e líder da bancada do Partido Comunista do
Brasil na Constituinte de 1946. Um oficial que testemunhou a cena disse: “foi a morte de
um lutador. Grabois estava doente, enxergava mal e caiu atirando”.
Ainda na mesma página, sobre a Chacina da Lapa, sinaliza que: “À época da
chacina da Lapa, Curió participou pelo CIEX, em Brasília, da preparação da emboscada em
que foram massacrados Pedro Ventura Felipe de Araújo Pomar e Ângelo Arroyo, além de
João Batista Franco Drummond, assassinado sob tortura nos porões do DOI-CODI de São
Paulo. Montada pelo CIEX a partir das denúncias de Manuel Jover Teles, um espião
infiltrado, foi coordenada oficialmente pelo II Exército, que partiu da informação do PC do
B e avaliava a possibilidade de estender a guerrilha rural ao Pindaré, no Maranhão, ao
Xingu e ao interior de Mato Grosso. Da operação participou também o então tenente
coronel Brilhante Ustra (JB, 05/4/92), torturador da ex-deputada Beth Mendes e de José
Genoíno, entre outros.

MIL E UMA UTILIDADES

Além dos serviços prestados para sufocar a guerrilha do Araguaia, “Curió”
possui uma longa ficha de ações praticadas contra militantes do movimento social e
popular. Religiosos envolvidos com estes movimentos como o bispo Dom Alano, Emanuel
Wambergue, Amildo Fritzen, Nicola Arpone e freira Aurélia Duranti, guardam na memória
as perseguições de Curió.
A experiência do missionário italiano Nicola Arpone traduz a violência
daqueles dias. Nicola foi seqüestrado em julho de 1979 em Vanderlândia, Tocantins. O
missionário teve os olhos vendados durante a sessão de tortura e ainda foi ameaçado de ser
jogado do alto de um helicóptero e fuzilado na mata. Após dizimar a guerrilha, a principal
43

meta de Curió no Araguaia era livrar os colonos da “ameaça” comunista que, na visão
tosca dos militares, era manifestada principalmente pelos religiosos envolvidos com a luta
pela reforma agrária. A faceta autoritária e violenta do major é retratada com nitidez no
livro A Justiça do Lobo : posseiro padre no Araguaia, de autoria do Pe. Ricardo
Rezende. No livro, Curió justifica a sua intervenção na região alegando: “Minha atuação
ali, daquela forma, se deu porque sou homem do sistema”.
Ricardo Rezende coordenou a Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Conceição
do Araguaia, sul do Pará. Esteve na região por duas décadas, onde chegou em 1977. É uma
pessoa que possui um bom registro da história do lugar. Conheceu de perto o drama do
povo de Rio Maria, da família Canuto e do sindicalista Expedito Ribeiro, composta por
lideranças sindicais executadas pelo latifúndio. Rezende analisa a permanência de Curió na
região do Araguaia, após o desaparecimento da guerrilha, como a necessidade de o regime
militar ter naquele local um homem de confiança disposto a atuar em uma guerra ainda
maior do que aquela que havia terminado: a luta pela terra.
Essa é uma das chaves para a compreensão do fenômeno Curió. Com sua
chegada, via-se nele o “doutor da mata”, aquele que restou após a Guerrilha para
concretizar a promessa e vigiar a região. O “justiceiro”. A época era a de expansão do
capitalismo na região Amazônica. A doutrina de segurança nacional endossava qualquer
excesso dos militares. Configurava-se assim a concentração fundiária na região, construía-
se o cenário perfeito para o que é hoje a principal área de conflito na luta pela posse da terra
no país. Uma história escrita pela prepotência, violência e impunidade.
Não foi só na região Norte que Curió exercitou seus conhecimentos militares na
repressão contra dirigentes populares. Os colonos do Paraná e Rio Grande do Sul também
conheceram as táticas do coronel Sebastião Rodrigues de Moura década de 1980. O boletim
da Campanha de Solidariedade aos Trabalhadores Sem Terra de Porto Alegre, datado de 07
de agosto, conta que Curió aportou nos Pampas no dia 23 de julho de 1981. Seu destino era
o acampamento Encruzilhada Natalino, embrião do MST, (Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra), que dava ali seus primeiros passos. Sem perder tempo, Curió, monta
barraco no acampamento. Estrutura sistema de alto-falante e começa a promover trabalho
de coerção e cooptação de colonos. Na retaguarda, vários policiais à paisana. O discurso é
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em nome da Presidência da República, dizendo-se possuidor de toda a autoridade para
resolver o problema do acampamento.
O aparato era garantido. Além de policiais, dinheiro, aviões-búfalo ficavam à
disposição do coronel. O aparato era usado para carregar os colonos, levando-os a visitar
projetos de colonização em outros rincões do país. Persuasão e força eram instrumentos
usados para desarticular o acampamento. Sempre falante, o coronel trabalhava para
desmoralizar as lideranças e cooptar colonos com promessas de coordenação em
assentamentos de outros Estados. Contava piadas, e distribuía bombons para as crianças.
Por trás de gestos tão amistosos escondia-se a verdadeira intenção de sua presença naquele
local, abater ainda no nascedouro a organização dos trabalhadores rurais.

O FIM DO ANONIMATO

O anonimato de Curió caiu quando ele foi escalado para pôr ordem no maior
garimpo do mundo, Serra Pelada. João Baptista Figueiredo governava o país há dois anos
quando visitou o garimpo. Em Serra Pelada, elogiou a disciplina imposta pelo seu braço
direito, segundo Figueiredo, rara em muitos quartéis. Falando aos garimpeiros, o general
agradeceu: “desejo estender meu agradecimento ao amigo Curió, que tem conseguido ser,
junto dos senhores, o meu intérprete leal, que tem conseguido trazer aos senhores aquilo
que eu desejaria fazer todos os dias pessoalmente.” Contam as páginas do jornal de Belém,
“O Liberal”, de 19 de julho de 1981. No mesmo período, a Câmara Municipal de Marabá,
junto com a Maçonaria, outorgaram ao homem que livrou a região da “ameaça comunista”
o título de cidadão marabaense, revogado posteriormente.
Homenagens como esta são duramente criticadas pelo padre francês Roberto de
Valicourt, uma das pessoas que sentiu na pele as atrocidades do Major Curió. Hoje com 67
anos de idade, ele chegou à região no mesmo período de Curió. Residindo em Marabá,
sudeste do Pará, padre Roberto mora numa casa simples, onde trabalha com seis jovens
interessados em sacerdócio. Cinco são da própria da região e um é baiano. Sem receios de
falar sobre o que sofreu, ele ressalva que sua história daria para encher vários livros.
Padre Roberto analisa Curió como um homem esperto, que nunca se expunha
nas sessões de tortura, apenas ordenava a missão. Ele lembra com detalhes do dia 02 de
45

junho de 1972, quando teve a igreja invadida pelo Exército e foi levado para Palestina do
Pará, uma pequena cidade às margens do rio Araguaia, onde foi torturado.
Em outubro do mesmo ano a truculência seria maior e alcançaria mais almas.
300 pessoas foram detidas na região do Araguaia e encaminhadas para interrogatórios na
comunidade de Bacaba e no município de Marabá. O padre Roberto narra que ali sofrera
uma das piores torturas já praticadas contra o ser humano. Amontoados em cubículos, os
prisioneiros foram obrigados pela sede a tomarem a urina uns dos outros. O episódio
ocorreu na antiga delegacia de Marabá, também conhecida pelo nome de “Casa Azul”.
Padre Roberto recorda que o local possuía vários equipamentos destinados à prática de
torturas e interrogatórios.
Ele define Curió como um homem com extrema habilidade em falar com as
pessoas simples. O religioso aponta o sistema de delação, tática aplicada para detonar com
o embrião das Comunidades Eclesiais de Base (CEB´s) no Araguaia, como uma das
metodologias aplicadas por Curió no combate aos “padres comunistas”. Ele baixou a ordem
que não queria ver ninguém nas missas, nem recebendo os padres comunistas. As pessoas
eram obrigadas a delatarem umas às outras, sob pena de perderem os lotes recebidos, prisão
e tortura. Os que não morreram guardam seqüelas. Tem gente que até se matou”, relata.
Outra pessoa que tem na memória lembranças de Curió é Emanuel Wambergue,
55 anos. Compatriota do padre Roberto, “Mano”, apelido recebido ao chegar a região, é
filho de pequenos produtores na França e chegou ao Araguaia em 1975. Desde sua chegada
até 1987, foi detido onze vezes para interrogatórios.
O motivo para tantas prisões foi a atuação de Mano no papel de animador na
organização de vários sindicatos de trabalhadores rurais no sul e sudeste paraense. Ele
também participou da fundação e foi um dos coordenadores da Comissão Pastoral da Terra
(CPT) de Marabá e da CPT regional Norte. Em todos estes anos de militância escapou de
várias emboscadas, mas lamenta a morte de colegas, que não tiveram a mesma sorte e
acabaram executados.

A MORTE DE LAÉRCIO
46

Não é só na região do Araguaia, onde fez fama como “caçador de guerrilheiros”
e “inimigo número um dos ‘padres comunistas’ e de outras lideranças envolvidas com a
luta pela reforma agrária que o nome do major Curió é sempre associado à palavra
violência. Desde 1994, tramita na Justiça do Distrito Federal um processo onde ele é
acusado de ter montado uma emboscada que matou Laércio Xavier da Silva, 16 anos,
suspeito de ter furtado um toca-fitas, na chácara de Curió, situada em Sobradinho, cidade-
satélite de Brasília.
O promotor Francisco Leite, do Tribunal do Júri do Distrito Federal, chegou a
decretar prisão preventiva de Curió e o Ministério Público instaurou um inquérito
administrativo para apurar possíveis irregularidades e omissões no processo cometidas
pelos delegados Antônio Ademar Brandão e Rosana Raimunda Gonçalves. Nos autos do
processo, consta que a emboscada foi montada por Curió, ajudado por dois filhos seus,
Sebastião e Antônio César, e pelos agentes da Polícia Civil, João Bosco Frajorge e Eryson
Coqueiro.
O crime aconteceu num barraco abandonado. Um tiro nas costas de pistola
Beretta nove milímetros tirou a vida de Laércio no dia primeiro de março de 1993. Curió se
defendeu alegando legítima defesa. No entanto, a perícia técnica não detectou vestígios de
pólvora nas mãos dos meninos. Os agentes Frajorge e Coqueiro disseram à polícia que
estavam apenas ajudando Curió e seus filhos numa diligência para procurar os garotos.
O caso até hoje não foi a julgamento e a morte de Laércio entra na lista de
crimes cuja acusação pesa sobre o homem, apontado como um dos responsáveis pelo fim
de guerrilheiros no Araguaia e tortura de centenas de pessoas que ousaram sonhar por dias
melhores em uma região marcada pela lei do “mais forte”.
Em 2004, o filme “Conspiração do Silêncio”, dirigido por Ronaldo Duque,
volta a tocar neste assunto que mesmo sendo considerado proscrito pelo discurso oficial,
ainda deixa cicatrizes profundas em uma região dominada pelo signo da violência, onde
impera a lei do silêncio. Livros, dissertações, teses, reportagens continuam a serem
produzidas sobre o assunto. Entre as publicações mais recentes sobre a questão, consta
Operação Araguaia: os arquivos secretos da guerrilha, assinada pelos jornalistas Tais
Morais e Eumano Silva, lançado no início de 2005.
47

“O inimigo da gente
é o latifundiário
que submete nós todos
a esse calvário.
Pense um pouco, meu amigo,
não vai seus filhos matar.
É contra aquele inimigo
Que nós devemos lutar
Que culpa têm os seus filhos?
Culpa de tanto penar?
Vamos mudar o sertão
pra vida deles mudar.”

Ferreira Gullar
João Boa Morte- Cabra Marcado pra Morrer

Um dos pontos da Guerrilha do Araguaia se deu no Pará, no sul e sudeste do
estado. Lá a violência contra dirigentes sindicais e assessores empenhados na luta pela terra
no Brasil tem um capítulo especial. Relatórios anualmente divulgados pela Comissão
Pastoral da Terra (CPT), entidade ligada à Igreja Católica, organizada em 1975, denunciam
uma guerra já não tão silenciosa.
48

Entre 1976 e 2000, um total de 714 trabalhadores rurais foram executados no
Pará. 534 casos foram registrados no sul e sudeste do estado4. No governo do social-
democrata Fernando Henrique Cardoso morreram mais trabalhadores rurais do que nos
primeiros quinze anos de ditadura militar. Estes dados constam em um relatório da
Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Pará Regional Sudeste (Fetagri), Comissão
Pastoral da Terra (CPT), apresentado em 2001, durante a realização de Audiência Pública
em Marabá, promovida pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal e motivada
pela violência contra trabalhadores rurais e dirigentes sindicais da região naquele ano.

Dona Rosana, viúva do sindicalista de Parauapebas, Euclides, morto em 1998.

O relatório ressalta que entre 04 de julho a 1º de setembro, sete pessoas foram
executadas, sendo três de uma só vez e da mesma família. Para agravar mais o clima de
tensão na área, foi descoberto um quartel-general do Serviço de Inteligência do Exército,

4
1. Os registros organizados pela Comissão Pastoral da Terra dão conta que nos últimos 31 anos (1971-2002), no Estado
do Pará, foram assassinados 726 camponeses. Na primeira metade do período mencionado (1971-1985) foram registrados
340 assassinatos em conflitos fundiários. Na segunda metade do período (1986-2002) foram vitimados 386 camponeses,
demonstrando assim a persistência no tempo do padrão de violência existente no Estado. Se isso estarrece, impressiona
ainda mais os dados da impunidade. 2.De todos esses crimes houve apenas 07 condenações, sendo três mandantes
(Jerônimo Alves de Amorim, Edílson Laranjeiras e Vantuir de Paula); um intermediário, Francisco de Assis Ferreira; e
três pistoleiros, Péricles Ribeiro Moreira, José Serafim e Ubiratan Ubirajara. O massacre de Eldorado do Carajás
configura-se como o caso mais emblemático de impunidade, onde 19 camponeses foram assassinados e depois de 07 anos
nenhum dos policiais envolvidos foi para a cadeia, apesar dos dois comandantes terem sido condenados. (VIOLÊNCIA E
CONFLITO AGRÁRIO NO ESTADO DO PARÁ. Desafios e enclaves que se colocam na pauta de discussão do
Tribunal Internacional dos Crimes do Latifúndio.Jax Nildo Aragão Pinto, Belém, Pará, 2003).
49

montado em Marabá, cidade, onde se concentra a sede de entidades atuantes na luta pela
Reforma Agrária. A descoberta de um QG de “arapongas” em plena região do Araguaia-
Tocantins foi destaque no noticiário nacional e rendeu uma série de reportagens publicadas
pelo Jornal “Folha de São Paulo”.
A primeira reportagem da série, divulgada em 02 de agosto de 2001, apresentou
documentos secretos do serviço de inteligência do Exército, montado em local estratégico.
A residência dos “arapongas” foi uma cortesia da Eletronorte. Uma agência de notícias com
o nome de “RP Free Lance” era o disfarce usado pelos militares. Entre os papéis,
considerados confidenciais pelo exército, foram encontrados cartilhas, manuais, relatórios,
fitas de vídeo, fichas de informantes e colaboradores.
A reportagem da Folha de São Paulo revelou a existência de 541 arapongas
operando no país e até no exterior. Informou que desde o início do governo FHC, que
entrava no terceiro ano do seu segundo mandato, o serviço de espionagem já havia
consumido mais de 31 milhões de reais.
Os documentos encontrados revelam que o serviço de inteligência nutre
especial interesse por entidades ecológicas, de defesa dos direitos humanos, e aquelas
dedicadas à questão indígena, com atuações na Amazônia. Relatórios encontrados no QG
revelam a aversão aos partidos de oposição e às organizações que militam na luta pela
Reforma Agrária.
O MST é elevado à categoria de ameaça à ordem pública e principal alvo dos
serviços de espionagem. A criminalização dos movimentos sociais camponeses marcou os
anos do governo de Fernando Henrique Cardoso. Num ambiente onde a
impunidade dos crimes contra dirigentes camponeses no Pará beira a totalidade, a
continuação da truculência e mesmo a elaboração de uma tabela de preços para cada tipo de
“serviço” é motivada pela omissão. Durante sua visita a Marabá, os parlamentares da
Comissão de Direitos Humanos da Câmara (CDH), receberam a lista com o nome de
pessoas, “marcadas para morrer” (ver quadro no fim do texto).
A eficácia na montagem de uma estrutura de inteligência com agilidade judicial
na emissão de liminares de reintegração de posse de áreas ocupadas, além de aparato
policial para cumprimento das ações judiciais, por parte do Estado, não se reflete na
apuração dos crimes cometidos contra trabalhadores rurais. A regra tem sido a carência de
50

recursos para realizar as tarefas mais básicas. Como o transporte de corpo de sindicalistas
assassinados. Um exemplo desta situação aconteceu no caso do assassinato do sindicalista
Manoel Messias Colono de Souza, cujo corpo só foi removido para o Instituto Médico
Legal (IML) em carro fretado pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Marabá. A
viatura da Delegacia de Polícia Civil Regional de Marabá só executou diligência ao local
do crime depois que o sindicato conseguiu litros de gasolina para a polícia.

Enquanto faltam viaturas, gasolina, pessoal para as diligências em busca dos
assassinos e mandantes de lideranças sindicais, sobram recursos financeiros, materiais e
humanos para perseguição de lideranças sindicais e do MST, e despejo de áreas ocupadas.
Estima-se em R$ 100 a 120 mil reais o custo com tropas de choque da Polícia Militar para
despejo, que costumam usar as fazendas como alojamento, onde, desde o cão ao soldado,
são bancados pelo fazendeiro.
Estas informações fazem parte do dossiê entregue à Comissão de Direitos
Humanos na Câmara Federal por representantes de entidades que militam na região e
conhecem o cotidiano de impunidades deste pedaço de Brasil.
A execução de lideranças, despejo e prisão de dirigentes sindicais colidiu com a
Exposição Agropecuária de Marabá (Expoama), festa organizada pelos pecuaristas da
região, ocorrida em julho de 2001. A Expoama contou com a presença do governador
Almir Gabriel (PSDB), o mesmo que comandava o Estado na época do Massacre de
Eldorado em abril de 1996. Além de Almir, vários secretários participaram da exposição e
em seus discursos, cobriram de elogios os fazendeiros, e demonizaram o movimento
sindical e o MST.

A LEI DA BALA

O dossiê, entregue aos deputados federais que vieram a Marabá conhecer de
perto da realidade do conflito agrário no sul e sudeste do Pará, ressalta que “a repressão, a
violência e execuções de que o movimento sindical do Pará vem sendo alvo no primeiro
semestre de 2001 só tem comparativo com a repressão implantada no tempo da ditadura
militar”.
51

O dossiê declara que a opção do Estado, através de suas ferramentas coercitivas
- Justiça e aparato militar, no sentido de garantia de uma “propriedade privada”,
evidenciam uma posição de aliança com os que seriam os donos das terras. Ainda que a
Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Terra denuncie que somente 12% dos títulos
de propriedade sejam passiveis de comprovação.
Outras circunstâncias relatadas no dossiê expõem a ausência de neutralidade na
arbitragem do Estado na disputa pela terra. Durante 30 dias três dirigentes do MST ficaram
detidos. Neste mesmo período o fazendeiro Joãozinho, apontado como principal suspeito de
ordenar a execução do líder sindical José Pinheiro Lima (Dedé), era solto. Tendo como
perspectiva tratar uma questão social como militar, uma tropa de choque da PM aportava
em Marabá para efetuar despejo em 15 áreas ocupadas, e Ademir Alfeu Federicci, o
“Dema’, sindicalista no município de Medicilândia, oeste do Pará, era assassinado.
Uma das hipóteses da execução de Ademir Alfeu Federicci, 36 anos, conhecido
como “Dema”, coordenador do Movimento Pelo Desenvolvimento da Transamazônica e
Xingu (MDTX), são denúncias que ele vinha fazendo sobre a realidade do Xingu. Entre
elas a grilagem de terras e o desvio de recursos da Superintendência de Desenvolvimento
da Amazônia (SUDAM), ou ainda a exploração ilegal de madeira, em particular o mogno.
O assassinato do sindicalista ocorreu em sua residência, no dia 25 agosto de
2001. Após lutar com o assassino, Dema foi morto com um tiro na boca em Altamira,
cidade situada no oeste do Pará. Dema iniciou a militância nos anos 70 e era diretor da
Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetagri). Ele também presidiu o Sindicato dos
Trabalhadores Rurais de Medicilândia e entre 1996/2000, foi vereador pelo Partido dos
Trabalhadores (PT).
O Xingu, região oeste do Pará, fronteira com o Mato Grosso, é considerada uma
área de deslocamento da violência no campo no Pará. O contexto combina disputa pela
terra, fraude em cartório, e a execução de pessoas que denunciam a exploração do mogno,
madeira de elevado valor no mercado internacional.
Três mil pessoas estiveram no sepultamento do sindicalista, em Medicilândia,
cidade situada às margens da rodovia Transamazônica. Entre os presentes, muitos
sindicalistas e dirigentes cujos nomes constam na lista dos marcados para morrer. Passado
menos de um mês do assassinato de Dema, Miguel Freitas da Silva, 44 anos, presidente da
52

Associação de Trabalhadores Rurais de Ipaú, foi morto por dois pistoleiros em Tucuruí. Pai
de oito filhos, Miguel foi executado na porta de casa por dois pistoleiros que estavam em
uma motocicleta. Uma filha de Miguel presenciou o crime.

BARRIL DE PÓLVORA

Em 2001, quando a comissão de deputados aportou em Marabá, existiam cerca
de 300 assentamentos, com uma população estimada em 60 mil famílias distribuídas em 39
municípios. A messoregião sudeste é a área de abrangência da superintendência regional do
Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), de Marabá. Estes números
compunham o cenário que é considerado o barril de pólvora na luta pela reforma agrária do
Brasil.
Garimpo de Serra de Pelada, abertura de rodovias como a Belém-Brasília, a
Transamazônica (1960), e instalação de grandes projetos como o Programa Carajás (1980),
pesaram no processo de colonização da região. Como no restante do Brasil, foi marcado por
extremas contradições. Na região onde o minério é extraído pela tecnologia de ponta da
Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), grassa a violência e a pobreza. Quanto aos
migrantes, a maioria é oriunda do Maranhão, considerado pelo antropólogo Alfredo
Wagner Berno de Almeida como o Estado que mais exporta tensão social no país 5. Os
braços que foram empregados ou escravizados para derrubar a mata para o pasto da
pecuária, edificação da ferrovia, construção de carvoarias e de infra-estrutura vieram
também de outros estados do Nordeste, a exemplo de Bahia e Ceará.
Além da violência contra os camponeses, o Pará é o primeiro no ranking de
trabalhadores mantidos como escravos. Nessa teia os “gatos”, contratadores de mão-de-
obra para as fazendas, possuem posição estratégica. Para os trabalhadores, uma vez nas
fazendas, é difícil safar-se dos capangas que lhes vigiam 24 horas por dia. No entanto,
alguns conseguem a proeza de fugir deste inferno e denunciar. Um desses casos é o de
Josimar Cardoso Oliveira.

5
Dos 19 sem terra mortos na Curva do “S” no Massacre de Eldorado do Carajás, 11 eram do Maranhão.
53

José Brito, dirigente sindical de Rondon do Pará em audiência pública em 2001, Marabá-PA.

Josimar Cardoso de Oliveira, 17 anos, veio do Tocantins em busca de trabalho e
encontrou o cativeiro. O adolescente é filho adotivo de um casal de trabalhadores rurais
vindos do Ceará e radicado no estado do Tocantins. O jovem é analfabeto, não possui
certidão de nascimento. Passou 102 dias trabalhando em regime de escravidão na fazenda
Primavera, em São Geraldo do Araguaia. Contratado pelo agenciador da fazenda para tratar
de pasto, com a promessa de salário de R$ 150,00, ele nunca recebeu um centavo. Com
chuva ou com o sol, a rotina começava às seis da manhã e terminava às seis da tarde. A
rotina de Josimar era comungada com outras 50 pessoas.
A dívida do trabalhador escravizado começa a partir da contratação, e seu
débito já é contabilizado no hotel, que funciona como ponto e apoio do agenciador também
chamado de “gato”. Ele também paga a ferramenta, comida, sabão, botina e não usa
equipamento de segurança e mesmo doente, é obrigado a cumprir a jornada de trabalho. “A
vida daquele jeito não entrava na minha cabeça. Aquilo é coisa do diabo. Tenho pena dos
que estão lá”, relembra Josimar.
Ele relata que as escopetas e revólveres dos jagunços estavam sempre prontas
para entrar em ação e inibiam qualquer tentativa de fuga. “Recebi uma porrada de escopeta
no rosto quando fui cobrar salário do capataz da fazenda”, recorda. Para escapar do
cativeiro andou quilômetros a pé, esquivou-se dos tiros e enfrentou a perseguição dos
capatazes. “Quando apanhei fiquei sem jeito. Meu pai nunca me bateu. Tinha que dar um
jeito de fugir. Mesmo correndo o risco de morrer”, finaliza.
Não raro o Centro de Formação Cabanagem, espaço de reuniões e encontros do
movimento sindical camponês da região recebe fugitivos de fazendas. Os registros das
histórias são realizados pela equipe de assessoria da CPT de Marabá. Como a história de
54

Josimar, outras se repetem. Com menor ou maior grau de violência. Desfecho diferente.
Pisando na própria sombra: trabalho escravo no Brasil contemporâneo, livro do Pe.
Ricardo Rezende, resultado do doutorado realizado na Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ), investiga a questão da escravidão por dívida.

A ÚLTIMA VOZ DO BRASIL

Nem mesmo a modesta rádio Comunitária Alternativa FM escapou ao
recrudescimento da violência no ano de 2001. A emissora foi erguida a partir da iniciativa
dos movimentos populares de Marabá. Em 2001, durante uma operação de guerra que
durou quatro horas, e sem a autorização de mandado judicial, agentes da Agência Nacional
de Telecomunicações (Anatel), acompanhados de agentes da Polícia Federal, lacraram os
equipamentos da rádio. A operação teve início às 11:10h da manhã do dia 17 de agosto, e
terminou por volta das 14:00 h. André Vianello, estudante, operava a emissora no horário
da blitz. O primeiro passo da PF e da Anatel foi cortar a energia da rádio. Um grupo de oito
policias, três deles armados de metralhadoras e coordenados pelo delegado Célio
Guimarães, acompanharam os técnicos da Anatel, Beline Jesus da Silva Costa e Benedita
Natalina de Souza durante a visita à rádio.
De todos os órgãos de imprensa de Marabá contatados pelas entidades que
tomam conta da Alternativa FM, apenas o jornal Opinião mandou um repórter para cobrir o
caso. Ednaldo de Souza, após ter tirado uma foto que registrava a ação de fechamento da
rádio, chegou a ser coagido pela técnica da Anatel e obrigado a deletar a foto de sua
máquina digital. Os técnicos declararam ao jornalista que não estavam autorizados a prestar
depoimento para imprensa e que a Polícia Federal foi chamada para garantir a “integridade
física” dos agentes da Anatel.
A Comissão Pastoral da Terra (CPT), Federação dos Trabalhadores na
Agricultura (Fetagri), Regional Sudeste Pará, Pastorais da Igreja, Associações de
Moradores, FASE, Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical (CEPASP),
Sociedade Paraense de Direitos Humanos (SPDDH), Movimento de Educação de Base
(MEB), são algumas das entidades que fazem parte da Fundação de Comunicação
Comunitária de Marabá, pessoa jurídica responsável pelo comando da Alternativa FM. O
55

pedido de solicitação de funcionamento da emissora encontra-se no Ministério das
Comunicações desde 1998.
O grupo de entidades que compõe a emissora entrou com solicitação de
mandado de segurança na Justiça de Belém, no início de 2000. O mesmo solicitava
funcionamento da rádio, mas o pedido nunca foi julgado. Tendo como âncora a
Constituição Federal e tratados internacionais que garantem a liberdade de expressão, cerca
de trezentas pessoas que participaram do Grito dos Excluídos de Marabá, reabriram a
emissora no dia 07 de setembro de 2001.
Durante o ato de reabertura da rádio foram distribuídos panfletos à população
explicando os motivos desta atitude e colocando para reflexão a reabertura da rádio. No
verso do manifesto, duas interrogações inquietantes: Com quantas chacinas se faz uma
reforma agrária? Com quantos serviços de espionagem se faz uma Nação?

A COLHEITA DE LÁGRIMAS

No dia 04 de outubro, de 2001, “A Fazendinha”, escola privada de Marabá,
onde estudam muitos dos filhos dos fazendeiros da região, teve seu ginásio tomado por
mais de 700 trabalhadores rurais vindos de áreas ocupadas e assentamentos da região. O
motivo era a realização de uma audiência pública sobre o quadro de violência na região. A
CDH da Câmara Federal estava na cidade para ouvir relatos de viúvas, órfãos e dirigentes
da CPT, FETAGRI e do MST.
Os parlamentares chegaram na cidade no momento em que quatro trabalhadores
rurais estavam detidos e em muitas fazendas eram implantadas milícias particulares. Poucos
dias antes da vinda desta comissão, Ozino Silva, liderança sindical do município de
Parauapebas, sudeste do Pará, foi ferido em uma emboscada. No mesmo instante circulava
na região a lista com 24 nomes de militantes que deveriam ser eliminados.
O município de Marabá foi escolhido para sediar a audiência pública por ser a
principal cidade da região. Uma outra audiência deveria ter ocorrido em Belém, mas foi
cancelada pela assessoria de Almir Gabriel, (PSDB/PA), então governador do Estado. A
segunda audiência ocorreu em Altamira, no oeste paraense, onde o dirigente sindical Dema
havia sido assassinado em agosto.
56

Nelson Pellegrino, deputado federal (PT/BA), Socorro Gomes, deputada federal
(PC do B/PA), Babá, deputado federal (PT/PA) hoje no Partido Socialismo e Liberdade
(PSOL/PA); Percílio de Souza, representante da OAB e membro do Conselho de Direitos
Humanos da Pessoa Humana (CDDPH), chegaram com duas horas de atraso em Marabá.
Antes da audiência, eles tiveram uma reunião de três horas com lideranças sindicais,
coordenadores de entidades que atuam no movimento popular e sindical, integrantes
Ministério Público do Estado e com o Bispo de Marabá.
A delegação da CDH da Câmara chegou no ginásio escoltada por policiais
federais. Bandeiras do movimento e faixas de protesto contra a impunidade e a violência
enfeitavam o cenário. Em breve o depoimento de viúvas e filhos de lideranças mortas na
luta pela reforma agrária, além de dirigentes ameaçados de morte, iriam ser pronunciados.
Também acompanhavam os depoimentos Elizete Cardoso, superintendente da
Polícia Civil de Marabá, Tenente Melo, Roberto Teixeira, representando o secretário de
segurança Sette Camara, Elaine Castelo Branco, coordenador do Ministério Público
Estadual, além de representantes do Incra, do Ministério Público Federal, da Associação
Brasileira de Ong´s (ABONG) e do Centro da Justiça Global.
Em alguns depoimentos foi difícil domar o nó na garganta e ficaram visíveis os
olhos marejados de lágrimas, na fala das pessoas ameaçadas de morte e das viúvas e filhos
de militantes assassinados. Em tom solene, foi realizado um minuto de silêncio, em
homenagem a pessoas executadas por pistoleiros.

Ednaldo Pinheiro em audiência pública da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal em 2001,
Marabá-PA.

Um dos primeiros a depor foi Antonio Rodrigues de Souza, diretor do Sindicato
de Trabalhadores Rurais (STR) de Parauapebas e incluído na lista das 24 pessoas marcadas
57

para morrer. “Tenho mais medo da polícia do que outra coisa. Às vezes recebo três
telefonemas por dia de fazendeiros me ameaçando de morte. O delegado de Parauapebas
sabe quem quer me matar, ele tá envolvido em muita coisa errada em Parauapebas. Acho
que estou assinando minha sentença de morte quando falo isso.”, confessou.
Um dos depoimentos mais contundentes foi o de Ednaldo, filho de José
Pinheiro Lima, o “Dedé”, executado com esposa e o filho caçula de 15 anos, no dia 09 de
julho de 2001 em Marabá. O jovem de corpo franzino, trajes simples de filho de
trabalhador rural, portava em uma das mãos uma cartolina com fotos da família executada.
Três irmãos ladeavam Ednaldo durante a fala dele. Revoltado, ele denunciou o fazendeiro
João Davi de Melo Souza, “Joãozinho”, como sendo o mandante do crime. O fazendeiro,
que chegou a ter a prisão temporária decretada, mas acabou ficando em liberdade, chegou a
oferecer dinheiro para seu pai deixar de lado a luta pela reforma agrária. Sobre esse
episódio, Ednaldo desabafa:
“Joaozinho chegou a oferecer 50 mil reais, seis meses de supermercado, casa
em Marabá para o meu pai deixar o movimento pela reforma agrária. O pai não
aceitou e pagou com a vida. O pior é que a morte de meu pai poderia ter sido
evitada. A Polícia Federal havia avisado a Secretaria de Segurança do Pará
quatro meses antes da execução de minha família. A omissão do estado matou
meu pai, minha mãe, e meu irmão.”
Um caso escabroso envolve o delegado Aquino. “No dia 18 de maio de 2001,
Aquino, mais alguns fazendeiros, pistoleiros, sem mandado de segurança chegaram a
fazenda Talimã/Remanso, em Marabá, para desocupar a área. Destruíram toda a plantação
de milho, arroz , mandioca às vésperas da colheita. 50 famílias foram expulsas da fazenda,
quatro prisões foram efetuadas. Foram presos eu, meu pai e mais dois companheiros. A
acusação é a de sempre, formação de quadrilha, que não admite fiança, esbulho
possessório. Apesar da acusação de formação de quadrilha não admitir fiança, fomos soltos
depois do pagamento de R$ 400, 00. Hoje a área vem sendo destruída com a exploração das
castanheiras.”, afirma o trabalhador rural Sebastião Rodrigues.
O banqueiro socorrido pelo governo federal, Ângelo Calmon de Sá, possui
terras por essas paragens da Amazônia. Terra guardada por milícia. Milícia particular
travestida de empresa de segurança é o verniz que os fazendeiros estão criando para
oficializar a pistolagem. Marca e Master são duas das muitas empresas inventadas. Em
58

algumas localidades os funcionários/jagunços estão exercitando o papel de polícia. Eles
estão fazendo desocupação, blitz, prendendo e torturando trabalhadores, como denunciam
trabalhadores e trabalhadoras do município de Bannach, sul do estado.
Todos os depoimentos, mais as informações do dossiê, entregue em 2001 à
Comissão pelas entidades que militam na luta pela Reforma Agrária, foram encaminhados
para o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. Cópias foram
distribuídas para o ministro José Gregori, ministro Raul Jungmann, e entidades
internacionais que atuam na área dos Direitos Humanos. Entre elas a Corte Interamericana,
Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização dos Estados Americanos (OEA).
Nem mesmo a presença da CDH, da Câmara dos Deputados intimidou a ação
da pistolagem na região. No dia seguinte à realização da audiência, o posseiro Nilson Souza
Santos, 32 anos, foi morto com um tiro no rosto na noite de 6ª feira, dia 05, por volta de 21
horas, no barraco na fazenda Taboqueira, município de Parauapebas, sudeste do Pará,
distante 650 Km de Belém, capital do Estado. A fazenda estava ocupada há mais de quatro
anos por 95 famílias. Quarenta dias antes do crime, Nilson havia procurado a direção do
Sindicato de Trabalhadores Rurais de Parauapebas, alegando ameaça de morte pelo gerente
da fazenda conhecido como “Zé Alves”. Orientado pelo STR a prestar queixa na delegacia
do município, o posseiro não deu a devida atenção e acabou sendo mais um nas estatísticas
dos crimes de encomenda.

MARCADOS PARA MORRER
Lista de pessoas incluídas no rol de execuções dos pistoleiros que atuam no sul
e no sudeste do Pará no ano de 2001.
1. Francisco Assis Solidade da Costa (ex-coordenação da FETAGRI-Sudeste
do Pará, vice-prefeito de São Domingos do Araguaia);
2. Raimundo Nonato Santos da Silva (coordenador da FETAGRI, Sudeste do
Pará);
3. José Soares de Brito (presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de
Rondom do Pará);
4. Herenaldo Ferraz de Souza (líder sindical da fazenda Tulipa Negra);
59

5. Francisco Salvador (secretário agrário do Sindicato dos Trabalhadores
Rurais de Rondon do Pará);
6. Abidiel Pereira (coordenador da FETAGRI no Sul do Pará),
7. Maria Medrado (liderança em Rondon do Pará);
8. Antônio Souza Carvalho (secretário de Política Agrária da FETAGRI-PA);
9. Mariel Joel Costa (viúva de Dezinho, líder assassinado);
10. Maria das Graças Dias da Silva (liderança da fazenda Tulipa Negra);
11. Sebastião Pereira (líder sindical da ocupação da fazenda Três Poderes;
12. João Batista Nascimento (líder sindical da fazenda Prata, São João do
Araguaia);
13. José Cláudio Ribeiro da Silva (líder sindical de Nova Ipixuna);
14. Carlos Cabral Pereira (presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de
Rio Maria);
15. Izalda Altino Brandão (diretora da FETAGRI, Sudeste do Pará);
16. Raimundo Nonato de Souza (direção estadual do MST do Pará);
17. Luis Gonzaga (direção estadual do MST do Pará);
18. Eurival Martins Carvalho (direção estadual do MST);
19. Ulisses Manaças Campos (direção estadual do MST);
20. Antonia Melo da Silva;
21. Adão Araújo de Jesus;
22. Lúcio da Fonseca;
23. Tarcísio Feitosa da Silva;
24. Bruno Kenpner.
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Sua voz quando canta
me lembra um passarinho
não um pássaro cantando
lembra um pássaro voando

Ferreira Gullar
Uma voz - Toda poesia

O nome do maranhense José Dutra da Costa, o “Dezinho”, é mais um incluído
no rosário de crimes praticados cotidianamente no sul e sudeste do Pará, cuja investigação é
sufocada pela impunidade. Assassinado por pistoleiro em Rondon do Pará, a mando de
latifundiários da região, ele deixou quatro filhos na orfandade e seu caso revela a história de
uma morte anunciada. Na noite do dia 21 de novembro de 2000, tiros de um revólver
calibre 38 calaram a voz do militante da Federação dos Trabalhadores Rurais na
Agricultura do Pará (FETAGRI), regional sudeste.
61

O pistoleiro Wellington Silva, “O Baiano”, foi o autor dos disparos. Ele havia
chegado em Rondon há cinco dias a convite do seu tio, Gilson Silva, produtor de carvão e
pequeno pecuarista. O intermediário na contratação do pistoleiro foi Ygoismar Mariano
Silva, o “Ygor”, que recebeu 15 mil reais pela empreitada. A Wellington caberia a quantia
de R$ 2 mil reais, recebidos somente depois da tarefa cumprida. O pistoleiro foi preso, mas
não revelou os nomes dos mandantes do crime, segredo guardado por Ygor, que nunca foi
encontrado pela polícia.
As suspeitas recaem sobre alguns fazendeiros da cidade e o motivo seria a
ocupação da fazenda Tulipa Negra, realizada por trabalhadores rurais sem terra, com a
apoio da Fetagri. Testemunhas ouvidas pela polícia afirmaram que antes do crime, Ygor e
Wellington rondaram a casa de Dezinho por várias ocasiões, numa moto CG Titan. As
incursões eram para que o pistoleiro memorizasse a face do sindicalista.
Após saber quem era o homem a ser morto, o assassino chegou a casa da
vítima, buscando informações sobre aposentadoria rural. Localizado na vizinhança por uma
de suas filhas, Dezinho não teve tempo de dizer uma palavra ao pistoleiro, sendo atingido
por três tiros. Mesmo ferido, ele ainda conseguiu travar uma luta com o assassino,
atrasando sua fuga. Preso por amigos e vizinhos da vítima, o pistoleiro chegou a ser
espancado e correu risco de linchamento, sendo salvo por Maria José Dias, viúva do
sindicalista. Ela disse que ele não poderia morrer, pois teria que informar os nomes dos
mandantes do crime.
No decorrer das investigações, fotos e fitas cassetes entregues por um irmão de
um pistoleiro executado em praça pública 16 dias antes do assassinato de José Dutra,
levaram a juíza Iacy Salgado Vieira, da comarca de Rondon, a decretar a prisão de José
Décio Barroso Nunes, o “Delsão”. O fazendeiro é natural de Minas Gerais, há 21 anos
radicado na região e possui quatro fazendas e duas indústrias madeireiras .
A fita cassete, gravada pelo ex-testa de ferro e pistoleiro de Delsão compromete
o fazendeiro em mais seis execuções, além de apontá-lo como o mandante do assassinato
de Dezinho, cujo nome sempre esteve na lista de sindicalistas rurais marcados para morrer
no sul e sudeste do Pará.
62

OMISSÃO E IMPUNIDADE

Um documento assinado pela CPT, Fetagri e a Sociedade de Defesa de Direitos
Humanos (SDDH), encaminhado via fax e entregue pessoalmente aos órgãos ligados a
questão agrária e segurança no Pará, incluía Dezinho como o terceiro nome da lista dos
marcados para morrer. O documento foi entregue em 28 de outubro de 1999, quase um ano
antes de sua execução. Como a maioria dos posseiros da região, José Dutra da Costa vinha
do Maranhão, oriundo da cidade de Urbano Santos. Aos 43 anos, tinha uma longa
caminhada na luta pela reforma agrária e chegou a disputar as eleições para o cargo de
vereador de 2000, sendo o candidato mais votado do Partido dos Trabalhadores (PT).
Dezinho presidia há oito do Sindicato de Trabalhadores Rurais (STR) de
Rondon e era visto como uma liderança que incomodava os “donos” de terras, por isso,
sempre figurava na lista dos “executáveis”. Três meses antes de ser assassinado, ele liderou
150 famílias na ocupação da Fazenda Tulipra Negra, com 3 mil hectares, cuja propriedade
seria do fazendeiro Kyume Mendes Lopes. O título da fazenda teria sido expedido pelo
Governo do Estado em 1918. Na verdade o título expedido pelo Estado possuía uma área
maior, 44 mil hectares. A Tulipa Negra seria um desmembramento desta área maior.
Dezinho estava convencido da falsificação do título de posse da Fazenda. Caso
essa falsificação fosse comprovada, os fazendeiros com propriedade vizinha à Tulipa Negra
seriam enquadrados como grileiros. No rol de suspeitos deste crime estavam os fazendeiros
Delsão, Olávio Rocha e Josélio Barros, que possuíam terras próximas à área Tulipa Negra.
Em pesquisa realizada pela CPT de Marabá no Instituto de Terras do Pará (Iterpa),
constatou-se que a área de entorno da Tulipa Negra, e a própria fazenda, haviam sido
registradas como terras da União e tinham sido griladas.
No que pesem as evidências, o principal acusado da morte de Dezinho, o
fazendeiro José Décio Barroso Nunes, o “Delsão” suposto dono de 130 mil hectares de
terras em Rondon do Pará, teve a prisão temporária suspensa no dia 14 de dezembro de
2000, sob ordem do desembargador Otávio Maciel. Uma apuração realizada pela assessoria
jurídica da CPT demonstra alguma das “táticas” usadas para garantir a liberdade de um
fazendeiro.
63

Esta apuração revela que no dia 11 de dezembro de 2000, um dos advogados do
acusado impetrou habeas corpus em favor do Delsão e o pedido distribuído em sistema de
sorteio foi parar nas mãos da Desembargadora Yvonne Santiago, conhecida por sua postura
firme na questão de execuções de lideranças sindicais. Após saber que o seu pedido estava
sob a responsabilidade da desembargadora Yvonne Santiago, o advogado de “Delsão” fez
uma solicitação formal de suspensão deste recurso. Um outro pedido de habeas corpus foi
encaminhado, sendo que o desembargador Otávio M. Maciel decidiu pela libertação do
fazendeiro.
A decisão foi tomada sem que o desembargador solicitasse informações mais
detalhadas sobre o acusado junto à juíza Iacy Salgado, que havia determinado a prisão
temporária de “Delsão”. Com a libertação do principal suspeito de ter encomendado a
morte de “Dezinho”, o clima de revolta tomou conta da cidade, aumentando ainda mais a
tensão entre os trabalhadores rurais e os fazendeiros da região.
Delsão estava preso em caráter temporário, conforme atesta decreto da juíza.
No despacho de soltura do desembargador Otávio M. Maciel, menciona apenas prisão
preventiva, nunca prisão temporária. Haveria aqui uma confusão, ou lapso? Prisão
preventiva e prisão temporária possuem sistemáticas diferenciadas. Interpretar como se
fosse a mesma lógica tanto para uma, quanto para outra, seria o mesmo que arbitrar um
jogo de futebol com regras do vôlei, avalia documento da CPT de Marabá.
Um ano após o crime, a igreja onde seria celebrada a missa para lembrar a data
amanheceu fechada, o que acirrou ainda mais os ânimos entre os dois lados. A praça central
de Rondon do Pará serviu de altar para a celebração da missa que reuniu milhares de
trabalhadores rurais, sendo rezada pelo Padre Luiz Muraro.
Seis meses após prestar depoimento sobre o caso, Magno Fernandes do
Nascimento, 39 anos, uma das principais testemunhas do crime foi executado por
pistoleiros em uma típica ação de “queima de arquivo”.
Maria José Dias Costa, atual presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais
de Rondom do Pará, e viúva de Dezinho, e José Soares de Brito, ex-presidente do sindicato
também estão na mira dos pistoleiros. O processo que investiga a morte de “Dezinho”, por
decisão do desembargador Otávio M. Maciel, está parado há 18 meses. Maciel responde
atualmente pela Ouvidoria Agrária do Estado do Pará.
64

“(...) Tio Sam também chegou
todo de fraque e cartola
Virou-se para Zé Molesta
e lhe disse; “Tome um dólar,
que brasileiro só presta
para receber esmola.
Está acabada a disputa
meta no saco a viola.

Zé molesta olhou pra ele,
lhe disse:”Não quero não.
Não vim lhe pedir dinheiro
Mas lhe dar uma lição.
Não pense que com seu dólar
compra minha opinião,
que eu não me chamo Lacerda
nem vivo de exploração.”

Ferreira Gullar
Peleja de Zé Molesta com Tio Sam

O que levou Dezinho e milhões de brasileiros a deslocaram-se para a Amazônia
em busca de dias melhores? Além dos projetos de colonização dirigidos pelo Estado,
podemos indicar projetos considerados grandes. Tais como a Transamazônica, hidrelétrica
de Tucuruí e projetos de mineração, pólo de guseiras e pecuária extensiva. Bem como a
ilusão de riqueza instantânea nos garimpos. Estas obras com caráter colossal marcaram a
colonização na Amazônia no regime militar (1964/1985) e nos governos subseqüentes, o
planejamento de políticas públicas tem trilhado a mesma lógica.
65

Ambientalistas, Ong´s, representantes sindicais e moradores da região se
articularam nas críticas às obras de integração, desenhadas pelo governo do sociólogo
Fernando H. Cardoso para a Amazônia e cuja espinha dorsal pode ser desmembrada no
projeto “Avança Brasil”, onde foi elencada a construção de hidrovias, hidroelétricas,
asfaltamento de rodovias e o incentivo a monoculturas de soja. Tudo obedecendo a uma
lógica vertical, autoritária e de exclusão dos setores populares organizados.
Uma das prioridades passou a ser o asfaltamento da BR 163, Cuiabá- Santarém.
Destinada a expandir a fronteira agrícola da soja, a obra conta com forte lobby no
Congresso. Só o asfaltamento de 3,4 mil quilômetros de rodovias causará, em 30 anos, o
desmatamento de 180 mil quilômetros quadrados na Amazônia. Os prejuízos ecológicos
ainda podem ser maiores. De acordo com relatório elaborado pelo Instituto de Pesquisa da
Amazônia (Ipam), em parceria com o Instituto Sócio Ambiental (ISA), com sede em
Brasília, o programa “Avança Brasil” afetará 31 áreas indígenas e 26 reservas ambientais.
O relatório considera aspectos históricos como o desmatamento de 50
quilômetros que são desmatados em uma margem e outra depois de abertura e asfaltamento
de rodovias, destinado a duplicar a malha viária da Amazônia, que deve saltar de 6.300 Km
para 11. 000 Km, sem considerar áreas do Maranhão e Mato Grosso. Dados recentes
indicam que o desmatamento na região continua a crescer. O estado do Mato Grosso é
indicado como a unidade que apresenta maior contribuição no processo. O agronegócio
com ênfase na cultura da soja é colocado como o responsável pelo desmatamento.

UM PREÇO AMARGO
O discurso de desenvolvimento, geração de emprego e renda, apresentado na
defesa destes projetos, esconde debaixo do tapete a manipulação dos laudos de impactos
ambientais, como é caso da Hidrovia Tocantins – Araguaia, que deve atingir a área dos
estados do Tocantins, Maranhão, Mato Grosso, Goiás e Pará. Os antropólogos André Toral,
Eduardo Carrara, Luís Roberto de Paula e Paulo Serpa, especialistas em estudos nessa área,
denunciam que o cálculo dos prejuízos ambientais e culturais que serão provocados com a
implantação desta hidrovia na região amazônica foi manipulado nos relatórios de Estudo de
Impacto Ambiental (EIA). Eles acusam a Administração da Hidrovia Tocantins-Araguaia
66

(AHITAR), subordinada ao Ministério dos Transportes, de ter retirado do relatório final do
EIA – RIMA a Análise de Impacto Ambiental e o capítulo sobre medidas mitigadoras.

Uma cópia do relatório original, sem as supostas alterações denunciadas pelos
pesquisadores, foi encaminhada ao Ministério Público de Brasília, à Fundação Nacional do
Índio (FUNAI), ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis (IBAMA) e a lideranças de comunidades indígenas. Em nota oficial os
especialistas exigem que seus nomes não constem no relatório a ser apresentado nas
audiências públicas onde o projeto será debatido.

A hidrovia deverá cortar 2.012 quilômetros de cinco estados, atingindo dez
áreas de conservação ambiental, incluindo a maior ilha fluvial do mundo – a Ilha do
Bananal -, e 35 áreas indígenas com uma população de 10 mil índios que serão afetados
pelo empreendimento.

“Foi assim com a construção de Tucuruí, Estrada de Ferro Carajás, vários projetos
de mineração, implantação das fábricas Albrás, Alunorte, pólos siderúrgicos e de pecuária.
A lógica é a mesma, a única lei respeitada é a de mercado, ancorado num discurso de
desenvolvimento que só incentiva a concentração de poder, renda e terra”, analisa
Raimundo Gomes, coordenador do Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e
Popular (Cepasp), uma organização não-governamental (Ong) de Marabá/PA.

Motivados pela ameaça de extinção, oito nações indígenas que vivem ao longo
das margens dos rios Araguaia, Tocantins e das Mortes, declararam, no início do ano de
2001, oposição ao projeto. Lideranças dos Xavante, Karajá, Apinajé, Xerente, Tapirapé,
Krikati, Krahô e Javaé afirmaram em documento que o projeto “só prevê produção de soja,
isso só serve para engordar porco e galinha na Europa. Será que isso vale mais do que
nossos rios, nossas vidas, matas, peixes?”

O Conselho Indigenista Missionário (CIMI) do Mato Grosso, organização
ligada à Igreja Católica, em 1997, foi a primeira entidade popular a examinar o projeto e
levar a informação às comunidades indígenas sobre os impactos sociais e ambientais que a
Hidrovia Araguaia-Tocantins poderá provocar, caso seja implementada. Em março 1998,
foi realizado o encontro inter-étnico reunindo índios dos estados de Tocantins, Matogrosso
67

e Goiás. Em julho do mesmo ano, a cidade de Luciara, no Matogrosso, sedia a palestra de
Maurício Galinkin, coordenador do Cebrac.
Ainda em 1999 as ONG´s de Mato Grosso realizaram rodízio de palestras e
debates em 10 municípios da prelazia de São Félix do Xingu, área de trabalho D. Pedro
Casadáliga, histórico militante dos direitos humanos do Brasil e América Latina. O início
da construção da Hidrelétrica de Lajeado no ano de 1997, em Tocantins, detonou a
preocupação das comunidades ribeirinhas e indígenas sobre a problemática.
A mobilização foi intensificada para os demais estados da região e motivou a
realização do seminário Grandes Projetos na Amazônia: Hidrovia do Araguaia
Tocantins, ocorrido em Marabá, que teve a organização da CPT, Fetagri, Cepasp, ONG
ambientalista da região e da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional
(FASE).
O lançamento da Carta de Marabá, a formação de comissão para continuar o
debate sobre a Hidrovia do Araguaia/Tocantins, a definição de agenda estadual de ações e o
aprofundamento de estudos sobre o Avança Brasil, foram decisões tomadas em conjunto na
plenária final do seminário.

LEMBRANÇAS DE CURUMIM

Pepkuakte Koncarti, índio Gavião e coordenador da associação dos povos
indígenas da região do sudeste do Pará, era um “curumim” de 12 anos de idade, quando viu
seu povo expulso de suas terras para a construção da Hidrelétrica de Tucuruí, no Pará. Ele
ressalta que os índios não desejam esse tipo de desenvolvimento decidido nos gabinetes de
Brasília e apontou como um de seus compromissos levar a conhecimento a problemática
gerada pelo projeto de implantação da Hidrovia do Tocantins-Araguaia. “Se meu povo
tivesse, na época, as informações que temos hoje, a gente não ia aceitar a expulsão da nossa
terra.”, desabafa.
Os argumentos usados para devastar áreas de preservação ambiental e provocar
o êxodo de populações indígenas é a necessidade de construir mais hidrelétricas para
combater a crise energética e evitar um novo “apagão”. A construção de hidrelétricas não é
novidade na região amazônica, com grande potencial para este tipo de investimento. Na
68

década de 80, ainda nos anos de repressão militar, um total de vinte e sete projetos desta
natureza já circulava nos corredores de Brasília.
Os projetos de construção de Hidrelétrica trazem consigo algo que representa
sempre uma ameaça às populações nativas e ao ecossistema da região amazônica: as
barragens. Erguidas para principalmente para sustentar projetos de geração de energia, as
barragens provocam a inundação de áreas para a agricultura, o deslocamento de populações
indígenas e ainda provocam a alteração de todo o ciclo de vida na região, onde a barragem
é implantada, como é o caso da redução do pescado e morte de animais que ficam
desprovidos da floresta.
Pepkuakte Koncarti recorda os prejuízos que este tipo de construção pode
provocar em uma população indígena. Embora fosse um “curumim” quando houve a
implantação da Tucuruí, no rio Tocantins, no sul do Pará, ele é testemunha de
acontecimentos como a inundação de vários municípios do sul paraense, que diminuiu a
produção do peixe e também resultou em morte e extinção de muitos animais. A
hidrelétrica foi pensada durante a ditadura militar para abastecer com energia elétrica
empresas de outros países na área de produção de alumínio. São elas a Alunorte e Albrás no
Pará e Alumar, no Maranhão.
Boa parte da dívida externa do Brasil, 40%, deve-se ao empréstimo do governo
brasileiro, realizado para a construção de barragens. A regra dos grandes projetos
implantados tem sido o benefício de grandes grupos empresariais nacionais estrangeiros,
com a conta desta fatura sendo paga pela coletividade e traduzida em passivos ambientais e
sociais. A geração de emprego, renda, desenvolvimento e riqueza têm figurado somente na
propaganda.

LONGE DE TUDO
Aguiarnópolis é uma típica cidade do interior do estado de Tocantins. Pouco
calçamento, vida pacata, calor escaldante e uma população de no máximo três mil
habitantes. Uma ponte a separa de Estreito, Maranhão, cenário escolhido para abrigar uma
das hidrelétricas na bacia do Araguaia/Tocantins. Esta cidade, longe de Palmas, Belém,
Marabá, Imperatriz e outros centros que sediam entidades engajadas na luta ambientalista
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foi palco de uma das audiências públicas destinadas a discutir a implantação da hidrelétrica
de Estreito.
A ausência de representantes de universidades para se contrapor à propaganda
de geração de emprego e renda, divulgada na cidade durante a convocação para a audiência,
deixam claro que o interesse de seus organizadores é evitar qualquer debate sobre o
assunto.
“Não posso falar, a minha família já sofreu perseguição aqui no município por
causa dessa história de se manifestar em público. O senhor vem, é de fora, pode falar. A
gente que mora aqui, não”, relata um morador da cidade que preferiu o anonimato.
As razões de tanto silêncio são justificadas pelo ocorrido em uma audiência
pública realizada em julho de 2002 no município de Estreito, oeste do Maranhão, quando o
representante da multinacional do Alumínio ALCOA se irritou com o questionamento de
um dos participantes que alertou sobre os impactos ambientais e sociais ocorridos em
Tucuruí.
Apesar desta tática de isolamento das “audiências”, as entidades ambientalistas
que atuam na região do Bico do Papagaio, que compreende o norte do Tocantins, sul do
Pará e oeste do Maranhão, reforçaram a mobilização no combate à implantação destes
projetos. Um deles, a hidrelétrica de Marabá, tem um custo estimado de U$ 2 bilhões de
dólares, com um prazo de construção médio de oito anos e deve atingir uma área que inclui
onze municípios.
O projeto da hidrelétrica afetará ainda as comunidades indígenas Gavião, aldeia
Mãe Maria e Suruí Aiwekar no Pará. Uma população de 16.465 pessoas dos estados do
Pará, Tocantins e Maranhão serão deslocadas de seus locais de origem. Paraísos
ecológicos, como o Parque Estadual do Encontro das Águas, onde os rios Tocantins e
Araguaia se encontram, poderá sumir. A Pedra de Amolar, o marco geográfico da divisa
entre os três estados, deverá ter a mesma sina.
Estudos da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) indicam que a
hidrelétrica de Marabá está inserida na zona de transição do rio Araguaia, onde se verifica,
entre abril e setembro, a migração de espécies de peixes que deixam o reservatório de
Tucuruí, sul do Pará, e os lagos e igarapés nas proximidades dos municípios de Itupiranga e
Marabá, Pará, o que caracteriza este local como uma área inadequada para a implantação de
70

projetos deste porte. Mesmo assim, o projeto de construção da Hidrelétrica, cujos impactos
sociais e ambientais ainda são imprevisíveis, continua sendo tocado para a frente.
A construção de hidrelétricas é apenas um dos pontos no mapa de grandes
projetos planejados para a região. Neste mapa, constam ainda a abertura de estradas, a
construção da Ferrovia Norte-Sul, os novos projetos de exploração da Companhia Vale do
Rio Doce (CVRD), com o cobre em Canaã do Carajás, bauxita em Paragominas, a
implantação de empresa de produção de placas de aço em São Luís e a construção de linhas
de energia para as empresas de alumínio e alumina em Barcarena, no Pará
(Alunorte/Albrás), e a Alumar, em São Luís, Maranhão. A duplicação da hidrelétrica de
Tucuruí encontra-se em fase de finalização.
Urge interrogar se ocorre algo de diferente no processo dos desenhos recentes
de integração da Amazônia.

Subversiva
A poesia
quando chega
não respeita nada
Nem pai nem mãe
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
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infringi o código das águas
relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois
Reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça
E promete incendiar o país
Ferreira Gullar
Na vertigem do dia

Enquanto projetos que provocam passivos sociais e ambientais consolidaram-se
como a “tábua de salvação” para acelerar o desenvolvimento da região Amazônica, uma
rede de resistência foi articulada para organizar alternativas de luta contra estes
empreendimentos. Um dos focos atuantes desta luta é o Fórum Carajás, composto por
diversas entidades que têm entre suas atividades o acompanhamento de projetos na região
de Carajás. No Cerrado Maranhense tem-se acompanhado o processo de monocultura da
soja.
Em Balsas, cidade situada no Sul do Maranhão e um dos principais pólos
produtores de soja do país, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), entidade ligada à Igreja
Católica e integrante do Fórum Carajás, tem promovido o debate sobre a monocultura e os
seus passivos. A CPT alerta para os riscos do avanço da da produção do grão na região. A
monocultura ameaça o Parque Estadual do Mirador, área de preservação ambiental, cercada
de soja por todos os lados. Uma unanimidade na mídia, a cultura da soja é sempre colocada
como vetor de equilíbrio da balança comercial do país, mas os impactos sociais e
ambientais que provoca sempre são omitidos.
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Para o jornalista Mayron Regis, ex-assessor do Fórum Carajás, não é apenas a
soja que ameaça o Cerrado, os pecuaristas também dão sua contribuição e alguns
latifundiários já foram denunciados por terem feito ameaças às famílias que residem na área
da reserva do Mirador. No leque de ameaças, o Cerrado do Maranhão tem ainda as
carvoarias, que sempre ultrapassam o marco de legalidade estabelecido pelo IBAMA. Ou
mesmo atuam sem licença. O carvão extraído no cerrado maranhense alimenta as
siderúrgicas implantadas ao longo da Ferrovia de Carajás. Cidades como Loreto e
Sambaíba são alguns dos locais afetados por este problema.
O OVO DA SERPENTE

As ameaças enfrentadas hoje pelo cerrado têm origem no regime militar,
quando surgiu o embrião do Pólo de Soja de Balsas. Em 1974, o governo Geisel firmou
convênio com o governo japonês. Assim foi criado o Programa Nipo-Brasileiro de
Cooperação para o Desenvolvimento Agrícola do Cerrado – PRODECER. O Agrônomo
Edmilson Pinheiro, atual coordenador do Fórum Carajás, conta que o objetivo deste projeto
era implantar o cultivo de grãos no Cerrado. “O programa incluía toda a infra-estrutura
necessária, além de financiamento”, relata.
Autor de um estudo intitulado A expansão da soja na Amazônia, Edmilson
esclarece que o cerrado maranhense abriga 11 municípios com a produção de soja, onde
Balsas é o principal pólo, com uma média de mais de duas toneladas e meia de soja por
hectare. A pesquisa aponta como um dos impactos ambientais produzidos pela soja no
Maranhão a contaminação dos recursos hídricos por conta do uso intensivo de insumos
químicos.
Tasso Fragoso, Loreto e Alto Parnaíba são os municípios mais atingidos por
este problema. O discurso de que a soja gera emprego e distribuição de renda cai por terra
quando cidades situadas nesta região, como Fortaleza dos Nogueiras e Riachão, registram
mais de 80% da população situada abaixo da linha de pobreza.
A concentração da terra é outro indicador negativo da cultura da soja. 14,4%
dos estabelecimentos são de propriedades com área de cinco mil hectares, o que representa
uma expansão do latifúndio e agravamento dos problemas sociais. “O Mapa da Fome no
Brasil indica que 45% da população dos municípios do pólo de soja do Maranhão são
indigentes”, alerta o agrônomo.
73

SEMENTES DE VIDA

Caminhando na contramão da soja, dispondo de parcos recursos de infra-
estrutura, um grupo de trabalhadores rurais da região se mobiliza com o objetivo construir
um modelo de desenvolvimento que respeite o ser humano, o meio ambiente, contemple a
agricultura familiar e promova a solidariedade. Os coordenadores alimentam esse sonho
através do Projeto de Desenvolvimento Sustentável e Solidário (PDSS) - O Cerrado é
vida.
O marco histórico do projeto foi o dia do trabalhador rural. Fazia sol forte no
dia 25 de julho de 2002 em São Raimundo das Mangabeiras, sul maranhense, município
com cerca de 15 mil habitantes. A agenda pela passagem Dia do Trabalhador Rural
prometia uma maratona. Seminário, teatro, almoço, carreata, bingo de bezerro, ato público,
lançamento da pedra fundamental do projeto e muito forró para encerrar o dia.
A coordenação das atividades ficou por conta da Central de Cooperativas
Agroextrativistas do Maranhão (CCAMA); Centro de Educação e Cultura do Trabalhador
Rural (Centru), ONG de Imperatriz, uma espécie de cidade pólo da região e Sindicato dos
Trabalhadores Rurais de São Raimundo das Mangabeiras.
Na platéia estavam estudantes, trabalhadores e trabalhadoras rurais
pesquisadores da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), religiosos, representantes
do movimento popular de estados vizinhos como o Pará e Tocantins, do Fórum Carajás,
além de representantes do Banco do Brasil, Banco do Nordeste e Sebrae. Também
estiveram presentes membros da Federação dos Agricultores no Estado do Maranhão
(FETAEMA) e da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG).
À mesa, um símbolo do movimento popular pela reforma agrária no Brasil,
Manoel Conceição Santos, que completara 67 anos de vida no dia anterior. Em ocasiões
especiais como esta, o povo humilde da região se prepara com cuidado, vestindo sempre a
melhor roupa que tem e, assim, o Clube Recreativo Manguabeirense ficou cheio de gente
simples, “aprumada” para a ocasião. Atento a cada momento do evento, o pessoal vinha de
Loreto, Balsas, Sambaíba, Porto Franco, (Nova Descoberta), Amarante, Açailândia,
Cidelândia, Senador La Roque, Buritirana, João Lisboa, Montes Altos e Imperatriz.
74

O clube enfeitado com esmero parecia preparado para um casamento. O
casamento de um povo simples não só com um sonho, mas com um projeto erguido do
chão por mãos de gente cheias de calos e pele queimada de sol.

MUDANÇA DE ROTA

Durante o seminário foram apresentadas as linhas gerais do Projeto "Cerrado é
vida" que propõe uma nova racionalidade no trabalho com a terra. A idéia é desenvolver
uma produção diversificada, consorciando o arroz, milho e feijão com frutas e madeiras
permanentes e outras atividades tais como a caça, a pesca e sistemas agro-pastoris de
pequenos animais.
A iniciativa propõe um modelo de desenvolvimento que não privilegie somente
o aspecto econômico, mas que promova a integração entre a natureza e o ser humano. Para
cada 200 hectares de soja plantada apenas 2,5 empregos são gerados. Os estudos de
viabilidade econômica voltados para essa atividade não contabilizam os custos ambientais,
sociais, culturais e econômicos.
Diante da necessidade de criação de alternativas concretas, o projeto "Cerrado é
Vida" propõe que os trabalhadores sejam os autogestores de suas experiências. Atualmente
incorporam essa idéia oito cooperativas e oito sindicatos dos trabalhadores rurais, sob a
coordenação da Central de Cooperativas Agroextrativistas do Oeste do Maranhão
(CCAMA) e sob a assessoria do Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural
(CENTRU).
Após uma pausa para almoço, as atividades do dia foram retomadas com uma
visita às instalações da COOPEVIDA, realizada antes da cerimônia do lançamento da pedra
fundamental do projeto. A COOPEVIDA produz polpas de acerola, bacuri e cajá, que
possuem espaço de venda em alguns supermercados de Imperatriz. Em carreata, os
participantes do seminário seguiram para a comunidade de Nova Descoberta, local do
lançamento da pedra fundamental do projeto "O Cerrado é vida". No local será implantada
uma fábrica de beneficiamento de castanha de caju, com financiamento do Fundo para
Biodiversidade, Funbio.
Na comunidade, situada no centro do Cerrado maranhense, vivem 13 famílias
que decidem tudo de forma conjunta, preservando o espaço para a produção individual e
75

coletiva. Na observação de Manoel da Conceição a ênfase sempre recai na solidariedade,
meio ambiente e harmonia. Denise Leal, companheira de velha data de luta de Manoel da
Conceição, ajudou a descerrar a faixa da pedra Fundamental da futura fábrica. O dia foi
encerrado com um ato público no centro da cidade, que é o berço do sonho de redenção do
Cerrado.
O ADUBO DA ESPERANÇA
O Centru (Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural), uma das
entidades envolvidas no projeto “O Cerrado é Vida”, O Centru teve a semente de sua
criação lançada na década de 70 no Vale do Pindaré, Maranhão, a partir da iniciativa de
trabalhadores rurais da região. Em meados dos anos 80 a entidade se consolida e passa a
atuar em Pernambuco. Atualmente, o Centru possui duas sedes, uma em Recife,
Pernambuco, e outra em Imperatriz, oeste do Maranhão. A sede do Maranhão foi erguida
em 1984 com apoio da Cordaid, uma entidade de cooperação holandesa. O fio condutor das
ações desenvolvidas pelo Centru é tornar os trabalhadores rurais os agentes do seu processo
educativo.
O país ainda respirava os ares da ditadura militar quando o Centru
nasceu.Tomar os sindicatos rurais das mãos dos pelegos (tratamento pejorativo a
sindicalistas ligados ao patronato), e a conquista da terra configuravam as bandeiras da
entidade. Em sua segunda fase, o Centru passou a atuar na formação de uma consciência
política sobre a questão ambiental e a necessidade de se produzir respeitando os recursos
naturais. A sede do Centro em João Lisboa foi adquirida em meados dos anos 90 e está
situada em uma área de 10 hectares de terras, castigadas pelo uso de agrotóxicos. Ao
comprar a área, a direção da entidade tinha a proposta de consolidar um espaço de
formação política do trabalhador rural com alojamento, auditório, área de produção de
várias árvores frutíferas, madeira e hortas.
Primeiro era preciso superar o uso do veneno da terra e retirar o pasto. Os
trabalhadores exibem com orgulho o CETRAL/CDT Centro de Difusão de Tecnologia que
se tornou um espaço de debate e de desenvolvimento de experiências com cooperativas
agro-extrativistas.
Equipado com alojamento, salão para reuniões e seminários, refeitório, o
CENTRAL/ CDT possui uma área de 10 hectares, onde são cultivados trinta e nove
76

espécies de frutíferas e hortas. Entre as árvores existem: acerola, caju, banana, abacaxi,
coco, jaca, goiaba, cupuaçu e murici. Entre as madeiras podem ser encontradas, algumas
espécies bem raras, ameaças de extinção como o cedro, ipê, inharé, copaíba, mogno, paricá
e nim.
Também foi realizado o trabalho de preservação da mata nativa, composta de
babaçuais. Onde antes imperava o uso de agrotóxico, e era ingrata a tarefa de encontrar
alguma ave e pequenos animais, hoje existe um espaço reconhecido como uma referência
de produção auto-sustentável.
A espinha dorsal da filosofia do CETRAL/CDT, é que o espaço sirva como
modelo demonstrativo de sistemas agroflorestais, formador de agentes agroflorestais,
agricultores familiares, sistemas agrosilsilvopastoris, com integração dos pequenos médios
animais.
Projetos de assentamento Tabuleirão I, no município de Senador La Roque,
Tabuleirão II, em Buritirina, Coopevida, em São Raimundo das Mangabeiras, PA São
Jorge, em Cidelândia, e na localidade Campo Formoso, no município de Amarante, são
algumas das experiências desenvolvidas neste sentido e que irrigam anseios de dias
melhores para o povo do Cerrado.

FRUTOS DA SOLIDARIEDADE

As mais férteis bases de apoio do projeto ”Cerrado é Vida” estão plantadas na
CCAMA (Central de Cooperativas Agroextrativistas do Maranhão) nos municípios de
Amarante (Cooprama), João Lisboa (Coopajol), Imperatriz (Coopai), Montes Altos
(Coopemi), São Raimundo das Mangabeiras (Coopevida), Loreto (Coopral), Balsas
(Copabaeb). Resultado de mais de dez anos de atuação do Centru junto aos trabalhadores e
trabalhadoras rurais no oeste e sul do Maranhão, este grupo de cooperativas envolve 1.935
famílias e teve seus primeiros passos iniciados em 2000.

O objetivo central da CCAMA é a construção de um modelo de
desenvolvimento baseado na cooperação e associativismo, onde se contemple a
democratização do poder interno dos envolvidos no projeto, e a consolidação de um modo
de produção que supere a destruição do meio ambiente, bem como a concentração de terra e
renda.
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A elaboração do projeto de criação da entidade teve o apoio da CAPINA, uma
organização não-governamental sediada no estado do Rio de Janeiro. Atuando na
elaboração de projetos de desenvolvimento auto-sustentável, a CCAMA conta ainda com o
apoio do Fundo Brasileiro para Biodiversidade (FUNBIO) e da Secretaria de Coordenação
da Amazônia (SCA).

Nas comunidades onde as cooperativas são construídas, há área para a produção
coletiva e a produção familiar, num processo de educação constante voltado para o
planejamento da produção. A busca do entendimento do que é o modelo de
desenvolvimento agro-extrativista, o gerenciamento coletivo, a intervenção nas políticas
públicas no município, no estado e no país pontuam as ações.

Na lógica de organização da CCAMA a família desponta como núcleo
fundamental, onde as questões de gênero e geração são discutidas como elemento de
socialização do poder. A partir da família, são organizados os grupos de produção de base
(GPB), compostos em média de 15 famílias, que se organizam nas associações, dando
forma ao embrião das cooperativas. O debate para a compreensão do projeto é feito na
base, nas comunidades como forma de consolidar as raízes de um sonho coletivo.

Qual o significado dessa experiência construída ao longo de mais de uma
década de trabalhadores e trabalhadoras rurais no oeste e sul do Maranhão? Tal passo
significa que já está superada a problemática de luta pela terra, tão marcante nessas
paragens? E sobre a questão econômica, qual o rumo a ser tomado por esse conjunto,
resistir ou adaptar-se ao modelo que impera na região? É a experiência uma possibilidade
concreta de desenvolvimento com base na produção camponesa?
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Homem comum, igual a você,
cruzo a Avenida sob a pressão do imperialismo
A sombra do latifúndio
mancha a paisagem,
turva as águas do mar
e a infância nos volta
à boca, amarga,
suja de lama e de fome
Mas somos muitos milhões
comuns
e podemos formar uma muralha
com nossos corpos de sonho e margaridas
Ferreira Gullar
Homem Comum – Toda poesia

Na mesma terra onde brotam experiências solidárias e comprometidas com o
desenvolvimento auto-sustentável, como o projeto “ O Cerrado é Vida”, são semeadas
iniciativas que convergem em direção oposta. O motivo de mais uma peleja entre entidades
do movimento ambiental, sindical e popular e grandes grupos empresariais é o projeto de
construção da Usina Hidrelétrica de Estreito, no Rio Tocantins.
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Projetada para ser erguida na bacia Araguaia-Tocantins, a maior em potencial
de geração de energia hidroelétrica do Brasil, a usina é anunciada como a redenção dos
povos desta terra e sua implantação tem como argumento uma nova vida aos habitantes da
região, marcada pela geração de emprego, renda e desenvolvimento.
No âmbito do planejamento, o projeto da hidrelétrica de Estreito configura-se
como sendo um local onde se entrelaçam redes mundiais de integração econômica. Traz à
tona a assimetria da relação de força entre executivos de empresas multinacionais e
trabalhadores rurais e populações tradicionais.

O Consórcio Estreito de Energia – CESTE –, responsável pelo projeto da
Hidrelétrica de Estreito, entrou com recurso junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente
e dos Recursos Naturais Renováveis- IBAMA- e no Ministério de Minas e Energia para
impedir a realização de estudos complementares ao Relatório de Impacto Ambiental-RIMA
no começo de 2005. As audiências ocorreram no Maranhão e Tocantins entre os dias 31 de
janeiro e 04 de fevereiro. O RIMA foi apresentado pela primeira vez entre os dias 15 a 19
de julho de 2002.

Se não era desejo do consórcio complementar o RIMA, a ojeriza pelas
audiências tinha a mesma dimensão. Duplamente derrotado, viu-se obrigado a cumprir as
obrigações. Ao aceitar a regra do jogo, não desejava ver mais pedras no caminho da
empreitada. Pelo menos é o que nos revelam as sessões de apresentação dos estudos
complementares ao RIMA.

Na realização das audiências públicas, uma das exigências para o licenciamento
da construção da hidrelétrica, ficou notório o objetivo de esconder os aspectos negativos
deste empreendimento e evitar ao máximo um debate mais claro sobre o projeto. Um clima
de comício marcou a preparação destas audiências, realizadas em Estreito no Maranhão e
Aguiarnópolis no Tocantins.

As pessoas chegavam ao local da audiência, fantasiadas de camisetas
defendendo a construção da Barragem de Estreito. Carros e caminhões transportavam os
integrantes do auditório, que se comportavam como cabos eleitorais contratados para
animar o palanque de um candidato. Faixas e cartazes em punho.
80

As audiências serviram para apresentação de estudos complementares ao
Relatório de Impacto Ambiental –RIMA- da hidrelétrica, sob a responsabilidade da CNEC
Engenharia. Foram mais de seis horas num ambiente quente, em todos os sentidos. Em
Estreito, a primeira audiência, realizada na Câmara de Vereadores, começou às 14h e só foi
encerrada depois das 20:30h da noite.
Coordenada pelo IBAMA, a audiência se transformou em um palanque, onde só
tinham direito a voz os defensores da hidrelétrica. As pessoas com críticas ao projeto eram
tratadas como inimigas da cidade e adversárias do progresso de Estreito. O coro dos
defensores do projeto foi reforçado pela participação de deputados federais Sebastião
Madeira (Maranhão), Darci Martins, Ronaldo Dimas e Edson Gomes (Tocantins).
Nos dias que antecederam a audiência, uma denúncia do Movimento de
Atingidos por Barragens (MAB) informava que o CESTE estava realizando um trabalho
destinado a cooptar políticos das regiões a serem afetadas pela usina e ampliar o
convencimento da população com criação de associações “virtuais” e a organização de um
abaixo-assinado.

APOSTA ALTA
Projetada para gerar 1.087 MW de energia, a Hidrelétrica de Estreito tem entre
seus investidores empresas com grande potencial financeiro. Fazem parte do Consórcio
Estreito de Energia (CESTE) a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), a Camargo Corrêa
Energia Ltda, e as multinacionais BHP Billiton e, Alcoa Alumínio S/A e a belga Tractebel.
O orçamento para a construção da usina é de R$ 2,4 bilhões, a previsão de tempo de
construção gira em torno de seis anos.

A Tractebel Energia é subsidiária da Suez-Tractebel, com sede em Bruxelas,
Bélgica. É a maior empresa privada do setor elétrico brasileiro. A Tractebel anunciou a
captação de R$ 200 milhões no mercado financeiro para pagar com "antecipação" de um
empréstimo tomado junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em
dezembro de 2000, para construir a barragem de Cana Brava, Goiás, enquanto os atingidos
brigam na Justiça por reparação das perdas do processo de construção da mesma
hidrelétrica. No mês de junho de 2005, o MAB ocupou o BID em Brasília como forma de
pressionar a empresa a reparar as perdas dos atingidos pela barragem de Cana Brava.
81

Dois municípios do estado do Maranhão (Estreito e Carolina) e dez cidades do
Tocantins (Aguiarnópolis, Babaçulândia, Barra do Ouro, Darcinópolis, Filadélfia, Goiatins,
Itapiratins, Palmeirante, Palmeiras do Tocantins e Tupiratins) devem ser afetados pelo
reservatório.
Criado há 23 anos, o município de Estreito tem uma população estimada em 40
mil pessoas e está cravado em um dos Estados mais pobres da nação. Boa parte da
população vive da agricultura e da pesca e existem poucas oportunidades de emprego
formal na cidade.

A cidade tem o perfil sócio-econômico ideal para a disseminação do discurso
do Consórcio CESTE, estruturado na promessa da geração de emprego e renda. O caldeirão
da pressão pró-hidrelétrica é temperado com o lobby dos Ministérios de Meio Ambiente e
de Minas e Energia. Na região, não faltam meios de comunicação no coro pró hidrelétrica.
O projeto integra um portfólio de pelo menos 50 usinas na bacia do Araguaia-Tocantins.
As hidrelétricas integram um quadro de grandes projetos para a bacia, onde
consta ainda o transporte multi-modal (rodovia, hidrovia, ferrovia) e a geração de energia
para saciar o consumo das empresas do setor de alumínio.

Com o mesmo perfil de Estreito, a cidade de Aguiarnópolis, situada no
Tocantins, também foi palco de audiência para a discussão do projeto. O evento teve como
destaque o protesto de índios das treze aldeias da etnia Apinajé que se manifestaram contra
a construção hidrelétrica de Estreito. O manifesto colocando a posição dos indígenas foi
protocolado pela coordenação da mesa da audiência e pelo Ministério Público.

Cidade com 4 mil habitantes, Aguiarnópolis é cortada pela rodovia federal BR
010 e a ferrovia Norte-Sul, que também integra o projeto de logística implementado pela
CVRD.

A alma do discurso de defesa da Hidrelétrica de Estreito foi montada em duas
matrizes: O medo, encarnado pelo apagão e ONG´s; e a esperança de emprego, progresso e
renda. Nem esse discurso paradisíaco, evitou que algumas perguntas ficassem sem
respostas durante as audiências. Qual, o modelo de indenização, a ser pago para as pessoas
82

que deverão ser remanejadas pelo projeto? Onde elas poderiam ser reassentadas? Quais
serão as condições para que elas possam reiniciar suas vidas?

O projeto ameaça também diversas espécies da fauna do Cerrado como a Arara
Azul Grande, Cachorro do Mato Vinagre, Cachorro do Mato e o Macaco Guariba Preto.
Quase cem sítios arqueológicos estão situados em uma área que pode ser alagada, onde
também estão reservas indígenas como a Krahô, Apinajé e Xerente. Embora não tenha
respondido estas perguntas, durante as audiências os representantes do CESTE asseguraram
que vão investir em educação, saúde e lazer e enumeraram uma longa lista de promessas,
recheadas de “boas novas”.

VENDENDO ILUSÕES

Uma visita aos estudos técnicos da 4ª Câmara Técnica do Ministério Público
Federal (MPF), que trata da questão do meio ambiente e patrimônio cultural, revela que o
paraíso fica muito distante dos pareceres construídos pelos técnicos da CNEC. Um
questionamento emerge de imediato: Como isolar os impactos da UHE do Estreito do
processo cumulativo de impactos de outras barragens (Tucuruí, Serra da Mesa, Lajeado,
Cana Brava) já construídas no rio Tocantins? O mais correto não seria um estudo integrado
da bacia?
A observação da antropóloga Maria Paranhos, responsável pela análise técnica
da 6ª Câmara Técnica, indica que: “A ausência da metodologia antropológica, com
pesquisa de campo orientada por referenciais teóricos e metodológicos, resultou em um
Estudo de Impacto Ambiental com um diagnóstico insuficiente, o que não caracteriza a
imensa diversidade sociocultural presente na área potencialmente impactada, numa
exposição de impactos padronizados e na impossibilidade da avaliação ambiental e de
sugestões de programas compensatórios”.

Fundamentados pelo oceano de insuficiências e omissões do EIA, os
procuradores da República Álvaro Lotufo Manzano, do Tocantins e Thayná Carvalho
Freire de Imperatriz, do Maranhão, encaminharam ao IBAMA de Brasília uma
recomendação solicitando a suspensão da Licença Prévia que autorizava o CESTE a iniciar
as obras de construção da hidrelétrica.
83

A internalização de passivos sociais e ambientais nas regiões é expressa por
vários estudos das universidades como a regra desses projetos com caráter de enclave, ou
seja, não provocam um efeito em cadeia na economia local. A agregação de valor se dá fora
da região. Uma passagem pela região sul e sudeste do Pará é reveladora nesse sentido. O
Programa Grande Carajás (PGC) implantado há 20 anos atrás, que foi colocado como a
salvação da lavoura, demonstra o contrário.
Passadas pouco mais de duas décadas, verificam-se a abusiva destruição do
meio ambiente, concentração de terra e renda, alteração do modo de vida de populações
consideradas tradicionais, elevação número de assassinatos de dirigentes sindicais,
favelização de cidades, aumento do trabalho escravo e prostituição.
Esse derradeiro passivo social é colocado como irreversível. Uma visita a
Tucuruí, município do sudeste do Pará, onde fica a hidrelétrica de mesmo nome, a maior
em geração de energia do Brasil, em fase de duplicação, é elucidativa. A Usina Hidrelétrica
de Tucuruí integrou o Programa Grande Carajás.

PAGANDO A CONTA

O clima eleitoreiro que caracterizou as audiências não permitiu a discussão
sobre um dos problemas cruciais nos projetos de construção de Hidrelétricas, o
reassentamento. Em regra geral, não se consegue reproduzir as mesmas condições de vida
das origens dos trabalhadores rurais. Esse foi um questionamento constante nas audiências,
nas quais se salientou o abandono a que são submetidas as famílias reassentadas.
As experiências anteriores demonstram que é difícil assegurar às pessoas
remanejadas por estes projetos as mesmas condições de vida que elas possuíam antes de
serem remanejadas. Ao serem interpelados sobre este assunto por dirigentes de
organizações como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), Movimento dos Atingidos por
Barragens, Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), Federação dos
Trabalhadores Rurais na Agricultura do Tocantins (FETAET) e o Fórum Carajás, os
representantes do CESTE sempre deram a esquiva como resposta.
Os impactos sociais e ambientais provocados a médio e longo prazo por este
tipo de projeto também foram esquecidos pelos defensores da Hidrelétrica. Célio Berman,
84

professor da Universidade de São Paulo, com doutorado nesta área, e autor do livro
Energia no Brasil: para quê? para quem?¹, lançado no ano de 2002, alerta para a questão
das populações tradicionais:
“ ...a construção de uma usina hidrelétrica representa para estas populações a
destruição de seus projetos de vida, impondo sua expulsão das terras sem apresentar
compensações que pudessem, ao menos, assegurar a manutenção de suas condições de
reprodução num mesmo nível daquele que se verificava antes da implantação do projeto.”
(Berman, 2002, pág.21)
Estes danos, citados pelo professor Célio Berman, foram mensurados em
pesquisa feita pela CPT de Goiás junto às pessoas atingidas pela hidrelétrica de Cana
Brava, construída sob a responsabilidade da empresa belga Tractebel. O estudo revela que
das 804 mil famílias atingidas pela barragem, a indenização afixada era em média de R$
5.300,00, o que não garante o reassentamento. Lajeado e Serra da Mesa são outras duas
hidrelétricas construídas na bacia do Araguaia Tocantins que apresentaram o mesmo
problema para os “remanejados”.

Remando na contramão dos que defendem a ampliação do número de
Hidrelétricas como a única saída para a crise energética e solução necessária para evitar os
riscos de um novo apagão, ele aponta como alternativas para um modelo sustentável a
redução das perdas na transmissão e distribuição de eletricidade e repotenciação das usinas
hidrelétricas.

Berman explica que o Sistema Elétrico brasileiro contabiliza perdas de 15%.
São perdas calculadas na ordem de 5 milhões de MW (ou 54 bilhões de quilovates-hora)
que ocorrem desde a geração de energia. a transmissão e redes de distribuição até chegar ao
consumidor. 6% é o índice considerado como padrão mundial. Caso o Brasil alcance esse
índice 33 milhões de MW/h serão disponibilizados. Estas perdas correspondem ao que
produz por ano uma usina hidrelétrica de 6.500 MW de potência instalada (ou mais da
metade da usina de Itaipu, que possui 12.600MW).

Ele ressalva que parte do parque de hidrelétricas no Brasil possui mais de 20
anos de vida. Alerta ainda que a construção de novas usinas resulta em investimento de
muitos recursos, apresentando o mesmo retorno que poderia ser obtido com investimento
85

em modernização, com a vantagem de que os custos seriam reduzidos e os impactos
ambientais seriam menores.
A conta de projetos como os da Hidrelétrica de Estreito, que geram grandes
lucros para as multinacionais, é paga não apenas pelos povos das regiões onde eles são
implantados. Dados de um estudo realizado pela Comissão Mundial de Barragens (CMB)
indicam que no Brasil este tipo é responsável por 40% da dívida externa do país. O estudo
foi realizado entre os anos de 1997 a 2000. Tucuruí foi o caso selecionado na América
Latina. A CMB aglutinou barrageiros, Banco Mundial, atingidos por barragens e
pesquisadores.

O estudo também revela que o alagamento e a salinização provocados pelas
barragens se desdobram em impactos ambientais de longo prazo e acarretam a destruição
de florestas e o desaparecimento de espécies da fauna e flora.

Em todo o mundo, em especial na América Latina, a construção de barragens
destinadas à implantação de usinas hidrelétricas resulta no deslocamento de 40 a 80
milhões de pessoas. O MAB contabiliza no país um contingente de cerca de um milhão de
pessoas. Atualmente, existem mais 60 empreendimentos solicitando licenciamento
ambiental.

No rio Madeira, Rondônia, órgãos ambientais avaliam relatórios ambientais de
duas hidrelétricas, além de projeto de hidrovia. Entre o Pará e o Amapá discute-se o caso da
UHE de Santo Antonio. Uma outra delicada discussão reside sobre o barramento do rio
Xingu, oeste do Pará, pela hidrelétrica batizada de Belo Monte.

O MAPA DA FONTE

A água destinada a abastecer a Hidrelétrica de Estreito está situada na maior
bacia fluvial situada no território brasileiro. A bacia do Araguaia-Tocantins banha três
regiões do território nacional: Norte, parte do Nordeste e Centro-Oeste. Com uma extensão
de 813.674 Km2, ela corta os estados do Maranhão, Tocantins, Pará, Goiás, Mato Grosso e
parte do Distrito Federal.
86

Dois biomas integram a bacia do Araguaia–Tocantins, cerrado e Floresta
Amazônica, com predomínio do primeiro. Uma diversidade de vida e cultura incalculáveis.
Pelo fato de ter no seu curso território de vários Estados, a responsabilidade de implantação
de projetos recai sobre a União.
Na esteira da lógica neoliberal, instalada no governo de Fernando Henrique
Cardoso, várias agências foram criadas. A ordem era conferir ao Estado a matriz de
“eficiência” de gerenciamento empresarial e nesse contexto surgiu a Agência Nacional de
Águas (ANA), instalada em 1997.
A ANA, ao lado do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), principal
financiador dos grandes projetos na região, pontuam a bacia como prioritária para a política
de recursos hídricos. A bacia integra um dos eixos de desenvolvimento na agenda do
governo federal.
No desenho do plano de exploração da bacia verifica-se a instalação do modelo
de transporte multi-modal (rodovias, ferrovias e hidrovias), tendo como desaguadouro a
ampliação da fronteira agrícola, onde predomina a monocultura de grãos (soja). Dados de
2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), estimam em 3 milhões a
população situada na região, que desde a década de 60 é palco de projetos de integração.

A bacia do Araguaia-Tocantins configura-se como um dos eixos de integração
regional do país. Essa paisagem verificada na região de Estreito desvenda a variedade do
setor de transporte, onde encontramos ferrovias, rodovias e o planejamento da hidrovia do
Araguaia-Tocantins. Numa perspectiva de América do Sul ocorre a Iniciativa de Integração
de Infra-Estrutura Regional Sul-Americana (IIRSA).

UMA INTEGRAÇÃO EXCLUDENTE

No prazo de 10 anos, vários setores da economia promoverão a integração
econômica da América do Sul. O planejamento privilegia as áreas de energia, transporte e
telecomunicações. A isso batizaram IIRSA. Assim traduz o documento organizado pela
ONG Amigos da Terra Brasil, sistematizado por Elisangela Paim.
O documento revela que o IIIRSA foi criado em 2000, durante a Reunião dos
Presidentes da América do Sul, em Brasília, com a finalidade de integrar toda a América.
87

O texto de Paim elucida que a coordenação operacional da IIRSA está a cargo
da Corporación Andina de Fomento (CAF), do Banco Interamericano de Desenvolvimento
(BID) e do Fundo Financeiro para o Desenvolvimento da Bacia do Prata (Fonplata).

Ainda conforme Paim, as negociações para a concretização da IIRSA
evoluíram, pois o presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva, encabeçou o projeto e
o Banco Nacional do Desenvolvimento, Social e Econômico (BNDES) está disposto a
financiar. A essência é o aumento de fluxo de mercadoria. Matéria- prima como energia,
que é o principal insumo das indústrias eletro-intensivas, como as de alumínio.

O trabalho da ONG Amigos da Terra Brasil esclarece se tratar de um estudo
realizado pelo ex-executivo da CVRD (uma das maiores mineradoras do mundo, que vem
investindo pesado em infra e energia) Eliézer Batista no ano de 1996, por encomenda da
Corporação Andina de Fomento (CAF).

O resumo da ópera decifra que o estudo levanta as principais riquezas naturais
da América do Sul e como podem ser utilizadas com melhoramento de infra-estrutura, onde
se ambiciona a inserção na economia global. Com que roupa não diz. Há algo de diferente
do que vem marcando os processos econômicos do país?

Hidrovia do Paraná-Paraguai, BR-163, Cuiabá-Santarém, Complexo do Rio
Madeira, Hidrelétrica de Belo Monte são alguns dos 82 projetos na Amazônia inclusos no
Plano Plurianual -PPA- do governo federal. No setor de soja, Bunge e Cargil e o Grupo
Maggi estão entre os interessados.

Assim foi a agenda das audiências:
Estreito – Câmara Municipal -31 de janeiro
Aguiarnópolis/TO – 01 de fevereiro – Escola Estadual de Aguiarnópolis
Babaçuilândia/TO – 02 de fevereiro – Quadra Comunitária
Filadéfia/TO – 03 de fevereiro – Colégio Estadual Adevaldo de Oliveira
Carolina/MA – 04 de fevereiro Câmara Municipal
88

1- O livro assinado pelo professor Célio Berman faz parte do projeto Brasil Sustentável e Democrático
do grupo de ONG´s (Assessoria e Serviços a Projetos em Tecnologia Alternativa- ASPTA,
Federação de Órgãos para a Assistência Social e Educacional –FASE, Instituto Brasileiro de
Análises Sociais -IBASE, Programação de Pós-Graduação em Energia/USP, Instituto de
Planejamento e Pesquisa Urbano e Regional (IPPUR/UFRJ).

Meu povo em meu poema
se reflete
como a espiga se funde em terra fértil

Ao povo seu poema aqui devolvo
menos como que canta
do que planta

Ferreira Gullar
Meu povo, Meu Poema – Toda Poesia

Na matemática dos grandes projetos como a construção de hidrelétricas, exploração
mineral e monoculturas não cumprem considerar as populações locais. Muitas delas com
vínculo abissal com a terra, cujo olhar ultrapassa a mera possibilidade de garantia de
reprodução material e social. Lá estão embutidos vínculos de afeto, vizinha e solidariedade.
Mesmo que colocadas em condição de subalternização, tais populações persistem no
processo de semear entidades representativas, mobilizar seus pares e montar seus
acampamentos em busca da conquista de reconhecimento político, econômico e social6.

6
Parte significativa do presente texto integra a monografia de especialização do autor no Núcleo de Altos Estudos
Amazônia (NAEA), defendida no ano de 2004, na Universidade Federal do Pará (UFPA).
89

Assim tem sido feito pelos camponeses no sudeste do Pará. Os camponeses
categorizados como posseiros quando na década 1970, onde o Estado induzia o processo de
inserção do capital na região, hoje possuem o reconhecimento por parte do Estado da luta
camponesa, quando são tratados como assentados. Na fronteira o mesmo enfrenta
diferentes opositores: empresas de mineração, pecuaristas, políticos e o próprio Estado. Ao
mesmo tempo em que o Estado tem reconhecido algumas demandas da categoria, promove
a luta pela terra na esfera da Justiça e militarização. Como se verifica com a criação varas
agrárias e Delegacias Especiais de Conflitos Agrários. A primeira tem cumprido o papel da
expedição de liminares de reintegração de posse; já a segunda age na expulsão dos
ocupantes.
Nos capítulos recentes da Historia da luta camponesa na região do Araguaia-
Tocantins, o Massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido no ano de 19967, é sem sombra de
dúvidas um divisor de águas. Os movimentos sociais que defendem a reforma agrária
agudizam a luta pela terra com ocupações em massa. O Estado, pressionado pelo contexto
da economia, agenda-se pela redução no setor, via uma política de controle da inflação e
políticas de privatização. No outro flanco, a demanda social represada por vinte e um anos
de ditadura militar exige pauta na agenda dos governos.
A partir desse contexto, o Estado responde a duas pressões, onde desenha um plano
de reforma agrária direcionado para o mercado, e alça a questão de luta pela terra a uma
perspectiva de negociação, e não de conflito, como uma forma de responder ao mercado. Já
na perspectiva dos movimentos sociais, motivado por pressões internas e externas, ao
mesmo tempo em que atende às reivindicações, cria mecanismos de coerção jurídica e vê a
questão da luta pela terra como uma questão militar. A terra é tratada como elemento de
negócio, e não para quem nela trabalha, como desejam as entidades dos (as) trabalhadores
(as) rurais.

7
O Massacre de Eldorado dos Carajás ocorreu no dia 17 de abril de 1996, onde 19 trabalhadores rurais sem terra foram
executados pelas tropas da Polícia Militar do Pará, e 69 foram feridos. Nos laudos ficou constatado: execuções sumárias.
O Massacre de sem terra no sudeste do Pará ocorreu no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. A ordem para
reprimir os sem terra no Pará foi dada pelo então governador do Estado, Almir Gabriel. Ambos do Partido da Social
Democracia Brasileira (PSDB). Ainda em 1997 o MST anima a Marcha Nacional Pela Terra, Emprego e Justiça rumo a
Brasília, um ano após o Massacre. No ano de 1995, em Corumbiara, Rondônia, ocorreu o massacre de 11 sem terra. Os
dois massacres corroboraram para que a questão agrária brasileira ganhasse interesse internacional. O movimento
camponês adotou o dia do Massacre de Eldorado como Dia Mundial de Luta pela Reforma Agrária.
90

O não acesso à informação sobre o volume de recursos das políticas de
responsabilidade da superintendência Regional do Instituto Nacional de Colonização e
Reforma Agrária (INCRA), com sede em Marabá, SR 27, como se dava a distribuição ou
onde eram aplicados, pelos clientes, os trabalhadores (as) rurais, desnuda a herança
autoritária que norteou o planejamento estatal. Até 1997 os trabalhadores rurais não
conheciam o programa operacional de aplicação dos recursos das políticas direcionadas
para o campo, sob domínio da burocracia estatal e dos interesses de chefes políticos
regionais.
Diante de tal realidade, os (as) trabalhadores (as) rurais da região com maior
concentração de projetos de assentamento no Brasil passam a realizar acampamentos no
pátio da sede do INCRA. O acampamento emerge de um processo de luta desencadeado a
partir de 1997, tendo como epicentro a cidade de Marabá, sudeste do Pará. A Federação dos
Trabalhadores na Agricultura do Pará (FETAGRI), o Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra (MST) apoiados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) e outras organizações
populares animam a radicalização da luta do campo no sudeste do Pará.
A escolha da cidade justifica-se por ser a referência econômica e política da região,
e sediar a superintendência regional do INCRA, bancos, meios de comunicação, e várias
instituições federais (Banco da Amazônia/ BASA, Instituto Brasileiro dos Recursos
Renováveis e do Meio Ambiente/IBAMA, POLÍCIA FEDERAL, MINISTÉRIO PÚBLICO
e o Instituto Nacional de Seguridade Social/INSS). A maioria das instituições foi criada
após o episódio da chacina dos sem-terra em Eldorado.

Erguido inicialmente sem o consenso da FETAGRI regional sudeste e FETAGRI
estadual, o acampamento vai se configurar como um dos principais instrumentos de luta
pela reforma agrária da região. As ações seguirão até 2003. Um dos motivos da ausência de
consenso recai sobre o período de início dos acampamentos, geralmente o primeiro
semestre do ano, quando se define o Programa Operacional – PO – do INCRA, que não se
coaduna com as datas do movimento de ação de massa, como o Grito da Terra, organizado
pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG).
Os acampamentos de Marabá ocorreram nos anos de 1997, 1999, 2000 e 2001, anos do
Governo Fernando Henrique Cardoso. A ação de massa ficou conhecida como grande
91

acampamento. De acordo com os cadastros dos organizadores, estiveram presentes cerca de
10 mil pessoas em cada ato, perfazendo um total de 40 mil. Ao interrogar a coordenação
sobre a veracidade do número de pessoas no acampamento, os dirigentes argumentam a
fidelidade dos números a partir da descentralização da organização, onde cada responsável
pelo assentamento representado no acampamento encarregou-se da conferência dos
presentes nas barracas distribuídas por município.

Em 2003, estando na presidência da República do Brasil um representante dos setores
populares, Luís Inácio Lula da Silva, os atores organizados na FETAGRI e MST, com o apoio da
CPT, continuam a ação de massa, já sem aglutinar o número de pessoas dos acampamentos
anteriores. A ação em 2003 aglutina apenas três mil participantes.
CONTEXTO HISTÓRICO
É rico o contexto político, econômico e social em que a ação de trabalhadores rurais sem
terra e assentados pela política de reforma agrária se desenvolve. Trata-se de um período de avanço
das políticas de redução do Estado, intensificada com a privatização da CVRD em 1997,
reagendamento de grandes projetos para a região dentro do Plano Plurianual (PPA)8, que não se
alinhavam com as demandas dos setores populares do sudeste do Pará.
No setor de pesquisa tem a presença, na região, da empresa Companhia de Produção
Agrícola - CAMPO, uma joint-venture com 51% de capital nacional e 49% de capital
japonês em Marabá, num com convênio com a Secretaria de Agricultura do Estado. O
objetivo da CAMPO, que induziu o processo de colonização no sul do Maranhão, - pólo de
soja de Balsas - , é colonizar, ocupar e explorar 60 milhões de hectares dos cerrados do
Brasil, (PINHEIRO, 2002, Fórum Carajás).

No plano social ocorre o surgimento de novos atores na cena camponesa, como a criação da
regional sudeste em Marabá, da FETAGRI e do MST, além de associações e cooperativas de
pequenos produtores rurais, devido às políticas de crédito para a produção familiar, a exemplo do
Programa de Crédito Especial para Reforma Agrária - PROCERA, Fundo Constitucional do Norte -
FNO e Programa Nacional para Agricultura Familiar - PRONAF. Podem-se citar ainda programas
como o Plano de Desenvolvimento dos Assentamentos – PDA, que irão motivar o surgimento de
prestadoras de serviços para as políticas de reforma agrária, materializando-se como um outro ator
social recente da história.

8
O PPA para a Amazônia é marcado por obras de infra-estrutura que visam à integração econômica para a expansão da
fronteira agrícola, que tem na monocultura do grão de soja o principal produto. A construção de transporte multi-modal
(rodovias, hidrovias e ferrovias) e várias hidrelétricas predominam no portfólio do PPA.
92

Os últimos anos do século que se encerrou concretizaram a legitimidade das ações, lutas e
reivindicações do movimento camponês brasileiro. Neste período a precarização do trabalho
avança, e as entidades representativas dos trabalhadores urbanos experimentam um momento de
refluxo, e o emprego desponta como moeda de troca. Estamos falando das décadas de 1980 e 1990,
anos de cimentação de várias frentes de ação do movimento popular. Ao mesmo tempo, anos de
crise, ressaca do ocaso da experiência socialista do Leste europeu, estes são anos de
redemocratização do país, reorganização dos partidos políticos, ações de massa como a campanha
pelas Diretas Já!
São nessas décadas, principalmente na de 1980, que os sindicatos de trabalhadores rurais
são organizados ou tomados dos “pelegos”. A Fundação Agrária do Tocantins-Araguaia (FATA),
um dos órgãos que compunham o Centro Agro-Ambiental do Tocantins (CAT), funcionava como
aglutinador dos trabalhadores rurais. Seis sindicatos de trabalhadores rurais da região de Marabá
davam corpo a FATA: Marabá, Jacundá, São Domingos do Araguaia, Itupiranga, São João do
Araguaia e Nova Ipixuna. (Guerra, 2001). Criado em 1988 em parceria com a UFPA, a experiência
tem uma atuação significativa até o fim da década de 1990, quando surgem outros atores sociais
como o MST e a FETAGRI regional, e seus adversários como uma Federação de Pequenos
Produtores e um Sindicato de Pequenos e Médios Produtores.

É nesse turbilhão de mudanças que é criada a Coopeserviços, cooperativa de prestação de
assessoria direcionada para projetos de assentamento. São os técnicos remanescentes do extinto
programa de assistência técnica para os projetos de assentamento Lumiar que vão gerar a iniciativa.
É uma decisão tomada pelo conjunto dos atores sociais aglutinados em torno da FETAGRI regional
no contexto de se criar uma prestadora de serviço público não estatal ligada ao movimento popular,
especialmente à FETAGRI. Nesse sentido, além do reconhecimento da luta pela terra por parte do
Estado através dos projetos de assentamentos rurais, percebe-se um avanço no sentido de definir um
modelo de assistência rural numa via contrária, onde cabe às entidades dos trabalhadores o
protagonismo. Um outro elemento interessante é a criação de cursos superiores animados pelo
MST, como o de agronomia com sede em Marabá, e o de Pedagogia, com sede em Belém.
Um outro elemento a ser observado recai sobre o encerramento das atividades ou a perda da
hegemonia do processo de luta pela reforma agrária de outros atores sociais, como a Federação de
Órgãos para Assistência Social e Educacional - FASE, a FATA, o Movimento de Educação de Base
-MEB, as Comunidades Eclesiais de Base -CEB´s. Os dois anteriores ligados à igreja católica, os
quais, durante as décadas de 1970 e 1980, tiveram um papel fundamental na organização popular
rural. Estaria o movimento plenamente emancipado?
93

A atuação da FASE de Marabá com uma estrutura de equipe e escritório vai de 1990 até
1998, com uma equipe de quatro educadores populares e dois técnicos administrativos. Dentre as
ações desenvolvidas, constam na zona rural o incentivo de criação de cantinas comunitárias na área
da Ferrovia de Carajás, nos municípios de Marabá e Bom Jesus do Tocantins. A antiga sede da
FASE é hoje a regional da FETAGRI. No conjunto foram organizadas sete cantinas, que, além da
tentativa de formação política de dirigentes, visava, economicamente, ao rompimento da relação
atravessadores e pequeno produtor.
No planejamento da FASE, enumera-se ainda a ação conjunta com o MEB, na área urbana
de Marabá, do Movimento do Orçamento Participativo – MOP. Teve ainda papel importante na
construção da Rádio Comunitária Alternativa FM, na criação da Associação Brasileira de Vídeos
Populares e na montagem de uma estrutura de TV Popular via financiamento de uma entidade
francesa, a CCFD.

Por ausência de financiador, atualmente o Centro de Educação, Pesquisa, Assessoria
Sindical e Popular –CEPASP- não tem desenvolvido nenhuma atividade. Erguido na década de 80,
o centro esteve presente na formação de base de dirigentes do campo e da cidade, que ao lado do
MEB, funcionava como motivador do debate sobre comunicação popular. Desde o fim de 1999 até
o ano de 2003, esteve presente na organização de oficinas e seminários sobre comunicação popular.

Um outro dado no palco dos atores sociais é a transformação da Cooperativa
Camponesa do Araguaia Tocantins (COOCAT), um dos elementos que compunha o CAT,
em uma federação. Na disputa política pela hegemonia da condução do processo de luta
popular, são criadas federações que aglutinam associações e cooperativas de pequenos
produtores. As mesmas surgem com o propósito de estabelecer uma relação de força com a
FETAGRI regional, MST e CPT.

No redemoinho de ocaso e surgimento de novos atores, é criada ainda uma agência de
informação sobre produção e comercialização, a ARCASU, cujo coordenador faz parte do quadro
do movimento popular, o senhor Antonio Cavalcante (Barbudinho), coordenador da ex Cooperativa
Camponesa do Araguaia Tocantins (COOCAT). Para fazer a mediação entre os vários segmentos
sociais (INCRA, CPT, MST) envolvidos na questão da reforma agrária, é organizada a Câmara
Técnica da Reforma Agrária.

ACAMPAMENTOS EM MARABÁ
94

A realização dos grandes acampamentos, como ação de massa e pressão política do campo
popular, sugere a redefinição espacial da estrutura agrária da região. Um ano antes do primeiro
acampamento em 1997, o INCRA, agora com status de uma regional, registrava o número de 90
Projetos de Assentamento (PA´s), que até o início de 2003, somavam 375. No primeiro semestre de
2005, a SR 27 contabiliza 400.

Alguns fatos podem ser cogitados para se explicar a questão. Primeiramente, sugiro a luta
histórica dos posseiros pela conquista da terra. Como constatado nos depoimentos dos dirigentes e
assessores, havia áreas antes da legalização com mais de dez anos de ocupação. Portanto, toda uma
demanda reprimida no sentido de se homologar a criação dos PA´s. No segundo momento vale
recordar as sucessivas denúncias de corrupção nos processos de desapropriação de terras para fins
de reforma agrária pelas entidades que encabeçam o movimento na região. Dois processos
denunciados durante a direção do senhor Vítor Hugo da Paixão, à frente do INCRA, podem servir
como exemplo.

São os casos da fazenda Oito Barracas, localizada no Município de São Domingos do
Araguaia e da Fazenda Flor da Mata, em São Félix do Xingu que se pode sugerir como nova
possibilidade de geração de renda da terra. O caso foi encaminhado ao Ministério Público Federal,
em dezembro de 1999, conforme nota da FETAGRI E CPT, e matérias dos jornais Correio do
Tocantins, Jornal Opinião, ambos de Marabá, e O Liberal, de Belém.

O superfaturamento teria acontecido na Fazenda Flor da Mata, Município de São Félix do
Xingu. A fazenda, com 11 mil e 770 hectares, custou em 1995 ao fazendeiro R$100 mil reais, e foi
avaliada em 1998 por técnicos do INCRA em R$ 2,5 milhões, 25 vezes mais que valor de compra.
As entidades acusam ainda o proprietário da fazenda de manter trabalhadores em regime de trabalho
escravo. Segundo as entidades, o Ministério Público Federal também questionou o valor da
desapropriação. Na desapropriação, o dono recebe o dinheiro no ato; isso funciona como um
estímulo para a corrupção, avalia o conjunto das entidades.

A Fazenda Oito Barracas, Município de São Domingos do Araguaia, desapropriada em
junho de 1998, é outro caso citado. A FETAGRI e a CPT acusam técnicos do INCRA de terem
incluído benfeitorias que não existiam na fazenda. De acordo com o laudo, a fazenda possuiria 20
km de estrada em bom estado de conservação. A assessoria das entidades verificou que só existem 8
95

km; dos 35 mil metros de cerca de 5 fios em bom estado de conservação, apenas 2.500 metros
foram encontrados em péssimo estado de conservação.
A assessoria jurídica informa que os casos citados ocorrem em fazendas próximas da
superintendência regional de Marabá, “imagine nas mais distantes, o que deve acontecer?” O
INCRA de Marabá gastou mais de R$ 70 milhões para desapropriar 24 fazendas no sudeste do Pará
em 1998. Segundo o documento encaminhado à Procuradoria, é mais do que o orçamento de 1998
para as 44 mil famílias assentadas nos 152 projetos de assentamentos. Conforme cálculos no
documento, cada família assentada já começa devendo R$ 14 mil reais ao Governo Federal.
Para melhor embasar o documento, as entidades de representação e apoio dos trabalhadores
rurais fizeram um levantamento dos valores de terra e infra-estrutura de fazendas junto ao BASA,
Banco do Estado do Pará (BANPARÁ), Banco do Brasil, várias prefeituras da região, EMATER,
Secretaria de Agricultura e vários cartórios. No laudo do INCRA, um quilômetro de cerca custa R$
2.088 reais, no verificado pelas entidades ficaria em R$ 1.499 reais; um quilômetro de estrada bem
conservada no INCRA custou R$ 3.247 reais, nos cálculos das entidades só R$ 2.334 reais. Outro
questionamento da FETAGRI e CPT recai sobre a eficiência do Imposto Territorial Rural - ITR -,
elas acreditam que se o governo considerasse as declarações dos valores no pagamento do ITR, os
desvios poderiam ser suspensos. Esse episódio, ao lado de outros, culminou com a substituição do
Victor Hugo da Paixão, do INCRA de Marabá. No processo de luta dos camponeses, Victor Hugo
foi o segundo superintendente a ser substituído.
Outra grave acusação contra o Incra de Marabá é a não disponibilização, aos trabalhadores
rurais, dos laudos das desapropriações realizadas pelo Instituto. As entidades denunciam ainda que
os atos de vistoria dos técnicos do INCRA nunca são informados, e que os técnicos ficariam
hospedados nas sedes das fazendas.
Essa política de superfaturamento vai motivar que os próprios fazendeiros organizem
ocupação em suas terras. Em matéria do dia 27 de setembro de 1998, no caderno Brasil da Folha de
São Paulo, de Ricardo Galhardo, consta que o fazendeiro Eufrásio Pereira teria empregado R$ 22
mil reais para que 1.500 famílias ocupassem as terras da Fazenda Cristalino, de 139,3 mil hectares,
em Santana do Araguaia, pela qual pagou R$ 20 milhões em 1996. A fazenda é quase do tamanho
da cidade de São Paulo, menor apenas 10 mil hectares. Caso a União fosse desapropriar, pagaria R$
40 milhões, segundo avaliação do INCRA. A matéria informa que a desapropriação não ocorreu. O
mediador da ocupação foi o senhor Eunício Alves, integrante do Movimento Brasileiro dos Sem
Terra – MBST. Ainda sobre o contexto de ocupações e desapropriações de terras há a criação do
MST e a ação de ocupação de áreas em todo o território nacional, o que vai desaguar com a coerção
pública e privada contra a luta camponesa, via intervenção jurídica e militar.
96

Sob a égide de Medidas Provisórias, o governo estabeleceu que a terra invadida por
trabalhadores rurais sem terra não será vistoriada por dois anos agrícolas e em caso de reocupação
do referido imóvel, o prazo será duplicado para quatro anos. No rosário de medidas do governo
federal inclui-se ainda a suspensão do programa Lumiar, a assistência técnica, e sucessivas prisões
de dirigentes do MST em todo o Brasil.

O sudeste paraense se configura como uma fronteira de constante tensão social, política e
econômica no país. Cenário construído através da política de integração do regime militar (1964-
1985), que incentivou através da generosidade do erário público a implantação de grandes grupos
econômicos na região e a migração de camadas excluídas oriundas do Nordeste, Centro- Oeste, e
até Sudeste do país.

A violência tem sido uma marca no processo de colonização da região amazônica,
ora encarnada pelo Estado, ora por milícia e jagunçagem de proprietários de fazendas.
Apesar de vivermos um novo milênio, a violência no seu caráter mais brutal, a eliminação
de sindicalistas, permanece no cenário de disputa entre os trabalhadores sem terra e
fazendeiros.

O CONTEXTO DOS GRANDES ACAMPAMENTOS COMO INSTRUMENTO DE LUTA
A história da luta pela terra no Brasil é rica em exemplos de movimentos e momentos
significativos de organização dos excluídos. O acampamento tem sido usado como uma ferramenta
antiga de luta dos trabalhadores rurais. Tem sido assim desde os quilombolas, cabanos, o
encabeçado por Conselheiro no movimento do Arraial de Canudos, do Contestado, na fronteira do
Paraná com Santa Catarina. Campo Formoso em Goiás, Ligas Camponesas no Nordeste.
No ano de 1997 a cidade de Marabá semeou uma experiência histórica da página
dessa luta. É no Município de Marabá que será levantado o primeiro acampamento com a
característica de grande. Grande acampamento foi uma categoria cunhada pelos próprios
atores sociais da luta pela terra do sudeste do Pará, por reunir 10 mil pessoas entre vinte a
quarenta dias no pátio externo do INCRA, a Praça do Mogno.

A FETAGRI regional sudeste e o MST de Marabá são os principais atores do
acampamento. Este ato que ocorre com o endosso direto da CPT de Marabá, e outras entidades de
apoio ao campesinato da região, entre elas o CEPASP, COOCAT, Conselho Nacional dos
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Seringueiros (CNS), Escola Família Agrícola (EFA), Sociedade Paraenese de Defesa dos Direitos
Humanos (SPDDH), Laboratório Sócio-Ambiental do Araguaia Tocantins (LASAT), FASE, FATA.
Uma peculiaridade da ação de massa é ser desenvolvida com a união do MST e o movimento
sindical, que tem a hegemonia na filiação dos projetos de assentamento. Talvez seja o único lugar
do Brasil onde essa união ocorre, ainda que pontual.

Entre as motivações visualizadas temos a violência e a impunidade, a substituição do
superintendente do INCRA, um oficial da reserva do Exército Brasileiro vindo do sul do país, o
senhor Petrus Emile Abi-Abib, a ausência de transparência para a definição do Programa
Operacional –PO-, de responsabilidade do INCRA, que define a aplicação dos recursos de cada ano,
a acusação de corrupção e beneficiamento político a prefeitos da região, a morosidade no processo
de desapropriação de áreas ocupadas.

Diante de tal quadro, o acampamento surge como uma ferramenta política para estabelecer
a relação de força entre trabalhadores rurais sem terras, assentados da reforma agrária, agricultores,
familiares, posseiros e o INCRA, poder dos supostos donos das terras e os prefeitos da região.
Difere dos demais acampamentos por ter sido levantado no centro político da região, o Município
de Marabá. Retira-se a problemática do isolamento e mostra-se para a sociedade, apesar da
discriminação, preconceito e criminalização dada por alguns veículos de comunicação da cidade.

O acampamento de 1997 é considerado por alguns dirigentes do movimento de luta pela
reforma agrária no sudeste do Pará como o de maior importância. Primeiro por ser o inaugural, o
que possibilitou a unificação de várias entidades do campo popular ligadas à questão no Fórum de
Reforma Agrária (FERA); segundo por ultrapassar as fronteiras físicas da região, criando espaço
para a visibilidade de matérias jornalísticas no sudeste do país, pronunciamentos de parlamentares
do campo democrático na Assembléia Legislativa do Pará e na Câmara Federal. Sobre o ponto de
vista econômico, foi a melhor negociação de todos os acampamentos, avaliam dirigentes e
assessores entrevistados. Por conta do episódio de Eldorado, o Estado instituiu, além da criação do
INCRA, a instalação do Ministério Público, Instituto Brasileiro dos Recursos Naturais e Renováveis
e do Meio Ambiente (IBAMA), Instituto Nacional de Seguridade Social, Polícia Federal, entre
outras instituições.
Sobre a postura do senhor Petrus, primeiro superintendente do INCRA de Marabá, quando
o Instituto ganha o status de uma superintendência regional, o manifesto de duas páginas das
entidades populares que animam o acampamento avalia: “Através de uma postura autoritária, o
98

superintendente do INCRA tem se negado a dialogar e a negociar com o conjunto das lideranças
dos trabalhadores e das entidades. Para o superintendente, o fórum de discussão destas questões
mencionadas tem sido as prefeituras e deputados que as representam. O superintendente tem
adotado uma política de divisão do conjunto do movimento, de perseguição das entidades de apoio
e de provocação das lideranças através dos meios de comunicação”, (Documento de Circulação
Interna, datado de 20 de outubro de 1997, CPT, FETAGRI, Marabá, 1997).

CIDADE DE LONA, CIDADE DE SOLIDARIEDADE, CIDADE DE LUTA

A organização do primeiro acampamento tomou quase o ano inteiro de 1997. Na
reconstituição da história do acampamento, realizado a partir de entrevistas com dirigentes das
entidades do movimento e documentos, eles rememoram que um diagnóstico teve início em maio/
junho. Em 1997, 10 anos depois da criação do primeiro projeto de assentamento na região, o
Castanhal Araras, no município de São João do Araguaia, existiam 90 projetos de assentamento.
Eram 400 as áreas ocupadas.

Trabalhadores rurais após a desocupação da Ferrovia de Carajás – Marabá- PA - 2001- (Cepasp)
99

O que a coordenação do movimento chama de diagnóstico foi um levantamento da situação
fundiária de cada projeto de assentamento ou ocupação. Segundo entrevista com os dirigentes, as
equipes técnicas das entidades de apoio FASE, CEPASP, CPT, CNS, dentre outros, junto com os
dirigentes sindicais, visitaram as áreas de toda a região a fim de conhecer o quadro fundiário e
verificar se os que já eram assentados estavam tendo acesso às políticas de crédito para a reforma
agrária.

Acampamento de trabalhadores rurais na Praça do Mogno – INCRA, Marabá-PA,2001.

Sobre a situação, Raimundo Nonato Santos da Silva (Nonatinho), ex-coordenador
da FETAGRI regional sudeste revela: “O nosso primeiro passo foi o levantamento da
situação fundiária e agrária da nossa região. Em conjunto com a CPT, FASE, CEPASP
fizemos o diagnóstico de todos os PA´s, áreas ocupadas, colocando os anos e os conflitos.
O diagnóstico culminou com a primeira pauta de reivindicações dos movimentos do sul e
sudeste do Pará. Foram estas duas questões - as demandas dos trabalhadores e a postura do
100

governo federal em relação aos movimentos sociais - que resultaram no primeiro
acampamento”.

Mediante a convivência nos anos de trabalho em que estive em Marabá, na condição de
técnico do CEPASP, e depois colhendo dados e entrevistando os dirigentes das entidades de
trabalhadores rurais, pude observar que há uma unanimidade quanto à falta de transparência nas
políticas encaminhadas pela superintendência recém- criada do INCRA de Marabá. Sobre a ação do
acampamento no INCRA, eles afirmam que fizeram um orçamento participativo ao contrário, ou
seja, a partir da pressão popular, e não tendo o INCRA como indutor de um processo participativo,
de socialização de suas ações.

Caminhada de trabalhadores rurais sobre a ponte do rio Tocantins, Marabá-PA, 2001.
Até a realização do primeiro acampamento, a clientela da reforma agrária, as entidades
representativas dos trabalhadores rurais e as entidades de apoio não conheciam o orçamento do
INCRA, ou a sua forma de aplicação. Num documento assinado pela CPT de Marabá e a FETAGRI
Regional sudeste do Pará, chama a atenção no primeiro ponto a redução que vem sofrendo o
tamanho do lote (módulo) dos agricultores: “na década de 1970 o módulo na região era de 100 ha,
nos anos 1980 diminuiu para 50 ha, e hoje o atual superintendente impôs o módulo de apenas 25 ha,
sem discussão com os trabalhadores. Além disso, quer implantar nos novos assentamentos o modelo
de condomínio rural com título coletivo para os agricultores. Por outro lado, se nega a retirar os não
clientes da Reforma Agrária que concentram centenas de hectares nos projetos de assentamentos e
impõe dificuldades para mexer no tamanho da grande propriedade ou em desapropriar latifúndios
improdutivos”, (Documento de Circulação Interna, datado de 20 de outubro de 1997).
101

Num outro ponto, o documento alerta para o não cumprimento de acordos anteriores
realizados com o Ministro da Reforma Agrária, onde estava agendada a criação de um conselho de
reforma agrária para região. As vistorias nas áreas a serem desapropriadas, e encaminhamento nos
processos de desapropriação são outras exigências dos manifestantes: “Inúmeros acordos
negociados com o ministro nas duas vezes em que esteve em Marabá e com a própria
superintendência do INCRA não têm sido cumpridos, como a Criação de um Conselho Regional de
Reforma Agrária, vistorias, desapropriação, infra-estrutura nos projetos de assentamento”,
(Documento de Circulação Interna, datado de 20 de outubro de 1997).

A mobilização nas áreas de assentamento e ocupação foi considerada a etapa mais difícil.
Nonatinho, ex-dirigente da FETAGRI, ressalta que as entidades não tinham a experiência nesse tipo
de ação. Havia um temor com a aceitação da proposta nas áreas. A expectativa das organizações era
de três mil pessoas. Segundo o dirigente, primeiro eram feitas as reuniões nas áreas, em seguida
fazia-se uma grande reunião em cada município.
O militante recorda:
“como a nossa idéia era a construção de uma pauta coletiva, facilitou o
nosso trabalho. Naquele ano o coletivo de entidades foi em todas as
comunidades. Fizemos reunião via os sindicatos. Nas reuniões, a
comunidade ia colocando as demandas: estradas, assistência técnica,
crédito. Nas áreas ocupadas queríamos saber se já havia ocorrido a
vistoria, como tava o processo. A FETAGRI não tinha claro o que era o
acampamento. A nossa compreensão era que tinha que se mobilizar.
Depois disso realizamos a reunião por município. Aí a gente fazia a pauta
municipal, e discutia qual a ação que a FETAGRI ia fazer. O primeiro
município que a FETAGRI fez reunião foi Itupiranga. Lá ficou claro que a
gente precisava organizar o acampamento”. (SILVA, entrevista realizada
em agosto de 2003, Marabá, Pará).

Todo acampamento é a mesma história. Uma cidade de lona é erguida às margens
da Transamazônica, no pátio externo do INCRA. Homens, mulheres e crianças chegam dos
projetos de assentamento de todos os municípios do sudeste do Pará. Na cidade coberta de
lona preta, a manutenção é garantida com os mantimentos trazidos da roça. São escolhidas
comissões para cuidar da saúde, segurança, negociação com as instituições, alimentação,
infra-estrutura, comunicação. As barracas são montadas por assentamento ou município.
Como é inviável uma reunião com 10 mil pessoas, nem todo mundo participa das
negociações.
102

A informação da pauta de reivindicação é debatida por grupos de assentados. O
resultado é repassado nas assembléias, através da “Rádio Cipó”, sistema de som montado
dentro do acampamento. Missa, encenação de peças, apresentação musical de artistas da
reforma agrária, som mecânico, ajudam a suportar o desconforto de ficar sob a lona preta
num sol perto de 40ºc. Um telão vez por outra é montado para a exibição de vídeos do
movimento.

Como os rios Tocantins e Itacaiúnas ficam próximos do acampamento, são eles que
acodem para diminuir do calor, e também para lavar a roupa. Nos três acampamentos
anteriores, a Fundação Nacional de Saúde – FNS -, como sempre, registra o elevado índice
de malária. Uma farmácia ajuda nos casos mais simples de saúde. Para ajudar nas despesas,
livros, camisetas e bonés são comercializados na área.

Ao redor do acampamento forma-se uma pequena espécie de feira. Tem gente que
vende água, alimentação, cigarro, pastel, roupa, rede. O consumo de álcool é proibido
dentro do acampamento, mas há um ou outro que dribla o esquema. A segurança é rígida.
Entrada no acampamento só até 21:00h. A solidariedade como valor ajuda a suportar os
dias de calor, as noites de frio.

A região sudeste consta no catálogo da história como referência de luta pela reforma agrária
e de resistência; as experiências dos acampamentos durante os governos de Fernando Henrique
Cardoso na presidência do Brasil e Almir Gabriel no governo do Pará serviram para concretizar
ainda mais o emblema combativo das terras do Araguaia Tocantins.

O ACAMPAMENTO DE 2001

O ano de 2001 é emblemático por alguns aspectos: o recrudescimento da violência contra
lideranças, prisões de dirigentes, várias operações policiais para a desocupação de áreas e a
descoberta de um serviço de espionagem do Exército Brasileiro direcionado para os setores
populares que se empenham na luta pela reforma agrária, meio ambiente e direitos humanos.
103

É um ano em que, por conta do aumento da violência, as entidades populares denunciam o
Estado brasileiro por violação dos direitos humanos junto à Organização dos Estados Americanos -
OEA. Asma Jahangir, relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU), recebeu
denúncias das organizações populares. No ano de 2001 o sudeste contabilizava 336 projetos de
assentamento. Um acréscimo de 246 projetos de assentamentos desde a realização do primeiro
acampamento em Marabá, em 1997. Um crescimento de 273% em quatro anos.

O que se verifica é uma territorialização dos projetos de assentamento, praticamente em
todos os municípios de atuação da superintendência do INCRA de Marabá. É no acampamento de
2001 que os trabalhadores rurais ocupam por 48 horas a Ferrovia de Carajás da CVRD, agora
privatizada. A medida é decidida no mais completo sigilo, por conta da presença de agentes da
inteligência da PF e da PM infiltrados no movimento. No mesmo período, uma companhia do
Exército ocupa o aeroporto de Marabá, após rumores de ocupação do mesmo pelos sem terra.

Período de agendamento de novos grandes projetos para as regiões registraram-se a
organização, por parte dos setores populares do Bico do Papagaio, de inúmeros seminários para se
debater a implantação da hidrovia do Araguaia/Tocantins, das barragens. Foram realizados
seminários em Palmas (Tocantins), Imperatriz (Maranhão), Marabá (Pará). Tais espaços serviram
para aglutinar os diferentes atores e produzir manifestos contrários aos projetos. Nesses núcleos de
discussão foram geradas as cartas de Palmas, Imperatriz, produção de cartilhas e artigos sobre as
questões. É sobre esse campo minado que surge o Movimento Pela Preservação dos Rios
Araguaia/Tocantins –MPTA, com núcleo mais atuante no Tocantins. Nesse sentido, podemos
observar que além das questões imediatas e específicas de cada ator da região, emerge uma
inquietação sobre a questão ambiental e sobre a ausência de políticas públicas nesse sentido.

O acampamento de 2001 teve a duração de 30 dias (abril a março) e se estabeleceu na Praça
do Mogno, em frente à superintendência regional do Incra. A data do protesto, 17 de abril, está
relacionada ao aniversário de cinco anos do massacre de Eldorado do Carajás. Assentados ligados a
FETAGRI, regionais sul e sudeste do Pará engrossam o acampamento.

Na pauta de negociação com o INCRA estão: o aumento de recursos para a reforma agrária,
decreto imediato de desapropriação de fazendas ocupadas, definição do Programação Operacional
(PO). A ação de massa, que já entrou para a história de luta pela reforma agrária, inclui negociação
com Banco da Amazônia - BASA e INSS. Com o BASA a pauta elege a liberação de recursos do
PRONAF, emperrada pela burocracia do banco. Com o INSS, a questão é a política de
104

aposentadoria dos trabalhadores rurais, ao contrário da pauta do primeiro de 1997, que abrigava
questões relacionadas somente com o INCRA. Se na experiência inaugural realizada em 1997 as
reivindicações se concentravam somente na questão agrária, nos anos subseqüentes percebe-se a
ampliação da mesma para o conjunto de órgãos que, de alguma forma, possuem relação com as
demandas do campo.

A negociação mais delicada apontada pelas entidades populares é com o Incra. Foi o
movimento do campo que conseguiu alterar um pouco a agenda do governo federal, que deu
visibilidade internacional à delicada situação em que vive o trabalhador rural brasileiro. É a partir
desse marco histórico que o governo federal mostra-se hábil na expedição de liminares de
reintegração de posse de latifúndios, expedidas em tempo recorde pela Justiça, ao mesmo tempo em
que agiliza o processo de criminalização de lideranças. Uma comissão da CPI do latifúndio, em
Manaus, descobre o que os movimentos sociais denunciam há séculos, que o latifúndio é construído
com fraudes em cartórios. No Pará, estima-se que 80% dos títulos de terras sejam frutos de fraudes.

O acampamento reúne homens, mulheres e crianças de 336 áreas de assentamento,
provenientes dos municípios da região que abandonam suas roças para a luta pela vida, pela
dignidade, pelos direitos elementares como trabalho, crédito, assistência técnica. A pé, de ônibus,
garimpeira (apelido de caminhonete que faz transporte na zona rural), caminhões, tudo serve como
transporte. Sob a lona preta do acampamento convivem diversas categorias da luta pela reforma
agrária: trabalhadores rurais sem terra, posseiros, assentados filiados ou não às organizações de
representação como FETAGRI e MST.

No cenário de conflito alguns atores podem ser identificados. Em primeiro lugar a recente
expansão capitalista experimentada a partir da privatização da CVRD, o Estado como
desregulamentador de barreiras jurídicas e políticas para a expansão do capital, além de exercer o
papel de agente coercitivo. Ainda na mesma fronteira podemos encontrar a modernidade com o
discurso de um desenvolvimento regional. Se na década de 1970 a ordem era integrar a região ao
resto do país, em 1980, com início do funcionamento da Ferrovia de Carajás, integra-se a região ao
mundo, através do extrativismo mineral.

Na outra ponta do cenário se ergue como ator discordante da antiga lógica de colonização,
com novo verniz, posseiros, entidades de direitos humanos, trabalhadores (as) rurais sem terra,
religiosos, aglutinados num espaço público – a praça da superintendência do INCRA de Marabá.
105

O acesso à terra mediante a criação dos projetos de assentamento não se desenvolve sem
conflitos, pontos de tensão. Além da violência como um espectro presente, não tem sido possível
nem por parte do órgão público, nem das entidades ligadas à questão camponesa, controlar a
clientela da reforma agrária. Não é raro, em particular na região de Eldorado dos Carajás, ocorrerem
denúncias de compra de lotes por comerciantes, fazendeiros e madeireiros, que acabam construindo
em áreas destinadas aos sem terra, as médias e até grandes propriedades.

A FALA DO POVO

Muitos estudiosos de diferentes linhas de investigação se debruçaram e ainda se debruçam
na elaboração de estudos sobre a região. O interesse da observação de vários pontos de vista, os
trabalhadores (as) rurais, apesar de amplificação modesta, cunham suas formas de registro e
observação do que erguem. São canções, cordéis e poesias.
O dirigente sindical de Santa Maria das Barreiras, “Ceará”, batizado como Francisco Valter
Pinheiro, assentado do PA Agropecus, é um cordelista por excelência. No momento do
acampamento de 2001 em Marabá, observou alguns movimentos da ação, registrada em literatura
de cordel intitulada: Acampamento de 2001: a história construída e contada pelo trabalhador
rural. (PINHEIRO, 2001).
A composição de CEARÁ aglutina as diferentes fases do processo de acampamento.
Aborda a organização das comissões internas, a postura arrogante que costumam ter os
representantes do Estado em relação ao camponês. O poeta reflete sobre a ação da polícia, da
Justiça, das autoridades do INCRA. Abaixo seguem alguns momentos.
Sobre a chegada dos trabalhadores rurais de diversos municípios, assim registra PINHEIRO
(2001, p.01):
“Naquela reunião
Tinha gente de toda banda
De São Domingos e de São João
De Marabá e Itupiranga
Veio gente de São Félix
Para o caldo engrossar
De Conceição e do Peba
De Bannach e Jacundá
Xinguara e Canaã
Palestina, Brejo Grande
106

De Ipixuna e Tucumã“.

A ação coletiva é assim notada por PINHEIRO (2001, p.02):
Toda a representação
Veio por merecer
Tava as associações
A Fetagri e a CPT

Lembrando bem desta data
Para eu não esquecer
O sindicato também tava
Junto com o MST

Sobre a confluência entre a FETAGRI e o MST, nas entrevistas que realizamos junto aos
dirigentes, representantes das entidades destacam o fato de que esta é uma das poucas regiões em
que ocorre a realização de ação conjunta entre o movimento sindical e o MST. Já sobre o processo
de negociação, o poeta dirigente registra:

Estava o seu Geraldo
Que é da Fetagri Sul
Olhando o movimento
Disse: ”hoje vai dar cumbú
Daqui nós não tira nada
Desse bando de urubu”

A ocupação da Ferrovia de Carajás é notada por PINHEIRO como um ato de bravura:
Aqueles homens ali
São homens muito direito
Não teme nem a morte
Vão morrer de qualquer jeito
Entre morrer de malária
Ou com uma bala no peito.

A IMPUNIDADE É A REGRA?
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A concentração de terras, perseguição, execução e criminalização de entidades dos
trabalhadores rurais e dirigentes têm colaborado na construção da História de luta pela terra no
Brasil. O sudeste do Pará é responsável por capítulos sangrentos desse enredo, muitas vezes tratado
como natural. Se a Justiça dista em demasia dos anseios dos camponeses, os mesmos seguem a criar
formas de pressão contra a omissão do Estado.

No ano de 2003, entre os dias 27 a 30 de outubro o MST, CPT, FETAGRI e CESE
promoveram o Tribunal Internacional dos Crimes do Latifúndio do Pará, um expediente similar ao
Tribunal da Terra fomentado em 1988, numa tentativa de pressionar as autoridades e a opinião
pública nacional e internacional, sobre a impunidade dos crimes ocorridos contra dirigentes
sindicais e assessores envolvidos na luta pela reforma agrária no Pará.

O evento, realizado em Belém, contou com a presença de representantes nacionais e
internacionais em defesa dos Direitos Humanos e da luta pela reforma agrária, como João Pedro
Stédile, líder do MST, D. Tomás Balduíno coordenador da CPT nacional, e o padre Ricardo
Rezende, ex-coordenador da CPT de Conceição do Araguaia, autor de dois livros sobre a região, o
que não sensibilizou o principal grupo de comunicação do Estado, O Liberal, a pautar o Tribunal.
Ou quando o fez, fez de forma enviesada, através de entrevista com a representante do Tribunal de
Justiça do Estado, a desembargadora Maria de Nazaré Brabo, que proferiu um discurso no intuito de
desqualificar a iniciativa, argumentando que o Estado não necessitava de iniciativas simbólicas.

Até que um pistoleiro ou mandante de crimes contra dirigentes sindicais e assessores da luta
pela reforma agrária venha a sentar no banco dos réus, a via crucis é demasiadamente longa. A
associação internacional, que atua junto a entidades ligadas à luta pela defesa dos direitos humanos,
de forma a pressionar o Estado, tem sido uma estratégia constante. Assim, se conseguiu levar ao
banco dos réus os casos de Expedito Ribeiro, João Canuto e João Batista, e no dia 28 de abril de
2004, o caso da Irmã Adelaide.

No caso de Expedito Ribeiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio
Maria, morto no dia 02 de fevereiro de 1991, o julgamento do mandante ocorreu depois de 11 anos.
Jerônimo Alves Amorim, 61 anos, fazendeiro que encomendou a morte do dirigente, foi a
julgamento no dia 06 de junho de 2000, quando foi condenado por seis votos a um, a 19 anos de
reclusão. Atualmente cumpre prisão domiciliar alegando problemas de saúde em Goiânia, Goiás. O
fazendeiro passou cinco anos com prisão preventiva decretada (1994/1999), e apesar de domicílios
108

no Pará e Goiás, nunca havia sido preso. Até no dia 22 de novembro de 1999, quando foi preso pela
Polícia Federal no México, com documentos falsos, numa estação de férias em Cancún num
transatlântico, segundo documento do Comitê Rio Maria.

Nos anos de 1994 e 1995 são levados a julgamento o intermediário, um gerente da fazenda
Nazaré, de Jerônimo Amorim, Francisco de Assis Ferreira, o “Grilo” e o pistoleiro e executor da
morte de Expedito Ribeiro, José Serafim Sales, o “Barreirito”, condenados a 21 e 25 anos de prisão,
respectivamente. Barreirito fugiu da cadeia de Marabá no dia 14 de março de 2000, antes do
julgamento de Jerônimo Alves Amorim, o primeiro fazendeiro a ir a julgamento na história na
região. O documento do Comitê Rio Maria narra o favorecimento na fuga do pistoleiro para que ele
não prestasse depoimento.

João Batista era advogado e deputado estadual, e fazia assessoria a trabalhadores rurais. Foi
morto no dia 06 de dezembro de 1988, em Belém, pelo pistoleiro Péricles Ribeiro. As suspeitas de
mando recaem sobre o fazendeiro José Martins, que foi despronunciado do processo pelo Tribunal
de Justiça do Estado. O julgamento do pistoleiro ocorreu em maio de 2001, quando Péricles Ribeiro
foi condenado a 30 anos.

Após 17 anos e cinco meses, às 18.35h da tarde do dia 23 de maio de 2003, depois de dois
dias de julgamento, no Tribunal do Júri de Belém, Pará, Roberto Moura (o mesmo do caso Eldorado
do Carajás), Juiz da 1ª Vara Penal pronuncia a sentença de 19 anos e 10 meses de prisão a Adilson
Carvalho Laranjeira e Vantuir Gonçalves de Paula, dois dos cinco fazendeiros acusados de
mandantes do assassinato do presidente do sindicato de Trabalhadores Rurais de Rio Maria, João
Canuto de Oliveira. Dezoito tiros disparados por dois pistoleiros não identificados mataram Canuto,
há 17 anos e cinco meses, no dia 18 de dezembro de 1985, às 15:30h, em frente ao cemitério da
cidade. O primeiro presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria integrava o
Partido Comunista do Brasil (PC do B). Ovídio Gomes Oliveira, Jurandir Pereira da Silva e Gaspar
Roberto Fernandes, fazendeiros da região também acusados de organizarem a execução do
sindicalista, estão foragidos.
Na platéia, Luzia Canuto, coordenadora do Comitê Rio Maria, organização que luta por
justiça pela morte de militantes da reforma agrária, comemora ao lado da mãe, dona Geraldina, de
65 anos, e o irmão Orlando, sobrevivente de seqüestro cinco anos após a execução do pai, onde dois
irmãos, José e Paulo foram mortos. Orlando hoje preside a Câmara Municipal de Rio Maria.
109

O julgamento dos acusados da morte de João Canuto entra para a história por três motivos:
primeiro, pelo fato de ser a sétima vez que acusados de envolvimento de morte de animadores da
reforma agrária vão ao banco dos réus; e o segundo, por conta das brechas da Lei, que
possibilitaram que os dois fazendeiros condenados se escudassem no direito de recorrem em
liberdade, por serem primários e “gozarem de bons antecedentes”, e por último, pelo fato de, ao
lado de Jerônimo Alves Amorim, fazendeiro que mandou executar Expedito Ribeiro, somarem o
número de três fazendeiros a irem a julgamento.

O desejo de dona Geraldina era vê-los saírem algemados direto para a cadeia. Ainda assim,
perto de 600 trabalhadores rurais acampados desde o primeiro dia do julgamento festejaram a
sentença com festa e música.

Em que pese o desenrolar dos julgamentos, as entidades representativas ou de apoio seguem
empenhadas em levar ao banco dos réus pistoleiros, militares e fazendeiros envolvidos na disputa
pela terra. Assim, no dia 28 de abril, de 2004, às 8:00 horas da manhã, no Teatro Municipal
localizado na Rua Maranhão, em Curionópolis, vai a julgamento José de Ribamar Rodrigues Lopes,
acusado da morte da freira irmã Adelaide Molinari, morta na rodoviária de Eldorado do Carajás, no
dia 14 de abril de 1985, doze anos depois. O acusado foi preso na cidade do Rio de Janeiro em julho
de 2003.
A morte da religiosa oriunda de Garibaldi, Rio do Grande do Sul, foi um acidente. O alvo
era o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Eldorado do Carajás, Arnaldo Delcídio
Ferreira, que conversava com a irmã na hora do atentado. Arnaldo foi assassinado oito anos depois.
A bala que matou a irmã que coordenou a primeira Comunidade Religiosa da Congregação Filhas
do Amor Divino do Pará, atravessou o corpo do sindicalista e acertou o pescoço da religiosa. Irmã
Adelaide desenvolvia trabalhos junto às mulheres e entidades populares em Eldorado do Carajás e
Curionópolis.
Devido à impossibilidade de acessar mais informações, aqui ficarão em aberto mais
detalhes dos julgamentos ocorridos nos anos de 1992 e 1996 do mandante da morte do advogado,
militante e deputado pelo PC do B, Paulo Fontelles, morto no dia 11 de julho1987. Já sobre o
massacre de Eldorado do Carajás, este daria vários livros. A propósito, pela passagem dos dez anos
do Massacre em 2006, Eric Nepumuceno lança um livro reportagem.

É possível falar em territorialização camponesa no sudeste do Pará; ao se considerar que até
o ano de 2005 o número de projetos de assentamentos beira os 400, poder-se-ia afirmar que sim.
110

Mas o bom senso sugere que antes se investigue a trajetória de luta de pela terra nessa região.
Apesar do reconhecimento por parte do Estado dos PA´s , na contramão segue o processo de
conferir à esfera da Justiça e militar o processo de luta camponesa. As reiteradas liminares de
reintegração posse e operações da polícia na expulsão de áreas ocupadas ajudam a cristalizar a
observação. No início de 2005, numa caneta só o juiz da Vara Agrária de Marabá, Líbio Araújo
Moura, expediu 50 liminares de reintegração de posse, numa operação da PM prevista para durar
três meses. Notas da CPT e Fetagri denunciam que lavouras e barracos são queimados durante a
ação da PM, o Estado desmente dizendo que tudo ocorre na santa paz. No cardápio de reintegração
de posse, mesmo áreas já vistoriadas pelo INCRA e avaliadas como improdutivas, ou já com
processos de desapropriação encaminhados, costumam constar no listão da Justiça.

“Como dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
embora o pão seja caro
e a liberdade pequena”.

Ferreira Gullar
Dois e Dois: Quatro

Uma das estratégias de luta adotadas na defesa do Cerrado e em outras batalhas
encampadas na região do Araguaia-Tocantins é o uso de meios alternativos de
111

comunicação9 para contrapor o discurso da grande mídia, ou da imprensa local, submetida
aos interesses do coronelismo eletrônico. Esta experiência começou a ser aberta nos anos de
chumbo do regime militar e teve como pólo significativo a cidade de Marabá, localizada no
sudeste paraense e considerada o centro político e econômico da região.
Um arquivo do Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular
(Cepasp), Organização Não-Governamental de Marabá, engajada na luta de apoio aos
movimentos sociais e à causa da reforma agrária guarda parte da memória desta luta em
boletins como A Arca, O Mandi, Bafo de Bode, Ouriço, Cupim, O Artista e
Informativo da PA 150.
Exceto o Bafo de Bode, que teve duas edições no ano de 90, todos os boletins
datam da década de oitenta, quando começaram a ser implantados no coração da Amazônia
grandes projetos como a construção da Hidrelétrica de Tucuruí, e inauguração da Ferrovia
de Carajás, que liga a reserva mineral, no sudeste do Pará, ao Porto da Ponta da Madeira em
São Luís, Maranhão. Como todo produto jornalístico, estes boletins, muito deles elaborados
na clandestinidade, registram fatos importantes da história da região.

Bafo de Bode lançado em 1990 e o Boletim Arca, única edição, setembro de 1982, boletim dos atingidos
pela barragem de Tucuruí, sudeste do Pará.

Máquina de escrever, colagem, fotos, cartuns, xerox ou mimeógrafo e uma dose
de coragem eram algumas das ferramentas usadas para a produção dos boletins. Os

9
Parte significativa do presente texto foi usada sem a citação da fonte, como segundo capítulo do trabalho de conclusão
de curso (TCC) de História da Universidade Federal do Pará, pelo senhor Robério Melo Lima. O TCC de 2003 foi
batizado de Panfletos e transmissores: experiência de comunicação popular em Marabá.
112

formatos são variados. Há os de folha de chamex dobrada ao meio, há os tablóides. Assim
como variam os formatos, variam os números de páginas e conteúdos.
A freqüência, como sempre acontece nessas experiências, é marcada pela falta
de continuidade, requisito fundamental para sobrevivência de qualquer projeto na área da
Comunicação. Apesar das limitações e dos percalços próprios do cotidiano no qual foram
produzidos, estes informativos são o ponto de partida para que se tenha um panorama da
experiência de comunicação popular em Marabá e em outras cidades da região.
Um destes informativos, surgido para documentar a luta dos trabalhadores
rurais remanejados com a formação do lago da hidrelétrica de Tucuruí, A Arca é uma
referência ao episódio bíblico do dilúvio, quando por quarenta dias e quarenta noites a terra
padeceu com intensa chuva. E sob a ordem divina Noé construiu uma arca onde deveria
colocar casais de animais e a sua família para a construção de um novo mundo.
No caso de Tucuruí, cidade do sudeste paraense banhada pelo caudaloso rio
Tocantins, A Arca registrava um dilúvio sem final feliz e com muitos problemas para os
camponeses removidos para a construção da barragem. Assim explica o primeiro exemplar
do boletim. A usina, que se encontra em fase de duplicação, foi construída para fornecer
energia subsidiada para empresas de alumínio situadas em São Luís do Maranhão
(ALUMAR/ALCOA) e Barcarena, no Pará.
Composto de 34 páginas dispostas em formato ofício, o número 01 do boletim,
datado de setembro de 1982 a janeiro de 1983, registra o acampamento de 400
trabalhadores rurais em frente ao Serviço de Patrimônio e Indenizações –SPI - da
Eletronorte, ocorrido entre os dias 09 e 11 de setembro. No mesmo período, no município
de Ronda Alta no Rio Grande do Sul, era erguido o embrião do principal movimento
camponês da história recente do Brasil, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
(MST).
O boletim sem expediente é assinado pelo Movimento dos Desapropriados pela
Eletronorte - Barragem de Tucuruí, onde figuram as comissões de moradores de
Repartimento, Colônia de Mojú, Itupiranga e Tajiri. Também assinam o boletim a
Delegacia Sindical de Repartimento, Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Tucuruí e o
Sindicato de Jacundá. No apoio aparecem a CPT de Cametá e a Confederação Nacional
dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG).
113

Dando grande destaque para as fotos, o Arca traz documentos como a pauta de
reivindicações, onde os trabalhadores rurais a serem atingidos pela lago da usina exigiam
áreas de 21 alqueires para lavoura, casas, vilas, recuperação dos prejuízos e indenizações
justas. Passados 23 anos, ainda hoje há pessoas que reclamam reposição de prejuízos em
acampamentos.
Uma nota de esclarecimento do movimento dos atingidos pela barragem
divulgada no jornal denunciava a postura autoritária da Eletronorte. Entre as denúncias,
constava que os colonos foram obrigados a assinar folhas em branco e que sofriam ameaças
morais e físicas para que recebessem as indenizações sem reclamar. A insuficiência da
indenização também é apontada pelo movimento, que denuncia o tratamento militar dado à
questão agrária. Com a região transformada em Área de Segurança Nacional, criou-se o
Grupo Executivo de Terras Araguaia Tocantins (GETAT), que recebia uma atenção
especial do boletim.
Ao comentar sobre a ação do GETAT no trato com os camponeses, A Arca
ressalta que um dos motivos alegados para a não disponibilização da área, solicitada por
cerca de quatro mil trabalhadores rurais afetados pela barragem de Tucuruí, é de que não
existiam muitas terras disponíveis na região.

Com duas edições na década de 90, o boletim Bafo de Bode era apócrifo, por
uma questão de segurança. Em uma terra onde tiros são o argumento mais comum para
cercear a liberdade de imprensa, ninguém assinava o conteúdo radical, contestatório e de
denúncia do “Bafo de Bode”. No expediente, era informada apenas a tiragem, 2.500
exemplares.
A escolha do anonimato era uma forma de preservar a vida dos seus autores. O
“Bafo de Bode” circulava em uma época marcada pelo total domínio da pistolagem, que
tinha como alvos preferidos lideranças sindicais, religiosos, advogados ligados na luta pela
reforma agrária. Sua linha editorial enfocava problemas relacionados com o campo e a
cidade e não poupava a inércia da Câmara de Vereadores de Marabá.
Na edição de número 02, do dia 28 de janeiro de 1990, o Bafo disparava contra
os vereadores:
“Depois de muitos atropelos dos vereadores, sem saberem como fazer
uma Constituição Municipal, agora chegam ao pior, o grupo de oito
vereadores da ala “baforida” do prefeito não comparece às sessões,
114

boicota o regimento interno aprovado por ela mesma. Vamos repetir os
nomes deles: Guido Mutran, Emerson, Reinaldo Zucatelli, Antônio
Cabeludo, Evaldo Bichara, Elza Miranda, Manoel do Nilo e o vendido
Maurino Magalhães. (Bafo de Bode, 1990).

O informativo também demonstra preocupação com a onda de violência que
assola a região. Nesta mesma edição são noticiadas as ações do pistoleiro Sebastião da
Terezona:

“Ainda na audiência que houve em Marabá no processo contra o
afamado pistoleiro da região, Sebastião da Terezona, o mandante e
executor da chacina de Ubá, Edmundo Virgulino, foi o interrogado desta
semana. Nessa chacina teve nove mortos, incluindo a criança por
nascer.”

Em uma linguagem direta e sem rodeios, o Bafo põe o dedo na ferida e ao
noticiar a audiência de um processo que apura o assassinato de trabalhadores rurais, aponta
a UDR (União Democrática Ruralista), entidade que congrega os latifundiários do país,
como a grande financiadora da pistolagem:

“Também teve a audiência do processo que ocorre contra Marlon Pidde,
que assassinou cinco lavradores na região do Itacaiuanas, os quais
tinham recebido terras do Grupo Executivo de Terras do Araguaia
Tocantins (GETAT). Quem foi a testemunha? Adivinhem! Só podia ser o
chefe da UDR de Marabá. Todos nós sabemos que é a UDR que mais
financia assassinatos de lavradores no Brasil.”

Editado no mesmo período em que circulou o “Bafo de Bode, o informativo
“Olho Vivo” tinha como público-alvo as pessoas que militam nos movimentos populares
urbanos. A cidade, que se consolida a cada dia como a principal das regiões sul e sudeste
do Pará, é solo fértil para projetos na área de comunicação popular. No bairro de Santa
Rosa, um dos primeiros a ficar alagado, durante as cheias do Tocantins, a associação de
moradores chegou a editar o Expressão Popular no ano de 1997, única edição.

O OUTRO LADO
A principal função destes informativos era reportar o outro lado de histórias,
contadas de forma deturpada na imprensa local. O informativo Cupim, órgão de
comunicação da Associação dos Trabalhadores em Educação, registra em uma de suas
115

edições, datada de setembro de 1981, a luta pela melhoria das escolas públicas no Estado
do Pará. Nesta edição são denunciadas as péssimas condições de infra-estrutura da escola
em Palestina do Pará, onde os alunos não possuíam carteiras, e usavam o chão como
assento.
Em novembro de 1981, saía do forno a edição de número quatro do boletim O
Artista, Órgão de Comunicação da Arte e da Cultura Marabaense, estruturado em nove
páginas, e dividido em onze sessões. O jornal noticiou a primeira apresentação do Grupo de
Teatro Maget, a inauguração da ponte sobre o rio Itacaiuanas, além da presença da
biblioteca do Projeto Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização), criado pelo regime
militar para promover a educação de jovens e adultos.

Edição do Mandi, 1981, preocupação com o meio ambiente e o boletim do Cepasp, edição de nº06, lançado
em setembro de 1988.

Contrapondo-se à euforia divulgada com o anúncio de grandes projetos
voltados para a região, O Mandi entrou em cena em maio de 1981 e já em seu primeiro
editorial destacava a preocupação com o modelo de desenvolvimento implantado na
Amazônia. O informativo tinha o nome de um peixe pequeno, muito comum nas águas do
rio Tocantins. O peixe usa de dois esporões para se defender dos predadores e os nativos da
região o consideram saboroso no leite de coco ou frito. O boletim de 12 páginas era
composto por textos, entre editorial, crônicas, notas e artigos, e tinha uma linha editorial tão
afiada quanto o esporão do peixe que originou seu nome.
Ao comentar sobre as linhas de crédito concedidas aos fazendeiros do centro sul
do país, o Mandi alertava para os problemas ambientais e sociais derivados desta medida:
116

“Fazendeiros receberam milhões de cruzeiros para a implantar projetos
pecuários, sem assumir – em troca desses créditos especiais – qualquer
responsabilidade com a sociedade brasileira. As fazendas são
implantadas por “gatos’ (agentes que contratam peões), com o massacre
da floresta, a queima indiscriminada da terra, o gado criado como Deus
criou o macaco.

Assim como o “Bafo de Bode”, o “Mandi” não continua expediente. No
entanto, os artigos eram assinados e, quando eram obtidos de outras fontes fora da região,
tinham seus créditos divulgados.
Em 1988 começa a circular o boletim do Cepasp que, ao contrário de seus
antecessores, teve uma continuidade maior e circulou durante onze anos. O boletim nasceu
com a preocupação de se criar um veículo de comunicação que publicizasse as demandas
populares do campo e da cidade. Assuntos como meio ambiente, violência, política,
alimentavam o conteúdo do informativo, que quando começou a ser editado, seguia uma
lógica de composição semelhante aos informativos pioneiros: uso de máquina de escrever,
colagem, gravuras, cartuns, ajudavam a aliviar a carga de textos.

CEPASP – o boletim circulou por mais de uma década.

Na edição de número 29, que correspondia ao período de agosto a dezembro de
1992, divulga-se matéria questionando a presença da Companhia Vale do Rio Doce
(CVRD) na região e denunciando a forma autoritária como a companhia determinava suas
117

ações. Na matéria veiculada sobre a CVRD, a população de Marabá é alertada de que a
estação de trem para passageiros, instalada pela empresa, fica seis quilômetros distante do
centro da cidade.
Neste mesmo número as ações do MST na região são contadas através da
história de um acampamento na sede do INCRA que durou cinco meses e teve a
participação de 320 famílias de trabalhadores rurais que romperam o grilo da fazenda Rio
Branco, localizada a 40 km do município de Parauapebas. Durante o acampamento, cinco
crianças morreram de desidratação e doenças respiratórias.
Saindo de cena em 1999, após mais de uma década de circulação, o informativo
do Cepasp é um marco histórico na iniciativa de comunicação popular, e só deixou de ser
produzido por conta dos problemas financeiros que afetaram a entidade. Além do boletim,
o CEPASP mantém em seus arquivos registros importantes da história da região
direcionados para a questão do meio ambiente e com foco em temas como instalação de
grandes projetos, direitos humanos e educação popular.
O CEPASP conta ainda com um acervo de fitas de vídeo e slides. Além do
boletim, a entidade produziu várias cartilhas, folders, livros e outras publicações, tendo
contribuído ainda com produções realizadas pelo Fórum Carajás. Freqüentemente o
CEPASP é citado como fonte de referência em várias publicações de pesquisadores
nacionais e internacionais.

LUTAS E LÁGRIMAS
A regional sudeste da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Pará
(FETAGRI), sediada em Marabá, também editou quatro números de um jornal tamanho
tablóide. O primeiro número foi produzido em caráter de urgência em abril de 1999,
quando a entidade promovia, ao lado do MST e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), o
segundo grande acampamento de trabalhadores rurais em Marabá, onde fica a sede regional
do INCRA.
Como os diretores desconheciam os processos de definição das matérias,
produção, revisão final, editoração, a tarefa tornou-se árdua e somente após vararem uma
madrugada trabalhando na sua elaboração, conseguiram colocar o informativo na rua.
118

Nesse primeiro número, o boletim trazia na matéria de capa um alerta sobre a
política de reforma agrária do governo de Fernando Henrique Cardoso, cuja manchete
anunciava: “Governo quer acabar com a reforma agrária”. Na foto central, destaque para o
dirigente Francisco D´Assis Soledade, eleito vice-prefeito de São Domingos do Araguaia
na eleição de 2000. D´Assis foi o primeiro presidente da Fetagri sudeste do Pará. Naquele
ano a região registrava somente 219 projetos de assentamento, distribuídos em 39
municípios. Hoje são cerca de 400 assentamentos, trata-se da principal concentração de
projetos de assentamento do país.
A matéria de capa denunciava a municipalização da reforma agrária, vez que os
recursos iriam passar pelos conselhos municipais, e não mais pelos clientes da reforma
agrária, os trabalhadores rurais. A mesma matéria anunciava ainda o fim do Programa de
Crédito Especial para a Reforma Agrária (PROCERA).
Uma matéria interna chamava atenção para o Grito da Terra Brasil, um protesto
nacional para alertar sobre as questões da reforma agrária. No caso amazônico, a
reivindicação recaía sobre a necessidade de mudanças no Fundo Constitucional do Norte
(FNO). Continha ainda um alerta sobre os três anos do Massacre de Eldorado do Carajás e
denúncia sobre superfaturamento nos processos de desapropriação das Fazendas Flor da
Mata, localizada em São Félix do Xingu e Oito Barracas, na cidade de São Domingos do
Araguaia. Nesta edição registra-se uma nota sobre a nova direção da Fetagri, apontando o
nome de José Dutra da Costa (Dezinho), dirigente sindical de Rondon do Pará assassinado
no ano seguinte.
119

EDIÇÃO ESPECIAL

FETAGRI – a manchete que anuncia a morte de Dezinho, mais uma vítima da impunidade do Estado.

A morte de Dezinho ocupou todo o espaço do boletim da Fetagri, editado em
dezembro de 2000. Na capa, o boletim traz uma foto do dirigente sentado com as mãos
entrecruzadas, os olhos apertados, como se quisesse se proteger do sol, e a apresenta a
manchete: “A luta pela reforma agrária é maior que a morte”.
Alguns momentos marcantes da luta, que tinha em Dezinho um de seus
militantes, também foram registrados no Boletim, que na edição de número três, datada de
julho de 2000, teve sua matéria de capa destinada à realização de um acampamento de
trabalhadores rurais na sede do INCRA de Marabá. O motivo do acampamento era garantir
acordo firmado no mês anterior durante o Grito da Amazônia 2000, uma versão do Grito da
Terra regionalizado.
Uma das referências na luta pela Reforma Agrária, “Dezinho” foi assassinado
na porta de casa, tendo os filhos como testemunhas de sua execução e até hoje o caso
continua impune. Todos os acontecimentos que contribuíram para este desfecho são
narrados na edição especial do Boletim da Fetagri, em uma reportagem marcada por temas
contundentes como a soltura do principal acusado de ser o mandante do crime, determinada
120

pelo desembargador Otávio M. Maciel, que tomou esta decisão após cometer uma sucessão
de equívocos, considerados erros primários, do ponto de vista jurídico, sendo o mais
gritante de todos a desconsideração dos motivos que levaram à prisão do acusado.

CUPIM, nº0, lançado em 1981 e o Ouriço, nº 03, lançado no dia 20 de outubro de 1979.

Após sua aposentadoria, Otávio Maciel, conhecido também pela extrema
agilidade em expedir mandados de reintegração de posse de áreas ocupadas por sem terra,
recebeu do atual governador Simão Jatene (PSBD) o cargo de Ouvidor Agrário do Estado.
Antes mesmo da morte de Dezinho, o boletim da Fetagri, em sua segunda
edição, publicada no ano de 1999, já denunciava a onda de impunidade e violência que
assombrava a região, ao mesmo tempo que alertava ao Ministro da Justiça, na época Renan
Calheiros, sobre a existência de uma lista com dezoito nomes de pessoas envolvidas na luta
pela reforma agrária e que estavam marcadas para morrer. Além de fazer denúncias, o
informativo da Fetagri também registrava as conquistas obtidas na luta pela Reforma
Agrária.
A segunda edição do impresso, datada de junho 1999, tem uma capa
apologética, com a seguinte manchete: “Fetagri arranca 65 milhões do governo federal”. O
conteúdo da reportagem indica as alterações nos números dos valores dos créditos para a
reforma agrária: a questão fundiária teria o orçamento de R$ 30 milhões, que através da
pressão dos trabalhadores rurais, foi aumentado para R$ 65 milhões. Esta mesma luta
121

garantiu a ampliação das verbas destinadas aos assentamentos, que pularam de R$ 19
milhões para R$ 49 milhões.

Nesta mesma edição, o boletim da Fetagri noticiava pela primeira vez a ida ao
banco dos réus de um mandante da morte de dirigente sindical. O réu, no caso, era
Jerônimo Alves de Amorim, 61 anos, responsável por ordenar a morte de Expedito Ribeiro,
sindicalista de Rio Maria. O fazendeiro foi condenado a 19 anos e seis meses de cadeia.
Apesar de uma decisão histórica, hoje o fazendeiro cumpre prisão domiciliar no estado de
Goiás, alegando motivo de saúde. O fazendeiro foi preso pela Polícia Federal quando
passeava no México e usava documentação falsa.

Além da mídia impressa, a cidade de Marabá também registra experiências na
área do audiovisual. Em 1993, através de uma iniciativa da Fase (Federação de Órgãos para
Assistência Social e Educacional –FASE), foi criado na cidade o núcleo da Associação
Brasileira de Vídeo Popular – ABVP.

O objetivo deste núcleo era mobilizar as comunidades através da linguagem
audiovisual, consolidando uma produção regional que envolvia a participação de
associações de moradores, pastorais e sindicatos.
Com a finalidade de qualificar o grupo, uma oficina de produção de vídeo foi
realizada em Marabá e, no ano de 1997, foi adquirida uma ilha de edição, além de um telão,
uma kombi e diversas câmeras. Esta infra-estrutura foi adquirida para a implantação projeto
“TV de Rua”, que acabou sendo abandonado. Outra experiência na área de comunicação
popular, ocorrida na região e também inserida no contexto da mídia eletrônica foi a criação
da Rádio Comunitária Alternativa FM, organizada a partir de 1996 e fechada pela Agência
Nacional de Telecomunicações (ANATEL) e pela Polícia Federal em outubro de 2001.

CONTRAPONTO NA REDE...
A luta dos povos do Araguaia-Tocantins também ecoa em outro tipo de mídia
de caráter mais globalizado: a internet. Durante três anos, entre 1999 e 2002, circulou pela
rede mundial de computadores o ”Contraponto”, um boletim eletrônico surgido em 1999
em um seminário sobre comunicação popular, realizado no Centro de Formação
Cabanagem, em Marabá.
122

Fazendo um jornal popular- cartilha produzida pelo Cepasp e o Informativo da PA-150, lançado em 1980.

O boletim, com custo de produção menor e distribuição mais rápida, viabilizada
pela internet, é uma das primeiras iniciativas do projeto que pretende se consolidar no
Núcleo de Comunicação Popular das Entidades Populares do Sudeste do Pará.

Em três anos, o “Contraponto” teve cento e dezessete edições. Na pauta, temas
como a agenda das entidades, denúncia de violação dos direitos humanos, e questões
ambientais. Distribuído para cerca de mil endereços eletrônicos, O “Contraponto”
circulava por universidades, pesquisadores, meios de comunicação do Pará, e dentre os
principais meios de comunicação do país, correspondentes internacionais, organizações
populares do Estado, sindicatos, ong´s e partidos políticos.
Entre as edições, figuram algumas produzidas a partir de pautas especiais, como
a edição de número cem, que foi dedicada aos quarenta anos de militância pela reforma
agrária de Manoel Conceição Santos.
Em 2001, apoiado em material organizado pela CPT de Marabá, entregue para a
Comissão de Direitos Humanos (CDH), do Congresso Nacional, o Contraponto promoveu
uma edição especial sobre a retomada da violência no sul e sudeste do Pará.
Este trabalho gerou reportagem especial do Jornal do Brasil, Rio de Janeiro,
durante uma semana, e a publicação do mesmo material na revista carioca Cadernos do
Terceiro Mundo, que circula em todo o Brasil e países da América Latina. Ao longo de sua
123

jornada o boletim se consolidou como a principal fonte de informação para além-fronteiras
das regiões sul e sudeste do Pará.

Interface do site www.bicopapagaio.hpg.com.br

Além do Contraponto, outro espaço de divulgação das lutas travadas nesta
região é o site das entidades populares do Bico do Papagaio, que abrange o norte do
Tocantins, sudeste do Pará e oeste do Maranhão e cujo endereço é:
www.bicopapagaioam.hpg.com.br. Inaugurado em fevereiro de 2003, o site traz dados
sobre as entidades que atuam nesta luta, mapas, artigos, fotos e sugestão de publicações.
A recente experiência de comunicação popular de Marabá e vizinhança registra
dois níveis de ação. Um direcionado para o interior, através das rádios comunitárias da
região, nem todas com a compreensão total do caráter comunitário, ou algumas semeadas
por políticos que percebem na rádio uma caixa de ressonância de seus interesses. O outro
nível é marcado pela apropriação das novas tecnologias da informação por parte das
entidades, em particular a rede mundial de computadores, voltada para o público externo,
via página na rede mundial de computadores e o boletim eletrônico Contraponto.
Apesar das dificuldades, estas experiências mostram que alguns passos foram
dados no sentido de definição de uma política de comunicação popular para a região. As
pistas estão postas, resta a profissionalização e o olhar entre as entidades que ultrapasse a
órbita do próprio umbigo, além da possibilidade de um financiador ou da auto-gestão. A
tradição de luta e resistência dos povos do Araguaia-Tocantins é e continuará sendo uma
fonte de pautas inesgotável para qualquer proposta de comunicação popular realizada nesta
região.

Na freqüência da luta
124

Um foco importante de ressonância na experiência da comunicação popular em
Marabá são as rádios comunitárias. A primeira iniciativa no sentido de ocupar as ondas do
rádio para divulgar a luta pela reforma agrária e outras causas de interesse da população
desta região foi realizada pela Cooperativa Camponesa do Araguaia-Tocantins – Coocat.
A mesma arrendou um espaço que custava dez salários mínimos e dava direito a
um programa mensal de 15 minutos, veiculado de 1995 a 1998 na Rádio Itacaiúnas, os
trabalhadores rurais passaram a ser público-alvo do programa, que apesar de ter seu horário
pago, passava por uma censura prévia.
Antes de ir ao ar, uma cópia do texto e uma fita com o programa gravado eram
entregues aos diretores da emissora, que vetavam qualquer apresentação ao vivo, mas
apesar destas amarras, o programa conseguia denunciar a violência no campo. A motivação
para a implantação da Rádio Comunitária Alternativa FM surgiu em 1996, quando ocorreu
o Massacre de Eldorado dos Carajás. Ao conclamar a população para participar de
protestos contra o massacre e veicular parte de uma entrevista com Avelino Ganzer, então
dirigente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG, o
diretor da rádio, Guido Mutran, vereador pelo PMDB de Marabá, obrigou que os
apresentadores suspendessem o programa imediatamente.
Neste período, crescia no país o movimento de rádios comunitárias e um
somatório de forças levou a população de Marabá, articulada com diversas entidades do
movimento sindical e popular, a se unirem para construir a rádio e mantê-la no ar,
contrapondo-se aos demais veículos de comunicação da cidade que, assim como no resto do
país, possuem ligação uterina com os detentores do poder político e econômico.
Com cerca 200 mil habitantes, Marabá possui dois jornais (Correio do
Tocantins e o Opinião), editados duas vezes por semana, cinco canais de TV que repetem
as transmissões da Globo, SBT, Rede Boas Novas, Rede Bandeirantes, e a Rede Vida e
quatro emissoras de rádio, sendo duas em freqüência modulada (FM), e duas em amplitude
modulada (AM). O grupo Maiorana, o mais poderoso sistema de comunicação do Estado,
comanda um canal de TV e duas emissoras de rádio (uma AM, e outra FM). A Rede Brasil
Amazônia (RBA), de Jader Barbalho, também tem nas mãos um canal de rádio AM, e outro
FM.
125

Rádio Comunitária Alternativa FM – Marabá-PA
Diante desse quadro, a rádio comunitária tornou-se o único veículo de
comunicação da região marcado por uma linha editorial democrática. As primeiras
iniciativas no sentido de organizar a rádio surgiram em 1996 e após a realização de várias
assembléias, entidades como a FASE e o Cepasp promovem uma cotização em busca de
recursos com agências financiadoras de iniciativas populares para a compra dos primeiros
equipamentos adquiridos em Minas Gerais no segundo semestre de 1997.

IV Encontro de Rádios Comunitárias no Sudeste e Sul do PA, Xinguara, setembro de 2001.
126

A Casa Paroquial na Folha 20 é escolhida como a sede da emissora que vai ao
ar pela primeira vez durante 30 dias em caráter experimental no ano de 1998, quando já
havia encaminhado ao Ministério das Comunicações pedido de licença de funcionamento,
ainda hoje não atendido.
A consolidação da Alternativa FM fomenta o surgimento de outras rádios em
vários municípios da região. O sucesso das rádios comunitárias leva os donos das emissoras
comerciais a deflagrarem uma campanha publicitária contra este tipo de emissora, taxando-
as de “rádios piratas”.
Pressionado pela Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e
Televisão), o governo FHC inicia uma campanha nacional de repressão a estas rádios. A
Polícia Federal e a ANATEL passam a lacrar as emissoras de Norte a Sul do país,
processando seus diretores em amparos jurídicos da extinta ditadura militar. A Alternativa
FM também entra nesta lista e é silenciada em 30 de outubro de 2001, em uma operação de
guerra realizada pela Polícia Federal.
Mesmo fora do ar, a alma da Alternativa FM continua pulsando na articulação
do movimento de rádios comunitárias na região e, apesar das dificuldades estruturais, já
viabilizou a realização de encontros regionais de rádios comunitárias em Xinguara, Rio
Maria, Nova Ipixuna, Marabá e Parauapebas. Por conta da grande dimensão geográfica do
estado, as emissoras populares decidiram pela criação de uma regional da Associação
Brasileira de Radiodifusão Comunitária- ABRAÇO.
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Rádio Vitória FM, localizada no município de Nova Ipixuna e Rádio Alternativa FM, Marabá-PA.
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