@re_vira_volta Uma Experiência em Twitteratura André Lemos .

à segunda. Essa. Aqui aparecem imagens. C. Beckett. P. Borges. mas a maior parte é a que apareceu originalmente no Twitter. A primeira conta é o eixo central da história que remete. sons. a memória e a existência fragmentada na sociedade informacional do século XXI. J. @re_viravolta. L. fotos.Apresentação Primeira experiência de literatura sequencial. . S. monitoramento e vigilância. Mallarmé. a discussão sobre o livro do futuro. de tempos em tempos.S. A ficção se inspira em três eixos: 1.M. Nesta versão impressa há pequenas correções e ajustes no texto. configura-se como uma espécie de diálogo com o leitor.com/re_viravolta). T.ego do narrador (em negrito no texto). Verlaine. Eliot. Harvey. via Twitter no Brasil. J. @re_vira_volta conta a história de um personagem que se vê desaparecendo dos bancos de dados eletrônicos que comandam a vida social.E. A narrativa foi construída em duas contas no Twitter: @re_vira_volta e @re_viravolta (que podem ser vistas online em http://twitter. como uma novela.com/re_vira_volta e http://twitter. P. Baudelaire) e da música (R. os mecanismos de controle. como um alter . links. Pink Floyd). A narrativa cruza referências e citações da literatura (Paul Auster. ou o fim do livro. Lou Reed. e 3. S. 2.

Victoria – Canadá.Os capítulos do @re_vira_volta foram publicados uma vez por semana. Quase sempre a escrita dos capítulos se dava no mesmo momento de sua publicação. Elas têm alguma relação com o que se passa na narrativa. aos sábados (e às vezes aos domingos). quase que em tempo real e desde vários lugares (Salvador. O signo “&” no início de cada frase foi um recurso utilizado no Twitter para identificar a ficção. As fotos desse livro foram adicionadas depois. Em quase todas as frases. entre outros). sendo uma espécie de equivalente visual da história escrita no Twitter. @andrelemos . Rio de Janeiro. começando no dia 27 de junho de 2009 e terminando no dia 27 de junho de 2010. Resolvemos mantêlo na versão e-book pela sua função estética e por fazer parte da economia simbólica dos 140 caracteres máximos exigidos em cada “post” no Twitter. há exatos 140 caracteres (incluindo os espaços vazios). Todas foram tiradas e editadas pelo autor. São Paulo.

Paulo Victor Sousa. Thiago Falcão .Créditos Texto e Fotos – André Lemos Foto da Capa – André Lemos Revisão para e-book – Diego Brotas.

Para @bernardoflemos .

Deitado no chão olha o teto revê o dia. . Sempre foi próximo das pessoas e lutava contra o vazio e a solidão.I & 20h. Como um filme. Até agora.

Nada mais se encaixa no seu mundo das coisas precisas e claras. como um presságio. & Deslocamentos inúteis. Seriam já os presságios da reviravolta que chegava? . Ultimamente..II & Gostava de manter distância das coisas. A cidade era o seu habitat.. de andar só. se sentia dando voltas.

O metrô era um jogo. um portal mágico. Descia os degraus dos dez andares correndo e só parava na entrada do metrô... O fazia sempre algumas estações depois. um sinal que dissesse: é aqui que você deve descer. nunca a mesma. Sempre chovia nesta parte do mundo. & Pegava habitualmente o primeiro trem sem muita preocupação em saber onde descer. ao acaso. . & Nunca com a mesma frequência.III & Sua vida era muito comum. Buscava.

. & Descia a passos largos e corria sob as marquises para evitar os grossos e gélidos pingos. Podia ser também um som estranho vindo da estação ou mesmo uma imagem publicitária qualquer.IV & Os sinais eram os mais esdrúxulos possíveis: a entrada de um músico.. ofuscado pelas luzes artificiais. que saia seguindo. & E seguia até se cansar. & . . O percurso começava sempre. uma pessoa escolhida para guia. ou de um pedinte.. Estava sempre atento.nas sombras do subterrâneo em meio ao barulho das máquinas. no ritmo do acaso e da pressa dos outros.. Falhava e molhava.

.. Aos poucos apagava os espaços vazios entre as coisas. Parava. Fecha os olhos. dor? & De repente. A dor era fome. @re_viravolta . Na correria esbarrou em você na rua e as gotículas de chuva se desmancharam no chão. como uma dor aguda. se lembrou dos motivos dessa @re_viravolta. Mas o dia continuava estranho. Antevia as conseqüências.& Aí você olha para ele. mesmo sem pressa. respira fundo e ouve aquela música que vem de longe. E longe ele já está. Fome. mas não as causas..V @re_viravolta . mas não emite nenhum som. & Corria.& O mundo lá fora era ainda mais assustador. via os detalhes.

na sua opinião. seriam os motivos que levariam alguém a romper com tudo: uma dor. era ele o fantasma. um amor? É possível mudar sem um agravante? @re_viravolta – & Mas mudara? Os sons eram os mesmos. Tornou-se inatingível. tudo como sempre: algum movimento.VI @re_viravolta – & E quais. . perdido em meio às gotas que pareciam não tocá-lo. Sem saber. Ele sendo. ou mesmo pela obra do acaso. & Então veio à tona @re_viravolta! Percebia que estava diferente. Baixou a cabeça. vozes e passos ao fundo. Ouça: http://tinyurl. & Tinha a impressão de vagar por entre corpos imobilizados. Ele era a única coisa que se movia. Tudo parado. Olhou para cima e viu as gotas caindo.com/lcbpoo & A estranheza do dia só se afastaria dele com o tempo.

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que desaparece ao se aproximar. mas marcadas no corpo como cicatriz. & Um erro (teria sido mesmo proposital?) nos bancos de dados revela que ele era um outro.& Parece-te que ele se desmancha enquanto anda. desfocado. Porém. cruzando o seu. Um arrepio percorre teu corpo. @re_viravolta . . @re_viravolta . um clone de si mesmo. Assusta-te a proximidade. Mas só entendeu isso agora.& O olhar vazio dele. Teria que se acostumar com a idéia de que não era quem pensava ser. tinha lembranças vivas que não foram forjadas.VII & Ele era um duplo. Dados binários vazando como água de um cano velho & impregnam sua consciência como amarga ferrugem.

@re_viravolta – & e olhava tumbas http://picasaweb. contrariamente ao que seria normal. dos momentos de infância. estava vivo-morto. Teria que renascer. & O frio e o cinza.com/lh/photo/iK_IBv0zJJz9hAT1ZTzzrg? authkey=Gv1sRgCKTNrYnBqp2vkgE&feat=directlink . era uma ondapartícula perdido em um turbilhão de sensações. & Estava "in between". Molhado. Como o gato de Schrödinger. onde corpos famosos estavam para sempre imobilizados. entretanto. um certo prazer aliado a pensamentos incertos. não havia mais @re_viravolta. parou em frente ao cemitério e decidiu entrar.VIII & Lembrava dos vivos e mortos. & Aqui.& e mais tumbas http://picasaweb. Vagando em meio às gotas de chuva. se sentia vivo.google.com/lh/photo/8e6m96WqyCRLSAOhloGag? authkey=Gv1sRgCKTNrYnBqp2vkgE&feat=directlink @re_viravolta .google. davam-lhe uma alegria melancólica.

. a impaciência. o estado de nervos e o desespero em que se encontrava: Morto-vivo. respirou fundo e sentiu o cheiro da terra molhada e das flores ofertadas aos mortos. & Viver era agora encarar a morte e lembrar. & Encostado no muro molhou as costas. tornando o mundo colorido e duplicado. mas a morte simbólica do seu duplo que não era mais ele. Viver é ir para a morte e esquecer. Olha para cima e deixa as gotas caírem em seus olhos abertos. Era belo o reino dos mortos. Não ainda a morte deste corpo pesado. nada justifica a pressa. & Engoliu a saliva.IX & Embora perdido com a situação. & Via as paredes imponentes de tijolos aparentes e a água escorrendo: Pontos como em um quadro impressionista.

dirigida aos mortos e àqueles que os visitam. Teria sido um colapso em infinitas possibilidades? . Passou pelas alamedas do cemitério buscando uma saída. a frase era irônica e incisiva.X & O objetivo agora que achar uma solução rápida para a sua duplicidade sem sentido. E provocou nele um arrepio: are you real? & Sim. & Tinha que sair logo dali. Compreendia então que não entrara neste lugar dos mortos por acaso. No caminho parou diante de um grafite que não percebera na entrada. Pensou se ele teria sido escrito agora. & Simples e direta. era para ele.

fazia literalmente. & Tirou do bolso do casaco o livro. not the other way around. uma memória . P. duplicado.XI & O grafite só faz sentido em nível abstrato. atualizada nesse mesmo instante. Mas para ele. aqui. Auster escrevia: A here exists only in relation to a there. provocando emoções e percepções. como se fosse invisível. A frase poderia então fazer sentido? & Real? Aqui e lá? Tudo se constrói por relações de possibilidades engendradas nos nossos cérebros. & Possibilidades transformadas em neuropeptídios que bombardeiam as nossas células. transformando as afetações do corpo com o mundo. Passa tenso pela saída. Lia lentamente. sentidas e processadas pelo hipotálamo? . & E são essas emoções que vão marcar a nossa existência agora.uma realidade? & A memória vai se perpetuar impressa no código genético. dando-lhes uma consciência.

& Compreendeu que para que isso acontecesse deveria começar a abandonar a alma das ruas. Começava a colocar as idéias em ordem. Pleno. o corpo lutava contra a entropia. Onde estaria a solução? & Murmurou no último gole de café: “não quero mais saber do mundo lá fora. As coisas não são o que parecem. & Estava cansado.” .XII & A dor da fome voltou. Tinha que saciála agora. a pensar em uma estratégia para reconquistar sua própria história. Entrou em um bar e pediu um sanduíche e um café. mas revigorado. Não havia nada lá para ele. Venta e o barulho me incomoda.

& Parece que a mídia irá colocar as pessoas em contato. & Abandonou displicentemente a xícara no balcão. Com o gosto amargo na boca. Olhou em volta e mais uma vez os olhos se cruzam. mas apenas renasceremos. mas elas nunca se encontrarão. duplicado. o que ele poderia parecer agora.XIII & Parece que estamos no fim do mundo. mas elas nunca terminam.& Se tudo parece o que não é. parece que estamos começando uma nova guerra. cercado de tantas dúvidas? Que imagem especular sua aparência concretiza? @re_viravolta ... a @re_viravolta não estava na minha agenda". redundante ou é só impressão do tempo que insiste em não passar. @re_viravolta . & "ah.& Isso está ficando circular. mas o mundo não tem fim. parece que estamos morrendo.& Qual o motivo que o fez entrar naquele bar que te traz tantas lembranças e te transporta para um tempo em que você era feliz . Mas agora não tinha mais como escapar. que se perpetua na duração? @re_viravolta . parou de pensar nas aparências das coisas e clicou na agenda.

e leve? .

XIV
& A chuva continuava fina e o frio aumentava gradativamente com o passar das horas. Ele não conseguia se mover. Olha a agenda mais uma vez. & Buscava os nomes, mas gostaria de esquecê-los. Todos, a começar pelo seu, que não era mais bem o seu. Nomes, eles eram importantes agora. & Na agenda, Eliot: E a justa ação será Livrar-se do passado e do futuro. Para a maioria de nós, este é o alvo Que aqui jamais se alcançará. @re_viravolta - & Você, aqui, agora, está cumprindo o horário de sua agenda? Fazendo uma leitura útil? Pensando no passado ou no futuro? Qual se realizará? @re_viravolta - & ou encontra aqui ou lá - nessa leitura ou em outra, e não nessa minha pobre e curta escrita - o seu estilo de vida? Nomes que consumimos? & Precisava dos nomes familiares, ligar para alguém, conversar, checar se o mundo ainda se mantinha lá fora ou se tudo havia se desmanchado. & Mais um clique na agenda: "O tempo é um problema para nós, um terrível e exigente problema, talvez o mais vital...; a eternidade, um jogo”

& Chega, disse. O acaso desvia os destinos e tira do foco o determinismo das certezas. Precisava de certezas. Ia ligar para o primeiro nome.

XV
& Ligou para A. O telefone tocou e uma voz do outro lado responde: “oi, é você? onde você está? Tá me ouvindo?” Estava mudo, olhava o nada. & Seria isso? Cultivar a lembrança sem nostalgia? Passar o dia vivendo no presente? Lembrar que todo instante é ao mesmo tempo três. Longe. & Viu um avião rasgando a atmosfera e se despregando da gravidade. Pensava, com o telefone na mão, na curvatura do tempo e do espaço. Longe. & O avião, pesado, não quer se desvencilhar da gravidade. Se acelerar muito sai pela tangente, se desprega e se perde no espaço sideral. & O espaço-tempo. Alô? A ligação já havia caído. Como o avião, ele evita se desprender da gravidade e retorna à curva do espaço terrestre. & O avião aceita a curvatura da Terra. Compreende o peso e a inércia. Aceita o destino e volta a planar suave e tranquilo sobre o céu azul. 1 & Olha o telefone, a agenda. Não ouve a resposta de A. Liga de novo. Ocupado. Passa ao outro nome. B. Desligado. Pousa, não voa mais. Longe.

XVI
& Liga para C e cai na secretária eletrônica: Não posso atender agora, não tenho tempo. O tempo é o problema, terrível e exigente problema. & Antes de terminar a gravação desliga. Passa para d, e, f, g... L, L.A., hesita. Sem pensar muito aperta a tecla e vê a foto de L.A. rindo. & “Sou eu (?), pode falar? Estou perdido. Descobri coisas incríveis que me fazem ser outra pessoa. Não, não tô brincando. É sério. Alô?" & “hum”, responde L.A., sem dar muita importância. “olha, estou com sérios problemas e preciso conversar com alguém, checar algumas coisas." & “hum”, responde. Silêncio na linha. Parece uma eternidade. Borges: Noturno, o rio das horas flui de seu manancial, que é o amanhã eterno. & Estou em meio a uma @re_viravolta e preciso de sua ajuda. Estou perdido, mais no tempo do que no espaço. Só preciso confirmar umas coisas. & Mas só silêncio do outro lado. Descobri, cruzando informações em sistemas eletrônicos, que sou outra pessoa. Risos! Não estou brincando. & Teria sido tudo inventado: os dados, minha memória? Querem-me longe da

verdade? Preciso confirmar coisas. Podemos nos encontrar hoje? Hum! .

Chiado. luzes.A. Não tinha mais a quem pedir ajuda. vamos nos encontrar hoje. mas que o acompanham sempre. . & Vê padrões difíceis de decifrar. No bar de sempre. & Sonha e vaga por cidades.. sonhou. mas abri os olhos e só me lembro do futuro. “Não sei a finalidade. Ele disse: ‘você pode ficar aqui?' Hum. Dias e dias passaram e busquei as formas do princípio”. sem acreditar muito e sem levar a história a sério. Todo mundo muda. & No bar. Ok. Ontem. contou a sua história. formas concretas e antigas.XVII & A resposta lacônica o deixou sem fôlego. & Dormiu. A cerveja chegou. que deram origem às novas organizações. canais. Beberam. 22h?. disse L. Como as do princípio. vales. mas não sabe sobre o futuro.

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ficou. L.A. tenho que pegar o ônibus. É noite! & Você vem ou vai ficar aí em pé. E ele disse: Por que tento mas é sempre inútil fugir do barulho? & Por que toda essa confusão? E ela disse: vou me esconder nos óculos escuros. Ele pensa: é isso a felicidade? . Vou pôr a peruca ruiva e ninguém vai me reconhecer. Deitado no chão frio. Aí olha para ela e diz: o que está acontecendo? & E ela disse: vamos logo. fumando esse cigarro? Pergunta L. escrever aquela carta. Sai decidida. antes de bater a porta.XVIII & Não mudou. mas tudo mudará.A. olha para o teto do quarto.

Dormiu. Não é mais. & Bebeu. Rolou para o sofá e acendeu mais um cigarro. um limiar. . A felicidade é esse intervalo. Acordou com frio e com uma inusitada sensação de peso nas costas. & Teve dificuldades para se levantar. A letargia do Gin o fez lembrar-se dos momentos em que trabalhava tanto que o corpo produzia o mesmo efeito de torpor e anestesia. A fumaça tocava o teto e se espalhava com uma ameaça. na efemeridade dos momentos que se mantêm para sempre no rastro de segundos que já foram: memória.. & Pensava na febre dos últimos registros.XIX & Era feliz..

essas luzes não são as que clareiam ou queimam." Beckett. o que não tivemos mesmo foi tempo. pensava que cada clique corresponderia a uma forma de construção de si. & O inominável: “não devo minha existência a ninguém. por que o tempo nos abandonou? Você me abandonou? Você morreu ou está apenas escondida. se divertindo nessa @re_vira_volta? & Sem destino. deveria pedir desculpa. começou a clicar desesperadamente. Aliás. @re_viravolta . @re_viravolta . ficar de castigo.XX & A memória era tudo o que buscava. que nada é proposital. Sem objetivo preciso. resgatar a verdade lá onde a dúvida havia se instalado. Tudo tem sentido. sei que o abandono não foi proposital.& Ei mãe. O tempo não foi justo. resolveu ligar o computador.& Ei mãe. Não sei o que dizer! @re_viravolta . & Confuso. Não pude perder a jóia. Checar os fatos.& Ei mãe. Buscava alguma referência ao seu nome. Escrevia sua história . lá onde @re_viravolta começou. mas estamos sem nenhuma pista. Não indo para parte alguma.

& Ah. Sua mãe tinha morrido quando ele tinha 3 anos. Será mesmo? & Vários links apareceram.por uma colagem de links anônimos. & Digitou o nome da mãe. O nomos. O pai havia fugido sem deixar rastros. a lei. e o site de alguém com o seu próprio nome. era essa uma forma de escrever a sua própria história? Na rede não saberia dizer mais qual o enredo ou qual seria o final da loucura. Contato? . Dois chamaram a sua atenção: uma pessoa homônima à sua mãe.

. muita raiva. @re_viravolta. Sentiu frio e se reclinou na cadeira. a sua história.XXI & O link do homônimo deu a sensação de perseguição. que nunca teve realmente.& Lembrou-se da . Sentia-se vigiado sem saber muito por quê! & Sentiu raiva. Olhou o teto e viu sombras estranhas passando. Ou teria? Estava confuso. elásticas. @re_viravolta . O tempo mudou e fazia frio.. O pior era aquele cursor que piscava. Vertigem e enjôo tomaram conta do seu corpo. ou reescrevendo.. & Respirou fundo. como em um jogo em que ele era ao mesmo tempo personagem central e o espectador? & Ou estaria ele escrevendo. & Estariam escrevendo. & Rápidas. sua história? Isso justificaria o motivo de estar sendo vigiado por olhares não identificados? & Queria muito o colo da mãe. extensas. sem que soubesse. Os pensamentos se embaralhavam na luminosidade da tela que ofuscava os seus olhos.. mesmo sabendo que o link não tinha nada a ver com ele. as sombras eram como figuras fantasmagóricas anunciando presságios não muito alvissareiros.

ela escrevia que a primeira praia teria sido com 2 anos. Olhou para o teto.. abre os olhos e encara logo a tela e esse cursor que não para de piscar. no RJ.& Em outra.carta em que sua mãe teria escrito que em sua primeira viagem para SP ele teria se comportado muito bem. impacientemente. Seria o bom presságio? & Aceitou o destino e as ordens dadas deste outro lugar. Existiriam as cartas? Revia o passado ou construía sua memória? @re_viravolta . mas as sombras haviam passado. insistentemente. chamando a sua atenção para.& Sai desse devaneio. Encarou a tela iluminada e o cursor que piscava. @re_viravolta .. reticências? & Abriu os olhos como se tivesse recebido uma ordem de alguém. . Tinha 3 meses.

Ao carregar os dois sites. sumiu do alcance da sua visão. Estranho! & Se afastou empurrando a cadeira até não ver mais nada e não escutar mais o . do cemitério. & Chamou pelo computador.A. Pediu para acender a luz.XXII & Ligou de novo para L. Não sabia o que era mesmo aquela @re_viravolta.A. & L. Tudo escuro do outro lado. Seu rosto ficava menos nítido. & Olha estes dois sites pra mim. ela foi se dissolvendo aos poucos. do metrô. Mas só agora. até que se perderem mais uma vez.A. & Confiava em L. se acharam. embora ela estivesse distante e não muito crente na sua louca história. & L. Se perderam. sons dos dedos nos teclados. Você conheceu as fotos da minha mãe? Você ainda me conhece um pouco. Lembra do percurso do dia. do bar. do encontro em sua casa. e sua partida abrupta. passou. O tempo passa. L. Viu vultos pela webcam. Apenas uma música começava a ser ouvida do outro lado. Ouvia sussurros ao longe. Mais nada na webcam.A. não? Hum.A. mas algo ficou. & Eles se conheceram há muitos anos em SL. negou. de L..A. parecia se afastar ainda mais da tela.

L. voltou. De repente.A.som das pequenas caixas do seu laptop. .

o indelével das coisas. & Ficaram juntos por muitos anos. Mas. Oh! As palavras não queriam sair da sua boca amarga para expandir a ação. A luz difusa fazia tudo parecer como um sonho. Sabe que não há garantias. Queria compartilhar pequenas coisas com L. & Vaga com as lembranças de uma época onde era feliz. & A luz da tela banhava seu corpo e o vulto de L.A. projetada na superfície iluminada. Queria mover-se. Ah!. & Queria gritar. Sabia que era assim. Os joelhos trêmulos não lhe davam segurança. de fato. mas ficara entalado na ansiedade. Baudelaire.A. joelhos trêmulos. Está tão só. & As sombras dançavam lá do outro lado da tela. & O tempo passou e eles se perderam. mas os pés colavam no chão. lábios secos. como uma lembrança. como uma bruma que produzia nele a lembrança.XXIII & Tinha pés fincados no chão. tudo acaba.. Do outro lado era uma sombra sua. mas não é possível. embora sempre desejasse. no fundo. & Quer esquecer e se livrar daqueles incômodos fantasmas. "Il me . Os elementos que colocam em marcha a sua memória se apresentam outra vez.

Aceitou. Chegou perto de L. forçou os joelhos. e disse: . descolou os pés.A. tomou coragem e partiu determinado em direção à tela. & Em gesto brusco.semble que je serais toujours bien là où je ne suis pas".

logo se perde e tem sempre a ilusão de uma certeza que escorre. Palavras não significam nada. olhar de perto os bancos de dados e entender como sua vida teria entrado nessa espiral.& Nada nada não há mais vírgula ou exclamações não há mais pontos de continuação só a busca do ponto final cada vez mais distante o infinito @re_viravolta . se limitava a olhá-lo com desdém. É preciso esquecer essas pequenas coisas. & Do outro lado da tela. Nada volta. & Ele sempre lutara contra as grandes coisas da vida.& E distante continuava a dar voltas e volta à @re_vira_volta que não tem fim não começa não acaba como uma torrente de desesperos ao longe.XXIV & Lembro-me de coisas da minha infância agora e esqueço-me das coisas mais recentes que vivemos juntos. . na bruma luminosa.A. @re_viravolta . L. os que fazem a diferença entre viver e não viver. Tenho que ter uma atitude radical. @re_viravolta . Mas falhara! & Decidiu tentar invadir sistemas. Buscara os detalhes. não chega a lugar algum.& Nada é assim. na @re_viravolta.

repartir do zero e começar uma nova vida (sonho). Simplesmente desaparecer.& Tentaria agora deletar tudo. como desapareceram os seus dados? .

& Pensa em fazer um primeiro reconhecimento e. Mas talvez possamos .. depois. Lentamente se deslocava entre as pessoas nas ruas do bairro. deletar tudo. mas tinha medo da dor. Drugs! . & Direção . juntos. preso que estava nas brumas do contato telemático com L. Sentia estranhamente uma crispação nas costas.sede do megaorganismo mundial que agregava todos os bancos de dados que. & .inventar uma vida para nós dentro desse limite". tudo se vive e tudo se acaba numa única chance. & No seu olhar começavam a aparecer padrões luminosos que prenunciavam a enxaqueca.XXV & A solução é desaparecer. se livrar dos dados que não correspondem à realidade. invadir sistemas.. Não sabia muito como agir.A. Desligou tudo e saiu de casa em busca de suporte para concretizar a sua decisão. & As luzes ofuscavam o seu olhar.. sabemos. Era essa a sua esperança.. Não tinha tempo a perder. Pelo menos nos bancos de dados. & Apressado falou em voz alta: “a vida não tem salvação. faziam a sua elife.

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não há nada. A voz do outro lado. & O telefone celular vibrou. & Quem seria o Titereiro? pensou. . Suas mãos estavam úmidas. As costas ainda crispadas. nem performances. Parecia o fim do mundo. vomitava certezas sem lhe dar tempo de resposta: @re_viravolta. & Pensou no fluxo de informação. uma gravação eletrônica. só a sorte ou o azar”. como se estivesse sendo puxado para cima. & No caminho da megacorporação parou e viu o mar. como uma marionete. mas era fim de festa.& “não há mais música. Ruído branco ao fundo. Ficou parado alguns minutos olhando a dança das ondas antes de tomar a difícil decisão de voltar a andar. @re_viravolta . Não hesitou em pegar um comprimido e lançar goela abaixo. nem trilogias. Parecia hesitar em ir mesmo ao seu destino ou deixar o tempo passar em frente ao oceano.XXVI & A cidade vazia. Imagens inundaram o seu pensamento contrastando com o vazio e a solidão das ruas. & A droga desceu áspera. nem monólogo. A cabeça latejava.

@re_vira_volta.@re_viravolta . Fraca. Tremia. Não somos mesmo nada. & Torrente de palavras: Você está atrasado para resolver o impossível… Por que tem que ser assim. Esquece tudo o que nunca houve. não há ninguém nessas ruas desertas.& “é isso. Ruído longe. tudo acaba um dia. . E tudo o que virá. Deixou para ver se o fluxo de palavras chegaria ao seu fim. você tem que usar a razão. fim. Não havia mais palavras. Você não vê o que está acontecendo?” @re_viravolta .& Parou. pense nesse mar de esquecimento. Não ouvia mais nada. Ouça a respiração. Não me interessa mais esse circo infernal. & No fundo não há nada. lenta. Ou se ele teria que desligar. Controle-se e veja o que eles querem. não pode mesmo nada. você não é nada. por que não pode ser tudo ao mesmo tempo? & Definitivamente precisa se convencer: Razão. continuou. & Tremendo pensou : “Tudo vai passar. Mergulhe nessa guerra infindável e sem volta. Desligou.” & Tudo muda. Veja no que você se transformou. Partir e chegar é sempre a mesma coisa. olhou em volta como se estivesse sendo observado. nem que seja por uma vez só. & Paralisado.

acessa sua página pessoal e encontra um “404 not found!” Com medo. Liga o notebook. Teria um RUC. É como se o senhor não existisse. mas de nada adiantou. & Inconformado. & “Senhor”. fecha o notebook com força. . Tenta as redes sociais e o mesmo acontece. memórias (?). O dispositivo escaneou a retina. diz o chefe-adjunto.XXVII & Sem querer fazer esforço para compreender o acontecido. O som agudo rompeu o silêncio. mas as senhas não funcionam mais. & Parecia que o caos eletrônico estava se expandindo. Mostrou documentos. acessa o site do banco. Estava desaparecendo da base de dados. & O chefe-adjunto pediu que olhasse para a câmera. & Tenta acessar e-mails. “Não há registros seus aqui. e que nada correspondia à realidade. ou outro documento com chip?”. devaneios telefônicos e indecisões. para no caixa do banco: cartão rejeitado. enquanto ele patinava em hesitações. & Chegou à corporação. se levanta e segue em frente. Explicou ao chefe-adjunto que seus dados estavam errados (alguns desapareceram). & Respondeu positivo. Colocou o dedo no sensor.

Tudo volta à esse circulo infernal. Arrombou a porta e desligou os alarmes. Compreendeu que de nada serviria ficar ali com o burocrata. só os momentos descontínuos ligados por acasos. Parece mesmo que é o seu deadline. Dura a ação. @re_viravolta . Estava afundando na @re_viravolta sem fim. A chave magnética também não abre a porta. E esses espasmos. anos.Era um fantasma. sem dados.& Essa é a única novidade. naquele momento. estranhamente. @re_viravolta . & Deu as costas. A única prova de sua existência era o seu corpo. tenta detectar o que muda entre um segundo e outro. @re_viravolta . Ou você acredita que o ano será diferente? Não existe ano.& Tá perdido? Ei. Fecha os olhos. esse sentimento lhe trouxe uma .& Passam meses. parece que tá dormindo um sono profundo. Mas.& Nada sai dessa espiral vertiginosa. levantou os ombros. Vai continuar lendo? & Volta para casa. & Sentia que estava mesmo sumindo. nessas destruidoras @re_vira_voltas. Tudo está girando em círculos. o que eles significam? @re_viravolta .

sensação agradável. impreciso. ficou feliz: “Tio. . & Fechou os olhos e sentiu a mão da menina (sua sobrinha) na sua. você compra isso pra mim?” & Tudo estava difuso. Os primeiros segundos do dia apontavam para mais instabilidades. Ficou leve. leve. tic-tac. Sentia-se desaparecendo: tic-tac. e mesmo sendo um fantasma.

para a direita e para a esquerda. & Estava passando. & E o tempo se arrasta nos ponteiros do relógio em giros alucinados. parando o tempo que passa. Não sabe o que fazer do dia. 8h. “preciso revê-la. o tempo que não passa. & Sonhou mais uma vez com a menina. Mas isso. Revia imagens de prédios desfilando como se estivesse em um carro. Gostava de bikes. . falou. Liga o receiver e Lou Reed canta: “I got a hole in my heart the size of a truck”!!! & A frase ecoa pela sala. abriu os olhos e olhou o teto do apartamento. & Logo o tédio e a solidão afetam o seu estado onírico. O caminhão explode nas rodas a fruta vermelha. Olhou pela janela. explode no seu peito como advertência. Os sonhos tomaram conta da noite. & Lou calou. Ruído seco. Mas não parecia.XXVIII & Acordou. & Levantou e foi até um canto da sala onde fica o som. sem parar. Sentia-se vazio. se acontecer. mas não ligou a televisão. será bem mais tarde. Acordou cansado. Pensou. agora que ela já está tão grande”. minando em conta-gotas. O silêncio da rua chama a atenção. descendo pelo ralo.

Sentiu-se bem. a cada segundo um pouco mais. & 20h. Olhou o teto do ap.Estava caindo. & Passou a mão nos cabelos acariciando o couro cabeludo aliviando a pressão no crânio. Caindo. Deitou-se de novo. uma queda infinita. .

pensou que nada justificava a pressa. Cedo ou . & Estava calmo e sereno. que não deveria salvar tudo. o estado de nervos em que se encontrava. O tempo passa lenntttaaammmeeennntttee. se resolveria. .XXIX & Apesar de tudo. Tudo.. de uma forma ou de outra. a impaciência. deitado olhando para o teto. & Percebeu que não teria que agir desesperadamente.. & Mesmo com a @re_viravolta. em todas as esferas. Estava estranhamente sereno. de viver sempre como se uma urgência o tomasse a cada segundo. sabia que não havia motivo. Como se uma lucidez repentina tivesse chegado.

XXX & Na velocidade do tobogã sempre encontra uma parede que acolhe a queda. sim. Entendia.. as idas e vindas. as dores dissimuladas e os sofrimentos supérfluos. Do som dos degraus rangendo. & E venera a simplicidade e a ingenuidade infantil da família há muito arruinada. mãe). Sabia disso.. & Mas era um desesperado. pai. tarde. escorregava sentado em um papelão. Lembra-se feliz dos domingos. no fluxo das coisas. Não tinha mesmo nada para salvar. Não queria salvar nada. & . tudo acabaria. Seriam as memórias reais ou apenas pensamentos desviantes? & Não tardam a aparecer lembranças. Às vezes. Nem mesmo a sua vida era algo digno de resgate. & Lembrava-se do simples ato de descer as escadas do apartamento. Virava-se como carro em cavalo de pau oferecendo as costas ao fim. . Toma consciência da simplicidade maravilhosa da família (irmãs.

XXXI & Levantou-se rapidamente. Tonto. A sensação de vertigem o atingiu. pensou: onde estará o princípio que dará personalidade ao meu desespero? .

Deveria falar. silenciou. abandonou o peso do real e silenciou. . falar. tudo terá sido em vão? & Pensou e sem saber de nada. Mas a dúvida persiste: teria mesmo que lançar palavras para que. merda. Isso parecia cruel. por fim. Resolveu ir pelas pequenas coisas. para explicar tudo de novo? & Teria mesmo a palavra a força para reconstruir o que se viveu? Ou só é intenso o que se pode verbalizar? Ou. já que era um duplo fantasma de si mesmo. Precisava falar. falar. com quem? Sem certeza sobre como retomar a sua vida. os fatos se tornem reais? & Se rendeu e concluiu contra a vontade que tudo o que se vive só faz sentido se formulado em palavras.XXXII & Deixou a difícil questão do princípio de lado. & Mas.

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XXXIII & Tenta tudo para escapar do isolamento e da sensação de vazio que nos aproxima da morte. E. essa obsessão histérica. monitorado e controlado não é. Desaparecer nos dados não seria a consequência inevitável da existência hoje? Dádiva ou quimera? . Poderiam existir formas de vida que não fossem. & Bancos de dados. esse medo do que pode sair do seu controle. artificiais? & Tem mesmo uma compulsão ao extremo. um conforto? & Seria uma prova da nossa pobre existência? Isso sempre o perturbava. existimos realmente? Ser vigiado. se não existimos enquanto dados. mas tinha agora que lidar com seu desaparecimento. assim. Não entendia bem o mundo lá fora. & E nem a influência no seu mundo interior. então.

XXXIV & No estado flutuante. Aproximou-se da janela. Deixou o mormaço entrar. que não mais existe? & Lembra-se da música: they can appear to themselves every day on CCTV to make sure they're still real. fechou os olhos. & Olhou o céu lá fora. hesita entre alegria e tristeza: sumir dos bancos de dados significa liberdade? Não estar neles. . Nuvens cinzas amenizavam a força do sol escaldante. It's the only connection they feel.

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Ligou o computador. Sumir do mapa ou dos bancos de dados? Acendeu um cigarro e tomou um gole de café amargo. Click. Muitas delas. estavam em seu servidor na net. checar fatos e lugares. & As fotos estavam espalhadas em caixas. mas não do seu servidor. A pasta estava lá. acessou as pastas. Menos um! & Apenas um nome sem a extensão que indicasse o tipo de arquivo. & O vazio assustou. & Pensou mais uma vez em ligar para L. já havia desaparecido.A. Foto? Vírus? Não entedia o que significava aquela palavra. . Achou melhor rever suas fotos de infância. Essa sim. mas não os arquivos. Arriscou. já destruídas. Estava ausente dos bancos de dados públicos.XXXV & A estratégia do desaparecimento não estava clara.

& Está ouvindo os sons do mar. da bola na areia? Nesse momento. & Para ele as fotos eram a prova que sua história fazia sentido mesmo que os dados não mais pudessem ser encontrados. Ele não lhe dizia nada. Enigma. Olhou para a caixa. sentia de novo a @re_viravolta. Lembra? Ou nada mais disso é memória? & O tempo de abertura do arquivo parecia infinito. A frase ainda ecoava na memória: . Era como uma concha. & Lembrou-se da conversa com o chefe-adjunto da megacorporação. @re_viravolta . a luz do flash no olho te deixou cego.XXXVI & Ptyx. hermética. Era esse o nome do arquivo. Enjoado. As fotos amareladas e empoeiradas provavam que o tempo havia passado. Tinha vida sem e-life.

rasgados. um editor de imagem. & Olhou com atenção. & Mas havia sim. um enigma. naquela caixa. nublados pelo tempo que realmente passou. @re_viravolta. & Ele era composto por uma combinação de letras e números. Escolheu então um outro. & Essa lembra seu pai. desfocadas. O que significaria? 03AL06RJ62BA91FR07CA08BA09RV00000. não registro de uma memória. e por isso os códigos misteriosos apareceram. & Olhando bem. Era um código. aparecem: uma mulher (L. mas sua. registros amarelados.“senhor.?) e o que parece ser a imagem de um velho sentado em um bosque. Mais duas fotos. parecia mesmo uma imagem atual. & Achou que abrira o arquivo no programa errado. mas ele não se lembra de a ter tirado.A. que morreu muito jovem! Não entendia o que aquelas imagens faziam no seu computador: Quem as tirara? De onde vinham? . Foto de um presságio. & Uma imagem sua desfocada. Parece uma imagem atual. O estranho arquivo por fim abriu. Olhar estranho. Parecia ser de um futuro próximo. mas não. aparece. não há nenhum registro seu aqui!”.

sem senhas. colados como conjunto de tempos passados despedaçados sem lastro..& & Cada pedaço dessas imagens parece mais imagens em pedaços.@ re_viravolta . ..

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XXXVII & Fita as imagens como se estivesse vendo o futuro. a tela e as fotos.instantâneo do que virá. No fundo. fuçando as fotos antigas. letras remetem a lugares ou a nome de pessoas? De repente. & Se tivesse um futuro talvez pudesse prevê-lo agora. tinha a suspeita de que o que acontecia agora já estava impresso antes. . Tudo gira. & Números lembram datas. Volta a dedicar tempo à caixa de fotos amareladas. o código. Revelação? & Nada.. a caixa e teto. Haveria um devirimagem? Olha as imagens. Os números e as letras do código se embaralhavam em padrões inexatos.. & Olhava fotos e código. as imagens. o que era um enigma começa a fazer sentido: um programa. Como a foto do arquivo misterioso . o código.

mas não via. com os terríveis zeros..XXXVIII & O que acontece agora está impresso antes. only flight! I feel that birds are wild to tread. Uma vida dobrada à força.. & Seria então a @re_viravolta essa dobra no tempo. E começar pelo fim. O que aquelas fotos que ele olhava. & O arquivo Ptyx tinha data: 71. Sua vida saindo da existência real de virtuais bancos de dados.& "The flesh is sad. Olhou o código de novo. Flight. Ptyx abre a concha da memória. combinação de hoje e ontem? & Os padrões precisam fazer sentido. diziam? E o código. dizer algo e explicar o seu desaparecimento de todos os bancos de dados. Riu. @re_viravolta . alas! And all the books are read. . Seria real ou erro do sistema? Vamos deixar isso de lado agora." & Agora entrando na real existência do seu virtual desaparecimento? Essa era ao menos uma perspectiva otimista.

Pensou até em beber um copo de cerveja. O futuro apontado no passado. desaparecendo estava livre do controle. conversar com amigos imaginários no bar da esquina. mas recomeço? Uma saída. Aqui fazendo sentido lá. & Estava tudo invertido: vivia e desaparecia. fim. & Sentia-se otimista como nunca.XXXIX & 0000 seria o fim de tudo ou apenas recomeço? Fim de um código ou abertura de um outro? Como a morte no Tarô. . Logo desistiu.

XL & As imagens pareciam criptografar sentidos em pixels expandidos. La rêverie avec le doigt contre la tempe”. Tempos amalgamados. & No Ptyx. desfeitas para revelar o mistério das imagens. Camadas e dobras devendo ser. & Deveria? Que ordem era essa que obedeceria à sua própria? Nada estava no lugar. as três camadas. & Nada ainda? Imagens digitais em arquivo misterioso. precisando apenas do reagente que o traria à presença. Parecia estar tudo ali. & Seria isso. . E ao avesso. E terminando em 0000. e estava chegando. tudo poderia estar mesmo de trás para frente. E do seu destino. quando deveria começar. Verlaine. contido no triptykhos. & Três destinos em um só. Volta ao enigmático arquivo. código alfanumérico como linha do tempo. la lueur étroite de la lampe. como o presente aglutina o passado e o futuro. aos poucos. Estaria então aqui a chave do enigma. texto escondido: “Le foyer. Ptyx. & Mas ainda falta muito para ver o que apenas começa a olhar. O triPTYKhos. pensou animado.

& Vem aí.XLI & Pensando no presente. & Ele parecia escorregar em pensamentos leves. decifrar o código. da dureza. & Tenta ver as imagens borradas. há muito. sua inconsistência. da família. & Lembra-se assim das relações de infância. & Teriam sido as relações fincadas na experiência movediça do verbo? A irrealidade já estava presente antes do desaparecimento nos arquivos. Não eram. o arquivo. . em um amontoado de palavras cuja ausência de peso preconizava. de como foi menosprezado pela abertura das suas intenções. Mas só as palavras jogadas ao ar para tudo resolver pareciam reais. remonta ao passado recente na construção atribulada das pobres palavras. de repente. construída nas palavras e o esgotamento saturado agora nos arquivos eletrônicos. ao mesmo tempo amena e seca. a lembrança de como foi enrolado pela política dos outros. A incomunicabilidade é a porta do fracasso. & Sua vida estava no limiar desse jogo: entre a existência. dos conflitos e das incompreensões amorosas.

.& Era como a reconstrução de uma inexistência. no medo e nos gestos frágeis. uma ficção concreta de um corpo fraco. construído nas palavras.

@re_viravolta .& Nesse emaranhado de palavras um segredo que não se revela. no arquivo.. uma situação em permanente impasse. & Teria sido esse antitempo que devorou tudo para trás.& Sim. "Comme on menace un destin et les vents". encontra ainda uma frase perdida: “C'était le nombre issu stellaire. Era a @re_viravolta. @re_viravolta . Falando de trás para frente produzia um tempo reversível? Mas não sabia o que fazer com ele. & Suspirou "xytp" sem se dar conta da inversão. lá estavam palavras deixadas para depois. Tudo se apagara? Largou tudo e foi andar. Estava ainda mais perdido em relação ao passado. o dilema do destino que não se . que apagou seu passado? Estaria destruindo voando para o futuro e olhando o passado? & Não sabia se teria futuro. Foi andar! : "écarté du secret qu'il détient". Existât-il autrement qu’hallucination éparse d’agonie” & Sentiu de novo o peso da inexistência real a partir de fatos existentes. e da inexistência virtual de arquivos irrelevantes e movediços..XLII & E.

mas na tela do computador o cursor começa a piscar. vai andar.& Sai.. palavras começam a aparecer vindas não se sabe de onde. @re_viravolta . @re_viravolta ..resolve.& “dans quelque proche tourbillon d’hilarité et d’horreur voltige autour du gouffre sans le joncher ni fuir et en berce le vierge indice" .

Esse presente é apenas o nada do aqui e agora. Como pensar o futuro se o passado recente vai se desmanchando aos poucos apagando o que há? & Só há presente. 03 o início e os três tempos que agora estão condensados em um só: o vazio do presente do aqui e agora. Mas sem o lastro do passado ou fé do futuro. tudo . & Os zeros do fim. a informação de que não há SIM disponível. & Como o anjo da história voando para o futuro e olhando para o passado. & Ligou o celular.. só lembranças sem testemunhas. Na história. Mas não via mais nada nesse passado. Dados alfanuméricos traduzidos em uma linha do tempo. & Do futuro não poderia esperar mesmo mais nada. E acelerava. Morto. & Com o vento lacrimejando os olhos. Na tela. Sumiu também das ondas de rádio dos provedores. Seria bom voar agora. Imagem borrada na aceleração. viu 0000 do código.XLIII & Anda como uma "ameaça ao destino e aos ventos fortes" que parecem querer arrancar-lhe os pés do chão. Ruído e vento.. & 03AL06RJ62BA91FR07CA08BA09RV00000. E andou rápido contra o vento.

Do que ou de quem é a seleção alphanum . despregando os pés do chão. Peso. Via agora o chão como uma tela multicolorida deixando os seus pés órfãos e soltos. O vento muda. Oh. subiiia.. & E subitamente decolara. leve. O que quer dizer? & Mais rápido. sentindo a estranha leveza. & Agora começa a impulsioná-lo. enquanto os números se misturam na sua cabeça. Tropeça e aproveita a quase queda pra correr. Vertigo! . Mr. & O vento explodindo no peito. Acelerado vê 050607080910. Norte. O pescoço movido para trás e arrancada final. Vai mais rápido. E andando cada vez mais rápido… Mas faltavam códigos e coisas… rápido..previsível no programa? Estaria. Estava decolando.

Cabeça sangrando.XLIV & Fechou os olhos e sentiu aquela sensação há muito perdida: a vertigem. E riu. & Viu o grande avião dentro do parque e pensou como era surrealista aquela cena. o prédio de pedras enormes. e sentiu o vento nos dentes. & Olhando para baixo viu a casa na rua dos Dutra. Meio-fio. a fuga. Tudo é sempre uma farsa. & Os dentes doíam agora. a bicicleta em que passeava com a primeira namorada. Peso e pressão nas costas. Mãe! Sentiu na boca os dentes trincados. mas não era o vento. & Tudo parecia fazer sentido. & Voando via todo o passado no presente em direção ao futuro. O conjunto de memórias implantado no corpo. Não importava se existia de fato nos arquivos ou se tudo era uma farsa. . A estranha sensação o deixava muito feliz. da padaria Márcia. & Olhos fechados. Gosto amargo! & Viu a si mesmo lá embaixo com a cabeça cortada pela pedra da marquise correndo. a escola na esquina pintada de verde. A cabeça pêndulo. os amigos em volta. um castelo. a leveza. Vazio de pensamentos parecia cheio como um balão. Tinha o gosto de sonho na boca.

O sangue deixava sua visão turva. & Levantou-se rápido e cambaleando. A música ecoava nos ouvidos. anterior. O concreto da imagem do voo. O tropeço. e a ilusão do voo. Tudo girava.No chão. a queda. o desmaio. & The concrete broke your fall. O amargo na boca e a dor nas costas o prenderam ao chão. Andou. Pessoas. . o concreto da realidade da queda.

Tudo parecia estranho. em ordem cronológica. agachou e encaixou as costas doídas. Via fragmentos. & Um zumbido no ouvido direito o fez cambalear e perder o equilíbrio. . indiferente sempre. Olhou em volta. podia sentir a seiva subindo pelas costas aos troncos. mesmo que não houvesse mais registros. Eram lembranças com gostos e cheiros. Achar os motivos da misteriosa (in) visibilidade. Levantou-se e apressou os passos. Era voo e era pouso. & 06RJ62BA91FR07CA08 do código Ptyx explica sua história. & Levou a mão à cabeça e limpou o resto de sangue. & A memória que se apagou era um programa que se construiu antes? Mas por quem e para quê? Pensou nas fotos enquanto andava.XLV & Andou com dores por todo o corpo com a sensação de que vivera lembranças reais. Abandonou-se. Cuspiu o gosto amargo da boca. Ia cair. galhos e folhas. & Colado na árvore. E. ao cansaço. & Queria voltar pra casa e encerrar de uma vez o dilema. Apoiou-se em uma árvore. tudo já estava lá. por alguns segundos.

& E vamos bem devagar. como vai bem devagar aquele que não quer acabar o que está fazendo por puro prazer. Nem voar. . vamos ao início onde tudo começou.& Mas nada de correr agora. E onde deve tudo acabar. Lei inevitável do retorno. Vamos bem devagar. Isso não significa saber como.

sem carros. Tonto. Ele está entre índices e armadilhas construídas. mas questionáveis. & A rua parecia silenciosa. Fica a poeira dos objetos. no primeiro número: nomos e verdade e destino. A. Tudo desaparecendo. Não voltou a andar pelas ruas. nem L. Um dia como um ano. . Ficam vestígios dos dias e noites. nem a descer correndo pelas escadas. & Tudo irregular e labiríntico. & As inegáveis. nem o fixo. presenças. Apenas o vento forte da beira-mar fazia mover seus cabelos ondulados. identificou o começo no código. & Precisava mesmo voltar ao início. Fica tudo sem peso. na primeira letra. & Não jogava mais com as estações do metrô.XLVI & O telefone nunca mais tocou. Findo o período das 3 conchas. onde tomara café após o cemitério do grafite direto e anônimo. esquecidos ou abandonados. Mesmo o bar. como a sua própria. e as marcas aqui e acolá.

no exato momento. Passara a viver em um outro espaço. fora das relações locais e reais. & Como sempre. Para diante da porta. janelas. . Foco. com qualquer código inscrito sob suspeitas condições. Sabe que sua atenção deve estar voltada para a concha. Não quer se iludir. como sair dessa @re_viravolta. Pisa. o fim. & Volta pra casa. o fechamento. Tudo molhado lá fora. chove. paisagens. & Não está mais no seu lugar. & Pega o ônibus vazio. Desce do ônibus e não vê os lugares habituais. Não ia ser diferente agora. Apaga os degraus. sem destacar do fundo aquilo que não presta. Só ele entre cadeiras. textual. e os respingos brilham na fraca luz do sol. & Chega. sempre e mais abstrato. Saberia. & Mas não presta muita atenção a isso. para a última concha. Escuta. Sobe as escadas correndo. Era um otimista. & Visão periférica prejudicada sem figura no fundo.XLVII & Sempre recusou os números definitivos. linear. Tomara a decisão e estava mais tranquilo. Tenta. Os sons abafados de lá fora amplificam os sons ruidosos de dentro.

@ re_viravolta . O amor acabou. Lento o tempo.& Veja como esse ano passa como um dia. Força a porta já violentada. do tempo e do espaço. Fim do amor. da crença e da decepção. não é mais nada. como enfrentar a fuga dos dados. essa falsa cola do mundo. Volta pra concha. Dissolução. como um ano! Não há tempo a perder. & Não há mais atração. & Está livre do ciclo da esperança e do desespero. enfim. Parece que nada ainda aconteceu. Temos muito tempo a perder. vínculo. Éter. que muito está por vir. Não há esperança. . está livre. Agora ela é sua ficção. & Agora ele sabe como resolver o dilema. Sumiu.mas a chave não funciona mesmo. Esse dia já durou muito. & Olha pra cima e as sombras da fumaça ainda marcam o teto que parece mover-se. como solucionar a espiral dos códigos misteriosos. já que ele não está mais em nada.

@re_viravolta . mas não se lembra do dia que passou. parar com essas idas e vindas.. Exale. Esvazie os pulmões até não poder mais. Desliga o computador. Chega. @re_viravolta . De bruços. Quer escrever.. Nada. exale. deixe o ar sair. Não acredita mais em jogos de dados. de “escreviver”. Respira fundo e prende para sempre a respiração.& être un autre Esprit pour le jeter dans la tempête en reployer la division et passer fier j’hésite cadavre par le bras écarté du secret.& Vire-se sobre si mesmo. Deitado no chão olha o teto. Agora mesmo. .XLVIII & 8h. apaga os arquivos e o código. @re_viravolta e @re_vira_volta. De barriga para cima. & Como o leitor do poeta. & Vira-se sobre si mesmo. ou no livro que virá. cruza os braços e apóia a cabeça. Invisível. & Quer apagar agora todo diálogo e o acaso. como um travesseiro. é um “hóspede” de sua existência. agora. the Lino.

br .art.Notas 1) Devo a inspiração dessa passagem a um trecho no blog http://messias.

Sobre o autor André Lemos (@andrelemos). Edmonton e Salvador.info . Para saber mais. Autor de diversos livros e artigos sobre a cultura digital. nasceu no Rio e viveu em Paris. 48. onde reside atualmente. Montreal. ver seu blog Carnet de Notes (ativo desde 2001) http://andrelemos. "@re_vira_volta" é o segundo livro em verão digital (o primeiro foi "Caderno de Viagem". É professor da Faculdade de Comunicação da UFBa e pesquisador do CNPq. pela Editora Plus).

É proibida a reprodução ou cópia deste arquivo sem prévia autorização do mesmo Capa e diagramação: Simplíssimo Livros ISBN 978-85-6365-422-9 Arquivo digital produzido pela Simplíssimo Livros www.outubro 2010 .Cólofon Todos os direitos reservados © Copyright .com.simplissimo.André Lemos Publicação independente do autor.br .

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