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SUBSIDIOS PARA A HISTÓRIA DA TAUROMAQUIA EM SALVATERRA DEMAGOS
Séc. XIX, XX, XXI

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Autor: Gameiro, José Editor: Gameiro, José Rodrigues Morada: Bairro Pinhal da Vila Rua Padre Cruz, Lote 4 2120-059 Salvaterra de Magos Josergameiro@sapo.pt Edição: Online http://www.historiadesalvaterra,blogs.sapo.pt Janeiro 2011

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Para os meus sobrinhos:
Cláudio José, Rogério, Diogo, Mariana, Rui, e

Cláudio Nuno, Cujo grande apoio não devo esquecer, sempre atento na colaboração, nesta e nas anteriores edições online já publicadas

Com um carinho especial, para o meu cunhado, Manuel Fernandes Travessa, um apaixonado, destas “coisas” dos toiros.

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Por último, para o meu cunhado: Ma Travessa, Um apaixonado, O MEU CONTRIBUTO

Sou descendente de gente simples do campo, meu avô paterno, foi campino, como foram todos os seus irmãos. A minha passagem pelo mundo da festa brava, cingiu-se apenas na escrita de uma ou outra notícia, ou artigo de alguma efeméride, como: “Os 76 anos sobre a morte do famoso toureiro ribatejano, natural de Salvaterra de Magos; Vicente Roberto”, que foi publicada no “Diário do Ribatejo”, ou as entrevistas sobre: “Os 50 anos da inauguração da praça de toiros de Salvaterra” e, a entrevista ao antigo forcado, “José Hipólito – Figura Típica da Terra” que foram publicados no jornal “Aurora do Ribatejo”. Em 1976, fiz notícia jornalística, de uma jornada reivindicativa de toiros de morte em Portugal, que teve lugar no salão nobre do Clube Desportivo Salvaterrense, e, na sua sequência, meses depois levou à morte de toiros na praça de Salvaterra. Um outro artigo fiz sair no já desaparecido jornal Vale do Tejo, quando do falecimento do aficionado António Cadório. De vez enquanto lá me aparecem pedindo a minha ajuda, entusiastas destas coisas dos toiros, ou estudantes interessados em saber algo sobre a morte do Conde dos

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Arcos, ocorrida num brinco de toiros, aqui em Salvaterra. Esta morte, para muitos é ainda uma incógnita e motivo de grandes discussões entre aficionados, e não só, também os que gostam de “contos e lendas” ligados à terra, tentam desvendar o que apenas se sabe pelo que está escrito. O meu espólio sobre a temática taurina em Salvaterra, sendo guardado ao longo de muitas décadas, não é coisa que valha, são documentos recolhidos por carolice, que cruzam dados sobre lavradores/ganadeiros que aqui tinham terras, desde o séc. XIX, e faziam criação de toiros. O campino tinha lugar de destaque naquelas importantes casas agrícolas, como guardador das manadas de gado bravo. Os cavaleiros, toureiros e moços de forcados, são outros componentes que enriqueceram a festa brava nos séc. XX e XXI, desta vila ribatejana. Com tais documentos, pensei se não valeria a pena agrupar todo este material e, com ele fazer um livro, para não se perder tanta informação, que muito valerá aos interessados em aprofundar Sendo uma tradição de séculos, não só ribatejana, aqui está esta edição – “Subsídios para a História da Tauromaquia em Salvaterra de Magos- séc. XIX, XX e XXI” . É um pequeno trabalho que ficará ao dispor de quem um dia queira fazer um estudo profundo da história da tauromaquia em Salvaterra de Magos. Se isso vier a acontecer, já me sinto contente !! Janeiro de 2011 JOSE GAMEIRO
(José Rodrigues Gameiro)

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I
A Última corrida de Touros em Salvaterra
Nota Prévia A trágica morte do jovem fidalgo, Manuel José de Noronha e Menezes, 7º Conde dos Arcos, filho do Marquês de Marialva, numa corrida de touros, em Salvaterra de Magos, tem servido para muita transcrição ao longo dos tempos, levou a que Luiz Augusto Rebello da Silva, numa das suas obras marcantes, e um marco de referencia do romantismo português, no séc. XIX. Ao longo dos tempos, em tudo quanto é editado sobre Salvaterra, não deixa de aparecer,” A Morte do Conde dos Arcos”. Conto que sendo romanceado, segundo alguns autores, foi escrito cerca de 70 anos depois do acontecimento. A MORTE DO CONDE DOS ARCOS “O sr. D. José, primeiro do nome, era em Salvaterra um rei em férias. –A verdade é que os maldizentes notavam, em segredo, que Sua Majestade, estava sempre ao torno e o Marquês no trono. O prolóquio fundava-se na habilidade mecânica do monarca como torneiro, e no carácter dominador do marquês como ministro.

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Vicejavam os campos em plena primavera. A amendoeira cobria-se de flores, os bosques esfolhavamse, as veigas vestiam-se e matizavam-se, e a brisa doidejava indiscreta arregaçando o lenço à donzela que passava, ou roubando um beijo à rosa perfumada. Tudo eram alegrias e cânticos… os rouxinóis nas moitas, o coração nos amores, e a natureza nos sorrisos ao sol esplêndido que a dourava. O Rei estava em férias em Salvaterra e, uma tourada real chamara a corte a restante fidalguia do país a esta vila. Os fidalgos respiravam nestas ocasiões menos oprimidos. Não os assombrava tão de perto a privança do ministro. Os touros eram bravos, os cavaleiros destros, o anfiteatro pomposo, e o cortejo das damas adorável. O prazer na boca de todos. Por cúmulo de venturas o Marquês de Pombal ficara em Lisboa, retido pelo conflito com o embaixador de Espanha. Contava-se em segredo nos recantos do palácio o diálogo entre o enviado castelhano e o secretário de estado português, louvando-o uns em voz alta, para os ecos daquelas paredes repetirem os elogios, crucificando-o outros sem piedade, para saciarem os ódios. As devotas e os fidalgos puritanos eram pelo espanhol, e pediam a Deus que os rebates da guerra próxima despenhassem o plebeu nobilitado do seu pedestal político. Os magistrados e os homens de capa e volta, defendiam o marquês e respondiam com meios sorrisos às fogosas jaculatórias dos zelosos do trono e do altar.

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O Marquês de Pombal, tinha-se negado com firmeza às concessões exigidas imperiosamente pelo governo castelhano: – Muito bem, - atalhou o embaixador – um exército de sessenta mil homens entrará em Portugal e fará … - O quê ? – Perguntara o marquês, sorrindo-se com a tremenda luneta assentada e no tom mais indiferente. - Fará entender a razão e a justiça de el-rei, meu amo, a Sua Majestade, e a vossa excelência! – Redarguiu meia oitava acima o espanhol, supondo o ministro fulminado. Sebastião José de Carvalho franziu as sobrancelhas, carregou a viseira, e cravando a vista e a luneta no diplomata, retorquiu-lhe friamente: - Sessenta mil homens muita gente é para casa tão pequena; mas querendo Deus, el-rei meu amo e senhor, sempre há-de achar onde possa hospedá-la. Mais pequena era Aljubarrota e lá couberam os que D. João de Castela trouxe. Vossa excelência pode responder isto ao seu governo. E, levantando-se para despedir o embaixador, acrescentou: - Bem sabe vossa excelência que pode tanto cada um em sua casa, que mesmo depois de morto é precisos quatro homens para o tirarem! O embaixador saiu jurando por Dyos y la Virgem Santíssima, e o marquês preparou-se para a guerra. O caso é, como dizia o nosso Zeferino na Sobrinha do Marquês, que Sebastião José de Carvalho foi um grande ministro e que fez muito pela nação. Hoje há menos

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quem responda estrangeiros.

assim

à

letra

às

ameaças

dos

Berra-se muito, dorme-se a sono solto ao som dos hinos patrióticos e depois salva o castelo de madrugada e está salva a pátria. O marquês de Pombal prezava as artes e protegia e animava as classes médias. Esse pouco que o reino progrediu deveu-se a ele. Se a indústria nunca acabou de sair da infância, a culpa quase toda foi dos maus governos que sucederam ao seu, e também do povo que não quis trabalhar deveras… Mas vamos aos touros reais. Desses é que o ministro não gostava nada. Queria-os ao arado e não à farpa, e parecia-lhe melhor, que os toureadores, sendo fidalgos, servissem o Estado com a pena ou com a espada, e, sendo mecânicos, que lavrassem, tecessem e ganhassem honradamente a vida, enriquecendo-se a si e à nação. Mas el-rei D. José, cedendo em tudo ao marquês, quanto aos touros não admitia reflexões. Nisto era rei a valer e Bragança legitimo. Os fidalgos sabiam-no e por isso desfrutavam doces prazeres – a satisfação do gosto nacional e a contradição da vontade do ministro. Desatendê-la sem perigo e pela mão do soberano era para eles um deleite e um triunfo. Nestas funções não vigorava a severidade das últimas pragmáticas. Outro motivo de júbilo.

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Quem queria podia arruinar-se em luxuosos vestidos, enfeites e toucados. As bordaduras e os recamos de ouro, os veludos e sedas de fora, talhados à francesa, resplandeciam constelados de pérolas e diamantes. Por cima dos mais ricos trajos e das mais vistosas cores desenrolavam-se os anéis ondeados das empoadas cabeleiras. As damas ostentavam as graças de seus donaires e tufados, e emoldurando o belo oval dos rostos nos penteados caprichosos, sorriam-se para os gentis campeadores, e seus olhos cheios de luz e de promessas estimulavam até os tímidos. Correram-se as cortinas da tribuna real. Rompem as músicas. Chegou el-rei, e logo depois entra pelos camarotes o vistoso cortejo, e vê-se ondear um oceano de cabeças e de plumas. Na praça ressoam brava alegria as trombetas, as charamelas e os timbales. Aparecem os cavaleiros, fidalgos distintos todos, com o conto das lanças nos estribos e os brasões bordados no veludo das gualdrapas dos cavalos. As plumas dos chapéus debruçam-se em matizados cocares, e as espadas em bainhas lavradas pendem de soberbas talins. Os capinhas e forcados, vestem com garbo à castelhana antiga. No semblante de todos brilha o ardor e o entusiasmo. O Conde de Arcos, entre os cavaleiros, era quem dava mais na vista. O seu trajo, cortado à moda da corte de

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Luiz XV, de veludo preto, fazia realçar a elegância do corpo. Na gola da capa e no corpete sobressaiam as finas rendas da gravata e dos punhos. Nos joelhos as ligas bordadas deixavam escapar com artificio os tufos de cambraieta alvíssima. O conde não excedia a estatura ordinária; mas, esbelto e proporcionado todos os seus movimentos eram graciosos. As faces eram talvez pálidas de mais, porém animadas de grande expressão, e o fulgor das pupilas negras fuzilava tão vivo e por vezes tão recobrado, que se tornava irresistível. Filho do marquês de Marialva e discípulo querido de seu pai, do melhor cavaleiro de Portugal, e talvez da Europa, a cavalo, a nobreza e a naturalidade do seu porte enlevavam os olhos. Ele e o corcel, como que ajustados em uma só peça, realizavam a imagem do centauro antigo. A bizarria com que percorreu a praça, domando sem esforço o fogoso corcel, arrancou prolongados e repetidos aplausos. Na terceira volta, obrigando o cavalo quase a ajoelhar-se diante de um camarote, fez que uma dama escondesse turvada no lenço as rosas vivíssimas do rosto, que decerto descobririam o melindroso segredo da sua alma, se em momentos rápidos como o faiscar do relâmpago pudesse alguém adivinhar o que só dois sabiam.

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El-rei, quando o mancebo o cumprimentou pela última vez, sorriu-se, e disse voltando-se: - Porque virá o conde quase de luto à festa ? Principiou o combate. Não é propósito nosso descrever uma corrida de touros. Todos teem assistido a elas e sabem de memória o que o espectáculo oferece de notável. Diremos só que a raça dos bois era apurada, e que os touros se corriam desembolados, à espanhola. Nada diminuía, portanto, as probabilidades do perigo e a poesia da luta. Tinham-se picado alguns bois. Abriuse de novo a porte do curro, e um touro preto investiu com a praça. Era um verdadeiro boi de circo. Armas compridas e reviradas nas pontas, pernas delgadas e nervosas, indício de grande ligeireza, sinal de força prodigiosa. Apenas tocara o centro da praça, estancou como deslumbrado, sacudiu a fronte e, escavando a terra impaciente, soltou um mugido feroz no meio do silêncio, que sucedera às palmas e gritos dos espectadores. Dentro em pouco as capinhas, saltando a pulos as trincheiras, fugiam à velocidade espantosa do animal, e dois ou três cavalos expirantes, denunciavam a sua fúria. Nenhum dos cavaleiros se atreveu a sair contra ele. Fez uma pausa. O touro pisava a arena ameaçador e parecia desafiar em vão um contendor. De repente viu-se o Conde dos Arcos firme na sela provocar o ímpeto da fera e a haste flexível do rojão

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ranger e estalar, embebendo o ferro no pescoço musculoso do boi. Um rugido tremendo, uma aclamação imensa do anfiteatro inteiro, e as vozes triunfais das trombetas a charamelas encerraram esta sorte brilhante. Quando o nobre mancebo passou a galope por baixo do camarote, diante do qual pouco antes fizera ajoelhar o cavalo, a mão alva e breve de uma dama deixou cair

uma rosa, e o conde, curvando-se com donaire sobre os arções, apanhou a flor do chão sem afrouxar a carreira, levou-a aos lábios e meteu-a no peito. Investindo depois com o touro, tornado imóvel com a raiva concentrada, rodeou-o estreitando em volta dele os círculos até chegar quase a pôr-lhe a mão na nuca. O mancebo desprezava o perigo e pago até da morte pelos sorrisos, que seus olhos furtavam de longe, levou o arrojo a arrepiar a testa do touro com a ponta da lança.

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Precipitou-se então o animal com fúria cega e irresistível. O cavalo baqueou trespassado e o cavaleiro, ferido na perna, não pôde levantar-se. Voltando sobre ele o boi enraivecido arremessou-o aos ares, esperou-lhe a queda nas armas, e não se arredou senão quando, assentando-lhe as patas sobre o peito, conheceu que o seu inimigo era um cadáver. Este doloroso lance ocorreu com a velocidade do raio. Estava já consumada a tragédia e não havia expirado ainda o eco dos últimos aplausos. De repente um silêncio, em que se conglobam milhares de agonias, emudeceu o circo. Rei, vassalos e damas, meio corpo fora dos camarotes, fitavam a praça sem respirar e erguiam logo a vista ao céu como para seguir a alma que para lá voava envolta em sangue. Quando mancebo, dobrado no ar, exalava a vida antes de tocar no chão, um gemido agudo, composto de soluços e choro, caiu sobre o cadáver como uma lágrima de fogo. Uma dama desmaiada nos braços de outras senhoras soltara aquele grito estridente, derradeiro ai do coração ao rebentar do peito. El-Rei D. José com as mãos no rosto, parecia petrificado. A corte desta vez acompanhava-o na sua dor. Mas o drama ainda não tinha concluído. Quem sabe!? O terror e a piedade iam cortar de novas mágoas o peito a todos. O Marquês de Marialva assistira a tudo do seu lugar.

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Revendo-se na gentileza do filho, seus olhos seguiamlhe os movimentos brilhando a cada sorte feliz. Logo que entrou o touro preto, carregou-se de uma nuvem o semblante do ancião. Quando o Conde dos Arcos saiu a farpeá-lo, as feições do pai contraíram-se e a sua vista não se despregou mais da arriscada luta. De repente o velho saltou um grito sufocado e cobriu os olhos, apertando depois as mãos na cabeça. Os seus receios haviam-se realizado. Cavalo e cavaleiro rolavam na arena, e a esperança pendia de fio ténue ! Cortou-lhe rapidamente a morte, e o marquês perdido o filho, luz da sua alma e ufania de suas cãs, não preferiu uma palavra, não derramou uma palavra; mas os joelhos fugiam-lhe trémulos, e a elevada estatura elevou-se vergando ao peso da mágoa excruciante. Volveu, porém, em si, decorridos momentos palidez do rosto tingiu-se de vermelhidão subitamente. Os cabelos desgrenhados e revolveram-se-lhe na fronte inundada de suor frio as sedas da juba de leão irritado. alivia febril hirtos como

Nos olhos amortecidos faiscou instantâneo, mas terrível, o sombrio clarão de uma cólera, em que todas as ânsias insofridas da vingança se acumulavam. Em um ímpeto a presença reassumiu as proporções majestosas e erectas como se lhe corresse nas veias o sangue do mancebo que perdera.

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Levando por acto instintivo a mão ao lado, para arrancar da espada, meneou tristemente a cabeça. A sua boa espada, cingira-a ele próprio ao filho neste dia que se convertera para sua casa em dia de eterno luto. Sem querer ouvir nada, desceu os degraus do anfiteatro, seguro e resoluto como se as neves de setenta anos lhe não branqueassem a cabeça. – Sua majestade ordenou ao marquês de Marialva, que aguarde as suas ordens! – disse um camarista, detendoo pelo braço. O velho estremeceu como se acordasse sobressaltado, e cravou no interlocutor os olhos desvairados, em que reluzia o fulgor concentrado dum pensamento imutável . Desviando depois a mão que o suspendia, baixou mais dois degraus. - Sua majestade entende foi já bastante desgraçado e não quer perder nele dois vassalos… - El-rei manda nos vivos e eu vou morrer! – atalhou o ancião, em voz áspera, mas sumida – Aquele é o corpo do meu filho! – e apontava para o cadáver – Está ali! Sua majestade pode tudo menos desarmar o braço do pai, menos desonrar os cabelos brancos do criado que o serve há tantos anos. Deixe-me passar, e diga isto. D. José vira o marquês levantar-se e percebera a sua resolução. Amava no estribeiro-mor as virtudes e a lealdade nunca desmentidas. Sabia que da sua boca não ouvira senão a verdade, e a ideia de o perder assim era-lhe insuportável.

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Apenas lhe constou que ele não acedia à sua vontade, fez-se branco, cerrou os dentes convulsos e, debruçado para fora da tribuna, aguardou em ansioso silêncio o desfecho da catástrofe. A esse tempo já o marquês pisava a praça, firme e intrépida como os antigos romanos diante da morte. Dentro do peito o seu coração chorava, mas os olhos áridos queimavam as lágrimas quando subiam a rebentar por eles. Primeiro do que tudo queria a vingança. Por impulso instantâneo, todo o ajuntamento se pôs de pé. Os semblantes consternados e os olhos arrasados água, exprimiam, aquela dolorosa contenção de espírito, em que um sentido parece concentrar todos. - Deixai-o ir ao velho fidalgo! A mágoa, que o trespassa, não tem igual. O fogo, que lhe presta vida e forças, é a desesperação. Deixai-o ir, e de joelhos! Saudai a majestade do infortúnio. O pai angustiado ajoelhou junto do corpo do filho e pousou-lhe depois um ósculo na fonte. Desabrochou-lhe o talim e cingiu-o, levantou-lhe do chão a espada e correu-lhe a vista pelo fio e pela ponta de dois gumes. Passou depois a capa no braço e cobriu-se. Decorridos instantes estava no meio da praça e devorava o touro com a vista chamejante, provocando-o para o combate. Cortado de comoções tão cruéis, não lhe tremia o braço e os pés arreigavam-se na arena como se um

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puder oculto e superior repentinamente à terra.

lhos

tivesse

ligado

Fez no circo um silêncio gélido, tremendo e tão profundo, que poderiam ouvir-se até as pulsações do coração do marquês, se naquela alma de bronze o coração valesse mais do que a vontade. O touro arremete contra ele. Uma e muitas vezes o investe ego e irado, mas a destreza do marquês esquiva sempre a pancada. Os ilhais da fera urfam de fadiga, a espuma franja-lhe a boca, as pernas vergam e resvalam, e os olhos amortecem de cansaço. O ancião zomba da sua fúria. Calculando as distâncias, frustra-lhe todos os golpes sem recuar um passo. O combate demora-se. A vida dos espectadores resume-se nos olhos. Nenhum usa desviar a vista de cima da praça. A imensidade da catástrofe imobiliza todos. De súbito solta el-rei um grito e recolhe-se para dentro da tribuna. O velho aparava a peito descoberto a marrada do touro, e quase todos ajoelharam para rezarem por alma do último marquês de Marialva. A aflitiva pausa apenas durou momentos. Por entre as névoas, de que a pupila trémula se embaciava, viu-se o homem crescer para a fera, a espada fuzilar nos ares e logo após sumir-se até aos copos entre a nuca do animal. Um bramido, que atroou o circo, e o baque do corpo agigantado na arena, encerraram o estremo acto do funesto drama. Clamores uníssonos saudaram a vitória.

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O marquês, que tinha dobrado o joelho com a força do golpe, levantava-se mais branco do que um cadáver. Sem fazer caso dos que o rodeavam, tornou a abraçar-se com o corpo do filho, banhando-o de lágrimas e cobrindo-o de beijos. O touro ergueu-se, e, cambaleando com a sezão da morte, veio apalpar o sitio onde queria expirar. Ajuntou ali os membros e deixou-se cair sem vida ao lado do cavalo do conde dos Arcos. Nesse momento os espectadores olhando para a tribuna real estremeceram. El-rei, de pé e muito pálido, tinha junto de si o marquês de Pombal, coberto de pó e com sinais de ter viajado depressa. Sebastião José de Carvalho voltava de propósito as costas à praça falando com o monarca. Punia assim a barbaridade do circo. – Temos guerra com a Espanha, senhor. E inevitável. Vossa majestade não pode consentir que os touros lhe matem o tempo e os vassalos. Se continuássemos nesse caminho … cedo iria Portugal à vela. - Foi a última corrida marquês. A morte do conde dos Arcos acabou os touros reais enquanto eu reinar – Assim o espero da sabedoria de vossa majestade. Não há tanta gente nos seus reinos, que possa dar-se um homem por um touro. - El-rei consente que vá em seu nome consolar o marquês de Marialva ?

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- Vá ! É pai. Sabe o que há-de dizer-lhe…! - O mesmo que ele me diria a mim, se Henrique estivesse como está o conde. El-rei saiu da tribuna, e o marquês de Pombal, entrando na praça em toda a majestade da sua elevada estatura, levantou nos braços o velho fidalgo, dizendo-lhe com voz meiga e triste: - Sr. Marquês! Os portugueses, como V. exª., são para darem exemplos de grandeza de alma e não para os receberem. Tinha um filho e Deus levou-lho. Altos juízos seus! A Espanha declara-nos a guerra e el-rei, meu amo e senhor, precisa do conselho e da espada de v.exª. e travando-lhe da mão, levou-o quase nos braços até o meterem na carruagem. D. José I, cumpriu a palavra dada ao seu ministro. No seu reinado não mais se picaram touros reais em Salvaterra.”

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II
O CONDE DOS ARCOS - A SUA ORIGEM E MORTE NOTA PREVIA É pela carta real de 2 de Fevereiro de 1620 que, pela primeira vez se fala deste título; Conde dos Arcos. É um título atribuído com conotação à povoação de Arcos de Valdevez. Segundo alguns historiadores, o nascimento do 7º Conde dos Arcos; D. Manuel José de Noronha e Menezes, terá acontecido em Marvila, no ano de 1740. Em 1989, quando pesquisava o local onde teria existido o “Teatro Régio de Salvaterra”, pessoas que agora teriam 115 anos de idade, disseram-me que na meninice deles, o povo falava que o sítio onde teria acontecido a corrida, era num terreno aberto, por detrás do Paço das Damas. Lembravam-se, que no primeiro quartel do séc. XX, aquela zona foi urbanizado com algumas casas. E

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que alguns lhe chamavam “Canto da Ferrugenta”, outros o “Páteo do Pardalada”. Quanto ao registo da morte sabe-se foi feito nos serviços da secretaria do paço real de Salvaterra e, do mesmo, fez notícia a “ Gazeta de Lisboa”, jornal da época. A POLÉMICA A curiosidade em conhecer melhor o que foi escrito por Rebello da Silva, sobre a “Última corrida de toiros em Salvaterra e a morte do Conde dos Arcos” tem levada à realização de vários colóquios, onde as inúmeras intervenções, causam sempre alguma polémica. Também em 2003, Vitor Escudero, considerado um investigador no mundo dos toiros, em Portugal, Arraigadamente disse numa reunião de aficionados, realizada em Salvaterra, “É uma das maiores mentiras da nossa História”, o Conde dos Arcos morreu, na Murteira (Samora Correia).
********** De acordo com o registo cronológico dos titulares “Conde dos Arcos”, regista-se a sua morte em 1779, mas em documentos usados posteriormente, como: “certidão de óbito”, a sua morte ocorreu em 10 de Fevereiro de 1778.

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Já antes, Pizarro Monteiro, falecido em 1991, deixou escrito em 1982, que a morte do Conde dos Arcos, nunca aconteceu de maneira trágica em Salvaterra, mas sim de morte natural, conforme uma oração fúnebre deixada escrita em 1778. Também quando das obras, realizadas na Igreja Matriz da vila, em 1958, o padre José Rodrigues Diogo, pároco da freguesia, em presença de três pedras tumulares em frente ao altar daquele templo, disse: Uma delas é do Bispo João Soalhães, fundador da Igreja, em 1296, cujo orago é S. Paulo. Uma outra é, do Conde dos Arcos, veio do convento de Jericó, quando do sismo de 1858.

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III
TOIROS DE MORTE EM SALVATERRA Depois do acontecido em 1762, com a morte do Conde dos Arcos, vários abusos com mortes de toiros aconteceram em praças portuguesas. Em 1921, Joaquim Mella, na praça de toiros das Caldas da Rainha, estoqueou um toiro e, logo de seguia em Salvaterra de Magos, o toureiro “Faculdades”, que muitas vezes fez parelha com os irmãos Roberto(s), abateu toiros o que deu origem à publicação de uma nova lei que revogava as anteriores proibições, que vinham de 1837 e 1838. Novamente e apesar das proibições, em 1927, foram mortos toiros em praças de Portugal. Novo decreto-lei, foi publicado no Diário do Governo, de 11 de Abril de 1928, estabelecendo pesadas sanções para os prevaricadores, bem como aos proprietários das praças.

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Em 1952, Manuel dos Santos, estoqueou um toiro no Campo Pequeno e, mais tarde coube a vez ao matador António dos Santos. Os anos decorriam e os aficionados, toureiros e ganadeiros pugnavam, mesmo em surdina, pela morte dos toiros na arena, das praças portuguesas, Aproveitando as incertezas políticas que pairavam em Portugal, depois da revolução dos cravos, em 1974, novamente o “mundo” ligado a festa tauromáquica, realiza em Salvaterra de Magos, no dia 18 de Dezembro de 1976, no salão do Clube Desportivo local, um colóquio, Da reunião, fiz noticia que foi publicada no jornal “Diário do Ribatejo” em 18 de Dezembro de 1976, que aqui transcrevo: “Sim, toiros de morte em Salvaterra de Magos foi a palavra de ordem, no colóquio realizado no passado dia 18, no Salão do Clube Desportivo Salvaterrense. Promovido pela Comissão Pró-Toiros de Morte em Portugal e apoiada pela Comissão da Praça de Toiros de Salvaterra, e na sequência de outras sessões sobre o mesmo tema, foi levada a efeito uma sessão e esclarecimento sobre a situação da tauromaquia em Portugal e dar a conhecer o ponto da situação sobre o movimento que se está a desenvolver para as corridas na próxima temporada, sejam integrais. Compunham a mesa do colóquio: Dr. Queirós (advogado), José Júlio, Parrreirita

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Cigano, António Portugal, Ludovino Bacatume Mestre Batista (toureiros). Rogério Amaro (critico e pegador de toiros), João Ramalho(ganadeiro) João Mascarenhas, Chony, Francisco Rocha (aficionados), e ainda as senhoras; Isabel Cadencio e Carolina Bacatum. Foram ainda convidado e, estiveram presentes; forcados, campinos e alguns elementos da Comissão que tinham em seu poder a gerência da praça de toiros da misericórdia local. Abriu o colóquio, o sr, Chony que fez algumas

considerações sobre as perspectivas e a sua viabilidade dos toiros de morte em Portugal. Seguidamente foi dada a palavra ao ganadeiro João Ramalho, que fez uma síntese dos toiros de lide e as dificuldades na sua criação. O dr. José Queiró, começou a sua intervenção, por fazer algumas considerações ao processo judicial, onde estão envolvidos os matadores e cavaleiros, que intervieram na já célebre corrida de 31 de Outubro do corrente ano, em Vila Franca de Xira. Depois fez algumas análises ao Decreto-Lei, que proíbe os toiros de morte em Portugal e que data de 1836,e que foi confirmado pelo Decreto de 1919, que prevê para as infracções nalguns pontos multas de 2$00 e 15$00, mais tarde em 1921 saiu a Portaria que vem de igual modo regulamentar as corridas de toiros e suas implicações, ainda em 1928, saiu outro DecretoLei sobre igual matéria e que na opinião jurista, tal matéria

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publicada, está desde há muito ultrapassada, e que urge modificar. Pela sua intervenção recebeu grandes aplausos. O crítico de toiros do “jornal de noticias” e forcado, Rogério Amaro, iniciou a sua intervenção sobre o papel dos moços de forcados e a necessidade de os agrupamentos serem reduzidos, se os toiros de morte for uma realidade, foi muito aplaudido. José Júlio, António Portugal e Parreirita Cigano descreveram cada uma à sua maneira o papel do matador de toiros, em Portugal e em Espanha, Por todos foi condenado o obsoleto Decreto, que ainda regula as corridas com toiros de morte em Portugal. As senhoras, Isabel Cadencio e Carolina Bacatum, referiram-se ao papel das senhoras no ambiente tauromáquico, aplaudiram e incentivaram os elementos da Comissão Pró-Toiros de Morte a prosseguir a sua luta, que era aliás a luta de todos os aficionados. O sr. João Mascarenhas, que na sua intervenção, empregou grande entusiasmo e bastante aficion, começou por exortar os presentes a apoiar a Comissão, que está a trabalhar no projecto, que se espera dentro de algum tempo venha a ser entregue ao governo. Fez uma critica, às ausências dos

aficionados, que servem nos meios da comunicação social, e manifestou a sua grande alegria, por naquela sala encontrar grande número de jovens e que se estava em presença de novos aficionados. Loduvino Bacatum, também deu uma

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achega, focando os aspectos dos toureiros, que sendo reconhecidos como trabalhadores na sua profissão, nalguns Ministérios, inclusive o do Trabalho, não podiam ser matadores de toiros, em Portugal, também deu a conhecer pormenores ao público presente de como tem sido o “mister”de empresário neste país, e que num futuro muito próximo, tal condição, terá que ser mais humana. Ao entrar-se no período de perguntas aos elementos que compunham a mesa, assistiu-se a um dialogo, muito vivo e entusiasta, com perguntas que pelo seu conteúdo, verificavase que os aficionados Salvaterrianos, estavam deveras preocupados com o futuro das corridas de toiros, muito especialmente com as de toiros de morte, sendo muito frequente ouvir-se “a petição para a frente”, começar com os toiros de morte em Portugal, ela se efective, mas terminaram, com a morte do Conde de Arcos, na Primavera de 1762. Por último foram exibidos filmes, dando conta à assistência de como são frias e sem motivação, as corridas de toiros em Portugal, em paralelo com as realizadas em Espanha, onde o público vê o espectáculo, cheio de vibração quando o matador remata a faena, com o estoque final. A assistência, cerca de três centenas e meia de pessoas, saiu deveras entusiasmada, assinando por fim as listas, para a respectiva petição de toiros de morte em Portugal. 18-12-76 * JOSE GAMEIRO

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************** Uns meses depois, num ambiente, então descrito de provocar a lei, na praça de toiros de Salvaterra, em 15 de Maio de 1977, os toureiros Armando Soares e o espanhol “El Macareño”, estoquearam 4 toiros. Do acontecido, o jornal “Aurora do Ribatejo”, publicou notícia, em 25 de Maio de 1977.

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IV
CRIADORES DE TOIROS EM SALVATERRA

Nota Prévia No séc. XIX, existem registos de lavradores de Salvaterra de Magos, para além de terem, a sua actividade agrícola, desenvolviam a criação de gado bravo. Havia as pequenas e grandes ganadarias. Nas pequenas, trabalhavam um restrito grupo que não passavam do Moiral, Contra Moral e Campinos. Nos meses da Primavera e Verão, o gado pastava nas terras frescas da bacia do rio Tejo. Como no campo de Salvaterra e Lezíria Grande (Vila Franca de Xira). No tempo de Outono e Inverno, alimentavam-se do pasto da charneca, lá para os lados do Chaparral e Coelhos, pastando algumas vezes nas terras frescas, que viriam a pertencer anos depois à Barragem de Magos.

RODRIGO FERREIRA DA COSTA (Dr.) Natural de Salvaterra de Magos, foi médico e criador de gado bravo, por volta de 1873, forneceu vários curros

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de toiros para a praça do Campo de Sant`Ana. Falecer em 1878, na sua terra-natal.

ANTONIO FERREIRA ROQUETTE Natural de Salvaterra de Magos, teve casa agrícola nesta vila, foi criador de toiros, com divisa: turquesa e branco. Os seus toiros gozavam de grande fama. Enviou alguns curros para a praça de Sant`Ana, em Lisboa e chegou a fornecer curros para Madrid. O lavrador de Alpiarça, João Ignácio da Costa, comprou-lhe alguns toiros, para apurar as suas rezes. Tal como seu irmão, José Ferreira Roquette, foi toureiro e cavaleiro amador, conseguindo grande popularidade.

JOSE LUIZ DE BRITO SEABRA Nasceu em Salvaterra de Magos, em 30 de Agosto de 1845, foi dono com sua mãe do palacete construído nesta vila, que mais tarde passou a propriedade da família Monte Real. Foi lavrador e ganadeiro, presidente da câmara municipal de Salvaterra de Magos, membro da Junta Geral do Distrito de Santarém. Foi sócio fundador do Real Club Tauromachico Portuguez,

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fundado em 23 de Fevereiro de 1892. Faleceu em Valada, no dia 27 de Julho de 1893.

ANTONIO JOSE FERREIRA DA SILVA Nasceu a 19 de Setembro de 1889, filho do ganadeiro com o mesmo nome, forneceu toiros para serem corridos em várias praças dos pais, a sua divisão era Azul, e as manadas pastavam nos campos de Salvaterra.

ROBERTO DA FONSECA JUNIOR Nasceu em Salvaterra de Magos, filho reconhecido do antigo bandarilheiro, Roberto da Fonseca, quando da abertura do seu testamento * Nos últimos anos do séc. XIX, pretendeu ser toureiro, convencido de que não tinha aptidões artísticas, dedicou-se à criação de toiros de lide. JOSE FERREIRA ROQUETTE

JFR
Nasceu em Salvaterra de Magos, era irmão de António Roquette, teve uma manada de toiros bravos, com a divisa verde.

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JOÃO ANTÓNIO FERNANDES Pequeno lavrador, natural de Salvaterra de Magos, tinha uma vacada e, alguns toiros de selecção, que pastavam nos campos da vila, junto ao Tejo. Forneceu curros para várias praças dos pais.

ROBERTO & ROBERTO (Vicente Roberto e Roberto da Fonseca),

RR

Nasceram

em

Salvaterra

de

Magos,

como

bandarilheiros ganharam fama e proveito, dedicaram-se à agricultura e tiveram uma ganadaria de toiros de lide, que pastavam nos seus campos de Salvaterra. Um curro de toiros desta ganadaria, foi corrido na arena do Campo de Sant`Ana, em Dezembro de 1987, onde teve lugar a última corrida nesta praça. Actuaram os cavaleiros Casimiro Monteiro, Alfredo Tinoco, José Bento de Araújo e D. Luiz do Rego. Estes ganadeiros integraram em Portugal, o primeiro lote, que construíram “Tentaderos” para testarem as suas

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vacas e, para tal construíram um, na sua Herdade dos Coelhos.

FRANCISCO FERREIRA LINO

FFL
* Nasceu em Salvaterra de Magos, filho de João Francisco
Lino, iniciou a actividade agrícola, aos 18 anos, depois de passar pelo comércio em Lisboa. De pequeno lavrador, foi comprando propriedades e, por volta de 1915, acabou de construir o seu Palacete, cujo começo vinha antes do terramoto de 1909, na sua Quinta da Ómnia. A sua ganadaria, teve início naquela época, sendo os seus animais oriundos de António Ferreira Roquette.

JOSE VICENTE DA COSTA RAMALHO Filho do lavrador e benemérito, Gaspar da Costa Ramalho, em 1936, era detentor de casa agrícola, com criação de toiros, que pela fama adquirida nas praças portuguesas, começaram a ser solicitados para as arenas de Espanha.

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IRMÃOS ROBERTO (Vicente Roberto Ferreira da Fonseca, Roberto Ferreira da Fonseca (Dr.) e, João Roberto Ferreira da Fonseca)

IR
Receberam por herança casa agrícola e ganadaria, de seu pai João Roberto, que por sua vez recebeu da firma Roberto & Roberto. A Ganadaria, na primeira metade do séc. XX, muita fama lhes deu.

JOÃO RAMALHO
(JOÃO JOSE DE MORAES SARMENTO COSTA RAMALHO)

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Nasceu em Salvaterra de Magos, filho do lavrador e ganadeiro; José Vicente da Costa Ramalho * Sede: Quinta da Gatinheira (Salvaterra de Magos) * Divisa: Lilás e Branco * Historial: Em 1961 compra 30 vacas Toiros a José Pedrosa e 1 toiro e 4 vacas “Chamaco”, vindas de Pinto Barreiros, com ferro de irmãos Roberto (Salvaterra de Magos) * Em 1963, compra 8 vacas Urquijo x Alves do Rio, a Dr. José Manuel Andrade (linha toda dada ás filhas: Thereza e Helena Ramalho)

JOSE LUIS PEREIRA DIAS

Natural da Malveira (Oeste), na década de 70 do séc. XX, veio para Salvaterra de Magos, onde tem morada * Divisa: Azul e Preto * Toiros oriundos: José Manuel Andrade, Engº Ruy Gonçalves e Cabral de Ascensão * Antiguidade: 1976

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FELICIDADE DIAS (Felicidade da Conceição Filipe Pereira Dias)

* Nos anos 70 do séc. XX, fixou residência em Salvaterra de Magos * esposa do ganadeiro José Dias e, mãe dos Irmãos Dias * Divisa: Encarnado e Amarelo * Toiros oriundos: Andrade Salgueiro e Manuel César Rodrigues * Ganadaria conhecida desde 1984.

IRMÃOS DIAS José Luís Pereira Dias e Felicidade da Conceição Filipe Pereira Dias Filhos de José Dias e Felicidade Dias,

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* Ganadaria desde 1976 * Tem sede em Salvaterra de Magos (Ribatejo) * Toiros oriundos de Norberto Pedroso, que iniciou uma ganadaria em 1910, com vacas portuguesas de Manuel Duarte Oliveira e Condessa da Junqueira. De Emílio Infante da Câmara, também adquiriu algumas vacas e sementais.

THEREZA E HELENA RAMALHO (Thereza Margarida e Helena Rita Bastos de Moraes Sarmento Ramalho)

*Morada na Quinta da Gatinheira (Salvaterra de Magos) * Divisa: Laranja e Verde Musgo * A sua ganadaria é oriunda de seu pai João Ramalho. Antiguidade já conhecida em 1976, nos últimos anos deixaram de ter registo, passando os seus animais a integrar a ganadaria de seu pai, com o fim de serem corridos em Espanha.

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V
CRIADORES DE CAVALOS EM SALVATERRA Nota Prévia As terras de Salvaterra de Magos, junto ao rio Tejo, férteis em aluvião, onde a erva fresca era muito convidativa para a criação de gado cavalarem. Nas Estatísticas de Portugal, dos últimos anos do séc. XIX, constam que a produção animal, de gado bovino, cavalar e asno, criada neste concelho, tinha grande peso na economia do pais, quer em quantidade e qualidade. O burro, era aproveitado em grande quantidade para os cruzamentos com (égua/cavalo), dando origem ao Macho/Mula, para os trabalhos mais exigentes da lavoura. Entre os vários criadores do gado da raça cavalar, constava a casa agrícola, Cadaval, de Muge.

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PORFIRIO NEVES DA SILVA Natural de Salvaterra de Magos, foi grande lavrador com terras no concelho onde nasceu e, nos concelhos vizinhos. Era respeitado por todo o Ribatejo (anteriormente Estremadura), pela dedicação a que se entregou à criação do gado cavalar. Nos registos antigos do Ministério do Exército, verifica-se que foi muito pretendido, Em 1907, pela foi qualidade do seu gado, da que apresentava na remonta, todos os anos. Administrador-Interino Câmara Municipal da sua terra-natal, o que lhe valeu o seu toponímico à rua que mais tarde passou a Gen. Humberto Delgado.

JOÃO OLIVEIRA E SOUSA Oliveira e Sousa, sendo engenheiro, pertenceu aos quadros do exército, com o posto de Capitão. Era abastado lavrador, com residência

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em Salvaterra de Magos, contava em 1935, com propriedade nos concelhos de Salvaterra de Magos, Coruche, Benavente, Vila Franca e Azambuja. Também possuía propriedades no norte do pais, pois era oriundo da zona da Guarda. Na sua actividade agro-pecuária, dedicava grande apreço pela criação do gado cavalar, onde incluía bons exemplares nascidos de uma éguada da raça lusitana, que pastava por vezes na Lezíria Grande (Vila Franca de Xira). A sua coudelaria, proveio de António José da Silva, que em 1893, já cuidava de criar bons exemplares de cavalos, destinados à remonta, realizada pelo exercito português. Com a sua morte, os filhos, continuaram administram de Magos a a casa Casa agrícola Agrícola. (Oliveira As e Sousa, da Herdeiros), tendo os netos o cuidado de continuarem a instalações Coudelaria, são na Quinta do Massapez, em Salvaterra

IRMÃOS ROBERTO (João Roberto da Fonseca, em 1939, com 78 anos de idade, pai de Vicente Roberto da Fonseca; de Roberto

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da Fonseca (Dr.) e de João Roberto Ferreira da Fonseca), tendo a sua casa agrícola, dedicava especial atenção à criação do gado bravo e do gado cavalar. Teve exemplares em várias exposições em Salvaterra. Em 1928 recebeu um diploma, pela presença de 10 poldros, considerados de grande qualidade, numa exposição do então Ministério da Guerra.

ANTONIO DA SILVA LAPA Natural de Salvaterra de Magos, desde jovem, como agricultor interessou-se pela criação de gado cavalar. Depressa, escolheu e veio a manter uma raça de cavalos que destinava à cavalaria militar e desportiva. Para esse tipo de exemplares, usava o cruzamento do Português “Alter” com “Zapota”, animal das terras da Andaluzia (Espanha). Aos 76 anos de idade, ainda era um credenciado criador de cavalos.

MENEZES & IRMÃO, LDª Os irmãos José Eugénio de Menezes e António Eugénio Agrícola. de Por Menezes, fundaram deste uma último, Sociedade passou a falecimento

pertencer à firma, seu filho, António de Menezes. Foram

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criadores de cavalos raça Lusitano, em terras de Salvaterra e do Pombalinho (Santarém).

JOSE LOPES FERREIRA LINO Nasceu em Salvaterra de Magos, em 1914, na década de 60, sendo funcionário da câmara municipal de Salvaterra de Magos, fazia uma pequena agricultura e, tinha gosto pela criação de cavalos e éguas, que pastavam nas terras de Alcamé (Vila Franca), apresentando-os depois à venda na Remonta Anual, que o exército fazia em Salvaterra de Magos.

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Sendo um grande aficionado da festa brava, possuía um jogo de cabrestos, que fazia exibir nas Festas da terra. *********************** ******* *******

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VI
A DINASTIA ROBERTO Nota Prévia Desde menino de escola, ouvia falar dos Roberto(s). Diziam que foram toureiros. Nesse tempo, talvez em 1955, passando eu, na rua Cândido dos Reis (Antiga Rua S. António), dei comigo envolvido entre uma multidão, que em grande alegria descerravam uma placa de homenagem aos irmãos toureiros. Esse grande número de pessoas, estavam ali com os representantes da Casa do Ribatejo, deixando uma lápide na parede, por cima da porta de um prédio da família, o seu preito de gratidão, aos homens que um dia honraram Salvaterra e o Ribatejo, com as suas belas actuações em praças de toiros de Portugal e Espanha. O tempo passou…! Nunca mais, os seus conterrâneos se lembraram deles, nem uma rua com o seu topónimo. Foram simplesmente esquecidos. Os autarcas, aqueles que decidem, nunca tiveram em conta, o seu valor

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artístico que levou a todos os cantos, o nome de Salvaterra, nem a lembrança da sua benemerência. A ORIGEM O nome Roberto referenciado em Salvaterra de Magos, nos meados do séc. XVIII, segundo alguns estudos genealógicos, estará ligado aos falcoeiros, vindos da Holanda, como mestres daquela arte. Henrique Jacob (1744-1829), um deles, casou com Ana Josefa de Vasconcellos, desta vila, e daí o início da dinastia – Os Jacob (s). António Roberto da Fonseca, tal como os seus irmãos Luís Roberto da Fonseca, Tito da Fonseca e Antão José da Fonseca, nasceram em Angra do Heroísmo (Açores), vindo ainda crianças para Lisboa. Estando instalados em Salvaterra de Magos, segundo algumas crónicas da época, tropas da última das três invasões francesas, Um outro grupo de militares, estava aquartelado no lado norte do Tejo, num palacete de Valada. Aqui em Salvaterra de Magos, houve forte confronto com o exército português, tendo o povo local muito ajudado nesse combate militar. Muitos residentes da vila foram foragidos. António Roberto da Fonseca, recebeu a protecção dos Conde de Almada, que tinham á época um palacete na vila. (1). Aos 12 anos de idade, mostrou algumas aptidões para enfrentar toiros de lide. Seus irmãos, Tito, Luís e, o Antão, também exprimiam este gosto e, tourearam alguns anos. ********
(1) – Palacete, que tendo brasão de pedra dos Almadas, nos anos 50 do séc. XX, era propriedade da família Roquette *

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ANTÓNIO ROBERTO DA FONSECA, Nele foi encontrada muita aficion, foi bandarilheiro profissional, a sua apresentação pública, foi na então pequena povoação da Glória (Glória do Ribatejo), depois de receber lições de: Manuel Faria, António Cordeiro e Vicente Tinoco, afamados lidadores da época. Toureou na antiga praça de toiros existente no Salitre (Lisboa), com seus irmãos; Antão e Luís Roberto, que faleceu em 1862. * Retirou-se da profissão de picar toiros, em 1859, bastante velho e arruinado de saúde. Veio a falecer em Salvaterra de Magos, a 21 de Março de 1882. Os seus três filhos; Vicente Roberto, Roberto Jacob da Fonseca e João Roberto, também enveredaram pela arte do toureio. Algumas crónicas da época, da especialidade taurina, conservam textos, das actuações destes “monstros” da tauromaquia portuguesa, que foram Vicente e Roberto da Fonseca. A tourear, ganharam fama e proveito, mas foram humildes na vida cívica. Depois de retirados das arenas, recolheram-se à vida da agricultura, na sua terra natal, Salvaterra de Magos. A agricultura, e a criação de gado bravo, foram caminhos bem aproveitados, que deixaram a seus descendentes. Em relação ao filho, João Roberto da Fonseca, atingiu um plano pouco lisonjeiro nesta arte dos toiros.

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VICENTE ROBERTO Nasceu na vila de Salvaterra de Magos, em 1836. Foram seus pais, António Roberto da Fonseca e D. Maria Gertrudes da Fonseca. Seu pai, foi também um toureiro distinto. Vicente Roberto, chegou a aprender o ofício de alfaiate; manifestando, porém decidida vocação para o toureio, principiou a aplicar-se à arte tauromáquica, toureando em Almada com 13 anos de idade. O Conde de Vimioso, que assistia à corrida ao ver a maneira como Vicente Roberto acabava de evidenciar a sua aptidão para as lides taurinas, desceu à depois arena, ao da corrida e abraçou-o, estudo,

incentivando-o

ofereceu-lhe um trajo de “luces” de bandarilheiro. Fato de azul e oiro, que seria o primeiro, que vestiu de uma brilhante carreira. Quando aprendia o ofício de alfaiate, em Vila Franca de Xira, fez parte da filarmónica da terra, no intuito de aproveitar o denominado “BOI PARA A MUSICA”, o que se costumava tocar nas corridas no Ribatejo. Aos 18

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anos, começou a apresentar-se como toureiro de profissão, juntamente com seu pai e seu irmão João Roberto, que era igualmente um excelente executante, entre outros artistas. Em 1858, estreou-se na praça de toiros do Campo de Sant`Ana, e estão bem vivas na memória de todos as ovações que ali alcançou. A sua reputação firmou-se cada vez mais, e em 1861, entrou para o quadro de artistas contratados pelo empresário Domingos Alegria. Os críticos da época, não se fartavam de o elogiar, sempre que actuava, os jornais chegavam a fazer segunda edição, só para venda em Lisboa. O seu primeiro benefício realizou-se em 1862, apresentando-se nele também seu irmão, Roberto da Fonseca, que sendo convidado a tomar parte se recusara, dizia: não ter grande habilidade, grande era a sua grande modéstia. A insistência foi muita, actuou e brilhou na arena de tal sorte que depois veio a tornar-se um dos mais notáveis mestres do toureio nacional. É impossível dar nota de todos os triunfos, ovações e festas artísticas de Vicente Roberto; o público correia sempre pressuroso a saudá-lo freneticamente e os bilhetes atingiam um

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preço elevadíssimo, com praças sempre cheias. Toureou em todas as praças de Portugal, e pela primeira vez, em 1865, na de Badajoz, correndo touros desembolados e com sorte inovadoras, como a “Cadeira”, alcançando um legítimo sucesso. Em 1892, foi convidado pela nova sociedade “Empresa Tauromáquica Lisbonense”, para actuar com seu irmão Roberto da Fonseca, no dia 18 de Agosto, na corrida à portuguesa, na inauguração da praça de touros do Campo Pequeno, em Lisboa. Na Figueira da Foz, toureou a 10 de Setembro de 1888, numa sorte de cadeira, ficou gravemente ferido e teve de recorrer a uma enfermaria da misericórdia local. Debatendo-se entre a vida e a morte, recebeu inúmeras provas de simpatia e dedicação, tanto do digno provedor comendador Afonso Ernesto de Barros, que havia pouco tempo tinha sido agraciado com o titulo de visconde da Marinha Grande, como de Frederico Nogueira de Carvalho, hospital. Apenas se restabeleceu do lamentável desastre, contemplou aquela instituição, com um importante Fernando de Mello, José Jardim, que pertenciam ao pessoal médico e enfermagem do

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donativo, e no seu testamento deixou-lhe mais um legado. Com tal colhida, a sua saúde agravou-se, ficou débil cada vez mais, e a medicina usando todos os recursos declarou-se impotente, e após um doloroso e prolongado martírio, faleceu às 11 horas da manhã, do dia 1de Junho de 1896, rodeado de toda a família que durante tanto tempo disputou à morte aquela preciosa existência. Pessoa dedicada ao bem e ao útil, e que mais uma vez deu eloquentes provas de grande amizade e solidariedade que havia entre os irmãos Roberto, o seu sobrinho, o nosso prezadíssimo amigo e distinto bandarilheiro João Roberto, que algum dia será o digno representante dessa raça de artistas(1).

PRIMEIRO ANO APÓS A SUA MORTE O jornal semanário “ PRETO E BRANCO” publicado em 1867, faz o elogio fúnebre a Vicente Roberto, quando da passagem do primeiro aniversário após a sua morte.

************
(1) - Foi testamenteiro do tio; Roberto Jacob da Fonseca e continuou com a casa agrícola, deixando depois a seus filhos, que passaram a usar o ferro Irmãos Roberto

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“Vimos hoje, com a alma alanceada por uma profunda saudade, registar o primeiro aniversário do falecimento dessa simpática individualidade que se chamou Vicente, prestando a devida homenagem a esse incomparável amigo que soube conquistar um nome imorredoiro no toureiro português, onde é contado entre os seus grandes mestres, nobilitar-se por actos de filantropia em que reflectiu a bondade da sua alma. Na mais grato para nós do que evocar esse vulto saudoso, que sempre nos distinguiu com uma imerecida simpatia; o que sentimos é não podermos dizer com profundos traços de verdade o que Vicente Roberto valeu como homem e como artista; mas a palidez da nossa linguagem será animada pela afectuosa lembrança que das brilhantes qualidades deste ilustre morto, todos conservam arreigadas na alma. Graças à extrema lhaneza e afabilidade do seu trato, à honradez imaculada do seu carácter e ao seu coração sempre aberto às emoções do bem, Vicente Roberto viu criar-se e desenvolver-se em volta de si uma enorme simpatia e consideração, o que sem dúvida devia contribuir para suavizar a vida, límpida como o cristal, mas torturada pela doença que se agravara

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enormemente

nos

últimos

anos.

Amigo

delicado,

galgava por cima das maiores dificuldades e sacrifícios para servir os seus amigos, fazendo um perfeito contraste com a sociedade actual, tão degenerada; filantropo benemérito, via na felicidade dos outros a sua própria felicidade; era assim que despendia uma grande parte da sua fortuna, adquirida já nos trabalhos da arena, já na agricultura e criação de gado bravo, em proteger hospitais, montepios e outras casas de beneficência, e em socorrer muita pobreza ignorada, enxugando muitas lágrimas e fazendo renascer a esperança no peito dos desgraçados. Como bandarilheiro, Vicente Roberto, ocupou desde muito novo um dos primeiros lugares entre os mais ilustres artistas tauromáquicos de Portugal. Ágil, audacioso e infatigável, a sua vida de toureiro foi uma série ininterrupta de calorosos triunfos; só seu irmão Roberto Jacob da Fonseca, o podia igualar no trabalho de bandarilhas, nos recortes à cabeça do toiro sem o auxilio da capa e em outras sortes que executava com graça e arte inexcedíveis e que faziam bramir de entusiasmo os aficionados.

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A sua fama de lidador exímio estendeu-se até à própria Espanha, chegando a tourear em Badajoz, com seu irmão Roberto da Fonseca, touros desembolados. Ali, as espanholas que se deliciavam com essas lutas titânicas entre o homem e o animal, e que aplaudem com frenesim o pouco edificante espectáculo do toiro que ajoelha agonizante aos pés do matador, as espanholas, delirantes de entusiasmo ao ver o grande artista endoidecer, subjugar e dominar o toiro com voltas e mais voltas garbosas da sua capa vermelha, prorromperem na mais veemente manifestação,

cobrindo o distintíssimo artista com uma nuvem de flores e palmas. Dessas ovações delirantes que lhe

embriagaram a alma, conservava Vicente Roberto as mais saudosas recordações. E nos últimos anos de sua vida como não lhe seria doloroso ver-se impossibilitado para o toureio que tanto amava por causa da cruciante doença que dia a dia lhe vinha minando a existência! De vez em quando, a pedido dos amigos, lá descia à arena para colocar um magistral par de ferros em que se revelava sempre o primoroso e distinto artista de outros tempos.

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Nessas ocasiões que bem raras eram, divisava-se-lhe na fisionomia, cheia de bondade, uma passageira alegria, e Vicente Roberto saia sempre da praça coberto das mais ruidosas ovações de apreço e simpatia. O nosso semanário, não comporta longas biografias, razão porque nos limitamos a condensar uns traços biográficos que resumem em síntese luminosa, o alto valor desse homem que a par dum grande artista foi um honrado e infatigável trabalhador, chegando a adquirir uma opulenta fortuna, e um coração de oiro que espalhou tantos benefícios pelos pobrezinhos da sua terra natal, e por diversos estabelecimentos de caridade do nosso país; uns e outros ainda pranteiam a perda irreparável que sofreram e delas sobram as bênçãos e flores, o mármore frio do seu túmulo. Hoje, dia do primeiro aniversário da sua morte, depomos sobre o túmulo do nosso querido amigo um “BUQUET” de sinceras saudades, ate porque

recordamos o povo da sua terra, desfilando reverente e comovido perante o féretro e espargindo mil bênções sobre aquele que foi um dos seus filhos mais dilectos e um dos seus mais devotados protectores. Assim,

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Vicente Roberto, que durante a vida se viu rodeado dos maiores afectos e admirações, depois de morto teve todas as honrarias a que tinha direito, sendo conduzido à sua última morada por entre alas compactas dos amigos. Vicente Roberto, evidenciando mais uma vez os seus sentimentos piedosos, deixou em testamento vários legados às Misericórdias; de Salvaterra de Magos, Figueira da Foz, Coruche, Santarém e ao Montepio de Salvaterra.

O grande artista reviverá na memória da família amantíssima, no coração da qual deixou um imenso vácuo, e na lembrança dos que tiveram a felicidade de privar com ele, e conhecer as qualidades do seu belíssimo carácter. (Coimbra, 1 de Junho de 1897 – António Júlio (Vale de Sousa)

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ROBERTO JACOB DA FONSECA “ Um amigo aficionado de Salvaterra, pede-me duas linhas sobre o ex-bandarilheiro, que foi Roberto Jacob da Fonseca. Artista de um valor tão extraordinário, que é das tarefas mais difíceis falar dessa glória da tauromachia portugueza, que foi a maior figura do toureio antigo, e a nossa maior relíquia, que hoje possuímos, vivendo na sua linda Salvaterra, de tão grandes e históricas tradições taurinas. Inaugura-se hoje ali, a sua nova praça de touros, que a aficion do Ribatejo, aguardava com impaciência, e a ela vae assistir, dirigindo a sua primeira corrida de touros o bom velhinho, Roberto da Fonseca, que foi um toureiro tão extraordinário, que a sua grande fama não só foi conhecida em Portugal, chegando até às praças de Hespanha, onde tanto se exige dos seus

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artistas, e ali Roberto da Fonseca, fez a mais brilhante das figuras, honrando a arte portugueza, de lidar rezes bravas. Recorda-me ainda com saudade, a tarde que o vi pela primeira vez, em uma festa artística, dos Irmãos Robertos, na extinta praça do Campo de Sant`Ana, onde o querido bandarilheiro, tantas tardes de glória teve em companhia do seu irmão Vicente, outro grande artista já falecido, e do seu sobrinho o nosso amigo João Roberto da Fonseca, actualmente retirado das lides taurinas, mas ainda um verdadeiro aficionado, e um dos mais reputados ganaderos portuguezes. Roberto da Fonseca, que ainda hoje não teve quem o egualasse, reuniu à sua esbelta figura, grandes conhecimentos, grande hagilidade, de que era possuidor, tornando-se o primeiro bandarilheiro portuguez, saindo das sortes com elegância e frescura, pisando sempre os verdadeiros terrenos, e assim cravava no morilho dos touros excelentes pares de bandarilhas, que os velhos aficionados ainda hoje recordam com grande saudade. Com a moleta, foi dos artistas portuguezes o primeiro, que se dedicou a este toureio do vizinho reino, para o que tinha muita habilidade, tendo tardes em que estava primoroso.

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Ainda inaugurou a praça do Campo Pequeno a 18 de
Agosto de 1892, em companhia dos seus colegas; ALFREDO TINOCO, MINUTO, FERNANDO OLIVEIRA, VICENTE ROBERTO, JOSÉ PEIXINHO, JOÃO CALABAÇA e RIO SANCHO, todos eles

falecidos.

Dos onze artistas, que

28 anos

inauguraram a nova praça de Lisboa, apenas existem
ROBERTO JACOB DA FONSECA, JOÃO ROBERTO, RAFAEL PEIXINHO e PESCADEIRO, este ausente em Hespanha, e

hoje retirado do toureio . Depois da inauguração do Campo Pequeno, em poucas corridas Roberto da Fonseca tomou parte, despediu-se ao público aficionado, na festa artística que seu sobrinho, João Roberto ali realizou, estando magistral. Dedicou-se depois à sua lavoura em Salvaterra, encontrando-se ainda hoje à frente da sua casa agrícola, o que foi um dos melhores ornamentos das touradas em Portugal. Um grupo de amigos de Coruche, pediu-lhe a sua presença na praça da terra e, em 18 de Agosto de 1899, toureou pela última vez. Já muito velhinho, apareceu em 17 de Novembro de 1921,a presidir a corrida organizada pela Associação dos Toureiros Portugueses, no campo pequeno, amparado

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por José Bento Araújo, desceu à arena e aí recebeu do público que esgotava a praça, a maior ovação da sua vida, pois a aficion não o havia esquecido. Hoje, dia 1 de Agosto de 1920, vae inaugurar como director da corrida, a nova praça, onde estará presente o distinto e apreciado cavaleiro tauromáquico JOSE
CASIMIRO, outra glória da nova geração, e estamos

certos que a sua primeira sorte, será oferecida ao respeitável toureiro, que com a sua presença, ali se vão iniciar de novo as corridas de touros em Salvaterra.”

O SEU TESTAMENTO Roberto Jacob da Fonseca, que na sua juventude foi bandarilheiro, tal como seu irmão Vicente, granjeou fama e fortuna, nas arenas de Portugal e Espanha. No seu último testamento, deixou expresso toda a sua vontade, várias vezes modificada, antes de falecer. Este último desejo, foi fechado no dia 24 Agosto de 1920, tendo o seu falecimento ocorrido no dia 8 de Maio de 1923, com 79 anos de idade. . Uma certidão foi passada, por António Emiliano Garrido da Silva, há época secretário da administração do

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concelho de Salvaterra de Magos, a pedido do seu testamenteiro, o sobrinho João Roberto da Fonseca.

“Eu, Roberto Jacob da Fonseca, solteiro, de setenta e nove anos de edade, natural da freguesia da vila e concelho de Salvaterra de Magos, onde resido, filho legitimo de António Roberto da Fonseca e de Maria Gertrudes Roberto, já falecidos, faço o meu testamento pela forma seguinte: Seguinte: - Em primeiro lugar declaro que de mulher ser livre, com quem podia casar: houve um filho que é Roberto da Fonseca Júnior, casado, natural e morador em Salvaterra de Magos e a quem pelo presente testamento eu reconheço e perfilho, para que ele tenha e gose todos os direitos, que a lei concede aos filhos perfilhados. – Pelas forças da metade livre aliás, da metade, cuja livre desposição a lei me permite, deixo: - A Dona Vitalina Pasehoa (da Fonseca), solteira, de Salvaterra de Magos, o seu uso fructo, de todas as minhas terras, para que o gose enquanto viva for, ficando a propriedade das mesmas terras a seus filhos, se, casando, e do matrimónio os vier a ter; e os não tendo, ficará do, aliás, ficará por sua morte a propriedade dita a meu sobrinho João Roberto da Fonseca; no caso de este ser falecido, ficará tal propriedade a seus filhos,

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dele meu sobrinho. Ao dicto meu sobrinho João Roberto da Fonseca deixo em plena propriedade todos os meus celeiros, abegoarias e palheiros, incluindo o terreno das cavalariças, que está por vedar, bem como a chamada casa da capela e da machina. Com o ónus de ser meu primeiro testamenteiro. Como especial demoustração da minha amizade, deixou-lhe todos os meus brindes e objectos artísticos, que passarão para a sua posse nas trez victrines

que estão encerrados com os que pertenceram a meu irmão Vicente Roberto, e a meu sobrinho já pertencem, segundo disposição testamentaria do dito meu irmão. Se á data da minha morte meu sobrinho fôr falecido ficarão estes legados a seus filhos. – A cada um dos filhos de meu sobrinho João Roberto da Fonseca, deixo a minha corrente e relógio de ouro.

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– Aos filhos de Roberto Anica, deixo duzentos escudos. – A Vicente Anica deixo cento e cincoenta escudos. – Deixo mais: - cento e cincoenta escudos a cada um dos seguintes: António Anica- A João Carvalho Anica duzentos e cincoenta escudos, aos filhos do falecido Doutor Gregorio Fernandes, um conto de reis para todos, e á Excelentíssima Senhora Dona Sofia Rodrigues Fernandes trezentos escudos, pedindo desculpa a todos da singela lembrança, que lhes deixo, signal apenas da muito veneração em que tenho a memoria do Doutor Gregorio Fernandes; a cada um dos meus afilhados: Dona Amélia Garcia de Carvalho, Vicente Roberto Garcia de Carvalho, e Roberto Isaac da Nazareth, cento e cincoenta escudos; - A Vitalina Isaac, duzentos escudos; ao meu amigo Joaquim Paulino Duarte, ou caso seja falecido, a sua esposa, duzentos escudos, ao meu afilhado Armando Santos ficará pertencendo o meu anel de brilhantes, que está em uma caixinha de metal dentro da montra. A Manuel Aleixo de Carvalho, se á data do meu falecimento estiver ao serviço da Sociedade Roberto & Roberto, cento e cincoenta escudos; - aos meus velhos creados Manoel Bernardino, Francisco Feijão, Miguel Galricho, Roberto Gil e Francisco Morcego, se á data do meu falecimento estiverem ao serviço da Sociedade Roberto &

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Roberto, cem escudos a cada um; se alguns deles tiver falecido no dito serviço, revertará a importância do seu legado para seus legítimos herdeiros; - A cada creado que na minha casa, ou na sociedade Roberto & Roberto, tiver mais de cinco anos de serviço, cincoenta escudos; - ao abegão Lino da Silva duzentos escudos, se estiver de Roberto & Roberto, e, caso tenha falecido nesse serviço, fica a mesma

importância cabendo a seus filhos; aos meus servidores Manoel

Ribeiro e Joaquim Almeida, se ainda o forem á data da minha morte, cem escudos a cada; a Justa Pereira Lérias, duzentos escudos, e a sua filha mais velha cincoenta escudos, a Maria das Dores Carcereira, cem escudos; a Urbina Conceição e Rosa Pirralha, se estiverem ao meu serviço, cem escudos a cada uma; deixo ainda ao Hospital da Santa casa da Misericórdia de Salvaterra de Magos, mil e quinhentos escudos; ao Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Coruche, mil escudos, ao Hospital de Jesus Christo da Santa

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casa da Misericórdia de Santarém, Santarém, quinhentos escudos, ao Hospital da Misericórdia da Figueira da Foz quinhentos escudos; Quero que aos pobres de Salvaterra sejam distribuídos cento e cincoenta escudos em esmolas; e que por alma de meus paes e irmãos, se apliquem trinta missas, e por minha alma vinte, todas de esmola não inferior a um escudo; Se á data da morte existir Instituição que destribua habitualmente sopa aos pobres de Salvaterra, quero lhe sejam entregues duzentos escudos. Se por enfelecidade dos que

precisam, tal instituição não existir, será esta quantia devidida por quinze jornaes, sendo nove de Lisboa, á escolha do meu testamenteiro, e seis do Porto á escolha do meu amigo velho amigo Júlio Gama, Redactor das Gasetas das Aldeias, a esses jornaes espero dever a fineza da distribuição pelos seus pobres, das quantias que lhes forem entregues, deixando eu aqui á Imprensa do meu paiz o meu agradecimento, pelo carinho, com que sempre se referiu á minha família, apreciando-nos como artistas. As contribuições a pagar pelo usofructo das propriedades que fica a Dona Vitalina Paschoa da Fonseca, e a devida pelos legados em dinheiro a particulares, ficam a cargo da minha testamentaria. Todos os legados em dinheiro serão pagos em

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moeda corrente no paiz e cumpridos dentro do ano posterior á minha morte. Quero que por sua morte sejam depositados no meu jazigo a já referida Dona Vitalina Paschoa da Fonseca e meu sobrinho João Roberto da Fonseca, sua mulher e filhos, a não ser que, por sua vontade ou de seus herdeiros hajam de o ser em outro local. Nomeio meus testamenteiros: em primeiro lugar meu sobrinho João Roberto da Fonseca, e em segundo lugar o meu amigo Joaquim Ferreira Pedroza, a quem peço aceite este encargo e a lembrança de trezentos escudos. Quero que dos benefícios deste testamento seja excluído quem, sob qualquer protesto, ou com qualquer intuito que não seja o de fazer cumprir extremamente as suas, suas cláusulas. Tomar a iniciativa de sobre ele levantar, aliás levantar letigio ou pleito. E, no caso por mim não esperado, que tal se dê, se considedará como não excripto tudo o que a esse referi. Quero que o meu funeral, modesto, mas decente seja ordenado pelo meu testamenteiro. E assim tenho feito o meu testamento, que quero revogue qualquer outro que em data anterior, tenha feito. E declaro que o mandei escrever, e que depois de o ter bem lido e conferido e achado em tudo, conforme com a minha ultima vontade, rubriquei as folhas e assigno no final, conscientemente e livre de qualquer coacção ou imposição.

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Em tempo declaro que os legados a Urbina Conceição e Rosa Piralho serão de duzentos escudos, e não de cem, como por lapso se escreveu. E tendo novamente lido todo o meu testamento, achei em tudo conforme com a minha ultima vontade e conscientemente e livremente o vou assignar depois de ter rubricado as folhas, tendo tudo sido encripto a meu rogo. Salvaterra de Magos, vinte e quatro de agosto de mil novecentos e vinte. ainda em tempo uma declaração: a meu sobrinho João Roberto da Fonseca, e na sua falta a seus filhos, deixo como atrás digo todos os objectos artísticos e brindes, com as vitrines em que estão guardados, tanto os meus, como os que foram de meu irmão Vicente, quer sobre este haja ou não disposição testamentária em favor do dito meu sobrinho; porem quero que, comquanto se faça arrolamento e avaliação desses objectos em qualquer tempo, para efeitos convenientes, nunca a sua entrega possa ser exigida sem que passe um ano sobre a minha morte. Uma vez mais li todo o meu testamento, e parecendo-me nele deixar bem expresso o meu pensamento o declaro a expressão da minha ultima vontade, pelo que muito livre e espontaneamente o vou assignar, depois de rubricar as folhas. Salvaterra de Magos, vinte e quatro de Agosto de mil novecentos e vinte aliás

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Salvaterra de Magos, vinte e quatro de Agosto de mil novecentos e vinte (assignado) Roberto Jacob da Fonseca” - Saibam quantos virem este auto de aprovação de testamento cerrado, que aos vinte e quatro dias do mez de agosto do ano de mil novecentos e vinte, nesta vila de Salvaterra de Magos e escriptório da Firma Comercial Roberto & Roberto, na rua denominada do almirante candido dos reis, onde vim eu

Notário Francisco César Gonçalves. O chamado do testador; aqui estava pessoalmente presente Roberto Jacob da Fonseca, solteiro, proprietário, de maior edade; Sui guris, anarador nesta mesma vila de Salvaterra, e as trez testemunhas edoneas, adeante nomeadas e no fim assignadas; e tanto eu notario como as ditas testemunhas conhecemos aquele testador Roberto Jacob da Fonseca pelo próprio e nos certificamos de que ele está em seu perfeito juízo e de livre de toda e qualquer coação. E por ele testador Roberto Jacob da Fonseca me foi apresentado neste acto, em presença das mesmas testemunhas, este testamento e disposição, declarando como ela é a sua ultima vontade, o qual testamento, que eu vi, sem o ler está escripto por pessoa diversa do testador , está rubricado e assignado pelo mesmo testador, contem cinco laudas e mais trez linhas de outra lauda e não tem borrão algum, entrelinhas,

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emenda, ou nota marginal. E por verdade lavrei este auto, que principiei em logo em seguida á assignatura do testamento e o continuei sem interrupção, sendo testemunhas a tudo presentes desde o principio até ao fim. Carlos de Novaes Barreiros, Chefe da Secretaria da Câmara Municipal deste concelho – Manoel da Silva Robeiro, Chefe da Repartição de Finanças deste mesmo concelho – e José de Vasconcelos, Thesoureiro da Fazenda Publica deste concelho. Todos trez casados, de maior edade, cidadãos portuguezes, hábeis para testemunhas, residentes nesta vila de Salvaterra de Magos, os quaes todos assignam, com os seus nomes a dita primeira testemunha Carlos de Novaes Barreiros, o qual efectivamente o leu neste acto, em voz alta pelo testador em lugar deste e vão agora todos assignar, como fica dito. E eu referido Notário Francisco César Gonçalves o escrevi e assigno em raso depois de egualmente lida em voz alta esta declaração por mim Notário e pela dita primeira testemunha para esse fim indicado pelo testador. Declaro que li este auto de aprovação do meu testamenteiro e o reconheci conforme a minha vontade – (ass) Roberto Jacob da Fonseca. (assignados sobre duas estampilhas fiscaes no valor total de um escudo e cincoenta centavos, e devidamente inutilizadas) Roberto Jacob da Fonseca - Carda

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Silva Ribeiro – José de Vasconcelos – O Notário Francisco César Gonçalves. Emolumentos seis escudos e cincoenta

centavos. Tem mais coladas duas estampilhas de contribuição industrial no valor total de oitenta e dois centavos e uma estampilha fiscal de um centavo e meio todas devidamente inutilisadas e assignadas pelo Notário Francisco César Gonçalves . (Na capa do testamento) Testamento de Roberto Jacob da Fonseca, aprovado nesta vila de Salvaterra de Magos aos vinte e quatro de Agosto de mil novecentos e vinte perante mim Notário (ass) Francisco César Gonçalves. E nada mais constava do dito testamento cerrado que bem e fielmente para aqui fiz copiar em mão e poder do apresentante a quem o entreguei do que dou fé . Foi lavrado nesta Administração o respectivo auto de abertura apresentação e publicação deste mesmo testamento, como consta do livro numero dois de autos de abertura ou publicação de testamentos cerrados de folhas um a folhas dois sob numero um. Administração do Concelho de Salvaterra de Magos, oito de Maio de mil novecentos e vinte e trez. António Emiliano Garrido da Silva. E por ser verdade fiz passar a presente cópia de certidão que assigno e vae autenticada com o selo branco desta secretaria”

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JOÃO ROBERTO DA FONSECA Nasceu em Salvaterra de Magos, no dia 19 de Março de 1860, sendo neto, de António Roberto da Fonseca, foi-lhe dado o nome do pai. Por ter ficado órfão muito cedo, foram seus tios; Vicente e Roberto, que o protegeram e foram seus mestres na vida artística. Toureou pela primeira vez em Alcácer do Sal, a pedido do avô de João Núncio. A partir daí os convites não mais pararam. Toureou depois em Vila Franca de Xira, Santarém e Coruche. Em 1878, apresentou-se no Campo Sant`Ana, num espectáculo taurino, em benefício de uma creche. Um ano depois, esteve na Barquinha, alternou com seus tios e Marcel Botas, os toiros eram do dr. Máximo da Silva Falcão. Esteve brilhante a tourear, nas sortes de saída do curro e junto às trincheiras. Os cartazes de algumas praças de Portugal

anunciavam-no em destaque e, em 1982, actuou em Lisboa, com João Costa, afamado bandarilheiro. João Roberto, nesta corrida esteve de tal sorte que deu um

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brilharete a bandarilhar. Com a doença de seu tio Vicente, começou a ser mais solicitado em Lisboa, fazendo um contrato de seis épocas. Demolida a praça de Sant`Ana, João Roberto passou a ser visto, na arena do Campo Pequeno. Pelos êxitos alcançados, a sua presença era muito solicitada em vários pontos do país, pois deliciava os espectadores no capear na sorte de “cadeira”, e na sorte de bandarilhar. Em Portalegre, no ano de 1895, fez a sua despedida das arenas.. Um tempo depois, ainda pisou o recinto da praça da sua terra - Salvaterra de Magos, num festival de beneficência. Com a morte de João Roberto, terminou a mais notável geração de toureiros, da mesma família, em Portugal. Foram seus filhos: Vicente Roberto da Fonseca, nasceu em 2 de Dezembro de 1891, Dr. Roberto Ferreira da Fonseca e João Roberto Fonseca

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VII
BANDARILHEIROS Nota Prévia Muitos nomes dos salvatorianos ilustres que pelo seu destemido valor, actuaram em praças do país, quer como cavaleiros, quer como bandarilheiros, não tiveram grande espaço nas crónicas taurinas, dos jornais da época. Da nobre família Costa Freire, sabe-se Joaquim Pedro da Costa Freire, foi um grande equitador, com fama em todo o Ribatejo toureiro. Outros dos seus membros, ainda no séc. atesta XIX, as foram amadores de tauromáquicos, família. disso recordações

ramalhetes de flores, bem guardados no palacete da

ROGÉRIO AMARO Rogério Amaro, nasceu em Salvaterra de Magos, em 1943, conseguiu a alternativa de bandarilheiro. Durante muitos anos foi peão de brega, dos cavaleiros; Simão da Veiga Júnior e João Branco Núncio e, dos matadores de toiros; Manuel dos Santos e

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Diamantino Viseu, entres outros. Terminou a sua longa carreira ligada aos toiros, como director de corridas.

JOAQUIM DA CONCEIÇÃO Em 10 de Maio de 1953, numa corrida realizada, em Salvaterra de Magos, sua terra natal, fez prova de alternativa de Aspirante a Bandarilheiro. Na comissão de apreciação esteve presente o matador de toiros Diamantino Viseu.

FRANCISCO FAZ-CORDAS “El-Palhota”, nasceu em Salvaterra de Magos, foi viver para Vila Franca de Xira, onde esperava encontrar, espaço para a sua aficion, pois os toiros eram a sua paixão. Entrou no mundo da tauromaquia, como Bandarilheiro. A sorte não lhe sorriu, para sobreviver, com um pouco de habilidade, lá foi vivendo, fazendo os seus pequenos trabalhos artísticos, em ferro e arame, com motivos taurinos.

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ANTÓNIO CADÓRIO Nasceu em 27 de Dezembro de 1921, ainda jovem, na aprendizagem da arte de sapateiro, ficou a ser conhecido pelo “Mestiço” . Foi aprendiz do mestre daquela arte, João Ferreira, conhecido por João Coxinho, por ter uma perna amputada. Como as muitas tertúlias que existiam dos 52 sapateiros existentes na vila de Salvaterra de Magos, a do mestre João Coxinho, torcia pelo matador de toiros; Diamantino Viseu. Cadório, grande aficionado, sempre viveu para a tauromaquia, queria ser bandarilheiro. Desejando ter lugar e brilhar nas arenas, sonhando abalou até Vila Franca de Xira. Ali, viveu toda a sua vida com a profissão de sapateiro. Dos seus sonhos, mais não fez que ensinar a arte de tourear, numa escola que montou. De lá saíram toureiros de fama, como José Júlio e José Falcão, pois queria que eles brilhassem mais nas arenas, que os seus conterrâneos; Irmãos Vicente e Roberto da Fonseca. Já entrado na idade, António Cadório, regressou à sua Salvaterra. Comigo falou algumas vezes das suas

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frustrações e, até da maneira como era ignorado pelas gentes da sua geração, pois dos novos já o esperava. Ia fazendo os seus “biscates” de sapateiro. Viajava muitas vezes na carreira, pois ia levar/buscar calçado, aos seus antigos fregueses (Vila Franca, Alhandra e arredores). Era na estação das carreiras, que me falava da bela arte de tourear a pé, como que tentando convencerme: “há muitos anos que não se toureia com sortes de “gaiola” e de “navalha”, como ouvia dizer na nossa terra, quando era miúdo, que aqueles brilharam e tiveram glória, fama e proveito. ”António Cadório, faleceu no dia 20 de Outubro de 1979. Um dia a sua prima Conceição, que lhe dera albergue, deu-me o seu BI, para aproveitar a fotografia, afim de ilustrar um artigo que mais tarde publiquei no já extinto jornal Vale do Tejo. Maurício do Vale, tendo por Cadório, grande respeito e afeição, escreveu no jornal “Vida Ribatejana”, um artigo que aqui registamos.

ANTÓNIO CADÓRIO, MUITO COLHIDO PELA VIDA MORREU NOS CORNOS DA DOENÇA!

“Estou arrumado”, dizia-me há tempos no Campo Pequeno, quando à hora do sorteio por ali apareceu,

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conforme combinara com Mário Coelho. António Cadório, toda uma face abalada, era a imagem da amargura pelo que o destino lhe guardara. O bilhete que o toureiro lhe ofereceu, apertou-o ele, Cadório com a força de quem se agarra a algo querido pela última vez. E quase o foi!... Morreu António Cadório! Morreu um Ribatejano! Morreu um coração aficionado! Morreu um simplesgrande Homem dos Toiros!!! Um Homem do Ribatejo! Desde o sonho que teve em ser toureiro ao não consegui-lo, a vida pregou-lhe várias colhidas. A incompreensão dos homens condena muitos

Homens!...Mas essa condenação é uma medalha com outra face – a da nobreza de carácter e sentimento que, tarde ou cedo (e, quase sempre, mais tarde…), lhes é reconhecida e devidamente cantada! Muitos foram os toureiros que passaram pelas suas mãos, pelos seus olhos! Uns lograram voar para o êxito (José Falcão, Vítor Mendes, Palhota, Boleiro e outros); uns

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conseguiram sair da penumbra, mas não puderam ir além: outros, nem uma coisa nem outra. Com uma vida repartida por Vila Franca de Xira, Alhandra e Salvaterra de Magos, António Cadório nunca soube fechar as portas para quem quer que fosse! Moços pobres, sem “padrinhos”, batiam-lhe à porta, e ele aí estava com as suas ganas e o seu saber. Uma vida que valia a pena historiar e que, só por si, seria um romance, um drama. Vivendo pobremente, arranjava sempre aquele tempo e aquele mínimo de cifrões para andar com os seus “maletillas”, de tenta em tenta, daqui para ali. A

“Palha Blanco” viu-o muitas vezes encostado à trincheira a ver seus pupilos treinar. E pedia aos toureiros que aconselhassem os seus rapazes, dizendo a

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estes que ouvissem aqueles. Tinha bom sentido toureiro, pelo que também opinava quando observava treinos de “maestro”, como acontecia, às vezes, com Mário Coelho. Este, aliás confessou sensibilizado que era de Cadório a primeira muleta com que citou um bezerro (numa ferra, já lá vai um bom par de anos!), bem como o escutava quando trocavam impressões sobre toureio. Morreu António Cadório! Muito colhido pela vida, morreu nos cornos da doença! Morreu um dos poucos poetas do toureio! Sonhador que era diante dos seus “maletillas”, sonhando neles os êxitos que em si não viveram, António Cadório merece o respeito de todos nós, da Festa! Porque viveu, sonhando! Porque amou a Festa, sonhando! Porque, talvez morresse nos cornos da doença, sonhando que um toiro o matara na mais imponente Monumental ou… na sua linda “Palha Blanco”

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Sepultado, no cemitério de Salvaterra de Magos, sua terra-natal, o “Mestiço” como era conhecido, tem na sua pedra tumular, uma poucas palavras; “uma lembrança dos aficionados de Vila Franca de Xira”. Os aficionados da sua terra, continuaram a tê-lo no esquecimento.

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VIII
CAVALEIROS TAUROMÁQUICOS

TRAVESSA FERNANDES (Rogério Travessa José, depois Manuel Silva Fernandes),tal como em

como seu irmão Cláudio entrou de cavaleiro tauromáquico, actuar praças de Portugal, Espanha e, nos EUA (Califórnia). Fez a sua prova de cavaleiro praticante, em Santarém, conforme noticiou o Jornal o Ribatejo, na sua edição de 15 de Março de 1990. Recebeu a alternativa, na monumental de Cascais, no dia 24 de Julho de 1994, apadrinhado por José Manuel Cortes. Daqui em diante, foram poucas as corridas em que esteve presente. Com seu irmão, associou-se na exploração de uma escola de ensino de cavalos e cavaleiros.

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CLAUDIO JOSÉ (Cláudio José Silva Fernandes Travessa). Tal como seu irmão Rogério, desde muito novo teve o sonho ser cavaleiro tauromáquico e chegar à alternativa! Depois de actuar, em Espanha, durante alguns anos como Rojenedor, foi até aos EUA, onde toureou na Califórnia. Em Salvaterra, no dia 30 de Agosto de 1998, aos 23 anos de idade, obteve a alternativa, sendo seu padrinho Joaquim Bastinhas. Nos anos seguinte, ainda esteve presente nos cartazes de corridas em Portugal e Espanha. Um Acidente, levou-o a ficar ausente dos redondéis. cavaleiros. ANA BATISTA (Ana Cristina Marramaque Batista), natural de Salvaterra de Magos, nasceu no dia 16 de Junho de 1978. Ana Batista, desde muito nova quis ser cavaleira tauromáquica. Com seu irmão Rogério montou, uma escola de ensinamento de cavalos e

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A sua apresentação pública, vestindo de fato curto, foi na praça de toiros da sua terra-natal, em 1988, onde lhe foi destinado um novilho, toureando com o Praticante Cláudio José. A sua alternativa, ocorreu dois anos depois, na praça de toiros de Coruche, em 8 de Julho de 2000, sendo seu padrinho; Joaquim Bastinhas. A sua carreira tem sido de grandes êxitos, tem estado presente em todas as arenas de Portugal. Como figura do toureio a cavalo, também é muito apreciada em Espanha, onde se desloca todas as temporadas taurinas. OUTROS CAVALEIROS AMADORES Depois da praça de toiros de Salvaterra, ser inaugurada, em 1920, alguns amadores, pelo gosto de tourear a cavalo, não deixaram de ser solicitados a actuar em arena, pois tinham angariado alguma experiência. Passaram a constar em cartazes de festivais taurinos em várias localidades do Ribatejo, MÁRIO MARQUES Mário Monteiro Marques, nascido a 17 de Maio de 1925, desde muito novo mostrou aptidões para a arte equestre, era um artista na forma de ensinar os animais.

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Um acidente de viação, ocorrido em 25 de Março de 1858, tirou-lhe a vida e com ele foi o seu grande sonho. MONICA MONTEIRO Mónica Monteiro, ainda menina, já manifestava o gosto de andar a cavalo, pouco depois mostrava grande tendência para a aficion, o toureio equestre era a sua paixão. O Jornal o Ribatejo, na sua edição de 18 de Outubro de 1990, dava a noticia que ela actuava, com Cláudio Travessa, entre outros amadores, num espectáculo em Santarém. A sua apresentação pública, em Salvaterra de Magos, sua terra-natal, foi em 1992. Os empresários depressa viram nela uma cavaleira tauromáquica com arte, que podia empolgar o público aficionado, nas praças de toiros portuguesas. Treinava afincadamente, esperando a sua oportunidade, foi convidada num programa especial da Rádio Ribatejo, coordenado pelo crítico, Paulo Beja, esteve ao lado de Ana Batista e Sónia

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Matias. Em 1993, na Nazaré, num festival taurino, em dia de carnaval, Mónica caiu do cavalo e, foi internada de urgência em Leiria, tinha fractura de crâneo. O estado de coma durou alguns dias, já estava internada no hospital de Santa Maria. Recuperada, na época seguinte, foi a Lagos tourear fazendo a prova de cavaleira praticante, apareceu vestida com uma casa de cor bordeaux filada a oiro. O sonho de ser cavaleira tauromáquica, era uma meta, treinava diariamente. Um dia quando regressava a casa pela estrada, o movimento de carros era imenso, um pesado, apitou por detrás, o animal teve medo, a Mónica caiu, ficou paraplégica. Andou de cadeira de rodas, depois com duas canadianas, depois ainda, só apoiada numa canadiana. Não ficou esquecida, em 1997, o grande aficionado salvaterrense; Manuel Fernandes Travessa, em conjunto com um grupo de amigos, onde a família Telles esteve presente, foi homenageado em Salvaterra de Magos.

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IX
CRITICOS TAUROMÁQUICOS D. PACO (ROBERTO FERNANDES) Num dia de Agosto de 1959, com a tarde a despedirse do calor, a brisa já se sentia convidando os clientes do Café Ribatejano, a aproveitarem as sombras daquelas árvores em frente, iguais a tantas outras em todo o jardim do Largo dos Combatentes. Na esplanada, debaixo de uma dessas sombras, sentado numa cadeira de ferro, um homem já entrado na idade, refrescava-se com uma água fresca, daquelas engarrafadas. Andava eu, por ali pois esperava a chegada da carreira das 17,00 horas, que tinha paragem em frente ao edifício da escola. preceito, fardado com O homem, viu-me vestido a boné (era a farda de

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empregado da camionagem), dirigiu-me a palavra: Então moço, esperas alguma coisa! Lá respondi ao que estava e, porque estava, enfim a conversa foi ao ponto de saber de quem eu era e, filho. Enfim, todos aqueles pormenores de quem tem alguma curiosidade. Lá respondi, chamo-me: José Rodrigues Gameiro !! Convidou-me para me sentar, e beber uma água, fazer-lhe companhia. De chofre, disse-me; eu conheço o teu pai, é o “Zé Pataco” (1), é jardineiro na câmara, somo velhos amigos de juventude. Quando cá venho, conversamos muito sobre a nossa terra. Também ouvi falar e conhecia grande parte da tua família, o teu bisavô, o teu avô e os irmãos dele, foram grandes campinos. Naqueles meus 14 anos de idade, fiquei algo confuso. Agora o curioso era eu! Então o senhor é de cá de Salvaterra! Sou, venho cá passar uma semana de férias todos os anos. Um ano de ausência, as saudades é muitas da família, da minha terra e dos amigos. Olha,
******** (1) – A alcunha de Pataco, vinha de meu bisavô que a deixou a alguns descendentes.

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já perguntei ao meu amigo Zé Pataco, que me confirmasse quem era aquele José Gameiro, que escreve no jornal “Aurora do Ribatejo”, jornal que leio todas as semanas. Afinal és tu…! Estava eu, pronto para continuar a conversa, mas com a chegada da carreira, lá me despedi, com um aperto de mão. O homem, ainda me disse, volto cá para o ano e, temos muito que conversar….! À noite, em casa, lá fiz a conversa sobre tal encontro, meu pai informou-me: É o Roberto da Ferradora, é neto do Roberto que foi toureiro. Olha, ele é muito apaixonado por toiros, julgo que faz criticas das corridas.

Um ano se tinha passado ! Um dia estava eu, na Central das Carreiras, na rua Heróis de Chaves, a preparar os volumes das encomendas, para seguirem para Marinhais e Glória do Ribatejo, quando do lado do Jardim do Lopes, vinha um homem vestido a preceito, com chapéu preto na cabeça, acercou-se de mim, cumprimentou-me e num

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instante: “Já não se lembra de mim!...” Apresentou-se, recordou o nosso encontro, no ano anterior. “Olhe, trago-lhe aqui um livro que lhe quero oferecer, são os “ Anais de Salvaterra de Magos”. O ano passado, ainda soube pelo seu pai e, por outras pessoas amigas, que tem gosto em saber coisas da nossa terra!

De imediato, abriu o livro e nele fez uma pequena dedicatória. Nessa noite e nas seguintes, o livro foi todo lido página por página e agora faz parte do meu espólio. Quanto ao Roberto Fernandes (D. Paco), nunca mais o vi, nem soube quem era um tal RUI DE SALVATERRA, tauromáquicas. que em 1935, fazia crónicas

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X
MOÇOS DE FORCADO Nota Prévia O rei D. José, determinou em 1762, que no seu reinado não haveria mais corridas reais, em Salvaterra foi a última. Mais tarde, em 1836, a rainha D. Maria II, assinou o decreto que seríamos proibidos os toiros de morte, em praças de Portugal. O palácio real de Salvaterra, há muito tinha desaparecido após alguns incêndios e, da derrocada provinda do sismo, de 1858. O espaço onde tinha ocorrido, a morte do Conde dos Arcos, estava agora rodeado de construções, era conhecido pelo Canto da Ferrugenta (1). Os toiros passaram a ser pegados. Os monteiros da choça, foram convertidos em

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(1) - Joaquina Mendes, José Caleiro, Rosa Mendonça e Francisco Costa(pessoas que viveram em dois séculos) – Foram por mim entrevistados em 1989, para um trabalho “Em busca do Teatro Real da Ópera de Salvaterra de Magos”.

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moços

de

forcados. O

povo

fornecia

os

seus

elementos, aqueles mais destemidos, estavam sempre na primeira fila Quando da inauguração da praça de toiros de Salvaterra de Magos, em 1 de Agosto de 1920, o grupo de forcados, foi chefiado pelo capataz; Manuel Burrico, de Vila Franca de Xira. Bastava haver um festival tauromáquico em Salvaterra de Magos, ou em vilas dos arredores, logo se formava um grupo de forcados, como foi o caso de um que foi actuar a Leiria, em 1966, num festival a favor do União de Leiria, entre outros figurou António Santos Paulo, conhecido por António Béu.

1942 - Grupo de Forcados de Salvaterra numa corrida após o ciclone

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Manuel

Fróis

Marques

(Manuel Lazão); morreu, em 1948, num acidente, num circo, na Feira de Setembro de Benavente, ao uma quando público marrada, agradecia bezerro, coluna

depois de ter pegado um pelas costas, fracturou-lhe a

grupo

de

forcados

profissional de Manuel Faia, Manuel dos Reis (Manuel Ferrador),

primeiro lado direito

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1956 - Grupo de Forcados de Salvaterra

1969 – Grupo de Forcados de Salvaterra

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ANTÓNIO LAPA Nasceu em Salvaterra de Magos, desde jovem manifestou o gosto pela pega dos toiros. Seu pai, também já tinha pegado toiros nas arenas. Um dia veio ter às minhas mãos uma página do já desaparecido jornal “O Diabo”, era do dia 22 de Outubro de 1985 e, tinha um artigo assinado por Miguel Alvarenga, que pela sua importância e significado aqui o transcrevemos:

ADEUS DE ANTÓNIO LAPA “ Dizem-me que te fostes embora, António Lapa. Que entregaste a jaqueta ao Francisco Costa e te despediste das arenas em Alcácer. Não pude lá estar. Mas não quis deixar passar o momento de aqui te prestar a minha homenagem. Ao teu valor, António Lapa. Ao forcado completo que tu foste. A mais que isso, António: à amizade que se fez forte no México e se foi prolongando por estes tempos fora. Lembro-me desse mês inesquecível .

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Dessa camaradagem sem fim que fui encontrar entre vocês todos, nesse México que não esquecemos mais. Comigo, com todos os outros. O Hilário, o Costa, o Silvino, o Fazé, o António Santos. Todos. Agora; dizemme que te foste embora. Que disseste adeus a uma carreira que abraçaras de alma e coração, durante o qual nunca, mas nunca, esqueceste tudo o que devias ao mestre Nuno Salvação Barreto. Dizia-lo com respeito. Com admiração. Com a firmeza e a justiça que caracterizam os homens de bom carácter. Como tu, António Lapa. Recordar-te, daqui te enviar o maior dos abraços que houver na terra, é a minha homenagem na hora da tua partida. Simples, António Lapa. Mas sentida. Adeus António Lapa! “ JOSE CARLOS HIPOLITO Conhecia-o das brincadeiras das épocas carnavalescas e, da fama que espalhava enquanto moço de forcado Um dia pedi-lhe uma entrevista para eu publicar no jornal “Aurora do Ribatejo”. Os dados que me concedeu, foram publicados assim: JOSÉ CARLOS HIPÓLITO (O Timpanas) - FIGURA TIPICA DA NOSSA TERRA –

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Homem pequeno, com 53 anos de idade, dotado de uma traquinice que o faz estar constantemente sempre bem disposto. Pelo Carnaval, desde há muitos anos, é o grande animador das festas do nosso burgo, sendo tal a imaginação e o talento nas figuras por si encarnadas , que deixam sempre saudades. No entanto o seu semelhante pode contar com ele nas horas difíceis, estando sempre atento e vigilante no seu posto de bombeiro voluntário, pois dá o seu contributo à Associação de Bombeiros desta vila. Mas o seu grande “martírio”, onde as saudades o vão corroendo, é a festa brava. Quando fala de tauromaquia todo o seu pequeno corpo se modifica, as contracções notam-se na sua face, os seus nervos de aço com que ainda há poucos anos empolgava multidões nas Praças de Toiros, ficam fluidos – É um homem vencido, cheio de saudades!... . Na esperança que nos identificasse uma fotografia de foi publicada, em 1957, na edição especial do Jornal – Vila Ribatejana. Logo que poisou os olhos no retrato mostrou-se nervoso, a sua calma desapareceu e nos seus olhos algo bulia, o que não evitou que mesmo disfarçadamente tentasse limpar uma lágrima rebelde

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que já o incomodava. E enquanto me ia informando dos nomes dos componentes do Grupo, Disse-nos; “Olhe, foi neste grupo que peguei toiros pela primeira vez e, foi em Coruche, já lá vão cerca de 30 anos”. Uma das suas salas está repleta de quadros, onde se podem apreciar várias sequências de pegas de caras, por Toiros, tanto no País como campo no si efectuadas em centenas de actuações nas Praças de Estrangeiro. Hoje, os seus exercendo a profissão de metalúrgico, foi na sua vida do que começou primeiros contactos com os toiros. Naquele tempo, ainda havia a grade – uma forma de trabalhar a terra – onde os bois, alguns bravos, depois de “bruxados”, tornavam-se dóceis. Voltando à tauromaquia, vai-nos dizendo: “ Tenho muita estima pelo Sebastião Nabiço e, também pelo Manuel Faia. Olhe! já me ia esquecendo do Albino Fróis Marques e do seu irmão, o Manuel Lazão. A eles devo muito do que sei da difícil arte de pegar toiros”.

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“ No entanto não me posso esquecer do Manuel dos Reis, o Manuel Ferrador, pois com ele tive tardes inesquecíveis. Bom companheiro!... Ao ver-mos uma foto, num daqueles imensos quadros pregados na parede, onde José C. Hipólito esteve na cabeça de um possante toiro (510 Kgs), diz-nos que esta pega foi na Nazaré. Apontando para umas outras, informa-nos “Aqui foi no Campo Pequeno, a critica da época, por esta pega me chamou o Pegador de Toiros mais pequeno de Portugal – O Pigmeu com braços de aço. Esta aqui, foi em Salvaterra com um “bicho” dos Robertos, também com cerca de 600 Kgs. Foi tão grande o delírio do público que um espectador, nas barreiras me levantou em peso, tal era o seu entusiasmo. A um canto, num pequeno móvel, está a sua jaqueta, o barrete, calção e os sapatos. Mostra-nos um álbum com características orientais e, diz-nos: “ Aqui guardo imensas recordações de algumas celebridades do nosso mundo tauromáquico”, e mostra-nos actuações com o mestre João Branco Núncio, mestre David Ribeiro Telles, Manuel dos Santos, Diamantino Viseu, Ricardo Chibanga, José Rosa Rodrigues e outros. “Olhe, aqui nesta foto, foi quando o Manuel dos Santos fez a sua

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festa de despedida, no Campo Pequeno. Neste grupo (o de Adelino de Carvalho) estou eu e o Manuel Ferrador. Esta fotografia, tem uma dedicatória do Manuel dos santos, a mim” “Numa digressão que fiz à China, onde o Manuel dos Santos, nos levou – éramos três forcados – pois ele organizou várias corridas em Hong-Kong, a praça foi construída em canas de Bambu e, comportava cerce de 8.000 espectadores. O Chibanga também foi. “Olhe, em cerca de 5 meses que lá estivemos, peguei 36 toiros e, numa das corridas actuei com uma costela partida, como pode ver por esta fotografia”. Roma, uma no México e outra na Venezuela”. Enquanto decorria a nossa conversa e nos mostrava centenas e centenas de fotografias, vai-nos dizendo que, no entanto depois destes anos todos a pegar toiros e de muita “porrada” ter levado, não pode esquecer tardes memoráveis que, viveu ! Um pequeno desgosto o acompanha e, diz-nos “Ainda não fiz a minha festa de despedida !” “À cerca de 5 anos, tentei organizar uma corrida. A então Comissão da nossa Praça, depois de concordar, vai “ No entanto por causa dos toiros, estive duas vezes em

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criando dificuldades, e eu, já tinha a oferta de toiros, cavaleiros e forcados e, se fosse necessário, alguns toureiros também se me ofereceram. Tive de desistir, pois a Comissão por ter começado a arrepiar caminho, dificultou, dizendo que não poderia emprestar a Praça. Olhe, que eu oferecia a receita para o Hospital. Não chego a compreender como me puderam fazer aquilo. E num tom magoado diz-nos, actuei em tantos festivais graciosamente para a Misericórdia. No entanto não perdi ainda a esperança de fazer a minha festa de despedida e na minha terra, vou começar os meus contactos novamente e espero que a actual Comissão da Praça de Toiros me ajude, emprestando-me a praça, pois em contrapartida, a receita será para o Hospital”. E assim deixamos o José Carlos Hipólito – O Timpanas de Salvaterra – entregue às suas recordações e tristezas. O Pigmeu, com braços de aço, com alguém um dia lhe chamou! Que a sua ambição se realize, é o nosso grande desejo. ****** Muitos outros nomes perderam-se, porque envergaram a jaqueta poucas vezes e, outros enveredaram por outros grupos, como: António Rogério Amaro

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XI
CAMPINOS
Nota Prévia Moço Nogeiro, Roupeiro Novo, Roupeiro Velho, Contra-Moiral, Moiral e Campino-Mor, era a hierarquia do homem que guardava toiros no Ribatejo, ainda conhecida por volta de 1930. O Campino, era uma figura de grande respeito entre os seus pares e, muito estimados pelos patrões. No trabalhar os cabrestos para a recolha dos toiros em praça. Na condução do gado nas pastagem e, a caminho das localidades onde os curros de toiros iam ser corridos, o povo respeitava-os por “grandes varas”. No dobrar do séc. XX, os terrenos de pastagem encurtaram. As ganadarias, passaram por uma lenta mudança, notava-se mais naquelas alicerçadas em hábitos que vinham de séculos anteriores. O Feitor, Campino e Moiral, as três grandes figuras da Lezíria ribatejana, estavam em desaparecimento. UMA FAMILIA DE CAMPINOS António da Silva Cantante, meu avô paterno, tinha uma irmandade de cinco rapazes e uma rapariga. Uns tinham no apelido; Silva e outros, Galricho. A alcunha de “Pataco”, veio de meu bisavô, Miguel Galricho, por ter recebido a oferta de mais um pataco, para trabalhar na Casa do Barão de Salvaterra.

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A notícia do pagamento de mais dois vinténs, correu em toda a Lezíria, o que reconhecia no meio da campinagem, o seu valor de grande vara. A inveja foi tal, que não o livrou da alcunha de “Pataco” que deixou à descendência. Já o meu Trisavô, foi um respeitável Campino-Mor, nas vacadas do rei D. Miguel, que pastavam em terras de Salvaterra e Pancas. O antigo bandarilheiro Roberto Jacob da Fonseca, mais tarde lavrador e ganadeiro, contemplou o filho deste no seu Testamento, entre muitos trabalhadores da sua casa agrícola.

ALGUMAS HISTÓRIAS Andava eu, pelos 14 anos de idade já escrevia para o jornal “Aurora do Ribatejo”. Do meu avô ouvi relatos da sua antiga vida de campino. Dessas recordações, guardei alguns apontamentos, Agora para este trabalho, lá fui “rebuscar” aquelas informações, Meu avô, António da Silva Cantante, conhecido por António Pataco, viveu toda a sua vida de campino, no campo junto das manadas de toiros. Um dia já entrado na idade, deixou a campinagem e foi guardar uma éguada afilhada, com 50 cabeças, da casa agrícola Menezes & Irmão, Ldª. No mês de S. Tiago, de 1944, deixou de todo aquela actividade, mas os seus dois irmãos, Éramos quatro rapazes, sendo todos filhos do mesmo pai e mãe, mas tínhamos nomes diferentes, O Manuel, morreu cedo.

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O João e o José, continuaram na ganadaria Irmãos Roberto. Os anos tinham passado, a idade e as forças, já não o deixavam “dar conta do recado”, como ele um dia me disse: “Os toiros bravos que conhecia como a palma das suas mãos, já não lhe obedeciam, aos gritos…É toiro lindo…! “Já não era aquela “vara” de outros tempos…” “Estava farto de tanta canseira, tantos foram frios dos invernos e os calores de muitos verões, anos a fio, em que esteve sentado na sela, com a manta aos ombros a manta lombeira, quer cai-se geada, quer chovesse, guardando tantas cabeças de gado, que lhe perdeu o conto…” A “velhice” tinha chegado ! Deixou na vila, a casa onde vivia, na rua d` água e, recolheu-se, com minha avó Emília e, meus tios; Manuel e Luís, numa pequena barraca de caniço, que construiu, nos terrenos do Rego, que alugou ao Dr. José de Menezes, seu antigo patrão. Ali vivia, do sustento de algumas vacas leiteiras, com a venda de leite, pois criava vitelos. Nos valados, perto dos poços onde as mulheres lavavam roupa (1), eram o local onde apascentava o gado, a erva fresca abundava. Um dia sentado num pequeno banco, com fundo de “sumaúma” por ele entrançada, como bem sabiam fazer os campinos, além de esteiras e, fechar garrafões de vidro com cordel - disse-me: “Quando fores grande nunca queiras ser campino, aquilo é um trabalho dos Diabos; ama-se mais os animais do que a família.

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Teu pai, não quis ser campino, também não quis aprender a endireitar a “Espinhela” (2) e fez bem!

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(1) – Pequenos tanques de cerca de um metro de fundo, onde a água era constante, as mulheres esgotavam-no, na lavagem da roupa. No fundo tinham pedra para assento dos pés, em cima no terreno, uma laje para a lavagem da roupa. Estendiam a roupa branca pela erva, para corar.

********* (2) – Endireitar a Espinhela; era endireitar a coluna vertebral, que ele aprendeu com os campinos mais antigos – Os bezerros ficavam com as costas tortas porque o parto, algumas vezes acontecida com as vacas em pé e, os bezerros nestas condições tinham dificuldade em começar a andar. Depois da mãe, comer a placenta e limpar o animal com a língua, os campinos tapavam o pequeno animal e puxavam-no com uma corda (para evitar as marradas da vaca). O mais dextro, punha a cabeça do vitelo entre as pernas e, com as mãos fazia massagens ao longo das suas costas. Minutos depois o pequeno animal já andava para junto da mãe. Cheguei a ver avô fazer isto a alguns homens que o procuravam com dores nas costas.

Dizia-me, eu, comecei aos 10 anos a guardar os bois da tralhoada, depois passei para as manadas de toiros bravos. Ao entrar nos 25 anos de idade, um dia cheguei a campino-mor, numa casa agrícola da vila, de Salvaterra de Magos. Ainda, trabalhei com meu pai e, os meus irmãos João e o José, nos Roberto & Roberto, aqueles irmãos que, ganharam uma fortuna a tourearem em Espanha. As suas lembranças, eram sempre uma “lengalenga” do seu tempo de campinagem. “Aquela dos toiros que iam ser corridos em Santarém!

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Saíram da Herdade dos Coelhos, atravessaram a vila, ao cair da tarde de sexta-feira, foram toda a noite pela estrada do meio, pelos campos de Muge e Benfica, saíram para lá de Almeirim, quando o sol dava os primeiros sinais de vida, estavam a atravessar a ponte do Tejo, com todo aquele mar de gente, viam-se os barretes, os chapéus, coletes e casacos, voavam no ar, a querer tirarem os toiros que a gente mantinha entre os cabrestos. Aquela malandragem não nos dava descanso e, éramos para aí uns 30 campinos. O curro, tinha de estar em Santarém, na tarde de sábado para a corrida de domingo à tarde. Eram dias de grande trabalheira, mas também a gente se vingava, era cá cada varada naqueles costados. Também me contou, uma outra de um curro de toiros, que tinha de ser corrido em Vila Franca e, como era costume, saiam dos Coelhos, ao inicio da tarde, para aproveitar a maré do Tejo e, atravessar para Valada, através dos mouchões, ia-mos pelos campos da Azambuja e, a chegada a Vila Franca, a meio da tarde de sábado, para serem corridos no domingo às cinco da tarde. “A trabalheira começava logo depois do Maçapez, ia-mos por Trás-Monturos, a rapaziada não deixava os toiros descansados, alguém tinha passado o segredo, queriam tirá-los do meio dos cabrestos, ao passar da ponte da vala. A gente percebia daquilo, já estávamos habituados e, a vara trabalhava logo nos “costados” deles. Depois em Valada e na Azambuja, era de ver gente a escorrer sangue, aqueles diabos não deixavam os animais sossegados e, davam-nos muito trabalho, para manter o gado no meio dos cabrestos.

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Varada neles..! Era a ordem do campino-mor. Lino Garoto. Os nossos cavalos, os toiros e cabrestos, babavam-se por todo o lado. Meu avô, gostava de beber o seu copito e, quando ficava um pouco “enxergado” como ele dizia, lá se lembrava de tocar um vira do campo ou o fandango, numa pequena gaita-de-beiços, já muito velhinha e desafinada.

1936 – Quatro irmãos campinos

Com a música do fandango, ficava empolgado de tal maneira, que não resistia a tentar fazer o jogo de pernas. Era de ver e ouvir…! Nunca se esquecia dos campinos, seus camaradas de outros tempos. Hó, que grande gente! Grandes varas….! Os seus três irmãos; João da Silva Galricho, José da Silva Galricho e Manuel da Silva, conhecido por (Manuel Pataco), o seu primo João Vitorino, o Lino da Silva,

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alcunhado por Lino Garoto, o Joaquim Quartilho, o Francisco Almeida e o Fernando Nobre. Muitos outros que vieram mais tarde como: Manuel Luís, José Duarte Cantador, conhecido por “José da Moira” e, o Manuel Bernardo, estes últimos acabaram no José Lino.

TRAJE DO CAMPINO

No dobrar do século XX, os campinos, aquela gente que lidava com o gado bravo em plena Lezíria ribatejana, ainda mostrava a pele curtida por mil sóis. Os mais novos, já usavam o boné na cabeça, colete e calça de ganga ou cotim, em dias de trabalho e, lá se via, muito poucos, com a cara ornamentada com uma pequena e larga patilha na cara, um pouco abaixo da orelha. As grandes suíças que por vezes “beijavam” os bigodes, com duas pontas bem finas e enroladas, foram caindo em desuso por volta dos anos 30, época da última geração de antigos campinos, muitos deles conhecidos e respeitados por grandes “Varas”. O Campino, homem de têmpera rija, hábitos muito antigos, ainda tinha e tem vaidade em mostrar o seu

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vestuário. A jaqueta brincheta, barrete preto e cinta da mesma cor, era vestuário em tempo de trabalho. Em dias de festa, era substituído por um outro mais sobranceiro e luzidio, como: Barrete verde, com cercadura vermelha. Colete vermelho, ou azul, atado com cordões na frente enfeitados com botões metálicos, mostrando nas costas, desenhos genuínos, feitos muitas vezes por familiares. O ferro da casa agrícola (de que era trabalhador) é usado, no peito (lado esquerdo), em ferragem latão/cobre, em forma de brasão ou emblema. A cinta vermelha, de lã com franjas, tem a função de apertar o corpo do campino. A camisa branca justa de colarinho redondo, pode ter efeitos desenhados, de uma fina linha. O calção, de fazenda rapada azul-escuro, ou preto, enfeitado com botões metálicos do lado de fora da perna. A meia branca é usada por cima do joelho, arrendada, feita à mão. Os sapatos de salto de prateleira, usados com fivelas e espora.

OS RANCHOS FOLCLÓRICOS E A CONSERVAÇÃO DOS USOS E COSTUMES
Quando do aparecimento do rancho da Casa do Povo de Salvaterra de Magos, em 1980, sendo o garante da preservação e divulgação desta forma de vestir do

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nosso povo, usa nas suas actuações, o vestuário de campino e camponesa em dia de festa. Para a confecção das roupas, recorreu-se a uma das últimas costureira, que ainda sabia confeccionar este tipo de roupa, na vila, a artesã, Elvira Santana. Do vestuário do início do século XX e, muito usado ainda em 1920, a saia da mulher tinha uma roda (4 panos), franzida na cintura por um cós. A saia de castor, de cor vermelha, era usada por debaixo, na segunda posição. Nos anos seguintes já no início da década de 50 passou a usar-se nos dias festivos a saia de castor (hoje, conhecido como feltro de 15) e, foi reduzido para três panos, como foi mostrado pelo Rancho dos Trabalhadores do Núncio Costa. No rodado da saia, mais tarde, já em 1960, era usual ver-se o tecido de nome “riscado”, na confecção das blusas (camisas), das mulheres e camisas dos homens, entrava a “populine”. sendo o garante da preservação e divulgação desta forma de vestir do nosso povo, usa nas suas actuações, o vestuário de campino e camponesa em dia de festa.

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Agora por tudo quanto é recinto de feira, exposições e corridas de toiros, o campino deixou o copo de vinho, adaptou-se ao seu tempo, o copo de cerveja.

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XII
A ORIGEM DA PRAÇA DE TOIROS Segundo algumas publicações dos últimos anos do séc. XIX, em Salvaterra de Magos, foi inaugurada no dia 2 de Agosto de 1891, uma praça de toiros construída em madeira, com capacidade para cinco mil lugares, sendo propriedade do hospital de Portalegre.

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Se não fora uma reportagem, feita a José Luís das Neves, para o jornal “Aurora do Ribatejo” quando da passagem do meio século da inauguração da praça de toiros, não estariam disponíveis ao conhecimento público, alguns documentos sobre esta importante obra. “A praça de toiros é devida à acção de um grupo de beneméritos; FRANCISCO MARIA GONÇALVES, AUGUSTO DA SILVA, MANUEL LOPES GONÇALVES, LUIZ GONÇALVES DA LUZ, ANTÓNIO HENRIQUES ALEXRANDRE, AUGUSTO GONÇALVES DA LUZ, CARLOS ALBERTO REBELO, PEDRO DE SOUSA MARQUES e JOSÉ LUIS DAS NEVES, que se constituíram em Comissão Construtora da Praça de Toiros”. A obra ficou concluída em 1920, mas só foi entregue à Santa Casa da Misericórdia de Salvaterra de Magos, no dia 16 de Março de 1924, conforme consta da acta que faz referência ao ofício da “Comissão” que entregava a chave da praça. Num estudo editado em livro sobre a Misericórdia de Salvaterra de Magos, levado a cabo pelo Dr. José Asseiceira Cardador, em 1968, podemos ler algumas cópias de actas e ofícios.

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Naquela edição de José Cardador, ele referencia que se serviu de documentos, que estavam na posse de Fernando de Sousa Marques, filho de Pedro de Sousa Marques, membro da comissão, onde transcreveu uma Circular: “De há muito que os salvaterrenses, e outros mais, cuja longa permanência aqui os leva a considerar esta também sua terra natal, vêm mostrando desejos, de voltarem a possuir novamente uma PRAÇA DE TOUROS, nesta localidade. E, para essa ideia se torne um facto, combinaram os abaixo-assinados reunirem-se quanto antes, o que fizeram ontem, em casa dum dos signatários, deliberando o seguinte: Procurar levar a efeito a construção, desse dito edifício e, uma vez concluído, oferecê-lo ao Hospital da Misericórdia desata vila; - Diligenciar falar e escrever a todos, sem excepção, afim de angariar os donativos precisos para a construção imediata do referido edifício, ficando todo e qualquer desses donativos à responsabilidade dos mesmos signatários, que prestarão contas a seu devido tempo, ou antes mesmo, se lhes for exigido. Inútil seria dizer que a construção de tal edifício de espectáculos representará mais um engrandecimento para a nossa

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terra e uma dádiva, cremos, de importante valor para o nosso hospital, casa de caridade, esta que tão digna e merecedora é que a ajudem. Assim, pois espera a Comissão que todos a coadjuvem, por toda e qualquer forma, procurando vencer sempre dificuldades que apareçam, afim de se conseguir principiar e chegar à conclusão de tão útil e desejado edifício. Nesta esperança, e agradecendo, antecipadamente se subscreve com toda a consideração e respeito. Salvaterra de Magos, 18 de Setembro de 1919 * A Comissão *

Um oficio, com data de 18 de Setembro, dirigido ao presidente da câmara Municipal de Salvaterra de Magos, pedindo a cedência gratuita de terreno com sessenta metros de diâmetro, no largo dos moinhos, para nele se construir a praça de touros. Um outro com a mesma data, enviado ao Ministro das Finanças, são referidos no livro do Dr. Cardador, onde se pede que sejam concedidos pinheiros, do Pinhal do Escaroupim. Um outro documento do espólio de Sousa Marques, é o original da ultima folha de férias semanal.”

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O ofício, com o número 9 reza assim: A Associação de Benemerência – Misericórdia de Salvaterra de Magos; À Excelentíssima Comissão Construtora da Praça de Touros desta Vila – Tendo chegado às minhas mãos o ofício de V.Exª, que acompanhava a chave da Praça de Touros, eu, em nome da Comissão Administrativa tenho a honra de lhes agradecer a sua benemérita intenção, e bem assim a todos os senhores que concorreram para a construção, daquela propriedade, que quiseram ser de grande humildade, colocando apenas na sua frente, por cima da porta grande PRAÇA DE TOUROS DE SALVATERRA” E, de lhes notificar que a acta da sessão de hoje lhes fica exarado um voto de louvor pela sua bela intenção. Saúde e Fraternidade. Salvaterra de Magos, 16 de Março de 1924 (a) – O Presidente José Eugénio de Menezes “

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PRAÇA DE TOUROS DE SALVATERRA DE MAGOS Folha de Férias - 14 de Agosto de 1920 Operários que trabalharam na praça de touros
Augusto da Silva …… 7 dias Bernardino Silva ……..7 dias Jozé Torroais ………. 7 dias Jozé Vedigal ……….. 7 dias Francisco Remundo 7 dias Libório Netto ………. 7 dias Francisco Almeida… 7 dias Justiniano Valente… 7 dias Manuel Faz-Cordas .. 4 e ¼ Manoel Montoia …. Constantino……… Jozé Miguel …….. 2e½ 6 dias 2e¾ 19,000 réis 17,000 réis 17,000 réis 17,000 réis 17,000 réis 16,000 réis 16,000 réis 16,000 réis 16,000 réis 17,000 réis 17,000 réis 17,000 réis 15,000 réis 11,000 réis 13,000 réis 133,000 réis 119,000 réis 119,000 réis 119,000 réis 119,000 réis 112,000 réis 112,000 réis 112,000 réis 68,000 réis 37,000 réis 102,000 réis 46,600 réis 105,000 réis 77,000 réis 13,000 réis

Jozé Traveça …….. 7 dias Beijamim Baranda 7 dias

Francisco Santana .. 1 dia

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Manoel Borrego …

1e½

6,000 réis 4,000 réis 4,000 réis 5,000 réis 5,000 réis 4,000 réis 13,000 réis

9,000 réis 24,000 réis 18,000 réis 35,000 réis 35,000 réis 35,000 réis 91,000 réis

Francisco Vitorino .. 6 dias António Ferreira … 4 e ½ António Baía ….. 7 dias Manoel Boneco … 7 dias António Remundo 7 dias Manoel Figaredo .. 7 dias

O CICLONE DESTRUIU A PRAÇA DE TOIROS Seis meses tinham passado, da comemoração dos 20 anos, da inauguração, quando no dia 15 de Fevereiro de 1941, um forte ciclone que fustigou todo o país, arruinou quase todo o edifício da praça de toiros. A sua reconstrução ficou a dever-se aos beneméritos; Gaspar da Costa Ramalho e Jorge de Melo e Faro (Conde de Monte Real) e sua esposa D. Teresa Castro Pereira Guimarães de Melo e Faro. O primeiro, arcou com as despesas das bancadas, que foram construídas em cimento, substituindo as de madeira. O casal Monte Real, custeou as paredes interiores, com seus pilares em tijolo e entre várias divisões, os curros.

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Para festejar a sua reconstrução, foram organizados alguns festejos, onde se incluiu uma brilhante corrida, com a participação graciosa dos toureiros espanhóis; Domingos Ortega e Luís Miguel Dominguim. A este espectáculo, assistiu o presidente da república, Óscar Carmona. Com a receita dos espectáculos, foi entregue ao Hospital da Santa Casa, um valor de 13.851$50 e um outro de 115.176$65.

A CONSERVAÇÃO DA PRAÇA A praça de toiros, tem tido ao longo dos anos altos e baixos no campo da sua conservação. Em 1939, A Revista Ilustrada “A Hora”, numa reportagem sobre o concelho, dava conta que o edifício dava mostras de um estado de ruínas. Em 1976, uma comissão que tomou conta do seu funcionamento, além de efectuar obras nas bancadas, aproveitando o seu espaço para mais 900 lugares de espectadores, apetrechou-a de iluminação de grande potencia, dando origem à realização de espectáculos nocturnos.

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Em 1986, a Provedoria da Misericórdia, custeou a instalação de coberturas, para o sector “Sombra”, e nos lugares destinados às entidades oficiais. O Mesmo aconteceu no espaço destinado à presença da banda de música, por cima da zona dos curros. Também, com uma série de homenagens que ficaram registadas no interior da praça. Na frente, no espaço, onde se encontrava a palavra “DE”, foi colocada uma placa em mármore, com os nomes dos seus obreiros. Daí para cá a provedoria sob a presidência de Armando Rafael Oliveira, tem destinado alguns cuidados na conservação de todo o edifício da Praça de Toiros de Salvaterra de Magos.

A PRAÇA DE TOIROS FEZ 50 AN0S ! A Reportagem “A convite de José Gameiro, colaborador, do semanário “Aurora do Ribatejo”, com redacção em Benavente, assumi há pouco tempo a direcção do “Jornal de Salvaterra” uma página dedicada aos assuntos do concelho.

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A praça de toiros de Salvaterra, está prestes a fazer meio século de inaugurada, justo é que dê aos seus leitores alguns dados históricos da obra. O único membro da Comissão Construtora, felizmente ainda vivo e de boa saúde, encontra-se entre nós, é empregado no Grémio da Lavoura local, José Luiz das Neves. Contactado uns dias antes, ficou à nossa disposição para uma entrevista. Eu, e o colaborador deste jornal, José Gameiro, fomos encontrá-lo à sua mesa de trabalho numa sala do rés-do-chão, do edifício, entre guias de entrega de sementes e, lá se dispôs a transmitirnos as suas recordações. “A ideia da construção da Praça surgiu no meu estabelecimento de mercearia e vinhos, situado na rua Direita, onde mais tarde veio a estabelecer-se Manuel Xavier da Silva, ali mesmo junto ao cruzamento com a Trav. do Martins” - “Pensamos na sua construção por inveja da que havia em Benavente. Quando em 1918, depois de assistir à inauguração desta, alguns aficionados de Salvaterra, se juntaram na minha loja e mostraram “ferro” por estarmos tão atrasados em relação aos nossos vizinhos.

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Ali mesmo foi decidido que teríamos dentro de pouco tempo uma praça melhor que a “deles”. certa da O soco na mesa, que frisou as últimas palavras, deu-nos a medida

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vibração que ainda produz no nosso entrevistado a recordação da cena passada em 1918. -“E olhem, que ficou realmente melhor”, continuou o Sr. José Luís das Neves, que não tivemos coragem para interromper. Construída em alvenaria, enquanto que a de Benavente era de adobes e desapareceu uns meses depois, pelo tremor de terra, enquanto a nossa está aí que se pode ver !”

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“O grande problema como devem calcular”, continuou o nosso entrevistado em resposta a nova pergunta, “foram aonde arranjar dinheiro”. “Depois de se conseguir por intermédio do então Ministro do Comércio, Jorge Nunes, que a madeira necessária fosse oferecida pelo estado e cortada no Escaroupim, o dinheiro para o resto foi conseguido com ofertas: dois tostões deste, três tostões daquele, um cruzado do outro, foram as migalhas que juntas a ofertas maiores formaram 74 contos de réis e picos que custou a nossa praça”. Quais foram as maiores e menor oferta em dinheiro que conseguiram para a construção? Perguntámos ! “Olhem, se não me falha a memória, a maior foi do sr. Porfírio Neves da Silva, que ofereceu um conto de réis, que na altura era uma quantia choruda e a menor… “O sorriso do nosso entrevistado faz-nos antever uma

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revelação sensacional. “Foi do sr. José de Menezes, que ofereceu 500 mil réis para não pensarem mais nisso! “. Pessoa amiga tinha feito chegar à mão, do José Gameiro, incansável nesta pesquisas, que supúnhamos serem da inauguração da praça e, pedimos ao sr. José das Neves que as identificasse; Eram realmente da corrida inaugural e com uma lágrima teimosa a querer fazer das suas, lá nos indicou o sr. Roberto Jacob da Fonseca, inteligente da corrida; os srs. Henrique Avelar da Costa Freire; Porfírio Neves da Silva; João Oliveira e Sousa; João Vasco, Sílvio Moiro, Administrador; Manuel Caetano Doutor, Corneteiro; Henrique José Ferreira Martins, farmacêutico e animador do “Grupo do Ti Martins” que se dedicava a patuscadas, Fernando Luís das Neves, pai do nosso entrevistado, enfim um nunca acabar de recordações. “Olhe, este aqui de chapéu, sou eu!”. José das Neves, mais à vontade e visivelmente emocionado abre por sua vez o seu rosário de recordações e mostra-nos jornais da época, programas das corridas, e como curiosidade uma folha de férias; Vimos, revimos tudo, e de repente “Olhem, tudo isto

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ofereço ao Zé Gameiro, pelo interesse que tem nestas coisas da nossa terra” “Reparámos que na folha de férias, sendo a última da semana na obra; os pedreiros ganhavam entre 15 e 17 tostões e os serventes, entre um cruzado e oito tostões e, 36 trabalhadores em 7 dias receberam 234.710 réis (dois dias de ordenado dum pedreiro de 1970). Um exemplar do jornal “A Elite”, chama-nos a atenção por na página 2, numa lista de 11 nomes, 10 terem à frente uma cruz. “É que todos esses já morreram, só falto eu, ainda cá estou” explica o nosso entrevistado, dizendo serem os componentes da Comissão Construtora da Praça. “Neste último, já não serei eu a pôr a cruz…! - Eram o Pedro Sousa Marques, Luiz Gonçalves da Luz, Augusto da Luz, Carlos Alberto Rebelo, Francisco Maria Gonçalves, Augusto da Silva, Manuel Lopes Gonçalves, Francisco Morais, António Henriques Alexandre, Augusto de Almeida e José Luiz das Neves: Um grupo que continha 5 operários, 4 comerciantes, 1 proprietário e 1 industrial de barbearia. A Comissão organizadora das corridas era composta por: António de Sousa Vinagre,

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Dr. Armando de Sousa Calado, Dr. Roberto Ferreira da Fonseca, José Rebelo Andrade e Henrique Costa Freire. - Apontando para os programas que tínhamos entre mãos, actuaram nesta 1ª corrida: Cavaleiros; José Casimiro e Adolfo Macebeiro Tomé, Vital Francisco Rocha, Mateus Falcão e Manuel doa Santos, da Golegã. - O grupo de Forcados; comandados por Manuel Burrico. Os 10 touros foram generosamente oferecidos pela ganadaria Roberto & Roberto. - Não entregamos logo a Praça à “Misericórdia”, afirma em resposta a uma nossa nova pergunta. - Durante um ano e tal, organizamos toiradas e vacadas para arranjar dinheiro, para pagar as dividas que ainda havia”. - Nesse tempo era fácil organizar corridas, como fumar um cigarro… Não havia tantos papéis e tantas coisas a tratar e quando pensávamos fazer, fazíamos”. - “Além de mais, não queríamos que aparecessem no hospital contas para pagar por despesas que nós fizemos. A Praça foi entregue livre de todos os encargos”. -

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Sabendo o que lhe custou colaborar na obra, se voltasse ao ano de 1918, faria parte da Comissão Construtora da Praça? Perguntámos. “Apesar das muitas canseiras e do trabalho que tive, se voltasse atrás fazia exactamente o mesmo, juntava-se as mesmas pessoas e construíamos a Praça que está ao cimo da Avenida. Não dou por mal empregado o tempo que me ocupou”.- O nosso entrevistado é interrompido e chamado à realidade pelo “interfone” (um tubo metido na parede que liga a sala onde estamos, com o 1º andar, em cada terminal tem um bocal, com tampa), perguntavam-lhe assuntos de serviço. Faziam-no voltar a 1970. Já na mesa do seu serviço, observava trouxemos. Abre a gaveta e pega numa lupa; “ Este esteve muitos anos em Lisboa… Estoutro foi para Muge… A mulher do Luiz Caleiro, tem ainda a mesma cara… dizia, revivendo os 27 anos que tinha em 1920. José António Teodoro Amaro (Tamaro) – José Gameiro ***** mais uma vez as fotografias que lhe

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Nota:

Original da entrevista, entregue na redacção do Jornal “Aurora do

Ribatejo”, mas por motivos de paginação e outros, foi publicada, com algumas alterações como se encontra publicada na edição de 1 de Agosto de 1970.

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Quando a praça de toiros fazia 72 anos de inaugurada, fiz sair no dia 22 de Julho de 1992, no Jornal Vale do Tejo, uma artigo sobre a efeméride, soube que José Luiz das Neves, depois de reformado, foi de abalada com sua esposa, até Leiria, para casa de seu filho José Luís. Aí faleceu e ali foi sepultado.

A CORRIDA INAUGURAL Da edição do jornal “A Manhã” de 6 de Agosto de 1920, que já usamos anteriormente, transcrevemos as crónicas do jornalista Batista Duarte, das corridas inaugurais do Taurodromo que se encontra à entrada da vila de Salvaterra de Magos. “Com o cadáver do Conde dos Arcos estatelado na arena, ensopado do seu sangue Marialva as almas opressas ainda ante a figura romana, vestida de lenda, do velho fidalgo, estribeiro-mor da corte, que de um golpe afundara a sua espada, até aos copos, na nuca do toiro negro, nervoso e brusco, que lhe estripara o filho, na própria tribuna onde assistira ao espectáculo, “de toiros” ante a corte deslumbrante,

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trapos à francesa constelados de pérolas, cabeleiras em anéis, recamos de oiro e toucados milagrosos, o senhor rei D. José prometeu a Sebastião de Carvalho e Melo: -Foi a ultima corrida, Marquês. A morte do Conde dos Arcos, acabou os touros reais em Salvaterra, enquanto eu for rei…. O ministro, que vinha de levantar a luva que lhe lançara D. José Torrero, embaixador espanhol, fitou o soberano e retorquiu: -Assim o espero da sabedoria de vossa majestade. Sucedeu isto no Verão de 1762. Estamos em 1920. O Marquês de Pombal morreu há muito. Os reis passaram. A promessa dos toiros passou também. O Ribatejano tem a fidalguia, do sangue quente, o ar livre, criador: possue a nobreza do trabalho, das searas e a visão sadia da Lezíria, onde as terras frescas que orlam o rio Tejo, estão mescladas de rebanhos e manadios pastando em sossego. Salvaterra, ostenta pergaminhos; tem um Hospital da Misericórdia, que é pobre como todos os hospitais, tem uma mocidade destra e portuguesíssima, tem os homens feitos de coração forte e mãos amigas, tem o respeito das suas velhices e um grande amor às coisas tradicionais. E Salvaterra, fez uma praça de toiros, imponente, hoje uma das melhores da província, que custou cinquenta contos! Inaugurou-a há três dias. A promessa do senhor D. José, está absolutamente perdida para a história local. As duas touradas

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de Domingo e Segunda-Feira passada foram duas “toiradas reais!”…. “A praça é alegre, tem uma ordem de camarotes, dois sectores sombra e dois sol e, comporta cinco mil pessoas. A comissão organizadora das corridas era composta por; António Sousa Vinagre, incansável trabalhador para a organização das festas, Dr. Roberto Ferreira da Fonseca, Dr. Armando dos Santos Calado, José Rebelo de Andrade e Henrique da Costa Freire. A primeira corrida por profissionais, foi brilhantíssima. Tudo quanto há conhecido de bons aficionados, caiu em peso em Salvaterra de Magos. À frente desses aficionados vimos o bom “velhote” e antigo lavrador ribatejano; António Roberto Casaleiro, vulgo o “Compadre Casaleiro”, decano dos aficionados, que apesar dos seus 75 anos ainda corre lesto, com o seu grande entusiasmo, a uma boa corrida de toiros. Dos Camarotes

pendiam lindas colchas, tudo numa decoração deslumbrante, que juntamente com as toilettes das senhoras, davam um conjunto encantador. A populaça que mostrava ter vindo dos campos da lezíria, davam uma riqueza de cores garridas no seu vestuário, que sombreava as casacas e chapéu alto de muitos presentes. Mas eis que principia a função, a música dá brilho ao espectáculo, na presidência está a veneranda relíquia da tauromaquia portugueza, o grande bandarilheiro, que o Campo de Sant`Ana aplaudiu freneticamente; Roberto

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da Fonseca, com os seus 84 anos, mostra uma figura esbelta vencendo a idade. Com um sorriso compassivo à rapaziada, a praça a ir abaixo de tantas palmas, lenços e manifestações, enquanto a banda executa o Hino Roberto da Fonseca. Como o lindo circo ribatejano, fervia de entusiasmo febril. De repente e a um sinal do director da corrida, o silêncio trespassa os aficionados; sai dos curros o toiro com o nome “Padeiro”. É um bicho de linda estampa, nobre e bravo, que arranca de largo a largo, fino sangue. José Casimiro, que brindara a Roberto da Fonseca, faz um toureio magistral, à maneira Marialva, elegante e viril, inaugurando assim a praça de Salvaterra, outrora corte de folguedos. Foram quatro ferros cumpridos, dois à meia volta e dois à tira, e dois curtos a fechar. O último dos quais de uma sorte digna de respeito. O grupo de forcados entra no meio do redondel, e o seu cabo Manuel Burrico, com o seu barrete oferece a pega a todo o público. De imediato perfila-se e vai para a cara do bicho, com uma valente pega, que leva os espectadores ao rubro. E com este começo foi a corrida por ali fora, como vamos descrever. Se bravo e nobre foi o primeiro touro de cavalo, não sabemos que dizer do sexto, “Cochicho” de seu nome, e que lhe chama o moiral, touro de bravura, metendo a cabeça ao

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estribo, do cavaleiro mal via o cite.

José Casimiro, toureia

com alegria e arte, crava ferros com febril entusiasmo.

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Grande ovação recebe do público, da qual compartilha com lavrador, João Roberto, sobrinho dos ex-bandarilheiros; Vicente e Roberto da Fonseca. O forcado, de seguida voltou a fazer uma rija pega. O outro cavaleiro, foi o simpático artista, Adolfo Macedo, que também teve dois touros muito bravos; o “Casquinha” e o “Gavião”. Pena foi que o artista lhes tivesse dado uma lide muito precipitada, quase sempre à meia volta. Se toureia com mais calma e tem saído mais vezes à tira, como lhe indicaram os seus amigos, tinha feito um figurão. Os toiros-reais! Há muito que se não vê nas nossas

arenas, quatro toiros de cavalo tão bravos!.... Os nossos parabéns à firma Roberto & Roberto, por tão bravo curro oferecido. Dos nossos bandarilheiros; Teodoro e Tomé, muito bem em quites, e com bandarilhas tiveram bons pares. – Rocha, Falcão, Vital e Manuel dos Santos, da Golegã. O último toiro, de nome “Criminoso”, foi o mais bravo touro de pé.Teodoro Gonçalves, dedicou a sua faena ao seu colega e ex-bandarilheiro, João Roberto, que saiu magnifica. A direcção do velho Roberto da Fonseca, foi uma grande licção!...Ainda lá tem a ralé do toureador o bom velhote !

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A arrelia dele, se os animais eram mal corridos!....

SEGUNDA CORRIDA
A segunda corrida, foi na Segunda – Feira, dia 2 de Agosto de 1920. Logo pela madrugada, houve espera de gado. Os toiros saíram do campo, cercados por cerca de 50 cavaleiros, bem montados, todos de pampilho. À frente do gado, que vinha na ponta da unha, viam-se o lavrador Francisco Ferreira Lino e o cavaleiro José Casimiro. À entrada da vila, eram perseguidos por gente a pé, numa algazarra, tentando acompanhar o cortejo. O povo que enchia o largo da entrada da praça, logo vibrou, aos gritos de lá vêm eles!! Os barretes e jaquetas no ar, tentavam tresmalhar algum toiro do curro, que vinha entre os cabrestos.

Entrada de toiros no 2º dia da inauguração

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A arte dos campinos, em conservar os animais bem juntos aos cabrestos, era comentada aqui e ali. Que grandes homens, que grandes varas !! As várias facetas de uma entrada de toiros, por ser um espectáculo esplêndido e cheio de alegria, onde o homem ribatejano, ali mostra a sua galhardia nas esperas, são de uma descrição sempre mesquinha. A condução do gado, desfez-se com a entrada pela

porta grande da praça, não houve problemas com os animais que estavam seleccionados para a corrida que teria lugar pelas 5 horas da tarde. À hora marcada, a praça estava à cunha. Os cavaleiros amadores; Adolfo Macedo e José Casimiro, apresentaram-se em arena, trajando de curto, sendo acompanhados pelos bandarilheiros amadores: D. Carlos Mascarenhas, D. Pedro de Bragança, Patrício Cecilio, Francisco d`Oliveira, João Malhou da Costa e Rafael Gonçalves. Os campinos de serviço eram; António Eugénio de Menezes

(Abegão), Joaquim Coimbra, Manuel Coimbra, Francisco Souto Barreiros. Careca; António José Rebelo de Andrade. Papagaio; D. Baltazar de Freitas Lino e ainda o Grupo Moços de Forcados de Santarém. A corrida foi animada, os toiros que couberam a Adolfo Macedo, não sendo bravos, não complicaram a lide, nem às pegas dos forcados. José Casimiro, lidou com saber o primeiro bicho, que saiu manso perdido e no qual cravou dois bons ferros compridos e um curto. No segundo, ofereceu a sorte a Roberto da Fonseca que

era bravíssimo, e em seguida toureou bem, cravando dois soberbos ferros compridos e três curtos magistrais. No sexto toiro, dedicou um par dos ferros curtos aos seus amigos de Salvaterra, especialmente

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ao grupo do “Ti Martins”. Os amadores; D. Carlos Mascarenhas, D. Pedro de Bragança, Patrício Cecilio, Francisco d` Oliveira, João Malhou da Costa e Rafael Gonçalves., todos tourearam e farpearam bem. Foi ainda lidado um novilho, pelo filho mais novo do bandarilheiro Teodoro, tendo dois pares de João Malhou, sido pouco feliz. Os forcados amadores; tendo como capataz Jaime Godinho, portaram-se á altura da sua fama; de caras e á cernelha. A pega de cara do primeiro touro efectuada de recurso e feita pelo cabo, Jaime Godinho, foi magistral. Palmas e voltas ao redondel, do qual compartilharam; Moura, Barreno e Matos, assim como os irmãos Coimbra. A Direcção da corrida, esteve a cargo do amador da velha guarda, o salvaterriano, Rui Rebelo de Andrade, executada, com maestria. Foi um primor ….! Enfim assistimos a duas touradas famosas, que não sendo reais, não tentaram desfazer a lenda que conta Rebelo da Silva, mas ficaram nos anais da tauromaquia salvaterrense. O curro foi oferecido pelo novo ganadero; Francisco Ferreira Lino, com toiros oriundos da antiga ganadaria; António Ferreira Roquette. O fotógrafo “Gambeta” e outros, tiraram a diversos grupos e, a vários aspectos da assistência, algumas fotografias, que ficarão para a história local.”

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XIII
UMA VIAGEM DE VILA FRANCA DE XIRA, ATÉ SALVATERRA Foi um dia para não esquecer pelos seus participantes. Realizava-se a segunda corrida da inauguração da praça de toiros de Salvaterra de Magos. Uma comitiva de Vila Franca de Xira, foi convidada. Cerca de 50 rapazes, que vieram a

Grupo visitante, à chegada no cais da vala real

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Salvaterra, deram o nome Vila Clube Taurino ao agrupamento. Os simpáticos rapazes alugaram duas grandes fragatas, que navegou através do rio Tejo e, da vala real da vila. Numa fragata, foi organizada uma casa de jantar, com um grande toldo e, ali nada faltava; mesas cadeiras; casa de banho ao fundo; relógio de parede – tudo decorado com muito gosto. Um guarda-vento, servia de guichet para a entrada das comidas, pois durante a

Desfile dos visitantes – Largo dos Combatentes

viagem de ida foi servido o almoço e lanche. As refeições eram feitas numa cozinha e entravam para a casa de jantar, pelo dito guichet. A despensa era um encanto..!

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Estava guarnecida, de cestos de verga com galinhas e coelhos, além de um carneiro vivo, também para matar e comer a bordo. O peixe para se conservar fresco, estava metido em canastras, forradas a erva de espadanas. A fruta era em grande quantidade. Algumas caixas de cerveja estavam juntas a barris de vinho (branco e preto). Para refrescar estes líquidos também se preveniram de caixas com gelo. Uma cozinheira e duas ajudantes, confeccionaram seis pratos em cada refeição. Tendo a cozinha começado a laborar pelas 5 da manhã. A primeira refeição, foi servida pelas 10,00 horas e chegou até às 13,00 horas. A outra um pouco mais frugal, começou pelas 15,00 horas e, havia quem estivesse acabar pelas 17,00 horas, quando o cais da vala de Salvaterra estava à vista e, uma multidão acenava e gritava, sons ainda não percebíveis, pelos visitantes. A outra fragata, foi destinada a camarata, com uma cama para cada passageiro, pois estava destinado

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passar a noite na vila vizinha. Havia lavatório, espaço de WC e guarda fato. Chegados a Salvaterra e, com as embarcações já atracadas, delas saiu o som da estudantina, sob a direcção de Sabino Gomes, tocando a pandeireta, com alegria e salero o dr. Genso. Iniciaram a caminhada pela rua da Capela da Misericórdia, rodeados de muita gente, passaram pela Igreja Matriz e do jardim do edifício municipal. A multidão acompanhante fez crescer o cortejo, até à praça de toiros. Um tempo depois, com a praça esgotada e em delírio, decorreu a corrida. A noite já chegava, foram levantados muitos brindes pelos nossos amigos de Vila Franca, não esquecendo o jornal “A Manhã”, a quem todos os visitados dedicaram uma estima. recreio?!... receber. Pela meia manhã de terça-feira, com a maré a convidar o regresso, Carlos Gonçalves, lavrador de Vila Franca e presidente do grupo e o “maitre d`hotel”, de Endoidecido de alegria, perguntava Sabino A noite foi passada em diversas casas Gomes, com muita graça: - Gostaram do nosso lugre de agrícolas, cujas famílias se empenharam em bem

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quem todos recebiam ordens, com grande prazer, elogiando até os seus apetitosos menús. Despediu-se das entidades e do povo de Salvaterra, com comovidos abraços, dizendo: Até nisto foi à portuguesa antiga, a festa de Salvaterra de Magos.” * B. Duarte * Os periódicos da época, deram destaque ao acontecimento, especialmente o jornal “A Época” que ilustrou as suas páginas, com fotografias, dos barcos a navegarem na vala real de Salvaterra e, o grupo de visitantes no cais e em frente ao edifício da escola, no Largo dos Combatentes, a caminho da praça de toiros.”

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XIV
TOIROS EM DIA DE FEIRA NO DOBRAR DO SÉC. XX No dobrar do século XX, o espectáculo taurino, tinha na sua raiz emoções que vinham de tempos imemoriais. Leis e mais leis, vieram condicioná-lo, a última foi com o Decreto-Lei 306/91 de 7 de Agosto, completado com o Decreto Regulamentar Nº 62/91 de 29 de Novembro, que queria harmonizar o espectáculo taurino aos tempos que corriam. Um novo “espartilho”, para a festa taurina, pois tudo mudou e nada passaria a ser como dantes! A tauromaquia vinha deixando de ter aquele encanto, mesmo para os aficionados. Para os outros

ainda era uma festa ver todo aquele aparato, fora da praça de toiros. Em 1950, a feira franca de Salvaterra, ocorria como todos os anos em Maio e, nesse dia, realizava-se uma das muitas corridas que tinham lugar

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anualmente na praça de toiros da vila.

No mês de

Setembro, realizava-se a feira da vizinha vila de Benavente e, uma semana depois, a de Salvaterra. Este dia festivo, contava sempre com uma corrida de toiros. Há já algum tempo, o cartaz estava na rua onde anunciava que vinham actuar os mestres cavaleiros; João Branco Núncio e Simão da Veiga. Os espadas, eram os matadores de toiros; Diamantino Viseu e Manuel dos Santos. Abrilhantava a corrida a banda de música dos bombeiros da vila. Os toiros eram da ganadaria Irmãos Roberto e, os forcados, eram do grupo de Manuel Faia, onde pegavam O Timpanas e Manuel Ferrador, homens da terra. As “claques de aficionados” que aqui existiam, tinham agora mais uma vez oportunidade de ver actuar os seus ídolos, pois ao longo do ano, dividiam-se em acérrima discussão. Um grupo; apoiava João Núncio, um outro Simão da Veiga. Quanto aos matadores de toiros; era de ouvir qual o grupo de aficionados, que sobrepunha o seu toureiro, em relação aos outros. As discussões tinham lugar, nas oficinas dos mestres sapateiros, nas oficinas dos barbeiros e, continuava na

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sede do Clube Desportivo local, pois aí à noite nos jogos das cartas, lá vinha à baila a aficion. Naquele domingo de Setembro, os aficionados visitantes que enchiam por completo as “tascas” da feira e, as tabernas na procura dos bons “petiscos” da terra, na hora da entrada param a corrida perdiam-se entre a multidão. O muro da Horta do Sopas, estava repleto de curiosos vendo os cavaleiros “passeando” os cavalos.. Nas janelas da praça, os espectadores, empoleirados no gradeamento, tinham os olhos postos no mar de gente que enchia a avenida, na esperança de verem chegar os toureiros. De repente, gritam, lá vêm eles !! Eram os matadores, entre o seu stafe, que vinham à “paisana”, com os trajes de luces por baixo. Vinham da Pensão do Café Ribatejano, onde estavam alojados. De imediato foram rodeados por aquele multidão de aficionados, até entrarem na praça. A corrida, estava esgotada de espectadores e, durou cerca de três horas. No final o matador, Manuel dos Santos, que foi o triunfador, saiu pela porta grande, levado em ombros, entre o delírio da multidão, que percorreu a avenida, a rua Marquês de Pombal, a rua Heróis de Chaves e, por

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fim chegou à Pensão. De imediato, numa das janelas, agradeceu os aplausos daqueles aficionados que delirantemente lhe batiam palmas.

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EMBOLADORES /FARPEADORES

José Venscelau, já no início do século XX, esmeravase na feitura, de farpas/ ou bandarilhas, embolando também os toiros em dias de corria. As embolas, construídas à base de couro e que servem para cobrir os cornos dos toiros, pois as pegas, aconselhavam o seu uso. Este trabalho artesanal, transmitiu a seu filho António, com quem trabalhou durante muitas dezenas de anos a difícil maneira de ornamentar os ferros (farpas),que são acessórios necessários nos espectáculos taurinos, Tal artesanato, foi continuado na família, por João Aleluia (João Venscelau), sendo as farpas, muito procuradas especialmente por emigrantes, para decoração das suas tertúlias.

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XV
A ORIGEM DO TOIRO DE LIDE Da pena de António Relvado, colaborador que foi do extinto Jornal Vale do Tejo, JVT, transcrevemos com a devida vénia, o seu artigo. “O toiro de lide constitui a maior inovação Espanhola na criação de animais. Antes que os Ingleses começassem a formar importantes raças Vacuns e Porcinas, durante os séculos XVII e XVIII, inclusive antes de 1791, criou-se o LIVRO GENEALOGICO DO CAVALO, de puro sangue Inglês, ia-se seleccionar em Espanha o toiro de lide, pois os primeiros ganadeiros espanhóis controlavam ganadarias. Das civilizações do passado chegou-nos alguns enigmas difíceis de decifrar. Em torno do toiro existem pinturas rupestres e representando o toiro desde o V ao III milénio antes de Cristo. e anotavam a sua genealogia, comportamento e características nos primeiros livros de

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Segundo numerosos arqueólogos, estas figuras foram realizadas com a finalidade de indicar a existência de caça abundante. A fauna predominante ma Península Ibérica, durante o Paleolítico era composta por cavalos, toiros, veados, javalis e outras espécies de menor porte. O toiro selvagem de da Pré-História O uro ou tinha toiro como finalidade estava alimentar o homem, caçá-lo, e usá-lo como elemento trabalho. selvagem, domesticado no oriente desde épocas mais remotas. Assim, chegou à Europa Central e Nórdica formaram-se muitas raças alpinas e centro europeias actuais. As sucessivas variações climatéricas determinaram as trocas de flora e fauna, eliminando numerosas espécies. Na Península Ibérica o clima nunca foi demasiado rigoroso não alterando a flora e a fauna originando migrações de gado vacum da Europa Central e Norte de África, pois a Península estava unida ao Norte de África.
A ERA DO TAURO

A era do Tauro corresponde aos anos 4513 a 2353 antes de Cristo, caracteriza-se pelas diversas civilizações

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históricas por culto a divindades taurinas. Em todas as culturas Mediterrâneas e no mundo Celta a crença mágica das virtudes genéticas do toiro e a sua transmissão ao homem fizeram dele figura sacra e objecto de culto e de numerosos ritos religiosos e celebrações festivas. Assim, na Mitologia Grega aparece em forma de Minitauro. No Egipto, o Boi Ápis e o deus da fecundação e da abundância, os Hebreus adoravam o bezerro de ouro, na Babilónia são os toiros alados e ainda temos o Celta Tamos e o toiro Irlandês Cualungé. O mundo romano adoptou o culto de origem Persa Mitra, o jovem deus que sacrifica o toiro primordial para fazer surgir o mundo. Há 2000 anos Júlio César descrevia o Uro que habitava na selva Hercínia na Alemanha, junto ao rio Danúbio de carácter indómito, enorme bravura e ligeireza assim como o divertimento que constitua a sua caça pelos jovens. Era um animal enorme e perigosíssimo que povoava os bosques da Europa Central e Nórdica. Os Alemães chamavam-lhe Auerochs ou toiro selvagem. Foi Júlio César que introduziu o vocábulo uros na língua latina. O uro foi extinto na Europa na Idade Média, é o antepassado selvagem de todas as raças bovinas existentes.

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O toiro de lide actual é de todos os descendentes directos o que melhor conserva as suas características.

O TOIRO NA HISPÃNIA

O toiro bravo descendente do uro ou toiro selvagem da idade média, que abundava em toda a Europa, trazido pelos Celtas. Situou-se no Norte de Espanha e Portugal, tendo-se juntado com o gado procedente do Norte de África durante o período glaciar. Como na cultura Greco-Romana, o toiro está muito ligado às raízes culturais Hispânicas. É o animal mais emblemático, ao ponto de simbolizar a festa popular, e a sua figura traduz todas as artes, desde as pinturas rupestres aos toscos verracos ibéricos, as tendências modernas da cultura em Espanhola e Portuguesa, pinturas, representado desenhos, gravados,

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esculturas e por pressuposto na nossa literatura.

O toiro

representa um papel fundamental na economia da península ibérica, pois modifica a paisagem devido à necessidade das grandes vacadas, e propicia à criação de feiras de gado que tanta importância tem para o desenvolvimento dos povos e cidades. O toiro de lide teve como, origem e solar em Espanha, e desde aqui se estendeu e exportou a Portugal, a França e numerosos países do Continente Americano, principalmente durante o no séc. XX. Graças à concorrência de interesses de uma cultura popular com profunda raiz taurina, as práticas equestres dos nobres e cavaleiros da Idade Média. A destreza para o jogo com toiros do pessoal encarregado do seu manejo nas herdades e nos matadouros, assim como a inteligente arte de criar e seleccionar dos ganaderos, criou-se um belo animal, uma das maiores jóias da zootécnica mundial.”

************************** P.S. Muitos anos já passaram, as tertúlias nas pequenas

oficinas de Sapateiros e Barbeiros desapareceram. Agora em Salvaterra de Magos existe a Tertúlia do Clube Taurino

Salvaterrense, com sede na rua do Rossio

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BIBLIOGRAFIA CONSULTADA: - Revista” Branco e Negro” ………………….. 1897 - Jornal “A Elite” ……………. 1 de Agosto de 1920 - Jornal “A Manhã” ……… 6 de Agosto de 1920 - Revista ”Touros e Toureiros” ………………. 1932 - Revista “A HORA” …………………………… 1939 - Jornal “Aurora do Ribatejo” ………………… 1970 * Reportagem dos 50 anos da inauguração da Praça de Toiros) - Livro “Contos e Lendas” edição “Colecção Civilização” Última Corrida de Touros em Salvaterra * Rebello da Silva - Livro “A Misericórdia de Salvaterra” – Dr. José Asseiceira Cardador * Edição: 1968 * Associação Portuguesa de Criadores de Toiros de Lide – Edições: 1986 e 1990 * A Origem do Toiro de Lide *Jornal Vale do Tejo, 1999 23.03.2000 – Pág. 15 * Jornal Vale do Tejo (António Cadorio) ……. Ano 1999 - Artigo de José Gameiro

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CAPITULOS: Pág. 3–I Última Corrida de Toiros em Salvaterra Pág. 21 - II O Conde dos Arcos – Sua Origem Pág. 20 – III Toiros de Morte em Salvaterra Pág .32 – IV Criadores de Toiros de Salvaterra Pág. 41 – V Pág. 47 – VI Criadores de Cavalos em Salvaterra A Dinastia Roberto

Pág. 75 – VII Bandarilheiros Pág. 83 - VIII Cavaleiros Tauromáquicos Pág. 88 - IX Críticos Tauromáquicos Pág. 92 - X Pág. 103 - XI Pág. 112 -XII Moços de Forcado Campinos A Origem da Praça de Toiros

Pág. 138- - XIII Uma viagem de Vila Franca de Xira Até Salvaterra Pág.142 - XIV Toiros em dia feira, no dobrar do séc. XX Pág.147 - XV A Origem do Toiro de Lide

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Fotos: Pág. 9 – Escritor Rebello da Silva – Foto a/d Pág. 13 – Painel em Azulejo – Morte do Conde dos Arcos * Foto do Autor Pág. 23 – 1950, Pintura, embalagem da caixa de bolos “Marialvas” Produto fabricado por Francisco Fonseca - Pintura de Martin Maqueda Pág. 25 – Certidão de Óbito Conde dos Arcos Pág. 31 - Noticia da Morte de Toiros em Salvaterra, com bilhete de entrada na corrida Pág. 45 – Jogo de Cabrestos, da Casa Agrícola José Lino, trabalhados pelos campinos num jogo de Perícia, na Avenida da vila, pelas “Festas dos Toiros e do Fandango” – 1966 * O Lavrador, José Lino acompanha o desenrolar do trabalho dos campinos José da Moira e Manuel Bernardo Foto Autor- 1988 Pág. 49 –António Roberto da Fonseca * a/d Pág. 50 – Vicente Roberto da Fonseca * a/d Pág. 59 – Vicente Roberto da Fonseca * a/d Pág. 64 –Jarras de Porcelana, com Baquetes de Flores, Troféus conquistados pelos toureiros Irmãos Roberto - Autor Pág. 66 – Um dos três Armários dos Troféus dos Bandarilheiros – Irmãos Roberto (s) – Autor Pág. 73 – João Roberto da Fonseca (Lavrador) – a/d Pág. 74 - Irmãos; Vicente Roberto da Fonseca, Roberto Ferreira da Fonseca (Dr.) e João Roberto da Fonseca ª a/d

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Pág. 76 – Joaquim da Conceição, Bandarilheiro ª a/d Pág. 77 – António Cadório * a/d Pág. 80 – António Cadório e seus alunos; José Julio e José Falcão * Foto Jornal ….. Pág. 83 - Rogério Travessa, Cavaleiro Tauromáquico, no dia da sua alternativa, em Cascais ª a/d Pág. 84 - Cláudio José, no dia da sua alternativa, em Salvaterra de Magos * a/d Pág. 85 – Ana Batista, Cavaleira Tauromáquica, no dia da sua alternativa, em Coruche * a/d Pág. 86 - Mónica Monteiro, Aprendiz de Cavaleira Tauromáquica * a/d Pág. 96 - António Lapa, Pegador de Toiros * a/d Pág. 99 – José Carlos Hipólito, Pegador de Toiros ª a/d Pág. 112 – José Luiz das Neves – Membro da Comissão que construiu a Praça de Toiros em Salvaterra Pág. 122 – 1ª Roberto da Fonseca, Director da Corrida Inaugural da Praça de Toiros de Salvaterra – 1 de Agosto de 1920 * a/d 2ª Público assistindo à corrida inaugural da Praça de Toiros de Salvaterra * a/d - Entrada de Toiros para a Corrida Inaugural da Praça de Toiros de Salvaterra * a/d Pág. 123 - 1970 - Página de Salvaterra, no Jornal “Aurora do Ribatejo –Benavente, publicando a reportagem dos 50 anos da inauguração da Praça de Toiros de Salvaterra * José Amaro e José Gameiro Pág. 127 – Manuel Burrico, Forcado que chefiou o grupo

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na inauguração da Praça de Toiros de Salvaterra Pág. 133 – Cartaz da 1ª Corrida inaugural da Praça de Toiros de Salvaterra * a/d Pág. 109 - Campino do Ribatejo, em traje de trabalho * a/d Pág. 111 - Campino* “A Tradição já não é o que era”?
* mgomes,blogspot.com/…/campino-doribatejohtml

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EDIÇÕES PUBLICADAS PELO AUTOR: *Salvaterra de Magos, “Vila Histórica no coração do Ribatejo” – Monografia 1ª Edição 1985 – 2ª Edição 1992 Esgotadas) ” RECORDAR, TAMBÉM É RECONSTRUIR “ Colecção de Apontamentos Nº 0 – Nº 45

Online: http://www.historiadesalvaterra.blogs.sapo.pt * História do Clube Desportivo Salvaterrrense * Os Bombeiros Voluntários de Salvaterra de Magos, e a sua Banda de Música * Subsídios para História da Freguesia dos Foros de Salvaterra *Subsídios para a História de Salvaterra de Magos Séc. XIII – Séc. XXI * Primeira Parte (Colectânea Incompleta)

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