You are on page 1of 417

38

IBEROGRAFIAS
AS NOVAS GEOGRAFIAS
DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA:
COOPERAÇÃO E DESENVOLVIMENTO

Coordenação :
Rui Jacinto

38
IBEROGRAFIAS
Colecção Iberografias
Volume 38

Título: As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


Coordenação: Rui Jacinto
Apoio à edição: Ana Margarida Proença e Sofia Martins
Autores: Bartolomeu Israel de Souza; Carlos Augusto de Amorim Cardoso; Célia Campos Braga; Clodoaldo Moraes Montenegro
Júnior; Cristiane Marques de Oliveira; Débora Santana de Oliveira; Dirce Maria Antunes Suertegaray; Dora Isabel Rodrigues
Ferreira; Fernanda Gonçaves Rocha; Fernando A. B. Pereira; Francisco José Araujo; Giampietro Mazza; Helena Maria da Silva
Santana; Igor Breno Barbosa de Sousa; Iolanda Soares de Barros; Itaan de Jesus Pastor Santos; Ivaldo Gonçalves de Lima; Jessica
Neves Mendes; Joana Capela de Campos; João Victor de Oliveira Melônio; José Aldemir de Oliveira; José Borzacchiello da Silva;
José Ivaldo Barbosa de Brito; José João Lellis Leal de Souza; José Manuel Sánchez Martín; José Sampaio de Mattos Júnior; Leila de
Oliveira Lima de Araujo; Lúcio Cunha; Manuela Delrio; Maria do Rosário da Silva Santana; Maria João Costa Gregório; Nicole
Agostinha dos Muchangos; Otoni Moreira de Mesquita; Pedro M. Tavares; Pedro Vianna; Rafael Albuquerque Xavier; Ronaldo
Barros Sodré; Rubens Teixeira de Queiróz; Rui Jacinto; Sofia S. Guilherme; Vítor Murtinho; Walter Guedes da Silva

Pré-impressão: Âncora Editora

Capa: Cláudia Fonseca | Âncora Editora


Fotografia: Vizinhança, Recife, Brasil, 2019
Autor: Rafael Cacau Botelho, Brasil

Impressão e acabamento: Europress - Indústria Gráfica

1.ª edição: julho 2020


Depósito legal n.º 471033/20

ISBN: 978 972 780 720 8


ISBN: 978 989 8676 23

Edição n.º 41038

Centro de Estudos Ibéricos


Rua Soeiro Viegas n.º 8
6300-758 Guarda
cei@cei.pt
www.cei.pt

Âncora Editora
Avenida Infante Santo, 52 – 3.º Esq.
1350-179 Lisboa
geral@ancora-editora.pt
www.ancora-editora.pt
www.facebook.com/ancoraeditora

O Centro de Estudos Ibéricos respeita os originais dos textos, não se responsabilizando pelos conteúdos, forma e opiniões neles expressas.
A opção ou não pelas regras do novo acordo ortográfico é da responsabilidade dos autores

Financiado por:
As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: um lento devir 7
Rui Jacinto

PATRIMÓNIOS, PAISAGENS E DESENVOLVIMENTO LOCAL

Amazônia: Conceito, Paisagem e Região 25


José Aldemir de Oliveira

Atividade de campo, paisagem e interdisciplinaridade, na Chapada do Araripe, 51


Semiárido Brasileiro
Bartolomeu Israel de Souza, Dirce Maria Antunes Suertegaray, José João Lellis Leal
de Souza, Pedro Vianna, Rafael Albuquerque Xavier, Rubens Teixeira de Queiroz

Características do Ambiente Climático no Sul do Brasil 77


Célia Campos Braga, Fernanda Gonçalves Rocha, José Ivaldo Barbosa de Brito,
Lúcio Cunha

As paisagens culturais como leitura do território. O caso da Sardenha 89


Giampietro Mazza, Manuela Delrio

Paisagem, Lugar e Memória: a pequena África Carioca 101


Leila de Oliveira Lima Araujo

O papel das ruínas na rede das aldeias históricas de Portugal 111


Maria João Costa Gregório

A arte e a cultura Ibérico/ Flamenga nas cortes de D. Catarina e de D. Joana de 121


Áustria: Mecenato régio, político-religioso feminino, entre os Avis e os Habsburgo
Pedro M. Tavares
Orientação: Fernando A. B. Pereira, Sofia S. Guilherme

A música no ritual e no rito da Encomendação das Almas na região transfronteiriça 141


de Guarda/Salamanca
Helena Maria da Silva Santana, Maria do Rosário da Silva Santana

DINÂMICAS SOCIAS E ECONÓMICAS EM DIFERENTES CONTEXTOS TERRITORIAIS

Estrutura e Dinâmicas Estratégicas da Diplomacia Cultural Brasileira Contemporânea 157


Cristiane Marques de Oliveira

Brasil e Portugal, duas rotas de democratização 171


Francisco José Araujo

Questão campo-cidade: A complexidade das dinâmicas urbana e rural no 185


município de São Luís-MA
Igor Breno Barbosa de Sousa, Itaan de Jesus Pastor Santos, Jéssica Neves Mendes,
José Sampaio de Mattos Júnior, Ronaldo Barros Sodré

Ambiente, Identidade e Despovoamento na Serra de Sicó 199


Giampietro Mazza
Potencialidades e desafios do Turismo em Mucugê na Chapada Diamantina 217
Iolanda Soares de Barros

Paisagens costeiras e o Turismo em Inhambane (Moçambique) 233


Nicole Agostinha dos Muchangos

Contributos para a Definição da Agricultura como Produto Turístico. 243


Dora Isabel Rodrigues Ferreira, José Manuel Sánchez Martín

As Coexistências da Questão Agrária brasileira: Uma breve análise da violência e 257


campo maranhense (2003-2018)
Clodoaldo Moraes Montenegro Júnior, João Victor de Oliveira Melônio, José
Sampaio de Mattos Júnior, Ronaldo Barros Sodré

CIDADES E DESENVOLVIMENTO URBANO

Sobre a convivialidade: por uma geografia social crítica dos Commons 269
Ivaldo Gonçalves de Lima

A cidade como campo do conhecimento pedagógico 291


Carlos Augusto de Amorim Cardoso

O lugar da mulher negra no espaço público Carioca 315


Débora Santana de Oliveira

Recomendação sobre a Paisagem Urbana Histórica: um exercício de mapeamento 331


Joana Capela de Campos

Arquitetura do lugar 351


Otoni Moreira de Mesquita

Interações fronteiriças das cidades gêmeas de Ponta Porã – Brasil e Pedro Juan 371
Caballero – Paraguai
Walter Guedes da Silva

Redesenhando os limites do património: o novo contorno da área Património Mundial 385


da Universidade de Coimbra – Alta e Sofia
Joana Capela de Campos, Vítor Murtinho

Da cidade à metrópole: a formação de periferias, subúrbios e favelas 401


José Borzacchiello da Silva
As Novas Geografias dos Países de Língua
Portuguesa: um lento devir

Rui Jacinto
Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território
(CEGOT – Universidade de Coimbra)

Em memória de José Aldemir de Oliveira

Novas fronteiras, outros diálogos: conhecimento, cooperação,


desenvolvimento

7 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


A presente publicação, integrada na Coleção Iberografias que se edita sob o patrocinio
do Centro de Estudos Ibéricos (CEI), compila as intervenções efetuadas na XIXª Edição
do Curso de Verão, realizado entre 3 e 6 de julho de 2019, subordinado ao tema genérico
Novas fronteiras, outros diálogos: cooperação e desenvolvimento. O Curso, uma das primeiras
e mais emblemáticas iniciativas que o CEI promove anualmente, está alinhado com a mis-
são do Centro que aposta, em primeiro lugar, na cooperação transfronteiriça e na difusão
do conhecimento.
O Curso de Verão concorre, por isso, para afirmar o CEI como centro de transferência
de conhecimento e plataforma de diálogo entre investigadores do mundo ibérico disperso
pelo continente europeu, africano e latino-americano. Outras preocupações igualmen-
te importantes se associam a este objetivo genérico: (i) identificar e valorizar os recursos
do território, naturais e humanos, materiais e intangíveis, enquanto fatores críticos e es-
tratégicos do desenvolvimento (património cultural, paisagem, cultura, etc.); (ii) analisar
comparativamente dinâmicas económicas e sociais em diferentes contextos espaciais, estimu-
lando a apresentação de estudos de caso e de boas práticas, de programas e iniciativas que
concorram para a coesão económica, social e territorial; (iii) valorizar o trabalho de campo
como estratégia pedagógica e de promoção do património natural e cultural, sobretudo o
localizado em geografias e contextos regionais mais remotos como são os do interior raiano.
O debate de temas pertinentes sobre a coesão dos territórios mais débeis, como são
os fronteiriços, situados entre Portugal e Espanha e que apresentam a baixa densidade
como traço comum, têm-se alargado a investigadores doutros Países de Língua Portuguesa
(PLP’s), com destaque para o Brasil, patente em várias edições do CEI, começam a esboçar
uma linha de pesquisa que, com propriedade, se pode intitular As Novas Geografias dos
Países de Língua Portuguesa.
Apoiar a investigação, nesta conjuntura e com estes propósitos, implica o envolvimento
comprometido de geógrafos de distintas proveniências, vivências e experiências. Esbater o
desconhecimento mútuo entre as várias Geografias passar por concretizar parcerias e alargar
as redes de investigação, até aqui muito centradas no Brasil e em Portugal, envolvendo geó-
grafos dos restantes PLP (Cabo Verde, Moçambique, Angola, Guiné, S. Tomé e Príncipe e
Timor). O CEI, no âmbito do Curso de Verão, não só abraça esta causa como tem dado
um modesto contributo, dando alguns passos da longa caminhada que importa prosseguir1.

A Geografia nos Países de Língua Portuguesa: um olhar português

A investigação sobre as disparidades territoriais e as assimetrias sociais, que não param


de aumentar, é um exercício que importa desenvolver para compreender as subtilezas das
8 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

mudanças e as dinâmica nas paisagens físicas e humanas, em curso nos diferentes Países de
Língua Portuguesa (PLP). Aprofundar esta investigação e elevar o conhecimento reciproco
das várias Geografias passa por promover a cooperação, o que pressupõe disponibilidade e
empenho dos geógrafos para renovar, em termos teóricos e metodológicos, a várias escalas
e em multiplos contextos, a leitura e as interpretações dos territórios.
Os constrastes de desenvolvimento que se observam a todas as escalas, da urbana e local
à regional e nacional, a par da complexidade geoestratégica inerente à localização específica
1
Os Cursos de Verão têm proporcionado o encontro da comunidade geográfica, sobretudo portuguesa e
brasileira, que se tem intensificado desde a participação de Messias Modesto dos Passos (desde 2010), Maria
Adélia de Souza (2014) e Rogério Haesbaert (2015). Este incremento, mais expressivo em anos mais recen-
tes, está bem evidenciado em sucessivos títulos da Coleção Iberografias: (i) Espaços de Fronteira, Territórios
de Esperança: Paisagens e patrimónios, permanências e mobilidades (2015; Nº 30); (ii) Diálogos (Trans)frontei-
riços: Patrimónios, Territórios, Culturas (2016; Nº 31); (iii) Outras geografias, novas fronteiras. Intercâmbios e
diálogos territoriais (2017; Nº 32); (iv) Lugares e territórios: património, turismo sustentável, coesão territorial
(2018; Nº 33); (v) Novas Fronteiras, Outros Diálogos: Paisagens, Patrimónios, Cultura (2019; Nº 35); Novas
Fronteiras, Outros Diálogos: Cooperação e Desenvolvimento Territorial (2019; Nº 36). A análise detalhada dos
títulos e dos conteúdos dos capítulos e artigos permite observar a pluralidade temática, direções e tendências
que estão a tomar, entre aquelas comunidades, As Novas Geografias dos Paises de Língua Portuguesa.
de cada um dos PLP, não pode deixar os geógrafos dos respetivos países insensíveis nem
indiferentes. Abraçar estas causas passa obrigatoriamente por maior comprometimento,
mais ativo na ação, na definição de estratégias que fundamentem políticas públicas, mi-
tigadoras das disparidades ecómicas, sociais e territoriais. Tais iniciativas são ainda mais
importantes no momento que estamos a viver, quando se enfrenta uma profunda crise
sanitária, social e económica que configura uma rutura, transição para um “novo normal”
de contornos incertos e ainda mal definidos, que exige cumplicidade, partilha de conheci-
mento e troca de experiências.
As Geografias de Portugal e do Brasil evidenciam uma tradição mais arreigada,
relativamente às dos demais Países de Língua Portuguesa, por razões históricas bem co-
nhecidas, exprimindo as vicissitudes políticas e sociais que influenciaram tanto a sua
implantação como a respetiva evolução. Ao revisitarmos o percurso trilhado deparamos
com alguns marcos que pontuam uma trajetória que carece de reflexão mais demorada
para nos ajudar a compreender, entre perspetivas transversais e integradoras, o que une e
o que separa as diferentes geografias. A evolução de cada uma das Geografias dos Paises
de Língua Portuguesa só pode ser cabalmente apreendida cruzando as suas dinâmicas
internas, os ciclos políticos e o alinhamento geoestratégico de cada país, mais ou menos
periféricos e dependentes, em termos geográficos e do ponto de vista teórico, com as refe-
rências conceptuais que foram sendo assumindas, com as articulações feitas com as escolas
e as correntes geográficas dominantes.

Emergência da Moderna Geografia: antecedentes e preliminares

9 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


A trajetória de modernidade que a Geografia inicia na segunda metade do século XIX
conferiu-lhe notoridade pública e progressiva autonomia que, em Portugal e no Brasil,
se exprimem através de dois marcos importantes: a criação das Sociedades de Geografia
e a institucionalização do ensino da Geografia em estabelecimentos de Ensino Superior.
Nesta fase inicial, as Geografias de Portugal e do Brasil percorreram um longo caminho
desde a criação das Sociedades de Geografia (1875 e 1883) até à sua institucionalização nas
Universidades, que ocorrerá já na década de 30 do século XX. Este percurso, em ambos os
casos, foi paralelo ao desenvolvimento de três áreas técnicas adjacentes à Geografia: a mo-
dernização da cartografia, o lançamento dos recenseamentos da população e a oficialização
de instituições de produção estatística.
As Sociedades de Geografia encarnam o espírito duma época, refletem o contexto
político, social, cultural e ideológico que emerge com o iluminismo e conduzirá à reforma
do ensino e ao estudo mais aplicado das ciências, incluindo as ciências naturais, reforçan-
do a crença na evolução técnica, mentalidade impulsionadora do advento da revolução
industrial. Tais propósitos, que estiveram subjacentes ao aparecimento da Sociedade de
Geografia de Paris (1821) e das congéneres europeias que se seguiram (Berlim, 1828;
Londres, 1830), também iluminou as suas réplicas mais tardias criadas em Lisboa (1875)
e no Rio de Janeiro (1883).
O que moveu os fundadores da Sociedade de Geografia de Lisboa, à imagem e
semelhança das mais antigas, foi a preocupação de “promover e auxiliar o estudo e pro-
gresso das ciências geográficas e correlativas”. É certo que, meio século volvido, desde
a criação das primeiras Sociedades, o mundo havia mudado e o quadro geoestratégico
em que Portugal e o Brasil se moviam também. Não devemos estranhar, portanto, que a
Sociedade de Geografia de Lisboa, além daqueles nobres princípios, procurasse responder
a outras preocupações que não haviam sido inicialmente explícitadas. A exemplo doutros
países europeus com possessões coloniais, Portugal começava a enfretar problemas daqui
recorrentes, atrelando-os aos objetivos estritamente científicos. Por isso, o seu aparecimen-
to não pode ser desligado da necessidade de promover a exploração dos sertões africanos e,
deste modo, afirmar a presença de Portugal em África2. A Sociedade de Geografia do Rio
de Janeiro (1883), fundada para promover o estudo e o conhecimento dos fatos e docu-
mentos relativos à Geografia do Brasil, surge num outro contexto geopolítico, passando a
adotar em 1945 a denominação de Sociedade Brasileira de Geografia.
A Sociedade de Geografia de Lisboa teve, como referimos, antecedentes ao nível da
cartografia, dos recenseamentos e das estatística, preocupações complementares que esta-
vam alinhadas com as tendências dominantes na época. Para este efeito, o Ministério dos
Negócios das Obras Públicas, Comércio e Industria, criado em 1851, acabaria por legislar
10 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

sobre cartografia e recenseamentos, domínios fundamentais e afins ao desenvolvimento


da Geografia. Em 1852 decreta o levantamento da Carta Geral do Reino, na escala de
1:100.000, embora as primeiras três folhas só tenham saído entre 1856 e 1858; a Carta
Geographica de Portugal, na escala de 1:500.000, o primeiro mapa moderno do País, só
será publicada ainda mais tarde (1865).
Foi a partir desta carta que o engenheiro florestal Barros Gomes elabora o primeiro
atlas português onde uma visão integradora é finalmente defendida com fundamentos
científicos: as Cartas Elementares de Portugal (1878). Esta obra virou uma referência para
o ensino da geografia e insparadora da investigação dos primeiro geógrafos portugue-
ses. Gerardo Pery colabora, então, no levantamento de algumas folhas da Carta Geral
2
No seio da Sociedade de Geografia de Lisboa foi criada a Commissão Central Permanente de Cartographia,
pelo decreto de 17 de Fevereiro de 1876, que passou a Commissão de Cartographia, em 1883. Começou
por promover levantamentos cartográficos em África e a patrocinar, posteriormente, investigação de dife-
rentes áreas científicas nas colónias portuguesas, incluindo a Geografia. A Comissão havia de sobreviver
como entidade autónoma, sob várias designações, até à extinção, em 2015, quando se designava Instituto
de Investigação Científica Tropical (IICT).
do Reino, sobretudo no Alentejo e na Região Centro, iniciou o levantamento da Carta
Agricola de Portugal (1890-1908)3.
O mesmo ministério irá promover, então, o I Recenseamento Geral da População
Portuguesa, em 1 de janeiro de 1864, baseando-se nas orientações do Congresso
Internacional de Estatística, que teve lugar em Bruxelas, em 1853, referência para os re-
censeamentos da época moderna, que deveriam realizar-se de 10 em 10 anos. O censo
seguinte, contudo, apenas se realizará em 1878, embora mais completo que o anterior,
seguindo-se o III Recenseamento Geral da População (1 de dezembro de 1890), reali-
zado com novas orientações metodológicas, emanadas do Congresso Internacional de
Estatística de S. Petersburgo (1872)4.
A estatística (I Recenseamento, 1864), a cartografia (Carta Geographica de Portugal,
1865; Cartas Elementares de Portugal ,de Barros Gomes, 1878) e a Sociedade de Geografia
de Lisboa (1875) não deixaram de contribuir para os alicerces da moderna Geografia em
Portugal. Recordemos, por tocar transversalmente os três tópicos referidos, a obra do car-
tografo militar Gerardo Augusto Pery publicada em 18755, ano em que foi criada aquela
Sociedade: Geographia e estatistica geral de Portugal e colonias; com um atlas. Com esta
obra, o seu autor não só manifesta o seu forte empenho na causa da Geografia (foi um dos
sócios fundadores da Sociedade de Geografia de Lisboa), como recorreu à estatística e à
experiência adquirida no trabalho de campo, durante os levantamentos cartográficos, para
elaborar o referida trabalho.

11 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


3
Maria Helena Dias (Coord.; 1995) – Os mapas em Portugal. Da tradição aos novos rumos da cartografia.
Lisboa, Cosmos.
4
A produção estatística, como vimos, é anterior à institucionalização duma Direcção-Geral de Estatística,
que só aconteceu em 1911. Passa a designar-se Instituo Nacional de Estatistica (INE) em 1935, atrvés da
Lei nº 1 de 1911, de 23 de Maio, que estabelece os Princípios Orientadores do Sistema Estatístico Nacional
(SEN), integrando-o no âmbito e no espírito da Lei da Reconstituição Económica. Foram atribuídas ao
INE “funções de notação, elaboração, publicação e comparação dos elementos estatísticos referentes aos
aspectos da vida portuguesa que interessam à Nação, ao Estado e à ciência” (Lei nº 1911 de 23 de Maio).
A sua criação é entendida como o culminar de um longo processo de centralização do sistema estatístico
nacional, cujas raízes remontam até ao século XVIII. O INE vinha consubstanciar a “Ordem e a Razão” na
produção e difusão dos números necessários à “boa governação”, ou seja, contribuir para “tirar o Governo
do País do empirismo em que tinha caído”, beneficiando para o efeito da tradição de centralismo político
administrativo vivido em Portugal desde a sua fundação (Fonte: INE).
No Brasil, o projeto dum Instituto Nacional de Estatística (INE) inicia-se 1933, sendo ciado em 1938 o
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE; Decreto-Lei nº 218, de 26 de janeiro), já sob a dita-
dura do Estado Novo. O IBGE passa a ter dois órgãos colegiados e autonomos: o Conselho Nacional de
Geografia – CNG, novo nome do CBG; e o Conselho Nacional de Estatística – CNE.
5
Gerardo Augusto Pery (1875) - Geographia e estatistica geral de Portugal e colonias; com um atlas. Lisboa,
Imprensa Nacional.
Institucionalização, cooperação, internacionalização: a Geografia
entre os anos 30 e o dealbar dos anos 60

Ensino: institucionalização da Geografia em estabelecimentos de Ensino Superior.


A Geografia só adquire verdadeira alforria quando atinge credibilidade e estatuto suficien-
tes para ser ensinada em estabelecimentos do Ensino Superior. Foi uma institucionalização
progressiva que aconteceu em Portugal, em 1911, com a implantação da Républica (1910)
e a criação das Faculdades de Letras que vieram substituir as Faculdades de Teologia. Em
Coimbra coube ao Professor Anselmo Ferraz de Carvalho (Geólogo; 1878-1955) ser no-
meado coordenador do Grupo de Geografia no Curso de Históricas e Geográficas. Em
Lisboa, onde havia o precedente duma cadeira de Geografia lecionada desde 1907, no
Curso Superior de Letras, manteve o mesmo coordenador Francisco Xavier da Silva Teles
(Médico naval; 1860-1930). A Licenciatura em Ciências Geográficas, contudo, só viria
a ser criada em 1930, por um diploma que também instituiu a obrigatoriedade das teses
de licenciatura e incluiu no programa do Curso de Geografia, entre outras, as discipli-
nas de Geografia Colonial Portuguesa e a História dos Descobrimentos e da Colonização
Portuguesa6.
A introdução do ensino da Geografia nas universidades brasileiras acontece em
1934 e tem a marca de dois geógrafos franceses: Pierre Deffontaines e Pierre Monbeig.
Pierre Deffontaines (1894-1978) fez vários estágios em São Paulo e no Rio de Janeiro
(1934, 1936 e 1938; noutros momentos também no Canadá), antes de se fixar em
Barcelona, a partir de 1939, como Director do Instituto Francês, donde se reformou, em
12 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

1964, continuando a viver na cidade até 1975. Deffontaines, que ministrou a aula inau-
gural da Universidade de S. Paulo, em 1934, foi o dinamizador do recém criado Curso de
Geografia. O jovem geógrafo francês Pierre Monbeig (1908-1987), que chega em 1935 e
vai permanecer vários anos no Brasil, dá um forte contributo para a afirmação inicial do
Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo.
Durante décadas seguiram-se várias outras missões francesas ao Brasil, decisivas para
estreitar a colaboração durável com a França, envolvendo nomes sonantes das ciências
sociais (p. ex. Claude Lévi-Strauss, Roger Bastide ou Fernand Braudel). Pierre Deffontaines
e Pierre Monbeig acabaram, assim, por ficar indelevelmente ligados tanto à institucionaliza-
ção da Geografia no Brasil como à criação, em 1934, da Associação de Geógrafos Brasileiros
(AGB)7. Foram importantes na dinamização desta agremiação, tendo Monbeig assumido a
sua presidência entre 1937 e 1946. Vem desta altura a relação umbilical que se estabeleceu
6
António Gama (2011) – Geografia e Geógrafos: institucionalização e consolidação da Geografia na Universidade
de Coimbra. Separata da Biblos, Vol. IX (2ª série), Faculdade de Letras – Coimbra.
7
A Associação Portuguesa de Geógrafos (APG) seria fundada apenas em 1987.
entre a Geografia brasileira e a francesa8, vínculo análogo ao que foi estabelecido com a por-
tuguesa. A relação entre Portugal com a França assumiu outros contornos, porque a relação
era baseada numa proximidade cultural mais ampla e antiga que se reforçou, neste parti-
cular, pelo vai-e-vem de geógrafos, exemplificada pela permanência de Orlando Ribeiro na
Sorbonne (1939), e pelas visitas a Portugal de, por exemplo, Pierre Birot, bem testemunha-
das no livro que acabou por dar à estampa: Portugal (1950; PUF, Paris).

Investigação: da informalidade dos primeiros passos à criação dos Centros de Estudos.


A elaboração das primeiras teses, sobretudo de doutoramento, esboçam os primeiros pas-
sos da investigação geográfica em Portugal: A Bacia do Vouga – estudo geográfico (Amorim
Girão, 1922, Coimbra; Dissertação de doutoramento, apresentada por um dos primeiros
alunos do Curso, terminado em 1916); Viseu – estudo de uma aglomeração urbana (Amorim
Girão, 1925, Coimbra; Trabalho apresentado para o concurso de Assistente); A bacia do
Côa (Carlos Alberto Marques, 1925, Coimbra; trabalho equivalente a uma tese de licen-
ciatura); Alto Trás-os-Montes - estudo geográfico (Virgílio Taborda, 1932, Coimbra; Tese de
doutoramento); A Arrábida. Esboço Geográfico (Orlando Ribeiro, 1935, Lisboa; Tese de dou-
toramento); O esforço do Homem na Bacia do Mondego (Alfredo Fernandes Martins, 1939,
Coimbra; Tese de licenciatura, referida por ser um trabalho marcante); O Maciço Calcário
Estremenho. Contribuição para um estudo de Geografia Física (Alfredo Fernandes Martins,
1949, Coimbra; Tese de doutoramento). Importa ainda referir a este propósito, por repre-
sentar um marco e uma leitura inovadora do país, Portugal o Mediterrâneo e o Atlântico, um
clássico da geografia portuguesa, livro publicado em 1945 por Orlando Ribeiro.

13 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


No final dos anos 40 são criados os Centros de Estudos Geográficos (CEG) nas duas
Universidades onde à data eram lecionados Cursos de Geografia: Lisboa (1948) e Coimbra
(1949). Posteriormente são lançadas Revistas especializadas, de cunho estritamente geo-
gráfico, que vêm complementar o Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa9, que
começou a publicar-se em 1876 e tem sido editado ininterruptamente até hoje. Surguiram
neste âmbito: (i) em 1950, o Boletim do Centro de Estudos Geográficos de Coimbra (Nº 1,
1950), sob a direção de Amorim Girão (seriam publicados 25 números até 1967; uma
nova série, começa a ser editada em 1983 com a designação de Cadernos de Geografia);

8
José Borzacchiello da Silva (2012) – França e a Escola Brasileira de Geografia: verso e reverso. UFC, Fortaleza.
Entre a vasta bibliografia ver p. ex. : Federico Ferreti (2016) - Pierre Deffontaines e as missões universitá-
rias francesas no Brasil: geopolítica do conhecimento, circulação dos saberes e ensino da geografia (1934-1938).
Boletim Goiano de Geografia, 1.
9
Garcia da Horta e Geographica são revistas contemporâneas que emanam deste espirito. Garcia de Orta
foi a Revista da Junta das Missões Geográficas e de Investigação e Geographica, de que foram publica-
dos 36 números, foi editada pela Sociedade de Geografia de Lisboa, entre 1965 e 1974, sob a direcção
da Prof.ª Doutora Raquel Soeiro de Brito (nos. 1 a 28 ) e Prof. Doutor João Pereira Neto (nos. 29 a 36).
(ii) em 1966, Finisterra, dirigida por Orlando Ribeiro, lançada pelo Centro de Estudos
Geográficos de Lisboa (133 números até ao momento).
A partir dos anos 30 Portugal vira-se para África na tentativa antecipar e responder ao
ímpeto descolonizador que se começa a adivinhar. Em 7 de Janeiro de 1936 foi criada a
Junta das Missões Geográfica e de Investigação Colonial10, reorganizada em 1945, com o
objetivo de estimular o conhecimento geográfico das colónias. Esta estratégia é acompa-
nhada duma renovação semântica destinada a apagar a carga negativa que se havia colado à
palavra colónia, expressão usada correntemente tanto a nivel administrativo (Colónias pas-
saram a designar-se Províncias Ultramarinas) como em disciplinas ministradas nos Cursos
de Geografia. É assim que a Geografia Colonial, incluída no curricula da Licenciatura,
passa a Geografia das Regiões Tropicais, mudança ocorrida no decurso da Reforma do
Curso de Geografia, feita pelo Decreto de 30 de fevereiro de 1957, ajustando a terminolo-
gia para ser mais consentânea com os tempos de descolonização e de independências que
se seguiram à Segunda Grande Guerra.
A partir de 1960, já em perda, e por imperativo absoluto de sobrevivência, procura-se
intensificar o envolvimento da Geografia nas colónias, por via da investigação e do ensino.
Orlando Ribeiro e Alfredo Fernandes Martins, entre outros, realizariam várias Missões de
Geografia Física e Humana do Ultramar (criadas em 1960), fazendo trabalho de campo,
fundamentalmente, em Angola e Moçambique. Esta década ficará marcada pela instalação
do ensino superior nestas colónias, iniciando à docência da Geografia, a nível superior,
fora do Continente, sobretudo na Universidade de Lourenço Marques (1969).
14 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Cooperação e Internacionalização: as primeiras plataformas do diálogo geográfico


luso-brasileiro. Os primeiros contatos entre geógrafos de Portugal e do Brasil acontece,
por esta altura, estruturados a partir de três pontos focais: Revista Brasilia, Congressos
Internacionais da União Geográfica Internacional (UGI) e Colóquio Internacional de Estudos
Luso-Brasileiros.
Brasília, Revista de Instituto de Estudos Brasileiros da Faculdade de Letras da
Universidade de Coimbra, não só facultou o contacto de geógrafos portugueses com
temas da Geografia brasileira como concedeu espaço para que pudessem publicar. Orlando
Ribeiro começa por escrever sobre o Brasil: a terra e o homem, e Geografia Humana do Brasil,

10
Ilídio do Amaral (1979) - A “escola geográfica de Lisboa” e a sua contribuição para o conhecimento geográfico das
regiões tropicais. CEG, Estudos de Geografia das Regiões Tropicais, Lisboa.
Ilídio do Amaral (1983) - Da Comissão de Cartografia ao Instituto de Investigação Científica Tropical.
Finisterra, XIII, 36: 327-31.
Brito, Raquel Soeiro de (1992) - Trinta anos de estudos de Geografia nos territórios do ex-Ultramar portu-
guês (1944-74). Inforgeo, 4: 71-94.
recenção do livro homónimo de Pierre Deffontaines (1940, Rio de Janeiro, IBGE)11, a que
se seguiram outros autores 12. Alfredo Fernandes Martins tem duas colaborações interes-
santes13, em 1944, sobre a borracha da amazónia e as consequências, locais e geopolíti-
cas, da deslocalização da sua produção para o extremo oriente, e a Geografia Humana
do Brasil. Este texto é particularmente significativo por ser “uma interessante e muito
bem contextualizada recensão da palestra proferida na altura, no Instituto de Estudos
Brasileiros da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, por Pierre Deffontaines, e
que ilustra a forte influência francófona nas geografias dos dois países lusófonos” (Cunha;
Jacinto, 2012: 63).
O diálogo direto entre geógrafos portugueses e brasileiros ocorre a partir da década
de 40, no âmbito dos poucos eventos que então se realizavam. Os principais, foram os
Congressos Internacionais de Geografia (UGI), realizados em Lisboa (1949) e no Rio de
Janeiro (1956)14 que marcaram a verdadeira internacionalização das duas Geografias, mo-
mentos culminantes da consagração das Geografias dos dois países, do seu acolhimento
na cena internacional, reconhecimento caucionado pela União Geográfica Internacional
(UGI) que lhes outorgou a realização daqueles Congressos mundiais.
Os Colóquios Internacionais de Estudos Luso-Brasileiros15 foram outra possibilidade
efetiva de contacto bilateral, sobretudo a partir da terceira edição, realizado em Lisboa

11
Orlando Ribeiro (1942) - O Brasil: a terra e o homem. Brasília, Coimbra, I: 377-397.
Orlando Ribeiro (1942) - Pierre Deffontaines – “Geografia Humana do Brasil”. Rio de Janeiro, 1940”.
Brasília, Coimbra, I: 817-819.
Orlando Ribeiro (1955) - São Paulo. Metrópole do Brasil. Brasília, Coimbra, IX (V): 243-256. Orlando Ribeiro

15 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


continuou a publicar sobre o Brasil em diferentes momentos, sendo de destacar: (i) Raízes antigas da Geografia
brasileira, Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, 3 (Ano XX), 1958: 319-325. Lição inaugural do
Curso de Altos Estudos Geográficos, realizado na Universidade do Brasil, em Agosto-Setembro de 1956; (ii)
Les conditions historiques de la régionalisation de l’espace au Brésil, comunicação apresentada no encontro La
Régionalisation de l’espace au Brésil, Paris, Centre National de la Recherche Scientifique, 1971: 27-30 ; (iii)
O Brasil: evolução singular no Império Português, Revista Portuguesa de História, Faculdade de Letras da
Universidade de Coimbra, Coimbra, XVII, 1978: 231-243.
12
José Boléo (1943) - O estudo das ciências geográficas no Brasil. Brasıília, Coimbra, 2: 233–238.
L. Schwalbach (1943) - Brasil – Rico manancial de problemas geográficos. Brasília, Coimbra, 2: 227–232.
Anselmo Ferraz de Carvalho (1946) – Angola, pequeno Brasil. Brasília, Coimbra, III: 141-148.
Aristides de Amorim Girão (1952) – Portugal e o Brasil no Mundo de amanhã. Brasília, Coimbra, VII: 19-33.
13
Alfredo Fernandes Martins (1944) - Grandeza, declínio e novas possibilidades da borracha brasileira. Brasília,
Coimbra, 3: 341-376.
Alfredo Fernandes Martins (1944) - Geografia Humana do Brasil. Brasília, Coimbra, 3: 809-824.
14
O XVI Congresso Internacional de Geografia (UGI; Lisboa, 1949) proporcionou seis (6) Livros Guia das
Excursões. O XVIII Congresso Internacional de Geografia (UGI; Rio de Janeiro, 1956) gerou a edição de
nove (9) Livros Guia das Excursões.
15
III Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros (Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, Lisboa,
1957); IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros (10 a 21 de agôsto de 1959, Faculdade de
Odontologia da Universidade da Bahia, Salvador); IVº Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros
(Coimbra, 2 a 8 de Setembro de 1963).
(1957), onde a influência de Orlando Ribeiro acabaria por impor uma seção autónoma
(Seção I - O Homem e o Meio). Os seguintes, que tiveram lugar em Salvador (IV, 1959) e
Coimbra (V, 1963), proporcionaram aos geógrafos encetarem um diálogo mais próximo e
cumplice, como já acontecia com outras especialidades académicas (Literatura, História, etc.).
O Colóquio de Salvador foi particularmente importante por distintos motivos, relevan-
do a ascensão de Milton Santos e da controvérsia colonial. Além da representação brasilei-
ra e portuguesa, assegurada por Francisco Tenreiro e Alfredo Fernandes Martins, o número
elevado e representativo de geógrafos franceses (J. Tricart, P. George, M. Rochefort, etc.)
e do anfitrião ter sido Milton Santos, que se começa a afirmar no meio. No penúltimo,
realizado em Coimbra, que contou com a presença de geógrafos dos dois países, acentuou-
-se o o mal-estar vivido em Salvador, relativamente ao tema colonial, pouco consensual,
desconfortável e particularmente sensível para Portugal, cujo isolamento internacional se
acentuava por esta razão, motivo aliás que precipitaria o fim destes Colóquios.
Os caminhos percorridos pelas Geografias de Portugal e do Brasil desde a institucionali-
zação nem sempre foram lineares nem simétricos, em termos de ensino, de investigação ou
ao nível do exercício e organização profissional. Os ritmos e as intensidades que registaram
deixam perceber, entre continuidade e ruturas, dissonâncias e divergências, que há, contudo,
sinais de alguma convergência, a começar na forte influência que receberam da Geografia
Francesa. A plena compreensão das trajetórias feitas pelas Escolas Geográficas carecem do de-
vido enquadramento, quer no âmbito da própria ciência como no plano histórico, político,
cultural e socioeconómico percorrido por cada um dos países.
16 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Procurar uma “Nova Geografia” e desembocar numa “Geografia


Nova”: dos anos 60 ao advento duma nova ordem mundial

O pano de fundo. Portugal e o Brasil entram nos anos 60 com grande turbulência,
iniciando três longas décadas com uma guerra colonial, ditaduras, regresso à democra-
cia e, no final dos anos 80, a auscultação de rumores que anunciam uma nova ordem
mundial. Portugal começa por enfrentar, ainda sob a ditadura, o calvário duma Guerra
Colonial em África, luta armada que se inicia em 1961 em Angola e alastra a várias frentes,
com particular violência na Guiné, Angola e Moçambique. Esta longa década só terminará
com a Revolução de 25 de Abril e a implantação da democracia, ditando a descoloniza-
ção e, com a independências das ex-colónias, o regresso das caravelas. O Brasil conheceu
um periodo igualmente negro após o golpe militar de 1964 até o movimento Diretas Já!
(1983-84) acelerar a eleição, embora indireta, do presidente da República, em 1985, que
embora tenha eleito Tancredo Neves seria o seu vice, José Sarney, a assumir o cargo.
Os anos 70 começam com uma crise económica profunda cujas réplicas continuariam na
década seguinte. Portugal adere à CEE-EU, em 1986, aprofunda-se a integração europeia e,
passados alguns anos, acontece a queda do Muro de Berlim (1989) que mudará radicalmente a
correlação geoestratégica, ditando o fim do mundo bipolar que reinou durante a Guerra Fria.
Os novos Países de Língua Portuguesa, por outro lado, quer os africanos (Angola, Moçambique,
Cabo Verde, São Tomé e Principe e Guiné-Bissau) como Timor-Leste, recém independentes,
a braços com economias precárias e convulsões, em muitos casos guerras civis, não encontra-
vam paz nem estabilidade financeira para dar a devida atenção ao desenvolvimento do sistema
educativo e, menos ainda, à investigação e ensino da Geografia.
A partir deste pano de fundo e das ruturas epistemológicas que moldariam a Geografia,
podem ser perspetivadas as tensões e clivagens que ocorreram em termos globais e cujas
repercussões abalaram as Geografias de Portugal e do Brasil. Entre a geografia tradicional,
que começou a ser vivamente contestada e as geografias mais críticas e radicais surge uma
panóplia de alternativas e uma vasta pluralidade de abordagens. A exemplo do que acon-
tece com o planeamento, o desenvolvimento e as políticas públicas, a procura de alterna-
tivas e o ensaio de novas abordagens ficará perpetuada na bibliografia com uma renovação
terminológica resultante duma sedimentação de expressões e conceitos como sustentável
(1986), endógeno, integrado, local, resiliente, etc..

O lento devir da Geografia nos novos Países de Língua Portuguesa (PLP): continuidade e
ruturas. Em 1960 foram instituídas as Missões de Geografia Física e Humana do Ultramar
para apoiar a investigção nas colónias portuguesas. O trabalho de campo realizado por

17 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


dois geógrafos: centrou-se fundamentalmente em Angola e Moçambique: (i) Orlando
Ribeiro (1911-1997), o que mais viajou, investigou e escreveu sobre territórios fora do
Continente, além de percorrer a Madeira e Porto Santo (1947, 1948) e Açores (1953,
1958), em diferentes momentos, deslocou-se à Guiné (1947), Cabo Verde (1951, 1952),
S. Tomé e Príncipe (1952), Goa, Damão e Diu (1955, 1956), Angola (1935; 1960, 1961,
1962, 1963) e Moçambique (1960, 1961, 1962, 1963); (ii) Alfredo Fernandes Martins
(1916-1982), investigou diversas regiões de Moçambique (Nampula, 1961; Nampula,
Planalto dos Macondes e Litoral de Porto Amélia, 1962; Quelimane, 1964; Porto Amélia
e Pebane, 1965; da Foz do Rio Molocué à Baía de Condúcia (1966).
O lançamento do Estudos Gerais Universitários, em Moçambique e Angola, foi o passo
seguinte, que veio a acontecer em 1963, com a publicação do Decreto-Lei nº 44.530, de
5 de Agosto. Em 1968 os Estudos Gerais ascendem à categoria de Universidade e, no caso de
Moçambique, surge em 1969 o Curso de Geografia, tutelado pela Universidade de Lisboa
na Universidade de Lourenço Marques (ULM), hoje Universidade Eduardo Mondlane
(UEM), . Por detrás destas opções estiveram reinvindicações antigas dos colonos, pretensões
desenvolvimentistas e motivações políticas que o início da guerra ajudaram a precipitar.
Esta política não foi generalizada, limitou-se a Angola e a Moçambique, sem se estender aos
territórios mais pequenos, com menos recursos e onde residiam poucos europeus.
Em Angola a Geografia sempre teve uma presença discreta, limitada aos Institutos
Superiores de Ciências da Educação (ISEC). Apesar dos progressos registados continua a
ter como função exclusiva a formação de professores para o ensino secundário. A situa-
ção da Geografia é, portanto, bastante desigual nos Países Africanos de Língua Oficial
Portuguesa (PALOP): tem presença apenas nos três países onde existem universidades
(sem contar Timor onde se implantou recentemente) e, mesmo nestes, com diferentes
expressões quantitativas e qualitativas. Em Moçambique 16, onde a Geografia tem mais
tradição, pois o curso remonta a 1969, o vínculo e dependência inicial foi da Geografia
de Portugal. Esta situação, começou a alterar-se mais recentemente com a diversificação
das relações com outros países, designadamente o Brasil. Nas últimas décadas registaram-
-se assinaláveis progressos e reconhecida expansão tanto em número de alunos como de
cidades onde é ensinada. O ensino da Geografia começou, em Cabo Verde17, no Instituto
Superior de Educação (ISE), criado em 1986, que evoluiu para a Universidade de Cabo
Verde, em 2006.
A implantação e importância que a Geografia granjeou nestes países não é alheia às
pessoas que assumiram certas lideranças em dado momento. Em Moçambique, Aniceto
dos Muchangos, geografo formado na UEM, com forte ligação à sua Professora Maria
Eugénia Moreira, doutorado na Alemanha18, foi nos anos 90 Ministro da Educação
de Moçambique. Em Cabo Verde, Maria Luisa Ferro Ribeiro, geografa licenciada em
18 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Coimbra, onde defendeu em 1961 a sua tese de licenciatura, foi fundadora e dirigente,
durante anos, do Instituto Superior de Educação, na Cidade da Praia.
Esta evolução, mesmo que sucinta, não dispensa uma referência à investigação
geográfica feita ou ainda iniciada durante o período colonial, sobretudo a que resultou

16
Rui Jacinto; Lúcio Cunha (2017) - Geografia de Moçambique: um olhar a partir da Geografia portuguesa.
Iberografias, Nº 13 (CEI, Guarda): 49-70.
Eliseu Savério Sposito, José Maria do Rosário Chilaúle Langa & Rui Jacinto (2017) - Institucionalização, ensino
e investigação da Geografia em Moçambique. Iberografias, Nº 13 (CEI, Guarda): 71-99.
17
Rui Jacinto (Coord.; 2015) - Nós Terra, Nós Geografia: Contributos para uma Geografia de Cabo Verde.
Iberografias, Nº 11 (CEI, Guarda): 181-224. Em particular os seguintes textos de Rui Jacinto (2015): (i)
Cabo Verde segundo Maria Luísa Ferro Ribeiro: território e sociedade (pag. 181-193); (ii) Cabo Verde: uma
incompleta bibliografia geográfica (pag. 194-199); (iii) Si ka badu, ka ta biradu: Maria Luísa Ferro Ribeiro, a
primeira geógrafa de Cabo Verde (pag. 203-207).
18
Aniceto dos Muchangos (1983) – O uso e a alteração da natureza numa cidade grande trópico-africana, ilus-
trada através de 18 exemplos de Maputo, República Popular de Moçambique [Die nutzung und verande-
rung der natur in einer tropischafrikanishchen grosstadt–dargestellt am beispiel von Maputo. Volksrepublik
Moçambique], Martin-Luther Universitat, Halle, Germany. Primeira tese de doutoramento em Geografia
por um natural de Moçambique.
em teses de doutoramento realizadas sobre alguns países africanos: A Ilha de São Tomé
(1961), Santiago de Cabo Verde (1964), A colonização das Terras Altas da Huíla (1976), A
bacia do rio Umbelúzi (Moçambique) (1979) e Maputo antes da independência (1980)19.
Como se pode observar, sem um comentário mais fundo, é notória a assimetria e desigual
representatividade, pois nem todos os países foram contemplados.
Importa assinalar dois marcos significativos deste período, sinais dos tempos que
são representativos de ruturas conceptuais e metodológicos, teoréticas e operativas,
que atravessaram as Geografias de Portugal e do Brasil: A Área de influência de Évora,
tese de doutramente, apresentada por Jorge Gaspar em 1972 e, no caso brasileiro, Por
uma Geografia Nova, livro lançado por de Milton Santos em 1978, que acompanha o
Movimento Fortaleza, do mesmo ano, que protagoniza um confronto fraturante ocorrido
durante o 3º Encontro Nacional de Geógrafos Brasileiros (ABG).

O último quarto de século: Geografar é preciso

Em 1994, sob proposta de Jorge Gaspar, Milton Santos vence o Prémio Vautrin Lud
e a ascenção de Fernando Henrique Cardoso ao poder , em 1995, inicia um novo re-
lacionamento entre Portugal e o Brasil, expresso na Comunidade dos Países de Língua
Portuguesa (CPLP; 1996). Tem inicio por esta altura uma fase de relacionamentos mais
intensos entre geógrafos dos dois países, como assinalam vários trabalhos20. Foram múlti-
plas as parcerias e as redes de investigação que se estabeleceram, alguns projectos e inúmeros
seminários realizados em Portugal e no Brasil, que proporcionaram muitas publicações,

19 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


19
Francisco Tenreiro (1961) - A Ilha de São Tomé. Estudo Geográfico. Junta de Investigação do Ultramar, Lisboa.
Ilídio do Amaral (1964) - Santiago de Cabo Verde. A Terra e os Homens. Junta de Investigações do Ultramar, Lisboa.
Carlos Alberto Medeiros (1976) - A colonização das Terras Altas da Huíla. Estudo de Geografia humana.
Centro de Estudos Geográficos, Lisboa.
Maria Eugénia Soares de Albergaria Moreira (1979) - A bacia do rio Umbelúzi (Moçambique): estudo geomorfoló-
gico. Tese de Doutoramento em Geografia Física apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Maria Clara Mendes (1980) - Maputo antes da independência: geografia de uma cidade colonial. Tese de
Doutoramento em Geografia Humana apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
20
L Cunha; R. Jacinto (2012) - O Brasil na Universidade de Coimbra. Um diálogo de Geografias. In: J. Paiva; J.
Bernardes (eds) - A Universidade de Coimbra e o Brasil. Percurso iconobibliográfico. Coimbra: Imprensa
da Universidade de Coimbra, 61–70.
L. Cunha; R. Jacinto; M. M. Passos & V. Teles (2016) - Uma língua, diferentes geografias. Um olhar sobre a geogra-
fia física dos países de língua portuguesa. In: A geogra”a física e a gestão de territórios resilientes e sustentáveis.
Atas do IX Seminário Latino-americano e V Seminário Ibero-americano de Geografia Física, pp. 89-101.
Diogo Gaspar Silva (2019) - Saberes geográficos e Geografia institucional: relações luso-brasileiras no século XX. R.
Bras. Geogr., Rio de Janeiro, v. 64, n. 2, p. 42-49.
Francisco Roque de Oliveira; Daniel Paiva (org.; 2019) - Saberes geográficos e Geografia institucional: relações
luso-brasileiras no séc. XX. CEG, Universidade de Lisboa.
Daniel Paiva, Francisco Roque de Oliveira (2020) - Luso-Brazilian geographies? The making of epistemic communi-
ties in semi-peripheral academic human geography. Progress in Human Geography, May 12, 2020.
resultantes desta cooperação bilateral. Um dos primeiros projetos, Geografia, Investigação
para o Desenvolvimento (GEOIDE - Rede Atlantis), que decorreu entre 1996 e 1998, sob
a coordenação do Professor José Manuel Pereira de Oliveira (Departamento de Geografia,
Universidade de Coimbra), apoiado pelo Programa ALFA, da Comissão Europeia,
tendo por base uma rede de investigadores de várias Universidades, além da de Coimbra
(Portugal), da Europa (Espanha, França, Inglaterra) e da América Latina (Brasil, México e
Perú). Seguiram-se outros apoiados pela FCT-CAPES, seus desdobramentos, herdeiros do
espírito do projecto inicial21.
A cooperação bilateral entre instituições de ensino e investigação de Geografia dos PLP
tem obedecido a uma geometria variável que é fortemente (bi)polarizada entre Portugal
e Brasil. A centralidade deste eixo mostra como estamos perante uma cooperação assi-
métrica, que exclui sistematicamente alguns países e as escolas onde se ensina e investiga
Geografia. As tentativas que têm existido para alargar e integrar outras Geografias têm sido
tímido, embora existam exemplos do envolvimento de Cabo Verde22 e de Moçambique23.
A compreensão da génese e da evolução da Geografia nos novos Países de Língua
Portuguesa (PLP), como já referimos noutra oportunidade, obriga a ter presente que al-
guns estados só alcançaram a independências com o advento da democracia em Portugal
(1974): Guiné-Bissau adquire a sua independência em 10 de setembro de 1974, seguindo-se
Moçambique (25 de junho de 1975), Cabo Verde (5 de julho de 1975), São Tomé e
Príncipe (12 de julho de 1975) e Angola (11 de novembro de 1975). Timor-Leste, que
havia proclamado unilateralmente a sua independência, em 1975, acabou anexado e esteve
sob administração indonésia até ao referendo de 1999, a que se seguiu uma administração
20 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

provisória da ONU até por Portugal, em 2002, reconhecer a independência.


Embora correspondam a realidades geográficas e sociopolíticas bem distintas a
história encarregou-se de irmanar Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau,
Moçambique, São Tomé e Príncipe e, posteriormente, Timor-Leste, na Comunidade dos
Países de Língua Portuguesa (CPLP). Depois dum longo percurso, com remota origem,
21
Ao longo da última década o CEI publicou neste âmbito: (i) Lucio Cunha; Messias Modesto dos Passos; Rui
Jacinto (coord; 2010) - As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa. Paisagens, Territórios, Políticas
no Brasil e em Portugal. CEI, Coleção Iberografias, Nº 16, Guarda, 454 p.; (ii) Lucio Cunha; Rui Jacinto
(coord; 2014) - Paisagens e Dinâmicas Territoriais em Portugal e no Brasil. As Novas Geografias dos Países de
Língua Portuguesa. CEI, Coleção Iberografias, Nº 26, Guarda, 477 p.. Neste âmbito, foi publicado no
Brasil: M. M. Passos, L. Cunha, R. Jacinto (Org.; 2012) - As novas geografias dos países de língua portuguesa:
paisagens, territórios, políticas públicas. Outras Expressões, São Paulo, 638 p.
22
Rui Jacinto e Lúcio Cunha (Coord; 2011) - Interioridade/ Insularidade; Despovoamento/ Desertificação. Paisagens,
Riscos Naturais e Educação Ambiental em Portugal e Cabo Verde. Colecção Iberografias nº 17, CEI, 2011, 412 p..
Rui Jacinto (Coord.; 2015) - As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa. (Re)Encontro em tempo de
(Des)Encontros. Iberografias, Nº 11 (CEI, Guarda): 107-167.
23
Rui Jacinto (Coord.; 2017) - As novas geografias dos países de Língua Portuguesa. Moçambique. Iberografias,
Nº 13 (CEI, Guarda): 10-213.
esta organização de países lusófonos, institucionalizada em 17 de Julho de 1996 com a che-
gada da democracia a Portugal (1974) e ao Brasil (1985) e as independências das colónias
portuguesas (1975). Independentemente da vitalidade desta Comunidade e das opiniões
que possamos ter sobre algumas das motivações, simbólicas e materiais, que lhe possamos
imputar, a complexidade destas Geografias não nos deve deixar indiferentes nem dei-
xar de pugnar por uma investigação empenhada e comprometida com o esbatimento das
profundas assimetrias socio-territorias existentes nos Países de Língua Portuguesa.

21 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


PATRIMÓNIOS, PAISAGENS E
DESENVOLVIMENTO LOCAL
Amazônia: Conceito, Paisagem e Região

José Aldemir de Oliveira


Departamento de Geografia da Universidade Federal do Amazonas

Compreender como se produz o lugar que é hoje a Amazônia leva-nos ao longo


caminho que começa antes da colonização e vai aos dias atuais. Antes predominava a
natureza que fornecia o necessário à reprodução da vida. Na fase que se segue, são erguidos
monumentos ou ruínas, transformados em espaços estratégicos que assumem atributos
de fronteira e são portadores de um modo de dominação, que se quer único, baseado na

25 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


exploração dos recursos naturais e das populações indígenas.
A Amazônia pretérita era natureza, e a que se segue constitui-se de produção do espaço,
moldada em diferentes épocas, como resultado das condições objetivas dos sujeitos sociais.
Assim sendo, para uma primeira regionalização considera-se as espacialidades produzi-
das a partir da sociedade portadora de múltiplas referências de tempos-espaços. Como
resultado propõe-se a periodização da Amazônia como: Indígena, Espanhola, Portuguesa
e Brasileira. A base é o substrato da história que resulta em espacialidades e temporalidades
diversas, fragmentadas, antagônicas e complementares, pois resultam da “prática espacial”.
A segunda regionalização resulta da Amazônia como natureza, como espaço político
e de planejamento econômico que exige múltiplos caminhos metodológicos, embora já se
tenha consolidado o entendimento de sua delimitação. Pode-se considerar como dimensão
da natureza a extensão da Bacia Amazônica ou da “província botânica”, a floresta equatorial,
que compreende a Pan-Amazônia e abrange nove países da América do Sul. Circunscritas
ao espaço brasileiro, há a Amazônia Clássica, como espaço político das grandes regiões
fisiográficas, e a Amazônia Legal, como espaço de planejamento econômico voltado para
o desenvolvimento regional.
Não se trata do antagonismo natureza x sociedade, mas de considerar as dimensões
humanas que produzem temporalidades múltiplas geradoras de espacialidades, não
no sentido da sociabilidade exclusivamente humana, mas da superação de fatores que
interagem no processo de conformação da região em que tudo é produzido, inclusive a
natureza. Os esforços acumulados da ciência para estabelecer parâmetros aceitáveis para a
definição da Amazônia não geram entendimento unânime a respeito das diversas paisagens
e das múltiplas sociedades. Conclui-se que a compreensão da Amazônia, enquanto paisa-
gem e região, expressa temporalidades diversas da sociedade-natureza e, portanto, denota
periodização que resulta da totalidade do espaço-tempo.
Parte-se da premissa de que a Amazônia se constitui como uma invenção geográfica
que passa da superação do entendimento da Amazônia como biodiversidade para sua
compreensão enquanto sociodiversidade. Quando se investiga como se deu essa invenção
observa-se um longo caminho que começa antes da chegada do colonizador, quando a
Amazônia já estava ocupada e apresentava outras formas de espacialidades.
O processo de produção do lugar que muito tempo depois se tornou conhecido como
Amazônia tem a ver com o que aponta Hoerner (1996), o qual retoma os escritos de
Frémont (1976) de que, antes da dominância e da apropriação do espaço por relações com
base num modo de produção, o ser humano se apropriou do espaço por meio dos cos-
tumes e do modo de vida. As características nessas sociedades não são menos complexas,
nem necessariamente simples, ao contrário, encerram dimensões sofisticadas e variadas
que, sem se afastarem do meio natural, garantiram as fronteiras, ampliaram seus limites e
domínios. Esse processo ocorreu na Amazônia pretérita, num tempo referido através da
26 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

expressão “antes a região não existia”1, porquanto mesmo que a dimensão da sociedade na
natureza já existisse, ainda não estava integrada à forma espacial unitária.
A espacialidade constituía-se por meio do uso da natureza como vivência, sendo o
espaço a base material para a circulação, o acesso à alimentação e aos recursos usados para
a morada. A natureza fornecia o necessário à produção e à reprodução da vida e as relações
sociais não estavam marcadas por formas de dominação que suplantassem as outras, o que
não significava a ausência de conflitos.
Essa relação do homem com o espaço é referida por Ailton Krenak, do grupo indígena
crenaque de Minas Gerais, quando ele comenta o livro Antes o mundo não existia: “Ali
onde estão os rios, as montanhas, está a formação das paisagens, com nomes, com signifi-
cado direto, ligado com a nossa vida, e com todos os relatos da antiguidade que marcam
a criação de cada um desses seres que suportam nossa passagem no mundo. Nesse lugar,
que hoje se chama de habitat, não está um sítio, não está uma cidade nem um país. É um
1
Uma referência ao livro Antes o mundo não existia: mitologia dos antigos Desana-Kêhíripõrã (1995), de
Firmiano Arantes Lana e Luiz Gomes Lana, cuja primeira edição é 1980.
lugar onde a alma de cada povo, o espírito de um povo, encontra a sua resposta, resposta
verdadeira”. (1992, p. 201)
Na fase que se seguiu, com o início da colonização, as territorialidades tiveram suas
gêneses induzidas ou surgiram espontaneamente. Elas demonstram eventos que se ergue-
ram em monumentos ou ruínas e se transformaram em espaços do poder. As vilas, os
fortes, as missões assumiram atributos de fronteira para o estranho ao território, e começa
a se esboçar a ideia sobre a região.
Em outras palavras, antes da colonização, havia múltiplas territorialidades, o que
significava diversidade de poderes, sem o predomínio de um sobre os outros. Com a co-
lonização, esta ordem foi rompida, e o lugar passou a ser paulatinamente integrado aos
circuitos da reprodução econômica mundial, primeiro ao mercantilismo, com a extração
das “drogas do sertão”, em seguida ao capitalismo, com a exploração da borracha, e de-
pois com a política desenvolvimentista de fronteira de recursos naturais, o que significou
estruturar as espacialidades como região.
A abordagem que aqui se faz sobre a gênese da Amazônia enquanto conceito e
paisagem tem como base a produção do espaço social que leva ao entendimento da região
e ao seu processo de formação que é, ao mesmo tempo, histórico e geográfico, tendo como
substrato o ambiental.

Figuras 1 e 2. Biodiversidade na Amazônia

27 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Figura 1: Fonte: Jason and Capri’s trip to Brazil 2007-2008


Figura 2: Fonte: www.oeco.org.br/reportagens/29273-icmbio-e-roraima

A invenção geográfica da Amazônia

Para os objetivos dessa discussão, é importante assinalar que se considera a Amazônia


como uma “invenção geográfica” relativamente recente. Há estudos relevantes, bem con-
solidados, sobre o tema, na região, com destaque para dois livros amplamente citados,
reconhecidos pela qualidade literária e consistência teórica dos seus autores, que partem
da premissa de que a Amazônia resultou de uma construção, expressa no título de ambos,
A invenção da Amazônia2, porém nenhum dos dois trata de quando a região passou a ser
denominada enquanto tal. Como assinala, Garfield (2009), embora existam estudos que
exploram o tema da “invenção” da Amazônia por meio da análise de textos literários, ainda
há pouca atenção voltada para as questões estruturais, institucionais e geopolíticas que
embasaram essa produção cultural.
Havia uma realidade geográfica ligada à natureza da floresta e dos rios, do Vale do Rio
Amazonas, mas não havia uma discussão sobre a região, que só começou a se esboçar no
século XIX, quando da unificação da região do Vale Amazônico ao território nacional, que a
anexou ao Brasil enquanto unidade administrativa e política. Embora houvesse desde 1750
o domínio do território do Vale Amazônico com uma unidade política ligada diretamente a
Portugal, o termo Amazônia não existia na documentação oficial nos séculos XVII e XVIII
(CHAMBOULEYRON, 2006). O termo só começou a aparece no final do século XIX.
Embora se recomende cautela quanto à data precisa do surgimento do termo Amazônia
enquanto uma área delimitada, pode-se apontar como marco o final do século XIX, quan-
do José Coelho da Gama e Abreu - o Barão do Marajó - utilizou a expressão Amazônia ao
escrever o livro Amazônia e as Províncias do Pará e do Amazonas e o governo central do Brazil
(1883), e iniciou o primeiro capítulo com a descrição da Amazônia, a importância do Pará
e do Amazonas, suas posições em relação a outras Províncias do Império, as Nações com
as quais faz limites e, finalmente, destaca sua extensão territorial.
A palavra Amazônia consolidou-se no fim do Império, precisamente em 1889, numa
28 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

coletânea organizada por Santa-Anna Nery para a Exposição Universal de Paris, quando a
expressão apareceu em dois artigos nela contidos. No primeiro, “Esquisse de L’Histoire de
Brésil” (1889, p. 105-398), em que o Barão do Rio Branco apresentava o item denomi-
nado “Occupation de l’Amazone”, e no segundo, mais extenso, em que André Rebouças
apresentava a divisão regional do Brasil em 10 zonas agrícolas (1889, p. 215-297), sendo a
primeira “La zone Amazonienne”. Cinco anos depois, em 1894, na enciclopédia Nouvelle
Géographie Universelle, Élisée Reclus, no tomo 19, analisava o Brasil e o fazia separando-o
por regiões, ocasião em que apareceu, no primeiro plano, a palavra Amazonie (p. 117),
formada pelos Estados do Amazonas e Pará. Consolidava-se, então, a palavra Amazônia,
com a configuração de seu imaginário, e nela iniciava a impressão do arcabouço histórico
e geográfico que aos pouco se foi desenvolvendo.

2
MENDES, Armando. A invenção da Amazônia. Belém: UFPA, 1974. Coleção Amazônia - Série Tavares
Bastos; e GONDIM, Neide. A invenção da Amazônia. São Paulo: Marco Zero, 1994.
Figuras 4, 5 e 6. Sociodiversidade na Amazônia

Figura 4. Fonte: https://www.google.com/search?q=bairros+de+belém


Figura 5. Fonte:https://www.google.com/search?q=comunidades+ribeirinhas
Figura 6. Fonte: Laila Menezes - CIMI

Amazônia: conceito e paisagem

29 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


Conceituar a Amazônia enquanto dimensão da natureza, de planejamento econômico
e espaço político ou mesmo estabelecer seus limites tem sido demanda corrente nos es-
tudos geográficos e de outras áreas do conhecimento, existindo extensa bibliografia que
vai desde a informação jornalística e os estudos introdutórios aos textos de maior rigor
científico. Todos invariavelmente começam abordando o que é a região amazônica, suas
dimensões e demais características, todavia quase sempre os textos apresentam critérios
e parâmetros diferentes. Isso decorre das dificuldades de estabelecer padronizações para
conceituar região tão vasta e com diferentes entendimentos de sua biossociodiversidade.
A dimensão de região se adequa às análises e interpretações das complexas relações da
Amazônia, levando em conta a sua porção internacional nos Estados-Nação do norte da
América do Sul, em que as características naturais, apesar das diferenças, apresentam certo
nível de aproximação, embora isso pareça impossível, considerando-se a multiculturalidade.
A dificuldade de conceituar a Amazônia do ponto de vista geográfico não é recente,
conforme já advertia, há mais de meio século, um dos primeiros autores a enfrentar a
questão, Eidorfe Moreira (1957). Retomo algumas questões postas por ele, às quais acres-
cento a necessidade de considerar dois aspectos:
1. Do ponto de vista da natureza, a Amazônia, enquanto dimensão, comporta
imprecisões, quer se considere a bacia hidrográfica, quer se considere a floresta
equatorial amazônica - Floresta Perenifólia Higrófila Hileiana;
2. Do ponto de vista político, que leva em conta o papel estratégico da região para o
restante do mundo, tem sido usada também a dimensão natural como o principal
fator para a criação de planos e o estabelecimento de acordos, devido a suas extensas
áreas naturais, algumas já em processo de degradação desde 1980, período em que
ganham relevância as discussões ambientais a partir do crescimento dos movimen-
tos ambientalistas e em que as ações de degradação do ambiente deixam de ser
locais para se inserirem na escala mundial.
Além disso, é necessário considerar o papel da sociedade nessa região, visto que sem
ela “o espaço é uma noção física, não uma noção geográfica” (MOREIRA, 1960, p. 10).
Os oito Estados-Nação3 e a Guiana Francesa que formam a Pan-Amazônia apresentam
realidades diversas, com diferentes povos vivendo na floresta e da floresta. Isso implica
compreender como a sociedade relaciona dois aspectos diferentes e complementares que
norteiam sua atuação no espaço, ou seja: o modo de atuação no meio e as dimensões
políticas que sustentam as relações internas e entre os países vizinhos.

Figura 7. Mapa da Pan-Amazônia


30 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Fonte: https://www.ecodebate.com.br/2020/03/11/o-incansavel-e-falacioso-mito-da-internacionalizacao-da-
-amazonia-por-henrique-cortez/

3
Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela.
O primeiro, ligado à natureza, está relacionado especialmente à floresta, às estimativas
de desmatamento que explicitam de modo mais claro a ação da sociedade sobre o ambiente.
Esse dado é difícil de ser aferido por causa das carências técnicas e da legislação de cada país,
sem contar a fragilidade da conjuntura política decorrente das frequentes mudanças das ins-
tâncias do poder local. Apesar das dificuldades de aferição, entre 2000 e 2013, foi perdida a
cobertura vegetal correspondente a 222.249 km². Até esta última data, havia sido devastada
uma área de 13% nos nove países que integram a floresta amazônica (IMAZON, 2015).
Não menos sensíveis que a floresta são os rios que fazem parte da bacia hidrográfica,
cuja grandeza é superlativa. Sendo a maior bacia hidrográfica do mundo, inunda 110 mil
quilômetros quadrados de terras da América do Sul na estação de seca e três vezes mais na
estação de cheia, e descarrega 300 mil metros cúbicos de água por segundo no Atlântico.
O rio principal, o Amazonas, é responsável por cerca de 20% do volume total de água doce
que entra no oceano, a qual corresponde a cerca de 1/5 da descarga total de todos os rios
do mundo (NASCIMENTO, 2015).
As dimensões naturais da bacia hidrográfica possibilitam e atraem diversas atividades
humanas, que buscam, a partir das condições jurídico-políticas de cada Estado-Nação, ter
acesso à extração de recursos na mineração4 e florestais, especialmente madeira.
Há pressão sobre o uso de recursos hídricos para a instalação de grandes hidroelétricas,
a exploração das terras no entorno para a pecuária de gado de corte e a agricultura inten-
siva ligadas à agroindústria destinada à exportação. Acrescente-se a isso a concentração de
população urbana, que demanda água potável, e o impacto da poluição dos rios, visto que
“em toda a bacia há cinco municípios com mais de um milhão de habitantes e três com

31 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


mais de trezentos mil” (NASCIMENTO, 2015, p. 15), e várias pequenas cidades com
baixa ou nenhuma infraestrutura de tratamento de esgoto e coleta de resíduos sólidos.
A abordagem da Amazônia como região recoloca os conceitos clássicos de região
natural (Pan-Amazônia) no plano internacional. Por outro lado, no âmbito restrito do
território brasileiro, existe tanto a possibilidade de entendimento da Amazônia a partir
da regionalização por meio das características naturais e da região fisiográfica (Amazônia
Clássica), como espaço político da ação, quanto a possibilidade de estudo da região geoe-
conômica (Amazônia Legal), como espaço de planejamento econômico. São concei-
tos caros à geografia, e pode-se sustentar que eles estão relacionados às duas dimensões
fundadoras do pensamento geográfico, que, segundo Horácio Capel (1985), podem ser
consideradas como “problemas-chave” e definidores da disciplina, quais sejam, o estudo
da relação homem-meio e o estudo da diferenciação do espaço na superfície terrestre.

4
O Brasil tem 453 garimpos ilegais na Amazônia, de acordo com a RAISG (Rede Amazônica de Informação
Socioambiental Georreferenciada). Em toda a bacia que se estende por nove países, em quase 7 milhões de km²,
são mais de 2.500 garimpos. Reportagem de Fernando Tadeu Moraes. (Jornal Folha de São Paulo, 10 dez. 2018).
Parte-se desses conceitos para tentar refletir sobre as espacialidades socialmente produzidas
na região amazônica, vistas como substrato da história dos homens.

Figuras 8 e 9. Mapas da Amazônia Legal e da Região Norte


32 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Figura 8. Fonte: https://suportegeografico77.blogspot.com/2019/08/amazonia-legal.html


Figura 9. Fonte: https://br.pinterest.com/pin/498562621236035367/

A Amazônia: região e espacialidade sócio-cultural-histórica

Os conceitos clássicos da região constituem-se nos dois aspectos-chave delineadores


do entendimento da Amazônia Brasileira. O primeiro está relacionado à dimensão da
natureza que torna a Amazônia como a principal região natural do mundo a partir da
segunda metade do século XIX. O segundo aponta para o entendimento da Amazônia
como produção de um espaço que vai se moldando em diferentes épocas, como resultado
das condições objetivas dos diversos sujeitos sociais em cada tempo e lugar.
Para além da Amazônia Legal e Região Norte, que serão tratadas noutra oportunidade,
aqui se pretende discutir a Amazônia como resultado do processo histórico, com espacia-
lidades e temporalidades diversas, que são ao mesmo tempo fragmentadas e articuladas,
antagônicas e complementares (CORRÊA, 1995). Muito mais do que pelos desígnios da
natureza, a Amazônia estrutura-se a partir da ação humana sobre o espaço, pela imposição
de diferenças que tornam os espaços complexos e diversos, mesmo quando produzidos no
mesmo tempo e lugar.
Não se trata do antagonismo natureza versus sociedade, mas de considerar as dimensões
humanas que produziram temporalidades múltiplas e articuladas, geradoras de espaciali-
dades, pois, como sustenta Massey (2008, p. 16), “se o tempo é a dimensão da mudança,
então o espaço é a dimensão do social: da coexistência contemporânea de outros”. Ou
seja, o espaço é a dimensão social não no sentido da sociabilidade exclusivamente humana,
mas da superação de fatores que interagem no processo de conformação de uma área vista
como região em que tudo é produzido socialmente, inclusive a natureza.
O entendimento da Amazônia como invenção concretiza-se a partir da socieda-
de portadora de múltiplas referências de tempos e de espaços e que resulta na seguinte
periodização espacial: Amazônia Indígena, Amazônia Espanhola, Amazônia Portuguesa
e Amazônia Brasileira. Não se trata de tempo linear nem cumulativo, mas de tempos

33 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


sobrepostos por diversos processos sociais. Imbrica-se uma geografia do tempo-espaço
(time-space geography) (GAMA, 2007) que dá expressão a condicionadores das interações.

A Amazônia Indígena
No período anterior ao que os europeus iniciaram o processo de colonização, o que
hoje é a Amazônia não era o vazio demográfico que quase sempre é considerado. Ao con-
trário, os estudos de demografia histórica, as recentes pesquisas arqueológicas e as novas
interpretações dos relatos dos primeiros cronistas demostram que havia grandes contin-
gentes humanos na região, o que permite seguir Eduardo Neves (2006), quando aponta
que é importante considerar a História Antiga da região pela riqueza dos povos que habi-
tavam especialmente as várzeas, o que possibilita estabelecer comparações com as histórias
regionais contemporâneas em outros lugares do mundo.
Neves sustenta que no século XV, quando os europeus iniciaram o processo de colonização
das Américas, a bacia amazônica já era densamente ocupada por diferentes povos indígenas há
pelo menos 11 mil anos. O autor sugere que, com os avanços nas pesquisas em arqueologia,
esse período se revelará, talvez, ainda maior. A ocupação não foi regular, tampouco cumulati-
va, com períodos de estabilidade e outros de mudanças bruscas. Já no início do século XVII,
quando começou efetivamente o processo de colonização portuguesa na foz do rio Amazonas,
há documentos que se referem a grandes aldeias com milhares de pessoas integradas à rede de
trocas comerciais e com complexas articulações políticas (NEVES, 2006).
No processo de superação da ideia de vazio demográfico, são recuperados os relatos
dos primeiros cronistas, especialmente os do frei dominicano Gaspar de Carvajal, que
participou como capelão e escrivão da primeira expedição espanhola de exploração do
rio Amazonas (1541-1542). A expedição era comandada por Francisco de Orellana, que
desceu o rio Amazonas desde o Equador até o Oceano Atlântico, quase um século antes de
os portugueses iniciarem a colonização da Amazônia. Os seus relatos nem sempre foram
reconhecidos, sendo por vezes considerados exagerados pela descrição de extensas aldeias
e de grande quantidade de índios e por levar o estigma de ter inventado “as amazonas
americanas”, que prejudicou a credibilidade de sua obra como um todo.
No relato de Carvajal, as aldeias, além de serem descritas como extensas, apresentavam
certa estrutura: “Uma aldeia muito grande e populosa com muitos bairros, cada qual com
desembarcadouro no rio (…) Havia lá uma praça muito grande e no meio da praça um
grande pranchão de dez pés quadrados pintado e esculpido em relevo figurando uma
cidade murada” (CARVAJAL, 1941, p. 49-51).
No século XVII, apesar da ação dos colonizadores, os relatos de Cristobal Acuña dão
conta que numerosos grupos indígenas habitavam a região. Seus escritos foram produzidos
quando os espanhóis desceram o rio Amazonas de Iquitos até a foz, por imposição do Vice-Rei
34 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

do Peru, com vistas a acompanhar o retorno da expedição portuguesa de Pedro Teixeira em


1639. Apesar de ter passado quase um século de contato em relação ao relato de Carvajal e de
várias entradas portuguesas e espanholas, a descrição mostra que ainda havia densa ocupação.
Às crônicas de Carvajal e de Acuña, acrescente-se os dados coletados pelo Padre Samuel
Fritz, que viveu no Alto Solimões entre 1686 e 1723. No final do século XVII, elaborou
o que é considerado o primeiro mapa da região, nomeou 38 aldeias e mapeou 22 delas
somente nas ilhas, além de relacionar mais 28 aldeias dos Omágua (FRITZ, 2006).
Os relatos dos religiosos e os dados arqueológicos são retomados nos trabalhos de
demografia histórica de William Denevan (2003), que fazem importantes sínteses dos
estudos demográficos e propõem estimativas das populações anteriores à chegada do colo-
nizador. Para a Amazônia, Denevan leva em conta a diferença entre as áreas de várzea e as
de terras firme, bem como o nível de ocupação das mesmas.
A ocupação a partir dos dois ambientes possibilitava diferentes práticas espaciais, o que
resultou na maior produção na várzea e maior estabilidade na terra firme. Na várzea, duran-
te os seis meses de vazante, havia a produção da agricultura de ciclo curto, especialmente a
mandioca, a captura de pescado, que garantia o abastecimento durante a enchente, quando
as populações retornavam para a terra firme, onde faziam a cultura permanente de frutíferas,
conforme se comprova nos estudos de William Ballé, que apontam: “pelo menos 12% da
floresta de terra firme da Amazônia brasileira parece ser antropogênica, isto é, de origem bio-
cultural que não teriam existido sem a interferência humana no passado” (BALLÉ, 1993, p.
231), bem como a existência de solos antropogênicos, conhecidos como terras pretas de índio.
A partir de metodologia que leva em conta a densidade por habitante e a diferença
de ocupação na várzea e na terra firme, Denevan estima a população indígena para toda a
Pan-Amazônia entre 5 e 6 milhões, para a bacia amazônica entre 3 e 4 milhões de habitan-
tes (DENEVAN, 2003, p. 187) e, especificamente para a várzea do Amazonas, um pouco
mais de 900 mil habitantes (DENEVAN, 1980, p. 28). No que concerne ao que é hoje a
Amazônia Brasileira, os dados arqueológicos mais recentes (NEVES, 2006) permitem inferir
que essa população ocupava a região há 11 mil anos, conforme as escavações da Caverna da
Pedra Pintada em Monte Alegre-PA, que revelaram as mais antigas cerâmicas datadas na
América do Sul. A datação neste local muda o entendimento de que a Amazônia era área
periférica da ocupação humana do continente sul-americano (NEVES, 1999-2000).
Os relatos dos cronistas, a Demografia Histórica e os estudos arqueológicos corroboram
com a perspectiva apontada por Moreira Neto de que a “ocupação” da Amazônia nos pri-
meiros séculos significou “uma forma peculiar de colonização que, longe de acrescentar
novos contingentes humanos à área, sangrava-a ininterruptamente em suas populações
indígenas” (1983, p. 17). A “ocupação”, na perspectiva do colonizador, teve início a partir
do século XVI, com as viagens dos primeiros espanhóis descendo o rio Amazonas, período

35 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


definido como o da Amazônia Espanhola.

Figura 10. Desenho da Amazônia tapaiônica e pré-colombiana, de Eduardo Neves.

Fonte: https://www.xapuri.info/acre/gente-floresta-ocupacao-pre-colombiana/
Figura 11. Rastros da ocupação humana na Amazônia pré-colombiana

Fonte: https://www.xapuri.info/acre/gente-floresta-ocupacao-pre-colombiana/

Figuras 12 e 13. Amazônia Indígena


36 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Figura 12. Fonte: https://img.socioambiental.org/d/766701-5/yanomami_pop_edit.jpg


Figura 13. Fonte: https://www.museu-goeldi.br/assuntos/imprensa/downloads/catalogo-ceramica-marajoara.pdf

A Amazônia Espanhola
No início da colonização, parte do interior oeste do que é hoje a Amazônia Brasileira
pertencia à Espanha por força do Tratado de Tordesilhas, de 1494. Além disso, há referências
(REIS, 1989; GADELHA, 2002; RIBEIRO, 2005) de que os primeiros europeus a chega-
rem à Amazônia foram os espanhóis, que estiveram na região antes das caravelas cabralinas
tocarem a costa brasileira. O primeiro foi Vicente Pizon, que, em fevereiro de 1500, apor-
tou na foz do Amazonas, denominado-o de rio Santa Maria de la Mar Dulce e, no mesmo
período, Diego de Lepe navegou na foz do Amazonas, denominando-o de rio Marañon.
O domínio geopolítico não significou colonização, e somente em meados do século
XVI os espanhóis, que haviam conquistado as terras Incas na Costa do Pacífico, buscaram
o domínio e a conquista do território para além da Cordilheira dos Andes. Para isso, orga-
nizaram expedições que navegavam no sentido oeste-leste, acompanhando a correnteza do
rio, o que era uma vantagem significativa para o meio de navegação da época. Organizaram
a primeira expedição de reconhecimento do rio Amazonas navegando desde Quito até a foz
(1541-1542) sob o comando do Capitão Francisco de Orellana, referida anteriormente.
A expedição teve impacto sobre o processo de colonização da Amazônia, em primeiro
lugar, por ter a Espanha considerado a área que corresponde ao rio Amazonas como lhe
pertencendo, ou à sua representação no Vice-Reinado do Peru, garantia contida no Tratado
de Tordesilhas. Tal consideração leva outros países europeus a criarem interesse pela exten-
sa área e a reavivarem “a crença da existência de países fabulosamente ricos perdidos nas
florestas equatoriais: o El Dorado, o Lago Paititi, a Gran Omagua, o País das Esmeraldas”
(PORRO, 1992, p. 11). Porro conclui que, do ponto de vista etnográfico, a importância
da expedição de Orellana e do relato que deixou frei Gaspar de Carvajal reside na descri-
ção dos povos indígenas antes que começassem a ser modificados seus modos de vida e
sofressem intenso extermínio decorrente do processo de colonização.
Ainda no século XVI (1560-1561), outra expedição espanhola foi organizada para
descer o rio Amazonas, mas foi marcada por vários problemas, o que resultou em muitos
percalços e pouco êxito. A expedição inicialmente foi comandada por Pedro de Ursúa, que
foi assassinado. Assumiu a chefia Fernando de Guzmán, que também malogrou, ficando
por fim o comando com Lope de Aguirre, que fez o percurso do Marañon ao Amazonas
até próximo do Atlântico, não conseguindo atingir a foz. Aguirre possivelmente se per-
deu entre os vários braços de rios e canais da foz do Amazonas, rumando em direção ao

37 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


norte até chegar às proximidades da ilha da Trindade, no litoral venezuelano (GADELHA,
2002), onde foi preso e enforcado.
O fracasso da expedição de Ursua e Aguirre e o fato de não encontrarem grandes
minas de ouro e prata nem o El Dorado coincidiram com a descoberta das jazidas de
prata do Potosi e a unificação das coroas ibéricas (1580-1640), acontecimentos apontados
por Ribeiro (2005) como motivadores do desinteresse da Espanha por organizar novas
expedições visando a explorar o rio Amazonas.
Quando da separação das coroas ibéricas em 1640, a “ocupação” dos espanhóis no
Vale do Amazonas não se estendia muito além da cidade de Quito. As exceções eram as
ações missionárias levadas a cabo por Samuel Fritz - padre jesuíta originário da Bohemia -,
as quais se localizavam na região do Alto Solimões -Marañon. A decisão de Samuel Fritz de
implantar as missões não se baseava apenas no fato de estar a serviço da Espanha, mas sim
porque ele acreditava ter o respaldo do Tratado de Tordesilhas, que estabelecia a área como
pertencente à coroa espanhola. Fritz viveu na região entre 1689 e 1723 e criou missões
“desde um pouco abaixo do Napo até a barra do rio Negro” (GARCIA, 2006, p. 23).
Figura 14. A trajetória de Orellana

Fonte: https://rutenorte.com/cronicas-de-viagens/amazonia/#toggle-id-4

Em fevereiro de 1709, o capitão Ignacio Corrêa, a serviço do governo do Pará, notificou


o padre Juan Baptista Sanna, que na ocasião substituía Samuel Fritz nas missões, que se
retirasse do Marañon e do Napo, porque aquelas terras, desde o porto de Santa Rosa,
pertenciam à Coroa Portuguesa. Houve reação dos espanhóis na Audiência de Quito,
mas, finalmente, em 1710, os portugueses organizaram uma expedição de “21 canoas com
130 soldados e 300 índios” (GARCIA, 2006, p. 45) e ordenaram a saída dos missioná-
rios espanhóis. O domínio português sobre o território foi se firmando e se consolidou
na segunda metade do século XVIII, tornando a área geográfica que estamos tratando, a
Amazônia Espanhola, restrita no tempo e no espaço, o que não significa reconhecer que
continuou a existir para outros lugares da Amazônia.
38 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Figuras 15 e 16. Versões sobre a rota da expedição de Pinzon e Mapa do rio


Maranhão ou Amazonas feito por Samuel Fritz.

Figura 15. Fonte: https://img.travessa.com.br/capitulo/ESTACAO_BRASIL/NAUFRAGOS_


TRAFICANTES_E_DEGREDADOS_AS_PRIMEIRAS_EXPEDICOES_AO_BRASIL-9788556080042.pdf
Figura 16. Fonte: https://www.wdl.org/pt/item/1137/
Amazônia Portuguesa
Foi durante a União da Coroa Ibérica (1580-1640) que Portugal iniciou o processo de
colonização da Amazônia, especificamente em 1616, quando Francisco Caldeira Castelo Branco,
o capitão-mor, português do Maranhão, chegou à baia de Guajará, onde criou uma fortaleza que
denominou de Forte do Presépio, e no entorno foi se erguendo a vila de Santa Maria de Belém,
na área que inicialmente foi chamada de Feliz Lusitânia, depois Grão-Pará e, finalmente, Pará.
A estratégia era a ocupação da foz do Amazonas, afastando qualquer possibilidade
de invasores estrangeiros, especialmente ingleses, franceses e holandeses, que passaram
a ocupar a área ao norte da foz. Em decorrência, até o início do século seguinte, a “ocu-
pação” portuguesa se limitou à parte litorânea, pouco se estendendo para o interior da
região. Como parte dessa estratégia de consolidação do território, em 1621, o Conselho
Ultramarino criou o Estado do Maranhão, que se instalou no ano de 1623, com sede na
cidade de São Luís, que havia sido conquistada dos franceses em 1615.
A estratégia portuguesa para garantir a posse e a expansão do território durante todo o
século XVI e na primeira metade do século XVII foi:
1. As expedições militares que partiam do Forte do Presépio adentrando o interior;
2. A criação de fortes como estratégia de defesa, de povoados e mais tarde de vilas
como locus do projeto colonizador;
3. As missões religiosas, cujas congregações se espacializavam tendo como base a calha dos rios.
Antes disso, houve tentativas de “ocupação”, no início do processo de colonização
portuguesa, logo após a criação do forte (1616) e a implantação do Estado do Maranhão

39 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


(1621), com a concessão de sesmarias e a criação de capitanias hereditárias. Foram cria-
das seis capitanias hereditárias: em 1627, a capitania de Caeté, no rio Gurupi, doada a
Feliciano Coelho de Carvalho e mais tarde repassada a Álvaro de Souza; Feliciano Coelho
de Carvalho também recebeu a capitania de Cametá e mais tarde, em 1633, a capitania
de Gurupá; em 1634, a capitania do Cabo Norte foi doada a Bento Maciel Parente, e a
capitania de Joanes, no Marajó, foi doada a Antônio de Sousa Macedo; por fim, em 1681,
a última capitania, a do Xingu, foi doada a Gaspar de Sousa de Freitas (RIBEIRO, 2005).
Consolidados o Forte do Presépio e a construção da vila ao seu redor, os portugueses
iniciaram o processo de ampliação do território, usando como estratégia as expedições milita-
res. A primeira delas, e talvez a mais importante, foi a de Pedro Teixeira, que foi organizada a
partir da surpresa da chegada a Belém, em 1637, de dois missionários franciscanos que haviam
descido o rio Amazonas desde Quito. A chegada dos dois missionários precipitou a organização
da expedição, que partiu do forte no final do ano de 1637, contando com 70 canoas, 20 rema-
dores em cada, efetivo militar de 70 soldados e 1.200 índios guerreiros e flecheiros que eram
acompanhados por mulheres e filhos, num total próximo de 2.000 pessoas (BENTO, 2003).
A expedição seguiu pelo rio Amazonas fazendo o caminho inverso dos espanhóis,
navegando de jusante para montante, contra a correnteza, até atingir o rio Napo e chegar à
cidade de Quito dez meses depois (PORRO, 1992), com ordens expressas do governador
do Estado do Maranhão, à época da partida da expedição, Jácome Raimundo Noronha, de
“reconhecer minudentemente o rio Amazonas, identificar portos para serem fortificados,
assegurar boas relações com as populações indígenas e implantar, em área próxima às terras
dos Omágua, uma povoação portuguesa” (RIBEIRO, 2005, p. 47).
No retorno, em agosto de 1639, na confluência dos rios Napo e Aguarico, Pedro Teixeira
fundou a povoação Franciscana e solenemente tomou posse, de modo estratégico, em nome
do rei da Espanha. Quando ocorreu a separação das duas coroas, os portugueses consideraram
o limite oeste com a Espanha a partir do marco posto por Pedro Teixeira (RIBEIRO, 2005).
Da povoação não há informações posteriores nem há qualquer vestígio, sendo discutida a “au-
tenticidade do ‘Auto de Franciscana’”, divulgada por Bernardo Berredo no século XVIII, que
a copiou dos arquivos de Belém, onde já não mais se encontra” (GOES FILHO, 2016, p. 32).
A partir da viagem de Pedro Teixeira, começou o processo de colonização propriamente
dito e de consolidação do território que culminou com o Tratado de Madrid em 1750.
Foi criado, por meio da carta régia de 2 de agosto de 1654, o Estado do Maranhão e
Grão-Pará. Porém, para garantir o domínio sobre o território, estruturam-se as missões
religiosas, iniciaram a criação dos fortes e povoados e, de modo transverso, foi viabilizada
a exploração das “drogas do sertão”, que, para ser concretizada, necessitava da força de tra-
balho indígena, utilizada com as funções de remeiros, caçadores, pescadores, extrativistas,
além de atuantes em trabalhos de construção dos fortes e casas.
40 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Uma das estratégias portuguesas para a ocupação do território foi o estabelecimento


de missões religiosas. Adélia Engrácia de Oliveira, usando documentos e obras dos séculos
XVII e XVIII, mostra que os primeiros a chegar foram os Franciscanos da Província de
Santo Antônio, em 1616, para atuar no Cabo Norte, no Baixo Amazonas, em Trombetas,
na Ilha do Marajó e em Tocantins. Em seguida, chegam Carmelitas, em 1626, e passam
a atuar na bacia do rio Negro, do Solimões, do rio Xingu, em localidades próximas a
Belém e à Ilha do Marajó. Os Mercedários chegaram em 1639 ou 1640 e atuaram no rio
Negro e na Ilha do Marajó. Depois os Jesuítas, que chegaram em 1653, atuaram no Cabo
Norte, no Baixo e Médio Amazonas, em Bragantina, na Ilha do Marajó, em Tocantins,
no Xingu, no Madeira, no rio Negro, no rio Branco, no Tapajós e em limites do Pará com
o Maranhão. Por fim, chegaram os Capuchos de São José ou da Piedade, em 1692, para
atuar no Baixo e Médio Amazonas, no Cabo do Norte e em Tocantins. E já no século XIII,
os Capuchos da Conceição da Beira e Minho, que chegaram em 1706 e atuaram no Cabo
do Norte e na Ilha do Marajó (OLIVEIRA, 1988, p. 75-78).
Figura 17. Amazônia Portuguesa

Fonte: REIS FILHO, Nestor Goulart.

Também foram criados fortes e, a seu redor, foi construído o aldeamento ocupado
por índios que passavam pelos processos de descimento, resgates ou guerras justas. Os
fortes começaram a ser construídos e implantados no século XVII, especialmente a partir
da criação do Estado do Maranhão e Grão-Pará, sem vínculo com o restante do Brasil e
subordinado diretamente à coroa portuguesa. No século XVI, os fortes se concentravam

41 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


na calha do rio Amazonas, da foz até o rio Negro, tendo sidos construídos na seguinte
ordem: Forte do Presépio ou Forte do Castelo – 1616; Forte de Santo Antônio de Gurupá
– 1623; Fortaleza de São José da Barra do Rio Negro – 1669; Forte de Nossa Senhora do
Bom Sucesso do Paru ou Forte da Vila de Almeirim – 1680; Forte de Santo Antonio dos
Pauxis de Óbidos – 1685; Fortaleza do Tapajós no Santarém - 1697.
No século XVIII, os fortes foram sendo construídos no sentido do interior da fronteira
a oeste, visando à defesa contra os espanhóis, e ao norte da calha do grande rio para a defesa
contra os ingleses, holandeses e franceses. Como parte desta estratégia, foram construídos
os fortes de Nossa Senhora da Conceição ou Forte de Bragança/RO (1754), Forte de São
Gabriel (1761), Fortaleza de São José de Macapá (1764), Forte de São Francisco Xavier de
Tabatinga (1766), Forte de São Joaquim do Rio Branco (1775) e Real Forte Príncipe da
Beira (1776) (REIS, 1959 e 1989; SARAGOÇA, 2000; TAVARES, 2007; COSTA, 2015).
A criação dos fortes, iniciada no século XVII, revela a estratégia portuguesa para
a conquista do território, sendo o ponto de apoio para a interiorização da região, até
atingir, em meados do século XVIII, a parte mais a oeste com a construção do forte de
São Francisco Xavier de Tabatinga, situado a 3.500 quilômetros da foz do rio Amazonas,
consolidando a fronteira ocidental da Amazônia Portuguesa.

Figuras 18 e 19. Fortificações e vilas da Amazônia Portuguesa

Figuras 18 e 19. Fonte: REIS FILHO, Nestor Goulart

O processo de expansão da Amazônia Portuguesa ocorreu com a garantia do território


por meio do Tratado de Madrid (1750), mas a consolidação só se concretizou com a
criação de vilas e cidades enquanto locus de entrada na região do novo, da implanta-
ção de organizações coloniais de poder do Estado e da igreja, e de saída de produtos
oriundos do extrativismo. Esse processo começou com a criação das duas primeiras
cidades no século XVII, São Luís do Maranhão, fundada em 1612 pelos franceses, como
Daniel de la Touche, por ocasião da fracassada tentativa de estabelecimento da “França
42 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Equinocial”, a qual foi tomada pelos portugueses, em 1615; e Santa Maria de Belém do
Grão-Pará ou Nossa Senhora de Belém, fundada em 1616 na baía do Guamá, nas cerca-
nias do Forte do Presépio. Às duas cidades se sucede a criação das primeiras vilas: Sousa de
Caeté, em 1634; Viçosa da Santa Cruz de Cametá, em 1637; Gurupá, em 1637; e Nossa
Senhora de Nazaré da Vigia, em 1693; além de 70 estabelecimentos, distribuídos entre
aldeamentos de índios descidos e missões religiosas (AZEVEDO, 1956; ARAÚJO, 1998).
Ao término do século XVII, as ocupações portuguesas concentravam-se na área litorânea
a leste, ao redor da foz do rio Amazonas. As primeiras tentativas de ocupação portuguesa
para o interior da região ocorreram na segunda metade do século XVII, em 1659, quando
dois missionários jesuítas entraram em contato com os índios do rio Negro, reunindo-os
numa missão localizada possivelmente na foz do rio Tarumã. A missão foi abandonada dois
anos depois e, enquanto permaneceu ativa, serviu como ponto de apoio ao descimento de
índios, “600 no primeiro ano e mais 700 um ano depois” (BARROS apud MOREIRA
NETO, 1983, p. 16), todos levados para a cidade de Belém, com significativo impacto
demográfico, visto que a cidade, à época, era um aglomerado de 2.500 pessoas.
Na primeira metade do século XVIII, o processo de criação de novas vilas pelos
portugueses continuou lento, e a ação mais expressiva foi a expulsão dos missionários je-
suítas espanhóis que tinham criado e dirigiam os aldeamentos no Oeste, no Médio e Alto
Solimões. Os portugueses dominaram as missões e se apoderaram das vilas e povoados,
entregando-os aos cuidados dos missionários carmelitas, e estes as transformaram nas vilas
de “Fonte Boa, Coari, Tefé e São Paulo de Olivença” (REIS, 2006, p. 133). Em 1743, um
cientista francês, ao passar pela região, descreveu a situação no Solimões: “Coari é o últi-
mo dos seis povoados dos missionários carmelitas portugueses, cinco dos quais formados
a partir dos destroços da antiga missão do padre Samuel Fritz e compostos de um grande
número de diversas nações, a maioria transplantada” (LA CONDAMINE, 1992, p. 73).
Na primeira metade do século XVIII, toda a área que corresponde à Amazônia já estava de
fato sob a posse e o domínio de Portugal, que continuou com a estratégia de criação dos aldea-
mentos indígenas e missionários como base para a criação, a partir de 1750, de vilas visando a
transformar o Vale do Amazonas em parte do seu extenso Império colonial (COELHO, 2008).

Figuras 20 e 21. Mapa de expedições militares no rio Amazonas oriundas de Belém do


Grão-Pará e Viagem de ida e volta de Pedro Teixeira entre Belém e Quito.
Imagem de Ribeiro.

Figura 20. Fonte: https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/questoes/fe171392-fe 43 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento
Figura 21. Fonte: https://docplayer.com.br/76582831-Defesa-e-soberania-na-amazonia-um-estudo-sobre-
-o-sipam-sivam.html

No ano de 1750, D. José I nomeou para o Conselho do Rei a Sebastião José Carvalho
e Melo – Marquês de Pombal –, que, em seguida, no ano de 1756, passou a ser o Secretário
de Estado dos Negócios do Reino. Considerado um déspota esclarecido e ilustrado, impôs
o modo de governar característico do século XVIII: o absolutismo arbitrário ou opressor
(LUÍS, 1984), e se transformou na principal figura da corte em todo o reinado de Dom José I.
No caso específico do que é hoje a Amazônia, foram adotadas medidas que modificaram
o processo de colonização na parte do interior ocidental da região. A primeira medida foi
estruturar o território: o Estado do Maranhão, criado em 1621, e que havia sido trans-
formado em Estado do Maranhão e Grão-Pará (1654), foi transformado em Estado do
Grão-Pará e Maranhão (1751), com sede em Belém, sendo nomeado como seu primeiro
governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado, que iniciou a política de efetiva “ocu-
pação” da Amazônia Portuguesa. Pode-se afirmar que “o ministro e seu irmão pretendiam
‘restaurar’ a abandonada selva amazônica e tirar do obscurantismo os seus habitantes”
(ARAÚJO, 1998, p. 107), inserindo definitivamente a região no modelo mercantilista de
exploração dos recursos naturais e de criação de mercado para produtos manufaturados.

Figura 22. Fortins, aldeias missionárias e extração das “drogas do sertão”


na Amazônia Portuguesa

Fonte:http://www.terrabrasileira.com.br/indigena/contatos/140mission.html
44 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Entre 1755 e 1760, em toda a região, desde a foz até a fixação do limite com a Espanha, a
oeste, na foz do rio Javari, quarenta e seis aldeias e missões foram elevadas à categoria de vila,
e vinte e três lugares foram criados (CORRÊA, 2006; ARAÚJO, 1998; OLIVEIRA, 1988).
Com o retorno de Mendonça Furtado a Portugal em 1758, assumiu o governo do Estado
do Grão-Pará e Maranhão o Senhor Manuel Bernardo de Melo e Castro, enquanto Joaquim
de Melo e Póvoas continuou como governador da Capitania de São José do Rio Negro, o
qual fundou mais oito vilas. Seguiram-se outros governos, mas sem o mesmo ímpeto de
criação de vilas. Em 1777, a Capitania de São José do Rio Negro contava com dezessete vilas
e vinte e três povoações, com uma população não indígena da ordem de 1.476 habitantes.
No final do século XVIII, estava consolidada, do ponto de vista do território, a
Amazônia Portuguesa. Os povoados e vilas localizavam-se de modo disperso no sentido li-
near, estendendo-se da foz do rio Amazonas a leste, penetrando em direção a oeste cerca de
três mil quilômetros até a vila de São Francisco Xavier de Tabatinga, no Alto Solimões, na
fronteira com áreas então sob o domínio da Espanha. A direção leste-oeste do povoamento
acompanhava a calha do rio Amazonas/Solimões e contrastava com a pouca densidade da
ocupação portuguesa no sentido norte/sul, mas possuindo alguma importância ao norte,
no Vale do rio Negro, as vilas e povoados, que se estendiam ao rio Branco; no entanto, ao
sul, havia pouca expressividade, limitando-se a importância à vila de Borba e ao povoado
São Francisco de Crato, no vale do rio Madeira.
A Amazônia Portuguesa consolidou a rede de cidades inicialmente dispersas às margens
dos grandes rios que, de certo modo, compõem o que se denomina de cidades ribeirinhas.
O processo de criação destas cidades não se deu ao acaso, mas refletiu o urbanismo ado-
tado em Portugal, com as adaptações inerentes às especificidades do lugar. O movimento
que culminou na unificação do território nacional por conta da Independência reestrutu-
rou a última fase da periodização espacial da Amazônia, que iniciou, nas primeiras décadas
do século XIX, a Amazônia Brasileira.

Figuras 23 e 24. Conquista e consolidação do território

45 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


Figuras 23 e 24. Fonte: Renata Malcher de Araújo,1998.

Amazônia Brasileira
A partir de 1822, acentua-se o que viria a ser chamado de a Amazônia dos tempos lentos,
da história do atraso que vai conformar a região como periferia. Contraditoriamente, a re-
gião amazônica foi inserida nos movimentos de tempos rápidos quando foram criadas as
condições para o processo de unificação do território nacional. Tais condições davam-se no
espaço pela introdução do navio a vapor (1853) e por causa da abertura do rio Amazonas
à navegação internacional (1866), fatores que demarcaram o período, determinaram o
espaço político da Amazônia Brasileira e possibilitaram o primeiro surto econômico da
Amazônia, a exploração da borracha natural.
A extração do látex possibilitou a exploração extensiva dos seringais, que resultou no
boom econômico, dando nova face à região ao ser inserida no circuito da circulação e re-
produção do capital como fornecedora de matéria-prima importante no desenvolvimento
dos pneumáticos, fundamentais à indústria automobilística nascente. Como consequên-
cia, avançou o processo de exploração de uma riqueza natural, tendo sido incorporadas
novas áreas ao processo produtivo dos seringais e, à medida que avançava na direção dos
altos rios, o processo de exploração do látex “ia ocupando” espaços que antes estavam sob
o domínio das populações indígenas, os quais foram incorporados ao território nacional.
A produção da borracha e o crescimento de sua demanda externa, ocorridos nas últimas
décadas do século XIX e nas primeiras do século XX, de um lado, representaram grande
crescimento econômico, de outro, acentuaram as características da sociedade local, que, do
ponto de vista econômico, se contentava com a atividade baseada exclusivamente na extra-
ção de produtos naturais e na sua exportação. Nas relações de trabalho, predominava a “lei
da selva”, pois a jornada de trabalho do seringueiro começava na madrugada e encerrava ao
anoitecer, estendendo-se por cerca de 15 horas diárias (BRASIL – Banco da Amazônia, 1967).

Figuras 25 e 26. Estado do Grão-Pará e Estado do Brasil, colônias de Portugal e Divisão


política do Brasil durante o Império
46 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Figura 25. Fonte: http://drjosiascavalcante.com.br/site/historia/os-dois-brasis-coloniais/


Figura 26. Fonte: http://obshistoricogeo.blogspot.com/2016/06/resumo-brasil-imperio.html

A maneira como se desenvolveu espacialmente a atividade de extração do látex, dispersa


e isolada nos altos vales dos rios, contribuiu para a existência de vínculos quase que exclu-
sivos do seringueiro com o barracão e restringiu as possibilidades da utilização do dinheiro.
Em decorrência, generalizou-se o aviamento como meio de troca nos seringais, contribuindo
para a imposição da hierarquia do poder existente, reforçando e garantindo a dependência
do seringueiro ao barracão, do seringalista à casa aviadora e do aviador às casas exportadoras.
O boom da borracha perdurou até 1912 e possibilitou, com todas as contradições
apontadas (MESQUITA, 1997; DIAS, 1999; OLIVEIRA, 2003), que a cidade passasse
por significativo processo de modernização, resultado dos efeitos imediatos da exploração
e da exportação do látex como principal produto, que se completava com outros pro-
dutos de origem extrativista. Esta característica da economia da Amazônia está inserida
na transição da economia brasileira do século XIX para o século XX, que se baseou na
produção agrícola compartimentada e distribuída pelas várias regiões do Brasil. Como
assinala Caio Prado Júnior (1978), cada uma das regiões passou a desenvolver a monocul-
tura de maneira isolada e a produzir quase que exclusivamente para a exportação, fatores
que demarcaram e consolidaram a Amazônia Brasileira que, a partir de 1912, passou por
uma crise apenas amenizada no final da década de 1930, com a tentativa de retomada da
produção da borracha para atender à demanda externa decorrente do bloqueio dos serin-
gais asiáticos. O período de exploração do látex a partir de 1930, chamado de “batalha da
borracha”, teve efeito efêmero até o surgimento da política de integração da Amazônia,
efetivado nos anos 60, a qual determinou a produção de diferentes formas espaciais que
possibilitaram o desenvolvimento de novas atividades econômicas, as quais, porém, se
chocaram com as relações de produção até então existentes e transformaram a ideia de que
a Amazônia era uma região-problema para a ideia de que a região se constituía em “vazio
demográfico”. Com isso, foram viabilizados projetos de “desenvolvimento regional” cuja
meta era a “ocupação” da região para integrá-la ao restante do Brasil, o que significa que
a região passaria da situação de decadência para a de ascensão econômica. Este processo
ainda não se concluiu e já está em crise, questão que demarca uma nova espera a respeito
de políticas de desenvolvimento viáveis para a Amazônia.

Breve consideração final: Para além do caráter ambiental, os fatores


sócio-cultural-histórico

47 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


O entendimento a respeito da Amazônia aqui esboçado é e segue além da aborda-
gem sócio-cultural-histórico, para considerar essa região sob o aspecto explicitamente geo-
gráfico, a saber, sua inserção na natureza e na sociedade. Neste sentido, a dimensão da
Amazônia e suas múltiplas culturas estabelecem certo nível de legitimidade quanto a sua
existência e a seu reconhecimento espacial. Acolhe-se o pensamento de Wanderley Messias
da Costa (2018), que sustenta ser a Amazônia uma região estratégica do ponto de vista
geopolítico pela extensão e biodiversidade da maior bacia hidrográfica e da maior floresta
tropical do mundo. À biodiversidade acresce-se a sociodiversidade relativa às várias nações
indígenas, aos povos ribeirinhos e aos povos da floresta que se juntam a grandes contingen-
tes habitacionais a viverem nos centros urbanos dos nove países que formam a Amazônia.
Portanto, mais do que aspectos da natureza que servem para se estabelecer sua extensão, a
Amazônia precisa cada vez mais ser considerada como uma região sócio-cultural-histórica
e ambiental, concepção complexa que ultrapassa aquela última dimensão, a ambiental,
pois a Amazônia se estabelece por meio do domínio da cultura.
Referências

ARAÚJO, Renata Malcher de - As cidades na Amazônia no século XVIII. Porto: Universidade do


Porto, 1998.
AZEVEDO, Aroldo de. Vilas e cidades do Brasil Colonial. São Paulo: FFCL, Boletim 208, 1956.
BALÉE, William. Indigenous transformation of amazonian forest: an example from Maranhão,
Brazil. L’Homme, n. 126-128, Année 1993. p. 231-254. Disponível: https://www.persee.fr/
doc/hom_0439-4216_1993_num_33_126_369639. Acesso: 16 jan. 2019.
BARÃO DO MARAJO. Amazônia e as Províncias do Pará e do Amazonas e o governo central do
Brazil. Lisboa: Typographia Minerva, 1883.
BENTO, Cláudio Moreira. Amazônia Brasileira conquista, consolidação e manutenção - História
Militar terrestre da Amazônia1616-2003. Porto Alegre: Academia de História Militar e
Terrestre do Brasil, 2003. Disponível:http://www.ahimtb.org.br/LIVRO_AMAZONIA.htm
Acesso: 21 jan. 2019.
BRASIL - Banco da Amazônia e Universidade Federal do Pará. Desenvolvimento Econômico da
Amazônia. Belém, 1967. (Coleção Amazônica – série Augusto Montenegro).
CAPEL, Horácio. Filosofía y ciencia en la geografía contemporánea. Barcelona:Barcanova, 1985.
CARVAJAL, Gaspar de; ROJAS, Alonso e ACUÑA, Cristobal da. Descobrimento do Rio Amazonas.
Traduzido e anotado por C. de Melo-Leitão. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional,
1941. (Coleção Brasiliana, v. 203).
CHAMBOULEYRON, Rafael. Plantações, sesmarias e vilas. Uma reflexão sobre a ocupação da
Amazônia seiscentista. Nuevo Mundo Mundos Nuevos [En ligne], Débats, mis en ligne le 14 mai
2006. Disponível: URL: http://journals.openedition.org/nuevomundo/2260; DOI: 10.4000/
nuevomundo.2260. Acesso: 17 jan. 2019.
COELHO, Mauro Cezar. O imenso Portugal: vilas e lugares no vale amazônico. Revista Territórios
48 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

e Fronteiras, UFMT, v.1 n.1 – jan./jun. 2008. Disponível: https://dialnet.unirioja.es/descarga/


articulo/4807312.pdf. Acesso: 21 jan. 2019.
CORRÊA, Roberto Lobato. Espaço, um conceito-chave da Geografia In: CASTRO, Iná e outros.
Geografia: conceito e temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. 13-47.
CORRÊA, Roberto Lobato. A periodização da rede urbana na Amazonia. In: Estudos sobre a rede
urbana. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006. 181-253.
COSTA, Graciete Guerra da. Fortes portugueses na Amazônia brasileira. Trabalho de Pós-doutora
(Relações Internacionais) Instituto de Relações Internacionais, Universidade de Brasília - UnB,
Brasília, 2015. Disponível:  http://repositorio.unb.br/handle/10482/21809. Acesso: 21 jan 201
COSTA, Wanderley Messias da. Prefácio. In: NUNES, Paulo Henrique Faria. A institucionalização
da Pan-Amazônia. Curitiba: Editora Prismas, 2018.
DENEVAN, William M. La población aborigen de la Amazonía en 1492, Amazonía Peruana, vol.
III, n. 5, junio 1980. p. 3-41. Digitalizado en El CENDOC - CAAAP. Disponível: http://
www.caaap.org.pe/RevistaAmazonia/AmazoniaPeruanaN%C2%B05.pdf. Acesso: 8 jan. 2019.
DENEVAN, William M. The native population of Amazonia in 1492 Reconsidered. Revista de
Indias, 2003, vol. LXIII, n. 227, 175-188. Disponível: http://revistadeindias.revistas.csic.es/
index.php/revistadeindias/article/viewFile/557/624. Acesso: 28 dez. 2018.
DIAS, Edinea Mascarenhas. A ilusão do Fausto - Manaus 1890 - 1920. Manaus: Editora Valer, 1999.
FRÉMONT, Armand. La région, espace vécu. Paris: Presses Universitaires de France, 1976.
FRITZ, Samuel. O diário do Padre Samuel Fritz. Manaus: EDUA; Editora da Faculdade Salesiana
Dom Bosco, 2006. (Edição fac-símile) p. 64-122.
GADELHA, Regina Maria A. Fonseca. Conquista e ocupação da Amazônia: a fronteira Norte do Brasil.
Revista Estudos Avançados. vol.16 no. 45 São Paulo, mai-aug 2002. On-line version. Disponível:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142002000200005. Acesso:
09 jan. 2019.
GAMA, António. Uma revisitação à Time-space geography: a geografia do tempo e a teoria social.
In: Geophilia: o sentir e os sentidos da Geografia. Homenagem a Jorge Gaspar. Lisboa: Centro
de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa, 2007. p. 99-112.
GARCIA, Rodolfo. Introdução. In: PINTO, Renan Freitas (org.) O diário do Padre Samuel Fritz.
Manaus: EDUA; Editora da Faculdade Salesiana Dom Bosco, 2006. p. 12-63.
GARFIELD, Seth. A Amazônia no imaginário norte-americano em tempo de guerra. Rev. Bras.
Hist., São Paulo, v. 29, n. 57, p. 19-65, junho 2009. Disponível: http://www.scielo.br/scielo.
php script=sci_arttext&pid=S0102-01882009000100002&lng=en&nrm=iso. Acesso: 18 jun.
2019. 2019. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-01882009000100002.
GOES FILHO, Synesio Sampaio. O contexto histórico da viagem de Pedro Teixeira. In: LIMA,
Sérgio Eduardo Moreira e COUTINHO, Maria do Carmo Strozzi (org.). Pedro Teixeira, a
Amazônia e o Tratado de Madri. Brasília: FUNAG, 2016. p. 27-42.
GONDIM, Neide. A invenção da Amazônia. São Paulo: Marco Zero, 1994.
HOERNER, Jean-Michel. Géopolitique des territoires: de l’espace approprié à la suprématie des

49 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


Etats-Nations. Perpignan: Presses Universitaires de Perpignan, 1996.
IMAZON - Desmatamento: Pan-Amazônia perdeu território do tamanho de Rondônia. IMAZON,
2015, Portal Amazônia, com informações de O Eco. Disponível: http://portalamazonia.com/noti-
cias/desmatamento-pan-amazonia-perdeu-territorio-do-tamanho-de-rondonia. Acesso: 12 jan. 2019.
KRENAK, Ailton. “Antes, o mundo não existia.” In: NOVAES, Adauto. Tempo e História. São Paulo:
Companhia das Letras, 1992. Disponível em: https://leiaufsc.files.wordpress.com/2017/03/
krenak-1994.pdf. Acesso em: 30 de junho de 2019.
LA CONDAMINE, Charles-Marie de. Viagem pelo Amazonas, 1735-1745, Rio de Janeiro: Nova
Fronteira; São Paulo: EDUSP, 1992.
LANA, Firmiano Arantes e LANA, Luiz Gomes. Antes o mundo não existia: mitologia dos antigos
Desana-Kêhíripõrã. 2. ed. São João Batista do Rio Tiquié: UNIRT; São Gabriel da Cachoeira:
FOIRN, 1995. 264 p. (Coleção Narradores Indígenas do Rio Negro).
LUÍS, Augustina Bessa. Sebastião José. 2. ed. Lisboa: Casa da Moeda, 1984.
MASSEY, Dorean. Pelo espaço: uma política da espacialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008.
MENDES, Armando. A invenção da Amazônia. Belém: UFPA, 1974. Coleção Amazônia - Série
Tavares Bastos.
MESQUITA, Otoni Moreira de. Manaus: História e Arquitetura - 1890-1910. Manaus: Editora da
Universidade do Amazonas, 1997.
MORAES, Fernando Tadeu Moraes. Amazônia brasileira abriga 453 garimpos ilegais, mostra estu-
do. Jornal Folha de São Paulo, São Paulo, 10 de dezembro de 2018. Disponível: https://www1.
folha.uol.com.br/ambiente/2018/12/amazonia-brasileira-abriga-453-garimpos-ilegais-mos-
tra-estudo.shtml. Acesso: 11 jan. 2019.
MOREIRA NETO, Carlos Araújo. Introdução. In: FERREIRA, Alexandre Rodrigues. Viagem
filosófica ao rio Negro. Belém: Museu Goeldi, 1983, p. 13-42.
MOREIRA, Eidorfe. Amazônia - o conceito e a paisagem. 9. ed. Rio de Janeiro: SPVEA, 1960.
(Coleção Araújo Lima).
NASCIMENTO, Fernanda Souza do. Manejo Integrado e Sustentável dos recursos hídricos trans-
fronteiriços da bacia do rio Amazonas considerando a variabilidade e a mudança climática.
Relatório Final. OTCA/GEF/PNUMA GEF-Amazonas. Brasília: 2015.
NEVES, Eduardo. O novo e o velho na arqueologia amazônica. REVISTA USP, São Paulo, n.44,
p. 86-111, dez. fev. 1999-2000
NEVES, Eduardo. Arqueologia da Amazônia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.
OLIVEIRA, Adélia Engrácia de. Amazônia: modificações sociais e culturais decorrentes do pro-
cesso de ocupação humana (século XII ao XX). Boletim Museu Paraense Emílio Goeldi. Série
Antropologia, 4(11), 1988. 65-116.
OLIVEIRA, José Aldemir de. Manaus de 1920 - 1967: cidade doce e dura em excesso. Manaus:
Governo do Estado do Amazonas; Livraria Valer, 2003.
PRADO JUNIOR, Caio. História econômica do Brasil. 21. ed. São Paulo: Brasiliense, 1978.
PORRO, Antonio. As crônicas do Rio Amazonas, Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1992.
RECLUS, Élisée. Nouvelle Géographie Universelle. La Terre et les Hommes. Amérique du Sud.
L’Amazonie et La Plata. Paris: Librairie Hachette, 1894. Tome XIX.
50 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

RIBEIRO, Nelson de Figueiredo. A questão geopolítica da Amazônia: da soberania difusa à soberania


restrita. Brasília: Senado Federal, 2005.
REIS, Arthur Cézar Ferreira. História do Amazonas. 2. ed. Belo Horizonte: Itatiaia; Manaus:
Superintendência Cultural do Amazonas, 1989 (1. ed. 1931).
REIS, Arthur Cézar Ferreira. A expansão portuguesa na Amazônia nos séculos XVII e XVIII. Rio
de Janeiro: SPEVEA, 1959.
REIS, Arthur Cézar Ferreira. A catequese espanhola - Fritz. In: PINTO, Renan Freitas (org.) O
diário do Padre Samuel Fritz. Manaus: EDUA; Editora da Faculdade Salesiana Dom Bosco,
2006. p. 131-142.
SANTA-ANNA NERY, M. Frederico Jose de. Le Brésil en 1889. Paris: Librairie Charles Delagrave,
1889. Disponível: https://www.issuu.com/scduag/docs/bresilen1/6. Acesso: 10 mar. 2019.
SARAGOÇA, Lucinda, Da “Feliz Lusitânia” aos confins da Amazónia, Lisboa, Edições Cosmos, 2000.
TAVARES, Maria Goretti da Costa. Geopolítica portuguesa, controle e formação territorial na
Amazônia dos séculos XVII-XVIII: os fortes, as missões e a política pombalina. Anais do VI
Congresso da Geografia Portuguesa. Lisboa, 17-20 out. 2007. Disponível: http://www.apgeo.pt/
files/docs/CD_VI_Congresso_APG/actas/_fich/41-M._Goretti_Tavares_-_Geopol%EDtica_
portuguesa,_controle_e_forma%E7%E3o_territorial....pdf. Acesso: 20 jan. 2019.
Actividade de campo, paisagem
e interdisciplinaridade, na Chapada do
Arapipe, Semiárido Brasileiro

Bartolomeu Israel de Souza


(PPGG-UFPB)
Rafael Albuquerque Xavier
(PPGDR-UEPB)
Rubens Teixeira de Queiroz
(DSE-UFPB)
Dirce Maria Antunes Suertegaray
(POSGEA-UFRGS e PPGG-UFPB)
Pedro Vianna
(PPGG-UFPB)
José João Lellis Leal de Souza
(PPGG-GEOCERES-UFRN)

51 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


Introdução

O presente texto constitui uma narrativa de uma parcela do bioma Caatinga. É produto
de um trabalho de campo, realizado de forma interdisciplinar, com o objetivo de explici-
tar, de forma integrada, as diferentes paisagens que caracterizam o transecto em análise.
Metodologicamente, o ponto de partida é a observação da paisagem e a subsequente descri-
ção dos elementos selecionados para sua análise, tomando como referência a observação em
campo, em confronto com as pesquisas já elaboradas, na área, no que se refere à geologia, à
geomorfologia, à biogeografia, à hidrogeografia, à botânica, à pedologia e à geografia.
A pergunta que foi estrutura, para a finalidade desta pesquisa, é: quais os condicio-
namentos físicos/naturais, que, associados, explicam a presença, na Chapada do Araripe,
de uma vertente seca, no estado de Pernambuco (PE), em contraposição a uma vertente
úmida, no estado do Ceará (CE), configurando-se, neste último estado, uma paisagem
singular, no semiárido brasileiro e no bioma Caatinga, reconhecida como Brejo de Altitude,
localizada na região denominada Cariris Novos. Mais especificamente, o objetivo desta in-
vestigação foi o de estabelecer conexões entre diferentes constituintes naturais e explicitar
a origem das diferentes paisagens que conformam a área de estudo.
Justifica-se, este artigo, como divulgação de um processo de construção interdisciplinar,
objetivando a constituição de uma análise, a partir do conceito geográfico de paisagem. Para
tanto, o texto está associado à imagens (fotografias), seja de conjunto, seja em detalhe, de
modo a tornar esta narrativa mais didática, uma vez que esta poderá ser utilizada, em níveis
de ensino e em setores das comunidades, para além da academia.

Procedimentos metodológicos

Metodologicamente, o ponto de partida é a observação da paisagem e a subsequente


descrição dos elementos selecionados para sua análise. As diferenças, em um e em outro
lado da vertente, são analisadas, a partir do conceito de paisagem observada ou represen-
tada, considerando o conjunto de elementos constitutivos, buscando-se, portanto, uma
conectividade entre seus componentes.
Para construir esta análise, foi escolhido um eixo de observação, ou seja, um transecto,
na Chapada do Araripe, entre os municípios de Exu (PE) e Crato (CE). A proposta de aná-
lise/explicação comparativa, entre a vertente seca e a vertente úmida, ao longo do transecto,
partiu do pressuposto de que os processos de basculamento, com suave inclinação para o
Norte (CE), as condições posicionais das vertentes, em relação à circulação atmosférica, mais
52 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

especificamente, a ação do vento (Norte, de barlavento e Sul, de sotavento), e o escoamento


subsuperficial são os principais fatores de diferenciação paisagísticas dessas duas áreas.
Não se trata de descrever a paisagem, somente, enquanto forma, mas, de compreender
sua gênese e funcionalidade, tomando como referência a observação, a coleta e a análise de
solos, a classificação de espécies vegetais e o posicionamento de fontes d’água, em campo,
em confronto com as pesquisas já elaboradas, na área, no que se refere à geologia, à geo-
morfologia, à biogeografia, à hidrogeografia, à botânica, à pedologia e à geografia. A análise
espacial foi sustentada por produtos cartográficos, elaborados em ambiente SIG, como a
construção de perfis topográficos e de mapa de declividade, além de registros fotográficos.

Atividade de campo

Para as observações, a coleta de material e a análise das unidades de paisagem, foi


escolhido um eixo de observação, ou seja, um transecto, na Chapada do Araripe,
representativo da diferenciação paisagística de um lado e de outro das vertentes, na frontei-
ra entre Pernambuco e Ceará, nos municípios de Exu (PE) e Crato (CE), de aproximada-
mente 45 Km, e na direção SO>NE. A partir desse levantamento, a análise das informações
foi baseada nos dados registrados já conhecidos, em pesquisas setoriais, para a área objeto de
estudo, no que se refere às características físicas e de cobertura vegetal dessa área.
O perfil topográfico foi dividido em 5 setores: Vertente seca, Topo semiúmido, Topo
antropizado, Topo úmido e Vertente úmida (Figura 1). O critério para divisão destes
setores foi o da cobertura vegetal, associada com o relevo. São eles:
1º setor: Vertente seca, incluindo a borda do topo a sotavento - Varia entre 500m e
900m, com presença de Neossolos quartzarênicos, Latossolos Amarelos e Cambissolos
Háplicos e, cobertura vegetal de Mata Seca;
2º setor: Topo semiúmido - Varia entre 900m e 950m e se caracteriza pela presença
de Latossolos Amarelos e Neossolos quartzarênicos e pela cobertura vegetal de Cerradão;
3º setor: Topo antropizado - Varia entre 900m e 850m, os solos dominantes são os
Neossolos quartzarênicos e a vegetação é dominada por gramíneas;
4º setor: Topo úmido - Varia entre 900m e 950m, com presença de Latossolos Amarelose
a vegetação compõe um mosaico de espécies associadas de Cerradão e, principalmente, da
Mata Atlântica e da Floresta Amazônica (Mata úmida);
5º setor: Vertente úmida - Varia entre 950m e 500m, os solos são Latossolos Amarelos
e Cambissolos Háplicos e a vegetação apresenta espécies da Mata Atlântica e da Floresta
Amazônica (Mata úmida).

53 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


Figura 1. Transecto Exu (PE)-Crato (CE), cortando a Chapada do Araripe

Fonte: elaborado por Rafael A. Xavier (2019)

Para o levantamento de campo, foram realizadas duas campanhas: a primeira


constituiu-se em um momento de reconhecimento e de identificação, in loco, dos ele-
mentos constituintes da paisagem, na sua diversidade. Na segunda campanha, procedeu-se
a um levantamento de maior detalhe, sobre solos, cobertura vegetal (classificação botânica)
e localização e distribuição de fontes de água.
Paisagens de Brejos

As paisagens de Brejos ou Abrejadas constituem áreas com características diversas, em re-


lação àquelas que caracterizam o semiárido nordestino ou o denominado Sertão seco.
Segundo Ab’Saber (1999, p. 17):
Na cultura popular dos sertões é costume reconhecer-se por brejo qualquer sub-
setor mais úmido existente no interior do domínio semi-árido; é, qualquer porção
de terreno dotada de maior umidade, solos de matas e filetes d’água perenes ou sub
perenes, onde é possível produzir quase todos os alimentos e frutas peculiares aos tró-
picos úmidos. Um brejo, por essa mesma razão, é sempre um enclave de tropicalidade
no meio semi-árido: uma ilha de paisagens úmidas, quentes ou sub quentes, com
solos de matas e sinais de antigas coberturas florestais, quebrando a continuidade dos
sertões revestidos de caatingas. É evidente que isso só ocorre em determinados sítios,
como serras e encostas de maciços que captam a umidade de barlavento, piemontes
com acumulações detríticas retentoras de água, agrupamentos de nascentes ou fontes
(designadas olhos d’água),encostas ou sopés de escarpas, bordas de chapadas, bolsões
aluviais de planícies alveolares (baixios) e setores de vales bem arejados por correntezas
de ar marítimo (ribeiras e vales úmidos).

Este mesmo autor propôs, em 1955, em Garanhuns (PE), a primeira tipologia de


Brejos para o Nordeste Seco. Na época, assim classificou, essas paisagens:
brejos de cimeira ou de altitude (Triunfo, Garanhuns e Serra Negra, PE);
54 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

brejos de encostas ou vertentes de serras ou maciços antigos (sudeste da Borborema,


AL e PE; Baturité oriental, CE);
brejos de piemonte ou de pé-de-serra (Frecheirinha, CE; Alagoa Grande, PB;
Buíque, PE; Oliveira dos Brejinhos, BA);
brejos de vales úmidos ou de ribeiras (vales úmidos do Rio Grande do Norte e do
Ceará; Ribeira do Pombal, BA);
brejos de olhos d’água, em situação coalescente Cariris Novos e Baturité oriental,
CE; Borborema oriental, entre Areia e Alagoa Grande, PB)”. (AB’SABER, 1999, p. 17).

Para Marques et al. (2014, p. 18), em pesquisa sobre Brejos de Altitude, estas áreas
correspondem a:
Refúgios Florestais Úmidos ou Brejos Altitude (relevo), Exposição (massas
de ar) e Posição (sopé de serra), ou simplesmente Brejos do semiárido brasileiro
fazem parte da diversidade biológica do semiárido, e são encontrados nos estados do
Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, cobrindo uma área original de
aproximadamente 18.500km2 (Figura 02). A existência destas ilhas de floresta na
zona oriental do Nordeste está associada à ocorrência do Planalto da Borborema –
Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.

Remanescentes dessas áreas úmidas e subúmidas podem ser visualizados na Figura 2:

Figura 2. Remanescentes de Brejos de Altitude, no Nordeste

Fonte: MARQUES et al. (2014, p. 18)

55 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


Nesta pesquisa, o objeto de estudo, localiza-se na Chapada do Araripe, estado do
Ceará. Segundo Ab’Saber (1999), essa área seria caracterizada como Brejo de olho d’água,
em situação coalescente, sendo caracterizada, por Souza & Oliveira (2006), como um
Brejo de Encosta. Independente dessas classificações, Marques, Da Silva e Silva (2014)
consideram essas áreas como refúgios florestais associados ao relevo, à disposição das mas-
sas de ar e à posição, no sopé de serras. Ainda, conforme Ab’Saber (1999), a área principal
e típica do semiárido brasileiro está situada nas depressões interplanálticas. Regiões, como
a Chapada do Araripe, são classificadas, de forma geral, como enclaves úmidos, nesses
domínios mais amplos de clima seco.
Diante destas considerações, e das observações e dos levantamentos, em campo, além
da articulação do conhecimento disciplinar, já existente, sobre a paisagem de Brejo da
Chapada do Araripe, aqui, o desejado é promover uma articulação mais ampliada dos
constituintes desta paisagem, considerando, além da altitude e da disposição das correntes
de ar, outros constituintes, tais quais: a estrutura geológica, solos e características de ve-
getação, uso da terra, entre outros. Nesse sentido, considera-se relevante, esta articulação,
pois pode-se, dessa forma, estabelecer uma diferenciação das paisagens de Brejo, para além
do que se tem revelado, até então.
Enquanto vínculo com a ocupação e com a apropriação de recursos, as paisagens de
Brejo constituíram áreas altamente favoráveis à penetração, no sertão seco. Aziz Ab’Saber
assim escreve:
Os brejos são fundamentais para a produção de alimentos no domínio dos
sertões, como mostra qualquer apanhado sobre a origem dos produtos comerciali-
zados nas feiras locais ou nos agrestes. De certa forma, o vigor e o sucesso das feiras
nordestinas são o próprio termômetro da produtividade dessas áreas, cujos solos de
mata deram origem à formação dos primeiros celeiros fornecedores de alimentos
baratos e de uso tradicional no amplo espaço sertanejo. O transporte a baixo custo,
feito no lombo de jegues, aliado à baixa expectativa de lucro dos camponeses bre-
jeiros, garantiu a comercialização com níveis toleráveis de preços para as populações
(AB’SABER, 1999, p. 20).

Para além desse tempo pretérito, essas áreas, ainda hoje, são fundamentais, na dinâ-
mica econômica de parte do sertão nordestino, caracterizando-se como zonas de exceção,
por permitirem o desenvolvimento agrícola em grande parte do ano, ao passo que, no
semiárido do seu entorno, à exceção das zonas irrigadas artificialmente, isso só é possível,
durante a curta estação chuvosa.
56 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Área de estudo: Chapada do Araripe

A Chapada do Araripe está inserida na Bacia Sedimentar do Araripe, que faz parte
do conjunto de bacias sedimentares interiores do Nordeste do Brasil (Figura 3). Essas
bacias têm sua origem associada à reativação de riftes, desenvolvidos ao longo de zonas de
falhas, no embasamento pré-cambriano, devido aos processos tectônicos cretáceos, ligados
à abertura do Oceano Atlântico. Desta forma, pequenos grabens foram formados, a partir
dos riftes interiores, dando origem a lagos tectônicos, que acabaram capturando a rede de
drenagem (CARVALHO, 2018).
Figura 3. Bacias sedimentares, no interior do Nordeste do Brasil, com destaque
para a bacia do Araripe

Fonte: Elaborado por Rafael A. Xavier, 2019

A Chapada do Araripe é um compartimento geomorfológico estrutural, limitado por


um patamar superior, cuja altitude gira em torno de 1000 metros (Figura 4). O topo planar
apresenta declividade inferior a 5º, concordando com a orientação horizontal da estrutura
geológica sedimentar da bacia. As encostas que bordeiam o platô são íngremes e escarpa-
das, sendo trabalhadas por intensos movimentos de massa. De modo geral, no platô, pre-

57 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


dominam os processos pedogenéticos, enquanto, nas escarpas erosivas, há o domínio da
morfogênese e o consequente recuo lateral (CEARÁ/FUNCEME, 2006; GUERRA, 2019).

O clima da área de estudo é do tipo semiárido, com temperaturas médias elevadas


(> 25ºC) e chuvas, entre 650mm/ano e 1000mm/ano. A Chapada do Araripe atua como
uma grande barreira orográfica, promovendo essa significativa amplitude pluviométrica. A
escarpa voltada para o Norte, no Estado do Ceará, recebe atuação da Zona de Convergência
Intertropical, principal sistema produtor de chuvas, na região. Assim, este lado da chapada
se caracteriza a barlavento. Por outro lado, a vertente a sotavento fica voltada para o Sul,
na direção do Estado de Pernambuco. Desse lado, os sistemas atmosféricos têm atuação
limitada, o que torna o setor mais seco que o do lado Norte (GUERRA, 2019).
Figura 4. Chapada do Araripe, entre os Estados de Pernambuco e do Ceará

Fonte: elaborado por Rafael A. Xavier (2019)


58 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Unidades de Paisagens

A análise dos resultados foi construída em dois momentos. No primeiro, é feita uma
caracterização de cada setor analisado, estabelecendo uma correlação entre geologia, geo-
morfologia, solos, cobertura vegetal (biogeografia e botânica) e condições climáticas e
setor de uso de maior evidência, em termos de mudança, na cobertura vegetal. Com base
no detalhamento de campo, há uma ampliação da compartimentação da paisagem, no
transecto analisado. Aos quatro compartimentos, previamente propostos, foi acrescido um
quinto compartimento, que revela um uso intensivo da terra, transformando a cobertura
vegetal, de Cerradão, em vegetação herbácea e em campos de correntes, pelo uso intensivo
deste setor, como será detalhado, em seguida (ver, também, Quadro 1, anexo).

Setor 1 – Vertente seca


A Vertente seca é marcada por escarpas e por encostas íngremes (com declividades su-
periores a 45º), comumente, marcadas por cicatrizes de movimentos de massa (Figura 5).
Os processos morfogenéticos são intensos, principalmente, devido à cobertura vegetal de
menor porte e densidade, oferecendo, assim, menor proteção aos solos.

Figura 5. Vertente seca da chapada do Araripe, Pernambuco, Brasil

Fonte: elaborado por Rafael A. Xavier (2019).


Fotos de acervo pessoal de Rubens T. de Queiroz (junho de 2019)

59 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


A vegetação é constituída por plantas armadas com espinhos e caducifólias, ou seja,
que perdem as folhas, durante o período seco. Neste ambiente, composto por plantas do
Cerrado e da Caatinga, são encontradas espécies de um tipo de vegetação chamado popu-
larmente de “Carrasco”. A maior diversidade de espécies encontrada, na área, pertence à fa-
mília Fabaceae, com espécies dos gêneros Bauhinia, Centrosema, Chamaecrista, Copaifera,
Cratylia, Crotalaria, Dalthstedia, Dioclea, Hymenaea, Machaerium, Macroptilium,
Mimosa, Rhynchosia, Senna e Senegalia (Figura 6). As demais famílias foram representa-
das por Comobretaceae (Combretum), Erythroxylaceae (Erythroxylum), Euphorbiaceae
(Croton), Lamiaceae (Medusantha), Malpighiaceae (Banisteriopsis e Heteropteris),
Malvaceae (Helicteris e Sidastrum), Rubiaceae (Guetarda e Randia), Salicaceae (Xylosma),
Sapindaceae (Alophyllus) e Solanaceae (Solanum). Muitas das espécies encontradas apresen-
tam folhas compostas e ramos armados, características de plantas de ambientes semiáridos.
No entanto, algumas outras apresentam folhas perenifólias, como as copaíbas (Copaifera)
e os jatobás (Hymenaea), sendo, portanto, espécies de ambientes de vegetação perenifólia.
Figura 6. Fabaceae (Cratylia argentea, Macroptilium bracteosum, Machaerium
hirtum), Solanaceae (Solanum), Rubiaceae (Guettarda) e Malpighiaceae
(Banisteriopsis sp.)
60 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Fonte: Fotos acervo pessoal de Rubens T. de Queiroz (junho de 2019)


A vegetação é sustentada por Cambissolos Háplicos e, em menor grau, Latossolos
Amarelos. Os primeiros estão localizados em encostas mais íngremes (acima de 30°) e
os Latossolos em porções menos declivosas (entre 10 e 30°). Os Cambissolos Háplicos,
aparentemente, devem sua gênese ao rejuvenescimento de antigos Latossolos pelos movi-
mentos de massa. Uma vez que a remoção de horizontes superficiais foi, e é, constante, o
material parental está próximo da superfície e os processos pedogenéticos são incipientes.
As raízes das plantas são encontradas em todos os horizontes, sugerindo que as mesmas
exploram água armazenada no contato entre o horizonte C e a rocha. A baixa espessura de
solo limita a quantidade de água armazenada, o que induz a caducifólia.

Setor 2 – Topo semiúmido


O topo semiúmido apresenta uma variação altimétrica entre 900 e 950 metros, com
declividades baixas, marcando o relevo como plano. Do ponto de vista morfogenético,
a área é mais estável do que a da Vertente seca, sendo, os processos erosivos, associados
ao escoamento superficial. O relevo plano favorece à infiltração da água das chuvas, que,
associado ao substrato geológico poroso (Arenito Exú), permitiu o desenvolvimento de
solos profundos e de boa permeabilidade. Os solos dominantes são Latossolos Amarelos.
Tais solos destoam dos solos típicos do semiárido brasileiro. São profundos, bem desen-
volvidos, argilosos, distróficos e com teor elevado de matéria orgânica. Logo, sugere-se
que foram formados em condições tropicais úmidas. É possível notar intensa atividade
biológica animal e vegetal além de dois metros de profundidade nesses solos.
No setor 2, a vegetação é constituída por plantas arbóreas, inermes, perenifólias,

61 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


que não perdem as folhas, durante o período seco. Neste ambiente, a vegetação encon-
trada é do tipo Cerrado, embora seja possível encontrar espécies de Caatinga, nas áreas
antropizadas. A maior diversidade de espécies está inserida na família Fabaceae, desta-
cando-se Hymenaea stigonocarpa, Parkia platycephala, Senna rugosa, Senna sericea e
Stryphnodendron gardnerianum (Figura 7).
As demais espécies vistas, representativas da paisagem do setor, foram Caryocaraceae
(Caryocar coriaceum), Combretaceae (Terminalia fagifolia), Malpighiaceae (Byrsonima
sericea), Polygalaceae (Bredemeyera floribunda) e Sapindaceae (Magonia pubescens), que
são táxons amplamente distribuídos, no Cerrado (Figura 8).
Figura 7. Vegetação de Cerrado, destacando indivíduos de Parkia platycephala

Fonte: elaborado por Rafael A. Xavier (2019)


Fotos: Fotos acervo pessoal de Rubens T. de Queiroz (junho de 2019)
62 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Figura 8. Fabaceae (Parkia platycephala) e Caryocaraceae (Caryocar coriaceum)

Fonte: Fotos acervo pessoal de Rubens T. de Queiroz (junho de 2019)


Setor 3 – Topo antropizado
A área caracterizada como Topo antropizado apresenta variação altimétrica entre 900
e 850 metros. A declividade varia de plana a ondulada. O setor é marcado pela dissecação
de uma drenagem principal e seus respectivos tributários. Essa drenagem foi favorecida
por estruturas geológicas em blocos falhados, que potencializaram a rede de fluxos sub-
terrâneos. Os solos dominantes deste setor são os Neossolos quartzarênicos. Entre todos
os setores, este é o mais densamente ocupado, com a presença de vilas rurais e de campos
agrícolas. Essas atividades socioeconômicas promoveram o desmatamento da vegetação
nativa, transformando a área em antropizada.
No setor 3 a vegetação é totalmente antropizada e transformada em pastagem, de
forma que as espécies são dominadas, principalmente, por herbáceas terófitas e por plan-
tas arbustivas, armadas e caducifólias (Figura 9). Neste ambiente, predominam a família
Poaceae (Anthephora hermaphordita, Cenchrus, Digitaria Melinis, Panicum), Asteraceae
(Vernonia), Lamiaceae (Hypenia salzmanii), Euphorbiaceae (Croton blanchetianum) e
Malvaceae (Sida).

Figura 9. Paisagem da área antropizada, mostrando a densidade de espécies


herbáceas, com predomínio

63 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Fonte: elaborado por Rafael A. Xavier (2019).


Fotos acervo pessoal de Rubens T. de Queiroz (junho de 2019)
Setor 4 – Topo úmido
Os setores 4 e 5 compõem a paisagem marcada pela Mata úmida. Eles foram dife-
renciados, apenas, pela posição, no relevo, e pela dominância das espécies. O topo úmido
varia entre 900m e 950m, a declividade volta a ser dominantemente plana e os solos vol-
tam a ser os Latossolos Amarelos voltam a dominar. Os atributos morfológicos, físicos e
químicos são similares às manchas de Latossolos Amarelos encontrados a sotavento. Em
cortes de estrada é possível observar perfis com mais de seis m de profundidade, indicando
elevada capacidade de armazenar água durante a estiagem.
A vegetação de Mata úmida foi assim denominada por apresentar uma associação de
espécies de Cerrado, de Mata Atlântica e de Floresta Amazônica (Figura 10).

Figura 10. Mata úmida, com espécies arbóreas de Mata Atlântica


64 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Fonte: elaborado por Rafael A. Xavier (2019).


Fotos acervo pessoal de Rubens T. de Queiroz (junho de 2019)

A vegetação é constituída, principalmente, de plantas arbóreas, inermes, perenifólias.


Neste ambiente, ainda estão presentes epífitas (Bromeliaceae e Orchidaceae), lianas, nas
copas (Fabaceae, Malpighiaceae, Polygalaceae, Cucurbitaceae), enquanto, no sub-bosque,
há uma diversidade considerável de arbusto e de subarbustos, pertencentes às famílias
Rubiaceae e Chrysobalanaceae. A Mata úmida foi o ambiente com maior diversidade
e heterogeneidade, com relação à composição florística, apresentando espécies arbusti-
vas, arbóreas e epífitas de Cerrado, Mata atlântica e Amazônia. Sua composição florís-
tica traz, principalmente, as famílias e espécies Anacardiaceae (Anacardium occidentale
e Tapirira guianense), Anonaceae (Annona exsucca), Araliaceae (Schefflera morototoni),
Bignoniaceae (Handroanthus serratipholius), Boraginaceae (Cordia toqueve), Bromeliaceae
(Aechmea bromeliifolia e Tillansia gardneri), Burseraceae (Protium heptaphyllum),
Convolvulaceae (Merremia macrocalyx e Ipomoea asarifolia), Cucurbitaceae (Psiguria
ternata), Euforbiaceae (Sapium glandulosum), Fabaceae (Crotalaria vitellina, Dioclea
sclerocarpa, Hymenaea stigonocarpa, Senna pendula e Swartzia pickelii), Lauraceae
(Ocotea glomerata), Malpiguiaceae (Byrsonima sericea), Orquidaceae (Catasetum
barbatum), Passifloraceae (Passiflora cincinata) Polygalaceae (Securidaca diversiflora),
Salicaceae (Casearia commersoniana), Simaroubaceae (Simarouba amara), Siparunaceae
(Siparuna guianensis) e Solanaceae (Solanum crinitum e S. stipulaceum) (Figura 11).

Figura 11. Espécies de ambientes mais úmidos da Mata úmida: Miconia sp.
(Melastomataceae), Licania sp. (Chrysobalanaceae)
e Psycotria bracteocardia (Rubiaceae)

65 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Fonte: elaborado por Rafael A. Xavier (2019)


Fotos acervo pessoal de Rubens T. de Queiroz (junho de 2019)
Setor 5 – Vertente úmida
O último setor analisado, a Vertente úmida, se assemelha ao setor 4. A posição de
encosta varia entre 950 e 500 metros de altitude, com declividade superior a 45º. São
comuns, os movimentos de massa, na paisagem, contudo, em menor frequência do que
na vertente seca, também, devido à cobertura vegetal densa, que, além de proteger, enco-
bre as cicatrizes. Os solos são profundos e as classes dominantes são os Latossolos, com
associação de Cambissolos.
Este setor apresenta uma significativa particularidade, em função da organização
lito-estrutural da Chapada do Araripe. A estratigrafia sedimentar da chapada apresenta
variações litológicas, desde arenitos grosseiros da Formação Exú até calcários e margas da
Formação Santana. Dominam Cambissolos Háplicos e Latossolos Amarelos derivados do
arenito e Chernossolos Háplicos derivados do calcário.
O Arenito Exú permite boa infiltração e permeabilidade de água, para alimentar os
aquíferos, que se abrigam sobre as camadas sedimentares menos porosas das Formações
Araripina e Santana. Devido à ocorrência de um basculamento, as estruturas sedimentares
sofreram leve inclinação, em direção ao norte-nordeste. Esta característica condiciona um
maior aporte de fluxos subsuperficiais, em direção à escarpa norte, do lado do Estado do
Ceará, tornando essa vertente úmida. Segundo um estudo feito pelo Departamento de
Nacional de Pesquisa Mineral (DNPM, 1996), existem 297 fontes naturais de água, na es-
carpa da Chapada do Araripe, voltada para o Ceará, enquanto a escarpa do lado do Estado
de Pernambuco apresenta apenas 43.
Os elementos florísticos identificados, nesse setor, foram Anacardiaceae (Anacardium
66 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

occidentale), Anonaceae (Annona crassifolia), Arecaceae (Attalea speciosa), Bignoniaceae


(Cibistax antissifilítica, Handroanthus ochraceus), Burseraceae (Protium heptaphyllum),
Crisobalanaceae (Hirtella glandulosa), Fabaceae (Enterolobium contortisiliquum,
Machaerium acutifolium, Ormosia sp., Parkia platicephala, Schwartzia psilonema, Senna
splendida, stryphnodendron gardneri, Vatairea macrocarpa), Heliconiaceae (Heliconia
psittaccorum), Malpighiaceae (Byrsonima sericea), Melastomataceae (Miconia),
Ochinaceae (Ouratea sp.), Poligonaceae (Coccoloba mollis), Rubiaceae (Psycotria
bracteodardia), Sapindaceae (Magonia pubescens, Talisia suculenta, Serjania sp.),
Sapotaceae (Chrysophyllum arenarium) e Siparunaceae (Siparuna guianensis) (Figura 12).
Estes táxons apresentam ampla distribuição, nas florestas úmidas da Mata Atlântica, do
Cerrado e da Amazônia, fato que aponta, fortemente, a Chapada do Araripe como uma
importante zona de refúgio e, para além disso, uma evidência de que, no passado, estes três
biomas estiveram conectados.
Figura 12. Algumas espécies vegetais de Mata úmida, identificadas na Vertente
úmida da chapada: Miconia sp. (Melastomataceae), Licania sp.
(Chrysobalanaceae) e Psycotria bracteocardia (Rubiaceae)

67 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Fonte: elaborado por Rafael A. Xavier (2019)


Fotos acervo pessoal de Rubens T. de Queiroz (junho de 2019)
Análise das Unidades de Paisagens

Para construir a síntese interpretativa do transecto analisado, parte-se da representação


da paisagem construída, no processo de investigação, e representada, na sua diferenciação,
através da identificação de cinco compartimentos, denominados Unidades de Paisagem
(Figura 13).

Figura 13. Síntese das Unidades de Paisagem identificadas, na Chapada do Araripe


68 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Fonte: elaborado por Rafael A. Xavier (2019).


Fotos acervo pessoal de Rubens T. de Queiroz (junho de 2019)

Ao analisar o transecto das Unidades de Paisagem, enfatiza-se o contraste, em relação à


Vertente seca e à Vertente úmida, denominada, neste último caso, de Brejo (áreas úmidas).
Associa-se a essa diferenciação, de um lado, uma estrutura sedimentar soerguida, indican-
do processos de basculamento, com suave inclinação para o sentido SO>NE, no lado do
Ceará, e, de outro lado, as condições posicionais das vertentes, em relação à circulação at-
mosférica, mais especificamente, a ação do vento (barlavento-sotavento). Estes constituem
os fenômenos fundantes da circulação de água, sobretudo a subterrânea, e promovem
uma presença abundante de fontes d’água, na vertente a barlavento, resultando em carac-
terísticas diferenciadas de constituição de solos e de cobertura vegetal (Mata úmida), em
relação à vertente oposta, caracterizada pela presença de Caatinga e da vegetação chamada
Carrasco (Mata seca).
Tal atributo adiciona mais complexidade à ocorrência dos Brejos existentes, no
semiárido brasileiro, indo além dos condicionantes pluviométricos, relacionados à to-
pografia e à altitude locais. Em outras palavras, as áreas úmidas (Brejos) da Chapada
do Araripe e sua correspondente cobertura vegetal (Cerradão e, principalmente, Mata
Úmida) têm sua gênese diretamente ligada ao controle hidrogeológico, em que a presença
da água subsuperficial é determinada pela formação de uma camada semi-impermeável de
rochas. A formação desses Brejos é consequência da maior disponibilidade hídrica que ,
por sua vez, promove uma forma diferenciada de ocupação e de uso da terra, expressa na
constituição formal da paisagem.
A diversidade dos quadros abiótico e biótico, nesses ambientes de exceção, é bastante
elevada. Portanto, há que se analisar as relações existentes entre os elementos envolvidos,
acompanhado das atividades humanas de uso e de ocupação dos solos (parcialmen-
te apresentados, nesse trabalho), para que se possa entender as razões da existência da
complexidade da cobertura vegetal que se observa, atualmente.
Analisado de forma geral, com base na pluviosidade média destacada no Quadro 1,
temos na vertente sul da chapada amplas áreas dominadas por vegetação de Carrasco,
submetida ao clima semiárido, com elevada influência da baixa capacidade de armazenar
água e distrofia.
Indo além do que já foi exposto, para a região do Araripe, o Carrasco ocorre, basi-
camente, em chapadas sedimentares do interior do Nordeste brasileiro, correspondendo,
conforme Fernandes e Queiroz (2018), a um tipo de Caatinga, cuja vegetação é composta,
principalmente, por plantas lenhosas, de pequeno porte, e adensadas, além de trepadeiras,

69 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


de dossel irregular, e de árvores emergentes esparsas (ARAÚJO; MARTINS, 1999) e,
portanto, de aparência muito semelhante à de uma savana.
À medida que as condições pluviométricas vão , no senti À medida em que a disponi-
bilidade de água no solo aumenta, no sentido sul/norte do trajeto realizado (Exu-Crato),
começa a ocorrer a vegetação de Cerrado, na qual dominam, naturalmente, árvores e
arbustos adensados, compondo um tipo de floresta, com espécies representativas, como
o pequizeiro (Caryocar brasiliense), cujos frutos são amplamente utilizados pela po-
pulação local, particularmente, na culinária. Também são perceptíveis as grandes áreas
com vegetação antropizada, devido ao avanço da agricultura (sazonal e comercial), para
o desenvolvimento da pecuária (em que sobressaem gramíneas da espécie capim Buffel
(Cenchrus ciliares) (L) ou para o uso da lenha, como fonte energética.
A partir da porção centro-norte da chapada, além do Cerrado, devido à elevação da
umidade, pela maior exposição às chuvas orográficas, favorecida, também, por questões
lito-estruturais e edáficas, surgem diversas áreas, recobertas, ainda, por remanescentes de
Mata Atlântica e de Floresta Amazônica (Figura 14).
Figura 14 - Buriti (Mauritia flexuosa), espécie típica de Vereda, identificada na
Chapada do Araripe
70 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Fonte: acervo pessoal de Rubens T. de Queiroz (junho de 2019)

O que se considera, originalmente, como remanescentes de Mata Atlântica nordestina,


de forma generalizada, é passível de ser encontrado, nesses enclaves úmidos e subúmidos
do interior dessa região (ANDRADE-LIMA, 1982), entretanto, em algumas localidades
do Araripe, temos a ocorrência de espécies com distribuição amazônica e, também, de
florestas serranas do Sul e Sudeste do Brasil (TABARELLI; SANTOS, 2004), criando uma
espécie de pintura representativa desse passado, quando esses biomas não se encontrariam
tão separados, no espaço físico, como a milhares de anos se encontram. Portanto, para além
de um remanescente de Mata Atlântica, essas áreas constituem, atualmente, importante
testemunho dessa história natural.
Destaca-se que as áreas serranas, com solos derivados de rochas sedimentares, como
é o caso do da Chapada do Araripe, além de serem parcialmente beneficiadas por chuvas
orográficas, em sua porção de barlavento, também são favorecidas pela água, que se acu-
mula, nesses solos profundos e porosos, como constatado, entre outros, por Andrade-Lima
(1981) e Rodal et al. (1998), o que ajuda a explicar a presença de remanescentes vegetais,
ligados, principalmente e como regra, ao litoral e à Amazônia.
Para além da dinâmica das chuvas e da porosidade e profundidade dos solos, esse qua-
dro de vegetação tão diverso é, também, amplamente influenciado por questões ligadas às
características da estrutura geológica dessa região, que não podem ser menosprezadas, no
processo de entendimento da origem dessas paisagens. Em sentido mais amplo, Queiroz et
al. (2017) destacam que a diversidade de substratos geológicos, no domínio da Caatinga,
proporcionou a base para o estabelecimento de um quadro evolutivo gerador de linhagens
singulares, entre as espécies vegetais, não encontradas, em nível tão elevado, em outras
Florestas Tropicais Sazonalmente Secas.
De forma mais específica, na Chapada do Araripe, as camadas de rochas sedimentares
sofreram um basculamento, na direção norte-nordeste, produzindo um fluxo da água subter-
rânea e fazendo surgir um grande número de nascentes, nas escarpas das Formações Santana
e Exu (ANDRADE, 1964), beneficiando essa parte da chapada com inúmeros aquíferos
subsuperficiais, ao contrário do que ocorre, na porção sul, estabelecendo-se, assim, uma di-

71 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


ferença marcante e fundamental, entre essas duas áreas, quanto à cobertura vegetal original.
Também, como parte dessas relações complexas, entre direção das massas de ar, estrutu-
ra geológica, geomorfologia e pedologia, no que diz respeito às influências destes elementos,
na cobertura vegetal, foram observados, em alguns pontos da porção sul da chapada, áreas,
no sopé das escarpas, nas quais há elevada concentração de água superficial, com ocorrência
de vegetação típica de Veredas (Figura 14), as quais, de acordo com Guerra (2019), pionei-
ra, nesse tipo de trabalho na região, são formadas pelo extravasamento das águas do aquífero
superior da Chapada do Araripe, favorecendo a formação de Gleissolos Melânicos.
Vereda é um tipo de vegetação, na qual domina a palmeira arbórea buriti (Mauritia
flexuosa) (RIBEIRO; WALTER, 2007b). Do ponto de vista topográfico e em relação à
drenagem, esse ambiente apresenta uma zona de borda com solo mais seco, com espécies
herbáceas e arvoretas isoladas; uma zona intermediária, com solos medianamente úmi-
dos, com espécies herbáceas; e, por último, a zona central, com elevada concentração de
água, má drenagem, dominância de Gleissolos Melânicos, buritis, arbustos e arvoretas
adensadas, buritis, arbustos e arvoretas adensadas.
A existência de áreas como essas não é comum, em se tratando do Nordeste brasileiro,
visto que a presença desse ecossistema é associada, diretamente, às áreas principais de ocor-
rência do Cerrado, no Brasil, ou seja, às regiões Centro-Oeste e a parte da região Sudeste.
Portanto, esses ambientes reforçam, ainda mais, o caráter heterogêneo dessa parte do país,
fortalecendo a necessidade de que mais estudos sejam efetuados, na região.
No entorno das Veredas foi observada elevada presença da palmeira babaçu (Attalea
speciosa) (Figura 15), muito comum, no estado do Maranhão, e, em menor escala, em tre-
chos da região Centro-Oeste do país, o que também levanta questionamentos sobre como
a espécie começou a colonizar essas áreas, na chapada. Sua ocorrência está diretamente
relacionada à presença de fogo induzido pela ação humana, o que faz sucumbir outras
espécies arbóreas (RIBEIRO, WALTER, 2007a).
Em síntese, a Chapada do Araripe, além de ser uma zona de exceção, relacionada à di-
nâmica climática, no contexto do domínio da semiaridez do Nordeste brasileiro, constitui
um mosaico de coberturas vegetais, cujas razões de permanência, também, e em muitos
casos, estão diretamente relacionadas a um entrelaçamento de fatores geológicos, geomor-
fológicos e pedológicos, criando um quadro diversificado de paisagens dos mais ricos de
todo o Brasil, com certeza.

Figura 15. Babaçu (Attalea speciosa), no entorno de Vereda, na Chapada do Araripe


72 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Fonte: acervo pessoal de Rubens T. de Queiroz (junho de 2019)


Considerações finais

A Chapada do Araripe representa um grande laboratório de estudos sobre a dinâmica


das paisagens brasileiras. Nos cerca de 50 km percorridos, foram observados elementos de
Mata Seca (Caatinga e Carrasco), de Mata Úmida (Cerradão, Mata Atlântica e Floresta
Amazônica), áreas degradadas e Veredas, em um grande mosaico de vegetação, que reflete
a intensa e complexa relação dos elementos abióticos (rochas, estruturas, relevo, solos e
água) da chapada.
Pela importância dessa área, conhecida também pela riqueza arqueológica, em nível
nacional e internacional, na qual ainda restam remanescentes florestais de fundamen-
tal importância para a interpretação da história natural dessa parte do Brasil, além de
espécies endêmicas da fauna local, como o pássaro Soldadinho do Araripe (Antilophia
bokermanni), esse trabalho evidenciou a necessidade de ampliação da unidade de con-
servação existente, a Floresta Nacional do Araripe-Apodi, com pouco mais de 39 mil
hectares, atualmente, e, principalmente, a sugestão de criação de uma área de conservação
de maior restrição ao uso humano, dada a relevância natural e a pressão a que flora, fauna
e fósseis tem sido submetidos, inclusive para que a chapada possa continuar a ser geradora
de água para o seu entorno, de clima mais seco, função cada vez mais ameaçada, devido ao
desmatamento e ao uso irracional das fontes hídricas existentes.
Toda essa complexidade natural só foi possível de ser interpretada, a partir da in-
terdisciplinaridade. Os saberes interpretativos, produzidos pelo diálogo entre diferentes
especialistas, foi condição sine qua non para a síntese apresentada. O trabalho de campo,

73 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


enquanto atividade pedagógica e científica, mostrou-se fundamental para a apreensão e
para a conexão dos diferentes elementos que compõem a paisagem.
A Chapada do Araripe foi enquadrada como Brejo de altitude e de encosta. De al-
titude, devido à influência dos quase 1000 metros, na circulação atmosférica local, e de
encosta, por existir um condicionamento lito-estrutural, que direciona a maior parte do
fluxo subterrâneo para o lado do Estado do Ceará, permitindo a existência de uma Mata
Úmida de Encosta.
Quadro 1. Síntese das Unidades de Paisagem da Chapada do Araripe.

UNIDADES DE PAISAGEM
Compartimento Topo central
Vertente Seca Topo semiúmido Topo úmido Vertente úmida
delimitador antropizado
Vegetação Mata seca Cerrado Herbácea Mata úmida Mata úmida
Do topo para Do topo para
baixo: Arenito baixo: Arenito
grosso (Formação grosso (Formação
Exú), Arenito Exú), Arenito
fino (Formação fino (Formação
Geologia Araripina) Arenito grosso (Formação Exú) Araripina)
e Calcário e Calcário
laminado, marga, laminado,
folhelho e gipsita marga, folhelho e
(Formação gipsita (Formação
Santana) Santana)
Escarpas Escarpas
íngremes, íngremes,
Topo dissecado
com intensa Topo plano, Topo plano, com intensa
por drenagem
morfogênese. com relativa com relativa morfogênese.
Geomorfologia controlada por
O recuo da estabilidade estabilidade O recuo da
lineamentos
escarpa produz morfogenética morfogenética escarpa produz
estruturais
alguns patamares alguns patamares
escalonados escalonados
Há 43 de Há 297 de
fontes de água fontes de água
subterrânea subterrânea
cadastradas. O cadastradas. O
Aquífero exfiltra, Aquífero exfiltra,
Hidrogeologia predominan- Sem influência de água subterrânea predominan-
74 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

temente, no temente, no
nível do contato nível do contato
das formações das formações
Araripina e Araripina e
Santana Santana
Pluviosidade 700 mm/ano 800 mm/ano 900 mm/ano 1000 mm/ano
Neossolos
Latossolos
quartzarênicos, Latossolos com
Amarelos com
Latossolos Neossolos Latossolos associação de
Solos associação
Amarelos e Quartzarênicos Amarelos Cambissolos
de Neossolos
Cambissolos Háplicos
Quartzarênicos
Háplicos
Atividade Atividade Atividade
Unidade de Conservação Federal -
Uso agropecuária agropecuária agropecuária
Floresta Nacional
limitada moderada intensa
Referências

AB’SÁBER, AZIZ NACIB. Sertões e sertanejos: uma geografia humana sofrida. Dossiê Nordeste
Seco. Estudos Avançados, São Paulo: USP, v. 13, n. 36, 1999.
ANDRADE-LIMA, D. The caatingas dominium. Revista Brasileira de Botânica, v. 4, 1981, p. 149-153.
ANDRADE, M. C. O Cariri cearense. Revista Brasileira de Geografia, v. 26, n. 4, 1964, p. 549-592.
ARAÚJO, F. S.; MARTINS, F. R. Fisionomia e organização da vegetação do Carrasco no Planalto
da Ibiapaba, Estado do Ceará. Acta Bot. Bras., v. 13, n. 1, jan./abr. 1999.
CARVALHO, I. de S. Paisagens que não mais existem: passado, presente e futuro. O sertão vai virar
mar e o mar vai virar sertão: percorrendo paisagens do passado da Terra. Crato-CE: Roteiro de
Campo do XII Simpósio Nacional de Geomorfologia, 2018.
CEARÁ. Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos. Zoneamento geoambiental
do estado do Ceará: parte II meso região sul cearense. Fortaleza: FUNCEME, 2006.
DNPM. Projeto de avaliação hidrogeológica da bacia sedimentar do Araripe. Recife: DNPM,
1996. 103 p.
FERNANDES, M. F.; QUEIROZ, L. P. Vegetação e flora da Caatinga. Ciência e Cultura, v. 70,
n. 4, Out./Dez. 2018.
GUERRA, M. D. F. Veredas da Chapada do Araripe: contexto ecogeográfico de subespaços de
exceção no semiárido do estado do Ceará, Brasil. 2019. Tese (Doutorado em Geografia) –
Programa de Pós-Graduação em Geografia, Universidade Estadual do Ceará. Fortaleza, 2019.
MARQUES, A. de L.; DA SILVA. JANAINA B.; SILVA, DANIELLI G. Refúgios úmidos do
Semiárido: um estudo sobre o brejo de altitude de Areia-PB. GEOTemas, Pau dos Ferros, Rio
Grande do Norte, Brasil, v. 4, n. 2, p. 17-31, jul./dez. 2014.
QUEIROZ, L. P.; CARDOSO, D.; FERNANDES, M.; MORO, M. Diversity and evolution of
flowering plants of the Caatinga domain. In: DA SILVA, J. C.; LEAL, I.; TABARELLI, M. (eds.).

75 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


Caatinga: the largest tropical dry forest region in South America. Springer: 2017, p. 23-63.
RIBEIRO, J. F., WALTER, B. M. T. Fitofisionomias do bioma Cerrado. In: SANO, S. M.; ALMEIDA,
S. P. de. (eds.). Cerrado: ambiente e flora. Planaltina: Embrapa - CPAC, 1998, p. 89-166.
RIBEIRO, J. F.; WALTER, B. M. T. (2007a). Tipos de Vegetação do Bioma Cerrado. Vegetação
savânica: Palmeiral. Embrapa: 2007. Disponível em: http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/
Agencia16/AG01/arvore/AG01_51_911200585234.html. Acesso em: 24 set. 2019.
RIBEIRO, J. F.; WALTER, B. M. T. Tipos de Vegetação do Bioma Cerrado. Vegetação savânica:
Vereda. Embrapa: 2007b. Disponível em: http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/Agencia16/
AG01/arvore/AG01_51_911200585234.html. Acesso em: 24 set. 2019.
RODAL, M. J. N.; ANDRADE, K. V. S.; SALES, M. F.; GOMES, A. P. S. Fitossociologia do com-
ponente lenhoso de um refúgio vegetacional no município de Buíque, Pernambuco. Revista
Brasileira de Biologia, v. 58, 1998, p. 481-500.
SOUZA, M. J. N.; OLIVEIRA, V. P. V. Os enclaves úmidos e subúmidos do semiárido do Nordeste
brasileiro. Mercator. Revista de Geografia da UFC. Fortaleza, ano 5, n. 9, p. 85-102, 2006.
TABARELLI, M.; SANTOS, A. M. M. Uma breve descrição sobre a História Natural dos Brejos nor-
destinos. In: PÔRTO, K. C.; CABRAL, J. J.P.; TABARELLI, M. (Orgs.). Brejos de Altitude em
Pernambuco e Paraíba. História Natural, ecologia e conservação. Brasília: MMA, 2004, p. 17-24.
Características do Ambiente Climático
no Sul do Brasil

Fernanda Gonçalves Rocha


Departamento de Meteorologia, Universidade Federal de Campina Grande
Lúcio Cunha
Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território, Faculdade de
Letras da Universidade de Coimbra
Célia Campos Braga
Departamento de Meteorologia, Universidade Federal de Campina Grande
José Ivaldo Barbosa de Brito
Departamento de Meteorologia, Universidade Federal de Campina Grande

Introdução

77 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


O Brasil destaca-se como sendo o maior país da América do Sul e o quinto maior do
mundo em área territorial. Sua posição geográfica confere peculiaridades ao país, devido
ao maior recebimento de energia solar do Planeta-faixa intertropical e as elevadas tempera-
turas sobre o continente associadas à pluviosidade. O país apresenta grande diversificação
devido ao tamanho, geografia e a região costeira (Mendonça e Oliveira, 2007). No norte
do país, o clima é dominado por condições quentes e úmidas que abrigam a maior parte
da Bacia Amazônica. No sul do país apresenta uma grande faixa de temperaturas altas e
baixas ao longo do ano. Essas diferenças no clima são o resultado das grandes massas de ar
(temperadas e tropicais) que passam pelo Brasil.
Nesse sentido, estudar a climatologia permite caracterizar uma região através do con-
junto das condições atmosféricas. O clima exerce influencia diretamente nas atividades
humanas, na vegetação, na agricultura, no planejamento de florestas, em setores indus-
triais e nas sensações de conforto e de desconforto físico e mental da população (Sartori e
Titarelli, 2000). Observar o clima permite entender as diferentes dinâmicas atmosféricas e
suas ações na população em eventos de seca e de cheias (Lima e Lombardo, 2019).
Köppen (1900) estabeleceu a classificação climática através do uso de caracteres. O
primeiro carácter indica a zona climática e é definido pela temperatura do ar e pela pre-
cipitação da região. Considera-se o segundo carácter associado à distribuição sazonal das
chuvas e o terceiro associado à variação sazonal da temperatura do ar.
Dentre as regiões climáticas do país, salienta-se a região sul do Brasil (RSB) por lhe
conferir certas particularidades. O clima temperado, característico das regiões oceânicas
e marítimas e das regiões costeiras ocidentais dos continentes, a variação térmica nas es-
tações de verão e inverno, a ocorrência de geadas (inverno e outono) e a distribuição das
chuvas justifica o interesse de compreender a dinâmica climatológica da RSB.
Essa região é considerada frontogenética e ciclogenética, devido a favorável formação
e intensificação de frentes e de ciclones, respectivamente no período de verão (Satyamurty
e Mattos,1989; Reboita et al., 2009; Rodrigues et al., 2004).
A circulação ciclônica anômala na região sudeste do país aumenta o fluxo umidade da
região amazônica e provoca um aumento na convergência do fluxo de umidade para a área
norte da RSB (Grim et al., 2007). Esse regime de circulação de ventos e precipitação no
setor norte da RSB localizado em faixas tropicais, caracteriza-se como sistema de monção.
Morais et al. (2010) estudaram a climatologia de frentes frias e o regime de ventos
sobre a região e verificaram que a maior frequência ocorre nos meses de março a maio e de
agosto a dezembro. Os ventos intensificam-se antes da passagem da frente fria e aumenta
gradativamente nos dias seguintes.
Rodrigues et al. (2004) verificaram que há uma intensificação dos sistemas frontais nos
meses de maio a dezembro para a RSB.
78 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

De Mello e Oliveira (2019) estudaram dados climatológicos próximos a Serra do Mar


(SC) para caracterizar o clima da região. Os autores verificaram que esta serra sofre influên-
cia da Alta Subtropical do Atlântico Sul (ASAS) e por ser trajetória de sistemas frontais.
Por isso, este trabalho busca avaliar as características climáticas no sul do Brasil
correspondente as normais climatológicas entre o período de 1981-2010.

Metodologia
Área de Estudo

A RSB apresenta uma área territorial de 576 774,31 km², comparada em tamanho
menor que o país da França. Situada abaixo do Trópico de Capricórnio sofre a influência
dos sistemas de circulação de oeste, brisas marítimas e sistemas frontais. Essa região é com-
posta por três estados, o Paraná (PR), Santa Catarina (SC) e o Rio Grande do Sul (RS)
(Figura 1).
A RSB fica localizada no sudeste da América do Sul com limites ao sul pelo Uruguai,
ao oeste pela Argentina e Paraguai, ao norte pelo estado do Mato Grosso do Sul e São
Paulo e a leste pelo Oceano Atlântico, apresentando um litoral com extensão de 1350 km.

Figura 1. Localização da área de estudo e as características do relevo

Estados da RSB: Paraná (PR), Santa Mapa Hipsométrico da RSB e seus planaltos,
Catarina (SC) e Rio Grande do Sul (RS) serras e planícies.

Fonte: Dados numéricos do Shuttle Radar Topography Mission (SRTM).

Segundo Aparecido et al., (2016) a RSB pode ser caracterizada pelo método de Koppen
(1900). Os climas predominantes são Cfa (temperado úmido com verão quente), C1rA’a’

79 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


(subúmido com pequena deficiência hídrica, megatérmico) e ST-UMi (subtropical úmido
com inverno seco).
A região apresenta uma topografia acentuada em formação de mosaico (campo/floresta)
permitindo exibir áreas menos degradadas. Isso favorece o extrativismo, uma das econo-
mias da região. Essa economia permite a produção de erva-mate e o uso de madeiras como
cedro e pinheiro. Em regiões de altas altitudes, o relevo apresenta grande influência na
formação de geadas. O relevo varia entre 400 a 2000 m, sendo o relevo mais alto situado
no PR, o Pico Paraná, com cerca de 1920 m de altitude.
As características vegetais do Bioma Pampa, único no país e o Bioma da Mata Atlântica
permitem actividades no sector da pecuária e a agricultura, com os cultivos de soja, arroz,
milho e trigo. Abrange 63% do estado do RS, todo o Uruguai e o nordeste da Argentina.
Compreende um mosaico de diferentes fisionomias vegetais, dominadas pelos ambientes
de pastagem com espécies arbóreas observadas principalmente em matas ciliares e capões
de mato.
Na RSB, a soja corresponde a 40% na exportação do país. O sector agrícola destaca-se
também pela produção de tabaco, cana-de-açúcar, frutas como maçã e uva, bem como
legumes como cebola e alho (Junior et al., 2016).
A precipitação na RSB apresenta totais anuais em torno de 1200 mm/ano a
2000 mm/ano, em geral, bem distribuídas ao longo do ano, com exceção do PR, onde se
verificam chuvas de outubro a março, com inverno seco (Sousa et al., 2002).
A média das temperaturas mínima e máxima oscila entre 9ºC e 30ºC, respectiva-
mente. Em locais com altitudes acima de 1000 m, a temperatura mínima tende a ficar
negativa, devido às condições favoráveis da atmosfera.
Nas serras dos estados do RS e SC (Figura 1) as temperaturas negativas são comu-
mente registradas, inclusive com incidências de neve. Ressalta-se que a posição geográfica
é fundamental na maior amplitude do ciclo anual de temperatura, com maior contraste
nas estações de inverno e do verão. Esses contrastes térmicos e pluviométricos estão asso-
ciados à posição geográfica, à transição entre os trópicos e as latitudes médias, ao relevo
acidentado e à penetração de massas de ar frio, que avançam de altas latitudes para baixas
latitudes no Hemisfério Sul (HS), atravessando a RSB (Reboita et al., 2009; Dias Pinto
e Da Rocha, 2011).
É importante conhecer a região de estudo para uma gestão de recursos e planejamento
territorial. Logo, realizar uma caracterização da área permite uma melhor compreensão
climática da RSB.
Braga et al. (2008) estudaram a demanda de recursos hídricos no Brasil em suas dife-
rentes bacias hidrográficas. Os autores verificaram que a desordenada ocupação de terri-
80 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

tório gera conflitos pelo uso da água em determinados usos. Mesmo o Brasil liderando a
disponibilidade de água doce no mundo, existe graves problemas em relação aos diferentes
usos e a disponibilidade da qualidade das águas.
Neste caso, a Figura 2 apresenta as doze regiões hidrográficas (conjunto de uma ou
mais bacias hidrográficas) utilizadas no Brasil para a finalidade de análise dos seus recur-
sos hídricos. É necessário ainda que o Brasil aprimore sua base territorial de unidades de
planejamento e gestão de recursos hídricos (Braga et al., 2008).
A RSB apresenta terras em três bacias hidrográficas do Brasil, as bacias do Uruguai, do
Atlântico Sul e parte da bacia do Paraná. Em algumas bacias hidrográficas podem ocorrer
eventos de cheias e também eventos de estiagens podem ocorrer em algumas bacias hidro-
gráficas. Como o sul do Brasil é uma região que depende da agricultura e contribuiu para a
produção nacional é importante realizar um estudo que aponte as principais características
climáticas dessa área (ANA, 2015; Figueiredo, 2016).
Figura 2. Localização das Bacias Hidrográficas do Brasil, seus estados e área
de estudo.

81 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


Fonte: Adaptado Braga et al., 2008.

A Região Hidrográfica do Atlântico Sul (RHAS) se inicia ao norte, próximo à divisa dos
estados de São Paulo e PR, e se estende até o Arroio Chuí, ao sul. A RHAS abrange os três es-
tados que compõem a área de estudo desse trabalho e apresenta uma precipitação média anual
de 1644 mm próxima da média nacional de 1761 mm. A Mata Atlântica predomina sobre
essa região da qual apresenta um grande contingente populacional e importância turística.
Dividida em três unidades hidrográficas: Guaíba (RS), Litorânea (RS) e Litorânea (SC –
PR), a RHAS é caracterizada pelos rios Itajaí e Capivari (SC) que apresentam um grande vo-
lume de água. No RS, os rios como o Taquari-Antas, Jacuí, Vacacaí e Camaquã apresentam-se
ligados aos sistemas lagunares da Lagoa Mirim e Lagoa dos Patos (ANA, 2015).
A Região Hidrográfica do Uruguai, a bacia hidrográfica seguinte da RSB, tem grande
importância para o país em função das atividades agroindustriais desenvolvidas e pelo seu
potencial hidrelétrico (Figueiredo, 2016). Dividida pelos estados do RS e de SC, apresenta
pluviosidade média anual de 1623 mm, com concentração mais elevada no período de
maio a setembro (ANA, 2015).
Finalmente, a Região Hidrográfica do Paraná (RHP) apresenta o maior desenvolvimen-
to econômico do país. Abrange os estados de SP, PR, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais,
Goiás, SC e Distrito Federal. Essa região apresenta um grande desenvolvimento econômico,
devido aos recursos hídricos gerados e a maior usina hidrelétrica do país (Figueiredo, 2016).
A precipitação média anual é a menor das três regiões hidrográficas da RSB, 1543 mm.
A RHP se caracteriza pela presença de cultivos e pastagens, alta concentração populacional
e bacias hidrográficas em situações críticas, como o rio Tietê (São Paulo) (ANA, 2015).

Dados Climatológicos
As variáveis como precipitação e temperatura são de suma importância e relevância em
diversas escalas. Uma análise da vulnerabilidade dos totais médios anuais dessas variáveis
meteorológicas é necessária considerando um período climático amplo.
O período de estudo dá-se entre os anos de 1981 a 2010. Dados de 33 estações meteo-
rológicas que registram precipitação e temperatura do Instituto Nacional de Meteorologia
(INMET) foram coletados e plotados no software Qgis 2.16 (Figura 3). Assim, será
possível realizar uma análise das características climáticas da RSB.
Esse período corresponde as normais climatológicas do Brasil. As normais climatoló-
gicas são um conjunto de valores para diversas variáveis meteorológicas que representam a
média para estas variáveis para um período de 30 anos. As normais climatológicas de um
lugar consideram medições meteorológicas feitas sempre em um mesmo local. As médias
82 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

normais resumem o clima de um lugar.

Figura 3. Localização das Estações Meteorológicas e seus nomes, referentes ao


período de 1981- 2010

Fonte: Dados do INMET:<http://www.inmet.gov.br/portal/index.php?r=bdmep/bdmep>


Resultados e discussão

Os totais médios anuais de precipitação, para o período de estudo 1981-2010, são visua-
lizados na Figura 4. Elevados índices pluviométricos superiores a 2000 mm é observado no
leste, sudeste do PR, centro-oeste de SC e noroeste do RS. Destaca-se a cidade de Paranaguá
(PR) na região leste com a maior pluviometria média anual da RSB de 2284,3 mm para
o período de estudo em questão. Nesta área encontram-se três serras, a Serra Litorânea, a
Serra Geral e a Serra do Mar, onde se constatou os maiores índices pluviométricos (Back et
al., 2012; De Mello e Oliveira, 2019; Monteiro, 2001). Sugere-se que a influência do fluxo
de umidade e o posicionamento da ASAS são condições favoráveis a precipitação.
Os menores totais médios pluviométricos, com valores que oscilam entre 1200 a 1500
mm são visualizados no leste, sudeste e sudoeste do RS. A cidade de Santa Vitória do
Palmar (RS) apresentou o menor índice pluviométrico de 1267,9 mm da RSB. Estudos
climatológicos realizados na região denotam que os índices elevados de pluviometria estão
associados aos distúrbios de circulação atmosféricos tais como: os bloqueios que ocorrem
em maior quantidade no Oceano Pacífico, no período de inverno e no Oceano Atlântico,
no verão. Além, de mecanismos de massas de ar, relevo da região, episódios de Zona de
Convergência do Atântico Sul (ZCAS), Baixa do Chaco e ciclogênese (Escobar et al.,
2016; Khan e Kim, 1998; Sacco, 2010).

Figura 4. Espacialização da precipitação para a RSB, referente ao período de 1981- 2010

83 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Fonte: Dados do INMET


A análise da temperatura média do ar (máxima e mínima) para o período de estudo
1981-2010 é visualizada nas Figuras 5 e 6, respectivamente. A maior temperatura máxi-
ma média anual foi registrada na cidade Guaíra (PR), 28,50 ºC e a menor temperatura
máxima média anual de 18,79 °C foi verifica na cidade de São Joaquim no centro-sul do
estado de SC. Em geral, a média da temperatura máxima apresenta-se no valor de 24,5 ºC.
A Figura 6 apresenta a espacialização da temperatura mínima média anual da RSB. Foi
registrado na cidade de Paranaguá, sudeste do PR, a maior temperatura mínima, de 18,25ºC.
E, a cidade de São Joaquim, no sudeste de SC, apresentou a menor temperatura de 9,78 ºC.
São Joaquim (SC) apresenta significativa ocorrência de ondas de frios e temperaturas do
ar realmente baixas para os padrões nacional e estadual. A cidade, conhecida pelo turismo e
produção de maçã é considerada a mais fria do país e apresenta uma altitude de 1360 m. Os
episódios de frios ocorrem com maior frequência e duração no inverno (Silveira et al., 2018).

Figura 5. Média anual de temperatura máxima (1981-2010)


84 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Fonte: Dados do INMET

Entre as capitais dos três estados, a cidade de Curitiba é a capital mais fria do Brasil.
Segundo Leal (2012), Curitiba pode ser considerada uma cidade úmida e fria, com grande
amplitude térmica diária e anual e tempo frequentemente instável. Isso ocorre porque no
estado do PR, as temperaturas mínimas apresentam-se bem baixas em relação à média.
Também se deve considerar a atuação de Complexo Convectivo de Mesoescala (CCM) e
da ZCAS que agem no estado.
Segundo Mendonça (2006) tendências de intensificação do aquecimento e da plu-
viosidade é mais evidente no estado do PR e menores nos estados de SC e RS. Em geral,
verifica-se uma tendência à elevação das temperaturas na RSB nas figuras 5 e 6. Nota-se
que as temperaturas mínimas apresentam-se mais elevadas acompanhadas de uma elevação
dos totais pluviométricos médios anuais.

Figura 6. Média anual de temperatura mínima (1981-2010)

85 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


Fonte: Dados do INMET

Conclusão

A RSB apresenta-se sujeita à atuação dos diferentes sistemas atmosféricos, conjugados


com os efeitos dinâmicos provocados pela orografia. Segundo Valente (2015) o relevo
torna-se notável com as baixas temperaturas nos pontos de maior altitude.
Os maiores índices pluviométricos correspondem as duas bacias hidrográficas de maior
pluviometria, a RHAS e a RHU. Esses índices são verificados no noroeste e nordeste da
RSB. As regiões montanhosas também causam influência nos ventos na atmosfera, pois, ao
encontrar uma barreira topográfica, uma corrente de ar tende a ascender e, nesse processo,
pode ocorrer à formação de nuvens e precipitação (Reboita et al., 2012).
Os sistemas atmosféricos associados a essa pluviosidade são a orografia da região, o
posicionamento da ASAS, os CCM’s e a convergência de umidade e aquecimento de
superfície que instabilizam a atmosfera e aumentam a precipitação na RSB.
Os valores de temperatura mínimo e máximo foram mínimos na região da cidade de
São Joaquim, ao sudeste de SC. No restante dos outros estados às temperaturas mínimas
apresentaram-se mais elevadas.
Mendonça (2007) e Valente (2015) confirmam que a RSB apresenta grandes contras-
tes na precipitação e temperatura devido à influência do fenômeno El Niño-Oscilação Sul
(ENOS) e por ser rota de diversos sistemas atmosféricos provenientes tanto das regiões
quentes e úmidas quanto de regiões frias e secas.
Uma possibilidade de estudo a ser realizada é analisar a interação oceano-atmosfera
referente à variabilidade climática interanual global, o fenômeno El Niño-Oscilação Sul
(ENOS) em contribuição para a variância da precipitação na RSB.

Agradecimentos

A autora principal agradece aos professores e co-autores deste artigo e ao financia-


mento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelo
auxilio da bolsa de doutorado na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e de
doutorado sanduíche na Universidade Coimbra (UC).
86 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Referências

AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS (Brasil). Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil: Regiões
Hidrográficas Brasileiras-Edição Especial. Brasília, DF, p.163, 2015. ISBN: 978-85-8210-027-1
APARECIDO, L.E.O.; ROLIM, G.S.; RICHETTI, J.; SOUZA, P.S.; JOHANN, J.A. Köppen,
Thornthwaite and Camargo climate classifications for climatic zoning in the State of Paraná,
Brazil. Ciência Agrotécnica, Lavras, v. 40, n. 4, p. 405-417, 2016.
BACK, A. J.; OLIVEIRA, J. L.R; HENN, A. Relações entre precipitações intensas de diferentes
durações para desagregação da chuva diária em Santa Catarina. Revista Brasileira de Engenharia
Agrícola e Ambiental-Agriambi, v. 16, n. 4, p.391-398, 2012.
BRAGA, B.P. F.; FLECHA, R.; PENA, D. S.; KELMAN, J. Pacto federativo e gestão de águas.
Estudos Avançados, São Paulo, vol.22, n.63, p.17-42, 2008.
CARDOSO, C. S., SCOPONI, L. M., & DIAS, M. F. P. Pressões ambientais no campo orga-
nizacional da carne bovina no bioma pampa gaúcho. Territórios, Redes e Desenvolvimento
Regional: Perspectivas e Desafios. Anais do VII Seminário Internacional sobre Desenvolvimento
Regional. Santa Cruz do Sul, RS, Brasil, Setembro, 2017. Acesso online <https://online.unisc.
br/acadnet/anais/index.php/sidr/article/view/16786>.
DE MELLO, Y.R.; DE OLIVEIRA, F. A. CARACTERÍSTICAS CLIMÁTICAS DA REGIÃO
DA SERRA DO MAR DO ESTADO DE SANTA CATARINA, BRASIL. Raega-O Espaço
Geográfico em Análise, v. 46, n. 2, p. 116-134, 2019.
DIAS PINTO, J. R.; DA ROCHA, R. P. The energy cycle and structural evolution of cyclones over
southeastern South America in three case studies. Journal of Geophysical Research: Atmospheres,
v. 116, D14112, 2011.
ESCOBAR, G.C. J; SELUCHI, M.E; ANDRADE, K. Classificação Sinótica de Frentes Frias
Associadas a Chuvas Extremas no Leste de Santa Catarina (SC). Revista Brasileira de Meteorologia,
v. 31, n. 4, p. 649-661, 2016. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/0102-7786312314b20150156
FIGUEIREDO, A.H. Brasil: uma visão geográfica e ambiental no início do século XXI. IBGE,
Coordenação de Geografia, Rio de Janeiro, p.435, 2016. ISBN 978852043864
GRIM, A.M.; PAL, J.; GIORGI, F. Connection between spring conditions and peak summer
monsoon rainfall in South America: Role of soil moisture, surface temperature and topography
in Eastern Brazil. Journal of Climate, v.20, p.5929-5945, 2007.
JUNIOR, A. D. S. M., STEFENON, V. M., DOS SANTOS, M. G., SARZI, D. S., LEMOS, R.
P. M., & VIEIRA, R. B. Caracterização da diversidade genética de schinus molle l. e expansão
no Bioma Pampa Brasileiro. Anais do VII Salão Internacional de Ensino, Pesquisa e Extensão,
Universidade Federal do Pampa, v.7, n.2, 2016.
KHAN, V.M., KIM, I.S. Análise de agrupamento pluviométrico nos estados do Rio Grande do
Sul e Santa Catarina. In: X CONGRESSO BRASILEIRO DE METEOROLOGIA, VIII
CONGRESSO LATIONAMARICANO E IBÉRICO DE METEOROLOGIA, Brasília,
D.F. Anais... SBMET, v. 10, p. 1-5, CD-ROM. 1998.
LEAL, L. A influência da vegetação no clima urbano da cidade de Curitiba – PR. Tese (Doutorado)

87 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


- Universidade Federal do Paraná, Setor de Ciências Agrárias, Programa de Pós-Graduação em
Engenharia Florestal. 172 f. 2012.
LIMA, G. N.; LOMBARDO, M. Urban climatology in Brazil: an analysis based on the metho-
dology of the urban climate system. Environment Conservation Journal, v. 20, n. 1&2, p. 1-8,
2019.
MENDONÇA, F. Aquecimento global e suas manifestações regionais e locais: Alguns indicadores
da região Sul do Brasil. Revista Brasileira de Climatologia, vol. 2, n. 2, p. 71-86, 2006.
MENDONÇA, F.; OLIVEIRA, I. M.D. Climatolgia: noções básicas e climas do Brasil. Oficina do
Texto, São Paulo, v.1, 206f, 2007.
MONTEIRO, M. A. Caracterização climática do estado de Santa Catarina: uma abordagem dos
principais sistemas atmosféricos que atuam durante o ano. Geosul, v. 16, n. 31, p. 69-78, 2001.
MORAIS, M.A.; CASTRO, W.A.C.; TUNDISI, J.G. Climatologia de frentes frias sobre a Região
Metropolitana de São Paulo (RMSP), e sua influência na limnologia dos reservatórios de abas-
tecimento de água. Revista Brasileira de Meteorologia, São Paulo, v. 25, n. 2, p. 205-217, Junho,
2010.
KÖPPEN, W. Versucheiner klassifikation der klimate, vorzugsweise nach ihren beziehungen zur
pflanzenwelt. Geographische Zeitschrif. v.6, p.657-679, 1900.
REBOITA, M. S.; AMBRIZZI, T.; DA ROCHA, R. P. Relationship between the Southern Annular
Mode and Southern Hemisphere Atmospheric Systems. Revista Brasileira de Meteorologia, v.
24, n. 1, p. 48-55, 2009.
REBOITA M.S., GAN M. A., DA ROCHA R. P., AMBRIZZI T. Regimes de Precipitação na
América do Sul: Uma Revisão Bibliográfica. Revista Brasileira de Meteorologia, v.25, n.2, p.185-
204, 2010.
REBOITA, M. S., KRUSCHE, N., AMBRIZZI, T., ROCHA, R. P. D. Entendendo o Tempo e o
Clima na América do Sul. Terræ Didatica, v.8, n.1, p.34-50, 2012.
RODRIGUES, M.L.G.; FRANCO, D.; SUGAHARA, S. Climatologia de frentes frias no litoral
de Santa Catarina. Rev. Bras. Geof.,  São Paulo, v. 22, n. 2, p. 135-151,  Aug.  2004 .
SATYAMURTY,  P.;  MATTOS,  L.F. Climatological lower tropospheric frontogenesis  in the  mid-
latitudes due  to  horizontal deformation  and  divergence.  Monthly Weather Review, v.  117, n.
6, p. 1355-1364, 1989. 
SARTORI, M.G.B.; TITARELLI, A. H. V.  Clima e percepção. Universidade de São Paulo, São
Paulo, 2000.
SACCO, F.G. Configurações atmosféricas em eventos de estiagem de 2001 a 2006 na Mesorregião Oeste
Catarinense. 2010. 107f. Dissertação (Mestrado em Geografia)- Universidade Federal de Santa
Catarina, 2010.
SILVEIRA, R. B.; MENDONÇA, M.; FRANKE, A. E.; BITENCOURT, D. P. Impactos das
ondas de frio sobre a saúde pública no município de São Joaquim-Santa Catarina-Brasil. Revista
Brasileira de Climatologia, v.22, ano 14, p.249-266, 2018.
SOUSA, P.; NERY, J. T.; MARTINS, M.L.O. F. Análise da precipitação no estado do Paraná as-
sociada com o índice de oscilação do pacífico. Anais eletrônicos... XII Congresso Brasileiro de
Meteorologia, Foz de Iguaçu-PR, p.1126-1134, 2002.
VALENTE, P.T. Identificação das Áreas mais sujeitas a eventos extremos de temperatura e preci-
88 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

pitação no Sudeste da América do Sul. 55f. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em


Geografia)-Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil, 2015.
As paisagens culturais como leitura
do território. O caso da Sardegna1

Manuela Delrio
DISSUF – Università degli Studi di Sassari
Giampietro Mazza
DUMAS - Università degli Studi di Sassari

A consciência territorial

O desenvolvimento territorial, estritamente ligado ao património cultural e natural de


uma determinada sociedade, para garantir o princípio básico da sustentabilidade, necessita
fortemente do conhecimento do território e das peculiaridades relativas que o caracteri-
zam. Nesta perspectiva, o papel das comunidades parece ser central na otimização das po-

89 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


líticas de intervenção, iniciando e fortalecendo a consciencialização territorial, entendida
como um processo auto-representativo (Mazza et al., 2018).
Esse processo foi recentemente investigado em inovação tecnológica e digital, que
simplificou “l’accessibile, democratica ed estremamente rapida creazione d’informazioni geo-
grafiche” 2 (Mazza at al., 2018, pag. 38), graças à ajuda de atores que Goodchild (2007)
define citizen as sensor, intervindo e condicionando a informação geográfica. Dessa forma,
as inovações tecnológicas permitem influenciar os processos participativos de desenvol-
vimento territorial e implementar a “costruzione della consapevolezza territoriale” 3(Impei
2017, pag. 88).
Por meio da tecnologia e de dispositivos móveis relacionados, os vários usuários, direta
e indiretamente, inundam a web com informações georreferenciadas, capazes de determinar
um considerável banco de dados geográficos facilmente acessível a todos (Borruso 2010).

1
O trabalho é atribuído aos tópicos 3 e 4 a Manuela Delrio e 1, 2 e 5 a Giampietro Mazza
2
Tradução dos autores: “a criação acessível, democrática e extremamente rápida de informações geográficas”
3
Tradução dos autores: “construção da consciência territorial”
Usuários que conscientemente criam informações são aqueles que Goodchild (2007) acre-
dita terem experiência e treino profissional e cultural; por outro lado, as informações dei-
xadas inconscientemente na web são definidas por Capineri e Rondinone (2011) como
precisão involuntária. Por fim, em ambos os casos, constituem um grande banco de dados
geográficos, indispensável ao conhecimento territorial. A articulação das informações
acima mencionadas também desempenha um papel essencial nos processos de governance
territorial, pois engloba habilidades e conhecimentos, materiais e imateriais, que dão ori-
gem a uma imagem compartilhada do território. Em essência, o que surge é o reconheci-
mento da capitalização da paisagem (Harvey em Waterton 2015) por quem a vive, com
um consequente aprimoramento, através do digital, das paisagens.

A perceção da paisagem

A Convenção Europeia da Paisagem foi assinada pelo Comité de Ministros da Cultura


e do Meio Ambiente do Conselho da Europa em Florença em 20 de outubro de 2000
e posteriormente foi ratificada pela Itália em 2006. O que parece importante ressaltar
é o fato de que foram introduzidas uma série de medidas que os Estados signatários se
comprometeram a assinar para proteger a paisagem.
Seguindo os princípios introduzidos pelo Desenvolvimento Sustentável e confirmados
pela Conferência de Paisagem e Desenvolvimento do Rio de Janeiro em 1992, um importante
papel é reconhecido no campo do desenvolvimento socioeconómico e cultural europeu.
90 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa.: Cooperação e Desenvolvimento

Entre as várias inovações introduzidas pela Convenção está a definição de paisagem.


Ela se instala assim “designa una determinata parte di territorio, così come è percepita dalle
popolazioni, il cui carattere deriva dall’azione di fattori naturali e/o umani e dalle loro in-
terrelazioni” 4 esclarecendo como tal definição “si applica a tutto il territorio delle Parti e
riguarda gli spazi naturali, rurali, urbani e periurbani. Essa comprende i paesaggi terrestri, le
acque interne e marine. Concerne sia i paesaggi che possono essere considerati eccezionali, che i
paesaggi della vita quotidiana e i paesaggi degradati” 5.
O que emerge dessa definição está intimamente ligado à perceção que os humanos
têm da paisagem. O componente percetivo leva as pessoas a tomarem conhecimento e
conscientização (Ferrari em Rombai, 2015) de se encontrarem diante de uma determi-
nada paisagem (Turri 2003, Vallega 2009, Villa 2018). Nela encontramos o conjunto de

4
Artigo 1 - Capítulo 1 - Disposições gerais da Convenção Europeia da Paisagem. http://www.convenzio-
neeuropeapaesaggio.beniculturali.it/uploads/2010_10_12_11_22_02.pdf
5
Artigo 2 - Capítulo 1 - Disposições gerais da Convenção Europeia da Paisagem. http://www.convenzio-
neeuropeapaesaggio.beniculturali.it/uploads/2010_10_12_11_22_02.pdf
elementos naturais e culturais que a definem. É nessa interconexão, puramente dinâmica,
que se manifesta o que Turri define “l’oggettivazione dell’uomo” 6 (Turri 2008, pag. 60).
O trabalho proposto pela Convenção permite-nos perceber como, em última análise,
a paisagem é reconhecida como um bem comum (Settis 2013). Através da paisagem e da
estreita relação histórica que as populações mantêm, é possível detetar a identidade do
lugar, definida como “quella parte dell’identità personale che deriva dall’abitare in specifici
luoghi” 7 (Banini 2013, pag. 11). A paisagem torna-se assim uma ferramenta indispensável
em termos de desenvolvimento territorial, assumindo o papel de elemento estratégico para
as populações locais. De fato, a paisagem “in quanto elemento della memoria rappresenta un
grande patrimonio culturale perché i suoi segni specifici permettono alle società di identificarsi
in una cultura e conducono a una identità collettiva” 8 (Scanu 2009, pagg. 21-22).

Da paisagem ao património cultural

A Itália é o primeiro país do mundo, juntamente com a China, a exibir nos seus ter-
ritórios a presença de 55 locais, cada um reconhecido como património mundial. Para
ser definida como tal, a UNESCO estabelece na sua Convenção características essenciais,
divididas em duas categorias e dois artigos, referidos no Artigo 1, que reconhece o pa-
trimónio cultural e a paisagem cultural como:
“monumenti: opere architettoniche, opere di scultura e pittura monumentali, ele-
menti o strutture di natura archeologica, iscrizioni, abitazioni rupestri e combinazioni

Cooperação e Desenvolvimento
di caratteristiche, che hanno un valore universale eccezionale dal punto di vista della
storia, dell’arte o della scienza;
gruppi di edifici: gruppi di edifici separati o collegati che, per la loro architettura, la
loro omogeneità o il loro posto nel paesaggio, hanno un valore universale eccezionale dal
punto di vista della storia, dell’arte o della scienza;
siti: opere dell’uomo o opere combinate di natura e uomo, e aree tra cui siti archeologici di
91 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa:

eccezionale valore universale dal punto di vista storico, estetico, etnologico o antropologico.”9

E no artigo 2 reconhece como património natural as:

6
Tradução dos autores: “a objetificação do homem”
7
Tradução dos autores: “a parte da identidade pessoal que deriva de viver em lugares específicos”.
8
Tradução dos autores: “como elemento de memória, representa uma grande herança cultural, porque os seus sinais
específicos permitem que as sociedades se identifiquem a uma cultura e conduzam a uma identidade coletiva”
9
Convenção sobre a Proteção do Património Cultural Natural Mundial - Art. 1- https://whc.unesco.org/en/
conventiontext
“caratteristiche naturali costituite da formazioni fisiche e biologiche o gruppi di tali
formazioni, che hanno un valore universale eccezionale dal punto di vista estetico o scientifico;
formazioni geologiche e fisiografiche e aree delineate con precisione che costituiscono
l’habitat di specie animali e piante minacciate di eccezionale valore universale dal punto
di vista della scienza o della conservazione;
siti naturali o aree naturali delineate con precisione di eccezionale valore universale
dal punto di vista della scienza, della conservazione o della bellezza naturale.”10

Desde 17 de outubro de 2003, a Conferência Geral da UNESCO aprovou a


Convenção para a Proteção do Património Cultural Imaterial, a fim de proteger a cultura
e o folclore tradicionais, evitando o seu desaparecimento, salvaguardando e preservando
os seus conhecimentos relacionados a idiomas, rituais e artesanato transmitido de geração
em geração ao longo dos séculos.
O valor da paisagem e o seu reconhecimento como património transcendem o sentido
estético-naturalista; sua expressão é estabelecida pelo reconhecimento como símbolo his-
tórico e cultural de um território e uma população, fazendo com que, às vezes, assuma um
valor de identidade. A definição desse património identitário estabelece essencialmente a
identidade dos lugares (Banini 2011), favorecendo a sua identificação e reconhecimento
pelas comunidades locais.
Quanto à Sardenha, em relação à categoria de património intangível, em 2005 o “Canto
a Tenore” (Satta 2013) foi registado na Lista do Património Mundial da UNESCO, uma
antiga canção coral que fazia parte da tradição pastoral milenar da ilha. E, novamente,
92 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa.: Cooperação e Desenvolvimento

desde 2013 também a “Faradda di li candareri” procissão das grandes velas de madeira
que na véspera de Ferragosto atravessa o centro da cidade de Sassari, foi reconhecida,
juntamente com outras três cidades italianas, na “Rete delle grandi macchine a spalla”11.

Património da UNESCO na Sardenha

Recentemente estabelecido e mais próximo do contexto do património e da paisagem


cultural, embora reconhecido como património intangível, existe “a arte do muro de pedra
seca, conhecimentos e técnicas”, que abrange oito países da região norte do Mediterrâneo.
Juntamente com Itália, Croácia, Chipre, França, Grécia, Eslovênia, Espanha e Suíça, em
2018 obtiveram o reconhecimento da UNESCO como ”le strutture a secco sono sempre fatte

10
Convenção relativa à proteção do património cultural natural do mundo - Art. 2 - https://whc.unesco.org/
en/conventiontext”
11
Festa das grandes máquinas de ombro http://www.unesco.it/it/PatrimonioImmateriale/Detail/383
in perfetta armonia con l’ambiente e la tecnica esemplifica una relazione armoniosa fra l’uo-
mo e la natura” 12 (Tradução dos autores: “estruturas a secco são sempre feitas em perfeita
harmonia com o meio ambiente e a técnica exemplifica uma relação harmoniosa entre
homem e natureza”). Além das características da paisagem, é mencionada, entre outras
coisas, a adaptação aos diversos contextos territoriais, a partir da utilidade na organização
de espaços de criação e agricultura.
Nesse sentido, o caso das Canárias é emblemático, em particular a ilha vulcânica
Lanzarote (Battino 2016) que, apesar da exposição a ventos fortes, com a ajuda de paredes
secas “à prova de vento” de forma linear, circular ou semicircular, podem ser obtidos exce-
lentes resultados em viticultura; o papel importante na prevenção de deslizamentos de terra
e erosão, como no caso dos 42 mil hectares de terraços de Cinque Terre na Ligúria (Bonardi
em Varotto 2016), possibilitado graças à sabedoria de gerações de agricultores que lutam
contra a instabilidade hidrogeológica das colinas íngremes. Na Sardenha, o uso de paredes
de pedra seca (Fig. 1) limita-se à função de delimitar terras para uso agrícola e pastoral e já
regulamentado em 1820 pelo decreto de Closende do rei da Sardenha Vittorio Emanuele I.

Figura 1. Muros de pedra secas na Sardenha.

Cooperação e Desenvolvimento
93 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa:

Foto do autor, junho de 2019.

12
http://www.unesco.it/it/News/Detail/600
Com esta disposição, foi introduzida a propriedade privada que dizia respeito tanto ao
cidadão individual quanto aos municípios, que estavam autorizados a cercar as suas
terras, tornando “livre qualquer cultivo, inclusive o do tabaco”13, com a tentativa de
reduzir o pastoreio semi-selvagem característico da ilha, a favor da agricultura e, portan-
to, de maior crescimento económico, as muralhas são parte integrante da paisagem da
Sardenha, na qual a ação do homem (muralhas) está em perfeita harmonia com o
território, como prevê a Convenção Europeia da Paisagem.
Parece razoável dizer que a paisagem da Sardenha é caracterizada pelo uso de pedra
desde o segundo milénio a.C. devido à presença conspícua de monumentos megalíticos,
os Nuraghi, presentes em toda a ilha.
O Nuraghe de Barumini (Fig. 2) foi reconhecido como Património Mundial pela
UNESCO em 1997. Mas, sem dúvida, os 7000 nuraghes espalhados pela ilha fazem parte
de uma paisagem patrimonial e cultural que identifica e caracteriza o território regional na
sua totalidade. De fato, esses monumentos são únicos na sua obra arquitetónica. Estes são
edifícios fortificados típicos da antiga civilização da Sardenha ou Nurágica, que remontam
à Idade do Bronze Média (por volta de 1700 a.C.), contemporânea com a Civilização
Micênica, o Antigo Reino dos Assírios, o Novo Reino Egípcio (Contu 1974, Lilliu 1962).

Figura 2. Su Nuraxi Nuraghe em Barumini.


94 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa.: Cooperação e Desenvolvimento

Imagens do Google Fotos

13
Édito Real relativo as chiudende, acima das terras comuns e da Corona, e acima das tabacarias,
no Reino da Sardenha. http://www.archiviostatocagliari.it:443/patrimonioarchivio/immagine.
html?open=F4422770506_SS&t=UD&pg=1&idp=2824&typ=s&doc=aga_1020_i002_c3.jpg
Mais problemática é a cronologia relativa ao fim da civilização nurágica e ao abandono
total dos nuraghi, em muitos casos nunca ocorreu, uma vez que foram utilizados, entre ou-
tras coisas, como abrigo para gado de pasto até recentemente. Os estudos realizados até o
momento não são suficientes para dar respostas inequívocas. O problema é principalmente
devido ao número muito alto de monumentos, dos quais apenas uma parte muito pequena
foi investigada e aos tempos e métodos usados ao longo dos anos por vários estudiosos.
Para Lilliu (1955, 1962, 1982, 1988) em 238 aC, data em que Roma conquistou
a Sardenha, a Civilização Nurágica terminou; enquanto, de acordo com Contu (1974,
1990) e Lo Schiavo (1981, 1997), o fim da era nurágica remonta ao início da Idade do
Ferro, com a chegada à ilha do Púnico, datada do século VIII-VI aC..
A civilização nurágica não desapareceu completamente, mas foi transformada graças
ao contato com outras populações. De fato, Ugas (1998, 1999) vê, na Idade do Ferro, no
século II dC, a fim de toda a civilização nurágica, assim como a civilização em questão
passou por mudanças, foi o mesmo para os nuraghe interpretados como monumento que
representa esse longo período cronológico, que dura mais de um milénio.
Na sua fase inicial, que remonta à Idade do Bronze Média (1650-1550 aC), o primeiro
corredor nuraghi, ou protonuraghi, surgiu na Sardenha (Contu 1974, Lilliu 1982, Tanda
1998, Ugas 1992). Estes foram construídos em áreas estratégicas para controlar o territó-
rio e sua função civil é testemunhada pela atenção prestada à orientação para o S-SE, ao sol
e protegida do vento principal da ilha, o Mistral, que sopra do NO e também à conexão
com as zonas de produtividade e em contato visual entre si. Nesse período, nem todos os
nuraghi foram construídos perto das aldeias e a organização territorial da época ainda não

Cooperação e Desenvolvimento
é conhecida por entender o motivo do papel estratégico e defensivo. Os estudiosos Lilliu e
Contu assumiram que a ilha estava dividida em “distritos”, com as residências dos “chefes”
nos principais nuraghi e a comunicação entre as outras estruturas menores numa posição
estratégica que também poderia ser encontrada em áreas e locais mais isolados.
Na Idade do Ferro (por volta de 900-850), o nuraghe tornou-se parte integrante da vila,
com o nascimento de uma organização de urbanismo numa realidade comunitária testemu-
95 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa:

nhada por enterros coletivos, como os túmulos dos gigantes. O papel dos nuraghi mudou
de político para sagrado, tornando-se locais de culto, mas também celeiros e depósitos de
excedentes de alimentos e acumulação de metais (primeiro bronze e depois cobre).
Das escavações arqueológicas realizadas no “su Nuraxi” de Barumini (Lilliu 1955) a
partir da década de 1940 pelo grande arqueólogo Lilliu, parece que esse nuraghe, cons-
truído com pedra local, basalto, é de um tipo complexo que remonta ao século XIV aC
e cercado por uma extensa vila de cabanas com 109 quartos que se desenvolveram em
diferentes fases nos séculos seguintes.
No entanto, ao longo dos séculos, as estruturas nurágicas desempenharam papéis di-
versificados, entrando em contacto próximo com processos de territorialização e cons-
tituindo um elemento tangível, não apenas da paisagem da Sardenha, mas também do
processo de construção da identidade local.

Considerações finais

Na era atual, caracterizada por uma economia globalizada, o património cultural e a


sua conservação representam uma fonte considerável de inovação, além de um elemento
estratégico capaz de responder aos desafios impostos pela globalização e à necessidade de
personalização exigida pelo usuário. As inovações tecnológicas (ITC) assumem, portanto,
um papel estratégico crucial para a transmissão do nicho de mercado que a qualidade
e a cooperação entre os atores conseguiram desenvolver, levando a uma reavaliação dos
contatos geográficos e socioculturais e a uma reformulação do papel assumido pelo capital
humano. As ITC permitem que a oferta turística aumente o seu valor, destacando a aten-
ção ao património cultural e territorial, que gerará um retorno económico que pode ser
traduzido numa maior presença turística.
Os recursos históricos, culturais e estéticos que incorporam o património de um ter-
ritório foram colocados no centro das celebrações europeias de 2018, com o objetivo
de aproximar a população da comunidade e redescobrir o sentimento de pertencer ao
reconhecido “Ano Europeu do Património Cultural”14.
96 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa.: Cooperação e Desenvolvimento

O valor agregado criado pela atividade integrada (global do trabalho dos diversos atores
territoriais) da rede de turismo deve ser transmitido ao mercado sem fronteiras da web, por
meio de canais diretamente disponibilizados pela rede, destacando como o produto é altamen-
te competitivo e moderno no mercado em termos de qualidade e inovação. Isso ocorre através
do desenvolvimento de estratégias digitais que criam contacto entre os clientes e amplificam
as emoções positivas dos turistas, para que possam ser informados posteriormente.
O objetivo central do Ano Europeu do Património Cultural é implementar o papel
ativo da força motriz do desenvolvimento económico e social do património, por meio
de importantes iniciativas nacionais e transacionais conduzidas e financiadas pela União
Europeia. Uma pesquisa realizada pelo Eurobarometer (2017) destaca a importância do
património cultural para os cidadãos europeus. Em essência, 70% dos questionados acre-
ditam que isso é capaz de melhorar a qualidade de vida, enquanto 80% consideram não
apenas relevante a nível pessoal, mas também intervêm na identidade da comunidade,
14
Com a participação de 28 estados europeus, começou oficialmente em 31 de janeiro de 2018. https://
ec.europa.eu/italy/news/20171207_anno_europeo_patrimonio_culturale_it
regional e nacional. Em essência, ¾ dos cidadãos acreditam que é essencial alocar mais
recursos para a implementação da proteção do património cultural europeu15.
No geral, na UE, 7,8 milhões de pessoas realizam trabalhos que podem, mesmo que
indiretamente, estar ligados ao turismo, enquanto mais de 300.000 trabalhadores em-
pregados ativamente no setor do património cultural, testemunham o importante papel
desempenhado disso na cena europeia.
O turismo cultural na Sardenha repousa suas fundações no sítio arqueológico de Nuraxi
di Barumini. É um sítio cujo peso regional do turista é extremamente relevante e cresce
continuamente, com mais de 86.000 admissões registadas (dados da Fundação Barumini16)
no período de janeiro a setembro de 2019, com mais de 7000 visitantes a mais que em
201817. O aumento (10%) também caracterizou o Centro Museu Casa Zapata e o Centro
Cultural Giovanni Lilliu, resultado de uma melhor oferta de turismo cultural integrado.
Esse sucesso foi garantido pelo trabalho realizado pela “Fundazione Barumini Sistema
Cultura”, fundada em 2006, com o objetivo de garantir maior proteção e valorização do
património cultural local. Com o tempo, a fundação reformulou a gestão do site a ponto
de se tornar um modelo importante para a gestão do património cultural, certamente a
empresa regional mais autorizada que opera no turismo cultural na Sardenha.
Ao contrário do que aconteceu em outras regiões italianas, a Região Autónoma da
Sardenha não possui uma aplicação oficial para dispositivos móveis, o que pode ajudar os
turistas a deslocarem-se dentro do panorama regional do património cultural. O mesmo se
aplica à Fundação Barumini, que se beneficia de uma página da web, de importantes críticas
positivas encontradas no portal do Trip Advisor (Fig. 3)18 e está presente em todas as redes

Cooperação e Desenvolvimento
social por meio de aplicações ativas e atualizadas no Facebook, Instagram, YouTube e Twitter,
mas não possui uma aplicação que possa fazer interface para obter informações adicionais.
A inovação tecnológica poderia promover uma maior consciencialização territorial,
se fosse reconhecido o valor agregado que poderia representar tanto para o património
cultural quanto para todo o sistema territorial. 97 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa:

15
https://ec.europa.eu/italy/news/20171207_anno_europeo_patrimonio_culturale_it
16
http://www.fondazionebarumini.it/it
17
Parece relevante destacar como o complexo foi visitado para o ano de 2018 de 89.500 turistas.
18
Na página do Trip Advisor do site nurágico de Su Nuraxi, verifica-se que 72% das avaliações são excelentes,
23% em média e os respetivos 2% das avaliações são considerados ruins.
Figura 3. Captura de imagem da página do conselheiro de viagem
do site Nuragico de Su Nuraxi.

Fonte: nossa elaboração na página https://www.tripadvisor.it/Attraction_Review-g1080083-d195167-Reviews-


Su_Nuraxi-Barumini_Province_of_Medio_Campidano_Sardinia.html
98 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa.: Cooperação e Desenvolvimento

Bibliografia

Banini T., (2013), Identità territoriali. Questioni, metodi, esperienze a confronto, Franco Angeli. Milano.
Battino S., (2016), Lungo le rutas del vino alla scoperta del paesaggio vitivinicolo di Lanzarote nelle
“Isole fortunate”, in: Bollettino dell’Associazione Italiana di Cartografia, 156 (2016), UTET
ed., pag. 102-114.
Bonacini E., (2014), Dal Web alla App. Fruizione e valorizzazione digitale attraverso le nuove tec-
nologie e i social media, Catania: Maimone.
Bonardi L., Varotto M., (2016), Paesaggi terrazzati d’Italia. Eredità storiche e nuove prospettive,
Franco Angeli, Milano
Borruso G., (2010), La “nuova” cartografia creata dagli utenti. Problemi, prospettive e scenari, in:
Bollettino dell’Associazione Italiana di Cartografia 138, Trieste, EUT Edizioni Università di
Trieste, pag. 241-252
Capineri C., Rondinone A., (2011), Geografie (in) Volontarie, Rivista Geografica Italiana, 118,
pp. 559-577.
Contu E., (1974), La Sardegna dell’età nuragica, Popoli e civiltà dell’Italia antica. Biblioteca di
Storia Patria, Bologna.
Contu E., (1981), L’architettura nuragica. In Ichnussa. La Sardegna dalle origini all’età classica,
edited by Enrico Atzeni, pp. 5-175. Garzanti-Scheiwiller, Milano.
Contu E., (1990), Il nuraghe. In La civiltà nuragica, ristampa del catalogo della Mostra “Sardegna
preistorica. Nuraghi a Milano”, edited by Enrico Atzeni et al., pp. 45-110. Electa, Milano.
Contu E., (1996), La Sardegna. Problematica e inquadramento culturale. In L’antica età del Bronzo:
atti del congresso di Viareggio, 9-12 gennaio 1995, edited by Daniela Cocchi Genick, pp. 385-
96. OCTAVO, Franco Cantini Editore, Firenze.
Goodchild M.F. (2007), Citizens as sensors: the world of volunteered geography, GeoJournal,
69(4), pp. 211-221.
Harvey D. C., Waterton E., (2015), Editorial: Landscapes of Heritage and Heritage Landscapes,
Landscape Research, vol. 40, n° 8, pag. 905-910.
Impei F. (2017), Digital Technologies e consapevolezza territoriale. Un progetto per l’Alta Valle
dell’Aniene, Semestrale di Studi e Ricerche di Geografia, Roma – XXIX, Fascicolo 1,
Mazza G., Madau C., Masia S., Murtinu F., (2018) Le azioni partecipate delle nuove tecnologie.
La E-Inclusione come sviluppo territoriale nell’Unione dei Comuni Barbagia, in Sechi Nuvole
(a cura di), Supplemento Geotema, n°3, Patron ed., Bologna, pag. 36-45.
Ferrari M. G., Rombai L., (2015), Geografia ed educazione all’ambiente e al paesaggio: un’interazione
in progress, University Press, Padova. http://turismoepsicologia.padovauniversitypress.it/2015/1/2
Lilliu G., (1955), Il nuraghe di Barumini e la stratigrafia nuragica. Edizioni Gallizzi, Sassari.
Lilliu G., (1962), I nuraghi: torri preistoriche di Sardegna. Edizioni La Zattera, Sassari.
Lilliu G., (1982), La civiltà nuragica. Carlo Delfino Editore, Sassari.
Lilliu G., (1988), La civiltà dei Sardi dal Paleolitico all’età nuragica. ERI Edizioni, Torino.

Cooperação e Desenvolvimento
Lo Schiavo F., (1981), Economia e società nell’età dei nuraghi. In Ichnussa: La Sardegna dall’Ori-
gini all’Età Classica, edited by Enrico Atzeni et al., pp. 255-347. Garzanti-Scheiwiller, Milano.
Lo Schiavo F., (1997), La civiltà nuragica. I templi, s.v. Sardegna. In Enciclopedia dell’Arte Antica,
pp. 154- 57.
Satta G., (2013) Dal parco al “progetto pastoralismo”. Il canto a tenore tra patrimonializzazione e
politiche dello sviluppo, in “Parolechiave” 1/2013, Carocci editore, pag. 69-84.
Scanu G., (2009), Cartografia, geografia, nuove politiche di gestione dei paesaggi, in Carta M.,
Spagnoli L., (a cura di), La ricerca e le istituzioni tra interpretazione e valorizzazione della
99 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa:

documentazione cartografica, Gangemi editore, Roma, pag. 21-38.


Settis S., (2013), Il paesaggio come bene comune, La Scuola di Pitagora, Napoli.
Tanda G., (1998), I Monumenti prenuragici e nuragici. In Sedilo III. I monumenti nel contesto
territoriale, edited by Giuseppa Tanda, pp. 79-115. Ste Editrice, Villanova Monteleone.
Turri E., (2003), Il paesaggio degli uomini, Zanichelli, Bologna.
Turri E., (2008), Antropologia del paesaggio, Marsilio Editori, Venezia.
Ugas G., (1992), Considerazioni sullo sviluppo dell’architettura e della società nuragica. In Sardinia
in the Mediterranean: a footprint in the sea. Studies in Sardinian Archaeology presented to
Miriam S. Balmuth, edited by Robert H. Tykot, Tamsey K. Andrews, e Miriam S. Balmuth,
pp. 221-34. Sheffield Academic Press, Sheffield.
Ugas G., (1998), Centralità e periferia. Modelli d’uso del territorio in età nuragica: il Guspinese. In
L’Africa romana. Atti del XII Convegno di Studio, Olbia, 12-15 dicembre 1996, edited by M.
Khanoussi, P. Ruggeri, e C. Vismara, pp. 513-48. Edizioni Gallizzi, Sassari.
Ugas G., (1999), Architettura e cultura materiale nuragica: il tempo dei protonuraghi. SarEdit, Cagliari.
Vallega A., (2009), Indicatori per il paesaggio, Franco Angeli, Milano
Villa D., (2018), Sguardi di paesaggi fragili, in “Territorio” 87/2018, Franco Angeli, Milano, pag.
178-188.
Anno Europeo del Patrimonio Culturale - https://ec.europa.eu/italy/
news/20171207_anno_europeo_patrimonio_culturale_it
Convenzione concernente la protezione del patrimonio culturale naturale mondiale – Art. 1 -
https://whc.unesco.org/en/conventiontext
Convenzione Europea del Paesaggio - http://www.convenzioneeuropeapaesaggio.beniculturali.it/
uploads/2010_10_12_11_22_02.pdf
Eurobarometro (2017) - https://ec.europa.eu/commfrontoffice/publicopinion/index.cfm/Survey/
getSurveyDetail/instruments/SPECIAL/surveyKy/2150#p=1&instruments=SPECIAL&year-
From=1974&yearTo=2018&surveyKy=2150
Fondazione Barumini - http://www.fondazionebarumini.it/it
Trip Advisor - https://www.tripadvisor.it/Attraction_Review-g1080083-d195167-Reviews-Su_
Nuraxi-Barumini_Province_of_Medio_Campidano_Sardinia.html.
100 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa.: Cooperação e Desenvolvimento
Paisagem, Lugar e Memória: a Pequena
África Carioca

Leila de Oliveira Lima Araujo1


Universidade Federal Fluminense

Introdução

Nos diferentes lugares encontramos as marcas da história descrita nas paisagens


urbanas. Por vezes, a população não conhece ou reconhece estas paisagens, tampouco
valorizam os lugares de memória nas cidades. Nos últimos tempos, muitos destes lugares,
notadamente nas metrópoles, amargam com fraturas, rupturas e desenraizamentos de suas

101 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


formas históricas aparentes, com o apagamento do seu passado, quando novas formas
surgem a todo instante. De certo modo, tais lugares, hoje modificados, possuem paisagens
que reafirmam os interesses da racionalidade política e econômica no contexto global.
Numa tentativa de trazer à luz sobre o cenário posto, o presente artigo analisa a Pequena
África Carioca, lugar de importante representação afrodescendente, que passou por reite-
radas tentativas de invisibilização social por parte do status quo dominante. Localizada
na cidade do Rio de Janeiro, Brasil, a chamada Pequena África – expressão atribuída por
Heitor dos Prazeres por Roberto Moura (1995) – ganhou notoriedade nas últimas décadas
moldando representações sobre a presença afrodescendente (VASSALLO, 2018, p. 96).
No entanto, o espaço da Pequena África Carioca, ficou conhecido historicamente desde
o comércio de escravos ilegal, após 1831. Mesmo depois da abolição da escravatura2, até
1
Licenciada, Bacharel e Mestra em Geografia pela Universidade Federal Fluminense, Doutora em Geografia
pela Universidade Federal de Minas Gerais. Pesquisadora no Grupo de Pesquisa ETHOS: Geografia Política,
Ética, Gênero e Sexualidade
2
Lei Áurea, oficialmente Lei Imperial n.º 3.353, sancionada em 13 de maio de 1888, foi o diploma legal que
extinguiu a escravidão no Brasil.
1920, escravos libertos permaneceram trabalhando na região. Muitos deles vieram da Bahia
e de várias partes do país a procura de trabalho, onde ergueram suas casas e centros religiosos.
Impactada pelos projetos de intervenção urbanística, a região vem desde os primeiros
anos do século XX, passando por reformas como a do Prefeito Pereira Passos. Tais proje-
tos urbanísticos culminaram com o Porto Maravilha de Revitalização (2009-2016), que
buscou organizar a cidade para os grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo de
Futebol (2014) e os Jogos Olímpicos (2016). Observa-se que
(...) em meio às tensões provocadas pelos novos projetos de revitalização da re-
gião portuária, como o Plano Porto do Rio (2001- 2008) e o Projeto Porto Maravilha
(2009-2016), a expressão Pequena África é reapropriada por diversos indivíduos e
grupos que afirmam o pertencimento a esse território e lhe imprimem diferentes
significados. (VASSALLO, 2018, p. 97)

Para compreendermos o processo de ocupação espacial e a relevância social da Pequena


África Carioca, o artigo estrutura-se em duas partes principais. A primeira, tece uma con-
sideração teórica sobre os conceitos de paisagem, lugar e memória, por entendermos ser
fundamental subsídio para a análise teórica. A despeito do resgate das paisagens dos lugares
de memória que, tanto no passado, como no presente requerem tornar-se visíveis, legítimos e
reconhecidos para a composição do legado socioespacial e cultural da população afrodescen-
dente. Na segunda parte, o artigo enseja na análise empírica sobre os lugares representativos
geograficamente. Sendo assim, examinaremos alguns pontos da Pequena África Carioca,
constituída pelos bairros Gamboa, Saúde, Santo Cristo, Cidade Nova, Estácio, Catumbi,
102 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Lapa, Praça Mauá e um pedaço de São Cristóvão, na cidade do Rio de Janeiro.

Paisagem, Lugar e Memória: uma breve análise

Entendemos que a paisagem pode ser definida como o espaço geográfico que podemos
ver desde um certo ponto, como diria Lacoste (2003). Mas, também como uma mirada, uma
maneira de ver e interpretar um produto social, que resultou de uma transformação coletiva da
natureza e projetou-se culturalmente em uma sociedade num determinado tempo e espaço.
A paisagem aqui denotada, apresenta-se em um conjunto de formas que, num dado
momento, exprime as heranças pretéritas deixadas no lugar, onde representam as sucessivas
relações entre o homem e a natureza. Esta reúne ainda, objetos do passado e do presente,
num sentido transtemporal, como “uma construção transversal” (SANTOS, 2006, p. 103).
Ela também pode ser analisada como uma unidade visível, que possui uma identidade
visual, caracterizando-se por fatores de ordem social, cultural e natural, contendo espaços
e tempos distintos, do passado e do presente. A paisagem pode conter o velho no novo
e o novo no velho, simultaneamente. Dessa forma, ela não só pode nos mostrar como é
o mundo, mas também como uma construção, uma composição, uma forma de vê-lo,
conforme análise de Nogué (2007).
Neste sentido, os lugares contêm paisagens que expressam lugares. Neles, o seu
sentido conflui para experiência cotidiana, e também, como esta se abre para o mundo
(RELPH, 2013). As referências pessoais e o sistema de valores direcionam as diferentes
formas de perceber e constituir a paisagem no espaço geográfico.
Nas cidades contemporâneas, por exemplo, o papel dos lugares, em um contexto
de metropolização, fragmentação e homogeneização, conforma-se à hierarquização por
lógicas econômicas e políticas, em geral de caráter extralocal. Temos a percepção que a
metrópole parece negar certos lugares, sobrepondo valores e conteúdos hegemônicos às
experiências enraizadas na vida cotidiana de cada lugar. No entanto, torna-se necessário
o regate da memória espacial, para entendermos a transformação dos espaços urbanos da
cidade e percebermos a identidade que qualifica certos lugares.
Nessa perspectiva, é através da memória que o passado pode ser explorado e
compreendido. Ela é antes, o meio, onde se dá a vivência, assim como o solo é o meio no
qual as antigas cidades estão soterradas (BENJAMIN,1994). Na memória, o espaço, mais
que o tempo, fornece os marcadores significativos e as qualidades ideais são situadas sim-
bolicamente (SCHAMA, 1997). A reinterpretação do passado passa, muitas vezes, pelas
lentes do tempo presente, pois, recriando-o, mesmo que inconscientemente, buscamos,
quando necessário, reproduzir um significado aceitável para o presente.

103 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


É preciso pensar e preservar a memória física e espacial, como também descobrir
e valorizar a memória do homem. A memória de um pode ser a memória de muitos,
possibilitando a evidência dos fatos coletivos (THOMPSON, 1992).

A Pequena África Carioca - Lugar de Memória e/ou Lugar de Vida

Compreendida pelos bairros Gamboa, Saúde, Santo Cristo, Cidade Nova, Estácio,
Catumbi, Lapa, Praça Mauá e um pedaço de São Cristóvão, na cidade do Rio de Janeiro, a
Pequena África Carioca, abrigou africanos vindos do Congo e Angola, que aqui chegaram
para ser escravizados. Após a abolição da escravatura tornou-se o lugar preferencial para o
destino dos ex-escravos, especialmente baianos, que buscavam trabalho na capital do Brasil3.
Os lugares aqui representados destacam contextos e atores que convergem e divergem,
para características singulares cujas gradações tentaremos investigar aqui.
3
A cidade do Rio de Janeiro foi capital do Brasil até 21 de abril de 1960.
O Cais do Valongo – século XIX e hoje
Como toda cidade margeada pelas águas de rios e mares, a cidade do Rio de Janeiro
teve ao longo de sua história diversos ancoradouros, até a construção de seu porto oficial.
Aqui, destacou-se o Cais do Valongo, que tornou-se o ponto de desembarque de negros
oriundos do continente africano para ser escravizados. Este espaço substituiu a atividade
do atracadouro da Praça XV, a partir de 1774.
Escondido e de difícil acesso à época, o Cais do Valongo, foi estruturado para recepcionar
os negros africanos e sediar o mercado transatlântico. No local, era possível visualizar um
ir e vir de negros que seriam comercializados, tornando-se escravos e encaminhados para
as fazendas agrícolas no interior do país.
Aproximadamente na década de 1830, quando algumas leis contra a escravidão foram
assinadas, o Cais do Valongo encerrou as suas atividades. Na mesma época, o mercado foi
fechado para mostrar aos ingleses que estavam cumprindo os acordos de extinção do tráfi-
co negreiro. A inatividade do Cais durou pouco tempo, e em 1843, uma nova estrutura o
cobriu, juntamente com o mercado de escravos. Tal finalidade objetivava apagar a memó-
ria escrava e criar um novo porto de entrada para a chegada da princesa Tereza Cristina de
Bourbon, a futura esposa do Dom Pedro II.
Durante os anos de 1904 e 1910, o Cais foi novamente aterrado. O prefeito Pereira
Passos, com sua reforma urbanística, enterrou mais ainda a história do mercado escravo do
Rio de Janeiro. Este aterro soma-se a ampliação da área portuária da cidade.
Durante muitos anos o Cais do Valongo permaneceu encoberto. Em 2009, quando o
104 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

projeto do Porto Maravilha teve suas obras iniciadas, o Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional (IPHAN) conduziu os estudo de pesquisa arqueológica na re-
gião do Cais. Em 2011, durante as obras urbanísticas, revelou-se diversas camadas do
Cais do Valongo e os vários artefatos trazidos pelos africanos escravizados. Os vestígios
arqueológicos ali encontrados, demonstraram como era ativo o mercado de escravos do
Rio de Janeiro. Durante o período de operação entre 1774 e 1831, estima-se que 700.000
africanos desembarcaram no Cais do Valongo.

Tia Ciata e a Casa da Tia Ciata Espaço Cultural


A baiana Tia Ciata, mulher negra, migrou como outros baianos para o Rio de Janeiro
com o desejo de uma vida melhor, nas últimas décadas do século XIX. Na cidade casou
e foi mãe de 14 filhos. Como outras tias baianas, foi quituteira e com seu tabuleiro ven-
dia os seus produtos. Vestia-se com roupas vistosas, colares e pulseiras, afirmando a sua
identidade religiosa com o candomblé.
Figuras 1 e 2. Cais do Valongo, 1904 e atualmente.

Figura 1: Augusto Malta


Figura 2: <https://rioonwatch.org.br/?p=16552>, acesso em 20 jun. 2019

Ela residiu em diferentes endereços localizados na região central da cidade do Rio de


Janeiro, incluindo a Praça Onze, nas proximidades da Pedra do Sal e na Saúde. Algumas
das mudanças de domicílio de Tia Ciata, relacionam-se às obras urbanísticas de Pereira
Passos, que despejava o morador e derrubava a casa, para “oxigenar a cidade”.
Ela, como outros negros, ex-escravos, afrodescendentes ou mesmo alguns imigrantes
europeus padeceram das mesmas dificuldades. Entretanto, eles mantiveram uma relativa
convivência harmoniosa, muito devido a subalternização, condição de pobreza material,
de vítimas de discriminação racial e perseguição sofridas naquele tempo.
A casa de Maria Hilária Batista de Almeida, nome de batismo de Tia Ciata, como a

105 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


de outras baianas era o local escolhido para, junto com demais afrodescendente, embalar
os ritmos ancestrais. No espaço interno das casas e em áreas públicas próximas, como
a Praça Onze, eram realizados encontros musicais embalados por diversos gêneros, tais
como choro, maxixe, samba e religiosos. Ali reuniram-se nomes importantes da músi-
ca carioca, como Pixinguinha, Donga, Heitor dos Prazeres. Os encontros eram regados
pelos quitutes produzidos pelas baianas, que seduziam os presentes. Inclusive, inspiraram
a primeira escola de samba da cidade do Rio de Janeiro, “Deixa Falar”.
Tia Ciata e demais tias baianas, “eram os grandes esteios da comunidade negra, res-
ponsáveis pela nova geração que nascia carioca, pelas frentes do trabalho comunal, pela
religião” (MOURA, 1995, 92). Elas expressam a cultura afro-brasileira na cidade carioca.
“Em sua casa, diversas expressões culturais, artísticas e religiosas da cultura
negra, perseguidas na época, encontraram um espaço de liberdade e manifestação.
Referência até os dias de hoje, Tia Ciata empreendeu há mais de 100 anos ações so-
ciais e movimentos alinhados com pautas debatidas atualmente como o feminismo,
racismo e tolerância religiosa.” (VASSALLO, 2018, p. 105)
Fato consagrado por órgãos públicos ligados a cultura, que após inúmeras reivindicações
por parte dos ancestrais de Tia Ciata, desejosos de manter a sua memória e da Pequena
África, estes conseguiram em 2007, abrir o espaço cultural, alicerçado na Organização
Cultural Remanescentes de Tia Ciata (ORTC), num espaço cedido pela Prefeitura. Nele,
promovem a cultura e o patrimônio artístico de origem afro.

Figuras 3 e 4. Tia Ciata e Casa da Tia Ciata - Espaço cultural

Figura 3: https://www.aprovincia.com.br/cultura-entretenimento/emporio-cultural/historia/casa-da-tia-cia-
ta-22564/. Acesso: 28 out. 2019.
Figura 4: https://oglobo.globo.com/rio/pequena-africa-joia-do-rio-pode-ter-protecao-da-lei-23694595.
Acesso: 20 jun. 2019

Pedra do Sal
A Pedra do Sal é uma rocha que nomeia o lugar, onde os escravos, no passado, deposi-
tavam o sal que chegava no cais do Valongo e depois no Porto do Rio. Não demorou muito
106 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

tempo para que o seu entorno, se transformasse em local de moradia bastante atraente para
os imigrantes baianos que ali chegaram no período do pós-abolição em busca de trabalho
na estiva, realizando a coleta e secagem do sal, desembarcado no porto. Foi ali onde abri-
ram as casas de santo, fizeram as rodas de samba e ranchos carnavalescos, transformando-se
em ponto de encontro entre africanos remanescentes da escravidão e baianos, conferin-
do ao lugar intensa sociabilidade. A forte influência cultural negra, soma-se a cultura de
estivadores que se reuniam após o expediente para rodas de samba.
Devido a relevância para a população afrodescendente e as intensas lutas de grupos
sociais organizados como o movimento negro, a Pedra do Sal, foi tombada pelo Instituto
Estadual do Patrimônio Cultura (INEPAC), em 1984. No relatório de tombamento cons-
ta como o monumento mais antigo ao qual se vincula a memória do samba carioca e das
manifestações culturais negras da cidade do Rio de Janeiro.
Com o passar dos anos, o lugar na área central da cidade apresenta-se com casas
simples e antigas, ruas escuras e baixa atividade econômica. A partir do ano de 2000,
numa parceria público-privado, surgiram os projetos urbanísticos do Plano Porto do Rio
(2001- 2008) e o Projeto Porto Maravilha (2009-2016), que buscava intensificar os in-
teresses imobiliários para região. Tinham ainda como proposta, além de atrair melhorias
urbanísticas, interesses turísticos, baseados nos eventos que a cidade, em breve, iria receber.
No entanto, logo no início da implantação do Plano Porto do Rio, notou-se os impac-
tos estruturais e sociais no lugar, ao atrair novos atores e gerar conflitos com os antigos
residentes. Neste momento, lideranças negras resgatam a memória da Pequena África e
seus diferentes significados para a população afrodescendente. Eles se unem e reivindicam
a identidade de remanescente do Quilombo Pedra do Sal, obtendo em 2005 o
reconhecimento da Fundação Palmares. Os integrantes do quilombo se consideram
herdeiros e perpetuadores das tradições e do modo de vida da comunidade baiana do
início do século XX. (GUIMARÃES, 2014).

A Prefeitura por outro lado, amparava-se no discurso da degradação e atraso para


justificar as obras urbanísticas. Rapidamente a paisagem passou a ser alterada com a pre-
sença de tratores que destruíam edificações, reviravam o solo e abruptamente surgia do
passado vestígios portuários da escravidão.
Os integrantes do Quilombo Pedra do Sal e outras lideranças negras com atuação na
região, se uniram e passaram a condenar o desprezo com a memória afrodescendente. Tal
luta reivindicatória permitiu a manutenção da população com suas tradições e cultura.
Tanto que até hoje, o local reúne frequentadores que fazem as tradicionais rodas de samba
de raiz, realizam os cultos dos ancestrais e reafirmam a identidade.

107 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


Figuras 5 e 6. Os compositores musicais Donga e J. Efegê – Década de 1940
e Comunidade Quilombola da Pedra do Sal

Figura 5: <http://www.incra.gov.br/sites/default/files/terras_de_quilombos_pedra_do_sal-rj.pdf>,
Acesso: 20 jun. 2019.
Figura 6: A autora, 2015.
Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos
O Instituto e Pesquisa e Memória Pretos Novos, foi fundado em 1996, quando os
proprietários do prédio descobriram, acidentalmente, ossadas, cerâmica, vidro e ferro e
outros metais enterrados, em um imóvel da família, localizado na Gamboa. Intrigados
com a descoberta, informaram aos órgãos responsáveis, que com equipes confirmaram a
existência de um sítio arqueológico.
Tal fato, está intimamente associado às atividades do Cais do Valongo. O local, re-
cebeu um número elevado de negros africanos ao longo de décadas. Muitos chegavam
mortos, após meses viajando em condições insalubres e precárias, outros faleceram em
terra e foram enterrados no cemitério dos Pretos Novos. O nome “pretos novos” foi dado
aos negros africanos escravizados, recém-chegados ao Rio de Janeiro pelo Cais do Valongo
e que eram negociados no mercado de vendas de escravos.
Ocorre que com as obras de urbanização da região portuária, por onde passaria a
Linha 3 do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), em 2018, muito do passado da região veio
à tona. Empresas de Arqueologia e o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional) foram chamados recentemente, para remover o material do antigo cemitério da
Igreja de Santa Rita, que existiu até 1770, na atual avenida Marechal Floriano, situado a
alguns metros do Cais do Valongo e da Pedra do Sal, quando alguns corpos foram remo-
vidos para o cemitério dos Pretos Novos da Gamboa, que funcionou entre 1769 e 1830,
especialmente como cemitério de escravos (VASSALLO, 2018).
Sabe-se hoje, que com o passar dos anos, inúmeros aterros silenciaram a memória da
cidade. Sobre o cemitério dos Pretos Novos da Gamboa, se encontram prédios comerciais
108 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

e residenciais. Nada denota na paisagem a existência de um campo-santo no local.


Desde o ano de 2005, o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN), passou a es-
tudar e divulgar, a memória do Cemitério dos Pretos Novos. Atualmente, o Centro Cultural,
resgata a história da cultura africana na cidade através de atividades culturais e artística.

Conclusão

O que define o lugar de um ou outro grupo são os discursos sobre suas significações e seus
valores simbólicos. Desta maneira, os “donos” do espaço são aqueles que detêm o discurso e os
saberes sobre ele. Assim, quem possui a memória da paisagem e do lugar o domina, pois, é este
que lembra quem define o que deve ser lembrado e o que deve ser esquecido (SOUZA, 2004).
Agindo de forma participativa e atuante, as associações e lideranças negras da Pequena
África, após muitas lutas afirmam e reafirmam sua identidade e pertencimento ao lugar, à
memória dos africanos escravizados.
Aqui, as lideranças negras emprenham seu discurso de forte significação política nas
lutas contra a desigualdade racial. É um lugar onde as mulheres do passado e do presente,
assumiram o protagonismo contra o preconceito do negro e atuam para minimizar os
embates que buscam a emancipação.
A Pequena África não é apenas sociabilidade festiva dos afrodescendentes, mas também
revela a história de homens e mulheres que viveram a dureza do período de escravidão, as
resistências contra a dominação e a presente busca pela superação. Eles continuam em cons-
tante luta para recuperar a memória do lugar e o seu respectivo papel na cidade contempo-
rânea. Faz-se necessário, principalmente no atual contexto, buscar maneiras para impedir os
discursos e as práticas de esquecimentos dos grupos sociais subalternizados historicamente.

Figura 7. Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos

109 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


Fonte: <https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/criacao-de-um-museu-dedicado-escravidao-esta-na-ber-
linda-22311419>. Acesso: 30 out. 2019.

Referências

BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre literatura e história da
cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.
GOBBI, Nelson. Criação de um museu dedicado à escravidão está na berlinda. O Globo, Rio
de Janeiro, 21/01/2018. Disponível em <https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/cria-
cao-de-um-museu-dedicado-escravidao-esta-na-berlinda-22311419>. Acesso em jun. 2019.
GUIMARÃES, Roberta Sampaio. A utopia da Pequena África: projetos urbanísticos, patrimô-
nios e conflitos na Zona Portuária carioca. Rio de Janeiro: FGV, 2014. 248 p disponível em
<http://www.scielo.br/pdf/ha/v23n47/0104-7183-ha-23-47-0423.pdf>. Acesso em out. 2019.
MOURA, Roberto. Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro. 2. ed. Rio de Janeiro:
Secretaria Municipal de Cultura, 1995.
NOGUÉ, J. Entre paisajes, Barcelona: Àmbit Servicios Editoriales, 2007.
RELPH, Edward. A paisagem urbana moderna. Lisboa: Edições 70, 2013.
SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Editora
Hucitec, 1996.
SCHAMA, Simon. Paisagem e memória. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
SOUZA, Angela Maria Gordilho. Da idealização do subúrbio à construção da periferia estudo da
expansão suburbana no século XX, em Salvador-BA. Anais do seminário história das cidades
e do urbanismo, v. 8, n. 2, 2004. Disponível em: <http://www.anpur.org.br/revista/rbeur/
index.php/shcu/article/view/963>. Acesso em jan. 2013.
THOMPSON, Paul. A Voz do Passado. São Paulo: Paz e Terra, 1992.
VASSALLO. Simone Pondé. A múltipla Pequena África no Rio de Janeiro: perspectivas reflexas
de negros e judeus. Revista Antropolítica, n. 45, Niterói, p.94-122, 2. sem. 2018. Disponível
em: <http://www.revistas.uff.br/index.php/antropolitica/article/view/663/A%20m%FAlti-
pla%20Pequena%20%C1frica%20no%20Rio%20de%20Janeiro%3A%20perspectivas%20
reflexas%20de%20negros%20e%20judeus>.
110 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento
O papel das ruínas na rede das aldeias
históricas de Portugal

Maria João Costa Gregório


Investigadora no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade
da Unversidade do Minho

Introdução

As transformações demográficas que ocorreram em Portugal sobretudo na segunda


metade do século XX, trouxeram mudanças muito significativas no que concerne à ocupa-

111 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


ção do mundo rural. Se até então os territórios rurais, sobretudo do interior, tinham um di-
namismo demográfico muito próprio, com famílias numerosas, os movimentos população,
nomeadamente o denominado êxodo rural, intensificado na segunda metade do século XX,
transformou consideravelmente as paisagens rurais, nas quais podemos incluir as Aldeias
Históricas de Portugal. Assim, outrora espaços dinâmicos, as aldeias transformam-se em
espaços despovoados, envelhecidos, onde as ruínas paulatinamente se instalam. Pode assim,
e em certa medida, afirmar-se que estas constituem um vestígio resultante da partida dos
residentes para outros lugares. Assim, a ruína inscreve-se nas paisagens como uma marca
física do abandono dos lugares, do desinvestimento, ou nas palavras de Beasley-Murray
(2010, p. 212) “as ruínas são o sítio do que deixámos para trás”.
Consideradas agora como territórios rurais, é inegável que as “aldeias” que integram
a rede das Aldeias Históricas de Portugal detiveram, no curso da história, um importante
papel na construção e consolidação da nacionalidade, com as suas fortificações que, tal
como refere Lousada (2008, p. 143), constituem exemplos simbólicos das nossas raízes
aldeãs. São, com exceção de Piódão, lugares amuralhados, fortificados, onde a imponen-
te presença de um património pétreo sobressai na paisagem e contribui para a imagem
identitária dos lugares. Porém, a perda de importância destes territórios, refletiu-se numa
perda populacional que, à semelhança dos demais territórios rurais, como supra mencio-
nado, se traduziu num abandono não só do edificado tradicional, como também do pró-
prio património histórico, dando origem, com grande frequência, a ruínas. Pretendemos,
assim, perceber qual o contributo destas mesmas ruínas na constituição e manutenção da
rede das Aldeias Históricas de Portugal (AHP), enquanto atores não-humanos, que à luz
da Teoria do Ator-Rede (originalmente denominada Actor-Network Theory), são elemen-
tos igualmente importantes na orgânica e funcionamento das redes.
Importa, portanto, fazer um breve enquadramento dos territórios que integram
a restrita rede da Aldeias Históricas de Portugal, assim como a acerca da importância
das ruínas e o entendimento que ao longo dos tempos se tem feito destes elementos e,
consequentemente, da relação que entre estes se estabelece, à luz da Teoria do Ator-Rede.

A Rede das Aldeias Históricas de Portugal

O Programa das Aldeias Históricas de Portugal (PAHP) criado em 1994 foi concebido
pelo Governo e pela Comissão de Coordenação Regional do Centro – CCDRC, e acabou
por “representar a incidência regional e local de uma estratégia nacional, que visava discri-
minar positivamente alguns espaços encravados no Interior da Região Centro” (Boura, p.
117). Na base do programa estava a utilização de fundos comunitários para a promoção de
produtos turísticos (Silva 2009a; 2009 b; 2009c). Era propósito desta medida o “apoio ao
112 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

desenvolvimento económico em núcleos rurais”, tal como referido por Ferreira (2011, p.
15), a qual contribuiu para a implementação do PAHP, cujo propósito era “valorizar as ca-
racterísticas patrimoniais e elementos de interesse histórico-cultural específicos das aldeias e
lugares turísticos”. Assim, e para concretização desta medida, e para os territórios em causa,
foi posta em prática a via da “recuperação de aldeias turísticas”, que tinha por princípios
mitigar questões como o despovoamento de territórios, em concreto do interior do país,
contribuindo para a criação de atividades capazes de gerar emprego, melhorar a qualidade
de vida da suas populações e que pudessem ainda ser um aporte na diversificação da oferta
turística, promovendo o património aí existente, sobre o qual era necessário intervir.
Assim, aquando da criação do programa na década de 90 do século XX, este integrava
10 “aldeias” – Almeida, Castelo Mendo, Castelo Novo, Castelo Rodrigo, Idanha-a-Velha,
Linhares, Marialva, Monsanto, Piódão e Sortelha – às quais se viriam a juntar, no ano
de 2004, mais duas – Belmonte e Trancoso – cuja escolha se deveu à sua localização
geográfica, uma vez que integravam a mesma área de influência, e permitiam cumprir
os “objetivos primordiais de reforço espacial da rede, conferindo-lhe maior coerência e
articulação, bem como a manutenção do padrão de qualidade patrimonial, histórica e
cultural” (Ferreira, 2011, p. 21).
Considerou-se, pois, que em cada um destes dozes territórios, valores como história,
património e identidade se encontravam conjugados e guardados tal como referido por
Boura (2002) e tomou-se consciência da sua importância para a valorização e promoção
da Região Centro. Neste sentido procedeu-se a um conjunto de intervenções que, a par de
iniciativas de requalificação física, integrava vertentes de dinamização sócio-económica e
de regeneração de uma auto-estima fragilizada.
A necessidade de intervenção decorrente dos processos de despovoamento e
envelhecimento da população que ao longo de várias décadas assolou estes territórios,
traduziu-se, em termos físicos, num edificado envelhecido, onde as ruínas se materializa-
vam não apenas nos edifícios de arquitetura vernácula, mas de igual modo, em edifícios
de grande importância histórica, alguns dos quais classificados como património nacional,
como por exemplo castelos e muralhas.
Neste sentido, decorrente do programa e por forma a colmatar as necessidades
destes territórios, as intervenções realizadas adotaram diversas formas e se num primei-
ro momento, tiveram um cariz sobretudo material, num período posterior, verificou-se
uma alteração de paradigma e as ações realizadas foram sobretudo de cariz imaterial, de
promoção e divulgação da rede.
A análise que aqui pretendemos apresentar foca-se especialmente nesse primeiro
momento correspondente às intervenções físicas realizadas nos núcleos rurais em estudo,
visto estas terem repercussões diretas na imagem dos territórios.

113 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


Desta forma, e tendo em conta os processos preconizados para os diferentes aglomerados
da rede, foram realizados, ao longo dos Quadros Comunitários de Apoio II e III, vários tipos de
intervenções, de entre os quais se salienta intervenções em infraestruturas básicas, valorização
do património, arranjos urbanísticos, recuperação de fachadas e telhados, equipamentos turís-
ticos e criação de micro empresas. Porém, e tal como referido por Ferreira (2011, p. 19), este
processo não resultou num “modelo único e estereotipado de intervenção”, mas seguindo uma
linha orientadora, recorreu a um modelo de intervenção que permitisse uma certa autonomia
em cada um dos núcleos, evidenciando as características e identidade de cada um deles.
As intervenções realizadas, caracterizaram-se, assim, por terem uma natureza diversa.
Porém, torna-se evidente que ao longo de todo o processo foram operadas diversas trans-
formações físicas no território que alteraram consideravelmente a sua imagem e que,
em grande medida, se encontravam diretamente relacionadas com a questão das ruínas,
uma vez que delas resultaram processos ativos que procuravam reverter o processo de
arruinamento em que muitos dos edifícios se encontravam.
Assim, cremos poder afirmar que, foram precisamente as preocupações em reverter a
imagem de abandono destes territórios tão ricos em termos patrimoniais, mas cuja presença
da ruína era tão evidente, que estiveram na base da criação da rede, e por inerência, jul-
gamos ainda poder afirmar que, neste sentido, a ruína desempenhou um papel de grande
importância para este processo.
Neste sentido, importa perceber um pouco mais acerca deste ator que consideramos
ter desempenhado um papel preponderante nesta rede e que cada vez mais desempenha
um fascínio, uma verdadeira “ruinofilia”, o que se traduz no estabelecimento de novas
redes, de novas conexões.

As ruínas

Alvo de um interesse crescente, sobretudo desde início do século XXI, as ruínas e


imagens de ruínas segundo Stead (2003, p. 52) têm mantido um certo “fascínio moral,
emocional e estético”, que se “deve, em parte, ao seu status ambíguo de meia-construção,
meia-natureza, mas também ao seu valor único como manifestações físicas dos efeitos des-
trutivos do tempo e, portanto, como representações da própria história”. Assim, a ruína
permite construir uma certa cronologia dos lugares, onde o passado se faz presente através
dos próprios resíduos da ruína, despoletando uma certa nostalgia.
A ruína é, por tal, um termo complexo que nos remete para vários outros conceitos,
normalmente de cariz negativo, como por exemplo, destruição, decadência, degradação.
114 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Porém, a ruína sendo encarada como a forma letárgica como as coisas se encontram, é
igualmente um conceito complexo, multifacetado, capaz de despertar diversas sensações
e sentidos, que “é tanto a afirmação sobre o estado de uma coisa como do processo que o
afeta” (Stoler, 2013, p. 11). Trata-se, não de algo estático, mas de algo dinâmico, contínuo e
que caso não sofra interferências humanas, terá uma degradação progressiva, à qual se asso-
ciam outros elementos não-humanos, que contribuem no processo ativo de arruinamento.
Ao pensarmos numa ruína/edifício arruinado devemos, pois, considerar que estes podem
adquirir novos conceitos, não implicando obrigatoriamente uma perda, mas sim uma
mudança no significado e monumentalidade arquitetónicas (Stead, 2003) podendo por
tal ser encaradas como algo velho ou como o início de algo novo (Hell & Schönle, 2010),
detendo assim inúmeras potencialidades, contendo uma certa esperança no que poderá ser.
Não obstante as potencialidades da ruína arquitetónica, ela é, sem dúvida, um produto
sociocultural que decorre das ações combinadas das sociedades e nas suas opções de investi-
mento e desinvestimento às quais se associam fatores naturais. Há todavia autores, como por
exemplo Baptista ( (2014), que defendem que a ruína dos edifícios é nada mais nada menos
do que o processo natural da vida do edifício, cuja história só fica completa com a sua deca-
dência completando assim o seu ciclo de vida, como que se tratasse do fechar de um ciclo.
Assim, e segundo os princípios da Teoria do Ator-Rede, só seguindo o um ator ao longo
do seu percurso, se pode conceber uma versão global sobre a sua natureza, permitindo-nos,
assim, alcançar uma visão global do objeto de estudo e a sua compreensão, bem como o
papel que desempenha numa rede. Segundo esta teoria, ao perceber as ruínas, ao compreen-
der o seu percurso é possível entender as relações que estabelece não apenas com o local
onde se situa, mas simultaneamente com um conjunto alargado de outros atores humanos e
não-humanos, que nos permitem uma melhor compreensão dos próprios territórios.
Assim, importa ainda perceber que existem diversos tipos de ruínas: as ruínas causadas
pelo tempo – também consideradas românticas – as ruínas causadas pelo ser humano, as
ruínas arqueológicas e as falsas ruínas (Rodrigues, 2012). As ruínas causadas pelo tempo,
também consideradas como ruínas lentas, como referido por DeSilvey & Edensor (2012),
surgem como resultado das opções de desinvestimento em determinados espaços, o que
tem como consequência a degradação das estruturas sociotécnicas, que passam a estar
sujeitas à ação dos agentes naturais (Gregório, Brito-Henriques, & Sarmento, 2014).
Podemos aqui considerar ainda algumas ruínas arqueológicas que, todavia, se distinguem
das ruínas românticas pelas suas características estruturais, sendo as primeiras mais frágeis.
No que respeita às ruínas causadas pelo ser humano, que segundo Rodrigues (2012, p. 9)
são decorrentes de conflitos ou acidentes tecnológicos, podem juntar-se as ruínas cuja
origem está em agentes naturais, como por exemplo catástrofes naturais, são denomina-
das de ruínas rápidas. Já no respeitante às falsas ruínas, estas não possuem qualquer valor

115 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


patrimonial, constituindo apenas adornos que, todavia, comprovam o fascínio que estas
construções decadentes exercem, promovendo a ruinofilia.
Neste sentido podemos dizer que, muito embora as ruínas estejam associadas ao
abandono, elas exercem um fascínio considerável sobre o ser humano, de tal forma que
no intuito de poder admirá-las se procede, tantas vezes, à sua conservação e/ou manu-
tenção, sendo inclusive consideradas como locais privilegiados de reflexão (Stoler, 2013).
Enquadrando as ruínas no nosso caso de estudo, podemos dizer que nestes territórios
rurais, a presença da ruína é consequência da perda populacional que há décadas assola
estes espaços e do desinvestimento que lhe é inerente e que, materialmente se traduziu
no abandono e decadência do seu edificado que é, muitas vezes acompanhado por uma
perda de elementos culturais imateriais, como tradições e costumes, intimamente ligados
à identidade dos territórios.
Assim, e tal como o demais património material e imaterial, as ruínas são parte da
identidade destes territórios e, por tal, consideramos que constituem elementos de gran-
de interesse e potencial turístico. Mais do que nunca se encara as ruínas segundo novas
abordagens e a temática da reutilização de ruínas urbanas é cada vez um assunto mais
atual, que motiva debates e estudos. A utilização destes espaços para fins culturais, como
por exemplo exposições, representações teatrais, recriações históricas ou concertos, é cada
vez mais comum, sendo por isso capazes de atrair novos públicos e consequentemente
dinamizar a economia, agenciado para a rede, novos atores. Podemos ainda dizer que a
“comercialização” destes espaços através das suas novas utilizações poderá ser uma das
alternativas para contrariar o abandono e letargia destes territórios rurais.

Figura 1. Ruínas como palco de espetáculos – Palácio Cristóvão de Moura –


AH de Castelo Rodrigo
116 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Foto da autora – julho de 2017

O papel das ruínas enquanto ator não-humano na rede das AHP

Tendo por princípio, pois, que as redes constituem importantes mecanismos de


potenciação dos territórios e que estes nos podem ser dados a conhecer através precisamente
das redes que neles se desenvolvem, como disso é exemplo a rede das AHP, considerámos que
o recurso à Teoria do Ator-Rede nos permitiria uma visão diferenciadora sobre esta temática.
Assim, dada a visão distinta desta teoria face às abordagens mais convencionais
relacionadas com o estudo do território e do social, uma vez que na sua análise considera
elementos heterogéneos – humanos, não-humanos, animais, coisas, etc. – no estudo das
redes que se desenvolvem nestes mesmos territórios, e centra o seu foco nas relações que
entre estes se estabelecem, esta teoria permite-nos criar uma visão mais abrangente face ao
próprio território.
Nesse sentido, e tendo por base a perspetiva da Teoria do Ator-Rede, percebemos que
a rede das AHP é constituída por uma grande heterogeneidade de atores, de entre os quais
consideramos que a ruína desempenha um papel de grande relevo.
Tal como temos vindo a explanar, a perceção face ao papel que as ruínas podem
desempenhar nos territórios tem vindo a sofrer alterações consideráveis, de tal modo que
atualmente podemos mesmo dizer que estas assumem uma importância crescente na dina-
mização dos lugares onde se localizam. Consideramos ser disso exemplo a rede das AHP,
que através de diversas ações realizadas no decorrer do programa, tem dado destaque a este
elemento não-humano, que se tem vindo a afirmar como um ator de grande dinamismo.
Se inicialmente foi o processo de desruimanento que esteve na base da junção destes ter-
ritórios de incrível riqueza patrimonial, em que as intervenções preconizadas procuravam
minimizar o aspeto de abandono conferido pela presença constante e marcante das ruínas
nas “aldeias”, e cuja imagem importava reverter, por forma a torná-los mais atrativos e
promovê-los turisticamente; na atualidade, as ruínas são tidas como cenários naturais para
o desenrolar de atividades no âmbito cultural, e a visão que sobre elas se têm é muito mais
abrangente e positiva.
Fruto das opções de intervenção concretizadas através do Programa AHP, casos como o
Palácio Cristóvão de Moura, na Aldeia Histórica de Castelo Rodrigo, ou a Vila intramuros

117 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


na Aldeia Histórica de Marialva (Figuras 2 e 3), onde a opção pela manutenção e preservação
da ruína foi assumidamente uma estratégia, tornam-se exemplos por demais interessantes
onde espaços em ruína assumem um importante papel na dinâmica dos territórios.

Figuras 2 e 3. Ruínas Preservadas - Marialva e Castelo Rodrigo


Ainda no que respeita à opção de preservação das ruínas, e de forma mais concreta no
que respeita ao Palácio Cristóvão de Moura, é aqui encarada “como pretensão a formas de
nostalgia e autenticidade; […] como ligação entre configurações temporais do passado e do
presente” (Irving, 2015, p. 3). Pode considerar-se mesmo que neste caso em particular e adap-
tando as palavras de Tomé (2002, p. 62) aqui foi “defendida a sua integridade de ruína simbó-
lica” tendo sido preservada uma “situação que tempo natural e tempo cultural construíram”.
Assim, ao constituir um elemento de visitação distinto e privilegiado, este ator não-humano
assume, tal como referido por Gregório (2019) um papel fundamental dentro de uma vasta
rede, na qual e tal como referido por Michael (2017, p. 12) “não é possível dizer a priori se
são os atores humanos ou não-humanos que desempenham o papel decisivo”.
No caso de Marialva, a preservação das ruínas dentro da Vila, cria um cenário único de
meias construções, onde o jogo entre o real e o imaginário permite ir mais além na cons-
trução da imagem deste território, e sobre o qual Orlando Ribeiro (1994, p. 352) disse
mesmo ser o lugar onde “a sugestão de tocar o passado é perfeita”.
Em ambos os casos aqui referidos, a utilização das ruínas assume um papel cultural,
uma vez que, em Marialva as ruínas constituem um palco privilegiado para o desenrolar
de atividades como por exemplo, a recriação do Mercado Medieval e no caso das ruínas
Palácio Cristóvão de Moura, em Castelo Rodrigo são o cenário privilegiado de concertos
e peças de teatro.
Assim, e considerando que, dadas as diversas utilizações possíveis para a ruína, são estas
capazes de despertar sentimentos distintos e sobre as quais é praticável o desenvolvimento
de uma narrativa assente na ideia de um rural idílico, o papel que estas desempenham
118 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

enquanto ator não-humano na rede das AHP é, de facto, de grande relevo.


Consideramos, pois, que este elemento não-humano, de presença efetiva em todas
as Aldeias Históricas que integram a rede, não é já encarado como algo ameaçador que
destrói a imagem bucólica associada aos territórios rurais, mas que, contrariamente, de-
sempenha um papel ativo na definição da sua própria identidade e imagem inigualável,
despoletando, por tal, novas ligações e conexões.

Conclusão

Em jeito de conclusão podemos, pois, afirmar que as ruínas conferem, cada vez menos,
uma imagem negativa aos territórios. A ruinofilia que ao longo das últimas décadas se tem
vindo a desenvolver permite que o elemento “ruína” seja encarado mais como potencial
dos territórios, relacionado com a sua identidade, com a sua história e a sua imagem,
que desperta interesse e fascínio, do que como apenas sinal da decrepitude dos mesmos.
Neste mesmo sentido, Sarmento (2018, p. 171) afirma que “as ruínas são locais materiais
que animam novas possibilidades de vida: devem ser percebidas como dinâmicas e rela-
cionais, como intersticiais, como locais de pluralidade, plasticidade, desmantelamento e
desestabilizando o poder infinito da auto-invenção”.
Assim, e tendo por base a Teoria do Ator-Rede, que nos permite considerar um vasto
conjunto de elementos heterogéneos na constituição das redes, e tomando como exemplo
a rede das Aldeias Históricas de Portugal, considerámos que a ruína desempenha, indu-
bitavelmente, um papel de grande relevo na orgânica desta rede. Tomando as palavras
de Law (1993) mencionadas por Edensor (2005, p. 313) que refere que “num contexto
espacial e cultural mais amplo, a ordem é mantida através da construção de redes que
compreendem variadamente objetos, seres humanos, espaços, tecnologias e formas de
conhecimento”, atentamos que no nosso estudo, as ruínas são um dos exemplos mais
marcantes de elementos que contribuem para essa mesma ordem.
Desta forma, e segundo o referido por Michael (2017, p. 34), “uma rede de atores
“emerge” quando um ator-chave alinha com sucesso uma série de outros elementos que
fazem esse “ator” licitante chave”, consideramos, pois que as ruínas podem aqui ser enca-
radas como esse mesmo ator-chave, capaz de alinhar outros atores heterogéneos, ou seja,
humanos e não-humanos e concludentemente manter a rede coesa e ativa até ao presente.

Bibliografia

119 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


Baptista, L. S. (2014). Ruínas Habitadas: Atravessamentos entre a contemplação poética e a
intervenção crítica. arqa - arquitetura e arte n.º 112 março/abril, 22-23.
Beasley-Murray, J. (2010). Vilcashuamán. Telling stories in ruins. Em J. H. (Eds.), Ruins of
Modernety (pp. 212-231). Durham e Londres: Duke University Press.
Boura, I. (2002). Aldeias Históricas de Portugal: um património com futuro. Coimbra: Comissão de
Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro - CCDRC.
Boura, I. (2002-2004). Património e mobilização das comunidades locais: das AldeiasHistóricas de
Portugal aos Contratos de Aldeia. Cadernos de Geografia n.º 21/23, 115-126.
DeSilvey, C., & Edensor, T. (2012). Reckoning with ruins. Progress in Human Geography n.º 37(4,
465-485.
Ferreira, P. N. (2011). Programa de Recuperação de Aldeias Históricas em Portugal - Um Balanço.
Coimbra: Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura.
Gregório, M. J. (2019). Lugares, Redes e Atores: o Papel das Ruínas na Rede das Aldeias Históricas de
Portugal. Guimarães: Tese de Doutoramento em Geografia - Universidade do Minho.
Gregório, M. J., Brito-Henriques, E., & Sarmento, J. (2014). Ruínas, tecnologia e atores na constru-
ção da rede das Aldeias Hsitóricas de Portugal. Em R. P. Vieira, A jangada de pedra - Geografias
Ibetro-Afro-Americanas. Atas do XIV Colóquio Ibérico de Geografia (pp. 1134-1139). Guimarães:
Associação Portuguesa de Geógrafos e Departamento de Geografia da Universidade do Minho.
Hell, J., & Schönle, A. (2010). Ruins of Modernity. Londres: Duke University Press.
Irving, B. A. (2015). Ruination as Invention: Reconstrucions of Space and Time in a Deindustrial
Landscape. Iowa: PhD thesis - University of Iowa.
Lousada, M. A. (2008). Antigas vilas, aldeias velhas, novas aldeias. A paradoxal identidade das
Aldeias Históricas de Portugal. Em Turismo, Inovação e Desenvolvimento (pp. 143-174). Lisboa:
CEG - Lisboa.
Michael, M. (2017). Actor-Network - Trials, Trails and Translations. Londres: SAGE Publications Ldt.
Ribeiro, O. (1994). Opúsculos Geográficos V Volume - Temas Urbanos. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian.
Rodrigues, S. A. (2012). Intervenção em ruínas: Caso de estudo - Aldeia de Banrezes, Macedo de
Cavaleiros. Covilhã: Dissertação para a obtenção do grau de mestre em Arquitetura -
Universidade da Beira Interior.
Sarmento, J. (2018). The aesthetics of ruins: failure, decay, planning and poverty. Finisterra, LIII,
109, 171-175.
Silva, L. (2009a). Casas no Campo: um estudo do turismo em espaço rural em Portugal. Lisboa:
Imprensa de Ciências Sociais.
Silva, L. (2009b). A Patrimonialização e a Turistificação do Contrabando. Em I. F. Eduarda
Rovisco, Contrabando na Fronteira Luso-espanhola. Práticas, Memórias e Património. (pp. 255-
287). Lisboa: Nelson de Matos.
Silva, L. (2009c). Heritage Building in the ‘Historic Villages of Portugal’: social processes,practices and
agents. Journal of Ethnology and Folkloristics, issue: 3 (2), 75-92.
Stead, N. (2003). The values of Ruins: Allegories of Destruction in Benjamin and Speer. An
120 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Interdisciplinary Journal of the Built Environment n.º6, 51-64.


Stoler, A. L. (2013). Imperial Debris: On ruins and ruination. Londres : Duke University Press.
Tomé, M. (2002). Património e Restauro em Portugal (1920 - 1995). Porto: FAUP Publicações -
Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto.
A arte e a cultura Ibérico/Flamenga
nas cortes de D. Catarina
e de D. Joana de Áustria
Mecenato régio, político-religioso feminino
entre os Avis e os Habsburgo

Pedro M. Tavares
Orientação: Fernando A. B. Pereira, Sofia S. Guilherme

Durante a primeira metade do séc. XVI afirma-se na Península Ibérica um novo


sistema governativo do Império Habsburgo, a instrumentalização das mulheres da dinas-
tia para a delegação do governo (directamente por nomeação ou indirectamente através do
matrimónio) (Poutrin e Marie-Karine 2007). Os Reis de Espanha promoveram a educação

121 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


das mulheres da família para ocuparem cargos políticos de forma a protegerem os inte-
resses dinásticos, tornando os assuntos de estado em questões familiares (Stratton 2002).
Através da união matrimonial garantia-se a submissão ao Rei Católico, pois a educação
das princesas Habsburgo era “à espanhola”, influenciada pelo séquito materno alicerçado
às raízes ibéricas e ao magnetismo da corte madrilena (Serrano 2016).
O reinado de Carlos V pautou-se por uma reorganização política cujo governo
dependia da influência das fracções cortesãs, que procuravam obter ofícios e mercês do
Imperador (Corominas 2008). Os seus descendentes durante a União Ibérica fomentaram
estas fracções (em Portugal foram criadas durante a Dinastia Filipina 41 Casas Titulares),
porventura o objectivo era fidelizar e controlar as casas de nobreza mais relevantes nos
territórios dos Habsburgo. Porém, com o passar do tempo a situação inverteu-se, e a partir
do reinado de Filipe III de Espanha a invisibilidade do Rei institucionalizou-se.
A rede de influências no Sacro-Império estendia-se igualmente a comissões e
contratações, marcadas por vínculos pessoais e ideológicos que muitas vezes se opunham
aos das fracções rivais. O Século de Ouro da literatura Espanhola reflecte a influência
destas no seio da Monarquia Hispânica, detectáveis através do estudo prosopográfico. A
ideologia e sensibilidade político-religiosa nas obras literárias era directamente influencia-
da pela relação patrono-artista cujo objectivo era, através da propaganda artística, atrair a
mercê do Rei, cimentando-os no planisfério da corte (Corominas 2008).
Nos últimos anos têm sido estudadas diversas mulheres da família Habsburgo que
promoveram a construção da identidade visual da monarquia Ibérica1. Eram diversas as
práticas artísticas empregues para promover a família imperial: o coleccionismo de objec-
tos exóticos, a indumentária, as armas, as antiguidades clássicas, as tapeçarias, os retratos
de corte, as imagens impressas, os objectos heráldicos e de culto, em diversos suportes e
de diversas origens (Flamenca, Italiana, Hispânica, Indiana, entre outros). (Lozano 2011).
Porventura o mais importante mecenato artístico dos Habsburgo era a construção de pa-
lácios e conventos, onde os monumentos funerários eram edificados e as colecções eram
albergadas. Estes são uma mescla de culturas Portuguesa, Espanhola e Flamenga, que
resultaram em obras de arte híbridas, muitas vezes entre a cultura ocidental e oriental.
Deste grupo de mulheres destacam-se duas figuras proeminentes no contexto político
religioso Ibérico: Catarina de Áustria, Rainha consorte e regente de Portugal e D. Joana de
Áustria, Princesa de Portugal e regente de Espanha. A influência política, que se viu diminuída
com o fim das respectivas regências, continuou a ser exercida sob a forma de mecenato régio,
construindo conventos e panteões, glorificando as dinastias da Casa de Áustria e da Casa de
Avis, garantindo assim a posição política dos seus descendentes no Sacro-Império.
122 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

A origem do exemplo político/religioso das mulheres Habsburgo

Foi particularmente importante na construção da identidade político-religiosa das


mulheres Habsburgo na Península Ibérica, o exemplo de uma regente de grande prestígio
dos Países Baixos, a Arquiduquesa Margarida de Áustria (1480-1530), irmã de Filipe I de
Espanha e tia de Carlos V.
Margarida de Áustria seguiu os ensinamentos do humanista espanhol Juan Luis Vives
(1492-1540), escritos na obra De institutione feminae Christianae (Antuérpia, 1524), onde
definia o casamento como união legítima para toda a vida, aconselhando a dedicação
das viúvas à memória dos maridos, com fidelidade absoluta e abstinência. Margarida,
após a morte prematura de Filiberto (1504), recusou todas as alianças matrimoniais que
Maximiliano propunha a benefício da dinastia dos Habsburgo. Passou a representar-se nos

1
Salientam-se nesta linha de investigação os trabalhos de Annemarie Jordan: Retrato de Corte em Portugal: o
legado de António Moro (1552-1572); Los retratos de Juana de Austria posteriores a 1554, La imagem de una
Princesa de Portugal, una Regente de España y una Jesuita; e A rainha coleccionadora, Catarina de Áustria.
retratos oficiais de corte como viúva de luto, adoptando o lema Fortune, Infortune, Fort, Une
(sorte, infelicidade, torna-nos mais fortes) para promover a sua imagem na Casa de Áustria
(Fig.1). O seu estado de viuvez dispensava-a dos deveres conjugais e das responsabilidades
maternais. Como controlava os seus recursos financeiros desenvolveu projectos e enco-
mendas artísticas para promover a sua dinastia, através da fundação de mosteiros e da
construção de um panteão. Esta conduta garantia a oportunidade de exercer mecenato
fora do domínio privado, na forma de piedade pública (Jordan et al. 2013).

Figura 1. Margarida de Áustria (representada viúva), iluminura2.

123 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: o, Cooperação e Desenvolvimento


Margarida de Áustria deteve mais poder durante a regência, que o falecido mari-
do em vida. O seu mausoléu rivaliza com o do pai, o sepulcro imperial de Maximiliano
I em Innsbruck. A obra que constrói é directamente influenciada pelo pensamento de
Cornelius Agrippa von Nettessheim, que lhe dedicou um ano antes de falecer o texto Sobre a
natureza e a excelência das mulheres, no qual declara: “As mulheres e os homens foram igualmente
dotados das dádivas de espírito, da razão e do uso da palavra: foram ciados com o mesmo objectivo
e a diferença sexual entre eles não lhes garante um destino diferente.” (Jordan et al. 2013).
Governante, erudita e coleccionadora, foram características que fizeram de Margarida
um exemplo para as restantes familiares, sobretudo a sobrinha Catarina de Áustria e as
sobrinhas-netas Maria da Hungria e Joana de Áustria (Jordan et al. 2013).
As mulheres Habsburgo que residiram em Espanha foram inicialmente educadas no
protocolo da Borgonha, de onde irradiava a cultura artística Flamenga da dinastia para os
2
A biblioteca de Margarida de Áustria tinha cerca de 400 livros, parte herdados do marido. Em 1511 com-
prou ao Príncipe de Chimay 78 manuscritos iluminados, além de vários pergaminhos e livros de papel não
encadernados. Deste conjunto, 40 foram encomendados por ela, tendo acrescentado o seu brasão e lema:
fortune infortune fort une.
diferentes ramos familiares. Ao enviuvar tiveram liberdade económica, autonomia social e
uma profunda actividade cultural e política. Muitas decidiram regressar ao país de origem,
onde desempenharam actividades políticas, competindo com os varões da família através
do mecenato artístico (Lozano 2011).

Catarina de Áustria, coleccionismo entre os Avis e os Áustria

D. Catarina de Áustria, à imagem da tia, tinha uma grande colecção comparável às


Kunstkammern3 dos Habsburgo do séc. XVI, criadas em Viena, Praga e Madrid. O colec-
cionismo de objectos preciosos e exóticos era um sinal de elevada posição, e a sua troca
servia para reforçar os laços de parentesco. Através destes, aproximou também artistica-
mente, culturalmente e politicamente a Casa de Avis à Casa de Habsburgo. Partilhava os
mesmos objectivos propagandísticos e dinásticos, inspirados na rica herança da Corte de
Borgonha, sendo uma ávida coleccionadora de tapeçarias flamengas, objectos de luxo,
animais e plantas do ultramar (Jordan et al. 2013). A posição singular como rainha de um
império ultramarino, com o monopólio de uma rede global de comércio, permitiu-lhe
assumir o principal papel na família de coleccionadora de curiosidades e espécies extraor-
dinárias (Fig.2). Os seus agentes tinham ordens para comprar directamente das fontes em
Africa, Brasil, Asia, e mantê-la informada dos melhores preços (Jordan-Gschwend 2010).
No séc. XVI, os elefantes tributados anualmente aos reinos asiáticos e ao Ceilão eram
manuseados pelos Avis, no jogo da política europeia. Quando D. Catarina de Áustria
124 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

contrai matrimónio com D. João III, a iconografia elefantina já estava assimilada na


cultura artística da Dinastia de Avis. A menagerie do Rei D. Manuel tornou-se famosa
mundialmente, através das diversas embaixadas papais que enviou a Roma, onde a ele-
fanta Hanon se tornou uma estrela. Catarina de Áustria perpetuou a propaganda política
Manuelina de que um governante poderoso domesticava as forças indomáveis da natureza
(Jordan-Gschwend 2010). Esse é o motivo pelo qual introduz estes paquidermes, e por
consequência, a sua iconografia nas cortes de Madrid e de Viena4 (Fig.3).

3
“Objectos Kunstkammer constituem um tipo específico de colecções, criadas na época dos Descobrimentos.
Compreendem todas as maravilhas do mundo, funcionando como um arquivo de conhecimento para ser partilha-
do de geração em geração.” (Dr. Sabine Hagg, directora geral do Kunsthistorisches Museum) (Minneapolis
Institute of Art sem data).
4
D. Catarina enviou ao seu neto, D. Carlos, um elefante indiano, de 13 anos, apelidado Suleyman. O
Imperador Maximiliano II tomou posse, e levou-o para Viena, tornando-se o primeiro elefante a ser visto
na Áustria (Tudela e Gschwend 2007). Seguindo esta tradição, em 1582 (a partir do Paço da Ribeira), Filipe
II escreve numa carta às filhas: “Vem nesta nau um elefante para o vosso irmão mandado pelo vice-rei da Índia.”
(Bouza Álvarez 1998).
Figura 2. Catarina Micaela, Sofonisba Anguíssola, (1573).5
Figura 3. Elefante saleiro, 15506. Kunsthistorisches Museum, Viena
(Kunstkammer, Inv. 2320).

D. Catarina montou igualmente uma galeria de retratos da família no Paço em Lisboa,


à imagem dos reunidos por Margarida de Áustria em Malinas, e Maria da Hungria em
Bruxelas. Os retratos de corte tinham funções públicas (como propaganda da filiação
imperial) e privadas, pois representavam os familiares mais queridos, as origens e a pró-
pria identidade, permitindo posicionarem-se como regentes. Retratistas que mais tarde

125 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: o, Cooperação e Desenvolvimento


adquiriram fama ao serviço de Filipe II, como Antonio Moro e Alonso Sánchez Coello, tra-
balharam inicialmente para a Rainha Maria da Hungria e para a Rainha Catarina. Moro foi
enviado pela Rainha Maria para a Península Ibérica, de forma a produzir bons retratos das
princesas casáveis, Joana de Áustria e a Infanta Maria de Portugal (1521-1577). Permaneceu
nove meses na corte portuguesa, produzindo diversos retratos para a galeria de D. Catarina,
exemplo mais tarde seguido por Filipe II e D. Joana de Áustria (Lozano 2011).

5
A Infanta Catarina segura um macaco sagui, favoritos das crianças da Família Imperial (Jordan-Gschwend
2010). É bastante provável que este animal viesse da menagerie em Lisboa. Mais tarde Filipe I de Portugal,
durante a União Ibérica e o juramento dos herdeiros, enviou igualmente de Lisboa prendas para os seus
filhos. O Dr. Fernando Bouza Álvarez, sobre a relação do Rei com as suas filhas, publicou dois livros: Carta
de Filipe II a sus hijas e Cartas para Duas Infantas Meninas, onde por exemplo refere que o Rei, em Lisboa,
preocupava-se com o ensino do português ao herdeiro, recomendando às infantas “Parece-me muito bem
que entendais Português tão bem como dizeis, e assim procurai que o entenda o vosso irmão, o que será necessário
para que perceba os que forem daqui, e fazei-o ler português. Tenho um livro, em português, para lhe enviar, para
que por ele o aprenda, que seria muito bom que já o soubesse falar. (…) Quando souber escrever, envio-lhe uma
escrevaninha da Índia.”(Bouza Álvarez 1998).
6
À peça de cristal rocha, obtida em 1550 na Índia ou no Ceilão, foi acrescentado pelo ourives da Rainha,
Francisco Lopes, um saleiro tardo-medieval (Bouza Álvarez 1998).
Após renunciar a regência (1562), a Rainha viúva procurou seguir o exemplo das suas fa-
miliares e regressar ao seu país de origem, retirando-se num convento. Em diversas cartas pediu
assistência ao Santo Padre, admitindo o seu descontentamento em permanecer em Portugal7.
A rainha contava com o apoio de Filipe II, que procurou em Espanha diversos conventos
onde pudesse acomodar a tia, segundo o seu estatuto com Casa própria, tendo optado no fim
por Ocaña. No entanto figuras proeminentes do clero e da corte insistiram que permanecesse
em Portugal, decidindo-se pelo Convento da Madre de Deus (Jordan et al. 2013).
O panteão dinástico dos Avis no Mosteiro dos Jerónimos foi a última grande obra
de D. Catarina, assente na Pietas Austriaca. Afastada da corte, seguiu o exemplo da tia
em Brou-en-Bresse, e criou um mausoléu glorificando a Dinastia de Avis e dos Áustria.
Pouco depois de ter abdicado, sob a sua influência D. Sebastião inicia uma reforma no
mausoléu do Rei D. Manuel. Apesar de a capela ter sido sujeita a obras durante o reinado
de D. João III, era considerada pela corte pequena e demasiado baixa. Em 1569 as obras
foram interrompidas pelo Rei, que necessitava de fundos para recuperar e modernizar
as fortificações da costa africana. D. Catarina assumiu a obra e pagou a conclusão dos
trabalhos, contratando o escultor Jerónimo de Ruão, filho de João de Ruão (Rouen). É
a primeira deste género em Portugal, tornando-se o modelo a seguir na arquitectura reli-
giosa nacional. Segundo George Kubler, o contraste notório entre a nave manuelina e a
capela, salienta a antítese entre espaço profano e sagrado. Os elementos decorativos reflec-
tem as diferentes culturas artísticas do Imperio dos Habsburgo e do Império Ultramarino
Português. A arquitectura sóbria maneirista faz sobressair a presença asiática do programa
iconográfico. O uso de cariátides elefantinas a suportar os sarcófagos reais de forma pira-
126 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

midal, rompia com a tradição das efígies representativas jacentes (Fig.4). Por sua vez, na
zona superior dos arcos dos túmulos, deparamo-nos com caricaturas copiadas das gravuras
flamengas de Cornnelis Bos e Hans Vredeman de Vries (Jordan et al. 2013).
D. Catarina competiu na contratação de artistas e na compra de materiais, na rede do
Sacro Império, para o retábulo da capela-mor. Procurou que o seu embaixador em Roma,
João Telles, encontrasse os melhores pigmentos em Itália8. Anteriormente tinha encomen-
dado uma pintura da Flagelação de Cristo a Ticiano, à imagem do irmão para o mosteiro de
Yuste (retábulo La Gloria). Porém a pintura nunca chegou a Lisboa, permanecendo na ofi-
cina de Ticiano9, devido ao excesso de encomendas para a corte espanhola, em particular

7
Segundo a própria: ”Com esta mando a resposta dos breves de Sua Sanctidade (…) e também das razões que eu
tenho para viver descontento e intentar, e ainda efectuar qualquer mudança.”. (BA, Ms, 46-X-22, fl.77v)
8
Como os materiais não chegaram a tempo, e a Rainha tinha urgência, escreveu a Juan de Borja, na altura
embaixador de Portugal em Castela, para que interviesse junto do sobrinho (Jordan et al. 2013).
9
Tintoretto eventualmente adquiriu-a na venda da oficina de Ticiano, não se sabendo o seu destino nem se
foi concluída (Jordan et al. 2013).
a execução do monumental Martírio de São Lourenço, para Filipe II, executado in sito no
Mosteiro do Escorial (Jordan et al. 2013).
A Rainha ainda procurou igualmente contratar o pintor espanhol Gaspar Becerra
(m. 1568), ao serviço de Joana de Áustria, ou o flamengo Frans Floris (1519-1570) atra-
vés de Filipe II e do seu embaixador em Espanha, Francisco Pereira. Sem sucesso, pois
Becerra falecera e Floris residia na Flandres, decidiu-se por um pintor da corte portuguesa
Lourenço de Salzedo, optando por um retábulo com o tema Cenas da vida de Cristo, que
ainda hoje se encontra no altar-mor (Jordan et al. 2013).

Figura 4. Túmulo de D. Sebastião, Capela-mor do Mosteiro dos Jerónimos,


capela direita do transepto.

127 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: o, Cooperação e Desenvolvimento


Joana de Áustria, Jesuita e Ebolista

A educação política e religiosa de D. Joana de Áustria foi directamente influenciada


pelo séquito da sua mãe, em particular por São Francisco de Borja.
Francisco inicia o percurso político na Corte de Tordesilhas, onde D. Catarina de Áustria
(tia de D. Joana de Áustria e futura sogra) vivia com a mãe, Joana a Louca, que apesar de
ser titularmente Rainha de Castela, era um incómodo para a Corte Imperial opondo-se à
nova fracção flamenga de Carlos V. Portanto, Tordesilhas não era um centro nevrálgico de
poder (Lozano 2011).
Com 12 anos Borja é enviado pelos pais para servir a Infanta Catarina, três anos mais
velha, como menino (pajem). Ao longo da sua vida foi recebido em diversas ocasiões por ela
em Portugal. Esta amizade duradoura é mencionada na troca de correspondência, onde se des-
creve como ´“este su criado viejo en el siglo” (Hernán 2000, pag.61). A Rainha apoiou sempre a
influência dos jesuítas na corte portuguesa. De facto, foi a partir do apoio régio que partiram
de Portugal São Francisco Xavier e outros importantes jesuítas, para missionarem nas Índias
Orientais. A Companhia aumentou rapidamente o seu prestígio na corte, tornando-se confes-
sores da Rainha e professores de D. Sebastião, tendo-lhes sido igualmente atribuído privilégio
de fundarem os colégios preparatórios na Universidade de Coimbra (Lozano 2011).
A forte ligação que Francisco de Borja tem com o Reino Portugal, deve-se igualmente
à política matrimonial. Os príncipes e princesas eram acompanhados pelo seu séquito, os
quais também contraíam matrimónios com casas de nobreza do reino de acolhimento, re-
128 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

forçando os laços entre as Coroas. As figuras proeminentes do séquito de Isabel de Portugal


alteraram profundamente a política peninsular, unindo-se matrimonialmente a diversas
casas de nobreza espanhola. Entre eles Ruy Gómez da Silva (futuro Príncipe de Éboli10),
que acompanhava seu avô Ruy Téllez de Meneses, mayordomo mayor da Imperatriz Isabel,
e a sua prima D. Leonor de Castro (G. Sánchez-Molero e Luis 1998).
A ascensão de Francisco de Borja na Corte inicia-se em 1528, quando se junta ao séquito
do Imperador, com um auto de mayorazgo e documentação para negociar um matrimónio,
tendo-lhe sido atribuído o cargo na corte de gentilhombre da Casa de Borgonha. No ano se-
guinte iniciam-se as negociações do seu matrimónio com D. Leonor de Castro, amiga íntima da
Imperatriz Isabel, à qual agradava muito este matrimónio. Desde a sua chegada para a boda im-
perial, D. Leonor desempenhava o cargo de caballerizo-mayor e camarera-mayor (Millán 2000,
vol I, P. 249; vol. IV, p.116). A situação era provisória e fora do protocolo, pois correspondia
a um homem desempenhar o cargo de caballerizo-mayor. Em 1529 Borja recebe o cargo e no
10
A trajectória de Ruy Gómez da Silva, príncipe de Éboli, até à sua partida para Inglaterra no séquito de
Filipe II, é descrita em “La formación de un privado: Ruy Gómez da Silva na la corte de Castilla (1526-1554)”,
(G. Sánchez-Molero e Luis 1998).
ano seguinte é elevado ao título nobilitário de Marquês de Llombai. Durante os próximos dez
anos adquiriu uma posição privilegiada na corte, apenas uma doença o impediu de participar na
Conquista de Túnis. Próximo da Imperatriz, foi testemunha da sua regência durante os longos
períodos de ausência de Carlos V, em campanhas militares na Europa (Lozano 2011).
Francisco de Borja fazia parte de um pequeno grupo de varões admitidos na cámara de
estrado, onde decorriam as audiências habituais. Entre os vassalos da Rainha era só supera-
do em autoridade pelo mayordomo mayor. Supervisionava as saídas fora do palácio, ajudava
sempre a montar e a desmontar a soberana, estando nessas ocasiões permanentemente
ao seu lado (Díaz-Varela 1958). A sua proximidade com o centro feminino dinástico
permitiu-lhe criar laços com filhos do casal imperial, durante a infância, relembrando
Filipe II, em 1561: “ni se olvidará V.M. de las muchas horas que en su tierna edad le traje en
estos brazos, y se adormeció en ellos.”(Borja y Enrquez e Gmez Rodeles 1894).
Segundo a biografia de Ribadeneyra (1594), com a morte de Isabel de Portugal
(1de Maio de 1539) Borja inicia a sua conversão. Na sua autobiografia refere: “Con la
Emperatriz gozando de lo que el Señor obró en ella y en mí por su muerte… Magnificate
Dominum mecum!”. Após as exéquias, foi decidido separar os servidores do príncipe
Filipe dos servidores das infantas, trasladando Maria (1528-1603) e Joana (1535-1573)
para Arévalo, para a recém-criada Casa de las Infantas11. Por consequência criou-se um
círculo cortesão português em volta delas que, a partir de 1540 se tornam rivais da fracção
castelhana (Corominas 2008).
O casal Borja, tal como os restantes serventes da Imperatriz, passou ao serviço das

129 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: o, Cooperação e Desenvolvimento


jovens infantas. Imediatamente foram dispensados, pois apesar de ter o favor do Imperador,
D. Leonor de Castro gerava receios como aia das infantas, era descrita como “mujer muy
atrevida, que se le cartearía con reyes extraños”.12 Com a chegada do séquito da Princesa
Maria Manuela de Portugal, cujo matrimónio era fundamental para a consolidar politica-
mente a Casa de Avis na dos Habsburgo (tão desejada por Catarina de Áustria), a fracção
portuguesa aumentou. Os Borja foram nomeados por Carlos V como mordomo-maior e
camareira-maior de Filipe II e Maria Manuela de Portugal. Catarina de Áustria recusou
que Leonor governasse a Casa da sua filha. (Millán 2003)
Após a morte da Princesa Maria Manuela durante o parto, o séquito ingressou na
Casa das Infantas para atender o filho, o Infante Carlos (Corominas 2008). O casal por
não ter um cargo adequado ao seu prestígio, retirou-se para os seus domínios em Gandía.

11
A Casa das Infantas é descrita nas obras de Ezquerra Revilla, Ignacio (2000), Las casas de las infantas doña
María y doña Juana, e J. Martínez Millán (dir.), La corte de Carlos V. Madrid: Sociedad Estatal para la
Conmemoración de los Centenarios de Felipe II y Carlos V. Vol. I, tomo II, pp. 125-152.
12
Carta de Leonor Mascareñas a Filipe II (1571), (Millán 2000).
Francisco de Borja em 1546, após a morte da sua esposa, inicia o seu percurso religioso,
ingressando na Companhia de Jesus (Lozano 2011).
Em 1548, a eminente viagem de formação do príncipe Filipe II pela Europa precipitou
a reorganização da monarquia. Por um lado estabeleceu-se definitivamente a Casa do her-
deiro ao estilo da Borgonha, por outro acordou-se a boda entre Maria e Maximiliano,
dividindo definitivamente os servidores das princesas e dissolvendo a Casa das Infantas.
Por consequência, os servidores que desejaram permanecer na península formaram a Casa
de D. Joana de Áustria e do Infante Carlos, no ano seguinte, em Toro (Corominas 2008).
D. Joana de Áustria, filha mais nova do Imperador Carlos V, nasceu a 23 de Junho
de 1535, durante as campanhas vitoriosas do pai no Norte e África, com as quais se iden-
tificou no resto da vida. Os feitos de Carlos V em Túnis influenciaram e promoveram a
família imediata, assumindo virtudes quase míticas, idolatrado sobretudo pelas mulheres
da família, que se fizeram representar como suas irmãs e filhas (Jordan et al. 2013).
A imagética clássica e heróica de Carlos V fez também parte do programa iconográ-
fico da entrada de D. Joana em Lisboa. Os tableaux vivants, as decorações, as carruagens
e os arcos de triunfo, salientavam a propaganda imperial Herculana13 dos Habsburgo.
Desde os oito anos de idade a princesa estava prometida ao príncipe herdeiro de Portugal,
casando-se aos 17. Para D. Joana o casamento poderá ter representado um regresso às
origens. Após a morte prematura da sua mãe, foi educada a partir dos quatro anos (tal
como Filipe II, Maria e o infante Carlos), pelo séquito feminino português da Imperatriz
Isabel, tendo-se reunido uma única vez, desde a infância, com pai em Yuste, no ano de
1556. D. Joana era vista como essencialmente portuguesa, celebrada por poetas, nos seus
130 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

esponsais, como a personificação da Ibéria, ou Hispânia, como era conhecida a península


na antiguidade clássica (Jordan et al. 2013).
As mortes prematuras e sucessivas dos cinco filhos dos monarcas portugueses e a
saúde débil do príncipe D. João ameaçavam o futuro da monarquia. O casamento com
D. Joana era a solução para a crise política, uma aliança que consolidava os laços, unia as
coroas ibéricas e os seus impérios ultramarinos. Este casamento garantia a sucessão, a paz
e a estabilidade entre Portugal e Espanha. O leimotiv principal das celebrações matrimo-
niais era a fertilidade da noiva, representada mais tarde num medalhão e num retracto de
Cristóvão de Morais, onde aparece grávida de D. Sebastião (Fig.5) (Jordan et al. 2013).

13
Para além de outros elementos Herculanos, presentes nas artes decorativas, na ocasião foi propositadamente
restaurada uma carruagem triunfal, herdada da mãe, decorada com cenas dos Trabalhos de Hércules (Jordan
et al. 2013).
Figura 5. Retrato de Joana de Áustria, Cristóvão de Morais (1553).
Musées Royales des Beaux-Arts de Belgique, Bruxelas (Inv. 1296)

Foi em Toro, durante o ano de 1552, que o destino politico-religioso de D. Joana ficou
selado. Com o matrimónio eminente com o príncipe D. João de Aviz,o único herdeiro

131 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: o, Cooperação e Desenvolvimento


da Coroa Portuguesa, muitos membros da aristocracia lusitana ingressaram na sua Casa,
pois oferecia possibilidades de ascender na corte portuguesa. Muitos castelhanos que se
opunham à fracção dominante e sofriam presseguição inquisitorial, devido às suas inclina-
ções espirituais, decidiram tentar fortuna em portugal. O ambiente espiritual da corte de
D. Joana 14 é perceptível na lista dos seus livros , entre eles o Alfabeto Espirítual de Osuna,
os De los cuatro postreros trances de Dionísio Cartujano ou a Doctrina Cristiana do Doutor
Constantino15. Mais tarde, fizeram parte do Catálogo de libros prohibidos (1559), do
Inquisidor Geral Fernando de Váldez, condenados como heterodoxos (Corominas 2008).
Durante esse ano D. Joana recebeu com o seu séquito Francisco de Borja, enviado
por Francisco de Loyola para Portugal, de forma a pacificar os Jesuítas do reino. Durante
a Semana Santa pregou dois sermões para a princesa e as damas, iniciando nessa altura
a sua educação religiosa. Vendo-a aficionada a livros e jogos profanos, prometeu-lhe um
14
O ambiente cultural e espiritual que rodeava D. Joana de Áustria é descrito em Études sur le Portugal au
temps de l’humanisme , p.257-283, (Bataillon et al. 1952).
15
Os livros e leituras de D. Joana de Áustria estão descritos nos artigos: Portugal y Castilla através de los libros
de la princesa Juana de Austria, Psyche Lusitana? (J. L. G. Sánchez-Molero 2009); e La corte literaría de doña
Joana de Austria (Corominas 2008).
novo conjunto de naipes, mais educativo. No ano seguinte, a pedido de João III e D.
Catarina, transladou-se para Portugal, tendo sido recebido com extraordinário afecto pelos
monarcas. A Princesa, que nesta altura estava grávida de D. Sebastião, recebeu das suas
mãos um jogo de naipes com vinte e quatro virtudes e vinte e quatro vícios. Para além de
introduzir outros entretenimentos mais católicos, escreveu para a princesa um “Admoestar
para a sagrada comunhão”. Pouco depois de Borja deixar a corte portuguesa, surgiram os
primeiros sintomas de doença do Príncipe João (Millán 2003).
A 4 de Janeiro de 1554, o sonho da aliança política com Espanha, tão celebrado
pelos monarcas portugueses, caiu por terra com a morte inesperada do infante D. João. O
futuro incerto da dinastia dependia do sucesso da gravidez da princesa. Passados apenas
quatro meses de dar à luz, com 19 anos, foi urgentemente reclamada para reger Castela
na ausência do irmão, que estava a caminho de Inglaterra para contrair matrimónio com
Maria Tudor. O nascimento de D. Sebastião, e a eminente partida, alterou a composição
da casa da princesa, altos oficiais hispano-portugueses abandonaram-na em prol da do
filho. Tiveram mais sorte os que, como Ruy Goméz da Silva16, ingressaram o séquito do
príncipe Filipe II em Inglaterra, já que a irmã ia reger Espanha numa altura em que as
empresas imperiais tinham deixado o reino à borda do colapso. O principal objectivo do
governo regencial era a colecta de capital, para financiar os gastos militares na Flandres, e
a defesa contra os muçulmanos no Mediterrâneo (Corominas 2008).
Com a inesperada eleição a regente, a jovem Habsburgo escreve a Francisco de Borja,
marcando um encontro em Tordesilhas. Foi nesse encontro que solicitou a sua direcção
espiritual e o ingresso na Companhia. No ano seguinte, Inácio de Loyola comunicou de
132 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Roma o beneplácito do Papa, para o ingresso do Irmão “Mateo Sánchez”, recebendo votos
secretos próprios de escolares perpétuos, mas dispensáveis caso contraísse um matrimónio
de estado17 (Millán 2003).
No ano de 1554, com a designação de D. Joana, o círculo cortesão português cerrou
fileiras contra os inimigos. De 1555 a 1559, na ausência do irmão e do pai, estabelece
a corte em Valladolid, de onde passa a governar. A sua posição na corte de Filipe II era
central para a unidade ibérica. A Princesa de Portugal não hesitou em apoiar os postula-
dos do partido Ebolista, descontentes com a manutenção dos exércitos na Flandres, cujos
impostos e recursos humanos empobreciam os reinos peninsulares (Corominas 2008).
Sobre a influência de Francisco de Borja a corte de Valladolid apresentava uma
simplicidade austera semelhante à de um convento (Fig.6). A piedade e devoção das damas
16
O príncipe de Éboli foi criado junto do príncipe Filipe e das damas da Imperatriz Isabel, entre elas, a mãe.
Com o passar do tempo tornou-se homem de confiança e cabeça da fracção cortesã oposta ao grupo político
dominante castelhano, o de Cobos e Tavera (Corominas 2008).
17
O ingresso de D. Joana na Companhia de Jesus foi narrado por Robert Rouquette, Une jésuitesse au XVI
siècle, em Études316, (1957) 355-377 (Rouquette 1957).
ao serviço da princesa, era directamente influenciada pelos confessores jesuítas. Foi durante
este período que tomou a decisão, influenciada pelo seu guia espiritual S. Francisco de
Borja, de fundar um mosteiro de clarissas em Madrid, as Descalças Reais (López 2010)

Figura 6. Joanna de Portugal, Sofonisba Anguissola18.


Colecção privada, leiloado pela Galeria Dorotheum, (Viena,12 de Outubro de 2011).

133 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: o, Cooperação e Desenvolvimento


Borja, durante este período em que assume cargo como comissário espiritual da
Companhia, publica diversas considerações espirituais sobre como receber o Santíssimo
Sacramento, assim como diversos tratados espirituais: o Dechado muy provechoso del ànima
de Cristo (1553); a Explanación de los Trenos de Jeremías (1556); o Tratado espiritual de la
oración y los impedimentos della (1557); a Meditación de las três potencias de Cristo (escrita para
as Descalças Reais); e o Ejercicio de las tres potencias del alma. Estas obras acabaram por trazer
problemas com a Inquisição, no final do período de regência de D. Joana (Corominas 2008).
A inquisição espanhola, durante o reinado de Carlos V, tinha prosseguido alumbrados19
e erasmistas. Na altura de transição política para o reinado Filipino, a hegemonia inquisi-
torial não estava garantida e diversos humanistas refugiaram-se em torno das figuras mais
proeminentes do partido ebolista, a fracção castelhana naturalmente procurou a protecção
18
D. Joana, representada viúva, acrescenta à majestade imperial (segura a medalha de Carlos V) a sobriedade
característica da Companhia de Jesus, que se tornou exemplo para as suas familiares, como imagem de go-
vernação feminina, sobretudo para as sobrinhas.
19
Sobre o tema: Los alumbrados: orígenes y filosofia, 1525-1559 (Márquez 1980).
de D. Joana. O apoio evidente à Companhia de Jesus colocou-a na mira de Melchor Cano
(próximo de Valdés), que duvidava da ortodoxia dos Exercicios espirituais de Ignacio de Loyola.
A descoberta de focos luteranos, em Castela e Andaluzia no ano de 1558, propiciou
o regresso de Fernando de Valdés à corte, quando já se encontrava politicamente morto
e se dirigia ao seu arcebispado em Sevilha. Em Valladolid lançou uma ofensiva contra os
seus inimigos políticos, legitimando a formalidade religiosa contra as vaidades dos espi-
rituais e recolhidos, que justificavam a sua presença na corte. Para esse efeito serviu-se do
dominicano Frei Melchor Cano, teólogo no Colégio de San Gregório de Valladolid, pois
procurava vingança contra aqueles que se interpunham no seu caminho político, entre
os quais Bartolomé de Carranza, com quem Francisco de Borja partilhava uma estreita
afinidade espiritual. Ressentido pela falta de promoções, odiava outros jesuítas, tais como
Araoz e Laínez, que acusava de impedirem a sua ascensão (Corominas 2008).
A dinâmica repressora estendeu-se a procedimentos burocráticos, que todos os textos
publicados eram forçados a seguir. Estas medidas eram entendidas como forma de evitar
o contágio ideológico dos súbditos espanhóis, tais como a proibição de importar livros
estrangeiros sem o beneplácito da censura, ou até mesmo estudar em universidades fora
da península. Esta perseguição culminou em 1559 num dos episódios mais desmorali-
zantes da Inquisição espanhola, os Autos de Fé de Valladolid em Maio e Outubro, e a
publicação do Catálogo de Livros Proibidos a 17 de Agosto. A lista incluía as Obras del
cristiano, de Francisco de Borja, juntamente com outros importantes espirituais como
Francisco de Osuna, Juan de Ávila e Frei Luis de Granada20. Borja, que até ao momento
tinha colaborado com o Santo Ofício, deslocou-se urgentemente a Valladolid para tratar
134 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

da situação com o provincial da Companhia em Castela. A situação agravou-se com a


detenção de Bartolomé de Carranza, e de forma a evitar um possível aprisionamento, cujos
rumores já tinham chegado a Araoz, aproveitou o convite do Cardeal Infante D. Henrique
e dirigiu-se para Évora, onde visitou o Colégio do Espírito Santo. Esta visita estendeu-se
igualmente à casa da Companhia no Minho, em Sanfins (Corominas 2008).
Filipe II permaneceu impassível, apesar da influência de Ruy Gómez de Silva, do
marquês de Mudéjar, da Princesa Joana, entre outros amigos de Borja. Em questões re-
lacionadas com a fé, o Rei Prudente apoiava sempre o veredicto dos seus inquisidores,
sobretudo quando receberam em Madrid a notícia da chegada de Borja a Roma, gerando

20
Semanas antes da publicação do Índice, e sobretudo devido a rumores que chegavam de Espanha, Frei
Luis de Granada viajou apressadamente, desde Lisboa até Valadollid, para resolver pessoalmente a questão.
Numa carta enviada a Carranza a 25 de Julho de 1559, explica como conseguiu uma entrevista com Valdés,
graças à intervenção da princesa D. Joana. Devido ao fracasso desta empresa, voltou para Lisboa onde con-
tava com a protecção do seu mentor, amigo e filho espiritual, o inquisidor português Cardeal Infante D.
Henrique. Em Portugal continuou a publicar com a aprovação de Pio IV, tornando inválido o veredicto de
Melchor Cano (Corominas 2008).
a suspeita de fuga uma revolta entre os cortesãos. O ambiente só acalmou com a morte
de Melchor Cano (1560) e a queda em desgraça de Fernando Valdés (Corominas 2008).
Francisco de Borja permaneceu em Roma onde, após a morte de Laínez (1565), ocupa
o generalato da Companhia. Durante os próximos sete anos de governo, reformou a Igreja
de Gesú, promoveu a fundação de colégios, estabeleceu noviciados em todas as províncias
jesuítas e o primeiro ratio studiorum para os centros educativos da Companhia, seguindo
o exemplo dos modernos studia humanitatis. Desconhecemos se em 1571, durante a últi-
ma viagem que realiza à península Ibérica, visitou D. Joana nas Descalças Reais. No ano
seguinte, pouco depois de regressar a Roma, falece (Corominas 2008).
Filipe II, após os cinco anos que concentrou esforços para resolver os problemas religioso
em Inglaterra e na Flandres (nomeando regente a meia-irmã, Margarida de Parma), cen-
tralizou o poder na Corte de Madrid. Este processo inevitavelmente acompanhou a homo-
geneização ideológica e confessional dos súbditos, para garantir estabilidade no Império
e evitar rebeliões, como as que ocorreram nos principados alemães durante o reinado do
pai. Porém a fracção ebolista, cujos ideais eram contrários ao castelhanismo radical e o
confessionalismo católico, durante década de 1560 (após o reagrupamento da corte em
1559), impôs-se aos apologistas de Cobos e Tavera. Nas cortes de Toledo (1560), este
grupo encabeçado por Ruy Gómez de Silva, atingiu o apogeu graças à rápida integração
da Rainha Isabel de Valois e de D. Ana de Mendoza (Princesa de Éboli) no circuito íntimo
da Princesa Joana (Corominas 2008).

135 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: o, Cooperação e Desenvolvimento


As Descalças Reais, Centro espiritual e político
das mulheres Habsburgo

Até à sua morte, D. Joana foi a mulher mais importante da família real. Mãe do rei
mítico D. Sebastião, e adoptiva do herdeiro de Espanha, o Infante D. Carlos (1545-1568).
Foi igualmente constante companheira das rainhas Isabel de Valois (1546-1568) e
Ana de Áustria (1549-1580).
Em 1559 a princesa promoveu em Madrid (no palácio onde fora baptizada) a fundação
do Convento das Descalças Reais, com monjas formadas em Gandia, pelo seu confessor,
Francisco de Borja. A relação espiritual entre os dois era tão forte que as más-línguas che-
garam a insinuar uma relação ilícita21. Anos mais tarde Borja descreve o seu magistério
como a “cruz que me dieron en Tordesillas”22 (Corominas 2008).

21
El padre Francisco de Borja, de Véase C. de Dalmases, p. 119-121 (Dalmases 2002).
22
As confissões íntimas de Borja podem ser pesquisadas na sua obra Diário espiritual (1563-1570) (Francisco
de Borja e Ruiz Jurado 1997).
O Mosteiro, antes de adaptado a vida monacal, era um antigo palácio do tesoureiro do
Imperador Carlos V, Don Alonso Gutiérrez, que o colocou à disposição da Imperatriz Isabel
na altura em que dera à luz a Princesa Joana. O complexo monástico ocupava um quar-
teirão, que abrangia a igreja e os espaços de abastecimento das monjas, hortas, vacarias,
padaria, entre outros. Era sobretudo fundamental o papel social para a Vila de Madrid,
pois incluía um colégio de órfãs e um hospital de misericórdia. É evidente na arquitectura
a intenção da princesa criar um espaço religioso que abrangesse espaços com uma função e
carácter cortesão, tal como a adição de um anexo para a princesa e o seu numeroso séquito
(Pablo 2017). Para esse efeito solicitou em 1555, à tia Catarina de Áustria, as cópias dos pla-
nos do Convento de Madre de Deus (Lozano 2011). Seguindo o exemplum mendicante das
suas antepassadas, entre elas a Rainha Santa Isabel de Portugal, retirou-se nele após a regên-
cia, onde concebeu igualmente um túmulo e um memorial, com o objectivo de perpetuá-lo
como local de recolhimento das mulheres da família real e da alta nobreza, onde praticavam
uma observância e espiritualidade radical. Ela é responsável pela criação da forte imagem
pública de viúva piedosa, devota católica e consagrada à Casa de Áustria, celebrada na corte
de Madrid e venerada na capela sepulcral que idealiza e faz edificar dentro do seu mosteiro.
Nas Descalças Reais, acumulou-se uma grande quantidade de obras artísticas, incluin-
do uma ampla colecção de retratos23, perpetuada pela irmã (a Imperatriz Maria), e pelas
sobrinhas Margarita de la Cruz (filha da Imperatriz Maria, professa), Ana Dorotea de
Áustria (filha do Imperador Rodolfo II, professa) e Isabel Clara Eugénia24 (filha de Filipe II
e Isabel de Valois), que habitaram o mesmo espaço. O patronato Real impulsionou um
número elevado de damas e filhas de nobres a professarem. Não obstante à clausura, as
136 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

monjas que pertenciam à família real gozavam de privilégio papal e recebiam visitas exter-
nas. As visitas de núncios, ministros, embaixadores e familiares da casa real, que circulavam
entre o mosteiro e o Alcázar de Madrid, confirmam a existência de negócios relacionados
com o governo da monarquia (Pablo 2017). Como tal era visitado por numerosas rainhas,
princesas e infantas da monarquia hispânica e de outros reinos, tornando-se um espaço de
poder político-religioso, albergando uma das maiores colecções de relíquias e relicários25,
muitas vezes ofertadas por dignatários estrangeiros (Pablo 2017).
23
A separação geográfica das cortes de Madrid e de Lisboa era minimizada pela troca de correspondência e de
retratos. D. Sebastião foi, a pedido da mãe, retratado regularmente ao longo do seu crescimento e os quadros
expostos nas Descalças Reais (Serrano 2016).
24
Apesar de ser a filha mais velha e destinada a ser imperatriz, na falta de herdeiros masculinos (para além do
príncipe Filipe), Clara Eugénia poderia converter-se em Rainha de Espanha, tendo por consequência sido
educada e participado nos assuntos de governo (Serrano 2016).
25
A maior parte das relíquias chegou em 1584, quando a Imperatriz Maria e a filha a Infanta Margarita, se
tornaram residentes permanentes. A infanta, que era muito devota a elas, professou segundo a regra de Santa
Clara (versão descalça), com o nome Sor Margarita de la Cruz (Pablo 2017). Eram mais de 400 relíquias
coleccionadas entre 1570 e 1700, hoje grande parte desaparecida, devido a um incêndio ocorrido em 1862
Desde a fundação, a proximidade entre o Palácio Real e o mosteiro, e a presença
permanente de figuras proeminentes da casa real, tornaram-no local ideal para alojar as
infantas, na ausência do monarca ou em caso de resguardo de doenças no palácio. Tal su-
cedeu quando Filipe II se ausentou durante dois anos, para o juramento dos herdeiros no
Reino de Portugal. Após a morte da rainha Isabel de Valois, as órfãs Isabel Clara Eugénia
(1566-11633) e Catarina Micaela (1567-1597) foram confiadas aos cuidados de D. Joana,
nomeando Sofonisba Anguissola26 mestre das infantas. Os princípios incutidos são ma-
nifestos nas suas regências, e nas das descendentes. Isabel Clara Eugénia favoreceu na
Flandres a expansão do movimento descalço, fundando conventos de carmelitas, e ao
enviuvar tomou também o hábito de franciscana terciária no convento de Bruxelas. A
sua irmã, Carolina Micaela, não teve oportunidade de tomar hábito, tendo falecido na
sequência de parto prematuro aos 30 anos, porém a sua actividade política foi igualmente
influenciada pelas familiares. Apesar de duquesa por casamento manteve o seu título de
infanta ao casar-se com o Duque de Sabóia e impôs na corte ducal de Turim o cerimonial
e a ostentação régia espanhola27. Os duques decidiram que os filhos iriam ser educados
“à italiana” e as filhas “à espanhola”, instruindo-as nas complexas regras de etiqueta dos
Habsburgo, proporcionando bons casamentos na rede familiar do Sacro-Império. Após o
funeral, digno de uma rainha, parte do seu séquito espanhol permaneceu em Turim para
educar as princesas, segundo os mesmos princípios. Cedo foram introduzidas nas relações
políticas, recebendo diplomatas e dignatários estrangeiros. A filha, Margarida (Duquesa
de Mântua), fez também questão de manter o protocolo cerimonial, correspondente à sua

137 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: o, Cooperação e Desenvolvimento


pretensa dignidade28 de Infanta, como Vice-rainha de Portugal (Serrano 2016).
Em Portugal, durante a Restauração, os novos reis deram continuidade ao
modelo político das mulheres Habsburgo hispânicas. Recordamos que a nova rainha,
D. Luiza de Gusmão, era descendente dos Duques de Gandia, e a sua mãe foi dama da
26
Sofonisba nasceu em Cremona, onde recebeu uma educação humanista e estudou pintura na oficina de
Bernardino Campi (excepcional na época).A sua fama chegou à corte em Madrid, tornando-se mestre de
pintura de Isabel de Valois, com o estatuto de dama de companhia. Aos 40 o seu casamento foi concertado
por Filipe II com D. Fabrizio de Moncada, tendo-lhe concedido uma renda anual pelos serviços prestados à
coroa. Passados alguns anos enviuvou e regressou a Cremona, onde voltou a casar, estabelecendo-se de segui-
da em Génova. No Norte de Itália, visita Turim e volta a contactar a infanta Carolina Micaela, tornando-se
pintora na sua corte ( (Serrano 2016).
27
Embaixadores de Veneza e Turim testemunharam: “a infanta vive à grande, como se fosse rainha de
Espanha.”(Del Río Barredo 2003).
28
Tal como a mãe em Turim, Margarida introduziu na corte de Mântua um cerimonial mais aparatoso,
inspirado no fausto de Madrid. Reformou os cargos palatinos, colocou na entrada das salas e antecâmaras
guarda de honra, os quais acompanhavam os duques nas saídas. (Serrano 2016). Outro exemplo é o facto de
a Duquesa por vezes ser tratada pelos seus súbditos como Infanta, apesar de este título caber apenas as filhas
do Rei Católico. No verão de 1640 pedia autorização para utilizar o título, apresentando detalhadamente as
causas e razões da mercê. A solicitação foi negada, pelo Conselho de Estado de Madrid, por abrir preceden-
tes e trazer inconvenientes com outros príncipes da família. (Serrano 2016).
Rainha Margarida de Áustria, por consequência tinha frequentado o círculo religioso das
Descalças Reais (Serrano 2016). Temos o exemplo do Mosteiro de Santa Clara a Nova em
Coimbra, fundado por D. João IV, que segue de perto a mesma função que o Mosteiro
das Descalças Reais: a construção de um paço para uma corte político-religiosa feminina,
regida por princesas, bastardas (de sangue limpo), ou consortes viúvas da Casa Real. Até à
Extinção das Ordens Religiosas (1834) mantinha igualmente uma grande e antiga colecção
(que provinha do antigo mosteiro), hoje desmantelada e distribuída por diversos museus.

Bibliografia

Bataillon, Marcel, Manuel Lopes de Almeida, Mário Brandão, Lígia Cruz, Ismael A. Chuvas, e
Gabriel Antunes. 1952. Études sur le Portugal au temps de l’humanisme. Acta Universitatis
Conimbrigensis. Coimbra: Por Ordem da Universidade.
Borja y Enrquez, Juan de, e Cecilio Gmez Rodeles. 1894. Sanctus Franciscus Borgia, quartus Gandiae
dux et Societatis Jesu praepositus generalis tertius. Matriti, Typis A. Avrial. http://archive.org/
details/sanctusfranciscu59borj.
Bouza Álvarez, Fernando Jesús. 1998. Cartas para duas infantas meninas: Portugal na correspon-
dência de D. Filipe I para suas filhas 1581-1583. Anais 28. Lisboa: Publicações Dom Quixote.
Corominas, Eduardo Torres. 2008. «La Corte Literaria de Doña Juana de Austria (1554-
1559)». Eduardo Torres Corominas, &quot;La Corte Literaria de Doña Juana de Austria
(1554-1559)&quot; En José Martínez Millán y Ma. Paula Marçal Lourenço (Coors.),
Las Relaciones Discretas Entre Las Monarquías Hispana y Portuguesa. Las Casas de Las
Reinas. Madrid, Polifemo, Vol. II, Pp. 919-971 2. https://www.academia.edu/17203556/
138 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

La_corte_literaria_de_do%C3%B1a_Juana_de_Austria_1554-1559_.
Dalmases, Cándido de. 2002. El padre Francisco de Borja [Texto impreso]. Madrid: Biblioteca de
Autores Cristianos.
Del Río Barredo, Maria José. 2003. «De Madrid a Turín: el ceremonial de las reinas españolas en la
corte ducal de Catalina Micaela de Saboya», Cuadernos de Historia Moderna, . https://revistas.
ucm.es/index.php/CHMO/article/view/CHMO0303220097A.
Díaz-Varela, Dalmiro de la Válgoma y. 1958. Norma y ceremonia de las reinas de la Casa de Austria.
Real Academia de la Historia.
Francisco de Borja, Santo, e Manuel Ruiz Jurado. 1997. Diario espiritual (1564-1570) [Texto im-
preso]. (Manresa ; 17). Bilbao; Santander: Mensajero; Sal Terrae.
Hernán, Enrique García. 2000. La acción diplomática de Francisco de Borja al servicio del Pontificado,
1571-1572. https://dialnet.unirioja.es/servlet/libro?codigo=121670.
Jordan, Annemarie, Carmo Vasconcelos Romão, Ana Maria S. A. Rodrigues, Isabel dos Guimarães
Sá, e Manuela Santos Silva. 2013. A rainha colecionadora: Catarina de Áustria. Rainhas de
Portugal / coord. Ana Maria S. A. Rodrigues, Isabel dos Guimarães Sá, Manuela Santos Silva
10. Lisboa: Círculo de Leitores.
Jordan-Gschwend, Annemarie. 2010. The Story of Süleyman: Celebrity Elephants and Other Exotica
in Renaissance Portugal. Philadelphia, Pa.: Pachyderm.
López, María Fuensanta Cortés. 2010. «El patronato artístico de Juana de Austria: estado de la
cuestión». Imafronte 0 (21–22): 61–69.
Lozano, Jorge Sebastián. 2011. «Francisco de Borja, de Criado a Maestro Espiritual de Las
Mujeres Habsburgo.» San Francisco de Borja: Grande de España. Arte y Espiritualidad
En La Cultura Hispana de Los Siglos XVI y XVII. https://www.academia.edu/4518630/
Francisco_de_Borja_de_criado_a_maestro_espiritual_de_las_mujeres_Habsburgo.
Márquez, Antonio. 1980. Los alumbrados: orígenes y filosofía (1525-1559). Madrid: Tauros.
Millán, José Martínez. 2000. La corte de Carlos V. Sociedad Estatal para la Conmemoración
de los Centenarios de Felipe II y Carlos V. https://dialnet.unirioja.es/servlet/
libro?codigo=4519#volumen7778.
———. 2003. «Elites de poder en las Cortes de las Monarquías española y portuguesa en el siglo
XVI: los servidores de Juana de Austria». Miscelánea Comillas: Revista de Ciencias Humanas y
Sociales 61 (118): 169–202.
Minneapolis Institute of Art. sem data. The Habsburgs: Rarely Seen Masterpieces from Europe’s
Greatest Dynasty exhibition video. https://www.youtube.com/watch?v=uAr_bK6_6hk&t=195s.
Pablo, Esther Jimenez. 2017. «Cultura material en “clausura”: las reliquias del Monasterio
de las Descalzas Reales en los siglos XVI y XVII». Antíteses 10 (20): 613. https://doi.
org/10.5433/1984-3356.2017v10n20p613.
Poutrin, Isabelle, e Schaub Marie-Karine. 2007. Femmes et pouvoir politique. Les princesses d’Europe,
XVe-XVIIIe siècle. Bréal. https://halshs.archives-ouvertes.fr/halshs-01293629.
Rouquette, Robert. 1957. Une Jésuitesse secrète au XVIe siècle: l’infante Juana, régente d’Espagne.
Sánchez-Molero, Gonzalo, e José Luis. 1998. «La formación de un privado: Ruy Gómez de Silva en

139 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: o, Cooperação e Desenvolvimento


la corte de Castilla (1526-1554)». https://repositorio.uam.es/handle/10486/1388.
Sánchez-Molero, José Luis Gonzalo. 2009. «Portugal y Castilla a través de los libros de la princesa
Juana de Austria ¿Psyche lusitana?» Em Las relaciones discretas entre las Monarquías Hispana y
Portuguesa: Las Casas de las Reinas (siglos XV-XIX), Vol. 3, 2009, ISBN 978-84-96813-19-9, págs.
1643-1684, 1643–84. Polifemo. https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=2905861.
Serrano, Joana Bouza. 2016. A duquesa de Mântua : a princesa italiana que foi vice-rainha de
Portugal. 1{u00AA} ed. A Esfera dos Livros.
Stratton, Suzanne L. 2002. The Cambridge Companion to Velázquez. Cambridge ; New York :
Cambridge University Press. https://trove.nla.gov.au/version/41365830.
Tudela, Almudena Pérez De, e Annemarie Jordan Gschwend. 2007. «Renaissance Menageries.
Exotic Animals And Pets At The Habsburg Courts In Iberia And Central Europe». Early
Modern Zoology: The Construction of Animals in Science, Literature and the Visual Arts (2 Vols.),
Janeiro, 427–55.
A música no ritual e no rito
da Encomendação das Almas
na região transfronteiriça
de Guarda/Salamanca

Maria do Rosário da Silva Santana


Instituto Politécnico da Guarda
Helena Maria da Silva Santana
Universidade de Aveiro

Introdução

A cultura leva-nos a descobrir quem somos. Nas suas diferentes práticas, preservadas um
pouco por todo o território, vulgo é encontrar usos e costumes, formas de ser, pensar e agir,

141 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


que nos revelam a essência de um ser português. O estudo dessas características denuncia
uma riqueza que se mostra, e faz, na prática de alguns, arte. De vocação popular ou erudita,
estas formas de manifestação cultural e artística, são alvo do estudo de diferentes áreas do
conhecimento, sendo que, ao nível da etnografia e da musicologia, é a cultura de um povo,
que se mostra e diz, através de uma linguagem e de uma prática musical genuínas. No que
concerne as diferentes formas de expressão da cultura popular, o património musical englo-
ba não só o manancial de obras referentes a essa mesma cultura, como elementos referentes
a uma prática musical que se funda numa prática de cariz não só popular e profano, como
reflexivo e erudito, que queremos relevar. Em observância em lugares e espaços diferencia-
dos, estes rituais e práticas, podem-se fazer fora do lugar de prática mais convencional: a
igreja. No caso particular da prática da Lamentação ou Encomendação das Almas, também
designada de Amenta ou Ementa das Almas, percebemos que remonta a tempos bastante
recuados. Sendo alvo do nosso particular interesse e inquirição, é nossa intenção perceber
de que forma esta prática, o culto dos mortos, mas também o ritual da Lamentação ou
Encomendação das Almas, se encontra em estreita ligação com a necessidade de o Homem
comunicar com o Divino (Barros, 2002). Tentaremos perceber ainda, como esta se mostra
uma forma de o Homem se confrontar com a morte, mas, e essencialmente, com a neces-
sidade de uma permanência, de uma vida para além desta. Em outro, perceberemos como
uma prática ritual se mostra e diz na intenção compositiva e criativa de Fernando Lopes-
Graça. Enformando num discurso erudito um conjunto de onze pequenas peças de música
tradicional, queremos, através da análise da sua obra para Coro, “Onze Encomendações das
Almas”, compreender de que forma releva uma sua prática e intenção artística, valorizando
o nosso património histórico, cultural, musical e artístico.
A obra, apoiada em textos e contextos da literatura e prática musical popular,
expõem-nos a mestria do compositor. Exibindo um universo que recusa, pois que não
acredita na existência de Deus, Fernando Lopes-Graça mostra, na harmonização destes
textos que, de alguma forma, reflete sobre a Vida e a Morte, o Sagrado e o Profano, o
Homem e o Divino. Baseadas em pequenas peças do Cancioneiro português, peças essas
que fazem parte do ritual do Amentar, do Culto, Encomenda, Oração ou Lamentação das
Almas, acedemos, através de “Onze Encomendações de Almas”, a peças cuja harmonização
foge ao simplismo de algumas formas de harmonização do nosso folclore, bem como da
música de tradição oral. Assim, e no nosso entender, será importante debruçarmo-nos
sobre estas peças, elementos que divulgam a riqueza de um património, mas, e acima de
tudo, a mestria do compositor, de forma a compreender o ritual e o rito da encomendação
das almas mas, e sobretudo, uma sua proposta de obra.
142 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Encomendar, Lamentar ou Amentar as Almas

Refletindo sobre um conjunto de textos da literatura popular, percebemos que neles


se vertem um conjunto de conhecimentos, mas também de modos de vida e existir dos
povos e lugares. As crenças e tradições exprimem, direta ou indiretamente, o que escora o
homem, traduzindo sonhos, necessidades, mas também angústias e sofrimentos. O reco-
nhecimento das tradições e do repertório literário e musical que as integra, tais que contos,
romances, provérbios, lengalengas, rimas, toadas, adivinhas e canções determina, a pouco
e pouco, o acervo de um espólio que urge estudar e divulgar, com vista à preservação
dos traços identitários, da cultura e da tradição de um povo e lugar. Estas manifestações
exprimem e esboçam o perfil de uma vida predominantemente ligada ao mundo rural e
às suas gentes, mas também um dos principais meios de propagação da cultura popular, a
tradição oral. Através desta, a cultura perpassa de geração em geração, mantendo-se usos e
costumes incólumes (Lima, 2010). Tradição e cultura, descobrem a sabedoria de um povo
manifestos nas práticas e na maneira como o território se faz e diz. Logo, tudo aquilo que
engloba os elementos de um património material, mas também imaterial, traduz a essência
de uma cultura, de um país, de um povo. No caso particular do ritual da Encomendação
ou Lamentação das Almas, esta tradição remonta a tempos bastante antigos, estando inti-
mamente ligada ao culto da vida após a morte. Nela se faz um apelo a Deus e ao Divino,
no sentido de facilitar o alívio do sofrimento das Almas do Purgatório, das Almas penadas
que povoam a Terra, de maneira a conseguir um alívio que se faz no perdão dos seus erros
e faltas. Atingindo a Alma a paz e o descanso eternos, atingirá também, a Deus1.

É do conhecimento geral que as ciências do Homem sempre negligenciaram a morte e o


estudo da vida para além desta. Contudo, a etnologia mostra-nos que os mortos e o conheci-
mento que valoriza as crenças, os rituais e os ritos a elas indexadas, sempre foram alvo de prá-
ticas que correspondem, todas elas, a crenças respeitantes, tanto à sobrevivência do Homem
ao próprio corpo (sob a forma de espetro corpóreo, sombra, fantasma, etc.), como ao seu re-
nascimento, ou seja, à crença na imortalidade (Morin, 1988). Simultaneamente, e em senti-
do inverso, verificamos que um setor do conhecimento tende a menosprezar e a afastar-se do
estudo e sistematização dessa realidade, pois que diversos são os estudiosos que, “Contentam-
se em reconhecer o homem pelo utensílio (Homo faber), pelo cérebro (Homo sapiens) e pela
linguagem (Homo loquax). Contudo, a espécie humana é a única para a qual a morte esta
presente durante a vida, a única que faz acompanhar a morte de ritos fúnebres, a única que
crê na sobrevivência ou no renascimento dos mortos” (Morin, 1988, p. 13).
Esta forma de sobrevivência para além da morte, esta imortalidade, define-a Frazer

Cooperação e Desenvolvimento
como “prolongamento da vida por período indefinido, mas não necessariamente eterno”
(Frazer apud in Morin, 1988, p. 25). A morte é assim, um estádio que prolonga, de uma
forma ou de outra, a vida individual e terrena. Numa primeira fase da existência, ela é vista
como um sono, uma viagem, um renascimento, um malefício, uma entrada para a morada
dos antepassados, noutras, um misto de tudo simultaneamente (Morin, 1988).
A intranquilidade que o facto traz, faz com que o homem proceda na fixação de um
conjunto de rituais e ritos que visam mitigar essa mesma intranquilidade. Assim, a morte
143 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa:

quando vem, surge como uma mudança de estado, sendo o morto tratado de acordo com
rituais e ritos especiais que visam acalmar e mitigar o sofrimento. Em outro, existe uma
consciência realista da morte, uma consciência que a nega como aniquilamento, reconhe-
cendo-a como acontecimento (Morin, 1988). Este facto, conduz a um pensar constante no
facto de que a vida não se extingue, simplesmente se transforma. E neste fazer, as pompas

1
O homem, na sua ânsia de felicidade, de harmonia e paz, almeja, também ele, em vida, Deus e as suas pro-
messas. O culto da vida para além da morte, o confronto eterno com seus medos e angústias, faz com que o
Homem se projete num modo de vida, de ser e de pensar, onde um conjunto de rituais e ritos se mostram
e o acalmam.
da morte aterrorizam mais do que a própria morte. Os rituais e os ritos, dos quais o fune-
ral constitui um deles, atemorizam mais que a própria morte, e, ao longo dos tempos, os
povos, nas suas diversas manifestações e expressões funerárias, ostentam a dor da perda, e
da impossibilidade, surgindo a necessidade de preparar essa morte, essa impossibilidade,
ditando-se o ritual e o rito da Encomendação ou Lamentação das Almas2. A vida depois
da vida rege então um modo de ser e de fazer, propondo um olhar constante do homem
sobre si. Assim, encontramos diversos atos, tanto de vocação sagrada como profana, que
nos dirigem o pensamento para a morte, e a vida para além desta. “Mas é, para já, notável
verificar que, nenhuma sociedade, incluindo a nossa, conheceu ainda a vitória total, quer da
imortalidade, quer da consciência desmitificada da morte, quer do horror da morte, quer da
vitória sobre o horror da morte” (Morin, 1988, p. 36). Continuam presentes a necessidade
de alienar incertezas, medos e frustrações. Surge continuamente a necessidade de evocar
Deus e [...] os antepassados, de forma a escamotear o medo de uma morte sem [possibili-
dade de uma continuação da] vida, sendo que a religião se mostrará como uma forma de
“... saúde social, que aclara o mórbido terror individual à morte” (Morin, 1988, p. 76).
A religião, na sua forma de se mostrar ao homem, possui um conjunto de textos,
mas também de fórmulas, rituais e ritos que lhe possibilita uma desmitificação, aclaran-
do consciências. No caso particular do ritual e do rito da Encomendação, Lamentação,
Encomendar ou Amentar das Almas, este manifesta-se ainda num conjunto de formas e
fórmulas de carácter profano, intentando uma mesma prática. Neste sentido, tencionamos
perceber de que forma “O rito é um momo mágico, hierático e solene da coisa desejada [...].
[De que forma o rito se torna] cada vez mais abstrato, fazendo-se acompanhar de palavras
144 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

e símbolos, tornando-se cada vez mais estilizado, isto é, simbólico. [Em outro, intentamos
perceber de que forma] O rito simbólico contém já em si a força mimética condensada,
pois é um verdadeiro comprimido de força apropriadora do mimo” (Morin, 1988, p. 93).
Assim, e no caso particular dos rituais e ritos associados à morte, à vida para além
da morte, e às diversas formas de dialogar com os antepassados, Deus e o Divino, preve-
mos que o ritual da Encomendação ou Lamentação das Almas, seja uma das formas mais
eficazes e ainda presentes em diversas regiões do país, mormente da raia. Em outro, con-
firmamos que o ritual da Encomendação das Almas é um ato de fé. Nele, a eternidade do
homem, projetada numa existência após a morte, numa crença no Purgatório, na incerteza
da duração das penas, fá-lo refletir e questionar constantemente a vida e a existência após a
2
De acordo com Morin (1988, p.11), “o regresso da morte é um grande acontecimento civilizacional e o
problema de conviver com a morte vai inscrever-se cada vez mais profundamente no nosso viver. E isso vai
levar-nos a um modo de viver de dimensão simultaneamente pessoal e social. Mais uma vez, o caminho da
morte deve levar-nos mais fundo na vida, como o caminho da vida nos deve levar mais fundo na morte”.
Em outro, percebemos uma presença obsessiva da morte, da morte e dos mortos. Os espíritos estão, com
efeito, presentes na vida quotidiana em diversas manifestações da existência humana desde sempre.
morte. Surge assim a dúvida, mas também a certeza de um sofrimento a cumprir (Barros,
2002). Para acalmar esta inquietação e certeza, mas também salientar a importância de
um bem viver para conseguir um bem morrer, se preveem formas de ser e estar mais asser-
tivas e, um conjunto de rituais e ritos que alertam para o facto de que a morte é sempre
uma consequência da nossa forma de vida. Neste sentido, uma angústia se vive, um ato
se perpétua, uma necessidade se faz: a oração, e em particular, a oração pelos defuntos3.

Temos assim, uma prática que se faz maioritariamente na época da Quaresma,


perpetuando um amor pelo outro, e que leva o povo a amentar os parentes e amigos já
falecidos, quer pública, quer privadamente. Em diversos pontos do território, mormente
na região da raia, existe o costume, antes da principal Missa de Domingo, de Amentar as
Almas. Este costume ainda se conserva em certas regiões do território, regiões onde são
celebrados Ofícios dos Defuntos (Pereira, 2016). Apesar do mesmo objetivo, as realiza-
ções divergem em função do lugar e dos recursos disponíveis4. Apesar das diferenças, o
objetivo é o mesmo, o alívio do sofrimento das Almas que se encontram no Purgatório.
A Encomendação das Almas consiste então numa deprecação pelos defuntos, num culto
aos mortos, assumindo toda uma crença religiosa, numa forma litúrgica e popular da
“Liturgia dos Mortos” da Igreja Católica5. Ao abordarmos a tradição da Encomendação
ou Lamentação das Almas, intentamos relevar os repertórios de tradição oral, acervos que
se mostram de inegável valor artístico e patrimonial (Pereira, 2016). O uso que dele fazem
alguns dos maiores compositores portugueses atesta esse mesmo valor e importância,

Cooperação e Desenvolvimento
Fernando Lopes-Graça um exemplo.

3
Pois que a morte “é a característica mais humana, mais cultural, do antropos. Mas se, nas suas atitudes e
crenças perante a morte, o homem se distingue mais nitidamente dos outros seres vivos, é aí mesmo que ele
145 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa:

exprime o que a vida tem de mais fundamental. Não tanto o querer-viver, o que é um pleonasmo, mas o
próprio sistema do viver” (Morin, 1988, p. 17).
4
No que concerne o número e género dos seus constituintes, percebemos diversas formações que podem
englobar unicamente elementos do sexo masculino, feminino, ou, por outro lado, serem mistos. Os grupos
podem ser formados por um número reduzido de elementos ou, em outro, um número mais alargado,
conforme os casos e as possibilidades. Podem incluir o uso, para além da voz cantada ou falada, de diversos
instrumentos musicais, incluindo o clarinete e trompete, como é o caso da região de Seia, ou o sino como no
caso das Mozas de Ánimas em La Alberca na região de Castilha e Leão na vizinha Espanha. Noutros lugares,
o ritual efetua-se num canto lento e profundo (sem o uso de instrumentos musicais auxiliares).
5
A missa, rezada pelo Pároco antes da Missa Dominical, no sentido de sufragar a Alma dos Defuntos cons-
tantes duma lista elaborada por “encomenda” dos familiares, é alvo de um tributo. A tradição impõe que
os familiares entreguem a “Amenta”, em géneros ou dinheiro, como pagamento. Atualmente, na forma
popular, que é a que ainda persiste, são as preces que alternam com o canto triste e lamentoso.
Usos e Costumes em Portugal

O ritual da Encomendação, Lamentação ou Amenta das Almas, é conhecida nas diversas


regiões de Portugal com diferentes denominações6. Na Beira Interior, mais concretamente
no concelho de Seia, este ritual é um “culto dos mortos”, à semelhança de outras regiões
do país. Como o povo não esquece, manda a tradição que se “Encomendem as Almas”, ex-
piando as suas culpas, rezando-se para que o Purgatório seja apenas uma curta passagem na
ascensão aos Céus e a uma paz e felicidade que se querem eternas. Os cânticos mais usuais
são o “Cântico da Amenta das Almas”, o “Bendita e Louvada Sejas”, a “Mãe Dolorosa” (este
último cantado na sexta-feira Santa), bem como os “Martírios” (Barros, 2002). Percebemos
que o essencial desta tradição está naquilo que ela representa. O povo acorda ao som do
canto que ecoa na noite e que, no tempo em que a iluminação das ruas era escassa, e as
gentes dormiam, perpassava pelo corpo dos estremunhados, provocando um calafrio.
Sendo o ritual da Encomendação ou Lamentação das Almas feito com algum secretismo,
este facto acentua não só o caracter profundo do cerimonial, como permite que as pessoas
sejam perturbadas durante a sua realização. Como esta acontece tardiamente, noite aden-
tro, quando todos já se encontram a dormir, todos são acordados com os cantos melancó-
licos e lúgubres, muitas vezes ressoando num eco profundo que acorda e atormenta toda
a aldeia. Da mesma forma, o uso de instrumentos tais que os sinos ou instrumentos de
sopro7, possibilita o acentuar destas características, criando naqueles que são despertados, o
temor e o respeito pelas Almas do outro mundo, levando-os a rezar por quem se encontra
146 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

em sofrimento. Em São Romão, no concelho de Seia, é frequente ouvir entoar a quadra:


“Ó almas que estais dormindo/ Nesse sono tão profundo/ Rezai pelas benditas Almas/ Que
lá estão no outro Mundo”8. Em Loriga, o ritual de Amentar as Almas efetua-se, na maior
parte das freguesias, nas madrugadas de sábado para domingo9.
Em “Onze Encomendações das Almas de Fernando Lopes-Graça, notamos o uso
não só dos textos do ato de Encomendar ou Amentar as Almas, como de diversas peças
populares. O compositor faz uma correspondência, não só entre o texto literário expresso

6
A saber: Peditório das Almas em Loulé; Lamentar as Almas em Ílhavo; Aumentar as Almas em Seia; Deitar
as Almas em Vila Verde – Braga; Botar as Almas em Meridãos – Vale de Bestança – Montemuro, ou Lembrar
as Almas em São Miguel nos Açores (Barros e Costa, 2002).
7
Como é o caso do distrito da Guarda na localidade de Seia.
8
Analisando o conjunto das onze harmonizações de cantos populares relativos a Encomendação ou
Lamentação da autoria de Fernando Lopes-Graça, notamos que, este texto em particular, se encontra na
quinta das peças: “Ó almas que estais dormindo (Beira-Baixa)”. Numerosos são os exemplos que podemos
expor (Lopes-Graça, s.d.).
9
Excetua-se o caso da freguesia de Carragosela onde se efetua na madrugada de sexta-feira para sábado.
(como é o caso das canções populares, nas peças 1, 2, 3, 4, 5, 9 e 11), como das peças
musicais de tradição oral e popular em uso (ver Tabela 1 e 2).

Tabela 1: Excertos do texto da “Lamentação das Almas”


Se dormis, cristãos Ó almas que estais dormindo
(Beiras) (Beira Baixa)
Ó almas que estais dormindo
Nesse sono tão profundo,
Rezemos um Padre Nosso
Se dormis, cristãos,
P’las almas do nosso mundo.
Acordai,
Acordai e rezai
[...]
Pelas almas dos vossos irmãos.
Seja p’lo amor de Deus
P’lo amor de Deus seja.
Rezemos um Padre Nosso Bendita e louvada seja...
(Beira Baixa) (Beira Baixa)
Bendita e louvada seja a sagrada morte e
Paixão de Jesus Cristo
E se já pelo amor de Deus, seja
Alembrai-vos, meus irmãos
Rezemos um Pare Nosso!
Das benditas almas
E uma Avé Maria,
Que lá ‘stão no Purgatório
Em louvor, em louvor
Do Senhor d’Agonia
Ajudai-as a tirar
C’um Padre Nosso
E uma Avé Maria,
E se já pelo amor de Deus, seja.

Fonte: Própria

Cooperação e Desenvolvimento
Tabela 2: Excertos do texto da “Lamentação das Almas” (continuação)
Alerta, alerta (I) Bendita e louvada seja...
(Minho) (Beira Baixa)
Bendita e louvada seja a sagrada morte e
Paixão de Jesus Cristo
E se já pelo amor de Deus, seja
Alerta, alerta, Alembrai-vos, meus irmãos
Vida é curta, morte é certa! Das benditas almas
Ó irmãos meus, filhos de Maria, Que lá ‘stão no Purgatório
147 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa:

Pelas almas do Purgatório,


Um Padre Nosso, ‘ma Avé Maria Ajudai-as a tirar
C’um Padre Nosso
E uma Avé Maria,
E se já pelo amor de Deus, seja.
Recordai, ó irmãos meus Ai, recorda, ó pecador
(Beira Baixa) (Beira Baixa)
Recordai, ó irmãos meus, Ai, recorda, ó pecador
Nesse sono em que estais, Nesse sono em que estais
Rezemos um Padre Nosso Ai, recorda e rezai pelas almas dos vossos pais,
Por alma de nossos pais. P’las almas dos vossos pais. Ai!

Fonte: Própria
Contudo, em função das regiões, percebemos que diversos outros textos estão
presentes no ato de Amentar ou Encomendar as Almas. Em exemplo: o uso do texto “Mãe
Dolorosa”, na região de Seia. Neste caso, concluímos que todo o texto gira em torno do
sofrimento, da dor e da angústia que Maria, Mãe de Jesus, sente ao ver seu filho, Jesus
Cristo, em sofrimento.
A partir da quadra IX, o autor comunga da sua dor pretendendo acompanhar Jesus
e sua Mãe nesse sofrimento. Todo o texto valoriza e realça o sofrimento de Jesus e sua
Mãe, um sofrimento que realiza o maior ato de abnegação jamais concebido, sem revoltas,
medos ou inquietações, numa entrega do seu futuro, e o futuro da humanidade, ao Pai,
clamando: “Faça-se em mim segundo a Tua vontade” (ver Tabela 3 e 4).

Tabela 3: Excertos do texto “Mãe Dolorosa”


I II
Estava a Mãe dolorosa Estava a Mãe dolorosa
Junto ao pé da cruz chorosa Junto ao pé da cruz chorosa
Enquanto o Filho pendia Enquanto o Filho pendia
Enquanto o Filho pendia Enquanto o Filho pendia
Refrão VII
Mão de Jesus trespassada Viu depois de açoitado
De dores ao pé da Cruz Foi em uma cruz Pregado
Rogai por nós, rogai por nós [bis] Jesus seu Filho inocente
Rogai por nós a Jesus Jesus seu Filho inocente

Fonte: Própria
148 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Tabela 4: Excertos do texto “Mãe Dolorosa”

IX X
Dai-me Mãe fonte de amor Fazei que meu coração
Parte dessa vossa dor Sentido desta paixão
Para convosco chorar Com dor se veja estalar
Para convosco chorar Com dor se veja estalar
XI XVI
O meu duro peito abri Fazei que sentindo a morte
Dentro as chagas imprimi De Jesus eu tenho a sorte
De Jesus vossa doçura Que me alcançou nessa cruz
De Jesus vossa doçura Que me alcançou nessa cruz

Fonte: Própria

Dada a sua relevância no ritual de Amentar, Lamentar ou Encomendar das Almas,


apresentamos, em excerto, o texto da Amenta das Almas utilizado aquando do ritual no
concelho de Seia (ver Tabela 5).
Tabela 5: Excertos do texto “Amenta das Almas”

I III
Às portas das Almas Santas Recordai ou pecadores
Bate Deus a toda a hora Nesse sono em que estais
Almas Santas lhe respondem Lembrai-vos das benditas Almas
Ó meu Deus que quereis agora Vossas mães e vossos pais
VI VII
Ó meu Deus quem fora homem Rezemos mais um Padre Nosso
Qu’andasse pelos caminhos Com outra Ave Maria
Que subira ao Calvário Ao Padre Santo António
Tirar a coroa d’espinhos Que nos livre da tentação do Demónio
IX XII
Ficai-vos com Deus ó Cristãos Ficai-vos com Deus ou Cristãos
A cantar aqui ‘stou eu Talvez para nunca mais
Rezemos uma Salve Rainha Olhai lá não vos esqueceis
Por alma de quem aqui morreu Da alma dos vossos pais
No final repete 3 vezes:
Senhor Deus
Misericórdia
Ai tende misericórdia
De nós.

Fonte: Própria

A Encomendação tinha, em outros tempos, forte implementação em território


nacional, realizando-se todas as Sextas-feiras da Quaresma, a partir da meia-noite10. Para
efetuar o ritual de Encomendação das Almas, e em particular nesta aldeia do distrito de

Cooperação e Desenvolvimento
Vimioso, em Bragança, Algoso, é necessário que se junte, lado a lado, um pequeno grupo
de homens e mulheres, que percorrem ao longo da noite todas as ruas da aldeia11. O
cortejo pretende lembrar àqueles que “já dormem o primeiro sono” que é preciso rezar
pelos mortos, pois que necessitam de auxílio. Colocados em lugares estratégicos da aldeia,
agrupados num pequeno círculo, entoam um conjunto de versos com recurso a diferentes
vozes. A esta melopeia juntam ainda, numa polifonia com caracter dolente e fúnebre,
149 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa:

linhas melódicas que subsistem desde sempre. Transmitidas oralmente, sobrevivem textos
como os que passamos a enumerar: “Acorda ó pecador / acorda não durmas mais / olha que
se estão queixando / as almas dos vossos pais.”12 Este texto, presente na Lamentação nº 11,
10
Tal como em Espanha.
11
Tal como no distrito da Guarda, nas regiões de São Romão e Seia, a Encomendação das Almas também se
realiza em Trás-os-Montes, na região de Bragança, concelho de Vimioso, aldeia de Algoso. Fazemos referên-
cia a esta região, dado que também ela se situa na raia, tendo fortes ligações com a região espanhola com a
qual faz fronteira.
12
Este texto, presente na Lamentação nº 11 – “Ai, recorda, ó pecador (Beira Baixa)”, apresenta algumas seme-
lhanças com o aqui apresentado: Ai, recorda, ó pecador / Nesse sono em que estais /Ai, recorda e rezai pelas
almas dos vossos pais, / P’las almas dos vossos pais. Ai!”
recorda ao homem o seu estatuto de pecador, e do sono perpétuo em que se encontrará se
não encontrar a paz. Este sono em que a alma se encontra é a apatia, o vazio, a ausência
de sentido para a vida, é um sono que se constrói de uma morte, mas também de uma
ressurreição, uma ressurreição que se anuncia quando a Alma inicia a caminhada para o
céu, para Deus e o descanso eterno (no entender dos homens e da religião)13.

Em tempos idos, e no concelho de Vimioso, o ritual era feito somente por três pessoas,
dois homens e uma mulher. Vestidos com capotes de burel, percorriam, às escuras, as ruas
da aldeia levando a todos os recantos o seu canto14. Nos relatos que nos foram dados conhe-
cer, todas as pessoas relembram a audição destes cantos, dolentes e profundos, noite escura,
cantos que provocam o medo e um respeito face à ação, e intenção, desta tradição: arrepiar,
fazer pensar e refletir sobre as ações terrenas e as consequências futuras dessas mesmas ações.
De notar ainda, que no concelho do Vimioso, é comum colocarem-se candeias ou velas
acesas às janelas para que sejam sinalizadas as casas onde se ora em favor das almas15. É ainda
comum que as crianças se juntem aos adultos para aprender a realizar estes cerimoniais16.

Usos e costumes em Espanha

No que concerne a região da raia espanhola, nomeadamente a região de Castilha e


Leão, verificamos que o culto dos mortos é uma prática que também se encontra ainda
hoje enraizada. Em algumas localidades, nomeadamente em La Alberca e Mogarraz na
150 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Serra de França, Salamanca, pela Quaresma, é comum a realização de rituais ligados ao


culto dos mortos que denotam alguns pontos em comum com o ritual da Encomendação
ou Lamentação das Almas em uso em Portugal. O toque dos sinos é, para as Almas, o
som que mais significado possui. Está ligado ao culto dos mortos, à exaltação das almas
e à sua libertação. Com uma força única, lendária e verdadeiramente constrangedora, é
13
Assim, podemos afirmar que alguns dos versos desta canção são também um alerta para os participantes
neste ritual pois que, ensaiadas repetidamente antes da saída, ajudam não só a afastar o sono, mas levam o
homem a pensar no sentido profundo dos seus versos.
14
Na região vizinha de Castela e Leão, são três as Mozas de Ánimas que se deslocam pelas ruas, percorrendo
todos os recantos da aldeia para que nenhuma alma deixe de ouvir os seus cantos e seja conduzida a Deus.
Aqui, o sino que entoa noite adentro arrepiando vivos e mortos no seu canto dolente e sinistro numa cha-
mada continua a todas as almas que se encontram em aflição, surge enfático.
15
Também é comum, e este relato estende-se também ao Alentejo, a oferta de comida e bebida e o convite
para entrarem dentro das casas. A rua da lagoa, o tronco, o pelourinho ou o barranco, são alguns dos pontos
obrigatórios desta ronda noturna, uma ronda que se estende muitas vezes até às duas da madrugada (Barros
& al., 2002). Os versos entoados são muito antigos e, como já referido, transmitidos oralmente.
16
No entanto, esta tradição encontra-se em risco dado que existe uma perda de fé, um afastamento da religião,
de Deus e da espiritualidade, em face das novas proposições e solicitações da vida e da sociedade.
arrepiante a experiência que podemos ter, ao ouvir, ao longo do ano na Serra de França,
em Salamanca, o seu som, um som que comprime o físico e a alma17. Em La Alberca,
a tradição manda que uma mulher, conhecida como La Moza de Ánimas (A Moça das
Almas) toque o sino todas as Sextas-feiras percorrendo as ruas da povoação. Ela deve parar
em todas as esquinas e rezar pelas Almas do Purgatório. Estas paragens têm como objetivo
chamar as almas e conduzi-las até ao largo da Igreja para que sejam libertadas de todo o
sofrimento, e conduzidas ao céu, à paz e felicidade eternas.
Este ritual, ainda vivo em grande número de populações da raia espanhola, como
no caso das povoações que mencionamos, realiza-se durante a noite e por mulheres. Em
Mogarraz, as Mozas de Ánimas envergam traje preto. Possui como acessórios, uma vela
acesa e o sino que vai tocando por todo o povoado18. Como ritual, a ação processa-se na
primeira Sexta-feira do mês. Quando todos já dormem, as Mozas de Ánimas saem pela
meia-noite. Percorrendo as ruas da povoação, pedem pelas almas do purgatório entoando
a seguinte reza: “Pecador são onze horas / E nelas contemplarás / Que todo o mundo se
acaba / Como estamos estarás”. Encontramos, assim, várias semelhanças com a prática
que se realiza no nosso país. Num e noutro lado da fronteira, se faz pela noite dentro,
entoando-se cantos e orações pelos defuntos. Num e noutro lado da fronteira seguem
um cerimonial específico, usando-se instrumentos musicais, pretendendo com esta prática
elevar as Almas ao Céu, mas também arrepiar e atemorizar os vivos. Em outro, ora se faz
por um grupo de homens ou misto (Portugal), ora por um grupo de mulheres (Espanha),
sendo que a sua prática, realizada em dias próprios, alcança a sua máxima expressão, nos

Cooperação e Desenvolvimento
dias de Sexta-feira Santa e de Todos os Santos.

“Onze Encomendações de Almas” de Fernando Lopes-Graça

Fernando Lopes-Graça, apoiado na canção popular portuguesa, realiza na sua obra


para Coro, “Onze Encomendações das Almas”, um reavivar e rememorar de tradi-
151 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa:

ções, dos rituais e dos ritos populares que focam a vida e a morte, numa visão que é
sua sobre o Sagrado e o Profano do assunto. Através da análise desta obra, bem como
de uma análise comparativa entre os dois rituais nos dois lados da fronteira, na região
da Guarda e de Salamanca, percebemos a importância deste ritual para as suas gentes,
bem como de que maneira nos é dito e percebido pelo compositor. Através da análise
do ritual da Encomendação ou Lamentação das Almas, mas também da sua obra “Onze
17
O ritual, mesmo que se possa realizar ao longo de todo o ano, alcança o seu ponto alto, na noite de Todos os Santos.
18
Este facto tem paralelo com o território português, dado que em Portugal este ritual se efetua recorrendo também
a trajes negros, durante a noite, percorrendo toda a aldeia. Contudo, em Portugal, é realizado por homens.
Encomendações de Almas”, percebemos das semelhanças e dissemelhanças do rito, e,
sobretudo, de como o tradicional se constrói erudito. Da análise dos textos de “Onze
Lamentações das Almas” retiramos, da mesma forma que do estudo dos textos anteriores,
um contínuo apelo à oração (Lopes-Graça, 2012)19. Neste contexto, a primeira das peças,
“Se dormis cristãos” (Beiras) (Lopes-Graça, 2012, p. 8-9), única no conteúdo, alerta para
a importância do rezar pelas almas, nomeadamente aquelas que se encontram no purga-
tório. Nela, todo o cristão é convidado a acordar, não o acordar do sono, mas o acordar e
despertar para uma realidade outra, a realidade da vida depois da morte e a necessidade de
rezar pelas almas dos defuntos, as almas dos seus irmãos em Cristo. Na segunda lamenta-
ção, “Rezemos um Padre Nosso” (Beira-Baixa) (Lopes-Graça, 2012, p. 10-11), a riqueza
da métrica e rítmicas populares está presente na alternância de compasso e na estrutura
melódica que acompanha a alegria da oração. A estrutura formal nos exibe uma divisão
da peça definida em função da estrutura do verso (semelhante em todas as peças). A ter-
ceira, “Alerta, alerta (I)” (Minho) (Lopes-Graça, 2012, p. 12-13), possui uma estrutura
igualmente homorrítmica (como a primeira). As quatro vozes seguem num grito conjun-
to, num apelo à vigilância dos homens das suas palavras, gestos e ações, pois que “uma
reforma da morte só pode ser a outra face duma reforma da vida” (Morin, 1988, p. 12).
Toda a peça é um alerta para a morte, para a pertença do indivíduo a um outro plano, a
sua filiação a Maria, Mãe de Jesus, e a oração a Deus e a seu Filho Jesus Cristo. “Recordai,
ó Irmãos meus” (Beira-Baixa) (Lopes-Graça, 2012, p. 14-15), a quarta das obras, mostra
mais uma vez a mestria de Fernando Lopes-Graça no uso de elementos da música popular
portuguesa, nomeadamente da Beira-Baixa, e da riqueza rítmica, melódica e formal que
152 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

encerram. A quinta peça deste conjunto de onze, “Ó almas que estais dormindo” (Beira-
Baixa) (Lopes-Graça, 2012, p. 16-19), inspirada nos ritmos e melodias da Beira-Baixa,
possui uma estrutura similar às anteriores. Se o texto repete mais uma vez a ideia das
Encomendações anteriores, referindo-se, neste caso, às Almas do outro mundo, e não às
Almas do Purgatório, em termos rítmicos, a obra revela uma estrutura apoiada na divisão
entre vozes femininas e masculinas. Em “Bendita e louvada seja” (Beira-Baixa) (Lopes-
Graça, 2012, p. 27-31), a nona das peças, Lopes-Graça não usa, pela primeira vez, qual-
quer indicação de compasso. O texto flui e a melodia também. O contralto tem um papel
de relevo no arranque da peça, numa estrutura que revela a riqueza melismática do canto
tradicional. As outras vozes acompanham em surdina, participando na harmonização de
todo o texto. Após esta estrutura, o baixo pega na linha do contralto e repete-a, na íntegra,

19
Todos os textos, um corolário de orações pelas almas dos já falecidos, visam atingir as benesses, da paz e
felicidade eternas, não só a nível individual, como, e sobretudo, a nível coletivo (toda a aldeia). Os textos
analisados no conjunto das peças são os descritos na publicação da obra “Onze encomendações das almas”
de Fernando Lopes-Graça (Lopes-Graça, 2012).
no que toca a linha melódica. Depois, as duas vozes juntam-se num apelo sentido ao au-
xílio às almas do purgatório, com recurso à oração de um Padre Nosso e uma Avé Maria.
“Em Irmão meus, cuidai na morte” (Trás-os-Montes) (Lopes-Graça, 2012, p. 32-36), a
décima das obras, surge mais um apelo sentido à oração, e a uma reflexão sobre o papel de
Cristo e de Deus, no dia da morte, do Juízo Final. Nesta peça, Lopes-Graça utiliza uma es-
trutura que aprofunda a sequência das onze peças. Pela primeira vez usa os solos na voz de
Baixo, intercalados com o Coro que harmoniza a linha solo anterior, reforçando o conteú-
do do texto com as vozes de Baixo. As vozes femininas são empregues, em fase posterior,
num grito de esperança que nos mostra as graças, o paraíso. As linhas melódicas repetem
a estrutura dos primeiros compassos, agora em solos que suportam o grito da libertação. A
estrutura formal da última das peças, “Ai, recorda, ó pecador” (Beira Baixa) (Lopes-Graça,
2012, p. 37-40), segue o texto da Lamentação, a primeira frase realçando a necessidade do
pecador, o homem ainda em vida, recordar a apatia em que se encontra, e a necessidade de
rezar pelos antepassados, pelas almas. Ao rezar pelas almas, o homem tem a possibilidade
de meditar sobre si, e a necessidade de se refazer enquanto ser e ter, pois “Toda a morte
evoca um nascimento e, inversamente, todo o nascimento evoca uma morte” (Morin,
1988, p. 111). Neste processo, morte e renascimento são uma consequência uma da outra,
uma ação e uma reação, constantes.

Considerações Finais

Cooperação e Desenvolvimento
O uso da música tradicional outorga ao autor um espólio que lhe permite doar ao
ouvinte toda a intensidade e profundidade da música popular, mas também religiosa, em
harmonizações de uma riqueza e mestria infindas. Usando as linhas melódicas de origem
tradicional e popular na sua integra, relendo, reavaliando, citando e reinterpretando o seu
conteúdo, harmoniza-as de forma a obter um produto que traduz um seu encomendar de
almas. O ritmo, o tempo, a melodia e, principalmente, a estrutura harmónica e a instru-
153 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa:

mentação que usa, permitem a Lopes-Graça respeitar o património popular português,


um património de cariz tradicional, elevando a cultura popular portuguesa a um nível
que não o de uma visão simples e simplista do folclore e da tradição musical portugueses.
Graças a ele, podemos aceder ao espólio riquíssimo dos cancioneiros portugueses, relevan-
do rituais e ritos, lendas e crenças de uma cultura popular de cariz religioso mas também
profano, de uma enorme riqueza e profundidade.
Referências

Barros, J. et al (2002). Festas e tradições portuguesas. Lisboa: Círculo de Leitores.


Branco, J. de F. (2005). História da Música Portuguesa. Lisboa: Publicações Europa-América. 4ª Edição.
Lima, P. (cord.) (2010). Oração das Almas em São Bento do Ameixial. in: Giacometti, M. (2010)
Filmografia. DVD nº 1. Lisboa: RTP Edições.
Lopes-Graça, F. (2012). Canções Regionais Portuguesas. Série XIV. Onze Encomendações das Almas.
Porto: Fermata Editora.
Lopes-Graça, F. (s.d.). A Canção Popular Portuguesa. Lisboa: Publicações Europa-América.
Morin, Edg. (1988). O Homem e a Morte. Lisboa: Publicações Europa-América.
Pereira, T. (2016). O Povo que ainda canta. Tradison Produções Culturais. DVD nº 4.
154 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento
DINÂMICAS SOCIAS E
ECONÓMICAS EM DIFERENTES
CONTEXTOS TERRITORIAIS
Estrutura e Dinâmicas Estratégicas
da Diplomacia Cultural Brasileira
Contemporânea

Cristiane Marques de Oliveira


Doutoranda em Estudos Contemporâneos no Centro de Estudos Interdisciplinares
do Século XX (CEIS20), Universidade de Coimbra
Bolsista Erasmus + na Universidade de Salamanca

Introdução

No texto são apresentadas a estrutura as dinâmicas estratégicas da diplomacia cultural

157 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


brasileira contemporânea, com foco nas políticas desenvolvidas pelo Ministério da Cultura
(MinC) e Ministério das Relações Exteriores do Brasil (MRE), no período entre 2010
e 2016. Na primeira parte, explora-se o conceito de diplomacia cultural e diferencia-se
ações realizadas na esfera pública e privada.
Na segunda parte, expõe-se as principais características das políticas públicas de
cultura e da política externa dos governos de Luís Inácio Lula da Silva (2003-2010) e
Dilma Rousseff (2011-2016), ressaltando sua inter-relação com a política cultural exterior.
Em seguida, apresentam-se as instituições implicadas na diplomacia cultural brasileira,
suas respectivas estruturas e diretrizes.
Finalmente, discute-se a inexistência e pertinência de criação de uma agência para difusão
artístico-cultural internacional brasileira. Na conclusão, expõe-se perspectivas acerca do
enquadramento estratégico da diplomacia cultural brasileira e limites para sua consolidação.
Diplomacia Cultural, um conceito difuso

Diplomacia cultural é um termo muitas vezes intercambiado por: relações culturais


internacionais, ação cultural exterior, política cultural externa, cooperação cultural, di-
plomacia pública, além de estar relacionado com o soft power1 e ações de nation bran-
ding2. Foi utilizado pela primeira vez em 1959, pelo assistente especial do secretário de
Estado norte-americano Robert H. Thayer (BADILLO, 2014; STELOWSKA, 2015;
ZAMORANO, 2016).
Um ponto fundamental seria que, como qualquer outra diplomacia, necessita de um
propósito político, o que pressupõe o envolvimento do Estado, seja direta ou indiretamente
(STELOWSKA, 2015). São consideradas ações de diplomacia cultural:
a) intercâmbio de pessoas; b) promoção da arte e dos artistas; c) ensino da lín-
gua como veículo de valores; d) distribuição integrada de materiais de divulgação;
e) apoio a projetos de cooperação intelectual; f ) apoio a projetos de cooperação
técnica; g) integração e mutualidade na programação (RIBEIRO, 2011, p. 31).

A diplomacia cultural pode ser compreendida como “um instrumento potencial para
estabelecer trocas simbólicas, proporcionar aproximação entre os povos e promover a paz”
(AMORIM, 2015), seguindo uma vertente Cosmopolitista3.
Por outro lado, pode ser vista como “utilização específica da relação cultural para
consecução de objetivos nacionais não somente cultural, mas, político, econômico e co-
158 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

mercial” (RIBEIRO, 2011, p. 33), resguardando caráter pragmático ao fazer uso da cultura
como recurso estratégico de soft power.
Busca-se diferenciar ações realizadas na esfera pública e privada. A primeira, chamada
política cultural exterior, seria “planos específicos dirigidos ou coordenados diretamente
por um governo” (NIÑO, 2009 apud Elisa Gavari Starkie, 2015, p. 14), sendo este o foco
deste estudo. A segunda, conhecida como ação cultural exterior, trata de operações levadas
a cabo por diversos atores, tais como, agência públicas, semi-públicas, associações, agentes
privados, etc (BADILLO, 2014; STARKIE, 2015).

1
O conceito de soft power foi desenvolvido por Joseph Nye no início dos anos 1990, e consiste numa “forma de
poder que se manifesta por meio da atração e persuasão que pode influenciar os outros” (NYE, 2012, p. 118).
2
“Las estrategias y acciones de nation branding son acciones que persiguen crear o mejorar la imagen de un
país entre los ciudadanos de otros países” (NOYA, 2012, p. 67).
3
“Cosmopolitism, as an area of thought and critical action that seeks the understanding and acceptance of
the Other, as an ethical compass for our treatment of others. The end goal is to prevent conflict, terror and
even more radical consequences such as a war among nations, by engaging in the power of cultural dialogue
and embracing diversity as a common mission” (VILLANUEVA, 2018, p. 683).
O que se pode observar é que a definição do conceito de diplomacia cultural varia
conforme diferentes contextos, atores envolvidos e finalidades4. As práticas passam por
constantes atualizações e adaptações influenciadas por diferentes paradigmas, como por
exemplo, a globalização.

Brasil: o Plano Nacional de Cultura e a pauta da internacionalização

Para compreensão sobre a estrutura da diplomacia cultural brasileira no período entre


2010 e 2016, é necessário recordar as políticas públicas de cultura iniciadas no governo de
Luís Inácio Lula da Silva (2003-2010). Isso porque elas influenciaram significativamente
a política cultural exterior.
A partir de 2003, o Ministério da Cultura (MinC) chefiado por Gilberto Passos Gil
Moreira (Gilberto Gil) passa por uma reestruturação na busca por integração e articulação
das ações de cultura no âmbito da União.
São estabelecidas metas e diretrizes de longo prazo, culminando com a aprovação do
Plano Nacional de Cultura (PNC)5. Há o aumento do orçamento, amplia-se o quadro
funcional e estudos estatísticos são iniciados a fim de se gerar dados para medir os resulta-
dos da Economia da Cultura6 (DURAND, 2013).
O governo busca “a construção de uma agenda ampla e transversal de desenvolvimen-
to na qual seja explicitado o potencial econômico das iniciativas criativas” (SPC, 2016, p.
31). O Ministério das Relações Exteriores (MRE) perde o monopólio sobre a diplomacia

159 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


cultural, de modo que o planejamento e execução das atividades passa a realizar-se em
articulação com o MinC.

Universalismo e cooperação sul-sul

A política externa do governo Lula é conhecida como altiva e ativa. Apresentou caráter
universalista, fortaleceu a participação do país nos fóruns multilaterais com uma pos-
tura pragmática e pacífica, e expandiu seu corpo diplomático a fim de potencializar seu
prestígio e influência internacional como potência emergente (AMORIM, 2010).
Foram iniciadas ações de cooperação sul-sul com países emergentes e em
desenvolvimento, e priorizou-se trabalhar pela integração regional sul-americana
4
Vide: NOYA, 2007; PASCHALIDIS, 2009; BADILLO, 2014; ZAMORANO, 2016; VILLANUEVA, 2018.
5
Lei nº12.343/2010 (BRASIL, 2010).
6
Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais (SNIIC).
(AMORIM, 2010). As diretrizes eram combater as assimetrias internacionais e “gerar
inclusão social e desenvolvimento econômico e humano” (BIJOS, 2010, p. 48), o que
refletiu-se na política cultural exterior. Dentre ações realizadas destacam-se:
agenda para o Desenvolvimento, elaborada pelo MinC e pelo governo argentino
com o objetivo de criar um programa no âmbito da Organização Mundial de Propriedade
Intelectual (OMPI); no âmbito do MERCOSUL, a criação do selo MERCOSUL
Cultural e da Rede Especializada de Cinema e Audiovisual de MERCOSUL (RECAM);
participação na Rede Internacional de Políticas Culturais, encontro entre ministros
da cultura para a aprovação da convenção da UNESCO; participação na Comissão
Interamericana de Cultura da Organização dos Estados Americanos (OEA) e na
Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora (CIAD) (BIJOS, 2010, p. 47-48).

Economia Criativa e soft power

Durante o mandato de Dilma Rousseff diversas políticas culturais do governo anterior


se mantiveram e outras foram realizadas: reelaboração do PNC com validade até 2020;
implementação do Vale-Cultura; elaboração de planos estaduais e municipais de cultura;
aprovação do Sistema Nacional de Cultura (SNC) e sua inclusão na Constituição Federal
em 2012 (RUBIM, 2015).
Em 2011, foi criada a Secretaria da Economia Criativa (SEC) que desenvolveu o Plano
Brasil Criativo, cujo objetivo era alavancar ações para promoção da Economia Criativa,
160 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

tanto no âmbito doméstico, quanto para o incremento da internacionalização dos bens e


serviços culturais brasileiros.
Em 2015, implementou-se a Política Nacional das Artes (PNA), ação em parceria com
a Unesco, que buscou elaborar políticas públicas setoriais das áreas artísticas, inclusive no
que consiste à difusão internacional (PNA, 2016)7.
Na política externa Dilma herdou as estratégias e diretrizes do governo anterior, no
entanto, perdeu-se proatividade e protagonismo global, em especial devido a política eco-
nômica interna e as novas dinâmicas internacionais de recuperação do G7, o que reduziu os
espaços de atuação do G20. Contudo, a cooperação sul-sul continuou (SARAIVA, 2014).
Na diplomacia cultural assume-se um discurso sobre a Cultura como recurso estra-
tégico de soft power, o que pode ser visto em entrevistas concedidas pela então ministra
da cultura Marta Suplicy8. O Brasil estava disposto a alçar vôos de competitividade no
7
A iniciativa foi interrompida no governo Michel Temer.
8
https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2012/12/121204_marta_londres_ru (2012); https://bernardo-
vianna.com/marta-suplicy-diplomacia-cultural/ (2014).
mercado cultural global e buscava cumprir a meta 25 do PNC “aumento em 70% nas
atividades de difusão cultural em intercâmbio nacional e internacional” (IPEA, 2013).
No Mercosul foram realizadas uma série de ações: criação da estrutura orgânica
e regulamento interno do Mercosul Cultural, e o programa Mercomuseus (2012); cria-
ção da Comissão de Artes e a categoria “Patrimônio Cultural do Mercosul” (2013); Selo
Mercosul Cultural (2014); Plano de Trabalho realizado pela Comissão de Economia
Criativa e Indústrias Culturais do Mercosul (2015) (DRI, 2015).
A política cultural exterior seguiu seu curso a partir da interlocução da Secretaria
de Economia Criativa (SEC) com instituições do governo e outros parceiros. Também
por meio da atuação da Diretoria de Relações Internacionais (DRI) do MinC9, e do
Departamento Cultural e Rede Brasil Cultural chefiadas pelo MRE. A seguir, serão
explicitadas suas respectivas estruturas e diretrizes.

Diretoria de Relações Internacionais do MinC

A DRI representa um marco na participação ativa do MinC na diplomacia cultural


brasileira. Ela foi criada em 2008, fruto da experiência com o “Ano do Brasil na França”
(DRI, 2015). O órgão apresentava caráter consultivo e tinha por missão assessorar a
implementação das ações de internacionalização da cultura, às quais definia como:
ações entendidas como esforço sistemático encaminhado a fazer que as políticas

161 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


de cultura respondam aos requerimentos e desafios relacionados com a globalização
das sociedades, da economia e dos mercados, de modo a promover e a consolidar a
presença internacional da cultura brasileira nas esferas de criação, produção e difusão
(DRI, 2015, p. 3).

Coordenava e articulava a política internacional e a representação institucional do


Brasil em programas e projetos de cooperação internacional, participava de reuniões re-
gulares de organismos internacionais; além de operacionalizar o edital de Intercâmbio e
Difusão Cultural10 (SEFIC).
A DRI promoveu ações de intercâmbio e itinerância em países prioritários que tinha
foco nas relações Sul-Sul. Buscou desenvolver a difusão qualificada e a ampliação das re-
lações comerciais e trocas culturais com países da União Europeia, Ásia e América do
9
Outras Secretarias e autarquias do MinC também desenvolvem atividades de internacionalização, mas
optou-se por focalizar apenas estas atividades na DRI devido a sua vocação institucional e protagonismo.
10
Lei nº 8.313, de 23 de dezembro de 1991, do disposto no inciso V do art. 10 do Decreto nº 5.761, de 27 de
abril de 2006, e da Portaria nº 29, de 21 de maio de 2009 (BRASIL, 2009). O programa fornecia subsídios
para mobilidade nacional e internacional de agentes culturais. Foi extinto em 2016.
Norte (DRI, 2015). A partir de 2014, a temática da internacionalização adquiriu caráter
prioritário na gestão de Marta Suplicy, que aprova o Plano Diretor de Internacionalização
da Cultura, destacado no quadro a seguir:

Quadro 1. Programas para a Internacionalização da Cultura Brasileira


1. Formação e Fortalecimento 1.1. Qualificação para feiras, festivais e demais eventos de mercado
Institucional 1.2. Cooperação técnica e troca de experiências
1.3. Qualificação do corpo técnico do Sistema MinC
2. Estímulo à produção, 2.1. Fomento a coproduções
circulação e distribuição 2.2. Fomento à produção e difusão de conteúdos, inclusive para o mercado
internacional
2.3. Promoção de rodadas de negócios e outras ações junto a potenciais
compradores internacionais
2.4. Tradução de conteúdos culturais e projetos de ampliação de acesso
3. Intercâmbio cultural 3.1. Apoio a intercâmbio cultural e residências artísticas
3.2. Circuito de festivais estrangeiros e brasileiros - priorização e calendarização
4. Promoção da imagem 4.1. Participação com destaque em eventos internacionais
brasileira 4.2. Ações junto a públicos específicos ou formadores de opinião
4.3. Atuação proativa nos organismos e foros internacionais
4.4. Participação qualificada no debate internacional de políticas culturais

Fonte: DRI, 2015, p. 4 (adaptado).

A DRI tratava de alinhamentos institucionais e diplomáticos com o DC/MRE, e


apoiava a programação dos Centros Culturais Brasileiros (CCBs), inclusive com repasses
orçamentários (DRI, 2016). Desenvolvia também outros projetos de cooperação por meio
da Agência Brasileira de Cooperação (ABC).
162 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

A DRI realizou diversas ações de diplomacia cultural envolvendo intercâmbios,


participação e realização de grandes eventos, missões oficiais dos ministros ao exterior,
além de memorandos e acordos de cooperação. Deixou de existir em 201611, e tornou-
-se o Departamento de Assuntos Internacionais (DEAIN), atualmente subordinada ao
Ministério de Desenvolvimento Social. Perdeu autonomia, inclusive orçamentária12.

Secretaria de Economia Criativa

No âmbito da internacionalização cabia à SEC articular relações setoriais envolvendo


órgãos do MinC, MRE e outros Ministérios, na busca por fortalecer e intensificar os
intercâmbios e as exportações de bens e serviços culturais brasileiros (MADEIRA, 2014).
11
Decreto nº 8.837, de 17 de agosto de 2016. (BRASIL, 2016).
12
Informação concedida por Fabiano Carneiro, coordenador de dança da FUNARTE e representante do
Brasil no prêmio Iberescena.
Segundo o Plano Brasil Criativo, a Agência para Exportação e Investimentos (APEX)
seria responsável por desenvolver a imagem da marca Brasil, realizar ações para a promo-
ção de exportações e apoio a projetos e eventos ligados à divulgação da indústria criativa,
além da “produção de conhecimento em inteligência comercial por meio de estudos de
mercados externos para produtos brasileiros” (MADEIRA, 2014, p. 203).
A participação do MRE se daria por meio da instalação de agências de serviços de apoio
a empreendedores e profissionais criativos que atuassem entre o Brasil e outros países, cha-
madas “birôs internacionais”. O propósito era articular um trabalho em rede que permitisse
arranjos produtivos dos setores criativos brasileiros (LEITÃO, 2013). Caberia aos birôs:
realizar prospecção de oportunidades de negócios e empreendimentos nos setores
criativos; a articulação entre profissionais criativos brasileiros e estrangeiros na forma-
ção de coletivos; a promoção de intercâmbio entre profissionais criativos; a difusão
de experiências e metodologias exitosas na gestão de negócios e empreendimentos
criativos dos países envolvidos; e a articulação de feiras de negócios internacionais de
moda, design, arquitetura e artesanato (MADEIRA, 2014, p. 199).

Foram instituídas parcerias com a Secretaria de Desenvolvimento da Produção do


Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), que criou e coordenava o
Sistema Moda Brasil (SMB) e a Associação Brasileira de Empresas de Design (Abedesign),
setores que, conjuntamente com o artesanato, se mostraram bastante promissores no merca-
do internacional. Também estabeleceu parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro
e Pequenas Empresas (SEBRAE) que atuou na área de formação e empreendedorismo

163 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


(MADEIRA, 2014).
A SEC em ação conjunta com a DRI, em parceria com os Ministérios da Educação
(MEC) e o MRE articulou em 2014, a ação Conexão Cultura Brasil Intercâmbio, um
programa que estabeleceu parcerias e convênios de cooperação cultural com dezoito insti-
tuições nacionais e internacionais13, por meio da qual eram ofertadas bolsas de estudos a
brasileiros para intercâmbios educacionais e de formação artística e cultural14.
Outra ação realizada foi o Micsul, o 1º Mercado das Indústrias Culturais do Sul que
ocorreu em Mar del Plata (AR) em 2014, cujo intuito era estreitar laços sul-americanos
por meio da cooperação cultural, estimular e promover a dinamização do mercado em
Economia Criativa. Foram realizadas duas edições subsequentes: na Colômbia em 2016,
e no Brasil em 2018.

13
Dentre as instituições participantes constavam o: British Council, Neso e Embaixada da Itália (CULTURA
DIGITAL, 2016).
14
A atividade foi revogada em outubro de 2015, alegando-se erros operacionais do edital (MINC, 2015).
A SEC celebrou termos de parceria com órgãos internacionais, tais como, a OEI e a
UNESCO. Em 2015, foi extinta e teve suas atribuições delegadas à Secretaria de Políticas
Culturais (SPC). Explicita-se:
as ações se mantiveram executadas pelas Unidades Gestoras - UGs supracitadas
(SEC e SPC) no período de setembro de 2015 a junho de 2016, ocasião da revogação
da Portaria 80/2015. (...) Pouco tempo depois, entra em vigor o Decreto nº 8.837,
de 17 de agosto de 2016, que extingue a SPC e transforma a Secretaria de Economia
Criativa em Secretaria da Economia da Cultura - SEC. (...) Sendo assim, percebe-se
que a execução das ações de 2016 ficaram prejudicadas em razão da troca de gestão
e reorganização da estrutura do Ministério que, nesse ínterim foi extinto e recriado
(Medida Provisória 726/2016 e 728/2016, respectivamente). (MINC, 2016, p. 312).

O Departamento Cultural do Ministério das Relações Exteriores

A Diplomacia Cultural no seio do MRE é coordenada pelo Departamento Cultural


(DC) criado em 1937, no governo de Getúlio Vargas (DPLP, 2016) sob o nome de
“Serviço de Cooperação Intelectual”, instituído pelo então Ministro da Educação e da
Saúde Gustavo Capanema.
Foi inspirada nos modelos europeus (bastante influenciado pelo francês) e seguia ideo-
logia propagandista (DUMONT; FLÉCHET, 2014). Desde então, teve diversos nomes,
diferentes diretrizes e formas de organização, sendo que após a reforma de 2003, passou a
164 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

apresentar a seguinte estrutura:

Quadro 2. Subdivisões do Departamento Cultural do Ministério das Relações Exteriores


Divisão de Promoção da Língua Atua na difusão da língua portuguesa e gerencia o Programa de Difusão de
Portuguesa (DPLP) Língua e Cultura (PDLC) junto às comunidades brasileiras no exterior
Divisão de Operações de Difusão Atua na difusão da cultura brasileira no exterior por meio da gestão dos
Cultural (DODC) Programas de Difusão Cultural (PDCs) dos postos no exterior, à exceção
das ações voltadas para o setor audiovisual e seminários acadêmicos
Divisão de Temas Educacionais (DCE) Responsável pela gestão da cooperação educacional entre o Brasil e outros
países
Divisão de Acordos e Assuntos Responde pelos temas de cultura tratados em organismos multilaterais,
Multilaterais Culturais (DAMC) como UNESCO, MERCOSUL, UNASUL, OEA, CELAC e OEI
Divisão de Promoção do Audiovisual Responsável pelas ações do audiovisual
(DAV)

Elaboração própria, 2019. Fonte: MRE, 2019.


Rede Brasil Cultural

A Rede Brasil Cultural é um órgão que integra o DC/MRE. Está presente em cinco
continentes, é formada por vinte e quatro Centros Culturais Brasileiros15 (CCBs),
quatorze Leitorados16 e cinco Núcleos de Estudos Brasileiros17 (NEBs) (MRE, 2019).
Os CCBs são extensões das embaixadas, resultado de missões enviadas pelo MRE na
América do Sul na década de 1940. As unidades são diretamente subordinadas ao Chefe
da Missão Diplomática ou repartição consular do Brasil. As atividades desenvolvidas são
ensino da língua portuguesa, difusão da literatura brasileira e organização de programação
artística e seminários (MRE, 2019).
Os Leitorados ou “Leitor brasileiro” são professores universitários que atuam em
instituições estrangeiras de ensino superior e que ocupam o posto durante um ano18. Cabe
ao leitor o planejamento e execução das atividades culturais (MACIEL, 2014).
Os NEBs são estruturas presentes nos consulados e embaixadas, geralmente de
fronteira, que oferecem aulas gratuitas de língua portuguesa à comunidade local e têm
a função de avaliar a possibilidade de criação futura de Centros Culturais (MRE, 2019).
Apresenta-se abaixo um quadro da estrutura da diplomacia cultural brasileira contem-
porânea, explicitando as articulações institucionais, ações e diretrizes presentes na política
cultural exterior no período entre 2010 e 2016.

Quadro 3. Estrutura da Diplomacia Cultural Brasileira Contemporânea

165 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


Ministério Órgão responsável Ações e diretrizes da política cultural exterior Articulação institucional

APEX
Promoção Cultural;
SEC MDIC
Articulação Institucional
MRE

Promoção cultural;
MinC Representação do MinC; MRE
Realização de eventos no exterior; OIs
DRI
Ações de intercâmbio e difusão; Outros Estados
Fomento; ABC
Cooperação técnica.

15
Assunção, Barcelona, Bissau, Beirute, Buenos Aires, Cidade do México, Georgetown, Helsinque, La Paz,
Lima, Luanda, Maputo, Nicarágua, Panamá, Paramaribo, Porto Príncipe, Praia, Pretoria, Roma, Santiago,
São Domingos, São Salvador, São Tomé e Tel Aviv (MRE, 2019).
16
Atualmente há 14 leitorados brasileiros em atividade (MRE, 2019).
17
Guiné Equatorial, Guatemala, Paquistão e dois no Uruguai (MRE, 2019).
18
As vagas são oferecidas por meio de edital, publicado pelo Ministério das Relações Exteriores e pela
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) que pré-selecionam os candidatos
e submetem uma lista tríplice às universidades, que então escolhem o leitor. Os professores selecionados
recebem bolsa do MRE e contrapartidas das instituições de ensino (MRE, 2019).
Programação Cultural (DODC);
DC Difusão audiovisual e língua portuguesa;
Apoio aos CCBs
Embaixadas e consulados
MRE
brasileiros no exterior
Ensino da língua portuguesa;
Rede Brasil Cultural:
Traduções;
CCBs, Leitorados e
Programação cultural;
NEBs
Seminários

Elaboração própria, 2019.

O Instituto Machado de Assis

Em novembro de 2011, foi realizada no Palácio do Itamaraty a primeira reunião do


Fórum de Diplomacia Cultural com o objetivo de aliar o movimento de internacionali-
zação de empresas brasileiras às atividades de divulgação e promoção da cultura nacional
(MADEIRA, 2014). Esta ação levantou a discussão sobre a criação de uma agência de
difusão artístico-cultural internacional brasileira, o Instituto Machado de Assis.
Na ocasião do treinamento de empreendedores no SEBRAE-Brasília com destino ao
Micsul em 2014, o diplomata representante do DC/MRE André Maciel ao ser questio-
nado sobre a criação do referido Instituto, destacou que havia o interesse, porém, que as
verbas eram insuficientes, bem como havia ausência de mão-de-obra especializada.
De acordo com Ribeiro (2011) outro obstáculo à criação do Instituto seria porque
a Cultura ocupa lugar pouco relevante na agenda de política externa, ao ter subestimada
166 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

sua capacidade de influência por meio do soft power, assim como sua potencialidade para
promover impacto no comércio exterior.
Madeira (2014) explicita que enquanto perdura o debate sobre a conveniência de
criação da agência, a área cultural do MRE não está afinada ao crescimento da demanda
por produtos culturais brasileiros o que impede a consolidação de uma diplomacia cultural
autônoma e com metas próprias.

Conclusão

É possível averiguar que durante os governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Roussef
ocorreram avanços para estruturação da diplomacia cultural brasileira, cujos fundamentos
partiram da inter-relação entre as políticas públicas de cultura e a política cultural exterior,
de forma que se buscou concretizar uma política de Estado e não apenas de governo, com
a preocupação da continuidade das ações iniciadas.
Identifica-se que a política cultural brasileira apresentava consonância com o discurso
de organizações internacionais como a ONU e a UNCTAD, e foram seguidos preceitos
conforme a Convenção sobre a Diversidade Cultural no que consiste a execução de políti-
cas para se alcançar o desenvolvimento por meio da Economia Criativa.
Igualmente foi adotada uma postura pragmática na busca por uma melhor proje-
ção e posicionamento do país no ambiente internacional, com base nos desafios e
competitividade do mercado cultural global.
Articularam-se ações entre o MinC e MRE, tanto no que consiste aos processos decisórios
e de negociação, quanto em relação à execução das atividades, cujo protagonismo ficou a
cargo da Secretaria de Economia Criativa e da Diretoria de Relações Internacionais do MinC.
A diplomacia cultural desenvolvida pelo DC/MRE, desprovida de recursos, inexistên-
cia de mão-de-obra qualificada e desvalorização da cultura na política externa, atém-se a
atender demandas das instituições estrangeiras e deixa a cargo de agentes não especializa-
dos a responsabilidade pela constituição da programação cultural. Apesar disso, entusiastas
e defensores pela criação do Instituto Machado de Assis seguem na ânsia pela consolidação
de uma diplomacia cultural autônoma e efetiva.
Acredita-se que a política cultural exterior implementada pelo Estado brasileiro no pe-
ríodo foi heterogênea e inventiva: 1) por envolver a articulação entre diversos atores, com
atuação direta do Estado nas ações realizadas; e 2) pela combinação de estratégias de natu-
reza distintas, tais como, a utilização do nation branding e promoção cultural - ações de ca-
ráter mercadológico -; ao tempo em que desenvolveu também atividades de intercâmbio e
cooperação sul-sul, de modo a seguir uma vertente Cosmopolitista de diplomacia cultural.

167 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


É importante ressaltar que a partir de 2016, com o impeachment da ex-presidente
Dilma Rousseff, iniciou-se um processo de desestruturação das políticas culturais, com a
descaracterização e esvaziamento de instituições como a SEC e a DRI, culminando com a
extinção do próprio MinC em 2019.
Isto posto, acredita-se que o ponto crítico em relação à consolidação da diplomacia
cultural brasileira, trata da impossibilidade em estabelecer estruturas e estratégias continua-
das e de longo termo, de modo que a política cultural exterior fica prejudicada em razão da
instabilidade das instituições, e que tem sua origem na própria instabilidade política do país.

Bibliografia

AMORIM, Celso. A Política Externa Brasileira no governo do Presidente Lula (2003-


2010): uma visão geral. Revista Brasileira de Política Internacional. Vol. 53 (2010),
p. 214-240. [Consult. 09 out. 2019]. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.
php?script=sci_abstract&pid=S0034-73292010000300013&lng=en&nrm=iso&tlng=pt>.
ISSN 1983-3121.
AMORIM, Celso. Cultura e Soft Power. São Paulo: Centro de Pesquisa e Formação do SESC. São
Paulo, 2015. Conferência.
BBC. Marta Suplicy diz que Brasil deve evitar estereótipo do ‘carnaval e futebol’. Londres:
BBC Brasil [Consult. 22 out. 2019]. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/
noticias/2012/12/121204_marta_londres_ru>.
BADILLO, Ángel. Las políticas públicas de acción cultural exterior de España. Real
Instituto Elcano. (2014) p. 1- 40. [Consult. 10 mai. 2019]. Disponível em: <http://
w w w. re a l i n s t i t u t o e l c a n o. o r g / w p s / w c m / c o n n e c t / 4 0 3 e d b 0 0 4 4 6 3 9 5 7 0 a d 1 1 b -
de307648e49/EEE19-badillo-politicas-publicas-accion-cultural-exterior-espana+.
pdf?MOD=AJPERES&CACHEID=403edb0044639570ad11bde307648e49>.
BERNARDO VIANNA. Marta Suplicy – Diplomacia cultural. [Consult. 10 out. 2019]. Disponível
em: <https://bernardovianna.com/marta-suplicy-diplomacia-cultural/>.
BIJOS, Leila.; ARRUDA, Verônica. A diplomacia cultural como instrumento de política exter-
na brasileira. Revista Diálogos: a cultura como dispositivo de inclusão. (2010). Vol. 13, nº1,
p. 33-53. [Consult. 20 jun. 2019). Disponível em: <https://portalrevistas.ucb.br/index.php/
RDL/article/view/2912/1824>. ISSN 1677-8898.
BRASIL. Decreto nº 8.837, de 17 de agosto de 2016. [Consult. 17 out. 2019]. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2016/Decreto/D8837.htm>.
BRASIL. Lei nº 8.313, de 23 de dezembro de 1991. [Consult. 10 out. 2019]. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L8313cons.htm>.
BRASIL. Portaria nº 29 de 21 de maio de 2009. [Consult. 10 out. 2019]. Disponível em: <http://
thacker.diraol.eng.br/mirrors/www.cultura.gov.br/site/wp-content/uploads/2010/06/portaria-
-n-29_2009-editais-de-selecao-publica.pdf>.
168 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

CULTURA DIGITAL. Edital Conexão Cultura Brasil. [Consult. 23 out. 2016]. Disponível em:
<http://culturadigital.br/intercambio/sobre/>.
DIVISÃO DE PROMOÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA E DEPARTAMENTO CULTURAL
DO MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES (DPLP). A História dos Centros
Culturais Brasileiros. 1º ed. Brasília, 2016. [Consult. 29 abr. 2019]. Disponível em: <http://re-
debrasilcultural.itamaraty.gov.br/images/Arquivos_PDF/Historia_dos_Centros_Culturais.pdf>.
DIRETORIA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DO MINISTÉRIO DA CULTURA
(DRI). A Política Pública de Internacionalização da Cultura Brasileira. Brasília, 2015.
DIRETORIA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DO MINISTÉRIO DA CULTURA.
(DRI). Balanço da Diretoria de Relações Internacionais do Ministério da Cultura 2015.
Brasília, 2016. [Consult. 20 dez 2016]. Disponível em: <http://www.consultaesic.cgu.gov.br/
busca/dados/Lists/Pedido/Attachments/476236/RESPOSTA_PEDIDO_Balano%202015_
seleo%20de%20informaes%20para%20Fernanda%20Ushijima.pdf.>.
DUMONT, Juliette; FLÉCHET, Anais. “Pelo que é nosso!”: a diplomacia cultural brasi-
leira no século XX. Revista Brasileira de História. São Paulo. Vol. 34 (2014) nº 67, p.
203-221. [Consult. 25 out. 2019]. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pi-
d=S0102-01882014000100010&script=sci_abstract&tlng=pt>. ISSN 1806-9347.
DURAND, José Carlos. Política Cultural e Economia da Cultura. São Paulo: Edições Sesc, 2013.
ISBN 978-85-7995-058-2.
INSTITUTO DE PESQUISAS ECONÔMICAS APLICADAS (IPEA). As Metas do Plano
Nacional de Cultura. 2º ed. Brasília, 2013.
LEITÃO, Cláudia. A Secretaria da Economia Criativa deveria colaborar para deslocar o Ministério
da Cultura para uma discussão mais estratégica sobre o desenvolvimento do Brasil. Entrevista
ao Centro de Pesquisa e Formação do SESC São Paulo em 13/11/2013. [Consult. 06
nov. 2016]. Disponível em: <http://centrodepesquisaeformacao.sescsp.org.br/uploads/
BibliotecaTable/9c7154528b820891e2a3c20a3a49bca9/125/13712386891363042933.pdf>.
MACIEL, André. A atuação do Departamento de Cultura do Itamaraty. SEBRAE. Brasília, 2014.
Conferência.
MADEIRA, Mariana Gonçalves. Economia Criativa: implicações e desafios para a política externa
brasileira. 1ª ed. Brasília: FUNAG, 2014. ISBN 978-85-7631-509-4.
MINISTÉRIO DA CULTURA. Relatório de Gestão 2016. [Consult. 17 out. 2019].
Disponível em: <http://antigo.cultura.gov.br/documents/10883/1520817/
Relat%C3%B3rio+de+Gest%C3%A3o+do+Exerc%C3%ADcio+de+2016.pdf/
d07a670f-2209-4e78-95bd-42f550482704>.
MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES. Diplomacia Cultural Brasileira.
[Consult. 10 out. 2019]. Disponível em: <http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/
diplomacia-cultural-mre/19484-diplomacia-cultural>.
NYE, Joseph Jr. O futuro do poder. Tradução Magda Lopes. 1º ed. São Paulo: Benvirá, 2012. ISBN
978-8564065291.
NOYA, Javier; PRADO, Fernando. Marcas-país: éxitos y fracasos en la gestión de la
imagen exterior. Real Instituto Elcano (2012). p. 1-24. [Consult. 12 jun 2019].
Disponível em: <http://www.realinstitutoelcano.org/wps/portal/rielcano_es/conteni-

169 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


do?WCM_GLOBAL_CONTEXT=/elcano/elcano_es/zonas_es/imagen+de+espana/
dt13-2012_noya-prado_gestion_marcas-pais_imagen-exterior>.
NOYA, Javier. Diplomacia Pública para el siglo XXI: la gestión de la imagen exterior y la opinión
pública internacional. 1ª ed. Madrid: Ariel, 2007. ISBN
PASCHALIDIS, Gregory. Exporting national culture: histories of Cultural Institutes abroad.
International Journal of Cultural Policy Vol. 15, nº. 3, (2009) p. 275–289. [Consult. 30 abr.
2019]. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/232992642_Exporting_
National_Culture_Histories_of_Cultural_Institutes_Abroad>. ISSN 1477-2833.
POLÍTICA NACIONAL DAS ARTES (PNA). Relatório de Atividades março de 2015 a maio de
2016. [Consult. 24 out. 2016.]. Disponível em: <http://culturadigital.br/pna/files/2016/05/
Relat%C3%B3rio-de-Atividades-da-Pol%C3%ADtica-Nacional-das-Artes-4.pdf>.
RIBEIRO, Edgard Telles. Diplomacia Cultural seu papel na Política Externa Brasileira. 2ª ed.
Brasília: FUNAG, 2011. ISBN 978-85-7631-297-0.
RUBIM, Antonio Albino Canelas; BARBALHO, Alexandre; CALABRE, Lia (Org.). Políticas
Culturais no governo Dilma. Salvador: EDUFBA, 2015. ISBN 978-85-232-1385-5.
SARAIVA, Miriam Gomes. Balanço da Política Externa de Dilma Rousseff: perspectivas futuras?
Relações Internacionais. (2014), nº 44, p. 25-35. [Consult. 24 set. 2019]. Disponível em:
<http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1645-91992014000400003>.
ISSN 1645-9199.
SECRETARIA DA ECONOMIA CRIATIVA (SEC) DO MINISTÉRIO DA CULTURA.
Plano da Secretaria da Economia Criativa. Políticas, diretrizes e ações 2011 a 2014. Brasília,
2012. [Consult. 28 mar. 2016]. Disponível em: <http://www.cultura.gov.br/documen-
ts/10913/636523/PLANO+DA+SECRETARIA+DA+ECONOMIA+CRIATIVA/81dd5
7b6-e43b-43ec-93cf-2a29be1dd071>.
SECRETARIA DE POLÍTICAS CULTURAIS (SPC) DO MINISTÉRIO DA CULTURA (SPC).
Desenvolvimento do Programa de Economia da Música: estratégia para dinamização de cadeias
produtivas do setor musical brasileiro. Brasília, 2016. [Consult. 07 nov. 2016]. Disponível em:
<http://culturadigital.br/pna/files/2016/05/economiadamusica_relatorio-5.pdf>.
STARKIE, Elisa Gavari; JIMÉNEZ, Francisco J. Rodríguez. Estrategias de Diplomacia Cultural
en un mundo interpolar. 1ª ed. Madrid: Centro de Estudios Ramón Areces, 2015. ISBN
978-8499611228.
STELOWSKA, Diana. Culture in International Relations Defining Cultural Diplomacy. Polish
Journal of Political Science. Vol. 1, Issue 3. (2015) p. 50-72. [Consult. 06 jun. 2019]. ISSN
2391-3991
VILLANUEVA César R. Theorizing cultural diplomacy all the way down: a cosmopolitan cons-
tructivist discourse from an Ibero-American perspective. International Journal of Cultural
Policy, Vol. 24, issue 5 (2018) p.681–694 [Consult. 15 jun. 2019]. Disponível em: <https://
www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/10286632.2018.1514033>.
ZAMORANO, Martín Mariano. Reframing Cultural Diplomacy: the instrumentalization of cul-
ture under the soft power theory. Culture Unbound, Vol. 8, (2016) p. 166–186. [Consult.
25 mai 2019]. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/309819450_
Reframing_Cultural_Diplomacy_The_Instrumentalization_of_Culture_under_the_Soft_
170 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Power_Theory>.
Brasil e Portugal, duas rotas
de democratização

Francisco José Araujo


Professor Adjunto da Universidade Estadual do Maranhão - UEMA

Introdução

Situa-se, para este trabalho, o arco temporal que compreende os anos seguintes ao
término dos regimes autoritário (1974 e 1985) em Portugal e no Brasil, respectivamen-
te. As opções políticas iniciadas nesses períodos e as suas consequências sobre o campo

171 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


democrático, é o objetivo desse trabalho.
Primeiramente apresentar-se-á uma síntese de concepções modernas de democracia.
Em seguida será posto em destaque as rotas de navegação política desses dois Estados fren-
te a uma bússola democrática: caminhos e descaminhos das políticas adotadas (policy) e as
condições atuais dessas democracias. Por fim, serão apresentadas as principais conclusões
sobre essas duas realidades no período analisado.

As democracias modernas representativas

Muitos são os discursos evocando democracia e, obviamente, é um dos conceitos


políticos mais naturalizados que existes, e tudo fica como sendo e não sendo democracia.
Há um longo debate sobre o que é democracia de forma substantiva ou empiricamente. O
debate recorrente em torno do que é democracia real e ideal.
Mas, o que tem atraído a atenção dos estudiosos da democracia atualmente são as
vertentes utilitarista, pragmática e realista, que reduzem a Democracia a uma disputa
eleitoral pelo poder (o poder de decidir), além de equacionar o poder político restrito
a um cálculo vantagens concretas, limitando-a ao aspecto do poder sem seu conteúdo e
abrangência política e social. Isto é, como uma ordem social, um arranjo societal, um ethos
e uma forma específica de dominação.
Kelsen (1993: p. 179)1 destaca bem essa a necessidade de uma percepção política
e social da democracia, negligenciada por essas tendências acima referidas, ao afirmar
que: “A liberdade significa conformidade entre a vontade de individual e a vontade cole-
tiva expressa na ordem social. Consequentemente, é o princípio de maioria simples que
assegura o mais alto grau possível de liberdade política em uma sociedade.”
Basta lembrar que um dos mais ferrenhos detratores da Democracia, Platão, não em
suas ironias destacava aspectos da vida societal para atacar a democracia ateniense, o exagero
(além do que realmente era a vida na época) acabou de ser uma previsão, pois são condições
reclamadas nas democracias contemporâneas, dentre estes a igualdade entre homens e mulheres.
“Sócrates — Desse modo, fica claro que em todo lugar onde tal liberdade
impera cada um organiza a sua vida como melhor lhe convém.
Sócrates — Encontraremos, segundo suponho, homens de toda espécie neste
governo, mais do que em qualquer outro.” (PLATÃO, 1999: p. 274)2

As democracias modernas representativas e liberais já receberam diversas formulações


teóricas e muitas não convergentes em grande parte, particularmente no tocante aos crité-
rios e referências para sua caracterização diante do fato de existirem inúmeras configurações
políticas que se apresentam ou se reivindicam com tais. Esses esforços buscam responder à
172 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

questão: o que é uma democracia no plano empírico? Esse esforço de marcos e referências
operativas tem abrigo em diferentes matizes do pensamento político, destaca-se aqui, a
título de ilustração Robert Dahl (2005)3 com a democracia no plano empírico concebida
como Poliarquia e Joseph Schumpeter (1961)4 adotando a democracia como um método
para a estabilização organização institucional através de uma concorrência eleitoral.
“Argumentativamente, há muitas democracias possíveis, isto é, logicamente
concebíveis; mas não há muitas historicamente possíveis. Se o significado atual de
democracia se afasta de seu dignificado grego e tem e tem pouco a ver com um
povo que se autogoverna, a transformação reflete os repetidos fracassos históricos
desse autogoverno. Da mesma forma, termos como liberdade, opressão, coerção,
legitimidade, e assim por diante, adquirem com o passar do tempo uma firmeza de

1
KELSEN, Hans. A democracia. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
2
PLATÃO . A república. São Paulo: Editora Nova Fronteira, 1999.
3
DAHL, Robert. Poliarquia. Participação e Oposição. São Paulo: EDUSP, 2005.
4
SCHUMPETER, Joseph A. Capitalismo, Socialismo e Democracia. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1961.
significado que resulta do fato de terem sido recheados com a substância e conteúdo
da história”. (SARTORI, 1994, p. 18)5

Adota-se para esse trabalho uma noção de democracia pautada no antagonismo e na


comparação tal qual proposta por SARTORI (1994)6, KELSEN (1993)7 e DAHL (2001)8.
“Com base na distinção, minha conclusão é que os sistemas políticos enfrentam
um problema de escolha; que a escolha pressupõe comparação entre melhor e o pior
(não entre bom e verdadeiro, ou entre mau e falso no sentido absoluto); e que a relati-
vidade dos valores requer exatamente uma avaliação relativa (comparativa). Portanto,
é perfeitamente possível justificar preferências. As opções políticas permitem de fato
um argumento racional, e as alternativas políticas estão – mesmo quando se relacio-
nam ao valor e giram em torno dele – sujeitas à adequação das justificativas. Não
posso, estritamente falando, ‘provar a democracia”, mas posso argumentar de maneira
convincente, a meu ver, que a democracia é preferível.” (SARTORI, 1994: p.30)9

No momento atual, em que insatisfações de ordem social ganham corpo e uma queda de
credibilidade nas instituições políticas e, particularmente dos principais agentes políticos, as
vozes defendo regimes de força e fechados tornam a questão democrática muito importante.
Particularmente em um momento em que as crises econômicas passaram a ser frequentes, para
não dizer permanentes. Mesmo nos países considerados como o centrais da economia global.
As democracias modernas, constituídas no bojo de transformações profundas na
ordem social, econômica e política. Sob uma dupla lógica de produção e poder político: o

173 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


capitalismo e o Estado-Nação, criou um novo campo da existência política: a sociedade de
massas, onde a complexidade e o volume das necessidades ganharam uma dimensão muito
alargada. As demandas sociais ganharam uma variedade muito ampla, com uma dinâmica
de mudança e orientação muito acelerada. E isso tem sido um forte fator pressão sobre as
instituições política em todo o mundo ocidental.
As democracias representativas liberais têm sofrido pressões avaliativas constantes por
força de ter sido atrelada, ao longo dos séculos, ao desempenho dos governos. Isto é, governo
eficaz é vista como algo da democracia. Ao mesmo tempo que condições de vida e ganhos e
perdas no âmbito econômico são avaliados e percebidos como questão democrática.

5
SARTORI, Giovanni. A teoria da democracia revisitada, 2 as questões clássicas. São Paulo: Ática, 1994.
6
(Idem).
7
(Idem).
8
DAHL, Robert A. Sobre a democracia. Brasília: Ed. UnB, 2001.
9
(Idem).
“O desenvolvimento econômico não é exclusivo de países democráticos, nem
a estagnação econômica é exclusiva das nações não-democráticas. Na verdade, pa-
rece não haver nenhuma correlação entre desenvolvimento econômico e o tipo de
governo ou regime de um país”. (DAHL, 2001, p.186)10

Cabe também destaque o que afirma Kelsen (1993)11 tradando da democracia moderna:
“A democracia moderna não pode estar desvinculada do liberalismo político.
Seu princípio é o de que o governo não deve interferir em certas de interesse do
indivíduo, que devem ser protegidas por lei como direitos ou liberdades humanos
fundamentais.” É através do respeito a esses direitos que as minorias são protegidas
contra o domínio arbitrário das maiorias. Tendo em vista que a permanente tensão
entre maioria e minoria, governo e oposição, resulta no processo dialético tão carac-
terístico da formação da democrática da vontade do Estado, pode-se afirmar com
razão: democracia é discussão.” (p. 183)

Enquanto para Kelsen (1993)12 a relação particularmente íntima da democracia


moderna é com o liberalismo político, Dahl (2001, p. 183)13 há um casamento tempestuo-
so entre democracia e capitalismo de mercado, metaforicamente, diz ele: “os dois existem
numa espécie de simbiose antagônica”.

A Rota Brasileira
174 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

A ruptura constitucional de 1964 é um de desdobramento de uma crise política que


se arrastava desde 1954 com o suicídio de Getúlio Vargas e um aprofundamento da situa-
ção econômica. O período ditatorial que se abre a partir de então com todo um processo
Planos de Crescimento Econômico.

Uma síntese do percurso democrático pós advento das repúblicas


brasileira e portuguesa:

10
(Idem).
11
KELSEN, Hans. A democracia. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
12
(Idem)
13
(Idem)
Infograma síntese dos principais acontecimentos políticos – pós repúblicas

175 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


Abertura democrática é concomitante com uma grave situação econômica e social
do país, além do desgaste político dos governos militares, que já tinham a rejeição ampla
da população, que pedia retorno da democracia (eleições livres e Estado de Direito
Constitucional e democrático).
Os primeiros governos civis assumem a tarefa de enfrentar a inflação galopante e
reduzir o déficit público. A busca de uma estabilidade econômica e política era a pauta
desse novo momento.
O primeiro governo civil pós a ruptura constitucional de 1964 lançou nada menos
que 04 planos e duas moedas: Plano Cruzado e a moeda Cruzado em substituição ao
Cruzeiro, Plano Cruzado 2, Plano Bresser e o Plano Verão, onde a moeda Cruzado passou
a ser Cruzado Novo.
O segundo governo segue o mesmo esforço de controle inflacionário: Plano Collor, a
moeda volta a ser chamada de Cruzeiro. Em seguida é lançado Plano Collor 2.
Toda a primeira década da redemocratização ficou voltada às questões do déficit e ao
controle inflacionário. Por outro lado, são os primeiros momentos da Constituição, que
é promulgada em 1988. Com um amplo lastro de direitos sociais constitucionalizados.
O primeiro governo civil, o governo Sarney (José Sarney de Araujo Costa), com o
Programa do Leite. Consistiu na distribuição gratuita de leite bovino pasteurizado para mães
de baixa renda. Visava combater a desnutrição e chegou a tender 7,6 milhões de crianças.
Apesar do governo Sarney ser batizado, pelo titular, como Tudo Pelo Social, o momento
econômico do país forçosamente colocava o governo sob a forte pressão de contenção
da inflação, limitando as políticas sociais. A democracia politicamente foi muito mais
176 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

cumprida enquanto pauta da agenda já existente do que a pauta social existente.


Passado o a crise política do Governo Collor, com a tomada de posse do vice
Itamar Franco (Itamar Augusto Cautiero Franco), a agenda política começou a ganhar
corpo por um viés descentralizador, esse governo particularmente buscou a participação
da sociedade civil, mesmo diante das dificuldades políticas e econômicas. Destaca-se a des-
centralização do Pnae (Programa Nacional de Alimentação Escolar) e a criação do Fundo
Social de Emergência (FSE). A pressão por soluções quanto à crise econômica também
deixou as medias e planos no âmbito social bem aquém das expectativas e demandas. Teve
o mérito de iniciar a estabilização econômica com o Plano Real.
O programa de maior destaque nesse período foi lançado pelo sociólogo Herbert de
Souza, Betinho, a partir da sociedade civil organizada. O Ação Cidadania contra a Fome,
a Miséria e pela Vida ganhou ampla repercussão nacional.
Os governos seguidos de FHC (Fernando Henrique Cardoso) marcam uma retomada
das políticas sociais em maior escala, a começar pelo Comunidade Solidária e avança com
o Vale Gás, Bolso Escola e Bolsa Alimentação, dando efetividade à Rede de Proteção
Social. Nascia nesse momento o Fies (Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino
Superior). Nesse momento, no lastro das reformas do Estado14, nasce os marcos regulado-
res das parcerias das entidades federativas e sociedade civil15. Essas medidas vieram como
forma de compensação das consequências produzidas pelo esforço de equilíbrio fiscal e
encolhimento do Estado visando a estabilização econômica.
Os governos consecutivos de Lula (Luiz Inácio Lula da Silva) mantiveram o mesmo
direcionamento econômico do seu antecessor e investiu na ampliação das políticas de
assistência social. Ao desativar a Rede de Proteção Social deixada pelo governo de FHC, in-
corporou diversos programas ao Programa Fome Zero. Mas o mais marcante foi a expansão
(no volume e no tamanho) dos programas de transferência de renda, particularmente no que
passou ser chamado Bolsa famílias (na prática reuniu em um só programa o Bolsa Escola,
Vale gás e Bolsa Alimentação). O Bolsa Família chegou a atingir 14 milhões de famílias (na
época 28% da população), alcançava de forma uniforme as famílias em extrema pobreza,
com renda per capita até R$ 85,00 (sem contra partida) e as famílias com renda per capita
situada na faixa de R$ 85,00 a R$ 170,00, com a variável de ter criança até15 anos idade.
Na Educação houve ampliação do acesso ao ensino superior16 com distribuição de bolsas de
estudo através do Prouni (Programa Universidade para Todos), com a criação de nova uni-
versidades públicas, quase duas dezenas e amplia o acesso ao Fies (Fundo de Financiamento
ao Estudante do Ensino Superior). Além disso, foi implementado programa de habitação
quantitativamente amplo, o Minha Casa Minha Vida.
Os governos Dilma (Dilma Vana Rousseff), em grande medida, é uma continuação, em
termos de política social, do governo Lula, mas em um contexto econômico paulatinamente

177 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


de crise. Mesmo diante do cenário econômico, pontualmente, foram feitas algumas altera-
ções. Particularmente no Bolsa Família, que passou a contemplar também as famílias com
adolescentes de 16 e 17 anos de idade, as gestantes e as nutrizes.
O governo Temer (Michel Miguel Elias Temer Lulia) teve início com o impedimento
da Presidente Dilma, o segundo vice-Presidente a assumir a Presidência após a redemocra-
tização de 1985. Seu breve mandato apresentou uma criação em termos de política social:
o Progredir, destinado aos inscritos no bolsa Família. O plano ofereceu ferramentas de
qualificação, trabalho e empreendedorismo. Mas seu principal destaque foi o microcrédito
estabelecido no bojo desse plano.

14
Sobre essa temática, tomou-se como base a abordagem de: DINIZ, Eli. Globalização, reforma do estado e
teoria democrática contemporânea. São Paulo em Perspectiva, vol.15 no.4 São Paulo Oct. /Dec. 2001.
15
Tem-se como referência a análise feita por: Draibe, Sonia. A política social no período FHC e sistema de
proteção social. Tempo soc. vol.15 no.2 São Paulo Nov. 2003.
16
MARQUES, Rosa Maria; XIMENES, Salomão Barros e UGINO, Camila Kimie. Governos Lula e Dilma
em matéria de seguridade social e acesso à educação superior. Revista de Economia Política, vol. 38, nº 3
(152), pp. 526-547, julho-setembro/2018.
O Brasil, quanto à satisfação com a democracia e a confiança nela tem aparecido em
diversas pesquisas locais e internacionais. Cabe destacar que as metodologias e quesitos dife-
rem de uma para outra. No geral, apesar de índices de insatisfação variarem acima dos 50%,
a preferência pela democracia também vária acima dos 50%. Pesquisa DataFolha aponta
62% preferem a democracia e 58% consideram o melhor sistema na pesquisa do Barômetro
da América (Lapop)17. Em todas s pesquisa a insatisfação com o funcionamento é alta. Cabe
ressaltar que nesses inquéritos são inclusas diversas questões sobre economia, segurança etc.
A Pew Reserch Center (USA)18 aponta 83% de insatisfação dos brasileiros. Mas essas pes-
quisas aponta um comportamento global de econômica e ansiedade por mudanças sociais.
Predomina a insatisfação nos país democráticos, o que parece uma questão óbvia.

A Rota Portuguesa

Em Portugal após o período revolucionário iniciado em 1974 deu construto e conformação


à Constituição de 1976, as questões econômicas e sociais se fizeram presentes em grande monta
na agenda política desse momento. A Constituição Portuguesa de 1976 trouxe, por exemplo, a
universalização dos direitos e também uma ampliação dos sociais, culturais, políticos e cívicos.
A década seguinte,1980, também foi marcada por grandes mudanças nos marcos
regulatórios no que tange garantias e direitos sociais. Surgindo logo em 1984 a Lei de
Bases da Segurança Social – Lei 28/1984.
Meados da década de 1980 novas medidas foram implementadas pelo Estado
178 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

português como tornando mais rígida a condenação no tocante à contratação de mão de


obra envolvendo menores e trabalho clandestino. Assim como medidas de enfrentamento
às desigualdades regionais. Abriu financiamento às pequenas empresas e uma linha de
apoio à formação profissional de trabalhadores. Na educação, procedeu uma formaliza-
ção da obrigatoriedade a partir dos 6 anos de idade. Recebendo também incentivo de
ampliação o ensino superior e as pós-graduações (mestrado e doutorado).
Já na segunda metade da década de 1980, as principais mudanças legislativas ocorridas
foram de ordem tributária, fiscal e previdenciária. Em 1986 foi criada a taxa social única
para ser aplicada no cálculo das contribuições para o Regime Geral. O trabalhador rural foi
incorporado ao Regime Geral ou ao regime independente dos trabalhadores independentes
(regime privado). (Cf. RODRIGUES, 2010)19
17
Disponível em: https://www.vanderbilt.edu/lapop/
18
Disponível em: https://www.pewresearch.org/global/2019/04/29/publics-satisfied-with-free-speech-abili-
ty-to-improve-living-standards-many-are-critical-of-institutions-politicians/
19
RODRIGUES, Eduardo Vitor. O Estado e as Políticas sociais em Portugal. Sociologia: Revista do departa-
mento de sociologia FLUP. Vol. XX. 2010. p. 191- 230.
A década de 1990 foi marcada por um foco maior na questão da pobreza e aos grupos
mais veneráveis. Na verdade, um conjunto de medidas foram implementadas. A saber,
Atendimento/Acompanhamento Social; Programa de Luta Contra a Pobreza – PLCP;
Subprograma Integrar: Apoio ao Desenvolvimento Social, Integração Económica e
Social dos Desempregados de Longa Duração, Integração Económica e Social de Pessoas
Portadoras de Deficiência, Integração Económica e Social de Grupos Desfavorecidos,
Construção e Adaptação de Infraestruturas e Equipamentos de Apoio - Vertente FEDER;
Rendimento Mínimo Garantido – RMG; Programa de Apoio Integrado a Idosos – PAII:
Serviço de Apoio Domiciliário – SAD, Centro de Apoio a Dependentes – CAD, Formação
de Recursos Humanos – FORHUM e Passes Terceira Idade, Serviço Telealarme – STA,
Saúde e Termalismo, Turismo Terceira Idade e Turismo Sénior; Programa Ser Criança;
Programa Rede Social. (LOURENÇO, 2005)20
Destaca-se ainda a criação, em 1996, do Alto Comissariado para a Imigração e
Minorias Étnicas, Decreto-Lei 3-A/96, de 26 de janeiro. Visando tomar medidas de inte-
gração das famílias de imigrantes na sociedade, evitar a marginalização geradora de racismo
e xenofobia, combater a intolerância e a discriminação21.
Atualmente as taxas contributivas do Regime Geral (Segurança Social) totalizam
34,75%, sendo que 11% por parte dos trabalhadores e 23,75% por parte dos empregado-
res. “Estas taxas contributivas globais a pagar pelos trabalhadores e pelas entidades patronais
incluem a taxa de 0,5%, a cargo das entidades patronais, destinada ao financiamento do
risco de doença profissional”.22
Em pesquisa realizada em 2018, conduzida Dalia Research em colaboração com Alliance

179 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


of Democracies e Rasmussen Global23, com abrangência de 50 países de todo o mundo e
125 mil pessoas entrevistadas (representativas nacionalmente). Esses institutos trabalham
com base no Índice de Percepção da Democracia (DPI), com isso, traçaram um perfil da
percepção da democracia no mundo. A pesquisa detectou que essa percepção negativa é
maior entre países democráticos. Sendo menor entre os países não-democráticos.
Nessa pesquisa 71% dos portugueses não se sentem representados pelo seu governo, ao
mesmo tempo que 62% sentem que sua voz não faz diferença. Portugal aparece duplamente
em 3º lugar nesse ranking mundial.
20
LOURENÇO, Maria dos Prazeres. POBREZA E EXCLUSÃO SOCIAL E POLÍTICAS SOCIAIS
EM PORTUGAL: Uma Análise de Políticas Sociais na Relação com a Pobreza. Direcção Geral
da Segurança Social, 2005. Disponível em: http://www.seg-social.pt/documents/10152/51695/
Pobreza_exclusao_social_politicas_sociais_Portugal/3482c68d-461d-432e-9531-2c4821f89eb3
21
Disponível em: https://dre.pt/pesquisa/-/search/219553/details/maximized
22
Disponível em: http://www.portugalglobal.pt/PT/InvestirPortugal/Sistema%20Fiscal/Paginas/
RegimeGeral.aspx
23
Disponível em: https://rasmussenglobal.com/media/democracies-are-losing-the-hearts-and-minds-of-
-their-citizens-worlds-largest-study-on-trust-in-government-finds
A Áustria (73%), Suécia (70%), Dinamarca (69%), Polônia (68%), Bélgica, Japão, Irlanda,
Itália e Canadá (67%). O relatório conclui que as “pessoas que vivem em democracias estão
desiludidas com a ideia de que seu governo é formado “pelo povo” e trabalha “para o povo”.
Outras pesquisas anteriormente realizadas também detectaram uma percepção
negativas dos portugueses em relação à democracia. Tal fato já tinha sido notado em pes-
quisas dos anos 1990 e de meados dos anos 2000, como informa Magalhães (2009).24 O
referido autor conclui que as principais queixas dos portugueses é não perceber uma au-
têntica representação dos seus interesses por parte do Executivo e dos parlamentares, um
desenvolvimento mais justo com melhoria para todos, a accountability horizontal e não
serem ouvidos (ausência de força de suas opiniões).

Pelo mar adentro

O processo de redemocratização ocorrido no Brasil, a partir 1985, produziu mudanças


de modelo nas políticas sociais, que se fizeram notar logo nos primeiros governos. Momento
que a assistência social passa a ser pensada como direito do cidadão, como elemento com-
ponente da cidadania, e que ficou mais acentuado com a constitucionalização de diversos
direitos sociais na Carta de 1988.
Além disso, politicamente o tema da descentralização ganhou força como forma de
democratização, particularmente com base no arranjo federativo25 , ao passo que as políticas
sociais se afastam do paradigma de direitos universais e adota fortemente o modelo focalizado26.
180 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Isso direcionou as políticas sociais e a proteção social para uma ideia de atendimento
segmentado com base na diversidade: mulheres, negros, crianças, indígenas, idosos etc.
Segue-se a isso, a criação de inúmeros marcos legais focalizados como a Lei Orgânica
de Assistência Social - LOAS (Lei 8.742/93), que estabeleceu o Benefício de Prestação
Continuada- BPC, garantindo um salário mínimo mensal ao idoso acima de 65 anos ou à
pessoa com algum tipo deficiência de longo prazo que lhe cause impedimento de atividades
laborais e integração social; Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei Nº 8.069/90); Lei
cotas para Deficientes e Pessoas com Deficiência (Lei 8213/91) etc. Além da instauração de
inúmeros conselhos: CNE (Conselho Nacional de Educação), CNAS (Conselho Nacional
24
MAGALHÃES, Pedro. A qualidade da democracia em Portugal: a perspectiva do cidadão. Instituto de
Ciências Sociais da Universidade de Lisboa: SEDES, 2009.
25
Usou-se, como referência a esse enfoque, os trabalhos de: ARRETCHE, Marta. Estado federativo e políticas
sociais: determinantes da descentralização. Rio de Janeiro: Revan; São Paulo: Fapesp, 2000.; DAGNINO,
Evelina. Sociedade civil e espaços públicos no Brasil. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
26
NASCIMENTO, Alexandre do; SILVA, Andrea F; ALGEBAILE, Maria E. As políticas sociais no brasil na
década de 1990. In NEVES, Lúcia (org). O empresariamento da Educação: novos contornos do ensino supe-
rior no Brasil dos anos 1990. São Paulo: Coletivo de Estudos sobre Política Educacional e Ed. Xamã, 2002.
de Assistência Social), CNS (Conselho Nacional de Saúde), CNPS (Conselho Nacional
de Previdência Social) etc.
O Brasil chegou a viver uma experiência de quase pleno emprego. Seguida de uma
crescente arrecadação por parte do Governo. O consumo, graças a expansão das transfe-
rências de renda, atingiu patamares elevadíssimos. Essa situação consumista foi celebrada
como um avanço social, estandardizada como a saída de milhões de brasileiros da pobreza
e o surgimento da “classe C”. No entanto, a qualidade de vida não sofreu significativas
melhoras. A saúde/saneamento, a educação e principalmente a segurança continuaram
apresentando dados alarmantes. Em 2013, porém, as massas na rua começaram a reclamar
do “paraíso”, viu-se uma enorme indignação e insatisfação já acumulada.
A crise que aflorou em 2015 trouxe à tona sérios problemas e um verdadeiro insucesso na
condução da economia por parte do Governo. Isso teve um desdobramento político-eleitoral
que empurrou grande parte do eleitorado para uma opção de descontinuidade com o campo
político de centro-esquerda que estava à frente do poder político desde a década de 1990.
No período de opulência e crescimento econômico, o salário mínimo cresceu 70%,
mas, manteve-se abaixo dos demais países sul-americanos. Contabilizou-se também a criação
de 21 milhões de empregos, no entanto, 84% desse montante não ultrapassava 02 salários
mínimos, fazendo com que a massa de assalariados, em 2016, subisse para 43,9% do PIB27.
Houve crescimento no rendimento médio de 3,5% no período de 2003 – 2014, porém,
acompanhado de crescimento de despesas na educação (7,1%) e na saúde (8,1%). O au-
mento de pessoas com ensino superior é um dos saldos mais consistentes desse período,
subindo de 7,6% para 13,3% da população.

181 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


A crise iniciada em 2015 tem aumentado a desigualdade de forma persistente e a
pobreza se expandiu em 33% entre 2015 - 2017, saindo de 8,4% para 11,2% da população
brasileira, os que estão na extrema pobreza.
Registrou-se que o 1% dos brasileiros mais ricos tiveram ganho real no rendimento médio
mensal de 8,4% e os 5% dos mais pobres tiveram perdas de 3,2%. O Brasil é o país, dentre
as democracias, com a maior concentração de riqueza no topo da pirâmide, isto é, no 1%.
Em Portugal a entrada na União Europeia, em 1986, o que rendeu uma significativa
melhoria na renda per capita, que era até então 90% inferior à média europeia28. Porém,
deu-lhe alguns condicionantes aos cursos de efetivação das suas políticas públicas,
particularmente as sociais.

27
LAVINAS, Lena e GENTIL, Denise L. Brasil anos 2000 A política social sob regência da financeirização
Novos estud. CEBRAP. São Paulo, V.37, n.02, pp. 191-211, mai.–ago. 2018.
28
Conf. SOUSA, Fernando de. Portugal e a União Europeia. Rev. bras. polít. int. vol.43 no.2 Brasília July/
Dec. 2000.
Por outro lado, econômica e fiscalmente as coisas não estiveram sempre boas e 2011
veio a Troika (Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão
Europeia), que estabeleceu uma política de austeridade, dentre elas: “Reduzir o défice das
Administrações Públicas para menos de 10.068 milhões de euros (equivalente a 5,9% do
PIB baseado nas projecções actuais) em 2011”, além disso o receituário continha dimi-
nuição dos serviços; reduzir custos na área da educação; na área da saúde e “obter uma
redução nas despesas sociais de, pelo menos, 350 milhões de euros”29. Algumas consequên-
cias foram desemprego e aumento da pobreza. Pois os cortes nos subsídios, aumento dos
impostos e o salário mais baixo da Europa. A Troika também não deixou de ser uma certa
diminuição da autonomia do próprio Estado português
A partir de 2015, com um governo de coalizão, formado por departidos de esquerda,
autodenominado de “geringonça”, assumiu uma postura mais independente de flexi-
bilizando ou descumprindo algumas das medidas de austeridade impostas pela Troika.
Entretanto, tem seguido as prescrições quanto aos serviços públicos, que operam com
baixo investimento30. Apesar de resultado positivos, com melhoras em alguns indicadores
econômicos, esse modelo tem gerado uma série de desconfianças sobre a recuperação de
Portugal da recessão, tendo em vista a dependência de receitas procedentes de recursos
financeiros externos ligados ao turismo e ao setor imobiliário.
Apesar da desconfiança melhoras já foram registradas, em 2018 a pobreza monetária
ficou em 17, 2% e a desigualdade (coeficiente Gini) também diminuiu, hoje Portugal é 10
no ranking de desigualdade na Europa31.
Cabe ressaltar que Portugal possui outras questões problemáticas, como a demográfica,
182 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

onde as taxas de fecundidade e mortalidade estão entre as mais baixas da União Europeia
e um acentuado envelhecimento da população – impactando na sucessão de gerações e na
existência mão de obra ativa nacional. Sendo que as faixas etárias entre 0-17 e +65, isto
é, os polos de maior vulnerabilidade, apresentam os maiores índices de pobreza: 18, 5%
e 17,3% respectivamente. Completa o quadro demográfico o despovoamento de diversas
áreas do território.
“Mais cedo ou mais tarde, todos os países passarão por crises bastante profundas
– crises políticas, ideológicas, econômicas, militares, internacionais. Dessa manei-
ra, se pretende resistir, um sistema político democrático deverá ter a capacidade
de sobreviver às dificuldades e aos turbilhões que essas crises apresentam. Atingir a
29
Fonte: memorando de entendimento sobre as condicionalidades de política económica (Tradução: Governo
Português).  
30
SEIXAS, João; TULUMELLO, Simone e ALLEGRETTI, Giovanni. Lisboa em transição profunda e de-
sequilibrada. Habitação, imobiliário e política urbana no sul da Europa e na era digital. Cad. Metrop., São
Paulo, v. 21, n. 44, pp. 221-251, jan/abr 2019.
31
Fonte: INE.
estabilidade democrática não é simplesmente navegar num mar sem ondas; às vezes
é preciso enfrentar um clima enlouquecido e perigoso.” (DAHL, 2001: p. 173)32

Considerações finais

Em que pese a monumental diferença de escala: territorial, de recursos e populacional,


os processos políticos e o comportamento político podem ser postos em uma escala
comparativa relativizada à luz das proximidades tecidas historicamente: um estoque de
compartilhamento cultural e sentimentalidade trágica projetada sobre as instituições.
As democracias portuguesa e brasileira têm tido êxitos e, dentre um leque enorme de
possibilidade de efetivação, aqui e lá, lá e aqui existem garantias mínimas às liberdades dos
cidadãos e de forma continuada. As eleições têm ocorrido com regularidade e os sistemas
eleitoral e partidário, particularmente em Portugal, ganham funcionalidade significativa
em prol da governabilidade. Aí reside uma diferença significativa entre essas democracias,
pois o Brasil ainda não conseguiu levar a cabo sua redemocratização no que consiste o
sistema eleitoral e partidário, carente de um aperfeiçoamento e de maior adequação à
funcionalidade governativa do Estado.
No Brasil, nota-se uma alta fragmentação partidária/alta efetividade partidária. Em
2018, 30 partidos conseguiram representação no Congresso Nacional (Câmara dos
Deputados e Senado). Essa alta variedade de presença partidária tem produzido um en-
trave nas deliberações e equacionamentos das principais questões tocantes às demandas da

183 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


sociedade, não pela variação ideológica, mas pelo volume. Enquanto isso, na Assembleia
da República, em Portugal, somente 07 partidos possuem efetividade (representação).
O custo político de formação de uma base de apoio ao Governo é alto, porque
ainda persiste um pragmatismo pautado no spoils system, soma-se a isso a inevitável alta
heterogeneidade da base, nesses termos constituída. O problema não é o Presidencialismo,
que goza de legitimidade e tem um valor histórico para os brasileiros, esse sistema é tradi-
cionalmente de governo de minoria (vide os USA), o problema reside no sistema eleitoral
e partidário, que permanece praticamente inalterados de o último período autoritário.
Desta maneira, a principal diferença não está no sistema de governo, mas nos sistemas
eleitorais e partidários. O que dá uma posição de dinâmica democrática governativa e
partidária melhor a Portugal. Porém, o regime democrático no Brasil tem gozado de uma
avaliação predominante positiva, mesmo tendo declinado em 2019.

32
DAHL, Robert A. Sobre a democracia. Brasília: Ed. UnB, 2001.
As retrações e oscilações econômicas hoje são constantes e ocorrem em escala global,
seu caráter de simultaneidade e instantaneidade limitam as capacidades internas dos
governos de as gerenciar sozinhos e de forma célere.
O estoque de problemas gerados pela economia e pela complexidade social são de
Governo, não são propriamente de democracia. Porém, as democracias modernas estão
geminadas com o Estado e sendo ele um corpo e arena de decisões imperativas, as demandas
não satisfeitas, o déficit de atendimento e a deficiência na qualidade de representação po-
lítica recaem inevitavelmente sobre a democracia, o que tem sido um drama para todas as
democracias contemporâneas todas as democracias. Mas, por outro lado, esses problemas só
são visualizados e expressos por força da democracia, só ela permite aos descontentes com o
sistema política, sendo maioria ou minoria, poderem ser livres para tal descontentamento.
No caso de Brasil e Portugal a insatisfação com a qualidade da representação política, não
sentir sua opinião valer, a falta de equidade na justiça, as questões econômicas, a demora das
soluções e corrupção colaboram significativamente para o sentimento de insatisfação com
a democracia. Caberia perguntar sobre a qualidade da República no tocante a essas demandas.
No geral, as qualidades das democracias portuguesa e brasileira não são críticas,
particularmente no tocante as liberdades e garantias individuais; a tolerância com as mi-
norias; a garantia do contraditório; o funcionamento de um sistema regular de eletividade,
como mínima competitividade; imprensa livre e judiciários autônomos, em que pese os
percalços no judiciário brasileiro. Há efetividade, uma existência fática nesses termos.
No entanto, nas democracias sempre existem riscos. Sem riscos não é democracia.
Os seus detratores da democracia na Antiguidade já apontavam que seu maior bem é seu
184 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

maior perigo: a Liberdade.


Questão campo-cidade: A complexidade
das dinâmicas urbana e rural
no município de São Luís–MA

Igor Breno Barbosa de Sousa


Discente do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Socioespacial
e Regional (PPDSR) da Universidade Estadual do Maranhão
Jéssica Neves Mendes
Discente do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Socioespacial
e Regional (PPDSR) da Universidade Estadual do Maranhão
Ronaldo Barros Sodré
Professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal
do Maranhão e discente do Programa de Pós-Graduação em Geografia
da Universidade Federal do Pará
José Sampaio de Mattos Júnior
Professor dos Programas de Pós-Graduação em Geografia (PPGEO)
e em Desenvolvimento Socioespacial e Regional (PPDSR) da
Universidade Estadual do Maranhão

185 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


Itaan de Jesus Pastor Santos
Professor do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Socioespacial
e Regional (PPDSR) Universidade Estadual do Maranhão

Introdução

A cidade e o campo nos mostraram (e ainda mostram) diversas formas de relações


convividas entre estes dois ambientes em diversos períodos e localidades na história da
humanidade. Partindo disto, estas relações intensificaram-se ao longo dos séculos, princi-
palmente, por conta da influente participação do capitalismo, mas isto não nos faz subsidiar
inteiramente nosso entendimento das morfologias espaciais do campo e da cidade.
Destacar parâmetros ideais de categorização da cidade e do campo não faz parte das nossas
intenções, uma vez que a complexidade deste tema não pode ser apenas resumida ao fator da
urbanização enquanto estigma da cidade como progresso e o campo como atraso. Entender
o rural e o urbano atualmente, traz a possibilidade de discutir ou de comparar os tempos
da história, onde essas relações podem se apresentar conflituosas ou de complementaridade.
O fato em questão é de ressaltarmos que esse entendimento não pode negar a existência
das divisões sociais e territoriais do trabalho, ou seja, diferenciar por apenas diferenciar a
área urbana da área rural por princípios de concentração demográfica, é uma questão em
pauta a nível de Brasil. Assim, o atributo da concentração demográfica não representa
uma possível solução para a distinção do campo e da cidade pois, esta dificuldade de dis-
tinção morfológica, é resultado de condições das formas de produção territorial da cidade
admitindo o modo de atuação capitalista de produção (SPOSITO, 2006).
Com isto, o Brasil, ao nosso modo de percepção, parece ir em direção contrária à busca
de critérios específicos que defina as áreas urbanas e as áreas rurais. A crítica em questão,
está centrada no país dispor de uma vasta extensão territorial e utilizar apenas a divisão
administrativa como marco divisor da cidade e do campo, a consequência disto é refletida
a partir do direcionamento das políticas de planejamento elaboradas no âmbito federal,
estadual e municipal.
Assim, utilizar da concentração demográfica como elemento de dinâmica espacial no
Maranhão e em São Luís nos motiva a buscar o entendimento das espacializações da popu-
lação rural e urbana no município. As relações campo-cidade, nesse estado, nos mostram o
quão as políticas públicas podem influenciar na dinâmica populacional, ou seja, resgatar o
186 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

cenário rural superior historicamente e nos últimos 20 anos observar o quantitativo popu-
lacional urbano superior, nos remonta a relacionar as políticas destinadas a mecanização da
agricultura e a abertura do eixo rodoferroviário como fatores propulsores a esta migração.
No que se refere a São Luís, presenciamos a dinâmica um pouco diferente pois, a cidade
sempre concentrou o maior quantitativo populacional urbano do estado, historicamente,
por ser a capital e concentrar as decisões de poder para o restante do estado. Embora, a di-
minuição significativa do quantitativo populacional rural no município, outrora superior,
nos chama a atenção para o seguinte problema: quais os fatores da diminuição da zona
rural de São Luís perante à expansão da área urbana?
Assim, nos motiva estabelecer o objetivo desse artigo centrado em analisar os fatores
da diminuição da zona rural de São Luís. E para alcançar o objetivo proposto, construí-
mos o artigo a partir do método Materialismo Histórico e Dialético pois, entendemos que
nessas apresentações complexas das relações campo-cidade permeia-se as contradições do
capital para a aplicação do sistema capitalista e como este pode influenciar o urbano, onde
o capital é originário, e o rural, onde o capital se destina, ou seja, nestes dois ambientes
o modo de produção passa a ser elemento principal para entendermos esta dinâmica por
meio da divisão social e territorial do trabalho.
Ademais, concentrar nossa pesquisa a partir desta percepção crítica nos faz ressaltar a
importância da discussão campo-cidade para o entendimento da dinâmica populacional
maranhense e em decorrência a ludovicense. Embora, não objetivamos nesta pesquisa esti-
pular o termo ideal como sendo campo-cidade ou cidade-campo pois, conformar o campo
ou a cidade como elemento de superioridade desta relação nos projetaria um caminho de
reflexão perigoso, e isto acabaria em uma percepção sem dimensionar a real importância
da transformação do urbano e do rural e como estes se correlacionam historicamente.
Para tanto, ponderamos nossas leituras acerca das relações cidade-campo em Endlich
(2006), Rosa e Ferreira (2006) e Veiga (2001), além disso, para o entendimento das di-
nâmicas populacional do recorte espacial maranhense, especialmente São Luís, utilizamos
nossas reflexões a partir de Ferreira (2008; 2017) e Mesquita (2011; 2018). Além disso,
as confecções dos mapas e gráficos estão conformadas nas bases de dados histórica do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) destacando-se os relatórios técnicos
da urbanização e do projeto das regiões rurais publicadas em 2015; além do relatório técni-
co da caracterização de áreas urbanas e rurais publicado em 2017 e o acesso às informações
populacionais provindas das séries históricas e estatísticas do instituto.
Com isto, a coleta de informações e o seu refinamento possibilitou a confecção dos
mapas construídos a partir do software de Sistema de Informações Geográficas, o QGIS,
e assim nos permitiu demonstrar de forma dinâmica os temas representados, bem como
a representação espacial do município de São Luís. Logo, a construção e o adequação das

187 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


informações ao tema proposto nos permitiu analisar de forma crítica.

As reflexões em torno das relações campo-cidade

Ao longo das construções das cidades desde a Antiguidade, ressaltamos que a divisão
socioespacial do trabalho influencia diretamente nas construções dos ambientes urbano e
rural. Assim, estabelecer os limites físicos entre a cidade e o campo não nos parece uma tarefa
das mais fáceis, tendo em vista que permeia por esta discussão, historicamente, a urbanização.
Nessa perspectiva, ressaltamos que conforme Endlich (2006) a divisão do trabalho e as
divisões de classes determinam no contexto civilizacional o processo de urbanização, isto
nos permite refletirmos de forma temporal a construção das grandes cidades proporcionada
pelas diversas formas de produção em períodos diferentes pois, segundo Silva (2006):
O processo histórico de urbanização revela que as cidades, que surgiram a mais
de 5.000 anos, seguem a orientação do modo de produção ao qual estão vinculadas,
pelos processos que anteriormente descrevemos. As cidades da Antiguidade, tanto
orientais quanto as clássicas, possuíam lógicas que eram oriundas das sociedades es-
cravistas com uma considerável concentração de poder, socialmente e espacialmente
(SILVA, 2006, p. 73).

Trazendo essa ponderação partindo das sociedades clássicas e orientais, estendemos


nossa percepção de urbanização tendo o contexto da queda do império romano através das
invasões bárbaras, onde detalha um processo de transição para a civilização. Deslocando-se
ainda mais para períodos antigos, as escavações arqueológicas apontam para a existências
de cidades mais antigas, onde foram as primeiras formações urbanas.
Para tanto, o desenvolvimento da humanidade e as diferentes configurações de
sociedade revelam que a dinâmica de grandes cidades antigas respeitava a lógica de pro-
dução e reprodução, mas que grande parte destas cidades perderam importância por
diversos motivos específicos de cada localidade, tendo como principal fator a não adequa-
ção às novas dinâmicas de produção da humanidade. Quando nos remontamos às novas
lógicas de reprodução, temos por ponto principal a Revolução Industrial e a crescente
complexidade da divisão do trabalho, conforme Silva (2006):
Nas cidades, o modo de produção encontrou o melhor lugar para a sua
realização, sendo que estas apresentaram crescimento muito acelerado, sendo o des-
tino dos novos desapropriados do campo, que passaram a vender a força de trabalho
nas indústrias (SILVA, 2006, p. 74).
188 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

É neste sentido que se acentua a taxa de urbanização nos países europeus a partir,
principalmente, das estradas de ferro e dos precoces parques industriais. Apesar desta ace-
leração na urbanização, esta difere da urbanização vivida nos períodos da Antiguidade,
Idade Média e Renascentista. Ademais, é importante evidenciar o capitalismo como parte
integrante do processo desta aceleração da urbanização pois, apesar do capitalismo não
ser criado pelo espaço urbano, este proporcionou (ainda proporciona) a produção e a
reprodução do capital (ENDLICH, 2006).
Essa relação próxima entre o sistema capitalista1 e a urbanização, nos permite pensar
na configuração territorial do rural, uma vez que a partir do duplo processo de industria-
lização/urbanização e permeando neste encadeamento o motor do capitalismo, o capital,
verificou-se o crescimento populacional decorrente desta explosão/implosão da cidade
1
A partir das reflexões acerca da origem, estrutura e atuação do sistema capitalista; Karl Marx em sua obra
“O Capital” destaca a sociedade capitalista como estrutura econômica provinda da sociedade feudal, assim,
a dissolução do feudalismo possibilitou ao capitalismo, a expropriação da base fundiária do produtor rural,
este que forma a base de todo o processo, ou seja, a servidão do trabalhador é o ponto de partida do desen-
volvimento do capitalismo (MARX, 1984).
(ENDLICH, 2006). Dessa forma, pensar na cidade e no campo a partir de fatores cate-
góricos pode nos levar a um pensamento limitado e estático, tendo em vista que tempos
atrás, as cidades medievais expressavam distintamente tanto a cidade (castelos e muros) e
o campo (local distante e destinado à produção agrícola).
Diferentemente daquela realidade, atualmente, pensar em cidade nos proporciona
associações quase automáticas conforme afirma Bernardelli (2006, p. 33) “primeiramente vem
a ideia de uma parcela concreta do espaço, passível de ser delimitada, na maior parte dos
casos, que apresenta uma estruturação e uma morfologia peculiares”. Embora, se refletirmos na
concepção do urbano, destacaremos a influência que este detém na relação cidade-campo, ou
melhor, o urbano extrapola a cidade a partir do momento que atinge o rural e isto é uma pers-
pectiva histórica nos períodos vividos pois, existe o domínio monetário, econômico, das for-
mas de produção e da divisão do trabalho partindo do ambiente urbano (ENDLICH, 2006).
Essa construção da superposição do urbano ao rural tem fundamentos históricos,
sendo possível destacar as reflexões de Henri Lefebvre em sua obra O direito à cidade,
onde podemos observar suas elucidações acerca da cidade partindo da premissa de con-
centrar o nascimento da filosofia, a capacidade de ter funções de organização, baseando-se
nos trabalhos intelectuais (separando-se do trabalho material) que são frutos de pesquisas
pluri ou multidisciplinares, ou seja, a elaboração do conhecimento possibilita a otimiza-
ção de informações e comunicações, atividades políticas, além das condições de moradia
fundamentando-se em um mercado que visa o lucro (LEFEBVRE, 2001).
Através destas considerações acerca da cidade, pensar o campo em um complemento
antagônico à cidade nos faria adjetivar ao campo uma vida pretérita. Assim, tratar o

189 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


campo como sendo um local superado cada vez mais materialmente e culturalmen-
te, não nos faria isentá-lo das contradições2 que permeiam o capitalismo (ENDLICH,
2006). Assim, esse pensamento um tanto quanto precipitado nos revela uma visão di-
cotômica entre o campo e a cidade (o rural e o urbano), mas que estes dois ambientes,
historicamente, mudaram suas relações em diversos períodos em situações ora mais pa-
cíficas, ora mais profundamente conflitantes, independentemente da existência ou não
do cenário capitalista3.

2
Segundo Harvey (2016) o capital proporciona sete contradições fundamentais, onde o sistema capitalista
não funcionaria sem elas, podemos destacar: 1- o valor de uso e de troca; 2- o valor social do trabalho e sua
representação pelo dinheiro; 3- a propriedade privada e o Estado capitalista; 4- a apropriação privada e a
riqueza comum; 5- o capital e o trabalho; 6- capital como processo e como coisa; 7- a unidade contraditória
entre produção e realização; assim, estas contradições estão ligadas de tal maneira que é impossível modificar
substancialmente e muito menos abolir qualquer uma delas sem modificar ou abolir as outras.
3
As relações entre o campo e a cidade não foram/são homogêneas nos diversos lugares no mundo, como exem-
plos Lefebvre (2001) nos traz a feudalidade ocidental em que a cidade replica a ação da senhoria da terra, onde
a luta de classes se revela ora latente ora violenta; em contrapartida, na mesma época, a feudalidade islâmica
mostra uma cidade artesanal e comerciante sem haja qualquer possibilidade de uma luta de classes.
Entretanto, no Brasil, os estudos a partir da visão continuum se intensificam com as relações
capitalistas proporcionada pela modernização no campo brasileiro, onde as relações entre ci-
dade e o campo tornam-se mais estreitas pois, esta integração de forma a ser evidenciada pelas
articulações dos espaços e os fluxos de mercadorias e de pessoas passaram a ser cada mais fre-
quentes, particularmente a indústria e o trabalhador rural (ROSA; FERREIRA, 2006). Logo,
as constituições de visões e/ou expectativas proporcionadas pela reflexão do continuum nos faz
resgatar os tempos do Brasil colônia, onde possuíamos uma estrutura homogênea pertencente
ao rural e ao passar dos períodos as relações se invertem campo e cidade se invertem.
Desse modo, a predominância rural no Brasil colônia fomentou o surgimento das
cidades e estas com o crescimento populacional passaram a fomentar o meio rural muito
devido à industrialização, fazendo crescer a heterogeneidade social, cultural, econômica e
demográfica (ROSA; FERREIRA, 2006). Assim, demonstramos por meio do Gráfico 1 a
série histórica do Brasil compreendendo a população urbana e rural:

Figura 1. População urbana e rural no Brasil de 1950 a 2010


190 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Fonte: IBGE, 2017


Org.: MENDES, 2020

Para tanto, expressar apenas o quantitativo histórico do Brasil entre a população ur-
bana e rural e analisar os contextos políticos, econômicos, sociais e culturais pode nos
levar às distorções da realidade. É neste sentido que o José Eli da Veiga pondera em suas
reflexões contra os apontamentos das determinações das áreas urbanas e rurais executadas
pelo IBGE pois, parte-se da própria concepção de cidade formulada pelo Decreto-Lei 311,
de 1938 no Brasil, ou seja, conforme Veiga (2001, p. 1) “[...] transformou em cidades
todas as sedes municipais existentes, independentemente de suas características estruturais
e funcionais”.
A Divisão Administrativa é o principal e único critério para a definição de áreas rurais
e urbanas no Brasil, onde podemos observar no Mapa 1 abaixo quando se comparamos a
outros países no mundo.

Figura 2. Critérios Utilizados na definição de Áreas Rurais e Urbanas

Diferentemente da grande parte dos países demonstrados que utilizam o tamanho

191 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


da população como critério principal ou complementar para a definição de áreas rurais e
urbanas, o Brasil, como afirmado anteriormente, utiliza somente a Divisão Administrativa
igual a países como: Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, El Salvador, Equador,
Guatemala, Haiti e Paraguai. O fato a ser demonstrado, parte de o Brasil ser o único país
deste seleto grupo com dimensão territorial continental, ou seja, este critério é originado a
partir das elucidações de José Eli da Veiga quando questiona o Decreto-Lei 311, de 1938.
Apontar para o Brasil como um país estritamente urbano diante da demografia e da
estatística, torna-se muito simples diante de uma complexidade, tendo em vista que o modo
de produção e reprodução capitalista urbano deve ser compreendido diante da análise das
divisões social e territorial do trabalho, que por sua vez, necessita de uma análise multiescalar
para que se objetive entender os processos em suas totalidades (SILVA, 2006). Com isto, ob-
servar a aproximação espacial da urbanização adjacente ou pertencendo a uma região rural,
torna-se ainda mais complexo por contada das atividades capitalistas inseridas no campo por
meio da modernização da agricultura impulsionada, principalmente, pela Ditadura Militar.
São Luís: Urbano ou rural?

Ao passo que analisamos as relações campo-cidade a partir de uma visão nacional


comparando-se à complexidade desse tema, também vivida internacionalmente, é de suma
importância destacarmos o quadro de urbanização e da demografia do estado do Maranhão
e como este está correlacionado ou podemos dizer, influenciado pela centralidade do poder
de decisão exercida na capital do estado, São Luís (Figura 3).

Figura 3. Localização do município de São Luís - MA


192 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

Para tanto, a importância histórica do Maranhão em que exerceu e ainda exerce a partir
das características da economia maranhense formulada no modelo primário-exportador
mostra um estado ainda basicamente agrário. A modo de exemplificar, o censo de
1940 destacou o quantitativo de 1.235.169 habitantes distribuídos nos 65 municípios
maranhenses, onde 85% destes localizavam-se na zona rural (FERREIRA, 2017).
Assim, notar o Maranhão a partir do seu quantitativo populacional como sendo
rural, historicamente, e paralelo a isto conviver com um processo recente de urbaniza-
ção, decorre do papel importante do estado até os anos sessenta pois, a crise do capi-
talismo de 1930 muda o caráter agrário exportador para um urbano industrial no eixo
Sul-Sudeste. Enquanto isso, as áreas periféricas4 do capital, particularmente evidencia-
mos o Maranhão, fornece arroz aos centros urbanos a custos baixos e a produção deste
alimento, cresce robustamente até 1982 (MESQUITA, 2011).
A partir desses fatores, a mudança demográfica no estado do Maranhão representouse
tardia quando o comparamos em escala nacional. Entretanto, a capital São Luís possui
uma trajetória diferente da relação campo-cidade quando nos referimos ao quantitativo
populacional urbano e rural, vejamos a Figura 4 a seguir:

Figura 4. Série histórica da população urbana e rural ludovicense

Fonte: IBGE, 2017


Org.: MENDES, 2020

193 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


A cidade de São Luís concentra as principais atividades comerciais, devido possuir o
principal porto do estado, o Porto do Itaqui. É nessa perspectiva que destacamos o antigo
Programa Grande Carajás (PGC), como influente nesta dinâmica de transição demográ-
fica na capital São Luís pois, a reestruturação espacial, a demanda pela força de trabalho
e o deslocamento das pessoas resultaram como principal destino a zona rural de São Luís,
comprovando o aumento expressivo na década de 1980-1990.
Desse modo, São Luís permaneceu tendo um papel fundamental na definição da
organização do espaço maranhense por possuir prerrogativas de hierarquias de poder e de
atração do capital, tais como: função política, a condição portuária, a recepção do eixo ro-
doferroviário, concentração de prestação de bens e serviços e a atração demográfica, como
mencionada anteriormente (FERREIRA, 2017).
4
Quando nos remetemos as áreas periféricas do capital, destacamos a Amazônia e o Nordeste como áreas pro-
pícias à entrada do capitalismo no campo, desmatando e se apropriando ilegitimamente de terras públicas,
onde resulta na expropriação de minorias invisíveis ao Estado como quilombolas, extrativistas, pequenos
agricultores e pescadores (MESQUITA, 2018).
Para tanto, a zona rural de São Luís é constituída de diretrizes5 que a delimita e a separa
do urbano, conforme o artigo 14 disposto dos incisos I a VIII do Plano Diretor de 2006:
I– Implantação, ampliação, modernização de infraestruturas necessárias ao
fortalecimento das atividades produtivas potenciais da zona rural; II– execução de
um programa de regularização fundiária; III– desempenho de uma política educa-
cional voltada para a realidade rural; IV– integralização com a política regional de
desenvolvimento rural sustentável; V– definição e ordenamento do uso e ocupação
do solo rural; VI– ampliação da base econômica do Município através da diversifica-
ção da produção, ampliação da oferta de crédito especializado e oferta de produtos
com valor agregado aos consumidores; VII– implantação de uma política integrada
de pesquisa, assistência técnica e extensão rural; VIII– elaboração de uma lei que
disciplinará a política rural estabelecendo ações e instrumentos relativos às atividades
produtivas potenciais da zona rural. (SÃO LUÍS, 2006, p. 78).

É fato que essas ações compõem o documento formal para a caracterização da zona
rural do município, além disso, corrobora para esta caracterização o artigo 15 do Plano
Diretor, quando se destina as atividades passíveis de serem executadas no solo rural, tais
como: a exploração de atividade agropecuária, aquicultura, agroindustrial e turismo rural
(SÃO LUÍS, 2006). Diante disso, a conformação da cidade através dos Planos Diretores,
abre a possibilidade de se admitir a inserção de reinvindicações sociais, de movimentos
populares urbanos e/ou rurais, mas apresenta também o ônus que faz frente a essas con-
quistas, esse ônus representa também a conquista (se é que possamos falar assim) dos
194 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

interesses capitalistas, claramente, possui a barganha de beneficiar ao Estado capitalista.


Ainda que o fato a ser colocado seja a diminuição do quantitativo populacional rural
de São Luís, essa dinâmica socioespacial é propiciada pela forma de atração de grandes
investimentos, mas também pelas redefinições da zona urbana e rural. Tendo em vista
que, a cada novo Plano Diretor, cada vez mais o limite legal da zona rural é comprimido
e cede espaço para o urbano, seja representada pelo mercado imobiliário de condomínios
residenciais verticalizados ou horizontalizados, seja pela expansão do Porto do Itaqui ou na
eminência do Porto São Luís. A fim de ilustrar, nos permitimos evidenciar a Figura 5 que
representa o Plano Diretor de 2006 e a nova proposta de 2019, vejamos:

5
Conforme previsto no Plano Diretor de São Luís, as diretrizes da política rural estão previstas no Capítulo
III, artigo 14, onde constituem o conjunto de instrumentos e orientações do desenvolvimento rural, através
da implementação de atividades produtivas, direito à saúde, ao saneamento básico, infraestrutura produtiva,
educação, trabalho, moradia digna, transporte coletivo, informação, lazer, ambiente saudável, segurança
púbica e a participação no planejamento de ações direcionadas à zona rural (SÃO LUÍS, 2006)
Figura 5. Planos Diretores de São Luís de 2006 e a nova proposta de 2019 – Rural e Urbano

Fonte: INCID, 2010; 2019


Org.:SOUSA, 2020

A partir da Figura 5, podemos extrair algumas informações complementares à


diminuição espacial da zona rural em São Luís. Primeiramente, consideramos para efeito

195 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


dos cálculos métricos apenas a área da unidade territorial de São Luís, segundo o IBGE
remete-se a 582,974km², assim, não levamos em consideração o corpo hídrico em volta
do município que também são de propriedade político administrativa de São Luís Dessa
forma, com o passar dos anos e perante as modificações socioespaciais ao que já discuti-
mos anteriormente, São Luís (até o presente momento) tem sua área rural conformada
em 208,339km² equivalente à 35,73% da unidade territorial e contrasta com uma área
urbana que se expande cada vez mais.
Em decorrência disso, as prospectivas acerca dessa possível atualização da legislação
destacamos uma margem de diminuição da zona rural variando entre 20% a 30% da unida-
de territorial e zona urbana podendo chegar a um total de 55% do município. Desse modo,
os valores se invertem cada vez mais ao passar do tempo mediante a atuação capitalista do
Estado, onde a zona rural chegava anos anteriores até 60% em meados de 1940 e 1950, no
futuro bem próximo já poderá contar com menos de 1/3 do território ludovicense.
Considerações finais

Em linhas gerais, reafirmamos a complexidade de se estabelecer as delimitações entre o rural


e o urbano, o campo e a cidade. Ainda ressaltando nossas reflexões anteriores, essa dada comple-
xidade não é de exclusividade do Brasil, mas é importante frisar em como os critérios utilizados,
atualmente, não conseguem dar uma premissa de solução para este entendimento e isto acarreta
na dificuldade de formulação das políticas de planejamento a nível federal, estadual e municipal.
Assim, as relações campo-cidade são permeadas pelo capitalismo e pelo seu modus
operandi, ou seja, ainda que discutimos o Brasil ser, em sua maior parte, urbano, é inegável que
não podemos mensurar a urbanidade e a ruralidade pela qualidade de vida e aquisição de bens
de consumo pois, voltaríamos a definir o urbano como desenvolvido e o rural como atrasado.
Nessa perspectiva, refletir sobre a dinâmica populacional e sua adjetivação entre urbana
e rural, nos faz pontuar o estado do Maranhão com caráter essencialmente rural com a
capital São Luís, historicamente, ter as tomadas de decisões, a centralidade do poder e
o complexo industrial e portuário. Então, resgatar a dinâmica populacional maranhense
como parte do processo de mecanização agrícola e da cientificização do ambiente rural
moldados em escala nacional, pode nos ajudar a explicar o aumento populacional da zona
urbana de São Luís pois, a migração das pessoas como forma de deslocamento da mão de
obra em direção à capital, fez-se aumentar a concentração nas áreas periféricas e isto, resulta
diretamente na diminuição da zona rural do município.
Por fim, essa afirmação não pode ser o processo de calcificação da diminuição da zona
196 //As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento

rural do município pois, isso nos faria isentar a participação do Estado por meio do Plano
Diretor municipal. ainda que se assegure esta delimitação, a separação da cidade e do campo
não se dá por limites dos bairros (urbano) e das áreas de produção de povoados ou comuni-
dades (rural), ou seja, o direcionamento das políticas da zona rural torna-se ínfima perante
à própria caracterização do ambiente rural do município estabelecido formalmente.

Referências

BERNARDELLI, Maria Lúcia Falconi da Hora. Contribuição ao debate sobre o urbano e o rural. In:
SPOSITO, Maria Encarnação Beltrão; WHITACKER, Arthur Magon. CIDADE E CAMPO:
Relações e contradições entre urbano e rural. São Paulo: Expressão Popular, 2006. Cap. 2. p. 33-52.
ENDLICH, Ângela Maria. Perspectivas sobre o urbano e o rural. In: SPOSITO, Maria Encarnação
Beltrão; WHITACKER, Arthur Magon. CIDADE E CAMPO: Relações e contradições entre
urbano e rural. São Paulo: Expressão Popular, 2006. Cap. 1. p. 11-31.
FERREIRA, Antônio José de Araújo. A REESTRUTURAÇÃO URBANA
MARANHENSE: Dinâmica e perspectivas. São Luís: Edufma, 2017. 172 p.
HARVEY, David. 17 contradições e o fim do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2016. 297 p.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Séries históricas e estatísticas.
Disponível em: < https://seriesestatisticas.ibge.gov.br/lista_tema.aspx?op=0&no=10> Acesso
em: 16 de jan. de 2020.
INSTITUTO DA CIDADE, PESQUISA E PLANEJAMENTO URBANO E RURAL. Plano
Diretor – Propostas das audiências de 2019. Disponível em: <https://www.agenciasaoluis.com.
br/site/legislacao-urbanistica-saoluis/2762>. Acesso em: 28 de jul. 2019.
LEFEBVRE, Henri. O Direito à Cidade. 5. ed. São Paulo: Centauro, 2001. 141 p.
MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. Tradução de Florestan Fernandes. São
Paulo: Expressão Popular, 2008.
A assim Chamada Acumulação Primitiva. In: MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política.
São Paulo: Abril Cultural, 1984. Cap. 24. p. 263-294.
MESQUITA, Benjamin Alvino de. NOTAS SOBRE A DINÂMICA ECONÔMICA
RECENTE EM ÁREA PERIFÉRICA: As mudanças na estrutura produtiva do Maranhão.
In: I CIRCUITO DE DEBATES ACADÊMICOS DAS CIÊNCIAS HUMANAS / II
CONFERÊNCIA DO DESENVOLVIMENTO, 2011, Brasília. Anais do Circuito de Debates
Acadêmicos programa e resumos. Brasília: Ipea, 2012. v. 1, p. 1 - 15. Disponível em: <http://www.
ipea.gov.br/code2011/chamada2011/pdf/area4/area4-artigo33.pdf>. Acesso em: 11 dez. 2018.
A EXPANSÃO DA FRONTEIRA AGRÍCOLA NUM CENÁRIO DE GLOBALIZAÇÃO
DA AGRICULTURA. Revista de Políticas Públicas, São Luís, p.1080-1094, 16 maio 2018.
Disponível em: <http://www.periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/rppublica/article/
download/9835/5789 >. Acesso em: 11 dez. 2018
ROSA, Lucelina Rossetti; FERREIRA, Darlene Aparecida de Oliveira. As categorias

197 // As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Cooperação e Desenvolvimento


rural, campo, cidade: a perspectiva de um continuum. In