Henrique Segurado

Almocreve das Palavras

© Henrique Segurado e Rui Sanches Edição organizada por Joana Morais Varela Composição de Vasco Rosa Revisão de Luis Manuel Gaspar Fotografia do Autor por Raul Neves Lourenço Impressão e acabamento de Guide – Artes Gráficas isbn: 1234567890 Depósito legal: 320 980/10

Henrique Segurado

Almocreve das Palavras
Poesia 1969-1989
Desenhos de Rui Sanches

lisboa, 2010

Henrique Segurado à porta da casa onde nasceu.

.Para a minha Filha Joana que se antecedeu à publicação deste livro que lhe pertence inteiramente… Com um beijo e a saudade do Pai.

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na sua obra. das mais pessoais dentro da geração de Cinquenta. já por uma exuberância imagística que frequentemente alterna com um pendor lapidar ou epigramático. que constitui um dos seus temas constantes.A voz de Henrique Segurado. uma nítida preferência pelos metros tradicionais. Além do amor. nos tempos do salazarismo. no entanto. variadas composições que devem considerar-se como das mais nobremente marcadas por um desassombrado espírito de protesto e de resistência. de originalidade não menos surpreendente. manifesta-se. voluntariamente discreta pelas longos intervalos que têm caracterizado o aparecimento das suas obras. muito em especial pela redondilha — tanto pela do romanceiro como pela das «profecias» do Bandarra —. já por um sentido muito agudo do aproveitamento da tradição em termos de modernidade. Quanto à forma. é sobretudo uma interpretação crítico-lírica da sociedade e da história portuguesas o que mais amiúde o empolga. tendo sabido conferir a uma e outra o halo renovador de uma perspectiva actualizante. David Mourão-Ferreira . havendo escrito. é. e embora utilizando não raro o verso livre.

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Julho Há entulho Onde outrora havia areia Vem Agosto Cheira a mosto Já Setembro s’incendeia. Entra Março E disfarço os percalços de Fevereiro. Resta Outubro E descubro Um Outono que chegou… Cai Novembro Vem Dezembro Mal o ano começou! Lisboa. Junho.Calendário Nem me lembro De Dezembro E chegamos a Janeiro. 8 de Novembro de 1969 11 . Flores de Abril Num fuzil Devolvendo a Primavera… Chega Maio Mês lacaio Do trovão que não se espera.

Em qualquer ponto da quina Sem ter lugar definido. 6 de Maio de 1970 12 . Tanta coisa se passou Sem eu ter que perceber. Eu tinha um dois no bivaque E camisa de azevinho. Das coisas sem importância Que se passaram comigo. Sem perceber o sentido — É por isso que se canta — Lá fui de braço estendido Libertar a «Terra Santa»! Era caqui amarelo A minha calça subida E fiz parte dum «castelo» Que desfilou na Avenida. Onde está quem me fardou P’ra hoje me responder? Eu tinha um dois no bivaque E camisa de azevinho. Andavam mouros a saque No país nosso vizinho… Lisboa. O corpo reconhecido Se gritavam: «à vontade!» Nestas escavações d’infância Que testemunhos consigo. Fiz por cumprir minha sina: Soldado desconhecido… Havia um S no cinto Uma espécie de serpente Era dum vulto indistinto Que mandava em toda a gente! Se ordenavam: «sentido!» Morria toda a cidade.Mergulho no Passado Andavam mouros a saque No país nosso vizinho.

Rasgasse bem as nascentes Nesses rios que somos nós. 5 de Novembro de 1970 13 . Mas que fora de calar Que cortasse a própria faca Em que me quero cortar! Lisboa.Faca Cortasse o vento que invade Este quadro secular Que teimam chamar cidade Por ser tudo tão vulgar… Que cortasse o coração — Onde teimas estar presente — Esse «Diário-Razão» Da nossa conta-corrente. Grande coutada da morte Em que nós somos a caça. Retalhasse num só corte O sono que é só mordaça. Uns dos outros afluentes Vendo o fim na mesma foz! Cortasse o que se destaca.

Também de noite os rios correm inteiros. sem pontos finais. Por não ter aceite a desproporção Entre Tempo e tempo de quem vai morrer! Lisboa. fazem ninhos nos tinteiros. Não quero o tempo de quem vai morrer. 10 de Dezembro de 1970 14 . No muro que somos — sem o perceber! — A morte afixa os seus editais. Não quero o tempo de quem vai morrer. Mas voam se as soubermos escrever. Em letra corrida.Também de noite Os Rios Correm Inteiros Palavras. No tronco dos dias gravo um coração Que depois de mim inda irá bater.

20 de Janeiro de 1972 15 . Só eu sei. que se lavra Que o povo quer depois distribuída. Tão rente ao Guadiana. Pela dama que queremos ofendida. Não me fales assim de Calatrava. Não me fales assim de Calatrava Que a História já deixou desguarnecida. Não me fales assim de Calatrava: Os sarracenos foram de partida. adormecida. Lisboa. É pondo palavra sobre palavra Que temos a poesia construída. A poesia é luta que se trava. Não me fales assim de Calatrava Que à lança moldou gente convertida. canção. É um poema terra. que te encontrava No meio desta noite.Calatrava Poema feito duma só palavra Talvez dê a ideia pretendida. definida: Mas não me fales mais de Calatrava Que o Tempo tudo muda de medida.

12 de Maio de 1972 16 . Vão-se as águas sem canção E nós vamos na corrente… Lisboa. É um rio subterrâneo (À vista só se pressente) Num reino subcutâneo Da nossa estátua jacente… Vão-se os seixos da razão. Escava um leito impenetrável Fechado à navegação. Riscando a face do espelho Que nem o sol de Verão Consegue pôr mais vermelho! Em perpétua confusão Mistura a foz na nascente.Vão-se As Águas sem Canção Grande rio: o coração A morte por afluente… Vão-se as águas sem canção Se nós vamos na corrente. Longamente navegável P’las barcas da sugestão.

És impenetrável Assim és exacta. És rio e riacho. 2 de Janeiro de 1972 17 . Manto transbordável Mas tão natural Como indecifrável. Sendo tudo és nada. Não há quem te esculpa A forma mortiça. Derradeiro trunfo Dos desesperados. Graças e ofensas. Como submetes A nossa humildade E como repetes A tua vontade! Já ontem vieste Já hoje chegaste… O que nos disseste? Nada há que te gaste? És tão pontual. És um golpe baixo És morte adiada! Lisboa. Arco de triunfo Nos olhos fechados. És peso de culpa Assim és justiça! És o trigo e joio.Noite Surges maleável Mas depois compacta. És ponto de apoio De pontes suspensas.

16 de Setembro de 1973 18 .À Poesia É tanta a vez que em ti me reconheço Que és bem minha ascensão e minha queda Não fosse a alma a vida do avesso: Ou morte e vida. os cunhos da moeda… Pode a bala errar a trajectória Já foi crime o gatilho em movimento… Se te quero bem inteira na memória Porque te mato tanto em pensamento? De certo além da vida tu acenas… Assim não tenho medo de morrer. Por isso dia a dia me envenenas Na água que preciso de beber! Lisboa.

Na Morte da Avó Adelaide A minha última avó Morreu No dia em que o primeiro Homem Partiu para a Lua. 27 de Janeiro de 1973 19 . Qual dos dois teve razão Para deixar a Terra Neste dia? Lisboa.

É curva de circunferência Que se acaba de fechar… Linha curva. 30 de Janeiro de 1974 20 .Zero É número sem descendência Que não se pode contar. Um destino indecifrável. É a sede de distância Dalgum compasso indomável… Formato da nossa pele Onde o tempo não demora. intolerância. É apenas um anel: Nada por dentro e por fora… Lisboa.

É entre o não basta e o basta Que se limita a loucura. Uma espécie de rastilho Sem nunca se incendiar. A vontade de chorar Que passo p’ro outro dia… É punhal que me desbasta Sem me tirar a figura. Lisboa. É tão fácil de levar. Mas o choro não resolve O que em mim não tem motivo: Sou o mar que se devolve À onda que o traz cativo. 2 de Fevereiro de 1974 21 . Como uma bilha vazia.Ressaca Este soluço adiado É que me dá equilíbrio: É ter-me desencontrado No local do suicídio. Este sorriso é espartilho Que não me deixa chorar.

no entanto.À Maneira de Dom Dinis (Quer’eu en maneira de Proençal ) Quero eu em maneira provençal Cantar o que em silêncio foi ficando. Trento ou na Gasconha Tanta estrada na minha solidão! Ai! tanta Lua Nova que perdi Ao dedilhar nas cordas um afago… Se andava alguém comigo nem o vi: Tanto o pó na Estrada de Santiago! Quero-te em maneira provençal Na barbacã mais alta à minha espera… Tudo simples. 19 de Novembro de 1974 Quero-te em maneira provençal. Ou no correr mortal dalgum veado. medonho e natural Como Inverno ao morrer em Primavera! Lisboa. orvalhada. Jogral de corpo inteiro. amor. primeiro… — 22 . Corpo nu em frente dum ribeiro. Quero eu em maneira provença Lembrar a escuridão quando nasci. Morna voz de cantor medieval Que o fogo da fogueira foi queimando… Que medo que trazia a madrugada Ao chegar nas visitas do diabo: Numa gota de rosa. Apesar duma lua pontual No mesmo céu igual que conheci. sem vergonha Do que disser o bobo da canção… Em Compostela. Comendo o pouco pão do meu bornal — Fazendo.

Tanto defeito. Bebe licores Da luz do prado. Deus endeusado… Devora as rosas. Vende favores. Tem os centauros. Quási sem gado. As beladonas.Pã no Seu Tempo Deus dos pastores. Os laranjais. Os seus cabelos — Além de ideias — Formam novelos De centopeias. Barro cozido: A sua face… Deus terá sido Ou foi disfarce? Lisboa. Faunos no mato. Entre outras coisas: Sabe de mais… Come flores De esfomeado. Tem argonautas Nos aquários. Mas não tem pena Pois do seu peito Há sons de avena… Toca flautas Aos sagitários. Dos tempos áureos Das Amazonas. Vento que passa Cheira a lilases Mais à couraça Dos ananases. 27 de Novembro de 1974 23 . Lobos sangrentos: São no regato Vultos barrentos.

Mas as horas batem certas Tanto na paz. Não interessam descobertas: Só amo a terra que pises… E nos olhos dos profetas Leio tudo o que me dizes. No que dizes e desdizes Ou nas tuas mãos abertas De avalanches e deslizes… Não há fronteiras abertas Se deixa de haver países. No fundo de almofarizes E nos olhos dos profetas Nos segredos das raízes… Irão parir as provetas E vão secar as varizes Na memória das gavetas Ficam nossas cicatrizes. Amesterdão. Tão pouco nas violetas Ou nos frascos dos vernizes. 15 de Fevereiro de 1975 24 .Pastoral do Ano 2000 É nas grutas e nas gretas. Nas sombras mais inconcretas. como em crises… Não morre a cor nas paletas Nem nas penas das perdizes.

Pelas estradas reais: Olhos nas pedras do chão Se passam oficiais Só lhes fala a guarnição… Na caruma dos pinhais Tão verde desolação. Voz de mando ao batalhão. Recusa-se intimidade Às tropas aboletadas… Bandeira rasgada em franjas. Cabeça espetada em varas No prumo da rendição. 9 de Maio de 1975 25 . Inúteis como fanfarras A Guerra do Roussilhão. Lisboa. Mas o peso das espingardas Faz prender os pés ao chão… Guardam alguns uns retratos Ou cartas quási apagadas Que não merecem tais tratos Mas ficam amachucadas. Tão inúteis as fanfarras Da Guerra do Roussilhão. Na mão de alferes mais tensa E a Guerra das Laranjas Que nos levou Olivença. Parte o navio e as amarras Lembram no cais solidão. Sem agulhas de amizade: Só há camisas rasgadas.Na Guerra do Roussilhão Secam flores pelas jarras Como presos na prisão. Só te beijam os punhais Ó tropa de ocupação. Tenentes de belas fardas. Águia: só as tuas garras Afagam o coração… Tão inúteis as fanfarras Da Guerra do Roussilhão. Soldados com duas caras Sargentos sem coração.

O teu sorriso é um barco Que me leva às Descobertas… Cana verde.Cana Verde. Teu corpo é vela latina Se prendo o leme aos joelhos. Flauta suspensa no vento. 18 de Agosto de 1975 26 . É por este quási nada A razão por que morremos… Linha da vida és um arco Bem maior nas mãos abertas. cana verde Ai! canção desesperada: Quanto vento em nós se perde Sem uma vela enfunada! Balaia. Cana verde que te abates Nessa sombra de verdura. de Verdade Cana verde de verdade. Meus afagos calafates No teu barco de ternura. O corpo na puberdade: Vida nadando ao relento… Quando o vento se domina A calmia cria espelhos. Beber a água da chuva Sem esperar pelo degelo Tendo apenas os meus gestos A pentear-te o cabelo… O sangue é seiva encarnada Que às vezes corre de menos.

Sempre a mudar-se — Como um socalco A renovar-se. Tão amadores Mas tanto artista. 15 de Setembro de 1975 27 .Teatro Amador Nosso papel Mal decorado… A nossa pele O fato usado. Nisto pensar. Os projectores Ferem a vista. O pó de talco Os cobertores. Tudo o que conto Tem assistência… Será Deus ponto Cheio de paciência? Ou Satanás Junto à ribalta? (Tanto lhe faz Se a voz nos falta…) Se mais atento. Só oiço o vento A segredar… Estamos tão sós Que damos pena: Só corpo e voz A meio da cena Mal ensaiados Pelos sentidos. Nas sementeiras Equilibradas D’uvas inteiras Como pedradas! — Nosso cordão Umbilical Recordação Bem teatral: Ele é que move Pano de Ferro Que bem se ouve Em cada berro. Tão pateados E contraídos… Sobre este palco. Morrem no palco Como os actores… Ano mais ano Mal se começa: E cai o pano A meio da peça! Lisboa.

Sem destino. quem diria… A montanha escalavrada Na medonha ventania. Parece terra esmagada — Perfume de maresia — A areia estava queimada Pelo calor que fazia! Só na tua mão fechada A minha vida cabia.Mão Fechada A promessa apalavrada Quem diria. Mal sabia. mal sabia Que a palma não tinha nada Quando a tua mão abria. (Parece terra lavrada Esta espécie de poesia…) E depois um quási nada Réstia de maré vazia. Parede. aconchegada. 22 de Novembro de 1975 28 .

A morte avesso da vida (Que não se pode virar…) Deve ela assim ser vivida Como se respira o ar. Bispo Negro: xeque-mate Silêncio conventual… Tudo o que morre em combate É de morte natural. É o eco do combate De quem dispara primeiro. dói. Lisboa.Melaço Sem saber por quem se bate Não se pode ser guerreiro. Flor da morte: flor-da-murta Ao morrer o fim da tarde. Campo verde. Sem saber por quem se perde Não ganhamos a batalha. Sem saber por quem morremos Não sabemos a verdade. Sem saber por quem se bate Não se pode ser herói. Sem saber quem em nós manda Não podemos ser heróis. No combate combatemos Contra a nossa liberdade. 24 de Dezembro de 1975 29 . dão (dói. dói. dói…) Sem saber por quem se luta Não se pode ser cobarde. campo verde: Tua cor é de quem ganha. Tocam sinos a rebate! Dão. É a luz que nos comanda No rodar dos girassóis. dão. Coração boião de mel Melaço de solidão… O preço da nossa pele Tem tão baixa cotação.

Os danos sem dono. O ramo sem rama Aberto em flor. 12 de Janeiro de 1976 30 . Mas no suicídio Encontrei-os todos! Lisboa. Os passos verídicos Nas noites sem sono. E nadava em nada Com a boca aberta. Desconheço Ovídio. Prata amarelada: A praia deserta.Van Gogh Os passos dos pássaros. Os cantos dos cânticos Os laços dos Lázaros Na voz dos românticos… Os lírios dos líricos. A fome sem fama. Os Gregos os Godos. Fogo sem calor.

23 de Fevereiro de 1976 31 .Amor em Dia de Chuva O teu rosto sorridente — Mas chega a ser verdadeiro? — Que altura tem a vertente Na neve do travesseiro? O lençol será o leito Dum rio que está a encher No teu rosto satisfeito Por tanta água a correr? Também em água corrente — E quem sabe de verdade! — Não passa de afluente O meu corpo em liberdade. Só eu entendo o murmúrio Dos teus lábios que me falam De segredos do Dilúvio Onde as cidades se calam. É como a tarde inundasse O suor da minha pele Ou como o dia chorasse Por razões que não são dele. Rufando raiva ruídos Remoques dos regimentos Que afinal nem são ouvidos Quando há fuzilamentos. Tua boca sem mordaça Faz eco nos cobertores E lá fora na vidraça Há um rufar de tambores. Lisboa.

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Escavação .

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Amparando a nossa queda Quando chega a nossa hora. Desperdiçamos carícias E depois nos nossos restos Fica de tudo notícias… Mal se fazem escavações (Mare Nostrum.1 A caminho de Pompeia Água doce. Se a nossa vista se alarga: Vai morrer no infinito. Com o pão mal mastigado Pois o tempo é tão preciso… Somos bichos penteados Com fazendas sobre a pele. Água doce. Homens feitos de granito… Pompeia. Mas se estamos desnudados Nosso corpo sabe a mel. Tudo nos é limitado Neste nosso paraíso. Ferroadas e zumbidos Ai! tempestades de areia: As abelhas dos sentidos Fazem de nós a colmeia. Os dedos bichos de seda. Terra mole. 7 de Março de 1976 35 . duro granito. Terra Nostra!) Tão duras recordações Quando a vida fica à mostra! Os vulcões erguem o facho Desta nossa maldição. Se a nossa vista se alarga Vai morrer no infinito. amêndoa amarga. Afagando tudo em roda. De nós ficarmos por baixo Do que passa a ser o chão. Gastamos gostos e gestos. amêndoa amarga.

Pontes. barcaças. Lemes. Discretamente. Passam as gôndolas E o São Marcos Joga nas tômbolas: Todo o destino Dos condenados Que a pente fino Quer bem passados… Braços atados… Ao sol à chuva: Leões alados Leões sem juba… Frisos dourados. Dados lançados Pelo São Marcos: Venezianos. Ogivas. 10 de Março de 1976 36 . É rastejante Procura o mar Já é bastante Desaguar… Água em delírio E nada mais Cumpre o martírio Dos seus canais. Palácios. arcos.2 Ponte dos Suspiros Atrás os braços. Sobre os portais Alastra em pasta A Lua a mais Já muito gasta. Dão-se os avisos Aos demorados! Os indecisos São empurrados… A extrema-unção Como garrote Desce da mão Dum sacerdote. Passam os barcos. Pulsos torcidos… Mais os baraços Mais os gemidos. Sempre há quem corte Uma conversa Até na morte Nos pedem pressa… Um Sol servil E rendilhado Relembra Abril Ao condenado. Duram os anos De toda a gente… A nada foges: Tu não sabias Que nascem Doges Todos os dias? Veneza. Só não há dunas. Iluminando O corredor Que num momento Fica menor… Cobre a distância Com sombra amena — Como a infância É tão pequena… — Veneza em roda É uma serpente Não se incomoda Com esta gente. colunas. praças.

Cassiopeias… Entre canais e rochedos Nascem e morrem vidreiros. Pois guardam bem os segredos Como os antigos pedreiros. Madonas de Florença… Sopram também o Zodíaco. Centauros e centopeias. Com medulas de antimónio Cospem vidro dos pulmões! Veneza. Contra-luzes. Perfumes revolucionários E também cabeças de hidra Que afogam nos aquários. Têm cadeias nos pés Que o Tempo lhes soube atar E conhecem as marés Sem terem de ver o mar… Ajudantes do Demónio. clarões.3 Os Vidreiros de Murano Passeiam junto dos fornos Com medonha indiferença. Serpentes e serpentinas. Num fim de Mundo sereno. Vias-Lácteas. Bebem vidro todo o ano Pelas taças de veneno… Esculpem Virgens bizantinas. 11 de Março de 1976 37 . Têm vidraças partidas Pelo vento e pelas bombas E gaivotas confundidas Por entre bandos de pombas. A fauna de pesadelo. Declive demoníaco Nas costas dalgum camelo… Os vidreiros de Murano. Vasos de vinho e de cidra. Assopram patos e cornos.

12 de Março de 1976 38 .4 Rosa. os mesmos anos Na margem direita e esquerda? Nas cabeças dos romanos A pele é feita de pedra… Paris. Na patina das paredes. No chegar dos companheiros A quem se acendem fogueiras… Também nos cubos de gelo — Altares abaixo de zero — Ou nos anéis do cabelo Que partem dedos ao Nero… Nas lanças das Legiões Sobre escudos em viés Ou nos dentes dos leões Na cadência das galés… Os Tribunos da Plebe. Até nos Lobos-de-Alsácia Ou num silvo de sirene… Na base dos monumentos. Rosæ… Nas hortênsias. Imperadores convertidos. Tibre. Nas sombras da acetilene. Mais as lobas maternais Qu’emprestam calor ao reis… No passar dos legionários Ficou um mundo esmagado… No vapor dos balneários Fica o suor do Passado… Terás. numa acácia. Os cedros fazendo sebe Junto aos arcos abatidos… No pó das estradas reais As pegadas fazem leis. Ou nas velas sem os ventos Que se misturam nas redes… Nas folhas dos castanheiros Ou na lixa das figueiras.

Somos os mágicos Das alquimias… Fazemos ouro Mais que parece Se o nosso choro Nos enriquece. Soluço. No fim do riso A gargalhada Sem um aviso Alienada. 16 de Março de 1976 39 . Sim: animais D’instinto casto: As catedrais São nosso rasto… Londres. O ferro em brasa Nosso brasão Dá-nos a casa A dimensão. Justificamos O nosso génio Pois respiramos Oxigénio. Tão sideral Siderurgia Calor total Parece dia… Somos os trágicos Das sinfonias. Deuses cativos. Monstros selvagens Omnipotentes: Que nas Barragens Estamos presentes. Anjos.5 Siderurgia Não te admires Das bruxarias E dos faquires E das magias… Os feiticeiros Vivem em nós Corpos inteiros: Dão-nos a voz. demónios Na invenção E nos binómios Da solução… Nos contrafortes E nas vertentes Depois das mortes Somos sementes… Os altos fornos São a moldura São os contornos Da nossa altura. A força atómica Por mais brutal Dá-nos a tónica Do natural. Dentro de bilhas Caem rios vivos Nas armadilhas… A matemática: O Livro Santo É nossa táctica É nosso encanto. o berro A progressão Queimado a ferro O coração.

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São trinta pedras Com que se arrasta. Trinta moedas Que nunca gasta. Como o Calvário E todo o resto… Quis um império? Nem pensou nele: Como actor sério Cumpre um papel! Pedro sentiu Que não fez tanto Também traiu Mas ficou santo… Contam-lhe os anjos Todos os passos E os arcanjos Fixam-lhe os traços. Trinta dinheiros Por capital.Judas Sem companheiros Vulto pascal. Passo inseguro. 29 de Maio de 1976 41 . Tão necessário Foi o seu gesto. Supliciado Noutra madeira Crucificado Numa figueira… Treze rebeldes Foram cear Havia neles Dois a matar… Lisboa. Um ar ausente. O seu futuro Só foi presente.

muitos países. Sete palmos de oceano Outro tanto de enseada Os navios a todo o pano E cheira a terra queimada… Os pés a pisarem uva As mãos sem guardarem nada… Tanta saudade de chuva E cheiro a terra molhada. os promontórios Nas carícias marinheiras Os maços de «Provisórios» Foram-se as marcas estrangeiras… Um país. caldo verde Com broa bem racionada… Mas meu País não se perde Tem largura duma estrada: Casa branca. vila verde Depois não fica mais nada… Balaia. Estes nervos sempre em franja A cabeça alvoriada E o Sol uma laranja Pela sede imaginada Feijão-frade. 11 de Outubro de 1976 42 . Sarracenos em salmoura Que tristeza que isto tem! Pão de quilo. Galinholas e perdizes As lagostas dos requintes… O que dizes e não dizes.Portugal 1976 Pão de quilo. Emigrantes e pedintes. O boato e os ouvintes… O que fora e não fora No vinho que sabe bem E mais Nossa Senhora Que dizem ser nossa Mãe. caldo verde Com broa bem desfiada. mais a canja E o sabor a limonada… Gestos densos e marmóreos E a força das pedreiras… Os cabos.

As alcovas. os hipocampos. Na cor de mel dos teus ombros Há escavações e ruínas Que conduzem aos assombros Das pontes florentinas… Porquê o cantar dos ralos Que perfura tudo em volta? E o combate dos galos Onde o sangue fica à solta? — Só o correr dos cavalos Não traz a morte por escolta… — Tudo são carnificinas É o mar o pregoeiro As sirenes são buzinas Que dão voz ao nevoeiro (Ou o silvo de oficinas Onde o Mundo cabe inteiro?) Os búzios nas neblinas São trabalho de pedreiro… E a noite a pôr de parte Qualquer sonho que nos dá… E se vida houver em Marte A morte também lá está? Solstício de Verão… As traições mais as sevícias.Solstício de Verão As algas. Mais os ouriços-do-mar. 14 de Agosto de 1976 43 . Os faróis dos pirilampos Que barcos estão a avisar? Solstício de Verão… O chicote da nortada… Os cinco dedos da mão Que conta querem errada? — Se nos pára o coração Os números não valem nada — Ai! as angústias nocturnas. as alfombras E os fornos e as furnas Onde o Sol aquece as sombras — Onde o Sol aquece o pão Que nenhuma boca come… Solstício de Verão A quem matas tu a fome? — Os rochedos lembram escombros E cidades bizantinas. Os cinco dedos da mão São chicotes nas carícias… João de Orens.

Memphis ou Tánis: Tanto medo sem tamanho! Ao tresmalhar-se o Boi Ápis Ruminou um mundo estranho! A morte é ponta do lápis Que faz o nosso desenho! Paris. As areias são as natas As raízes do mistério (E tiveste cataratas Por degraus do teu império!) Vale dos Reis. No teu sono milenário: Lavas nas águas do Nilo Esses teus sonhos de calcário? (Até puseste pirâmides Nas costas dos dromedários…) Sonhas pedras. Os chicotes são moedas Com que pagas o transporte… (Mas nem Karnak nem Tebas Mudaram a tua sorte!) A morte é outra colónia De desertos cirenaicos Com muros da Babilónia Em horizontes hebraicos. (Quando há sede em vez de cidra O Homem constrói um templo…) Tuas mãos aristocratas Roubam astros ao etéreo.Ramsés o Grande Areia. tão tranquilo. Mas tão feroz como a Hidra Que devora o próprio vento. sobre pedras Nesse teu medo da morte. 12 de Setembro de 1976 44 . água. medo da morte e de pedras quanto baste (Receita dum faraó) Ramsés. (A povoar tua insónia De papiros e mosaicos…) Na tua clepsidra Desagua o rio do tempo.

Como se a martelo e escopro Te gravasse nos vitrais! Se Deus nos deu a comida E o Diabo o condimento Do outro lado da vida Que nos serve de alimento? Lisboa.Amor-Perfeito Tanto amor semeia o vento Nos gestos que desenhaste. Outra receita profana Nos Pimentos da Jamaica. Almíscar. Âmbar Cinzento De Mástique quanto baste… Também pimenta esmagada E pedaços de Gengibre E depois em cada unhada Uma carícia de tigre… Nos restos da Damiana A pronúncia vem arcaica. Fica o coração dormente Nos rituais do Tomilho. 19 de Dezembro de 1976 45 . Só as Passas de Corinto Não servem na refeição De requintes de absinto E de sangue de dragão… Que almofariz é teu corpo Nos orgasmos infernais. Na explosão da semente O desejo é o rastilho.

E nas terras de Monforte Vejo marcas de silícios. As rochas não têm limos. 12 de Fevereiro de 1977 46 . Vila Nova de Foz Côa. No granito do teu manto Não há pedra que não doa! Em estrada transmontana. O céu parece mais baixo. Mas a terra é ondulada: Inda mal um monte vimos Vem outro na enxurrada… Só há socalcos e fragas. Enrosca o Douro em novelo. Nem do mar se ouve o choro Nem os montes são de sal. Trás-os-Montes. Tão longe do litoral. Aqui a noite é maior Quando comigo naufragas Nas marés do nosso amor. Nos caminhos quem resguarda É o medo que nos mura Até os anjos da guarda Têm medo desta altura… Alto Douro. Alto Douro. Senhora da Boa Morte Na beira dos precipícios… Nossa Senhora do Pranto. Lembra o mar quando está calmo (Quando parece um riacho Que não tenha mais de um palmo). Nem nos sonhos que me contes Há tão grande pesadelo.Trás-os-Montes Trás-os-Montes.

Ouvem-se os passos da ronda Nos relógios do presídio. No perfume a pedreneira Sonhamos a explosão. Madressilva. Nasce a manhã sem milagre. Como essa lima bastarda Que sonhamos na prisão.Ronda da Noite Trespassa o vento a mansarda Dizimando a escuridão. Pois a noite é sempre a mesma. E a chuva imita as vozes Dos que ficaram lá fora. Lisboa. rosmaninho. Como cresce a trepadeira Pelos muros da prisão! Grades e Lua redonda: Um convite ao suicídio. 27 de Maio de 1977 47 . Mais coisas indispensáveis: Catre com lençóis de linho E sonhos inconfessáveis. Pode nascer uma rosa Ou pode tecer a baba Uma aranha venenosa. No ponto onde a noite acaba. Ao entrar nos algerozes A garganta que a devora. rosmaninho Nas paredes da cadeia. Muda o vento de caminho Se sente vinhas na areia. Madressilva. No morrer das neblinas Que adensam a cerração Há limas de quatro quinas Que sonhamos na prisão. É a esponja de vinagre Que nos estendem na Quaresma.

O roçar terno De chama amiga Traz o Inverno Mais não obriga.Canção Estival Chove em Agosto Sol em Dezembro! Esse teu rosto Donde é que lembro? A Primavera É exigente. Amor de fera Condescendente. Esse teu rosto Donde o recordo? Lisboa. Só o Outono É o meio-termo. 7 de Julho de 1977 48 . Chove em Agosto Em água acordo. Sonho no sonho É casa em ermo.

Fazermos uma trincheira Nas grades duma pocilga E escalar a trepadeira Que espreguiça a madressilva. Fazermos das caniçadas Uma orquestra de flautas Cantando em noites estreladas Os hinos dos astronautas. Espiar os casinhotos À beira dos precipícios. Ouvir junto dos moinhos Que também o barro chora E nas Virgens dos Caminhos Não vermos Nossa Senhora. Subirmos aos campanários (Caça ao galo-catavento) Ou sermos os legionários No deserto. Julgarmos sempre a fronteira No outro lado do monte. Desfolhando os girassóis Com dedos feitos nortadas. Ver numa vaca leiteira Perfil de rinoceronte. Fumarmos barbas de milho E jogarmos à pedrada E fazermos um chinquilho Dos potes da marmelada… Tomar banho nas ribeiras Secando o corpo na roupa Ou inventar as maneiras De roubar colheres à sopa… Sujar as mãos nas amoras. em regimento. Os caçadores de cabeças… Peregrinos no Sinai… Reféns. Pisar o rabo das cobras Em que sonhamos serpentes. cativos dos persas… Fumando ópio em Xangai… 49 . Com a brancura dos ossos De quem se deixa afogar. Escalarmos as saibreiras Como afagássemos lixas. Escavarmos nas abóboras As feições mais repelentes. Decepar as sardinheiras E as caudas das lagartixas. Apanharmos caracóis Depois de grandes chuvadas. Amassar a terra mole Sem sabermos ver as horas Que há nos relógios de sol.Emilio Salgari Irmos aos charcos das rãs E armar à passarada Pelo fresco das manhãs Na pasteleira encarnada… Vermos no fundo dos poços O reverso do luar. Massacrar os gafanhotos Inimigos dos egípcios.

Sermos os peles-vermelhas Sem olhar à cor da pele… Ver azul de mitilene Ou oceano num charco E a Lua acitilene No tecto do nosso quarto. — Pormos penas no cabelo E com pinturas de guerra Montar as mulas em pêlo Que se espojam pela terra.Tornamos a passar rifas (Talvez a sorte aconteça) — E o «Filtro dos Califas» A martelar-me a cabeça! — Esconder nas medas de feno Os que são do nosso bando — Embalar desde pequeno Os sonhos do contrabando. 23 de Julho de 1977 50 . Sem temermos as abelhas Que vendem caro o seu mel. Tanta coisa ignorada Como não tendo importância… Ai! pasteleira encarnada No portão da nossa infância! Sagres.

Em contraluz Sem ilusões. 22 de Dezembro de 1977 51 . coentro P’la noite fora E manhã dentro. Canja. Os pratos novos: Velhas terrinas… O doce de ovos E as tangerinas. Quem aqui falta Hoje aqui esteve… O arroz doce Como emboscada. Ainda Pedro Não é traidor… O lume estala E espalha incensos. Enevoou-se Na madrugada.Véspera de Natal Doce de amora. Um mundo fala Nos olhos densos. Noite tão alta Tão ao de leve. Vê-se Jesus Entre ladrões… A névoa densa A neblina A casca imensa Da tangerina… Lisboa. Um cheiro a cedro Mais ao que for.

Que tinha o corpo manchado Pelo calor das Fogueiras… Do vento do Escorial Que sopra contra os vassalos… Mas no fim é tudo igual Quando há touros e cavalos! Das papoilas do Jarama Dos que não eram soldados. Santo Inácio. Os mouros que aqui andaram. Pela espada de Cervantes: Afinal o que encontraste Nas lições de Dom Quixote? Um povo. degolado. sem fronteiras. à martelada. Mas a terra de Picasso. eterno. contraste De carícias e chicote! Terra de santos e sábios E também de inquisidores Que há pouco cortavam lábios Aos franco-atiradores… De Besteiros e Machado. Tantas mulheres violaram Já ninguém fala em castigos… Nem só Lorca anda presente 52 . Homens desfeitas a masso.Espanha 1978 Quem estará do outro lado? Não é tudo como dantes? Sancho Pança. Por carrasco. Dos bravos do Guadarrama De Madrid dos sitiados… Não tem o sangue valor Quando é tempo de matar… O Destino é picador Que deixa um povo a sangrar! Do gume duma navalha Rasgas santos e talentos. Unamuno e Torquemada! De Cid o Campeador E da Santa Inquisição Que do sangue apaga a cor Pretextando a salvação… Santa Teresa de Jesus Odiando os sarracenos… No ferro em brasa da Cruz Conta o homem de menos! Ai! o inferno lendário Que lembra os Países Baixos: Duque de Alba sanguinário De armaduras e penachos… E o Cardeal de Toledo — Primaz de todas as Espanhas — Tem coração de rochedo Num Tejo de águas castanhas! As águias dos Pirenéus Teu retrato natural: Falta terra e sobram céus Ao seu orgulho ancestral. Tocando as notas de Falla Tens os rios e tens os ventos. Tendo cristãos por amigos.

Num meio-tempo que consente Pensar em paz. 21-22 de Maio de 1978 53 .No cessar-fogo de agora. muito embora. Ai! paella de palavras E momentos misturados! Madrid e Lisboa. As receitas do passado. Calatravas. Sol e sombra sem mais nada Prometendo alternativa E Castela descarnada É teu corpo em carne viva! Teu corpo rasgado em rios Procurando mares sangrentos… El Greco de corpos esguios Goya dos «Fuzilamentos»… Ferra novilhos e fincas Sob um sol que brilha a pino. O ouro roubado aos Incas Não dourou o teu destino… Liberdade é mal que assombra Loyolas petrificados… — Quem estará hoje na sombra A jogar por ti aos dados? Sopra o vento ou são aragens Na colheita prometida? Quem desdobra os personagens No palco da tua vida? Inquisidor alma negra Ou uma alma de promessa? Quem será o contra-regra Do acto que hoje começa? Guadaletes.

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Cassiopeia .

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1 Inferno Câmaras ardentes Promiscuidade: Mortos e viventes Em cumplicidade. Ficam como ausentes: Imobilidade — Embora presentes Quási em majestade. Tão surpreendentes Pela novidade: Os mortos recentes Não vendem saudade. Os sobreviventes — Em comunidade — São eles utentes Da fraternidade. — São estrelas cadentes Em velocidade: Estando quási ausentes E em proximidade… 57 .

Passa a bebedeira E regressa a vida Tão mais verdadeira Tão mais repetida… 58 .2 Purgatório O ferver dos ácidos Que Mundo corrói? Nos acordos tácitos Que Paz se destrói? Vinagre e azeite Os extremos se tocam. As plumas de enfeite Que aves evocam? O riscar do raio: Farol do trovão. Das chuvas de Maio Ao aluvião… Na força do vinho Vem a solução Abrindo um caminho Alheio à Razão.

Semi-apagadas Nas constelações… No leque do vento Que rosto se esconde? Tudo é movimento Ninguém nos responde! Balaia. No fundo do Espaço Que espaço é que sobra? No céu as pegadas São quási ilusões. É fundindo o aço Que o fogo se dobra.3 Céu Pelo firmamento Ninguém se passeia? Sem gradeamento Vê-se a Cassiopeia… Andar à deriva E ao deus-dará Onde a carne viva Jamais sangrará. 17 de Agosto de 1978 59 .

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Poder Secular .

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só. Nos anéis dos teus abraços E nas bocas que beijastes! Preso ao Tronco. Minha Bíblia esfarrapada.1 Camões Ó meu «Velho Testamento». Onde o dia não se sente. Encher de ar puro os pulmões Por vingança. da plebe. tão somente… Devorar a madrugada Quando a comida faltasse E perder-me. Aberta a todo o momento Deixando a noite sem nada! Repouso da minha insónia — Mais fofo que o fofo chão — Cativo na Babilónia. Em Babel e em Sião. Ah! refazer os teus passos Nas marcas que não deixastes. na estrada Onde só eu me encontrasse. (Nobreza que te sobrava) E sentir a tua febre Da paixão que te cegava. Ter um castigo maior Das penas que tu expiavas: Morrendo aos poucos de amor No ódio que transpiravas! 63 . Roçar a tua loucura Mas só tocada ao de leve. Deixar Leonor «bem segura» Num sempre que fosse breve… Sentir os duros porões.

7 de Setembro de 1979 64 .2 Fernando Pessoa Ó meu «Novo Testamento». Janela aberta onde arde A luz que a vista procura. Galope do pensamento. Trazendo um novo motivo Onde há pouco nada havia. Quando pelo fim da tarde Nenhuma estrada é segura. Entre o ser e o não ser Vai a ponte que se deita Entre as margens do morrer Ou da vida que se aceita. Sangue-frio do pensamento Tão evidente e confuso… Ó ritual primitivo. E a ponta da loucura… O granito do talento… A folha que se procura Entre as mil que tem o vento… A semente rejeitada Mas que vale uma seara. Campo aberto. Renovado dia a dia. Meu livro com tanto uso. tão vedado… O Eterno e o momento Mas tudo bem misturado! Paris. Como a Muralha da China Das palavras que te cercas Vê-se a Terra pequenina. A onda desenrolada E que na praia não pára! É no sonho que despertas.

A força das trepadeiras E o prumo das calçadas Na pólvora das caçadeiras… Medas de feno e de palha E quatro palmos de aveia. De liturgia profana. Mais aquilo que nos malha Nas ampulhetas de areia! E as ruas da cidade Num rigor tão pombalino Gemendo obscuridade De campo com sol a pino… Gafanhotos. De domingo celebrado Como um dia de semana! Será a missa cantada Que nos pode dar ideia Da cidade transformada? Numa ruela de aldeia? Empregado de balcão Em teus poemas confusos Crescem flores de latão De pregos e parafusos. em tão mau estado. 9 de Agosto de 1979 65 .3 Cesário Meu missal. escaravelhos E Lua branca de dia (A leitura de Evangelhos Dos ateus em romaria!) Perder-me nas tuas ruas De canastras e varinas De prédios e de charruas Buíças com carabinas… Só sentir à minha volta A vida à tua maneira: Um muro de pedra solta Num tapume de madeira! Paris. Choram noras? Vibram limas? Dobram os sinos mais estranhos? No rumor das tuas rimas De chocalhos e rebanhos… Mais a sombra das latadas.

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Tanto cresci Que transbordei Forcei entrada E reneguei-me.Certidão de Nascimento No fim do beco Havia um muro E madressilva. apodrecendo… No fim do beco O meu futuro Como um desenho Ia fazendo. 10 de Setembro de 1979 67 . Entrei na vida? Mas não vi nada… Saí de mim Desencontrei-me! Havia Praças? E mais cidade? Havia estrelas Constelações? Havia tudo Ou quási nada? No fim do beco Não há portões! Entrei na vida Pouco seguro Fruto maduro Tronco já seco… No fim do beco Havia um muro… Havia um muro No fim do beco! Paris. Quem lá entrava: Ou recuava Ou como eu ia crescendo.

Os bicos de lacre Mais os flamingos. Reis. Se escavarmos mais: Palácios e casas E lá mais no fundo: Cidades. Debaixo das tílias Mandam os instintos.«Post Scriptum» Por baixo das tílias Há sombras. Debaixo das tílias É sempre domingo! Lisboa. 22 de Setembro de 1978 68 . raízes. países. imperatrizes E formigas de asas… Debaixo das tílias Crescem os jacintos.

Por um pescoço Vai-se um cavalo P’ro matadouro… Competição Em contraluz De bom recorte E a geração Já não se vai Atrás do choro… Tão insensíveis A esta vida Como às apostas Nenhuma etapa mais Há que os desgaste. 3 de Novembro de 1978 69 . Meta volante? Vai-se a montanha? Não fica nada? Contra-relógio E qualquer meta Noutra cidade! Por uma roda Se perde a vida Se ganha a morte. Levam poemas. Sua conversa É de silêncio E sem respostas. (Então com este vento Pelas costas Não há meta volante Que lhes baste!) Lisboa. Não há pastores. Cadenciado. Não dão sequer Pela mudança Que há na paisagem… Não há rebanhos. Na algibeira. No macadame Escorregadio Da Eternidade. Mas ninguém pára O pelotão Não tem idade. Desconhecidos.Contra-Relógio O Nicolau Leva o Ruy Belo Na pasteleira… Vai pedalando. Pelas encostas E da Corrida Nenhum jornal Faz reportagem… Passa o comboio E a cancela já está fechada. Sem velocidade.

11 de Janeiro de 1979 70 . A quatro palmos do chão.Mina de Sal Meu Pai no grande silêncio O que ouve desta vez? Os cedros no meio do vento E quem sabe? o mar talvez… Se ele serve de semente. Meu Pai no grande silêncio Tanta coisa que me diz: Meu caule de pensamento O que foi minha raiz! Lisboa. Quem sabe lá se não sente O direito à criação… Mas não sente a Primavera — Equinócio pontual — É planta que não gera Canteiro em mina de sal.

Lisboa. 27 de Janeiro de 1979 71 . E de colheita em colheita Envelhece o tempo em cascos Como a cabeça direita Que não se verga aos carrascos. Como as águas em repouso E o Sol às vezes aquece… Entre o gesto e o movimento Tanta pausa que se esconde E às perguntas do vento Só a folhagem responde… Os cestos transbordam mosto E o mosto bebedeira. Se a morte tivesse rosto Eram as rugas videira… As cepas de enforcado Querem levar vinho ao céu. As águas formam riachos.Nível de Água Entre o que ouso e não ouso O medo se reconhece. Lagos. O Inverno ruinoso… Um Verão que nos aquece… Somos águas em repouso Na memória que nos esquece. Num gesto desesperado Duma raiz que cresceu. rios e oceanos E as uvas nos seus cachos Recebem nomes dos anos.

O bacalhau tem foral Para vir à nossa mesa. Um resto a cheiro de enxofre. A azeitona enlatada E a calda de tomate. O cabrito em vinha de alhos. Caldo verde muito quente Um fio de azeite espelhado… As vinhas arroxeadas. Posta fora de combate. Toalhas de Portugal Nas receitas de incerteza. Leite de creme queimado. Pão-de-ló. 15 de Fevereiro de 1979 72 .Cozido à Portuguesa Pão e mel mais aguardente. São Segismundo E fugimos nos atalhos Que nos despejam no Mundo. Nunca muda o remetente: A remessa de emigrantes Traz a morada da gente! Lisboa. São Pedro. Doce de ovos. Onde o escopro veste mantos Para o frio não ser de mais. pastel de nata. Os eternos inimigos: O espanhol roçando o mouro. É povo ou missa campal Esta gente em romaria Que transborda Portugal A cheirar a sacristia? Senhora dos Continentes. A fruta. amarelo. As amêndoas e os figos E também o cheiro a louro. cristalizada. Ameaça de chibata Ou protecção dum castelo. Somos os tais penitentes Sem caminho que emigramos… Fica tudo como dantes. As capelas bem caiadas São João e Santo Onofre… A pedra esculpindo santos Que nos abrem os portais. É dela que precisamos. Nas Senhoras dos Caminhos Até se benzem ladrões Quando por entre azevinhos A noite manda os trovões.

5 de Setembro de 1979 73 . Foram-se os reis Nos turbilhões E agora as leis São dos peões… Da cor das chamas Este castelo.Kremlin O chão em escamas: Peixe de gelo. Tem cor das chamas Este castelo… O mausoléu E São Basílio Longe do céu No seu exílio… Praça Vermelha Lua encarnada Como groselha Engarrafada. Longas muralhas Também sangrentas Como as navalhas E águas barrentas… Torres aos cantos Como em xadrez: Dão xeque aos santos Da cor da grés. O chão tem escamas Peixe de gelo… Moscovo.

Poente de saguão De suor todo alagado. 13 de Novembro de 1979 74 . A espingarda de pressão. Casino de ocasião Sem porteiro ou empregado. A furar o coração Dum presente recusado… Tiro seco: é frustração De assistente enregelado. Que guardamos do passado.Roleta Russa Nem sequer a explosão Só um tiro murmurado… É um espasmo de colchão No fim dum quarto alugado. Palpite de ocasião Por vezes mal apostado… Uma bala é um senão Dalgum baralho marcado… Todo o homem é um leão A fugir como um veado. Lisboa.

Derradeiro degrau dum sacrifício Mal pisado. logo feito em humidade. 17 de Junho de 1980 75 . inútil artifício De qualquer deus. gelando eternidade. Janela sob o céu da transparência Revelando a paisagem do opaco… Ara antiga. Gelando o sangue e linfa do deus Baco.Gelo É parede de vidro na aparência. Chorando por ninguém e toda a gente Num soluço que de morno é tão gelado. Lisboa. Ó lágrima de estátua jacente Na ameaça dum choro prolongado.

17 de Agosto de 1960 76 . Poeta de ocasião. A provar a indigência — Atestado de pobreza —. Talvez um escravo da rima Que recusa a alforria… Mais dócil que revoltado. Não recorre a pragmática. É um poeta emigrado Nos exílios da gramática. Não poeta por ciência Mas poeta por certeza.Auto-Retrato Poeta de circunstância. Subsolo e substância Da luz do seu saguão. A viver sem estratagemas: Dá um reino por um verso Troca o céu por uns poemas… Balaia. Passa as palavras à lima. Nos contornos da poesia. Não divide as orações E não sente o predicado Ao nascerem-lhe as canções Como vento libertado… Num canto do Universo.

Na saudade engarrafada. É quando o sangue goteja E a gente não dá por nada. É quando o soro goteja E é bebida mais gelada: Num desejo de cerveja. Um caroço de cereja Na garganta estrangulada… É quando o soro goteja Numa colheita estragada. É quando o soro goteja Na festa desenfreada: A cabeça na bandeja. A vida já não areja A morte calafetada.Visitas Proibidas É quando o soro goteja — Por uma fresta de nada — Quando a vida é uma narceja Que a morte quer derrubada. É quando o soro goteja E a pele fica inundada… É quando o soro goteja Pela mica embaciada: Quer se veja ou não se veja A janela está fechada. Vão-se os anéis a inveja E fica a noite abafada. Salomé embriagada… Lisboa. 7 de Novembro de 1980 77 .

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Integração do Átomo .

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ai! mundo aos pés Com estrelas ocultadas pela mão… Eu espero Barrabás na alternativa… Também o Muro das Lamentações… Em Meca. a devassa. Em deuses embrulhados como ofertas: Perante um cliente surdo-mudo Na loja que se fecha a horas certas. nas pedreneiras. no sal. nas negras feitiçarias. as confissões… Eu espero o medo que há em isto tudo. Interpreto o destino nas fogueiras. A vertente do Sermão da Montanha. Aguardo as 12 Tábuas de Moisés Por simples termo de comparação… Ai! Monte de Tabor. O pudor. 3 e 4 de Setembro de 1981 81 . No céu de Espanha e de França. Como se a vida fosse a passageira Clandestina duma barca a meio do céu. Nos gelos. Eu espero por um deus sem lugar certo Nas casas de xadrez feitas de lenha… Aguardo ainda o ramo de oliveira Que Noé um dia prometeu. No budismo. Na lâmina afiada dos meus dias. espero o sim e a negativa.1 Monte de Tabor Eu aguardo o jejum e o deserto.

no dormir: os rituais.2 Cassiopeia Não há limites. Sonhamos zeros. Paris. Sempre muitos no pudor. aonde estais? Já se contam os chineses pelos dedos! Sempre poucos nas nossas bacanais. No Espaço. Os astros são nossos ancestrais. No comer. Equações. Bem no fundo uns nobres animais A contarem os chineses pelos dedos. nos nossos medos. Linguagens siderais. Ó impérios. 7 de Setembro de 1981 82 . Binómios sem segredos. todos iguais Aos chineses que se contam pelos dedos. então de mais a mais: Que se contam os chineses pelos dedos… Rosa. rosæ dos Romanos. Água potável. Há que aceitar isto sem enredos — Se pensarmos. de outrora. que nunca são de mais E contam-se os chineses pelos dedos. o prumo dos rochedos. as vestais (A memória tem raiz dos arvoredos). afinal.

3 A Meia-Nau Não à vindima! Sim ao vinho! Não ao sangue! Sim à sangria! Não à estrada! Sim ao caminho! Não à manhã! Sim ao meio-dia! Sim: ao meio-termo. Às meias cores. Um quási eterno. Sim ao vinho! Não à colheita! Sim à sangria. Pensar nela um quanto baste. 19 de Setembro de 1981 83 . Meia vitória e meio ceptro. Como um corpo equilibrado. Meia nação já dominada… À meia-lua e ao meio metro De chaminé iluminada. À bandeira a meia-haste — A morte em nós recomendável —. Meio sorvo de água potável. Som dum tiro bem calibrado… Meia estação: sonhando Outono. Na lira aberta do coração! Lisboa. às meias tintas… Meias marés — sem marés bravas — Às meias frases. desfeita. Meio sonho a meio do sono. Meio-termo no calendário. Verão em nós dizendo Inverno. pouco distintas. meias palavras. ao sangue não! Sim à canção feita. Um quási nada. Almofadão feito calcário.

Nas galáxias da nossa ignorância Quem vem reconhecer nossa tristeza? A Eternidade é feita de minutos. Infinito sem zero não existe. Iguais e desiguais: desunião. O peixe é numerado pelas escamas Nas rotas que nos são ignoradas. tudo em novelo.4 Átomo O Espaço é todo feito de distância. A onda é o grito à liberdade. Em tubos de ensaio diminutos Fora do nosso ângulo de visão… Numerais. Riscando o nosso corpo de passagem… O que era a multidão sem ter anónimos Embrenhados na própria solidão? A vida é toda feita de binómios Tanta vez sem nenhuma solução! Lisboa. É todo o fogo feito pelas chamas Que se perdem em breve nas queimadas. 26 de Setembro de 1981 84 . O começo é semente à nossa imagem. incerteza. Tudo é feito de pequenos nadas Sem ninguém saber por que vontade. É lança levantada. De abismos. movimentos. bem em riste. O zero é melhor reconhecê-lo… Mas o 1 é o começo do milhão… O mar são gotas de água escravizadas. cardinais. Partículas do Tempo em suspensão.

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Tens olhos vasos Cheios de noite… Narina aberta Ao cheiro antigo… Morrem-te os sonhos Nos teus flancos E nos teus olhos Que são tão brancos. Peloponeso No teu olhar… Tudo coeso A transbordar. Tão bem tratado — Granito comes! — Ficas ferrado P’la pedra-pomes. Restos de mar. Sem picadeiro Ou outro meio Morres primeiro Que o teu volteio. Corres areias Pouco pisadas. Esvoaçam crinas Nas dianteiras… Fazes da Acrópole Um campo aberto Onde o teu trote Sonha o deserto. Éfeso. Cavalo grego Feito de tempo! Sede citrina… Dedos de Fedra Na tua crina Feita de pedra! Atenas. Terra esquecida Da alta escola. Contra os milénios É que tu corres. Nas tuas veias Adivinhadas… Potro selvagem Donde fugido? Tudo em voragem Tudo esculpido! Terra batida À tua roda. Em ti vibrando Golpe após golpe? Sombra ou vapor? Tal a brancura… O teu senhor Não te segura? Fez-te a martelo (Já não martela!) Montou-te em pêlo Ou pôs-te sela? Já não te empinas Sobre as traseiras. 18-24 de Setembro de 1981 87 . Quási sem peso No teu andar… Morres de fome Mas vale a pena Matar-te a fome Com um poema! Eu te segrego Eu te alimento. Cairo e Lisboa. Samos.Cavalo da Acrópole Cavalo branco Domado em pedra… As tuas rédeas São mãos de Fedra? Quem vai cortando O teu galope. Seca-te a boca De sede morres.

Tempo de Silêncio
Sinais dos tempos: um Tempo sem sinais. Sinais contrários dos tempos que se vão. Polindo as águas as faces dos cristais Nascem frases onde os silêncios estão. Os santos são em tudo naturais Com tempo todo feito de oração. Sinais contrários em tudo tão iguais, Deixa o rosário calos pela mão… Sinais dos tempos: um Tempo sem sinais. Deserto de Sinai. Insolação. Palavras pastoris nas pastorais, Ovelhas tresmalhadas, solidão… Conserva o céu as cores outonais Dos primeiros dias da Criação. Os deuses ao nascerem nos currais Renegam os palácios pr’a onde vão. Sinais dos tempos: um Tempo sem sinais, Ó sentido dos sinais tentado em vão! Ó silêncio das celas conventuais Com palavras servidas por ração!
Lisboa, 3 de Outubro de 1981

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Telex a Lech Walesa
Aqui no Ocidente sou de Esquerda Mas no Leste seria dissidente. A estátua lembra gente, lembra pedra, Mas lembra mais pedra do que gente. Porém aqui eu sou bem a meu modo, Enquanto lá gostava só de o ser… Aqui posso mostrar ao Mundo todo As coisas que se pensam ao escrever! Aqui no Ocidente sou de Esquerda E lá tinha de o ser mesmo sem querer… A vida não é estátua feita em pedra: Temos de usar a fala p’ra viver. Aqui quando a palavra não me ocorre Não é que precise de a esconder. O culto do silêncio é o que morre Na palavra impedida de nascer. Aqui no Ocidente sou de Esquerda Já o fui em silêncio sem dizer… Mas também o silêncio não se herda Como um dia em Abril eu pude ver…
Paris, 18 de Outubro de 1981

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Acordar em Hotel
O sal no saleiro. A água no poço. Inverno e Janeiro Que pequeno-almoço! Cheira a croissant, A jornal, a tinta… Laranja e maçã Como estão na quinta. Inverno em Janeiro, Verão em Agosto, O teu travesseiro Desenhou teu rosto… E os ovos quentes Ficam estilhaçados, Mastigam teus dentes Meus lábios sangrados! No espelho da porta: A cama revolta, Imagem que corta O mais que há em volta… É água na veiga, O correr do banho. O pão com manteiga Cabe no desenho. Teus seios abertos Não esconde o lençol São montes cobertos Pela sombra e sol. Sob os cobertores Teu corpo adivinho — Pelos corredores Que nos manda o vinho — Foi noite em claro, Feita de momentos. Agora, reparo Nos teus movimentos… Já tudo é Passado, É véspera distante… (Está o céu estrelado?) O Sol está brilhante? E quando o lá fora Não serve de centro: Todo o Mundo mora No que está cá dentro! O sal no saleiro. Migalhas de pão. Transborda Janeiro A recordação…
Lisboa, 1 de Janeiro de 1982

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Saudação a Enrico Berlinguer
São como amarras que soltas Em tudo o que em ti descubro, Não pára o Mundo nas voltas Já tão longe fica Outubro. Não pára o Tempo se é tempo É uma pedra arremessada Que vai à frente do vento Correndo a História à pedrada. Passaram as Primaveras, Já se renderam Outonos, Houve depois outras guerras Mudaram Pátrias de donos… Houve pegadas na Lua, Onde há outros oceanos O Inverno não recua E há outras folhas nos ramos. Viver é seguir em frente (Avião: foi Passarola…), Torna-se o mar bem diferente Em cada onda que enrola. Não é a vida das penumbras Que constrói os ideais: É sair das catacumbas E erguer as catedrais! É sair dentro do ovo E ser águia majestosa… Outro pingo de água novo Fará nascer outra rosa. Sai o Homem das cavernas A criar outro ambiente. Descobre a criança as pernas P’ra ter o nome de gente! Ninguém pára a evolução Natural do Universo. Outra voz: outra canção, Outro poeta: outro verso. Cada Maio cria um Junho: O Infinito por meta. Tudo passa o testemunho Nesta espécie de estafeta… Bastam estátuas por sinais! Ficam paradas na rua, Estátuas são pontos finais Na prosa que continua… Tu não paraste no Tempo Nem o tempo queres parado: O Futuro é movimento Que te desprende do Passado!
Constantinopla, 16 de Fevereiro de 1982

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Passagem de Nível sem Guarda
(Comboio de corda para a minha primeira neta…)

As minhas contradições Vivem dentro do meu peito. São a paz sem condições Dum exército desfeito. Via-férrea que motiva A agulha dos meus dias. A minha locomotiva Que me transporta as poesias. A velha composição Inda movida a vapor Que pára em qualquer estação, Num horário ao meu dispor… Cresce a erva nos carris Mas comboios em dois sentidos… Leva caixotes, barris Com mendigos escondidos. Leva homens do capital, Com suas pastas de couro… O comboio vê-se mal Nos topos do miradouro. É um rasgão na paisagem Como uma estrela cadente. Mal se antevê a viagem: Nada fica em nossa frente. Comboio de mercadorias Que leva tempo a passar Que só lembra almotolias No ranger do seu andar.

Comboio expresso ou correio, Tudo depende do jeito Do sacão que vem do meio Dos movimentos que aceito. É uma espécie de fantasma, Uiva na noite de breu. Leva bem sangue em plasma Que já gente socorreu. Vive de inutilidades Das coisas deitadas fora, Sem usar velocidades, Chega, porém, sempre à hora. Passa logo a ser Passado Quando da vista se escapa, Ramerrame mastigado Em lugares fora do mapa. As carruagens em fila Quando a jornada é propícia. Algum dia descarrila E o jornal nem dá notícia. As minhas contradições Seguem dentro do meu peito. É um correr de vagões Na ponte sem parapeito!
Lisboa, 13 de Março de 1982

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Nome Próprio Feminino

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não respondeste. 9 de Maio de 1982 95 . Quisera eu nadar onde nadaste Nas rochas onde o mar faz o recorte. Tanto te quero mostrar e nada vês. Quisera eu pisar o que pisaste. Quisera eu rimar onde rimaste.1 Camões Quisera eu cantar a tua sorte. Quisera eu morrer a tua morte. O pouco que te damos… Tanto deste Fizeste um Jau de cada português! Lisboa. Mas a bússola de hoje dá o Norte Das terras só do Sul por onde andaste. Quisera eu salvar o que salvaste Ao alcançar a praia mais distante… A China fica perto. Quisera perguntar. pois chegaste E tens a Terra toda por amante.

9 de Maio de 1982 96 . Dos versos nada vê e nada come… Redondilhas a fugir pela cidade… Nos becos infernais onde se some.2 Jau Quem ama o seu senhor não sente a fome. Um escravo só direito tem ao nome Como santo que morre em castidade. Lisboa. Por ele estende a mão à caridade. Mais além do seu vulto pouco cabe… Fica porém enorme no ossário — Jazigo imponente da escumalha — Bom ladrão? Mau pedinte? Bom corsário Da Armada Invencível da Canalha.

talvez… ou qualquer vulto Ou ventre que se beije numa alcova… Sorriso bem aberto e bem oculto Na promessa de noite e Lua Nova. Amor forjando amor já condenado! Lisboa. não interessa. ou qualquer nome. 9 de Maio de 1982 97 . se lhe apetece… Mariana é bem certo: lembra mar. Minguante. talvez pois o Luar Das sombras faz mulher. Mas Leonor fica em terra e na verdura. Partida onde a saudade já estremece.3 Natércia Natércia. Certeza dum regresso demorado… Mulher outra mulher e desventura. Pois basta ser mulher sem ser mais nada… Por vezes vem a Lua e não começa A noite que se pensa começada… Dinamene.

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São Paulo Sim! Outrora fui carrasco. os zelotas Que se cruzaram comigo! Nadei nos lagos sagrados. Atravessei sementeiras. 10 de Agosto de 1982 99 . Sem ter Terra Prometida. Vi Cristos apavorados No Monte das Oliveiras… Entre o sonho e a verdade Minha vida decorreu. Acabei tão indefeso Eu que mandava em soldados… Da Macedónia a Mileto Vai o passo dum mortal. O Mundo é só um coreto Em jardim descomunal. Escrevi cartas dando ideia Das coisas que só eu sinto… A minha filosofia: É a espada na bainha E depois é ver o dia. Balaia. Um soldado sem idade Dentro em mim adormeceu. Foi na Estrada de Damasco Que mudou a minha vida. Nas estradas da Galileia Ou nos montes de Corinto. Tanta gente decepada! Quis tudo à minha maneira: Transformei a minha espada Numa rama de oliveira. Levei a voz ao Éfeso E a muitos outros lados. As almas mais ignotas Em mim buscaram abrigo: Os Galatas. O dia que a noite tinha.

É a sombra das figueiras Rastejantes sem altura. 4 de Setembro de 1982 100 . É o ter direito ao chá Neste País cheio de sede. É a água que não há E o balançar duma rede. É o nylon e a fibra. É o dólar ou a libra A moeda mais corrente? Ainda se ouve falar O Português nalgum lado? (Ou é só a voz do mar A ruminar o passado?) A areia outrora tão alva Tem outra tonalidade. E o povo fica alterado Pelo chic das marinas… Corre álcool desnaturado Nas varizes das varinas! Paris. presente.Algarve 1982 É o figo mal passado Aguardente de medronho É o não estar acordado E não ter direito ao sonho. Só a gaivota se salva E não perde a majestade. As amêndoas verdadeiras Em toda a sua secura. Em vez da chita.

Convém ao convés Ventura de vento… Primo: a Primavera. os poços. Suor. O cedro e o ceptro. cutelos… Tem Rif reféns Castela: castelos… Estrada de Chaquen a Tetuã. Real realejo De notas notadas. Os fósseis os fossos As prosas prosaicas. Ralos ao relento. A sina dos sinos. Lâminas de luar. O Tempo tempera E come a comida… O rei e a regra. Riso o ritual Sempre mais ou menos: O fim é fatal Seremos serenos! Animo: animais! Seremos sumidos… E de mais a mais Vivemos vestidos… Olaias. A mão e o metro Como comprimento… A boca o bocejo Com continuidade. Largas levadiças A meio das ameias. caliças No vinho das veias. Névoas nas nogueiras Antes dos antigos. afogadas. As arcas arcaicas. arvoredo E as vagas vivas Roçando o rochedo.Cega-Rega Marroquina Tem Rif reféns Castela castelos Por vinte. olivas. Legando o lugar A manhãs manchadas. A letra e a lei. De bronze batida. 19 de Setembro de 1982 101 . Fugaz e fingida. as marés. Detém os destinos Ao vencer-se a vida. Calcário. O bolo o beijo Sorvendo saudade. cutelos… O fim das figueiras: As fisgas os figos. A manhã alegra O seio que eu sei… Por vinte vinténs: Carrascos. vinténs! Carrascos. sofrimento. Aves. Em sol de solfejo Nocturnas nortadas. O mar. Planalto pleno De várias vertigens… O amar ameno Tão vago das virgens… Os passos. Afins.

28 de Setembro de 1982 102 . Despovoa o povoado A alcateia faminta. Se o lobo está isolado Dorme a sono solto a quinta. Qualquer leão enjaulado Dá-nos coragem indistinta.O Luar é Azulado A verdade a nosso lado É necessário que minta. Está a morte aqui ao lado Sem que o nosso sonho a sinta. Inocente degolado Talvez um deus não consinta. O teu retrato apagado… A saudade aviva a tinta. Caçador desalentado: Poucos troféus traz à cinta. Estrada Badajoz-Córdova. O luar é azulado? Não se conhece na tinta… Só o céu o quer pintado Sabe-se lá quem o pinta.

Iremos a Nazareth Ver a Casa de Maria.Este Ano em Jerusalém «Este ano em Jerusalém» É tão fácil de dizer Se neste tempo que vem Ninguém viesse a morrer. Até a noite gemer A confissão mais guardada Que é tão fácil de dizer Se o medo vem de mão dada. Rio Jordão a transbordar (No labirinto das veias Há tantos braços de mar!) Muro das Lamentações: É vendo bem qualquer rosto. E também a Jericó E a qualquer outro lugar. 15 de Outubro de 1982 103 . Preciso: é sonhar sem dó Até a noite sangrar. Sonhamos pelas manhãs Com sermões e com montanhas. A força que o sonho tem: É Dom Quixote a lutar Com os moinhos de além Onde não vamos chegar. Nos sonhos há Galileias. Vai-se o tempo das maçãs Volta o tempo das castanhas. Às vezes isto acontece Sem ter nada de notório. Salomés ou Salomões Tudo finda no sol-posto… Faremos autos-de-fé Nas estradas de Sesmaria. Mas doutras tudo se esquece Nalgum forno crematório. Paris.

Lisboa. Tudo nós temos cá dentro: Há cicatrizes de sismos De que somos epicentro… Há oceanos e lagos. Da vida pouco se sabe. abismos. Montanhas com neblinas. sol nascente Preia-mar. maré vazia. Nós lembramos no poente Quando o Mundo arrefecia. Sabe a sal ou sabe a mel? Em sete palmos não cabe O que não seja da pele! Sete palmos mal medidos Como tecido barato… Onde cabem os sentidos Nada mais cabe de facto? Há labirintos. Planícies e colinas. Lembramos a Criação E de nunca o termos dito… Sete palmos nada são Mas são o nosso infinito. Vinde terra derretida. 28 de Novembro de 1982 104 . Lua Cheia.Latifúndio Vinde terra macerada. Há horizontes tão vagos. Sete palmos não são nada Mas metemos lá a vida.

Última Caçada A água vidrada Abaixo de zero. O Pêro Menino. A ave não pousa? É galgo ou falcão? É lebre ou raposa? A Águia Real É morta à paulada. Solta-se o furão P’ra dentro do mato: Esta a punição Este o desacato! Tudo é ilusão. 1 de Janeiro de 1983 105 . No meio de arraial De turba exaltada. Neste desatino O que nos diria? Sonhava um remédio? Alinhava ideias? Morria de tédio Ou abria as veias! Lisboa. Já não voltam mais Os tempos felizes: Armar aos pardais Caçar codornizes. Caçar à pedrada É o que mais quero. Por mais que se afirme: Já não há caçadas… Morrem falcoeiros. As águias se somem E os perdigueiros As perdizes comem. Da falcoaria. A caça a pé firme E mais as ciladas.

Havia a Rua da Paz. Havia a Rua Formosa Tinha gás ao fim do dia. Aceno de mão dormente Prometendo eternidade. As casas dum rosa velho… A descoberta do sexo… Ai! se este rio fosse um espelho Seria um espelho convexo! Hoje só vejo cimento. trepadeiras. 17 de Janeiro de 1983 106 . O Tejo como a serpente A envolver a cidade. Janelas de alvenaria. Lisboa. Deixa um rasto que se apaga. Constelações que são gente Em que outra gente naufraga… O barco hoje já não silva. Mais a Travessa da Hera. No tempo que fica atrás Ficar nele quem nos dera… A quebrar o ramerrame Duma vida sem resvales. Havia a Rua da Esperança. Velhas casas cor-de-rosa Onde o Tempo não cabia.Velhas Casas Cor-de-Rosa Velhas casas cor-de-rosa. O musgo cobria o muro… Deitavam sal nos passeios A salgarem-me o futuro Pois ninguém olhava a meios… Havia a Rua Formosa Janelas de alvenaria. Travessa do Fala-Só. Calçadas de macadame Onde caíam cavalos. E cheirava a madressilva Pelos fundos do meu beco… Eram tranças. Chega ao Tejo e fica em seco. Numa cabeça qualquer E o tossir das traineiras Rebocando algum escaler. É como estrela cadente. perseverança Na casa da minha avó. Os homens as avenidas… Tudo lembra movimento Quando passa um fura-vidas. Croché.

E agora há saudade adjacente Às palavras pontuais que segredavas… A morte era quási um caso assente.Poema em Construção Frente a frente. Lisboa. Como vela a extinguir-se que sopravas. 17 de Março de 1983 107 . com o papel em minha frente (Só tu. Onde a pedra esculpida é mais secreta Do que a forma da figura conseguida. Um bafo de loucura a passar rente No labirinto de ideias e palavras… A poesia a desenhar-se lentamente Nas linhas em que o corpo desenhavas. o nome soletravas…). amor. O poema: nasceu afluente Desse braço de mar com que acenavas… Como a morte aparente é mais concreta! O poema descoberto: estátua erguida.

O casulo que anteceda O voar da borboleta É feito com fios de seda Como manda a etiqueta… Como navalha de ponta — Mal aberta. muito embora — Fecham-se os bichos-de-conta A tudo o que vem de fora… Aranhas tecem nas teias O tecido dum destino Que cativa centopeias Com patas em desatino… As carochas nos excrementos. equilibrados? O mundo é só dos insectos Deserto dos vertebrados! São João das Lampas e Lisboa. Larva de bichos alados? Por eles nas chaminés Cantam grilos desolados. 27 de Julho de 1988 108 . Vão deixando em fragmentos Leis da Física remota. Deuses em voos secretos Junto ao céu. Na sua força ignota. 6-7 de Julho de 1988 Londres. O negro é tinta-da-china No carreiro das formigas. Tão de negro ponteadas… O zangão ama as abelhas À força das ferroadas.Os Insectos e os Outros Mudou-se a palma da sina Nos afagos das urtigas. As joaninhas vermelhas. Trespassam malvas e cardos Por sobre a terra gretada: Os zumbidos dos moscardos Como música sagrada. Licor de fogo nos campos A segregar-se de luz: No morse dos pirilampos Que mensagem se traduz? O bolor nos rodapés. Vai um povo de joelhos No voar dos louva-a-deus. A marca dos escaravelhos É medalha dos ateus.

acordados? Ou em sono justiceiro? Apenas emparedados Sem direito a formigueiro! Balaia.Lápides Apagadas Esta pedra tumular Que já pesa enquanto há vida. Também no fundo dos mares — Quem é dono deste império? — Existem destes lugares Talhados p’ra cemitério… Com que flores sonhou a alga. Mas no exacto lugar Como uma folha caída… Só aguarda a inscrição Que um dia lhe vão escrever — Pobre ofício de escrivão Que pouco tem a dizer… — As pedras postas em monte… Ou uma cruz solitária… Qualquer coisa que nos conte Como a vida é perdulária. Abertas em transparência? A saudade como salga As coisas que são ausência! Pelos caminhos do céu Também há lousas partidas? Como a noite lembra o breu E presenças já esquecidas! Sob as pedras. 8 de Agosto de 1983 109 .

Por muita história que conte Eu não tenho opinião.Ex-Libris Desertor. 9 de Outubro de 1983 110 . Sou como um cão sem ter dono E que só viva da caça. Tenho fome e tenho sono Faça lá eu o que faça. Tenho o ócio das montanhas… Quando a neve nada deixa… Decoro santos e senhas Nesta boca que se fecha. Por vezes o despenseiro… Todo eu mudo num instante Como vento passageiro. Sou o sargento-ajudante. Perdido na multidão. Por mais caminhos que aponte Eu não me quero ir embora. Tendo fome de anteontem Tenho sede de inda agora. Pobre rafeiro danado Que se perdeu sem coleira! Eu tenho o faro apurado Na tortura da poeira! Lisboa. eu ando a monte. Eu ando camuflado Pela pele das Estações: Pele de tambor já estalado No passar dos batalhões.

4 de Dezembro de 1983 111 . Mas se acaso algum coelho Atravessa a sementeira: Quebro a espada no joelho. Poeta bem alinhado Por cardos e malmequeres. Barricada: a chaminé… A mais não sou obrigado. Estendo o ramo de oliveira! Como gato de telhado. Tenho as balas nos tinteiros E baionetas refractárias. Sem questões a demovê-lo. Um poema engatilhado Onde só fala em mulheres.Auto-Retrato Poeta não alinhado. Como cavalo espantado Que ultrapassa a própria crina. Cada qual é como é! Lisboa. Poeta não espartilhado Pela força da doutrina. Granadeiro ou caçador Com armas descarregadas. Eu nunca fiz prisioneiros Por razões humanitárias. Mas fora das barricadas. Como gato de telhado Faz da Lua o seu novelo… Sou um franco-atirador.

4 de Dezembro de 1983 112 . Mas bem no fundo só conta O homem que ficar vivo! Lisboa.Última Tentação Vendido por um ósculo Qualquer Cristo se revolta Se não encontra um apóstolo Ao olhar em sua volta… No desfecho só se aponta: Um Deus prostrado ou altivo.

Cantor de tango. Uma colcheia. Voz de falsete. O Minuete. Clave de sol: Olhos da musa… O ré menor. Mais o Fandango. O dó bemol. O tablado Harpa Judaica. 4 de Dezembro de 1983 113 . As notas pretas Como rosário.Tocata e Fuga Cravo temperado Em cena laica. Que planetas No Planetário! Que rio tão farto Que nos murmura Os sons em parto Na partitura! Lisboa. A semifusa. O fá maior: São grãos d’areia.

apenas com seus véus… O tempo é de silêncio nesta altura. fica enorme Com seus telhados tão ensanguentados. Herodes. O rosto permanece mas com estragos… Na mesa. 19 de Dezembro de 1983 114 . É o Filho do Homem ou de Deus? Terá depois domingos com seus ramos E Salomés. Jerusalém. não tem amos. se tocou. O bronze foi apenas beliscado… Outro pinho.Outro Natal P’ro ano quem virá? E quem partiu Quando o pano de ferro for içado? O sino. tresloucado ainda dorme Mas já sonha Inocentes degolados… Renascido pobre. ninguém ouviu. castiçal e castidade E já se adivinham os Reis Magos. De neve que se quer imaginada… Cada um tem Jesus que desfigura À força desta noite não querer nada… Lisboa. ao longe. outra noite e outra idade.

Pois lembra águas do Tibre Que envenenam alcateias… Sais aos atalhos. Pisas a sombra dos dias. Outras marcas de nobreza… Perde-se o leite em searas Se das tetas fazes mesa. Tem teu leite a cor da tinta Das histórias em que tu entres. 26 de Agosto de 1983 115 .Via Appia Loba faminta de Roma Não tens afagos no pêlo. Depois devoras os filhos Mas a monarcas dás vida. Quem de ti um dia coma Terá c’roa no cabelo… À fronte dás as tiaras. No céu da Arábia. De ti nascem dinastias Que contam reis pelos dedos. aos trilhos. Tudo ao que a noite convida. O latido que em ti vibre Gela-nos sangue nas veias. Desenhas a Geografia Com tribunos e Tibérios? Teu leite da tirania Fez a nata dos impérios… De Roma loba faminta. Pelos filhos doutros ventres. Calendário de arvoredos.

Como a fronteira fosse só destino Dos dois povos que estava a separar. 10 de Janeiro de 1984 116 . visto de Espanha. Ou sol e sombra apenas das touradas? — Touros de morte ou não. horas depois: vidas trocadas A Espanha era um dilúvio no Ocaso! A Lua. não vem ao caso… — Porém. amena. Marvão. veio beijar a raia Que há pouco o Sol e chuva baralhava. já é praia Apenas isto a noite segredava… Lisboa.Marvão. Tantos de Tal Em Espanha havia sol (e sol a pino!) Porém aqui chovia sem parar.

Londres. Pareça ainda que não… É como Sol encoberto Quando não manda a Estação: Sentimos a vida perto Mesmo ao alcance da mão! É visível e concreto. É como cântico aberto A retalhar a canção… Pianista boquiaberto Por ouvir uma ovação… Resignado concerto Que só tem uma audição. Fevereiro de 1984.Audição Única Com um certo desacerto. É o sim e negação. De chuva vinda de perto Mas não caindo no chão… Como fólio entreaberto Dalgum livro de Razão. Onde o número fique certo. Vertigem de saguão. 29 de Julho de 1988 117 . Lisboa. Duma primeira audição: Este infindável concerto Enquanto há coração… Continente descoberto Por recente aluvião. É o presságio secreto D’aviso à navegação… É a flor do deserto.

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Circus Maximus .

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Mais os sonhos que fervi No caldeirão da memória… Torno a massa lamacenta Em fresca água potável. Estação de rádio arcaica Só emito em ondas médias Na muralha pirenaica Que m’afasta das tragédias! Na cintura trago escalpes Dos sonhos dos meus dez anos E por vezes passo os Alpes No roncar d’aeroplanos. isenta. Trago em mim o Júlio Verne Que me deforma a imagem.1 Dança do Escalpe Uma escada sem degraus — Onde o passar não estremeça — Memória a noventa graus A ferver-me na cabeça… Um mapa na epiderme — Isenta de tatuagem —. Essência tão pura. São galgos em liberdade. Veneza. D’alguma causa notável… Se pelo sonho transfiro O que vai dentro de mim. Levo o Emilio Salgari Nesta minha trajectória. É da água que transpiro Entre algum não e um sim! Os sonhos são dominantes. Os vasos comunicantes Entre mim e a verdade. 12 de Fevereiro de 1984 121 .

Feito de sombras humanas E desejo de ver mais. os morcegos — Tantas luzes apagadas Sonham nos olhos dos cegos… — Será leoa ou hiena Ou apenas uma loba.2 Terra de Siena Feras por pedra afagadas. Nos claustros. já não passa. Florença-Siena. Desenha estradas romanas Nos caminhos actuais. E o leite do luar Deixa suspensa a ameaça Dum castigo exemplar… É um espaço quase etéreo Qualquer metro à nossa volta É um anel do Império Com sonhos andando à solta… Que flores floresceu Florença? Que veias vão a Veneza? Sem sabermos a diferença É que temos a certeza. 17 de Fevereiro de 1984 122 . Esta sombra de Siena Que o luar quase nos rouba! Algum deus greco ou latino Que já perdeu o tamanho. Por ser maior o Destino Do que o seu próprio desenho? Seja o que for.

Mordeu passas de Corinto. Quis o corpo em carne viva. sem uma amarra… Que rosto já sem certezas… Ai! A Pedra de Carrara Também tem destas fraquezas! Roma. Mediu o trigo nas medas. 21 de Fevereiro de 1984 123 . Que sentido? Que sinónimo? Que sangue na pedra escorre? Morre só e morre anónimo Como qualquer homem morre! Fez amor e comeu uvas. Sentiu na língua outros dentes. Passeou nas alamedas As pernas empedernidas. Duma figura indefesa Onde a morte é luz eleita Duma vida mal acesa. Caído. Viveu o sol e as chuvas. Que Tribuno da Plebe Correrá em seu favor? Estátua jacente. Chorou colheitas perdidas. Lavou a pele nas nascentes. Teve as angústias qu’eu sinto. perfeita. Outro gosto de saliva.3 Pedra de Carrara Um Galata moribundo Acabando sem glória No chão que foi o seu mundo A páginas tantas da História… Nem moldura duma sebe Serve de fundo ao pudor.

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então.Obsessão Que caminhos os dedos percorriam. Só os olhos. As unhas. Voando contra o vento não venciam O cansaço que vem no amplexo. adormeciam Cansados de ser sonho e de ser sexo. Pesadamente. nos desmentiam O que pudesse haver com algum nexo. Londres. Chegavam junto a ti. porém. Lisboa. Num voar tão simples e complexo. logo partiam Como um raio de luz sem reflexo… Nos lábios que as palavras não abriam Deixavam-nos o rosto perplexo. lamacentos e sem nexo. Nos espelhos as imagens não cabiam. as carícias que faziam Na vegetação rasa do teu sexo… Os braços. como asas que subiam. Neste dia côncavo e convexo. 29 de Julho de 1988 125 . Atalhos. Como pedras num lago só caíam Trazendo um círculo mais sempre em anexo. 19 de Março de 1984.

Bem dentro da gente. Canto de sereia Sem direito a praia. Há sangue lá fora. És mundo lacustre No Espaço sumido. Coração és lago. 14 de Abril de 1984 126 . O sino não dobra Nos bronzes calados… A seiva não esquece A cor da verdura. Coração estremece Não guardes ternura. Dois palmos de areia Onde o Sol desmaia. Há céu que nos sobra Nos olhos fechados. Pesado. tão vago. Desenho que ilustre História sem sentido. Coração não batas. Há rios que são mares Quando chega a hora. Lisboa. Gota afluente. Corre devagar.Uma Gota de Sangue Coração não pares. Vê lá se me matas Em frente do mar.

O César quer ou não quer. O Império abre-se logo. Era o esmagar da escumalha Por Soberbos e Tarquínios. Às vezes sem mesmo olhar — Será tudo o que disser A dança do polegar… —. Havia a Rocha Tarpeia: O castigo exemplar — Mais um elo da cadeia Do gosto de escravizar… —. Havia templos e termas E um aqueduto romano. Mas já havia outra gente Sonhando outras divindades. 127 . Tragando uma nação mais. O fogo dos sacerdotes Só para os deuses romanos… Fica o Templo incandescente Amolecendo as vontades. Na arena gladiadores Entre leões e panteras E as árias dos cantores Quando lançados às feras. Havia sol e nevões Na paisagem sempre estática E também declinações No cutelo da Gramática. E se vão cuidar do Fogo As submissas Vestais. E o peso dos garrotes Era o pulso dos tiranos.Queda do Império dos Romanos Havia a Estrada Romana Ponte d’arcos abatidos Com tanta sombra profana A passar nos dois sentidos… Havia memórias ermas Sem nenhum calor humano. Era a calma… Outra batalha… A paz nem tinha domínios.

Num olhar tudo se alcança. Londres.Do alto do Palatino. Ser-se dono do destino Dava alguma segurança… Quando o veneno é bebido Torna-se o aço em veludo. Londres. Havia um Povo escondido Por detrás do mesmo escudo… Quando andam escravos a monte O Tirano tudo espreita E é sempre noite na ponte Que o medo torna mais estreita… Guincho. 22 de Abril de 1984. 30 de Abril de 1984. 19 de Julho de 1988 128 .

Se houvesse mais rebeldia. P’ra cumprir o ritual Lá o qu’remos tresmalhado. As palavras que gritamos Passam logo a ser Passado. Bath e Londres. Vinho dos sacrificados. Pão da boca d’inocentes. Talvez até o Cordeiro Vivesse mais algum dia E morria o carniceiro… Goteja o sangue na lã Que ninguém já agasalha. Vem o Domingo de Ramos No Cordeiro castigado.Domingo de Ramos Gota de sangue na ara Nem sequer será indício. Fica mais quente a manhã Se um cordeiro se tresmalha. 23 de Abril de 1984 129 . O bafo morno na ara Deixa a vida a transpirar. Pobre Cordeiro Pascal Que destino tão falhado. A justiça ergueu a vara Num capricho tutelar. Para nós é coisa cara O gratuito sacrifício. Mais os gestos tresloucados Que nos são afluentes.

o carro. Ensanguentado Pelos grilhões Do El-Dorado… Povo minúsculo Em lamaçal Vive do músculo E lei braçal. Conquistadores: Os que chegaram. Mais um rosário Feito a feijões… Dorso dobrado. 24 de Abril de 1984.Nicarágua Na Nicarágua Corre o rio Coco. Casos vertentes… Córtez. Tudo carregam. 30 de Julho de 1988 130 . De tudo um pouco… Ferve cachões. Londres. Dois oceanos Como espartilho. Tempo lendário Sem emoções. Libertadores: Os que ficaram? A Coca. Tem morte e água. Num chão sagrado Que não tem peso. Pizarro Não são dif’rentes! São a serpente Que desenrola A aguardente Ou Coca-Cola… São uns senhores Dum tempo todo: São opressores De qualquer modo! Os ameríndios: Americanos? Ou estes índios São marcianos? Quem concebeu Este mistério: Tombar do céu Neste Hemisfério? Ó exilados Dum mundo antigo: Ombros dobrados Como castigo! Neste país De rios e cocos Há leis servis E índios loucos! Na Nicarágua O Rio Escondido Passa na água Sem ser ouvido… Oxford e Londres. Sonhos até… Os que aqui chegam Só trazem Fé E de mãos postas. Deus: Quantos são? Tem duas costas Esta nação. Tão indefeso. Contam-se os anos Nos grãos de milho.

Mordi silêncio secreto Dentro das bocas fechadas. Que destino tão profético Neste meu movimentar: Ter o Norte Magnético Na luz da Estrela Polar. discreto. Eu renegado e converso Filho Pródigo aspirava: Só ter direito ao regresso! Sete foles. Em casa sem pavimento Sempre pintada de fresco. 22 de Junho de 1984 131 . Queria apenas ter fronteira (Doce protecção dum muro…) Não discutia a bandeira: Sedentário e sem futuro! E no ar que respirava. Não há esp’rança nas partidas Se há frustrações nas chegadas… Lancei a lança.João Sem Terra Se à terra fosse ligado Quatro palmos me chegavam — Sempre fui recém-chegado: Despedidas me negavam… — Eu fiz parte dum rebanho (Homens nómadas são gado) E perdi-me num desenho Que o Tempo tinha rasgado. Como se faz nas ciladas. sete vidas. Praia de São Rafael. Era o Sol meu alimento E a Lua o meu refresco. Entre sete debandadas.

Como seria o ocaso? Algum sol que arrefecesse Como se o mar fosse um vaso… Caso a caso. puro acaso — D’algum caso me esquecesse! — Passe a vida em cabo raso Onde o mar nunca se erguesse. 27 de Junho de 1984 132 . O ocaso não é caso Para o dia não voltar (Qualquer noite tem um prazo Que não pode prolongar.Branco e Negro Se acaso o caso ocorresse.) Se acaso em tempo me atraso Nada deixa de ocorrer: Cada Homem tem um caso No seu modo de morrer… Branco e negro nunca caso — Seria caso o cinzento — E a cinza tem um prazo. Anda ao acaso no vento! Lisboa.

mirra e sândalo (Quem os pudesse inspirar…) Dormir contigo. A tua estola de arminho Lembra Inverno e agasalho. no que penso. que escândalo Pois que temos de acordar! Lisboa. Nos teus lábios cor de lenha Onde há fogo a crepitar.Sândalo O teu lenço de bretanha Só lembra espuma do mar. Saem ladrões ao caminho Se te penso num atalho… Se te penso. 22 de Agosto de 1984 133 . Penso até que sou feliz… Sonho a bainha do lenço Tantas coisas que me diz… Incenso.

Vem depois o esquecimento. Não fosse o espaço uma elipse. Promessas de Purgatório São as celas de cimento… Coração dentro do peito (Como em transparente frasco) Cada qual anda sujeito Aos caprichos dum carrasco. Loucos cavalos na estrada Aos quais quebraram as rédeas E que vão à desfilada… Mas a noite é tão fugaz. Sempre noite e nevoeiro! Os homens nunca se esqueçam: Não passa dum carcereiro Qualquer deus que vos ofereçam! Londres. transitório. Num momento quase terno. Mas ao céu quem tem direito Não será destas paragens? Cavou o rio o seu leito No aconchego das margens. Dentro das Câmaras de Gás Pintou Bosch novo Inferno… Inclemente. Uma espécie de cinzeiro. 8 de Setembro de 1984 134 . Tabaco de Apocalipse… Não há freios nas tragédias.Noite e Nevoeiro Sempre noite e nevoeiro.

Já começa o segredo a transpirar… Piedosa Mulher. é morto.Santo Sepulcro Quem procurais. o que sobrou Do perfume que quiseste derramar? Pilatos. 15 de Setembro de 1984 135 . não está: ressuscitou! O Morto. é morto e nem pensou No corpo que ficava em Seu lugar… Lisboa. Marta. Que mão imprevidente não pesou O peso dessa pedra tumular? Ainda o selo em lacre não secou. quem veio aqui não encontrou O que talvez não fora procurar. inda mal as mãos lavou E a água já se está a evaporar… Como sempre do crime ali ficou A prova que se quisera apagar… O Morto. Porém. Marta. É só chorar… Ao de leve na treva suspirou O vento que não pára de passar. Saiu tão confundido como entrou: O Corpo já mudara de lugar.

Eu peço que tu venhas e tu vais! Ó meu desejo d’ave migratória! Lisboa. Apenas pontual e nada mais E somente te guardo na memória. Partiste como a onda foge à praia Ou estrela da manhã quando amanhece. Tal fruta que se espera que não caia Quando o vento em redor tudo estremece.Tântalo Chegaste como a onda chega à praia Ou como a estrela quando já escurece. 8 de Outubro de 1984 136 . Tal fruto que no ramo se contraia Quando o vento de Inverno aparece.

cantava E o Sol trazia o dia… Fios de prata. E a Noite era intervalo Entre o Eterno e o Momento… Como canção que se cala Na voz que fica vazia: Era um mundo noutra escala Onde a gente não cabia… Tocava o sino da porta. Era o vento que passava (Como faca que não corta. Como a neve desejada Que afinal não aparecia… O burro do Ritual Junto à vaca dormitava. 17 de Novembro de 1984 137 . ignorado.Outrora o Natal Purpurina e azevinho Vindos doutra consoada Sobre a toalha de linho O ano inteiro guardada… Antigamente algum galo Cantava todo o relento. Um anjo descomunal Uma trombeta empunhava. E Jesus nunca crescia! Lisboa. O quente dos cobertores A incomodar a pele… Os olhos viam pastores Com suas taças de mel… Como a manhã demorava A vencer a gelosia! O galo. O silêncio não cortava…) Toda a conversa abafada Em papel de fantasia. Degelo no algodão… Vinham os Reis a caminho Com camelos pela mão… Judas morria enforcado. porém. verde pinho. Mas a gente não sabia… Herodes.

Fermentação Mal a noite se adivinha Por detrás daquela sebe. uva a uva. É caroço o sol a pino. 1 de Dezembro de 1984 138 . O bago da lua cheia A fermentar no relento… Uva negra em chão de areia De relance dá cinzento. Como a noite fica minha. A neblina é a luva Que esconde a mão do destino. Logo o medo guarda a vinha Nem a noite se apercebe… Talhada de melancia Ou gomo de tangerina: Sobrava a lua do dia Como fosse lamparina… Bago a bago. Lisboa. Gravada nos meus sentidos: Eu sou o guarda da vinha Quando tiras os vestidos.

Nebulosa em Espiral .

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Logo o mar a afogava… Mas aqui. Longe parecem tambores. Como tomado de assalto: Gelava tudo. Silêncio feito em rumores — O Mundo tem corredores Que levam rios p’ra o mar. sobre o asfalto. — Caiu a neve do alto. gelava! 141 .1 — O Túmulo e a Rosa i A Neve e o Mar Soam passos no asfalto: Serão de quem se esperava? Caiu a neve do alto No chão que tudo aceitava. Mas ao perto é só passar.

Abre o peito às flores bravias. Nunca vem quem tu quiseres. Entre papoilas e trevo. Faz um Domingo de Ramos Com jumento e malmequeres.ii O Túmulo e a Rosa Quem pôs rosas tumulares Onde se queria o noivado? São aras ou são altares. Se há sangue no empedrado? Quem pôs louros da vitória Nas cabeças dos vencidos? Vistos de longe na História Todos somos confundidos… Vem aqui quem não chamamos. Gasta-se o vento nos dias. Sete palmos duma cova: Onde cabe a vida inteira… Lua Cheia? Lua Nova? Será como a noite a queira! As estrelas incandescentes Nunca gelam sobre o Pólo. Quem põe rosas tumulares Onde se quer o noivado? 142 . Crescem dunas no que escrevo. Quem degolou inocentes Embalou filhos ao colo! Afagos de glaciares Num mundo recém-chegado.

O reverso da medalha… Os pulmões. Se a morte é lado de lá Por que havemos de passar? Água doce. Entre o que está e não está Fica o desejo de estar. O silêncio fecha a boca. peça a peça. O medo mete na toca Qualquer fera em liberdade. Onde a palavra se esconda É onde a frase se abriu.iii O Sal e o Açúcar É o sal que lembra a onda. O açúcar lembra o rio. 13 de Fevereiro de 1985 143 . Logo a sombra lembra o sol. Nunca se vai completar… A Via Láctea é redonda? Elipse que não se abriu? E se o sal nos lembra a onda O açúcar lembra o rio… Paris. O sorriso a entreabre. Afinal por quase nada Muda a água de sinal. enquanto fole. Puxam o fogo à fornalha… Tudo acaba… O que começa Não será só terminar? Este puzzle. açucarada. Por ainda não ser sal.

No seu instinto perverso — Feminino e bem primário — Quer estar só no Universo Com seu vulto incendiário. Com ast’róides no regaço… As estrelas que sejam gémeas Não cabem no mesmo Espaço! Uma delas findará — Qual delas? Tanto nos faz! — E depois se apagará Como algum bico de gás. Mas continua a brilhar Aos nossos olhos de anões. Pelo tempo que demora Da outra o fim do sinal! A moral que nos importa Diz que o crime não compensa: Uma viva.2 — Os Mundos Exaustos iv As Estrelas Assassinas A juventude de Fausto Na milagrosa proveta E talvez um mundo exausto. Mesmo depois de acabar… Ai da gémea vencedora Que p’ra nós é tão igual. Paris. 14 de Fevereiro de 1985 144 . Devorado num cometa… Por um capricho de fêmeas. Passam anos aos milhões. a outra morta Mas ambas com luz suspensa.

Boiando nas placentas Dos partos de purpurina! Sejam duplas ou extintas. rios de fogo. Imprevidentes. na estrada. Num Futuro feito logo Tendo o Presente por fala! Constelações tão sardentas Como cara feminina.v Prece Seja Estrela da Manhã Ou alguma do Carneiro — Seja mesmo estrela-anã P’ra caber no meu tinteiro! — Mas dum deus de mãos abertas. Que me dê palavras certas Como fruta bem madura. Pois só elas são distintas No Passado que eu prevejo! Paris. Que mal o tempo segura. P’ra que me nasçam poemas Concisos e pontuais. 13 de Fevereiro de 1985. Qualquer delas eu desejo. Galáxias e Pontos Negros Nesta aceitação do Nada! Lagos de luz. No falar da nossa escala. 27 de Julho de1988 145 . Frases grandes ou pequenas De contornos siderais! As estrelas a lembrar pregos. Londres.

vi O Pão e a Pedra Como miolo de pão Duma farinha serôdia. 14 de Fevereiro de 1985 146 . Espaço feito de féretros E de berços que embalamos… Entre o dilúvio e a seca. Estrelas são as migalhas Entre dois actos de sexo. Entre a luz e escuridão. Da cama à mesa: dois metros. Feito de fogo o farelo Coze bem nosso segredo: Deuses feitos a martelo Na pedra do nosso medo! Paris. Pela franja das toalhas Ficam pedaços sem nexo. Cada homem em si esconde Uma chegada e partida. Vamos a Roma ou a Meca Passear a solidão… Só o silêncio responde A cada prece of’recida. Eis o espaço que ocupamos. Que por nossa cobardia Não nos serve de alimento. Todo o Espaço em explosão Fica bem dentro da côdea… Pão-nosso de cada dia Sempre fresco e bolorento.

Cro-Magnon. E com risos sibilinos Cortam a língua c’os dentes! A lepra aqui já não conta — Se na vida contaria! — A letra de Deus aponta Mais nomes sem gafaria. lanço a lanço. Os homens transfigurados Que por frasco de veneno Se viram alimentados! Caso a caso. Conta-corrente de preces Em balança decimal… Onde estão os assassinos? Mesmo ao pé dos inocentes. pelos dedos. de Neandertal Ou dos buracos mais vários: Por motivo natural Ninguém ficou nos ossários… Quantos foram enforcados? Quantos morreram de enfarte? — Como reabilitados Nem loucos formam à parte! — Os que morrem à nascença Também têm lugar certo? Foi a Peste uma doença Olhando o homem de perto… Nesse canto mais pequeno. Os que morrem nas jangadas. Foi o Homem numerado. Neste dia ameaçado: Caso a caso. Não verás homens em fúria: Tudo é resignação Num rebanho de penúria Que encontrou a salvação! Nem sequer do Purgatório Se puderam socorrer: Foi somente obrigatório Fechar os olhos… Morrer… 147 . Faz Deus o Seu inventário: Pensavam que eram rochedos… Nem de barro refractário! Não há perdões nem benesses Neste castigo final.3 — Juízo Final vii Fecha o mundo p’ra balanço. Sem terem a terra à vista… Os das paisagens geladas Também constam desta lista.

15 de Fevereiro de 1985 148 .Poço fundo? Poço amargo? Ai quem pudesse dizer! Todo o Espaço era tão largo E não puderam caber! Mas chegaram aos seus portos Os que já estão no Inferno? Como pode contar mortos Um Deus que se diz eterno! Paris.

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Não estou atrás do balcão. Para obras demoradas. Fui plantado Novamente. 19 de Fevereiro de 1985 151 . Ver o Sol é já supor A Poesia renovada. Independente: Estou fechado Actualmente. Faço palavras cruzadas De começo de estação… Não saldei a existência Pois faz parte das mobílias (Do tempo da Resistência E de «Debaixo das Tílias»…) Seja lá pelo que for: A loja remodelada.Fechado para Obras (Poéticas) Renovado. Estou fechado Na semente… Londres.

O céu é feito de lume. 24 de Abril de 1985 152 . Seja um deus ou seja um mago: Quem nos pode olvidar tanto Na Estrada de Santiago? Quem nos grita pr’onde vamos Ou para onde não é de ir? Quem será que nós chamamos E que não nos está a ouvir? Estamos sós? Acompanhados? Se o soubermos. Mas quem nos dá de comer? Quem nos dará importância Neste Espaço sempre a arder? Quem decora o nosso nome? Quem nos conhece o sorriso? Quem nos vem matar a fome E as febres de Paraíso? Quem nos põe o mel na sopa E do suor faz orvalho? Quem nos aconchega a roupa Nesta enxerga de enxovalho? Seja diabo ou um santo.A Noite dos Degolados O nosso sonho é o gume Dum punhal embainhado. Temos fome de distância. Nosso olhar fica queimado. que sabemos? Somos anjos degolados Nas orações que dizemos. Lisboa.

Até na bola se acerta… São três bolas. verde pano. bem vertical.Ponto Negro Mundo: bola de bilhar — Cuja cor não vem ao caso —. Outras duas a rodar. Como à cal viva abraçada Uma formiga impassível… Bola a bola. Ângulos rectos na fachada Que fixam estátuas jacentes Olhando a bola encarnada. Como uma campina aberta. por engano. 1-2 de Junho de 1985 153 . Como luas em céu raso. mas qual delas Detém a sorte do jogo? Como na vida. as tabelas Modificam tudo logo! Cai a luz. Tabelas adjacentes. taco a taco. Pano verde. É tudo conta-corrente: Bola negra sai dum saco Que traz a sorte da gente… Rápido Porto-Lisboa. ponteada Por ponto negro visível. Onde às vezes. Num feixe triangular Que no pano põe sinal Duma nódoa circular. Bola branca.

Tão sozinho me quer a majestade! Eterno? Para mim isso é vexame. César será servo dos meus servos E carrascos jamais darão castigos. Mas que serão o sonho da bebida Daqueles que se perdem nas areias. ninguém me chame. de gelo arrefecidas. Exaustas. é-vos vedada uma recusa. também já ferrugentas. se for preciso… Os dilúvios serão minha medida Nas represas que prometo trazer cheias. 11 de Junho de 1985 154 . ninguém me acusa… A alta-tensão que trago nos meus nervos Não é perigo de morte nem tem p’rigos. Poderoso.Deus no Confessionário Só eu sei ao que venho e ao que gasto! Da minha corte os reis foram banidos. Não é fácil o que venho aqui propor: A cada qual darei o Paraíso… A ferro e fogo darei o meu amor. Transbordarei a água gota a gota. Se eu trago nebulosas no meu rasto Trago gelos das neves nos sentidos. Invejo a cada homem sua idade! Praia de São Rafael. afinal. porém. No entanto. Se a moeda com que pago for o sonho. De tirano. Construí o Universo e as ferramentas Só de mim ficaram conhecidas. O Mundo arrasarei. Boca a boca — que quero sempre muda — Quando a vela do veleiro estiver rota Mandarei o tufão em sua ajuda… Não é fácil de aceitar o que proponho. Trago estrelas.

Abertas pelas mãos e pelo vento. razão de ser o fim Da leitura que não vai recomeçar… 155 . alguém fechar-me os vidros.Livro das Horas Deixem-me morrer no meio dos livros — Folha amarelecida pelo Tempo — Venha. Batendo nas janelas bem abertas. Que deixou a leitura sem sentido… Que bom será morrer entre as erratas. depois. Sem chegar a saber bem a verdade… Se o Espaço tem medidas bem exactas Porque nos tiram tanto a liberdade? Recordação dum livro duma escola. Os poemas de amor. Deixado a meio. Como às páginas dum livro interrompido Por sono a meio da tarde. Livro aberto num banco de jardim. Sob a sombra de algum cedro tutelar. Cuidados motivados pelo vento… Venham também depois fechar-me os olhos. folhas dispersas Nas ramagens que há no pensamento. Muito atrás. inesperado. em sacola abandonada… Só um som de Vivaldi e de viola A escorrer pela tarde demorada.

Folha a folha. Livro das horas aberto ao luar. 30 de Junho de 1985 156 . dedilhadas na memória. Vendo melhor: leitura transitória Com palavras a tomarem-me o lugar… Lisboa.

7 de Julho de 1985 157 . Vinagre mais limonadas.Conta Errada Eu de noite ouvi no vento O barulho das pedradas. O sol serve de alimento À planta iluminada: A seiva corre por dentro Da loucura esverdeada… O Eterno e o Momento Não nos dizem quase nada: Um milhão ou três por cento Tanto faz. Por teu corpo sou sedento. O Eterno e o Momento Só diferem nas palavras. Mas as palavras por dentro Têm gavetas fechadas… Cada nome tem assento De pessoas baptizadas… O Eterno é um momento Como as palavras cruzadas. em conta errada. Lisboa.

Gaivota Onda por acaso onde se enfeixe Não chega. a planar. Costa da Caparica. uma bandeira Num aceno de amizade ao inimigo. Suas asas não passam de balança Onde a praia e a maré se vão pesar. Ave cuja carne sabe a peixe. a mergulhar. Lenço branco. No seu grito há o som de qualquer doca Que saiba pôr travão a qualquer mar. Atenta à tempestade. Véu de noiva no rasto das traineiras Que regressam de manhã ao seu abrigo. equilibrado. Imagem na retina que desfoca Litoral. Imagem que se perde mal se vê E se refaz depois correctamente… Seus ovos são os seixos da maré. no entanto. 8 de Setembro de 1985 158 . na outra o mar. logo avança À terra que precisa de avisar. Seus ninhos são os limos da corrente. Numa asa leva a terra. melhor.

Londres. 9 de Agosto de 1988 159 . já foi herança Embora no orgasmo ter morrido! Ai. Ter nascido.Colóquio dos Simples Indagar a razão por que se gosta É querer saber que nunca saberá! Vendo bem. o que interessa uma resposta Ao ouvido que nunca a escutará? Amar é aceitar o ultimato Que não vergue a vontade dos poetas. Remorso foi prazer já conseguido. Pano de ferro aberto no teatro E poemas fechados nas gavetas! Do gesto ao acto é passo de criança. afinal. 11 de Outubro de 1985. Que cantos d’aves há nos arvoredos! Que paisagem nos nasce nos sentidos! Raízes? São apenas os teus dedos Quando nós somos anjos perseguidos! Comboio Lisboa-Porto. Teus braços são os ramos desvairados No vento que em mim sopra e não domino. amor quando os dados estão lançados São os cubos a forma do destino.

não haja cão. O essencial é banir Sugestão posta na frente. 12 de Novembro de 1985 160 . Às vezes pela razão Dos uivos que traz o vento! Hão-de ouvi-lo a ganir. As razões que não se tomem São motivo que se evoca… Haja cão. Ah! Bicho! Mesmo calado Dirão que estás a ladrar! Nada vale ser medroso E submisso entre as ervas: Se alguém gritar: cão raivoso! Todos lhe atiram as pedras! O açaimo e a corrente Não lhe dão a segurança: Basta haver no meio da gente Qualquer sede de matança! Lisboa. Mesmo sem tê-lo presente. Qualquer cão será danado Se a multidão ordenar. Há convite ao linchamento.Multidão Mate-se o cão à pancada! Mesmo sem haver motivo. A multidão saciada Só se o cão não ficar vivo. «Melhor amigo do homem»? A frase morre na boca.

Vão-se as águas em cachão. Mas as mãos ficam molhadas… Lisboa. Pilatos pede a toalha. acedo. A Lua de diamante Rasgou a noite de vidro. Eu a metro meço o medo Como tecido corrente. Por entre tantas histórias Que decoro sem decoro.Abstenção À sede cedo. Sem ser nada transcendente. empedernido. Qu’importam mãos de Pilatos Se só adiam sentença? Cada qual é réu ou rio Cada ser será sereno. Transparente. Como a peça mais intensa. Ouço vozes ilusórias Que me vão cantando em coro. O nosso sangue coalha Como estrelas nunca olhadas. Cada qual canta a canção Junto à corrente agressiva. A vida é feita de actos. O sonho ficou distante. 30 de Dezembro de 1985 161 . Conforme as coisas que viu Dentro do mundo pequeno. Em cascata progressiva.

6 de Janeiro de 1986 162 .28 de Maio de 1926 – Verão Quente de 1975 Por vezes na sonolência A noite traz-me ruídos Do tempo de resistência Das paredes com ouvidos… Seja frade inquisidor Ou tirano jacobino. porém. Como uma côdea roída Que não tinha gosto a pão… Das duas vezes. Conta-gotas da verdade… É arma da tirania O esquecer em liberdade! Já duas vezes na vida Enfrentei a opressão. Não passa dum opressor Quem nos comanda o destino! Dizem que o tempo passou E que tudo está esquecido… Se a página já se voltou Para quê o que foi lido?! Se acaso nalgum momento A falar nisso alguém torna: É forçar o esquecimento Como quem malha a bigorna! Cópia exacta. Me segredava essa gente Que era para meu bem Que punham grades na frente! Lisboa. dia a dia.

9 de Janeiro de 1986 163 . A Lua é chuva de prata? Da rainha foi enfeite? A Lua é folha de lata.Miradouro O rio é prata? Dourado? Água que passa somente! Quem o quis imaginado Cortou-lhe a força à corrente. A Lua é prato com leite… Cada qual é como é. Mas julga ver a verdade! Lisboa. Aí está a liberdade. Cada qual vê o que vê.

Somos ecrã E plateia. 21 de Janeiro de 1986 164 . Conto-te o filme! No intervalo De cada entrega Há rebuçados — Subentendidos — É uma guerra Uma refrega: Esta batalha Só de sentidos! Este desejo De Lua Cheia Haja manhã Que o sublime. Conto-te o filme! Lisboa. Rasgo os bilhetes.Sessões Contínuas Ir ao cinema? Que má ideia! Haja uma cama Que sublime Este desejo De Lua Cheia. Rasga os bilhetes.

Tanta água que apodrece E que devia correr! Paris. Mas ficaram escravizadas Ao renegar a nascente! Acontece. 19 de Fevereiro de 1986 165 . E acontece Somente o que tem de ser. estagnadas — Como se fossem verdade! — Em lagoas apertadas Em ancas da puberdade… Talvez um fio qu’escorresse Nestas águas em disfarce Fosse lágrima e descesse Pela cascata da face… Mas é rosto tão sereno.Cal Viva Águas verdes. Pedra de cal mal esculpida Onde a morte é um aceno Como só no fim da vida… Ó espelho de águas paradas Que venceram a corrente.

«O Tempo Está Próximo» Do monte. É como alcatruz Moendo água alheia. Qualquer multidão É degrau d’ossário Que grita um perdão Depois dum calvário… No entanto. Está preso nas malhas De Jerusalém… A voz abafou-a No pó dos caminhos… Já Lhe sonham a coroa Cercada de espinhos. Não chegou a hora De crucificar… Montava um jumento Com jeito de corça: Moinhos de vento A darem-Lhe força. Como o Infinito Não fica distante! Nos gritos há fúrias Que não são domadas… Ao longe as Centúrias Aguardam formadas… Entre companheiros Que tremem de medo! Por trinta dinheiros Desfaz-se um segredo… A candeia acesa… Já põem os pratos Por cima da mesa… Mal sonha Pilatos! Nem sequer Caifás Será quem comanda… Virá Barrabás Até à varanda… Depois. Há povo a gritar. agora. Contempla o deserto: «O Tempo está próximo»… Todo o fim está perto! O silêncio invade De vozes o vento. Da palavra ao grito Só vai um instante. Preparam-Lhe a cruz Acabada a ceia. no cimo. no caminho. Já nada O detém. No momento exacto: Num lenço de linho Ficou um retrato. Quinta-feira Santa. seus amos — Rebeldes vassalos! — Mas ’stendem-Lhe ramos Só resta pisá-los… Forçou as muralhas. Entrou na cidade Montando um jumento… Os reis. 27 de Março de 1986 166 . Morreu um cristão Descobrindo o peito… Reconstituição Dum crime perfeito! Praia de São Rafael. diz.

ensanguentadas. Talvez as minhas manhãs Dessem noites sossegadas… Se tu viesses nas mondas De crescentes e cortantes. Levaria o mar nas ondas O Mundo que havia dantes. Rugosas. perfumadas. voando. Só dirias. Se tu viesses gritando O direito à dinamite. Se viesses na voz cava (Murmúrios de cantochão). Ao de leve. ao chegando: Só eu sou o teu limite! Se viesses do Futuro Morria em mim como herança Todo esse medo do escuro Que trago desde criança! Lisboa. Ou nas sombras do luar (Quando a Lua num momento Imita o Sol sem queimar…) Se viesses volteando Movimentos dum sem-fim. Em folha solta. As raízes das manhãs Floriam noit’estreladas. 24 de Abril de 1986 167 . Espalhando ouriços de lava Nas vertentes dum vulcão… Se tu viesses no vento. Outonos dentro de mim… Se viesses nas romãs.Chegada Se viesses nos medronhos Que queimam na aguardente Talvez o fogo dos sonhos Fosse em nós um caso assente… Se viesses nas maçãs.

até o vento Fica calado a escutar… Não tinha anéis. O frio é forro de lã A quem o Destino aparta Tinha a fome como irmã. deu-me o mar E deu-me bobos da corte Que só me fazem chorar. Sou apenas voz dum Povo. Vejam lá a sina minha — Que gracejos do Eterno — Eu sou sempre a andorinha. aberta. 27 de Maio de 1986 168 . Mas só dois palmos de gente S’ao espelho me vou olhar! Chaves. Seja Verão ou Inverno. Hoje tenho mesa farta… Já tive reis a meu lado E minha sorte não louvo: O que acontece é meu fado. Toda de lua banhada Quando é noite em meu redor. mas a sorte Deu-me o vento. Eu sou aquela gaivota Prenúncio da descoberta… Sou a ovelha mais amada Do rebanho do pastor.Fado Amália Ao nascer não tive assento: Era gente a não notar… Mas se canto. Eu sou a água corrente Sou a gota feita mar. Sou a folha que se nota Na manhã d’Outono.

18 de Julho de 1936. Eram as novas Goyescas Seguidilhas de matança! Não falavam os actores Desta peça ensanguentada. Bigornas que a morte malha. Mais um jarro de sangria… E a morte pela frente Todos tinham nesse dia! Ibiza. 15 de Julho de 1986 169 . Vinha a vingança dos touros Que nascem p’ra se matar! Navalha de ponta em mola Chicote de sete pontas: Santo Inácio de Loyola Mandava ajustar as contas! Era um novo Torquemada Que andasse na rua à solta E que por tudo e por nada Que matasse tudo em volta! Coroa d’espinhos e picos. Não rufavam os tambores Era tudo p’la calada! Sob as patas dos garranos Indefesos e quietos: Pólvora na cor dos ciganos Morrendo d’olhos abertos! Como se um recém-chegado Trouxesse a morte pela mão: Era um ódio adiado Do tempo da Inquisição. Eram chapéus de três bicos Dos pesadelos de Falla! Cinto voltando a fivela Sobre uma cara indefesa… Pobre terra de Castela Que tens cor de lenha acesa! Manzanilha e aguardente. Afinal o que era aquilo: Cada qual adversário? Que dia de São Camilo Que trazia o calendário! Nesse regresso dos Mouros Do outro lado do mar. Dia de São Camilo Só perguntavam: «Quem vive?»… Havia gente a matar! Trazia a voz o calibre De quem ia disparar! Vinha do fundo do Tempo Uma voz que se engatilha: Fazendo fuzil do vento Em balas de manzanilha. Era anis em taças frescas Nesse dia feito lança.

Salga o mar a nossa voz D’água doce por beber… Sempre alguém paga ao algoz. A vida é casca de noz. Sempre alguém paga ao algoz Que nos irá abater. Range o moinho nas mós Cantigas de Maldizer. Linha fugindo em retrós Com que ninguém vai coser. Às vezes quase sem querer… Mas que fale alguém por nós Depois de a gente morrer! Lisboa. 3 de Agosto de 1986 170 . Vai falando assim por nós Quem nos dará de comer… Trazemos rios junto à foz Nesta pele a embranquecer. É fio de sangue a correr.Passe a Palavra Se alguém fala aqui por nós Fica tanto por dizer.

Vejo o que vejo E vejo mais: Pois no solfejo Já antevejo Cordas vocais. Como o ditado Do meu colégio. Pressentimentos. Ou são histriões? Lua sem fases — Como era dantes — E nos lilases 171 . Contas secretas Dos digitais. «Filhos do Reino» O desconsolo Vem desde o colo Vem desde o seio. Durante o ano Toca o piano Do coração… Vão-se as areias.Os Robinsons do Espaço O solo pátrio. Eu não me iludo Pois ’stou em tudo Com que sonhei… Cinco sentidos. Aluviões… E nas colmeias Cantam sereias. Por uns instantes Bóiam nos tanques Sombras de leques. Folha d’acanto. Binário eterno Fogo d’inferno Na transmissão. Tão outonais. Eu sinto o tacto Das flores que pinto. Braços marmóreos. Mármore branco ’stridente canto D’aves eufóricas. Nas avenidas Ramas despidas Sonham bordéis Gaiolas d’ouro E pedras caras. Executado Por privilégio… As folhas secas. Tão mal ’scutado. Sonhos cumpridos Mas resumidos Nos pensamentos. Eu já falei. (Escada de corda A dar saída A quem acorda No ventre e morda O pó da vida!) Salve Mãe-Pátria! Salve Rainha! A Via-Láctea. Tão acrobática. Colunas dóricas. Erro de olfacto Sempre que minto. Leite materno. Folhas ’sculpidas Nos capitéis. Colos ’sculpidos. Deu o que tinha? Folhas d’acanto. Caem discretas. Passos no pátio Há flores no átrio — A cada canto… «Filhos do Solo». de facto. Zumbe um besouro? Ou será choro Das aves raras? Com seus turbantes Passam moleques. Mais o cordão. Mal cai o pano Muda a estação. Se fico mudo. Há purgatórios Sobre os zimbórios Dos meus sentidos. Nas flores.

Fuga de gases Asfixiantes. 8 de Setembro de 1986 172 . Moleculares… As novas Arcas Não deixam marcas: Vão pelos ares… A descendência Assegurada Sem penitência Só transparência Toda estrelada! Razão de fé? Sobrevivência? Quem foi Noé Hoje não é. gota a gota. Da nuvem oca Nasce um Danúbio E. Tão segregados Os degredados Filhos de Eva! Lisboa. Vamos na leva. Grandezas parcas. Diz a Ciência! Fosse o que fosse Que aconteceu. É bancarrota Qualquer dilúvio. Alguém queimou-se Na água doce Vinda do Céu! Assim queimados.

Véspera Veneziana .

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Tolda-se o olhar. Flores não removem O que já passou… A Lua é o pólen Que o vento levou. 21 de Setembro de 1986 175 . Uva prateada.1 Constante O campo de feno. No fundo do mar Há terra também… Estrada Bergamo-Brescia. Adaga sem gume Desta noite imensa. As estrelas no ar São pontos de giz… Muda de lugar Tudo o que convém. Tolda-se o anis. Ficou o perfume Da tua presença. O pó do veneno Já não custa nada.

2 Aquário Há sempre sinal De quem dá um passo. Bola de cristal: O Mundo no Espaço… Quem faz a leitura Do que nos virá? Ai. Tudo em cada Pólo Começa e acaba. quem nos segura Também largará… Tão imaginário O Mundo suspenso: Tão grande aquário Tem o mar imenso… Violino a solo O som que desaba. 22 de Setembro de 1986 176 . se é mentira: Esta atmosfera Que a gente respira! Pádua. Quem foi que pudera Dizer.

Pádua. A Última Ceia Já é testamento. Os Trinta Dinheiros Já estão bem contados E os companheiros Estão apavorados… Há pão amassado Para os que não comem. Tudo condensado Na vida dum Homem! A História Sagrada (Caminho ignoto): Banda desenhada Por mãos de Giotto. É o vinho. Vinagre no gosto… São choros e risos. Também Paraísos Para os Bons Ladrões… Vai caindo areia No vidro do Tempo. o mosto.3 Fresco A Pomba anuncia A Nova Verdade À pobre Maria Tão na puberdade! São dramas. Transfigurações. 22 de Setembro de 1986 177 . É o sal dos factos. são actos.

23 de Setembro de 1986 178 . Mas me reconheço Nos sonhos de gelo. decerto. Tão enegrecida. Não te lava os ossos… O medo da peste Pôs a cal nos poços. em frente! Só sei de concreto: Não quero ficar! Embora.4 Lucros e Perdas Como que esmagado. Porém tão ausente… Eis-me regressado A Veneza. Vejo o saldo errado Mas fico contente! Veneza. Tão seca e molhada É morte na vida! Tempo embalsamado Por que rituais? Sangue coalhado Correndo em canais! Sangue liquefeito De São Januário? Sonho tão perfeito Mas tão sanguinário… Como que lançado Em conta-corrente. A pedra lavada. Só pense em voltar… Se aqui permaneço É em pesadelo. Em tudo o que quis Aqui encontrar Eu fiz e refiz O que hei-de sonhar! A água te veste.

29 de Setembro de 1986 179 . No meio das escoriações. A quem damos alimento? Nem sempre o fogo foi lume Na longa noite do Tempo! Paris. dente a dente. Também a areia que cai Marca o tempo lentamente E a vida assim se esvai Em duna feita repente.5 Homo Faber Ponta do fio da meada… A gota que faz o mar… Tudo começa por nada Numa lente de aumentar. O fio da baba da seda Fez o ovo do casulo (Ter asas na alameda Foi afinal esforço nulo!) Tudo já foi momentâneo. Desembarca em foguetões O qu’utrora foi ossada! Osso a osso. Agora tudo é Passado E lê-se a História num crânio Dum homem desenterrado. A vida passa tão rente A tudo aquilo que fomos… Quando a nossa pele é estrume. Da Lua fica a pegada. Eis o puzzle que nós somos.

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Mas eu na treva Não dou por nada… A noite mura Nosso abandono Enquanto dura O nosso sono. 12 de Outubro de 1986 181 . O cais nas coxas. És a escultura? Pedra talhada Nessa cintura Por mim esmagada! Ondas nas ancas. Que noites brancas. Que manhãs roxas! Lisboa. Estilhaçada.Insónia Afago a fogo Teu corpo inerte E penso logo Que vou perder-te… A pedra quebra.

Nestas paisagens humanas Tão feitas à nossa escala! Passam trens. Receitas alimentares Entre uma missa e a ceia… Passam dandies e janotas Que a teu riso só dão azo E nos frascos de compotas Vai ficando fruta a prazo. E nas montras dos ourives Vais pesando a injustiça Desses bandos de petizes Carregados d’hortaliça! A rua tinha o tamanho Dum poema desdobrado. A populaça um rebanho Que já não quer ser guardado. Na insónia dessas ruas Do sonho que vai contigo. A cidade em teu redor Era uma quinta fechada. De César um quase nada. 182 . Sob um céu de cor de estanho Que te pesa nos sentidos. Tudo tão subentendido. Faltava-te o cheiro a estrume No vento tão natural. Que levam curas d’aldeia. Muda tudo de tamanho A teus olhos desmedidos. Até há medas de trigo. Feitas senhoras na sala. Assim vivem as mundanas.Cesário a Corpo Inteiro Tiveste nome de cor. Há arados e charruas. E as gaivotas eram rolas Que tinham bico salgado. E conversas abafadas De visitante escondido. são os muares. Só no espaço dum tapume O musgo dum edital… Se murchava algum lilás Tomava a rosa o lugar Ou não fosse a luz do gás Um farrapo de luar… Se te faltavam papoulas Havia sangue espalhado. Há sorrisos nas sacadas.

Faz do seu sangue guache.As igrejas. Lisboa. É paraíso alcançado… Porém. Pensas tu já ter entrado Na herdade dum vizinho… Tudo muda num momento. 6 de Outubro de 1986 183 . Num jardim inesperado. o gradeamento Logo te quer acordado! É a sina dum poeta Que não renega ao que nasce: Com os nervos na paleta. frente a frente. Posto a meio do caminho. São peças do mesmo quadro Que te lembra de repente A falta que faz um adro.

Parando. Como os fios do luar precisam prata. 2 Preciso de ti: Como a treva precisa da escuridão. 184 . acendido em terra estranha. os movimentos. Como da veia cava o coração. Como a altura precisa da montanha. Como a frase precisa dum sentido Se à noite. Quando o fiel é a voz da confiança. uma voz canta… Preciso de ti: Como a onda precisa do sal. sem se ver. Como o barco precisa do sinal Do farol.Os Ralos do Relento 1 Preciso de ti: Como o segredo precisa do ouvido E a sede precisa da garganta. 3 Preciso de ti: Como dos pratos a balança Que equilibra a verdade por momentos. só por si. Como do equilíbrio o acrobata.

Serás apenas tu quem não me esquece. Preciso a sede E mais a morte. 5 Preciso de ti: Ao sol estendido Ou fazendo frente à multidão — Segredo que transborda do ouvido Sempre que se abre a porta ao coração! — 6 Preciso de ti: Como o peixe que na rede Não queira encontrar uma saída… De ti preciso a água.4 Preciso de ti: Como o verde precisa das plantas E o vento da folhagem que estremece… Se acaso a morte vem. Avesso desta vida! 7 Preciso de ti: Como o galope precisa dos cavalos Quando tudo em frente é Dimensão. a páginas tantas. 28 de Novembro de 1986 185 . Como o silêncio Que responde à voz dos ralos Que deixam sem resposta uma questão! Lisboa.

Passagem do Ano
Que movimento, Brusco por vezes, No cata vento Que roda os meses… Ângulo escaleno De vão d’escada (Onde em pequeno Não dei por nada…) Venha o que venha, Baste o que baste, Mas que sustenha A flor na haste. Musgos ou fetos Ou trepadeiras, Mas fiquem certos Nas sementeiras… Que cantochão, Gregoriano: Ter coração Por mais um ano! Mede-se aos palmos O corpo inteiro. Não ouves salmos, São os pinheiros! Cubos de sal São poliedros Mas que coral A voz dos cedros! Mas que solfejos Nas oliveiras… (Mede-me aos beijos Noites inteiras!) Vai-se a folhagem Ficam os ramos — Que vassalagem Se paga aos anos! — Ramos e folhas (Outros assuntos) Não têm escolhas, Não morrem juntos! Estala o verniz, Vai-se a resina, Não tem raiz A nossa sina! Subjugados Passam os dias, Troncos vergados Nas ventanias… Mas que canções Doces escutamos, Quando os limões Caem dos ramos… Adrenalina E mais não somos Que tangerina Aberta aos gomos!
Lisboa, 16 de Janeiro de 1987

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Profanação
Deixas a porta aberta. Basta isso! A noite é escura e boa companheira… Desejar, já por si, é compromisso E tudo aqui me quer à tua beira. Também o sonho vem, inesperado, A leito nem sempre conhecido. Teu quarto fique aberto e não fechado Por destino há muito definido. Bate a chuva nos vidros, surdamente, Pedindo-te que lhe abras as janelas, Como vindos do céu, secretamente, Recados que lhe mandam as estrelas… É a Lua recorte em parafina. Que tesouras a deixam recortada? Se o vento quer as ondas na cortina Toda a noite é maré imaginada… A noite é ritual tão repetido A que o dia s’imola por feitiço. Não falemos num deus desconhecido Deixa-me a porta aberta, basta isso…
Lisboa, 19 de Janeiro de 1987

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Quarta-Feira de Cinzas
Porque será que as uvas não dão sumo Agora nestas vides d’enforcado? Mas vendo bem, porém, até o fumo Tinha com o fogo encontro combinado! Segredos bem contidos, coriáceos, Nos regressos do mundo migratório… Cemitérios d’elefantes e cetáceos Num enredo de desfecho obrigatório… Os gatos dilaceraram Janeiro No cio das crateras do luar, Se acordo, também estás no travesseiro, Afinal nada muda de lugar! Das cinzas que o Inverno aqui deixou Desenhos faz o vento pelo chão; Auto-de-fé que o Tempo levantou Que rebelde solstício de Verão! Tudo assim aconteceu em sua altura, Em peça de comédia ensaiada, A morte é uma espada na cintura, Uma vez só se vê desembainhada! São os dias um barco no seu rumo Com diário de bordo desbotado. É por isso que as uvas não dão sumo Agora nestas vides d’enforcado.
Lisboa, 4-5 de Março de 1987

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Fechadura Yale
1 Havia a sombra que havia no chão — Tão rastejante como óleo entornado — Havia a certeza de haver corrimão Em perfil de cobra em tronco enroscado. Havia náufragos sobre um colchão À deriva no mar encapelado, E do tecto a luz dava a direcção À sombra do óleo já tão ensombrado. Batia o relógio contra o coração, Ruídos da noite rangendo o sobrado… Havia a sombra que havia no chão Recordando o óleo ali derramado. O mar temia outra serração, Tapete? Ou foi ilha? Ou tudo inventado? Havia a certeza de haver dimensão, Coutada de amor: um quarto alugado!

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2 Dois corpos na cama: brutal confusão! O orgasmo tem mar nunca revelado. Quem sonhar areia, vai vê-la no chão, Quem sonhar o céu tem tecto negado. A praia tem dunas, mas não tem limites, Tem poças abertas na maré vazia; O sonho põe ferros e põe os rebites À ponte do sonho que atravessa a ria… Cheira a erva fresca e neste perfume, Corpo de mulher vem tão envolvido. Cheira a terra em sangue o cheiro do estrume Cheira à minha pele o que tens vestido. Ai, como a vida está do outro lado, No fundo da noite, semi-ocultada. O frio da manhã… Eu mal acordado… Cheira a pão no forno toda a madrugada!

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3 Serás a escavação e o aterro, O dilúvio e a seca misturados, Como Adão e Eva no desterro Ainda sem os corpos bem moldados… Serás a tua queda e o zénite A linha de chegada e de partida; Serás a pedra aberta a dinamite Ou estátua que ficou desconhecida. Serás o segredo e a inconfidência, Serás tu a loucura e a razão, Serás tu motivo e consequência Do vazio encoberto em tua mão… Serás tudo o que seja e que não seja, Equilíbrio e queda de acrobatas: Na bola do Destino que graceja, Enquanto um gato brinca com as patas!
Lisboa, 9 de Abril de 1987

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Se a força da gravidade Foi a maçã que deu Eva… Venha lá o que vier. Só o silêncio responde! Cada qual é carácter Do enigma qu’em si esconde. Os latinos caracteres Como são familiares. Lisboa. Alinhou em estilo gótico Aquilo que a morte escreve. Quanta vez chegar à meta Não é bem já ter chegado! Não compreendo o que quero. Pois até o próprio zero Tem valor estabelecido… Não chegou a ser exótico O edital que. Gravar um nome e amor Nalgum tronco vale a pena: Nunca algum computador Há-de escrever um poema! O meu nome predilecto Como vem adulterado: Cada qual tem dialecto Para o nome desejado! Eu quero a noite estrelada. Milhões de sóis em redor E qualquer raiz quadrada Na haste duma flor… Fica nas cordas vocais A chave da solução: Bastaram cinco vogais Para a nossa solidão. Dão-nos nomes das mulheres E baptizaram os mares… O que se escondia em Beta Vem em Alfa revelado. tão breve. 20 de Maio de 1987 192 . Vejo tudo resolvido.Incógnita Qual será a solução Dos segredos que me pedes? Qual será a equação Quando em abraços me medes? Qual será o carácter Que nos deixa revelado O triângulo da mulher Bem no ventre desenhado? Face de prédio em gaveto Visto da rua em viés: O gosto do cianeto Que nos põe o mundo aos pés. Ó Newton: bem na verdade Ninguém a sério te leva.

O direito e o avesso. A teimosia da rosa Que discute a sua cor. És o pedaço de azul Que a noite apaga com custo. A pureza da nascente. sendo a lenha Da minha árvore d’abate. És o mel e o vinagre. És a areia feita mica Onde a imagem estalava. a vassalagem. Água barrenta e castanha. 20 de Maio de 1987 193 . És a estátua colossal Dos tempos do paganismo. Tu és o gosto do sal Que se guarda do baptismo. És o vale e a montanha. o amargo. És o perto e a distância Que tantas vezes confundo. A palavra que sufoca Por ter ternura de mais! Lisboa. És a folha. És a vela do milagre Que deixa o Mundo mais largo. És a lágrima teimosa Que vence qualquer pudor.Cofre de Segredo Tu és a palavra-chave Que abre o cofre de segredo E também o voo da ave Que se inveja no degredo. És a pedra da infância Com que enfrentamos o mundo. Tu és o ouro que fica Duma pedra feita lava. Canção que morre na boca De ciganos e jograis. O sopé e a vertente. o arbusto. És o Norte e és o Sul. Tu és o santo e a senha Dos meus dias de combate. A revolta. O açúcar. És o vento na folhagem Onde nos sonhos estremeço. A floresta.

Cotação do Dia Tenho o valor de um tostão trocado. Amor: p’ra ti eu valho um cruzado. Pataca batida e já muito gasta… Imagens de reis passam nas moedas. Pardaus de Miranda. Inflação p’ra nós: só se forem ondas Que salgam poemas salvos por poetas… Cotação do dia não é amargura. — Centavo perdido e logo trocado. seja dura ou mole… — A carne do Rei também ficou dura Em Alcácer-Quibir. para ti eu valho um cruzado. Moeda poupada em vida tão gasta! Lisboa. Efígie discreta — que o tempo arrasta — Porém. cabeças redondas. Como água corrente a limpar o ouro… Em todos os dias só tu me segredas O valor do riso e o preço do choro… Ceitis vicentinos. três dias ao sol. 28 de Junho de 1987 194 . A côdea de pão. de cunhos ascetas. Em troco de pobre meio-tostão basta.

leito imundo. afinal. De ti. meu filho Pedro. É chuva da manhã ou é perfume Vertido por Mulheres Piedosas? Que fogo a crepitar! Mas não é lume… Os cardos no deserto lembram rosas… As bocas dos romanos ficam mudas… Constantino. O ósculo traz vinagre na saliva. foi convertido.O Beijo de Judas Estende a face da noite àquele beijo. As estrelas são as minhas sementeiras. os teus pecados Farão uma cidade destruída. guarda o ferro A morte não precisa duma espada… O Cordeiro Pascal aonde pasta? Entre o Céu e a Terra? Noutro lado? Também Herodes tem a adaga gasta De ter tanto inocente degolado. O medo serve apenas de evasiva Quando a pena maior se chama vida. cheia de vida. Tal fonte natural. Pois que a traição virá da madrugada. Nada disto teria acontecido! Praia da Marinha. Como a noite é diferente aos outros Onze… Só Pedro terá hoje algo a dizer: Negar. A treva será tudo quanto vejo Bem no fundo da noite aconchegada? A cama: terra dura. meu pobre Judas. Excremento de gado e oliveiras… Mas «não é meu Reino deste Mundo». Sem teu beijo. Jerusalém. depois. O sangue escorrerá dos teus telhados. Veneno da serpente mais temida. o que depois virá no bronze Dos sinos por que tem de responder… Foi Páscoa? Foi Cruz? Foi o Enterro? A Pedra Tumular foi violada? E tu. 14 de Julho de 1987 195 .

morrer. O grito é música sacra Em coro silenciado. As nervosas mãos helénicas. Nos ofícios esquecidos Que já foram novas técnicas. Nem sequer a lei do Pólo Para seus filhos sem lei! Vão-se as crianças de colo Só porque Herodes foi rei… Se estrelas fossem pegadas Quem seria o Povo Eleito? Crianças mal vigiadas Por um deus num parapeito. A Terra por dentro é oca Ou de rocha mais maciça? Que catedral: uma boca. Deste ofício de viver Qual será a obra-prima? Mas na Árvore de Jessé — Que campo de expiação — Não figura São José.Ofícios Esquecidos Fenícios desapar’cidos. O que ontem foi moderno É hoje só do Passado. O Sol que funde o Eterno Deixa até o frio queimado. Quando tua língua lacra Meu sorriso angustiado. Faz uma cruz dum madeiro P’ra depois te suspenderes. Soldar palavras em rima. Feitos irmãos de momento… As tempestades solares — Ó império sem altura! — Nós temos glaciares Quando desce a temperatura. santos de caliça… Esvair-se em sangue. Sabe-se lá a razão!… Chegam ao porto das barcas Que trazem o salvamento Os plebeus e monarcas. Sê tu próprio o engenheiro Do Calvário que escolheres. Dentes. 24 de Setembro de 1987 196 . Guimarães.

Papel-Moeda
O que diria Álvaro de Campos: Fernando Pessoa impresso em nota de banco! Pessoa a ser hoje disputado, Mais num minuto Do que nos milhões de livros Que nunca viu impressos, Embora as lombadas Lhe exibam o nome (Como lápides de cemitério Sempre de leitura rápida…) Que diria Álvaro de Campos? O próprio Pessoa, Por seu lado, talvez confessasse Que por vezes ainda receia Que seja isto tudo mais uma trama do Alves Reis, O tal que já se serviu um dia do Vasco da Gama Para trocar as voltas ao Banco Emissor E ao fleumático Sir William Alfred Waterlow Da firma impressora Waterlow and Sons E que hoje dele se sirva — Pois que já é figura nacional — Para uma moscambilha qualquer… Sim… Talvez confessasse… Ricardo Reis O do «Ouvi contar outrora quando a Pérsia»,

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Com a sua indiferença de xadrezista Reproduzirá mentalmente O acontecimento Como a multiplicação dos grãos de trigo Pelas casas do tabuleiro E acabará por achar também habitual O constante desdobramento da tua universalidade Tão natural Que nem Lídia Lhe notará nada no rosto… Já Caeiro, Por seu lado, Dirá apenas, sem sentenciar seja o que for, Que o Fernando, Tornado outra vez gente, Voltou à Terra Não «rebolando Pelas encostas do monte», Mas rolando, sim, Pelos movimentos circulares duma rotativa Que o reproduziu aos milhares Em notas do Banco de Portugal, Como por artes de caleidoscópio Ou por jogo de espelhos paralelos, Como se o Fernando — Tão imprevisível que era — Tivesse assumido num repente Uma espécie de Milagre da Multiplicação dos pães (Vá-se lá saber se até por artes ocultistas Da Tia Anica…) Mas seja como for, o que diria Álvaro de Campos De mais este inédito

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Tão originalmente tornado público? Ou não será, porém, tudo isto Simplesmente, na realidade, Mais um passo de práticas ocultistas Donde resultarão Outros milhares de páginas — Desta vez, porém, de livros de cheques — ? E mais: não era apenas isto Que Aleister Crowley («A Besta 666») Antevia já na linha de água Que o papel-moeda exibia Quando olhado a contraluz? Será só mais um degrau Da escadaria do inexplicável? Mas sendo exactamente apenas isto, O que diria Álvaro de Campos? Já que Bernardo Soares, Aproveitando-se da figura de Vicente Guedes, Se limitará a fazer o lançamento do sucedido Em conta-corrente, para depois, Com a consciência dum dever cumprido, Ir à Rua dos Douradores Para o almoço diário Nalgum restaurante Desses que tenham o ar de «casa de pasto de vila sem comboios», Aceitando assim como natural Que o seu meio-irmão ande agora Nos guichés dos bancos Entregue a essa espécie de jogo de cartas, Que há no dar, no receber, no baralhar E no partir Desse baralho infernal

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Que são os maços simétricos e cintados Das notas de banco Quando ainda cheiram a tinta E não foram gastas por ninguém — Como naipes virgens que o croupier desembrulha Publicamente Em reforço da credibilidade Que os casinos têm sempre de exibir… — Todavia, o que diria Álvaro de Campos? Mas os criados do Martinho da Arcada Ou da Brasileira do Chiado, Esses, ao entregarem moedas em troco do novo papel, Só pensarão que a certos fregueses Se lhes deparam situações estranhas: Que venha uma pessoa no jornal, ainda que vá… Agora numa nota de cem escudos!… Isso é só para santos e para os reis, A esses nunca ninguém os viu vivos… Mas, de mãos ligeiras, Remexendo no saco à cintura — Como bolsa marsupial — Nos seus aventais Prepararão já outros trocos Com mais um sorriso de boas-vindas Para um freguês de todos os dias, já quase família… Talvez seja até com esta simplicidade Que a coisa tenha de ser olhada. Mas realmente como continua ainda o desdobramento da tua personalidade, Agora nos trocos das notas de cem escudos A que tu serves de caução!

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Tua Mãe, por seu lado, pensará apenas Que foste longe E que aquilo do prémio da Rainha Vitória Ganho no Cabo da Boa Esperança Era já um aviso do Eterno, Edital, meio solto, ao vento No muro do Destino… Para a Tia Anica Será isto tudo vulgar, Rotina das mesas de pé-de-galo, Diálogos de Deus e do Diabo Por interpostas pessoas, Com pancadas de nós de dedos invisíveis Vibrando na madeira familiar, tornada Desconhecido. Sinais de Morse Que no caso do sobrinho, São pancadas de Molière Anunciadoras do sucesso que tinha em frente, Nessa apresentação do «Drama em Gente» Que iria ser a tua vida… (Já nos tempos de Cape-Town, para ela, Não passava a Montanha da Mesa Duma simples pé-de-galo, Peça íntima do mobiliário Na antecâmara do Eterno Onde tu ias entrando Com enorme à-vontade!) No entanto, já o Alves da tabacaria, Ao dar o troco Junto à onça de Tabaco Francês

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E ao livro de mortalhas Zig-Zag (Sempre de venda simultânea) Verá num relance A cara conhecida no desenho da nota recente, Mas nunca lhe passará pela cabeça Seres tu, o poeta da janela ali a dois passos Que estejas nela impresso, De chapéu e óculos de aros finos Com que «andas sempre ao sol e à chuva»… Tudo isto estará muito certo, Mas Álvaro de Campos o que diria? Ao menos o Almada Desenhou-te à mesa do café, Como esperando que a Eternidade Entrasse em qualquer momento Nos Irmãos Unidos E te levasse a passear Pelas distâncias consteladas, Que hoje são o teu Jardim da Estrela (Aquele gradeamento, Ali a dois passos da rua Coelho da Rocha, Onde milagrosamente ainda se mantém de pé Uma das casas que viveste por dentro…) Pintou-te à mesa dum café E não no Banco de Portugal, Pois, conhecendo-te os fracos como poucos, Sabia que tu não trocarias Por uma barra de ouro-lei Um poema que pudesses fazer Sentado no Martinho Ou no Café Montanha

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Consciente da pouca dimensão da sua obra. Marinetti Que acabou mesmo por morrer académico. Tu Que afinal estás apenas simbolizando Conceder um aval a mais um teu poema inédito Agora descoberto… 203 .Ou até. Deve quedar-se silencioso. frente à cómoda alta Como aquela que havia em tua casa E onde um dia Num galope do teu pensamento Te surgiu o Mestre Caeiro Inesperadamente mas com tanta naturalidade. Vingou-se agora bem de ti: No seu juízo. esta nota bancária É o aviso-recompensa da tua cabeça a prémio Que só vale cem escudos Que tal como a lira italiana. de pé. Como elemento dum coral Que cante só de vez em quando E sempre juntando a sua voz à do grupo. Como endossando um cheque. Contra a tua opinião (via Campos). São uma insignificância… O Barão de Teive. Esperando que outros Falem por si. Imprimiram-te de caneta em riste.

Como se em vez de te barbeares Em frente do pedaço de espelho. Do esterlino ou do rand (como te deve Dizer alguma coisa. Servindo-te da vidraça duma montra Para reflectir a tua imagem! Como te obrigam a colaborar com os donos do Mundo Que querem à viva força Tornar familiares ao grande público 204 . Pendurado na velha portada de madeira Da janela ainda mais velha. esta moeda!) Que cotação terás neste momento Na Bolsa de Tóquio? Tu: Simples correspondente comercial. então. Exibes agora o teu rosto indiscretamente. Hoje com o equivalente em ouro Cada vez que reproduzem a tua imagem Num pedaço de papel! Tu: O tímido que te confundias na multidão. À hora de maior movimento. Te escanhoasses impudicamente Em plena Rua do Arsenal.Ah! «Se te querias matar» Devias saber que estavas destinado Ao risco de criares sem querer Outro heterónimo Sujeito a correcções do dia E aos caprichos do dólar.

Como um poema mais Atirado à Eternidade. Que ao sobrar do Verão Faltará no Inverno Para justificar a Primavera! Também tu caíste bem. Em lugar do lenço caído Saltassem também moedas. em suas vidas. afinal.Os tímidos depois da morte. Ao reproduzi-los — Como cogumelos venenosos — Em cédulas bancárias! Que investimento diabólico Faz o Capital dos vivos de ontem! Seria antes tão simples. de quando em vez. no domínio público… Tu que eras do tempo dos tostões. Como folha de Outono De cair tão natural. Ter feito de suas algibeiras um ninho de ouro Donde. Pagas hoje na Bolsa Os títulos e obrigações Dos que nunca te lerão Mas que te disputam o retrato Por razões tão evidentes! Ah! «O lar que nunca terias» É hoje momentaneamente A Casa da Moeda Com teu retrato suspenso Em parede anónima Sem manchas de humidade 205 . Dos reis e dos cruzados.

queiras ou não. Andarás nas mãos dos justos. Das prostitutas. por capricho do acaso. 206 . Dos viciados de jogo E serás. Editaram-te agora finalmente Mas em dinheiro!… Assim. a bola e a batuta do maestro» Se misturam na memória da tua infância Esse cofre cujo segredo Só o Destino conhecia! Só na Alta Finança Serás familiar Mas nunca ao «Banqueiro Anarquista» Pois que a qualquer «Esteves sem metafísica» Nada dirás. O prémio do aluno aplicado Que durante o ano escolar Tenha sabido de cor Os teus poemas nos dias de aula… Nos enfadonhos dias de aula! Que capricho há na morte das pessoas! Com a tua figura Será paga a Sorte Grande E serão remunerados os tenores No teatro em frente Da casa onde nasceste E onde «o cão. Dos ladrões.Mas tão desconfortável por dentro Por pouco familiar que deve ser.

Tu o despojo valioso da batalha. Um retrato familiar Que deva andar aconchegado ao nosso peito… Que homem dividido que continuas a ser! É como se cada um de nós tivesse o direito A uma parte de ti. quando já ninguém esperar ouvi-lo. E com a sua rebeldia De não aceitar o estabelecido Que. Mas para que tudo isto tenha um sentido Deve haver uma razão oculta Que não devemos procurar Como se tenha de respeitar Um segredo inviolável Ou aceitar um dogma. Tu o produto do saque repartido Tu a hóstia fragmentada Em Comunhão Campal em dia de Páscoa.Uma vez que te meterá na carteira Para logo te tirar de seguida. ao menos por momentos. Que nele funciona como um íman. Sem fazer de ti. Dirá Talvez 207 . na atracção do proibido. Sim! Mas será precisamente por isso Que Álvaro de Campos Não poderá ficar calado por muito mais tempo… Será assim que.

Na sua voz sem timbre. Cujas palavras trazem assim o peso do Intemporal — Eu Que tenho como sexo o dia e a noite. Com os seus amores incestuosos Nas suas entregas Do fim da tarde e da madrugada… — Eu Que tão britanicamente me assumo Tanto na Rua dos Bacalhoeiros Como à entrada do Canal do Suez. Sempre tão fora do Tempo: « — Eu O homem que nunca existiu. Que rebentou a bolsa de águas das Ideias… — Eu Que tenho como cédula pessoal O primeiro poema feito em meu nome E como certidão de óbito o fim Do último verso que escreveram por mim… 208 . Que fui parido por um pensamento. Sempre com o meu vestuário talhado pelo Irreal… — Eu Que tenho como idade o zero absoluto.

— Eu Que não hesitei em passar procuração Para isto tudo! — Eu O abstracto O invisível O sobrenatural… — Eu Que tenho deixado que outro Fale por mim E me tenha abrigado Nalgum desvão da sua personalidade. Mas que tenho ideias próprias E sobretudo um acentuado Sentido de amor-próprio… — Eu Que sou o Nada e o Absoluto simultaneamente Não posso calar nem sequer por mais um minuto O que penso disto tudo! E Assim Direi Mas tão-somente 209 . Já de si tão partilhada por mais outros (Como fatia de bolo-rei Em noite de Natal!).

Norte de Portugal e Lisboa. Setembro-Outubro de 1987 210 . Paris. Direi a Daisy Que quando eu morrer Não me enxugue o rosto Pois que por vezes A face dos grandes homens Fica estampada no linho Ou gravada em papel-moeda E Daisy sabe Que quando eu morrer Quero ficar sozinho Para sempre… De mais a mais Porque quando o carrasco fala a nossa língua Pode a morte ser intimidade E é isso apenas o que mais Desejo neste momento!» Londres.— Pobre Fernando Que «Livro do Desassocego» Que «Floresta do Alheamento» Que continuam a fazer da tua vida! Como te lamento! Pela minha parte.

Quem quiser um céu de pombas Não pode querer dinamite.Ração de Combate Vou pelos campos de milho — Que na guerra ninguém trata… — Levo o dedo no gatilho E uma bala na culatra. 10 de Novembro de 1987 211 . A vida: Que xeque-mate Neste xadrez da razia! Levo rações de combate Numa mochila vazia… Com a alma em bandoleira. Só ouço o silvo das bombas No silêncio em que medite. Para o que der e vier: Outro sabre na bainha… Quando a Lua se esconder A noite então será minha! O Sol será sempre um p’rigo Nestes dias de campanha Devasso campos de trigo Sem saber quem me acompanha… Vai-se a água nos canais — Lembram rios abraçados — Já houve fogos reais Deixando os campos queimados. Mas de baioneta calada: Faço da vida bandeira Que o sangue quer encarnada! Lisboa.

Era uma fusta ou galé? O horizonte é o arco De triunfo da maré. Tendo embora de jantar… Que vela foi teu vestido No infinito. Eu «deitei solas de molho». Era uma fusta ou galé? Baleal. Mãos doridas de remar Tão pouca coisa escreveram… Pus o meu corpo no mar: As ondas não o quiseram… Em terra tudo o que escolho Traz-me saudades do mar. Porto das Barcas. O vento fez dele duna… Deitei pedras ao luar! Deitei cartas sem sentido! Eu deitei o corpo ao mar. 21 de Novembro de 1987 212 . A vida é bicho-de-conta Que não ganha em se esconder… Em tanto sonho que embarco. Cada qual é como é… Pus minha vida num barco. que escuna! Quis o teu corpo estendido. Peniche.Bicho-de-Conta Pus minha alma num barco. Mas nunca fui recebido… É coisa de pouca monta Tudo o que o mar não quiser.

As Torres do Silêncio .

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Pois ela morrerá se não matar! A caminho de Bombaim. Tão indiferente que fica o Firmamento Ao que se passa na pátria do luar. os Parsis não sepultam nem cremam os seus mortos que. Será o mesmo noutro continente Sem colinas ou cadáveres por contar… A morte é sempre igual.As Torres do Silêncio (No seu rito fúnebre. discretamente. Ante um deus diverso e friorento Que se aquece com a morte em Malabar. assim. apodrecem ao ar livre.) Torres do silêncio e esquecimento! Abutres! Que figuras tumulares! São o negro que alastra pelo vento Nos guaches que transbordam pelos ares. 24 de Janeiro de 1987 215 .

Sem chama sagrada… A vida tão pouco E a morte nada. 28 de Janeiro de 1987 216 . Mas há o luar E o Sol também. A vaca sagrada. Há ouro e rubis E mãos suplicantes. Na boca o que entre É resignação E não sente o ventre O peso do pão. Janela de fome Que tem gelosias. Pesados elefantes.Índia Bóia um nenúfar É água parada Tambor a rufar Na tarde abafada. Cada qual amante Pelas suas normas: É Shiva dançante Of’recendo as formas… O tempo se some P’las frestas dos dias. As folhas dos livros São as folhas secas… Jaipur. As bibliotecas. A morte-corrente Sem contabilistas! Roídos em febres E pelo desjejum… Palácio ou casebres Ou tecto nenhum! E vão-se os arquivos. As bocas com sede Os livros em seda As pedras em rede Pela alameda. O corpo é o coco. Não é alimento! Jejum permanente Sem fins pacifistas. Trocando o lugar Como lhes convém… Serpentes subtis. Nem por um momento Não lhes lembra nada.

Taj Mahal A dor traduzida em mármore. O amor transformado em Tempo! Agra. 30 de Janeiro de 1987 217 . O luto tornado em branco.

o que é pedido! Vitória incontestada dos sentidos. assim. Agra. permitidos. 30 de Janeiro de 1987 218 . Os gestos proibidos. empedernido! Amar até morrer: é o exemplo… Façamos pois. empedernida. para um templo. Como se a vida fosse só um friso. Ampulheta d’areia. A morte pouco é mais do que um sorriso. Ó sémen feito em saibro. Clepsidra de suor do barro humano! Fazer amor assim é fazer vida No templo do teu corpo que profano.Khajuraho Fazer amor em pedra.

De dia sonolento Ao Sol tórrido De noite Esvoaçando em liberdade. 31 de Janeiro de 1987 219 . Na nossa imaginação E nos sonhos Que dali trouxemos E que nunca nos lembram noite! Índia: morcego pendurado Na árvore do Mundo… Khajuraho.Fumos da Índia Índia: morcego suspenso No mapa da Ásia.

O rio das águas sagradas Dá sede que não se mata. Ter gengibre por romã Não podia ser verdade… Para nós o amanhã Já dá motivo à saudade. Ó Ganges d’água barrenta: És um rio? Quem o diria?! Para nós a água-benta Era a melhor especiaria! Agra. São as folhas a cair. os dias. 31 de Janeiro de 1987 220 . Se mudamos de paisagem Deixamos de ser quem somos? Sonhámos ontem canela Hoje temos sal à mesa… Para nós. a vela É o lenço da tristeza. Seca a árvore da Razão. Com as almas degredadas Na lama vemos a prata. no mar.Nas Margens do Ganges Quem quisera especiarias Melhor seria não vir… Passam os anos. Cai o ramo da Prudência: Ir nos dias que se vão Eis a nossa contingência… É carta torna-viagem Tudo aquilo a que já fomos.

São as frases que nos dão a dimensão Dos caminhos que há dentro de nós.Entardecer no Ganges Sangue a sangue e a morte de seguida. Em escuro se apaga a escuridão. a roçar a água a medo… Com o sangue se apaga a cor do sangue Com folhagem se apaga o arvoredo… Khajuraho. Como as dunas que preenchem o deserto. Sem nada que se saiba de concreto. No rio. De palavras é feita a nossa vida. Com palavras se gasta a nossa voz. a deslizar. passa um parangue Ao de leve. 1 de Fevereiro de 1987 221 .

o céu é tão distante — Tão longe que ficou dos nossos gestos — Só lembra abutre negro em voo rasante Que venha disputar os nossos restos! Teu corpo traz o Sol já no ocaso. não faças caso Dos textos que lhe tiram o sentido! Katmandu. 3 de Fevereiro de 1987 222 . Porém o Deus romano não é persa Pois Deus difere sempre na missiva… Banhar-se gente no Ganges ou Jordão É com água tentarmos a pureza… Evapora-se a água em suspensão. Dá forma a Deus.O Medo O medo da morte faz os deuses. Teu corpo traz um Deus já resumido. amor. Toma Deus a forma mais diversa: É Manitu ou Buda ou mesmo Shiva. Nossos olhos que os sonham tantas vezes Mudam-lhes o poder e as figuras. Com ele fazem ninho nas alturas. Mergulhámos somente em incerteza! É longa a noite.

Sem que a estrela da manhã Lhes aqueça o coração.Numa Aldeia do Nepal Passo um campo de mostarda. como em recreio Duma aula matinal. Pela estrada lamacenta. O rapazio quase alheio Jogando num lamaçal À bola. Sentadas no duro chão. Semifiguras macabras… E Shiva é venerado Por entre patos e cabras. Um templo desmantelado. Não há um sino que dobre Por esta espécie de vida? As mulheres dobam a lã. Futebol reinventado: Um excremento faz de bola. Junto ao templo abandonado Um anúncio à Coca-Cola! Arredores de Katmandu. Ambiente rotineiro. P’ro guia cor de melaço. Os porcos fazem chiqueiro Das ruas por onde passo. 4 de Fevereiro de 1987 223 . Terá um anjo da guarda Esta gente ferrugenta? Os rostos são cor de cobre Tom de lama ressequida.

Pôr de Sol nos Himalaias No tecto do Mundo Como fosse um véu: A neve confundo Com nuvens do céu… Que doce de creme Gigante sedento Cuja mão já treme Por este alimento. Destino lendário: Os montes de lã Verão o contrário. Que monotonia! A vida acontece… Katmandu. dia a dia: O Sol arrefece. Que roupa diferente Com que a terra veste. Aqui. Neve em cartolina De corte bem raso: Como em guilhotina O Sol no ocaso. Atrás: Evereste. Porém. Diante o Poente. 6 de Fevereiro de 1987 224 . amanhã.

o destino dá. Mandava entrar muita gente No seu Palácio das Festas. afinal. Em cochins de longas sestas. feito em grés. Em ambiente mais terno.O Palácio das Monções O Rajá de Udaipur. Indiferentes desenhavam Outro Palácio p’ro Vento! Katmandu. a quantidade. Dos dias. O seu Palácio dos Ventos. Enquanto quis a fogueira… As cinzas quando voavam. O ouro faz qualquer mago: E um Palácio de Verão… Com o seu olhar dormente. Nos dias de tempo seco. Num movimento de mão. Anéis em dedos flácidos. Entre águias e falcões. Ondulando. Porém. E como fosse mortal. Mas o pobre do Rajá Esquecera a mortalidade. No cume dum precipício. Sobre o Ganges sonolento. Quando a chuva dava início: O Palácio das Monções. 6 de Fevereiro de 1987 225 . Entre pilhas de madeira Também ardeu. P’ra que a vida lhe perdure Vivia em cinco palácios. Vivia em salas com eco: No seu Palácio d’Inverno. Fez uma ilha e um lago. tal marés D’oceanos violentos: Mandou fazer.

És: O vinagre e o mel. esconde o Sol. Quixote e Cid. Cristo e Barrabás. com naturalidade. A água e a evaporação. de banda desenhada. 226 . sem termos marcado encontro. A paz e a guerra. Tal nuvem que. com mutações. És o milagre da paisagem. O rochedo e a espuma. para alívio dos nómadas perdidos em deserto escaldante. quando a seca já fazia desesperar. O absoluto D. no momento certo. de novo procurar-me. Job e Salomão. para os olhos dos sedentários. A casa e o relento.A Poesia Como gota de água que transborda o rio. Abel e Caim. que permite o atravessar duma rua. companheira de todos os dias. És o relógio com numeração romana no mostrador. O choro e o riso. O gelo e o fogo. como sempre acontece. A casca e o fruto. O átomo. A cara e o cunho da moeda. A chibata de cana e a cana do açúcar. «A árvore seca e a vela panda». por momentos. vieste. Como lenço molhado que refresca a fronte febril. O sol e a sombra. como se o Tempo tivesse parado em Roma e tudo até aqui fosse apenas previsão do futuro em antecipação científica. O nada. Como aberta em tarde de chuva.

pontual e com naturalidade. se não tivesses vindo.Tu que és. também. Tu que és a carta celeste. bissexto. afinal. sempre. É assim que tens o sabor do lápis Johann Faber n. minha companheira de todos os dias. 8 de Fevereiro de 1987 227 . Tu que és o chegar da carta que traz. ainda. antes de lermos o remetente. no lugar certo e no momento exacto. Tudo o que és. És. de palavras e frases. ainda antes de haver mapas. sabendo que no dia seguinte será o primeiro dia de férias grandes. roído na ponta e és o perfume que as laranjas da infância deixavam nos dedos. Vieste de novo procurar-me. em folha de cartolina que se desdobra infinitamente mas que eu agora dobro e levo debaixo do braço para a caminhada que faço contigo. Tu que vieste. o adiar do medo da morte. um selo desconhecido que obriga a olhá-lo primeiro. o sonho lunar e extra-sideral. ao riscar a ardósia da parede da aula. o primeiro dia da Criação e a certeza de que o último dia de todos será a véspera de qualquer coisa. Tu que és. entre as marcas de tinta escolar que se tirava dum tinteiro e as manchas brancas do áspero giz que às vezes emitia sons agudos. para que tenhas mais demora entre nós. Que és o ano-luz. Com a naturalidade da criança vinda da escola e que abra a porta de casa. como gota de água de súbito caída duma estalactite e que de repente tenha revelado que pode chover também debaixo da terra! Entre Delhi e Goa. talvez. o levantar do remo para a remada seguinte. Que és sempre a próxima onda. Tu que és o muro de pedra solta. tudo o que nunca me teria ocorrido. sem encontro ou local marcado. Que és a caravela de Quinhentos. sobretudo. procurar-me.º 2.

11 de Fevereiro de 1987 228 . A chegada dos Três Reis Magos.Fortaleza dos Reis Magos Goa: Tuas praias. Com palmeiras em escadaria. A todo o momento. Onde não faltam. Em socalcos. afinal. Com rochosas arribas. a vida inteira! Goa. Lembram um presépio. Por quem todos nós Esperamos. sequer. os rebanhos E onde seja possível.

subitamente se tornasse numa carreira de tiro. os ponteiros do relógio são a ponte suspensa. Promessa de Primavera ou abdicação dos dias verdes. envolvendo agora tudo em volta. 7 Com que silêncio caiu a neve durante a noite. Tu és de carne. assim devia a vida levar-nos… 5 O Arco-íris é o guache dos deuses. 3 Sempre que o sino tocava. Que a trovoada a imite. 229 . como cavalo-marinho do soldado que ocupa o metro quadrado que nos cabe para a sombra que o nosso corpo projecta. as pombas fugiam em revoada. 2 Do Oriente: o dia. por obra dos anjos rebeldes. O Poente arrasta a noite consigo. lembrando o avançar dum exército em guerra. neste dia invernoso. 4 Com o cuidado que se leva a ave ferida. como ribombar de canhões em paisagem outrora calma. como se o campanário. eu vi uma flor à flor das águas e isso basta.As Formigas na Neve 1 Os santos de pedra. ia à tona do rio. 6 Uma flor. Que diferença que há entre as divindades. Que a chuva aprenda com ela a não tamborilar nas vidraças. Que o vento lhe siga as pisadas e não chicoteie o arvoredo. face à prepotência das correntes invernosas? Fosse como fosse. não estilhaçando a calma do céu. E neste vale de luz e escuridão.

onde egoisticamente queremos estar presentes. gravados nos troncos das árvores. 9 A neve. onde uma gota de neve somente já parece transbordar o vasilhame. esculpidos a canivete no arvoredo. reincarna em água. antes do nevão. 11 Que pintura rupestre faz o musgo no muro em ruínas… que medo da vida o pintou? 12 Só o trevo. levada ao extremo de degelo. é como se de súbito um manto de esquecimento tenha caído sobre o Mundo e sobre as marcas que o Homem teima em deixar sobre todas as coisas. no Inverno escorrem água como se de sangue se tratasse. Pode. Com que degraus imensos de gelo decorre a ascensão e queda da neve que parecia ser tão simples. Porém. afinal. tudo agora. para inutilmente tentar perpetuar uma presença que é tão passageira. albergam gotas de água onde a identidade que querem representar fica afogada em lágrimas de saudade… A chaga aberta de resina dos pinheiros. como o abrir de penas duma ave rara. no outro extremo da escala. coberto de neve. 230 . escorre para taças de traço rude. Porém. Pode. 8 A neve vem como a poeira no vento: espalhando-se em leque. tornar-se em vapor e ser nuvem. depois de acabada. ao contrário do pó. ser avalanche ou cascata. 10 Os corações. Os nomes próprios. gritava que era o arvoredo das formigas.Que a gente aprenda com ela a não pesar nos nossos sonhos. não magoa os olhos mas pára todos os pensamentos de momento e o olhar fica quase magoado pela pouca utilidade que tem nessa altura. ao cair sem ruído. sangrados em vida.

13 Tão pouca coisa cabe nos nossos olhos. 14 Sempre que o sino tocava. como se fosse um relógio de neve em imitação a um relógio de sol. a neve que o revestia tombava do bronze. E a paisagem ficava feliz por dar por isso… 15 É o Infinito. cada coisa de sua vez. 16 Perante o Universo sem tamanho. Talvez assim as imagens sejam verdadeiras. a neve e as formigas só diferem na cor! Índia. o arco do triunfo dos que sonham. remetendo-o para a sua nudez. França e Inglaterra. Janeiro e Fevereiro de 1987 231 . Depois havia toda uma hora para de novo se tornar branco. Cada lágrima a seu tempo. Olhemos. Cada momento na sua altura. Pontualmente ia o sino mudando de cor. assim.

Não venhas falar de ácidos Que corroem tua imagem. A onda que esconde a onda. A noite que tapa o dia. Tudo muda de lugar… Somos a roupa a secar Qu’alguém vai depois usar Ao senti-la bem lavada. Que troféus que tem a caça Feitos de peles e de penas. Se às vezes é blasfémia Não passa de alma gémea: Pois sem morte não há vida! Que mal nos faz a leucemia Nesta embalagem perdida? Somos restos de luar Vindos da noite passada. É o sangue que prescreve O final duma sentença. A foice semi-redonda Em meia-lua que esconda A Lua-Cheia que enchia. Que troféus que tem a caça Feitos de peles e de penas! Que mal nos faz a leucemia Nesta embalagem perdida? A morte também é fêmea. Também a vida esvoaça.Embalagem Perdida Porque me falas de morte Se de vida somos feitos? Se somos bobos da corte Somos um Príncipe Consorte. Na manhã de chumbo baça Sobre a névoa de mordaça Onde morrem açucenas. Como fosse um almocreve Tantas voltas que descreve. A onda que esconde a onda A noite que tapa o dia. 232 . Fala-me em bustos clássicos Que nos recantos plácidos Parecem rostos flácidos ‘scondidos entre a folhagem. Que a luz da Lua recorte Nos vitrais dos parapeitos. A sangue o que ele nos escreve Da morte até à nascença! É o sangue que prescreve O final duma sentença. Porque me falas de morte Se de vida somos feitos? Não venhas falar de ácidos Que corroem tua imagem. Somos restos de luar Vindos da noite passada. A voz que canta na monda.

O que somos. Reproduzido em espiral Neste Espaço Sideral Suspenso por um cabelo! O que somos. afinal? Ah! Quem pudesse dizê-lo! Londres. 13 de Janeiro de 1988 233 . afinal? Ah! Quem pudesse sabê-lo! Somos apenas sinal.

Vem a fogueira Da Inquisição… Mas. (Bolos-de-Rei De passas cruas: Serão anéis Destas mãos nuas?) Vieram anjos. Púlpito. Vêm pastores De vestes brancas. Sem ver ninguém Parindo só! Junto ao jumento Um boi deitado. Rogo. Os olhares vagos… Vêm camelos Com os Reis Magos. Vinho da cor Que o sangue dá! 234 . Imensidão… Os baptizados No Rio Jordão… Que passa perto Em terra inculta.Trinta Dinheiros A Virgem Mãe Mordendo o pó. Boda em Caná. E este estábulo Feito em croquis: Dará retábulo De Rei David! E vão-se as dores Fecham-se as ancas. Parto ao luar — Como animais! — A anunciar Coisas brutais. Cruzadas tantas Marcas de fogo Das Guerras Santas! Tanta cegueira E submissão. Se entra o vento Fica abafado. Seres voadores. porém. Voz no deserto Mas quem a escuta? Outra voz estranha À multidão Se da Montanha Desce um Sermão… Monte Thabor. antes Vivem em tumbas Os emigrantes Das catacumbas… Nasce e divide A Humanidade. Mas quem decide Bem na verdade? Lagos sagrados. E os arcanjos Ameaçadores! Longos cabelos.

12 de Agosto de 1988 235 . Quem vai contar Como cresceste? Nasceste Deus Entre animais Estás nos museus E nos vitrais! Que claridade Em vidro fosco Quando a verdade Nasce connosco! Madrid. As oliveiras Tão seculares São carpideiras Se tu chorares. Tudo resume A pagamentos… Mas Deus tem lume Nos Mandamentos! Só um senhor Podes servir: Era melhor Poder partir… Morres ao ar Como nasceste.Na Cesareia Há outros amos. Nas trevas cobrem Vulto sagrado «Filho do Homem» Crucificado! Não há regresso Já nesta altura… O suor espesso Cai na verdura. Sua planta Crescer ao luar Cidade Santa Este lugar! Calor na tarde Que o vento quebre? O Judas arde Tremendo em febre. Pois grava a areia Os pés romanos. Fica em relevo Gota perfeita Já sonha o trevo Uma colheita! Como convém: Vai morrer só! Jerusalém e Jericó… Rei num momento: Entrou montado Sobre um jumento Desengonçado… Lagos judeus E uma canoa… César ou Deus? Ou rei sem coroa? Quem nos dirige Na nossa queda Tem a efígie Numa moeda. 15 de Março de 1988 Londres. E fica aquém Do Santo Lenho: Jerusalém Que é um desenho.

Duplo Quem por mim escreve Pensa por mim? De mim se serve? Mas com que fim? Duplicidade Ou ilusão? Mas unidade No coração! Quem de mim viva Não me socorre. Vive comigo Familiar Fala contigo Em meu lugar. Escrevo e da escrita Serei proscrito? Em mim quem grita Dobra o meu grito! Se me transponho Eu sou osmose Baba de sonho Metamorfose. Se me desdigo Logo se cala Trago comigo Quem por mim fala. Eco da voz Sem vibração… Rimo ou não rimo Conforme entoo Não me domino E então voo. Paredes-meias Que vizinhança Corre nas veias E não me cansa! Linha da vida — E outras linhas — Indefinida Nestas mãos minhas. Bicho-da-seda Nos fios da mão: Quem me conceda Compreensão. Viver a sós Que sonho vão. Desta maneira Está no que escrevo Que trepadeira Feita de trevo Musgo rasante Em muro velho Meu habitante Como num espelho! Que precipício Onde me testo: Diz-me o início E eu escrevo o resto! 236 . Só me cativa E em mim morre.

16 de Março de 1988 Paris. 15 de Março de 1988 Avião Madrid-Paris.De mim se serve? Serve-me a mim? Quem por mim escreve É escravo assim! Madrid. 16-19 de Março de 1988 Londres. 11 de Agosto de 1988 237 .

À melancia. Londres. Colher lilases Apetecidos… No ar há gases Desconhecidos. Vem o luar Em quatro fases… Vou ao lugar Onde me trazes. Não trago armas Levanto os braços É Veranasi. Marco compasso. Numa sertã Faz-se a sangria… Quem duvidar Que me confirme: Histórias do mar Em terra firme! Maturidade? Sobra o engenho? Estranho a cidade Porque sou estranho! Avião Madrid-Paris. Cheira a avelã. Cidades Santas Tantos oásis A páginas tantas… Depois há Meca Multidão junta A boca seca Tanta pergunta Mal sem remédios Neste meu mal Por entre prédios Há vendaval. Mares de Sargaços. O andamento Passo e se passo Passei no vento. Romas e Parmas. Estranho a cidade Porque sou estranho. Paris.Almocreve das Palavras Meia verdade Pois mais não tenho. 16-19 de Março de 1988. Como almocreve Pelos caminhos Nem sei quem escreve Meus pergaminhos. 11 de Agosto de 1988 238 . O que me deram? Depois naufrago No que disseram. Fecham as asas As aves feridas Dentro das casas Desconhecidas. Sombras de cobre Dum sol dourado Se chego pobre Parto abastado. Frio da manhã Sol ao meio-dia… Sonhamos lã Na noite fria. Trago o que trago. 16 de Março de 1988. Katmandu Ou seja Fez A alma a nu Mais uma vez.

Sou introvertido Por um reflexo E tiro partido Só do outro sexo! Um monte-de-vénus Que seara ao vento Que barco de remos Em mar sonolento. Um ralo ao luar E talvez hiberne Num urso polar. Pois que tem de ser… A fonte: o tinteiro Onde vou beber… Palavras distintas Diferenciadas Paletas de tintas De cores carregadas. Ave migradora Voo em solidão Calada ou canora Conforme a razão… Quando o sol desponta. Quero o céu inteiro Para sim ou não! Mas que espada nua De feitos e factos. A cara engelhada… Talvez sanguessuga De água parada. Começo de ruga. Quem fez o meu traço Mas que desabono! Sou folha com espaço Mas só no Outono! Bicho do deserto E duna distante D’areia coberto Por céu sufocante. Não pouso na mão. Manhã colorida: Sou bicho-de-conta Desenrolo a vida! Não quero falcoeiro. Não serei aranha Pois detesto a rede… E temo as grilhetas Das asas pregadas Dessas borboletas Bem coleccionadas.Divisão das Espécies Formiga em carreiro. 239 . Louva-a-deus na tarde Voando aos soluços… Quem sabe se um verme. Já estarei ausente Talvez amanhã… Hoje sou serpente E mordo a maçã! Sou bicho da lenha E morro de sede. Peixe em liberdade Se nadar de bruços.

Basta um metro de ar. Ser incompleto. Serei ave rara No nosso aviário? Mas tudo o que amo Há quem o deteste. por enquanto Posso respirar… Para que a Poesia A mim não me deixe Eu guelras teria E seria um peixe! De modo nenhum Em mim não esmorece É sangue comum Duma certa espécie! De fraco músculo Onde nada encaixa. Que espécie secreta Quase em extinção! Eu ou dou a cara Ou sou refractário. 17 de Março de 1988. 11 de Agosto de 1988 240 . A transposição Que a morte dará! Seja como for. Um invertebrado… Minha lei decreta O ter coração. Londres. um insecto. Um erro de teste? Um bicho silvestre.As fases da lua Comandam-me os actos. Serei um molusco Feito de borracha. Canto sem batuta. Que versos que tanjo — Mas que notas vasas — Eu seria um anjo Se tivesse asas? Eu canto o que canto. Só serei engano. Só suor nos poros Se este tempo aquece… Talvez a razão De tudo o que há. Quem sabe. Sou grilo campestre. Fracção ou quebrado. Assim. Paro se alguém escuta… Mas não espero louros Pois tudo me esquece. É este o meu fim… Seria pior Se eu não fosse assim… Paris.

30 de Abril de 1988 241 .Navegação Nocturna O mastro da gata. O estais do galope E outros estais. O sonho é o leme. Quero dar à costa Como fosse lastro. Brisa e sobressalto E as acalmias Cercando o mar alto. dobradiças. As velas são escassas Se sopram tufões. O mastro maior. As ilhas de estrelas Que há no Firmamento. Se no sono embarco Há por mim quem reme… Quem ganha a regata? Quem menos demore! O mastro da gata. O vaivém do vento. Os vaus. Os nãos e as deixas… As vergas e velas. Arpéus e fateixas. Badernas. Mastro da mezena… Tudo em ponto morto Quando há quarentena Adiando o porto. Quem ganha a regata? Quem menos demore! Coxins e falcaças. botões. as vigias E as sobrequilhas Meias melancias… O mar de quem gosta Faz vela e faz mastro. escotilhas. Ferros. Dormentes. Rasgam envelope Notícias fatais… Os nós e as espias. Gatas e adriças. A Ursa Menor! Lisboa. A noite é um barco.

Vi pegadas no asfalto? Como o medo faz o mito! Vi aves embalsamadas De olhos embaciados E estátuas decapitadas De príncipes já exilados. Londres. com a cor do estragão. Com raízes ao contrário Vi plantas aquosas. Vi o rio da despedida Onde os lenços são bandeiras. Ouvi a voz sem medida Do choro das carpideiras.London Sight-Seeing Vi a estátua dum dragão E. 6 de Maio de 1988 242 . Tomei o peso ao império Que perdeu o seu suporte Quando tomou um ar sério O pobre bobo da corte! Com o tempo corroído Pelas chuvas. Fica tudo resumido Às pedras dos monumentos. Vi outros monstros marinhos. No fundo deste aquário De serpentes venenosas. de pedra. vi golfinhos E. pelos ventos. Vi reis feitos de basalto E rainhas de granito.

Perdido por Cem Conto até cem. amor. 11 de Junho de 1988 243 . Como pode o ano ter só doze meses Se mais de cem eu deixo por contar?! Cem anos passam breves. Conto até cem. Contarei até cem e volto ao zero — É bom à nossa casa regressar! — Filho pródigo sou! Assim me quero! Embora sem ninguém p’ra me esperar! Lisboa. O zero sempre deixo em meu lugar Nas praias em que estou e que não vês. Voltando à superfície em cada vez. tantas vezes. Elefantes que se deixaram esmagar. Na História são os séculos a rodar. meu amor. Serpentes nos olhares cartagineses. sem respirar. sem te encontrar. mais de cem vezes Cem vezes te lembrei. Desejei-te. amor. ao acordar. Não chego ao fim… Os Romanos punham letras a contar… Os números são um rio dentro de mim Se te procuro. amor.

Sou a voz do silêncio que discursa. feita breu. Mas os nomes das estrelas sei de cor! Os sonhos que de dia me alimentam — Que farinha de pão mal amassado —: A força da razão em mim exp’rimentam Talvez por me encontrar bem acordado! Sou dono de mim próprio e do destino. sendo um bem. Os sonhos. 30 de Julho de 1988 244 . estando aqui. pobre peregrino da Grande Ursa… Caminhos do Diabo ou do Céu? Sou ilha só com sonhos em redor! Desvendo a noite toda. Que caminhos sem andar já percorri. Eu. são o pior… Dom Quixote que vê no Sol a pino Tudo o que a noite tem em seu redor! Londres. Nas estrelas sou distância.Ursa Maior Serei somente e sempre como eu sou E não aquilo que outros de mim querem. Sou búzio: choro o mar que em mim secou Nos cedros canto o vento que me derem.

Teu sangue. Tal é a sede enorme desta hora! Cada um tem uma Estrada de Damasco Onde Cristo o encontra ou ignora! Londres. de tão espesso. até lacra A pedra como fosse flanela… Será a tua voz música sacra Saída. Porque adiamos nós o nosso encontro? Será por ser ateu e em Ti não creia? Será por eu ainda não estar pronto P’ro vinho e para o pão da tua ceia? O Dilúvio caberia num só frasco.Estrada de Damasco Estava Cristo em pedra na parede. Dava dó. nem tem telhas E o asno e o boi só servem para abate. tuas ovelhas Que em vez de ser rebanho são combate? O Presépio. 31 de Julho de 1988 245 . sei lá donde. Mas parecia que ainda respirava. Que fizeram. em ruínas. na capela? Jesus: Jerusalém o que nos esconde? Judeia: tem caminhos sinuosos… Procuro tua voz: ninguém responde E deixas-me os meus dias duvidosos. dava suor e dava sede O Cristo que ali mesmo agonizava. Senhor.

O amor também é roubo Quando há um travesseiro. Quando somos pela certa Qualquer sombra de ladrão. Já traz noite prometida Em alcova de romance. 9 de Agosto de 1988 246 . Vestimos a pele do lobo E fazemos de cordeiro! Se nós morremos à míngua Dum olhar ou dum aceno: Quanta vez a nossa língua Muda o gosto do veneno. Já traz a Lua esbatida Bem fora do nosso alcance. O amor em qualquer língua Traz um nome de mulher.Veneno Se nós morremos à míngua Duma carícia qualquer. É porta que fica aberta À espera da nossa mão. Londres.

Dizer por Dizer Dizes: desdizes Só por dizer… Se contradizes Crescem raízes Sem florescer… Cores e matizes Por preencher: Os aprendizes Gastam vernizes Para aprender… Tu não avises Quem vai morrer. 13 de Agosto de 1988 247 . Tudo o que pises N’almofarizes Não vai crescer… Não hostilizes Mesmo sem querer: Só há juízes No que tu dizes Tu irás ver! Contabilizes O teu viver E não há crises Pois que tu vives Teu «Deve-Haver»! Londres.

A Última Caçada A última bala Já está na culatra. Com paredes-meias Serão as sereias Das histórias do mar… Águia pirenaica… Também os castores… Com cultura arcaica Tem força voltaica Dos seus geradores! Vamos liquidar Os ecologistas. Já se baixa a fala… A última bala Tem de ser de prata. O urso polar. É caçar baleias. Depois afogar Nos poços de ar Toda a natureza! Depois é queimada. Matar sem perdão Demente e profana. Que não fique nada Terra calcinada E quanto mais cedo! Ó rios poluídos: O lixo vos tape! Nós somos ruídos Só temos sentidos Nos gases dum escape! 248 . Em pleno abate A morte é a festa Tão pouco que resta Neste xeque-mate. Os nossos inícios São acidentados: Só há desperdícios Nos nossos indícios Já meio apagados. Já ajoelhados E de arma à cara. Matar por matar Apenas por gosto… E sem plantar Só saber queimar Deixar fogo posto! A destruição É o nosso lema Venha a poluição O mundo é prisão. É reformular Noção de Beleza. A terra queimar E a água secar. Somos alquimistas! Que estranha cultura Funde na retorta Que cor de tintura Tem nossa pintura: Natureza-morta. Arda o arvoredo. Olhos tão vidrados E obcecados Só de quem dispara! Minha geração Renega Diana: Caçar sem razão. É ovo sem gema! Seca a floresta. Na morte se fecha Como na coutada Dispara a flecha Mas a caça deixa Toda abandonada.

Cofre de segredo. A parede é preta A porta não tranca. O sol e o luar Vamos exterminar As últimas espécies! Não há prisioneiros! Feridos? À coronhada! Somos bons negreiros Formiga em carreiros Faz caça danada! As mães são bastardas. Enxofre à mistura Esgoto-corredor Andando em redor Da nossa cintura! Relevo das vulvas Mordente em elipse… Estrangulam as luvas Das ácidas chuvas: É o Apocalipse! Vai ser a punhal. Tu jamais esqueces. Almoço e jantar Nada vai sobrar Para os parasitas! Banhos de vapor. refregas: Por mais poluição… Mas onde te entregas É nas marés negras Banho de imersão. Batalhas. A nossa ração A alimentação Mais repugnante! As nossas narinas. Os filhos perversos Cantem as ‘spingardas E enviem guardas A quem faça versos! 249 . A ponta de lança O ponto final É bala mortal Fiel da balança! Vai ser a baioneta Nossa arma branca Casa obsoleta. O diesel dos expressos Que óleos pesados! Venenos-confessos Viscosos e espessos Por nós respirados! Lixo nuclear Levado em marmitas. São limas de quinas Onde as cocaínas Se moem sem medo. Esta cega-rega No fundo dum poço É a cabra-cega: A lama já chega Até ao pescoço! É tenor? Contralto? Será orfeão? Ardendo o asfalto — Que já foi basalto — Já não há mais chão… Vamos ocultar.Cheiro a alcatrão Inda fumegante. O caixão é fórmica Dará mais nas vistas E a pilha atómica Será filarmónica Na mão dos artistas.

Bebé de cristal: Se tu caíres mal Ficarás partido! Dobrar o joelho… O gatilho lento… Estilhaçar o espelho Onde um escaravelho Rebola um excremento! Londres.Mas que planeta Da grande ameaça E há quem já meta O bebé-proveta Dentro da vidraça! O seu enxoval É feito de vidro. 15 de Agosto de 1988 250 .

Enquanto outra galáxia já avança — Saber-se lá porquê — por todo o Espaço… Que deusas e pastores andam no céu… Pastagens infinitas dão caçadas! Balança da justiça? Mas sem réu As grades estão há muito destroçadas. mais os pratos da Balança E o Caçador sem lança e sem ter laço. Nem o escravo se sente prisioneiro Ao ter por tecto só constelações… O céu é toda a força que nos resta Nesta coutada de homens dominados: Não passa duma grande floresta Com Ursas e Centauros desenhados… É uma Virgem. As paredes de vidro são prisões! E se houver Deus. meu Deus. ficará mudo Como Cristo ao morrer entre ladrões! Lisboa. 10 de Dezembro de 1988 251 . Aquário talvez seja isto tudo.Lente de Aumentar Só de noite o mundo é verdadeiro No perfume das tílias e limões.

Velha serpente do mar Ao nosso corpo se cola E há sereias a cantar Nos seixos que o mar enrola… Arribas e precipícios E marés em remoínhos. 11 de Dezembro de 1988 252 . Na mesa de cabeceira Temos a luz dum farol. mas vestimos O enxoval das marés: Tecelões d’algas e limos No berço d’algum convés! Lisboa.Tecelões Nossos nervos são um feixe. Pescadores de sete ofícios De espadartes e golfinhos… Nascemos nus. O sono não dá por nada Os limos são sumaúma! O destino por fronteira As unhas feitas anzol. Novelo de cordoaria… Nós temos olhos de peixe Perfume da maresia… Epiderme toda em escamas Sem que a pele se nos retraia E fazemos nossas camas Na areia de qualquer praia… Um rochedo é uma almofada Feita no linho da espuma.

As estrelas já cá estavam. Indiferentes. Que palavras nos são assim veladas À fala que a tudo nos responda? Mais bocas haverá. mas estão fechadas. Talvez a solução aí se esconda… Serás ainda Tu que desejamos Ter bem a nosso lado. Perguntar-Te e saber se respiramos O ar que a outros seja irrespirável. Talvez sem os nossos problemas. vulnerável. que vento há a estremecê-la? Se apenas houver chumbo na paisagem Derrete no calor dalguma estrela! Soldadinhos de chumbo em regimento Que na concha da mão dum deus sereno. Mas haverá ainda outra ramagem? Se houver.Soldadinhos de Chumbo Será ainda por ti que procuramos Quando a morte um dia nos levar… Vivemos. Em constante fusão no firmamento Moldou um batalhão que é tão pequeno! Que sargento-ajudante nos conduz? Que chaves há na mão do despenseiro? 253 . perguntamos: Quem nos pôs aqui. neste lugar? Mas chegámos. Se vivemos. assim o céu queimavam Sem saber que criavam teoremas.

que cortiços doutro mel! O Homem é a soma dos hidratos. Chegar ao seu limite: decepção! É voz! É tanta a voz e nenhum eco! E se acaso a voz de Deus for o trovão?! Será por Ti ainda que chamámos Mesmo se fores mentira e sem razão. sendo gente! É ainda por Ti que perguntamos Se um dia Te disseres Inexistente! Que sais em suspensão. Dez dedos. Que abelhas. outros tantos mandamentos? A Fé será a vela larga e panda.Buracos negros há que comem luz Tão negra como o fundo dos tinteiros! Tanta pergunta há e não respondes! Decerto não será por timidez… Se tens a solução no que nos escondes É golpe baixo em jogo de xadrez! A falar com o medo: nós oramos… Que bichos que nós somos. sem saber. Os poros são os favos nesta pele! Zangão. Tu estavas já aqui quando chegámos No medo que nos gela o coração. 9 de Julho de 1989 254 . mas por que ventos! Se o Espaço fica ao fundo dalgum beco. que carbonatos. Paris. será o Deus que nos comanda. 8 de Fevereiro de 1989 Londres. Soprada.

Há um contador Que não qu’remos ver Nesse mostrador Que é um malmequer… Na raiz distante Dalgum girassol: Relógio gigante Lembrando um farol. a frágua. 9 de Março de 1989 255 . Lisboa. No Tempo a crescer… Há outros países Ao anoitecer? Relógio de areia… A clepsidra… Silvos de sereia E os olhos da Hidra… As fases da Lua… O dobrar do sino… E a espada nua Do nosso destino! Se Deus for Além Em quem acredito? Se conto até cem Que tempo debito? Tudo é tempo ou nada. Os olhos enxutos O relógio d’água Afoga os minutos! O Tempo é ração No nosso deserto Quando o coração É relógio aberto. Que dias medonhos A tua almofada Não sonha os meus sonhos! O ferreiro.Relógio de Água O mel das abelhas E os escaravelhos… As casas são velhas Se há telhados velhos! Olhar de aquário No vidro do mar. Barro refractário Arde sem estalar. raízes. A esponja de fel A boca nos abre. Relógios. Torre de Babel De gosto a vinagre.

É o C a ferradura Desse corcel do Destino. Paris. (O V também me recorda O jardim que há no teu ventre…) Na pedra.Caracteres Ilegíveis Decorreu um quase nada Entre a colheita e o verde… O Z é curva da estrada Onde o silêncio se perde… Será o S serpente? O zero seria o ovo? E o V é a vertente De vale aberto de novo. Entre o gelo e a fogueira Corre a vida. quem diria? O H faz de barreira Para a nossa correria. Por ordem de Satanás É o carrasco das letras! Corpo suspenso na corda: Letra I que nisto entre. 4 de Abril de 1989 256 . O F a forca nos traz Quando as tintas são mais pretas. É o campo que me lavras! Abecedário é pegada No deserto das palavras. O T será o telheiro O abrigo do portal? Será o P o pinheiro Decepado em vendaval? Lembrará o B os seios E colinas entre as casas? Nós somos pombos-correios A quem cortaram as asas! Se falas: noite rasgada. a letra perdura O som do dobre do sino.

Havia risos à solta E o tio que vinha d’África. As faces afogueadas Por sombras do vinho tinto… Como cheirava a canela A tangerina e baunilha! E nos vidros da janela A fumo de cigarrilha… Aguardente à sobremesa — Antes: sopa. Havia a velha criada — Mais nova do que se pensa — E roubos de marmelada: «O tesouro da despensa»… Leite de creme queimado. A prenda do Bolo-rei E que acabava em batalha… (A fava da mesma lei Mas reverso da medalha…) É lava o queijo da serra… Sussurra-se um suicídio… Lembranças da Grande Guerra E também do Regicídio… As claras em castelo Noite branca e submersa… Dois anéis do teu cabelo Mais dois dedos de conversa. por destino secreto Já era recém-casada! — 257 . Por desenho em cicatriz. No dirás e não dirás Gastam-se noites inteiras E dois sulcos de lilás No outro dia: as olheiras… Havia o tio predilecto E a prima desejada — Que. Os primos já militares As primas quase mulheres… Cabiam todos em volta: Recordação fotográfica. Como fosse um condenado Marcado a flor-de-lis Os gestos familiares No tilintar dos talheres.Jantar de Família Havia amêndoas torradas E as passas de Corinto. peixe. carne — E uma gravura francesa Fala em Batalha do Marne.

23 de Maio de 1989 258 . Havia o dia seguinte… Lisboa. Entre o que era e não era O sonho fundia em brasa Nos umbrais da Primavera Dos portais da minha casa! O lugar do meu avô É um trono de vaivém E nele. se hoje estou. Não o pedi a ninguém! Sabe a leite condensado A saudade por requinte! Além de haver o Passado.Família: paredes-meias. Meias palavras na sala… O mesmo sangue nas veias As mesmas histórias na fala.

Só por morte natural! Irei à Faixa de Gaza Que é mapa de cartolina. 259 . De visão adormecida.Peregrino Acidental Eu hei-de ir à Terra Santa E ao Sepulcro Sagrado: Catedral. O hotel? O mais modesto Cinco estrelas por decreto! Ser cristão pelo Baptismo? Não chega o gosto do sal! Só há Fé por magnetismo. sem um gesto. Pois não choro a minha casa Em algures na Palestina! Vou de pedras na algibeira: Armas brancas de defesa. Ter perfumes da Judeia Por Piedosa Mulher… Lázaro ressuscitado. Que tudo seja secreto. O Destino por fronteira E a Fé por: incerteza. Ainda à morte ligado Como a mãe nos liga à vida… Ir à Gruta dos Pastores. dourada ou anta Cor de sangue carregado! Rezar aos santos vulgares — Que os há por todo o lado! — Hei-de ir aos Santos Lugares E aos lugares de pecado. Ver José d’Arimateia Num vulto doutro qualquer. Ir ao Poço de Jacob E ver se a Samaritana Mata a sede a quem vem só Ou se a toda a caravana… Tudo sem abstinência. Ir à Casa de Maria Aos caminhos dos Reis Magos. Tudo só pela Razão. Subir também ao Calvário (Mas à força de motores Dalgum carro utilitário…) Sem rumor de profecia: Ao mais sagrado dos lagos. Ter Fé pela inteligência E não pelo coração! Sinal da cruz.

Hei-de ir ver Jerusalém. E se Deus for mais além Quem me dará o perdão? Inquisição e Fogueira Nunca serviram de exemplo. intolerância: Receitas de obcecado. também há cactos Numa santa convivência. Pressentir: Pôncio Pilatos Como fosse abstinência… Ir aos pomos da discórdia Bem na Terra Prometida: Ver a pomba da concórdia Numa oliveira abatida! Aos Muros de Jericó… Restos da Última Ceia… Sentir as pedras. Foram só uma maneira D’haver Vendilhões no Templo! Silêncio. o pó Das estradas da Galileia. Sentir a cruz carregada Sem maldizer meu destino! Ver Cristo aonde Ele está: Entre um beijo e um algoz… (Quem nos diz se viverá Apenas dentro de nós?) Com Jesus Crucificado Em fundo nos meus poemas.A Vaca e Touro Sagrado… Não verei do Norte a rena Mas o corpo apedrejado De Maria Madalena… Se há flores. Quem semeia ignorância Colhe flores de pecado! Hei-de ir à Terra Sagrada Onde areia é ouro fino. 14 e 15 de Julho de 1989 260 . Irmão mais velho e amado Mas que morreu sem algemas! Não aos dias de Jejum! Ao corpo flagelado! Eu quero Deus e se houver um É Cristo ressuscitado! Cada qual esconda o seu acto De crer em Deus ou em nada: Seja a Fé anonimato Que nunca seja Cruzada! Londres. Sentir correr o Jordão.

Marasmo Sou sensação de mergulho — Sem haver profundidade — Corpo feito pedregulho Cativo da Gravidade. Falcão subalimentado. Quando meus olhos atingem Um cume semi-escalado. Nado nas águas do Tibre De cor de loba barrenta. Fico na tarde parada Tal sombra que se não olha… Sendo a água desejada. Num céu sempre recusado Ao que seja movimento. 23 de Agosto de 1989 261 . Andando ao sabor do vento. Sou a chuva que não molha… Lisboa. As gaivotas fazem ninhos Mergulhando em precisão. Nas profundezas marinhas Os olhos ficam abertos: Vejo searas e vinhas De vinhos não descobertos. Sonho resina de Chipre Nos troncos. Que pesadelos marinhos Povoam o coração! Que sensação de vertigem Ou de ar mal respirado. sangue magenta.

Gota d’orvalho é dilúvio. 23 de Setembro de 1989 262 . Grão de areia majestade Se lhe chamarem Vesúvio… Tudo muda tarde ou cedo. O carrasco até tem medo De pisar a própria sombra… Sonhas gestos de carinho Ao apertar o baraço. Tu desenhas um abraço Se apunhalas pelas costas… É sempre o «fora ou não fora». «Teria de acontecer»… Até a Nossa Senhora Viu o seu Filho a morrer… Qualquer onda é tempestade. Tantos medos nos devoram Gente subalimentada! Os carrascos por quem choram? Talvez por um quase-nada! Lisboa. Há uma pedra no caminho Sempre para o teu cansaço. Qualquer deserto é alfombra.Os Carrascos também Choram Não quando as rosas demoram Ou por não se ouvir o mar: Os carrascos também choram Todos temos de chorar! Se cantam galos n’aurora É só porque tem que ser E se o dia chega à hora Nem sempre é amanhecer… Levas garrotes nos braços Quando segues de mãos postas.

Ciclo Infernal Outono-Inverno de 1989 .

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Janela semi-aberta Para a terra prometida… Foram os sonhos d’infância. Há uma ilha deserta No horizonte sumida. Latitude a sudoeste E qualquer meridiano E a pele que um homem veste Tem o fim de qualquer pano… Há o silêncio nocturno. A explosão da manhã. As praias desabitadas Que devolvem a distância Das noites tão consteladas… Bem no fundo da garrafa A ilha sem geografia. Mais os anéis de Saturno Em volta duma avelã… Viver à nossa maneira De cumprir nossas missões: Dar o choro à carpideira. Robinson é o que é: Solidão por companheira. 18 de Outubro de 1989 265 . Em letra corrida e safa D’infantil caligrafia. Gargalhadas aos histriões! Londres. Mas por vezes a maré Traz o nosso Sexta-Feira.Fundo da Garrafa ou Robinson e Sexta-Feira Jerusalém ou deserto: O embaraço da escolha? Ou livro semiaberto Sem se saber em que folha! Promessas de cinco cravos Sonhos de ressurreição… Romagem de desagravos: O recurso à confissão.

Os cantos das aves são as homilías. É sulco na terra? Cicatriz na cara? Relógio de sol: o meio-dia avança Onde alastra a sombra o tempo não pára… Os cubos de sal mais os poliedros.O Choro e o Riso Debaixo das tílias. Debaixo do céu — de que somos servos. electrões. debaixo das tílias. Como dele são as estrelas as servas… — Desdobram a vida as estátuas jacentes Nos gestos esboçados de quem já partiu. Debaixo dos cedros. debaixo dos cedros. são tribos. O Templo de Deus é nas nossas casas. famílias… O choro alimenta a raiz dos cedros Dos que vão saindo debaixo das tílias… Londres. debaixo das ervas. Raízes aéreas são as nossas asas! Debaixo das folhas a sombra descansa. Debaixo da vida. Os choros e risos são afluentes Em margens opostas deste mesmo rio. 20 de Outubro de 1989 266 . Iões.

sangue. Se não matar. Eu prefiro a Lua Nova Ou o Quarto Minguante… Só não quero a Lua Cheia Que as raízes das videiras Ao espreguiçarem na areia Parecem mulheres inteiras… Também o Quarto-Crescente Ao fazer as luas curvas Faz-me pensar qu’anda gente Em volta das minhas uvas! Carrego balas de sal — Não fosse eu guarda da vinha! — Seja vulto ou animal Mato tudo o que caminha… Mato tudo sem motivo Só me basta disparar. Quem faz as leis e os lemas Também gosta de caçar. Não é a forma da Espécie Que dá outro nome ao crime! Londres.Guarda da Vinha Todos os sons são diferentes A quem os traz bem escutados: O rastejar das serpentes Não me enche de cuidados… Meio corpo dentro da cova Olhando a noite distante. penas: — Se há alguém a disparar. Alvejo bem. 31 de Outubro de 1989 267 . Até o sangue me pára Eu sou estátua no momento: Quando meto a arma à cara À espera dum movimento. bem no centro. Para mim é tudo caça… Queimo o último cartucho! Aves feridas. talvez fira… Como a vida cabe dentro De qualquer ponto de mira! Caça grossa ou indefesa É tudo o mesmo retrato. Nem a noite me redime. Pé firme: espero quem passa Atrás dum muro ou dum buxo. É legítima defesa Que me cabe por contrato! Mato tudo o que estremece. Como caçador furtivo Que mata só por matar.

Chega o dia da matança: Nem sai veneno dos frascos Pois que hoje a morte avança Pelos dedos dos carrascos… E a última vontade… O cigarro derradeiro… Nunca houve tanta bondade No olhar do carcereiro… Tudo o que é bom nos acena Em medonho ritual! Só por isto vale a pena Ter a Pena Capital! Londres. — É cabeça na bandeja Por um capricho real… — Os tribunais e os foros São tudo jogo da Bolsa: Rebenta a pele pelos poros Tentar sorte sem ter força! Quem está na Cela da Morte Não tem olhos estremunhados E não há fala que corte O silêncio aos condenados.Cela da Morte A morte vinda na dança Não deixa ser o que é. Que banquete de vingança Há nos véus de Salomé… Mas seja lá o que seja Toda a morte é natural. 8 de Novembro de 1989 268 .

despe Outono Seu fato fim-de-estação… Nasce Cristo sem Outono. Folha a folha despe Outono Seu fato fim-de-estação. Londres. Folha a folha. Morre Jesus sem Verão: C’roas d’espinhos sem trono São os degraus da Paixão. Sementes que os tempos dão… Para o ano outro Outono P’ra quem sobrar dos que irão… Todo o cão procura o dono Farejando a solidão. Às vezes por sugestão. Pobres ramos. 8 de Novembro de 1989 269 . O gigante e o gnomo Mesma altura medirão Se em quatro tábuas d’Outono Lhes talharem o caixão… As raízes no Outono Têm calor do Verão. Mandamentos? Um ao nono — O décimo é conclusão —. Os troncos são o que são… Não há frutos no Outono. Às vezes não é do sono Os sonhos que aos olhos dão.Escorpião Fecham-se os olhos de sono. abandono.

Mas pode o coração bater-me certo Quando do trilho certo eu me afasto! O norte dos teus olhos não me perde: O rumo vem em tudo o que segredas.Oásis O lençol é o luar desprevenido. O deserto tem colinas e tem verde E nascem-me flores no meio das pedras! Londres. Semicaído aos pés da nossa cama. Oásis! No teu ventre descoberto Na sede que as pegadas dão ao rasto. 17 de Novembro de 1989 270 . Teu corpo é o deserto que me chama. Meus olhos são apenas teu vestido.

Passos Perdidos Quero ir onde os rios não conseguirem E às praias que a maré nunca alcançar. Se ao eco dos meus passos responderem As dúvidas que trago nos sentidos. se por acaso me mentirem Que preço do silêncio vou pagar! Quero ir onde os rios não conseguirem E às praias que a maré nunca alcançar. anéis. Porém. tão perdidos. As chuvas que ameaçam não chegar Nas asas das aves que se ferirem Por dedos que não sabem disparar. Quero as rosas que nunca florirem. Os gestos de loucura incontroláveis Que o vento dá aos ramos dos pinheiros! Os lírios que de branco não murcharem Serão orvalho. Às estrelas que os vindouros descobrirem No céu que muda tudo de lugar. Os lagos que ao sol por fim secarem Reflectem os meus sonhos de castelos. Quero ir pelos caminhos que me derem Um som melhor aos passos. nos teus cabelos. O galope dos cavalos indomáveis Nos prados que as manhãs enchem de cheiros. 271 .

Ursa Maior.Além de querer o céu. 17 de Novembro de 1989 272 . As luas que há em Marte e em Urano: Também a gota de água e de suor Que no deserto é sempre um oceano… Londres.

dizem que não… Porém.Missa do Galo Aceita sempre tudo o que for dado — É dado adquirido da razão… — As rosas que servirem ao noivado Também à campa rasa servirão… Por menos foi Jesus crucificado — Um cravo. 21 de Novembro de 1989 273 . sorrir não foi nem é pecado: Assiste a cada qual a solução… É morto Cristo em cruz? Ou libertado? Natal é Sexta-Feira de Paixão… Londres. a sorrir. Os outros. em cada mão — Uns dizem-No depois ressuscitado. bem cravado.

Mas sinto-me acompanhado. Ando mais ao deus-dará. Olho melhor os pedintes. Alguém por mim contará O que me traz confortado? Estou na idade em que Deus Vai exercendo os direitos… Sei de cor a cor dos céus De os olhar dos parapeitos. Alguém me irá responder? Sou como rato sem cantos De casa p’ra me esconder… Sou peixe dentro da rede De traineiras afundadas.Fontes Salgadas Caem dentes das gengivas… O cabelo da cabeça… Mas vou sonhando as ogivas Onde Cristo me apareça. A três passos do abismo? Cortando a linha da meta? Eu sinto o sal do Baptismo Mas não sei por que profeta… Recorro a Deus e aos Santos. Já tive melhor ouvido. Sou como o escravo da sede Que só tem fontes salgadas. Sei de cor a cor do mar. Melhorei os meus requintes. Já tenho rugas na cara. Mas ao vento na seara Dou hoje melhor sentido… Apurei o paladar. Londres. 24 de Novembro de 1989 274 .

Sapatos de polimento: As botas cheias de graxa. Haverá voz que responda Aos gritos da sentinela? Era o Sargento-Ajudante O meu degrau anterior Na escadaria rolante De Inferior a Superior… Primeiro degrau: o soldado. Seguindo um velho conselho — Para evitar o percalço — Fiz do calçado o meu espelho Em tropa de pé descalço. A minha cama era a farda E o corpo era o colchão… É do tempo das cavernas Esse sono primitivo De quem dorme nas casernas Por não ter outro motivo. Aos toques do clarim: O primeiro na parada… Alguém chamava por mim Do «Silêncio» à «Alvorada»! Noites e noites na ronda Sob uma Lua amarela. É Dom Quixote e o Sancho Comandando a Companhia. 25 de Novembro de 1989 275 . Pisado por toda a gente — O recruta em «arvorado» Já se julgava Tenente! — Pântano: caldo do rancho Onde a comida cabia. Dormi na Casa da Guarda. vale a pena O vale que em mim se cavou! Londres.Miliciano Oficial e faxina! Tudo fizeram de mim. Porta d’Armas: o começo Da minha peregrinação… Tanto há que desconheço Do que foi o batalhão… Há alguém que em mim condena O que nunca desertou? Entre o não vale. Humidade pelo chão. Em noite tinta-da-china Papel de lustro carmim… Como em alto dum zimbório Mas sem a cidade aos pés Fui militar provisório Mas de mochila em viés… Regimento em regimento Levei a guia de marcha.

— No denso vapor Derrete a vontade Dentro do calor Cheio d’humidade. O Queipo em Sevilha Bretanos: Maiorca. Como caso assente Há muito estudado: O teu corpo ausente Vem para o meu lado. Sangue em bandarilha E touros do Lorca.Banho Turco Tortura de Tântalo O calor previne… É névoa de pântano O ar da cabine… Noite e nevoeiro E mil pensamentos. 276 . Mineiros em mina De grisu que verte? É um carrossel Vapor a rodar… Vejo a tua pele Sem ela aqui estar. Escorrem paredes. A névoa adivinha Outra transparência: É cor da farinha Sem ter consistência. Goteja em chuveiro Mas só por momentos. Penso em São Camilo E em Santo Isidro — E margens do Nilo Na porta de vidro. Que Babel tamanha De todo o sotaque A Guerra de Espanha Com mouros a saque. É a vista baça De peixes nas redes. Um morto e um ferido Já em comunhão E mais Santo Isidro De estoque na mão… A ninguém: asilo Ou portas abertas! Pobre São Camilo: Igrejas desertas… Desce a neblina Sobre o corpo inerte. Goteja a vidraça. Moinhos de vento Moendo o suor… Naufrágio sem bóia Longe a salvação: A Espanha de Goya Vem na serração. Tudo em movimento Cavalos-vapor.

Fornos crematórios De monstros nazis. Noite de Cristal: Ardem sinagogas! É névoa dos portos Que só dão degredos. que ao vento Amassasse o pão… Escada sem degraus Plano inclinado. Pintura rupestre De traços tão vagos. 27 de Novembro de 1989 277 . decerto —: O olho-de-boi Aceso no tecto! Londres. Nave angelicana Com ninhos de pombas E raça ariana Debaixo das bombas! Frases calcinadas Quem as desenhou? Palavras queimadas D’alguém que falou! É luz que já foi — De estrela.É clepsidra Gotas de suor Os olhos da Hidra Olhando em redor: Remexe-se o tempo Como em caldeirão De bruxo. Noite e nevoeiro P’ra Raça danada. Tendo por telheiro Uma cruz gamada! Filhos d’Israel Mas sem Mar Vermelho Aberto em túnel Por Judeu mais velho! Corpos ilusórios Marcados a giz. Seis milhões de mortos Contados pelos dedos. É calor silvestre. Silêncio dos lagos. Papel vegetal E romanas togas. São mais de cem graus Não há ar queimado.

1 de Dezembro de 1989 278 . Pois há Maria da Fonte… Às vezes a tirania Não acaba em Évoramonte… Fim ao tempo d’imigrado Mas vida por um cabelo… Todo o sonho é conquistado Em areais de Mindelo! Londres.Século Dezanove Eu seria do Mindelo Estaria dentro do Cerco. Pedro o monarca Pelo qual me bateria. Trincheira: monte de esterco! Era D. Arcabuz fora da arca E artes de montaria… O medo antes da carga — Como não fosse verdade — Fosse a vida mais amarga Mas sobrasse a liberdade! Caçador fora da linha Sem esperar qu’a ordem parta: A dar vivas à Rainha Que tinha jurado a Carta! Como coração que sangra Pela veia mais aberta: Eu teria vindo d’Angra Ao relento na coberta… Mas não terminava o dia. A sede por pesadelo.

10 de Dezembro de 1989 279 . Londres. no entanto.Missa Cantada Depois da missa cantada Só o silêncio responde… Qual a chave da charada Onde a Fé tão bem se esconde? Precipícios e vielas E também ruas fechadas. bem conseguido… É como a noite cerrada: Aos ralos ninguém responde… Depois da missa escutada Vejo Deus. Mas no céu respondem estrelas Às janelas escancaradas! Dentro de nós. sua metade. mas não sei onde. Assistindo por direito À troca d’identidade Mais ao gosto do seu jeito… Como sinal de nascença Cada um bem definido: Fosse a Fé a recompensa Como um bem. Há tanto que se esconder: Um Demónio que foi Santo De tanto se arrepender… Crer em Deus só por receio Pode ser uma atitude: Diabo cortado ao meio Talvez a nossa virtude! Cada um.

Londres. porém. é outra geografia Atalhos ao Presépio dão Calvário… As estrelas são mensagens desiguais. Considerando o ponto de partida: A Estrela de Natal é Ocidente! A noite da procura é sempre fria. Cada um tem a estrada à sua frente.Estrela de Belém De macadame ou de terra batida. Palavras. 13 de Dezembro de 1989 280 . Não interessam os pontos cardeais Se dizem que Deus nasce nalgum lado. dialecto desolado. A luz da Lua é Sol visto ao contrário… Belém.

Náufragos que se julgam navegantes À força destes braços serem remos. Cascavéis venenosas e mordentes Que ora se repelem ou se encostam! Os olhos tão iguais ao que eram dantes São sementes dos frutos que colhemos. As mesmas pernas. Os lábios são os mesmos. mas mais brancos.Erosão Os braços são iguais. Que rugas que puseram no teu rosto. Terreno das areias movediças… Mas pobre do jogral que nunca ame Num castelo sem pontes levadiças. É rasto que ficou das caravanas… A sede é a saliva que sem gosto Lembra o mar de sargaços e savanas. Teus dentes batem bem contra os meus dentes. As línguas: duas cobras que se enroscam. Ó noite toda feita de lanternas De abismos que cavei nos teus flancos. Foi como pântano o colchão de arame. Talvez seja polar o frio de agora No espasmo que ficou desta batalha… Os santos somos nós ou estão lá fora Na pele feita de pedra ou de talha! 281 .

13 de Dezembro de 1989 282 .Nascemos com o mar na nossa frente. A cama é a jangada dos desejos… O sonho para nós foi: continente. Parede toda feita de azulejos! Londres.

assim o sono ordena. Nos sonhos te refaço se adormeço.Raio Verde Nos sonhos te refaço em bocados Pacientemente. o pó do chão só eu o mordo Para no sonho não deixar pegadas! Londres. De quem será a mão que mal me guia? Se o vento está lá fora não estremeço Como folha d’Outono em ventania… Que mistério nos quer adormecidos Ainda em vida e tanto por viver? Conta-gotas de sangue. Deitando fora a vida que se perde. empedernidos Os corações que deixam de bater… Em sonhos te refaço quando acordo. Se outrora percebi significados Nem ao de leve sei quem hoje acena… Incógnita é dormir sem estar cansado. Lastro tão preciso e desprezado Balão a prometer-nos o Raio Verde. 13 de Dezembro de 1989 283 . Que memórias e noites visitadas! Porém.

tinta-da-china Sobre os corpos de marfim… Londres. Ai! Arena. A morte é sempre gelada — Como o olhar dos guerreiros — Passa a vida a fio de espada P’ra não fazer prisioneiros. sem regresso. O polegar levantado Não acaba a escravatura.Pão e Circo É álcool em serpentina Numa espécie de sem-fim… É fumo. Sem qualquer alternativa! Se a morte passou ao lado: Não mudamos de figura. 21 de Dezembro de 1989 284 . Por vezes: passo pesado Outras vezes ao de leve… Abafa a voz no Senado Aos Tribunos da Plebe… Dita a lei que não quer lei Do Tempo sempre a correr — Quantas vezes me queimei Só de pensar em morrer? — O que o corpo traz impresso É a alma em carne viva. tinta-da-china Sobre a neve de marfim… Viver não passa de teima Se o polegar for de Nero Na arena que tudo queima: Vidas abaixo de zero… O olhar do legionário É espada que corta a fio. O calor é calafrio. Se os graus estão ao contrário. Tudo é adiamento E nem o Nero sabia! É como a noite de vento Que a manhã não prometia… O polegar para cima Às vezes não é o fim… É fumo.

A memória é uma insónia Onde só silêncio cabe. queimo incenso E passos no corredor… O Farol de Alexandria Só ligava luz e treva. Tinha uma porta secreta Dentro dum poço caída Como o tirano decreta: Dava a morte de seguida… O teu vulto é pormenor De vitral semipartido Vindo da Ásia Menor De culto desconhecido… Imagem desaparecida No desvão dalgum mosteiro Mas figura conhecida Retrato de corpo inteiro. Se quebrares este silêncio Que se fecha em meu redor. Antioquia. Sempre que penso em Cartago A memória meço aos palmos… O teu silêncio é tão vago Feito de ventos e salmos. Catedral feita mesquita Conforme a posse do chão… Fica Alá no meio dos arcos Traçados a Ocidente. Tinha cor cinzenta e fria Como os dias em que neva. Quem viu suor viu o Nilo E escravos em formigueiros — E também Vénus de Milo ’Inda de braços inteiros! Como touro tresmalhado Sempre com morte na frente: Esta angústia do Passado Anda no Tempo Presente.Estreito de Corinto Deito-te fumo nos olhos. Teu rosto lembra-me ícones Duma igreja bizantina… A Fé é de quem nos dita Os termos da opressão. Queimo mirra. Macedónia Mais tudo o que a terra sabe. Pois nem sempre os mesmos barcos Carregam a mesma gente… O Labirinto de Creta A ninguém deu a saída. Sem sabor a nicotina. 285 .

as âncoras Procuram terra no mar. Em denúncia à condição. Vitórias de Samotrácias Que se deixam desterrar! No mapa do esquecimento Há muralhas de cidades… Outrora já foi momento Que se perdeu nas idades! Meu solstício de Junho Rasga estreitos em Corinto… Meus poemas em rascunho Nunca passados a limpo. Temos sorte das acácias: De nascer e de murchar. À beira dum precipício Os homens não são diferentes… Partem-se os lemes. vinhos nas ânforas Com a morte a transbordar.Animal de sacrifício Preso à ara por correntes. Um judeu circuncidado Bem depois de Salomão. Azeites. Caravana levantina Com camelos carregados E estrelas de purpurina Mostram caminhos sagrados. Londres. Há tantas lousas partidas Que já nem deixam recados. Como por ferro queimado. Derrama perfume o frasco Ou bebida envenenada? Curva em Estrada de Damasco Pode ser uma emboscada. 29 de Dezembro de 1989 286 . Deusas de pedra vestidas Pela nudez dos pecados.

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Índice Calendário Mergulho no Passado  Faca Também de noite Os Rios Correm Inteiros  Calatrava Vão-se As Águas sem Canção  Noite À Poesia  Na Morte da Avó Adelaide Zero Ressaca À Maneira de Dom Dinis Pã no Seu Tempo Pastoral do Ano 2000 Na Guerra do Roussilhão Cana Verde. de Verdade 11 12 13 14 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 .

Teatro Amador Mão Fechada Melaço Van Gogh Amor em Dia de Chuva Escavação 1 — A caminho de Pompeia 2 — Ponte dos Suspiros 3 — Os Vidreiros de Murano 4 — Rosa. Rosæ… 5 —Siderurgia  Judas Portugal 1976 Solstício de Verão Ramsés o Grande Amor-Perfeito Trás-os-Montes Ronda da Noite Canção Estival Emilio Salgari Véspera de Natal Espanha 1978 27 28 29 30 31 35 36 37 38 39 41 42 43 44 45 46 47 48 49 51 52 .

Cassiopeia 1 — Inferno 2 — Purgatório 3 — Céu Poder Secular 1 — Camões 2 —Fernando Pessoa 3 — Cesário Certidão de Nascimento «Post Scriptum» Contra-Relógio Mina de Sal Nível de Água Cozido à Portuguesa Kremlin Roleta Russa Gelo Auto-Retrato Visitas Proibidas 57 58 59 63 64 65 67 68 69 70 71 72 73 74 75 76 77 .

Integração do Átomo 1 — Monte de Tabor 2 — Cassiopeia 3 — A Meia-Nau 4 — Átomo Cavalo da Acrópole Tempo de Silêncio Telex a Lech Walesa Acordar em Hotel Saudação a Enrico Berlinguer Passagem de Nível sem Guarda Nome Próprio Feminino 1 — Camões 2 — Jau 3 — Natércia São Paulo Algarve 1982 Cega-Rega Marroquina  O Luar é Azulado Este Ano em Jerusalém 81 82 83 84 87 88 89 90 91 92 95 96 97 99 100 101 102 103 .

 Tantos de Tal Audição Única Circus Maximus 1 — Dança do Escalpe 2 — Terra de Siena 3 — Pedra de Carrara Obsessão Uma Gota de Sangue Queda do Império dos Romanos 104 105 106 107 108 109 110 111 112 113 114 115 116 117 121 122 123 125 126 127 .Latifúndio  Última Caçada Velhas Casas Cor-de-Rosa Poema em Construção Os Insectos e os Outros Lápides Apagadas Ex-Libris Auto-Retrato Última Tentação Tocata e Fuga Outro Natal Via Appia Marvão.

Domingo de Ramos Nicarágua João Sem Terra Branco e Negro Sândalo Noite e Nevoeiro Santo Sepulcro Tântalo Outrora o Natal Fermentação Nebulosa em Espiral 1 — O Túmulo e a Rosa i — A Neve e o Mar ii — O Túmulo e a Rosa iii — O Sal e o Açúcar 2 — Os Mundos Exaustos iv — As Estrelas Assassinas v — Prece vi — O Pão e a Pedra 3 — Juízo final Fechado para Obras (Poéticas)

129 130 131 132 133 134 135 136 137 138

141 142 143 144 145 146 147 151

A Noite dos Degolados Ponto Negro Deus no Confessionário Livro das Horas Conta Errada Gaivota Colóquio dos Simples Multidão Abstenção 28 de Maio de 1926 – Verão Quente de 1975 Miradouro Sessões Contínuas Cal Viva «O Tempo Está Próximo» Chegada Fado Amália 18 de Julho de 1936, Dia de São Camilo Passe a Palavra Os Robinsons do Espaço Véspera Veneziana 1 — Constante 2 — Aquário

152 153 154 155 157 158 159 160 161 162 163 164 165 166 167 168 169 170 171

175 176

3 — Fresco 4 — Lucros e Perdas 5 — Homo Faber Insónia Cesário a Corpo Inteiro Os Ralos do Relento Passagem do Ano Profanação Quarta-Feira de Cinzas Fechadura Yale Incógnita Cofre de Segredo Cotação do Dia O Beijo de Judas Ofícios Esquecidos Papel-Moeda Ração de Combate Bicho-de-Conta As Torres do Silêncio As Torres do Silêncio Índia

177 178 179 181 182 184 186 187 188 189 192 193 194 195 196 197 211 212

215 216

Taj Mahal Khajuraho Fumos da Índia Nas Margens do Ganges Entardecer no Ganges O Medo Numa Aldeia do Nepal Pôr de Sol nos Himalaias O Palácio das Monções A Poesia Fortaleza dos Reis Magos As Formigas na Neve Embalagem Perdida Trinta Dinheiros Duplo Almocreve das Palavras Divisão das Espécies Navegação Nocturna London Sight-Seeing Perdido por Cem Ursa Maior Estrada de Damasco Veneno

217 218 219 220 221 222 223 224 225 226 228 229 232 234 236 238 239 241 242 243 244 245 246

Dizer por Dizer A Última Caçada Lente de Aumentar Tecelões Soldadinhos de Chumbo Relógio de Água Caracteres Ilegíveis Jantar de Família Peregrino Acidental Marasmo Os Carrascos também Choram Ciclo Infernal Fundo da Garrafa ou Robinson e Sexta-Feira O Choro e o Riso Guarda da Vinha Cela da Morte Escorpião Oásis Passos Perdidos Missa do Galo Fontes Salgadas Miliciano

247 248 251 252 253 255 256 257 259 261 262

265 266 267 268 269 270 271 273 274 275

Banho Turco Século Dezanove Missa Cantada Estrela de Belém Erosão Raio Verde Pão e Circo Estreito de Corinto

276 278 279 280 281 283 284 285

.

no jornal O Século. em Távola Redonda (no fascículo 15. Edições Távola Redonda.Nascido em Lisboa a 6 de Abril de 1930. a Castil-Benfica. Galeria Panorama. de Dezembro de 1952. um dos jornalistas societários de O Jornal. Asa de Mosca conquistou. Publicou. deu à estampa Asa de Mosca (Lisboa. a AZ-Olivais e a AZBom Sucesso. Emigrantes do Céu (Lisboa. Ática. 1960) e Ressentimento Dum Ocidental (Alfragide. a Castil-América. tendo depois iniciado. Em 1976 abriu a livraria Castil-Castilho. No mesmo ano. tendo posteriormente colaborado. Henrique Segurado. com dois poemas) e no primeiro número de Graal (Abril-Maio de 1956). [1970]). seguindo-se-lhe a CastilAlvalade. foi. Em 1959. ainda como Henrique Jorge. com um livro que nunca chegou a ser publicado. com o nome de Henrique Jorge. Henrique Jorge Segurado Pavão frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa. e nos fascículos 19/20. Dança do Escalpe. Estreou-se como poeta em Março de 1951 no jornal Rivages — edição dos alunos do liceu Francês de Lisboa —. o segundo prémio do concurso Fernando Pessoa organizado pela Editorial Ática. onde desempenhou funções de administrador. de 1976 a 1992. de Julho de 1954. ex-aequo com António Ramos Rosa. Como Henrique Segurado. no Porto (as duas últimas em colaboração com o grupo Valentim de Carvalho). em 1956. com quatro poemas. 301 . 1953). revista dirigida por António Manuel Couto Viana. a sua actividade de jornalista e de gestor de órgãos da imprensa. recebeu ainda uma referência especial do júri que a Livraria Galaica do Porto constituiu para um concurso de poesia.

Artes e Ideias e Colóquio/Letras. Jornal de Letras e Artes. organização de Afonso Cautela e Serafim Ferreira. Círculo de Leitores. Lisboa. 302 . Lisboa. Gazeta Musical e de Todas as Artes. organização de David Mourão-Ferreira. Editorial Inova. Editorial Campo das Letras.1987. 1965. 1993. 1971. 1973. Natal na Poesia Portuguesa. Jornal de Letras. Porto. Lisboa. O Tejo e a Margem Sul na Poesia Portuguesa. 800 Anos de Poesia Portuguesa. Ulisseia. Diário de Lisboa. Poesia/70. De Palavra em punho — Antologia Poética da Resistência. organização e apresentação de José Fanha. J. 1998. Fundação Calouste Gulbenkian. Dinalivro. Portugal: A Terra e o Homem: Antologia de Textos de Escritores do Século XX. Seixal.. [1978]. organização de Luiz Forjaz Trigueiros.Tem colaboração dispersa em jornais e revistas como O Século. organização de Egito Gonçalves e Manuel Alberto Valente. Lisboa. Porto. coordenação de Ulisses Duarte. Câmara Municipal do Seixal.L. Está representado nas seguintes antologias: Poesia Portuguesa do Pós-Guerra: 1945-1965. Lisboa. 100 Anos Federico García Lorca: Homenagem dos Poetas Portugueses. 2004. Universitária. República.

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