Henrique Segurado

Almocreve das Palavras

© Henrique Segurado e Rui Sanches Edição organizada por Joana Morais Varela Composição de Vasco Rosa Revisão de Luis Manuel Gaspar Fotografia do Autor por Raul Neves Lourenço Impressão e acabamento de Guide – Artes Gráficas isbn: 1234567890 Depósito legal: 320 980/10

Henrique Segurado

Almocreve das Palavras
Poesia 1969-1989
Desenhos de Rui Sanches

lisboa, 2010

Henrique Segurado à porta da casa onde nasceu.

.Para a minha Filha Joana que se antecedeu à publicação deste livro que lhe pertence inteiramente… Com um beijo e a saudade do Pai.

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no entanto. voluntariamente discreta pelas longos intervalos que têm caracterizado o aparecimento das suas obras. é sobretudo uma interpretação crítico-lírica da sociedade e da história portuguesas o que mais amiúde o empolga. que constitui um dos seus temas constantes. na sua obra. Além do amor. uma nítida preferência pelos metros tradicionais. nos tempos do salazarismo. muito em especial pela redondilha — tanto pela do romanceiro como pela das «profecias» do Bandarra —. manifesta-se. David Mourão-Ferreira . variadas composições que devem considerar-se como das mais nobremente marcadas por um desassombrado espírito de protesto e de resistência. é. e embora utilizando não raro o verso livre. tendo sabido conferir a uma e outra o halo renovador de uma perspectiva actualizante. de originalidade não menos surpreendente. havendo escrito. já por um sentido muito agudo do aproveitamento da tradição em termos de modernidade. já por uma exuberância imagística que frequentemente alterna com um pendor lapidar ou epigramático.A voz de Henrique Segurado. das mais pessoais dentro da geração de Cinquenta. Quanto à forma.

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Resta Outubro E descubro Um Outono que chegou… Cai Novembro Vem Dezembro Mal o ano começou! Lisboa. Flores de Abril Num fuzil Devolvendo a Primavera… Chega Maio Mês lacaio Do trovão que não se espera. Entra Março E disfarço os percalços de Fevereiro. Junho. Julho Há entulho Onde outrora havia areia Vem Agosto Cheira a mosto Já Setembro s’incendeia.Calendário Nem me lembro De Dezembro E chegamos a Janeiro. 8 de Novembro de 1969 11 .

O corpo reconhecido Se gritavam: «à vontade!» Nestas escavações d’infância Que testemunhos consigo. 6 de Maio de 1970 12 .Mergulho no Passado Andavam mouros a saque No país nosso vizinho. Tanta coisa se passou Sem eu ter que perceber. Eu tinha um dois no bivaque E camisa de azevinho. Das coisas sem importância Que se passaram comigo. Andavam mouros a saque No país nosso vizinho… Lisboa. Onde está quem me fardou P’ra hoje me responder? Eu tinha um dois no bivaque E camisa de azevinho. Fiz por cumprir minha sina: Soldado desconhecido… Havia um S no cinto Uma espécie de serpente Era dum vulto indistinto Que mandava em toda a gente! Se ordenavam: «sentido!» Morria toda a cidade. Em qualquer ponto da quina Sem ter lugar definido. Sem perceber o sentido — É por isso que se canta — Lá fui de braço estendido Libertar a «Terra Santa»! Era caqui amarelo A minha calça subida E fiz parte dum «castelo» Que desfilou na Avenida.

Rasgasse bem as nascentes Nesses rios que somos nós. Retalhasse num só corte O sono que é só mordaça. 5 de Novembro de 1970 13 . Uns dos outros afluentes Vendo o fim na mesma foz! Cortasse o que se destaca. Mas que fora de calar Que cortasse a própria faca Em que me quero cortar! Lisboa. Grande coutada da morte Em que nós somos a caça.Faca Cortasse o vento que invade Este quadro secular Que teimam chamar cidade Por ser tudo tão vulgar… Que cortasse o coração — Onde teimas estar presente — Esse «Diário-Razão» Da nossa conta-corrente.

Também de noite Os Rios Correm Inteiros Palavras. No muro que somos — sem o perceber! — A morte afixa os seus editais. Por não ter aceite a desproporção Entre Tempo e tempo de quem vai morrer! Lisboa. Em letra corrida. No tronco dos dias gravo um coração Que depois de mim inda irá bater. Também de noite os rios correm inteiros. sem pontos finais. Não quero o tempo de quem vai morrer. Mas voam se as soubermos escrever. fazem ninhos nos tinteiros. 10 de Dezembro de 1970 14 . Não quero o tempo de quem vai morrer.

É pondo palavra sobre palavra Que temos a poesia construída. definida: Mas não me fales mais de Calatrava Que o Tempo tudo muda de medida. Lisboa. Tão rente ao Guadiana. Não me fales assim de Calatrava Que à lança moldou gente convertida. Não me fales assim de Calatrava Que a História já deixou desguarnecida. É um poema terra. que se lavra Que o povo quer depois distribuída. Só eu sei. que te encontrava No meio desta noite. Pela dama que queremos ofendida. adormecida. Não me fales assim de Calatrava: Os sarracenos foram de partida. A poesia é luta que se trava. 20 de Janeiro de 1972 15 . canção.Calatrava Poema feito duma só palavra Talvez dê a ideia pretendida. Não me fales assim de Calatrava.

Riscando a face do espelho Que nem o sol de Verão Consegue pôr mais vermelho! Em perpétua confusão Mistura a foz na nascente.Vão-se As Águas sem Canção Grande rio: o coração A morte por afluente… Vão-se as águas sem canção Se nós vamos na corrente. É um rio subterrâneo (À vista só se pressente) Num reino subcutâneo Da nossa estátua jacente… Vão-se os seixos da razão. 12 de Maio de 1972 16 . Vão-se as águas sem canção E nós vamos na corrente… Lisboa. Longamente navegável P’las barcas da sugestão. Escava um leito impenetrável Fechado à navegação.

Derradeiro trunfo Dos desesperados. És peso de culpa Assim és justiça! És o trigo e joio. Sendo tudo és nada.Noite Surges maleável Mas depois compacta. És ponto de apoio De pontes suspensas. Não há quem te esculpa A forma mortiça. 2 de Janeiro de 1972 17 . És um golpe baixo És morte adiada! Lisboa. Como submetes A nossa humildade E como repetes A tua vontade! Já ontem vieste Já hoje chegaste… O que nos disseste? Nada há que te gaste? És tão pontual. Arco de triunfo Nos olhos fechados. Graças e ofensas. Manto transbordável Mas tão natural Como indecifrável. És rio e riacho. És impenetrável Assim és exacta.

16 de Setembro de 1973 18 . Por isso dia a dia me envenenas Na água que preciso de beber! Lisboa. os cunhos da moeda… Pode a bala errar a trajectória Já foi crime o gatilho em movimento… Se te quero bem inteira na memória Porque te mato tanto em pensamento? De certo além da vida tu acenas… Assim não tenho medo de morrer.À Poesia É tanta a vez que em ti me reconheço Que és bem minha ascensão e minha queda Não fosse a alma a vida do avesso: Ou morte e vida.

27 de Janeiro de 1973 19 .Na Morte da Avó Adelaide A minha última avó Morreu No dia em que o primeiro Homem Partiu para a Lua. Qual dos dois teve razão Para deixar a Terra Neste dia? Lisboa.

Zero É número sem descendência Que não se pode contar. intolerância. Um destino indecifrável. É apenas um anel: Nada por dentro e por fora… Lisboa. É a sede de distância Dalgum compasso indomável… Formato da nossa pele Onde o tempo não demora. 30 de Janeiro de 1974 20 . É curva de circunferência Que se acaba de fechar… Linha curva.

Lisboa. A vontade de chorar Que passo p’ro outro dia… É punhal que me desbasta Sem me tirar a figura. Uma espécie de rastilho Sem nunca se incendiar.Ressaca Este soluço adiado É que me dá equilíbrio: É ter-me desencontrado No local do suicídio. É entre o não basta e o basta Que se limita a loucura. Mas o choro não resolve O que em mim não tem motivo: Sou o mar que se devolve À onda que o traz cativo. É tão fácil de levar. Este sorriso é espartilho Que não me deixa chorar. 2 de Fevereiro de 1974 21 . Como uma bilha vazia.

sem vergonha Do que disser o bobo da canção… Em Compostela.À Maneira de Dom Dinis (Quer’eu en maneira de Proençal ) Quero eu em maneira provençal Cantar o que em silêncio foi ficando. Ou no correr mortal dalgum veado. medonho e natural Como Inverno ao morrer em Primavera! Lisboa. amor. Comendo o pouco pão do meu bornal — Fazendo. Morna voz de cantor medieval Que o fogo da fogueira foi queimando… Que medo que trazia a madrugada Ao chegar nas visitas do diabo: Numa gota de rosa. orvalhada. primeiro… — 22 . 19 de Novembro de 1974 Quero-te em maneira provençal. Quero eu em maneira provença Lembrar a escuridão quando nasci. Trento ou na Gasconha Tanta estrada na minha solidão! Ai! tanta Lua Nova que perdi Ao dedilhar nas cordas um afago… Se andava alguém comigo nem o vi: Tanto o pó na Estrada de Santiago! Quero-te em maneira provençal Na barbacã mais alta à minha espera… Tudo simples. Jogral de corpo inteiro. Corpo nu em frente dum ribeiro. no entanto. Apesar duma lua pontual No mesmo céu igual que conheci.

Os seus cabelos — Além de ideias — Formam novelos De centopeias. Bebe licores Da luz do prado. Quási sem gado. Dos tempos áureos Das Amazonas. Vende favores. Mas não tem pena Pois do seu peito Há sons de avena… Toca flautas Aos sagitários. Tem argonautas Nos aquários. Faunos no mato. 27 de Novembro de 1974 23 . Vento que passa Cheira a lilases Mais à couraça Dos ananases. Tanto defeito.Pã no Seu Tempo Deus dos pastores. Tem os centauros. Entre outras coisas: Sabe de mais… Come flores De esfomeado. Deus endeusado… Devora as rosas. Os laranjais. Barro cozido: A sua face… Deus terá sido Ou foi disfarce? Lisboa. Lobos sangrentos: São no regato Vultos barrentos. As beladonas.

Amesterdão. No fundo de almofarizes E nos olhos dos profetas Nos segredos das raízes… Irão parir as provetas E vão secar as varizes Na memória das gavetas Ficam nossas cicatrizes. No que dizes e desdizes Ou nas tuas mãos abertas De avalanches e deslizes… Não há fronteiras abertas Se deixa de haver países. 15 de Fevereiro de 1975 24 .Pastoral do Ano 2000 É nas grutas e nas gretas. Tão pouco nas violetas Ou nos frascos dos vernizes. como em crises… Não morre a cor nas paletas Nem nas penas das perdizes. Nas sombras mais inconcretas. Mas as horas batem certas Tanto na paz. Não interessam descobertas: Só amo a terra que pises… E nos olhos dos profetas Leio tudo o que me dizes.

Cabeça espetada em varas No prumo da rendição. Lisboa. Só te beijam os punhais Ó tropa de ocupação. 9 de Maio de 1975 25 . Mas o peso das espingardas Faz prender os pés ao chão… Guardam alguns uns retratos Ou cartas quási apagadas Que não merecem tais tratos Mas ficam amachucadas.Na Guerra do Roussilhão Secam flores pelas jarras Como presos na prisão. Pelas estradas reais: Olhos nas pedras do chão Se passam oficiais Só lhes fala a guarnição… Na caruma dos pinhais Tão verde desolação. Recusa-se intimidade Às tropas aboletadas… Bandeira rasgada em franjas. Tão inúteis as fanfarras Da Guerra do Roussilhão. Parte o navio e as amarras Lembram no cais solidão. Voz de mando ao batalhão. Inúteis como fanfarras A Guerra do Roussilhão. Tenentes de belas fardas. Águia: só as tuas garras Afagam o coração… Tão inúteis as fanfarras Da Guerra do Roussilhão. Na mão de alferes mais tensa E a Guerra das Laranjas Que nos levou Olivença. Soldados com duas caras Sargentos sem coração. Sem agulhas de amizade: Só há camisas rasgadas.

O teu sorriso é um barco Que me leva às Descobertas… Cana verde.Cana Verde. O corpo na puberdade: Vida nadando ao relento… Quando o vento se domina A calmia cria espelhos. É por este quási nada A razão por que morremos… Linha da vida és um arco Bem maior nas mãos abertas. Cana verde que te abates Nessa sombra de verdura. Teu corpo é vela latina Se prendo o leme aos joelhos. Meus afagos calafates No teu barco de ternura. 18 de Agosto de 1975 26 . Beber a água da chuva Sem esperar pelo degelo Tendo apenas os meus gestos A pentear-te o cabelo… O sangue é seiva encarnada Que às vezes corre de menos. cana verde Ai! canção desesperada: Quanto vento em nós se perde Sem uma vela enfunada! Balaia. Flauta suspensa no vento. de Verdade Cana verde de verdade.

Morrem no palco Como os actores… Ano mais ano Mal se começa: E cai o pano A meio da peça! Lisboa. Tão amadores Mas tanto artista. Só oiço o vento A segredar… Estamos tão sós Que damos pena: Só corpo e voz A meio da cena Mal ensaiados Pelos sentidos. O pó de talco Os cobertores. Tão pateados E contraídos… Sobre este palco. Sempre a mudar-se — Como um socalco A renovar-se. Os projectores Ferem a vista.Teatro Amador Nosso papel Mal decorado… A nossa pele O fato usado. Nisto pensar. Nas sementeiras Equilibradas D’uvas inteiras Como pedradas! — Nosso cordão Umbilical Recordação Bem teatral: Ele é que move Pano de Ferro Que bem se ouve Em cada berro. 15 de Setembro de 1975 27 . Tudo o que conto Tem assistência… Será Deus ponto Cheio de paciência? Ou Satanás Junto à ribalta? (Tanto lhe faz Se a voz nos falta…) Se mais atento.

Parece terra esmagada — Perfume de maresia — A areia estava queimada Pelo calor que fazia! Só na tua mão fechada A minha vida cabia. aconchegada. (Parece terra lavrada Esta espécie de poesia…) E depois um quási nada Réstia de maré vazia. quem diria… A montanha escalavrada Na medonha ventania. Mal sabia. mal sabia Que a palma não tinha nada Quando a tua mão abria.Mão Fechada A promessa apalavrada Quem diria. Sem destino. Parede. 22 de Novembro de 1975 28 .

É o eco do combate De quem dispara primeiro. Flor da morte: flor-da-murta Ao morrer o fim da tarde. Tocam sinos a rebate! Dão. Sem saber quem em nós manda Não podemos ser heróis. Bispo Negro: xeque-mate Silêncio conventual… Tudo o que morre em combate É de morte natural. No combate combatemos Contra a nossa liberdade. dói…) Sem saber por quem se luta Não se pode ser cobarde. Coração boião de mel Melaço de solidão… O preço da nossa pele Tem tão baixa cotação. Sem saber por quem se perde Não ganhamos a batalha. A morte avesso da vida (Que não se pode virar…) Deve ela assim ser vivida Como se respira o ar. Sem saber por quem morremos Não sabemos a verdade. dói. dão. É a luz que nos comanda No rodar dos girassóis. dói. Sem saber por quem se bate Não se pode ser herói. campo verde: Tua cor é de quem ganha.Melaço Sem saber por quem se bate Não se pode ser guerreiro. Lisboa. 24 de Dezembro de 1975 29 . Campo verde. dão (dói.

E nadava em nada Com a boca aberta. Mas no suicídio Encontrei-os todos! Lisboa. Desconheço Ovídio. O ramo sem rama Aberto em flor. A fome sem fama.Van Gogh Os passos dos pássaros. Prata amarelada: A praia deserta. Os passos verídicos Nas noites sem sono. Os Gregos os Godos. 12 de Janeiro de 1976 30 . Os cantos dos cânticos Os laços dos Lázaros Na voz dos românticos… Os lírios dos líricos. Os danos sem dono. Fogo sem calor.

É como a tarde inundasse O suor da minha pele Ou como o dia chorasse Por razões que não são dele. Tua boca sem mordaça Faz eco nos cobertores E lá fora na vidraça Há um rufar de tambores. Só eu entendo o murmúrio Dos teus lábios que me falam De segredos do Dilúvio Onde as cidades se calam.Amor em Dia de Chuva O teu rosto sorridente — Mas chega a ser verdadeiro? — Que altura tem a vertente Na neve do travesseiro? O lençol será o leito Dum rio que está a encher No teu rosto satisfeito Por tanta água a correr? Também em água corrente — E quem sabe de verdade! — Não passa de afluente O meu corpo em liberdade. 23 de Fevereiro de 1976 31 . Lisboa. Rufando raiva ruídos Remoques dos regimentos Que afinal nem são ouvidos Quando há fuzilamentos.

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Escavação .

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Homens feitos de granito… Pompeia. Com o pão mal mastigado Pois o tempo é tão preciso… Somos bichos penteados Com fazendas sobre a pele. Água doce. Terra mole. 7 de Março de 1976 35 . Tudo nos é limitado Neste nosso paraíso. amêndoa amarga.1 A caminho de Pompeia Água doce. Se a nossa vista se alarga: Vai morrer no infinito. Se a nossa vista se alarga Vai morrer no infinito. Gastamos gostos e gestos. duro granito. De nós ficarmos por baixo Do que passa a ser o chão. Ferroadas e zumbidos Ai! tempestades de areia: As abelhas dos sentidos Fazem de nós a colmeia. amêndoa amarga. Terra Nostra!) Tão duras recordações Quando a vida fica à mostra! Os vulcões erguem o facho Desta nossa maldição. Amparando a nossa queda Quando chega a nossa hora. Os dedos bichos de seda. Desperdiçamos carícias E depois nos nossos restos Fica de tudo notícias… Mal se fazem escavações (Mare Nostrum. Mas se estamos desnudados Nosso corpo sabe a mel. Afagando tudo em roda.

Palácios. barcaças. Dão-se os avisos Aos demorados! Os indecisos São empurrados… A extrema-unção Como garrote Desce da mão Dum sacerdote. colunas. Passam as gôndolas E o São Marcos Joga nas tômbolas: Todo o destino Dos condenados Que a pente fino Quer bem passados… Braços atados… Ao sol à chuva: Leões alados Leões sem juba… Frisos dourados. Lemes. praças. Duram os anos De toda a gente… A nada foges: Tu não sabias Que nascem Doges Todos os dias? Veneza. Pontes. Dados lançados Pelo São Marcos: Venezianos. Passam os barcos. Ogivas. Só não há dunas. Discretamente.2 Ponte dos Suspiros Atrás os braços. Iluminando O corredor Que num momento Fica menor… Cobre a distância Com sombra amena — Como a infância É tão pequena… — Veneza em roda É uma serpente Não se incomoda Com esta gente. Sobre os portais Alastra em pasta A Lua a mais Já muito gasta. arcos. Pulsos torcidos… Mais os baraços Mais os gemidos. 10 de Março de 1976 36 . Sempre há quem corte Uma conversa Até na morte Nos pedem pressa… Um Sol servil E rendilhado Relembra Abril Ao condenado. É rastejante Procura o mar Já é bastante Desaguar… Água em delírio E nada mais Cumpre o martírio Dos seus canais.

Madonas de Florença… Sopram também o Zodíaco. Vasos de vinho e de cidra. Serpentes e serpentinas. clarões. 11 de Março de 1976 37 . Vias-Lácteas.3 Os Vidreiros de Murano Passeiam junto dos fornos Com medonha indiferença. Têm cadeias nos pés Que o Tempo lhes soube atar E conhecem as marés Sem terem de ver o mar… Ajudantes do Demónio. A fauna de pesadelo. Com medulas de antimónio Cospem vidro dos pulmões! Veneza. Assopram patos e cornos. Cassiopeias… Entre canais e rochedos Nascem e morrem vidreiros. Contra-luzes. Declive demoníaco Nas costas dalgum camelo… Os vidreiros de Murano. Têm vidraças partidas Pelo vento e pelas bombas E gaivotas confundidas Por entre bandos de pombas. Bebem vidro todo o ano Pelas taças de veneno… Esculpem Virgens bizantinas. Centauros e centopeias. Num fim de Mundo sereno. Pois guardam bem os segredos Como os antigos pedreiros. Perfumes revolucionários E também cabeças de hidra Que afogam nos aquários.

4 Rosa. No chegar dos companheiros A quem se acendem fogueiras… Também nos cubos de gelo — Altares abaixo de zero — Ou nos anéis do cabelo Que partem dedos ao Nero… Nas lanças das Legiões Sobre escudos em viés Ou nos dentes dos leões Na cadência das galés… Os Tribunos da Plebe. Os cedros fazendo sebe Junto aos arcos abatidos… No pó das estradas reais As pegadas fazem leis. Ou nas velas sem os ventos Que se misturam nas redes… Nas folhas dos castanheiros Ou na lixa das figueiras. Na patina das paredes. 12 de Março de 1976 38 . os mesmos anos Na margem direita e esquerda? Nas cabeças dos romanos A pele é feita de pedra… Paris. Até nos Lobos-de-Alsácia Ou num silvo de sirene… Na base dos monumentos. Nas sombras da acetilene. Rosæ… Nas hortênsias. Imperadores convertidos. numa acácia. Tibre. Mais as lobas maternais Qu’emprestam calor ao reis… No passar dos legionários Ficou um mundo esmagado… No vapor dos balneários Fica o suor do Passado… Terás.

Deuses cativos. Tão sideral Siderurgia Calor total Parece dia… Somos os trágicos Das sinfonias. A força atómica Por mais brutal Dá-nos a tónica Do natural. Justificamos O nosso génio Pois respiramos Oxigénio. Sim: animais D’instinto casto: As catedrais São nosso rasto… Londres. demónios Na invenção E nos binómios Da solução… Nos contrafortes E nas vertentes Depois das mortes Somos sementes… Os altos fornos São a moldura São os contornos Da nossa altura. Anjos. O ferro em brasa Nosso brasão Dá-nos a casa A dimensão. o berro A progressão Queimado a ferro O coração. Dentro de bilhas Caem rios vivos Nas armadilhas… A matemática: O Livro Santo É nossa táctica É nosso encanto. Somos os mágicos Das alquimias… Fazemos ouro Mais que parece Se o nosso choro Nos enriquece.5 Siderurgia Não te admires Das bruxarias E dos faquires E das magias… Os feiticeiros Vivem em nós Corpos inteiros: Dão-nos a voz. Monstros selvagens Omnipotentes: Que nas Barragens Estamos presentes. Soluço. No fim do riso A gargalhada Sem um aviso Alienada. 16 de Março de 1976 39 .

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Trinta dinheiros Por capital. São trinta pedras Com que se arrasta. O seu futuro Só foi presente. Trinta moedas Que nunca gasta. Tão necessário Foi o seu gesto. Passo inseguro. 29 de Maio de 1976 41 . Como o Calvário E todo o resto… Quis um império? Nem pensou nele: Como actor sério Cumpre um papel! Pedro sentiu Que não fez tanto Também traiu Mas ficou santo… Contam-lhe os anjos Todos os passos E os arcanjos Fixam-lhe os traços.Judas Sem companheiros Vulto pascal. Supliciado Noutra madeira Crucificado Numa figueira… Treze rebeldes Foram cear Havia neles Dois a matar… Lisboa. Um ar ausente.

Galinholas e perdizes As lagostas dos requintes… O que dizes e não dizes. caldo verde Com broa bem racionada… Mas meu País não se perde Tem largura duma estrada: Casa branca. os promontórios Nas carícias marinheiras Os maços de «Provisórios» Foram-se as marcas estrangeiras… Um país.Portugal 1976 Pão de quilo. 11 de Outubro de 1976 42 . Sarracenos em salmoura Que tristeza que isto tem! Pão de quilo. vila verde Depois não fica mais nada… Balaia. Sete palmos de oceano Outro tanto de enseada Os navios a todo o pano E cheira a terra queimada… Os pés a pisarem uva As mãos sem guardarem nada… Tanta saudade de chuva E cheiro a terra molhada. caldo verde Com broa bem desfiada. Estes nervos sempre em franja A cabeça alvoriada E o Sol uma laranja Pela sede imaginada Feijão-frade. muitos países. mais a canja E o sabor a limonada… Gestos densos e marmóreos E a força das pedreiras… Os cabos. O boato e os ouvintes… O que fora e não fora No vinho que sabe bem E mais Nossa Senhora Que dizem ser nossa Mãe. Emigrantes e pedintes.

As alcovas. Na cor de mel dos teus ombros Há escavações e ruínas Que conduzem aos assombros Das pontes florentinas… Porquê o cantar dos ralos Que perfura tudo em volta? E o combate dos galos Onde o sangue fica à solta? — Só o correr dos cavalos Não traz a morte por escolta… — Tudo são carnificinas É o mar o pregoeiro As sirenes são buzinas Que dão voz ao nevoeiro (Ou o silvo de oficinas Onde o Mundo cabe inteiro?) Os búzios nas neblinas São trabalho de pedreiro… E a noite a pôr de parte Qualquer sonho que nos dá… E se vida houver em Marte A morte também lá está? Solstício de Verão… As traições mais as sevícias. 14 de Agosto de 1976 43 .Solstício de Verão As algas. Mais os ouriços-do-mar. Os faróis dos pirilampos Que barcos estão a avisar? Solstício de Verão… O chicote da nortada… Os cinco dedos da mão Que conta querem errada? — Se nos pára o coração Os números não valem nada — Ai! as angústias nocturnas. os hipocampos. as alfombras E os fornos e as furnas Onde o Sol aquece as sombras — Onde o Sol aquece o pão Que nenhuma boca come… Solstício de Verão A quem matas tu a fome? — Os rochedos lembram escombros E cidades bizantinas. Os cinco dedos da mão São chicotes nas carícias… João de Orens.

medo da morte e de pedras quanto baste (Receita dum faraó) Ramsés. (A povoar tua insónia De papiros e mosaicos…) Na tua clepsidra Desagua o rio do tempo. tão tranquilo. No teu sono milenário: Lavas nas águas do Nilo Esses teus sonhos de calcário? (Até puseste pirâmides Nas costas dos dromedários…) Sonhas pedras. sobre pedras Nesse teu medo da morte. As areias são as natas As raízes do mistério (E tiveste cataratas Por degraus do teu império!) Vale dos Reis. 12 de Setembro de 1976 44 . água.Ramsés o Grande Areia. Mas tão feroz como a Hidra Que devora o próprio vento. Memphis ou Tánis: Tanto medo sem tamanho! Ao tresmalhar-se o Boi Ápis Ruminou um mundo estranho! A morte é ponta do lápis Que faz o nosso desenho! Paris. Os chicotes são moedas Com que pagas o transporte… (Mas nem Karnak nem Tebas Mudaram a tua sorte!) A morte é outra colónia De desertos cirenaicos Com muros da Babilónia Em horizontes hebraicos. (Quando há sede em vez de cidra O Homem constrói um templo…) Tuas mãos aristocratas Roubam astros ao etéreo.

Amor-Perfeito Tanto amor semeia o vento Nos gestos que desenhaste. Fica o coração dormente Nos rituais do Tomilho. Almíscar. Na explosão da semente O desejo é o rastilho. Só as Passas de Corinto Não servem na refeição De requintes de absinto E de sangue de dragão… Que almofariz é teu corpo Nos orgasmos infernais. Como se a martelo e escopro Te gravasse nos vitrais! Se Deus nos deu a comida E o Diabo o condimento Do outro lado da vida Que nos serve de alimento? Lisboa. 19 de Dezembro de 1976 45 . Outra receita profana Nos Pimentos da Jamaica. Âmbar Cinzento De Mástique quanto baste… Também pimenta esmagada E pedaços de Gengibre E depois em cada unhada Uma carícia de tigre… Nos restos da Damiana A pronúncia vem arcaica.

Aqui a noite é maior Quando comigo naufragas Nas marés do nosso amor. Alto Douro. Nem nos sonhos que me contes Há tão grande pesadelo. Trás-os-Montes. Nem do mar se ouve o choro Nem os montes são de sal.Trás-os-Montes Trás-os-Montes. Senhora da Boa Morte Na beira dos precipícios… Nossa Senhora do Pranto. Mas a terra é ondulada: Inda mal um monte vimos Vem outro na enxurrada… Só há socalcos e fragas. No granito do teu manto Não há pedra que não doa! Em estrada transmontana. O céu parece mais baixo. Enrosca o Douro em novelo. E nas terras de Monforte Vejo marcas de silícios. 12 de Fevereiro de 1977 46 . As rochas não têm limos. Lembra o mar quando está calmo (Quando parece um riacho Que não tenha mais de um palmo). Nos caminhos quem resguarda É o medo que nos mura Até os anjos da guarda Têm medo desta altura… Alto Douro. Vila Nova de Foz Côa. Tão longe do litoral.

Madressilva. Pode nascer uma rosa Ou pode tecer a baba Uma aranha venenosa. 27 de Maio de 1977 47 . Mais coisas indispensáveis: Catre com lençóis de linho E sonhos inconfessáveis. No morrer das neblinas Que adensam a cerração Há limas de quatro quinas Que sonhamos na prisão. Ouvem-se os passos da ronda Nos relógios do presídio. Madressilva. Ao entrar nos algerozes A garganta que a devora. No ponto onde a noite acaba. E a chuva imita as vozes Dos que ficaram lá fora. Como essa lima bastarda Que sonhamos na prisão. Muda o vento de caminho Se sente vinhas na areia. Como cresce a trepadeira Pelos muros da prisão! Grades e Lua redonda: Um convite ao suicídio. Pois a noite é sempre a mesma. É a esponja de vinagre Que nos estendem na Quaresma. Nasce a manhã sem milagre. Lisboa. rosmaninho Nas paredes da cadeia. rosmaninho. No perfume a pedreneira Sonhamos a explosão.Ronda da Noite Trespassa o vento a mansarda Dizimando a escuridão.

Só o Outono É o meio-termo. Esse teu rosto Donde o recordo? Lisboa.Canção Estival Chove em Agosto Sol em Dezembro! Esse teu rosto Donde é que lembro? A Primavera É exigente. Amor de fera Condescendente. Sonho no sonho É casa em ermo. O roçar terno De chama amiga Traz o Inverno Mais não obriga. 7 de Julho de 1977 48 . Chove em Agosto Em água acordo.

Fazermos das caniçadas Uma orquestra de flautas Cantando em noites estreladas Os hinos dos astronautas. Desfolhando os girassóis Com dedos feitos nortadas. em regimento. Subirmos aos campanários (Caça ao galo-catavento) Ou sermos os legionários No deserto. Julgarmos sempre a fronteira No outro lado do monte. Fumarmos barbas de milho E jogarmos à pedrada E fazermos um chinquilho Dos potes da marmelada… Tomar banho nas ribeiras Secando o corpo na roupa Ou inventar as maneiras De roubar colheres à sopa… Sujar as mãos nas amoras. Pisar o rabo das cobras Em que sonhamos serpentes. Fazermos uma trincheira Nas grades duma pocilga E escalar a trepadeira Que espreguiça a madressilva. Escalarmos as saibreiras Como afagássemos lixas. Com a brancura dos ossos De quem se deixa afogar. Amassar a terra mole Sem sabermos ver as horas Que há nos relógios de sol. Apanharmos caracóis Depois de grandes chuvadas. Os caçadores de cabeças… Peregrinos no Sinai… Reféns. Ouvir junto dos moinhos Que também o barro chora E nas Virgens dos Caminhos Não vermos Nossa Senhora. Escavarmos nas abóboras As feições mais repelentes. Espiar os casinhotos À beira dos precipícios. cativos dos persas… Fumando ópio em Xangai… 49 . Ver numa vaca leiteira Perfil de rinoceronte. Massacrar os gafanhotos Inimigos dos egípcios. Decepar as sardinheiras E as caudas das lagartixas.Emilio Salgari Irmos aos charcos das rãs E armar à passarada Pelo fresco das manhãs Na pasteleira encarnada… Vermos no fundo dos poços O reverso do luar.

Tornamos a passar rifas (Talvez a sorte aconteça) — E o «Filtro dos Califas» A martelar-me a cabeça! — Esconder nas medas de feno Os que são do nosso bando — Embalar desde pequeno Os sonhos do contrabando. — Pormos penas no cabelo E com pinturas de guerra Montar as mulas em pêlo Que se espojam pela terra. Tanta coisa ignorada Como não tendo importância… Ai! pasteleira encarnada No portão da nossa infância! Sagres. Sem temermos as abelhas Que vendem caro o seu mel. 23 de Julho de 1977 50 . Sermos os peles-vermelhas Sem olhar à cor da pele… Ver azul de mitilene Ou oceano num charco E a Lua acitilene No tecto do nosso quarto.

Vê-se Jesus Entre ladrões… A névoa densa A neblina A casca imensa Da tangerina… Lisboa. Um mundo fala Nos olhos densos. Enevoou-se Na madrugada. Ainda Pedro Não é traidor… O lume estala E espalha incensos. 22 de Dezembro de 1977 51 . Canja. coentro P’la noite fora E manhã dentro. Quem aqui falta Hoje aqui esteve… O arroz doce Como emboscada.Véspera de Natal Doce de amora. Um cheiro a cedro Mais ao que for. Em contraluz Sem ilusões. Noite tão alta Tão ao de leve. Os pratos novos: Velhas terrinas… O doce de ovos E as tangerinas.

Unamuno e Torquemada! De Cid o Campeador E da Santa Inquisição Que do sangue apaga a cor Pretextando a salvação… Santa Teresa de Jesus Odiando os sarracenos… No ferro em brasa da Cruz Conta o homem de menos! Ai! o inferno lendário Que lembra os Países Baixos: Duque de Alba sanguinário De armaduras e penachos… E o Cardeal de Toledo — Primaz de todas as Espanhas — Tem coração de rochedo Num Tejo de águas castanhas! As águias dos Pirenéus Teu retrato natural: Falta terra e sobram céus Ao seu orgulho ancestral. degolado.Espanha 1978 Quem estará do outro lado? Não é tudo como dantes? Sancho Pança. à martelada. sem fronteiras. Tendo cristãos por amigos. Pela espada de Cervantes: Afinal o que encontraste Nas lições de Dom Quixote? Um povo. Que tinha o corpo manchado Pelo calor das Fogueiras… Do vento do Escorial Que sopra contra os vassalos… Mas no fim é tudo igual Quando há touros e cavalos! Das papoilas do Jarama Dos que não eram soldados. Tantas mulheres violaram Já ninguém fala em castigos… Nem só Lorca anda presente 52 . Tocando as notas de Falla Tens os rios e tens os ventos. Homens desfeitas a masso. Por carrasco. Dos bravos do Guadarrama De Madrid dos sitiados… Não tem o sangue valor Quando é tempo de matar… O Destino é picador Que deixa um povo a sangrar! Do gume duma navalha Rasgas santos e talentos. contraste De carícias e chicote! Terra de santos e sábios E também de inquisidores Que há pouco cortavam lábios Aos franco-atiradores… De Besteiros e Machado. Mas a terra de Picasso. Santo Inácio. Os mouros que aqui andaram. eterno.

Ai! paella de palavras E momentos misturados! Madrid e Lisboa. As receitas do passado. muito embora. Calatravas. O ouro roubado aos Incas Não dourou o teu destino… Liberdade é mal que assombra Loyolas petrificados… — Quem estará hoje na sombra A jogar por ti aos dados? Sopra o vento ou são aragens Na colheita prometida? Quem desdobra os personagens No palco da tua vida? Inquisidor alma negra Ou uma alma de promessa? Quem será o contra-regra Do acto que hoje começa? Guadaletes.No cessar-fogo de agora. Num meio-tempo que consente Pensar em paz. Sol e sombra sem mais nada Prometendo alternativa E Castela descarnada É teu corpo em carne viva! Teu corpo rasgado em rios Procurando mares sangrentos… El Greco de corpos esguios Goya dos «Fuzilamentos»… Ferra novilhos e fincas Sob um sol que brilha a pino. 21-22 de Maio de 1978 53 .

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Cassiopeia .

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Os sobreviventes — Em comunidade — São eles utentes Da fraternidade. Ficam como ausentes: Imobilidade — Embora presentes Quási em majestade. Tão surpreendentes Pela novidade: Os mortos recentes Não vendem saudade.1 Inferno Câmaras ardentes Promiscuidade: Mortos e viventes Em cumplicidade. — São estrelas cadentes Em velocidade: Estando quási ausentes E em proximidade… 57 .

As plumas de enfeite Que aves evocam? O riscar do raio: Farol do trovão. Das chuvas de Maio Ao aluvião… Na força do vinho Vem a solução Abrindo um caminho Alheio à Razão. Passa a bebedeira E regressa a vida Tão mais verdadeira Tão mais repetida… 58 .2 Purgatório O ferver dos ácidos Que Mundo corrói? Nos acordos tácitos Que Paz se destrói? Vinagre e azeite Os extremos se tocam.

Semi-apagadas Nas constelações… No leque do vento Que rosto se esconde? Tudo é movimento Ninguém nos responde! Balaia. É fundindo o aço Que o fogo se dobra.3 Céu Pelo firmamento Ninguém se passeia? Sem gradeamento Vê-se a Cassiopeia… Andar à deriva E ao deus-dará Onde a carne viva Jamais sangrará. 17 de Agosto de 1978 59 . No fundo do Espaço Que espaço é que sobra? No céu as pegadas São quási ilusões.

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Poder Secular .

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Nos anéis dos teus abraços E nas bocas que beijastes! Preso ao Tronco. tão somente… Devorar a madrugada Quando a comida faltasse E perder-me. Minha Bíblia esfarrapada. Onde o dia não se sente. só. Deixar Leonor «bem segura» Num sempre que fosse breve… Sentir os duros porões.1 Camões Ó meu «Velho Testamento». na estrada Onde só eu me encontrasse. Encher de ar puro os pulmões Por vingança. Ter um castigo maior Das penas que tu expiavas: Morrendo aos poucos de amor No ódio que transpiravas! 63 . Roçar a tua loucura Mas só tocada ao de leve. Em Babel e em Sião. Aberta a todo o momento Deixando a noite sem nada! Repouso da minha insónia — Mais fofo que o fofo chão — Cativo na Babilónia. (Nobreza que te sobrava) E sentir a tua febre Da paixão que te cegava. da plebe. Ah! refazer os teus passos Nas marcas que não deixastes.

E a ponta da loucura… O granito do talento… A folha que se procura Entre as mil que tem o vento… A semente rejeitada Mas que vale uma seara.2 Fernando Pessoa Ó meu «Novo Testamento». tão vedado… O Eterno e o momento Mas tudo bem misturado! Paris. Sangue-frio do pensamento Tão evidente e confuso… Ó ritual primitivo. Quando pelo fim da tarde Nenhuma estrada é segura. Janela aberta onde arde A luz que a vista procura. Campo aberto. Como a Muralha da China Das palavras que te cercas Vê-se a Terra pequenina. Entre o ser e o não ser Vai a ponte que se deita Entre as margens do morrer Ou da vida que se aceita. 7 de Setembro de 1979 64 . Trazendo um novo motivo Onde há pouco nada havia. Galope do pensamento. Meu livro com tanto uso. A onda desenrolada E que na praia não pára! É no sonho que despertas. Renovado dia a dia.

Mais aquilo que nos malha Nas ampulhetas de areia! E as ruas da cidade Num rigor tão pombalino Gemendo obscuridade De campo com sol a pino… Gafanhotos. em tão mau estado. De liturgia profana. Choram noras? Vibram limas? Dobram os sinos mais estranhos? No rumor das tuas rimas De chocalhos e rebanhos… Mais a sombra das latadas.3 Cesário Meu missal. A força das trepadeiras E o prumo das calçadas Na pólvora das caçadeiras… Medas de feno e de palha E quatro palmos de aveia. De domingo celebrado Como um dia de semana! Será a missa cantada Que nos pode dar ideia Da cidade transformada? Numa ruela de aldeia? Empregado de balcão Em teus poemas confusos Crescem flores de latão De pregos e parafusos. escaravelhos E Lua branca de dia (A leitura de Evangelhos Dos ateus em romaria!) Perder-me nas tuas ruas De canastras e varinas De prédios e de charruas Buíças com carabinas… Só sentir à minha volta A vida à tua maneira: Um muro de pedra solta Num tapume de madeira! Paris. 9 de Agosto de 1979 65 .

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apodrecendo… No fim do beco O meu futuro Como um desenho Ia fazendo. 10 de Setembro de 1979 67 . Tanto cresci Que transbordei Forcei entrada E reneguei-me.Certidão de Nascimento No fim do beco Havia um muro E madressilva. Quem lá entrava: Ou recuava Ou como eu ia crescendo. Entrei na vida? Mas não vi nada… Saí de mim Desencontrei-me! Havia Praças? E mais cidade? Havia estrelas Constelações? Havia tudo Ou quási nada? No fim do beco Não há portões! Entrei na vida Pouco seguro Fruto maduro Tronco já seco… No fim do beco Havia um muro… Havia um muro No fim do beco! Paris.

Se escavarmos mais: Palácios e casas E lá mais no fundo: Cidades. raízes. países. Os bicos de lacre Mais os flamingos. Reis. Debaixo das tílias Mandam os instintos.«Post Scriptum» Por baixo das tílias Há sombras. 22 de Setembro de 1978 68 . imperatrizes E formigas de asas… Debaixo das tílias Crescem os jacintos. Debaixo das tílias É sempre domingo! Lisboa.

Sua conversa É de silêncio E sem respostas. Não há pastores. Sem velocidade. Pelas encostas E da Corrida Nenhum jornal Faz reportagem… Passa o comboio E a cancela já está fechada. Não dão sequer Pela mudança Que há na paisagem… Não há rebanhos. Meta volante? Vai-se a montanha? Não fica nada? Contra-relógio E qualquer meta Noutra cidade! Por uma roda Se perde a vida Se ganha a morte. Na algibeira. Mas ninguém pára O pelotão Não tem idade. Levam poemas.Contra-Relógio O Nicolau Leva o Ruy Belo Na pasteleira… Vai pedalando. Desconhecidos. Cadenciado. No macadame Escorregadio Da Eternidade. (Então com este vento Pelas costas Não há meta volante Que lhes baste!) Lisboa. Por um pescoço Vai-se um cavalo P’ro matadouro… Competição Em contraluz De bom recorte E a geração Já não se vai Atrás do choro… Tão insensíveis A esta vida Como às apostas Nenhuma etapa mais Há que os desgaste. 3 de Novembro de 1978 69 .

Mina de Sal Meu Pai no grande silêncio O que ouve desta vez? Os cedros no meio do vento E quem sabe? o mar talvez… Se ele serve de semente. 11 de Janeiro de 1979 70 . Meu Pai no grande silêncio Tanta coisa que me diz: Meu caule de pensamento O que foi minha raiz! Lisboa. Quem sabe lá se não sente O direito à criação… Mas não sente a Primavera — Equinócio pontual — É planta que não gera Canteiro em mina de sal. A quatro palmos do chão.

E de colheita em colheita Envelhece o tempo em cascos Como a cabeça direita Que não se verga aos carrascos. Se a morte tivesse rosto Eram as rugas videira… As cepas de enforcado Querem levar vinho ao céu. As águas formam riachos. O Inverno ruinoso… Um Verão que nos aquece… Somos águas em repouso Na memória que nos esquece.Nível de Água Entre o que ouso e não ouso O medo se reconhece. Como as águas em repouso E o Sol às vezes aquece… Entre o gesto e o movimento Tanta pausa que se esconde E às perguntas do vento Só a folhagem responde… Os cestos transbordam mosto E o mosto bebedeira. Lisboa. 27 de Janeiro de 1979 71 . Lagos. Num gesto desesperado Duma raiz que cresceu. rios e oceanos E as uvas nos seus cachos Recebem nomes dos anos.

As amêndoas e os figos E também o cheiro a louro. Somos os tais penitentes Sem caminho que emigramos… Fica tudo como dantes. São Segismundo E fugimos nos atalhos Que nos despejam no Mundo. Os eternos inimigos: O espanhol roçando o mouro. Onde o escopro veste mantos Para o frio não ser de mais. 15 de Fevereiro de 1979 72 . O cabrito em vinha de alhos. Caldo verde muito quente Um fio de azeite espelhado… As vinhas arroxeadas. Toalhas de Portugal Nas receitas de incerteza. amarelo. As capelas bem caiadas São João e Santo Onofre… A pedra esculpindo santos Que nos abrem os portais. A fruta. Um resto a cheiro de enxofre. O bacalhau tem foral Para vir à nossa mesa. É povo ou missa campal Esta gente em romaria Que transborda Portugal A cheirar a sacristia? Senhora dos Continentes. Nunca muda o remetente: A remessa de emigrantes Traz a morada da gente! Lisboa. cristalizada. É dela que precisamos. Ameaça de chibata Ou protecção dum castelo. Pão-de-ló. A azeitona enlatada E a calda de tomate. Doce de ovos. Nas Senhoras dos Caminhos Até se benzem ladrões Quando por entre azevinhos A noite manda os trovões. Posta fora de combate. Leite de creme queimado. pastel de nata. São Pedro.Cozido à Portuguesa Pão e mel mais aguardente.

O chão tem escamas Peixe de gelo… Moscovo. 5 de Setembro de 1979 73 .Kremlin O chão em escamas: Peixe de gelo. Longas muralhas Também sangrentas Como as navalhas E águas barrentas… Torres aos cantos Como em xadrez: Dão xeque aos santos Da cor da grés. Foram-se os reis Nos turbilhões E agora as leis São dos peões… Da cor das chamas Este castelo. Tem cor das chamas Este castelo… O mausoléu E São Basílio Longe do céu No seu exílio… Praça Vermelha Lua encarnada Como groselha Engarrafada.

Que guardamos do passado. Lisboa. Poente de saguão De suor todo alagado. A espingarda de pressão. Casino de ocasião Sem porteiro ou empregado. A furar o coração Dum presente recusado… Tiro seco: é frustração De assistente enregelado.Roleta Russa Nem sequer a explosão Só um tiro murmurado… É um espasmo de colchão No fim dum quarto alugado. Palpite de ocasião Por vezes mal apostado… Uma bala é um senão Dalgum baralho marcado… Todo o homem é um leão A fugir como um veado. 13 de Novembro de 1979 74 .

logo feito em humidade. inútil artifício De qualquer deus. gelando eternidade. Gelando o sangue e linfa do deus Baco. Derradeiro degrau dum sacrifício Mal pisado. Chorando por ninguém e toda a gente Num soluço que de morno é tão gelado. 17 de Junho de 1980 75 . Lisboa. Ó lágrima de estátua jacente Na ameaça dum choro prolongado. Janela sob o céu da transparência Revelando a paisagem do opaco… Ara antiga.Gelo É parede de vidro na aparência.

Não divide as orações E não sente o predicado Ao nascerem-lhe as canções Como vento libertado… Num canto do Universo.Auto-Retrato Poeta de circunstância. Não recorre a pragmática. 17 de Agosto de 1960 76 . Passa as palavras à lima. Subsolo e substância Da luz do seu saguão. Poeta de ocasião. Talvez um escravo da rima Que recusa a alforria… Mais dócil que revoltado. A provar a indigência — Atestado de pobreza —. Nos contornos da poesia. Não poeta por ciência Mas poeta por certeza. É um poeta emigrado Nos exílios da gramática. A viver sem estratagemas: Dá um reino por um verso Troca o céu por uns poemas… Balaia.

É quando o sangue goteja E a gente não dá por nada. 7 de Novembro de 1980 77 . Na saudade engarrafada. É quando o soro goteja Na festa desenfreada: A cabeça na bandeja. Salomé embriagada… Lisboa. É quando o soro goteja E é bebida mais gelada: Num desejo de cerveja.Visitas Proibidas É quando o soro goteja — Por uma fresta de nada — Quando a vida é uma narceja Que a morte quer derrubada. Um caroço de cereja Na garganta estrangulada… É quando o soro goteja Numa colheita estragada. A vida já não areja A morte calafetada. Vão-se os anéis a inveja E fica a noite abafada. É quando o soro goteja E a pele fica inundada… É quando o soro goteja Pela mica embaciada: Quer se veja ou não se veja A janela está fechada.

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Integração do Átomo .

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no sal. espero o sim e a negativa. Na lâmina afiada dos meus dias. ai! mundo aos pés Com estrelas ocultadas pela mão… Eu espero Barrabás na alternativa… Também o Muro das Lamentações… Em Meca. Eu espero por um deus sem lugar certo Nas casas de xadrez feitas de lenha… Aguardo ainda o ramo de oliveira Que Noé um dia prometeu. No céu de Espanha e de França. as confissões… Eu espero o medo que há em isto tudo. nas negras feitiçarias. O pudor. a devassa. Interpreto o destino nas fogueiras. Como se a vida fosse a passageira Clandestina duma barca a meio do céu. nas pedreneiras. Nos gelos. A vertente do Sermão da Montanha. 3 e 4 de Setembro de 1981 81 .1 Monte de Tabor Eu aguardo o jejum e o deserto. Em deuses embrulhados como ofertas: Perante um cliente surdo-mudo Na loja que se fecha a horas certas. Aguardo as 12 Tábuas de Moisés Por simples termo de comparação… Ai! Monte de Tabor. No budismo.

Binómios sem segredos. que nunca são de mais E contam-se os chineses pelos dedos. Equações. Paris. então de mais a mais: Que se contam os chineses pelos dedos… Rosa. Bem no fundo uns nobres animais A contarem os chineses pelos dedos. No Espaço. Água potável. Sempre muitos no pudor. rosæ dos Romanos.2 Cassiopeia Não há limites. Há que aceitar isto sem enredos — Se pensarmos. as vestais (A memória tem raiz dos arvoredos). aonde estais? Já se contam os chineses pelos dedos! Sempre poucos nas nossas bacanais. Ó impérios. Os astros são nossos ancestrais. no dormir: os rituais. o prumo dos rochedos. 7 de Setembro de 1981 82 . de outrora. nos nossos medos. todos iguais Aos chineses que se contam pelos dedos. Linguagens siderais. No comer. afinal. Sonhamos zeros.

Um quási eterno. às meias tintas… Meias marés — sem marés bravas — Às meias frases. Almofadão feito calcário. ao sangue não! Sim à canção feita.3 A Meia-Nau Não à vindima! Sim ao vinho! Não ao sangue! Sim à sangria! Não à estrada! Sim ao caminho! Não à manhã! Sim ao meio-dia! Sim: ao meio-termo. meias palavras. Meio sonho a meio do sono. pouco distintas. Meia nação já dominada… À meia-lua e ao meio metro De chaminé iluminada. Sim ao vinho! Não à colheita! Sim à sangria. Meio-termo no calendário. Verão em nós dizendo Inverno. 19 de Setembro de 1981 83 . Pensar nela um quanto baste. Meio sorvo de água potável. Na lira aberta do coração! Lisboa. À bandeira a meia-haste — A morte em nós recomendável —. Às meias cores. Como um corpo equilibrado. Meia vitória e meio ceptro. Um quási nada. Som dum tiro bem calibrado… Meia estação: sonhando Outono. desfeita.

De abismos. A onda é o grito à liberdade. cardinais. movimentos. bem em riste. Partículas do Tempo em suspensão. Riscando o nosso corpo de passagem… O que era a multidão sem ter anónimos Embrenhados na própria solidão? A vida é toda feita de binómios Tanta vez sem nenhuma solução! Lisboa. Iguais e desiguais: desunião. Em tubos de ensaio diminutos Fora do nosso ângulo de visão… Numerais. É lança levantada. Nas galáxias da nossa ignorância Quem vem reconhecer nossa tristeza? A Eternidade é feita de minutos. tudo em novelo. 26 de Setembro de 1981 84 . O começo é semente à nossa imagem. Tudo é feito de pequenos nadas Sem ninguém saber por que vontade. É todo o fogo feito pelas chamas Que se perdem em breve nas queimadas. O peixe é numerado pelas escamas Nas rotas que nos são ignoradas. O zero é melhor reconhecê-lo… Mas o 1 é o começo do milhão… O mar são gotas de água escravizadas. incerteza.4 Átomo O Espaço é todo feito de distância. Infinito sem zero não existe.

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Cavalo grego Feito de tempo! Sede citrina… Dedos de Fedra Na tua crina Feita de pedra! Atenas. Tão bem tratado — Granito comes! — Ficas ferrado P’la pedra-pomes. 18-24 de Setembro de 1981 87 . Quási sem peso No teu andar… Morres de fome Mas vale a pena Matar-te a fome Com um poema! Eu te segrego Eu te alimento. Peloponeso No teu olhar… Tudo coeso A transbordar. Esvoaçam crinas Nas dianteiras… Fazes da Acrópole Um campo aberto Onde o teu trote Sonha o deserto. Em ti vibrando Golpe após golpe? Sombra ou vapor? Tal a brancura… O teu senhor Não te segura? Fez-te a martelo (Já não martela!) Montou-te em pêlo Ou pôs-te sela? Já não te empinas Sobre as traseiras. Nas tuas veias Adivinhadas… Potro selvagem Donde fugido? Tudo em voragem Tudo esculpido! Terra batida À tua roda. Tens olhos vasos Cheios de noite… Narina aberta Ao cheiro antigo… Morrem-te os sonhos Nos teus flancos E nos teus olhos Que são tão brancos. Cairo e Lisboa. Corres areias Pouco pisadas. Restos de mar. Samos. Seca-te a boca De sede morres.Cavalo da Acrópole Cavalo branco Domado em pedra… As tuas rédeas São mãos de Fedra? Quem vai cortando O teu galope. Éfeso. Sem picadeiro Ou outro meio Morres primeiro Que o teu volteio. Terra esquecida Da alta escola. Contra os milénios É que tu corres.

Tempo de Silêncio
Sinais dos tempos: um Tempo sem sinais. Sinais contrários dos tempos que se vão. Polindo as águas as faces dos cristais Nascem frases onde os silêncios estão. Os santos são em tudo naturais Com tempo todo feito de oração. Sinais contrários em tudo tão iguais, Deixa o rosário calos pela mão… Sinais dos tempos: um Tempo sem sinais. Deserto de Sinai. Insolação. Palavras pastoris nas pastorais, Ovelhas tresmalhadas, solidão… Conserva o céu as cores outonais Dos primeiros dias da Criação. Os deuses ao nascerem nos currais Renegam os palácios pr’a onde vão. Sinais dos tempos: um Tempo sem sinais, Ó sentido dos sinais tentado em vão! Ó silêncio das celas conventuais Com palavras servidas por ração!
Lisboa, 3 de Outubro de 1981

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Telex a Lech Walesa
Aqui no Ocidente sou de Esquerda Mas no Leste seria dissidente. A estátua lembra gente, lembra pedra, Mas lembra mais pedra do que gente. Porém aqui eu sou bem a meu modo, Enquanto lá gostava só de o ser… Aqui posso mostrar ao Mundo todo As coisas que se pensam ao escrever! Aqui no Ocidente sou de Esquerda E lá tinha de o ser mesmo sem querer… A vida não é estátua feita em pedra: Temos de usar a fala p’ra viver. Aqui quando a palavra não me ocorre Não é que precise de a esconder. O culto do silêncio é o que morre Na palavra impedida de nascer. Aqui no Ocidente sou de Esquerda Já o fui em silêncio sem dizer… Mas também o silêncio não se herda Como um dia em Abril eu pude ver…
Paris, 18 de Outubro de 1981

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Acordar em Hotel
O sal no saleiro. A água no poço. Inverno e Janeiro Que pequeno-almoço! Cheira a croissant, A jornal, a tinta… Laranja e maçã Como estão na quinta. Inverno em Janeiro, Verão em Agosto, O teu travesseiro Desenhou teu rosto… E os ovos quentes Ficam estilhaçados, Mastigam teus dentes Meus lábios sangrados! No espelho da porta: A cama revolta, Imagem que corta O mais que há em volta… É água na veiga, O correr do banho. O pão com manteiga Cabe no desenho. Teus seios abertos Não esconde o lençol São montes cobertos Pela sombra e sol. Sob os cobertores Teu corpo adivinho — Pelos corredores Que nos manda o vinho — Foi noite em claro, Feita de momentos. Agora, reparo Nos teus movimentos… Já tudo é Passado, É véspera distante… (Está o céu estrelado?) O Sol está brilhante? E quando o lá fora Não serve de centro: Todo o Mundo mora No que está cá dentro! O sal no saleiro. Migalhas de pão. Transborda Janeiro A recordação…
Lisboa, 1 de Janeiro de 1982

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Saudação a Enrico Berlinguer
São como amarras que soltas Em tudo o que em ti descubro, Não pára o Mundo nas voltas Já tão longe fica Outubro. Não pára o Tempo se é tempo É uma pedra arremessada Que vai à frente do vento Correndo a História à pedrada. Passaram as Primaveras, Já se renderam Outonos, Houve depois outras guerras Mudaram Pátrias de donos… Houve pegadas na Lua, Onde há outros oceanos O Inverno não recua E há outras folhas nos ramos. Viver é seguir em frente (Avião: foi Passarola…), Torna-se o mar bem diferente Em cada onda que enrola. Não é a vida das penumbras Que constrói os ideais: É sair das catacumbas E erguer as catedrais! É sair dentro do ovo E ser águia majestosa… Outro pingo de água novo Fará nascer outra rosa. Sai o Homem das cavernas A criar outro ambiente. Descobre a criança as pernas P’ra ter o nome de gente! Ninguém pára a evolução Natural do Universo. Outra voz: outra canção, Outro poeta: outro verso. Cada Maio cria um Junho: O Infinito por meta. Tudo passa o testemunho Nesta espécie de estafeta… Bastam estátuas por sinais! Ficam paradas na rua, Estátuas são pontos finais Na prosa que continua… Tu não paraste no Tempo Nem o tempo queres parado: O Futuro é movimento Que te desprende do Passado!
Constantinopla, 16 de Fevereiro de 1982

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Passagem de Nível sem Guarda
(Comboio de corda para a minha primeira neta…)

As minhas contradições Vivem dentro do meu peito. São a paz sem condições Dum exército desfeito. Via-férrea que motiva A agulha dos meus dias. A minha locomotiva Que me transporta as poesias. A velha composição Inda movida a vapor Que pára em qualquer estação, Num horário ao meu dispor… Cresce a erva nos carris Mas comboios em dois sentidos… Leva caixotes, barris Com mendigos escondidos. Leva homens do capital, Com suas pastas de couro… O comboio vê-se mal Nos topos do miradouro. É um rasgão na paisagem Como uma estrela cadente. Mal se antevê a viagem: Nada fica em nossa frente. Comboio de mercadorias Que leva tempo a passar Que só lembra almotolias No ranger do seu andar.

Comboio expresso ou correio, Tudo depende do jeito Do sacão que vem do meio Dos movimentos que aceito. É uma espécie de fantasma, Uiva na noite de breu. Leva bem sangue em plasma Que já gente socorreu. Vive de inutilidades Das coisas deitadas fora, Sem usar velocidades, Chega, porém, sempre à hora. Passa logo a ser Passado Quando da vista se escapa, Ramerrame mastigado Em lugares fora do mapa. As carruagens em fila Quando a jornada é propícia. Algum dia descarrila E o jornal nem dá notícia. As minhas contradições Seguem dentro do meu peito. É um correr de vagões Na ponte sem parapeito!
Lisboa, 13 de Março de 1982

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Nome Próprio Feminino

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O pouco que te damos… Tanto deste Fizeste um Jau de cada português! Lisboa. Quisera eu rimar onde rimaste. 9 de Maio de 1982 95 . Quisera eu pisar o que pisaste. pois chegaste E tens a Terra toda por amante. Tanto te quero mostrar e nada vês. Quisera eu salvar o que salvaste Ao alcançar a praia mais distante… A China fica perto. não respondeste. Quisera eu nadar onde nadaste Nas rochas onde o mar faz o recorte.1 Camões Quisera eu cantar a tua sorte. Quisera eu morrer a tua morte. Quisera perguntar. Mas a bússola de hoje dá o Norte Das terras só do Sul por onde andaste.

Por ele estende a mão à caridade. Dos versos nada vê e nada come… Redondilhas a fugir pela cidade… Nos becos infernais onde se some.2 Jau Quem ama o seu senhor não sente a fome. 9 de Maio de 1982 96 . Lisboa. Mais além do seu vulto pouco cabe… Fica porém enorme no ossário — Jazigo imponente da escumalha — Bom ladrão? Mau pedinte? Bom corsário Da Armada Invencível da Canalha. Um escravo só direito tem ao nome Como santo que morre em castidade.

Amor forjando amor já condenado! Lisboa. Mas Leonor fica em terra e na verdura.3 Natércia Natércia. talvez pois o Luar Das sombras faz mulher. 9 de Maio de 1982 97 . Minguante. se lhe apetece… Mariana é bem certo: lembra mar. Certeza dum regresso demorado… Mulher outra mulher e desventura. talvez… ou qualquer vulto Ou ventre que se beije numa alcova… Sorriso bem aberto e bem oculto Na promessa de noite e Lua Nova. não interessa. Partida onde a saudade já estremece. ou qualquer nome. Pois basta ser mulher sem ser mais nada… Por vezes vem a Lua e não começa A noite que se pensa começada… Dinamene.

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os zelotas Que se cruzaram comigo! Nadei nos lagos sagrados. Vi Cristos apavorados No Monte das Oliveiras… Entre o sonho e a verdade Minha vida decorreu. Balaia. As almas mais ignotas Em mim buscaram abrigo: Os Galatas. Acabei tão indefeso Eu que mandava em soldados… Da Macedónia a Mileto Vai o passo dum mortal. Sem ter Terra Prometida. O dia que a noite tinha. Um soldado sem idade Dentro em mim adormeceu.São Paulo Sim! Outrora fui carrasco. Foi na Estrada de Damasco Que mudou a minha vida. Nas estradas da Galileia Ou nos montes de Corinto. Escrevi cartas dando ideia Das coisas que só eu sinto… A minha filosofia: É a espada na bainha E depois é ver o dia. Levei a voz ao Éfeso E a muitos outros lados. Tanta gente decepada! Quis tudo à minha maneira: Transformei a minha espada Numa rama de oliveira. 10 de Agosto de 1982 99 . Atravessei sementeiras. O Mundo é só um coreto Em jardim descomunal.

É a sombra das figueiras Rastejantes sem altura. É o ter direito ao chá Neste País cheio de sede.Algarve 1982 É o figo mal passado Aguardente de medronho É o não estar acordado E não ter direito ao sonho. presente. E o povo fica alterado Pelo chic das marinas… Corre álcool desnaturado Nas varizes das varinas! Paris. É o nylon e a fibra. Só a gaivota se salva E não perde a majestade. É a água que não há E o balançar duma rede. As amêndoas verdadeiras Em toda a sua secura. É o dólar ou a libra A moeda mais corrente? Ainda se ouve falar O Português nalgum lado? (Ou é só a voz do mar A ruminar o passado?) A areia outrora tão alva Tem outra tonalidade. 4 de Setembro de 1982 100 . Em vez da chita.

O mar. Ralos ao relento. Aves. Lâminas de luar. caliças No vinho das veias. Em sol de solfejo Nocturnas nortadas. vinténs! Carrascos. 19 de Setembro de 1982 101 . A letra e a lei. sofrimento. Real realejo De notas notadas. Névoas nas nogueiras Antes dos antigos. As arcas arcaicas. olivas. Os fósseis os fossos As prosas prosaicas. Fugaz e fingida. Detém os destinos Ao vencer-se a vida. Afins. A mão e o metro Como comprimento… A boca o bocejo Com continuidade. Convém ao convés Ventura de vento… Primo: a Primavera. Calcário. afogadas. Planalto pleno De várias vertigens… O amar ameno Tão vago das virgens… Os passos. Suor. O Tempo tempera E come a comida… O rei e a regra. os poços.Cega-Rega Marroquina Tem Rif reféns Castela castelos Por vinte. cutelos… Tem Rif reféns Castela: castelos… Estrada de Chaquen a Tetuã. Legando o lugar A manhãs manchadas. Largas levadiças A meio das ameias. cutelos… O fim das figueiras: As fisgas os figos. O bolo o beijo Sorvendo saudade. Riso o ritual Sempre mais ou menos: O fim é fatal Seremos serenos! Animo: animais! Seremos sumidos… E de mais a mais Vivemos vestidos… Olaias. De bronze batida. A manhã alegra O seio que eu sei… Por vinte vinténs: Carrascos. arvoredo E as vagas vivas Roçando o rochedo. O cedro e o ceptro. as marés. A sina dos sinos.

Qualquer leão enjaulado Dá-nos coragem indistinta. Despovoa o povoado A alcateia faminta. Se o lobo está isolado Dorme a sono solto a quinta. O luar é azulado? Não se conhece na tinta… Só o céu o quer pintado Sabe-se lá quem o pinta. Inocente degolado Talvez um deus não consinta. 28 de Setembro de 1982 102 . O teu retrato apagado… A saudade aviva a tinta. Estrada Badajoz-Córdova.O Luar é Azulado A verdade a nosso lado É necessário que minta. Caçador desalentado: Poucos troféus traz à cinta. Está a morte aqui ao lado Sem que o nosso sonho a sinta.

Preciso: é sonhar sem dó Até a noite sangrar. Iremos a Nazareth Ver a Casa de Maria. Até a noite gemer A confissão mais guardada Que é tão fácil de dizer Se o medo vem de mão dada. 15 de Outubro de 1982 103 . A força que o sonho tem: É Dom Quixote a lutar Com os moinhos de além Onde não vamos chegar. Nos sonhos há Galileias. Salomés ou Salomões Tudo finda no sol-posto… Faremos autos-de-fé Nas estradas de Sesmaria. Às vezes isto acontece Sem ter nada de notório. E também a Jericó E a qualquer outro lugar. Paris. Rio Jordão a transbordar (No labirinto das veias Há tantos braços de mar!) Muro das Lamentações: É vendo bem qualquer rosto. Vai-se o tempo das maçãs Volta o tempo das castanhas.Este Ano em Jerusalém «Este ano em Jerusalém» É tão fácil de dizer Se neste tempo que vem Ninguém viesse a morrer. Mas doutras tudo se esquece Nalgum forno crematório. Sonhamos pelas manhãs Com sermões e com montanhas.

Planícies e colinas. Lisboa. Da vida pouco se sabe. Vinde terra derretida. sol nascente Preia-mar. Tudo nós temos cá dentro: Há cicatrizes de sismos De que somos epicentro… Há oceanos e lagos. Montanhas com neblinas. 28 de Novembro de 1982 104 . Há horizontes tão vagos. Sabe a sal ou sabe a mel? Em sete palmos não cabe O que não seja da pele! Sete palmos mal medidos Como tecido barato… Onde cabem os sentidos Nada mais cabe de facto? Há labirintos. Sete palmos não são nada Mas metemos lá a vida. Lembramos a Criação E de nunca o termos dito… Sete palmos nada são Mas são o nosso infinito. abismos. Nós lembramos no poente Quando o Mundo arrefecia. maré vazia.Latifúndio Vinde terra macerada. Lua Cheia.

Por mais que se afirme: Já não há caçadas… Morrem falcoeiros. A caça a pé firme E mais as ciladas. 1 de Janeiro de 1983 105 . Neste desatino O que nos diria? Sonhava um remédio? Alinhava ideias? Morria de tédio Ou abria as veias! Lisboa. O Pêro Menino.Última Caçada A água vidrada Abaixo de zero. Já não voltam mais Os tempos felizes: Armar aos pardais Caçar codornizes. A ave não pousa? É galgo ou falcão? É lebre ou raposa? A Águia Real É morta à paulada. Caçar à pedrada É o que mais quero. Solta-se o furão P’ra dentro do mato: Esta a punição Este o desacato! Tudo é ilusão. Da falcoaria. No meio de arraial De turba exaltada. As águias se somem E os perdigueiros As perdizes comem.

O Tejo como a serpente A envolver a cidade. Havia a Rua Formosa Tinha gás ao fim do dia. Travessa do Fala-Só. Deixa um rasto que se apaga. perseverança Na casa da minha avó. Constelações que são gente Em que outra gente naufraga… O barco hoje já não silva. As casas dum rosa velho… A descoberta do sexo… Ai! se este rio fosse um espelho Seria um espelho convexo! Hoje só vejo cimento. É como estrela cadente. E cheirava a madressilva Pelos fundos do meu beco… Eram tranças. Velhas casas cor-de-rosa Onde o Tempo não cabia.Velhas Casas Cor-de-Rosa Velhas casas cor-de-rosa. Lisboa. No tempo que fica atrás Ficar nele quem nos dera… A quebrar o ramerrame Duma vida sem resvales. Aceno de mão dormente Prometendo eternidade. Havia a Rua da Paz. Os homens as avenidas… Tudo lembra movimento Quando passa um fura-vidas. Chega ao Tejo e fica em seco. 17 de Janeiro de 1983 106 . Calçadas de macadame Onde caíam cavalos. Croché. Numa cabeça qualquer E o tossir das traineiras Rebocando algum escaler. Havia a Rua da Esperança. Mais a Travessa da Hera. O musgo cobria o muro… Deitavam sal nos passeios A salgarem-me o futuro Pois ninguém olhava a meios… Havia a Rua Formosa Janelas de alvenaria. trepadeiras. Janelas de alvenaria.

Lisboa. Onde a pedra esculpida é mais secreta Do que a forma da figura conseguida. Um bafo de loucura a passar rente No labirinto de ideias e palavras… A poesia a desenhar-se lentamente Nas linhas em que o corpo desenhavas.Poema em Construção Frente a frente. amor. 17 de Março de 1983 107 . com o papel em minha frente (Só tu. o nome soletravas…). O poema: nasceu afluente Desse braço de mar com que acenavas… Como a morte aparente é mais concreta! O poema descoberto: estátua erguida. E agora há saudade adjacente Às palavras pontuais que segredavas… A morte era quási um caso assente. Como vela a extinguir-se que sopravas.

Vai um povo de joelhos No voar dos louva-a-deus. muito embora — Fecham-se os bichos-de-conta A tudo o que vem de fora… Aranhas tecem nas teias O tecido dum destino Que cativa centopeias Com patas em desatino… As carochas nos excrementos. 6-7 de Julho de 1988 Londres. A marca dos escaravelhos É medalha dos ateus. Vão deixando em fragmentos Leis da Física remota. 27 de Julho de 1988 108 . Deuses em voos secretos Junto ao céu. O negro é tinta-da-china No carreiro das formigas. O casulo que anteceda O voar da borboleta É feito com fios de seda Como manda a etiqueta… Como navalha de ponta — Mal aberta. Trespassam malvas e cardos Por sobre a terra gretada: Os zumbidos dos moscardos Como música sagrada. Larva de bichos alados? Por eles nas chaminés Cantam grilos desolados. equilibrados? O mundo é só dos insectos Deserto dos vertebrados! São João das Lampas e Lisboa. As joaninhas vermelhas. Tão de negro ponteadas… O zangão ama as abelhas À força das ferroadas. Licor de fogo nos campos A segregar-se de luz: No morse dos pirilampos Que mensagem se traduz? O bolor nos rodapés. Na sua força ignota.Os Insectos e os Outros Mudou-se a palma da sina Nos afagos das urtigas.

Lápides Apagadas Esta pedra tumular Que já pesa enquanto há vida. 8 de Agosto de 1983 109 . Abertas em transparência? A saudade como salga As coisas que são ausência! Pelos caminhos do céu Também há lousas partidas? Como a noite lembra o breu E presenças já esquecidas! Sob as pedras. Mas no exacto lugar Como uma folha caída… Só aguarda a inscrição Que um dia lhe vão escrever — Pobre ofício de escrivão Que pouco tem a dizer… — As pedras postas em monte… Ou uma cruz solitária… Qualquer coisa que nos conte Como a vida é perdulária. acordados? Ou em sono justiceiro? Apenas emparedados Sem direito a formigueiro! Balaia. Também no fundo dos mares — Quem é dono deste império? — Existem destes lugares Talhados p’ra cemitério… Com que flores sonhou a alga.

Pobre rafeiro danado Que se perdeu sem coleira! Eu tenho o faro apurado Na tortura da poeira! Lisboa. Sou como um cão sem ter dono E que só viva da caça. Por muita história que conte Eu não tenho opinião. Eu ando camuflado Pela pele das Estações: Pele de tambor já estalado No passar dos batalhões. 9 de Outubro de 1983 110 . Por mais caminhos que aponte Eu não me quero ir embora. Perdido na multidão. Por vezes o despenseiro… Todo eu mudo num instante Como vento passageiro. Tenho o ócio das montanhas… Quando a neve nada deixa… Decoro santos e senhas Nesta boca que se fecha.Ex-Libris Desertor. Tendo fome de anteontem Tenho sede de inda agora. Tenho fome e tenho sono Faça lá eu o que faça. eu ando a monte. Sou o sargento-ajudante.

Como gato de telhado Faz da Lua o seu novelo… Sou um franco-atirador. Mas fora das barricadas. 4 de Dezembro de 1983 111 . Granadeiro ou caçador Com armas descarregadas. Cada qual é como é! Lisboa. Barricada: a chaminé… A mais não sou obrigado. Estendo o ramo de oliveira! Como gato de telhado. Um poema engatilhado Onde só fala em mulheres. Tenho as balas nos tinteiros E baionetas refractárias. Poeta bem alinhado Por cardos e malmequeres. Eu nunca fiz prisioneiros Por razões humanitárias. Mas se acaso algum coelho Atravessa a sementeira: Quebro a espada no joelho. Sem questões a demovê-lo. Como cavalo espantado Que ultrapassa a própria crina. Poeta não espartilhado Pela força da doutrina.Auto-Retrato Poeta não alinhado.

Última Tentação Vendido por um ósculo Qualquer Cristo se revolta Se não encontra um apóstolo Ao olhar em sua volta… No desfecho só se aponta: Um Deus prostrado ou altivo. Mas bem no fundo só conta O homem que ficar vivo! Lisboa. 4 de Dezembro de 1983 112 .

O dó bemol.Tocata e Fuga Cravo temperado Em cena laica. Uma colcheia. O Minuete. Mais o Fandango. Clave de sol: Olhos da musa… O ré menor. Voz de falsete. O fá maior: São grãos d’areia. A semifusa. Cantor de tango. Que planetas No Planetário! Que rio tão farto Que nos murmura Os sons em parto Na partitura! Lisboa. As notas pretas Como rosário. 4 de Dezembro de 1983 113 . O tablado Harpa Judaica.

castiçal e castidade E já se adivinham os Reis Magos.Outro Natal P’ro ano quem virá? E quem partiu Quando o pano de ferro for içado? O sino. Jerusalém. De neve que se quer imaginada… Cada um tem Jesus que desfigura À força desta noite não querer nada… Lisboa. 19 de Dezembro de 1983 114 . fica enorme Com seus telhados tão ensanguentados. apenas com seus véus… O tempo é de silêncio nesta altura. ninguém ouviu. se tocou. É o Filho do Homem ou de Deus? Terá depois domingos com seus ramos E Salomés. O rosto permanece mas com estragos… Na mesa. outra noite e outra idade. O bronze foi apenas beliscado… Outro pinho. ao longe. tresloucado ainda dorme Mas já sonha Inocentes degolados… Renascido pobre. Herodes. não tem amos.

Pelos filhos doutros ventres. Outras marcas de nobreza… Perde-se o leite em searas Se das tetas fazes mesa.Via Appia Loba faminta de Roma Não tens afagos no pêlo. Quem de ti um dia coma Terá c’roa no cabelo… À fronte dás as tiaras. No céu da Arábia. O latido que em ti vibre Gela-nos sangue nas veias. Calendário de arvoredos. 26 de Agosto de 1983 115 . Desenhas a Geografia Com tribunos e Tibérios? Teu leite da tirania Fez a nata dos impérios… De Roma loba faminta. Pisas a sombra dos dias. Depois devoras os filhos Mas a monarcas dás vida. aos trilhos. Tudo ao que a noite convida. Tem teu leite a cor da tinta Das histórias em que tu entres. De ti nascem dinastias Que contam reis pelos dedos. Pois lembra águas do Tibre Que envenenam alcateias… Sais aos atalhos.

já é praia Apenas isto a noite segredava… Lisboa. Tantos de Tal Em Espanha havia sol (e sol a pino!) Porém aqui chovia sem parar. horas depois: vidas trocadas A Espanha era um dilúvio no Ocaso! A Lua. Como a fronteira fosse só destino Dos dois povos que estava a separar. veio beijar a raia Que há pouco o Sol e chuva baralhava. 10 de Janeiro de 1984 116 . visto de Espanha. Marvão. não vem ao caso… — Porém. amena.Marvão. Ou sol e sombra apenas das touradas? — Touros de morte ou não.

É como cântico aberto A retalhar a canção… Pianista boquiaberto Por ouvir uma ovação… Resignado concerto Que só tem uma audição. É o sim e negação. É o presságio secreto D’aviso à navegação… É a flor do deserto. Vertigem de saguão. Pareça ainda que não… É como Sol encoberto Quando não manda a Estação: Sentimos a vida perto Mesmo ao alcance da mão! É visível e concreto. Londres.Audição Única Com um certo desacerto. 29 de Julho de 1988 117 . De chuva vinda de perto Mas não caindo no chão… Como fólio entreaberto Dalgum livro de Razão. Onde o número fique certo. Fevereiro de 1984. Duma primeira audição: Este infindável concerto Enquanto há coração… Continente descoberto Por recente aluvião. Lisboa.

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Circus Maximus .

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Estação de rádio arcaica Só emito em ondas médias Na muralha pirenaica Que m’afasta das tragédias! Na cintura trago escalpes Dos sonhos dos meus dez anos E por vezes passo os Alpes No roncar d’aeroplanos. D’alguma causa notável… Se pelo sonho transfiro O que vai dentro de mim. Os vasos comunicantes Entre mim e a verdade. Mais os sonhos que fervi No caldeirão da memória… Torno a massa lamacenta Em fresca água potável. Trago em mim o Júlio Verne Que me deforma a imagem. São galgos em liberdade. É da água que transpiro Entre algum não e um sim! Os sonhos são dominantes. isenta. 12 de Fevereiro de 1984 121 . Veneza. Essência tão pura.1 Dança do Escalpe Uma escada sem degraus — Onde o passar não estremeça — Memória a noventa graus A ferver-me na cabeça… Um mapa na epiderme — Isenta de tatuagem —. Levo o Emilio Salgari Nesta minha trajectória.

Por ser maior o Destino Do que o seu próprio desenho? Seja o que for. E o leite do luar Deixa suspensa a ameaça Dum castigo exemplar… É um espaço quase etéreo Qualquer metro à nossa volta É um anel do Império Com sonhos andando à solta… Que flores floresceu Florença? Que veias vão a Veneza? Sem sabermos a diferença É que temos a certeza. Nos claustros. Esta sombra de Siena Que o luar quase nos rouba! Algum deus greco ou latino Que já perdeu o tamanho. Florença-Siena. Feito de sombras humanas E desejo de ver mais. os morcegos — Tantas luzes apagadas Sonham nos olhos dos cegos… — Será leoa ou hiena Ou apenas uma loba. já não passa.2 Terra de Siena Feras por pedra afagadas. 17 de Fevereiro de 1984 122 . Desenha estradas romanas Nos caminhos actuais.

Mediu o trigo nas medas. Quis o corpo em carne viva. Lavou a pele nas nascentes. Que sentido? Que sinónimo? Que sangue na pedra escorre? Morre só e morre anónimo Como qualquer homem morre! Fez amor e comeu uvas. Caído. Teve as angústias qu’eu sinto. Duma figura indefesa Onde a morte é luz eleita Duma vida mal acesa. Outro gosto de saliva. Que Tribuno da Plebe Correrá em seu favor? Estátua jacente. sem uma amarra… Que rosto já sem certezas… Ai! A Pedra de Carrara Também tem destas fraquezas! Roma. Sentiu na língua outros dentes.3 Pedra de Carrara Um Galata moribundo Acabando sem glória No chão que foi o seu mundo A páginas tantas da História… Nem moldura duma sebe Serve de fundo ao pudor. perfeita. Passeou nas alamedas As pernas empedernidas. Viveu o sol e as chuvas. 21 de Fevereiro de 1984 123 . Chorou colheitas perdidas. Mordeu passas de Corinto.

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adormeciam Cansados de ser sonho e de ser sexo. como asas que subiam. Londres. Só os olhos. Voando contra o vento não venciam O cansaço que vem no amplexo. logo partiam Como um raio de luz sem reflexo… Nos lábios que as palavras não abriam Deixavam-nos o rosto perplexo. Neste dia côncavo e convexo. nos desmentiam O que pudesse haver com algum nexo. Atalhos. Chegavam junto a ti. Nos espelhos as imagens não cabiam. lamacentos e sem nexo. as carícias que faziam Na vegetação rasa do teu sexo… Os braços. 19 de Março de 1984. 29 de Julho de 1988 125 . porém. então. Num voar tão simples e complexo. Pesadamente. Lisboa. Como pedras num lago só caíam Trazendo um círculo mais sempre em anexo. As unhas.Obsessão Que caminhos os dedos percorriam.

14 de Abril de 1984 126 . Corre devagar. Pesado. Bem dentro da gente.Uma Gota de Sangue Coração não pares. Há céu que nos sobra Nos olhos fechados. O sino não dobra Nos bronzes calados… A seiva não esquece A cor da verdura. Desenho que ilustre História sem sentido. Lisboa. Gota afluente. tão vago. Coração não batas. Há rios que são mares Quando chega a hora. Vê lá se me matas Em frente do mar. Dois palmos de areia Onde o Sol desmaia. Coração és lago. Há sangue lá fora. Canto de sereia Sem direito a praia. Coração estremece Não guardes ternura. És mundo lacustre No Espaço sumido.

E o peso dos garrotes Era o pulso dos tiranos. Às vezes sem mesmo olhar — Será tudo o que disser A dança do polegar… —. Era a calma… Outra batalha… A paz nem tinha domínios. O César quer ou não quer. Na arena gladiadores Entre leões e panteras E as árias dos cantores Quando lançados às feras. E se vão cuidar do Fogo As submissas Vestais. Havia a Rocha Tarpeia: O castigo exemplar — Mais um elo da cadeia Do gosto de escravizar… —. Havia templos e termas E um aqueduto romano.Queda do Império dos Romanos Havia a Estrada Romana Ponte d’arcos abatidos Com tanta sombra profana A passar nos dois sentidos… Havia memórias ermas Sem nenhum calor humano. 127 . Havia sol e nevões Na paisagem sempre estática E também declinações No cutelo da Gramática. Tragando uma nação mais. O Império abre-se logo. Era o esmagar da escumalha Por Soberbos e Tarquínios. Mas já havia outra gente Sonhando outras divindades. O fogo dos sacerdotes Só para os deuses romanos… Fica o Templo incandescente Amolecendo as vontades.

Havia um Povo escondido Por detrás do mesmo escudo… Quando andam escravos a monte O Tirano tudo espreita E é sempre noite na ponte Que o medo torna mais estreita… Guincho. 30 de Abril de 1984. Londres. Londres. Num olhar tudo se alcança. Ser-se dono do destino Dava alguma segurança… Quando o veneno é bebido Torna-se o aço em veludo. 19 de Julho de 1988 128 . 22 de Abril de 1984.Do alto do Palatino.

Vinho dos sacrificados. Mais os gestos tresloucados Que nos são afluentes. 23 de Abril de 1984 129 . A justiça ergueu a vara Num capricho tutelar. Se houvesse mais rebeldia. Para nós é coisa cara O gratuito sacrifício. Pão da boca d’inocentes. Vem o Domingo de Ramos No Cordeiro castigado. Pobre Cordeiro Pascal Que destino tão falhado. As palavras que gritamos Passam logo a ser Passado. O bafo morno na ara Deixa a vida a transpirar.Domingo de Ramos Gota de sangue na ara Nem sequer será indício. Fica mais quente a manhã Se um cordeiro se tresmalha. P’ra cumprir o ritual Lá o qu’remos tresmalhado. Talvez até o Cordeiro Vivesse mais algum dia E morria o carniceiro… Goteja o sangue na lã Que ninguém já agasalha. Bath e Londres.

Casos vertentes… Córtez. Conquistadores: Os que chegaram. 24 de Abril de 1984. Contam-se os anos Nos grãos de milho. 30 de Julho de 1988 130 . Ensanguentado Pelos grilhões Do El-Dorado… Povo minúsculo Em lamaçal Vive do músculo E lei braçal. Tudo carregam. Deus: Quantos são? Tem duas costas Esta nação. Pizarro Não são dif’rentes! São a serpente Que desenrola A aguardente Ou Coca-Cola… São uns senhores Dum tempo todo: São opressores De qualquer modo! Os ameríndios: Americanos? Ou estes índios São marcianos? Quem concebeu Este mistério: Tombar do céu Neste Hemisfério? Ó exilados Dum mundo antigo: Ombros dobrados Como castigo! Neste país De rios e cocos Há leis servis E índios loucos! Na Nicarágua O Rio Escondido Passa na água Sem ser ouvido… Oxford e Londres. Tão indefeso. Dois oceanos Como espartilho. De tudo um pouco… Ferve cachões. Num chão sagrado Que não tem peso. o carro. Sonhos até… Os que aqui chegam Só trazem Fé E de mãos postas. Mais um rosário Feito a feijões… Dorso dobrado. Tem morte e água. Tempo lendário Sem emoções. Londres.Nicarágua Na Nicarágua Corre o rio Coco. Libertadores: Os que ficaram? A Coca.

Como se faz nas ciladas. Mordi silêncio secreto Dentro das bocas fechadas. Em casa sem pavimento Sempre pintada de fresco. Era o Sol meu alimento E a Lua o meu refresco. Praia de São Rafael. Entre sete debandadas.João Sem Terra Se à terra fosse ligado Quatro palmos me chegavam — Sempre fui recém-chegado: Despedidas me negavam… — Eu fiz parte dum rebanho (Homens nómadas são gado) E perdi-me num desenho Que o Tempo tinha rasgado. Que destino tão profético Neste meu movimentar: Ter o Norte Magnético Na luz da Estrela Polar. Não há esp’rança nas partidas Se há frustrações nas chegadas… Lancei a lança. sete vidas. discreto. 22 de Junho de 1984 131 . Queria apenas ter fronteira (Doce protecção dum muro…) Não discutia a bandeira: Sedentário e sem futuro! E no ar que respirava. Eu renegado e converso Filho Pródigo aspirava: Só ter direito ao regresso! Sete foles.

Como seria o ocaso? Algum sol que arrefecesse Como se o mar fosse um vaso… Caso a caso.) Se acaso em tempo me atraso Nada deixa de ocorrer: Cada Homem tem um caso No seu modo de morrer… Branco e negro nunca caso — Seria caso o cinzento — E a cinza tem um prazo. 27 de Junho de 1984 132 . puro acaso — D’algum caso me esquecesse! — Passe a vida em cabo raso Onde o mar nunca se erguesse. Anda ao acaso no vento! Lisboa. O ocaso não é caso Para o dia não voltar (Qualquer noite tem um prazo Que não pode prolongar.Branco e Negro Se acaso o caso ocorresse.

no que penso.Sândalo O teu lenço de bretanha Só lembra espuma do mar. Saem ladrões ao caminho Se te penso num atalho… Se te penso. Nos teus lábios cor de lenha Onde há fogo a crepitar. 22 de Agosto de 1984 133 . que escândalo Pois que temos de acordar! Lisboa. Penso até que sou feliz… Sonho a bainha do lenço Tantas coisas que me diz… Incenso. A tua estola de arminho Lembra Inverno e agasalho. mirra e sândalo (Quem os pudesse inspirar…) Dormir contigo.

8 de Setembro de 1984 134 . Loucos cavalos na estrada Aos quais quebraram as rédeas E que vão à desfilada… Mas a noite é tão fugaz. Uma espécie de cinzeiro. Sempre noite e nevoeiro! Os homens nunca se esqueçam: Não passa dum carcereiro Qualquer deus que vos ofereçam! Londres. transitório. Dentro das Câmaras de Gás Pintou Bosch novo Inferno… Inclemente. Num momento quase terno. Vem depois o esquecimento. Tabaco de Apocalipse… Não há freios nas tragédias. Mas ao céu quem tem direito Não será destas paragens? Cavou o rio o seu leito No aconchego das margens.Noite e Nevoeiro Sempre noite e nevoeiro. Não fosse o espaço uma elipse. Promessas de Purgatório São as celas de cimento… Coração dentro do peito (Como em transparente frasco) Cada qual anda sujeito Aos caprichos dum carrasco.

o que sobrou Do perfume que quiseste derramar? Pilatos. é morto. Marta. quem veio aqui não encontrou O que talvez não fora procurar. É só chorar… Ao de leve na treva suspirou O vento que não pára de passar. não está: ressuscitou! O Morto. 15 de Setembro de 1984 135 .Santo Sepulcro Quem procurais. Marta. Já começa o segredo a transpirar… Piedosa Mulher. inda mal as mãos lavou E a água já se está a evaporar… Como sempre do crime ali ficou A prova que se quisera apagar… O Morto. é morto e nem pensou No corpo que ficava em Seu lugar… Lisboa. Saiu tão confundido como entrou: O Corpo já mudara de lugar. Porém. Que mão imprevidente não pesou O peso dessa pedra tumular? Ainda o selo em lacre não secou.

Tântalo Chegaste como a onda chega à praia Ou como a estrela quando já escurece. Tal fruta que se espera que não caia Quando o vento em redor tudo estremece. Tal fruto que no ramo se contraia Quando o vento de Inverno aparece. Partiste como a onda foge à praia Ou estrela da manhã quando amanhece. Eu peço que tu venhas e tu vais! Ó meu desejo d’ave migratória! Lisboa. 8 de Outubro de 1984 136 . Apenas pontual e nada mais E somente te guardo na memória.

porém. verde pinho. Degelo no algodão… Vinham os Reis a caminho Com camelos pela mão… Judas morria enforcado. O silêncio não cortava…) Toda a conversa abafada Em papel de fantasia. ignorado. Mas a gente não sabia… Herodes. E a Noite era intervalo Entre o Eterno e o Momento… Como canção que se cala Na voz que fica vazia: Era um mundo noutra escala Onde a gente não cabia… Tocava o sino da porta. Como a neve desejada Que afinal não aparecia… O burro do Ritual Junto à vaca dormitava. Um anjo descomunal Uma trombeta empunhava. 17 de Novembro de 1984 137 . E Jesus nunca crescia! Lisboa.Outrora o Natal Purpurina e azevinho Vindos doutra consoada Sobre a toalha de linho O ano inteiro guardada… Antigamente algum galo Cantava todo o relento. Era o vento que passava (Como faca que não corta. cantava E o Sol trazia o dia… Fios de prata. O quente dos cobertores A incomodar a pele… Os olhos viam pastores Com suas taças de mel… Como a manhã demorava A vencer a gelosia! O galo.

1 de Dezembro de 1984 138 . O bago da lua cheia A fermentar no relento… Uva negra em chão de areia De relance dá cinzento. É caroço o sol a pino. A neblina é a luva Que esconde a mão do destino. uva a uva. Como a noite fica minha. Gravada nos meus sentidos: Eu sou o guarda da vinha Quando tiras os vestidos. Logo o medo guarda a vinha Nem a noite se apercebe… Talhada de melancia Ou gomo de tangerina: Sobrava a lua do dia Como fosse lamparina… Bago a bago.Fermentação Mal a noite se adivinha Por detrás daquela sebe. Lisboa.

Nebulosa em Espiral .

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— Caiu a neve do alto. Logo o mar a afogava… Mas aqui. Silêncio feito em rumores — O Mundo tem corredores Que levam rios p’ra o mar. Longe parecem tambores.1 — O Túmulo e a Rosa i A Neve e o Mar Soam passos no asfalto: Serão de quem se esperava? Caiu a neve do alto No chão que tudo aceitava. Mas ao perto é só passar. gelava! 141 . sobre o asfalto. Como tomado de assalto: Gelava tudo.

Faz um Domingo de Ramos Com jumento e malmequeres. Quem degolou inocentes Embalou filhos ao colo! Afagos de glaciares Num mundo recém-chegado. Sete palmos duma cova: Onde cabe a vida inteira… Lua Cheia? Lua Nova? Será como a noite a queira! As estrelas incandescentes Nunca gelam sobre o Pólo. Se há sangue no empedrado? Quem pôs louros da vitória Nas cabeças dos vencidos? Vistos de longe na História Todos somos confundidos… Vem aqui quem não chamamos. Gasta-se o vento nos dias. Entre papoilas e trevo. Abre o peito às flores bravias.ii O Túmulo e a Rosa Quem pôs rosas tumulares Onde se queria o noivado? São aras ou são altares. Nunca vem quem tu quiseres. Crescem dunas no que escrevo. Quem põe rosas tumulares Onde se quer o noivado? 142 .

Puxam o fogo à fornalha… Tudo acaba… O que começa Não será só terminar? Este puzzle. Por ainda não ser sal. Afinal por quase nada Muda a água de sinal. açucarada. O silêncio fecha a boca. O reverso da medalha… Os pulmões. enquanto fole. Logo a sombra lembra o sol. Se a morte é lado de lá Por que havemos de passar? Água doce. O medo mete na toca Qualquer fera em liberdade.iii O Sal e o Açúcar É o sal que lembra a onda. Onde a palavra se esconda É onde a frase se abriu. Nunca se vai completar… A Via Láctea é redonda? Elipse que não se abriu? E se o sal nos lembra a onda O açúcar lembra o rio… Paris. O açúcar lembra o rio. peça a peça. Entre o que está e não está Fica o desejo de estar. 13 de Fevereiro de 1985 143 . O sorriso a entreabre.

Paris. 14 de Fevereiro de 1985 144 . Mesmo depois de acabar… Ai da gémea vencedora Que p’ra nós é tão igual. No seu instinto perverso — Feminino e bem primário — Quer estar só no Universo Com seu vulto incendiário. a outra morta Mas ambas com luz suspensa. Passam anos aos milhões.2 — Os Mundos Exaustos iv As Estrelas Assassinas A juventude de Fausto Na milagrosa proveta E talvez um mundo exausto. Mas continua a brilhar Aos nossos olhos de anões. Com ast’róides no regaço… As estrelas que sejam gémeas Não cabem no mesmo Espaço! Uma delas findará — Qual delas? Tanto nos faz! — E depois se apagará Como algum bico de gás. Pelo tempo que demora Da outra o fim do sinal! A moral que nos importa Diz que o crime não compensa: Uma viva. Devorado num cometa… Por um capricho de fêmeas.

Londres. Boiando nas placentas Dos partos de purpurina! Sejam duplas ou extintas. na estrada. Num Futuro feito logo Tendo o Presente por fala! Constelações tão sardentas Como cara feminina. rios de fogo. 27 de Julho de1988 145 . 13 de Fevereiro de 1985. Que mal o tempo segura. Que me dê palavras certas Como fruta bem madura. No falar da nossa escala. Pois só elas são distintas No Passado que eu prevejo! Paris. Frases grandes ou pequenas De contornos siderais! As estrelas a lembrar pregos. Galáxias e Pontos Negros Nesta aceitação do Nada! Lagos de luz. Imprevidentes. P’ra que me nasçam poemas Concisos e pontuais.v Prece Seja Estrela da Manhã Ou alguma do Carneiro — Seja mesmo estrela-anã P’ra caber no meu tinteiro! — Mas dum deus de mãos abertas. Qualquer delas eu desejo.

Cada homem em si esconde Uma chegada e partida. Entre a luz e escuridão.vi O Pão e a Pedra Como miolo de pão Duma farinha serôdia. Espaço feito de féretros E de berços que embalamos… Entre o dilúvio e a seca. Eis o espaço que ocupamos. 14 de Fevereiro de 1985 146 . Feito de fogo o farelo Coze bem nosso segredo: Deuses feitos a martelo Na pedra do nosso medo! Paris. Vamos a Roma ou a Meca Passear a solidão… Só o silêncio responde A cada prece of’recida. Estrelas são as migalhas Entre dois actos de sexo. Pela franja das toalhas Ficam pedaços sem nexo. Todo o Espaço em explosão Fica bem dentro da côdea… Pão-nosso de cada dia Sempre fresco e bolorento. Que por nossa cobardia Não nos serve de alimento. Da cama à mesa: dois metros.

Cro-Magnon. de Neandertal Ou dos buracos mais vários: Por motivo natural Ninguém ficou nos ossários… Quantos foram enforcados? Quantos morreram de enfarte? — Como reabilitados Nem loucos formam à parte! — Os que morrem à nascença Também têm lugar certo? Foi a Peste uma doença Olhando o homem de perto… Nesse canto mais pequeno. E com risos sibilinos Cortam a língua c’os dentes! A lepra aqui já não conta — Se na vida contaria! — A letra de Deus aponta Mais nomes sem gafaria. pelos dedos. Não verás homens em fúria: Tudo é resignação Num rebanho de penúria Que encontrou a salvação! Nem sequer do Purgatório Se puderam socorrer: Foi somente obrigatório Fechar os olhos… Morrer… 147 . Os que morrem nas jangadas. lanço a lanço. Conta-corrente de preces Em balança decimal… Onde estão os assassinos? Mesmo ao pé dos inocentes.3 — Juízo Final vii Fecha o mundo p’ra balanço. Os homens transfigurados Que por frasco de veneno Se viram alimentados! Caso a caso. Foi o Homem numerado. Neste dia ameaçado: Caso a caso. Faz Deus o Seu inventário: Pensavam que eram rochedos… Nem de barro refractário! Não há perdões nem benesses Neste castigo final. Sem terem a terra à vista… Os das paisagens geladas Também constam desta lista.

15 de Fevereiro de 1985 148 .Poço fundo? Poço amargo? Ai quem pudesse dizer! Todo o Espaço era tão largo E não puderam caber! Mas chegaram aos seus portos Os que já estão no Inferno? Como pode contar mortos Um Deus que se diz eterno! Paris.

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Ver o Sol é já supor A Poesia renovada. 19 de Fevereiro de 1985 151 . Fui plantado Novamente.Fechado para Obras (Poéticas) Renovado. Faço palavras cruzadas De começo de estação… Não saldei a existência Pois faz parte das mobílias (Do tempo da Resistência E de «Debaixo das Tílias»…) Seja lá pelo que for: A loja remodelada. Independente: Estou fechado Actualmente. Para obras demoradas. Estou fechado Na semente… Londres. Não estou atrás do balcão.

Temos fome de distância. Seja um deus ou seja um mago: Quem nos pode olvidar tanto Na Estrada de Santiago? Quem nos grita pr’onde vamos Ou para onde não é de ir? Quem será que nós chamamos E que não nos está a ouvir? Estamos sós? Acompanhados? Se o soubermos. Nosso olhar fica queimado. O céu é feito de lume. Lisboa. Mas quem nos dá de comer? Quem nos dará importância Neste Espaço sempre a arder? Quem decora o nosso nome? Quem nos conhece o sorriso? Quem nos vem matar a fome E as febres de Paraíso? Quem nos põe o mel na sopa E do suor faz orvalho? Quem nos aconchega a roupa Nesta enxerga de enxovalho? Seja diabo ou um santo.A Noite dos Degolados O nosso sonho é o gume Dum punhal embainhado. 24 de Abril de 1985 152 . que sabemos? Somos anjos degolados Nas orações que dizemos.

taco a taco. mas qual delas Detém a sorte do jogo? Como na vida. Até na bola se acerta… São três bolas.Ponto Negro Mundo: bola de bilhar — Cuja cor não vem ao caso —. Pano verde. as tabelas Modificam tudo logo! Cai a luz. Ângulos rectos na fachada Que fixam estátuas jacentes Olhando a bola encarnada. ponteada Por ponto negro visível. Bola branca. Tabelas adjacentes. por engano. Como à cal viva abraçada Uma formiga impassível… Bola a bola. É tudo conta-corrente: Bola negra sai dum saco Que traz a sorte da gente… Rápido Porto-Lisboa. Outras duas a rodar. Como uma campina aberta. Num feixe triangular Que no pano põe sinal Duma nódoa circular. Como luas em céu raso. bem vertical. verde pano. Onde às vezes. 1-2 de Junho de 1985 153 .

O Mundo arrasarei. Mas que serão o sonho da bebida Daqueles que se perdem nas areias. Transbordarei a água gota a gota. Trago estrelas. Se eu trago nebulosas no meu rasto Trago gelos das neves nos sentidos. Não é fácil o que venho aqui propor: A cada qual darei o Paraíso… A ferro e fogo darei o meu amor. ninguém me acusa… A alta-tensão que trago nos meus nervos Não é perigo de morte nem tem p’rigos. se for preciso… Os dilúvios serão minha medida Nas represas que prometo trazer cheias. ninguém me chame. No entanto. Boca a boca — que quero sempre muda — Quando a vela do veleiro estiver rota Mandarei o tufão em sua ajuda… Não é fácil de aceitar o que proponho. Invejo a cada homem sua idade! Praia de São Rafael. de gelo arrefecidas. De tirano. também já ferrugentas. Tão sozinho me quer a majestade! Eterno? Para mim isso é vexame. Exaustas. é-vos vedada uma recusa. Construí o Universo e as ferramentas Só de mim ficaram conhecidas. 11 de Junho de 1985 154 . porém. Se a moeda com que pago for o sonho. afinal.Deus no Confessionário Só eu sei ao que venho e ao que gasto! Da minha corte os reis foram banidos. César será servo dos meus servos E carrascos jamais darão castigos. Poderoso.

Livro das Horas Deixem-me morrer no meio dos livros — Folha amarelecida pelo Tempo — Venha. Batendo nas janelas bem abertas. Sem chegar a saber bem a verdade… Se o Espaço tem medidas bem exactas Porque nos tiram tanto a liberdade? Recordação dum livro duma escola. Sob a sombra de algum cedro tutelar. em sacola abandonada… Só um som de Vivaldi e de viola A escorrer pela tarde demorada. depois. folhas dispersas Nas ramagens que há no pensamento. Como às páginas dum livro interrompido Por sono a meio da tarde. alguém fechar-me os vidros. Abertas pelas mãos e pelo vento. Deixado a meio. Os poemas de amor. razão de ser o fim Da leitura que não vai recomeçar… 155 . Que deixou a leitura sem sentido… Que bom será morrer entre as erratas. Muito atrás. Livro aberto num banco de jardim. Cuidados motivados pelo vento… Venham também depois fechar-me os olhos. inesperado.

30 de Junho de 1985 156 . Vendo melhor: leitura transitória Com palavras a tomarem-me o lugar… Lisboa.Folha a folha. Livro das horas aberto ao luar. dedilhadas na memória.

O sol serve de alimento À planta iluminada: A seiva corre por dentro Da loucura esverdeada… O Eterno e o Momento Não nos dizem quase nada: Um milhão ou três por cento Tanto faz. em conta errada.Conta Errada Eu de noite ouvi no vento O barulho das pedradas. Lisboa. 7 de Julho de 1985 157 . Vinagre mais limonadas. Mas as palavras por dentro Têm gavetas fechadas… Cada nome tem assento De pessoas baptizadas… O Eterno é um momento Como as palavras cruzadas. O Eterno e o Momento Só diferem nas palavras. Por teu corpo sou sedento.

a mergulhar. Véu de noiva no rasto das traineiras Que regressam de manhã ao seu abrigo. Numa asa leva a terra. no entanto. melhor. Atenta à tempestade.Gaivota Onda por acaso onde se enfeixe Não chega. Imagem que se perde mal se vê E se refaz depois correctamente… Seus ovos são os seixos da maré. Costa da Caparica. No seu grito há o som de qualquer doca Que saiba pôr travão a qualquer mar. equilibrado. a planar. Lenço branco. Imagem na retina que desfoca Litoral. Seus ninhos são os limos da corrente. Ave cuja carne sabe a peixe. logo avança À terra que precisa de avisar. na outra o mar. 8 de Setembro de 1985 158 . uma bandeira Num aceno de amizade ao inimigo. Suas asas não passam de balança Onde a praia e a maré se vão pesar.

Pano de ferro aberto no teatro E poemas fechados nas gavetas! Do gesto ao acto é passo de criança. afinal. Que cantos d’aves há nos arvoredos! Que paisagem nos nasce nos sentidos! Raízes? São apenas os teus dedos Quando nós somos anjos perseguidos! Comboio Lisboa-Porto.Colóquio dos Simples Indagar a razão por que se gosta É querer saber que nunca saberá! Vendo bem. Londres. já foi herança Embora no orgasmo ter morrido! Ai. Ter nascido. 9 de Agosto de 1988 159 . Remorso foi prazer já conseguido. 11 de Outubro de 1985. amor quando os dados estão lançados São os cubos a forma do destino. o que interessa uma resposta Ao ouvido que nunca a escutará? Amar é aceitar o ultimato Que não vergue a vontade dos poetas. Teus braços são os ramos desvairados No vento que em mim sopra e não domino.

12 de Novembro de 1985 160 . O essencial é banir Sugestão posta na frente. Qualquer cão será danado Se a multidão ordenar. «Melhor amigo do homem»? A frase morre na boca. As razões que não se tomem São motivo que se evoca… Haja cão. Mesmo sem tê-lo presente. A multidão saciada Só se o cão não ficar vivo. Às vezes pela razão Dos uivos que traz o vento! Hão-de ouvi-lo a ganir.Multidão Mate-se o cão à pancada! Mesmo sem haver motivo. Há convite ao linchamento. Ah! Bicho! Mesmo calado Dirão que estás a ladrar! Nada vale ser medroso E submisso entre as ervas: Se alguém gritar: cão raivoso! Todos lhe atiram as pedras! O açaimo e a corrente Não lhe dão a segurança: Basta haver no meio da gente Qualquer sede de matança! Lisboa. não haja cão.

Cada qual canta a canção Junto à corrente agressiva. Em cascata progressiva. empedernido. Como a peça mais intensa. A vida é feita de actos. Pilatos pede a toalha. Mas as mãos ficam molhadas… Lisboa.Abstenção À sede cedo. Sem ser nada transcendente. Por entre tantas histórias Que decoro sem decoro. A Lua de diamante Rasgou a noite de vidro. Qu’importam mãos de Pilatos Se só adiam sentença? Cada qual é réu ou rio Cada ser será sereno. Transparente. 30 de Dezembro de 1985 161 . Conforme as coisas que viu Dentro do mundo pequeno. O sonho ficou distante. Eu a metro meço o medo Como tecido corrente. acedo. Ouço vozes ilusórias Que me vão cantando em coro. Vão-se as águas em cachão. O nosso sangue coalha Como estrelas nunca olhadas.

Conta-gotas da verdade… É arma da tirania O esquecer em liberdade! Já duas vezes na vida Enfrentei a opressão. 6 de Janeiro de 1986 162 .28 de Maio de 1926 – Verão Quente de 1975 Por vezes na sonolência A noite traz-me ruídos Do tempo de resistência Das paredes com ouvidos… Seja frade inquisidor Ou tirano jacobino. Não passa dum opressor Quem nos comanda o destino! Dizem que o tempo passou E que tudo está esquecido… Se a página já se voltou Para quê o que foi lido?! Se acaso nalgum momento A falar nisso alguém torna: É forçar o esquecimento Como quem malha a bigorna! Cópia exacta. dia a dia. Como uma côdea roída Que não tinha gosto a pão… Das duas vezes. porém. Me segredava essa gente Que era para meu bem Que punham grades na frente! Lisboa.

A Lua é prato com leite… Cada qual é como é. 9 de Janeiro de 1986 163 . Cada qual vê o que vê. Aí está a liberdade.Miradouro O rio é prata? Dourado? Água que passa somente! Quem o quis imaginado Cortou-lhe a força à corrente. Mas julga ver a verdade! Lisboa. A Lua é chuva de prata? Da rainha foi enfeite? A Lua é folha de lata.

Sessões Contínuas Ir ao cinema? Que má ideia! Haja uma cama Que sublime Este desejo De Lua Cheia. Rasgo os bilhetes. Rasga os bilhetes. 21 de Janeiro de 1986 164 . Somos ecrã E plateia. Conto-te o filme! Lisboa. Conto-te o filme! No intervalo De cada entrega Há rebuçados — Subentendidos — É uma guerra Uma refrega: Esta batalha Só de sentidos! Este desejo De Lua Cheia Haja manhã Que o sublime.

Mas ficaram escravizadas Ao renegar a nascente! Acontece. Pedra de cal mal esculpida Onde a morte é um aceno Como só no fim da vida… Ó espelho de águas paradas Que venceram a corrente. 19 de Fevereiro de 1986 165 . Tanta água que apodrece E que devia correr! Paris. estagnadas — Como se fossem verdade! — Em lagoas apertadas Em ancas da puberdade… Talvez um fio qu’escorresse Nestas águas em disfarce Fosse lágrima e descesse Pela cascata da face… Mas é rosto tão sereno. E acontece Somente o que tem de ser.Cal Viva Águas verdes.

Está preso nas malhas De Jerusalém… A voz abafou-a No pó dos caminhos… Já Lhe sonham a coroa Cercada de espinhos. Já nada O detém. Há povo a gritar. Preparam-Lhe a cruz Acabada a ceia. Da palavra ao grito Só vai um instante. Como o Infinito Não fica distante! Nos gritos há fúrias Que não são domadas… Ao longe as Centúrias Aguardam formadas… Entre companheiros Que tremem de medo! Por trinta dinheiros Desfaz-se um segredo… A candeia acesa… Já põem os pratos Por cima da mesa… Mal sonha Pilatos! Nem sequer Caifás Será quem comanda… Virá Barrabás Até à varanda… Depois.«O Tempo Está Próximo» Do monte. Contempla o deserto: «O Tempo está próximo»… Todo o fim está perto! O silêncio invade De vozes o vento. Qualquer multidão É degrau d’ossário Que grita um perdão Depois dum calvário… No entanto. No momento exacto: Num lenço de linho Ficou um retrato. 27 de Março de 1986 166 . diz. Quinta-feira Santa. Entrou na cidade Montando um jumento… Os reis. Não chegou a hora De crucificar… Montava um jumento Com jeito de corça: Moinhos de vento A darem-Lhe força. É como alcatruz Moendo água alheia. no caminho. Morreu um cristão Descobrindo o peito… Reconstituição Dum crime perfeito! Praia de São Rafael. seus amos — Rebeldes vassalos! — Mas ’stendem-Lhe ramos Só resta pisá-los… Forçou as muralhas. no cimo. agora.

Em folha solta. ensanguentadas. voando. Espalhando ouriços de lava Nas vertentes dum vulcão… Se tu viesses no vento.Chegada Se viesses nos medronhos Que queimam na aguardente Talvez o fogo dos sonhos Fosse em nós um caso assente… Se viesses nas maçãs. Outonos dentro de mim… Se viesses nas romãs. As raízes das manhãs Floriam noit’estreladas. Só dirias. Se viesses na voz cava (Murmúrios de cantochão). Ou nas sombras do luar (Quando a Lua num momento Imita o Sol sem queimar…) Se viesses volteando Movimentos dum sem-fim. Levaria o mar nas ondas O Mundo que havia dantes. Talvez as minhas manhãs Dessem noites sossegadas… Se tu viesses nas mondas De crescentes e cortantes. perfumadas. 24 de Abril de 1986 167 . Se tu viesses gritando O direito à dinamite. ao chegando: Só eu sou o teu limite! Se viesses do Futuro Morria em mim como herança Todo esse medo do escuro Que trago desde criança! Lisboa. Rugosas. Ao de leve.

O frio é forro de lã A quem o Destino aparta Tinha a fome como irmã. 27 de Maio de 1986 168 . mas a sorte Deu-me o vento. deu-me o mar E deu-me bobos da corte Que só me fazem chorar. Hoje tenho mesa farta… Já tive reis a meu lado E minha sorte não louvo: O que acontece é meu fado. Sou a folha que se nota Na manhã d’Outono. Sou apenas voz dum Povo. Eu sou a água corrente Sou a gota feita mar. Vejam lá a sina minha — Que gracejos do Eterno — Eu sou sempre a andorinha. aberta. Seja Verão ou Inverno. Eu sou aquela gaivota Prenúncio da descoberta… Sou a ovelha mais amada Do rebanho do pastor. até o vento Fica calado a escutar… Não tinha anéis.Fado Amália Ao nascer não tive assento: Era gente a não notar… Mas se canto. Toda de lua banhada Quando é noite em meu redor. Mas só dois palmos de gente S’ao espelho me vou olhar! Chaves.

Dia de São Camilo Só perguntavam: «Quem vive?»… Havia gente a matar! Trazia a voz o calibre De quem ia disparar! Vinha do fundo do Tempo Uma voz que se engatilha: Fazendo fuzil do vento Em balas de manzanilha.18 de Julho de 1936. Mais um jarro de sangria… E a morte pela frente Todos tinham nesse dia! Ibiza. Eram chapéus de três bicos Dos pesadelos de Falla! Cinto voltando a fivela Sobre uma cara indefesa… Pobre terra de Castela Que tens cor de lenha acesa! Manzanilha e aguardente. 15 de Julho de 1986 169 . Não rufavam os tambores Era tudo p’la calada! Sob as patas dos garranos Indefesos e quietos: Pólvora na cor dos ciganos Morrendo d’olhos abertos! Como se um recém-chegado Trouxesse a morte pela mão: Era um ódio adiado Do tempo da Inquisição. Bigornas que a morte malha. Vinha a vingança dos touros Que nascem p’ra se matar! Navalha de ponta em mola Chicote de sete pontas: Santo Inácio de Loyola Mandava ajustar as contas! Era um novo Torquemada Que andasse na rua à solta E que por tudo e por nada Que matasse tudo em volta! Coroa d’espinhos e picos. Era anis em taças frescas Nesse dia feito lança. Afinal o que era aquilo: Cada qual adversário? Que dia de São Camilo Que trazia o calendário! Nesse regresso dos Mouros Do outro lado do mar. Eram as novas Goyescas Seguidilhas de matança! Não falavam os actores Desta peça ensanguentada.

3 de Agosto de 1986 170 . Linha fugindo em retrós Com que ninguém vai coser. Às vezes quase sem querer… Mas que fale alguém por nós Depois de a gente morrer! Lisboa. Range o moinho nas mós Cantigas de Maldizer. Vai falando assim por nós Quem nos dará de comer… Trazemos rios junto à foz Nesta pele a embranquecer. É fio de sangue a correr. A vida é casca de noz.Passe a Palavra Se alguém fala aqui por nós Fica tanto por dizer. Salga o mar a nossa voz D’água doce por beber… Sempre alguém paga ao algoz. Sempre alguém paga ao algoz Que nos irá abater.

Eu sinto o tacto Das flores que pinto. Folha d’acanto. Nas avenidas Ramas despidas Sonham bordéis Gaiolas d’ouro E pedras caras. Sonhos cumpridos Mas resumidos Nos pensamentos. Executado Por privilégio… As folhas secas. Vejo o que vejo E vejo mais: Pois no solfejo Já antevejo Cordas vocais. Tão mal ’scutado. Nas flores. Mais o cordão. Caem discretas. Folhas ’sculpidas Nos capitéis. Tão outonais. Colos ’sculpidos. Erro de olfacto Sempre que minto. Mal cai o pano Muda a estação. Leite materno. Ou são histriões? Lua sem fases — Como era dantes — E nos lilases 171 . Pressentimentos. Eu já falei. Zumbe um besouro? Ou será choro Das aves raras? Com seus turbantes Passam moleques. de facto. Aluviões… E nas colmeias Cantam sereias. Se fico mudo. Braços marmóreos. Deu o que tinha? Folhas d’acanto. Como o ditado Do meu colégio. Passos no pátio Há flores no átrio — A cada canto… «Filhos do Solo». Binário eterno Fogo d’inferno Na transmissão. Eu não me iludo Pois ’stou em tudo Com que sonhei… Cinco sentidos. (Escada de corda A dar saída A quem acorda No ventre e morda O pó da vida!) Salve Mãe-Pátria! Salve Rainha! A Via-Láctea. Durante o ano Toca o piano Do coração… Vão-se as areias.Os Robinsons do Espaço O solo pátrio. Contas secretas Dos digitais. Há purgatórios Sobre os zimbórios Dos meus sentidos. Colunas dóricas. Tão acrobática. «Filhos do Reino» O desconsolo Vem desde o colo Vem desde o seio. Por uns instantes Bóiam nos tanques Sombras de leques. Mármore branco ’stridente canto D’aves eufóricas.

Tão segregados Os degredados Filhos de Eva! Lisboa. Alguém queimou-se Na água doce Vinda do Céu! Assim queimados. Vamos na leva. Da nuvem oca Nasce um Danúbio E. Diz a Ciência! Fosse o que fosse Que aconteceu.Fuga de gases Asfixiantes. 8 de Setembro de 1986 172 . Grandezas parcas. Moleculares… As novas Arcas Não deixam marcas: Vão pelos ares… A descendência Assegurada Sem penitência Só transparência Toda estrelada! Razão de fé? Sobrevivência? Quem foi Noé Hoje não é. gota a gota. É bancarrota Qualquer dilúvio.

Véspera Veneziana .

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Ficou o perfume Da tua presença. Tolda-se o anis. Tolda-se o olhar. Adaga sem gume Desta noite imensa. As estrelas no ar São pontos de giz… Muda de lugar Tudo o que convém. Flores não removem O que já passou… A Lua é o pólen Que o vento levou. O pó do veneno Já não custa nada.1 Constante O campo de feno. Uva prateada. 21 de Setembro de 1986 175 . No fundo do mar Há terra também… Estrada Bergamo-Brescia.

quem nos segura Também largará… Tão imaginário O Mundo suspenso: Tão grande aquário Tem o mar imenso… Violino a solo O som que desaba.2 Aquário Há sempre sinal De quem dá um passo. Quem foi que pudera Dizer. Bola de cristal: O Mundo no Espaço… Quem faz a leitura Do que nos virá? Ai. Tudo em cada Pólo Começa e acaba. se é mentira: Esta atmosfera Que a gente respira! Pádua. 22 de Setembro de 1986 176 .

são actos. A Última Ceia Já é testamento. Vinagre no gosto… São choros e risos. Também Paraísos Para os Bons Ladrões… Vai caindo areia No vidro do Tempo. o mosto. Pádua. É o vinho. Tudo condensado Na vida dum Homem! A História Sagrada (Caminho ignoto): Banda desenhada Por mãos de Giotto.3 Fresco A Pomba anuncia A Nova Verdade À pobre Maria Tão na puberdade! São dramas. Transfigurações. 22 de Setembro de 1986 177 . É o sal dos factos. Os Trinta Dinheiros Já estão bem contados E os companheiros Estão apavorados… Há pão amassado Para os que não comem.

Em tudo o que quis Aqui encontrar Eu fiz e refiz O que hei-de sonhar! A água te veste. Só pense em voltar… Se aqui permaneço É em pesadelo. em frente! Só sei de concreto: Não quero ficar! Embora. Porém tão ausente… Eis-me regressado A Veneza. Mas me reconheço Nos sonhos de gelo. 23 de Setembro de 1986 178 . decerto. Não te lava os ossos… O medo da peste Pôs a cal nos poços. Tão seca e molhada É morte na vida! Tempo embalsamado Por que rituais? Sangue coalhado Correndo em canais! Sangue liquefeito De São Januário? Sonho tão perfeito Mas tão sanguinário… Como que lançado Em conta-corrente.4 Lucros e Perdas Como que esmagado. Vejo o saldo errado Mas fico contente! Veneza. Tão enegrecida. A pedra lavada.

Da Lua fica a pegada. Agora tudo é Passado E lê-se a História num crânio Dum homem desenterrado.5 Homo Faber Ponta do fio da meada… A gota que faz o mar… Tudo começa por nada Numa lente de aumentar. dente a dente. 29 de Setembro de 1986 179 . Desembarca em foguetões O qu’utrora foi ossada! Osso a osso. Também a areia que cai Marca o tempo lentamente E a vida assim se esvai Em duna feita repente. O fio da baba da seda Fez o ovo do casulo (Ter asas na alameda Foi afinal esforço nulo!) Tudo já foi momentâneo. A vida passa tão rente A tudo aquilo que fomos… Quando a nossa pele é estrume. No meio das escoriações. A quem damos alimento? Nem sempre o fogo foi lume Na longa noite do Tempo! Paris. Eis o puzzle que nós somos.

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És a escultura? Pedra talhada Nessa cintura Por mim esmagada! Ondas nas ancas. Que noites brancas. Estilhaçada. Que manhãs roxas! Lisboa. 12 de Outubro de 1986 181 . Mas eu na treva Não dou por nada… A noite mura Nosso abandono Enquanto dura O nosso sono.Insónia Afago a fogo Teu corpo inerte E penso logo Que vou perder-te… A pedra quebra. O cais nas coxas.

Que levam curas d’aldeia. E conversas abafadas De visitante escondido. A cidade em teu redor Era uma quinta fechada. Feitas senhoras na sala. Só no espaço dum tapume O musgo dum edital… Se murchava algum lilás Tomava a rosa o lugar Ou não fosse a luz do gás Um farrapo de luar… Se te faltavam papoulas Havia sangue espalhado. Tudo tão subentendido. E as gaivotas eram rolas Que tinham bico salgado. Até há medas de trigo.Cesário a Corpo Inteiro Tiveste nome de cor. Nestas paisagens humanas Tão feitas à nossa escala! Passam trens. De César um quase nada. são os muares. A populaça um rebanho Que já não quer ser guardado. 182 . E nas montras dos ourives Vais pesando a injustiça Desses bandos de petizes Carregados d’hortaliça! A rua tinha o tamanho Dum poema desdobrado. Na insónia dessas ruas Do sonho que vai contigo. Muda tudo de tamanho A teus olhos desmedidos. Receitas alimentares Entre uma missa e a ceia… Passam dandies e janotas Que a teu riso só dão azo E nos frascos de compotas Vai ficando fruta a prazo. Há arados e charruas. Sob um céu de cor de estanho Que te pesa nos sentidos. Faltava-te o cheiro a estrume No vento tão natural. Assim vivem as mundanas. Há sorrisos nas sacadas.

frente a frente. o gradeamento Logo te quer acordado! É a sina dum poeta Que não renega ao que nasce: Com os nervos na paleta. 6 de Outubro de 1986 183 .As igrejas. Lisboa. Faz do seu sangue guache. Num jardim inesperado. É paraíso alcançado… Porém. São peças do mesmo quadro Que te lembra de repente A falta que faz um adro. Posto a meio do caminho. Pensas tu já ter entrado Na herdade dum vizinho… Tudo muda num momento.

Como os fios do luar precisam prata. 2 Preciso de ti: Como a treva precisa da escuridão. Como da veia cava o coração. acendido em terra estranha. Como do equilíbrio o acrobata. os movimentos. 184 . Como o barco precisa do sinal Do farol.Os Ralos do Relento 1 Preciso de ti: Como o segredo precisa do ouvido E a sede precisa da garganta. 3 Preciso de ti: Como dos pratos a balança Que equilibra a verdade por momentos. só por si. Como a altura precisa da montanha. Parando. Quando o fiel é a voz da confiança. uma voz canta… Preciso de ti: Como a onda precisa do sal. sem se ver. Como a frase precisa dum sentido Se à noite.

Avesso desta vida! 7 Preciso de ti: Como o galope precisa dos cavalos Quando tudo em frente é Dimensão. 5 Preciso de ti: Ao sol estendido Ou fazendo frente à multidão — Segredo que transborda do ouvido Sempre que se abre a porta ao coração! — 6 Preciso de ti: Como o peixe que na rede Não queira encontrar uma saída… De ti preciso a água. 28 de Novembro de 1986 185 . a páginas tantas. Como o silêncio Que responde à voz dos ralos Que deixam sem resposta uma questão! Lisboa. Preciso a sede E mais a morte.4 Preciso de ti: Como o verde precisa das plantas E o vento da folhagem que estremece… Se acaso a morte vem. Serás apenas tu quem não me esquece.

Passagem do Ano
Que movimento, Brusco por vezes, No cata vento Que roda os meses… Ângulo escaleno De vão d’escada (Onde em pequeno Não dei por nada…) Venha o que venha, Baste o que baste, Mas que sustenha A flor na haste. Musgos ou fetos Ou trepadeiras, Mas fiquem certos Nas sementeiras… Que cantochão, Gregoriano: Ter coração Por mais um ano! Mede-se aos palmos O corpo inteiro. Não ouves salmos, São os pinheiros! Cubos de sal São poliedros Mas que coral A voz dos cedros! Mas que solfejos Nas oliveiras… (Mede-me aos beijos Noites inteiras!) Vai-se a folhagem Ficam os ramos — Que vassalagem Se paga aos anos! — Ramos e folhas (Outros assuntos) Não têm escolhas, Não morrem juntos! Estala o verniz, Vai-se a resina, Não tem raiz A nossa sina! Subjugados Passam os dias, Troncos vergados Nas ventanias… Mas que canções Doces escutamos, Quando os limões Caem dos ramos… Adrenalina E mais não somos Que tangerina Aberta aos gomos!
Lisboa, 16 de Janeiro de 1987

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Profanação
Deixas a porta aberta. Basta isso! A noite é escura e boa companheira… Desejar, já por si, é compromisso E tudo aqui me quer à tua beira. Também o sonho vem, inesperado, A leito nem sempre conhecido. Teu quarto fique aberto e não fechado Por destino há muito definido. Bate a chuva nos vidros, surdamente, Pedindo-te que lhe abras as janelas, Como vindos do céu, secretamente, Recados que lhe mandam as estrelas… É a Lua recorte em parafina. Que tesouras a deixam recortada? Se o vento quer as ondas na cortina Toda a noite é maré imaginada… A noite é ritual tão repetido A que o dia s’imola por feitiço. Não falemos num deus desconhecido Deixa-me a porta aberta, basta isso…
Lisboa, 19 de Janeiro de 1987

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Quarta-Feira de Cinzas
Porque será que as uvas não dão sumo Agora nestas vides d’enforcado? Mas vendo bem, porém, até o fumo Tinha com o fogo encontro combinado! Segredos bem contidos, coriáceos, Nos regressos do mundo migratório… Cemitérios d’elefantes e cetáceos Num enredo de desfecho obrigatório… Os gatos dilaceraram Janeiro No cio das crateras do luar, Se acordo, também estás no travesseiro, Afinal nada muda de lugar! Das cinzas que o Inverno aqui deixou Desenhos faz o vento pelo chão; Auto-de-fé que o Tempo levantou Que rebelde solstício de Verão! Tudo assim aconteceu em sua altura, Em peça de comédia ensaiada, A morte é uma espada na cintura, Uma vez só se vê desembainhada! São os dias um barco no seu rumo Com diário de bordo desbotado. É por isso que as uvas não dão sumo Agora nestas vides d’enforcado.
Lisboa, 4-5 de Março de 1987

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Fechadura Yale
1 Havia a sombra que havia no chão — Tão rastejante como óleo entornado — Havia a certeza de haver corrimão Em perfil de cobra em tronco enroscado. Havia náufragos sobre um colchão À deriva no mar encapelado, E do tecto a luz dava a direcção À sombra do óleo já tão ensombrado. Batia o relógio contra o coração, Ruídos da noite rangendo o sobrado… Havia a sombra que havia no chão Recordando o óleo ali derramado. O mar temia outra serração, Tapete? Ou foi ilha? Ou tudo inventado? Havia a certeza de haver dimensão, Coutada de amor: um quarto alugado!

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2 Dois corpos na cama: brutal confusão! O orgasmo tem mar nunca revelado. Quem sonhar areia, vai vê-la no chão, Quem sonhar o céu tem tecto negado. A praia tem dunas, mas não tem limites, Tem poças abertas na maré vazia; O sonho põe ferros e põe os rebites À ponte do sonho que atravessa a ria… Cheira a erva fresca e neste perfume, Corpo de mulher vem tão envolvido. Cheira a terra em sangue o cheiro do estrume Cheira à minha pele o que tens vestido. Ai, como a vida está do outro lado, No fundo da noite, semi-ocultada. O frio da manhã… Eu mal acordado… Cheira a pão no forno toda a madrugada!

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3 Serás a escavação e o aterro, O dilúvio e a seca misturados, Como Adão e Eva no desterro Ainda sem os corpos bem moldados… Serás a tua queda e o zénite A linha de chegada e de partida; Serás a pedra aberta a dinamite Ou estátua que ficou desconhecida. Serás o segredo e a inconfidência, Serás tu a loucura e a razão, Serás tu motivo e consequência Do vazio encoberto em tua mão… Serás tudo o que seja e que não seja, Equilíbrio e queda de acrobatas: Na bola do Destino que graceja, Enquanto um gato brinca com as patas!
Lisboa, 9 de Abril de 1987

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Lisboa. Se a força da gravidade Foi a maçã que deu Eva… Venha lá o que vier. Milhões de sóis em redor E qualquer raiz quadrada Na haste duma flor… Fica nas cordas vocais A chave da solução: Bastaram cinco vogais Para a nossa solidão. tão breve.Incógnita Qual será a solução Dos segredos que me pedes? Qual será a equação Quando em abraços me medes? Qual será o carácter Que nos deixa revelado O triângulo da mulher Bem no ventre desenhado? Face de prédio em gaveto Visto da rua em viés: O gosto do cianeto Que nos põe o mundo aos pés. Dão-nos nomes das mulheres E baptizaram os mares… O que se escondia em Beta Vem em Alfa revelado. Alinhou em estilo gótico Aquilo que a morte escreve. Gravar um nome e amor Nalgum tronco vale a pena: Nunca algum computador Há-de escrever um poema! O meu nome predilecto Como vem adulterado: Cada qual tem dialecto Para o nome desejado! Eu quero a noite estrelada. Vejo tudo resolvido. Os latinos caracteres Como são familiares. 20 de Maio de 1987 192 . Ó Newton: bem na verdade Ninguém a sério te leva. Quanta vez chegar à meta Não é bem já ter chegado! Não compreendo o que quero. Só o silêncio responde! Cada qual é carácter Do enigma qu’em si esconde. Pois até o próprio zero Tem valor estabelecido… Não chegou a ser exótico O edital que.

Água barrenta e castanha. A revolta. Canção que morre na boca De ciganos e jograis. És o Norte e és o Sul. És o mel e o vinagre. És a estátua colossal Dos tempos do paganismo. És o pedaço de azul Que a noite apaga com custo. És a lágrima teimosa Que vence qualquer pudor. sendo a lenha Da minha árvore d’abate. Tu és o santo e a senha Dos meus dias de combate. Tu és o gosto do sal Que se guarda do baptismo. o amargo. És a vela do milagre Que deixa o Mundo mais largo. O sopé e a vertente. És o vale e a montanha. És a areia feita mica Onde a imagem estalava. A teimosia da rosa Que discute a sua cor. Tu és o ouro que fica Duma pedra feita lava. O açúcar. És a folha. a vassalagem. A palavra que sufoca Por ter ternura de mais! Lisboa.Cofre de Segredo Tu és a palavra-chave Que abre o cofre de segredo E também o voo da ave Que se inveja no degredo. 20 de Maio de 1987 193 . És o vento na folhagem Onde nos sonhos estremeço. o arbusto. És a pedra da infância Com que enfrentamos o mundo. És o perto e a distância Que tantas vezes confundo. A floresta. O direito e o avesso. A pureza da nascente.

para ti eu valho um cruzado. Moeda poupada em vida tão gasta! Lisboa. Pataca batida e já muito gasta… Imagens de reis passam nas moedas. Inflação p’ra nós: só se forem ondas Que salgam poemas salvos por poetas… Cotação do dia não é amargura. 28 de Junho de 1987 194 . Em troco de pobre meio-tostão basta.Cotação do Dia Tenho o valor de um tostão trocado. de cunhos ascetas. cabeças redondas. seja dura ou mole… — A carne do Rei também ficou dura Em Alcácer-Quibir. Amor: p’ra ti eu valho um cruzado. A côdea de pão. três dias ao sol. Pardaus de Miranda. — Centavo perdido e logo trocado. Efígie discreta — que o tempo arrasta — Porém. Como água corrente a limpar o ouro… Em todos os dias só tu me segredas O valor do riso e o preço do choro… Ceitis vicentinos.

O Beijo de Judas Estende a face da noite àquele beijo. os teus pecados Farão uma cidade destruída. Veneno da serpente mais temida. Tal fonte natural. O ósculo traz vinagre na saliva. O sangue escorrerá dos teus telhados. Jerusalém. Sem teu beijo. Nada disto teria acontecido! Praia da Marinha. meu pobre Judas. guarda o ferro A morte não precisa duma espada… O Cordeiro Pascal aonde pasta? Entre o Céu e a Terra? Noutro lado? Também Herodes tem a adaga gasta De ter tanto inocente degolado. 14 de Julho de 1987 195 . o que depois virá no bronze Dos sinos por que tem de responder… Foi Páscoa? Foi Cruz? Foi o Enterro? A Pedra Tumular foi violada? E tu. depois. O medo serve apenas de evasiva Quando a pena maior se chama vida. As estrelas são as minhas sementeiras. cheia de vida. A treva será tudo quanto vejo Bem no fundo da noite aconchegada? A cama: terra dura. meu filho Pedro. leito imundo. É chuva da manhã ou é perfume Vertido por Mulheres Piedosas? Que fogo a crepitar! Mas não é lume… Os cardos no deserto lembram rosas… As bocas dos romanos ficam mudas… Constantino. foi convertido. Como a noite é diferente aos outros Onze… Só Pedro terá hoje algo a dizer: Negar. Excremento de gado e oliveiras… Mas «não é meu Reino deste Mundo». Pois que a traição virá da madrugada. De ti. afinal.

Feitos irmãos de momento… As tempestades solares — Ó império sem altura! — Nós temos glaciares Quando desce a temperatura. 24 de Setembro de 1987 196 . Faz uma cruz dum madeiro P’ra depois te suspenderes.Ofícios Esquecidos Fenícios desapar’cidos. Sabe-se lá a razão!… Chegam ao porto das barcas Que trazem o salvamento Os plebeus e monarcas. Guimarães. As nervosas mãos helénicas. O Sol que funde o Eterno Deixa até o frio queimado. Quando tua língua lacra Meu sorriso angustiado. Deste ofício de viver Qual será a obra-prima? Mas na Árvore de Jessé — Que campo de expiação — Não figura São José. santos de caliça… Esvair-se em sangue. Sê tu próprio o engenheiro Do Calvário que escolheres. Soldar palavras em rima. A Terra por dentro é oca Ou de rocha mais maciça? Que catedral: uma boca. Nem sequer a lei do Pólo Para seus filhos sem lei! Vão-se as crianças de colo Só porque Herodes foi rei… Se estrelas fossem pegadas Quem seria o Povo Eleito? Crianças mal vigiadas Por um deus num parapeito. O grito é música sacra Em coro silenciado. morrer. Nos ofícios esquecidos Que já foram novas técnicas. Dentes. O que ontem foi moderno É hoje só do Passado.

Papel-Moeda
O que diria Álvaro de Campos: Fernando Pessoa impresso em nota de banco! Pessoa a ser hoje disputado, Mais num minuto Do que nos milhões de livros Que nunca viu impressos, Embora as lombadas Lhe exibam o nome (Como lápides de cemitério Sempre de leitura rápida…) Que diria Álvaro de Campos? O próprio Pessoa, Por seu lado, talvez confessasse Que por vezes ainda receia Que seja isto tudo mais uma trama do Alves Reis, O tal que já se serviu um dia do Vasco da Gama Para trocar as voltas ao Banco Emissor E ao fleumático Sir William Alfred Waterlow Da firma impressora Waterlow and Sons E que hoje dele se sirva — Pois que já é figura nacional — Para uma moscambilha qualquer… Sim… Talvez confessasse… Ricardo Reis O do «Ouvi contar outrora quando a Pérsia»,

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Com a sua indiferença de xadrezista Reproduzirá mentalmente O acontecimento Como a multiplicação dos grãos de trigo Pelas casas do tabuleiro E acabará por achar também habitual O constante desdobramento da tua universalidade Tão natural Que nem Lídia Lhe notará nada no rosto… Já Caeiro, Por seu lado, Dirá apenas, sem sentenciar seja o que for, Que o Fernando, Tornado outra vez gente, Voltou à Terra Não «rebolando Pelas encostas do monte», Mas rolando, sim, Pelos movimentos circulares duma rotativa Que o reproduziu aos milhares Em notas do Banco de Portugal, Como por artes de caleidoscópio Ou por jogo de espelhos paralelos, Como se o Fernando — Tão imprevisível que era — Tivesse assumido num repente Uma espécie de Milagre da Multiplicação dos pães (Vá-se lá saber se até por artes ocultistas Da Tia Anica…) Mas seja como for, o que diria Álvaro de Campos De mais este inédito

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Tão originalmente tornado público? Ou não será, porém, tudo isto Simplesmente, na realidade, Mais um passo de práticas ocultistas Donde resultarão Outros milhares de páginas — Desta vez, porém, de livros de cheques — ? E mais: não era apenas isto Que Aleister Crowley («A Besta 666») Antevia já na linha de água Que o papel-moeda exibia Quando olhado a contraluz? Será só mais um degrau Da escadaria do inexplicável? Mas sendo exactamente apenas isto, O que diria Álvaro de Campos? Já que Bernardo Soares, Aproveitando-se da figura de Vicente Guedes, Se limitará a fazer o lançamento do sucedido Em conta-corrente, para depois, Com a consciência dum dever cumprido, Ir à Rua dos Douradores Para o almoço diário Nalgum restaurante Desses que tenham o ar de «casa de pasto de vila sem comboios», Aceitando assim como natural Que o seu meio-irmão ande agora Nos guichés dos bancos Entregue a essa espécie de jogo de cartas, Que há no dar, no receber, no baralhar E no partir Desse baralho infernal

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Que são os maços simétricos e cintados Das notas de banco Quando ainda cheiram a tinta E não foram gastas por ninguém — Como naipes virgens que o croupier desembrulha Publicamente Em reforço da credibilidade Que os casinos têm sempre de exibir… — Todavia, o que diria Álvaro de Campos? Mas os criados do Martinho da Arcada Ou da Brasileira do Chiado, Esses, ao entregarem moedas em troco do novo papel, Só pensarão que a certos fregueses Se lhes deparam situações estranhas: Que venha uma pessoa no jornal, ainda que vá… Agora numa nota de cem escudos!… Isso é só para santos e para os reis, A esses nunca ninguém os viu vivos… Mas, de mãos ligeiras, Remexendo no saco à cintura — Como bolsa marsupial — Nos seus aventais Prepararão já outros trocos Com mais um sorriso de boas-vindas Para um freguês de todos os dias, já quase família… Talvez seja até com esta simplicidade Que a coisa tenha de ser olhada. Mas realmente como continua ainda o desdobramento da tua personalidade, Agora nos trocos das notas de cem escudos A que tu serves de caução!

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Tua Mãe, por seu lado, pensará apenas Que foste longe E que aquilo do prémio da Rainha Vitória Ganho no Cabo da Boa Esperança Era já um aviso do Eterno, Edital, meio solto, ao vento No muro do Destino… Para a Tia Anica Será isto tudo vulgar, Rotina das mesas de pé-de-galo, Diálogos de Deus e do Diabo Por interpostas pessoas, Com pancadas de nós de dedos invisíveis Vibrando na madeira familiar, tornada Desconhecido. Sinais de Morse Que no caso do sobrinho, São pancadas de Molière Anunciadoras do sucesso que tinha em frente, Nessa apresentação do «Drama em Gente» Que iria ser a tua vida… (Já nos tempos de Cape-Town, para ela, Não passava a Montanha da Mesa Duma simples pé-de-galo, Peça íntima do mobiliário Na antecâmara do Eterno Onde tu ias entrando Com enorme à-vontade!) No entanto, já o Alves da tabacaria, Ao dar o troco Junto à onça de Tabaco Francês

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E ao livro de mortalhas Zig-Zag (Sempre de venda simultânea) Verá num relance A cara conhecida no desenho da nota recente, Mas nunca lhe passará pela cabeça Seres tu, o poeta da janela ali a dois passos Que estejas nela impresso, De chapéu e óculos de aros finos Com que «andas sempre ao sol e à chuva»… Tudo isto estará muito certo, Mas Álvaro de Campos o que diria? Ao menos o Almada Desenhou-te à mesa do café, Como esperando que a Eternidade Entrasse em qualquer momento Nos Irmãos Unidos E te levasse a passear Pelas distâncias consteladas, Que hoje são o teu Jardim da Estrela (Aquele gradeamento, Ali a dois passos da rua Coelho da Rocha, Onde milagrosamente ainda se mantém de pé Uma das casas que viveste por dentro…) Pintou-te à mesa dum café E não no Banco de Portugal, Pois, conhecendo-te os fracos como poucos, Sabia que tu não trocarias Por uma barra de ouro-lei Um poema que pudesses fazer Sentado no Martinho Ou no Café Montanha

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Como elemento dum coral Que cante só de vez em quando E sempre juntando a sua voz à do grupo. Tu Que afinal estás apenas simbolizando Conceder um aval a mais um teu poema inédito Agora descoberto… 203 . frente à cómoda alta Como aquela que havia em tua casa E onde um dia Num galope do teu pensamento Te surgiu o Mestre Caeiro Inesperadamente mas com tanta naturalidade. Vingou-se agora bem de ti: No seu juízo. Como endossando um cheque. de pé. Consciente da pouca dimensão da sua obra. Imprimiram-te de caneta em riste. Marinetti Que acabou mesmo por morrer académico. esta nota bancária É o aviso-recompensa da tua cabeça a prémio Que só vale cem escudos Que tal como a lira italiana.Ou até. Deve quedar-se silencioso. Contra a tua opinião (via Campos). Esperando que outros Falem por si. São uma insignificância… O Barão de Teive.

Como se em vez de te barbeares Em frente do pedaço de espelho. Do esterlino ou do rand (como te deve Dizer alguma coisa. Te escanhoasses impudicamente Em plena Rua do Arsenal. À hora de maior movimento.Ah! «Se te querias matar» Devias saber que estavas destinado Ao risco de criares sem querer Outro heterónimo Sujeito a correcções do dia E aos caprichos do dólar. Hoje com o equivalente em ouro Cada vez que reproduzem a tua imagem Num pedaço de papel! Tu: O tímido que te confundias na multidão. Servindo-te da vidraça duma montra Para reflectir a tua imagem! Como te obrigam a colaborar com os donos do Mundo Que querem à viva força Tornar familiares ao grande público 204 . esta moeda!) Que cotação terás neste momento Na Bolsa de Tóquio? Tu: Simples correspondente comercial. Exibes agora o teu rosto indiscretamente. então. Pendurado na velha portada de madeira Da janela ainda mais velha.

no domínio público… Tu que eras do tempo dos tostões. Pagas hoje na Bolsa Os títulos e obrigações Dos que nunca te lerão Mas que te disputam o retrato Por razões tão evidentes! Ah! «O lar que nunca terias» É hoje momentaneamente A Casa da Moeda Com teu retrato suspenso Em parede anónima Sem manchas de humidade 205 . Dos reis e dos cruzados. afinal. de quando em vez. Como um poema mais Atirado à Eternidade. Que ao sobrar do Verão Faltará no Inverno Para justificar a Primavera! Também tu caíste bem. Ter feito de suas algibeiras um ninho de ouro Donde.Os tímidos depois da morte. Ao reproduzi-los — Como cogumelos venenosos — Em cédulas bancárias! Que investimento diabólico Faz o Capital dos vivos de ontem! Seria antes tão simples. Em lugar do lenço caído Saltassem também moedas. Como folha de Outono De cair tão natural. em suas vidas.

a bola e a batuta do maestro» Se misturam na memória da tua infância Esse cofre cujo segredo Só o Destino conhecia! Só na Alta Finança Serás familiar Mas nunca ao «Banqueiro Anarquista» Pois que a qualquer «Esteves sem metafísica» Nada dirás. por capricho do acaso. Das prostitutas. 206 . O prémio do aluno aplicado Que durante o ano escolar Tenha sabido de cor Os teus poemas nos dias de aula… Nos enfadonhos dias de aula! Que capricho há na morte das pessoas! Com a tua figura Será paga a Sorte Grande E serão remunerados os tenores No teatro em frente Da casa onde nasceste E onde «o cão.Mas tão desconfortável por dentro Por pouco familiar que deve ser. Editaram-te agora finalmente Mas em dinheiro!… Assim. Dos viciados de jogo E serás. Dos ladrões. Andarás nas mãos dos justos. queiras ou não.

E com a sua rebeldia De não aceitar o estabelecido Que. Sem fazer de ti. Tu o despojo valioso da batalha. Que nele funciona como um íman. na atracção do proibido. Tu o produto do saque repartido Tu a hóstia fragmentada Em Comunhão Campal em dia de Páscoa. quando já ninguém esperar ouvi-lo. Dirá Talvez 207 . Sim! Mas será precisamente por isso Que Álvaro de Campos Não poderá ficar calado por muito mais tempo… Será assim que.Uma vez que te meterá na carteira Para logo te tirar de seguida. Mas para que tudo isto tenha um sentido Deve haver uma razão oculta Que não devemos procurar Como se tenha de respeitar Um segredo inviolável Ou aceitar um dogma. Um retrato familiar Que deva andar aconchegado ao nosso peito… Que homem dividido que continuas a ser! É como se cada um de nós tivesse o direito A uma parte de ti. ao menos por momentos.

Cujas palavras trazem assim o peso do Intemporal — Eu Que tenho como sexo o dia e a noite. Com os seus amores incestuosos Nas suas entregas Do fim da tarde e da madrugada… — Eu Que tão britanicamente me assumo Tanto na Rua dos Bacalhoeiros Como à entrada do Canal do Suez. Que rebentou a bolsa de águas das Ideias… — Eu Que tenho como cédula pessoal O primeiro poema feito em meu nome E como certidão de óbito o fim Do último verso que escreveram por mim… 208 . Sempre com o meu vestuário talhado pelo Irreal… — Eu Que tenho como idade o zero absoluto.Na sua voz sem timbre. Sempre tão fora do Tempo: « — Eu O homem que nunca existiu. Que fui parido por um pensamento.

Mas que tenho ideias próprias E sobretudo um acentuado Sentido de amor-próprio… — Eu Que sou o Nada e o Absoluto simultaneamente Não posso calar nem sequer por mais um minuto O que penso disto tudo! E Assim Direi Mas tão-somente 209 .— Eu Que não hesitei em passar procuração Para isto tudo! — Eu O abstracto O invisível O sobrenatural… — Eu Que tenho deixado que outro Fale por mim E me tenha abrigado Nalgum desvão da sua personalidade. Já de si tão partilhada por mais outros (Como fatia de bolo-rei Em noite de Natal!).

Norte de Portugal e Lisboa. Direi a Daisy Que quando eu morrer Não me enxugue o rosto Pois que por vezes A face dos grandes homens Fica estampada no linho Ou gravada em papel-moeda E Daisy sabe Que quando eu morrer Quero ficar sozinho Para sempre… De mais a mais Porque quando o carrasco fala a nossa língua Pode a morte ser intimidade E é isso apenas o que mais Desejo neste momento!» Londres. Setembro-Outubro de 1987 210 .— Pobre Fernando Que «Livro do Desassocego» Que «Floresta do Alheamento» Que continuam a fazer da tua vida! Como te lamento! Pela minha parte. Paris.

Ração de Combate Vou pelos campos de milho — Que na guerra ninguém trata… — Levo o dedo no gatilho E uma bala na culatra. Só ouço o silvo das bombas No silêncio em que medite. A vida: Que xeque-mate Neste xadrez da razia! Levo rações de combate Numa mochila vazia… Com a alma em bandoleira. Mas de baioneta calada: Faço da vida bandeira Que o sangue quer encarnada! Lisboa. Quem quiser um céu de pombas Não pode querer dinamite. Para o que der e vier: Outro sabre na bainha… Quando a Lua se esconder A noite então será minha! O Sol será sempre um p’rigo Nestes dias de campanha Devasso campos de trigo Sem saber quem me acompanha… Vai-se a água nos canais — Lembram rios abraçados — Já houve fogos reais Deixando os campos queimados. 10 de Novembro de 1987 211 .

Cada qual é como é… Pus minha vida num barco. 21 de Novembro de 1987 212 . Porto das Barcas. A vida é bicho-de-conta Que não ganha em se esconder… Em tanto sonho que embarco. Tendo embora de jantar… Que vela foi teu vestido No infinito. que escuna! Quis o teu corpo estendido. Mãos doridas de remar Tão pouca coisa escreveram… Pus o meu corpo no mar: As ondas não o quiseram… Em terra tudo o que escolho Traz-me saudades do mar. Era uma fusta ou galé? Baleal. Mas nunca fui recebido… É coisa de pouca monta Tudo o que o mar não quiser. O vento fez dele duna… Deitei pedras ao luar! Deitei cartas sem sentido! Eu deitei o corpo ao mar. Era uma fusta ou galé? O horizonte é o arco De triunfo da maré.Bicho-de-Conta Pus minha alma num barco. Eu «deitei solas de molho». Peniche.

As Torres do Silêncio .

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Será o mesmo noutro continente Sem colinas ou cadáveres por contar… A morte é sempre igual. Tão indiferente que fica o Firmamento Ao que se passa na pátria do luar. assim.As Torres do Silêncio (No seu rito fúnebre. os Parsis não sepultam nem cremam os seus mortos que. 24 de Janeiro de 1987 215 .) Torres do silêncio e esquecimento! Abutres! Que figuras tumulares! São o negro que alastra pelo vento Nos guaches que transbordam pelos ares. discretamente. apodrecem ao ar livre. Pois ela morrerá se não matar! A caminho de Bombaim. Ante um deus diverso e friorento Que se aquece com a morte em Malabar.

O corpo é o coco. A morte-corrente Sem contabilistas! Roídos em febres E pelo desjejum… Palácio ou casebres Ou tecto nenhum! E vão-se os arquivos. Não é alimento! Jejum permanente Sem fins pacifistas. A vaca sagrada. Trocando o lugar Como lhes convém… Serpentes subtis. Nem por um momento Não lhes lembra nada. Janela de fome Que tem gelosias. Cada qual amante Pelas suas normas: É Shiva dançante Of’recendo as formas… O tempo se some P’las frestas dos dias. 28 de Janeiro de 1987 216 . Na boca o que entre É resignação E não sente o ventre O peso do pão.Índia Bóia um nenúfar É água parada Tambor a rufar Na tarde abafada. As folhas dos livros São as folhas secas… Jaipur. As bibliotecas. As bocas com sede Os livros em seda As pedras em rede Pela alameda. Mas há o luar E o Sol também. Sem chama sagrada… A vida tão pouco E a morte nada. Pesados elefantes. Há ouro e rubis E mãos suplicantes.

O amor transformado em Tempo! Agra. O luto tornado em branco. 30 de Janeiro de 1987 217 .Taj Mahal A dor traduzida em mármore.

Os gestos proibidos. assim. 30 de Janeiro de 1987 218 . Ó sémen feito em saibro. para um templo.Khajuraho Fazer amor em pedra. Ampulheta d’areia. Clepsidra de suor do barro humano! Fazer amor assim é fazer vida No templo do teu corpo que profano. empedernido! Amar até morrer: é o exemplo… Façamos pois. A morte pouco é mais do que um sorriso. empedernida. o que é pedido! Vitória incontestada dos sentidos. permitidos. Agra. Como se a vida fosse só um friso.

De dia sonolento Ao Sol tórrido De noite Esvoaçando em liberdade. 31 de Janeiro de 1987 219 .Fumos da Índia Índia: morcego suspenso No mapa da Ásia. Na nossa imaginação E nos sonhos Que dali trouxemos E que nunca nos lembram noite! Índia: morcego pendurado Na árvore do Mundo… Khajuraho.

Com as almas degredadas Na lama vemos a prata. Seca a árvore da Razão. a vela É o lenço da tristeza. 31 de Janeiro de 1987 220 . os dias.Nas Margens do Ganges Quem quisera especiarias Melhor seria não vir… Passam os anos. Ó Ganges d’água barrenta: És um rio? Quem o diria?! Para nós a água-benta Era a melhor especiaria! Agra. no mar. Ter gengibre por romã Não podia ser verdade… Para nós o amanhã Já dá motivo à saudade. O rio das águas sagradas Dá sede que não se mata. Cai o ramo da Prudência: Ir nos dias que se vão Eis a nossa contingência… É carta torna-viagem Tudo aquilo a que já fomos. São as folhas a cair. Se mudamos de paisagem Deixamos de ser quem somos? Sonhámos ontem canela Hoje temos sal à mesa… Para nós.

Em escuro se apaga a escuridão. 1 de Fevereiro de 1987 221 . a deslizar. passa um parangue Ao de leve. a roçar a água a medo… Com o sangue se apaga a cor do sangue Com folhagem se apaga o arvoredo… Khajuraho.Entardecer no Ganges Sangue a sangue e a morte de seguida. De palavras é feita a nossa vida. Com palavras se gasta a nossa voz. Como as dunas que preenchem o deserto. São as frases que nos dão a dimensão Dos caminhos que há dentro de nós. No rio. Sem nada que se saiba de concreto.

Mergulhámos somente em incerteza! É longa a noite. Porém o Deus romano não é persa Pois Deus difere sempre na missiva… Banhar-se gente no Ganges ou Jordão É com água tentarmos a pureza… Evapora-se a água em suspensão. Dá forma a Deus. o céu é tão distante — Tão longe que ficou dos nossos gestos — Só lembra abutre negro em voo rasante Que venha disputar os nossos restos! Teu corpo traz o Sol já no ocaso. amor. 3 de Fevereiro de 1987 222 . Nossos olhos que os sonham tantas vezes Mudam-lhes o poder e as figuras. Teu corpo traz um Deus já resumido.O Medo O medo da morte faz os deuses. Com ele fazem ninho nas alturas. Toma Deus a forma mais diversa: É Manitu ou Buda ou mesmo Shiva. não faças caso Dos textos que lhe tiram o sentido! Katmandu.

P’ro guia cor de melaço.Numa Aldeia do Nepal Passo um campo de mostarda. Ambiente rotineiro. Pela estrada lamacenta. Junto ao templo abandonado Um anúncio à Coca-Cola! Arredores de Katmandu. Sem que a estrela da manhã Lhes aqueça o coração. O rapazio quase alheio Jogando num lamaçal À bola. Não há um sino que dobre Por esta espécie de vida? As mulheres dobam a lã. Futebol reinventado: Um excremento faz de bola. Semifiguras macabras… E Shiva é venerado Por entre patos e cabras. Um templo desmantelado. Os porcos fazem chiqueiro Das ruas por onde passo. 4 de Fevereiro de 1987 223 . Sentadas no duro chão. como em recreio Duma aula matinal. Terá um anjo da guarda Esta gente ferrugenta? Os rostos são cor de cobre Tom de lama ressequida.

Neve em cartolina De corte bem raso: Como em guilhotina O Sol no ocaso. 6 de Fevereiro de 1987 224 . Aqui. Que roupa diferente Com que a terra veste. Que monotonia! A vida acontece… Katmandu. amanhã. Diante o Poente.Pôr de Sol nos Himalaias No tecto do Mundo Como fosse um véu: A neve confundo Com nuvens do céu… Que doce de creme Gigante sedento Cuja mão já treme Por este alimento. dia a dia: O Sol arrefece. Atrás: Evereste. Destino lendário: Os montes de lã Verão o contrário. Porém.

O seu Palácio dos Ventos. a quantidade. P’ra que a vida lhe perdure Vivia em cinco palácios. Sobre o Ganges sonolento. Em cochins de longas sestas. Em ambiente mais terno. Num movimento de mão. o destino dá. tal marés D’oceanos violentos: Mandou fazer. Fez uma ilha e um lago. E como fosse mortal. Mandava entrar muita gente No seu Palácio das Festas. Entre pilhas de madeira Também ardeu. Anéis em dedos flácidos. feito em grés. Mas o pobre do Rajá Esquecera a mortalidade. Vivia em salas com eco: No seu Palácio d’Inverno. Nos dias de tempo seco. Entre águias e falcões. Indiferentes desenhavam Outro Palácio p’ro Vento! Katmandu. afinal. Porém. O ouro faz qualquer mago: E um Palácio de Verão… Com o seu olhar dormente. Ondulando. Quando a chuva dava início: O Palácio das Monções.O Palácio das Monções O Rajá de Udaipur. Dos dias. No cume dum precipício. Enquanto quis a fogueira… As cinzas quando voavam. 6 de Fevereiro de 1987 225 .

O rochedo e a espuma. para os olhos dos sedentários. O nada. vieste. esconde o Sol. Job e Salomão. A água e a evaporação. como sempre acontece. de novo procurar-me. que permite o atravessar duma rua. És o relógio com numeração romana no mostrador. O choro e o riso. para alívio dos nómadas perdidos em deserto escaldante. A casa e o relento. 226 . «A árvore seca e a vela panda». Como aberta em tarde de chuva. como se o Tempo tivesse parado em Roma e tudo até aqui fosse apenas previsão do futuro em antecipação científica. És o milagre da paisagem. com mutações. O sol e a sombra. O absoluto D. com naturalidade. O gelo e o fogo. no momento certo. O átomo. quando a seca já fazia desesperar. Quixote e Cid. por momentos. A casca e o fruto. Tal nuvem que. Cristo e Barrabás. Abel e Caim. A chibata de cana e a cana do açúcar. És: O vinagre e o mel. A paz e a guerra.A Poesia Como gota de água que transborda o rio. de banda desenhada. A cara e o cunho da moeda. Como lenço molhado que refresca a fronte febril. companheira de todos os dias. sem termos marcado encontro.

Tu que és. Que és sempre a próxima onda. minha companheira de todos os dias. És. o levantar do remo para a remada seguinte.º 2. talvez. para que tenhas mais demora entre nós. Vieste de novo procurar-me. roído na ponta e és o perfume que as laranjas da infância deixavam nos dedos. Tu que és o muro de pedra solta. É assim que tens o sabor do lápis Johann Faber n. sem encontro ou local marcado. sabendo que no dia seguinte será o primeiro dia de férias grandes. o primeiro dia da Criação e a certeza de que o último dia de todos será a véspera de qualquer coisa. Tudo o que és. no lugar certo e no momento exacto. em folha de cartolina que se desdobra infinitamente mas que eu agora dobro e levo debaixo do braço para a caminhada que faço contigo. sempre. Tu que és a carta celeste. se não tivesses vindo. sobretudo. de palavras e frases. Que és a caravela de Quinhentos. antes de lermos o remetente. 8 de Fevereiro de 1987 227 . ao riscar a ardósia da parede da aula. ainda antes de haver mapas. tudo o que nunca me teria ocorrido. afinal. um selo desconhecido que obriga a olhá-lo primeiro. também. Tu que és. como gota de água de súbito caída duma estalactite e que de repente tenha revelado que pode chover também debaixo da terra! Entre Delhi e Goa. o sonho lunar e extra-sideral. o adiar do medo da morte. Que és o ano-luz. Com a naturalidade da criança vinda da escola e que abra a porta de casa. procurar-me. Tu que vieste. entre as marcas de tinta escolar que se tirava dum tinteiro e as manchas brancas do áspero giz que às vezes emitia sons agudos. bissexto. pontual e com naturalidade. ainda. Tu que és o chegar da carta que traz.

afinal. Por quem todos nós Esperamos. Com rochosas arribas. Onde não faltam. sequer. Lembram um presépio. A todo o momento.Fortaleza dos Reis Magos Goa: Tuas praias. 11 de Fevereiro de 1987 228 . A chegada dos Três Reis Magos. os rebanhos E onde seja possível. Com palmeiras em escadaria. a vida inteira! Goa. Em socalcos.

Que a trovoada a imite. 229 . assim devia a vida levar-nos… 5 O Arco-íris é o guache dos deuses. Que diferença que há entre as divindades.As Formigas na Neve 1 Os santos de pedra. envolvendo agora tudo em volta. lembrando o avançar dum exército em guerra. Tu és de carne. 3 Sempre que o sino tocava. Que a chuva aprenda com ela a não tamborilar nas vidraças. por obra dos anjos rebeldes. os ponteiros do relógio são a ponte suspensa. como cavalo-marinho do soldado que ocupa o metro quadrado que nos cabe para a sombra que o nosso corpo projecta. face à prepotência das correntes invernosas? Fosse como fosse. não estilhaçando a calma do céu. Promessa de Primavera ou abdicação dos dias verdes. neste dia invernoso. O Poente arrasta a noite consigo. subitamente se tornasse numa carreira de tiro. 6 Uma flor. as pombas fugiam em revoada. como ribombar de canhões em paisagem outrora calma. 7 Com que silêncio caiu a neve durante a noite. Que o vento lhe siga as pisadas e não chicoteie o arvoredo. ia à tona do rio. como se o campanário. 2 Do Oriente: o dia. E neste vale de luz e escuridão. eu vi uma flor à flor das águas e isso basta. 4 Com o cuidado que se leva a ave ferida.

Pode. tudo agora. afinal. onde egoisticamente queremos estar presentes. 9 A neve. 8 A neve vem como a poeira no vento: espalhando-se em leque. 230 . 10 Os corações. no outro extremo da escala. reincarna em água. coberto de neve. tornar-se em vapor e ser nuvem. Pode. 11 Que pintura rupestre faz o musgo no muro em ruínas… que medo da vida o pintou? 12 Só o trevo. depois de acabada. ao contrário do pó. gritava que era o arvoredo das formigas. não magoa os olhos mas pára todos os pensamentos de momento e o olhar fica quase magoado pela pouca utilidade que tem nessa altura. onde uma gota de neve somente já parece transbordar o vasilhame. ao cair sem ruído. esculpidos a canivete no arvoredo. gravados nos troncos das árvores. Com que degraus imensos de gelo decorre a ascensão e queda da neve que parecia ser tão simples. sangrados em vida.Que a gente aprenda com ela a não pesar nos nossos sonhos. como o abrir de penas duma ave rara. para inutilmente tentar perpetuar uma presença que é tão passageira. antes do nevão. escorre para taças de traço rude. no Inverno escorrem água como se de sangue se tratasse. levada ao extremo de degelo. albergam gotas de água onde a identidade que querem representar fica afogada em lágrimas de saudade… A chaga aberta de resina dos pinheiros. Os nomes próprios. ser avalanche ou cascata. Porém. Porém. é como se de súbito um manto de esquecimento tenha caído sobre o Mundo e sobre as marcas que o Homem teima em deixar sobre todas as coisas.

Cada lágrima a seu tempo. cada coisa de sua vez. como se fosse um relógio de neve em imitação a um relógio de sol. Janeiro e Fevereiro de 1987 231 . assim. França e Inglaterra. 14 Sempre que o sino tocava. Pontualmente ia o sino mudando de cor. remetendo-o para a sua nudez. a neve que o revestia tombava do bronze. E a paisagem ficava feliz por dar por isso… 15 É o Infinito. Olhemos. 16 Perante o Universo sem tamanho. o arco do triunfo dos que sonham. Depois havia toda uma hora para de novo se tornar branco. a neve e as formigas só diferem na cor! Índia.13 Tão pouca coisa cabe nos nossos olhos. Talvez assim as imagens sejam verdadeiras. Cada momento na sua altura.

A onda que esconde a onda. 232 . Na manhã de chumbo baça Sobre a névoa de mordaça Onde morrem açucenas. A noite que tapa o dia. Que troféus que tem a caça Feitos de peles e de penas! Que mal nos faz a leucemia Nesta embalagem perdida? A morte também é fêmea. Tudo muda de lugar… Somos a roupa a secar Qu’alguém vai depois usar Ao senti-la bem lavada. Fala-me em bustos clássicos Que nos recantos plácidos Parecem rostos flácidos ‘scondidos entre a folhagem. Não venhas falar de ácidos Que corroem tua imagem.Embalagem Perdida Porque me falas de morte Se de vida somos feitos? Se somos bobos da corte Somos um Príncipe Consorte. Como fosse um almocreve Tantas voltas que descreve. Também a vida esvoaça. Que troféus que tem a caça Feitos de peles e de penas. A voz que canta na monda. A sangue o que ele nos escreve Da morte até à nascença! É o sangue que prescreve O final duma sentença. A onda que esconde a onda A noite que tapa o dia. É o sangue que prescreve O final duma sentença. A foice semi-redonda Em meia-lua que esconda A Lua-Cheia que enchia. Porque me falas de morte Se de vida somos feitos? Não venhas falar de ácidos Que corroem tua imagem. Se às vezes é blasfémia Não passa de alma gémea: Pois sem morte não há vida! Que mal nos faz a leucemia Nesta embalagem perdida? Somos restos de luar Vindos da noite passada. Somos restos de luar Vindos da noite passada. Que a luz da Lua recorte Nos vitrais dos parapeitos.

13 de Janeiro de 1988 233 . afinal? Ah! Quem pudesse dizê-lo! Londres.O que somos. Reproduzido em espiral Neste Espaço Sideral Suspenso por um cabelo! O que somos. afinal? Ah! Quem pudesse sabê-lo! Somos apenas sinal.

E este estábulo Feito em croquis: Dará retábulo De Rei David! E vão-se as dores Fecham-se as ancas. Vinho da cor Que o sangue dá! 234 . E os arcanjos Ameaçadores! Longos cabelos. Vêm pastores De vestes brancas. Parto ao luar — Como animais! — A anunciar Coisas brutais. Voz no deserto Mas quem a escuta? Outra voz estranha À multidão Se da Montanha Desce um Sermão… Monte Thabor.Trinta Dinheiros A Virgem Mãe Mordendo o pó. Vem a fogueira Da Inquisição… Mas. Mas quem decide Bem na verdade? Lagos sagrados. Imensidão… Os baptizados No Rio Jordão… Que passa perto Em terra inculta. Sem ver ninguém Parindo só! Junto ao jumento Um boi deitado. Rogo. porém. (Bolos-de-Rei De passas cruas: Serão anéis Destas mãos nuas?) Vieram anjos. antes Vivem em tumbas Os emigrantes Das catacumbas… Nasce e divide A Humanidade. Os olhares vagos… Vêm camelos Com os Reis Magos. Boda em Caná. Cruzadas tantas Marcas de fogo Das Guerras Santas! Tanta cegueira E submissão. Seres voadores. Púlpito. Se entra o vento Fica abafado.

Tudo resume A pagamentos… Mas Deus tem lume Nos Mandamentos! Só um senhor Podes servir: Era melhor Poder partir… Morres ao ar Como nasceste. Nas trevas cobrem Vulto sagrado «Filho do Homem» Crucificado! Não há regresso Já nesta altura… O suor espesso Cai na verdura. Pois grava a areia Os pés romanos. Fica em relevo Gota perfeita Já sonha o trevo Uma colheita! Como convém: Vai morrer só! Jerusalém e Jericó… Rei num momento: Entrou montado Sobre um jumento Desengonçado… Lagos judeus E uma canoa… César ou Deus? Ou rei sem coroa? Quem nos dirige Na nossa queda Tem a efígie Numa moeda. Quem vai contar Como cresceste? Nasceste Deus Entre animais Estás nos museus E nos vitrais! Que claridade Em vidro fosco Quando a verdade Nasce connosco! Madrid. E fica aquém Do Santo Lenho: Jerusalém Que é um desenho. 15 de Março de 1988 Londres.Na Cesareia Há outros amos. 12 de Agosto de 1988 235 . As oliveiras Tão seculares São carpideiras Se tu chorares. Sua planta Crescer ao luar Cidade Santa Este lugar! Calor na tarde Que o vento quebre? O Judas arde Tremendo em febre.

Se me desdigo Logo se cala Trago comigo Quem por mim fala. Bicho-da-seda Nos fios da mão: Quem me conceda Compreensão. Vive comigo Familiar Fala contigo Em meu lugar. Desta maneira Está no que escrevo Que trepadeira Feita de trevo Musgo rasante Em muro velho Meu habitante Como num espelho! Que precipício Onde me testo: Diz-me o início E eu escrevo o resto! 236 . Viver a sós Que sonho vão. Eco da voz Sem vibração… Rimo ou não rimo Conforme entoo Não me domino E então voo. Só me cativa E em mim morre.Duplo Quem por mim escreve Pensa por mim? De mim se serve? Mas com que fim? Duplicidade Ou ilusão? Mas unidade No coração! Quem de mim viva Não me socorre. Paredes-meias Que vizinhança Corre nas veias E não me cansa! Linha da vida — E outras linhas — Indefinida Nestas mãos minhas. Escrevo e da escrita Serei proscrito? Em mim quem grita Dobra o meu grito! Se me transponho Eu sou osmose Baba de sonho Metamorfose.

16-19 de Março de 1988 Londres.De mim se serve? Serve-me a mim? Quem por mim escreve É escravo assim! Madrid. 16 de Março de 1988 Paris. 11 de Agosto de 1988 237 . 15 de Março de 1988 Avião Madrid-Paris.

O andamento Passo e se passo Passei no vento.Almocreve das Palavras Meia verdade Pois mais não tenho. Cidades Santas Tantos oásis A páginas tantas… Depois há Meca Multidão junta A boca seca Tanta pergunta Mal sem remédios Neste meu mal Por entre prédios Há vendaval. Como almocreve Pelos caminhos Nem sei quem escreve Meus pergaminhos. 11 de Agosto de 1988 238 . Londres. Marco compasso. Sombras de cobre Dum sol dourado Se chego pobre Parto abastado. Vem o luar Em quatro fases… Vou ao lugar Onde me trazes. 16-19 de Março de 1988. À melancia. Mares de Sargaços. Não trago armas Levanto os braços É Veranasi. Frio da manhã Sol ao meio-dia… Sonhamos lã Na noite fria. Numa sertã Faz-se a sangria… Quem duvidar Que me confirme: Histórias do mar Em terra firme! Maturidade? Sobra o engenho? Estranho a cidade Porque sou estranho! Avião Madrid-Paris. Colher lilases Apetecidos… No ar há gases Desconhecidos. Cheira a avelã. Trago o que trago. Estranho a cidade Porque sou estranho. Fecham as asas As aves feridas Dentro das casas Desconhecidas. O que me deram? Depois naufrago No que disseram. 16 de Março de 1988. Katmandu Ou seja Fez A alma a nu Mais uma vez. Romas e Parmas. Paris.

Manhã colorida: Sou bicho-de-conta Desenrolo a vida! Não quero falcoeiro. Peixe em liberdade Se nadar de bruços. Sou introvertido Por um reflexo E tiro partido Só do outro sexo! Um monte-de-vénus Que seara ao vento Que barco de remos Em mar sonolento. Ave migradora Voo em solidão Calada ou canora Conforme a razão… Quando o sol desponta. Pois que tem de ser… A fonte: o tinteiro Onde vou beber… Palavras distintas Diferenciadas Paletas de tintas De cores carregadas. A cara engelhada… Talvez sanguessuga De água parada. Louva-a-deus na tarde Voando aos soluços… Quem sabe se um verme. Quem fez o meu traço Mas que desabono! Sou folha com espaço Mas só no Outono! Bicho do deserto E duna distante D’areia coberto Por céu sufocante. Já estarei ausente Talvez amanhã… Hoje sou serpente E mordo a maçã! Sou bicho da lenha E morro de sede.Divisão das Espécies Formiga em carreiro. Começo de ruga. Não serei aranha Pois detesto a rede… E temo as grilhetas Das asas pregadas Dessas borboletas Bem coleccionadas. Quero o céu inteiro Para sim ou não! Mas que espada nua De feitos e factos. Um ralo ao luar E talvez hiberne Num urso polar. Não pouso na mão. 239 .

É este o meu fim… Seria pior Se eu não fosse assim… Paris. Basta um metro de ar. Assim. por enquanto Posso respirar… Para que a Poesia A mim não me deixe Eu guelras teria E seria um peixe! De modo nenhum Em mim não esmorece É sangue comum Duma certa espécie! De fraco músculo Onde nada encaixa. Serei ave rara No nosso aviário? Mas tudo o que amo Há quem o deteste. Canto sem batuta. Um erro de teste? Um bicho silvestre. 11 de Agosto de 1988 240 . Ser incompleto. Sou grilo campestre. Só serei engano. Fracção ou quebrado. 17 de Março de 1988. Londres. A transposição Que a morte dará! Seja como for. Serei um molusco Feito de borracha.As fases da lua Comandam-me os actos. Que versos que tanjo — Mas que notas vasas — Eu seria um anjo Se tivesse asas? Eu canto o que canto. Paro se alguém escuta… Mas não espero louros Pois tudo me esquece. Só suor nos poros Se este tempo aquece… Talvez a razão De tudo o que há. um insecto. Que espécie secreta Quase em extinção! Eu ou dou a cara Ou sou refractário. Um invertebrado… Minha lei decreta O ter coração. Quem sabe.

Dormentes. A noite é um barco. Quero dar à costa Como fosse lastro. O vaivém do vento. 30 de Abril de 1988 241 . as vigias E as sobrequilhas Meias melancias… O mar de quem gosta Faz vela e faz mastro. O mastro maior. botões. O sonho é o leme. Mastro da mezena… Tudo em ponto morto Quando há quarentena Adiando o porto. Rasgam envelope Notícias fatais… Os nós e as espias. Os vaus. escotilhas. Os nãos e as deixas… As vergas e velas. As velas são escassas Se sopram tufões. dobradiças.Navegação Nocturna O mastro da gata. As ilhas de estrelas Que há no Firmamento. Gatas e adriças. A Ursa Menor! Lisboa. Arpéus e fateixas. Brisa e sobressalto E as acalmias Cercando o mar alto. O estais do galope E outros estais. Quem ganha a regata? Quem menos demore! Coxins e falcaças. Ferros. Badernas. Se no sono embarco Há por mim quem reme… Quem ganha a regata? Quem menos demore! O mastro da gata.

com a cor do estragão. Vi o rio da despedida Onde os lenços são bandeiras. Com raízes ao contrário Vi plantas aquosas. Vi reis feitos de basalto E rainhas de granito. Fica tudo resumido Às pedras dos monumentos. Tomei o peso ao império Que perdeu o seu suporte Quando tomou um ar sério O pobre bobo da corte! Com o tempo corroído Pelas chuvas. Vi outros monstros marinhos.London Sight-Seeing Vi a estátua dum dragão E. 6 de Maio de 1988 242 . Londres. vi golfinhos E. pelos ventos. Vi pegadas no asfalto? Como o medo faz o mito! Vi aves embalsamadas De olhos embaciados E estátuas decapitadas De príncipes já exilados. Ouvi a voz sem medida Do choro das carpideiras. No fundo deste aquário De serpentes venenosas. de pedra.

Voltando à superfície em cada vez. 11 de Junho de 1988 243 . O zero sempre deixo em meu lugar Nas praias em que estou e que não vês. Contarei até cem e volto ao zero — É bom à nossa casa regressar! — Filho pródigo sou! Assim me quero! Embora sem ninguém p’ra me esperar! Lisboa. Conto até cem. Como pode o ano ter só doze meses Se mais de cem eu deixo por contar?! Cem anos passam breves. Elefantes que se deixaram esmagar. tantas vezes. Desejei-te. amor. amor. meu amor.Perdido por Cem Conto até cem. sem respirar. mais de cem vezes Cem vezes te lembrei. amor. Não chego ao fim… Os Romanos punham letras a contar… Os números são um rio dentro de mim Se te procuro. sem te encontrar. Serpentes nos olhares cartagineses. ao acordar. Na História são os séculos a rodar.

feita breu. Mas os nomes das estrelas sei de cor! Os sonhos que de dia me alimentam — Que farinha de pão mal amassado —: A força da razão em mim exp’rimentam Talvez por me encontrar bem acordado! Sou dono de mim próprio e do destino. Os sonhos. são o pior… Dom Quixote que vê no Sol a pino Tudo o que a noite tem em seu redor! Londres. Eu. estando aqui. pobre peregrino da Grande Ursa… Caminhos do Diabo ou do Céu? Sou ilha só com sonhos em redor! Desvendo a noite toda. 30 de Julho de 1988 244 .Ursa Maior Serei somente e sempre como eu sou E não aquilo que outros de mim querem. sendo um bem. Sou búzio: choro o mar que em mim secou Nos cedros canto o vento que me derem. Sou a voz do silêncio que discursa. Que caminhos sem andar já percorri. Nas estrelas sou distância.

31 de Julho de 1988 245 . nem tem telhas E o asno e o boi só servem para abate. Senhor. até lacra A pedra como fosse flanela… Será a tua voz música sacra Saída. sei lá donde. tuas ovelhas Que em vez de ser rebanho são combate? O Presépio. na capela? Jesus: Jerusalém o que nos esconde? Judeia: tem caminhos sinuosos… Procuro tua voz: ninguém responde E deixas-me os meus dias duvidosos. Que fizeram. Mas parecia que ainda respirava. de tão espesso. Tal é a sede enorme desta hora! Cada um tem uma Estrada de Damasco Onde Cristo o encontra ou ignora! Londres.Estrada de Damasco Estava Cristo em pedra na parede. em ruínas. Teu sangue. Dava dó. dava suor e dava sede O Cristo que ali mesmo agonizava. Porque adiamos nós o nosso encontro? Será por ser ateu e em Ti não creia? Será por eu ainda não estar pronto P’ro vinho e para o pão da tua ceia? O Dilúvio caberia num só frasco.

O amor em qualquer língua Traz um nome de mulher. Quando somos pela certa Qualquer sombra de ladrão. O amor também é roubo Quando há um travesseiro.Veneno Se nós morremos à míngua Duma carícia qualquer. Vestimos a pele do lobo E fazemos de cordeiro! Se nós morremos à míngua Dum olhar ou dum aceno: Quanta vez a nossa língua Muda o gosto do veneno. 9 de Agosto de 1988 246 . Já traz a Lua esbatida Bem fora do nosso alcance. Já traz noite prometida Em alcova de romance. É porta que fica aberta À espera da nossa mão. Londres.

Tudo o que pises N’almofarizes Não vai crescer… Não hostilizes Mesmo sem querer: Só há juízes No que tu dizes Tu irás ver! Contabilizes O teu viver E não há crises Pois que tu vives Teu «Deve-Haver»! Londres.Dizer por Dizer Dizes: desdizes Só por dizer… Se contradizes Crescem raízes Sem florescer… Cores e matizes Por preencher: Os aprendizes Gastam vernizes Para aprender… Tu não avises Quem vai morrer. 13 de Agosto de 1988 247 .

Já ajoelhados E de arma à cara. Arda o arvoredo. Os nossos inícios São acidentados: Só há desperdícios Nos nossos indícios Já meio apagados. Depois afogar Nos poços de ar Toda a natureza! Depois é queimada. É reformular Noção de Beleza. O urso polar.A Última Caçada A última bala Já está na culatra. Que não fique nada Terra calcinada E quanto mais cedo! Ó rios poluídos: O lixo vos tape! Nós somos ruídos Só temos sentidos Nos gases dum escape! 248 . Matar sem perdão Demente e profana. Já se baixa a fala… A última bala Tem de ser de prata. É caçar baleias. Na morte se fecha Como na coutada Dispara a flecha Mas a caça deixa Toda abandonada. A terra queimar E a água secar. Somos alquimistas! Que estranha cultura Funde na retorta Que cor de tintura Tem nossa pintura: Natureza-morta. Olhos tão vidrados E obcecados Só de quem dispara! Minha geração Renega Diana: Caçar sem razão. Matar por matar Apenas por gosto… E sem plantar Só saber queimar Deixar fogo posto! A destruição É o nosso lema Venha a poluição O mundo é prisão. Em pleno abate A morte é a festa Tão pouco que resta Neste xeque-mate. Com paredes-meias Serão as sereias Das histórias do mar… Águia pirenaica… Também os castores… Com cultura arcaica Tem força voltaica Dos seus geradores! Vamos liquidar Os ecologistas. É ovo sem gema! Seca a floresta.

O caixão é fórmica Dará mais nas vistas E a pilha atómica Será filarmónica Na mão dos artistas. Batalhas. A ponta de lança O ponto final É bala mortal Fiel da balança! Vai ser a baioneta Nossa arma branca Casa obsoleta. São limas de quinas Onde as cocaínas Se moem sem medo. Tu jamais esqueces. Os filhos perversos Cantem as ‘spingardas E enviem guardas A quem faça versos! 249 . refregas: Por mais poluição… Mas onde te entregas É nas marés negras Banho de imersão. Esta cega-rega No fundo dum poço É a cabra-cega: A lama já chega Até ao pescoço! É tenor? Contralto? Será orfeão? Ardendo o asfalto — Que já foi basalto — Já não há mais chão… Vamos ocultar.Cheiro a alcatrão Inda fumegante. O diesel dos expressos Que óleos pesados! Venenos-confessos Viscosos e espessos Por nós respirados! Lixo nuclear Levado em marmitas. Almoço e jantar Nada vai sobrar Para os parasitas! Banhos de vapor. A nossa ração A alimentação Mais repugnante! As nossas narinas. Enxofre à mistura Esgoto-corredor Andando em redor Da nossa cintura! Relevo das vulvas Mordente em elipse… Estrangulam as luvas Das ácidas chuvas: É o Apocalipse! Vai ser a punhal. A parede é preta A porta não tranca. Cofre de segredo. O sol e o luar Vamos exterminar As últimas espécies! Não há prisioneiros! Feridos? À coronhada! Somos bons negreiros Formiga em carreiros Faz caça danada! As mães são bastardas.

Mas que planeta Da grande ameaça E há quem já meta O bebé-proveta Dentro da vidraça! O seu enxoval É feito de vidro. 15 de Agosto de 1988 250 . Bebé de cristal: Se tu caíres mal Ficarás partido! Dobrar o joelho… O gatilho lento… Estilhaçar o espelho Onde um escaravelho Rebola um excremento! Londres.

10 de Dezembro de 1988 251 . As paredes de vidro são prisões! E se houver Deus.Lente de Aumentar Só de noite o mundo é verdadeiro No perfume das tílias e limões. meu Deus. Nem o escravo se sente prisioneiro Ao ter por tecto só constelações… O céu é toda a força que nos resta Nesta coutada de homens dominados: Não passa duma grande floresta Com Ursas e Centauros desenhados… É uma Virgem. mais os pratos da Balança E o Caçador sem lança e sem ter laço. ficará mudo Como Cristo ao morrer entre ladrões! Lisboa. Enquanto outra galáxia já avança — Saber-se lá porquê — por todo o Espaço… Que deusas e pastores andam no céu… Pastagens infinitas dão caçadas! Balança da justiça? Mas sem réu As grades estão há muito destroçadas. Aquário talvez seja isto tudo.

11 de Dezembro de 1988 252 . mas vestimos O enxoval das marés: Tecelões d’algas e limos No berço d’algum convés! Lisboa.Tecelões Nossos nervos são um feixe. O sono não dá por nada Os limos são sumaúma! O destino por fronteira As unhas feitas anzol. Pescadores de sete ofícios De espadartes e golfinhos… Nascemos nus. Na mesa de cabeceira Temos a luz dum farol. Velha serpente do mar Ao nosso corpo se cola E há sereias a cantar Nos seixos que o mar enrola… Arribas e precipícios E marés em remoínhos. Novelo de cordoaria… Nós temos olhos de peixe Perfume da maresia… Epiderme toda em escamas Sem que a pele se nos retraia E fazemos nossas camas Na areia de qualquer praia… Um rochedo é uma almofada Feita no linho da espuma.

vulnerável. Mas haverá ainda outra ramagem? Se houver. Talvez sem os nossos problemas. Que palavras nos são assim veladas À fala que a tudo nos responda? Mais bocas haverá. As estrelas já cá estavam. neste lugar? Mas chegámos. que vento há a estremecê-la? Se apenas houver chumbo na paisagem Derrete no calor dalguma estrela! Soldadinhos de chumbo em regimento Que na concha da mão dum deus sereno. Em constante fusão no firmamento Moldou um batalhão que é tão pequeno! Que sargento-ajudante nos conduz? Que chaves há na mão do despenseiro? 253 . mas estão fechadas. perguntamos: Quem nos pôs aqui. Indiferentes. assim o céu queimavam Sem saber que criavam teoremas.Soldadinhos de Chumbo Será ainda por ti que procuramos Quando a morte um dia nos levar… Vivemos. Perguntar-Te e saber se respiramos O ar que a outros seja irrespirável. Se vivemos. Talvez a solução aí se esconda… Serás ainda Tu que desejamos Ter bem a nosso lado.

mas por que ventos! Se o Espaço fica ao fundo dalgum beco. outros tantos mandamentos? A Fé será a vela larga e panda. 9 de Julho de 1989 254 . será o Deus que nos comanda. sem saber. sendo gente! É ainda por Ti que perguntamos Se um dia Te disseres Inexistente! Que sais em suspensão. Dez dedos. Tu estavas já aqui quando chegámos No medo que nos gela o coração. Que abelhas. Chegar ao seu limite: decepção! É voz! É tanta a voz e nenhum eco! E se acaso a voz de Deus for o trovão?! Será por Ti ainda que chamámos Mesmo se fores mentira e sem razão. Paris. Soprada.Buracos negros há que comem luz Tão negra como o fundo dos tinteiros! Tanta pergunta há e não respondes! Decerto não será por timidez… Se tens a solução no que nos escondes É golpe baixo em jogo de xadrez! A falar com o medo: nós oramos… Que bichos que nós somos. que carbonatos. que cortiços doutro mel! O Homem é a soma dos hidratos. 8 de Fevereiro de 1989 Londres. Os poros são os favos nesta pele! Zangão.

Barro refractário Arde sem estalar. No Tempo a crescer… Há outros países Ao anoitecer? Relógio de areia… A clepsidra… Silvos de sereia E os olhos da Hidra… As fases da Lua… O dobrar do sino… E a espada nua Do nosso destino! Se Deus for Além Em quem acredito? Se conto até cem Que tempo debito? Tudo é tempo ou nada. raízes. Os olhos enxutos O relógio d’água Afoga os minutos! O Tempo é ração No nosso deserto Quando o coração É relógio aberto.Relógio de Água O mel das abelhas E os escaravelhos… As casas são velhas Se há telhados velhos! Olhar de aquário No vidro do mar. Relógios. a frágua. Torre de Babel De gosto a vinagre. Há um contador Que não qu’remos ver Nesse mostrador Que é um malmequer… Na raiz distante Dalgum girassol: Relógio gigante Lembrando um farol. 9 de Março de 1989 255 . A esponja de fel A boca nos abre. Lisboa. Que dias medonhos A tua almofada Não sonha os meus sonhos! O ferreiro.

Por ordem de Satanás É o carrasco das letras! Corpo suspenso na corda: Letra I que nisto entre. 4 de Abril de 1989 256 . (O V também me recorda O jardim que há no teu ventre…) Na pedra. É o campo que me lavras! Abecedário é pegada No deserto das palavras. a letra perdura O som do dobre do sino. Entre o gelo e a fogueira Corre a vida. Paris. O F a forca nos traz Quando as tintas são mais pretas.Caracteres Ilegíveis Decorreu um quase nada Entre a colheita e o verde… O Z é curva da estrada Onde o silêncio se perde… Será o S serpente? O zero seria o ovo? E o V é a vertente De vale aberto de novo. É o C a ferradura Desse corcel do Destino. O T será o telheiro O abrigo do portal? Será o P o pinheiro Decepado em vendaval? Lembrará o B os seios E colinas entre as casas? Nós somos pombos-correios A quem cortaram as asas! Se falas: noite rasgada. quem diria? O H faz de barreira Para a nossa correria.

As faces afogueadas Por sombras do vinho tinto… Como cheirava a canela A tangerina e baunilha! E nos vidros da janela A fumo de cigarrilha… Aguardente à sobremesa — Antes: sopa.Jantar de Família Havia amêndoas torradas E as passas de Corinto. carne — E uma gravura francesa Fala em Batalha do Marne. por destino secreto Já era recém-casada! — 257 . No dirás e não dirás Gastam-se noites inteiras E dois sulcos de lilás No outro dia: as olheiras… Havia o tio predilecto E a prima desejada — Que. Como fosse um condenado Marcado a flor-de-lis Os gestos familiares No tilintar dos talheres. Por desenho em cicatriz. A prenda do Bolo-rei E que acabava em batalha… (A fava da mesma lei Mas reverso da medalha…) É lava o queijo da serra… Sussurra-se um suicídio… Lembranças da Grande Guerra E também do Regicídio… As claras em castelo Noite branca e submersa… Dois anéis do teu cabelo Mais dois dedos de conversa. Os primos já militares As primas quase mulheres… Cabiam todos em volta: Recordação fotográfica. peixe. Havia a velha criada — Mais nova do que se pensa — E roubos de marmelada: «O tesouro da despensa»… Leite de creme queimado. Havia risos à solta E o tio que vinha d’África.

23 de Maio de 1989 258 . Havia o dia seguinte… Lisboa. Entre o que era e não era O sonho fundia em brasa Nos umbrais da Primavera Dos portais da minha casa! O lugar do meu avô É um trono de vaivém E nele. Não o pedi a ninguém! Sabe a leite condensado A saudade por requinte! Além de haver o Passado. Meias palavras na sala… O mesmo sangue nas veias As mesmas histórias na fala. se hoje estou.Família: paredes-meias.

Só por morte natural! Irei à Faixa de Gaza Que é mapa de cartolina. Ir à Casa de Maria Aos caminhos dos Reis Magos. sem um gesto. 259 . Ainda à morte ligado Como a mãe nos liga à vida… Ir à Gruta dos Pastores. Ver José d’Arimateia Num vulto doutro qualquer. Pois não choro a minha casa Em algures na Palestina! Vou de pedras na algibeira: Armas brancas de defesa. De visão adormecida. Ir ao Poço de Jacob E ver se a Samaritana Mata a sede a quem vem só Ou se a toda a caravana… Tudo sem abstinência. dourada ou anta Cor de sangue carregado! Rezar aos santos vulgares — Que os há por todo o lado! — Hei-de ir aos Santos Lugares E aos lugares de pecado. O Destino por fronteira E a Fé por: incerteza.Peregrino Acidental Eu hei-de ir à Terra Santa E ao Sepulcro Sagrado: Catedral. Ter Fé pela inteligência E não pelo coração! Sinal da cruz. Tudo só pela Razão. O hotel? O mais modesto Cinco estrelas por decreto! Ser cristão pelo Baptismo? Não chega o gosto do sal! Só há Fé por magnetismo. Que tudo seja secreto. Ter perfumes da Judeia Por Piedosa Mulher… Lázaro ressuscitado. Subir também ao Calvário (Mas à força de motores Dalgum carro utilitário…) Sem rumor de profecia: Ao mais sagrado dos lagos.

A Vaca e Touro Sagrado… Não verei do Norte a rena Mas o corpo apedrejado De Maria Madalena… Se há flores. Sentir correr o Jordão. Quem semeia ignorância Colhe flores de pecado! Hei-de ir à Terra Sagrada Onde areia é ouro fino. Irmão mais velho e amado Mas que morreu sem algemas! Não aos dias de Jejum! Ao corpo flagelado! Eu quero Deus e se houver um É Cristo ressuscitado! Cada qual esconda o seu acto De crer em Deus ou em nada: Seja a Fé anonimato Que nunca seja Cruzada! Londres. Pressentir: Pôncio Pilatos Como fosse abstinência… Ir aos pomos da discórdia Bem na Terra Prometida: Ver a pomba da concórdia Numa oliveira abatida! Aos Muros de Jericó… Restos da Última Ceia… Sentir as pedras. Foram só uma maneira D’haver Vendilhões no Templo! Silêncio. o pó Das estradas da Galileia. Hei-de ir ver Jerusalém. também há cactos Numa santa convivência. Sentir a cruz carregada Sem maldizer meu destino! Ver Cristo aonde Ele está: Entre um beijo e um algoz… (Quem nos diz se viverá Apenas dentro de nós?) Com Jesus Crucificado Em fundo nos meus poemas. 14 e 15 de Julho de 1989 260 . E se Deus for mais além Quem me dará o perdão? Inquisição e Fogueira Nunca serviram de exemplo. intolerância: Receitas de obcecado.

Fico na tarde parada Tal sombra que se não olha… Sendo a água desejada. Quando meus olhos atingem Um cume semi-escalado. Andando ao sabor do vento. Falcão subalimentado. Nas profundezas marinhas Os olhos ficam abertos: Vejo searas e vinhas De vinhos não descobertos. Num céu sempre recusado Ao que seja movimento. As gaivotas fazem ninhos Mergulhando em precisão. Sou a chuva que não molha… Lisboa. Que pesadelos marinhos Povoam o coração! Que sensação de vertigem Ou de ar mal respirado. Sonho resina de Chipre Nos troncos.Marasmo Sou sensação de mergulho — Sem haver profundidade — Corpo feito pedregulho Cativo da Gravidade. 23 de Agosto de 1989 261 . Nado nas águas do Tibre De cor de loba barrenta. sangue magenta.

Há uma pedra no caminho Sempre para o teu cansaço. Tu desenhas um abraço Se apunhalas pelas costas… É sempre o «fora ou não fora». Grão de areia majestade Se lhe chamarem Vesúvio… Tudo muda tarde ou cedo. «Teria de acontecer»… Até a Nossa Senhora Viu o seu Filho a morrer… Qualquer onda é tempestade. Tantos medos nos devoram Gente subalimentada! Os carrascos por quem choram? Talvez por um quase-nada! Lisboa. Gota d’orvalho é dilúvio.Os Carrascos também Choram Não quando as rosas demoram Ou por não se ouvir o mar: Os carrascos também choram Todos temos de chorar! Se cantam galos n’aurora É só porque tem que ser E se o dia chega à hora Nem sempre é amanhecer… Levas garrotes nos braços Quando segues de mãos postas. Qualquer deserto é alfombra. 23 de Setembro de 1989 262 . O carrasco até tem medo De pisar a própria sombra… Sonhas gestos de carinho Ao apertar o baraço.

Ciclo Infernal Outono-Inverno de 1989 .

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A explosão da manhã. Gargalhadas aos histriões! Londres. Janela semi-aberta Para a terra prometida… Foram os sonhos d’infância.Fundo da Garrafa ou Robinson e Sexta-Feira Jerusalém ou deserto: O embaraço da escolha? Ou livro semiaberto Sem se saber em que folha! Promessas de cinco cravos Sonhos de ressurreição… Romagem de desagravos: O recurso à confissão. Mais os anéis de Saturno Em volta duma avelã… Viver à nossa maneira De cumprir nossas missões: Dar o choro à carpideira. Latitude a sudoeste E qualquer meridiano E a pele que um homem veste Tem o fim de qualquer pano… Há o silêncio nocturno. Há uma ilha deserta No horizonte sumida. Em letra corrida e safa D’infantil caligrafia. As praias desabitadas Que devolvem a distância Das noites tão consteladas… Bem no fundo da garrafa A ilha sem geografia. Robinson é o que é: Solidão por companheira. Mas por vezes a maré Traz o nosso Sexta-Feira. 18 de Outubro de 1989 265 .

são tribos. Os cantos das aves são as homilías. famílias… O choro alimenta a raiz dos cedros Dos que vão saindo debaixo das tílias… Londres. 20 de Outubro de 1989 266 . debaixo das tílias. Debaixo do céu — de que somos servos. É sulco na terra? Cicatriz na cara? Relógio de sol: o meio-dia avança Onde alastra a sombra o tempo não pára… Os cubos de sal mais os poliedros. Debaixo dos cedros. electrões. debaixo das ervas. O Templo de Deus é nas nossas casas. Debaixo da vida. debaixo dos cedros. Iões.O Choro e o Riso Debaixo das tílias. Raízes aéreas são as nossas asas! Debaixo das folhas a sombra descansa. Como dele são as estrelas as servas… — Desdobram a vida as estátuas jacentes Nos gestos esboçados de quem já partiu. Os choros e risos são afluentes Em margens opostas deste mesmo rio.

Alvejo bem. Eu prefiro a Lua Nova Ou o Quarto Minguante… Só não quero a Lua Cheia Que as raízes das videiras Ao espreguiçarem na areia Parecem mulheres inteiras… Também o Quarto-Crescente Ao fazer as luas curvas Faz-me pensar qu’anda gente Em volta das minhas uvas! Carrego balas de sal — Não fosse eu guarda da vinha! — Seja vulto ou animal Mato tudo o que caminha… Mato tudo sem motivo Só me basta disparar. talvez fira… Como a vida cabe dentro De qualquer ponto de mira! Caça grossa ou indefesa É tudo o mesmo retrato. É legítima defesa Que me cabe por contrato! Mato tudo o que estremece. 31 de Outubro de 1989 267 . Até o sangue me pára Eu sou estátua no momento: Quando meto a arma à cara À espera dum movimento. bem no centro. Não é a forma da Espécie Que dá outro nome ao crime! Londres.Guarda da Vinha Todos os sons são diferentes A quem os traz bem escutados: O rastejar das serpentes Não me enche de cuidados… Meio corpo dentro da cova Olhando a noite distante. Nem a noite me redime. Se não matar. Para mim é tudo caça… Queimo o último cartucho! Aves feridas. Pé firme: espero quem passa Atrás dum muro ou dum buxo. Como caçador furtivo Que mata só por matar. Quem faz as leis e os lemas Também gosta de caçar. sangue. penas: — Se há alguém a disparar.

Que banquete de vingança Há nos véus de Salomé… Mas seja lá o que seja Toda a morte é natural.Cela da Morte A morte vinda na dança Não deixa ser o que é. Chega o dia da matança: Nem sai veneno dos frascos Pois que hoje a morte avança Pelos dedos dos carrascos… E a última vontade… O cigarro derradeiro… Nunca houve tanta bondade No olhar do carcereiro… Tudo o que é bom nos acena Em medonho ritual! Só por isto vale a pena Ter a Pena Capital! Londres. 8 de Novembro de 1989 268 . — É cabeça na bandeja Por um capricho real… — Os tribunais e os foros São tudo jogo da Bolsa: Rebenta a pele pelos poros Tentar sorte sem ter força! Quem está na Cela da Morte Não tem olhos estremunhados E não há fala que corte O silêncio aos condenados.

abandono. Sementes que os tempos dão… Para o ano outro Outono P’ra quem sobrar dos que irão… Todo o cão procura o dono Farejando a solidão. O gigante e o gnomo Mesma altura medirão Se em quatro tábuas d’Outono Lhes talharem o caixão… As raízes no Outono Têm calor do Verão. 8 de Novembro de 1989 269 . despe Outono Seu fato fim-de-estação… Nasce Cristo sem Outono. Mandamentos? Um ao nono — O décimo é conclusão —. Às vezes por sugestão. Às vezes não é do sono Os sonhos que aos olhos dão. Pobres ramos. Os troncos são o que são… Não há frutos no Outono.Escorpião Fecham-se os olhos de sono. Morre Jesus sem Verão: C’roas d’espinhos sem trono São os degraus da Paixão. Folha a folha despe Outono Seu fato fim-de-estação. Londres. Folha a folha.

Oásis O lençol é o luar desprevenido. 17 de Novembro de 1989 270 . O deserto tem colinas e tem verde E nascem-me flores no meio das pedras! Londres. Semicaído aos pés da nossa cama. Mas pode o coração bater-me certo Quando do trilho certo eu me afasto! O norte dos teus olhos não me perde: O rumo vem em tudo o que segredas. Teu corpo é o deserto que me chama. Oásis! No teu ventre descoberto Na sede que as pegadas dão ao rasto. Meus olhos são apenas teu vestido.

As chuvas que ameaçam não chegar Nas asas das aves que se ferirem Por dedos que não sabem disparar. Os lagos que ao sol por fim secarem Reflectem os meus sonhos de castelos. Quero as rosas que nunca florirem. se por acaso me mentirem Que preço do silêncio vou pagar! Quero ir onde os rios não conseguirem E às praias que a maré nunca alcançar. Às estrelas que os vindouros descobrirem No céu que muda tudo de lugar. nos teus cabelos. O galope dos cavalos indomáveis Nos prados que as manhãs enchem de cheiros. Porém. Os gestos de loucura incontroláveis Que o vento dá aos ramos dos pinheiros! Os lírios que de branco não murcharem Serão orvalho. anéis. 271 . Quero ir pelos caminhos que me derem Um som melhor aos passos.Passos Perdidos Quero ir onde os rios não conseguirem E às praias que a maré nunca alcançar. Se ao eco dos meus passos responderem As dúvidas que trago nos sentidos. tão perdidos.

As luas que há em Marte e em Urano: Também a gota de água e de suor Que no deserto é sempre um oceano… Londres. 17 de Novembro de 1989 272 .Além de querer o céu. Ursa Maior.

21 de Novembro de 1989 273 . em cada mão — Uns dizem-No depois ressuscitado. dizem que não… Porém. a sorrir.Missa do Galo Aceita sempre tudo o que for dado — É dado adquirido da razão… — As rosas que servirem ao noivado Também à campa rasa servirão… Por menos foi Jesus crucificado — Um cravo. sorrir não foi nem é pecado: Assiste a cada qual a solução… É morto Cristo em cruz? Ou libertado? Natal é Sexta-Feira de Paixão… Londres. bem cravado. Os outros.

Sei de cor a cor do mar.Fontes Salgadas Caem dentes das gengivas… O cabelo da cabeça… Mas vou sonhando as ogivas Onde Cristo me apareça. Já tive melhor ouvido. Londres. Já tenho rugas na cara. Mas ao vento na seara Dou hoje melhor sentido… Apurei o paladar. Olho melhor os pedintes. Ando mais ao deus-dará. A três passos do abismo? Cortando a linha da meta? Eu sinto o sal do Baptismo Mas não sei por que profeta… Recorro a Deus e aos Santos. Mas sinto-me acompanhado. Melhorei os meus requintes. Alguém me irá responder? Sou como rato sem cantos De casa p’ra me esconder… Sou peixe dentro da rede De traineiras afundadas. Sou como o escravo da sede Que só tem fontes salgadas. 24 de Novembro de 1989 274 . Alguém por mim contará O que me traz confortado? Estou na idade em que Deus Vai exercendo os direitos… Sei de cor a cor dos céus De os olhar dos parapeitos.

É Dom Quixote e o Sancho Comandando a Companhia. Aos toques do clarim: O primeiro na parada… Alguém chamava por mim Do «Silêncio» à «Alvorada»! Noites e noites na ronda Sob uma Lua amarela. Seguindo um velho conselho — Para evitar o percalço — Fiz do calçado o meu espelho Em tropa de pé descalço. vale a pena O vale que em mim se cavou! Londres. A minha cama era a farda E o corpo era o colchão… É do tempo das cavernas Esse sono primitivo De quem dorme nas casernas Por não ter outro motivo. Sapatos de polimento: As botas cheias de graxa. Dormi na Casa da Guarda. Porta d’Armas: o começo Da minha peregrinação… Tanto há que desconheço Do que foi o batalhão… Há alguém que em mim condena O que nunca desertou? Entre o não vale. Humidade pelo chão. Em noite tinta-da-china Papel de lustro carmim… Como em alto dum zimbório Mas sem a cidade aos pés Fui militar provisório Mas de mochila em viés… Regimento em regimento Levei a guia de marcha. Pisado por toda a gente — O recruta em «arvorado» Já se julgava Tenente! — Pântano: caldo do rancho Onde a comida cabia. 25 de Novembro de 1989 275 . Haverá voz que responda Aos gritos da sentinela? Era o Sargento-Ajudante O meu degrau anterior Na escadaria rolante De Inferior a Superior… Primeiro degrau: o soldado.Miliciano Oficial e faxina! Tudo fizeram de mim.

— No denso vapor Derrete a vontade Dentro do calor Cheio d’humidade. Que Babel tamanha De todo o sotaque A Guerra de Espanha Com mouros a saque. Sangue em bandarilha E touros do Lorca. 276 . O Queipo em Sevilha Bretanos: Maiorca. É a vista baça De peixes nas redes. Goteja em chuveiro Mas só por momentos. Tudo em movimento Cavalos-vapor. Moinhos de vento Moendo o suor… Naufrágio sem bóia Longe a salvação: A Espanha de Goya Vem na serração. Escorrem paredes. Como caso assente Há muito estudado: O teu corpo ausente Vem para o meu lado. Um morto e um ferido Já em comunhão E mais Santo Isidro De estoque na mão… A ninguém: asilo Ou portas abertas! Pobre São Camilo: Igrejas desertas… Desce a neblina Sobre o corpo inerte. Goteja a vidraça. Penso em São Camilo E em Santo Isidro — E margens do Nilo Na porta de vidro. A névoa adivinha Outra transparência: É cor da farinha Sem ter consistência. Mineiros em mina De grisu que verte? É um carrossel Vapor a rodar… Vejo a tua pele Sem ela aqui estar.Banho Turco Tortura de Tântalo O calor previne… É névoa de pântano O ar da cabine… Noite e nevoeiro E mil pensamentos.

Nave angelicana Com ninhos de pombas E raça ariana Debaixo das bombas! Frases calcinadas Quem as desenhou? Palavras queimadas D’alguém que falou! É luz que já foi — De estrela. São mais de cem graus Não há ar queimado.É clepsidra Gotas de suor Os olhos da Hidra Olhando em redor: Remexe-se o tempo Como em caldeirão De bruxo. Noite e nevoeiro P’ra Raça danada. Pintura rupestre De traços tão vagos. Noite de Cristal: Ardem sinagogas! É névoa dos portos Que só dão degredos. Papel vegetal E romanas togas. Seis milhões de mortos Contados pelos dedos. É calor silvestre. decerto —: O olho-de-boi Aceso no tecto! Londres. Tendo por telheiro Uma cruz gamada! Filhos d’Israel Mas sem Mar Vermelho Aberto em túnel Por Judeu mais velho! Corpos ilusórios Marcados a giz. que ao vento Amassasse o pão… Escada sem degraus Plano inclinado. 27 de Novembro de 1989 277 . Silêncio dos lagos. Fornos crematórios De monstros nazis.

1 de Dezembro de 1989 278 . Pedro o monarca Pelo qual me bateria. Arcabuz fora da arca E artes de montaria… O medo antes da carga — Como não fosse verdade — Fosse a vida mais amarga Mas sobrasse a liberdade! Caçador fora da linha Sem esperar qu’a ordem parta: A dar vivas à Rainha Que tinha jurado a Carta! Como coração que sangra Pela veia mais aberta: Eu teria vindo d’Angra Ao relento na coberta… Mas não terminava o dia.Século Dezanove Eu seria do Mindelo Estaria dentro do Cerco. A sede por pesadelo. Trincheira: monte de esterco! Era D. Pois há Maria da Fonte… Às vezes a tirania Não acaba em Évoramonte… Fim ao tempo d’imigrado Mas vida por um cabelo… Todo o sonho é conquistado Em areais de Mindelo! Londres.

no entanto.Missa Cantada Depois da missa cantada Só o silêncio responde… Qual a chave da charada Onde a Fé tão bem se esconde? Precipícios e vielas E também ruas fechadas. Assistindo por direito À troca d’identidade Mais ao gosto do seu jeito… Como sinal de nascença Cada um bem definido: Fosse a Fé a recompensa Como um bem. Há tanto que se esconder: Um Demónio que foi Santo De tanto se arrepender… Crer em Deus só por receio Pode ser uma atitude: Diabo cortado ao meio Talvez a nossa virtude! Cada um. 10 de Dezembro de 1989 279 . Londres. mas não sei onde. sua metade. Mas no céu respondem estrelas Às janelas escancaradas! Dentro de nós. bem conseguido… É como a noite cerrada: Aos ralos ninguém responde… Depois da missa escutada Vejo Deus.

Palavras. porém. Considerando o ponto de partida: A Estrela de Natal é Ocidente! A noite da procura é sempre fria. Londres.Estrela de Belém De macadame ou de terra batida. Cada um tem a estrada à sua frente. 13 de Dezembro de 1989 280 . dialecto desolado. é outra geografia Atalhos ao Presépio dão Calvário… As estrelas são mensagens desiguais. Não interessam os pontos cardeais Se dizem que Deus nasce nalgum lado. A luz da Lua é Sol visto ao contrário… Belém.

Erosão Os braços são iguais. Teus dentes batem bem contra os meus dentes. Foi como pântano o colchão de arame. mas mais brancos. Cascavéis venenosas e mordentes Que ora se repelem ou se encostam! Os olhos tão iguais ao que eram dantes São sementes dos frutos que colhemos. Os lábios são os mesmos. Que rugas que puseram no teu rosto. Talvez seja polar o frio de agora No espasmo que ficou desta batalha… Os santos somos nós ou estão lá fora Na pele feita de pedra ou de talha! 281 . Ó noite toda feita de lanternas De abismos que cavei nos teus flancos. É rasto que ficou das caravanas… A sede é a saliva que sem gosto Lembra o mar de sargaços e savanas. As mesmas pernas. Náufragos que se julgam navegantes À força destes braços serem remos. Terreno das areias movediças… Mas pobre do jogral que nunca ame Num castelo sem pontes levadiças. As línguas: duas cobras que se enroscam.

Nascemos com o mar na nossa frente. Parede toda feita de azulejos! Londres. A cama é a jangada dos desejos… O sonho para nós foi: continente. 13 de Dezembro de 1989 282 .

Raio Verde Nos sonhos te refaço em bocados Pacientemente. Lastro tão preciso e desprezado Balão a prometer-nos o Raio Verde. Deitando fora a vida que se perde. empedernidos Os corações que deixam de bater… Em sonhos te refaço quando acordo. assim o sono ordena. Que memórias e noites visitadas! Porém. 13 de Dezembro de 1989 283 . Se outrora percebi significados Nem ao de leve sei quem hoje acena… Incógnita é dormir sem estar cansado. o pó do chão só eu o mordo Para no sonho não deixar pegadas! Londres. De quem será a mão que mal me guia? Se o vento está lá fora não estremeço Como folha d’Outono em ventania… Que mistério nos quer adormecidos Ainda em vida e tanto por viver? Conta-gotas de sangue. Nos sonhos te refaço se adormeço.

Ai! Arena. O polegar levantado Não acaba a escravatura. O calor é calafrio. Sem qualquer alternativa! Se a morte passou ao lado: Não mudamos de figura. tinta-da-china Sobre a neve de marfim… Viver não passa de teima Se o polegar for de Nero Na arena que tudo queima: Vidas abaixo de zero… O olhar do legionário É espada que corta a fio. 21 de Dezembro de 1989 284 . Tudo é adiamento E nem o Nero sabia! É como a noite de vento Que a manhã não prometia… O polegar para cima Às vezes não é o fim… É fumo. Por vezes: passo pesado Outras vezes ao de leve… Abafa a voz no Senado Aos Tribunos da Plebe… Dita a lei que não quer lei Do Tempo sempre a correr — Quantas vezes me queimei Só de pensar em morrer? — O que o corpo traz impresso É a alma em carne viva. sem regresso. Se os graus estão ao contrário.Pão e Circo É álcool em serpentina Numa espécie de sem-fim… É fumo. tinta-da-china Sobre os corpos de marfim… Londres. A morte é sempre gelada — Como o olhar dos guerreiros — Passa a vida a fio de espada P’ra não fazer prisioneiros.

Se quebrares este silêncio Que se fecha em meu redor. Catedral feita mesquita Conforme a posse do chão… Fica Alá no meio dos arcos Traçados a Ocidente. Macedónia Mais tudo o que a terra sabe. queimo incenso E passos no corredor… O Farol de Alexandria Só ligava luz e treva. Queimo mirra. Pois nem sempre os mesmos barcos Carregam a mesma gente… O Labirinto de Creta A ninguém deu a saída. Quem viu suor viu o Nilo E escravos em formigueiros — E também Vénus de Milo ’Inda de braços inteiros! Como touro tresmalhado Sempre com morte na frente: Esta angústia do Passado Anda no Tempo Presente.Estreito de Corinto Deito-te fumo nos olhos. Tinha cor cinzenta e fria Como os dias em que neva. Sempre que penso em Cartago A memória meço aos palmos… O teu silêncio é tão vago Feito de ventos e salmos. 285 . Tinha uma porta secreta Dentro dum poço caída Como o tirano decreta: Dava a morte de seguida… O teu vulto é pormenor De vitral semipartido Vindo da Ásia Menor De culto desconhecido… Imagem desaparecida No desvão dalgum mosteiro Mas figura conhecida Retrato de corpo inteiro. Sem sabor a nicotina. Teu rosto lembra-me ícones Duma igreja bizantina… A Fé é de quem nos dita Os termos da opressão. A memória é uma insónia Onde só silêncio cabe. Antioquia.

À beira dum precipício Os homens não são diferentes… Partem-se os lemes. Vitórias de Samotrácias Que se deixam desterrar! No mapa do esquecimento Há muralhas de cidades… Outrora já foi momento Que se perdeu nas idades! Meu solstício de Junho Rasga estreitos em Corinto… Meus poemas em rascunho Nunca passados a limpo. Um judeu circuncidado Bem depois de Salomão. Caravana levantina Com camelos carregados E estrelas de purpurina Mostram caminhos sagrados. 29 de Dezembro de 1989 286 . Há tantas lousas partidas Que já nem deixam recados. Como por ferro queimado. vinhos nas ânforas Com a morte a transbordar. Deusas de pedra vestidas Pela nudez dos pecados. Em denúncia à condição.Animal de sacrifício Preso à ara por correntes. Derrama perfume o frasco Ou bebida envenenada? Curva em Estrada de Damasco Pode ser uma emboscada. Londres. as âncoras Procuram terra no mar. Azeites. Temos sorte das acácias: De nascer e de murchar.

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 de Verdade 11 12 13 14 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 .Índice Calendário Mergulho no Passado  Faca Também de noite Os Rios Correm Inteiros  Calatrava Vão-se As Águas sem Canção  Noite À Poesia  Na Morte da Avó Adelaide Zero Ressaca À Maneira de Dom Dinis Pã no Seu Tempo Pastoral do Ano 2000 Na Guerra do Roussilhão Cana Verde.

 Rosæ… 5 —Siderurgia  Judas Portugal 1976 Solstício de Verão Ramsés o Grande Amor-Perfeito Trás-os-Montes Ronda da Noite Canção Estival Emilio Salgari Véspera de Natal Espanha 1978 27 28 29 30 31 35 36 37 38 39 41 42 43 44 45 46 47 48 49 51 52 .Teatro Amador Mão Fechada Melaço Van Gogh Amor em Dia de Chuva Escavação 1 — A caminho de Pompeia 2 — Ponte dos Suspiros 3 — Os Vidreiros de Murano 4 — Rosa.

Cassiopeia 1 — Inferno 2 — Purgatório 3 — Céu Poder Secular 1 — Camões 2 —Fernando Pessoa 3 — Cesário Certidão de Nascimento «Post Scriptum» Contra-Relógio Mina de Sal Nível de Água Cozido à Portuguesa Kremlin Roleta Russa Gelo Auto-Retrato Visitas Proibidas 57 58 59 63 64 65 67 68 69 70 71 72 73 74 75 76 77 .

Integração do Átomo 1 — Monte de Tabor 2 — Cassiopeia 3 — A Meia-Nau 4 — Átomo Cavalo da Acrópole Tempo de Silêncio Telex a Lech Walesa Acordar em Hotel Saudação a Enrico Berlinguer Passagem de Nível sem Guarda Nome Próprio Feminino 1 — Camões 2 — Jau 3 — Natércia São Paulo Algarve 1982 Cega-Rega Marroquina  O Luar é Azulado Este Ano em Jerusalém 81 82 83 84 87 88 89 90 91 92 95 96 97 99 100 101 102 103 .

 Tantos de Tal Audição Única Circus Maximus 1 — Dança do Escalpe 2 — Terra de Siena 3 — Pedra de Carrara Obsessão Uma Gota de Sangue Queda do Império dos Romanos 104 105 106 107 108 109 110 111 112 113 114 115 116 117 121 122 123 125 126 127 .Latifúndio  Última Caçada Velhas Casas Cor-de-Rosa Poema em Construção Os Insectos e os Outros Lápides Apagadas Ex-Libris Auto-Retrato Última Tentação Tocata e Fuga Outro Natal Via Appia Marvão.

Domingo de Ramos Nicarágua João Sem Terra Branco e Negro Sândalo Noite e Nevoeiro Santo Sepulcro Tântalo Outrora o Natal Fermentação Nebulosa em Espiral 1 — O Túmulo e a Rosa i — A Neve e o Mar ii — O Túmulo e a Rosa iii — O Sal e o Açúcar 2 — Os Mundos Exaustos iv — As Estrelas Assassinas v — Prece vi — O Pão e a Pedra 3 — Juízo final Fechado para Obras (Poéticas)

129 130 131 132 133 134 135 136 137 138

141 142 143 144 145 146 147 151

A Noite dos Degolados Ponto Negro Deus no Confessionário Livro das Horas Conta Errada Gaivota Colóquio dos Simples Multidão Abstenção 28 de Maio de 1926 – Verão Quente de 1975 Miradouro Sessões Contínuas Cal Viva «O Tempo Está Próximo» Chegada Fado Amália 18 de Julho de 1936, Dia de São Camilo Passe a Palavra Os Robinsons do Espaço Véspera Veneziana 1 — Constante 2 — Aquário

152 153 154 155 157 158 159 160 161 162 163 164 165 166 167 168 169 170 171

175 176

3 — Fresco 4 — Lucros e Perdas 5 — Homo Faber Insónia Cesário a Corpo Inteiro Os Ralos do Relento Passagem do Ano Profanação Quarta-Feira de Cinzas Fechadura Yale Incógnita Cofre de Segredo Cotação do Dia O Beijo de Judas Ofícios Esquecidos Papel-Moeda Ração de Combate Bicho-de-Conta As Torres do Silêncio As Torres do Silêncio Índia

177 178 179 181 182 184 186 187 188 189 192 193 194 195 196 197 211 212

215 216

Taj Mahal Khajuraho Fumos da Índia Nas Margens do Ganges Entardecer no Ganges O Medo Numa Aldeia do Nepal Pôr de Sol nos Himalaias O Palácio das Monções A Poesia Fortaleza dos Reis Magos As Formigas na Neve Embalagem Perdida Trinta Dinheiros Duplo Almocreve das Palavras Divisão das Espécies Navegação Nocturna London Sight-Seeing Perdido por Cem Ursa Maior Estrada de Damasco Veneno

217 218 219 220 221 222 223 224 225 226 228 229 232 234 236 238 239 241 242 243 244 245 246

Dizer por Dizer A Última Caçada Lente de Aumentar Tecelões Soldadinhos de Chumbo Relógio de Água Caracteres Ilegíveis Jantar de Família Peregrino Acidental Marasmo Os Carrascos também Choram Ciclo Infernal Fundo da Garrafa ou Robinson e Sexta-Feira O Choro e o Riso Guarda da Vinha Cela da Morte Escorpião Oásis Passos Perdidos Missa do Galo Fontes Salgadas Miliciano

247 248 251 252 253 255 256 257 259 261 262

265 266 267 268 269 270 271 273 274 275

Banho Turco Século Dezanove Missa Cantada Estrela de Belém Erosão Raio Verde Pão e Circo Estreito de Corinto

276 278 279 280 281 283 284 285

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a sua actividade de jornalista e de gestor de órgãos da imprensa. e nos fascículos 19/20. no jornal O Século.Nascido em Lisboa a 6 de Abril de 1930. tendo depois iniciado. a AZ-Olivais e a AZBom Sucesso. de 1976 a 1992. o segundo prémio do concurso Fernando Pessoa organizado pela Editorial Ática. Como Henrique Segurado. com o nome de Henrique Jorge. foi. revista dirigida por António Manuel Couto Viana. Estreou-se como poeta em Março de 1951 no jornal Rivages — edição dos alunos do liceu Francês de Lisboa —. em Távola Redonda (no fascículo 15. de Dezembro de 1952. a Castil-América. com um livro que nunca chegou a ser publicado. Asa de Mosca conquistou. 1953). a Castil-Benfica. Galeria Panorama. Emigrantes do Céu (Lisboa. Ática. onde desempenhou funções de administrador. Henrique Segurado. Edições Távola Redonda. recebeu ainda uma referência especial do júri que a Livraria Galaica do Porto constituiu para um concurso de poesia. [1970]). ainda como Henrique Jorge. deu à estampa Asa de Mosca (Lisboa. ex-aequo com António Ramos Rosa. em 1956. Dança do Escalpe. No mesmo ano. 1960) e Ressentimento Dum Ocidental (Alfragide. com quatro poemas. Henrique Jorge Segurado Pavão frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa. com dois poemas) e no primeiro número de Graal (Abril-Maio de 1956). 301 . tendo posteriormente colaborado. seguindo-se-lhe a CastilAlvalade. Em 1976 abriu a livraria Castil-Castilho. Publicou. no Porto (as duas últimas em colaboração com o grupo Valentim de Carvalho). um dos jornalistas societários de O Jornal. Em 1959. de Julho de 1954.

Lisboa. organização de David Mourão-Ferreira. 100 Anos Federico García Lorca: Homenagem dos Poetas Portugueses.. 1993. Editorial Campo das Letras. Diário de Lisboa.Tem colaboração dispersa em jornais e revistas como O Século. Porto. 1971. Lisboa. Lisboa. Está representado nas seguintes antologias: Poesia Portuguesa do Pós-Guerra: 1945-1965. Círculo de Leitores.L. 302 . organização e apresentação de José Fanha. Jornal de Letras. Editorial Inova. 1998. Portugal: A Terra e o Homem: Antologia de Textos de Escritores do Século XX. [1978]. 2004. O Tejo e a Margem Sul na Poesia Portuguesa. organização de Luiz Forjaz Trigueiros. Artes e Ideias e Colóquio/Letras. Seixal. Fundação Calouste Gulbenkian. organização de Egito Gonçalves e Manuel Alberto Valente. Natal na Poesia Portuguesa. 1965. J. Jornal de Letras e Artes. Ulisseia. Lisboa. 800 Anos de Poesia Portuguesa. 1973. Porto. Gazeta Musical e de Todas as Artes. Lisboa. coordenação de Ulisses Duarte. organização de Afonso Cautela e Serafim Ferreira. Câmara Municipal do Seixal. República. Universitária. Poesia/70. Dinalivro. De Palavra em punho — Antologia Poética da Resistência.1987.