Henrique Segurado

Almocreve das Palavras

© Henrique Segurado e Rui Sanches Edição organizada por Joana Morais Varela Composição de Vasco Rosa Revisão de Luis Manuel Gaspar Fotografia do Autor por Raul Neves Lourenço Impressão e acabamento de Guide – Artes Gráficas isbn: 1234567890 Depósito legal: 320 980/10

Henrique Segurado

Almocreve das Palavras
Poesia 1969-1989
Desenhos de Rui Sanches

lisboa, 2010

Henrique Segurado à porta da casa onde nasceu.

Para a minha Filha Joana que se antecedeu à publicação deste livro que lhe pertence inteiramente… Com um beijo e a saudade do Pai. .

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voluntariamente discreta pelas longos intervalos que têm caracterizado o aparecimento das suas obras. tendo sabido conferir a uma e outra o halo renovador de uma perspectiva actualizante. já por um sentido muito agudo do aproveitamento da tradição em termos de modernidade. Além do amor. de originalidade não menos surpreendente. variadas composições que devem considerar-se como das mais nobremente marcadas por um desassombrado espírito de protesto e de resistência. nos tempos do salazarismo. no entanto. muito em especial pela redondilha — tanto pela do romanceiro como pela das «profecias» do Bandarra —. na sua obra. uma nítida preferência pelos metros tradicionais. manifesta-se. que constitui um dos seus temas constantes. é sobretudo uma interpretação crítico-lírica da sociedade e da história portuguesas o que mais amiúde o empolga. Quanto à forma. havendo escrito. David Mourão-Ferreira . é. e embora utilizando não raro o verso livre. das mais pessoais dentro da geração de Cinquenta.A voz de Henrique Segurado. já por uma exuberância imagística que frequentemente alterna com um pendor lapidar ou epigramático.

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Calendário Nem me lembro De Dezembro E chegamos a Janeiro. Entra Março E disfarço os percalços de Fevereiro. 8 de Novembro de 1969 11 . Julho Há entulho Onde outrora havia areia Vem Agosto Cheira a mosto Já Setembro s’incendeia. Flores de Abril Num fuzil Devolvendo a Primavera… Chega Maio Mês lacaio Do trovão que não se espera. Junho. Resta Outubro E descubro Um Outono que chegou… Cai Novembro Vem Dezembro Mal o ano começou! Lisboa.

Sem perceber o sentido — É por isso que se canta — Lá fui de braço estendido Libertar a «Terra Santa»! Era caqui amarelo A minha calça subida E fiz parte dum «castelo» Que desfilou na Avenida. Das coisas sem importância Que se passaram comigo. Eu tinha um dois no bivaque E camisa de azevinho. 6 de Maio de 1970 12 . O corpo reconhecido Se gritavam: «à vontade!» Nestas escavações d’infância Que testemunhos consigo. Tanta coisa se passou Sem eu ter que perceber. Em qualquer ponto da quina Sem ter lugar definido. Andavam mouros a saque No país nosso vizinho… Lisboa. Onde está quem me fardou P’ra hoje me responder? Eu tinha um dois no bivaque E camisa de azevinho. Fiz por cumprir minha sina: Soldado desconhecido… Havia um S no cinto Uma espécie de serpente Era dum vulto indistinto Que mandava em toda a gente! Se ordenavam: «sentido!» Morria toda a cidade.Mergulho no Passado Andavam mouros a saque No país nosso vizinho.

Grande coutada da morte Em que nós somos a caça. Retalhasse num só corte O sono que é só mordaça. Rasgasse bem as nascentes Nesses rios que somos nós. Mas que fora de calar Que cortasse a própria faca Em que me quero cortar! Lisboa. 5 de Novembro de 1970 13 .Faca Cortasse o vento que invade Este quadro secular Que teimam chamar cidade Por ser tudo tão vulgar… Que cortasse o coração — Onde teimas estar presente — Esse «Diário-Razão» Da nossa conta-corrente. Uns dos outros afluentes Vendo o fim na mesma foz! Cortasse o que se destaca.

Também de noite Os Rios Correm Inteiros Palavras. Não quero o tempo de quem vai morrer. sem pontos finais. Também de noite os rios correm inteiros. fazem ninhos nos tinteiros. No tronco dos dias gravo um coração Que depois de mim inda irá bater. Em letra corrida. Não quero o tempo de quem vai morrer. No muro que somos — sem o perceber! — A morte afixa os seus editais. Mas voam se as soubermos escrever. Por não ter aceite a desproporção Entre Tempo e tempo de quem vai morrer! Lisboa. 10 de Dezembro de 1970 14 .

Só eu sei. definida: Mas não me fales mais de Calatrava Que o Tempo tudo muda de medida. 20 de Janeiro de 1972 15 . Não me fales assim de Calatrava: Os sarracenos foram de partida. Pela dama que queremos ofendida. Não me fales assim de Calatrava Que à lança moldou gente convertida. É pondo palavra sobre palavra Que temos a poesia construída. Lisboa. Tão rente ao Guadiana.Calatrava Poema feito duma só palavra Talvez dê a ideia pretendida. canção. É um poema terra. que te encontrava No meio desta noite. Não me fales assim de Calatrava. Não me fales assim de Calatrava Que a História já deixou desguarnecida. A poesia é luta que se trava. que se lavra Que o povo quer depois distribuída. adormecida.

Vão-se as águas sem canção E nós vamos na corrente… Lisboa. Riscando a face do espelho Que nem o sol de Verão Consegue pôr mais vermelho! Em perpétua confusão Mistura a foz na nascente. Escava um leito impenetrável Fechado à navegação. 12 de Maio de 1972 16 .Vão-se As Águas sem Canção Grande rio: o coração A morte por afluente… Vão-se as águas sem canção Se nós vamos na corrente. É um rio subterrâneo (À vista só se pressente) Num reino subcutâneo Da nossa estátua jacente… Vão-se os seixos da razão. Longamente navegável P’las barcas da sugestão.

Noite Surges maleável Mas depois compacta. És um golpe baixo És morte adiada! Lisboa. Derradeiro trunfo Dos desesperados. És peso de culpa Assim és justiça! És o trigo e joio. És rio e riacho. Arco de triunfo Nos olhos fechados. Não há quem te esculpa A forma mortiça. Graças e ofensas. Sendo tudo és nada. Como submetes A nossa humildade E como repetes A tua vontade! Já ontem vieste Já hoje chegaste… O que nos disseste? Nada há que te gaste? És tão pontual. És ponto de apoio De pontes suspensas. 2 de Janeiro de 1972 17 . Manto transbordável Mas tão natural Como indecifrável. És impenetrável Assim és exacta.

À Poesia É tanta a vez que em ti me reconheço Que és bem minha ascensão e minha queda Não fosse a alma a vida do avesso: Ou morte e vida. 16 de Setembro de 1973 18 . os cunhos da moeda… Pode a bala errar a trajectória Já foi crime o gatilho em movimento… Se te quero bem inteira na memória Porque te mato tanto em pensamento? De certo além da vida tu acenas… Assim não tenho medo de morrer. Por isso dia a dia me envenenas Na água que preciso de beber! Lisboa.

Na Morte da Avó Adelaide A minha última avó Morreu No dia em que o primeiro Homem Partiu para a Lua. Qual dos dois teve razão Para deixar a Terra Neste dia? Lisboa. 27 de Janeiro de 1973 19 .

É a sede de distância Dalgum compasso indomável… Formato da nossa pele Onde o tempo não demora. É curva de circunferência Que se acaba de fechar… Linha curva.Zero É número sem descendência Que não se pode contar. Um destino indecifrável. 30 de Janeiro de 1974 20 . intolerância. É apenas um anel: Nada por dentro e por fora… Lisboa.

Ressaca Este soluço adiado É que me dá equilíbrio: É ter-me desencontrado No local do suicídio. Este sorriso é espartilho Que não me deixa chorar. É entre o não basta e o basta Que se limita a loucura. 2 de Fevereiro de 1974 21 . A vontade de chorar Que passo p’ro outro dia… É punhal que me desbasta Sem me tirar a figura. Como uma bilha vazia. É tão fácil de levar. Mas o choro não resolve O que em mim não tem motivo: Sou o mar que se devolve À onda que o traz cativo. Uma espécie de rastilho Sem nunca se incendiar. Lisboa.

primeiro… — 22 . Morna voz de cantor medieval Que o fogo da fogueira foi queimando… Que medo que trazia a madrugada Ao chegar nas visitas do diabo: Numa gota de rosa. Corpo nu em frente dum ribeiro. no entanto. medonho e natural Como Inverno ao morrer em Primavera! Lisboa. Comendo o pouco pão do meu bornal — Fazendo. Trento ou na Gasconha Tanta estrada na minha solidão! Ai! tanta Lua Nova que perdi Ao dedilhar nas cordas um afago… Se andava alguém comigo nem o vi: Tanto o pó na Estrada de Santiago! Quero-te em maneira provençal Na barbacã mais alta à minha espera… Tudo simples. amor. sem vergonha Do que disser o bobo da canção… Em Compostela. Quero eu em maneira provença Lembrar a escuridão quando nasci. Apesar duma lua pontual No mesmo céu igual que conheci.À Maneira de Dom Dinis (Quer’eu en maneira de Proençal ) Quero eu em maneira provençal Cantar o que em silêncio foi ficando. Jogral de corpo inteiro. orvalhada. Ou no correr mortal dalgum veado. 19 de Novembro de 1974 Quero-te em maneira provençal.

Bebe licores Da luz do prado. Lobos sangrentos: São no regato Vultos barrentos. Vento que passa Cheira a lilases Mais à couraça Dos ananases. Vende favores. Tem argonautas Nos aquários.Pã no Seu Tempo Deus dos pastores. Barro cozido: A sua face… Deus terá sido Ou foi disfarce? Lisboa. Dos tempos áureos Das Amazonas. Entre outras coisas: Sabe de mais… Come flores De esfomeado. Os seus cabelos — Além de ideias — Formam novelos De centopeias. Faunos no mato. Tem os centauros. Deus endeusado… Devora as rosas. Os laranjais. Quási sem gado. Tanto defeito. 27 de Novembro de 1974 23 . As beladonas. Mas não tem pena Pois do seu peito Há sons de avena… Toca flautas Aos sagitários.

No que dizes e desdizes Ou nas tuas mãos abertas De avalanches e deslizes… Não há fronteiras abertas Se deixa de haver países. Amesterdão. No fundo de almofarizes E nos olhos dos profetas Nos segredos das raízes… Irão parir as provetas E vão secar as varizes Na memória das gavetas Ficam nossas cicatrizes. Nas sombras mais inconcretas. Mas as horas batem certas Tanto na paz.Pastoral do Ano 2000 É nas grutas e nas gretas. 15 de Fevereiro de 1975 24 . como em crises… Não morre a cor nas paletas Nem nas penas das perdizes. Tão pouco nas violetas Ou nos frascos dos vernizes. Não interessam descobertas: Só amo a terra que pises… E nos olhos dos profetas Leio tudo o que me dizes.

Cabeça espetada em varas No prumo da rendição. Na mão de alferes mais tensa E a Guerra das Laranjas Que nos levou Olivença. Parte o navio e as amarras Lembram no cais solidão. Pelas estradas reais: Olhos nas pedras do chão Se passam oficiais Só lhes fala a guarnição… Na caruma dos pinhais Tão verde desolação. Águia: só as tuas garras Afagam o coração… Tão inúteis as fanfarras Da Guerra do Roussilhão.Na Guerra do Roussilhão Secam flores pelas jarras Como presos na prisão. Lisboa. Só te beijam os punhais Ó tropa de ocupação. Mas o peso das espingardas Faz prender os pés ao chão… Guardam alguns uns retratos Ou cartas quási apagadas Que não merecem tais tratos Mas ficam amachucadas. Inúteis como fanfarras A Guerra do Roussilhão. Soldados com duas caras Sargentos sem coração. Voz de mando ao batalhão. Tão inúteis as fanfarras Da Guerra do Roussilhão. Recusa-se intimidade Às tropas aboletadas… Bandeira rasgada em franjas. Sem agulhas de amizade: Só há camisas rasgadas. Tenentes de belas fardas. 9 de Maio de 1975 25 .

Teu corpo é vela latina Se prendo o leme aos joelhos. Flauta suspensa no vento. Beber a água da chuva Sem esperar pelo degelo Tendo apenas os meus gestos A pentear-te o cabelo… O sangue é seiva encarnada Que às vezes corre de menos. O corpo na puberdade: Vida nadando ao relento… Quando o vento se domina A calmia cria espelhos. Cana verde que te abates Nessa sombra de verdura. É por este quási nada A razão por que morremos… Linha da vida és um arco Bem maior nas mãos abertas. cana verde Ai! canção desesperada: Quanto vento em nós se perde Sem uma vela enfunada! Balaia. de Verdade Cana verde de verdade. 18 de Agosto de 1975 26 . Meus afagos calafates No teu barco de ternura.Cana Verde. O teu sorriso é um barco Que me leva às Descobertas… Cana verde.

Tudo o que conto Tem assistência… Será Deus ponto Cheio de paciência? Ou Satanás Junto à ribalta? (Tanto lhe faz Se a voz nos falta…) Se mais atento. Os projectores Ferem a vista. Tão amadores Mas tanto artista. Morrem no palco Como os actores… Ano mais ano Mal se começa: E cai o pano A meio da peça! Lisboa. 15 de Setembro de 1975 27 . Só oiço o vento A segredar… Estamos tão sós Que damos pena: Só corpo e voz A meio da cena Mal ensaiados Pelos sentidos. O pó de talco Os cobertores.Teatro Amador Nosso papel Mal decorado… A nossa pele O fato usado. Sempre a mudar-se — Como um socalco A renovar-se. Nisto pensar. Tão pateados E contraídos… Sobre este palco. Nas sementeiras Equilibradas D’uvas inteiras Como pedradas! — Nosso cordão Umbilical Recordação Bem teatral: Ele é que move Pano de Ferro Que bem se ouve Em cada berro.

Parede. (Parece terra lavrada Esta espécie de poesia…) E depois um quási nada Réstia de maré vazia. Sem destino. mal sabia Que a palma não tinha nada Quando a tua mão abria.Mão Fechada A promessa apalavrada Quem diria. 22 de Novembro de 1975 28 . Parece terra esmagada — Perfume de maresia — A areia estava queimada Pelo calor que fazia! Só na tua mão fechada A minha vida cabia. aconchegada. quem diria… A montanha escalavrada Na medonha ventania. Mal sabia.

dói. Lisboa. É o eco do combate De quem dispara primeiro. Sem saber quem em nós manda Não podemos ser heróis. Campo verde. Sem saber por quem morremos Não sabemos a verdade. Tocam sinos a rebate! Dão. dão (dói. Bispo Negro: xeque-mate Silêncio conventual… Tudo o que morre em combate É de morte natural. dói…) Sem saber por quem se luta Não se pode ser cobarde. É a luz que nos comanda No rodar dos girassóis. dão. campo verde: Tua cor é de quem ganha. 24 de Dezembro de 1975 29 . Flor da morte: flor-da-murta Ao morrer o fim da tarde. Sem saber por quem se perde Não ganhamos a batalha.Melaço Sem saber por quem se bate Não se pode ser guerreiro. No combate combatemos Contra a nossa liberdade. dói. Sem saber por quem se bate Não se pode ser herói. Coração boião de mel Melaço de solidão… O preço da nossa pele Tem tão baixa cotação. A morte avesso da vida (Que não se pode virar…) Deve ela assim ser vivida Como se respira o ar.

Os Gregos os Godos. A fome sem fama.Van Gogh Os passos dos pássaros. E nadava em nada Com a boca aberta. Prata amarelada: A praia deserta. Os danos sem dono. Desconheço Ovídio. O ramo sem rama Aberto em flor. Mas no suicídio Encontrei-os todos! Lisboa. Os cantos dos cânticos Os laços dos Lázaros Na voz dos românticos… Os lírios dos líricos. 12 de Janeiro de 1976 30 . Os passos verídicos Nas noites sem sono. Fogo sem calor.

Rufando raiva ruídos Remoques dos regimentos Que afinal nem são ouvidos Quando há fuzilamentos. É como a tarde inundasse O suor da minha pele Ou como o dia chorasse Por razões que não são dele. Só eu entendo o murmúrio Dos teus lábios que me falam De segredos do Dilúvio Onde as cidades se calam.Amor em Dia de Chuva O teu rosto sorridente — Mas chega a ser verdadeiro? — Que altura tem a vertente Na neve do travesseiro? O lençol será o leito Dum rio que está a encher No teu rosto satisfeito Por tanta água a correr? Também em água corrente — E quem sabe de verdade! — Não passa de afluente O meu corpo em liberdade. Tua boca sem mordaça Faz eco nos cobertores E lá fora na vidraça Há um rufar de tambores. Lisboa. 23 de Fevereiro de 1976 31 .

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Escavação .

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Os dedos bichos de seda.1 A caminho de Pompeia Água doce. Homens feitos de granito… Pompeia. Terra Nostra!) Tão duras recordações Quando a vida fica à mostra! Os vulcões erguem o facho Desta nossa maldição. Se a nossa vista se alarga: Vai morrer no infinito. Gastamos gostos e gestos. Se a nossa vista se alarga Vai morrer no infinito. Terra mole. Mas se estamos desnudados Nosso corpo sabe a mel. Amparando a nossa queda Quando chega a nossa hora. Água doce. 7 de Março de 1976 35 . amêndoa amarga. duro granito. Desperdiçamos carícias E depois nos nossos restos Fica de tudo notícias… Mal se fazem escavações (Mare Nostrum. Com o pão mal mastigado Pois o tempo é tão preciso… Somos bichos penteados Com fazendas sobre a pele. Tudo nos é limitado Neste nosso paraíso. Ferroadas e zumbidos Ai! tempestades de areia: As abelhas dos sentidos Fazem de nós a colmeia. Afagando tudo em roda. De nós ficarmos por baixo Do que passa a ser o chão. amêndoa amarga.

Ogivas. arcos. Iluminando O corredor Que num momento Fica menor… Cobre a distância Com sombra amena — Como a infância É tão pequena… — Veneza em roda É uma serpente Não se incomoda Com esta gente. praças. Duram os anos De toda a gente… A nada foges: Tu não sabias Que nascem Doges Todos os dias? Veneza. Pontes. Sempre há quem corte Uma conversa Até na morte Nos pedem pressa… Um Sol servil E rendilhado Relembra Abril Ao condenado. Sobre os portais Alastra em pasta A Lua a mais Já muito gasta. Dados lançados Pelo São Marcos: Venezianos.2 Ponte dos Suspiros Atrás os braços. Palácios. Só não há dunas. 10 de Março de 1976 36 . Passam os barcos. Lemes. Discretamente. Passam as gôndolas E o São Marcos Joga nas tômbolas: Todo o destino Dos condenados Que a pente fino Quer bem passados… Braços atados… Ao sol à chuva: Leões alados Leões sem juba… Frisos dourados. É rastejante Procura o mar Já é bastante Desaguar… Água em delírio E nada mais Cumpre o martírio Dos seus canais. barcaças. Dão-se os avisos Aos demorados! Os indecisos São empurrados… A extrema-unção Como garrote Desce da mão Dum sacerdote. colunas. Pulsos torcidos… Mais os baraços Mais os gemidos.

Cassiopeias… Entre canais e rochedos Nascem e morrem vidreiros. Perfumes revolucionários E também cabeças de hidra Que afogam nos aquários. Têm cadeias nos pés Que o Tempo lhes soube atar E conhecem as marés Sem terem de ver o mar… Ajudantes do Demónio. Num fim de Mundo sereno. Vasos de vinho e de cidra. Com medulas de antimónio Cospem vidro dos pulmões! Veneza. Madonas de Florença… Sopram também o Zodíaco. Têm vidraças partidas Pelo vento e pelas bombas E gaivotas confundidas Por entre bandos de pombas. Vias-Lácteas. A fauna de pesadelo. clarões.3 Os Vidreiros de Murano Passeiam junto dos fornos Com medonha indiferença. Assopram patos e cornos. Bebem vidro todo o ano Pelas taças de veneno… Esculpem Virgens bizantinas. Serpentes e serpentinas. Declive demoníaco Nas costas dalgum camelo… Os vidreiros de Murano. Pois guardam bem os segredos Como os antigos pedreiros. Centauros e centopeias. Contra-luzes. 11 de Março de 1976 37 .

os mesmos anos Na margem direita e esquerda? Nas cabeças dos romanos A pele é feita de pedra… Paris. No chegar dos companheiros A quem se acendem fogueiras… Também nos cubos de gelo — Altares abaixo de zero — Ou nos anéis do cabelo Que partem dedos ao Nero… Nas lanças das Legiões Sobre escudos em viés Ou nos dentes dos leões Na cadência das galés… Os Tribunos da Plebe. numa acácia.4 Rosa. Ou nas velas sem os ventos Que se misturam nas redes… Nas folhas dos castanheiros Ou na lixa das figueiras. Rosæ… Nas hortênsias. Na patina das paredes. Os cedros fazendo sebe Junto aos arcos abatidos… No pó das estradas reais As pegadas fazem leis. Nas sombras da acetilene. Até nos Lobos-de-Alsácia Ou num silvo de sirene… Na base dos monumentos. Tibre. 12 de Março de 1976 38 . Imperadores convertidos. Mais as lobas maternais Qu’emprestam calor ao reis… No passar dos legionários Ficou um mundo esmagado… No vapor dos balneários Fica o suor do Passado… Terás.

No fim do riso A gargalhada Sem um aviso Alienada. Somos os mágicos Das alquimias… Fazemos ouro Mais que parece Se o nosso choro Nos enriquece. A força atómica Por mais brutal Dá-nos a tónica Do natural. o berro A progressão Queimado a ferro O coração. Tão sideral Siderurgia Calor total Parece dia… Somos os trágicos Das sinfonias. demónios Na invenção E nos binómios Da solução… Nos contrafortes E nas vertentes Depois das mortes Somos sementes… Os altos fornos São a moldura São os contornos Da nossa altura. Sim: animais D’instinto casto: As catedrais São nosso rasto… Londres.5 Siderurgia Não te admires Das bruxarias E dos faquires E das magias… Os feiticeiros Vivem em nós Corpos inteiros: Dão-nos a voz. 16 de Março de 1976 39 . Justificamos O nosso génio Pois respiramos Oxigénio. O ferro em brasa Nosso brasão Dá-nos a casa A dimensão. Monstros selvagens Omnipotentes: Que nas Barragens Estamos presentes. Deuses cativos. Dentro de bilhas Caem rios vivos Nas armadilhas… A matemática: O Livro Santo É nossa táctica É nosso encanto. Anjos. Soluço.

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Trinta moedas Que nunca gasta. Trinta dinheiros Por capital. 29 de Maio de 1976 41 . Supliciado Noutra madeira Crucificado Numa figueira… Treze rebeldes Foram cear Havia neles Dois a matar… Lisboa. Um ar ausente. Tão necessário Foi o seu gesto. Como o Calvário E todo o resto… Quis um império? Nem pensou nele: Como actor sério Cumpre um papel! Pedro sentiu Que não fez tanto Também traiu Mas ficou santo… Contam-lhe os anjos Todos os passos E os arcanjos Fixam-lhe os traços.Judas Sem companheiros Vulto pascal. São trinta pedras Com que se arrasta. O seu futuro Só foi presente. Passo inseguro.

Sarracenos em salmoura Que tristeza que isto tem! Pão de quilo. Galinholas e perdizes As lagostas dos requintes… O que dizes e não dizes. Sete palmos de oceano Outro tanto de enseada Os navios a todo o pano E cheira a terra queimada… Os pés a pisarem uva As mãos sem guardarem nada… Tanta saudade de chuva E cheiro a terra molhada. os promontórios Nas carícias marinheiras Os maços de «Provisórios» Foram-se as marcas estrangeiras… Um país. caldo verde Com broa bem racionada… Mas meu País não se perde Tem largura duma estrada: Casa branca. Emigrantes e pedintes. muitos países. O boato e os ouvintes… O que fora e não fora No vinho que sabe bem E mais Nossa Senhora Que dizem ser nossa Mãe.Portugal 1976 Pão de quilo. mais a canja E o sabor a limonada… Gestos densos e marmóreos E a força das pedreiras… Os cabos. vila verde Depois não fica mais nada… Balaia. Estes nervos sempre em franja A cabeça alvoriada E o Sol uma laranja Pela sede imaginada Feijão-frade. caldo verde Com broa bem desfiada. 11 de Outubro de 1976 42 .

As alcovas. 14 de Agosto de 1976 43 .Solstício de Verão As algas. as alfombras E os fornos e as furnas Onde o Sol aquece as sombras — Onde o Sol aquece o pão Que nenhuma boca come… Solstício de Verão A quem matas tu a fome? — Os rochedos lembram escombros E cidades bizantinas. Os cinco dedos da mão São chicotes nas carícias… João de Orens. Mais os ouriços-do-mar. Os faróis dos pirilampos Que barcos estão a avisar? Solstício de Verão… O chicote da nortada… Os cinco dedos da mão Que conta querem errada? — Se nos pára o coração Os números não valem nada — Ai! as angústias nocturnas. os hipocampos. Na cor de mel dos teus ombros Há escavações e ruínas Que conduzem aos assombros Das pontes florentinas… Porquê o cantar dos ralos Que perfura tudo em volta? E o combate dos galos Onde o sangue fica à solta? — Só o correr dos cavalos Não traz a morte por escolta… — Tudo são carnificinas É o mar o pregoeiro As sirenes são buzinas Que dão voz ao nevoeiro (Ou o silvo de oficinas Onde o Mundo cabe inteiro?) Os búzios nas neblinas São trabalho de pedreiro… E a noite a pôr de parte Qualquer sonho que nos dá… E se vida houver em Marte A morte também lá está? Solstício de Verão… As traições mais as sevícias.

medo da morte e de pedras quanto baste (Receita dum faraó) Ramsés.Ramsés o Grande Areia. (A povoar tua insónia De papiros e mosaicos…) Na tua clepsidra Desagua o rio do tempo. 12 de Setembro de 1976 44 . água. Memphis ou Tánis: Tanto medo sem tamanho! Ao tresmalhar-se o Boi Ápis Ruminou um mundo estranho! A morte é ponta do lápis Que faz o nosso desenho! Paris. sobre pedras Nesse teu medo da morte. Os chicotes são moedas Com que pagas o transporte… (Mas nem Karnak nem Tebas Mudaram a tua sorte!) A morte é outra colónia De desertos cirenaicos Com muros da Babilónia Em horizontes hebraicos. As areias são as natas As raízes do mistério (E tiveste cataratas Por degraus do teu império!) Vale dos Reis. No teu sono milenário: Lavas nas águas do Nilo Esses teus sonhos de calcário? (Até puseste pirâmides Nas costas dos dromedários…) Sonhas pedras. (Quando há sede em vez de cidra O Homem constrói um templo…) Tuas mãos aristocratas Roubam astros ao etéreo. Mas tão feroz como a Hidra Que devora o próprio vento. tão tranquilo.

Amor-Perfeito Tanto amor semeia o vento Nos gestos que desenhaste. Só as Passas de Corinto Não servem na refeição De requintes de absinto E de sangue de dragão… Que almofariz é teu corpo Nos orgasmos infernais. Âmbar Cinzento De Mástique quanto baste… Também pimenta esmagada E pedaços de Gengibre E depois em cada unhada Uma carícia de tigre… Nos restos da Damiana A pronúncia vem arcaica. Fica o coração dormente Nos rituais do Tomilho. Como se a martelo e escopro Te gravasse nos vitrais! Se Deus nos deu a comida E o Diabo o condimento Do outro lado da vida Que nos serve de alimento? Lisboa. Almíscar. Outra receita profana Nos Pimentos da Jamaica. Na explosão da semente O desejo é o rastilho. 19 de Dezembro de 1976 45 .

Enrosca o Douro em novelo. Vila Nova de Foz Côa. Mas a terra é ondulada: Inda mal um monte vimos Vem outro na enxurrada… Só há socalcos e fragas. 12 de Fevereiro de 1977 46 . No granito do teu manto Não há pedra que não doa! Em estrada transmontana. Trás-os-Montes. Nem nos sonhos que me contes Há tão grande pesadelo. Senhora da Boa Morte Na beira dos precipícios… Nossa Senhora do Pranto. As rochas não têm limos. Nem do mar se ouve o choro Nem os montes são de sal. Lembra o mar quando está calmo (Quando parece um riacho Que não tenha mais de um palmo).Trás-os-Montes Trás-os-Montes. O céu parece mais baixo. Tão longe do litoral. Aqui a noite é maior Quando comigo naufragas Nas marés do nosso amor. Alto Douro. Nos caminhos quem resguarda É o medo que nos mura Até os anjos da guarda Têm medo desta altura… Alto Douro. E nas terras de Monforte Vejo marcas de silícios.

Ao entrar nos algerozes A garganta que a devora. 27 de Maio de 1977 47 . Muda o vento de caminho Se sente vinhas na areia. Madressilva. No ponto onde a noite acaba. Pode nascer uma rosa Ou pode tecer a baba Uma aranha venenosa. rosmaninho. E a chuva imita as vozes Dos que ficaram lá fora. No perfume a pedreneira Sonhamos a explosão. Ouvem-se os passos da ronda Nos relógios do presídio. É a esponja de vinagre Que nos estendem na Quaresma. Nasce a manhã sem milagre. rosmaninho Nas paredes da cadeia. Lisboa. Pois a noite é sempre a mesma. Como cresce a trepadeira Pelos muros da prisão! Grades e Lua redonda: Um convite ao suicídio. No morrer das neblinas Que adensam a cerração Há limas de quatro quinas Que sonhamos na prisão. Mais coisas indispensáveis: Catre com lençóis de linho E sonhos inconfessáveis. Como essa lima bastarda Que sonhamos na prisão.Ronda da Noite Trespassa o vento a mansarda Dizimando a escuridão. Madressilva.

O roçar terno De chama amiga Traz o Inverno Mais não obriga. Amor de fera Condescendente.Canção Estival Chove em Agosto Sol em Dezembro! Esse teu rosto Donde é que lembro? A Primavera É exigente. Esse teu rosto Donde o recordo? Lisboa. Só o Outono É o meio-termo. 7 de Julho de 1977 48 . Sonho no sonho É casa em ermo. Chove em Agosto Em água acordo.

em regimento.Emilio Salgari Irmos aos charcos das rãs E armar à passarada Pelo fresco das manhãs Na pasteleira encarnada… Vermos no fundo dos poços O reverso do luar. Fazermos uma trincheira Nas grades duma pocilga E escalar a trepadeira Que espreguiça a madressilva. Massacrar os gafanhotos Inimigos dos egípcios. cativos dos persas… Fumando ópio em Xangai… 49 . Espiar os casinhotos À beira dos precipícios. Amassar a terra mole Sem sabermos ver as horas Que há nos relógios de sol. Fazermos das caniçadas Uma orquestra de flautas Cantando em noites estreladas Os hinos dos astronautas. Decepar as sardinheiras E as caudas das lagartixas. Julgarmos sempre a fronteira No outro lado do monte. Apanharmos caracóis Depois de grandes chuvadas. Fumarmos barbas de milho E jogarmos à pedrada E fazermos um chinquilho Dos potes da marmelada… Tomar banho nas ribeiras Secando o corpo na roupa Ou inventar as maneiras De roubar colheres à sopa… Sujar as mãos nas amoras. Subirmos aos campanários (Caça ao galo-catavento) Ou sermos os legionários No deserto. Pisar o rabo das cobras Em que sonhamos serpentes. Ouvir junto dos moinhos Que também o barro chora E nas Virgens dos Caminhos Não vermos Nossa Senhora. Ver numa vaca leiteira Perfil de rinoceronte. Escalarmos as saibreiras Como afagássemos lixas. Com a brancura dos ossos De quem se deixa afogar. Escavarmos nas abóboras As feições mais repelentes. Os caçadores de cabeças… Peregrinos no Sinai… Reféns. Desfolhando os girassóis Com dedos feitos nortadas.

Tornamos a passar rifas (Talvez a sorte aconteça) — E o «Filtro dos Califas» A martelar-me a cabeça! — Esconder nas medas de feno Os que são do nosso bando — Embalar desde pequeno Os sonhos do contrabando. Sem temermos as abelhas Que vendem caro o seu mel. Sermos os peles-vermelhas Sem olhar à cor da pele… Ver azul de mitilene Ou oceano num charco E a Lua acitilene No tecto do nosso quarto. 23 de Julho de 1977 50 . — Pormos penas no cabelo E com pinturas de guerra Montar as mulas em pêlo Que se espojam pela terra. Tanta coisa ignorada Como não tendo importância… Ai! pasteleira encarnada No portão da nossa infância! Sagres.

Quem aqui falta Hoje aqui esteve… O arroz doce Como emboscada. Os pratos novos: Velhas terrinas… O doce de ovos E as tangerinas. coentro P’la noite fora E manhã dentro. Vê-se Jesus Entre ladrões… A névoa densa A neblina A casca imensa Da tangerina… Lisboa. Enevoou-se Na madrugada. 22 de Dezembro de 1977 51 . Um mundo fala Nos olhos densos.Véspera de Natal Doce de amora. Ainda Pedro Não é traidor… O lume estala E espalha incensos. Um cheiro a cedro Mais ao que for. Em contraluz Sem ilusões. Noite tão alta Tão ao de leve. Canja.

Por carrasco. Os mouros que aqui andaram. Unamuno e Torquemada! De Cid o Campeador E da Santa Inquisição Que do sangue apaga a cor Pretextando a salvação… Santa Teresa de Jesus Odiando os sarracenos… No ferro em brasa da Cruz Conta o homem de menos! Ai! o inferno lendário Que lembra os Países Baixos: Duque de Alba sanguinário De armaduras e penachos… E o Cardeal de Toledo — Primaz de todas as Espanhas — Tem coração de rochedo Num Tejo de águas castanhas! As águias dos Pirenéus Teu retrato natural: Falta terra e sobram céus Ao seu orgulho ancestral. Mas a terra de Picasso. à martelada. Tocando as notas de Falla Tens os rios e tens os ventos. sem fronteiras. Homens desfeitas a masso. degolado. Dos bravos do Guadarrama De Madrid dos sitiados… Não tem o sangue valor Quando é tempo de matar… O Destino é picador Que deixa um povo a sangrar! Do gume duma navalha Rasgas santos e talentos. eterno. Santo Inácio. contraste De carícias e chicote! Terra de santos e sábios E também de inquisidores Que há pouco cortavam lábios Aos franco-atiradores… De Besteiros e Machado. Pela espada de Cervantes: Afinal o que encontraste Nas lições de Dom Quixote? Um povo. Que tinha o corpo manchado Pelo calor das Fogueiras… Do vento do Escorial Que sopra contra os vassalos… Mas no fim é tudo igual Quando há touros e cavalos! Das papoilas do Jarama Dos que não eram soldados.Espanha 1978 Quem estará do outro lado? Não é tudo como dantes? Sancho Pança. Tendo cristãos por amigos. Tantas mulheres violaram Já ninguém fala em castigos… Nem só Lorca anda presente 52 .

muito embora. O ouro roubado aos Incas Não dourou o teu destino… Liberdade é mal que assombra Loyolas petrificados… — Quem estará hoje na sombra A jogar por ti aos dados? Sopra o vento ou são aragens Na colheita prometida? Quem desdobra os personagens No palco da tua vida? Inquisidor alma negra Ou uma alma de promessa? Quem será o contra-regra Do acto que hoje começa? Guadaletes. Num meio-tempo que consente Pensar em paz. As receitas do passado. Sol e sombra sem mais nada Prometendo alternativa E Castela descarnada É teu corpo em carne viva! Teu corpo rasgado em rios Procurando mares sangrentos… El Greco de corpos esguios Goya dos «Fuzilamentos»… Ferra novilhos e fincas Sob um sol que brilha a pino.No cessar-fogo de agora. Ai! paella de palavras E momentos misturados! Madrid e Lisboa. Calatravas. 21-22 de Maio de 1978 53 .

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Cassiopeia .

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Os sobreviventes — Em comunidade — São eles utentes Da fraternidade.1 Inferno Câmaras ardentes Promiscuidade: Mortos e viventes Em cumplicidade. Tão surpreendentes Pela novidade: Os mortos recentes Não vendem saudade. Ficam como ausentes: Imobilidade — Embora presentes Quási em majestade. — São estrelas cadentes Em velocidade: Estando quási ausentes E em proximidade… 57 .

Das chuvas de Maio Ao aluvião… Na força do vinho Vem a solução Abrindo um caminho Alheio à Razão. Passa a bebedeira E regressa a vida Tão mais verdadeira Tão mais repetida… 58 . As plumas de enfeite Que aves evocam? O riscar do raio: Farol do trovão.2 Purgatório O ferver dos ácidos Que Mundo corrói? Nos acordos tácitos Que Paz se destrói? Vinagre e azeite Os extremos se tocam.

3 Céu Pelo firmamento Ninguém se passeia? Sem gradeamento Vê-se a Cassiopeia… Andar à deriva E ao deus-dará Onde a carne viva Jamais sangrará. 17 de Agosto de 1978 59 . No fundo do Espaço Que espaço é que sobra? No céu as pegadas São quási ilusões. É fundindo o aço Que o fogo se dobra. Semi-apagadas Nas constelações… No leque do vento Que rosto se esconde? Tudo é movimento Ninguém nos responde! Balaia.

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Poder Secular .

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Ah! refazer os teus passos Nas marcas que não deixastes. Encher de ar puro os pulmões Por vingança. só. Deixar Leonor «bem segura» Num sempre que fosse breve… Sentir os duros porões. Ter um castigo maior Das penas que tu expiavas: Morrendo aos poucos de amor No ódio que transpiravas! 63 . da plebe. Em Babel e em Sião. Onde o dia não se sente. (Nobreza que te sobrava) E sentir a tua febre Da paixão que te cegava. na estrada Onde só eu me encontrasse.1 Camões Ó meu «Velho Testamento». Aberta a todo o momento Deixando a noite sem nada! Repouso da minha insónia — Mais fofo que o fofo chão — Cativo na Babilónia. Nos anéis dos teus abraços E nas bocas que beijastes! Preso ao Tronco. tão somente… Devorar a madrugada Quando a comida faltasse E perder-me. Minha Bíblia esfarrapada. Roçar a tua loucura Mas só tocada ao de leve.

7 de Setembro de 1979 64 . Como a Muralha da China Das palavras que te cercas Vê-se a Terra pequenina. Janela aberta onde arde A luz que a vista procura. E a ponta da loucura… O granito do talento… A folha que se procura Entre as mil que tem o vento… A semente rejeitada Mas que vale uma seara. tão vedado… O Eterno e o momento Mas tudo bem misturado! Paris. Renovado dia a dia. Entre o ser e o não ser Vai a ponte que se deita Entre as margens do morrer Ou da vida que se aceita. Quando pelo fim da tarde Nenhuma estrada é segura. Campo aberto. Sangue-frio do pensamento Tão evidente e confuso… Ó ritual primitivo. Trazendo um novo motivo Onde há pouco nada havia.2 Fernando Pessoa Ó meu «Novo Testamento». Meu livro com tanto uso. Galope do pensamento. A onda desenrolada E que na praia não pára! É no sonho que despertas.

A força das trepadeiras E o prumo das calçadas Na pólvora das caçadeiras… Medas de feno e de palha E quatro palmos de aveia. Mais aquilo que nos malha Nas ampulhetas de areia! E as ruas da cidade Num rigor tão pombalino Gemendo obscuridade De campo com sol a pino… Gafanhotos. em tão mau estado. escaravelhos E Lua branca de dia (A leitura de Evangelhos Dos ateus em romaria!) Perder-me nas tuas ruas De canastras e varinas De prédios e de charruas Buíças com carabinas… Só sentir à minha volta A vida à tua maneira: Um muro de pedra solta Num tapume de madeira! Paris. De domingo celebrado Como um dia de semana! Será a missa cantada Que nos pode dar ideia Da cidade transformada? Numa ruela de aldeia? Empregado de balcão Em teus poemas confusos Crescem flores de latão De pregos e parafusos. Choram noras? Vibram limas? Dobram os sinos mais estranhos? No rumor das tuas rimas De chocalhos e rebanhos… Mais a sombra das latadas. De liturgia profana.3 Cesário Meu missal. 9 de Agosto de 1979 65 .

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Tanto cresci Que transbordei Forcei entrada E reneguei-me. apodrecendo… No fim do beco O meu futuro Como um desenho Ia fazendo.Certidão de Nascimento No fim do beco Havia um muro E madressilva. 10 de Setembro de 1979 67 . Quem lá entrava: Ou recuava Ou como eu ia crescendo. Entrei na vida? Mas não vi nada… Saí de mim Desencontrei-me! Havia Praças? E mais cidade? Havia estrelas Constelações? Havia tudo Ou quási nada? No fim do beco Não há portões! Entrei na vida Pouco seguro Fruto maduro Tronco já seco… No fim do beco Havia um muro… Havia um muro No fim do beco! Paris.

Se escavarmos mais: Palácios e casas E lá mais no fundo: Cidades. raízes. 22 de Setembro de 1978 68 . Os bicos de lacre Mais os flamingos. Debaixo das tílias Mandam os instintos.«Post Scriptum» Por baixo das tílias Há sombras. países. imperatrizes E formigas de asas… Debaixo das tílias Crescem os jacintos. Debaixo das tílias É sempre domingo! Lisboa. Reis.

Na algibeira. Desconhecidos. Meta volante? Vai-se a montanha? Não fica nada? Contra-relógio E qualquer meta Noutra cidade! Por uma roda Se perde a vida Se ganha a morte. Cadenciado. Mas ninguém pára O pelotão Não tem idade. 3 de Novembro de 1978 69 . Não há pastores. No macadame Escorregadio Da Eternidade. (Então com este vento Pelas costas Não há meta volante Que lhes baste!) Lisboa. Não dão sequer Pela mudança Que há na paisagem… Não há rebanhos.Contra-Relógio O Nicolau Leva o Ruy Belo Na pasteleira… Vai pedalando. Sua conversa É de silêncio E sem respostas. Levam poemas. Sem velocidade. Pelas encostas E da Corrida Nenhum jornal Faz reportagem… Passa o comboio E a cancela já está fechada. Por um pescoço Vai-se um cavalo P’ro matadouro… Competição Em contraluz De bom recorte E a geração Já não se vai Atrás do choro… Tão insensíveis A esta vida Como às apostas Nenhuma etapa mais Há que os desgaste.

A quatro palmos do chão. Meu Pai no grande silêncio Tanta coisa que me diz: Meu caule de pensamento O que foi minha raiz! Lisboa. Quem sabe lá se não sente O direito à criação… Mas não sente a Primavera — Equinócio pontual — É planta que não gera Canteiro em mina de sal. 11 de Janeiro de 1979 70 .Mina de Sal Meu Pai no grande silêncio O que ouve desta vez? Os cedros no meio do vento E quem sabe? o mar talvez… Se ele serve de semente.

Lagos. 27 de Janeiro de 1979 71 . Lisboa. E de colheita em colheita Envelhece o tempo em cascos Como a cabeça direita Que não se verga aos carrascos. Como as águas em repouso E o Sol às vezes aquece… Entre o gesto e o movimento Tanta pausa que se esconde E às perguntas do vento Só a folhagem responde… Os cestos transbordam mosto E o mosto bebedeira. Num gesto desesperado Duma raiz que cresceu. rios e oceanos E as uvas nos seus cachos Recebem nomes dos anos. O Inverno ruinoso… Um Verão que nos aquece… Somos águas em repouso Na memória que nos esquece. As águas formam riachos. Se a morte tivesse rosto Eram as rugas videira… As cepas de enforcado Querem levar vinho ao céu.Nível de Água Entre o que ouso e não ouso O medo se reconhece.

Nas Senhoras dos Caminhos Até se benzem ladrões Quando por entre azevinhos A noite manda os trovões. amarelo. As capelas bem caiadas São João e Santo Onofre… A pedra esculpindo santos Que nos abrem os portais. pastel de nata. O cabrito em vinha de alhos. O bacalhau tem foral Para vir à nossa mesa. Pão-de-ló. A azeitona enlatada E a calda de tomate. Somos os tais penitentes Sem caminho que emigramos… Fica tudo como dantes.Cozido à Portuguesa Pão e mel mais aguardente. É dela que precisamos. 15 de Fevereiro de 1979 72 . Toalhas de Portugal Nas receitas de incerteza. cristalizada. As amêndoas e os figos E também o cheiro a louro. A fruta. Onde o escopro veste mantos Para o frio não ser de mais. Doce de ovos. É povo ou missa campal Esta gente em romaria Que transborda Portugal A cheirar a sacristia? Senhora dos Continentes. São Pedro. Leite de creme queimado. Nunca muda o remetente: A remessa de emigrantes Traz a morada da gente! Lisboa. Um resto a cheiro de enxofre. Caldo verde muito quente Um fio de azeite espelhado… As vinhas arroxeadas. Ameaça de chibata Ou protecção dum castelo. Posta fora de combate. Os eternos inimigos: O espanhol roçando o mouro. São Segismundo E fugimos nos atalhos Que nos despejam no Mundo.

Tem cor das chamas Este castelo… O mausoléu E São Basílio Longe do céu No seu exílio… Praça Vermelha Lua encarnada Como groselha Engarrafada. O chão tem escamas Peixe de gelo… Moscovo. Foram-se os reis Nos turbilhões E agora as leis São dos peões… Da cor das chamas Este castelo.Kremlin O chão em escamas: Peixe de gelo. 5 de Setembro de 1979 73 . Longas muralhas Também sangrentas Como as navalhas E águas barrentas… Torres aos cantos Como em xadrez: Dão xeque aos santos Da cor da grés.

Poente de saguão De suor todo alagado. A furar o coração Dum presente recusado… Tiro seco: é frustração De assistente enregelado. Lisboa.Roleta Russa Nem sequer a explosão Só um tiro murmurado… É um espasmo de colchão No fim dum quarto alugado. 13 de Novembro de 1979 74 . A espingarda de pressão. Que guardamos do passado. Casino de ocasião Sem porteiro ou empregado. Palpite de ocasião Por vezes mal apostado… Uma bala é um senão Dalgum baralho marcado… Todo o homem é um leão A fugir como um veado.

inútil artifício De qualquer deus. Chorando por ninguém e toda a gente Num soluço que de morno é tão gelado. Lisboa.Gelo É parede de vidro na aparência. Ó lágrima de estátua jacente Na ameaça dum choro prolongado. Derradeiro degrau dum sacrifício Mal pisado. 17 de Junho de 1980 75 . gelando eternidade. Janela sob o céu da transparência Revelando a paisagem do opaco… Ara antiga. Gelando o sangue e linfa do deus Baco. logo feito em humidade.

17 de Agosto de 1960 76 . Não divide as orações E não sente o predicado Ao nascerem-lhe as canções Como vento libertado… Num canto do Universo. Não recorre a pragmática. A viver sem estratagemas: Dá um reino por um verso Troca o céu por uns poemas… Balaia. É um poeta emigrado Nos exílios da gramática. Não poeta por ciência Mas poeta por certeza. Talvez um escravo da rima Que recusa a alforria… Mais dócil que revoltado. Passa as palavras à lima. Poeta de ocasião. Nos contornos da poesia. Subsolo e substância Da luz do seu saguão. A provar a indigência — Atestado de pobreza —.Auto-Retrato Poeta de circunstância.

Um caroço de cereja Na garganta estrangulada… É quando o soro goteja Numa colheita estragada. Na saudade engarrafada.Visitas Proibidas É quando o soro goteja — Por uma fresta de nada — Quando a vida é uma narceja Que a morte quer derrubada. 7 de Novembro de 1980 77 . É quando o soro goteja E é bebida mais gelada: Num desejo de cerveja. É quando o sangue goteja E a gente não dá por nada. A vida já não areja A morte calafetada. Vão-se os anéis a inveja E fica a noite abafada. Salomé embriagada… Lisboa. É quando o soro goteja Na festa desenfreada: A cabeça na bandeja. É quando o soro goteja E a pele fica inundada… É quando o soro goteja Pela mica embaciada: Quer se veja ou não se veja A janela está fechada.

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Integração do Átomo .

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Na lâmina afiada dos meus dias. espero o sim e a negativa. Interpreto o destino nas fogueiras. No céu de Espanha e de França. Eu espero por um deus sem lugar certo Nas casas de xadrez feitas de lenha… Aguardo ainda o ramo de oliveira Que Noé um dia prometeu. no sal. O pudor. 3 e 4 de Setembro de 1981 81 . Em deuses embrulhados como ofertas: Perante um cliente surdo-mudo Na loja que se fecha a horas certas. Como se a vida fosse a passageira Clandestina duma barca a meio do céu. No budismo. nas pedreneiras. as confissões… Eu espero o medo que há em isto tudo. Nos gelos. Aguardo as 12 Tábuas de Moisés Por simples termo de comparação… Ai! Monte de Tabor. a devassa.1 Monte de Tabor Eu aguardo o jejum e o deserto. nas negras feitiçarias. ai! mundo aos pés Com estrelas ocultadas pela mão… Eu espero Barrabás na alternativa… Também o Muro das Lamentações… Em Meca. A vertente do Sermão da Montanha.

que nunca são de mais E contam-se os chineses pelos dedos. no dormir: os rituais. o prumo dos rochedos. Ó impérios. então de mais a mais: Que se contam os chineses pelos dedos… Rosa. aonde estais? Já se contam os chineses pelos dedos! Sempre poucos nas nossas bacanais. de outrora. Bem no fundo uns nobres animais A contarem os chineses pelos dedos. as vestais (A memória tem raiz dos arvoredos). Água potável. Binómios sem segredos. afinal. todos iguais Aos chineses que se contam pelos dedos.2 Cassiopeia Não há limites. No Espaço. rosæ dos Romanos. Sempre muitos no pudor. No comer. Os astros são nossos ancestrais. Há que aceitar isto sem enredos — Se pensarmos. Equações. Sonhamos zeros. Paris. nos nossos medos. Linguagens siderais. 7 de Setembro de 1981 82 .

Um quási eterno. desfeita. às meias tintas… Meias marés — sem marés bravas — Às meias frases. Meio sonho a meio do sono. Som dum tiro bem calibrado… Meia estação: sonhando Outono. 19 de Setembro de 1981 83 . Meia nação já dominada… À meia-lua e ao meio metro De chaminé iluminada. Meio-termo no calendário. Verão em nós dizendo Inverno. Um quási nada. ao sangue não! Sim à canção feita. meias palavras. Na lira aberta do coração! Lisboa. Almofadão feito calcário. Pensar nela um quanto baste. Às meias cores. Como um corpo equilibrado. pouco distintas.3 A Meia-Nau Não à vindima! Sim ao vinho! Não ao sangue! Sim à sangria! Não à estrada! Sim ao caminho! Não à manhã! Sim ao meio-dia! Sim: ao meio-termo. Meia vitória e meio ceptro. À bandeira a meia-haste — A morte em nós recomendável —. Meio sorvo de água potável. Sim ao vinho! Não à colheita! Sim à sangria.

Tudo é feito de pequenos nadas Sem ninguém saber por que vontade. O peixe é numerado pelas escamas Nas rotas que nos são ignoradas. A onda é o grito à liberdade.4 Átomo O Espaço é todo feito de distância. É lança levantada. O zero é melhor reconhecê-lo… Mas o 1 é o começo do milhão… O mar são gotas de água escravizadas. movimentos. De abismos. É todo o fogo feito pelas chamas Que se perdem em breve nas queimadas. Iguais e desiguais: desunião. 26 de Setembro de 1981 84 . incerteza. bem em riste. tudo em novelo. O começo é semente à nossa imagem. Partículas do Tempo em suspensão. Nas galáxias da nossa ignorância Quem vem reconhecer nossa tristeza? A Eternidade é feita de minutos. Em tubos de ensaio diminutos Fora do nosso ângulo de visão… Numerais. Riscando o nosso corpo de passagem… O que era a multidão sem ter anónimos Embrenhados na própria solidão? A vida é toda feita de binómios Tanta vez sem nenhuma solução! Lisboa. cardinais. Infinito sem zero não existe.

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Esvoaçam crinas Nas dianteiras… Fazes da Acrópole Um campo aberto Onde o teu trote Sonha o deserto. Quási sem peso No teu andar… Morres de fome Mas vale a pena Matar-te a fome Com um poema! Eu te segrego Eu te alimento. Samos. 18-24 de Setembro de 1981 87 . Tão bem tratado — Granito comes! — Ficas ferrado P’la pedra-pomes. Corres areias Pouco pisadas. Peloponeso No teu olhar… Tudo coeso A transbordar. Terra esquecida Da alta escola. Éfeso. Seca-te a boca De sede morres. Nas tuas veias Adivinhadas… Potro selvagem Donde fugido? Tudo em voragem Tudo esculpido! Terra batida À tua roda. Cavalo grego Feito de tempo! Sede citrina… Dedos de Fedra Na tua crina Feita de pedra! Atenas. Restos de mar. Em ti vibrando Golpe após golpe? Sombra ou vapor? Tal a brancura… O teu senhor Não te segura? Fez-te a martelo (Já não martela!) Montou-te em pêlo Ou pôs-te sela? Já não te empinas Sobre as traseiras. Tens olhos vasos Cheios de noite… Narina aberta Ao cheiro antigo… Morrem-te os sonhos Nos teus flancos E nos teus olhos Que são tão brancos.Cavalo da Acrópole Cavalo branco Domado em pedra… As tuas rédeas São mãos de Fedra? Quem vai cortando O teu galope. Contra os milénios É que tu corres. Cairo e Lisboa. Sem picadeiro Ou outro meio Morres primeiro Que o teu volteio.

Tempo de Silêncio
Sinais dos tempos: um Tempo sem sinais. Sinais contrários dos tempos que se vão. Polindo as águas as faces dos cristais Nascem frases onde os silêncios estão. Os santos são em tudo naturais Com tempo todo feito de oração. Sinais contrários em tudo tão iguais, Deixa o rosário calos pela mão… Sinais dos tempos: um Tempo sem sinais. Deserto de Sinai. Insolação. Palavras pastoris nas pastorais, Ovelhas tresmalhadas, solidão… Conserva o céu as cores outonais Dos primeiros dias da Criação. Os deuses ao nascerem nos currais Renegam os palácios pr’a onde vão. Sinais dos tempos: um Tempo sem sinais, Ó sentido dos sinais tentado em vão! Ó silêncio das celas conventuais Com palavras servidas por ração!
Lisboa, 3 de Outubro de 1981

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Telex a Lech Walesa
Aqui no Ocidente sou de Esquerda Mas no Leste seria dissidente. A estátua lembra gente, lembra pedra, Mas lembra mais pedra do que gente. Porém aqui eu sou bem a meu modo, Enquanto lá gostava só de o ser… Aqui posso mostrar ao Mundo todo As coisas que se pensam ao escrever! Aqui no Ocidente sou de Esquerda E lá tinha de o ser mesmo sem querer… A vida não é estátua feita em pedra: Temos de usar a fala p’ra viver. Aqui quando a palavra não me ocorre Não é que precise de a esconder. O culto do silêncio é o que morre Na palavra impedida de nascer. Aqui no Ocidente sou de Esquerda Já o fui em silêncio sem dizer… Mas também o silêncio não se herda Como um dia em Abril eu pude ver…
Paris, 18 de Outubro de 1981

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Acordar em Hotel
O sal no saleiro. A água no poço. Inverno e Janeiro Que pequeno-almoço! Cheira a croissant, A jornal, a tinta… Laranja e maçã Como estão na quinta. Inverno em Janeiro, Verão em Agosto, O teu travesseiro Desenhou teu rosto… E os ovos quentes Ficam estilhaçados, Mastigam teus dentes Meus lábios sangrados! No espelho da porta: A cama revolta, Imagem que corta O mais que há em volta… É água na veiga, O correr do banho. O pão com manteiga Cabe no desenho. Teus seios abertos Não esconde o lençol São montes cobertos Pela sombra e sol. Sob os cobertores Teu corpo adivinho — Pelos corredores Que nos manda o vinho — Foi noite em claro, Feita de momentos. Agora, reparo Nos teus movimentos… Já tudo é Passado, É véspera distante… (Está o céu estrelado?) O Sol está brilhante? E quando o lá fora Não serve de centro: Todo o Mundo mora No que está cá dentro! O sal no saleiro. Migalhas de pão. Transborda Janeiro A recordação…
Lisboa, 1 de Janeiro de 1982

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Saudação a Enrico Berlinguer
São como amarras que soltas Em tudo o que em ti descubro, Não pára o Mundo nas voltas Já tão longe fica Outubro. Não pára o Tempo se é tempo É uma pedra arremessada Que vai à frente do vento Correndo a História à pedrada. Passaram as Primaveras, Já se renderam Outonos, Houve depois outras guerras Mudaram Pátrias de donos… Houve pegadas na Lua, Onde há outros oceanos O Inverno não recua E há outras folhas nos ramos. Viver é seguir em frente (Avião: foi Passarola…), Torna-se o mar bem diferente Em cada onda que enrola. Não é a vida das penumbras Que constrói os ideais: É sair das catacumbas E erguer as catedrais! É sair dentro do ovo E ser águia majestosa… Outro pingo de água novo Fará nascer outra rosa. Sai o Homem das cavernas A criar outro ambiente. Descobre a criança as pernas P’ra ter o nome de gente! Ninguém pára a evolução Natural do Universo. Outra voz: outra canção, Outro poeta: outro verso. Cada Maio cria um Junho: O Infinito por meta. Tudo passa o testemunho Nesta espécie de estafeta… Bastam estátuas por sinais! Ficam paradas na rua, Estátuas são pontos finais Na prosa que continua… Tu não paraste no Tempo Nem o tempo queres parado: O Futuro é movimento Que te desprende do Passado!
Constantinopla, 16 de Fevereiro de 1982

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Passagem de Nível sem Guarda
(Comboio de corda para a minha primeira neta…)

As minhas contradições Vivem dentro do meu peito. São a paz sem condições Dum exército desfeito. Via-férrea que motiva A agulha dos meus dias. A minha locomotiva Que me transporta as poesias. A velha composição Inda movida a vapor Que pára em qualquer estação, Num horário ao meu dispor… Cresce a erva nos carris Mas comboios em dois sentidos… Leva caixotes, barris Com mendigos escondidos. Leva homens do capital, Com suas pastas de couro… O comboio vê-se mal Nos topos do miradouro. É um rasgão na paisagem Como uma estrela cadente. Mal se antevê a viagem: Nada fica em nossa frente. Comboio de mercadorias Que leva tempo a passar Que só lembra almotolias No ranger do seu andar.

Comboio expresso ou correio, Tudo depende do jeito Do sacão que vem do meio Dos movimentos que aceito. É uma espécie de fantasma, Uiva na noite de breu. Leva bem sangue em plasma Que já gente socorreu. Vive de inutilidades Das coisas deitadas fora, Sem usar velocidades, Chega, porém, sempre à hora. Passa logo a ser Passado Quando da vista se escapa, Ramerrame mastigado Em lugares fora do mapa. As carruagens em fila Quando a jornada é propícia. Algum dia descarrila E o jornal nem dá notícia. As minhas contradições Seguem dentro do meu peito. É um correr de vagões Na ponte sem parapeito!
Lisboa, 13 de Março de 1982

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Nome Próprio Feminino

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Quisera eu rimar onde rimaste.1 Camões Quisera eu cantar a tua sorte. não respondeste. Mas a bússola de hoje dá o Norte Das terras só do Sul por onde andaste. O pouco que te damos… Tanto deste Fizeste um Jau de cada português! Lisboa. Quisera eu nadar onde nadaste Nas rochas onde o mar faz o recorte. Quisera perguntar. pois chegaste E tens a Terra toda por amante. 9 de Maio de 1982 95 . Tanto te quero mostrar e nada vês. Quisera eu morrer a tua morte. Quisera eu pisar o que pisaste. Quisera eu salvar o que salvaste Ao alcançar a praia mais distante… A China fica perto.

Um escravo só direito tem ao nome Como santo que morre em castidade. 9 de Maio de 1982 96 . Mais além do seu vulto pouco cabe… Fica porém enorme no ossário — Jazigo imponente da escumalha — Bom ladrão? Mau pedinte? Bom corsário Da Armada Invencível da Canalha. Por ele estende a mão à caridade.2 Jau Quem ama o seu senhor não sente a fome. Lisboa. Dos versos nada vê e nada come… Redondilhas a fugir pela cidade… Nos becos infernais onde se some.

3 Natércia Natércia. Partida onde a saudade já estremece. Mas Leonor fica em terra e na verdura. se lhe apetece… Mariana é bem certo: lembra mar. ou qualquer nome. Amor forjando amor já condenado! Lisboa. Certeza dum regresso demorado… Mulher outra mulher e desventura. Minguante. Pois basta ser mulher sem ser mais nada… Por vezes vem a Lua e não começa A noite que se pensa começada… Dinamene. talvez… ou qualquer vulto Ou ventre que se beije numa alcova… Sorriso bem aberto e bem oculto Na promessa de noite e Lua Nova. não interessa. 9 de Maio de 1982 97 . talvez pois o Luar Das sombras faz mulher.

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São Paulo Sim! Outrora fui carrasco. Balaia. Tanta gente decepada! Quis tudo à minha maneira: Transformei a minha espada Numa rama de oliveira. Acabei tão indefeso Eu que mandava em soldados… Da Macedónia a Mileto Vai o passo dum mortal. os zelotas Que se cruzaram comigo! Nadei nos lagos sagrados. Vi Cristos apavorados No Monte das Oliveiras… Entre o sonho e a verdade Minha vida decorreu. Atravessei sementeiras. O dia que a noite tinha. Nas estradas da Galileia Ou nos montes de Corinto. As almas mais ignotas Em mim buscaram abrigo: Os Galatas. Escrevi cartas dando ideia Das coisas que só eu sinto… A minha filosofia: É a espada na bainha E depois é ver o dia. Sem ter Terra Prometida. Foi na Estrada de Damasco Que mudou a minha vida. O Mundo é só um coreto Em jardim descomunal. Levei a voz ao Éfeso E a muitos outros lados. Um soldado sem idade Dentro em mim adormeceu. 10 de Agosto de 1982 99 .

4 de Setembro de 1982 100 . Só a gaivota se salva E não perde a majestade. É a sombra das figueiras Rastejantes sem altura.Algarve 1982 É o figo mal passado Aguardente de medronho É o não estar acordado E não ter direito ao sonho. É o ter direito ao chá Neste País cheio de sede. E o povo fica alterado Pelo chic das marinas… Corre álcool desnaturado Nas varizes das varinas! Paris. presente. As amêndoas verdadeiras Em toda a sua secura. É a água que não há E o balançar duma rede. É o nylon e a fibra. Em vez da chita. É o dólar ou a libra A moeda mais corrente? Ainda se ouve falar O Português nalgum lado? (Ou é só a voz do mar A ruminar o passado?) A areia outrora tão alva Tem outra tonalidade.

A sina dos sinos. as marés. afogadas. Ralos ao relento. O bolo o beijo Sorvendo saudade. Calcário. A manhã alegra O seio que eu sei… Por vinte vinténs: Carrascos. Largas levadiças A meio das ameias. vinténs! Carrascos. De bronze batida. arvoredo E as vagas vivas Roçando o rochedo.Cega-Rega Marroquina Tem Rif reféns Castela castelos Por vinte. olivas. Convém ao convés Ventura de vento… Primo: a Primavera. os poços. Lâminas de luar. Névoas nas nogueiras Antes dos antigos. caliças No vinho das veias. O cedro e o ceptro. Os fósseis os fossos As prosas prosaicas. sofrimento. O mar. cutelos… O fim das figueiras: As fisgas os figos. Riso o ritual Sempre mais ou menos: O fim é fatal Seremos serenos! Animo: animais! Seremos sumidos… E de mais a mais Vivemos vestidos… Olaias. Real realejo De notas notadas. A letra e a lei. Planalto pleno De várias vertigens… O amar ameno Tão vago das virgens… Os passos. Em sol de solfejo Nocturnas nortadas. 19 de Setembro de 1982 101 . Afins. Aves. cutelos… Tem Rif reféns Castela: castelos… Estrada de Chaquen a Tetuã. Legando o lugar A manhãs manchadas. As arcas arcaicas. O Tempo tempera E come a comida… O rei e a regra. Detém os destinos Ao vencer-se a vida. Suor. A mão e o metro Como comprimento… A boca o bocejo Com continuidade. Fugaz e fingida.

Inocente degolado Talvez um deus não consinta.O Luar é Azulado A verdade a nosso lado É necessário que minta. O teu retrato apagado… A saudade aviva a tinta. Despovoa o povoado A alcateia faminta. O luar é azulado? Não se conhece na tinta… Só o céu o quer pintado Sabe-se lá quem o pinta. Se o lobo está isolado Dorme a sono solto a quinta. Qualquer leão enjaulado Dá-nos coragem indistinta. Estrada Badajoz-Córdova. Está a morte aqui ao lado Sem que o nosso sonho a sinta. 28 de Setembro de 1982 102 . Caçador desalentado: Poucos troféus traz à cinta.

Sonhamos pelas manhãs Com sermões e com montanhas. Mas doutras tudo se esquece Nalgum forno crematório. 15 de Outubro de 1982 103 . Rio Jordão a transbordar (No labirinto das veias Há tantos braços de mar!) Muro das Lamentações: É vendo bem qualquer rosto. Salomés ou Salomões Tudo finda no sol-posto… Faremos autos-de-fé Nas estradas de Sesmaria. Às vezes isto acontece Sem ter nada de notório. Vai-se o tempo das maçãs Volta o tempo das castanhas. Iremos a Nazareth Ver a Casa de Maria. Paris.Este Ano em Jerusalém «Este ano em Jerusalém» É tão fácil de dizer Se neste tempo que vem Ninguém viesse a morrer. Até a noite gemer A confissão mais guardada Que é tão fácil de dizer Se o medo vem de mão dada. Nos sonhos há Galileias. Preciso: é sonhar sem dó Até a noite sangrar. A força que o sonho tem: É Dom Quixote a lutar Com os moinhos de além Onde não vamos chegar. E também a Jericó E a qualquer outro lugar.

Lua Cheia. Nós lembramos no poente Quando o Mundo arrefecia. maré vazia. 28 de Novembro de 1982 104 . Lembramos a Criação E de nunca o termos dito… Sete palmos nada são Mas são o nosso infinito. Montanhas com neblinas. Lisboa. Sete palmos não são nada Mas metemos lá a vida. Tudo nós temos cá dentro: Há cicatrizes de sismos De que somos epicentro… Há oceanos e lagos. Vinde terra derretida. sol nascente Preia-mar. abismos.Latifúndio Vinde terra macerada. Da vida pouco se sabe. Sabe a sal ou sabe a mel? Em sete palmos não cabe O que não seja da pele! Sete palmos mal medidos Como tecido barato… Onde cabem os sentidos Nada mais cabe de facto? Há labirintos. Planícies e colinas. Há horizontes tão vagos.

1 de Janeiro de 1983 105 . No meio de arraial De turba exaltada. Já não voltam mais Os tempos felizes: Armar aos pardais Caçar codornizes. Da falcoaria. Por mais que se afirme: Já não há caçadas… Morrem falcoeiros. O Pêro Menino. As águias se somem E os perdigueiros As perdizes comem. Solta-se o furão P’ra dentro do mato: Esta a punição Este o desacato! Tudo é ilusão. A caça a pé firme E mais as ciladas. A ave não pousa? É galgo ou falcão? É lebre ou raposa? A Águia Real É morta à paulada.Última Caçada A água vidrada Abaixo de zero. Neste desatino O que nos diria? Sonhava um remédio? Alinhava ideias? Morria de tédio Ou abria as veias! Lisboa. Caçar à pedrada É o que mais quero.

Travessa do Fala-Só. Os homens as avenidas… Tudo lembra movimento Quando passa um fura-vidas. Velhas casas cor-de-rosa Onde o Tempo não cabia. As casas dum rosa velho… A descoberta do sexo… Ai! se este rio fosse um espelho Seria um espelho convexo! Hoje só vejo cimento. Havia a Rua Formosa Tinha gás ao fim do dia. Numa cabeça qualquer E o tossir das traineiras Rebocando algum escaler. O Tejo como a serpente A envolver a cidade. perseverança Na casa da minha avó. 17 de Janeiro de 1983 106 . Lisboa. Calçadas de macadame Onde caíam cavalos. Mais a Travessa da Hera. Chega ao Tejo e fica em seco.Velhas Casas Cor-de-Rosa Velhas casas cor-de-rosa. Janelas de alvenaria. E cheirava a madressilva Pelos fundos do meu beco… Eram tranças. Havia a Rua da Paz. Havia a Rua da Esperança. Deixa um rasto que se apaga. Croché. trepadeiras. Aceno de mão dormente Prometendo eternidade. O musgo cobria o muro… Deitavam sal nos passeios A salgarem-me o futuro Pois ninguém olhava a meios… Havia a Rua Formosa Janelas de alvenaria. É como estrela cadente. Constelações que são gente Em que outra gente naufraga… O barco hoje já não silva. No tempo que fica atrás Ficar nele quem nos dera… A quebrar o ramerrame Duma vida sem resvales.

O poema: nasceu afluente Desse braço de mar com que acenavas… Como a morte aparente é mais concreta! O poema descoberto: estátua erguida. 17 de Março de 1983 107 . E agora há saudade adjacente Às palavras pontuais que segredavas… A morte era quási um caso assente. Um bafo de loucura a passar rente No labirinto de ideias e palavras… A poesia a desenhar-se lentamente Nas linhas em que o corpo desenhavas. Como vela a extinguir-se que sopravas.Poema em Construção Frente a frente. Onde a pedra esculpida é mais secreta Do que a forma da figura conseguida. amor. Lisboa. o nome soletravas…). com o papel em minha frente (Só tu.

Trespassam malvas e cardos Por sobre a terra gretada: Os zumbidos dos moscardos Como música sagrada. O casulo que anteceda O voar da borboleta É feito com fios de seda Como manda a etiqueta… Como navalha de ponta — Mal aberta. A marca dos escaravelhos É medalha dos ateus. Vai um povo de joelhos No voar dos louva-a-deus. 6-7 de Julho de 1988 Londres. Tão de negro ponteadas… O zangão ama as abelhas À força das ferroadas. O negro é tinta-da-china No carreiro das formigas. Vão deixando em fragmentos Leis da Física remota.Os Insectos e os Outros Mudou-se a palma da sina Nos afagos das urtigas. As joaninhas vermelhas. Na sua força ignota. 27 de Julho de 1988 108 . muito embora — Fecham-se os bichos-de-conta A tudo o que vem de fora… Aranhas tecem nas teias O tecido dum destino Que cativa centopeias Com patas em desatino… As carochas nos excrementos. Deuses em voos secretos Junto ao céu. equilibrados? O mundo é só dos insectos Deserto dos vertebrados! São João das Lampas e Lisboa. Licor de fogo nos campos A segregar-se de luz: No morse dos pirilampos Que mensagem se traduz? O bolor nos rodapés. Larva de bichos alados? Por eles nas chaminés Cantam grilos desolados.

Mas no exacto lugar Como uma folha caída… Só aguarda a inscrição Que um dia lhe vão escrever — Pobre ofício de escrivão Que pouco tem a dizer… — As pedras postas em monte… Ou uma cruz solitária… Qualquer coisa que nos conte Como a vida é perdulária. 8 de Agosto de 1983 109 . Abertas em transparência? A saudade como salga As coisas que são ausência! Pelos caminhos do céu Também há lousas partidas? Como a noite lembra o breu E presenças já esquecidas! Sob as pedras. Também no fundo dos mares — Quem é dono deste império? — Existem destes lugares Talhados p’ra cemitério… Com que flores sonhou a alga.Lápides Apagadas Esta pedra tumular Que já pesa enquanto há vida. acordados? Ou em sono justiceiro? Apenas emparedados Sem direito a formigueiro! Balaia.

Por mais caminhos que aponte Eu não me quero ir embora. Tenho fome e tenho sono Faça lá eu o que faça. Perdido na multidão. Por vezes o despenseiro… Todo eu mudo num instante Como vento passageiro. eu ando a monte. Pobre rafeiro danado Que se perdeu sem coleira! Eu tenho o faro apurado Na tortura da poeira! Lisboa. 9 de Outubro de 1983 110 . Tendo fome de anteontem Tenho sede de inda agora. Sou como um cão sem ter dono E que só viva da caça. Por muita história que conte Eu não tenho opinião.Ex-Libris Desertor. Sou o sargento-ajudante. Tenho o ócio das montanhas… Quando a neve nada deixa… Decoro santos e senhas Nesta boca que se fecha. Eu ando camuflado Pela pele das Estações: Pele de tambor já estalado No passar dos batalhões.

Granadeiro ou caçador Com armas descarregadas. Estendo o ramo de oliveira! Como gato de telhado. Poeta não espartilhado Pela força da doutrina. Poeta bem alinhado Por cardos e malmequeres. Barricada: a chaminé… A mais não sou obrigado.Auto-Retrato Poeta não alinhado. 4 de Dezembro de 1983 111 . Tenho as balas nos tinteiros E baionetas refractárias. Sem questões a demovê-lo. Como cavalo espantado Que ultrapassa a própria crina. Mas se acaso algum coelho Atravessa a sementeira: Quebro a espada no joelho. Mas fora das barricadas. Como gato de telhado Faz da Lua o seu novelo… Sou um franco-atirador. Um poema engatilhado Onde só fala em mulheres. Eu nunca fiz prisioneiros Por razões humanitárias. Cada qual é como é! Lisboa.

4 de Dezembro de 1983 112 . Mas bem no fundo só conta O homem que ficar vivo! Lisboa.Última Tentação Vendido por um ósculo Qualquer Cristo se revolta Se não encontra um apóstolo Ao olhar em sua volta… No desfecho só se aponta: Um Deus prostrado ou altivo.

Mais o Fandango. O tablado Harpa Judaica. A semifusa. O dó bemol. 4 de Dezembro de 1983 113 . Cantor de tango. Que planetas No Planetário! Que rio tão farto Que nos murmura Os sons em parto Na partitura! Lisboa. As notas pretas Como rosário. Clave de sol: Olhos da musa… O ré menor.Tocata e Fuga Cravo temperado Em cena laica. Uma colcheia. Voz de falsete. O Minuete. O fá maior: São grãos d’areia.

se tocou. 19 de Dezembro de 1983 114 . fica enorme Com seus telhados tão ensanguentados. não tem amos. O bronze foi apenas beliscado… Outro pinho. É o Filho do Homem ou de Deus? Terá depois domingos com seus ramos E Salomés. tresloucado ainda dorme Mas já sonha Inocentes degolados… Renascido pobre. outra noite e outra idade. De neve que se quer imaginada… Cada um tem Jesus que desfigura À força desta noite não querer nada… Lisboa. ao longe. castiçal e castidade E já se adivinham os Reis Magos. apenas com seus véus… O tempo é de silêncio nesta altura. Jerusalém. ninguém ouviu.Outro Natal P’ro ano quem virá? E quem partiu Quando o pano de ferro for içado? O sino. Herodes. O rosto permanece mas com estragos… Na mesa.

26 de Agosto de 1983 115 . Outras marcas de nobreza… Perde-se o leite em searas Se das tetas fazes mesa. Pois lembra águas do Tibre Que envenenam alcateias… Sais aos atalhos. Desenhas a Geografia Com tribunos e Tibérios? Teu leite da tirania Fez a nata dos impérios… De Roma loba faminta. Pisas a sombra dos dias. aos trilhos. O latido que em ti vibre Gela-nos sangue nas veias. Quem de ti um dia coma Terá c’roa no cabelo… À fronte dás as tiaras. No céu da Arábia. Pelos filhos doutros ventres. De ti nascem dinastias Que contam reis pelos dedos. Tem teu leite a cor da tinta Das histórias em que tu entres. Calendário de arvoredos. Depois devoras os filhos Mas a monarcas dás vida.Via Appia Loba faminta de Roma Não tens afagos no pêlo. Tudo ao que a noite convida.

horas depois: vidas trocadas A Espanha era um dilúvio no Ocaso! A Lua. 10 de Janeiro de 1984 116 . já é praia Apenas isto a noite segredava… Lisboa. veio beijar a raia Que há pouco o Sol e chuva baralhava. Tantos de Tal Em Espanha havia sol (e sol a pino!) Porém aqui chovia sem parar. Como a fronteira fosse só destino Dos dois povos que estava a separar. amena. Marvão. não vem ao caso… — Porém. Ou sol e sombra apenas das touradas? — Touros de morte ou não. visto de Espanha.Marvão.

29 de Julho de 1988 117 . É como cântico aberto A retalhar a canção… Pianista boquiaberto Por ouvir uma ovação… Resignado concerto Que só tem uma audição. Vertigem de saguão. Lisboa. É o presságio secreto D’aviso à navegação… É a flor do deserto. Fevereiro de 1984. É o sim e negação. Duma primeira audição: Este infindável concerto Enquanto há coração… Continente descoberto Por recente aluvião. De chuva vinda de perto Mas não caindo no chão… Como fólio entreaberto Dalgum livro de Razão. Londres.Audição Única Com um certo desacerto. Onde o número fique certo. Pareça ainda que não… É como Sol encoberto Quando não manda a Estação: Sentimos a vida perto Mesmo ao alcance da mão! É visível e concreto.

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Circus Maximus .

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1 Dança do Escalpe Uma escada sem degraus — Onde o passar não estremeça — Memória a noventa graus A ferver-me na cabeça… Um mapa na epiderme — Isenta de tatuagem —. Estação de rádio arcaica Só emito em ondas médias Na muralha pirenaica Que m’afasta das tragédias! Na cintura trago escalpes Dos sonhos dos meus dez anos E por vezes passo os Alpes No roncar d’aeroplanos. Veneza. Os vasos comunicantes Entre mim e a verdade. É da água que transpiro Entre algum não e um sim! Os sonhos são dominantes. Trago em mim o Júlio Verne Que me deforma a imagem. Mais os sonhos que fervi No caldeirão da memória… Torno a massa lamacenta Em fresca água potável. D’alguma causa notável… Se pelo sonho transfiro O que vai dentro de mim. Levo o Emilio Salgari Nesta minha trajectória. isenta. 12 de Fevereiro de 1984 121 . São galgos em liberdade. Essência tão pura.

já não passa. Nos claustros. 17 de Fevereiro de 1984 122 . Por ser maior o Destino Do que o seu próprio desenho? Seja o que for. E o leite do luar Deixa suspensa a ameaça Dum castigo exemplar… É um espaço quase etéreo Qualquer metro à nossa volta É um anel do Império Com sonhos andando à solta… Que flores floresceu Florença? Que veias vão a Veneza? Sem sabermos a diferença É que temos a certeza.2 Terra de Siena Feras por pedra afagadas. os morcegos — Tantas luzes apagadas Sonham nos olhos dos cegos… — Será leoa ou hiena Ou apenas uma loba. Florença-Siena. Feito de sombras humanas E desejo de ver mais. Desenha estradas romanas Nos caminhos actuais. Esta sombra de Siena Que o luar quase nos rouba! Algum deus greco ou latino Que já perdeu o tamanho.

Viveu o sol e as chuvas. 21 de Fevereiro de 1984 123 .3 Pedra de Carrara Um Galata moribundo Acabando sem glória No chão que foi o seu mundo A páginas tantas da História… Nem moldura duma sebe Serve de fundo ao pudor. Lavou a pele nas nascentes. Chorou colheitas perdidas. Quis o corpo em carne viva. Sentiu na língua outros dentes. perfeita. Mediu o trigo nas medas. Que sentido? Que sinónimo? Que sangue na pedra escorre? Morre só e morre anónimo Como qualquer homem morre! Fez amor e comeu uvas. Passeou nas alamedas As pernas empedernidas. Que Tribuno da Plebe Correrá em seu favor? Estátua jacente. Mordeu passas de Corinto. sem uma amarra… Que rosto já sem certezas… Ai! A Pedra de Carrara Também tem destas fraquezas! Roma. Caído. Duma figura indefesa Onde a morte é luz eleita Duma vida mal acesa. Outro gosto de saliva. Teve as angústias qu’eu sinto.

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Nos espelhos as imagens não cabiam. Londres. Lisboa. nos desmentiam O que pudesse haver com algum nexo. Pesadamente. como asas que subiam. lamacentos e sem nexo. então. porém. Neste dia côncavo e convexo. Só os olhos.Obsessão Que caminhos os dedos percorriam. Voando contra o vento não venciam O cansaço que vem no amplexo. Como pedras num lago só caíam Trazendo um círculo mais sempre em anexo. Atalhos. 19 de Março de 1984. adormeciam Cansados de ser sonho e de ser sexo. logo partiam Como um raio de luz sem reflexo… Nos lábios que as palavras não abriam Deixavam-nos o rosto perplexo. Chegavam junto a ti. 29 de Julho de 1988 125 . As unhas. as carícias que faziam Na vegetação rasa do teu sexo… Os braços. Num voar tão simples e complexo.

Há sangue lá fora. Pesado. Lisboa. Coração não batas. 14 de Abril de 1984 126 . Canto de sereia Sem direito a praia. Coração és lago. Bem dentro da gente. Vê lá se me matas Em frente do mar. Há rios que são mares Quando chega a hora. És mundo lacustre No Espaço sumido. O sino não dobra Nos bronzes calados… A seiva não esquece A cor da verdura. Gota afluente. Há céu que nos sobra Nos olhos fechados. Corre devagar.Uma Gota de Sangue Coração não pares. Coração estremece Não guardes ternura. Desenho que ilustre História sem sentido. tão vago. Dois palmos de areia Onde o Sol desmaia.

O fogo dos sacerdotes Só para os deuses romanos… Fica o Templo incandescente Amolecendo as vontades.Queda do Império dos Romanos Havia a Estrada Romana Ponte d’arcos abatidos Com tanta sombra profana A passar nos dois sentidos… Havia memórias ermas Sem nenhum calor humano. Às vezes sem mesmo olhar — Será tudo o que disser A dança do polegar… —. Havia a Rocha Tarpeia: O castigo exemplar — Mais um elo da cadeia Do gosto de escravizar… —. E o peso dos garrotes Era o pulso dos tiranos. Tragando uma nação mais. E se vão cuidar do Fogo As submissas Vestais. Havia sol e nevões Na paisagem sempre estática E também declinações No cutelo da Gramática. Era o esmagar da escumalha Por Soberbos e Tarquínios. 127 . O Império abre-se logo. Na arena gladiadores Entre leões e panteras E as árias dos cantores Quando lançados às feras. O César quer ou não quer. Havia templos e termas E um aqueduto romano. Mas já havia outra gente Sonhando outras divindades. Era a calma… Outra batalha… A paz nem tinha domínios.

Londres.Do alto do Palatino. Havia um Povo escondido Por detrás do mesmo escudo… Quando andam escravos a monte O Tirano tudo espreita E é sempre noite na ponte Que o medo torna mais estreita… Guincho. Num olhar tudo se alcança. Londres. 30 de Abril de 1984. Ser-se dono do destino Dava alguma segurança… Quando o veneno é bebido Torna-se o aço em veludo. 19 de Julho de 1988 128 . 22 de Abril de 1984.

Domingo de Ramos Gota de sangue na ara Nem sequer será indício. Vem o Domingo de Ramos No Cordeiro castigado. Pobre Cordeiro Pascal Que destino tão falhado. Bath e Londres. Fica mais quente a manhã Se um cordeiro se tresmalha. Pão da boca d’inocentes. A justiça ergueu a vara Num capricho tutelar. Se houvesse mais rebeldia. Vinho dos sacrificados. Talvez até o Cordeiro Vivesse mais algum dia E morria o carniceiro… Goteja o sangue na lã Que ninguém já agasalha. As palavras que gritamos Passam logo a ser Passado. Para nós é coisa cara O gratuito sacrifício. O bafo morno na ara Deixa a vida a transpirar. P’ra cumprir o ritual Lá o qu’remos tresmalhado. Mais os gestos tresloucados Que nos são afluentes. 23 de Abril de 1984 129 .

De tudo um pouco… Ferve cachões. Conquistadores: Os que chegaram. Num chão sagrado Que não tem peso. Tem morte e água. Contam-se os anos Nos grãos de milho. Tão indefeso. Ensanguentado Pelos grilhões Do El-Dorado… Povo minúsculo Em lamaçal Vive do músculo E lei braçal. Casos vertentes… Córtez. Londres. Tempo lendário Sem emoções. Tudo carregam. Sonhos até… Os que aqui chegam Só trazem Fé E de mãos postas.Nicarágua Na Nicarágua Corre o rio Coco. Pizarro Não são dif’rentes! São a serpente Que desenrola A aguardente Ou Coca-Cola… São uns senhores Dum tempo todo: São opressores De qualquer modo! Os ameríndios: Americanos? Ou estes índios São marcianos? Quem concebeu Este mistério: Tombar do céu Neste Hemisfério? Ó exilados Dum mundo antigo: Ombros dobrados Como castigo! Neste país De rios e cocos Há leis servis E índios loucos! Na Nicarágua O Rio Escondido Passa na água Sem ser ouvido… Oxford e Londres. Dois oceanos Como espartilho. o carro. Deus: Quantos são? Tem duas costas Esta nação. Libertadores: Os que ficaram? A Coca. Mais um rosário Feito a feijões… Dorso dobrado. 24 de Abril de 1984. 30 de Julho de 1988 130 .

Não há esp’rança nas partidas Se há frustrações nas chegadas… Lancei a lança. 22 de Junho de 1984 131 . Em casa sem pavimento Sempre pintada de fresco. sete vidas. Como se faz nas ciladas. Praia de São Rafael. Eu renegado e converso Filho Pródigo aspirava: Só ter direito ao regresso! Sete foles. Mordi silêncio secreto Dentro das bocas fechadas. discreto. Queria apenas ter fronteira (Doce protecção dum muro…) Não discutia a bandeira: Sedentário e sem futuro! E no ar que respirava. Entre sete debandadas. Que destino tão profético Neste meu movimentar: Ter o Norte Magnético Na luz da Estrela Polar. Era o Sol meu alimento E a Lua o meu refresco.João Sem Terra Se à terra fosse ligado Quatro palmos me chegavam — Sempre fui recém-chegado: Despedidas me negavam… — Eu fiz parte dum rebanho (Homens nómadas são gado) E perdi-me num desenho Que o Tempo tinha rasgado.

Como seria o ocaso? Algum sol que arrefecesse Como se o mar fosse um vaso… Caso a caso. Anda ao acaso no vento! Lisboa. O ocaso não é caso Para o dia não voltar (Qualquer noite tem um prazo Que não pode prolongar.Branco e Negro Se acaso o caso ocorresse. puro acaso — D’algum caso me esquecesse! — Passe a vida em cabo raso Onde o mar nunca se erguesse.) Se acaso em tempo me atraso Nada deixa de ocorrer: Cada Homem tem um caso No seu modo de morrer… Branco e negro nunca caso — Seria caso o cinzento — E a cinza tem um prazo. 27 de Junho de 1984 132 .

22 de Agosto de 1984 133 . que escândalo Pois que temos de acordar! Lisboa. A tua estola de arminho Lembra Inverno e agasalho. Nos teus lábios cor de lenha Onde há fogo a crepitar. mirra e sândalo (Quem os pudesse inspirar…) Dormir contigo. Penso até que sou feliz… Sonho a bainha do lenço Tantas coisas que me diz… Incenso. Saem ladrões ao caminho Se te penso num atalho… Se te penso.Sândalo O teu lenço de bretanha Só lembra espuma do mar. no que penso.

Dentro das Câmaras de Gás Pintou Bosch novo Inferno… Inclemente. Vem depois o esquecimento. Tabaco de Apocalipse… Não há freios nas tragédias. 8 de Setembro de 1984 134 .Noite e Nevoeiro Sempre noite e nevoeiro. Uma espécie de cinzeiro. Num momento quase terno. Promessas de Purgatório São as celas de cimento… Coração dentro do peito (Como em transparente frasco) Cada qual anda sujeito Aos caprichos dum carrasco. Sempre noite e nevoeiro! Os homens nunca se esqueçam: Não passa dum carcereiro Qualquer deus que vos ofereçam! Londres. transitório. Loucos cavalos na estrada Aos quais quebraram as rédeas E que vão à desfilada… Mas a noite é tão fugaz. Mas ao céu quem tem direito Não será destas paragens? Cavou o rio o seu leito No aconchego das margens. Não fosse o espaço uma elipse.

É só chorar… Ao de leve na treva suspirou O vento que não pára de passar. Que mão imprevidente não pesou O peso dessa pedra tumular? Ainda o selo em lacre não secou. é morto e nem pensou No corpo que ficava em Seu lugar… Lisboa. Marta. Já começa o segredo a transpirar… Piedosa Mulher. Marta. Saiu tão confundido como entrou: O Corpo já mudara de lugar. Porém. 15 de Setembro de 1984 135 . é morto. quem veio aqui não encontrou O que talvez não fora procurar. o que sobrou Do perfume que quiseste derramar? Pilatos.Santo Sepulcro Quem procurais. não está: ressuscitou! O Morto. inda mal as mãos lavou E a água já se está a evaporar… Como sempre do crime ali ficou A prova que se quisera apagar… O Morto.

Apenas pontual e nada mais E somente te guardo na memória. Tal fruto que no ramo se contraia Quando o vento de Inverno aparece. Partiste como a onda foge à praia Ou estrela da manhã quando amanhece. Eu peço que tu venhas e tu vais! Ó meu desejo d’ave migratória! Lisboa. Tal fruta que se espera que não caia Quando o vento em redor tudo estremece.Tântalo Chegaste como a onda chega à praia Ou como a estrela quando já escurece. 8 de Outubro de 1984 136 .

verde pinho. cantava E o Sol trazia o dia… Fios de prata. 17 de Novembro de 1984 137 . Como a neve desejada Que afinal não aparecia… O burro do Ritual Junto à vaca dormitava. O quente dos cobertores A incomodar a pele… Os olhos viam pastores Com suas taças de mel… Como a manhã demorava A vencer a gelosia! O galo. E Jesus nunca crescia! Lisboa. E a Noite era intervalo Entre o Eterno e o Momento… Como canção que se cala Na voz que fica vazia: Era um mundo noutra escala Onde a gente não cabia… Tocava o sino da porta. ignorado. Degelo no algodão… Vinham os Reis a caminho Com camelos pela mão… Judas morria enforcado. O silêncio não cortava…) Toda a conversa abafada Em papel de fantasia.Outrora o Natal Purpurina e azevinho Vindos doutra consoada Sobre a toalha de linho O ano inteiro guardada… Antigamente algum galo Cantava todo o relento. Era o vento que passava (Como faca que não corta. porém. Um anjo descomunal Uma trombeta empunhava. Mas a gente não sabia… Herodes.

É caroço o sol a pino. Lisboa. Como a noite fica minha.Fermentação Mal a noite se adivinha Por detrás daquela sebe. A neblina é a luva Que esconde a mão do destino. O bago da lua cheia A fermentar no relento… Uva negra em chão de areia De relance dá cinzento. Gravada nos meus sentidos: Eu sou o guarda da vinha Quando tiras os vestidos. uva a uva. Logo o medo guarda a vinha Nem a noite se apercebe… Talhada de melancia Ou gomo de tangerina: Sobrava a lua do dia Como fosse lamparina… Bago a bago. 1 de Dezembro de 1984 138 .

Nebulosa em Espiral .

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Longe parecem tambores. Como tomado de assalto: Gelava tudo.1 — O Túmulo e a Rosa i A Neve e o Mar Soam passos no asfalto: Serão de quem se esperava? Caiu a neve do alto No chão que tudo aceitava. Silêncio feito em rumores — O Mundo tem corredores Que levam rios p’ra o mar. — Caiu a neve do alto. Logo o mar a afogava… Mas aqui. sobre o asfalto. Mas ao perto é só passar. gelava! 141 .

Gasta-se o vento nos dias. Quem degolou inocentes Embalou filhos ao colo! Afagos de glaciares Num mundo recém-chegado. Se há sangue no empedrado? Quem pôs louros da vitória Nas cabeças dos vencidos? Vistos de longe na História Todos somos confundidos… Vem aqui quem não chamamos. Faz um Domingo de Ramos Com jumento e malmequeres. Abre o peito às flores bravias. Entre papoilas e trevo. Sete palmos duma cova: Onde cabe a vida inteira… Lua Cheia? Lua Nova? Será como a noite a queira! As estrelas incandescentes Nunca gelam sobre o Pólo. Quem põe rosas tumulares Onde se quer o noivado? 142 . Nunca vem quem tu quiseres. Crescem dunas no que escrevo.ii O Túmulo e a Rosa Quem pôs rosas tumulares Onde se queria o noivado? São aras ou são altares.

açucarada. 13 de Fevereiro de 1985 143 .iii O Sal e o Açúcar É o sal que lembra a onda. O reverso da medalha… Os pulmões. O silêncio fecha a boca. Por ainda não ser sal. Nunca se vai completar… A Via Láctea é redonda? Elipse que não se abriu? E se o sal nos lembra a onda O açúcar lembra o rio… Paris. Afinal por quase nada Muda a água de sinal. peça a peça. O sorriso a entreabre. O medo mete na toca Qualquer fera em liberdade. enquanto fole. Logo a sombra lembra o sol. Se a morte é lado de lá Por que havemos de passar? Água doce. Entre o que está e não está Fica o desejo de estar. Puxam o fogo à fornalha… Tudo acaba… O que começa Não será só terminar? Este puzzle. O açúcar lembra o rio. Onde a palavra se esconda É onde a frase se abriu.

Com ast’róides no regaço… As estrelas que sejam gémeas Não cabem no mesmo Espaço! Uma delas findará — Qual delas? Tanto nos faz! — E depois se apagará Como algum bico de gás. Pelo tempo que demora Da outra o fim do sinal! A moral que nos importa Diz que o crime não compensa: Uma viva. Paris.2 — Os Mundos Exaustos iv As Estrelas Assassinas A juventude de Fausto Na milagrosa proveta E talvez um mundo exausto. No seu instinto perverso — Feminino e bem primário — Quer estar só no Universo Com seu vulto incendiário. a outra morta Mas ambas com luz suspensa. Passam anos aos milhões. 14 de Fevereiro de 1985 144 . Mas continua a brilhar Aos nossos olhos de anões. Mesmo depois de acabar… Ai da gémea vencedora Que p’ra nós é tão igual. Devorado num cometa… Por um capricho de fêmeas.

P’ra que me nasçam poemas Concisos e pontuais. Imprevidentes. Que me dê palavras certas Como fruta bem madura. na estrada. Num Futuro feito logo Tendo o Presente por fala! Constelações tão sardentas Como cara feminina. No falar da nossa escala. Pois só elas são distintas No Passado que eu prevejo! Paris. Boiando nas placentas Dos partos de purpurina! Sejam duplas ou extintas. rios de fogo. 13 de Fevereiro de 1985. 27 de Julho de1988 145 . Galáxias e Pontos Negros Nesta aceitação do Nada! Lagos de luz.v Prece Seja Estrela da Manhã Ou alguma do Carneiro — Seja mesmo estrela-anã P’ra caber no meu tinteiro! — Mas dum deus de mãos abertas. Frases grandes ou pequenas De contornos siderais! As estrelas a lembrar pregos. Londres. Qualquer delas eu desejo. Que mal o tempo segura.

vi O Pão e a Pedra Como miolo de pão Duma farinha serôdia. Da cama à mesa: dois metros. Estrelas são as migalhas Entre dois actos de sexo. 14 de Fevereiro de 1985 146 . Que por nossa cobardia Não nos serve de alimento. Cada homem em si esconde Uma chegada e partida. Todo o Espaço em explosão Fica bem dentro da côdea… Pão-nosso de cada dia Sempre fresco e bolorento. Eis o espaço que ocupamos. Vamos a Roma ou a Meca Passear a solidão… Só o silêncio responde A cada prece of’recida. Entre a luz e escuridão. Espaço feito de féretros E de berços que embalamos… Entre o dilúvio e a seca. Feito de fogo o farelo Coze bem nosso segredo: Deuses feitos a martelo Na pedra do nosso medo! Paris. Pela franja das toalhas Ficam pedaços sem nexo.

E com risos sibilinos Cortam a língua c’os dentes! A lepra aqui já não conta — Se na vida contaria! — A letra de Deus aponta Mais nomes sem gafaria. Os que morrem nas jangadas.3 — Juízo Final vii Fecha o mundo p’ra balanço. Neste dia ameaçado: Caso a caso. Cro-Magnon. lanço a lanço. Não verás homens em fúria: Tudo é resignação Num rebanho de penúria Que encontrou a salvação! Nem sequer do Purgatório Se puderam socorrer: Foi somente obrigatório Fechar os olhos… Morrer… 147 . Sem terem a terra à vista… Os das paisagens geladas Também constam desta lista. pelos dedos. Foi o Homem numerado. de Neandertal Ou dos buracos mais vários: Por motivo natural Ninguém ficou nos ossários… Quantos foram enforcados? Quantos morreram de enfarte? — Como reabilitados Nem loucos formam à parte! — Os que morrem à nascença Também têm lugar certo? Foi a Peste uma doença Olhando o homem de perto… Nesse canto mais pequeno. Conta-corrente de preces Em balança decimal… Onde estão os assassinos? Mesmo ao pé dos inocentes. Os homens transfigurados Que por frasco de veneno Se viram alimentados! Caso a caso. Faz Deus o Seu inventário: Pensavam que eram rochedos… Nem de barro refractário! Não há perdões nem benesses Neste castigo final.

15 de Fevereiro de 1985 148 .Poço fundo? Poço amargo? Ai quem pudesse dizer! Todo o Espaço era tão largo E não puderam caber! Mas chegaram aos seus portos Os que já estão no Inferno? Como pode contar mortos Um Deus que se diz eterno! Paris.

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Não estou atrás do balcão. Estou fechado Na semente… Londres.Fechado para Obras (Poéticas) Renovado. 19 de Fevereiro de 1985 151 . Faço palavras cruzadas De começo de estação… Não saldei a existência Pois faz parte das mobílias (Do tempo da Resistência E de «Debaixo das Tílias»…) Seja lá pelo que for: A loja remodelada. Para obras demoradas. Fui plantado Novamente. Independente: Estou fechado Actualmente. Ver o Sol é já supor A Poesia renovada.

Temos fome de distância. Nosso olhar fica queimado. O céu é feito de lume.A Noite dos Degolados O nosso sonho é o gume Dum punhal embainhado. que sabemos? Somos anjos degolados Nas orações que dizemos. Seja um deus ou seja um mago: Quem nos pode olvidar tanto Na Estrada de Santiago? Quem nos grita pr’onde vamos Ou para onde não é de ir? Quem será que nós chamamos E que não nos está a ouvir? Estamos sós? Acompanhados? Se o soubermos. Mas quem nos dá de comer? Quem nos dará importância Neste Espaço sempre a arder? Quem decora o nosso nome? Quem nos conhece o sorriso? Quem nos vem matar a fome E as febres de Paraíso? Quem nos põe o mel na sopa E do suor faz orvalho? Quem nos aconchega a roupa Nesta enxerga de enxovalho? Seja diabo ou um santo. Lisboa. 24 de Abril de 1985 152 .

É tudo conta-corrente: Bola negra sai dum saco Que traz a sorte da gente… Rápido Porto-Lisboa. Como luas em céu raso. bem vertical. Pano verde. as tabelas Modificam tudo logo! Cai a luz. mas qual delas Detém a sorte do jogo? Como na vida. Bola branca. Como uma campina aberta. por engano.Ponto Negro Mundo: bola de bilhar — Cuja cor não vem ao caso —. Outras duas a rodar. 1-2 de Junho de 1985 153 . Como à cal viva abraçada Uma formiga impassível… Bola a bola. verde pano. taco a taco. ponteada Por ponto negro visível. Num feixe triangular Que no pano põe sinal Duma nódoa circular. Tabelas adjacentes. Até na bola se acerta… São três bolas. Onde às vezes. Ângulos rectos na fachada Que fixam estátuas jacentes Olhando a bola encarnada.

Tão sozinho me quer a majestade! Eterno? Para mim isso é vexame. César será servo dos meus servos E carrascos jamais darão castigos. porém. Se a moeda com que pago for o sonho. Trago estrelas. Invejo a cada homem sua idade! Praia de São Rafael. Não é fácil o que venho aqui propor: A cada qual darei o Paraíso… A ferro e fogo darei o meu amor. ninguém me acusa… A alta-tensão que trago nos meus nervos Não é perigo de morte nem tem p’rigos. Exaustas. O Mundo arrasarei. afinal.Deus no Confessionário Só eu sei ao que venho e ao que gasto! Da minha corte os reis foram banidos. Se eu trago nebulosas no meu rasto Trago gelos das neves nos sentidos. Mas que serão o sonho da bebida Daqueles que se perdem nas areias. também já ferrugentas. De tirano. ninguém me chame. Poderoso. se for preciso… Os dilúvios serão minha medida Nas represas que prometo trazer cheias. Construí o Universo e as ferramentas Só de mim ficaram conhecidas. é-vos vedada uma recusa. Boca a boca — que quero sempre muda — Quando a vela do veleiro estiver rota Mandarei o tufão em sua ajuda… Não é fácil de aceitar o que proponho. de gelo arrefecidas. 11 de Junho de 1985 154 . No entanto. Transbordarei a água gota a gota.

Livro das Horas Deixem-me morrer no meio dos livros — Folha amarelecida pelo Tempo — Venha. Sob a sombra de algum cedro tutelar. em sacola abandonada… Só um som de Vivaldi e de viola A escorrer pela tarde demorada. razão de ser o fim Da leitura que não vai recomeçar… 155 . Cuidados motivados pelo vento… Venham também depois fechar-me os olhos. Livro aberto num banco de jardim. inesperado. Muito atrás. Como às páginas dum livro interrompido Por sono a meio da tarde. Sem chegar a saber bem a verdade… Se o Espaço tem medidas bem exactas Porque nos tiram tanto a liberdade? Recordação dum livro duma escola. depois. Os poemas de amor. Deixado a meio. Batendo nas janelas bem abertas. alguém fechar-me os vidros. folhas dispersas Nas ramagens que há no pensamento. Abertas pelas mãos e pelo vento. Que deixou a leitura sem sentido… Que bom será morrer entre as erratas.

Livro das horas aberto ao luar. Vendo melhor: leitura transitória Com palavras a tomarem-me o lugar… Lisboa. 30 de Junho de 1985 156 .Folha a folha. dedilhadas na memória.

O Eterno e o Momento Só diferem nas palavras.Conta Errada Eu de noite ouvi no vento O barulho das pedradas. Lisboa. Vinagre mais limonadas. Por teu corpo sou sedento. Mas as palavras por dentro Têm gavetas fechadas… Cada nome tem assento De pessoas baptizadas… O Eterno é um momento Como as palavras cruzadas. em conta errada. O sol serve de alimento À planta iluminada: A seiva corre por dentro Da loucura esverdeada… O Eterno e o Momento Não nos dizem quase nada: Um milhão ou três por cento Tanto faz. 7 de Julho de 1985 157 .

Costa da Caparica. No seu grito há o som de qualquer doca Que saiba pôr travão a qualquer mar. Ave cuja carne sabe a peixe. Véu de noiva no rasto das traineiras Que regressam de manhã ao seu abrigo. no entanto. Atenta à tempestade. a mergulhar. 8 de Setembro de 1985 158 . logo avança À terra que precisa de avisar. na outra o mar. equilibrado.Gaivota Onda por acaso onde se enfeixe Não chega. Lenço branco. Imagem na retina que desfoca Litoral. a planar. Seus ninhos são os limos da corrente. Numa asa leva a terra. Imagem que se perde mal se vê E se refaz depois correctamente… Seus ovos são os seixos da maré. Suas asas não passam de balança Onde a praia e a maré se vão pesar. uma bandeira Num aceno de amizade ao inimigo. melhor.

afinal. o que interessa uma resposta Ao ouvido que nunca a escutará? Amar é aceitar o ultimato Que não vergue a vontade dos poetas. Que cantos d’aves há nos arvoredos! Que paisagem nos nasce nos sentidos! Raízes? São apenas os teus dedos Quando nós somos anjos perseguidos! Comboio Lisboa-Porto. Teus braços são os ramos desvairados No vento que em mim sopra e não domino. 11 de Outubro de 1985. Londres. Remorso foi prazer já conseguido. 9 de Agosto de 1988 159 . amor quando os dados estão lançados São os cubos a forma do destino. já foi herança Embora no orgasmo ter morrido! Ai. Pano de ferro aberto no teatro E poemas fechados nas gavetas! Do gesto ao acto é passo de criança. Ter nascido.Colóquio dos Simples Indagar a razão por que se gosta É querer saber que nunca saberá! Vendo bem.

Há convite ao linchamento. não haja cão. 12 de Novembro de 1985 160 . Qualquer cão será danado Se a multidão ordenar. Mesmo sem tê-lo presente. O essencial é banir Sugestão posta na frente. A multidão saciada Só se o cão não ficar vivo. Às vezes pela razão Dos uivos que traz o vento! Hão-de ouvi-lo a ganir. Ah! Bicho! Mesmo calado Dirão que estás a ladrar! Nada vale ser medroso E submisso entre as ervas: Se alguém gritar: cão raivoso! Todos lhe atiram as pedras! O açaimo e a corrente Não lhe dão a segurança: Basta haver no meio da gente Qualquer sede de matança! Lisboa. As razões que não se tomem São motivo que se evoca… Haja cão. «Melhor amigo do homem»? A frase morre na boca.Multidão Mate-se o cão à pancada! Mesmo sem haver motivo.

Mas as mãos ficam molhadas… Lisboa. Sem ser nada transcendente. O sonho ficou distante. Eu a metro meço o medo Como tecido corrente. Conforme as coisas que viu Dentro do mundo pequeno. Cada qual canta a canção Junto à corrente agressiva. Por entre tantas histórias Que decoro sem decoro. A Lua de diamante Rasgou a noite de vidro. 30 de Dezembro de 1985 161 .Abstenção À sede cedo. empedernido. Em cascata progressiva. A vida é feita de actos. Como a peça mais intensa. O nosso sangue coalha Como estrelas nunca olhadas. acedo. Transparente. Ouço vozes ilusórias Que me vão cantando em coro. Qu’importam mãos de Pilatos Se só adiam sentença? Cada qual é réu ou rio Cada ser será sereno. Vão-se as águas em cachão. Pilatos pede a toalha.

28 de Maio de 1926 – Verão Quente de 1975 Por vezes na sonolência A noite traz-me ruídos Do tempo de resistência Das paredes com ouvidos… Seja frade inquisidor Ou tirano jacobino. dia a dia. Não passa dum opressor Quem nos comanda o destino! Dizem que o tempo passou E que tudo está esquecido… Se a página já se voltou Para quê o que foi lido?! Se acaso nalgum momento A falar nisso alguém torna: É forçar o esquecimento Como quem malha a bigorna! Cópia exacta. 6 de Janeiro de 1986 162 . Conta-gotas da verdade… É arma da tirania O esquecer em liberdade! Já duas vezes na vida Enfrentei a opressão. Como uma côdea roída Que não tinha gosto a pão… Das duas vezes. Me segredava essa gente Que era para meu bem Que punham grades na frente! Lisboa. porém.

Aí está a liberdade. 9 de Janeiro de 1986 163 . A Lua é prato com leite… Cada qual é como é. A Lua é chuva de prata? Da rainha foi enfeite? A Lua é folha de lata. Mas julga ver a verdade! Lisboa.Miradouro O rio é prata? Dourado? Água que passa somente! Quem o quis imaginado Cortou-lhe a força à corrente. Cada qual vê o que vê.

Conto-te o filme! No intervalo De cada entrega Há rebuçados — Subentendidos — É uma guerra Uma refrega: Esta batalha Só de sentidos! Este desejo De Lua Cheia Haja manhã Que o sublime. Rasgo os bilhetes. Rasga os bilhetes. Somos ecrã E plateia. 21 de Janeiro de 1986 164 .Sessões Contínuas Ir ao cinema? Que má ideia! Haja uma cama Que sublime Este desejo De Lua Cheia. Conto-te o filme! Lisboa.

Cal Viva Águas verdes. Pedra de cal mal esculpida Onde a morte é um aceno Como só no fim da vida… Ó espelho de águas paradas Que venceram a corrente. E acontece Somente o que tem de ser. Mas ficaram escravizadas Ao renegar a nascente! Acontece. Tanta água que apodrece E que devia correr! Paris. 19 de Fevereiro de 1986 165 . estagnadas — Como se fossem verdade! — Em lagoas apertadas Em ancas da puberdade… Talvez um fio qu’escorresse Nestas águas em disfarce Fosse lágrima e descesse Pela cascata da face… Mas é rosto tão sereno.

agora. Como o Infinito Não fica distante! Nos gritos há fúrias Que não são domadas… Ao longe as Centúrias Aguardam formadas… Entre companheiros Que tremem de medo! Por trinta dinheiros Desfaz-se um segredo… A candeia acesa… Já põem os pratos Por cima da mesa… Mal sonha Pilatos! Nem sequer Caifás Será quem comanda… Virá Barrabás Até à varanda… Depois. Está preso nas malhas De Jerusalém… A voz abafou-a No pó dos caminhos… Já Lhe sonham a coroa Cercada de espinhos. Quinta-feira Santa. No momento exacto: Num lenço de linho Ficou um retrato. Há povo a gritar. É como alcatruz Moendo água alheia. Preparam-Lhe a cruz Acabada a ceia. Entrou na cidade Montando um jumento… Os reis. diz. Já nada O detém. no cimo. Contempla o deserto: «O Tempo está próximo»… Todo o fim está perto! O silêncio invade De vozes o vento. Da palavra ao grito Só vai um instante. Qualquer multidão É degrau d’ossário Que grita um perdão Depois dum calvário… No entanto.«O Tempo Está Próximo» Do monte. 27 de Março de 1986 166 . no caminho. Não chegou a hora De crucificar… Montava um jumento Com jeito de corça: Moinhos de vento A darem-Lhe força. seus amos — Rebeldes vassalos! — Mas ’stendem-Lhe ramos Só resta pisá-los… Forçou as muralhas. Morreu um cristão Descobrindo o peito… Reconstituição Dum crime perfeito! Praia de São Rafael.

As raízes das manhãs Floriam noit’estreladas. Ou nas sombras do luar (Quando a Lua num momento Imita o Sol sem queimar…) Se viesses volteando Movimentos dum sem-fim. Ao de leve. Levaria o mar nas ondas O Mundo que havia dantes. Só dirias. Outonos dentro de mim… Se viesses nas romãs. Se viesses na voz cava (Murmúrios de cantochão). ensanguentadas. Rugosas. ao chegando: Só eu sou o teu limite! Se viesses do Futuro Morria em mim como herança Todo esse medo do escuro Que trago desde criança! Lisboa. 24 de Abril de 1986 167 . Se tu viesses gritando O direito à dinamite. voando. Espalhando ouriços de lava Nas vertentes dum vulcão… Se tu viesses no vento.Chegada Se viesses nos medronhos Que queimam na aguardente Talvez o fogo dos sonhos Fosse em nós um caso assente… Se viesses nas maçãs. Em folha solta. perfumadas. Talvez as minhas manhãs Dessem noites sossegadas… Se tu viesses nas mondas De crescentes e cortantes.

Eu sou aquela gaivota Prenúncio da descoberta… Sou a ovelha mais amada Do rebanho do pastor. Sou apenas voz dum Povo. mas a sorte Deu-me o vento. Toda de lua banhada Quando é noite em meu redor.Fado Amália Ao nascer não tive assento: Era gente a não notar… Mas se canto. Hoje tenho mesa farta… Já tive reis a meu lado E minha sorte não louvo: O que acontece é meu fado. Sou a folha que se nota Na manhã d’Outono. Seja Verão ou Inverno. deu-me o mar E deu-me bobos da corte Que só me fazem chorar. Mas só dois palmos de gente S’ao espelho me vou olhar! Chaves. O frio é forro de lã A quem o Destino aparta Tinha a fome como irmã. Vejam lá a sina minha — Que gracejos do Eterno — Eu sou sempre a andorinha. até o vento Fica calado a escutar… Não tinha anéis. 27 de Maio de 1986 168 . aberta. Eu sou a água corrente Sou a gota feita mar.

Era anis em taças frescas Nesse dia feito lança. Eram as novas Goyescas Seguidilhas de matança! Não falavam os actores Desta peça ensanguentada. 15 de Julho de 1986 169 . Mais um jarro de sangria… E a morte pela frente Todos tinham nesse dia! Ibiza. Bigornas que a morte malha. Vinha a vingança dos touros Que nascem p’ra se matar! Navalha de ponta em mola Chicote de sete pontas: Santo Inácio de Loyola Mandava ajustar as contas! Era um novo Torquemada Que andasse na rua à solta E que por tudo e por nada Que matasse tudo em volta! Coroa d’espinhos e picos. Eram chapéus de três bicos Dos pesadelos de Falla! Cinto voltando a fivela Sobre uma cara indefesa… Pobre terra de Castela Que tens cor de lenha acesa! Manzanilha e aguardente. Afinal o que era aquilo: Cada qual adversário? Que dia de São Camilo Que trazia o calendário! Nesse regresso dos Mouros Do outro lado do mar.18 de Julho de 1936. Não rufavam os tambores Era tudo p’la calada! Sob as patas dos garranos Indefesos e quietos: Pólvora na cor dos ciganos Morrendo d’olhos abertos! Como se um recém-chegado Trouxesse a morte pela mão: Era um ódio adiado Do tempo da Inquisição. Dia de São Camilo Só perguntavam: «Quem vive?»… Havia gente a matar! Trazia a voz o calibre De quem ia disparar! Vinha do fundo do Tempo Uma voz que se engatilha: Fazendo fuzil do vento Em balas de manzanilha.

A vida é casca de noz. Vai falando assim por nós Quem nos dará de comer… Trazemos rios junto à foz Nesta pele a embranquecer. Linha fugindo em retrós Com que ninguém vai coser. Às vezes quase sem querer… Mas que fale alguém por nós Depois de a gente morrer! Lisboa. 3 de Agosto de 1986 170 . Range o moinho nas mós Cantigas de Maldizer. É fio de sangue a correr.Passe a Palavra Se alguém fala aqui por nós Fica tanto por dizer. Sempre alguém paga ao algoz Que nos irá abater. Salga o mar a nossa voz D’água doce por beber… Sempre alguém paga ao algoz.

Mal cai o pano Muda a estação. Pressentimentos. Eu já falei. Colos ’sculpidos. Folhas ’sculpidas Nos capitéis. Tão outonais. Deu o que tinha? Folhas d’acanto. Binário eterno Fogo d’inferno Na transmissão. Mais o cordão. Sonhos cumpridos Mas resumidos Nos pensamentos. Se fico mudo. Passos no pátio Há flores no átrio — A cada canto… «Filhos do Solo». Braços marmóreos. Aluviões… E nas colmeias Cantam sereias. Ou são histriões? Lua sem fases — Como era dantes — E nos lilases 171 . Como o ditado Do meu colégio. Caem discretas. Folha d’acanto. Tão acrobática. Há purgatórios Sobre os zimbórios Dos meus sentidos. Contas secretas Dos digitais. Zumbe um besouro? Ou será choro Das aves raras? Com seus turbantes Passam moleques. Executado Por privilégio… As folhas secas. Durante o ano Toca o piano Do coração… Vão-se as areias. Nas avenidas Ramas despidas Sonham bordéis Gaiolas d’ouro E pedras caras. de facto. Por uns instantes Bóiam nos tanques Sombras de leques. Tão mal ’scutado.Os Robinsons do Espaço O solo pátrio. Vejo o que vejo E vejo mais: Pois no solfejo Já antevejo Cordas vocais. Nas flores. «Filhos do Reino» O desconsolo Vem desde o colo Vem desde o seio. Eu sinto o tacto Das flores que pinto. Erro de olfacto Sempre que minto. Eu não me iludo Pois ’stou em tudo Com que sonhei… Cinco sentidos. Colunas dóricas. (Escada de corda A dar saída A quem acorda No ventre e morda O pó da vida!) Salve Mãe-Pátria! Salve Rainha! A Via-Láctea. Leite materno. Mármore branco ’stridente canto D’aves eufóricas.

gota a gota. Alguém queimou-se Na água doce Vinda do Céu! Assim queimados. Grandezas parcas. É bancarrota Qualquer dilúvio. 8 de Setembro de 1986 172 . Da nuvem oca Nasce um Danúbio E. Diz a Ciência! Fosse o que fosse Que aconteceu.Fuga de gases Asfixiantes. Vamos na leva. Moleculares… As novas Arcas Não deixam marcas: Vão pelos ares… A descendência Assegurada Sem penitência Só transparência Toda estrelada! Razão de fé? Sobrevivência? Quem foi Noé Hoje não é. Tão segregados Os degredados Filhos de Eva! Lisboa.

Véspera Veneziana .

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O pó do veneno Já não custa nada. Ficou o perfume Da tua presença. Adaga sem gume Desta noite imensa. No fundo do mar Há terra também… Estrada Bergamo-Brescia. As estrelas no ar São pontos de giz… Muda de lugar Tudo o que convém.1 Constante O campo de feno. Uva prateada. Tolda-se o olhar. 21 de Setembro de 1986 175 . Flores não removem O que já passou… A Lua é o pólen Que o vento levou. Tolda-se o anis.

2 Aquário Há sempre sinal De quem dá um passo. Bola de cristal: O Mundo no Espaço… Quem faz a leitura Do que nos virá? Ai. 22 de Setembro de 1986 176 . Tudo em cada Pólo Começa e acaba. se é mentira: Esta atmosfera Que a gente respira! Pádua. quem nos segura Também largará… Tão imaginário O Mundo suspenso: Tão grande aquário Tem o mar imenso… Violino a solo O som que desaba. Quem foi que pudera Dizer.

Vinagre no gosto… São choros e risos. Tudo condensado Na vida dum Homem! A História Sagrada (Caminho ignoto): Banda desenhada Por mãos de Giotto. É o sal dos factos. são actos.3 Fresco A Pomba anuncia A Nova Verdade À pobre Maria Tão na puberdade! São dramas. 22 de Setembro de 1986 177 . Pádua. A Última Ceia Já é testamento. É o vinho. Transfigurações. o mosto. Os Trinta Dinheiros Já estão bem contados E os companheiros Estão apavorados… Há pão amassado Para os que não comem. Também Paraísos Para os Bons Ladrões… Vai caindo areia No vidro do Tempo.

Não te lava os ossos… O medo da peste Pôs a cal nos poços.4 Lucros e Perdas Como que esmagado. Mas me reconheço Nos sonhos de gelo. Em tudo o que quis Aqui encontrar Eu fiz e refiz O que hei-de sonhar! A água te veste. Tão seca e molhada É morte na vida! Tempo embalsamado Por que rituais? Sangue coalhado Correndo em canais! Sangue liquefeito De São Januário? Sonho tão perfeito Mas tão sanguinário… Como que lançado Em conta-corrente. em frente! Só sei de concreto: Não quero ficar! Embora. decerto. A pedra lavada. Porém tão ausente… Eis-me regressado A Veneza. 23 de Setembro de 1986 178 . Só pense em voltar… Se aqui permaneço É em pesadelo. Tão enegrecida. Vejo o saldo errado Mas fico contente! Veneza.

A quem damos alimento? Nem sempre o fogo foi lume Na longa noite do Tempo! Paris. Desembarca em foguetões O qu’utrora foi ossada! Osso a osso. O fio da baba da seda Fez o ovo do casulo (Ter asas na alameda Foi afinal esforço nulo!) Tudo já foi momentâneo. Agora tudo é Passado E lê-se a História num crânio Dum homem desenterrado. A vida passa tão rente A tudo aquilo que fomos… Quando a nossa pele é estrume. dente a dente. Também a areia que cai Marca o tempo lentamente E a vida assim se esvai Em duna feita repente. Da Lua fica a pegada.5 Homo Faber Ponta do fio da meada… A gota que faz o mar… Tudo começa por nada Numa lente de aumentar. 29 de Setembro de 1986 179 . No meio das escoriações. Eis o puzzle que nós somos.

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Insónia Afago a fogo Teu corpo inerte E penso logo Que vou perder-te… A pedra quebra. Mas eu na treva Não dou por nada… A noite mura Nosso abandono Enquanto dura O nosso sono. Que manhãs roxas! Lisboa. És a escultura? Pedra talhada Nessa cintura Por mim esmagada! Ondas nas ancas. Que noites brancas. Estilhaçada. 12 de Outubro de 1986 181 . O cais nas coxas.

A populaça um rebanho Que já não quer ser guardado. Receitas alimentares Entre uma missa e a ceia… Passam dandies e janotas Que a teu riso só dão azo E nos frascos de compotas Vai ficando fruta a prazo. De César um quase nada. são os muares. Tudo tão subentendido. Sob um céu de cor de estanho Que te pesa nos sentidos. Há arados e charruas. A cidade em teu redor Era uma quinta fechada. Faltava-te o cheiro a estrume No vento tão natural. E nas montras dos ourives Vais pesando a injustiça Desses bandos de petizes Carregados d’hortaliça! A rua tinha o tamanho Dum poema desdobrado. E conversas abafadas De visitante escondido. Há sorrisos nas sacadas. 182 . Só no espaço dum tapume O musgo dum edital… Se murchava algum lilás Tomava a rosa o lugar Ou não fosse a luz do gás Um farrapo de luar… Se te faltavam papoulas Havia sangue espalhado. Muda tudo de tamanho A teus olhos desmedidos. Nestas paisagens humanas Tão feitas à nossa escala! Passam trens. Que levam curas d’aldeia.Cesário a Corpo Inteiro Tiveste nome de cor. Feitas senhoras na sala. Na insónia dessas ruas Do sonho que vai contigo. Até há medas de trigo. E as gaivotas eram rolas Que tinham bico salgado. Assim vivem as mundanas.

Num jardim inesperado. Pensas tu já ter entrado Na herdade dum vizinho… Tudo muda num momento.As igrejas. Posto a meio do caminho. Faz do seu sangue guache. o gradeamento Logo te quer acordado! É a sina dum poeta Que não renega ao que nasce: Com os nervos na paleta. São peças do mesmo quadro Que te lembra de repente A falta que faz um adro. frente a frente. 6 de Outubro de 1986 183 . Lisboa. É paraíso alcançado… Porém.

Os Ralos do Relento 1 Preciso de ti: Como o segredo precisa do ouvido E a sede precisa da garganta. Como os fios do luar precisam prata. Como o barco precisa do sinal Do farol. Como a frase precisa dum sentido Se à noite. 184 . 3 Preciso de ti: Como dos pratos a balança Que equilibra a verdade por momentos. Parando. Quando o fiel é a voz da confiança. só por si. uma voz canta… Preciso de ti: Como a onda precisa do sal. sem se ver. Como do equilíbrio o acrobata. os movimentos. Como a altura precisa da montanha. acendido em terra estranha. Como da veia cava o coração. 2 Preciso de ti: Como a treva precisa da escuridão.

a páginas tantas.4 Preciso de ti: Como o verde precisa das plantas E o vento da folhagem que estremece… Se acaso a morte vem. 5 Preciso de ti: Ao sol estendido Ou fazendo frente à multidão — Segredo que transborda do ouvido Sempre que se abre a porta ao coração! — 6 Preciso de ti: Como o peixe que na rede Não queira encontrar uma saída… De ti preciso a água. Como o silêncio Que responde à voz dos ralos Que deixam sem resposta uma questão! Lisboa. 28 de Novembro de 1986 185 . Avesso desta vida! 7 Preciso de ti: Como o galope precisa dos cavalos Quando tudo em frente é Dimensão. Serás apenas tu quem não me esquece. Preciso a sede E mais a morte.

Passagem do Ano
Que movimento, Brusco por vezes, No cata vento Que roda os meses… Ângulo escaleno De vão d’escada (Onde em pequeno Não dei por nada…) Venha o que venha, Baste o que baste, Mas que sustenha A flor na haste. Musgos ou fetos Ou trepadeiras, Mas fiquem certos Nas sementeiras… Que cantochão, Gregoriano: Ter coração Por mais um ano! Mede-se aos palmos O corpo inteiro. Não ouves salmos, São os pinheiros! Cubos de sal São poliedros Mas que coral A voz dos cedros! Mas que solfejos Nas oliveiras… (Mede-me aos beijos Noites inteiras!) Vai-se a folhagem Ficam os ramos — Que vassalagem Se paga aos anos! — Ramos e folhas (Outros assuntos) Não têm escolhas, Não morrem juntos! Estala o verniz, Vai-se a resina, Não tem raiz A nossa sina! Subjugados Passam os dias, Troncos vergados Nas ventanias… Mas que canções Doces escutamos, Quando os limões Caem dos ramos… Adrenalina E mais não somos Que tangerina Aberta aos gomos!
Lisboa, 16 de Janeiro de 1987

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Profanação
Deixas a porta aberta. Basta isso! A noite é escura e boa companheira… Desejar, já por si, é compromisso E tudo aqui me quer à tua beira. Também o sonho vem, inesperado, A leito nem sempre conhecido. Teu quarto fique aberto e não fechado Por destino há muito definido. Bate a chuva nos vidros, surdamente, Pedindo-te que lhe abras as janelas, Como vindos do céu, secretamente, Recados que lhe mandam as estrelas… É a Lua recorte em parafina. Que tesouras a deixam recortada? Se o vento quer as ondas na cortina Toda a noite é maré imaginada… A noite é ritual tão repetido A que o dia s’imola por feitiço. Não falemos num deus desconhecido Deixa-me a porta aberta, basta isso…
Lisboa, 19 de Janeiro de 1987

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Quarta-Feira de Cinzas
Porque será que as uvas não dão sumo Agora nestas vides d’enforcado? Mas vendo bem, porém, até o fumo Tinha com o fogo encontro combinado! Segredos bem contidos, coriáceos, Nos regressos do mundo migratório… Cemitérios d’elefantes e cetáceos Num enredo de desfecho obrigatório… Os gatos dilaceraram Janeiro No cio das crateras do luar, Se acordo, também estás no travesseiro, Afinal nada muda de lugar! Das cinzas que o Inverno aqui deixou Desenhos faz o vento pelo chão; Auto-de-fé que o Tempo levantou Que rebelde solstício de Verão! Tudo assim aconteceu em sua altura, Em peça de comédia ensaiada, A morte é uma espada na cintura, Uma vez só se vê desembainhada! São os dias um barco no seu rumo Com diário de bordo desbotado. É por isso que as uvas não dão sumo Agora nestas vides d’enforcado.
Lisboa, 4-5 de Março de 1987

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Fechadura Yale
1 Havia a sombra que havia no chão — Tão rastejante como óleo entornado — Havia a certeza de haver corrimão Em perfil de cobra em tronco enroscado. Havia náufragos sobre um colchão À deriva no mar encapelado, E do tecto a luz dava a direcção À sombra do óleo já tão ensombrado. Batia o relógio contra o coração, Ruídos da noite rangendo o sobrado… Havia a sombra que havia no chão Recordando o óleo ali derramado. O mar temia outra serração, Tapete? Ou foi ilha? Ou tudo inventado? Havia a certeza de haver dimensão, Coutada de amor: um quarto alugado!

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2 Dois corpos na cama: brutal confusão! O orgasmo tem mar nunca revelado. Quem sonhar areia, vai vê-la no chão, Quem sonhar o céu tem tecto negado. A praia tem dunas, mas não tem limites, Tem poças abertas na maré vazia; O sonho põe ferros e põe os rebites À ponte do sonho que atravessa a ria… Cheira a erva fresca e neste perfume, Corpo de mulher vem tão envolvido. Cheira a terra em sangue o cheiro do estrume Cheira à minha pele o que tens vestido. Ai, como a vida está do outro lado, No fundo da noite, semi-ocultada. O frio da manhã… Eu mal acordado… Cheira a pão no forno toda a madrugada!

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3 Serás a escavação e o aterro, O dilúvio e a seca misturados, Como Adão e Eva no desterro Ainda sem os corpos bem moldados… Serás a tua queda e o zénite A linha de chegada e de partida; Serás a pedra aberta a dinamite Ou estátua que ficou desconhecida. Serás o segredo e a inconfidência, Serás tu a loucura e a razão, Serás tu motivo e consequência Do vazio encoberto em tua mão… Serás tudo o que seja e que não seja, Equilíbrio e queda de acrobatas: Na bola do Destino que graceja, Enquanto um gato brinca com as patas!
Lisboa, 9 de Abril de 1987

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tão breve. Lisboa. Os latinos caracteres Como são familiares. Só o silêncio responde! Cada qual é carácter Do enigma qu’em si esconde. Vejo tudo resolvido. Dão-nos nomes das mulheres E baptizaram os mares… O que se escondia em Beta Vem em Alfa revelado. Se a força da gravidade Foi a maçã que deu Eva… Venha lá o que vier. Quanta vez chegar à meta Não é bem já ter chegado! Não compreendo o que quero. Pois até o próprio zero Tem valor estabelecido… Não chegou a ser exótico O edital que. Ó Newton: bem na verdade Ninguém a sério te leva. 20 de Maio de 1987 192 . Milhões de sóis em redor E qualquer raiz quadrada Na haste duma flor… Fica nas cordas vocais A chave da solução: Bastaram cinco vogais Para a nossa solidão. Gravar um nome e amor Nalgum tronco vale a pena: Nunca algum computador Há-de escrever um poema! O meu nome predilecto Como vem adulterado: Cada qual tem dialecto Para o nome desejado! Eu quero a noite estrelada. Alinhou em estilo gótico Aquilo que a morte escreve.Incógnita Qual será a solução Dos segredos que me pedes? Qual será a equação Quando em abraços me medes? Qual será o carácter Que nos deixa revelado O triângulo da mulher Bem no ventre desenhado? Face de prédio em gaveto Visto da rua em viés: O gosto do cianeto Que nos põe o mundo aos pés.

És a pedra da infância Com que enfrentamos o mundo. O sopé e a vertente. Canção que morre na boca De ciganos e jograis. És o vale e a montanha. És a estátua colossal Dos tempos do paganismo. És a areia feita mica Onde a imagem estalava. o arbusto.Cofre de Segredo Tu és a palavra-chave Que abre o cofre de segredo E também o voo da ave Que se inveja no degredo. o amargo. És o perto e a distância Que tantas vezes confundo. Tu és o ouro que fica Duma pedra feita lava. A revolta. És o Norte e és o Sul. És o pedaço de azul Que a noite apaga com custo. Tu és o gosto do sal Que se guarda do baptismo. O direito e o avesso. És o vento na folhagem Onde nos sonhos estremeço. O açúcar. A teimosia da rosa Que discute a sua cor. Água barrenta e castanha. a vassalagem. A floresta. És a vela do milagre Que deixa o Mundo mais largo. 20 de Maio de 1987 193 . sendo a lenha Da minha árvore d’abate. És a folha. A palavra que sufoca Por ter ternura de mais! Lisboa. És o mel e o vinagre. És a lágrima teimosa Que vence qualquer pudor. A pureza da nascente. Tu és o santo e a senha Dos meus dias de combate.

de cunhos ascetas. Efígie discreta — que o tempo arrasta — Porém. Pataca batida e já muito gasta… Imagens de reis passam nas moedas. Pardaus de Miranda.Cotação do Dia Tenho o valor de um tostão trocado. Inflação p’ra nós: só se forem ondas Que salgam poemas salvos por poetas… Cotação do dia não é amargura. 28 de Junho de 1987 194 . para ti eu valho um cruzado. seja dura ou mole… — A carne do Rei também ficou dura Em Alcácer-Quibir. três dias ao sol. A côdea de pão. Em troco de pobre meio-tostão basta. — Centavo perdido e logo trocado. Como água corrente a limpar o ouro… Em todos os dias só tu me segredas O valor do riso e o preço do choro… Ceitis vicentinos. Amor: p’ra ti eu valho um cruzado. cabeças redondas. Moeda poupada em vida tão gasta! Lisboa.

meu filho Pedro.O Beijo de Judas Estende a face da noite àquele beijo. meu pobre Judas. Excremento de gado e oliveiras… Mas «não é meu Reino deste Mundo». o que depois virá no bronze Dos sinos por que tem de responder… Foi Páscoa? Foi Cruz? Foi o Enterro? A Pedra Tumular foi violada? E tu. A treva será tudo quanto vejo Bem no fundo da noite aconchegada? A cama: terra dura. Jerusalém. Veneno da serpente mais temida. 14 de Julho de 1987 195 . cheia de vida. Tal fonte natural. guarda o ferro A morte não precisa duma espada… O Cordeiro Pascal aonde pasta? Entre o Céu e a Terra? Noutro lado? Também Herodes tem a adaga gasta De ter tanto inocente degolado. De ti. afinal. O sangue escorrerá dos teus telhados. O medo serve apenas de evasiva Quando a pena maior se chama vida. depois. leito imundo. Pois que a traição virá da madrugada. os teus pecados Farão uma cidade destruída. Sem teu beijo. As estrelas são as minhas sementeiras. foi convertido. É chuva da manhã ou é perfume Vertido por Mulheres Piedosas? Que fogo a crepitar! Mas não é lume… Os cardos no deserto lembram rosas… As bocas dos romanos ficam mudas… Constantino. Nada disto teria acontecido! Praia da Marinha. Como a noite é diferente aos outros Onze… Só Pedro terá hoje algo a dizer: Negar. O ósculo traz vinagre na saliva.

santos de caliça… Esvair-se em sangue. Nos ofícios esquecidos Que já foram novas técnicas. Feitos irmãos de momento… As tempestades solares — Ó império sem altura! — Nós temos glaciares Quando desce a temperatura. Soldar palavras em rima. Deste ofício de viver Qual será a obra-prima? Mas na Árvore de Jessé — Que campo de expiação — Não figura São José.Ofícios Esquecidos Fenícios desapar’cidos. Sê tu próprio o engenheiro Do Calvário que escolheres. morrer. As nervosas mãos helénicas. O Sol que funde o Eterno Deixa até o frio queimado. Nem sequer a lei do Pólo Para seus filhos sem lei! Vão-se as crianças de colo Só porque Herodes foi rei… Se estrelas fossem pegadas Quem seria o Povo Eleito? Crianças mal vigiadas Por um deus num parapeito. Quando tua língua lacra Meu sorriso angustiado. Faz uma cruz dum madeiro P’ra depois te suspenderes. A Terra por dentro é oca Ou de rocha mais maciça? Que catedral: uma boca. 24 de Setembro de 1987 196 . Dentes. O grito é música sacra Em coro silenciado. O que ontem foi moderno É hoje só do Passado. Guimarães. Sabe-se lá a razão!… Chegam ao porto das barcas Que trazem o salvamento Os plebeus e monarcas.

Papel-Moeda
O que diria Álvaro de Campos: Fernando Pessoa impresso em nota de banco! Pessoa a ser hoje disputado, Mais num minuto Do que nos milhões de livros Que nunca viu impressos, Embora as lombadas Lhe exibam o nome (Como lápides de cemitério Sempre de leitura rápida…) Que diria Álvaro de Campos? O próprio Pessoa, Por seu lado, talvez confessasse Que por vezes ainda receia Que seja isto tudo mais uma trama do Alves Reis, O tal que já se serviu um dia do Vasco da Gama Para trocar as voltas ao Banco Emissor E ao fleumático Sir William Alfred Waterlow Da firma impressora Waterlow and Sons E que hoje dele se sirva — Pois que já é figura nacional — Para uma moscambilha qualquer… Sim… Talvez confessasse… Ricardo Reis O do «Ouvi contar outrora quando a Pérsia»,

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Com a sua indiferença de xadrezista Reproduzirá mentalmente O acontecimento Como a multiplicação dos grãos de trigo Pelas casas do tabuleiro E acabará por achar também habitual O constante desdobramento da tua universalidade Tão natural Que nem Lídia Lhe notará nada no rosto… Já Caeiro, Por seu lado, Dirá apenas, sem sentenciar seja o que for, Que o Fernando, Tornado outra vez gente, Voltou à Terra Não «rebolando Pelas encostas do monte», Mas rolando, sim, Pelos movimentos circulares duma rotativa Que o reproduziu aos milhares Em notas do Banco de Portugal, Como por artes de caleidoscópio Ou por jogo de espelhos paralelos, Como se o Fernando — Tão imprevisível que era — Tivesse assumido num repente Uma espécie de Milagre da Multiplicação dos pães (Vá-se lá saber se até por artes ocultistas Da Tia Anica…) Mas seja como for, o que diria Álvaro de Campos De mais este inédito

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Tão originalmente tornado público? Ou não será, porém, tudo isto Simplesmente, na realidade, Mais um passo de práticas ocultistas Donde resultarão Outros milhares de páginas — Desta vez, porém, de livros de cheques — ? E mais: não era apenas isto Que Aleister Crowley («A Besta 666») Antevia já na linha de água Que o papel-moeda exibia Quando olhado a contraluz? Será só mais um degrau Da escadaria do inexplicável? Mas sendo exactamente apenas isto, O que diria Álvaro de Campos? Já que Bernardo Soares, Aproveitando-se da figura de Vicente Guedes, Se limitará a fazer o lançamento do sucedido Em conta-corrente, para depois, Com a consciência dum dever cumprido, Ir à Rua dos Douradores Para o almoço diário Nalgum restaurante Desses que tenham o ar de «casa de pasto de vila sem comboios», Aceitando assim como natural Que o seu meio-irmão ande agora Nos guichés dos bancos Entregue a essa espécie de jogo de cartas, Que há no dar, no receber, no baralhar E no partir Desse baralho infernal

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Que são os maços simétricos e cintados Das notas de banco Quando ainda cheiram a tinta E não foram gastas por ninguém — Como naipes virgens que o croupier desembrulha Publicamente Em reforço da credibilidade Que os casinos têm sempre de exibir… — Todavia, o que diria Álvaro de Campos? Mas os criados do Martinho da Arcada Ou da Brasileira do Chiado, Esses, ao entregarem moedas em troco do novo papel, Só pensarão que a certos fregueses Se lhes deparam situações estranhas: Que venha uma pessoa no jornal, ainda que vá… Agora numa nota de cem escudos!… Isso é só para santos e para os reis, A esses nunca ninguém os viu vivos… Mas, de mãos ligeiras, Remexendo no saco à cintura — Como bolsa marsupial — Nos seus aventais Prepararão já outros trocos Com mais um sorriso de boas-vindas Para um freguês de todos os dias, já quase família… Talvez seja até com esta simplicidade Que a coisa tenha de ser olhada. Mas realmente como continua ainda o desdobramento da tua personalidade, Agora nos trocos das notas de cem escudos A que tu serves de caução!

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Tua Mãe, por seu lado, pensará apenas Que foste longe E que aquilo do prémio da Rainha Vitória Ganho no Cabo da Boa Esperança Era já um aviso do Eterno, Edital, meio solto, ao vento No muro do Destino… Para a Tia Anica Será isto tudo vulgar, Rotina das mesas de pé-de-galo, Diálogos de Deus e do Diabo Por interpostas pessoas, Com pancadas de nós de dedos invisíveis Vibrando na madeira familiar, tornada Desconhecido. Sinais de Morse Que no caso do sobrinho, São pancadas de Molière Anunciadoras do sucesso que tinha em frente, Nessa apresentação do «Drama em Gente» Que iria ser a tua vida… (Já nos tempos de Cape-Town, para ela, Não passava a Montanha da Mesa Duma simples pé-de-galo, Peça íntima do mobiliário Na antecâmara do Eterno Onde tu ias entrando Com enorme à-vontade!) No entanto, já o Alves da tabacaria, Ao dar o troco Junto à onça de Tabaco Francês

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E ao livro de mortalhas Zig-Zag (Sempre de venda simultânea) Verá num relance A cara conhecida no desenho da nota recente, Mas nunca lhe passará pela cabeça Seres tu, o poeta da janela ali a dois passos Que estejas nela impresso, De chapéu e óculos de aros finos Com que «andas sempre ao sol e à chuva»… Tudo isto estará muito certo, Mas Álvaro de Campos o que diria? Ao menos o Almada Desenhou-te à mesa do café, Como esperando que a Eternidade Entrasse em qualquer momento Nos Irmãos Unidos E te levasse a passear Pelas distâncias consteladas, Que hoje são o teu Jardim da Estrela (Aquele gradeamento, Ali a dois passos da rua Coelho da Rocha, Onde milagrosamente ainda se mantém de pé Uma das casas que viveste por dentro…) Pintou-te à mesa dum café E não no Banco de Portugal, Pois, conhecendo-te os fracos como poucos, Sabia que tu não trocarias Por uma barra de ouro-lei Um poema que pudesses fazer Sentado no Martinho Ou no Café Montanha

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frente à cómoda alta Como aquela que havia em tua casa E onde um dia Num galope do teu pensamento Te surgiu o Mestre Caeiro Inesperadamente mas com tanta naturalidade. esta nota bancária É o aviso-recompensa da tua cabeça a prémio Que só vale cem escudos Que tal como a lira italiana. Vingou-se agora bem de ti: No seu juízo. Consciente da pouca dimensão da sua obra. Marinetti Que acabou mesmo por morrer académico. Deve quedar-se silencioso. São uma insignificância… O Barão de Teive. Contra a tua opinião (via Campos). Imprimiram-te de caneta em riste. Como elemento dum coral Que cante só de vez em quando E sempre juntando a sua voz à do grupo. de pé. Tu Que afinal estás apenas simbolizando Conceder um aval a mais um teu poema inédito Agora descoberto… 203 . Esperando que outros Falem por si. Como endossando um cheque.Ou até.

Ah! «Se te querias matar» Devias saber que estavas destinado Ao risco de criares sem querer Outro heterónimo Sujeito a correcções do dia E aos caprichos do dólar. Exibes agora o teu rosto indiscretamente. Do esterlino ou do rand (como te deve Dizer alguma coisa. Como se em vez de te barbeares Em frente do pedaço de espelho. À hora de maior movimento. então. esta moeda!) Que cotação terás neste momento Na Bolsa de Tóquio? Tu: Simples correspondente comercial. Servindo-te da vidraça duma montra Para reflectir a tua imagem! Como te obrigam a colaborar com os donos do Mundo Que querem à viva força Tornar familiares ao grande público 204 . Te escanhoasses impudicamente Em plena Rua do Arsenal. Hoje com o equivalente em ouro Cada vez que reproduzem a tua imagem Num pedaço de papel! Tu: O tímido que te confundias na multidão. Pendurado na velha portada de madeira Da janela ainda mais velha.

Em lugar do lenço caído Saltassem também moedas. Como um poema mais Atirado à Eternidade. Ao reproduzi-los — Como cogumelos venenosos — Em cédulas bancárias! Que investimento diabólico Faz o Capital dos vivos de ontem! Seria antes tão simples. afinal.Os tímidos depois da morte. no domínio público… Tu que eras do tempo dos tostões. Que ao sobrar do Verão Faltará no Inverno Para justificar a Primavera! Também tu caíste bem. Ter feito de suas algibeiras um ninho de ouro Donde. Dos reis e dos cruzados. Como folha de Outono De cair tão natural. em suas vidas. Pagas hoje na Bolsa Os títulos e obrigações Dos que nunca te lerão Mas que te disputam o retrato Por razões tão evidentes! Ah! «O lar que nunca terias» É hoje momentaneamente A Casa da Moeda Com teu retrato suspenso Em parede anónima Sem manchas de humidade 205 . de quando em vez.

Andarás nas mãos dos justos. 206 . Editaram-te agora finalmente Mas em dinheiro!… Assim.Mas tão desconfortável por dentro Por pouco familiar que deve ser. Dos viciados de jogo E serás. por capricho do acaso. a bola e a batuta do maestro» Se misturam na memória da tua infância Esse cofre cujo segredo Só o Destino conhecia! Só na Alta Finança Serás familiar Mas nunca ao «Banqueiro Anarquista» Pois que a qualquer «Esteves sem metafísica» Nada dirás. O prémio do aluno aplicado Que durante o ano escolar Tenha sabido de cor Os teus poemas nos dias de aula… Nos enfadonhos dias de aula! Que capricho há na morte das pessoas! Com a tua figura Será paga a Sorte Grande E serão remunerados os tenores No teatro em frente Da casa onde nasceste E onde «o cão. Das prostitutas. queiras ou não. Dos ladrões.

na atracção do proibido. E com a sua rebeldia De não aceitar o estabelecido Que. Mas para que tudo isto tenha um sentido Deve haver uma razão oculta Que não devemos procurar Como se tenha de respeitar Um segredo inviolável Ou aceitar um dogma. Tu o despojo valioso da batalha.Uma vez que te meterá na carteira Para logo te tirar de seguida. quando já ninguém esperar ouvi-lo. ao menos por momentos. Sim! Mas será precisamente por isso Que Álvaro de Campos Não poderá ficar calado por muito mais tempo… Será assim que. Um retrato familiar Que deva andar aconchegado ao nosso peito… Que homem dividido que continuas a ser! É como se cada um de nós tivesse o direito A uma parte de ti. Dirá Talvez 207 . Sem fazer de ti. Tu o produto do saque repartido Tu a hóstia fragmentada Em Comunhão Campal em dia de Páscoa. Que nele funciona como um íman.

Sempre tão fora do Tempo: « — Eu O homem que nunca existiu. Com os seus amores incestuosos Nas suas entregas Do fim da tarde e da madrugada… — Eu Que tão britanicamente me assumo Tanto na Rua dos Bacalhoeiros Como à entrada do Canal do Suez.Na sua voz sem timbre. Que rebentou a bolsa de águas das Ideias… — Eu Que tenho como cédula pessoal O primeiro poema feito em meu nome E como certidão de óbito o fim Do último verso que escreveram por mim… 208 . Sempre com o meu vestuário talhado pelo Irreal… — Eu Que tenho como idade o zero absoluto. Que fui parido por um pensamento. Cujas palavras trazem assim o peso do Intemporal — Eu Que tenho como sexo o dia e a noite.

— Eu Que não hesitei em passar procuração Para isto tudo! — Eu O abstracto O invisível O sobrenatural… — Eu Que tenho deixado que outro Fale por mim E me tenha abrigado Nalgum desvão da sua personalidade. Mas que tenho ideias próprias E sobretudo um acentuado Sentido de amor-próprio… — Eu Que sou o Nada e o Absoluto simultaneamente Não posso calar nem sequer por mais um minuto O que penso disto tudo! E Assim Direi Mas tão-somente 209 . Já de si tão partilhada por mais outros (Como fatia de bolo-rei Em noite de Natal!).

Setembro-Outubro de 1987 210 . Paris. Norte de Portugal e Lisboa. Direi a Daisy Que quando eu morrer Não me enxugue o rosto Pois que por vezes A face dos grandes homens Fica estampada no linho Ou gravada em papel-moeda E Daisy sabe Que quando eu morrer Quero ficar sozinho Para sempre… De mais a mais Porque quando o carrasco fala a nossa língua Pode a morte ser intimidade E é isso apenas o que mais Desejo neste momento!» Londres.— Pobre Fernando Que «Livro do Desassocego» Que «Floresta do Alheamento» Que continuam a fazer da tua vida! Como te lamento! Pela minha parte.

Ração de Combate Vou pelos campos de milho — Que na guerra ninguém trata… — Levo o dedo no gatilho E uma bala na culatra. A vida: Que xeque-mate Neste xadrez da razia! Levo rações de combate Numa mochila vazia… Com a alma em bandoleira. 10 de Novembro de 1987 211 . Para o que der e vier: Outro sabre na bainha… Quando a Lua se esconder A noite então será minha! O Sol será sempre um p’rigo Nestes dias de campanha Devasso campos de trigo Sem saber quem me acompanha… Vai-se a água nos canais — Lembram rios abraçados — Já houve fogos reais Deixando os campos queimados. Só ouço o silvo das bombas No silêncio em que medite. Quem quiser um céu de pombas Não pode querer dinamite. Mas de baioneta calada: Faço da vida bandeira Que o sangue quer encarnada! Lisboa.

que escuna! Quis o teu corpo estendido. Peniche. Porto das Barcas. O vento fez dele duna… Deitei pedras ao luar! Deitei cartas sem sentido! Eu deitei o corpo ao mar. Era uma fusta ou galé? Baleal. Cada qual é como é… Pus minha vida num barco.Bicho-de-Conta Pus minha alma num barco. Era uma fusta ou galé? O horizonte é o arco De triunfo da maré. Mãos doridas de remar Tão pouca coisa escreveram… Pus o meu corpo no mar: As ondas não o quiseram… Em terra tudo o que escolho Traz-me saudades do mar. Eu «deitei solas de molho». Mas nunca fui recebido… É coisa de pouca monta Tudo o que o mar não quiser. A vida é bicho-de-conta Que não ganha em se esconder… Em tanto sonho que embarco. 21 de Novembro de 1987 212 . Tendo embora de jantar… Que vela foi teu vestido No infinito.

As Torres do Silêncio .

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24 de Janeiro de 1987 215 .) Torres do silêncio e esquecimento! Abutres! Que figuras tumulares! São o negro que alastra pelo vento Nos guaches que transbordam pelos ares.As Torres do Silêncio (No seu rito fúnebre. Pois ela morrerá se não matar! A caminho de Bombaim. discretamente. assim. Tão indiferente que fica o Firmamento Ao que se passa na pátria do luar. Será o mesmo noutro continente Sem colinas ou cadáveres por contar… A morte é sempre igual. apodrecem ao ar livre. Ante um deus diverso e friorento Que se aquece com a morte em Malabar. os Parsis não sepultam nem cremam os seus mortos que.

Janela de fome Que tem gelosias. Mas há o luar E o Sol também. As bibliotecas. Trocando o lugar Como lhes convém… Serpentes subtis. As bocas com sede Os livros em seda As pedras em rede Pela alameda. O corpo é o coco. A vaca sagrada. Não é alimento! Jejum permanente Sem fins pacifistas. Sem chama sagrada… A vida tão pouco E a morte nada.Índia Bóia um nenúfar É água parada Tambor a rufar Na tarde abafada. As folhas dos livros São as folhas secas… Jaipur. Pesados elefantes. 28 de Janeiro de 1987 216 . Na boca o que entre É resignação E não sente o ventre O peso do pão. Cada qual amante Pelas suas normas: É Shiva dançante Of’recendo as formas… O tempo se some P’las frestas dos dias. Nem por um momento Não lhes lembra nada. A morte-corrente Sem contabilistas! Roídos em febres E pelo desjejum… Palácio ou casebres Ou tecto nenhum! E vão-se os arquivos. Há ouro e rubis E mãos suplicantes.

30 de Janeiro de 1987 217 .Taj Mahal A dor traduzida em mármore. O amor transformado em Tempo! Agra. O luto tornado em branco.

Ó sémen feito em saibro. permitidos. A morte pouco é mais do que um sorriso. empedernido! Amar até morrer: é o exemplo… Façamos pois. empedernida. Os gestos proibidos. Ampulheta d’areia. o que é pedido! Vitória incontestada dos sentidos.Khajuraho Fazer amor em pedra. Agra. 30 de Janeiro de 1987 218 . para um templo. assim. Clepsidra de suor do barro humano! Fazer amor assim é fazer vida No templo do teu corpo que profano. Como se a vida fosse só um friso.

Fumos da Índia Índia: morcego suspenso No mapa da Ásia. Na nossa imaginação E nos sonhos Que dali trouxemos E que nunca nos lembram noite! Índia: morcego pendurado Na árvore do Mundo… Khajuraho. 31 de Janeiro de 1987 219 . De dia sonolento Ao Sol tórrido De noite Esvoaçando em liberdade.

Com as almas degredadas Na lama vemos a prata. Ó Ganges d’água barrenta: És um rio? Quem o diria?! Para nós a água-benta Era a melhor especiaria! Agra. Se mudamos de paisagem Deixamos de ser quem somos? Sonhámos ontem canela Hoje temos sal à mesa… Para nós. no mar. O rio das águas sagradas Dá sede que não se mata. Seca a árvore da Razão. Ter gengibre por romã Não podia ser verdade… Para nós o amanhã Já dá motivo à saudade. São as folhas a cair. os dias.Nas Margens do Ganges Quem quisera especiarias Melhor seria não vir… Passam os anos. a vela É o lenço da tristeza. 31 de Janeiro de 1987 220 . Cai o ramo da Prudência: Ir nos dias que se vão Eis a nossa contingência… É carta torna-viagem Tudo aquilo a que já fomos.

passa um parangue Ao de leve. 1 de Fevereiro de 1987 221 . Com palavras se gasta a nossa voz. a roçar a água a medo… Com o sangue se apaga a cor do sangue Com folhagem se apaga o arvoredo… Khajuraho. a deslizar.Entardecer no Ganges Sangue a sangue e a morte de seguida. Em escuro se apaga a escuridão. No rio. São as frases que nos dão a dimensão Dos caminhos que há dentro de nós. Como as dunas que preenchem o deserto. De palavras é feita a nossa vida. Sem nada que se saiba de concreto.

O Medo O medo da morte faz os deuses. Teu corpo traz um Deus já resumido. Dá forma a Deus. Porém o Deus romano não é persa Pois Deus difere sempre na missiva… Banhar-se gente no Ganges ou Jordão É com água tentarmos a pureza… Evapora-se a água em suspensão. Mergulhámos somente em incerteza! É longa a noite. não faças caso Dos textos que lhe tiram o sentido! Katmandu. Nossos olhos que os sonham tantas vezes Mudam-lhes o poder e as figuras. 3 de Fevereiro de 1987 222 . o céu é tão distante — Tão longe que ficou dos nossos gestos — Só lembra abutre negro em voo rasante Que venha disputar os nossos restos! Teu corpo traz o Sol já no ocaso. amor. Com ele fazem ninho nas alturas. Toma Deus a forma mais diversa: É Manitu ou Buda ou mesmo Shiva.

Junto ao templo abandonado Um anúncio à Coca-Cola! Arredores de Katmandu. Terá um anjo da guarda Esta gente ferrugenta? Os rostos são cor de cobre Tom de lama ressequida. Semifiguras macabras… E Shiva é venerado Por entre patos e cabras.Numa Aldeia do Nepal Passo um campo de mostarda. Sem que a estrela da manhã Lhes aqueça o coração. Ambiente rotineiro. Um templo desmantelado. O rapazio quase alheio Jogando num lamaçal À bola. Os porcos fazem chiqueiro Das ruas por onde passo. como em recreio Duma aula matinal. Futebol reinventado: Um excremento faz de bola. Sentadas no duro chão. Pela estrada lamacenta. Não há um sino que dobre Por esta espécie de vida? As mulheres dobam a lã. P’ro guia cor de melaço. 4 de Fevereiro de 1987 223 .

Diante o Poente. Que roupa diferente Com que a terra veste. dia a dia: O Sol arrefece. Porém. Atrás: Evereste. 6 de Fevereiro de 1987 224 . Que monotonia! A vida acontece… Katmandu. Destino lendário: Os montes de lã Verão o contrário. Neve em cartolina De corte bem raso: Como em guilhotina O Sol no ocaso. amanhã. Aqui.Pôr de Sol nos Himalaias No tecto do Mundo Como fosse um véu: A neve confundo Com nuvens do céu… Que doce de creme Gigante sedento Cuja mão já treme Por este alimento.

Enquanto quis a fogueira… As cinzas quando voavam. feito em grés. Num movimento de mão. Ondulando. Vivia em salas com eco: No seu Palácio d’Inverno. Anéis em dedos flácidos. P’ra que a vida lhe perdure Vivia em cinco palácios. a quantidade. Quando a chuva dava início: O Palácio das Monções. O seu Palácio dos Ventos. afinal. Fez uma ilha e um lago. Porém. 6 de Fevereiro de 1987 225 . Entre águias e falcões. Indiferentes desenhavam Outro Palácio p’ro Vento! Katmandu. Em cochins de longas sestas. Entre pilhas de madeira Também ardeu. No cume dum precipício. o destino dá. tal marés D’oceanos violentos: Mandou fazer.O Palácio das Monções O Rajá de Udaipur. Em ambiente mais terno. Dos dias. E como fosse mortal. Mas o pobre do Rajá Esquecera a mortalidade. Nos dias de tempo seco. Sobre o Ganges sonolento. O ouro faz qualquer mago: E um Palácio de Verão… Com o seu olhar dormente. Mandava entrar muita gente No seu Palácio das Festas.

Abel e Caim. És o relógio com numeração romana no mostrador. Quixote e Cid. Como aberta em tarde de chuva. vieste. sem termos marcado encontro. que permite o atravessar duma rua. O nada. esconde o Sol. no momento certo. A paz e a guerra. 226 . por momentos. O átomo. com mutações. O absoluto D. «A árvore seca e a vela panda». para alívio dos nómadas perdidos em deserto escaldante. com naturalidade. A casa e o relento. de banda desenhada. como se o Tempo tivesse parado em Roma e tudo até aqui fosse apenas previsão do futuro em antecipação científica. O gelo e o fogo. companheira de todos os dias. A chibata de cana e a cana do açúcar. A casca e o fruto. Como lenço molhado que refresca a fronte febril. Cristo e Barrabás. És: O vinagre e o mel.A Poesia Como gota de água que transborda o rio. de novo procurar-me. A cara e o cunho da moeda. O choro e o riso. O rochedo e a espuma. A água e a evaporação. Job e Salomão. quando a seca já fazia desesperar. Tal nuvem que. O sol e a sombra. para os olhos dos sedentários. És o milagre da paisagem. como sempre acontece.

Tu que és o chegar da carta que traz.º 2. se não tivesses vindo. talvez. o sonho lunar e extra-sideral. Tudo o que és. É assim que tens o sabor do lápis Johann Faber n. Com a naturalidade da criança vinda da escola e que abra a porta de casa. sobretudo. no lugar certo e no momento exacto. antes de lermos o remetente. És. 8 de Fevereiro de 1987 227 . em folha de cartolina que se desdobra infinitamente mas que eu agora dobro e levo debaixo do braço para a caminhada que faço contigo. o primeiro dia da Criação e a certeza de que o último dia de todos será a véspera de qualquer coisa. para que tenhas mais demora entre nós. tudo o que nunca me teria ocorrido. minha companheira de todos os dias. um selo desconhecido que obriga a olhá-lo primeiro. Que és sempre a próxima onda. ainda antes de haver mapas.Tu que és. de palavras e frases. roído na ponta e és o perfume que as laranjas da infância deixavam nos dedos. sem encontro ou local marcado. também. como gota de água de súbito caída duma estalactite e que de repente tenha revelado que pode chover também debaixo da terra! Entre Delhi e Goa. Tu que és. entre as marcas de tinta escolar que se tirava dum tinteiro e as manchas brancas do áspero giz que às vezes emitia sons agudos. sabendo que no dia seguinte será o primeiro dia de férias grandes. o adiar do medo da morte. pontual e com naturalidade. bissexto. Vieste de novo procurar-me. Tu que és a carta celeste. sempre. Que és a caravela de Quinhentos. Tu que és o muro de pedra solta. afinal. procurar-me. ao riscar a ardósia da parede da aula. Tu que vieste. Que és o ano-luz. ainda. o levantar do remo para a remada seguinte.

Por quem todos nós Esperamos. os rebanhos E onde seja possível. A todo o momento. Com rochosas arribas. Em socalcos. sequer. 11 de Fevereiro de 1987 228 . afinal.Fortaleza dos Reis Magos Goa: Tuas praias. A chegada dos Três Reis Magos. Lembram um presépio. Com palmeiras em escadaria. Onde não faltam. a vida inteira! Goa.

como ribombar de canhões em paisagem outrora calma. Que o vento lhe siga as pisadas e não chicoteie o arvoredo. Que a trovoada a imite. eu vi uma flor à flor das águas e isso basta. subitamente se tornasse numa carreira de tiro. Que diferença que há entre as divindades. ia à tona do rio. 7 Com que silêncio caiu a neve durante a noite. neste dia invernoso. como se o campanário. os ponteiros do relógio são a ponte suspensa. não estilhaçando a calma do céu. as pombas fugiam em revoada. envolvendo agora tudo em volta. Tu és de carne. E neste vale de luz e escuridão. como cavalo-marinho do soldado que ocupa o metro quadrado que nos cabe para a sombra que o nosso corpo projecta. 229 . face à prepotência das correntes invernosas? Fosse como fosse. 3 Sempre que o sino tocava. 2 Do Oriente: o dia. assim devia a vida levar-nos… 5 O Arco-íris é o guache dos deuses. Que a chuva aprenda com ela a não tamborilar nas vidraças. O Poente arrasta a noite consigo. lembrando o avançar dum exército em guerra. Promessa de Primavera ou abdicação dos dias verdes. por obra dos anjos rebeldes. 6 Uma flor. 4 Com o cuidado que se leva a ave ferida.As Formigas na Neve 1 Os santos de pedra.

sangrados em vida. não magoa os olhos mas pára todos os pensamentos de momento e o olhar fica quase magoado pela pouca utilidade que tem nessa altura. afinal. é como se de súbito um manto de esquecimento tenha caído sobre o Mundo e sobre as marcas que o Homem teima em deixar sobre todas as coisas.Que a gente aprenda com ela a não pesar nos nossos sonhos. esculpidos a canivete no arvoredo. Porém. no Inverno escorrem água como se de sangue se tratasse. antes do nevão. para inutilmente tentar perpetuar uma presença que é tão passageira. ao cair sem ruído. tornar-se em vapor e ser nuvem. 10 Os corações. Os nomes próprios. coberto de neve. onde uma gota de neve somente já parece transbordar o vasilhame. 8 A neve vem como a poeira no vento: espalhando-se em leque. albergam gotas de água onde a identidade que querem representar fica afogada em lágrimas de saudade… A chaga aberta de resina dos pinheiros. Porém. Com que degraus imensos de gelo decorre a ascensão e queda da neve que parecia ser tão simples. reincarna em água. ao contrário do pó. 9 A neve. 11 Que pintura rupestre faz o musgo no muro em ruínas… que medo da vida o pintou? 12 Só o trevo. levada ao extremo de degelo. Pode. no outro extremo da escala. onde egoisticamente queremos estar presentes. escorre para taças de traço rude. tudo agora. gritava que era o arvoredo das formigas. Pode. 230 . gravados nos troncos das árvores. ser avalanche ou cascata. depois de acabada. como o abrir de penas duma ave rara.

E a paisagem ficava feliz por dar por isso… 15 É o Infinito. como se fosse um relógio de neve em imitação a um relógio de sol. Pontualmente ia o sino mudando de cor. a neve que o revestia tombava do bronze. Janeiro e Fevereiro de 1987 231 . 14 Sempre que o sino tocava. a neve e as formigas só diferem na cor! Índia. 16 Perante o Universo sem tamanho. o arco do triunfo dos que sonham. Talvez assim as imagens sejam verdadeiras. cada coisa de sua vez. Depois havia toda uma hora para de novo se tornar branco. remetendo-o para a sua nudez.13 Tão pouca coisa cabe nos nossos olhos. assim. Olhemos. Cada lágrima a seu tempo. França e Inglaterra. Cada momento na sua altura.

Fala-me em bustos clássicos Que nos recantos plácidos Parecem rostos flácidos ‘scondidos entre a folhagem. A noite que tapa o dia.Embalagem Perdida Porque me falas de morte Se de vida somos feitos? Se somos bobos da corte Somos um Príncipe Consorte. Porque me falas de morte Se de vida somos feitos? Não venhas falar de ácidos Que corroem tua imagem. Que troféus que tem a caça Feitos de peles e de penas. Não venhas falar de ácidos Que corroem tua imagem. Se às vezes é blasfémia Não passa de alma gémea: Pois sem morte não há vida! Que mal nos faz a leucemia Nesta embalagem perdida? Somos restos de luar Vindos da noite passada. Tudo muda de lugar… Somos a roupa a secar Qu’alguém vai depois usar Ao senti-la bem lavada. É o sangue que prescreve O final duma sentença. A foice semi-redonda Em meia-lua que esconda A Lua-Cheia que enchia. Como fosse um almocreve Tantas voltas que descreve. A sangue o que ele nos escreve Da morte até à nascença! É o sangue que prescreve O final duma sentença. Que a luz da Lua recorte Nos vitrais dos parapeitos. A onda que esconde a onda A noite que tapa o dia. Somos restos de luar Vindos da noite passada. Que troféus que tem a caça Feitos de peles e de penas! Que mal nos faz a leucemia Nesta embalagem perdida? A morte também é fêmea. 232 . Também a vida esvoaça. A voz que canta na monda. Na manhã de chumbo baça Sobre a névoa de mordaça Onde morrem açucenas. A onda que esconde a onda.

Reproduzido em espiral Neste Espaço Sideral Suspenso por um cabelo! O que somos. 13 de Janeiro de 1988 233 . afinal? Ah! Quem pudesse dizê-lo! Londres.O que somos. afinal? Ah! Quem pudesse sabê-lo! Somos apenas sinal.

porém. Púlpito. Rogo. Boda em Caná. Vem a fogueira Da Inquisição… Mas. Mas quem decide Bem na verdade? Lagos sagrados.Trinta Dinheiros A Virgem Mãe Mordendo o pó. (Bolos-de-Rei De passas cruas: Serão anéis Destas mãos nuas?) Vieram anjos. Cruzadas tantas Marcas de fogo Das Guerras Santas! Tanta cegueira E submissão. Se entra o vento Fica abafado. Vêm pastores De vestes brancas. antes Vivem em tumbas Os emigrantes Das catacumbas… Nasce e divide A Humanidade. E este estábulo Feito em croquis: Dará retábulo De Rei David! E vão-se as dores Fecham-se as ancas. Seres voadores. Vinho da cor Que o sangue dá! 234 . E os arcanjos Ameaçadores! Longos cabelos. Sem ver ninguém Parindo só! Junto ao jumento Um boi deitado. Imensidão… Os baptizados No Rio Jordão… Que passa perto Em terra inculta. Os olhares vagos… Vêm camelos Com os Reis Magos. Parto ao luar — Como animais! — A anunciar Coisas brutais. Voz no deserto Mas quem a escuta? Outra voz estranha À multidão Se da Montanha Desce um Sermão… Monte Thabor.

Sua planta Crescer ao luar Cidade Santa Este lugar! Calor na tarde Que o vento quebre? O Judas arde Tremendo em febre. E fica aquém Do Santo Lenho: Jerusalém Que é um desenho. As oliveiras Tão seculares São carpideiras Se tu chorares. Fica em relevo Gota perfeita Já sonha o trevo Uma colheita! Como convém: Vai morrer só! Jerusalém e Jericó… Rei num momento: Entrou montado Sobre um jumento Desengonçado… Lagos judeus E uma canoa… César ou Deus? Ou rei sem coroa? Quem nos dirige Na nossa queda Tem a efígie Numa moeda. Nas trevas cobrem Vulto sagrado «Filho do Homem» Crucificado! Não há regresso Já nesta altura… O suor espesso Cai na verdura. Quem vai contar Como cresceste? Nasceste Deus Entre animais Estás nos museus E nos vitrais! Que claridade Em vidro fosco Quando a verdade Nasce connosco! Madrid. 12 de Agosto de 1988 235 .Na Cesareia Há outros amos. Pois grava a areia Os pés romanos. Tudo resume A pagamentos… Mas Deus tem lume Nos Mandamentos! Só um senhor Podes servir: Era melhor Poder partir… Morres ao ar Como nasceste. 15 de Março de 1988 Londres.

Bicho-da-seda Nos fios da mão: Quem me conceda Compreensão. Desta maneira Está no que escrevo Que trepadeira Feita de trevo Musgo rasante Em muro velho Meu habitante Como num espelho! Que precipício Onde me testo: Diz-me o início E eu escrevo o resto! 236 .Duplo Quem por mim escreve Pensa por mim? De mim se serve? Mas com que fim? Duplicidade Ou ilusão? Mas unidade No coração! Quem de mim viva Não me socorre. Só me cativa E em mim morre. Vive comigo Familiar Fala contigo Em meu lugar. Paredes-meias Que vizinhança Corre nas veias E não me cansa! Linha da vida — E outras linhas — Indefinida Nestas mãos minhas. Viver a sós Que sonho vão. Se me desdigo Logo se cala Trago comigo Quem por mim fala. Escrevo e da escrita Serei proscrito? Em mim quem grita Dobra o meu grito! Se me transponho Eu sou osmose Baba de sonho Metamorfose. Eco da voz Sem vibração… Rimo ou não rimo Conforme entoo Não me domino E então voo.

16 de Março de 1988 Paris. 15 de Março de 1988 Avião Madrid-Paris.De mim se serve? Serve-me a mim? Quem por mim escreve É escravo assim! Madrid. 11 de Agosto de 1988 237 . 16-19 de Março de 1988 Londres.

11 de Agosto de 1988 238 . Londres. Trago o que trago. Numa sertã Faz-se a sangria… Quem duvidar Que me confirme: Histórias do mar Em terra firme! Maturidade? Sobra o engenho? Estranho a cidade Porque sou estranho! Avião Madrid-Paris. Estranho a cidade Porque sou estranho. Cheira a avelã. Como almocreve Pelos caminhos Nem sei quem escreve Meus pergaminhos.Almocreve das Palavras Meia verdade Pois mais não tenho. Paris. Não trago armas Levanto os braços É Veranasi. À melancia. 16 de Março de 1988. Mares de Sargaços. Colher lilases Apetecidos… No ar há gases Desconhecidos. Sombras de cobre Dum sol dourado Se chego pobre Parto abastado. Romas e Parmas. Vem o luar Em quatro fases… Vou ao lugar Onde me trazes. Marco compasso. Katmandu Ou seja Fez A alma a nu Mais uma vez. Cidades Santas Tantos oásis A páginas tantas… Depois há Meca Multidão junta A boca seca Tanta pergunta Mal sem remédios Neste meu mal Por entre prédios Há vendaval. Fecham as asas As aves feridas Dentro das casas Desconhecidas. O andamento Passo e se passo Passei no vento. O que me deram? Depois naufrago No que disseram. Frio da manhã Sol ao meio-dia… Sonhamos lã Na noite fria. 16-19 de Março de 1988.

Não serei aranha Pois detesto a rede… E temo as grilhetas Das asas pregadas Dessas borboletas Bem coleccionadas. Ave migradora Voo em solidão Calada ou canora Conforme a razão… Quando o sol desponta. 239 . Sou introvertido Por um reflexo E tiro partido Só do outro sexo! Um monte-de-vénus Que seara ao vento Que barco de remos Em mar sonolento. Pois que tem de ser… A fonte: o tinteiro Onde vou beber… Palavras distintas Diferenciadas Paletas de tintas De cores carregadas. Quem fez o meu traço Mas que desabono! Sou folha com espaço Mas só no Outono! Bicho do deserto E duna distante D’areia coberto Por céu sufocante. Já estarei ausente Talvez amanhã… Hoje sou serpente E mordo a maçã! Sou bicho da lenha E morro de sede. A cara engelhada… Talvez sanguessuga De água parada. Quero o céu inteiro Para sim ou não! Mas que espada nua De feitos e factos.Divisão das Espécies Formiga em carreiro. Começo de ruga. Um ralo ao luar E talvez hiberne Num urso polar. Manhã colorida: Sou bicho-de-conta Desenrolo a vida! Não quero falcoeiro. Peixe em liberdade Se nadar de bruços. Não pouso na mão. Louva-a-deus na tarde Voando aos soluços… Quem sabe se um verme.

A transposição Que a morte dará! Seja como for. por enquanto Posso respirar… Para que a Poesia A mim não me deixe Eu guelras teria E seria um peixe! De modo nenhum Em mim não esmorece É sangue comum Duma certa espécie! De fraco músculo Onde nada encaixa. Serei ave rara No nosso aviário? Mas tudo o que amo Há quem o deteste. Só suor nos poros Se este tempo aquece… Talvez a razão De tudo o que há. É este o meu fim… Seria pior Se eu não fosse assim… Paris.As fases da lua Comandam-me os actos. Que espécie secreta Quase em extinção! Eu ou dou a cara Ou sou refractário. Quem sabe. 17 de Março de 1988. Sou grilo campestre. Um erro de teste? Um bicho silvestre. Assim. 11 de Agosto de 1988 240 . Londres. Basta um metro de ar. um insecto. Fracção ou quebrado. Serei um molusco Feito de borracha. Um invertebrado… Minha lei decreta O ter coração. Que versos que tanjo — Mas que notas vasas — Eu seria um anjo Se tivesse asas? Eu canto o que canto. Paro se alguém escuta… Mas não espero louros Pois tudo me esquece. Canto sem batuta. Só serei engano. Ser incompleto.

as vigias E as sobrequilhas Meias melancias… O mar de quem gosta Faz vela e faz mastro. Gatas e adriças. 30 de Abril de 1988 241 . Brisa e sobressalto E as acalmias Cercando o mar alto. Ferros. A noite é um barco. O vaivém do vento. Dormentes. botões. Se no sono embarco Há por mim quem reme… Quem ganha a regata? Quem menos demore! O mastro da gata. O sonho é o leme. escotilhas. Badernas. Mastro da mezena… Tudo em ponto morto Quando há quarentena Adiando o porto. O estais do galope E outros estais.Navegação Nocturna O mastro da gata. As velas são escassas Se sopram tufões. Arpéus e fateixas. Quero dar à costa Como fosse lastro. Os nãos e as deixas… As vergas e velas. Os vaus. dobradiças. O mastro maior. Quem ganha a regata? Quem menos demore! Coxins e falcaças. Rasgam envelope Notícias fatais… Os nós e as espias. As ilhas de estrelas Que há no Firmamento. A Ursa Menor! Lisboa.

Londres. Com raízes ao contrário Vi plantas aquosas. Vi outros monstros marinhos. Vi o rio da despedida Onde os lenços são bandeiras. pelos ventos. Fica tudo resumido Às pedras dos monumentos.London Sight-Seeing Vi a estátua dum dragão E. Ouvi a voz sem medida Do choro das carpideiras. Tomei o peso ao império Que perdeu o seu suporte Quando tomou um ar sério O pobre bobo da corte! Com o tempo corroído Pelas chuvas. vi golfinhos E. Vi pegadas no asfalto? Como o medo faz o mito! Vi aves embalsamadas De olhos embaciados E estátuas decapitadas De príncipes já exilados. 6 de Maio de 1988 242 . com a cor do estragão. de pedra. Vi reis feitos de basalto E rainhas de granito. No fundo deste aquário De serpentes venenosas.

meu amor. Elefantes que se deixaram esmagar. Como pode o ano ter só doze meses Se mais de cem eu deixo por contar?! Cem anos passam breves. O zero sempre deixo em meu lugar Nas praias em que estou e que não vês. mais de cem vezes Cem vezes te lembrei. sem respirar. Contarei até cem e volto ao zero — É bom à nossa casa regressar! — Filho pródigo sou! Assim me quero! Embora sem ninguém p’ra me esperar! Lisboa. Na História são os séculos a rodar. 11 de Junho de 1988 243 . amor. Desejei-te. ao acordar. sem te encontrar. Serpentes nos olhares cartagineses. tantas vezes. Não chego ao fim… Os Romanos punham letras a contar… Os números são um rio dentro de mim Se te procuro. amor.Perdido por Cem Conto até cem. Conto até cem. amor. Voltando à superfície em cada vez.

Ursa Maior Serei somente e sempre como eu sou E não aquilo que outros de mim querem. pobre peregrino da Grande Ursa… Caminhos do Diabo ou do Céu? Sou ilha só com sonhos em redor! Desvendo a noite toda. 30 de Julho de 1988 244 . são o pior… Dom Quixote que vê no Sol a pino Tudo o que a noite tem em seu redor! Londres. Sou búzio: choro o mar que em mim secou Nos cedros canto o vento que me derem. Que caminhos sem andar já percorri. Eu. estando aqui. feita breu. Nas estrelas sou distância. Sou a voz do silêncio que discursa. Os sonhos. Mas os nomes das estrelas sei de cor! Os sonhos que de dia me alimentam — Que farinha de pão mal amassado —: A força da razão em mim exp’rimentam Talvez por me encontrar bem acordado! Sou dono de mim próprio e do destino. sendo um bem.

sei lá donde. 31 de Julho de 1988 245 . nem tem telhas E o asno e o boi só servem para abate. Tal é a sede enorme desta hora! Cada um tem uma Estrada de Damasco Onde Cristo o encontra ou ignora! Londres. de tão espesso. Mas parecia que ainda respirava. Dava dó. Que fizeram. até lacra A pedra como fosse flanela… Será a tua voz música sacra Saída. Senhor. dava suor e dava sede O Cristo que ali mesmo agonizava. tuas ovelhas Que em vez de ser rebanho são combate? O Presépio. em ruínas.Estrada de Damasco Estava Cristo em pedra na parede. Teu sangue. Porque adiamos nós o nosso encontro? Será por ser ateu e em Ti não creia? Será por eu ainda não estar pronto P’ro vinho e para o pão da tua ceia? O Dilúvio caberia num só frasco. na capela? Jesus: Jerusalém o que nos esconde? Judeia: tem caminhos sinuosos… Procuro tua voz: ninguém responde E deixas-me os meus dias duvidosos.

Veneno Se nós morremos à míngua Duma carícia qualquer. É porta que fica aberta À espera da nossa mão. 9 de Agosto de 1988 246 . Quando somos pela certa Qualquer sombra de ladrão. Já traz noite prometida Em alcova de romance. O amor também é roubo Quando há um travesseiro. O amor em qualquer língua Traz um nome de mulher. Já traz a Lua esbatida Bem fora do nosso alcance. Vestimos a pele do lobo E fazemos de cordeiro! Se nós morremos à míngua Dum olhar ou dum aceno: Quanta vez a nossa língua Muda o gosto do veneno. Londres.

Tudo o que pises N’almofarizes Não vai crescer… Não hostilizes Mesmo sem querer: Só há juízes No que tu dizes Tu irás ver! Contabilizes O teu viver E não há crises Pois que tu vives Teu «Deve-Haver»! Londres. 13 de Agosto de 1988 247 .Dizer por Dizer Dizes: desdizes Só por dizer… Se contradizes Crescem raízes Sem florescer… Cores e matizes Por preencher: Os aprendizes Gastam vernizes Para aprender… Tu não avises Quem vai morrer.

Com paredes-meias Serão as sereias Das histórias do mar… Águia pirenaica… Também os castores… Com cultura arcaica Tem força voltaica Dos seus geradores! Vamos liquidar Os ecologistas. É reformular Noção de Beleza. O urso polar. Depois afogar Nos poços de ar Toda a natureza! Depois é queimada. É ovo sem gema! Seca a floresta. Na morte se fecha Como na coutada Dispara a flecha Mas a caça deixa Toda abandonada. Somos alquimistas! Que estranha cultura Funde na retorta Que cor de tintura Tem nossa pintura: Natureza-morta. Arda o arvoredo. Matar sem perdão Demente e profana. Já se baixa a fala… A última bala Tem de ser de prata. Já ajoelhados E de arma à cara. A terra queimar E a água secar. Olhos tão vidrados E obcecados Só de quem dispara! Minha geração Renega Diana: Caçar sem razão. Os nossos inícios São acidentados: Só há desperdícios Nos nossos indícios Já meio apagados. Em pleno abate A morte é a festa Tão pouco que resta Neste xeque-mate.A Última Caçada A última bala Já está na culatra. Que não fique nada Terra calcinada E quanto mais cedo! Ó rios poluídos: O lixo vos tape! Nós somos ruídos Só temos sentidos Nos gases dum escape! 248 . É caçar baleias. Matar por matar Apenas por gosto… E sem plantar Só saber queimar Deixar fogo posto! A destruição É o nosso lema Venha a poluição O mundo é prisão.

Almoço e jantar Nada vai sobrar Para os parasitas! Banhos de vapor. A parede é preta A porta não tranca. São limas de quinas Onde as cocaínas Se moem sem medo. O sol e o luar Vamos exterminar As últimas espécies! Não há prisioneiros! Feridos? À coronhada! Somos bons negreiros Formiga em carreiros Faz caça danada! As mães são bastardas. refregas: Por mais poluição… Mas onde te entregas É nas marés negras Banho de imersão. Batalhas. Esta cega-rega No fundo dum poço É a cabra-cega: A lama já chega Até ao pescoço! É tenor? Contralto? Será orfeão? Ardendo o asfalto — Que já foi basalto — Já não há mais chão… Vamos ocultar. Os filhos perversos Cantem as ‘spingardas E enviem guardas A quem faça versos! 249 . Cofre de segredo. A nossa ração A alimentação Mais repugnante! As nossas narinas. O caixão é fórmica Dará mais nas vistas E a pilha atómica Será filarmónica Na mão dos artistas. Tu jamais esqueces. O diesel dos expressos Que óleos pesados! Venenos-confessos Viscosos e espessos Por nós respirados! Lixo nuclear Levado em marmitas. Enxofre à mistura Esgoto-corredor Andando em redor Da nossa cintura! Relevo das vulvas Mordente em elipse… Estrangulam as luvas Das ácidas chuvas: É o Apocalipse! Vai ser a punhal. A ponta de lança O ponto final É bala mortal Fiel da balança! Vai ser a baioneta Nossa arma branca Casa obsoleta.Cheiro a alcatrão Inda fumegante.

15 de Agosto de 1988 250 .Mas que planeta Da grande ameaça E há quem já meta O bebé-proveta Dentro da vidraça! O seu enxoval É feito de vidro. Bebé de cristal: Se tu caíres mal Ficarás partido! Dobrar o joelho… O gatilho lento… Estilhaçar o espelho Onde um escaravelho Rebola um excremento! Londres.

Aquário talvez seja isto tudo. As paredes de vidro são prisões! E se houver Deus. 10 de Dezembro de 1988 251 . Enquanto outra galáxia já avança — Saber-se lá porquê — por todo o Espaço… Que deusas e pastores andam no céu… Pastagens infinitas dão caçadas! Balança da justiça? Mas sem réu As grades estão há muito destroçadas. meu Deus. mais os pratos da Balança E o Caçador sem lança e sem ter laço.Lente de Aumentar Só de noite o mundo é verdadeiro No perfume das tílias e limões. Nem o escravo se sente prisioneiro Ao ter por tecto só constelações… O céu é toda a força que nos resta Nesta coutada de homens dominados: Não passa duma grande floresta Com Ursas e Centauros desenhados… É uma Virgem. ficará mudo Como Cristo ao morrer entre ladrões! Lisboa.

11 de Dezembro de 1988 252 . Novelo de cordoaria… Nós temos olhos de peixe Perfume da maresia… Epiderme toda em escamas Sem que a pele se nos retraia E fazemos nossas camas Na areia de qualquer praia… Um rochedo é uma almofada Feita no linho da espuma. Pescadores de sete ofícios De espadartes e golfinhos… Nascemos nus. Velha serpente do mar Ao nosso corpo se cola E há sereias a cantar Nos seixos que o mar enrola… Arribas e precipícios E marés em remoínhos. Na mesa de cabeceira Temos a luz dum farol. mas vestimos O enxoval das marés: Tecelões d’algas e limos No berço d’algum convés! Lisboa. O sono não dá por nada Os limos são sumaúma! O destino por fronteira As unhas feitas anzol.Tecelões Nossos nervos são um feixe.

Mas haverá ainda outra ramagem? Se houver. que vento há a estremecê-la? Se apenas houver chumbo na paisagem Derrete no calor dalguma estrela! Soldadinhos de chumbo em regimento Que na concha da mão dum deus sereno. assim o céu queimavam Sem saber que criavam teoremas. Talvez sem os nossos problemas.Soldadinhos de Chumbo Será ainda por ti que procuramos Quando a morte um dia nos levar… Vivemos. Perguntar-Te e saber se respiramos O ar que a outros seja irrespirável. Que palavras nos são assim veladas À fala que a tudo nos responda? Mais bocas haverá. Se vivemos. vulnerável. perguntamos: Quem nos pôs aqui. Indiferentes. As estrelas já cá estavam. neste lugar? Mas chegámos. mas estão fechadas. Em constante fusão no firmamento Moldou um batalhão que é tão pequeno! Que sargento-ajudante nos conduz? Que chaves há na mão do despenseiro? 253 . Talvez a solução aí se esconda… Serás ainda Tu que desejamos Ter bem a nosso lado.

sendo gente! É ainda por Ti que perguntamos Se um dia Te disseres Inexistente! Que sais em suspensão. Paris. 9 de Julho de 1989 254 . será o Deus que nos comanda. Os poros são os favos nesta pele! Zangão. Dez dedos. Chegar ao seu limite: decepção! É voz! É tanta a voz e nenhum eco! E se acaso a voz de Deus for o trovão?! Será por Ti ainda que chamámos Mesmo se fores mentira e sem razão. Que abelhas. Tu estavas já aqui quando chegámos No medo que nos gela o coração. que cortiços doutro mel! O Homem é a soma dos hidratos. que carbonatos. mas por que ventos! Se o Espaço fica ao fundo dalgum beco. Soprada. sem saber.Buracos negros há que comem luz Tão negra como o fundo dos tinteiros! Tanta pergunta há e não respondes! Decerto não será por timidez… Se tens a solução no que nos escondes É golpe baixo em jogo de xadrez! A falar com o medo: nós oramos… Que bichos que nós somos. outros tantos mandamentos? A Fé será a vela larga e panda. 8 de Fevereiro de 1989 Londres.

Torre de Babel De gosto a vinagre. Relógios. Há um contador Que não qu’remos ver Nesse mostrador Que é um malmequer… Na raiz distante Dalgum girassol: Relógio gigante Lembrando um farol. a frágua. Barro refractário Arde sem estalar. A esponja de fel A boca nos abre. Os olhos enxutos O relógio d’água Afoga os minutos! O Tempo é ração No nosso deserto Quando o coração É relógio aberto. Que dias medonhos A tua almofada Não sonha os meus sonhos! O ferreiro. 9 de Março de 1989 255 .Relógio de Água O mel das abelhas E os escaravelhos… As casas são velhas Se há telhados velhos! Olhar de aquário No vidro do mar. No Tempo a crescer… Há outros países Ao anoitecer? Relógio de areia… A clepsidra… Silvos de sereia E os olhos da Hidra… As fases da Lua… O dobrar do sino… E a espada nua Do nosso destino! Se Deus for Além Em quem acredito? Se conto até cem Que tempo debito? Tudo é tempo ou nada. raízes. Lisboa.

É o C a ferradura Desse corcel do Destino. O F a forca nos traz Quando as tintas são mais pretas. (O V também me recorda O jardim que há no teu ventre…) Na pedra. 4 de Abril de 1989 256 .Caracteres Ilegíveis Decorreu um quase nada Entre a colheita e o verde… O Z é curva da estrada Onde o silêncio se perde… Será o S serpente? O zero seria o ovo? E o V é a vertente De vale aberto de novo. quem diria? O H faz de barreira Para a nossa correria. a letra perdura O som do dobre do sino. O T será o telheiro O abrigo do portal? Será o P o pinheiro Decepado em vendaval? Lembrará o B os seios E colinas entre as casas? Nós somos pombos-correios A quem cortaram as asas! Se falas: noite rasgada. Por ordem de Satanás É o carrasco das letras! Corpo suspenso na corda: Letra I que nisto entre. É o campo que me lavras! Abecedário é pegada No deserto das palavras. Paris. Entre o gelo e a fogueira Corre a vida.

Havia risos à solta E o tio que vinha d’África. As faces afogueadas Por sombras do vinho tinto… Como cheirava a canela A tangerina e baunilha! E nos vidros da janela A fumo de cigarrilha… Aguardente à sobremesa — Antes: sopa.Jantar de Família Havia amêndoas torradas E as passas de Corinto. No dirás e não dirás Gastam-se noites inteiras E dois sulcos de lilás No outro dia: as olheiras… Havia o tio predilecto E a prima desejada — Que. A prenda do Bolo-rei E que acabava em batalha… (A fava da mesma lei Mas reverso da medalha…) É lava o queijo da serra… Sussurra-se um suicídio… Lembranças da Grande Guerra E também do Regicídio… As claras em castelo Noite branca e submersa… Dois anéis do teu cabelo Mais dois dedos de conversa. Por desenho em cicatriz. Havia a velha criada — Mais nova do que se pensa — E roubos de marmelada: «O tesouro da despensa»… Leite de creme queimado. Os primos já militares As primas quase mulheres… Cabiam todos em volta: Recordação fotográfica. por destino secreto Já era recém-casada! — 257 . peixe. carne — E uma gravura francesa Fala em Batalha do Marne. Como fosse um condenado Marcado a flor-de-lis Os gestos familiares No tilintar dos talheres.

23 de Maio de 1989 258 .Família: paredes-meias. Entre o que era e não era O sonho fundia em brasa Nos umbrais da Primavera Dos portais da minha casa! O lugar do meu avô É um trono de vaivém E nele. Havia o dia seguinte… Lisboa. Não o pedi a ninguém! Sabe a leite condensado A saudade por requinte! Além de haver o Passado. se hoje estou. Meias palavras na sala… O mesmo sangue nas veias As mesmas histórias na fala.

sem um gesto. 259 . O hotel? O mais modesto Cinco estrelas por decreto! Ser cristão pelo Baptismo? Não chega o gosto do sal! Só há Fé por magnetismo. De visão adormecida. Ainda à morte ligado Como a mãe nos liga à vida… Ir à Gruta dos Pastores. Que tudo seja secreto. Pois não choro a minha casa Em algures na Palestina! Vou de pedras na algibeira: Armas brancas de defesa. dourada ou anta Cor de sangue carregado! Rezar aos santos vulgares — Que os há por todo o lado! — Hei-de ir aos Santos Lugares E aos lugares de pecado. Tudo só pela Razão. Ter perfumes da Judeia Por Piedosa Mulher… Lázaro ressuscitado. Subir também ao Calvário (Mas à força de motores Dalgum carro utilitário…) Sem rumor de profecia: Ao mais sagrado dos lagos. Só por morte natural! Irei à Faixa de Gaza Que é mapa de cartolina. Ter Fé pela inteligência E não pelo coração! Sinal da cruz. O Destino por fronteira E a Fé por: incerteza.Peregrino Acidental Eu hei-de ir à Terra Santa E ao Sepulcro Sagrado: Catedral. Ir ao Poço de Jacob E ver se a Samaritana Mata a sede a quem vem só Ou se a toda a caravana… Tudo sem abstinência. Ir à Casa de Maria Aos caminhos dos Reis Magos. Ver José d’Arimateia Num vulto doutro qualquer.

Irmão mais velho e amado Mas que morreu sem algemas! Não aos dias de Jejum! Ao corpo flagelado! Eu quero Deus e se houver um É Cristo ressuscitado! Cada qual esconda o seu acto De crer em Deus ou em nada: Seja a Fé anonimato Que nunca seja Cruzada! Londres.A Vaca e Touro Sagrado… Não verei do Norte a rena Mas o corpo apedrejado De Maria Madalena… Se há flores. também há cactos Numa santa convivência. Foram só uma maneira D’haver Vendilhões no Templo! Silêncio. Sentir correr o Jordão. intolerância: Receitas de obcecado. E se Deus for mais além Quem me dará o perdão? Inquisição e Fogueira Nunca serviram de exemplo. Quem semeia ignorância Colhe flores de pecado! Hei-de ir à Terra Sagrada Onde areia é ouro fino. o pó Das estradas da Galileia. Pressentir: Pôncio Pilatos Como fosse abstinência… Ir aos pomos da discórdia Bem na Terra Prometida: Ver a pomba da concórdia Numa oliveira abatida! Aos Muros de Jericó… Restos da Última Ceia… Sentir as pedras. Hei-de ir ver Jerusalém. Sentir a cruz carregada Sem maldizer meu destino! Ver Cristo aonde Ele está: Entre um beijo e um algoz… (Quem nos diz se viverá Apenas dentro de nós?) Com Jesus Crucificado Em fundo nos meus poemas. 14 e 15 de Julho de 1989 260 .

Marasmo Sou sensação de mergulho — Sem haver profundidade — Corpo feito pedregulho Cativo da Gravidade. Quando meus olhos atingem Um cume semi-escalado. Falcão subalimentado. Fico na tarde parada Tal sombra que se não olha… Sendo a água desejada. Sou a chuva que não molha… Lisboa. Num céu sempre recusado Ao que seja movimento. Que pesadelos marinhos Povoam o coração! Que sensação de vertigem Ou de ar mal respirado. Andando ao sabor do vento. Sonho resina de Chipre Nos troncos. 23 de Agosto de 1989 261 . Nado nas águas do Tibre De cor de loba barrenta. Nas profundezas marinhas Os olhos ficam abertos: Vejo searas e vinhas De vinhos não descobertos. sangue magenta. As gaivotas fazem ninhos Mergulhando em precisão.

23 de Setembro de 1989 262 . Qualquer deserto é alfombra. O carrasco até tem medo De pisar a própria sombra… Sonhas gestos de carinho Ao apertar o baraço. Há uma pedra no caminho Sempre para o teu cansaço. «Teria de acontecer»… Até a Nossa Senhora Viu o seu Filho a morrer… Qualquer onda é tempestade. Tantos medos nos devoram Gente subalimentada! Os carrascos por quem choram? Talvez por um quase-nada! Lisboa. Gota d’orvalho é dilúvio.Os Carrascos também Choram Não quando as rosas demoram Ou por não se ouvir o mar: Os carrascos também choram Todos temos de chorar! Se cantam galos n’aurora É só porque tem que ser E se o dia chega à hora Nem sempre é amanhecer… Levas garrotes nos braços Quando segues de mãos postas. Grão de areia majestade Se lhe chamarem Vesúvio… Tudo muda tarde ou cedo. Tu desenhas um abraço Se apunhalas pelas costas… É sempre o «fora ou não fora».

Ciclo Infernal Outono-Inverno de 1989 .

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Há uma ilha deserta No horizonte sumida. As praias desabitadas Que devolvem a distância Das noites tão consteladas… Bem no fundo da garrafa A ilha sem geografia. Gargalhadas aos histriões! Londres. Em letra corrida e safa D’infantil caligrafia. Mas por vezes a maré Traz o nosso Sexta-Feira. A explosão da manhã. Janela semi-aberta Para a terra prometida… Foram os sonhos d’infância. 18 de Outubro de 1989 265 . Robinson é o que é: Solidão por companheira. Latitude a sudoeste E qualquer meridiano E a pele que um homem veste Tem o fim de qualquer pano… Há o silêncio nocturno.Fundo da Garrafa ou Robinson e Sexta-Feira Jerusalém ou deserto: O embaraço da escolha? Ou livro semiaberto Sem se saber em que folha! Promessas de cinco cravos Sonhos de ressurreição… Romagem de desagravos: O recurso à confissão. Mais os anéis de Saturno Em volta duma avelã… Viver à nossa maneira De cumprir nossas missões: Dar o choro à carpideira.

Os choros e risos são afluentes Em margens opostas deste mesmo rio. Raízes aéreas são as nossas asas! Debaixo das folhas a sombra descansa. É sulco na terra? Cicatriz na cara? Relógio de sol: o meio-dia avança Onde alastra a sombra o tempo não pára… Os cubos de sal mais os poliedros. Debaixo dos cedros. Como dele são as estrelas as servas… — Desdobram a vida as estátuas jacentes Nos gestos esboçados de quem já partiu. O Templo de Deus é nas nossas casas. electrões. são tribos.O Choro e o Riso Debaixo das tílias. Debaixo da vida. debaixo das tílias. debaixo das ervas. Debaixo do céu — de que somos servos. Os cantos das aves são as homilías. debaixo dos cedros. Iões. famílias… O choro alimenta a raiz dos cedros Dos que vão saindo debaixo das tílias… Londres. 20 de Outubro de 1989 266 .

bem no centro. Pé firme: espero quem passa Atrás dum muro ou dum buxo. sangue. penas: — Se há alguém a disparar.Guarda da Vinha Todos os sons são diferentes A quem os traz bem escutados: O rastejar das serpentes Não me enche de cuidados… Meio corpo dentro da cova Olhando a noite distante. Quem faz as leis e os lemas Também gosta de caçar. Eu prefiro a Lua Nova Ou o Quarto Minguante… Só não quero a Lua Cheia Que as raízes das videiras Ao espreguiçarem na areia Parecem mulheres inteiras… Também o Quarto-Crescente Ao fazer as luas curvas Faz-me pensar qu’anda gente Em volta das minhas uvas! Carrego balas de sal — Não fosse eu guarda da vinha! — Seja vulto ou animal Mato tudo o que caminha… Mato tudo sem motivo Só me basta disparar. talvez fira… Como a vida cabe dentro De qualquer ponto de mira! Caça grossa ou indefesa É tudo o mesmo retrato. Até o sangue me pára Eu sou estátua no momento: Quando meto a arma à cara À espera dum movimento. 31 de Outubro de 1989 267 . Alvejo bem. É legítima defesa Que me cabe por contrato! Mato tudo o que estremece. Para mim é tudo caça… Queimo o último cartucho! Aves feridas. Não é a forma da Espécie Que dá outro nome ao crime! Londres. Nem a noite me redime. Se não matar. Como caçador furtivo Que mata só por matar.

Chega o dia da matança: Nem sai veneno dos frascos Pois que hoje a morte avança Pelos dedos dos carrascos… E a última vontade… O cigarro derradeiro… Nunca houve tanta bondade No olhar do carcereiro… Tudo o que é bom nos acena Em medonho ritual! Só por isto vale a pena Ter a Pena Capital! Londres. Que banquete de vingança Há nos véus de Salomé… Mas seja lá o que seja Toda a morte é natural. 8 de Novembro de 1989 268 .Cela da Morte A morte vinda na dança Não deixa ser o que é. — É cabeça na bandeja Por um capricho real… — Os tribunais e os foros São tudo jogo da Bolsa: Rebenta a pele pelos poros Tentar sorte sem ter força! Quem está na Cela da Morte Não tem olhos estremunhados E não há fala que corte O silêncio aos condenados.

Às vezes não é do sono Os sonhos que aos olhos dão. Folha a folha despe Outono Seu fato fim-de-estação. Os troncos são o que são… Não há frutos no Outono. abandono. despe Outono Seu fato fim-de-estação… Nasce Cristo sem Outono. Folha a folha. O gigante e o gnomo Mesma altura medirão Se em quatro tábuas d’Outono Lhes talharem o caixão… As raízes no Outono Têm calor do Verão.Escorpião Fecham-se os olhos de sono. Mandamentos? Um ao nono — O décimo é conclusão —. Sementes que os tempos dão… Para o ano outro Outono P’ra quem sobrar dos que irão… Todo o cão procura o dono Farejando a solidão. Às vezes por sugestão. Pobres ramos. Morre Jesus sem Verão: C’roas d’espinhos sem trono São os degraus da Paixão. 8 de Novembro de 1989 269 . Londres.

Meus olhos são apenas teu vestido.Oásis O lençol é o luar desprevenido. O deserto tem colinas e tem verde E nascem-me flores no meio das pedras! Londres. Teu corpo é o deserto que me chama. 17 de Novembro de 1989 270 . Oásis! No teu ventre descoberto Na sede que as pegadas dão ao rasto. Mas pode o coração bater-me certo Quando do trilho certo eu me afasto! O norte dos teus olhos não me perde: O rumo vem em tudo o que segredas. Semicaído aos pés da nossa cama.

O galope dos cavalos indomáveis Nos prados que as manhãs enchem de cheiros. Quero as rosas que nunca florirem. se por acaso me mentirem Que preço do silêncio vou pagar! Quero ir onde os rios não conseguirem E às praias que a maré nunca alcançar. anéis. tão perdidos. Os gestos de loucura incontroláveis Que o vento dá aos ramos dos pinheiros! Os lírios que de branco não murcharem Serão orvalho. Os lagos que ao sol por fim secarem Reflectem os meus sonhos de castelos. Às estrelas que os vindouros descobrirem No céu que muda tudo de lugar. Se ao eco dos meus passos responderem As dúvidas que trago nos sentidos. Porém. nos teus cabelos. As chuvas que ameaçam não chegar Nas asas das aves que se ferirem Por dedos que não sabem disparar. Quero ir pelos caminhos que me derem Um som melhor aos passos.Passos Perdidos Quero ir onde os rios não conseguirem E às praias que a maré nunca alcançar. 271 .

As luas que há em Marte e em Urano: Também a gota de água e de suor Que no deserto é sempre um oceano… Londres.Além de querer o céu. Ursa Maior. 17 de Novembro de 1989 272 .

bem cravado. Os outros. em cada mão — Uns dizem-No depois ressuscitado.Missa do Galo Aceita sempre tudo o que for dado — É dado adquirido da razão… — As rosas que servirem ao noivado Também à campa rasa servirão… Por menos foi Jesus crucificado — Um cravo. a sorrir. dizem que não… Porém. sorrir não foi nem é pecado: Assiste a cada qual a solução… É morto Cristo em cruz? Ou libertado? Natal é Sexta-Feira de Paixão… Londres. 21 de Novembro de 1989 273 .

Sei de cor a cor do mar. 24 de Novembro de 1989 274 . Já tive melhor ouvido. Alguém me irá responder? Sou como rato sem cantos De casa p’ra me esconder… Sou peixe dentro da rede De traineiras afundadas. Ando mais ao deus-dará. Sou como o escravo da sede Que só tem fontes salgadas. Melhorei os meus requintes. Olho melhor os pedintes.Fontes Salgadas Caem dentes das gengivas… O cabelo da cabeça… Mas vou sonhando as ogivas Onde Cristo me apareça. A três passos do abismo? Cortando a linha da meta? Eu sinto o sal do Baptismo Mas não sei por que profeta… Recorro a Deus e aos Santos. Mas sinto-me acompanhado. Londres. Mas ao vento na seara Dou hoje melhor sentido… Apurei o paladar. Já tenho rugas na cara. Alguém por mim contará O que me traz confortado? Estou na idade em que Deus Vai exercendo os direitos… Sei de cor a cor dos céus De os olhar dos parapeitos.

vale a pena O vale que em mim se cavou! Londres. Dormi na Casa da Guarda. Humidade pelo chão. Aos toques do clarim: O primeiro na parada… Alguém chamava por mim Do «Silêncio» à «Alvorada»! Noites e noites na ronda Sob uma Lua amarela.Miliciano Oficial e faxina! Tudo fizeram de mim. É Dom Quixote e o Sancho Comandando a Companhia. Sapatos de polimento: As botas cheias de graxa. Em noite tinta-da-china Papel de lustro carmim… Como em alto dum zimbório Mas sem a cidade aos pés Fui militar provisório Mas de mochila em viés… Regimento em regimento Levei a guia de marcha. Haverá voz que responda Aos gritos da sentinela? Era o Sargento-Ajudante O meu degrau anterior Na escadaria rolante De Inferior a Superior… Primeiro degrau: o soldado. Porta d’Armas: o começo Da minha peregrinação… Tanto há que desconheço Do que foi o batalhão… Há alguém que em mim condena O que nunca desertou? Entre o não vale. Seguindo um velho conselho — Para evitar o percalço — Fiz do calçado o meu espelho Em tropa de pé descalço. A minha cama era a farda E o corpo era o colchão… É do tempo das cavernas Esse sono primitivo De quem dorme nas casernas Por não ter outro motivo. Pisado por toda a gente — O recruta em «arvorado» Já se julgava Tenente! — Pântano: caldo do rancho Onde a comida cabia. 25 de Novembro de 1989 275 .

— No denso vapor Derrete a vontade Dentro do calor Cheio d’humidade. Escorrem paredes. A névoa adivinha Outra transparência: É cor da farinha Sem ter consistência. Goteja em chuveiro Mas só por momentos. Que Babel tamanha De todo o sotaque A Guerra de Espanha Com mouros a saque. Um morto e um ferido Já em comunhão E mais Santo Isidro De estoque na mão… A ninguém: asilo Ou portas abertas! Pobre São Camilo: Igrejas desertas… Desce a neblina Sobre o corpo inerte.Banho Turco Tortura de Tântalo O calor previne… É névoa de pântano O ar da cabine… Noite e nevoeiro E mil pensamentos. É a vista baça De peixes nas redes. 276 . Tudo em movimento Cavalos-vapor. Penso em São Camilo E em Santo Isidro — E margens do Nilo Na porta de vidro. Sangue em bandarilha E touros do Lorca. Goteja a vidraça. O Queipo em Sevilha Bretanos: Maiorca. Moinhos de vento Moendo o suor… Naufrágio sem bóia Longe a salvação: A Espanha de Goya Vem na serração. Mineiros em mina De grisu que verte? É um carrossel Vapor a rodar… Vejo a tua pele Sem ela aqui estar. Como caso assente Há muito estudado: O teu corpo ausente Vem para o meu lado.

É calor silvestre. Nave angelicana Com ninhos de pombas E raça ariana Debaixo das bombas! Frases calcinadas Quem as desenhou? Palavras queimadas D’alguém que falou! É luz que já foi — De estrela. Seis milhões de mortos Contados pelos dedos. Tendo por telheiro Uma cruz gamada! Filhos d’Israel Mas sem Mar Vermelho Aberto em túnel Por Judeu mais velho! Corpos ilusórios Marcados a giz. que ao vento Amassasse o pão… Escada sem degraus Plano inclinado. Noite de Cristal: Ardem sinagogas! É névoa dos portos Que só dão degredos. 27 de Novembro de 1989 277 . decerto —: O olho-de-boi Aceso no tecto! Londres. São mais de cem graus Não há ar queimado. Papel vegetal E romanas togas. Fornos crematórios De monstros nazis.É clepsidra Gotas de suor Os olhos da Hidra Olhando em redor: Remexe-se o tempo Como em caldeirão De bruxo. Pintura rupestre De traços tão vagos. Silêncio dos lagos. Noite e nevoeiro P’ra Raça danada.

Século Dezanove Eu seria do Mindelo Estaria dentro do Cerco. A sede por pesadelo. Pois há Maria da Fonte… Às vezes a tirania Não acaba em Évoramonte… Fim ao tempo d’imigrado Mas vida por um cabelo… Todo o sonho é conquistado Em areais de Mindelo! Londres. Trincheira: monte de esterco! Era D. Pedro o monarca Pelo qual me bateria. 1 de Dezembro de 1989 278 . Arcabuz fora da arca E artes de montaria… O medo antes da carga — Como não fosse verdade — Fosse a vida mais amarga Mas sobrasse a liberdade! Caçador fora da linha Sem esperar qu’a ordem parta: A dar vivas à Rainha Que tinha jurado a Carta! Como coração que sangra Pela veia mais aberta: Eu teria vindo d’Angra Ao relento na coberta… Mas não terminava o dia.

Assistindo por direito À troca d’identidade Mais ao gosto do seu jeito… Como sinal de nascença Cada um bem definido: Fosse a Fé a recompensa Como um bem.Missa Cantada Depois da missa cantada Só o silêncio responde… Qual a chave da charada Onde a Fé tão bem se esconde? Precipícios e vielas E também ruas fechadas. sua metade. Mas no céu respondem estrelas Às janelas escancaradas! Dentro de nós. Há tanto que se esconder: Um Demónio que foi Santo De tanto se arrepender… Crer em Deus só por receio Pode ser uma atitude: Diabo cortado ao meio Talvez a nossa virtude! Cada um. no entanto. Londres. bem conseguido… É como a noite cerrada: Aos ralos ninguém responde… Depois da missa escutada Vejo Deus. mas não sei onde. 10 de Dezembro de 1989 279 .

A luz da Lua é Sol visto ao contrário… Belém. Palavras.Estrela de Belém De macadame ou de terra batida. é outra geografia Atalhos ao Presépio dão Calvário… As estrelas são mensagens desiguais. Não interessam os pontos cardeais Se dizem que Deus nasce nalgum lado. Londres. dialecto desolado. Considerando o ponto de partida: A Estrela de Natal é Ocidente! A noite da procura é sempre fria. 13 de Dezembro de 1989 280 . porém. Cada um tem a estrada à sua frente.

É rasto que ficou das caravanas… A sede é a saliva que sem gosto Lembra o mar de sargaços e savanas. Foi como pântano o colchão de arame. As línguas: duas cobras que se enroscam. Teus dentes batem bem contra os meus dentes. As mesmas pernas. Náufragos que se julgam navegantes À força destes braços serem remos. mas mais brancos. Que rugas que puseram no teu rosto. Cascavéis venenosas e mordentes Que ora se repelem ou se encostam! Os olhos tão iguais ao que eram dantes São sementes dos frutos que colhemos. Os lábios são os mesmos.Erosão Os braços são iguais. Talvez seja polar o frio de agora No espasmo que ficou desta batalha… Os santos somos nós ou estão lá fora Na pele feita de pedra ou de talha! 281 . Terreno das areias movediças… Mas pobre do jogral que nunca ame Num castelo sem pontes levadiças. Ó noite toda feita de lanternas De abismos que cavei nos teus flancos.

Nascemos com o mar na nossa frente. 13 de Dezembro de 1989 282 . A cama é a jangada dos desejos… O sonho para nós foi: continente. Parede toda feita de azulejos! Londres.

Lastro tão preciso e desprezado Balão a prometer-nos o Raio Verde. De quem será a mão que mal me guia? Se o vento está lá fora não estremeço Como folha d’Outono em ventania… Que mistério nos quer adormecidos Ainda em vida e tanto por viver? Conta-gotas de sangue. 13 de Dezembro de 1989 283 . Nos sonhos te refaço se adormeço. Que memórias e noites visitadas! Porém. assim o sono ordena. Se outrora percebi significados Nem ao de leve sei quem hoje acena… Incógnita é dormir sem estar cansado. Deitando fora a vida que se perde. empedernidos Os corações que deixam de bater… Em sonhos te refaço quando acordo. o pó do chão só eu o mordo Para no sonho não deixar pegadas! Londres.Raio Verde Nos sonhos te refaço em bocados Pacientemente.

Por vezes: passo pesado Outras vezes ao de leve… Abafa a voz no Senado Aos Tribunos da Plebe… Dita a lei que não quer lei Do Tempo sempre a correr — Quantas vezes me queimei Só de pensar em morrer? — O que o corpo traz impresso É a alma em carne viva. tinta-da-china Sobre a neve de marfim… Viver não passa de teima Se o polegar for de Nero Na arena que tudo queima: Vidas abaixo de zero… O olhar do legionário É espada que corta a fio.Pão e Circo É álcool em serpentina Numa espécie de sem-fim… É fumo. O calor é calafrio. tinta-da-china Sobre os corpos de marfim… Londres. Sem qualquer alternativa! Se a morte passou ao lado: Não mudamos de figura. Ai! Arena. Se os graus estão ao contrário. 21 de Dezembro de 1989 284 . A morte é sempre gelada — Como o olhar dos guerreiros — Passa a vida a fio de espada P’ra não fazer prisioneiros. Tudo é adiamento E nem o Nero sabia! É como a noite de vento Que a manhã não prometia… O polegar para cima Às vezes não é o fim… É fumo. O polegar levantado Não acaba a escravatura. sem regresso.

Quem viu suor viu o Nilo E escravos em formigueiros — E também Vénus de Milo ’Inda de braços inteiros! Como touro tresmalhado Sempre com morte na frente: Esta angústia do Passado Anda no Tempo Presente. queimo incenso E passos no corredor… O Farol de Alexandria Só ligava luz e treva. Tinha cor cinzenta e fria Como os dias em que neva. Sempre que penso em Cartago A memória meço aos palmos… O teu silêncio é tão vago Feito de ventos e salmos. Macedónia Mais tudo o que a terra sabe. Teu rosto lembra-me ícones Duma igreja bizantina… A Fé é de quem nos dita Os termos da opressão. A memória é uma insónia Onde só silêncio cabe. Sem sabor a nicotina. Tinha uma porta secreta Dentro dum poço caída Como o tirano decreta: Dava a morte de seguida… O teu vulto é pormenor De vitral semipartido Vindo da Ásia Menor De culto desconhecido… Imagem desaparecida No desvão dalgum mosteiro Mas figura conhecida Retrato de corpo inteiro. 285 . Catedral feita mesquita Conforme a posse do chão… Fica Alá no meio dos arcos Traçados a Ocidente. Pois nem sempre os mesmos barcos Carregam a mesma gente… O Labirinto de Creta A ninguém deu a saída.Estreito de Corinto Deito-te fumo nos olhos. Antioquia. Queimo mirra. Se quebrares este silêncio Que se fecha em meu redor.

À beira dum precipício Os homens não são diferentes… Partem-se os lemes. Vitórias de Samotrácias Que se deixam desterrar! No mapa do esquecimento Há muralhas de cidades… Outrora já foi momento Que se perdeu nas idades! Meu solstício de Junho Rasga estreitos em Corinto… Meus poemas em rascunho Nunca passados a limpo. Caravana levantina Com camelos carregados E estrelas de purpurina Mostram caminhos sagrados. Temos sorte das acácias: De nascer e de murchar. Derrama perfume o frasco Ou bebida envenenada? Curva em Estrada de Damasco Pode ser uma emboscada.Animal de sacrifício Preso à ara por correntes. 29 de Dezembro de 1989 286 . Há tantas lousas partidas Que já nem deixam recados. Como por ferro queimado. Deusas de pedra vestidas Pela nudez dos pecados. as âncoras Procuram terra no mar. Londres. Azeites. Em denúncia à condição. vinhos nas ânforas Com a morte a transbordar. Um judeu circuncidado Bem depois de Salomão.

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Índice Calendário Mergulho no Passado  Faca Também de noite Os Rios Correm Inteiros  Calatrava Vão-se As Águas sem Canção  Noite À Poesia  Na Morte da Avó Adelaide Zero Ressaca À Maneira de Dom Dinis Pã no Seu Tempo Pastoral do Ano 2000 Na Guerra do Roussilhão Cana Verde. de Verdade 11 12 13 14 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 .

Teatro Amador Mão Fechada Melaço Van Gogh Amor em Dia de Chuva Escavação 1 — A caminho de Pompeia 2 — Ponte dos Suspiros 3 — Os Vidreiros de Murano 4 — Rosa. Rosæ… 5 —Siderurgia  Judas Portugal 1976 Solstício de Verão Ramsés o Grande Amor-Perfeito Trás-os-Montes Ronda da Noite Canção Estival Emilio Salgari Véspera de Natal Espanha 1978 27 28 29 30 31 35 36 37 38 39 41 42 43 44 45 46 47 48 49 51 52 .

Cassiopeia 1 — Inferno 2 — Purgatório 3 — Céu Poder Secular 1 — Camões 2 —Fernando Pessoa 3 — Cesário Certidão de Nascimento «Post Scriptum» Contra-Relógio Mina de Sal Nível de Água Cozido à Portuguesa Kremlin Roleta Russa Gelo Auto-Retrato Visitas Proibidas 57 58 59 63 64 65 67 68 69 70 71 72 73 74 75 76 77 .

Integração do Átomo 1 — Monte de Tabor 2 — Cassiopeia 3 — A Meia-Nau 4 — Átomo Cavalo da Acrópole Tempo de Silêncio Telex a Lech Walesa Acordar em Hotel Saudação a Enrico Berlinguer Passagem de Nível sem Guarda Nome Próprio Feminino 1 — Camões 2 — Jau 3 — Natércia São Paulo Algarve 1982 Cega-Rega Marroquina  O Luar é Azulado Este Ano em Jerusalém 81 82 83 84 87 88 89 90 91 92 95 96 97 99 100 101 102 103 .

Latifúndio  Última Caçada Velhas Casas Cor-de-Rosa Poema em Construção Os Insectos e os Outros Lápides Apagadas Ex-Libris Auto-Retrato Última Tentação Tocata e Fuga Outro Natal Via Appia Marvão. Tantos de Tal Audição Única Circus Maximus 1 — Dança do Escalpe 2 — Terra de Siena 3 — Pedra de Carrara Obsessão Uma Gota de Sangue Queda do Império dos Romanos 104 105 106 107 108 109 110 111 112 113 114 115 116 117 121 122 123 125 126 127 .

Domingo de Ramos Nicarágua João Sem Terra Branco e Negro Sândalo Noite e Nevoeiro Santo Sepulcro Tântalo Outrora o Natal Fermentação Nebulosa em Espiral 1 — O Túmulo e a Rosa i — A Neve e o Mar ii — O Túmulo e a Rosa iii — O Sal e o Açúcar 2 — Os Mundos Exaustos iv — As Estrelas Assassinas v — Prece vi — O Pão e a Pedra 3 — Juízo final Fechado para Obras (Poéticas)

129 130 131 132 133 134 135 136 137 138

141 142 143 144 145 146 147 151

A Noite dos Degolados Ponto Negro Deus no Confessionário Livro das Horas Conta Errada Gaivota Colóquio dos Simples Multidão Abstenção 28 de Maio de 1926 – Verão Quente de 1975 Miradouro Sessões Contínuas Cal Viva «O Tempo Está Próximo» Chegada Fado Amália 18 de Julho de 1936, Dia de São Camilo Passe a Palavra Os Robinsons do Espaço Véspera Veneziana 1 — Constante 2 — Aquário

152 153 154 155 157 158 159 160 161 162 163 164 165 166 167 168 169 170 171

175 176

3 — Fresco 4 — Lucros e Perdas 5 — Homo Faber Insónia Cesário a Corpo Inteiro Os Ralos do Relento Passagem do Ano Profanação Quarta-Feira de Cinzas Fechadura Yale Incógnita Cofre de Segredo Cotação do Dia O Beijo de Judas Ofícios Esquecidos Papel-Moeda Ração de Combate Bicho-de-Conta As Torres do Silêncio As Torres do Silêncio Índia

177 178 179 181 182 184 186 187 188 189 192 193 194 195 196 197 211 212

215 216

Taj Mahal Khajuraho Fumos da Índia Nas Margens do Ganges Entardecer no Ganges O Medo Numa Aldeia do Nepal Pôr de Sol nos Himalaias O Palácio das Monções A Poesia Fortaleza dos Reis Magos As Formigas na Neve Embalagem Perdida Trinta Dinheiros Duplo Almocreve das Palavras Divisão das Espécies Navegação Nocturna London Sight-Seeing Perdido por Cem Ursa Maior Estrada de Damasco Veneno

217 218 219 220 221 222 223 224 225 226 228 229 232 234 236 238 239 241 242 243 244 245 246

Dizer por Dizer A Última Caçada Lente de Aumentar Tecelões Soldadinhos de Chumbo Relógio de Água Caracteres Ilegíveis Jantar de Família Peregrino Acidental Marasmo Os Carrascos também Choram Ciclo Infernal Fundo da Garrafa ou Robinson e Sexta-Feira O Choro e o Riso Guarda da Vinha Cela da Morte Escorpião Oásis Passos Perdidos Missa do Galo Fontes Salgadas Miliciano

247 248 251 252 253 255 256 257 259 261 262

265 266 267 268 269 270 271 273 274 275

Banho Turco Século Dezanove Missa Cantada Estrela de Belém Erosão Raio Verde Pão e Circo Estreito de Corinto

276 278 279 280 281 283 284 285

.

foi. Edições Távola Redonda. e nos fascículos 19/20. Henrique Segurado. em Távola Redonda (no fascículo 15. [1970]). Estreou-se como poeta em Março de 1951 no jornal Rivages — edição dos alunos do liceu Francês de Lisboa —. de 1976 a 1992. Em 1959. tendo depois iniciado. Publicou. em 1956. 1960) e Ressentimento Dum Ocidental (Alfragide. de Dezembro de 1952. Como Henrique Segurado. No mesmo ano. 1953). a AZ-Olivais e a AZBom Sucesso. no jornal O Século. Dança do Escalpe. com dois poemas) e no primeiro número de Graal (Abril-Maio de 1956). ainda como Henrique Jorge. recebeu ainda uma referência especial do júri que a Livraria Galaica do Porto constituiu para um concurso de poesia. onde desempenhou funções de administrador. a sua actividade de jornalista e de gestor de órgãos da imprensa. no Porto (as duas últimas em colaboração com o grupo Valentim de Carvalho). ex-aequo com António Ramos Rosa. Asa de Mosca conquistou. 301 .Nascido em Lisboa a 6 de Abril de 1930. Em 1976 abriu a livraria Castil-Castilho. Henrique Jorge Segurado Pavão frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa. a Castil-Benfica. com quatro poemas. a Castil-América. Emigrantes do Céu (Lisboa. deu à estampa Asa de Mosca (Lisboa. o segundo prémio do concurso Fernando Pessoa organizado pela Editorial Ática. com um livro que nunca chegou a ser publicado. um dos jornalistas societários de O Jornal. seguindo-se-lhe a CastilAlvalade. de Julho de 1954. revista dirigida por António Manuel Couto Viana. com o nome de Henrique Jorge. tendo posteriormente colaborado. Ática. Galeria Panorama.

Tem colaboração dispersa em jornais e revistas como O Século. Porto. 2004. organização e apresentação de José Fanha. Lisboa. Jornal de Letras. Diário de Lisboa.L. 302 . Porto. Editorial Inova. Portugal: A Terra e o Homem: Antologia de Textos de Escritores do Século XX. De Palavra em punho — Antologia Poética da Resistência. Lisboa. Poesia/70. 1998. Câmara Municipal do Seixal. Editorial Campo das Letras. Lisboa. organização de David Mourão-Ferreira. 1965. 800 Anos de Poesia Portuguesa. Natal na Poesia Portuguesa. organização de Egito Gonçalves e Manuel Alberto Valente. [1978]. 100 Anos Federico García Lorca: Homenagem dos Poetas Portugueses. Fundação Calouste Gulbenkian. Seixal. 1993. Universitária. 1973. Círculo de Leitores. Ulisseia. organização de Luiz Forjaz Trigueiros.. Lisboa. organização de Afonso Cautela e Serafim Ferreira.1987. Gazeta Musical e de Todas as Artes. O Tejo e a Margem Sul na Poesia Portuguesa. Dinalivro. coordenação de Ulisses Duarte. J. Artes e Ideias e Colóquio/Letras. República. Lisboa. 1971. Jornal de Letras e Artes. Está representado nas seguintes antologias: Poesia Portuguesa do Pós-Guerra: 1945-1965.

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