Henrique Segurado

Almocreve das Palavras

© Henrique Segurado e Rui Sanches Edição organizada por Joana Morais Varela Composição de Vasco Rosa Revisão de Luis Manuel Gaspar Fotografia do Autor por Raul Neves Lourenço Impressão e acabamento de Guide – Artes Gráficas isbn: 1234567890 Depósito legal: 320 980/10

Henrique Segurado

Almocreve das Palavras
Poesia 1969-1989
Desenhos de Rui Sanches

lisboa, 2010

Henrique Segurado à porta da casa onde nasceu.

.Para a minha Filha Joana que se antecedeu à publicação deste livro que lhe pertence inteiramente… Com um beijo e a saudade do Pai.

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variadas composições que devem considerar-se como das mais nobremente marcadas por um desassombrado espírito de protesto e de resistência. voluntariamente discreta pelas longos intervalos que têm caracterizado o aparecimento das suas obras. no entanto. Quanto à forma. na sua obra. é.A voz de Henrique Segurado. David Mourão-Ferreira . uma nítida preferência pelos metros tradicionais. e embora utilizando não raro o verso livre. havendo escrito. que constitui um dos seus temas constantes. tendo sabido conferir a uma e outra o halo renovador de uma perspectiva actualizante. de originalidade não menos surpreendente. das mais pessoais dentro da geração de Cinquenta. já por um sentido muito agudo do aproveitamento da tradição em termos de modernidade. manifesta-se. já por uma exuberância imagística que frequentemente alterna com um pendor lapidar ou epigramático. nos tempos do salazarismo. Além do amor. muito em especial pela redondilha — tanto pela do romanceiro como pela das «profecias» do Bandarra —. é sobretudo uma interpretação crítico-lírica da sociedade e da história portuguesas o que mais amiúde o empolga.

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Flores de Abril Num fuzil Devolvendo a Primavera… Chega Maio Mês lacaio Do trovão que não se espera. Resta Outubro E descubro Um Outono que chegou… Cai Novembro Vem Dezembro Mal o ano começou! Lisboa. Junho.Calendário Nem me lembro De Dezembro E chegamos a Janeiro. Entra Março E disfarço os percalços de Fevereiro. Julho Há entulho Onde outrora havia areia Vem Agosto Cheira a mosto Já Setembro s’incendeia. 8 de Novembro de 1969 11 .

Sem perceber o sentido — É por isso que se canta — Lá fui de braço estendido Libertar a «Terra Santa»! Era caqui amarelo A minha calça subida E fiz parte dum «castelo» Que desfilou na Avenida. Tanta coisa se passou Sem eu ter que perceber. 6 de Maio de 1970 12 . Andavam mouros a saque No país nosso vizinho… Lisboa. O corpo reconhecido Se gritavam: «à vontade!» Nestas escavações d’infância Que testemunhos consigo. Fiz por cumprir minha sina: Soldado desconhecido… Havia um S no cinto Uma espécie de serpente Era dum vulto indistinto Que mandava em toda a gente! Se ordenavam: «sentido!» Morria toda a cidade.Mergulho no Passado Andavam mouros a saque No país nosso vizinho. Das coisas sem importância Que se passaram comigo. Onde está quem me fardou P’ra hoje me responder? Eu tinha um dois no bivaque E camisa de azevinho. Eu tinha um dois no bivaque E camisa de azevinho. Em qualquer ponto da quina Sem ter lugar definido.

Grande coutada da morte Em que nós somos a caça. Uns dos outros afluentes Vendo o fim na mesma foz! Cortasse o que se destaca. Mas que fora de calar Que cortasse a própria faca Em que me quero cortar! Lisboa. Retalhasse num só corte O sono que é só mordaça. 5 de Novembro de 1970 13 .Faca Cortasse o vento que invade Este quadro secular Que teimam chamar cidade Por ser tudo tão vulgar… Que cortasse o coração — Onde teimas estar presente — Esse «Diário-Razão» Da nossa conta-corrente. Rasgasse bem as nascentes Nesses rios que somos nós.

No muro que somos — sem o perceber! — A morte afixa os seus editais. sem pontos finais. 10 de Dezembro de 1970 14 . No tronco dos dias gravo um coração Que depois de mim inda irá bater.Também de noite Os Rios Correm Inteiros Palavras. Por não ter aceite a desproporção Entre Tempo e tempo de quem vai morrer! Lisboa. Mas voam se as soubermos escrever. Não quero o tempo de quem vai morrer. Não quero o tempo de quem vai morrer. Também de noite os rios correm inteiros. fazem ninhos nos tinteiros. Em letra corrida.

A poesia é luta que se trava. adormecida. que se lavra Que o povo quer depois distribuída. Lisboa. Não me fales assim de Calatrava: Os sarracenos foram de partida. canção. definida: Mas não me fales mais de Calatrava Que o Tempo tudo muda de medida. Só eu sei. É um poema terra. Não me fales assim de Calatrava. 20 de Janeiro de 1972 15 . que te encontrava No meio desta noite. É pondo palavra sobre palavra Que temos a poesia construída. Não me fales assim de Calatrava Que a História já deixou desguarnecida. Não me fales assim de Calatrava Que à lança moldou gente convertida.Calatrava Poema feito duma só palavra Talvez dê a ideia pretendida. Tão rente ao Guadiana. Pela dama que queremos ofendida.

É um rio subterrâneo (À vista só se pressente) Num reino subcutâneo Da nossa estátua jacente… Vão-se os seixos da razão. Escava um leito impenetrável Fechado à navegação. 12 de Maio de 1972 16 . Longamente navegável P’las barcas da sugestão.Vão-se As Águas sem Canção Grande rio: o coração A morte por afluente… Vão-se as águas sem canção Se nós vamos na corrente. Riscando a face do espelho Que nem o sol de Verão Consegue pôr mais vermelho! Em perpétua confusão Mistura a foz na nascente. Vão-se as águas sem canção E nós vamos na corrente… Lisboa.

Arco de triunfo Nos olhos fechados. Sendo tudo és nada. Não há quem te esculpa A forma mortiça. 2 de Janeiro de 1972 17 . És peso de culpa Assim és justiça! És o trigo e joio. És rio e riacho. Manto transbordável Mas tão natural Como indecifrável. És um golpe baixo És morte adiada! Lisboa. Derradeiro trunfo Dos desesperados. Como submetes A nossa humildade E como repetes A tua vontade! Já ontem vieste Já hoje chegaste… O que nos disseste? Nada há que te gaste? És tão pontual. Graças e ofensas.Noite Surges maleável Mas depois compacta. És ponto de apoio De pontes suspensas. És impenetrável Assim és exacta.

os cunhos da moeda… Pode a bala errar a trajectória Já foi crime o gatilho em movimento… Se te quero bem inteira na memória Porque te mato tanto em pensamento? De certo além da vida tu acenas… Assim não tenho medo de morrer.À Poesia É tanta a vez que em ti me reconheço Que és bem minha ascensão e minha queda Não fosse a alma a vida do avesso: Ou morte e vida. 16 de Setembro de 1973 18 . Por isso dia a dia me envenenas Na água que preciso de beber! Lisboa.

Qual dos dois teve razão Para deixar a Terra Neste dia? Lisboa.Na Morte da Avó Adelaide A minha última avó Morreu No dia em que o primeiro Homem Partiu para a Lua. 27 de Janeiro de 1973 19 .

É curva de circunferência Que se acaba de fechar… Linha curva. 30 de Janeiro de 1974 20 .Zero É número sem descendência Que não se pode contar. Um destino indecifrável. intolerância. É a sede de distância Dalgum compasso indomável… Formato da nossa pele Onde o tempo não demora. É apenas um anel: Nada por dentro e por fora… Lisboa.

É entre o não basta e o basta Que se limita a loucura. Este sorriso é espartilho Que não me deixa chorar. Uma espécie de rastilho Sem nunca se incendiar. A vontade de chorar Que passo p’ro outro dia… É punhal que me desbasta Sem me tirar a figura. Mas o choro não resolve O que em mim não tem motivo: Sou o mar que se devolve À onda que o traz cativo. Lisboa.Ressaca Este soluço adiado É que me dá equilíbrio: É ter-me desencontrado No local do suicídio. 2 de Fevereiro de 1974 21 . É tão fácil de levar. Como uma bilha vazia.

Comendo o pouco pão do meu bornal — Fazendo. Apesar duma lua pontual No mesmo céu igual que conheci. orvalhada. sem vergonha Do que disser o bobo da canção… Em Compostela. 19 de Novembro de 1974 Quero-te em maneira provençal.À Maneira de Dom Dinis (Quer’eu en maneira de Proençal ) Quero eu em maneira provençal Cantar o que em silêncio foi ficando. Ou no correr mortal dalgum veado. no entanto. Corpo nu em frente dum ribeiro. Morna voz de cantor medieval Que o fogo da fogueira foi queimando… Que medo que trazia a madrugada Ao chegar nas visitas do diabo: Numa gota de rosa. Jogral de corpo inteiro. primeiro… — 22 . Trento ou na Gasconha Tanta estrada na minha solidão! Ai! tanta Lua Nova que perdi Ao dedilhar nas cordas um afago… Se andava alguém comigo nem o vi: Tanto o pó na Estrada de Santiago! Quero-te em maneira provençal Na barbacã mais alta à minha espera… Tudo simples. Quero eu em maneira provença Lembrar a escuridão quando nasci. medonho e natural Como Inverno ao morrer em Primavera! Lisboa. amor.

Lobos sangrentos: São no regato Vultos barrentos. 27 de Novembro de 1974 23 . Barro cozido: A sua face… Deus terá sido Ou foi disfarce? Lisboa. Os laranjais. Mas não tem pena Pois do seu peito Há sons de avena… Toca flautas Aos sagitários. Os seus cabelos — Além de ideias — Formam novelos De centopeias. Dos tempos áureos Das Amazonas. Tem argonautas Nos aquários.Pã no Seu Tempo Deus dos pastores. Entre outras coisas: Sabe de mais… Come flores De esfomeado. Tem os centauros. As beladonas. Faunos no mato. Vende favores. Bebe licores Da luz do prado. Tanto defeito. Deus endeusado… Devora as rosas. Vento que passa Cheira a lilases Mais à couraça Dos ananases. Quási sem gado.

No que dizes e desdizes Ou nas tuas mãos abertas De avalanches e deslizes… Não há fronteiras abertas Se deixa de haver países. como em crises… Não morre a cor nas paletas Nem nas penas das perdizes. Mas as horas batem certas Tanto na paz. 15 de Fevereiro de 1975 24 . Não interessam descobertas: Só amo a terra que pises… E nos olhos dos profetas Leio tudo o que me dizes.Pastoral do Ano 2000 É nas grutas e nas gretas. Nas sombras mais inconcretas. Tão pouco nas violetas Ou nos frascos dos vernizes. No fundo de almofarizes E nos olhos dos profetas Nos segredos das raízes… Irão parir as provetas E vão secar as varizes Na memória das gavetas Ficam nossas cicatrizes. Amesterdão.

Pelas estradas reais: Olhos nas pedras do chão Se passam oficiais Só lhes fala a guarnição… Na caruma dos pinhais Tão verde desolação. Só te beijam os punhais Ó tropa de ocupação. Sem agulhas de amizade: Só há camisas rasgadas. Recusa-se intimidade Às tropas aboletadas… Bandeira rasgada em franjas. Voz de mando ao batalhão. Lisboa. Tão inúteis as fanfarras Da Guerra do Roussilhão. Cabeça espetada em varas No prumo da rendição. Mas o peso das espingardas Faz prender os pés ao chão… Guardam alguns uns retratos Ou cartas quási apagadas Que não merecem tais tratos Mas ficam amachucadas. Na mão de alferes mais tensa E a Guerra das Laranjas Que nos levou Olivença. Soldados com duas caras Sargentos sem coração. 9 de Maio de 1975 25 . Inúteis como fanfarras A Guerra do Roussilhão. Parte o navio e as amarras Lembram no cais solidão.Na Guerra do Roussilhão Secam flores pelas jarras Como presos na prisão. Tenentes de belas fardas. Águia: só as tuas garras Afagam o coração… Tão inúteis as fanfarras Da Guerra do Roussilhão.

Meus afagos calafates No teu barco de ternura. Cana verde que te abates Nessa sombra de verdura. Beber a água da chuva Sem esperar pelo degelo Tendo apenas os meus gestos A pentear-te o cabelo… O sangue é seiva encarnada Que às vezes corre de menos.Cana Verde. de Verdade Cana verde de verdade. 18 de Agosto de 1975 26 . É por este quási nada A razão por que morremos… Linha da vida és um arco Bem maior nas mãos abertas. O corpo na puberdade: Vida nadando ao relento… Quando o vento se domina A calmia cria espelhos. O teu sorriso é um barco Que me leva às Descobertas… Cana verde. Teu corpo é vela latina Se prendo o leme aos joelhos. cana verde Ai! canção desesperada: Quanto vento em nós se perde Sem uma vela enfunada! Balaia. Flauta suspensa no vento.

Nisto pensar. Nas sementeiras Equilibradas D’uvas inteiras Como pedradas! — Nosso cordão Umbilical Recordação Bem teatral: Ele é que move Pano de Ferro Que bem se ouve Em cada berro. 15 de Setembro de 1975 27 . Só oiço o vento A segredar… Estamos tão sós Que damos pena: Só corpo e voz A meio da cena Mal ensaiados Pelos sentidos. Os projectores Ferem a vista. Tão pateados E contraídos… Sobre este palco. O pó de talco Os cobertores.Teatro Amador Nosso papel Mal decorado… A nossa pele O fato usado. Tão amadores Mas tanto artista. Sempre a mudar-se — Como um socalco A renovar-se. Tudo o que conto Tem assistência… Será Deus ponto Cheio de paciência? Ou Satanás Junto à ribalta? (Tanto lhe faz Se a voz nos falta…) Se mais atento. Morrem no palco Como os actores… Ano mais ano Mal se começa: E cai o pano A meio da peça! Lisboa.

Mão Fechada A promessa apalavrada Quem diria. quem diria… A montanha escalavrada Na medonha ventania. (Parece terra lavrada Esta espécie de poesia…) E depois um quási nada Réstia de maré vazia. Mal sabia. Parece terra esmagada — Perfume de maresia — A areia estava queimada Pelo calor que fazia! Só na tua mão fechada A minha vida cabia. mal sabia Que a palma não tinha nada Quando a tua mão abria. aconchegada. Parede. 22 de Novembro de 1975 28 . Sem destino.

Sem saber por quem se perde Não ganhamos a batalha. A morte avesso da vida (Que não se pode virar…) Deve ela assim ser vivida Como se respira o ar. Sem saber por quem morremos Não sabemos a verdade. dói…) Sem saber por quem se luta Não se pode ser cobarde. dão (dói. dói. Lisboa. Tocam sinos a rebate! Dão. dão. É a luz que nos comanda No rodar dos girassóis. Flor da morte: flor-da-murta Ao morrer o fim da tarde. 24 de Dezembro de 1975 29 . Coração boião de mel Melaço de solidão… O preço da nossa pele Tem tão baixa cotação. dói. Sem saber por quem se bate Não se pode ser herói. Campo verde. No combate combatemos Contra a nossa liberdade. Bispo Negro: xeque-mate Silêncio conventual… Tudo o que morre em combate É de morte natural. campo verde: Tua cor é de quem ganha.Melaço Sem saber por quem se bate Não se pode ser guerreiro. É o eco do combate De quem dispara primeiro. Sem saber quem em nós manda Não podemos ser heróis.

Os cantos dos cânticos Os laços dos Lázaros Na voz dos românticos… Os lírios dos líricos. Os danos sem dono. Prata amarelada: A praia deserta. Desconheço Ovídio.Van Gogh Os passos dos pássaros. Os Gregos os Godos. Fogo sem calor. 12 de Janeiro de 1976 30 . E nadava em nada Com a boca aberta. Mas no suicídio Encontrei-os todos! Lisboa. O ramo sem rama Aberto em flor. Os passos verídicos Nas noites sem sono. A fome sem fama.

É como a tarde inundasse O suor da minha pele Ou como o dia chorasse Por razões que não são dele. Lisboa. Só eu entendo o murmúrio Dos teus lábios que me falam De segredos do Dilúvio Onde as cidades se calam.Amor em Dia de Chuva O teu rosto sorridente — Mas chega a ser verdadeiro? — Que altura tem a vertente Na neve do travesseiro? O lençol será o leito Dum rio que está a encher No teu rosto satisfeito Por tanta água a correr? Também em água corrente — E quem sabe de verdade! — Não passa de afluente O meu corpo em liberdade. 23 de Fevereiro de 1976 31 . Tua boca sem mordaça Faz eco nos cobertores E lá fora na vidraça Há um rufar de tambores. Rufando raiva ruídos Remoques dos regimentos Que afinal nem são ouvidos Quando há fuzilamentos.

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Escavação .

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amêndoa amarga. 7 de Março de 1976 35 . De nós ficarmos por baixo Do que passa a ser o chão. amêndoa amarga. Se a nossa vista se alarga Vai morrer no infinito. Se a nossa vista se alarga: Vai morrer no infinito. Desperdiçamos carícias E depois nos nossos restos Fica de tudo notícias… Mal se fazem escavações (Mare Nostrum. Ferroadas e zumbidos Ai! tempestades de areia: As abelhas dos sentidos Fazem de nós a colmeia. Terra Nostra!) Tão duras recordações Quando a vida fica à mostra! Os vulcões erguem o facho Desta nossa maldição. Com o pão mal mastigado Pois o tempo é tão preciso… Somos bichos penteados Com fazendas sobre a pele. Água doce.1 A caminho de Pompeia Água doce. duro granito. Gastamos gostos e gestos. Tudo nos é limitado Neste nosso paraíso. Mas se estamos desnudados Nosso corpo sabe a mel. Terra mole. Afagando tudo em roda. Amparando a nossa queda Quando chega a nossa hora. Homens feitos de granito… Pompeia. Os dedos bichos de seda.

Duram os anos De toda a gente… A nada foges: Tu não sabias Que nascem Doges Todos os dias? Veneza. Sobre os portais Alastra em pasta A Lua a mais Já muito gasta. É rastejante Procura o mar Já é bastante Desaguar… Água em delírio E nada mais Cumpre o martírio Dos seus canais. Discretamente. barcaças. Dão-se os avisos Aos demorados! Os indecisos São empurrados… A extrema-unção Como garrote Desce da mão Dum sacerdote. Passam as gôndolas E o São Marcos Joga nas tômbolas: Todo o destino Dos condenados Que a pente fino Quer bem passados… Braços atados… Ao sol à chuva: Leões alados Leões sem juba… Frisos dourados. praças. colunas. Palácios. 10 de Março de 1976 36 . arcos. Passam os barcos. Ogivas.2 Ponte dos Suspiros Atrás os braços. Sempre há quem corte Uma conversa Até na morte Nos pedem pressa… Um Sol servil E rendilhado Relembra Abril Ao condenado. Pulsos torcidos… Mais os baraços Mais os gemidos. Dados lançados Pelo São Marcos: Venezianos. Só não há dunas. Iluminando O corredor Que num momento Fica menor… Cobre a distância Com sombra amena — Como a infância É tão pequena… — Veneza em roda É uma serpente Não se incomoda Com esta gente. Lemes. Pontes.

Centauros e centopeias. Têm cadeias nos pés Que o Tempo lhes soube atar E conhecem as marés Sem terem de ver o mar… Ajudantes do Demónio. Contra-luzes. Têm vidraças partidas Pelo vento e pelas bombas E gaivotas confundidas Por entre bandos de pombas. Pois guardam bem os segredos Como os antigos pedreiros. Com medulas de antimónio Cospem vidro dos pulmões! Veneza. Vias-Lácteas. Vasos de vinho e de cidra. Serpentes e serpentinas. Assopram patos e cornos. Madonas de Florença… Sopram também o Zodíaco. A fauna de pesadelo. clarões. Cassiopeias… Entre canais e rochedos Nascem e morrem vidreiros.3 Os Vidreiros de Murano Passeiam junto dos fornos Com medonha indiferença. 11 de Março de 1976 37 . Perfumes revolucionários E também cabeças de hidra Que afogam nos aquários. Num fim de Mundo sereno. Declive demoníaco Nas costas dalgum camelo… Os vidreiros de Murano. Bebem vidro todo o ano Pelas taças de veneno… Esculpem Virgens bizantinas.

Os cedros fazendo sebe Junto aos arcos abatidos… No pó das estradas reais As pegadas fazem leis. Imperadores convertidos.4 Rosa. Na patina das paredes. Até nos Lobos-de-Alsácia Ou num silvo de sirene… Na base dos monumentos. No chegar dos companheiros A quem se acendem fogueiras… Também nos cubos de gelo — Altares abaixo de zero — Ou nos anéis do cabelo Que partem dedos ao Nero… Nas lanças das Legiões Sobre escudos em viés Ou nos dentes dos leões Na cadência das galés… Os Tribunos da Plebe. Nas sombras da acetilene. Rosæ… Nas hortênsias. numa acácia. os mesmos anos Na margem direita e esquerda? Nas cabeças dos romanos A pele é feita de pedra… Paris. Ou nas velas sem os ventos Que se misturam nas redes… Nas folhas dos castanheiros Ou na lixa das figueiras. Mais as lobas maternais Qu’emprestam calor ao reis… No passar dos legionários Ficou um mundo esmagado… No vapor dos balneários Fica o suor do Passado… Terás. 12 de Março de 1976 38 . Tibre.

Sim: animais D’instinto casto: As catedrais São nosso rasto… Londres.5 Siderurgia Não te admires Das bruxarias E dos faquires E das magias… Os feiticeiros Vivem em nós Corpos inteiros: Dão-nos a voz. Dentro de bilhas Caem rios vivos Nas armadilhas… A matemática: O Livro Santo É nossa táctica É nosso encanto. Deuses cativos. 16 de Março de 1976 39 . Somos os mágicos Das alquimias… Fazemos ouro Mais que parece Se o nosso choro Nos enriquece. Monstros selvagens Omnipotentes: Que nas Barragens Estamos presentes. O ferro em brasa Nosso brasão Dá-nos a casa A dimensão. No fim do riso A gargalhada Sem um aviso Alienada. Justificamos O nosso génio Pois respiramos Oxigénio. o berro A progressão Queimado a ferro O coração. Soluço. A força atómica Por mais brutal Dá-nos a tónica Do natural. demónios Na invenção E nos binómios Da solução… Nos contrafortes E nas vertentes Depois das mortes Somos sementes… Os altos fornos São a moldura São os contornos Da nossa altura. Tão sideral Siderurgia Calor total Parece dia… Somos os trágicos Das sinfonias. Anjos.

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Judas Sem companheiros Vulto pascal. Trinta moedas Que nunca gasta. São trinta pedras Com que se arrasta. Como o Calvário E todo o resto… Quis um império? Nem pensou nele: Como actor sério Cumpre um papel! Pedro sentiu Que não fez tanto Também traiu Mas ficou santo… Contam-lhe os anjos Todos os passos E os arcanjos Fixam-lhe os traços. 29 de Maio de 1976 41 . Um ar ausente. O seu futuro Só foi presente. Tão necessário Foi o seu gesto. Supliciado Noutra madeira Crucificado Numa figueira… Treze rebeldes Foram cear Havia neles Dois a matar… Lisboa. Trinta dinheiros Por capital. Passo inseguro.

Portugal 1976 Pão de quilo. Emigrantes e pedintes. caldo verde Com broa bem desfiada. Sarracenos em salmoura Que tristeza que isto tem! Pão de quilo. Galinholas e perdizes As lagostas dos requintes… O que dizes e não dizes. os promontórios Nas carícias marinheiras Os maços de «Provisórios» Foram-se as marcas estrangeiras… Um país. Sete palmos de oceano Outro tanto de enseada Os navios a todo o pano E cheira a terra queimada… Os pés a pisarem uva As mãos sem guardarem nada… Tanta saudade de chuva E cheiro a terra molhada. 11 de Outubro de 1976 42 . mais a canja E o sabor a limonada… Gestos densos e marmóreos E a força das pedreiras… Os cabos. vila verde Depois não fica mais nada… Balaia. caldo verde Com broa bem racionada… Mas meu País não se perde Tem largura duma estrada: Casa branca. muitos países. Estes nervos sempre em franja A cabeça alvoriada E o Sol uma laranja Pela sede imaginada Feijão-frade. O boato e os ouvintes… O que fora e não fora No vinho que sabe bem E mais Nossa Senhora Que dizem ser nossa Mãe.

Os cinco dedos da mão São chicotes nas carícias… João de Orens. 14 de Agosto de 1976 43 . as alfombras E os fornos e as furnas Onde o Sol aquece as sombras — Onde o Sol aquece o pão Que nenhuma boca come… Solstício de Verão A quem matas tu a fome? — Os rochedos lembram escombros E cidades bizantinas. As alcovas. Os faróis dos pirilampos Que barcos estão a avisar? Solstício de Verão… O chicote da nortada… Os cinco dedos da mão Que conta querem errada? — Se nos pára o coração Os números não valem nada — Ai! as angústias nocturnas.Solstício de Verão As algas. Na cor de mel dos teus ombros Há escavações e ruínas Que conduzem aos assombros Das pontes florentinas… Porquê o cantar dos ralos Que perfura tudo em volta? E o combate dos galos Onde o sangue fica à solta? — Só o correr dos cavalos Não traz a morte por escolta… — Tudo são carnificinas É o mar o pregoeiro As sirenes são buzinas Que dão voz ao nevoeiro (Ou o silvo de oficinas Onde o Mundo cabe inteiro?) Os búzios nas neblinas São trabalho de pedreiro… E a noite a pôr de parte Qualquer sonho que nos dá… E se vida houver em Marte A morte também lá está? Solstício de Verão… As traições mais as sevícias. os hipocampos. Mais os ouriços-do-mar.

As areias são as natas As raízes do mistério (E tiveste cataratas Por degraus do teu império!) Vale dos Reis. (A povoar tua insónia De papiros e mosaicos…) Na tua clepsidra Desagua o rio do tempo. tão tranquilo. 12 de Setembro de 1976 44 . Os chicotes são moedas Com que pagas o transporte… (Mas nem Karnak nem Tebas Mudaram a tua sorte!) A morte é outra colónia De desertos cirenaicos Com muros da Babilónia Em horizontes hebraicos. medo da morte e de pedras quanto baste (Receita dum faraó) Ramsés. (Quando há sede em vez de cidra O Homem constrói um templo…) Tuas mãos aristocratas Roubam astros ao etéreo.Ramsés o Grande Areia. sobre pedras Nesse teu medo da morte. No teu sono milenário: Lavas nas águas do Nilo Esses teus sonhos de calcário? (Até puseste pirâmides Nas costas dos dromedários…) Sonhas pedras. Mas tão feroz como a Hidra Que devora o próprio vento. Memphis ou Tánis: Tanto medo sem tamanho! Ao tresmalhar-se o Boi Ápis Ruminou um mundo estranho! A morte é ponta do lápis Que faz o nosso desenho! Paris. água.

Só as Passas de Corinto Não servem na refeição De requintes de absinto E de sangue de dragão… Que almofariz é teu corpo Nos orgasmos infernais. Na explosão da semente O desejo é o rastilho. Âmbar Cinzento De Mástique quanto baste… Também pimenta esmagada E pedaços de Gengibre E depois em cada unhada Uma carícia de tigre… Nos restos da Damiana A pronúncia vem arcaica. Almíscar. Outra receita profana Nos Pimentos da Jamaica. Fica o coração dormente Nos rituais do Tomilho.Amor-Perfeito Tanto amor semeia o vento Nos gestos que desenhaste. Como se a martelo e escopro Te gravasse nos vitrais! Se Deus nos deu a comida E o Diabo o condimento Do outro lado da vida Que nos serve de alimento? Lisboa. 19 de Dezembro de 1976 45 .

Enrosca o Douro em novelo.Trás-os-Montes Trás-os-Montes. Aqui a noite é maior Quando comigo naufragas Nas marés do nosso amor. Trás-os-Montes. Nos caminhos quem resguarda É o medo que nos mura Até os anjos da guarda Têm medo desta altura… Alto Douro. Senhora da Boa Morte Na beira dos precipícios… Nossa Senhora do Pranto. O céu parece mais baixo. 12 de Fevereiro de 1977 46 . Nem do mar se ouve o choro Nem os montes são de sal. Mas a terra é ondulada: Inda mal um monte vimos Vem outro na enxurrada… Só há socalcos e fragas. No granito do teu manto Não há pedra que não doa! Em estrada transmontana. Vila Nova de Foz Côa. Lembra o mar quando está calmo (Quando parece um riacho Que não tenha mais de um palmo). Nem nos sonhos que me contes Há tão grande pesadelo. As rochas não têm limos. Alto Douro. Tão longe do litoral. E nas terras de Monforte Vejo marcas de silícios.

Pode nascer uma rosa Ou pode tecer a baba Uma aranha venenosa. Nasce a manhã sem milagre. Ouvem-se os passos da ronda Nos relógios do presídio. rosmaninho Nas paredes da cadeia. É a esponja de vinagre Que nos estendem na Quaresma. E a chuva imita as vozes Dos que ficaram lá fora. No ponto onde a noite acaba. rosmaninho. Como cresce a trepadeira Pelos muros da prisão! Grades e Lua redonda: Um convite ao suicídio. Como essa lima bastarda Que sonhamos na prisão. Mais coisas indispensáveis: Catre com lençóis de linho E sonhos inconfessáveis. No morrer das neblinas Que adensam a cerração Há limas de quatro quinas Que sonhamos na prisão. Pois a noite é sempre a mesma. Madressilva. Muda o vento de caminho Se sente vinhas na areia. Ao entrar nos algerozes A garganta que a devora. 27 de Maio de 1977 47 . No perfume a pedreneira Sonhamos a explosão.Ronda da Noite Trespassa o vento a mansarda Dizimando a escuridão. Lisboa. Madressilva.

Só o Outono É o meio-termo. O roçar terno De chama amiga Traz o Inverno Mais não obriga. Sonho no sonho É casa em ermo. 7 de Julho de 1977 48 . Amor de fera Condescendente.Canção Estival Chove em Agosto Sol em Dezembro! Esse teu rosto Donde é que lembro? A Primavera É exigente. Esse teu rosto Donde o recordo? Lisboa. Chove em Agosto Em água acordo.

Decepar as sardinheiras E as caudas das lagartixas. Amassar a terra mole Sem sabermos ver as horas Que há nos relógios de sol. em regimento. Fazermos das caniçadas Uma orquestra de flautas Cantando em noites estreladas Os hinos dos astronautas. Ouvir junto dos moinhos Que também o barro chora E nas Virgens dos Caminhos Não vermos Nossa Senhora. Massacrar os gafanhotos Inimigos dos egípcios. Espiar os casinhotos À beira dos precipícios. Julgarmos sempre a fronteira No outro lado do monte. Desfolhando os girassóis Com dedos feitos nortadas. cativos dos persas… Fumando ópio em Xangai… 49 . Subirmos aos campanários (Caça ao galo-catavento) Ou sermos os legionários No deserto. Escalarmos as saibreiras Como afagássemos lixas. Pisar o rabo das cobras Em que sonhamos serpentes. Apanharmos caracóis Depois de grandes chuvadas. Os caçadores de cabeças… Peregrinos no Sinai… Reféns. Com a brancura dos ossos De quem se deixa afogar. Escavarmos nas abóboras As feições mais repelentes.Emilio Salgari Irmos aos charcos das rãs E armar à passarada Pelo fresco das manhãs Na pasteleira encarnada… Vermos no fundo dos poços O reverso do luar. Fumarmos barbas de milho E jogarmos à pedrada E fazermos um chinquilho Dos potes da marmelada… Tomar banho nas ribeiras Secando o corpo na roupa Ou inventar as maneiras De roubar colheres à sopa… Sujar as mãos nas amoras. Fazermos uma trincheira Nas grades duma pocilga E escalar a trepadeira Que espreguiça a madressilva. Ver numa vaca leiteira Perfil de rinoceronte.

23 de Julho de 1977 50 . — Pormos penas no cabelo E com pinturas de guerra Montar as mulas em pêlo Que se espojam pela terra. Sermos os peles-vermelhas Sem olhar à cor da pele… Ver azul de mitilene Ou oceano num charco E a Lua acitilene No tecto do nosso quarto. Tanta coisa ignorada Como não tendo importância… Ai! pasteleira encarnada No portão da nossa infância! Sagres. Sem temermos as abelhas Que vendem caro o seu mel.Tornamos a passar rifas (Talvez a sorte aconteça) — E o «Filtro dos Califas» A martelar-me a cabeça! — Esconder nas medas de feno Os que são do nosso bando — Embalar desde pequeno Os sonhos do contrabando.

Um cheiro a cedro Mais ao que for. Ainda Pedro Não é traidor… O lume estala E espalha incensos.Véspera de Natal Doce de amora. 22 de Dezembro de 1977 51 . Canja. Enevoou-se Na madrugada. Vê-se Jesus Entre ladrões… A névoa densa A neblina A casca imensa Da tangerina… Lisboa. Noite tão alta Tão ao de leve. coentro P’la noite fora E manhã dentro. Em contraluz Sem ilusões. Um mundo fala Nos olhos densos. Os pratos novos: Velhas terrinas… O doce de ovos E as tangerinas. Quem aqui falta Hoje aqui esteve… O arroz doce Como emboscada.

Por carrasco. Que tinha o corpo manchado Pelo calor das Fogueiras… Do vento do Escorial Que sopra contra os vassalos… Mas no fim é tudo igual Quando há touros e cavalos! Das papoilas do Jarama Dos que não eram soldados. degolado. Tendo cristãos por amigos. sem fronteiras. Unamuno e Torquemada! De Cid o Campeador E da Santa Inquisição Que do sangue apaga a cor Pretextando a salvação… Santa Teresa de Jesus Odiando os sarracenos… No ferro em brasa da Cruz Conta o homem de menos! Ai! o inferno lendário Que lembra os Países Baixos: Duque de Alba sanguinário De armaduras e penachos… E o Cardeal de Toledo — Primaz de todas as Espanhas — Tem coração de rochedo Num Tejo de águas castanhas! As águias dos Pirenéus Teu retrato natural: Falta terra e sobram céus Ao seu orgulho ancestral. Os mouros que aqui andaram. Homens desfeitas a masso. Tantas mulheres violaram Já ninguém fala em castigos… Nem só Lorca anda presente 52 . Tocando as notas de Falla Tens os rios e tens os ventos. contraste De carícias e chicote! Terra de santos e sábios E também de inquisidores Que há pouco cortavam lábios Aos franco-atiradores… De Besteiros e Machado. Mas a terra de Picasso. à martelada. Dos bravos do Guadarrama De Madrid dos sitiados… Não tem o sangue valor Quando é tempo de matar… O Destino é picador Que deixa um povo a sangrar! Do gume duma navalha Rasgas santos e talentos. eterno. Santo Inácio. Pela espada de Cervantes: Afinal o que encontraste Nas lições de Dom Quixote? Um povo.Espanha 1978 Quem estará do outro lado? Não é tudo como dantes? Sancho Pança.

Calatravas. 21-22 de Maio de 1978 53 . muito embora. Sol e sombra sem mais nada Prometendo alternativa E Castela descarnada É teu corpo em carne viva! Teu corpo rasgado em rios Procurando mares sangrentos… El Greco de corpos esguios Goya dos «Fuzilamentos»… Ferra novilhos e fincas Sob um sol que brilha a pino. O ouro roubado aos Incas Não dourou o teu destino… Liberdade é mal que assombra Loyolas petrificados… — Quem estará hoje na sombra A jogar por ti aos dados? Sopra o vento ou são aragens Na colheita prometida? Quem desdobra os personagens No palco da tua vida? Inquisidor alma negra Ou uma alma de promessa? Quem será o contra-regra Do acto que hoje começa? Guadaletes.No cessar-fogo de agora. Num meio-tempo que consente Pensar em paz. As receitas do passado. Ai! paella de palavras E momentos misturados! Madrid e Lisboa.

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Cassiopeia .

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— São estrelas cadentes Em velocidade: Estando quási ausentes E em proximidade… 57 . Os sobreviventes — Em comunidade — São eles utentes Da fraternidade. Ficam como ausentes: Imobilidade — Embora presentes Quási em majestade.1 Inferno Câmaras ardentes Promiscuidade: Mortos e viventes Em cumplicidade. Tão surpreendentes Pela novidade: Os mortos recentes Não vendem saudade.

As plumas de enfeite Que aves evocam? O riscar do raio: Farol do trovão.2 Purgatório O ferver dos ácidos Que Mundo corrói? Nos acordos tácitos Que Paz se destrói? Vinagre e azeite Os extremos se tocam. Das chuvas de Maio Ao aluvião… Na força do vinho Vem a solução Abrindo um caminho Alheio à Razão. Passa a bebedeira E regressa a vida Tão mais verdadeira Tão mais repetida… 58 .

17 de Agosto de 1978 59 .3 Céu Pelo firmamento Ninguém se passeia? Sem gradeamento Vê-se a Cassiopeia… Andar à deriva E ao deus-dará Onde a carne viva Jamais sangrará. É fundindo o aço Que o fogo se dobra. No fundo do Espaço Que espaço é que sobra? No céu as pegadas São quási ilusões. Semi-apagadas Nas constelações… No leque do vento Que rosto se esconde? Tudo é movimento Ninguém nos responde! Balaia.

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Poder Secular .

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(Nobreza que te sobrava) E sentir a tua febre Da paixão que te cegava. na estrada Onde só eu me encontrasse. Em Babel e em Sião. Onde o dia não se sente.1 Camões Ó meu «Velho Testamento». Ah! refazer os teus passos Nas marcas que não deixastes. Roçar a tua loucura Mas só tocada ao de leve. Aberta a todo o momento Deixando a noite sem nada! Repouso da minha insónia — Mais fofo que o fofo chão — Cativo na Babilónia. Nos anéis dos teus abraços E nas bocas que beijastes! Preso ao Tronco. tão somente… Devorar a madrugada Quando a comida faltasse E perder-me. Minha Bíblia esfarrapada. só. Deixar Leonor «bem segura» Num sempre que fosse breve… Sentir os duros porões. Ter um castigo maior Das penas que tu expiavas: Morrendo aos poucos de amor No ódio que transpiravas! 63 . da plebe. Encher de ar puro os pulmões Por vingança.

Renovado dia a dia. E a ponta da loucura… O granito do talento… A folha que se procura Entre as mil que tem o vento… A semente rejeitada Mas que vale uma seara. Galope do pensamento. 7 de Setembro de 1979 64 . Como a Muralha da China Das palavras que te cercas Vê-se a Terra pequenina. Sangue-frio do pensamento Tão evidente e confuso… Ó ritual primitivo. Janela aberta onde arde A luz que a vista procura. Campo aberto. Quando pelo fim da tarde Nenhuma estrada é segura. A onda desenrolada E que na praia não pára! É no sonho que despertas. Trazendo um novo motivo Onde há pouco nada havia. tão vedado… O Eterno e o momento Mas tudo bem misturado! Paris. Entre o ser e o não ser Vai a ponte que se deita Entre as margens do morrer Ou da vida que se aceita. Meu livro com tanto uso.2 Fernando Pessoa Ó meu «Novo Testamento».

A força das trepadeiras E o prumo das calçadas Na pólvora das caçadeiras… Medas de feno e de palha E quatro palmos de aveia. em tão mau estado. Mais aquilo que nos malha Nas ampulhetas de areia! E as ruas da cidade Num rigor tão pombalino Gemendo obscuridade De campo com sol a pino… Gafanhotos. De liturgia profana. 9 de Agosto de 1979 65 .3 Cesário Meu missal. escaravelhos E Lua branca de dia (A leitura de Evangelhos Dos ateus em romaria!) Perder-me nas tuas ruas De canastras e varinas De prédios e de charruas Buíças com carabinas… Só sentir à minha volta A vida à tua maneira: Um muro de pedra solta Num tapume de madeira! Paris. Choram noras? Vibram limas? Dobram os sinos mais estranhos? No rumor das tuas rimas De chocalhos e rebanhos… Mais a sombra das latadas. De domingo celebrado Como um dia de semana! Será a missa cantada Que nos pode dar ideia Da cidade transformada? Numa ruela de aldeia? Empregado de balcão Em teus poemas confusos Crescem flores de latão De pregos e parafusos.

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Entrei na vida? Mas não vi nada… Saí de mim Desencontrei-me! Havia Praças? E mais cidade? Havia estrelas Constelações? Havia tudo Ou quási nada? No fim do beco Não há portões! Entrei na vida Pouco seguro Fruto maduro Tronco já seco… No fim do beco Havia um muro… Havia um muro No fim do beco! Paris.Certidão de Nascimento No fim do beco Havia um muro E madressilva. 10 de Setembro de 1979 67 . Tanto cresci Que transbordei Forcei entrada E reneguei-me. apodrecendo… No fim do beco O meu futuro Como um desenho Ia fazendo. Quem lá entrava: Ou recuava Ou como eu ia crescendo.

países. 22 de Setembro de 1978 68 . Reis. Debaixo das tílias Mandam os instintos.«Post Scriptum» Por baixo das tílias Há sombras. Se escavarmos mais: Palácios e casas E lá mais no fundo: Cidades. raízes. Os bicos de lacre Mais os flamingos. imperatrizes E formigas de asas… Debaixo das tílias Crescem os jacintos. Debaixo das tílias É sempre domingo! Lisboa.

Na algibeira. Não dão sequer Pela mudança Que há na paisagem… Não há rebanhos. Mas ninguém pára O pelotão Não tem idade. Meta volante? Vai-se a montanha? Não fica nada? Contra-relógio E qualquer meta Noutra cidade! Por uma roda Se perde a vida Se ganha a morte. Levam poemas. Por um pescoço Vai-se um cavalo P’ro matadouro… Competição Em contraluz De bom recorte E a geração Já não se vai Atrás do choro… Tão insensíveis A esta vida Como às apostas Nenhuma etapa mais Há que os desgaste. Pelas encostas E da Corrida Nenhum jornal Faz reportagem… Passa o comboio E a cancela já está fechada. (Então com este vento Pelas costas Não há meta volante Que lhes baste!) Lisboa. No macadame Escorregadio Da Eternidade. Sem velocidade. Desconhecidos. 3 de Novembro de 1978 69 . Não há pastores. Cadenciado.Contra-Relógio O Nicolau Leva o Ruy Belo Na pasteleira… Vai pedalando. Sua conversa É de silêncio E sem respostas.

11 de Janeiro de 1979 70 . Meu Pai no grande silêncio Tanta coisa que me diz: Meu caule de pensamento O que foi minha raiz! Lisboa. A quatro palmos do chão.Mina de Sal Meu Pai no grande silêncio O que ouve desta vez? Os cedros no meio do vento E quem sabe? o mar talvez… Se ele serve de semente. Quem sabe lá se não sente O direito à criação… Mas não sente a Primavera — Equinócio pontual — É planta que não gera Canteiro em mina de sal.

E de colheita em colheita Envelhece o tempo em cascos Como a cabeça direita Que não se verga aos carrascos. Lisboa. rios e oceanos E as uvas nos seus cachos Recebem nomes dos anos. 27 de Janeiro de 1979 71 . Num gesto desesperado Duma raiz que cresceu. Como as águas em repouso E o Sol às vezes aquece… Entre o gesto e o movimento Tanta pausa que se esconde E às perguntas do vento Só a folhagem responde… Os cestos transbordam mosto E o mosto bebedeira. O Inverno ruinoso… Um Verão que nos aquece… Somos águas em repouso Na memória que nos esquece. Se a morte tivesse rosto Eram as rugas videira… As cepas de enforcado Querem levar vinho ao céu.Nível de Água Entre o que ouso e não ouso O medo se reconhece. As águas formam riachos. Lagos.

Um resto a cheiro de enxofre. São Pedro. O cabrito em vinha de alhos. Doce de ovos. O bacalhau tem foral Para vir à nossa mesa. Os eternos inimigos: O espanhol roçando o mouro. Nas Senhoras dos Caminhos Até se benzem ladrões Quando por entre azevinhos A noite manda os trovões. São Segismundo E fugimos nos atalhos Que nos despejam no Mundo. Pão-de-ló. Caldo verde muito quente Um fio de azeite espelhado… As vinhas arroxeadas. Nunca muda o remetente: A remessa de emigrantes Traz a morada da gente! Lisboa. As amêndoas e os figos E também o cheiro a louro. É dela que precisamos. Onde o escopro veste mantos Para o frio não ser de mais. Ameaça de chibata Ou protecção dum castelo. 15 de Fevereiro de 1979 72 . É povo ou missa campal Esta gente em romaria Que transborda Portugal A cheirar a sacristia? Senhora dos Continentes. pastel de nata. A azeitona enlatada E a calda de tomate. Leite de creme queimado. Somos os tais penitentes Sem caminho que emigramos… Fica tudo como dantes. As capelas bem caiadas São João e Santo Onofre… A pedra esculpindo santos Que nos abrem os portais. cristalizada. A fruta.Cozido à Portuguesa Pão e mel mais aguardente. Toalhas de Portugal Nas receitas de incerteza. Posta fora de combate. amarelo.

Longas muralhas Também sangrentas Como as navalhas E águas barrentas… Torres aos cantos Como em xadrez: Dão xeque aos santos Da cor da grés. Foram-se os reis Nos turbilhões E agora as leis São dos peões… Da cor das chamas Este castelo. 5 de Setembro de 1979 73 . Tem cor das chamas Este castelo… O mausoléu E São Basílio Longe do céu No seu exílio… Praça Vermelha Lua encarnada Como groselha Engarrafada. O chão tem escamas Peixe de gelo… Moscovo.Kremlin O chão em escamas: Peixe de gelo.

Roleta Russa Nem sequer a explosão Só um tiro murmurado… É um espasmo de colchão No fim dum quarto alugado. Poente de saguão De suor todo alagado. 13 de Novembro de 1979 74 . A espingarda de pressão. Casino de ocasião Sem porteiro ou empregado. Lisboa. Que guardamos do passado. A furar o coração Dum presente recusado… Tiro seco: é frustração De assistente enregelado. Palpite de ocasião Por vezes mal apostado… Uma bala é um senão Dalgum baralho marcado… Todo o homem é um leão A fugir como um veado.

Lisboa. Ó lágrima de estátua jacente Na ameaça dum choro prolongado. Chorando por ninguém e toda a gente Num soluço que de morno é tão gelado. Janela sob o céu da transparência Revelando a paisagem do opaco… Ara antiga. Gelando o sangue e linfa do deus Baco. inútil artifício De qualquer deus.Gelo É parede de vidro na aparência. logo feito em humidade. 17 de Junho de 1980 75 . Derradeiro degrau dum sacrifício Mal pisado. gelando eternidade.

17 de Agosto de 1960 76 . Nos contornos da poesia. Não poeta por ciência Mas poeta por certeza.Auto-Retrato Poeta de circunstância. Talvez um escravo da rima Que recusa a alforria… Mais dócil que revoltado. Passa as palavras à lima. A viver sem estratagemas: Dá um reino por um verso Troca o céu por uns poemas… Balaia. É um poeta emigrado Nos exílios da gramática. Não divide as orações E não sente o predicado Ao nascerem-lhe as canções Como vento libertado… Num canto do Universo. Poeta de ocasião. A provar a indigência — Atestado de pobreza —. Subsolo e substância Da luz do seu saguão. Não recorre a pragmática.

É quando o soro goteja E a pele fica inundada… É quando o soro goteja Pela mica embaciada: Quer se veja ou não se veja A janela está fechada. 7 de Novembro de 1980 77 . Vão-se os anéis a inveja E fica a noite abafada. Um caroço de cereja Na garganta estrangulada… É quando o soro goteja Numa colheita estragada. É quando o soro goteja E é bebida mais gelada: Num desejo de cerveja. É quando o sangue goteja E a gente não dá por nada. É quando o soro goteja Na festa desenfreada: A cabeça na bandeja. A vida já não areja A morte calafetada. Na saudade engarrafada. Salomé embriagada… Lisboa.Visitas Proibidas É quando o soro goteja — Por uma fresta de nada — Quando a vida é uma narceja Que a morte quer derrubada.

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Integração do Átomo .

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A vertente do Sermão da Montanha. nas pedreneiras. O pudor. Interpreto o destino nas fogueiras. Como se a vida fosse a passageira Clandestina duma barca a meio do céu. nas negras feitiçarias. No budismo. 3 e 4 de Setembro de 1981 81 . a devassa. ai! mundo aos pés Com estrelas ocultadas pela mão… Eu espero Barrabás na alternativa… Também o Muro das Lamentações… Em Meca. espero o sim e a negativa.1 Monte de Tabor Eu aguardo o jejum e o deserto. Eu espero por um deus sem lugar certo Nas casas de xadrez feitas de lenha… Aguardo ainda o ramo de oliveira Que Noé um dia prometeu. Aguardo as 12 Tábuas de Moisés Por simples termo de comparação… Ai! Monte de Tabor. no sal. Nos gelos. Em deuses embrulhados como ofertas: Perante um cliente surdo-mudo Na loja que se fecha a horas certas. as confissões… Eu espero o medo que há em isto tudo. No céu de Espanha e de França. Na lâmina afiada dos meus dias.

aonde estais? Já se contam os chineses pelos dedos! Sempre poucos nas nossas bacanais. Paris. que nunca são de mais E contam-se os chineses pelos dedos. as vestais (A memória tem raiz dos arvoredos). de outrora. Linguagens siderais. Sempre muitos no pudor. Há que aceitar isto sem enredos — Se pensarmos. rosæ dos Romanos. Água potável. 7 de Setembro de 1981 82 . o prumo dos rochedos. No Espaço. Bem no fundo uns nobres animais A contarem os chineses pelos dedos. Binómios sem segredos. Os astros são nossos ancestrais. nos nossos medos.2 Cassiopeia Não há limites. Sonhamos zeros. todos iguais Aos chineses que se contam pelos dedos. Ó impérios. No comer. Equações. no dormir: os rituais. então de mais a mais: Que se contam os chineses pelos dedos… Rosa. afinal.

19 de Setembro de 1981 83 . Na lira aberta do coração! Lisboa. Às meias cores. Sim ao vinho! Não à colheita! Sim à sangria. Almofadão feito calcário. Verão em nós dizendo Inverno.3 A Meia-Nau Não à vindima! Sim ao vinho! Não ao sangue! Sim à sangria! Não à estrada! Sim ao caminho! Não à manhã! Sim ao meio-dia! Sim: ao meio-termo. Meia vitória e meio ceptro. Um quási eterno. Meio sonho a meio do sono. meias palavras. desfeita. Meia nação já dominada… À meia-lua e ao meio metro De chaminé iluminada. Pensar nela um quanto baste. À bandeira a meia-haste — A morte em nós recomendável —. Como um corpo equilibrado. ao sangue não! Sim à canção feita. Um quási nada. às meias tintas… Meias marés — sem marés bravas — Às meias frases. Meio-termo no calendário. pouco distintas. Meio sorvo de água potável. Som dum tiro bem calibrado… Meia estação: sonhando Outono.

Iguais e desiguais: desunião. cardinais. Partículas do Tempo em suspensão. Em tubos de ensaio diminutos Fora do nosso ângulo de visão… Numerais. 26 de Setembro de 1981 84 . É todo o fogo feito pelas chamas Que se perdem em breve nas queimadas. O peixe é numerado pelas escamas Nas rotas que nos são ignoradas. incerteza. Riscando o nosso corpo de passagem… O que era a multidão sem ter anónimos Embrenhados na própria solidão? A vida é toda feita de binómios Tanta vez sem nenhuma solução! Lisboa. bem em riste. tudo em novelo. De abismos. movimentos. O começo é semente à nossa imagem. O zero é melhor reconhecê-lo… Mas o 1 é o começo do milhão… O mar são gotas de água escravizadas. Infinito sem zero não existe. É lança levantada.4 Átomo O Espaço é todo feito de distância. A onda é o grito à liberdade. Tudo é feito de pequenos nadas Sem ninguém saber por que vontade. Nas galáxias da nossa ignorância Quem vem reconhecer nossa tristeza? A Eternidade é feita de minutos.

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Tão bem tratado — Granito comes! — Ficas ferrado P’la pedra-pomes. Terra esquecida Da alta escola.Cavalo da Acrópole Cavalo branco Domado em pedra… As tuas rédeas São mãos de Fedra? Quem vai cortando O teu galope. Cairo e Lisboa. Corres areias Pouco pisadas. Nas tuas veias Adivinhadas… Potro selvagem Donde fugido? Tudo em voragem Tudo esculpido! Terra batida À tua roda. Restos de mar. Peloponeso No teu olhar… Tudo coeso A transbordar. Tens olhos vasos Cheios de noite… Narina aberta Ao cheiro antigo… Morrem-te os sonhos Nos teus flancos E nos teus olhos Que são tão brancos. Cavalo grego Feito de tempo! Sede citrina… Dedos de Fedra Na tua crina Feita de pedra! Atenas. Samos. Sem picadeiro Ou outro meio Morres primeiro Que o teu volteio. Esvoaçam crinas Nas dianteiras… Fazes da Acrópole Um campo aberto Onde o teu trote Sonha o deserto. 18-24 de Setembro de 1981 87 . Quási sem peso No teu andar… Morres de fome Mas vale a pena Matar-te a fome Com um poema! Eu te segrego Eu te alimento. Éfeso. Em ti vibrando Golpe após golpe? Sombra ou vapor? Tal a brancura… O teu senhor Não te segura? Fez-te a martelo (Já não martela!) Montou-te em pêlo Ou pôs-te sela? Já não te empinas Sobre as traseiras. Contra os milénios É que tu corres. Seca-te a boca De sede morres.

Tempo de Silêncio
Sinais dos tempos: um Tempo sem sinais. Sinais contrários dos tempos que se vão. Polindo as águas as faces dos cristais Nascem frases onde os silêncios estão. Os santos são em tudo naturais Com tempo todo feito de oração. Sinais contrários em tudo tão iguais, Deixa o rosário calos pela mão… Sinais dos tempos: um Tempo sem sinais. Deserto de Sinai. Insolação. Palavras pastoris nas pastorais, Ovelhas tresmalhadas, solidão… Conserva o céu as cores outonais Dos primeiros dias da Criação. Os deuses ao nascerem nos currais Renegam os palácios pr’a onde vão. Sinais dos tempos: um Tempo sem sinais, Ó sentido dos sinais tentado em vão! Ó silêncio das celas conventuais Com palavras servidas por ração!
Lisboa, 3 de Outubro de 1981

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Telex a Lech Walesa
Aqui no Ocidente sou de Esquerda Mas no Leste seria dissidente. A estátua lembra gente, lembra pedra, Mas lembra mais pedra do que gente. Porém aqui eu sou bem a meu modo, Enquanto lá gostava só de o ser… Aqui posso mostrar ao Mundo todo As coisas que se pensam ao escrever! Aqui no Ocidente sou de Esquerda E lá tinha de o ser mesmo sem querer… A vida não é estátua feita em pedra: Temos de usar a fala p’ra viver. Aqui quando a palavra não me ocorre Não é que precise de a esconder. O culto do silêncio é o que morre Na palavra impedida de nascer. Aqui no Ocidente sou de Esquerda Já o fui em silêncio sem dizer… Mas também o silêncio não se herda Como um dia em Abril eu pude ver…
Paris, 18 de Outubro de 1981

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Acordar em Hotel
O sal no saleiro. A água no poço. Inverno e Janeiro Que pequeno-almoço! Cheira a croissant, A jornal, a tinta… Laranja e maçã Como estão na quinta. Inverno em Janeiro, Verão em Agosto, O teu travesseiro Desenhou teu rosto… E os ovos quentes Ficam estilhaçados, Mastigam teus dentes Meus lábios sangrados! No espelho da porta: A cama revolta, Imagem que corta O mais que há em volta… É água na veiga, O correr do banho. O pão com manteiga Cabe no desenho. Teus seios abertos Não esconde o lençol São montes cobertos Pela sombra e sol. Sob os cobertores Teu corpo adivinho — Pelos corredores Que nos manda o vinho — Foi noite em claro, Feita de momentos. Agora, reparo Nos teus movimentos… Já tudo é Passado, É véspera distante… (Está o céu estrelado?) O Sol está brilhante? E quando o lá fora Não serve de centro: Todo o Mundo mora No que está cá dentro! O sal no saleiro. Migalhas de pão. Transborda Janeiro A recordação…
Lisboa, 1 de Janeiro de 1982

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Saudação a Enrico Berlinguer
São como amarras que soltas Em tudo o que em ti descubro, Não pára o Mundo nas voltas Já tão longe fica Outubro. Não pára o Tempo se é tempo É uma pedra arremessada Que vai à frente do vento Correndo a História à pedrada. Passaram as Primaveras, Já se renderam Outonos, Houve depois outras guerras Mudaram Pátrias de donos… Houve pegadas na Lua, Onde há outros oceanos O Inverno não recua E há outras folhas nos ramos. Viver é seguir em frente (Avião: foi Passarola…), Torna-se o mar bem diferente Em cada onda que enrola. Não é a vida das penumbras Que constrói os ideais: É sair das catacumbas E erguer as catedrais! É sair dentro do ovo E ser águia majestosa… Outro pingo de água novo Fará nascer outra rosa. Sai o Homem das cavernas A criar outro ambiente. Descobre a criança as pernas P’ra ter o nome de gente! Ninguém pára a evolução Natural do Universo. Outra voz: outra canção, Outro poeta: outro verso. Cada Maio cria um Junho: O Infinito por meta. Tudo passa o testemunho Nesta espécie de estafeta… Bastam estátuas por sinais! Ficam paradas na rua, Estátuas são pontos finais Na prosa que continua… Tu não paraste no Tempo Nem o tempo queres parado: O Futuro é movimento Que te desprende do Passado!
Constantinopla, 16 de Fevereiro de 1982

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Passagem de Nível sem Guarda
(Comboio de corda para a minha primeira neta…)

As minhas contradições Vivem dentro do meu peito. São a paz sem condições Dum exército desfeito. Via-férrea que motiva A agulha dos meus dias. A minha locomotiva Que me transporta as poesias. A velha composição Inda movida a vapor Que pára em qualquer estação, Num horário ao meu dispor… Cresce a erva nos carris Mas comboios em dois sentidos… Leva caixotes, barris Com mendigos escondidos. Leva homens do capital, Com suas pastas de couro… O comboio vê-se mal Nos topos do miradouro. É um rasgão na paisagem Como uma estrela cadente. Mal se antevê a viagem: Nada fica em nossa frente. Comboio de mercadorias Que leva tempo a passar Que só lembra almotolias No ranger do seu andar.

Comboio expresso ou correio, Tudo depende do jeito Do sacão que vem do meio Dos movimentos que aceito. É uma espécie de fantasma, Uiva na noite de breu. Leva bem sangue em plasma Que já gente socorreu. Vive de inutilidades Das coisas deitadas fora, Sem usar velocidades, Chega, porém, sempre à hora. Passa logo a ser Passado Quando da vista se escapa, Ramerrame mastigado Em lugares fora do mapa. As carruagens em fila Quando a jornada é propícia. Algum dia descarrila E o jornal nem dá notícia. As minhas contradições Seguem dentro do meu peito. É um correr de vagões Na ponte sem parapeito!
Lisboa, 13 de Março de 1982

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Nome Próprio Feminino

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Quisera eu morrer a tua morte. Quisera eu nadar onde nadaste Nas rochas onde o mar faz o recorte. 9 de Maio de 1982 95 . Quisera eu rimar onde rimaste.1 Camões Quisera eu cantar a tua sorte. Quisera eu salvar o que salvaste Ao alcançar a praia mais distante… A China fica perto. pois chegaste E tens a Terra toda por amante. Mas a bússola de hoje dá o Norte Das terras só do Sul por onde andaste. Quisera perguntar. Tanto te quero mostrar e nada vês. Quisera eu pisar o que pisaste. O pouco que te damos… Tanto deste Fizeste um Jau de cada português! Lisboa. não respondeste.

2 Jau Quem ama o seu senhor não sente a fome. Por ele estende a mão à caridade. Dos versos nada vê e nada come… Redondilhas a fugir pela cidade… Nos becos infernais onde se some. 9 de Maio de 1982 96 . Um escravo só direito tem ao nome Como santo que morre em castidade. Mais além do seu vulto pouco cabe… Fica porém enorme no ossário — Jazigo imponente da escumalha — Bom ladrão? Mau pedinte? Bom corsário Da Armada Invencível da Canalha. Lisboa.

Certeza dum regresso demorado… Mulher outra mulher e desventura. Partida onde a saudade já estremece. não interessa.3 Natércia Natércia. talvez… ou qualquer vulto Ou ventre que se beije numa alcova… Sorriso bem aberto e bem oculto Na promessa de noite e Lua Nova. Amor forjando amor já condenado! Lisboa. 9 de Maio de 1982 97 . Minguante. ou qualquer nome. talvez pois o Luar Das sombras faz mulher. Mas Leonor fica em terra e na verdura. Pois basta ser mulher sem ser mais nada… Por vezes vem a Lua e não começa A noite que se pensa começada… Dinamene. se lhe apetece… Mariana é bem certo: lembra mar.

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São Paulo Sim! Outrora fui carrasco. Levei a voz ao Éfeso E a muitos outros lados. Um soldado sem idade Dentro em mim adormeceu. Foi na Estrada de Damasco Que mudou a minha vida. O Mundo é só um coreto Em jardim descomunal. Sem ter Terra Prometida. os zelotas Que se cruzaram comigo! Nadei nos lagos sagrados. Balaia. Escrevi cartas dando ideia Das coisas que só eu sinto… A minha filosofia: É a espada na bainha E depois é ver o dia. Tanta gente decepada! Quis tudo à minha maneira: Transformei a minha espada Numa rama de oliveira. O dia que a noite tinha. Vi Cristos apavorados No Monte das Oliveiras… Entre o sonho e a verdade Minha vida decorreu. Acabei tão indefeso Eu que mandava em soldados… Da Macedónia a Mileto Vai o passo dum mortal. As almas mais ignotas Em mim buscaram abrigo: Os Galatas. Atravessei sementeiras. Nas estradas da Galileia Ou nos montes de Corinto. 10 de Agosto de 1982 99 .

presente. 4 de Setembro de 1982 100 . É a água que não há E o balançar duma rede. É o nylon e a fibra. E o povo fica alterado Pelo chic das marinas… Corre álcool desnaturado Nas varizes das varinas! Paris.Algarve 1982 É o figo mal passado Aguardente de medronho É o não estar acordado E não ter direito ao sonho. É o dólar ou a libra A moeda mais corrente? Ainda se ouve falar O Português nalgum lado? (Ou é só a voz do mar A ruminar o passado?) A areia outrora tão alva Tem outra tonalidade. As amêndoas verdadeiras Em toda a sua secura. É o ter direito ao chá Neste País cheio de sede. É a sombra das figueiras Rastejantes sem altura. Só a gaivota se salva E não perde a majestade. Em vez da chita.

Planalto pleno De várias vertigens… O amar ameno Tão vago das virgens… Os passos. Ralos ao relento. Convém ao convés Ventura de vento… Primo: a Primavera. cutelos… O fim das figueiras: As fisgas os figos. Aves. cutelos… Tem Rif reféns Castela: castelos… Estrada de Chaquen a Tetuã. vinténs! Carrascos. arvoredo E as vagas vivas Roçando o rochedo. olivas. afogadas. Em sol de solfejo Nocturnas nortadas. As arcas arcaicas. O mar. as marés. O Tempo tempera E come a comida… O rei e a regra. caliças No vinho das veias. Os fósseis os fossos As prosas prosaicas. Real realejo De notas notadas. Suor. Fugaz e fingida. 19 de Setembro de 1982 101 . Afins. A mão e o metro Como comprimento… A boca o bocejo Com continuidade. O cedro e o ceptro. Largas levadiças A meio das ameias. A manhã alegra O seio que eu sei… Por vinte vinténs: Carrascos. Névoas nas nogueiras Antes dos antigos. A sina dos sinos. Riso o ritual Sempre mais ou menos: O fim é fatal Seremos serenos! Animo: animais! Seremos sumidos… E de mais a mais Vivemos vestidos… Olaias. Detém os destinos Ao vencer-se a vida. Legando o lugar A manhãs manchadas.Cega-Rega Marroquina Tem Rif reféns Castela castelos Por vinte. Lâminas de luar. os poços. A letra e a lei. sofrimento. Calcário. De bronze batida. O bolo o beijo Sorvendo saudade.

Está a morte aqui ao lado Sem que o nosso sonho a sinta.O Luar é Azulado A verdade a nosso lado É necessário que minta. Estrada Badajoz-Córdova. Despovoa o povoado A alcateia faminta. Se o lobo está isolado Dorme a sono solto a quinta. Caçador desalentado: Poucos troféus traz à cinta. Inocente degolado Talvez um deus não consinta. 28 de Setembro de 1982 102 . Qualquer leão enjaulado Dá-nos coragem indistinta. O teu retrato apagado… A saudade aviva a tinta. O luar é azulado? Não se conhece na tinta… Só o céu o quer pintado Sabe-se lá quem o pinta.

Preciso: é sonhar sem dó Até a noite sangrar. Nos sonhos há Galileias. Salomés ou Salomões Tudo finda no sol-posto… Faremos autos-de-fé Nas estradas de Sesmaria. Mas doutras tudo se esquece Nalgum forno crematório. Às vezes isto acontece Sem ter nada de notório. 15 de Outubro de 1982 103 . Iremos a Nazareth Ver a Casa de Maria. Sonhamos pelas manhãs Com sermões e com montanhas. Vai-se o tempo das maçãs Volta o tempo das castanhas. Paris. Até a noite gemer A confissão mais guardada Que é tão fácil de dizer Se o medo vem de mão dada.Este Ano em Jerusalém «Este ano em Jerusalém» É tão fácil de dizer Se neste tempo que vem Ninguém viesse a morrer. E também a Jericó E a qualquer outro lugar. A força que o sonho tem: É Dom Quixote a lutar Com os moinhos de além Onde não vamos chegar. Rio Jordão a transbordar (No labirinto das veias Há tantos braços de mar!) Muro das Lamentações: É vendo bem qualquer rosto.

Planícies e colinas. Há horizontes tão vagos. Nós lembramos no poente Quando o Mundo arrefecia. Sabe a sal ou sabe a mel? Em sete palmos não cabe O que não seja da pele! Sete palmos mal medidos Como tecido barato… Onde cabem os sentidos Nada mais cabe de facto? Há labirintos. maré vazia. Montanhas com neblinas. Lua Cheia. Lisboa. abismos. Da vida pouco se sabe. Tudo nós temos cá dentro: Há cicatrizes de sismos De que somos epicentro… Há oceanos e lagos.Latifúndio Vinde terra macerada. sol nascente Preia-mar. Sete palmos não são nada Mas metemos lá a vida. 28 de Novembro de 1982 104 . Lembramos a Criação E de nunca o termos dito… Sete palmos nada são Mas são o nosso infinito. Vinde terra derretida.

A caça a pé firme E mais as ciladas. Solta-se o furão P’ra dentro do mato: Esta a punição Este o desacato! Tudo é ilusão. 1 de Janeiro de 1983 105 . No meio de arraial De turba exaltada. A ave não pousa? É galgo ou falcão? É lebre ou raposa? A Águia Real É morta à paulada.Última Caçada A água vidrada Abaixo de zero. Neste desatino O que nos diria? Sonhava um remédio? Alinhava ideias? Morria de tédio Ou abria as veias! Lisboa. As águias se somem E os perdigueiros As perdizes comem. O Pêro Menino. Já não voltam mais Os tempos felizes: Armar aos pardais Caçar codornizes. Por mais que se afirme: Já não há caçadas… Morrem falcoeiros. Caçar à pedrada É o que mais quero. Da falcoaria.

E cheirava a madressilva Pelos fundos do meu beco… Eram tranças. É como estrela cadente. Travessa do Fala-Só. O Tejo como a serpente A envolver a cidade. Croché. Calçadas de macadame Onde caíam cavalos. Aceno de mão dormente Prometendo eternidade. Havia a Rua Formosa Tinha gás ao fim do dia. Janelas de alvenaria. 17 de Janeiro de 1983 106 . perseverança Na casa da minha avó. O musgo cobria o muro… Deitavam sal nos passeios A salgarem-me o futuro Pois ninguém olhava a meios… Havia a Rua Formosa Janelas de alvenaria. Deixa um rasto que se apaga. Os homens as avenidas… Tudo lembra movimento Quando passa um fura-vidas. Havia a Rua da Paz. trepadeiras. As casas dum rosa velho… A descoberta do sexo… Ai! se este rio fosse um espelho Seria um espelho convexo! Hoje só vejo cimento.Velhas Casas Cor-de-Rosa Velhas casas cor-de-rosa. Numa cabeça qualquer E o tossir das traineiras Rebocando algum escaler. Lisboa. Havia a Rua da Esperança. No tempo que fica atrás Ficar nele quem nos dera… A quebrar o ramerrame Duma vida sem resvales. Mais a Travessa da Hera. Velhas casas cor-de-rosa Onde o Tempo não cabia. Constelações que são gente Em que outra gente naufraga… O barco hoje já não silva. Chega ao Tejo e fica em seco.

E agora há saudade adjacente Às palavras pontuais que segredavas… A morte era quási um caso assente. o nome soletravas…).Poema em Construção Frente a frente. amor. 17 de Março de 1983 107 . com o papel em minha frente (Só tu. O poema: nasceu afluente Desse braço de mar com que acenavas… Como a morte aparente é mais concreta! O poema descoberto: estátua erguida. Onde a pedra esculpida é mais secreta Do que a forma da figura conseguida. Um bafo de loucura a passar rente No labirinto de ideias e palavras… A poesia a desenhar-se lentamente Nas linhas em que o corpo desenhavas. Lisboa. Como vela a extinguir-se que sopravas.

Licor de fogo nos campos A segregar-se de luz: No morse dos pirilampos Que mensagem se traduz? O bolor nos rodapés. Trespassam malvas e cardos Por sobre a terra gretada: Os zumbidos dos moscardos Como música sagrada. As joaninhas vermelhas. Deuses em voos secretos Junto ao céu. 6-7 de Julho de 1988 Londres. A marca dos escaravelhos É medalha dos ateus. Vão deixando em fragmentos Leis da Física remota. muito embora — Fecham-se os bichos-de-conta A tudo o que vem de fora… Aranhas tecem nas teias O tecido dum destino Que cativa centopeias Com patas em desatino… As carochas nos excrementos.Os Insectos e os Outros Mudou-se a palma da sina Nos afagos das urtigas. 27 de Julho de 1988 108 . O casulo que anteceda O voar da borboleta É feito com fios de seda Como manda a etiqueta… Como navalha de ponta — Mal aberta. Na sua força ignota. Vai um povo de joelhos No voar dos louva-a-deus. equilibrados? O mundo é só dos insectos Deserto dos vertebrados! São João das Lampas e Lisboa. Tão de negro ponteadas… O zangão ama as abelhas À força das ferroadas. O negro é tinta-da-china No carreiro das formigas. Larva de bichos alados? Por eles nas chaminés Cantam grilos desolados.

Abertas em transparência? A saudade como salga As coisas que são ausência! Pelos caminhos do céu Também há lousas partidas? Como a noite lembra o breu E presenças já esquecidas! Sob as pedras. 8 de Agosto de 1983 109 . Também no fundo dos mares — Quem é dono deste império? — Existem destes lugares Talhados p’ra cemitério… Com que flores sonhou a alga. acordados? Ou em sono justiceiro? Apenas emparedados Sem direito a formigueiro! Balaia.Lápides Apagadas Esta pedra tumular Que já pesa enquanto há vida. Mas no exacto lugar Como uma folha caída… Só aguarda a inscrição Que um dia lhe vão escrever — Pobre ofício de escrivão Que pouco tem a dizer… — As pedras postas em monte… Ou uma cruz solitária… Qualquer coisa que nos conte Como a vida é perdulária.

Por muita história que conte Eu não tenho opinião. Sou o sargento-ajudante. 9 de Outubro de 1983 110 . Por vezes o despenseiro… Todo eu mudo num instante Como vento passageiro. Perdido na multidão. Tenho o ócio das montanhas… Quando a neve nada deixa… Decoro santos e senhas Nesta boca que se fecha. Eu ando camuflado Pela pele das Estações: Pele de tambor já estalado No passar dos batalhões.Ex-Libris Desertor. Sou como um cão sem ter dono E que só viva da caça. Tendo fome de anteontem Tenho sede de inda agora. Por mais caminhos que aponte Eu não me quero ir embora. Tenho fome e tenho sono Faça lá eu o que faça. Pobre rafeiro danado Que se perdeu sem coleira! Eu tenho o faro apurado Na tortura da poeira! Lisboa. eu ando a monte.

Estendo o ramo de oliveira! Como gato de telhado. Granadeiro ou caçador Com armas descarregadas. Mas se acaso algum coelho Atravessa a sementeira: Quebro a espada no joelho. Poeta bem alinhado Por cardos e malmequeres. Poeta não espartilhado Pela força da doutrina. Cada qual é como é! Lisboa. Sem questões a demovê-lo. Como gato de telhado Faz da Lua o seu novelo… Sou um franco-atirador. 4 de Dezembro de 1983 111 . Barricada: a chaminé… A mais não sou obrigado. Mas fora das barricadas.Auto-Retrato Poeta não alinhado. Eu nunca fiz prisioneiros Por razões humanitárias. Como cavalo espantado Que ultrapassa a própria crina. Tenho as balas nos tinteiros E baionetas refractárias. Um poema engatilhado Onde só fala em mulheres.

Mas bem no fundo só conta O homem que ficar vivo! Lisboa.Última Tentação Vendido por um ósculo Qualquer Cristo se revolta Se não encontra um apóstolo Ao olhar em sua volta… No desfecho só se aponta: Um Deus prostrado ou altivo. 4 de Dezembro de 1983 112 .

O dó bemol. Clave de sol: Olhos da musa… O ré menor. A semifusa. Cantor de tango. As notas pretas Como rosário. Uma colcheia.Tocata e Fuga Cravo temperado Em cena laica. 4 de Dezembro de 1983 113 . Que planetas No Planetário! Que rio tão farto Que nos murmura Os sons em parto Na partitura! Lisboa. O fá maior: São grãos d’areia. Mais o Fandango. O tablado Harpa Judaica. Voz de falsete. O Minuete.

ninguém ouviu. O bronze foi apenas beliscado… Outro pinho. fica enorme Com seus telhados tão ensanguentados. castiçal e castidade E já se adivinham os Reis Magos. De neve que se quer imaginada… Cada um tem Jesus que desfigura À força desta noite não querer nada… Lisboa. apenas com seus véus… O tempo é de silêncio nesta altura. 19 de Dezembro de 1983 114 . ao longe.Outro Natal P’ro ano quem virá? E quem partiu Quando o pano de ferro for içado? O sino. O rosto permanece mas com estragos… Na mesa. É o Filho do Homem ou de Deus? Terá depois domingos com seus ramos E Salomés. outra noite e outra idade. Herodes. tresloucado ainda dorme Mas já sonha Inocentes degolados… Renascido pobre. se tocou. Jerusalém. não tem amos.

No céu da Arábia.Via Appia Loba faminta de Roma Não tens afagos no pêlo. aos trilhos. O latido que em ti vibre Gela-nos sangue nas veias. 26 de Agosto de 1983 115 . Calendário de arvoredos. De ti nascem dinastias Que contam reis pelos dedos. Pisas a sombra dos dias. Pois lembra águas do Tibre Que envenenam alcateias… Sais aos atalhos. Pelos filhos doutros ventres. Outras marcas de nobreza… Perde-se o leite em searas Se das tetas fazes mesa. Tem teu leite a cor da tinta Das histórias em que tu entres. Quem de ti um dia coma Terá c’roa no cabelo… À fronte dás as tiaras. Desenhas a Geografia Com tribunos e Tibérios? Teu leite da tirania Fez a nata dos impérios… De Roma loba faminta. Depois devoras os filhos Mas a monarcas dás vida. Tudo ao que a noite convida.

horas depois: vidas trocadas A Espanha era um dilúvio no Ocaso! A Lua. Marvão. Tantos de Tal Em Espanha havia sol (e sol a pino!) Porém aqui chovia sem parar. Como a fronteira fosse só destino Dos dois povos que estava a separar. veio beijar a raia Que há pouco o Sol e chuva baralhava. 10 de Janeiro de 1984 116 . já é praia Apenas isto a noite segredava… Lisboa. não vem ao caso… — Porém.Marvão. visto de Espanha. amena. Ou sol e sombra apenas das touradas? — Touros de morte ou não.

De chuva vinda de perto Mas não caindo no chão… Como fólio entreaberto Dalgum livro de Razão. 29 de Julho de 1988 117 . É como cântico aberto A retalhar a canção… Pianista boquiaberto Por ouvir uma ovação… Resignado concerto Que só tem uma audição. É o sim e negação. Londres. Duma primeira audição: Este infindável concerto Enquanto há coração… Continente descoberto Por recente aluvião. Pareça ainda que não… É como Sol encoberto Quando não manda a Estação: Sentimos a vida perto Mesmo ao alcance da mão! É visível e concreto.Audição Única Com um certo desacerto. Onde o número fique certo. É o presságio secreto D’aviso à navegação… É a flor do deserto. Fevereiro de 1984. Lisboa. Vertigem de saguão.

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Circus Maximus .

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É da água que transpiro Entre algum não e um sim! Os sonhos são dominantes. São galgos em liberdade. isenta. Essência tão pura. 12 de Fevereiro de 1984 121 . Levo o Emilio Salgari Nesta minha trajectória. Veneza. Os vasos comunicantes Entre mim e a verdade. Mais os sonhos que fervi No caldeirão da memória… Torno a massa lamacenta Em fresca água potável. Estação de rádio arcaica Só emito em ondas médias Na muralha pirenaica Que m’afasta das tragédias! Na cintura trago escalpes Dos sonhos dos meus dez anos E por vezes passo os Alpes No roncar d’aeroplanos.1 Dança do Escalpe Uma escada sem degraus — Onde o passar não estremeça — Memória a noventa graus A ferver-me na cabeça… Um mapa na epiderme — Isenta de tatuagem —. D’alguma causa notável… Se pelo sonho transfiro O que vai dentro de mim. Trago em mim o Júlio Verne Que me deforma a imagem.

já não passa. Esta sombra de Siena Que o luar quase nos rouba! Algum deus greco ou latino Que já perdeu o tamanho. Desenha estradas romanas Nos caminhos actuais. 17 de Fevereiro de 1984 122 . E o leite do luar Deixa suspensa a ameaça Dum castigo exemplar… É um espaço quase etéreo Qualquer metro à nossa volta É um anel do Império Com sonhos andando à solta… Que flores floresceu Florença? Que veias vão a Veneza? Sem sabermos a diferença É que temos a certeza. os morcegos — Tantas luzes apagadas Sonham nos olhos dos cegos… — Será leoa ou hiena Ou apenas uma loba. Feito de sombras humanas E desejo de ver mais. Nos claustros.2 Terra de Siena Feras por pedra afagadas. Por ser maior o Destino Do que o seu próprio desenho? Seja o que for. Florença-Siena.

Que sentido? Que sinónimo? Que sangue na pedra escorre? Morre só e morre anónimo Como qualquer homem morre! Fez amor e comeu uvas. sem uma amarra… Que rosto já sem certezas… Ai! A Pedra de Carrara Também tem destas fraquezas! Roma. Mediu o trigo nas medas. Caído. Chorou colheitas perdidas. 21 de Fevereiro de 1984 123 . perfeita. Lavou a pele nas nascentes. Outro gosto de saliva. Mordeu passas de Corinto. Sentiu na língua outros dentes.3 Pedra de Carrara Um Galata moribundo Acabando sem glória No chão que foi o seu mundo A páginas tantas da História… Nem moldura duma sebe Serve de fundo ao pudor. Teve as angústias qu’eu sinto. Quis o corpo em carne viva. Passeou nas alamedas As pernas empedernidas. Que Tribuno da Plebe Correrá em seu favor? Estátua jacente. Duma figura indefesa Onde a morte é luz eleita Duma vida mal acesa. Viveu o sol e as chuvas.

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as carícias que faziam Na vegetação rasa do teu sexo… Os braços. Como pedras num lago só caíam Trazendo um círculo mais sempre em anexo. adormeciam Cansados de ser sonho e de ser sexo. Voando contra o vento não venciam O cansaço que vem no amplexo. nos desmentiam O que pudesse haver com algum nexo. Num voar tão simples e complexo. 29 de Julho de 1988 125 .Obsessão Que caminhos os dedos percorriam. como asas que subiam. Nos espelhos as imagens não cabiam. Londres. Chegavam junto a ti. porém. Pesadamente. lamacentos e sem nexo. 19 de Março de 1984. Só os olhos. então. Atalhos. As unhas. logo partiam Como um raio de luz sem reflexo… Nos lábios que as palavras não abriam Deixavam-nos o rosto perplexo. Neste dia côncavo e convexo. Lisboa.

Gota afluente. 14 de Abril de 1984 126 . Coração não batas. Há céu que nos sobra Nos olhos fechados. És mundo lacustre No Espaço sumido. Coração estremece Não guardes ternura. Pesado. Corre devagar. Vê lá se me matas Em frente do mar. O sino não dobra Nos bronzes calados… A seiva não esquece A cor da verdura. Lisboa. Dois palmos de areia Onde o Sol desmaia. Desenho que ilustre História sem sentido. Coração és lago. Bem dentro da gente. Há rios que são mares Quando chega a hora.Uma Gota de Sangue Coração não pares. Canto de sereia Sem direito a praia. tão vago. Há sangue lá fora.

Era a calma… Outra batalha… A paz nem tinha domínios. E o peso dos garrotes Era o pulso dos tiranos.Queda do Império dos Romanos Havia a Estrada Romana Ponte d’arcos abatidos Com tanta sombra profana A passar nos dois sentidos… Havia memórias ermas Sem nenhum calor humano. Na arena gladiadores Entre leões e panteras E as árias dos cantores Quando lançados às feras. O Império abre-se logo. O César quer ou não quer. O fogo dos sacerdotes Só para os deuses romanos… Fica o Templo incandescente Amolecendo as vontades. Havia sol e nevões Na paisagem sempre estática E também declinações No cutelo da Gramática. Às vezes sem mesmo olhar — Será tudo o que disser A dança do polegar… —. Havia templos e termas E um aqueduto romano. Era o esmagar da escumalha Por Soberbos e Tarquínios. Tragando uma nação mais. E se vão cuidar do Fogo As submissas Vestais. 127 . Havia a Rocha Tarpeia: O castigo exemplar — Mais um elo da cadeia Do gosto de escravizar… —. Mas já havia outra gente Sonhando outras divindades.

Londres. Num olhar tudo se alcança. 19 de Julho de 1988 128 . 22 de Abril de 1984. Havia um Povo escondido Por detrás do mesmo escudo… Quando andam escravos a monte O Tirano tudo espreita E é sempre noite na ponte Que o medo torna mais estreita… Guincho. Londres. Ser-se dono do destino Dava alguma segurança… Quando o veneno é bebido Torna-se o aço em veludo. 30 de Abril de 1984.Do alto do Palatino.

Vem o Domingo de Ramos No Cordeiro castigado.Domingo de Ramos Gota de sangue na ara Nem sequer será indício. Mais os gestos tresloucados Que nos são afluentes. 23 de Abril de 1984 129 . O bafo morno na ara Deixa a vida a transpirar. Para nós é coisa cara O gratuito sacrifício. P’ra cumprir o ritual Lá o qu’remos tresmalhado. Pão da boca d’inocentes. As palavras que gritamos Passam logo a ser Passado. Pobre Cordeiro Pascal Que destino tão falhado. Se houvesse mais rebeldia. Vinho dos sacrificados. Fica mais quente a manhã Se um cordeiro se tresmalha. Bath e Londres. Talvez até o Cordeiro Vivesse mais algum dia E morria o carniceiro… Goteja o sangue na lã Que ninguém já agasalha. A justiça ergueu a vara Num capricho tutelar.

Contam-se os anos Nos grãos de milho. Pizarro Não são dif’rentes! São a serpente Que desenrola A aguardente Ou Coca-Cola… São uns senhores Dum tempo todo: São opressores De qualquer modo! Os ameríndios: Americanos? Ou estes índios São marcianos? Quem concebeu Este mistério: Tombar do céu Neste Hemisfério? Ó exilados Dum mundo antigo: Ombros dobrados Como castigo! Neste país De rios e cocos Há leis servis E índios loucos! Na Nicarágua O Rio Escondido Passa na água Sem ser ouvido… Oxford e Londres. Casos vertentes… Córtez. De tudo um pouco… Ferve cachões. Tempo lendário Sem emoções. Num chão sagrado Que não tem peso. Sonhos até… Os que aqui chegam Só trazem Fé E de mãos postas. Tão indefeso. 24 de Abril de 1984. Dois oceanos Como espartilho. Londres. Ensanguentado Pelos grilhões Do El-Dorado… Povo minúsculo Em lamaçal Vive do músculo E lei braçal. Conquistadores: Os que chegaram. 30 de Julho de 1988 130 . Mais um rosário Feito a feijões… Dorso dobrado. o carro. Libertadores: Os que ficaram? A Coca. Deus: Quantos são? Tem duas costas Esta nação. Tem morte e água. Tudo carregam.Nicarágua Na Nicarágua Corre o rio Coco.

Como se faz nas ciladas. Era o Sol meu alimento E a Lua o meu refresco. sete vidas. Em casa sem pavimento Sempre pintada de fresco. Queria apenas ter fronteira (Doce protecção dum muro…) Não discutia a bandeira: Sedentário e sem futuro! E no ar que respirava. Mordi silêncio secreto Dentro das bocas fechadas. discreto. Praia de São Rafael. Eu renegado e converso Filho Pródigo aspirava: Só ter direito ao regresso! Sete foles. 22 de Junho de 1984 131 . Não há esp’rança nas partidas Se há frustrações nas chegadas… Lancei a lança. Que destino tão profético Neste meu movimentar: Ter o Norte Magnético Na luz da Estrela Polar. Entre sete debandadas.João Sem Terra Se à terra fosse ligado Quatro palmos me chegavam — Sempre fui recém-chegado: Despedidas me negavam… — Eu fiz parte dum rebanho (Homens nómadas são gado) E perdi-me num desenho Que o Tempo tinha rasgado.

Anda ao acaso no vento! Lisboa. 27 de Junho de 1984 132 .) Se acaso em tempo me atraso Nada deixa de ocorrer: Cada Homem tem um caso No seu modo de morrer… Branco e negro nunca caso — Seria caso o cinzento — E a cinza tem um prazo. Como seria o ocaso? Algum sol que arrefecesse Como se o mar fosse um vaso… Caso a caso. O ocaso não é caso Para o dia não voltar (Qualquer noite tem um prazo Que não pode prolongar. puro acaso — D’algum caso me esquecesse! — Passe a vida em cabo raso Onde o mar nunca se erguesse.Branco e Negro Se acaso o caso ocorresse.

que escândalo Pois que temos de acordar! Lisboa. no que penso. 22 de Agosto de 1984 133 .Sândalo O teu lenço de bretanha Só lembra espuma do mar. mirra e sândalo (Quem os pudesse inspirar…) Dormir contigo. Penso até que sou feliz… Sonho a bainha do lenço Tantas coisas que me diz… Incenso. Nos teus lábios cor de lenha Onde há fogo a crepitar. Saem ladrões ao caminho Se te penso num atalho… Se te penso. A tua estola de arminho Lembra Inverno e agasalho.

Noite e Nevoeiro Sempre noite e nevoeiro. transitório. Sempre noite e nevoeiro! Os homens nunca se esqueçam: Não passa dum carcereiro Qualquer deus que vos ofereçam! Londres. Vem depois o esquecimento. Não fosse o espaço uma elipse. Tabaco de Apocalipse… Não há freios nas tragédias. 8 de Setembro de 1984 134 . Loucos cavalos na estrada Aos quais quebraram as rédeas E que vão à desfilada… Mas a noite é tão fugaz. Uma espécie de cinzeiro. Dentro das Câmaras de Gás Pintou Bosch novo Inferno… Inclemente. Promessas de Purgatório São as celas de cimento… Coração dentro do peito (Como em transparente frasco) Cada qual anda sujeito Aos caprichos dum carrasco. Mas ao céu quem tem direito Não será destas paragens? Cavou o rio o seu leito No aconchego das margens. Num momento quase terno.

não está: ressuscitou! O Morto. 15 de Setembro de 1984 135 . é morto. quem veio aqui não encontrou O que talvez não fora procurar. Que mão imprevidente não pesou O peso dessa pedra tumular? Ainda o selo em lacre não secou. inda mal as mãos lavou E a água já se está a evaporar… Como sempre do crime ali ficou A prova que se quisera apagar… O Morto.Santo Sepulcro Quem procurais. É só chorar… Ao de leve na treva suspirou O vento que não pára de passar. Marta. Saiu tão confundido como entrou: O Corpo já mudara de lugar. o que sobrou Do perfume que quiseste derramar? Pilatos. Marta. Já começa o segredo a transpirar… Piedosa Mulher. é morto e nem pensou No corpo que ficava em Seu lugar… Lisboa. Porém.

Tântalo Chegaste como a onda chega à praia Ou como a estrela quando já escurece. Tal fruta que se espera que não caia Quando o vento em redor tudo estremece. Partiste como a onda foge à praia Ou estrela da manhã quando amanhece. Tal fruto que no ramo se contraia Quando o vento de Inverno aparece. Eu peço que tu venhas e tu vais! Ó meu desejo d’ave migratória! Lisboa. Apenas pontual e nada mais E somente te guardo na memória. 8 de Outubro de 1984 136 .

Degelo no algodão… Vinham os Reis a caminho Com camelos pela mão… Judas morria enforcado. O quente dos cobertores A incomodar a pele… Os olhos viam pastores Com suas taças de mel… Como a manhã demorava A vencer a gelosia! O galo. E a Noite era intervalo Entre o Eterno e o Momento… Como canção que se cala Na voz que fica vazia: Era um mundo noutra escala Onde a gente não cabia… Tocava o sino da porta.Outrora o Natal Purpurina e azevinho Vindos doutra consoada Sobre a toalha de linho O ano inteiro guardada… Antigamente algum galo Cantava todo o relento. E Jesus nunca crescia! Lisboa. 17 de Novembro de 1984 137 . Era o vento que passava (Como faca que não corta. Mas a gente não sabia… Herodes. cantava E o Sol trazia o dia… Fios de prata. porém. ignorado. verde pinho. Um anjo descomunal Uma trombeta empunhava. Como a neve desejada Que afinal não aparecia… O burro do Ritual Junto à vaca dormitava. O silêncio não cortava…) Toda a conversa abafada Em papel de fantasia.

Gravada nos meus sentidos: Eu sou o guarda da vinha Quando tiras os vestidos. O bago da lua cheia A fermentar no relento… Uva negra em chão de areia De relance dá cinzento. A neblina é a luva Que esconde a mão do destino. Como a noite fica minha.Fermentação Mal a noite se adivinha Por detrás daquela sebe. Logo o medo guarda a vinha Nem a noite se apercebe… Talhada de melancia Ou gomo de tangerina: Sobrava a lua do dia Como fosse lamparina… Bago a bago. uva a uva. 1 de Dezembro de 1984 138 . Lisboa. É caroço o sol a pino.

Nebulosa em Espiral .

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Longe parecem tambores. sobre o asfalto. Como tomado de assalto: Gelava tudo. Mas ao perto é só passar. gelava! 141 .1 — O Túmulo e a Rosa i A Neve e o Mar Soam passos no asfalto: Serão de quem se esperava? Caiu a neve do alto No chão que tudo aceitava. — Caiu a neve do alto. Logo o mar a afogava… Mas aqui. Silêncio feito em rumores — O Mundo tem corredores Que levam rios p’ra o mar.

Entre papoilas e trevo. Gasta-se o vento nos dias.ii O Túmulo e a Rosa Quem pôs rosas tumulares Onde se queria o noivado? São aras ou são altares. Sete palmos duma cova: Onde cabe a vida inteira… Lua Cheia? Lua Nova? Será como a noite a queira! As estrelas incandescentes Nunca gelam sobre o Pólo. Se há sangue no empedrado? Quem pôs louros da vitória Nas cabeças dos vencidos? Vistos de longe na História Todos somos confundidos… Vem aqui quem não chamamos. Nunca vem quem tu quiseres. Crescem dunas no que escrevo. Faz um Domingo de Ramos Com jumento e malmequeres. Abre o peito às flores bravias. Quem põe rosas tumulares Onde se quer o noivado? 142 . Quem degolou inocentes Embalou filhos ao colo! Afagos de glaciares Num mundo recém-chegado.

peça a peça. Afinal por quase nada Muda a água de sinal. Onde a palavra se esconda É onde a frase se abriu. O açúcar lembra o rio. Por ainda não ser sal. Puxam o fogo à fornalha… Tudo acaba… O que começa Não será só terminar? Este puzzle. Nunca se vai completar… A Via Láctea é redonda? Elipse que não se abriu? E se o sal nos lembra a onda O açúcar lembra o rio… Paris. Se a morte é lado de lá Por que havemos de passar? Água doce. Logo a sombra lembra o sol. O silêncio fecha a boca. enquanto fole. O sorriso a entreabre. O medo mete na toca Qualquer fera em liberdade. 13 de Fevereiro de 1985 143 . Entre o que está e não está Fica o desejo de estar. açucarada.iii O Sal e o Açúcar É o sal que lembra a onda. O reverso da medalha… Os pulmões.

Paris. Pelo tempo que demora Da outra o fim do sinal! A moral que nos importa Diz que o crime não compensa: Uma viva. 14 de Fevereiro de 1985 144 . Mesmo depois de acabar… Ai da gémea vencedora Que p’ra nós é tão igual. Passam anos aos milhões. Devorado num cometa… Por um capricho de fêmeas. Com ast’róides no regaço… As estrelas que sejam gémeas Não cabem no mesmo Espaço! Uma delas findará — Qual delas? Tanto nos faz! — E depois se apagará Como algum bico de gás.2 — Os Mundos Exaustos iv As Estrelas Assassinas A juventude de Fausto Na milagrosa proveta E talvez um mundo exausto. a outra morta Mas ambas com luz suspensa. Mas continua a brilhar Aos nossos olhos de anões. No seu instinto perverso — Feminino e bem primário — Quer estar só no Universo Com seu vulto incendiário.

Num Futuro feito logo Tendo o Presente por fala! Constelações tão sardentas Como cara feminina. P’ra que me nasçam poemas Concisos e pontuais.v Prece Seja Estrela da Manhã Ou alguma do Carneiro — Seja mesmo estrela-anã P’ra caber no meu tinteiro! — Mas dum deus de mãos abertas. 13 de Fevereiro de 1985. Galáxias e Pontos Negros Nesta aceitação do Nada! Lagos de luz. Que mal o tempo segura. Pois só elas são distintas No Passado que eu prevejo! Paris. Qualquer delas eu desejo. 27 de Julho de1988 145 . Imprevidentes. na estrada. Boiando nas placentas Dos partos de purpurina! Sejam duplas ou extintas. Londres. rios de fogo. Que me dê palavras certas Como fruta bem madura. Frases grandes ou pequenas De contornos siderais! As estrelas a lembrar pregos. No falar da nossa escala.

Espaço feito de féretros E de berços que embalamos… Entre o dilúvio e a seca. 14 de Fevereiro de 1985 146 . Estrelas são as migalhas Entre dois actos de sexo. Que por nossa cobardia Não nos serve de alimento. Vamos a Roma ou a Meca Passear a solidão… Só o silêncio responde A cada prece of’recida. Feito de fogo o farelo Coze bem nosso segredo: Deuses feitos a martelo Na pedra do nosso medo! Paris. Entre a luz e escuridão. Pela franja das toalhas Ficam pedaços sem nexo. Da cama à mesa: dois metros.vi O Pão e a Pedra Como miolo de pão Duma farinha serôdia. Todo o Espaço em explosão Fica bem dentro da côdea… Pão-nosso de cada dia Sempre fresco e bolorento. Cada homem em si esconde Uma chegada e partida. Eis o espaço que ocupamos.

Foi o Homem numerado. pelos dedos. de Neandertal Ou dos buracos mais vários: Por motivo natural Ninguém ficou nos ossários… Quantos foram enforcados? Quantos morreram de enfarte? — Como reabilitados Nem loucos formam à parte! — Os que morrem à nascença Também têm lugar certo? Foi a Peste uma doença Olhando o homem de perto… Nesse canto mais pequeno. Os homens transfigurados Que por frasco de veneno Se viram alimentados! Caso a caso. Cro-Magnon. Não verás homens em fúria: Tudo é resignação Num rebanho de penúria Que encontrou a salvação! Nem sequer do Purgatório Se puderam socorrer: Foi somente obrigatório Fechar os olhos… Morrer… 147 . Os que morrem nas jangadas. E com risos sibilinos Cortam a língua c’os dentes! A lepra aqui já não conta — Se na vida contaria! — A letra de Deus aponta Mais nomes sem gafaria. Faz Deus o Seu inventário: Pensavam que eram rochedos… Nem de barro refractário! Não há perdões nem benesses Neste castigo final. Sem terem a terra à vista… Os das paisagens geladas Também constam desta lista.3 — Juízo Final vii Fecha o mundo p’ra balanço. Conta-corrente de preces Em balança decimal… Onde estão os assassinos? Mesmo ao pé dos inocentes. Neste dia ameaçado: Caso a caso. lanço a lanço.

Poço fundo? Poço amargo? Ai quem pudesse dizer! Todo o Espaço era tão largo E não puderam caber! Mas chegaram aos seus portos Os que já estão no Inferno? Como pode contar mortos Um Deus que se diz eterno! Paris. 15 de Fevereiro de 1985 148 .

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19 de Fevereiro de 1985 151 . Estou fechado Na semente… Londres.Fechado para Obras (Poéticas) Renovado. Para obras demoradas. Faço palavras cruzadas De começo de estação… Não saldei a existência Pois faz parte das mobílias (Do tempo da Resistência E de «Debaixo das Tílias»…) Seja lá pelo que for: A loja remodelada. Ver o Sol é já supor A Poesia renovada. Não estou atrás do balcão. Independente: Estou fechado Actualmente. Fui plantado Novamente.

Nosso olhar fica queimado. que sabemos? Somos anjos degolados Nas orações que dizemos. O céu é feito de lume. Temos fome de distância. 24 de Abril de 1985 152 . Mas quem nos dá de comer? Quem nos dará importância Neste Espaço sempre a arder? Quem decora o nosso nome? Quem nos conhece o sorriso? Quem nos vem matar a fome E as febres de Paraíso? Quem nos põe o mel na sopa E do suor faz orvalho? Quem nos aconchega a roupa Nesta enxerga de enxovalho? Seja diabo ou um santo. Seja um deus ou seja um mago: Quem nos pode olvidar tanto Na Estrada de Santiago? Quem nos grita pr’onde vamos Ou para onde não é de ir? Quem será que nós chamamos E que não nos está a ouvir? Estamos sós? Acompanhados? Se o soubermos. Lisboa.A Noite dos Degolados O nosso sonho é o gume Dum punhal embainhado.

Ângulos rectos na fachada Que fixam estátuas jacentes Olhando a bola encarnada. mas qual delas Detém a sorte do jogo? Como na vida. 1-2 de Junho de 1985 153 . É tudo conta-corrente: Bola negra sai dum saco Que traz a sorte da gente… Rápido Porto-Lisboa. Como uma campina aberta. Como à cal viva abraçada Uma formiga impassível… Bola a bola. Outras duas a rodar. Pano verde. Como luas em céu raso. as tabelas Modificam tudo logo! Cai a luz. por engano.Ponto Negro Mundo: bola de bilhar — Cuja cor não vem ao caso —. ponteada Por ponto negro visível. Até na bola se acerta… São três bolas. verde pano. Onde às vezes. bem vertical. Num feixe triangular Que no pano põe sinal Duma nódoa circular. Bola branca. Tabelas adjacentes. taco a taco.

ninguém me chame. porém. Tão sozinho me quer a majestade! Eterno? Para mim isso é vexame. Construí o Universo e as ferramentas Só de mim ficaram conhecidas. Não é fácil o que venho aqui propor: A cada qual darei o Paraíso… A ferro e fogo darei o meu amor. afinal. 11 de Junho de 1985 154 . No entanto. O Mundo arrasarei. Poderoso. se for preciso… Os dilúvios serão minha medida Nas represas que prometo trazer cheias. Se a moeda com que pago for o sonho. Se eu trago nebulosas no meu rasto Trago gelos das neves nos sentidos. De tirano. Exaustas. ninguém me acusa… A alta-tensão que trago nos meus nervos Não é perigo de morte nem tem p’rigos. Mas que serão o sonho da bebida Daqueles que se perdem nas areias. é-vos vedada uma recusa. também já ferrugentas. Invejo a cada homem sua idade! Praia de São Rafael.Deus no Confessionário Só eu sei ao que venho e ao que gasto! Da minha corte os reis foram banidos. Transbordarei a água gota a gota. de gelo arrefecidas. Trago estrelas. Boca a boca — que quero sempre muda — Quando a vela do veleiro estiver rota Mandarei o tufão em sua ajuda… Não é fácil de aceitar o que proponho. César será servo dos meus servos E carrascos jamais darão castigos.

em sacola abandonada… Só um som de Vivaldi e de viola A escorrer pela tarde demorada. Abertas pelas mãos e pelo vento.Livro das Horas Deixem-me morrer no meio dos livros — Folha amarelecida pelo Tempo — Venha. Batendo nas janelas bem abertas. Deixado a meio. Como às páginas dum livro interrompido Por sono a meio da tarde. depois. alguém fechar-me os vidros. Muito atrás. Livro aberto num banco de jardim. Sob a sombra de algum cedro tutelar. razão de ser o fim Da leitura que não vai recomeçar… 155 . Cuidados motivados pelo vento… Venham também depois fechar-me os olhos. folhas dispersas Nas ramagens que há no pensamento. Os poemas de amor. Sem chegar a saber bem a verdade… Se o Espaço tem medidas bem exactas Porque nos tiram tanto a liberdade? Recordação dum livro duma escola. inesperado. Que deixou a leitura sem sentido… Que bom será morrer entre as erratas.

Folha a folha. 30 de Junho de 1985 156 . Livro das horas aberto ao luar. dedilhadas na memória. Vendo melhor: leitura transitória Com palavras a tomarem-me o lugar… Lisboa.

em conta errada.Conta Errada Eu de noite ouvi no vento O barulho das pedradas. 7 de Julho de 1985 157 . O Eterno e o Momento Só diferem nas palavras. O sol serve de alimento À planta iluminada: A seiva corre por dentro Da loucura esverdeada… O Eterno e o Momento Não nos dizem quase nada: Um milhão ou três por cento Tanto faz. Vinagre mais limonadas. Lisboa. Por teu corpo sou sedento. Mas as palavras por dentro Têm gavetas fechadas… Cada nome tem assento De pessoas baptizadas… O Eterno é um momento Como as palavras cruzadas.

Ave cuja carne sabe a peixe. a mergulhar.Gaivota Onda por acaso onde se enfeixe Não chega. Numa asa leva a terra. na outra o mar. a planar. Véu de noiva no rasto das traineiras Que regressam de manhã ao seu abrigo. logo avança À terra que precisa de avisar. uma bandeira Num aceno de amizade ao inimigo. Costa da Caparica. equilibrado. Lenço branco. No seu grito há o som de qualquer doca Que saiba pôr travão a qualquer mar. Imagem que se perde mal se vê E se refaz depois correctamente… Seus ovos são os seixos da maré. Seus ninhos são os limos da corrente. melhor. 8 de Setembro de 1985 158 . Imagem na retina que desfoca Litoral. Suas asas não passam de balança Onde a praia e a maré se vão pesar. Atenta à tempestade. no entanto.

Teus braços são os ramos desvairados No vento que em mim sopra e não domino. afinal. 11 de Outubro de 1985. já foi herança Embora no orgasmo ter morrido! Ai. Londres. amor quando os dados estão lançados São os cubos a forma do destino. Remorso foi prazer já conseguido.Colóquio dos Simples Indagar a razão por que se gosta É querer saber que nunca saberá! Vendo bem. Que cantos d’aves há nos arvoredos! Que paisagem nos nasce nos sentidos! Raízes? São apenas os teus dedos Quando nós somos anjos perseguidos! Comboio Lisboa-Porto. o que interessa uma resposta Ao ouvido que nunca a escutará? Amar é aceitar o ultimato Que não vergue a vontade dos poetas. 9 de Agosto de 1988 159 . Pano de ferro aberto no teatro E poemas fechados nas gavetas! Do gesto ao acto é passo de criança. Ter nascido.

A multidão saciada Só se o cão não ficar vivo. 12 de Novembro de 1985 160 . Ah! Bicho! Mesmo calado Dirão que estás a ladrar! Nada vale ser medroso E submisso entre as ervas: Se alguém gritar: cão raivoso! Todos lhe atiram as pedras! O açaimo e a corrente Não lhe dão a segurança: Basta haver no meio da gente Qualquer sede de matança! Lisboa.Multidão Mate-se o cão à pancada! Mesmo sem haver motivo. As razões que não se tomem São motivo que se evoca… Haja cão. Mesmo sem tê-lo presente. Qualquer cão será danado Se a multidão ordenar. Há convite ao linchamento. O essencial é banir Sugestão posta na frente. «Melhor amigo do homem»? A frase morre na boca. Às vezes pela razão Dos uivos que traz o vento! Hão-de ouvi-lo a ganir. não haja cão.

Qu’importam mãos de Pilatos Se só adiam sentença? Cada qual é réu ou rio Cada ser será sereno. Sem ser nada transcendente. Vão-se as águas em cachão. Ouço vozes ilusórias Que me vão cantando em coro. empedernido. Em cascata progressiva. A vida é feita de actos. 30 de Dezembro de 1985 161 . Como a peça mais intensa. O nosso sangue coalha Como estrelas nunca olhadas. Mas as mãos ficam molhadas… Lisboa. Conforme as coisas que viu Dentro do mundo pequeno. Eu a metro meço o medo Como tecido corrente. Cada qual canta a canção Junto à corrente agressiva. Transparente. Por entre tantas histórias Que decoro sem decoro.Abstenção À sede cedo. Pilatos pede a toalha. A Lua de diamante Rasgou a noite de vidro. O sonho ficou distante. acedo.

28 de Maio de 1926 – Verão Quente de 1975 Por vezes na sonolência A noite traz-me ruídos Do tempo de resistência Das paredes com ouvidos… Seja frade inquisidor Ou tirano jacobino. dia a dia. Conta-gotas da verdade… É arma da tirania O esquecer em liberdade! Já duas vezes na vida Enfrentei a opressão. 6 de Janeiro de 1986 162 . porém. Me segredava essa gente Que era para meu bem Que punham grades na frente! Lisboa. Como uma côdea roída Que não tinha gosto a pão… Das duas vezes. Não passa dum opressor Quem nos comanda o destino! Dizem que o tempo passou E que tudo está esquecido… Se a página já se voltou Para quê o que foi lido?! Se acaso nalgum momento A falar nisso alguém torna: É forçar o esquecimento Como quem malha a bigorna! Cópia exacta.

A Lua é chuva de prata? Da rainha foi enfeite? A Lua é folha de lata. A Lua é prato com leite… Cada qual é como é. Cada qual vê o que vê.Miradouro O rio é prata? Dourado? Água que passa somente! Quem o quis imaginado Cortou-lhe a força à corrente. 9 de Janeiro de 1986 163 . Aí está a liberdade. Mas julga ver a verdade! Lisboa.

Conto-te o filme! No intervalo De cada entrega Há rebuçados — Subentendidos — É uma guerra Uma refrega: Esta batalha Só de sentidos! Este desejo De Lua Cheia Haja manhã Que o sublime. Rasga os bilhetes. Rasgo os bilhetes. Conto-te o filme! Lisboa. 21 de Janeiro de 1986 164 .Sessões Contínuas Ir ao cinema? Que má ideia! Haja uma cama Que sublime Este desejo De Lua Cheia. Somos ecrã E plateia.

Tanta água que apodrece E que devia correr! Paris. estagnadas — Como se fossem verdade! — Em lagoas apertadas Em ancas da puberdade… Talvez um fio qu’escorresse Nestas águas em disfarce Fosse lágrima e descesse Pela cascata da face… Mas é rosto tão sereno. E acontece Somente o que tem de ser. 19 de Fevereiro de 1986 165 .Cal Viva Águas verdes. Mas ficaram escravizadas Ao renegar a nascente! Acontece. Pedra de cal mal esculpida Onde a morte é um aceno Como só no fim da vida… Ó espelho de águas paradas Que venceram a corrente.

Está preso nas malhas De Jerusalém… A voz abafou-a No pó dos caminhos… Já Lhe sonham a coroa Cercada de espinhos. Há povo a gritar. Quinta-feira Santa. agora. Qualquer multidão É degrau d’ossário Que grita um perdão Depois dum calvário… No entanto. no cimo.«O Tempo Está Próximo» Do monte. Já nada O detém. diz. Preparam-Lhe a cruz Acabada a ceia. seus amos — Rebeldes vassalos! — Mas ’stendem-Lhe ramos Só resta pisá-los… Forçou as muralhas. Entrou na cidade Montando um jumento… Os reis. Morreu um cristão Descobrindo o peito… Reconstituição Dum crime perfeito! Praia de São Rafael. No momento exacto: Num lenço de linho Ficou um retrato. 27 de Março de 1986 166 . É como alcatruz Moendo água alheia. Não chegou a hora De crucificar… Montava um jumento Com jeito de corça: Moinhos de vento A darem-Lhe força. Contempla o deserto: «O Tempo está próximo»… Todo o fim está perto! O silêncio invade De vozes o vento. no caminho. Da palavra ao grito Só vai um instante. Como o Infinito Não fica distante! Nos gritos há fúrias Que não são domadas… Ao longe as Centúrias Aguardam formadas… Entre companheiros Que tremem de medo! Por trinta dinheiros Desfaz-se um segredo… A candeia acesa… Já põem os pratos Por cima da mesa… Mal sonha Pilatos! Nem sequer Caifás Será quem comanda… Virá Barrabás Até à varanda… Depois.

ao chegando: Só eu sou o teu limite! Se viesses do Futuro Morria em mim como herança Todo esse medo do escuro Que trago desde criança! Lisboa. 24 de Abril de 1986 167 . Só dirias. Se viesses na voz cava (Murmúrios de cantochão). Ou nas sombras do luar (Quando a Lua num momento Imita o Sol sem queimar…) Se viesses volteando Movimentos dum sem-fim. As raízes das manhãs Floriam noit’estreladas. voando.Chegada Se viesses nos medronhos Que queimam na aguardente Talvez o fogo dos sonhos Fosse em nós um caso assente… Se viesses nas maçãs. Rugosas. Outonos dentro de mim… Se viesses nas romãs. ensanguentadas. perfumadas. Talvez as minhas manhãs Dessem noites sossegadas… Se tu viesses nas mondas De crescentes e cortantes. Se tu viesses gritando O direito à dinamite. Levaria o mar nas ondas O Mundo que havia dantes. Em folha solta. Espalhando ouriços de lava Nas vertentes dum vulcão… Se tu viesses no vento. Ao de leve.

deu-me o mar E deu-me bobos da corte Que só me fazem chorar. Sou apenas voz dum Povo. até o vento Fica calado a escutar… Não tinha anéis. Sou a folha que se nota Na manhã d’Outono. Eu sou aquela gaivota Prenúncio da descoberta… Sou a ovelha mais amada Do rebanho do pastor. Vejam lá a sina minha — Que gracejos do Eterno — Eu sou sempre a andorinha. Eu sou a água corrente Sou a gota feita mar. aberta. Seja Verão ou Inverno. 27 de Maio de 1986 168 . mas a sorte Deu-me o vento. Mas só dois palmos de gente S’ao espelho me vou olhar! Chaves. O frio é forro de lã A quem o Destino aparta Tinha a fome como irmã.Fado Amália Ao nascer não tive assento: Era gente a não notar… Mas se canto. Toda de lua banhada Quando é noite em meu redor. Hoje tenho mesa farta… Já tive reis a meu lado E minha sorte não louvo: O que acontece é meu fado.

Eram chapéus de três bicos Dos pesadelos de Falla! Cinto voltando a fivela Sobre uma cara indefesa… Pobre terra de Castela Que tens cor de lenha acesa! Manzanilha e aguardente. Bigornas que a morte malha. Era anis em taças frescas Nesse dia feito lança. Não rufavam os tambores Era tudo p’la calada! Sob as patas dos garranos Indefesos e quietos: Pólvora na cor dos ciganos Morrendo d’olhos abertos! Como se um recém-chegado Trouxesse a morte pela mão: Era um ódio adiado Do tempo da Inquisição. Dia de São Camilo Só perguntavam: «Quem vive?»… Havia gente a matar! Trazia a voz o calibre De quem ia disparar! Vinha do fundo do Tempo Uma voz que se engatilha: Fazendo fuzil do vento Em balas de manzanilha. Vinha a vingança dos touros Que nascem p’ra se matar! Navalha de ponta em mola Chicote de sete pontas: Santo Inácio de Loyola Mandava ajustar as contas! Era um novo Torquemada Que andasse na rua à solta E que por tudo e por nada Que matasse tudo em volta! Coroa d’espinhos e picos.18 de Julho de 1936. Eram as novas Goyescas Seguidilhas de matança! Não falavam os actores Desta peça ensanguentada. Mais um jarro de sangria… E a morte pela frente Todos tinham nesse dia! Ibiza. 15 de Julho de 1986 169 . Afinal o que era aquilo: Cada qual adversário? Que dia de São Camilo Que trazia o calendário! Nesse regresso dos Mouros Do outro lado do mar.

Sempre alguém paga ao algoz Que nos irá abater. Às vezes quase sem querer… Mas que fale alguém por nós Depois de a gente morrer! Lisboa.Passe a Palavra Se alguém fala aqui por nós Fica tanto por dizer. Salga o mar a nossa voz D’água doce por beber… Sempre alguém paga ao algoz. A vida é casca de noz. Linha fugindo em retrós Com que ninguém vai coser. É fio de sangue a correr. Vai falando assim por nós Quem nos dará de comer… Trazemos rios junto à foz Nesta pele a embranquecer. 3 de Agosto de 1986 170 . Range o moinho nas mós Cantigas de Maldizer.

Ou são histriões? Lua sem fases — Como era dantes — E nos lilases 171 . Zumbe um besouro? Ou será choro Das aves raras? Com seus turbantes Passam moleques. Folha d’acanto. Por uns instantes Bóiam nos tanques Sombras de leques. Aluviões… E nas colmeias Cantam sereias. Tão mal ’scutado. Tão outonais. Executado Por privilégio… As folhas secas. de facto. Sonhos cumpridos Mas resumidos Nos pensamentos. Como o ditado Do meu colégio. Braços marmóreos.Os Robinsons do Espaço O solo pátrio. Erro de olfacto Sempre que minto. Eu não me iludo Pois ’stou em tudo Com que sonhei… Cinco sentidos. Se fico mudo. Contas secretas Dos digitais. Mal cai o pano Muda a estação. Leite materno. Binário eterno Fogo d’inferno Na transmissão. Eu sinto o tacto Das flores que pinto. Há purgatórios Sobre os zimbórios Dos meus sentidos. Mármore branco ’stridente canto D’aves eufóricas. «Filhos do Reino» O desconsolo Vem desde o colo Vem desde o seio. Nas avenidas Ramas despidas Sonham bordéis Gaiolas d’ouro E pedras caras. Passos no pátio Há flores no átrio — A cada canto… «Filhos do Solo». Tão acrobática. (Escada de corda A dar saída A quem acorda No ventre e morda O pó da vida!) Salve Mãe-Pátria! Salve Rainha! A Via-Láctea. Caem discretas. Deu o que tinha? Folhas d’acanto. Folhas ’sculpidas Nos capitéis. Pressentimentos. Colos ’sculpidos. Vejo o que vejo E vejo mais: Pois no solfejo Já antevejo Cordas vocais. Mais o cordão. Colunas dóricas. Nas flores. Durante o ano Toca o piano Do coração… Vão-se as areias. Eu já falei.

Da nuvem oca Nasce um Danúbio E. Alguém queimou-se Na água doce Vinda do Céu! Assim queimados. Grandezas parcas. Moleculares… As novas Arcas Não deixam marcas: Vão pelos ares… A descendência Assegurada Sem penitência Só transparência Toda estrelada! Razão de fé? Sobrevivência? Quem foi Noé Hoje não é. Diz a Ciência! Fosse o que fosse Que aconteceu. Vamos na leva. gota a gota. É bancarrota Qualquer dilúvio.Fuga de gases Asfixiantes. 8 de Setembro de 1986 172 . Tão segregados Os degredados Filhos de Eva! Lisboa.

Véspera Veneziana .

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1 Constante O campo de feno. 21 de Setembro de 1986 175 . Adaga sem gume Desta noite imensa. Uva prateada. No fundo do mar Há terra também… Estrada Bergamo-Brescia. O pó do veneno Já não custa nada. Tolda-se o anis. Flores não removem O que já passou… A Lua é o pólen Que o vento levou. Tolda-se o olhar. Ficou o perfume Da tua presença. As estrelas no ar São pontos de giz… Muda de lugar Tudo o que convém.

Tudo em cada Pólo Começa e acaba.2 Aquário Há sempre sinal De quem dá um passo. 22 de Setembro de 1986 176 . Bola de cristal: O Mundo no Espaço… Quem faz a leitura Do que nos virá? Ai. se é mentira: Esta atmosfera Que a gente respira! Pádua. Quem foi que pudera Dizer. quem nos segura Também largará… Tão imaginário O Mundo suspenso: Tão grande aquário Tem o mar imenso… Violino a solo O som que desaba.

22 de Setembro de 1986 177 . Transfigurações. Tudo condensado Na vida dum Homem! A História Sagrada (Caminho ignoto): Banda desenhada Por mãos de Giotto. É o vinho. Vinagre no gosto… São choros e risos. são actos. o mosto. Também Paraísos Para os Bons Ladrões… Vai caindo areia No vidro do Tempo. É o sal dos factos.3 Fresco A Pomba anuncia A Nova Verdade À pobre Maria Tão na puberdade! São dramas. Pádua. Os Trinta Dinheiros Já estão bem contados E os companheiros Estão apavorados… Há pão amassado Para os que não comem. A Última Ceia Já é testamento.

decerto. Em tudo o que quis Aqui encontrar Eu fiz e refiz O que hei-de sonhar! A água te veste.4 Lucros e Perdas Como que esmagado. 23 de Setembro de 1986 178 . Vejo o saldo errado Mas fico contente! Veneza. Tão seca e molhada É morte na vida! Tempo embalsamado Por que rituais? Sangue coalhado Correndo em canais! Sangue liquefeito De São Januário? Sonho tão perfeito Mas tão sanguinário… Como que lançado Em conta-corrente. Tão enegrecida. Não te lava os ossos… O medo da peste Pôs a cal nos poços. Porém tão ausente… Eis-me regressado A Veneza. A pedra lavada. Só pense em voltar… Se aqui permaneço É em pesadelo. Mas me reconheço Nos sonhos de gelo. em frente! Só sei de concreto: Não quero ficar! Embora.

Eis o puzzle que nós somos. A vida passa tão rente A tudo aquilo que fomos… Quando a nossa pele é estrume.5 Homo Faber Ponta do fio da meada… A gota que faz o mar… Tudo começa por nada Numa lente de aumentar. A quem damos alimento? Nem sempre o fogo foi lume Na longa noite do Tempo! Paris. dente a dente. Desembarca em foguetões O qu’utrora foi ossada! Osso a osso. Também a areia que cai Marca o tempo lentamente E a vida assim se esvai Em duna feita repente. No meio das escoriações. Da Lua fica a pegada. Agora tudo é Passado E lê-se a História num crânio Dum homem desenterrado. O fio da baba da seda Fez o ovo do casulo (Ter asas na alameda Foi afinal esforço nulo!) Tudo já foi momentâneo. 29 de Setembro de 1986 179 .

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Insónia Afago a fogo Teu corpo inerte E penso logo Que vou perder-te… A pedra quebra. Que noites brancas. Que manhãs roxas! Lisboa. Estilhaçada. 12 de Outubro de 1986 181 . O cais nas coxas. És a escultura? Pedra talhada Nessa cintura Por mim esmagada! Ondas nas ancas. Mas eu na treva Não dou por nada… A noite mura Nosso abandono Enquanto dura O nosso sono.

Há sorrisos nas sacadas. Que levam curas d’aldeia. Nestas paisagens humanas Tão feitas à nossa escala! Passam trens. Sob um céu de cor de estanho Que te pesa nos sentidos. Há arados e charruas. E as gaivotas eram rolas Que tinham bico salgado. Faltava-te o cheiro a estrume No vento tão natural. Na insónia dessas ruas Do sonho que vai contigo.Cesário a Corpo Inteiro Tiveste nome de cor. são os muares. Assim vivem as mundanas. Tudo tão subentendido. 182 . E nas montras dos ourives Vais pesando a injustiça Desses bandos de petizes Carregados d’hortaliça! A rua tinha o tamanho Dum poema desdobrado. Muda tudo de tamanho A teus olhos desmedidos. A populaça um rebanho Que já não quer ser guardado. Até há medas de trigo. Só no espaço dum tapume O musgo dum edital… Se murchava algum lilás Tomava a rosa o lugar Ou não fosse a luz do gás Um farrapo de luar… Se te faltavam papoulas Havia sangue espalhado. Receitas alimentares Entre uma missa e a ceia… Passam dandies e janotas Que a teu riso só dão azo E nos frascos de compotas Vai ficando fruta a prazo. De César um quase nada. A cidade em teu redor Era uma quinta fechada. E conversas abafadas De visitante escondido. Feitas senhoras na sala.

6 de Outubro de 1986 183 . São peças do mesmo quadro Que te lembra de repente A falta que faz um adro. Posto a meio do caminho. frente a frente. Num jardim inesperado. Faz do seu sangue guache. É paraíso alcançado… Porém. Pensas tu já ter entrado Na herdade dum vizinho… Tudo muda num momento. Lisboa. o gradeamento Logo te quer acordado! É a sina dum poeta Que não renega ao que nasce: Com os nervos na paleta.As igrejas.

sem se ver. os movimentos. 2 Preciso de ti: Como a treva precisa da escuridão. Como do equilíbrio o acrobata. uma voz canta… Preciso de ti: Como a onda precisa do sal. 3 Preciso de ti: Como dos pratos a balança Que equilibra a verdade por momentos. Quando o fiel é a voz da confiança. Como a frase precisa dum sentido Se à noite. Como os fios do luar precisam prata. só por si. Como da veia cava o coração.Os Ralos do Relento 1 Preciso de ti: Como o segredo precisa do ouvido E a sede precisa da garganta. Parando. acendido em terra estranha. Como a altura precisa da montanha. 184 . Como o barco precisa do sinal Do farol.

Preciso a sede E mais a morte. a páginas tantas.4 Preciso de ti: Como o verde precisa das plantas E o vento da folhagem que estremece… Se acaso a morte vem. Avesso desta vida! 7 Preciso de ti: Como o galope precisa dos cavalos Quando tudo em frente é Dimensão. 28 de Novembro de 1986 185 . Serás apenas tu quem não me esquece. 5 Preciso de ti: Ao sol estendido Ou fazendo frente à multidão — Segredo que transborda do ouvido Sempre que se abre a porta ao coração! — 6 Preciso de ti: Como o peixe que na rede Não queira encontrar uma saída… De ti preciso a água. Como o silêncio Que responde à voz dos ralos Que deixam sem resposta uma questão! Lisboa.

Passagem do Ano
Que movimento, Brusco por vezes, No cata vento Que roda os meses… Ângulo escaleno De vão d’escada (Onde em pequeno Não dei por nada…) Venha o que venha, Baste o que baste, Mas que sustenha A flor na haste. Musgos ou fetos Ou trepadeiras, Mas fiquem certos Nas sementeiras… Que cantochão, Gregoriano: Ter coração Por mais um ano! Mede-se aos palmos O corpo inteiro. Não ouves salmos, São os pinheiros! Cubos de sal São poliedros Mas que coral A voz dos cedros! Mas que solfejos Nas oliveiras… (Mede-me aos beijos Noites inteiras!) Vai-se a folhagem Ficam os ramos — Que vassalagem Se paga aos anos! — Ramos e folhas (Outros assuntos) Não têm escolhas, Não morrem juntos! Estala o verniz, Vai-se a resina, Não tem raiz A nossa sina! Subjugados Passam os dias, Troncos vergados Nas ventanias… Mas que canções Doces escutamos, Quando os limões Caem dos ramos… Adrenalina E mais não somos Que tangerina Aberta aos gomos!
Lisboa, 16 de Janeiro de 1987

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Profanação
Deixas a porta aberta. Basta isso! A noite é escura e boa companheira… Desejar, já por si, é compromisso E tudo aqui me quer à tua beira. Também o sonho vem, inesperado, A leito nem sempre conhecido. Teu quarto fique aberto e não fechado Por destino há muito definido. Bate a chuva nos vidros, surdamente, Pedindo-te que lhe abras as janelas, Como vindos do céu, secretamente, Recados que lhe mandam as estrelas… É a Lua recorte em parafina. Que tesouras a deixam recortada? Se o vento quer as ondas na cortina Toda a noite é maré imaginada… A noite é ritual tão repetido A que o dia s’imola por feitiço. Não falemos num deus desconhecido Deixa-me a porta aberta, basta isso…
Lisboa, 19 de Janeiro de 1987

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Quarta-Feira de Cinzas
Porque será que as uvas não dão sumo Agora nestas vides d’enforcado? Mas vendo bem, porém, até o fumo Tinha com o fogo encontro combinado! Segredos bem contidos, coriáceos, Nos regressos do mundo migratório… Cemitérios d’elefantes e cetáceos Num enredo de desfecho obrigatório… Os gatos dilaceraram Janeiro No cio das crateras do luar, Se acordo, também estás no travesseiro, Afinal nada muda de lugar! Das cinzas que o Inverno aqui deixou Desenhos faz o vento pelo chão; Auto-de-fé que o Tempo levantou Que rebelde solstício de Verão! Tudo assim aconteceu em sua altura, Em peça de comédia ensaiada, A morte é uma espada na cintura, Uma vez só se vê desembainhada! São os dias um barco no seu rumo Com diário de bordo desbotado. É por isso que as uvas não dão sumo Agora nestas vides d’enforcado.
Lisboa, 4-5 de Março de 1987

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Fechadura Yale
1 Havia a sombra que havia no chão — Tão rastejante como óleo entornado — Havia a certeza de haver corrimão Em perfil de cobra em tronco enroscado. Havia náufragos sobre um colchão À deriva no mar encapelado, E do tecto a luz dava a direcção À sombra do óleo já tão ensombrado. Batia o relógio contra o coração, Ruídos da noite rangendo o sobrado… Havia a sombra que havia no chão Recordando o óleo ali derramado. O mar temia outra serração, Tapete? Ou foi ilha? Ou tudo inventado? Havia a certeza de haver dimensão, Coutada de amor: um quarto alugado!

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2 Dois corpos na cama: brutal confusão! O orgasmo tem mar nunca revelado. Quem sonhar areia, vai vê-la no chão, Quem sonhar o céu tem tecto negado. A praia tem dunas, mas não tem limites, Tem poças abertas na maré vazia; O sonho põe ferros e põe os rebites À ponte do sonho que atravessa a ria… Cheira a erva fresca e neste perfume, Corpo de mulher vem tão envolvido. Cheira a terra em sangue o cheiro do estrume Cheira à minha pele o que tens vestido. Ai, como a vida está do outro lado, No fundo da noite, semi-ocultada. O frio da manhã… Eu mal acordado… Cheira a pão no forno toda a madrugada!

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3 Serás a escavação e o aterro, O dilúvio e a seca misturados, Como Adão e Eva no desterro Ainda sem os corpos bem moldados… Serás a tua queda e o zénite A linha de chegada e de partida; Serás a pedra aberta a dinamite Ou estátua que ficou desconhecida. Serás o segredo e a inconfidência, Serás tu a loucura e a razão, Serás tu motivo e consequência Do vazio encoberto em tua mão… Serás tudo o que seja e que não seja, Equilíbrio e queda de acrobatas: Na bola do Destino que graceja, Enquanto um gato brinca com as patas!
Lisboa, 9 de Abril de 1987

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Pois até o próprio zero Tem valor estabelecido… Não chegou a ser exótico O edital que. 20 de Maio de 1987 192 . Só o silêncio responde! Cada qual é carácter Do enigma qu’em si esconde. tão breve. Ó Newton: bem na verdade Ninguém a sério te leva. Se a força da gravidade Foi a maçã que deu Eva… Venha lá o que vier. Quanta vez chegar à meta Não é bem já ter chegado! Não compreendo o que quero. Lisboa. Os latinos caracteres Como são familiares. Dão-nos nomes das mulheres E baptizaram os mares… O que se escondia em Beta Vem em Alfa revelado. Gravar um nome e amor Nalgum tronco vale a pena: Nunca algum computador Há-de escrever um poema! O meu nome predilecto Como vem adulterado: Cada qual tem dialecto Para o nome desejado! Eu quero a noite estrelada. Vejo tudo resolvido.Incógnita Qual será a solução Dos segredos que me pedes? Qual será a equação Quando em abraços me medes? Qual será o carácter Que nos deixa revelado O triângulo da mulher Bem no ventre desenhado? Face de prédio em gaveto Visto da rua em viés: O gosto do cianeto Que nos põe o mundo aos pés. Milhões de sóis em redor E qualquer raiz quadrada Na haste duma flor… Fica nas cordas vocais A chave da solução: Bastaram cinco vogais Para a nossa solidão. Alinhou em estilo gótico Aquilo que a morte escreve.

És a estátua colossal Dos tempos do paganismo. Tu és o gosto do sal Que se guarda do baptismo. És o mel e o vinagre. A pureza da nascente. És a vela do milagre Que deixa o Mundo mais largo. És o perto e a distância Que tantas vezes confundo. O açúcar. És a folha. A teimosia da rosa Que discute a sua cor. És o Norte e és o Sul. És a pedra da infância Com que enfrentamos o mundo. És o pedaço de azul Que a noite apaga com custo. És a areia feita mica Onde a imagem estalava. O sopé e a vertente.Cofre de Segredo Tu és a palavra-chave Que abre o cofre de segredo E também o voo da ave Que se inveja no degredo. Tu és o ouro que fica Duma pedra feita lava. Canção que morre na boca De ciganos e jograis. És o vento na folhagem Onde nos sonhos estremeço. És o vale e a montanha. o amargo. 20 de Maio de 1987 193 . o arbusto. O direito e o avesso. A floresta. És a lágrima teimosa Que vence qualquer pudor. sendo a lenha Da minha árvore d’abate. a vassalagem. Água barrenta e castanha. Tu és o santo e a senha Dos meus dias de combate. A palavra que sufoca Por ter ternura de mais! Lisboa. A revolta.

A côdea de pão. Inflação p’ra nós: só se forem ondas Que salgam poemas salvos por poetas… Cotação do dia não é amargura.Cotação do Dia Tenho o valor de um tostão trocado. Moeda poupada em vida tão gasta! Lisboa. — Centavo perdido e logo trocado. Como água corrente a limpar o ouro… Em todos os dias só tu me segredas O valor do riso e o preço do choro… Ceitis vicentinos. seja dura ou mole… — A carne do Rei também ficou dura Em Alcácer-Quibir. 28 de Junho de 1987 194 . Em troco de pobre meio-tostão basta. Pardaus de Miranda. Amor: p’ra ti eu valho um cruzado. para ti eu valho um cruzado. Pataca batida e já muito gasta… Imagens de reis passam nas moedas. de cunhos ascetas. Efígie discreta — que o tempo arrasta — Porém. três dias ao sol. cabeças redondas.

afinal. 14 de Julho de 1987 195 . De ti.O Beijo de Judas Estende a face da noite àquele beijo. As estrelas são as minhas sementeiras. Jerusalém. o que depois virá no bronze Dos sinos por que tem de responder… Foi Páscoa? Foi Cruz? Foi o Enterro? A Pedra Tumular foi violada? E tu. depois. foi convertido. guarda o ferro A morte não precisa duma espada… O Cordeiro Pascal aonde pasta? Entre o Céu e a Terra? Noutro lado? Também Herodes tem a adaga gasta De ter tanto inocente degolado. É chuva da manhã ou é perfume Vertido por Mulheres Piedosas? Que fogo a crepitar! Mas não é lume… Os cardos no deserto lembram rosas… As bocas dos romanos ficam mudas… Constantino. os teus pecados Farão uma cidade destruída. Excremento de gado e oliveiras… Mas «não é meu Reino deste Mundo». cheia de vida. Como a noite é diferente aos outros Onze… Só Pedro terá hoje algo a dizer: Negar. leito imundo. Sem teu beijo. meu pobre Judas. meu filho Pedro. Nada disto teria acontecido! Praia da Marinha. Tal fonte natural. O ósculo traz vinagre na saliva. O medo serve apenas de evasiva Quando a pena maior se chama vida. O sangue escorrerá dos teus telhados. Pois que a traição virá da madrugada. Veneno da serpente mais temida. A treva será tudo quanto vejo Bem no fundo da noite aconchegada? A cama: terra dura.

Sabe-se lá a razão!… Chegam ao porto das barcas Que trazem o salvamento Os plebeus e monarcas. morrer. Feitos irmãos de momento… As tempestades solares — Ó império sem altura! — Nós temos glaciares Quando desce a temperatura. O grito é música sacra Em coro silenciado. Guimarães. Sê tu próprio o engenheiro Do Calvário que escolheres. Nos ofícios esquecidos Que já foram novas técnicas. Nem sequer a lei do Pólo Para seus filhos sem lei! Vão-se as crianças de colo Só porque Herodes foi rei… Se estrelas fossem pegadas Quem seria o Povo Eleito? Crianças mal vigiadas Por um deus num parapeito. A Terra por dentro é oca Ou de rocha mais maciça? Que catedral: uma boca. 24 de Setembro de 1987 196 . Quando tua língua lacra Meu sorriso angustiado. Dentes. santos de caliça… Esvair-se em sangue. Deste ofício de viver Qual será a obra-prima? Mas na Árvore de Jessé — Que campo de expiação — Não figura São José. O Sol que funde o Eterno Deixa até o frio queimado. Faz uma cruz dum madeiro P’ra depois te suspenderes.Ofícios Esquecidos Fenícios desapar’cidos. O que ontem foi moderno É hoje só do Passado. Soldar palavras em rima. As nervosas mãos helénicas.

Papel-Moeda
O que diria Álvaro de Campos: Fernando Pessoa impresso em nota de banco! Pessoa a ser hoje disputado, Mais num minuto Do que nos milhões de livros Que nunca viu impressos, Embora as lombadas Lhe exibam o nome (Como lápides de cemitério Sempre de leitura rápida…) Que diria Álvaro de Campos? O próprio Pessoa, Por seu lado, talvez confessasse Que por vezes ainda receia Que seja isto tudo mais uma trama do Alves Reis, O tal que já se serviu um dia do Vasco da Gama Para trocar as voltas ao Banco Emissor E ao fleumático Sir William Alfred Waterlow Da firma impressora Waterlow and Sons E que hoje dele se sirva — Pois que já é figura nacional — Para uma moscambilha qualquer… Sim… Talvez confessasse… Ricardo Reis O do «Ouvi contar outrora quando a Pérsia»,

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Com a sua indiferença de xadrezista Reproduzirá mentalmente O acontecimento Como a multiplicação dos grãos de trigo Pelas casas do tabuleiro E acabará por achar também habitual O constante desdobramento da tua universalidade Tão natural Que nem Lídia Lhe notará nada no rosto… Já Caeiro, Por seu lado, Dirá apenas, sem sentenciar seja o que for, Que o Fernando, Tornado outra vez gente, Voltou à Terra Não «rebolando Pelas encostas do monte», Mas rolando, sim, Pelos movimentos circulares duma rotativa Que o reproduziu aos milhares Em notas do Banco de Portugal, Como por artes de caleidoscópio Ou por jogo de espelhos paralelos, Como se o Fernando — Tão imprevisível que era — Tivesse assumido num repente Uma espécie de Milagre da Multiplicação dos pães (Vá-se lá saber se até por artes ocultistas Da Tia Anica…) Mas seja como for, o que diria Álvaro de Campos De mais este inédito

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Tão originalmente tornado público? Ou não será, porém, tudo isto Simplesmente, na realidade, Mais um passo de práticas ocultistas Donde resultarão Outros milhares de páginas — Desta vez, porém, de livros de cheques — ? E mais: não era apenas isto Que Aleister Crowley («A Besta 666») Antevia já na linha de água Que o papel-moeda exibia Quando olhado a contraluz? Será só mais um degrau Da escadaria do inexplicável? Mas sendo exactamente apenas isto, O que diria Álvaro de Campos? Já que Bernardo Soares, Aproveitando-se da figura de Vicente Guedes, Se limitará a fazer o lançamento do sucedido Em conta-corrente, para depois, Com a consciência dum dever cumprido, Ir à Rua dos Douradores Para o almoço diário Nalgum restaurante Desses que tenham o ar de «casa de pasto de vila sem comboios», Aceitando assim como natural Que o seu meio-irmão ande agora Nos guichés dos bancos Entregue a essa espécie de jogo de cartas, Que há no dar, no receber, no baralhar E no partir Desse baralho infernal

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Que são os maços simétricos e cintados Das notas de banco Quando ainda cheiram a tinta E não foram gastas por ninguém — Como naipes virgens que o croupier desembrulha Publicamente Em reforço da credibilidade Que os casinos têm sempre de exibir… — Todavia, o que diria Álvaro de Campos? Mas os criados do Martinho da Arcada Ou da Brasileira do Chiado, Esses, ao entregarem moedas em troco do novo papel, Só pensarão que a certos fregueses Se lhes deparam situações estranhas: Que venha uma pessoa no jornal, ainda que vá… Agora numa nota de cem escudos!… Isso é só para santos e para os reis, A esses nunca ninguém os viu vivos… Mas, de mãos ligeiras, Remexendo no saco à cintura — Como bolsa marsupial — Nos seus aventais Prepararão já outros trocos Com mais um sorriso de boas-vindas Para um freguês de todos os dias, já quase família… Talvez seja até com esta simplicidade Que a coisa tenha de ser olhada. Mas realmente como continua ainda o desdobramento da tua personalidade, Agora nos trocos das notas de cem escudos A que tu serves de caução!

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Tua Mãe, por seu lado, pensará apenas Que foste longe E que aquilo do prémio da Rainha Vitória Ganho no Cabo da Boa Esperança Era já um aviso do Eterno, Edital, meio solto, ao vento No muro do Destino… Para a Tia Anica Será isto tudo vulgar, Rotina das mesas de pé-de-galo, Diálogos de Deus e do Diabo Por interpostas pessoas, Com pancadas de nós de dedos invisíveis Vibrando na madeira familiar, tornada Desconhecido. Sinais de Morse Que no caso do sobrinho, São pancadas de Molière Anunciadoras do sucesso que tinha em frente, Nessa apresentação do «Drama em Gente» Que iria ser a tua vida… (Já nos tempos de Cape-Town, para ela, Não passava a Montanha da Mesa Duma simples pé-de-galo, Peça íntima do mobiliário Na antecâmara do Eterno Onde tu ias entrando Com enorme à-vontade!) No entanto, já o Alves da tabacaria, Ao dar o troco Junto à onça de Tabaco Francês

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E ao livro de mortalhas Zig-Zag (Sempre de venda simultânea) Verá num relance A cara conhecida no desenho da nota recente, Mas nunca lhe passará pela cabeça Seres tu, o poeta da janela ali a dois passos Que estejas nela impresso, De chapéu e óculos de aros finos Com que «andas sempre ao sol e à chuva»… Tudo isto estará muito certo, Mas Álvaro de Campos o que diria? Ao menos o Almada Desenhou-te à mesa do café, Como esperando que a Eternidade Entrasse em qualquer momento Nos Irmãos Unidos E te levasse a passear Pelas distâncias consteladas, Que hoje são o teu Jardim da Estrela (Aquele gradeamento, Ali a dois passos da rua Coelho da Rocha, Onde milagrosamente ainda se mantém de pé Uma das casas que viveste por dentro…) Pintou-te à mesa dum café E não no Banco de Portugal, Pois, conhecendo-te os fracos como poucos, Sabia que tu não trocarias Por uma barra de ouro-lei Um poema que pudesses fazer Sentado no Martinho Ou no Café Montanha

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Como elemento dum coral Que cante só de vez em quando E sempre juntando a sua voz à do grupo. Como endossando um cheque. Contra a tua opinião (via Campos). esta nota bancária É o aviso-recompensa da tua cabeça a prémio Que só vale cem escudos Que tal como a lira italiana. Imprimiram-te de caneta em riste. Marinetti Que acabou mesmo por morrer académico. São uma insignificância… O Barão de Teive.Ou até. Tu Que afinal estás apenas simbolizando Conceder um aval a mais um teu poema inédito Agora descoberto… 203 . frente à cómoda alta Como aquela que havia em tua casa E onde um dia Num galope do teu pensamento Te surgiu o Mestre Caeiro Inesperadamente mas com tanta naturalidade. de pé. Consciente da pouca dimensão da sua obra. Esperando que outros Falem por si. Deve quedar-se silencioso. Vingou-se agora bem de ti: No seu juízo.

então. esta moeda!) Que cotação terás neste momento Na Bolsa de Tóquio? Tu: Simples correspondente comercial.Ah! «Se te querias matar» Devias saber que estavas destinado Ao risco de criares sem querer Outro heterónimo Sujeito a correcções do dia E aos caprichos do dólar. Como se em vez de te barbeares Em frente do pedaço de espelho. Exibes agora o teu rosto indiscretamente. Servindo-te da vidraça duma montra Para reflectir a tua imagem! Como te obrigam a colaborar com os donos do Mundo Que querem à viva força Tornar familiares ao grande público 204 . Pendurado na velha portada de madeira Da janela ainda mais velha. Do esterlino ou do rand (como te deve Dizer alguma coisa. Hoje com o equivalente em ouro Cada vez que reproduzem a tua imagem Num pedaço de papel! Tu: O tímido que te confundias na multidão. À hora de maior movimento. Te escanhoasses impudicamente Em plena Rua do Arsenal.

Que ao sobrar do Verão Faltará no Inverno Para justificar a Primavera! Também tu caíste bem. Dos reis e dos cruzados. de quando em vez. afinal. Como folha de Outono De cair tão natural. Pagas hoje na Bolsa Os títulos e obrigações Dos que nunca te lerão Mas que te disputam o retrato Por razões tão evidentes! Ah! «O lar que nunca terias» É hoje momentaneamente A Casa da Moeda Com teu retrato suspenso Em parede anónima Sem manchas de humidade 205 . Ter feito de suas algibeiras um ninho de ouro Donde. no domínio público… Tu que eras do tempo dos tostões. Como um poema mais Atirado à Eternidade. Ao reproduzi-los — Como cogumelos venenosos — Em cédulas bancárias! Que investimento diabólico Faz o Capital dos vivos de ontem! Seria antes tão simples. em suas vidas.Os tímidos depois da morte. Em lugar do lenço caído Saltassem também moedas.

Mas tão desconfortável por dentro Por pouco familiar que deve ser. Dos viciados de jogo E serás. Das prostitutas. 206 . a bola e a batuta do maestro» Se misturam na memória da tua infância Esse cofre cujo segredo Só o Destino conhecia! Só na Alta Finança Serás familiar Mas nunca ao «Banqueiro Anarquista» Pois que a qualquer «Esteves sem metafísica» Nada dirás. queiras ou não. Andarás nas mãos dos justos. Dos ladrões. O prémio do aluno aplicado Que durante o ano escolar Tenha sabido de cor Os teus poemas nos dias de aula… Nos enfadonhos dias de aula! Que capricho há na morte das pessoas! Com a tua figura Será paga a Sorte Grande E serão remunerados os tenores No teatro em frente Da casa onde nasceste E onde «o cão. Editaram-te agora finalmente Mas em dinheiro!… Assim. por capricho do acaso.

Um retrato familiar Que deva andar aconchegado ao nosso peito… Que homem dividido que continuas a ser! É como se cada um de nós tivesse o direito A uma parte de ti.Uma vez que te meterá na carteira Para logo te tirar de seguida. na atracção do proibido. Tu o produto do saque repartido Tu a hóstia fragmentada Em Comunhão Campal em dia de Páscoa. Sim! Mas será precisamente por isso Que Álvaro de Campos Não poderá ficar calado por muito mais tempo… Será assim que. Mas para que tudo isto tenha um sentido Deve haver uma razão oculta Que não devemos procurar Como se tenha de respeitar Um segredo inviolável Ou aceitar um dogma. ao menos por momentos. E com a sua rebeldia De não aceitar o estabelecido Que. Sem fazer de ti. Tu o despojo valioso da batalha. Que nele funciona como um íman. Dirá Talvez 207 . quando já ninguém esperar ouvi-lo.

Cujas palavras trazem assim o peso do Intemporal — Eu Que tenho como sexo o dia e a noite. Sempre com o meu vestuário talhado pelo Irreal… — Eu Que tenho como idade o zero absoluto. Que rebentou a bolsa de águas das Ideias… — Eu Que tenho como cédula pessoal O primeiro poema feito em meu nome E como certidão de óbito o fim Do último verso que escreveram por mim… 208 . Sempre tão fora do Tempo: « — Eu O homem que nunca existiu. Que fui parido por um pensamento.Na sua voz sem timbre. Com os seus amores incestuosos Nas suas entregas Do fim da tarde e da madrugada… — Eu Que tão britanicamente me assumo Tanto na Rua dos Bacalhoeiros Como à entrada do Canal do Suez.

Mas que tenho ideias próprias E sobretudo um acentuado Sentido de amor-próprio… — Eu Que sou o Nada e o Absoluto simultaneamente Não posso calar nem sequer por mais um minuto O que penso disto tudo! E Assim Direi Mas tão-somente 209 .— Eu Que não hesitei em passar procuração Para isto tudo! — Eu O abstracto O invisível O sobrenatural… — Eu Que tenho deixado que outro Fale por mim E me tenha abrigado Nalgum desvão da sua personalidade. Já de si tão partilhada por mais outros (Como fatia de bolo-rei Em noite de Natal!).

Direi a Daisy Que quando eu morrer Não me enxugue o rosto Pois que por vezes A face dos grandes homens Fica estampada no linho Ou gravada em papel-moeda E Daisy sabe Que quando eu morrer Quero ficar sozinho Para sempre… De mais a mais Porque quando o carrasco fala a nossa língua Pode a morte ser intimidade E é isso apenas o que mais Desejo neste momento!» Londres. Paris. Norte de Portugal e Lisboa.— Pobre Fernando Que «Livro do Desassocego» Que «Floresta do Alheamento» Que continuam a fazer da tua vida! Como te lamento! Pela minha parte. Setembro-Outubro de 1987 210 .

Ração de Combate Vou pelos campos de milho — Que na guerra ninguém trata… — Levo o dedo no gatilho E uma bala na culatra. Só ouço o silvo das bombas No silêncio em que medite. Mas de baioneta calada: Faço da vida bandeira Que o sangue quer encarnada! Lisboa. Quem quiser um céu de pombas Não pode querer dinamite. Para o que der e vier: Outro sabre na bainha… Quando a Lua se esconder A noite então será minha! O Sol será sempre um p’rigo Nestes dias de campanha Devasso campos de trigo Sem saber quem me acompanha… Vai-se a água nos canais — Lembram rios abraçados — Já houve fogos reais Deixando os campos queimados. A vida: Que xeque-mate Neste xadrez da razia! Levo rações de combate Numa mochila vazia… Com a alma em bandoleira. 10 de Novembro de 1987 211 .

A vida é bicho-de-conta Que não ganha em se esconder… Em tanto sonho que embarco. Eu «deitei solas de molho».Bicho-de-Conta Pus minha alma num barco. Mãos doridas de remar Tão pouca coisa escreveram… Pus o meu corpo no mar: As ondas não o quiseram… Em terra tudo o que escolho Traz-me saudades do mar. 21 de Novembro de 1987 212 . Peniche. O vento fez dele duna… Deitei pedras ao luar! Deitei cartas sem sentido! Eu deitei o corpo ao mar. Era uma fusta ou galé? O horizonte é o arco De triunfo da maré. Cada qual é como é… Pus minha vida num barco. Mas nunca fui recebido… É coisa de pouca monta Tudo o que o mar não quiser. Era uma fusta ou galé? Baleal. Porto das Barcas. Tendo embora de jantar… Que vela foi teu vestido No infinito. que escuna! Quis o teu corpo estendido.

As Torres do Silêncio .

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Será o mesmo noutro continente Sem colinas ou cadáveres por contar… A morte é sempre igual. os Parsis não sepultam nem cremam os seus mortos que. assim. 24 de Janeiro de 1987 215 .As Torres do Silêncio (No seu rito fúnebre. Tão indiferente que fica o Firmamento Ao que se passa na pátria do luar. discretamente. apodrecem ao ar livre. Ante um deus diverso e friorento Que se aquece com a morte em Malabar. Pois ela morrerá se não matar! A caminho de Bombaim.) Torres do silêncio e esquecimento! Abutres! Que figuras tumulares! São o negro que alastra pelo vento Nos guaches que transbordam pelos ares.

O corpo é o coco. Nem por um momento Não lhes lembra nada. Não é alimento! Jejum permanente Sem fins pacifistas. Pesados elefantes. Mas há o luar E o Sol também. Sem chama sagrada… A vida tão pouco E a morte nada. A vaca sagrada. Há ouro e rubis E mãos suplicantes. Trocando o lugar Como lhes convém… Serpentes subtis. As bibliotecas. Janela de fome Que tem gelosias.Índia Bóia um nenúfar É água parada Tambor a rufar Na tarde abafada. As bocas com sede Os livros em seda As pedras em rede Pela alameda. Cada qual amante Pelas suas normas: É Shiva dançante Of’recendo as formas… O tempo se some P’las frestas dos dias. Na boca o que entre É resignação E não sente o ventre O peso do pão. 28 de Janeiro de 1987 216 . As folhas dos livros São as folhas secas… Jaipur. A morte-corrente Sem contabilistas! Roídos em febres E pelo desjejum… Palácio ou casebres Ou tecto nenhum! E vão-se os arquivos.

30 de Janeiro de 1987 217 .Taj Mahal A dor traduzida em mármore. O amor transformado em Tempo! Agra. O luto tornado em branco.

Khajuraho Fazer amor em pedra. Os gestos proibidos. assim. o que é pedido! Vitória incontestada dos sentidos. Ó sémen feito em saibro. Clepsidra de suor do barro humano! Fazer amor assim é fazer vida No templo do teu corpo que profano. empedernida. permitidos. empedernido! Amar até morrer: é o exemplo… Façamos pois. Agra. 30 de Janeiro de 1987 218 . Ampulheta d’areia. Como se a vida fosse só um friso. A morte pouco é mais do que um sorriso. para um templo.

Na nossa imaginação E nos sonhos Que dali trouxemos E que nunca nos lembram noite! Índia: morcego pendurado Na árvore do Mundo… Khajuraho. 31 de Janeiro de 1987 219 . De dia sonolento Ao Sol tórrido De noite Esvoaçando em liberdade.Fumos da Índia Índia: morcego suspenso No mapa da Ásia.

Ter gengibre por romã Não podia ser verdade… Para nós o amanhã Já dá motivo à saudade. São as folhas a cair. Seca a árvore da Razão. no mar. Se mudamos de paisagem Deixamos de ser quem somos? Sonhámos ontem canela Hoje temos sal à mesa… Para nós. Ó Ganges d’água barrenta: És um rio? Quem o diria?! Para nós a água-benta Era a melhor especiaria! Agra. a vela É o lenço da tristeza.Nas Margens do Ganges Quem quisera especiarias Melhor seria não vir… Passam os anos. O rio das águas sagradas Dá sede que não se mata. os dias. 31 de Janeiro de 1987 220 . Cai o ramo da Prudência: Ir nos dias que se vão Eis a nossa contingência… É carta torna-viagem Tudo aquilo a que já fomos. Com as almas degredadas Na lama vemos a prata.

Como as dunas que preenchem o deserto. No rio. a roçar a água a medo… Com o sangue se apaga a cor do sangue Com folhagem se apaga o arvoredo… Khajuraho. Sem nada que se saiba de concreto. Com palavras se gasta a nossa voz. Em escuro se apaga a escuridão. De palavras é feita a nossa vida. a deslizar. 1 de Fevereiro de 1987 221 .Entardecer no Ganges Sangue a sangue e a morte de seguida. São as frases que nos dão a dimensão Dos caminhos que há dentro de nós. passa um parangue Ao de leve.

Mergulhámos somente em incerteza! É longa a noite. Nossos olhos que os sonham tantas vezes Mudam-lhes o poder e as figuras. Porém o Deus romano não é persa Pois Deus difere sempre na missiva… Banhar-se gente no Ganges ou Jordão É com água tentarmos a pureza… Evapora-se a água em suspensão. Toma Deus a forma mais diversa: É Manitu ou Buda ou mesmo Shiva. Dá forma a Deus. Com ele fazem ninho nas alturas.O Medo O medo da morte faz os deuses. amor. o céu é tão distante — Tão longe que ficou dos nossos gestos — Só lembra abutre negro em voo rasante Que venha disputar os nossos restos! Teu corpo traz o Sol já no ocaso. não faças caso Dos textos que lhe tiram o sentido! Katmandu. 3 de Fevereiro de 1987 222 . Teu corpo traz um Deus já resumido.

Sem que a estrela da manhã Lhes aqueça o coração. P’ro guia cor de melaço. Terá um anjo da guarda Esta gente ferrugenta? Os rostos são cor de cobre Tom de lama ressequida. Sentadas no duro chão. Ambiente rotineiro. Os porcos fazem chiqueiro Das ruas por onde passo. 4 de Fevereiro de 1987 223 . Semifiguras macabras… E Shiva é venerado Por entre patos e cabras. O rapazio quase alheio Jogando num lamaçal À bola. Junto ao templo abandonado Um anúncio à Coca-Cola! Arredores de Katmandu. Um templo desmantelado.Numa Aldeia do Nepal Passo um campo de mostarda. Não há um sino que dobre Por esta espécie de vida? As mulheres dobam a lã. Pela estrada lamacenta. Futebol reinventado: Um excremento faz de bola. como em recreio Duma aula matinal.

Atrás: Evereste. Porém. Que roupa diferente Com que a terra veste. Diante o Poente. dia a dia: O Sol arrefece. 6 de Fevereiro de 1987 224 . amanhã.Pôr de Sol nos Himalaias No tecto do Mundo Como fosse um véu: A neve confundo Com nuvens do céu… Que doce de creme Gigante sedento Cuja mão já treme Por este alimento. Aqui. Destino lendário: Os montes de lã Verão o contrário. Neve em cartolina De corte bem raso: Como em guilhotina O Sol no ocaso. Que monotonia! A vida acontece… Katmandu.

Ondulando. Em ambiente mais terno. Quando a chuva dava início: O Palácio das Monções. Dos dias. No cume dum precipício. Vivia em salas com eco: No seu Palácio d’Inverno. O ouro faz qualquer mago: E um Palácio de Verão… Com o seu olhar dormente. afinal. E como fosse mortal. tal marés D’oceanos violentos: Mandou fazer. Anéis em dedos flácidos. Nos dias de tempo seco. Indiferentes desenhavam Outro Palácio p’ro Vento! Katmandu. Mandava entrar muita gente No seu Palácio das Festas. Entre pilhas de madeira Também ardeu. feito em grés. P’ra que a vida lhe perdure Vivia em cinco palácios. Em cochins de longas sestas. a quantidade.O Palácio das Monções O Rajá de Udaipur. Num movimento de mão. 6 de Fevereiro de 1987 225 . o destino dá. Mas o pobre do Rajá Esquecera a mortalidade. Fez uma ilha e um lago. Enquanto quis a fogueira… As cinzas quando voavam. O seu Palácio dos Ventos. Sobre o Ganges sonolento. Porém. Entre águias e falcões.

A chibata de cana e a cana do açúcar. por momentos. «A árvore seca e a vela panda». vieste. com naturalidade.A Poesia Como gota de água que transborda o rio. que permite o atravessar duma rua. Como aberta em tarde de chuva. A água e a evaporação. esconde o Sol. Job e Salomão. A casca e o fruto. como sempre acontece. O absoluto D. Abel e Caim. sem termos marcado encontro. 226 . O gelo e o fogo. quando a seca já fazia desesperar. com mutações. A casa e o relento. no momento certo. O átomo. de novo procurar-me. Como lenço molhado que refresca a fronte febril. como se o Tempo tivesse parado em Roma e tudo até aqui fosse apenas previsão do futuro em antecipação científica. O sol e a sombra. para os olhos dos sedentários. O rochedo e a espuma. És: O vinagre e o mel. A paz e a guerra. de banda desenhada. O choro e o riso. Cristo e Barrabás. És o relógio com numeração romana no mostrador. companheira de todos os dias. A cara e o cunho da moeda. Tal nuvem que. És o milagre da paisagem. Quixote e Cid. para alívio dos nómadas perdidos em deserto escaldante. O nada.

Tu que vieste. És. Com a naturalidade da criança vinda da escola e que abra a porta de casa. ainda antes de haver mapas. como gota de água de súbito caída duma estalactite e que de repente tenha revelado que pode chover também debaixo da terra! Entre Delhi e Goa. Que és a caravela de Quinhentos. Tu que és. o adiar do medo da morte. antes de lermos o remetente. Que és o ano-luz. em folha de cartolina que se desdobra infinitamente mas que eu agora dobro e levo debaixo do braço para a caminhada que faço contigo. roído na ponta e és o perfume que as laranjas da infância deixavam nos dedos. o primeiro dia da Criação e a certeza de que o último dia de todos será a véspera de qualquer coisa. sem encontro ou local marcado. no lugar certo e no momento exacto. sempre. entre as marcas de tinta escolar que se tirava dum tinteiro e as manchas brancas do áspero giz que às vezes emitia sons agudos. o sonho lunar e extra-sideral. talvez. É assim que tens o sabor do lápis Johann Faber n. ao riscar a ardósia da parede da aula. minha companheira de todos os dias. Tu que és o muro de pedra solta. Tu que és o chegar da carta que traz. de palavras e frases. procurar-me. o levantar do remo para a remada seguinte. Vieste de novo procurar-me. pontual e com naturalidade. um selo desconhecido que obriga a olhá-lo primeiro. 8 de Fevereiro de 1987 227 . Tudo o que és.º 2. também. ainda. afinal. Tu que és a carta celeste. sabendo que no dia seguinte será o primeiro dia de férias grandes.Tu que és. Que és sempre a próxima onda. tudo o que nunca me teria ocorrido. sobretudo. bissexto. para que tenhas mais demora entre nós. se não tivesses vindo.

Em socalcos. Por quem todos nós Esperamos. sequer. afinal.Fortaleza dos Reis Magos Goa: Tuas praias. 11 de Fevereiro de 1987 228 . A todo o momento. os rebanhos E onde seja possível. Onde não faltam. Com rochosas arribas. A chegada dos Três Reis Magos. Lembram um presépio. Com palmeiras em escadaria. a vida inteira! Goa.

por obra dos anjos rebeldes. as pombas fugiam em revoada. face à prepotência das correntes invernosas? Fosse como fosse. como ribombar de canhões em paisagem outrora calma. ia à tona do rio. 4 Com o cuidado que se leva a ave ferida. assim devia a vida levar-nos… 5 O Arco-íris é o guache dos deuses. os ponteiros do relógio são a ponte suspensa. neste dia invernoso. lembrando o avançar dum exército em guerra. 229 . como se o campanário. E neste vale de luz e escuridão. eu vi uma flor à flor das águas e isso basta. Promessa de Primavera ou abdicação dos dias verdes. Que a trovoada a imite. 2 Do Oriente: o dia. Que a chuva aprenda com ela a não tamborilar nas vidraças. Tu és de carne. envolvendo agora tudo em volta. 6 Uma flor. como cavalo-marinho do soldado que ocupa o metro quadrado que nos cabe para a sombra que o nosso corpo projecta. 3 Sempre que o sino tocava. 7 Com que silêncio caiu a neve durante a noite. subitamente se tornasse numa carreira de tiro. não estilhaçando a calma do céu.As Formigas na Neve 1 Os santos de pedra. Que o vento lhe siga as pisadas e não chicoteie o arvoredo. Que diferença que há entre as divindades. O Poente arrasta a noite consigo.

coberto de neve. escorre para taças de traço rude. Pode. ao cair sem ruído. afinal. ser avalanche ou cascata. para inutilmente tentar perpetuar uma presença que é tão passageira. albergam gotas de água onde a identidade que querem representar fica afogada em lágrimas de saudade… A chaga aberta de resina dos pinheiros. Com que degraus imensos de gelo decorre a ascensão e queda da neve que parecia ser tão simples. 8 A neve vem como a poeira no vento: espalhando-se em leque. gravados nos troncos das árvores. reincarna em água. depois de acabada. gritava que era o arvoredo das formigas. no Inverno escorrem água como se de sangue se tratasse. esculpidos a canivete no arvoredo. Pode. tudo agora. não magoa os olhos mas pára todos os pensamentos de momento e o olhar fica quase magoado pela pouca utilidade que tem nessa altura. Os nomes próprios. como o abrir de penas duma ave rara. tornar-se em vapor e ser nuvem. 230 . 10 Os corações. ao contrário do pó. 9 A neve. é como se de súbito um manto de esquecimento tenha caído sobre o Mundo e sobre as marcas que o Homem teima em deixar sobre todas as coisas. sangrados em vida. 11 Que pintura rupestre faz o musgo no muro em ruínas… que medo da vida o pintou? 12 Só o trevo. no outro extremo da escala.Que a gente aprenda com ela a não pesar nos nossos sonhos. Porém. onde uma gota de neve somente já parece transbordar o vasilhame. Porém. levada ao extremo de degelo. antes do nevão. onde egoisticamente queremos estar presentes.

a neve e as formigas só diferem na cor! Índia. E a paisagem ficava feliz por dar por isso… 15 É o Infinito. Cada momento na sua altura. assim. 16 Perante o Universo sem tamanho. Depois havia toda uma hora para de novo se tornar branco. como se fosse um relógio de neve em imitação a um relógio de sol. França e Inglaterra. Pontualmente ia o sino mudando de cor. Cada lágrima a seu tempo. Olhemos. remetendo-o para a sua nudez. 14 Sempre que o sino tocava. o arco do triunfo dos que sonham. a neve que o revestia tombava do bronze. cada coisa de sua vez.13 Tão pouca coisa cabe nos nossos olhos. Talvez assim as imagens sejam verdadeiras. Janeiro e Fevereiro de 1987 231 .

Que a luz da Lua recorte Nos vitrais dos parapeitos.Embalagem Perdida Porque me falas de morte Se de vida somos feitos? Se somos bobos da corte Somos um Príncipe Consorte. Se às vezes é blasfémia Não passa de alma gémea: Pois sem morte não há vida! Que mal nos faz a leucemia Nesta embalagem perdida? Somos restos de luar Vindos da noite passada. Que troféus que tem a caça Feitos de peles e de penas. A noite que tapa o dia. Que troféus que tem a caça Feitos de peles e de penas! Que mal nos faz a leucemia Nesta embalagem perdida? A morte também é fêmea. Somos restos de luar Vindos da noite passada. Fala-me em bustos clássicos Que nos recantos plácidos Parecem rostos flácidos ‘scondidos entre a folhagem. 232 . Porque me falas de morte Se de vida somos feitos? Não venhas falar de ácidos Que corroem tua imagem. A onda que esconde a onda. A sangue o que ele nos escreve Da morte até à nascença! É o sangue que prescreve O final duma sentença. Também a vida esvoaça. A voz que canta na monda. Na manhã de chumbo baça Sobre a névoa de mordaça Onde morrem açucenas. Tudo muda de lugar… Somos a roupa a secar Qu’alguém vai depois usar Ao senti-la bem lavada. A onda que esconde a onda A noite que tapa o dia. Como fosse um almocreve Tantas voltas que descreve. É o sangue que prescreve O final duma sentença. Não venhas falar de ácidos Que corroem tua imagem. A foice semi-redonda Em meia-lua que esconda A Lua-Cheia que enchia.

afinal? Ah! Quem pudesse dizê-lo! Londres.O que somos. Reproduzido em espiral Neste Espaço Sideral Suspenso por um cabelo! O que somos. afinal? Ah! Quem pudesse sabê-lo! Somos apenas sinal. 13 de Janeiro de 1988 233 .

Boda em Caná. Vinho da cor Que o sangue dá! 234 . Mas quem decide Bem na verdade? Lagos sagrados. Vêm pastores De vestes brancas. (Bolos-de-Rei De passas cruas: Serão anéis Destas mãos nuas?) Vieram anjos. Púlpito. E este estábulo Feito em croquis: Dará retábulo De Rei David! E vão-se as dores Fecham-se as ancas. Os olhares vagos… Vêm camelos Com os Reis Magos. Voz no deserto Mas quem a escuta? Outra voz estranha À multidão Se da Montanha Desce um Sermão… Monte Thabor. Sem ver ninguém Parindo só! Junto ao jumento Um boi deitado. Vem a fogueira Da Inquisição… Mas. Imensidão… Os baptizados No Rio Jordão… Que passa perto Em terra inculta. E os arcanjos Ameaçadores! Longos cabelos. Rogo.Trinta Dinheiros A Virgem Mãe Mordendo o pó. Parto ao luar — Como animais! — A anunciar Coisas brutais. Seres voadores. Se entra o vento Fica abafado. porém. antes Vivem em tumbas Os emigrantes Das catacumbas… Nasce e divide A Humanidade. Cruzadas tantas Marcas de fogo Das Guerras Santas! Tanta cegueira E submissão.

Fica em relevo Gota perfeita Já sonha o trevo Uma colheita! Como convém: Vai morrer só! Jerusalém e Jericó… Rei num momento: Entrou montado Sobre um jumento Desengonçado… Lagos judeus E uma canoa… César ou Deus? Ou rei sem coroa? Quem nos dirige Na nossa queda Tem a efígie Numa moeda. Pois grava a areia Os pés romanos. 12 de Agosto de 1988 235 . Quem vai contar Como cresceste? Nasceste Deus Entre animais Estás nos museus E nos vitrais! Que claridade Em vidro fosco Quando a verdade Nasce connosco! Madrid.Na Cesareia Há outros amos. As oliveiras Tão seculares São carpideiras Se tu chorares. E fica aquém Do Santo Lenho: Jerusalém Que é um desenho. Sua planta Crescer ao luar Cidade Santa Este lugar! Calor na tarde Que o vento quebre? O Judas arde Tremendo em febre. Tudo resume A pagamentos… Mas Deus tem lume Nos Mandamentos! Só um senhor Podes servir: Era melhor Poder partir… Morres ao ar Como nasceste. Nas trevas cobrem Vulto sagrado «Filho do Homem» Crucificado! Não há regresso Já nesta altura… O suor espesso Cai na verdura. 15 de Março de 1988 Londres.

Vive comigo Familiar Fala contigo Em meu lugar.Duplo Quem por mim escreve Pensa por mim? De mim se serve? Mas com que fim? Duplicidade Ou ilusão? Mas unidade No coração! Quem de mim viva Não me socorre. Bicho-da-seda Nos fios da mão: Quem me conceda Compreensão. Paredes-meias Que vizinhança Corre nas veias E não me cansa! Linha da vida — E outras linhas — Indefinida Nestas mãos minhas. Se me desdigo Logo se cala Trago comigo Quem por mim fala. Só me cativa E em mim morre. Eco da voz Sem vibração… Rimo ou não rimo Conforme entoo Não me domino E então voo. Escrevo e da escrita Serei proscrito? Em mim quem grita Dobra o meu grito! Se me transponho Eu sou osmose Baba de sonho Metamorfose. Viver a sós Que sonho vão. Desta maneira Está no que escrevo Que trepadeira Feita de trevo Musgo rasante Em muro velho Meu habitante Como num espelho! Que precipício Onde me testo: Diz-me o início E eu escrevo o resto! 236 .

16-19 de Março de 1988 Londres. 11 de Agosto de 1988 237 . 15 de Março de 1988 Avião Madrid-Paris. 16 de Março de 1988 Paris.De mim se serve? Serve-me a mim? Quem por mim escreve É escravo assim! Madrid.

Trago o que trago. Não trago armas Levanto os braços É Veranasi. Paris. Mares de Sargaços. Colher lilases Apetecidos… No ar há gases Desconhecidos. Numa sertã Faz-se a sangria… Quem duvidar Que me confirme: Histórias do mar Em terra firme! Maturidade? Sobra o engenho? Estranho a cidade Porque sou estranho! Avião Madrid-Paris. À melancia. Fecham as asas As aves feridas Dentro das casas Desconhecidas. Como almocreve Pelos caminhos Nem sei quem escreve Meus pergaminhos. Estranho a cidade Porque sou estranho. O andamento Passo e se passo Passei no vento. Sombras de cobre Dum sol dourado Se chego pobre Parto abastado. Romas e Parmas. Katmandu Ou seja Fez A alma a nu Mais uma vez. Frio da manhã Sol ao meio-dia… Sonhamos lã Na noite fria. Vem o luar Em quatro fases… Vou ao lugar Onde me trazes. 16 de Março de 1988. 16-19 de Março de 1988. Marco compasso. Cidades Santas Tantos oásis A páginas tantas… Depois há Meca Multidão junta A boca seca Tanta pergunta Mal sem remédios Neste meu mal Por entre prédios Há vendaval. O que me deram? Depois naufrago No que disseram. Cheira a avelã. Londres. 11 de Agosto de 1988 238 .Almocreve das Palavras Meia verdade Pois mais não tenho.

Começo de ruga. Pois que tem de ser… A fonte: o tinteiro Onde vou beber… Palavras distintas Diferenciadas Paletas de tintas De cores carregadas. Sou introvertido Por um reflexo E tiro partido Só do outro sexo! Um monte-de-vénus Que seara ao vento Que barco de remos Em mar sonolento. Não pouso na mão.Divisão das Espécies Formiga em carreiro. A cara engelhada… Talvez sanguessuga De água parada. Não serei aranha Pois detesto a rede… E temo as grilhetas Das asas pregadas Dessas borboletas Bem coleccionadas. Quem fez o meu traço Mas que desabono! Sou folha com espaço Mas só no Outono! Bicho do deserto E duna distante D’areia coberto Por céu sufocante. Já estarei ausente Talvez amanhã… Hoje sou serpente E mordo a maçã! Sou bicho da lenha E morro de sede. Ave migradora Voo em solidão Calada ou canora Conforme a razão… Quando o sol desponta. Um ralo ao luar E talvez hiberne Num urso polar. 239 . Manhã colorida: Sou bicho-de-conta Desenrolo a vida! Não quero falcoeiro. Quero o céu inteiro Para sim ou não! Mas que espada nua De feitos e factos. Louva-a-deus na tarde Voando aos soluços… Quem sabe se um verme. Peixe em liberdade Se nadar de bruços.

Serei um molusco Feito de borracha. Serei ave rara No nosso aviário? Mas tudo o que amo Há quem o deteste. Fracção ou quebrado. 17 de Março de 1988. Sou grilo campestre. É este o meu fim… Seria pior Se eu não fosse assim… Paris. Quem sabe. A transposição Que a morte dará! Seja como for. Que versos que tanjo — Mas que notas vasas — Eu seria um anjo Se tivesse asas? Eu canto o que canto. 11 de Agosto de 1988 240 . Que espécie secreta Quase em extinção! Eu ou dou a cara Ou sou refractário. Um erro de teste? Um bicho silvestre. Paro se alguém escuta… Mas não espero louros Pois tudo me esquece. um insecto.As fases da lua Comandam-me os actos. Basta um metro de ar. Um invertebrado… Minha lei decreta O ter coração. Assim. Ser incompleto. Só suor nos poros Se este tempo aquece… Talvez a razão De tudo o que há. por enquanto Posso respirar… Para que a Poesia A mim não me deixe Eu guelras teria E seria um peixe! De modo nenhum Em mim não esmorece É sangue comum Duma certa espécie! De fraco músculo Onde nada encaixa. Londres. Só serei engano. Canto sem batuta.

Arpéus e fateixas. Quero dar à costa Como fosse lastro. Badernas. Ferros. Quem ganha a regata? Quem menos demore! Coxins e falcaças. A Ursa Menor! Lisboa. O mastro maior. O vaivém do vento. as vigias E as sobrequilhas Meias melancias… O mar de quem gosta Faz vela e faz mastro. Gatas e adriças. A noite é um barco. Dormentes. Brisa e sobressalto E as acalmias Cercando o mar alto. 30 de Abril de 1988 241 . Se no sono embarco Há por mim quem reme… Quem ganha a regata? Quem menos demore! O mastro da gata. Mastro da mezena… Tudo em ponto morto Quando há quarentena Adiando o porto. Os vaus. dobradiças. botões.Navegação Nocturna O mastro da gata. escotilhas. Os nãos e as deixas… As vergas e velas. As velas são escassas Se sopram tufões. As ilhas de estrelas Que há no Firmamento. O sonho é o leme. O estais do galope E outros estais. Rasgam envelope Notícias fatais… Os nós e as espias.

Vi o rio da despedida Onde os lenços são bandeiras. Com raízes ao contrário Vi plantas aquosas.London Sight-Seeing Vi a estátua dum dragão E. No fundo deste aquário De serpentes venenosas. Vi outros monstros marinhos. Ouvi a voz sem medida Do choro das carpideiras. com a cor do estragão. de pedra. Tomei o peso ao império Que perdeu o seu suporte Quando tomou um ar sério O pobre bobo da corte! Com o tempo corroído Pelas chuvas. Londres. pelos ventos. Fica tudo resumido Às pedras dos monumentos. vi golfinhos E. Vi reis feitos de basalto E rainhas de granito. 6 de Maio de 1988 242 . Vi pegadas no asfalto? Como o medo faz o mito! Vi aves embalsamadas De olhos embaciados E estátuas decapitadas De príncipes já exilados.

11 de Junho de 1988 243 . Como pode o ano ter só doze meses Se mais de cem eu deixo por contar?! Cem anos passam breves. meu amor. tantas vezes. amor. amor. Contarei até cem e volto ao zero — É bom à nossa casa regressar! — Filho pródigo sou! Assim me quero! Embora sem ninguém p’ra me esperar! Lisboa. Na História são os séculos a rodar. ao acordar. Não chego ao fim… Os Romanos punham letras a contar… Os números são um rio dentro de mim Se te procuro. Voltando à superfície em cada vez. O zero sempre deixo em meu lugar Nas praias em que estou e que não vês. sem te encontrar. mais de cem vezes Cem vezes te lembrei. Desejei-te. sem respirar. Elefantes que se deixaram esmagar. amor. Serpentes nos olhares cartagineses.Perdido por Cem Conto até cem. Conto até cem.

são o pior… Dom Quixote que vê no Sol a pino Tudo o que a noite tem em seu redor! Londres. Sou a voz do silêncio que discursa. sendo um bem. Nas estrelas sou distância. Eu. 30 de Julho de 1988 244 .Ursa Maior Serei somente e sempre como eu sou E não aquilo que outros de mim querem. Que caminhos sem andar já percorri. Os sonhos. pobre peregrino da Grande Ursa… Caminhos do Diabo ou do Céu? Sou ilha só com sonhos em redor! Desvendo a noite toda. Sou búzio: choro o mar que em mim secou Nos cedros canto o vento que me derem. feita breu. Mas os nomes das estrelas sei de cor! Os sonhos que de dia me alimentam — Que farinha de pão mal amassado —: A força da razão em mim exp’rimentam Talvez por me encontrar bem acordado! Sou dono de mim próprio e do destino. estando aqui.

Que fizeram. Mas parecia que ainda respirava. Senhor. em ruínas. Tal é a sede enorme desta hora! Cada um tem uma Estrada de Damasco Onde Cristo o encontra ou ignora! Londres. 31 de Julho de 1988 245 . Teu sangue. dava suor e dava sede O Cristo que ali mesmo agonizava. na capela? Jesus: Jerusalém o que nos esconde? Judeia: tem caminhos sinuosos… Procuro tua voz: ninguém responde E deixas-me os meus dias duvidosos.Estrada de Damasco Estava Cristo em pedra na parede. nem tem telhas E o asno e o boi só servem para abate. Porque adiamos nós o nosso encontro? Será por ser ateu e em Ti não creia? Será por eu ainda não estar pronto P’ro vinho e para o pão da tua ceia? O Dilúvio caberia num só frasco. Dava dó. sei lá donde. até lacra A pedra como fosse flanela… Será a tua voz música sacra Saída. de tão espesso. tuas ovelhas Que em vez de ser rebanho são combate? O Presépio.

Veneno Se nós morremos à míngua Duma carícia qualquer. 9 de Agosto de 1988 246 . O amor em qualquer língua Traz um nome de mulher. O amor também é roubo Quando há um travesseiro. É porta que fica aberta À espera da nossa mão. Vestimos a pele do lobo E fazemos de cordeiro! Se nós morremos à míngua Dum olhar ou dum aceno: Quanta vez a nossa língua Muda o gosto do veneno. Londres. Já traz a Lua esbatida Bem fora do nosso alcance. Quando somos pela certa Qualquer sombra de ladrão. Já traz noite prometida Em alcova de romance.

Tudo o que pises N’almofarizes Não vai crescer… Não hostilizes Mesmo sem querer: Só há juízes No que tu dizes Tu irás ver! Contabilizes O teu viver E não há crises Pois que tu vives Teu «Deve-Haver»! Londres. 13 de Agosto de 1988 247 .Dizer por Dizer Dizes: desdizes Só por dizer… Se contradizes Crescem raízes Sem florescer… Cores e matizes Por preencher: Os aprendizes Gastam vernizes Para aprender… Tu não avises Quem vai morrer.

O urso polar. Já ajoelhados E de arma à cara. É caçar baleias. Matar por matar Apenas por gosto… E sem plantar Só saber queimar Deixar fogo posto! A destruição É o nosso lema Venha a poluição O mundo é prisão. Matar sem perdão Demente e profana. Que não fique nada Terra calcinada E quanto mais cedo! Ó rios poluídos: O lixo vos tape! Nós somos ruídos Só temos sentidos Nos gases dum escape! 248 . Somos alquimistas! Que estranha cultura Funde na retorta Que cor de tintura Tem nossa pintura: Natureza-morta. Arda o arvoredo. Os nossos inícios São acidentados: Só há desperdícios Nos nossos indícios Já meio apagados.A Última Caçada A última bala Já está na culatra. É ovo sem gema! Seca a floresta. É reformular Noção de Beleza. Já se baixa a fala… A última bala Tem de ser de prata. Em pleno abate A morte é a festa Tão pouco que resta Neste xeque-mate. A terra queimar E a água secar. Depois afogar Nos poços de ar Toda a natureza! Depois é queimada. Na morte se fecha Como na coutada Dispara a flecha Mas a caça deixa Toda abandonada. Olhos tão vidrados E obcecados Só de quem dispara! Minha geração Renega Diana: Caçar sem razão. Com paredes-meias Serão as sereias Das histórias do mar… Águia pirenaica… Também os castores… Com cultura arcaica Tem força voltaica Dos seus geradores! Vamos liquidar Os ecologistas.

Cheiro a alcatrão Inda fumegante. São limas de quinas Onde as cocaínas Se moem sem medo. A ponta de lança O ponto final É bala mortal Fiel da balança! Vai ser a baioneta Nossa arma branca Casa obsoleta. Cofre de segredo. Batalhas. O diesel dos expressos Que óleos pesados! Venenos-confessos Viscosos e espessos Por nós respirados! Lixo nuclear Levado em marmitas. refregas: Por mais poluição… Mas onde te entregas É nas marés negras Banho de imersão. A parede é preta A porta não tranca. Enxofre à mistura Esgoto-corredor Andando em redor Da nossa cintura! Relevo das vulvas Mordente em elipse… Estrangulam as luvas Das ácidas chuvas: É o Apocalipse! Vai ser a punhal. Almoço e jantar Nada vai sobrar Para os parasitas! Banhos de vapor. Esta cega-rega No fundo dum poço É a cabra-cega: A lama já chega Até ao pescoço! É tenor? Contralto? Será orfeão? Ardendo o asfalto — Que já foi basalto — Já não há mais chão… Vamos ocultar. A nossa ração A alimentação Mais repugnante! As nossas narinas. O sol e o luar Vamos exterminar As últimas espécies! Não há prisioneiros! Feridos? À coronhada! Somos bons negreiros Formiga em carreiros Faz caça danada! As mães são bastardas. Os filhos perversos Cantem as ‘spingardas E enviem guardas A quem faça versos! 249 . O caixão é fórmica Dará mais nas vistas E a pilha atómica Será filarmónica Na mão dos artistas. Tu jamais esqueces.

Mas que planeta Da grande ameaça E há quem já meta O bebé-proveta Dentro da vidraça! O seu enxoval É feito de vidro. 15 de Agosto de 1988 250 . Bebé de cristal: Se tu caíres mal Ficarás partido! Dobrar o joelho… O gatilho lento… Estilhaçar o espelho Onde um escaravelho Rebola um excremento! Londres.

As paredes de vidro são prisões! E se houver Deus. Aquário talvez seja isto tudo.Lente de Aumentar Só de noite o mundo é verdadeiro No perfume das tílias e limões. ficará mudo Como Cristo ao morrer entre ladrões! Lisboa. Nem o escravo se sente prisioneiro Ao ter por tecto só constelações… O céu é toda a força que nos resta Nesta coutada de homens dominados: Não passa duma grande floresta Com Ursas e Centauros desenhados… É uma Virgem. Enquanto outra galáxia já avança — Saber-se lá porquê — por todo o Espaço… Que deusas e pastores andam no céu… Pastagens infinitas dão caçadas! Balança da justiça? Mas sem réu As grades estão há muito destroçadas. mais os pratos da Balança E o Caçador sem lança e sem ter laço. meu Deus. 10 de Dezembro de 1988 251 .

Velha serpente do mar Ao nosso corpo se cola E há sereias a cantar Nos seixos que o mar enrola… Arribas e precipícios E marés em remoínhos. Na mesa de cabeceira Temos a luz dum farol.Tecelões Nossos nervos são um feixe. O sono não dá por nada Os limos são sumaúma! O destino por fronteira As unhas feitas anzol. mas vestimos O enxoval das marés: Tecelões d’algas e limos No berço d’algum convés! Lisboa. Novelo de cordoaria… Nós temos olhos de peixe Perfume da maresia… Epiderme toda em escamas Sem que a pele se nos retraia E fazemos nossas camas Na areia de qualquer praia… Um rochedo é uma almofada Feita no linho da espuma. 11 de Dezembro de 1988 252 . Pescadores de sete ofícios De espadartes e golfinhos… Nascemos nus.

perguntamos: Quem nos pôs aqui. mas estão fechadas. Mas haverá ainda outra ramagem? Se houver. Que palavras nos são assim veladas À fala que a tudo nos responda? Mais bocas haverá. Talvez a solução aí se esconda… Serás ainda Tu que desejamos Ter bem a nosso lado. vulnerável. neste lugar? Mas chegámos. que vento há a estremecê-la? Se apenas houver chumbo na paisagem Derrete no calor dalguma estrela! Soldadinhos de chumbo em regimento Que na concha da mão dum deus sereno. Em constante fusão no firmamento Moldou um batalhão que é tão pequeno! Que sargento-ajudante nos conduz? Que chaves há na mão do despenseiro? 253 . assim o céu queimavam Sem saber que criavam teoremas.Soldadinhos de Chumbo Será ainda por ti que procuramos Quando a morte um dia nos levar… Vivemos. Perguntar-Te e saber se respiramos O ar que a outros seja irrespirável. As estrelas já cá estavam. Talvez sem os nossos problemas. Indiferentes. Se vivemos.

Tu estavas já aqui quando chegámos No medo que nos gela o coração. Soprada.Buracos negros há que comem luz Tão negra como o fundo dos tinteiros! Tanta pergunta há e não respondes! Decerto não será por timidez… Se tens a solução no que nos escondes É golpe baixo em jogo de xadrez! A falar com o medo: nós oramos… Que bichos que nós somos. sendo gente! É ainda por Ti que perguntamos Se um dia Te disseres Inexistente! Que sais em suspensão. Paris. outros tantos mandamentos? A Fé será a vela larga e panda. 8 de Fevereiro de 1989 Londres. que cortiços doutro mel! O Homem é a soma dos hidratos. mas por que ventos! Se o Espaço fica ao fundo dalgum beco. Os poros são os favos nesta pele! Zangão. sem saber. Dez dedos. será o Deus que nos comanda. Chegar ao seu limite: decepção! É voz! É tanta a voz e nenhum eco! E se acaso a voz de Deus for o trovão?! Será por Ti ainda que chamámos Mesmo se fores mentira e sem razão. que carbonatos. Que abelhas. 9 de Julho de 1989 254 .

Lisboa. Que dias medonhos A tua almofada Não sonha os meus sonhos! O ferreiro. A esponja de fel A boca nos abre. raízes. Os olhos enxutos O relógio d’água Afoga os minutos! O Tempo é ração No nosso deserto Quando o coração É relógio aberto. Torre de Babel De gosto a vinagre. 9 de Março de 1989 255 . Barro refractário Arde sem estalar. a frágua.Relógio de Água O mel das abelhas E os escaravelhos… As casas são velhas Se há telhados velhos! Olhar de aquário No vidro do mar. No Tempo a crescer… Há outros países Ao anoitecer? Relógio de areia… A clepsidra… Silvos de sereia E os olhos da Hidra… As fases da Lua… O dobrar do sino… E a espada nua Do nosso destino! Se Deus for Além Em quem acredito? Se conto até cem Que tempo debito? Tudo é tempo ou nada. Relógios. Há um contador Que não qu’remos ver Nesse mostrador Que é um malmequer… Na raiz distante Dalgum girassol: Relógio gigante Lembrando um farol.

a letra perdura O som do dobre do sino. (O V também me recorda O jardim que há no teu ventre…) Na pedra. O F a forca nos traz Quando as tintas são mais pretas. 4 de Abril de 1989 256 . Por ordem de Satanás É o carrasco das letras! Corpo suspenso na corda: Letra I que nisto entre.Caracteres Ilegíveis Decorreu um quase nada Entre a colheita e o verde… O Z é curva da estrada Onde o silêncio se perde… Será o S serpente? O zero seria o ovo? E o V é a vertente De vale aberto de novo. Paris. Entre o gelo e a fogueira Corre a vida. É o C a ferradura Desse corcel do Destino. É o campo que me lavras! Abecedário é pegada No deserto das palavras. O T será o telheiro O abrigo do portal? Será o P o pinheiro Decepado em vendaval? Lembrará o B os seios E colinas entre as casas? Nós somos pombos-correios A quem cortaram as asas! Se falas: noite rasgada. quem diria? O H faz de barreira Para a nossa correria.

Jantar de Família Havia amêndoas torradas E as passas de Corinto. Os primos já militares As primas quase mulheres… Cabiam todos em volta: Recordação fotográfica. As faces afogueadas Por sombras do vinho tinto… Como cheirava a canela A tangerina e baunilha! E nos vidros da janela A fumo de cigarrilha… Aguardente à sobremesa — Antes: sopa. Como fosse um condenado Marcado a flor-de-lis Os gestos familiares No tilintar dos talheres. Por desenho em cicatriz. Havia risos à solta E o tio que vinha d’África. carne — E uma gravura francesa Fala em Batalha do Marne. Havia a velha criada — Mais nova do que se pensa — E roubos de marmelada: «O tesouro da despensa»… Leite de creme queimado. peixe. A prenda do Bolo-rei E que acabava em batalha… (A fava da mesma lei Mas reverso da medalha…) É lava o queijo da serra… Sussurra-se um suicídio… Lembranças da Grande Guerra E também do Regicídio… As claras em castelo Noite branca e submersa… Dois anéis do teu cabelo Mais dois dedos de conversa. por destino secreto Já era recém-casada! — 257 . No dirás e não dirás Gastam-se noites inteiras E dois sulcos de lilás No outro dia: as olheiras… Havia o tio predilecto E a prima desejada — Que.

Entre o que era e não era O sonho fundia em brasa Nos umbrais da Primavera Dos portais da minha casa! O lugar do meu avô É um trono de vaivém E nele. Não o pedi a ninguém! Sabe a leite condensado A saudade por requinte! Além de haver o Passado. Havia o dia seguinte… Lisboa.Família: paredes-meias. Meias palavras na sala… O mesmo sangue nas veias As mesmas histórias na fala. 23 de Maio de 1989 258 . se hoje estou.

259 . De visão adormecida. Ainda à morte ligado Como a mãe nos liga à vida… Ir à Gruta dos Pastores. dourada ou anta Cor de sangue carregado! Rezar aos santos vulgares — Que os há por todo o lado! — Hei-de ir aos Santos Lugares E aos lugares de pecado. Ter perfumes da Judeia Por Piedosa Mulher… Lázaro ressuscitado. sem um gesto. Ir ao Poço de Jacob E ver se a Samaritana Mata a sede a quem vem só Ou se a toda a caravana… Tudo sem abstinência. Ver José d’Arimateia Num vulto doutro qualquer. Que tudo seja secreto. Ir à Casa de Maria Aos caminhos dos Reis Magos. Pois não choro a minha casa Em algures na Palestina! Vou de pedras na algibeira: Armas brancas de defesa. Ter Fé pela inteligência E não pelo coração! Sinal da cruz. Subir também ao Calvário (Mas à força de motores Dalgum carro utilitário…) Sem rumor de profecia: Ao mais sagrado dos lagos.Peregrino Acidental Eu hei-de ir à Terra Santa E ao Sepulcro Sagrado: Catedral. Tudo só pela Razão. O Destino por fronteira E a Fé por: incerteza. O hotel? O mais modesto Cinco estrelas por decreto! Ser cristão pelo Baptismo? Não chega o gosto do sal! Só há Fé por magnetismo. Só por morte natural! Irei à Faixa de Gaza Que é mapa de cartolina.

14 e 15 de Julho de 1989 260 . o pó Das estradas da Galileia. Irmão mais velho e amado Mas que morreu sem algemas! Não aos dias de Jejum! Ao corpo flagelado! Eu quero Deus e se houver um É Cristo ressuscitado! Cada qual esconda o seu acto De crer em Deus ou em nada: Seja a Fé anonimato Que nunca seja Cruzada! Londres. Sentir a cruz carregada Sem maldizer meu destino! Ver Cristo aonde Ele está: Entre um beijo e um algoz… (Quem nos diz se viverá Apenas dentro de nós?) Com Jesus Crucificado Em fundo nos meus poemas. Quem semeia ignorância Colhe flores de pecado! Hei-de ir à Terra Sagrada Onde areia é ouro fino. Pressentir: Pôncio Pilatos Como fosse abstinência… Ir aos pomos da discórdia Bem na Terra Prometida: Ver a pomba da concórdia Numa oliveira abatida! Aos Muros de Jericó… Restos da Última Ceia… Sentir as pedras. Sentir correr o Jordão.A Vaca e Touro Sagrado… Não verei do Norte a rena Mas o corpo apedrejado De Maria Madalena… Se há flores. intolerância: Receitas de obcecado. Foram só uma maneira D’haver Vendilhões no Templo! Silêncio. E se Deus for mais além Quem me dará o perdão? Inquisição e Fogueira Nunca serviram de exemplo. também há cactos Numa santa convivência. Hei-de ir ver Jerusalém.

Quando meus olhos atingem Um cume semi-escalado. Que pesadelos marinhos Povoam o coração! Que sensação de vertigem Ou de ar mal respirado. Nas profundezas marinhas Os olhos ficam abertos: Vejo searas e vinhas De vinhos não descobertos. sangue magenta. Num céu sempre recusado Ao que seja movimento. Fico na tarde parada Tal sombra que se não olha… Sendo a água desejada. Sou a chuva que não molha… Lisboa. As gaivotas fazem ninhos Mergulhando em precisão. Sonho resina de Chipre Nos troncos. 23 de Agosto de 1989 261 . Andando ao sabor do vento.Marasmo Sou sensação de mergulho — Sem haver profundidade — Corpo feito pedregulho Cativo da Gravidade. Falcão subalimentado. Nado nas águas do Tibre De cor de loba barrenta.

23 de Setembro de 1989 262 . Qualquer deserto é alfombra. Grão de areia majestade Se lhe chamarem Vesúvio… Tudo muda tarde ou cedo.Os Carrascos também Choram Não quando as rosas demoram Ou por não se ouvir o mar: Os carrascos também choram Todos temos de chorar! Se cantam galos n’aurora É só porque tem que ser E se o dia chega à hora Nem sempre é amanhecer… Levas garrotes nos braços Quando segues de mãos postas. «Teria de acontecer»… Até a Nossa Senhora Viu o seu Filho a morrer… Qualquer onda é tempestade. O carrasco até tem medo De pisar a própria sombra… Sonhas gestos de carinho Ao apertar o baraço. Há uma pedra no caminho Sempre para o teu cansaço. Tu desenhas um abraço Se apunhalas pelas costas… É sempre o «fora ou não fora». Tantos medos nos devoram Gente subalimentada! Os carrascos por quem choram? Talvez por um quase-nada! Lisboa. Gota d’orvalho é dilúvio.

Ciclo Infernal Outono-Inverno de 1989 .

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Fundo da Garrafa ou Robinson e Sexta-Feira Jerusalém ou deserto: O embaraço da escolha? Ou livro semiaberto Sem se saber em que folha! Promessas de cinco cravos Sonhos de ressurreição… Romagem de desagravos: O recurso à confissão. Há uma ilha deserta No horizonte sumida. Em letra corrida e safa D’infantil caligrafia. Mas por vezes a maré Traz o nosso Sexta-Feira. Latitude a sudoeste E qualquer meridiano E a pele que um homem veste Tem o fim de qualquer pano… Há o silêncio nocturno. Janela semi-aberta Para a terra prometida… Foram os sonhos d’infância. A explosão da manhã. 18 de Outubro de 1989 265 . Gargalhadas aos histriões! Londres. Mais os anéis de Saturno Em volta duma avelã… Viver à nossa maneira De cumprir nossas missões: Dar o choro à carpideira. Robinson é o que é: Solidão por companheira. As praias desabitadas Que devolvem a distância Das noites tão consteladas… Bem no fundo da garrafa A ilha sem geografia.

O Templo de Deus é nas nossas casas.O Choro e o Riso Debaixo das tílias. electrões. famílias… O choro alimenta a raiz dos cedros Dos que vão saindo debaixo das tílias… Londres. Como dele são as estrelas as servas… — Desdobram a vida as estátuas jacentes Nos gestos esboçados de quem já partiu. Os choros e risos são afluentes Em margens opostas deste mesmo rio. Os cantos das aves são as homilías. são tribos. É sulco na terra? Cicatriz na cara? Relógio de sol: o meio-dia avança Onde alastra a sombra o tempo não pára… Os cubos de sal mais os poliedros. Raízes aéreas são as nossas asas! Debaixo das folhas a sombra descansa. Debaixo dos cedros. debaixo das tílias. Iões. 20 de Outubro de 1989 266 . debaixo dos cedros. Debaixo do céu — de que somos servos. debaixo das ervas. Debaixo da vida.

bem no centro.Guarda da Vinha Todos os sons são diferentes A quem os traz bem escutados: O rastejar das serpentes Não me enche de cuidados… Meio corpo dentro da cova Olhando a noite distante. sangue. Quem faz as leis e os lemas Também gosta de caçar. Nem a noite me redime. Se não matar. Pé firme: espero quem passa Atrás dum muro ou dum buxo. Alvejo bem. É legítima defesa Que me cabe por contrato! Mato tudo o que estremece. Até o sangue me pára Eu sou estátua no momento: Quando meto a arma à cara À espera dum movimento. Não é a forma da Espécie Que dá outro nome ao crime! Londres. Como caçador furtivo Que mata só por matar. penas: — Se há alguém a disparar. 31 de Outubro de 1989 267 . Eu prefiro a Lua Nova Ou o Quarto Minguante… Só não quero a Lua Cheia Que as raízes das videiras Ao espreguiçarem na areia Parecem mulheres inteiras… Também o Quarto-Crescente Ao fazer as luas curvas Faz-me pensar qu’anda gente Em volta das minhas uvas! Carrego balas de sal — Não fosse eu guarda da vinha! — Seja vulto ou animal Mato tudo o que caminha… Mato tudo sem motivo Só me basta disparar. talvez fira… Como a vida cabe dentro De qualquer ponto de mira! Caça grossa ou indefesa É tudo o mesmo retrato. Para mim é tudo caça… Queimo o último cartucho! Aves feridas.

8 de Novembro de 1989 268 . Chega o dia da matança: Nem sai veneno dos frascos Pois que hoje a morte avança Pelos dedos dos carrascos… E a última vontade… O cigarro derradeiro… Nunca houve tanta bondade No olhar do carcereiro… Tudo o que é bom nos acena Em medonho ritual! Só por isto vale a pena Ter a Pena Capital! Londres. Que banquete de vingança Há nos véus de Salomé… Mas seja lá o que seja Toda a morte é natural.Cela da Morte A morte vinda na dança Não deixa ser o que é. — É cabeça na bandeja Por um capricho real… — Os tribunais e os foros São tudo jogo da Bolsa: Rebenta a pele pelos poros Tentar sorte sem ter força! Quem está na Cela da Morte Não tem olhos estremunhados E não há fala que corte O silêncio aos condenados.

O gigante e o gnomo Mesma altura medirão Se em quatro tábuas d’Outono Lhes talharem o caixão… As raízes no Outono Têm calor do Verão. Londres. Mandamentos? Um ao nono — O décimo é conclusão —. despe Outono Seu fato fim-de-estação… Nasce Cristo sem Outono. Morre Jesus sem Verão: C’roas d’espinhos sem trono São os degraus da Paixão. Os troncos são o que são… Não há frutos no Outono.Escorpião Fecham-se os olhos de sono. Sementes que os tempos dão… Para o ano outro Outono P’ra quem sobrar dos que irão… Todo o cão procura o dono Farejando a solidão. Folha a folha despe Outono Seu fato fim-de-estação. Pobres ramos. Às vezes não é do sono Os sonhos que aos olhos dão. abandono. 8 de Novembro de 1989 269 . Às vezes por sugestão. Folha a folha.

O deserto tem colinas e tem verde E nascem-me flores no meio das pedras! Londres. Mas pode o coração bater-me certo Quando do trilho certo eu me afasto! O norte dos teus olhos não me perde: O rumo vem em tudo o que segredas. Oásis! No teu ventre descoberto Na sede que as pegadas dão ao rasto. Meus olhos são apenas teu vestido. 17 de Novembro de 1989 270 . Semicaído aos pés da nossa cama. Teu corpo é o deserto que me chama.Oásis O lençol é o luar desprevenido.

Quero ir pelos caminhos que me derem Um som melhor aos passos. nos teus cabelos. Os gestos de loucura incontroláveis Que o vento dá aos ramos dos pinheiros! Os lírios que de branco não murcharem Serão orvalho. Os lagos que ao sol por fim secarem Reflectem os meus sonhos de castelos. tão perdidos. As chuvas que ameaçam não chegar Nas asas das aves que se ferirem Por dedos que não sabem disparar. Às estrelas que os vindouros descobrirem No céu que muda tudo de lugar. 271 . anéis. O galope dos cavalos indomáveis Nos prados que as manhãs enchem de cheiros.Passos Perdidos Quero ir onde os rios não conseguirem E às praias que a maré nunca alcançar. Quero as rosas que nunca florirem. Se ao eco dos meus passos responderem As dúvidas que trago nos sentidos. se por acaso me mentirem Que preço do silêncio vou pagar! Quero ir onde os rios não conseguirem E às praias que a maré nunca alcançar. Porém.

Além de querer o céu. 17 de Novembro de 1989 272 . As luas que há em Marte e em Urano: Também a gota de água e de suor Que no deserto é sempre um oceano… Londres. Ursa Maior.

dizem que não… Porém. em cada mão — Uns dizem-No depois ressuscitado. a sorrir. 21 de Novembro de 1989 273 . bem cravado. Os outros. sorrir não foi nem é pecado: Assiste a cada qual a solução… É morto Cristo em cruz? Ou libertado? Natal é Sexta-Feira de Paixão… Londres.Missa do Galo Aceita sempre tudo o que for dado — É dado adquirido da razão… — As rosas que servirem ao noivado Também à campa rasa servirão… Por menos foi Jesus crucificado — Um cravo.

Sou como o escravo da sede Que só tem fontes salgadas. Mas sinto-me acompanhado. Olho melhor os pedintes. 24 de Novembro de 1989 274 . A três passos do abismo? Cortando a linha da meta? Eu sinto o sal do Baptismo Mas não sei por que profeta… Recorro a Deus e aos Santos. Já tive melhor ouvido. Alguém me irá responder? Sou como rato sem cantos De casa p’ra me esconder… Sou peixe dentro da rede De traineiras afundadas. Ando mais ao deus-dará. Já tenho rugas na cara. Mas ao vento na seara Dou hoje melhor sentido… Apurei o paladar.Fontes Salgadas Caem dentes das gengivas… O cabelo da cabeça… Mas vou sonhando as ogivas Onde Cristo me apareça. Alguém por mim contará O que me traz confortado? Estou na idade em que Deus Vai exercendo os direitos… Sei de cor a cor dos céus De os olhar dos parapeitos. Melhorei os meus requintes. Sei de cor a cor do mar. Londres.

A minha cama era a farda E o corpo era o colchão… É do tempo das cavernas Esse sono primitivo De quem dorme nas casernas Por não ter outro motivo. Porta d’Armas: o começo Da minha peregrinação… Tanto há que desconheço Do que foi o batalhão… Há alguém que em mim condena O que nunca desertou? Entre o não vale.Miliciano Oficial e faxina! Tudo fizeram de mim. Sapatos de polimento: As botas cheias de graxa. Haverá voz que responda Aos gritos da sentinela? Era o Sargento-Ajudante O meu degrau anterior Na escadaria rolante De Inferior a Superior… Primeiro degrau: o soldado. Dormi na Casa da Guarda. É Dom Quixote e o Sancho Comandando a Companhia. Aos toques do clarim: O primeiro na parada… Alguém chamava por mim Do «Silêncio» à «Alvorada»! Noites e noites na ronda Sob uma Lua amarela. Pisado por toda a gente — O recruta em «arvorado» Já se julgava Tenente! — Pântano: caldo do rancho Onde a comida cabia. Em noite tinta-da-china Papel de lustro carmim… Como em alto dum zimbório Mas sem a cidade aos pés Fui militar provisório Mas de mochila em viés… Regimento em regimento Levei a guia de marcha. Seguindo um velho conselho — Para evitar o percalço — Fiz do calçado o meu espelho Em tropa de pé descalço. Humidade pelo chão. vale a pena O vale que em mim se cavou! Londres. 25 de Novembro de 1989 275 .

Goteja em chuveiro Mas só por momentos. Escorrem paredes. Sangue em bandarilha E touros do Lorca. Tudo em movimento Cavalos-vapor. Que Babel tamanha De todo o sotaque A Guerra de Espanha Com mouros a saque. Moinhos de vento Moendo o suor… Naufrágio sem bóia Longe a salvação: A Espanha de Goya Vem na serração. O Queipo em Sevilha Bretanos: Maiorca. Mineiros em mina De grisu que verte? É um carrossel Vapor a rodar… Vejo a tua pele Sem ela aqui estar. Penso em São Camilo E em Santo Isidro — E margens do Nilo Na porta de vidro. Um morto e um ferido Já em comunhão E mais Santo Isidro De estoque na mão… A ninguém: asilo Ou portas abertas! Pobre São Camilo: Igrejas desertas… Desce a neblina Sobre o corpo inerte. É a vista baça De peixes nas redes. 276 .Banho Turco Tortura de Tântalo O calor previne… É névoa de pântano O ar da cabine… Noite e nevoeiro E mil pensamentos. — No denso vapor Derrete a vontade Dentro do calor Cheio d’humidade. Como caso assente Há muito estudado: O teu corpo ausente Vem para o meu lado. Goteja a vidraça. A névoa adivinha Outra transparência: É cor da farinha Sem ter consistência.

Tendo por telheiro Uma cruz gamada! Filhos d’Israel Mas sem Mar Vermelho Aberto em túnel Por Judeu mais velho! Corpos ilusórios Marcados a giz. Noite de Cristal: Ardem sinagogas! É névoa dos portos Que só dão degredos. Pintura rupestre De traços tão vagos. Papel vegetal E romanas togas. São mais de cem graus Não há ar queimado. Fornos crematórios De monstros nazis. Silêncio dos lagos. Noite e nevoeiro P’ra Raça danada. Seis milhões de mortos Contados pelos dedos. decerto —: O olho-de-boi Aceso no tecto! Londres. Nave angelicana Com ninhos de pombas E raça ariana Debaixo das bombas! Frases calcinadas Quem as desenhou? Palavras queimadas D’alguém que falou! É luz que já foi — De estrela. É calor silvestre. 27 de Novembro de 1989 277 .É clepsidra Gotas de suor Os olhos da Hidra Olhando em redor: Remexe-se o tempo Como em caldeirão De bruxo. que ao vento Amassasse o pão… Escada sem degraus Plano inclinado.

A sede por pesadelo.Século Dezanove Eu seria do Mindelo Estaria dentro do Cerco. Pois há Maria da Fonte… Às vezes a tirania Não acaba em Évoramonte… Fim ao tempo d’imigrado Mas vida por um cabelo… Todo o sonho é conquistado Em areais de Mindelo! Londres. Arcabuz fora da arca E artes de montaria… O medo antes da carga — Como não fosse verdade — Fosse a vida mais amarga Mas sobrasse a liberdade! Caçador fora da linha Sem esperar qu’a ordem parta: A dar vivas à Rainha Que tinha jurado a Carta! Como coração que sangra Pela veia mais aberta: Eu teria vindo d’Angra Ao relento na coberta… Mas não terminava o dia. Pedro o monarca Pelo qual me bateria. 1 de Dezembro de 1989 278 . Trincheira: monte de esterco! Era D.

Mas no céu respondem estrelas Às janelas escancaradas! Dentro de nós. Londres. Há tanto que se esconder: Um Demónio que foi Santo De tanto se arrepender… Crer em Deus só por receio Pode ser uma atitude: Diabo cortado ao meio Talvez a nossa virtude! Cada um.Missa Cantada Depois da missa cantada Só o silêncio responde… Qual a chave da charada Onde a Fé tão bem se esconde? Precipícios e vielas E também ruas fechadas. mas não sei onde. Assistindo por direito À troca d’identidade Mais ao gosto do seu jeito… Como sinal de nascença Cada um bem definido: Fosse a Fé a recompensa Como um bem. 10 de Dezembro de 1989 279 . sua metade. bem conseguido… É como a noite cerrada: Aos ralos ninguém responde… Depois da missa escutada Vejo Deus. no entanto.

Considerando o ponto de partida: A Estrela de Natal é Ocidente! A noite da procura é sempre fria. porém. Londres. A luz da Lua é Sol visto ao contrário… Belém. Cada um tem a estrada à sua frente. Palavras. é outra geografia Atalhos ao Presépio dão Calvário… As estrelas são mensagens desiguais. Não interessam os pontos cardeais Se dizem que Deus nasce nalgum lado.Estrela de Belém De macadame ou de terra batida. 13 de Dezembro de 1989 280 . dialecto desolado.

Erosão Os braços são iguais. As línguas: duas cobras que se enroscam. mas mais brancos. Cascavéis venenosas e mordentes Que ora se repelem ou se encostam! Os olhos tão iguais ao que eram dantes São sementes dos frutos que colhemos. Os lábios são os mesmos. Teus dentes batem bem contra os meus dentes. Que rugas que puseram no teu rosto. As mesmas pernas. Náufragos que se julgam navegantes À força destes braços serem remos. Terreno das areias movediças… Mas pobre do jogral que nunca ame Num castelo sem pontes levadiças. É rasto que ficou das caravanas… A sede é a saliva que sem gosto Lembra o mar de sargaços e savanas. Foi como pântano o colchão de arame. Ó noite toda feita de lanternas De abismos que cavei nos teus flancos. Talvez seja polar o frio de agora No espasmo que ficou desta batalha… Os santos somos nós ou estão lá fora Na pele feita de pedra ou de talha! 281 .

Nascemos com o mar na nossa frente. A cama é a jangada dos desejos… O sonho para nós foi: continente. Parede toda feita de azulejos! Londres. 13 de Dezembro de 1989 282 .

De quem será a mão que mal me guia? Se o vento está lá fora não estremeço Como folha d’Outono em ventania… Que mistério nos quer adormecidos Ainda em vida e tanto por viver? Conta-gotas de sangue. Deitando fora a vida que se perde. Lastro tão preciso e desprezado Balão a prometer-nos o Raio Verde. empedernidos Os corações que deixam de bater… Em sonhos te refaço quando acordo. assim o sono ordena. Se outrora percebi significados Nem ao de leve sei quem hoje acena… Incógnita é dormir sem estar cansado. o pó do chão só eu o mordo Para no sonho não deixar pegadas! Londres.Raio Verde Nos sonhos te refaço em bocados Pacientemente. Que memórias e noites visitadas! Porém. Nos sonhos te refaço se adormeço. 13 de Dezembro de 1989 283 .

Por vezes: passo pesado Outras vezes ao de leve… Abafa a voz no Senado Aos Tribunos da Plebe… Dita a lei que não quer lei Do Tempo sempre a correr — Quantas vezes me queimei Só de pensar em morrer? — O que o corpo traz impresso É a alma em carne viva. O polegar levantado Não acaba a escravatura.Pão e Circo É álcool em serpentina Numa espécie de sem-fim… É fumo. A morte é sempre gelada — Como o olhar dos guerreiros — Passa a vida a fio de espada P’ra não fazer prisioneiros. O calor é calafrio. 21 de Dezembro de 1989 284 . tinta-da-china Sobre os corpos de marfim… Londres. sem regresso. tinta-da-china Sobre a neve de marfim… Viver não passa de teima Se o polegar for de Nero Na arena que tudo queima: Vidas abaixo de zero… O olhar do legionário É espada que corta a fio. Se os graus estão ao contrário. Tudo é adiamento E nem o Nero sabia! É como a noite de vento Que a manhã não prometia… O polegar para cima Às vezes não é o fim… É fumo. Ai! Arena. Sem qualquer alternativa! Se a morte passou ao lado: Não mudamos de figura.

285 .Estreito de Corinto Deito-te fumo nos olhos. Tinha cor cinzenta e fria Como os dias em que neva. A memória é uma insónia Onde só silêncio cabe. queimo incenso E passos no corredor… O Farol de Alexandria Só ligava luz e treva. Macedónia Mais tudo o que a terra sabe. Sempre que penso em Cartago A memória meço aos palmos… O teu silêncio é tão vago Feito de ventos e salmos. Quem viu suor viu o Nilo E escravos em formigueiros — E também Vénus de Milo ’Inda de braços inteiros! Como touro tresmalhado Sempre com morte na frente: Esta angústia do Passado Anda no Tempo Presente. Catedral feita mesquita Conforme a posse do chão… Fica Alá no meio dos arcos Traçados a Ocidente. Antioquia. Sem sabor a nicotina. Pois nem sempre os mesmos barcos Carregam a mesma gente… O Labirinto de Creta A ninguém deu a saída. Queimo mirra. Tinha uma porta secreta Dentro dum poço caída Como o tirano decreta: Dava a morte de seguida… O teu vulto é pormenor De vitral semipartido Vindo da Ásia Menor De culto desconhecido… Imagem desaparecida No desvão dalgum mosteiro Mas figura conhecida Retrato de corpo inteiro. Teu rosto lembra-me ícones Duma igreja bizantina… A Fé é de quem nos dita Os termos da opressão. Se quebrares este silêncio Que se fecha em meu redor.

Como por ferro queimado. Um judeu circuncidado Bem depois de Salomão. vinhos nas ânforas Com a morte a transbordar. Londres. Há tantas lousas partidas Que já nem deixam recados. Derrama perfume o frasco Ou bebida envenenada? Curva em Estrada de Damasco Pode ser uma emboscada. Caravana levantina Com camelos carregados E estrelas de purpurina Mostram caminhos sagrados. 29 de Dezembro de 1989 286 . Azeites. Temos sorte das acácias: De nascer e de murchar. Em denúncia à condição. as âncoras Procuram terra no mar. Deusas de pedra vestidas Pela nudez dos pecados. À beira dum precipício Os homens não são diferentes… Partem-se os lemes.Animal de sacrifício Preso à ara por correntes. Vitórias de Samotrácias Que se deixam desterrar! No mapa do esquecimento Há muralhas de cidades… Outrora já foi momento Que se perdeu nas idades! Meu solstício de Junho Rasga estreitos em Corinto… Meus poemas em rascunho Nunca passados a limpo.

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Índice Calendário Mergulho no Passado  Faca Também de noite Os Rios Correm Inteiros  Calatrava Vão-se As Águas sem Canção  Noite À Poesia  Na Morte da Avó Adelaide Zero Ressaca À Maneira de Dom Dinis Pã no Seu Tempo Pastoral do Ano 2000 Na Guerra do Roussilhão Cana Verde. de Verdade 11 12 13 14 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 .

 Rosæ… 5 —Siderurgia  Judas Portugal 1976 Solstício de Verão Ramsés o Grande Amor-Perfeito Trás-os-Montes Ronda da Noite Canção Estival Emilio Salgari Véspera de Natal Espanha 1978 27 28 29 30 31 35 36 37 38 39 41 42 43 44 45 46 47 48 49 51 52 .Teatro Amador Mão Fechada Melaço Van Gogh Amor em Dia de Chuva Escavação 1 — A caminho de Pompeia 2 — Ponte dos Suspiros 3 — Os Vidreiros de Murano 4 — Rosa.

Cassiopeia 1 — Inferno 2 — Purgatório 3 — Céu Poder Secular 1 — Camões 2 —Fernando Pessoa 3 — Cesário Certidão de Nascimento «Post Scriptum» Contra-Relógio Mina de Sal Nível de Água Cozido à Portuguesa Kremlin Roleta Russa Gelo Auto-Retrato Visitas Proibidas 57 58 59 63 64 65 67 68 69 70 71 72 73 74 75 76 77 .

Integração do Átomo 1 — Monte de Tabor 2 — Cassiopeia 3 — A Meia-Nau 4 — Átomo Cavalo da Acrópole Tempo de Silêncio Telex a Lech Walesa Acordar em Hotel Saudação a Enrico Berlinguer Passagem de Nível sem Guarda Nome Próprio Feminino 1 — Camões 2 — Jau 3 — Natércia São Paulo Algarve 1982 Cega-Rega Marroquina  O Luar é Azulado Este Ano em Jerusalém 81 82 83 84 87 88 89 90 91 92 95 96 97 99 100 101 102 103 .

 Tantos de Tal Audição Única Circus Maximus 1 — Dança do Escalpe 2 — Terra de Siena 3 — Pedra de Carrara Obsessão Uma Gota de Sangue Queda do Império dos Romanos 104 105 106 107 108 109 110 111 112 113 114 115 116 117 121 122 123 125 126 127 .Latifúndio  Última Caçada Velhas Casas Cor-de-Rosa Poema em Construção Os Insectos e os Outros Lápides Apagadas Ex-Libris Auto-Retrato Última Tentação Tocata e Fuga Outro Natal Via Appia Marvão.

Domingo de Ramos Nicarágua João Sem Terra Branco e Negro Sândalo Noite e Nevoeiro Santo Sepulcro Tântalo Outrora o Natal Fermentação Nebulosa em Espiral 1 — O Túmulo e a Rosa i — A Neve e o Mar ii — O Túmulo e a Rosa iii — O Sal e o Açúcar 2 — Os Mundos Exaustos iv — As Estrelas Assassinas v — Prece vi — O Pão e a Pedra 3 — Juízo final Fechado para Obras (Poéticas)

129 130 131 132 133 134 135 136 137 138

141 142 143 144 145 146 147 151

A Noite dos Degolados Ponto Negro Deus no Confessionário Livro das Horas Conta Errada Gaivota Colóquio dos Simples Multidão Abstenção 28 de Maio de 1926 – Verão Quente de 1975 Miradouro Sessões Contínuas Cal Viva «O Tempo Está Próximo» Chegada Fado Amália 18 de Julho de 1936, Dia de São Camilo Passe a Palavra Os Robinsons do Espaço Véspera Veneziana 1 — Constante 2 — Aquário

152 153 154 155 157 158 159 160 161 162 163 164 165 166 167 168 169 170 171

175 176

3 — Fresco 4 — Lucros e Perdas 5 — Homo Faber Insónia Cesário a Corpo Inteiro Os Ralos do Relento Passagem do Ano Profanação Quarta-Feira de Cinzas Fechadura Yale Incógnita Cofre de Segredo Cotação do Dia O Beijo de Judas Ofícios Esquecidos Papel-Moeda Ração de Combate Bicho-de-Conta As Torres do Silêncio As Torres do Silêncio Índia

177 178 179 181 182 184 186 187 188 189 192 193 194 195 196 197 211 212

215 216

Taj Mahal Khajuraho Fumos da Índia Nas Margens do Ganges Entardecer no Ganges O Medo Numa Aldeia do Nepal Pôr de Sol nos Himalaias O Palácio das Monções A Poesia Fortaleza dos Reis Magos As Formigas na Neve Embalagem Perdida Trinta Dinheiros Duplo Almocreve das Palavras Divisão das Espécies Navegação Nocturna London Sight-Seeing Perdido por Cem Ursa Maior Estrada de Damasco Veneno

217 218 219 220 221 222 223 224 225 226 228 229 232 234 236 238 239 241 242 243 244 245 246

Dizer por Dizer A Última Caçada Lente de Aumentar Tecelões Soldadinhos de Chumbo Relógio de Água Caracteres Ilegíveis Jantar de Família Peregrino Acidental Marasmo Os Carrascos também Choram Ciclo Infernal Fundo da Garrafa ou Robinson e Sexta-Feira O Choro e o Riso Guarda da Vinha Cela da Morte Escorpião Oásis Passos Perdidos Missa do Galo Fontes Salgadas Miliciano

247 248 251 252 253 255 256 257 259 261 262

265 266 267 268 269 270 271 273 274 275

Banho Turco Século Dezanove Missa Cantada Estrela de Belém Erosão Raio Verde Pão e Circo Estreito de Corinto

276 278 279 280 281 283 284 285

.

Como Henrique Segurado. seguindo-se-lhe a CastilAlvalade. Em 1959. Emigrantes do Céu (Lisboa. Estreou-se como poeta em Março de 1951 no jornal Rivages — edição dos alunos do liceu Francês de Lisboa —. 301 . de Dezembro de 1952. Henrique Segurado. de Julho de 1954. a Castil-América. Asa de Mosca conquistou. no Porto (as duas últimas em colaboração com o grupo Valentim de Carvalho). um dos jornalistas societários de O Jornal. ainda como Henrique Jorge. ex-aequo com António Ramos Rosa. foi. de 1976 a 1992. no jornal O Século. a sua actividade de jornalista e de gestor de órgãos da imprensa. revista dirigida por António Manuel Couto Viana. Publicou. a AZ-Olivais e a AZBom Sucesso. Em 1976 abriu a livraria Castil-Castilho. Henrique Jorge Segurado Pavão frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa. Ática. 1960) e Ressentimento Dum Ocidental (Alfragide. Galeria Panorama. [1970]). com quatro poemas. onde desempenhou funções de administrador. tendo posteriormente colaborado. 1953). com dois poemas) e no primeiro número de Graal (Abril-Maio de 1956).Nascido em Lisboa a 6 de Abril de 1930. em Távola Redonda (no fascículo 15. recebeu ainda uma referência especial do júri que a Livraria Galaica do Porto constituiu para um concurso de poesia. em 1956. deu à estampa Asa de Mosca (Lisboa. com o nome de Henrique Jorge. e nos fascículos 19/20. Edições Távola Redonda. o segundo prémio do concurso Fernando Pessoa organizado pela Editorial Ática. No mesmo ano. tendo depois iniciado. com um livro que nunca chegou a ser publicado. Dança do Escalpe. a Castil-Benfica.

República. Lisboa. Editorial Inova. [1978]. Lisboa. Círculo de Leitores. Jornal de Letras e Artes.L. Dinalivro. Porto. 1998. organização de Egito Gonçalves e Manuel Alberto Valente. Editorial Campo das Letras. 800 Anos de Poesia Portuguesa. organização de Afonso Cautela e Serafim Ferreira. Artes e Ideias e Colóquio/Letras. coordenação de Ulisses Duarte. 100 Anos Federico García Lorca: Homenagem dos Poetas Portugueses. organização de David Mourão-Ferreira. Está representado nas seguintes antologias: Poesia Portuguesa do Pós-Guerra: 1945-1965.Tem colaboração dispersa em jornais e revistas como O Século. organização e apresentação de José Fanha.. 302 . 1965. Lisboa. Natal na Poesia Portuguesa. 1973. organização de Luiz Forjaz Trigueiros. 1993. Câmara Municipal do Seixal. De Palavra em punho — Antologia Poética da Resistência. 1971. Portugal: A Terra e o Homem: Antologia de Textos de Escritores do Século XX. Fundação Calouste Gulbenkian. Universitária. Gazeta Musical e de Todas as Artes. Ulisseia. Lisboa. Lisboa. Porto. O Tejo e a Margem Sul na Poesia Portuguesa. Jornal de Letras. 2004. Seixal. Poesia/70. Diário de Lisboa.1987. J.

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