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ÍNDICE

PREFÁCIO CRIANÇA E ADOLECENTE. PRIORIDADE ABSOLUTA, DE FATO E DE DIREITO. INTRODUÇÃO BREVE DESCRITIVO DOS ARTIGOS

SUAS OBRAS TÊM QUE CONTINUAR. CELINA BEATRIZ MENDES DE ALMEIDA E LUIZ FERNANDO MENDES DE ALMEIDA A LUTA PELOS DIREITOS HUMANOS DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES NO BRASIL: A EXPERIÊNCIA DA ANCED. MARGARIDA MARQUES QUASE DE VERDADE: DIREITOS HUMANOS E ECA, 18 ANOS DEPOIS. ALEXANDRE MORAIS DA ROSA E ANA CHRISTINA BRITO LOPES DIREITOS HUMANOS NO SÉCULO XXI: AS ALGEMAS E OS SONHOS. SERGIO VERANI O 60º ANIVERSÁRIO DA DECLARAÇÃO UNIVERSAL DE DIREITOS HUMANOS DAS NAÇÕES UNIDAS. VANESSA OLIVEIRA BATISTA 20 DE NOVEMBRO: ALÉM DE ZUMBI, TEMOS UM OUTRO A COMEMORAR. RICARDO DE PAIVA E SOUZA SITUAÇÃO DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA NO BRASIL DE HOJE: INSEGURANÇA SOCIAL. POBREZA, DESIGUALDADES E TERRITORIALIDADE. WANDERLINO NOGUEIRA NETO NÃO-CRIMINALIZAÇÃO & IMPUNIDADE. SISTEMA DE GARANTIA DE DIREITOS HUMANOS. WANDERLINO NOGUEIRA NETO
18 ANOS DO ECA; 19 ANOS DA CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DA CRIANÇA; 20 ANOS DA CONSTITUIÇÃO; 20 ANOS DO CEDECA-DOM LUCIANO MENDES; 60 ANOS DA DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS E 120 ANOS DA ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA.

LIGIA COSTA LEITE OS 120 ANOS DA ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO. GILDA ALVES BATISTA DIREITO HUMANO À ALIMENTAÇÃO E NUTRIÇÃO SUSTENTÁVEL. LEONARDO FELIPE DE OLIVEIRA RIBAS A DEMOCRACIA NO ORÇAMENTO PÚBLICO THIAGO MARQUES A PRODUÇÃO DE CRIANÇAS E JOVENS PERIGOSOS: A QUEM INTERESSA? CECÍLIA M. B. COIMBRA MARIA LÍVIA DO NASCIMENTO PROMESSAS QUEBRADAS. IRENE KHAN UM ENCONTRO COM CRIANÇAS E ADOLESCENTES QUE ESTÃO NAS RUAS – RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA INSTITUCIONAL. MÔNICA DE ALKMIM MOREIRA NUNES A REFORMA DAS PRISÕES, A LEI DO VENTRE LIVRE E A EMERGÊNCIA DA QUESTÃO DO “MENOR ABANDONADO”. ESTHER MARIA DE MAGALHÃES ARANTES BREVES NOTAS SOBRE A INCONSTITUCIONALIDADE DA MEDIDA DE INTERNAÇÃO. RAFAEL CAETANO BORGES

PREFÁCIO

Criança e adolescente. Prioridade absoluta, de fato e de direito.
“A cidadania é o direito a ter direitos, pois a igualdade em dignidade e direitos dos seres humanos não é um dado. É um construído da convivência coletiva, que requer o acesso ao espaço público. É este acesso ao espaço público que permite a construção de um mundo comum através do processo de asserção dos direitos humanos.” (Hannah Arendt)

Esta publicação resulta do esforço em socializar reflexões sobre os direitos humanos de todas e todos, e de uma tentativa de sistematização que permita questionar, confrontar a nossa própria prática, superando o ativismo. É igualmente um “diálogo entre saberes: uma articulação criadora entre o saber cotidiano e os conhecimentos teóricos, que se alimentam mutuamente”.1 No ano de 2007, companheiras e companheiros atuantes em diversas áreas de conhecimento contribuíram com preciosas reflexões sobre as consequências perigosas de uma eventual redução da maioridade penal no Brasil. Essa adesão possibilitou o lançamento da publicação intitulada “A redução da maioridade penal vai resolver o problema da violência?” Neste ano de 2009 celebram-se os 16 anos da Conferência de Viena (1993), os 21 anos da Constituição da República, os 61 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), os 41 anos da ratificação brasileira à Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (1968), os 19 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente (1990), 20 anos da Convenção Internacional pelos Direitos das Crianças (1989), dentre outros aniversários, como os 121 anos da dita abolição da escravidão (1988). Em 2009 comemoramos também os 15 anos da ANCED – Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente, os 25 anos da Associação Beneficente São Martinho (1984) e os 21 anos do CEDECA D. Luciano Mendes de Almeida (1988). Estas são conquistas significativas no contexto da luta pela efetivação dos direitos humanos, pois são marcos que simbolizam admiráveis avanços na compreensão da necessidade do respeito à dignidade do ser humano. Do ponto de vista legal, o sistema de garantias avançou muito, porém ainda resta um grande abismo entre o disposto pela norma e a realidade concreta experimentada por milhares de crianças e adolescentes. Persiste arraigada no imaginário social uma ideia distorcida sobre os direitos humanos de crianças e adolescentes, sendo comum a reprodução de jargões do tipo: “lá vem o pessoal do direitos humanos”, “crianças e adolescentes só têm direitos, não têm deveres”, “criança agora pode fazer tudo, o estatuto permite”, ou “depois do estatuto, os pais e professores perderam o controle sobre as crianças”, “o estatuto é uma lei de primeiro mundo” e ainda, “direitos humanos só defende bandido” ou “direitos humanos para humanos direitos”. Lembramos também do fenômeno da criminalização da pobreza e dos movimentos sociais e das constantes represálias e ameaças que os defensores de direitos humanos ainda sofrem em seu cotidiano. Ao senso comum, o termo “direitos humanos” parece representar “um lugar”, “um grupo de pessoas”, “o pessoal dos direitos humanos”, que só aparece em situações muito restritas e que não é reconhecido como parte integrante da sociedade e da prática cotidiana de luta pela garantia da dignidade da vida. Todas e todos são titulares dos direitos humanos e, portanto, responsáveis por sua promoção. Os exemplos de atuação nesse sentido são inúmeros: o médico no atendimento humanitário ao paciente, os agentes de segurança pública no cumprimento estrito da lei e na relação com as comunidades, a professora na relação respeitosa com seus alunos e colegas, as organizações sociais, pastorais, grupos de proteção do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável, o poder público na elaboração dos orçamentos e políticas públicas, pais na relação afetuosa com seus filhos e as próprias crianças e adolescentes ao vivenciarem experiências concretas de respeito aos direitos humanos. Com esse espírito, renovamos nosso convite aos parceiros e parceiras, e a aceitação foi imediata. As reflexões feitas por articulistas de diversas áreas do conhecimento apresentadas nesta publicação perpassam as mais diversas vertentes dos direitos humanos.
1 HOLLIDAY, Oscar Jara. Para Sistematizar Experiências. P.44

Parte da etapa de elaboração do documento. Reconhece os direitos sexuais como direitos fundamentais do ser humano. com uma das possíveis respostas do Estado à violação dos direitos sexuais de crianças e adolescentes. regional e internacional. Entre “as algemas e os sonhos”. Verani nos proporciona reflexões políticas sobre o compromisso do Estado com a concretização das políticas públicas e sobre as dificuldades na efetivação dos direitos humanos. Luciano Mendes de Almeida continua sendo uma importante inspiração para o nosso trabalho. documento que enuncia um amplo conjunto de direitos fundamentais – os direitos civis e políticos. para a promoção e proteção eficaz dos direitos e liberdades nela consagrados. trata da fase ainda não concluída: a criação de instrumentos adequados para assegurar a observância dos direitos e o respeito a dignidade humana. Vanessa Oliveira aborda as etapas históricas dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Por fim. é dentro dessa lógica que Sérgio Verani. . especialmente devido a dificuldade que os atores jurídicos ainda têm para compreender o grande giro na cultura dos direitos humanos representado pelo ECA. apelidada de Lei do Ventre Livre. Margarida Marques contribui com importantes considerações sobre os 15 anos de atuação e consolidação da Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente – ANCED. Na sequência. e o papel do Estado Brasileiro. representa um vínculo jurídico para os Estados que a ela aderem. que limitam e restringem a própria vida”. Ricardo de Paiva e Souza nos apresenta importantes reflexões sobre a Convenção sobre os Direitos da Criança (CDC). Iniciamos a publicação com o artigo “Suas Obras têm que continuar” produzido por Celina Mendes de Almeida com a colaboração de Luiz Fernando Mendes de Almeida. “Pensar os direitos humanos no século XXI significa pensar as formas de luta contra o Capital. os quais devem adequar às normas de Direito interno às da Convenção. dedicada às crianças mais necessitadas e desassistidas. passando pela fase da Convenção Internacional e por fim. Wanderlino Nogueira Neto nos contempla com dois artigos inéditos. sociais e culturais – de todas as crianças. trata do conceito de “coesão social”. e também os direitos econômicos. Por fim. O texto apresenta dados de fontes oficiais e de organizações sociais brasileiras e internacionais. sobrinha-neta e irmão de Dom Luciano Mendes de Almeida. quando ratificada. principalmente nos momentos de desânimo diante das grandes dificuldades enfrentadas na área social. como preliminar a ser assegurada e a criminalização (ou não) do explorado sexual. Numa contextualização sob os aspectos e dimensões estruturais de resistência à defesa de direitos humanos predominante na nossa sociedade. que apesar de ser constitucional. como referência de coalizão pela defesa jurídicosocial de crianças e adolescentes em nível nacional. marcado pelo princípio da prioridade absoluta. apresenta um exemplo da prática judicial do século XXI. “Quase de Verdade” é um artigo de Alexandre da Rosa e Ana Christina Lopes que aborda os avanços e desafios do Estatuto da Criança e do Adolescente. Sistema de Garantia de Direitos Humanos”. A CDC não é apenas uma declaração de princípios gerais. O exemplo de vida de D. com foco no sentido de pertencimento e de valorização da identidade. ainda é sistematicamente desrespeitado em todas as regiões brasileiras. Este tratado internacional é um importante instrumento legal devido ao seu caráter universal e também pelo fato de ter sido ratificado pela quase totalidade dos Estados do mundo. contra a produção dos seus valores ideológicos e da sua organização social. bem como as respectivas disposições para que sejam aplicados. coordenação e execução de políticas públicas garantidoras dos direitos humanos e do acesso à justiça. aborda as possibilidades da sociedade civil organizada em promover análises da situação da infância e adolescência no Brasil. apresentado durante o III Congresso Mundial contra a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.INTRODUÇÃO BREVE APRESENTAÇÃO DOS ARTIGOS. com muita lucidez e sensibilidade compartilha uma lição de justiça vivenciada na sua infância e nos relata a análise de Machado de Assis sobre a lei de 28 de setembro de 1871. relatando a obra construída pelo bispo ao longo de uma vida de desprendimento material. adotada por unanimidade pelas Nações Unidas em 20 de Novembro de 1989. No primeiro. representação social da infância e da adolescência. a fim de aperfeiçoar a elaboração. No artigo “Não-criminalização & Impunidade. o autor apresenta importantes e atuais reflexões sobre a promoção e proteção dos direitos sexuais e reprodutivos de crianças e/ou adolescentes.

a existência de crianças vivendo nessa situação não é um momento histórico ou um problema específico de uma classe social ou econômica. pois sem estas os governos dificilmente escaparão da prisão da burocracia e dos laços da corrupção. “Promessas Quebradas” é uma introdução ao Relatório Anual da Anistia Internacional de 2008.A. destaca que “o Estatuto da Criança e do Adolescente. a sociedade não deve achar natural a moradia nas ruas. ajuda a entender como o processo histórico do dito ‘sistema de proteção da infância’ deixou marcas profundas na infância empobrecida brasileira. cujo cerne está em buscar o planejamento que satisfaça as prioridades estabelecidas pelas políticas públicas de acordo com as disponibilidades de recursos. . São também analisados alguns efeitos de práticas que associam essas características à pobreza. cujos princípios básicos reconhecem crianças e adolescentes como sujeitos de direitos. Esther Arantes partilha reflexões sobre a história das políticas para a infância no Brasil. Fundamentando-se em renomados autores.Com uma refinada análise. O texto reflete a contradição entre as finalidades pedagógicas e a privação de liberdade (internação) previstas no E. analisando dois conceitos importantes. “Um encontro com crianças e adolescentes que estão na rua” é a exposição de Monica de Alkmim sobre sua experiência como pedagoga diante da dura realidade de meninos e meninas que vivem nas ruas do Rio de Janeiro.” No texto “A reforma das prisões.C. Thiago Marques contribui com considerações sobre “A Democracia no Orçamento Público”.CENTRO DE DEFESA DOM LUCIANO MENDES DE ALMEIDA. violenta. Para a autora. dentre os quais a inimputabilidade e todos os desdobramentos dela advindos – notadamente a proibição de submetê-los a penas privativas de liberdade. retratando absoluto desprezo do Estado brasileiro pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Lígia Leite reconhece que apesar do Brasil ser signatário de diversos marcos legais nacionais e internacionais. XX.” Lígia resgata a trajetória das políticas públicas sociais para a infância no Brasil com seus avanços e retrocessos. os desafios para alcançar as Metas de Desenvolvimento do Milênio e a movimentação popular no sentido de exigir a renovação do compromisso dos líderes com a defesa e promoção dos direitos humanos em nível global. O artigo de Leonardo Ribas é sobre o “direito humano à alimentação e nutrição sustentável” que. Leonardo aponta que “a solução para o problema da fome e da exclusão social passa por uma nova ordem social. O texto destaca a necessidade de uma reflexão profunda sobre a “proteção integral” prevista na Convenção dos Direitos da Criança (ONU. desenvolvido por Esther nos últimos 20 anos. não há muito que se comemorar. gerando reflexos em futuras gerações. que tem caracterizado a população infantojuvenil subalternizada como perigosa. que marcam a história dos afrobrasileiros: raça e democracia racial. 1989). No artigo “A produção de crianças e jovens perigosos: a quem interessa?”. para o autor. e o resultado da total ausência de políticas públicas nesta área. O documento cita casos de violações decorrentes da ação e omissão das grandes potências ao longo dos últimos 60 anos. econômica e política que tenha como objetivo estratégico atingir o desenvolvimento sustentável. que demonstram a desumanização dos adolescentes encarcerados. juntamente com elementos colhidos do dia a dia da realidade nacional. Também são abordados os exemplos de liderança construtiva de algumas nações. já que o golpe de 1964 interrompeu o processo de resgate da dívida sócioeducacional iniciada com a LDB em 1961 e com 50 anos de atraso das Convenções internacionais das quais o Brasil é signatário”. No texto marcado por críticas. é a base dos direitos humanos e da cidadania. O autor exemplifica por meio dos relatórios de violações de direitos humanos produzidos pela Human Rights Watch e Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em parceria com o Conselho Federal de Psicologia (CFP).” O autor ressalta ainda a necessidade de mecanismos que garantam o controle da cidadania sobre o Estado e da participação popular. pessoas em condição peculiar de desenvolvimento e prioridades absolutas. criminosa e não humana. EQUIPE CEDECA . as psicólogas Cecília Coimbra e Maria Lívia do Nascimento apresentam algumas produções de subjetividade. No instigante artigo “Breves notas sobre a inconstitucionalidade da medida de internação” Rafael Caetano Borges apresenta uma análise crítica da permanente afronta ao texto constitucional no tocante à realização plena dos direitos da criança e do adolescente. Nessa conjuntura. compara as relações raciais de outros países com o Brasil. que nasce com 30 anos de atraso. Com o texto “os 120 anos da Abolição da Escravidão” Gilda Alves Batista contribui com a reflexão sobre o sentido desse fato.. a Lei do Ventre Livre e a emergência da questão do ‘menor abandonado”. incorporada na Constituição Federal e regulamentada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. uma vez que as “conseqüências de uma sociedade que tem como base a desigualdade e a dominação de um ser humano por outro seu igual vividas diariamente pelo povo brasileiro. ocorridas em especial no Brasil do séc. uma vez que chegamos em 2009 “sem ver os resultados globais de inclusão de toda a população brasileira em um projeto de nação e de futuro. O trabalho de intensa pesquisa.

e eu me sensibilizei com todas essas manifestações. cada um sendo uma ramificação dessa assistência ao menor. que era arcebispo de Mariana. O CEDECA e outras obras são uma prova real da dedicação do meu tio Luciano para com os pobres e os desassistidos. o amor que em muitos casos era desconhecido desses menores. Luciano Mendes de Almeida 8 . que era uma das suas principais metas.” dessas ações tão importantes para a erradicação da miséria e da fome que impedem o bem comum. assistentes sociais e em alguns casos de médicos que procuram melhorar o dia a dia deles. inspirando os outros a olharem mais para as crianças que necessitam principalmente do amor e carinho de todos nós. sede de seu arcebispado. espero. Foram muitas as suas realizações. mas só aos poucos fui entendendo porque ele era realmente especial. O custeio para manutenção dessa obra. depois só retornei por ocasião do seu velório. descobri por acaso que essa organização possui o nome do meu tio Luciano Mendes de Almeida.SUAS OBRAS TÊM QUE CONTINUAR. mas também abrigos para acolher meninos e meninas que iam chegando nesses centros e ali encontravam o que lhes faltava e muitas vezes nunca tinham recebido. Luciano Mendes de Almeida ** LUIZ FERNANDO MENDES DE ALMEIDA Irmão de D. numa visita ao Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente . Durante o espaço de tempo que ficam na Figueira. foi responsável pela criação da pastoral do menor. há dois anos. * CELINA BEATRIZ MENDES DE ALMEIDA Sobrinha-neta de D. e com a conscientização dos paroquianos de Mariana e dos outros municípios abrangidos por sua arquidiocese. Ele nos explicava que tinha esse nome porque é uma árvore com muitos galhos. Acho que isso demonstra claramente como sua vida foi marcada por uma entrega total e absoluta aos mais necessitados e um desprendimento material que. Infelizmente. pois a cidade inteira pranteava aquele que para eles era um santo. foi secretário geral da CNBB por oito anos e depois presidente por mais oito anos. carinho ou atenção – pequenos detalhes que só conheceram quando tomaram contato com essa instituição. o amor que em muitos casos era desconhecido desses adolecentes. ou foi a fonte de inspiração. Lembro do meu tio dizendo que vários nunca tinham visto uma escova de dente. além da segurança.CEDECA. além de alimentação recebem acompanhamento de monitores. além da segurança. Meu tio Luciano. sirvam de exemplo e possam atingir cada vez mais pessoas. Nesta última visita a emoção foi muito forte. A criança pobre e desnutrida era uma de suas grandes preocupações. e constatarmos como ele era realmente uma pessoa maravilhosa. Esse centro é um braço da obra São Martinho fundada pelos padres carmelitas e completou vinte anos em novembro de 2008. e de outras que ele fundou em Mariana. A Figueira se dedica prioritariamente àqueles que têm deficiências físicas. Nós da família tínhamos o privilégio de conviver mais de perto com ele. são obtidas por doações resultantes de visitas que meu tio fazia àqueles que ele sabia que podiam ajudar. Hoje tenho notícias de que essas obras continuam. pois os poucos momentos em que nós podíamos estar juntos eram na ocasião do Natal ou quando ele vinha para celebrar algum ato religioso. tão necessário à justiça social do nosso Brasil. pois não tinham alguém que lhes dessem noções de higiene. cresceu e em muitos lugares já é uma árvore frondosa. não só escolares e profissionalizantes. Hoje ele não está mais entre nós e as ocasiões em que pude usufruir de sua companhia ficarão na minha lembrança e irão nortear a minha vida familiar e profissional. Meu convívio com ele não foi tão grande como eu gostaria. só fui conhecer algumas das inúmeras obras que ele cuidava. Dom Luciano tinha uma expressão no olhar e um sorriso quando estava no meio desses meninos que transmitia. principalmente locomotoras. Nunca vou me esquecer das suas últimas palavras. que pronunciou meu avô. CELINA BEATRIZ MENDES DE ALMEIDA* LUIZ FERNANDO MENDES DE ALMEIDA** Desde o falecimento do meu tio Luciano. Recentemente. fruto da Pastoral do Menor. uma de suas obras se chama justamente “A Figueira”. A semente plantada por ele. Em Mariana. depois de seu falecimento. antes de ser sedado no hospital: “Não abandone meus pobres”. Lamento só ter visitado essa obra depois que meu tio faleceu. Quando era pequena lembro que fui uma vez a Mariana para visitá-lo com meus pais. Foi o responsável pela criação de inúmeras obras de apoio à criança e ao adolescente. passei a ouvir muitas pessoas relatarem em vários testemunhos como ele era uma pessoa santa. No início de seu secretariado na CNBB. chegando a reverter a doença de que são vítimas por falta de atendimento adequado. mas sofrem com a falta de auxílio financeiro essencial para manter acesa a chama de esperança “Dom Luciano tinha uma expressão no olhar e um sorriso quando estava no meio desses meninos que transmitia.

a Anced vem consolidando suas reflexões/elaborações. a Anced vem consolidando suas reflexões/ elaborações. O que se pretendeu foi oferecer uma reflexão sobre os 14 anos da Anced. predominante na nossa sociedade. Hoje. vivenciadas ao longo desses 14 anos. As razões estruturais e históricas de resistência à luta em defesa de direitos humanos. trinta e seis Centros de Defesa filiados. a Anced reunia. Falar desta organização implica reconhecê-la parte desta história. este movimento. A representação social da infância e da adolescência. A pobreza no país. 2. e inclusive tornou-se referência em outros países. 4. mais complexa e mais diversa do que seria capaz de traduzir aqui. Sua fundação dá continuidade a uma articulação anterior. ao logo desses anos. Não podemos descolar a análise da nossa construção histórica. de conciliar a tarefa de ser uma articulação acional e impulsionar as ações locais desenvolvidas por cada Centro de Defesa filiado. É por isso que. patrões x empregados. Esta realidade vai marcar as relações de poder em nosso país. qual seja o de uma organização de defesa jurídicosocial de direitos infantojuvenis de expressão nacional. marcado pelo esforço coletivo de fazer valer “Ao completar 14 anos. A melhor maneira de falar da Anced é situando essa caminhada nos processos que foram desenvolvidos nos últimos anos de luta pela efetivação dos direitos humanos. Fundada em 1994. não necessariamente nesta ordem. pois não há como descolar sua história desse processo. MARGARIDA MARQUES* Introdução Este artigo traz uma reflexão sobre os 14 anos da Anced . posto na perspectiva do que significa ser uma organização de direitos humanos. como também o de ser um espaço de articulação de Centros de Defesa espalhados por todo o país. comemoramos 18 anos do ECA. O desafio de atuação no plano institucional. 1.Convenção Internacional dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes. Em absoluto. mais precisamente do que significa a luta em defesa de direitos humanos de crianças e adolescentes. inserida nos debates sobre os 18 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente. coincidiu com nossa redemocratização e resultou na adoção da CDC . nacional. E esse poder baseia-se no lugar que se ocupa na sociedade. No Brasil. é necessário traçar esta trajetória respaldada por uma reflexão do que representa a luta em defesa de direitos humanos no Brasil. aprofunda questões conceituais ou históricas. tanto em relação ao seu papel como ator político com um papel específico a ser desempenhado. de conquista e escravização da população nativa quase dizimada e da população africana traficada. qual seja o de uma organização de defesa jurídicosocial de direitos infantojuvenis de expressão nacional. embora tenha 9 . tanto em relação ao seu papel como ator político com um papel específico a ser desempenhado.A LUTA PELOS DIREITOS HUMANOS DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES NO BRASIL: A EXPERIÊNCIA DA ANCED. levamos em conta os seguintes aspectos/dimensões: 1. O papel do Estado brasileiro. senhores x escravos. Em qualquer desses papéis. com o objetivo de fazer avançar na organicidade e na atuação local e nacional. ricos x pobres. denominada Rede Nacional de Centros de Defesa. nós contávamos com quatro anos de aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente.Associação Nacional dos Centros de Defesa. não podemos deixar de reconhecer que os últimos anos têm sido um tempo de resistência e afirmação das conquistas. simplesmente porque a articulista se reconhece entre os mais novos na história desta organização e por saber que a riqueza da sua experiência. a rede de Centros de Defesa.” na prática aquilo que fomos capazes de impor como marco legal. A mudança do paradigma jurídicopolítico que reconhece crianças como sujeitos de direitos é fruto de um amplo processo de luta social dos anos 70/80. situando-a nesta trajetória. Isso marca nossa realidade atual. Ao completar 14 anos. mais do que contar sobre os 14 anos de existência da Anced. que foi internacional. no qual as próprias crianças e adolescentes fizeram-se movimento. como também o de ser um espaço de articulação de Centros de Defesa espalhados por todo o país. em 2008. é mais profunda. fruto da luta realizada pelos movimentos sociais. a Anced se reconhece como parte do movimento de infância. Um rápido olhar acerca do contexto da luta por direitos humanos no Brasil No momento em que Anced se constituiu como associação pois somos um país formado a partir de uma história de opressão e resistência. Apesar dos avanços. da mobilização e da pressão política. marcado pela relação colonizados x colonizadores. 3. dos 20 anos da Constituição Federal de 1988 e dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Considerando que toda essa riqueza foi possível pela capacidade que a Anced tem encontrado. formada por homens e mulheres espalhados por este país. Ao fazermos esta contextualização.

Ao invés de superarmos a violência contra criança e adolescente. Entre as crianças menores de 6 anos de idade. que também se refletem na situação das crianças e adolescentes. Consideram-se pobres. passando pelas ideologias higienistas. tais como: adolescência e delinquência. a ponto de pôr em questão que alguns setores da sociedade sequer tenham algum direito e da ausência/violação de direitos ser naturalizada. são as que pagam o maior preço das consequências dos projetos econômicos desenvolvidos. que reforma a ação privatizadora do Estado neoliberal. Quando se destaca apenas a população jovem da região (de 0 a 17 anos de idade).se reduzido nos últimos dez anos. A preocupação central do Estado é a de socorrer as instituições financeiras. nos gestos. Neste contexto de violência estrutural e negação de dignidade. a proporção de pobres era bem mais alta. Ainda convive. É certo que essas representações incluem hoje os interesses de uma sociedade baseada na mercadoria e. Lidamos. um Brasil que não conta e que não pode ser levado em conta. vemos crescer as violações. profundamente impregnado. Este. tem lugar especial no trato público e no pensamento social concernentes à criança e ao adolescente” (Criança e do Adolescente: Porque o abismo entre a lei e a realidade). que inaugura um novo paradigma quanto aos direitos de crianças e adolescentes e seu reconhecimento como atores sociais. com uma contradição entre as representações socialmente construídas da infância e adolescência e o novo paradigma. ela aponta: “Estamos. forma um Brasil à parte.6% da população total).1%). no descaso da sociedade e do Estado com a efetivação de seus direitos e com a condição de silêncio e invisibilidade que a nossa história e cultura impôs a crianças e adolescentes. escravista. pelo encolhimento do espaço público e alargamento do espaço privado pela ação das três ideologias contemporâneas. criança e tutela. portanto. a lei existe para não ser cumprida”. esteve a serviço dos projetos das elites. sujeitos de direitos. à resistência criativa dos movimentos sociais de meninos e meninas na década de 80. quando enfrentamos as violações de direitos. Em 2007. Em contrapartida. 36. a lei não tem a força que tem em outras culturas. afirmadas no texto da CF/88 parece estar em rota de coalizão com marcas históricas arraigadas da cultura política brasileira. estes avanços não significaram a superação das representações socialmente construídas sobre a infância e adolescência. a PNAD revelou que 30% dos brasileiros viviam com esse patamar de rendimentos. patriarcal. e esta representação tem consequência sobre a política pública e sobre a defesa de direitos humanos deste segmento. a representação da infância brasileira transita desde a completa invisibilidade dos primeiros séculos da colonização. o olhar do passado. social e ambiental. diante de duas séries de obstáculos à democracia social. A distribuição da riqueza no Brasil caracteriza-se por extremas desigualdades regionais. a sociedade adultocêntrica é questionada e avançamos em garantias legais de direitos para esse segmento social Entretanto. ainda não superamos todos esses arquétipos e eles são retomados dia a dia. mas é importante que tenhamos em conta que a história da criança e do adolescente brasileiro foi construída em uma sociedade adultocêntrica. esta relação torna-se mais marcante.3%. do Nordeste. como por exemplo: “lei não é para os pobres”. em princípio. ao longo da história. Ângela Pinheiro nos aponta que “a representação social inovadora da criança e do adolescente como sujeito de direito. e nesta condição crianças e adolescentes são alvo prioritário. Os dados da PNAD 2007 mostram que. no consumo. O Nordeste é a região que reconhecidamente apresenta o maior percentual de pessoas pobres (51. Como na história não há linearidade. maior a probabilidade de estar em situação mais vulnerável qualquer que seja a região do país (Síntese de Indicadores Sociais 2008. as pessoas que viviam com rendimento mensal familiar de até ½ salário mínimo per capita. onde estão presentes as questões étnico-raciais. Destes.” (Marilena Chauí – Considerações sobre a democracia e alguns dos obstáculos à sua concretização). No caso das crianças e adolescentes de 0 a 17 anos de idade. de um lado. 46%.9% viviam com somente até ¼ de salário mínimo de rendimento mensal familiar. pela fragmentação e dispersão das classes populares (sob os efeitos da economia neoliberal sobre a divisão e organização sociais do trabalho) e. um Brasil informal. pobreza e criminalidade. Já no debate sobre direitos. portanto. Gerando os simbolismos. políticas públicas e repressão. IBGE). Marilena Chauí nos dá uma indicação da complexidade da nossa formação histórica quando analisa os obstáculos à democracia brasileira. Chama mais atenção ainda o percentual de 19. continua a afetar com muito mais intensidade as crianças e os adolescentes. o percentual das que viviam com até de salário mínimo de rendimento mensal familiar é ainda mais expressivo: 39. o percentual de pobres é maior ainda (68. menoristas. Buscando nossa formação histórica a partir desses elementos.7% desse segmento da população vivia com rendimento mensal familiar de mais de cinco salários mínimos. por mais que tenhamos avançado na luta social. Essa ausência de direitos. por sua vez. portanto. de gênero e classe social e onde se construíram representações que posteriormente geraram inter-relação entre conceitos. A análise do papel desempenhado pelo Estado brasileiro é outro aspecto importante a ser analisado. quanto mais nova a criança. em detrimento da efetivação de direitos das maiorias sociais que. no Brasil: aquela decorrente da estrutura autoritária da sociedade brasileira – que bloqueia a participação e a criação de direitos – e aquela decorrente das novas ideologias – que reforçam a despolitização provocada. para fins da presente análise. apenas 1. seja porque a perspectiva de poder 10 . “Cadeia não é para os ricos”. em particular da infância e adolescência pobre.6% que vivia com rendimento mensal familiar de até de salário mínimo. e que a repressão. Exemplo disso é a atual crise do capitalismo de dimensões econômica. “No Brasil. nas falas. não poderemos fazer uma reflexão mais demorada sobre o tema. alicerçada pela ausência de Estado. Porque no Brasil. de outro. fundada no autoritarismo e na dominação. Neste novo paradigma. na sociedade. Nesse espaço.

diz respeito aos novos espaços de atuação dos movimentos sociais. ou seja. tem sofrido mais fortemente as conseqüências deste modelo. no ano de 2007. a indústria cultural. O trabalho infantil não foi erradicado. Uma experiência: a Anced É dentro deste cenário que a Anced se constitui e vem se firmando como uma associação nacional. repensando em que medida ele tem representado participação real e em que medida tem funcionado como regulador ou legitimador do Estado. sobretudo. reunindo diferentes experiências. habitação. ela representa somente 40% do gasto total com a dívida pública. Sobre esta construção teórica. entre a população mais pobre. calcula-se o montante de aproximadamente R$ 108 bilhões. trabalho. da família e do poder público em lidar com esta problemática. São questões não tão novas. entre outras novas possibilidades de atuação. O número de adolescentes que atualmente encontram-se em regime de internação é de 15 mil em todo o país. não temos desenvolvido políticas de enfrentamento a questões estruturais. introduzindo o debate sobre controle social. ao mesmo tempo. espaços definidores de políticas. A infância e adolescência brasileira. pelo contrário. organização agrária e gestão ambiental. revelam o longo caminho a ser percorrido pelo movimento de infância. mas que precisamos enfrentar e que também incluem o movimento de direitos humanos. que demonstram o quanto o discurso não tem se confirmado pela prática.” (plano trienal 2004-2006). os fortalece e potencializa. indicando a incapacidade da sociedade. cultura. realizadas conferências. segue sendo silenciosa. junto com o enfrentamento dos problemas estruturais. sem substituir a atuação de cada um dos Centros em seus respectivos locais. tais como a comunicação de massa. mas também de debates e de elaboração teórica. definida tanto na CF/88 (art. em 2007). na maioria das vezes. 04). solitária. neste breve cenário. Em outras palavras: como país. assistência social. A Anced. Esses elementos. participação paritária entre sociedade e poder público. 227) quanto no Estatuto da Criança e do Adolescente (art. É associação de Centros de Defesa. Dá-se no plano doméstico e institucional. transformam os adolescentes nos culpados pela violência e utilizam-se deste argumento para o recrudescimento do discurso e de propostas favoráveis à redução da idade penal e à ampliação de medidas repressoras e institucionalizadoras de modo geral. faz-se necessária uma avaliação do que tem representado para o movimento esse nível de atuação mais institucionalizado. as representações desses Centros junto aos demais atores nacionais de proteção e defesa de direitos. podemos citar as discussões que viriam a se constituir posteriormente na idéia do Sistema de Garantia de Direitos. se cristaliza. uma prioridade de intervenção. colocando-se. direitos da cidadania. Hoje. educação. o Inesc confirma esta perspectiva quando aponta que tem havido uma redução dos investimentos na área social: “O PLOA 2009 propõe a redução do crédito orçamentário dos programas de combate ao trabalho infantil (Peti) e exploração sexual de crianças e adolescentes”. Na prática. apresentou uma análise das conseqüências desse modelo de desenvolvimento e da falta de investimento desse modelo econômico para a infância brasileira: somando-se os investimentos em 2006 nas áreas de saúde. cogestão. e expressão nacional e internacional. O programa de erradicação do trabalho infantil tem 348. dissemina e divulga a reflexão iniciada à época da Rede Nacional dos Centros de Defesa sobre a necessidade e o 11 . o que representa uma redução de 8. cotidiana e. algumas bastante inéditas. 3. do ponto de vista estratégico.7 milhões como previsão para 2009. Foram criados os conselhos de direitos. A violência contra criança e adolescente somente toma visibilidade quando adquire interesse e dimensão midiática. somando o gasto com todas essas áreas sociais. É no convívio e a partir dessa complexidade interna que a Anced vem. fundos da infância e adolescência. Já em documento recente de análise da PLOA (Projeto de Lei Orçamentária) para 2009. sobretudo a que está Um elemento final. a década de 1980 nos trouxe aprendizados que foram sistematizados em propostas de construção de novos espaços de intervenção. as crianças e adolescentes. nos fala Margarita Bosh: “Com a fundação da Anced. a publicidade.62% se comparado ao crédito orçamentário que o Peti recebeu do congresso em 2008. aumenta e conta com a naturalização e aceitação junto à sociedade. (segundo documento apresentado pela Anced para debate geral com a ONU.. tornando-os mais vulneráveis e constituindo novos campos de violação de direitos. 2. saneamento. Deste modo. a Anced lida com o desafio de ser um espaço de articulação. alimentando o silêncio e a invisibilidade. agregando sua contribuição ao movimento de infância. De desenvolvimento de experiências locais. revelando que o encarceramento tem sido a medida mais utilizada para lidar com o adolescente em conflito com a lei. A situação da infância e adolescência e o papel das organizações de direitos humanos A prioridade absoluta. Entre essas contribuições. O plano trienal 2004-2006 trazia na sua apresentação a seguinte síntese sobre a criação da Anced: “Com essa institucionalização passou-se a contar com uma nova instância de abrangência nacional de intervenção que. seja por conta das desigualdades sociais que afetam. ao longo destes 14 anos. de um conceito de atuação como uma organização de direitos humanos de crianças e adolescentes. a criminalização. A existência da Anced viabiliza também. mas é também movimento social.adulto crianças se mantêm. Nesta condição híbrida. quando foi discutido o investimento na infância e adolescência. uma coalizão.. não tem garantido a implementação de políticas públicas que revertam o quadro de desigualdade e violações de direitos. em 1994. sendo uma associação e. Além de novos debates. por ocasião do Dia de Discussão Geral da Comissão dos Direitos da Criança da ONU. do Governo Federal.

” É nesse espírito que se deu a participação da Anced na audiência regional da Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos. Faziase necessário desenvolver ações governamentais e nãogovernamentais para a efetiva implementação desses direitos. o GT Ato Infracional. Fazer cumprir estes instrumentos é o ponto de certeza que se tem na Anced. fortalecer esse debate e contribuir para o avanço na elaboração de uma proposta de Sistema de Garantia de Direitos que contemplasse os três eixos fundamentais: promoção. reafirmamos nosso compromisso com o projeto éticopolítico de uma sociedade justa. procura ser uma referência para este debate quando afirma que “deve-se lutar pela minimização do direito penal e pela ao mesmo tempo em que possibilita a troca. seja mediante o reordenamento de algumas instâncias governamentais e não-governamentais. com destaque para participação de crianças e adolescentes que. não somente entre os Centros de Defesa. A fundação da Anced veio. pois. estavam em discussão as instâncias que deveriam ser responsáveis pela garantia dos direitos. que discutiu a situação de adolescente em privação de liberdade no Brasil. A relação entre o local e o nacional fortalece a ação da Anced. E ainda: “A opção prática dos direitos humanos. da postura crítica e independente frente a todos os governos e da proteção jurídicosocial de direitos humanos nossas ferramentas de projeção de um mundo de homens e mulheres iguais em todas as suas gerações. É. Essas questões dilemáticas têm acompanhando a Anced/Centros de Defesa e têm servido como ponto de partida para as definições orientadoras de sua ação/intervenção. embasada na reflexão deste contexto de luta dos direitos humanos no Brasil e na situação da infância. na sua atuação e no sentido de aprofundar os debates em torno de questões-chaves. em 2004. como por exemplo. refletindo por sua vez a atuação dos Centros de Defesa. democrática e sustentável. o debate sobre justiça juvenil aponta conflitos e buscas comuns. Qual o papel de uma organização de defesa dos direitos infantojuvenis? Qual a abrangência da defesa de direitos humanos e como vincular nossa prática de defesa à construção de uma ruptura societária? À medida que a Anced levanta estes questionamentos para si. como já indicado anteriormente neste artigo.” (Assembléia Nacional da Anced – junho de 2008) 12 . erradicação do trabalho infantil. Paraguai. Argentina e Chile. tem participado em outros espaços de debate e articulação como. A Anced tem priorizado a participação em articulações nacionais e internacionais. Também tem procurado criar espaços alternativos de troca de experiências entre os Centros. ampliação da aplicação dos direitos humanos como fundamento em normalização internacional e constitucional”. Alguns temas têm tido prioridade de intervenção da Anced. portanto. seja pela criação de outras. Entre eles. que a Anced se posiciona na sociedade. neste relatório. Ao mesmo tempo. em novembro de 2007. o GT de combate à impunidade. violência sexual contra crianças e adolescentes. por exemplo.formato de um ‘Sistema de Garantia de Direitos’ que contemple três eixos fundamentais: Promoção. tornando-se sessão Brasil desta organização internacional. está a necessidade de uma avaliação de nossa intervenção no plano institucional. referendando este posicionamento na carta pública aprovada na sua última assembléia nacional: “Assim. mas entre diferentes atores nacionais e internacionais. monitoramento do orçamento público. Alicerçado nas experiências desenvolvidas pelos Centros de Defesa. capacitação e estratégia dos Centros de Defesa e de outros atores sociais e governamentais. onde possa ser uma voz de denúncia e debate da situação da infância. Sendo assim. defesa e controle social dos direitos de crianças e adolescentes. serão agregados de forma efetiva e não colocados apenas como grupos focais. tem também procurado avançar na elaboração de reflexões que possam ser incorporadas à sua prática e ao movimento de infância. ainda seguimos buscando respostas a estes e outros questionamentos.” Naquele momento. Defesa e Controle Social. em diálogo com importantes segmentos da sociedade civil organizada. a Anced filiouse ao DCI/DNI em 2006. a Redlamyc (Red latinoamericana e Caribenha dos direitos de crianças e adolescente). nomeadamente o GT de enfrentamento à violência sexual. o GT Orçamento Criança e o GT de monitoramento da Convenção dos Direitos da Criança. e o mesmo passa a ser objeto de estudo. o relatório estava outra vez em construção. podemos destacar a criação de grupos de trabalho temáticos. As estratégias de ação e debate Entre as estratégias desenvolvidas pela Anced. Em 2008. O posicionamento apresentado pela Anced no encontro do DNI (Defensa de Los Niños Internacional). Outra contribuição da Anced foi a construção do relatório alternativo da sociedade civil sobre a implementação da Convenção Internacional dos Direitos da Criança. É claro que 18 anos depois da aprovação do ECA e 14 anos depois da criação da Anced. os GTs. Uruguai. pelo que continuaremos a fazer do engajamento militante. o intercâmbio e o aprendizado. violência contra criança e adolescente.

2007 . especialista em Arte e Educação.Fontes consultadas: Chauí.Reflexões sobre as práticas da defesa jurídico-social por entidades da sociedade civil – centros de defesa – Texto produzido por Margarita Bosh . Ângela – Crianças e adolescente no Brasil – Porque o abismo entre lei e realidade. São Paulo. Marilena – Considerações sobre a democracia e alguns obstáculos à sua concretização Pinheiro.Ceará. direitos e desigualdades – Um olhar sobre a proposta orçamentária 2009 – Inesc. 13 . Editora UFC Orçamento.Outubro 2008 Documentos da Anced: .Plano Trienal 2008-2010 .Orçamento e participação: uma contribuição brasileira – Documento apresentado pela Anced ao Dia de discussão geral da ONU-2007 * MARGARIDA MARQUES Graduada em Comunicação Social.Justiça juvenil: A visão da Anced sobre seus conceitos e práticas em uma perspectiva dos direitos humanos.Plano trienal 2004-2006 . faz parte da Coordenação Colegiada da Anced e da Coordenação do Cedeca .

mas que ainda estão aquém. indícios de vivermos uma “ilegalidade oficial”. O objetivo do Poder Legislativo era de que fosse possível reverter a dívida histórica com um atendimento marcado pela caridade e assistencialismo em detrimento da promoção de direitos humanos para a infância e juventude. fruto de grande mobilização social de segmentos diversos da sociedade envolvida e preocupada em transformar as vidas de crianças e adolescentes. Esta poderia ser uma das traduções do que se passa. Quando refletimos sobre os avanços e desafios do Estatuto. É possível dizer que. mas direcionador da Democracia!” “conto de fadas” que. 1 O Título “Quase de Verdade” foi inspirado no livro de literatura infanto-juvenil de Clarice Lispector. autora muito admirada pelos autores deste texto que. com ênfase no desenvolvimento de programas voltados para as necessidades comuns ao público-alvo. de novo. apesar das críticas sempre sofridas que os rotulam.A não observância do artigo 4º do ECA. bem como muitos dos direitos humanos de crianças e adolescentes inscritos no ordenamento jurídico área do especial. não devemos deixar de lado a dimensão do problema ao se fazer um balanço e perceber que avanços existiram. especialmente magistrados e promotores de justiça. é tudo “quase de verdade”. marcado pelo princípio constitucional da prioridade absoluta. no Direito do Sítio do Pica-Pau Amarelo. muitos outros títulos de histórias infanto-juvenis. mas direcionador da Democracia! Mais uma vez. graças à violação ao princípio.. nos três documentos comemorados. 14 . ainda possibilita uma justa homenagem à autora que tanto admiram e de quem são leitores vorazes. ao mesmo tempo que usam tomam emprestado o título para desenvolver o tema por possibilitar provocar uma reflexão crítica por parte dos leitores. Foi a inspiração para falar do que no mundo real acontece com o aniversário do Estatuto que. depois os 20 anos da Constituição da Republica que. direito transformando em um esta verdadeiro “Quando refletimos sobre os avanços e desafios do Estatuto. e não regional. estadual ou municipal. A urgente transformação de crianças e adolescentes em sujeitos (e não mais objetos) de direito. graças à violação ao princípio. toma o perfil de “ficção jurídica”. marcado pelo princípio constitucional da prioridade absoluta. Mas o grande destaque comemorativo para os “heróis da resistência”2 . poderia se chamar “O ECA no País das Maravilhas”.. porque sabia que as prénoções que antecipam o sentido eram (e continuam. Transformar as políticas públicas de emergenciais e repressivas em básicas. pensemos: o que temos hoje. tinha que ter uma força tal que impedisse o esquecimento pelo mundo adulto das necessidades básicas e fundamentais de pessoas em desenvolvimento. ainda) permeadas por um totalitarismo antidemocrático decorrente da “ignorância funcional” dos atores jurídicos.. e foi escolhida a expressão que pudesse destacar a importância das providências z serem urgentemente praticadas: “prioridade absoluta” para as ações pertinentes à garantia e defesa dos direitos fundamentais elencados constitucionalmente: dois anos após. já falecido. Após grande luta pela redemocratização do País. 3 Criminólogo italiano. objeto de ações repressivas e controladoras em sua maioria. mas que ainda estão aquém. em grande parte dos Municípios e Estados brasileiros? . assim. eleita a Assembléia Nacional Constituinte.. como meros “defensores de bandidos”.Uma proliferação de ONGs para tentar diminuir o abismo entre o que a política de atendimento prevê como direito a ser efetivado e o que temos como políticas públicas. também parece ora de mentira ora de verdade. que é nacional. alíneas “d” e “e” não sendo priorizadas pelas políticas públicas na área e recursos nos orçamentos. com toda segurança.QUASE DE VERDADE: DIREITOS HUMANOS E ECA. foi conquistado o artigo 227 da CR. é o mais que emblemático “aniversário dos 18 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente”. que late uma “história que até parece de mentira e até parece de verdade”. que fazia com que o público infantojuvenil fosse alvo da atenção apenas no viés abandono-delinquência. E. Alessandro Baratta (1998)3 anteviu a luta que seria travada: a reforma legal teria força suficiente para mudar a cultura? Seria possível trocar a lógica perversa da prática das políticas de repressão e emergenciais pelas políticas públicas básicas? O que temos hoje? Hoje. considerado o grande ícone da Criminologia Crítica. embora o “Quase verdade” de Clarice forneça um significante mais adequado ao que pretendemos ou. diante da inobservância das leis: a prioridade absoluta. muitas vezes. 18 ANOS DEPOIS. a pergunta: o que temos hoje? Em todos os segmentos da sociedade. ainda. que é nacional. muito decorrente de decisões individuais de aplicação efetiva do ECA. sem sombra de dúvidas. talvez situado no meio termo de realidades singulares neste imenso país. . ficou conhecida como Constituição Cidadã. nenhum dos princípios seja mais “quase de verdade”.1 ALEXANDRE MORAIS DA ROSA* ANA CHRISTINA BRITO LOPES** Dois mil e oito foi fadado a grandes comemorações voltadas para os direitos humanitários: primeiro os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU. ao ser lido e colocado em confronto com a realidade. Mas aqui cabe-nos apenas refletir sobre os dezoito anos do Estatuto e daí a propriedade do uso do título de história infantojuvenil de Clarice sobre o cachorro Ulisses. estadual ou municipal. os quais não conseguem compreender o giro copernicano avivado pelo ECA e a cultura dos Direitos Humanos. Talvez. ratifica-se o artigo constitucional na Lei 8069/90 – Estatuto da Criança e do Adolescente. de tão comprometida com os direitos fundamentais. em maior ou menor escala. e não regional. 2 Expressão escolhida para tentar definir aqueles que se dedicam a lutar pelos direitos humanos. apesar de princípio constitucional. podemos afirmar que ele teve discernimento e clarividência suficientes para prever o grande desafio de concretizar a transmutação de crianças e adolescentes de objetos em sujeitos. não devemos deixar de lado a dimensão do problema ao se fazer um balanço e perceber que avanços existiram. parafraseando o famoso conto infantil.

Universidades cujos cursos de graduação em Direito não contemplam em suas grades curriculares a obrigatoriedade do ensino do direito da criança e do adolescente.. nem como opção livre e acarretando. que exige conhecimentos interdisciplinares (psicologia. tributária. para se assegurar e impor que a Constituição e a lei sejam aplicadas em todas as áreas.Adolescentes envolvidos com a prática de atos infracionais ainda em delegacias para adultos. pelas constituições. exaustivamente. de gente que confunde proteção integral com sua opinião pessoal e tranforma o ECA num instrumento de opressão. ficando em último plano a vez e voz dos sujeitos que deram causa a todos estarem ali reunidos quinzenal ou mensalmente. muitas vezes. muitas vezes iniciada pelas mãos dos familiares (prática histórica e mundial). . que não é o suficiente para trabalhar com as questões do universo infanto-juvenil. acabam colocando em risco a defesa adequada daqueles por quem estão atuando. A Constituição da República de 1988. . ordenou que todos fossem responsáveis pelos direitos fundamentais de crianças e adolescentes: a família. medicina. seja da mão-de-obra.)”4 4 Baratta. no tráfico etc. muitas vezes não revertem nas políticas públicas que deveriam ser deliberadas. não mais para conquistar uma lei preponderantemente comprometida com os direitos humanos. seja do corpo da criança e do adolescente. Crianças e adolescentes transformados em mercadoria de troca ou objeto de lucro (prostituição infantil. do alto do seu olhar visionário. . quando mobilizada e organizada.. em alguns casos. Conferências (Municipais. . como promotores. à Defesa Técnica obrigatória a que têm direito quando envolvidos. pelas convenções internacionais. negando-se a cumprir o caráter emancipatório do ECA. muitas vezes. com disputas acirradas e muita discussão sobre os que poderão participar das mesmas. Os temas escolhidos para serem debatidos. com base nas sínteses registradas nos Anais das Conferências pelos Conselhos. Este novo direito apresenta uma grande demanda de profissionais que possam operacionalizar e tirar do papel as conquistas da reforma legislativa. trabalhista. indicou a difícil luta para a concretização do projeto de uma sociedade mais igualitária e mais justa necessária para a aplicação do novo direito da infância e da adolescência: “(.. família. In Difíceis Ganhos Fáceis: Drogas e Juventude Pobre no Rio de Janeiro. (. 1998. É hora de nova mobilização social. por exemplo. ainda.Conselhos de Direitos que ainda não têm clareza sobre quais são suas reais atribuições: controlar ações em todos os níveis e deliberar políticas públicas para a infância e juventude e.). incorrendo no perigo de inverter a lógica do que é prioridade absoluta por ações. serviço social. assim.Dificuldade em ter acesso à Justiça graças à inexistência de Defensoria Pública em alguns Estados e. nem sequer leram o Estatuto antes de se elegerem e não podem garantir o que desconhecem. Alessandro Baratta. Uma sociedade que. em participar da deliberação de políticas públicas pelos Conselhos de Direitos e adiando a vitória destes espaços contrahegemônicos vitais para a transformação e efetivação dos direitos humanos de crianças e adolescentes. que irão operar o sistema de garantia de direitos sem sequer conhecerem o texto básico legal (Estatuto).) Hoje.. pg. Temos centenas de advogados nas áreas cível. a exemplo do ocorrido na década de 80. “desorganizada” e desarticulada por interesses “confusos”. utopia concreta é a legalidade constitucional (. .. . Rio de Janeiro: Instituto Carioca de Criminologia: Freitas Bastos.Um universo de explorações. .) o caminho hoje no Brasil e em todo o mundo do capitalismo real é o das lutas pacíficas e tenazes. quando resolvem atuar. com viés mercantilista.. gente que rasteja no campo da infância e juventude. como conseqüências: a) Futuros operadores de direito que se transformarão em profissionais de carreira pública. reiterando-se o espetáculo das derrapagens totalitárias. pedagogia. Não se pode tolerar.. 20 anos atrás. tais como: . mas pela efetivação desta. ou em unidades de internação inadequadas e contrárias aos preceitos indicados pelos estudiosos com maior probabilidade de mudar a orientação deles para uma vida consoante às condutas socialmente aceitáveis.. c) Despreparo técnico de advogados para trabalhar na defesa da parcela mais vulnerável da sociedade. Estaduais e Nacional) que roubam os olhares e a atenção de todos durante o ano de suas realizações.: compra de votos). Revolução social significa sinergia de todas as lutas pela defesa e plena realização dos direitos sancionados pelas leis... assim. especialmente porque assiste a “banda passar falando coisas de amor” e se acovarda diante de um Poder Público que se omite reiteradamente. .Processo de eleição de Conselheiros Tutelares (quando existem) completamente “viciado” pelas mesmas mazelas das eleições para cargos políticos de vereadores. (ex. mas um número ínfimo de profissionais que conhecem e podem advogar no âmbito infanto-juvenil. desperdiça a conquista da mesma sociedade civil. Plenárias e Comissões que se transformam em “reunião de adultos” defendendo seus interesses institucionais ou dos órgãos que representam (se governamentais). Que 2008 seja um marco: a retomada. muitas vezes. meninos vendidos como jogadores de futebol para o exterior.20 15 . com a prática de um ato infracional. trabalho no lixo. estão longe do que foi idealizado pelo ECA. afastando a concretização da ampla defesa e dificultando o sucesso na garantia do direito a ser defendido. b) Baixa capacidade de compreensão do ECA por magistrados e promotores. diversos dos que deveriam nortear as ações dos Conselheiros. penal. independente da região em que se encontram. como já disse Norberto Bobbio. nos canaviais. prefeitos. defensores públicos e juízes. com todas as especificidades nos seus procedimentos e que. Conselheiros despreparados para cumprir com a difícil missão de zelar pelos direitos de crianças e adolescentes simplesmente porque. deputados. a sociedade e o Estado..).Conselhos Tutelares que. Alessandro.

**ANA CHRISTINA BRITO LOPES Secretária da Comissão da Criança e do Adolescente da OAB/PR. é possível dizer. característico de crianças e adolescentes no Código de Menores.. Muitas conquistas existiram com base na lei predominantemente comprometida com a garantia dos direitos humanos de crianças e adolescentes. Há que se admitir que. exista só nas brincadeiras e na literatura infantil. por exemplo. não provoquem comentários jocosos e piadas quanto à sua veracidade. é o desejo de termos uma sociedade na qual tenhamos leis que. no que diz respeito ao consagrado e festejado “princípio da prioridade absoluta” – no que concerne à preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas e destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção à infância e à juventude – seja tudo de “verdade verdadeira”... quando lidas para os que ainda as desconhecem. 16 . *ALEXANDRE MORAIS DA ROSA Juiz de Direito da Infância e Juventude de Joinville (SC). porém perseverante. Professora da PUCPR e Coordenadora do Curso de Especialização Panorama Interdisciplinar do Direito da Criança e do Adolescente da PUCPR. mas que. Mestre em Ciências Penais.. com Clarice. nem tudo se perdeu. “Inventemos” mais e mais maneiras de criar mecanismos para superar a criatividade inspirada em uma lógica perversa dos que inventam para perpetuar a cultura de desprezo e exploração dos mais frágeis e vulneráveis. No mundo do “faz-de-conta”. graças a um pequeno. escrever este artigo. que insiste em se manter em vigor em vários aspectos. Se para a consagrada autora. a verdade só é como tal no mundo de quem gosta de inventar. porque desde 1988 nem todos viveram felizes para sempre. Queremos uma sociedade na qual o “faz-de-conta”. Talvez. não é (foi) uma condição suficiente em todos estes anos para transformar a realidade. Doutor em Direito (UFPR) e Professor do Programa de Mestrado/Doutorado da UNIVALI-SC. felizmente. vinte anos depois. número de guerreiros pró-direitos de crianças e adolescentes. o “lúdico”. possamos entender o caráter e a função de uma “quase verdade” na construção da cidadania infanto-juvenil. em especial. O que nos move a continuar na luta e. ter uma Carta Magna que ordena a prioridade absoluta para a garantia e efetivação destes direitos. com toda segurança: ter a melhor lei nacional para crianças e adolescentes. Agora. como a de Clarice. mesmo 18 anos depois de ter sido revogado. até utopia é diferente: o desejo é de alcançar a legalidade material que só foi alcançada até certo ponto. sejamos mais criativos que os que vêm sendo vitoriosos na arte de criar estratégias para continuar perpetuando o status quo de objetos. embora necessária. principalmente na cabeça de gente com uma cultura jurídica mofada! Sem contar os “menoristas enrustidos”.Dez anos já haviam sido transcorridos da promulgação da Constituição da República à época em que ele escreveu estas palavras.

Dona Maria José Braga era um grande exemplo de competência. jogavam futebol na rua. tornou-o justo e humanizado. o início deste jovem século XXI caracteriza-se. colocou dois papeizinhos numa sacolinha e sorteou o nome do menino negro e pobre. de dignidade. No ano de 2008 registraram-se algumas datas significativas para a garantia dos Direitos Humanos: 120 anos da Abolição da Escravatura. Não éramos. como nunca antes. borracha. para lápis. por uma intensificação da segregação social. também. brincavam juntas. Pensar os Direitos Humanos é também pensar a memória. o comunismo. puxava-se a tampa e havia vários espaços separados. contra a produção dos seus valores ideológicos e da sua organização social. “Lutar pelos Direitos Humanos é. todas as crianças estudavam no Grupo Escolar. não deixar que o esquecimento prevaleça. premiado pelo seu mérito. Cada vez mais... Diretora do Grupo Escolar. da minha sala. escola pública de alta qualidade (minha mãe era professora do Grupo e meu pai era Promotor de Justiça da cidade). então. acho que Dona Arésia. era um ser bárbaro e desumano. que ela e o marido. As crianças da cidade. comunista comia criancinha. Por isso. A História ajuda a pensar. por uma aprofundada concentração privada das riquezas. a invenção de nova vida – o apenas a construção da nova realidade social na qual nossos sonhos utópicos serão realizados. A Diretora era o Estado intervindo para favorecer o mais desfavorecido. desenvolver. Comentava-se. hegemônico e soberano. Diretora da escola pública. iguais perante a lei naquele momento. lembro-me de duas professoras do Grupo Escolar. E comecei a pensar e a descobrir como as belas mentiras eram inventadas pela ideologia do Capital. Fiquei um pouco desolado. integralmente humana. transformando o próprio serviço público em mais uma mercadoria. sobre o compromisso do Estado com a concretização das políticas públicas. nesta sua fase histórica. que limitam e restringem a própria vida. eu e meu amigo. A minha primeira sensação foi sentir-me injustiçado com o sorteio dirigido. Entretanto. globalizadamente. eu participava do campeonato de corrida. Mas o exemplo humano da professora Maria José me intrigava. as filhas da classe média e da burguesia –. era o reconhecimento de que o menino negro e pobre poderia ter o direito e a alegria de ganhar um estojo. o comunismo era considerado o “mal do século”. O desempate seria pelo acaso do sorteio. da erradicação da pobreza. cruel e desprezível. obediente ao projeto político neoliberal. de seriedade. intervindo no acaso. SERGIO VERANI* “Segue-se a segunda etapa. conseguiu. lutar pelos Direitos Humanos é. Se Dona Maria José era uma pessoa assim.. exigir que o Estado exerça o seu compromisso constitucional para a garantia da cidadania.” (Slavoj Zizek) Naquela época. negro e pobre. e cheguei em primeiro lugar junto com outro menino. o Estado afasta-se e ausenta-se da sua responsabilidade pelas políticas públicas. Pensar os Direitos Humanos no século XXI significa pensar as formas de luta contra o Capital. ela era a contestação viva daquela fraudulenta propaganda anticomunista. E a Diretora. A outra professora lembrada é Dona Arésia Winiwarter. 18 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente. O prêmio seria um estojo. você já tem um estojo bonito. porém. Era um dia de jogos esportivos.” 17 . Criança. em Nova Friburgo. Criava-se um vínculo social entre as diferentes crianças – estudavam juntas. A Diretora anunciou que faria um sorteio. Estabelecia-se uma forte ligação comunitária e afetiva. da marginalização e das desigualdades sociais. O Capital. eu sorteei o seu amigo porque ele não tem nenhum e nem pode comprar. e Dona Arésia veio me consolar: não fica triste não. eram comunistas. Hoje. exigir que o Estado não se privatize. as menos pobres. fiz o curso primário no Grupo Escolar Ribeiro de Almeida. mas a (re)construção desses próprios sonhos. daqueles de madeira. apontador etc. não podia ser identificado como alguma coisa desumana. início dos anos 50. da dignidade da pessoa humana. delegando e repassando esse dever constitucional aos setores privados. as filhas dos operários das fábricas. 20 anos da Constituição Federal. o seu incontrolável impulso para a morte e para a destruição do humano. desconfiei do sorteio.. ele tinha mais direito ao estojo do que eu. também. muito pelo contrário.. 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. quase cochichando. pela fragmentação dos interesses públicos/coletivos e dos movimentos comunitários. A lição de Dona Arésia produz também uma séria reflexão política. todas as crianças – as pobres. de respeito por todas as pessoas. deu uma grande lição de Justiça.DIREITOS HUMANOS NO SÉCULO XXI: AS ALGEMAS E OS SONHOS.. por uma exacerbação da desigualdade social e do sofrimento humano.

” Surgiram divergências quanto ao cabimento. parecia empenhado em aperfeiçoar a escravidão.” Uma corrente sustentava que “o Estado tinha de submeter o poder privado dos senhores ao domínio da lei. com a injurídica justificativa de que há “violência e grave ameaça à sociedade inerentes ao tráfico”. da erradicação da pobreza. da lei 11. E o funcionário público Machado de Assis orientava o seu parecer sempre no sentido de garantir a liberdade: “Outrossim. era um escritor. ou não. o domínio que têm sobre eles. impondo-se 18 . como se dizia”. 2007) – 2008 também foi a data dos 100 anos da morte de Machado –. para “proteger o adolescente infrator. no seu livro “Machado de Assis.” De outro lado. primeiro de tudo. A escravidão. proclamar. da apelação “ex officio”. em torná-la mais ‘humana’. equitativa. da marginalização e das desigualdades sociais. Historiador” (Companhia das Letras S. não podia o legislador consentir que esta perecesse sem aplicar em seu favor a preciosa garantia indicada no art. como fez Dona Arésia. faz uma longa pesquisa sobre “Escravidão e Cidadania: a experiência histórica de 1871”. convém não esquecer o espírito da lei.343/06 – tráfico de entorpecentes –. 19 do regulamento. 33. salvo aos mesmos senhores o meio de provar. ajuda a compreender a necessidade dessa intervenção no acaso e nas relações privadas. promover e resguardar o interesse da liberdade. estimulando-o a abandonar a prática de atos infracionais”.” Lembre-se que Machado de Assis não tinha formação jurídica. (refere-se ao recurso ex officio). apelidada Lei do Ventre Livre. promover e resguardar o interesse da liberdade”. exigir que o Estado exerça o seu compromisso constitucional para a garantia da cidadania. Cautelosa. em que. em relação à propriedade dos senhores. no conto “Mariana”: Ao mesmo tempo. Chalhoub analisa os pareceres do funcionário público Machado de Assis. uma lei de liberdade. torna-se uma coisa privada. Alguns juízes das Varas da Infância e Juventude fazem uma “Parece sugerir que não havia saída para o problema da escravidão por dentro das relações instituídas entre senhores e escravos. Era preciso intervir nas relações entre senhores e escravos e promover a superação da instituição da escravidão. com a evolução do desenvolvimento social. cujo interesse ampara em todas as partes e disposições. mas deve intervir no acaso. sua alma e fundamento. Seu discurso lembra os de advogados abolicionistas que encontrei tantas vezes nas ações de liberdade estudadas para a elaboração de Visões da liberdade. consistia em saber se o poder público deveria ou não intervir no domínio privado dos senhores sobre seus escravos. da dignidade da pessoa humana. durante a discussão do projeto de lei: “O debate. ela é. o pensamento mais conservador “recusava-se a debater a questão da emancipação. para a construção dos Direitos Humanos. e não ter havido culpa ou omissão sua na falta da matrícula. Este parecer é de 21 de julho de 1876. Lutar pelos Direitos Humanos é. portanto.A coisa pública vai deixando de ser pública. é para mim manifesto que num caso como o do art. Sidney Chalhoub observa que Machado de Assis. por uma transformação lenta e pela revolução social dos costumes”. desde o direito e facilidades da alforria até a disposição máxima. Aplica-se a medida de internação ao ato infracional análogo ao crime do art. exigir que o Estado não se privatize. Chalhoub mostra que. seria naturalmente extinta. O Estado não pode tornar-se um mero espectador do acaso. é preciso afastá-lo “do convívio que lhe é prejudicial”.P. agora. enfrentando decididamente os interesses sociais e econômicos que ainda a sustentavam. O historiador Sidney Chalhoub. a Lei de 28 de Setembro quis. A mensagem inescapável do conto é a necessidade de o poder público submeter o poder privado dos senhores ao domínio da lei. Conclui Sidney Chalhoub: “Machado de Assis foi de longe o autor do parecer mais politizado e incisivo da série... 7º da lei”. lutar pelos Direitos Humanos é. sabia que “a Lei de 28 de Setembro quis. O regulamento da lei determinava que “os escravos que não forem dados à matrícula por culpa ou omissão dos senhores serão considerados libertos. à prática judicial do século XXI. E. ao invés disso. correta.” interpretação violadora dos princípios e normas do Estatuto da Criança e do Adolescente. não obstante. desnecessária a intervenção do Estado na relação privada/doméstica entre os senhores e seus escravos. o objeto superior e essencial é a liberdade do escravo. mas sabia compreender “o espírito da lei”. em ação ordinária.. à época chefe da seção do Ministério da Agricultura encarregada de acompanhar a aplicação da Lei do Ventre Livre. Sendo este o espírito da lei. também. É ocioso apontar o que está no ânimo de quantos a tem folheado. Um retorno. também. Uma lembrança histórica. não havia alternativa para obter a emancipação dos escravos. Trata-se de uma análise sobre a lei de 28 de setembro de 1871. proclamar. a respeito da Abolição da Escravatura. primeiro de tudo. nas hipóteses de decisões contrárias à liberdade. como ficou dito. Era “a fina flor da resistência escravocrata”: “o partido conservador sempre esteve convencido da necessidade de deixar que o problema da emancipação se resolvesse por si. segundo os conservadores. transformando o próprio serviço público em mais uma mercadoria.

sem prejuízo da responsabilidade civil do Estado. e não a repressão desmedida. e reinventar seus próprios modos de sonhar. As conquistas históricas este ano registradas não se esgotam em si mesmas. mudar os próprios sonhos. 2008.” Os juízes podiam.“a conscientização através da imposição de limites mais rígidos”. diante do entendimento do S. E já existia a Súmula Vinculante nº 11. aplicando ao adolescente Diego. por parte do preso ou de terceiros. realizada em 03. a Defensora Pública requer que “sejam retiradas as algemas do adolescente. Professor da UERJ e Presidente do Fórum Permanente dos Direitos Humanos da Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro. Diante do exposto. Mas o adolescente Diego já cumprira internação desde o dia 20 de julho. para que os sonhos não permaneçam estagnados. a impedir a efetivação dos Direitos Humanos.T.11. insiste na necessidade da invenção de uma nova vida como sonho revolucionário: “não apenas a construção da nova *SÉRGIO VERANI Desembargador Presidente da 5ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.F. vale esclarecer que cabe ao Magistrado com equilíbrio e bom senso. ler Machado de Assis. civil e penal do agente ou da autoridade e de nulidade da prisão ou do ato processual a que se refere. realidade social na qual nossos sonhos utópicos de emancipação serão realizados.08.08. tratando-se inclusive. nas suas várias formas. a internação. A Juíza decide: livrar-se do passado. “sendo ineficiente a aplicação de qualquer outra medida sócio-educativa”. tradução de José Maurício Gradel). são tantos os passados que permanecem no presente.09. Muitas ainda são as algemas. do Supremo Tribunal Federal: “Só é lícito o uso de algemas em casos de resistência e de fundado receio de fuga ou de perigo à integridade física própria ou alheia.. de norma de segurança diante da possibilidade do risco de fuga. já que os agentes do DEGASE não possuem armas e neste ato. em 07. caso a caso. a 5ª Câmara Criminal do TJRJ concedeu a ordem para que o Paciente permaneça em liberdade assistida até o julgamento do recurso de apelação.08. de que o uso de algemas só deve ser adotado em casos excepcionalíssimos”. para não regressar à velha realidade. há presença de familiares e ausência de qualquer policial militar. São tantos os passados que não passaram. ainda algemado na audiência. sob pena de responsabilidade disciplinar. na apresentação de “MAO – sobre a prática e a contradição” (Zahar. 19 . de vez em quando. não havendo que se falar em violação do princípio da presunção de inocência ou que tal circunstância possa influenciar na sentença. “Derradeiramente quanto a alegação defensiva em relação a manutenção de algemas nos representados. Estas são expressões de uma sentença da Vara da Infância e Juventude de São Gonçalo. mas a reconstrução desses próprios sonhos”.” No Habeas Corpus 6990/08. verificar se reputa necessário ou não a manutenção das mesmas para regularidade do julgamento. de 15 anos. e tentar aprender a garantir a liberdade.08. O filósofo Slavoj Zizek. mantenho o uso de algemas durante as audiências neste juízo. justificada a excepcionalidade por escrito. Muitos ainda precisam ser os sonhos. julgado em 13. Para não nos tornarmos testemunhas do próprio fracasso em Na audiência de julgamento.

que teve início na sessão de 16 de fevereiro de 1946 do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas.. ligados de forma indissolúvel aos direitos civis e políticos. com assessoria da Secretaria das Nações Unidas. em que ficou decidido que uma Comissão de Direitos Humanos. Extremamente culta. autor da referência a “direitos diretamente universais”. em 1940. em 1946. Surpreendentemente. Povos das Nações Unidas. Natural. esta o saudou como militante apaixonado e “criador do direito”. ao mesmo tempo. da fraternidade entre os homens. a ser criada. pedindo-lhe que assumisse a vice-presidência da Comissão 1 Ele fora o mentor da lei sobre os direitos à reparação para as vítimas da Primeira Guerra Mundial e. deveria desenvolver seus trabalhos em três etapas. a Comissão se encarregaria de criar instrumentos adequados para assegurar o respeito aos direitos humanos. Na primeira etapa. portanto. presidida por Eleanor Roosevelt. fazer o que bem entendessem. Em 18 de junho de 1947 ficou pronto o projeto de uma Declaração Universal de Direitos Humanos. a qual era dirigida pelo mesmo René Cassin. Eleanor Rossevelt “O ponto mais discutido da Declaração era a sensibilidade dos países membros da ONU diante da não ingerência em assuntos internos. Criada em meio ao assombro do final da 2ª Grande Guerra. Transformar esses ideais em direitos seria missão progressiva no âmbito nacional. 20 . a primeira dama dos Estados Unidos conseguiu introduzir princípios em favor da igualdade de gênero durante os trabalhos. Presidida por este último. Perrin. Sente-se especialmente a influência da França e de René Cassin. devido ao seu espírito de síntese e senso das realidades. père de la Déclaration universelle des droits de l’Homme.O 60º ANIVERSÁRIO DA DECLARAÇÃO UNIVERSAL DE DIREITOS HUMANOS DAS NAÇÕES UNIDAS. O problema é que não se podia. o primeiro é. era essencialmente composta de juristas e diplomatas. escrevera diversos ensaios acerca da necessidade de construção da paz e de proteção aos direitos humanos. ao mesmo tempo. Membro do Conselho de Estado da França. Cassin era considerado um “utopista pragmático” e. porém. ou seja. mais audacioso que o último. Por fim. A ideia de que a Declaração se intitulasse “Universal” foi de Cassin. sociais e culturais deveriam ser considerados direitos fundamentais. a Comissão deveria elaborar uma declaração de direitos humanos. René Cassin. Ao chegar a Nova Iorque. poderiam a qualquer momento. exatamente como redigido em seu artigo I. que serviu de base para a discussão. apresentado à Comissão em junho de 1947.” influenciou imensamente a redação da Declaração Universal. Tchecoslováquia. embora aprovada por unanimidade (mas com a abstenção dos países comunistas – União Soviética. Paris. atendendo ao disposto no artigo 55 da Carta das Nações Unidas. que temiam perder sua soberania com tal afirmação2. a Declaração Universal dos Direitos Humanos. fazer o que bem entendessem. além de dar ao texto poder concreto e clareza. Ucrânia e Rússia Branca. no nível universal.”. representando a França na Comissão de Direitos Humanos. minha intenção é “rascunhar” sobre o histórico deste importante instrumento jurídico. até que se adotou a versão definitiva. que insistiu por substituir a palavra original “Internacional”. base do sistema das Nações Unidas. já que. 1998. resultado de um esforço sistemático de educação em direitos humanos. um anteprojeto de Declaração. direitos humanos. Polônia e Iugoslávia – e da Arábia Saudita e África do Sul) não convencia a todos os membros da ONU. 2 Para detalhes históricos conferir AGI. criada em Paris em 1947 pelo governo francês. O problema é que não se podia. ao se comparar o texto final com o esboço original. falar em universalidade de direitos humanos e deixar sua proteção sob a tutela de países soberanos que. dos valores supremos da igualdade.. acrescentava a essa tarefa não apenas suas qualidades como jurista . base do sistema das Nações Unidas. redação posteriormente rechaçada pelos países no início da Guerra Fria. aprovada em 10 de dezembro de 1948. foi fazer com que se admitisse que os direitos econômicos. que se iniciava com a frase: “Nós. da qual viria a nascer a Comissão Nacional Consultiva dos Direitos Humanos. Sua intenção era associar a Declaração ao conceito fundador da Carta das Nações Unidas. poderiam a qualquer momento. da liberdade. a exemplo a Alemanha nazista. deveria produzir um documento que vinculasse mais que uma “mera declaração”. Foi então elaborado um texto com 45 artigos. que a Declaração retomasse os ideais da Revolução Francesa. mas também sua prática como defensor de 1 e redigisse. que só podem ser garantidos por uma instância supranacional. Na segunda. especialmente quando trata da universalidade dos direitos humanos. ao assumir a missão de participar da redação da Declaração. estando encarregada de preparar as instruções destinadas à delegação francesa nas Nações Unidas. Esse texto era fruto dos trabalhos da Comissão Consultiva dos Direitos Humanos. tratando dos “casos de violação”. desde a ascensão do nazismo e fascismo na Europa. O ponto mais discutido da Declaração era a sensibilidade dos países membros da ONU diante da não ingerência em assuntos internos. VANESSA OLIVEIRA BATISTA* Em função da comemoração dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos em 10 de dezembro de 2008. falar em universalidade de direitos humanos e deixar sua proteção sob a tutela de países soberanos que. sendo considerada o símbolo da formação. Assim como Cassin. Marc. sob proposta de René Cassin. Seu maior legado. a exemplo a Alemanha nazista. deveria fazer uma convenção ou tratado internacional. essa comissão. que deviam dar uma base jurídica e internacional à França livre. o redator dos Acordos Churchill-de Gaulle. em muito aspectos.

Fábio K. tecnicamente. ainda não foi concluída. Professora Adjunta da Faculdade Nacional de Direito da UFRJ. A Declaração Universal é o ápice de um processo ético. fonte de todos os valores. De fato. ao adotar uma Declaração Universal de Direitos Humanos. Disponível em : www. *VANESSA OLIVEIRA BATISTA Mestre e Doutora em Direito. que são exigências básicas do respeito à dignidade humana.44. mas que “a perfeição não está sempre ao alcance dos homens e é de nossa natureza que tudo o que é humano seja igualmente perfectível”4. The Americana Journal of International Law. que a vigência dos direitos humanos é independente de sua declaração em constituições. língua. em 10 de dezembro de 1948. na sua integralidade. origem nacional ou social. o jurista Hans Kelsen. afirmou que não estávamos diante de um documento sem defeitos. religião. É um documento que levou ao reconhecimento da igualdade como essência do ser humano. porém. Tal entendimento. igualmente. da Revolução Francesa. representante da Delegação do Brasil. além do Tribunal Penal Internacional. Ele discordava da Comissão. dizendo que o pretendido não é codificar o Direito Internacional.org 21 . em Paris. Hans. se manifestou sobre o projeto de 1947. disponível em www. a Declaração de 1948 define direitos que correspondem. ou qualquer outra diferença (artigo II). na Assembléia Plenário da ONU. conforme o artigo 10 da Carta da ONU.htm/discurso 5 Para mais detalhes sobre o impacto da DUDH. pois atualmente se reconhece. posto que fundada no Direito Natural3. A Declaração Universal dos Direitos Humanos 1948. conferir COMPARATO. em que deveriam ser criados os mecanismos para assegurar a observância dos direitos. em substituição à Comissão de Direitos Humanos. reconhecendo tanto a legalidade da norma internacional. afirmando que os deveres precedem os direitos. Austregésilo de Athayde. 38). reconhece-se. No discurso de encaminhamento à votação da Declaração Universal dos Direitos Humanos. opinião.dhnet. parte da doutrina sustenta que o documento não tem força vinculante. como a força condutora dos direitos consagrados no texto. na ocasião da aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Infelizmente. 3 KELSEN. foram aprovados os pactos sobre direitos civis e políticos. aos costumes e princípios jurídicos internacionais. criado em 2006. O que há neste âmbito é a possibilidade de instauração de um processo de reclamações junto ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. que entrou em vigor em julho de 2002. 4 Austregésilo de Athayde. como declarado no Estatuto da Corte Internacional de Justiça (art. exigível com o consentimento ou não dos poderes estabelecidos. e sobre direitos econômicos. A parcela de humanidade contida na Declaração se constitui na verdadeira universalidade do texto das Nações Unidas5. Apenas em 1966. uma recomendação da Assembléia Geral das Nações Unidas aos seus membros. Neste interstício foram aprovadas várias outras convenções sobre direitos humanos. fundamental para o respeito à dignidade humana. Ele trata da natureza jurídica da Declaração. sexo. iniciado com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Diante desta posição. sociais e culturais. discurso na ONU em 1948. peca pelo formalismo. v. além dos tratados e convenções. Ele considerava que. sem distinção de raça. Embora a doutrina jurídica contemporânea distinga os direitos fundamentais como aqueles consagrados pelos Estados em regras constitucionais escritas. leis e tratados internacionais. n.DHnet/athayde. mais conhecido dos estudantes de Direito por sua obra na área de filosofia jurídica. 259 (1950). formado também pelos costumes internacionais e princípios gerais do direito. a Assembléia Geral poderia tão somente recomendar aos Estados membros da ONU a observância dos princípios nela contidos. que o direito internacional é. The draft declaration on rights and duties of States. Kelsen esclarece que os princípios de direito internacional podem – e devem – ser formulados apenas em termos de deveres. a terceira etapa. por toda parte.A Declaração Universal é. pelo fato de que são exigíveis diante do respeito à dignidade humana. criado para julgar casos de genocído e crimes contra a Humanidade em 1998. sendo a concepção formulada pelos redatores da Declaração falaciosa. Em suma. e sim formular normas jurídicas dotadas de força vinculante no âmbito internacional. previstos na segunda etapa.. no entanto.

mas. Os 65 anos aqui citados representam infância e da juventude (. a resposta é sempre: “temos o estatuto”. como a maior parte dos Comitês semelhantes. promulgada pela ONU em 1954. Estados Partes das Nações Unidas. de fato – permitam-me o trocadilho. tendo sido apresentada pela Polônia. Em 1989. Declaração esta que originaria a Declaração Universal dos Direitos da Criança. em 1924. 1979 seria o ano internacional da Criança e pretendia-se que naquele ano a CDC estivesse terminada e promulgada. TEMOS UM OUTRO A COMEMORAR. Um tempo para consolidar lutas e abrir novas frentes de batalha. No entanto. organizações. art.. por sua vez. Vale lembrar que até os dias de hoje nem todos os países. A Convenção sobre os Direitos da Criança representa um passo adiante na história da humanidade. é a vez da Liga das Nações – que mais tarde daria lugar à Organização das Nações Unidas – adotar a Declaração de Genebra dos Direitos da Criança. Um dos problemas apontados para a demora era a alegação de que o documento apresentado pela Polônia tratava-se de uma mera reformulação dos direitos já defendidos na Declaração de 1959. e até mesmo governos. “O Comitê dos Direitos da Criança. Era preciso. então. foi o embrião da atual Convenção Sobre os Direitos da Criança . a qual. sim. Poucas são as organizações brasileiras que se dizem trabalhar pelos direitos das crianças que conhecem a Convenção de fato. Pouco tempo depois. “a fim de examinar os progressos realizados no cumprimento das obrigações contraídas pelos Estados Partes” (CDC. elaborando recomendações baseadas em relatórios oficiais de cada governo e também da sociedade civil. Estados Unidos da América e Somália ainda não reconhecem a CDC. RICARDO DE PAIVA E SOUZA* Sessenta e cinco anos. ir mais além. s/d) Mas não foi fácil chegar a acordos. pudessem ter um mecanismo de mediação e/ou negociação o qual permitisse assegurar uma condição mínima de vida para as crianças enquanto cidadãs. emerge a esperança e a luta de inúmeros cidadãos. era preciso criar um órgão Longe de dar a certeza da garantia de todos os direitos da criança. entretanto. permito-me citar dois procuradores do Estado de São Paulo que assim se pronunciam sobre a CDC: “Em meio a conflitos regionais e mundiais. Esta luta política e ideológica pela humanidade enseja a criação de instrumentos jurídicos nacionais e internacionais de proteção dos Direitos Humanos e. Um tempo de maturação de idéias. 43). 22 . Esse foi o tempo para que quase todas as nações do mundo entendessem que os Estados deveriam ser os principais garantidores dos direitos das crianças. Nela se estabelece o Comitê dos Direitos da Criança. dentre estes. estará constituído por especialistas escolhidos pela capacidade pessoal pelos Estados Partes na Convenção. como um sujeito de direitos. Diferentemente de outros comitês. Outrossim. A função essencial do Comitê consiste na análise dos relatórios dos Estados Partes sobre ‘as medidas que tenham adotado com vistas a tornar efetivos os direitos reconhecidos na que pudesse zelar pelo cumprimento dos compromissos acordados entre os Estados Partes. pela busca de uma vida mais harmônica aos povos da Terra. adotada e aberta para assinatura e ratificação dos Estados Partes no dia 20 de novembro daquele ano de 1989. aqueles dirigidos à proteção da Assim. que estão familiarizadas com seus princípios e sabem como seus mecanismos de monitoramento funcionam.” Convenção. O tempo necessário para que se entendesse a criança não como um objeto de direito que deveria receber uma proteção especial. em seus países e também fora deles. foram 10 anos para que finalmente o documento fosse adotado e oficialmente aberto para as ratificações.CDC. a CDC abriu espaços para que pessoas. religiosas e econômicas. ratificaram a exatamente o tempo entre a adoção da Declaração de Genebra e a da Convenção das Nações Unidas. assim como a inscrição dos direitos fundamentais na Constituição brasileira e o Estatuto da Criança e do Adolescente representam um grande avanço do sistema jurídico nacional. em todo o mundo. A idéia de uma convenção que enaltecesse a necessidade de garantia dos direitos das crianças surgiu em 1978. Ampliar a gama de direitos e defini-los de maneira que não restassem dúvidas. E se perguntamos o porquê. Sobre esse aspecto.20 DE NOVEMBRO: ALÉM DE ZUMBI. a CDC perde espaço político e jurídico no Brasil. quando a Organização Internacional do Trabalho adota convenções que buscavam erradicar ou regulamentar o trabalho infantil.).” (ALBERNAZ JUNIOR e FERREIRA. consolidava-se uma discussão que teve seu início nas primeiras duas décadas do século 20.. hoje temos uma Convenção composta por um Preâmbulo e 54 artigos. o dos Direitos da Criança não possui competência alguma para conhecer de denúncias de casos específicos de violações dos direitos reconhecidos pela Convenção. na maioria das vezes travadas por interesses de grupos restritos. frutos de disputas políticas. “Com a criação do Estatuto.

sendo devidamente tomadas em consideração as opiniões da criança. Os Estados Partes comprometem-se a respeitar e a garantir os direitos previstos na presente Convenção a todas as crianças que se encontrem sujeitas à sua jurisdição. e ambos foram adotados em 2000. as crianças são reconhecidas como atores sociais. foi a autora da Declaração de Genebra. Os Estados Partes reconhecem à criança o direito inerente à vida. e em quaisquer situações que envolvam crianças. Meninas e meninos têm o direito de serem ouvidos com relação a todas as decisões que lhes digam respeito. 16 (proteção da vida privada). de 1924. que afetem o grau de cumprimento» das obrigações consagradas na Convenção. A intenção é manter as crianças – na definição da CDC. mas eles devem estar entre os primeiros aspectos a serem levados em consideração. prostituição e pornografia infantis Assim começam os preâmbulos deste protocolo: Considerando 1 Também apresentado como Princípio da Participação 23 . O próprio Estado tem a obrigação de pôr em prática os meios para garantir que as crianças sejam protegidas de qualquer forma de discriminação e devem empreender ações afirmativas para promover tais direitos. Protocolos Falcultativos São dois os Protocolos Facultativos que complementam a CDC O princípio por trás disso é o de que todos os direitos valem para todas as crianças. e devem ter um peso grande – primacialmente . O Comitê dos Direitos da Criança. identificou quatro desses direitos como sendo princípios gerais que devem ser levados em conta para a aplicação de qualquer artigo da CDC. consciência e religião). cor. Todas as decisões relativas a crianças. Preferi aqui reproduzir o conteúdo de um manual da Aliança Internacional Save the Children. de seus pais ou representantes legais. O segundo está em vias de apresentação e ainda devemos outros três. o compromisso dos Estados Partes nem sempre se traduz em respostas concretas. como em relação ao desenvolvimento da sociedade em que vivem. Direitos à vida. opinião política ou outra da criança. Infelizmente. só apresentou até hoje um relatório oficial e um paralelo. Eles tratam de: 1. 17 (informação apropriada). sexo. de acordo com a sua idade e maturidade. incapacidade. Os Estados Partes garantem à criança com capacidade de discernimento o direito de exprimir livremente a sua opinião sobre as questões que lhe respeitem. entretanto. Envolvimento de crianças em conflitos armados Este Protocolo em seus primeiros artigos diz: Artigo 1° O interesse superior da criança (artigo 3) 1. juntamente com os artigos: 13 (liberdade de expressão). por exemplo. terão primacialmente em conta o interesse superior da criança. os Estados Partes se comprometem a apresentar um relatório sobre o cumprimento de suas obrigações para com as crianças a cada cinco anos. sendo que o primeiro relatório deveria ter sido entregue dois anos após a promulgação ou ratificação da CDC. Na CDC. Os princípios A CDC abrange uma ampla gama de direitos. O direito de ser ouvida (artigo 12)1 1. assim como as circunstâncias e as dificuldades. em consideração os anseios e a visão de mundo da criança no momento de determinar quais seriam os interesses das mesmas. Os Estados Partes asseguram na máxima medida possível a sobrevivência e o desenvolvimento da criança. Esse artigo faz parte de uma gama mais ampla de “direitos à participação” da criança. à sobrevivência e ao desenvolvimento (artigo 6) 1. sem discriminação alguma.” (O’DONNELL. 14 (liberdade de pensamento.convenção e sobre os progressos alcançados no desempenho desses direitos’ (art. Artigo 2° Os Estados Partes devem assegurar que as pessoas que não atingiram a idade de 18 anos não são alvo de um recrutamento obrigatório nas suas forças armadas. tanto em relação ao seu próprio desenvolvimento. autoridades administrativas ou órgãos legislativos. 15 (liberdade de associação). religião. O “interesse superior da criança” normalmente não é a única preocupação quando são tomadas decisões que afetam as crianças. 2. Brasil. Esse artigo estabelece o princípio de que as crianças têm direito à vida. sem exceção. Esses princípios gerais são: Não discriminação (artigo 2) 1. nascimento ou de qualquer outra situação. por tribunais. e afirma que toda criança tem direitos aos bens e condições que permitirão que ela desenvolva ao máximo seu potencial e desempenhe seu papel numa sociedade pacífica e tolerante. s/d) Para garantir a eficácia do Comitê. étnica ou social. caso existam. incluindo a movimentação e a alocação de recursos. todos com menos de 18 anos – fora da condição de agente armado em qualquer conflito armado. fortuna. ou da sua origem nacional. Venda de criança. É fundamental que aqueles que estejam encarregados de tomar decisões levem Os Estados Partes devem adotar todas as medidas possíveis para assegurar que os membros das suas forças armadas que não atingiram a idade de 18 anos não participam diretamente nas hostilidades. cuja fundadora. que normalmente são definidos nos artigos 12. e o artigo 12 atribui essa obrigação aos governos para garantir que as opiniões de meninas e meninos sejam solicitadas e consideradas. 2.em relação aos interesses dos adultos. O princípio do agir para o “interesse superior da criança” diz respeito a qualquer processo decisório que envolva meninos ou meninas. Eglantyne Jebb. 44). independentemente de qualquer consideração de raça. adotadas por instituições públicas ou privadas de proteção social. língua.

pge.br/centrodeestudos/ bibliotecavirtual/direitos/tratado11. 11º. Com a criação do Estatuto.O’DONNELL. É preciso entender que os Estados são os principais responsáveis pela garantia dos direitos na CDC. a CDC perde espaço político e jurídico no Brasil. porém.unhchr.htm. a resposta é sempre: “temos o estatuto”. a CDC é – como deveria ser – a base para o Estatuto da Criança e do Adolescente. Convenção sobre os Direitos da Criança. O Estatuto sem a CDC não seria ruim. A implementação da CDC Os Estados que ratificaram a CDC devem obrigação legal à mesma. administrativas. O Comitê insiste que os Estados as retirem2. 33 º. e assumiram o compromisso de tomar todas as medidas legais. Assessor Regional do Programa para América Latina e Caribe de Save The Children Suécia nos temas de Violência Armada e Emergências. a legislação nacional transforma essas responsabilidades em obrigações legais e morais. seria adequado alargar as medidas que os Estados Partes devem adotar a fim de garantir a proteção da criança contra a venda de crianças. mas estaria mais vulnerável. Sociólogo. Disponível na Internet no endereço http://www. Doutorando em Psicossociologia. O que às vezes se esquece é que o próprio Estatuto necessita de proteção. Paulo Roberto Vaz. Nossa lei nacional que tem como função garantir os direitos de nossas crianças.pdf. entre outras. Programação baseada nos direitos da criança: como enfocar os direitos na programação – manual para os membros da Aliança Internacional Save the Children.. prostituição e pornografia infantis. Alguns Estados. para melhor realizar os objetivos da Convenção sobre os Direitos da Criança e a aplicação das suas disposições. Sem a Convenção o Estatuto estaria à mercê dos arroubos e interesses políticos. o que inclui disponibilizar o máximo de recursos. conjunto de políticas e de fornecer recursos. a prostituição infantil e a pornografia infantil. 32 º.iin. O Estado tem a responsabilidade de criar legislação. A CDC considera pais. Poucas são as organizações brasileiras que se dizem trabalhar pelos direitos das crianças que conhecem a Convenção de fato. portanto.org/sim/cad/sim/pdf/mod1/Texto%202. La convención sobre los derechos del niño: estructura y contenido. famílias e comunidades como os principais responsáveis pelo cuidado das crianças.sp. E assim está redatado seu primeiro artigo: Os Estados Partes deverão proibir a venda de crianças. E se perguntamos o porquê. Pernambucano. que estão familiarizadas com seus princípios e sabem como seus mecanismos de monitoramento funcionam.. 34 º.ALIANÇA SAVE THE CHILDREN. por vezes. conforme disposto no presente Protocolo. especialmente dos artigos 1º. Disponível na Internet no endereço http://www. E no Brasil . orçamentárias.que. tem o dever de cumpri-los. protetores e guias – eles têm responsabilidades para com as crianças e.oea. 35 º e 36 º. A Convenção dá o suporte internacional e fornece as estratégias de controle social que necessitamos para cobrar de nossos poderes constituídos o compromisso acordado globalmente entre 192 dos 194 países que integram as Nações Unidas. Lima.ch/html/menu2/6/crc/treaties/declare-crc.ALBERNAZ JUNIOR. Essas reservas e declarações não devem entrar em conflito com o espírito da CDC. Mestre em Comunicação. 2005 *PAULO RICARDO DE PAIVA E SOUZA O Brasil ratificou a CDC e todos os protocolos facultativos a ela e. de forma a garantir que os direitos da criança sejam exercidos. 21 º. Referências Bibliográficas . Acesso em 25/10/2008 . Daniel. Save the Children Suécia: 2ª edição. entretanto. Acesso em 23/10/2008 . A comunidade internacional tem obrigações relacionadas ao apoio a Estados através da cooperação e da ajuda internacional como e quando solicitadas. 2 Uma lista das reserves e declarações (e de algumas objeções às mesmas) pode ser encontrada em: http://www. Ratificada no Brasil em 24 de setembro de 1990.htm 24 . Victor Hugo e FERREIRA.gov. fizeram reservas e/ou declarações relacionadas ao modo como a CDC deve ser interpretada ou à não-aplicação de alguns artigos. a fim de implementá-la.

de responsabilidade do seu Governo. muitas vezes. pelo país afora.) 6 Como.SITUAÇÃO DA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA NO BRASIL DE HOJE: INSEGURANÇA SOCIAL. No caso da Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente – Seção Brasil da “Defensa de Niños Internacional” – ANCED/ DNI. parlamento. como estratégico. Coesão Social. além dos mecanismos de controle interno institucional do Estado (controladorias. aqui se desenvolve. o conceito de “coesão social” (CEPAL). E também. com seu foco no sentido de pertença e de valorização da identidade.elabora o chamado “relatório alternativo” a ser apresentado ao Comitê dos Direitos da Criança (ONU). Pretendeu-se comprovar que análises desse tipo servem para embasar diagnósticos imprescindíveis ao aperfeiçoamento da formulação. embasadoras disso tudo. corregedorias. no seu âmbito específico da operacionalização de determinada política pública (saúde. fomentando o trabalho de acompanhamento. E para tanto não podem prescindir de bem elaboradas análises da situação da infância/ adolescência no Brasil6. ambas normas de hierarquia superior ao Estatuto citado. 25 . IBGE. Contudo.. monitoramento.204. exploratórias e violentas contra esses direitos. quando se trata da realização dos direitos do seu público-destinatário. tanto a partir de fontes oficiais (PNUD. foram eleitos alguns documentos de instâncias públicas não-institucionais como o Fórum Ibero-Americano de ONG pela Infância (REDLAMYC e DNI). nos tempos atuais – em face da sua crise de identidade e dos seus agravados problemas de sobrevivência financeira – muitas vezes têm colocado como secundário esse seu papel de controle externo social difuso sobre as ações do Estado. a ser exercido por uma ampla gama de atores sociais. sinérgicos) de controle externo das ações públicas. pretendeu-se testar as possibilidades da sociedade civil organizada em promover análises da situação da infância e adolescência no Brasil. No exercício dessa função de controle. para esse mesmo fim. os Comentários. mesmo dezoito anos depois da vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente4. enquanto dimensão da garantia dos direitos humanos 4 E igual tempo da ratificação da Convenção pelos Direitos da Criança pelo Brasil e 20 anos de promulgação da Constituição Federal. seu papel no acompanhamento. INEP/MEC. fazem com regularidade e competência o Fundo das Nações Unidas para a Infância – UNICEF. tribunais de contas etc. representativas da população1 e dos conselhos dos direitos da criança e do adolescente2 estão no controle externo sobre as ações públicas. por exemplo. Insegurança social. Controle sócioinstitucional. em nível mundial e nacional e a Fundação ABRINQ. deve-se buscar compor uma moldura. Para isso. É preciso se devolver aos movimentos sociais e à suas expressões organizativas seu papel de controle. Palavras-chaves: Análise de situação. os conselhos dos direitos da criança e do adolescente ainda têm muito a dizer.. constata-se que há um reconhecido esforço no sentido do fortalecimento dessa linha técnica e política. ainda! Desviam-se. Esse é igualmente o papel essencial da sociedade civil organizada. e pouco dizem. POBREZA. 3 Nos termos da Resolução 113 do CONANDA. as organizações sociais podem e devem instituir mecanismos próprios e autônomos (mas. uma 1 Constituição federal – art. etc. quando se trata da realização dos direitos do seu públicodestinatário. agregados e somados. após a apresentação de novo relatório do Estado brasileiro. Normativa de promoção e proteção de direitos humanos. Tais análises igualmente são preciosas igualmente para a elaboração de relatórios de monitoramento e avaliação das ações públicas. em nível municipal. avaliação e de proposição. no No texto.. Pobreza.). assistência social. é preciso partir-se dos dados e informações. para essa análise. em nível nacional. para a promoção dos direitos humanos de todos os cidadãos (e especialmente do segmento infanto-adolescente). Desigualdades. IPEA. caindo numa armadilha que as fazem parceiras do fracasso do Estado-Mínimo neo-liberal e dependentes do Governo. no texto foram eleitos alguns instrumentos normativos internacionais para esse fim: a Constituição Federal. em Genebra. Como parâmetros para a avaliação dessa realidade social e políticoinstitucional. pelo país afora. DESIGUALDADES E TERRITORIALIDADE. ouvidorias. política e jurídica para exercer a função de controle externo. Orientações & Recomendações do Comitê dos Direitos da Criança do ACDH. a Convenção sobre os Direitos da Criança. “No exercício dessa função de controle. o Estatuto da Criança e do Adolescente. de responsabilidade de organizações sociais (Relatório sobre o Programa Prefeito Amigo da Criança 200508 / Fundação ABRINQ. Ao final. enquanto organização da sociedade civil. na qual se deve inserir a paisagem da situação da infância/adolescência Para que se possa melhor entender a situação da criança e do Análises de situação e controle das ações públicas O sentido mais radical e a missão última da atuação das organizações adolescente.. por exemplo). e pouco dizem. auditorias. os conselhos dos direitos da criança e do adolescente5 ainda têm muito a dizer. ainda! Desviam-se. na tentativa de se construir um determinado cenário mais favorável. mostrando que. nos seus específicos campos de atuação. quanto a partir de levantamentos. Mais precisamente. em favor da promoção dos direitos humanos3 da infância e da adolescência e em oposição a todas as formas discriminatórias. exatamente no momento em que uma ampla coalizão de expressões organizativas da sociedade civil brasileira – capitaneada pela Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente (Seção Brasil da Defensa de los Niños Internacional) / ANCED-DNI . do seu cerne. OEI. coordenação e execução de políticas públicas e do acesso à Justiça. pesquisas e estudos mais localizados.. As expressões organizativas da sociedade. por exemplo). 5 E os conselhos homólogos setoriais. mesmo dezoito anos depois da vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente4. Parâmetros para a avaliação. educação etc. ministério público. como um todo.ONU ao Governo do Brasil. WANDERLINO NOGUEIRA NETO* RESUMO: Com o presente texto. não apenas os conselhos citados têm essa legitimidade social.” país. referentes ao Brasil. A moldura do contexto nacional. muitas vezes. do seu cerne. foram coletados e analisados dados a respeito da situação nacional. monitoramento e avaliação das ações públicas. II 2 E os demais conselhos paritários de formulação de políticas setoriais e controle externo. garantidoras de direitos humanos.

alguns fatores e tendências nacionais surgem de maneira bem clara. a fatia da renda obtida pelo quinto mais rico da população (62. em especial. Colômbia 7 CASTEL.2 1. Namíbia (64. Petrópolis.4%”12 . Rio de Janeiro. (1998) As metamorfoses da questão social uma crônica do salário. solicitando imediatas providências no prazo de quatro anos: (. com extrema preocupação. que marcam essas ações públicas de garantia de direitos10 infanto-adolescentes e ao escandaloso desrespeito à diversidade e à pluralidade. Localização geográfica Brasil (geral) Norte Nordeste Sudeste Sul Centro Oeste Até ½ SM 40. dos direitos humanos e do planejamento. Os dados abaixo demonstram a enorme diferença entre as cinco macro-regiões brasileiras (Norte. Como sinal emblemático de que o combate à pobreza e às desigualdades deve ser a tônica para o enfrentamento prioritário para o Estado brasileiro. (2005) A lógica. são incapazes de garantir direitos aos milhões de crianças e famílias em situação de vulnerabilidade econômica. a desigualdade tem outras dimensões. num espaço político mais próximo de quem depende dessas ações públicas. nessa totalização da análise. No Brasil. nos municípios. eles ficam com 45.1% em relação ao total das famílias no País.H. ou seja. é um dos países mais desiguais da Terra. em seu documento de orientações e recomendações ao Governo do Brasil. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística .2 32. tome-se a diferença do percentual de famílias com crianças e adolescentes de até 14 anos que vivem em situação de pobreza no Sul (26. dois fatores tendenciais se destacam: a pobreza e as desigualdades de todos os tipos (econômicas. políticas.8% da renda.1 1. Mas. Haiti (47. Haiti e cinco países da África Subsaariana11 .6 27. os embates e os segredos: uma experiência de curso de capacitação com educadores in Para além das grades de ferro – elementos para a transformação do sistema socioeducativo.1 26. Com mais de 183 milhões de pessoas. no Brasil.6%).7 32.0 3. no Brasil.5%) e República Centro-Africana (47. pois no território estão as crianças.1%) é quase 24 vezes maior do que a fatia de renda do quinto mais pobre (2.1%). 2007 26 . E. Sudeste e Centro-Oeste). principalmente. R. sócias e jurídicas). dessa falta de equidade.IBGE. Suazilândia (50. as famílias com filhos nesta faixa etária são mais pobres. e Namíbia. Os pobres brasileiros detêm apenas 0.9).5%) e no Nordeste (63. Ela é a primeira grande violação de direitos fundamentais e o maior filtro obstaculizador para o acesso com sucesso às políticas públicas e à Justiça. o percentual é ainda mais alto: 45. “O comitê toma nota. Botsuana (56. Bolívia. Quando se consideram apenas as famílias com crianças na faixa de 0 a 6 anos.) Item 12.4% entre as famílias com crianças de 0 a 14 anos. os processos de levantamento e análise de dados e informações passam a ter mais sentido e mais efetividade se colocamos todos eles confrontados com específicos dados e informações a respeito dos altos níveis de desigualdade social. 9 Criado nos termos do art. segurança pública. quando se analisa a situação das políticas públicas e do acesso à Justiça no âmbito do território dos municípios. vez que os mecanismos de proteção social em todas as políticas sociais básicas.7). no nível municipal – não foi à toa que o Comitê para os Direitos da Criança do Alto Comissariado para os Direitos Humanos (ONU / Genebra) “tomou nota com preocupação”. os adolescentes e suas famílias. em seus três níveis e. das dramáticas desigualdades baseadas em raça.0 2. por exemplo) referemse muito mais a municípios da Região Nordeste e que a Região Norte tem os piores índices no implemento das políticas públicas e no acesso à Justiça. 11 Relatório de 2006 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). que os dados referentes ao aumento da mortalidade por morte violenta (homicídio. 43 da CDC 10 Garantia de direitos = promoção e defesa (proteção) de direitos e controle dessa garantia de direitos – Resolução 113-CONANDA. educação. 9 (46. é de se reconhecer que a pobreza é o maior sinal dessa desigualdade.Índice de Desenvolvimento Humano. à frente apenas de Colômbia. em concreto. Rio de Janeiro. 12 Síntese de Indicadores Sociais 2007. De nada adianta falar-se em redução da mortalidade infantil. Quadro esse que se desvela com mais clareza. Edições PUC-RJ e Loyola. Nordeste.2 Mais de 5 2.7%).7%). o Brasil é o quinto país mais populoso do mundo e a 10ª economia. em outubro de 2004. igualmente.3 63.4 Mais de ½ a 1 28. El Salvador e Botsuana (0. Pobreza e desigualdade.6 32.2 como um fator que muito prejudica a implementação da CDC no Brasil em níveis desejáveis. econômica. Além disso. cultural e jurídica.. geográficas. ajudando a melhor se entender os dados municipais. outras condicionantes e limitações para a ação pública. Basta assinalar que o percentual de famílias consideradas pobres (com rendimento mensal per capita de até salário mínimo) é de 25. Nessa visita aos dados e informações totalizados.1 28. ocupando a 92ª distribuição do PIB per capita e a 69ª posição no ranking do IDH . como focos para a análise de situação Tanto no tocante às ações das políticas públicas minimamente nas áreas da saúde. Desigualdades por localidade geográfica Contudo. Paraguai (0. Pobreza Preliminarmente.2%). menos que no Chile (47%).visão totalizante. A desigualdade tem diferentes dimensões regionais. assistência social.5 34. fatia superior à dos pobres de Colômbia. em quase metade (48.9%) das famílias brasileiras há crianças e adolescentes com até 14 anos de idade. através de levantamentos outros com dados desagregados. Serra Leoa e Lesoto (0. se não se dissecar esses dados para se constatar que essa redução ocorre por exemplo em níveis maiores em municípios da Região Sul.5%). que deve ser nosso foco primordial. na ponta do atendimento público. mas chega a 40. de quem mais sofre pela ausência de ações do Poder Público ou pela falta de eficiência. eficácia e efetividade na operacionalização dessas ações públicas. na qual se buscassem paradigmas de comparação com o coletado em nível local. Sul. da evasão escolar no país.6%). gênero e localidade geográfica que dificultam significativamente o progresso para a realização plena dos direitos consagrados na Convenção” (grifei).. a ocorrência dessas desigualdades. Como exemplo. quanto no tocante às ações para acesso à Justiça. Vozes. 8 ZAMORA. classe social. além da pobreza. A comparação entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres mostra que. o Brasil tem disparidades regionais que chegam a quase 40 pontos percentuais.3%).6%). M. isto é.8% da renda. a marcarem o contexto social e político-institucional brasileiro com o estigma da “insegurança social” (CASTEL7 / ZAMORA8). em apenas oito países os 10% mais ricos da população se apropriam de uma fatia da renda nacional maior que a dos ricos brasileiros. IBGE. ou seja.6 20. além de ser nacionalmente desigual. Dados do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) informam que o País é o 10º mais desigual numa lista com 126 países e territórios.4 49. Lesoto (48.5 3.

2005. igualmente...6” (.) na observação dos dados do PPAC sobre essa última gestão municipal. de 19. (grifei). revelando coerência na destinação de recursos para viabilizarem as ações priorizadas neste eixo” (Relatório do Programa Prefeito Amigo da Criança – Gestão 2005/08 – Fundação Abrinq). a despesa média mensal familiar das famílias onde a pessoa de referência se declarou branca (R$2. Pelos dados do MEC-INEP.5 milhões de crianças de até três anos fora das creches e 2.) “O mesmo quadro apresenta.5. um número de crianças atendidas em determinado nível de ensino muito acima do total de pessoas residentes e pertencentes àquela faixa etária. Ao todo são 9. Para tanto..8 36. dos 11 milhões de 13 Relatório de Desenvolvimento Humano Brasil 2005 — Racismo. uma redução média bastante significativa. as mesmas disparidades por localidade geográfica (regionais) são facilmente encontradas em outro indicador – mortalidade infantil para cada mil nascidos vivos. adolescentes e jovens. Apesar das reduções significativas conquistadas nos últimos cinquenta anos. por exemplo. ou seja.6%. Essas são varáveis importantíssimas na análise desses dados e informações. ou seja. como.3 16.)”. pobreza e violência. Verifica-se isso no comportamento dos municípios.1 25. Desigualdades e saúde pública: mortalidade infantil No cômputo geral. afro-descendente. preto ou pardo. O grupo de municípios Médios do Nordeste apresentou a maior taxa média. verifica-se que a falta de acesso neste nível educacional é um grande problema. Ai de quem nasce pobre..13 27 . o relatório do PPAC 2005-2008. de 9. Mas.3 milhão de crianças. A população branca teria IDH alto (0. (. ribeirinho amazônico. De acordo com este documento.%o 25.. Todavia. menos da metade frequenta creche e/ou pré-escola. a educação infantil passou a atender crianças de zero a seis anos incompletos. como resultado do desenvolvimento de um conjunto relativamente amplo de iniciativas. crianças. lésbica. o segmento LGBTT. Estas médias variam mais quando desagregamos os grupos pelas cinco regiões. podendo ocorrer variações não diretamente dependentes dos serviços públicos” (.24) chega a quase o dobro das que se declararam negras (cerca de R$1. a maioria dos governos realizou uma gestão educacional muito modesta e de pouco impacto na realidade do ensino público. recolhidos nas pesquisas do IBGE. adolescente. posto que três destes grupos apresentaram aumento da mortalidade infantil no período. reforçam essa visão de que especialmente as desigualdades por localidade geográfica (regionais) distorcem as avaliações totalizantes sobre a situação da mortalidade infantil no Brasil: “A mortalidade infantil média dos 445 municípios que responderam. a partir da expansão do ensino fundamental para nove anos (2006).703) e ficaria em 105º lugar. A maioria destes municípios aplicou bem mais do que o percentual mínimo de 15% de seus recursos próprios em saúde. Todavia.). nos três anos. Portanto. deficiente físico. o quadro da desigualdade por localidade geográfica se torna mais nítido. É preciso também muita cautela na análise da evolução da mortalidade infantil. a queda média da mortalidade infantil observada entre os anos 2005 e 2007. foi de 15. segundo os grupos de municípios divididos por porte. Já a população negra (pretos e pardos) teria IDH médio (0. foi possível verificar que números significativos de municípios apresentaram evolução bastante favorável de alguns indicadores.. dentre 535 municípios com dados coletados na implementação do Programa Prefeito Amigo da Criança citado. de acordo com as médias dos grupos por região (.1 óbitos por mil nascidos vivos. Em 2005. igualmente. percentualmente. Além disso. 15 A tabela abaixo tomou como base os dados da Síntese de Indicadores Sociais 2007 (IBGE).. mulher.. levantada em outras fontes.1 óbitos por mil nascidos vivos. assim atingindo os deficientes. em uma inconteste demonstração da inter-seccionalidade de raça e classe social14.. PNUD Brasil. elaborada a partir de dados de 2006 16 Relatório PPAC – 2005-2008 – pag. E mais. Apesar de alguns municípios terem obtidos resultados significativos na cobertura e nas condições de educação. registre-se a quantidade considerável de municípios que apresentaram mapas do PPAC sem informação para diversas perguntas ou com informações muito distorcidas em relação à realidade do município. A desigualdade tem como condicionante o fator cor/raça. A Coluna 2 mostra que não há uma diferença acentuada na mortalidade infantil.814) e ficaria na 44ª posição no ranking mundial – semelhante à da Costa Rica e superior à da Croácia. sobre o atendimento educacional a crianças e adolescentes nos 535 municípios (Mapa II) que forneceram dados a respeito: “(. adotam o conceito de auto-declaração.262.9 18. idosos e mulheres. equivalente ao de El Salvador e pior que o do Paraguai”13.5 E mesmo os dados coletados. no país. o/a entrevistado/a declara se considera ser branco. onde. o Brasil ainda mantém desigualdades internas muito relevantes entre suas regiões com diferenças de 20 pontos entre Sul e Nordeste.00). por exemplo. veja-se a situação na área específica da educação infantil. atingindo de maneira massiva e sistemática a população indígena e afro-descendente.2 milhões entre quatro e seis anos que não estão na pré-escola. nos municípios deste Brasil. sobretudo no que diz respeito à educação infantil. percebe-se que ainda existem grandes déficits na atenção aos direitos de educação da população. No conjunto. do total de crianças de quatro a seis anos fora da escola 58% são negras.230.Desigualdade e outros fatores A mesma coisa se diga que a exploração e a violência têm raça/ cor e etnia no Brasil. demonstrando que está havendo uma redução significativa da mortalidade infantil no Brasil: “A observação sobre os números de municípios cujos dados puderam ser aproveitados para a produção de indicadores neste eixo reforça a dificuldade de extrairmos resultados conclusivos. No Brasil. Brasília 14 Os dados oficiais. visto que dos “23 milhões de meninos e meninas nessa faixa etária. é preciso ressaltar que este valor refere-se aos dados de apenas três municípios. consegue-se fazer uma avaliação positiva da situação geral da infância e adolescência no país. quando se examina a situação nacional.15 Mortalidade Infantil Brasil (geral) Norte Nordeste Sudeste Sul Centro Oeste Por mil nascidos vivos . No entanto. os municípios que enviaram o Mapa II apresentaram uma redução da mortalidade infantil de 16.8 (óbitos por mil Nascidos Vivos) para 13. o que corresponde a 1.7 19. Observa-se que os municípios de porte MP da Região Norte apresentaram a menor taxa média. observa-se uma variação acentuada entre os grupos de municípios divididos pelas regiões. principalmente em municípios de pequeno porte. de 20. “se brancos e negros formassem um país à parte.. onde a evolução 2005 a 2007 foi pequena ou negativa. o Relatório de Desenvolvimento Humano do Brasil (PNUD) focou as desigualdades étnico-raciais.16 Desigualdade e educação (1): creches e pré-escolas Registra o seguinte.). como uma redução média da mortalidade infantil de 20%. e obtiveram também redução na mortalidade entre crianças e adolescentes de 10 a 19 anos. a distância entre eles seria de 61 posições”.

Mas esse descompasso entre creches públicas e privadas mais se acentua.).847 382. no país.105 71. cresceram 1% em relação ao ano de 2005 (.089.018 286.402 243.crianças com menos de três anos.364 2001 4.310 Sudeste 1.162 98. Todavia.706 555.7%.. na pré-escola.223. por 35.265 587.501 120.781 67.922 73.431 310.947 1.535. basicamente.5% frequentam creches.881 302. 40% das crianças de até seis anos freqüentam estabelecimentos de ensino.037 156.081 55. as matrículas em creche. o primeiro contato da criança com o mundo escolar”.414.730 95.099 645. Em 2006.615 2.274/2006. apenas 15.662 445.130 597. “o sistema municipal de ensino respondeu por 62.332 69.9% das matrículas e o sistema privado.246 81.808 274.518 418.6 milhões de matrículas.645 571. observa-se que o fator localidade geográfica também é relevante. em termos de localidade geográfica (Regiões).173 1.145 553.7%. nos municípios (os que deram conta do Mapa II): “Os municípios.092 1.1% estão na rede pública”.321 149.734 Brasil Norte Nordeste Regiões 2000 Público Privado 2001 Público Privado 2003 Público Privado 2005 Público Privado 3. ao passo que nas rurais este percentual é reduzido para 27%. com apenas 6.8%.301 27. 28 .8% do total de crianças de zero a seis anos no país.511 57.147 149.484..097 1.397 376.320 251.886 157. a oferta abrangia apenas 11.539 55.367 33.773. Segundo o MEC/INEP: (. definindo o ensino fundamental com duração Fonte: MEC/INEP Outro dado importante. outra vez. em 2004 “as creches particulares. as instituições privadas correspondiam à minoria de 25.256 142.897 268.684 467. o percentual subia para 37.581 Total 1. foi registrado crescimento negativo de 2.579 450..315 227.) “a taxa de atendimento escolar na faixa etária de zero a seis anos para famílias com renda per capita acima de cinco salários mínimos é quase três vezes maior do que para aquelas famílias sem qualquer rendimento.521.5% em relação ao ano anterior. colhido dos registros do MEP/INEP.) entre 2005 e 2006..089 2.277. como em outros quadros sempre aparece como abaixo de todas as demais.852 142.774 567.032 489..209 2003 Menos de 4 anos 2005 Total a oferta de vagas em creche encontra-se.584 4.634 112.350 1.907 3.905..159 3.351 221.546 599.954 658.896 1.864 47.790. comunitárias. ao passo que nos segmentos mais pobres esse será.974 45. até 2004 a rede pública atendia apenas 26.790042 128.629.320. somado à rede privada. que em 2006 foram na ordem de 1. Essa lei altera artigos da LDB/1996.141 2.623 497.970 293.371 1.447 87.798 340. E quando se analisam os dados nacionais sobre educação infantil.891 1.949 339.754 336. principalmente para os segmentos mais pobres da população. trinta mil encontravam-se nas áreas urbanas”. mostra como a evolução das matrículas em creches e préescolas: “(.053. Regiões Total Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro Oeste 916.6%” (.” (.392 342. respectivamente” (Censo Escolar 2006 – MEC/ INEP).8%.673 67. emblematicamente com a análise da situação específica da educação infantil. até três anos. a demanda continua latente e crescente.026 239.136 273.. muitas vezes.304 156.937 213. O quadro abaixo isso revela o quanto suficiente: 755.207 2002 Menos de 4 anos 712.643 2.152.266 189.670 510.846 1. ao passo que em 2005 esses percentuais eram de 60.865 617.720 1. com aproximadamente 5. onde essa ausência do Estado é mais nítida que em outras.238.518 421. Desigualdade e educação (2): ensino fundamental O relatório do PPAC (2005-2008) faz o seguinte registro sobre a implementação da reforma no ensino fundamental. no que se refere à oferta de vagas da educação infantil (com cerca de sete milhões de alunos).594. os estados e o Distrito Federal têm até 2010 para cumprirem as diretrizes estabelecidas pela Lei 11.940 2002 4.8% ..981. as Regiões Norte e Centro-Oeste.803 363. pois existe uma dicotomia entre as áreas urbanas e rurais.237.358 161. pela migração dos alunos de seis anos para o primeiro ano do ensino fundamental com a nova lei de expansão deste para nove anos”. como se pretende destacar no presente texto de análise.. o grande problema em relação ao acesso à educação infantil está na natureza das instituições que oferecem este serviço.9% e 37.) “em 2006 das quase 35 mil creches funcionando no Brasil.332.977.513.764 1.558 60.219 370. o resultado desse processo é que nas classes mais ricas as crianças chegam à 1ª série do ensino fundamental com uma já longa experiência de escolarização.702 Fonte: MEC/INEP Aprofundando-se mais a análise da situação da educação.562 1.816 247. em escolas públicas municipais. jogando para a esfera pública nãogovernamental ou mesmo privada esse tipo de serviço. ela se sobreleva de relação à aqui chamada desigualdade por localidade geográfica e aprofunda essa desigualdade por Regiões e por área urbana ou rural.517 1. Os dados nacionais (MEC/INEP) mostram que mesmo com a expansão de matrículas na educação infantil.845 1. aproximadamente sete milhões de crianças entre quatro a seis anos estão matriculadas na pré-escola”.155.389.882 Total 1. já na pré-escola.349543 446.752 97. fazendo com que os segmentos subalternizados da nossa população sinta mais essa ausência do Estado-Governo.156 161. ainda é o atendimento desse direito social à educação nessa faixa etária: por exemplo.184 43.800 418. houve um decréscimo de 3. que mostra o abandono da máquina estatal de relação a esse tipo de equipamento.343 28.195 2000 Menos de 4 anos 549.381 507.837. justamente os que mais se beneficiariam do acesso à escola: (.318. ao passo que 76%.421.070.299 1.. confessionais e filantrópicas correspondiam a quase metade do total.818.) “nas urbanas.) no entanto.086 1.257 Fonte: MEC/INEP O quadro seguinte sobre a evolução nas matrículas em pré-escolas também reflete a mesma situação de desigualdade por localidade geográfica (Regiões): Regiões Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro Oeste 2000 4.977 944.375 2003 5..048 23.642 1.127. O quadro abaixo da “evolução das matrículas em creches” registra quão desigual.707 Sul Centro Oeste 439. a partir do indicador referente à pobreza (como forma mais aguda de desigualdade como sustentado atrás neste texto).471..353 2005 5.167 173.4 milhões.140 89. De acordo com os dados do MEC/INEP.326. Pelo que se observa mais dos dados do MEC/INEP.332 307. em determinadas Regiões.676 404. confirmando a tese de que as desigualdades por localidade geográfica são condicionantes no desenvolvimento de políticas públicas.

3% superior à taxa dos jovens brancos (34. Registros diversos dão conta que muitos estão privados de liberdade sem nunca terem tido acesso a um defensor. que passou de 10. contudo. pois “só 7. Julio Jacobo.9 em 100 mil). essa proporção é ainda menor: 6. Julio Jacobo. Contudo. em Recife/PE este índice chegou aos estratosféricos 223. o que contraria os tratados internacionais de direitos humanos. fazendo daquela cidade a capital com o maior índice de homicídios de jovens do Brasil18. Isto é. com menos da metade (43%) dos participantes do PPAC já atuando com o ensino fundamental de 9 anos de duração”. 17 WAISELFISZ.6.1%”. um dos direitos mais violados dos adolescentes em conflito com a lei. Brasília. em nível nacional. são submetidos a toda sorte de arbitrariedades nos Sistema Nacional de Segurança Pública e no Sistema de Justiça. os dados relativos ao ensino médio revelam que “as regiões que apresentam as menores taxas de reprovação. moradores das periferias urbanas. Informa mais o INEP que entre 2004 e 2005 observa-se que no ensino médio houve uma pequena queda de 0. que o problema é concentrado nas áreas periféricas urbanas. sem dúvida. resultando em exclusão social. entre os jo¬vens o problema agrava-se ainda mais: os índices de vitimização elevam-se para 85. Frente a essa determinação legal. portanto. Mapa da Violência 2006 – Os jovens do Brasil. causando a morte de milhares de pessoas anualmente. Segundo o INEP. na sua ampla maioria pobres. O direito à defesa é. Ao mesmo tempo. Entre os jovens. (. 90% de seus municípios já adaptados no ensino de 9 anos. Vale ressaltar o grande número de violações (torturas. “cerca de 16% dos jovens que terminam o ensino fundamental deixam de ingressar no ensino médio.4% (2004) para 11.7 em 100 mil negros. o menor percentual é apresentado pelos municípios de médio porte (M) da região Norte. Ciência e Cultura. Norte (8. o número de adolescentes em privação de liberdade aumentou 325% entre 1996 e 2006.3%. Todavia.) Se no conjunto da população a vitimização de negros já é severa. Por outro lado.” – afirmação essa que confirma a tese aqui sustentada de que as desigualdades regionais (fator localidade geográfica) são marcantes na análise e avaliação dos dados e informações sobre ensino fundamental. Destacam-se os municípios de grande porte (G1) em todas as regiões.9% das vítimas dos homicídios acontecidos no país durante o ano de 2004 pertencem ao sexo feminino.. no Brasil. na população negra é de 31.. contudo. Pode-se concluir facilmente que os adolescentes em conflito com a lei. OEI – Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação. Por fim.1% de vítimas de homicídio a mais do que a população branca. não tendo acesso nem condições de defesa.7%) e Nordeste (9%). contrariando a ideia de que maior reprovação pode levar ao maior abandono. o Brasil ainda se localiza entre os países com as maiores taxas de homicídios entre os 84 países do mundo que o Whosis/OMS disponibilizou com as correspondentes informações.” O mesmo estudo confirma que a violência tem um traço marcadamente de gênero. com exceção do Sudeste. “é possível observar que. 2006 29 . ainda assim continuam sendo extremamente elevadas no contexto internacional. Ciência e Cultura.5% (2005). Por sua vez.3%.1 ponto percentual no índice de reprovação. o que justifica. mas dados recentes afirmam que “a oferta ainda é insuficiente para garantir a universalização do ensino obrigatório no país e dois terços das crianças de 7 a 14 anos fora da escola são negras”. É interessante ressaltar o fato de que. Embora as taxas do Brasil sejam menores que as da Colômbia e semelhantes às da Venezuela e da Rússia. demonstrando que a pobreza e a desigualdade têm alimentado o envolvimento destes adolescentes com tais atos. a taxa de conclusão do ensino médio – segundo a mesma fonte – “dobrou nas últimas décadas de 20% para mais de 40%”. negligência e morte) registradas no sistema de internação de adolescentes em conflito com a lei penal. não se pode deixar de considerar tal combinação como um alavancador dos índices de violência que afligem a população.8% e 21. tratamento cruel.de 09 anos. prosseguindo nessa análise comparativa entre os dados nacionais totalizados (fonte MEC/ INEP) e os dados desagregados municipais (fonte relatório 20052008 PPAC). De acordo com dados da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República. é mais de se registrar a influência das desigualdades regionais ou por localidade geográfica no caso das evasões escolares. é o aumento do encarceramento de adolescentes pobres. apenas 47% o fazem antes dos 17 anos e menos da metade dos jovens do ensino médio concluirá a educação básica antes de atingir a maioridade. Desigualdade e violência Outro resultado da combinação da desigualdade com a pobreza é a violência.2%. a taxa de escolarização do ensino médio para jovens de 15 a 17 anos está em 46. Enquanto a taxa de homicídios de jovens no Brasil chegou a 51. Mesmo reconhecendo-se que esses fatores não são as únicas explicações para a violência massiva e sistemática que acontece no Brasil. que os investimentos nesta área são mais que urgentes. Além disso. Se na população branca a taxa em 2004 foi de 18.” De acordo com o Mapa da Violência 2006. “a taxa de homicídio da população negra é bem superior à da população bran¬ca. OEI – Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação. no mínimo. hoje temos “uma taxa de matrícula de 98% do total de crianças brasileiras na educação fundamental”.7 pontos percentuais relativos à taxa de abandono.3 homicídios em 100 mil bran¬cos. muitas das quais já levadas ao Sistema Interamericano de Proteção de Direitos Humanos. Mapa da Violência 2006 – Os jovens do Brasil. as regiões Sul e Centro-Oeste estão com. nos termos dos dados totalizados e constantes dos relatórios do MEC/INEP. 2006 18 WAISELFISZ. no Sul e Sudeste. De acordo com o Mapa da Violência 200617. sem discrepância. pois com os dados desagregados da amostra dos 535 municípios que preencheram o Mapa II do relatório do PPAC (gestão 2005-2008). a Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente. E essas proporções vêm se mantendo constantes nos últimos anos.7 em 100 mil) é 85. correspondem aos maiores índices de abandono: 20. quando da prática de atos infracionais: 57% dos atos infracionais cometidos por estes adolescentes foram contra o patrimônio. esta taxa é de 70%.” Registre-se. nas regiões Norte e Nordeste “apenas 38% das crianças terminam a educação fundamental. dos 60% que ingressam. Isso significa que a população negra teve 73.7 para cada 100mil habitantes no ano de 2004. Desigualdade e conflito com a lei Mais uma conseqüência dessa combinação entre desigualdade e pobreza. nota-se que um percentual elevado de municípios participantes do PPAC já está adequado nessa nova estrutura do ensino fundamental. com uma taxa global de 27 homicídios por 100 mil habitantes no ano 2004. quando muitos deixam a escola para ingressar no mercado de trabalho”. com ingresso obrigatório de crianças a partir dos 6 anos de idade. os dados gerais da mesma fonte revelaram um aumento de 1. ao passo que nas regiões mais desenvolvidas. a taxa de homicídios dos jovens negros (64. Além disso. Brasília.

menos de 40% das comarcas do país contam com o atendimento da população por defensores públicos. da falta de maior ousadia e radicalidade. No extremo oposto. como Madre de Deus (BA). a mais.segundo o Diagnóstico da Defensoria Pública no Brasil. 19 II Diagnóstico da Defensoria Pública no Brasil. ou seja. com gastos em saúde com recursos próprios de R$ 943. em Reais (R$) por habitante. Ministério da Justiça. Consta do citado estudo do INESC o seguinte: “(. proativamente e não reativamente. o preconceito de relação à pretensa marginalidade desse público faz com que se justifique a baixa prioridade dada a ele pelas políticas públicas e o baixo nível de destinação de recursos para esse atendimento – na linha do dito tradicional que propõe “serviço marginal para público marginal”. certas desigualdades outras produzem discriminações e distorções políticas.. mais substantiva.00. é a execução orçamentária do Governo Federal em relação à infância e adolescência. pode-se observar que os municípios do grupo PP. que os investimentos nesta área são mais que urgentes. meramente adjetiva. que existe como conduta materialmente de exclusão social e diagnosticada pela via administrativa de um encaminhamento sócio-assistencial). o grande número de violações (torturas.00 por habitante. O envolvimento do público infanto-adolescente no Brasil ainda é muito tímido e exige um aprofundamento maior dessas possibilidades de criação/aplicação de táticas e metodologias novas. na prática do dia-a-dia: pretos. análise e avaliação de dados e informações. no país.00. essa “participação de crianças e adolescentes”. Códigos de Processo Penal e Processo Civil etc.. para que eles participem. ou seja.. Depois do grupo PP. mais e mais. pobres. informa-se que o gasto total com saúde atingiu R$ 268. É importante também observar que estamos apresentando valores médios. mas que existem vários municípios com gastos muito acima da média.“direito de ser ouvido e de ter sua opinião considerada” 22 As normas-regras do Estatuto citado e de outras normas legais infra-constitucionais (Código Civil.22%. o que justifica. Nesse campo.28 milhão”. Uma situação jurídica. em outubro de 2007. negligência e morte) registradas no sistema de internação de adolescentes em conflito com a lei. verifica-se que “as informações sobre os gastos com saúde dos municípios foram pouco aproveitadas. que garantam tal participação proativa21 de crianças e adolescentes no levantamento. Quando se trata. praticado por um adolescente.00. Além disso.) o Programa de Atendimento Socioeducativo do Adolescente em Conflito com a Lei (SINASE).. para a análise das diversas dimensões das desigualdades. que em sua maioria têm serviços de referência para os demais municípios de suas regiões e/ou estados. muitas das quais já levadas ao Sistema Interamericano de Proteção de Direitos Humanos. semi-analfabetos etc. como sinal emblemático de desigualdade Aqui está o calcanhar de Aquiles na situação da infância e adolescência (e juventude) no Brasil: o baixíssimo nível de participação desse segmento nas políticas públicas no Brasil. entre nós. de estratégias de mobilização social. Em verdade. tratamento cruel. gênero. Vislumbra-se apenas. em nível nacional. revelaram que alguns programas estratégicos para o atendimento ao adolescente autor de ato infracional (socioeducandos) estavam com baixíssima execução. o ato infracional. 30 . apresentam as médias mais altas. dados sistematizados pelo INESC20. apenas 56% das Defensorias Públicas mantêm plantões regulares nas unidades de internação de adolescentes privados de liberdade19. na medida em que em muitos casos foram bastante diferentes dos dados informados ao SIOPS (Sistema de Informações do Ministério da Saúde)” (. de menor porte populacional. etnia etc. só existe como conduta formalmente em conflito com a lei e a ser constituída pela via judicial de uma sentença de um juiz. em comparação com outros países). esse ato/conduta é classificado pelas políticas públicas. Essas distorções na realização do direito à participação de crianças e adolescentes decorre também muito da falta de tradição de trabalho nessa linha. o adolescente autor de ato infracional e a execução das medidas socioeducativas (sanção). novas possibilidades de se promover o desenvolvimento de um necessário processo estratégico de empoderamento (empowerment) do próprio publico infanto-adolescente (ainda muito pouco aprofundado no Brasil. da legislação infraconstitucional brasileira (no caso o Estatuto da Criança e do Adolescente22). publicado em 2006 pelo Ministério da Justiça. como metodologia – como insistimos em fazer no Brasil.. é tratada como situação social. temos municípios como Ilhéus (BA). e Cubatão (SP) com R$ 743. Por sua vez. que influenciam essa execução orçamentária. Como exemplo desse tratamento discriminatório na execução orçamentária. O baixo nível de garantia do direito à participação de crianças e adolescentes. classista e racista do sistema de responsabilização socioeducativa. da incipiência e dos desvios de concepção e execução de muitas das experiências dos chamados projetos de “protagonismo juvenil” em desenvolvimento no país.00. obedecido um determinado procedimento-processual. em si. os municípios do grupo G1. por exemplo. Na verdade. Contudo. Essa participação é pouco vista como um direito fundamental. Brasília.) não se adequaram de maneira suficiente ás normas-principiológicas hierarquicamente superiores da Constituição Federal e da Convenção sobre os Direitos da Criança. Essa distorção se reflete no modo como as políticas públicas tratam a infracionalidade em si. refletindo o quadro de desigualdades (geração. raça-cor. cuja dotação é de R$24 milhões teve até setembro de 2007 uma execução não muito superior a 5. por exemplo.) “menos da metade dos municípios que informaram ao PPAC sobre os gastos de 2007 tiveram dados próximos aos informados para o SIOPS” (. Como referência. reconhecido pelos instrumentos normativos de garantia de direitos humanos.) “onze municípios informaram apenas ao PPAC e não o SIOPS. do atendimento aos adolescentes em conflito com a lei. A garantia dessa participação como um direito fundamental e não meramente como estratégia. no país.. em certos momentos.(. por grupo de municípios. apresentam os maiores gastos em cada região. Desigualdades e orçamentação pública No tocante aos dados sobre execução orçamentária dos Governos Municipais colhidos através do Mapa II do PPAC. aqui e ali. ou Bragança (PA) com R$ 34. em média. 2006 20 INESC – Instituto de Estudos Sócio-Econômicos – organização não-governamental – dados consultados no sítio web em 15/11/2007 21 CDC . fatores todos a merecerem críticas também do Comitê dos Direitos da Criança da ONU (Genebra). de advocay e de monitoramento & avaliação. aqui tomada como exemplo. Esse pormenor da falta de metodologias para empoderamento (e não meramente capacitações e treinamentos!) de crianças e adolescentes. é vista muito mais como uma tática específica no bojo de diversas estratégias de ação. portanto. O Quadro mostra os gastos médios com saúde em 2007. nesse sentido. um elemento importantíssimo. especialmente dos jovens-adolescentes de 16 a 18 anos.)”. O chamado perfil do adolescente em conflito com a lei revela esse forte conteúdo seletivista. R$1. ou apenas como metodologia em determinadas atividades/serviços ou projetos/programas. como uma situação de risco social. como tática.00 enquanto o gasto médio com recursos próprios foi de R$ 168. decorre muito do quadro de desrespeito à diversidade e à pluralidade em nosso meio.). Dito isto.. Vale ressaltar. com gastos por habitante com recursos próprios de R$ 30. Lembra-se que o grupo G1 do Norte é composto por apenas um município.

O segundo relatório em 1997. a princípio formado com 10 membros e. no Brasil e deveria ser levada em conta. a Convenção sobre os Direitos da Criança. 42 e 44. o terceiro em 2002 e o quarto em 2007 Infelizmente. priorizando em termos absolutos esse seu atendimento público. homens e mulheres. por exemplo Em nível internacional. inclusive este emanado do Comitê. pois ratificou a Convenção em 1990. o Estado brasileiro permaneceu inadimplente com este compromisso até 2003. (g) Educação. Quando se promove a utilização. particularmente no âmbito do território dos municípios. Cabe ao Comitê dos Direitos da Criança “examinar os progressos realizados no cumprimento das obrigações contraídas pelos Estados partes da Convenção” (art.44 da Convenção. onde se faça um acompanhamento. como parâmetro avaliativo e planificador.2. data de envio do primeiro relatório. de cinco em cinco anos. não se trata de preferir utilizar exclusivamente um instrumento ou outro: Constituição Federal. a partir de 2003. como liderança da Coalizão Brasil de ONGs para o Comitê de Genebra).1). adolescentes e adultos (incluídos os jovens e idosos).)” 24 Esse tipo de classificação é de muita importância na elaboração de relatórios outros sobre garantia de direitos da criança e do adolescente. a respeito: “O fundamento do direito não é o instrumento normativo. decidiram apresentar um “relatório alternativo” sobre a efetivação/implementação da Convenção em nosso país. (d) Direitos Civis e liberdades (arts. fazendo com que seu superior interesse prevaleça acima de tudo e todos. eficácia e efetividade no desenvolvimento equânime de políticas públicas e no acesso democrático à Justiça se isso resultar em redução nos níveis de pobreza e de desigualdade e em aumento dos níveis de coesão social (bem menos exclusão e muito mais pertencimento social)23. várias organizações coligadas da sociedade civil brasileira. por exemplo. não consegue estabelecer políticas e recursos públicos e assegurar o acesso democrático à Justiça como mecanismos capazes de realizar os direitos por ele mesmo reconhecidos.43. Está no controle social exercido diretamente pela sociedade civil organizada e no controle institucional exercido principalmente pelos conselhos dos direitos da criança e do adolescente e mais pelo Parlamento. Apesar de ter ratificado todos os tratados internacionais de Direitos Humanos. tomados em conta em nossos trabalhos de análise e planejamento. 13-7 e 37a). Exemplo de parâmetros para o controle das ações públicas: as normas do Comitê da ONU para os Direitos da Criança. 19. O controle sócioinstitucional das ações públicas de promoção e defesa (proteção) de direitos Para que se consiga frutos aproveitáveis desse choque aparente entre realidade social e normativa. 8º. trouxe em seus artigos 43 e seguintes. representando as organizações não governamentais 23 Ver adiante item III – “Parâmetros (.1.4. avaliação e correção dessas ações. de agendamento e pactuação. Criou um comitê. ROSENO explica. São Paulo. (e) Ambiente familiar e cuidado alternativo (arts. Da mesma forma. de planificação. auditorias. Além disso. a partir de então. crianças. 3º. 4º. pelas corregedorias. em especial (incluindose privilegiadamente aí a ANCED. diminuindo os níveis de fraturas entre os dois “Brasis”. Imprescindível é que os princípios explicitados por estes instrumentos normativos todos sejam efetivados. 20. Para facilitar o exame e debate sobre os relatórios. com ações afirmativas em seu favor. 25 ROSENO. Renato in “Introdução ao Relatório Alternativo da Coligação da Sociedade Civil Brasileira ao Comitê para os Direitos da Criança”. 24. Por isso. Edição ANCED 31 . 21. mas o conteúdo de justiça que deve estar contido na norma. O Brasil deveria ter apresentado seu relatório inicial em 1992. brancos e negros. o Comitê editou seus “Comentários e Recomendações finais.. ele é marcado por essa analisada acima fratura social que afasta regiões geográficas. pelos tribunais de contas. o Comitê desempenha seu papel de controle da efetivação e implementação da Convenção. 6º. 2005. os mecanismos e procedimentos para o controle de sua efetivação jurídica e implementação político-institucional. (b) Definição de criança (art. Outros parâmetros para o controle das ações públicas: compromissos políticos de instâncias públicas nãoinstitucionais Os participantes do IV Fórum Ibero-Americano de ONG pela Infância. em todo o país. seja ela nacional ou internacional. Mais importante que a norma é a prevalência do princípio da dignidade do ser humano criança que deve estar reconhecido na norma”25 . 27. 6º e 12). Após este exame.3). 2). defendemos a complementaridade e articulação entre os sistemas nacional. com resultados reais para o aumento dos níveis de coesão social no país a partir preferencialmente dos municípios. da igualdade e da pluralidade – da prevalência dos Direitos Humanos. (f) Saúde básica e bem-estar (arts.2 e 27. Convenção sobre os Direitos da Criança ou Estatuto da Criança e do Adolescente. de modo geral. (c) Princípios gerais (arts. com 18 membros. entre o “Brasil-Real” e o “Brasil-Legal”. controladorias etc. nem que seja em caráter suplementar: a) Medidas gerais de implementação (arts. todos os instrumentos normativos são complementares e devem ser utilizados. (h) Medidas especiais de proteção. o Comitê aprovou disposições gerais a serem seguidas pelos Estados Partes na elaboração de relatórios. desse documento especifico do Comitê para os Direitos da Criança das Nações Unidas. o Comitê faz considerações e recomendações aos Estados Partes. “especialistas de reconhecida integridade moral e competência nas áreas cobertas pela Convenção” (art. os relatórios dos protocolos opcionais também já deveriam ter sido enviados seguindo-se a norma do art. um sistema de controle das ações públicas necessita ser implementado.1. monitoramento. 27. 7º. 29 e 31). verdadeiras discriminações positivas – no caso sob análise aqui. Os relatórios iniciais devem ser apresentados pelo Estado Parte após dois anos da ratificação e.6). Por melhores que sejam as cifras. 9º. lazer e cultura (arts. Ao contrário. pelo Ministério Público. da liberdade. 39 e 25).” A partir daí cabia à sociedade civil organizada no Brasil.43. consolidar a utilização de seus mecanismos e fiscalizar a implementação dos citados “comentários e recomendações” do Comitê ao nosso país. 27. agrupando os temas tratados pela Convenção24: Nos anos de 2003 e 2004. 23. regional e internacional de proteção dos direitos humanos. o que é feito pelo exame periódico dos relatórios oficiais e contribuições de agências especializadas em direitos humanos. realizando anualmente discussões gerais sobre temas conjunturalmente relevantes e aprovando comentários gerais. 28. Ao final do seu processo de monitoramento. 11. se os dados e informações correspondentes não resistirem a uma desagregação para se verificar em que medida os mais-desiguais se beneficiam ou não desses incrementos. 5º. 10. Desse modo só se pode falar realmente em eficiência. 1º). no exercício de suas atribuições previstas na CDC e nos Regulamentos do Comitê. continuar a difundir os instrumentos internacionais de direitos humanos relativos à infância. 2º.3. classes sociais. a exemplo de outros tratados internacionais de direitos humanos. 26. 18.2. 18. 18. Mas..A normativa jurídica contrastando com a situação O Brasil tem um marco normativo baseado no reconhecimento da prevalência da dignidade humana. privilégios legítimos e legais em favor da infância e adolescência. reunindo informações para um possível segundo relatório alternativo e para elaboração de inúmeros outros relatórios de análise da situação.

todas as normas-regras do Estatuto citado e de outras leis ordinárias (LOAS. nossa utopia histórica e verossímil? Dir-se-ia aqui: a busca da coesão social em níveis crescentes! O conceito de “coesão social”28 surge ante a necessidade de se encarar os sérios problemas que. a meio e longo prazo. 28 CEPAL de crianças e adolescentes: Insta-se nesse documento. fazendo prevalecer os princípios gerais dos Direitos Fundamentais.. no Brasil: altos níveis de pobreza e uma extrema desigualdade. passou a ter status de norma constitucional. pela pobreza e pelas desigualdades várias (com destaque aqui para a desigualdade por localidade geográfica). Os compromissos assumidos na declaração final desse Fórum devem ser considerados quando da elaboração de agendas. fortalecendo-o. a partir de uma perspectiva integral”.. abandonos.). considerando-se que no Brasil. por exemplo. para o enfrentamento da exclusão. Mas qual nossa meta. o compromisso de criarmos um sistema de gerenciamento de dados e informações mais aperfeiçoado e com capacidade de desagregações necessárias. LDB etc.. niños y adolescentes vulnerados en sus derechos. no marco dos Direitos Humanos. LOAS. sem se esquecer de se contemplar nesse compromisso o papel do Sistema Judicial: (. da não-discriminação. em Villarica. coisa que no Brasil temos dificuldades em fazê-lo. dotando-o de mecanismos orçamentários e jurídicos para garantir sua efetividade em favor do seu público-destinatário. En este sentido es necesario adecuar los procedimientos judiciales y administrativos para que niñas. como escopo final. tendo a busca da “coesão social”. formuladas e executadas em seus países. esse tratado internacional. niños y adolescentes. compromissos entre nós no Brasil. e para a construção de compromissos no sentido do enfretamento da pobreza. para toda a Ibero-América. a partir dos seus municípios. como sujeitos de direitos. D) Municipalização – Há um compromisso outro em favor da municipalização das políticas públicas: isto é. LDB etc. da pobreza e das desigualdades. tengan un mejor acceso a la justicia (. hierarquicamente superior a normas infraconstitucionais27. para permitir a consolidação de processos sociais estáveis e duradouros. de modo particular. os princípios da integralidade do desenvolvimento. compromissos de envolvermos. B) Investimentos públicos – Comprometeram-se todas as ONGs ibero-americanas. crianças e adolescentes. (. fazendo a devida conexão entre política econômica e políticas sociais. pactos. Chile. no sentido da valorização de espaços participativos. em matéria de garantia permanente de direitos de crianças e adolescentes. além do mais. E) Sistema Nacional de Garantia de Direitos – Os participantes do IV Fórum constataram a necessidade de se reconhecer a existência em nossos países de um sistema de garantia de direitos em favor de crianças e adolescentes. a respeito da infância e adolescência e que permita o monitoramento e a exigibilidade de direitos. para a necessidade de se garantir mais centralidade na Convenção sobre os Direitos da Criança e não apenas no Estatuto da Criança e do Adolescente26. vez que não se poderá ter boas políticas sociais sem políticas econômicas mais justas C) Processos e espaços públicos de participação democrática & em especial de participação proativa 26 Enquanto “normativa nacional de adequação à CDC”. violências e exclusão social (em “insegurança 32 . a permitir que os gestores públicos e os julgadores interpretem. Levando-se em conta o que consta desse documento do IV Fórum Ibero-Americano. que resultam nas diversas formas de discriminações.. E por sua vez.) “que realicen las reformas presupuestarias y jurídicas necesarias para dotar a los Sistemas Nacionales de Protección de los Derechos de los mecanismos necesarios para que los mismos puedan ser demandados por niñas.) “ se deben crear políticas públicas locales que acerquen más el Estado a los espacios de la vida cotidiana de los niños. depois de ratificado. Nesse ponto se chama mais a atenção para o caráter principiológico de certas normas da CDC. em priorizar a discussão e a luta pelo crescimento das inversões públicas em favor da infância e adolescência. através do desenvolvimento equânime de políticas públicas e do acesso democrático à Justiça. Isso supõe – segundo a declaração final – mais uma reforma estrutural e funcional da institucionalidade pública dentro dos Estados e uma gestão de resultados e de impactos. LOS. pode-se construir alguns indicadores que permitam garantir maior eficiência e eficácia e igualmente maior efetividade. las niñas y los adolescentes”. deveriam ser firmadas em “processos de planejamento participativo e democrático. Todavia acrescentase. especialmente as expressões organizativas da sociedade civil que firmamos esse documento ibero-americano. F) Dados e informações – Assumiu-se. preliminarmente. por força da Emenda Constitucional nº 45. também. como.)”. como os nossos conselhos dos direitos da criança e do adolescente. o fortalecimento do controle social e institucional sobre essas ações aqui se elegeu como mecanismo privilegiado para garantir a deflagração de um processo de transformação social dessa situação de iniquidade. neste texto registrada e comentada. ainda perduram na América Latina. a partir desses paradigmas emancipatórios dos Direitos Humanos. reconheceram em maio de 2007. a todos nós no Brasil. nosso horizonte. da proteção especial em casos de violações de direitos. da desigualdade e da exclusão que dessa análise emerge e no sentido de elevação dos níveis de inclusão e de pertencimento social (coesão social): A) Marco normativo predominante – O documento inicialmente chama a nossa atenção. al igual que sus familiares o testigos. A normativa internacional e nacional nos aponta para a necessidade de atendermos necessidades e desejos desse público. centrada na pessoa da criança e do adolescente. nesses processos e espaços públicos participativos e permanentes. nessa declaração final. explorações. em nosso país.dos países ibero-americanos (incluindo-se mais a Espanha e Portugal). a partir dessas normas-princípios da CDC. por exemplo. que as políticas públicas em favor da infância e da adolescência. apesar de alguns avanços alcançados nos últimos anos. do superior interesse.. Do documento final desse evento foram destacados os seguintes pontos que se transformam em parâmetros para a análise da situação social e político-institucional. Coesão social A situação da infância e adolescência no Brasil está marcada por profundas fraturas provocadas pela insegurança social. tendo-as como chaves hermenêuticas. 27 ECA. LOS.. isto é.

há que se reconhecer a relevância dos valores democráticos no desenvolvimento de políticas públicas que fortaleçam essa coesão social e no acesso à Justiça igualmente fortalecendo a coesão social. Para superar isso. *WANDERLINO NOGUEIRA NETO Procurador de Justiça (aposentado) do Ministério Público do Estado da Bahia e membro do Grupo Temático de Monitoramento da Convenção sobre os Direitos da Criança da Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente – ANCED / Seção Brasil da Red de Defensa de los Niños y Niñas Internacional . ao máximo de seus esforços. políticos e institucionais viáveis. isto é. inclusiva e participativa. como um seu elemento obstaculizador ou facilitador. As razões desses desencontros são múltiplas. o que permitiria construir uma agenda mínima em torno desse objetivo. Presidente da Associação do Ministério Público da Bahia e Consultor Especial para o UNICEF (Brasil. os mais atingidos por esses diversos processos de opressão de responsabilidade dos grupos hegemônicos dominantes (sócio-político-econômicojurídico-culturais). Pobreza e desigualdade que atingem ainda mais agudamente os segmentos da população que foram reduzidos a “minorias políticas”. 33 . isso também é relevante para testemunhar a solidez do Estado Democrático de Direito. necessário se torna celebrar um verdadeiro compromisso de coesão social. como se viu atrás neste texto. disponibilizando os recursos econômicos. Foi Procurador Geral de Justiça e Diretor Geral do Tribunal de Justiça da Bahia. através da promoção e defesa (proteção) de direitos fundamentais e do fortalecimento de uma democracia real. Trata-se de criar sinergias positivas entre crescimento econômico e equidade social. uma utopia a se realizar no futuro a partir de esforços no presente. Professor de Direito Internacional Público da Universidade Federal da Bahia – UFBA. mas se destaca entre elas o débil nível de coesão social. baseados em princípios éticos que não dão sustentação a esse quadro de iniquidade. Secretário Nacional do Fórum DCA.social”). de pobreza e desigualdade. vez que o problema transcende à mera satisfação de necessidades materiais. Mas além dessa relevância ética em razão da equidade. Os atores sociais que poderiam ser chamados a construir espaços e mecanismos de interação positiva e de superação dessa situação de pobreza e desigualdade não contam com espaços e mecanismos de cooperação e de comunicação. A coesão social é mais um desejo político. fortemente condicionadora do desenvolvimento humano sustentado. Cabo Verde e Paraguai). da ordem social democrática e da governabilidade. os que atuam em nível municipal).DNI). Angola. entre gestores e outros agentes públicos que integram os atores sociais do sistema de garantia dos direitos da infância e adolescência (especialmente. Assim sendo. pelo CEDECA Interlagos (SP).

não-criminalização e sistema de garantia de direitos humanos”. Mas. assim. realizado no Rio de Janeiro. não i O presente texto foi apresentado no III Congresso Mundial contra a Exploração Sexual de Crianças. a sua autonomia e a sua autodeterminação. SISTEMA DE GARANTIA DE DIREITOS HUMANOS. da pessoa humana . vez que. na realidade atual – uma questão estrutural e/ou conjuntural? Deslegitimação do Direito Penal. políticos e jurídicos. Comitê dos Direitos da Criança da ONU. foi apresentado no mesmo período no I Congresso Brasileiro contra a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.” conduta moral no âmbito da sexualidade e para limitar o exercício de quaisquer direitos nas áreas da saúde sexual e reprodutiva. diversidade. 34 . saudável. incluindo informação sobre sexualidade que promova a liberdade de decisão e igualdade de gênero.indisponível e exigível. NGO Group for the CDC e Governo Brasileiro. em novembro de 2008. riscos e efetividade de todos os métodos de regulação da fertilidade e prevenção de doenças. A responsabilidade do Estado. filosofias e costumes. Em resumo. Childhood (Fundação WCF – Suécia). ECPAT. como preliminar a ser assegurada. devem ser garantidos e disponibilizados para que todos os homens e todas as mulheres efetivamente exercitem seus direitos sexuais e reprodutivos. para estabelecer pauta de “Necessita-se. A impunidade como tendência. E a livre expressão dessa sexualidade deve ser reconhecida e garantida como um direito fundamental. pois de um Direito emancipador e não meramente regulador. como alternativa na busca de novas alternativas. realizado no Rio de Janeiro. tradicionalmente o reconhecimento dos direitos sexuais de crianças e adolescentes discrepa de certa forma de tudo isso dito até agora. Comitê dos Direitos da Criança da ONU. Para tanto. sem discriminações. o pleno exercício dos direitos sexuais e reprodutivos implica no reconhecimento e na garantia minimamente dos seguintes direitos: • O direito à igualdade e a uma vida livre de toda forma de discriminação. já que nosso enfoque neste III Congresso Mundial se concentra sobre crianças e adolescentes? A pergunta tem realmente sentido. a sexualidade humana pressupõe liberdade. respeito e tolerância. pela promoção & proteção de direitos humanos da criança e do adolescente. em novembro de 2008. Igualmente. • O direito à privacidade. diversidade.indisponível e exigível. Essa fala do Autor integrou o Painel 2 sobre “Marco Legal e Responsabilização” e versava sobre esse enfoque específico da “impunidade. nãocriminalização e sistema de garantia de direitos humanos”. • O direito à informação e à educação. foi apresentado no mesmo período no I Congresso Brasileiro contra a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. de cada um. Igualmente. como se aquilo apresentado atrás só valesse para os direitos sexuais dos adultos. como uma das possíveis respostas do Estado à violação dos direitos sexuais de crianças e adolescentes. incluindo-se os seus direitos sexuais. possibilitando. • O direito à liberdade de pensamento. a sexualidade humana pressupõe liberdade. todos os homens e todas as mulheres e cada um deles e delas devem ser tratados com respeito a sua liberdade. crenças. respeito e tolerância. Enquanto isso os direitos sexuais de crianças e adolescentes continuam marcados pela excepcionalidade e pela ideia de tutela e dominação. Pelo que se observa na raiz de tudo que se possa dizer e fazer. em nossas reflexões e ações. decisões com base em um consentimento livre e informado. deve estar a questão da dignidade humana. segura.i WANDERLINO NOGUEIRA NETO* Nota: O presente texto foi apresentado no III Congresso Mundial contra a Exploração Sexual de Crianças. promovido pelo Unicef. como programado. como direitos fundamentais da pessoa humana. de modo sistêmico. A criminalização (ou não) do explorador sexual. Novas alternativas. realizado simultaneamente. da pessoa humana . Contexto: direitos sexuais como direitos fundamentais da pessoa humana Para o pleno exercício dos direitos sexuais e reprodutivos. para todos e para todas. NGO Group for the CDC e Governo Brasileiro. todos os recursos científicos. da liberdade e do direito. instrumentalizadas para controlar a sexualidade. SÍNTESE: O reconhecimento dos direitos sexuais. nos tempos atuais. inclusive no que diz respeito à vida sexual e reprodutiva. fundados na dignidade de sua condição humana. na América Latina (exemplos do Brasil e do Paraguai). Por sua vez. que tem essa questão da sexualidade de todas as cidadãs e de todos os cidadãos com este evento. levando nosso discurso teórico e nossa prática a passarem pela questão preliminar da “tolerância e respeito” com a diversidade e com a liberdade. abuso ou exploração sexual. Childhood (Fundação WCF – Suécia). para que a todas as mulheres e todos os homens seja garantida a necessária e eficaz proteção em face de qualquer violência. como programado. tortura ou intolerância por orientação sexual. promovido pelo UNICEF. realizado simultaneamente. para que homens e mulheres não sejam submetidos a interpretações restritivas de ideologias religiosas. Necessita-se do reconhecimento e garantia de direitos sexuais que pressuponham a pluralidade e a diversidade. Em resumo. Essa fala do Autor integrou o Painel 2 sobre “Marco Legal e Responsabilização” e versava sobre esse enfoque específico da “impunidade. para que possam exercer o seu direito de desfrutar de uma vida sexual plena. Necessita-se. garanta o acesso à informação completa sobre os benefícios. A institucionalização de um sistema de garantia de direitos humanos infantoadolescente. que seja satisfatória.NÃO-CRIMINALIZAÇÃO & IMPUNIDADE. para que todos os serviços de atenção à saúde sexual e reprodutiva garantam a confidencialidade. E a livre expressão dessa sexualidade deve ser reconhecida e garantida como um direito fundamental. ECPAT. sem coerção e sem violência. no âmbito público e privado. pois de um Direito emancipador e não meramente regulador.

Assim. sujeitos a sua jurisdição (CDCart. como balizador da definição desse superior interesse.12-1 – CDC). de qualquer criança ou adolescente (no campo das variadas expressões possíveis de sua sexualidade. no Direito. Estrategicamente isso tem muito sentido. por outrem. são cidadãos livres como os adultos. da “moral pública”. como un derecho fundamental que nos compete a todos y en defensa de los derechos fundamentales de niños. como posto na normativa internacional vigente à qual esses marcos legais nacionais deverão urgentemente se adequar de maneira verdadeiramente radical. a respeito dos direitos sexuais infanto-adolescentes. Não foi à toa. Essa intervenção estatal nesse campo da sexualidade só será legítima – ética e socialmente – para garantia do direito correspondente. necessário se torna que combatamos toda a sorte de violências. uma prática de redução de dano. adolescentes y jóvenes de América Latina – basados en las necesidades e inquietudes de todos los adolescentes y jóvenes de América Latina en cuanto a su escaza participación dentro de los procesos en contra de la explotación sexual comercial de niños.34 – 1). pois recoloca no centro das nossas atenções a própria criança. niñas. porém. indutoras e exploratórias de consecução do seu consentimento. na perspectiva dos Direitos Humanos. A CDC. crianças. com sua capacidade do exercício de quaisquer dos seus direitos. complementando esse anterior discurso e prática positivos. Essa condição de ser-histórico. opressão. hemos coincidido en afirmar los siguientes puntos como claves para el desarrollo por un cambio efectivo y real (. o respeito e a consideração a sua opinião. sem que se garanta esse direito à participação ativa de crianças e adolescentes. com um discurso. que na Reunião Preparatória para o III Congresso Mundial contra a Exploração Sexual de Crianças e Adolescente.. em caráter individual. sempre que se colocar a proteção legal dos direitos sexuais de crianças e adolescentes e o combate contra as diversas formas de abusos e explorações sexuais. generadora de impacto y cambios. há que se colocar. reconhece o direito de livre expressão de opiniões de crianças e adolescentes e a consequente obrigação dos Estados-Partes de levarem em consideração essa opinião.)”. niñas. para além da restrita genitalidade). adolescentes e jovens ali reunidos assim declaram: “Nosotros. negligências. pois não deve ficar ao arbítrio das agências públicas e dos seus agentes definirem o que corresponde ou não a esse interesse maior da criança e do adolescente. 2-1). competindo aos Estados-Partes assegurarem ao máximo a “sobrevivência e o desenvolvimento da criança” (CDC – art. mas condiciona o exercício desse direito de participação a sua “capacidade de formular seus próprios juízos” e ao seu grau de “maturidade” (art. não deixam de serem cidadãos. os marcos legais nacionais. Para se assegurar a liberdade de consentir. niñas y adolescentes – declaramos que (…. de sujeito de direitos. que garantem a igualdade de direitos de mulheres. Em resumo. mesmo assim. para efeito da garantia dos seus direitos fundamentais. das formas violentas. em favor de quem se quer combater as formas diversas de exploração sexual e não tanto o agressor sexual. a proteção integral a esse direito à sexualidade de crianças e adolescentes deve ser considerada como uma proteção ao seu direito à vida. por exemplo. realizada em Buenos Aires. como estúpida e anacronicamente prevê a legislação penal de vários países (inclusive a brasileira. E aí eles fizeram um precioso reconhecimento: “Entienda-se la participación activa y efectiva de niños. de violação ou ameaça a esses direitos sexuais e. para sua proteção de relação a abusos contra o direito e para a responsabilização dos violadores. adolescentes y jóvenes y en especial el derecho a la protección ante la explotación sexual comercial. crianças e adolescentes tiveram explicitada sua condição de titulares dos direitos enunciados naquela Convenção e explicitada mais a obrigação dos Estados-Partes de assegurarem a aplicação desses direitos a cada criança e adolescente. sem reservas que atinjam os princípios básicos dessa normativa internacional. por exemplo. só podem ter limites na norma jurídica. o Estado e o Direito devem proteger esses cidadãos dos “vícios de consentimentos”. adolescentes y jóvenes. Em favor.)” É preciso que se faça uma mudança estratégica na ordem das nossas duas táticas e metodologias de atuação tradicional: • Preliminarmente. da sua liberdade e da sua dignidade. crianças e adolescentes – as maiores vítimas dessa visão machista. particularmente no campo da legislação penal. importante se torna promover direitos sexuais. fraudulentas. Considerando-se assim que os direitos sexuais de crianças e adolescentes têm o seu exercício limitado pelo seu grau de desenvolvimento bio-psico-social. deverão merecer uma profunda e ampla revisão. que teimamos em reduzir a uma mera sexualidade genital. discriminações. adultocêntrica e conservadora da legislação penal. como Direitos Humanos que são. no campo sexual. enganosas. esses seus direitos sexuais. Nesses termos. no Mundo. o próprio adolescente. limitados estritamente pela lei. e pelos nossos preconceitos morais e sociais. mas com o exercício dessas liberdades condicionado a certos fatores e condições. E nunca limitadas pelo arbítrio do magistrado e do gestor público. explorações. Com a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança. considerando-se.6 -1-2) e adotarem medidas apropriadas para “protegêlas contra todas as formas de abuso e exploração sexual” (CDC – art. E em decorrência disso. pois. é preciso que se faça com que o superior interesse de crianças e adolescentes prevaleça sempre. onde as discussões e intervenções públicas ainda continuam hegemonicamente adultocêntricas. isto é. contrariando os novos paradigmas ético-jurídicos. essa sexualidade como um direito e regulá-la de maneira emancipatória e não meramente repressora. Isso porque a criança e o adolescente. isto é. em reforma).lhes reconhecendo os adultos medianamente. que impera em boa parte dos nossos países. na forma do que foi dito até agora. no grau de sua maturidade. As expressões diversificadas da sexualidade da criança e do adolescente. abusadores e exploradores. da sua vida e da sua saúde: nunca em prol dos “bons costumes”. não tem tido efeitos práticos no campo da sexualidade. 35 . enquanto pessoa e titular de direitos humanos. culturais. isso significa que em primeiro lugar privilegiemos práticas e discursos justificadores mais afirmativos. se torna importante proteger esses direitos sexuais e defendê-los contra todas as formas de negação. religiosos. • Consequentemente.

mais gravosos. punitiva e coercitiva. Alessandro Barata (Saarbrucken). Em oposição franca a esse posicionamento ímpar. respostas dos agressores sexuais e a responsabilizá-los. É chamado a reconhecer suas obrigações e ele se expõe. diante da cada vez mais desmascarada “deslegitimação do direito penal”. para se colocar a expressão “responsabilização”. (“answerability”) à qual está obrigado e pela qual é responsável. a respeito dessa matéria: “É preciso dar um breque nesse discurso que faz a multicitada ‘responsabilização’ ser confundida exclusivamente com criminalização / penalização. se arrisca a sofrer sancionamentos morais. O Estado é chamado a dar uma resposta. eficaz e eficiente. dos exploradores sexuais e clientes. A impunidade funcional e a estrutural Mas aqui. ampla e primeiramente no seu sentido próprio. onde sejam apontados por algumas formas de violações 36 . E esse entendimento médio parte da ideia de que o sistema penal. provocando a ‘volúpia punitiva’ de muitos de nós. isto é. dos abusadores e exploradores sexuais. enfrentemos essa questão da responsabilização. através do sancionamento (amplo!). Lola Anyar de sexuais”. constata-se ainda. Elias Carranza (São José da Costa Rica). se vai tratar inicialmente das possibilidades de enfrentamento dessas inúmeras formas de violações dos direitos sexuais infanto-adolescente e dos obstáculos que surgem nesse processo. no campo maior da responsabilização ampliada estatal e social (accountability). Existe ainda a necessidade de requalificar a noção de vítima. em síntese diziam os participantes. no Mundo se chama de “processo de deslegitimação do sistema penal-penitenciário”: Eugênio Raul Zaffaroni e Emilio Garcia Mendes (Buenos Aires). será mesmo que o sistema penal. embargos. E talvez nem sempre a mais efetiva. isso vencido. conhecendo melhor a situação posta de relação à garantia dos Direitos Humanos de crianças e adolescentes: A) Em primeiro lugar. políticos – desde o mero “envergonhamento público” diante da comunidade internacional (e comunidade nacional. no seu processo de responsabilização. de relação à prevenção e repressão ao crime. há que se reconhecer que essa criminalização-penalização do agressor sexual (explorador/cliente) não é a única resposta do Estado ao “ato injusto” desse agressor sexual. Nilo Batista e Carlos Nicodemos (Rio de Janeiro). a ser combatida com leis penais mais draconianas e uma justiça mais efetiva em produzir condenações. Até outras sanções. hoje. recuperando as dimensões de sujeito e de sua integralidade. é “legitimo e eficaz” e de que a impunidade ocorrente é disfuncional. Especialmente aqui irá focar-se num desses obstáculos: a chamada impunidade dos agressores sexuais ou. quanto pela proteção legal desses direitos. com a leitura dos relatórios. para além da responsabilização pela criminalização. de a expressão abusadores tão e usada de “responsabilização exploradores de direitos sexuais ou diretamente ou de acumpliciamento com outras formas sem suas providências devidas. para dar conta dessa complexidade de fatores. em nossos países. A partir disso. acrescentando a perspectiva multidisciplinar para garantir a proteção integral. C) Inserção dessas duas formas de responsabilização sócioestatal e individual. no mundo moderno. ou da insuficiência da regulação legal ou do mau funcionamento das agências judiciais ou de ambas. o Estado criminaliza-penaliza esses agressores sexuais. derivadamente. econômicos. depende apenas do aperfeiçoamento das leis penais e do sistema de Justiça Penal? Primeiro. no caso da exploração sexual de crianças e adolescentes. torna-se importante aprofundarmos nossas leituras e reflexões a respeito do que. no entanto é preciso construir outros parâmetros na forma desta sociedade reagir. Apontada a impunidade no processo de criminalização como um sério desafio a ser enfrentados por todos nós. B) A partir dessa sua originária e preliminar responsabilização. colhido da Reunião Preparatória citada. realizada em Brasília. no mês de outubro de 2008. E. tanto pela promoção dos direitos sexuais de crianças e adolescentes através de políticas públicas intersetoriais realmente efetivas. através da criminalização deles pelo Estado. diante da ordem interna e mundial. como uma das formas derivadas de responsabilização jurídica possível dos referidos agressores sexuais. deve merecer uma revisitação do seu conceito e da sua aplicação. E que. no campo do Direito Internacional dos Direitos Humanos: ou seja. na média da opinião pública. por sua manifesta seletividade classista. por que não!?). B) Colocação da responsabilização individual desses agressores sexuais. O Estado precisa ser chamado a se responsabilizar pela garantia dos direitos sexuais de crianças e adolescentes e a combater todas as formas de violações desses direitos. A indignação da sociedade é importante. a impunidade nasce apenas de fatores conjunturais. as estatísticas mostram o baixo poder intimidatório da sanção penal. E se obriga mais a cobrar. mais especificamente ainda. se conseguiria quebrar o chamado “ciclo perverso da impunidade”. Quando da Consulta Nacional Preparatória para o III Congresso Mundial contra a Exploração de Crianças e Adolescentes. superando a égide pura e simples da justiça penal. o Estado igualmente precisa ser responsabilizado (“accountability/responsibility”). machista etc. dentro de um sistema integrador de normativas e mecanismos de garantia de direitos humanos. a promoção dos direitos sexuais através das políticas públicas terá seu devido espaço. Rosa Del Olmo (Caracas). Em outro painel neste Congresso Mundial. portanto. restrições. Para tanto se fazem necessárias soluções sistêmicas e alternativas para todos os envolvidos”. diante das situações de explorações sexuais. o Mundo necessita construir estratégias para vencer esse obstáculo que nos desafia e esboçar saídas tais como: A) Abertura de um leque maior de campos e níveis de responsabilização desses agressores sexuais.A criminalização como uma das possíveis respostas do estado à violação dos direitos sexuais. no sentido restrito de sua criminalizaçãopenalização. racista. uma forte defesa monocórdica da criminalizaçãopenalização dos agressores sexuais e o repúdio passional a sua impunidade. sem prejuízo desta. Contudo. especialmente no tocante à criminalizaçãopenalização individualmente dos exploradores sexuais de crianças e adolescentes. neste enfoque. Mas. através de suas agências judiciais e policiais. por sua vez. em si mesmo. E por sua baixa efetividade. da criminalização e da impunidade.

dessas normas. mesmo no caso dos exploradores sexuais de crianças e adolescentes. ideológico e deslegitimado. não podem elas ser eliminadas. pela baixa efetividade da resposta penal. “penas carentes de racionalidade” – no dizer de Eugênio Zaffaroni. No período Colonial. e desencadeia o processo de sua criminalização. na “volúpia punitiva” alienadora da população e na reprodução da violência. Desse modo. isto é. Contudo. entregue só às outras agências estatais. Para a defesa dos “suspeitos”. há que se partir dessa desconstrução da resposta penal. “pedófilos”. no regime das Capitanias Hereditárias. por exemplo. sem apelo. Contudo. interessado no estado das Colônias Suíças. empresários. indígenas. o poder de condenar à morte pessoas despidas de qualidade superior. essas características essenciais da resposta penal retributivista. a privação da liberdade de tal “selecionado” pelo sistema penal. que. Preliminarmente. a mais legítima. no Brasil. em um ciclo macabro e inacabável. Atualmente esses autores e outros tantos põem em duvida décadas e décadas de segurança na resposta penal tradicional. um caminho que leve a garantir uma mais eficiente e legítima resposta estatal ao fenômeno dos delitos (no caso nosso aqui. Antonio Beristein (São Sebastião – País Basco). por tudo. o sentido mórbido-compulsivo e perverso dessa parafilia. foi conferido a Governadores e Ouvidores de diversas Capitanias. estes últimos. política. prefeitos. mulatos e negros” porque “não viam o exemplo de serem enforcados”. submeter-se a ação criminalizadora do Estado a normas processuais e a uma agência judicial é melhor que deixá-la fora desse sistema. D) A corrupção intrínseca e institucionalizada do próprio sistema penal-penitenciário e E) A destruição das relações comunitárias. que buscam ver em todos os criminosos sexuais contra crianças e adolescentes. O objetivo era acabar com a dita “impunidade” que. mais especificamente? Abolindo-se de imediato e completamente a resposta penal aos agressores sexuais? Eliminando-se as leis penais a respeito? Extinguindo-se essas agencias judiciais? Óbvio que não! Seria uma insensatez. Mas nesse caso. mais susceptíveis de serem alcançados pela malha seletista do sistema penal. ideológico-fascista e controladora higienista baseada em pseudocientíficos critérios. E assim. com direitos fundamentais. também se o reconhece como pessoa humana. juízes. sem a supressão dos próprios sistemas penais. fica difícil serem “selecionados”. jovens. se dizia. com respeito mínimo a sua dignidade.). paulatinamente. E negatória inclusive do marco dos Direitos Humanos. A Carta Régia que concedeu esta jurisdição às autoridades da Capitania de Minas Gerais. desempregados. em si. com a criação de Juntas de Justiça. à época. a salvífica.] por bastardos. um Direito Penal Mínimo e uma Justiça com resultados restaurativos pode ser no momento uma estratégia. Outro traço revelador da impunidade decorre do tratamento diferenciado dos segmentos sociais.. parlamentares. ao máximo. dessas agências. onde a violência seletiva seria maior e descontrolada. os integrantes da elite econômica. mesmo que depois inocentados das falsas denúncias. que tem uma conotação mais individualista que a exploração sexual. Essas não são características conjunturais e sim estruturais do exercício de poder de todos os sistemas penais: A) A sua seletividade perversa e ideológica. por exemplo. em 1731. Se atuarmos na perspectiva dos Direitos Humanos – ao mesmo tempo em que se pune o delinquente. no Império do Brasil. por exemplo. vice-governadores. modernizando-se o processo de responsabilização jurídica desse tipo de agressor sexual.. quando se analisa mais profundamente a situação da prevenção e repressão aos delitos e a partir dela tenta-se construir cenários mais favoráveis à eficiência e eficácia dessa resposta penal. ou seja. de maneira generalizadora e alienadora. nos faz correr o risco também de privar-nos do único instrumento disponível para a defesa dos direitos humanos de alguns segmentos sociais. Johann Jakob von Tschudi. B) A reprodução interna no próprio sistema penal repressor da violência praticada pelo criminoso contra ele próprio. no Brasil. A possibilidade desse tipo de resposta penal e de sistema penal serem substituídos por um Direito Penal de Garantia. policiais. que desconstroem como ideológicos e falseantes o discurso jurídico-penal tradicional retributivista. Mas. no estágio atual da sociedade humana. sem reconhecer esse fenômeno da deslegitimação do sistema penal. como nos posicionaríamos no tocante ao enfrentamento dos crimes de exploração sexual desse segmento. que cada vez mais surge como uma “inflição de dor sem sentido”. no Brasil. ignorando de má-fé ou por ignorância. sem sucesso. do abuso sexual. visitou o país na década 37 .. constaremos nesse desvelar imprescindível da deslegitimidade da resposta penal: todos os sistemas penais apresentam características estruturais de seu exercício de poder. como a única. submete-os a esse processo sob direção e controle da agência judicial que pode autorizar o prosseguimento da ação criminalização já desencadeada pelo sistema de segurança pública e. Louk Husman (Roterdão). o que seria percebido por outro viajante. Por sua vez. dos presumidamente criminosos. negros. A demonização do delinquente sexual só serve ao modelo de sociedade e de Estado firmado na vingança. E essa seletividade classista e racista tem raízes históricas. E por constituírem essas características marcas intrínsecas de sua essência. necessitamos encontrar uma resposta alternativa e estratégica que dê novas respostas do Estado à exploração sexual de crianças e adolescentes. dos crimes sexuais contra crianças e adolescentes) – uma resposta estatal que neutralize (ou mascare pelo menos.Castro (Maracaibo). Ação seletiva. C) A criação de novas e melhores condições para a reincidência.. por exemplo. sacerdotes. sem buscar alternativas com capacidade de alteridade. Manuel de Rivacoba y Rivacoba (Córdoba). grassava. nesse processo de criminalização-penalização. de logo se a distinguindo. cultural de nossos países: por exemplo. ou perfis inconsistentes de natureza psicológica ou psiquiátrica. a mais poderosa. A seleção é feita em função da pessoa. o candidato é escolhido a partir de um estereótipo – pobres. denunciar simplesmente esse discurso jurídico penal como falseante. Isso porque o poder seletivo do sistema penal elege alguns candidatos preferenciais à criminalização. por fim. justificou a medida pelos “muitos e continuados delitos que se estão fazendo [. carijós. Eduardo Novoa Monreal (Santiago). enquanto alguns outros juristas penalistas clássicos procuram o aperfeiçoamento funcionalista e conjuntural dessa resposta penal e o combate à impunidade dentro desse panorama também conjuntural e funcionalista: culpam as leis vigentes e os agentes judiciais e policiais. por exemplo.

no campo da saúde mental. o Paraguai. em sua Resolução nº 113/2006 instituiu parâmetros para a institucionalização desse Sistema de Garantia de Direitos. Não são apenas meros problemas conjunturais. especialmente nas áreas da saúde. defeitos produzidos pela falta de um perfeito aparato legal e pela má funcionalidade do sistema penal. mais que um “sistema organizacional”. equipes técnicas judiciais) há que ser posto amplamente numa “ambiência sistêmica”. por força da Resolução nº 113/2006.ONU e de suas agências e proteção de direitos humanos de crianças e adolescentes no Brasil. se deve assegurar um eficiente e eficaz monitoramento e avaliação (= controle). É uma questão estrutural. relações exteriores e promoção da igualdade e valorização da diversidade”. órgão público paritário entre governo e sociedade civil. regional e nacional. Esse sistema holístico estratégico nasce muito mais diretamente do espírito da Convenção do que propriamente da lei nacional que aprovou o Estatuto da Criança e do Adolescente. Nesse mesmo sentido antes exposto. quanto desse atendimento direto pelas políticas públicas. porém mais sistematizado no texto da própria lei nacional de adequação à Convenção sobre os Direitos 38 . a serem superados com o mero aperfeiçoamento das leis penais e das agências judiciais e de segurança. ao exercer seu papel importante de controle internacional sobre as ações dos EstadosPartes da CDC de promoção e proteção dos direitos fundamentais da pessoa humana com menos de 18 anos – isto é. somada às possibilidades de responsabilização meta-judiciais e de restauração pela mediação e outras de atendimento público. E. quando possível!) sozinha não consegue dar conta. De maneira muito mais explícita. Escreve ele: “(. com a construção e formulação do seu chamado “Sistema de Garantia dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes” e com a sua paulatina institucionalização. como o Unicef. assistência social. Trata-se mais de ato normativo regulador a partir de uma interpretação extensiva da legislação nacional vigente e de uma transposição dos modelos internacional e regional (interamericano). na verdade. isto é. na aplicação de instrumentos normativos e no funcionamento dos mecanismos de promoção. saúde. tanto para os povos em geral. meramente retributivista. pelos órgãos de controle externo competentes.) quantas vezes aconteceu no Brasil que um homem rico e influente tivesse sentado no banco dos réus a fim de se justificar de seus crimes?” Os exemplos dessa seletividade igualmente estão manifestos. política desse explorador/cliente sexual. no seio de uma concertação sistêmica pela promoção e proteção dos seus Direitos Humanos. por exemplo. Esse Sistema articularse-á com todos os sistemas nacionais de operacionalização de políticas públicas. chegando a bons níveis de institucionalização. para tanto em nível global. caminha o Brasil.Conanda. importa que se aprofundem mais as possibilidades de responsabilização judicial de natureza civil. muito próximo do modelo brasileiro. por exemplo.. pelo Congresso Nacional e pelas Assembleias Legislativas dos Estados-Federados. disciplinar. e organismos. de modo complementar. Além da criminalização-penalização do agressor sexual. no ambiente de um “sistema de garantia de direitos”. multiprofissional e multicultural.) e pelo Sistema de Justiça (varas judiciais. Distrital e Municipal. onde ele é definido assim: “O Sistema de Garantia dos Direitos Humanos da Criança e do Adolescente constitui-se na articulação e integração das instâncias públicas governamentais e da sociedade civil. trabalho. igualmente. quanto a proteção desses direitos (via responsabilização).. a Unesco. por exemplo. sejam encaradas de maneira multidisciplinar. em seu próprio “Código de la Niñez y La Adolescencia” (lei nº 1680/2001). Ou pelo menos. a OMS. Por exemplo. em países subdesenvolvidos como o nosso. A multissetorialidade (ou intersetorialidade. como mais conveniente for. multissetorial. assistência social. há que se reconhecer também uma impunidade estrutural. nos níveis Federal. Estadual. o Sistema ONU de Promoção e Proteção de Direitos Humanos tem se conformado a esse modo de pensar e agir sistêmico. O enfrentamento de questões como a da exploração sexual infanto-adolescente. essa “ambiência sistêmica” tem ganhado reforço na explicitação de seu desenho. defensorias públicas e outras procuraturas sociais. tanto a promoção preliminar dos direitos sexuais de crianças e adolescentes. instituiu um “Sistema Nacional de Protección y Promoción Integral de los Derechos de La Niñez y Adolescencia” (artigo 37). a OIT. segurança pública etc. realizadas. quando se analisa as consequências das diversas Comissões Parlamentares de Inquérito sobre Abuso e Exploração Sexual. promotorias de justiça. E além do mais. por exemplo. segurança pública. pelos Sistemas de Políticas Públicas (educação. editada pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente . Ao lado dessa impunidade conjuntural real também contra a qual devemos lutar igualmente. da Organização das Nações Unidas . tanto das intervenções judiciais (“acesso à justiça”). posteriormente. administrativamente. orçamentária. sem preliminarmente essa multidisciplinaridade no enfoque. nesses casos de violência sexual. como especificamente para o público infanto-adolescente (e para outros grupos vulnerabilizados). minimamente. igualmente. administrativa. atualmente. nos tempos atuais. no Brasil. explicitando-se como espaço público estratégico de articulação e de integração de variados instrumentos normativos e de outros tantos mecanismos de exigibilidade de direitos humanos. a ser institucionalizado em nossos países. que diz respeito ao que se chamou antes de “deslegitimação do sistema penal” tradicional.de 1860. cultura. educação. Esse tem sido o esforço. na potencialização de suas instâncias de poder e serviço. num espírito puramente positivista legal e equipamentalista e patrimonialista no nível administrativo-institucional. ali se constata a tendência à impunidade dos poderosos quando apontados como agressores sexuais. crianças e adolescentes. planejamento. defesa e controle para a efetivação dos direitos humanos da criança e do adolescente. Para tornar mais visível esse sistema estratégico de promoção Sistema de garantia de direitos humanos de crianças e adolescentes no Brasil e no Paraguai. O espaço emblemático na ONU onde essas ideias e práticas mais se sobrelevam tem sido o Comitê dos Direitos da Criança do Alto Comissariado para os Direitos Humanos.Conanda. exemplificativamente Todos os nossos países necessitam institucionalizar uma maneira sistêmico-holística que consiga fazer com que. o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente .

da Criança. E lá está no citado Código, a se reconhecer esse Sistema como “(...) competente para preparar y supervisar la ejecución de la política nacional destinada a garantizar la plena vigência de los derechos del niño e del adolescente (...)”. E estabelece mais o Código paraguaio que esse Sistema é integrado em especial por três instâncias mais protagônicas, em seu seio: a “Secretaria Nacional de la Niñez y la Adolescencia”, o “Consejo Nacional de la Niñez y Adolescencia” (mais os “Consejos Departamentales y Municipales”) e as “Consejerias Muncipales por los Derechos Del Niño, Niña y Adolescente” - Codeni. De se destacar no modelo paraguaio, como grande avanço, a previsão legal da presença, compondo esses conselhos, de “organizaciones de niños” dos Departamentos e dos Municípios. Diante destas constatações, principalmente no campo da sexualidade infanto-adolescente, falar-se hoje em direitos humanos de criança e adolescentes tem um sentido mais profundo do que se imagina, pois ao se acentuar a vinculação desse segmento da população aos instrumentos normativos e aos mecanismos, internacionais e nacionais, de promoção e proteção de direitos humanos. Significa afastar-se a tentação de desvincular o movimento de luta pela emancipação de crianças e adolescentes, de relação ao movimento maior pela emancipação dos cidadãos, especialmente dos “dominados e subalternizados”: empobrecidos, mulheres, negros, sem-terra, sem-teto, homossexuais, transexuais, índios, deficientes, soropositivos, prostituídos, marginalizados, delinquentes etc. Quando se fala em direitos humanos geracionais (crianças, adolescentes, jovens e idosos) se quer acentuar a substantividade dessa condição, isto é, acentuar a essencialidade humana de crianças e adolescentes, ancorada nos princípios da dignidade, da liberdade e do direito. E se quer – além do mais – que, à essa luta pelo respeito a sua essencialidade humana, se alie também a luta pelo reconhecimento, respeito e potencialização da sua identidade geracional. Desse modo, importante torna-se colocar as situações de vulnerabilidade, de risco, de exclusão, de marginalização, de conflito com as normas, como meras adjetivações circunstanciais, conjunturais e não essenciais. Mesmo reconhecendo que “crianças, vivendo sob condições excepcionalmente difíceis” necessitam de “consideração especial” (CDC – Preâmbulo), a essencialidade delas como pessoas humanas vem em primeiro lugar, com o reconhecimento da “dignidade inerente e dos direitos iguais de todos os membros da família humana” (CDC – in ibidem). “Todos os membros da família humana”, sem excluir, portanto, crianças e adolescentes dessa essencialidade. Esse lócus dos direitos humanos traz uma resignificação da criança e do adolescente como ser-autônomo, em processo de emancipação e de potencialização do seu desenvolvimento, como co-sujeitos no processo de proteção integral a suas necessidades, a seus interesses e a seus desejos, vistos como direitos seus exigíveis e como responsabilidade do Estado e da sociedade. Indicações Para se enfrentar a questão da impunidade estrutural

A) Redefinição dos atuais marcos normativos nacionais, em todo o mundo, para que sejam mais explicitamente fundados nos paradigmas dos direitos humanos, visando a revisão da estruturação das ações públicas de proteção legal (defesa) dos direitos sexuais de crianças e adolescentes, de responsabilização socio-estatal e de responsabilização individual ampla do explorador sexual, sem prejuízo da sua estrita criminalização-penalização; B) Aprofundamento, em consequência, da adequação normativa penal aos instrumentos normativos internacionais, sem ressalvas que desvirtuem o espírito dessa normativa, ampliando sempre e sempre a ratificação de novos instrumentos de direito internacional que tenham essa base jus-humanitária; C) Aprofundamento da redefinição e explicitação do lugar social da criança e adolescente na sociedade, com provisões que garantam sua participação de maneira ativa e impactante nas decisões políticas, com o devido respeito a sua opinião e consideração dessa opinião, em conta o seu grau de maturidade, considerandose desse modo mais seu direito a uma sexualidade saudável sem invasões indevidas, com respeito mais à diversidade sexual; D) Fortalecimento dos níveis de coordenação e controle dos sistemas de promoção e proteção (garantia) de direitos humanos infanto-adolescentes (SGD), autônoma e conjuminadamente, sem concorrências, suprindo lacunas institucionais e programáticas; E) Reconhecimento e construção de uma maior diversidade dos meios procedimentais de defesa de direitos de crianças e adolescentes em situação de violência sexual, como a busca de resultados restaurativos e outras formas mais amigáveis de atuação jurídico-judicial e extra-judiciais. E, por fim, no trato específico da questão da responsabilização, no tocante à garantia dos direitos sexuais infanto-adolescentes e à criminalização dos agressores sexuais individualmente, importante que se leve em conta as seguintes considerações: A) Em primeiro lugar, de a expressão abusadores tão e usada de “responsabilização exploradores

sexuais”, no sentido restrito de sua criminalizaçãopenalização, deve merecer uma revisitação do seu conceito e da sua aplicação, para se colocar a expressão “responsabilização”, ampla e primeiramente no seu sentido próprio, no campo do Direito Internacional dos Direitos Humanos: ou seja, o Estado igualmente precisa ser responsabilizado (“accountability/responsibility”), tanto pela promoção dos direitos sexuais de crianças e adolescentes através de políticas públicas intersetoriais realmente efetivas, quanto pela proteção legal desses direitos, através do sancionamento (amplo!), dos abusadores e exploradores sexuais. B) O Estado é chamado a dar uma resposta, (“answerability”) à qual está obrigado e pela qual é responsável, diante da ordem interna e mundial, diante das situações de explorações sexuais. E se obriga mais a cobrar, derivadamente, respostas dos agressores sexuais e a responsabilizá-los, por sua vez. O Estado precisa ser chamado a se responsabilizar pela garantia dos direitos

e conjuntural nos processos de responsabilização derivada dos agressores sexuais de crianças e adolescentes, especialmente de criminalização-penalização, aqui são apresentadas as seguintes indicações, firmadas no pensamento da Anced e da ABMP:

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sexuais de crianças e adolescentes e a combater todas as formas de violações desses direitos. É chamado a reconhecer suas obrigações e ele se expõe e se arrisca a sofrer sancionamentos morais, econômicos, políticos - desde o mero “envergonhamento público” diante da comunidade internacional (e comunidade nacional, por que não!?), com a leitura dos relatórios, onde sejam apontados por algumas formas de violações de direitos sexuais ou diretamente ou de acumpliciamento com outras formas sem suas providências devidas. Até outras sanções, restrições, embargos, mais gravosos. C) A partir dessa sua originária e preliminar responsabilização, o Estado criminaliza-penaliza esses agressores sexuais, como uma das formas derivadas de responsabilização jurídica possível dos referidos agressores sexuais, através de suas agências judiciais e policiais. Contudo, há que se reconhecer que essa criminalização-penalização do agressor sexual (explorador/cliente) não é a única resposta do Estado ao “ato injusto” desse agressor sexual. E talvez nem sempre a mais efetiva, eficaz e eficiente, diante da cada vez mais desmascarada “deslegitimação do direito penal”, por sua manifesta seletividade classista, racista, machista etc. E por sua baixa efetividade, de relação à prevenção e repressão ao crime, as estatísticas mostram o baixo poder intimidatório da sanção penal, no mundo moderno. Há que se ousar, inovar, aprofundar, criar nova ordem mundial. E, como diz o nosso cantor Caetano Veloso, é preciso reconhecer: “Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem, apenas sei de diversas harmonias bonitas, possíveis – sem juízo final”. E por isso eu digo, com ele, com todos vocês, construindo essas novas harmonias possíveis: “....alguma coisa está fora da ordem, fora da ordem mundial...”.

*WANDERLINO NOGUEIRA NETO
Procurador de Justiça (aposentado) do Ministério Público da Bahia e membro da Anced - Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente – DNI - Defensa de los Niños Internacional / Seção Brasil - Grupo Temático de Monitoramento da Convenção sobre os Direitos da Criança.

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18 ANOS DO ECA; 19 ANOS DA CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DA CRIANÇA; 20 ANOS DA CONSTITUIÇÃO; 20 ANOS DO CEDECA-DOM LUCIANO MENDES; 60 ANOS DA DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS E 120 ANOS DA ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA.
LIGIA COSTA LEITE*

Apesar do Brasil ser signatário da Carta das Nações Unidas de 1945 e da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, 2008 foi um ano para se entristecer, já que completamos importantes marcos como a maioridade legal do ECA e da Convenção sobre os Direitos da Criança, 20 anos da Constituição Democrática do Brasil e da criação do importante Centro de Defesa dos Direitos da Crianças e dos Adolescentes - CEDECA-Dom Luciano Mendes, sem ver resultados globais de inclusão de toda a população brasileira em um projeto de nação e de futuro. Os direitos humanos no Brasil têm sempre vindo a reboque de pressões internacionais, como foi o caso da abolição. Fomos o último país do mundo a libertar os escravos, no século XIX, e os herdeiros de escravos e negros, 120 anos depois, ainda são vistos como perigosos e com tendência à criminalidade. A Lei Áurea, em 1888, foi uma lei seca, com apenas dois artigos: Art. 1°: É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil. Art. 2°: Revogam-se as disposições em contrário. Manda, portanto, a todas as autoridades, a quem o conhecimento e execução da referida Lei pertencer, que a cumpram, e façam cumprir e guardar tão inteiramente como nela se contém. Mas outras providências não foram tomadas, como aconteceu nos Estados Unidos, que definiu, após a abolição, que cada família ganharia um lote de terra para construir sua casa e plantar, e obrigava os estados a oportunizar escola elementar para todas as crianças. No Brasil, os ex-escravos ficaram sem opções e ofertas sociais e educacionais. A República, proclamada um ano e meio depois, alardeou que iria instituir uma nova ordem social, baseada em princípios de cidadania e da igualdade de todos os brasileiros, tirando o Brasil do atraso da Monarquia. Muitos discursos foram feitos, muitas propostas apresentadas, mas nenhum deles efetivou direitos sociais para todos, sem distinção étnica ou religiosa (Leite, 2005). É bem verdade que houve algumas iniciativas de integração, esparsas, nesses mais de 100 anos. Uma delas foi com Arthur Ramos, um etnopsiquiatra (denominação inexistente na época), que criou no Instituto de Pesquisas Educacionais da Cidade do Rio de Janeiro (então Distrito Federal), uma seção de Ortofrenia e Higiene Mental na escola primária, onde analisava os comportamentos dos alunos de escolas públicas na década de 1930 e afirmava que essas “crianças problemas” eram fruto da própria “civilização e sociedade” brasileiras. Este psiquiatra,

estudioso das culturas e das raças, rejeitava totalmente a chamada “inferioridade dos negros e sua incapacidade para civilização”, pensamento comum na época. Para ele a chamada “mentalidade primitiva” que, segundo as teorias evolucionistas, estaria articulada com os cultos fetichistas e superstição existentes no sincretismo religioso do Brasil, registrava-se nas “classes pobres” de qualquer sociedade. Para o autor, os conceitos de primitivo e arcaico seriam “puramente psicológicos”, sem relação com a inferioridade racial (Abreu, in Leite et al, 2008). A proposta para a Higiene Mental para as escolas, conduzida por Ramos, era estudar os fatores socioculturais que condicionavam o comportamentos dessas crianças. Entre as influências mais amplas do meio social, listava os problemas psicológicos que precisavam ser investigados: “os círculos da família”, os hábitos familiares, os passeios e a vida matrimonial, os moldes emocionais, sentimentais e as atitudes em relação à criança, seus todos eles responsáveis psicossociais.

“Enfim, em 1988 a nova Constituição brasileira incorpora, no artigo 227, os direitos constitucionais das crianças e adolescentes brasileiros, colocando-os como alvo de prioridade nacional. Com base neste artigo foi elaborado o Estatuto da Criança e do Adolescente, que nasce com 30 anos de atraso, já que o golpe de 1964 interrompeu o processo de resgate da dívida socioeducacional iniciado com a LDB em 1961 e com 50 anos de atraso das convenções internacionais das quais o Brasil é signatário.”

pelos

desajustes

Os adultos, em sua perspectiva, modelavam a personalidade e o caráter das crianças, pequenos seres que não eram compreendidos (Abreu, op.cit.: 135). Trinta anos se passaram para que houvesse nova investida governamental a favor das crianças e adolescentes. No ano de 1961 começam a se configurar os direitos sociais

dos “menores” como dever do Estado, seguindo as obrigações expressas nas convenções internacionais, de 1945 e 48. Isto ocorre quando a primeira Lei Nacional de Diretrizes e Bases da Educação – lei que ficou 13 anos sendo discutida no Congresso Nacional – é sancionada pelo governo do Presidente João Goulart. Esta lei definia a obrigatoriedade do poder público em oferecer escola elementar gratuita e laica para as crianças entre 7 e 14 anos, em todo território nacional, explicitando o propósito de democratização do ensino básico e elementar. O processo da educação passaria a se basear nos princípios de justiça, dando a todas as crianças e adolescentes brasileiros, independente de classe social e etnia cultural, o acesso ao mundo letrado, dentro dos princípios da igualdade de direitos. Até essa data havia poucas escolas públicas para educar toda a população brasileira, e os mestiços, negros e demais descentes da miscigenação brasileira tinham raras opções para estudo, especialmente o ensino profissionalizante que formaria trabalhadores para o capitalismo que se vislumbrava a partir do governo JK. As palavras do defensor da LDB, então deputado Anísio Teixeira, o qual lutava pela lei desde a década de 1930, descrevem o sentimento de justiça social do momento:

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podemos dizer que esse discurso tinha o intuito de abafar as críticas internacionais sobre o enorme analfabetismo existente no período. Os internatos. mas o implantado foi um grande programa de controle da natalidade. entre elas. é na escola que se trava a última batalha contra as resistências de um país à mudança. por determinações impostas. Outra forma de resolver o problema da existência de crianças pobres e sem oportunidades. vindas especialmente dos Estados Unidos. Infelizmente. o retrocesso social foi enorme. Não havia a intenção de incluí-los na industrialização crescente. Ao contrário do caminho que o Brasil vinha trilhando antes de 1964. Essa nova lei cria uma educação continuada com o ensino profissionalizante no segundo grau e um suplemento – vale dizer de segunda categoria – para os mais pobres. construir a escolaridade singular para cada aluno. fundada em 1965 para substituir o antigo Serviço de Assistência ao Menor (SAM). a Funabem não mudou as técnicas utilizadas nos internatos anteriores e os olhos da repressão se voltaram para abafar vozes diferentes e tirar de cena todos os que ameaçassem o regime então implantado. (Teixeira. intensificada em 1968. A meta era em dez anos alfabetizar e recuperar os estudos dos brasileiros. seja uma lei à altura das circunstâncias em que se acha o país em sua evolução para constituir-se grande nação moderna que todos esperamos. ora aprovada pelo Congresso. arraigado no imaginário social. quando os direitos de cidadania são abolidos para quase todos os brasileiros. por assim dizer. que vive adormecido e desmemoriado no inconsciente nacional. Dentre os pressupostos do período militar estava a ideologia de que “o trabalho cura” e a meta de salvação nacional deveria ser instituída. culminando com o Código de Menores. 94). defasados em série/idade. mito este que entrou no imaginário social e justificava a pobreza pelas características individuais do povo brasileiro. com laqueamento de trompas de milhares de mulheres – jovens muitas delas – com equipes interdisciplinares de saúde. mas ainda existente no Brasil de 2008. esses novos tempos são interrompidos em 1964. e que ameaçavam o mundo da ordem. Todo processo de julgamento era feito sem que o menor pobre tivesse direito de defesa. introduzindo a prisão cautelar – inexistente no Código Penal Brasileiro. na interação com o professor. no artigo 42 . política social mais significativa para aqueles já nascidos e chegados à adolescência foi a do extermínio. Isto porque uma escola pública. medidas preventivas e terapêuticas. Tudo isso seria um risco ao regime que se implantava. o marco dessa época é a Funabem. que gera a “incapacidade” de o povo “civilizar-se”. Esse pensamento retrógrado. que beirava a 60% da população. a “indolência”. Alegavam na exposição de motivos que esses últimos teriam a duração de uma década. de ser um retrato das perplexidades e contradições em que nos lança esse próprio desenvolvimento do Brasil. de acordo com seu juízo. Esta. Uma terceira. Como não lembrar do Mão Branca que assustava todos os jovens no Rio de Janeiro. A base legal para isto foi a lei nº 4513/64. Assim. foi a ideia de “evitar” o seu nascimento e futuros problemas sociais. Controlar a natalidade de pobres era controlar o país.Não se pode dizer que a LDB. impotentes por não saber como conter jovens rebeldes e arredios aos recolhimentos que eram feitos nas ruas. sem possibilidades de crescimento profissional. ainda dentro do pensamento da eugenia. o que não acontecia para os jovens das outras classes sociais. Essas medidas nada mais eram recolhimento e confinamento deles em instituições fechadas. Toda essa política social implantada a partir de 1964. articulando sua cultura com a cultura letrada. poderia dar conta de sanear a doença social da pobreza e do abandono social. por outro lado. não importando o método ali desenvolvido. gratuita e laica poderia promover uma educação crítica e. Entendiam as autoridades que uma política correcional. permaneceu – até hoje permanece – em alguns dos que se julgavam luminares do direito do menor e que encontraram campo fértil para influir nas diretrizes dessas instituições. até porque a escolaridade não atendia aos requisitos desta demanda. que anunciava intenções de proporcionar uma política de bemestar aos filhos da pobreza. pois seria como uma ponte entre o passado e o futuro industrial do país. Para os chamados “menores”. repressiva e. se restringiram à função de aprisionar os jovens. que foi o ensino supletivo e o Mobral. Enfim. 1998). Começava pelo internamento em instituições fechadas mantidas pela Funabem e Febem’s. a partir de 1964. fecham os olhos para esta prática. onde recebiam uma educação para subserviência. Falava-se em planejamento familiar. sem prazo e condições definidas para o suposto tratamento. estavam destinados a enfrentarem por si as milícias paralelas que promoviam o extermínio puro e simples deles. Apesar de um nome politicamente correto – Fundação Nacional de Bem-Estar do Menor –. então cassados e exilados. Afinal. 1962).697. abolindo quase todos direitos obtidos e a liberdade de ensino existente pela Lei de 1961. Aqueles considerados excedentes das políticas. tratou de classificar jovens em razão de sua suposta ou possível “situação irregular”. mas que podia ser utilizada sem dó e piedade para os menores de idade que estivessem nas ruas ou fossem denunciados. Se isto não é. fim da década de 1960. em 1988 a nova Constituição brasileira incorpora. simultaneamente. que veio a ser o fundamento do Código de Menores. que os colocasse em “situação regular” para o modelo de país previsto. Como não lembrar no navio Hope que aporta no nordeste em 1968. área de grande efervescência social e de tradição de militância popular desde as ligas camponesas lideradas por Francisco Julião ou da educação popular de Paulo Freire e Moacir de Goes. com as diretrizes da Lei de Segurança Nacional. assistencialista dentro de internatos. o que significou subjugá-los a um juiz que aplicaria. não deixa. por qualquer “cidadão de direito” (art. mesmo sem provas. outra Lei de Diretrizes e Bases para Educação foi sancionada em 1971. lei nº 6. na prática. também. sobrevivência e mesmo prazer (Leite. Isso porque os formuladores das políticas sociais. onde “em se plantando tudo dá”. Mito este desmentido em 1930 por Arthur Ramos. de 1979. baseava-se no velho mito do Brasil grande e generoso. apenas três anos depois. o que fica claro pela base doutrinária da política para os “menores” surgida em pós-64 e intensificada na década de 1970. A política social dos militares para os filhos da pobreza era racista e excludente. Mas.

Da mesma forma. à sua maneira. a criança e o adolescente são seres inacabados. em especial o respeito à preservação do superior interesse da criança e do adolescente. na área de saúde mental. conhecida como da reforma da atenção psiquiátrica. No entanto. (coordenadores). é procurar mudar esta realidade.. quanto mais democráticas e menos elitistas forem essas leis. nem adestrá-la para servir passivamente a ordem vigente. a criança e o adolescente são definidos em sua condição peculiar de seres em desenvolvimento não apenas no aspecto físico.13) Portanto. no caso do Brasil. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria. portarias e normas de assistência. entendendo que as grandes controvérsias em relação a esta lei giram em torno da possibilidade do Brasil vir a ser uma democracia em sua plenitude. dos grupos. . mas sobretudo no psíquico. pobres e ricos. não atingiu a todos e não há como negar que o Brasil precisa pagar esta histórica dívida social.227. Botelho. E para definir memória coletiva uso o verbete Memória. as escolas que nem conseguiram alfabetizá-los e todas as demais propostas que não conseguiram reprimir a juventude.D. não tem condições e não é capaz. Amaral e Silva. 2008.. menos serão cumpridas ou. fracassaram. da Enciclopédia Einaudi. enquanto portadora de responsabilidades pessoais. Leite. felizmente.P. Tornar-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes.F. desafiliação e violência.Abreu Martha. E. acabam escapando em aspectos fundamentais. Mendez. a qual acabou se impondo pela simples presença nas ruas. Cada etapa é. . M. Sabemos também que não se faz política sem vontade e dinheiro. escrito pelo historiador francês Jacques Le Goff (1984): A memória coletiva foi posta em jogo de forma importante na luta das forças sociais pelo poder. A. Como afirma Moraes e Mecler (2008): social.G. Este é o caso da lei nº 10. econômica. mais que a todos nós. ou seja. que atinge a todos sem exceção. que tentaram abafar a existência de uma juventude sem direitos. mas. Todos sabemos que as leis servem para balizar a conduta dos cidadãos de um país. velhos e jovens nos dias de hoje. Memória e História. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda. 43 . Cada fase do desenvolvimento deve ser reconhecida como revestida de singularidade e de completude relativa. com importante esclarecimento para aqueles que possam ter dúvidas quando ao espírito legal na definição do desenvolvimento infanto-juvenil: O atendimento às crianças e adolescentes. Desenvolvimento sadio implica em qualidade de vida. Jacques.216/2001. nas reações agressivas que têm diante da violência silenciosa que os atinge. sem exceção.ª edição.. (in Leite et al: 30) Fica evidente que as instituições destinadas a esconder os menores. 2005. tanto na ordem social. em direitos preservados e exercidos pelo Estado e demais segmentos da sociedade. SP: Malheiros Ed. “Velhos conceitos e novos debates: ‘crianças negras’ e ‘crianças problemas’ no pensamento de Nina Rodrigues e Artur Ramos”. e não oferecido soluções consentâneas com a singularidade das pessoas que se acham em fase de desenvolvimento e representam camada social altamente vulnerável diante das desventuras sociais e políticas de nosso país. colocando-os como alvo de prioridade nacional.Cury. é superar o silêncio de políticas sociais. L. nem todos os homens públicos e legisladores se preocupam com esses direitos individuais da criança e do adolescente e eventualmente acabam “esquecendo” de incluí-los em outras leis. A tentativa de manipular a memória coletiva. civis e produtivas plenas. pois ele permanece presente em seus herdeiros. que “esqueceu” de legislar sobre a criança e o adolescente. no entanto os recursos que eram aplicados nas antigas Funabem e LBA não foram alocados para promover as medidas sócio-educativas determinadas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. omitindo as especificidades dos demais jovens que vivem riscos psicossociais e precisam de suporte à sua saúde mental. M. quando o são.E. pela família. fracassou a intenção de eliminar da memória brasileira a existência desse grupo social. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores desses mecanismos de manipulação da memória coletiva. in Enciclopédia Einaudi. razão pela qual devemos acolher iniciativas que façam valer a doutrina da proteção integral a elas.) Juventude..C. resgatar a história que gerou a pesada carga de violência A afirmação da criança e do adolescente como pessoas em condição peculiar de desenvolvimento não pode ser definida apenas a partir de que a criança não sabe. um período de plenitude que deve ser compreendida e acatada pelo mundo adulto. Com base neste artigo foi elaborado o Estatuto da Criança e do Adolescente. vol 1. Os 18 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente têm que festejados com seu cumprimento em todos os seus aspectos. que nasce com 30 anos de atraso. nos crimes que pratica. In Leite. É importante frisar que em vários artigos do ECA. “Memória”. e por isto têm de ser foco de proteção. não vem apresentando sintonia ou respeito às normas legais e o legislador brasileiro não tem observado os novos parâmetros sobre direitos humanos. Este aspecto acabou sendo relegado às portarias posteriores que contemplam apenas aqueles com transtornos mentais graves ou incapacitantes. dar oportunidades iguais a todos. O professor Antônio Carlos Gomes da Costa apresenta um comentário ao artigo 6º do Estatuto. ou seja. pela sociedade e pelo Estado (Cury. dignidade da pessoa humana. A. (org. como familiar e comunitária. Referências: . a caminho de uma plenitude a ser consumada na idade adulta. pois estão expostos às influências do mundo em que vivem. Estatuto da Criança e do Adolescente – Comentários jurídicos e sociais. (p. dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades. filhos e netos. 2005: 39).Le Goff. já que o golpe de 1964 interrompeu o processo de resgate da dívida socioeducacional iniciado com a LDB em 1961 e com 50 anos de atraso das convenções internacionais das quais o Brasil é signatário. 8. os direitos constitucionais das crianças e adolescentes brasileiros.

Anísio. A razão dos invencíveis – Meninos de rua e o rompimento da ordem.E. Diário de Pernambuco. Comentário à Lei das diretrizes e Bases aprovada em 1961.C. .)Juventude. “O estatuto da criança e do adolescente e a lei da reforma da atenção psiquiátrica: um ensaio comparativo” In Leite. Botelho. M. Rio de Janeiro: Editora UFRJ-IPUB‚ 1998. Leite. p. 13. Mecler. L. Botelho. Meninos de Rua: a infância excluída do Brasil. 2005. 2008.. .E.1984. (org. desafiliação e violência. 4a.D. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria. 13-04-1962 *LIGIA COSTA LEITE Professora do Instituto de Psiquiatria da UFRJ. 44 . Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria. desafiliação e violência. 2008. Kátia. São Paulo: Editora Saraiva/Atual. .Teixeira. Talvane M. L.P. (org.________. de. M.)Juventude.Leite.P..C.Moraes.D..Leite. Leite. Ligia Costa.. . revista e ampliada. A. A. .

Dando continuidade à reflexão. A referência à raça. e é empregado como forma de distinção social.OS 120 ANOS DA ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO. Em todos os casos.. etc. quando essa ordem natural delimita as distâncias sociais. em 1908 Francisco Dalton. que marcam a história dos afrobrasileiros. e os humanos de pela clara. ou seja: humanos de pele escura seriam de raça inferior. o Brasil comemorou os 120 anos da Abolição da Escravidão. portanto. sofre uma re-significação. ou seja. A partir de estudos realizados em plantas e animais. a desconstrução científica da raça 45 . e. (. de raça superior. Quaisquer que sejam as variações de sentido do termo ‘raça’. da raça socialmente percebida e interpretada. e os humanos de pela clara. portanto. 25) Outro autor que tem produzido reflexões sobre o tema. p. o autor comenta ainda que: “Sem dúvida. “se não for a raça”. assiste-se “As diferenças de tipo físico passaram então a ser utilizadas para classificar os seres humanos. Com base nessas ideias. 34) Segundo Guimarães (2005). porque se encontra subsumida em outras diferenças. portanto. em 1859. 2006). Darwin desenvolveu a teoria da seleção natural. por conseguinte. Penso que seria mais correto designar tais práticas discriminatórias por termos específicos como ‘etnicismo’.” (GUIMARÃES. que utiliza o termo para classificar a diversidade humana em grupos fisicamente diferentes. 2005. de François Bernier. a primeira classificação dos homens em raças foi publicada em “Nouvelle division de la terre par les différents espèces ou races qui l’habitent” (“Nova divisão da terra pelas diferentes espécies ou raças que a habitam”). segundo a qual na natureza sobrevivem e dominam as espécies fortes. pode-se usar o termo ‘racismo’ como metáfora para designar qualquer tipo de essencialismo ou naturalização que resultem em práticas de discriminação social. discriminações que somente se tornaram inteligíveis pela ideia de “raça”? (p. D’Adesky (2001) chama atenção para o fato de que: “A existência da noção de raça biológica e a evidência da Esses pensamentos foram disseminados mundialmente e tiveram muitos seguidores. o extermínio de milhões de judeus na segunda guerra mundial. formulado de ideias racistas raça simbólica. As diferenças de tipo físico passaram então a ser utilizadas para classificar os seres humanos. Não há como deixar de refletir sobre o sentido deste fato sem analisar dois conceitos importantes. portanto. apelo à ordem natural. é realizado no Rio de Janeiro o 1º Congresso Brasileiro de Eugenia. Assim basicamente nasceu a fórmula do racismo. em 1934. 2005. frouxo quando a idéia de ‘raça’ encontra-se empiricamente ausente e apenas empresta um sentido figurativo ao discurso discriminatório. ou cultural (necessidade histórica – como no caso de evolucionismos que justificam a subordinação de uma sociedade humana por outra). 30) O mesmo autor avalia que “a definição de racismo que me parece correta terá. ou seja: humanos de pele escura seriam de raça inferior. a Sociedade de Educação Eugênica. com o propósito de defender a manutenção da pureza das raças. Charles Darwin publica o livro “A Origem das Espécies”. “predestinados” a serem comandados. Este conceito é relativamente recente. todas. 2005. 32). pode ter uma justificativa teológica (origem divina). publicou “Minha Luta”. fazendo. de raça superior. evitando a mistura das raças. Richard Wagner e Houston Stewart Chamberlain utilizam a teoria de Charles Darwin para explicar a sociedade humana (VERARDO. Concluem que alguns grupos humanos são fortes e outros fracos. Autores como Joseph-Auguste de Gobineau. à higiene e ao ensino as melhores opções para superação das mazelas vividas pela sociedade brasileira. Guimarães (2005). Aí. p. Nesse sentido existiriam.” (GUIMARÃES. científica (endodeterminada). Assim basicamente nasceu a fórmula do racismo. dentre os quais destacamos Adolf Hitler. em 1929. Tal uso é. isto é. contudo. P. Os fracos teriam características que os deixavam “naturalmente” inferiores e.) presumida. que. como consequência. a que atribuir as No Brasil. funda. Para ele. o conceito ganha uma nova conotação. o conceito ‘raça’ fortemente estabeleceu-se a uma conotação biológica (MAGGIE. era necessário que a raça branca se mantivesse pura. a chamada eugenia. GILDA ALVES BATISTA* Em 2008. (GUIMARÃES. Séculos depois ressurge na Europa quando. Os fortes herdariam certos aspectos que os tornavam superiores e os autorizavam a comandar e explorar os outros. em Londres. de ser derivada de uma doutrina racialista. de 1684. podemos verificar que na sociedade brasileira O primeiro conceito é o de raça. funciona apenas como imagem de diferença irredutível.. em suas considerações a respeito do tema. No entanto. de uma teoria das ‘raças’”. 2001). assinala que: “As hierarquias sociais podem ser justificadas e racionalizadas. de diferentes modos. A proposta veio propagar a corrente eugênica a partir dos modelos americano e inglês atribuindo-se ao saneamento.” a sistemas de hierarquizações rígidos e inescapáveis. espécies fortes e fracas.

Esse hiato entre raça biológica e a caracterização social fundada na aparência física constitui um problema e um desafio para o anti-racismo”. Culturalmente codificadas essas percepções conduzem o homem comum a classificar os indivíduos que encontra segundo suas características visíveis e não de acordo com o conhecimento genético. Após a segunda guerra mundial. aborda o tema da democracia racial e revela os sentidos subjacentes a esta formulação: “O mito em questão teve alguma utilidade prática. generalizou um estado de espírito farisaico. Esta expressão tem sua formulação também a partir da obra “CasaGrande & Senzala”.. recebendo. De fato. deixou-se de lado a problemática básica – a falta de igualdade. no Texas (em 1919). multiplicação das coleções de livros de debate sobre problemas brasileiros. 1933). autor de muitos estudos. Para avaliar o papel que este autor desempenhou. isentou o ‘branco’ de qualquer obrigação. onde estudou Ciências Sociais na Universidade de Columbia (em 1921). o aspecto central que constituiria o pano de fundo desses estudos seria responder a velha questão: existe discriminação racial no Brasil? nos cursos secundários. do presente e do futuro. um fenômeno cultural de onde se originam percepções e experiências de vida. Neste momento. lançou o conceito do Brasil como uma nação cordial à diversidade racial. no nosso ponto de vista. destacando-se a criação dos cursos universitários de ciências sociais na Escola de Sociologia e Política da Universidade de São Paulo. A sociedade não se reconhece como reprodutora do sistema de hierarquização. econômica e política. analisando as relações raciais na sociedade brasileira. Entretanto. é pensada como sendo uma herança histórica da colonização portuguesa. mais do que uma simples questão de crença. principalmente as Coleções Brasiliana. para a análise sistemática da sociedade.. Do encontro com a hostilidade americana construiu uma visão do passado brasileiro e. mostram que a mistura de raças serviu para esconder a profunda injustiça social aos negros. portanto. Influenciado por esta experiência seguiu para Nova Iorque. “Os princípios mais importantes da ideologia da democracia racial são a ausência de preconceito e discriminação racial no Brasil e. neste caso.” (HASENBALG. Desse modo. a existência de oportunidades econômicas e sociais iguais para brancos e negros. nesta perspectiva.biológica não fez desaparecerem as percepções comuns fundadas na aparência física. (D’ADESKY. raça. p. deteve-se também sobre estas mesmas questões. inicialmente na Universidade Baylor. um reconhecimento social inacessível à população negra que se encontrava na condição de escravizada. O autor assinala que o tipo de relação entre senhor (Casa-Grande) e o escravo (Senzala) teria favorecido uma democracia. O Mito da Democracia Racial Outro conceito fundamental diz respeito à democracia racial. alguns teóricos passaram a denominar “raça” tendo o fenótipo como algo que ganha importância social por intermédio de crenças. tal utilidade evidencia-se em três planos distintos. Talvez. mesmo no momento em que emergia historicamente. ocasião em que realizou viagens até o extremo sul deste país. a denominação passava a ser etnia.242) Florestan Fernandes (1978). o momento em que ocorria a transição entre o modelo de análise baseado em pontos de vista sobre o social. faz-se necessário pensar sobre a identidade da nação brasileira. Primeiro. Este termo é utilizado para descrever um determinado grupo de um dado contexto social e que conserva certa solidariedade. no entanto. de alcance social e de natureza 46 . complementou seus estudos nos Estados Unidos da América. Suas ideias sobre uma ligação indissociável entre raça e cultura vieram a se explicitar no “mito da democracia racial”. os debates acerca das formações nacionais eram acionados pelos resultados sociais e políticos consequentes da primeira guerra mundial. consequentemente. mulatos e indígenas. desta forma. onde não havia a presença de marcas fenotípicas. essa situação de segregação e violência não existia. cor etc. no Brasil. p. Freyre buscou desenvolver a afirmação de que. Gilberto Freyre. um dos nossos mais importantes intelectuais. Segundo. valores e atitudes. que permitia atribuir à incapacidade ou à irresponsabilidade do ‘negro’ os dramas humanos da ‘população de cor’ da cidade. que. e em primeiro lugar na cor da pele. esses princípios assumiram o caráter de mandamentos. De fato. a criação da cadeira de sociologia da democracia racial. resultado da nova política educacional. já que os filhos da relação entre senhor e escrava tornavam-se herdeiros de parte do patrimônio destes senhores. mesmo que o termo não seja pronunciado. O grupo étnico é. com base nesta perspectiva da existência da raça. as distinções entre os vários tipos de racismo só poderão ser estabelecidas a partir de uma análise histórica para se verificar como os outros termos específicos tornaram-se metáforas para serem designados por “raça” e vice-versa. seja importante ver o contexto da época. social e política na ordenação das relações raciais. 01). para melhor compreender suas teses de formação da sociedade brasileira. Ao situar no plano biológico uma questão profundamente social. 2001. responsabilidade ou solidariedades morais. Coleção Azul e Documentos Brasileiros e o surgimento de jovens escritores nos compêndios de sociologia. As críticas à ideia de democracia racial. 1979. Ao que parece. fornecendo uma alternativa para o mundo (Casa-Grande & Senzala. Nascido em Pernambuco em 1900. Refletindo sobre a formulação do que veio a ser denominado mito Para tanto. com o que eles atestavam como índices insofismáveis de desigualdade econômica. experiências compartilhadas e por terem origem e interesses comuns. ficando horrorizado com a violência e brutalidade da segregação. foi nesta década (30) que se iniciou o processo de institucionalização da sociologia no Brasil. Hasenbalg (1979) afirma que.

ela também concorreu para difundir e generalizar a consciência falsa da realidade racial. 5º) a ideia de que não existe. no interior de uma sociedade na qual os padrões de hierarquização raciais permaneciam razoavelmente rígidos.. encontravam alguma simpatia por parte do movimento negro quando. “No caso particular de Florestan Fernandes.. A primeira reside no fato de que a. teríamos tido um sistema escravista extremamente perverso. na maioria das vezes.” (FERNANDES... 1978. e apenas quando. nem sequer o ensino elementar era garantido para esse contingente) e aos demais mecanismos de mobilidade social ascendente. assim. Destaca. no período escravista. 3º) a ideia de que as oportunidades de acumulação de riqueza. uma meta.. Analisando os estudos de Florestan Fernandes e trazendo luz à discussão sobre o tema em questão. a democracia racial seria o resultado da ordem social competitiva e do modo racional-burocrático de dominação. conforme o autor. assim como pelo Movimento Negro.84) Para Guimarães (2005). não assegurando aos negros livres uma verdadeira integração na sociedade brasileira.. do Brasil como um país branco. portanto.2001. Rachel de Queiroz e outros escritores. 87) Paixão (2006) em sua abordagem sobre raça e desenvolvimento social considera que. Guimarães (2005) conclui que. 4º) a ideia de que o ‘preto está satisfeito’ com sua condição social e estilo de vida em São Paulo. “Classificar a democracia racial como mito implica dizer que a visão ideológica de uma escravidão benigna e de uma sociedade harmoniosa do ponto de vista do contato inter-racial não corresponde à realidade dos fatos sociais e históricos. 5) A segunda razão. “. José Lins do Rego. à ideia do claro-escuro ou da ambiguidade racial. 2006.. de uma propriedade do sistema social mais que atributo de indivíduo ou grupos. pela própria índole do Povo brasileiro. a pacificação de nosso quadro de relacionamentos étnicos e raciais era garantida (. nutrida por escritores e intelectuais de São Paulo. durante a expansão urbana e industrial da cidade de São Paulo.48) Apesar dos esforços do Movimento Negro em denunciar que o “mito da democracia racial” esconde de fato uma negação de que existe uma dimensão especificamente racial na desigualdade social brasileira. ao contrário de um modelo de escravidão suave. não existem distinções raciais entre nós. Ao contrário. no quadro da seleção de candidatos aos exames vestibulares das universidades que adotaram o sistema de cotas. de prestígio social e de poder foram indistinta e igualmente acessíveis a todos. (. ao mesmo tempo. após o fim da escravização. Era mais um Ideal..” (GUIMARÃES. à terra e à proteção legal contra ações abusivas perpetrados pelos órgãos de segurança pública.a postura agressiva de anti-racialismo e de afirmação de um Brasil mestiço. no Brasil. e da democracia racial como fruto de um ethos cordial. para ele. a democracia racial brasileira jamais seria decorrência de um ethos. a postura de Florestan Fernandes foi partilhada também por outros intelectuais. Jorge Amado. 1º) a ideia de que o ‘negro’ não tem problemas no Brasil. Ou seja. estava associado ao desequilíbrio das estruturas sociais. 2005 p. nunca existiu. seja de uma realidade empírica de miscigenação ou de ausência de regras de pertença grupal.coletiva. tal visão de Brasil colidia com aquela. que uma realidade. termo frequentemente utilizado nos últimos anos para justificar a dificuldade de saber quem é negro no Brasil. além disso. a estrutura se reorganiza em classes sociais. p. dificilmente logrando sair do terreno estritamente físico no sentido da conformação de relações efetivamente estáveis. p. violento e rude sobre os escravizados. como o acesso ao crédito produtivo. a imagem idílica de um paraíso racial se contradizia com uma sociedade na qual aos negros e negras não havia espaço nos postos de trabalho maiôs bem remunerados e prestigiados. Em suma. A miscigenação. Quais seriam as causas que manteria ainda vivo este “mito”? D’Adesky (2001) enumera três razões. Tratava-se. esta ideologia continua viva e não perdeu seu poder de sedução na sociedade brasileira. revitalizou a técnica de focalizar e avaliar as relações entre “negros” e “brancos” através de exterioridades ou aparências dos ajustamentos raciais. próprios do capitalismo burguês que prescindia de formas de discriminação ou coerção extramercantis ou econômicas.. aos níveis de escolaridade mais avançados (pelo contrário.” (p. 256) Florestan Fernandes entendia que o racismo. p. a estrutura social estava organizada em castas e. Avaliava que o preconceito racial existia no país porque.) Em consequência. perante os efeitos sociopáticos da espoliação abolicionista e da deterioração progressiva da situação sócio-econômica do negro e do mulato. Ele remete. suscitando todo um elenco de convicções etnocêntricas. por parte de Gilberto Freyre. Terceiro. “’Democracia racial’ coloca em primeiro plano um ideal futuro de igualdade para todos e. tem o poder de ocultar a realidade presente de desigualdades raciais colocando em evidência a mestiçagem real da população. 2º) a ideia de que.” (D’ADESKY. não necessariamente miscigenado.) pelo fato dos negros saberem de antemão qual era o seu lugar” (PAXÃO. forjando uma consciência falsa da realidade racial brasileira. no passado.. 47 . nem existirá outro problema de justiça social com referência ao ‘negro’. tão produzida mediante o gozo não confraternizante dos senhores brancos sobre mulheres indígenas e negras indefesas. tais como Costa Pinto e Guerreiro Ramos. No presente.

Revista USP. 2000.FRY.Pierre. Editora 34São Paulo.________________ Discriminação e desigualdades raciais no Brasil. .2002. Editora Martins Fontes. Coleção Memória e Sociedade. Rio de Janeiro: DP& A. Petronilha B.GUIMARÃES.. Ed. e Silva. . O que a Cinderela Negra tem a dizer sobre a política “Trata-se. Sem o qual a sua luta ou defesa de suas ideias se vêem limitadas do ponto de vista do grande público. Rio de Janeiro-2005. IUPEREJ.” (p. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fátima. Autores como Fry e Maggie (2002) e Souza (2002) consideram que o “mito da democracia racial” pode representar um valor.LOBATO.HENRIQUES. . . 1995. . No entanto. 1980. Yvonne (Orgs). Civilização Brasileira. São Paulo: Ed. 2005. Ministério da Justiça. . pág. p. 6) Entretanto. .. Raça como retórica: a construção da diferença. .C. Desse modo. . Revista Brasileira de Ciências Sociais. mas também defensores entre os intelectuais e acadêmicos brasileiros. Carlos Alberto. 2002. 11 nº 23. 118-136. em referência à atualização que promovem do pensamento de Gilberto Freyre e à vontade de preservar a expressão democracia racial neste início de século XXI. ao mesmo tempo. MEDEIROS. 122-135. acreditamos que o “mito da democracia racial” ajudou a forjar a ideia de que as relações raciais no Brasil se dão de formas mais harmoniosas. Rio de Janeiro. São Paulo: Summus. Claudia Barcellos e MAGGIE.GOMES. Julio José. In: Educação e ações afirmativas: entre a injustiça simbólica e a injustiça econômica. Artigo elaborado para o I Workshop da Rede de Estudos de Ação Afirmativa. . Cotas Raciais: construindo um país dividido? Revista Econômica.________________ O Projeto UNESCO e a Agenda das Ciências Sociais no Brasil dos anos 40 e 50. São Paulo.) fato de que a ideologia da democracia racial continua a ter não apenas seus adeptos. Brasília. consideramos que devemos continuar lutando para que os direitos que foram conquistados se ampliem. . um elemento da identidade nacional brasileira e uma meta a ser alcançada. Rio de Janeiro. José Augusto Lindgren Alves. 2ª edição. UNESCO and the study of race relations in Brazil: national or regional issue? L American Reserarch Review. Horizontes Antropológicos.. “Americanos Brasileiros e a Cor da Espécie Humana: uma resposta a Peter Fry.) alguns acreditavam mesmo que o racismo e a discriminação racial não ocorriam no Brasil e que insistir nesses temas representava uma importação de um problema particular dos Estados Unidos”. Uma Teoria da Justiça.Rio de Janeiro: Rio Fundo Ed. Pluralismo étnico e multiculturalismo: racismo e anti-racismos no Brasil.3ª ed. Joaquim B.D’ADESKY. 1996. 28. Brasília. racial brasileira. Onde e Quem realiza? Revista ADVIR. Distrito Federal. . de um lado. Rio de Janeiro. Os Estudos sobre Relações Raciais na UERJ.2005. da dificuldade de falar abertamente das desigualdades raciais no Brasil e. Ivone. seria necessário considerar que existem outras posições com relação a esta temática. . 14. 2ª ed. 1978.LPP/UERJ. Valter Roberto (organizadores).HASENBALG.gov. Peter & MAGGIE. .________________ Políticas de Cotas raciais. Jacques. . p. 23. Orçamento e Gestão – IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.HANCHARD. Vol. Texto para discussão Nº 807/2001. FUSPFundação de Apoio à Universidade de São Paulo. Gonçalves.CHIAVENATO. 1979. O Negro no Brasil: da Senzala à Guerra do Paraguais.. Antonio Sérgio A. Yvonne. 2005. 1989. 1979) (HENRIQUES. .____________Raça e Gênero no sistema de ensino: os limites das políticas universalistas na educação. Rio de Janeiro Difel. Carlos A.REZENDE.SILVA. Instrumentos e métodos de mitigação da desigualdade em direito constitucional e internacional. 153-161. 4ª ed. D’ADESKY.BRASIL. Alli. 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jurisprudencial e comparado. Edward. . Editora Universidade de São Paulo. Professora Substituta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro . Momento do Professor: Revista de Educação Continuada. Raízes da Exclusão: Uma análise histórica dos princípios eugenistas presentes no sistema educacional. São Paulo.Rio de Janeiro: Rio Fundo Editora: IUPERJ (Instituto Universitário de pesquisas do Rio de janeiro). *GILDA ALVES BATISTA Pedagoga e Mestre em Educação pela PUC-Rio. Renato da Silva (orgs) Raça e Diversidade. ano 3. Início no Brasil e Fim nos Estados Unidos? Revista Estudos Feministas Rio de Janeiro.Faculdade de Educação da Baixada Fluminense.TELLES. Lilia Moritz e Queiroz. Estação Ciência:Edusp. Nº 01 de 1996. 2006. Nelson do Valle e Hasenbalg. Aspectos legislativo. . 49-62. .relativo à implementação de políticas de ação afirmativa e seus mecanismos para negros no Brasil. Maria Thereza. Carlos A.Pág 194 – 2001. 2004.VERARDO.SILVA. p. 1. 1992. Relações Raciais no Brasil contemporâneo . Brasília: MEC-SEPPIR.SCHARCZ. 49 . São Paulo. 1996. n. doutrinário. .

uma nova civilização deve surgir comprometida com a promoção da vida com dignidade e esperança para toda a família humana. a promoção de práticas alimentares e hábitos de vida saudáveis. econômica e política que tenha como objetivo estratégico atingir o desenvolvimento humano sustentável. encontraremos soluções que atendam às exigências da realidade e à cidadania de nosso povo. em suma. com a participação ativa das populações excluídas. Cada ser humano é chamado à vida em um tempo concreto. O direito ao alimento não se reduz. mas têm direito de assentar-se à mesa da fraternidade e participar do banquete da vida. a uma ração que garanta subsistência. uma nova civilização deve surgir comprometida com a promoção da vida com dignidade e esperança para toda a família humana. deve ser confrontada com os sofrimentos das crianças. Pública. embaixador do Brasil junto a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO/ONU). Ninguém se desenvolve sem o pão de cada dia. das mulheres e homens que experimentam frustração e as consequências da fome e da marginalização. a melhoria quantitativa e qualitativa do abastecimento alimentar local. humano ou materiais. mas a soberania das Nações. a viabilização econômica dos assentos da reforma agrária e da agricultura familiar. A solução para o problema da fome e da exclusão social passa por uma nova ordem social. a redução da desnutrição e da mortalidade materna e infantil e. Nenhum argumento pode justificar a negação da liberdade humana. os governos dificilmente atendem às necessidades e aos direitos da cidadania e escapam da prisão da “A solução para o problema da fome e da exclusão social passa por uma nova ordem social. econômica e política que tenha como objetivo estratégico atingir o desenvolvimento humano sustentável. Por outro lado. Uma questão de matriz econômica e de solução política. O Brasil pode e deve vencer a fome e a exclusão social. ao alimento adequado às necessidades pessoais e culturais. Trata-se de uma opção política prioritária nas ações da sociedade que perpasse todas as esferas de ação do poder público para garantir a todas as pessoas acesso e gozo dos frutos da terra e do trabalho humano. Sem parcerias com o governo e sem recursos públicos. Precisamos de mecanismos que garantam o controle da cidadania sobre o Estado. o acesso a uma alimentação adequada através de justa distribuição e geração de trabalho e renda. Em verdade. afinal. geógrafo. Enquanto caminhamos e respiramos na face da Terra. A criança e o idoso não produzem. sem a participação do povo. Como eixo do desenvolvimento humano sustentável. a sociedade não consegue realizar o que é fundamental para sua vida. A fome de uma criança ou a exclusão de qualquer pessoa é uma negação da nossa própria dignidade como ser humano. deputado. os serviços públicos e o mercado. mas um problema ético e um insulto à dignidade humana. Em verdade.DIREITO HUMANO À ALIMENTAÇÃO E NUTRIÇÃO SUSTENTÁVEL. por mais importante que o seja. O Direito Humano à Alimentação e Nutrição Sustentável: um desafio O ano de 2008 foi muito simbólico em nosso país no que tange a promoção do direito humano à alimentação. qualquer meta presente ou futura. mediante ações concertadas entre sociedade civil. Por esta razão. Não nos faltam recursos técnicos e financeiros. A fome é uma mazela humana cujas causas são associadas à injustiça social. de nossa própria rua. Fome e miséria não rimam com democracia. assistimos nos últimos meses o debate acerca de uma crise estrutural na organização dos 50 . Comer é direito humano básico que jamais pode sofrer qualquer restrição. da paz e da felicidade às pessoas que estão vivendo hoje! Elas não podem ser objeto do sarcasmo da promessa de que seus filhos terão dias melhores. Uma questão que não afeta somente a cidadania das pessoas. denuncia que precisaríamos ter bases sólidas para a reversão do quadro da fome no país caso quiséssemos declarar que somos efetivamente um país livre e justo. uma questão de Estado. consequentemente. Celebramos o centenário do nascimento de Josué de Castro: médico. melhor ainda. necessitamos de meios adequados para crescer e atingir a maturidade e assim poder participar da história de nossa própria comunidade. A partir de nossos municípios ou. Não podemos ficar sentados e esperar que o futuro traga a solução. Em seu livro Geopolítica da Fome (1946). Todos temos direito à nutrição e. A partilha do alimento é uma profissão de fé na igualdade de natureza e de direitos.” burocracia ou dos laços da corrupção. Foi ele quem denunciou que a fome não se justifica por fatores ligados à natureza ou à vontade de Deus. LEONARDO FELIPE DE OLIVEIRA RIBAS* A fome de milhares de seres humanos não é uma responsabilidade de Deus. empresariado e organismos governamentais. fortalece a participação social na gestão da Res. Nenhuma criança nasce para morrer criança. dos jovens. sem um ninho e a companhia de gente amiga e acolhedora em volta de uma mesa. Passados cerca de sessenta anos. O direito humano à alimentação e nutrição sustentável é a base dos direitos humanos e da cidadania. a Política de Segurança Alimentar e Nutricional não atinge seus objetivos como sendo mais um programa ou Secretaria de Assistência Social. Josué foi o primeiro a fazer um mapa da fome. pois. A fome é.

sociais e culturais. A crise do sistema agroalimentar está inserida no contexto da busca pelo crescimento econômico.Estados e do sistema econômico em cujo centro se encontra o principal determinante do direito elementar à vida. vem aumentando significativamente a demanda por agrocombustíveis no mundo. passem de aspirações e orientações a serem seguidas segundo a conveniência dos governantes. deixa de investir na política de segurança alimentar e nutricional sustentável como instrumento de consolidação da soberania do Estado e. os direitos humanos nascem quando podem e devem nascer. políticas públicas e medidas judiciais já existentes. das organizações regionais econômicas e do setor privado. em constante processo de construção e reconstrução. impactos e possíveis respostas tem sido alvo de debates. na implementação do direito à alimentação na ordem contemporânea: 1) Consolidação e fortalecimento do processo de afirmação da visão integral e indivisível dos direitos humanos. pela própria característica dos direitos econômicos. parece-nos residir exatamente aqui o nosso desafio: como implementar a justiciabilidade e a exigibilidade dos direitos humanos. que é o acesso aos alimentos. tendo como um dos possíveis fundamentos a política de agroenergia. tem levado à cristalização do pensamento liberal de que os direitos individuais. Neste sentido. Saindo. vêm buscando alternativas energéticas renováveis. Segundo os mesmos. A separação dos direitos humanos em primeira e segunda gerações. só veio no século XX. especialmente do Direito Humano à Alimentação. seria impossível uma proteção jurisdicional para esses direitos. através do resgate da cultura de promoção e defesa dos direitos humanos. mediante a conjugação do direito à alimentação com os demais direitos civis e políticos com os direitos econômicos. estão devidamente resguardados por 51 . sociais e culturais. é algo fundamental e estratégico. poderemos colaborar para que os atores sociais possam fazer com que os direitos individuais e políticos. e criar políticas específicas para a tutela de grupos socialmente vulneráveis. que tenha como paradigma o desenvolvimento sustentável. A questão que nos persegue é: há como promover a soberania cidadã negando o seu acesso à alimentação e nutrição? Nossa preocupação como militantes pelo direito à alimentação é colaborar com os atores sociais na consolidação de uma política. Enquanto reivindicação moral. com base na promoção dos direitos humanos. convenções e leis sejam gozadas pelas pessoas que sofrem violações desses direitos. Com isto. seria importante se esta conjuntura estimulasse a revisão do tipo de multilateralismo e de regulação comercial patrocinados pela Organização Mundial do Comércio (OMC) entre outros atores econômicos supranacionais. Os países desenvolvidos. com isso. As fontes de energia oriundas de biomassa ganham crescente importância no cenário internacional. como direitos fundamentais. O governo acredita que com o crescimento econômico foi superado o problema da fome (insegurança alimentar) e. também chamados de direitos civis e políticos. Os direitos humanos não são um dado. cremos que devemos nos apropriar dos possíveis instrumentos normativo-jurídicos. levando em conta o seu desenvolvimento e afirmação. sociais e culturais e do direito à inclusão social. de modo a diminuir a sua dependência em relação ao petróleo. inclusive. em uma conjuntura onde o mesmo encontra-se ameaçado pelo paradigma do crescimento econômico em que aquele direito (vinculado ao paradigma do desenvolvimento sustentável) é colocado em segundo plano nas políticas públicas? Entendemos que esta pergunta pode ser respondida mediante o enfrentamento dos presentes desafios. de menor custo e maior diversidade de matérias-primas. que sejam agraciados por esse processo de constitucionalização. As redes solidárias ligadas ao movimento de agro-ecologia têm denunciado que este investimento no modelo que privilegia financeiramente o agronegócio voltado para a política energética e para o mercado de commodities pode comprometer o modelo que alimenta o abastecimento e se orienta pelos princípios de sustentabilidade. 2) Incorporação do enfoque de gênero. 6) Fortalecimento do Estado de Direito e a construção da paz nas esferas global. ainda que sob a forte resistência dos denominados juristas liberais. raça e etnia na concepção do direito à alimentação. sociais e culturais. Embora pouco provável. entre os Chefes de Estado hodiernamente. regional e local. tratados. O objetivo é trazer os direitos e garantias consagrados e normatizados para o plano da eficácia e da realização prática. do plano moral para o plano da justiciabilidade e exigibilidade. Como os direitos humanos são fruto de um contexto histórico. mas um constructo. dos seus cidadãos. 4) Incorporação da pauta social de direitos humanos na agenda das instituições financeiras internacionais. portanto. Diante deste cenário. O avanço desta crise. bem como no reconhecimento da pobreza como violação de direitos humanos. Devemos assistir à reconstrução de um padrão de regulação nacional no campo alimentar entre os países com capacidade para tanto. a serem abordados. sociais e culturais. 5) Fortalecimento da responsabilidade do Estado na implementação do direito à alimentação e dos direitos econômicos. especialmente. bem como a implementar medidas ambientais. Neste contexto parece-nos que o emponderamento de atores populares e sociais. para o plano de direito exigível. 3) Otimização da justiciabilidade e a acionabilidade do direito à alimentação e dos demais direitos econômicos. tentando fazer com que as aspirações emanadas nas declarações. O reconhecimento dos direitos econômicos. uma intervenção humana. Requerem-se formas de cooperação e apoio técnico aos países mais fragilizados para além da doação de víveres. suas causas. Um dado grave e pouco destacado é o despreparo políticoinstitucional da grande maioria dos países para enfrentar a presente crise. mediante uma cultura de direitos humanos. por conseguinte. O atual governo federal investe na política agro-energética pautada no paradigma do crescimento econômico como possível saída para o processo de consolidação política da soberania do Estado brasileiro no cenário global.

preleciona a Declaração: que toda pessoa tem direito a um nível de vida adequado que lhe assegure. Caso apreciemos com atenção. 5º da Carta Magna. A Declaração preocupa-se com a tutela do bem jurídico maior que é a vida. que. 5º. o orçamento participativo. Outros mecanismos existem e devem ser aperfeiçoados para se atingir tal objetivo. estabeleceu metas e compromissos dos governos para a superação da fome e da miséria no mundo. serão equivalentes às emendas constitucionais. Esta é uma Declaração da Cúpula Mundial da Alimentação que. é que o Brasil tornou-se signatário deste tratado internacional. a Carta das Nações Unidas. principalmente. em 1991. em seu artigo 55. O referido diploma legal cria o sistema de segurança alimentar e nutricional e consagra o instituto do direito humano à alimentação adequada. exatamente o contexto da repressão dos direitos.). Os primeiros são os civis e políticos. Somente vinte e cinco anos depois. Um outro marco é o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos. saúde e bem-estar. O rol de direitos previsto no caput deste artigo é exemplificativo e não taxativo. no ano de 2002. Como se nota. Sociais e Culturais. e perceber que as normas internacionais e nacionais não representam apenas retórica e engodo. Direitos humanos e o direito constitucional internacional. declara que todos os governos signatários adotariam as medidas necessárias para a realização dos propósitos consignados naquele instrumento. em cada Casa do Congresso Nacional. Não se pode admitir um tratamento quase hierárquico entre os direitos humanos. emanado na Revolução Francesa. 2008. Na mesma esteira. na busca pela sua soberania. 52 . com a participação das famílias. Temos que recordar que na década de sessenta vivíamos 1 Cf. inerente à dignidade da pessoa humana e indispensável à realização dos direitos consagrados na Constituição Federal. Outro marco jurídico internacional no campo da promoção do direito à alimentação são as diretrizes voluntárias da FAO. Este é o grande desafio de toda Lei. em Roma. Fundamental é a apropriação desses mecanismos.. estabelece princípios e diretrizes para que a sua cidadania seja efetivada. inclusive alimentação (. Conseguir tirar as intenções e princípios do papel e fazer com que eles sejam uma realidade no dia-a-dia daqueles que têm sede de direitos e de dignidade humana. São os direitos ligados ao princípio da igualdade. Não é somente através destes que se alcança o escopo da efetividade dos direitos humanos. Este processo se dá através também das garantias de uma ampla participação no planejamento. Os diplomas legais trouxe um contributo para os direitos humanos quando consagrou no art. para que as pessoas possam se valer dos direitos listados em tantos tratados e leis. ele lá está garantido pelo §3º do artigo. Quando se fala em direito. Faz-se mister salientar que a Lei deve ser sempre a expressão de um clamor de um povo que. emanados do princípio da liberdade. Somente três anos após a promulgação da nossa Carta Magna é que o Brasil reconhece estes direitos. Os instrumentos jurídico-normativos precisam ser utilizados como uma forma de obrigação para a atuação concreta do Poder Público. mormente. Neste sentido. PIOVESAN. em detrimento da segunda categoria. Assim está disposto no art. mas salienta que o acesso à alimentação é condição fundamental para que aquela seja vivida de forma adequada. assim como à sua família.. Vale lembrar que. dos governos e da sociedade como um todo. em dois turnos. por três quintos dos votos dos respectivos membros. o mínimo existencial. de 15 de setembro de 2006. O controle do cidadão rumo à exigibilidade e concretização dos direitos humanos vai além disso. apesar de os mesmos serem estudados e dispostos diversas vezes de forma separada. Neste sentido. Pressão no sentido de fazer com que o Estado defina políticas públicas em direção ao cumprimento das obrigações assumidas quando da adoção de um tratado internacional ou da elaboração de leis. 9ª edição. 2º da referida Lei: A alimentação adequada é direito fundamental do ser O primeiro grande marco jurídico para os direitos humanos no pósguerra foi a consolidação da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948). Rio de Janeiro: Saraiva. Consoante a dicção do artigo 25.346. veremos que os objetivos do milênio estão associados à superação das causas e consequências da fome no mundo. entre eles estão aqueles de participação direta ou indireta dos cidadãos. existem sistemas e instrumentos de naturezas diversas para promoção e garantia dos direitos humanos. organização. os conselhos de direitos e de políticas públicas. A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 Os direitos estabelecidos devem obrigar o Estado a garantir as condições materiais para a obtenção da cidadania e da dignidade da pessoa humana. não obstante não aparecer textualmente como direito fundamental do art. longo é também o caminho para fazer com que estes direitos sejam implementados pelo Estado. não se restringe à possibilidade de acesso ao judiciário para propor ações judiciais.instrumentos de exigibilidade e justiciabilidade. §3º. tais como: a iniciativa popular. Flavia. devendo o poder público adotar as políticas e ações que se façam necessárias para promover e garantir a segurança alimentar e nutricional da população.1 A exigibilidade do direito à alimentação não pode ser visibilizada e aplicada apenas através dos diferentes instrumentos jurídiconormativos existentes no mundo e no país. humano. “in verbis”: os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados. Vale recordar que o Brasil é signatário de três diplomas internacionais na esfera dos direitos humanos que prelecionam o direito humano de se alimentar. o referendo e. controle e monitoramento das políticas públicas que materializam os direitos. adquire o direito à alimentação o status de um direito constitucional. principalmente as de cunho social. de 1966. através da Emenda Constitucional nº 45/2004. Um grande avanço no que tange à consolidação de um sistema jurídico para a promoção do direito à alimentação no Brasil foi a promulgação da Lei 11.

* LEONARDO FELIPE DE OLIVEIRA RIBAS Bacharel em Filosofia e em Teologia. com efeito.20). o menino morrerá com cem anos (Is. chegará o dia em que já não haverá ali criancinhas que vivam apenas alguns dias. agência de promoção e defesa do direito humano à alimentação. Salienta também o profeta que brilha a luz aquele que parte e reparte o seu pão. Não é a toa que os alimentos são o fundamento sacramental da presença do divino nas mais variadas tradições religiosas. Na visão do profeta Isaías. O alimento é sacramento de um processo cósmico de renovação e perpetuação da vida. Nosso desejo como cidadão e operador do Direito é que a sociedade possa garantir este direito humano primeiro e básico que é a alimentação. alimentar-se é sentar-se junto à mesa em condições de igualdade e celebrar juntos nossa natureza comum de sermos um-com-o-outro (κοινονια) e um-parao-outro (διακονια). Mestre e Professor de Teologia Sistemático-Pastoral e Consultor Técnico do Instituto Harpia Harpyia. nem velho que não complete a sua idade. O sentido último da existência da sociedade é a construção do processo de integração e simbiose entre todos os seres. 65. Mais ainda que o alimento. 53 . advogado militante na área de direitos humanos.Conclusão Desde os primórdios a humanidade vê no pão o arquétipo da vida.

trataram diretamente da questão orçamentária. educação. e abrange não só a fiscalização dos atos dos eleitos mas também a discussão da política administrativa adotada pelos que eventualmente encontram-se no poder. Deve-se frisar que o orçamento não é dinheiro e sim autorização de gastos e estimativa de receitas. com a doutrina Keynesiana. Fórum Popular do Orçamento 2° ed. está traindo a confiança do eleitorado. como a das privatizações de empresas estatais. a participação cidadã no acompanhamento orçamentário se torna cada vez mais fundamental. Sem essa ativa participação. obras. o orçamento público passou a ser sistematicamente utilizado como instrumento da política fiscal do governo (Jesse. Esta participação vai além do voto. buscar um planejamento que satisfaça nossas necessidades (prioridades) de acordo com nossas disponibilidades. Um orçamento participativo é um orçamento democrático. econômico. do contribuinte. onde disputas paroquiais influem negativamente nos verdadeiros interesses da coletividade. Rio de Janeiro. permite que o cidadão participe ativamente nas decisões políticas e interaja com o poder executivo e legislativo. o indispensável é lembrar que todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido. ou seja. financeiro e administrativo. E é com a participação ativa que se constrói a verdadeira democracia social. estadual e federal. A multiplicidade orçamentária nos aspectos político. com objetivos e metas. analisando e fiscalizando a sua execução.” emendas parlamentares ao orçamento dentre outros. expressão monetária de um planejamento. o dinheiro público será aplicado segundo critérios que nem sempre representam as melhores soluções para os problemas da comunidade. com a famosa Magna Carta. buscar um planejamento que satisfaça nossas necessidades (prioridades) de acordo com nossas disponibilidades. deve ser antecipado neste instrumento. judiciário e executivo (principalmente). familiar ou de empresas não se diferencia muito daquele utilizado na esfera pública. Completados 20 anos da atual Constituição. THIAGO MARQUES* “A democracia social exige a participação do cidadão nas decisões do governo nos seus três estágios – municipal.” Barbosa Lima Sobrinho 1 “Só a participação cidadã é capaz de mudar o país!” Betinho A democracia no orçamento público gastos públicos antes arbitrados pelo Rei – essa função permanece como missão principal dos parlamentos. segundo o qual esse instrumento não é apenas um mero documento de previsão da arrecadação e autorização do gasto. 1971). o principal aspecto orçamentário é identificado com a instituição dos tributos. Breve histórico do orçamento público nas constituições O marco do orçamento público se dá na Inglaterra em 1217 pelo Rei João Sem Terra. mas um documento legal que contém programas e ações vinculados a um processo de planejamento público. Por ser um instrumento chave na administração pública. contábil. 1 Prefácio à cartilha “De Olho no Orçamento”. dever e direito básico do eleitor. Dessa forma. como na França após a revolução de 1789. O orçamento evoluiu ao longo da história para um conceito de Orçamento-Programa. Cresce cada vez mais a discussão sobre formas de participação ativa cidadã no processo governamental. No Brasil. sem consulta prévia aos verdadeiros donos. Orçamento público não deve ser tratado como um “bicho de sete cabeças” ou como uma peça de ficção. Sob essa ótica o entendimento do orçamento público é primordial. 2002. deixando para as leis ordinárias – ditadas pela autoridade – o encargo de regular 54 . ocorre que muitos governantes dificultam seu entendimento. Em todo o decorrer do século XIX. vendendo patrimônio do povo. do eleitor. incluindo aí as forças da oposição. Nela. discutindo. O importante. e difundiu a instituição orçamentária para outros países. Participar é tão importante quanto votar. A partir da década de 1930. o debate acerca da democracia ganha força na sociedade civil. a democracia passa a ser um mero jogo eleitoral. jurídico. familiar ou de empresas não se diferencia muito daquele utilizado na esfera pública. impõe a importância desse instrumento.A DEMOCRACIA NO ORÇAMENTO PÚBLICO. seja para saúde. Quando um governo age em áreas cruciais. O cerne é o mesmo. Pode-se considerar que o orçamento pessoal. Visava estabilização ou a ampliação dos níveis da atividade econômica. Outra função importante estabelecida foi a avaliação e o acompanhamento dos “Pode-se considerar que o orçamento pessoal. Não há dúvida de que as políticas públicas estão no orçamento. O cerne é o mesmo. Também na elaboração dos orçamentos públicos – e em especial os municipais – o eleitorado deve ter voz ativa. Sem a participação do povo. O orçamento inglês delineou a natureza técnica e jurídica desse instrumento. o orçamento público foi sendo aperfeiçoado e valorizado como instrumento básico da política econômica e financeira do estado. as primeiras Constituições Federais de 1824 e 1891 não A publicização para o acompanhamento de como estão sendo utilizados os recursos públicos. Qualquer dispêndio público feito tanto pelo poder legislativo.

A Lei Complementar nº 101/2000 . metas e recursos reais.320. transformando-se na Lei Orçamentária Anual. incumbido de tratar os problemas orçamentários do governo federal e subordinado ao Ministério da Fazenda. A Constituição de 1946. todo o processo orçamentário. a Lei Federal nº. e coordenar a elaboração e a execução do Orçamento Geral da União e dos orçamentos dos órgãos e entidades subvencionadas pela União. No 1º artigo. De acordo com a Constituição Federal. Disponível em: http://www. intensificando a desvinculação dos Planos e dos Orçamentos. harmonizandoos com o plano nacional de desenvolvimento econômico. De acordo com a Constituição Federal.o assunto. no sentido de se alcançar estabilidade econômica e desenvolvimento sustentável. Estas três leis compõem o processo de tramitação do orçamento de qualquer ente da federação. Neste período é criada a lei que traçou os princípios orçamentários no Brasil e que ainda hoje é a principal diretriz para a elaboração dos orçamentos da União.320 de 1964. Em 1964 é criado o cargo de Ministro Extraordinário do Planejamento e Coordenação Econômica. e iii) a Lei Orçamentária Anual (LOA): A Lei Orçamentária Anual disciplina todos os programas e ações de governo no exercício.2 Com a Constituição Federal de 1988.Constituição Federal. os programas e projetos elaborados por órgãos públicos. que estatui normas gerais aplicáveis a todas as esferas da Administração Pública. Não obstante. A Constituição determina que o Orçamento deve ser votado e aprovado até o final de cada Legislatura. ii) a Lei de Diretrizes Orçamentária (LDO): A LDO é a lei anterior à lei orçamentária.gov. o projeto é sancionado e publicado pelo Poder Executivo.planejamento. podemos tentar definir de forma didática que o Orçamento Público é relacionado: 1º Elaboração . Princípios e estrutura do Orçamento A Constituição de 1988 define. O projeto de lei da LDO deve ser enviado pelo Poder Executivo ao Legislativo até o dia 15 de abril de cada ano (8 meses e meio antes do encerramento da sessão legislativa).br 55 . Ao contrário do que ocorria em períodos de alta inflação. ocupado por Celso Furtado. Assim.Coligação e sistematização de todos os elementos necessários à constituição de uma base idônea para cálculo das estimativas dos recursos. Como exemplo. Orçamento e Gestão. A LOA estima as receitas e autoriza as despesas do Governo de acordo com a previsão de arrecadação.320/64. Estados e Municípios. Em 1936. A experiência demonstra ao longo dos últimos anos a preocupação em fortalecer a vinculação existente entre planejamento e orçamento.Maior atenção às perspectivas da receita. além do Direito Constitucional. é a programação orçamentária voltada não só para o controle de gastos. em planos gerais. o PPA deve conter “as diretrizes. orienta a elaboração do Orçamento (Lei Orçamentária Anual).Expedientes de audiências entre a equipe do órgão central e os representantes das unidades administrativas. Históricos das atividades orçamentárias. com a atribuição de dirigir e coordenar a revisão do plano nacional de desenvolvimento econômico. ou seja. existe o Direito Financeiro como complemento ao Orçamento Público. . hoje é possível planejar e autorizar dotações para a realização de ações voltadas à concretização eficiente de políticas públicas de bem-estar.Lei 4. a LDO estabelece as metas e prioridades para o exercício financeiro subsequente. que define as metas e prioridades em termos de programas a executar pelo Governo. a partir de 1936. na seção II do capítulo II do título VI.Aumento de fidelidade em termos numéricos do programa de trabalho. As inovações foram: . objetivos e metas da administração pública federal para as despesas de capital e outras delas decorrentes e para as relativas aos programas de duração continuada” (art. dispõe sobre alterações na legislação tributária e estabelece a política de aplicação das agências financeiras de fomento. mas também para a avaliação de resultados. com reflexos no orçamento. denominada “planejamentista”. O projeto de lei do PPA deve ser enviado pelo Poder Executivo ao Poder Legislativo até o dia 31 de agosto do primeiro ano de seu mandato (4 meses antes do encerramento da sessão legislativa).Lei de Responsabilidade na Gestão Fiscal foi concretizada como fruto de uma política neoliberal inserida no processo mundial de ajustes fiscais das economias. constituem o cerne do Orçamento Público. É evidente que há uma inter-relação de ambos na dinâmica orçamentária. explicita a criação de planos setoriais e regionais. e recentemente. A evolução e o desenvolvimento da técnica orçamentária são recentes. e . Depois de aprovado. . coordenar e harmonizar. o objetivo da LRF fica evidenciado: “A responsabilidade 2 Ministério do Planejamento. 2º Estrutura . 4. ao estabelecer vinculações com a receita. Este último é representado pela Lei Federal nº 4. 3º Limites .Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). A experiência brasileira na elaboração de Planos Globais até 1964 caracterizou-se por contemplar somente os elementos de despesa com ausência de uma programação de objetivos. o planejamento das ações governamentais sob a forma orçamentária (receitas e despesas). importantes inovações foram introduzidas na proposta orçamentária que propôs modificações na técnica orçamentária e sugeriu a criação de um órgão especializado. que se intensificou a partir da década de 80 na América Latina. Nenhuma despesa pública pode ser executada sem estar consignada no Orçamento. após a ocorrência de crises de financiamento externo e de dificuldades encontradas pelos países para saldarem suas dívidas. regionais e setoriais. ambos servindo como instrumento para a realização de uma gestão fiscal responsável. erigindo método de previsão das rendas públicas como instrumento fundamental de sua atuação. 165 §1°). o sistema orçamentário passou a ser regulado por três leis: i) a Lei do Plano Plurianual (PPA): O PPA é a lei que define as prioridades do Governo pelo período de 4 (quatro) anos.

1993) A ausência de mecanismos que estimulem e permitam a participação ativa e consciente dos cidadãos no acompanhamento e avaliação das políticas públicas e de seus governantes faz com que aumente o ceticismo político da população. este período corresponde ao ano ou exercício financeiro. o orçamento deve se realizar no exercício que corresponde ao próprio ano fiscal. por fim. “A Lei do Orçamento conterá a discriminação da receita e despesa de forma a evidenciar a política econômica financeira e o programa de trabalho do Governo. incluindo despesas com pessoal. Segundo. de 01 de janeiro a 31 de dezembro. com a LDO e o Plano Plurianual.. nenhuma instituição pública que receba recursos orçamentários ou gerencie recursos federais pode ficar de fora. visando a agregar determinado subconjunto de despesa do setor público. que permite identificar se determinado Programa de Trabalho pertence à determinada área (Educação. pois o Orçamento é único. Na LOA as receitas são estimativas realizadas pelo governo. Receitas de Capital são auferidas principalmente da realização de recursos financeiros oriundos da constituição de dívidas e outros. de publicidade e cidadania. materiais. a LRF impõe um modo limitador e controlador das finanças públicas. Conclusões Os avanços do processo democrático no Brasil misturam de modo As Receitas Correntes são oriundas principalmente de tributos. atividades agropecuárias. É importante frisar que as subfunções poderão ser combinadas com funções diferentes daquelas a que estejam vinculadas. pouco se discute o Orçamento Público. Despesas de Capital são os investimentos em equipamentos e infra-estrutura. Entende-se como Função o maior nível de agregação das diversas áreas de despesa que competem ao setor público. Uma das especificações mais importantes. cuja finalidade básica é demonstrar as realizações do governo. em que se previnem riscos e corrigem desvios capazes de afetar o equilíbrio das contas públicas. A Subfunção representa uma partição da função. Saúde e outros). contratação de terceiros e outros. por isso elas podem ser maiores ou menores do que foram inicialmente complexo. que atualiza a Lei 4. ou seja. especificando o que é Corrente e o que é Capital. válido para os três Poderes. ou seja. ocorra falta de transparência governamental e consequentemente efetivação das práticas corruptas dos administradores públicos. Os princípios orçamentários são: previstas. Essa classificação foi realizada com objetivo de dar mais clareza ao orçamento e assim identificar no detalhe o que se vai fazer. e constituem a maior parte das receitas totais. ou o que se deveria fazer. Universalidade: o orçamento deve conter todas as receitas e despesas dos poderes.”. mediante o cumprimento de metas de resultados entre receitas e despesas e a obediência a limites. A dinâmica é simples. No Brasil. de serviços e outras. devendo existir integração entre a LOA de cada período. obedecidos os princípios de unidade. O conceito de Orçamento-Programa abordado anteriormente é a base da Lei Orçamentária Anual. assim a necessidade de renovação do Estado e de suas instituições torna-se primordial. funcional e territorialmente. ou seja. o princípio da Unidade: só existe um Orçamento para cada ente federativo (no Brasil. fundos. Primeiro. é expresso na Portaria Federal nº 42 de 1999. patrimônios. A participação popular se faz necessária também na elaboração do orçamento.” (art. O fato do Orçamento Geral da União possuir três peças. A principal estrutura do orçamento criada pela Lei 4. a arrecadação com os impostos tende a aumentar. importantes características democráticas e autoritárias. E. como o Orçamento Fiscal. não representa afronta ao princípio da unidade. e representam o maior dispêndio dos orçamentos dos entes. 2). O programa é o elemento básico da estrutura do Orçamento-Programa. o que acaba por “transformar” o OP em “Orçamento de Poucos”. o resultado final de seu trabalho em prol da sociedade. ou seja. As Despesas Correntes são as chamadas de custeio. Cada ente deve possuir o seu Orçamento. existe um Orçamento para a União..320 na discriminação das despesas por Funções e Subfunções e dá outras providências.320 é a classificação das Receitas e Despesas por Categorias Econômicas. universalidade e anualidade. um para cada Estado e um para cada Município).na gestão fiscal pressupõe a ação planejada e transparente. se a economia crescer durante o ano mais do que se esperava. O movimento inverso também pode ocorrer. pois é com a sua utilização que os esforços e ações de governo são organizados para o alcance de uma situação futura almejada. Assim. proporcionando a oportunidade de discussão diante a população. É um estado no qual os componentes de legalidade democrática e. Não há múltiplos orçamentos em uma mesma esfera. portanto. 56 . O principal critério de classificação da despesa pública utilizado para elaboração do Orçamento-Programa é a classificação por Programas de Trabalho. O período estabelece um limite de tempo para as estimativas de receita e fixação da despesa. (O’DONNELL. o princípio da Anualidade: o orçamento cobre um período limitado. o Orçamento da Seguridade Social e o Orçamento de Investimento. contribuições. O que há é apenas volumes diferentes segundo áreas de atuação do Governo. atividades industriais. desaparecem nas fronteiras das várias regiões e relações étnicas e de classe. fundamentado em uma política orçamentária e estruturado uniformemente. órgãos e entidades da administração direta e indireta. independentemente da estrutura institucional. é um Estado democrático esquizofrênico.

________. 2001. A.MACHADO JR. Boaventura de Sousa. sem contestações e pouco transparente. REIS. Cartilha “De Olho no Orçamento”. 1988.FÓRUM POPULAR DO ORÇAMENTO. é de grande importância. Constituição (1988). Rio de Janeiro: Guanabara: FGV. Teixeira. Rio de Janeiro. . 1ª ed.os caminhos da democracia participativa. descentralização da gestão e participação cidadã. n. clientelistas e autoritários controlados pelas elites locais que orientam seguindo interesses de cunho privado a gestão da administração pública ainda fazem parte da política brasileira. Rio de Janeiro: IBAM. J. (Rio de Janeiro. São Paulo: Edusp.br>. 2° ed. Estabelece normas de finanças públicas voltadas para a responsabilidade fiscal e dá outras providências. sendo oposto ao conceito de regimes inclusivos e amplamente aberto à contestação pública (DAHL. Lei de Responsabilidade Fiscal. Jesse. 2000. Participação e Oposição. Heraldo da Costa. DF: Senado. 2002. as experiências apontam para a reforma das instituições. p. A participação e o controle social no monitoramento e avaliação das políticas públicas. Sob essa ótica. . 86. 1971). Orçamento Público. Históricos das atividades orçamentárias.DAHL.A sinergia entre o Poder Executivo e Legislativo na elaboração de políticas públicas obedece a uma lógica centralizada. . Disponível em: <http://www. Diário Oficial.SANTOS. 30ª ed. 1997 . nº. 57 . Lei Complementar nº 101 de 4 de maio de 2000. centralistas. 1-11. Para enfrentar esta realidade conservadora. Brasília.gov. 1993. 1971. Civilização Brasileira. Governos hierárquicos. Poliarquia.O´DONNELL. Constituição da República Federativa do Brasil. 2002 .BRASIL. Sobre o Estado. 36. a democratização e alguns problemas conceituais. ano CXXXVIII. *THIAGO MARQUES Economista e Consultor do Fórum Popular do Orçamento do Rio de Janeiro (FPORJ). R. . . Democratizar a Democracia . Mecanismos de inclusão política e contestação pública se fazem necessários. Novos Estudos Cebrap. Sites: Ministério do Planejamento. Referencias bibliográficas . Orçamento e Gestão.). A Lei 4320 comentada. planejamento. promoção da transparência e do controle social. seja no orçamento ou nas diversas leis encaminhadas e fomentadas pelo Legislativo. a garantia dos direitos constitucionais de participação dos cidadãos será efetivamente exercida. G.BURKHEAD.

fomos convocadas a pensar/problematizar algumas características atribuídas a crianças e jovens pobres como se esses aspectos fizessem parte de suas naturezas. deve ser tutelada – e a juventude perigosa – aquela percebida como delinquente e. lhe são atribuídas algumas características tidas como típicas desse momento do desenvolvimento. rebeldia. comportamentos e formas de estar no mundo como manifestações dessas características. da mesma forma. Alguns desses efeitos podem ser expressos. que sangram nas facas. portanto. A seguir. assim. afirmadas como naturezas. passam a ser sinônimo daquilo que é próprio de sua natureza. entendemos. durante o século XX que têm caracterizado a população infanto-juvenil subalternizada como perigosa. 2 Algumas análises apresentadas neste item podem ser encontradas em Coimbra (1998) e Coimbra e Nascimento (2003). tornando-se. Com isso vai se caracterizados como universais. mas que pode vir a fazê-lo e. Em nosso país. mas principalmente sobre o que se poderá vir a ser. Com que direito. Majoritariamente. em especial no Brasil. em crescimento. 58 . ao jovem afirma-se que determinadas mudanças hormonais. assim. e que fará com que o controle não se exerça apenas sobre o que se é. agressividade. periculosidade. timidez. Dessa maneira. são responsáveis por certas características psicológico-existenciais que seriam próprias da juventude. como ele. em desenvolvimento. p. acompanhamento constante. pelo aumento dos extermínios de crianças e jovens pobres. introspecção. No que se refere à infância. por exemplo. vigor. São tão preguiçosos ruins demais. B. (Guattari e Rolnik. dentre outros. 1988. a imaturidade e a incapacidade para tomar decisões. mas também com aquelas que poderão vir a acontecer.. Este é o dispositivo da periculosidade. Tanto na família como na escola. percebidas como uma essência e. outras são adicionadas: a violência e a criminalidade. o que se fez. mais essencial até que o petróleo e as energias. As forças sociais que administram o capitalismo hoje entendem que a produção de subjetividade talvez seja mais importante que qualquer outro tipo de produção. a desigualdade e a competitividade são as regras do bom viver. na sociedade capitalista.A PRODUÇÃO DE CRIANÇAS E JOVENS PERIGOSOS: A QUEM INTERESSA? CECÍLIA M. Algumas práticas baseadas nos conhecimentos hegemônicos da Medicina e da Biologia fazem associações entre mudanças corporais e determinadas etapas do desenvolvimento psíquico. Para tal apontaremos algumas produções de subjetividades1 ocorridas. De acordo com esse pensamento. Como tais articulações foram sendo produzidas e fortalecidas? Articulando pobreza. por isso. Fingem que gemem nas macas..” ainda não delinquiu. Com relação. ameaçadora para a manutenção da ordem social. apontando para a dependência. inquestionáveis. sobre as virtualidades dos sujeitos. Descrevem. por exemplo. “. COIMBRA* MARIA LÍVIA DO NASCIMENTO** “São perigosos. 40). Esse modo biomédico de se pensar a infância e a adolescência como um todo universal e homogêneo tem construído modos naturalizados de vida. dentre alguns outros aspectos que serão aqui assinalados. portanto. tal fase é naturalmente percebida como a que exige cuidados. Ao lado dessas caracterizações tidas como “Portanto. a criança e o jovem têm sido construídos como seres em formação. “qualidades” e “defeitos” considerados típicos do jovem como entusiasmo. discutiremos alguns efeitos forjados hoje em nosso mundo globalizado pelas práticas que têm associado periculosidade. que traz como herança mais de trezentos anos de escravidão. encontradas nessa fase. visto produzirem esquemas dominantes de percepção do mundo”. sobre o que se poderá vir a fazer. a produção de subjetividade constitui matéria-prima de toda e qualquer produção . essas fases da vida carregariam certas marcas. dentre outras datas de nossa história. alegria. que seja importante pensar a emergência do capitalismo industrial – que esse autor chamou de sociedade disciplinar – quando as elites passam a se preocupar não somente com as infrações cometidas pelo sujeito. violência. pelo significativo número de crianças abrigadas. criminalidade2 Há anos trabalhando com algumas ferramentas propostas por Michel Foucault (1988). Para tal. de jovens cumprindo medidas de reclusão. em evolução. no que se refere às crianças e jovens pobres. uma existência livre. pois configurando para os filhos da pobreza duas em uma sociedade onde a liberdade classificações: a infância em perigo – aquela que é uma quimera. muito têm contribuído algumas teorias consideradas 1 No conceito de subjetividade dominante ou hegemônica. criminalidade e não humanidade à situação de pobreza. violenta. como imutáveis. o controle das virtualidades exercerá um papel fundamental na constituição de nossas percepções e subjetividades sobre a pobreza. glandulares e físicas. que emerge na Europa no século XIX. que morrem. ocorridos cotidianamente. considerada à época como fato natural. criminosa e não humana. suas atitudes. afirmando formas específicas de estar no mundo. impulsividade. esses chamados direitos humanos – princípios burgueses – não podem ser estendidos a todos e universais e científicas. pedem os leitos limpos dos meus guris?” (Jorge Simas/Paulo Cesar Feital) No ano em que se comemorou a chamada maioridade do Estatuto da Criança e do Adolescente. igualitária e fraterna não tem lugar. os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e os 120 anos da Abolição da Escravatura. Tem televisão qualquer barracão da escória desse país.

naquele mesmo período. desde que. temos a obra de Morel (1857). busca provar a inferioridade de determinados segmentos sociais.) você cria cachorro? Numa ninhada de cachorro vai ter sempre o cachorrinho que é mau caráter. Psiquiatria.. Entendemos – como nos apontou Karl Marx – que a formação da riqueza. o “Tratado das Degenerescências”. Por exemplo. a desigualdade e a competitividade são as regras do bom viver. produzindo-os. “purificação” são comuns nos tratados de Medicina. na Europa. a miséria. Portanto. DF (Ceilândia e Taguatinga). 57) Essas teorias racistas e eugênicas são realimentadas pela obra Ainda no século XIX. p. “raça pura”. movimentos que propugnaram e influenciaram as propostas de abolição da escravatura negra nas Américas. Por exemplo. os que já nasceram para o crime e vão praticá-lo de qualquer maneira” (Benevides. Este nada fazem.. econômicos. onde aparece o termo “classes perigosas”. retardos. É curioso observar que propostas deste tipo estão sempre se Segundo a lógica do capitalismo liberal. 1997. 147-148). ao mesmo tempo em que emerge a figura do trabalhador livre – segundo os interesses econômicos vinculados ao capitalismo liberal da época – produz-se uma essência para esse mesmo trabalhador. A teoria das disposições inatas para a criminalidade. em duas pré-escolas públicas. uma existência livre. defende ser possível distinguir. e cujo espírito não é suscetível de ser esclarecido ou mesmo consolado por qualquer ideia de ordem religiosa. mantendo-se dentro das normas vigentes. Qualquer uma destas variedades foi designada sob o justo título de classes perigosas (. o seu contrário. p.) dos parasitas.. crianças – em sua maioria filhos de migrantes nordestinos – são colocadas em fila para terem seus crânios e faces medidos. propugna em seus discursos que os direitos humanos. criminosos.” (Apud Benevides. asilos. da mole de gente absolutamente inútil que vive do jogo. condenando as misturas raciais e caracterizando-as como indesejáveis. como direitos universais através de suas famosas palavras de ordem: liberdade. Conceitos como “prole malsã”. Sociedade essa que. 1997. “inferiorização da prole”. os criminosos natos e os perigosos sociais. indolência. Fora tais “devaneios cientificistas”.) constituindo para a sociedade um estado de perigo permanente. (Apud Lobo. “procriação defeituosa”. pesquisadores da PUC/RS e da UFRGS propuseram um projeto para examinar o cérebro de jovens infratores. hospitais. definido da seguinte maneira: (. 1983. com sua Antropologia Criminal. idiotias. 1983. Ou seja. populariza-se entre os cientistas a Antropometria. também. nem o sentimento da moralidade dos atos. paradoxalmente. por intermédio de certas características anatômicas. O grupo se propõe a fazer um mapeamento cerebral por ressonância magnética para tentar entender as manifestações físicas do problema da delinqüência juvenil. para o delegado paulista Sérgio Paranhos Fleury – conhecido por sua participação em torturas a presos políticos durante a ditadura – “bandido era visto como um fenômeno da natureza”. “aperfeiçoamento da espécie humana”. cotidianamente. pois em uma sociedade onde a liberdade é uma quimera.científicas como as racistas e eugênicas. Ficam famosas. dos amorais. pari passu às teorias racistas e ao movimento eugênico e lhes servindo de base.. a partir de certos princípios defendidos por uma elite que ascende ao poder. seguindo o modelo da eugenia. dos loucos que enchem os hospitais. “A origem das Espécies” (1859).) no seio dessa sociedade tão civilizada existem “verdadeiras variedades” (. Antropologia e Direito do final do século XIX e início do século XX que pregam. dos que perambulam pelas ruas vivendo da caridade pública. assim. em 1974. 59 . que emergem também no século XIX. durante o período da ditadura militar em nosso país. desde que não participem dessas misturas indesejáveis. respeitem as regras impostas por uma sociedade de classes. defendia a esterilização “(. portanto. p. políticos. Renato Kehl. na Europa.. do vício. Em 2007.)” (Apud Lobo. Já desde o início do século XIX. “herança degenerativa”. p. É interessante notarmos que.. Definindo-se formas consideradas corretas e verdadeiras de ser e de existir.. temos definições mais grosseiras que.. doentes que Vários outros autores tentam contribuir na busca de bases científicas para essas teorias. Posteriormente. que vegetam nas prisões. indisciplinado.) que não possuem nem a inteligência do dever. Dizia ele: “(. desde que se mantenham no seu devido lugar. crânio e cérebro que. “degenerescência da espécie”. deficiências em geral.. de doenças físicas e morais (imbecilidades. indigentes. que é briguento e vai ter outro que se porta bem. produtoras de enfermidades. ainda tem muitos defensores entre nós (Waldhelm. as teses de Paul Broca (1824-1880) e Cesare Lombroso (1835-1909). por meio de comparações.. 55) de Charles Darwin. defendida por Lombroso. a esterilização dos chamados degenerados como profilaxia para os males sociais.. 56). com o objetivo de investigar as bases biológicas da violência dos que cometeram atos delituosos. que não adianta educar. Pela ótica do capitalismo esta passa a ser naturalmente percebida como advinda da ociosidade. ocorreram. inclusive entre os educadores da época. igualitária e fraterna não tem lugar. “embranquecimento”. “taras hereditárias”. no início do século XX. 1998). dentre outras). forjam-se subjetividades sobre a pobreza e sobre o pobre. O marginal é aquele cachorrinho que é mau caráter. também na Europa. a acumulação do capital produz.. medição de ossos. médico ligado ao movimento eugênico no Brasil. atualizando. igualdade e fraternidade. os trabalhadores livres têm liberdade para oferecer e vender sua força de trabalho no mercado. do roubo e das trapaças (. da libertinagem. último. por “ordens superiores”. sociais e culturais são direitos de todos. afirmam a existência de “bandidos de nascença. da indolência e dos vícios inerentes aos pobres. em duas cidades satélites de Brasília. são enviados à direção e aos professores dos referidos estabelecimentos laudos que descrevem as características emocionais e intelectuais dessas crianças. diz-se o que são e o que deverão ser. esses chamados direitos humanos – princípios burgueses – não podem ser estendidos a todos e caracterizados como universais.

agora qualificados como negligentes. da aliança entre médicos e juristas da época. que surge em 1964 durante o período da ditadura militar. Suas bases estão nas teorias racistas. a maior parte da população pobre brasileira. surge em 1927 a primeira lei brasileira específica para a infância e adolescência. aliando-se a alguns especialistas como pedagogos. a partir de estudos baseados nas condições estruturais da divisão da sociedade em classes sociais e no antagonismo e na violência resultantes dessa divisão. não é mais justificável retirar o poder familiar por pobreza. penetra em toda a sociedade brasileira. extrapolando o meio médico. concebe que os vícios e as virtudes são. Com base em tais crenças. ao longo de todo o século XX. com a criação de órgãos como o Serviço de Assistência ao Menor (SAM). descuidados. por sua vez. Rizzini (1997) discute a produção dos “pobres dignos” e dos “viciosos”. indicando e orientando como todos devem comportar-se. Mesmo autores mais críticos. embora a parcela dos “ociosos” seja a mais visada por seu “potencial destruidor e contaminador”. implantado em 1941 durante o Estado Novo. através da massiva prática de internação de crianças e jovens pobres. em especial após a emergência do Juizado de Menores. mas é possível fazê-lo alegandose negligência. são libertinos. Seus filhos devem ser afastados dos ambientes perniciosos. e afirma que para cada um deles serão utilizadas estratégias diferentes. em 1990. 60 . não mais para menores de idade de quaisquer classes sociais. em 1923. seriam portadores de degenerescências. por não pertencerem ao mundo do trabalho – uma das mais nobres virtudes enaltecidas pelo capitalismo – são portadores de delinquência. aliado aos ideais eugênicos e à teoria da degenerescência de Morel. Ao contrário. que passa a ser percebida e tratada como possuidora de uma “moral duvidosa” transmitida hereditariamente. mesmo quando. viver e morrer. indagam: “Diz o Estatuto que não mais se pode destituir o poder familiar por pobreza. violentos. Cunha e Domith (2008) ao construírem um debate que estabelece relações entre as práticas de desqualificação da família pobre e o processo de criminalização e penalização da pobreza. no darwinismo social e na eugenia. bem como entre pobreza e periculosidade/violência/criminalidade. Portanto. Tal movimento irá atravessar os mais diferentes setores da sociedade. nos dois períodos ditatoriais brasileiros. a mulher. Dessa forma. que mantêm a “família unida” e “observam os costumes religiosos” é necessário o fortalecimento dos valores morais. comer. Tal movimento. presente nas subjetividades dos brasileiros. Data daí a utilização do termo “menor”. Nascimento. mas não são os pobres. o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) retira o conceito de “menor” de seu texto legal. arquitetos/urbanistas e juristas. a periculosidade também está presente entre os “pobres dignos”.Ou seja. O conjunto dessas teorias estabelece/fortalece a relação entre vadiagem/ociosidade/indolência e pobreza. Silvio Romero e Henrique Roxo. originários dos ascendentes. ao longo dos anos. Esta elite científica está convencida de sua “missão patriótica” na construção de uma “Nação moderna” e suas propostas baseiamse em medidas que devem promover o “saneamento moral” do país. ainda no mesmo período. dentre outros. A partir desse mapeamento dos pobres. aqueles que traziam “má herança”. crianças e jovens foram afastados de suas famílias com a justificativa de que era preferível a internação a seus lares pobres. Assim. Afirma que aqueles advindos de “boas famílias” teriam naturalmente pendores para a virtude. Aos “pobres dignos”. o primeiro Código de Menores. segundo uma escala de moralidade. formado por muitos psiquiatras e juristas da elite brasileira e expoentes da ciência à época como Franco da Rocha. Tal política de internação se fortalece. a criança. Coroando e seguindo as pegadas de todas essas teorias encontramos. têm caído nesta armadilha de mecanicamente vincular pobreza e violência. Não é por acaso que. pois por sua natureza – a pobreza – também correm os riscos das doenças. Essa produção de infâncias e juventudes desiguais foi se constituindo. os higienistas afirmam que toda a sociedade deve participar dessa “cruzada saneadora e civilizatória” contra o mal que se encontra no seio da pobreza. com o ECA. pois são criminosos em potencial. Esta marca. criado para solucionar o problema da “infância e juventude desassistidas”. os médicos tomam para si a tutela das famílias. o movimento higienista que. trabalhar. pregando também o aperfeiçoamento da raça e colocando-se abertamente contra negros e mestiços. Atualmente. abandono ou maus-tratos. a cidade e os segmentos pobres. aqueles que trabalham. mas para um determinado segmento: o pobre. redefinindo os papéis que devem desempenhar em um regime capitalista a família. em grande parte. justifica-se uma série de medidas contra a pobreza. e a Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (Funabem). A “degradação moral” é especialmente associada à pobreza e percebida como uma epidemia que se deve tentar evitar. em um futuro próximo. O higienismo. aqueles que deverão ter suas virtualidades sob controle permanente. tidos como perniciosos. crianças e adolescentes. surge uma grande preocupação com a infância e a juventude que. atinge seu apogeu nos anos de 1920. leia-se os pobres. se impõe até hoje. para erigir uma Nação. todos aqueles que não fossem corpos úteis e dóceis para o mercado. Nina Ribeiro. Infância e juventude. maus pais e vadios. durante toda a vigência dos Códigos de Menores (1927 e 1979). principalmente para essa parcela da população. quando da criação da Liga Brasileira de Higiene Mental pelo médico Gustavo Riedel. no Brasil. pois pertencem a uma classe “mais vulnerável aos vícios e às doenças”. que continuam a perder a guarda dos filhos?” Já os pobres considerados “viciosos”. Daí a necessidade de medidas coercitivas. Detentores da ciência. dormir. morar. sobretudo. como as ruas e até mesmo de suas próprias casas. deveria ser esterilizada toda a população pobre brasileira que não estivesse inserida no mercado de trabalho capitalista. o jovem. A Medicina passa a ordenar o modelo ideal de família nuclear burguesa. poderão compor as “classes perigosas”: as crianças e os jovens “em perigo”. são as designações que deverão ser utilizadas em substituição à categoria “menor”. Representam um “perigo social” que deve ser erradicado.

com base nas políticas noeliberais. Ao fugir a esses territórios modelares entra-se para a enorme legião dos “perigosos”. dizendo-se destinados ao “regime educativo” e com a finalidade de “prevenção ou preservação”. diferentes dispositivos sociais vêm produzindo subjetividades em que o “emprego fixo” e a “família organizada” tornam-se padrões de reconhecimento.) (Bulcão. Entretanto. vêm coexistindo simultaneamente. por isso. nas quais o trabalho inexiste e as políticas públicas são totalmente ineficazes e a punição se faz cada vez mais frequente. a partir do fortalecimento do Estado penal e de subjetividades policialesco-punitivas. (. mesmo.Estabelecimentos denominados. No contemporâneo. hospital. Enquanto o primeiro se baseava no princípio do menor como sinônimo de carente. cada vez mais. que vem se mesclando com o que Foucault (1986) denominou de biopoder. legitimação sociais e direito à vida. ou “sociedade do espetáculo” (Debord. Estado penal. desde o início do século XX. 1997) e mesmo de “sociedade de controle” (Deleuze.. o Juiz os encaminhava aos estabelecimentos (. escola. aceitação. daí o extermínio. essa “nova era” caracteriza-se. o espaço jurídico prevê a reeducação. trabalhadores exemplares e bons pais de família. afastados. evitados. estabelecimentos desaparelhados em termos materiais e de pessoal. são os “excluídos por excelência” (Forrester. suas vidas de nada valem. mesmo após o ECA. do crime organizado. a partir de meados dos anos 1980. Se trouxermos esta análise para o presente. de falta de equipamentos e de funcionários. no neoliberalismo. O ECA – seus avanços e limites Se no capitalismo liberal as crianças e os jovens pobres foram recolhidos em espaços fechados para serem disciplinados e normatizados na expectativa de que fossem transformados em cidadãos honestos. Para estes. não são mais necessários ao mercado. mas “tutelados”. especialmente através da produção de modos de ser. na Europa. em pleno século XXI. flexibilização do trabalho. Em realidade. os meios de comunicação de massa e todos esses processos de subjetivação passam também a ser instrumentos de controle social. onde são cotidianas as situações de violência. No conjunto dessas medidas. Sua atuação em redes ilegais como o circuito do narcotráfico. Há. não eram “condenados”. prisão. as chamadas prisões da miséria. e que se verifica até os dias de hoje. de “depósitos”.. desestatização da economia. daqueles que são olhados com desconfiança. podemos dizer que a prática da violência nos internatos não é uma característica do passado. Sob égide do Juiz. tal situação de exclusão pouco mudou e o que vemos nesses estabelecimentos é um quadro de superlotação.. inúmeros casos de “privação de liberdade” aplicada para os que têm entre 12 e 18 anos. vem se implantando um modelo de sociedade chamada por alguns de Até 1990. crianças e jovens quando escapam do Em nosso país. Sabemos que a situação da pobreza vem se agravando. medo. fábrica. articulados midiaticamente ao crescimento do desemprego. pois sequer conseguem chegar ao mercado de trabalho formal. não é por acaso o alto índice de crianças e jovens pobres exterminados. após a Segunda Guerra Mundial. afastando-os do convívio das ruas. em especial. A internação nestes estabelecimentos. que preparam para o trabalho. Já para as crianças pobres. dos sequestros. pelas diferentes formas de controle ao ar livre que vêm se misturando às disciplinas que operam em sistemas fechados como família. certamente não escapam do recolhimento em abrigos e internatos. como práticas de trabalho à medida que aumenta a apartação social. segundo o sociólogo Loic Wacquant (2001). têm produzido fortes marcas em suas existências: os que conseguem sobreviver aos extermínios. hoje. p. a internação e a preparação para o trabalho. chamadas de proteção. mais que a educação e recuperação dos menores. Essas duas legislações seguiram uma lógica que colocava no terreno da imoralidade. essas duas formas de funcionamento social. disciplinar e de controle. que se encontram em mãos de entidades filantrópicas e caritativas.) Outra preocupação que se fazia presente naquela época. da anormalidade e mesmo da patologia os modos 61 . o marketing. de constantes torturas e violações.1997).. com a necessidade de colocar em ordem os “desviados” ou aqueles que poderiam vir a ser. exterminados. percebemos naquela época uma forte preocupação com a disciplinarização das crianças pobres. dentre outros vem sendo tecida como única forma de sobrevivência e se prolifera. encaradas como espaço pernicioso. ocorrida em 1979. o Estado vai construindo um modelo do que diz ser assistência à pobreza. A exclusão e a alienação de crianças e jovens pobres. a mudança de 1979 se pautou no princípio da “situação irregular”. 2001. são supérfluos. enclausurados e. 1993). pobre e criminoso em potencial. 1992). Em nosso país. menores de 12 anos. Importante assinalarmos que. da exclusão. era a tendência de se oferecer ofícios profissionalizantes em oficinas. privava-os da liberdade. os menores não eram “julgados”. mas “internados”. pânico.. os profissionais que trabalhavam na área dos direitos da criança e do adolescente tinham suas atuações apoiadas no Código de Menores de 1927 e em sua posterior reformulação. viver e existir. 60) “sociedade de acumulação flexível de capital” (Harvey. De um modo geral. restam os abrigos. Para os que conseguem sobreviver. Visando assegurar sua assistência e proteção. Hoje. com o neoliberalismo. são locais onde crianças e jovens pobres sofrem toda sorte de maus-tratos. competitividade. Muitos jovens pobres maiores de 18 anos encontram-se nas prisões. Voltando ao século XX e à vigência dos Códigos de Menores. Assim. Nesse dantesco quadro. mas sim “protegidos” e não eram “presos”. mas em funções socialmente desvalorizadas e de baixa remuneração (. da pobreza e da miséria. Para a pobreza há um caminho já delineado.) onde deveriam ficar internados pelo tempo por ele determinado.. livre comércio e privatização – temos uma massiva produção de insegurança. pelo envolvimento com a ilegalidade. com a gradativa implantação de medidas neoliberais – globalização do mercado. à época da vigência dos Códigos de Menores. estão previstos diferentes tipos de enclausuramento. extermínio. também.

Não percebemos como nossas práticas têm forjado/fortalecido a todo o momento os modelos de bom cidadão. inventar e criar outras formas de atuar. cuidarem e protegerem seus filhos. produzindo os mais surpreendentes efeitos. Algumas conclusões de um campo ainda em aberto Talvez alguns outros caminhos possam ser trilhados se nos detivermos sobre a importância e a função que as práticas sociais têm em nosso mundo. assim. de estar e de existir em um mundo dito flexível e pósmoderno. da degenerescência e da evolução das espécies. São as práticas sociais que fazem aparecer os diferentes objetos. Em contraposição aos Códigos de Menores. apesar do avanço que o ECA significa para a política de proteção a crianças e jovens brasileiros. ideais dos pobres educarem. ao longo de todo o século XX. uma natureza que lhes seria própria – este filósofo propõe uma outra forma de entender o mundo. de ser profissional-militante. ainda hoje dominante no Ocidente – que entende objetos. se aceitamos que os “especialismos” técnico-científicos que fortalecem a divisão social do trabalho no mundo capitalista têm tido. ainda são mantidas práticas menoristas e atos de violência. É interessante notar que os princípios que regiam os dois códigos sofreram influência direta do higienismo. incentivavam-se as adoções de crianças pobres. existe por parte dos segmentos subalternizados. invisíveis e apresentados como desinteressados. afirma a criança e o jovem de qualquer segmento social como sujeitos de direitos. dentre outras funções. em especial de seus jovens. É inegável a importância trazida pelo ECA no que se refere ao reordenamento jurídico vinculado à área da infância e da juventude e à proteção dos direitos e garantias para estes segmentos da população. É fundamental sua defesa no sentido de torná-lo uma realidade. apesar das políticas oficiais e oficiosas. o para que fazemos nunca é mencionado. delituosas e. datadas e advindas das práticas sociais. é uma tentativa de igualar em cima de valores burgueses modos de vida que continuam desiguais e que tendem. que nasce no bojo dos novos movimentos sociais emergentes nos anos de 1980. fora dos padrões reconhecidos como organizados e até mesmo como condutas anti-sociais. baseado nas profundas desigualdades das relações sociais – o trabalho daqueles que atuam na área da criança e da juventude reveste-se de enorme importância. aceitos como universais e verdadeiros. mas que são entendidas como possuidoras de essências diferentes? Tal lógica é formulada a partir de princípios considerados científicos que vêm historicamente caracterizando as crianças e os jovens dentro de modelos dominantes. Ou seja. As formações profissionais em geral nos têm ensinado a caminhar sempre guiados por modelos que irão indicando o que devemos fazer e como devemos fazer. dentre outras práticas de exclusão. mais do que uma versão do modo de produção capitalista atual. Entretanto. bom marido. pois percebidos como naturais. saberes e sujeitos. Ou seja. constituem-se em poderosos instrumentos de reprodução e/ou criação. Entretanto. Entendemos. estigmatizam e tentam destruir a pobreza.de vida das famílias pobres. no neoliberalismo.. a se tornar cada vez mais distantes entre si. Eles teimam em continuar existindo. Entender que os discursos/ações do capital. é uma forma eficaz de definir modelos de ser. portanto. sujeitos e saberes como produções históricas. Essa população pobre e marginalizada cria e inventa outros mecanismos de sobrevivência e de luta. a lógica de igualar infâncias e juventudes tão desiguais em termos sócio-econômicos. saberes e sujeitos como tendo uma essência. suas resistências se fazem cotidianamente. a de produzir verdades vistas como absolutas e universais e a desqualificação de muitos outros saberes que se encontram no mundo. em crescimento. Ao contrário. se entendemos como importante em nossas práticas cotidianas a análise de nossas implicações. Partindo dessa lógica é possível avaliar como nossas práticas cotidianas. assinalando o que nos atravessa. Há de se estar atento e perceber que. por menores e mais invisíveis que sejam. a necessidade do Estado tomar para si a tarefa de proteger crianças e jovens cujas famílias eram consideradas fora das normas. O Estatuto da Criança e do Adolescente. Questionando o pensamento. Especialmente nesses tempos neoliberais – em que a globalização e todos os seus corolários. muitas vezes microscópicos. desfazendo a separação entre “menor” e criança. resistências e lutas. crianças e jovens. bom pai. bom filho. os textos das duas leis defendiam que existiam formas melhores e. que marcaram os momentos de emergência dessas leis. culturais e históricos faz parte dos princípios e modelos defendidos pelo liberalismo. através de diferentes ações. Se consideramos os objetos. apesar de tudo. muitas vezes percebidas como fragmentadas. de desrespeito e de abuso que fazem parte do cotidiano dos estabelecimentos onde são aplicadas as chamadas medidas protetivas e sócioeducativas preconizadas por esta nova legislação. essas formações nos fazem acreditar na neutralidade e objetividade de nossas atuações. Com base nisso. notadamente sua infância e juventude. e o que constituímos e produzimos com essas mesmas práticas. justificando. aliado às teorias racistas. em desenvolvimento. por isso. justificavam-se as propostas de retirada do pátrio poder devido à condição de pobreza. nos constitui e nos produz. internavam-se os chamados abandonados. resistindo teimosamente às exclusões e destruições que vivenciam diariamente em seu cotidiano e conseguindo. considerar a criança e o jovem enquanto sujeitos de direitos afirmados como universais não faria parte de uma proposta liberal? Uma proposta de igualar juventudes e infâncias desiguais. recusando a prática da internação como primeiro e principal recurso das medidas chamadas de assistência à infância e à adolescência. pois baseados em formulações consideradas científicas. poderemos pensar. bom aluno etc. “perigosas”. 62 . eugênicas. pois mesmo após 18 anos de existência. retirando o princípio da “situação irregular”. Por outro lado. vêm afirmando outras formas de funcionamento e de organização que fogem aos pré estabelecidos. portanto. têm poderosos efeitos: excluem. como já foi assinalado por Foucault (1988). preconiza a lógica da “proteção integral”. que. onde eles são vistos como seres em formação.

Tese de Doutorado. Os infames da história: a instituição das deficiências no brasil. I.FOUCAULT.LOBO. O Clero in Carta ao Rei. Rio de Janeiro: Oficina do Autor. P. O horror econômico. . 7. M. 1986. criações. É verdade que foram e continuam sendo ignorados pela história oficial. 1997. .algumas vezes.)aprendi que se depende sempre de tanta muita diferente gente toda pessoa sempre é as marcas das lições diárias de outras tantas pessoas. Apesar desse competente apagamento oficial vêm ocorrendo várias e diferentes experiências empreendidas por crianças e jovens em seus cotidianos. Rio de Janeiro.RIZZINI. L. PUC. 2003. Rio de Janeiro: Nau. fortalecê-las.. Rio de Janeiro: Oficina do Autor. Niterói.WACQUANT. M. pelos chamados intelectuais. e Feital. Dissertação de Mestrado. 14. J. forjam mudanças micropolíticas em seus atores e nos cenários onde atuam. L. Dissertação de Mestrado.Simas. expressas através da música. L. . Rio de Janeiro: Jorge Zahar. .FORRESTER. .C. In: Revista de Psicologia e Política. A Condição pós-moderna. L. 1997. Operação Rio: o mito das classes perigosas.COIMBRA. 1993. escapar ao destino traçado pela lógica do capital e entendido como inexorável e imutável.HARVEY.V. É tão bonito quando a gente vai à vida nos caminhos onde bate bem mais forte o coração. . V. Faculdade de Educação UFF.V. A Sociedade do espetáculo.COIMBRA. de outras artes. C. São Paulo: UNESP. M. Conversações.BENEVIDES. sem data. 1983. . ver que existem. O séculoperdido: raízes históricas das políticas públicas para a infância no Brasil. Discografia . . 2001. 1998. C. . O importante é percebê-las. . D.. muitos desses movimentos de resistência. B. 1996. 1982. . Jovens pobres: o mito da periculosidade in Fraga e Iulianelli (orgs.NASCIMENTO. G. Professora do Departamento de Psicologia/UFF 63 . Produção independente.WALDHELM. . fundadora e atual Presidente do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ ** MARIA LÍVIA DO NASCIMENTO Doutora em Psicologia. Sem pretender racionalmente fazer revoluções. São Paulo: Brasiliense/CEDEC. sem dúvida.. F.FOUCAULT.BULCÃO. M. Petrópolis: Vozes. 1997.C. As prisões da miséria. D. A desqualificação da família pobre como prática de criminalização da pobreza. . 2001.1992. Rio de Janeiro: Editora 34.” (Gonzaguinha) Referências bibliográficas .DELEUZE. 1995. nos aliarmos a elas. Rio de Janeiro: Contraponto. * CECILIA MARIA BOUÇAS COIMBRA Doutora em Psicologia. L.COIMBRA. M. mudar o presente e preparar o futuro. L. I.Gonzaguinha. E é tão bonito quando a gente entende que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá É tão bonito quando a gente sente que nunca está sozinho por mais que pense estar.) Jovens em tempo real Rio de Janeiro: DP&A. pelos grandes meios de comunicação. Departamento de Psicologia UFF. CUNHA. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Niterói: Intertexto. invenções. 2001. É tão bonito quando a gente pisa firme nessas linhas que estão nas palmas de nossas mãos. . M A verdade e as formas jurídicas. . produzem revoluções moleculares.. M. B. Investigando as práticas do juizado de menores de 1927 a 1979.1997. v. Niterói/RJ. M.F. M-Odeon. “(. que configuram práticas de resistência. B. de redes de solidariedade. de microorganizações coletivas. Caminhos do coração in Caminhos do coração. São Paulo: Loyola. Guardiães da ordem: uma viagem pelas práticas psi no Brasil do milagre. Rio de Janeiro: Santa Úrsula/ Amais.e NASCIMENTO. M. povo e política. no. Violência. afirmam e apontam para novos caminhos. M. C.DEBORD. 2007. e VICENTE. . Produção sócio-política do corpo nos livros didáticos de ciências editados nas décadas de 60 a 90. Professora do Departamento de Psicologia/UFF. G.

Os direitos humanos se transformaram em um jogo excludente entre as duas “superpotências” envolvidas em uma luta ideológica e geopolítica para estabelecer sua supremacia. ignoraram os abusos de direitos humanos que provocam e que aprofundam a pobreza. Eles tinham pleno conhecimento dos horrores da II Guerra Mundial e tinham consciência da realidade sombria que viria com a Guerra Fria. os é eventos que a positivos. civis. os governos medíocres e a impunidade generalizada para as violações de direitos humanos reinavam absolutos em muitas partes do mundo. entre o direito de não ser torturado e o direito à segurança social. em nível internacional. ou lutaram pela democracia e pelo Estado de direito. Ao invés de favorecer a dignidade e o bem estar das pessoas. Sua visão não se limitava apenas ao que acontecia na Europa. sejam eles econômicos. A promessa da Declaração Universal dos Direitos Humanos continuou a existir só no papel. Em 2007. sociais. Enquanto isso. Nos anos seguintes. ou abandonaram-nos de vez para adotarem diversas formas de autoritarismo. alimentando suspeitas. mais uma vez. discriminação e preconceitos. A promessa da Declaração Universal dos Direitos Humanos continuou a existir só no papel. 64 . regional e nacional. Nessas seis décadas. Ao entrarmos no século XXI. Em um verdadeiro exercício de liderança. em sua grande maioria.1 IRENE KHAN* Os líderes mundiais devem se desculpar por não terem cumprido a promessa de justiça e de igualdade que fizeram com a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). em sua grande maioria. em uma atitude de extrema liderança. Eles reconheceram que a universalidade dos direitos humanos – todas as pessoas nascem livres e iguais – e sua indivisibilidade – todos os direitos. poderia fazer frente aos desafios que estavam por vir. tanto entre governos quanto entre populações. devem ser realizados com o mesmo empenho – são a base de nossa segurança coletiva e de nossa humanidade comum. injustiça. Os redatores da DUDH agiram com a convicção de que somente um sistema multilateral de valores globais. justiça e no Estado de direito. 1948 foi também o ano em que a Birmânia ganhou sua independência. o que mais surpreende é a unidade de propósitos demonstrada pelos Estados-membros da ONU Em 1948. eles resistiram às pressões de campos políticos que se opunham. a desigualdade e a impunidade continuam sendo alguns dos aspectos mais marcantes do mundo de hoje. os direitos humanos eram usados como instrumento para promover objetivos estratégicos. Apesar de os líderes mundiais alegarem ter-se comprometido com a erradicação da pobreza. medo. Estados. muita coisa melhorou por causa dessas normas e princípios. restringindo liberdades. através do qual todos os Estados-membros das Nações Unidas concordaram em debater publicamente seu desempenho em questões de direitos humanos. baseado em igualdade. Hoje. a liderança visionária deu lugar a interesses políticos estreitos. políticos ou culturais. completou-se um ano de funcionamento pleno do Conselho de Direitos Humanos da ONU.PROMESSAS QUEBRADAS. Apenas uma pequena porção de países negaria abertamente à comunidade internacional o direito de examinar sua situação de direitos humanos. em uma questão desagregadora e destrutiva entre “ocidentais” e “não-ocidentais”. Os Estados-membros de uma Organização das Nações Unidas que recém ensaiava os primeiros passos demonstraram ter grande visão e coragem quando depositaram sua confiança em valores globais. A esperança sobre os direitos humanos aumentou com o fim da Guerra Fria. Rejeitaram qualquer hierarquia entre o direito à liberdade de 1 Introdução ao Relatório Anual 2008 da Anistia Internacional. a corrupção. muitos governos se mostraram mais interessados em abusar do poder ou em perseguir seus próprios interesses políticos do que em respeitar os direitos de quem representam. ignoraram os abusos de direitos humanos que provocam e que aprofundam a pobreza. Grande parte do mundo ainda se encontrava sob o jugo do colonialismo. olhando para trás. marcadas por abusos de direitos humanos perversos em grande escala. Apesar a de todos porém. Isso não significa negar os progressos que foram feitos no desenvolvimento de normas. O número de países que hoje oferecem proteção legal e constitucional para os direitos humanos é maior do que nunca. os ataques terroristas de 11 de setembro transformaram o debate de direitos humanos. mas foi frustrada por uma explosão de conflitos étnicos e pela implosão de vários realidade. que Mahatma Gandhi foi assassinado e que as leis de apartheid passaram a ser introduzidas na África do Sul. os líderes mundiais se reuniram para adotar a Declaração Universal dos Direitos Humanos. expressão e o direito à educação. o outro rebaixava os direitos econômicos e sociais. adotada há 60 anos. sistemas e instituições de direitos humanos. mas também novos desafios.” e que se encontravam em meio à disputa entre as potências. desencadeando uma série de emergências humanitárias. As forças da globalização econômica trouxeram novas promessas. Enquanto um dos lados negava os direitos civis e políticos. Em diversos lugares do mundo. Os países que recém haviam conquistado sua independência “Apesar de os líderes mundiais alegarem ter-se comprometido com a erradicação da pobreza.

alguns governos europeus procuraram enfraquecer uma decisão da Corte Européia de Direitos Humanos. mas fizeram muito para prejudicar o prestígio e a influência dos Estados Unidos no estrangeiro. reafirmando a proibição absoluta da tortura e de outras formas de maus-tratos. Contudo. proibindo o repatriamento de suspeitos para países em que poderiam sofrer tortura. entre os líderes mundiais. hoje. Muitos deles estão há mais de seis anos nessa condição. E quanto às novas lideranças e às pressões da sociedade civil. Deverá revogar a Lei de Comissões Militares e assegurar o respeito pelo direito internacional humanitário e pelos direitos humanos em todas as suas operações militares e de segurança. Enquanto muitos reclamam por causa dos excessos regulatórios da UE. o quadro não é nada promissor. O presidente dos EUA autorizou que a CIA prosseguisse com as detenções e com os interrogatórios secretos. os Estados Unidos estabelecem os parâmetros para o comportamento dos governos em todo o mundo. as políticas repressoras do Presidente Musharraf. A vacuidade dos pedidos por democracia e por liberdade no exterior. farão alguma diferença neste ano de aniversário? Um histórico desanimador Na condição de país mais poderoso do globo. nenhum governo investigou completamente esses delitos. o que possibilitará uma segurança duradoura. ficou evidenciada através de seu constante apoio ao Presidente Musharraf. feitos pelo governo dos EUA. Existem muito mais países hoje do que em 1948. ninguém se incomoda com a falta de regulação em matéria de direitos humanos no âmbito interno da União. como fizeram seus predecessores em 1948. indicam que. soltá-los. longe de conter a violência extremista. O mundo precisa que os Estados Unidos estejam verdadeiramente engajados e comprometidos com a causa dos direitos humanos. criada em 2007. comprometida com a tolerância. de defensores de direitos humanos e de ativistas políticos que clamavam por democracia. o governo dos EUA prosseguiu em seus esforços para enfraquecer a proibição absoluta da tortura e de outros maus-tratos. O novo governo deverá estabelecer uma estratégia viável para a paz e a segurança internacionais. continuaram a ser detidos sem acusação nem julgamento. Algumas ex-colônias estão entrando no jogo global lado a lado com seus antigos senhores coloniais. a população dos EUA elegeu um novo presidente. A União Européia (UE) pretende ser “uma união de valores. surgiram novas evidências de que diversos Estados-membros da União Européia voltaram-se para o lado oposto e foram coniventes com a CIA no sequestro. quaisquer que sejam suas finalidades. o novo governo deverá fechar a prisão de Guantánamo e julgar os detentos em tribunais federais comuns ou. Agora. tanto em seu território quanto no exterior. Essas ações não contribuíram em nada para fazer avançar a luta contra o terrorismo. uma visão compartilhada sobre como lidar com os desafios contemporâneos de direitos humanos em um mundo que está cada vez mais ameaçado. porém. Enquanto o Presidente Musharraf ilegalmente impunha um estado de emergência. O cenário político. não há. ainda. estar preparado para acabar com o isolamento dos EUA no sistema internacional de direitos humanos e para engajar-se de maneira construtiva com o Conselho de Direitos Humanos da ONU. na detenção secreta e na transferência ilegal de prisioneiros para países em que foram torturados ou sofreram maus-tratos. Para que o país tenha autoridade moral como defensor dos direitos humanos. A Agência dos Direitos Fundamentais da União Européia. por um Estado de direito e por independência do Judiciário no Paquistão. é muito diferente do que era 60 anos atrás. os governos da Europa têm demonstrado uma propensão à aplicação de dois pesos e duas medidas. de jornalistas. o povo paquistanês manifestou o quanto repudia suas políticas. Embora a UE estabeleça parâmetros de direitos humanos elevados para os 65 . além de milhares no Iraque. Apesar dos repetidos apelos do Conselho da Europa. A insegurança crescente nas cidades e nas regiões de fronteira do Paquistão. lançando as sementes de uma maior instabilidade na sub-região. Embora os EUA continuem a acolher o Presidente Musharraf.àquela época. Pode-se esperar que as potências novas e as antigas se unam. têm fomentado as desavenças e contribuído para estimular sentimentos antiocidentais. O governo dos EUA não só fracassou em tratar da impunidade de suas forças no Iraque. então. Se o governo dos Estados Unidos tem se destacado recentemente por afrontar o direito internacional. Autoridades de alto escalão recusaram-se a denunciar a infame prática de asfixia na “prancha d’água” (waterboarding). Deverá proibir as provas obtidas mediante coerção e denunciar todas as formas de tortura e de outros maus-tratos. Com um obscurecimento legal impressionante. quando adotaram a DUDH por absoluto consenso. moldada por normas comuns e pelo consenso. incluindo desaparecimentos forçados e detenções arbitrárias. frente a inúmeras e urgentes crises de direitos humanos. Ao contrário. inseguro e desigual. mesmo que isso consista no crime internacional de desaparecimento forçado. A verdade é que a União Européia não consegue cobrar de seus Estados-membros responsabilidade por questões de direitos humanos externas ao arcabouço legal da UE. A Corte se pronunciou com relação a um dos dois casos que ainda aguardavam decisão em 2007. Centenas de prisioneiros em Guantánamo e em Bagram. o governo estadunidense justificava o apoio que lhe dava alegando tratar-se de um aliado “indispensável” na “guerra ao terror”. recebeu um mandato tão limitado que não lhe permitia exigir qualquer prestação de contas. de 1996. unida pelo respeito ao Estado de direito. quando o governo paquistanês prendia milhares de advogados. em 2007. no Estado de direito e nos direitos humanos. nem deixou claro o que aconteceu ou adotou medidas adequadas para impedir uma futura utilização do território europeu para transferências extrajudiciais e detenções secretas. concedendo imunidade à empresa de segurança privada Blackwater durante as investigações sobre as mortes de civis iraquianos em setembro de 2007. destituía o presidente do Supremo Tribunal e lotava os tribunais superiores com juízes mais obedientes. Deverá. para reafirmar seu compromisso com os direitos humanos? A julgar por 2007. Em novembro de 2008. Deverá abandonar o apoio a líderes autoritários e investir em instituições democráticas. a democracia e os direitos humanos”. como ainda foi na direção contrária.

se o país quiser proteger seus bens e seus cidadãos no exterior. do Zimbábue. foram obscurecidos pela repressão aos ativistas de direitos humanos e à imprensa dentro da China. eles podem violar as normas da UE. A China é o maior parceiro comercial do Sudão e o segundo maior de Mianmar. a China votou contra uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que condenava as práticas de direitos humanos de Mianmar. não é imutável nem intratável. muçulmanos e outras minorias que vivem dentro de seu próprio território? se não para os Estados Unidos. assinado pelos governos da União Européia em dezembro de 2007. Poderão os Estados-membros da UE pedir que a China ou a Rússia respeitem os direitos humanos quando eles mesmos são cúmplices com a tortura? Poderá a UE pedir que outros países – muito mais pobres – mantenham suas fronteiras abertas quando seus próprios Estados-membros estão restringindo os direitos dos refugiados e dos requerentes de asilo? Poderá a União Européia pregar a tolerância no exterior quando fracassa em enfrentar a discriminação contra ciganos. No período que antecedeu os Jogos Olímpicos. porém. Potências emergentes Tanto com relação a Mianmar quanto a Darfur. o maior fornecedor de armas para o Sudão. Um dos exemplos mais visíveis da esterilidade que infundiram aos direitos humanos foi o caso de Mianmar. tendo que prestar pouca ou nenhuma satisfação à organização. Eventos como esses oferecem oportunidades para iniciativas de direitos humanos tanto no âmbito da UE quanto em nível global. porém. foi um período de importantes transições políticas. Milhares de pessoas continuaram a ser detidas em Mianmar. há muito tempo. o conflito tornou-se ainda mais complexo e uma solução política tornou-se ainda mais remota. não 66 . e que um jogador global. o país votou a favor do destacamento de uma força de manutenção da paz híbrida para Darfur. deverá apoiar valores globais que criem estabilidade política a longo prazo. Em O ano de 2008. tanto para os EUA quanto para a UE. mesmo com essas mudanças em sua diplomacia. a China ainda tem um longo caminho a percorrer. de Mianmar e do Zimbábue. eleições e outros acontecimentos políticos fizeram ou farão emergir novas lideranças políticas. hostilizou e tomou como reféns seus amigos e seus familiares. e diminuiu o apoio aberto que dava ao Presidente Mugabe. isso não teve. e é isso que os direitos humanos propiciam. como o país com a influência política e econômica necessária para fazer as coisas acontecerem – e não sem razão. O Tratado de Lisboa. É possível que também a China esteja começando a reconhecer que apoiar regimes instáveis com má reputação em direitos humanos não faz sentido para os negócios e que. A Anistia Internacional e outras organizações de direitos humanos. definindo os direitos humanos como sendo um assunto interno de Estados soberanos e não como uma questão de sua política internacional de modo que convenha aos interesses políticos e comerciais chineses. como parte de um esforço para “limpar” Pequim antes das Olimpíadas. o posicionamento de forças híbridas da União Africana e da ONU na região ainda não havia acontecido integralmente. O governo chinês. A junta militar do país reprimiu com violência as manifestações pacíficas organizadas por monges. praticamente. espancou. ao passo que os confrontos aumentaram. o país ainda terá de cumprir as promessas de direitos humanos que fez antes das Olimpíadas de Pequim. A Anistia Internacional. 2007. também em Darfur os governos ocidentais praticamente não exerceram qualquer influência sobre a situação de direitos humanos. observados em 2007. Assim que baixar a poeira das Olimpíadas. no passado. sua habilidade para influenciar os outros diminui. Apesar de uma série de resoluções do Conselho de Segurança da ONU. sendo a mais proeminente entre eles a ganhadora do prêmio Nobel da Paz. desde 2004. invadiu e fechou monastérios.países que pretendem aderir ao bloco (e o faz com razão). Quando os Estados Unidos e a União Européia causam danos a sua reputação em matéria de direitos humanos. deverá reconhecer que a liderança global traz consigo responsabilidades e expectativas. tais como os do Sudão. para o sofrimento das pessoas. Há muito tempo que a China justifica seu apoio a governos abusivos. o mundo voltou- nas regras para a imprensa estrangeira. uma vez que esses países são admitidos. entre as quais ao menos 700 prisioneiros de consciência. prendeu e atirou nos manifestantes. qualquer efeito concreto sobre a situação de direitos humanos. Entretanto. Em alguns dos Estados-membros mais importantes. através de suas pesquisas. Algumas reformas na aplicação da pena de morte e o relaxamento Do mesmo modo que em Mianmar. motivaram a China a estabelecer relações com regimes repressores. mostrou que armamentos chineses estão sendo transferidos para Darfur em desafio ao embargo de armas imposto pela ONU. de sua parte. e também pela ampliação do escopo da “reeducação pelo trabalho” (uma forma de detenção sem acusação ou julgamento). que passou 12 dos últimos 18 anos sob prisão domiciliar. confiscou e destruiu propriedade. A posição da China. Além disso. em 2007. se é que algo aconteceu. Em janeiro de 2007. Os assassinatos. isso não fez quase nenhuma diferença. Aung San Suu Kyi. podem muito bem ser a razão para as mudanças observadas hoje em suas políticas para esses países: a necessidade de fontes confiáveis de energia e de outros recursos naturais. o espaço para melhoras na situação de direitos humanos da China foi reduzido. têm argumentado que países com má reputação em matéria de direitos humanos não criam um ambiente propício para os negócios – negócios precisam de estabilidade. Embora a indignação e as amplas mobilizações da opinião pública internacional tenham gravado o nome de Darfur na consciência mundial. Os mesmos fatores que. Os EUA e a UE condenaram essas ações em termos bastante fortes e intensificaram seus embargos comerciais e de armamentos. O país continua sendo. se quiser ser digno de crédito. os estupros e a violência prosseguiram implacavelmente e. pressionou Mianmar a aceitar a visita do enviado especial da ONU. exige que novos compromissos institucionais sejam engendrados por seus Estados-membros. mas para a China. a comunidade internacional precisará desenvolver uma estratégia eficaz para levar o debate de direitos humanos com a China a um plano mais produtivo e mais progressivo.

porém. em 2007 a Assembléia Geral da ONU demonstrou seu potencial de liderança ao adotar uma resolução pedindo uma moratória universal da pena de morte. como no caso de Israel e dos Territórios Palestinos Ocupados. maior que a da África do Sul. quando protestaram contra o estabelecimento de uma zona econômica especial para a indústria. a Índia ainda precisa ser mais enérgica em sua implementação doméstica e mais franca ao exercer sua liderança internacional. manifestações pacíficas foram dispersadas com o uso da força. Direitos humanos não são valores ocidentais – na verdade. pela Rússia e pela ONU) em lidar com a impunidade e com a injustiça. Em Mianmar. Bengala Ocidental. o país teve uma atuação positiva. O sistema judicial permaneceu vulnerável a pressões do Executivo. para conseguir justiça. Países como Brasil e México têm sido firmes tanto na promoção dos direitos humanos em nível internacional quanto em seu apoio à engrenagem de direitos humanos da ONU. enquanto a junta militar investia com violência contra as manifestações pacíficas realizadas por monges e por outros manifestantes. acabando com um prolongado conflito armado que provocou abusos de direitos humanos de enormes proporções. qual é o futuro dos direitos humanos? O caminho pela frente tem muitas pedras. que tipo de liderança podemos esperar de potências emergentes como a África do Sul. Terá o Conselho de Direitos Humanos da ONU esse tipo de liderança em 2008 quando adotar o sistema de Revisão Periódica Universal? Em setembro de 2007. No Conselho de Direitos Humanos da ONU. em Estrassburgo. defensores de direitos humanos e jornalistas eram ameaçados e atacados. 67 . Eles são valores universais e. sofrimento e prejuízo” à população indígena aborígine. 143 dos Estados-membros da Assembléia Geral da ONU votaram a favor da adoção da Declaração sobre os Direitos dos Povos Indígenas. O governo da África do Sul. Em 2007. inclusive com relação aos direitos humanos. em uma demonstração de liderança corajosa e impressionante. o novo presidente russo. o Brasil e a Índia? Como uma democracia liberal de bases bem estabelecidas. exercido pressão sobre os jornalistas independentes e introduzido controles para refrear as ONGs.poderá ignorar os valores e princípios que formam a identidade coletiva da comunidade internacional. dará um tratamento diferente às questões de direitos humanos? Faria muito bem dar uma olhada ao redor do mundo para aprender a lição de que estabilidade política duradoura e prosperidade econômica só podem ser construídas em sociedade abertas em que os Estados prestem contas de seus atos. sua credibilidade como defensores dos direitos humanos será contestada. Isso é o melhor que a ONU pode oferecer. E a Rússia. Será que. as antigas potências estão renegando os direitos humanos. tem hesitado em se pronunciar sobre os abusos de direitos humanos no Zimbábue. frente à oposição de Estados extremamente poderosos. em matéria de direitos humanos. a menos que a distância entre suas políticas no plano internacional e seu desempenho no âmbito doméstico seja diminuída. Contudo. pela União Européia. a partir de 2008. enquanto advogados. Se os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU fizeram pouco para promover os direitos humanos e muito para enfraquecê-los. a impunidade praticamente não tinha limites. Os líderes mundiais ou se atrapalham nas suas tentativas de encontrar saídas para situações como a do Iraque ou do Afeganistão. Neste cenário. Construindo uma nova unidade de propósitos Enquanto a ordem geopolítica passa por mudanças tectônicas. o governo recém eleito do primeiro-ministro Kevin Rudd apresentou um pedido formal de desculpas pelas leis e pelas políticas de sucessivos governos que “infligiram profunda aflição. Conflitos entranhados – altamente visíveis no Oriente Médio. como se sai em termos de liderança de direitos humanos? Uma Rússia cheia de autoconfiança e afluente com os rendimentos do petróleo tem reprimido as opiniões políticas divergentes. O papel da África do Sul na NEPAD (Nova Parceria para o Desenvolvimento da África) – que enfatiza questões de boa governança – traz esperanças de que os líderes africanos assumirão a responsabilidade por resolver os problemas africanos. como tais. onde quer que estejam sendo violados. Dois meses depois de a Austrália ter votado contra a Declaração. com cumplicidade da polícia. ou não têm a vontade política para encontrá-las. ao passo que os novos líderes ainda não emergiram ou se mostram ambivalentes com relação a esses direitos. a Índia conta com o potencial para ser um bom modelo. É exatamente esse tipo de orientação que o mundo precisa das Nações Unidas: Estados que inspirem uns aos outros a aprimorarem seu desempenho. A Índia pode ser creditada ainda por ter ajudado a aproximar os principais partidos e os insurgentes maoístas no Nepal. Embora o Conselho de Segurança da ONU tenha permanecido imobilizado em questões de direitos humanos por causa dos interesses divergentes de seus membros permanentes. Este conflito tão prolongado tem sido especialmente marcado pelo fracasso de uma liderança internacional coletiva (na forma de um quarteto constituído pelos Estados Unidos. A corrupção arraigada comprometeu o Estado de direito e a confiança da população no sistema legal. para citar apenas alguns – provocam sacrifícios humanos enormes. no Iraque e no Afeganistão e esquecidos em lugares como o Sri Lanka e a Somália. comunidades rurais foram atacadas e tiveram seus integrantes feridos e mortos. ao invés de se nivelarem por baixo. fazendo com que as vítimas tivessem de recorrer à Corte Européia de Direitos Humanos. com forte tradição legal em questões de direitos humanos e com um Judiciário independente. Poucos países têm uma responsabilidade moral de promover esses valores universais. Na Chechênia. Dimitry Medvedev. Em Nandigram. os governos ocidentais têm mostrado tanto desdém pelos direitos humanos quanto qualquer outro governo. No entanto. encerrando duas décadas de discussões. suas perspectivas de sucesso estão interligadas à liderança das Nações Unidas. o governo indiano continuou com suas negociações sobre extração de petróleo. Os direitos humanos são aplicáveis universalmente para todos – e nenhum país sabe disso melhor do que a África do Sul.

Uma consciência de direitos humanos está envolvendo o planeta. auxiliado por cartazes com esquemas e figuras. seus alimentos e seus meios de vida. onde está? Em quase todas as regiões do mundo. pois perderão suas terras. O descontentamento popular com a alta acentuada no preço do arroz em Bangladesh. Neste aniversário dos 60 anos da DUDH. não está no rumo certo para alcançar a maioria dessas metas mínimas e. o poder que têm as pessoas de criar esperanças e de produzir mudanças está tão vivo quanto nunca. diz ela. A Declaração Universal dos Direitos Humanos é hoje um modelo tão apropriado para uma liderança iluminada quanto o era em 1948. são fortes sinais. em um local poeirento no centro da aldeia. Os direitos humanos reconhecidos internacionalmente oferecem a melhor estrutura para essa resposta. pois representam um consenso global com relação aos limites aceitáveis e aos problemas inaceitáveis das políticas e das práticas governamentais. a saúde. mal sabe ler ou escrever. continua a escapar da responsabilidade por seu envolvimento em abusos e violações de direitos humanos. A maioria delas. os direitos humanos não estão sendo levados em conta nesse processo. os distúrbios causados no Egito pelo preço do pão. Os líderes mundiais se arriscam por ignorá-la. Essas mulheres acabaram de receber financiamentos por meio de um projeto de microcrédito operado por uma importante ONG de desenvolvimento rural de Bangladesh (Bangladesh Rural Advancement Committee). as condições de vida e a educação de grande parte das populações do mundo em desenvolvimento. “Não quero que minhas filhas sofram o que eu sofri. De um modo praticamente inimaginável em 1948. Outra planeja comprar uma máquina de costura e abrir uma pequena confecção própria. Advogados em ternos pretos no Paquistão. infelizmente. Todos esses são desafios globais com uma dimensão humana. os mais pobres serão os mais prejudicados. portanto. inflamado pela traição de seus governos às promessas que fizeram de justiça e de igualdade. Evidentemente. indignadas e desiludidas não permanecerão silenciosas se o abismo que existe entre suas demandas por igualdade e liberdade e a resposta dos governos a essas demandas aumentar a cada dia. em solidariedade a todos os defensores de direitos humanos do mundo no 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos. a realização dessas metas significaria um bom caminho andado na direção de melhorar. muitas sobreviventes de estupro de comunidades indígenas carentes e marginalizadas não conseguem obter justiça nem proteção efetiva por parte das autoridades federais ou das tribais. monges com trajes alaranjados em Mianmar. por todo o mundo. de que uma cidadania global está determinada a defender os direitos humanos e a cobrar de seus líderes responsabilidade pelo que fazem. Uma das mulheres adquiriu uma vaca e espera conseguir uma renda extra vendendo leite. ensina sobre uma lei que proíbe o casamento de crianças e que requer da mulher uma manifestação de consentimento com o casamento. a violência pós-eleitoral no Quênia e as manifestações que ocorreram na China por causa de despejos e de questões ambientais não são apenas exemplos da preocupação popular com temas sociais e econômicos.” Pode-se ver nos seus olhos um brilho de determinação que. com o apoio tácito de governos que se recusam a investigá-las ou a regulá-las efetivamente. Um grande número de empresas. exigiram uma ação contra a pobreza. uma mudança de foco e novas iniciativas são mais do que necessárias. Embora as mudanças climáticas afetem todos nós. os estupros e a impunidade ainda persistem. Os líderes devem estar mais atentos a fazer com que os direitos de mulheres e meninas sejam realidade. Elas participam de um programa de formação legal. São sinais da ebulição de um caldeirão de protestos dos movimentos populares. mulheres e meninas sofrem com os níveis elevados de violência sexual. O mundo. * IRENE KHAN Secretaria Geral da Anistia Internacional 68 . Na região de Darfur. está nos olhos de milhões de pessoas como ela. por isso. Apesar de nada perfeitas. em 17 de outubro de 2007. E a liderança para erradicar a violência baseada em gênero. lutando para conseguir água potável. Há muita retórica sobre erradicar a pobreza e pouca vontade política para agir. os 43. destroçada pela guerra. um grupo de mulheres senta sobre esteiras de bambu. Por isso. Os governos. Nos EUA. O que ela espera dessa aula? “Quero saber mais sobre os meus direitos”. comida e moradia. até 2015. Julho de 2007 marca o ponto medial do cronograma estabelecido pela ONU para alcançar as Metas de Desenvolvimento do Milênio. existe hoje um movimento global de cidadãos exigindo que seus líderes renovem seu compromisso com a defesa e a promoção dos direitos humanos. devem renovar seu compromisso com os direitos humanos. Em um povoado do norte de Bangladesh. Populações inquietas. Pelo menos dois bilhões de integrantes de nossa comunidade humana continuam a viver na pobreza. porém.Quando os mercados oscilam e os ricos usam sua posição e influência indevidas para mitigar suas perdas. exigem uma resposta global. tenho que aprender a proteger os meus direitos e também os delas. Anistia Internacional.7 milhões de pessoas no mundo que. os interesses dos mais pobres e dos mais vulneráveis perigam ser esquecidos. Elas ouvem com atenção o professor que. emitidos nesse ano passado.

hoje com uma legislação que lhes garante Proteção Integral e Direitos Fundamentais através do Estatuto da Criança e do Adolescente lei federal 8. em grupos. principalmente com a estrutura econômica predominante no mundo ocidental. todas as oportunidades e facilidades. segundo pesquisa realizada pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas divulgado em abril de 2006. Este grupo é o objeto de nosso estudo e prática. Quando não as ama é porque deixou de se reconhecer como humanidade.069/901[2]. essa que vive a solidão das noites sem gente por perto. condutas para que possam viver em paz e harmonia. sem mãe. A situação é mais alarmante. A luta pelo reconhecimento dos direitos fundamentais de crianças e adolescentes enquanto “pessoa em condição peculiar de desenvolvimento” passa pela garantia de promoção e proteção através de instrumentos normativos e políticas públicas de atendimento. Nesta estrutura. assegurando-selhes. 3º A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana. Contamos. a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico. é um espanto. em condições dignas de existência.00 por mês. moral. mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso. Segundo Gramsci “A burguesia mantêm o controle sobre toda a sociedade não apenas através da coerção política ou econômica. Diante dela. Nesse contexto. Mas essa que vejo na rua sem pai. em condições de liberdade e de dignidade. O que antes era apenas busca de proteção à vida e qualidade deste viver. Art. é preciso que o “senso comum”. sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei. pois cerca de 45% dos miseráveis brasileiros têm 15 ou menos anos de idade. Com a evolução das relações econômicas o que era delineado como pertinente para os primeiros indivíduos não mais satisfaz os atores que desempenham papeis fundamentais nestas primeiras estruturas sociais. estava em busca da proteção que a reunião de iguais poderia lhe dar. são vividas diariamente pelo povo brasileiro. o mundo deveria parar para começar um novo encontro. não resolvem seus conflitos de forma linear e precisam de regras e/ou normas de desigualdade e a dominação de um ser humano por outro seu igual. são estas as crianças e adolescentes que têm seus direitos básicos restringidos antes mesmo de nascerem.069/90-Art. inúmeras vezes conflituosos. sem casa. As consequências de uma sociedade que têm como base a Herbert de Souza (Betinho) Quando há mais ou menos 3. porém o que está previsto em lei não corresponde à prática. Quando uma sociedade deixa matar as crianças é porque começou seu suicídio como sociedade. Portanto o controle destes grupos sociais não pode se dar apenas por uma legislação que em princípio prevê igualdade entre pares. pois 1[2]Estatuto da Criança e do Adolescente lei federal 8. Na busca desta estrutura ideal começam a existir os primeiros grupos sociais e conseqüentemente nossas primeiras sociedades organizadas. Estas mesmas pessoas que inicialmente parecem iguais se comparadas às feras que os ameaçam. é preciso que os papéis sejam bem definidos e respeitados. faz-se necessária a criação de regras e leis que controlem a participação na sociedade. Porém viver em grupo não é apenas uma união entre semelhantes. intitulado “Mapa do Fim da Fome II”. Como já foi dito anteriormente. espiritual e social. porém quando se trata de proteção às propriedades a situação se inverte.” a possibilidade de aquisição desses bens nunca se dá de forma igual. quando está em jogo à proteção à vida ou a sua qualidade todo indivíduo pode e deve ser tratado de forma igualitária. o fim da criança é o princípio do fim.” O que hoje configura a sociedade brasileira está longe de oferecer proteção à maioria de sua população. deparamo-nos “A luta pelo reconhecimento dos direitos fundamentais de com a violência e a desesperança que geram a busca de soluções que cada vez crianças e adolescentes enquanto mais segregam e distanciam aqueles que “pessoa em condição peculiar inicialmente buscavam proteção ao viver de desenvolvimento” passa pela garantia de promoção e proteção através de instrumentos normativos e políticas públicas de atendimento. proteção contra animais selvagens e contra aspectos geográficos e climáticos. por meio de uma cultura hegemônica na qual os valores e interesses particulares da burguesia se tornam o senso comum”. 69 . por lei ou por outros meios. Para a preservação deste conjunto de interesses. Se não vejo na criança uma criança. ainda segundo o autor. porém também pela cooptação ideológica. mental. MÔNICA DE ALKMIM MOREIRA NUNES* “A criança é o princípio sem fim. A existência de crianças e adolescentes em situação de rua na cidade do Rio de Janeiro é a prova visual disto. carecemos de políticas e dotação orçamentária para execução da lei. é porque alguém a violentou antes e o que vejo é o que sobrou de tudo o que lhe foi tirado.000 anos atrás o homem passou a viver em grupo. Conforme seus resultados. com direitos e deveres claros para todos aqueles que pretendem viver hegemonicamente nestes grupos sociais. é um grito.UM ENCONTRO COM CRIANÇAS E ADOLESCENTES QUE ESTÃO NAS RUAS – RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA INSTITUCIONAL. 7º A criança e o adolescente têm direito a proteção à vida e à saúde. entendido como uma construção mental imposta por um grupo dominante torne natural a existência de privilégios e a dominação de um indivíduo ou grupo por outro. passa a ser também proteção a propriedades e bens acumulados por aqueles que aparentemente vivem em harmonia. o Brasil possui 56 milhões de pessoas vivendo na indigência com renda inferior a R$ 79. cama e comida. porque a criança é o princípio sem fim e o seu fim é o fim de todos nós.

responsabilidade individual. O trabalho que a Associação Beneficente São Martinho realiza com crianças e adolescente em situação de rua há 25 anos passou por um longo processo transformador de postura ideológica e conseqüentemente de análise metodológica. rupturas e decisões a favor de algum sonho. transformem e reivindiquem seus espaços de igualdade de direitos. a desejar. Ainda sob um olhar assistencialista. que faz parte de um contexto familiar e comunitário com inúmeras possibilidades futuras. a formação humana. sensibilizado com a situação em que viviam dezenas de crianças e adolescentes que perambulavam pela Praça Tiradentes e Estação Rodoviária passa a estar diariamente com este público... promover uma indignação social que não fique aguardando promessas de um futuro melhor. mas antes sim uma conseqüência natural desta estrutura econômico social a qual reproduzimos sem questionar de países economicamente bem sucedidos. não porque de alguma forma isso incomoda aos moradores dos prédios e comerciantes adjacentes. Não podemos mais ver este menino com um “indivíduo carente” que inicia sua história quando passa a ter contato com a Instituição. Sendo assim. ao mesmo tempo. em 1990 este grupo voluntário. não acesso ou ausência de direitos de uma camada tão expressiva em números e características de nossa sociedade. o projeto Ao Encontro dos Meninos em Situação de Rua reformula sua estrutura metodológica objetivando um posicionamento crítico de crianças e adolescentes em situação de risco social nas ruas buscando a transformação da ordem social. Sob os arcos o prédio conhecido com Centro Sócio Educativo passa a ser uma referência do trabalho com crianças e adolescentes em situação de rua. É urgente entendermos que a situação de extrema vulnerabilidade social.. A metodologia utilizada nas abordagens se inspira em alguns autores e teóricos da sociologia. Após seis anos de trabalho sistemático de abordagens. tornou-se necessário que o educador social. como qualquer criança faz. Um de nossos mais importantes inspiradores é Paulo Freire com sua crença de “que há uma relação indissociável entre a educação e a política. ele tem um processo anterior. É preciso que nós reflitamos sobre questões como cidadania. a autonomia do outro ou dos outros é. Partimos da definição de que criança e adolescente em situação de rua é todo aquele que vive permanentemente nas ruas ou que. esporte dando ênfase nos jogos coletivos e a cultura incluindo música e capoeira. sobretudo. direitos e deveres. deu-se início ao trabalho de abordagem nas ruas da cidade. É fundamental. sócio-econômica. do qual somente somos atingidos por seus efeitos e conseqüências. é este profissional que através das abordagens estabelece uma relação de confiança e troca com crianças e adolescentes que estão no centro e zona sul do Rio de Janeiro. o fim e o meio. Em outras palavras: somos “vítimas” daquilo que contribuímos para produzir. mas principalmente por entendermos que a existência de crianças e adolescentes vivendo em situação de rua não é um momento histórico ou um problema específico de uma classe social e econômica.. As estratégias utilizadas para promover esses momentos de discussões são: arte-educação. A prática educativa. não se coloca à margem da discussão e muito menos como observador. mediador e participante destes debates. buscando uma postura menos assistencialista e mais emancipadora. e política do país). visto que esses fatores estimulam a ida para as ruas. nem porque sentimos pena ou medo. tanto para a sociedade política. compreendesse as estruturas sociais dos atendidos (familiar.” No 2º semestre de 2004. não queremos. já constituído na Associação Beneficente São Martinho. suas fragilidades (narcotráfico. Como nos diz Cornelius Castoriadis (1982) “Chamamos de práxis este fazer no qual o outro ou os outros são visados como seres autônomos e considerados como o agente essencial do desenvolvimento de sua própria autonomia. É preciso perceber a ida para as ruas como parte de um problema maior que não envolve somente aqueles que sofrem as conseqüências desta sociedade produtora de tantas desesperanças. a investir em um futuro promissor. materiais de higiene e roupas para os meninos que lá estavam. nos limitar a busca de soluções individuais que resolvam apenas o problema daquele que está na rua. Nas atividades realizadas nas ruas os educadores não pretendem levar respostas ou posturas ideais. A história da instituição se confunde e entrelaça com a história da sociedade civil organizada no município do Rio de Janeiro. É neste contexto que a equipe. O educador é um fomentador. violência nas suas diversas formas de manifestação e a miséria). antropologia e pedagogia. que ajam. o fato de que essa é uma situação produzida por todos nós que compomos a sociedade em que vivemos. 70 . ou seja. mesmo que seja por nossa omissão enquanto sujeitos políticos. o que acarretaria numa busca por soluções higienistas e repressoras.” Nesse sentido. mas também aqueles não mais passam por essas mesmas áreas por medo uns dos outros. revê e repensa sua prática. A autêntica educação é política. como para a sociedade civil. o projeto investe na consciência crítica dos atendidos. não apenas aqueles que estão dormindo pelas calçadas. não é problema dos outros. que essas crianças e adolescentes voltem a sonhar. com leituras de livros. Quando nos propomos a trabalhar com este público. jornais e criação de estórias. os voluntários se disponibilizavam a oferecer comida. familiar e governamental. já constituída por profissionais. com isso. Apenas com este entendimento poderemos buscar soluções que realmente atendam a todos. mesmo possuindo referência familiar têm nas ruas atividades de subsistência ou referências afetivas que o leve a pernoites contínuos. implica opções. Ele é parte desta organização social e busca soluções que reestruture e não adapte os ditos “marginalizados”. se questionam e questionam junto com os meninos essas categorias que impõem idéias e ideais preconcebidos. A grande questão que se coloca aqui é a importância de admitirmos nossa co-responsabilidade.É preciso que além das leis e normas de convivência a sociedade não se acostume e ache natural a moradia nas ruas. ganha um espaço para realização de atividades sócio educativas no coração da Lapa. Quando em 1984 um grupo de voluntários. suas estratégias de sobrevivência e a dinâmica do grupo e do entorno. através destas crianças e adolescentes. Queremos.

Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 2006 – Pizá. deixar de ver as crianças ali. é no momento da solução que elas se dividem: enquanto alguns desejam. Muitas vezes esse processo é bastante difícil. 199-2002. Porém. A. 1993 – Freire. não difere muito dos 24 anos passados de atendimento da São Martinho. Acreditar que a solução para problemas de segurança não passa pelas esferas governamentais. a equipe vai para as ruas (coordenadora. dentista e enfermeira) é um momento onde realizamos apresentação de capoeira. São Paulo: Cortez. Referências Bibliográficas: – Castoriadis. Gabriela F. Perfis e trajetórias de crianças e adolescentes que vivem nas ruas da zona sul carioca e Barra da Tijuca. é um descrédito da organização da própria sociedade. com a participação de todos. É preenchido. também pela equipe um formulário chamado de marco zero. A. no discurso já tão desgastado pela ausência de solução. Pedagogia social de rua. apenas. Vidas nas Ruas– crianças e adolescentes nas ruas:trajetórias inevitáveis? Rio de Janeiro:PUC – Sousa. música. Educação como prática da Liberdade.G. Cornelius. Pós-Graduada em Filosofia da Educação. É preciso mostrarlhes as habilidades e competências que essas crianças e adolescentes têm quando estimuladas. Nesse espaço. hostis ou não. Instituto Paulo Freire.v2 – Pereira. outros se preocupam com o motivo que as levaram a esta situação e o que pode ser feito para que elas tenham qualidade de vida o que será. coordenação. o crescimento da atuação das milícias nas comunidades do Rio de Janeiro é um exemplo desta força. Paulo. É uma realidade difícil em que precisamos enfrentar a violência explícita e física da polícia e do governo com ausência de políticas voltadas para garantia dos direitos básicos previstos na lei e também enfrentar a sociedade com sua violência implícita de olhares de medo e negação da sua parcela de responsabilidade neste quadro geral de vivência nas ruas ou pelas ruas. violência familiar e envolvimento com o tráfico. Cadernos do cárcere. moradia e a também desejada segurança. Rio de Janeiro: UERJ. 71 . assistente social. A violência silenciosa do incesto. Se aqueles que nos representam oficial e legalmente não respondem a contento nossos anseios e para isso delegamos a grupos que se utilizam das mesmas armas que aqueles que nos agridem. Rio de Janeiro: Clinica Psicanalítica da Violência. Rio de Janeiro: Paz e Terra. É esse o público com o qual a São Martinho trabalha por não acreditar em uma estrutura social que identifica crianças e adolescentes como um caso de polícia. apenas. A busca de soluções por parte destes grupos que realmente poderiam criar caminhos dignos de vida comunitária se dá sempre através da repressão dos mecanismos de segurança. Dentro desta nova desordem pública os mais atingidos são aqueles que não podem pagar por essa fugaz sensação de segurança e que historicamente já vivenciam a ausência de direitos básicos. Com o primeiro grupo é preciso realizar um trabalho de conscientização que não pode se basear. com a equipe técnica. 2001 – Gramisci. Uma alternativa é realizar o que chamamos “abordagem coletiva”. Dario – pesquisa. A vida na rua hoje. Maria Stela S. onde é anotada a percepção das relações. pois os problemas que os levaram a ir para rua permanecem em suas comunidades de origem: faltam de vagas nas escolas. Rio de Janeiro. É muito importante que possamos levar a reflexão sobre a situação de moradia nas ruas para aqueles que moram nas calçadas e para os que moram nos prédios. também pagos por quem pode como educação e saúde de qualidade. 1982 – Costa. Coordenadora do Projeto Ao Encontro dos Meninos em Situação de Rua da Associação Beneficente São Martinho no período de 2004 a 2008. A Instituição imaginária da sociedade. 1983 – Graciani. retorno à escola e ao convívio familiar e comunitário. e outros. Rio de Janeiro: Paz e Terra. atendimento psicossocial iniciando o processo de saída das ruas e conseqüentes busca dos direitos que lhes foram negados como retirada de documentos. Pedro. Graça & Barbosa.C. I. Belo Horizonte: Columbus Cultural. em outro lugar. emprego. E hoje com acúmulo de “forças majoritárias clandestinas”. desenhos e peça de teatro. certamente. 2004 – Rizzini.Contudo observamos que as comunidades que abrigam em suas calçadas crianças e adolescentes se sentem incomodadas com a situação e esperam que o problema seja resolvido. Proteção dos Direitos Humanos-dilemas e desafios para a cidadania de criança e adolescentes no contexto da Baixada Fluminense. Para isso a articulação com programas governamentais existentes e instituições não governamentais que atuam nessas áreas é fundamental. estamos assim instituindo o caos público e regredindo ao estado primitivo da lei do mais forte e “do olho por olho dente por dente”. Quando esta reflexão leva aos meninos um desejo de mudança de sua situação eles realizam. 2007 *MÔNICA DE ALKMIM MOREIRA NUNES Pedagoga. psicóloga. pedagoga. médico.Brasil criança urgente. dos atores sociais do entorno com relação às crianças e adolescentes em situação de rua.

civilizatória e espiritual: povos “sem Rei. em diferentes arquivos. sem. os “negrinhos”. de que trata o Estatuto. Não existia. não se preocupavam com os menores condenados. as categorias que colocavam problemas à ordem social eram as gentes sem eira nem beira – os “mendigos”. Conselho Federal de Psicologia – 3ª Edição Especial para a VII Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. inclusive. pois que. Naquela época. um novo arranjo tutelar terá que ser inventado a partir da identificação destas crianças pobres como “menores abandonados” e potencialmente “perigosos”. Não eram escravos propriamente. tão logo atingisse a idade dos sete anos. 72 . corrigi-los e regenerá-los como aos condenados. os meninos da “terra”. qualquer outro humano.331-A. o que teria permitido recolhê-las aos estabelecimentos carcerários. portanto. os “filhos dos escravos”. 2007. de 17 de fevereiro de 1854. os “viciosos”. os “expostos”. e em relação à criança negra era a de sua incorporação como força de trabalho escrava. os “desvalidos”. e as considerações sobre os menores de idade sujeitos à lei penal. ou ainda. sendo a sociedade colonial construída justamente na relação desigual senhor/escravo2. ou para a construção de estradas. A LEI DO VENTRE LIVRE E A EMERGÊNCIA DA QUESTÃO DO “MENOR ABANDONADO”. são tratadas em Relatórios Ministeriais distintos: as estatísticas e considerações sobre os órfãos. mas um súdito do Rei de Portugal e um cristão temente a Deus. assisti-los caritativamente como aos órfãos e expostos e. trabalhando. os documentos lembravam que os condenados menores de idade não deveriam ficar presos juntos com os condenados maiores de idade. é apenas uma variável de identificação nas estatísticas policiais. não podendo ocupar posições na estrutura burocrática e administrativa da Colônia. O problema modifica-se inteiramente quando os escravos. só que preventivamente e com a justificativa de sua proteção. Assim e retrospectivamente. são pessoas em condição peculiar de desenvolvimento. conforme indicação bibliográfica nas Notas. A categoria “menor abandonado” só emergirá no Brasil no bojo da discussão sobre a reforma das prisões e após a Lei do Ventre Livre e não. “A Proteção Integral. Essas categorias de crianças. 2 Um dos objetivos da catequização dos povos indígenas foi justamente o de salvá-los de um suposto estado de inferioridade humana. livres e cativos. Órfãos e expostos apenas são tratados nos 1 Para a confecção deste texto utilizou-se de material que já vem sendo pesquisado há 20 anos. o seu guardião legal. por não haverem cometido infração alguma às leis penais. os “meninos da terra”. da mesma forma que as mulheres deveriam estar em prisões distintas dos homens. em relação à qual se pudesse deduzir algum direito universal. se organiza em torno de três fundamentos ou princípios básicos. nenhuma problematização ou inquietação em relação a menores ditos abandonados é encontrada nos documentos oficiais do Império4. ao mesmo tempo. justamente após a Lei do Ventre Livre. encontravam-se sob o controle do “pai de família”. àquela época. contudo. os “cabrinhas”. encontravam-se propriedades controlados para o exercício pleno da cidadania. a situação como dos nos menores sujeitos às nas leis prisões. Foi quando crianças pobres passaram a ser encontradas nas ruas brincando. expostos e desvalidos são apresentadas nos Relatórios do Ministério do Império sob a rubrica “instituições de caridade”.1 ESTHER MARIA DE MAGALHÃES ARANTES* Durante os primeiros séculos da colonização portuguesa. pelo viés da caridade. adquirirem as condições materiais documentos.” penais. “Menor”. à época. objetos da assistência caritativa. Essa gente desclassificada não tinha como se inserir na estrutura dual da sociedade colonial. encontravam nos estabelecimentos mantidos pela caridade. maiores e menores de idade. que separavam os presos e os réus entre homens e mulheres. O que traz preocupação. a prática em relação à criança indígena era a de separá-la de sua família para moldá-la aos costumes ditos civilizados e cristãos. quando aparece socialmente através destas relações de posse e assujeitamento. pois não existia o pressuposto da igualdade entre as pessoas. contidos nos colégios jesuítas e os “negrinhos”. Quando muito. como as Casas da Roda e os Recolhimentos das Órfãs. a partir da Lei do Ventre Livre (1871) e da Abolição da Escravatura (1888). Lei e Fé”. pedindo esmolas ou eventualmente cometendo pequenos furtos. O que existiam eram categorias diferenciadas de crianças como os “filhos de família”. os “órfãos”. sob a rubrica “polícia” ou “prisões”5. de “filhos” e “pais de família”. os “vadios” – fenômeno tão bem descrito por Laura de Mello e Sousa no livro “Os desclassificados do ouro”. neste novo arranjo. casados e solteiros. até os anos 1870. e por outro. Quanto à assistência. os “pardinhos”. justamente. limitava-se ao recolhimento de expostos e órfãos em instituições caritativas. Da mesma forma. dedicando-se apenas aos órfãos e expostos. Caberia então ao Estado. objeto de recrutamentos forçados sempre que o Estado necessitasse de milícias para o combate aos quilombolas e aos índios. mas ao mesmo tempo reserva útil. por um lado. nos Relatórios do Ministério da Justiça. como se poderia supor a princípio. O “próximo” não era. do senhor. Os “filhos legítimos de legítimo matrimônio cristão” não colocavam problemas à ordem social. foi inaugurado no Rio de Janeiro o Asilo de Meninos Desvalidos. que tinha poderes quase ilimitados. são prioridades absolutas. estabelecendo casas de asilos para os meninos encontrados em estado de pobreza. temidos como sendo “a pior raça de gente”. 3 Ver: Direitos Humanos: um retrato das unidades de internação de adolescentes em conflito com a lei. No entanto. Os estabelecimentos caritativos. embora sem o suporte familiar. ou seja.A REFORMA DAS PRISÕES. 4 Exceção é feira ao Decreto N. prisões e demais edificações e serviços3. como parte de um projeto sobre a História da Assistência à Infância no Brasil. nacionais e estrangeiros. portanto. Alguns destes achados de pesquisa já estão disponíveis em publicações diversas. Não se querendo reconhecê-las como tendo os mesmos direitos e status dos “filhos de família”. porque não haviam sido comprados e também não eram senhores. pensada como categoria genérica. apenas em 1875. mas ao mesmo tempo não se podendo acusá-las de “criminosas”. “órfãos de pais vivos” e “futuros criminosos”. situação tradicionalmente reservada apenas aos bem nascidos socialmente. Os “expostos” e os “órfãos”. é a situação dos órfãos e dos expostos. 1. adquirem a condição de livres e. “a criança”. sem os quais não existe tal Proteção Integral: crianças e adolescentes são sujeitos de direitos. Existiam como uma espécie de “mão de obra de reserva escrava”.

sobretudo. “deficiente”. e o exposto. uma vez que a penalidade mais comum passa a ser a privação da liberdade e não mais as penas de morte.por oposição ao modelo burguês de família tomado como norma . AMAIS Livraria e Editora. sendo recapturados e novamente evadidos. pois que à existência do “menor” correspondia uma suposta família “desestruturada” . que o sistema caritativo. Embora não se possam estabelecer apenas rupturas entre estes dois modelos de assistência – coexistindo muitas vezes o mesmo propósito de controle social e o mesmo método de confinamento . Esther Maria M. caminhava ociosa pelas ruas.em que se discute a situação das prisões e a criação de um sistema penitenciário em virtude das novas leis penais e do processo. mediante soldada. à cata de um qualquer expediente (“perambulante”)7. permitindo o envio de crianças e adolescentes para as casas de detenção. Irene e PILOTTI. Editora Universitária Santa Úrsula. ordenando os desvios a partir de um modelo de normalidade que definia a criança pobre quase sempre como “carente”. pela primeira vez depara-se o Estado com uma massa carcerária a ser administrada. o Código Penal de 1890. buscando instituir uma legislação específica para os ditos menores. regulamentou a idade da imputabilidade penal em nove anos.. A dificuldade de se administrar a questão prisional passa a decorrer diretamente do “problema do menor”. apenas um ano após a Proclamação da República (1889). Ao não abolir. e a pena deixa de ter o caráter de vingança e adquire a função de regeneração. a República também permitiu que crianças e adolescentes ficassem fora da escola regular. quando sua educação for negligenciada ou sua herança mal administrada ou surrupiada pelo tutor.podemos afirmar. a grande maioria destes menores foi encaminhada ao trabalho. ou a pedido dos próprios pais. Alguns outros tiveram filhos. Rostos de Crianças no Brasil. 6 Decreto Nº 17943-A. da família ou de terceiros (“infratora”). além de que. por serem os filhos considerados “desobedientes” ou “incorrigíveis”. “anormal”. Outros foram devolvidos ao Juiz.que a justificativa para a apreensão da criança pobre será formulada. RIZZINI. “doente mental”. longe de mudar o foco desta discussão e reverter este processo. ou quando jogados ao mar forem devolvidos às praias. Recebendo como “destino” o trabalho em casas de família. por “não aprenderem o trabalho” ou por não aprenderem a “disciplina do trabalho”. enquanto o Código Civil de 1916 tratava dos “filhos de família”. tais leis são constantemente combatidas. sem um ofício e expulsa/evadida da escola ou fugitiva do lar. servindo mais para proteger os malfeitores que os cidadãos honrados.só lhes restando a alternativa da fuga do cativeiro. 1995. O que se constata. na medida em que se acredita que elas atrapalham o trabalho da polícia. seja ainda porque. necessitando contribuir para a renda familiar. Ao serem recolhidos nas ruas pela polícia e levados à presença do Juiz de Órfãos para receberem “destino”. por terem sido defloradas. o aprofundou. com “desvios de conduta”). e apenas após as leis abolicionistas. mas apenas regulamentar a idade para o trabalho infantil. fábricas ou fazendas. ou a pedido da mãe viúva. motivado principalmente pelo dever de salvação das almas. passando as prisões a serem definidas como “escolas do crime”. constituía este aprendizado do trabalho uma modalidade de “servidão das crianças” ou “sequestro da infância pobre” em tempo de pós-abolição e mão-de-obra escassa . “ociosos” e “vadios” pudessem ser encaminhados às escolas correcionais e de reforma mediante a suspensão ou destituição do pátrio poder. porque os comportamentos e envolvimentos da criança ou do adolescente colocavam em risco sua segurança. da possibilidade de destituição do pátrio poder em relação a alguns menores e da internação dos mesmos menores em estabelecimentos correcionais e de reforma. Ao mesmo tempo em que se elogia o progresso civilizatório que as novas leis representam. em que pese o artifício de transformar pobreza em 5 Esta situação se modificará na República. Rio de Janeiro: Instituto Interamericano Del Niño. o controle daqueles considerados “moralmente abandonados”. degredo e galés. o que servirá como justificativa “científica” para que os “menores criminosos”. ocupava-se basicamente da pobreza. seja porque a criança era dita portadora de algum desvio ou doença com a qual a família não podia ou sabia lidar (“deficiente”. “viciosos” e “libertinos”. com as prisões superlotadas. Assim. um sistema dual no atendimento às crianças. onde o acusado adquire o direito de se defender e impetrar recursos. é uma preocupação constante com as mudanças na legislação penal e com a reforma do sistema carcerário que deveria advir como consequência dessas mudanças. ao longo de todo o Império. uma vez que.à qual a criança pobre sempre escapava: seja porque não tinha família (“abandonada” ou “órfã”). porque a família não podia assumir funções de proteção (“carente”). o Código de Menores de 19276 tratava dos menores “abandonados” ou “delinquentes”. que foram colocados na Casa dos Expostos. Outros ainda foram enviados para o Hospício Nacional dos Alienados. No entanto. sofrendo muitas vezes abusos de todas as espécies. ou ainda porque. cobria todo o universo de crianças e adolescentes pobres. definindo-a como “abandonada”. Tal a abrangência deste sistema dito de proteção à infância que. o que muitos realizaram. fazia da rua local de moradia e trabalho (meninos e meninas “de rua”). mas não sujeitos à lei penal por não terem agido com discernimento e os menores que nenhum crime haviam cometido mas eram considerados “mendigos”. equiparando-se o Brasil aos países do primeiro mundo. morto ou podendo vir a falecer. ou encaminhados às escolas de aprendizes de Guerra ou Marinha. de natureza religiosa e asilar. passando a ser voz comum a idéia de que deveriam ser encaminhadas às “instituições preventivas”. entre os quais: “expostos”. quando cresce o número de pessoas pobres vivendo e trabalhando nas ruas das grandes cidades .Relatórios do Ministério da Justiça quando vítimas: o órfão. por terem sido acusados de furto ou de maus hábitos. quando encontrado na via pública. 73 . sobre a base da regulamentação da idade penal e da regulamentação do trabalho infantil. “perigosa” ou “delinquente”. 7 Ver: ARANTES. unificando as duas pastas. praticamente. por apresentarem alguma doença ou incapacidade. “vadios”. ou faleceram. de 12 de outubro de 1927 – Consolida as leis de assistência e proteção a menores (Código de Menores de 1927). Já a filantropia dita esclarecida. desta forma. porque não podia controlar os excessos da criança (“conduta anti-social”). In: A Arte de Governar Crianças. quando as atribuições do Ministério do Império forem repassadas ao Ministério da Justiça. porque não mais desejavam o trabalho ou aquele trabalho. É neste contexto . sujeito às intempéries do tempo. de natureza cientificista e favorável a uma assistência estatal. no entanto. A República. tendeu sempre a uma gestão técnica dos problemas sociais. Construiu-se. por se sentir incapaz de sustentar os filhos ou de proteger a honra da filha. Francisco (organizadores). visando. “mendigos”.

casa. tornou-se possível a emergência de novas proposições. de que trata o Estatuto. pais ou mães desempregados ou internados em hospitais gerais. o cumprimento da Constituição e do Estatuto. político e social do Estatuto da Criança e do Adolescente. Seabra incumbiu. dividido em duas partes: a primeira trata do que denomina “abandono material”. se organiza em torno de três fundamentos ou princípios básicos. no bojo da mobilização pelo fim da Ditadura Militar e pela democratização do Brasil. São Paulo: ABMP. mães solteiras ou distantes geograficamente de seus companheiros. que dispõe sobre a Proteção Integral à criança e ao adolescente. o que se encontrava em jogo na assistência à infância no Brasil. mas apenas de assegurar. entre os quais os chamados “menores”. iniciaram ampla mobilização em torno dos direitos humanos e de cidadania dos diferentes grupos marginalizados da população brasileira. por exemplo. são prioridades absolutas. a própria condição de existência e sobrevivência das famílias pobres no Brasil. de estudar o assunto e apresentar a tal respeito um trabalho. A crise que se instalou. em 1905. o então secretário da Escola Correcional Quinze de Novembro. 9 Vide Mapa da Violência. tanto dos que são executados sumariamente quanto dos que se encontram privados de liberdade. não era a noção científica (ou supostamente científica) de criança e nem mesmo o seu correlato jurídico menor de idade. estes princípios devem vir juntos8. na prática. Foi para romper com esta lógica e com estas práticas que os movimentos sociais e demais organizações da chamada sociedade civil. forçoso reconhecer que as mudanças até agora obtidas não têm correspondido aos sonhos e esperanças de todos aqueles que lutaram para que a Doutrina da Proteção Integral fosse incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro. a condição da criança e do adolescente como sujeito de direitos. onde faltam recursos para a garantia dos direitos sociais ou onde tais recursos não são priorizados frente às exigências de controle fiscal. Este é o desafio posto para todos nós: o de entendermos o caráter ético. no entanto. Aquilo que se tornava visível pela atuação técnica como “desestruturação familiar” (crianças nas ruas ou separadas em diferentes lares e internatos. bem como não se devendo opor “sujeito de direitos” e “pessoa em condição peculiar de desenvolvimento”. principalmente pelo princípio da participação popular. pessoa em desenvolvimento e prioridade absoluta. inviabilizando. Nesta conjuntura. escola. psiquiátricos ou encarcerados em presídios. talvez a história possa ainda nos ajudar.) era. Direitos Humanos. hospital e prisão. Não se trata. sem os quais não existe tal Proteção Integral: crianças e adolescentes são sujeitos de direitos. Desta forma. 74 . posteriormente seu Diretor. subsumindo funções de abrigo. tal empreitada sempre esbarrou não apenas nos minguados recursos disponíveis para a assistência como também em dificuldades de natureza ética e política. sempre permitiu a seus agentes um poder muito grande sobre os menores pobres e suas famílias. como também o pré-texto da Convenção destes mesmos direitos. 2008. no Rio de Janeiro. na medida em que ao definir este abandono de maneira abrangente a legislação fazia com que a rede de atendimento tivesse por objetivo abarcar todos os efeitos da pobreza. como causa do aumento da violência. por outro. À medida que se pode efetivamente questionar o modelo de assistência até então vigente. na grande maioria das vezes. naquela data.abandono. combinou desemprego. Franco Vaz. divulgando-se insistentemente. Há que se ressaltar. Em nome do equilíbrio fiscal e do cumprimento de metas pactuadas com organismos internacionais. a partir daí. mas a constituição de uma dupla infância ou de um duplo estatuto de menoridade (a criança e o menor) . na qual estuda a mortalidade infantil. o problema da assistência à infância permaneceu sempre por ser devidamente equacionado. desesperança e violência. A Proteção Integral. por um lado. a partir da década de 1990. Decorridos 18 anos de sua aprovação.Lei Federal 8.forjados em relações de exploração e violência existentes na sociedade. É condição para esta Proteção Integral que estes três princípios venham juntos e nunca separados. mais do que nunca.069. não se devendo opor. depositando-se grande esperança nos Conselhos de Direitos e Tutelares. In: Justiça Juvenil sob o marco da proteção integral. ao longo de quase todo o século XX. uma vez que esta Lei assegura à criança e ao adolescente a condição de sujeito de direitos sem abolir a sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. Wanderlino. numa retomada do chamado “menorismo”. na segunda. ao mesmo tempo e no mesmo movimento. no prazo de seis meses. Na redação do artigo 227 da Constituição Federal de 1988. sua aprovação gerou intenso otimismo nos militantes de Direitos Humanos. pais mortos ou desaparecidos. Caderno de textos. trata 8 Ver: Nogueira Neto. o Brasil diminuiu consideravelmente os gastos com as políticas sociais básicas. evidentemente. uma suposta impunidade proporcionada pelo Estatuto. o Brasil adotou não apenas a Declaração Universal dos Direitos da Criança. mas sempre em nome de sua proteção. cresce o número de pessoas favoráveis a um endurecimento da legislação e do rebaixamento da idade penal. “proteção especial” e “responsabilização”. são pessoas em condição peculiar de desenvolvimento. de infantilizar as crianças e os adolescentes e de reduzi-los à condição de objeto que por tanto tempo lhes foi imposta. Quanto a esses argumentos. Se isto. 1º. que. e mesmo jurídica. a letalidade dos confrontos a partir da chamada “guerra às drogas”. ainda não havia sido apresentado à Assembléia Geral das Nações Unidas. suas causas e remédios. Franco Vaz apresentou um longo relatório intitulado “A infância abandonada”. jurídico. o Ministro da Justiça e Negócios Interiores J. cuja única finalidade seria a de “proteger bandidos” – criando na população uma indiferença face ao trágico destino de milhares de jovens pobres. Ao assim proceder. Interessado em estabelecer as bases da Assistência Pública. crianças pequenas cuidadas por irmãos apenas um pouco mais velhos. J. no caso do adolescente autor de ato infracional. aboliu o Código de Menores de 1979 e. promulgou o Estatuto da Criança e do Adolescente . sendo que também os presídios e unidades do sistema sócio-educativo encontram-se organizados pela lógica das “facções”. quando. em seu lugar. etc. em 13 de julho de 1990. sendo que grande parte das mortes nesta faixa etária acontece por motivação externa: acidentes e assassinatos9. Dado este caráter inovador e único do Estatuto da Criança e do Adolescente. também estabelecido no Estatuto. particularmente em situações de vulnerabilidade. conforme seu Art. onde os jovens pobres do sexo masculino tem sido as maiores vítimas.

constatou a presença de 18 menores com idade entre 10 e 18 anos. Defendida no Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio. Para confeccionar o seu Relatório10. nem abolir as diferenças sociais ou mesmo propor a escola pública para todos. supressão da fiança. mas assinalando não ser possível banir a miséria da face da terra. para que pudessem permanecer nos estabelecimentos correcionais pelo tempo que fosse preciso para sua regeneração. estar perdido e confuso mentalmente sem saber o caminho de volta para casa ou ruas vendendo jornais. nem democratizar a democracia. Análise social da ideologia”. que a penalidade para os menores passasse a ser indeterminada. quando encaminhada pela autoridade à Detenção. estar à noite em companhia de uma mulher em um bar. deveria ser colocada inicialmente em regime celular. preparando o organismo da criança para receber os efeitos benéficos da escola de reforma e preservação. anulando. Se dizendo profundamente magoado com a situação daqueles “pobres irresponsáveis”. Não se lembrou Franco Vaz. onde se ocupa das crianças consideradas vadias. sendo a cela um remédio eficaz contra o desregramento infantil. ainda ser encontrado nas * ESTHER MARIA DE MAGALHÃES ARANTES Professora da UERJ e PUC-Rio. Em visita à Casa de Detenção. e que a criança. 10 Sobre Franco Vaz. a prostituição. pois os meninos nenhum crime haviam cometido. intitulada “Infância e adolescência pobres no Brasil. propõe então que sejam tomadas medidas enérgicas contra a desordem familiar. delinqüentes. Propôs. ter sido apanhado perambulando ou dormindo na rua à espera de trabalho.do “abandono moral”. cujos motivos da detenção foram: ter atirado uma pedra num comerciante que o agredira. finalmente. no entanto. viciosas que “enchem. consultar a importante Dissertação de Mestrado de Maria de Fátima Bastos Menezes Migliari. se necessário fosse. o alcoolismo. em novembro de 1993. que o Estado assumisse a tutela de todos os menores moralmente abandonados. Franco Vaz visitou os diversos estabelecimentos onde havia crianças e jovens no Rio de Janeiro. reclusão em colônias correcionais e prisão celular para nacionais e deportação para estrangeiros. as cadeias e os sítios lúgubres”. e também que fossem autorizadas medidas mais duras como processo rápido e sumário. o jogo. ainda. o poder paterno. de abrir as portas da cadeia. 75 . dia a dia. propondo.

BREVES NOTAS SOBRE A INCONSTITUCIONALIDADE DA MEDIDA DE INTERNAÇÃO. Havendo ainda quem duvide disso. ao final. Direito Penal Brasileiro. têm que defecar e urinar em sobretudo. 143. v. A bem da verdade. Slokar. a mídia hegemônica e todo senso comum que a acompanha seguem por aí maldizendo a inimputabilidade dos menores de idade e as intenções supostamente protetivas da lei nº 8. Rio de Janeiro. acusado e criminoso – os espaços onde a Justiça da Infância e da Juventude “E as similitudes entre os diversos relatórios estaduais que. Helvética. 2008. Lumen Iuris. À noite. 3 Zaffaroni. Em sendo a privação da liberdade um bem para o adolescente infrator. Esta profissão de 3 fé nas teorias da prevenção especial positiva está bem explícita no artigo 121. que é o próprio Estatuto da Criança e do Adolescente o ponto de partida desta incompreensão. que salta aos olhos até do observador mais desatento e insensível. São Paulo. em seu artigo 100. A despeito dessa realidade. 126. respectivamente. Alejandro. à integração da criança e do adolescente em sua própria família e na comunidade local”2.). Renata Ceschin.069/90. Alaglia. devendo sua manutenção ser reavaliada. cit. psicológicos e psiquiátricos. Ao mesmo passo que se dá ênfase ao inexistente caráter socioeducativo das medidas deixa-se de reconhecer a natureza eminentemente sancionatória e retributiva da privação da liberdade juvenil. Comentários ao Estatuto da Criança e do Adolescente.” deposita sua clientela guardam notável semelhança com as penitenciárias e casas de custódia do país. Esta determinação é feita exclusivamente a critério dos monitores: não há nenhuma audiência. em praticamente nenhum aspecto. O adolescente infrator e a Imputabilidade Penal. o poder punitivo empregado contra a juventude cumpre as funções positivas declaradas nas bases teórica e legislativa que lhe dá sustentação. § 2º da lei nº 8. logrou muito êxito o Estatuto ao atribuir às suas sanções “uma função positiva de melhoramento do próprio infrator” . preferindose aquelas que visem ao fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários” a legislação especial não foi sistemática e tampouco coerente. oferece resumo contundente daquilo que estas unidades representam: “Os centros de detenção juvenil do Rio de Janeiro estão superlotados. Lumen Iuris. a Human Rights Watch e o Conselho Federal de Psicologia em parceria com a OAB. Negar que a pena.. O primeiro. 2003. que “na aplicação das medidas levar-se-ão em conta as necessidades pedagógicas. nenhum direito de recurso e. seja também sanção típica do direito menorista pode redundar em prejuízos para o adolescente.. O adolescente infrator e a Imputabilidade Penal. 143. Isto porque fez incluir dentre as medidas socioeducativas do capítulo IV a internação. Renata Ceschin. melhor que o deixemos livres das amarras constitucionais. 1995... nenhuma orientação que os monitores devem seguir para aplicar a punição. aparentemente. Se nem mesmo a teoria dá amparo à falácia.) Além dos espancamentos e dos freqüentes abusos verbais. E em que pese não ostente os títulos que a legislação reserva aos maiores de idade – réu. cujo conteúdo ressalva que a medida de internação “não comporta prazo determinado. dada a preponderância de seu aspecto e finalidade pedagógica. não tem outra serventia a repetição do credo ressocializante senão a de ocultar “a natureza dolorosa da pena e chega mesmo a negar-lhe o próprio nome. p. Rio de Janeiro. “Os métodos para tratamento e orientação tutelares são pedagógicos..) Os centros de detenção juvenil do estado não atendem aos requisitos básicos de saúde e higiene. diversamente de seus congêneres. a proteção dos direitos humanos dos jovens (. que por esta razão não tem para si resguardado todos os direitos atinentes a sua condição de sentenciado. é compreensível e até desejável que sua medida seja aquela necessária para realizar os inúmeros benefícios a que se propõe. 80 apud Melfi.. p. Os jovens às vezes usam as mesmas roupas durante três semanas antes de serem lavadas (. Se.. Desta feita.069/90. (. Eugênio Raul. I. Alejandro. “que constitui medida privativa de liberdade” (artigo 121).. são imundos e violentos e não conseguem garantir. Ao anunciar. deram origem à publicação conjunta do CFP e da OAB. Batista. Revan. Wilson Donizeti. no máximo a cada seis meses”.). 125. o que se dizer da prática? Sob o manto de boas intenções manifestas e ao arrepio da Constituição da República de 1988 a nossa juventude pobre é vítima do poder punitivo estatal oficial desde os doze anos de idade. p.. 2 Liberati. 76 . por exemplo. cujo objeto de análise se restringiu aos centros de detenção juvenil da cidade do Rio de Janeiro e um de Belford Roxo. os jovens em muitos destes centros de detenção são trancafiados em suas celas por períodos de uma a duas semanas como punição pelos delitos considerados graves (. Não se pode negar. devem ter sua aplicação condicionada às necessidades pedagógicas e voltada ao fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários do adolescente”1. A contraditória atribuição de finalidades pedagógicas ao encarceramento conduziu parte da doutrina a conclusões equivocadas: “as medidas socioeducativas não podem ser encaradas como penas. p. todavia. pela pedagogia da segregação se livrará de todos os males que o aflige. p. Rio de Janeiro. mediante decisão fundamentada. concretamente e em sua forma de privação de liberdade. Como nenhum outro instrumento de controle social. jamais poderiam ser lidas como mera coincidência. 2008. convidase para uma leitura breve de trechos dos relatórios que em 2004 e em março de 2006 produziram. 4 Op. substituído por sanções ou medidas”4. que 1 Melfi. Nilo. visando. RAFAEL CAETANO BORGES* Ainda hoje há quem acredite que o Estatuto da Criança e do Adolescente possui um caráter exclusivamente socioeducativo.

“e”. Se nem mesmo padrões mínimos de higiene e salubridade são garantidos nas unidades de segregação fluminenses.). jamais poderiam ser lidas como mera coincidência. às vezes.. Aracaju/SE)20. recomenda que “não deveria ser economizado esforço para abolir.. p. esportivas e de lazer.. A circunstância de as constatações do relatório mais recente.. a prisão de jovens”13.. em denúncias de torturas. ao final. às vezes. (... um retrato das unidades de internação de adolescentes em conflito com a lei. XII – realizar atividades culturais. Retratam o absoluto desprezo do Estado brasileiro pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e o resultado da ausência total de políticas públicas na área.. p. Detenção Juvenil no Estado do Rio de Janeiro.. que possam prescindir do confinamento como condição necessária de efetivação” . as observações mais representativas: “A FEBEM – SP é um sistema prisional. com características de cela. Belo Horizonte/MG)17.. 9. pautado pelas Patético que dentre as recomendações encaminhadas ao governo do Estado tenha sido incluída a de “providenciar sabão para os jovens.. na véspera.. constatou-se a total falta de asseio. o limite etário de imputabilidade fixado na Constituição da República de 1988 (artigo 228). –– 16 Direitos Humanos. 26. Diante de violações tão flagrantes a direitos e garantias fundamentais previstas na Constituição da República de 1988 (v.. p. o relatório que produziram conjuntamente o Conselho Federal de Psicologia e a OAB foi feito a partir de “incursões simultâneas aos centros de internação de praticamente todas as unidades da federação”11. por onde entram a pedagogia e a ressocialização? Relatos colhidos pela Human Rights Watch chegam a dar conta do uso de pasta de dentes para fins alimentares: “Eles comem pasta de dente. 43. a fazer suas necessidades em sacos plásticos ou garrafas”. ainda como ideal” 12 “Os alojamentos assemelham-se a celas.. inc. não possuindo vasos sanitários nem portas divisórias separando a latrina do local destinado ao banho”..... 48. Direitos Humanos. “Verdadeiras Masmorras”. sendo que estes jovens são obrigados. envolvido. Brasil. –– 8 Human. Foi possível observar e entrar em contato com adolescentes que sofreram castigos físicos e estavam aprisionados em celas”. 29. “dizem que é melhor estar no sistema penitenciário do Estado.. Trata-se de relatos feitos a partir de inspeções a unidades não se deixa seduzir pelas promessas irrealizáveis do Estatuto. 1. Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos.. 24. Foi relatado por adolescentes que estes só saem das ‘celas’ 5 Human Rights Watch. nas últimas semanas. construídos em forma de prisão... São Paulo/SP)16.) O ambiente é de intensa violência. Adotando sistemática distinta. deram origem à publicação conjunta do CFP e da OAB. E as similitudes entre os diversos relatórios estaduais que.) Denúncia grave de um caso de necessidade de emergência não atendida: um adolescente baleado. p. 10 práticas de tortura.. inc. § 3º).069/90.. ou presídio para adultos. 42. 5 15 minutos por dia e que. (Centro Educacional São Lucas. –– 18 Direitos Humanos. p. outros relataram ter sofrido tapas.. –– 14 Idem. –– 19 Diretos Humanos. –– 20 Direitos Humanos. São José/SC)18.. –– 17 Direitos Humanos. para casos complexos e resistentes... p.. –– 6 Human. Os banheiros não possuem condições mínimas de higiene. –– 13 Direitos Humanos. que reclamaram de violência física praticada por policiais do Batalhão de Choque da PM. –– 10 Human. (. fora do padrão internacional exigido pela ONU.. 10. reclama da pedagogia e da psicologia a “desafiadora tarefa de desenhar possibilidades de intervenção. XLIX) e em inúmeros documentos internacionais7 – os quais. na medida do possível. bem como oportunidades adequadas de se banharem”6. Manaus/AM)19.g: artigo 5º. nem saem. Estão com fome. Quando descobertos.. local destinado ao isolamento dos internos. inc.. “Todos os alojamentos se assemelham a celas. socos e castigos. –– 9 Human.) Um adolescente mostrou sinais de traumatismo toráxico e afirmou ter sido efeito de espancamento. com condições precárias de higiene e cuidado. “Na ala 2. Sociais e Culturais. p. pouco discreparem daquelas que a Human Rigths Watch apresentou há quase quatro anos atrás sugere que a desumanização dos adolescentes encarcerados seja um objetivo permanentemente perseguido pelas políticas do Estado: “Os alojamentos são inadequados. Os quartos na realidade são celas. é quente. morte e corrupção. 43. internalizados pelo direito pátrio (art. com ausência da responsabilidade do Estado pela custódia dos adolescentes. de fato. Torna especialmente grave os relatos produzidos. são equivalentes a emendas constitucionais – soam risíveis certos direitos que o legislador infraconstitucional elencou no artigo 124 do Estatuto: XI – receber escolarização e profissionalização..sacos de plástico porque os monitores não o deixam sair das celas para ir ao banheiro” . 5º. em uma cela superlotada”. apenas como exemplos. física e psicologicamente. ao apontar a “significativa constatação de que o ideal sócioeducativo do regime persiste. que atinge os internos e funcionários.. –– 11 Conselho Federal de Psicologia e Ordem dos Advogados do Brasil.. destacam-se: Convenção sobre os Direitos da Criança e do Adolescente. alguns exalando mau cheiro. a primeira a ser visitada. cujas letras desejaram conciliar privação de liberdade à panacéia ressocializante. De plano. Registram-se. do que ficar internado nos institutos do Departamento Geral de Ações Sócio-Educativas (Degase)” . prova cabal de inadmissível descumprimento da lei nº 8. XLVII. Reclamam que. o ambiente tem pouca ventilação. (Centro de Internação de Adolescentes Santa Therezinha. 54... 14 No Estado do Rio de Janeiro a inspeção foi realizada no Instituto Padre Severino. LXXVIII. pequeno. A precariedade dos estabelecimentos é tão evidente que “supostamente alguns jovens alegam ser adultos para evitar a detenção dentro do sistema juvenil”9. A apresentação do documento. p. ainda que relativamente a apenas uma unidade. (Centro de Atendimento ao Menor. Comem porque estão com fome”8. (Complexo do Tatuapé. Condições de ventilação e higiene precárias.. (Centro Sócio-educativo Dagmar Feitosa. havendo clara superlotação em cada cela (. estava sem atendimento adequado. –– 15 Direitos Humanos. –– 12 Direitos Humanos. na Ilha do Governador.. p. “Os alojamentos são inadequados e precários. XIII – ter acesso aos meios de comunicação social. negligência e humilhação no trato com os adolescentes sob a responsabilidade do Estado. 7. no período da noite. no ensejo.. a troca de roupas é feita de dez em dez dias”15. p. Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos.. 104. São poucos os colchões disponíveis (. p. onde se encontravam 16 adolescentes. –– 7 Dentre as normas internacionais ratificadas mais pertinentes. p... chamado pela direção da Unidade”. p. 77 .

em razão de sua idade. espaços estatais que submetem a penas privativas de liberdade pessoas presumidas pelo texto constitucional como inimputáveis. imprudência ou imperícia (culpa stricto sensu). consciente e voluntariamente (dolo). Entendida como o conjunto de condições pessoais de sanidade e maturidade que dão ao agente a capacidade de lhe ser juridicamente imputada a prática de um ato punível. Os menores estão fora do direito penal e não podem ser autores de fatos puníveis”22. Saraiva. desde logo. Isentou de pena. São Paulo. Incompreende-se que se prossiga atribuindo funções positivas. por força do que o próprio legislador 21 Artigo 228 – São penalmente inimputáveis os menores de dezoito anos. Outrossim. parte geral. permanece o texto constitucional como referência segura para a realização plena dos direitos da criança e do adolescente. ainda que em plano ideal. No ponto. constituinte originário estabeleceu na Constituição da República de 1988. portanto. privando-os desse ramo do direito. “por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado. Heleno Cláudio. Reserva-se a mais coercitiva das medidas àquele que “dotado de certa dose de autodeterminação e de compreensão (imputabilidade) que o tornava apto a frear. 78 . Portanto. tanto mais quando se faz acompanhar por elementos colhidos no dia a dia da realidade nacional. suas falhas persistem sob quaisquer condições de tempo. Ocorre. que foi a própria Constituição da República de 1988 que. caput. Apesar de afrontado. ou com negligência. tratar-se de pessoa inimputável. Francisco de Assis. ao tempo da ação ou da omissão. Forense. não deveria ser menos certo que também não pudessem se sujeitar à pena de prisão No ordenamento jurídico-penal brasileiro a pena. E a sujeição dos menores à legislação especial não pode tornar uma meia-verdade a inimputabilidade consagrada. porém. medidas privativas de liberdade para menores infratores não passou despercebida por Fragoso: “Diz a lei que os menores de 18 anos são inimputáveis. Código Penal). 1977. estejam os menores fora do direito penal. 228. E em sendo ambos inimputáveis – o menor e o débil mental – não há dúvida que a isenção de pena prevista no dispositivo aproveita ao primeiro tanto quanto ao segundo. Já é um passo significativo reconhecer-se que o Estatuto da Criança e do Adolescente. ou o impulso que o impelia para o fim ilícito (possibilidade de outra conduta) e que. Transcendendo de toda a discussão acerca da questão humanitária. como se viu. sob quaisquer hipóteses. 197. e art. quase que naturalmente. gênero do qual a privação da liberdade é espécie. Rio de Janeiro. também não alcança aqueles que. desencadeou o fato punível” . padece de irracionalidade lógica o desejo de promover a contenção de agentes incapazes de se autodeterminar pelas vias repressiva e segregadora. este juízo de reprovação – pressuposto para aplicação da pena – não pode sequer ser realizado quando o sujeito ativo de determinado ilícito é uma criança ou um adolescente. pouco importando se sob o falso pretexto de ressocializá-los ou reinserilos na sociedade. O erro no direito penal. 22 Fragoso. Sendo assim. ao menos em tese. CP. apesar disso. p. Pois bem.de internação destinadas a privar da liberdade adolescentes em conflito com a lei. Parece verdadeiro que. *RAFAEL CAETANO BORGES Advogado criminal graduado pela UERJ. 21 Toledo. o agente que ostentar tais condições. de capacidade de culpa. Trabalha no escritório Nilo Batista & Advogados Associados. Em realidade. ou seja. sujeitos às normas da legislação especial. expressamente. 1993. dentre os quais se inclui a inimputabilidade e todos os desdobramentos dela advindos – notadamente a proibição de os submeter a penas privativas de liberdade. ou desviar sua vontade. a questão não é de imputabilidade. E se é certo que a tais pessoas. ficando sujeitos às normas estabelecidas na legislação especial (art. sem capacidade de culpa e evidentemente infenso às sanções típicas do direito penal comum. era. E não se diga que a questão é conjuntural ou localizada. o fez a partir de considerações atinentes à sua imputabilidade. espaço ou circunstância política. Afinal. p. À notória contradição. foi mais preciso o legislador. Recai sobre eles presunção absoluta de inimputabilidade e. CF). saudáveis inquietações. sustenta a aplicação da medida de internação como instrumento de promoção da dignidade do jovem infrator. a um sistema comprovadamente cruel e perverso. Coloca-se o adolescente sob o manto do Estatuto da Criança e do Adolescente (legislação especial aplicável) considerando-se. 8. no Brasil a imputabilidade não alcança os menores de idade. 27. inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento” (artigo 26. simultaneamente. compreender o caráter lícito/ilícito de suas atitudes. A aparente perplexidade sugerida por um sistema que preconiza a inimputabilidade e. reprimir. não se pode imputar a prática de condutas criminosas. é sanção reservada a sujeitos ativos imputáveis. são tidos como incapazes de se autodeterminar e. Lições de Direito Penal. segue-se. a despeito de todas as previsões protetivas que traz em seu bojo.

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