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Tenda Jornal Popular – XXIV Curso de Verão – 09 a 16 de janeiro de 2011

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Curso de Verão promove diálogo entre ciência e fé
nasceram nos últimos 20 anos estão vivenciando, dia a dia, rápidos avanços científicos, sobretudo no campo da genética e da biotecnologia. “Quando éramos jovens nem sabíamos que tudo isso existia”, afirmou frei Carlos Mesters, um dos palestrantes do curso. Porém, as novidades que começam a se incorporar ao nosso cotidiano podem estar sendo assimiladas sem reflexão crítica. Para o teólogo Márcio Fabri dos Anjos, a Igreja corre o risco de estar sendo ultrapassada pela sociedade e pelos novos questionamentos Lygia: “Temos que ser ousados, mas com responsabilidade”. que o avanço científico traz. Por isso, aos teólogos Carlos Mesters, Márcio Fabri, José Vanzella e Wagner Lopes, uniu-se a cientista Lygia da Veiga Pereira, professora do Departamento de Genética da USP. Ela trouxe subsídios científicos para que, isentos de dogmatismos e preconceitos, a discussão pudesse ocorrer de forma transparente e clara. Após as palestras, realizadas no auditório TUCA, os participantes do Curso de Verão, divididos em 19 grupos (tendas) de até 30 pessoas, reuniam-se para aprofundar os temas propostos pela assessoria e expressar as reflexões através de linguagens próprias.
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Divulgação

stabelecer um diálogo criativo entre ciência e fé. Este foi um dos compromissos assumidos pelo 24º Curso de Verão, promovido pelo Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (CESEP) que, neste ano, tratou o tema “A Vida: Desafio à Ciência, Bíblia e Bioética – Do Genoma Humano às Células-Tronco”. O ciclo de conferências e debates, realizado entre os dias 9 e 16 de janeiro de 2011, nas dependências da PUC/SP, reuniu mais de 490 pessoas de todas as regiões do país (e de alguns países da América Latina), entre cursistas e monitores voluntários. Confirmando uma tendência que já se vê nas comunidades, as mulheres foram maioria absoluta entre os participantes. Mas a característica que mais marcou o Curso de Verão foi a juventude: cerca de 45% dos cursistas tinham entre 15 e 29 anos, sendo que a maior porcentagem era de pessoas na faixa etária dos 15 a 19 anos: mais de 19% dos participantes. A grande participação de jovens em um curso que trata da responsabilidade ética diante da ciência e da tecnologia não chega a surpreender. As pessoas que

Luciney Martins

Frei Carlos Mesters: “É preciso superar o fundamentalismo e as imagens ultrapassadas de Deus em nós”.

Novos olhares sobre a ciência e a vida
Fotos: Luciney Martins

Vida em AÇÃO

Momentos celebrativos marcaram o início das atividades de cada dia.

O Curso iniciou com a palestra do teólogo Wag- ticista Lygia da Veiga Pereira, que explicou o que é ner Lopes Sanchez, professor da PUC/SP, que ex- genoma (a “receita” da vida) e quais são as conquisplicou o que é (e o que não é) ecumenismo. O diá- tas e os desafios no campo da genética. Ela lembrou logo ecumênico não supõe que ninguém abra mão aos presentes que a comunidade científica internaciode sua identidade religiosa, mas propõe a união de nal também se preocupa com questões éticas e, por esforços em direção ao bem comum. A deputada federal Luiza Erundina também esteve na abertura do evento para fazer uma análise de conjuntura do momento político atual. Esperançosa, ela acredita que a nova presidente tentará implementar as reformas estruturais que ficaram de lado no governo Lula, o qual conseguiu grandes avanços econômicos e sociais, mas ficou devendo no aspecto político. Nos dias 10 e 11, a palestra ficou a cargo da gene- Erundina: “A realidade é dinâmica e dialética”.
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isso, rejeitou a clonagem com fins reprodutivos. Existem grandes esperanças deposita-das na clonagem terapêutica. Espera-se que a pesquisa com clonagem e células-tronco possa auxiliar no tratamento de doenças e na melhoria da qualidade de vida. Contudo, é preciso cuidado com o sensacionalismo e até com o surgimento de charlatões. Em alguns casos, os resultados só aparecerão depois de muitos anos de pesquisas e testes. Nos dias 12 e 13, o teólogo Márcio Fabri dos Anjos abordou a importância que a fé pode ter no sentido de humanizar as novas tecnologias. As religiões têm uma grande contribuição a dar se estiverem dispostas a dialogar com a ciência, apontando seus valores, uma vez que a fé é saber interdisciplinar. Ele rejeitou as respostas prontas: para cada dilema que a ciência trouxer é preciso pensar no caminho a seguir, tendo em vista a valorização da vida e das relações. A sexta-feira, 14, foi reservada à discussão sobre a Campanha da Fraternidade deste ano, que tem como tema “Fraternidade e Vida” e como lema: “A criação geme em dores de parto”. O teólogo José Adalberto Vanzella começou criticando a escolha do lema da campanha que, por seu caráter escatológi-

Celebração de encerramento do Curso de Verão no teatro da PUC (TUCA).

Celebração de encerramento do Curso de Verão enfatizou compromissos para criar redes de promoção da vida.

Vanzella: “Muitas vezes é pior o bem que não fazemos que o mal que praticamos”.

co, pode induzir os fiéis a esquecer que a defesa da vida é tarefa para ser feita aqui e agora. No sábado e domingo, foi a vez do biblista Carlos Mesters refletir a partir da Palavra de Deus. Citando Clemente de Alexandria, destacou que “Deus salvou os judeus judaicamente; os gregos, grega-mente; os bárbaros, barbaramente, e os brasileiros... brasileiramente”. Da mesma maneira como esses povos, no passado, souberam descobrir a presença de Deus em sua cultura, nós somos desafiados a descobrir a voz de Deus em nossa cultura e vida. Mesters ressaltou que a religião sem a ciência é cega e a ciência sem a religião é aleijada. Depois conclamou a todos para superarem o fundamentalismo e a idolatria que se manifestam quando achamos que somos capazes de resumir Deus às novas, pequenas e imperfeitas definições. “Deus é sempre maior do que a imagem que fazemos dele”, afirmou. (Suzel Magalhães Tunes. Mais informações sobre o curso podem ser encontradas no site: www.revistaentheos.com.br
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no berço familiar
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A ética e a eletrônica

Vida em AÇÃO

O impacto da era eletrônica é surpreendente. O mundo passa por um processo de transformação, onde o uso de circuitos formados por componentes elétricos e eletrônicos cresce a cada dia, com as famílias sendo obrigadas a mudar os seus hábitos. Pais e mães reclamam do relacionamento cada vez mais distante com seus filhos, por causa do aparato eletrônico desenfreado. Os jovens passam muitas horas utilizando computadores, celulares, videogames, televisão, câmeras, notebooks etc. Junto com a revolução eletrônica, vem a decadência da ética no berço familiar, com pessoas cada vez mais individualistas. Segundo dados do Instituto de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 75,1 milhões de pessoas relataram assistir televisão por mais de três horas/dia. Vale lembrar que 28,8% delas também afirmaram usar computador e videogame por mais de quatro horas diárias. Eliane Soares Martins, assistente administrativa, moradora do bairro São Mateus, São Paulo, relata sua angústia: “Tenho dois filhos – Gabriela de 14 anos e Rodrigo de 17. Gabriela passa o tempo todo em casa, falando no celular e assistindo novela. Já o Rodrigo se tranca no quarto e passa horas em frente ao computador e/ou jogando videogame”. A mãe prossegue: “Trabalho fora oito horas por dia e ainda tenho que cuidar da casa. No final de semana, que tenho mais tempo para curtir minha família, deparo-me com uma casa fria, sem o ca4

lor humano. Cada um está num canto. Gabriela cochicha no celular e Rodrigo fica no computador. Tenho que pedir um bom dia ou boa tarde. Às vezes tenho que ser mais drástica para chamar a atenção deles. Um dia perguntei ao Rodrigo como ele estava na escola e com os amigos. Ele disse que ia mandar as respostas por e-mail para mim. Sinto-me uma pessoa vazia dentro de minha própria casa”. Como esta família, existem muitas outras que tem o convívio prejudicado por conta da ‘pilha’ de produtos eletrônicos. Marcio Fabri dos Anjos, especialista em Bioética e professor no Instituto São Paulo de Estudos Superiores, afirma: “Ética é um saber prático

Márcio: “Há uma grande falta de clareza sobre os critérios éticos na atualidade”.

que estuda as bases e propostas do bem viver”. Cabe a nós participar e orientar as crianças e jovens para o caminho da vida em família. Não deixemos que a tecnologia – um instrumento tão eficiente – se torne um vilão em nossos lares. (Edson Gimenez Martins)

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Repensando o meio ambiente

Verifica-se hoje a acelerada destruição do meio ambiente e do próprio ser humano. As novas tecnologias possibilitam maior produção com um custo econômico mais reduzido. Porém, muitas vezes o custo ambiental é muito elevado e, em certos contextos, ainda permanecem desconhecidos. A modernidade acelerou o antropocentrismo e, com ele, a degradação da natureza. No final do século XX, alguns segmentos começaram a pensar de forma mais intensa a questão da sustentabilidade e a necessidade de uma ótica biocêntrica, colocando a vida no centro das atenções.

Émeu cuidado preciso o
As manchetes nos jornais Mostram a realidade O viver irresponsável Da nossa sociedade O descuido com a terra E com toda a humanidade São notícias que revelam A nossa pouca paixão Pela vida que ganhamos No dia da criação. O ataque à natureza, O desprezo pelo irmão É gente vivendo de luxo, Ao lado do favelado. Latifúndio improdutivo, Tanto pai desempregado. Criança passando fome Idoso desamparado. Aquecimento global, Corrupção, violência. Pesquisa em área vital Sem ética na ciência, Coisa que na humanidade Gera enorme conseqüência.

A sociedade moderna em geral, também denominada sociedade de consumo, ainda é muito antropocêntrica, narcisista e individualista. Raciocina pouco sobre os problemas ambientais por ela gerados. Diante disso, uma das práticas importantes é o cuidado com o consumo. É preciso consumir moderadamente e com responsabilidade. Outra atitude fundamental é produzir procurando gerar o menor dado ambiental possível. A perspectiva biocêntrica exige a integração responsável entre o ser humano e o meio ambiente. Precisamos cuidar de tudo o que nos envolve, pois tudo o que vive merece viver. É imprescindível repensar nossas atitudes para garantir uma sobrevivência digna. A Campanha da Fraternidade desse ano nos chama a atenção para isso. Com seu tema “Fraternidade e a vida no planeta” nos faz pensar que a natureza é limitada. Daí a necessidade de rever nossos métodos e o próprio uso das novas tecnologias a fim de preservar a “Casa Comum”. (Djonatan Arsego)

É preciso compreender Como vive a própria terra E a rede de relações Que dentro dela se encerra E por fim refletir sempre Sobre tudo que a gente erra O mundo em que nós vivemos Não é muito grande não: Tem água, tem ar e terra Também tem vegetação Tem bicho, tem ser humano Tudo está em relação. Hoje temos consciência Tudo está interligado Ninguém e nada no mundo Pode viver separado: Pra que haja vida sempre Depende do meu cuidado.
(Valter Ceccheti)

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Alimentos transgênicos podem trazer vários riscos
Nos anos 1980, iniciaram-se os estudos sobre os transgênicos, ou seja, produtos geneticamente modificados, a fim de torná-los mais produtivos, mais resistentes a inseticidas e herbicidas ou mais duráveis. Hoje, com o avanço destas pesquisas, já existem produtos transgênicos sendo consumidos mesmo com as incertezas dos males que podem causar à saúde humana e ao meio ambiente. A grande maioria da população não discute essa questão e consome tais alimentos, sem saber que podem estar expostos a diversos riscos. De acordo com padre Severino Diniz, de Promissão/SP, militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e participante do Curso de Verão, a liberação dos transgênicos pode trazer conseqüências gravíssimas, pois o cultivo deste tipo de plantação aumenta o uso dos agrotóxicos, causando mal ao solo, à agricultura e à qualidade de vida das pessoas. O veneno usado nos transgênicos é conhecido como “mata-mata”, que contém alumínio, cobre, enxofre e metal, os quais causam sérios impactos no meio ambiente. Além disso, o custo-beneficio é bai-

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Você aceita Você aceita esta bela esta bela maçã?

maçã?

xo, o que não compensa, podendo afetar o trabalho e a mão-de-obra no campo, explica padre Severino. Segundo ele, este tema é muito discutido dentro dos acampamentos do MST. Neles incentiva-se o cultivo de sementes crioulas como o feijão, milho, soja e outras, buscando promover a qualidade nos alimentos sem que seja necessário correr riscos. Desde a clonagem da ovelha Dolly discute-se o tema polêmico das transformações genéticas em seres humanos, animais e vegetais. Questiona-se sobre os riscos que podem acarretar para o futuro da humanidade. Porém, ainda não existem conclusões seguras e definitivas. Nos EUA e na Argentina, o cultivo destes produtos foi liberado há alguns anos. No Brasil, somente o milho, a soja e o algodão podem ser cultivados. Porém, com a globalização e a importação de produtos, esse consumo aumenta cada vez mais. Assim, permanece a pergunta: Como garantir uma alimentação de qualidade e a saúde da população? Onde ficam esses direitos? (Ana Maria da Silva)

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Vida em AÇÃO

Aborto é assunto indiscutível?
No Brasil, o aborto é tratado pelo Código Penal como crime contra a vida, prevendo detenção de 1 a 10 anos, a depender da situação. No artigo 128, o Código afirma que não se pune a prática do aborto em dois casos: 1) Quando não há outro meio para salvar a vida da mãe; 2) Quando a gravidez resulta de estupro. O aborto é um tema bastante complexo. Muitos abortos ocorrem por falta de planejamento familiar; falta de responsabilidade sexual; ineficientes políticas públicas na área da saúde e, mais especificamente em relação ao acompanhamento às gestantes. Abortos são praticados nas mais diferentes situações e contextos e trazem múltiplas consequências. Pessoas que recorrem a esta prática, têm muitos motivos para defendê-lo. Entre outros podem estar estes: “apagar” a lembrança de uma violência sexual; impedir o nascimento de uma criança com problemas de saúde; “evitar” o sofrimento dos pais e/ou da própria criança por ter sido indesejada; inDivulgação

terromper a gravidez por falta de condições para criar mais um filho... São diversos também os argumentos dos que se posicionam contra o aborto. Entre eles, são apresentados os riscos que o aborto implica, riscos esses que podem levar a mãe a óbito. Junto com isso, vêm as questões éticas, uma vez que a vida é o valor supremo que ninguém pode violá-lo, ainda mais quando se trata de um ser indefeso como é o caso do feto. Em situações em que a criança nascerá com alguma deficiência, o assunto fica ainda mais polêminco. Afinal, a mãe tem ou não o direito de abortá-la? Diante da defesa do direito de abortar, pode-se perguntar: a pessoa que nasce normal mas, em certa altura da vida, por um acidente, fica deficiente, também poderá ser eliminada? Qual a diferença entre interromper a vida de uma pessoa que ainda não nasceu e de uma pessoa já adulta, pelo mesmo motivo da deficiência? A vida é o maior bem pelo qual uma pessoa, mesmo antes de nascer, luta para ter garantido. A foto ilustra essa realidade. Trata-se de um bebê que se constatou ter problemas de saúde, devendo sofrer uma operação ainda no ventre da mãe. Ao realizar a intervenção cirúrgica, o bebê segurou o dedo do médico como que pedindo a ele: “Ajuda-me a viver”. Marlene Meneghetti, 45 anos, de Rio do Sul/SC, afirma: “Sou contra o aborto porque acho que todo mundo tem direito à vida e a criança abortada não tem direito de escolha.” Já Joaninha Sontoro, 79 anos, de São Paulo/SP, diz ser a favor “pois existem casos especiais, como por exemplo: quando se sabe que o feto tem algum defeito, quando a mãe está debilitada ou ainda quando é menor de idade. Quem deveria resolver essa situação seriam os profissionais da saúde com orientação médica e da família.” Uma das reivindicações do Movimento Feminista é pela liberação da prática do aborto e pelo direito de autonomia das mulheres decidirem sobre o uso de seu corpo. Na verdade, não existe uma medida única para enfrentar esta questão. É preciso agir com consciência sobre o valor inviolável da vida, mas não desconsiderar o contexto onde ela acontece e os vários aspectos que a envolve. Diante da complexidade do assunto permanece a pergunta: Será que a criminalização do aborto é a única solução a ser tomada pelo Estado para resolver este problema? (Maria Regina de Oliveira Martini Cottes e Felipe Quinholi de Jesus)
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Desafios da ciência
e da religião
O Curso de Verão de 2011 trouxe o desafio da construção de conhecimentos a partir de reflexões sobre a produção científica contemporânea. Nas diversas palestras foi enfocada a necessidade de integração do pensamento científico com a análise que se faz da realidade à luz de experiências comunitárias e de fé. Na maioria das vezes, o saber científico é abstrato. Embora parta da realidade, depois se afasta do mundo real na tentativa de redescobri-lo. No caso do estudo do genoma humano, as dimensões microscópicas dificultam ainda mais a compreensão imediata. Daí vem a questão: Como nossas experiências de fé podem se aproximar dessas experiências genéticas de última geração? A Ciência nos apresenta desenvolvimento técnico e tecnológico que em muito melhorou as condições de vida das pessoas. Porém, ao mesmo tempo, cria a incerteza da conservação da vida no planeta, já que ela mesma colaborou para o desequilíbrio nas relações que temos com o meio ambiente e com o nosso semelhante. Quando se percebe a lógica deste saber, passa-se a ter consciência de uma nova realidade existente. Dela decorre também a necessidade

Vida em AÇÃO

de construir um novo olhar sobre os valores que sustentam a vida e a sociedade. Não é de hoje que religião e ciência tentam trilhar os caminhos do entendimento e do reconhecimento mútuo. Em meio a seus avanços e limites, procuram reafirmar valores. Porém, há sempre novos desafios, pois quando se tem as respostas para os problemas, muitas vezes mudam as perguntas. No meio de tudo estão os princípios éticos, que precisam ser observados por todas as denominações religiosas, pelos cientistas, pelo Estado e pela sociedade em geral. (Lívia Helena Camilli Brondi)

Vivemos em um mundo globalizado, numa espécie de “aldeia global”, onde as pessoas estão interligadas e as possibilidades de relacionamento não têm fronteiras. Não há como dizer que alguém está alheio aos avanços tecnológicos e à ciência. Estes fazem parte do cotidiano. Assim, somos levados a refletir até onde tudo isso é bom. A ciência deve ter um limite demarcado pelo homem? Qual seria o limite razoável para a ciência? Entre as grandes conquistas alcançadas pela ciência estão as descobertas da medicina que puderam prolongar a vida de muitas pessoas; as melhorias na qualidade de vida; a prevenção e o combate
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A ciência e seus limites

de doenças e epidemias; o avanço tecnológico que propicia o progresso; a economia de trabalho e de esforço laboral conseguidos pelo desenvolvimento das máquinas... Enfim, são incontáveis os contributos trazidos pela atividade científica. Por outro lado, é preciso sublinhar também os pontos problemáticos do avanço científico como: a construção de armas nucleares e bioquímicas que ceifaram a vida de tantos; a degradação do meio ambiente com a exploração e a poluição desordenada; a perda de sensibilidade e capacidade de convivência, fruto do exacerbado acesso aos meios eletrônicos; o abandono de princípios éticos de pro-

Vida em AÇÃO
moção da vida... Tantos outros temas levantam sérios questionamentos como é o caso da eutanásia, do aborto, da clonagem, da realização de pesquisas com embriões etc. A grande questão que fica é: Quais pesquisas poderão ser feitas sem colocar em risco a preservação da vida e sem infringir a dignidade humana? A Bioética aparece, pois, como um caminho seguro e plausível para a limitação dos trabalhos científicos. Contudo, ela ainda não é um consenso entre as Nações. Existe um embate enorme, principalmente entre os países desenvolvidos e os ditos subdesenvolvidos ou emergentes. Os mais ricos desejam impedir a todo custo a elaboração de leis que determinem um limite para a emissão de poluentes e a devastação da natureza, enquanto os menos favorecidos se sentem acuados e temerosos. Percebese, todavia, que o debate se faz salutar e digno de enorme atenção por parte de todos, uma vez que envolve toda a humanidade. Não podemos basear nossas reflexões no senso comum ou dar-lhes um caráter demasiado dogmático ou moralista. É preciso sempre analisar de modo crítico e com base em princípios éticos. (Wallace Aguiar)

População busca

vida melhor
A ciência da vida é um grande desafio para todos e, sobretudo, para a população pobre que ainda não tem acesso às reflexões sobre o assunto. Por isso é importante falar do tema ao povo da periferia e ajudá-lo a defender a vida desde a gestação. Trata-se de um desafio no sentido de evitar a morte e promover a vida A maior parte da população pobre sofre por falta de políticas públicas eficientes na área da saúde educativa, preventiva e curativa. Esse é ainda um grande problema político que enfrentamos. O Estado tem o dever de criar condições para que os mais pobres também possam usufruir de uma vida saudável e segura. A Bioética precisa ser uma ciência para todos, também para aqueles que não têm vez nem

voz. A Ética nos ensina a querer o bem, sem fazer o mal aos outros. A Ética e a Bioética nos colocam a responsabilidade e o compromisso com a vida de todos os seres vivos. (Darío Martínez Oviedo)

inspira luta pela democratização

Vladimir Herzog
da comunicação

Vladimir Herzog (Vlado) foi jornalista, professor e dramaturgo. Nasceu na Croácia, em 1937, e veio para o Brasil com seus pais na década de 1940, fugidos do seu país que era controlado pela Alemanha nazista. No Brasil, tornou-se conhecido pelas conseqüências sofridas por seu vínculo com o “movimento de resistên-

cia” à ditadura militar e por sua luta pela democratização da comunicação. Vladimir trabalhou em importantes órgãos de imprensa como o Jornal O Estado de São Paulo e a BBC de Londres. Na década de 1970, assumiu a direção do departamento de telejornalismo da TV Cultura de São Paulo. Também foi professor da Escola de Comunicações e Artes
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Vida em AÇÃO
da Universidade de São Paulo. Foi preso e encontrado morto na cela que ocupava no dia 25 de outubro de 1975. Embora o óbito tenha sido registrado como suicídio por enforcamento, é consenso de que foi vítima de tortura por servidores do DOI-CODI. Dois jornalistas presos com ele confirmaram o espancamento. A morte de Vladimir gerou muitos protestos da imprensa mundial, iniciando um processo internacional em prol dos Direitos Humanos na América Latina e, sobretudo, no Brasil. Alguns atribuem a este acontecimento o início da abertura política. Em 1978, a Justiça responsabilizou a União por prisão ilegal, tortura e morte do jornalista. Em 1996, a Comissão Especial dos Desaparecidos Políticos reconheceu que Herzog fora assassinado no DOI-CODI de São Paulo e decidiu conceder uma indenização para sua família. A luta de Vladimir prossegue, pois em nosso país há uma super concentração dos meios de comunicação nas mãos de um pequeno grupo, além da programação ter um nítido interesse comercial. O exemplo dele é um caminho a seguir, principalmente na luta pela democratização e popularização dos meios de comunicação. Temos direito a mídias que mostrem os nossos interesses, trazendo informações verdadeiras. Assim, cada cidadão poderá ter opiniões críticas em relação ao meio em que vive, e não se tornar um mero consumista. A ditadura nos meios de comunicação continua! Portanto, sejamos protagonistas dessa luta, buscando a democracia nos nossos meios de comunicação. (Ana Carolina Santana Rodrigues)

Direitos Humanos continuam sendo violados
Embora os direitos humanos estejam inscritos em várias declarações e constituições, eles continuam sendo violados em muitos lugares e de muitos modos. Vejamos um exemplo: Em relação aos presidiários, o presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos (CEDH) do Estado do Espírito Santo, Bruno Alves de Souza, declarou: “O modelo de ressocialização que vem sendo adotado pelo governo do Estado do Espírito Santo é deficiente. Em julho, convocamos todas as pessoas envolvidas na ressocialização no Estado e descobrimos que todos os programas não atingem mais de 15% da massa carcerária que é de cerca de 12 mil presos”. Souza destacou também que a discussão sobre sistema prisional não se restringe à parte física dos presídios, mas envolve outras questões mais amplas. “A questão da violência, da impunidade e a morosidade dificultam as ações. A partir de janeiro, teremos estruturas muito boas, mas continuaremos com grande índice de violência e com uma Defensoria Pública com pouquíssimos profissionais atuando”. O presidente do CEDH também lembrou que o regime disciplinar em funcionamento nas unidades é equivocado porque dá o mesmo tratamento aos diferentes tipos de detentos, estejam eles em regime semi-aberto, fechado ou provisório (aguardando julgamento). O modelo de Centro de Detenção Provisório adotado pelo Espírito Santo precisa ser superado com urgência. Os presos permanecem confinados prati10

camente todo dia. Não saem das celas de 2m x 3m, conforme denunciou o presidente do CEDH. As marmitex são entregues por um buraco na porta da cela para evitar que tenham contato com outras pessoas. Dentro das celas os presos se alimentam, dormem e fazem suas necessidades fisiológicas. Igualmente não se oferece nenhum tipo de programa de ressocialização aos detentos, além das visitas serem recebidas no parlatório (cabines que separam o preso do familiar por uma película). O presidente do CEDH considera isso um verdadeiro absurdo. Estes atos de violação de direitos humanos são inaceitáveis pela Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos de 2005, em seu artigo 28. A todo ser humano deve ser assegurado o direito de ter uma vida com dignidade. (Carlos Alberto de Araújo Moraes)

Vida em AÇÃO

A vida por uma

causa
Dirceu Benincá

Irmã Alberta Girardi, 90 anos. Nasceu em Veneza (Itália) e está no Brasil desde 1970. Atuou durante vários anos ao lado do padre Josimo Tavares, na Comissão Pastoral da Terra (CPT), assassinado no dia 10 de maio de 1986 na cidade de Imperatriz (MA). Em São Paulo, trabalhou na Pastoral do Povo de Rua e encontrou na luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) uma forte razão para investir sua vida como religiosa. Hoje faz parte do MST do Estado de São Paulo no setor de Direitos Humanos e do Conselho Estadual da CPT/São Paulo. Em visita à tenda do Jornal Popular no Curso de Verão 2011, afirmou: “A vida é uma oportunidade para amar a Deus e aos irmãos”.

Curso de Verão inspira iniciativas similares

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Curso de Verão de São Paulo nasceu sob a coordenação do padre José Oscar Beozzo e da equipe do CESEP a partir do desejo de proporcionar às comunidades de todo o Brasil uma formação bíblica, teológica, eclesiológica, pastoral e sobre temas sociais atuais. Desde o início, o curso esteve voltado para lideranças de comunidades de base, que no seu maior número era e ainda é constituído de mulheres, militantes de movimentos populares, pastorais sociais, membros de diversas igrejas, grupos de afrodescendentes, educadores, catequistas, sacerdotes, religiosas e grande quantidade de jovens que sempre marcou presença. Esse mutirão sempre contou com participantes de todo o país, e também de fora, o que enriquece a troca de experiências e a formação conjunta. Tive a alegria de ser participante e colaboradora durante os seis primeiros anos do curso. Foram tempos de muita troca de saberes, de vida tecida na história cotidiana da militância e do engajamento eclesial. Em 2011, pude retornar ao curso, que foi e continua sendo uma grande tenda-mãe que abrigou ao

Mutirão de
lideranças

formação prepara
longo desses anos tantas experiências de Norte a Sul do Brasil. Essa experiência se multiplica como uma célula viva. Aos poucos vai crescendo pelo país a fora, como, por exemplo, o Curso de Verão da Terra do Sol, em Fortaleza/CE. Este propicia ao povo do Norte e Nordeste uma maior participação dos que moram naquelas regiões. Assim vai formando multiplicadores dessa educação popular. Sou grata pela oportunidade de ter voltado nesse ano como visitante para rever os amigos e “matar” a saudade dos velhos tempos. Desejo que essa experiência aqui vivida por vocês chegue às comunidades que esperam ser animadas e fortalecidas pelo vosso testemunho. Vamos acalentar a esperança e seguir avançando na construção de uma sociedade mais justa e fraterna, começando pela comunicação desse saber. (Vilma Nogueira – Irmã Calvariana)
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Vida em AÇÃO

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Vida em Ação é uma produção da Tenda de Jornal Popular do XXIV Curso de Verão, realizado de 09 a 16 de janeiro de 2011 na PUC/SP. Cursistas: Adriano Pinheiro, Ana Carolina Santana Rodrigues, Ana Maria da Silva, Carlos Alberto de Araújo Moraes, Darío Martínez Oviedo, Djonatan Arsego, Edson Gimenez Martins, Felipe Quinholi de Jesus, Lívia Helena Camilli Brondi, Maria Regina Martini Cotes, Nello Augusto Pulcinelli, Nidia Isabel Gonzáles Gaona, Rafael Reinaldo da Silva Nogueira, Suzel Magalhães Tunes, Wallace Nunes de Aguiar Honório. Monitores: Dirceu Benincá, Iva Mendes, Izalene Tiene e Vânia Aguiar Pinheiro. Revisão e edição: Dirceu Benincá Diagramação: Cleber Pires