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GUIMARÃES ROSA

GRANDE SERTÃO: VEREDAS

EDITORA NOVA AGUILAR 1994

João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas

PRIMEIRA E DIÇÃO, 1994 BIBLIOTECA LUSO-BRASILEIRA SÉRIE BRASILEIRA

JOÃO GUIMARÃES R OSA FICÇÃO COMPLETA
EM DOIS VOLUMES

VOLUME II

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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas

– NONADA. TIROS QUE O SENHOR ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser – se viu –; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram – era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente – depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucuia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá – fazendões de fazendas,
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almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte. Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores. Em falso receio, desfalam no nome dele – dizem só: o Que-Diga. Vote! não... Quem muito se evita, se convive. Sentença num Aristides – o que existe no buritizal primeiro desta minha mão direita, chamado a Vereda-da-Vaca-Mansa-deSanta-Rita – todo o mundo crê: ele não pode passar em três lugares, designados: porque então a gente escuta um chorinho, atrás, e uma vozinha que avisando: – “Eu já vou! Eu já vou!...” – que é o capiroto, o que-diga... E um José Simpilício – quem qualquer daqui jura ele tem um capeta em casa, miúdo satanazim, preso obrigado a ajudar em toda ganância que executa; razão que o Simpilício se empresa em vias de completar de rico. Apre, por isso dizem também que a besta pra ele rupeia, nega de banda, não deixando, quando ele quer amontar... Superstição. José Simpilício e Aristides, mesmo estão se engordando, de assim não-ouvir ou ouvir. Ainda o senhor estude: agora mesmo, nestes dias de época, tem gente porfalando que o Diabo próprio parou, de passagem,
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no Andrequicé. Um Moço de fora, teria aparecido, e lá se louvou que, para aqui vir – normal, a cavalo, dum dia-e-meio – ele era capaz que só com uns vinte minutos bastava... porque costeava o Rio do Chico pelas cabeceiras! Ou, também, quem sabe – sem ofensas – não terá sido, por um exemplo, até mesmo o senhor quem se anunciou assim, quando passou por lá, por prazido divertimento engraçado? Há-de, não me dê crime, sei que não foi. E mal eu não quis. Só que uma pergunta, em hora, às vezes, clareia razão de paz. Mas, o senhor entenda: o tal moço, se há, quis mangar. Pois, hem, que, despontar o Rio pelas nascentes, será a mesma coisa que um se redobrar nos internos deste nosso Estado nosso, custante viagem de uns três meses... Então? QueDiga? Doideira. A fantasiação. E, o respeito de dar a ele assim esses nomes de rebuço, é que é mesmo um querer invocar que ele forme forma, com as presenças! Não seja. Eu, pessoalmente, quase que já perdi nele a crença, mercês a Deus; é o que ao senhor lhe digo, à puridade. Sei que é bem estabelecido, que grassa nos Santos-Evangelhos. Em ocasião, conversei com um rapaz seminarista, muito condizente, conferindo no livro de rezas e revestido de paramenta, com uma vara de maria-preta na mão – proseou que ia adjutorar o padre, para extraírem o Cujo, do corpo vivo de
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uma velha, na Cachoeira-dos-Bois, ele ia com o vigário do Campo-Redondo... Me concebo. O senhor não é como eu? Não acreditei patavim. Compadre meu Quelemém descreve que o que revela efeito são os baixos espíritos descarnados, de terceira, fuzuando nas piores trevas e com ânsias de se travarem com os viventes – dão encosto. Compadre meu Quelemém é quem muito me consola – Quelemém de Góis. Mas ele tem de morar longe daqui, na Jijujã, Vereda do Buriti Pardo... Arres, me deixe lá, que – em endemoninhamento ou com encosto – o senhor mesmo deverá de ter conhecido diversos, homens, mulheres. Pois não sim? Por mim, tantos vi, que aprendi. Rincha-Mãe, Sangued’Outro, o Muitos-Beiços, o Rasgaem-Baixo, Faca-Fria, o Fancho-Bode, um Treciziano, o Azinhavre... o Hermógenes... Deles, punhadão. Se eu pudesse esquecer tantos nomes... Não sou amansador de cavalos! E, mesmo, quem de si de ser jagunço se entrete, já é por alguma competência entrante do demônio. Será não? Será? De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de dificel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp’ro, não fantaseia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular idéia. O diabo
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existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso... Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! – é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco – é alta mercê que me faz: e pedir posso, encarecido. Este caso – por estúrdio que me vejam – é de minha certa importância. Tomara não fosse... Mas, não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já sabia, esperava por ela-já o campo! Ah, a gente, na velhice, carece de ter sua aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar... Bem, o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças – eu digo. Pois não é ditado: “menino – trem do diabo”? E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento... Estrumes. ... O diabo na rua, no meio do redemunho...
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Hem? Hem? Ah. Figuração minha, de pior pra trás, as certas lembranças. Mal haja-me! Sofro pena de contar não... Melhor, se arrepare: pois, num chão, e com igual formato de ramos e folhas, não dá a mandioca mansa, que se come comum, e a mandioca-brava, que mata? Agora, o senhor já viu uma estranhez? A mandioca-doce pode de repente virar azangada – motivos não sei; às vezes se diz que é por replantada no terreno sempre, com mudas seguidas, de manaíbas – vai em amargando, de tanto em tanto, de si mesma toma peçonhas. E, ora veja: a outra, a mandiocabrava, também é que às vezes pode ficar mansa, a esmo, de se comer sem nenhum mal. E que isso é? Eh, o senhor já viu, por ver, a feiúra de ódio franzido, carantonho, nas faces duma cobra cascavel? Observou o porco gordo, cada dia mais feliz bruto, capaz de, pudesse, roncar e engolir por sua suja comodidade o mundo todo? E gavião, corvo, alguns, as feições deles já representam a precisão de talhar para adiante, rasgar e estraçalhar a bico, parece uma quicé muito afiada por ruim desejo. Tudo. Tem até tortas raças de pedras, horrorosas, venenosas – que estragam mortal a água, se estão jazendo em fundo de poço; o diabo dentro delas dorme: são o demo. Se sabe? E o demo – que é só assim o significado dum azougue maligno – tem ordem de seguir o caminho dele, tem licença para campear?! Arre, ele está misturado em tudo.
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Que o que gasta, vai gastando o diabo de dentro da gente, aos pouquinhos, é o razoável sofrer. E a alegria de amor – compadre meu Quelemém, diz. Família. Deveras? É, e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é... Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos! Sei desses. Só que tem os depois – e Deus, junto. Vi muitas nuvens. Mas, em verdade, filho, também, abranda. Olhe: um chamado Aleixo, residente a légua do Passo do Pubo, no daAreia, era o homem de maiores ruindades calmas que já se viu. Me agradou que perto da casa dele tinha um açudinho, entre as palmeiras, com traíras, pra-almas de enormes, desenormes, ao real, que receberam fama; o Aleixo dava de comer a elas, em horas justas, elas se acostumaram a se assim das locas, para papar, semelhavam ser peixes ensinados. Um dia, só por graça rústica, ele matou um velhinho que por lá passou, desvalido rogando esmola. O senhor não duvide – tem gente, neste aborrecido mundo, que matam só para ver alguém fazer careta... Eh, pois, empós, o resto o senhor prove: vem o pão, vem a mão, vem o são, vem o cão. Esse Aleixo era homem afamilhado, tinha filhos pequenos; aqueles eram o amor dele, todo, despropósito. Dê bem, que não nem um ano estava passado, de se matar o
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velhinho pobre, e os meninos do Aleixo aí adoeceram. Andaço de sarampão, se disse, mas complicado; eles nunca saravam. Quando, então, sararam. Mas os olhos deles vermelhavam altos, numa inflama de sapiranga à rebelde; e susseguinte – o que não sei é se foram todos duma vez, ou um logo e logo outro e outro – eles restaram cegos. Cegos, sem remissão dum favinho de luz dessa nossa! O senhor imagine: uma escadinha – três meninos e uma menina – todos cegados. Sem remediável. O Aleixo não perdeu o juizo; mas mudou: ah, demudou completo – agora vive da banda de Deus, suando para ser bom e caridoso em todas suas horas da noite e do dia. Parece até que ficou o feliz, que antes não era. Ele mesmo diz que foi um homem de sorte, porque Deus quis ter pena dele, transformar para lá o rumo de sua alma. Isso eu ouvi, e me deu raiva. Razão das crianças. Se sendo castigo, que culpa das hajas do Aleixo aqueles meninozinhos tinham?! Compadre meu Quelemém reprovou minhas incertezas. Que, por certo, noutra vida revirada, os meninos também tinham sido os mais malvados, da massa e peça do pai, demônios do mesmo caldeirão de lugar. Senhor o que acha? E o velhinho assassinado? – eu sei que o senhor vai discutir. Pois, também. Em ordem que ele tinha um pecado de crime, no
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corpo, por pagar. Se a gente – conforme compadre meu Quelemém é quem diz – se a gente torna a encarnar renovado, eu cismo até que inimigo de morte pode vir como filho do inimigo. Mire veja: se me digo, tem um sujeito Pedro Pindó, vizinho daqui mais seis léguas, homem de bem por tudo em tudo, ele e a mulher dele, sempre sidos bons, de bem. Eles têm um filho duns dez anos, chamado Valtei – nome moderno, é o que o povo daqui agora apreceia, o senhor sabe. Pois essezinho, essezim, desde que algum entendimento alumiou nele, feito mostrou o que é: pedido madrasto, azedo queimador, gostoso de ruim de dentro do fundo das espécies de sua natureza. Em qual que judia, ao devagar, de todo bicho ou criaçãozinha pequena que pega; uma vez, encontrou uma crioula bentabêbada dormindo, arranjou um caco de garrafa, lanhou em três pontos a popa da perna dela. O que esse menino babeja vendo, é sangrarem galinha ou esfaquear porco. – “Eu gosto de matar...” – uma ocasião ele pequenino me disse. Abriu em mim um susto; porque: passarinho que se debruça – o vôo já está pronto! Pois, o senhor vigie: o pai, Pedro Pindó, modo de corrigir isso, e a mãe, dão nele, de miséria e mastro – botam o menino sem comer, amarram em árvores no terreiro, ele nu nuelo, mesmo em junho frio, lavram o corpinho dele na peia e na taca, depois limpam a pele do sangue, com cuia de salmoura.
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A gente sabe, espia, fica gasturado. O menino já rebaixou de magreza, os olhos entrando, carinha de ossos, encaveirada, e entisicou, o tempo todo tosse, tossura da que puxa secos peitos. Arre, que agora, visível, o Pindó e a mulher se habituaram de nele bater, de pouquinho em pouquim foram criando nisso um prazer feio de diversão – como regulam as sovas em horas certas confortáveis, até chamam gente para ver o exemplo bom. Acho que esse menino não dura, já está no blimbilim, não chega para a quaresma que vem... Uê-uê, então?! Não sendo como compadre meu Quelemém quer, que explicação é que o senhor dava? Aquele menino tinha sido homem. Devia, em balanço, terríveis perversidades. Alma dele estava no breu. Mostrava. E, agora, pagava. Ah, mas, acontece, quando está chorando e penando, ele sofre igual que se fosse um menino bonzinho... Ave, vi de tudo, neste mundo! lá vi até cavalo com soluço... – o que é a coisa mais custosa que há. Bem, mas o senhor dirá, deve de: e no começo – para pecados e artes, as pessoas – como por que foi que tanto emendado se começou? Ei, ei, aí todos esbarram. Compadre meu Quelemém, também. Sou só um sertanejo, nessas altas idéias navego mal. Sou muito pobre coitado. Inveja minha pura é de uns conforme o senhor, com toda leitura e suma
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doutoração. Não é que eu esteja analfabeto. Soletrei, anos e meio, meante cartilha, memória e palmatória. Tive mestre, Mestre Lucas, no Curralinho, decorei gramática, as operações, regra-de-três, até geografia e estudo pátrio. Em folhas grandes de papel, com capricho tracei bonitos mapas. Ah, não é por falar: mas, desde o começo, me achavam sofismado de ladino. E que eu merecia de ir para cursar latim, em Aula Régia – que também diziam. Tempo saudoso! Inda hoje, apreceio um bom livro, despaçado. Na fazenda O Limãozinho, de um meu amigo Vito Soziano, se assina desse almanaque grosso, de logogrifos e charadas e outras divididas matérias, todo ano vem. Em tanto, ponho primazia é na leitura proveitosa, vida de santo, virtudes e exemplos – missionário esperto engambelando os índios, ou São Francisco de Assis, Santo Antônio, São Geraldo... Eu gosto muito de moral. Raciocinar, exortar os outros para o bom caminho, aconselhar a justo. Minha mulher, que o senhor sabe, zela por mim: muito reza. Ela é uma abençoável. Compadre meu Quelemém sempre diz que eu posso aquietar meu temer de consciência, que sendo bem-assistido, terríveis bons-espíritos me protegem. Ipe! Com gosto... Como é de são efeito, ajudo com meu querer acreditar. Mas nem sempre posso. O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Diverjo de todo o mundo... Eu
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quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre – o senhor solte em minha frente uma idéia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém! Olhe: o que devia de haver, era de se reunirem-se os sábios, políticos, constituições gradas, fecharem o definitivo a noção – proclamar por uma vez, artes assembléias, que não tem diabo nenhum, não existe, não pode. Valor de lei! Só assim, davam tranqüilidade boa à gente. Por que o Governo não cuida?! Ah, eu sei que não é possível. Não me assente o senhor por beócio. Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias... Tanta gente – dá susto de saber – e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons... De sorte que carece de se escolher: ou a gente se tece de viver no safado comum, ou cuida só de religião só. Eu podia ser: padre sacerdote, se não chefe de jagunços; para outras coisas não fui parido. Mas minha velhice já principiou, errei de toda conta. E o reumatismo... Lá como quem diz: nas escorvas. Ahã.

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Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-omundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma... Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele, de Cardéque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles. Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório. Eu queria rezar – o tempo todo. Muita gente não me aprova, acham que lei de Deus é privilégios, invariável. E eu! Bofe! Detesto! O que sou? – o que faço, que quero, muito curial. E em cara de todos faço, executado. Eu não tresmalho! Olhe: tem uma preta, Maria Leôncia, longe daqui não mora, as rezas dela afamam muita virtude de poder. Pois a ela pago, todo mês – encomenda de rezar por mim um terço, todo santo dia, e, nos domingos, um rosário. Vale, se vale. Minha mulher não vê mal nisso. E estou, já mandei recado para uma
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outra, do Vau-Vau, uma Izina Calanga, para vir aqui, ouvi de que reza também com grandes meremerências, vou efetuar com ela trato igual. Quero punhado dessas, me defendendo em Deus, reunidas de mim em volta... Chagas de Cristo! Viver é muito perigoso... Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo. Montante, o mais supro, mais sério – foi Medeiro Vaz. Que um homem antigo... Seu Joãozinho BemBem, o mais bravo de todos, ninguém nunca pôde decifrar como ele por dentro consistia. Joca Ramiro – grande homem príncipe! – era político. Zé-Bebelo quis ser político, mas teve e não teve sorte: raposa que demorou. Só Candelário se endiabrou, por pensar que estava com doença má. Titão Passos era o pelo preço de amigos: só por via deles, de suas mesmas amizades, foi que tão alto se ajagunçou. Antônio Dó – severo bandido. Mas por metade; grande maior metade que seja. Andalécio, no fundo, um bom homem-de-bem, estouvado raivoso em sua toda justiça. Ricardão, mesmo, queria era ser rico em paz: para isso guerreava. Só o Hermógenes foi que nasceu formado tigre, e assassim. E o “Urutu-Branco”? Ah, não me
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fale. Ah, esse... tristonho levado, que foi – que era um pobre menino do destino... Tão bem, conforme. O senhor ouvia, eu lhe dizia: o ruim com o ruim, terminam por as espinheiras se quebrar – Deus espera essa gastança. Moço!: Deus é paciência. O contrário, é o diabo. Se gasteja. O senhor rela faca em faca – e afia – que se raspam. Até as pedras do fundo, uma dá na outra, vão-se arredondinhando lisas, que o riachinho rola. Por enquanto, que eu penso, tudo quanto há, neste mundo, é porque se merece e carece. Antesmente preciso. Deus não se comparece com refe, não arrocha o regulamento. Pra quê? Deixa: bobo com bobo – um dia, algum estala e aprende: esperta. Só que, às vezes, por mais auxiliar, Deus espalha, no meio, um pingado de pimenta... Haja? Pois, por um exemplo: faz tempo, fui, de trem, lá em Sete-Lagoas, para partes de consultar um médico, de nome me indicado. Fui vestido bem, e em carro de primeira, por via das dúvidas, não me sombrearem por jagunço antigo. Vai e acontece, que, perto mesmo de mim, defronte, tomou assento, voltando deste brabo Norte, um moço Jazevedão, delegado profissional. Vinha com um capanga dele, um secreta, e eu bem sabia os dois, de que tanto um era ruim, como o outro ruim era. A verdade que diga, primeiro tive o estrito de me desbancar para
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Não ria. Arre. um poucadinho. baixo. as meias-palavras encrespadas. falando ou calado. Como que era urco. sobrancelhonas. não quis. Pois. e bufava. O secreta. não pensei – até hoje crio vergonha disso – apanhei o papel do chão. numa coisa dessas. atendendo. trouxo de atarracado. Daí. parecendo ferro bronze. mas só no bobo do corpo. Porque eu sabia: esse Jazevedão. não no interno das coragens. uma daquelas laudas caiu – e eu me abaixei depressa. E – lhe falo: nunca vi cara de homem fornecida de bruteza e maldade mais. e armava um queixo de pedra. e entreguei a ele. Juízo me disse. todo perto. Uma hora. gerava a ira na gente. Só rosneava curto. caprichando de ser cão. mas aí já estava feito.Grande Sertão: Veredas um longe dali. dobradas de enormes. Me fez um receio. sentado junto. porque fiz aquilo. não demedia nem testa. a gente via sempre dele algum dente. historiando a papelada – uma a uma as folhas com retratos e com os pretos dos dedos de jagunços. nem disse nenhum agradecimento. ladrões de cavalos e criminosos de morte. Aquela aplicação de trabalho. Vinha reolhando. não se riu nem uma vez. reluzia um cru nos olhos pequenos. digo: eu tive mais raiva. do que nesse. olhei. presa pontuda de guará. melhor ficasse. xereta. O homem nem me olhou. mudar de meu lugar. quando prendia alguém. a primeira quieta coisa que – 18 – . ficando. sei lá mesmo por que. Até as solas dos sapatos dele – só vendo – que solas duras grossas. mas.João Guimarães Rosa .

devia de ter. digo: Jazevedão – um assim. com as astúcias. também. Tanto. O senhor sabe: o perigo que é viver. e fui saindo de lá. alegre que eu matava. sem ter que dizer. E ele umbigava um princípio de barriga barriguda.. E que nessas ocasiões dava gargalhadas.. precisa. Mas só do modo. fingia umas pressas. o senhor nem tem calo em coração para poder me escutar. que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal. depois – negócio particular dele – nesta vida ou na outra.. por ter mão em mim de não destruir a tiros aquele sujeito. Haja que. para fiscalizar. por feio instrumento. e ia pisava em cima dos pés descalços dos coitados. osga! Entreguei a ele a folha de papel. descamba em seu tempo de penar. quando vier. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte. Deus mesmo. Pois.. Conseguiu de muito homem e mulher chorar sangue. ou por – 19 – .. até pagar o que deveu – compadre meu Quelemém está aí.João Guimarães Rosa . Senhor pensa que Antônio Dó ou Olivino Oliviano iam ficar bonzinhos por pura soletração de si.. cada Jazevedão. Carnes que muito pesavam. desses.. Couro ruim é que chama ferrão de ponta. que me criou desejos.. foi que a jagunçada se findou.. dava. cumprido o que tinha. Com minha brandura.Grande Sertão: Veredas procedia era que vinha entrando. Mas.. precisava? Ah. Sertão. por este simples universozinho nosso aqui. as barbaridades que esse delegado fez e aconteceu.

levantava os braços que nem esgalho de jatobá seco. urro claro e urro surdo: – “Eu vi a Virgem Nossa. e só gritava. o medo da gente se sai ao inteiro. vindo. um medo propositado. feito burro bruto. A gente fazia má minoria pequena. no ribeirão Traçadal. com seus filhos de Anjos!. distrito de Rio-Pardo. de amarrado em pé de pau. comando do Tenente Reis Leme. O cerrado estrondava. nem sei em que rompe-tempo desatei o cabresto. ou por sempre ouvir sermão de padre? Te acho! Nos visos. p’ra cima do lugar Serra-Nova.João Guimarães Rosa . dá-que. De jagunço comportado ativo para se arrepender no meio de suas jagunçadas. no resplandor do Céu.. Trape por meu cavalo – que achei – pulei em meu assento. dá-que.Grande Sertão: Veredas rogo dos infelizes. Agüentamos hora mais hora.. forte político. só deponho de um: chamado Joé Cazuzo – foi em arraso de um tirotei’. Aí. perfuraram de arrancar – 20 – .. Bala vinha.. Voei. No mato.. com muitos soldados fardados no meio centro.” Ele almou? Nós desigualamos. e já dávamos quase de cercados. de bote. aquele Joé Cazuzo – homem muito valente – se ajoelhou giro no chão do cerrado. Eu podia escoicear. que depois ficou capitão.” Gritava não esbarrava.. Umas duas ou três balas se cravaram na borraina da minha sela. e fechavam para riba de nós o pessoal dum Coronel Adalvino. – “Eu vi a Virgem!.

também doido de susto: que era um papa-mel. Aonde? Atravessei aquilo. fui...João Guimarães Rosa . sei lá – e me despenquei mundo abaixo. ramada e cipós. quando olhei minhas mãos. esse está somente.. me molhou meu cansaço. que me balançaram e espetavam. em meio de galope. Eu era só – 21 – . feito eu estava pendurado em teião de aranha. com um espirro. Eu não cabia de estar mais bem encolhido. Existia cobra nenhuma. vida toda. Pousei no capim do fundo – e um bicho escuro deu um repulão.. Eu podia me largar. sempre me agarrava – rolava mesmo assim: depois – depois. Burumbum!: o cavalo se ajoelhou em queda. entre em mim e a aba da jereba! Tempos loucos. E um pedacinho de pensamento: se aquele bicho irara tinha jazido lá.. sem me ferir. Cavalo estremece em pró. abraçado em folhagens grossas. de fuzil. E outra. De medo em ânsia. nos dedos.. com poucas minhas coisas. espichei tudo. esquentou minha coxa. tudo nelas que não era tirado sangue.Grande Sertão: Veredas quase muita a paina do encheio. para fugir. sei: pensa no dono. rolava para o oco de um grotão fechado de moitas... em ricochete decerto. rompi por rasgar com meu corpo aquele mato. o senhor veja: bala faz o que quer – se enfiou imprensada. de folhas vivas que puxei e masgalhei. era um amasso verde. Baleado veio também o surrão que eu tinha nas costas. e eu já caindo para diante. Maior sendo eu. que eu vislumbrei. Tomei o lugar dele. morto quiçá. então ali não tinha cobra.

Arfei. sentimento meu iavoava reto para ele. Diga o anjo-da-guarda. com nossa outra metade dos sócandelários. Estou contando fora. Só pensava era nele. Concebi que vinham. Gosto. Ai. Tempos! Por tudo. me importei não. que mesmo os soldados do Tenente e os cabras do Coronel Adalvino remitiram de respeitar o assopro daquele Joé Cazuzo. para a idéia se bem abrir. como é que a alma vence se esquecer de tantos sofrimentos e maldades. Mas. dentro. E que esse acabou sendo o homem mais pacificioso do mundo. Um joão-de-barro cantou. que estava na Serra do Pau-d’Arco.. no recebido e no dado? A – 22 – . é viajando em trem-de-ferro. fim de fim. mano-oh-mão. Assim. quase na divisa baiana. coisas divagadas. uns momentos. fabricador de azeite e sacristão. Melhor. moleza.. vivia para cima e para baixo. dentro dele.. arre. do coração.Grande Sertão: Veredas mole. ao menos eu guardava a licença de prazo para me descansar. réis-coado. Conforme pensei em Diadorim.. até-que. mas que não amortecia os trancos. No senhor me fio? Atéque. Nem fazia mal. Eu queria morrer pensando em meu amigo Diadorim.. me matavam. no São Domingos Branco. Pudesse.. Informação que pergunto: mesmo no Céu. mas: que esta minha boca não tem ordem nenhuma. fico pensando. conforme eu vinha: depois se soube.João Guimarães Rosa . Com meu amigo Diadorim me abraçava.

. Senhor me dirá: mas que ele pronunceia aquilo fora boca. porque a gente ao redor é duro dura. e não enxergava quase mais. dessa doença que não se cura. Vi tanta cruez! Pena não paga contar. Dor do corpo e dor da idéia marcam forte. qualquer raça de bugre. castrar. Mas. se vou. O pior. não esbarro. no Alto Jequitaí. algum esteve no rancho dele. por apelidado Piolho-de-Cobra. adonde tem vagarosos grandes rios. pra uma boa esfola... se lazarou com a perna desconforme engrossada. ele dissesse: – “Me dá saudade é de pegar um soldado.. é que acabam.. tendo de um dia executar o declarado.. olhe: o Firmiano. pelo mesmo vau. então.Grande Sertão: Veredas como? O senhor sabe: há coisas de medonhas demais.” O senhor concebe? Quem tem mais dose de demo em si é índio. depois contou – que. Pois. constante o branquiço nos olhos. no real. para mais se valerem.. para lá fundo dos gerais de Goiás. De antes.João Guimarães Rosa . mar. vira tempo. e tal. Piolhode-Cobra se dava de sangue de gentio. Vai. correndo em deita de cristal roseado. por medo de ser manso. maneira de representar que ainda não estava velho decadente.. tem. três que me – 23 – . primeiro. teve de se desarrear da jagunçagem. das cataratas. tão forte como o todo amor e raiva de ódio. de água sempre tão clara aprazível. Obra de opor. uma ocasião. vem assunto. Todos tretam por tal regra: proseiam de ruins. e causa para se ver respeitado. E me desgosta. De sorte que. Gente vê nação desses. com faca cega. anos. mas.

vai vir um tempo. o senhor sabe: razão da crença mesma que tem – que. sempre tem alguma. o exato. Compadre meu Quelemém nunca fala vazio.. hoje em dia.. Eu. más-artes. isso que me sovaca. mas escasseadas.. e perversidades. já estou velho. é que a ida para o Céu é demorada. Que me respondeu: que.. que todos os feios passados se exalaram de não ser – feito semmodez de tempo de criança. por perto do Céu. não subtrata. Isto é. Me apraz é que o pessoal. Geração minha. por todo o mal.. é isto: que as pessoas não estão sempre iguais. verdadeira. do mundo. Ah.. é bom de coração. um dia se repaga. Por isso dito. Mire veja: o mais importante e bonito. ainda não – 24 – .. isso tudo. Malícias maluqueiras. A gente nunca deve de declarar que aceita inteiro o alheio – essa é que é a regra do rei! O senhor. em antes de querer facilitar em qualquer minudência repreensível. a gente se alimpou tanto. bom no trivial. Bom.Grande Sertão: Veredas enjoa. Como a gente não carece de ter remorso do que divulgou no latejo de seus pesadelos de uma noite. em que não se usa mais matar gente. Assim que: tosou-se. floreou-se! Ahã.. formei aquela pergunta. para compadre meu Quelemém. Sujeito assim madruga três vezes. ia falando: questão. Ah. ainda não eram assim. que se faz.João Guimarães Rosa . Eu confiro com compadre meu Quelemém. Só que isto a ele não vou expor.

bom meu pasto. Bem.Grande Sertão: Veredas foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. estava sido roído. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre.. Isso que me alegra. saiba: no outro dia. Deixei. – “Amanhã eu tiro. Mas mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir. lá sei.. quando quer – moço! – me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. luz nenhuma eu não disputava. Porque era de noite. E Deus ataca bonito. nessa mesma da tarde. eu desse de pensar em vago em tanto.. A pois: um dia. Também. o que sabe me entende. o que ouviu sabe. comigo. o ferro dela. num curtume.. para mais ver. então. Senhor ache o contrário. a faquinha minha que eu tinha caiu dentro dum tanque. perdia minha mão-de– 25 – . por aquela agüinha escura. mas de chifre de galheiro. outra coisa: o diabo. só caldo de casca de curtir. Verdade maior. cedo. É o que a vida me ensinou. Aí está: Deus. aqueles outros tempos. Somenos. se economiza. toda quieta. barbatimão. Visível que. montão. a faca. eu pintava – cré que o caroá levanta a flor..João Guimarães Rosa . aí: da faquinha só se achava o cabo. angico. o senhor ouviu. quase por metade.. Afinam ou desafinam. se divertindo.. E. Eli. uma beleza de traiçoeiro – dá gosto! A força dele.. Mocidade.” – falei. Estala.. Ah. O cabo – por não ser de frio metal. é às brutas. não ache que religião afraca. espoleta! Sabe o que foi? Pois. mas Deus é traiçoeiro! Ah..

Jesualdo. exp’rimentem ver. e antes esses desrodeamos. com más partes. a gente cruza chamado. Olhe o senhor: aqui. Mais légua.. tem o Acauã. E não vou valendo? Deixo terra com eles. ajuntamos: é hora dum bom tiroteiamento em paz. Inimigo vier. E sozinhozinho não estou. ou com sobejos olhares. num fogo-e-ferro. e penso a eito. que raciocinei. o Pacamã-de-Presas. o Quipes. todo lado comigo. no combate velho do Tamanduá-tão: limpamos o vento de quem não tinha ordem de respirar. se! É na boca do trabuco: é no té-retêretém. hei coloquei redor meu minha gente. o Nélson e João Concliz. ai. Uns outros.. se tanto. Pra não isso. A ver. o Paspe – meeiro meu – é meu. com outras leis. Banda desta mão.. em rifleio e à faca. deles o que é meu é. de bando meu foram o Sesfredo. há-de-o. e eu ainda sorteio de acender esta zona. Para que eu quero ajuntar riqueza? Estão aí. sei que servem.. Ele cria cavalos bons. Digo isto ao – 26 – . um cearense feito esse! Depois mais: o João Nonato. vereda abaixo. no meio de todos. O Triol. o Alaripe: soubesse o senhor o que é que se preza. Até um pouco mais longe. fechamos que nem irmãos. O Fafafa tem uma eguada. ele e três filhos. Mas. não nem por isso não dou por baixa minha competência. E o Fafafa – este deu lances altos. no pé-de-serra. de armas areiadas.Grande Sertão: Veredas homem para o manejo quente.João Guimarães Rosa . hoje. pegado. se... Chegassem viessem aqui com guerra em mim. e tem o Compadre Ciril.

não é não? Sei que não há. propor sossego. Queremos é trabalhar. e para a devoção. não vá pensar em dobro. e tem.. Vender sua própria alma.João Guimarães Rosa . chega. bem: não queria tocar nisso mais – de o Tinhoso. Mas tem um porém: pergunto: o senhor acredita. de fidúcia. Dei rapadura ao jumento! Ahã. isso sei.. ela é de Deus estabelecida. muito mais do de dentro. Amor vem de amor. Posso vender essas boas terras. nem que a pessoa queira ou não – 27 – . e por isso não se autoriza de negociar. acha fio de verdade nessa parlanda. penso também – mas Diadorim é a minha neblina.. foi numa certa meninice em sonhos – tudo corre e chega tão ligeiro –.. Em Diadorim. fantasiado de momento. será que se há lume de responsabilidades? Se sonha. não tem a obediência legal. De mim. às vezes é só feito menino. do que um se pensa: ah. o que é? Alma tem de ser coisa interna supremada.. Pois. se um menino menino é. rezas dela. que reside na capital federal? Posso algum!? Então. já se fez... de com o demônio se poder tratar pacto? Não. vivo para minha mulher. Digo. alma absoluta! Decisão de vender alma é afoitez vadia.Grande Sertão: Veredas senhor. que tudo modo-melhor merece. E a gente. Falava das favas. Bem-querer de minha mulher foi que me auxiliou. graças. Mal que em minha vida aprontei. invencionice falsa! E. Mas gosto de toda boa confirmação. pessoa. e é só. Também. daí de entre as Veredas-Quatro – que são dum senhor Almirante. alma. Agora.. Se tem alma.

Mesmo que os vaqueiros duvidam de vir no – 28 – . por aí pena. O senhor não acha? Me declare. Em termos. era uma ajuda. quinta de-manhãcedo. Visita. muito que foi jagunço. Quase que.. Ah. gostava que morasse aqui. veio tarde. aqui em casa. comigo. Não consinto. Depois. Amanhã. os costumes demudaram.. Sua companhia me dá altos prazeres. O senhor me desculpe. peço. é por três dias! Mas. Lhe agradeço. Os bandos bons de valentões repartiram seu fim.João Guimarães Rosa . mesmo me deixa sentindo sua falta. Tempos foram. Aqui não se tem convívio que instruir. por tanto. além de ter carta de doutor. franco. em idéia firme. Se vê que o senhor sabe muito. não. Viver é muito perigoso. Eh. para sortimento de conferir o que existe? Tem seus motivos. o senhor querendo ir. de legítimo leal. pede esmola. Agora – digo por mim – o senhor vem. então vai. nem não sobra mais nada. Mas. lhe agradeço.Grande Sertão: Veredas queira. o senhor sério tenciona devassar a raso este mar de territórios. ou perto. hoje ou amanhã. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Sertão. mas em empenho de minha amizade aceite: o senhor fica. Hoje. não. que se vai? Jajá? É que não. não. pouco sobra. Não é vendível.

num afã. aí eu ia. à tristeza. Eh. onde até os pássaros calculam o giro da lua – se diz – e canguçu monstra pisa em volta. Uma tristeza que até alegra. Cigarras dão bando.João Guimarães Rosa . no gerais. para uma safra razoável de bizarrices. A da-Raizama. cada cachoeira. E até o gado no grameal vai minguando menos bravo.. frio! Lá geia até em costas de boi. mais educado: casteado de zebu. Quando o senhor sonhar. Mas. é à pobreza. desvém com o resto de curraleiro e de crioulo. em abril: a ciganinha. acham que traje de gibão é feio e capiau. Isto – no Saririnhém.. forte. Debaixo de um tamarindo sombroso. Quem me ensinou a apreciar essas as belezas sem dono foi Diadorim... Lua de com ela se cunhar dinheiro.Grande Sertão: Veredas comércio vestidos de roupa inteira de couro. roxa.. Ou no Meãomeão – depois dali tem uma – 29 – . Eu guiava o senhor até tudo. por azias e reumatismo. Sempre. então. amarelinhas. reconselho de o senhor entestar viagem mais dilatada. O cio da tigre preta na Serra do Tatu – já ouviu o senhor gargaragem de onça? A garoa rebrilhante da dos-Confins. espuma próspero. madrugada quando o céu embranquece – neblim que chamam de xererém. sonhe com aquilo. gruge. até nos telhados das casas. Não fosse meu despoder. só tombos. Cheiro de campos com flores.. e a nhiíca e a escova. Lhe mostrar os altos claros das Almas: rio despenha de lá.

.. de medo mau em ilusão.. esconde a lua. Que não que o céu: esse é céu-azul vivoso.. Tanta serra.. Em um lugar. e retrovão.. Senhor caça? Tem lá mais perdiz do que no Chapadão das Vertentes.. igual um ovo de macuco. de Pirapora a Paracatu. deslembro. Angical. Um punhado quente de vento. Na Serra do Cafundó – ouvir trovão de lá.. No Buriti-Mirim... ou um rio em turvação. Extrema-deSanta-Maria. como quando foi menino. Urucuia acima. na encosta.Grande Sertão: Veredas terra quase azul. De em de. o Urucuia – tão a brabas vai..João Guimarães Rosa . Ou – o senhor vai – no soposo: de chuva-chuva. A serra ali corre torta.. Diz-se que o Governo está mandando abrir boa estrada rodageira. Por esses longes todos eu passei. com pessoa minha no meu lado. A serra faz ponta. O senhor sabe? Já tenteou sofrido o ar que é saudade? Diz-se que tem saudade de idéia e saudade de coração. Caçar anta no Cabeça-de-Negro ou no Buriti-Comprido – aquelas que comem um capim diferente e roem cascas de muitas outras árvores: a carne. por aí. O senhor vê vaca parindo na tempestade. Ah. Ventos de não deixar se formar orvalho. pode ser até que chore.. sempre.. o senhor tapa os ouvidos. Vê um córrego com má passagem. de gostosa. Lembro. diverseia... passante entre duas palmas de palmeira. brota do chão – 30 – . a gente se querendo bem.

Porque a gente vinha no caminhar a pé. Claráguas. o Paracatu moreno. se descansou. dum Eleutério Lopes – mais antes do Campo-Azulado. redobra logo na brotação. em lugares assim. é o Urucuia – paz das águas. pescar peixe nas veredas. Ficamos lá umas semanas. de de-entre quase cada encostar de duas – 31 – . Se caçava. Passado o Porto das Onças. em belo.. por pavor. viçoso no cerrado. Semelha com as serras do Estrondo e do Roncador – donde dão retumbos. para não acabar os cavalos.. antes de se deitar. para confirmar. ajoelhava e rezava o terço. vez em quando. e com florzinhas as dejaniras. É vida!. prazer dele era dormir com camisolão e barrete. o gado foge de lá.Grande Sertão: Veredas um vapor de enxofre.. Carecia.. Fazenda Boi-Preto. rumo a rumo com o Queimadão.João Guimarães Rosa . o anis enfeitando suas moitas. tem um fazendol. Hem? O senhor? Olhe: o rio Carinhanha é preto. fora de guerra. cada um esquecia o que queria. filho do menor chuvisco. Tresmente: que com o capitão-do-campo de prateadas pontas. Aqueles foram meus dias. mazelados. Aí foi em fevereiro ou janeiro. no tempo do pendão do milho. com estúrdio barulhão. Aquele capim-marmelada é muito restível. Muito deleitável.. de de-comer não faltava.. fontes. verá. tão verde-mar. Os lugares sempre estão aí em si. sombreado e sol. De qualquer pano de mato. O senhor vá lá. meu. Medeiro Vaz.

A gente dava passeios. E tinha o xenxém. de acaso. em vai sobre vem sob.. a gente se diferenciava dos outros – porque jagunço não é muito de conversa continuada nem de amizades estreitas: a bem eles se misturam e desmisturam. e com mais brilho. Mas. Tal. o bento-vieira tresvoava. mas cada um é – 32 – . saíam em giro as todas as cores de borboletas. Beiras nascentes do Urucuia. Tardinha que enche as árvores de cigarras – então. ele repergunta e finge resposta. desta luz enorme. o suiriri. do limpo. o saci-dobrejo. o sabiá-ponga. a mesma raça de borboletas. não chove.Grande Sertão: Veredas folhas. se sabe. rebicando de vôo todo bichinhozinho de finas asas. para toda tristeza que o pensamento da gente quer. vira muito maior. e araras enrouquecidas. que em outras partes é trivial regular – cá cresce.. passarinho de bilo no desvéu da madrugada. Porque. aqui se vê. a garricha-do-brejo.. nos gerais. Como não se viu. acho que é do seco do ar. pássaro esperto. Com assim. a gangorrinha. Eu estava todo o tempo quase com Diadorim. Assovios que fechavam o dia: o papa-banana. o grunhatá-do-coqueiro. o tempoquente. Ia dechover mais em mais. Diadorim e eu.João Guimarães Rosa . ali o povi canta altinho. e o bem-te-vi que dizia. o azulejo. a rola-vaqueira. que tintipiava de manhã no revoredo. Bom era ouvir o mom das vacas devendo seu leite.. nós dois. de tarde. a doidinha.

ele falava para eu sentar. Desse lusfús. Sei como sei. Que nem mais maldavam. Quase que a gente não abria boca. ia escurecendo. Quase que sem menos era assim: a gente chegava num lugar. tão bonito. não era o capaz de me alembrar. com ele calado eu a ele estava obedecendo quieto. Diadorim me pôs o rastro dele para sempre em todas essas quisquilhas da natureza. Tinham a boa prudência. ninguém nada não falava. Então. Sempre mediante mais longe. eu fui buscar sabugos. O ianso do vento revinha com o cheiro de alguma chuva perto. Só de mim era que Diadorim às vezes – 33 – . mas a saudade me alembra. Se acostumavam de ver a gente parmente. Som como os sapos sorumbavam. só. Por mim. Mariposas passavam muitas. de tantas minúcias. onde o agrião dá flor. E estávamos conversando. mas era um delém que me tirava para ele – o irremediável extenso da vida. Por mim. Não gosto de ficar em pé. não sei que tontura de vexame. E o chiim dos grilos ajuntava o campo.Grande Sertão: Veredas feito um por si. caçoasse. ele vinha sentava. Diadorim acendeu um foguinho. Eu não tinha coragem de mudar para mais perto. Dissesse um. perto do rego – bicame de velha fazenda. Puxava uma brisbisa. por entre as nossas caras. digo – podia morrer. De nós dois juntos. Diadorim. eu sentava. sua vez. Que se hoje fosse.João Guimarães Rosa . e besouros graúdos esbarravam. aos quadrados. no relume das brasas. depois. duro sério. não sou de à parada pouca coisa.

Se escutou. deixava de pensar. não se alterava. adivinha se não entende.. banda do rio. o dele não podia mais ter aumento: parava sendo um ódio sossegado. Enquanto os dois monstros vivessem. Só que coração meu podia mais. ele estava ali. mais em mim virando tristeza. O corpo não traslada. no mais. De tão grande. de mim. simples Diadorim tanto não vivia. E eu – mal de não me consentir em nenhum afirmar das docemente coisas que são feias – eu me esquecia de tudo. mas eu quero que esse dia chegue!” – Diadorim dizia. tempo de – 34 – . ele tresvariava. nem minha mera vida mesma. Perto de muita água. Mas sucedia uma duvidação.João Guimarães Rosa . essa ocasião. mas. Odio com paciência. uma lontra por outra: o issilvo de plim. Durante que estávamos assim fora de marcha em rota. enquanto aqueles dois monstros não forem bem acabados. tudo é feliz. mas muito sabe. ranço de desgosto: eu versava aquilo em redondos e quadrados. num espairecer de contentamento. o senhor sabe? E. mais vindo. – “Não posso ter alegria nenhuma. – “Ta que. ia se pegando em mim – mas não como ódio.Grande Sertão: Veredas parecia ter um espevito de desconfiança.. chupante. a meia-mão de mim. Até que viesse a poder vingar o histórico de seu pai. aquilo forte que ele sentia. como se fosse por amor.” E ele suspirava de ódio. que era o amigo! Mas.

Matar. Se ele em honrado juízo achasse que – 35 – . Também. calçado com suas boas botas de caititu. vozes de osga. vagaroso. tudo nele decidia a confiança de obediência. feito eletricidade.Grande Sertão: Veredas descanso. Chefe nosso. Medeiro Vaz era homem sobre o sisudo. Calados. ah. Não adiantava. Medeiro Vaz. Sapo tirava saco de sua voz. Para isso a gente estava indo. Ossoso.João Guimarães Rosa . em passos. não gastava as palavras. nessas escuridões: folha a folha. Não respondi. um fosforém – agrião acende de si. A ramagem toda do agrião – o senhor conhece – às horas dá de si uma luz. ele era dono do dia e da noite – que quase não dormia mais: sempre se levantava no meio das estrelas. dali depois daquele carecido repouso. Diadorim só falava nos extremos do assunto. em que eu mais amizade queria. sangue manda sangue. percorria o arredor. nas cabeceiras da noite. Nós estávamos em sessenta homens – mas todos cabras dos melhores. Nunca relatava antes o projeto que tivesse. Com o comando de Medeiro Vaz. cabeçona meia baixa. Medo em alma. junto em junto. tão antigas. Munição não faltava. Me alembro. nunca perdia guerreiro. Diadorim queria o fim. Assim nós dois esperávamos ali. idosas. que marchas se ia amanhecer para dar. nos usos formado. a gente revirava caminho. E eu tinha medo. com a nuca enorme. Os sapos. matar. Eu olhava para a beira do rego. ia em cima dos outros – deles! – procurando combate.

quando não tem mais ninguém perto. Saem dos mesmos brejos – buritizais enormes. repassado. antes delas acontecerem. Medeiro Vaz era solene de guardar o rosário na algibeira. se vê muito bicho retardar ponderado.. Com isso minha fama clareia? Remei vida solta. e o ó da raposa. paz de hora de poder água beber. eu estou vivido. Ah. O senhor vá. abofa – trinta palmos! Tudo em volta. – 36 – . esses escondidos atrás das touceiras de buritirana. é um barro colador. Dali para cá. de dois. eu apreciei aquela fortaleza de outro homem. capaz de escutar. Por lá. Desde o começo. Mas o sassafrás dá mato. se dão as costas. ainda encontra. arranca ferradura por ferradura. :O segredo dele era de pedra. Vaqueiros? Ao antes – a um. começos do Carinhanha e do Piratinga filho do Urucuia – que os dois. Com medo de mãe-cobra. o senhor vem. Cada surucuiú do grosso: voa corpo no veado e se enrosca nele. Eu me lembro das coisas. Sertão: estes seus vazios.. que segura até casco de mula. sucuri geme.. se traçar o sinal-da-cruz e dar firme ordem para se matar uma a uma as mil pessoas. Ou o mais longe: vaqueiros do Brejo-Verde e do Córrego do Quebra-Quinaus: cavalo deles conversa cochicho – que se diz – para dar sisado conselho ao cavaleiro.. Alguma coisa. Tem coisa e cousa... ao Chapadão do Urucuia – aonde tanto boi berra.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas estava certo. Creio e não creio.

Muita vez a gente cumpria por picadas no mato. cheias de mutucas ferroando a gente. é um escurão.João Guimarães Rosa . chapadão que não se devolve mais. em deslua. Mutucas! Dá o sol.. caminho de anta – a ida da vinda. que peia e pega. Se a gente tinha o que comer e beber. de tanto junco. por ladeiras de beira-de-mesa. o céu embola um brilho. por causa da fome de jacaré e da piranha serrafina. Diadorim. ele não largava o fogo de gelo daquela idéia. Água ali nenhuma não tem – só a que o senhor leva. Bonito em muito comparecer. É noite de muito volume. Aquelas chapadas compridas. no escuro feito. Cabeça da gente quase esbarra nelas. a luz tanta machuca. para acender fogueira. e nunca se cismava. Daí longe em longe. – 37 – . Os cavalos suavam sal e espuma. segue. uma. Jacaré grita. de onda forte. por meados de fevereiro! Mas. os brejos vão virando rios. feio mirando na gente. De noite. duas. dá que dá. noite fria. Mas eu queria que a madrugada viesse. se é de ser. Ou outra – lagoa que nem não abre o olho. sempre me fez mal. entra de bruto na chapada. crespido do lamal. Para trocar de bacia o senhor sobe. Buritizal vem com eles. como o céu de estrelas. eu dormia logo. buriti se segue. Jacaré choca – olhalhão. Eh. Treva toda do sertão. Arrancávamos canela-de-ema. as três vezes. ele sabe se engordar. Dia quente. rouco roncado. não.. Nas lagoas aonde nem um de asas não pousa. o que cheira um bom perfume.Grande Sertão: Veredas guardando o poço.

eu escutava outros pássaros. – 38 – . As chuvas se temperaram. Só sonho. perseguindo minha vida em vez. pasmacez. A tanta miséria.exato.Grande Sertão: Veredas Sonhava. a fariscadeira. de baixo quilate. E em andemos: jagunço era que perpassava ligeiro. Quando meu amigo ficava assim. O chapadão. em mesmo?” – perguntei a Diadorim. e estava incerto de feições.João Guimarães Rosa . me acusando de más-horas que eu ainda não tinha procedido. juriti-dopeito-branco ou a pomba-vermelha-do-mato-virgem. visitar convém ao senhor o povoado dos pretos: esses bateavam em faisqueiras – no recesso brenho do Vargem-da-Cria – donde ouro já se tirou. é igual.. livrado. igual – a muita gente ele entristece. Tiriri. mal ou bem. Quando o dia quebrava as barras.. mas eu já nasci gostando dele. eu perdia meu bom sentir. graúna. parecia que era um bem-te-vi só. E permaneci duvidando que seria – que era um bem-te-vi.. por toda a parte. Dali vindo. Mas mais o bem-tevi. Atrás e adiante de mim. os legítimos coitados todos vivem é demais devagar. Até hoje é assim. – “Gente! Não se acha até que ele é sempre um. no chapadão... Acho. Ele não aprovou. Uns pretos que ainda sabem cantar gabos em sua língua da Costa. Eu tinha uma lua recolhida. no pardo.

. e dona adivinhadora da – 39 – . Ao que. Então eu entrei. com talento contra mordida de cobra. limonada de pêra-do-campo. Tão bonita. para me reprovar. Eu nem tinha começado a conversar com aquela moça. tomei refresco. mostrava em fio. Mãe dela chegou. Depois ela me deu de presente uma presa de jacaré.João Guimarães Rosa . Eu apeei e amarrei o animal num pau da cerca. a mangaba boa só se colhe já caída no chão. de baixo. e a poeira forte que deu no ar ajuntou nós dois. Nhorinhá. Na frente da boca. Ah. vi uma mulher moça. uma velha arregalada. vestida de vermelho. Recebeu meu carinho no cetim do pêlo – alegria que foi. para traspassar no chapéu. Muito foi. e me mostrou para beijar uma estampa de santa. passaram. Se chamava Nhorinhá. minhas pernas doíam. se ria.. – “Ô moço da barba feita.. só. De repente.. que tocavam um boi preto que iam sangrar e carnear em beira d’água.” – ela falou. por nome de Ana Duzuza: falada de ser filha de ciganos. Pelo dentro.Grande Sertão: Veredas Digo: outro mês. por tanto que desses três dias a gente se sustava de custoso varar: circunstância de trinta léguas. tomei um café coado por mão de mulher. num grosso rojo avermelhado. dita meia milagrosa. num portal. aos galopes e gritos. esponsal. feito casamento. uns companheiros. ela quando ria tinha os todos dentes. outro longe – na Aroeirinha fizemos paragem. Diadorim não estava perto.

ele querendo suas profecias.. cá embaixo.Grande Sertão: Veredas boa ou má sorte da gente. não. Ah. aonde tudo quanto era bandido em folga se escondia – lá se podia azo de combinar mais outros variáveis companheiros. e de em desde a nascença do Peruaçu até o rio Cochá. isto é coisa diversa – por diante da contravertência do Preto e do Pardo. Comemos farinha com rapadura. naquele sertão essa dispôs de muita virtude.. que por ele mandada buscar. Loucura duma? Para quê? Eu nem não acreditei. Depois dos cerradões das mangabeiras.. que Medeiro Vaz ia experimentar passar de banda a banda o liso do Suçuarão. se? Ah.. Também onde se forma calor de morte – mas em outras condições. existe. vendendo forte segredo.. o Tabuleiro? Senhor então conhece? Não. que tira da Várzea da Ema.. jagunços ou tropeiros – não se importava. A gente ali rói rampa. era o raso pior havente. Se é. mesmo dava sua placença. E a Ana Duzuza me disse. – 40 – . Ela sabia que a filha era meretriz.. e até – contanto que fosse para os homens de fora do lugarejo. esse ocupa é desde a Vereda-daVaca-Preta até Córrego Catolé.. meu! Eh. Depois. de arte: que o Liso do Suçuarão não concedia passagem a gente viva. Ela estava chegando do arranchado de Medeiro Vaz.João Guimarães Rosa . Eu sabia que estávamos entortando era para a Serra das Araras – revinhar aquelas corujeiras nos bravios de ali além... era um escampo dos infernos. Que nem o Vão-do-Buraco? Ah.

nos ermos. e também Diadorim praticava com mais jeito. mãe.Grande Sertão: Veredas Nada. Diadorim também disso não disse. Se emenda com si mesmo. Porque eu achava tal serviço o pior de todos. e ela não agüentou a raiva em meus olhos. e o demo: esse.” – ela teve de falar. nossa. mas quase mais quem fazia isso era Diadorim. Crer que quando a gente entesta com aquilo o mundo se acaba: carece de se dar volta. Às vezes eu lavava a roupa. a fim de requerer o significado do meu futuro. sempre. Soturnos. é o mais longe – pra lá. mão melhor. – “Seô Medeiro Vaz. de bulgariana. eu olhava para os – 41 – .. na cama daqueles desertos. e eu menti que só tinha entrado lá por causa da velha Ana Duzuza. Ele tinha lavado minha roupa: duas camisas e um paletó e uma calça. pois foi ele mesmo próprio quem me contou. ele gostava de silêncios. Com isso. Água. apertei aquela Ana Duzuza. Ele não indagou donde eu tinha estado. Não tem pássaros. Ver o luar alumiando. e outra camisa. Não tem excrementos. Um é que dali não avança. não tem. Não era possível! Diadorim estava me esperando. nada vezes. pra lá. só.João Guimarães Rosa . espia só o começo. e escutar como quantos gritos o vento se sabe sozinho. Se ele estava com as mangas arregaçadas. Liso do Suçuarão.. nova.

de picadas das mutucas. Ah. tem uma repetição. – “E certo é. podia ser. não tinha a coragem. Viver nem não é muito perigoso? Redisse a Diadorim o que eu tinha surripiado: que o projeto de Medeiro Vaz só era o de conduzir a gente para o Liso do Suçuarão – a dentro. É certo” – Diadorim respondeu. eu estava enfeitiçado? Me arrependi de não ter pedido o resumo à Ana Duzuza. adiante. e passa. No momento. eu devia de perguntar. me afrontando com a surpresa de que ele já sabia daquilo e a mim não tinha antecipado nem – 42 – . que podia ter perguntado à Ana Duzuza alguma passagem de minha sina por vir. Quem sabe. foi que eu caí em mim. e a cara e as mãos avermelhadas e empoladas.Grande Sertão: Veredas braços dele – tão bonitos braços alvos. E se a Duzuza adivinhasse mesmo. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado. que sempre outras vezes em minha vida acontece. de minha.João Guimarães Rosa . em bem feitos. não tinha perguntado. conhecesse por detrás o pano do destino? Não perguntei. fechada. Coisa que nem eu comigo não estudava. mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo. até ao fim. Também uma coisa. Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada. bem diverso do em que primeiro se pensou.

já em tantos terrenos da Bahia. a claro. arrastava aquele pessoal por dura surpresa – acabou-se com aquilo! Mesmo quem havia de deduzir que o – 43 – . e lá morava sua família dele legítima. e. Mas ciúme é mais custoso de se sopitar do que o amor. a bem dizer. Pra por lá do Suçuarão. só guardava memória de um amigo: Joca Ramiro. Coração da gente – o escuro. não variava nunca. E veja: eu vinha tanto tempo me relutando.João Guimarães Rosa . de formas que com ele externava os assuntos. Sendo sabendo que Medeiro Vaz depunha em Diadorim uma confiança muito maior do que em nós outros todos. loca Ramiro tinha sido a admiração grave da vida dele: Deus no Céu e Joca Ramiro na outra banda do Rio. Eu sabia que ele. eu não apurava vergonha de se me entender um ciúme amargoso. de um amigo se pertence gostar. lavouras. Tudo o justo. Diadorim o resto me descreveu. agora aquela hora. A gente suprisse de varar o Liso em boas farsas. com os muitos gados. Então. andava por este mundo com mão leal. escuros. se chegava lá sem ser esperados.Grande Sertão: Veredas miúda palavra. Essa diferença de regra agora me turvava? Mas Medeiro Vaz era homem de outras idades. um dos dois Judas possuía sua maior fazenda. contra o querer gostar de Diadorim mais do que. não fraquejava. de raça – mulher e filhos.

. soflagrar aqueles desprevenidos. Truco que. Me vim d’águas frias... Eu escutei. caco de velha. de sem dentes. ia ajuntando na palma da mão o farelo peguento preto. não tenho a fraca natureza. Trem... Mas me venceu pena daquela Ana Duzuza. Diadorim era assim: matar. Mas Diadorim. se matava – era para ser um preparo. Eu não sabia? Não sou homem de meio-dia com orvalhos. ela com os olhos para fora – a gente podia pegar nos dedos. boca que se fechava aboborosa. a gente fosse surgir de sobrevento.. em cada grota e cada ipueira. e não devia de ter falado as pausas. de repente. – 44 – .João Guimarães Rosa . Essa carece de morrer. temperou: – “Essa velha Ana Duzuza é que inferna e não se serve. de vez mais sério. do lado mais impossível... Coisa que me contou tantas lorotas. pois de arredor decerto tinham vigias. que eles governavam.” Ouvi mal ouvi. pelos pontos de passagem dificultosa. O judas algum? – na faca! Tinha de ser nosso costume. para não ser leleira. Das perguntas que Medeiro Vaz fez. e perfiz até um arrepio. ela tirou por tino a tenção dele.Grande Sertão: Veredas Liso do Suçuarão prestasse para nele caminho se impor? Ah. eles prosperavam em sua fazenda feito num quartel de bronze – com que por outros cantos não se podia remeter. reforço de munição e récua de camaradas. Raspava a rapadura com a quicé.

As vontades de minha pessoa estavam entregues a Diadorim. pra todo o nunca. Mas. que o ciúme dele por mim também se alteava. seco. e eu abri sete janelas: – “Disso que você disse. salivava.. rechupando.João Guimarães Rosa . quase num chio. se não. que se puxou de mim uma decisão. Depois dum rebate contente.. então.” Diadorim pôs mão em meu braço. que ela merecia tanto dó? Eu não tive solércia de contradizer.. Fazia tempo que eu não olhava Diadorim nos olhos.... pelo resguardar o segredo. por minhas próprias acabar a Ana Duzuza. lambendo.” – eu o quanto falei. Dente de cobra. para a gente dá atraso. A razão dele era do estilo acinte. Aí. A gente engrossava nojo.” – ele respondeu. entendi o que pra verdade: que Diadorim me queria tanto bem. um estúrdio asco. de – 45 – . Só previ medo foi de que ele falasse para eu mesmo ir voltar lá. E eu quase gritei: – “Aí é a intimação? Pois. Mais tu há de não me ver!.Grande Sertão: Veredas ou. Nhorinhá. desconvenho! Bulir com a vida dessa mulher. Do que me estremeci. então é capaz que matem a filha também. Diadorim me adivinhava: – “Já sei que você esteve com a moça filha dela.. Por que é. eu pensei: se matarem a velha Duzuza.. Eu não sojigava tudo por sentir. eu saio do meio de vós. fizerem. se atrapalhou em mim aquela outra vergonha. então é assassinar! Ah. segurava o naco. de seguinte.

parece que não deixava: – “Riobaldo.. depressa. a testa muita. o olhar bom e mandante. queria. ele tinha – 46 – . Devido o que. feito fosse Cristo Nosso Senhor. Menos disse. Me deu a mão. e a má-vida da filha dela. – “Dou!” – falei. passo ligeiro. mas repeli esses alvoroços de doçura. tinham de viver honrando a figura daquele. de Joca Ramiro. abaixou o rosto. os bigodes. Acalmou meu fôlego. Espiei Diadorim. E corri lembrança em Joca Ramiro: porte luzido. a dura cabeça levantada. e eu.João Guimarães Rosa . Todo o mundo. a risada. e depois foi que se avermelhou. Ser dono definito de mim. as botas russianas. pois então: Joca Ramiro era o meu pai. Porque Joca Ramiro era mesmo assim sobre os homens. – “Você já paga tão escasso então por Joca Ramiro? Por conta duma bruxa feiticeira. Como que brilhava ele todo. pretos. escuta. E tive ira. Mas Diadorim sabia disso. que foi como sempre eu tivesse sabido aquilo. Mas era como tivesse uma pedra pontuda entre as duas palmas. era o que eu queria.Grande Sertão: Veredas dentro. aqui neste confim de gerais?!” – ele baixo exclamou. o topete de cabelos anelados. o exato?! E por aí eu já tinha pitado dois cigarros. para mais perto de mim. E eu cri tão certo. Sentei em cima de nada. tão bonito tão sério. brilhando. todos.” – ele disse – não sei se estava pálido muito. Me cerrou aquela surpresa.. então.

no fim de tanta exaltação. pra quem ouvir. no fato essa Ana Duzuza fica sendo minha mãe!” – foi o que eu disse. por ponto de não ser possível dele gostar como queria. Em mesmo eu quase reconheci um surdo prestígio de. e com a memória de seu pai!. sendo preciso. eu. que. Esperei o que vinha dele. agora de vez me alegrava. carregar Diadorim nos meus braços. no honrado e no final. quase gritei: – “Por mim. corda de três tentos. Ouvido meu retorcia a voz dele. recesso dum modo.Grande Sertão: Veredas uma luz. Vontade minha foi declarar: – Redigo. de mim eu sabia: o que compunha minha opinião era que eu... as muitas demais vezes. às loucas. beijar. me assustava. de empapar todas as folhagens. para mim. eu bem-queria.” Tudo turbulindo. e eu ambicionando de pegar em Diadorim. por mim. a raiva incerta. e também. Mas foi o que eu não disse. rei da natureza. assente. E tinha nojo maior daquela Ana Duzuza.. três tranços. ao tanto afeto.. que vinha talvez separar a amizade da gente. reduzir a velha – só não podia maltratar era Nhorinhá. – “Pois. meu amor inchou. sempre.João Guimarães Rosa . fechando. gostasse de Diadorim. ir lá. pode cheirar que chegue o manacá: não vou! Reajo dessas barbaridades!. em todo sistema. Há-de que eu certo não – 47 – . E. Que mesmo. Será por quê? Criatura gente é não e questão. De um aceso. Que Diadorim fosse o filho. Diadorim: estou com você.

. meu amigo mas meu estranho. quando um tem noção de resolver a vender a alma sua. e a pessoa sujeita está só é certificando o regular dalgum velho trato – 48 – . de que o Tal não existe. contando assim o sombrio das coisas. o Coisa-Ruim. o Rapaz. mais crônico: que. Falar com o estranho assim. O-que-nunca-se-ri. talvez por isto mesmo. Mire veja: o que e ruim. o Mafarro. Mas. no profundo. Pois.João Guimarães Rosa . o senhor me dê o lícito: que. sem se saber. o Azarape. o Tisnado. Não devia de estar relembrando isto. o Coxo. o Temba. o Pé-Preto. não existe! E. o Homem. o Tristonho. o Cão. que bem ouve e logo longe se vai embora. o Duba-Dubá. é um segundo proveito: faz do jeito que eu falasse mais mesmo comigo. se não existe. o Sujo. O senhor é de fora. Dum mau imaginado. o Canho. o Sem-Gracejos.Grande Sertão: Veredas regulasse. ou então – será que pode também ser que tudo é mais passado revolvido remoto. o Não-sei-que-diga. pois é não? O Arrenegado. como é que se pode se contratar pacto com ele? E a idéia me retorna.. não sei. ôxe? Não sei. o Cramulhão. que é porque ela já estava dada vendida. dentro da gente. Lenga-lenga! Não devia de. Principalmente a confirmação. o Pé-de-Pato. a gente perverte sempre por arredar mais de si. que me deu. Para isso é que o muito se fala? E as idéias instruídas do senhor me fornecem paz. o Galhardo. o Indivíduo.

Até podendo ser. Não é preciso se haver cautela de morte com essa Ana Duzuza. Moço: toda saudade é uma espécie de velhice. Deus que roda tudo! Diga o senhor. Diadorim respondeu o que eu não esperava: – “Tem discórdia não. eu estava contando – quando eu gritei aquele desafio raivoso. Relembro Diadorim. de alguém algum dia ouvir e entender assim: quemsabe. deamo. a ruindade nativa do homem só é capaz de ver o aproximo de Deus é em figura do Outro? Que é que de verdade a gente pressente? Dúvido dez anos. tão bem que mereciam. Mas aí. Nem nós vamos com Medeiro Vaz para fazer barbaridade com a mulher e filhos pequenos daquele pior dos dois Judas.. a gente criatura ainda é tão ruim. se vem! E vem obrigado pra – 49 – .Grande Sertão: Veredas – que já se vendeu aos poucos. ele vem. Minha mulher que não me ouça.. Os pobres ventos no burro da noite. sobre mim diga. tão. Riobaldo amigo. faz tempo? Deus não queira.João Guimarães Rosa . então. Ahã. se acalme. Deixa o mundo dar seus giros! Estou de costas guardadas. a poder de minhas rezas. Mas o que a gente quer é só pegar a família conosco prisioneira. que Deus só pode às vezes manobrar com os homens é mandando por intermédio do diá? Ou que Deus – quando o projeto que ele começa é para muito adiante. Deamar. porque ele e os da laia dele têm costumes de proceder assim.

João Guimarães Rosa . se bem. no começo de falar.. minha mãe era a minha mãe. Mas nunca eu senti que ele estivesse melhor e perto. na ação da pergunta. Assim devia de ser. Agora. diversa bondade. sempre quando outro quer direto saber o que é próprio o meu no meu. o minuto. se lembra certo da senhora sua mãe? Me conta o jeito de bondade que era a dela. Toda mãe vive de boa. Só faço. estes pormenores todos. essas coisas. Abracei Diadorim. ah. Foi um esclaro. como juro o seguinte: hei de ter a tristeza mortal. eu achava. e se espaçou de mim. Joca Ramiro. é algum arrependimento. em sua amizade delicadeza. mas cada uma cumpre sua paga prenda singular... Pelo nome de seu pai. A bondade especial – 50 – . Para mim. duma voz mesmo repassada.. que é a dela e dela..” Disse. pelo quanto da voz. já de si. Mas desci disso. como as asas de todos os pássaros.. digo ao senhor. Mas. que refugo. eu agora matava e morria. quem sabe para deduzir da conversa. E. Coração – isto é.Grande Sertão: Veredas combates. Mas Diadorim mais não supriu o que mais não explicava. O amor. se você algum dia deixar de vir junto. Tinha tornado a pôr a mão na minha mão. E eu nunca tinha pensado nessa ordem. Ao que entendi. e que depois tirou.” Na ação de ouvir. me perguntou: – “Riobaldo. tive um menos gosto. vendo que só mesmo Diadorim era que podia acertar esse tento.

pouco se apega. de nascença. por – 51 – . Pois a minha eu não conheci. querer-bem às minhas alegrias. Eu. tantas.. ele tora. é o que a gente vê mais. arrancha. que nem os pássaros de rios e lagoas. nestes sertões. isto é – Deus. Homem viaja. Eu dou proteção... algum filho é o perdurado.João Guimarães Rosa . E a de. A lembrança dela me fantasiou. Ninguém discrepa. É assim. risonho e habilidoso. mesmo digo.Grande Sertão: Veredas de minha mãe tinha sido a de amor constando com a justiça. pois nem eu nunca soube autorizado o nome dele.” – Diadorim prosseguiu no dizer.. fraseou – só face dum momento – feito grandeza cantável. como todo o mundo faz?” – “Quero criar nada não. foi: que eu não tive pai. quer dizer isso. igual quisesse falar: barra – beiras – cabeceiras. Orfão de conhecença e de papéis legais. passa: muda de lugar e de mulher. Quem é pobre. por que é que você não cria galinhas-d’angola. O senhor vê: o Zé-Zim. Eu. Por mim.. está com uma mocinha cabocla em casa.. o melhor meeiro meu aqui.. feito entre madrugar e manhecer. Fosse cego. por ser de escuro nascimento..” Está aí. Belo um dia.. E disse com curteza simples. Pergunto: – “Zé-Zim. – “. mesmo no punir meus demaseios.. dois filhos dela já tem. Não me envergonho.” – me deu resposta: – “Eu gosto muito de mudar. que eu menino precisava. é um giro-ogiro no vago dos gerais. o que pensei.

não há paz.. que eu tive de um homem chamado Gramacedo. que eu acho na memória. Hoje.. É em senhas. no sertãozinho de minha terra – baixo da ponta da Serra das Maravilhas. tapera dum sítio dito do Caramujo. o Verde que verte no Paracatu.João Guimarães Rosa . mudaram. recordo tudo da minha meninice. mudou de nome.. mas sem saudade. com Nossa Senhora e São José?! Precisava de se ter mais travação. Todos os nomes eles vão alterando. minha mãe e eu. Essa não faltou também à minha mãe. Lá como quem diz: então alguém havia de renegar o nome de Belém – de Nosso-Senhor-Jesus-Cristo no presépio. foi o ódio. devia de estar sagrado. Senhor sabe: Deus é definitivamente. Me lembro dela com agrado. foi. Boa. que o senhor já viu que tenho retentiva que não falta. quando eu era menino.Grande Sertão: Veredas baixos permeios. Perto de lá tem vila grande – que se chamou Alegres – o senhor vá ver. O senhor sabe: a coisa mais alonjada de minha primeira meninice. Jidião Guedes.. quando saíram de lá.. Gente melhor do lugar eram todos dessa família Guedes. Fica– 52 – . São Romão todo não se chamou de primeiro Vila Risonha? O Cedro e o Bagre não perderam o ser? O Tabuleiro-Grande? Como é que podem remover uns nomes assim? O senhor concorda? Nome de lugar onde alguém já nasceu.. Porque logo sufusa uma aragem dos a casos. nos trouxeram junto. atrás das fontes do Verde. o demo é o contrário Dele. Para trás. Assim é que digo: eu. no entre essa e a Serra dos Alegres.

Modo mesmo assim. esse era homem sério trabalhador. todo o mundo sonhado satisfeito.. em entrar. uma noite se passou. Medeiro Vaz. em tantos burros cargueiros: e que era – 53 – . pois visto a gente ia baixar primeiro por campinas de brejais. Jõe Engrácio. Mas erro era – porquanto Medeiro Vaz sempre soube rumo prático. o senhor sabe. tinha querido se adiar das restadas chuvas de março – dia de São José e sua enchente temposa – para pegar céu perfeito. – “Versar viagem a cavalo sem ter estradas – só doido é quem faz isso. por nome. ao senhor. Eu estava com uns treze ou quatorze anos. pelo firme.Grande Sertão: Veredas mos existindo em território baixio da Sirga. depodepois. para o que traçava. Nos caminhos ainda se lambuzava muita lama de ontem. da outra banda.. esbarrando dois dias no Vespê – lá se tinha boa cavalaria descansada. mas demais de simplório.. ele Jõe Engrácio reparou na quantidade de comidas e mantimentos que a gente tinha reunido. ele mesmo logo se ria. do que eu estava contando. com os campos ainda subindo verdes. não achei terrível. De sorte que. do que ele falava. e. Porque era extraordinária verdade. ali onde o de-Janeiro vai no São Francisco. outros cavalos sob guarda dum sitiante amigo. e daí avançar aquilo que se disse. ou jagunz.João Guimarães Rosa . Tangemos..” – aquele Jõe Engrácio falou. Declaro que era em abril. logo conheci. fortemente.

Grande Sertão: Veredas despropósito. não sustinha herdeiros forçados. a praxe. ninguém vereava. em terras e gados. De estado calado. de resmão. perguntou aonde se ia. e desrespeito carnal das mulheres casadas e donzelas. De tudo.João Guimarães Rosa . Mas não louvava cantoria. chefe. ele recebera grande fazenda. Perdão peço. dando dizendo de querer ir junto. Somente de mais sisudez. Então Medeiro Vaz. Estavam falando todos juntos? Então Medeiro Vaz não estava lá. ao fim de forte pensar. reconheceu o dever dele: largou tudo. vendo o que via. ele sempre aceitava todo bom e justo conselho. – “Bobou?” – foi só o que Medeiro Vaz indeferiu. Não tinha bocas de pessoa. e rapadura. se livrou leve como que quisesse voltar a seu só nascimento. nem faltava sal. de antepassados de posses.. desde em quando aquele imundo de loucura subiu as serras e se espraiou nos gerais. – “Bobei. nem café. fez o fez-por suas mãos pôs fogo na distinta casa-de– 54 – . E ele. No derradeiro. foi impossível qualquer sossego. Medeiro Vaz não era carrancista. o senhor sabe? Quando moço.” – Jõe Engrácio reverenciou. Com ele. homem baseado. por amor daquela fartura – as carnes e farinhas. se desfez do que abarcava.. Às vezes vinha falando surdo. Mas vieram as guerras é os desmandos de jagunços – tudo era morte e roubo. O que tinha sido antanha a história mesma dele. Podia gerir e ficar estadonho.

o lugar onde se conseguiam os ossos dos parentes. e homem mais moço. doideira em juízo. ele montou em ginete. rapaziagem dos campos. reuniu chusma de gente corajada. que perto dele até o doutor. par-de-frança. Dizem que foi ficando cada vez mais esquisito. de sobregoverno. se compunham. Tenente nos gerais – ele era. Por isso. com cachos d’armas. o padre e o rico. A gente era os medeiro-vazes. de alívios agora se testava. e sempre conservava seus bons haveres. Ele tinha conspeito tão forte. e saiu por esse rumo em roda. bisavô – espiou até o voejo das cinzas. – 55 – . nós todos obedecíamos.Grande Sertão: Veredas fazenda. espalhou as pedras: pronto. De anos. então achou outra esperança maior: para ele. andava. eu ainda vi. para remexer com desonra. Fato que Joca Ramiro também igualmente saía por justiça e alta política.João Guimarães Rosa . de beijar a mão dele não se vexava. fazendão sido de pai. Cumpríamos choro e riso. Quando conheceu Joca Ramiro. Daí. escorrido dono de si. relimpo de tudo. loca Ramiro era único homem. Ao que. capaz de tomar conta deste sertão nosso. para impor a justiça. Mas Medeiro Vaz era duma raça de homem que o senhor mais não vê. ninguém podia descobrir. avô. lá hoje é arvoredos. aí foi aonde a mãe estava enterrada – um cemiteriozinho em beira do cerrado – então desmanchou cerca. por valente que fosse. mas só em favor de amigos perseguidos. Podia abençoar ou amaldiçoar. mandando por lei.

Boi brabeza pode surgir do caatingal. com uma lagoa muito correta. chegamos numa baixada toda avistada. e cutucar de guerrear nos fundões da Bahia! Até. felizinha de aprazível. num alto retuso. um rebuliço de festejo. cresce no se caminhar para as cabeceiras. Dali eu via aquele movimento: os homens. a gente se sentia no poder fazer. enxergados tamanhinho de meninos. o tanto. desenrolado. tocamos. quando conforme Medeiro Vaz com as poucas palavras: que íamos cruzar o Liso do Suçuarão. houve.Grande Sertão: Veredas Razão dita. esse alvoroço.João Guimarães Rosa . por antigos plantado. Eu estava de sentinela. dos cerrados. Como fomos: dali do Vespê. e um ranchinho. Lá a gente seria de pernoitar e arrumar os finais preparos. Depois subimos. esfiapado nos lombos do vento quente. rodeada de buritizal dos mais altos: buriti – verde que afina e esveste. de boa-cara se aceitou. A parte de mais árvores. E tinha os restos de uma casa. O que ninguém ainda não tinha feito. que o tempo viera destruindo. de repente. no ar. numa alegria. Ali se chamava o Bambual do Boi. e. afastado um quarto-de-légua. que pareciam um pano azul ou vermelho. e um bambual. Se viam bandos tão compridos de araras. Daí. tresfuriado com o que de gente nunca soube – vem feio pior que onça. se desceu mais. feito nuvem de abelhas em flor de araçá. prezando. como tirando roupa e correndo para aproveitarem – 56 – . descendo esbarrancados e escorregador. belimbeleza.

digo ao senhor.Grande Sertão: Veredas de se banhar no redondo azul da lagoa. com seus rifles e granadeiras. de donde fugiam espantados todos os pássaros – as garças. os marrecos. Talvez. naqueles tempos eu não sabia. aquilo mesmo que a gente receia de fazer quando Deus manda. os companheiros agora queriam só pular. Riobaldo” – me disse – “nossa destinação é de glória. Então. Semelhava que por saberem que no outro dia principiava o peso da vida. O Danador! Mas Diadorim estava a suaves. que Medeiro Vaz assim mandava. quem tivesse mais receio daquilo que ia acontecer fosse eu mesmo. Diadorim veio me fazer companhia. para a gente se transformar em ruim ou em valentão. isto é: coragem em mim era variável. quase igualmente. hoje é que sei: que. caminhou com os pés da idade. Eu estava meio dúbito. – 57 – . de tardinha. Som bom de chuvas. rir e gozar seu exato. E. Ah. Confesso. ah basta se olhar um minutinho no espelho – caprichando de fazer cara de valentia. quando voltou o vento. E.. Eu cá não madruguei em ser corajoso. Em hora de desânimo. eu lembro de meu pai. nas palmas dos buritis..João Guimarães Rosa . ou cara de ruindade! Mas minha competência foi comprada a todos custos. você lembra de sua mãe. os jaburus. – “Olha. E o bambual. e uns bandos de patos-pretos.” Não fale nesses. depois quando o diabo pede se perfaz. roladas uma por uma. era um fino soprado seguido. Mas uns dez tinham de sempre ficar formando prontidão.

Cada um pegava também sua cabaça d’água. de dia e de noite. do capim-grama. referido – 58 – . de leve. Joaquim Beiju e Tipote – esse Tipote sabia meios de descobrir cacimbas e grotas com o bebível.. a patrulhazinha. para adiante. Também tínhamos trazido jumentos. Me faltou certeza para responder a ele o que eu estava achando. me adoecido. deu ordem de seguida. sempre havendo. se esparramava. ajudando para o derradeiro. Os bogós de couro foram enchidos nas nascentes da lagoa.Grande Sertão: Veredas Diadorim. Medeiro Vaz. Primeiro.João Guimarães Rosa . o Suzarte desempenhava um faro de cachorro-mestre. Se dizia muita alegria. depois de não dizer nada. De manhãzim – moal de aves e pássaros em revôo. só modo para carregar. para não ter de tolerar de ver assim o chamado. Constante que com a gente estavam três bons rastreadores – Suzarte. e pios e cantos – a gente toda discorria. o leve. tão impossível. atarefados. Ficar calado é que é falar nos mortos. e na capanga o diário de se valer com o que comer – paçoca. e Joaquim Beiju conhecia cada recanto dos gerais. e enqueridos nas costas dos burrinhos.. Dormiu-se bem.. aquela beleza verde. ocultando. que tapava os pés deles. Que vontade era de pôr meus dedos. nos meigos olhos dele. Os cavalos ainda pastavam um pouco. foi uma turma de cinco homens. até que ponto esses olhos..

arregaçavam saia no chão. dava um peso extrato. Daí. que desciam para seus lugares. em pulo de avanço. por cima de matos.João Guimarães Rosa . a papeagem no buritizal. capins assins. Um gavião-andorim: foi o fim de pássaro que a gente divulgou. longe na banda de trás. em ponto. até perto de hora do almoço. Mas o terreno aumentava de soltado. vindo aos poucos. Vi a luz. Acabou o sapé brabo do chapadão. só algum tatu. Ali onde o campo largueia. Achante. pois. Depois. se acabavam as mangabaranas e mangabeirinhas. e paus espinhosos. Se acabou o capinzal de capim-redondo e paspalho. nas frescas beiras da lagoa – ah. Seis novilhos gordos a gente repontava. com a gente se afastando. serviam para se carnear em rota. rebentava. os pássaros todos voltavam do céu. indo sem volvência. De vir lá. Acabava o grameal. A ver. castigo. Aquilo. naquelas paragens pardas. que mesmo as moitas daquele de prateados feixes. E as árvores iam se abaixando menorzinhas. no descampante. aquela grandidade. Em o que afundamos num cerrado de mangabal. o sol não deixava olhar rumo nenhum. Dia desdobrado. quisesse podia mapear planta. e o sol. o mundo se envelhecendo. A gente olhava para trás. De repente. se estava – 59 – . por mel e mangaba. que lequelequeia.Grande Sertão: Veredas deletreado. Saímos. semoventes. Os urubus em vasto espaceavam.

esfaiscava. e arre se comparece uma porca com ninhada de pintos.. Onde é que seria o sobejo dela. um João Bugre. e chama fortemente o Cujo – e espera. em meia-noite.. E fogo começou a entrar.” Eu ouvi aquilo demais.. O Hermógenes tem pauta. Se sendo. um sujeito dos companheiros. fofo ocado. nos pobres peitos da gente. remedante. louca. Era uma terra diferente. com o ar. Ao que a pessoa vai. e lagoa de areia.. O senhor – 60 – . porque. Expondo ao senhor que o sucedido sofrimento sobrefoi já inteirado no começo. E o que era para ser. arrevesso. Por quê? Juro que: pontual nos instantes de o raso se pisar. Ele se quis com o Capiroto. um amarelo vapor. com sal. De longe vez.. daí só mais aumentava. ou disse a outro. O pacto! Se diz – o senhor sabe. adiante. confinante? O sol vertia no chão. se não for uma galinha puxando barrigada de leitões.. me disse. há-de que vem um pé-de-vento. Bobéia. As-exalastrava a distância. Tudo errado. sem completação. O que é pra ser – são as palavras! Ah.João Guimarães Rosa . capins mortos. sem razão. do meu lado: – “ ..Grande Sertão: Veredas naquela coisa – taperão de tudo. e uns tufos de seca planta – feito cabeleira sem cabeça. a uma encruzilhada..

se forma! Carece de se conservar coragem. estripando. A gente viemos do inferno – nós todos – compadre meu Quelemém instrui.João Guimarães Rosa . Duns lugares inferiores. O Hermógenes tem pautas.. soante que mesmo vi e assaz me contaram. em as trevas de véspera para o Terceiro Dia. Sim só isto.Grande Sertão: Veredas imaginalmente percebe? O crespo – a gente se retém – então dá um cheiro de breu queimado. superstição parva? Estornadas! “. Muito mais depois. Senhor quer crer? Que lá o prazer trivial de cada um é judiar dos outros. Era ele mesmo. e. para digerir o que se come. queimando pessoas ainda meio – 61 – .” Provei. cortando línguas e orelhas. atirando na inocência do gado. e nenhum sossego não se tem.. E o dito – o Coxo – toma espécie. O pagar é a alma. e o calor e o frio mais perseguem. furando os olhos.. com fortes dores. O senhor vê. esfaqueando. bom atormentar. Se assina com sangue de pessoa. tão monstromedonhos. Introduzi. não economizando as crianças pequenas.. e até respirar custa dor. Repenso no acampo da Macaúba da Jaíba. Com ele ninguém podia? O Hermógenes – demônio. que Cristo mesmo lá só conseguiu aprofundar por um relance a graça de sua sustância alumiável. Se assina o pacto. é preciso de esforçar no meio. Se creio? Acho proseável. e outros – as ruindades de regra que executavam em tantos pobrezinhos arraiais: baleando.

puxando os cascos dos cavalos para trás. figuro que por empreitada de punir os outros. sem firmeza. só prosseguindo. exemplação de nunca se esquecer do que está reinando por debaixo.João Guimarães Rosa . Como que falasse: “Hê. igualmente... se repraçava um entranço de vice-versa.” Os medeiro-vazes. Caminho não se havendo. Os companheiros se prosseguindo. gretoso e escabro – no desentender aquilo os cavalos arupanavam. e o miolo mal do sertão residia ali.. que muitos retombam para lá. receei de ter – 62 – . Viver é muito perigoso. de áspera raça. As chuvas já estavam esquecidas.Grande Sertão: Veredas vivas. na beira de estrago de sangues. Esses não vieram do inferno? Saudações. Se vê que subiram de lá antes dos prazos. A gente progredia dumas poucas braças. Daí. com espinhos e restolho de graviá.. Medeiro Vaz se estugasse adiante. A igual. sobre ninguém – que vamos padecer e morrer por aqui. constante que morrem. Digo. Depois.. Diadorim – sempre em prumo a cabeça – o sorriso dele me dobrava o ansiar. junto com os que rastreavam? Será que de lá ainda se podia receder? De devagar. era um sol em vazios. e calcava o reafundo do areião – areia que escapulia. valentes somos. trasla um duro chão rosado ou cinzento. Mas mor o infernal a gente também media. verde-preto cor de cobra. Em tanto.... corruscubas. vi visagens.

. De Diadorim. e a noite armar do outro. Onde era que os animais iam poder pastar? Noite redondeou. mas a voz dele era o tanto-tanto para o embalo de meu corpo. nem nada. A com légua-e-meia de andada. bebi meu primeiro chupo d’água. Até que esbarramos. Mas. Riobaldo. meu medo. peei o animal. Desarreei. Nem auxiliei a tomar conta dos bois. a cavalo ou a pé. Ah. da cabaça – eu tinha avarezas dela. se viu o sol de um lado deslizar.Grande Sertão: Veredas um vágado – como tonteira de truaca. no extremo de adormecer. noite sem boca.. eu pudesse mesmo gostar dele – os gostares. tudo há-de resultar bem. sem mudança nenhuma. ainda intruji duas coisas. caí e dormi.João Guimarães Rosa . nem a destravar os burros de albarda. Até que. Havia eu de saber por quê? Acho que provinha de excessos de idéia. assim ouvi: – “Pois dorme. Alguma justa noção não emendei. nenhuma árvore nem barranco. Tanto tudo o que eu carregava comigo me pesava – eu ressentia as correias dos correames. astúcia que tive uma sonhice: Diadorim passando por debaixo de um arco-íris.. aí jaz que descansando do meu lado. eu pensava desconjuntado. em cruz: que Medeiro Vaz estava insensato? – e que o Hermógenes era pactário! Tomo que essas traves fecharam meus olhos. os formatos. no tosta-sol. Medo. no mesmo padrão de lugar.” Antes palavras que picaram em mim uma gastura cansada. Agüentei. pois caminhadas piores eu já tinha feito.. – 63 – . Noite essa.

Jagunço é homem já meio desistido por si. Nem menos sinal de sombra. companheiros. na brumalva daquele falecido amanhecer. de delírios. sempre existido doidante.. E os outros. se destapava – era o que eu tinha rompência de gritar. circunstavam. vir – e só. e produzia uma maldade – feito pessoa! Não destruí aqueles pensamentos: ir. eles esticando os pescoços para pedir. e cada restar de bebida carecia de ser poupado. Capim não havia. o pesadelo. cavalanços. para o senhor. só agora pior. Só saiba: o Liso do Suçuarão concebia silêncio. é ter sido. imaginado. e que Medeiro Vaz estava demente. A calamidade de quente! E o esbraseado. e ir. sem o simples de passarinhos faltantes? Fomos. vivido. Os – 64 – .Grande Sertão: Veredas Como vou achar ordem para dizer ao senhor a continuação do martírio. o senhor pode completar. o estufo. a dor do calor em todos os corpos que a gente tem. sem esperança em uma. Eu abaixava os olhos. Água não havia.João Guimarães Rosa . A debeber os cavalos em cocho armado de couro. e o trabalho custoso de suas passadas.. Os cavalos venteando – só se ouvia o resfol deles. no seguinte. o que não pode. Se ia. eles olhavam como para seus cascos. que é que os outros pensavam? Sei? De certo nadas e noves – iam como o costume – sertanejos tão sofridos. e dosar a meio. para não reter os horizontes. que trancados não alteravam. mostrando tudo o que cangavam de esforço. Pesadelo mesmo. em desde que as barras quebraram. Do sol e tudo.

os rastreadores farejando. procurando. Aquela gente toda sapirava de olhos vermelhos. debruçado para a sela. entreguei alma no corpo. Otacília. ela queria viver ou morrer comigo – que a gente se casasse. se embaçavam de renuvem. numa quebreira. arroxeavam as caras. A luz assassinava demais. cabeceira de vereda – na Fazenda Santa Catarina. minha palmeira. tábua – 65 – . outra água eu provava. Já tinha quem beijava os bentinhos. olhos de onda do mar. minhas vistas bestavam.. Desde uns versos: Buriti. se rezava. como a diguice duma música. lá na vereda de lá casinha da banda esquerda. De mim.. Meu amor de prata e meu amor de ouro. Nenhum poço não se achava.João Guimarães Rosa . Ou eu variava? A saudade que me dependeu foi de Otacília. Valentia vale em todas horas? Repensei coisas de cabeça-branca. Saudade se susteve curta.Grande Sertão: Veredas cavalos gemiam descrença. Tive pena do pescoço do meu cavalo – pedação. e não achei acabar para olhar para o céu. Mas os olhos verdes sendo os de Diadorim. Me airei nela. De doer. Até minhas testas formaram de chumbo. existia nas Serras dos Gerais – Buritis Altos. E a gente dava voltas. Moça que dava amor por mim. E nós estávamos perdidos. Já pouco forneciam.

naquela hora.Grande Sertão: Veredas suante.. para as boas serras! Eu via.” – falou. o que era que aquilo me importava – de malfeitos e castigos? Eu ambicionava o suíxo manso dum córrego nas lajes – o bom sumiço dum riacho mato a fundo. pensando. o cabecear das árvores. Voltar para trás. do proposto de meus todos sofrimentos.. – 66 – . sem uma moita. padecente. vou e me caso com Otacília!” – eu jurei. antes de dar à casca. eu não gostava mais de ninguém: só gostava de mim. o riso do ar e o fogo feito duma arara. deserteio de jaguncismo. um pássaro voando sem movimento. cada um asia sua sombra num palmo vivo d’água. O senhor sabe o que é o frege dum vento. Alguém já tinha declarado de morto. Adivinhou que eu roçava longe dele em meus pensamentos.. “Saio daqui com vida. de mim! Novo que eu estava no velho do inferno... Agora. Caso que arredondava a testa. Dia da gente desexistir é um certo decreto – por isso que ainda hoje o senhor aqui me vê. Mas mesmo depois. Nada de reprovável não se fez. não se matou a Ana Duzuza.João Guimarães Rosa . um pé de parede pra ele se retrasar? Diadorim não se apartou do meu lado. E adverti memória dos derradeiros pássaros do Bambual do Boi. Gritavam contra a gente. No escaldado. Aqueles pássaros faziam arejo.. – “Riobaldo. Ah. O Miquim... O melhor de tudo é a água. queria ver. o chão fresco remexido pela fossura duma anta. e os poços não se achavam. E eu não respondendo.

esbarrou e se riu: – “Será que não é sorte?” Depois. reclamou baixo. cão que olha. que muito valia em guerreio. espalhado no chão. mais não vou! Só desarrastado vencido. – “Pois vamos retornar.. deste mesmo de lugar. Medeiro Vaz a nada não atendia? Ouvi minhas veias. – 67 – . Outro também. Os cavalos bobejavam. E outro: todo empretecido. Eu apeei do meu. um rosnou. chefe?” – Diadorim solicitou. pelo o resultado. para nós. – “Daqui. Riobaldo... Acabou de falar. rouco como um guariba. em redor.” – “Tal tempo!” – truquei. e sangrava das capelas e papos-dosolhos. o do pior – caiu total. mais forte. adiante: – “Estou cego!. mas se via que Medeiro Vaz não podia outro querer. num aspeito repartido. Pessoal companheiro. Tom bom. Foi aí que o cavalo de Diadorim afundou aberto. Medeiro Vaz estava ali. Vi uma roda de caras de homens. – “Nós temos de voltar.. Suas as caras.. se sofreu o grito de um.. Que vejo que nada campou viável.” – mas falei. com aquela beleza que nada mudava. De repente.” Mais aquele. virado torto. embaraçando os passos das montadas. se engasgavam. e se agoniou. Credo como algum – até as orelhas dele estavam cinzentas... Contanto me mirou a firme. Aí.Grande Sertão: Veredas um rapaz sério sincero. a gente sofreasse. Diadorim pareceu em pedra. a rumo. e parou um gesto.João Guimarães Rosa . eu pude pegar a rédea do animal de Diadorim – aquelas peças doeram na minha mão – tive que fiquei um instante no inclinado.

destrincharam. Mas. Céu alto e o adiado da lua. de nada não poder fazer. Como Deus foi servido. a idéia de se atravessar o Liso do Suçuarão. Medeiro Vaz. com os mantimentos. Mais não vi.João Guimarães Rosa . o mais que se mereceu? Basta o vulto ligeiro de tudo. uns homens mortos. quartearam e estavam comendo. Saímos dali. e entendi. a gente perdemos. Mor que depois eu soube – que. e mais muitos dos cavalos. Peguei minha cabaça. pudemos sair. E foi. do estralal do sol. Isto é. – 68 – . E em lugares deerrados. fugidos por infelizes. então – por primeira vez – abriu dos lados as mãos. sempre dá o prazer. e ele esteve de ombros rebaixados. são. num pintar de aurora. os homens tramavam zuretados de fome – caça não achávamos – até que tombaram à bala um macaco vultoso. ele Diadorim era que a Medeiro Vaz tinha aconselhado. Mas era mesmo o final de se voltar. Diadorim apalpou meu braço. Pra trás. amargo de felém.Grande Sertão: Veredas a não ser o que Diadorim perguntava. no tinte. Com outros nossos padecimentos. Só não acabamos sumidos dextraviados. toda. por meio do regular das estrelas. sem maiores estragos. para que contar ao senhor. e a carga quase toda. bebi gole. Mais não se podia. E – o senhor mais saiba – de supeto já eu estava remoçado. Deus me disse. disposto! Todos influídos assim. Mesmo o mais grave sido que restamos sem os burros. de lá. Vi: os olhos dele marejados.

mais não comeram. qualidade que dizem que é de bom aproveitar. comi. nem farinha não tinham. A mulher. Me deu.Grande Sertão: Veredas Provei. e manducando. se soube. Diadorim não chegou a provar. se come o que alma não é. – “Arre que não!” – ouvi gritarem: que. um chamado José dos Alves! Mãe dele veio de aviso. por da cabeça prejudicado. – “Aí. Algum disse: – “Agora. não achavam o rabo.. Outros também vomitavam. e gostosa. Mas uns já enchiam até capanga. A mulher rogava. Era homem humano.. então. que nu por falta de roupa. sem achar sabor. Mas outros conseguiram da mulher informação: que tinha. Isto é. tanto não. E eu lancei. Foi assombro. Não. Por quanto – juro ao senhor – enquanto estavam ainda mais assando. o Jacaré pegou de uma terra. chorando e explicando: era criaturo de Deus. Para acompanhar. e enganava o estômago. Melhor engolir capins e folhas. modo de não morrermos todos. mas o filho também escapulia assim pelos matos. de certo. de ser mandiocabrava! Esses olhavam com terrível raiva. Nesse tempo. pois ela mesma ainda estava vestida com uns trapos. fincada de joelhos. obra de quarto-delégua de lá.” Não se achou graça.. por vingança. um mandioca) sobrado.. com tor– 69 – . com febre. o corpudo não era bugio não.João Guimarães Rosa . só o pepego esquisito. é a fome?” – uns xingavam. diversos perrengavam. que está bem falecido. Medeiro Vaz se prostrou. não puderam. invocava. a mulher ensinasse aquilo. morador.

. vi. e que recebe o do Jenipapo e a Vereda – do-Vitorino.” – 70 – . as flores do capitão-da-sala-todas vermelhas e alaranjadas. A mulher também aceitou. Santas águas. por fim. Muitos estavam doentes. e na Lagoa Suçuarana. – “É o cavalheiro-da-sala. a coitada. que papagaio voa por cima e gritam.. E longe pedra velha remeleja. o nome dessa” – ele disse“é dona-joana. entusiasmado.. Mas o Alaripe. Diadorim comeu. Nós trouxemos aquela mulher. Eu cumpria uma disenteria. Dum geralista roto.. Mas pudemos chegar até na beira do dos-Bois. ela temia de que faltasse outro de-comer. que me venha!” – Diadorim garantiu. e é d’água tão tinto. sacudiu a cabeça. – “Que só venha!” – eu secundei. Depois Medeiro Vaz passou mal. Mas o leite dela é venenoso.. e ela servisse. – “Em minha terra. e que verte no Rio Pandeiros – esse tem cachoeiras que cantam. – “Quem quiser bulir com ela... E era bonito. E seguimos o corgo que tira da Lagoa Suçuarana.Grande Sertão: Veredas rão daquela terra.. outros tinham dores. ganhamos farinha-de-buriti. pensaram que carne de gente envenenava. perto de nós. Matou-se capivara gorda.João Guimarães Rosa . ali se pescou.” – Diadorim falou. de vizinhas. inchadas. de reflexo. sempre ajudava. no correr do baixo campo. sem acordo: – É verde! É azul! É verde! É verde!. o tempo todo. garrava a ter nojo de mim no meio dos outros. rebrilhando estremecidas. e danado doer nas pernas. sangrando nas gengivas. do lado dele. e com manchas vermelhas no corpo.

Esmorecidos é que não. Tardou foi para se ter sinal – 71 – . a gente tem devassalar. E todo o mundo não presume assim? Fazendeiro. E despaireci meu espírito de ir procurar Otacília. e o diabo sai por toda parte lambendo o prato. Jagunço é isso. isto é que é. sortimos arranjados animais de montada. digo. depois de ser cinza.. Pra ele a vida já está assentada: comer. Talmente. Nenhum se lastimava. Mas eu gostava de Diadorim para poder saber que estes gerais são formosos. Tudo que eu mesmo. Ah. também. e o fim final.Grande Sertão: Veredas Esbandalhados nós estávamos. Olhe: Deus come escondido. Fui fogo. Jagunço não se escabreia com perda nem derrota – quase que tudo para ele é o igual. do que mal houve. algum. Confiança – o senhor sabe – não se tira das coisas feitas ou perfeitas: ela rodeia é o quente da pessoa. Nunca vi. e viemos vindo atravessando o Pardo e o Acari. não desfazia mais nele. pedir em casamento. arranchamos dias numa fazenda hospitaleira na Vereda do Alegre. também? Querem é trovão em outubro e a tulha cheia de arroz. se carecia de tomar repouso e aguardo. escatimados naquela esfrega. Tornava a ter fé na clareza de Medeiro Vaz. beber. me esquecia. mandado de virtude. em toda a parte a gente era recebida a bem.João Guimarães Rosa . acho mesmo que ninguém se dizia de dar por assim. filhos do dia. brigar.. Por meios e modos. apreciar mulher.

Mas a vantagem nossa era que todos os moradores pertenciam do nosso lado. tinha curral e casa. a gente varava para após. em comidas. se passava: ou no Vau da Mata – 72 – . como os buritis ensinam. E Medeiro Vaz pensava era um pensamento: a gente mamparreasse de com eles não guerrear. as pessoas vinham. nem consentia em desatinos de seus homens. outros presentes. Dando meias andadas. num Buriti-do-Zé. depois naqueles meses todos? A verdade digo ao senhor: os soldados do Governo perseguiam a gente. renitiam feito peste. Dono de lá. não se esperdiçar – porque as nossas armas guardavam um destino só. que é fundo. Escapulíamos. Mas os Hermógenes e os cardões roubavam. Medeiro Vaz não maltratava ninguém sem necessidade justa. não tomava nada à força. defloravam demais. Tenente Ramiz e Capitão Melo Franco – esses não davam espaço. Na ocasião. determinavam sebaça em qualquer povoa) à-toa.João Guimarães Rosa . se soube. o Hermógenes beirava a Bahia de lá. Esbarrávamos em lugar. Sebastião Vieira. E o Ricardão? Estivesse. e eram um mundo enorme de má gente. Se passava o Piratinga. E guardava munição da gente: mais de dez mil tiros de bala. davam o que podiam. esperasse. Major Oliveira.Grande Sertão: Veredas dos bandos dos Judas. de dever. esquipávamos. Vereda em vereda. Por que foi que não se fez combate. nós chegamos num ponto-verdadeiro.

outros carregavam suas coisas – sacos de mantimentos. vi lugares de terra queimada e chão que dá som – um estranho. É preciso de saber os trechos de se descer para Goiás: em debruçar para Goiás.. saiba o senhor: população de um arraial baiano. com chapéu-de-couro prà-trasado. ou então. Por aí. A ser o importante. os velhos. eles mesmo dizendo: “. parecendo nação de maracatu! Iam para os diamantes.Grande Sertão: Veredas ou no Vau da Boiada. quando militar vinha cismado empurrando. era avançar depressa nas boas passagens nas divisas.João Guimarães Rosa . no Vau do José Pedro. Tem quebracangalhas e ladeiras terríveis vermelhas.. rede de caroá a tiracol. que marchava de mudada-homens.. inteira. tão longe. também. trouxas de roupa. Olhe: muito em além. extremando. um homem se enforcou. Se não. mulheres. como vieram com todos. pegando mais por baixo. o padre com seus petrechos e cruz e a imagem da igreja – tendo até bandinha-de-música. até às nascentes. se chegava até no Jalapão – quem conhece aquilo? – tabuleiro chapadoso. no São Dominguinhos.. o São Domingos. Pois lá um geralista me pediu para ser padrinho de filho. que se tinha de estudar. quem oficiou foi o padre dos baianos. as crias. O padre. Mundo esquisito! Brejo do Jatobazinho: de medo de nós. subíamos beira desse.” Uns tocavam jumentos de almocreve. nos rios. despenha. O menino recebeu nome de Diadorim. Só era uma – 73 – . o chapadão por lá vai terminando. Ah. proporema.

indo da miséria para a riqueza. não havia mais crimes. Compadre meu Quelemém é um homem fora de projetos. um quebrapeito – e é ele mesmo. até à hora de cada uma morte cantar. No sertão. E. Todos vinham comparecendo. madrugada boa gelada. com o plequeio das alpercatas. A estrelad’alva sai às três horas. já – 74 – . louvando a Deus e pedindo glória do perdão do mundo. Rezavam. e ele duvidou com a cabeça: – “Riobaldo. a colheita é comum. gente cantável.. acompanhamos esses até à Vila da Pedra-de-Amolar. Senhor vê. no meio dos gerais. dado logo. em algum apropriado lugar.João Guimarães Rosa . o vento vem deste rumo daqui. Lá venta é da banda do poente. O senhor vá lá. as velhas tiravam ladainha. na Jijujã.” – ciente me respondeu.. Às vezes eu penso: seria o caso de pessoas de fé e posição se reunirem. fortíssimas. na seca. no tempo-daságuas. mês de junho. e todo sofrimento se espraiava em Deus. mas o capinar é sozinho. para se viver só em altas rezas. no escuro. Vai agora. O cortejo dos baianos dava parecença com uma festa. Raciocinei isso com compadre meu Quelemém. lá se levantava enorme igreja. pelo prazer de tomar parte no conforto de religião. É tempo da cana. nem ambição.Grande Sertão: Veredas procissão sensata enchendo estrada. até enterro simples é festa. às poeiras.

finalizando. O senhor bebe uma cuia de garapa e dá a ele lembranças minhas. aleijados por horríveis formas. colocado no mais tope. Se tinha – 75 – .João Guimarães Rosa . diz-se que lá ela foi cativa de comer. até os pássaros e bichos vinham bisar. ora cá ora ali lá. na capital. Tinham o direito? Estava certo? Meio modo. Homem de mansa lei. num estalo de tempo. querendo só o Céu. já tinham surgido vindo milhares desses. coração tão branco e grosso de bom. que mesmo pessoa muito alegre ou muito triste gosta de poder conversar com ele.Grande Sertão: Veredas risonho e suado. de tudo: criaturas que fediam. em redor dela começaram milagres. o povo entoando hinos. Senhor imagina? Gente sã valente. o que minha vocação pedia era um fazendão de Deus. por armagem de sonda. héticos e hidrópicos. Aquilo não era o que em minha crença eu prezava. Porque. Senhor enxergasse aquilo. trouxe os praças. os doentes condenados: lázaros de lepra. se braseando incenso nas cabeceiras das roças. baldearam a moça para o hospício de doidos. o senhor desanimava. Como deu uma moça. idiotas. para pedir cura. loucos acorrentados. no Barreiro-Novo. Mas o delegadoregional chegou. os cegos mais sem gestos. Todo assim. engenhando o seu moer. determinou o desbando do povo. acho que foi bom. feridentos. essa desistiu um dia de comer e só bebendo por dia três gotas de água de pia benta. Mas diverso do que se vê.

se espantava da seriedade do mundo para caber o que não se quer. mas que Deus não há.João Guimarães Rosa . Será acerto que os aleijões e feiezas estejam bem convenientemente repartidos. O sertão está cheio desses. Mire veja: um casal. É o aberto perigo das – 76 – . Se não. tudo dá esperança: sempre um milagre é possível. o mundo se resolve. discutiam uns com outros.. para estorvar que se tenha dó. e a vida é burra. no Rio do Borá. daqui longe.Grande Sertão: Veredas um grande nojo. doutor rapaz. discorreu me dizendo que a vida da gente encarna e reencama. E aquela gente gritava. por progresso próprio. só os tocos. Guerra diverte – o demo acha. Como não ter Deus?! Com Deus existindo. não se nota tanto: o estatuto de misérias e enfermidades. no teso das marchas.. nem posso figurar minha idéia nisso! Refiro ao senhor: um outro doutor. se perdia qualquer coragem. nos recantos dos lugares. praxe de ir em movimento. não desejavam Céu nenhum. há-de a gente perdidos no vaivem. exigiam saúde expedita. se não tem Deus. Arre. Vendo assaz. que explorava as pedras turmalinas no vale do Araçuaí. rezavam alto. desesperavam de fé sem virtude – requeriam era sarar. Mas. do Que-NãoHá. Só quando se jornadeia de jagunço. os quatro meninos deles vieram nascendo com a pior transformação que há: sem braços e sem pernas. só porque marido e mulher eram primos carnais. Eu sei: nojo é invenção. Estremeço.

é estado do demônio. E a vida do homem está presa encantoada – erra rumo. Deus existe mesmo quando não há. se não tem Deus. De Araçuaí.. Se eu estou falando às flautas. eu trouxe uma pedra de topázio. Isto. não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Meu modo é este. aí é que ele toma conta de tudo. Tendo Deus. o senhor me corte. Como é que se pode gostar do verdadeiro no falso? Amizade com ilusão de desilusão. e nos doidos – não dói sem precisar de se ter razão nem conhecimento? E as pessoas não nascem sempre? Ah. conto. mas de ver nascimento. – 77 – . pois no fim dá certo. sabe o senhor por que eu tinha ido lá daqueles lados? De mim. dos meninos sem pernas e braços. Vida muito esponjosa. Mas o demônio não precisa de existir para haver – a gente sabendo que ele não existe. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo. dá em aleijões como esses. Nasci para não ter homem igual em meus gostos.João Guimarães Rosa . O inferno é um sem-fim que nem não se pode ver. Dor não dói até em criancinhas e bichos. é menos grave se descuidar um pouquinho..Grande Sertão: Veredas grandes e pequenas horas. Mas. O senhor não vê? O que não é Deus. então. a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. O que eu invejo é sua instrução do senhor. Medo mistério. medo tenho não é de ver morte.

que me afadigavam. O amor? Pássaro que põe ovos de ferro. Diadorim era aquela estreita pessoa – não dava de transparecer o que cismava profundo. a prazer. sem – 78 – . brejal. Até. Dos de que a gente acorda devagar. Diadorim restava um tempo com uma cabaça nas duas mãos. Natureza bonita. Mas balançou a cabaça: tinha um trem dentro. e hoje ela se possui é em mão de minha mulher! Ou conto mal? Reconto. sem poder sono. nem o que presumia. o capim macio. que em breve rompemos adiante.João Guimarães Rosa . o senhor veja: eu trouxe a pedra de topázio para dar a Diadorim. em véspera. lá era favorável de defender que os cavalos se espairassem – por ter manga natural. Me revejo. eu olhava para ele. Nem para se definir calado. o que me deu desgosto. um assunto contrário absurdo não concede seguimento.. taco de ferro. por mimo. Dele eu queria saber? Só se queria e não queria. Riobaldo. onde se encostar. Desta vez. de tudo. de pegar gado brabeza. mas tinha sonhos. ficou sendo para Otacília. cabo de várzea.Grande Sertão: Veredas Eu passava fácil. Ao que nós acampados em pé duns brejos. Acho que eu também era assim. Pior foi quando peguei a levar cruas minhas noites. um ferro.. daquele dia-a-dia. em si. e currais falsos. destino da gente. como sempre quando assim. Agora. Voltei para os frios da razão. “Seja por ser.” – pronunciou. a gente tange guerra.

quase. como me deu sede. que ele me disse. ou ovalado. guardou o pedaço de ferro na algibeira. e com cheias palmas. suspendia uma folhagem. Diadorim!” – eu disse. E eu tive decepção de logro.João Guimarães Rosa . Eu? Asco! Diadorim parava normal. coração meu foi forte. estacado. mesma. E. Todas as palmas tão lisas. observando tudo sem importância. Sofismei: se Diadorim segurasse em mim com os olhos. desenhada de capricho. e fomos apanhar água num poço. tão juntas. me declarasse as todas as palavras? Reajo que repelia. O poço abria redondo. Ele não contestou. azul. mas que agora sendo para nojo. era uma cabaça baiana fabricada. Nem provia segredo. toda luz verdeja. que não quebra nunca. A vai. Aí a gente se curvar. ia catar água. dum azul que haja – que roxo logo mudava. fechavam um coberto. remedando choupã de índio. Era por esconso por uma palmeira – duma de nome que não sei. E ficava toda-a-vida com a cabaça nas mãos. que se eu tivesse falado causa impossível. – 79 – . até pousar no chão com as pontas. Mas. – “Bota isso fora. e me olhou de um hesitado jeito. reviradas para cima e depois para baixo.Grande Sertão: Veredas serventia. mas regrossa. Mas a água. Em tal. lá entrava. Como no recesso do mato. eu peguei meu copo de corno lavrado. ali intrim. só para produzir gastura na gente. de curta altura. Assino que foi de avistarem umas assim que os bugres acharam idéia de formar suas tocas. por conta desse sensato silêncio? Debrucei.

Pois fomos. todos eu achava muito ignorantes. Somente que na hora eu queria a frouxa presença deles – fulão e sicrão e beltrão e romão – pessoal ordinário. – 80 – . que chamavam. levavam sal para Goiás. sob num tempo.Grande Sertão: Veredas qual. dessas da vida. quem faz isso não é por ser e se saber pessoa culpada? No que vim para um grupo de companheiros. – “Ele era alto. Passava era uma tropa. que à lisa cacheavam. E o arrieiromestre relatando uma infeliz notícia. ver o que. os diversos lotes de burros.João Guimarães Rosa . e se sumiu. ligeiro. acolá. consoante a esquisitice dele. que vinham de São Romão. feiosa: botando bolhas. por aí. acenando especial. subindo pelo resfriado. feições compridas. discordes. sem menos. Por simples que a companheirada naqueles derradeiros tempos me caceteava com um enjôo. no come-calado. mesmo sem fome. Diadorim desconversou. na virada que principiava a vertente – onde é que estavam uns outros. E quis – que até me perguntei – pensar na vida: “Penso?” Mas foi no instante em que todos levantaram as caras: só sendo um rebuliço. enchendo folga. dentuço?” – Medeiro Vaz exigiu certeza. demos para trás. grosseiros cabras. A tanto. providenciei para mim uma jacuba. muito. se viu um bicho – rã brusca. Resumo que nós dois. Ah. de sempre às vezes desaparecer e tornar a aparecer. por lá. esses estavam jogando buzo.

olhando salteado. da parte de Só Candelário e Titão Passos. porque aí se exalou. De inventar )ouco se ganha. – “Sesfredo. a alma descansasse. E o Santos-Reis era o homem que vivo fazia mais falta – ele estava viajando para trazer recado e combinação. Berimbau! Saudade. nós tivemos grande pena. em volta. Sesfredo? Você agüenta o existir?” – perguntei. o senhor creia.” – Medeiro Vaz decidiu. pois era” – o arrieiro respondeu – “e..” – nem bem cem braças andadas eu já pedia a ele. se consternava.” – e ele alargou as ventas.. A gente tirou chapéus. Era como se eu tivesse de caçar emprestada uma sombra de um amor. amém! – nós apreciávamos. antes de morrer. de tanto riso. caçando Diadorim. mais. no Cururu. me fala nesse acontecer. Eu espiei.. – “Guardo isso.. Mais não propôs dizer. em voto todos se benzendo. chefes em nosso favor na outra grande banda do Rio.Grande Sertão: Veredas – “Olhe. – “Agora alguém carece de ir. Aqueles tropeiros. Vi que a estória da moça era falsa. para às vezes ter saudade.. me conta. tinham acendido vela. Febres? Ao menos. que ali que era a mocinha de cabelos louros. deu o nome: que era Santos-Reis. Regra do mundo é – 81 – . só.... – “E você não volta para lá.João Guimarães Rosa . e enterrado.” A gente. Comandante.. tinham achado o Santos-Reis.. que morria urgente.

até à Serra Branca. O Sesfredo comia muito. na Jaíba. levado para a cadeia de algum lugar. quem veio foi João Goanhá. Sabíamos: um pessoal nosso perpassava por lá. pela proteção do Coronel Horácio de Matos. Só Candelário? Morto em tiroteio de combate. Daí a cinco madrugadas. Era para vir alguém. dono de um bananal. De madrugada. executou o recado. por riba da cintura.Grande Sertão: Veredas muito dividida. Passamos. Só mesmo – 82 – . preso. brabas terras vazias do Rio Verde-Grande. próprio. chamada hoje Monte-Azul. meia geral. Novidade não houve. E sabia assoviar seguido. tivera de se escapar para a Bahia. metralhadoras tinham serrado o corpo dele. O velhozinho era amigo. acordamos em sua janela um velhozinho. copiando o de muitos pássaros. Só sempre bater para o nascente. E as descrições que deu foram de todas as piores. de esguelha. O Alípio.João Guimarães Rosa . Ao viável. não há onde eu não tenha aparecido. jogamos uma viagem por este Norte. eu tinha de atravessar as tantas terras e municipios. perseguido por uma soldadesca. direitamente em cima de Tremedal. numa barca. Assim conheço as províncias do Estado. retornamos. A que viemos: por Extrema de Santa Maria – Barreiro Claro – Cabeça de Negro – Córrego Pedra do Gervásio – Acari – Vieira – e Fundo – buscando jeito de encostar no de São Francisco. Titão Passos? Ah.

para acabar com ele de uma vez. para a Cachoeira do Salto.” – João Goanhá me esclareceu: – “O Hermógenes fez o pauto. Pela fraqueza do meu medo e pela força do meu ódio. os poucos. Medeiro Vaz precisava de nós.. Eu era um homem restante trivial.” Nisso todos acreditavam. No formato da forma. acho que eu fui o primeiro que cri. Foi fogo. reforçados. Fugimos. eu não era o valente nem mencionado medroso. Mas coragem e munição não faltavam. Fogo no Jatobá Torto – sargento Leandro. Fogo no Jacaré Grande – tenente Rosalvo. Onde era que o perigo. É o demônio rabudo quem pune por ele. e esbarramos com tropa de soldados – tenente Plínio.. mesmo segurava uma vara– 83 – . Volteamos.Grande Sertão: Veredas João Goanhá era quem ainda estava. e marcharem em cima de Medeiro Vaz. me senti pior de sorte que uma pulga entre dois dedos. – “E os Judas?” – perguntei. no país de lá..João Guimarães Rosa . mas com aqueles não terçavam? – “Se diz que eles têm uma proteção preta. Comandava saldo de uns homens. com triste raciocínio: por que era que os soldados não deixavam a gente em paz. Mal a gente se tocou. Ainda disse João Goanhá que estávamos em brevidade.. Porque ele sabia que os Judas. Mas não pudemos. eu bem defronte de mim se portava. tinham resolvido passar o Rio em dois lugares. A verdade que diga. Sobre aí.

dei passo: – “Se sendo ordens. Aí em tanto eu não devia de me calar. e que podia se surtir de repente. e no caminho não morre!” A ser que Medeiro Vaz.. mas outro igual eu não conheci.. eu estava me lançando. Nem olhei Diadorim. Estava amarelo almecegado. A meio.” – falei. pelo bom atirador que eu era.. e diziam que no verter água ele gemia. de despique gandaiado. deixar alheia a escolha do segundo.. o melhor e mor. dizedor de mensagem? E aí se deu o que se deu – o isto é. se curvava sem querer. que me ora vinha ranger na boca. demais.. Apartei minhas vistas. já acusava doença a quase acabada – no peso do fôlego e no desmancho dos traços. que não me competia? Ah. eu gostava era de ir. em duríssimo: – “Vai. – 84 – .... Quero ver o homem deste homem!. o Sesfredo comigo vai. mas mais negaceando prosápia: duvidoso d’ele consentir. haviam de querer me mandar escoteiro. Chefe. então.. considerei nele certo propósito.” Medeiro Vaz limpou a goela. Medeiro Vaz – o Rei dos Gerais. Chefe. Requeri.Grande Sertão: Veredas de-ferrão. me levou num avanço: – “Sendo suas ordens..” – ele propôs. ânsia: que eu não queria o que de certo queria. e despachou. por esse tempo. Medeiro Vaz aprouve. Ah. necessitavam de mim. Medeiro Vaz concordou! – “Mas carece de levar um companheiro.João Guimarães Rosa .. E a vontade de fim. Me encarou..

Um está sempre no escuro. meu suor não esfria! O senhor me releve tanto dizer.. Minha vida não deixa benfeitorias. o repetido.João Guimarães Rosa .. eu selando meu cavalo e arrumando meus dobros. Diadorim me espreitava de longe. Mesmo fui muito tolo! Hoje em dia. E dessa. amigo. Não tiro sombras dos buracos. Mas.Grande Sertão: Veredas Por que era que eu estava procedendo à-toa assim? Senhor. e.” – 85 – . não há jeito de me baixar em remorso. eu acho até que o bom remorso não se pode criar. No meio da noite eu acordo e pelejo para rezar. para de lá de tantos assombros. escorregável. e já me muito entristecia. não me queixo de nenhuma coisa. Posso.. No me despedir. baixinho: – “Por teu pai vou. que só duma coisa. mano-oh-mano. Sim. tive precisão de dizer a ele. o que tenho é medo. também. num mim minuto. Enquanto se tem medo.. mesma. Mas me confessei com sete padres. só no último derradeiro é que clareiam a sala. acertei sete absolvições. já está empurrado noutro galho. afetando a espécie duma vagueza. Mire veja o que a gente é: mal dali a um átimo. não é possível. sei? O senhor vá pondo seu perceber. A gente vive repetido. Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia. Constante eu puder. Vingar Joca Ramiro. Acertasse eu com o que depois sabendo fiquei.

baiana. tinha deixado. à alegria fingida no coração?: Olererê. então. tanto toda-a-vida.. esses também não sentindo e não pensando. Será? Medida de muitos outros igualasse com a minha. indo em bando por estradas jornadas. Pesares que me desenrolavam. eu ia e não vou mais: eu faço que vou lá dentro. E então eu decifrei meu arranque de ter querido vir com o Sesfredo.. se sabia. fazia muitos anos. que um se repinta e se sarrafa? Tudo sobrevém. larguei aquele lugar do Buriti das Três Fileiras. adulatória. Acho.João Guimarães Rosa . sazão. – ? – 86 – . por que era que eram aqueles aprontados versos – que a gente cantava. Se não. de ser sempre jagunço não gostava. Como é.. Que ele. Mas ele respondeu: – “Viagem boa. E boa-sorte.” Despedir dá febre. como os meses de seca e os de chuva... Riobaldo.. uma moça que apaixonava. oh baiana! e volto do meio pra trás. é do influimento comum. Galopando junto com Sesfredo. acho. e achava que não tinha nascido para aquilo. em terras do Jequitinhonha. e do tempo de todos.Grande Sertão: Veredas A fraqueza minha. Tanto um prazo de travessia marcada.

debaixo da crosta seca. Ao de manhã. Iscas! Cavalaria dos praças se – 87 – . Para guerra grande. esses eram os menos. Pois. por valentão e verdadeiro. mesmo ignorante analfabeto. primeiro passaram os do sargento Leandro. falseando fuga. Os campos-gerais ali também tem. feito gema de ovo na frigideira. sei não de onde. de brejão engolidor. eu acho que só Joca Ramiro é que era capaz. vinham os do tenente. mortes diversas.. quem não sabe o resto. Assim a gente experimentava. pisa. rebole ocultado um semifundo.. já viu algum? O chão deles consiste duro enxuto. Dos nossos. No depois.Grande Sertão: Veredas João Goanhá. terríveis mindinhas idéias. às pressas espalhamos de lugar os ramos verdes de árvore.João Guimarães Rosa . normal que engana. Arre. treme escapulindo. Homem de grito grosso. Mas fomos lá. os tremedais. que eles tinham botado para a certa informação. por disfarçação. tenente.. Tombadores. Ei! Porque.. e um guia pagavam. cavalama.. vem. quando já estão meio no meio. da gente não sei o que vai ser. ah. em roda dali. nem carecia de estadear orgulho. ronca. cá e cá.” Ah. uns. tu quer! Seguidos por ali entraram. Pessoa muito leal e briosa. de repente ele tirava. Tenente. E. tropa com cavalos. Ele me disse: – “Agora. por conhecer o caminho firme. deram tiros. aquilo sucrepa: pega a se abalar. vai avançando. João Goanhá dispôs que a gente se amoitasse – três golpes de homens – tocaiando. Seja sem espera. mas João Goanhá também tinha suas cartas altas.. acolá.

vargens e grotas. paisano morador. se abraçavam com os animais caintes. se rachou em cruzes. montão. ainda acertava neles. Deovídio. em cada ponto para trás. ei eram só soldados. daí se encachorraram mais em nós. se queria. Chapada do Sumidouro. todos. Passagem da Limeira. Furadodo-Meio. o Clange. mirava. ou com o ar..João Guimarães Rosa . Eu não atirei. vi. Dávila Manhoso. em muitos metros – balofou. o Eleutério se – 88 – .. de repente foi: a casca de terra sacudia. Não tive braçagem. De campos e matas. Pedro Bernardo – acho que foram esses. uns a esmo desfechavam mosquetão. se gerando. Toquim. Coisas que vi. o Campelo. por beber vinganças. Tanto por tanto. PescoçoPreto. Mas encalcados se afundando. Achavam de tomar regalia de desforra na gente. Arduininho morreu. Córrego do Poldro. Os cavalos entornados – era como despejar prateleiras cheias – e os soldados aiando gritos. Morreram o Figueiró. Gerais da Pedra.. perdiam ligeiro essa graça. que pegos presos – se disse que foram acabados! Doideamos. Serra do Deus-MeLivre. Ave. A Bahia estava cercada nas portas.. dos lados e adiante da gente. Chapada do Covão. A gente. Talvez tive pena. Lá. Elisiano. estalando. pra não mais.Grande Sertão: Veredas avexou. às vezes. Ah. Solón Nélson morreu. o Sucivre. Corrijo: com outros. BatataRoxa. até qualquer molambo de sujeito. Mortos mais uns seis. e pronto. vi – oi.

E a soldadesca atirava. e levou na cara e nos peitos o cheio duma carga de chumbo fino. Ou ir – 89 – . de emboscados no mato do córrego. Eleutério agradeceu.Grande Sertão: Veredas apartou da gente. Se esparramavam os goanhás. Serra Escura. a pé. Ficou lá. quem vivesse viesse para cá do Rio. Até em um ponto de a salvo conversarmos. bateu em porta duma cafua. para ouvir o que havia. rodou. cada um por seu risco. De si por si. Conseguimos aragem.João Guimarães Rosa . O cabelo dele aumentou em pé. Nem munição nem de-comer não sobravam. e na beira do cerrado. como pudesse caçar escape. todo se sarapintando das manchas vermelhas. umas cem braças. pregou o capiau na taipa da cafua. e foi. Eleutério virou para trás. que deram contas a Deus. por esclarecer. errada. feito um ciscado de cachorro grande. deu as costas. que cresciam. veio andando uns passos. O capiau surgiu. arreganhava os braços. com o facão. ensinou alguma coisa. ele morreu mansinho. O capiau então chamou. entrupicado. Dentro da cafua também restavam outros soldados. espetado. para reunião: na juntura da Vereda Saco dos Bois com o Ribeirão Santa Fé. da outra banda. Ataliba. Cegou. parecia um santo. O capiau se encobriu detrás do forno de assar biscoito – de lá fazia pontaria com a espingarda – e balas nossas levantavam terra ao redor dali. De forma que a gente carecia de se separar. Nós – eh – bom.

a gente – 90 – . campeamos um seguro lugar. Por durante um tempo. não agasta: igual lobisomem verte a pele. a gente se ajustou no meio do pessoal daquele doutor. ali onde o Ribeirão Gado Bravo é vadeável. Aí. Chegamos no Córrego Cansanção. Diante de mim. vim. Escorregando sem rumo. Sesfredo esperava de mim toda decisão. deixamos escondidas. E medo. de desertados? Não vê que não. Se despedimos. de não se cumprir de ir. o Sesfredo comigo também. eu fui. companheiros sobrantes. no viver tudo cabe. desafasto. etcétera de traição não sopra escrúpulos. ou mais em riba. saímos fora da roda do perigo. viemos. garante mais para se engambelar. medi muito maior. com parte das roupas. Ou. Só se. cabra velho guerreiro: ele boiava língua em boca aberta. Gente sendo dois. Nossas armas. sarado.Grande Sertão: Veredas de direto para onde estivesse Medeiro Vaz. Ao que João Goanhá mandou.João Guimarães Rosa . meu. que estava na mineração. então no Buriti-da-Vida. caso o inimigo rondasse perto demais. como nem de crime nenhum. Por que não ficamos lá? Sei e não sei. Algum remorso. nunca terminava de atar as correias do gibão um Cunha Branco. A pressa era pressa. não longe do Araçuaí. que eu já disse e o senhor sabe. O ar todo do campo cheirava a pólvora e a soldados. Com a graça de Deus. São Simão do Bá. carecíamos de ter algum serviço reconhecido.

que foi juvenescendo em mim uma inclinação de abelhudice: assaz eu queria me estar misturado lá.. Ou nem não tinha. Esse um era estranja. se o do Vupes não orço – que teve. alto-lá comigo. Araçuaí não eram os meus campos. adiante. Vamos?” – eu disse para Sesfredo.. Em mês de agosto. Quis não. que assim falseio.Grande Sertão: Veredas amiúda no ajuizar o desonroso assunto. buriti vinhoso. menos. Aí. Viver é um descuido prosseguido. na Fazenda São Gregório. podia flauteado comparecer no Buritis Altos. eu acho.João Guimarães Rosa . Suasse saudade de Diadorim? A ponto no dizer. Pois ia me esquecendo: o Vupes! Não digo o que digo.. Desengoli. com os medeiro-vazes. mesmo. rosalgar – indivíduo. caçar de voltar dali para a casa-grande de Selorico Mendes. ver o fim de tudo. isto sim. Mas eu podia rever proveito.. alemão. Só como o céu e as nuvens lá atrás de uma andorinha que passou. Talvez. Ah. tãomente. rança o descrédito de se ser tornadiço covarde. as noites cambando para o entrar das chuvas. também. com os olhos azuis. leandrado. – “Vamos. exigir meu estado devido. esporte de alto. – 91 – . o senhor sabe: clareado. por conta de Otacília – continuação de amor. Temeriam! Assim e silva. os dias mal. o mesmo é. eh e não. constituído forte. – “Tempo de ir. demais!” – o Sesfredo me respondeu. como em outro tempo.

Wupsis. mas parece que escolhidas só as peripécias avaliáveis. com toda a confusão de política e brigas. ferramentas rógers e roscofes. no Curralinho. latas de formicida.Grande Sertão: Veredas Pessoa boa. hê.” E eu gostei daquela saudação. enxadas.. mas abastado. salutar na alegria séria. como me conhecia. e eu recordei lembrança daquelas mocinhas – a Miosótis e a Rosa’uarda – as que. me disse: – “Folgo.. na capital – e que é dono de venda grande. Seo Emílio Wuspes. Sujeito escovado! Me olhou. Homem sistemático. Alemão Vupes ali. e ele não somava com nenhuma coisa: viajava sensato. Conservava em si um estatuto tão diverso de proceder. exatão. Diz-se que vive até hoje. e até papa-vento. Pois esse Vupes apareceu lá.. e ia desempenhando seu negócio dele no sertão – que era o de trazer e vender de tudo para os fazendeiros: arados. por aí. o senhor conheceu ele? Õ titiquinha de mundo! E como é mesmo que o senhor fraseia? Wusp? É.. arsênico e creolinas. Me reconheceu devagar. Hê. facão de aço. desses moinhos-de-vento de sungar água.. a gente se acha de voltar aos passados. ele tomava empreitada de armar.João Guimarães Rosa . conforme prosperou. – 92 – . do Curralinho. logo vai me reconheceu. loja. debulhadora. Sempre gosto de tornar a encontrar em paz qualquer velha conhecença – consoante a pessoa se ri. as que agradáveis foram. Vupses. Ah.. com torre. que todos a ele respeitavam. Senhor estar bom? Folgo.

e vinha.. pai de família faminta. cisco.Grande Sertão: Veredas eu pensava que tinham sido as minhas namoradas. um sujeito magro. nem vê. perguntei: – “Para que banda o senhor tora?” E o Vupes respondeu: – “Eu. prezei a minha profissão. sertão agora aqui muito atrapalhado. Mas o mais garboso fiquei. Pobre tem de ter um triste amor à honestidade. gente no duro ou no desânimo. o homem queria comprar um punhado de mantimento. gente braba.. Eu precisar de homem valente assim.João Guimarães Rosa . os cem.. Coisas sem continuação.. – “Seo Vupes. o bom costume de jagunço. saía da algum canto. viajar meu. civilizadamente.. O senhor sabe: tanta pobreza geral. farraposo: com um vintém azinhavrado no conco da mão. tudo. nem repara na pobreza de todos. A gente às vezes ia por aí.. direto. aquele era casado. espremendo seu medo. cidade São Francisco. Assim que é vida assoprada. Tanto pensei.. Mais me disse: – “Sei senhor homem valente. duzentos companheiros a cavalo. tinindo e musicando de tão armados-e. muito valente. nem com uma pontinha de dedo ele não bulia gesticulado. Então. vivida por cima. de ouvir..” Para falar. quinze dias. Senhor também estar bom? Folgo. Ele pitava era charutos. Ah. ri que ri. eu também folgo. era – 93 – . São árvores que pegam poeira. Um jagunceando. vou forte.” Destampei. vai. amarelado.” – que eu respondi.

o que queria. depois de tanto tempo. ele mesmo ensinava o guisar. até respira do mesmo jeito.. Tal por essas demarcas de Grão-Mogol. que tinha demonstrado a confiança minha. E. falei com o Sesfredo. e para tudo tinha sangue-frio. Cavalo que ama o dono. Brejo das Almas e Brasília. quando se topava com uma casa mais melhorzinha. trouxemos o seu Vupes. O senhor imagine: parecia que não se mealhava nada. passamos. que torna a se sair das nuvens.Grande Sertão: Veredas mesmo meu rumo – aceitei – o destinar! Daí. Com as graças. a saudade de Diadorim voltou em mim. ele encomendava pago um jantar ou almoço. Bela é a lua. e ele formava conforto. Mas os caminhos não acabam. mas ele pegava uma coisa aqui. uns ovos. me custando seiscentos já andava. muito. que quis também. umas ervas – e. chegar. depois. pratos diversos. dele aprendi. Demos no Rio. e eu cuidei bem dele. O – 94 – . Meu rio de amor é o Urucuia. farto real. mais redondada recortada. Saiba-se! Deixamos o homem no final. acoroçoado. ele naquilo não tinha próprio destaque. O Vupes vivia o regulado miúdo. lualã. e perto estar. outra acolá – uma moranga. sem confrontos de perturbação.. outra coisinha ali.João Guimarães Rosa . o Sesfredo não presumia nada. Viemos pelo Urucuia. aí. tudo virava iguarias! Assim no sertão. de afogo de chegar. grelos de bambu.

Estou entendido. Só Preto. O senhor verá um ribeirão. não traga. por entre o daGarapa e o da-Jibóia. com suas boiadas espatifadas. E tanta explicação dou. Ali é que vaqueiro brama. Esbarramos num varjeado. Vaqueiros todos vaquejando.. Ar que dá açoite de movimento. E isso de que me serve? Águas. que verte no Canabrava – o que verte no Taboca.João Guimarães Rosa . que verte no Rio Preto. nem boi não gosta. Quando um ainda não aprendeu.. aproximar a natureza. fim que o mundo tivesse. descritamente. o primeiro Preto do Rio Paracatu – pois a daquele é sal só. nos contornados por aí. faz raiva. a corja! – “A tantos quantos?” – eu pondo meu perguntar. aumentável. águas. Tocamos. trovoada trovoando. O gado esbravaçava. A mal que as notícias referiam demais a cambada dos Judas. já molhei – 95 – . redobra nome. que quer tirar é instantâneo das coisas.Grande Sertão: Veredas chapadão – onde tanto boi berra.” – os vaqueiros respondendo. porque muito ribeirão e vereda. Daí. o tempo-das-águas de chegada. ali tem três lagoas numa. deles ninguém não sabia bem. com quatro cores: se diz que a água é venenosa. – “Os muitos! Uma monarquia deles. Assim como o senhor. os nossos. eh não. se atrapalha. os gerais. Só deerrávamos. vige salgada grossa. Mas Medeiro Vaz não se achava. azula muito: quem conhece fala que é a do mar. esconso lugar. com o capim verdeado.

deitado a fora. por debaixo dela. São Pedro. Do Boi.. também. do cafofo. O senhor deve de ficar prevenido: esse povo diverte por demais com a baboseira. até aos pouquinhos matar. Do Pacari. por aqui. Mas. depois. E uns sete por nome de Formoso.. se deslambendo em vento. E algum ribeirão. Tamboril. o Rio do Chico. Santa Catarina. para não mentir. tesouro e armas. isto sim. onde tinha um cômodo quase do tamanho da casa. e perseguindo tudo. socavado no antro do chão – lá judiaram com escravos e pessoas. uma porção. Parece que todo o mundo carece disso. que. E agora me lembro: no Ribeirão Entre-Ribeiros. muitos. o senhor vá ver a fazenda velha. lhe digo: eu nisso não acredito. Eu acho. Agora. o senhor já viu: Rio é só o São Francisco. dum traque de jumento formam tufão de ventania. uns cinco. ou da Vaca.João Guimarães Rosa . Da Ponte. deu para se ver. depois eles mesmos acabam crendo e temendo. no Riacho Cizlá se afundou uma boiada quase inteira. uns dez. Por gosto de rebuliço. O sertão é do tamanho do mundo.Grande Sertão: Veredas mão nuns dez. O resto pequeno é vereda. Verde. Assim. olhe: tem um marimbu – um brejo matador. Reconditório de se ocultar ouro. ou dinheiro falso moedado. munição. um – 96 – . Queremporque-querem inventar maravilhas glorionhas. que apodreceu. em noites.

A que. arvorada bem erguida no elevado. até. mandou obrigado – 97 – . Ela foi num morrote. viajou mais. Aí. depois do São Simão do Bá. em cada útil caso. Só que um pobre veio morar próximo. a forca. quase debaixo dela. para a forca. a cavalo. terem castrado um padre. em madeira de boa lei. No mais nada. Pois essa estória foi espalhada por toda a parte. tirava as pessoas de seus serviços. causa de. eu vi – forca moderna. esquadriada. usavam. em épocas. cobrava sua esmola. aprovada ali particularmente. porque não tinham recurso de cadeia. Agora. se duvidar. Às vezes. falavam que era sinal de castigo. dos Freitas ruivos da Água-Alimpada. parda: sucupira.. ali perto umas vinte léguas. avistaram. quando um homem. pública. do que eu ou o senhor. perto da banda da mão-direita do Pripitinga. que o mundo ia se acabar naquele ponto. de jãdelãfo.João Guimarães Rosa . fogo-fá. dando seguida cavava a cova e enterrava o corpo. Hê.. A estúrdia forca de enforcar. e endoideceram de correr fuga. e pajear criminoso por viagens era dificultoso. cantigas rimaram: do Fogo-Azul-do-Fim-do-Mundo. hê?. por via do padre não ter consentido de casar um filho com sua própria mãe. Gente que não sabia. da redondeza. com cruz. então. vinham até trazendo o condenado. Rudugério de Freitas.Grande Sertão: Veredas milhão de lavareda azul. construída. Semelhante não foi.

fosse Medeiro Vaz.Grande Sertão: Veredas um filho dele ir matar outro. reuniram o gado. então. de telhas.” E o pessoal todo tirou os – 98 – . conforme cada vez. o chefe nosso. Demos julgamento. Mas foram logo pegos. a melhor naquele trecho. a gente ajudou. em vez de cumprir o estrito. Mas porém. urdindo com cordões de embira e várias flores. naquele tempo. distribuído de foiçadas. prisioneiros nossos. esse outro. Daí. disse: – “Santíssima Virgem. A papo: – “Co-ah! Por que foi que vocês enfeitaram premeditado as foices?” – ele interrogou. em pufo.João Guimarães Rosa . buscar para matarem.. Ao que. tal. Mas primeiro enfeitaram as foices. Tudo que Zé Bebelo se entesou sério. o rumo das coisas nascia inconstante diferente. empolo. para a Nossa Senhora em adiantado remitir o pecado que iam obrar. eu prestes vi que ele estava se rindo por de dentro. que iam levando para distante vender. Tal. mas sem rugas em testa. e obraram dito e feito.. já era – o senhor saiba Zé Bebelo! Com Zé Bebelo. o irmão combinou com o irmão. Aí. Assim. que roubou sacrário de ouro da igreja da Abadia. Os dois irmãos responderam que tinham executado aquilo em padroeiragem à Virgem. oi. E enqueriram o cadáver paterno em riba da casa – casinha boa. enviava imediato os dois para tão razoável forca. os dois vieram e mataram mesmo foi o velho pai deles. A pegar.

ele cobrava só imposto de uma ou umas duas reses. se ela perdoa ou não. morreu – dá na mesma. quando a gente encontrava alguma boiada tangida. sem admitir apelo nem revogo. Não esbarrava quieto. poder tudo. legal e lealdado. Autorizava que era preciso se respeitar o trabalho dos outros.. – “O pai não queria matar? Pois então. Absolvo! Tenho a honra de resumir circunstância desta decisão. eu não sei. dispor de tudo. Se o senhor não conheceu esse homem. Mas eu perdôo. zureta. em nome dela – a Puríssima. tudo alterar. conformemente!. no meio do triste sertão. a qual pronto revendemos.” Aí mais Zé Bebelo disse.João Guimarães Rosa . Normal.Grande Sertão: Veredas chapéus.” – pirlimpim. para o nosso sustento nos dias. pelo exemplo pela decência. Seguro já nasceu assim. – “Pois. Mas. Aquele queria saber tudo. criatura de confusão. ele requisitou para o nosso bando aquela gorda boiada. Trepava de – 99 – . e entusiasmar o afinco e a ordem. E desse caso derivaram também uma boa cantiga violeira. como apreciava: – “Perdoar é sempre o justo e certo. Nossa Mãe!” – Zé Bebelo decretou.. raro de vez em quando. Mas deponho que Zé Bebelo somente determinou assim naquela ocasião.. deixou de certificar que qualidade de cabeça de gente a natureza dá. arvoado. em alto respeito.. embolsamos. como os dois irmãos careciam de algum castigo. Zé Bebelo – ah. pimpão.

recomendado. ou o mais danado. A gente pegou cantando a Moda-do-Boi. em empreita encobertada. por atreito demais a vício e riscos de jogo. que tinha afastado todo o mundo e meneava um facãozão. se – 100 – . mas com uma autoridade muito veloz. – “Tua sombra me espinha. sentar nele uma surra de peia. entendia dos cavalos. assoviava musical. Desarmado. laçava rês ou topava à vara. tocava violão. Sem menos.Grande Sertão: Veredas ser o mais honesto de todos. e se entregou. uma vez. artes que falava. indagava de cada coisa. o Leôncio Du decidiu deixou o facão cair. E Zé Bebelo pegava no ar as pessoas. Chegou um brabo. no tremeluz.João Guimarães Rosa . fré!” Ao de que. só não praticava de buzo nem baralho – declarando ter receios. No regular. só de ser inteligente e valente é que muito não pode. Atual. caçava. dançava as danças. o cabra confessou: que tinha querido vir drede para trair. diferente na autoridade. caminhou para o Leôncio Du. juazeiro!” – Zé Bebelo a faro saudou. Zé Bebelo apontou nos cachos dele a máuser: estampido que espatifa – as miolagens foram se grudar longe e perto. Soava no que falava. cabra da Zagaia. Como gritou: – “Você quer vermelho? Te racho. Senhor ouve e sabe? Zé Bebelo era inteligente e valente. Um homem consegue intrujar de tudo. Zé Bebelo pescava. conforme as quantas. exortava a gente. E mandou amarrar o sujeito.

” – sério. o que houvesse: choveu. parte de fraco não dava. Acabando um combate. gritou: – “Amonta aqui. pulou de joelhos na estrada.” – e era o pipoco-paco.. de si. e bala: se entregaram mais dois. nunca. não vogava. – “Vim de vez!” – disse. – 101 – . ele corria a cavalo. alguém soubesse? Tanto aquilo.Grande Sertão: Veredas entusiasmava com qual-me-quer. exclamou: – “Ei. era mesmo passado.. perseguir quem achasse. Ou: – “Paz! Paz!” – gritava também.. requerendo: – “Não faz vivalei em mim não. louvava a chuva. O passado.. uma vez. horas. revólver ainda em mão.João Guimarães Rosa . horas. só aos brados: – “Viva a lei! Viva a lei!. até o feio da guerra podia alguma alegria.. – “Viva a lei! Viva a lei!. de dar conselhos. tecia seu divertimento. E era. há. que as serras estas às vezes até mudam muito de lugar!. E era mas que ele estava perdido. que quilate. e um veredeiro que isto viu se assustou. mas. prezava o sol. com despropósito. Considerava o progresso de todos – como se mais esse todo Brasil.” E Zé Bebelo jogou para o pobre uma cédula de dinheiro. saía esgalopado. deerrado de rota.. irmão. há. para ele. quando retornou de Goiás. por exercício. nenhão. por perdão. que lei. a fama correu. territórios – e falava. Certo dia. com ele. Dou-lhe qual: que. Ah. trapo de minuto depois.. se achando trotando por um caminho completo novo. sucinto.” Há-de-o. E. seu Zebebel’. Gostava. môr-de-Deus. na garupa!” – trouxe o outro para com a gente jantar..

Quem mede e pesa esses demais d’água? Rios foram se enchendo. a gente vendo. areiões e varjas. Acampávamos debaixo de grandes árvores. ao fim retomo.João Guimarães Rosa . Mesmo dava um frio vento.” – Alaripe me disse. tocaiando. Pois porém. de campinas a campos. inchou o tempo. Ao quando encontramos o bando. Fiquei sincero. A tristeza e a espera má tomavam conta da gente. por morros. emendo o que vinha contando. Chuva de desenraizar todo pau. espetado numa estaca. Muito chovido de noite-as árvores esponjadas. o Sesfredo e eu chegamos no Marcavão. Apeamos no Marcavão. Antes de lá. por resguardar a pessoa do rumo donde vem o vento – o bafe-bafe. Nós chegamos em tempo. melhor minha recordação está sempre quente pronta. foi uma das pessoas nesta vida que eu mais prezei e apreciei. Para Zé Bebelo. com umidades. para chover. O barulhim do rio – 102 – . talvez por isso a alegria comum não pôde se dizer. Esse era um homem. naquele país fechado. A ser que.Grande Sertão: Veredas Esse era ele. beira do do-Sono. tromba: chuvão que come terra. Medeiro Vaz já estava mal. tinham levantado um boi – o senhor sabe: um couro só. nem Diadorim me abraçou nem demonstrou um salves por minha volta. foi ali. Amigo. Medeiro Vaz morreu. – “O mais é o pior: é que tem inimigo.. Para agasalhar Medeiro Vaz. próximo..

Era quase sonoite.João Guimarães Rosa . meio sem jeito.” – e apertou minha mão. Demorava. Os olhos – o alvor. aí armou no se aprumar. Debruçando por debaixo dos couros.Grande Sertão: Veredas era de bicho em bicheira. grandes momentos. em fios pingos. às despejadas. A tarde foi escurecendo. arquejando. chamaram: – “Acode. e mediu o chão com suas costas.. Medeiro Vaz – o rei dos gerais . para proteger a morte dele. cumprindo tudo. Avesso fiquei. Ao menos Diadorim me chamou adeparte. o peito. mas não era de hidropisia. Mas se abriu. Era de dores. que o chefe está no fatal!” Medeiro Vaz. Aí. pelejando para me ver. Ah. que eu imaginei em você esse prazo inteiro. o amarelamento: de palha! Assim desse jeito ele levou o dia quase a termo. como de propósito. arriou os braços. cheio de cabelos grisalhados. escorria nas caras da gente. Riobaldo.. Quando vislumbrou de mim. como miolo de formigueiro. a gente segurava uns couros abertos. “Está no bilim-bilim” – eu pensei. ele tramava as lágrimas. – “Amizade. podia-se ver o fim que a alma obtém do – 103 – . E o queixo dele não parava de mexer. A barriga dele tinha inflamado muito. ajoelhados. como era que um daquele podia se acabar?! A água caía. E deu a panca. troz-troz forte. Uma chuva de arrobas de peso. Reunidos em volta. Medeiro Vaz jazente numa manta de pele de bode branco – aberto na roupa. a cara – arre de amarela.

e gaguejou: – “Quem vai ficar em meu lugar? Quem capitaneia?. procuramos o que acender. Eu tinha passado por um susto. Era seu dia de alta tarefa.Grande Sertão: Veredas corpo. que ralava. árvore para te apresilhar? Palmeira que não debruça: – 104 – . o toco. Ele avermelhava os olhos? Mas com o cirro e o vidrento. E Medeiro Vaz.João Guimarães Rosa .” Vi meu nome no lume dele... Agora. As veias da mão. desnorteado na vontade de falar aqueles versos. no sarrido. como quem cantasse um coreto: Meu boi preto mocangueiro. E ele quis levantar a mão para me apontar. Com que luz eu via? Mas não pôde..” Com a estrampeação da chuva.. Ele só falava por pedacinhos de palavras. se governando mesmo no remar a agonia. Rolou os olhos. Mas eu vi que o olhar dele esbarrava em mim. e um brandão de tocha. A morte pôde mais. os poucos ouviram. a meio a vertigem me dava. Foi dormir em rede branca.. travou com esforço o ronco que puxava gosma de sua goela. e me escolhia. Coração me apertou estreito.. Deu a venta. Quando estiou a chuva. Eu não queria ser chefe! “Quem capitaneia. Só se trouxe uma vela de carnaúba.

assovio mais fino que o relincho-rincho dum poldrinho.. O sapo-cachorro arranhou seu rouco. isto disse: – “Não posso. Assim estremeci por interno. os brabos. Aprovavam. todos. mão de mando.. e Diadorim me disse. Alguma anta assoviava.. Eu não queria. Não sirvo. como que respondi às gagas.” Todos estavam lá. me olhantes – tantas meninas-dos-olhos escuras repulavam: às duras – grão e grão – era como levando eu.” – 105 – .. Engoli cuspes. cavacamos uma funda cova. Fizemos quarto. Os sapos gritavam latejado. firme: – “Riobaldo. não queria. Me queriam governando.Grande Sertão: Veredas buriti – sem entortar. uma carga de chumbo grosso ou chuvas-de-pedra. Avante por fim. Aquilo revi muito por cima de minhas capacidades. de João Goanhá não ter vindo! Rentemente. Medeiro Vaz te sinalou com as derradeiras ordens. De aurora.. que eu não desejava arreglórias. A terra dos gerais é boa. tu comanda. cortadas molhadas. me gelei de não poder palavra.. até ao quebrar da barra. Deviam de tocar os sinos de todas as igrejas! Cobrimos o corpo com palmas de buriti novo.. de milhares. A desgraça..João Guimarães Rosa . Tomou-se café.

Tudo rosna.Grande Sertão: Veredas – “Mano velho. O que achassem. Riobaldo: tu crê que não merece. tu pode!” Tive testa. achassem! – mas ninguém ia manusear meu ser. Senhor conheceu por de-dentro um bando em-pé de jagunços – quando um perigo poja? – sabe os quantos lobos? Mas. eh. Assim. mão erguida.... Não que matem. Riobaldo. bati o pé: – “Não posso. – “Mano velho. Todos esperando com suspensão. que sou eu. ver. uns aos outros. Diadorim dispunha do direito de fazer aquilo comigo? Eu. para brincadeiras.João Guimarães Rosa . Assim instava. denotavam assentimento... – “Tatarana! Tatarana!. que eu tinha.” Tudo parava. o pior é que é a calma. não me ajusto de produzir ordens.. sendo Tatarana um apelido meu. roda-a-roda. sobrar desmoralizado para sempre. Diadorim se – 106 – . mas nós sabemos a tua valia. por átimo.” – uns pronunciaram. não quero! Digo definitivo! Sou de ser e executar. o senhor pode entornar seu respeito. a pique de coisinha. Entremeio. Terçava o grave. não. mas. neste vale de lágrimas. Temi. uma sisudez das escuras...” – Diadorim retornou. Pensei um nome feio. Onde é que os outros.

mas porfio no que quero e prezo.. mandacaru! Oi. nisto. o poder seco da pessoa é que vale..” Hê. ele conhecia os caminhares. eu tomo a chefia.. A regra de Medeiro Vaz tem de prosseguir. conforme vocês todos também. nesse repente. Diadorim. se algum achar que não acha. Num nu. desinterno de mim um nego forte se saltou! Não. E os outros estimaram e louvaram: – “Reinaldo! O Reinaldo!” – foi o aprovo deles. nimpes nada. Aí ele era mestre nisso. não. de astuto se certificar só com um rabeio ligeiro de mirada – tinha gateza para contador de gado. vigiou o ar de todos. O melhor não sou. Muitos. o justo. era que eu não podia aceitar aquela transformação: negócio de para sempre – 107 – .João Guimarães Rosa . ali. Diadorim belo feroz! Ah. com tenção! Mas. avançando passo.Grande Sertão: Veredas maisfez. Ah. então. oxente.. e concebia por ele a vexável afeição que me estragava. Nanje pelo tanto que eu dele era louco amigo. E muito disse: – “A pois. a gente isto decide a ponta d’armas. Em jagunço com jagunço. Nunca que eu podia consentir. Deixou de me medir. feito um mau amor oculto – por mesmo isso. haviam de querer morrer por ser chefes – mas não tinham conseguido nem tempo de se firmar quente nas idéias.

ele me secundava. Decerto isso em mim eles perceberam.” Todos me olhassem? Não vi. até ali – a gente se estraçalhar nas facas? Torci vontade de matar alguém. os outros. Diadorim comigo – que antes como irmãos. Não. de reguarda. nhem. repugnados por eu estar seguidamente atrapalhando as decisões. alguém. doendo de Diadorim ser meu chefe..Grande Sertão: Veredas receber mando dele. eu estava com milho no surrão! De devagar. tanto esperavam. botada na agulha da automática – ah. decerto que saldavam antipatia de mim. será se praziam no poder ver nós dois. pois a chefia própria eu enjeitara. Visivo só vi Diadorim – resumo do aspecto e esboço dele para movimentos: as mãos e os olhos.” Endireitei os chifres. Deixa o Riobaldo razoar. para pacificar minha aflição. não se buliram.. algum – Diadorim não – digo. primeira. inesperado assim. os companheiros. Quem sabe. Só o Sesfredo. hem. disse um também: – “Discordo!” Por me estimar. Como em relance corri cálculo. hem? Nulo que eu ia estuchar. clamei – que como um sino desbadala: – “Discordo. não tremi. de quantos tiros eu tinha para à queima-bucha dar – e uma balazinha. E o Alaripe.João Guimarães Rosa . Os calados. achassem que eu agora não tinha mais direito de parecer. séria pessoa: – “Tem de que. Chapei: – 108 – .

unidos sem porfiar. valente. Do que constei dos outros. Diadorim abaixou as vistas. demais de mais velho. Marcelino Pampa é quem tem de comandar. Afinal. Sempre sendo que falou.. Melhor do que Marcelino Pampa não tem nenhum.. Diadorim? De olhos os olhos agarrados: nós dois. aí. Asneira. desde que ele puxasse. concordantes.. falou assim: – 109 – . Marcelino Pampa então principiou... e consabido de ajuizado!” Cara de Marcelino Pampa ficou enorme. e. todos. que empurrou morros para passar. assim mesmo. eu arcava em cru com o desafio.. Tempo instante. voz a voz. mesmo.Grande Sertão: Veredas – “Vejo. firme: – “Com gosto. Mediante que é o mais velho. estabeleci que eu tinha acertado solerte – dei na barra! Mas. Amém. Não ambicionei poderes. aprovavam. E: – “Tresdito que é a vez de se estar contornados.João Guimarães Rosa . desde que ele brabasse.” Falou como corajoso.” – o Alaripe inteirou. depois de mim. eu naquela hora supria suscitar alto meu maior bem-querer por Diadorim. mesmo. Pude mais do que ele! Se riu.

. mel de melhor. Alípio Mota. de acordar de alguma espécie de encanto. por sacrifício. eu desconheço o arruído rumor das pancadas dele.” Sobre mais disse. Ao que. qualquer um não havia de desgostar de responsabilidade? Ã. muito de afeto leal.. de repente. ouvi. o que obrigação minha é. mas. Mesmo não duvidei de meu menos valer: alguém lá tem a feição do rosto igualzinha à minha? Eh. de realce maior: João Goanhá. Eu precisava. Titão Passos. A tanto. aprazia bem capitanear. careço do bom conselho de todos que tiverem. em melhores tempos. por precisão nossa. Meu era um alívio. aquilo. é rosinhas flores. e essas misérias. copos a fora.. por dentro. Até enquanto não vem algum dos certos. mas. Diadorim veio para perto de mim.. sem importância. Somente pensei que ele estava pondo um peso no lombo. sem noção. e – 110 – . As pessoas. segura fiança. Ouvi. aí observei: como Marcelino Pampa desde o instante expunha outro ar de ser. a sisuda extravagância. falou coisas de admiração.Grande Sertão: Veredas – “Aceito. agora aquela ocasião.João Guimarães Rosa . soberbo satisfeito! Ser chefe – por fora um pouquinho amarga. Assentes que vamos. de primeiro meu coração sabia bater copiando tudo. a gente por baixos. pois Marcelino Pampa possuía talentos minguados. Tem horas em que penso que a gente carecia. Hoje.

sitiado forte em São Francisco. pelo seguinte. a gente adverte incertas saudades? Será que. escapos. E como é que havia de ser possível? Hem?! Olhe: conto ao senhor. as nossas almas já vendemos? Bobéia. propôs este trato a um outro. Ah. e assim e assim foram. esse Davidão pegou a ter medo de morrer. tinha um grado jagunço. fechou. pobre dos mais pobres.Grande Sertão: Veredas as coisas. um dia. não são de verdade! E de que é que. Combate quando findou. então era o Faustino quem morria. E o Faustino aceitou. alteração nenhuma não havendo.. A de ver? Para nenhum deles não tinha chegado a hora-e-dia. Vai. Então. no bando de Antônio Dó. nem feridos eles não saíam. mire e veja: isto – 111 – . minha. contra os soldados do Major Alcides do Amaral. chamado Faustino: o Davidão dava a ele dez contos de réis. mas.. Que tal. com efeito.João Guimarães Rosa . todos os dois estavam vivos. a miúde. nós todos. em lei de caborje – invisível no sobrenatural – chegasse primeiro o destino do Davidão morrer em combate. bem remediado de posses – Davidão era o nome dele. em vez dele. durante os meses. Se diz que. recebeu. coisas dessas que às vezes acontecem. o Davidão e o Faustino. o que o senhor acha? Pois. Parece que. deram um grande fogo. pensou. Safado. no poder de feitiço do contrato ele muito não acreditava.

caprichado. um dia. o Faustino se provia na faca. de Davidão e Faustino. Mas.João Guimarães Rosa . A vida disfarça? Por exemplo.. vindo com outros num caminhão. Disse isso ao rapaz pescador. não queria. embolados. para pescarem no Rio. sem os erros e volteios da vida em sua lerdeza de sarrafaçar. conseguiu do Faustino – 112 – . com certas promessas. Sabe o que o moço me disse? Que era assunto de valor. e outras vantagens de mais pagar. O final que ele daí imaginou.Grande Sertão: Veredas mesmo narrei a um rapaz de cidade grande. por forma nenhuma. ferveram nisso. para se compor uma estória em livro. foi um: que. a faca cravava no coração do Faustino. E ele me indagou qual tinha sido o fim. no confuso. que falecia. e. de ceder uns alqueires de terra. os dois rolavam no chão. por sua própria mão dele. A quanta coisa limpa verdadeira uma pessoa de alta instrução não concebe! Aí podem encher este mundo de outros movimentos. a quem sincero louvei. na verdade de realidade. queria revogar o ajuste! Devolvia o dinheiro. muito inteligente. Do discutir. Apreciei demais essa continuação inventada. Mas o Davidão não aceitava. ferravam numa luta corporal. O fim? Quem sei. A fino. o Faustino pegava também a ter medo.. Soube somente só que o Davidão resolveu deixar a jagunçagem – deu baixa do bando. investia. Mas que precisava de um final sustante.

caçar João Goanhá e os outros companheiros.Grande Sertão: Veredas dar baixa também. – “Os Judas estão aqui mesmo. não dava altura.. que Marcelino Pampa.. hoje mesmo é capaz que sejam de vir em riba de nós. A tento de se acertar nos primeiros rumos de se mexer. Melhor assim.. forçar tudo e experimentar um caminho por entremeio deles: se vai para a outra banda do Rio. o que logo vi. quero toda razoável opinião. ele me chamou.João Guimarães Rosa . sempre. ignoro. Eu não atinava com o que dizer. Viver é muito perigoso. que eu acho.. na situação. enquanto tempo – mas é perder toda esperança e diminuir da vergonha. mais João Concliz. de nós a umas quinze léguas. que Medeiro Vaz havia de fazer? E Joca – 113 – . Mais deles. No real da vida.. por bem de seu dispor. e sabem da gente. se souberem a notícia que Medeiro Vaz morreu. – “Mas. Deveras atacar. O que era.. Mas vão fechando modo de rodear a gente. de menos longe. e estava muito certo. Ou. as coisas acabam com menos formato. é dois: ou se fugir para o chapadão. não atacam. Não se queira. porque a quantidade deles é à farta. nem acabam. Recurso. A que.” Assim ele. Mais ainda não sei.. dá erro contra a gente. Marcelino Pampa. Pelejar por exato. as confusões dessas horas me encostavam. então. e viesse morar perto dele...” – foi o que João Concliz achou.. com este tempo de todas chuvas e ribeirões cheios. disse.

logo depois. para salvar a idéia da gente de perturbações desconformes. em trago.João Guimarães Rosa . Diadorim. Comandante é preciso. Não sabia.. para terminar!” Eu sabia que ele falava coisas de pelejar por cumprir. que foi que determinaram de se fazer?” – me perguntou. Marcelino Pampa resolveu que. e recolhido num estado de segredo. Por seus grandes olhos. mais tristeza. debulhando.. – “E vocês. Você está mal satisfeito?” Ele endireitou o corpo.” – ele mal disse – “você está vendo que não temos remédio.. isso tudo pouco adianta. cri que armasse – 114 – .. Dali.. Cá por mim. depois de muitos silêncios e poucas palavras. para aliviar os aflitos. Respondi: – “Hoje de tarde é que se toma decisão. Para ter jeito de chegar perto deles. três.” – assim ele desabafou. esses pensamentos em mim. falou: – “Sei o meu.” Aí. Atontados.. com uma mão por cima da outra. – “Riobaldo. Foi. eu podia gastar ali minha vida inteira. a regra de nenhum meio-termo. hoje será que sei. Sem ação. se. Quente quero poder chegar junto dum dos Judas. – “Quem sabe. nossa conversa ia ter repetição. esbarrou. pensou um tempo. até se não era melhor. Ai de. Eu tinha mais cansaço.Grande Sertão: Veredas Ramiro? E Só Candelário? Ao esmo. foi que reconheci como súcia de homens carece de uma completa cabeça. fui para perto de Diadorim. de tarde. onde aquilo redondeou. Também.

quem governou tudo. às fugas. o chegar. escoltado. de cada dia. em cheio... Gostei. era a dele. Riobaldo.” Era. Pelo que ouvimos: um galope. Você escolheu Marcelino Pampa. mais disse: – “Foi você. que traziam um vaqueirinho.Grande Sertão: Veredas agarrar o comando. eu e João Concliz.João Guimarães Rosa . – “Arte. Qualquer loucura.. depois de janta. Afe. e agudo temi.. temi. e soluceou: – “É um homem... por fim.. meio arupa. a gente aprende uma qualidade nova de medo! Mas. Que vieram quase correndo. você decidiu e fez. É um homem.. soprante. não. O vaqueirinho não devia de ter mais de uns quinze anos. o desapeio. por meio de acender o bando todo em revolta. – não se teve nem o tempo de principiar. semelhante. bebeu gole de ar. o riscar.. e as feições dele mudavam-de mestre pavor.” – e empurraram um pouco o vaqueirinho. Mas. de escutar isso. que este tal passou. Aí ele tem grande coisa pra contar. Ah. hoje.” – 115 – . Pegamos. Só sei.. porém. quando estávamos outra vez reunidos – Marcelino Pampa. De medo – a gente olhava para ele – e de nossos olhos ele se desencostava. estaquei na ponta dum pensamento. o xaxaxo de alpercatas. Cada hora. Sendo assim o Feliciano e o Quipes. mesmo.

no rancho.Grande Sertão: Veredas – “Te acerta... que ele tem? Em é mais baixo do que alto. É um homem.. numa balsa de buriti... Ah.. mocinho.. que semelhança de figura é que ele tem?” – “Ele? O jeito que é o dele. Homem terrível. Tinham matado um veadinho campeiro..... – ‘Estávamos em jejum de briga.. não é velho.. Mas fugiram.. Ele e seus cinco deram fogo feito – 116 – . é um homem. Aqui você está livre e salvo.. uns feridos. Ei! E estavam a cavalo. O que os outros falam e tratam: `Deputado’.. mais duns trinta.. O homem e os cinco dele estão a pé. Aonde é que está indo?” – Marcelino Pampa regrou.João Guimarães Rosa .. O homem. Escaramuçados.” – “Que foi mais que o homem fez?” – então João Concliz perguntou.” – “Qual é que é o nome dele? Fala! Como é que os outros dizem? Aí e que jeito. não é moço. para a casa de meu pai. com mais cinco homens...... Homem branco. Avançaram do mato..... Os outros eram montão.. Emprestei.. – “É briga enorme. Largaram três mortos. Falou que vai reformar isto tudo! Vieram pedir sal e farinha. Desceu o Rio Paracatu numa balsa de buriti. me deram naca de carne. Vou indo pra longe. – “Deu fogo. deram fogo contra os outros.’ – ele mesmo disse.. Ele desceu o Rio Paracatu. Veio de Goiás.

. mas mesmo assim o Quipes e Cavalcânti montaram e saíram por ele. Pelos modos. trozante. pois até à hora de escurecer não tinham aparecido. – “Temos de mandar por ele. – “E é. acompanhado de seus cinco cabras. aqueles eram gente do Alto Urucuia.. Gritavam de onça e de uivado.” – “É ele! Mas é ele! Só pode ser.” – aí alguém lembrou. Desceram. E. para que o senhor saiba. E..” – foi a palavra de Marcelino Pampa. veio vindo. De manhã. e com cheias cartucheiras. De certo não acharam fácil.. É ver a vida: quem pensava? E é homem danado..Grande Sertão: Veredas feras. então. – “Onde é que estará? Na Pavoã? Alguém tem de ir lá. ele chegou. está do nosso lado!” – outro completou.. Valia ver.. Marcelino Pampa caminhou ao encontro dele.. Nem cavalo eles não têm. Essas cerimônias. mas atravessados de armas. E ele sabe guerrear. – 117 – .... em nosso campo... Mas: aquele homem. ninguém não dormiu direito....” E era. Catrumanos dos gerais. Disse: vai remexer o mundo! Desceu o Rio Paracatu numa balsa de buriti. na noite.. pelas roupas. nós formávamos.. zuretado. Pobres. – aquele homem: era Zé Bebelo. Dia da abelha branca.. De chapéu desabado.João Guimarães Rosa .” – “Está a favor da gente... seguinte de nosso comandante.. Repegava a chuva.” – “É ele. da Pavoã no rumo. com uma braça de sol. avantes passos.

desriu..” – “Deus com ele. – “Vim de vez!” – ele disse. não me dando por traidor nem falso..” – e Zé Bebelo tirou o chapéu e se persignou. Refez pé para trás.. Vi que me prezava cordial. disse: – “Vim cobrar pela vida de meu amigo Joca Ramiro..” – e ele estava com a raiva tanta. Salve Medeiro Vaz!.. parando um instante sério. ara viva! Sempre a gente tem de se avistar. Depois... que a gente até se comoveu.. E liquidar com esses dois bandidos. chefe! Como passou?” – “Como passou... que desonram o nome da Pátria e este sertão nacional! Filhos da égua. que a vida em outro tempo me salvou de morte. Riu redobrado. que – 118 – . Aí Zé Bebelo reparou em mim: – “Professor. – “A pois. chefe! É o que todos aqui representamos.. De repente. amigo.. – “Em boa veio.” – Marcelino Pampa respondeu. num ar de exemplo. disse desafiando.” – “Aqui soube.. quase. Lux eterna. Medeiro Vaz ganhou repouso.Grande Sertão: Veredas – “Paz e saúde. mano?” Os dois grandes se saudavam.” De nomes e caras de pessoas ele em tempo nenhum se esquecia..João Guimarães Rosa .

João Guimarães Rosa ... não. seus brabos. amigo. ajuntar. – “Pois. Marcelino Pampa cobrou de si suas contas. Vez de Marcelino Pampa dizer: – “Pois assim. Já. crescia sozinho nas armas.” Sobre curto. ouvir o estabelecido. Repuxou testa. Depressa deu. mano velho.” – “Amizade e combinação. Nada não se disse. demorou dentro dum momento. por que é que não combinamos nosso destino? Juntos estamos. então. estamos irmãos. Só sei ser chefe. Este cá é meus exércitos!.. num mando de mão. aceito.. E esses homens?” Os urucuianos não abriram boca. aquele homem era em frente. seus companheiros. Mas ele entendeu o que cada vontade pedia. Mas Zé Bebelo rodeou todos. Circulou os olhos em nós todos. Só obro o que muito mando.Grande Sertão: Veredas tudo quanto falava ficava sendo verdade. o consumado: – 119 – . juntos vamos. A gente quisesse brigar.” Prazer que foi. e declarou forte o seguinte: – “Vim por ordem e por desordem. nasci assim.

misturando em meio nosso os cinco homens do Urucuia.João Guimarães Rosa .. pé da gente apalpa a terra. podemos romper as aleluias! Aleluia! Aleluia! Carne no prato. apanhando um por um de nós no olhar. Nós respondemos. meus filhos. Confirmamos. – “De todo poder? Todo o mundo lealda?” – ainda perguntou. Ninguém ria. É o duro diverso. João Concliz disse.” – explicou João Concliz. dos gerais. que é o deles.. Diadorim disse. Adiante: – “Pois estamos. – “Arre. esperamos vossas ordens. como olhou para a gente outra vez. – “Assassinos – els são os Judas.. Mas os assassinos de Joca Ramiro vão pagar. Desse nome. agora.. e nos chamou: – “Ao redor de mim. Conforme foi: – 120 – .Grande Sertão: Veredas – “E chefe será. ringindo seriedade.” – ele aprovou. A gente em redor dele. Baixamos nossas armas.. Como quando trovejou: desse trovôo de alto e rasto. deu aquilo feito um viva. parecia até que esperava mesmo aquele voto.. vote: dois judas. Tomo posse!” Podia-se rir.” Com coragem falou. Então ele quase se aprumou nas pontas dos pés. com seiscentos-setecentos!. meu povo. todos falaram: – “Acordo!” Aí Zé Bebelo não discrepou pim de surpresa. – “Acordo!” – eu disse.” – ele definiu.. entrementes antes dos gotejos de chuva esquentada: o trovão afunda largo. E assim era que Zé Bebelo era. farinha na cuia!..

. A cômodo ele começou. nesse dia. o morto não tendo parentes. Não quis. Mesmo por isso. por detrás de tanta papagaiagem um homem carecia de ter a valentia muito grande. perturbado. Alguém disse que o cavalo grande. por Zé Bebelo. Desse fato em diante.. ele o seguinte revelou: – “Tudo eu não tinha.” A gente reconheceu mais a coragem dele. a ele fez donativo grave: – “Este animal é vosso. qualquer um de nós sabia que aquilo podia ser mentira. Zé Bebelo guardou somente o – 121 – . munição para nem meia-hora. num toques. nessa hora. com os meus. era capaz de se morrer. Marcelino. para si mesmo.João Guimarães Rosa . o capote. respeitoso disse: – “Isto é comigo.. Isto é.” Do que se tratava. Marcelino Pampa dobrou de ar.Grande Sertão: Veredas trovejou de cala-a-boca – e Zé Bebelo tocou um gesto de costas da mão. e as armas e trens que Medeiro Vaz deixava. as cartucheiras de trespassar. Mas. então para os melhores mais chegados como lembrança ficassem: as carabinas e revólveres. facão. retorno e conto. as capangas e alforjes. Porque eu ainda estou para ver outro com igual siso e caráter!” Apertou a mão dele. somenos. Achou de ir ver o lugar da cova. a automática de rompida e ronco. Chamou Marcelino Pampa. devia de ficar sendo dele mesmo. o cantil revestido. essas determinou que. não esbarrou mais. punhal. murzelo-mancho.. merecido.

. tomar conta dos burros cargueiros. dito Alparcatas. o Acauã. e eu. o de vinte – nesse figuravam os cinco urucuianos.João Guimarães Rosa . qualquer oficio de habilidade. Repartiu os homens em quatro pelotões – três drongos de quinze. para os avisos. Diadorim. que de muito longe se atendia. João Concliz. – “Carecemos de quatro buzinas de caçador. ferraduras! Isto é que é importante. Ele mesmo tinha um apito. ainda sobravam nove – serviram para esquadrão adeparte. de forrar sela. Aprendeu os nomes. Olhou e contou as pencas de munição e as armas. e um de vinte – em cada um ao menos um bom rastreador. tidos todos repartidos. Jiribibe e Jõe Bexiguento. prezando os mais bem ferrados e os de agüentada firmeza. Rasgaem-Baixo. O testa deles foi Alaripe. pendurado do pescoço. Repassou os cavalos. Pessoalmente.. Joaquim Beiju. Marimbondo. o Credo. e que gostos tinha. com petrechos e mantimentos. ficou com o maior. Marruaz. examinando. Coscorão. escolheu: Marcelino Pampa. Para capitanear os drongos. – “Ferraduras.Grande Sertão: Veredas pelego berbezim. e o Fafafa. o Quipes. Daí. e em que lugar nascido.” – reclamou. vendo. Dimas Doido. resumo da vida.. por bom – 122 – . Sesfredo.. levou a eito. de um em um. Só que. em três baetas confeccionado. Mão-de-Lixa. e um bentinho milagroso. disquirindo. quantos combates.” – vivia dizendo.

então Zé Bebelo perequitava. Dava uma esperança forte. O que. vai enchendo. volta-te. gente! Capricha. Gostadamente: – “Morrendo eu. o jacaré exercia de cozinheiro.. se comediu obrigação: Quim Queiroz zelava os volumes de balas. mas Raimundo Lê. Assuntos principais. meu filho... vai-te. se acha.” Sempre. ferrador dos animais. não havia nenhum. vai tendo. vai apanhando folha e raiz..Grande Sertão: Veredas que fosse para tudo ser. O que eu quero é ver o surrão à mão.. e os outros ajudavam. por animar. a cavalo. para lá e para cá. melhor que tudo é se cuidar miudamente trabalhos de paz em tempo de guerra.. E – engraçado dizer – a gente apreciava aquilo. o senhor sabe: cega qualquer nó. Aos esses. tratador deles. assoviando.. depois. por ora. depois vocês descansam. – “Trabucar duro. Zé Bebelo fazia lição. manobrava as patrulhas.. para dormir bem!” – publicava. e deduzia ordens. mesmo.” Sujeito muito lógico. Ao um modo.. remédio. que entendia de curas e meizinhas.. temos nenhum tempo. se compra. no fim.” – e ria: – “Mas eu não morro. O mais eram traquejos. teve cargo de guardar sempre um surrão com remédios. Somente: – “Arre. – 123 – .” O acampamento da gente parecia uma cidade. Mas. Doristino. ou esbarrados firmes em formatura. Mas Zé Bebelo não se atontava: – “Aí em qualquer parte. todo tempo devia de dizer o de comer que precisava ou faltava.João Guimarães Rosa .

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levantava demais o braço: – “Ainda quero passar, a cavalos, levando vocês, em grandes cidades! Aqui o que me faz falta é uma bandeira, e tambor e cornetas, metais mais... Mas heide! Ah, que vamos em Carinhanha e Montes Claros, ali, no haja vinho... Arranchar no mercado da Diamantina... Eli, vamos no Paracatudo-Príncipe!...” Que boca, que o apito: apitava. A sério, ele me chamava para o lado dele, e ia mandando vir outros – Marcelino Pampa, João Concliz, Diadorim, o urucuiano Pantaleão, e o Fafafa, vice-mandantes. Todos tinham de expor o que sabiam daquele gerais território: as distâncias em léguas e braças, os vaus, o grau de fundo dos marimbus e dos poços, os mandembes onde se esconder, os mais fartos pastos. Como Zé Bebelo simplificava os olhos, e perguntando e ouvindo avante. Às vezes riscava com ponta duma vara no chão, tudo representado. Ia organizando aquilo na cabeça. Estava aprendido. Com pouco, sabia mais do que nós juntos todos. Bem eu conhecia Zé Bebelo, de outros currais! Bem eu desejasse ter nascido como ele... Aí, saía, por caçar. Sucinto que gostava de caçar; mas estava era sujeitando a exame o morro, discriminando. O mato e o campo – como dois é um par. Veio e foi, figurava, tomava a opinião da gente: – “Com dez homens, naquela altura, e outros dez espalhados na vertente, se podia impedir a passagem
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de duzentos cavaleiros, pelo resfriado... Com outros alguns, dando a retaguarda, então...” Nesfartes, só nisso ele pensava, quase que. Sendo que expedia, sobre hora, alguém adiante, se informar do meximento dos Judas, trazer notícias vivas. E, homem feliz, feito Zé Bebelo naquele tempo, afirmo ao senhor, nunca não vi. Diadorim também, que dos claros rumos me dividia. Vinha a boa vingança, alegrias dele, se calando. Vingar, digo ao senhor: é lamber, frio, o que outro cozinhou quente demais. O demônio diz mil. Esse! Vige mas não rege... Qual é o caminho certo da gente? Nem para a frente nem para trás: só para cima. Ou parar curto quieto. Feito os bichos fazem. Os bichos estão só é muito esperando? Mas, quem é que sabe como? Viver... O senhor já sabe: viver é etcétera... Diadorím alegre, e eu não. Transato no meio da lua. Eu peguei aquela escuridão. E, de manhã, os pássaros, que bem-meviam todo tal tempo. Gostava de Diadorim, dum jeito condenado; nem pensava mais que gostava, mas aí sabia que já gostava em sempre. Oi, suindara! – linda cor... Dando o dia, de repente, Zé Bebelo determinou que tudo e tudo fosse pronto, para uma remarcha em exercícios, como geral. Só por festa. Ao que os burrinhos comiam amadrinhados, em bom pasto: – “Menininhos, responsabilidade de cangalhas em vocês, carregando a nossa munição!” – Zé Bebelo mandou. Mas,
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montado, declarou: – “Meu nome d’ora por diante vai ser ah-ohah o de Zé Bebelo Vaz Ramiro! Como confiança só tenho em vocês, companheiros, meus amigos: zé-bebelos! A vez chegou: vamos em guerra. Vamos, vamos, rebentar com aquela cambada de patifes!...” Saímos, solertes entes. Para isso, a lua não era boa. Quem põe praça de cavalhadas, por desbarranco de estradas lamentas, desmancho empapado de chão, a chuva ainda enxaguando? Convinha esperar regras d’água. – “O Rio Paracatu está cbeio...” alguém disse. Mas Zé Bebelo atalhou: – “O São Francisco é maior...” Com ele tudo era assim, extravagável; e não queria conversas de cutilquê. Rompemos. Melava de chover baixo, mimelava. Até o derradeiro do momento, parecia que íamos atravessar o Paracatu. Não atravessamos. Tudo aquele homem retinha estudado. Daí, distribuiu as patrulhas. O drongo dele, viemos, pela beira, sempre o Paracatu à mão esquerda. Trovejou, de perturbar. Ele disse: – “Melhor, dou surpresa... Só uma boa surpresa é que rende. Quero é atacar!”. A gente ia para o BuritiPintado. A lá, consta de dez léguas, doze, – “Na hora, cada um deve de ver só um algum judas de cada vez, mirar bem e atirar. O resto maior é com Deus...” – já vai que falava. – “Para um trabalho que se quer, sempre a ferramenta se tem. Só com estes
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cavalos, só à ligeireza, de lugar para lugar, para a frente e para trás. Sei, mas o principal dos combates vamos dar é bem a pé...” Na beira do rio Soninho, descansamos. Animais de carga, a ponta de mulas, ficaram botados escondidos, numa bocaina na balsa. Só três homens tomavam conta. – “Eu é que escolho a hora e o lugar de investir...” – Zé Bebelo disse. E, num lugar de remanso, passamos o rio Soninho, no escuro, sem ensolvar, bala em boca. De manhã, de três lados, demos fogo. Aí Zé Bebelo tinha meditado tudo como um ato, de desenho. Primeiro, João Concliz avançou, com seus quinze, iam fazendo de conta que desprevenidos. Quando os outros vieram, nós todos já estávamos bem amoitados, em pontos bons. Duma banda, então, o Fafafa recruzou, seus cavaleiros: que estavam muito juntos, embolados, do modo por que um bando de cavaleiros ou cavalos dá ar de ser muito maior do que no real é. Todos cavalos ruços ou baios – cor clara também aumenta muito a visão do tamanho deles. Ah, e gritavam. Assaz os judas atiravam mal, discordados, nadinha nem. Aí, de poleiro pego prévio, abrimos nossa calamidade neles. Pessoal do Hermógenes... Não se disse guavai! Supetume! Só bala de aço. – “Dou duelo!... – Ei, tibes...” Só o quanto de se quebrar galho e rasgar roupagem. Um judas correu errado, do lado onde o Jiribibe estava: triste daquele. – “Ouh!” – foi o que ele fez de contrição perfeita. Outro levantou o corpo
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um pouco demais. – “Tu! Tu pensa que tem Deus-e-meio?!” – Zé Bebelo disse, depois de derrubar o tal, com um tiro de nhambu, baixo. Outro fugia esperto. – “Tem talento nos pés...” Os que enviei, deixei de numerar, por causa de caridade. Ai deles. Vitória, é isto. Ou o senhor pensa que é em alegre mal, feito numa caçada? Descansar? Quem disse, não foi ouvido. – “Vou lá deixar essa cambada birbar por aí em sossego?! Bis, minha gente! Vamos neles!” – Zé Bebelo se frigia. Mas o próprio pessoal de João Concliz tinha segurado mão nos cavalos daqueles. – “Toquemos na mão do norte: lá a cara do chão é minha mais...” Não, o caminho era da banda contrária. Tínhamos de cair em riba do grosso da judadas. Por resfriados e atalhos, mesmo com aquela cavalhada adestra, tocamos, tocamos. Estrada capaz de quatro, lado a lado. No Oi-Mãe. Lá tem um lajeiro – largo: onde grandes pedras do fundo do chão vêm à flor. Chegamos de sobremão, vagarosinho. Zé Bebelo recomendava, feito rondando quarto de doente. Ele cheirava até o ar. Sonso parecia um gato. Se vendo que, no inteiro mesmo de sua cabeça, ele antes tudo traçava e guerreava. Seja por um exemplo: havia uma cava grande, o inimigo estava emboscado dos dois lados, nos socavões, nas paredes. Como era que Zé Bebelo já sabia?
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Orçando longe volta, João Concliz levou seus homens muito adiante de lá, na borda do campo, de recacha. Dado tempo, então, nosso pelotão rastejou para os altos, até chega estávamos por cima dos beiços da cava. Ah e aí o Fafafa veio vindo, descuidado à mostra, com seus cavaleiros – surgiam inocentemente, feito veados para se matar... Mas – há! – então por de riba da cava desfechamos demos urros e o rifleio, transcruzando nos inferiores: – “Lá vai obra!...” Hê-hê! Deu de abelhas de pau oco: os das socavas entornaram o sangue-frio, demais se assustaram, correndo em fuga maior debaixo de tiros, xingos, às pragas. João Condiz, pois é, o senhor sabe... Urubus puderam voar cererém – uns urubus declarados. Mas daí voltamos, desatravessando outra vez o Soninho, até onde estava a nossa mulada, com munição e o mais. Mesmo viemos negaceando de recuar. Assim era pena, mas carecíamos de flautear desse jeito, sustância nossa não dava para se acabar com aqueles judas de uma vez. Sempre, sempre, para enganar no que vissem, Zé Bebelo variava de se viajar uma hora quase todos juntos, outra hora despedidos espalhados. Ainda, por suma vantagem disso, demos um tiroteio ganho, na fazenda São Serafim, dos diabos!

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Rumo a rumo de lá, mas muito para baixo, é um lugar. Tem uma encruzilhada. Estradas vão para as Veredas Tortas-veredas mortas. Eu disse, o senhor não ouviu. Nem torne a falar nesse nome, não. É o que ao senhor lhe peço. Lugar não onde. Lugares assim são simples – dão nenhum aviso. Agora: quando passei por lá, minha mãe não tinha rezado – por mim naquele momento? Assim, feito no Paredão. Mas a água só é limpa é nas cabeceiras. O mal ou o bem, estão é em quem faz; não é no efeito que dão. O senhor ouvindo seguinte, me entende. O Paredão existe lá. Senhor vá, senhor veja. É um arraial. Hoje ninguém mora mais. As casas vazias. Tem até sobrado. Deu capim no telhado da igreja, a gente escuta a qualquer entrar o borbolo rasgado dos morcegos. Bicho que guarda muitos frios no corpo. Boi vem do campo, se esfrega naquelas paredes. Deitam. Malham. De noitinha, os morcegos pegam a recobrir os bois com lencinhos pretos. Rendas pretas defunteiras. Quando se dá um tiro, os cachorros latem, forte tempo. Em toda a parte é desse jeito. Mas aqueles cachorros hoje são do mato, têm de caçar seu de-comer. Cachorros que já lamberam muito sangue. Mesmo, o espaço é tão calado, que ali passa o sussurro de meianoite às nove horas. Escutei um barulho. Tocha de carnaúba estava alumiando. Não tinha ninguém restado. Só vi um papagaio
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manso falante, que esbagaçava com o bico algum trem. Esse, vez em quando, para dormir ali voltava? E eu não revi Diadorim. Aquele arraial tem um arruado só: é a rua da guerra... O demônio na rua, no meio do redemunho... O senhor não me pergunte nada. Coisas dessas não se perguntam bem. Sei que estou contando errado, pelos altos. Desemendo. Mas não é por disfarçar, não pense. De grave, na lei do comum, disse ao senhor quase tudo. Não crio receio. O senhor é homem de pensar o dos outros como sendo o seu, não é criatura de pôr denúncia. E meus feitos já revogaram, prescrição dita. Tenho meu respeito firmado. Agora, sou anta empoçada, ninguém me caça. Da vida pouco me resta – só o deo-gratias; e o troco. Bobéia. Na feira de São João Branco, um homem andava falando: – “A pátria não pode nada com a velhice...” Discordo. A pátria é dos velhos, mais. Era um homem maluco, os dedos cheios de anéis velhos sem valor, as pedras retiradas – ele dizia: aqueles todos anéis davam até choque elétrico... Não. Eu estou contando assim, porque é o meu jeito de contar. Guerras e batalhas? Isso é como jogo de baralho, verte, reverte. Os revoltosos depois passaram por aqui, soldados de Prestes, vinham de Goiás, reclamavam posse de todos animais de sela. Sei que deram fogo, na barra do Urucuia, em São Romão, aonde
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aportou um vapor do Governo, cheio de tropas da Bahia. Muitos anos adiante, um roceiro vai lavrar um pau, encontra balas cravadas. O que vale, são outras coisas. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Assim eu acho, assim é que eu conto. O senhor é bondoso de me ouvir. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe. Mire veja: aquela moça, meretriz, por lindo nome Nhorinhá, filha de Ana Duzuza: um dia eu recebi dela uma carta: carta simples, pedindo notícias e dando lembranças, escrita, acho que, por outra alheia mão. Essa Nhorinhá tinha lenço curto na cabeça, feito crista de anu-branco. Escreveu, mandou a carta. Mas a carta gastou uns oito anos para me chegar; quando eu recebi, eu já estava casado. Carta que se zanzou, para um lado longe e para o outro, nesses sertões, nesses gerais, por tantos bons préstimos, em tantas algibeiras e capangas. Ela tinha botado por fora só: Riobaldo que está com
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Medeiro Vaz. E veio trazida por tropeiros e viajores, recruzou tudo. Quase não podia mais se ler, de tão suja dobrada, se rasgando. Mesmo tinham enrolado noutro papel, em canudo, com linha preta de carretel. Uns não sabiam mais de quem tinham recebido aquilo. Ultimo, que me veio com ela, quase por engano de acaso, era um homem que, por medo da doença do toque, ia levando seu gado de volta dos gerais para a caatinga, logo que chuva chovida. Eu já estava casado. Gosto de minha mulher, sempre gostei, e hoje mais. Quando conheci de olhos e mãos essa Nhorinhá, gostei dela só o trivial do momento. Quando ela escreveu a carta, ela estava gostando de mim, de certo; e aí já estivesse morando mais longe, magoal, no São Josezinho da Serra – no indo para o Riacho-dasAlmas e vindo do Morro dos Ofícios. Quando recebi a carta, vi que estava gostando dela, de grande amor em lavaredas; mas gostando de todo tempo, até daquele tempo pequeno em que com ela estive, na Aroeirinha, e conheci, concernente amor. Nhorinhá, gosto bom ficado em meus olhos e minha boca. De lá para lá, os oito anos se baldavam. Nem estavam. Senhor subentende o que isso é? A verdade que, em minha memória, mesmo, ela tinha aumentado de ser mais linda. De certo, agora não gostasse mais de mim, quem sabe até tivesse morrido... Eu sei que isto que estou dizendo é dificultoso, muito entrançado. Mas o senhor vai
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avante. Invejo é a instrução que o senhor tem. Eu queria decifrar as coisas que são importantes. E estou contando não é uma vida de sertanejo, seja se for jagunço, mas a matéria vertente. Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder. O que induz a gente para más ações estranhas é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe! Sendo isto. Ao doido, doideiras digo. Mas o senhor é homem sobrevindo, sensato, fiel como papel, o senhor me ouve, pensa e repensa, e rediz, então me ajuda. Assim, é como conto. Antes conto as coisas que formaram passado para mim com mais pertença. Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas – e só essas poucas veredas, veredazinhas. O que muito lhe agradeço é a sua fineza de atenção. Foi um fato que se deu, um dia, se abriu. O primeiro. Depois o senhor verá por quê, me devolvendo minha razão. Se deu há tanto, faz tanto, imagine: eu devia de estar com uns quatorze anos, se. Tínhamos vindo para aqui – circunstância de cinco léguas – minha mãe e eu. No porto do Rio-de-Janeiro
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nosso, o senhor viu. Hoje, lá é o porto do seo Josozinho, o negociante. Porto, lá como quem diz, porque outro nome não há. Assim sendo, verdade, que se chama, no sertão: é uma beira de barranco, com uma venda, uma casa, um curral e um paiol de depósito. Cereais. Tinha até um pé de roseira. Rosmes!... Depois o senhor vá, verá. Pois, naquela ocasião, já era quase do jeito. O de-Janeiro, dali abaixo meia-légua, entra no São Francisco, bem reto ele vai, formam uma esquadria. Quem carece, passa o deJaneiro em canoa – ele é estreito, não estende de largura as trinta braças. Quem quer bandear a cômodo o São Francisco, também principia ali a viagem. O porto tem de ser naquele ponto, mais alto, onde não dá febre de maresia. A descida do barranco é indo por a-pique, melhoramento não se pode pôr, porque a cheia vem e tudo escavaca. O São Francisco represa o de-Janeiro, alto em grosso, às vezes já em suas primeiras águas de novembro. Dezembro dando, é certo. Todo o tempo, as canoas ficam esperando, com as correntes presas na raiz descoberta dum paud’óleo, que tem. Tinha também umas duas ou três gameleiras, de outrora, tanto recordo. Dá dó, ver as pessoas descerem na lama aquele barranco, carregando sacos pesados, muita vez. A vida aqui é muito repagada, o senhor concorde. Outro, meu tempo, então, o que é que não havia de ser?

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Pois tinha sido que eu acabava de sarar duma doença, e minha mãe feito promessa para eu cumprir quando ficasse bom: eu carecia de tirar esmola, até perfazer um tanto – metade para se pagar uma missa, em alguma igreja, metade para se pôr dentro duma cabaça bem tapada e breada, que se jogava no São Francisco, a fim de ir, Bahia abaixo, até esbarrar no Santuário do Santo Senhor Bom-Jesus da Lapa, que na beira do rio tudo pode. Ora, lugar de tirar esmola era no porto. Mãe me deu uma sacola. Eu ia, todos os dias. E esperava por lá, naquele parado, raro que alguém vinha. Mas eu gostava, queria novidade quieta para meus olhos. De descer o barranco, me dava receio. Mas espiava as cabaças para bóia de anzol, sempre dependuradas na parede do rancho. Terceiro ou quarto dia, que lá fui, apareceu mais gente. Dois ou três homens de fora, comprando alqueires de arroz. Cada saco amarrado com broto de buriti, a folha nova – verde e amarela pelo comprido, meio a meio. Arcavam com aqueles sacos, e passavam, nas canoas, para o outro lado do de-Janeiro. Lá era, como ainda hoje é, mata alta. Mas, por entre as árvores, se podia ver um carro-de-bois parado, os bois que mastigavam com escassa baba, indicando vinda de grandes distâncias. Daí, o senhor veja: tanto trabalho, ainda, por causa de uns metros de
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água mansinha, só por falta duma ponte. Ao que, mais, no carro-de-bois, levam muitos dias, para vencer o que em horas o senhor em seu jipe resolve. Até hoje é assim, por borco. Aí pois, de repente, vi um menino, encostado numa árvore, pitando cigarro. Menino mocinho, pouco menos do que eu, ou devia de regular minha idade. Ali estava, com um chapéude-couro, de sujigola baixada, e se ria para mim. Não se mexeu. Antes fui eu que vim para perto dele. Então ele foi me dizendo, com voz muito natural, que aquele comprador era o tio dele, e que moravam num lugar chamado Os-Porcos, meio-mundo diverso, onde não tinha nascido. Aquilo ia dizendo, e era um menino bonito, claro, com a testa alta e os olhos aos-grandes, verdes. Muito tempo mais tarde foi que eu soube que esse lugarim Os-Porcos existe de se ver, menos longe daqui, nos gerais de Lassance. – “Lá é bom?” – perguntei. – “Demais...” – ele me respondeu; e continuou explicando: – “Meu tio planta de tudo. Mas arroz este ano não plantou, porque enviuvou de morte de minha tia...” Assim parecesse que tinha vergonha, de estarem comprando aquele arroz, o senhor veja.

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Mas eu olhava esse menino, com um prazer de companhia, como nunca por ninguém eu não tinha sentido. Achava que ele era muito diferente, gostei daquelas finas feições, a voz mesma, muito leve, muito aprazível. Porque ele falava sem mudança, nem intenção, sem sobejo de esforço, fazia de conversar uma conversinha adulta e antiga. Fui recebendo em mim um desejo de que ele não fosse mais embora, mas ficasse, sobre as horas, e assim como estava sendo, sem parolagem miúda, sem brincadeira – só meu companheiro amigo desconhecido. Escondido enrolei minha sacola, aí tanto, mesmo em fé de promessa, tive vergonha de estar esmolando. Mas ele apreciava o trabalho dos homens, chamando para eles meu olhar, com um jeito de siso. Senti, modo meu de menino, que ele também se simpatizava a já comigo. A ser que tinha dinheiro de seu, comprou um quarto de queijo, e um pedaço de rapadura. Disse que ia passear em canoa. Não pediu licença ao tio dele. Me perguntou se eu vinha. Tudo fazia com um realce de simplicidade, tanto desmentindo pressa, que a gente só podia responder que sim. Ele me deu a mão, para me ajudar a descer o barranco. As canoas eram algumas, elas todas compridas, como as de hoje, escavacadas cada qual em tronco de pau de árvore. Uma
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estava ocupada, apipada passando as sacas de arroz, e nós escolhemos a melhor das outras, quase sem água nem lama nenhuma no fundo. Sentei lá dentro, de pinto em ovo. Ele se sentou em minha frente, estávamos virados um para o outro. Notei que a canoa se equilibrava mal, balançando no estado do rio. O menino tinha me dado a mão para descer o barranco. Era uma mão bonita, macia e quente, agora eu estava vergonhoso, perturbado. O vacilo da canoa me dava um aumentante receio. Olhei: aqueles esmerados esmartes olhos, botados verdes, de folhudas pestanas, luziam um efeito de calma, que até me repassasse. Eu não sabia nadar. O remador, um menino também, da laia da gente, foi remando. Bom aquilo não era, tão pouca firmeza. Resolvi ter brio. Só era bom por estar perto do menino. Nem em minha mãe eu não pensava. Eu estava indo a meu esmo. Saiba o senhor, o de-janeiro é de águas claras. E é rio cheio de bichos cágados. Se olhava a lado, se via um vivente desses – em cima de pedra, quentando sol, ou nadando descoberto, exato. Foi o menino quem me mostrou. E chamou minha atenção para o mato da beira, em pé, paredão, feito à régua regulado. – “As flores...” – ele prezou. No alto, eram muitas flores, subitamente vermelhas, de olho-de-boi e de outras
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trepadeiras, e as roxas, do mucunã, que é um feijão bravo; porque se estava no mês de maio, digo – tempo de comprar arroz, quem não pôde plantar. Um pássaro cantou. Nhambu? E periquitos, bandos, passavam voando por cima de nós. Não me esqueci de nada, o senhor vê. Aquele menino, como eu ia poder deslembrar? Um papagaio vermelho: – “Arara for?” – ele me disse. E – quê-quê-quê? – o araçari perguntava. Ele, o menino, era dessemelhante, já disse, não dava minúcia de pessoa outra nenhuma. Comparável um suave de ser, mas asseado e forte – assim se fosse um cheiro bom sem cheiro nenhum sensível – o senhor represente. As roupas mesmas não tinham nódoa nem amarrotado nenhum, não fuxicavam. A bem dizer, ele pouco falasse. Se via que estava apreciando o ar do tempo, calado e sabido, e tudo nele era segurança em si. Eu queria que ele gostasse de mim. Mas, com pouco, chegávamos no do-Chico. O senhor surja: é de repentemente, aquela terrível água de largura: imensidade. Medo maior que se tem, é de vir canoando num ribeirãozinho, e dar, sem espera, no corpo dum rio grande. Até pelo mudar. A feiúra com que o São Francisco puxa, se moendo todo barrento vermelho, recebe para si o de-janeiro, quase só um rego verde só. – “Daqui vamos voltar?” – eu pedi, ansiado.
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avistei. Amanheci minha aurora. Aqueles olhos então foram ficando bons.. Mas eu agüentei o aque do olhar dele. percebi que. Arre vai. que remava. – “Para quê?” – ele simples perguntou. O canoeiro. feio. minha vida. E o menino pôs a mão na minha. de me ver tremido todo assim. por duvidar se não satisfaziam termo. o menino tirava aumento para sua coragem. Aquele. De tal o menino gostou. – “Ah.” – me disse. Aí o menino mesmo avançação enorme roda-a-roda – o que até hoje. daquele dia. do canoeiro. a gente podia contar. repontando de seu orgulho. pegavam um escurecimento duro. eu sabia e hoje ainda mais sei. Encostava e ficava fazendo parte melhor da minha pele. moda de copla que gente barranqueira – 141 – . desse a minhas carnes alguma coisa. no profundo. porque com a cabeça aprovava. – “Você também é animoso. de maior. O chapéu-de-couro que ele tinha era quase novo. Eu também.. Mas a vergonha que eu sentia agora era de outra qualidade. foi quem se riu. decerto de mim.Grande Sertão: Veredas O menino não me olhou – porque já tinha estado me olhando. com tom. o canoeiro cantou. Os olhos. Era uma mão branca. Mesmo com a pouca idade que era a minha. – “Sou barranqueiro!” – o canoeirinho tresdisse. como estava. retomando brilho. foi aquele rio. em descanso de paz. As remadas que se escutavam. com os dedos dela delicados.João Guimarães Rosa . tu: tem medo não nenhum?” – ao canoeiro o menino perguntou. em pé.

é dele que a capivara come. o desejado. Ao ver. o vulgar. Sendo de permanecer assim. fica tomando conta!” – ele falou para o canoeiro. e eu reparei. nessa maior turvação: vim te dar um gole d’água. apanhava talos de capim-capivara. longe de mim. no meioavermelhado do capim-pubo..” Aí. Aonde o menino queria ir? Sofismei. a de lá. mas fui andando. desde que amarrou a corrente num pau-pombo. vai ali atrás. Meu Rio de São Francisco. Ele mesmo. mas pedir tua benção. sem prazo. arribamos na outra beira. o quase calados. – “Você não arreda daqui. quer de comer? Está com fome?” – ele me perguntou.” Mais não conversasse. me acanhava. rodeado por áspero bamburral. ele determinou: – “Há-te. junto das dele. que seguiu de cumprir aquela autoridade.João Guimarães Rosa . E me deu a rapadura e o queijo. Assim quando me veio vontade de urinar. Sempre os mosquitinhos era que arreliavam. o menino mandou encostar.. – “Amigo. por fim. isto é. fomos. num lugar mais salientado. Estava pitando.. tinha gosto de milho-verde. Sentamos. – 142 – . só descemos. e mastigava. comparando como eram pobres as minhas roupas. Acabou de pitar..Grande Sertão: Veredas usa: “. isso faz. na vargem.. com pedras. somente. só tocou em miga.. e eu disse.

mas altado. bateu um figurado indecente. sem malícia e sem bondade. apareceu a cara de um homem! As duas mãos dele afastavam os ramos do mato. e.João Guimarães Rosa . até meigo muito. menos fundas. para o rumo de acima. Depois. surdo sentado ficou. mulato. a canoa desconversou. Por certo algum trilho passava perto por ali. por detrás de nós. uê. tudo parecendo meio podre. a deixa. e se curvou. sem seguir resolução. entre duas águas. sem avisos.. social com seu prático sorriso.Grande Sertão: Veredas Antojo. Eu disse um grito. Eu me apeguei de olhar o mato da margem. Com o mau jeito. era um rapaz. À fé. – “Mas. mão no fechado da outra. então. vocês – 143 – . regular uns dezoito ou vinte anos. queria quebrar um galho de maracujá-do-mato. Debochado. tristes. me deu um susto somente. com as feições muito brutas. ele disse isto: – “Vocês dois.. – “Tem nada não. o homem escutara nossa conversa. na barra.” – ele falou. foi entrando no do-Chico. – “Hem.. o senhor sabe: quando o do-Chico sobe os seis ou os onze metros. varejava ali. o menino também tinha se levantado. Não piscava os olhos. então. brincando de rodar mansinho. E se deu que o remador encostou quase a canoa nas canaranas. O canoeiro. lameada ainda da cheia derradeira. forte.. hem?! Que é que estão fazendo?. Olhei para o menino. Beiras sem praia. na beirada.” Aduzido fungou. com a canoa passeada. hem? E eu? Também que se sorriu. Esse não semelhava ter tomado nenhum espanto.

O ódio que – 144 – . Eu disse isso. e aí ir seguindo. e uns sussurros de desamparo. em bando. traiçoeira – o rio é cheio de baques. longe. Tinha ouvido dizer que. a constância de não afundar. e só aquele estrape..João Guimarães Rosa .” Me deu uma tontura. Mas. com uma palavra só. modos moles. se diz – a ariranha – essas desmergulham. não me lembrei do perigo que é a “onçad’água”. e o risco extenso d’água.. Eu tinha o medo imediato. e é bastante a gente se apoiar nela. de parte a parte. É canoa de peroba. Canoa de peroba e de pau-d’óleo não sobrenadam. E tanta claridade do dia. sério naquela sua formosa simpatia. deu ordem ao canoeiro. até sobre se sair no seco. firme mas sem vexame: – “Atravessa!” O canoeiro obedeceu.Grande Sertão: Veredas fiquem sentados. quando canoa vira. do outro lado.” – eu me queixei. de esfrio. de estudo. O arrojo do rio. Não pensei nada. encostar um dedo que seja.. Longe. para se ter tenência. Mas eu tinha até ali agarrado uma esperança. fica boiando. E o canoeiro me contradisse: – “Esta é das que afundam inteiras. Apertei os dedos no pau da canoa.. e becam a gente: rodeando e então fazendo a canoa virar. Não me lembrei do Caboclo-d’Água. Tive medo. com que prazo se ir até lá? Medo e vergonha. Ele se sentou. Sabe? Tudo foi isso: tive medo! Enxerguei os confins do rio. fechei os olhos. Alto rio. A aguagem bruta.

não pude ter raiva. Quieto.” – e. Meu pai é o homem mais valente deste mundo..... ouvi a bonita voz do menino dizer: – “Você..” Ao que meio pasmei. chega aqui. de madeira burra! A mentira fosse – mas eu devo de ter arregalado doidos olhos. de faveira ou tamboril. vinhático ou cedro. Então. E.. estávamos era espreitando as distâncias do rio e o parado das coisas.. era aquilo? E o mulato..João Guimarães Rosa .” Aí o bambalango das águas. confronte.. de imburana. contestando. que não estávamos fazendo sujice nenhuma. aro!” – o mulato veio insistindo. – 145 – . – “Você nunca teve medo?” – foi o que me veio. Visse que vinham minhas lágrimas? Dói de responder: – “Eu não sei nadar.. tantas canoas no porto. satisfeito. – “Que é que a gente sente. passado o tempo dum meu suspiro: – “Meu pai disse que não se deve de ter. sereno. Até fosse crime. boas canoas boiantes. Mas. por aí. mas não estava remoqueando.” Sereno.Grande Sertão: Veredas eu quis: ah. composto.” A fala. meu nego? Está certo.. o jeito dele. caminhou para se sentar juntinho dele. Ele respondeu: – “Costumo não.” – ele me disse. produziam uma luz. Afiançou: – “Eu também não sei. Eu vi o rio.. e a gente tinha escolhido aquela. Ainda ele terminou: – “.” O menino sorriu bonito. o que eu menos esperava. imitavam de mulher. quando se tem medo?” – ele indagou. – “Carece de ter coragem. de dizer.. Via os olhos dele. fabricar dessas. eu consegui falar alto. o menino me via..

O mulato podia voltar. pessoas engraçadas: o remadorzinho estava dormindo espichado dentro da canoa. Urutu dá e já deu o bote? Só foi assim. em fuga. gemido urro. Não. E não olhava para trás. tem lances. a reunir companheiros.. garrucha. tão gentil.. A lâmina estava escorrida de sangue ruim. a si dizendo. esses – se riscam tão depressa. Tornou a pôr na bainha.. Mulato pulou para trás. vagarosinho até aonde a canoa. E limpou a faca no capim. Me alembrei do que antes ele tinha falado. Indaguei: – “Mas. então. se ouvia aquela corredoura.Grande Sertão: Veredas Ah. – “Carece de ter coragem. – “Quicé que corta. ter ido buscar uma foice. Mas o menino não se aluía do lugar. olhar da gente não acompanha.João Guimarães Rosa . nem de ninguém.” – ele me moderou. Mas veio demorão. encarecendo que a gente fosse logo embora.. Tem de tudo neste mundo. com – 146 – . você mora é com seu tio?” Aí ele se levantou. Tinha embebido ferro na coxa do mulato. com todo capricho. de nós o que seria. de seu pai. ô de um grito. me chamando para voltarmos.” – foi só o que disse. e nem se ria. Carece de ter muita coragem. a ponta rasgando fundo. medo do mulato. daí a mais um pouco? Ao menino ponderei isso. Meu receio não passava. O menino abanava a faquinha nua na mão. Varou o mato. ele não conhecia.

e escute desarmado. Minha mãe estava lá no porto. eu sei. ele acenou com a mão. Mas não carecia. Nem sabia o nome dele. igual. Meu pai disse que eu careço de ser diferente. eu respondi. De longe. sem me encarar. depois. – “Você é valente. Menos que. O menino estava molhando as mãos na água vermelha. muito diferente. Mais. Por que foi que eu precisei de encontrar aquele Menino? Toleima. nem pude me despedir direito do Menino. Muita coisa importante falta nome. tantos anos todos. virei. que coragem – 147 – . Dando fim. declarou assim: – “Sou diferente de todo o mundo. não lhe dou desenho – tudo igual. me pareceu depressa demais. Dessa volta. me escute mais do que eu estou dizendo. que o senhor ouviu. O sério é isto. sempre?” – em hora eu perguntei. Agora. esteve tempo pensando.Grande Sertão: Veredas os seus mosquitos por cima e a camisa empapada de suor de sol. Tive de ir com ela. Se alegrou com o resto da rapadura e do queijo. da estória toda – por isto foi que a estória eu lhe contei eu não sentia nada. de. por mim. O senhor não me responda. nos trouxe remando.João Guimarães Rosa .. por vez. Dele nunca me esqueci. Dou. Eu? O sério pontual é isto. o senhor escute. no meio do rio até mais cantava. Só uma transformação. perguntas faço.” E eu não tinha medo mais.. pesável.

por uma. é aí que a pergunta se pergunta.Grande Sertão: Veredas inteirada em peça era aquela. nas vezes em que no Menino pensava. passa. ajuntando esmolas para o Senhor Bom-Jesus. beira até Goiás. compadre meu Quelemém não conheceu. defronte com o Menino? O São Francisco cabe sempre aí. extrema. a dele? De Deus. Mas. capaz. correu em casa. E o que era que o pai dele tencionava? Na ocasião. Os gerais desentendem de tempo.. Sonhação – acho que eu tinha de aprender a estar alegre e triste juntamente. Sertão é onde homem tem de ter a dura nuca e mão quadrada. milhões de milhares de pessoas não conheceram. Mire veja: um rapazinho. do demo? Por duas. já tenho defesa. depois. isso é a tua maioridade. com minha capanguinha na mão. Sertão é o penal. nem o compadre meu Quelemém não me ensina. onde é bobice a qualquer resposta. o senhor sabe. repense o bem pensado: para que foi que eu tive de atravessar o rio. idade minha sendo aquela. Na velhice.João Guimarães Rosa . – 148 – . ora. criminal. Senhor vê. Mas. não dei de mim esse indagado. O senhor pense outra vez. de quem me vingue. Matou. foi desfeiteado.” Bolas.. eu acho que. isto que eu vivo pergunta de saber. no dever de pagar promessa feita por minha mãe. para quê? por quê? Eu estava no porto do de-Janeiro. no Nazaré. e matou um homem. Por que foi que eu conheci aquele Menino? O senhor não conheceu. Sabe o que o pai dele temperou? – “Filho. O Chapadão é em sobre longe.

Assim. como compadre meu Quelemém. pelo jeito de ficar calado alto. aí foi grande a minha tristeza. fiquei com aquelas miserinhas – miséria quase inocente – que não podia fazer questão: lá larguei a outros o pote. mas sabia sem saber. o senhor já me compraz. somente peguei minha rede. e saber não queria. Zé Bebelo um tanto sabia disso. como Medeiro Vaz. uma caçarola bicuda e um alguidar. a lembrança de minha mãe às vezes me exporta. Amanheci mais. Adiante? Conto. Puseram para mim tudo em – 149 – . num dezembro chovedor. que viaja diverso caminhar. uma fivela grande com ornados. quer ver que o senhor põe uma resposta. como a minha vida mudou para uma segunda parte.Grande Sertão: Veredas para me sarar de uma doença grave. De desde. um caneco-de-asa pintado de flores. como Joca Ramiro. O seguinte é simples. Ela morreu. era como ela se chamava. que fico pensando: por aí.João Guimarães Rosa . Ao quê? Não me dê. Deveras se vê que o viver da gente não é tão cerzidinho assim? Artes que foi. dês. eu vejo que o senhor me divulga. a bacia. Mas uma tristeza que todos sabiam. até hoje em dia. mais amanhã. as esteiras. Morreu. Agora. um cobertor de baeta e minha muda de roupa. Mais hoje. uma imagem de santo de pau. Minha mãe morreu – apenas a Bigri. chocolateira. panela. uma tristeza do meu direito. De herdado.

do cidadão do sertão. Nunca falou em minha mãe. me olhando antes. – “Ah. por causa das chuvas numa viagem durada de seis dias.. e sou homem particular. roncice de paz. A pena. meu padrinho Selorico Mendes me aceitou com grandes bondades. por aí arriba. Ele era rico e somítico. ainda fazendeiro graúdo se reina mandador – todos donos de agregados valentes. purgo meus arrependimentos. também quase não falava. que aqui já é terra avinda concorde. para a Fazenda São Gregório. Mas gostava de conversar. a maior de todas. Altas artes de jagunçosisso ele amava constante – histórias. Mas. Até que um vizinho caridoso cumpriu de me levar. a vida vera é outra. adiante. Aqui também dele foi.Grande Sertão: Veredas trouxa. Nas coisas de negócio e uso. na beira da estrada boiadeira. turmas de cabras do trabuco e na carabina escopetada! – 150 – . como coube na metade dum saco. Tanto que cheguei lá.” – foi a sincera primeira palavra que ele me disse. Política! Tudo política. entre o rumo do Curralinho e o do Bagre.. onde as serras vão descendo.João Guimarães Rosa . no lidante. contava casos. e potentes chefias. de meu padrinho Selorico Mendes. Levei dias pensando que ele não fosse de juizo regulado. – “De não ter conhecido você. possuía três fazendas-de-gado. estes anos todos.

no Vau-Vau dona Próspera Blaziana. Carinhanha. – “Estive lá. e se descer esse São Francisco. cheias de homens com bacamartes. e pôs sede de suas fortes armas no arraial do jacaré. Mesma coisa no barranco do rio. Malhada e Manga – fez como quis. os Silva Salles na Crondeúba. seus jagunços mil. Simão Avelino na Barra-da-Vaca. se lembrava de quando Neco forçou Januária e Carinhanha. Dona Adelaide no Campo-Redondo. cada lugar é só de um grande senhor. com carta firmada pelo Capitão Severiano Francisco de Magalhães. Botavam até barcas. Januária. Major Urbano na Macaçá. tantos. ordeiros: ver São Francisco da Arrelia. Urubu. que sobraça o pau-de-fogo e vigia feito onça que come carcaça. comarca de Rio Pardo. nas eras do ano de 79: tomou todos os portos – Jatobá. cruzando para – 151 – . e tantos.João Guimarães Rosa . que era companheiro combinado do Neco. Ei.” Demais falasse. tendo conhecido o Neco. que era a terra dele. O pessoal que eles numeravam em guerra comprazia uma babilônia. Pilão Arcado. Xiquexique e Sento-Sé. Nisto que na extrema de cada fazenda some e surge um camarada. com sua família geral. Mozar Vieira no São João do Canastrão. no Alambiques. de sentinela. que aprova. o Coronel Camucim nos Arcanjos.Grande Sertão: Veredas Domingos Touro.

hóspede do Neco. ou o Lióbas. Me deu logo um punhal. só obedeciam e rendiam respeito. se gabava. foram esperar melhor sorte em Pedras-deMaria-da-Cruz. me deu até um facão enterçado. quase do tamanho de espada e em formato de folha de gravata. almocei. Debaixo da chefia dele. saindo para distâncias marcadas. Mais tarde.” Meu padrinho Selorico Mendes era muito medroso. e manejar porrete e faca. que tinha mandado forjar para próprio.. Mandavam tocar o sino da igreja. – “Sentei em mesa com o Neco. Contava que em tempos tinha sido valente. todas as pessoas importantes tinham fugido da Januária.. de parte a parte.João Guimarães Rosa . de recontar isso ele sempre se engrandecia. estrepoliu mais do que João Brandão e os – 152 – . soltando os presos. – “Neco? Ah! Mandou mais que Renovato. arrancavam o dinheiro em coletoria. Arrombavam a cadeia.. me deu uma garrucha e uma granadeira. goga.Grande Sertão: Veredas baixo e para cima o rio. Cavalaria de jagunços galopando. quando entravam numa cidade. Naquela dita ocasião. paravam uns oitocentos brabos.” Meu padrinho. bebi vinho. Queria que eu aprendesse a atirar bem.. a gente ouvia gritos e tiros. e ceiavam em Casa-daCâmara. Dia e noite. Abriam festa de bomba-real e foguetório. desamparadas de poder-de-lei.

usando muito bico de palavreado. porque para cuidar do trivial você jeito não tem. me agradando e dizendo que estimava como um favor.Grande Sertão: Veredas Filgueiras. Bom homem. Então meu padrinho teve uma decisão: me enviou para o Curralinho. Ele me olhou. com escrita de Neco – era recibo de seis ancorotes com pólvora e uma remessa de iodureto – a assinatura rezava assim: Manoel Tavares de Sá. um tempo – era homem de tão – 153 – . Vai.. e mesmo não era o nenhum trabalho notável. Nhô Maroto me pedia um ou outro serviço. até de botina e roupa que eu precisasse. Eu comia muito. porque padrinho Selorico Mendes acertava com Nhô Maroto de pagar todo fim de ano o assentamento da tença e impêndio. para ter escola e morar em casa de um amigo dele. cujo Gervásio Lê de Ataíde era o verdadeiro nome social. ao Mestre Lucas.. ele me disse: – “Baldo. Você não é habilidoso. A ser que. e sempre gostei do bom e do melhor. você carecia mesmo de estudar e tirar carta-de-doutor. de forma nenhuma.” Isso que ele me disse me impressionou.João Guimarães Rosa . alguma vez. Mas eu não sabia ler. Nunca neguei a ele meus pés e mãos. que de seguida formei em pergunta. acontece.” E meu padrinho me mostrou um papel. Nhô Maroto. Lá eu não carecia de trabalhar. a despesa não era pequena.

armazém grande. namorei falso. e de tão visível correto parecer. ah essas meninas por nomes de flores. Tanto sendo bizarro atencioso. seo Assis Wababa de tudo comerciava. A não ser a Rosa’uarda – moça feita. Curralinho era lugar muito bom. outros guisados.João Guimarães Rosa . Mas o mais certo de tudo é que um professor de mão-cheia você dava. e aquela moda de azedar o – 154 – . Assim Mestre Lucas me respondeu: – “É certo. casa grande. e mesmo assim nenhum de nós não tinha raiva dele. recheio bom em abobrinha ou em folha de uva. eles todos turcos. ele me determinou de ajudar no corrido da instrução. eu explicava aos meninos menores as letras e a tabuada. Passei lá esses anos.. de vida contentada. turca. desde o começo do segundo ano. seo Assis Wababa. nem com o passado não somava. diversas vezes me convidou para almoçar em mesa. asnaz. O que apreciei – carne moída com semente de trigo. dono da venda O Primeiro Barateiro da Primavera de São José – ela era estranja. ele me agradava. que não poupava ninguém: às vezes teve dia de dar em todos os meninos com a palmatória. e muito ladino. arranjei companheirice.” E. filha de negociante forte. dizia que meu padrinho Selorico Mendes era um freguesão. Aí. mais velha do que eu. Com os rapazinhos de minha idade. não separei saudade nenhuma.Grande Sertão: Veredas justa regra..

e me chamava de: – “Meus olhos. Mas eu nunca pedi coisa nenhuma a ele. mas com tamanha diferença de idade. a aravia. Eu não gostava dele. Hoje é que reconheço a forma do que meu padrinho muito fez por mim. me ensinou as primeiras bandalheiras. e não se valia. e até os meninos. e as completas. que juntos fizemos. me ver – na verdade.Grande Sertão: Veredas quiabo – supimpas iguarias. Nunca ralhou comigo. e me dava de tudo. duma formosura mesmo singular. Os doces. irmãozinhos de Rosa’uarda. Sempre me dizia uns carinhos turcos. e extraordinários pretos. Só o que me invocava era a linguagem garganteada que falavam uns com uns. no fundo do quintal. nem desgostava. Toda a vida gostei demais de estrangeiro. Dez vezes mais me desse. num esconso. Cada mês de novembro. dona Abadia. Assim mesmo afirmo que a Rosa’uarda gostou de mim. ele que criara amparado amor ao seu dinheiro. ele aproveitava para tratar de vender bois e mais outros negócios – e trazia para mim caixetas de doce de buriti ou de araticum. ele veio ao Curralinho. requeijão e marmeladas.João Guimarães Rosa . mandava me buscar. e que tanto avarava. também. Estimei seo Assis Wababa. Pois. também. fiz com muito anseio e deleite.” Mas os dela era que brilhavam exaltados. Mais certo era que com ele eu não – 155 – . a mulher dele. várias viagens.

Mas por isso ele não me desejou mal. ficou entusiasmado. meu padrinho Selorico Mendes. Assim que saí da cama e fui ver se era de se abrir. E. quando teve notícias de que eu era o jagunço. Era mês de maio. definitivo. Acabei. no São Gregório. em folha de testamento: das três fazendas. o frio fiava. o senhor vai ver. duas peguei. com que no fim de sua velhice se ajuntou. em má lua. destaco: quando velho. mas por preguiça mal corrigida. Depois pouco que voltei do Curralinho. grande fato se deu. Certa madrugada. Ali entraram com uma aragem que me deu susto de possível reboldosa. já estava pondo para dentro da sala uns homens. eu. todos de chapéu-grande e trajados de capotes e capas. velho. os cachorros todos latiram. Agora. E me deixou por herdeiro. a curtir arrependimento por ele.Grande Sertão: Veredas soubesse me acostumar. nem entendo. Só o São Gregório foi que ele testou para uma mulata. Acho que nós dois éramos mesmo pertencentes. fugindo do São Gregório. Nunca mais vi meu padrinho. não por fraca saúde. alguém estava batendo.João Guimarães Rosa . ele penou remorso por mim. derradeiramente. que ao senhor não escondo. Decerto. por razão outra. Disso não fiz conta. com a lamparina na mão. arrastavam esporas. Admirei: tantas – 156 – . Mesmo o que recebi eu menos merecia. quando tão moço. eu custava muito para me levantar. que eram seis.

por uma questão política. com uma admiração toda perturbosa. o chapéu dele se desabava muito largo. Quando voltei. pojava volume. Dos lados. Mas eles não eram caçadores. Um. se trespunha diversa. que coasse café quente. se chamava Ricardão: corpulento e quieto. depois eu soube – que seus segundos. Ao que farejei: pé de guerra. o principal. com seu irmão Aluiz Totõe.Grande Sertão: Veredas armas. Todos continuavam sem tomar assentos. Dele. caprichado em tudo.João Guimarães Rosa . logo entendi. Ele. Mas para quem ele sempre estava olhando. Vi que era homem gentil. Alarico Totõe sendo um fazendeiro do Grão-Mogol. pessoas finas. Tinham encomendado o auxílio amigo dos jagunços. que a lamparina arriava na parede. era para o chefe dos jagunços. Adrede Joca Ramiro estava de braços cruzados. chamar alguma das mulheres. Meu padrinho mandou eu ir lá dentro. com – 157 – . Meu padrinho escutava. explicando. na maior suspensão. conhecido de meu padrinho. aprovando com a cabeça. E o senhor sabe quem era esse? Joca Ramiro! Só de ouvir o nome. um dos homens – Alarico Totõe – estava expondo. gente de bem. eu parei. na imponência. até a sombra. ombreavam com ele dois jagunões. E vi que era um homem bonito.

mas chapéu redondo de couro. que se que uma cabaça na cabeça. não notei de uma vez. – 158 – . com o chapéu raso em cima. E mandou que eu fosse guiar aquela gente. Virou. a cacunda amontoava. Pouco..João Guimarães Rosa . As pernas. A sombra do chapéu dava até em quase na boca. num fechado. Na hora. até aonde o poço do Cambaubal. O outro – Hermógenes – homem sem anjo-da-guarda. – “Tem ótimo reconditório. Naquela hora. me lembro mal. enegrecendo. As calças dele como que se enrugavam demais da conta. mato caapuão. quando ele caminhou uns passos. mas. mas atrás de muitas fumaças.” – meu padrinho consentiu. Alarico Totõe pediu que precisavam de um recanto oculto. mas umas costas desconformes. pois que viajavam de noite. O Hermógenes: ele estava de costas. Reproduzo isto. Aquele homem se arrepanhava de não ter pescoço. dando surpresa e desmanchando rastro. e fico pensando: será que a vida socorre à gente certos avisos? Sempre me lembro dele.. onde a tropa dos homens passasse o dia que vinha. No terminar. muito abertas. eu estava querendo que ele não virasse a cara. se arrastava – me pareceu – que nem queria levantar os pés do chão. pouco. fui receando.Grande Sertão: Veredas um modo simpático de sorriso. enfolipavam em dobrados. compunha o ar de um fazendeiro abastado.

e estribeira. de certa distância. E aquele Hermógenes veio para sair comigo. quando o animal lambe o freio e mastiga. viemos até onde estavam esperando os outros. no baixo da estrada. Um estado de cavalos. Nenhum não tinha desapeado. desse gostei. do aflor. ou o coscós. o pêlo deles. falei. aquela gente estava toda calada. em tudo ali. Assim Joca Ramiro corria pronto os olhos. sorrindo franco. Couro raspa em couro. Os cavaleiros. Em que. dois passos. de suor velho.João Guimarães Rosa . enchia espaço aquela massa forte. Ricardão ria grosso. O orvalho pripingando. semeado das poeiras do sertão. Aí mês de maio. eu a pé. a cara muito galharda. antes de poder ver eu já pressentia. E deviam de ser perto duns cem. De repente. estribo.Grande Sertão: Veredas Primeiro. A bem dizer. tine um arreaz. Respirei: a gente sorvia o bafejo – o cheiro de crinas e rabos sacudidos. baciadas. eles dois a cavalo. com muita viveza no olhar. os cavalos dão de orelha ou batem com o – 159 – . com a estrela-d’alva. e pôs as mãos nos bolsos. até hoje se chama. tomou-se café. Mas uma sela range de seu. mais o outro homem – um cabeça-chata alvaço. Alaripe se chamava. E os grilos no chirilim. que nem o dum grande rio. Adonde o movimento esbarrado que se sussurra duma tropa assim – feito de uma porção de barulhinhos pequenos.

A gente se encostava no frio. divulgava os vultos muitos. bridava. Eu não sentia os homens. é eu. apartado dos mais. o deduzir dos grilos e a cavalhada a peso.Grande Sertão: Veredas pé. escorrido. E um cavaleiro ou outro tocava manso sua montada. E. Alaripe!” – o de lá respondeu. as pontas dos rifles subindo das costas. Daqui. o formar daqueles cavaleiros. um sopro. Ao o ar indo ficando cinzento. mais o siô Hermógenes. É diferente. – “A bom. Veio vindo para cá.. E os chapéus rebuçados. sabia só dos cavalos. Porque eles não falavam – e restavam esperando assim – a gente tinha medo. o cavalo dele era escuro. Ali deviam de estar alguns dos homens mais terríveis sertanejos. um meio-arquejo. em cima dos cavalos teúdos. se divisava. entreluz da aurora. dali. avançando naquele bolo. escutava o orvalho. montados. se via um cavaleiro. estalinho de estrelas. o mato cheio de cheiroso. de – 160 – . inteiro. quando o céu branquece. Grandeúdo. feito árvores crescidas lado a lado.João Guimarães Rosa . E o senhor me desculpe. – “Capixum. Mas os cavalos mantidos. aos poucos. Dava o raiar. era um alazão de bom pisar. mudando de lugar. Soubesse sonhasse eu? Decerto de guarda.” – o cabeçachata falou aviso. parados contrapassantes..

pois tinham navegado na sela a noite toda. eles conversavam. no capim molhado meus pés – 161 – . Sem mais delongas nenhumas.” – o Hermógenes contestou. diziam graças. também. se aproximou outro um. uê. voz que se safava. Deu ainda um barulho de boca e goela. O Hermógenes tinha voz que não era fanhosa nem rouca. cadê a moça virgem?” Largamos a estrada. Assim – fantasia de dizer – o ser de uma irara. de sotochefe. Eu não queria virar e espiar. é saudade. De junto com o Capixum. Presumi que estavam muito contentes de ganhar o repouso de horas. mano velho. agora. Mas até hoje eu represento em meus olhos aquela hora. e.. qual um rosno.. saí. alguns riam. achassem que eu era abelhudo. que o Hermógenes tratou de sié-Marques. alguém. tudo tão bom. – “De paz. o que é. Um falou mais alto. – “Aoh.Grande Sertão: Veredas estar retrasando em tantas minudências. Atrás de nós. irmão?” – aquele sié-Marques perguntou. mas assim desgovernada desigual. eu ouvia os passos postos da grande cavalaria. com seu cheiro fedorento.João Guimarães Rosa . puxando todos para o Cambaubal. Mas. o regular. esse empurro continuado. caminhando ao lado do cavalo do Hermógenes. aquilo era bonito e sem tino: – “Siruiz. tratando de minha pessoa. Amigo que veio mostrar à gente o arrancho.

volto mais não.. minha vida – vim de lá. Não tardava já vinham aparecendo. esperar a chegada da tropa de burros. eu disse. convido meu coração. Mas vinham com os cincerros tapados. com orvalho. Algum. na boca da ponte.. tafulhados – 162 – . com os cargueiros. Corro os dias nesses verdes. Dia de maio. carnaúba – sal do chão. Vim de lá...Grande Sertão: Veredas se lavavam.. cantou. volto mais não?. Lembrança da gente é assim. meu boi mocho baetão: buriti –água azulada. adiante. Me emprestaram um cavalo. com o Alaripe.. palavras diversas. Vinham quebrando as barras. aquele Siruiz.. Remanso de rio largo.João Guimarães Rosa . viola da solidão: quando vou p’ra dar batalha.. para mim a toada toda estranha: Urubu é vila alta. Um lote de dez mulas. e eu fui. mais idosa do sertão: padroeira.

com Joca Ramiro. só eu mesmo merecia confiança de ir. meu padrinho chegou. para o homem. e os Totões. Meu coração restava cheio de coisas movimentadas. Não vi mais o acampo deles. Mas eu tinha de levar um cavalo adestro. O dia já estava clareando completo. Não pude. não faziam nenhum rumor. Fui. na vinda. buscar um homem chamado Rozendo Pio. com desgosto.João Guimarães Rosa . na Serra das Trinta Voltas. Se separavam em pequenos golpes. E esse Rozendo Pio era tratantaz e tolo. Padrinho Selorico Mendes mandou que eu fosse no O-Cocho. durasse seis ou sete. quase não conversava. sem perigo maior. Demorou muito. o bando estava pronto para sair. ele nem sabia de nada. esse homem – meu padrinho me disse – rastreava. modo de caber em duas noites. não quis dar demonstração. Quando chegamos. Mas. me trouxe outra vez para casa. se não. com desculpa de arranjos. Meu padrinho insistiu. Guiamos os tropeiros também para o Cambaubal. Três léguas.Grande Sertão: Veredas com rama de algodão: afora o geme-geme das cangalhas. o que. debaixo de todos os segredos. aí. as esporas tilintim. – 163 – . No caminho. Ricardão. Meu padrinho tinha mandado amarrar os cachorros todos da fazenda. Nem fazia prazer naquilo. três léguas e meia longe. tapejar o bando de Joca Ramiro por bons trilhos e atalhos. Sendo assim. era o anoitecido. de jagunços. E era para ele vir.

João Guimarães Rosa . tivesse sorte. As lutas dos joca-ramiros.Grande Sertão: Veredas Se foram. Até tinham um mestre-ferrador. aquela autoridade enorme no entremeamento. o de se ver. meu padrinho só falou nos jagunços. Meu padrinho levara aquele dia todo no meio deles. e que Joca Ramiro estava ali junto de – 164 – . as manhas traçadas para se ganhar em combate. com sua tendinha e os pertences: uma bigorna e as tenazes. aquele dormir de ordem. as coisas todas regradas. As sacas de farinha. os barulhos. Nem nada faltava. caixote com pães de sabão para cada um lavar a roupa e o corpo. Semanas seguintes. começava a dar em mim um enjôo. Contava: o cuidado nos arranjos. e capanga de alveitar. fole de mão. a munição bem zelada. ferramenta exata. De ouvir meu padrinho contar aquilo. tantas e tantas arrobas de carne-de-sol. com vários sortidos flames de sangrar cavalos adoecidos. podia impor caráter ao Governo. Dito que Joca Ramiro era um chefe cursado: muitos iguais não nascem assim – dono de glórias! Aquela turma de cabras. maço de estórias de toda raça de artes e estratagemas. Parecia que ele queria se emprestar a si as façanhas dos jagunços. de que tinha ouvido sincera narração. se comprazendo sem singeleza. E as mais coisas meu padrinho descrevia com muito agrado. Achei mesmo que tudo tinha perdido a graça.

assim. nenhum. não digo. e meus beiços não dão para saber assoviar. Num lugar parado. feito bichos e árvores. o refinfim do – 165 – . porque nunca tive entôo de voz. Eu achava. versos naquela qualidade. dos verdadeiros assuntos. o senhor reflita. em mim bem morreram. Mas reproduzia para as pessoas. na roça. Eu mesmo por mim não cantava. estúrdia. carece de a gente de vez em quando ir alterando os assuntos. montão. Não me lembro de nenhum deles. Agora. Não estou caçando desculpa para meus errados. Pois foi – que eu escrevi os outros versos.João Guimarães Rosa . obedecendo mandados.Grande Sertão: Veredas nós. remidos. me adoçou tanto. e todo o mundo admirava. que eu achava. Fiz muitos. Meu padrinho era antipático. por mesmo eu não saber. sim. e que a total valentia pertencia a ele. O que eu guardo no giro da memória é aquela madrugada dobrada inteira: os cavaleiros no sombrio amontoados. estão goros. que na ocasião prezei. não. todos sentidos por mim. Então? Mas esses. Ficava mais sendo. não deram cinza. meus e meus. que reinou para mim no meio da madrugada. ah. Selorico Mendes. O que me agradava era recordar aquela cantiga. que dei para inventar. de espírito. de minha saudade e tristezas. Aire. tiro sua atenção para um ponto: e ouvindo o senhor concordará com o que. Simples digo ao senhor: aquilo molhou minha idéia. muito recitados repetidos.

os grilinhos do campo. minhas armas. Perguntar a mais pessoa nenhuma.João Guimarães Rosa . acabei me esquecendo quem – me disseram que não era àtoa que minhas feições copiavam retrato de Selorico Mendes. Algum significado isso tem? Meu padrinho Selorico Mendes me deixava viver na lordeza. Alguém há de achar algum regime melhor? Mas. a estrela-d’alva. Fizesse ou não fizesse. dois punhados de farinha no bornal. não. Achasse – 166 – . não sou especula. Ajuntei meus trens. que eu desouvia. Pareceu até que. ditos e indiretas. eu daquilo já sabia. fugi de lá. Que ele tinha sido meu pai! Afianço que. Uma coisa ele não tolerava. numa grande desonra. o pisar dos cavalos e a canção de Siruiz. de trabalhar seguido.Grande Sertão: Veredas orvalho. No São Gregório. um dia – de tanto querer não pensar no princípio disso. Assim já tinha ouvido de outros. querer querendo. chegava. eu não podia. E. Eu vivia com o meu bom corpo. Fui até na cozinha. do razoável de tudo eu dispunha. e era só: que alguém indagasse justo quanto era o dinheiro que ele tinha. eu nem carecia. Não desesquentei a cabeça. de algum encoberto jeito. conduzi um naco de carne. no escutar. selei um cavalo. Perguntar a ele. Com isso eu nunca somei. mas não me louvava. fosse? Ah. aos pedacinhos. meu padrinho me apreciava. em roda de mim o tonto houve – o mundo todo me desproduzia.

Toquei direto para o Curralim. Gostasse da Rosa’ uarda. Raiva bem não era. às tantices. Virei bem fugido. Razão por que fiz? Sei ou não sei. Ia para a escola de Mestre Lucas. não. Assim. Arremessei o cavalo. desarrazoado. Único reger era me empinar e assoprar em esta minha cabeça.Grande Sertão: Veredas algum dinheiro à mão. disso eu não tinha nenhum escrúpulo. Eu fazia minha raiva. pegava. agora por muitos momentos eu achava consolo em que ela me visse – que soubesse: eu. perto da casa de Mestre Lucas. Ante antes ia para o seo Assis Wababa – aquela hora eu queria só gente estranha. acho que de bês não pensei não. morava um senhor chamado Dodó Meireles. à parva. Não ia para a casa de Nhô Maroto. eu pensava claro. o vexame que me inçava não me dava rumo para continuação. aí a confusão e desordem e altos desesperos. com minhas armas matadeiras. A lá. mais aí nas delícias dela minha idéia não podendo se firmar – porque aumentava o desamparo de minha vergonha. De as. isto é: só uma espécie de despique a dentro. que tinha uma filha chamada Miosótis.João Guimarães Rosa . essa assim eu amava? Ah. galopei demais. tinha dado revolta – 167 – . muito estrangeira. Quase mesmo aquilo me engrossava. feito o vicio dum ruim prazer. essa mocinha Miosótis também tinha sido minha namorada. estrangeira inteira! Só fosse um pouco para ver a Rosa’uarda. Eu queria o ferver.

João Guimarães Rosa . aturar remoque sei lá de todos. gostava era de Rosa’uarda. me repartir no miudinho de cada dia. Vinha. Não me importava. pelo cerrado a fora. em rogo de misericórdia. – 168 – . aos gritos. Adramado pensei em minha mãe. cresceu minha raiva. Como o cavalo. A bis. caçar meio de vida. Tive outras lágrimas nos bobos olhos. capaz de capaz! Daí. eu sabia: o que eu estava querendo era isso mesmo. ele. até nos meus pés se ajoelhava. e meu padrinho ia ter o pronto aviso. tão penoso aborrecido. o que era que eu ia fazer. Eu tinha medo por causa de minha vida. Mas aquilo se fingia mal. Eu não gostava daquela Miosótis. Mas Nhô Maroto havia de logo saber que eu tivesse chegado no Curralim. Sosseguei as esporas. com todo querer. E não viesse? Se demorasse a vir? Aí.Grande Sertão: Veredas contra meu padrinho. escureceu o pêlo de todo suor. ela era uma bobinhã. então. me prometendo tudo. me pedisse para voltar. e afirmei alto que seria só por conta dela que eu estava procedendo pelo avesso. ah. De repente. a Mestre Lucas eu tinha de dar uma explicação. Ele viesse. danado no animal. quando entramos no Curralinho. Viemos a passo de marcha. espécie de minha vergonha esteve sendo maior. saíra de casa. gritei. no São Gregório nunca tinha pensado nela. Mandava alguém me buscar.

ri. mas me governei: trancei as pernas. Mas estava lá o Vupes. para se casar com um Salino Cúri. me deram trato regozijante. Só a praga duma surpresa me declararam: a de que a Rosa’uarda agora estava sendo noiva. Me alembro: eu entrei no que imaginei – na ilusãozinha de que para mim também estava tudo assim resolvido. Alemão Vupes. com o que o Vupes noticiava: que em breves tempos os trilhos do trem-de-ferro se armavam de chegar até lá. acautelado sisudo. nos derradeiros meses para lá vindo. conversei. Das vezes que viera a passar pelo Curralinho. assim fossem cuidar que essa minha viagem era por tramar importante encargo para o meu padrinho Selorico Mendes. pelos motivos pessoais. Tresdobrado homem. Seo Assis Wababa oxente se prazia. senhor-sim. em trela. ele já era meu conhecido. outro turco negociante. No que jantei. que eu disse – seo Emílio Wusp.João Guimarães Rosa . senhor-não. tristeza e alívio – aquele amor não seria mesmo para mim. trouxe canjirão de vinho. estabelecido. Assumi. – 169 – . o progresso moderno: e que eu me representava ali rico. que o senhor diz. Mesmo vi como seria bom. se fosse verdade. Seo Assis Wababa se engordava concordando. e indagando dos grandes preços.Grande Sertão: Veredas Em casa de seo Assis Wababa. aquela noite. comecei cara de falar pouco. Nublo em que me vi. o Curralinho então se destinava ser lugar comercial de todo valor.

Porque. eles todos mesmo vão muito mais me respeitar.. Assim vim andando.. vira mais rude e reprovante. num desastre de instante. em seu serviço?” Minha bestice. me senti rebaixado demais. o só ensejo das coisas me sisava.. já tinha falado. garantindo que era por gracejo. mas seo Assis Wababa e o Vupes me olhavam a menos. e me louvou. agora aquela hora. Nem ponderei. me despedindo bem. com desconfianças.Grande Sertão: Veredas Sendo que entendia tudo de manejar com armas. Mesmo dizia: – “Senhor atira bem. Mordi boca. descaroçador de algodão. uma vez. se viajar vendendo ferramentas por aí.. mas viajava sem cano nenhum. no sertão. mediante desespero. e em mim eu já estava arrependido. eu assim. de nascença. eu tinha pegado a pensar – o que resolvia minha situação era trabalhar para ele. com toda a velocidade. vinha andando e – 170 – . na horinha. “Níquites!” – conforme que o Vupes constante exclamava. mas disse: – “Seo Vupes. Ali nem acabei de falar. dizia: – “Níquites! Desarmado eu completo. Aonde? Só se fosse ver o Mestre Lucas. o senhor não quererá me ajustar. Ainda quis emendar. saber tão bem. Dali logo saí. estava lá o Vupes.” Ele me viu afinar mira. oh. Idéia nova que imaginei: que. A contra mim tudo contra. Mas. a bem.João Guimarães Rosa . porque atira com espírito.” Soante que dissesse: sempre o espírito é que mata. assim foi. Sempre o espírito é que acerta. Me alembro. virando patrão da gente. segurar de não respirar. mesmo pessoa amiga e cortês. por eu.

agora é que vejo. Achei também tudo o natural. para começar vida – 171 – . depois.. pergunto: em sua vida é assim? Na minha. eu estava era cansado. Ah. por cabelo por um fio. lindas pernas as lindas grossas. expliquei que não: que eu tinha merecido licença de meu padrinho. quando Mestre Lucas me perguntou se eu vinha era de passeata. ou de recado da fazenda. qual é então que teria sido o meu destino seguinte? Coisa vã.João Guimarães Rosa . eu casava contigo e o prazer era nosso. um clim de clina de cavalo. Isso. tempos. em caso curto de acaso foi que se conseguiram – pelo pulo fino de sem ver se dar – a sorte momenteira. mas totalmente. e se não fosse. o senhor veja: cheguei em casa do Mestre Lucas. as coisas importantes. não tivesse sido.. às vezes. tão natural. E. que não conforma respostas. Mas. quando foi arte se cantar uma cantiga: Seu pai fosse rico. ela no vestido de nanzuque. tivesse negócio. digo ao senhor. ele me saudou. Ao que. nunca havia de ser para meu regalo.Grande Sertão: Veredas agora era que eu pegava a pensar livre e solto na Rosa’uarda. Dum modo senti. cada acaso. As vezes essa idéia me põe susto. como me recordei. todas.

Digo: ele me ouviu. no Curralim. ele estava remexido no meio de um assunto.João Guimarães Rosa . garantia boa paga. para o ensino de todas as matérias estava encomendando um professor. na fazenda Nhanva. agora me levavam. tudo o que pudesse ter serventia. Um entusiasmo nosso me botava brioso. não podia. isso. por uns tempos. Dona Dindinha. – “Ei. que preparava o desejo dele para aí me acreditar. Sabe o senhor por quê? Porque. tinteiro. esperando decisão. Mas acreditou. era homem de sua situação. justo. claro. a fito de desenvolver mais estudos e apuramento só de cidade. até melhor. mulher – 172 – . Dizendo o que disse. e disse: – “Riobaldo. Com urgência. naquele dia.Grande Sertão: Veredas própria em Curralinho ou adiante. Eu queria ir? – “O senhor acha que eu posso?” – perguntei. no Palhão. Já que estava acondicionando numa bruaca os livros todos – geografia. pode!” – o Mestre Lucas declarou. cartilha e gramática – e borracha. régua. altas beiras do Jequitaí. para principiar qualquer tarefa. pois você chega em feita ocasião!” Aí me explicou: um senhor. lápis. quase que eu sozinho nunca tive coragem. para o seguinte: dois camaradas do dito fazendeiro estavam ali no Curralinho. Aceitei. eu mesmo jurava que Mestre Lucas não ia acreditar. que deixasse alguém dando escola no lugar dele. Melhor que era para logo. Assim queria que Mestre Lucas fosse. arimética.

em maiores me vi... Mas sujeitos de seu trato. quase trinta léguas. Patrulhas de cavaleiros em armas. Ele era imediatamente estúrdio.. dei meio para duvidar. eram capangas. e com braços que pareciam demais de compridos. vestido de brim azul e calçando botas amareladas. Mas. mas no meio dos tocadores vinham três soldados. sem altos-e-baixos nem as maiores asperezas. E era vistosa fazenda assobradada. magro. me deu umas lágrimas de bondade: – “Tem tanta gente ruim neste mundo. um pouco mais para baixo do que o tamanho mediano. Meus companheiros quase que não me informavam. Era nervoso. troco de conversa de vigiação. de nada ou nada. nem cheguei a ver aquela menina Miosótis. me deram toda consideração. no despedir. com grandes currais e um terreirão. Chegar lá declamava surpresa. Vi logo o dono. – 173 – . meu filho. A Rosa’uarda. mesmo antes da gente entrar em terras do Palhão. A Nhanva enxameava de gente homem – pralaprá de feira em praça.” Aí. vi.Grande Sertão: Veredas de Mestre Lucas.João Guimarães Rosa . Viajamos juntos quatro dias. de tanto que podiam gesticular. E você assim tão moço. tão bonito. me abraçou.. e uma tropa de burros cargueiros. Tinham outras ordens. em tanto percebi. de longes olhares. bom tempo beirando o Riachão e enxergando à mão esquerda os vultos da Serrado-Cabral. fui vendo coisas calculosas. Os dois camaradas. Mais perto.

. Apressei o passo. ele veio vindo. ele já soubesse. com porção de falas e agrados. despenteado alto.. o grande revólver na cintura. saudou. então. foi estupefacta. para mim. Disse ao senhor? – eu estava pensando que ia dar escola para os filhos dum fazendeiro. ah – esse quem era – o homem? Zé Bebelo.João Guimarães Rosa . Uma doidice. e as quatro contas. Adiado eu disse: – “Sou o moço professor. também. caçoando: – “Me vem com o andar de sapo. consumia jornais. O comum. Assim ler e escrever. Quis antever os cadernos. Me avisou. Remexeu. mas. Me ferrou do braço. Esbarrei. subiu a escada comigo. Estudante sendo ele mesmo. me ouvindo. e tudo foi – 174 – . deu risada – de certo nem estava sabendo quem eu era. tarabuz. pegar com as mãos. aprazava engano. Me fiz mouco. E gritou.. o destempo de estar sendo debochado se irou de mim. E aquele cabelo bom. tudo nele. topete arrepiadinho.. ligeiro. me vem. de quê? Ah.” A alegria dele. livros. lá dentro. um lenço no pescoço dele esvoaçava. Mas ele veio para mim. Me olhou frenteante. e ele esbarrou. com Zé Bebelo. com as mãos nas cadeiras. me levou para um quarto. parecia até que querendo me esconder de todos. tirava mais para fora uma real novidade. Ah-oh-ah.Grande Sertão: Veredas Fui indo. com um modo sensato de simpatia. Engano. A fixe de fato. virava diferente adiante.

contra-fim. parecia ter até raiva de eu saber e não ele. até que estico um cochilão. apitava num apito. Sobrevinha com o livro. bom teatro. aquilo semelhava um circo.Grande Sertão: Veredas arrumando na mesa grande do quarto. o que os livros dão e não. Mas. Mas – e aí comigo falou sério – naquilo se tinha de sungar segredo: eu visse. Zé Bebelo se tinha senhoreado de reter tudo. O que ele queria era botar na cabeça. duma vez. Ânsia assim e anfa. ministrava aquela brama de ordens: dez. Ao tanto eu demorava.” Pela sua vontade dele. Corrido. estávamos debulhando páginas.João Guimarães Rosa . a gente começou. Aí estudo. despeitos de ainda carecer de aprender. e me deito.” Nesse mesmo ido dia. chegava na janela. o cantarolado. simples. sabia muito mais do que eu mesmo soubesse. e de repente se levantava ele. Queimava por noite duas. e poder de entender demais. Ele era a inteligência! Vorava. O pessoal corria. reperguntava. Aí. três velas. Ele mesmo falava: – “Relógio não vou olhar. me fazia de queima-cara um punhado de perguntas. cumpriam. com menos de mês. que me durmo. e perguntava. De dia. me fino fiz. eh. estudo. Aquele homem me exercitou tonto. senhor-jesus-cristo que assoviava. vinte executações duma vez. passava de lição em lição. – “Vamos constar é que estou assentando os planos! Você fica sendo meu secretário. nunca achei quem outro. ô. – 175 – . a alegria dele ficou demasiadamente. Cochilão me vem: então espairo o livro.

que seria: romper em peito de bando e bando. de muito coração: e era de ser deputado.. más bandas. Porque eu estava sabendo que – 176 – . errando a esmo.. Se espocava às gargalhadas. Porque ele tinha me estatutado os todos projetos. esmorecido e escabreado. Como estava reunindo e pervalendo aquela gente. O fim de tudo. enche que ventava. por grandes fatos. me dar quinau. me fez firmes elogios – “Siô Baldo. que você não se arrependerá. foi que ele ficou gostando de mim.. siô Baldo. próprias de sua idéia lá dele – e sendo feliz de nessas dificuldades me ver. para sair pelo Estado acima. Só aí.” – me disse – “. mas antes prosseguir sendo o secretário meu. me gratificou em dinheiro. Me deu um abraço.Grande Sertão: Veredas treteava no explicar.” Soprou. Norte. já tomei os altos de tudo! Mas carece de você não ir s’embora. relimpar o mundo da jagunçada braba. não. mostrar no livro que eu estava falso.. eu )a ignorante. até o último. espalmava mão.João Guimarães Rosa . Ai-ai-ai d’ele atalhar as minhas palavras. Aponto que vamos por esse Norte. estou todo: entro direito na política!” Antes me confessou essa única sina que ambicionava. corrigir o dito. em comando de grande guerra. acabar com eles. Pediu segredo. e eu não gostei. só. digo. liquidar com os jagunços.. – “Somente que eu tiver feito. expendia outras normas. caloteava. Certo..

.. Agora. E mesmo. amansava animal de maior brabeza – burro grande ou cavalo. desfrutável e escurril. ele cuspia em riba e desconhecia. duelava de faca. das Aroeiras.. trouxados numa bainha só! Atirava e tanto com qualquer quilate de arma. Ah. laçava e campeava feito um todo vaqueiro. causa que. parecia não ter nada impossível.. Ô homem couro-n’água. para ele. Zé Bebelo era o do duro – sete punhais de sete aços.João Guimarães Rosa . de nome. sem parar de pôr. que até um apelido em si se apôs: Zé Bebelo. mesmo desse jeito. o pessoal todo não regateava a ele a maior dedicação de respeito. sempre certeira a pontaria. já está falecido. Por via de sua macheza. ou cada parente de medo. com tanta devoção especial. – 177 – . nos pormenores. temos de render este serviço à pátria – tudo é nacional!” Esse que já tinha morrido.. era Joãozinho Bem-Bem. tinha estudado a vida dele. Se dizia. e medo. – “O único homem-jagunço que eu podia acatar. Com tanta bobéia assim. Mas. O mundo é assim. em verdade. de redondeante fama. enfrentador! Dava os urros. e ai de quem pensasse em poitar olho de chacotas: morria vertiginoso. nos espíritos solertes de onça acuada. por detrás dele até antecipavam alcunha: “o Deputado”. que ele falava. siô Baldo. e botava paz em qualquer rutuba. era José Rebelo Adro Antunes. Contavam: ele entrava de cheio.. pessoalmente.Grande Sertão: Veredas todos já aventavam aquela toleima.

ditar as boas ordens. por muitos homens. preenchendo a – 178 – . gozar senhoras casadas. Daí. depois. ou isso de se expor padre sacerdote nu no olho da rua. e ainda a cambada dando morras e aí soltando os foguetes! Até não arrombavam pipas de cachaça diante de igreja. Zé Bebelo tinha de se esbarrar. Só eu que sou capaz de fazer e acontecer. com lata amarrada na cauda.Grande Sertão: Veredas – “Sei seja de se anuir que sempre haja vergonheira de jagunços. o marido obrigado a ver? Ao quando falava. A gente devia mesmo de reprovar os usos de bando em armas invadir cidades. remediando a saúde de todos. então reluzia perfeito o Norte. repunha: – “Ah. saquear na sebaça. a apitar o apito. com fogo que puxava de si. siô Baldo. mais renovado. só para tudo destruírem. arrasar o comércio. baseando fábricas. escramuçar o promotor amontado à força numa má égua. com ira razoável. de cara para trás. estável que abolisse o jaguncismo. neste nosso Norte não se vai ver mais um qualquer chefe encomendar para as eleições as turmas de sacripantes. do civilizado e legal!” Assim dizendo. na verdade sentava o dizer. botando pontes. e deputado fosse. desentrando da justiça. daqui a uns meses. vou. Sendo porque fui eu só que nasci para tanto!” Dizendo que. barrear com estrumes humanos as paredes da casa do juiz-de-direito. voltava para perto de mim. a sobre-corja? Deixa. cujo vou.João Guimarães Rosa . que. ia até na varanda ou na janela. e ofender as donzelas e as famílias.

Ia me enjoando. Elas vinham vindo. monte de munição.. quase todo dia. mais tinham de baratear. Porque completava sempre a mesma coisa. dão logo em abusos. Mas. obra de légua dali. Demais.Grande Sertão: Veredas pobreza.. estreando mil escolas. Começava por aí.João Guimarães Rosa . de tudo ali se prazia fartura confortável! Abastada comida. em missão. entrei de amizade com os capangas. durava um tempo. aonde estavam arranchadas as mulheres. eu soube que era delegado. patuléias. Nas folgas vagas. se não eles por si providenceiam. E o cobre para semanal de pagamento. – “Melhor. eu ia com os companheiros. Não faltava esse bom divertir. Aí lordeei. que conversavam em sozinhos com Zé Bebelo. se não tem à mão estadas raparigas? Ond’é?” Mesmo cachaça ele fornecia. gente de cidade. roupas e calçados para os melhores. que. Me acostumei com o fácil movimento. tantas. armamento de primeira. Sempre chegavam pessoas de fora. crescendo voz na fraseação. secretário sendo. era ruim ou era boa? Se melhor era.” – isto explicava. Zé Bebelo aprovava: – “Onde é que já se viu homem valer. E ele me apresentava com a honra de: Professor Riobaldo. com regra. pois nenhum daqueles – 179 – . Arre. mais de cinqüenta. De um. no Leva. o muito instruído no jornal. eu estava feito um inhampas. minha vida na fazenda.

Com eles eu estava vindo. e o pessoal perto por uns mil. números e diversos. digo que gostei. quando eu mais não quisesse. mas ajeitando seu meio de viver. por vales e montes. Oi. e ele dava baixa e alta de me ir m’embora. um araral. e cavalos que davam até medo de não se achar pasto que chegasse. só em romance descrito. Parecia. guerreiramente. Se amanhecia num lugar. diversidade de terras. amanuense. Vinha. o alarido! Aos quantos gritos. Me chamou para junto. era só opor um aceno.Grande Sertão: Veredas homens estava ali por amor-de-deus. Eu avistava as novas estradas. O que me animou foi ele predizer que. montado num formudo ruçopombo e com um chapéu distintíssimo na cabeça. O teor da gente se distraía bem. Acompanhado dos chefes-de-turma – que ele dava patente de serem seus sotenentes e oficiais de seu terço – Zé Bebelo. a gente toda. De glória e avio de própria soldadesca. eguando bem. veio o dia de se sair. revôo avante de pássaros – o senhor mesmo nunca viu coisa assim. companheiragem. o senhor vê. A passeata forte. bons repousos. vistoriava. Diziam que era dinheiro do cofre do Governo. tudo o que podia – 180 – . para por ordem dele assentar nomes. Digo que fui. para conhecer esse destino-meu-deus. A tal que. pronta comida. repassava daqui p’r’ali. enfim. eu tinha de ter à mão um caderno grosso.João Guimarães Rosa . se ia à noite noutro. então.

em vez de estafeta. Zé Bebelo mandou dispor uma tábua por – 181 – . que vínhamos mais Zé Bebelo mesmo em capitania. Passamos perto de Vila Inconfidência. Era. outro se separou da gente no Só-Aqui. Eu tinha ficado com ruma de foguetes. Mas Zé Bebelo me mandou: – “Tem paciência. o que se disse.. você espera. Sabia o que queria. Eu não vi essa célebre batalha – eu tinha ficado na Pedra-Branca. beira do Água-Branca.” Se deu. quando se formar combate!” – uns proseavam. Só que. não. a galope. outro pegou o Riacho Fundo e o Córrego do Sanhar. cada rumo. Arrastávamos uma rede grande. para reunir os municipais do lugar e fazer discurso. Já no sair da Nhanva. – “Mais. E foi. Era o enfim. rompemos. mas nós. Não por medo. seguindo o traço do Córrego Felicidade. homem de muita raposice. indo o Ribeirão da Barra. Zé Bebelo querendo. para soltar. se expedia gente com ordens e recados.Grande Sertão: Veredas ser ranço ou discórdia consigo restava para trás. veio Zé Bebelo mesmo. E tudo correndo bem. Dum batalhão para outro. peixe grande por pegar. há-de dará é para diante. logo que um estafeta vier relatar qual foi nossa primeira vitória. Um pelo São Lamberto. outro tomou sempre à mão esquerda. encostando ombro no São Francisco. mais. viemos acampar no arraial Pedra-Branca. e foi festa. da mão direita..João Guimarães Rosa . no meio. tinha composto seu povo em avulsos – cada grupo.

Zé Bebelo. até para a da Capital. Para lá do Rio Pacu. Daí. Mas como ia não ter pena? O que demasia na gente é a força feia do sofrimento. não é a qualidade do sofrente. no município de Brasília. Acabei. Cumpri. enxeriu que eu falasse discurso também. tangendo o troço de presos. quase todos sujos de sangues secos – se via que não tinham esperança nenhuma decente. notou moleza. deu viva ao governo. Mais de dez mortos. foi que aquele Hermógenes conseguira de fugir. vieram cavaleiros nossos. O que um homem assim devia de ser deputado – eu disse. era. conforme ele ali subiu e muito falou. azombados. própria. Mas não podia ir a longe! Ao que Zé Bebelo elogiou a lei. o que por meu recato não versei. E falar muito nacional. Tive de. – “Tem dó não. para perto futuro prometeu muita coisa republicana.” – se me se soprou. Disso eu sabia. e de lá para outras cadeias.” Ah. cansados. O povo eu acho que apreciava. Senti pena daqueles pobres. encalquei. mais de dez cabras agarrados presos.. Iam de leva para a cadeia de Extrema.. São os danados de façanhosos. Depois. me olhou. Referiu. tinham volteado um bando de jagunços – o com o valentão Hermógenes à testa – e derrotado total.João Guimarães Rosa .. – “Você deve de citar mais é em meu nome. olhando. ele me abraçou.Grande Sertão: Veredas cima de um canto de cerca. infelizmente só.. de certo. – 182 – . quando se estava no depois do almoço.

que já ia contar mais. Mire veja o senhor tudo o que na vida se estorva. O que ouvindo. então eu como me concertei em mim. ora veja! Isso a gente tem de conceber também. Conversando. não sei: – “E Joca Ramiro?” Zé Bebelo tiscou de ombros. Porque eu estava achando que. é o bom exemplo para se aproveitar. A gente não sabe. Tocamos. eu perguntei. – “Ah.. e calei a boca. no caminho. se contasse. de explicar como era fabuloso o estado de Joca Ramiro. sim? – “Montar e galopar. das peripécias que meu padrinho dizia que Joca Ramiro inventava no dar batalha. se foi a fogo. Desencurtamos os cavalos. parece que não queria falar naquele. com a tendinha e as ferramentas. é uma idéia que vale. Tem mais. como tudo ele sabia e provia. aprendi. perfazia ato de traição. entremeados disfarçantes. razão de pressentimentos. mas por quê? Dei um tunco. Calei a boca toda. e até que trazia um homem só para o oficio de ferrador.” – Zé Bebelo chamou. do diverso. Tem. A metade dos nossos. suas armas em arte – escamoteados pelas árvores – e de repente ligeiros se jazendo: para o rastejo. Ah.João Guimarães Rosa . vi.Grande Sertão: Veredas Pensei que agora podíamos merece maior descanso. – 183 – .” – ele atinou. de menor maldade. Zé Bebelo esbarrou. Traição. no avanço. que se apeavam. e o tudo mais versante aos animais.. a gente sabe. E eu. Daí me deu um gosto.. No entre o Condado e a Lontra.. Aí.

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com as cabeças, farejavam; toda a vida! Aqueles sabiam brigar, desde de nascença? Só avistei isso um instante. Sendo que seguindo Zé Bebelo, reviramos volta, para o Gameleiras, onde houve o pior. O que era, era o bando do Ricardão, que quase próximo, que cercamos. Para acuar, só faltando cães! E demos inferno. Se travou. Tiro estronda muito, no meio do cerrado: se diz que é estampido, que é rimbombo Tive noção de que morreram bastantes. Vencemos. Não desci de meu animal. Nem prestei, nem estive, no fim, como o galope se desabriu: os homens perseguindo uns, que com o mesmo Ricardão se escapavam. Mas mais não se aproveitou, o Ricardão já tinha tido fuga. Então os nossos, de jeriza, com os oito prisioneiros feitos queriam se concluir. – “Eh, de jeito nenhum, epa! Não consinto covardias de perversidade!” – Zé Bebelo se danou. Apreciei a excelência dele, no sistema de não se matar. Assim eu quis que o ar de paz logo revertesse, o alimpado, o povo gritando menos. Aquele dia tinha sido forte coisa. De longe e sossego eu careci, demais. Se teve pouco. Arranjado o preciso, só se tomou prazo breve, porque recombinaram por diante os projetos e desarrancamos para a Terra Fofa, quase na demarca com o GrãoMogol. Mas lá não cheguei. Em certo ponto do caminho, eu resolvi melhor minha vida.

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Fugi. De repente, eu vi que não podia mais, me governou um desgosto. Não sei se era porque eu reprovava aquilo: de se ir, com tanta maioria e largueza, matando e prendendo gente, na constante brutalidade. Debelei que descuidassem de mim, restei escondido retardado. Vim-me. Isso que, pelo ajustado, eu não carecia de fazer assim. Podia chegar perto de Zé Bebelo, desdizer: – “Desanimei, declaro de retornar para o Curralim...” Não podia? Mas, na hora mesma em que eu a decisão tomei, logo me deu um enfaro de Zé Bebelo, em trosgas, a conversação. Nem eu não estava para ter confiança nenhuma em ninguém. A bem: me fugi, e mais não pensei exato. Só isso. O senhor sabe, se desprocede: a ação escorregada e aflita, mas sem sustância narrável. Meu cavalo era bom, eu tinha dinheiro na algibeira, eu estava bem armado. Virei, vagaroso. Meu rumo mesmo era o do mais incerto. Viajei, vim, acho que eu não tinha vontade de chegar em nenhuma parte. Com vinte dias de remanchear, e sem as trapalhadas maiores, foi que me encostei para o Rio das Velhas, à vista da barra do Córrego Batistério. Dormi com uma mulher, que muito me agradou – o marido dela estava fora, na redondeza. Ali não dava maleita. De manhã cedo, a mulher me disse: – “Meu pai existe daqui a quarto-de-légua. Vai, lá tu almoça
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e janta. De noite, se meu marido não tiver voltado, eu te chamo, dando avisos.” Eu falei: – “Você acende uma fogueira naquele alto, eu enxergo, eu cá venho...” Ela falou: – “Ao que não posso, alguém mais avistando havia de poder desconfiar.” Eu falei: – “Assim mesmo, eu quero. Fogueira – uma fogueirinha de nada...” Ela falou: – “Quem sabe eu acendo...” A gente sérios, nem se sorrindo. Aí, eu fui. Mas o pai dessa mulher era um homem finório de esperto, com o jeito de tirar da gente a conversa que ele constituía. A casa dele – espaçosa, casa-de-telha e caiada – era na beira, ali onde o rio tem mais troas. Se chamava Manoel Inácio, Malinácio dito, e geria uns bons pastos, com cavalhada pastando, e os bois. Me deu almoço, me pôs em fala. Eu estava querendo ser sincero. E notei que ele no falar me encarava e no ouvir piscava os olhos; e, quem encara no falar mas pisca os olhos para ouvir, não gosta muito de soldados. Aos poucos, então, contei: que dos zé-bebelos não tinha querido fazer parte; o que era a valente verdade. – “E Joca Ramiro?” – ele me perguntou. Eu disse, um pouco por me engrandecer e pôr minha prosa, que já tinha servido Joca Ramiro, e com ele conversado. Que, mesmo por isso, é que eu não podia ficar com Zé Bebelo, porque meu seguimento era por loca Ramiro, em
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coração em devoção. E falei no méu padrinho Selorico Mendes, e em Aluiz e Alarico Totõe, e de como foi que Joca Ramiro pernoitou em nossa fazenda do São Gregório. Mais coisas decerto eu disse, e aquele homem Malinácio me ouvia, só se fazendo de sossegado. Mas eu percebi que ele não estava. Deu jeito de aconselhar que eu fosse embora. Que ali miasmava braba maleita. Não acertei. Eu queria esperar, para ver se a fogueira por minha sorte se acendia, eu tinha gostado muito da filha dele casada. Por um instante, o sabido do homem se tardou no que fazer. Mas, eu, requerendo um lugar para armar minha rede na sombra, e descansar – eu disse que não andava bem de saúde, – isso pareceu ser de seu agrado. Me levou para um quarto, onde tinha um jirau com enxergão, me botou lá à Ia vontade, fechou a porta. Ferrei; abraçado com minhas armas. Acordei só no aquele Malinácio me chamando para jantar. Cheguei na sala, e dei com outros três homens. Disseram de si que tropeiros eram, e estavam assim vestidos e parecidos. Mas o Malinácio começou a glosar e reproduzir minha conversa tida com ele – disso desgostei, segredos frescos contados não são para todos. E o arrieiro dono da tropa – que era o de cara redonda e pra clara – me fez muita interrogação. Não estive em boas cócoras. Construí de desconfiar. Não do fato d’ele tal
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encarecer – pois todo tropeiro sempre muito pergunta ; mas do jeito como os outros dois ajudavam aquele a me ver, de tudo perseverado tomando conta. Ele queria saber para onde eu mesmo me ia além. Queria saber por que, se eu punia por loca Ramiro, e estava em armas, por que então eu não tinha caçado jeito de trotar para o Norte, a fito de com o pessoal ramiros me juntar? Quem desconfia, fica sábio: dizendo como pude, muito confirmei; mas confirmei acrescentando que chegara até ali por dar volta cautelosa, e mesmo para sobre ter a calma de resolver os projetos em meu espírito. Ah, mas ah! – enquanto que me ouviam, mais um homem, tropeiro também, vinha entrando, na soleira da porta. Agüentei aquele nos meus olhos, e recebi um estremecer, em susto desfechado. Mas era um susto de coração alto, parecia a maior alegria. Soflagrante, conheci. O moço, tão variado e vistoso, era, pois sabe o senhor quem, mas quem, mesmo? Era o Menino! O Menino, senhor sim, aquele do porto do de-Janeiro, daquilo que lhe contei, o que atavessou o rio comigo, numa bamba canoa, toda a vida. E ele se chegou, eu do banco me levantei. Os olhos verdes, semelhantes grandes, o lembrável das compridas pestanas, a boca melhor bonita, o nariz fino, afiladinho. Arvoamento desses, a gente estatela e não entende; que dirá o
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senhor, eu contando só assim? Eu queria ir para ele, para abraço, mas minhas coragens não deram. Porque ele faltou com o passo, num rejeito, de acanhamento. Mas me reconheceu, visual. Os olhos nossos donos de nós dois. Sei que deve de ter sido um estabelecimento forte, porque as outras pessoas o novo notaram – isso no estado de tudo percebi. O Menino me deu a mão: e o que mão a mão diz é o curto; às vezes pode ser o mais adivinhado e conteúdo; isto também. E ele como sorriu. Digo ao senhor: até hoje para mim está sorrindo. Digo. Ele se chamava o Reinaldo. Para que referir tudo no narrar, por menos e menor? Aquele encontro nosso se deu sem o razoável comum, sobrefalseado, como do que só em jornal e livro é que se lê. Mesmo o que estou contando, depois é que eu pude reunir relembrado e verdadeiramente entendido – porque, enquanto coisa assim se ata, a gente sente mais é o que o corpo a próprio é: coração bem batendo. Do que o que: o real roda e põe diante. – “Essas são as horas da gente. As outras, de todo tempo, são as horas de todos” – me explicou o compadre meu Quelemém. Que fosse como sendo o trivial do viver feito uma água, dentro dela se esteja, e que tudo ajunta e amortece – só rara vez se consegue subir com a cabeça fora dela, feito um milagre:
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peixinho pediu. Por quê? Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois. Muito falo, sei; caceteio. Mas porém é preciso. Pois então. Então, o senhor me responda: o amor assim pode vir do demo? Poderá?! Pode vir de um-que-não-existe? Mas o senhor calado convenha. Peço não ter resposta; que, se não, minha confusão aumenta. Sabe, uma vez: no Tamanduá-tão, no barulho da guerra, eu vencendo, aí estremeci num relance claro de medo – medo só de mim, que eu mais não me reconhecia. Eu era alto, maior do que eu mesmo; e, de mim mesmo eu rindo, gargalhadas dava. Que eu de repente me perguntei, para não me responder: – “Você é o rei-dos-homens?...” Falei e ri. Rinchei, feito um cavalão bravo. Desfechei. Ventava em todas as árvores. Mas meus olhos viam só o alto tremer da poeira. E mais não digo; chus! Nem o senhor, nem eu, ninguém não sabe. Conto. Reinaldo – ele se chamava. Era o Menino do Porto, já expliquei. E desde que ele apareceu, moço e igual, no portal
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da porta, eu não podia mais, por meu próprio querer, ir me separar da companhia dele, por lei nenhuma; podia? O que entendi em mim: direito como se, no reencontrando aquela hora aquele Menino-Moço, eu tivesse acertado de encontrar, para o todo sempre, as regências de uma alguma a minha família. Se sem peso e sem paz, sei, sim. Mas, assim como sendo, o amor podia vir mandado do Dê? Desminto. Ah – e Otacília? Otacília, o senhor verá, quando eu lhe contar – ela eu conheci em conjuntos suaves, tudo dado e clareado, suspendendo, se diz: quando os anjos e o vôo em volta, quase, quase. A Fazenda Santa Catarina, nos Buritis-Altos, cabeceira de vereda. Otacília, estilo dela, era toda exata, criatura de belezas. Depois lhe conto; tudo tem o tempo. Mas o mal de mim, doendo e vindo, é que eu tive de compesar, numa mão e noutra, amor com amor. Se pode? Vem horas, digo: se um aquele amor veio de Deus, como veio, então – o outro?... Todo tormento. Comigo, as coisas não têm hoje e anfontem amanhã: é sempre. Tormentos. Sei que tenho culpas em aberto. Mas quando foi que minha culpa começou? O senhor por ora mal me entende, se é que no fim me entenderá. Mas a vida não é entendível. Digo: afora esses dois – e aquela mocinha Nhorinhá, da Aroeirinha, filha de Ana Duzuza – eu nunca supri outro amor, nenhum. E Nhorinhá eu deamei no passado, com um retardo custoso. No passado, eu,
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digo e sei, sou assim: relembrando minha vida para trás, eu gosto de todos, só curtindo desprezo e desgosto é por minha mesma antiga pessoa. Medeiro Vaz, antes de sair pelos Gerais com mão de justiça, botou fogo em sua casa, nem das cinzas carecia a possessão. Casas, por ordem minha aos bradados, eu incendiei: eu ficava escutando – o barulho de coisas rompendo e caindo, e estralando surdo, desamparadas, lá dentro. Sertão! Logo que o Reinaldo me conheceu e me saudou, não tive mais dificuldade em dar certeza aos outros de minha situação. Ao quase sem sobejar palavras, ele afiançou o meu valimento, para aquele mestre de cara redonda e bom parecer, que passava por arrieiro da tropa e se chamava Titão Passos. De fato, tropeiros não eram, eu soube, mas pessoal brigal de Joca Ramiro. E a tropa? Essa, que se estava para seguir porquanto pra o Norte, com os três lotes de bons animais, era para levar munição. Nem tiveram mais prevenimento de esconder isso de mim. Aquele Malinácio era o guardador: com as munições bem encobertadas. Defronte da casa dele, mesmo, e para cima e para baixo, o rio possuía as croas de areia – cada qual com seu nome, que os remadores do das-Velhas botavam, e que todos tanto conheciam. Três croas e uma ilha. Mas uma delas três, maior, também sendo meio ilha: isto é, ilha de terra, na parte de baixo,
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com grandes pedras e árvores, e suja de matinho, capim, o alecrim viçoso remolhando suas folhagens nágua e o bunda-denegro verde vivente; e croa, só de areia, na parte de cima. Uma croa-com-ilha, que é conforme se diz. A Croa-comIlha do Malinácio, dita. A lá, que aonde estava o oculto, a gente ia em canoa, baldear a munição. Os outros companheiros, afetados de tropeiros, sendo ó Triol e João Vaqueiro, e mais Acrísio e Assunção, de sentinelas, e Vove, Jenolim e Admeto, que acabavam de enquerir a carga na mulada. A gente, jantou-se, já se estava de saída, para toda viagem. Eu ia com eles. Pois fomos, Nem tive pesar nenhum de não esperar o sinal da fogueira da mulher casada, filha do Malínácio. E ela era bonita, sacudida. Mulher assim de ser: que nem braçada de cana – da bica para os cochos, dos cochos para os tachos. Menos pensei. A andada de noite principiava como sobre algodão – produzida cuidadosa. Aquilo era munição de contos e contos de réis, a gente prezava grandes responsabilidades. Se vinha sem beiradear, mas sabendo o rio. Titão Passos comandava. De seguir assim, sem a dura decisão, feito cachorro magro que espera viajantes em ponto de rancho, o senhor quem sabe vá achar que eu seja homem sem caráter. Eu mesmo pensei. Conheci que estava chocho, dado no mundo, vazio de um meu
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dever honesto. Tudo, naquele tempo, e de cada banda que eu fosse, eram pessoas matando e morrendo, vivendo numa fúria firme, numa certeza, e eu não pertencia a razão nenhuma, não guardava fé e nem fazia parte. Abalado desse tanto, transtornei um imaginar. Só não quis arrependimento: porque aquilo sempre era começo, e descoroçoamento era modo-de-matéria que eu já tinha aprendido a protelar. Mas o Reinaldo vinha comigo, no mesmo lote, e não caçava minha companhia, não se chegou para perto de mim, nem vez, não dava sinal de prosseguir amizade. A gente descarecia de cuidar dos burros, um por um, enfileirados naquela paciência, na escuridão da noite eles tudo enxergavam. Se eu não tivesse passado por um lugar, uma mulher, a combinação daquela mulher acender a fogueira, eu nunca mais, nesta vida, tinha topado com o Menino? – era o que eu pensava. Veja o senhor: eu puxava essa idéia; e com ela em vez de me alegre ficar, por ter tido tanta sorte, eu sofria o meu. Sorte? O que Deus sabe, Deus sabe. Eu vi a neblina encher o vulto do rio, e se estralar da outra banda a barra da madrugada. Assaz as seriemas para trás cantaram. Ao que, esbarramos num sitiozinho, se avistou um preto, o preto já levantado para o trabalho, descampando mato. O preto era nosso; fizemos paragem.

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Dali, rezei minha ave-mariazinha de de-manhã, enquanto se desalbardava e amilhava. Outros escovavam os burros e mulas, ou a cangalhada iam arrumando, a carga toda se pôde resguardar – quase que ocupou inteira a casinha do preto.O qual era tão pobre desprevenido, tivemos até de dar comida a ele e à mulher, e seus filhinhos deles, quantidade. E notícia nenhuma, de nada, não se achava. A gente ia ao menos dormir o dia; mas três tinham de sobreficar, de vigias. O Reinaldo se dizendo ser um deles, eu tive coragem de oferecer também que ficava; não tinha sono, tudo em mim era nervosía. O rio, objeto assim a gente observou, com uma croa de areia amarela, e uma praia larga: manhãzando, ali estava re-cheio em instância de pássaros. O Reinaldo mesmo chamou minha atenção. O comum: essas garças, enfileirantes, de toda brancura; o jaburu; o pato-verde, o pato-preto, topetudo; marrequinhos dançantes; martimpescador; mergulhão; e até uns urubus, com aquele triste preto que mancha. Mas, melhor de todos – conforme o Reinaldo disse-o que é o passarim mais bonito e engraçadinho de rioabaixo e rio-acima: o que se chama o manuelzinhoda-croa. Até aquela ocasião, eu nunca tinha ouvido dizer de se parar apreciando, por prazer de enfeite, a vida mera deles pássaros, em seu começar e descomeçar dos vôos e pousação. Aquilo era
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para se pegar a espingarda e caçar. Mas o Reinaldo gostava: – “É formoso próprio...” – ele me ensinou. Do outro lado, tinha vargem e lagoas. P’ra e p’ra, os bandos de patos se cruzavam. – “Vigia como são esses...” Eu olhava e me sossegava mais. O sol dava dentro do rio, as ilhas estando claras. – “É aquele lá: lindo!” Era o manuelzinho-da-croa, sempre em casal, indo por cima da areia lisa, eles altas perninhas vermelhas, esteiadas muito atrás traseiras, desempinadinhos, peitudos, escrupulosos catando suas coisinhas para comer alimentação. Machozinho e fêmea – às vezes davam beijos de biquinquim – a galinholagem deles. – “É preciso olhar para esses com um todo carinho...” – o Reinaldo disse. Era. Mas o dito, assim, botava surpresa. E a macieza da voz, o bem-querer sem propósito, o caprichado ser – e tudo num homem-d’armas, brabo bem jagunço – eu não entendia! Dum outro, que eu ouvisse, eu pensava: frouxo, está aqui um que empulha e não culha. Mas, do Reinaldo, não. O que houve, foi um contente meu maior, de escutar aquelas palavras. Achando que eu podia gostar mais dele. Sempre me lembro. De todos, o pássaro mais bonito gentil que existe é mesmo o Manuelzinho-da-croa. Depois, conversamos de coisas miúdas sem valor alheio, e eu tive uma influência para contar artes de minha vida, falar a
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esmo leve, me abrir em amáveis, bom. Tudo me comprazia por diante, eu não necessitava de prolongares. – “Riobaldo... Reinaldo...” – de repente ele deixou isto em dizer: – “... Dão par, os nomes de nós dois...” A de dar, palavras essas que se repartiram: para mim, pincho no em que já estava, de alegria; para ele, um vice-versa de tristeza. Que por quê? Assim eu ainda não sabia. O Reinaldo pitava muito; não acerto como podia conservar os dentes tão asseados; tão brancos. Ao em tanto que, também, de pitar se carecia: porque volta-emeia abespinhavam a gente os mosquitinhos chupadores, donos da vazante, uns mosquitinhos dançadinhos, tantos de se despertar. Eu fui contando minha existência. Não escondi nada não. Relatei como tinha acompanhado Zé Bebelo, o foguetório que soltei e o discurso falado, na Pedra-Branca, o combate dado na beira do Gameleiras, os pobres presos passando, com as camisas e as caras sujadas de secos sangues. – “Riobaldo, você é valente... Você é um homem pelo homem...” – ele no fim falou. Sopesei meu coração, povoado enchido, se diz; me cri capaz de altos, para toda seriedade certa proporcionado. E, aí desde aquela hora, conheci que, o Reinaldo, qualquer coisa que ele falasse, para mim virava sete vezes.

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Desculpa me dê o senhor, sei que estou falando demais, dos lados. Resvalo. Assim é que a velhice faz. Também, o que é que vale e o que é que não vale? Tudo. Mire veja: sabe por que é que eu não purgo remorso? Acho que o que não deixa é a minha boa memória. A luzinha dos santos-arrependidos se acende é no escuro. Mas, eu, lembro de tudo. Teve grandes ocasiões em que eu não podia proceder mal, ainda que quisesse. Por quê? Deus vem, guia a gente por uma légua, depois larga. Então, tudo resta pior do que era antes. Esta vida é de cabeça-para-baixo, ninguém pode medir suas perdas e colheitas. Mas conto. Conto para mim, conto para o senhor. Ao quando bem não me entender, me espere. Aí nesse mesmo meio-dia, rendidos na vigiação, o Reinaldo e eu não estávamos com sono, ele foi buscar uma capanga bonita que tinha, com lavores e três botóezinhos de abotoar. O que nela guardava era tesoura, tesourinha, pente, espelho, sabão verde, pincel e navalha. Dependurou o espelho num galho de marmelo-do-mato, acertou seu cabelo, que já estava cortado baixo. Depois quis cortar o meu. Me emprestou a navalha, mandou eu fazer a barba, que estava bem grandeúda. Acontecendo tudo com risadas e ditos amigos – como quando com seu arreleque por-escuro uma nhaúma devoou, ou quando
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas

eu pulei para apanhar um raminho de flores e quase caí comprido no chão, ou quando ouvimos um him de mula, que perto pastava. De estar folgando assim, e com o cabelo de cidadão, e a cara raspada lisa, era uma felicidadezinha que eu principiava. Desde esse dia, por animação, nunca deixei de cuidar de meu estar. O Reinaldo mesmo, no mais tempo, comprou de alguém uma outra navalha e pincel, me deu, naquela dita capanga. Às vezes, eu tinha vergonha de que me vissem com peça bordada e historienta; mas guardei aquilo com muita estima. E o Reinaldo, doutras viagens, me deu outros presentes: camisa de riscado fino, lenço e par de meia, essas coisas todas. Seja, o senhor vê: até hoje sou homem tratado. Pessoa limpa, pensa limpo. Eu acho. Depois, o Reinaldo disse: eu fosse lavar corpo, no rio. Ele não ia. Só, por acostumação, ele tomava banho era sozinho no escuro, me disse, no sinal da madrugada. Sempre eu sabia de tal crendice, como alguns procediam assim esquisito – os caborjudos, sujeitos de corpo-fechado. No que era verdade. Não me espantei. Somente o senhor tenha: tanto sacrifício, desconforto de esbarrar nos garranchos, às tatas na ceguez da noite, não se diferenciando um ai dum ei, e pelos barrancos, lajes escorregadas e lama atolante, mais o receio de aranhas
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas

caranguejeiras e de cobras! Não, eu não. Mas o Reinaldo me instruiu aquilo, e me deixou na beira da praia, alegrias do ar em meu pensamento. Cheguei a encarar a água, o Rio das Velhas passando seu muito, um rio é sempre sem antiguidade. Cheguei a tirar a roupa. Mas então notei que estava contente demais de lavar meu corpo porque o Reinaldo mandasse, e era um prazer fofo e perturbado. “Agançagem!” – eu pensei. Destapei raivas. Tornei a me vestir, e voltei para a casa do preto; devia de ser hora de se comer a janta e arriar a tropa para as estradas. Agora o que eu queria era ímpeto de se viajar às altas e ir muito longe. A ponto que nem queria avistar o Reinaldo. Estou contando ao senhor, que carece de um explicado. Pensar mal é fácil, porque esta vida é embrejada. A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e desmisturar. A senvergonhice reina, tão leve e leve pertencidamente, que por primeiro não se crê no sincero sem maldade. Está certo, sei. Mas ponho minha fiança: homem muito homem que fui, e homem por mulheres! – nunca tive inclinação pra aos vícios desencontrados. Repilo o que, o sem preceito. Então – o senhor me perguntará – o que era aquilo? Ah, lei ladra, o poder da vida. Direitinho declaro o que, durando todo tempo, sempre mais, às vezes menos, comigo se passou. Aquela mandante amizade. Eu não pensava em adiação
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E eu mesmo entender não queria. de pior propósito. Era ele estar perto de mim. Do demo: digo? Com que entendimento eu entendia. a gente tinha de deixar duma bando o rio. Assim mesmo. Sempre. e eu perdia meu sossego. Era ele fechar a cara e estar tristonho. aí rijo comigo renegava. E em mim a vontade de chegar todo próximo. Outras artes vieram depois. dos braços. e nada me faltava. por onde podia ter tropa de soldados. quando eu me lembrava daquelas mãos. por exemplo. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim.João Guimarães Rosa . do jeito como se encostavam em meu rosto. que às vezes adivinhei insensatamente – tentação dessa eu espairecia. Acho que.Grande Sertão: Veredas nenhuma. quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele. Feito coisafeita. e eu só nele pensava. Conforme. concebi fundamento para um conselho: na jornada por diante. Mas não. com que olhos era que eu olhava? Eu conto. ir passar a Serra-daOnça e entestar com a travessia do Jequitaí. Diga o senhor: como um feitiço? Isso. Mas eu gostava dele. Aquela meiguice. Era ele estar por longe. espiar o que se desse e colher outras informações? – 201 – . dia mais dia. mais ajuizado não seria se enviar só um. O senhor vá ouvindo. até lá. mais gostava. quando ele cortou meu cabelo. Muitos momentos. naquele estado exaltado em que andei. desigual que ele sabia esconder o mais de sempre.

andávamos pelos matos. Aquela munição era de ida urgente. E nós ficamos esperando a volta deles. e eu mexendo e virando por via de pequenos prazeres. Até hoje. até Porteiras e o Pontal da Barra. Em horas. rebuçado viajou o Acrísio. com todos os ouvidos bem abertos. e. achou boa a minha razão. Fui louvado e dito valedor. no ouvir aquilo – que a assoprada na vaidade é a alegria que dá chama mais depressa e mais a ar. com grande regozijo e repouso. que era posteiro em terras da Fazenda São Joãozinho. e caçando. mas também valia mais que ouro.Grande Sertão: Veredas Titão Passos era homem ponderado em simples.João Guimarães Rosa . Para assuntar e ver com ver. cortando palmito e – 202 – . Assim um rôo de remorso: tantos perigos ameaçando. cinco dias lá. e a vida tão séria em cima. com a mesma tenção. Ao senhor confesso. Mas logo me reduzi. de sua Lagoa-Grande. de um coronel Juca Sá. se carecia de todo cuidado. Mas meu querer surtiu efeito. o Jenolim saiu em rumo do Jequitaí. novas ordens. Sempre fui assim. na casa do preto Pedro Segundo de Rezende. certo nas idéias. vendo o fim do sol nas palmas dos tantos coqueiros macaúbas. desamarrado. atinando que minha opinião era só pelo desejo encoberto de que a gente pudesse ficar mais tempo ali. não me arrependo retratando? Os dias que passamos ali foram diferentes do resto de minha vida. descabido. que sangue. naquele lugar que me concedia tantos regalos. Todos acharam. desmedi satisfação.

Sou deste jeito. Dos outros. Bons homens no trivial. sei. Doçura do olhar dele me transformou para os olhos de velhice da minha mãe. de neblim. cabedor de grandes amizades. Nunca mais. Quando que conversamos. nunca mais eu vi o Reinaldo tão sereno. e o ouricuri retorce as palmas. digo. – 203 – . o rio alto branco. cacundeiros simplórios desse Norte pobre. Só um bom tocado de viola é que podia remir a vivez de tudo aquilo.João Guimarães Rosa . Os afetos. tão alegre. perguntei a ele se Joca Ramiro era homem bom. amigos?” – “Reinaldo. até o derradeiro final. uns assim. mas antes por me faltar o raso de paciência.Grande Sertão: Veredas tirando mel da abelha-depoucas-flores. De manhã. porque o que salvava a feição dele era ter o coração nascido grande. Tinha a quantidade de pássaros felizes. companheiros conosco. que arma sua cera cor-derosa. quem me perguntou: – “Riobaldo. pousados nas croas e nas ilhas. deixo de dizer. E até peixe do rio se pescou. de destino fiel. Mas Titão Passos. Como no tempo em que tudo era falante. E foi ele mesmo. no cabo de três dias. Ele achava o Norte natural. pois eu morro e vivo sendo amigo seu!” – eu respondi. Então. apreciei. nós somos amigos. Desmexi deles. eu vi as cores do mundo. ai. acho que sempre desgostei de criaturas que com pouco e fácil se contentam. Não por orgulho meu.

feito antes eu tinha pensado. fui conhecendo também que ele não era sempre tranqüilo igual. se rupeia. no ouvir falar de Joca Ramiro. Era não. Parecia que ele não gostava de me ver em comprida conversa amiga com os outros. e isso bastava. foi quem disse. Mas.. Anta entra n’água. ele gostava de mandar. Gostava dele quando eu fechava os olhos.. moleza no diário. Com o tempo dos dias. Mas eu concordava. tão governandor. E ele. coisa que até me parece ser parente da preguiça. Mas o preto de-Rezende. em tanto. o Reinaldo se aproximou. era que eu gostava dele. Talvez também seja.” O senhor sabe: preto. risonho bobeento: – “Bom? Um messias!. visto que não fosse obedecido. assim no sistema pelintra. Acho que nem nunca pensou que Joca Ramiro pudesse ser bom ou ruim: ele era o amigo de Joca Ramiro. Ah.João Guimarães Rosa . que preenchia em mim uma vaidade. o Reinaldo. de ter me escolhido para seu amigo todo leal. primeiro mandava suave. Ao que. Era. era tão galhardo garboso. é a gente que existe que sabe ser mais agradecida.Grande Sertão: Veredas Titão Passos regulou um espanto: uma pergunta dessa decerto que nunca esperou de ninguém. que às vezes a gente tem. ficava quasezinho amuado. com as sete-pedras. não. que estava perto. Um bem-querer que vinha do ar de meu nariz e – 204 – . sem tal nem razão. depois. Aquela força de opinião dele mais me prazia? Aposto que não. quem sabe por essa moleza. quando é dos que encaram de frente.

E o senhor no fim vai ver que a verdade referida serve para aumentar meu pejo de tribulação. no coração. o indicado dito. Riobaldo. pelos caminhos tencionados. Guardei. era me a mim contando logro – jigajogas. Pensei..João Guimarães Rosa . agora ainda não me entende. Daí. E o mais. Repensei. sem menos dessossego nem mais receio. O Acrísio retornou: pasmaceira na barra do rio. hora grave me veio. Mais eu pensando nisso. – “Do que o valor dessas palavras tem dentro” – ele me respondeu – “não pode haver verdade maior.. que eu estava criticando. esse também não pode deixar de ser bom?!” Isto ele falou. E perfez: – “Não sabe que quem é mesmo inteirado valente. O senhor entenderá. Repenso.Grande Sertão: Veredas do sonho de minhas noites. não era sempre completa verdade.. outra hora. Retornou o Jenolim: o Jequitaí estava passável. Perguntei ao compadre meu Quelemém. serra para cima.” – o Reinaldo veio dizendo. E saímos simples com a tropa. uma hora.” Compadre meu Quelemém está certo sempre. Minha vida. – “Você vai conhecer em breve Joca Ramiro.. com aqueles olhos quando doces. com três – 205 – . mas. a nenhuma novidade. Fim do bom logo vem. – “Vai ver que ele é o homem que existe mais valente!” Me olhou. Para mim. Não podia ser.

João Guimarães Rosa .. E donde menos temi.. O saber de uns. Mazelas de mais pesares. nem de me caber calado.. Nem podia.” – o Reinaldo disse. – “Morrer. Titão Passos era homem liso bom. Titão Passos começou a me perguntar. Tudo o que eu falasse. fui mal-respondendo. Do povo morador.Grande Sertão: Veredas léguas de marcha. Para melhor pensar. vigiando. – “. a morte de outros. traição. podia ajudar. no pior me vi. das malasartes que ele usava em guerra. morrer. falando o que era vasto. a respeito de Zé Bebelo.. De lá mais adiante. suas forças e armamentos. não faltava quem. sopitando. tudo ia se abrir a ser para nós todos campo de fogo e aos perigos de mortes. que eu não tinha ânimo de mentir. a gente sem luxo se cede. me fazia as perguntas com natureza tão honrosa. As turmas de cavaleiros de Zé Bebelo campeavam naquele país. Mas a munição tem de chegar em poder de loca Ramiro!” Eu podia pensar tranqüilo na minha morte por ali? Podia pensar no Reinaldo morrendo? E o que Titão Passos queria saber era tudo que eu soubesse. para sempre. pois todos queriam aproveitar a ocasião para se acabar com os jagunços. atravessando o Jequitaí. mandasse a eles envio de denúncia. Como eu ia depor? Podia? Tudo o que eu mesmo quisesse. não. caçando gente. – 206 – . de seus aprovados costumes. Mas. me calando. desconfiando de nós.

oculto. Se a gente topar com a – 207 – . aquela lista. essas ânsias. e quer ver que Titão Passos aceitava aquilo assim? Me acreditava. como uma bicha-fêmea não pode fugir deixando suas criazinhas em frente da morte. Aquelas águas me lavavam. peguei. guardada estreito comigo. taquei tudo no arrojo dum riacho. Falei e refalei inútil. rasguei em pedacinhos. com sombras mais apresentadas. Lembrei que ainda tinha. Andando. Eu era de mim. não contasse.João Guimarães Rosa . Nem era por retente de dever. de Zé Bebelo. Depois. quem é que eu era? De que lado eu era? Zé Bebelo ou Joca Ramiro? Titão Passos. Que se eu contasse.. Titão Passos disse: – “Você pode ser de muita ajuda.. Mas eu não podia. por lei honesta nenhuma. o Reinaldo.. cacei em mim um esforço de me completo me esquecer. sabia não. De ninguém eu era. E. num caderno. Eu não podia. de nomes e coisas.. minhas caras deviam de estar pegando fogo. Eu. como um bicho não pode deixar de comer a avistada comida. Eu. consoante.Grande Sertão: Veredas Não. Dou vendido em pecas riquezas o que eu cansei naquela hora. Eu devia? Não devia? Vi vago o adiante da noite. Tudo dentro de mim não podia. Riobaldo. ou floreado de noção. de tudo que a respeito do resto eu sabia. Eu não queria querer contar. Alguma valia aquilo tinha? Não sei.

em vista de que agora eu estava também sendo um ramiro. Foi que Titão Passos. Oi. porquanto o prejuízo que disso se tivesse. eu tinha inveja deles. A que. Mas ela durou curta. Medo que maneia.. você entra de bico – fala que é um deles. Se eles já souberam notícia de que você fugiu.” Com isso.Grande Sertão: Veredas zebelância. que esta tropa você está levando. me disse: – “Tudo temos de ter cautela. pensando mais. fazia parte. barros de água do Jequitaí. Medo... depois esvazia. eu desfrutei um orgulho de alegria de glória. Homem? É coisa que treme. o senhor sabe. no bando de loca Ramiro. Me amargou no cabo da língua.. Bananeira dá em vento de todo lado. de ser capaz de auxiliar e pôr efeito. Burros e mulas do lote de tropa. No caso. eu sei. Em esquina que me veio. Pior de todas é essa: que tonteia primeiro.” Ouvi retardado.. e te encontram. que passaram diante de minha fraqueza. me conformei.. Medo que já – 208 – . eu havia de prestar toda a minha diligência e coragem. por ele eu também padecia e pagava.. como o justo companheiro. Aos poucos. mesmo compunha uma alegria. E nem fazia mal que eu não relatasse a respeito de Zé Bebelo mais.João Guimarães Rosa . Tem diversas invenções de medo. são sujeitos para quererem logo te matar imediato. por culpas de desertor. não pude dar resposta.. O cavalo ia me levando sem data. De pensar isso.

Grande Sertão: Veredas principia com um grande cansaço. Devia de me lembrar de outros apertos. Sempre que estou entristecido. por mal. demorando vingança com toda judiação. E a viagem em nossa noite seguia. sem salves. aconselhou brincando: – “Riobaldo. na paragem. A tristeza. eu devia de pensar tantas coisas – que de repente podia cursar por ali gente zebebela armada. o Reinaldo. puxa as orelhas do teu jumento. o miolo volteado. O senhor me entende: costas do mundo. Ele bem-me-quis. Eu atravessava no meio da tristeza. de minha companhia.. das maldades deles capazes. Medo do que pode haver sempre e ainda não há. me pegavam: por al. eu estava soflagrante encostado. Minha tristeza é uma volta em medida. mas minha alegria é forte demais. Mudei meu coração de posto.. atirado para morrer com o chão na mão. Purguei a passagem do medo: grande vão eu atravessava. cocei o aviso de que um suor meu se esfriava.” Mas amuado eu – 209 – . é que os outros gostam mais de mim. Por causa da minha tristeza. Em minhas fontes. Por quê? Nunca falo queixa. de ódios daqueles homens querentes de ver sangues e carnes. e dar relembro do que eu sabia.João Guimarães Rosa . Aí. o Reinaldo veio. Em tanto. de nada. Não pude. Eu estando com um vapor na cabeça. Medo não deixava. veio para perto de mim. sei que de mim ele mais gostava. rendido. não pensava demarcado.

e a tristeza do medo me eivava de a ele não dar valor. de repente.. Mas. Fui indo. muitos anos depois. Que alarga o mundo e põe a criatura solta. Mas primeiro tenho de relatar um importante ensino que recebi do compadre meu Quelemém. E o senhor depois verá que naquela minha noite eu estava adivinhando coisas.João Guimarães Rosa . eu deponho. De repente. nojo. Com toda minha cordura. tristeza perto de pessoa amiga afraca. tomei em mim o gole de um pensamento – estralo de ouro: pedrinha de ouro. sendo. Conto. a energia e paciência forte de só fazer o que dá desgosto. Eu queria mesmo algum desespero. Respondi somente: – “Amigo. Medo agarra a gente é pelo enraizado.” – e não disse nem mais. sempre nas estreitas horas – isso procuro. de feito. me ensinou que todo desejo a gente realizar alcança – se tiver ânimo para cumprir. e de rejeitar – 210 – .. O Reinaldo comigo par a par. E conheci o que é socorro. grandes idéias. de sozinho careço. Sozinho sou. eu carecia de sozinho ficar.Grande Sertão: Veredas não estava. Compadre meu Quelemém. Nem a pessoa especial do Reinaldo não me ajudava. sete dias seguidos. gastura e cansaço. Com o senhor me ouvindo. Desespero quieto às vezes é o melhor remédio que há. Homem como eu.

Se o senhor souber. E não ia dormir. Isso é do compadre meu Quelemém. Mas ensinou que. O que resolvi. Até para a gente se lembrar de Deus. Resolvi aquilo. o que de tudo mais prezava. com novas coisas mais altas. Ah. de minhas pernas.Grande Sertão: Veredas toda qualidade de prazer. se rejeitar até mesmo aquele desejo principal que serviu para animar a gente na penitência de glória. Só um começo. ainda. nem descansar sentado nem deitado. abreviei o poder de outras aragens. não sabendo. eu não conseguia. Diz ele. rezar. nas Lagoas do Córrego Mucambo. O medo já amolecia as unhas. me argumentou todo. sabe. Espécie de reza? Bem. e paga e repaga. achei. aquela noite. Mas foi aquele grão de idéia que me acuculou. Aos pouquinhos. eu não ia pitar. e me alegrei. E não ia caçar a companhia do Reinaldo. Esta vida está cheia de ocultos caminhos. Fiz. Cabeça alta – digo. que de repente vem. Lá nós tínhamos pastos bons. os juros dele não obedecem medida nenhuma. aquele dia me carregou. Íamos chegando numa tapera. cumpri. carece de se ter algum costume. de per mim. Ideiazinha. Nisso nem pensei. não me – 211 – . O medo se largava de meus peitos. nem conversa.João Guimarães Rosa . no fim. E foi: que. maior e melhor. por forte que fosse o vício de minha vontade. E dar tudo a Deus. no dia que amanhecia. é. é que a gente abre os olhos. eu creio.

Ao que. mas. então. Medo mais? Nenhum algum! Agora viesse corja de zebebelos ou tropa de meganhas. a pessoa mesma é quem carece de matar. vi: era o Reinaldo. tris. e vai em soroca. Deus governa grandeza. É. mas que tanto quer se transformar em jagunço valentão – e esse homem afia sua faca. Aí. duma vez. e ia em cima. me vinham uns rangidos repentes. Nem não tinha sono nenhum. capaz que mate a onça. comigo se conferir.Grande Sertão: Veredas entenderá. ferro por ferro. Ele queria direto. quando os passos escutei. feito eu tivesse ira de todo o mundo. – 212 – . bastantemente. desmenti fadiga. por aí se vê. Andei mais. ia e voltava.João Guimarães Rosa . ainda um exemplo lhe dou. se puder comer cru o coração de uma onça-pintada. com firmes passos: bis. enorme sangue. Eu aceitava qualquer vuvu de guerra. ah. por outra. Reproduzi de mim outro fôlego. De não pitar. eu já vi: um sujeito medroso. o coração come. Agüentei. e me achavam. se enche das coragens terríveis! O senhor não é bom entendedor? Conto. que tem muito medo natural de onça. Me deu vontade de beber a da garrafa. que se diz e se faz – que qualquer um vira brabo corajoso. Sobejante saí caminhando. O que há. mas matar à mão curta. com muita inimizade. Rosnei que não. a onça. a ponta de faca! Pois. Até queria que viessem. pelo definitivo. que vindo. Me achavam.

” – me disse. carece de você não me perguntar por quê.” – ainda gracejou. o que ele falou foi com a sucinta voz: – “Riobaldo. com muito menos que isso a gente marfava. Este é nome apelativo. não calculei que você era genista. ele tomou por mãmolência. mais amistoso ele parecia. Dei a nenhuma resposta. em hora comum. isso pensei. e que esconder mais não posso.. Mas. E ele curtia um engano: pensou que eu estava amofinado.. pelo tanto respondi alguma palavra só. Na vez. e eu não estava. amigo. se ouvia o corrute dos animais. que pastavam à bruta no capim alto. Ele. Sabia disso. graças-a-deus.. Tenho meus fados. Escuta: eu não me chamo Reinaldo. não notava. Momento calados ficamos. Quanto mais eu tinha mostrado a ele a minha dureza.. A vida nem é da gente. com pouca paciência para o trivial. digo ao senhor. A vida da gente faz sete voltas – se diz. inventado por necessidade minha. Isso ele não via. não se ofendeu. pois tem um particular que eu careço de contar a você. Queria me trazer consolo? – “Riobaldo. Eu estava respirando muito forte..João Guimarães Rosa . Acho que olhei para ele com que olhos. ele me queria-bem. maldando. – “Riobaldo.. O que era sisudez de meu fogo de pessoa.. O Reinaldo se chegou para perto de mim. de verdade.” – 213 – . Ah..Grande Sertão: Veredas Eu não podia tão depressa fechar meu coração a ele.

Daquela mão. mais antes com pressa. eu confirmei. Deu alma em cara. Riobaldo. eu era menino.” Que era. modo de me acostumar com aquilo. era tão singular. Ao mais os olhos me perturbavam. Nos topamos naquele porto.... é Diadorim. verdadeiro.. toda a vida: eu terçando. punindo por ele. eu recebia certezas.Grande Sertão: Veredas Ele falava aquilo sem rompante e sem entonos.. E ouvi: – “Pois então: o meu nome. Ele sério sorriu.” Assim eu ouvi. Adivinhei o que nós dois queríamos – logo eu disse: – “Diadorim. para o Canabrava e o Barra. Muito fiquei repetindo em minha mente as palavras. digo e peço.. – “Você era menino. – 214 – .. Os olhos que ele punha em mim.João Guimarães Rosa . saímos e tocamos dali. quando sozinhos a gente estiver. Sempre. Aí tive o fervor de que ele carecesse de minha proteção.. Guarda este meu segredo. quem sabe se com tico de pesar e vergonhosa suspensão. Diadorim!”com uma força de afeição. Desde aquele dia é que somos amigos.. quase tristes de grandeza. E eu gostava dele. Diadorim. mas sendo que não me enfraqueciam. E ele me deu a mão. gostava. gostava.. Dos olhos. é de Diadorim que você deve de me chamar. Sol-se-pôr. garantindo. Atravessamos o rio na canoa. tão externos.

abre saudade. no comum. Íamos por um plaino de varjas. verso isso: emendo e comparo. ver o quê. A amizade dele. ele me dava. Era um nome. vou dizer. me pertencia. Dia da lua. – Estes rios têm de correr bem! – eu de mim dei. no mesmo do momento. Todo amor não é uma espécie de comparação? E como é que o amor desponta. tudo certo. Como toda alegria. feito toda alegria em brados pede: pensando por prolongar. O luar que põe a noite inchada. sem encalço. Passarinho cai de voar. Minha Otacília. nem resumi curiosidades. me dizendo que este era real o nome dele – foi como dissesse notícia do que em terras longes se passava. e que só eu esse nome verdadeiro pronunciasse. fosse.João Guimarães Rosa . E amizade dada é amor. Da razão desse encoberto. o senhor sabe: tudo incerto. Até aquela-alegria sem licença. nascida esbarrada. Entendi aquele valor. Hoje em dia. Amizade nossa ele não queria acontecida simples.Grande Sertão: Veredas Aquele dia fora meu. Alimpo de lua. Vizinhança do sertão – esse Alto-Norte brabo começava. Diadorim. Caso de algum crime arrependido. Eu vinha pensando. Mas havendo o ele querer que só eu soubesse. mas bate suas asinhas no chão. fuga de alguma outra parte. ou devoção a um santo-forte. lua lá vinha. Reinaldo. Sertão é isto. Bem que eu conheci – 215 – . Que é que é um nome? Nome não dá: nome recebe.

digo ao senhor – vereda acima – até numa Fazenda Santa Catarina se chegar. não. Ah. viemos procurar o poder de Medeiro Vaz. não solicitou de se subir. mas disse licença d’a gente dormir na rebaixa do engenho.Grande Sertão: Veredas Otacília foi tempos depois. Mas o dono não estava. buriti cresce e merece é nos gerais! Eu vinha com Diadorim. Assim que desta banda de cá a gente tinha padecido toda resma de reveses. noite. se chamava Nhô Vô Anselmo. depois se deu a selvagem desgraça. noitinha já era. eu – 216 – . Mas o primeiro encontro meu com ela. A gente tinha ciência de que o dono era favorável do nosso lado. ainda que esteja contando antes da ocasião. só ia vir no seguinte. e sor Amadeu o graça dele era. Avô de Otacília esse velhinho era. Aos Buritis-Altos. só se apareceu no parapeito da varanda – parece que estava receoso de nossa forma. conforme o senhor ainda vai ouvir. Quem acudiu e falou foi um velhozinho. em tanto que ele falava. noite fechada.João Guimarães Rosa . Fomos chegando de tardinha. desde já conto. Nos gerais. Mas. com Alaripe e com João Vaqueiro mas Jesualdo. e que soubemos que os judas também tinham atravessado o São Francisco. Depois após. e o Fafafa. e mesmo com a confusão e os latidos de muitos cachorros. nem mandou dar nada de comer. única esperança que restava. Agora não é que tudo está me subindo mais forte na lembrança? Pois foi. lá se devia de esperar por um recado. então nós passamos. já santificado de velho.

ele sabia ser homem terrível. no enquadro da janela. E. Diadorim.João Guimarães Rosa . que não se via. O senhor duvida? Ara.Grande Sertão: Veredas divulguei. Há-de-o.. me olhar. lá dentro.. qual que uma luz de candeia mal deixava. entre compridos cabelos. raivável. eu não notei viciice no modo dele me falar. foi um sorriso. Que jurei em mim: a Nossa Senhora um dia em sonho ou sombra me aparecesse. Essas coisas – 217 – . Mas senti: me senti. a mocidade da gente reverte em pé o impossível de qualquer coisa! Otacília.. a doçura de uma moça. Eli. outras coisas. vou me rir. No escuro. Suspa! O senhor viu onça: boca de lado e lado. Águas para fazerem minha sede. o senhor é pessoa feliz. O prêmio feito esse eu merecia? Diadorim-dirá o senhor: então. Isso chegasse? Às vezes chega. pelos filhos? Viu rusgo de touro no alto do campo. Artes que morte e amor têm paragens demarcadas.. Era que ele gostava de mim com a alma. me querer-bem? Não. dando febre no mato? E o senhor não viu o Reinaldo guerrear!. figurinha de rosto. bando doido de queixadas se passantes. mitilhas. cobra jararacuçu emendando sete botes estalados. podia ser assim – aquela cabecinha. Ah.. me entende? O Reinaldo. às vezes.. em cima de alguma curva no ar. que não – fio e digo. digo. brabejando. o que mais foi. Moça de carinha redonda.

Falo! Quem é que me pega de falar. A ver o que eu contava: quem não conhecia o Reinaldo. O demônio na rua. ainda mais que pensavam que ele era novato. ficou pronto conhecendo. no meio do redemunho. Nós tínhamos em fim chegado. nós o nosso: roteiro todo da viagem. Aí. para acocorar e prosear caçamos um pé de fogo. Um ou dois. O que eu estava meio transtornado da viagem. Mas Diadorim sendo tão galante moço. rebeira do Ribeirão da Macaúba. conferi que era o inferno.Grande Sertão: Veredas se acreditam. quantas vezes quero?! Assim ao feito quando logo que desapeamos no acampo do Hermógenes. e quando! Ah. toda conversa é miudinhos tempos. misturados. Novidade nenhuma.. Entramos no meio deles. A lá chegamos num de-tardinha. não achavam nele jeito de macheza. me acostumei. – 218 – . Diadorim. o senhor sabe – em roda de fogueira. Algum explicava os combates com Zé Bebelo. lá era um cafarnaum. Às primeiras horas. Se estavam entre o Furado-de-São-Roque e o Furado-do-Sapo. Digo. com três dias.. aos poucos para se historiar. por fim da Mata da Jaíba. contentes por topar com tanto número de companheiros em armas: de todos.João Guimarães Rosa . as feições finas caprichadas. sem soberba nenhuma. Assim loguinho. Moxinife de más gentes. todos eram garantia. dos homens. tudo na deslei da jagunçagem bargada.

. cantarolando pelo nariz: Pra gauder. mas. um se chamava de alcunha o Fancho-Bode. com soltura. assim como fingiu falsete. quietos. A fumaça dos tições deu para a cara de Diadorim – “Fumacinha é do lado – do delicado.. aí. tudo foi um ão e um cão.. o que havia de haver. muito comparsa. E aqui pra o Fulorêncio?. se arredou de perto da fogueira. lambuzante preto.. mengando e castanhetando. Diadorim se esteve em pé. veja o senhor. gandaiados. Mas esse Fancho-Bode era abusado. E o outro. Consoante falou soez. com propósito na voz. Aquilo lufou! De rempe. Deu com o Fancho-Bode todo no chão. e se mexeu de modo.. A gente.João Guimarães Rosa . fazendo xetas. O outro.Grande Sertão: Veredas começaram. Mau par. um tribufu. Se vai lá aceitar rixa assim de graça? Mas o sujeito não queria pazear.. arrumou mão nele. eu já sabia. Se levantou. e já se curvou em cima: e o punhal – 219 – . meteu um sopapo: – um safado nas queixadas e uma sobarbada – e calçou com o pé. vi e mais vi: ele apropriar espaços. tratantaz.. vinha querer dar umbigada. se fez em fúria. Desses dois. numa dança de furta-passo. Gaudêncio.. e Diadorim entrava de encontro no Fancho-Bode.” – o Fancho-Bode teatrou. estumou. se dizia Fulorêncio. Oap!: o assoprado de um refugão.

para avisar do gosto de uma boa-morte. E eles dois não estavam ali muito estimados. amistoso safado. Aquele Fulorêncio instantâneo esbarrou com os acionados indecentes. pois desapartar assim é perigoso. pelo peso. bronco!” – Diadorim mandou o Fancho se levantasse: que puxasse também a faca. Homem é rosto a rosto. e eu também tinha agarrado meu revólver. Ao que. o Fulorêncio me – 220 – . Guardei meu revólver. O fechabrir de olhos. se carecesse. manovelho. era só se soltar. como tudo tivesse constado só duma brincadeira: – “Oxente! Homem tu é. Farejaram pressentindo: como cachorro sabe. de belisco. nunca tive medo. que cresciam por todo lado. bem encostado no gogó.Grande Sertão: Veredas parou ponta diantinho da goela do dito. Dava nojo. E mesmo. mais queria mesmo era matar. que. patrício!” Estava escabreado. jagunço também: é no quem-com-quem. com a cara suja de maus cabelos. e o pico em pele. viesse melhor se desempenhar! Mas o Fancho-Bode se riu. Comprazendo conosco. em hora justa e certa. respeitosamente. da parte de riba. um fato se dava. outros companheiros deram ar de amizade. Acho que notaram. Arre. – “Coca. para se cravar deslizado com bom apoio. Aqueles dois homens não eram medrosos. me menos olhou uma vez. por gracejo cordial. daí não quis me encarar mais. só que não tinham os interesses de morrer tão cedo assim.João Guimarães Rosa . Notaram. Ninguém não se meteu. eu não queria presumir de prevenir ninguém. ele.

. Morreram. motivo de evitar que mais tarde eles quisessem vir com alguma tranquibérnia ou embusteria. fica o assunto para os nossos netos. mas riso de velho. silencioso. dormi conseguintemente. Sempre disse ao senhor. De mim não riram.” Tudo em mais paz. porque era seu dia. o que morreu foi só um.. Nem quis. Fancho-Bode e Fulorêncio. no ferver do tiroteio. de boa questão. no circundar da confusão. cachaça muito nomeada. nem praga roguei. alguém falou que eu mesmo tinha atirado nos dois.” Todos riram.João Guimarães Rosa .. – 221 – . O outro foi pego preso – eu acho – deve de ter acabado com dez anos em alguma boa cadeia. me ofereceram: bebi da januária azulosa – um gole me foi. deles. para o ar dei resposta: – “Só se for com dinheiro da mãe do jacaré. eu atiro bem. se não. me compra o que eu sonhei hoje?” Divertindo. o senhor sabe: quando bala raciocina. Por aquilo e isso. E esses dois homens. silenciosinho: “Um dia um de nós dois agora tem de comer o outro.. em fito de tirarem desforra.Grande Sertão: Veredas perguntou: – “Mano Velho. Cá pensei. Ou. não é verdade.. Adiante falaram que eu aquilo providenciei. Até. bateram a bota no primeiro fogo que se teve com uma patrulha de Zé Bebelo. por exemplo. A cadeia de Montes Claros. Aquela noite.. também. nem fiz. O Fulorêncio riu também. Nego isso. ou para os netos dos nossos filhos. Assim.

fuzil reiúno. trabuco. o senhor sabe como é esse povo. no costumeiro real. por certo – 222 – . é o inimigo traiçoeiro terminar logo. nos livros. não é desse jeito? A ver. quando é a gente que está vivendo. de desde mocinho. Dono de qualquer cano de fogo: revólver. Por meu bom. mais Diadorim. porque acho que acerto natural assim é de Deus. qual. iam passar o resto do tempo todo me tocaiando. Não sou assassino.Grande Sertão: Veredas quem sabe. bem alvejado. com uma coisa. clavinote ou rifle. é capaz que ficasse muito e mais engraçado. para se contar. para com a gente aprontarem. Naquele tempo. antes que alguma tramóia perfaça! Também. eu concordo: se eles não tivessem morrido no começo. espingarda. alguma traição ou maldade. Pelo que compadre meu Quelemém me explicou: que eu devo de. dom dado. conforme sou. em surpresas constantes. completo. como atiro bem: que vivo ainda por encontrar quem comigo se iguale. Só o que mesmo devo de dizer. Alemão Vupes pouco me ensinou. Mas. Nas estórias. por onde andei. noutra vida. em ocasião. sei o que digo: em toda a parte. clavina. Honras não conto alto. sempre houve muitas pessoas que tinham medo de mim. e peripécias. já eu era. Achavam que eu era esquisito.João Guimarães Rosa . esses floreados não servem: o melhor mesmo. Agora. em pontaria e gatilho. e mesmo sendo de ordem e paz. Inventaram em mim aquele falso.

João Nonato. num feitio? – 223 – .. – “Você forma comigo. Eu não sabia. querendo aquilo no verde . Será: eu nunca esbarro pelo quieto. Aquele Vupes era profeta? Certa vez. conforme dizia..João Guimarães Rosa . quiseram pôr apelido em mim: primeiro. efeito produzido e reproduzido. na idéia. Combinado ficou que o Advindo pudesse me superintender e pronunciar cada toque. Bilhar – quero dizer. compasso. mor de inteirar a parceiragem.. Seja? Pontaria. retruque e recompletas. era o justo repique – umas carambolas de todos estalos. ter trabalhado muito em mira em arma. total. entrei num salão. – “Faz mal nenhum” – o Advindo disse. amolecia barriga e taqueava o meu chofre. E pois. com palavras e noção de conselhos. com recuanço. os companheiros careciam que eu jogasse. Em mim. que sou tão no taco. deslizadas. mas sem licença de apoiar mão em minha mão ou braço. apelido quase que não pegava. nem encostar dedo no taco. o senhor concorde. não bobeei um ceitil: o Advindo me lecionava o rumo medido da vantagem. por meu tiro me respeitavam. ladeio perfeito. lagarta-de-fogo. Tinha nunca botado a mão naquilo. jogam de contra-lado.Grande Sertão: Veredas em encarnação. É de ver que.. Cerzidor.” Aceitei. é um talento todo. depois Tatarana. com o Escopil. e eu encurvava o corpo. Mas firme não pegou. por fim. O menos é no olho. eu me reprazia mais escutando rebrilhar o concoco daquelas bolas umas nas outras. mesmo do jeito.

de tantos atrás do ar. Assaz toda espécie de roupa. ou deitados no chão sem dormir – só aboboravam. pessoal do Hermógenes. por zanzar ou estar à-toa ou parar formando rodas. De boa entrada. que todos curtidos no jagunçar. Aqueles eram mais de cento e meio. achei. em vavavá e conversa de festa. E a situação nossa era de guerra. rafaméia. isto é. cidadão. Por um que ruim seja. outros com coroça e bedém. a meu cômodo. divulguei: até sujeito com cinta larga de lã vermelha. mas daí quis assuntação. Assim. Azombado. Propriamente. como neste mundo se pertence. que primeiro até fiquei. tomando tempo. mesmo sem chuva nenhuma. ao que me gasturei. A ajunta. na vagagem: manga de homens. Tiba. só que de branco vestido não se tinha: que com terno claro não se guerreia. uns pelos outros. ou uns dormindo. assim. Mesmo com isso. mera gente. medindo mãos. no vendo. ninguém se perturbou com perigos de tanta gravidade. naquele arranchamento. Mas jamais ninguém ficasse nu-de-Deus – 224 – .João Guimarães Rosa . logo mais para adiante se encontra outro pior. no que me vi. Cabralhada. me acostumei com meiosó meu coração. no acampo do Hermógenes. sofreúdos.Grande Sertão: Veredas No que foi. Aqueles não desamotinavam. Se vivia numa jóvia. como boi malha. a peito pronto. ali. Digo: bons e maus. outro com chapéu de lebre e colete preto de fino pano.

por me arrediarem. vadiando geral. de falação mal. Aventes baldrocavam suas pequenas coisas. Cantavam cantarol. mascando fumo forte e cuspindo longe. o mais. Tinham lá até cachorros. E ninguém furtava! Furtasse. ou. E tudo o mais que faziam. ferrando queda de braço. então.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas ou indecente descomposto. uns. jogando jogos. que fosse coisa de sem-oque-fazer. mas meio atalhados. como logo entendi: eles queriam completo ser jagunços. convinha não judiar com cão. que custou barato. Semelhante por este exemplo. picando ou dedilhando fumo no covo da mão. Andando que sentados. Se o que fossem mesmo de constância assim. Ao às-tantas me aceitaram. por tempero de propensão. – 225 – . e pitando. sempre no proseio. assoando o nariz. mas o dono de cada um se sabia. trem objeto que um tivesse e menos quisesse. gala mestra. de rapa-tachos. Sendo que eu soube que eu era mesmo de outras extrações. isso não e não. conforme o que avistei. O serviço que cumpriam era alimpar as armas bem – marcadas as cruzes nas feições das coronhas. Por isso – se dizia – que ali corresse muita besouragem. aboiavam sem bois. com muita demora. Ou cuidavam do espírito da barriga. por conta do dono. por alcanço. porquanto me achando deles diverso? Somente isto nos princípios. no meio dos outros. era perigar morte.

João Guimarães Rosa . para refrescar. Os que lavravam desse jeito: o Jesualdo – mocinho novo. sem ver. Pois não era que. Os outros dois. fazia aquilo sentado num calcanhar. comum que babando. num canto. ao tanto. Ah. repuxando a cara. estavam uns. O Araruta procedia sozinho. a cabeça-de-burro. rela releixo. também. o Araruta e o Nestor. o tratear. permanecidos todos se ocupando num manejo caprichoso. e isto que eles executavam: que estavam desbastando os dentes deles mesmos. igual. por amor de remedar o aguçoso de dentes de peixe feroz do rio de São Francisco – piranha redoleira. Agüentava. que era uma faca de cabo de niquelado. com um caneco de água com pinga. e batia no cabo da faca. essa atarefação. ou ferro lixador. então ele bochechava a breve. os que ensinavam a eles eram o Simião e o Acauã. aperfeiçoando os dentes em pontas! Se me entende? Senhor ver. no abre-boca. dava alojo e apresso. abobante. a poder de gume de ferramenta. dava até aflição em – aflito. Não: aí era à faca. apontar os dentes de diante. Assim esquentasse demais. Ao mais gemesse. com sua simpatia –. Sem espelho. com uma pedra. batendo na faca – 226 – . alguma liminha. às vezes sangue babava.Grande Sertão: Veredas seguinte. Nem o senhor não pense que para esse gasto tinham instrumentos próprios. pelo que verdadeiro muito doía. O Jesualdo mesmo se fazia. Assim um uso correntio. Aviava de encalcar o corte da faca nas beiras do dente. medidas pancadas.

Me fez careta. mas decerto o Nestor ao outro para isso algum tanto pagasse. Repontei: – “Eu acho que. não carece de figurativos. O Nestor. falava meio cantado.. falou o mais seco: – “Tudo na vida são gostos. mano-velho.. E era um Luís Pajeú – com a facapunhal do mesmo nome. mole.. – “Arrenego!” – eu disse.” Mas. de outro.. Sujeito despachado. moreno bem queimado. Ah. ele não possuía. em minha terra. e com uma coragem terrivelmente. Alto e forte. que ele mais não tinha. era uma orelha. o Simião. mas o que faltava. com um martelinho para os golpes. Onde era que o Luís Pajeú havia de ter deixado aquela orelha? – “Será gosto meu não.” O Acauã. pelo sinal. pois tu não quer?” – o Simão. para se ser valente. me perguntou. e ele sendo de sertão do mesmo nome. assim mesmo achou de se reagir: – “São gostos. um outro. e – acredite o senhor: ele. que exercia lâmina nos do outro. não: para ele. Abrenunciei. de descasear dentaduras.Grande Sertão: Veredas com a prancha de outra.. dente mais nenhum nas gengivas – conforme aquela vermelha boca banguela toda abriu e me mostrou.João Guimarães Rosa . Mas não será o meu!” Olhei para esse. – que rente cortada fora. que já era bom conhecido meu. companheiro. se – 227 – . lá nele. mas de anelados cabelos. fino. que me deu o apoio. era quem raspava. que no instante também ouvi: – “Uê. que chegando veio.. foi outro falar. em gracejo. – “Deveras? Então.” – conciso declarou. das comarcas de Pernambuco. próprio.

para mais depois. pelo que logo vi. e que foi levada mais adiante. mire e veja o senhor: nas eras de 96. que nem precisaram da que tínhamos trazido. em redondezas tão pobrezinhas. para satisfazer àquela cabroeira vivente. era o Fafafa. para os escondidos de Joca Ramiro. saqueado muito. trolado demais franco. Foi ou não foi? Mas. se reuniram. o povo de São Francisco soube. tinham roubado. e deram fogo de defesa: diz-que durou combate por tempo de três horas. tanta. Fiz conhecença. grassavam. Mas. sem prazo nem pena. que estavam ali em seu emprego de cargo? Ah. na boca das ruas – com tapigos. Dele tenho.João Guimarães Rosa . a cavalo. perto do arraial do Bró? E a jorna. aqueles – 228 – . Gêneros e bebidas boas.Grande Sertão: Veredas afia guampa. é touro. quando Andalécio e Antônio Dó forcejaram por entrar lá. nestes derradeiros anos. tinham armado tranquias. quando os serranos cismaram e avançaram. e desempenado cavaleiro. tomaram conta de São Francisco. ixi!” E esse um. Ao que lá não faltava a farta comida. falavam até em atacar grandes cidades. de través – brigaram como boa população! Daí. montes de areia e pedra. A sebaça era a lavoura deles. e árvores cortadas. quase com homens mil e meio-mil. a gente parando assim quase num deserto? E a munição. De donde vinha tudo.

foi logo de se emendar depois do barulhão em Carinhanha – mortandades: quando se espirrou sangue por toda banda. cortado os bigodes dele. arremeteram mesmo. pois por aí eu já estava retirado para ser criador. de fazendeiros da política do Governo. mandaram desenterrar. isto é. Carinhanha é que sempre foi de um homem de – 229 – .. Sei de quem ouviu. de nome real: Indalécio Gomes Pereirahomem de grandes bigodes. senhores da cidade quase toda.” Tudo gelava. guerrearam noites e dias.. A ver. recentemente.” – uma verdade que barranqueiro canta. por vingar. mais de sessenta mortos. no tiroteio de inteira noite. foi o delegado Doutor Cantuária Guimarães. Assim que salvaram. o senhor sabe: “Carinhanha é bonitinha. cão! Vem ver! Bigode de homem não se corta!.João Guimarães Rosa . de só se escutar. Andalécio comandava e esbarrava. com punhadão de outros jagunços. cercados numas duas ou três casas e um quintal. vindo às pressas de Januária. conforme guerrearam contra o Major Alcides Amaral e uns soldados.Grande Sertão: Veredas retornaram. para salvar o Major. para gritar feroz: – “Sai pra fora. Andalécio – o que. quem trouxe socorro. para contar bem. e lavrador de algodão e cana.. se recordava sempre com tremores: de quando. Aí. porque antes o Major Amaral tinha prendido o Andalécio.. uns quatorze juntos numa cova só! Essas coisas já não aconteceram mais no meu tempo. remador. quase. Mas o mais foi ainda atual agora.

formaram grupo calados. Olhe: jagunço se rege por um modo encoberto. Mas. Acaba? Atinei mal. Andalécio foi meu bom amigo. Ah. Simão. Assim – sendo uma sabedoria sutil. E o sistema diversiava demais do regime com Zé Bebelo. Antônio Dó eu conheci. arredados. beira da Bahia. eram dele.João Guimarães Rosa . com uns seus cabras. tempo de jagunço tinha mesmo de acabar. Se esperava também a vinda de Só Candelário. E tinha um grupo de brabos do Ricardão. no começo. tinha uma feirinha lá. acima de todos – Joca Ramiro – falado aquela hora em Palmas. com o governo de bando – 230 – . cabo-de-turma com poucos homens à mão. mal comparando. com semelho. certa vez. na Vargem Bonita. muito custoso de eu poder explicar ao senhor. era nãostante muito respeitado. Titão Passos. mas mesmo sem juízo nenhum falável. cidade acaba com o sertão. com os seus. ele se chegou. o quando no meio deles se trança um ajuste calado e certo. Mas eu achava aquilo tudo dando confuso. Luís Pajeú. Jesualdo e o Fafafa – obedeciam a João Goanhá. Se esperava o chefe grande.Grande Sertão: Veredas valor e poder: o coronel João Duque – o pai da coragem. O Hermógenes. Onde era que estava o Ricardão? Reunindo mais braços-de-armas. perto duns cinqüenta – nesse meio o Acauã. com quem era que mandava em nós todos.

. Muitos misturavam a jacuba pingando no coité um dedo de aguardente. foi ordem: ajuntar todos os animais. do lugar. de sela e de carga. eram fogueiras de se cozinhar. num varjal... completo no contragosto. Me senti. no Ribeirão Poço Triste. a pé. botava por debaixo dela o dobro com as roupas. Joga fora. dormia ali perto. Mas tive de entregar meu cavalo. boiada. dependurava a sela num galho de árvore. E tem as pequenas coisas que aperreiam: enquanto estava com meu animal. onde era que tudo se depositava. iam ser levados para amoitamento e pasto. E.. torrada se assando. fumaça de alecrim. As mantas de carne-ceará. boi. Bota em algum lugar. podia guardar meus trecos. exemplo. que repartiam. bereu. Um dia. a bolsa da sela.Grande Sertão: Veredas de bichos – caititu. devia de ser mentira.. sempre quentes no soborralho. Perguntei a um. faziam todo segredo. e cheiro bom de carne no espeto. Ao tanto que a carne-de-sol não faltasse. eu nunca – 231 – .. panela em gancho de mariquita. eu ficava num descômodo. até o endereço que diziam.” Quê que se importavam? Por tudo. Carregar os trens não podia – chegava o peso das armas. eu tinha a capoteira. – “Eh.. Agora. de coisas. como sem segurança nenhuma. entre serras. Oxe. De noite. e das balas e cartuchame. os alforjes.João Guimarães Rosa . Para mim.. A farinha e rapadura: quantidades. tu carrega ouro nesses dobros?. mesmo amiúde ainda saíam alguns e retornavam tocando uma rês. e batatas e mandiocas. em paz.

A saudade minha maior era de uma comidinha guisada: um frango com quiabo e abóbora-d’água e caldo.Grande Sertão: Veredas tinha avistado ninguém provar jacuba assim feita. ajuntava ali brasas grandes. eu me acostumei. Mas. tem tempos melhores. e ouvir uma palavrinha dele. Senti padecida falta do São Gregório – bem que a minha vidinha lá era mestra. definitivo não gostei. Tudo era falado a todos. moradores das grandes distâncias.João Guimarães Rosa . Cismei que maldavam. Diferente melhor. às vistas. direto no brasal mal-assasse pedação de carne escorrendo sangue. Me disse consolo: – “Riobaldo.” Assistir com Diadorim. Aquele povo estava sempre misturado. apartados dos outros. estamos acuados em buraco. Mas. mesmo. como o Fafafa abria uma cova quadrada no chão. Sem receio de ser tirado de meu dinheiro: que eu empacotava ainda boa quantia. Disso. do comum: às mostras. por fim. pouco e pouco revirava com a ponta do facão. desconfiassem de ser feio pegadio. Os usares! A ver. achei que ali convinhável não era se ficar muito tempo juntos.. um se acostuma. um refogado de caruru com ofa de angu.. todo o mundo. isto é. que Zé Bebelo sempre me pagou – 232 – . foi quando estivemos com Medeiro Vaz: o maior número lá era de pessoal dos gerais – gente mais calada em si e sozinha. Por ora. só pelo chiar. me abastava aninhado. Diadorim notou meus males.

bala no olho de um castiçal eu acertava.” – me pediam. O senhor sabe: nome-da-mãe. só que atochadas sempre. principiou um desejo que tive – que era o de destruir alguém. até. e de que é filho!. e gastar eu não tinha onde. me gabavam e louvavam..João Guimarães Rosa . Surgidamente. de quatorze tiros – e dava gala de entremez. que eu acerto. quis que soubessem logo como era que eu atirava.. Eu sei. E. Sobre o fato. Mas não quero que me venham me contar! Quem vier contar. Ao que. Num aquele alvo só – as todas. quer dizer – meu pinguelo. – “Vem um cismo de fio de cabelo no ar. a certa pessoa. De duzentas braças.” – eu informei. para de mim não desaprenderem. Se eu cortasse? Nunca errei. por festar. por que era que já me vinha a idéia desejável: que joliz – 233 – . todas! Assim então esbarrei aquilo com que me aperreavam. Eu quero é que o senhor repense as minhas tolas palavras. então eu esbarrava sossegado.. Para rebater. reproduzia tudo a revólver. – “Se alguém falou mal de mim. olhe: tudo quanto há. O senhor pode rir: seu riso tem siso. Se não. Recontei. Até gostavam de ver: – “Tatarana. os coscuvilhos. é esse mesmo que não presta: e leva o puto nome-da-mãe. Matar a aranha em teia.” Sobrefiz. Social eu andava com minhas cartucheiras triplas. não me importo. – “Corta aquele risco Tatarana!” – me aprovavam. põe o dez no onze.Grande Sertão: Veredas no pontual. e o depois. não se esquecerem. aí. eu pegava o rifle – tive rifle de winchester. e der notícias.. Aí. é aviso.

espreitar a gente por conta dos bebelos. que tinha pena de toda cria de Jesus. para o pessoal não se abrandar nem esmorecer. ruim. Eu não era criança. com silenciozinho todo natural. O senhor vigie esses: comem o cru de cobras. Me entristeceu. sempre. Eu tinha receio de que me achassem de coração mole. todo o mundo envenenava do juízo. em resposta: – “Doca – 234 – . Ser ruim. – “E Deus. Mas. mesmo assim sendo eu marinheiro de primeira viagem. mandava. com o tempo. Já vai que o Hermógenes era ruim. Entendi o estado de jagunço. Ele me olhou. nunca bobo fui. prática da vida. por umas criaturas. Assassinaram. mesmo em tempo de paz. O ódio pousa na gente. que se prezava de bondoso. agarraram um homem. às vezes é custoso. soubessem que eu não era feito para aquela influição. aquilo. Carecem. até ao vago do ar. daí disse. Um dia. até Só Candelário. Eu não queria ter medo dele. carece de perversos exercícios de experiência. eu queria bondade neles? Desminto. Só por isso. Digo ao senhor que aquele povo era jagunços.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas havia de ser era se meter um balaço no baixo da testa do Hermógenes? A bronzes. Diadorim?” – uma hora eu perguntei. para estropelias. que seus homens saíssem fossem. que tinha vindo à traição.

mesmo para comer. boca de dor.” Sei o que foi. Nessa hora. flagelo com frieza. Mas. ou rir. vivia dizendo que não era mau. olhava para elas. Então. Eu ficava vendo o Hermógenes. descalço. calmoso? Consumia horas. amarrado na estaca. ia lá.. Eu acabava achando que tanta ruindade só conseguia estar naquelas mãos. entre as árvores duma capoeirinha. o pobre ficou lá. como sem vontade. Depois dum tempo. estava sentado. passado aquilo: ele estava contente de si. Entremeando. aquela mão ele dava à gente. O Hermógenes não tinha pressa nenhuma. me perturbava. Ele gostava de matar. ele mandou: – “Guardem este. Mas. por seu miúdo regozijo..Grande Sertão: Veredas Ramiro deu cinco contos de réis para o padre vigário de Espinosa. sozinho. Nem contava valentias. Levaram aquele homem. Com aquela mão ele comia. afiando a faca. recostado. Eu não queria olhar para ele.João Guimarães Rosa . quase como um – 235 – . com asco. cheio de coceiras. Dizia gracejos. Olhava as mãos. eu comparava com Zé Bebelo aquele homem. A gente podia caçar a alegria pior nos olhos dele. eu gostava de Zé Bebelo. pé-pubo. frieiras de remeiro do rio. outra vez. ou falar. ele deixava a boca própria se abrir alta no meio. quando um inimigo foi pego. nhento. encarar aquele carangonço. olhava o pé dele – um pé enorme. com muita saúde. mais.” Mas o Hermógenes era fel dormido.

consentia em ter como seu alferes um sujeito feito esse Hermógenes. com todo rigor. de nobres costumes. – 236 – . forte viesse: liquidar mesmo. mas estava tudo traindo. onde é que você está vivendo com a cabeça? O Hermógenes é duro. no nem mesmo. Você acha que a gente corta carne é com quicé.Grande Sertão: Veredas filho deve de gostar do pai. As tantas coisas me tonteavam: eu em claro. dormia com a traição. traidor. ao que.João Guimarães Rosa . mas leal de toda confiança. eu via que estava desejando que Zé Bebelo vencesse. Tinha perdido meu bom conselho. E entrei em máquinas de tristeza. Alheio. a rãs. Zé Bebelo devia de vir. nesse dia calei. ou é com colher-de-pau? Você queria homens bemcomportados bonzinhos. por fora. remarcado no mal? Diadorim me escutou depressa. Por que era que Joca Ramiro. De repente. Puxei conversa com Diadorim. tal duvidou de meu juízo: – “Riobaldo. encostei minhas costas numa árvore. para com eles a gente dar combate a Zé Bebelo e aos cachorros do Governo?!” A espichado. com o inferno da jagunçada! E eu estava ali. Aí eu não queria ficar doido. cumprindo meu ajuste. mesmo de Diadorim: que eu já parava fundo no falso. sendo chefe tão subido. Assim uma coisa eu estava escondendo. porque era ele quem estava com a razão. no cabo do meu coração. Um nublo.

– “Mulher é gente tão infeliz. E eu era igual àqueles homens? Era. Tomava por ofensa a mim. Deus me livrou de endurecer nesses costumes perpétuos. brigar.Grande Sertão: Veredas Então. Um dia.. Por meu bom. em horas safadas. não me escapole!” Ao que contavam casos de mocinhas ensinadas por eles.. no dia e noite de relaxação. lobo?”E vozear tantas asneiras. depois que tinha ouvido as estórias. essa história me remoía. aproveitavelmente. um disse: – “Eh. dos demorados pesares. Mas não me adiantou. mesmo tão antes. Aqueles homens. esse nome de um Leopoldo.” Desentendi. Até que. um amigo companheiro. vai. Achavam. – “Saindo por aí”. Ao quando o Leopoldo morreu ele quase morreu também.. eles sacolejavam bestidades. – dizia um – “qualquer uma que seja.João Guimarães Rosa .” – me disse Diadorim. A primeira. esse Reinaldo gosta de ser bom amigo. almiscravam. mesmo de Diadorim e de mim já pensavam. eu era diferente de todos ali? Era.. Aquele povo da malfa. quando estavam precisando. Com não terem mulher nenhuma lá. bonita moça. mediante meu querer. de seguida. eu estava com ela – 237 – . Dai. que foi. cresci naquela idéia: que o que estava fazendo falta era uma mulher. constante comer. persistentemente.. manejavam.. que Diadorim tivesse tido. uma vez. eles tinham aca. beber. – “Comeu.

foi uma outra. e essa se sujeitou fria estendida. ela estremeceuzinha. fiel. Mas eu não podia esbarrar.Grande Sertão: Veredas somente. e de lado deixei. levava essa moça comigo. abriu os olhos. Assim tanto. em todo tempo nanja que não desconfiou. tempos além. e as unhas tinha. Feito com a Rosa ‘uarda. tanto me mordia. Ah. não fosse o coração dela rebater no meu peito. num sítio perto da Serra Nova. a moreninha miúda. larguei com ela o dinheiro meu. ofereço que Deus me dê alguma minha recompensa. a filha de Assis Wababa. era que nem eu nos medonhos fosse – e. era como eu tivesse os mais amores! Pudesse. turcamente. constituído milagre. de repente vindo. não lhe disse: o pai dela. Agora: o tudo que eu conto. que era forte negociante. Contanto que nunca mais abusei de mulher. sempre formosa. o senhor crê? – a mocinha me agüentava era num rezar. depois. Mas o senhor releve eu estar glosando assim a seco essas coisas de se calar no preceito devido. que pude. O que eu queria era ver a satisfação – para aquelas. eu mesmo roguei pragas. Pelas ocasiões que tive. Digo ao senhor. pelo meu ser. Daí. Tanto gritava. Às almas fugi de lá. Ao cabo. que xingava. aceitou minha ação. a moça – fechados os olhos – não bulia. e que a qual. Feito com aquela moça Nhorinhá. sonhos meus. eu entrevia medo. arfou seus prazeres. Para mim. filha de Ana Duzuza. é porque acho que é sério preciso. – 238 – .João Guimarães Rosa . para mim ficou de pedras e terra. Mas.

e que nunca dizia de onde era e viera. daqueles jagunços. do que vivi: o mais difícil não é um ser bom e proceder honesto. gago. Afirmo ao senhor. removido no estatuto deles. o que rimava verso com ele: Sesfredo. Dadá Santa-Cruz. com uns poucos me acompanheirei. preto de beiço maior. o Paspe.João Guimarães Rosa . mulato claro – era curado de bala. Lindorífico. Sendo que são. o Testa-em-Pé. o Sangue-de-Outro. é um saber definido o que quer. o Eleutério. ele ria de não querer ser. desse já lhe contei. dito “o Caridoso”. por todos. Amigo? Homem desses. chapadeiro minasnovense. José Amigo. conforme que os anjos-da-guarda. O Catocho. Adalgizo.Grande Sertão: Veredas Permeio com quantos. Só quase a boa gente. capaz até de nessa raiva matar o outro. o Carro-de-Boi. gago. filho dos gerais de São Felipe. O Diolo.. dificultoso. tantos. Juvenato. e comia carne de qualidade nenhuma. com mania de aforrar dinheiro. Fonfredo – que cantava todas as rezas de padre. para que que eu fui querer começar a descrever? Dagobé. baiano ladino. o homem mais habilidoso e serviçal que já topei nesta minha vida. alguém dizendo a um que ele é demônio de ruim. chupava muito. viajado.. e ter o poder de ir até – 239 – . mesmo. queria sempre que se desse resto de comida à gente pobre com vergonha de vir pedir. Pescoço-Preto. estes: Capixum – caboclo sereno. Ei. vaqueiro jaibano.

João Guimarães Rosa . para a parte do poente. bom café e uma barrica de bacalhau. tocava. eu saí. – “Diadorim. mais a coberto. De manhã cedo. Ezirino caiu no mundo. só que tinha o danado defeito de contrariar qualquer coisa que a gente falava. E o Luzié. que Batatinha se chamava. o pobre dum cafuz magrelo. Ah. com esquadra.” – quem respondeu foi o – 240 – .. dez homens. perguntei. Nesse dia. forjicavam muita cilada e enredos de desconfianças. a Só Candelário pertencidos. no meio da noite retornamos.. aí. Muito vi que não estávamos fazendo isso por escapulir. alagoano de Alagoas. Traziam cargueiros com mais sal. Delfim era um daqueles. aquela véspera. e. em distância: obra de sete léguas. mas que o Hermógenes. você dança?” – logo. Todo o mundo andava encrespo. Ezirino matou um companheiro. lá chegaram. antes acharam de combinar aquilo. Mudamos para outros lugares. com satisfação de todos. – “Dança? Aquilo é pé de salão. Titão Passos e João Goanhá.Grande Sertão: Veredas no rabo da palavra. em suas conversas – era o arrumo para melhores combates com Zé Bebelo. pago por sua traição. eu soube: tinham até dançado. andamos mais de três léguas e tanto. começou voz que ele tinha fugido para se bandear com os zé-bebelos. fomos rondar os caminhos de porventura dos bebelos. Daí. e que Batatinha somente morreu porque disso sabia.

uma coisa eu necessitei de fazer. o revólver rouxinol. na cama que ele Diadorim marcava no capim. na beleza dele. dum lugar chamado Morpará. De repente. me sobrou um enjôo. Punha nome em suas armas: o facão era torturum. meio momento. Ele tinha idéias. como naquilo. e com as calças de vaqueiro. era um mocorongo mermado. Aquilo aborrecia. O Garanço. Depois. curtido com aroeira-brava e campestre. Diadorim não dizia nada. Guardei os olhos. Mais o Garanço dava de procurar a companhia nossa. Com ele. Nem me fiz caso do Garanço. que tocavam sentimento geral. aquele tempo ele vinha costumeiro para perto. ia em alguma parte. queria que a gente escutasse ele recontar compridas passagens de sua vida. verdadeira. estava deitado de costas. Diadorim se levantou. a clavina era berra-bode.Grande Sertão: Veredas Garanço. que ele tirava nunca. às vezes parecia criança pequena. e pessoa muito agradável de seu natural. num pelego. guapo tão aposto – surgido sempre com o jaleco. Eu queria estar-estâncias: dos violeiros. Ouvindo o que. a gente ria. Às vezes. ele me produzia jeriza. só com o violeiro – 241 – . minha e de Diadorim. Hás-de. O Garanço era sanfranciscano.João Guimarães Rosa . sempremente. o de olhos de porco. com estúrdias feições. com a cabeça num feixe de capim cortado. Ali naquele lugar ele contumaz dormia – Diadorim menos gostava de rede. minha cara posta no próprio lugar. em couro de veado macho. Fiz: fui e me deitei no mesmo dito pelego.

devem de ter acontecido coisas meio importantes. com pouco caroço. Fé que não é. não. Mas – 242 – . O senhor sabe?: não acerto no contar. Eu já não presenciava nada. caminho do que houve e do que não houve. Por não querer meu pensamento somente em Diadorim. do batido do monjolo dia e noite. Ou quero enfiar a idéia. mas da moça virgem. e dos pés-de-verso como eu nunca tive poder de formar um igual. não surpreendi em mim. O que eu queria saber não era próprio do Siruiz. dos currais adiante. no justo momento. mas peguei saudade dos passarinhos de lá. meus confins. demear. Mesmo hoje não atino com o que foram.João Guimarães Rosa . Mas. da varanda de ver nuvens. perguntada. querendo esquentar. dos cômodos sombrios da casa. da cozinha grande com fornalha acesa. por aquele rapaz Siruiz. Aí pensei no São Gregório? A bem. Refiro que perguntei ao Garanço. moça branca.Grande Sertão: Veredas somei. na ocasião. nem escutava possuído – fiquei sonhejando: o ir do ar. me lembrei em madrugada daquele nome: de Siruiz. forcejei. As vezes não é fácil. do poço no córrego. que cantava cousas que a sombra delas em meu coração decerto já estava. A zangarra daquela viola. meu coração. porque estou remexendo o vivido longe alto. que eu não notava. achar o rumozinho forte das coisas. de feito. no São Gregório. naquelas lembranças. Mire veja: naqueles dias.

” Do choque com que ouvi essa confirmação de notícia.. oh baiana. Nessa vez.. vi que não gostou. Então me instruíram na outra. não. O Siruiz já morreu. – “Eh. Como era que eu podia? O Garanço tomava rapé. nosso bando. sou homem de gostar – 243 – . E Siruiz tinha morrido. lá como quem diz. entre o Morcego e o Suaçuapara. Nem eu quis indagar o mais. Era um sujeito de intenções muito parvas.” O senhor aprende? Eu entôo mal... toda a vida: “Olererêêê. Como se assim ele tivesse falado: “Siruiz? Mas não foram vocês mesmos que mataram?. na PedraBranca.” – eu respondi. Viver perto das pessoas é sempre dificultoso... – “Quem sabe se era. certo estava de que ele Garanço não sabia nada do que tivesse valor. Eu ia e não vou mais: Eu faço que vou lá dentro... Morreu morto no tiroteio. fui arriando para um desânimo. Sou ruim não. O Garanço. meu parente.” Eu. de toleima. baiana. ô. eu tinha restado longe por fora.. e volto do meio p’ra trás. na face dos olhos..João Guimarães Rosa . Não por boca de ruindade. Mas eu guardava triste de cor a canção recantada. guerrear e cantar. não vi combate.. eh. passado para cá o Pacuí. Perguntou se o Siruiz não seria meu amigo.. que era cantiga de se viajar e cantar.Grande Sertão: Veredas o Garanço já tinha respondido.

De diz em diz. na miudez das normas. Queria saber que apreço eu tinha por loca Ramiro. daí. acabou por me dar a entender. Esse Antenor. Se eu conhecia Só Candelário. Notei. ali. que estava por chegar? O giro dos assuntos – ele me tenteava a fala. Um pai-jagunço chamado Antenor. Um. curtamente. o em conseguinte: que Joca Ramiro talvez fazia mal em estar tanto tempo por longe. sou de tolerar. em horas de tanta guerra. E. dono de muitas posses em terras. Vai.Grande Sertão: Veredas dos outros. rodeava a questão. os outros todos. notei. alguns de bofe ruim já calculavam que ele estivesse abandonando seu pessoal. doutor Mirabô de Melo. Rixava com nenhum. sempre louvando e vivando Joca Ramiro. deles recebia dinheiro de munição e paga: seô Sul de Oliveira. quando não me aperreiam.João Guimarães Rosa . Não era? Aquilo eu inteligenciava. começou a temperar conversa. Que era que eu achava? – 244 – . sagaz de fiúza. por Titão Passos. que Joca Ramiro era rico. vinha querendo deixar em mim uma má vazante: me largar em dúvida. aceitava o regime. acho que era coração – de-jesusense. devagar. coronel Caetano Cordeiro. e se arranchava passando bem em casas de grandes fazendeiros e políticos. Não tenho a caixeta da raiva aberta. Ele era homem chegado ao Hermógenes – se sabia dessa parte. errou. comigo erraram.

Vulto perigoso. sempre. nas ações – o Garanço me preveniu. Disse só que decerto Joca Ramiro estava formando gente e meios para vir em ajuda de nós. não acreditei. e nesse meio-tempo punha toda confiança no Hermógenes. em mim. Mas realçou mais altamente a fama do Hermógenes. Mas. uma árvore: lugar fedido. Com isso.Grande Sertão: Veredas Eu escutei. e do Ricardão.João Guimarães Rosa . Gabei o Hermógenes. João Goanhá – fortes no fato valor e na lealdade. Aquele Antenor já tinha depositado em mim o anúvio de uma má idéia: disidéia. ah. para mim. cedo tomei experiência de homens por homens. também – esses dois seriam os chefes de encher a mão. traiçoeirinha como um rabo de gota de orvalho. em paz regalada mas por igual nos combates. aprovou o quanto eu disse. é que toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada. A bem dizer. Que explicação dou ao senhor? Acreditar. principal. no campo. no que ele tinha suso dito. Respondi? Ah. Palavra pegante. Esse sujeito Antenor sabia coçar queixo de cobra e semear sal em roças verdes. Sou lá para achar nenhuma coisa. Não tinha nascido no ontem. onde é que alguma jaratataca acuou. por se defender – 245 – . aquilo tudo era – era assim como um lugar com mau-cheiro. dada ou guardada. a que por minhas costas logo escorreu. que vai rompendo rumo. com a boa noção vinda de sua redondice de atinar. jagunços em lei. em Titão Passos. bispei. aquele Antenor concordou. Ações? O que eu vi.

Como fosse. do novo e do velho. sem tino nem prosápia. somente vivia pensando em lucros. Diadorim não deu a devida estimação às minhas palavras. Aviso? Rompe. depois que o castigo passou e veio. deste mundo desapareciam – valiam o que pulga pula. mal foi que falei: em zanga – desrazoadamente – e de primeira entrada. um bom jagunço. mas menos do que ouvi.João Guimarães Rosa . De que valeu? Aviso. governava. Alheio. eles num átimo se desaprumavam. E aqueles outros: o Hermógenes. por via disso. real. um raio de momento. Eu acho que. cabo-de-turma. naquele dia.Grande Sertão: Veredas do latido dos cachorros. do Ricardão – 246 – . Só ojerizado em estilos ele esteve. falei. não é para se evitar o castigo. eu tinha recebido. mas só para se ter consolo legal. mas desmerecido de situação política. dono de fazendas. O Hermógenes? Certo. ferro! Cacei Diadorim. Diadorim. nem o nome dele não podia à toa se babujar. do que do que eu tinha de certo modo adivinhado. E o Ricardão. querendo dinheiro e ajuntando. eh. E grande aviso. Mas eu estreava umas ânsias. Acho que. Ricardão? Sem Joca Ramiro. rico. quase toda a vez que ele vem. foi de ouvir que alguém pudesse duvidar do proceder de loca Ramiro: loca Ramiro era um imperador em três alturas! loca Ramiro sabia o se ser.

Mau não sou.Grande Sertão: Veredas era que ele gostava menos: – “Ele é bruto comercial. para o enfim?” Aí. se é ou se não é. Se sendo etcétera. devia de mandar embora aquele monstro do Hermógenes. e fechou a boca forte. Quem sabe Joca Ramiro. na lei da caminhação. Joca Ramiro podia detalhar o podre do são. uai: se matava!. O Hermógenes tinha seus defeitos... não me achasse capaz de estipular tanta maldade sem escrúpulo. pelo conseguinte: – “A bom e bem.. Mas. Sou é muito cauteloso. Nasci devagar. e que não sei em que mundo-de-lua eu entrava minhas idéias.” – disse. feito fosse cuspir. Diadorim pôs muito os olhos em mim. Que. Cobra? – ele disse? Nem cobra serepente malina não é. fiel – punia e terçava. Ao que eu ainda não tinha prazo para entender o uso. mas puxava por Joca Ramiro. se carecesse – eh.. Mais em paz. não estava esquecido de conhecer os homens. deixando de farear o mudar do tempo? Viesse. que eu desconfiava de minha boca e da água e do copo. eu mais uns dias esperasse. vi que com um espanto reprovador. refalei muito. Podia.João Guimarães Rosa . Eu então disse. e ia ver o ganho do sol – 247 – . comigo mais. Diadorim foi me desinfluindo. ao tanto que escondi minha raiva. recontar seus brabos entre as mãos e os dedos. por que é que não vamos levar informação sutil a loca Ramiro. Diadorim.

Tem dia e tem noite. em amizade de amor. sei que. naquele grau de gente. Sei. não. para mim.Grande Sertão: Veredas nascer. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro. Digo ao senhor: nem em Diadorim mesmo eu não firmava o pensar.João Guimarães Rosa . no meu. Mesmo repensando as palavras de Diadorim. eu apurava só este resto: – 248 – . Mas a natureza da gente é muito segundas-e – sábados. Sesfredo. Amigo era o braço. então. desarmado. Naqueles dias. eu gostava. barganhando ajudas. Ou – amigo – é que a gente seja. Amigo meu era Diadorim. Ele não quis me escutar. Gostava e não gostava. a mor – disso crio razoável lembrança – era o significado que eu não achava lá. ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. para mim. permanecente. o Alaripe. Que eu não entendia de amizades. Antes o que me atazanava. amigo. Amigo. no sistema de jagunços. e receber. do igual o igual. é diferente. no meio onde eu estava obrigado. é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar. e saírem por este mundo. Só isto. era o Fafafa. Voltei da raiva. e os todos sacrifícios. O de que um tira prazer de estar próximo. eu não gostava dele? Em pardo. quase. versáveis. e o aço! Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah. mas sem precisar de saber o por que é que é.

Tinha de ir embora. vi. Sem rumo. a alguém. arre. sonhei coisas muito duras. Nunca. Malagourado de ódio: que sempre surge mais cedo e às vezes dá certo. sem paga de preço. Quase tudo o que a gente faz ou deixa de fazer. Eu sabia. – 249 – . E mesmo forte era a minha gastura. pelo próprio dito de estar perto dele. Esse Hermógenes – belzebu. fosse no que fosse. Nos soturnos.Grande Sertão: Veredas que tudo era falso viver. E aquele inferno estava próximo de mim. o Sem-olho.João Guimarães Rosa . aquela ocasião. O Hermógenes. mesmo depois. e. vinha por sobre mim. Quem era assim para mim Diadorim? Não era. estragando minha mocidade. Estava arriscando minha vida. a alguma coisa. me sujeitava àquilo? Eu iame embora. no fim. pelo nunca mais. E eu não tardei no meu querer: lá eu não podia mais ficar. como naquele tempo. Ele estava caranguejando lá. o que por homem passa. Donde eu tinha vindo para ali. Mas era por não agüentar o ser: se de repente tivesse de ficar separado dele. Só é possível o que em homem se vê. do sofrimento dos outros. e por que causa. eu nunca soube tanto disso. traição? Há-de-o. Longe é. por via do Hermógenes. Em escuro. Aí. homem que tirava seu prazer do medo dos outros. igual palpite de amor. não é. Só Diadorim. Nas larguezas do sono da gente. deslealdades. de conversar e mais ver. foi que de verdade eu acreditei que o inferno é mesmo possível. Traição? Traição minha.

bambeei bem. Esse nem a gente conseguia exato real. Diadorim me esbarrava. andava por longe. acho que me acuso: que não tive um ânimo de franco falar. Foi mesmo aquela vez? Foi outra? Alguma.João Guimarães Rosa . Se fosse eu falasse total. na sala do teatro. sem autoridade nenhuma avistável. Ah. ele me olhou – os olhos dele não me deixaram.Grande Sertão: Veredas A já. para isso. sem encaminhamento nenhum. comigo tinha de ir.. testalto. não me entendia. gostava da banda de fora de mim. foi. me alembro. mandei vir uma idéia de mais longe. o arisco do ar: o pássaro – aquele poder dele. Assaz. Vi – ele mesmo não percebeu nada. Decerto vinha com o nome de Joca Ramiro! Joca Ramiro. As tristezas ao redor de nós. Onde é que estava Diadorim? Nem eu não imaginava que pudesse largar Diadorim ali. lorpa. naquela hora eu gostava dele na alma dos olhos. Eu podia pôr os braços na testa. eu tinha percebido? Eu estava me sabendo? Meu corpo gostava do corpo dele. Tive um gelo. se era que andava. quando ia. você não – 250 – . Falei sonhando: – “Diadorim. que ia m’embora. sério. Estendi a mão. ficar assim. para suas formas. Teve um instante. no tolher. Diadorim. também. Diadorim não me entendeu. nem eu. Mas. Só os olhos negavam. bobamente. fugia. aquela graça. Se engrotou. Que é que queria? Não quis o que estava no ar. era um nome só. Meu corpo gostava de Diadorim.. como quando carrega para toda chuva. Ele era meu companheiro. Maiormente. A vivo. mas.

.” Aquilo. Diadorim?” – voz minha. juntos. Antes já eu estava para trás de ter perguntado. mas de alegria ele bate inteiro e duro. de meu falar. – “Leopoldo? Um amigo meu. para o porto do de-Janeiro. Diadorim? Vamos para longe. que morreu seu amigo?” – eu indaguei. ele não tinha: – “Só tenho Deus. fui abaixando os olhos – – 251 – . de medo. Joca Ramiro. eu já soubesse demais – que Joca Ramiro se realçasse por riba de tudo. Mas pude ter a língua sofreada. que até dói. Riobaldo. palavras fora da boca. Aos tantos.. coração bate solto no peito. Riobaldo.João Guimarães Rosa . coração posto na beira.” De arrancar. não terá alguma irmã.. eu perguntei.Grande Sertão: Veredas tem. – “Vamos embora daqui. o que é o cão e a criatura. Sei lá se ele riu? O que disse. que resposta? Sei quando a amargura finca. – “Diadorim. de correta amizade. De tristeza. de uma sede.” – e Diadorim desfez assoprado um suspiro. eu não estava pensando naquilo. – “Até te falaram nele.. Hê. então quem foi esse moço Leopoldo.. nem sei porquê.. Riobaldo? Leopoldo era o irmão mais novo de loca Ramiro. rompe para diante na parede. de sem-tempo. onde seu tio morava..” – ele declarou. reinante. São-Gregório. ou para aquele lugar nos gerais... e você. para o Curralim.. o que muda melhor. Irmã nem irmão. tristes águas. chamado Os-Porcos. para o sertão do baixio.

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constando que Diadorim me agarrava com o olhar, corre que um silêncio de ferro. Assombrei de mim, de desprezo, desdenhado, de duvidar da minha razão. O que eu tinha falado era umas doideiras. Diadorim esperou. Ele era irrevogável. Então, eu saí dali, querendo esquecer ligeiro o atual. Minha cara estava pegando fogo. Andei, em dei, até que lembrei: o Garanço. Bom, o Garanço, esse ia comigo, me seguia em tudo, era pobre homem à espera de qualquer ordem cordial. Isto ele mesmo nem sabia, mas era: que carecia era de alguma amizade. Estava lá, curvado, cabeçudo como uma cigarra. Estava cozinhando pequis, numa lata. – “Eh, eh, nós!...” – ele assim dizia. Ladeei conversa. Ele me ouvia, com anuídos, e fazendo uma cara de entender. Não conseguia. Só conseguia demonstrar os tamanhos de sua cabeça. Ao que bastava um meu maior cochicho, e o Garanço vinha, servia de companheiro para fugirmos. O mais que pudesse haver, era ele primeiro perguntar: – “E o Reinaldo?” ; porque já estava acostumado com eu e Diadorim sermos dois, e ele querer ser o três. Então, eu respondi: – “Segredo, eh, Garanço. Segredo, eh, e vamos!” – e que Diadorim era para vir depois. O Garanço tinha alguma diferença, por alguma banda de sua natureza ele se desapartava da jagunçagem.
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Mas eu não cheguei a falar, não quis, não expliquei nada. Que era que eu ia fazer, às fugas com aquele prascóvio, pelo sul e pelo norte, nos sertões da Jaíba? Ele só sabia cumprir obediência, no que eu riscasse, governado por meu querer e por minha idéia; um companheiro assim não aumentava segurança minha nenhuma. Quero sombra? Quero eco? Quero cão? Não, com ele eu não me fazia, melhor esperar; eu ia ficando. Desse no que desse; mais um tempo. Algum dia, podia Diadorim mudar de tenção. Em Diadorim era que eu pensava, de fugir junto com ele era que eu carecia; como o rio redobra. O Garanço se regalava com os pequis, relando devagar nos dentes aquela polpa amarela enjoada. Aceitei não, daquilo não provo: por demais distraído que sou, sempre receei dar nos espinhos, craváveis em língua. – “Eh, eh, nós...” – o Garanço reproduzia, tão satisfeito. Minha amizade sobrou um pouco para ele, que era criatura de simples coração. Digo ao senhor: naquele dia eu tardava, no meio de sozinha travessia. Ah, mas falo falso. O senhor sente? Desmente? Eu desminto. Contar é muito, muito dificultoso. Não pelos anos que se já passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas – de fazer balancê, de se remexerem dos lugares. O que eu falei foi exato? Foi. Mas teria sido? Agora, acho que nem não. São tantas
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horas de pessoas, tantas coisas em tantos tempos, tudo miúdo recruzado. Se eu fosse filho de mais ação, e menos idéia, isso sim, tinha escapulido, calado, no estar da noite, varava dez léguas, madrugada, me escondia do largo do sol, varava mais dez, passava o São Felipe, as serras, as Vinte-e-Uma-Lagoas, encostava no São Francisco bem de frente da Januária, passava, chegava em terra cidadã, estava no pique. Ou me pegassem no caminho, bebelos ou Hermógenes, me matassem? Morria com um bé de carneiro ou um au de cão; mas tinha sido um mais destino e uma mor coragem. Não valia? Não fiz. Quem sabe nem pensei sério em Dia~ dorim, ou, pensei algum, foi em vezo de desculpa. Desculpa para meu preceito, mesmo. Quanto pior mais baixo se caiu, maismente um carece próprio de se respeitar. De mim, toda mentira aceito. O senhor não é igual? Nós todos. Mas eu fui sempre um fugidor. Ao que fugi até da precisão de fuga. As razões de não ser. O que foi que eu pensei? Nas terríveis dificuldades; certamente, meiamente. Como ia poder me distanciar dali, daquele ermo jaibão, em enormes voltas e caminhadas, aventurando, aventurando? Acho que eu não tinha conciso medo dos perigos: o que eu descosturava era medo de errar – de ir cair na boca dos perigos por minha culpa. Hoje, sei: medo meditado – foi isto. Medo de errar. Sempre tive. Medo de
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errar é que é a minha paciência. Mal. O senhor fia? Pudesse tirar de si esse medode-errar, a gente estava salva. O senhor tece? Entenda meu figurado. Conforme lhe conto: será que eu mesmo já estava pegado do costume conjunto de ajagunçado? Será, sei. Gostar ou não gostar, isso é coisa diferente. O sinal é outro. Um ainda não é um: quando ainda faz parte com todos. Eu nem sabia. Assim que o Paspe tinha agulhas grandes, fio e sovela: consertou minhas alpercatas. Lindorífico me cedeu, por troco de espórtula, um bentinho com virtudes fortes, dito de sãossalavá e cruz-com-sangue. E o Elisiano caprichava de cortar e descascar um ramo reto de goiabeira, ele que assava a carne mais gostosa, as beiras tostadas, a gordura chiando cheio. E o Fonfredo cantava loas de não se entender, o Duvino de tudo armava risada e graça, o Delfim tocando a viola, Leocádio dançava um valsar, com o Diodolfo; e Geraldo Pedro e o Ventarol que queriam ficar espichados, dormindo o tempo todo, o Ventarol roncasse – ele possuía uma rede de casamento, de bom algodão, com chuva de rendas rendadas... Aí e o Jenolim e o Acrísio, e João Vaqueiro, que depunham por mim com uma estima diferente, só porque se tinha viajado juntos, vindo do dasVelhas: – “Viva, companheiro tropeiro...” – saudavam. Ao que se jogava truque, e douradinha e douradão, por cima de couros de rês. Aí a troça em beirada de fogueiras, o vuvo de falinhas e
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falas, no encorpar da noite. Artes que havia uma alegria. Alegria, é o justo. Com os casos, que todos iam contando, de combates e tiroteios, perigos tantos vencidos, escapulas milagrosas, altas coragens... Aquilo, era uma gente. Ali eu estava no entremeio deles, esse negócio. Não carecia de calcular o avante de minha vida, a qual era aquela. Saísse dali, tudo virava obrigação minha trançada estreita, de cor para a morte. Homem foi feito para o sozinho? Foi. Mas eu não sabia. Saísse de lá, eu não tinha contrafim. Com tantos, com eles, gente vivendo sorte, se cumpria o grosso de uma regra, por termo havia de vir um ganho; como não havia de ter desfecho geral? Por que era que todos ficavam ali, por paz e por guerra, e não se desmanchava o bando, não queriam ir embora? Reflita o senhor nisso, que foi o que depois entendi vasto. Desistir de Diadorim, foi o que eu falei? Digo, desdigo. Pode até ser, por meu desmazelo de contar, o senhor esteja crendo que, no arrancho do acampo, eu pouco visse Diadorim, amizade nossa padecesse de descuido ou míngua. O engano. Tudo em contra. Diadorim e eu, a gente parava em som de voz e alcance dos olhos, constante um não muito longe do outro. De manhã à noite, a afeição nossa era duma cor e duma peça. Diadorim, sempre atencioso, esmarte, correto em seu bom
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proceder. Tão certo de si, ele repousava qualquer mau ânimo. Por que é, então, que eu salto isso, em resumo, como não devia de, nesta conversa minha abreviã? Veja o senhor, o que é muito e mil: estou errando. Estivesse contando ao senhor, por tudo, somente o que Diadorim viveu presente mim, o tempo – em repetido igual, trivial – assim era que eu explicava ao senhor aquela verdadeira situação de minha vida. Por que é, então, que deixo de lado? Acho que o espírito da gente é cavalo que escolhe estrada: quando ruma para tristeza e morte, vai não vendo o que é bonito e bom. Seja? E, aquele Garanço, olhe: o que eu dele disse, de bondade e amizade, não foi estrito. Sei que, naquela vez, não senti. Só senti e achei foi em recordação, que descobri, depois, muitos anos. Coitado do Garanço, ele queria relatar, me falava: – “Fui almocreve, no Serem. Tive três filhos...” Mas, que sorte de jagunço recluta era ele – assim meninoso, jalofo e bom. – “Eta, e você já matou seus muitos homens, Garanço?” – pois perguntei. O riso dele ficava querendo ser mais grosso: – “Eh, eh, nós... Sou algum medroso? E mecê encomenda o que, no rifle que está em minha mão, mano velho! Eh, não desprevino, não lhe envergonho o desse...” O Garanço, mesmo afirmo, acho que nunca duvidou de coisa nenhuma. Toda tardeza dele não deixava. E só. Comum de benquistar e malquistar.

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O

senhor

entenderá?

Eu

não

entendo.

Aquele

Hermógenes me fazia agradados, demo que ele gostava de mim. Sempre me saudando com estimação, condizia um gracejo amistoso ou umas boas palavras, nem parecia ser o bedegueba. Por cortesia e por estatuto, eu tinha de responder. Mas, em mal. Me irava. Eu criava nojo dele, já disse ao senhor. Aversão que revém de locas profundas. Nem olhei nunca nos olhos dele. Nojo, pelos eternos – razão de mais distâncias. Aquele homem, para mim, não estava definitivo. E arre que ele não desconfiava, não percebia! Queria conversa, me chamava; eu tinha de ir – ele era o chefe. Fiquei de ensombro. Diadorim notou; me deu conselho: – “Modera esse gênio que você tem, Riobaldo. As pessoas não são tão ruins agrestes.” – “Dele não me temo!” – eu respondi. Eu podia xingar com os olhos. Aí, o Hermógenes me presenteou com um nagã, e caixas de balas. Estive para nem aceitar. Eu já possuía revólver meu, carecia algum daquele, de tanto só cano, tão enorme? Por insistências dele, mesmo, com aquilo fiquei. Cuspi, depois. Dado que eu nunca ia retribuir! Queria eu lá viver perto de chefes? Careço é de pousar longe das pessoas de mando, mesmo de muita gente conhecida. Sou peixe de grotão. Quando gosto, é sem razão descoberta, quando desgosto, também. Ninguém, com dádivas e gabos, não me transforma. Aquele Hermógenes era matador – o de judiar de
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criaturas filhos-de-deus – felão de mau. Meus ouvidos expulsavam para fora a fala dele. Minha mão não tinha sido feita para encostar na dele. Ah, esse Hermógenes – eu padecia que ele assistisse neste mundo... Quando ele vinha conversar comigo, no silêncio da minha raiva eu pedia até ao demônio para vir ficar de permeio entre nós dois, para dele me apartar. Eu podia rechear de balas aquele nagã próprio, e descarregar nele tiros, entre os todos olhos. O senhor tolere e releve estas palavras minhas de fúria; mas, disto, sei, era assim que eu sentia, sofria. Eu era assim. Hoje em dia, nem sei se sou assim mais. Do ódio, sendo. Acho que, às vezes, é até com ajuda do ódio que se tem a uma pessoa que o amor tido a outra aumenta mais forte. Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe. Conforme contei ao senhor, quando Otacília comecei a conhecer, nas serras dos gerais, Buritis Altos, nascente de vereda, Fazenda Santa Catarina. Que quando só vislumbrei graça de carinha de riso e boca, e os compridos cabelos, num enquadro de janela, por o mal aceso de uma lamparina. Mas logo fomos para acomodar, numa rebaixa de engenho-de-pilões, lá pernoitamos. Eu, com Diadorim, Alaripe, João Vaqueiro e Jesualdo, e o Fafafa. No que repontávamos de
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dura viagem: tudo o que era corpo era bom cansaço. Mas eu dormi com dois anjos-da-guarda. O que lembro, tenho. Venho vindo, de velhas alegrias. A Fazenda Santa Catarina era perto do céu – um céu azul no repintado, com as nuvens que não se removem. A gente estava em maio. Quero bem a esses maios, o sol bom, o frio de saúde, as flores no campo, os finos ventos maiozinhos. A frente da fazenda, num tombado, respeitava para o espigão, para o céu. Entre os currais e o céu, tinha só um gramado limpo e uma restinga de cerrado, de donde descem borboletas brancas, que passam entre as réguas da cerca. Ali, a gente não vê o virar das horas. E a fogo-apagou sempre cantava, sempre. Para mim, até hoje, o canto da fogo-apagou tem um cheiro de folhas de assapeixe. Depois de tantas guerras, eu achava um valor viável em tudo que era cordato e correntio, na tiração de leite, num papudo que ia carregando lata de lavagem para o chiqueiro, nas galinhasd’angola ciscando às carreiras no fedegoso-bravo, com florezinhas amarelas, e no vassoural comido baixo, pelo gado e pelos porcos. Figuro que naquela ocasião tive curta saudade do São Gregório, com uma vontade vã de ser dono de meu chão, meu por posse e continuados trabalhos, trabalho de segurar a alma e endurecer as mãos. Estas coisas eu pensava repassadas. E
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estava lá, outra vez, nos gerais. O ar dos gerais, o senhor sabe. Tomamos farto leite. Trouxeram café para nós, em xicrinhas. Ao que ficamos por ali, à-toa, depois de uma conversa com o velhozinho, avô. Otacília eu revi já foi na sobremanhã. Ela apareceu. Ela era risonha e descritiva de bonita; mas, hoje-em-dia, o senhor bem entenderá, nem ficava bem conveniente, me dava pejo de muito dizer. Minha Otacília, fina de recanto, em seu realce de mocidade, mimo de alecrim, a firme presença. Fui eu que primeiro encaminhei a ela os olhos. Molhei mão em mel, regrei minha língua. Aí, falei dos pássaros, que tratavam de seu voar antes do mormaço. Aquela visão dos pássaros, aquele assunto de Deus, Dioadorim era quem tinha me ensinado. Mas Diadorim agora estava afastado, amuado, longe num emperreio. Principal que eu via eram as pombas. No bebedouro, pombas bando. E as verdadeiras, altas, cruzando do mato. – “Ah, já passaram mais de vinte verdadeiras...” – palavras de Otacília, que contava. Essa principiou a nossa conversa. Salvo uns risos e silêncios, a tão. Toda moça é mansa, é branca e delicada. Otacília era a mais. Mas, na beira da alpendrada, tinha um canteirozinho de jardim, com escolha de poucas flores. Das que sobressaíam, era
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uma flor branca – que fosse caeté, pensei, e parecia um lírio – alteada e muito perfumosa. E essa flor é figurada, o senhor sabe? Morada em que tem moças, plantam dela em porta da casa-defazenda. De propósito plantam, para resposta e pergunta. Eu nem sabia. Indaguei o nome da flor. – “Casa-comigo...” – Otacília baixinho me atendeu. E, no dizer, tirou de mim os olhos; mas o tiritozinho de sua voz eu guardei e recebi, porque era de sentimento. Ou não era? Daquele curto lisim de dúvidas foi que minou meu maisquerer. E o nome da flor era o dito, tal, se chamava – mas para os namorados respondido somente. Consoante, outras, as mulheres livres, dadas, respondem: – “Dorme-comigo... “Assim era que devia de haver de ter de me dizer aquela linda moça Nhorinhá, filha de Ana Duzuza, nos Gerais confins; e que também gostou de mim e eu dela gostei. Ah, a flor do amor tem muitos nomes. Nhorinhá prostituta, pimenta-branca, boca cheirosa, o bafo de meninopequeno. Confusa é a vida da gente; como esse rio meu Urucuia vai se levar no mar. Porque, no meio do momento, me virei para onde lá estava Diadorim, e eu urgido quase aflito. Chamei Diadorim – e era um chamado com remorso – e ele veio, se chegou. Aí, por alguma coisa dizer, eu disse: que estávamos falando daquela flor. Não
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estávamos? E Diadorim reparou e perguntou também que flor era essa, qual sendo? – perguntou inocente. – “Ela se chama é liroliro...” – Otacília respondeu. O que informou, altaneira disse, vi que ela não gostava de Diadorim. Digo ao senhor que alegria que me deu. Ela não gostava de Diadorim – e ele tão bonito moço, tão esmerado e prezável. Aquilo, para mim, semelhava um milagre. Não gostava? Nos olhos dela o que vi foi asco, antipatias, quando em olhar eles dois não se encontraram. E Diadorim? Me fez medo. Ele estava com meia raiva. O que é dose de ódio – que vai buscar outros ódios. Diadorim era mais do ódio do que do amor? Me lembro, lembro dele nessa hora, nesse dia, tão remarcado. Como foi que não tive um pressentimento? O senhor mesmo, o senhor pode imaginar de ver um corpo claro e virgem de moça, morto à mão, esfaqueado, tinto todo de seu sangue, e os lábios da boca descorados no branquiço, os olhos dum terminado estilo, meio abertos’ meio fechados? E essa moça de quem o senhor gostou, que era um destino e uma surda esperança em sua vida?! Ah, Diadorim... E tantos anos já se passaram.

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Desde esse primeiro dia, Diadorim guardou raiva de Otacília. E mesmo eu podia ver que era açoite de ciúme. O senhor espere o meu contado. Não convém a gente levantar escândalo de começo, só aos poucos é que o escuro é claro. Que Diadorim tinha ciúme de mim com qualquer mulher, eu já sabia, fazia tempo, até. Quase desde o princípio. E, naqueles meses todos, a gente vivendo em par a par, por altos e baixos, amarguras e perigos, o roer daquilo ele não conseguia esconder, bem que se esforçava. Vai, e vem, me intimou a um trato: que, enquanto a gente estivesse em oficio de bando, que nenhum de nós dois não botasse mão em nenhuma mulher. Afiançado, falou: – “Promete que temos de cumprir isso, Riobaldo, feito jurado nos Santos-Evangelhos! Severgonhice e airado aveio servem só para tirar da gente o poder da coragem... Você cruza e jura?!” Jurei. Se nem toda a vez cumpri, ressalvo é as poesias do corpo, malandragem. Mas Diadorim dava como exemplo a regra de ferro de Joãozinho Bem-Bem – o sempre sem mulher, mas valente em qualquer praça. Prometi. Por um prazo, jejuei de nem não ver mulher nenhuma. Mesmo. Tive penitência. O senhor sabe o que isso é? Desdeixei duma roxa, a que me suplicou os carinhos vantajosos. E outra, e tantas. E uma rapariga, das de luxo, que passou de viagem, e serviu aos companheiros quase todos, e era perfumada, proseava gentil sobre as sérias

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imoralidades, tinha beleza. Não acreditei em juramento, nem naquilo de seo Joãozinho Bem-Bem; mas Diadorim me vigiava. De meus sacrifícios, ele me pagava com seu respeito, e com mais amizade. Um dia, no não poder, ele soube, ele quase viu: eu tinha gozado hora de amores, com uma mocinha formosa e dianteira, morena cor de doce-de-buriti. Diadorim soube o que soube, me disse nada menos nada. Um modo, eu mesmo foi que uns dias calado passei, na asperidão sem tristeza. De déu em demos, falseando; sempre tive fogo bandoleiro. Diadorim não me acusava, mas padecia. Ao que me acostumei, não me importava. Que direito um amigo tinha, de querer de mim um resguardo de tamanha qualidade? Às vezes, Diadorim me olhasse com um desdém, fosse eu caso perdido de lei, descorrigido em bandalho. Me dava raiva. Desabafei, disse a ele coisas pesadas. – “Não sou o nenhum, não sou frio, não... Tenho minha força de homem!” Gritei, disse, mesmo ofendendo. Ele saiu para longe de mim; desconfio que, com mais, até ele chorasse. E era para eu ter pena? Homem não chora! – eu pensei, para formas. Então, eu ia deixar para a boca dos outros aquela menina que se agradou de mim, e que tinha cor de doce-deburiti e os seios tão grandes?! Ah, essa agora não estava a meu dispor, tínhamos viajado muito para longe de onde ela morava. Mas entramos num arraial maior,
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com progresso de bordel, no hospedado daquilo usufruí muito, sou senhor. Diadorim firme triste, apartado da gente, naquele arraial, me lembro. Saí alegre do bordel, acinte. Depois, o Fafafa, numa venda, perguntou se não tinham chá de mate seco, comercial; e um homem tirou instantâneo nosso retrato. Se chamava o lugar: São João das Altas. Mulher esperta, cinturinhazinha, que me fez bem. O senhor releve e não reprove. Demasias de dizer sobem com as lembranças da mocidade. Não estou contando? Pois minha vida em amizade com Diadorim correu por muito tempo desse jeito. Foi melhorando, foi. Ele gostava, destinado, de mim. E eu – como é que posso explicar ao senhor o poder de amor que eu criei? Minha vida o diga. Se amor? Era aquele latifúndio. Eu ia com ele até o rio Jordão... Diadorim tomou conta de mim. E ainda falhamos dois dias na Fazenda Santa Catarina. Naquele primeiro dia, eu pude conversar outras vezes com Otacília, que, para mim, hora em mais hora embelezava. Minha alma, que eu tive; e minha idéia esbarrada. Conheci que Otacília era moça direta e opiniosa, sensata mas de muita ação. Ela não tinha irmão nem irmã. Sor Amadeu chefiava largo: grandes gados em léguas de alqueires. Otacília não estava noiva de ninguém. E
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ia gostar de mim? De moça-de-família eu pouco entendesse. A ser, a Rosa’uarda? Assim igual eu Otacília não queria querer; salvante assente que da Rosa’uarda nunca me lembrei com desprezo: não vê, não cuspo no prato em que o bom já comi. Sete voltas, sete, dei; pensamentos eu pensava. Revirei meu fraseado. Quis falar em coração fiel e sentidas coisas. Poetagem. Mas era o que eu sincero queria – como em fala de livros, o senhor sabe: de bel-ver, bel-fazer e bel-amar. O que uma mocinha assim governa, sem precisão de armas e golpes, guardada macia e fina em sua casa-grande, sorrindo santinha no alto da alpendrada... E ela queria saber tudo de mim, mais ainda me perguntava. – “Donde é mesmo que o senhor é, donde?” Se sorria. E eu não medi meus alforjes: fui contando que era filho de Seô Selorico Mendes, dono de três possosas fazendas, assistindo na São Gregório. E que não tinha em minhas costas crime nenhum, nem estropelias, mas que somente por cálculos de razoável política era que eu vinha conduzindo aqueles jagunços, para Medeiro Vaz, o bom foro e patente fiel de todos estes Gerais. Aqueles? Diadorim e os outros? Eu era diferente deles.

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Fiquei esperando o que ela desse em resposta. Nem nada não acreditava? Mas Otacília mudou para séria a feição do rosto, não queria mais de minha vida só assim meiamente indagar. Os de todos lindos olhos dela estavam me assinalando o céu com essas nuvens. Eu tinha renegado Diadorim, travei o que tive vergonha. Já era para entardecendo. Vindo na vertente, tinha o quintal, e o mato, com o garrulho de grandes maracanãs pousadas numa embaúba, enorme, e nas mangueiras, que o sol dourejava. Da banda do serro, se pegava no céu azul, com aquelas peças nuvens sem movimento. Mas, de parte do poente, algum vento suspendia e levava rabos-de-galo, como que com eles fossem fazer um seu branco ninho, muito longe, ermo dos Gerais, nas beiras matas escuras e águas todas do Urucuia, e nesse céu sertanejo azul-verde, que mais daí a pouco principiava a tomar raias feito de ferro quente e sangues. Digo, porque até hoje tenho isso tudo do momento riscado em mim, como a mente vigia atrás dos olhos. Por que, meu senhor? Lhe ensino: porque eu tinha negado, renegado Diadorim, e por isso mesmo logo depois era de Diadorim que eu mais gostava. A espécie do que senti. O sol entrado. Daí, sendo a noite, aos pardos gatos. Outra nossa noite, na rebaixa do engenho, deitados em couros e esteiras – nem se tinha
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o que cada um sonhava. mexendo em tição.Grande Sertão: Veredas o espaço de lugar onde rede armar. foi. repesavam as vantagens da Santa Catarina.. Então. Diadorim perto de mim. pitou um cigarro. O Jesualdo. era que em alguma parte a lua estava se saindo. deviam de estar agora desqueixelados.. Na beira da rebaixa. você está gostando dessa moça?” – 269 – . percebi que ele ansiava raiva.” – eu falei. – “Riobaldo.João Guimarães Rosa . escutei um entredizer.. Assim eu ouvindo o ciciri dos grilos. apaixonada abobada. não toque no nome dessa moça. No que eu pensava? Em Otacília. Ninguém deu resposta. Eu não queria conversa.. – “Amigo. Fafafa e João Vaqueiro não esbarravam de falar. Ao que nós todos pensávamos as mesmas coisas. Eu parava sempre naquela meia-incerteza. a mãe-da-lua pousada num cupim fica mirando. De repente. a mão-da-lua suspirou o grito: – Floriano. no escuro. as idéias que já estavam se acontecendo eram maiores.. Diadorim formava um silêncio pesaroso. foi. Por longe. Alaripe ainda esteve lá. amigo!. eles viam que era a sério fatal.” – o Jesualdo disse. sem saber se ela sim-se.. foi. Daí. a fogueira feita sarrava se acabando. Deitado quase encostado em mim. – que gemia nas almas. mais o Alaripe também. quem é que sabia? – “Aquilo é poço que promete peixe. Dela devia de ser.

O demônio sabe.. Como o diabo obedece – vivo no momento. Deu para eu ver o punhal na mão dele. Cumpri como se deu. Não me lembrei do poder da cruz. naquela extrema hora. com o punhal. outra vez. – “Se nanja. – 270 – . minha alma obedecia. eu não disse o nome de Deus? Ah. – “Você sabe do seu destino. de estar brilhando. Deu para eu ver que ele estava branco de transtornado? A voz dele vinha pelos dentes. Riobaldo?” – ele reperguntou.. se defastou e deitou de corpo.. sei não. neguei que reneguei. – “Não. Não tive medo de morrer.” – eu disse. não sei.João Guimarães Rosa . o assopro do rosto dele me procurando. Diadorim. Os olhos dele dançar produziam. Só não queria que os outros percebessem a má loucura de tudo aquilo.. meio ocultado. Riobaldo?” Não respondi. não fiz esconjuro. meio deitado meio levantado. Aí estava ajoelhado na beira de mim..” – eu respondi – “Pergunta.” Me diga o senhor: por que. – “Você sabe do seu destino. Tremi não. Estou gostando não. E ele devia de estar mordendo o correiame de couro. Diadorim encolheu o braço..Grande Sertão: Veredas Aí era Diadorim.

Diadorim. eu ia com meu pensamento para Otacília. no claro de uma espertina. me levantei. Não tive receio.João Guimarães Rosa . Eu tinha dó de Diadorim. Esperei mais. entre claridade e sombras. e até as seriemas podiam se atontar de gritar. em tanto piongo. com todas as novas dúvidas e idéias. Mas lá não estava pessoa nenhuma. Me balanceei assim. Ilusão minha. jogado de dormir. rezada. em tanto gaio. senti a respiração dele. Com muito. remissa e – 271 – . Era da borda-do-campo que a mãe-da-lua sofria seu cujo de canto. feito uma gatazinha branca. Bebi água do rego. com o frio da noite ela corria morna. Tomei a altura do sete-estrelo. Digo. De perto. abençoando redondo o friinho de maio. adiantado na noite. ela devia de sonhar assim. Só olhava para a frente da casa-da-fazenda. E. no cavo dos lençóis lavados e soltos. Quando a lua subisse mais. Tornei a entrar na rebaixa. pressenti que alguém tinha vindo por detrás de mim. outro tempo. me vigiava. mas não adormeci. fosse? Não virei a cara para ver. me enrolei bem no cobertor. e esperanças. Mas a lua subia estada. Diadorim permanecia lá. imaginando Otacília deitada. Nunca posso ter medo das pessoas de quem eu gosto. Saí. de repente. a fantasiação. as estrelas se sumiam para dentro. Ao que fiquei bom tempo encostado no cajueiro da beira do curral.Grande Sertão: Veredas Assisado. Daí. do vulto de árvores da mata cercã. vim voltando.

devo de ter adormecido – porque acordei quando Diadorim no mexe leve se levantou. e pedi meu destino a Otacília. com o vago. Jesualdo e João Vaqueiro se retiraram em adiantando. para o trato de nosso casamento. saiu sem rumor. das barras no clarear. depressa eu tornei a me dormir. excelentes produções. e com notícia urgente: que o grosso do bando de Medeiro Vaz recruzava. Mas eu cacei melhor coragem. disse que havia de gostar era só de mim. por alegria minha. até que. levando a capanga. e nós tínhamos de seguir. e que o tempo que carecesse me esperava. o sor Amadeu tinha chegado. disse a Deus que esse ente eu abraçava e beijava. sem folga. Saí de lá aos grandes cantos. Mas. Alaripe. Não que eu acendesse em mim ambição de teres e – 272 – . Nós almoçamos e montamos. eu pudesse vir com jus. supraditamente.João Guimarães Rosa . Não fosse um.Grande Sertão: Veredas delicada. Eu aí gostava dele. tempo-doverde no coração. e que não desgostava que eu viesse a ficar neto dele. de lá a quinze léguas. E. cedo no amanhecer. No que Nhô Vô Anselmo me deu um dito afeiçoado e diferente – entendi que o velhozinho sabia de alguma coisa. E ela. ia tomar seu banho em poço de córrego. Diadorim. como eu. Desde o que. da Vereda-Funda para a Ratragagem. Por breve – pensei – era que eu me despedia daquela abençoada fazenda Santa Catarina. e o Fafafa.

Diadorim nada não me disse. eram mesmo meus fortes pensamentos. Vim. sempre uma parte de mim ficou lá. desde vez? Por que era que eu precisava de ir por adiante. com Otacília. de sossegadas boas regras. foram anos. O birro e o jesus-meu-deus cantavam. Às vezes me esquecia. Otacília. com um significado de paz. com Diadorim e os companheiros. Diadorim e eu viemos. – 273 – . que apartasse – destinado para nós dois – um buritizal em dote. sofria. desse dia desde. e do que sei.Grande Sertão: Veredas haveres.João Guimarães Rosa . Pensava nela. na festa. roxura. queria era só mesma Otacília. consoante é da vida. Tenho que. minha vontade de amor. Diadorim adivinhava. Foram esses meses. pai dela. Às vezes menos. Mas Diadorim. Sentimento preso. e. nas roupagens. o sor Amadeu. nestes Gerais meus? Destino preso. quando eu pensava em Otacília. atrás de sorte e morte. na mesa grande com comedorias e doces. Mas. por onde queria. O melosal maduro alto. me levava. às vezes mais. conforme o uso dos antigos. A poeira das estradas pegava pesada de orvalho. eu pensava: nas rezas. Mas. com toda sua roxidão. às vezes me lembrava. o mais. Destino. no meio do solene. vim. Por que eu não podia ficar lá. sabia. Mas. de amizade de todos. de rota abatida.

no meio do dia. eu prezava Zé Bebelo como amigo.. Talhei de avanço. Como eu estava. obra de seis léguas. mas a sobre-coisa. Aprendi um pouco foi com o compadre meu Quelemém. mas ele quer saber tudo diverso: quer não é o caso inteirado em si.” O Hermógenes reunia o pessoal. eles estavam chegando. Mudamos de acampo. Légua. com o senhor mesmo – me escutando com devoção assim – é que aos poucos vou indo aprendendo a contar corrigido. E eram só uns sessenta. não. para perto.Grande Sertão: Veredas Essas coisas todas se passaram tempos depois. mas perdi a vontade de ter coragem. patrulhão de cavaleiros. no meio dos Hermógenes. por aí. E para o dito volto. não era verdade – mas. mas mesmo assim foi feito surpresa. A gente carecia de levar o préstimo maior de – 274 – . para perto. E uma coisa me esmoreceu a torto. Destaque feito: Zé Bebelo vinha vindo. em minha história. O senhor tolere minhas más devassas no contar. a outra-coisa.João Guimarães Rosa . quase. o sim. Eu não converso com ninguém de fora. E tivemos notícia: a légua dali. Respeitava a finura dele – Zé Bebelo: sempre entendidamente. Eu não podia imaginar que ia entrar em fogo contra os bebelos. neste dia nosso. Vinham por nós. Agora. De certo modo. Todo o tempo eu vinha sabendo que nosso fim era esse. Medo.. Não sei contar direito. com o senhor. – “É agora! É hoje!. É ignorância. todos.

João Goanhá.Grande Sertão: Veredas munição. Da voz de homens e do tinir de armas em má véspera. Que era que. – “Zé Bebelo é arisco de aviso. comi fria a minha jacuba. uma coisa não referi ao senhor. Aonde? Diadorim. deve de ter outra tropa de guerra. até o que a gente tinha de fazer depois. de mais próprio respeito. em esconso. Riobaldo. Tudo estava sendo determinado decidido. Aí João Goanhá apartava o pessoal em punhados – 275 – . Às armas. depois mais do tudo que houve.. que eu tinha de zelar por vida e pela dos companheiros. por um gesto. prezável de passeata. – “Eles sabem. Mas era. isto também sim: era. Diadorim. traição.. Ele joga seguro: por aí perto. no arranchamento do Hermógenes.João Guimarães Rosa . me cortou de fazer mais perguntas. não se podia deixar de receber um lufo de dureza. Titão Passos. minha amizade com Diadorim estava sendo feito água que corre em pedra. e disse.” – Diadorim me respondeu. Eu sei bem – essa a norma dele.. e muita coisinha se empequenava. Ah.. Agora.. prontos para virem dar retaguarda. Era? Hoje eu sei que não. aquele tempo. Toda guerra é essa. para aquilo. Diadorim ia. porque eu pensava que era.” – eu não retive.. não foi? Agarrei minha mochila. que se pudesse.. E eu estava sabendo que eu já dizer aquilp era traição. sem pepa de barro nem pó de turvação. Carece de prevenir o Hermógenes..

maneiro nas juntas. a gente ouvia o gugo da juriti como um chamado acabado. – “Presta uma demão. Restantes risadas davam. Riobaldo. Era um montesclarense – acho que o cujo nome esqueci – que queria passar tiras de pano. amigos. Foi minha mãe-de-criação quem costurou para mim. contritos. parecia muito e pouco. tinha praça. Pelas caras dos homens.Grande Sertão: Veredas de quinze ou vinte: cada um desses.. Quem quisesse rezar. eu via que estavam satisfeitos.. e fez os passos de dança. junto com lobo guará já dando gritos de penitência.” – um se exaltava assim. por sola das alpercatas e peito dos pés. outros. zampando. é o trivial do corpo!” – explicavam alguns.. que ainda careciam de ir por suas necessidades. – “Não é medo não. Com regozijo. – 276 – . tive medo de castigo de Deus. Que simpatia demonstrada era essa. acompanhavam. Hoje se faz o que não se faz. Ao que faltava nem meia-hora para o sol ir entrando. um sacudido oitavão. acabado o fogo. um golinho se bebeu. íamos ter de brigar em pequenas quantidades. Mas eu carrego dois. eu nunca tinha dado fé daquele Feijó? – “A vamos. podia.. aqui..João Guimarães Rosa . Daquele lugar. vazio de moradas e de terras lavradias. Daquela hora em diante. Terminou. reforçando. Outros ainda comiam. devia de se reunir em lugar certo comum.” Ajudei.. – “Toma este breve. ele manobrava rifle de três canos.” Era o Feijó. limpavam a boca com as duas mãos.

Mas. quando passava.João Guimarães Rosa . e o que queria. porqual os espias nossos rondavam. Podiam ter espalhado sentinelas muito longe. andar. disso. por má-sorte. Onde era que a viola ele ia poder guardar? Eu apertei a mão de Diadorim. até se carecia de respirar só por metade. sempre que puder. na hora. relampeando faca. e queria sair. Ao menos ele sabia aonde ia levar a gente. nas contravertentes. que todos soubessem! A partida dos zebebelos estava com posição no Alto dos Angicos – tabuleirinho de chã. gastar. E põe cautela: homem rasteja por entre as moitas. Que todos cumprissem. Aquele rapaz pensava alguma coisa? – “Riobaldo?” – Diadorim me disse – “arruma jeito de mudar de lugar. Deu resumo do traço. e engatinhar às ladeiras.” Diadorim sorria sério. violeiro. um podia dizer: que até ficava. em volta. Tudo tinha de valer Pm cnnsagato e finice. logo se ia saber. já como o escuro. de surpresa. até na beira do córrego Dinho. no durado da noite. Cada um de seu Ponto melhor.Grande Sertão: Veredas assobiava. e vem pular nas costas da gente. ou para lá. ele que – 277 – . Se algum topasse com inimigos. no clarearzinho da madrugada. A voz do Hermógenes. Era o Delfim. Um outro me esbarrou. Só íamos abrir fogo. dando ordens de guerra – já disse ao senhor? – ficava clara e correta. na arte vagarosa. O que se tinha era de chegar. antes. Conto que chegou o Hermógenes.

Porque nosso prazo seria acabar com todos.Grande Sertão: Veredas escorresse como pudesse. Já vai que o Hermógenes explicava.” Para que vou mentir ao – 278 – . eu já estava lá. – “Riobaldo. Mesmo assim. Peguei a sentir. Me fiz fácil nas armas. para um reforço. Careço de três homens bons. que eu não contava. me aprontava. mas só depois do Hermógenes – que era quem era o dono: – o primeiro tiro ele dava. com brevidade. e rastejava. no próximo de meu cochicho. de cada vez que ele repetia. e estava definido o rumo de tarefa por onde cada um devia de se pôr no chão e começar a engatinhar. rede passada e um cobertor por tudo cobrir – ele estava parecendo até um homem gordo. Como cada qual tinha de atirar com sangue-frio. mais antes que outros deles pudessem vir. à emboscada. devagar. catei o sentido de tudo já na primeira razão. com paciência: o dever absoluto era que até o mais tonto aprendesse. mochilão. Por jeito? Com o que se deu. num tombador de pedra. ou dependesse na faca: atirar com arma é que não podendo. tu vem. Lugar nosso vai ser o mais perigoso. O Hermógenes me chamou. eu reproduzia – em minha idéia os acontecimentos se passando. Tatarana. e tudo repetia. de matar exato. Sendo que podendo. Titão Passos ia com uns trinta companheiros reguardar o caminho de vinda. eu. e.João Guimarães Rosa . Mas. Aí – as cintas e cartucheiras. virada arriba.

Eu estava fechado. Eu era feito um soldado. que espremi de minha sustância vexada.” A arga que em mim roncou era um despropósito. uma pancada de mar. sem mãe. que foi. era feito uma lei. acheguei meus dentes. Riobaldo. A pessoa daquele monstro Hermógenes não encostava amizade em mim. fechado na idéia. E nem ele. por cima de mim e dele. agarra gosma. Natureza da gente bebe de águas pretas. que digo. forte. eu. A gente – o que vida é : é para se envergonhar. jagunço. me conferindo valia.. estava Joca Ramiro. Pensando: – “Joca Ramiro! Joca Ramiro! Joca Ramiro!. Pensei em Joca Ramiro.. eu!” Joca Ramiro é que era – a obrigação de chefia. Quem sabe? Eu gostei.João Guimarães Rosa .. fechado no couro. uma lei determinada. Pensei nele só. que forte era. sem índole nem gana. Com a dureza de querer. Riobaldo. homem de matar e morrer com a minha valentia. não obedecia àquele Hermógenes. um certo aprazimento me deu. eu fiquei inteiriço. Mesmo com aversão. homem. obedecia a uma regra alta. sem pai. naquela hora. Mas. como um escrúpulo. Nem precisava mais de ter ódio nem receio – 279 – . E. fui sendo outro – eu mesmo senti: eu Riobaldo. Pesei o pé no chão. sem pertencências. só uma obrigação de chefia. aí.. Dentro de mim falei: – “Eu. não era. Era um nome. sem apego nenhum. Mas Joca Ramiro parava por longe.Grande Sertão: Veredas senhor? Com ele me apartar assim.

Só. para as horas. – 280 – . pelos perigos que eu visse virem a ele. é o que eu mesmo não sabia. ele tinha que eu escolhesse os para vir juntos. Aí. naquilo. leão coração? Se sei. Bem que eu queria também o Feijó. Eu? Ele estava me experimentando? E não tardei: – “O Garanço.. mas deviam de ser só dois. E estúrdio: eu principalmente não queria Diadorim perto de mim. E assim respondi: que então o Garanço e o Montesclarense iam com a gente.João Guimarães Rosa . – “. Porque era como eu estava. ou seria que a lembrança de ter Diadorim junto. E Diadorim? – o senhor perguntará. aos três.. a conta já estava.Grande Sertão: Veredas nenhum. Seria que me desvalesse a presença dele comigo. por Diadorim era que eu não dizia. viemos vindo. Ah. aqui!” – completei. Já a já. Dessas boas fúrias da vida.” – eu disse. desfeitos aos dois. Como saímos. O tempozinho todo. era noite. agora eu assim. Por quê? Por que. e este. me desgostasse. aos sozinhos. por me enfraquecer. o pensamento nele me repassava. para aquele montesclarense apontando. naquele soflagrante. duro ferro diante do Hermógenes.. Noite da Jaíba dá de uma asada. E fui desertando da cobiça de mimar o revólver e desfechar em fígados.. Refiro ao senhor: mas tudo isso no bater de ser. sei. no meio do combate.

Só esforçava tenção numa coisa: que era que devia de guardar tenência simples e constância miúda. pode ter conversa? Só esses pássaros de pena mole. Aquele pássaro mede-léguas erguia vôo de pousado no meio da estrada. que sabe bem aonde vai. toda vez ia se abaixar dez braças mais adiante. disse: matar-e-morrer? Toleima. Digo ao senhor o que eu ia pensando: em nada. – 281 – . nem o Montesclarense.Grande Sertão: Veredas uma pancada só. Bobice dele – não via que o perigo torna a vir.João Guimarães Rosa . não dizia palavra. Isso. Minha pessoa tomava para mim um valor enorme. Nisso mesmo era que eu não pensava. esperando a novidade de cada momento. pedindo tabaco-bom. sempre? Digo tudo. Conto tudo ao senhor. com grandes risadas. Descarecia. sabe sem barulho. A quando o vulto dela assombrava em frente da gente no ar. Quem vai morrer e matar. De tantos matos baixos. eu a eles agradecia. eu fechava os olhos três vezes. Nem o Garanço também. O caminhar da gente se media em silencioso. conforme de comum esses fazem. O Hermógenes rompia adiante. Era assim: eu ia indo. gerados da noite – tantos bacuraus insensatos: o sebastião que chamava a fêmea. nem o das alpercatas não se ouvia. carrascal. do jeito mesmo. em meu sentir. Por lá a coruja grande avoa. Há-de: que se acostumar com o escuro nos olhos. o chio dos bichinhos era um milhão só.

o Hermógenes esbarrou. Caminhar de noite. E com as mãos apalpávamos uns os outros. não partir galhos. olhar assim. que nem o de suindara. tudo não é sina? Nanja não queria me alembrar. atravessamos o córrego. Com meia-légua andada. tudo é mesmo possível. era junto a junto. puxando.Grande Sertão: Veredas cumprindo ordens. se jura sabença: o que preza o chão – o pé que adivinha. no breu. senti o espaço da minha nuca. sabíamos de uma estiva. o que viesse vinha.João Guimarães Rosa . tinha de chegar num lugar. de nenhum. Que olhos. pulando pelas alpondras. que esse. enxergava por nós. Eu estava atrás – 282 – . Ali era o lugar pior: um estremecimento me desceu. o Hermógenes sussurrou ordens. Eh. mas lá se temia que tivessem botado sentinelas. a noite barrava bruta. nenhuma. aperrar as armas. Pouquinhas estrelas dando céu. Saiba o que eu mais pensei. No seguinte: como é que curiango canta. Cada um com punhal a ponto. Deitamos. em certas horas. mais para baixo. O Hermógenes. descascavam de dentro do escuro qualquer coisa. A gente imagina uns buracões disformes. No outro lado. Digo ao senhor: a noite é da morte? Nada pega significado. Do escurão. acontecia o seguinte. Dali em diante. A gente espera vozes. É preciso não roçar forte nas ramagens. por um trilho. Con chegamos. Que o curiango canta é: Curí-angú! A obra de umas cem braças do riacho.

Nada não disse. a água perto. os pensamentos que tive foram os que nem merecem. direi. o riacho. Fosse coisa de comer. que em forte cachaça ele tinha acabado de empapar. Acender cigarro e pitar. Ao que os mosquitos deixaram de me ferroar. Ah o que os mosquitos infernizavam. e eu não sou capaz de dar narração: retrato de pessoas diversas. aquela resina de ici-í. mal ou bem aquela noite tivesse termo de terminada.Grande Sertão: Veredas duma árvore. pois então. Por isso mesmo. fazia parte. bem. coisas em vago das viagens que eu tinha feito.João Guimarães Rosa . A noite é uma grande demora. Era o Hermógenes. os mosquitos vêm. que a mosquitada não deixava? Mas não seria de mim que pudesse ferrar no sono assim perto daquele homem. uma almêcega. Assim. carecíamos de persistir horas. um taco de fumo me dando. não agradeci. Naquela espera. toma. Era para se esfregar na cara e nas mãos. passante por suas pedras. A noite durava. me divertindo de beliscar a casca da almêcega. não aceitava. príncipe das tantas maldades. era que Hermógenes tinha escolhido ali: que ninguém pegasse no sono. não concedem sossego.” – ouvi. dando tempo. – 283 – . ressalte de conversas tolas. Daí. – “Tá aqui. eles acordam com o cheiro da cara da gente. E esfreguei. Desde fiquei. não se podia. Aquilo era do serviço de armas. Aceitei. Mais atrás de mim... O que eu queria era que tudo sucedesse.

sabe?: sem querer. Se coça a canela com o calcanhar. Carece de repartir frouxo o peso do corpo. dá aviso ao inimigo. O punhal travessado na boca. que se assusta forte a vôo. a gente rosna. no mesmo lugar – dão muito aviso. verte perigo. o senhor mesmo escuta. coisa que só mesmo em guerra é que se quer.Grande Sertão: Veredas Haja de contar o que foi – o todo de se escorregar para cima a encosta – até ao ponto. esses são mil demais. escuta. semelhante fosse nadando. Tudo um ai de vagar. – 284 – . vai – sendo serepente – de gatoem-caça. Qualquer barulho sem tento. que se faz. e vai. que chega aporreia. donde a espera de tocaia devia de ser? Aquilo o igual. Um homem se arraiga em terra. Pássaro pousado em moita. no chão. Aí quando é tempo de vaga-lume. qualquer mato ameaçava que ia bulir: com o inimigo vindo dele. cotovelo e joelho é que transpõem. às vezes esvoaçam aos gritos. o senhor vira o corpo num lado: e olha. no capim. sempre sendo. De cada vez. tem que ser.João Guimarães Rosa . – estando com polaina não adianta. Às guardas. por mais de. Pior são os que têm ninho feito. O que nós estávamos fazendo era uma razão de loucura muita. Não vale arranco de pressa. na grama em redor é uma esteira de luz de fogo verde que tudo alastra – é o pior aviso. eles vão se esparramando de acender. o senhor tem de ficar o comprido que pode. sobre toda a parte: a gente mal chega. As juntas da gente estalam.

afastaram a erva alta. numa certa morte dessas. Quando de sem– 285 – . tlique. minha cabeça eu encolhi. que corta a cara. num corisco de momento. do sereno da noite. nunca se tem certeza. Pior é a surucucu. têm um estourinho.João Guimarães Rosa . braço por braço. A gente amassa com a barriga espinhos e gravetos. eu sentia o bafo duma boca. o Hermógenes rompia. O inimigo pode estar engatinhando também. E uns gafanhotos pulam. Capim de beira em fio. Raio de um repente. traiçoeiramente. Rezei a jaculatória de São Bento. que passeia longe. O cheiro de terra agoura mal. – é o que digo ao senhor. fungou e escutei o esfrego de suas muxibas. e cobra? Pensar que. me desgostava. das folhas. caindo por minhas costas. Trabalhos de unha.Grande Sertão: Veredas Árvores branquiçadas. A água do sereno me molhava. que ia entrando no buraco. Que modo quê? Rastejando de minha banda da direita. eu figurava que era das estrelas remexidas. Ah. titique delas. lagrimado. vez mais atrás. O Garanço e o Montesclarense espigavam vez mais adiante. versa por detrás. monstro: essa é o que há com mais doida ligeireza neste mundo. e eu no rés dele. da macega. Tatu-peba. se pode premer mão numa rodilha grossa de cascavel. é preciso de saber quando é que é melhor se calcar no estrepe firme com gosto – que é o que mais defende d’ele não se cravar. Era um tatu. noturnazã. O capim escorria. e aquele avultar deitado de bicho duro.

descendo no rumo de seu poente. O cheiro dum araçá-branco formava bolas. Quietei. já estavam na cabeça do Hermógenes. Não queria. O senhor acha que é natural? Osgas. Pensei: será se eu fosse adoecer?.Grande Sertão: Veredas menos.João Guimarães Rosa . o meu primeiro fogo tocaieiro. Onde era que estavam as estrelas dianteiras. calado curto. Cochilei.. eu resumi: – Osgas. digo ao senhor. um sofre o festo da noite. Dormi. pelas estrelas que vão em movimento. eu não olhei para o céu. Ele falou um murmo – me cochichou de mão em concha. não era? Ao que. Aquelas mortes. não era. elas viravam.. o chão esfriava. o pensamento dele assanha – feito um berreiro. um longe de dor-dedente já me indispondo.. um homem existente encostado no senhor. O Hermógenes. Eu tinha fechado os olhos. o Hermógenes me esbarrou. eu não estava só obedecendo? Pois.” – ele redisse. tenho.. Por descuido de querer. Aquilo que cochilei – dormir. Não podia. ror. que é que foi do meu tempo. Danado desuso disso é o antes – tanto antes. que horas que se passaram? Aí eu podia medir. mesmo? Eu não era o – 286 – . Até que o dia deu. eu em firme rejeitava. Mas. no escabro. que a gente tem de enxotar da idéia: eu parava ali para matar os outros – e não era pecado? Não era. Eu não tinha nada com aquilo. – “É aqui mesmo. e os macios pássaros da noite? – pensei. que eram para daí a pouco. próprio. Assim espichado.

por conta nenhuma.. por ganhar seu dinheirinho fiel.” E o Catocho. em bró de fantasia: ele grosso misturado – dum cavalo e duma jibóia.. fazer o que mandasse.. coisa como uma careta preta? É erro. Eu ia matar gente humana.” Por que era que falavam essas perversidades. povo reunido na beira do Jequitaí... Não. Dali a pouco. elas vinham. Meu querer não correspondia ali.João Guimarães Rosa . Tive de matar o pai deles. Matei. oi. feito tropa de soldo. Nada. lá ... é que é num átimo. Como era o Hermógenes? Como vou dizer ao senhor.. Por que é que falavam. entre ele o crico de grilos e tantos bichinhos divagados. nada. Mandava matar.. o madrugar clareava. eu tinha de ver o dia vindo. Eu nem conhecia aqueles inimigos. Assaz. virou sombração. com sombras vermelhas. loca Ramiro queria aquilo? E o Hermógenes. O exemplar da morte.. tão direitinha. Quantos não iam morrer por minha mão? Andante que perpassou um vento. que disse: – “Aquele? Hoje ele não existe mais. Por que era que eu – 287 – . tinha raiva nenhuma deles... As coisas que eu nem queria pensar.. tão ligeira.? Bem. a noite. dessa. Eu tinha de obedecer a ele. contando doutro: – “.. Vezo de falar do Geraldo Pedro.. em sua capatazia. Dito por uns: no céu.Grande Sertão: Veredas chefe. Pessoal de Zé Bebelo.. Lá tem uns órfãos meus. mandante perto. Ou um cachorro grande. mas pensava mais..

O que eu tinha de querer era que nós dois saissemos sobrados com vida. emparelhado com um capiauzinho bondoso. gastava nele um breve tiro. ia para um moinho.. companheiro qualquer. no Buriti-do-Á. para berganhar o milho por fubá. aqueles outros. de todo jeito morresse muita gente.Grande Sertão: Veredas tinha de obedecer ao Hermógenes? Ainda estava em tempo: se eu quisesse. às voltas. caçava de meu sumir nesse vai-te-mundo. e corria. nada: então. numa madrugadinha. primeiro de todos morria eu. por uma estrada de areia branca. sem maldade. os contrários. por todas as partes. desses todos combates. aí mesmo era que o fogo feio começava. acabasse a guerra. – 288 – . somente sendo. O Hermógenes mandava em mim. a cavalo. era um estado de lei. a gente ria. beira de vereda.. Ah. eu ia levando meio saco de milho na garupa. ele era mais forte! Pensei em Diadorim. Agora. nem dele não era. para os altos Gerais tão ditos. E eu ia. íamos embora. não estavam também com poder de me matar? À asneira.João Guimarães Rosa . Mesmo estava sem remédio. conversava de tantas miúdas coisas. À fé: aqueles zebebelos também não tinham varado o Norte para destruir gente? E pois?! O que tivesse de ser. bem certo. nós dois largávamos a jagunçada. – sonhos que pensava. para uma fazenda. se pitava. Não era nem o Hermógenes. sacanhava meu revólver. Que que quer. viver em grande persistência. ladeira abaixo.

” Eu vi quando o Garanço rojou. Ah.. fui ficando soporado. – 289 – . Como clareia: é aos golpes. a escuridão puxada aos movimentos.Grande Sertão: Veredas eu cumpria. a gente ia indo. A ver. dez metros de chão de flor. nós dois. obra de cinco metros para a minha frente. a cavalo. agora veio da outra banda. chato no chão.. era o que me dava cordura de paz. adiante. então torci o de dar cãibra. O que se carecia justo de fazer era acabar logo com a guerra. indo. que que me importava? Dessa noite esquecer não posso. voltou para perto de mim. depois com o Montesclarense – mostrava a eles os lugares em que deviam-de.. Aquele homem era danado de tigre. me dizia. digo ao senhor: dessa noite não me esqueço. Disse: – “Tento. A gente estava de costas para as barras do dia. Posso? Aos poucos. o campo cheirava. Pensar em Diadorim. Depois. acabar com aqueles zebebelos. Diadorim.João Guimarães Rosa . tirei a dureza dos dedos. repensava. para a aurora. indo.. Matar. no céu. relando barriga em macio. Numa minha perna. matar. Riobaldo. pegou postura na proteção dum cupim grande. Arre. todos cumpriam. “Vou para os Gerais! Vou para os Gerais!” – eu dizia.? Cabeça de homem é fraca. Por que que eu ia ter pena dos outros? Algum tinha pena de mim. Garoou. Me lembro do que me lembro: o Hermógenes cruzou. estava cochichando na cabeça do Garanço. nem bom nem ruim.

Tudo era paciência. agora. buscar mais água no corguinho. para tudo. triste. Aí passarinhos que já vão voando. Triste. E apareceram vultos de outros. lá era que eles estavam: por entre umas árvores pequenas.Grande Sertão: Veredas pouquinho para esta banda da esquerda. E. Até achei bonito. não se sabia. Olhei adiante. vir às brabas? Ah. a peitica. contravisto. De sovigia. No não longe.João Guimarães Rosa . em boa distância. Com pouco. se carecessem. com o menorzinho ralo de luz eles se contentam. curto. dava réstia de claridade. folheando. Por que não se avançava de uma vez. alguns podiam vir descendo. para seu só isso de caçar o de comer. mesmo aquele principiozinho de madrugada. Sendo somente que o acampamento dos bebelos devia de estar a uma hora dessas cercado exato. fechado. outros. Vinha um ventozinho. Ele ia acender fogo. não se podia. Apertava a necessidade. levantantes. um tiriri cantou. Eu ainda mudei distância de uns passos: aproveitei tapação duma árvore de boa grossura – um araçáde-pomba. Tantos homens amoitados. divulguei o Montesclarense. Doesse na gente. nós quatro havíamos de restar mortos. à roda toda. rumo a rumo. cosidos nas parnaíbas. dos companheiros. e um formato de homem. que só espiavam: na obrigação – refleti. para mim. Só logo no primeiro entremear com os bebelos. Alegre. Asneiras que pensei: – 290 – . o Hermógenes não me largava.

aí e o comum que cavacam poeiras e terras.. digo ao senhor.João Guimarães Rosa . Aceitei. agora não se podia mais ter outros lados. Tatarana! É o é.. sou feito. não vê que a vida é só brabeza. granadeira e comblém. Agora era só gritar ódio. E em toda a parte. Não tremi.. de vez pronta: eu já tinha resumido pontaria: eu tive consolo duma coisa. D’o Hermógenes ali junto estar. que era que aquele homem alto não podia ser Zé Bebelo. Desamarrei mão. a gente esbarra e espera: espera o que vão responder. e escutei meu tiro. tomei ar. e o do Hermógenes. caso quisesse. e o ar se estragou. Digo ao – 291 – . dele. naquela hora. rolou na má poeira. Demais é que se está: muito no meio de nada. O senhor ali não tem mãe. Festa de guerra. Mais digo ao senhor? Atirei. por medo ter? Eu não campeava a morte. o tiroteio tinha começado. A gente quer porções. e o homem alto caiu certo morto. Que qual.” – ele me governou. trançado de assovios de ferro metal. Me deu uma raiva. Aí. Falavam os rifles e outros: manlixa. Revém ramo cortado de árvore. O senhor já viu guerra? A mesmo sem pensar. Estrondou. gostei. Seguro nasci. deles todos.. A morte? A coisa que o que era xô e bala. minhas vezes. – “Riobaldo. de repente. a sobre.Grande Sertão: Veredas será que eles gastaram muita água? Será que um esmorece.

. Mas eu estava era de repente pensando em meu padrinho Selorico Mendes. dou conversa. que por minha mente marinhavam.João Guimarães Rosa . demorava um oco.. Homem sozinho. Aquele povo inimigo nosso esperdiçava muita munição. Não queriam morrer por nossa mão. igual. Fiquei meu. o Hermógenes era um como eu. Os tiros peguei a querer contar. como vai saber? São coisas que não cabem em fazer idéia. Ri me ri. Se o senhor já viu disso. O dia tinha clareado saído: eu todo podendo descrever o Montesclarense. vai! Tu não quer?!” – foi o que arranjei vontade de gritar com o Hermógenes. “.. tu mesmo vai lá. Se todos passam mão em arma e fecham volta de tiroteio. – 292 – . atrás dum toro de pau e moitas de anduzinho. Cão. atiravam com nervosia. não queriam. “Agora. se não sabe. sabe. Ri mais. escorei. igual. Aquilo como durou. uns contra os outros.. que ele. Em isso ele me crendo endoidado. Aquilo era. e o Hermógenes me chamou com assombro. com sua carabina em mãos. Eram só tolicezinhas.Grande Sertão: Veredas senhor. E aqueles bebelos tinham feito madrugada para levar fogo. Artes que carreguei o rifle.” – acho que pensei. então o mundo se acaba. Para que conto isto ao senhor? Vou longe. repetente. até pior atirava.

mais valia garantir o bom do posto. Como não. Quase que só quando se pega no defendimento é que isso é de se fazer: para pensarem que se vai em número maior que a verdade. pelo que sei. O Garanço tinha – 293 – .João Guimarães Rosa . o fogo deles não desmerecia. O sol encostava na nuca da gente. cujo descuido.Grande Sertão: Veredas Combate quanto. Os outros picavam forte. ia servir só para mostrar mais alvo. os muitos tiros se assanhavam. Aquilo servia até para carga de bocamorte. Nem cento – e-cinqüenta braças era o eito. Era assim. eu etcétera. Minto? O senhor releve idéias. Deu vez de. combate grande. transpirava dos cabelos. eu atirava. jaculação minha. Ao que. e vira em vira. Sol. de sentir as cócegas grossas no meio do lombo. Então. que não era o caso. de prão. e pelo dentro das roupas. aí. Cachorrada! Xingar. e as horas não acabavam. Queriam costurar. eu descansava meus olhos nas costas do Garanço. nem. Tiro de lá chama tiro de cá. mesmo. Disparo que eu dava. debaixo eu suava. solão. Mas só aqueles que para morrer estavam com dia marcado. Não se ia avançar? Não. ali quase em minha frente. que a gente não rastejava alterando de lugar. era catando mover alheio. sem desguar. Ser menos. como malandro malandreia. Aí. e essas dormências numas partes do corpo. E mais de um. em riba dum trecho só. pelo que vejo.

” Estrumes! Pelo que foi. também.. Bala e chumbo.. Então.João Guimarães Rosa .. os outros nossos.. sacudia o corpo.. e. Garanço. Caiu. Não se atirou. catando cacos.” O lugar do coração me apertando – eu era carne muita e calor bravo – “O que foi? Que é?” – o Hermógenes me perguntou. Três. de lá. uns homens dos nossos deram figura. eram dois. da banda esquerda de nós. Chumbo e bala. arredondada. só com a camisa de xadrezim.. E. investiram – contra o contra! Ao que. decerto se acabavam – 294 – . aos gritos. no meio das costas dele. “Bala e chumbo. vai. – “Diá!” – o Hermógenes rosnou: – “Deu a fúria nesses. se pulando para diante. no igual.... estava sem jaleco... Pobre... roncavam em poeira deles. Rapaz de como se querer. que se danando no vespeiro dos bebelos.. “Bala e chumbo. “Bala e chumbo. com minúcia de valentia. homem de leal qualidade. suspendemos fôlego. nele balearam. – “Nada não!” – respondi. o Hermógenes me segurou tente: que o Montesclarense – coitado! – também tinha crescido para avante. iam de coronhada e faca. alargada.. eu atirava. ele era amigo meu.. na camisa. Deu doidice? Antes aí. bute!” Raspa que eles por lá entraram.Grande Sertão: Veredas arrumado no chão o bissaco e o cobertor. aquela nódoa escura ia crescendo. de repente: bem apartado. O Garanço disparava.” – eu peguei a dizer. Eu vi o suor minar em mancha.

Descansava de todo desânimo.Grande Sertão: Veredas estraçalhados que nem coelho com a cainça. ver. a fino de faca. não dá de esquentar arma. mas minha cabaça não dava gota mais. morresse.João Guimarães Rosa . Aquilo não ia ter pique de ponto. esses assoviaços. eu estava ali era feito um escravo de morte. guerra que não se sabe terminar? Assunto que apostaram os mil tiros para cima de nossa redondez de lugar. de quantos tinham morrido ou estavam mal. povo nosso demos raiva de fogo – aí é que foi atirar. eu descansava. e eu carecia de avistar os outros. por um vir? Que mandasse avançasse. A ver que tive sede. feito caramujo de sombra. saber de qualquer contagem de balanço. dos deles e dos nossos. Só os tiros bons poucos. Mas. Guardei meu cuspe. espécie de mais medo. o que um não confessa: vara verde. gasta munição não. Só cobrar o dizmo. Eu queria saber. nós todos tínhamos de avançar? Então. Meio peguei um pensamento: se o Hermógenes sungasse raiva. se o Ele desse nele. Andando que aquele ataque nosso não servia para resultado nenhum. O Hermógenes me resignou os ímpetos: – “Tatarana. tive um tempo de coisa. repetido reproduzido. No ferrenho. Triplavam. no – 295 – . Tomara tivessem aprontado seus alguns! Assim aquilo sossegou. te trava. Combate sem cabimento! Só o tiroteio. sem querer meu.” Aquele homem fazia frio.

– “Mano velho. Ah. logo senti.. Eu. Limpei os beiços. e agradece ao corpo um poucado.Grande Sertão: Veredas puto de homem.. Tem um ponto de marca. coração quejando. no bornal. come. Bebi. nas costas do Garanço. que mastiguei daquela carne. Eu atirava. e o Hermógenes estava deitado ali. Aí. – 296 – . num duro de moita.” Há-de que estava me oferecendo a capanga. abocar minha arma nele Hermógenes. desfechar? Podia não. A vida era assim mesmo. Até me caceteou uma lombeira. Tanto que os tiros tinham esbarrado quase em completo. no surrão. minha coragem regulada somente para diante. em partes. O que estava me dando. que esta é competente. nem fome acho que não tinha direito. e munição minha de balas. toma. engoli daquela farinha? E pedi água. na cabacinha. era água com cachaça. em mim encostado – era feito fosse eu mesmo. somente para diante. Eu carecia lá do Hermógenes? Mas. Eu olhava aquele bom suor.” – ele riu.João Guimarães Rosa . Ele atirava. de matula. Que me disse: – “Tatarana. bebe.. paçoca de carnes. que dele não se pode mais voltar para trás. e toda hora ele estavas sempre estava. Tudo tinha me torcido para um rumo só. por que foi então que aceitei. Escorei o cano do rifle. tendo comida minha.. no danadório! E eu não podia virar só o corpo um pouco.

Ah.. eh. Olhava para as costas do Garanço. Riobaldo: agora é a má hora!” – era o Hermógenes prevenindo.Grande Sertão: Veredas E. sempre empinado com a frente do corpo. ela. sucedidos. estava ficando de outra cor. ao em que bola me vinha goela arriba. o trabalho está desandado. cavaleiros. Mais disse: – “O diabo deu em erro.João Guimarães Rosa . O Garanço parado quieto. Soprou: – “A muita cautela.. – “Demo!” – eu repontei.. deu-se.. pressentiram! Sei se. A bobagem. Eu olhei. O Hermógenes esticou o pescoço. O suor vermelho.” – o que o Hermógenes disse. Mas ele não entendeu minha soltura. que às vezes em lágrimas nos olhos se transforma. eu estava escutando. então era outra partida de zé-bebelos que deviam de estar chegando. rijo ouvindo... daí.. – “Tu. por ora.. cachorral. A morte é corisco que sempre já veio.” Homem atilado. o tiroteio foi mudando de feição. – “Tou gostando não. drongo deles.” Aí. onde nossa gente com Titão Passos estavam escondidos para a esparrela – foi um tirotear forte. Soante que atiravam. – 297 – .. Da banda de longe – lá pelo tombador de pedra... fogo por salvas. Tatarana. imposto. a mancha.. Era sangue! Sangue que empapava as costas do Garanço – e eu entendi demais aquilo. do arrocho grosso. – “Seja que sabidos vieram. Ânsias. semelhando que o cupim ele tivesse abraçado. Temos.

mano. Porque os tiros. e soltou um rinchado zurro. vão dar retaguarda. Dei para trás.Grande Sertão: Veredas que se foge em boa ordem: os que estão chegando vêm rodear a gente. Como que esse maldito tudo sabia. trapaças! Mas ainda me prezei: quem é que me segurava de ir?! – rastejei de esquinado. perto no ar. – “Vem. forte fogo!” – o Hermógenes me mandou. o sangue dele a mofos cheirasse. Atirei. os metros. carecia de ver se o Garanço podia ter ajuda. com meus braços: não adiantava – era corpo. Ao que os – 298 – . caititu caçado. E a vez era esta: que o Hermógenes encheu os peitos. Ele estava dando a retirada. teúdo. fogo. Anda que vinham vôo os mosquitos chupadores. – “A p’a trás. que estamos no amém estreitos!” – que. o Hermógenes chamou. e mosca-verde que se ousou. em afogo. Todo vejo.” E era. Atiramos. tu vem. enfezado. esse Hermógenes. mais longe. sem o zumbo frisso.João Guimarães Rosa . Ele estava defunto de não fechar boca – aí. dos de jumento velho em beira de campo. – “Arre. Três tantos. agora. outros o mesmo onco-e-rincho copiavam. O perigo saca toda tristeza. Por outros lados. E nem um momento de vela acesa o Garanço não ia poder ter. Peguei. Te cuida!” – ouvi o rispe do Hermógenes – que eu não me desgraçasse. feito um traste roto. Mas não se deixa um cristão amigo deitar seu sangue no capim das moitas. adivinhava o seguinte vivo das coisas. defunto airado.

meus iguais. eu já estava para lá dele. aquela hora era só no Hermógenes que eu via salvamento. Porque. acompanhei o Hermógenes. beiramos uma ipueira. as armas?” – o Hermógenes me indagou. para meu cão de corpo. mesmo. nós. de rastros apagados. fui. Quem que diz que na vida tudo se escolhe? O que castiga.” Agora ele falasse grosseado. Desunir. nesse entrequanto. às vezes se subiam do bamburral baixo. A bala com bala ripostavam. nos abertos entre árvores. Mas. Tatarana? Munição. Ainda divulguei. lugar aonde um punhado dos da gente devia de se engrupar. se tenho!” – eu respondi.João Guimarães Rosa . Acharam? E sei. assim. Para lá fomos. E ele para mim: – “Então. entre o norte e o poente. feito acãoada codorniz. Viemos. Vim. na desordem de mente do alvoroço. pulei.Grande Sertão: Veredas companheiros todos atiravam. com modo de chefe e mando. rojamos para baixo. homens que corriam.. rompemos o arvoredo. aqui e ali. Aí. era assim. verga pior do que avançar. mas os inimigos não sabiam: carecia que eles pensassem que a gente ia dar um ataque final. mas virei e esperei. no Cansanção. Entramos no cerrado. Caminhamos prazo dentro de – 299 – . – “Tu tem tudo. Assaz à retirada se estava rinchando. A lanço a lanço.. cumpre também. E fomos para cinco léguas. embora. está certo. Repassamos o corguinho do Dinho. – “Tenho. bem. nas sofraldas descentes.

num boqueirãozinho. – “. para depois lhe pedir um conselho..Grande Sertão: Veredas riacho. Não fui! – porque não sou. careço de que o senhor escute bem essas passagens: da vida de Riobaldo. No mais. Estava com sangue numa perna de calça. naquela satisfação de vida salva.” O que me ensombreceu – então Diadorim – 300 – . dessa noite. que quando se alcançou o nosso bom esconder.João Guimarães Rosa . arranho à-toa. O Feijó em tanto tinha notado: Diadorim... de nosso pisado com ramos as marcas desmanchamos. e o mais do caminho se seguiu por muitos diversos rodeios. então. Um era o Feijó. servia para quê? Quero é armar o ponto dum fato. Narrei miúdo.. desse dia. Deus esteja! E dizendo vou. Será. diversos. se tinha avistado o Reinaldo sem perigo? A meio perguntei. Não tenciono relatar ao senhor minha vida em dobrados passos. já achamos companheiros outros. por uma cacimba de grota. De tudo não falo. depois se retrasou. bem conseguido. vindos de armas. o jagunço. Por daí. Por causa que só em Diadorim era que eu pensava. O jagunço Riobaldo. e que chegavam separadamente. não quero ser. Para mim. depois escolhemos para pisar pedras. foi nada. Fui eu? Fui e não fui. na retirada. que dela nunca posso achar o esquecimento.

Comprou-se para ele. Dó que me dava era do Garanço. molhei minhas fontes. vereda abaixo. eu não havia de querer conversar reportório de tiros e combates. de cansado. por minha culpa dos dois – eles eu era quem tinha escolhido.. eu mesmo esbarrei. ele nunca mais quer sair de casa. para conduzir. foguista de vapor. digo e nego. assim. daqui. tigre canguçu estragou e arruinou a perna do Sizino Ló. Mas. vive repetindo e dizendo: – “Ai. talvez por se ter sacolejado um pouco do juizo. depois cá herdou uns alqueires. eu queria calado a conseqüência dele.. Ao modo que eu nem conhecia bem o estorvo que eu sentia. e o Montesclarense. Remorso? Por mim. quem tem um não tem nenhum. nem se levanta quase do catre. espaço disso me alegrava. uma boa perna-de-pau. então. em quem dela carece. estava também com dores redondas de cabeça. Cansaço faz tristeza. beirávamos o riachinho do Jio. Olhe: légua e outra.” Todo – 301 – . ou do sujeito altão e madrugador – quem sabe era o pobre do cozinheiro deles – na primeira mão de hora varado retombado? Em tenho que não. e depois tudo. o senhor segue comigo.João Guimarães Rosa . somentemente. Acho que. Logo esses – o senhor sabe. Dos homens que incerto matei. que muito me doíam. Quase com um peso. Pena. um que foi desse rio de São Francisco. Aí. eu quis lavar os pés. quem tem dois tem um. Diadorim estivesse ali.Grande Sertão: Veredas estava ferido.

mais tardar no romper da aurora? Dormi. a gente era doze. com pouco. E isso é remorso? Desgraça a mando era que eu cumpria. azo de que tivesse perdido alguma coisa. dos que eram para se reunir ali. como se vez fosse. o Jõe Bexiguento. Lá. mas decerto ainda vinham vir. o Braz. e pratos e panela. pesados no sono. Os alguns faltavam. Que caso que eu carecia de pensar. de antevéspera. Porque dó de amizade é num sofrerzinho simples. e o meu não era. dito. Num ponto me agradei: então. que não fosse que na morte do Garanço e do Montesclarense eu não devia nenhum dolo. Os outros no estar. sobrechamado o Alpercatas esse era homem de estranhez em muitos seus costumes. aonde estávamos. E não havia a coisa nenhuma. se cozinhou um jantar. deitei. E cheguei no CansançãoVelho. Dormi impado.Grande Sertão: Veredas o mundo ri. e toucinho para torresmos. quase não se morre? E. nas más horas é que vem bom consolo: para o Jio tinha tocado. mesmo. Só vi um. estufando suas redes penduradas de árvore em árvore. em guerra. – 302 – . nem vulto nem barulho. cada um em seu recanto. mão no rifle. e que Diadorim ia chegar a vir também. Mas daí a logo acordei.João Guimarães Rosa . Tanto que comi. nessa antecedência em dois jumentos ele tinha trazido mantimento de feijão e arroz. chamado também o Jio.

dava para a cara dele se divulgar. na Nhanva. Atual isso comigo? Que os bebelos rodeavam para ali. com outros minutos. – “Horas destas. Jõe Bexiguento reparou em meu dessossego. remexendo as brasas. as contas de juros. Agora eu estava cismado. de noite. e eu colhia o aviso? Não é que. dose disso sucedesse? Eu sabia. adivinham o invento de qualquer sobrevir. reformadas. – 303 – . mais do que todos. tem galo já cantando. quem sabe perto já rastejavam. Isso aconteceu três vezes. Em todos o momentos. e em como a vida é cheia de passagens emendadas. por isso em boa hora escapam. virei para o outro lado. veio para o pé de minha rede. pude. depois. Meigo repus o rifle. em Zé Bebelo sempre pensei. Adormecer. num fusco em vermelho.” – ele falou. na mesa grande.. noutros lugares. Não sei se dei alguma resposta. sentou no chão.Grande Sertão: Veredas conforme se dizia e era notado. E ele pitava.. mas. Ou se fosse que algum perigo se produzia por ali. tinha ficado na beira do fogo. coraçãoados. tinha ouvido falar: jagunços que pegam esse condão.João Guimarães Rosa . se comia canjica temperada com leite. ditado e leitura. Jõe Bexiguento parecia não estar querendo ir dormir. João Goanhá. era atreito a esses palpites de fino ar. O Hermógenes. com muitos. tornei naquele mau susto de acordar. ensinando lição a ele. Eu. Zé Bebelo mandava neles. na sala grande.

antes era uma certeza que minava fininha. cruzando morte. de dentro da idéia da gente. sobra da esquentação curtida nas horas de – 304 – . com Zé Bebelo. naquela ocasião..Grande Sertão: Veredas queijo. comandando armas de esquadrões. ficava sendo também de acabar comigo. convém acender nem vela de cera preta. Mas. sem razoado nem discussão. em minha inteligência.João Guimarães Rosa . dada definitiva às altas. brigar. com minha vida. era eu também – Zé Bebelo vinha de lá. O que eu purgava era ranço nervoso. no querer combater. Ele disse: – “Convém não. agora. bebendo seu coité de chá-decongonha. coco-da-baía. eu vi que era isso que me dava uma repugnância. sempre fui assim. se não era agouramento? E ele me apaziguou: que anjo aviso não vinha desse jeito. canela e manteiga-devaca.” Enrolei um cigarro. siô Baldo: acabar para uma vez com essa cambada canalha de jagunços!” – ele referia. Ocasiões assim. Mas eu prezava Zé Bebelo. – “Fofo faço. minha simpatia é uma só. açúcar. Contei ao Jõe o que eu estava sentindo estúrdio. e convidei Jõe Bexiguento para se botar mais lenha no fogo. se ele no meio não estivesse. Então. que de tão quente pelava.. e o que ele tinha jurado. amendoim. com rompante e festa no dizer. Sendo que não fosse ele em sua pessoa. Levantei da rede. tudo tinha outra ordem: eu podia pôr meu afinco o – farto destravado. e em prazo.

depois de cada forte fogo. Jõe Bexiguento achava que não tinha mais sustância para ser jagunço. disse. assim.. erisipelava e asmava. conheci que tinha perguntado pelo Garanço só para depois perguntar por Diadorim. essa desinquietação me vem.João Guimarães Rosa . mesmo. me disse. Faz regular uns seis anos. mas. derrubo lá um bom mato.. Jõe?” – em manso perguntei. medo de guerra não conheço. andava padecendo da saúde. Mas outra coragem não tive.. na noite..” – “Você era amigo do Garanço. comparando mal.” Era o projeto em tal. Ele mesmo sabia que era. legal? Acho que esse sempre se esteve meio caipora. duns meses. – “Trabalhar de amassar as mãos...” Ainda ouvindo as palavras. Que foi com ele? Deu o fim. Jõe? Você sabe rezas fortes?” – por aí devo que indaguei. É uma coceira na mente.. P’ra o Riachão vou. naquela comprida noite. era que ele não vencia dormir nem um pisco. – “Cedo aprendi a viver sozinho... Que desconversei: – “Caipora se cura. – 305 – . digo: o Reinaldo. que ele formava vez em quando. Que isso é que sertanejo pode.Grande Sertão: Veredas tiroteio. o dito.. e nem experimentava... que estou na jagunçagem. – “Comigo. Faltou razão para mim. me dá esse porém.” Pela causa. – “Assim. não me livro disso. passado cada fogo. pela rama. mesmo na barra da velhice.

se estava em permissão de fé para esperar de Deus perdão de proteção? Perguntei. Não aceitei. Memória que Deus me deu não foi para palavrear avesso nele. que sensata resposta podia me assentar o Jõe. assim jagunços. quente. sem paciência de estimar um bom companheiro. depois do antes da lua-de-mel. sem querer nenhum. e xingou xiu. de certo acordou com meu vozeio. sem fome. impondo o sofrer no quieto arruado dos outros. mas fui ponteando opostos.João Guimarães Rosa . vagância de pecados. Baixei. rejeitando. aquela hora não merecia: brancura rosada de uma moça. por pura toleima. Um.. Que podia? Esmo disso.” Pecados. matando e roupilhando. se caipora não curasse? Todo o mundo dela tem. duvidando.Grande Sertão: Veredas bobéia minha. Discuti alto. sem sede.. Que isso foi o que – 306 – . que estava com sua rede ali a próximo. a gente estava com Deus? Jagunço podia? Jagunço – criatura paga para crimes. Questionei com ele.. assunto. com feitas ofensas. – “Uai?! Nós vive.” – ele me repositou. nos tempos.” – foi o respondido que ele me deu. Mas.. – “.. Nem o ouro do corpo eu não quisesse. – “A que cujo.. disso.. queri.. Mas eu não quis aquilo. broeiro peludo do Riachão do Jequitinhonha? Que podia? A gente. Porque eu estava sem sono. nós. Mas desses ensalmos quis aprender não.

não variava. no sentir da natureza dele.. Quem é que pode ir divulgar o corisco de raio do borro da chuva. Vivo. – “De Deus? Do demo?” – foi o respondido por ele – “Deus a gente respeita. este mundo é muito misturado. veja o senhor o que eu vi: para o Jõe Bexiguento. como o Jõe? Porque.. no arraial de São João Leão.. jagunceio.. eu não tinha tanto o estrito e precisão. também. que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados. – 307 – . ele era engraçado. Duro homem jagunço. do demônio se esconjura e aparta. Caso que se passou no sertão jequitinhão. como ele no cerne era. o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o rúim ruim.João Guimarães Rosa . que dum lado esteja o preto e do outro o branco. Meu pai me deu minha sina. – “Nasci aqui. Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si. me ri. nestes assuntos. Mas Jõe Bexiguento não se importava.Grande Sertão: Veredas sempre me invocou. não reinava mistura nenhuma neste mundo – as coisas eram bem divididas... Tudo poitava simples. mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que.” – ele falasse.. Naquele tempo. E o Jõe contava casos.. a idéia dele era curta. no grosso das nuvens altas?” E por aí eu mesmo mais acalmado ri. Contou. separadas. Então – eu pensei – por que era que eu também não podia ser assim.

o marido foi bem enterrado. por isso se disse que só de acesso do coração era que podia ter querido morrer. foi em si. Caso de Maria Mutema e do Padre Ponte. estando na igreja. todos vieram certificar. o marido dela morreu. não tirava os olhos do padre. Naquele lugar existia uma mulher. – 308 – . e ele tinha estado nos dias antes em saúde apreciável. Ela sempre de preto. conforme os costumes. mulher em preceito sertanejo. pelo visto a ninguém chamou atenção. Jõe. que daí pegou a ir à igreja todo santo dia. pessoa igual às outras. sem nenhuma diversidade.João Guimarães Rosa . Uma noite. Maria Mutema era senhora vivida. guardou a dor sem demonstração. O que deu em nota foi outra coisa: foi a religião da Mutema. mulher que não ria – esse lenho seco. afora que de três em três agora se confessava. Dera em carola – se dizia – só constante na salvação de sua alma. Sinal nenhum não se viu.Grande Sertão: Veredas perto da terra dele. Se sentiu. por nome Maria Mutema. Mas isso lá é regra. E naquela tarde mesma do dia dessa manhã. entre gente que se diga. Maria Mutema chamou por socorro. O arraial era pequeno. reuniu todos os mais vizinhos. se sofreu muito não disse. E. amanheceu morto de madrugada.

Contavam. Mas o que logo se soube. mesmo. eram “os meninos da Maria do Padre”. que governava a casa e cozinhava para ele. Padre Ponte. bemcriados e bonitinhos.Grande Sertão: Veredas O padre. antigamente. e que o Padre Ponte visível tirasse desgosto de prestar a ela pai-ouvido naquele sacramento. das primeiras vezes. E em tudo mais o Padre Ponte era um vigário de mão-cheia. e disso se falou. cumpridor e caridoso. Sem desrespeito. meio gordo. essas coisas podiam. povo percebia que o padre ralhava com ela. só por verdade no dizer. era em duas partes: que a Maria Mutema tivesse tantos pecados para de três em três dias necessitar de penitência de coração e boca. simplória e sacudida.João Guimarães Rosa . era um sacerdote bom-homem. pregando cora muita virtude seu sermão e atendendo em qualquer hora do dia ou da noite. de meia-idade. para levar aos roceiros o conforto da santa hóstia do Senhor ou dos santosóleos. Mas não vá maldar o senhor maior escândalo nessa situação – com a ignorância dos tempos. dita por aceita alcunha a Maria do Padre. uma pecha ele tinha: ele relaxava. Os filhos. com uma mulher. todo o mundo achava trivial. que. – 309 – . Gerara três filhos. que entre dois só dois se passa e tem de ser por ferro de tanto segredo resguardado. muito descansado nos modos e de todos bem estimado. e também acudia pelo nome de Maria.

bem. Mas ia a poder de ser padre. de doença para morrer. no ter de ir. durado – 310 – .Grande Sertão: Veredas terrível. que. que uma santa padecedora mais parecia. Padre Ponte foi adoecido ficando. dava pena. passados anos. que não se cedia em conversas. Coisas que são. aquela mulher Maria Mutema nunca mais voltou na igreja. Ia. Esses eram dois padres estrangeiros. e chegaram no arraial os missionários. E desde por diante. duma cor amarela de palha de milho velho. dado que viúva soturna assim. aos três dias. bradando sermão forte. p’ra fortes e de caras coradas. escutar a Mutema. e não de ser só homem. De manhã à noite. que Padre Ponte todas as vezes fazia uma cara de verdadeiro sofrimento e temor. porque confissão clamada não se nega. passando o tempo. nem por rezar nem por entrar. no porém.João Guimarães Rosa . como se diz: no decorrido. com fé braba. Por fim. E daí mais. mesmo quando veio outro padre para o São João Leão. Daí. se viu logo. ele emagrecia. com forte voz. Mas a Maria Mutema se desajoelhava de lá. Morreu triste. e em fim encaveirou. amofinava o modo. retornava. De dia em dia. foi tempo de missão. com tanta humildade serena. tinha dores. a junjo. como nós. ninguém não alcançou de saber por que lei ela procedia e pensava. E se viu. E ela. no confessionário. de olhos baixos.

isso se viu. E. Aconteceu foi no derradeiro dia. rezando a salve-rainha. E foi nessa hora que a Maria Mutema entrou. A religião deles era alimpada e enérgica. só que com a voz demudada. para a prédica. ele se levantou. eles estavam sempre na igreja. Fazia tanto tempo que não comparecia em igreja. pois tinham de Deus algum encoberto poder. com entusiasmados exemplos que enfileiravam o povo no bom rumo. E foi de noite. Só que no arraial foi grassando aquela boa bem-aventurança. mal no amém. por que foi. acabada a benção. que deu de vir? Mas aquele missionário governava com luzes outras. pregando. confessando. pois no seguinte. e ele esbarrou. com tanta saúde como virtude. Maria Mutema veio entrando. tirando rezas e aconselhando. quando um dos missionários subiu no púlpito. isto é. Mas o missionário retomou a fraseação. que dava em domingo. e tascava de começar de joelhos. véspera. tem de ter suas palavras seguidas até ao tresfim. em brasa – 311 – . e com eles não se brincava. cresceu na beira do púlpito. Todo o mundo levou um susto: porque a salve-rainha é oração que não se pode partir em meio – em desde que de joelhos começada. conforme o senhor vai ver. por minha continuação. então.João Guimarães Rosa . ia ser festa de comunhão geral e glória santa.Grande Sertão: Veredas de três dias.

caçavam de ver a Maria Mutema. e meninos.. parecia um touro tigre. no estarrecente. onde estão dois defuntos enterrados!. outras despencavam no chão. ninguém ficou sem se ajoelhar. – 312 – . que da dura bondade de Deus baixasse nela. Muitos. deu um soco no pau do peitoril. tem de sair! A p’ra fora.João Guimarães Rosa . – “Que saia. sozinha em pé. Mas confissão esta ela tem de fazer é na porta do cemitério! Que vá me esperar lá.. que vou ouvir sua confissão. já. Horror deu. choravam. na porta do cemitério. então pode ir me esperar. com seus maus segredos. muitos. agora mesmo. debruçado.. que lavoram em fundura e sumidade. deu um gemido de lágrimas e exclamação. berro de corpo que faca estraçalha. Pediu perdão! Perdão forte. daquela gente.” Isso o missionário comandou: e os que estavam dentro da igreja sentiram o rojo dos exércitos de Deus.Grande Sertão: Veredas vermelho. E foi de grito: – “A pessoa que por derradeiro entrou. em nome de Jesus e da Cruz! Se ainda for capaz de um arrependimento.. E Maria Mutema. perdão de fogo. essa mulher!” Todos. Mulheres soltaram gritos. torta magra de preto. em dores de urgência. já.

Que tinha matado o marido. onça monstra. aquela noite. tinha matado o marido – e que ela era cobra. Padre Ponte – porque dele gostava em fogo de amores. bicho imundo. que aumentava de cada vez. raio em pesadelo de quem ouvia. como porque avessava a ordem das coisas e o quieto comum do viver transtornava. com ver o padre em justa zanga. O marido passou. se confessava. por enjoar do Padre Ponte. para tremer exemplo. e era um prazer de cão. Mas. um terrível escorrer de chumbo derretido. por entre prantos. e queria ser concubina amásia.. consoantemente. Ao que ela. público. E rompeu fala. pelo que ele não estava em poder de se defender de – 313 – . ali mesmo.Grande Sertão: Veredas antes de qualquer hora de nossa morte. lá o que diz – do oco para o ocão – do sono para a morte. sem motivo nenhum. depois. Tudo era mentira.João Guimarães Rosa . também sem ter queixa nem razão. Confissão edital. sem malfeito dele nenhum. a fim de perdão de todos também. no confessionário: disse. que rasgava gastura. e lesão no buraco do ouvido dele ninguém não foi ver. amargável mentiu. por que. Matou – enquanto ele estava dormindo – assim despejou no buraquinho do ouvido dele. nem sabia. não se notou. sobrado do podre de todos os estercos. por um funil.. afirmou que tinha matado o marido por causa dele. ela não queria nem gostava. ela disso tomou gosto. causa nenhuma . E.

. recolhida provisória presa na casa-de-escola. procissão – mas todo o mundo só pensava naquilo. clamando seu remorso. mais declarava – edificar o mal. E daí. o arraial ilustrado com arcos e cordas de bandeirolas. não comia. missa cantada. desenterraram da cova os ossos do marido: se conta que a gente sacolejava a – 314 – . Que ela – exclamava – tudo isso merecia. no púlpito. aos uivos. depois as mãos no alto ela levantava. fazia os gestos para as mulheres todas saírem da igreja. Todo o tempo ela vinha em igreja. até que o Padre Ponte de desgosto adoeceu. pedia perdão e castigo. Tudo crime. e que todos viessem para cuspir em sua cara e dar bordoadas. era um homem manso. E no outro dia. confirmava o falso. e padre. domingo do Senhor. louvado seja! – e. torcendo as mãos. e ela tinha feito! E agora implorava o perdão de Deus. como conforme. e morreu em desespero calado. No meio-tempo.João Guimarães Rosa . deixando lá só os homens.Grande Sertão: Veredas modo nenhum. enquanto cantando mesmo. entoou grande o Bendito. sempre de joelhos. não sossegava. se esguedelhando. pobre coitado. Maria Mutema.. e espoco de festa. foguetes muitos. porque a derradeira pregação de cada noite era mesmo sempre para os ouvintes senhores homens. Mas o missionário.

nos dias em que ainda esteve. esse Paspe: que não temia nem se cansava. para a esparrela. e que de certo modo me divagasse. o povo perdoou.João Guimarães Rosa . e a bola de chumbo sacudia lá dentro. em tão pronunciado sofrer. para perdoarem também. Assim. e escutamos o assovio combinado dos nossos. seguidos para se ajuntarem ao covo do Capão. os missionários tinham ido embora. pela arrependida humildade que ela principiou. Mas ela ficou no São João Leão ainda por mais de semana. e juntos rezarem. Rio de homem. tantos surtos produziam bemestar e edificação. em vez de vir – 315 – . agora vinha trazer notícia dos dele. Mesmo. Contou: que. aquilo que era para estratagemas. até tinia! Tanto por obra de Maria Mutema. na cadeia de Araçuaí. E foi isso que Jõe Bexiguento a mim contou. o inimigo contornando. com alpercatas sem barulho e o rifle em bandoleira. porque os bebelos tinham botado espiação. Veio autoridade. Trouxeram a Maria do Padre. e demos resposta: era um que chegava – o Paspe – se aparecendo macio dos escuros. e os meninos da Maria do Padre. vinham dar a ela palavras de consolo. com Titão Passos. delegado e praças.Grande Sertão: Veredas caveira. ou tomado o faro. deu foi em por água-abaixo. e pedir ordens. levaram a Mutema para culpa e júri. foi ele acabar de contar. alguns diziam que Maria Mutema estava ficando santa. Só que. Mas. Ele tinha formado.

Devo. até me deu um recado. companheiros bons. foras de norma. e Zé Bebelo mesmo estava lá. ao que vou. – “Ah. uail: e para você mesmo: – Vai. Diadorim? Aonde ia. não podia ser ele. más notícias eu ainda tinha o receio de ouvir.João Guimarães Rosa . E mesmo.Grande Sertão: Veredas simples: e tochando resposta antes de pergunta. Serviço que me foi. dos titão-passos. – foi o que falou. no comando daqueles. fogo feio – dois mortos. o Paspe me respondeu: – “Vi. diz por mim ao Riobaldo Tatarana: que eu tenho um quefazer.” Ouvi e não cri. mais três muito feridos. a cavalo – onde terá sido que arrumou montada? Decerto conseguiu algum animal dos bebelos mesmo. em sua dita pessoa?” – perguntei... E ao Paspe reperguntei. sem esperanças de informação. A cujo!” – o Paspe falou. então. que restou no meio de tirotei’. sem mim então. por dias poucos. – 316 – . e pediu logo quem tivesse um golinho de cachaça. que perguntei por Diadorim. Guerra tinha disso também. esse por mim passou. Puro por perguntar. Ele.. – “Decerto que estava. Assim passou.. com breve estou de volta.

sem estatuto. duma viragem. donde estava o amigo? Diadorim. – o Paspe completou. sem um abraço. desbarrigado. Aí.. que de manhã cedo. por me acordarem. de malaventurança. ai. Ah. De sorte que tantos pensamentos tive. sono de doença. Mas não seria. sabendo que eu tinha vindo para jagunço só mesmo por conta da amizade! Acho que me escabreei.. espécie de dor em meus cantos.Grande Sertão: Veredas pedindo o exato. tinha desertado de minha companhia. pensando que eu tinha pegado febre de estupor. então. fuga fugida. que de tudo sabia em tudo.. mas pronto de si. e me vir o peso de um sono enorme. Agora eu pateteava. numa perna? Ao que nem não nem sim – mais pelo não que pelo sim. Que que era ser fiel. Dormi tão morto. Às certas. quase novo. ele tinha ido para perto de Joca Ramiro. oi.João Guimarães Rosa . tiveram de molhar com água meus pés e minha cabeça. Era. riscando com todas as ferraduras. ele. e o cavalo alto. Foi assim. – 317 – . na pior hora. Não tinha reparado.. o senhor sabe. Só viu que o arreio era um socadinho. que ele estivesse ferido. que senti foi esfriar as pontas do corpo. murzelo-andrino. no relance de tempo. agora assim de tenção me largava lá sem uma palavra própria da boca. Que dormi.

Tempo de minha vazante. Mas não anuncio valor. o senhor exigindo querendo. mas principal quero contar é o que eu não sei se sei. é o que é: esses tontos movimentos. que se pisava e – 318 – . Pelo tempo durado de cada fogo. se é capaz até do cálculo da quantidade de balas. Que isso merece que se conte? Miúdo e miúdo. eito de verde feliz ou palhada de milho morto. Demos um tiroteio mediano. Certo que a guerra ia indo. no meio de pobre roça alheia. Tenho lembrança. e que pode ser que o senhor saiba. e mordido e remordido sofrimento.João Guimarães Rosa . para mim. Desde que da rede levantei. e o que forde trinta combates. está aqui que eu sirvo forte narração – dou o tampante. canavial cortante. dou descrição. uma escaramucinha e um meio-combate. caso o senhor quiser. amanhecido nos olhos. Me entende? Dias que marquei: foram onze. e a gente atirando a truz. enquanto. o que vale é o que está por baixo ou por cima – o que parece longe e está perto. Mas. só o contrário do que assim não seja. ou o que está perto e parece longe. assim do mesmo que tem roubo sucedido e roubo roubado. A ver como veja: tem sofrimento legal padecido. Agora. e guerra. Conto ao senhor é o que eu sei e o senhor não sabe. Contar? Do que se agüentou. Vida.Grande Sertão: Veredas Vou reduzir o contar: o vão que os outros dias para mim foram. de arvoados tiros. com aquele peso anoitecido.

a raiva de fúria de repente igualava todos. e. descendo e subindo ramal de ladeirinhas pequenas. em virada de espigão. E como quando. e desfechar. na ensurdescência. e mesmo com água quase até pelos peitos. uns e uns. se aconchava mão em orelha. se abraçando com a gente. atravessando. De se olhar em frente o morro. De um entrar em poço. no prazo duma hora só. de repente. em quentes. repassando. e rolando no bagaço doce de cana. em beira de mato e campo. e rebentando por dentro de uma casa. nos mesmos urros e urros. careci de ir me vendo escorando rifle e alvejando. que aquele não fosse. de mandado da dor. E quando toró de chuva deu bomba.João Guimarães Rosa . do nu do morro. desmanchando a função de briga e empapando todos. em lei. sem desconfiança. De como. que. debaixo de cocho. combatendo no dano da mormaceira. contras e – 319 – . sem saber por que. no refervo. feita uma esperança de se conseguir milagre de algum barulhinho diverso outro. toda mãe e todo pai. vai. despejarem descarga. trepado em jatobá e pequizeiro. De vez em que rifle trauteava tanto. e atrás de cerca. ensolvando as armas.Grande Sertão: Veredas quebrava. lá dele. E de companheiro em sopas de sangue mais sujeira de suas tripas. qualquer. ter de se virar em direção. e eram os estalos passando. deitado no azul duma laje grande. seja que amaldiçoando. para morrer só mesmo.

Isso é isto. mudando em raiva falsa a falta que Diadorim me fazia. Por me ver casca em chão. Mas o pior era o que eu mesmo mais sentia: feito se do íntimo meu tivessem tirado o esteio-mor. na má guerra. e malquerente. para o aproximaço de se avir em mãos às duras brancas. caí numa lazeira.João Guimarães Rosa . e dei razão à cisma dele: quem sabe. Homem como eu não é todo capaz de guardar a parte de amor. Menos mortandades. Mas cuspi três vezes forte no chão. agora tinha ido para junto de loca Ramiro – que era a única pessoa que ele bastantemente prezava? Fiquei em mim desiludido. que é o figurado de desprezo. Vir voltemos. Joca Ramiro estava no propósito de deixar a gente se acabar ali. Aí. E. curti amargos. e mais tudo o que em ocasiões dessas se sente. pé-decasa. estava no enredo. conforme o senhor decerto conhece e sabe. e risquei de mim Diadorim. Aqueles dias eu empurrei. O senhor mais queria saber? Não? Eu sabia que não. Aprecio uns assim feito o senhor-homem sagaz solerte. repuxei idéias. mesmo. em desde que recebe – 320 – .Grande Sertão: Veredas contrários – chega se queria combinar de botar fora as armas-defogo. conforme sempre se dá. segundo se está assim em calibre de cão. em sertão plano? E então Diadorim disso sabia. oferecer faca. Me alembrei do que tinha soprado em intriga o Antenor. Sobejidão. para se oferecer fim.

. atacando bons lugares. depois. assim..João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas muitas ofensas de desdém. ele. o que há. valente tu é. Me veio de pensar em falar com o Antenor. Não fiz. com esses não começo conversa: não hio e não chio. Tatarana! Gosto dessa sua bizarria.” – eu só falei. por ser isso de minha rija competência – cabo-de-turma. pelo jeito. eu não ia repartir com estranhas pessoas. E que.. fiquei lazo. O que o Hermógenes queria me prometer era que em breve iam estar acabados aqueles riscos de trabalho e combate. Digo. nessa ocasião. logo entendi que ia me fazer algum espontâneo obséquio. ele queria me escolher para comandar uma parte dos seus. todo que um. e então a gente ficava livre para lidar melhormente. – 321 – . jeitoso de dono bom ou de pai que cede. ou me dar alguma boa notícia. em serviço para chefes políticos. nessas horinhas. Só que. logo muda de modo: antes.. Dúvidas dessas. veio caçoando: – “Eh. E não gostei nunca de homem intrujão. Porque. s’or. com liquidados os bebelos. E foi que não errei. aproveita um tico para falar de cima.” – “S’as ordens. Tanto que mesmo foi o Hermógenes que um dia me chamou. é a alma assim meio adoecida.

eu imaginava. Sonsice de Hermógenes? Não. E me esperei. Mas o Hermógenes se saiu em só dizer. como tanto se dizia. a pouco. Por que era que todos davam assim tantas honras a Joca Ramiro. – 322 – . Mas. ah. Mas. Assim. ele figurando. do Hermógenes. com doado? Isso meio me turvava.. Sei e vi. o senhor não devia de. Experimentando o homem. vero. Tanto mesmo que eu não queria ter de pensar naquele Hermógenes.” – eu disse. Digo ao senhor: se o demônio existisse.. Descarei. em ele ser carrasco.João Guimarães Rosa . peguei às vezes uma ponta de querer saber como tudo podia ser. no real. na boca do pote!” Esconjurar desse jeito leve me trouxe sossego. falei em mim comigo: – “A ele nego água. esse louvo sereno. No começo. amiúde. e o pensamento nele sempre me vinha. não convém espiar para esse. aquilo me corria só os calafrios de horror. me atormentou sempre aquele meu receio. eu cativo. senhor de todas as crueldades. então. a idéia minha refugava. só aproveitei foi para uma deixa: – “Joca Ramiro. não me fez. confioso: que Joca Ramiro era maludo capitão. com uma risadazinha minha velhaca.Grande Sertão: Veredas Tanto gabado elogio que não me mudou. que entre dois podia pegar qualquer incerto significado. senhor. Ser que pensava. por isso. e o senhor visse. Ao que eu carecia. sério. que eu carecia de pôr em raiva. que o sincero.

Ao tanto com o esforço meu. pois então era preciso. aí. Se ria. Água de rio que arrasta.. Agora. que dá rumo para se estudar dessas matérias.João Guimarães Rosa . Invenção minha. outra esperança já vem. . Vinha ordem. rodando em si mas por regras.. durasse. com Jõe Bexiguento.. Daí. Mas eu não meditava para trás. até meses. Hoje.Grande Sertão: Veredas nem mi de minuto! – não pode. que tiro por tino... Dias que durasse. então a gente se – 323 – . um prazo de cansado. Conversas com o Catocho. Ah. é só o mesmo carvão só. eu penso. O prazer muito vira medo. a brasinha de tudo. não esbarrava. o que eu prezava de ter era essa instrução do senhor. o senhor sabe: acho que o sentir da gente volteia. com o Vove. não deve-de! São se só as coisas se sendo por pretas – e a gente de olhos fechados. com o Feijó – de mais sisudez – ou com Umbelino – o de cara de gato. Assim-assei. fora de aperreio de combate muito se vadiava. em esquecer Diadorim. digo que me dava entrante uma tristeza no geral. eu caçava o jeito de me espairecer. constante então para o um amor – quanta saudade. Aquilo era a tristonha travessia.. o ódio vira esses desesperos? – desespero é bom que vire a maior tristeza. naquela influição. junto com todos. mas em certos modos. Mas. o medo vai vira ódio. eu não me importava.

em São Romão. Amigo meu.. As mocinhas próprias de se provar. Canta que cantavam. Relembrava: – “Já tive uma mulher amigável só minha. Mas. era bom. por aí? Em Januária ou São Francisco. de um lugar para trás das cachoeiras. E eram brabos sarados guerreiros. era só aquela – 324 – . Ele era do Rio Sirubim. ou rua alegre cheia de alegria – o bom sempre melhor. como no mais acontece.” Essas conversas. na Rua-do-Fogo. ou não queriam ensinar. depois tornava a em grupozinhos se apartar. Que que pequeno. no que só pensava. nenhum sabia pé-de-verso direito. de noite – é de crer? – a gente sabia dos que queriam qualquer reles suficiente consolo. Coisas. o Umbelino – esse que dizia: que. essas senvergonhagens.. em quantidade maior. na Rua-do-Alecrim. tinha estação de tempo em que não se podia deixar um ovo guardado: com umas duas ou três horas. Já viu. capaz d’armas. o bom. por não ter mulher ali. O São Francisco não é turvo sempre? E o que se falava mais era em mulher? Isso fazia muito boa falta. mais. e outra. Todos contavam estórias de raparigas que tinham sido simples somente.Grande Sertão: Veredas reunia em bando grande. que nunca noutro ar. Cada um queria delas.João Guimarães Rosa . de dia. já se estragava. Valia como companheiro. o senhor sabe. se tinha de muito lembrar. com o calor. Calor em que cão pendura a língua. E ali dava de se sentir o faltoso e o imperfeito. A guerra era a igual.

Ou ficavam dizendo graças e ditérios. sem dizer desrespeito. desandava de lá – proteção se acabou. quase que por divertimento. colher mandioca em mandiocalzinho sem dono. sem espécie nenhuma. que às vezes regia ajuda. dono tinha fugido longe. mais com uma calça apertada nas canelas e encurtada. E – mas – o Hermógenes? Sobreveja o senhor o meu descrever: ele vinha por ali. e mesmo muito – 325 – . e a qual ele nem teve persistência para nos dias medidos completar. outras horas. Naqueles dias ele andava de pé-no-chão. sendo em sendo o raposo meco. a santo de sua redobrada tenção. Os espertos. teve quem pôs a jogo até bentinho de pescoço. Os uns iam torar palmito. Jõe Bexiguento. muito murici. para qualquer um jagunço. e – pronto: marretava! Que rezavam. Gostei de favas do mato. Tudo jogado a dinheiro baixo. sem a soberba. a gente brincava de jogar. contado que alguns arrumavam até escapulários falsos. Deus perdoa? O senhor podia perguntar: Deus. quis que diversos tomassem parte em novena. Por esse semquefazer. quixaba e jaca. à refalsa. socapa de se rir e se divertir no meio dos outros.João Guimarães Rosa . mesmo. sendo um inconstante patrão. O Fonfredo tinha um blilbloquê. Nem feito meninos não sendo. numa mal rezada novena. e cantando fanhoso no nariz. a gente ainda mais comia.Grande Sertão: Veredas invenção. E faziam negócio desses breves. mas.

Grande Sertão: Veredas esmolambado na camisa. a inocência daquela maldade. dava conselho. ele fazia festas em suas crianças pequenas. tudo? Algum tinha referido que ele era casado. Ah. atrás do quê? A cruz o senhor faça. diverso. virada diferente de todas. E o demônio seria: o inteiro. saía. rodeava por toda a parte. Aos – 326 – . reparar em tudo que fazia. Até que de barba grande. vontade de ir para perto. Como podia? Ai-de vai. dele escutar suas causas. mais o muito nas pontas. com sua mulher. precisava. E caminhava com os largos passos. me aluei? O Hermógenes. O Hermógenes. parecia um pedidor. Comigo eu começava numa espécie. um inferno.João Guimarães Rosa . numa casa. dava ensino. o doido completo – assim irremediável. o ror. Feito lobisomem? Adiante de quem. com mulher e filhos. Nem eu no achar mais que ele era o ferrabrás? O que parecia. era que assim estivesse o tempo todo produzindo alguma tramóia. Estudei uma dúvida. Ao que será que seria o ser daquele homem. esquipático. A qual que me aluava. vinha e ia com um sorrizinho besteante. em certo lugar. meu pensamento constante querendo entender a natureza dele. meu senhor! Aí eu acreditei que tivesse de haver mesmo o inferno. Daí. louco.

demais. eu não tirava isso da cabeça. Todo perigo.” – um disse. falando grosso.. Tem fêmeas. ou foi outro. o incutido do incerto me acostumando. perguntei.” – algum outro atalhou. e achavam então que ato assim era possível natural?! Como que não achavam? Até.. Que que– 327 – . Só se não gosta. eu pressentia: que do demônio não se pode ter pena. Mas o Catocho desafirmou: que tinha estado lá. Mas. E. demais. e. Acho que ele gosta demais é só nem dele mesmo. – “Eh. pitando cachimbo e trançando peneiras.” Esse que disse era o Dute. se fazendo de apeado. Porque ele é – é doido sem cura. naqueles dias. tanto tristonho. não viu ar de mulher-davida nenhuma. por eu ter o assunto. e a razão está aí. eu estava também muito confuso. ora vez. – “Quá. é a baixada do Brejinho – lá tem logradouro. só uma vendinha de roça e uma velha pitando cachimbo. O Hermógenes – ele dava a pena. querendo abraçar e grossas caretas – boca alargada. Apreceia não. dava medo.. nenhuma.. o Hermógenes também gosta de mulheres?” – eu careci de saber.João Guimarães Rosa . Que ele era assim – eu fiquei em pausas –: e os companheiros todos sabiam do ser.. me parece.. já um vinha: – “Daqui a seis léguas. o senhor pára próximo – aí então ele desanda em pulos e prezares de dança. – “Será.Grande Sertão: Veredas poucos. no batente duma porta. O demônio esbarra manso mansinho.

feito o que não é feito. Feito a garapa que se azeda. tiravam a roupa. Eu queria. mal me lembro. no escuro do sebo. o que me é de doces usos: graças a Deus toda a vida tive estima a toda meretriz. naqueles dias. cachaça muita. em algum ao lugarejo. sem as desordens? Saber aquilo me entristecia. Um me disse que eu estava estando verde. com as faces do corpo. Tem coisas que não são de ruindade em si. porque é ao caso de virarem. que cozinhava. eu estive muito maltrapilho. Mas o Lindorífico lembrava um pagode. dessas belas bondades. mas também com entender um carinho e melhorrespeito – sempre a essas do mel eu dei louvor de meu agradecimento. sempre supria raiva. outros desafiavam outros para brigar. já disse ao senhor. eu também. Em que era que eu podia achar graça? De manhã. estava certo. as mulheres vinham dar umbigadas. quando eu acordava. a gente precisa melhor delas. Para quê? Por que não gozar o geral. para baixo de lá: do que batucavam. Viver é muito perigoso. o propuxado das sanfonas. No mais. mas sei que. cavalheiros levavam damas nas moitas. O Paspe. mas com educação. tenha sido.João Guimarães Rosa . Pode que seja. má cara de doença – e que devia de ser de figado. mulheres que são as mais nossas irmãs. Renego não. mas danam.Grande Sertão: Veredas riam mulheres principalmente a fim. cozinhou para mim os chás: o de – 328 – .

uma por uma. produzida. mas raiva – 329 – . seria por me ofender. mesmo. Dor. na ocasião.João Guimarães Rosa . E todas as pessoas. Hoje. fico me indagando: será que é a mesma coisa com a bebedice de amor? Toleima. do mesmo jeito. na Nhanva. cada de-manhã. seguidas. nenhuma eu não tinha. o que um dia tivessem falado. um dia me tinha dado. o de erva-doce. que meu pensamento ia pegando. eu entendi o casco de uma coisa. como coisa solta e cega. O senhor me crê? E foi então que eu acertei com a verdade fiel: que aquela raiva estava em mim. e eu ficava achando que. igualzinho. para passar a ter raiva dessa outra. quando eu estava assim. me lembrei dum conselho que Zé Bebelo. Que. Do que de uma feita. também. eu ia sentindo ódio delas. e punha significado de culpa em todas as conversas e ações. Mas o sarro do pensamento alterava as lembranças. que enfim eu medito mais nessa agenciação encoberta da vida. ainda que fossem muito mais minhas amigas e eu em outras horas delas nunca tivesse tido quizília nem queixa. era minha sem outro dono. o de losna. Somente perrengueava. com raiva de uma pessoa. Oi. As pessoas não tinham culpa de naquela hora eu estar passeando pensar nelas. Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem. bastava eu mudar querendo pensar em outra.Grande Sertão: Veredas macela. soflagrante. Mas. por me valer. O senhor ainda me releve.

quando se curte raiva de alguém. Cumpri. fazendo finca-pé. ele o que devia. pela pancada do meu coração. – 330 – . mas um resto de dúvida: a inteira dúvida. Digo: reniti. ele já parava perto de mim. Ao que. permaneci. então. sozinho. limpei a goela. Diadorim vindo feito um milagre alvo. Aí eu à paz – com vontade de alegria – como se estimasse recebendo um aviso. Riobaldo? Não está contente por me ver?” A boa surpresa. que me embaraçava real. não fiz mostra nenhuma. em a minha satisfação.João Guimarães Rosa . e o ar era bondoso. Retente. dei fé. com o sorriso sentido: – “Como passou. Mais falasse. Aí. Ele mesmo me disse. em beira d’água. e fato é. Entendi. o que isso era falta de soberania. Porque. escutei o fife dum pássaro: sabiá ou saci. e avistei: era Diadorim que chegando.Grande Sertão: Veredas mesma nunca se deve de tolerar de ter. Zé Bebelo falava sempre com a máquina de acerto – inteligência só. em força para não esparramar raivas. Demorei bom estado. Esperei as primeiras palavras dele. De repente. Lembro que naquela manhã também o calor era menos. Eu era o que tinha. é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a idéia e o sentir da gente. e farta bobice. retardei.

recolhido nas brenhas. estou vendo. que malamal aceitei. Riobaldo. empalidecido muito. Magro ele estava. Assaz ele falava assim afetuoso. sido só de raspão.João Guimarães Rosa . Menos entendi. com parte na fingida estória? As incertezas que tive. de ver e de mostrar. dita a minha nos grandes olhos. e os olhos. Aquilo podia não ser verdade? Afiguro. por que era que não havia de vir para o meio da gente. não consentiam de quadrar nenhum disfarce. solitário consigo. tiro que pegara na perna dele. feito bicho faz. Você derradeiramente não tem passado bem?” – “Vivendo minha sorte. e que feia ação para aprontar. A real que estando ofendido. ele pronunciando: – “Você também não está bom de saúde. para se tratar dum ferimento. aí bem que criei suspeitas: aonde Diadorim não teria andado ido. escolhida para toda a vida. que não tive. ou mato. perto do joelho. E ele disse de contar. com lutas e guerras!” Ao que Diadorim me deu a mão. Segundo tinha procurado aqueles dias sozinho.Grande Sertão: Veredas – “A pois. de querer bem. tão sem outras asas. Aquela amizade pontual. se mal pergunto?” – aí falei. para receber ajuda e ter melhor cura? Doente não foge para um recanto. quasso. até ainda um pouco man- – 331 – . Por onde andou.

por pisável. Nos seguintes. aí vi: a morte é para os que morrem. comendo o quê? Assunto de fome e toda sorte de míngua devia de ter penado. logo tornamos para tornar em guerra. fiquei caminhadiço. de noite. Que vida penosa não era capaz de ter levado. Mas fui me endurecendo às pressas.João Guimarães Rosa . o que ainda valia mais no meio desses perigos de fato. num descomum. tantos dias. uns cinqüenta. Agora eu tinha Diadorim assim perto de afeto. Amor que amei – daí então acreditei. E de repente eu estava gostando dele. no Bento-Pedro – lugar num – 332 – . gostando ainda mais do que antes. A pois. A vida não dá demora em nada. Será? Ao que. Sendo que a sorte também prevalecia do nosso lado. que vinham ao descuidado. e dele o tempo todo eu tinha gostado. sem o auxílio de ninguém. De formas que perdi o semelhar de tantos manejos e movimentos e a certa razão das ordens que a gente cumpria. tratando o machucado com emplastros de raízes e folhas. pegar uma tropa de cargueiros dos bebelos. com assanhamentos. com meu coração nos pés. o que sempre não é assim? Além do que era sazão de sentimento sereno: arte que a vida mais regateia. saímos. no fazer meu particípio de jagunço. com João Goanhá de testa-chefe.Grande Sertão: Veredas cava.

aos estropes. se guerreava. Só era Só Candèlário. Só Candelário. Apareceu. de tornar a amontar nos animais. onde tem carrascais e caminhos de caatinga pobre. Surpreender custou barato.” Mas.” A desléguas. é?!” Sendo que era não. bobearam as sentinelas. – “Ah. os cavalos que rinchavam bem. que vinha de recado. trigueiro azul. que o corpo dele se encurtou pela metade. até cachaça de pago imposto: as caixas de quarenta-eoito garrafas cada. terras arribavam: – “Eta. maior em dobro. arrozal. Sus. botava o fácil desânimo: – “Ih! Zé Bebel’? Evém ele. Aquela carga era enorme. sem se haver um grito-de-armas. A gente recebia a noticia. Aquelas aranhas grandes armavam de árvore para árvore velhices de teia. Minha alma estava: o troteio. Ao tanto levamos os lotes de burros para esconder no Capão dos Ossos. Esse era alto. foi só pôr em fugida.Grande Sertão: Veredas braço de brejo. – 333 – . arruá que chegando. Um Federico Xexéu. uma riqueza – tinha de tudo.. Aquilo era uma alegria. no Poço-Triste. e Zé Bebelo?” – perguntei. a poeirada que levantavam.. com aqueles muitos homens. Parecia que a guerra já tinha se terminado bem. Aí – cavalaria chusma. com lagoas secando: as ipueiras verdolengas. Daí. tivemos mando. de repente.João Guimarães Rosa . com gentes de nuvens gentes. Acinte bebi água de de-dentro dum gravatá em flor.. esbarrou o cavalo tão de repente. – “Berimbau!” – um disse – “Agora é gozar gozo..

” – o que o Fafafa me respondendo. homem de fúria. uns em altos de árvores.Grande Sertão: Veredas quase preto. pulava à frente de todos. Salvante que seria para tudo. ele tinha razão. Antes. Em hora de fogo. Ah. acho que sim. tinha gente até dentro de chiqueiro.. os quantos que matamos. Uns em grota. Mas. na lama dos porcos. casa caiada. Pois. casa-detelhas. No que dizia.. Se apeou. Só Candelário era o para enfrentar Zé Bebelo. como estávamos em bons escondidos.João Guimarães Rosa . Aí chegaram os bebelos – uns trinta? Tiroteamos na suspensão deles. numa ocasião terrível. Mandou que mandava. Será que iam matar? – “É verdade. os mais fugiram sem após. Homem forçoso. no Timba-Tuvaca. a gente tem lá meios para guardar prisioneiro vivo? Se degola é da banda da direita para a esquerda. amigo. quem seria que ia cumprir de dar o fim n’aquele pobre moço? O – 334 – . em volta da casa dum sitiante. como foi que se passou. bramava o burro. Tomou a chefia geral. matamos. com bigode amarelecido. ficou um demorado tempo de costas para a gente. mas o que eu antes não contei: o do preso. que era homem também dele: com os de Só Candelário.. Saudei o Fafafa.. o Alaripe e o Fafafa tinham outra vez aparecido. Nem tinha nenhum ferimento. o que ele pois então me falou. O Fafafa. debaixo dele o Hermógenes parecia um diabo coitado. – “Que é que vão fazer com ele?” – eu perguntei. Um ficou preso.

e eu espiava para a água. igual a de um sapo. Luís Pajeú. apalpei o nó na goela. então eu carecia de uma realidade no real. Ânsia de dó. como ele caminhava normal. – 335 – . O outro. assim. sem divago! Ajoelhei na beirada. feito um cachorro. Aquilo fosse sonho mero. eu queria saber e não saber. ele tornava a se juntar com os outros. Essa injustiça não podia ser! Assim. esperando ver vir misturado o sangue vermelho dele – e que eu não era capaz de deixar de beber. depois. seguindo para aquilo com seus dois pés. então só sonho. um Adílcio. assim no meio de toda boa ordem. lá nas primeiras árvores da capoeira. bebi água com encostando a boca. que ia morrer. Vendo como levavam o rapaz. que decerto iam para matar. os que passavam. A umas cem braças para cima. ou. Imaginado. ardi. com vaidade de ser capaz da maldade qualquer. Vim para a beira do córrego. A sede não passava. como se chamava o rapaz. minha barriga devia de estar inchada. por necessidade nossa – porque.João Guimarães Rosa . Acho que eu estava com uma febre. um cavalo. dar relatórios. não vi o Hermógenes. a que iam matar o homem. se solto. eram outros. Sabia nem o nome. debrucei. estavam esfaqueando o rapaz. onde o córrego atravessava a capoeira. igual um saco de todo tamanho. com a cara. pavão de penas. não fosse.Grande Sertão: Veredas Hermógenes? Decerto era ele. Cocei os olhos. Um.

mas porque iam ajudar a retalhar o porco. o preso. quem é que eu vi? O rapaz. não..” Me alegrei de estrelas. Sem tento. em carne e toucinhos. pisei um estribo. aquele não oferecia perigo mais de tornar a se juntar com os outros bebelos e vir outra vez de armas contra a gente: porque se tinha providenciado de rezar nele uma reza de tirar a coragem de guerra. em todo o seguir.João Guimarães Rosa . Só Candelário subido em sela. vamos levar mais adiante. – “Vamos. porção que se levava. por causa de sua mocidade. para se soltar. feito ato. aforçurado regendo: a pronto ele queria o punhadão de homens. Se deu – 336 – . Aquilo que lavorava em minha cabeça – ah. vivo e exato. Riobaldo! É para se esperar Joca Ramiro. Também montado num cavalo. mandraca de se abobar! Tudo tinha graça. Assim o que me contaram: que não ia morrer. o outro o meu pé não achava. se ia para o É-Já. Riobaldo!” – Diadorim me atanazando. Diadorim me puxou. então. aí. do modo que vi? Pois. Mas. de se estremecer.Grande Sertão: Veredas Aquele grande gritar. – “Tocar ligeiro. dali. mas. Conforme mais me deram explicação. e o Luís Pajeú e o Adílcio. iam matar não.. p’ra lá do Bró. – “Ele é baiano. Só Candelário tinha favorecido perdão a ele. Ah. para a Bahia volta... eu tinha bebido àtoa gorgol d’água. Montei. para lá.” Assim Diadorim me empurrou. aquele. esses passaram com as facas-de-arrasto.

mas nem um bebelo não tem licença quieta de passar!” Diadorim a tanto impante. aguada e pastos bons. o tudo era para só ser a desatinada doidice. é o ponto: inimigo vindo. Riobaldo. eu debiquei: – “Ah. era verde capim em beira fresca. Riobaldo. Os grandes segredos. hem. a partir disso. Me pareceu que daí adiante. Atrás disso. que estando esburacada: atravessamos mais embaixo. mau vau.. Como o que reprovou: – “Sei de nada. e tudo destralhado vencendo. Mas. eu em ojeriza: – “Você sabe..” – 337 – .. Ter. no É-Já. me importa! Não é o que é se ver Joca Ramiro? Pois eu estou vendo. no redor.” – fui falei. sozinho que pensa as partes. A horas destas. O lugar onde esbarramos. até me deu desengano.João Guimarães Rosa . por espirro de águas e escorrego em lisas pedras soltadas. Só Candelário galopava em frente de todos. Mas tudo. era logo depois da ponte de pau.” – foi o que ele perfez.. em passos desses. Atrevi que quis: – “E Joca Ramiro?” Mas Diadorim se compôs: – “Agora.. Sei o que você pode saber também. Mas conheço Joca Ramiro. sabe. ainda não tinha ninguém. Joca Ramiro deve de estar investindo aqueles. no ribeirão lajeal. Diadorim sempre me apeava. lá. Riobaldo..” – “Rezinga não. morremos.Grande Sertão: Veredas galope. Conheço Só Candelário – que só comparece é em fecho de forte decisão. Se ia – feito o rei dos ventos. aqui.

Rir sorrir ele não sabia – mas sossegava um modo nos olhos. Que conhecia Diadorim. Nos dias em que tivemos de montar guarda nos lajeiros e lajeados. parecia querer mesmo: guerra..João Guimarães Rosa . Só Candelário me divisou. e prezando muito. Só Candelário – como vou explicar ao senhor? Ele era um.. sempre me viu. apagando de serem aqueles olhos encarniçados: e isso figurava de ser um riso. quase constantemente.. Mas o Alaripe foi que me contou. – “Riobaldo. por um seu instante..”amizade nas festas. Ocasião. E olhava para os horizontes.. E. chefe. nada. Acho que nem dormia. não me olhava. E bebia. Tatarana.” E foi andando. Que Só Candelário caçava era a morte. por um ponto ou outro. comia o nada.. que eu não divulguei bem...”? Conseguia nem ficar parado.. eu sei. Donde ele era. às pressas. Passava. Diadorim a ele me mostrou: – “Este é o meu amigo Riobaldo. pitava o tempo todo. então.” Aí. uma coisa que todos sabiam e nela falavam. tem o adestro d’armas. sua forte cachaça. muita guerra. sem paciência neles. Pai dele – 338 – . aprendi os rasgos daquele homem. desde vi.Grande Sertão: Veredas Ao que era.. Por quê? Digo ao senhor: ele tinha medo de estar com o mal-de-lázaro. acho que dele ainda ouvi: . ele tinha algum estilo de ar de parecença com o próprio Zé Bebelo.” – ele falou – “Tu atira bem. donde vindo? Me disseram: desses desertos da Bahia. que tomavam um sério bom. a guerra.

depois e depois. bebia a triaga e saía para lavar o corpo. só dava resultado que mandava mortes. feito perna de jaburu. Danado de tudo. a gente ficava em nervosias. E carregava espelhinho na algibeira. ele. mesmo eu ou o senhor? Mas. nu. A gente sabia que ele tomava certos remédios – acordava com o propor da aurora. os que eram mais velhos. Só Candelário tinha um sestro: não esbarrava de arregaçar a camisa.Grande Sertão: Veredas tinha adoecido disso.João Guimarães Rosa . Porque. que penso. aquilo podia variar de aparecer. em poço. era? Quem não é. não. de todas as pessoas Só Candelário é o que mais entendo. o primeiro. de quê? Disso é que decerto sucedia um ódio em Só Candelário. eu estimava. de em sangue se arranhar. e matava. Vivia em fogo de idéia. e os irmãos dele também. Lepra demora tempos. nele furtava sempre uma olhada. para a beira do córrego ia indo. em qualquer hora. espiar seus braços. ao menos. do mesmo jeito. Feito aquele Luzié. Hoje. Doido. As favas fora. e. Sendo que queria morrer. a ponta do cotovelo. pois bem. possuía o sabido motivo. que cantava – 339 – . Lepra – mais não se diz: ai é que o homem lambe a maldição de castigo. retardada no corpo. Alguns. Aos dava. por conta futura da lepra. aquele homem. Castigo. no mesmo do tempo. forcejava por se sarar. de repente é que se brota. Tanto que o inimigo não dava de vir. ele perseguia o morrer. nu. coçava a pele.

A ver que também fiquei sabendo que os outros não consideravam naqueles versos de Siruiz a beleza que eu achava. os que eu não esqueci nunca. Nem não.João Guimarães Rosa . pedi que ele cantasse para mim os versos. quando ouvindo. ela era que podia ter cantado para mim aquilo. próximo da gente. Vida devia de ser como na sala do teatro. formal. mesmo. quando cuidava que sozinho estivesse. Era o que eu acho. eu tinha vontade de brincar com eles. Mas. como um relato sem pés nem cabeça. A brandura de botar para se esquecer uma porção de coisas – as bestas coisas em que a gente no fazer e no nem pensar vive preso. Minha mãe. Nem Diadorim. Riobaldo?” – ele me perguntou. Diadorim. O que eu queria era ser menino. mas agora. Tinha saudade nenhuma. nunca que ele queria. quando eu estava explicando o que era o meu sentir. cada um inteiro fazendo com forte gosto seu papel. só por precisão.Grande Sertão: Veredas sem mágoas. cantarolava. é o que eu achava. eu já achava que a vida da gente vai em erros. naquela hora. Por certo que eu já estava crespo da confusão de todos. desempenho. a canção de Siruiz. cigarra de entre-chuvas. E. fio que com boa voz. – “Você tem saudade de seu tempo de menino. se eu pudesse possível. por falta de sisudez e alegria. Às vezes. Em desde aquele tempo. mas sem fidalguia. – 340 – . Adiantes versos.

Mas. que sobre se viu quase nos olhos e nas orelhas dele. estrada avante. o doido espetáculo. O quando um esbarra com outro. até a uma légua. folharada. se puxando para a beira da mão esquerda da estrada.. Redemoinho: o senhor sabe – a briga de ventos. que vê. E o que era. se viraram nas selas. Eu ia estugar.. por pouco não deu comigo no chão. regulado umas duzentas braças. a gente tem de ir por ela. fui eu quem quis: na hora.” Quando ele falava Tatarana. esporeei. Montei. fui trotando travado. não sei. Arte que perceberam que eu vinha. eu assumia que ele estava sério prezando minha valia de atirador.Grande Sertão: Veredas Ao do jeito de Só Candelário? Esse variava raja. vai. encarado. aí. colher do que houvesse. a dar que dava escuro. mesmo entrar no mundo para se buscar!” – isso Só Candelário quase exclamava. – “Arre. e ramaredo quebrado. – “Tu Tatarana. Do vento que vinha. que estava assombrando o animal. era uma folha seca esvoaçada. Diadorim e o Caçanje iam já mais longe. e se enrolam. Diadorim levantou o braço. Mandou três homens que saíssem a cavalo. queria um meio-galope. estamos sem noticias. o ponto às voltas. meu cavalo filosofou: refugou baixo e refugou alto. Do vento. no – 341 – . Me mandou. para logo alcançar os dois. também.. rodopiado. à frente dei o passo. A notícia.João Guimarães Rosa . Mas.. olhei muito para ele. no alto. A poeira subia. espiar os espias. bateu mão. a bem dizer.

Na hora. nem no dono dele – que se diz – morador dentro. na rua. Ou – 342 – . Estive dando risada. Ao então. Nem pensei mais no redemoinho de vento. que o senhor nunca deve de renovar. – “Redemonho!” – o Caçanje falou. Acho o mais terrível da minha vida. para Só Candelário? Notícia é coisa que se tira. na cachoeira. ficamos lá até o sol entrar. que viaja. não ri? Pensei. embora. O que pensei: o diabo. esconjurando. ditado nessas palavras. onde tem a cachoeira de escadinhas. rio meio do redemunho. chegamos na barra dos riachinhos. que vinga da banda do mar. Como é que se podia trazer notícias. – “Vento que enviesa. Mas Diadorim e o Caçanje se estavam lá adiante. A gente vamos chegar lá. Senti meu cavalo como meu corpo.. Aquilo passou. E até o Caçanje e Diadorim se riram também. do fim do sol? Lá tinha um capão-de-mato. esgarabulhando. Até à barra dos dois riachos. O demo! Digo ao senhor. A gente dava graças a Deus.Grande Sertão: Veredas estalar de pios assovios. e que completa tudo em obra.” – Diadorim disse. Mas o Caçanje não entendia que fosse: redemunho era d’Ele – do diabo. o que a gente pode ver em folha dum espelho preto. tocamos. o Sujo: o que aceita as más palavras e pensamentos da gente... O demônio se vertia ali. dentro viajava. a desejo. Aí.. se torcendo turvo. me escute. Mas.João Guimarães Rosa . por me esperar chegar. o ró-ró. o Ocultador.

pensamentos em minha cabeça.” Os bebelos se desabelhavam zuretas. em lote e réstia. se empoleirando para o sono da noite. lambendo o que viesse. a gente em festa se alegrava Só Candelário subiu no jirau de varas-que tinha – 343 – . no esporão da serra. Um Sucivre. num bom combate. E que! Dali a lá. minha agora. e os jacus voavam para outras árvores. No outro dia. eu era capaz de acertar nela um tiro. Mas que cidade mesma grande nenhuma eu não conhecia. Assim eu aproveitei para olhar para a banda de donde ainda se praz qualquer luz da tarde. Se não. surgindo de dentro da mocidade. Noitezinha. de sua sesta deles. A tanto. as notícias todas andaram de vir. O coqueiro se mesmando. no Ribeirão do Veado.. nas árvores. nesta conversa – o senhor me atalhe. Primeira coruja que a ãoar. branco? Ou: quando é que a velhice começa. viemos.Grande Sertão: Veredas era mata. A fantasia. O riacho cão. Disse: – “Nhô Ricardão deu fogo. vontade de morar em cidade grande. notícias tivemos. Mas Só Candelário não era tolo nas meças. o senhor me diga: preto é preto? branco é . Os coatis desciam espirrando. com um escarcéu de galinheiro. Me lembro do espaço. esgalopado. digo. Tristeza é notícia? Tanto eu tinha um aperto de desânimo de sina.João Guimarães Rosa . muito velha. que fino chegou. debaixo de fatos machos e zuo de balas. Titão Passos pegou trinta e tantos deles..

feito um gavião querendo partir em vôo. Tudo era alarme dado. vai dar combate. de repente. deram até tiros: mas nada não era. veio o Adalgizo: – “Seô Hermógenes passou.. no capinzal bom. gostava cada dia mais. que veio sozinho pastando e deu a cara comprida.. – “Tudo que é estúrdio comparece em tempo de guerra. obra de seis léguas. Agora.Grande Sertão: Veredas mandado fazer. Fui aprendendo a achar graça no dessossego. Combate vem é feito raio cai.João Guimarães Rosa . daí. era a guerra. logo. – 344 – . o inimigo vindo. A redobrar as sentinelas. resvés. o punhado de terra jogado para apagar as fogueiras. logo.. mesmo. chorava: dizia que nunca tinha chefiado pessoal tão valente feito nós. estariam rompendo as aleluias. lá por lá. ali foras d’hora. e de noite com um olho só se ia dormir. com muita fome e pouco sono. Assim os bebelos tinham de passar de fugida por ali no É-Já. Todas as horas tocaiadas.. Donde. que das armas não se largava. só um boi loango. Vez. Daquilo tudo eu gostei. Aprendi a medir a noite em meus dedos. até à beira da madrugada. Vote. E teve gente que se riu disso. e se assobiava cruzado. com tantas capacidades. espiava as paradas distâncias. Só Candelário chega exclamava.” Nossa hora de fogo estava perto. cuquiada: um pontapé em tição. E queria. vais!” – algum disse. em ave-marias e alvorada. nele era que dormia sem repousar – e assim espiou esquecido tempo.

Como era que eu ia poder raivar com aquilo? E. Vi um sol de alegria tanta. Aí o mundo de homens anunciando de si e sobre o vasto chegando. tu vai ver como ele é!” – Diadorim exclamou. Gritavam vivas para a gente. Diadorim e eu.Grande Sertão: Veredas Achei que em qualquer hora eu podia ter coragem. Isso que vem. Deu um galope. O que carece é acompanheiragem de todos no simples. com ferragem de cascos no pedregulho. Parecia uma criança pequena. naquela bela resumida satisfação. a toda cavaleirama chegando. ficamos atarantados. Só Candelário pulou em sela. na lei dela. como eu imaginava. em encontro. a sombra da gente uma só uma formava. estava bem. até me apoquentou. Eu tinha ciúme? – “Riobaldo. Amizade. Nós todos. quase tudo manosvelhos baianos. Joca Ramiro! – “Doca Ramiro!” – se gritava. Ah.João Guimarães Rosa . nos olhos de Diadorim. – 345 – . Como a gente estava. de mansinho. de começo. gente nova trazida. no abre-vento. assim irmãos. cachaça aos goles. se abraçou comigo. com uma risada boa. dormida com a gente encostado em coronha de sua arma. assim como ele sempre era: mola de aço. na cavalhada geral. da banda do Norte. e Joca Ramiro? Antes foi uma coisa acontecida repentina: aquele alvoroço. Só Candelário era o chefe ao meu gosto. Eram de ser uns duzentos. empiquetados.

como agrado em lembrança. em alargados vagarosos – 346 – . A demora era pouca. Mas Joca Ramiro veio de lá. em lavores de preto-e-branco. quase ele não dava conta de se falar. Liso bonito. em redobro de marcha – iam para ferrar fogo. em lugar e hora determinados – semelhante se soube. num cavalo branco – cavalo que me olha de todos os altos. Tempo de beberem um café. ferisse. E ele era um homem de largos ombros. E. Os chefes tinham apeado dos cavalos. e explicava as diversas coisas. quando ele saía. com grandes gestos. Só Candelário não arredava pé de Joca Ramiro. sem pousar os olhos. não sei de que trançado. todos. E Joca Ramiro.João Guimarães Rosa . A gente olhava. com tanta aspereza da vida. corada muito. o que ficava mais. Nem tinha mais outra coisa em que se reparar. As rédeas bonitas. era a voz. cortasse. Numa sela bordada. Sobre o no meio daquele rebuliço. Era ele. A figura dele. em balbúrdia com sensatez. menos colhi de ver e de escutar. Aí o forte bando tinha de se aluir para adiante. aqueles olhos. anelados? O chapéu bonito? Ele era um homem. a cara grande. nem tristeza. de Jequié. grossas. A gente tinha até medo de que.Grande Sertão: Veredas saudavam. machucasse aquele homem maior. Uma voz sem pingo de dúvida. Uma voz que continuava. Como é que vou dizer ao senhor? Os cabelos pretos. na gente. do serão. e os homens.

e também tinha lágrimas vindo por caso.” Mandou vir o dito.. se virou para nós. A alcunha que alguns dizem é Tatarana. só um instante. pêlos bravos. a palavrinha que fosse. você tem as marcas de conciso valente. Os mais velhos tinham vergonha de beijar. Acho que tenho um trem. fraseou: “Tatarana. pudessem. mas o docemente achável. como o de ninguém.Grande Sertão: Veredas passos. Diadorim olhava. Era um rifle reiúno.. e um cabra chamado João Frio foi lá nos cargueiros. Riobaldo.. Riobaldo. Todos. para você.. deu um à-frente.” Isto Diadorim disse.” Disse mais: – “Espera. pegou a mão de Joca Ramiro. que firme contemplando. saudar um e outro. seja. A quantia que ele gostava de Diadorim! – e pousou nas costas dele um abraço... Joca Ramiro me obsequiava! Digo ao senhor: minha satisfação não teve beiras. um dito de apreço e apraz. Ao que.. peguei: mosquetão de cavalaria. e trouxe. A tento. com um contentamento. Decidido. que estávamos.. Me – 347 – . E eu fiz como Diadorim – nem sei porquê: peguei a mão daquele homem.João Guimarães Rosa . beijei também. Pudessem afiar inveja em mim. beijavam. Com aquilo. Meu filho. tornando a me ver. queria correr o acampamento. O andar dele-vi certo: alteado e imponente. com um calor diferente de amizade. beijou. Joca Ramiro.. Diadorim me olhava.. Joca Ramiro. o senhor sabe? Meu amigo. – “Este aqui é o Riobaldo. os que eram mais moços.

João Guimarães Rosa . num bufúrdio. Era.. ele procedia mais de ficar de longe. mas teve de aceitar ordem de ficar. noutra coisa não se falava. Vi que ele com os olhos caçou Diadorim. Eles já estavam indo de saída. Joca Ramiro deu uma despedida. para valer de vigiar bem os vaus e suas estradas. Joca Ramiro tinha mandado: que nosso grupo se repartisse. ao assaz. tapando o mundo aos que aqui o mundo quisessem. A alta poeira. Vi que.” – Diadorim me explicou. mais. Aí em festa feita a gente tramava nas armas: Joca Ramiro entrava direto em combate. mesmo sendo assim querido e escolhido de Joca Ramiro. em rotas e vantagens!” E. a figura dele tinha parado no meio da gente. não acharem que ali havia afilhadagem. Aquilo parecia uma música tocando.Grande Sertão: Veredas chamou de lado. em aos três ou quatro piquetes. Seria para ficar de espera. Assim. Segundo disse – que Só Candelário. todos esporaram. que demorava. – “Não é que ele é mesmo o chefe de todos? Não é que é mandante?” – Diadorim me perguntava. por aquela ânsia e soência.. andaram. Só Candelário gritou: – “Viva Jesus. de avançar. Diadorim e eu – 348 – . agora podia desequilibrar a boa regra de tudo. Mas eu não percebi o vivo do tempo que passava. Montado no cavale branco. então ia ser o fim da guerra! – “Só Candelário queria ir também. a avançar. Desde ver. por ninguém se queixar.

lugar feio.Grande Sertão: Veredas fizemos parte duma turma dessas. chefia de João Curiol – fomos para a baixa dos Umbuzeiros. veio. com os gravatás poeirentos e uns levantados de pedra. a gente atirava! Se morria. cata. A que parecia mesmo de propósito. aí todos os dois morreram de repente. O vento vinha bom. se espinoteava. que a água se esguichou farta. se matava. Escoramos as armas. Não se crê que é. não. Porque foi lá. e não se vê. Ao que.João Guimarães Rosa . mas os homens no chão. da parte d’eles chegarem. no cata. tido. por causa da ligeireza com que aquilo veio. chegaram até perto de nós. à parva. que a cara da caça se apareceu. com todo o efeito. Conto já ao senhor. o cavaleiro não agüentava na rédea. mesmo em espera: dá a vez. duns quinze homens. Meu senhor: tudo numa estraga – 349 – . com tanta pressa. Só cavalo sozinho podia fugir. vero bonito aquilo no sol. Tão de repente. Mas teve um. Vi homem despencado demais. duma vez. Partindo desse vau. de formas que o galope pronto se ouviu. Do que podia suceder. Surpresa a gente sempre tem. Terrível. à de se doidar. Passaram o ribeirão. terrível. o senhor sabe. Aquilo. a gente pega uma chapadinha – a Chapada-daSeriema-Correndo. matava? Os cavalos. os cavalos patatrás! Dada a desordem. Demos fogo. Assim que eles eram uns vinte.

– “A fogo! A crevo!” – isto João Curiol gritava. Um se mostrou. Munição deles era pouca. respondendo ao fogo. cão. – “Sabe quem?” Ah. As balas rachavam as pedras. Eles deviam de ser uns quatro. Ainda deviam de ser uns dez. Era Zé Bebelo! Assim eu condenado para matar. Aqui eu não sei o que o senhor não sabe. gritava. Munição deles – quase nenhuma. caiu logo. neles a gente ia ir a pano de facão. eu sabia. puderam tomar oculto atrás de outras fragas de pedra. sabe quem está lá. – “Aoê. o em desde o primeiro momento. os sobrantes deles se desapearam e rastejaram. Fugir. A gente. Ah.João Guimarães Rosa . não podiam.Grande Sertão: Veredas extraordinária. quando sinal de homem tremeluzia. mesmo. Era quem eu não queria para ser. Eu tinha sabido. nisso a gente não conseguiu ter mão. Antes do depois. também. Mas aqueles eram homens! Trampe logo que puderam. Anhãnhãe. em febre de ódio. xingando todo nome. ou uns oito. só partiam escalhas. ou três. – “Tralha! Lá vai obra. Aí deviam de ser uns seis – que é a meia-dúzia. carujo! Roncolho!” – isto era a voz de Zé Bebelo. comandando?” – o rastejador Roque me disse. Afa que gritavam. Eu não gritei. O cano do – 350 – . Diadorim também atirava calado. berrávamos fogo. A gente atirava.

. tudo que eu sabia e conhecia.. Um homem.” A que nem não sei como tive o repente de isso dizer – falso. a idéia dele. verdadeiro. eu menos atirava do que pensava. João Curiol respondeu que não.. caiu muito ferido. macia mesmo. só.. – “Roncolho! Toma. à unha. Aquela culpa eu carregava? Arresto gritei: – “Joca Ramiro quer esse homem vivo! loca Ramiro quer este homem vivo! Joca Ramiro faz questão!. em minha goela..João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas meu rifle esquentava demais. a morte dele? Um homem daquela qualidade.. Sempre – Zé Bebelo – a gente tinha que pensar. até João Curiol: – loca Ramiro quer este homem vivo!” – “É ordem de Joca Ramiro!” De lá não atiravam mais. Senti. Como era possível. Nessas coisas eu pensei. aos pulos de vida e morte. no meio das duras pedras. o corpo dele. A bala era de Zé Bebelo. assim. Gritei firme. Atiramos.. grosso. coisa fraca em si..” Um Freitas. gritou. repeti. chefe?” – o Sangue-de-Outro perguntou. inventado. Deviam de ser. Eles deviam de estar – 351 – . com minha ajuda. Respondiam pouco. – “Arre. nosso. Redigo – que. Só bala ou outra. os quantos? Digo ao senhor: eu gostava de Zé Bebelo. Eles respondendo. Os outros companheiros aceitavam aquilo. diziam também.

atirava: queria. que era que eu estava querendo – que pegassem vivo Zé Bebelo. eu sei? O senhor agora vai não me entendes. em carnes e ossos. O que ele tinha numa mão. a fácil?! Minha raiva deu em mim. por toda a lei. deu ordem!” – todos agora me gritavam. o real?! O que era que eu estava fazendo. então.João Guimarães Rosa . matarem de outro pior jeito. – “Joca Ramiroquer o homem vivo! Joca Ramiro quer. assim todos. O como são as coisas. Eu atirava. travando em meu braço. O que eu havia de desmentir? E não vi direito. me abri. O que? Mas. garnisé. mesmo. Mas descarregou a garrucha. Assim contra mim. o fato. atirando no chão. – “Ordem de loca Ramiro: é pegar o homem vivo. – 352 – .. Todos aprovaram. – “Tu está louco. de repente. Tanto tudo ia sendo sempre’ por minha culpa! E daí pedi tudo ao rifle é às cartucheiras. alcançar um tiro em Zé Bebelo. Todos me aprovaram – e. Eu sei. para acabar com ele de uma vez. Me mordi. me-amargo. Arrancou poeira. extraordinariamente. na outra uma garrucha grande. era o punhal. O que vi foi Zé Bebelo aparecendo. fogo-central.” – ainda eu disse. Ali Zé Bebelo eu salvasse. eu não tinha pensado tudo.. sem martírio de sofrimentos. para depois judiarem com ele. rastejando para perto de mim. aí.Grande Sertão: Veredas reservando balas para um final. eu dei um salto de espírito. Riobaldo?” – Diadorim gritou. perto dos pés dele.

jogou o laço. vago. de briga. Agarrei de mim. se me estranho. objeto.. voz que gritou: – “Canalha! Canalha!” Mas todos foram nele. teso. por se firmar. Ele mesmo estava querendo morrer à brava. com sua gente total. no raso. e mais João Curiol. Algum soprou o buzo do corno de boi. sempre maior.Grande Sertão: Veredas Por trás daquela poeira ele reapareceu. não tinha! E um dos nossos. arrastado. atrás do pedação de pedra. dava pensamento assim – aprumado. poeira de entupir o narii e os olhos. A roda de cavaleiros tantos. Não queria.” – ouvi o que um dizia. – “Homem danado. e esperou. ah não queria que ele me reconhecesse. de todo jeito não tive coragem. depressamente. por ouros. Ah. desarmaram do punhal. O fuzuê se fez um enorme. Aos quais: era Joca Ramiro. Olhei. O que eu estava era envergonhado. Meus olhos firmavam no chão. Mas Diadorim estava me caçando. Eu parei quieto. agora eu via que tremia. Tocavam para o acampamento. não sei quem. Sendo que chegavam também os outros grupos nossos. no mesmo meu lugar. Zé Bebelo mal ainda bateu com um pé. – “Ipa! Zé Bebelo. Lampejou com o punhal. Subiu pó e pó. e caiu. Sobrevinha o tropel grande de cavaleiros. sentado lá. olhei.. – 353 – . De atirar nele.João Guimarães Rosa . escutei os brados de Só Candelário. e também ali ele devia de ter perdido algum trem seu. pelos mortos e feridos que também tínhamos.

. Ao menos Diadorim raiava. Joca Ramiro apreciou bem que a gente tivesse pegado o homem vivo. – “Aposto que sei.. A mais. e foi. O homem estúrdio! Foi defrontar com Joca Ramiro. Fiz questão. É estragador!” Eu falei: – “É?” – e neste entretanto. Mas o João Curiol virou e disse: – “Matar não. prevenir os que faltavam. Eu não queria retornar logo. o todo alegre.. apraz-me. prometeu julgamento já. Aí foi ele mesmo quem quis. Riobaldo! Acabou-se a guerra. Saímos ainda com João Concliz. com esses de João Concliz. a ir em longe arredor. Fui. ganhou patente.João Guimarães Rosa . Aí Joca Ramiroconsentiu. brabo gritou: – Assaca! Ou me matam logo. ou e n tão eu exijo julgamento correto legal!. Agradeci mesmo isso. – 354 – .. aqui.” – isto o que falou João Curiol. e. Os do Ricardão já aos tantos chegavam.. às quase danças: – “Vencemos. Vão dar julga. não entendi. para me dar a explicação. do jeito como desgraçado estava...” Aquilo me rendia pouco sossego. assim agarrado preso. Diadorim? Agora matam? Vão matar?” Mal perguntei. A vinda geral. a cisma não era para pôr peso em meus peitos. Saí. E depois? – “Para que.. mento.” – “Julgamento?” – não ri. A gente de Titão Passos e do Hermógenes mandava aviso de estarem em caminho.Grande Sertão: Veredas oxém.

João Guimarães Rosa . inteirou de olhar aquele. Mas..” – Joca Ramiro respondeu. Zé Bebelo empinou o queixo. sem chapéu nenhum.. em seu alto cavalo branco. como foi?” E me deu notícia. Estou. O senhor está diante de mim. o que o senhor vê não é o que o senhor vê. mas eu sou seu igual.. – “Homem engraçado. homem doido!” – Diadorim ainda achava. – “Sabe o que ele falou.” – 355 – .Grande Sertão: Veredas com os outros. Dê respeito!” – “O senhor se acalme. compadre: é o que o senhor vai ver. mesmo assim. Montamos e sumimos por aqueles campos. sem levantar a voz. com surpresa de todos. então. preso. O senhor está preso. Mas. com um engraçado atrevimento: – “Preso? Ah. pois sei que estou. essa estrada. Tinha sido aquilo: Joca Ramirochegando. esses pequizeiros. rasgado e sujo. Daí disse: – “Dê respeito. chefe. para debicar.. e defrontando Zé Bebelo a pé. não enxergar Zé Bebelo eu achava melhor. e seguro por dois homens. cima a baixo.. o grande cavaleiro. Mas. real.. com as mãos amarradas atrás. Zé Bebelo também mudou de toada.

.João Guimarães Rosa .. mesmo. E todos que ouviram deram risadas. está direito. achei logo que ninguém ao certo não sabia. debaixo de forma. É.. preso. – “Ei. é o mundo à revelia!. é outra coisa. Certo. Arte. Tanto que voltamos. Azougue vapor.. e gostou: – “É e é. Joca Ramirosabe o que faz-. – “Isso. Toleimas todas? Não por não. Vamos ver. Cacei de escutar os outros.. E ia ter o julgamento.. mano velho?” “... – “Está certo. agora é julgamento!” – os muitos caçoavam.. Carece de se terminar o mais definitivo com – 356 – . no acampo. o julgamento? O que isso tinha de ser. vamos ver.. O Hermógenes me’ ouviu.. o que não sendo dos usos..Grande Sertão: Veredas – “Vejo um homem valente.” – “O que. em festa fona. disse com consideração.” – foi o que ele citou. pessoa coisa de se haver às mãos. Se estou preso. Também o que eu não entendia possível era Zé Bebelo preso.” – isso foi o fecho do que Zé Bebelo falou. manhã cedinho estávamos lá.” – aí o que disse Joca Ramiro. Assim isso. Ele não era criatura que se prende..” – foi o que disse Titão Passos... – “Melhor.

no São José Preto. que iam e vinham. e estivesse deitado num couro de vaca. Só Candelário tinha remetido dois homens. quando surpreendi os suspensos de se ter saída.. Contaram que ele aceitava comida e água. não sei. Não se podia ver o prisioneiro. recolhido de toda vista. bebiam. co. Gostei. porque Joca Ramiro mesmo se desacostumava de dormir em barraca. bafafavam. que ficava lá dentro.Grande Sertão: Veredas essa cambada!” – falou Ricardão. a cavalhada pastando. só para comprarem foguetes. quem é que pode!” Ao espraia as margens. E onde estava Zé Bebelo? Apartado. longe. E só Candelário. jagunços de toda raça e qualidade.” –. Agora estavam todos mais todos reunidos. numa tenda de lona – essa única que se tinha. que no fim teriarA de pipocar. por o abafo do calor. – “Homem. Só depois se espalhou voz. O de que eu carecia era de que ele não botasse olhos em mim. feito guardado. miam. Ao que se ia para a – 357 – .. e lotes e pontas de burros. que agora não se apeava.João Guimarães Rosa . pitando e pensando. estávamos no acampamento do É-Já. onde ali mal tanto povo cabia. e agora ele não havia de ser meu pesadelo. Eu apreciava tanto aquele homem. – “Aonde é que vamos? Onde é que esse julgamento vai ser?” – perguntei a Diadorim. vinha exclamando: – “Julgamento É isto! Têm de saber quem é que manda. Diadorim disso não sabia.

também. ladeando o bando bonzinho de jegues orelhudos. podiam acabar com Zé Bebelo? Quem tinha capacidade de pôr Zé Bebelo em julgamento?! Então. aquela a do doutor Mirabô de Melo. e mantimentos de comida. Ia com as mãos amarradas. Assim que Joca Ramiro fazia questã de navegar três léguas a longe com acompanhamento de todos os jagunços e capatazes e chefes. Fui ficando para trás. com munição. tirei por tino. e g prisioneiro levado em riba dum cavalo preto. Zé Bebelo lá ia.Grande Sertão: Veredas Fazenda Sempre-Verde. logo na cabeça do cortejo. por que causa iam dar com aquele homem tamanha passeata? Carecia algum? Diadorim não me respondeu. Mas. coisas tomadas. feito meninos. em conduzido. rumo do Norte – tudo por glória. No naquele. Me dava travo. Mas. lá preso demais. rodeado por cavaleiros de guarda. de trabuz. pessoal de Titão Passos. pelo que não disse e disso. Aquilo com aquilo – aí a minha idéia diminuía. e todas as tropas. A pobreza primeira deles me consolava – os jumentinhos. ressenti um – 358 – . O julgamento. me ensombrecia. a gente podia ver resenho de toda geração de montadas. depois da Fazenda Brejinho-do-Brejo. Zé Bebelo.João Guimarães Rosa . que fechavam a marcha. Eu não quis ver. que fiz a viagem toda na rabeira. Mas ainda pensei: – ele bom ou ele ruim. Estava certo? Saímos. como de uso? Amarrar as mãos não adiantava. Tanto o antes.

que fazia vulto. Passei quase para a frente de todos. A Fazenda Sempre-Verde era a casa enorme. viemos saindo da estrada e entrando nas cheganças. – “Não carece de se abrir. não arrombassem. Riobaldo. que foi?” – gritou para mim Diadorim.João Guimarães Rosa . aquilo era de amigos. Vim. então. aí fomos enchendo os currais. repinchando dessas angústias. Nem não importei mais que Zé Bebelo me visse..” – era uma ordem que todos repetiam. Parecia um mortório.. o doutor Mirabô de Melo.. fomentado. pessoa ali não me entendia.Grande Sertão: Veredas fundo desânimo. Que me deu. assim chegamos na Sempre Verde. Assim passamos pelo Brejinho-do-Brejo. Só mesmo Zé Bebelo era quem pudesse me entender. Aquele mundo de gente. o restado consolo só mesmo podia ser aqueles jericos baianos. catar tudo nos olhos. Não carece de se abrir. Sem mais Zé Bebelo. Estavam pensando que eu viesse com um recado. afanhou a porteira. que de nascença sabiam todas as estradas. com tantos os nossos cavalos. Eu queriá sobressalto de estar ali perto.. o que acontecia maior. de voz em voz. – “Que foi. Aí fomos chegando. Dei nenhuma resposta. Antes passei. A casade-fazenda estava fechada. – 359 – . os currais-de-ajuntamento. Ave. de repente? Esporeei e galopeis para dianteira.

no meio de tudo. Ricardão em pé. Caminhou. todos! Aquilo. Só Candelário. Titão Passos. – “Ata amarra os pés também!” – algum enfezado gritou. – “Oxente!” Para diante de Joca Ramiro. João Goanhá. maluqueira só. mas adiante do corpo. Zé Bebelo. num alteamento – feito quando o peru estufa e estoura – e caminhou. feito um rodear de gado – fecharam tudo. ligeiro. o assento de couro. mesmo. Daí. no mocho. o Hermógenes. feito algemas. liso. grande. A jagunçama veio avançando. tinham trazido um mocho. Mas Zé Bebelo não estava aperreado. caso não. Joca Ramiro. sim. era um tamborete de tripés. Aí tinham apeado Zé Bebelo do cavalo. João Goanhá. – “Oxente!” – se dizia. de couro de capivara. Titão Passos. o Hermógenes.João Guimarães Rosa . sim. E: – 360 – . Outro se chegou. com uma boa peia. de tanto tamanho. Só Candelário em pé. que sendo um atrevimento. com Zé Bebelo sentado simples e Joca Ramiro em pé. Que que pequeno. eles todos reunidos no meio do eirado. deixado botado lá. Ao que. Que era que aquela gente pensavam? Que era que queriam? Doideira de todos. Esbarramos no eirado. no meio do eirado. Só ele sentado. ele estava com as mão amarradas. o que. nele se sentou. numa confa. em direitura. era bom: homem às graças.Grande Sertão: Veredas mesmo ausente. o Ricardão. Tomou corpo. cruzou as pernas. só deixando aquele centro.

A modo que – Zé Bebelo – sabe o senhor então o que ele fez? Se levantou. defronte de Zé Bebelo.Grande Sertão: Veredas – “Se abanquem.. homem acreditado pelo seu valor.. Aquilo tudo tinha sido tão depressa. de papeata. todo. jogou para um lado o tamborete.” – ainda falou. De coisas de tarasco. O que vendo.. aceitou o louco oferecimento de se abancar: risonho ligeiro se sentou. e aqueles gestos de cotovelo. dando aprovação. Foi um silêncio. e a esforço se sentou no chão também. senhores! Não se vexem. a gente não gostava? E até os outros chefes. com vênias e acionados. Joca Ramiro. Foi aquele falatório geral. todos. diante de Joca Ramiro. os outros se franziram. faiscando. assim. contente.. Se fez. Mas. Ah. – 361 – . Mandaram a gente abrir muito mais a roda. e correu por todos um arruído entusiasmado.João Guimarães Rosa . Acho que iam matar. Arte em esturdice. nunca vista. um por um. Os dois mesmos se olharam. astuto natural. no chão. querendo mostrar o chão em roda. Joca Ramiro para tudo tinha resposta: Joca Ramiro era lorde. Se abanquem. não podiam ser assim desfeiteados. para o espaço ficar sendo todo maior. o dele. com pontapé. de repente. não iam aturar aquela zombaria.

” – ele perguntou. com ansiedade de ver e ouvir o que se desse. vistoriando as caras de tantos homens. Eu sabia: dele havia de vir o pior. valendo se valendo. Menos no mais. E rodou aprumada a cara. Joca Ramiro ia falar as palavras consagradas? – “O senhor pediu julgamento. Com o que. por nivelar e não diferir. Ar que inchou o peito e o queixo levantou. – “Toda hora eu estou em julgamento. na ponta dos olhos da gente. sem remangar das armas. de relâmpago. em beleza de calma. Criatura assim sente tudo adivinhado. Vigiei o Hermógenes. bom para a forca. – 362 – . mas foram ficando moleados ou agachados.. regular. como o piscar de olho dum papagaio. Aquele povo – rio que se enche com intervalo dos estremecimentos. Que até capivara se senta é para pensar – não é para se entristecer. Ao que o povaréu jagunço. com voz cheia. Eu tinha confiança nele.” Assim Zé Bebelo respondeu.João Guimarães Rosa . formaram uns silêncios. Aquilo fazia sentido? Mas ele não estava lorpa nem desfeliz.Grande Sertão: Veredas mudaram de jeito: não se sentaram também. todo o mundo parado. se espremendo em volta..

. um pouco..Grande Sertão: Veredas – “Lhe aviso: o senhor pode ser fuzilado. está prisioneiro nosso. não mais: – “Adianta querer saber muita coisa? O senhor sabia. que para cada hora livrava. paciência Joca Ramiro nunca perdia. Vocês ganharam. motejou. então.. e agora torcia o motivo: como se em fim de um julgamento ninguém competisse de ser fuzilado. de repente. Só que. duma vez. por sorte..João Guimarães Rosa . o que nunca tinha visto. Mas estava brincando com a morte. Serviu algum?” – “Sempre serve. chegou neste sertão. chefe: perdi – conheço que perdi. Os jagunços em roda não entendiam o escutado. para que tanto requifife?” – Zé Bebelo repostou. outros quadrando um calado de mau – 363 – . Sabença aprendida não adiantou para nada. Saranga ele não era. muito. lá para cima – me disseram. com toda a ligeireza. De ouvir. Mas. Sabem lá? Que foi que tiveram de ganho?” O puro lorotal. dividi o riso do siso. viu tudo diverso diferente. e uns indicavam por gestos que Zé Bebelo estava gira da idéia. Perdeu a guerra. E atrevimento.” – Joca Ramiro fraseou... Ao que bastava Joca Ramiro perder um ponto da paciência. – “Com efeito! Se era para isso. A pois! Ele mesmo tinha inventado exigido esse julgamento.

Bastava vozear curto e mandar. O velho valeu enquanto foi novo. e falar.. Não é da terra. debaixo dos bigodes. que se fie! O que fosse. com os chapéus rebuçantes. – 364 – . Joca Ramiro tinha poder sobre eles.” Agora.Grande Sertão: Veredas sinal. daí: – “O senhor veio querendo desnortear.. Até o que disse: – “De lá não sai barca!” Assim se diz. eles podiam referver em imediatidade. e as tantas caras. desencaminhar os sertanejos de seu costume velho de lei.” – “Sou do fogo? Sou do ar? Da terra é é a minhoca – que galinha come e cata: esgaravata!” Que visse o senhor os homens: o prospeito. como sacudiam as cabeças. o que já está de si desencaminhado. o banguelê.. como falava constante. Mexeu com as sobrancelhas... no estatuto. nessa sossegação.. completamente.” – “Velho é.. os de cá e os de lá. o senhor.. com um modo manso muito proveitoso: – “Meus meninos. cercando o oco em raia da roda. Nanja.João Guimarães Rosa . Aqueles muitos homens. num zunir: que vespassem. Só. Joca Ramiro não reveio logo. Meus filhos. com as coronhas no chão. Joca Ramiro era quem dispunha.” – “O senhor não é do sertão. advai que aquietavam... Ou fazer aquele bom sorriso.

por si. Em tudo. Por mim. eles gostam de alguma demora. segundo seja? Cada um conspirava suas idéias a respeito do prosseguir. os chefes cabecilhas. O Hermógenes fez beiço. e Titão Passos se desacocorou. Só Candelário. o Ricardão da outra.Grande Sertão: Veredas Estavam escutando sem entender. com Titão Passos e João Goanhá. no sutil. sacudia o moroso das pernas. mas a montoeira deles. O Hermógenes botava pontas de olhar. os cabras estavam desejando querendo o sério divertimento. nuns visos. quase de tolo. com o Hermógenes. Um. ficado em pé. João Goanhá. estavam ouvindo missa. – 365 – . no grosso do semblante. some escuro. de nada não sabia. Atual Zé Bebelo foi começando a conversar comprido. aquele ar sonsado. Conforme vi. que é que notava? Nada. O senhor mal conhece esta gente sertaneja. Mas. Estudei foi os chefes. e cumpriam seus manejos no geral. ao que menos: expunham um certo se aborrecer. na taramelagem como de seu gosto – aí o Ricardão armou um bocejo. com a mão num ombro. que devia de ter algum machucado. o senhor reparasse.João Guimarães Rosa . esses. Eles pensavam. exata. Uns descombinavam dos outros. esses com suas responsabilidades. Só Candelário duma banda de Joca Ramiro. Naquela hora. mesmo. soubesse tudo. vi: assim serenados assim.

com cabeça. mais riram dele. Alguns. uma fala que ele drede avagarava. disse: – “Ao que a ver! Ao que estou. Assim Joca Ramiro refalou.. e que agora ia receber continuação de seu destino. por mais se impor. Não achou as palavras para dizer.” A lesto que Joca Ramiro assentiu. todos. hem. os todos. tirando um ronco. normal. seguro de sua estança. ao de indagar: – “Meu compadre. Sendo por ele querer se desengonçar e não podendo: como era alto e magro duro aquele homem! Sarre os onhos olhos amarelos de gavião. Até Zé Bebelo mesmo.João Guimarães Rosa . dele. sumetido diante. Porque ele sobre se virou. e logo abriu naqueles sestros que tinha.Grande Sertão: Veredas Joca Ramiro deve de ter percebido aquele repiquete.. Zé Bebelo abriu muito a boca. para Só Candelário. movimental. conforme se Só Candelário tivesse afirmado coisas de sincera importância. só estava um inimigo vencido em combates. Em menos Joca Ramiro esperou um instante: – “A gente pode principiar a acusação. como que de propósito. que é que se acha?” Sô Candelário fungou. Dito disse que ali. – 366 – . compadre chefe meu.” Aprovaram.

Ele mesmo. ver. conseguindo caminho por entre o povo.João Guimarães Rosa . Medo não tive. já. mas respirava. e num átimo se via era papas de sangue – ele voltava para o inferno! Que era que me acontecia? Eu tomava castigo mortal. Advertido que pensei: e se eu puxasse meu revól-. quem quisesse. Observei. Fiquei foi querendo ouvir e ver. entrada por saída. Desde. quem? O Hermógenes limpou a goela. homem toda cruzado. pedras e cachoeiras. como – 367 – .Grande Sertão: Veredas Julgamento. são no vão. se encostou em mim. Ele era sujeito vindo saindo de brejos. deixava para dar opinião no fim. tão junto. de todas as ações de Zé Bebelo. berrasse fogo nele? Se acabava um Hermógenes – estava ali. e propor condena. o que vinha mais. tudo o que escapa vai em retinge de medo ou de ódio. Agora. de mão de todos? Deixasse que tomasse. Diadorim. Carece de não se perder sempre o vezo da cara do outro. podia referir acusação. Rés o que começasse. Demarcava que iam acontecendo grandes fatos. De primeira entrada eu vinha sabendo – esse Hermógenes precisava de muitas vinganças. como de lei. Só que a idéia boa passou muito fraca por mim. De uns assim. digo ao senhor. os olhos. Joca Ramiro. aí chegou. mesmo sem conversar. baixar sentença. seus motivos. dos crimes que houvesse.

para falar: – “Acusação. esticando o pescoço e batendo com a cabeça para diante. – 368 – . Dele é este Norte? Veio a pago do Governo.. por si. a gente todos passava a cavalo por riba dele – a ver se vida sobrava. Merece ter vida não. bom para a forca. para arrasar. Ou então botar atravessado no chão.. não era inimigo nosso. foi pondo: – “Cachorro que é. Assaz que veio. Mais cachorro que os soldados mesmos. para não sobrar!” – “Quá?!” – Zé Bebelo debicou. cão!” – “Ih! Arre!” – foi o que Zé Bebelo ponteou. é que se devia de amarrar este cujo. Mas o Hermógenes com aquilo não somou. O diacho. Acuso é isto. Assim contracenando. de feias caretas.. diversas vezes. feito porco.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas era com a boca tão cheirosa. feito pica-pau em seu oficio em árvore. com sobejidão de cacundeiros. não se buliu com ele. O tanto que ninguém não provocou. O sangrante. todo o tempo – medo do Hermógenes remedou. acusação de morte. Há-de haja! – o Hermógenes tinha levantado. que a gente acha.. para matar.

E riu chiou feito um sõim. Chefe?” – Zé Bebelo perguntou..” – disse. compadre mano-velho. em vez de tomar cautela? Vi que tudo era enfinta. . cortou e desatou a manupeia nas juntas dos pulsos. com uma aspação: – “Tento e paz. E Joca Ramiro deu ordem. João Frio. que de perto dele não se apartava. mas podia dar em mal.. fez menção de reluzir faca. sério... Parecia mesmo querer fazer raiva no outro. batendo mão e mão. Se teve mão em si.Grande Sertão: Veredas – “É o que eu acho! É o que eu acho!” – O Hermógenes então quase gritou.. por terminar: – “Sujeito que é um tralha!” – “Posso dar uma resposta. careço que não me deixem com as mãos amarradas. para falar.João Guimarães Rosa .. Joca Ramiro concedeu.“Mas. veio de lá. o caretejo. com o acionado de desplante. a joca Ramiro. por este mais este cotovelo!. E Joca Ramiro também tinha atalhado.” Nisso não havendo razão ou dúvida. O Hermógenes pulou passo. foi por forte costume. Não vê que ele ainda está é azuretado. Que era que Zé Bebelo ia poder fazer? Isto: – “P’r’ aqui mais p’r’ aqui.” – 369 – .

falou para Joca Ramiro – e para todos que estávamos lá – falou. mesmo estando assim vencido nosso e preso. Mesmo os chefes entre si cochicharam. de calca pá.” Mas o Hermógenes. Rentes os do bando do Hermógenes chegaram a dar altas palavras. maximé!” – Zé Bebelo falou. Muitos homens resmungaram em aprovo. que me agravou! Me agravou. Reajo é com protesto. Questionou-se a respeito disso? Tinham barulhos na voz. raciocínios. numa voz rachada em duas. arriçado. Rompo embargos! Porque acusação tem de ser em sensatas palavras – não é com afrontas de ofensa de insulto.” – Encarou o Hermógenes: – “Homem: não abusa homem! Não alarga a voz!. Meu direito é acabar com ele.. discordo. Joca Ramiro era mesmo o tutumumbuca.João Guimarães Rosa ... dez ou vinte círculos.. Mas Joca Ramiro sabia represar os excessos. ali rodeando.. voz torta entortada: – “Tibes trapo. Chefe!” Vi a mão do perigo.Grande Sertão: Veredas – “Ei! Com seu respeito. o desgraçado desse canalha. os tantos. crível que estivesse todo no poder bravo de uma coceira. Chefe. Temperou somente: – 370 – . – “Retenho que estou frio em juízo legal.. anéis de gente. grande maioral.

sobreveio Só Candelário. não deixando frouxura de tempo para mais motim: – “Hê. Todo o mundo concordou. o relembrado... Zé Bebelo e eu – nós dois. Trabalho de idéia em aperto. por detrás daquele sonsar. por ser a ofensa grave. Joca Ramiro deu a vez a Só Candelário. sação que se tem?” Sobre o que.. em careta de quem provou pedra de sal. Vai. Sobrava fala: – “Com efeito! Com efeito!. pelo pão de salvar sua vida da estrosca. compadre? Qual é a acu..” – falou..João Guimarães Rosa . vai. O Hermógenes mesmo se melou na atrapalhação das ligeirezas.. É o que acho! Carece mais de discussão não. pelo que vi de todos.” – 371 – .. Nada ele não disse: mas abriu quadrada a boca. e aí tinha de condizer. arre avante. forteou mais a voz: – “Só quero pergunta: se ele convérn em nós dois resolvermos isto à faca! Pergunto para briga de duelo.Grande Sertão: Veredas – “Mas ele não falou o nome-da-mãe. o gibão desombrado.” E era verdade. E Zé Bebelo mesmo aproveitou para mudar o aspecto – para uma certa circunspecção. aos priscos. não havia jagunço que não aceitasse o razoável da ponderação. Com Joca Ramiro explicar assim. Só para o nome-da-mãe ou de “ladrão” era que não havia remédio. amigo.. e você. Se via que ele pensava a curto ganho no estreito.. Imediato. na faca!. a figura muita..

João Guimarães Rosa . papos. Agora é a acusação das culpas. ser ladrão de cavalos ou de gado. dizendo. feito com são-guido ou escaravelho. pronto! A gente não é jagunços? A pois: jagunço com jagunço – aos peitos... Mas brigou valente.. Crime não vejo. e escondeu o de que ria: – “Resultado e condena. resistencioso. Que crime? Veio guerrear. rachou feito umbuzeiro que boi comeu por metade. Crime.. mereceu. como nós também. mas também sem nenhuma paciência.. e no mais se mexer.. não cumprir a palavra. É o que acho. compadre... como se nos instantes antes não soubesse que ele estava ali a três passos. rente repente. Mas aí Joca Ramiro remediou. Só assim mesmo prosseguiu: – 372 – . desafio.. Só Candelário olhou encarado para ele. só repetia aquilo. por mim é o que declaró com a opinião dos outros não me assopro. Perdeu. a gente deixa para o fim. Só Candelário sendo assim. Que crimes o compadre indica neste homem?” – “Crime?.Grande Sertão: Veredas Só Candelário mais longe não conseguia de dizer.. é fazer traição. que logo vai ver. Sem raiva quase nenhuma – notei... que sei.” – “Sempre eu cumpro a palavra dada!” – gritou de lá Zé Bebelo. Isso é crime? Perdeu. Demore.

como sussurrou: – “Doideira. mógenes. Riobaldo. Só aos bufos. Diadorim apertou meu braço. Se afundava para os altos.. enquanto falando. não ter noção firme de que não gostava. Só Candelário está doido varrido. e entendi: Só Candelário não gostava do Hermógenes! Sendo que ele podia até nem saber disso. Só Candelário esbarrou de falar. com o compromisso de ir ajuntar outra vez seu pessoal dele e voltar aqui no Norte. surdo de se ver que ele tinha feito o grande esforço todo. passando a vez. eu apreciei demais aquele rompante.João Guimarães Rosa .” Ressaltados.. Sucinto.. mas era a maior verdade. Pois. o – 373 – . Aquele retardou tanto para começar a dizer. perfeita. dele.Grande Sertão: Veredas – “. Ele era o famoso Ricardão. sopitante. o que acho é que se deve de tornar a soltar este homem. compadre Ricardão?” – Joca Ramiro solicitou.” Aí podia ser... sendo assim. rosnaram de bem. – “Apraz ao senhor. diversificada. os homens. cá e lá: coragem sempre agradava. que pensei fosse ficar para sempre calado. Mas eu tinha relanceado um afio de onde ódio que ele mirou no Her-. só por conta disso. para a guerra poder continuar mais. secado.. ouvindo isso.

como devido. Sangue e os sofrimentos desses clamam..João Guimarães Rosa . Agora. o senhor sabe bem. As carnes socadas em si – parecia que ele comesse muito mais do que todo o mundo – mais feijão.. sacas e sacas. como mandadeiro de políticos e do Governo.. o senhor vê. tudo imprensado. Composto homem volumoso. Ao que agradecemos. mas o senhor quer ceder alar de prezar a palavra de todos. mas deu muita lida. o que a gente sabe o senhor sabe. fubá de milho. Mas um não podia deixar de se admirar do peso de tanta corpulência. Isso se pode repor? E os que ficaram inutilizados feridos. o senhor é o chefe. no Norte sertão. perdeu. O que a gente viu.. Sérios perigos. Nem carecia que cada um desse opinião. mais arroz e farofa –. prejuízos... A que perdeu. Afinal. tantos e tantos. Agora. Dou a conta dos companheiros nossos que ele matou. e a gente recebe essa boa prova. Se gordo próprio não era. isso só por no sertão não se ver nenhum homem gordo. Amigo acorçoado de importantes políticos.Grande Sertão: Veredas homem das beiras do Verde Pequeno. em que estivemos. compadre Chefe. calcado. e dono de muitas posses. se diz até que a soldo. ele falou: fosse o Almirante Balão: – “Compadre Joca Ramiro. que eles mataram. de meças. a coisa de zebu guzerate. que – 374 – . eu sirvo a razão de meu compadre Hermógenes: que este homem Zé Bebelo veio caçar a gente.

Aí. chefe – eu voto!. ou presos. mesmo. perigoso.. para muitas cadeias. não sabia que o fim mais fácil é esse? Com os outros. no que produziram uma grande quebra.Grande Sertão: Veredas vencemos. sei lá. legal. A gente não tem cadeia. A condena seja: sem tardança! Zé Bebelo.” A babas do que ele vinha falando. vai tudo na mesma desordem. A condena que vale. mandados em ferros para o quartel da Diamantina. até o senhor mesmo.. Encareço..João Guimarães Rosa . sem responsabilidade nenhuma. chefe. pelos que davam mais – 375 – . Assim que veio. Relembro também que a responsabilidade nossa está valendo: respeitante ao seo Sul de Oliveira. nhães. fosse ele que vencesse. Nós todos. todos. em nome deles. não se fez? Lei de jagunço é o momento. Esses estão agüentando acossamento do Governo. e nós não.. chegou a hora dessa vingança de desforra. A pois. A ver. doutor Mirabô de Melo. onde era que uma hora destas a gente estava? Tristes mortos. verte pemba. de mete-bucha. eu sou deste parecer. Aqui. que dar a este. é um tiro de arma. o menos luxos. tem outro despacho não.. confirmava. o povaréu jagunço movia que louvava. tiveram de sair de suas terras e fazendas. e a arte está acabada e acertada. o velho Nico Estácio. só um: é a misericórdia duma boa bala. para a capital do Estado.. mesmo zureta. compadre Nhô Lajes e coronel Caetano Cordeiro.

Eh. de outros modos – que bem não sei – não estava. medi quantidade dos que eram do Ricardão próprio.Grande Sertão: Veredas demonstração. no p’ra passar. Isso achei. Zé Bebelo estava definito – eu pensei – qualquer rumorzinho de salvação para ele se mermando. se no mel.João Guimarães Rosa . meio me entristeci. já morreu. Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso. Mas. Nisso. Lei é lei? Loas! Quem julga. para o escriturado da vida. o julgar não se dispensa. Mire e veja o senhor: e o pior de tudo era que eu mesmo tinha de achar correto o razoado do Ricardão. carece? Só que uns peixes tem. reconhecer a verdade daquelas palavras relatadas. porque o que a gente julga é o passado. Aí foi: – 376 – . que nadam rio-arriba. Viver é muito perigoso. estava com ele nos segredos simples da amizade. bê. da barra às cabeceiras. mesmo. Por quê? O justo que era. aquilo estava certo. Joca Ramiro já tinha transferido a mão de fala a Titão Passos – esse era como um filho de Joca Ramiro. mas errado no que Zé Bebelo era e não era. no que Zé Bebelo tinha feito. Abri ouvidos. por curta idéia que eu queira dividir: certo. Mas. Idéia me veio que ia valer vivo o que ele falasse. Assim.

a distinção minha desta ocasião. ou não é sertanejos? Ele quis vir guerrear.” Coração meu recomprei. estava feito. O pessoal próprio de Titão Passos era que formavam – 377 – . debaixo de julgamento. Sei que estou como debaixo de juramento: sei porque de jurado já servi. na hora. se. Matar. Suas licenças.. Sem querer ofender ninguém – vou afiançando. Mas a gente é sertanejos... isto aqui é matadouro ou talho?. capaz de mim. para delegado e juiz-de-direito. Não estou contra a razão de companheiro nenhum. e matado.Grande Sertão: Veredas – “Ao que aprecio também. O que eu acho é que é o seguinte: que este homem não tem crime constável. aprovei com a cabeça. não. Agora tomavam mais ânsia de saber o que era que iam decidir os manantas. veio – achou guerreiros! Nós não somos gente de guerra? Agora. Ah. com as palavras de Titão Passos. Então. A bem. para tenente de soldados. a quente a gente tivesse falado fogo nele. Homem em regra. está aqui. a responsabilidade. Cacei jeito de sorrir para ele. nem por contestar.. Chefe. E mais não houve rebuliço. Mas eu cá sei de toda consciência que tenho. Pode ter crime para o Governo.João Guimarães Rosa . ele escopou e perdeu. Só que notei estopim os homens ficando diferentes. aí estava certo. não sei se ele me viu. Mas o refrego de tudo já se passou. no júri da Januária. não. uma vez... eu. de dar meu voto.

Mas gente muito valente. trasneto de Maria da Cruz!” Mas eu nem tive surto de perguntar a Diadorim o resumo do que ele pensasse. compadre João.” – Diadorim no meu ouvido falou – “.” – “Mas não é bem o caso. espanou com os dedos no nariz. – 378 – ... Carece de dar. Daí. Vi que de nenhum. mas permaneceu agachado mesmo. dali por diante. loca Ramiro agora queria o voto de João Goanhá – o derradeiro falante.. cada um. Arrumou a cintura. João Goanhá fez que ia levantar. ché. Que ouvi um tlim: moveu meus olhos. Ele é bisneto de Pedro Cardoso. Vocês dão o voto.João Guimarães Rosa ... Valentes como aquele bom chefe. pegou e repuxou seu canhão de cada manga. “De que bando eu sou?” – comigo pensei. Mas. que digo: – “Eu cá.. num propósito de decisão.” – foi o que Joca Ramiro explicou mais. e o que disse. A tanto João Goanhá se levantou. – “Ele é meu amigo. Resto que retardou um pouco no dizer. com as armas. que rente dificultava...Grande Sertão: Veredas o bando menor de todos. eu queria encostar direto com as ordens de Titão Passos. eu estou p’lo qu’ o ché pro fim expedir.

Assim Joca Ramiro era homem de nenhuma pressa. De ripipe. Matar não. Para falar. era quem mandava no Hermógenes. Ao em uma soberania sem manha de arrocho. e com meu amigo Titão Passos. o senhor mire e veja. renasceu minha alegria.João Guimarães Rosa . Por isso nem ninguém tinha esperado.. O Ricardão não acabava de cochilar. como quem diz lá: cada um com a cara atrás da sela. diá!. cada com cada. aquele capiau peludo.” – ele referiu forte: – “meu voto é com o compadre Só Candelário.. Ant’ante disse. perpasseou os olhos na roda do povo. Todo o mundo se olhava. no exatamente.. Se abanava com o chapéu. eu sabia. cara grande de sapo. espiei o Hermógenes: esse preteou de raiva.” Rezo que ele falou aquilo. Cochilava fingido.. E agora? Que é que tinha mais de ter? Não estava tudo por bem em bem terminado? Ah.Grande Sertão: Veredas – “Antão pois antão. não. como se fosse por um destaque de guerra. num desconcerto. Rezo que falou... alto: – “Que tenha algum dos meus filhos com necessidade de palavra para defesa ou acusação. Tem crime não. Eh. que pode depor!” Tinha? Não tinha. – 379 – . O Ricardão. ali não estavam. grosso.

Sus. no meio de meus cabras valentes. uns fatos extraordinários. pingo. Ali naquel’horinha – meu senhor – foi que eu lambi idéia de como às vezes devia de ser bom ter grande poder de mandar em todos. que pior que uma alarida. De sim. que Joca Ramiro repetiu o perguntar: – “Que por aí. com um empurrão de força em mim. me enfezei.. Mas. metade para cá. os outros nas voltas da cauda do demo! Mas que faca. Aquele silêncio. sim. pensei. de torna vez. Digo ao senhor: estando por ali para mais de uns quinhentos homens. não falavam todos total..Grande Sertão: Veredas Com tanto.. Acho que eu tinha suor nas beiras da testa. Alguém quisesse? Duvidei. Surgiu o silêncio deles todos. por que não davam brados.e fogo – 380 – . dar alguma palavra em favor dele? Que pode abrir a boca sem vexame nenhum.João Guimarães Rosa . fazer a massa do mundo rodar e cumprir os desejos bons da gente. então. se terá algum que queira falar por acusação ou para defesa de Zé Bebelo.. uns punindo pelo bem da justiça. para Zé Bebelo ser botado solto?. Ou então – eu quis – ou. foi o que foi. Haja veja.” Artes o advogo – aí é que vi. se não minto. que se armasse ali mesmo rixa feia: metade do povo para lá.

João Guimarães Rosa . vem a servir à gente. observo é pelos chefes... animou o Gu. até Joca Ramiro. Um Gu. Oséquio feito.. Abre que. em alguma necessidade. tudo o mais. cedo minha rasa opinião. beiradeiro. A guerra fica sendo de bem-criação. bom estatuto. Me o meu? Eu agora ia falar – por que era que não falava? Aprumei corpo.” – e isto e aquilo. que Deus nem consinta. Que é – se vossas ordens forem de se soltar esse Zé Bebelo. mesmo. outra vez. em passagens..Grande Sertão: Veredas houvesse.” Aquilo era razoável. mais tarde. com esta vênia. Joca Ramiro reproduziu a pergunta: – “Que se tiver algum. para o risco de todo dia. Não ajunto por mim. A ver. para tudo o miúdo do que vem no ar. com acenos. algum chefe nosso cair preso em mão de tenente de meganhas – então também hão de ser tratados com maior compostura. e braços de homens. que se faz. Sal que eu comi. esse discorreu: – “Com vossas licenças. que o caso for.. A gente é braço d’armas. certo papa-abóbora. isso produz bem. mas não acertei em primeiro: um outro começou. Mas. Ah. se alguma outra ocasião.... sem sofrer vergonhas e maldades. Me armei dum repente. tinha saído tão fácil.. depois... só. ah. Tomei – 381 – .. tarraco mas da cara comprida. chefe. até resultar em montes de mortos e pureza de paz.

amoitado por aí.” Riram. É só.. O que eu acho. feito menino em escola. Aí eu já tinha principiado.” – tive o siso da voz dele no ouvido. em antes de se remitir ou de se cumprir esse homem. A mó que se diz – que ele possederá o bom dinheiro.. Dei como um passo adiante. Riobaldo. destorcendo meu desatino. tomou a mão para falar: Era um denominado Dosno. – “Tomém pego licença. Em que pior não veja. Comecei a falar. pois bem: indagar de fazer ele dizer ond’é que estão a fortuna dele. por mim. Diadorim ainda experimentou de me reter. uns. em quantia. disse. ou Dosmo.. Que eu acho que seja melhor. sós chefes. Que era que podia guardar para dizer um homem desses..Grande Sertão: Veredas coragem mais comum.. capiau medido por todos os capiaus do meu Norte? Escutei. com vosso perdão. levantei mão e estalei dedo. mas... Abri a minha boca. decerto assustado: – “Espera. AI.. por que é que riram? – rissem. é-que. Com vosso perdão. groteiro de terras do Cateriangongo – entre o Ribeirão Formoso e a Serra Escura – e ele tinha olhos muito incertos e vesgava. é só. É-que..João Guimarães Rosa .... um outro campou ligeiro. em cobre. supri neste mais menos fraseado: – 382 – .

nenhum de si! Por isso. Senti outro fogo no meu rosto. que calado não posso ficar. sem nem escolha minha. porque quis.” Digo ao senhor: que eu mesmo notei que estava falando alto demais. e vim guerrear aqui.. com as ordens destes famosos chefes. eu não aceitei niw guém. Eu conheço este homem bem. um que foi o qualquer. o que eu não queria era ver o Hermógenes. agora. que licença eu peço! O que tenho é uma verdade forte para dizer. nenhum para mim... vós.. E é chefe jagunço. Coração bruto batente.. Não pôr as capas dos olhos nem a idéia no Hermógenes – que Hermógenes nenhum neste mundo não tivesse. o salteio de que todos a finque me olhavam. Então. Zé Bebelo.. No eu falando: –. e porque estava bem por minha frente. Pobre. com meu cano e meu gatilho.. prendi minhas vistas só num homem. de primei– 383 – . e inteiro. notando que recebia tanto olhar. nunca menti que não estive. Estive do lado dele. meio fugido. que honra o raio da palavra que dá! Aí. eu afirmo: Zé Bebelo é homem valente de bem. um pardo. amassado de não poder outra coisa. todos aqui sabem.Grande Sertão: Veredas – “Dê licença. por debaixo de tudo. grande chefe nosso.João Guimarães Rosa . esse. Joca Ramiro. foi que briguei. Saí. abaixou a cara. Mas. e dei mão leal. Saí de lá. Da banda de cá. mas de me abrandar não tinha prazo nem jeito – eu já tinha começado..

sem ter ruindades em cabimento. o quanto fosse um boi de corte? Um fato assim é honra? Ou é vergonha?.” Tirei fôlego de fôlego. xente. nem consentir de com eles se judiar. hão de se dizer que aqui na SempreVerde vieram se reunir os chefes todos de bandos. como dever que sei.. constantes anos. A guerra foi grande. Isto.” – o que em brilhos ouvi: e quem falou assim foi Titão Passos. mesmo não merece de morrer matado à-toa.. em Minas e na Bahia toda.... Vão fazer cantigas. – 384 – .” – “Para mim. Pois então.. Nela todo o mundo vai falar. fim.. relatando as tantas façanhas. nem matar os inimigos que prende.. e por meu cabo-chefe Titão Passos!. montoeira completa. ele merece um absolvido escorreito.Grande Sertão: Veredas ra.. com seu cabras valentes. afirmo! Vi. e cumprindo a licença dada por meu grande chefe nosso. até em outras partes. encheu este sertão.. que digo. Suspendi do que estava: –. durou tempo que durou.. latejei. se acabar com um homenzinho sozinho – se condenar de matar Zé Bebelo. E isto digo. Joca Ramiro. porque de dizer eu tinha. e com o sobregoverno de Joca Ramiro – só para...João Guimarães Rosa . no fim. Por tanto.. Sei que me desconheci. pelo Norte dos Nortes. é vergonha... Testemunhei.

que decerto ia ser para piorar – o que foi no eu dizer que Zé Bebelo não matava os presos. e quem gritou. ligeiro demais. raios danados que seja!. não sei. eu nem acabei o relance que me arrepiou minha idéia: que eu tinha feito grande toleima. Aí.. e depois soltamos. que Joca Ramiro não estava aprovando meu saimento.” – assim. Tudo tão aos traques de-repente. é fama grande. Aí. pelo que é. nem olhei para Joca Ramiro – eu achasse. isto a mais. – 385 – . Mas. a mãvazias. porque nem não tive tempo – porque imediato senti que tinha de completar o meu. assim: – `.Grande Sertão: Veredas – “Vergonha! Raios diabos que vergonha é! Estrumes! A vergonha danada. jagunço..” . eu acho... se a gente der condena de absolvido: soltar este homem Zé Bebelo. quase que nunca pensa em reto: eles podiam achar normal que da banda de cá os inimigos presos a gente matasse. Aos brados bramados de Sô Candelário. punido só pela derrota que levou – então. temi perder a vez de tudo falar. Fama de glória: que primeiro vencemos. se do nosso lado se matava. porque. foi Só Candelário. A ver.. então não iam gostar de escutar aquilo de mim.João Guimarães Rosa . que podia parecer forte reprovação.. em tanto terminei de pensar: que meu receio era tolo: que.

depressa.... Somente que.. Aí eu pensei. tivesse deixado em vida os companheiros nossos presos..Grande Sertão: Veredas mas apreciavam também que Zé Bebelo. por a ele darem espaço. e que ninguém bridava. assunto de sair até divulgado em jornal de cidade. que perigo que – 386 – . em vez do trestampo. por muitos anos.” – Ele estava mandarino. às pasmas. consoante sossegado estúrdio recitou. Hão de botar verso em feira.. Seja a fama de glória. Seja fama de glória! Só o que sei. – “.João Guimarães Rosa . de arrompe: os de perto se afastando. Ricardão fazia que cochilava. que a gente esperasse. como contrário. eu achei? Não. o ligeiro... Gente airada... assim em tom – a bonita voz. ele Só Candelário espiou para cima. Desadorou-se! Senhor de bofe bruto.” – eta Só Candelário tornou a atalhar. mesmo... Chagas de Cristo!.... louvando a honra da gente. E. de espírito: – “. por muitas partes e lugares. o de não se esperar para dizer: – “. Agora o Hermógenes havia de alguma coisa dizer? O Hermógenes experimentava os dentes nos beiços. Só Candelário era de se temer inteiro. sapateou.. Disse o verdadeiro. Todo o mundo vai falar nisso. Eu disse.

. de repentemente.. então queria que eu calasse absolutamente a boca. Titão Passos levantava a testa.Grande Sertão: Veredas tem? Se ele der a palavra de nunca mais tornar a vir guerrear com a gente. para bem longe. Eu não ri. que no normal falava tão pouco. disse mansinho mãe. e aí vi que eu tinha terminado..” – eu disse. em desde que não fique em terras daqui nem da Bahia. Ele. É o justo. que comecei a temer. mansice. e também assim com tanta vontade de falar. num átimo.. avindado de repente. Melhor é se ele der a palavra de que vai-s’embora do Estado. ninguém. O que olhei – Joca Ramiro teria estado a gestos? – Joca Ramiro fazendo um gesto. que alguns muito se riram. decerto cumpre. senhor-moço. pudesse dar capacidade de tantas constâncias? – 387 – . me vesti de pavor.. Eu quis. – “Tenho uns parentes meus em Goiás. eu não possuía vênia para discorrer no que para mim não era de minha alta conta. Num esfrio. Ele mesmo não há de querer tornar a vir.João Guimarães Rosa .. Isto é. Tomei uma respiração. Mas Titão Passos trucou. safado humildezinho. caminhos de cobra.” – Zé Bebelo falou. E falou quando não se aguardava. tornar a ficar nenhum.

desterrado.” Só Candelário disse: – “..Grande Sertão: Veredas Titão Passos disse: – “. É o que eu acho. e os outros – hão de concordar com a resolução que a gente tome. É o que eu voto por justo.João Guimarães Rosa . Mas morrer em combate é coisa trivial nossa. que quase me abraçava: – “Riobaldo.” – Titão Passos terminou.. o terrivelmente.. eu não existisse mais existido? Só Diadorim... Então.. coronel Caetano.. Crime maior ele teve? Pelos companheiros nossos. tenho muito dó. agora.” Titão Passos disse: – “.. Ninguém não reparava mais em mim. Às ordens... perto de mim. tu disse bem! Tu é homem de todas valentas_” Mas. não apontavam o eu ter falado o forte solene. Chefe. e então. para todos os de lá. está punido. Era de Zé Bebelo e de Joca Ramiro. por que era que – 388 – .. os outros. em desde que seja boa e de bom proveito geral. O silêncio todo era de Joca Ramiro. E mortes tantas. Digo. isso não é culpa de chefe nenhum. que morreram ou estão ofendidos passando mal. para que é que a gente é jagunço?! Quem vai em caça. E mais que esses grandes de nossa amizade: doutor Mirabô de Melo. ele indo para bem longe. perde o que não acha..

. E para Zé Bebelo eu não tinha olhado. este sincero julgamento.Grande Sertão: Veredas não me davam louvor. com as palavras: – Gostei de ver! Tatarana! Assim é que é assim! Só. Demarco idade de – 389 – . do que pelo rompante brabo com que falei. Principiou. José. senhor chefe Joca Ramiro.. ele colhia e entendia no ar – estava com as orelhas por isso. para diante.. que não deram para eu ouvir. e o em meio. de entremeado.. Diadorim mais me disse: e que tinha sido menos por minhas tantas palavras. nem agências de adulação! Eu. esta bizarria. acendido. Já um pouco descabelado. coisa sem coisa. é meu nome: José Rebelo Adro Antunes! Tataravô meu Francisco Vizeu Antunes – foi capitão-de-cavalos. Altas artes que agradeço. Que era que ele de mim devia de estar pensando? E Joca Ramiro? Esses se fronteavam: um ao outro. Mas serenou sota. devia de ter tido. Agradeço sem tremor de medo nenhum. que eu tinha pronunciado bem. Aí o qualquer zunzo que houvesse. A licença. Zé Bebelo. se mediam. exportando uma espécie de autoridade que em mim veio.. Sujeito finório. – `. Foi discorrendo vagaroso. Pois porque Zé Bebelo teve ordem de falar. Rente que nesse resto de tempo decerto cruzaram palavras.João Guimarães Rosa . aquela cabeça sobrenadando.. Vi e vi: ele estava só apalpando o vau.

com guerra e gastos. Briguei muito mediano. foram estes: Joca Ramiro. Sou crescido valente.. Para que a tanta sensaboria toda. maximé. Se eu alcançasse. Vou depor.Grande Sertão: Veredas quarenta-e-um anos.. também. uns aqui presentes.. sem o remonstrar nem os reviretes: – “. essas filosofias? Mas porém ele pronunciava com brio. de vós.. mas com a ajuda. contra homens valentes quis dar o combate.. mas pedia ao grande Joca Ramiro que encaminhasse seus brabos cabras para – 390 – ..João Guimarães Rosa . Joãozinho BemBem. Só Candelário!. Estou vendo que a gente só brigou por um mal-entendido. não obrei injustiça nem ruindades nenhumas. depois.. pois vim. e nasci na bondosa vila mateira do Carmo da Confusão. Não obedeço ordens de chefes políticos. Agradeço os que por mim bem falaram e puniram. Vim para o Norte.. Desfaço de covardes e de biltragem! Tenho nada ou pouco com o Governo.” Oragos. entrava para a política... nunca disso me reprovam. Não está certo? Meu exemplo. à frente de meus homens.. sou filho legitimado de José Ribamar Pacheco Antunes e Maria Deolinda Rebelo. não nasci gostando de soldados. em nomes. sem as papeatas de em antes. outros que não estão.. e tantos outros afamados chefes. Coisa que eu queria era proclamar outro governo.. minha guerra..

no travável.. a alegria nacional! Mas.. Ao que.. Prova de que vós nossos jagunços do Norte são civilizados de calibre: que não matam com o distrair de mão um qualquer inimigo pegado. Mudei para adiante! Perdi – isto é – por culpa de má-hora de sorte.. Agora perdi. com estrondos. Sou de altas cortesias. Perdi. Só que medo não tenho. Não – 391 – . foi grandeúdo: – “. nunca tive. De ter sido guardado prisioneiro vivo. Não por má chefia minha! Não devia de ter querido contra Joca Ramiro dar combate. Uê. e estar defronte de julgamento.... este Norte em remanência: progresso forte. seus outros chefes. fartura para todos. o que não creio.. de peito aberto. Estou preso.. e que me praz. no em mesmo. Dou viva Joca Ramiro. comandantes de seus terços.Grande Sertão: Veredas votarem em mim. Isto aqui não são essas estrebarias. vim guerrear... se espiritou.. E viva sua valente jagunçada! Mas. com escondidos e logro. por um desguardo. não devia-de. A gente tem de sair do sertão! Mas só se sai do sertão é tomando conta dele a dentro. Altos descuidos alheios. homem sou. Assaz. Estimei. o afã de política. aí. isto é que eu louvo.” Anda que fez um gesto bonito. Estou a cobro de desordens malinas. de vez.João Guimarães Rosa . eu tive e não tenho mais.. Não vim socolor de disfarces. Ah.. para deputado.

só por verem que não tenho medo. de sua alta fidalguia. Chefes. não peço: que eu acho que quem pede. Fechou-se um homem.” Digo ao senhor. Mas agradeço. merece é meia-vida e dobro de morte. sei: não deviade. Zé Bebelo. Agora.João Guimarães Rosa . pedir. ali sentadinho ficou. encolhido ao mais. que com arma ainda na mão pedi. valeu por bem feito. sem mais por dizer.. Isto é: depende da sentença que vou ter. Mas. Se a condena for às ásperas. é o que a gente tem de sempre pedir! Para quê? Para não se ter medo! É o que comigo é. pequenininho. repequeno.. porque minha regra é: tudo que fiz. e que deste grande Joca Ramiro mereci. digo.. foi um momento movimentado. com minha coragem vos agradeço.Grande Sertão: Veredas confesso culpa nem retrauta. Julgamento. E. Julgamento – isto. neste nobre julgamento. mas não condizia bem. Mas minha palavra dando. espero vossa distinta sentença. se eu receber sentença salva. Perdão.. hoje. – 392 – . É meu consueto. minha palavra as mil vezes cumpro! Zé Bebelo nunca roeu nem torceu. Já um pouco descabelado. com a minha coragem me amparo. acabando nas palavras. Careci deste julgamento. fortemente. Era uma bolinha de gente. para escapar com vida. Também não posso me oferecer de servir debaixo d’armas de Joca Ramiro – porque tanto era honra. Chefe.

Mas Joca Ramiro encurtou tudo num gesto. Era a hora. avançante-Joca Ramirosorriu para Só Candelário. O senhor reconhece?” – 393 – . Vai. Só a gente mal ouvisse o sussurro de todos lá. Sou amigo dos meus amigos políticos. olhei. O jeito de João Goanhá – richarte. sentença que dou vale em todo este norte. Meu povo me honra. vi os chefes. O quando falou: – “O julgamento é meu. ligeiro. A decisão. A sentença vale. Acontecesse o que.. O Ricardão e o Hermógenes – eles dois eram chouriço e morcela. Capaz que castra garrote com as unhas dos dedos. que foi bom: conheci que era. o Hermógenes ainda ia se debruçar. Só Candelárioconforme seus conformes. Eles conversaram um circuitozinho. maluco é – mas frege. em frente da barriga – só esperava o nada virar coisas. O poder dele veio distribuído endireito em Zé Bebelo. Joca Ramiro ia decidir! Sobre o simples. nem cacundeiro.” Não o que Diadorim não disse – mas ele estava assim por pálido.João Guimarães Rosa . – “O sujeito machacá! Assopres!” – “Arre. tão sério: com as mãos ajuntadas baixo. para um dizer em orelha.. O Hermógenes e o Ricardão – e Joca Ramiro para eles sorriu. mas não sou criado deles. Só Titão Passos espiava desolhadamente.Grande Sertão: Veredas Olhei. seus compadres. ele tão aposto homem tão bom...

E. com alguma munição. ou boas outras. legal. Só solicito que o senhor determine minha ida em modo correto. que tenham ordem de soltura.. Se fez que as três vezes. como compertence.” Ao que Joca Ramiro disse: – “Topo. Mas foi só minutozinho. – “Bem. pois: – “A palavra e vou.” – 394 – .. Chefe. mas o senhor me fornecendo animal-desela arreado. igualmente. Reconheço! Reconheço.” – “A falando?” – “Que: se ainda tiver homens meus vivos.. e vai?” Zé Bebelo demorou resposta.. Se eu consentir o senhor ir-se embora para Goiás.” – estreques estalos de gatilho e pinguelo – o que se diz: essas detonações. nem guarda. o senhor põe a palavra. mais o de-comer para os três dias.João Guimarães Rosa ... ou licença de vir comigo. E que. com firmeza de voz. eu viaje daqui sem vigia nenhuma.” – “ ... Topo.Grande Sertão: Veredas – “Reconheço” – Zé Bebelo aprovou. até: – “Reconheço. ele já descabelado demais. e as minhas armas. presos também por aí. tendo nenhum.

três anos?” – “Até enquanto eu vivo for. com sua licença. engolindo de boca fechada.... as árvores desencontradas. Tinha sempre algum batendo mão-de-pilão. fomos caminhando. O encarregado da Sempre-Verde abriu cozinha: panelas grandes e caldeirões.. Mesmo eu vi o Hermógenes: ele se amargou. Então. – “Diadorim” – eu disse – “esse Hermógenes está em verde. nem na Bahia? Por uns dois. quando ele levantava.. ou um relincho de cavalo. Aquele pessoal tribuzava. Ah. no meio da queleléia do povo. e se tinha alguma certa fome. em final.” Não sosseguei..” – Joca Ramiro ai disse.. ou não der contra-ordem. puxava as coisas consigo. parecia – as pessoas. Mas. Diadorim me chamou. sem voltar neste Estado. a pergunta faço: pelo quanto tempo eu tenho de estipular. nas portas da inveja. E se levantou.. Reinou zoeira de alegria: todo o mundo já estava com cansaço de dar julgamento. agora. num de repente. cozinhando de tudo o que vale a valer. não por – 395 – . o chão. Topo!” – “.João Guimarães Rosa . E todos também. Digo. Levantaram campo. ao em um tempo – feito um boi só. ou um gado em círculos.” Mas Diadorim por certo não me ouviu bem. pelo que começou dizendo: – “Deus é servido. honrado vou.Grande Sertão: Veredas Ao que aí Joca Ramiro assim três vezes: – “Topo.

. o sol na beira. e cruzcruz cartucheiras. sem bom preceito. Se viu. E o Ricardão? Esse: uma pesadureza na cara toda. quase quis. com uma tristeza fechada aos cantos. Saiu em marcha de estrada. para desfazer na decisão de Joca Ramiro. – 396 – . eu cacei onde estava o Hermógenes. na beira do rego. Deram que levasse carabina. Com pouco.. arreado com sela boa de MinasVelhas. quando esbarrou de cochilar. “Mamãezada”?Mais não ouvi. Dito. “Mamãezada. Zé Bebelo estava dando as despedidas. Se foi.Grande Sertão: Veredas nada não. mas depois ficou artimanhado. soturno. relembro que não sei direito. eu queria cuidar do meu cavalo. mas. Assente. tempo parei perto dele.João Guimarães Rosa . tudo estava passado. enfim. montado num bom cavalo de duas cores. sem olhar para trás. E o bornal com matlotagem. Virando que eu quis ir lá. facãozão na mão. rebolando que nem apostemados. a bem... aqueles olhos grossos. Aí já tinha jantado. Um dizer ouvi: – . pedi espera a Diadorim. Estava? Pois. Dei com o Hermógenes. e escutar. na hora do julgamento. mas pelo exato ser: eu tinha estalando nos meus olhos a lembrança do Hermógenes. desarrear e escovar. não se sobressaía. só escancarava muito as pernas. dissesse. como cão que consome raivas. Sobre o cavalo se houve. De como primeiro ele. suas outras armas. se upou na sela.” Ao que seria? O Hermógenes não era nenhum toleimado. terminado.

A quantidade de pratos era que faltava. Daí. estávamos todos pegando o que comer. e a gente aprecia o cheiro do musguz das árvores.Grande Sertão: Veredas Só o Triol devia de prestar acompanhamento a ele. para sempre. torresmos. E assaz muita cachaça se tomou. Angu e couve. Me deu certa tristeza. escureceu. o passar da água canta friinho. entalagados. fez pouca poeira. A gente estava desagasalhados na alegria. todos bem comidos. fui com Diadorim para o rumo dos pés de fruta. Homens deitados no chão. de uma légua. repimpados. Disso não esqueço? Não esqueço. abóbora-moranga cozida. era só ir se aquinhoar na porta-dacozinha.João Guimarães Rosa . que Joca Ramiro mandou satisfazer goles a todos – extraordinária de boa. Com a entrada da noite. escornados até quase debaixo do mijo dos cavalos pastantes. permeio. A ver. enfunando as redes. Quem quisesse sopa. Mas a minha satisfação ainda era maior. feito meninos. no cavalo de duas cores. Daí. as coisas que falavam e faziam. na vadiação. o jeito como podiam se rir. que eram essas grandes abundâncias. seguindo o rego. e em toda fogueira assavam mantas de carnes. Nós estávamos no jaz ali. Zé Bebelo tinha ido embora. – 397 – . Eu estava que impava. O senhor havia de gostar de ver aquela ajuntação de povo. queria um bom sono. engrossa. por o uso de resguardado território.

..Grande Sertão: Veredas Eu tinha vindo para ali. fazendo a viagem.. Que eu dizia e pensava numa coisa. sei. a basba do basbaque. você prezava de ir viver n’Os-Porcos... como todos uma hora vêm. de agora. Mundo à revelia? Mas. mas Diadorim recruzava com outras – “.João Guimarães Rosa .. Zé Bebelo. Ao dar.. Não me esqueci daquelas palavras dele: que agora era “o mundo à revelia..” Dei que sim. Riobaldo.” Toleima. Mas Diadorim menos me respondeu... isto é. Diadorim: que é que você achou daquele homem?” – ainda indaguei. mesmo enquanto que essas palavras.. Teve sorte! Entestou foi com Joca Ramiro – com sua alta bondade. bobéia disso. assim nestas fações: – “. Agora me expulsassem? Do jeito. – “Para ele. desse jeito mesmo é que o mundo sempre esteve.” Disse a Diadorim. eu pensasse que Diadorim podia ter me respondido.” – foi o que Diadorim me respondeu. tinham repelido para trás Zé Bebelo.. E ficou pensando.. para o sertão do Norte. Eu tinha vindo quase sem mesmo notar que vinha – mas presado.. Como ia querer dizer diferente: pois lá n’Os-Porcos não era a terra de Diadorim própria. ficamos. precisão de agenciar um resto melhor para a minha vida. Aí quando eu acabei até à pontinha meu – 398 – . que falou: – “Riobaldo. lugar dele de crescimento? Mas. não tem dia nem noite: vai seu rumo. que lá é bonito sempre – com as estrelas tão reluzidas?.

confirmei. não se conversou mais..” Eu queria que ele tivesse explicado o fato de outro jeito. numa ponta do dito de Zé Bebelo. e eu sentia minha barriga demais – 399 – ... por um gesto dele.. Deus não queira. avançam e matam e matam. abaixo de Joca Ramiro.. para a gente falar quase cara a cara: – “Ah. Desde. na voz. Riobaldo: a gente persiste por aqui. Cabras que. meu medo. Diadorim estava triste. quem salvou Zé Bebelo da morte?” Diadorim. Mas Diadorim estava prosseguindo: – “.. mas fiel. sei lá bem porque.. Agora. A ser que você viu o Hermógenes e o Ricardão. esses me dão receio. no sereno da noite.. Eu também estive.João Guimarães Rosa .. ainda perguntei: – “A ver. Por causa de Zé Bebelo ter ido embora. e aquilo era motivo? Depois de Paracatu..” Depois. é o mundo.. ele terminou assim: – “. Zé Bebelo ido. Ao enquanto Joca Ramiro pode precisar da gente. o que quis me dizer foi em tanto segredo. não me recordo. Depois. você mesmo me prometeu.. por começar foi ele Zé Bebelo mesmo. tomou figura Só Candelário – homem esquipático e enorme de si.. tirava meu poder de pensar com a idéia em ordem. gente estarrecida de iras frias.” Prometi outra vez. que ele puxou a beira da minha rede.Grande Sertão: Veredas cigarro. Por quê? – há-de o senhor querer saber. e que põe mais de trezentas armas.. quem salvou Zé Bebelo de morte? Pois.

com tanta despesa de tempo e miúcias de palavras.João Guimarães Rosa . Por causa de Zé Bebelo. com um dia mais. que já lhe conto? Curtamente: dali da Sempre-Verde.. O julgamento? Digo: aquilo para mim foi coisa séria de importante. gostava por entender no ar. Pois: por isso mesmo. Por isso mesmo é que fiz questão de relatar tudo ao senhor. com a vida e a fama de Zé Bebelo autorizadas. Zé Bebelo não era réu no real! Ah. mas. naquela ocasião. só serve para chamar soldados e dar atrásamento e desrazoada despesa. na hora. Dormi. Por isso. O bando muito grande de jagunços não tem composição de proveito em ocasião normal. doideira acontecida sem senso. no centro do sertão. Porque. Eu gostava dele do jeito que agora gosto de compadre meu Quelemém. desapartamos. Zé Bebelo. conforme o senhor vai ver. – 400 – . Só o que me consolava era ter havido aquele julgamento. adeus disso. o que é doideira às vezes pode ser a razão mais certa e de mais juizo! Daquela hora em diante. Como é que eu ia poder ter pressentimento das coisas terríveis que vieram depois.” – o senhor dirá.Grande Sertão: Veredas cheia. neste meio do sertão. demais de tantas comidas e bebidas. o julgamento tinha dado paz à minha idéia – por dizer bem: meu coração.. – “O que nem foi julgamento legítimo nenhum: só uma extração estúrdia e destrambelhada. estava sendo maior do que pessoa. eu cri em Joca Ramiro.

mas nossa tarefa era de muito encoberto empenho e valor: pelo que tínhamos de estanciar em certos lugares. Titão Passos chamou a gente: Diadorim e eu. muitas ordens. com maior ajuda. montamos. e mais. e fez o sinal-da-cruz.” – foi o que disse. Alaripe ia vir com Titão Passos. Diadorim olhou. com um punhado dos Hermógenes. dobramos nove léguas. em nossos cavalos tão bons. com o fito de receber remessas. em seu cavalão branco. Aquilo. ele me botou a benção. mão a mão? Ah. nesse dia mesmo. de volta para o São João do Paraíso. e em acontecer de vigiar algum rompimento de soldados. Joca Ramiro dava partida também. em caracol. igual iguais galopavam.. e que o Antenor seguindo rumo em beira do Ramalhada. saímos. Lá ia ele.. Naquela mesma da hora.Grande Sertão: Veredas Constava que João Goanhá torasse para a Bahia. – “Assim. Novas ordens. sendo para ser: o mais encostado possível no São Francisco. Saíam os chefes todos – assim o desenrolar dos bandos. deveras. por quê? A gente não ia junto com Joca Ramiro. Mas. até para lá do Jequitaí. um destravo de grande povo se desmanchar.João Guimarães Rosa . Arreamos. – 401 – . em caso de lhe a ele podermos valer. ginete – ladeado por Só Candelário e o Ricardão. cordial. Se tinha um roteiro. Ao que reluzia o bem belo. Dá sempre tristezas algumas. que para o Norte entrassem. aos gritos de vozear. em caso.

Sertão é quando menos se espera. num campo solteiro.João Guimarães Rosa . para demora. para chegar numa cachoeira no Gorutuba. e muitas idas marchas: sertão sempre. E aí esbarramos parada. O marrequim. em varjaria descoberta. digo. comigo. Ali era bom? Sossegava. Os verdes já estavam se gastando. frangos-d’água. Mas. não se carecia de fazer nada. E sete. Ao quando um belo dia. Lugar perto da Guararavacã do Guaicuí: Tapera Nhã. As garças. Mas saímos. Subimos. Nós estávamos em vinte e três homens. sim senhor. Com mais dez. até à Lagoa do Amargoso. nome que chamava-se. tem horas em que me pergunto: se melhor não seja a gente tivesse de sair nunca do sertão. – 402 – . gaivotas. a gente parava em macias terras. Titão Passos determinou uma esquadrazinha deles – com Alaripe em testa: fossem para a outra banda do morro. mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. O manuelzinho-dacroa! Diadorim. O rio desmazelado.Grande Sertão: Veredas As nove. E dez. As muitas águas. arranchando entre Quem-Quem e Solidão. Não se tinha perigos em vista. elas em asas. agradáveis. livre rolador. a garrixa-do-brejo. Sertão é isto: o senhor empurra para trás. pasto de muito gado. saímos. Eu tornei a me lembrar daqueles pássaros. Ali era bonito.

João Guimarães Rosa . Gavião dava gritos. e passavam. O que é de paz. de acabar de dormir.Grande Sertão: Veredas baixada própria da Guararavacã. O que. A vigiação era revezada. ali. onde o capim era lindo verdejo. ou refrescavam dentro d’água. corria destino para a gente. pescado fácil: curimatã ou dourado. parados. me vinha idéia de tudo só ser o passado no futuro. sestas inteiras. amanheciam duma restinga de mato. suspendendo corpo sem rumor nenhum. por minha vida. e dividia a cachaça alta. Todo dia se comia bom peixe novo. a sobre. Dormi. Me lembrei do – 403 – . se escutando o grito a mil do pássaro rexenxão – que vinham voando. até brilhantes. sem necessidade nenhuma. Também razoável se caçava. enchiam a praia. no meio-escuro. cozinheiro era o Paspe – fazia pirão com fartura. até o dia muito se esquentar. por começo. nunca faltava tempo para à-toa se permanecer. E as malocas de bois e vacas que se levantavam das malhadas. Quando não ventava. Madrugar vagaroso. o sol vinha todo forte. esperar o que não acontecesse. Imaginei esses sonhos. de irmãos e irmãos. aquelas chusmas pretas. Aí então aquelas fileiras de reses caminhavam para a beira do rio. Às vezes chegavam a nado até em cima duma ilha comprida. vadiado. como um açúcar se derretendo no campo. Nós ficamos. era: bondosos dias. cresce por si: de ouvir boi berrando à forra.

escapado. diferente. serve como beneficio. O tanto assim.. De pensar assim me desvalendo. – e eu tive que obedecer a ele. querendo pessoas. O mundo estava vazio. Arte que eu caçava outra gente. que até um corguinho que defrontei – um riachim à-toa de branquinho – olhou para mim e me disse: – Não. e não sabia como não ter. Boi e boi. montei a cavalo e saí. nem aonde eu extenso ia.Grande Sertão: Veredas não-saber. de coisa nenhuma deste mundo – o senhor pode raciocinar. na minha vida. Tem trechos em que a vida amolece a gente. Apeei. E eu nem sabia mais o montante que queria. sem dizer o que a quem. E eu não tinha notícia de ninguém. Atravessei um ribeirão verde.” – foi o que pensei. Um dia. da pior de todas. parece que entro mais no sozinho do vago. qualquer. O riachinho me tomava a benção. Boi e boi e campo. Era para eu não ir mais para diante.João Guimarães Rosa . E marchei duas léguas. Eu tinha culpa de tudo. Apertou em mim aquela tristeza. O – 404 – . isso até me serviu de bom consolo. que é a sem razão demotivo. a vão. que até um referver de mau desejo.. no meio da quebreira. Eu tocava seguindo por trilhos de vacas. quando notei que estava com dorde-cabeça.. e achei que por certo a tristeza vinha era daquilo. “Quanto mais ando. com os umbuzeiros e ingazeiros debruçados – e ali era vau de gado. na ocasião. tanto. Eu queria uma mulher. que..

está dia e noite um diabo. Ouro e prata que Diadorim aparecia ali. O calor do dia abrandava.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas bom da vida é para o cavalo. me encontrado. por tanto é que refiro tudo nestas fantasias. e esforço em dizer ao senhor. como a água de todos os rios em seus lugares ensombrados. Dormi. tinha muita velhice. não falou nada. não consigo. repondo minhas lembranças. Eu também não falei. Naqueles olhos e tanto de Diadorim. que corre adiante da gente. Mas eu estava dormindo era para reconfirmar minha sorte. Hoje. tinha me rastreado. me vigiava. quieto. alumiando com lanterninha. que não dá movimento. o verde mudava sempre. é um diabo menino. querendo me contar coisas que a idéia da gente não dá para se entender – e acho que é por – 405 – . Não sorriu. vira de tudo: vira pedras. Quando acordei. não cri: tudo o que é bonito é absurdo – Deus estável. Quando a gente dorme. nos ventos. em o meio certo do sono. baixei o chapéu de tapa-cara. Dormi. E sei que em cada virada de campo. e debaixo de sombra de cada árvore. Um que é o romãozinho. Então. a uns dois passos de mim. deitei. tomando conta. Tinha notado minha idéia de fugir. sei. Sério. arenoso. O que sinto. feito ele mesmo. vira flor. muita velhice. Aquele verde. deitado num pelego. que vê capim e come. mas tão moço. só igual a ele mesmo nesta vida. Eu vinha tão afogado.

Agora. no tempo dito. não tem mais. era engraçado.João Guimarães Rosa . era para se dar feliz risada. e ficar esbarrado ali. Mas. Mas foi nesse lugar. e dizem que lá agora dá febres. O senhor vá escutando. o mundo se acaba.. Nem pude nem quis. feito um decreto: – Que você em sua vida toda toda por diante. – 406 – . não encontra – de derradeiro. A Guararavacã do Guaicuí: o senhor tome nota deste nome. que meus destinos foram fechados. não dava. – que era como se Diadorim estivesse dizendo. viemos voltando. Guararavacã – o senhor veja. digo ao senhor como foi que eu gostava de Diadorim: que foi que. sempre!. Naquele tempo. antes de acontecerem. vez nenhuma. eu nunca tive vontade de rir dele. em hora nenhuma. Montamos. ouvi dizer. Se um dia acontecer. Não dei. dele a gente não podendo mais voltar para trás? Travessia de minha vida. esperando meu acordar e me vendo meu dormir. Não me alembro. Apanhei foi o silêncio dum sentimento. Será que tem um ponto certo. o mundo quer ficar sem sertão. Acho qqe nem coisas assim não acontecem mais. ali se chama é Caixeirópolis. Riobaldo. Caixeirópolis.. Guararavacã. As grandes coisas. De Diadorim ter vindo. pegado em mim. o senhor escreva. tem de ficar para mim.Grande Sertão: Veredas isso que a gente morre. E.

esfriava um pouco. Arrepio que fuxicava as folhagens ali. e ia. como estava sendo. dum mesmo jeito. num repartimento dum rancho. Eu sou donde eu nasci. Com aquelas.Grande Sertão: Veredas Aquele lugar. por pejo de vento – o que vem da Serra do Espinhaço – um vento com todas almas. Saudades. Como é que. que aquilo se esclareceu: falei comigo. na baixada do rio. na ida duma vereda em capim tem-te que verde. não achei ruim. reluzentes nos canos. balançar esfiapado o pendão branco das canabravas. eu estava deitado numa esteira de taquara. Sou de outros lugares. de cuidadas tão bem. Me a mim.João Guimarães Rosa . o senhor pega o silêncio põe no colo. com a distância de tantas braças. minhas armas. pardo. De tarde. Primeiro. rancho velho de tropeiro. dessas que respondem ao vento. no intervalo. eu mandava a morte em outros. mal encoberto em amizade. Aí. Não tive assombro. Ao perto de mim. O senhor vê: o remôo do vento nas palmas dos buritis todos. Me deu saudade de algum buritizal. banhador. fiquei sabendo que gostava de Diadorim – de amor mesmo amor. não me reprovei – na hora. o ar. lá na – 407 – . Mas. saudade dos Gerais. Alguém esquece isso? O vento é verde. termo da chapada. foi de repente. quando é ameaço de tempestade. Por lá. cantava era o joão-pobre. se podia mandar o amor? O rancho era na bordada-mata. lá adiante longe. Eu estava sozinho. nas beiras. Melhor alembro.

pica-pau bate e grita. O nome de Diadorim. Me abracei com ele.” Como era que eu podia dizer aquilo? – 408 – . Ele deu um susto. permaneceu em mim. Daí. cambalhota fosse virar. permeio às reses. E escutei o barulho. feito quisesse esconder a cabeça. Diadorim!” – eu disse. pensei que Diadorim estivesse em voz de alcance. joguei no lado donde ele. Não dei. corriam. nas árvores. O macuco me olhou. E o macuco vinha andando. aos casais. Mel se sente é todo lambente – “Diadorim. foi caçar poleiro para o bom adormecer. no liso do campo claro. Aquele pássaro procurava o quê? Vinha me pôr quebrantos. Me olhou.João Guimarães Rosa . vindo do dentro do mato. Ele não estava. de cabecinha alta. fugiu-se. Mas retardei. sarandando. cheiro de boi sempre alegria faz. Mas. por pouco entrou no rancho. meu vizinho. Eu podia dar nele um tiro certeiro. caminhou primeiro até de costas. eu estava bem. rolou os olhos. que eu tinha falado. cada um por si. Peguei só num pé de espora. catavam. O gado ainda pastava. Eu ri – “Vigia este. meu amor. Era mês de macuco ainda passear solitário – macho e fémea desemparelhados. entrou outra vez no mato. de um macuco – sempre solerte.. trazendo as asas para diante. feito galinha de casa. Os quem-quem.. Ele tinha vindo quase endireito em mim. macucando: aquilo ele ciscava no chão. vero.Grande Sertão: Veredas Guararavacã.

Um Diadorim só para mim. Aquilo me transformava. um Diadorim assim meio singular. eu pudesse morrer. O que sei. fechados os olhos. Aquela hora. Mas. – 409 – . Não era? A ver que a gente não pode explicar essas coisas. mas amortecido. Sobrestive um momento. no meio de tantos jagunços. apartado completo do viver comum. Eu tinha gostado em dormência de Diadorim. e quase sem espairecimento nenhum. me fazia crescer dum modo. Tudo tem seus mistérios. com outras minhas forças. desmisturado de todos. Daí. tinha sido o que foi: no durar daqueles antes meses. agora. não me importava. por fantasma. de estropelias e guerras. Eu devia de ter principiado a pensar nele do jeito de que decerto cobra pensa: quando mais-olha para um passarinho pegar. o pensamento dele que em mim escorreu figurava diferente. rebuçado. de todas as outras pessoas – como quando a chuva entreonde-os-campos. levantei. Era e era.João Guimarães Rosa . sufruía aquilo. que doía e prazia. Mas. com minha mente. o claro que rompia. sem mais perceber. no fofo dum costume. eu abraçava com meu corpo aquele Diadorim-que não era de verdade. manava em hora.Grande Sertão: Veredas Explico ao senhor: como se drede fosse para eu não ter vergonha maior. Mas – de dentro de mim: uma serepente. o sentir tinha estado sempre em mim. Eu não sabia. rebentava.

ah. pisava nos espaços. Tanto também. Se não.João Guimarães Rosa . voltei.. sempre riam do tiro tolo dado. por paz de honra e tenência. na beira dum fogo. fiz de conta estivesse olhando Diadorim. Eu pedi um tição. eu carecia de olhar. Aí fui até lá. que eu tinha inventado. com o certo espanto. uê. por lei de rei. – “Ao que foi?” – me gritaram pergunta. até gastar a imagem falsa do outro Diadorim. Rangi nisso – consolo que me determinou. Ou eu fugia – virava longe no mundo. – “Hê. Ah. Daí. fazia todas as estradas. onde Diadorim estava. eh. por uma precisão de certificar. passos que dava. Riobaldo. de carne e osso. Só o que a gente pode pensar em pé – isso é que vale.. precisei de dar um tiro – no mato – um tiraço que ribombou. – “Acho que um macaquinho miúdo. mas então eu devia de quebrar o morro: acabar comigo! – com uma bala no lado de minha cabeça.. quemme-vê. Olhei bem para ele. que acho que errei. Ia. o Paspe e Jesualdo. pudesse não. – 410 – . devagar.” – eu expendi. então eu estava meio salvo! Aperrei o nagã. você carece de alguma coisa?” – ele me perguntou.” Acertei minha idéia: eu não podia. “Se é o que é” – eu pensei – “eu estou meio perdido.Grande Sertão: Veredas Levantei. eu num átimo punha barra em tudo. sacar esquecimento daquilo de mim. admitir o extrato daquilo. com o Drumõo. para o rancho.. acendi um cigarro. de saber se era firme exato.

O senhor vê. quando perto de Diadorim eu estava. calado comigo. daí a obra de duas léguas. vermelho.” Assaz mesmo me disse. Todo dia. que era amigo nosso. trazia as tristes fumaças. Nada não chegava em envio. De noite. Gosto.João Guimarães Rosa . bem caros preços que eu pagava. meu senhor! – como se o obedecer do amor não fosse sempre ao contrário.. se ele quisesse alugar a mulherzinha dele para a gente. a gente cruzou as vizinhanças todas. se escuta barulho de fortes águas.” – assim o que dizia o Paspe... fizemos grande redondeza. De lá. asgrava em labaredas e brasas. o morro se esclarecia. do que fosse para chegar. nos Gerais longe: nuns lugares.. suspiroso. no mal. Ah. me dizer: “Nego que gosto de você. para duro. se sucedeu a queima dos campos: quando o vento dava para trás. trocávamos recado de avisos com o pessoal do Alaripe.Grande Sertão: Veredas encarando. mas só como amigo!. Notícia. o tempo que paramos na Guararavacã do Guaicuí regulou em dois meses. O senhor dorme em sobre um rio? Segundo digo. de um sujeito ainda moço. E eu mesmo acreditei. encostando o ouvido no chão.. que vão rolando debaixo da terra. tinha uma lavourinha.. Da outra banda do rio. nenhumas. Bom ermo. num rumo. Da banda de cá. acostumei a me dizer isso. – “Ah. sempres vezes. De por diante. Mas quem vinha eram os meninos do – 411 – .

João Guimarães Rosa .. para vender para a gente. até carregava os menorzinhos. Os urubus espaceavam. com o secar. fala que quem mandou fui eu.” Um dia. João Vaqueiro sabia tudo... montados num cavalo magro. quando o céu empoeirado. – “Olha. lambiam o chão nos pés da gente. e eram cinco ou seis meninos. querendo bater. uns mesmo não se sabia como podiam. agarrados uns nos outros. pediam que a gente desse tiros. de tão mindinhos. pegava um por cada mão. João Vaqueiro chamava a gente. todos. o Paspe pitou de sal um quarto dela. Os meninos receavam o gado: ali no meio tinha reses muito bravas. em que tínhamos caçado uma paca bem gorda. amontados. vinham em dois cavalos magros. enrolou em folhas. Pousavam no pindaibal do brejo. queriam todo o tempo ver nossas armas. e deu ao menino mais velho: – “P’ra tu leva de presente. traziam feixes de cana. até morreram alguns. depois. A gente ria. um dia uma vaca deu corrida em alguém. de magros e fracos os bois se atolavam no embrejado. Diadorim gostava deles. vigia: o manuelzinho-da-troa já acabou de fazer a muda. dá à tua mãe. levava para mostrar a eles os pássaros das ilhas do rio.Grande Sertão: Veredas lavrador. Uns eram mansos: por um punhado de sal.” – ele recomendou. ia desatolar os bois que podia.. Às vezes. Esses meninozinhos. Mas. Chega passava a mão nas tetas de uma vaca – capins – 412 – . se chegavam.

tinha uma venda de roça. A quase meio-rumo de norte e nascente.. Vendiam licor de banana e de pequi. – “Ei. quando não padece. a quatro léguas de demorado andamento. que quando vier o tempo. – 413 – . – “O que tu não faz! Porque o que eu quero é o exato: que eu vou’ lá. geléia de mocotó. O dono da venda tinha duas filhas. por combate. de sair por aí.” – o Triol contestou. que de guerra se tiver licença. pego uma das duas. fumo bom. Que jagunço amolece. A gente outorgava a ele o dinheiro. eu vou lá. ah. ah. E o Liduvino e o Admeto cantavam coisas de sentimento.. de mocinha faço ela virar mulher.João Guimarães Rosa . o senhor crê? – algumas ainda guardavam leite naqueles peitos... marmelada. e nóivo.. o Jesualdo cada vez que voltava carecia de explicar à gente. como elas eram. Ia o Jesualdo. de dia é de noite. cada um encomendava o que queria. prezado peço em casamento.” – o Vove disse. toucinho.” – sensato se dizia. formosuramente. cantavam pelo nariz.Grande Sertão: Veredas tão bons. para sé lavar corpo. e se esse vendeiro for contra nós. no começo do cerradão.. muito forte. – “A gente carecia era de dar um fogo. Sempre só um de nós era que ia lá – para não desconfiarem. Diadorim mandou comprar um quilo grande de sabão de coco de macaúba.

Grande Sertão: Veredas Ao que perguntei: e aquela canção de Siruiz? Mas eles não sabiam. outro. a gente se ria. Tudo igual – às vezes é uma sem-gracez. no friinho de entrechuvas. Trovejou-se. – 414 – . gosto não. e que por dinheirinho bom se pagou. no renovame. Requeijão é com café bem quente que é mais gostoso. e vinha trazer requeijão. em seu cavalinho castanho. outras diversas vezes.. pensaram que a gente estava garimpando ouro. As tanajuras revoavam. Mas não se deve de tentar o tempo..” – eles desqueriam. Aí pelo mato das pindaíbas avante. que se tinha incumbido a ele. Cantigas muito velhas. levaram as novilhas em quadra de produzir.João Guimarães Rosa . rever o gado da Tapera Nhã. folhagem de coqueiros. – “Sei não. De tão bobas tristezas. aumentamos o rancho. e o socó-boi range cincerros. As garças é que praziam de gritar. e o socó latindo sucinto. Coquexavam. voltou aquele vaqueiro Bernabé. Os dias de chover cheio foram se emendando. deu um sutil trovão. E vieram uns campeiros. Aquele vaqueiro Bernabé voltou. Cortamos paus. Dada a primeira estiada. Esses eram homens tão simples. Bateu o primeiro toró de chuva. o garcejo delas. tudo era um sapal. – “A vida tem de mudar um dia para melhor” – a gente dizia. Daí.

vai. – 415 – . pedindo prazo. Era um brabo nosso. mas palavra logo não saiu.. Titão Passos bramou as ordens. não era. O que era? O Gavião-Cujo abriu os queixos. se via que estava ancho com muitas plenipotências.Grande Sertão: Veredas Ah. Aí. nem cabeceava. só vi tudo quieto. Ele tinha tomado muitas chuvas. quase gritou: – “Mataram Joca Ramiro!. só um moído de nuvens. Diadorim tinha caído quase no chão. – “Ar’uê. que tudo era lamas. dos copos do freio à boca da bota. um feio dia.” Aí estralasse tudo – no meio ouvi um uivo doido de Diadorim : todos os homens se encostavam nas armas. feras! Que no céu. que de mais norte chegava. À fé. As vertentes verdes do pindaibal avançassem feito gente pessoas. num pronto ser. – “Te rogaram alguma praga?” O Gavião-Cujo levantou um braço. na boca da estrada que saía do mato. ei. Se gritava – o araral. e pelos vazios do cavalo.. de sonome o GaviãoCujo. Achamos que fosse mesmo ele. um cafuz pardo. Aí. o cavalinho castanho dava toda pressa de vinda. meio amparado a tempo por João Vaqueiro. Esbarrou e desapeou. e. ele gaguejou ar e demorou – decerto porque a notícia era urgente ou enorme. então?!” – Titão Passos quis. lá ele apontou.João Guimarães Rosa .

orço que outros – 416 – . e me repeliu. todo apertado em seus couros e roupas. tão pálido como cera do reino. de pancada. eu surpreendi eriço de tremor nos meus braços.. o mundo nas juntas se desgovernava. O Paspe pegou uma cuia d’água. eu corri. Titão Passos mandava. Antes mais. numa fúria.João Guimarães Rosa . ai. Secou todo cuspe dentro do estreito de minha boca. Gavião!” – “Ai. o Gavião-Cujo falava. num alerta.Grande Sertão: Veredas Caiu. Mas eu nem pude dar auxílio: mal ia pondo a mão para desamarrar o colete-jaleco. para ajudar. Alheio ele dava um bufo e soluço. chefe. se levantou. que com os dedos espriçou nas faces do meu amigo. o pobre Diadorim. chefe: que mataram Joca Ramiro. me doeu.” – “Quem? Adonde? Conta!” Arre. Ao que não havia mais chão. e Diadorim voltou a seu si. feito um morto estava. Assaz que os belos olhos dele formavam lágrimas.. muito feroz. Recobrou as cores. A vez de ser um desespero. Não quis apoio de ninguém. – “Repete. Até atravessado. Assim os companheiros num estupor. Ele. e em mais vermelho o rosto. sozinho se sentou. na barriga. nem razão.

Grande Sertão: Veredas olhos. feito um relâmpago em fato. urrando no meio da tempestade. Muitos. Aí. em verdade.João Guimarães Rosa . – “Mas.” – “Arraso.. Aquilo foi à traição toda. Diz-se que foi sido de repente... O ódio da gente. – “. para retardar o surgir do medo – e a tristeza em cru – sem se saber por que.. – “. Morreram os muitos. ali. Joca Ramiro podia morrer? Como podiam ter matado? Aquilo era como fosse um touro preto.. E a gente raivava alto. na Jerara. – 417 – . adonde onde!?” – “A desgraça foi num lugar. O Antenor. não se esperava.. O Hermógenes.. beira da Jerara – lá onde o córrego da Jerara desce do morro do Vôo e cai barra no Riachão... sozinho surdo nos ermos da Guararavacã..” – constante não havendo quem não exclamasse. que estavam persistindo lealmente.. armava um pojar para estouros. cão! Caracães! O cabrobó de cão! Demônio! Traição! Que me paga!. Assim Joca Ramiro tinha morrido.. se suspendia nas sussurrosas ameaças.... unidos malaventurados. Riachão da Lapa.. mas que era de todos.. terras do Xanxerê. Os homens do Ricardão.... Tudo tinha vindo por cima de nós. Matou foi o Hermógenes.

Dos bons. nos Gerais...João Guimarães Rosa . o Bicalho. Sei que o sertão pega em armas. e ond’é então que estão?!” – “Ah. Aí foi ele quem me mandou trazer este aviso. Os todos os outros: João Goanhá.” Mas Titão Passos. Até se deu um tiroteio terrível.. Leôncio Fino. chefe. Só Candelário.. Clorindo Campelo. ele agarrou o Gavião-Cujo pelos braços: – “Hem. no de lado de lá do Rio. Luís Pajeú.. uns quinze. sim. Já foi portador para lá. para rachar Ricardão e Hermógenes.. em juramento. na Serra dos Quatis. Silvino Silva conseguiu fuga.. de arrompe. mas o pessoal do Hermógenes e do Ricardão era demais numeroso. Leite-de-Sapo.. atalhou a narração. o Cambó... mas Deus é grande!” – 418 – . mas o grosso dos bandos dele se acha nos pertos da Lagoa-do-Boi. com vinte e tantos companheiros. e ajudar a gente na vingança agora. diá! Mas quem é que está pronto em armas.. Só Candelário ainda está para o Norte. quem pôde...Grande Sertão: Veredas mortos: João Frio. João Goanhá pára com porçanheira de homens. fugiram corretamente. Sendo que se despachou um positivo também para dar parte a Medeiro Vaz. Zé Inocêncio.. nas desafrontas? Se tem.

. Joca Ramiro morreu sem sofrer. A gente ficávamos aliviados. Diadorim tanto empalidecesse. Titão Passos não queria ter as lágrimas nos olhos. Aí. por certo. Aquilo dava um sutil enorme. então: graças a Deus! Ao que. conforme cristão. então.. Que não sabia-o GaviãoCujo respondeu.. – “E enterraram o corpo?” – Diadorim perguntou.. a um lugar dito o Amoipira. está bem. com falsos propósitos. carga de balas de três revólveres. conduziu Joca Ramiro no meio de quase só gente dele. Era a outra guerra. Tínhamos de tocar. – “Teremos de ir. mas que decerto teriam enterrado. lá mesmo. Artes que o Gavião-Cujo ainda contava mais.João Guimarães Rosa . O Hermógenes distanciou Joca Ramiro de Só Candelário.Grande Sertão: Veredas – “Louvado. atiraram em Joca Ramiro. numa voz de mais dor. sem atraso. – “Um homem de – 419 – . para a Serra dos Quatis. e todos responderam reluzentemente. mais o pessoal do Ricardão. E estava. na Jerara.. Que o Hermógenes e o Ricardão de muito haviam ajustado entre si aquele crime.. Teremos de ir. as miúcias – parecia que tinha medo de esbarrar de contar. se sabia. ele pediu cachaça. pelas costas. Tomou.” – Titão Passos se cerrou. Ah.” – falou Titão Passos. Hermógenes. que é perto de Grão Mogol... como saía ansiada. Todos tomamos.

Mas.João Guimarães Rosa . Vi que ele fervia ali assim no pego do parado. Você acha então que vão logo olvidar a honra dele?” – me perguntou. Ao no galope. Mão do homem e suas armas. foi andando sem governar os passos. – “Pois vamos. a glória do finado. me entregou á ponta do cabresto para segurar.” – ele me disse. A gente ia com elas buscar doçura de vingança.. Riobaldo!” – Diadorim se pôs. Eu restei ficando tomando conta do ca– 420 – .. fomos. dele. tudo principiava terminado. mais cedo mais tarde. agora. dizendo num modo que parecia ele não fosse também jagunço. e um mormaço.. como era de se ser. A mesmo estava o céu encoberto. Porque Diadorim completou: – “.. como o rominhol no panelão de calda. Do que se finou. Diadorim me reteve. tanto desespero que nunca vi.. pela gente do Alaripe. vivendo no meio de gente tão ruim. Joca Ramiro morreu como o decreto de uma lei nova. tapado pelas moitas e árvores. Selamos os cavalos. Serra acima.Grande Sertão: Veredas tão alta bondade tinha mesmo de correr perigo de morte. Riobaldo. Devo que retardei muito em responder. com cara de não compreensão.” E dizia aquilo com uma misturação de carinho e raiva. A daí. Mas. – “De tudo nesta vida a gente esquece. na descambada. só restava a guerra. cada um engolia suas palavras.. carecia fosse alguém do lado de lá do morro. Desamontou.

até minha volta. para o que havia ver. Em certa distância.Grande Sertão: Veredas valo. – “Mas. virou o rosto. – ele deu. Ele. – “Diadorim!” – chamei. – 421 – . e evitar atraso. Pensei que ele tivesse ido a lá. por meu feliz. temos de vingar a morte do falecido!” – eu ainda pronunciei. – “Seu tio. em querelenga. que eu resolvi tocar atrás. esbarrei e disparei tiros. Mas demorou tanto a volta. – “Ah. de acordo com o mormaço. estavam todos reunidos. muito me entenderam. – “Trago notícia de grande morte!” – sem desapear eu declarei. meus consolos. sim. Soluçava e mordia o capim do campo. sem se aprumar. E estava chovendo. Me amargou. agora.. em gesto. Diadorim?” – eu indaguei. será?” – Que era. E aí o que vi foi Diadorim no chão. e ele atendia.” – ele me respondeu. “ E. com uma voz de pouco corpo. para me escutar.João Guimarães Rosa . A doideira. me pedindo que sozinho fosse. Então. umas vezes. e continuei ida. Eles todos tiraram os chapéus. era. eu gritei: – “Viva a fama do nosso Chefe Joca Ramiro. deitado debruços.. Cheguei lá. Ao que quase todos choraram. falei. no cabo da língua.. com muita cordura.. esporei e vim puxando o cavalo dele adestro. para prevenir os alaripes. pela tristeza que estabeleceu minha voz.. para o ar. Falei. deixasse ele ali. Entreguei a ele o cabresto do cavalo. por necessitar. Se aprontaram num átimo.. apertou os olhos no choro. – “Joca Ramiro era seu parente.

João Goanhá. em tralha e torto. sem nenhum escondimento: a gente queria que todo o mundo visse a vingança! Alto do Amoipira. Aí. e falavam muito bem do falecido. quando terminamos lá. Diadorim do meu lado. Mas assim se deu que. cada rio roncava cheio. e ocupando a cheio todas as estradas. no seguinte dia. Deixamos para trás aquele lugar. Os córregos estavam sujos. rumamos. você sabe. Você tem sustância para ser um chefe. no romper das barras. tem a bizarria. os mares de calor. depois. saímos tocando. era o que eu tinha menos vontade. Varamos todos esses distritos de gado. Assomando de dia por dentro de vilórios e arraiais. De ser chefe. Redeando. feito flecha.João Guimarães Rosa . a boca vencida. muito branco. Desmenti.. mesmo. em todas as partes o povo fazia questão de obsequiar à gente.Grande Sertão: Veredas para comigo vir.” – no caminho o Alarípe me disse. mudado triste. feito fogo. – “Mano velho Tatarana. – 422 – . que disse ao senhor. feito faca. as várzeas embrejavam. para mim tão célebre – a Guararavacã do Guaicuí. os olhos pisados. e tantas cordas de chuva esfriavam a cacunda daquelas serras. A terrível notícia tinha se espalhado assaz. por aquele afora – a gente ia investir o sertão. do nunca mais.. Mas nós passávamos. os cavalos já afracavam.

piorado doente. E Só Candelário.. João Goanhá desnecessitava de esperar por ele. Mesmo assim. para aos dois judas traidores dar batalha. por Luís de Abreuzinho comandados. devia de estar um tempo desses nos Lençóis. seus. surrão de sal.. Agora é que vai ser a grande briga!” Disse que com três dias se saía em armas. e açúcar preto e café – até em carro-de-bois os mantimentos de fubá e – 423 – . para se abater e se comer. também.. com seus trinta e cinco cacundeiros – o que carregava nome de fama por todo o Rio VerdeGrande. montesclarense. Meu irmão Titão Passos. que mandou. foi ver a gente vindo e abriu seus bons braços. chegava a ser uma boiada. valentes cabras. E o gado em pé que se provia. No que achamos bom conselho.. trinta e tantos capangas. Ele estava com próprios trezentos guerreiros. E sempre outros chegavam. E o grande fazendeiro coronel Digno de Abreu. com prestança em ponta.João Guimarães Rosa . oferecendo peito de ajuda. E o velho Ludujo Filgueiras. com vinte e dois atiradores. com pressa de chamado.Grande Sertão: Veredas em toda economizada estatura. – “E vocês todos. Com sacas de farinha. crescente. onde era que estava? Só Candelário. Veio até quem não se imaginou: como aquele Nhão Virassaia. para onde portador seguira.. E outros vinham chegando. que era dele filho-natural.” – ele falou. – “Meu irmão Titão Passos. João Goanhá ia na vaca e no boi: não estava com por’oras..

na Guararavacã tão em vão esperada. com troca de avisos. o carocho. saiba o senhor. e Titão Passos se entristeceu de não poder ter trazido a nossa. com a coragem esporeada? Estávamos. ei. Saímos em guerra. o debo. e tudo no fim desandava. o mal-encarado. e o mais. não tinham escape. Deus não devia de ajudar a quem vai por santas vinganças?! Devia. beijando a barra do manto de minha Nossa Senhora da Abadia! Ah.Grande Sertão: Veredas arroz e feijão entregados. em pedras pontudas ajoelhado. E da existência desse me defendo. da Lagoa-do-Boi. atravessassem o rio. Desarma do tempo. sobre. Aindas que se escapassem para o poente. Mas a lei de homem não é seus instrumentos. o cramulhão. cunhado de Só Candelário. do norte. o tunes. então: mas tem o Outro – o figura. ah. que não. Ãhã.João Guimarães Rosa . debaixo do comando de Alípio Mota. Nós não estávamos forte em frente. Tudo o melhor fizemos. então? Ah. Mas descemos no canudo das desgraças. Só em quantidades de munição era que a gente não produzia luxo. A simples íamos cercar bonito os Judas. só Ela – 424 – . o morcegão. hora de paga e perdas. segundo se diz. aquele – o-que-não-existe! Que não existe. sobrevinha também o bastante da rapaziada dos baianos. fomos. que a gente tinha de purgar. do pé-depato. que não. encontravam ferro e fogo: lá estava Medeiro Vaz – o rei dos Gerais! Saímos. Mas. é o que minha alma soletra.

Avançaram. Redondinho no lume dos olhos do Hermógenes. sem a gente perceber. não soubemos. para espiar o primeiro das coisas. calados. protege com sua pessoa. Quando protege. indicando todo rumo. Não é. como é que ele pode me ver?! Digo isto ao senhor. tivemos jeito nenhum para cercar e impedir. Contra ele a gente ia. seu – 425 – . O Hermógenes. por causa que só tem um curto prazo. naquele tempo. Como eles conseguiram fugir das unhas da gente. por tudo ouvir. E esse trabalha sem escrúpulo nenhum.João Guimarães Rosa . Sertão.. oco de alma. Do tamanho dum bago de aí-vim. para o São Francisco. da manhã à tarde. vem. Se a Santa puser em mim os olhos. mole. Atravessaram por nós. se escaparam – o Ricardão e o Hermógenes – os Judas. nas costas do Hermógenes.. Contra o demo se podia? Quem a quem? Milagres tristes desses também se dão. e não vimos. Mas. quarto-delégua. Como é que podia saber? E foram esses monstros. dentro do ouvido do Hermógenes. o sobredito. mas vale por um mar sem fim. Pois eles escapuliram: passaram perto. escorregando pelos matos. mas finge de ser. ganhando o mais poente. e digo: paz. Ele vem no maior e no menor. como a noite atravessa o dia. com toda sua jagunçama. Montado. não ouvimos.Grande Sertão: Veredas me vale. que – por valente e valentão – para demais até ao fim deste mundo e do juízofinal se danara. légua. eu não sabia. se diz o grão-tinhoso e o cão-miúdo.

Duro de desanimável. Tenente Reis Leme. tantas tropas. um capitão Carvalhais. o que eles estavam era ajudando indireto àqueles sebaceiros. Pois – aquela soldadama viera para o Norte era por vingar Zé Bebelo. Mas. maior da marca. com muitos mais outros. Quando pudemos saber. quem era que podia explicar isso tudo a eles. que vinham em máquina enorme de cumprir o grosso e o esmo. Surgiram de todos os lados. é ver cachorrada caçante. e nisso eles se viravam contra a gente. Soldados do Tenente Plínio – companhia de guerra. só geringonciável na capital do Estado? – 426 – . que tinha livrado a vida de Zé Bebelo das facas do Hermógenes e Ricardão. soldadesca. hem? E pois demore o senhor para o pior: o que veio em sobre!: os soldados do Governo. Os soldados. se rolou. vida é vez de injustiças assim. E veio depois. rolamos por aí aqui. Nós estávamos pegando o ar. Sofremos. e agatanhavam. por sua ação.Grande Sertão: Veredas pretume dela escondido no brancor do dia. esse bebia café em cuité e cuspia pimenta com pólvora. que éramos de Joca Ramiro. naquela sanha.João Guimarães Rosa . quando o demo leva o estandarte. e agora. tendo as garras para o pescoço nosso mas o pensante da cabeça longe. a distância deles já era impossível. se presume. outra. e Zé Bebelo já andava por longes desterrado. de supetão.

gameleira pingou frutinhas. na Chapada Simão Guedes: mas rodaram com a gente. mas entre aquelas noites de estrelaria se encostando. mais forte – porque o tempo todo das águas estava no se acabar. Serra da Saudade: a gente se desarranjou. é sal em cinza. perto do Morro do Cocuruto. fugimos. – 427 – . veio veranico. Córrego da Malhada Grande. Semeei minha presença dele. o que da vida é bom eu dele entendia. como um gravatá se fechou. Combatemos o quanto mais pudemos – está aí. Fugimos. o senhor está cansado de ouvir narração. e isso de guerra é mesmice. Ribeirão Traçadal – tudo foram as feiezas. sabiá deu cria.Grande Sertão: Veredas De contar tudo o que foi. Consoante começou. Daí. Tomando o tempo da gente. o vento principiou a entortar rumo. Milho crescia em roças. pitanga e caju nos campos. onde nos pegaram num relaxo. Fogo demos daí no Cutica. os soldados remexiam este mundo todo. depois. Recito frente ao senhor: e é rol de nomes? Para mim ficaram em assento de sustos e sofrimento. de retruz.João Guimarães Rosa . Sofrimento passado é glória. e: Córrego Estrelinhas. Tenente Reis Leme nos escaramuçando: queria correr com a gente a pano de sabre. De tanta maneira Diadorim assistia comigo. Nunca me queixei. me retiro. o pequi amadurecia no pequizeiro e a cair no chão. mesmagem. Ato que voltaram as tempestades. depois de grande fogo. bem. no Curral de Vacas. Ah.

dando um dia. Parecia que a gente ia ter de passar o resto da vida guerreando com os praças? Mas nosso constar era outro. Se pensou e falou em tudo por fazer e não fazer. a gente teve certas notícias: os do Hermógenes estando senhores arranchados. onde o cãcã canta. com sangue de urgência – aquela luta de morte contra os Judas – e que era briga nossa particular. me esconjuro. Isto que digo.Grande Sertão: Veredas Matou-se montanha de bons soldados. deviam de ir desmanchar os rastos na caatinga. Em Bahia entramos e saímos. no Chapadão de Antônio Pereira. Enquanto tanto. cinco vezes. Diadorim mascava. Estávamos em terras que entestam com a Bahia. caçando jeito de safança por entre os lugares perigáveis. Quadrante o que havia. sei de cor: brigar no espinho da caatinga pobre. Questionou-se nisso. da banda de lá do Rio do Chico: nas vertentes da beira da mão direita do Carinhanha. Resultado foi este: que o principal era a gente mandar reforço.João Guimarães Rosa . para Medeiro Vaz. pedra-cristal quase de sangue. cada qual de lado seu. repartidos em miúdos grupos. João Goanhá. uns cinqüenta ou cem homens. Alípio Mota e Titão Passos. Não se tendo recurso competente. conforme retouçavam. – 428 – . branco! E aqueles cristais. Ah. Eu mesmeava. Chegamos até no cabo do mundo. Mas. Para ódio e amor que dói.. amanhã não é consolo. Chão que queima.. sem render as armas.

só se em sonhos. com o seguinte risco: o Imbiruçu. E saímos. o Poço d’Anjo. Deus em armas nos guardava. podia ser perigosa. seu destino. vim. O vau do mundo é a alegria! Mas Diadorim não se fornecia com mulher nenhuma. a Lagoa dos Marruás. eu vinha alegre contente. com Diadorim. mas o que bastava o balseiro se chamar: – “Hô. era para os meus Gerais. o Cruzeiro-das-Embaúbas. tirei minha desforra: faceirei. passador! Hô. o Dôminus-Vobíscum. A gente se apartar? Ah.. passador!. o Mingu.. comprei roupas. até que a soldadesca se espairecesse.” – 429 – . Dele eu ainda mais gostava. o Detrás-das-Duas-Serras. por uns tempos. o Barreiro do Muquém. por uns atalhos: o Córrego Assombrado. o Sassapo. Estive com o melhor de mulheres. em fazendas de donos amigos. o porto-debalsa. caminho fazendo. A ver. De mim. a Fazenda Riacho-Abaixo. Já era o do Chico – o poder dele – largas águas. E daí. O Brejo dos Mártires. Nesse meu. Severgonhei. a Lagoa da Jabuticaba. Jesualdo e João Vaqueiro. a Serra do Pau-d’Arco. com tantos soldados vizinhantes. Travessia. E era bom e era justo. e o Fafafa. ali. a Santa Polônia. sempre sério. Alaripe.Grande Sertão: Veredas e depois se esconderem. a Cachoeirinha Roxa.João Guimarães Rosa . Era certo. o Mocó. E então se deu que tínhamos esbarrado em frente da Lagoa Clara. que distava pouco. Era para o outro lado. Na Malhada.

na canoa. depois que o patrão nos saudou. quem governa é o remador!” Bem que rio-acima é que era. boa-sorte nos dava. encostaram. era nada – as arrobazinhas. Alaripe e eu. chamado o Olho-d’Agua-das-Outras. para uma invenção. repostando: – “Amigo de todos? Rio-abaixo. a cara-de-pau que tinha no bico da frente era uma cabeça de touro. Assim. mas com – 430 – . Riobaldo?” – Diadorim me perguntou..” – eu disse. que se teve. aceitamos. acenamos para uma grande barca – aquela. e disse: – “Eu cá sou amigo de todos. João Vaqueiro e o Fafafa fossem levando os cavalos para um lugar para cima da barra.João Guimarães Rosa .. Diadorim e Jesualdo. O balseiro só avistando João Vaqueiro e o Fafafa – estes ele então podia passar.Grande Sertão: Veredas – ele viesse. falavam que era para uns caçadores. até na prancha de Pirapora! – “Vau do mundo é a coragem. era um portode-lenha. Ali mais adiante. E nós entramos.” E o Alaripe aceitou dele um gole de cachaça. em nome de Nosso Senhor CristoJesus. Eu?! Com ele em qualquer parte eu embarcava. no vagarosamente. com cinco dos cavalos. A gente esperava o que acontecesse. E. no Urucuia. com os rifles escorados. Lá a gente se encontrava. A gente os quatro.. O barqueiro tocou um berro no buzo. com o cavalo. Da outra banda.. Somente ficados com um cavalinho só. – “Você tem receio. segundo a minha condição. andamos beira-rio. Jesualdo disse.

sombroso. Rios bonitos são os que correm para o Norte.. as águas dele são claras certas. onde essas altas árvores – a caraíba-de-flor – roxa. E descemos num pojo. Mentiras d’água. no Olhod’Agua-das-Outras. tão urucuiana. o pau-paraíba. o aderno-preto. – 431 – . o pau-desangue. subindo légua e meia. Pediram notícias do sertão. suas abas. O Urucuia. E vi meus Gerais! Aquilo nem era só mata. Eles serviram à gente farta jacuba. frenteando a boca do Urucuia. vento em pano – nem remeiro com o varejão não carecia de fazer talento. E ainda por ele entramos. deu o zé de ombros.” – respondemos. o velejo. – “Viemos da Serra Rompe-Dia. e os que vêm do poente – em caminho para se encontrar com o sol. O barqueiro não acreditou. Essa gente estava tão devolvida de tudo.Grande Sertão: Veredas remeiros muito bons esforçados.João Guimarães Rosa . franzido no gradeai de suas folhas altas.. era até florestas! Montamos direito. – “Por onde os senhores vieram?” – o patrão indagou. o meu Urucuia. O sertão nunca dá notícia. Aí constante. Ah. andamos. que eu não pude adivinhar a honestidade deles. num ponto sem praia. Tanto fazia dizer que tínhamos vindo da de São Felipe. e demos com a primeira vereda – dividindo as chapadas –: o flaflo de vento agarrado nos buritis. E o folha-larga. e. por isso pagamos uma gratificação. Mas levou a gente travessia fácil.

Dando no meu corpo. duramente no varo das chapadas. E como cada vereda. em seguir. flor de tudo. e que ninguém não ensina: o beco para a liberdade se fazer. pousamos lá dois dias. e cruzando somente com gado transeunte ou com algum boi sozinho caminhador. o roteiro de Deus nas serras dos Gerais. Tem uma verdade que se carece de aprender. me diga o senhor: a vida não é cousa terrível? Lengalenga. nos Buritis-Altos. acenava para a gente um fino sossego sem notícia – todo buritizal e florestal: ramagem e amar em água. Sou um homem ignorante. quando beirávamos. com nosso cansaço. como sutil suave. viemos subindo até chegar de repente na Fazenda Santa Catarina. Fomos. sem eu nem saber. Mas.João Guimarães Rosa . do encoberto. Mas liberdade – aposto – ainda é só alegria de um pobre caminhozinho. cabeceira de vereda. O senhor me ouviu. e aguadas que molham sempre. por seu resfriado. calcando o sapê brabão ou areias de cor em cimento formadas. fomos. no conhecimento meu com Otacília.Grande Sertão: Veredas sassafrazal – como o da alfazema. aquele ar me falou em gritos de liberdade. Em como Otacília e eu ficamos gostando um – 432 – . Vento que vem de toda parte. Assim pois foi. Que’s borboletas! E era em maio. como conforme. um cheiro que refresca. que avançamos rompidas marchas. no dentro do ferro de grandes prisões. E que.

exatos. Me alembro. e de lá me fui. Subindo em esperança. Quando rezo. a gente podia pedir a benção. ela com sua cabecinha de gata. num lugar chamado o BomBuriti. Medeiro Vaz. penso nisso tudo. Cujo eu me disse: – “É bom homem.Grande Sertão: Veredas do outro. Cantam que sim.. E tinha quartel-mestre. e Diadorim beijou aquela mão. Ver belo: o céu poente de sol. Flores pelo vento desfeitas. conversamos. Medeiro Vaz. economizando rumo. Medeiro Vaz tomava rapé. ele no meio de seus fortes homens. de lá – 433 – . a roséia daquela cor. naquela bocaina de campo. conforme já disse. e com eles nos ajuntamos. retrata]. se prezar. em cata do grosso do bando de Medeiro Vaz. O que o seguinte foi este: o encontro da gente com Medeiro Vaz. que dali a quinze léguas recruzava. mandando passar as ordens. Em nome da Santíssima Trindade.João Guimarães Rosa . meu é. me dando a luz de seus olhos. circunspecto com todas as velhices. num ressaco. com grande chapéu rebuçado. Na Santa Catarina. de tardinha.” E ele beijou a testa de Diadorim. e na sobremanhã eu me despedi. barbaça. sem nem velho ser. alva no topo da alpendrada. no Bom-Buriti. da Ratragagem para a Vereda-Funda. combinados no noivável. E lá é cimo alto: pintassilgo gosta daquelas friagens. com Diadorim e os outros. Revejo. A um assim. aquela pessoa sisuda.. E de como viemos.

O só que Medeiro Vaz comandou foi isto: – “Aleluia!” Diadorim tinha comprado um grande lenço preto: que era para ter luto manejável.. com cinco homens. só buriti ali. um roxo que sobe no céu. eu estou feliz!.. E foi assim que a gente principiou a tristonha história de tantas caminhadas e vagos combates. o senhor então já sabe. Dei um sim completo. e sofrimentos. para conhecer o resto que falta.Grande Sertão: Veredas saímos. os buritis calados. Diadorim se virou para mim – com um ar quase de meninozinho. também me lembro. E a flor de caraíba urucuiã – roxo astrazado. mas o que eu acho é que o senhor já sabe mesmo tudo – que tudo lhe fiei.” – ele me disse. bem dado e bem ganho. Naquele trecho. isso. que menos mais. é pôr atenção no que contei. Daí. o que lhe basta. e herdou brioso comando. para chão e sertão. Só sim? Ah. meu senhor. Mas. acho que eu disse até um fogo que demos. Aqui eu podia pôr ponto. passamos um rio vadoso – rio de beira baixinha. – 434 – . funo guardado em sobre seu coração. em suas miúdas feições.João Guimarães Rosa . e o que debaixo de Zé Bebelo fomos fazendo. se não me engano até ao ponto em que Zé Bebelo voltou. – “Riobaldo. Para tirar o final. Chapadão de duro. na Fazenda São Serafim. bimbando vitórias. Sertão bravo: as araras. que já relatei ao senhor. descendo o Rio Paracatu numa balsa de talos de buriti.

Travessia. O senhor ponha enredo. altas cidades. a lume de lua. Sertão é o sozinho. Porque não narrei nada à-toa: só apontação principal.. Mas minha padroeira é a Virgem. se pita um bom cigarro. Minha vida teve meio-do– 435 – . Gosto de ser. por isso. Sou um homem ignorante. não tenho. Assentado nesta boa cadeira grandalhona de espreguiçar. vem outro café.Grande Sertão: Veredas remexer vivo o que vim dizendo. para o que digo: eu queria ter remorso. Macaco meu veste roupa. Deus no meio. antiqüíssimo – para morarem famílias de gente. um baiano lugar. até que chegue a hora de se dançar. Mas o demônio não existe real. Quando foi que eu tive minha culpa? Aqui é Minas. Serve. velhas. Urubu? Um lugar. Serve meus pensamentos. o senhor ache.. Tenho saquinho de relíquias. referi minha má cedência. Não é só no escuro que a gente percebe a luzinha dividida? Eu quero ver essas águas. O senhor me acusa? Defini o alvará do Hermógenes.. que é das de Carinhanha. O senhor pense. lá já é a Bahia? Estive nessas vilas.. ao que crer posso. Não esperdiço palavras. com as ruas e as igrejas. Vai assim. Do jeito é que retorço meus dias: repensando. Compadre meu Quelemém diz: que eu sou muito do sertão? Sertão: é dentro da gente.João Guimarães Rosa . Deus é que deixa se afinar à vontade o instrumento. por orvalho.

O meu Urucuia vem. voltei com Diadorim. fez uma promessa. mediante o madrugar. vim. nos confins do Chapadão. Lá. A lua. A Bigri. Deus nunca desmente. minha mãe. nalgum lugar. rio capital. e o que ele responde é: a coragem minha. uma vez: touro preto todo urrando no meio da tempestade. Pergunto coisas ao buriti. para sofrer e vencer juntos.Grande Sertão: Veredas caminho? Os morcegos não escolheram de ser tão feios tão frios – bastou só que tivessem escolhido de esvoaçar na sombra da noite e chupar sangue. Medeiro Vaz morreu em pedra. por morte de minha mãe? Medeiro Vaz reinou. zás de raio – 436 – . depois de queimar sua casa-de-fazenda. com lua no céu. Por que é que todos não se reúnem. destes meus Gerais. como um vivo demais de fogo e vento. Vem cair no São Francisco... Mestre não é quem sempre ensina. como o touro sozinho berra feio. Saí. meu padrinho Selorico Mendes tivesse de ir comprar arroz. Zé Bebelo ia e voltava. de uma vez? Eu queria formar uma cidade da religião. Diadorim. o luar: vejo esses vaqueiros que viajam a boiada. e não se aparta de sua água – carece de espelho. nas pontas do Urucuia. O São Francisco partiu minha vida em duas partes. mas quem de repente aprende. conforme já comparei. Não voltei? Travessias. Zé Bebelo me alumiou. dia depois de dia. claro. Buriti quer todo azul. os rios verdes. O diabo é sem parar.João Guimarães Rosa . entre escuros.

Me alembrei dela. para mim. sãojosés. Nonada! A mais. Diadorim – eu adivinhava. os lírios-do-brejo – copos-de-leite. em chão arenoso salgado. enterrado lá no meio dos carnaubais. era como se já estivesse constando de falecido. tanto que eu via as baronesas amarasmeando no rio em vidro – jericó. e os lírios todos. E ela rebrilhava. todas – 437 – . Assim era Joca Ramiro. o senhor sabe? Diadorim me veio. Só Candelário? Só Candelário se desesperou por forma. Mas.. ajuda minha idéia a requerer e traçar. A mocinha Miosótis? Não. Ela quis me salvar? De dentro das águas mais clareadas. não era rejeitã.Grande Sertão: Veredas veloz como o pensamento da idéia – mas a água e o chão não queriam saber dele. Só Candelário não era. de meu não-saber e querer. mesmo em quando ainda parava vivo. a singeleza: Nhorinhá puta e bela. A Rosa’uarda. Ah. Uns talismãs. A Nhorinhá – nas Aroeirinhas – filha de Ana Duzuza. era como se para mim ela estivesse no camarim do Santíssimo. Ao que Joca Ramiro pousou que se desfez..João Guimarães Rosa . aí tem um sapo roncador. feito itamotinga. Sonhei mal? E em Otacília eu sempre muito pensei. que. Meu coração é que entende. lágrimas-demoça. provindo de distante terra – da Serra do Urubu do Indaiá. de certo modo. parente do compadre meu Quelemém. Otacília. Compadre meu Quelemém outrotanto é homem sem parentes. tão diverso e reinante. com aquela grandeza.

Diadorim vivia só um sentimento de cada vez. O senhor pergunte: quem foi que foi que foi o jagunço Riobaldo? Mas aquele menino.João Guimarães Rosa . o Valtei. Os cavalos relincham sem causa. Até o Jazevedão. se a – 438 – . eu percebi a beleza daqueles pássaros. Os dias que são passados vão indo em fila para o sertão. Antes. O manuelzinho-da-troa. e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça. muito maiores diferentes. Todos estão loucos. ele pedia socorro aos estranhos. capaz. e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas. e conhecer outra pessoa.Grande Sertão: Veredas as minhas lembranças eu queria comigo. estou vendendo também os outros. como os cavalos: os cavaleiros na madrugada – como os cavalos se arraçoam. o sentir forte da gente – o que produz os ventos. Voltam. que a gente avista e vai guardando para trás. Tudo isso posso vender? Se vendo minha alma. vinha com brutalidade de socorro. Todos os sucedidos acontecendo. O senhor se alembra da canção de Siruiz? Ao que aquelas troas de areia e as ilhas do rio. Mistério que a vida me emprestou: tonteei de alturas. na hora em que o pai e a mãe judiavam dele por lei. sem perigo de ódio. no Rio das Velhas – percebi para sempre. para o total. neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma só. Só se pode viver perto de outro. estivesse ali. os homens sabem alguma coisa da guerra? Jagunço é o sertão.

toda a hora a gente está num cômpito. Igual aquela pedra que eu trouxe do Jequitinhonha.João Guimarães Rosa . Pacto? Imagine o senhor que eu fosse sacerdote. O demônio na rua. Ouvindo uma violinha tocar. pacto não houve. de virar-virar. Otacília sendo forte como a paz. se remexendo. Como é que se pode pensar toda hora nos novíssimos.. na paridade. então?! Arrenego. Deus está em tudo – conforme a crença? Mas tudo vai vivendo demais. mas outro é o do sentidor. o senhor se lembra dele. um descanso na loucura. E se eu quiser fazer outro pacto. Sozinho. Deus estava mesmo vislumbrante era se tudo esbarrasse. mas que é rio de braveza.. feito aqueles largos remansos do Urucuia. por uma vez. O que eu quero. e não é não. Deus é que me sabe. Ah. Nem sei explicar estas coisas. a gente estando ocupado com estes negócios gerais? Tudo o que já foi. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde. Ele está sempre longe. é o começo do que vai vir. e um dia tivesse de ouvir os horrores do Hermógenes em confissão. Diadorim e Otacília.. Um sentir é o do sentente. Uma musiquinha até que não podia ser mais dançada – só o debulhadinho de purezas. com Deus – 439 – . O Reinaldo era Diadorim – mas Diadorim era um sentimento meu. O pacto de um morrer em vez do outro – e o de um viver em vez do outro. Eu penso é assim.Grande Sertão: Veredas gente tem amor. é na palma da minha mão.. Viver é muito perigoso.

todos não serão bons? Ah. cair não prejudica demais – a gente levanta. a gente sobe. quero – 440 – .João Guimarães Rosa . Mas. as feias onças. Mas. O sertão tem medo de tudo. então. Todo caminho da gente é resvaloso. é que é preciso a gente saber tudo. o armar do trovão. Tenho medo? Não. Mas. Medo tenho é porém por todos. Neste mundo tem maus e bons – todo grau de pessoa. e sofre sem saber mais porquê. e fúria. mais então. diversa para cada um – que Deus está esperando que esse faça. também. É preciso de Deus existir a gente. e que culpa tem o homem? Às vezes não aceito nem a explicação do Compadre meu Quelemém. que acho que alguma coisa falta. É preciso negar que o “Que-Diga” existe. para penar.Grande Sertão: Veredas mesmo – posso? – então não desmancha na rãs tudo o que em antes se passou? Digo ao senhor: remorso? Como no homem que a onça comeu. cuja perna. medo. Mas. Mas eu hoje em dia acho que Deus é alegria e coragem – que Ele é bondade adiante. e do diabo divertir a gente com sua dele nenhuma existência. O que há é uma certa coisa – uma só. em ventos.consciência. para o prazer e para ser feliz. formar alma. Que é que diz o farfal das folhas? Estes gerais enormes. não se carece: bicho tem dor. na. Digo ao senhor: tudo é pacto. mais. Estou dando batalha. Que culpa tem a onça. danando em raios. tenho. mediano. a gente volta! Deus resvala? Mire e veja. todos são maus.

ou aí subindo e descendo solaus. Era ruim e era bom. com outros. sempre.Grande Sertão: Veredas dizer. o senhor vai me ouvir. o Oi-Mãe. A diversos que passavam abandoados de araras – araral – conversantes. a Fazenda São Serafim. Agora. O Buriti-Pintado. no quase liso de altas terras. Vemos voltemos. o rio Soninho. O senhor escute o buritizal. dos Hermógenes – por matar. Aviavam vir os periquitos. Aí quando muito vento abriu o céu. Ali chovia? – 441 – . As duras areias. No borrusco.João Guimarães Rosa . com Zé Bebelo de bota-fogo. mal esquecidos. por acabar com eles. cota o canto-clim. O verde carteado do grameal. Ao pé das chapadas. Zé Bebelo Vaz Ramiro-viva o nome! A gente vinha sobre o rastro deles. O céu de não se querer ver. longes. O sol. de nós. por perseguir. Assim expresso. e o tempo deu melhora. Se ia. E meu coração vem comigo. no que eu tive culpa e errei. seja. Às artes que fugiam. recebendo o empapo de chuva e mais chuva. o Hermógenes corria. Mas eu com aquilo já tinha inteirado costume. a gente se fervia – debaixo desses extraordinários de Zé Bebelo – a gente lambia guerra. no entremeio do se encher de rios tantos. aos vintes e trintas. O chapadão é sozinho – a largueza. chapadão voante. a gente estava na erva alta. As arvorezinhas ruim-inhas de minhas.

Alegria minha era Diadorim. a gente acha reunidas as todas estrelas do ano todo. Mas Diadorim sabia era a guerra. não rola enxurrada. dois dedos no queixo. Assim que fevereiro é o mês mindinho: mas é quando todos os cocos do buritizal maduram. Soprávamos o fogo. Um Pitolô. no gozo de minha idéia. mas era nascido no barranco. e de madrugada se escorropicha o frio. Para extraviar as mutucas. A fumaça vinha. é um horror de quente. O chão endurecia cedo. Mesmas vezes eu ria. o senhor isto sabe. não produz lama: a chuva inteira se soverse em minuto terra a fundo. feito um azeitezinho entrador. comprido e povooso. rio quase preto. Era o Pitolô. De dia. chapadão. Diadorim às vezes gostava. Aquilo bonito. quando estia.João Guimarães Rosa . A gente ria. No Carinhanha. era que o amor virava – 442 – . Homem dorme com a cabeça para trás. muito imponente. ajoelhados um frenteante o ao outro. juntos. sei lá. O fevereiro feito. engasgava e enlagrimava. mas para a noitinha refresca. cabra destemido. Chapadão. a gente queimava folhas de arapavaca.chapadão. Eu. Ademais que ele contava casos de muito amor. com crimes nos maniçobais perto para cima de Januária. e no céu. quando tição aceso estala seu fim em faíscas – e labareda dalalala. esse rareamento de águas.Grande Sertão: Veredas Chove – e não encharca poça.

enchendo as árvores.” – o Pitolô falava. e avistar as grandes emas e os veados correndo. Aqui e aqui. e sem saber de ninguém assopram sua bruta força. E em Otacília. eu não pensava? No escasso. que era um escondido. pensei..Turvei.João Guimarães Rosa . Mundo. A chapada é para aqueles casais de antas. com ela passeava. – “Andorinha que vem e que vai. em rancharias sem morador? Isso. Eu tinha súbitas outras minhas vontades. Um dia. tanto. Se ela por mim rezava? Rezava. o em que se estava. Hoje sei. Nela. A fim. o birro e o garrixo sigritando. no laranjal de lá. eu voltasse para a Santa Catarina.. de mim a um tiro de pistola – isto resumo mal. por dormir meu sensato sono por cima de estados escuros. para esgaravatar terra e com eles os bichinhos comíveis catar.Grande Sertão: Veredas senvergonhagem. mel do alecrim. Mas levei minha sina. quando o ermo melhorava de ser só ermo. que toram trilhas largas no cerradão por aonde. os tucanos senhoreantes. não era para gente: era um espaço para os de meia-razão. para ser minha mulher. entrando e saindo até dos velhos currais de ajuntar gado. E era nessas boas horas que eu virava para a banda da direita. aqueles usos-frutos. chamando seus pintos. quer é ir bem pousar nas duas torres da matriz de Carinhanha. – 443 – . Otacília. Ou o zabelê choco. Para ouvir gavião guinchar ou as tantas seriemas que chungavam. de passar devagar a mão na pele branca do corpo de Diadorim.

Se não. que estimava irmãmente os cavalos. tudo o nada – nem caça.Grande Sertão: Veredas Ah. No mais. Zé Bebelo me indispunha com algum enjôo.João Guimarães Rosa . estava esperdiçando o consistir. quando falava. andante. sem juízo de raiz? Não se tem onde se acostumar os olhos. eu não queria ouvir. o sertão tonteia. A antes uma conversa com Alaripe. Zé Bebelo só tinha graça para mim era na beira dos acontecimentos – em decisões de necessidade forte e vida virada – horas de se fazer. Isto é assim. – “Vai cavacando buraco. A monte andante. nesses dias. Ainda que. no cível trivial. aí assim e assaz eu airei meu pensamento. Dias inteiros. ou com o Fafafa. deles tudo entendia. amanhecendo cada manhã num pouso diferente. ao adiável. Otacília era. ele resmungou. Mas Zé Bebelo. vai. Veredas. Digo que. nem codorniz. que tu vê!” – oco da paciência. ele menos falasse. Amormente. ou. toda firmeza se dissolve. minha noiva? Mas eu carecia era de mulher – 444 – . de se navegar sertão num rumo sem termo. A alma deles. isso ele não entendia. mestre em doma e em criação. nem pássaro. somente simples. O senhor sabe o mais que é. e o sabiá-preto canta bem. a bem-dizer. nem mortalma. O traquejar. Amor eu pensasse. Desde o raiar da aurora. Os tamanhos. aquela mente de prosa já me aborrecia. nada. E que o Hermógenes só fizesse por se fugir toda a vida.

se ocultando atrás de fechadas moitas. com a gente. feito o cagar dum bicho bravo. – “É essa natureza da gente.João Guimarães Rosa . Agora – e os outros? – o senhor dirá. o reparado – como ele principiava a rir. De Diadorim eu devia de conservar um nojo. homem sozinho sem par supre seus recursos também. Mas eu aos poucos macio pensava. nenhum cantava. Esses Gerais em serras planas. eu não tinha perguntado explicação. brancamente. No peso ruim do meu corpo. repondo a gente pequenino. ninguém não tinha viola nem nenhum instrumento.Grande Sertão: Veredas ministrada. Surpreendi um. O que eu queria era um divertimento de alívio. da vaca e do leite. redomão. antes de expor o riso daquela boca. duro. nos olhos. Como se eu estivesse calçando par de chinelo muito flote. eu ia aos poucos perdendo o bom tremor daqueles versos de Siruiz? – 445 – . botim reiúno. na gente.. meu senhor. como ele segurava a rédea e o rifle. Ali. beleza por ser tudo tão grande. e eu queria um sinapismo.” – ele disse. desses acordados em sonho: e via. naquelas mãos tão finas.. De mim. o Conceiço. quente. como ele falava meu nome com um agrado sincero. Ah. homens guerreiros também têm suas francas horas. ou dele? As prisões que estão refincadas no vago. que jazia vadio deitado. momento que raro se vê.

João Guimarães Rosa . e em mim tonto sonho se desmanchando. não dormia. Só os pássaros. a pé caminhei em redor do arrancho. confesso. por quê? Eu estava calado. Eu estremecia sem tremer. O senhor me entende? De Diadorim não me apartava. não tinha coragem. feito neblina noruega movente no frio de agosto. eu estava quieto. que eu estava no nãoacontecido nos passados. Saí no grande orvalho. pássaro de se ouvir sem se ver. Agora eu queria lavar meu corpo debaixo da cachoeira branca dum riacho. Ali se madruga com céu – 446 – .Grande Sertão: Veredas Então eu forcejei por variar de mim. Pois. deitado. de tudo me prostrei. em que eu. com dura mão sofreei meus ímpetos. não queria existir em tenção soez. sair de tudo o que eu era. queria pôr a mão onde ele tinha pegado. Eu não dizia nada. vestir terno novo. Anda que levantei. antes do romper das horas d’alva. para entrar num destino melhor. Porque eu desconfiava mesmo de mim. minha força esperdiçada. Cobiçasse de comer e beber os sobejos dele. que se esfiapa com o subir do sol. O que tinha era uma esperança? Mesmo parava tempos no pensar numa mulher achada: Nhorinhá. Mas o mundo falava. aquela mocinha Miosótis. Ao que me veio uma ânsia. a minha moça Rosa’uarda. A noite que houve.

para ajuntar com os antigos. Versos ditos que foram estes.João Guimarães Rosa . podia referir tudo que fosse de bem se guerrear e reger essa política. Consegui com o frio. De que é que aquilo me servisse? Me cansava. Vida é sorte perigosa – 447 – . Zé Bebelo podia pautear explicação de tudo: de como a gente ia alcançar os Hermógenes e dar neles grave derrota. conforme na memória ainda guardo. E vim vindo. descontente de que sejam sem razoável valor: Trouxe tanto este dinheiro o quanto. no meu surrão. Aí sendo que eu completei outros versos. para a beira da vereda. Mas. p’ra comprar o fim do mundo no meio do Chapadão. com suas futuras benfeitorias. esperei a escuridão se afastar. quando o dia clareou de todo. eu estava diante do buritizal.Grande Sertão: Veredas esverdeado. Um buriti – tetéia enorme. Urucuia – rio bravo cantando à minha feição: é o dizer das claras águas que turvam na perdição. porque num homem que eu nem conheci – aquele Siruiz – eu estava pensando.

e dessa movimentação – 448 – . a vida é assim: esquenta e esfria. Ao clarear do dia. também. todo dia é escuridão. O correr da vida embrulha tudo. Mas estes versos não cantei para ninguém ouvir. no meio da alegria. A virtude que tivessem de ter. de propósito – por coragem. um por um. e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente. aperta e daí afrouxa. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais. Será? Era o que eu às vezes achava. Assim. Aí o senhor via os companheiros. O que ela quer da gente é coragem. prazidos. Nem eles me deram refrigério.. pois eu mesmo nem acerto com o mote disso – o que queria e o que não queria. era por causa da boa camaradagem. deu de se recolher de novo em mim. na horinha em que se quer.Grande Sertão: Veredas passada na obrigação: toda noite é rio-abaixo. a modo que o truso dum gado mal saído. Sentimento que não espairo. e na estreitez da porteira embola e rela. estória sem final. por que se agüentava aquilo. não valesse a pena.João Guimarães Rosa . que em sustos se revolta para o curral. em beira do café. Acho que porque eu mesmo tinha inventado o inteiro deles.. sossega e depois desinquieta.

que eram. Marcelino Pampa. contava ao senhor qualquer patranha que prouvesse. um roxo esquipático. indo à frente. o senhor me ouça bem: Zé Bebelo. Joaquim Beiju. rastreador. que com o Sesfredo porfiava. eu bem combinava. perigoso nos repentes quando bebia um tanto de mais. feito boi geralista ou buriti em broto de semente. o Reinaldo-que era Diadorim: sabendo deste. de todos esses sertões dos Gerais sabente. e de minha melhor estimação. e assim – 449 – . Com todos. nosso chefe. o senhor sabe minha vida. assoviando imitado de toda qualidade de pássaros. segundo em chefe. cumpridor de tudo e senhor de muito respeito. o Tipote. sujeito ligeiro. porreteiro. que achava os lugares d’água. feito cão cachorro ensinado. cavalos que haja. que era de ferro e de ouro. o Queque. este nunca se esquecia de nada. grão-mogolense. capaz de abrir num dia suas quinze léguas. o Alaripe. o Acauã. o Mão-de-Lixa. o Marimbondo. só de se olhar para ele se via o vulto da guerra. quase todos. e que não sediava folga nem cansaço. Freitas Macho. faquista.João Guimarães Rosa . outro rastreador. e de carne e osso. que sempre tinha saudade de sua rocinha antiga. o Quipes.Grande Sertão: Veredas sempre. boa pessoa. desejo dele era tornar a ter um pedacinho de terra plantadeira. nunca largava um bom cacete. João Concliz. que nas mãos dele era a pior arma. não tive questões. Gente certa. o Suzarte. E no entre esses.

dizia-se que entendia de toda mandraca. José ]itirana. amigo em tanto. que me pedia para escrever carta. que só se dizia por ditados. Timóteo chamado.Grande Sertão: Veredas descrevia. homem desmarcado de forçoso: capaz de segurar as duas pernas dum poldro. Dimas Doido. caolho. pai e mãe dele tinham sido escravos nas lavras. da Cachoeira-do-Choro. que tinha sido carreiro de muito ofício. Guima. o Sidurino. filho dum lugar que se chamava a Capelinha-do-Chumbo: esse sempre dizia que eu era muito parecido com um tio dele. rapaz cordato – a ele fiquei devendo. quantia de dezoito mil-réis. antigo capataz arrieiro.João Guimarães Rosa . quase menino. o senhor já sabe. cozinheiro nosso. caçador muito bom. o senhor acabava acreditando que fosse verdade. o Preto Mangaba. o Coscorão. José Gervásio. mas constante que era canhoto. filho de todos no afetual paternal. só valente e esquentado. o Conceiço. que doido mesmo não era. o Marruaz. – 450 – . Jesualdo. o Feliciano. o jacaré. para ele mandar para a mãe. Jiribibe. guardava numa sacola todo retrato de mulher que ia achando. João Vaqueiro. o Moçambicão – um negro enorme. o Nélson. era do sertão do Abaeté. o Jequitinhão. até recortado de folhinha ou de jornal. Cavalcânti. que ganhava em todo jogo de baralho. só que muito soberbose ofendia com qualquer brincadeira ou palavra. competente sujeito. sem me lembrar de pagar. em não sei onde moradora.

o Duzentos. o irmão de um. Felisberto. até calango. João Bugre. José Micuim. Pedro Pintado. o Liberato. o Jalapa. que queria qualquer dia ir cumprir promessa. e Quim Queiroz. A mais. Zé Paquera. E – que ia me esquecendo – Raimundo Lê. Pau-na-Cobra. Durval Foguista. Zé Onça. Zé Vital. cobra. sempre cheirando a suor de cavalo.. aquilo – 451 – . João Vereda. Amostro. dizia que nunca tinha conhecido mãe nem pai. Domingos Trançado. puçanguara. José Félix. se deitava no chão e o cavalo vinha cheirar a cara dele. que nos dedos conto: o Pitolô. com movimentos desencontrados. o Trigoso. E os urucuianos que Zé Bebelo tinha trazido: aquele Pantaleão. Jõe Bexiguento. o Cajueiro. o Osmundo. Pereirão. o Jósio. e o Justino. entendido de curar qualquer doença. recital. sobrenomeado “Alparcatas”. no São Bom Jesus da Lapa. um José Quitério: comia de tudo. que da munição dava conta. caolho também. Zé Geralista. Todos juntos. o Testa-emPé. Remigildo. Leocádio. deste qual o senhor. de acender velas e ajoelhar adiante. Pacamã-de-Presas.Grande Sertão: Veredas tudo o que ele falava divertia a gente. gafanhoto.. Rasga-em-Baixo. Zé Beiçudo. um infeliz Treciziano. o Araruta. E Diodolfo. Acrísio e o Tuscaninho Caramé. os outros. Afora algum de que eu me esqueci – isto é: mais muitos. Nestor. Simião. Chico Vosso. Nhô Faísca. um Salústio João.João Guimarães Rosa . já sabe. ferrador e alveitar. para o senhor ver que eu me alembro. Pedro Afonso. o Fafafa.

Grande Sertão: Veredas tranqüilizava os ares. esta terra. na hora melhorei. Acreditar eu acreditasse.João Guimarães Rosa . todos prestaram em mim amizade de atenção. Atual. comedindo pompa com sua grande cabeça. perdi muito sangue. O que eu podia não saber era se eu mesmo estava em ocasiões de boa-sorte. o braço me – 452 – . então ele imaginou que eu estava descrendo. meu filho. guardo dentro daqui o resumo bem traçado!” – e ele pontoava com dedo na testa. Além de que Zé Bebelo comandava. de raspaz. aquilo vinha a ser até um consolo. Esse sertão. a gente tinha topado com turma de inimigos. Tudo já pensei e repensei. A ser. Apreciei a delicadeza dele. no final. retornados para lá por espiação. Raimundo Lê banhou com casca de angico.. mas eu levei uma bala. na carne do braço. E bastantes morreram. A liberdade é assim. que eu estou senhor dos meus projetos. porque. A verdade que com Diadorim eu ia.. numa volta do Ribeirão-do-Galho-da-Vida. depois de dois dias. e impor ao Hermógenes o combate. movimentação. Diadorim amarrou bem. Professor: arrumar esses bodes na barranca do rio. ambos e todos. não duvidei. – “Ao que vamos.” – Zé Bebelo preluzia. Só que. Assim de loguinho não aprovei. vamos. com pano duma camisa rasgada. Aí foi curto fogo. – “Agora coage tua cisma.

. sei. mas a natureza dele era limpa. nem parecendo ser. num quarto meio escuro. Admirei.. sem explicação. E do Rio-do-Chico longe não se estava. O que me sofria até nas margens do peito. lá esbarramos – é na beira da Lagoa Raposa. isso me perturbasse. não me concedendo movimentos. – “Retém as forças. e então nem viúva minha você não vai ser. sei que a inchação me cansasse muito.. “Ah.Grande Sertão: Veredas doía inteiro e inchava. – “Pode que nunca mais você me veja. cama-de-vento. passada a Vereda do Enxu. o ofendido secava por si. Assim a primeira vez que me sucedia um a-mal..” – era outro meu receio. não tinha almaviva de se ver. com coisa nenhuma não me importei.. então como é que faço? Não posso. Cacei um catre. Assim então por que era que não se avançar logo. e nos dedos da mão. Visitamos o fazendão vazio. sempre eu queria esbarrar pra água beber.” – Zé Bebelo menos disse. Riobaldo. na coxa e na perna. com isso rente se sarava. Vou campear o – 453 – . porque o José Félix também tinha tido ferimento. Muito temi por meu corpo. – “Se eu tiver de atirar. outros aconselhavam emplastro de bálsamo. Aí Raimundo Lê garantiu cura com erva-boa.João Guimarães Rosa .. minha Otacília” – eu gemi em mim. para atacar? – “Sei de mim.” Uns recomendavam arnica-do-campo. Mas onde era que erva-boa se ia achar? À Fazenda dos Tucanos chegamos. Desconheci. às duras marchas.

Assim onde era que estavam? – “Ao que estão em São Francisco e em Vila Risonha. Vinham de Campo-CapãoRedondo. é o que eu ouvi dizer. Se isso. me presenteou – 454 – .” Zé Bebelo.. que com seus camaradas viajando. com palavra merecida e vontade de estar bem com todos.. ali ficamos comendo palmito e secando em sol a carne de dois bois. Chefe. Se o boiadeiro sabia o nome do Promotor de Vila Risonha.João Guimarães Rosa . mais de uns cinqüenta. Que se estava em meio de perigos. Por que tinham riscado aquela grande volta? – “O senhor dá paz à gente. escutando. do Vigário. Tinha uma garrafa de vinho depurativo na bagagem. Os soldados! – “Os que soldados. do Governo.. No primeiro dia. Sim. nesses matos.. – “Dou paz. o boiadeiro não acertava dizer.Grande Sertão: Veredas remédio. se aquilo. em caminhada para Morrinhos.. A gente nos Tucanos ia falhar dois dias.” – Diadorim falou. O do Oficial comandante da tropa. apareceu um boiadeiro.. damos. Aquele boiadeiro era homem sério. redondamente. Só quis mais saber. A quieto. de tardinha.” – Zé Bebelo respondeu. o boiadeiro então achou que devia de as novidades relatar. mano velho?” Soldadesca pronta. do Delegado. e mais outros deles vão vindo chegando. amigos. Chefe?” – o boiadeiro perguntou. esses. e do juiz de Direito. do Coletor.

que tão depressa passaram. a casa-dos-arreios. e. eu senti meu braço melhor. na esperança de sal. pegou nele. no outro dia se foram. Essa era enorme – o corredor de muitos grandes passos.” – João Vaqueiro declarou. Mas o capim crescia regular. em redor. Tinha as senzalas. o qual veio para perto do jacaré cozinheiro. na raia do pátio de dentro. Nos Tucanos. e entraram no curral. Pousou lá. para a beira dos cochos. ali esquecido.. – 455 – . e estive mais disposto. com efeito. gado reboleiro. na do de fora. – “Não faz mês que o povo daqui aqui ainda estava. me fez bem. lajeado. Os dois dias ficaram três.Grande Sertão: Veredas com um gole. E era verdade.. Pois tinham desamparado um gato. muitas moradas de agregados e os depósitos. Não de todo. o engenho. pendurado na parede da sala-grande. vi aquela fazenda. e com um cruzeiro bem no meio. mansejavam uns bois e vacas. valia a pena. muito cedo. pois na despensa muita coisa se encontrando aproveitável. chegou na varanda. enfeite de abandono. suplicar comida. Andei andando. Até por dentro do eirado. Aí João Vaqueiro viu um berrante bom. uma ou outra respondendo. Nesse entremear.João Guimarães Rosa . e tocou: as reses entendiam. esse pátio de fora sendo largo.

encostado na outra banda. prazentes. Mas me chamou. tropear de cavalaria. no amiudar. Então vou?! Quem é que rala a minha mandioca?” – repontei. Pensei bobagens. seria o Simião. assim eu estava apreciando aquele catre de couro. tomar – 456 – . Respirar é que era bom. Até que escutei assoviação e gritos. e a picumã nos altos. – “A gente vai pegar a cavalhada. “Ah. os cavalos na madrugada. – “Estou enfermo. aquilo eu carecia de rever. os trastes grandes. Aí o que pasmava era a paz. mais o Fafafa e Doristino. Só assim acordei. sumido nos sussurros. que dormia num colchão. estavam bons para o orvalho dos pastos. compareci numa janela – era o dia clareando. Vamos?” – ele disse. O pessoal chegava com os cavalos. Aquele mundo de fazenda. Afoito. Diadorim.. o bolor. já tinha se levantado antes e desaparecido do quarto. Os cavalos enchiam o curralão. Virei para o canto.Grande Sertão: Veredas Madrugada. Pensei por que seria tudo alheio demais: um sujo velho respeitável. as barras quebradas.João Guimarães Rosa . áspero. a cal nas paredes idosas.” – de repente me lembrei. o conforto das arcas de roupa. por um rumor. antiqüíssimo.. corri. os cavalos!. Não gostei. Aquela moradia hospedava tanto – assim sem donos – só para nós. Ainda persisti numa madorna. no em que se ia partir dali. eu acordei ainda com o escuro. que estava dormindo no mesmo cômodo e tacteando se levantava. O Simião decerto ia.

. os Hermógenes!” – Diadorim aparecido ali. O que eu tinha era fome. Sempre sei quando um tiro é tiro – isto é – quando outros vão ser..” Simião? Perguntei: – “E o Doristino?” – “Ãã? Homem. aprontado. inimigos terríveis investindo.. o quê? Todos eram mais ligeiros do que eu? Mas ouvi: – “.. O que eu tinha era fome. caído como chuva: o rasgo de guerra.” – alguém me respondendo.. E deram um tiro. em carreira. Às tantas o senhor assistisse àquilo: uma confusão sem confusão. Antes de saber o que foi. não. outros bramaram. isto – 457 – . virei: – “Ah.João Guimarães Rosa . um homem esbarrou em mim.. O que eu soube.Grande Sertão: Veredas todos os cheiros. real. Riobaldo. me fiz nas minhas armas.. Saí da janela. o seguinte emendando: que nem sei como foi.” E eu ralhei: – “Basta!” Mas. Apertei minha correia na cintura. de rifle..” Assim era.. – “São eles. em minha frente. sobre o instante. verdadeiramente de repente. Deram um tiro.. e o Fafafa?” O que ouvi: – “Fafafa. e já estava embalado. Fafafa está é matando!. Respirar a alma daqueles campos e lugares. mais longe. Deram muitos tiros. Outros? Só Zé Bebelo – as ordens. – “Mataram o Simião e o Aduvaldo. Apertei minha correia na cintura. de sobrevoz. Aonde. não sei. Mataram o Simião.

na tocaia. é diverso de tudo. Mas eu me inteirei. eu sabia mesmo exato: a gente já estava debaixo de cerco. Medo nem tive. – “Eh. Para ele olhei. diferente. Aquele me apatetar – saiba o senhor – não deve de ter durado nem os menos minutos. supri a claridade completa de idéia. encolheu um ombro só. No átimo.João Guimarães Rosa . não deu para ter – foi outra noção. duma vez.” – inventei na mente. o tanto. cenho franzindo. Me salvei por um espetar de pensamento: que Diadorim. na folha da orelha. Feito cuspissem – o pôr e pôr! Senti como que em mim as balas que vinham estragar aquela morada alheia de fazenda. agora. ligeiro demais. Respirei depressa demais. as minúcias recontadas: as passadas dos companheiros. essas comuns tranqüilidades. no corredor. – 458 – . tiros e tiros que estavam contra nós desfechando.... por aí. Atiraram um horror. eu escutando. até ele anoitecer em meus olhos. e é tolo. o sanguefrio maior. E. o assoviar e o dar das balas – que nem um saco de bagos de milho despejado.Grande Sertão: Veredas falou. fosse mandar eu ter coragem! Ele nem disse.” Assim enquanto. Respirei os pesos. “Agora.. pus a mão no ombro dele. estamos perdidos sem socorro. Diadorim sacripante se riu. num só destorcer. pois vamos! É a hora!” – eu declarei. o tanto. E raciocinei a velocidade disto: “Ser pego. Eu não era eu. Atiravam nas construções da casa.

por entranqueirar o pátio de fora: tábuas. nem relaxa. por via nenhuma.. carregavam um caixote também. feito – 459 – . – “Riobaldo. Você dessa banda. Mais homens... com sacos de sabugos.. e para o engenho uns junto com Jõe Bexiguento. uma mesa de carapina retombada.João Guimarães Rosa . arma minha. Ainda reconheci o Dimas Doido e o Acauã.Grande Sertão: Veredas Achei especial o jeito de João Concliz vir. mais você. Meus peitos batendo tresdobro forte. Freitas Macho corria para a tulha. e você. Daqui não sai.. mais outro. Com outros. limpo.” – arrumação ele ordenava.. amásia. Arranjos de guerra – esses são engenhados sempre com uma graça variada. cangalhas e arreios. Tatarana: tu toma conta desta janela. eu dividido naquela alarida. ansiado cauteloso. Ação em que qualquer um anda – nessas semelhantes ocasiões – só encostado nas paredes – “Você fica aqui. tamboretes. sujeitos maneiros. com algodão em rama. traziam balaio grande... Tudo eles estavam transportando.. A grave escorei meu rifle. lá embaixo avistei Marcelino Pampa indo para as senzalas.. Você ali. Um daqueles urucuianos apareceu. diversa dos aspectos de trabalho de paz – isto vi. foram buscar outros sacos.” Arredado. com uns cinco ou seis companheiros. dito “Alparcatas”. deitados atrás do cruzeiro do pátio. você-aí acolá. o senhor vê: homens e homens repulam no afã tão unidamente.

mas sim porém sucinto pela boa morte – ao que a morte é o sobrevir de Deus. ele ajudado por alguns. pus o olhar.João Guimarães Rosa . Mas Quim Queiroz trazia mais munição. aí me cismei: e fiz. Abalavam fogo contra a gente.Grande Sertão: Veredas o meigo do demo assoprasse neles. de bestagem. como era que estava sentindo meu braço. Sei que o cristão não se concerta pela má vida levável. em seu posto em praça. amistoso. Atirei. arrastavam um couro. Sustentava. arrastavam no assoalho do corredor. o pelo-sinal. Eu então me alembrei de que estava com fome. Diadorim onde estivesse? Soube que ele parava em outro ponto. Ixe de inimigo que não se avistava. outra vez. contra o espaço da casa. Isso não é isto? Nonada. Preto Mangaba me oferecia dum pão de doce-de-buriti. mandado guarnecer ali. A aragem. picando – 460 – . era o Preto Mangaba. o couro esse cheio repleto de munição. espiei o desdém do mundo. repartia. entornadamente. Somente eu queria saber era se agüentava manejar. comigo junto. com todo o respeito. Aí ergui mão para coçar minha testa. ou até mesmo os espíritos! Suspirei. distâncias. Ao menos alguém fungou e me cutucou. Atiravam. Da janela da outra banda.

assim. o achispe. aí. Assim é que é.Grande Sertão: Veredas alvos a para a frente. Zé Bebelo chegou. nas manivelas da guerra. mais baixo. no próprio do coração.” – ele falou. Aquela guerra ia durar a vida inteira? O que eu atirava. – “Espera!” – ele mandou. – “Riobaldo.. Pelo que vinham também o Pitolô e o Moçambicão. ouvia menos. me transpor – 461 – . Tatarana.. se encostou quase em mim. não era a voz de autoridade. nos vãos das janelas. assazmente. o Marruaz. com Alaripe. Ah! E então. de jeito nenhum. a fito de abrir torneiras nas paredes – por onde buraco de se atirar. A de ver. no súbito aparecer. meio grosso – com o que era uma voz de combinação. José Quitério e Rasga-em-Baixo. zelante. Depois. Até meus estalos. Esses couros inteiros eram para a gente pregar lá em riba. puxando uns couros de boi. Mas o dos outros: assovios bravos. o Pacamã-de-Presas mais o Conceiço. no arrebentar. Aprendi os momentos. o que ele quisesse de mim? Para eu passar avante na posição. na barra da varanda. Guima e Cavalcânti. ficarem dependurados de cortinado bambo. socavando com ferramenta. João Concliz tornava a vir. Assim. À mira de enviar um grão de morte acertado naquelas raras fumaças dançáveis. que a cada. nas padieiras.João Guimarães Rosa . Todo lugar não era lugar? Não se podendo esbarrar. junto com o Fafafa. vem cá. Eu e eu. isto de ferro – as balas apedrejadas.

E ele nem me olhou. Mas o pensar de Zé Bebelo – ansiado eu sabia – era coisa que estralejava. Mesa de madeira vermelha. O depor meu rifle? Pois botei. de maior marca? Andei e segui... em beira de mesa. – “Senta. Dentro daquele quarto.. Escrever.. Era? Não sou cão. com recosto.” Caí num pasmo. sem cama nenhuma. Se era para sentar. o constante revirar e remexer da guerra. Zé Bebelo de revólver pronto na mão. tudo carecia mais era de ser depressa. Desentendi. pois ele. pequeno. Antes isto. deposita. para se ter ódio da vida: que força a gente a ser filho– 462 – .João Guimarães Rosa . que sei. inventaste e forte. botei com o todo cuidado. como que não entrava a guerra. presente que. Ofereceu a cadeira. mas que não contra mim – o revólver era o comando. mano. – “Mais antes larga o rifle aí. em cima da mesa. e me disse: – “Escreve.” – ele falou. Ali se tinha lápis e papel. Mas me levou foi para um outro cômodo.. esquinado de través. o que se via era uma mesa.. eu fui e principiei. que obedecer é mais fácil do que entender. numa hora daquelas? O que ele explicado mandou. respeitável. Mesmo me levou. cheirosa. com Zé Bebelo.Grande Sertão: Veredas para um lugar onde se matar e morrer sem beiras. cadeira alta. assentei. de pau. Ali era um quarto. não sou coisa.” – ele.

Sem determinação tomada de ir... eu também já estava lá. O Leocádio. na seca mão da necessidade. para o que carecia. O homem.. – “Companheiro ofendido.. qualquer. as costas amparadas na parede. Mas palavras que. para pensar por todos? Como que fosse. era pouco. – 463 – . que o asno rifle ele não tinha largado.” – ouvimos. por ali devia de ter. caído sentado. E Zé Bebelo não estava ali não era para isso. – “Escreve. de sorrogo.João Guimarães Rosa . Tinham de caçar mais papel. com a mão esquerda era que ele suportava sua testa. Conforme Raimundo Lê já tinha exigido.” O zunzum da guerra acontecendo era que me estorvava de direito pensar.” – me lembrei dessas palavras. o papel. quem tinha falado era Zé Bebelo. Enquanto isso. isso é que é capaz de me matar. mesmo. alguns vinham da cozinha. Sem-modos se precipitado... despautados. em outra ocasião. Zé Bebelo avançou para ali. o primeiro ferido.. para ver. eu cumprisse de escrever. atrás dele.. – “Ao que foi?” Uns gemidos. as pernas estendidas para diante. “Ah. E ouvimos praga de dor. o que eu não entendo.Grande Sertão: Veredas pequeno de estranhos. mas com a direita ainda segurava o rifle.

ai. o vermelho brabotava e pingava. faz vingança. em minha fantasia. faz vingança!” – Zé Bebelo aforçurou. – “Meu filho. também. Zé Bebelo se endemoninhava.Grande Sertão: Veredas trazendo as latas d’água. que ele estava me ameaçando. amanuense. suscitado de se voltar para a mesa.. pois falar era o que para ele custava e maltratava. tu agüenta ainda brigar?” – Zé Bebelo quis saber. às vezes achei.João Guimarães Rosa . E da lei. Raimundo Lê lavava a cara do homem ensangüentada. O teor era aquilo mesmo... – “Ei.” – ele regendo. garantiu que podia: – “O que posso. Ah. do Leocádio. Eu escrevesse... com mais urgência. má bala que lhe partira o osso. vamos. A massa do volume deles também dá valor. – “E da Lei. Pelo discorrer. outro para o excelentíssimo juiz da comarca de São Francisco.. revólver na mão. Segurou meu braço. – “Apresta. Semelhante só botasse apreço nos fatos por resultar. Que tenho esquadrão reiúno: esses é que vão vir me dar retaguarda!” – ele falasse. outro para o promotor. o que posso!” Sempre sendo a careta sem gracejo. então. Em nome de Deus e de meu São Sebastião guerreiro. O Leocádio. Esse estava atirado pelas queixadas. que fez careta. para se escrever. Escrevi. Acertei. Os bilhetes – missiva para o senhor oficial comandante das forças militares. se os – 464 – . o simples: que. menino. vamos ver. outro para o presidente-dacâmara de Vila Risonha.

A em pé. jaguatirica e onça – de toda a jagunçada maior reinante no vezvez desses gerais sertões. perdi e achei minha idéia. agora os soldados do Governo com ele se encontravam. somenos se cumprida a viagem de ida até em Goiás.Grande Sertão: Veredas soldados no soflagrante viessem. eu conseguia a alumiação daquela desconfiança. reunida – de lobo. os tristes e alegres sofrimentos da gente. sem repouso. E nós. era que ele. depois. A gente estava por conta dele – e sem – 465 – . tão claro e aligeirado pensei – os prefácios. Soubesse. o que ele tinha realmente feito. cidadão e candidato. A rasa. Assim. à justa. tive que olhei Zé Bebelo. no correr de tantos meses. Em que maldei. todos? Diadorim e eu. viva a Paz e a Constituição da Lei! Assinado: José Rebelo Adro Antunes. o pior. de rota abatida. a vingança em nome de Joca Ramiro? Nem eu sabia ao certo. e esbarrei. foi: aquilo não seria traição? Rasteiro. então aqui na Fazenda dos Tucanos pegavam caça grossa. e cerrar com fecho formal: Ordem e Progresso. sempre mais.João Guimarães Rosa . a célebre morte de Medeiro Vaz. não podia esbarrar de pensar. sem esperdiçar minuto. agora formada. o extrato da vida de Zé Bebelo. no grude dos olhos. Daí. por oficio e por espécie. não podia esbarrar de pensar inventado para adiante. No pique dum momento. Aquele tinha sido homem pago estipendiado pelo Governo.

Na janela. Ah as balas que partiam telhas e que as paredes todas recebiam. essa. Eu já tinha preenchido – 466 – . ali. A cada bala. que nós dois temos também de atirar!” Alegre dito.João Guimarães Rosa . “Traição?” – eu não queria pensar. – “Oi. O tiroteio já redobrava. como quando onça de-lado pula. tinham pendurado igualmente um daqueles couros de boi: bala dava.. zaque-zaque. munição não falta?. sem se rasgar. balangava e voltava no lugar.. o couro se fastava. nenhum – o portanto. Ouvi a guerra. – “Te apressa. empurrando o couro. então. ele mesmo já não teria enviado. Assim ele amortecia as todas. Tatarana.” – ele escarnecendo disse. Cacos caindo. safado capaz. brando. Nem se desprazia. Arre de espanto – ah. para isso era que o couro servia. o recado para os soldados virem. quando a canoa revira. no ter o choque. E ele tinha trazido o bando cá para perto do São Francisco. careci de querer a calma. xô! P’ra esses. quando cobra chicoteia. quando as descargas vieram em salva mais forte – o fiufiu e os papocos. desde tempos? Idéia. Desse de ser? Ao caminho dos infernos – para prazo! Aí. só com mossa feita. daí perdia a força e baldava no chão. Antes Zé Bebelo havendo de ser mesmo o chefe para a hora.Grande Sertão: Veredas repouso nenhum também. do alto. tinha querido falhar os três dias naquela fazenda atacável. Quem sabe. Decerto eu estava exagerado.

algodão trançado tinto. no meio da desbraga do quanto combate.” A traição.. que sempre duro e mole no ar se repetia. em remexidas gavetas. num vigente fevereiro. de tempos idos. Outras cartas. escreve. por Nicolau Serapião da Rocha. compra.João Guimarães Rosa . Não é do tutuco nem do zumbiz das balas. – “Escreve. xingatório. A fatura de negócios com escravos. na torração. E noticiando chegada em poder. quando ainda se tinha Imperador. então? Altamente eu escutava os gritos dos companheiros. mas do bater do couro preto. o Duzentos e o Rasga-em-Baixo agora ombreavam armas. filho. ligeiro. achado por ali. o que daquele dia em minha cabeça não me esqueço. esgueirados para a janela.. seu vez-em-quando a ponto atiravam. de tinta firme. nos quartos. Advindo que algum me trouxe mais papel. reverso dita.. mas a gente podendo aproveitar o espaço embaixo. no nome dele com respeito se falava. Só coisa escrita já. Assim como não pude. Que era que estava escrito nos papéis tão velhos? Um favor de carta. outra vez – e encarei Zé Bebelo sem final.. de remessa de ferramenta.Grande Sertão: Veredas três cartas. – 467 – . Aqui mesmo. adejante. ou a banda de trás. remédios. 11. os recibos. eu esbarrei.

no demoroso. de se espantar no ar.. e me disse... também. A letra saía tremida.. mesmo melhor do que o que eu sabia de mim. dos meus olhos.. – “A pois.. Uma bala no couro assoviou soco.. hã-an. porque fui. Devia ter me deduzido. ao pé: Zé Bebelo Vaz Ramiro. outra entrou atrás. mas. que ele esteve pego. Por que é que o senhor não se assina.. me engambelando: – “Ah. – sem querer eu fui lançando no papel a palavra. recachou. mas o exato das praxes impõe é outras coisas: impõe é o duro legal. Também pensei. a expedição de minha dúvida. Conheci.. Conforme. fui escrevendo.. assim. no usual de seu modo.. Meu outro braço também recomeçava a doer. Às vezes. fui.” – eu cacei contra..João Guimarães Rosa . como o senhor outrora mesmo declarou?. sem nem saber o que é que está produzindo-às falsas hajas! Mas ele não tinha surpreendido a verdade do meu indagar.” Aí. mas risquei. não se pode. entrou com o couro – 468 – . Muito alta e sincera é a devoção.. um atraiçoa.. “Traição”. Ato visível.Grande Sertão: Veredas – “Que é? Que é lá?!” – ele me perguntou. reperguntando. prazido consigo. quase’que. porque a vida é miserável. ah. Simples. Tanto que pensei.

ricocheteou e veio cair. De noite. Assim. no escuro feito. então.Grande Sertão: Veredas levantado. ia mandar dois cabras. que você não me entendeu? A gente obra jeito de se escapar. deu na parede defronte. que era muito difícil – eu repostei. apropositavam. até armador de rede era de chifre de boi. – “Que erro que foi?” Não viu. então era resumo certo que a soldadesca se movimentava de vir. cada um levava ruma igual daquelas cartas. quente. furando o cerco. naquela Casa. eu esperei o pispissiu de alguma outra bala. dos mais espertos viajeiros.João Guimarães Rosa . arrebentavam com os Hermógenes! – “E a gente?” – eu perguntei. eu queria.. para rastejarem por ali. – “Ãe? A gente? A ver. porque eu já tinha riscado. tinha um chifre de boi de se dependurar roupa.. tanto. perto da gente. os trapezavam.” Antes. Apareciam. Ia explicando. no cererê da confusão. Sumamente. Mas ele disse: – “Que é que é?” – se debruçando. – 469 – . Mas. e eles ou ao menos um deles conseguisse. Deus azado ajudasse. ele muito falou. Ali na parede. Soubesse por quê? O pensar caladíssimo de Zé Bebelo me perturbava.

se foge. se os soldados chegarem. do dito. por entre os Hermógenes. pode ser que se tenha sorte – mas mesmo assim sofrendo muitas mortes. Aí. Ao menos. Mas pego. Então. é o nosso recurso. Aí quem era que podia com a idéia daquele homem. algum lucro se – 470 – . a gente forçar um escape. e sem meios para descontar essas. mas fato é que eles chegaram a surdas. tomaram tudo quanto há de melhor.Grande Sertão: Veredas – “Ah. Mas tinha esquecido que estava era encostado em Zé Bebelo. brigando e matando. se outra. pois. Asseados.João Guimarães Rosa . é que estão. nessas posições. têm de dar o forte fogo primeiro contra os Hermógenes. pensa – esses Hermógenes não são mais valentes do que nós. dificultoso é. com tenção só na escapula. Tu entende? Mas. assim ele me respondeu: – “Pois era. que saldo é que temos?” – e Zé Bebelo. Tatarana? Olhe: escuta. Agora. sem alcance nenhum para se matar um bom poucado desses inimigos. meu filho. sagaz se rigozijava. fazendo neles muito estrago. Se não. no questionar. nesta hora. Eu disse isso. sim. com respeito. nem estão em quantidade maior. eu disse que a gente podia experimentar de fazer isso mesmo agora: furar uma saída. quem era que se sustentava? A foro. e nos cercaram.

eu parava perto de Zé Bebelo.João Guimarães Rosa . Daí eu tomava o comandamento. Ah. o competentemente – eu mesmo! – e represava a chefia. Mas fazia. Mais fiz.. não! Então. na hora de os soldados sobrechegarem. E eu vi. Se riu. eu abocava nele o rifle. fiquei sabendo: me queimassem em fogo. dava. que cantava pancada. eu dava muitas labaredas muito altas! Ah.. o que eu pensei – o que seguinte ia ser. pego a faca-punhal e o facão – 471 – . Ah.Grande Sertão: Veredas teve. me pisou.. pelo certo que a vida deve de ser. mas no armar de falar assim – ele era razoável. Mesmo não gostando de ser chefe.” Não nas artes que produzia. O senhor acha que menos acho? Mais digo. em chão. Matava. eu sendo capim. em a-cu atôo de acuado?! Um ror de meu sangue me esquentou as caras. eu sendo cinza. Riu? Eu sendo água. descrendo do enfado de responsabilidades. e forçando os companheiros para a impossível salvação.. me bebeu. eu estava ali. o redor dos ouvidos. e me ressoprou. e ficou formado um decreto de pedra pensada: que. tu vê o que se quer? Ah. Aquilo por amor do rijo leal eu fazia. E.. o que tu também quer. espremi as tábuas do assoalho. daí. efetuava. Eu apertei o pé na alpercata. pois não quer?!.. era capaz. “Aí. só uma vez. qual. ele fizesse feição de trair. e que. Desconheci antes e depois – uma decisão firme me transtornava. Antes veja. cachoeira.

ah.. a verdade duma coisa.. riso de escárnio. o senhor é amigo dos soldados do Governo. Mas fazia. Arre então. Riobaldo. E ele se sustou. e insensato resolvido tanto. com a alegria que me supriu: – eu era Riobaldo. um desprezo de dizer. assim. nem com Diadorim.. O que regeu em mim foi uma coragem precisada. Até chegar a hora. foi o ponto e ponto e ponto. que de homem ou de chefe nenhum eu não tinha medo. forte.João Guimarães Rosa . meu coração alto gritou. procedia. o que disse: – “O senhor.. na minha vida. Ele disse: – “Tenho amigo nenhum.” – tornei a pensar.” Eu disse: – “Estou ouvindo. chefe. E eu mesmo senti. ri. Riobaldo! A quase que gritei aquele este nome.. que mesmo acho que aquele. direitinho. eu não ia falar disso com pessoa nenhuma. quando eu experimentei os gumes dos meus dentes. para me constar. e terminei de escrever o derradeiro bilhete.Grande Sertão: Veredas grande. eu estive todo tranqüilizado e um só..” E eu ri. e soldado não tem amigo. E entreguei o escrito a Zé Bebelo – minha mão não espargiu nenhum tremor. fez espantos.” – 472 – .

estão juntos. e te apreceio. Tatarana: você por amigo eu tenho. Fechou a boca.” Eu disse: – “É.” Ele disse: – “Mas agora minha lei e a deles são às diversas: uma contra a outra. e feio ri. Tatarana? É a sorte dos homens valentes que estou comandando. Aí pensei que ele fosse logo querer o a gente se matar.” Eu disse: – “Então. Pois não é? Õ gente – deputado. para vantagem – 473 – . A sorte do dia. Agora..” Ele disse: – “Minha lei.Grande Sertão: Veredas Ele disse: – “Eu tenho é a Lei. E soldado tem é a lei. velhaca. Ele disse: – “Escuta. a coisa nenhuma. porque vislumbrei tua boa marca. porque estava com vontade.. pobres jagunços... sabe qual é que é. Mas se o senhor se reengraçar com os soldados. com certeza. ou de que você quer me aconselhar canalhagem separada. Mas ruim não foi. pensou bem. não temos nada disso.. de que você está desconcordando de minha lealdade.” Eu disse: – “Pois nós. Riobaldo. se eu achasse o presumido.... eu cutucava. o Governo lhe repraz e lhe premeia. por malícias. no carregoso.” Ah. O senhor é da política...João Guimarães Rosa . a gente. Zé Bebelo só encurtou o cenho.

. À janela. era o da banda do braço que doía. redondante. e escorei meu rifle. a vamos. com outra bala certeira.Grande Sertão: Veredas minha e sua. Agora. que afoitos! Ao tanto eu – 474 – . olhe. feito um coco.. por cima da palha de buriti que cobria uma casa de vaqueiro. com macacos e bananas! A cá. meu filho.. Se eu soubesse disso. lá dele.” Eu disse: – “Chefe. morte de homem é uma só. era obrar. Chefe!” Eu disse gerido.” Alaripe entrou.. duas balas. Diodolfo. a dor me doeu no ferimento do braço. Daí. na sala-dejantar.” – ele instou. aliviado. Adesfechei: e vi arrebentar em pedaços o casco daquilo. eu não disse copiável... disse: – “Eles estão querendo pôr mãos e pés no chiqueiro e na tulha.João Guimarães Rosa . Sei que Zé Bebelo sorriu. arma capital. cujo varei os peitos. E aqueles sujeitos estavam loucos? Cabeça de um se bolou.. Se assanham!” Eu disse: – “Dê as ordens. – “A vamos.” Eu tossi.. Zé Bebelo botou a mão no meu ombro. Ele tossiu. Ave. Agachei.. Outro afundei logo. com um tiro no pescoço.. certo. disse: – “O Jósio está morrendo. Mas cacei. correndo vindo. mordi meus beiços por essa causa.

Deixa que deixavam só uns dois dedos de corpo em descoberto lateral – e minha bala se comportava. não se deve. Pena. mas não errava. dever finezas a escorpião! Pena de errar algum. não gosto de relatar. parecendo que um fogo desenraizava tudo. esse deu um grito soltado. Esse ia pulando em lanço. servente. é até ao desamargado dos sonhos. mortes iguais. com um pano. sim: é de declaração. para um canto da cerca. Ria. esse repulou no ar. de arrancado. ah. Essas coisas. agora. Fiz conta: uns seis. ai dor doía. com um cabresto.. sei. e apontava. caíam. eu ter podia. respondia até na barriga. até a hora do almoço – meiadúzia. jajão. veja – 475 – . Conheço quando homem só disfarça. Menos. não são para que eu alembre. doesse que doesse. despois. Os outros uns.João Guimarães Rosa . mais vizinho. quando se encolhe somente ferido. – “Aperta esta minha parte de natureza. me passou dobras daquelas tiras. urubu já bicou. Trastanto. Eles. derrubei mais um. dos ocos. se tive? Vá se ter dó de canguçu. que me importava? – arrasos em redor de mim. companheiro!” – eu supliquei. chorejava. rasgou uma colcha de cama. Que eu ali. forcejava minha careta.Grande Sertão: Veredas gemia. ou mas quando retomba mesmo por desmanchado. só. Esse. Ao senhor. arrochadas. Alaripe. Mortes diferentes. aceitavam o poder da morte que eu mandava. de. Também. A cada que eu dava um tiro.. Como aquele meu braço me doendo. em um e um.

eu catasse de querer espécies de homens. que se riu: uma borboleta vistosa veio voando. Ao que bebi água. Ainda demos um tiroteio varredor. arroz. o vôo de reverências. O café que chupo. afora as pintas. como foi que eu achei gosto naquela comida. para não avançar nos lugares – pelos tirázios. feito se por cabeça ganhasse prêmio de conto-de-réis. viva. em boa hora. ali mesmo me trouxeram. eles desistiram para trás. carne-seca.. não achasse o que achasse – e era uma borboleta dessas de cor azulesverdeada. me gabou: – “Tu é tudo. quando junto com as balas. o tanto também bebeu. bebi restilo. a vida salvei: pelo medo que de mim tomavam. Mas mais. E então conto o do que ri. Ela era quase a paz. muita. às saúdes. Alto ela entendesse. Seria só por desconto de um começo – 476 – . de muitos. E Zé Bebelo. que o couro de boi levantavam.. que era: de feijão. e de asas de andor.Grande Sertão: Veredas e mire.João Guimarães Rosa . Aí. às ganas. o balançar da guerra parou. A comida para mim. Assim pararam. desandavam.” Antes Zé Bebelo me ofereceu mais restilo. O imaginar o senhor não pode. – “Ara. Riobaldo Tatarana! Cobra voadeira. maria-gomes e angu. antes entrada janelas a dentro. ainda batemos. maria boa-sorte!” – o Jiribibe gritou. assim repicava o espairar. para alvejar. todos em minha pontaria punham prezado valor. revindo. até para o almoço.

Grande Sertão: Veredas de remorso. na grande cidade de Januária. um dia. na Januária. Pensei: eu visse que traindo ele estivesse. eu no meio. no triunfal.. mas sem glórias de guerra nenhuma. ali.. – “Ah: o Urutu Branco: assim é que você devia se chamar. calado. a minha idéia se avançou por lá. outros em descanso comedido. Zé Bebelo – cortador de caminhos. Morria da mão de um amigo. E amigos somos. A ser: que entendia meu sentimento. Alembrado de que no hotel e nas casas de família. o povo morador. de um homem. uma flor – 477 – . do lado de Zé Bebelo. A ver. nem acompanhamentos. uns em seus pagáveis trabalhos. ele morria. naquela hora. a gente vai entrar.João Guimarães Rosa . onde eu queria comparecer. alguma delas com os cabelos mais pretos rebrilhados. e se conversa bem. A passeata das bonitas moças morenas.” – aprontado ele falou. se usa toalha pequena de se enxugar os pés. Jurei. tão socialmente. E. mas só até uma parte – não entendia o depoisdo-fim. na forte cidade de Januária. mas Zé Bebelo não estava do lado de ninguém. pensei. Aquele homem me sabia. Assemelhado a ele. juntos.. sim senhor. é o que ele esconde. entendia meu sentimento. desde. Ao que resposta não dei.. Amigo? Eu. Desejei foi conhecer o pessoal sensato. por me temer em consciências? A gente sabe mais. o confrontante. cheirando a óleo de umbuzeiro. Amigo? Eu era.

avistar o que se passava com Diadorim. À Januária eu ia.Grande Sertão: Veredas airada enfeitando o espírito daqueles cabelos certos. vi. livrava também meu amigo de todo comezinho perigo. Agora não caçavam uma vela.. nas grandes dornas de umburana. vinham e caíam. sem querer ser estorvado. Tiros altos. demasiadas. o Cavalcânti se exclamou – 478 – . Devia de ter se passado sem tribulação. o tempo. atravessado. – “Vamos levar para a capela. Diadorim guerreava. que me livrou. Ali. pensei que assim em pouco descanso. Assunto de um homem que estava deitado mal. torto. As raivas. ver o vapor chegar com apito. para em provisão dele se acender? – “Quem tem um rosário?” Mas. Ao menos. revoantes: eram os bandos de balas. mais Diadorim. morto no meio. naquela varanda. Assunto que era o Acrísio. nos assaltos.. Datado que Deus. a seu comprazer. porque meu rifle certeiro era que tinha defendido de tomação o chiqueiro e a tulha. a rapaziada suava. e então até a Casa. como perfeito se faz. sem deszelar. e eu estipulava meu direito de reverter por onde que eu quisesse. Assim essas cachaças – a vinte-e-seis cheirosa – tomando gosto e cor queimada. a gente esperando toda no porto.João Guimarães Rosa . no sobrevento. cuidando nos alambiques. daí desajoelhei e vim para a alpendrada.” – Zé Bebelo mandou.

os pescoços. o rasgável da alma da gente – no vivo dos cavalos. se deitando uns nos outros. que não tinham culpa de nada.” Arre e era. sacolejados esgalopeando. que era o destapar do demônio – os cavalos desesperaram em roda. o grave e rouco... Tiravam poeira de qualquer pedra! Iam caindo. e o relincho de medo – curto também. com a boa animalada nossa. trompando nas cercas. e eles. abrindo as mãos. numa tremura. quase todos. que reboldeou. as mãos cascantes. Iam caindo.João Guimarães Rosa . só os queixos ou os topetes para cima. e as crinas sacudidas esticadas. espinhosas: eles eram só umas curvas retorcidas! Consoante o agarre do rincho fino e curtinho. agora. retombados no enrolar dum rolo. os de tardar no morrer. ver aquilo. no desembesto – naquilo tudo a gente viu um não haver de doidas asas. Curro que giraram. batendo com uma porção de cabeças no ar. achatavam no chão. como urro de onça. uns saltavam erguidos em chaça. os pobres dos cavalos ali presos. Alt’-e-baixos – entendendo. a torto e direito. sem saber. e todos. soprado das ventas todas abertas. rinchavam de dor – o que – 479 – . cães aqueles. de raiva – rinchado. se viravam para judiar e estragar. tão sadios todos. Aí lá cheio o curralão. sem temor de Deus nem justiça de coração. escouceantes.Grande Sertão: Veredas – “A que estão matando os cavalos!. no esparrame. fazendo fogo! Ânsias.

que. o bicho largando as forças. tinham querido vir por se proteger mais perto da casa. Se aprumou. um ponto – as nádegas ancas mostrava para cá. ficou suspenso. não havia remédio. matavam conforme queriam. À tala. tão mansos. A cerca era alta. Só um. mal morridos. nem a gente podia ver como terminava. E. roncado. A pura maldade! A gente jurava vinganças. aquele rincho não respirava. eles. alheio.Grande Sertão: Veredas era um gemido alto. desde o começo. cochilasse debruçado na régua – que nem que sendo pesado em balança. que era o de Mão-de-Lixa e se chamava Safirento. Onde olhar e ouvir a coisa inventada mais triste. de uns como se estivessem quase falando. grossas carnes. nos bois e vacas. não – 480 – . Não se podia ter mão naquela malvadez. João Vaqueiro chorava. um cavalão claro. nas alças. a matança. Atiravam até no gado. se afundou para lá. os animais iam amontoando. os nossos cavalos! Agora começávamos a tremer. vinha de apertos. depois tombou para fora. ou saído com custo. Onde se via. e terrível – por no escasso do tempo não caber. Como a gente toda tirava lágrimas.João Guimarães Rosa . por arruinar. – “Os mais malditos! Os desgraçados!” O Fafafa chorava. aí. de outros zunido estrito nos dentes. eles não tiveram fuga. os Hermógenes. de sufocados.

eu vou lá. Acho que Deus não quer consertar nada a não ser pelo completo contrato: Deus é uma plantação. mesmo uma voz de coisas da gente: os cavalos estavam sofrendo com urgência. com a dramada deles acabar. A gente – e as areias. carnal. para morrer e não morrer. Mas não deixamos. – “Arre. porque isso consumava loucura. que era a espada de aflição: e carecia de alguém ir. Antes estavam perguntando por piedade.Grande Sertão: Veredas se divulgava mais cavalo correndo.João Guimarães Rosa .. e o rinchar era um choro alargado. Aturado o que se pegou a ouvir. em seus avessos. – 481 – . com pontaria caridosa. Não dava dois passos no eirado. Ah. eram aqueles assombrados rinchos. de corposo sofrimento. todos tinham sido distribuídos derrubados! Aquilo pedia que Deus mesmo viesse. os olhos formados. despregado. mas a fé nem vê a desordem ao redor. esbarrando uns nos outros. uma voz deles. em um e um. apagar o centro daquela dor. que levantava os couros.” – foi o que o Fafafa bramou. eles não entendiam a dor também. Nós rogávamos as pragas. Mas não podíamos! O senhor escutar e saber – os cavalos em sangue e espuma vermelha. para.. aquele rinchado medonho dos cavalos em meia-morte. livrar da vida os pobrezinhos!. eu vou lá.

se ser. a menção na idéia é a de que o mundo pode se acabar.. Agarramos segurado o Fafafa. – 482 – .. e que agora estraçalhados daquela maneira não tinham nosso socorro. combatendo no possível. dia-e-noite. as dores. esfregante. O senhor não sabe: rincho de cavalo padecente assim. excomungadamente. que é que o bicho paga? Ficamos naquelas solidões. Não podíamos! E que era que queriam esses Hermógenes? De certo seria tenção deles deixar aqueles relinchos infelizes em roda da gente. em balas se varava.” –. ou que desafina. Alembrar que tão bonitos.João Guimarães Rosa . Ah. cavalinhos nossos. e se pensa que eles viraram outra qualidade de bichos. Abaixado. noite-e-dia. dia-e-noite.Grande Sertão: Veredas e ele morria fuzilamento. e se entrar no inferno? Senhor então visse Zé Bebelo: ele terrivelmente todo pensava – feito o carro e os bois se desarrancando num atoleiro. enquanto a ruindade enorme acontecia. inda ora há pouco esses eram. o pêlo da gente se arrupeia de total gastura. que é que o bicho fez. fogo. daqui. sertanejos. traz a dana deles no senhor. em grande martírio. ah. tão bons. e às vezes dão ronco quase de porco. O senhor abre a boca.. o sobregelo. E quando a gente ouve uma porção de animais. de repente engrossa e acusa buracões profundos. A gente tinha de parar presa dentro de casa. no fim de alguma hora. Mesmo mestremente ele comandava: – “Apuremos fogo.. para não se agüentar.

no inimigo amoitado. Atirar de salva. nas peles de dentro. rezei! Sabe o senhor como rezei? Assim foi: que Deus era fortíssimo exato – mas só na segunda parte. disse ao senhor. Que eles – quem havia de não crer? – que eles mesmos agora estavam atirando por misericórdia nos cavalos sobreferidos. então. me subi para fora do real.. – “As graças a Deus!. se estava: o despoder da gente. esperava. Mas. com um alívio de – 483 – .. Com pranchas de munição que a gente gastasse. Adiantava nada. esperava.. vigia: olha lá..João Guimarães Rosa . meu de morte – eu militão. no arranhar dos órgãos. trescortado.. O duro do dia. no sombrio do corpo. com o curral naquela distância. não rendia. d’hoje-em-diante doravante. Assim. em ira de compaixão. “A faz mal. por meu conforme.Grande Sertão: Veredas dali. Ao que estavam. como até as pedras esperam. não alcançávamos de valer aos animais.. como um dia vai ser.” – exclamou Zé Bebelo.. não tem cavalo rinchando nenhum. e que eu esperava. não são os cavalos todos que estão rinchando – quem está rinchando desgraçado é o Hermógenes.” Assim o relincho em restos. alumiado. ele guerreiro. Aqueles cavalos suavam de derradeira dor. sempre temos de ser: ele o Hermógenes. para a eles dar paz. não faz mal. A pois. No que se estava. o Marruaz disse: – “A bom. Agarrávamos o Fafafa. mais de repente.” O que era.. segurado.

com as duas mãos apertando os lados da cara. descansamos os rifles. que conto ao senhor. e a lembrança daquele sofrer. pudessem se enralecer embora. em mais bravo. Ele existe – mas quase só por intermédio da ação das pessoas: de bons e maus. sim. devagarinho. reviro retentiva com espelho cem-dobro de lumes. se assentou no chão. se vê o sertão do mundo. com a valentia ele agora se chorava. é marmo!” – o Alaripe exclamou também. depressa. e cheio chorou. não conseguia: o quanto pôde. Durado de um certo tempo. Assim seja que o senhor uma idéia se faça. tudo recomeçou de novo. graúdo e miúdo.Grande Sertão: Veredas homem bom. – 484 – . mais prazo – até que o som e o silêncio. por em dobro não contar. o senhor já viu. Mas o Fafafa nem nada não disse. O grande-sertão é a forte arma.João Guimarães Rosa . depois. Coisas imensas no mundo. nem um tirozinho não se deu. Que Deus existe. Deus é um gatilho? Mas conto menos do que foi: a meio. Aí. Mesmo eu – que. feito criança – com todo o nosso respeito. Mesmo quando o arraso do último rincho no ar se desfez de vez. e tudo. Altas misérias nossas. a gente ainda se estarrecia quietos. então. um tempo grande. se esperou. guardo – mesmo eu não acerto no descrever o que se passou assim. O intervalo para deixar a eles folga de matarem em definitivo nossos pobres cavalos. – “Ah. para algum longe. E nisto. Daí.

Digo os seis. e quanto mais remoto aquilo reside. A gente povoava um alvo encoberto. Quem me entende? O que eu queira. em uma espécie de decorrido formoso. ou às vezes também. Agora. se der por os cinco ou quatro. servindo para a terrível coisa. Aí era um tempo no tempo. confinado. a lembrança demuda de valor – se transforma. a lisa e real verdade? A ser que aqueles dias e noites se entupiram emendados. Só que alargou demora de anos – às vezes achei. onde é que está a verdadeira lâmpada de Deus. num ataranto.João Guimarães Rosa . O senhor sabe o que é se caber estabelecido dessa constante maneira? Se deram não sei os quantos mil tiros: isso nas minhas – 485 – . também.. Vá de retro! – nanje os dias e as noites não recordo. o senhor saiba – é lavar ouro. Os fatos passados obedecem à gente. no zuo de um minuto mito: briga de beija-flor. de mim. não minto mais? Só foi um tempo. e acho que minto. já aprendi. cercados guerreantes dentro da Casa dos Tucanos. os em vir. Só o poder do presente é que é furiável? Não. por diverso sentir. isto o que é.. Esse obedece igual – e é o que é. por causa. acho que se perpassou. se compõe.Grande Sertão: Veredas passamos. Isto. Consegui o pensar direito: penso como um rio tanto anda: que as árvores das beiradas mal nem vejo. que mais idoso me vejo. A bobéia? Pois. Então. pelas balas dos capangas do Hermógenes. só.

as linhas e telhas da antiga casarona alheia. Aí os judas xingávamos. e qué’pe-te! que o morto morrido e matado não agride mais. Morreu o Cajueiro. aquele meu braço sempre piorava. para a gente se sortir. A sebo! De dor do calor de inchação. torcia por cima do braço. para não se ter medo é que se vai à raiva. Matem só gente viva!” – ele trestampava – “.. Assentes o reboco e os vedos. pipocava.. e em seus escuros paços se esquentava. carreou para mim. proprial. É coragem. Não foi. eu molhava bem um pano. em entremeio de atirar. o que o senhor vai é – ouvir toda a estória contada. rangendo queixumes. como logo o senhor vai ver. oé. Um pudesse narrar – falo para o senhor crer – que a casagrande toda ressentia. Ao por mim. mandando se atirar economizado e certeiro. – “Ah. aquela fazenda em quadradão. Rente Zé Bebelo andava em toda a parte. Para não se ter medo? Ah. Morreu mais o Berósio. hora em que pensei. o gotejado – 486 – . para que o medo não houvesse. estralejava. de bondoso. Porque. uma vasilha com água fria. Alaripe me cedeu. eles iam acabar arriando tudo. era o que para a gente antepunha defesa..” Aí cada um gritava para os outros valentia de exclamação.. traziam as quantidades de balas.João Guimarães Rosa . Não foi. meus filhos: não vão desperdiçar.Grande Sertão: Veredas orelhas aumentou – o que azoava sempre e zinia. O Moçambicão e Quim Queiroz.

. boca mole e sete fios de barba compridos no queixo. por perto. daqueles cinco urucuianos de Zé Bebelo. salteação. Surdo pensei: aqueles Hermógenes eram gente – 487 – . seria só por acasos? O urucuiano. Não desgostei da companhia dele. que o Salústio se chamava. Assim é o que digo: que. Apertei com ele: – “Ao que me quer?” Me deu resposta: – “Ao assistir o senhor. que a gente aprende o melhor. O senhor é atirador! É no junto do que sabe bem. Eu bati com a minha mão direita por cima da canhota. Solevei uma desconfiança. no instante. estranhei. Se riu. de repente: aquele homem. Notei. Comparsa urucuiano dos olhos verdes. Ainda nada não disse. que pegava o rifle.. Arreliado falei: – “Que que é? Tu amigou comigo?! Tatu – tua casa. Sempre o vulto presente daquele homem. Semi-sério ele se riu. homem muito feioso. muito sincero. para os bastantes silêncios. Um urucuiano.Grande Sertão: Veredas frescor de alívio. sempre me seguindo. O que tinha os olhos miudinhos em cara redonda.João Guimarães Rosa .. quando o tiroteio batia forte.” A verdade com que ele me louvava. conforme agradeci. Isso. e deixei deixada – gesto de jagunço..” – para ele. de lá.. sua bizarrice. coçou a barriga com as costas dobradas da mão – gesto de urucuiano. e daí de repente estiava – aquilo servia um pesado.. deles. fazia tempo que não se arredava de mim. Um companheiro sempre me ajudando.

então. a doideira não se figurava transcrita. Quando abria outra vez. sem porteira.Grande Sertão: Veredas em tal como nós. para espreitar meus atos. eu tinha de me ser como os outros. havia de ir esfriar sozinho. apostei. com a perna muito para trás. O ódio quase sem rumo. para eu não contar aos – 488 – . A prova que era: de que Zé Bebelo despachava traição. e agora se atravavam. Do Hermógenes e do Ricardão? Neles eu nem pensava. ajoelhado. As espumas dele me espirravam. ele mirava e atirava. Mas. não. Antes pensei outra vez foi no embuste do urucuiano. queria ver alguém vivo? Sosseguei. Aquele homem – achei – estava mandado por Zé Bebelo. a força unida da gente mamava era no suscenso da ira. por me valer. Será que fosse para o urucuiano Salústio no primeiro descuido meu me amortizar? Tanto. Atual ele se ajoelhava dobroso.João Guimarães Rosa . até pouquinho tempo reunidos companheiros. naquela vontade de desigualar. Agora. Atirava e fechava os olhos. Aí eu não devia de pensar tantas idéias. Ali. a outra muito para diante. eu sobrava fora da roda. O pensar assim produzia mal – já era invocar o receio. por quê? Então o mundo era muita doideira e pouca razão? De perto. Zé Bebelo me queria vigiado. Pois o urucuiano Salústio João mais olhei. se diz – irmãos. Porque.

Grande Sertão: Veredas outros a verdade. e eu também não precisava dele – da cabeça de pensar exato? Ao que. pegava um cansaço. a gente tendo perdido a certeza dos horários do dia. era só confirmação. chefes de homens. Fechasse a noite. Afã de dessossego. A anhanga que em riba da gente despejavam. em hora de começo de fogo. era dos que eu matava bem. Zé Bebelo temia que eu candongasse. Eu aqui – os de lá do lado de lá. era só. com retaguarda e reforço. eu não sabia pensar com poder. Traidor mesmo traidor. naquele tempo. Agora. Desse jeito foi que entardeceu. – 489 – . que uns companheiros tinham avistado os bilhetes eu escrever – o fato esquisito. mas por certo pensavam que era para fazendeiros amigos nossos. mediante trevas. Daí. tempestade – parecesse? Eu ia ter raiva dos homens que não enxergava? Podia ter? Tinha. Ora bem. enquanto o cerco de combate desse de durar. acontecer de trovões e raios. Ah. ofensa sem nenhum fazedor – quase feito uma chuva-de-pedra.João Guimarães Rosa . balaços de tantos rifles. Mas Zé Bebelo carecia de mim. Os Hermógenes não iam investir. assim. o perigo podia vir a ser maior. balas que quebram tetos e portas. rogando que viessem. Mas nem bem não era mesmo raiva. Aprendendo eu estava? Não sabia pensar com poder – por isso matava. o sol piscou. isso era desgraça sem mão mandante. Aí mandou o urucuiano fazer a minha sombra. toda.

Zé Bebelo tinha sua espécie de natureza – que servia ou atraiçoava? Ah. Arte que logo entendi. Zé Bebelo estava me convidando. – 490 – . Mas – dirá o senhor – por que era que eu também não delatava aquilo. de coronha e faca? Morreu mais o Quiabo. Tudo em encoberto.. e cada um levava seu punhado de bilhetes.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas para um fim ali dentro. Aos perigos. era para surtirem. Então – se Zé Bebelo guardava uma tenção honesta – por que. chegava. os perigos. enfiada numa garrafa. Só que eu ia vigiar sempre Zé Bebelo. os efeitos e projetos. e motivos não perguntaram. Aí as lamparinas e candeias não bastavam? Debaixo dum alumiar de candeia. para um segredado. Outros atestavam uns ferimentos. saindo rastejando. Por uma banda um. Ele tinha mandado vir Joaquim Beiju e o Quipes. acendeu. Por se necessitar da capela. ao menos a Diadorim e Alaripe eu não contava? Deponho que não sei. para eles todos. aqueles dois. depois eu ia ver. Vela sozinha. os defuntos a gente foi levando para um cômodo pequeno e sem janela. dito e feito. Agora.. era que não punha todo o mundo ciente do tramado? Ainda esperei. enviados. vivo. Ele trair. Assim eles aceitaram de cumprir. eu não deixava. que era pegado na escadinha do corredor. Só duma coisa eu forte sabia. o outro da outra: o que Deus aprovasse. Alaripe apareceu com uma vela. conforme o quiçá.

eu punia. não se atirava de parte nem de outra. – “Noite é p’ra surpresas de estratagemas. eu devia de ser inteiro leal. cortar um de-comer. mas também só ele podia ser a salvação nossa. Então. o clarão das pólvoras marca denúncia do lugar do atirador. eu ia ver se. noite é de bicho no usável. foi dando um tão respeitável silêncio. eu mesmo. A noite breava própria. o jacaré mesmo combatia também. conciso dever de homem. então. arranjar matula. Mesmo por causa da gente – porque Zé Bebelo era a perdição. às vezes em que não estava cozinhando. A que ele soubesse de minha lei: a que ele sem um aviso não se desgraçasse. O cearense bom: esse permanecia em tudo igual. com o Mijafogo.João Guimarães Rosa . com ele a gente desproduzia qualquer remorso.Grande Sertão: Veredas Ah. Por uns assim. ele ia querer se estrapafar. a gente mesma ficava na cautela de não se fabricar rumor nenhum.. Por uns.” – o Alaripe baixo falou. Aos poucos. de não se pautear sem necessidade. no engasgo da hora. Por essa volta. Mas. o espremer na franca fala. o brigar parava sendo obrigação de vivente.. eu carecia de encostar Zé Bebelo. o mais escuro ia ser regulando em antes das dez horas. De noite. Joaquim Beiju e o Quipes ainda foram na cozinha. que quando depois podia subir um caco de lua. e vinha atirar. – 491 – . assim. da beira duma janela.

de destorcerem o veio do rego. Aonde iam ter sortimento de veneno. um parava acordado. Ao quase. descia e passava ainda por baixo da coberta. que. é de demover o rego. Dava o ar de querer saber o mundo universo. mesmo. administrava.João Guimarães Rosa . revezados. sem arrisco. encostado. A água para a serventia da casa vinha num rego. carecia de subir para cima daquele homem. pelo mais pensável. Onde perto de cada um dormindo. Só isso era o que valia. Eu tinha de encher de medo as algibeiras de Zé Bebelo. ele não dormia? Sendo esse o segredo dele. Fizemos. Contra o quanto. para sono e sentinela. Zé Bebelo. no lateral. lá em riba. não descumpria de praxe nenhuma. então. Ao se fossem também empeçonhar o de beber? Toleima. botar fácil a gente a seco.Grande Sertão: Veredas com ele eu ia falar. todo o tempo.. Até o derradeiro final.” – Zé Bebelo ponderou. – “O que eles hão-de. eu carecia de armar um poder. fresca abarulhava. ele lavorava em firmes. Mas. o quieto desafio. Outros rondavam. Mandou reservar quantia repleta: as vasilhas achadas e procuradas. para águas correntes corromper? – 492 – . correu água bastante. que beirava a cozinha. Determinou o pessoal.. Adiantava? Aí não adiantasse. nunca que sucedeu aquilo. A gente podia encher as latas. Mas.

num vão de buracos. ou menor do que a nossa. os linguados de papel – eu compartia as culpas. dum e doutro.. aí deu ordem de outra coisa: que todos aproveitassem o sem-lua para suas necessidades boçais. até desapontado.. e é também que eles não conhecem o interior desta boa casa. tu vem comigo. Por que era que ele me escolhia. – “Riobaldo. porque tu é – 493 – . Ele devia de ter ido até longe..Grande Sertão: Veredas Deus escritura só os livros-mestres. da banda das senzalas..” Falou o tanto. Tatarana. ele podia ainda vir a precisar de ser matado.. por mão minha. Não chegam a ser contrários para mim!” – ele muxoxou. Por via disso é que não tomam coragem de dar assalto. sem idéias. e se virou para mim.. – “Inimigo que faz igual numeração. A modo que eu. amanuense. comigo. e revestido com as roupas bem pretas que arranjou. como rato em beira de paiol – que coruja come. Eu estava em claro. A gente ia. no incerto. Os beócios.João Guimarães Rosa . engatinhando por mais escuro. em Zé Bebelo. Assim Zé Bebelo instruiu. quase que tinha perdido toda minha fiança. Eu tinha preenchido aqueles bilhetes e cartas. A invencionice de ambicioneiro. Queria era farejar com os olhos o reprofundo. A amizade dele eu para longe de mim já encostava – porquanto que. para os sussurros segredar? Me achava comparsa? – “. Na noite Zé Bebelo saiu. aquelas tapadas estâncias. Voltou.

Apatetado? Nem não sei. fica de estado-maior meu.. ele foi de rajada: – “Ao silêncio. no gaguejável... Todo fiquei outra vez normal demais. A para ver como é. Riobaldo Tatarana! Eh. que eu estava com essa razão na cabeça.” Pelo que repontei: – “É. Ali era a alçada para eu fazer e falar o que já disse. e eu a meio me estarreci – apeado.” – ele avolumou. Tive medo não.. Agüentei não falar adiante. Zé Bebelo luziu. o que eu não queria.João Guimarães Rosa .. Me inteirei. Ali. O que será vai ser ou vai não ser.” – 494 – . que será vai ser.. Se tanto. mas é na hora da situação. e esse urucuiano Salústio vem comigo.. era a vez. Senhor sabe por quê? Só porque ele me mirou.. no mau falar. Eu vou. goro.” – alastrei. pensei: “É a minha viveza. Vou com o senhor... estou junto perto. Aí. com o senhor. eu sou o Chefe!?.Grande Sertão: Veredas ponteiro bom. Só que abaixaram meus excessos de coragem. melindre. só como um fogo se sopita. ainda mais mor. Tive moleza. e o urucuiano Salústio vem comigo. Tive medo não. arrepentinamente. na hora horinha... para ver.

Sentei em cima de um morro de grandes calmas? Eu estava estando.. Tive medo não. tão docemente. titiquinha de lugar – aonde se podia cravar certeira bala de arma. naquele peito. Imaginar isso..Grande Sertão: Veredas Saiba o senhor – lá como se diz – no vertiginosamente: avistei meus perigos. mas não existe.. Aí eu não me formava pessoa para enfrentar a chefia de Zé Bebelo? Agora.. não sou nada. em mansas idéias. Nem nunca existiu.. aí.. Sou a – 495 – . depois ouvi minha voz. desvislumbrado. como os olhos fechei. Só aquele lugarzinho mortal.João Guimarães Rosa . Aí como as pernas queriam estremecer para amolecer. Aceitei os olhos dele não. não sou nada. Mas agora não tinha outro jeito.. nem sei... quando minha tosse ouvi.. agarrei de olhar só para um lugarzinho. Avistei. Tem esse chefe nenhum. pinta de lugar. eu não estava mais aceitando os olhos de Zé Bebelo me olhar. Tem criatura nem visagem nenhuma com essa parecença presente nem com esse nome. nadinha de nada. Ah? Mas.. “No mundo não tem Zé Bebelo nenhum.” – eu estabeleci.. Não sou mesmo nada. Nada mais nada... E eu sou nada. pois. de nada. que falando a dável resposta: – “Pois é. Até.. Chefe.. no curto. Teso olhei. Existiu. na veia grossa do coração.

O senhor sabe? De nada. ele ia não poder trair. mas meditado muito.” – para alargamentos. o que nem era palavras. Esticou o beiço. soube. inteiramente. Agora. – “A bem. De nada. O que eu tinha feito? Não por saber – mas somente pelo querer – eu tinha marcado. De nada. Daí desapartamos. no amiudar-do-galo o tiroteio já principiava renovado. falei. Aquela noite.” Ao dito. eu para a cozinha. As surpresas.Grande Sertão: Veredas coisinha nenhuma. ele disse. dar de rédea para trás – do avançado para traição. meu quinhão dormi. simples.. Murmurei o sosso de coisa. Eu estava com o bom jogo. Mas só os tiros espaços – para não esperdiçar. Tatarana. aparvada. Ele não tinha medo? Tinha as inquietações. mas havia de raciocinar as vezes. Adiantava? Ainda falou: – “Ah. Agora. Tu vale o melhor. A certa graça. qual.João Guimarães Rosa . o menorzinho de todos.. Achei. o senhor sabe? Sou o nada coisinha mesma nenhuma de nada. ele ia pensar em mim. e render – porque eles estavam procedendo – 496 – . a situação dele. modo generoso.. Tu é meu homem!. espetaculava.” – amém. Ele expôs uma desconfiança perturbada. logo. vamos animar esses rapazes. Bateu três vezes com a cabeça... ele para a varanda.. Zé Bebelo então se riu. Sei disso.. Assim eu tinha acertado. por quê? Mas Zé Bebelo me ouviu..

assaz eles baixavam. Fui ver o madrugar a manhã: uma brancura. foi tornar a se ocultar debaixo dum catre. ocupei meu oficio. – “Sape! O gato está lá. No menos. soltado. a gente ouviu miados. de mosquetear. noutro cômodo. abanassem aquele fedor. Ah. mesmo sendo enorme: os companheiros falecidos. A tanto. que quem bem-trata gato consegue boa-sorte. surripiadamente. rebicavam grosso.. A ganho. clareou o céu com o sol das barras. O fedor revinha surgindo sempre.” – algum gritou. em réu. o igual imediato. quando dava que rondava o vento. a catinga no ar aumenta. na cerca. urubu. Quando pulavam de asas.. Avistante que os urubus já destemiam o se combater dos tiros. Saiu. na saladefora. o curral fedia. que sim. que rolou. mais de um homem derrubei. por tapar a soleira da porta se forrava com algodão em rama e aniagens. O senhor sabe: no levante. Aí eu não queria provar de – 497 – . Mas o curralão já estava pendurado de urubus.Grande Sertão: Veredas como nós. sei que defini.João Guimarães Rosa . bordada em bastidor. era o gato. para o chão do curral. acomodados acucados. depois paravam às filas. os usos como eles viajam de todas as partes. traspassava. A guerra fina caprichada. Se taramelou o quarto. depois. Carecia de se oferecer a ele de comer. conforme as vazas. passarão dos distúrbios. Mas – perdoando Deus – tresandava mais era dentro da casa. O dia andando. E.

em sua fazenda do Canindé. de Zé Bebelo eu risse. no derradeiro durar. anoitecer – galopassem em algum cavalo arranjado nos campos. resistiu ao cerco de Cosme de Andrade e Olivino Oliviano. O prazo que ali assim íamos ter de tolerar. quase só para espiar. que. de desde a madrugadinha até à viração da tarde? Mas ninguém falava em Joaquim Beiju e no Quipes. roi farinha seca.Grande Sertão: Veredas sal. traquejando nos caminhos. ou eles já estavam arriados pelo inimigo. se botou o corpo por cima dum banco na sala. Morreu o Quim Pidão. estive perto de Diadorim. Na casa toda. no carrego da guerra. O dia envelhecia. Montante de outras coisas ainda podiam suceder. com punhado de rapadura. provisório: ninguém não queria mais coragem de ir abrir com presteza o quarto dos defuntos. Assim – entardecer. por vil remédio.João Guimarães Rosa . e o tempo da gente eles estendiam. de comer somente os couros assados – conforme o caso terrível de Dutra Cunha. Agora. Zé Bebelo bem sabia a história dele. minha tenência pegava a se enfraquecer. com agrado. um caneco de creolina. Será que haviam de vir os soldados? Aquele outro – 498 – . A uma hora dessas. A roubo. De ver Diadorim. Outros receios eu concebendo. quase sem a conversação. como que não se achava um litro de cal. ou então. Esse Dutra Cunha era o homem de um olho só. A gente até carecesse. a rumo de cidades. de um diabo.

quando se sobrecarregava um rir. os que estavam mais longe mandavam saber o porquê. morreu mais o Acerejo.” Acesso que passava a estado meio – 499 – .. querendo às ânsias coisa ou criatura em que se agarrar. um Zé Vital deu ataque: o qual era um acesso sacramentado de feioso. e caía estatelado no chão.Grande Sertão: Veredas dia. com dez janelas por banda. A dita morrinha. e aprofundada até em pedras de piçarrão a cava dos alicerces. o onde esbugalhava os olhos.João Guimarães Rosa . Se disse: – “Isto é doença velha pertencida. e rançava. puxavam um fio de ar. não acrescentavam cangalha aos pesares. De embiricica. o cheiro de morte velha. entrantes as balas vinham. A Casa acho que falava um falar – resposta ao assovioso – a quando um tiro estrala em dois. lascassem! Mas os companheiros por conta à-toa riam. dois. A resto. ou gritavam por perguntar.” – sempre um dizer. em empenho de combate. aquela casa tão vasta em grande. ele mesmo já sabia a data – e daí proclamava um grito de porco com frio. A Casa dos Tucanos agüentava as batalhas. principiando depois que ele se queixava de sentir o nariz quente.. escumando.. Eh. até a água que se bebia pegava na boca da gente. A tudo. Mesmo. a boca aspumada. duro como um cano de arma. mas atazanava batendo com os braços e pernas. – “O mau-fétido que vai terminar mazelando a gente. isto não é fato de guerra..

A cada que cada.João Guimarães Rosa . Aí tudo navegava. no restante do mundo. de da alma não se reconhecer. que se esparramava. não maneja. mesmo. A Bigri. A minha terra era longe dali. com a morte nova em – 500 – . Diadorim. Aquilo era o crer da guerra. no extrato. em febre de acertar e executar. o encovo. A Casa estava se enchendo de moscas. eu estava trazido ali. O sertão é sem lugar. elas presumiam o sujo. De ver Diadorim. a gente não alcança fechar as portas. os olhos rajados de vermelho. mulher minha mãe. Ao para a tarde. com a morte da banda da mão esquerda e da banda da mão direita.Grande Sertão: Veredas semimorto. para a noite. e a moscaria. Desdenhei Diadorim. que. num vago – pois deitaram o Zé Vital numa canastra de couro. Alta manhã – em tudo repetido o igual: o cantar do rifleio. no meio daquela diversidade. em penca maior. dessas de enterro. Por que causa? Porque Joca Ramiro constava de assassinado morrido? A razão normal de coisa nenhuma não é verdadeira. pretejavam. Para as coisas que há de pior. só forcejava por vingança – punições maravilhosas. despropósitos. não tinha me rogado praga. afora o feder ruim dos mortos e cavalos. não tomava consigo muita cautela. Arreneguei do que é a força – e que a gente não sabe – assombros da noite. Mesmo com a minha vontade toda de paz e descanso. a cara muito branca. as produzidas.

por meu querer governada. com tantas vertentes e veredas. de cada uma pólvora. e eu – 501 – . para se ter um recomeço. tiros vinham. O inimigo nunca se via. formosura dos buritizais. E isso era. Carecia de que tudo esbarrasse. descido na inferneira. bala estripitriz. A mãe morte. Arte. O que era isso. esse morria? – “Õ xente! Não é que pegaram em mim. por via. e o trapuz de nossas telhas se despencando. que a desordem da vida podia sempre mais do que a gente? Adjaz que me aconformar com aquilo eu não queria. parecia até ódio de gente velha – sem a pele do olho.Grande Sertão: Veredas minha frente. Ah. Sem Otacília. Pela última vez. revestidos com moitas verdes e folhagens. artimanha: que agora eles decerto andavam disfarçados de mbaiá – o senhor sabe – isto é.João Guimarães Rosa . embaiados assim. Adequado que. mas. sempre escapavam muito de nosso ver e mirar. que era para ser dona de tantos territórios agrícolas e adadas pastagens. Quem devia mais. momental meu. minha noiva. no afã de escopetear. Diadorim carecia do sangue do Hermógenes e do Ricardão. Dois rios diferentes – era o que nós dois atravessávamos? Do lado de Diadorim restei. no fatal. na fumacinha expelida. nem bem o malmal. por Diadorim: que o ódio dele. eu senhor de certeza nenhuma. por uma desforra. A tristeza. um tanto. deles. Eu queria minha vida própria. pelas últimas.

mais um dedo e outro dedo dobrado. A vitória e os urubus.. que gostava sempre de deixar primeiro tudo piorar bem. que queriam dar saída e lanços. mas. que não se sujeitavam mais de dormir. Antes quase rindo se acabou. quando descuidou a meia-banda e levou em si uma carga total. obrava. que eu nele não ia poder nunca mais amontar. A caso de se ter mão na nervosia deles.. E eu cri. ficou tão de olhos. no complicado. como constante pensava e repensava. meu cavalinho pedrês. Zé Bebelo. – “O que é que ele vê? Vê a vitória!. a gente. Assim sendo.. meus filhos. e o Manuelzinho-da-Croa. – 502 – . as partes das pernas se esfriavam. Assustava era o alopro dos companheiros. avançar no ar. que a farto comiam. estavam pertencidos perturbados..” – Zé Bebelo media os modos de valer. agora.” – exclamou o Evaristo Caitité. Fôlego e paciência.. Doidagem desses comuns repentes. Um gole de cachaça me deu bom conselho.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas estou passando. estou ficando cegado?. a gente sempre tem – é só requerer e repuxar. só o remedeio. extraordinárias.. A um jeito de se escapar dali. Ele já estava sem jogo nenhum no corpo.” – Zé Bebelo se cresceu no dizer. o desfazer do ajuntado. a salvos? Zé Bebelo era a única possibilidade para isso. com as esperanças. Sem a vinda dos soldados – se viessem – a gente não estava perdidos? Zé Bebelo não era quem tinha chamado os soldados? Ah. – “A firmeza.

está ouvindo. Só não ri. Não deu. e pôs a cara no meio da luz. para o trabalho de imaginar maior. o conseguinte. mesmo porque os mais não conheciam aquele motivo. que não era de ruindade e nem de bondade. – “Aí. conscienciado. achar alguma outra invenção – para resolver o final com acerto para a vitória de nós todos – sem traição nem airagem. que tomasse conta. estavam chegando? Era.” – eu meditei. quero ver se resgato de abater. Zé Bebelo carecia de rédeas de um outro diverso poder e forte sentir. acreditado. até vir o sereno do anoitecido. Zé Bebelo não ia mais trair. está ouvindo?” – ele disse. de nada não soubessem o tencionado. dos Hermógenes. A tanto. – 503 – . Eu sabia. Não pude. Aquilo foi num dia. fingia não conhecer minha vigiação. então. pelo rumo do sol. a soldadesca tinha vindo. Agora. ele tinha de especular. Tatarana Riobaldo. Ele mudou de lugar. foi que Zé Bebelo pegou em meu ombro. alcançada. Zé Bebelo. mesmo nos relances de me olhar.João Guimarães Rosa . Era! Remexendo um rebuliço. de afinar a cabeça. não ia – e isso só por minha causa. Mas ele se estreitava em meus palpos. desse rumo a ele. afetava. Ouvi! Mas. cri. de nós todos. O que houve. Assim eu estava sendo. com um sorriso de tão grandes brilhos.. “Ao menos outro deles. devia de estar sendo por volta de umas três da tarde..Grande Sertão: Veredas agora. Os praças? O tiroteio deles. Sabia que Zé Bebelo era muito capaz.

aquilo a vir gastava as minhas forças. eu tinha de tomar assumida a chefia. feito um capitão de vento. desde vez. Dele de perto não saí. meninos. bala. os homens não iam me obedecer.. Ali – sem a vontade. e mandar e comandar? Outro fosse – eu não. Capaz de me entender e de me obedecer. Era. O cano de meu rifle era tutor dele? Antes de minha hora. era que podia ser o meu segundo. isso.. nem eu não sabendo bem por que. só mesmo Zé Bebelo. surpresa bruta.Grande Sertão: Veredas pegando os Hermógenes de supetão. Andando que Zé Bebelo falecesse ou trastejasse. é custoso não ficar com a cara de demônio. nem de me entender eles não eram capazes. Aí arrejarrajava. mas era preciso. a bala.João Guimarães Rosa . Até destroçavam também nas custas da Casa? – “Apre. Zé Bebelo trepava em altas serras.. bala. no que ele mandasse opor e falasse eu não podia basear dúvidas. faz mal não.. foi – 504 – . Que vencia! Quem vence. Se fiz de saber.. mas por mais do que todos saber – eu estava sendo o segundo. bala.. a atenção e ordem ele recomendava. que eram: . A vantagem do valente é o silêncio do rumor.. Mas. bala.. Jesus e guia! É baixo. nos casos. Os tiros. somente. A jus – pensei – Zé Bebelo. de retaguarda.” – Zé Bebelo sentenciava. Estúrdio. eu o motivo não sabendo.. bala. Duvidava de nada.. – desfechavam com metralhadora. a bala: bá!.

Só o que restava para mim. no tempo da quelas horas.João Guimarães Rosa . nesse ensino de onça. Aí já se via o dia quase em fim. como se escasso quisessem briga. – “Soldado pede é cautela. para me espiritar – era eu ser tudo o que fosse para eu ser. A gente sobrossosa. só os tiros salteados. Nenhum dos companheiros estava desinquieto. e o dobrosoldo. assim por detrás dos buracos dos ouvidos e dos olhos? Mas as pernas não estavam.Grande Sertão: Veredas pior. Ao que jagunço é isto – o senhor ponha letreiro. Minha mão. Aquela era a ocasião mais arriscada. da Fazenda dos Tucanos. Astúcias que manobrando em esconso deviam de estar. Dos soldados e dos judas. Ao encosto no rifle e apreparo nas patronas – isso era o que bastava. o que era que se esperava? Só Zé Bebelo decerto podia responder. a cá e lá. Com a chegada – 505 – . Onde o normal. para o remate de dar bote. Agora.. Ah. traiçoeiros todos. meu rifle. em muitas formas. quase que não se ouvia empipoco de arma. pelo jeito melhor de pegarem o encoberto dos lugares. O medo resiste por si. Nenhum conversava precisando de saber a maneira de escapulir vivos dali. querendo enrolar os outros. mas ele não dava senha de mudança. para trás e para os lados.” – acho que um disse. O que é que uma pessoa é. com as cores do sol.. fiquei de angústias. Voavam uns guaxes. As coisas que eu tinha de ensinar à minha inteligência. nem ralava apreensão.

João Guimarães Rosa . – “A solenidade de embaixador sempre se tem de consentir. e mandou que o Mão-de-Lixa aquilo erguesse e sacudisse no ar. na ponta de uma vara. por cima das moitas de lobolobo.. até para bugre. A gente não tinha licença de abrir fogo no alvo daquele trapo. o que parecia moagem era para eles era festa. Eles não pensavam. maneiro em presteza. alguém levantou um pano branco.Grande Sertão: Veredas da soldadesca. Mas Zé Bebelo. mas na regra do prático. Com o que mais admirei: a mensagem daqueles – 506 – . Sozinho estive – o senhor saiba. Disso eu fiz um pensamento: que eu era muito diverso deles todos. Então. de repente. que sim. – “A regra que é regra!” – Zé Bebelo disse. uma coisa muito inesperada se deu. para mim. esse raciocinava o tempo inteiro. já tinha amarrado um grande lenço branco na ponta de um rifle. Tudo receei. o que vir vinha.” Aprovavam. Mas. Assim uns gritaram feito araras machas. Achei que estavam com a vontade de saber que notícias eram. Gente! Feito meninos. deram razão. e só o que podiam trazer era a maldição. conforme o acontecido exato. Zé Bebelo. guardavama definitiva marca. até para herege.. os outros. Da banda do mato. estava ali no meio executando um erro. nisso. eu não era jagunço completo. E eu? Vi a morte com muitas caras. Apraz que a gente ia consentir em negócio com os judas? Aqueles.

tinha esfaqueado na sala de júri um promotor. dond’ é que está se comparecendo esse Lacrau? Faz tempo que não se tinha ciência nenhuma dele.. no eirado. nas decididas condições. De ver os dois.” Que era. Daí disse: – “Seô Chefe. e presentes em pé.João Guimarães Rosa . Caboclo claro. diante da gente. seguia acompanhando o outro. e saudou normal. Rodrigues Peludo levantou os olhos. devia de ter passado por um rombo feito na cerca. Mas o Lacrau teimava. perto. surgiu mais um: – “É o Lacrau!” E o Rodrigues Peludo virava para trás.” – “Homem. em outroras. Como tudo nesta vida carece de se acertar direito. falava qualquer coisa. um sujeito apareceu. E que. meio engatinhando também. parecia que estava mandando o Lacrau ir s’embora. é o Rodrigues Peludo. e homem de certa valia.. e veio. Depois.Grande Sertão: Veredas panos brancos. ele sendo réu. Atrás desse. durou um certo tempo. do capim. A certa distância estava. achei muita esquisitice. que era – os outros companheiros concordaram.” O qual era dos Gerais do Bolor.. escada acima. reconhecendo: – “Ah.. feito se a gente estivesse no céu. assim pessoas. – 507 – . e um dos nossos disse. – “Xente. homem devoto do Ricardão.. te vira de costas!” – Zé Bebelo regrou.. de lá e de cá. terra jequitinhonha.

tanto o outro. eu louvei a coragem calma daqueles dois. Um homem falar seu recado. em vistas desses soldados. – 508 – . e do mais. o Diodolfo chiava boca num dente. se não era mais aproveitável. por ordens. Seô Chefe. de se fazer trato de paz. tanto um. Que – se serve.. na boca de tantas armas – o senhor já presenciou essas circunstâncias? Assim o Rodrigues Peludo deu conta. Afiguro o que pensei.” Mas Zé Bebelo regia tudo.. E Zé Bebelo perguntou. sem rasgo de tremor na voz: – “Com sua licença dada. conforme sestro dele. mão em revólver. o dito – pergunta faço.. Momentos que foram. E por essa oferta é que venho. Mas estavam muito armados.. no meio dos contrários.João Guimarães Rosa . impondo ordem de resposta: que mandatela eles traziam? Do lado meu. estou trazendo estas palavras.Grande Sertão: Veredas No assim simples eles obedeceram. de costas. e o José Gervásio sussurrou: – “Tramóia. que de qualquer longe recanto um soldado talvez estivesse em poder de derrubar por belprazer. por uns tempos. Porque os soldados não pertenciam nessa cerimônia. que é contra todos. para uma parte e outra. e nos usos. ou valor tem. que para repetir ao senhor fui mandado: – Que.

vocês podem abaixar o corpo. Mas. mudando de estar. sem tom de nenhuma malícia.. E contestou: – “Nhô Ricardão.” Rodrigues Peludo. que. mesmo assim.. fazendo menção de virar o rosto. com a bafagem da boa cachaça: o Marruaz que representou a dedo o sino-salomão no peito. o Lacrau meio ajoelhado ficou. estralejou um tiro.. sempre de costas.” – “Que chefes?” – Zé Bebelo indagou. que era de fuzil.João Guimarães Rosa .. Rodrigues Peludo demorou um ponto. o Preto Mangaba.. muito estampidos. mas o que deixou em tempo de fazer.” Em boa distância. – 509 – . Zé Bebelo disse: – “Homem. O que aquilo me constou era que era falta de respeito. depositou o rifle no chão. Agora eles estavam entre trincheiras. para eu levar para os meus chefes. no rumo do coração. E seô Hermógenes. do mato do grotal. Agora a roda nossa.Grande Sertão: Veredas e se o senhor há de estar ou não de acordo. me dando a resposta que queira dar. ajuntados os muitos companheiros brabos. E uns outros.. se agachou. Tiros que não beiravam por aqui.” – “E eles então estão querendo paz?” – “Estão propondo um acordo correto.

Diadorim queria sangues fora de veias. descabelado de vento. e Diodolfo cuspiu forte – soluçou dos estômagos. alguma hora. de sua mão. Mas minha mão. sombrio em sarro de velhas raivas. pensar na pessoa que se ama. pegou a mão de Diadorim. esperando que o riacho. nela um suave de ser era que me pertencia. São as palavras? Mas aí espiei para Diadorim. – “O palavreado. E o Fafáfa. os olhos riscados. que ele retirou da minha outra vez. atrás de mim. e ele despertou do que tinha se esquecido. repontante: – “Em paz. porque doeu em meu braço. eu nem virei a cara. a coisa macia somente. quem é que devolve vida em nossos cavalos?!” Aí o Moçambicão. quase num repelão de repugno. E eu não concordava com nenhuma tristeza. um calor. Mão assim apartada de tudo. Só remontei um pasmo e um consolo expedito. por si. porque a guerra era o constante mexer do sertão. como um boi reconhecendo minhas costas. e como com o vento da seca é que as árvores se entortam mais. Demediu minha idéia: o ódio – é a gente se lembrar do que não deve-de. por detrás dos dentes. aquela mão é que merecia todo entendimento.Grande Sertão: Veredas esbarrou em mim – do que me lembro e sei. destes!” – Diadorim chiou. E ele estava sombrio. amor é a gente querendo achar o que é da gente. é como querer ficar à beira d’água. deixado. me ressoprou.João Guimarães Rosa . Mas. pousoso esbarre – 510 – .

que é de bom respeito. – é a gente. para com meu juramento fechar trato.João Guimarães Rosa .. as ordens tenho. Mas isto tudo. se compartiu de caber em pouquinhos minutos instantes.. que conto ao senhor.” – foi a resposta de Rodrigues Peludo. E em caso de algum acordo. E do modo de um prosseguir sem partes.” – o Rodrigues Peludo compôs o confessar. seô. só mesmo em instâncias assim. e então?!” – “Ao que vim ajustar é propostas. o quanto: – “Homem. Isto era. estava recheando de novo as suas cartucheiras. Ao que peço vossa resposta.. as mãos na cinta. Ao para salvo e lucro das nulas partes. Porque Zé Bebelo. com a clara voz de quem está mais cumprindo do que querendo.. feito uma a cobra.. Até inveja eu tive dele: porque. se encurtava frio em siso.. E Alaripe buliu no bissaco. O que disse. para viver um punhado completo. As ambas. – “Antes bem” – Zé Bebelo glosou. e o que mais?” – “Era tudo o que eu já falei.. e atacando?” – “O em usos.” – 511 – . Chefe. – “quem é que está rodeando e vexando os outros. Ah.Grande Sertão: Veredas de correr.. Isto é.. – “Ah. Caso se Ossa Seoria se concorde. para conduzir..

e cá fora se torrando couros com folhas polvreadas. morrendo se matando. também. mas enxuto e comparado. Mas. Mediante os estoques desse mau-cheiro. e agora o que se depositava deles era o assunto de lembranças. Constado que produziam isso. jagunços em situação. tantos mortos. Ali. a terrível que fosse. quando as chuvaradas do inverno. aos dez. e aquele amassado e envelhecido feder. entrapadas as frestas da porta. nem o tom. aos seis.Grande Sertão: Veredas Somenos aprumo. contra-homem sem o desleixo de si. feito nós. aí. de tudo seja. persistia só inimigo. surunganga. agora se ia gastar o tempo inteiro em guerras e guerras. os homens todos mais valentes do sertão? Uma poeira dessa dúvida empoou minha idéia – como a areia que a mais fininha há: que é a que o rio Urucuia rola dentro de suas largas águas.João Guimarães Rosa . Revés – que. mas. E que podia conceber sua outra razão. foi um ter-tem de existidas lealdades. aos cinco. em tanto. desse Rodrigues Peludo. o que gravei. inimigo. dos meus companheiros. por resgate da morte de J oca Ramiro. Acaso. então. mesmo estando amontoados no cômodo soturno. por certo Rodrigues Peludo e o Lacrau iam orçar a boa conta de nossos – 512 – . Assim que. Assim que. os de lá – os judas – não deviam de ser somente os cachorros endoidecidos. pessoas. também. que companheiros eram. que às horas repontava.

em certo e justo. Mas Zé Bebelo anteteve de mandar chamar Marcelino Pampa. esse sempre sido prazenteiro no meio de todos. o Acrísio. com Zé Bebelo. A culpa daquele Rodrigues Peludo. mais eu não podia. À-toa. eu daquilo sabia só a ignorância. nosso.Grande Sertão: Veredas mortos. eu – eu. eu me comparar. no pormiúdo de honesto. para ser. na dita ocasião. Assim. mas. Agora. que nunca nem tinha enxergado tremde-ferro. por um exemplo? Desmenti.João Guimarães Rosa . Zé Bebelo. o Gerais responde com esses urros. afora os feridos. aprazava efeito de bando significado. com os altos olhos afirmados. quando arraso. até. O ódio de Diadorim forjava as formas do falso. e o apinho e apessoar. repousado numa agência quieta. Com os vivos é que a gente esconde os mortos. que ele não havia de em vida. Odio a se mexer. E. o Quim Pidão. mesmo eu – era – 513 – . entortado prestes. Ali ninguém não tinha mãe? Redigo ao senhor: quando o raio. com pedaços de sangue pendurados do nariz e dos ouvidos. ombros em ombros. e Evaristo Caitité. João Concliz e muitos diversos outros. volta-e-outra a perguntar como seria. Aqueles mortos – o Jósio. era o meu. pensando no Hermógenes – só por precisão de com alguém me comparar. que estava relembrando o Hermógenes. leves e graves. Tudo por culpa de quem? Dos malguardos do sertão. numeroso.

– “Se sendo em séria fiança. naquela cabeça grande. Sendo em séria fiança. seja lá quem. Isso ele soubesse? Ah..” – “A vou. concedendo um foral: – “Resolvo. ainda era só o que me prevalecia.” O Rodrigues Peludo repuxava bandoleira do rifle e salvava saudação. – 514 – .. Rodrigues Peludo botou o rifle no sovaco.” – o Rodrigues Peludo se prometeu. o seco. ele disse.João Guimarães Rosa . homem. então de lá um dê três tiros.Grande Sertão: Veredas quem estava botando debaixo de julgamento. e a pressa. Mandava a vontade de um. pra o trato fechado. De três dias: digo! Agora. eu aceito o intervalo de armas. no olho do silêncio. o que Zé Bebelo pensava era o útil. reponho que nenhum de nós não sabendo se a decisão de Zé Bebelo era justa e convinhável. com o prazo demarcado de três dias. já no jeito de que ia engatinhar descendo a escada. Às vozes do ruído. ninguém disse mote de dúvida nem de aprovo. Nisso. tu vai – remete isto ao que estiver o seu chefe. De curto ponto. Assim assente para esta noite: no instinto em que a primeirinha estrela se frisar!” – “A vou.

a gente capistrou.João Guimarães Rosa . o Lacrau. meu Chefe! – a que vim para isto. pelo repente. Assomo assim de frechar surpresa. Mas. ele tinha os feios olhos de todo pensar. Menos eu. e sem fala. se sepreponha o senhor de me aceitar. mire veja. Onde mais. a traque disse: – “Aqui. Tudo o que ele disse. A gente preenchia. que tinha persistido quieto feito ouvindo santa-missa perto do altar.Grande Sertão: Veredas sabente de si. esse Lacrau não se comportava sem consciência sisuda. digo ao senhor. O que era fato imponente. o concitado. o Lacrau se empinou em-pé. para se segurar com trincheiras. eu. Sou homem que sempre fui: do estado de Joca Ramiro – ele é o das próprias cores. ele – 515 – . mas. grossamente. a gente em aperto de cerco. eu fico no meio de vós. assim mesmo. Zé Bebelo mandava.. tão exclamaste. meu braço ofereço. isto é – eu resguardava meu talvez. A por tudo quanto. de abalo.. Ânimo nos ânimos! A quanto. aí. deixou o silêncio se perfazer da questão anterior – a suplicação. no amor mais à-mão. mire veja. Chefe. a forte palavra.” A acarra daquilo. ele surge se viravirou.. Agora. semelhavelmente..

também se respondeu desfechando. contar é que não é plausível. o instante. – 516 – . para não se virar para espiar para o Lacrau.” Ninguém respondeu palavra. que te aceito. se esperou.. somando o aprovado. Mas. arma que de patrão não ganhei. tio mano. Numa roda-morta. A guerra tem destas coisas. tresmente. Em tanto que o Lacrau. escorregou adiante o corpo. que na regra estou. para sócio. Sendo que o Rodrigues Peludo deixou de contravir. Aí. Alguém ficou como pasmado? Zé Bebelo. ré que de lá. quem a verdade toda diz. os três tiros eles deram. da dobrada duma ladeirinha. meio mostrando o rifle. Trás isso. contra quem eu seja. e. como senhor de minhas ações. A tanto. E a carabina – porque sempre foi minha de posse. pronunciou: – “Estou na regra. mente pouco. para a gente Zé Bebelo disse: – “Sou lá o maluco? Aqueles outros não têm a constância de observar. mas endurecendo a cabeça. o Rodrigues Peludo esbarrou.Grande Sertão: Veredas tinha querido vir. se foi. – “Aqui me praz.João Guimarães Rosa .. puxando pelo sair assim. Estou inteiro. rapaz!” – Zé Bebelo deferiu. não.

nessa conjunção? Mas. porém.Grande Sertão: Veredas não merecem a palavra dada. constante de admiração. sobre papel que não era o pra ele. a meu parecer. que Zé Bebelo me semiolhava espreitado avulso. O que fiz. não nego que eu. Só eu. os companheiros aprovavam. O senhor – 517 – . O teatral do mundo: um de estadela. Pelo que eu tinha precisão de me livrar. Só eu era que guardava minha exata esperaçao. nas horas vespertinas. e pela necessidade. queria que ele bem acertasse na tarefa de meter seu siso. o perto demais. Até Diadorim. que fosse para ter de matar completo Zé Bebelo. E aceitei nossa vitória!” Seja ou não se aquele negócio entendessem. misturava as matérias. Sempre sendo. uma idéia tão comprida. Seja Zé Bebelo levantava a idéia maior. foi encaminhar o que vamos pôr em obra. e achar feição para outro salvamento. em todo o caso. agora. os prezados ditos. daquele movimento sem termo nem nenhumas outras ociosidades. Medonho e esquisito achei. Como é que? Mas ele abria lugar demais. afora ele. O que era que Zé Bebelo ia proceder. sob receios e respeito.João Guimarães Rosa . de remerecer. O raciocínio. o que me engraçava. no posto-que? Do que ele tinha pensado e principiado – as tramóias de trair – ia poder largar. os outros ensinados calados. mesmo por estima. que dele eu gostava. ali.

que. Deu razão das coisas perguntadas. tão versado. por se pôr o Lacrau em conversa deposta. sem quilates. onde existiam uns valos. no ablativo do mandado. e para o engenho o Jõe Bexiguento. no lazer de um momento. Dizendo que o inimigo se formava em tanto de uns cem. Onde o que o Lacrau teve para relatar era pouco. Marcelino Pampa ia retornar para as senzalas. até a noitinha se ilustrar!” – Zé Bebelo determinou. o Freitas Macho para a tulha. eu pouco pensei. primeiramente para o aviável do matinho dos pastos e da baixada. nem acerca da morte de loca Ramiro aumentava passagens mais do – 518 – .João Guimarães Rosa . E então vamos voltados: papocar fogo. de refrescos. por se possuir basta munição. Mas Zé Bebelo reservou que eu estivesse com ele e mais Alaripe. A este ponto. – “Amigos. a gente se prezasse de atirar. pra paga. Com o que. cada um qual melhor. agora eu louvo e a todos gabo. ainda aguardavam outra gente por vir. que decerto em pronto não viessem. por sustos e estragos. pouco.Grande Sertão: Veredas me organiza? Saiba: essas coisas. Nisso não sabia contar das pessoas nem dos maiores motivos do Hermógenes e do Ricardão. mas a quanta parte deles de jagunços mal assentados. e dos morrotes cerradeiros. sobrenomeado “Alparcatas”. por estorvo dos soldados.

Outros contam de outra maneira. que era o mais corajoso. Tomei mais. relembrei o dito do Lacrau: que Zé Bebelo o que era. para espiritar na gente o pavor e a ação de acerto. agunço sabe. esta noite. Excogitei – “Diadorim. como falou: – “O esmarte homem que é este chefe nosso Zebebéo! Outro não vi. A pra efetuar fogo. Fomos. no que Zé Bebelo e Alaripe se afastaram no corredor. – “Os soldados?” – era o que mais se perguntava. no começo – 519 – . e que às horas se mexe. nesse comenos. coisas que só estão é fornecendo espelho. A vida é para esse sarro de medo se destruir. Fui. Tinham esbarrado tiroteio. só a presença. Para o recanto duma janela. a gente pensa que é por causas: por isto ou por aquilo. sacoleja. Sendo que uma criatura. um depositado. A ordem de se jantar. ele Lacrau aliviado se gracejou de rosto.” As agudezas. o dia estava gastado. a gente não escutava o costurar. Comi a pura farinha. beirava o prazo da decisão. Daí.. A ordem não era-de? Desígnios esses.João Guimarães Rosa .. tira o leite do medo de outra. Medido nas suas partes. A vez da má verdade. de Zé Bebelo. o jacaré veio avisando. Diadorim mesmo. Sucinto em cada puxada de gatilho.Grande Sertão: Veredas que as de todos já entendidas. sabia tanto? O que o medo é: um produzido dentro da gente. Aí.

no retorcer do vento. só a lástima. Zé Bebelo. ou Diodolfo? Todos seguiam caminho de seus costumes. aí tornou a doer. que já estava muito melhorado por si. eu ia cobrar e arrecadar? Acauã ou o Mãode-Lixa. Ora veja. em tanto que isto se passava.” Mas Diadorim contradisse de querer saber que modos meus que eram. apurei o ruto de nossos cavalos. eu não ia explicar a eles coisas tão divagadas. Adrede. atravessar o projeto dele se o caso fosse.” – o Alaripe divertido me achou. e que podiam mesmo não vir a ter fundamento nenhum. De qual deles. as tantas espécies. nos curtos momentos. eu não tinha o tato mestre.. A ele me fiz. comigo. de reger. – “A de paga. Três tristes de mim! Ali eu era o indez? Noção eu nem acertava. no injusto. você vem para perto. Tivesse de vigiar no estreito Zé Bebelo.. Porque – eu digo ao senhor – eu mesmo duvidava. sozinho por si. que modo que eu ia enfrentar um homem assim? Ah.Grande Sertão: Veredas da hora.João Guimarães Rosa . no novo não conseguiam de se nortear. o julgamento no Sempre-Verde tinha sido relaxado em brando – para valer preços. agora. amigo. Ainda pensei no Alaripe. Mesmo meu braço do ferimento. os ossos de feder. em outro sobrecalor de – 520 – . nem o cabedal de um poder – os poderes normais para mover nos homens a minha vontade. Será que eu tivesse por dever de peitar pessoas? Ah. me assiste. nem a confiança dos outros.

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regimento, servisse para governar os arrancos do sertão? “Não me importo... Não me importo...” – eu quis, com outras palavras tais. Ali eu não tinha risco. Ali alguém ia me chamar de Senhormeu-muito-rei? Ali nada eu não era, só a quietação. Conto os extremos? Só esperei por Zé Bebelo: – o que ele ia achar de fazer, ufano de si, de suas proezas, malazarte. Deu comigo. – “Riobaldo, Tatarana...” Anda que me encarava, os sagazes olhos piscados. Aquele, me entendia; me temesse? – “Riobaldo, Tatarana, vem comigo, quero ver a opinião, sem sinal nem prova...” Ali me levou para uma janela da cozinha, de lá a grande espaço se tinha vista para o morro, com seus matos. Zé Bebelo pegou o caneco, que encheu no pote d’água. Também bebi. Assim escutei: ele falava comigo, com o efeito de uma amizade. – “Rapaz, você é um que aceita o matar ou morrer, simples igualmente, eu sei, você é desabusado na coragem melhor – que é a da valentia produzida...” Só mostrei meus ombros; seja que eu secundei. – “A tão bom: que é que eles agora vão fazer, os da banda contrária?” – aí ele indagou de mim.

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– “Ora... O que não sei, e saber quero, é – a gente ; o que é que a gente agora vai fazer?” – perguntei para cima. Outro tal, repontei: – “Estou em claro. E estou em dúvida. Todo tempo me gasta...” – isto assim dito. Só que Zé Bebelo queria não ouvir, a seu seguro: – “Te põe no lugar. Hem? O que eles fazem é que, a estas horas, estão no desembargar, para aquele morro, que é aonde soldados não apertam cerco. De lá foram por esse sul abaixo, via torta; de madruga já por lá, no Buriti-Alegre, que foram surgir, escrevo. Agora, hem, maximé? – e os soldados? Andam tomando contas daí, que são lugares rededores, salvante a sapata do morro, e dela os pertos – a cava –, porque lá, conforme a boa regra de razão, paravam com os tiros sobre si. Oh, se sabe!” Noves e nada eu não dissesse. – “A bem. Ã e nós?” – Zé Bebelo tornou a indagar. A resposta não dei. Aquilo tudo eu estava pondo de remissa. – “Ah, tempo de partida! A gente, nós, vamos é rente por essa cava, Riobaldo, meu filho. Sem tardada-porque daqui a pois sai é a lua, declaradamente...”
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Ao que, já se estava no ponto. Anoitecido. A uma estrela se repicava, nos pretos altos, o que vi em virtude. A estrelinha, lume, lume. Assim – quem era que tinha podido mais? Zé Bebelo, ou eu? Será, quem era que tinha vencido? Quite com isso, no cumprir, entreguei os destinos. O truztruz. Com pouco, nesse passo, os todos homens se apessoando, no corpo daquele corredor – as fileiras em mexemexe desde a sala-defora até à cozinha, sobre mais entre os conspirados silêncios, os movimentos com energias. Arte e tanto, Zé Bebelo expunha o que recomendava. Sempre uma ou outra lamparina se acendeu, para os companheiros empalidecidos. Agora a gente ia romper a pé, sem os recursos, dava dó era a quantia de munição de se largar ali, no se pôr em salvo. Assaz, então, tudo o que possível se encheu, de balas e caixas – os bornais e capangas, patronas e cartucheiras. Mas não bastava. A ser que, daí, um inventou uma fronha de cama: a que, presada com correia ou corda, para tiracol, concabia tiros em boa dose; e muitos assim aproveitavam, logo não restou fronha a dispor. Mesmo, a alguma matula, também, se devia, por garantir. Desde aí, no concorrer, se saía por uma porta. O quanto a noite se atravava de bom grosso. Adiante primeiro foram mandados João
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Concliz, Moçambicão e Suzarte, para reconhecerem se estava limpo o caminho, rumo de fuga, sem o estorvável. Ponto que os poucos feridos, que havendo, se queixavam em condições, mesmo o Nicolau, que se escorava no rifle e às vezes se retardava. Só ficando na Casa os mortos, que não careciam de se rezar a eles adeus, os soldados amanhã que viessem, que enterrassem. Soformamos diversos golpes, acho que cinco, Diadorim e eu entramos no derradeiro, com o comando do próprio Zé Bebelo; e com o Acauã, o Fafafa, Alaripe e Sesfredo, que acompanhavam comigo. Saíram os de primeiramente, iam um ante outro – como um rio a buscar baixo; ou um cão, cão. A gente demorava. Aquela cozinha grande, no cabo do negócio, muito aprisionava, de sobreleve; e contei os companheiros, as respirações. Saíram outros e outros. Dos dianteiros, nem se percebia rumor. Toda a hora eu esperava um tiro e um grito de alto-lá-o-rei! Mas era só o tremer daquela paz em proporção. Admirei Zé Bebelo. A vez nossa chegada, ali o acostumar os olhos com o outro mudar. Abaixamos, e saímos também. Semoveu-se. Livrados! No escuso, o tudo ajudando, fizemos passagem, avante mais. Tempo que andamos, contracalados, soprando o sangue para se esfriar; até que se cobrou veras de perigo não haver, no regozijo de poupados de qualquer espreita ou
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agredimento. Se esbarrou, para ar, um sueto de uns momentos. – “Não é que o gato ficou lá...” – um, risonho, falou. – “Ah, demais. A lá é a Casa...” – outro se pôs. Aquela à-morte fazendagrande dos Tucanos. Vai, eu, o cheiro fartado, bom, de folhas folhagens e do capim do campo, enunciou em meu lembrar o mau-cheiro dos defuntos, que agora próprio no meu nariz eu nem não aventava mais. E Zé Bebelo, segredando comigo, espiou para trás, observou assim, pegando na minha mão: – “Riobaldo, escuta, botei fora minha ocasião última de engordar com o Governo e ganhar galardão na política...” Era verdade, e eu limpei o haver: ele estava pegando na mão do meu caráter. Aí, aclarava – era o fornido crescente – o azeite da lua. Andávamos. Saiba o senhor, pois saiba: no meio daquele luar, me lembrei de Nossa Senhora. A de entre, entramos, pela esquerda e rumo do norte. Desde o depois, o do poente mesmo. Com foras e auroras, estávamos outra vez no público do campo. Antes da manhã, agora se passava a Vereda-Grande, no Vaudos-Macacos. Ao que, em rompendo a luz toda da manhã, se chegou no sítio dum Dodó Ferreira, onde a gente bebeu leite e os meus olhos pulavam nas árvores. Aquilo, de verdade, e eu em mim – como um boi que se sai da canga e estrema o corpo por se prazer.
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Assim foi que, nesse arraiar de instantes, eu tornei a me exaltar de Diadorim, com esta alegria, que de amor achei. Alforria é isso. Sobre mesmo a pé, e com o peso completo, caminhar pelos Gerais parecia que pouquinho me cansava. Diadorim – o nome perpetual. Mas os caminhos é que estão se jazendo em tudo no chão, sempre uns contra os outros; retorce que os falsíssimos do demo se reproduzem. O senhor vá me ouvindo, vá mais me entendendo. No sítio desse Dodó Ferreira, o Nicolau e o Leocádio iam ficar acoitados lá, até que pudessem sarar de todo somenos. Nós, não. De que desde dali, rifles nas costas, riscamos de rota abatida para o Currais-do-Padre, para renovame; porque lá se tinha resguardada uma boa cavalaria. À força de inchar pé e esmorecer pernas, pelo que aquilo nem foi viagem: era rojão de escabrear, menção de cativeiros. Desgraça de estrada, as pedras do mundo, minhas léguas arrependidas. De que serve eu lhe contar minuciado – o senhor não padeceu feliz comigo – ? Saber as revezadas do capim? Ah, então, que foram: mimoso, sempreverde, marmelada, agrestes e gramade-burro... A caminhada é assim, é ser: despesa grossa, o abalo. Contra a mera vontade, que meio me lembro, aquelas ladeiras de chapadas. Subindo para terreno concertado, cada tabuleiro que o fim dele é dificultoso,
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pior do que batoqueira de caatingal. Os muitos campos, com tristeza agora bota valesse menos que alpercata. O vento endureceu. Aí passa gavião, apanha guincho, de todas as estirpes deles – o que gaviãozinho quiriquitou! E lá era que o senhor podia estudar o juízo dos bandos de papagaios. O quanto em toda vereda em que se baixava, a gente saudava o buritizal e se bebia estável. Assim que a madotagem desmereceu em acabar, mesmo fome não curtimos, por um bem: se caçou boi. A mais, ainda tinha araticum maduro no cerrado. Mas, para balear uma rês da solta, era o mister de toda sorte e diligência, por ser um gado estruso, estranhador. O fumo de pitar se acabando repentino na algibeira de uns e outros – bondade dos companheiros era que acudia. E deu daquele vento trazedor: chegou chuva. A gente se escondendo, divididos, embaixo dos pequizeiros, que tempesteava. Dormir remolhado, se dormia, com a lama da friagem. De madrugar, depois, se achava era pé de onça, circulando as marcas. E a gente ia, recomeçado, se andava, no desânimo, nas campinas altas. Tão território que não foi feito para isso, por lá a esperança não acompanha. Sabia, sei. O pobre sozinho, sem um cavalo, fica no seu, permanece, feito numa croa ou ilha, em sua beira de vereda. Homem a pé, esses Gerais comem.
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Diadorim vinha constante comigo. Que viesse sentido, soturno? Não era, não, isso eu é que estava crendo, e quase dois dias enganoso cri. Depois, somente, entendi que o emburro era mesmo meu. Saudade de amizade. Diadorim caminhava correto, com aquele passo curto, que ó dele era, e que a brio pelejava por espertar. Assumi que ele estava cansado, sofrido também. Aí mesmo assim, escasso no sorrir, ele não me negava estima, nem o valor de seus olhos. Por um sentir: às vezes eu tinha a cisma de que, só de calcar o pé em terra, alguma coisa nele doesse. Mas, essa idéia, que me dava, era do carinho meu. Tanto que me vinha a vontade, se pudesse, nessa caminhada, eu carregava Diadorim, livre de tudo, nas minhas costas. Até, o que me alegrava, era uma fantasia, assim como se ele, por não sei que modo, percebesse meus cuidados, e no próprio sentir me agradecendo. O que brotava em mim e rebrotava: essas demasias do coração. Continuando, feito um bem, que sutil, e nem me perturbava, porque a gente guardasse cada um consigo sua tenção de bem-querer, com esquivança de qualquer pensar, do que a consciência escuta e se espanta; e também em razão de que a gente mesmo deixava de excogitar e conhecer o vulto verdadeiro daquele afeto, com seu poder e seus segredos; assim é que hoje eu penso. Mas, então, num determinado, eu disse:
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– “Diadorim, um mimo eu tenho, para você destinado, e de que nunca fiz menção...” – o qual era a pedra de safira, que do Araçuaí eu tinha trazido, e que à espera de uma ocasião sensata eu vinha com cautela guardando, enrolada numa pouca de algodão, dentro dum saquitel igual ao de um breve, costurado no forro da bolsa menorzinha da minha mochila. De desde que falei, Diadorim quis muito saber o presente qual era, assim apertando comigo com perguntas, que sem aperreio deixei de responder, até de tarde, quando fizemos estância. A parança que foi – conforme estou vivo lembrado – numa vereda sem nome nem fama, corguinho deitado demais, de água muito simplificada. Aí, quando ninguém não viu, eu saquei a mochila, desfiz a ponta de faca as costuras, e entreguei a ele o mimo, com estilo de silêncio para palavras. Diadorim entrefez o pra-trás de uma boa surpresa, e sem querer parou aberto com os lábios da boca, enquanto que os olhos e olhos remiravam a pedra-de-safira no covo de suas mãos. Ao que, se sofreou no bridado, se transteve sério, apertou os beiços; e, sem razão sensível nem mais, tornou a me dar a pedrinha, só dizendo:

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– “Deste coração te agradeço, Riobaldo, mas não acho de aceitar um presente assim, agora. Aí guarda outra vez, por um tempo. Até em quando se tenha terminado de cumprir a vingança por Joca Ramiro. Nesse dia, então, eu recebo...” Isso, de arrevés, eu li com hagá; e mesmo antes, quando apontou no rosto dele, para o avermelhar de cor, a palidez de espécie. Delongando, ainda restei com a pedra-de-safira na mão, aquilo dado-e-tomado. Donde declarei: – “Escuta, Diadorim: vamos embora da jagunçagem, que já é o depois-de-véspera, que os vivos também têm de viver por só si, e vingança não é promessa a Deus, nem sermão de sacramento. Não chegam os nossos que morremos, e os judas que matamos, para documento do fim de loca Ramiro?!” Ah foi ele me ouvir e se encurtar, em duro que revi, que nem ossos. Ao crespo de um com a afronta a meia-goela – e os olhos davam o que deitavam. O que durou só um átimo, tanto que ele teve mão em seu gênio, conciso com um suspiro; mas mesmo me retrouxe remoque: – “Riobaldo, você teme?”

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Tomei sem ofensa. Mas muita era minha decisão, que eu já tinha aperfeiçoado lá na Fazenda dos Tucanos, e que só vinha esperando para executar com mais regimento de ordem, quando se tivesse chegado no Curraisdo-Padre, conforme meu sistema nesses procedimentos. – “Tem que temerei! Você, aí faz o que em seu querer esteja. Eu viro minha boa volta...” Dar o mal por mal: assim. Eu tinha a quanta razão. Eu guardei a pedrinha na algibeira, depois melhor botei, no bolso do cinto; contei minhas favas, refavas. Diadorim respirava muito. Dele foi o relance: – “Riobaldo, você pensa bem: você jurou vinga, você é leal. E eu nunca imaginei um desenlace assim, de nossa amizade...” – ele botou-se adiante. – “Riobaldo, põe tento no que estou pedindo: tu fica! E tem o que eu ainda não te disse, mas que, de uns tempos, é meu pressentir: que você pode – mas encobre; que, quando você mesmo quiser calcar firme as estribeiras, a guerra varia de figura...” Arredei: – “Tu diz missa, Diadorim. Isso comigo não me toca...”

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Da maneira, ele me tentava. Com baboseira, a prosável diguice, queria abrandar minha opinião. Então eu ia crer? Então eu não me conhecia? Um com o meu retraimento, de nascença, deserdado de qualquer lábia ou possança nos outros – eu era o contrário de um mandador. A pra, agora, achar de levantar em sanha todas as armas contra o Hermógenes e o Ricardão, aos instigares? Rebulir com o sertão, como dono? Mas o sertão era para, aos poucos e poucos, se ir obedecendo a ele; não era para à força se compor. Todos que malmontam no sertão só alcançam de reger em rédea por uns trechos; que sorrateiro o sertão vai virando tigre debaixo da sela. Eu sabia, eu via. Eu disse: nãozão! Me desinduzi. Talento meu era só o aviável de uma boa pontaria ótima, em arma qualquer. Ninguém nem mal me ouvia, achavam que eu era zureta ou impostor, ou vago em aluado. Mesmo eu não era capaz de falar a ponto. A conversa dos assuntos para mim mais importantes amolava o juizo dos outros, caceteava. Eu nunca tinha certeza de coisa nenhuma. Diadorim disse: – “Ei, retenteia! Coragem faz coragem...” Demais eu disse: – “Sou Capitão-General?!...” Antes tantas astúcias, em empalhar que eu não fosse embora, que eu ficasse preso naquele urjo de guerra, sem cabo
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nem ponta, sem costas nem frente, e que maçava. Recachei. A mão dele, doçura de dada, de leve na minha. Temi afracar. E em duro repostei, com outra ombrada: – “Vou e vou. Só inda acompanho é até o Currais-doPadre. Lá eu requeiro para mim um cavalo bom. E trovejo no mundo...” Verdadeiro meu propósito era esse, como está dito. Eu não caturrava. Eu sou assim amor-com-amor, e ingratidão não. E bem por isso Diadorim não persistiu, com palavras cordatas; mas por fim disse, de motejo, zombariazinha: – “Então, que quer mesmo ir, vai. Riobaldo, eu sei que você vai para onde: relembrado de rever a moça clara da cara larga, filha do dono daquela grande fazenda, nos gerais da Serra, na Santa Catarina... Com ela, tu casa. Cês dois assentam bem, como se combinam...” Nonde nada eu não disse. Se menos pensei em Otacília. Nem maldisse Diadorim, de que não se calava. A mais, pirraçou: – “Vai-te, pega essa prenda jóia, leva dá para ela, de presente de noivado...”

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Demorei no fazer um cigarro. Nós estávamos na beira do cerrado, cimo donde a ladeirinha do resfriado principia; a gente parava debaixo dum paratudo – pau como diz o goiano, que é a caraíba mesma – árvore que respondia à saudade de suas irmãs dela, crescidas em lontão, nas boas beiras do Urucuia. Acolá era a vereda. Com o tempo se refrescando, e o desabafo do ar, buriti revira altas palmas. A por perto, se ouvia a algazarra dos companheiros. De ver, eu tinha dó, minha pena sincera de Diadorim, nessas jornadas. De verdade, entardecia. Derradeira arara já revoava. – “... Ou quem sabe você resolve melhor mandar de dádiva para aquela mulherzinha especial, a da Rama-de-Ouro, filha da feiticeira... Arte que essa mais serve, Riobaldo, ela faz o gozo do mundo, dá açúcar e sal a todo passante...” Não era na Rama-de-Ouro – era na Aroeirinha. Mas, por que era que ele falava no nome de Nhorinhá, com tão cravável lembrança? Ao crer, que soubesse mais do que eu mesmo o que eu produzia no coração, o encoberto e o esquecido. Nhorinhá – florzinha amarela do chão, que diz: – Eu sou bonita!... E tudo neste mundo podia ser beleza, mas Diadorim escolhia era o ódio. Por isso era que eu gostava dele em paz? No não: gostava por
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destino, fosse do antigo do ser, donde vem a conta dos prazeres e sofrimentos. Igual gostava de Nhorinhá – a sem-mesquinhice, para todos formosa, de saia cor-de-limão, prostitutriz. Só que, de que gostava de Nhorinhá, eu ainda não sabia, filha de Ana Duzuza. O senhor estude: o buriti é das margens, ele cai seus cocos na vereda – as águas levam – em beiras, o coquinho as águas mesmas replantam; dai o buritizal, de um lado e do outro se alinhando, acompanhando, que nem que por um cálculo. – “... Você se casa, Riobaldo, com a moça da Santa Catarina. Vocês vão casar, sei de mim, se sei; ela é bonita, reconheço, gentil moça paçã, peço a Deus que ela te tenha sempre muito amor... Estou vendo vocês dois juntos, tão juntos, prendido nos cabelos dela um botão de bogari. Ah, o que as mulheres tanto se vestem: camisa de cassa branca, com muitas rendas... A noiva, com o alvo véu de filó...” Diadorim mesmo repassava carinho naquela fala. Melar mel de flor. E me embebia – o que estava me ensinando a gostar da minha Otacília. Era? Agora falava devagarinho, de sonsom, feito se imaginasse sempre, a si mesmo uma estória recontasse. Altas borboletas num desvoejar. Como se eu nem estivesse ali ao pé. Ele falava de Otacília. Dela vivendo o razoável de cada
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dia, no estar. Otacília penteando compridos cabelos e perfumando com óleo de sete-amores, para que minhas mãos gostassem deles mais. E Otacília tomando conta da casa, de nossos filhos, que decerto íamos ter. Otacília no quarto, rezando ajoelhada diante de imagem, e já aprontada para a noite, em camisola fina de ló. Otacília indo por meu braço às festas da cidade, vaidosa de se feliz e de tudo, em seu vestido novo de molmol. Ao tanto, deusdadamente ele discorresse. De meu juízo eu perdi o que tinha sido o começo da nossa discussão, agora só ficava ouvinte, descambava numa sonhice. Com o coração que batia ligeiro como o de um passarinho pombo. Mas me lembro que no desamparo repentino de Diadorim sucedia uma estranhez – alguma causa que ele até de si guardava, e que eu não podia inteligir. Uma tristeza meiga, muito definitiva. No tempo, não apareci no meio daquilo. Assim foi que foi. Até que vieram uns companheiros, com João Concliz, Sidurino e João Vaqueiro, que ajuntaram lenhas e armaram um fogo bem debaixo do paratudo. Ao relançar das labaredas, e o refreixo das cores dando lá acima nos galhos e folhas, essas trocavam tantos brilhos e rebrilhos, de dourado, vermelhos e alaranjado às brasas, essas esplendências, com mais realce que todas as pedras de Araçuaí, do Jequitinhonha e da Diamantina. Era dia-de-anos daquela árvore? Ao
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João Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas

quando bem anoiteceu, foi assim. A gente só sabe bem aquilo que não entende. O senhor veja: eu, de Diadorim, hoje em dia, eu queria recordar muito mais coisas, que valessem, do esquisito e do trivial; mas não posso. Coisas que se deitaram, esqueci fora do rendimento. O que renovar e ter eu não consigo, modo nenhum. Acho que é porque ele estava sempre tão perto demais de mim, e eu gostava demais dele. Na surgida manhã, saímos, para a parte final da caminhada. Zé Bebelo, certa hora, me chamou. Inda que avante, Zé Bebelo mesmo devia de estar curtindo más e piores: fio que ele amargava a vitória que tinha inventado. Noção dos inimigos nossos, que, seja lá por onde, puxavam posse de sua munição e de suas montadas e cargas, socorridos de tudo quanto careciam. – “Um Hermógenes quer tomar conta do sertão dos Gerais...” – eu tirei liberdade para dizer. Mesmo mais indiretas disse; e isso me realiviou, no dizer, pouco somente, que era só por picardia. Direto, disso, Zé Bebelo não me respondeu; ele pensava as mil coisas. Em tanto, nesses cálculos de meditação, ele ligeiro sobrezumbia com os beiços, e balangava às esquerdas-edireitas as abas enfunadas do chapéu; e às vezes assoprava sem ser por can– 537 –

com um morador. Ainda não entendo. porque gostava prático da guerra. de ouvir que a sorte do Hermógenes existia alta.João Guimarães Rosa . era que ele referia: – “Ainda não entendo. os que tinham sido de Medeiro Vaz.. Até agora. O que das idéias sobrava. a não ver uns fios de santa-luzia azul. espiando o alto céu. em grandes pastos. Mas..” Do Hermógenes discursava – orçamento do Hermógenes. Regozijei.Grande Sertão: Veredas saço de marcha. ele tem tido uma sorte. e por isso não tinha boa razão para um resultado final.. e do duro-do-brejo. De lá vinham saindo renascidos. reconheço. ele estava muito errado: pelos passos e movimentos.. O lugar que não tinha curral nenhum. para mim. Sapo sem-colarinho. o jasmim-da-serra. Aí. nem padre: só o buritizal. Assim achei. Nem eu não queria arreliar Zé Bebelo. – 538 – . que os ovos e dúzias ele paga!. derramadas. isso me penou. nas baixadas. os nossos cavalos.... tanto me certificava. que é com as nuvens e os urubus repartido. Mas. e. chegamos no Currais-do-Padre. do que provava um muito forte prazer. engordados. reigordo. E. Deponho: de que é que aquilo me adiantava? E chuvas dadas. isto é... deixa a gente ir e vir. vai. nos altos com pedregal. Mas o ao em redor. era o capim melhor milagroso – que o que deixava de ser provisório rico era o meloso de muito óleo.. e que agora herdávamos. Aí fiquei a menos.

E os pássaros de passagem precisavam de gritar muito uns para os outros. carecíamos de tocar para o Curral Caetano. Dia de ser de chuva. acastanhado murzelo. e dei em erro. Além de que. recolhido em certo vexame. de romance. eu achei. porque ele era meio sendeiro e historiento. que madrugou tarde: boi nos cinzentos.João Guimarães Rosa . Os cavalos pastavam com mais pressa. para buscar munição. estava mandando urubu voar para casa. Nele achei outras verdades. Era para espera. muito extraordinárias. que bem me pareceu. em todos meus tempos. Foi o primeiro desses que encontrei. daí. capeado em couro. Já disse ao senhor? – dia a dia ele raiava. Zé Bebelo pôs ordem de se ir. e me ver. E chuva alta. de minha vida. em formosura. Mesmo assim. Diadorim moderava o falar comigo. Mas o dono do sítio. que não sabia ler nem escrever. Depois. e que pedi para deletrear nos meus descansos. fui deixando para os seguintes. receoso.Grande Sertão: Veredas Escolhi um. Daqui veio que o nome que teve foi de “Padrim Selorico”. na Virgem– 539 – . Porque estávamos quase todos montados em pêlo. que envinha. porque antes eu só tinha conhecido livros de estudo. animal vistoso. tudo o que eu tivesse de resolver. que se chamava o “Senclér das Ilhas”. Nunca. assim mesmo possuía um livro. celheado. eu vi inverno tamanho demorado. onde se tinha quantidade grande de arreios guardados.

Que andávamos desconhecidos no errado. no viável. Os rios estavam sujos. em que tanto boi berra. como perdidas criaturas.João Guimarães Rosa . enquanto para ela eu ia indo. tarde se soube – quem que guiava tinha enredado nomes: em vez da Virgem-Mãe. empapados. desde o começo desconfiei de que estávamos em engano. Afiguro. foi que se pegou o primeiro caminho achado. até os dedos da mão dele não deixavam de se perpassar. Mas nunca chegamos nem na Virgem-Mãe.Grande Sertão: Veredas Mãe. parede de morro se faz. Não havendo a ajuda de Joaquim Beiju. feito torrão de açúcar preto se derretendo. creu de se levar tudo para a – 540 – . de repente os olhos da gente percebem um fio de tremor – se vê é um risquinho preto. Pra mais onde? Ah. em tantos dias: longe lá. Como a serra que vinha vindo. em espumas. No arquear dali. Disso. Rumos que eu menos sabia. em assarapanto. de se rir. Aos caminhos barrancosos. Prazo não se perdia. contando rosário nas tiras da rédea. Bem baixamos. Zé Bebelo. de sopega. que com léguas andadas vira cinzento e vira azul – daí. para se passar. E – mas o senhor sabe o que isso é? – aqueles nossos cavalos não tinham ferraduras. depois. se chorar. Aos barros fomos. aonde os altos bons: o Chapadão do Urucuia. que estava dando para dela se sentir falta.

vereda muito longe para o sul.João Guimarães Rosa . Porque está chegando hora d’eu ter que lhe contar a$ coisas muito estranhas. vá ouvindo. dava vento. O Abaeté não era. O pongo de um ribeirão. no escalavrado. Até. era o sertão churro. o boqueirão de um rio. quando a gente não espera. quem sofreu e não morreu. de vez. Mas já era tarde. Mas.o próprio. no meio de serras de parte-vento e suas mães árvores.. A estrada de todos os cotovelos. Aí. quando estiou o tempo. perfazendo indagação. por si. Aquele rio fazia uma grande volta. com – 541 – . O senhor já que me ouviu até aqui. nunca não encontra. até. logo lugar outro. montão deles.Grande Sertão: Veredas Virgem-da-Laje. não sei se foi melhor: porque bateu de começo a fim dos Gerais um calor terrível. Ia fazendo receios. se bem fosse que parecia: largo rio Abaete. Trovoou truz. beiras amarelas. Sertão. Doenças e doenças! Nosso pessoal. E chuvas que minha língua lambeu. Mas. Descemos por umas grotas. clareado. Mas isto eu refiro depois. pegou a mazelar. acolá. aonde lá. no sítio que tem engenho-de-pilões. que o nome não se soubesse. Nelas mais não falo. Quadrante que assim viemos. mesmo. Esses meses do ar como que estavam desencontrados. – se diz –. por esses lugares. o sertão vem. De repente. o senhor querendo procurar. ainda se lembra dele.

bicho passeado sem dono. já depois. faltava rastro de fala humana. para o uso de outros. de solidão. Outro homem quis me vender uma arara mansa. em grupos – mateiros e campeiros.João Guimarães Rosa . Topar um vivente é que era mesmo grande raridade. porque o rumo determinado era outro. não para – 542 – . vi muitos: tinha vez que pulavam. nos arrampadouros. ou uma mulher= zinha fiando a estriga na roca ou tecendo em seu tear de pau. que estava fumando o pito de barro. tanto tantos – uns dois. não se percebeu mais ninguém. E o gado mesmo vasqueava: só por pouco acaso um boi ou vaca. sim. de buriti toda. não se ajuizaram os olhos dela. Nós estávamos em fundos fundos. de corta campo. consoante. Isto é. Faltava era o sossego em todo silêncio. Uns galhos de árvores colocados – ramalhos e jaribaras – forma de sinal: para não se passar. Ali era um lugar longe e bonito. aí na subida dela houvesse coisas. como que me acenava. com andada de três dias. que a qual falava toda palavra que tem á. Tinha uma estrada. roçando. torando desviado muito. E mais maninhava. uns vinte. Outra velha. Mas esse aviso havia de ser particular. Um homenzinho distante. Mas ela enrolou a cara no xale.Grande Sertão: Veredas a vista de uns coqueiros. Mas não endireitamos para ele. lenhando. uns três. correndo. num sonhoso. Veado. me sombreava. Isso foi até onde o morro quebrou. Aquilo perturbava. na porta de uma choça.

que dava ordens: um roceiro brabo. a ver a espécie de colete. se redobrou o achado daquelas ramas verdes. Um eu vi. Os quantos homens. Esbarramos. Não consegui sentido no que eles ameaçavam. Queriam cobrar portagem? Andavam arrumando alguma jerimbamba? Não convinha avançar assim por cima deles. de couro de jaguacacaca. que não obedecemos. para outra subida de ladeira: mas aí escutamos o latir de cachorros. Eram uns dez a quinze. Já estávamos pelas rédeas. Esses estavam com espineardas. com o Acauã e o Nélson. Mas. de jeito nenhum. Por certo não sabiam quem a gente era. eram só molambos de miséria. aos menos trapos: nem bem só o esporte de uma tanga esfarrapada. de estranhoso aspecto. quase que não possuíam o respeito de roupas de vestir. Não respeitamos. Fomos indo.Grande Sertão: Veredas o nosso destino. mas também dar recuada podia ser uma vergonha. No entrar numa guapira. – 543 – . e pensavam que três cavaleiros menos valessem. e. E enxergamos um homem – no alto da virada – uns homens. que agitavam manejos para voltarmos de donde estávamos. em lugar de camisa.João Guimarães Rosa . entendendo que do caminho não desgarrávamos. Um. chusmote deles. começaram a ficar estramontados. Mas os outros. Eu vinha adiante. e vi que estavam aperrando as armas. arrastando as calças e as esporas. logo. instruindo o caminho.

” E renuía com a cabeça.. Ver a ver o sacerdote! – “Ih! Essa gente tem piolho e muquiranas.João Guimarães Rosa . para primeiro se presenciar. O das esporas foi se amontar num jumento – esse era o único animal-de-sela que ali tinham.. Acho que montou para oferecer à gente maior vulto de respeito.” – com o vozeio soturno. Íamos esperar o resto do pessoal. pode não. Só um disse: – “Pode não.. o banglafumém.. comprida. bo- – 544 – .. Pode não.. não explicavam razão nenhuma.” – o Nélson disse.Grande Sertão: Veredas neles quase encostados. costumada daquela terra de lugar. e aqueles seus olhos permeando.. Um. Um tinha a barba muito preta. com uma voz de qualidade diversa. ali confrontes. mesmo quando falava. na vida. e os outros renuindo também: – “Ah.. Gente tão em célebres. Todos estavam com alguma garantia: que eram lazarinas. tocava batendo palma de mão na anca do jegue. devia de ter sido assim. ele estava trajado com uma baeta vermelha. contrabaixo. conforme eu nunca tinha divulgado nem ouvido dizer. Nos tempos antigos. veio vindo... acho que por falta de outra vestimenta prestável. mesmo em dia de horas tão calorosas. E eles. Pode não. Olhei para todos.

os catrumanos daquelas brenhas.Grande Sertão: Veredas cudas baludas. Quase que cada um era escuro de feições. Outro. groteiros dum sertão. Que o que acontecia era de serem só esses homens reperdidos sem salvação naquele recanto lontão de mundo. e um porongo pendurado a tiracol por uma embira. O Acauã que explicou. Todos eles. Artes vezes ele guinchava. de beber tanta saeta. mas devia de ser de braço terrível. desvalimento de gente assim. cochichava com os restantes uma séria falação: a qual uma espécie de pajelança. segurava somente um calaboca. amarelos de tanto comer só polpa de buriti. zambo. e polvorinhos de corno. escopetas e trabucão – peças de armas de outras idades. estragada a boca grande demais. troncudo. curtidos muito.João Guimarães Rosa . que tinha uma foice encabada muito comprido. feito o demônio gemedeiro. de dar pena. mas um escuro com sarro ravo. constado chato o formo do nariz. Para o nosso juízo. em três. Que viviam tapados de Deus. Como é que. mas não eram. que por nome de Constantino acudia. mesmo assim não tomavam bastante receio de nossos rifles. no manobrar aquele cacete. com seus saquinhos chumbeiros e surrões. garruchas e bacamartes. Um. Esse. O quanto feioso. e armamento tão desgraçado. assim nos – 545 – . o Acauã sabia deles. eles eram doidos. e fio que estavam bêbados. podiam escolher ofício de salteador? Ah.

beira de brejo. às vezes não tinham gordura nem sal. manipulando em panelas. O do jegue. Cafuas levantadas nas burguéias. e – 546 – . Que era uma pólvora preta. esse que o Dos-Anjos se chamava. que estrondava com espalhafato. acho que porque essa é a forma de declararem seus espantos. enchendo os lugares de fumaceira. queimando e matando o atirador. do susto então dos catrumanos. Mas foi não. ralado salitre das lapas. grande pena. aquele tropeado de guerreiros. Nem não saíam dos solapos. E às vezes essa pólvora bruta fazia as armas rebentarem. em socavas. Quase eu queria me rir.João Guimarães Rosa . Como era que eles podiam brigar? Conforme podiam viver? E enfim os companheiros apontaram em vinda. e subiram a primeira ladeira. só que olhavam para o chão. porque eles não se aluíram do ponto onde estavam.Grande Sertão: Veredas ocos. deu alguma intimação para o da foice. dando cria feito bichos. em tão grande número numeroso. às vezes formando mesmo arruados. Teofrásio. Aí plantavam suas rocinhas. que era quem capitaneava. fedorenta. em dobras de serra ou no chão das baixadas. segundo refleti. Tanteei pena deles. Como era que podiam parecer homens de exata valentia? Eles mesmos faziam preparo da pólvora de que tinham uso. Mas por ali deviam de ter suas casas e suas mulheres. era o falador. seus meninos pequenos. calados.

. querendo pedir auxílios. deveras retornou. Faz três dias.. Não temos costume..” Ossos e queixos..Grande Sertão: Veredas que foi quem veio adiante. cuidando... que estão com a doença. não demos passa – 547 – . Mas povoado da gente é o Pubo – que traslada do brejão. no graminhá. Que estamos resguardando essas estradas. a gente vinhemos.... Mas teve de voltar.. que pega em todos.. essas mogúncias e brogúncias.. ossenhor com os seus passaram perto de lá. Não temos costume... Pode querer vir algum. no graminhá. Ossenhor é grande chefe. saudar Zé Bebelo e render explicação: – “Ossenhor uturje.. A gente vinhemos... Ossenhor é Vossensenhoria? Peste de bexiga preta. cuidando. com recado. e esta é a razão.. De não vir ninguém daquela banda: povo do Sucruiú. responsório.... Veio um. mestre. O povo de Sucruiú – estão dizendo : nem não estão enterrando mais os defuntos deles. relatar bobagens. e aquela voz que o homem guardava nos baixos peitos.. valor distante meia-légua.. mestre. Cercar os caminhos.. era tôo que nem de se responder em ladainha dos santos. – “Ossenhor uturje. dando sua placença.... As mulheres ficaram. encomendação de mortos. Ossenhor uturje..João Guimarães Rosa . trazendo a doença.

oferecendo a Zé Bebelo. Castigo de Deus Jesus! Povo do Sucruiú.. e o catrumano velho não bem entendeu. acho que estava produzindo algum feitiço. armou rosto reverso. aquele semblante serioso. como em paga por perdoamento. Estão com a maldição. Os outros deles. rejeitou aquele dado dinheiro. pelo que permaneceu um tempo.” E aquele homem o Dos-Anjos tinha largado a foice no chão. da vista da gente não se ter. e eles desconfiaram. Mas Zé Bebelo. magro. com alta cortesia. depois ficou de mãos postas. que era velhusco e estava com o chapéu-de-palha corroído nas todas beiras. na capital. antigo do Imperador. seguro que por não se rir sem caridade. com os olhos todos fechados.. Zé Bebelo. desses de novecentos – e-sessenta réis em cunho. gente dura de rúim. devagarosamente tinham vindo se chegando também. Assim os outros não entrediziam palavras. apareceu com um dinheiro na palma da mão. com ele ofertado na mão.. botou o pé em riba. Porque um. Ele era magro. e abria os braços. respraz. que só arregalados espiavam.João Guimarães Rosa . para Zé Bebelo e para a moeda.. a urros.. Ossenhor uturje. A que era um dobrão de prata. ainda com senhoriagem de valer até os dez..Grande Sertão: Veredas gem. mestre: convém desemendar deste lado. Bexiga da preta!. mas que na Januária por ele dão dois mil-réis. – 548 – . não passar no Sucruiú.

o no jegue ficou segurando o chapéu em respeito. alta graça. e não temor – pois. o da foice criou ânimo. quietos ali.” – 549 – . e respiravam com roncado rumor. mas aquilo sendo da natureza constante do corpo. que no comum tinham medo pessoal de tudo neste mundo. era de banda. Riam. – “Vim departir alçada e foro: outra lei – em cada esconso. às vezes. O jeito de estremecer. Cônscio. do Brasil.. amigo!” – Zé Bebelo cantou resposta. nas toesas deste sertão. deles.. e não tinham quase nenhum dente. isto é. eu pensei: que nem mansas feras. sem motivo justo. com tantos agregados e pertences?” – “Ei. agora mas para nos agradar. as tantas grandes bocas.João Guimarães Rosa . chefe cidadão. o velho beobobo sumiu seu dobrão de prata em alguma algibeira. era todo. Como que o senhor visse os catrumanos rir! O da foice tornou a apanhar a foice. mesmo indagou: – “O que mal não pergunto: mas donde será que ossenhor está servido de estando vindo. A mais eles todos riram. quando pegavam receio. iam ficando era mais escuros. Que aqueles homens.Grande Sertão: Veredas olhavam como se estivessem prestando conta de suas fortes invejas.

João Guimarães Rosa . que por receio de atrevimento nunca perguntavam. deu não com a mão. Ora vi as derradeiras caras daqueles catrumanos. isto é lazarinha moderna?. Só dos rifles: – “Úixe-te. num vau perto da mata virgem. ainda gritou um conselho: que a gente então principiasse volta. deu ordem de seguirmos. eu pelo tom e jeito bem entendi: gritou. e a cobiça que tinham de fazer cento-e-dobro de perguntas. e abriu a marcha. do arraial onde estava alastrando a varíola reinante. no quebrar da mão esquerda. em reto em diante em frente. no buritizal duma lagoazinha. que era hospitaleiro.. Mas Zé Bebelo. da banda da mão direita – por via de se evitar de passar por dentro do Sucruiú – e que. retomada a estrada. num sítio se chegava. Ia remenicar alguma outra coisa. de tantos grandes jagunços donos de arejo d’armas. o montado no jegue. Mas Zé Bebelo. que mostravam por nossa causa muitos pasmos de admiração. era só se andar as sete léguas. – 550 – . não por serviço de préstimo. Isso aquele homem recomendou. no fim assim. completo de escutar e ver.” Donde um deles. Tocamos. descrendo de temer o que eles anunciavam.. de um tal de seor Abrão.Grande Sertão: Veredas O velho agiu o pelo-sinal... a fito somente de que os seus outros vissem que ele bem possuía coragem também de dar voz. perante presença nossa.

e dormiam farejando. que não custava quase que esforço nenhum deles. De pensar nisso. tinham capacidade para um ódio tão grosso. De mesmo com as penúrias e descômodos. mesmo no trivial. dava soloturno sombrio. Como que marquei: que a gente ter encontrado aqueles catrumanos. E para obra e malefícios ti– 551 – . Esses. e conversado com eles. mal ensinada. eu pressentia. não ri honesto nunca mais. onde está a raiz da alma. de muito alcance. Mas eu não ri.João Guimarães Rosa . Mas mais que. Só o mau fato de se topar com eles. Aqueles homens eram orelhudos. que viviam só por paciência de remendar coisas que nem conheciam. o que estremecia em mim: terreno do corpo. que a regra da lua tomava conta deles. desobedecido a eles – isso podia não dar sorte. cujos modos e usos. eu até estremecia. Raça daqueles homens era diverseada distante.Grande Sertão: Veredas Rir. o que se ria. Apunha algum quebranto. daí. a gente carecia de achar os ases naquele povo de sujeitos. em minha vida. e isso com os poderes da pobreza inteira e apartada. As criaturas. por conosco não avirem medida. Ah. haviam de ter rogado praga. A hora tinha de ser o começo de muita aflição. e de como assim estavam menos arredados dos bichos do que nós mesmos estamos: porque nenhumas más artes do demônio regedor eles nem divulgavam.

no prazo de três noites e três dias. E foi o que eu pensei.. ou guardavam um punhado de terra no fechado da mão. De homem que não possui nenhum poder nenhum. em algum lugar. depois. dinheiro nenhum.. ou de rosnar palavras em buraco pequeno que abriam no chão. no sutil o senhor sofre perigos. Tem muitos recantos de muita pele de gente. elas o senhor fecha bem. o vivo longe do morto. o frio longe do quente. Aqueles catrumanos pedindo por maldição. Capatazia de soprar quente qualquer ódio nas folhas. Aprendi dos antigos. sem abrir. Parar o bom longe do ruim. sem largar: e quando jogavam fora aquela terra. Mesmo que maldade própria não tenham. eles estão com vida cerrada no costume de si. Aprendi dos antigos.João Guimarães Rosa . o senhor tenha todo medo! O que mais digo: convém nunca a gente entrar no meio de pessoas muito diferentes da gente. o são longe do doente. O senhor não descuide desse regulamento. Numa o senhor põe ouro. como era que eu podia deixar de pensar – 552 – . o rico longe do pobre. O que assenta justo é cada um fugir do que bem não se pertence. para ninguém não ver.Grande Sertão: Veredas nham muito governo. e a ele fazer mal. e com as suas duas mãos o senhor puxe a rédea. o senhor é de externos. tapando depois: para o caminho esperar a passagem de alguém. e secar a árvore. na outra prata. nele com data de três meses ficava sendo uma sepultura.

para roubar minhas armas. que nem sabem de seu querer. que nem tinham. Como é que iam saber ter poder de serem bons. com regra e conformidade. vinham se desentocando e formando. haviam de uivar e desatinar. De doente. mesmo que quisessem ser? Nem achavam capacidade disso.João Guimarães Rosa . do brenhal. Haviam de querer usufruir depressa de todas as coisas boas que vissem. tão perto de outros. que se eles tivessem me pegado sozinho. aos milhares mis e centos milhentos. para vigiação sem descanso. eu apeado e precisado. Por quê? Por sustos. algum deles ia ser capaz de me ceder gole duma cuia d’água? Draste eu duvidava deles. Ah. enchiam os caminhos todos.Grande Sertão: Veredas neles? Há-de. Duvidava dos fojos do mundo. que eu estivesse. e puxavam para as ruas. decerto me matavam. E pegavam as mulheres. por castigos? E de repente aqueles homens podiam ser montão. Amargo que acabavam comigo. ou ferido perdendo meu sangue. tomavam conta das cidades. acomodados na vida. porquanto eu era desconhecido e forasteiro. hom’essa. seguro que bebiam as cachaças inteirinhas da Januária. com pouco nem se tinha – 553 – . sem escrúpulos. montoeira. E por que era que há de haver no mundo tantas qualidades de pessoas – uns já finos de sentir e proceder. e bebiam. nem da razão bruta do que por necessidades fazem e desfazem. as coisas e minhas roupas.

que estava mal-invocado por aqueles catrumanos do sertão.João Guimarães Rosa . indo cuidando de seu ramerrão comum. no estufo do calor vingante. O sertão: o senhor sabe. que era – 554 – . E foi por durante quase uma hora. como executava nossa ida. até se chegar perto do povoado do Sucruiú. nem casas. por cima da pior miséria. apreciei uma luz. urgência implorando de Deus o socorro. Bobéia minha? Porque os companheiros. onde que estava arranchada a horrorosa doença. Do fundo do sertão. nem roupinhas de meninos. E adiantava? Onde é que os moradores iam achar grotas e fundões para se esconderem – Deus me diga? Nem me diga o senhor que não – aí foi que eu pensei o inferno feio deste mundo: que nele não se pode ver a força carregando nas costas a justiça. Então era só eu? Era.Grande Sertão: Veredas mais ruas. Mas em tanto. em testa. montado no meu cavalo ruim chamado Padrim-Selorico. Isso foi o que eu pensei. nenhum não punha tento em dessas idéias. Zé Bebelo. a passo por aqueles ruins campos. Dei tino. chefe como chefe. Eu. muito redoído. Da marca de um homem solidado assim. Era preciso de mandar tocar depressa os sinos das igrejas. e o alto poder existindo só para os braços da maior bondade. então levantei o meu entender para Zé Bebelo – dele emprestei uma esperança.

– “Carece de ter coragem. o que ele pensava...João Guimarães Rosa . no escuro sertão. queria. no atravessar o rebelo dum rio cheio. Porque Zé Bebelo previa de vir. rosável mocinho antigo. Se ia. naquelas constâncias.. duro de temporal. – 555 – . eu via. o que é que eu era? Eu ainda não era ainda. Para mim. Da pessoa dele. e Diadorim da minha banda esquerda: mas. ele estava sendo feito o canoeiro mestre. semelhavam no rigor umas pobres infâncias na relega – que deles a gente precisasse de tomar conta.. O cavalo pombo de Zé Bebelo era o de mais armada vista. e para o sertão retroceder. sofrido de tudo mas firme. por confrontação.” – eu relembrei. e. Por ele eu crescia admiração. com o remo na mão. Sei que amava. não amava? Os outros.. feito pusesse o sertão para trás! E era o que íamos realizar de fazer. se ia. Diadorim vindo do meu lado. respeito era. Cavalo selado. o maior de todos. e mandava: tal a guerra. Com Zé Bebelo da minha mão direita. da grande cabeça dele. montado. Carece de ter muita coragem. os companheiros outros. Eu tinha. e muito chão adiante. eu. era só que podia se repor nossa guarda de amparo e completa proteção. cá embaixo.. e que era estima e fiança. Viajar! – mas de outras maneiras: transportar o sim desses horizontes!.Grande Sertão: Veredas sempre alvissareiro.

no pião alto do campo. foi. De que valeram as tantas chuvas? Aí este mundo de sertão tinha se perdido – eu mesmo me disse. Ah. Mas nenhum de nós teve sobrosso. O qual eram as cafuas em suas construções. porque subia para o pedaço de céu um povôo de fumaças. no entremeio da fumaça. O que era. Aquele ano declarava de não se ter nem frio. era. no corguinho rabo serelepe que passamos. E certo que não se tinha medo maior. Obra de um tiro de carabina.Grande Sertão: Veredas Desde. porém. Como que íamos atravessar o Sucruiú. nós.João Guimarães Rosa . lá se chegava. Aquele desgraçado lugar devia de estar lá acolá. E como deviam de estar cozinhando. Donde é que decorre a peste? Até o ver o ar. mesmo da água corrente a gente se receava. em seu sempre. entre as vertentes. com tanto fogão. de passagem. feito andassem por lá renovando pastos desfora de tempo. A poeira e miséria. Antes todos queriam avistar de perto. só os animais foram que beberam a toda sede: que. O sol carregando de envelhecer antesmente as folhagens – o começo do mês de junho já dava parecença de alto fim de agosto. Gente? Não se divulgava. Fazia fole de calor. se queria em reto ou atalho. Essas choupanas. como já entrávamos no perto do Sucruiú. de beiras de terra preta. sem os realces. – 556 – . era de ver que voz Zé Bebelo dava. pelo legal. em reto. Azul desbotado puído. Mas. conforme as léguas que os cascos de nossos cavalos contando.

no vagaroso. Mas pessoas mor que houvesse: por trás da poeira. Algum dia. a fumaça acinzentada e esverdeada. de um em um. que – 557 – . da gente. feito fosse decreto de todas as pessoas mortas. as fortes ave `orarias e padre-nossos. Ao demais rezando. Em frente delas todas. cuspi.João Guimarães Rosa . Aí tossi. e cada um. hei de esquecer aquilo. Voz nem choro não se ouviu. Arruado que era até bem largo. Avante eu rezei. O que subia. Assim aqueles dois iam praticar resumida a oração. tanto tapava. o que estavam era queimando pilhas de bosta seca de vaca. mas mal se enxergavam aquelas casas. também? Tempo não dava. para lá da fumaça verdolenga se vislumbravam os vultos.Grande Sertão: Veredas o que aquilo de verdade fosse. nos soturnos. Mas – o que vieram dizendo. se virando para trás nos cavalos: que não se carecia. consigo reproduzisse. que livram de todo mal vago. Casas – coisa humana. constantemente. que isso bastava. e até os cachorros. e as tristes caras deles. nem outro rumor nenhum. E a poeira que demos fez corpo com aquele fumegar levantante. enchia. E de repente correu aviso que Jõe Bexiguento e o Pacamã-de-Presas sabiam reza para São Sebastião e São Camilo de Lélis. cada morador. depois de hoje. ao real vendo – eu vim. Assim foi que fizemos. no entrecho de minhas rezas. Como se ter? Como se aprender. Só que se tinha confiança nos bentinhos e verônicas.

Não se perturbou palavra. Mesmo que os cavalos nossos indo iam devagar. E foi que dali acabamos de surgir – da arrepoeira e fumaça de estrume. Deus que tornasse a tomar conta deles. conseguido se soltar das possibilidades horrorosas. que é como se vai. tantas máscaras. A reza reganhei. caladamente. devagar duma procissão. quando todos rezando sozinhos em cima deles. eles sabiam ter quanta cláusula. seriam os que estavam jogando todo o tempo mais rodelas de bosta seca nas fogueiras – isso que deviam de ter por todo remédio. Do perigo mesmo que estava maldito na grande doença.João Guimarães Rosa . no exalante. que era uma cortesia de bondade. no vaporoso pardo-azulado. apartados tão estranhos. Revi todos e Diadorim. e a mormaceira. Sofriam a esperança de não morrer. com um fervor. E o que rogava eram coisas de – 558 – . Olhei o ilustre do céu.Grande Sertão: Veredas branqueavam. que condenavam. Aquela travessia durou só um instantezinho enorme. Não espiei para trás. e o corusco de labareda alguma. daquele transformado povo. de seus lugares não saíam. Aos homens e mulheres. não saudavam. Soubesse eu onde era que estavam gemendo os enfermos. Dado dava de um estar soto-livre. não ver de enxergar o fim daquelas casas. Onde os mortos? Os mortos ficavam sendo os maus. do Sucruiú. Nem davam fé de nossa vinda.

Mas. não fui sentindo que queria poder levar também Otacília. todas as demais pessoas. Todos. os pássaros.. os bois. que em minha lembrança eu carecia de muitas horas para repassar. dos cavos do continuado – 559 – . além de que a agradecida formosura da boa moça Rosa’uarda. ah. de meu conhecimento. e aquela moça Nhorinhá. aonde não houvesse sufocação em incerteza. e meu padrinho Selorico Mendes. na hora: e esse Hermógenes eu odiasse! Só o denunciar dum rancor – mas como lei minha entranhada. Alaripe. e mesmo a velha Ana Duzuza. filha de Ana Duzuza. Todos. tão grande: eu queria poder sair depressa dali. os cachorros. levava. E que para o outro lugar levava restantes os cavalos. e as que mal tinha visto. de começo. Todos? Não. o comerciante Assis Wababa. meu mestre Lucas. para terras que não sei.Grande Sertão: Veredas salvação urgente. Igual. os lugares: acabei que levasse até mesmo esses lugares de campos tão tristes.João Guimarães Rosa .. o do Pubo – os catrumanos escuros. o Vupes – Vusps. não podia: e esse um era o Hermógenes! Aí dele me lembrei. dona Dindinha. a mocinha Miosótis. e Zé Bebelo.. não vi. o povo do Sucruiú. e.. agora.. Depois. costume quieto definitivo. terras que não fossem aqueles campos tristonhos. Eu levava Diadorim. os companheiros todos. Só um era que eu não levava.. onde era que então se estava.

no retiro do Abrão. Juro de ser. Daí. e tenteávamos pelo encontrável. Adiantamos ligeiro. lá se estava. Mas. todos perigam – o contagioso. que tudo é desordem. eu era assim. de – 560 – .João Guimarães Rosa . eu. Senti um cansaço. por ser. Mas ninguém tem a licença de fazer medo nos outros. enquanto houver no mundo um vivente medroso. no capim cacheado. Que ódio é aquele que não carece de nenhuma razão? Do que acho. E. Era uma boa casa. nos vermelhos. Tivesse medo? O medo da confusão das coisas. mas era assim. ninguém tenha. vi o céu nos roxos. O sol ia entrando. se sei. um menino tremor. Era feito um nojo. saíram. para essa aversão não carecia de compor explicação e causa. para responder ao senhor: a ofensa passada se perdoa. Misturamos numa baixada. como é que a gente pode remitir inimizade ou agravo que ainda é já por vir e nem se sabe? Isso eu pressentia. no mover desses futuros. depois que passado o vau da mata-virgem. Nem.Grande Sertão: Veredas que tem na gente. mas. Umas lavourinhas. de dentro. O maior direito que é meu – o que quero e sobrequero : é que ninguém tem o direito de fazer medo em mim! São os momentos. onde o campo largueia. Ah. no meu juízo.

andavam cai’caindo. pois. Pois não foi que um deles. então.João Guimarães Rosa . vente. mais deitado do que ajoelhado. ele apertou perna em perna. Cuido que por não perder de todo as calças como vestimenta. quase debaixo dos cavalos. se soube. demorou. Só acertei. por todo engano de pressa. errando no abrir da fuga. feito ratos se escapulindo do toucinho de um jacá. quando se notou. embrafustado. como quem. mal aperfeiçoado. eu reluzi quem que eles podiam ser. de mal-de-ano. superintendeu que não perseguíssemos aqueles tais. para carregar dentro as coisas.Grande Sertão: Veredas repente. Arfava chiado. uns homens. e perdeu as facilidades. Sendo que Zé Bebelo assim na dianteira sempre cavalhava. por suas portas. um menino. Num átimo. Um rapazola retinto. tivesse chupado na boca um gole quente de café demais. por dizer. – “A benção!” – pois disse. às vezes faz assim. O que estavam era em mão de roubando. Era um pretinho. ele se ajoelhou – chato no chão. como que tinham até sacos. nem neles se atirasse por comprazimento. que fugiam corridos. veio do nosso lado. As calças. Nu da cintura para os queixos. rotas em todas as partes. Bezerro doente. E a idéia dele rodou ligeira. tinha tirado do bojo do saco o que estava lá: que era um pé de – 561 – .

. Seguinte o que. E em coisa tão tola declarada assim a gente até crê razão. é do Sucruiú. que nem boldrié – que tudo jogou fora. dond’é?” – Zé Bebelo indarguiu. e dum modo tal inocente. de quem visse risse. um candieirozinho pequeno. E se encolhia. Tenho nada. desses que vinham da Bahia. para uma banda.” Isso tudo se deu curto.. ele tornou a atar melhor o resumo de embira... Semos.. Sou filho de Zé Câncio.. arquejado: – “Tirei não. Minha graça é essa. Tenho nada. e se ria.” – 562 – ... – “Donde é que vocês vieram. sim. que nem o mijar dum sapo. – “A gente quer voltar para casa.Grande Sertão: Veredas alpercata de homem.João Guimarães Rosa . e com isto dizendo... uma escumadeira de cozinha e um arranjado envernizado de couro preto. sim senhor. o longe que pôde... temia. por ser tão afã de absurdo.” Arte que a aproveitar... seu criado. mostrou à gente o saco vazio. nhor sim.. Que nome era capaz de ter? – “Guirigó.. nada não. que cinturava aqueles molambos de calças.

como que receando em si o que não podia ser bom. que’s. o preto no meio dum enorme branco de mandioca descascada. às vezes. trestriste. O couro escuro dele era que tremia. era de beiços. mostrando a língua à grossa.João Guimarães Rosa . por livração. se vê assim.. Olhos dele eram externados. em bezerro pesteado. E quando espiava para a gente. que ali dentro não pudesse caber.Grande Sertão: Veredas Tão magro. colada no assoalho da boca. que não que não. aquele menino já devia de ter prática de todos os sofrimentos. e que carecesse dessa ajuda.. pensando que padecia agonia. eu também vim. constante. mas como se fosse uma língua demasiada demais.... Buscar de comer. do jeito. e tremia pelo miúdo. Jagunço distraído. à primeira.. qu’é que vieram caçar aqui? Fala!” – “O que qu’ a gente veio caçar. – “Mas o – 563 – . era capaz da bondade de desfechar nele um tiro certo.” – “Ih. sim senhor? Eles vieram.” O pretinho espichado no chão sacudia a cabeça. – “Guirigó. que parecia ter gosto de poder negar assim. Menino muito especial. tão descriado. vendo um desses. menino! Quem te vê comer essa tralha que você amoitou aí no saco.

João Guimarães Rosa . os dentes dele estavam alumiando de brancos. sem olhar para trás. sem fungar. queria escape.. – 564 – . nem aceitava regra nenhuma devida do mundo. De mais. a gente ficava desconsolado e legítimo no triste.” – Diadorim disse. Qual. maneiro e leviano. era que nem era ninguém. Ah.. a gente ficava tranqüilizados. queria salvar seu corpo. o menino preto negava. E aquele menino. Não pensei que fosse tão pequeno. renegava: até que tivesse tido mãe. O que ele afirmava. a lagrimazinha só. A gente queria que aquele traste de menino sentisse em si. por um momento que fosse. pulou em rumo.” Havia de negar tudo. Ah. ele fizesse logo isso. que ele aparou. que fosse logo embora! – Zé Bebelo consentiu ordem.Grande Sertão: Veredas de comer todo se acabou. nem estava ali. – “Pra tu adoçar essa tua tripinha preta!” – foi o que Zé Bebelo gritou. e se entristecesse. por tantas suas desditas chorasse uma lágrima. como numa abocada. no descaramento firme de seu gesto. Se abraçava com qualquer poeira. se sumiu por onde carecia de ir. até que a doença brava estivesse matando o povo do Sucruiú. conforme mesmo era. os parentes todos dele. – Que podia. não queria saber. nascido dela. – “Coitadinho.. defronte dos cascos dos cavalos da gente.. fácil. E ainda jogou um pedaço de rapadura.

tomamos conta de tudo e entramos naquela casa. Total o que era de jeito de se carregar. de se espalhar os de vigia. os catres. – 565 – . mas Habão. Por onde andaria o dono? Mas se ficou sabendo que o nome dele não era em verdade Abrão. por todas as quatro bandas. uma coisa alguma em que se pegar. nunca vi nada tão remexido e roubado.Grande Sertão: Veredas – “Hem? Hem?” – Zé Bebelo falou. Virgem! – digo ao senhor: o interior dela dava pena. um cabresto pendurado. que assim se chamava. Não se encontrou uma peça de roupa. mas com a mão não cheguei a bulir. faltava. e que no comum duma casa remediada se acha. uma folhinha na parede.João Guimarães Rosa . uma esteira. Consoante o diploma de patente. Tinham limpado a carne daquele costelame. porque isso me pareceu falta de caridade. uma lamparina de folha. pensando no menino pretinho. os bancos. uma raspadeira. Eram só as mesas. o em arcas e em trouxas. – “O que imponho é se educar e socorrer as infâncias deste sertão!” Eu ia fazer o sinal-da-cruz. uma vasilha. com o determinado costumeiro. para ver o visível e se fazer fogo de aprontar nosso jantar na fornalha de sua grande cozinha. mais o movimento de procura dum pasto bem fechado e conveniente. um gancho de rede. E.

O senhor nem não diga nada. dentro de lá. “Vida” é noção que a gente completa seguida assim.Grande Sertão: Veredas que no chão. se dormiu. de vela-benta. fico me rindo. sediava. que piaram uns momentos. Ah. o pessoal do Sucruiú era capaz de desmanchar até o prédio da casa. viemos ao quarto-do-oratório beijar a santa maior. Se comeu. E o tempo estava alisado. Nisso não tinham desrespeitado de mexer. Com pouco mais uns dias que se passassem. mas só por lei duma idéia – 566 – . que era a Minha Nossa Senhora Mãe-de-Todos. lavrado preenchido cerimonial. Sobravam só os passarinhos. galinhas e porcos. Se acordou. que era no seu manto como uma boneca muito perfeita. de que esse Habão era Capitão da Guarda-Nacional. Vai. num canto. avistei. E nós. no escuro que já fazia. de gado. que estava com suas poucas imagens e um toco para se acender. em válidos títulos. Triste é a vida do jagunço – dirá o senhor. num quarto.João Guimarães Rosa . então. por seus esteios e caibros. nem sinal se divulgava. muito recanto. cada um depois dum. como de toda parte no igual. Cada dia é um dia. Para não falar que. um oratório em armariozinho. pelo acabar da tardinha. e cachorros e o mais. alegres assim no empobrecido. construido pregado na parede. Aquele retiro se chamava o Valado. soltos. bem o digo.

onde em redor. O chão. vendo espiado o que de graça no geral não se vê. E bastantes outras coisas eles decifravam assim. com o João Vaqueiro. As pessoas da casa tinham viajado para a banda de oestes. dali Zé Bebelo já tinha dado. tudo sabiam. mais. a deixa. pegara ida espaçada mais virante acima. dos – 567 – . calcados para um rumo só – um caminho eito. dizer ao senhor se aquele seô Habão era magro ou gordo. Capaz de divulgarem até os usos e costumes das criaturas ausentes. no capim e nos regos de enxurradas. tudo tradiziam. Ora. Aqueles rastros tinham vigorado por cima da derradeira lama da derradeira chuva.João Guimarães Rosa . muito se reconhecia. guardava molde marcado dos cascos de muitíssimas reses. beiradas do ribeirão. em pouquinhas horas. para se lamber. E foi se saber: o Suzarte e o Tipote. também. em lugares. e na altura da cheia já rebaixada. rastreavam redobrados. Cada dia é um dia. Mas o gado. Aos passos dos cavaleiros e cachorros.Grande Sertão: Veredas falsa. E – de quantidade e de quanto tinha chovido – eles liam. e outros. escolhendo por si e sem tocada. aonde devia haver. Tudo eles achavam. salinas de barreiro. remediando o mundo a alho e faro. mas depois de solto por boa regra. seria forreta ou mão-aberta. Pelo comido pastado das reses. Porque. canalha inteirado ou razoável homem-de-bem. ordens já para antes do vir da aurora se cumprir.

Ele concebia medo. do risco de doença e morte: achando que o povo do Sucruiú podiam ter trazido o mau-ar. E ainda antes do meio-dia subir. até pede para não se atrapalhar o devido. E aquele lugar. Dormindo com um pano molhado em cima dos olhos e com a nuca repousada numa folha de faca. mas ajudar. carneadas fartas para a nossa refeição. sussurra. ali. o Valado. Estava. ainda me valia. Conheci. Mas ri por de dentro. explica.João Guimarães Rosa . Tanto ri. e procedi sério feito um pau do campo. eu quis. Crendice? Mas coração não é meio destino? Permanecer. de noite o destino da gente às vezes conversa. num bando. Mas o – 568 – . desemalocaram duas gordas novilhas. Zé Bebelo suscitado determinou. meu destino. eu aceitei – o senhor preste atenção! . que a gente fosse mais para adiante. Mas Zé Bebelo duvidou de ficar. Zé Bebelo pegou a principiar medo! Por quê? Chega um dia. só com o Tipote e o Suzarte o senhor podia rechear livro. ao menos ali. Medo dele era da bexiga. em errei. para ficar. Assim mesmo.Grande Sertão: Veredas centos milhares de assuntos certos que parecem mágica de rastreador. e que mesmo o Sucruiú ainda demeava vizinho justo demais. disso não sabia. Senti assim. Um bom entendedor. uns meus tempos. faz muita necessidade. se tem.

Era para ir? Fôssemos. o medo dele quer logo passar para o senhor. comendo aos poucos o meu caldo com angu. do misturado viver de todos. Nós. Alguém estiver com medo. Chapadas de ladeira – 569 – . e. e galo de manhã cantando em algum terreiro. de jeito nenhum. que até espanta. Pelo que umas cinco léguas andamos. que sempre se suprira certo de si. e que com o cansaço é que se tapa o desânimo. aquele algum seô Habão também tinha se ido. cercados da banda outra pelos catrumanos. mas. é que era justo. Pois Zé Bebelo. porque um bicho daqueles por lá cruzou. Disso deslavava. Eu sei que um se mexer a esmo é sempre fácil. Descemos a Vereda do Porco-Espim. Esses homens do Sucruiú. a coragem sua redobra e tresdobra. que mal vareia. ei que só podiam achar espaço por estes lados. pois nenhum não estava mais em sua saúde. o que eu queria. em invernia de chuva fria esfriada. agora bambeava. era estar sarado de alguma demorada doença. De modo. real. e as coisas cumprem norma. eles sim.Grande Sertão: Veredas cabedal é um só. Carecíamos? Merecer logo ao menos uma semana de quieto.João Guimarães Rosa . se o senhor firme agüentar de não temer. no nosso. meio. conforme decerto. por exemplo. que não tinha nome verdadeiro anterior. próximo. e assim chamamos. tendo tudo por seguro. Mas. me esquentando perto do borralho de um fogão. Eu comecei a tremeluzir em mim.

no avistar o redondo daquilo. parado. mais mor.. um outro corgo-vereda. redizendo o que foi meu primeiro pressentimento. E aquele situado lugar não desmentia nenhuma tristeza. Na Coruja. E por fim viemos esbarrar em lugar de algum cômodo.Grande Sertão: Veredas pouca. eu ponho: que era por minha sina o lugar demarcado.. – eu pensei. Que mesmo como coruja era – mas da orelhuda. por consolo. uma lomba.. estavam presos.. com o cerradão. A vereda dele demorava uma agüinha chorada. Depois. por cima de riscas sedas de brancura. Só esta coisa o senhor guarde: meia-légua dali. esse indicou tudo necessário e deu a menção de onde é que estávamos. mesmo. Bobice de todos. mas feio. de tristes gargalhadas. que com a machadinha na mão e sua cabaça a tiracol tratava de desmelar cortiço num pau do mato. Um homem. porque a suindara é tão linda. começo de um grande penar em grandes pecados terríveis.. lá eu não devia de ter ficado. Ali eu não devia nunca de me ter vindo. demais.João Guimarães Rosa . Que é que o boi diz: – Me ensina o que eu sabia. sua água sem-cor por sobre de barro preto. – Tudo é gerais. nela tudo é cor que nem tem comparação nenhuma. E ali. e a velhice da casa. um retiro taperado. Até os buritis. O que é que buriti diz? É: – Eu sei e não sei. como feio não se vê. Foi o que assim de leve eu mesmo me disse.. Essas veredas eram – 570 – .

Uma encruzilhada.João Guimarães Rosa .. travessia da gente? – 571 – . Os ruins dias. A gente joga um punhado dela nas costas – e ela esquenta: aquele chão gostaria de comer o senhor. Aí mire e veja: as Veredas Mortas. e pois! – o senhor vá guardando. Tem. no meio do cerrado.. a lugugem do canto da mãe-da-lua. se via uma encruzilhada. E o senhor não esteve lá. No meio do cerrado. ah. A qualquer narração dessas depõe em falso.. Ali eu tive limite certo. para a gente dividir de lá ir.. conto malmente.. Até os pássaros. O senhor guarde bem. consoante os lugares. Ou são os tempos. O senhor não escutou. formavam um tristonho brejão. tão fechado de moitas de plantas. Elas tinham um nome conjunto – que eram as Veredas-Mortas. uma perto da outra..Grande Sertão: Veredas duas. e logo depois. vão sendo muito diferentes. alargadas. porque o extenso de todo sofrido se escapole da memória. onde o senhor encosta a palma-da-mão em terra. por uma ou por outra. O senhor não pode estabelecer em sua idéia a minha tristeza quinhoã. e ele cheira a outroras. e sua mão treme pra trás ou é a terra que treme se abaixando. o castigo do tempo todo ficado. em que falhamos na Coruja. tão apodrecido que em escuro: marimbus que não davam salvação. Agouro? Eu creio no temor de certos pontos. em cada anoitecer.

e ia tomando conta do meu juízo: aquele projeto queria ser e ação! E. no diário. da bexiga-brava. de em antes. conforme eu era. instantantemente. Todos. não. eu ainda não digo. frouxa nervosia. Agora.. Coisa cravada. despropositou o frio.” – me diziam. Feito num traslo copiado de sonho. Pior não estive. com esforços. Dormia pouco. Tudo o que me vinha. com a intermitente. por falta de sinal. era só entreter um planejado. Eu pensava. em que eu restava acordado. com o seguido dos dias. de todo faltava. Nela eu pensava. Em algum trecho. espalhada em tudo. E um andaço de defluxo. a gente devia de ter arranchado no sezonático.João Guimarães Rosa . Remédio que valesse. a maior parte dos companheiros tremiam em prazos. eu. como pensava. Com uma raiva.Grande Sertão: Veredas Daí. Nessas horas da noite. como o quem-quem remexe no esterco das vacas. o que era. mas que. mas. eu preparava os distritos daquilo. ansiado ou em brando.. Febres. minha cabeça estava cheia de idéias. E quase que todos os companheiros já estavam adoecidos. vezmente. me davam por normal. se encorpava. e agora. Aquilo afracava. Refiro ao senhor que. Mas de outras enfermidades. como a água – 572 – . – “É do fígado. de dia em dia eu ia ficando demudado. que. que também me baqueou. sei. de mim. os homens perdiam a natureza. no começo achei que era fantasia. mais retardo de relatar.

Grande Sertão: Veredas das beiras do rio finge que volta para trás. mas aquilo. sistema que tinha aprendido. Como é? Aos poucos. mesmo desfazendo de esclarecer no exato meus passos e motivos. me lembrando de estórias antigo contadas. assim. por terrível que fosse. a mais medonha responsabilidade possível – ato que só raro mas raro um homem acha o querer para executar. eu quis. Ah. meio às tantas. um rompante de grande coragem. Um gole que era fogo solto na goela e nos internos. não se coma. na moleza.João Guimarães Rosa . mas tinha! Em tal já sabia do modo completo. Quis. nesses sertões todos.. A maneira que quase sem saber o que eu estava fazendo e querendo. como a baba do boi cai em tantos sete fios. Vai. Antes. adiando. No que eu confiei que estava pronto para ir – 573 – . Ao que. Tinha preceito. as astúcias muito sérias. Custoso pior não sendo. De em desde muito tempo. O que seja – primeiro. dura nos dentes. perguntando em conversa a uns. no arrevesso. o que eu vinha era adiando aquilo. pouquinhos. eu tateava. eu tinha de levantar. não se beba. Ao que era por tanto negrume e carregume. escutando de outros. se bebe cachaça. Só o que demandava era uma fúria de quente frieza.. Não quebrava o jejum do demo. Digo! comecei. um dia. o que eu tinha de proceder. e é.

até à hora. que é que eu era? Um raso jagunço atirador.João Guimarães Rosa . e meu corpo agradecia. aquelas decisões. Sonhei coisas muito duras. de ser e de fazer. Mas. aceitei a companhia dele. agora. Ah. os moços olhos. Diadorim. naquelas outras coisas não queria pensar. Cacei comida. e certa bem que estava. Diadorim conversou. e no real eu não conseguia. Só a continuação de airagem. Aí foi um instante: Diadorim estava perto de mim. por quê? – eu pensava. Deixei. com as pestanas compridas. Logo larguei meu começo de mão. Os outros. que eu tomei sombra vergonhosa. vivo como pessoa. Comi tanto. E a herança de minhas queixas antigas. Conforme eu pensava: tanta coisa já passada. Desde aí.Grande Sertão: Veredas avante: no que eram obras de chão e escuridão. trançar o vazio. Tanto o engano. A vida era muito normal. pauteei. sempre achei: por causa de minha costumação. eu reproduzi tudo com uma qualidade de remorsos. – 574 – . e por causa dos outros. dormi. cachorrando por este sertão. mesma. relaxei aqueles propósitos. zampei. O porque era pior. com aquela forte meiguice que ele denotava. A aguardar. Os três dias passados. trastejo. O mais que eu podia ter sido capaz de pelejar certo. Engano meu. e. e ri. eu carecia de não deixar que nem um fiozinho de idéia comum em mim esvoaçasse. por ter começado e não ter tido firmeza para levar a acabado. então.

para mim. E – 575 – . Logo vi.João Guimarães Rosa . até que os adoecidos sarassem. desgovernavam todaa-hora a atenção. que tornava a dar ataque. com ele? Sendo o que a um assim não podia permitido. De Zé Bebelo. Ei. não existia mais em viço para desatinos. Zé Bebelo doente não estava. De que é que adiantava. A não ser por essa malacafa. em pobres horas. e viviam perto da gente demais. se não. que viviam à-toa. Por isso. estatuto de jagunço? Ah. aqueles exageros bonitos e tamanhos rasgos. desestribados. ele estava caipora. a rastejo no capim e nas folhas caídas. Apartado. e o alto destino possível da gente. nada que falava era mais de se reproduzir. Zé Bebelo. a segurança destemida. Só dizendo que tínhamos de esperar mesmo ali.Grande Sertão: Veredas os companheiros. Mas uma jararaca picou o Gregoriano: era aquela. só se perdesse de todo o siso. era. dos de entortar boca escumante e se esbracejar e espernear com madeira de braços-e-pernas que de quem eram. eu tinha grande desprezo de mim. Tudo o que acontecia. a certeza de se ser. Doença. nem chegava a quatro palmos – e com poder de acabar – e o Gregoriano morreu. Zé Bebelo murchava muda na cor. aquele atrasamento geral. Daí tinha conta a nossa reles perdição. tinha gastado as vantagens. Não digo por um Zé Vital. Assim em impossibilidades. pois. mais do que de todos. era a má-sorte. e tinha cisma de todo o mundo.

virava era azul. se dizia – que estava encravada na vida de seus encaixes e carnes. Daí. com o intervalo dos meses. sem razão entendível nenhuma. até os dentes. E horror de se ver. uma mancha só. o metal do esverdeio. como faz-de-conta. O nariz entupia. Sempre Zé Bebelo não desistia de palavrear. inchado. não carecer de imaginar onde era que tal pessoa estava. Dizia naquelas horas que estava sem visiva. do meio-dia para a tarde. A – 576 – . Ao que os olhos inchavam. fazia já alguns anos. a raleza de projetos. Aquilo era para poder sarar? Quando que? A tosse dum garrote entisicado. Ele tossia. Mas que em desregra a gente se comportava. as boiadas daqueles sertões. nada não enxergava. Assaz em aparências de saúde. mas tendo sido baleado na cabeça. na Coruja. como fosse menos-emais para aproveitar a carne fresca e de-sol que na campeação se conseguia. o muito grande. e de repente. de parar ali envelhecendo os dias. ficava mal.Grande Sertão: Veredas mais conto o que com um Felisberto se dava. feito flor de joaninha-silva em muito sol. A maior felicidade era ele não saber quem tinha acertado nele aquela bala. a cara desse Felisberto se esverdeava. uma bala de garrucha – a bala de cobre. então. em ponto onde ferramenta de doutor nenhum não alcançava de escrafunchar. Aí. de azinhavres.João Guimarães Rosa . nem de ódio constante de repensar nela. tudo fuscado em verde.

mas não me certifiquei: apalpar lugar de meu corpo. mói. E o Sidurino disse: – “A gente carecia agora era de um vero tiroteio. por doença. Adiantemente. O que me coçava.João Guimarães Rosa . naquela hora. duvidar. carregação-do-peito. o fígado. me desvali. Raimundo Lê cozinhou para mim um chá de urumbeba. Diadorim – que graças-a-Deus estava de todo são – com os cuidados todos depunha assisado por mim. e era dado com bondade... para exercício de não se – 577 – .” Alaripe pegou a gabar a virtude mezinheira das mais raízes e folhas.Grande Sertão: Veredas mó de moinho. que nem se eu tivesse provado lombo de capivara no cio. e estou vendo que é dado com bondade. devem de poder servir. meias-dores. A ser. Isso mesmo foi o que eu disse a Raimundo Lê. As doenças se curassem? Minhas dúvidas. eu conferi como era usual a gente estimar os companheiros. nela não caindo o que moer. Aí. Ali. si mesma. agradecido: – “É um recurso para aliviar meu achaque. e a pavoã por perto crescida. mói. em doses. esfiada em tantos espetos..” – ele disse. me dava um desalento pior.. que. que me doía. quem não pegara a maleita padecia por outros modos – malde-inchar. Era um recurso para aliviar meu achaque. só que não se sabe. – “Até estas aqui. mói assim mesmo. por uma moita rosmunda de frei-jorge. em ajuntado. teve até agravado de estupor. de remédio para algum carecer.

de uma vez! Aí. Ah. para mim – que não tenho rebuço em declarar isto ao senhor – parecia que era só eu quem tinha responsabilidade séria neste mundo. – 578 – . o que eu agradecia a Deus era ter me emprestado essas vantagens.” Ao assaz confirmamos. que podiam ir salientemente cumprir. gente como nós.Grande Sertão: Veredas minguar. mesmo não refugando a sacrifícios para socorros. e o que me picou foi uma cobra bibra. por alguma ordem política. e se pandegar. Aqueles. de se dar fogo contra o desamparo de um arraial. e eu não era capaz de acertar com elas todas. todos estávamos de acordo com o sistema.. vadiando. Mas. eram com efeito os amigos bondosos. Mas. A alguma vila sertaneja dessas. também.. confiança eu mais não depositava. por obediência saudável e regra de se espreguiçar bem. com madrinhas e mães – eles achavam questão natural. no fato.. eu despertei em mim um estar de susto. de ser atirador. depois. de outra gente. ali. num instante eu achei e completei: e quantas outras doideiras assim haviam de estar regendo o costume da vida da gente.João Guimarães Rosa . em ninguém. mal acabei de pronunciar. O horror que me deu – o senhor me entende? Eu tinha medo de homem humano. se ajudando uns aos outros com sinceridade nos obséquios e arriscadas garantias. Aprovei. entendi uma dúvida.. de arpejo. A verdade dessa menção.

” – um deles. Esquecer. espantado. Ah. aqueles que agorinha eram meus companheiros. o que eu não pensei. firme: – 579 – . Eu também. para agradar o meu espírito.. Aí. eu só queria era ter nascido em cidades. para mim. eu sem querer disse alto: – “. Algum fez o pelo-sinal. falou: – “O inimigo é o Hermógenes.Grande Sertão: Veredas por isso me respeitavam. Só o demo. o Muito-Sério – o cão extremo!” Eles acharam divertido. para poder ser instruído e inteligente! E tudo conto. cometer ruindades.. Ateado no que pensei..João Guimarães Rosa . Mas Diadorim. fosse. que quando ferrava não largava. é quase igual a perder dinheiro. sujeito à instância dessa jagunçada? A ver. se isso sendo assim possível. como era pois que agora eles podiam estar meus amigos?! O senhor releve o tanto dizer. me olhou. façanhosos. e pensei ligeiro. então.. podiam chegar lá. Mas eu ficava imaginando: se fosse eu tivesse tido sina outra. sendo só um coitado morador. Seja. teimei e inteirei: – “Só o Que-Não-Fala.” Disse. feito o senhor. Não gosto de me esquecer de coisa nenhuma. como está dito.. avançar em mim. o Que-Não-Ri. em povoado qualquer. o que eu reproduzi.. Então? Mas. me indagou. Arte de docemente. mas assim foi que eu pensei.” E: – “Uém?.

Mas quem me instruiu disso. aquela escuridão queria mandar os outros embora. o que a gente acabava de fazer. E. consoante relatei. ao mau respeito. escurecendo. Vi como é que olhos podem. Assaz de contente. Diadorim tinha uma luz. Hermógenes Saranhó Rodrigue Felipes – como ele se chamava. e no Rio das Fêmeas. foi o Lacrau. Mas. A terra dele. na ocasião. nem nós mesmos no exato. nos gerais da Bahia.João Guimarães Rosa . sem ninguém saber. entre nós dois. ele me respondia. Se era verdade. para lá do Alto Carinhanha. se tinha sabido daquilo. enquanto Deus dura. me lembro de hei-de me lembrar. certo! O inimigo é o Hermógenes. Desde todo o tempo.” Vigiei Diadorim. mas redito que possuía gados e fazendas.. Reponho: em tanto já estava noitinha. aquele que à custa de riscos conseguira nos Tucanos se baldear para o meio de nós. por que sinais se – 580 – .. o que se contava? Pois era – o Lacrau me confirmou – o Hermógenes era positivo pactário. hoje.Grande Sertão: Veredas – “Que sim. A ele dei de perguntar. muitas coisas. era o julgamento do Hermógenes. definitivamente por morte. entestando nos fundos. não se tinha noção qual era. até em escritos no jornal já saiu o nome dele. e no Rio do Borá. O que Diadorim reslumbrava. veja. todo o mundo sabe. neste sertão. ele levantou a cara.

– “Pra matar. se avezando por cima de todos..” Mas a valência que ele achava era despropositada de enorme.. sempre sobrevinha para corrigimento alguma revirada. sendo que... muito mais própria do que a de fechamento-de-corpo.Grande Sertão: Veredas conhecia em favor dele a arte do Coisa-Má. não favorecendo que ele tivesse pena de ninguém. Se diz. com tamanha proteção? Ah. que essas coisas são por um prazo. ele foi sempre muito pontual... e.” O Lacrau se ria. – “Você. mano. quero lá não navegar por detrás das coisas. tudo. Coragem minha é para se remedir contra homem levado feito eu.. não é para marcar a meia-noite nessas encruzilhadas. no instinto derradeiro. Ora. – “Ah. E como era a razão desse segredo? – “Ah. era capaz de fechar desse pacto?” – eu indaguei. Pactário ele era. só por acento.. você. o que queria. o que é que vale? Que é que a gente faz com alma?.João Guimarães Rosa . no fim de qualquer aperto. O que é porque o Cujo rebatizou a cabeça dele com sangue certo: que foi o de um homem são e justo.. nem respeitasse honestidade neste mundo. sangrado sem razão. – 581 – . arrumava. Lacrau. nunca perdia nem adoecia. Assinou a alma em pagamento.. que não cede nenhum valor à alma. pois porque ele não sofria nem se cansava. não. medonha mais forte que a de reza-brava. Ele me dizia que a natureza do Hermógenes demudava.

um homem mais homem? Os outros. no existir dessa gente do sertão. Assim eu discerni. O medo. Mas. Só o Hermógenes. Até amigo meu pudesse mesmo ser. com a roupinha nova e o chapéu novo de couro. o quanto famanava. era que gerava essas estórias. até de acabar com Joca Ramiro. Rúim. que havia.. o resto. mas inteirado. para toda certeza. um homem. Esse Lacrau tirava a sensatez da insensatez. a maldade pura. considerei comigo. Nem birra nem agarre eu não estava acautelando. que todos acabavam tendo do Hermógenes. O senhor não é como eu? Sem crer. por bem dizer. Mas Diadorim era quem estava certo: o acontecimento que se carecia era de terminar com um. sorrateiro. arrenegado. Outras informações ele disse. quando se vê quando se vem da banda da Mãe-dos-Homens – surgido alto nas nuvens nos horizontes. Diadorim.Grande Sertão: Veredas enfrentar a Figura. senhoraço. destemido. cri.” Calado. Às parlendas. de tudo tinha sido capaz. na canoa – 582 – . o Reinaldo. Em tudo reconheci: que o Hermógenes era grande destacado daquele porte.João Guimarães Rosa .. O fato fazia fato. Ele. guiando meu ânimo para se aventurar a travessia do Rio do Chico. legítimo. bobéia. me lembrei dele como menino. essas criaturas. em tantas alturas. muito estudantemente. então não houvesse. igual ao pico do serro do Itambé.

achava mais custoso. na água fina e no ar dos ventos. nem tolerar meu remarcado de jagunço. na ocasião. O senhor não quer. a razão. A ser que se nublando a sustância da recordação. Para isso rezei. o que conto assim é resumo. deu de ser assim. O que eu pensei. o senhor não está querendo saber? – 583 – . não me davam nenhuma cortesia. entalado na perdição. a esquecida formosura. no afinco de tudo lhe referir. é que éramos destinados para dar cabo do Filho do Demo. cada vez. o seguinte para a desconsolação. era uma. no estado do viver. Mas em tanto. a possibilidade capaz. A razão maior. sem honradez costumeira. Assim a nossa conversação de amor. que se tinha. com as mudanças e peripécias. lá na Santa Catarina. pois. e eu. aí. Elas. Mas eu achei. As quantias por paga! O senhor entende. Esse menino. as coisas vão enqueridas com muita astúcia: um dia é todo para a esperança. escutada de outra pessoa contar. Sei que eu queria uma saudade.Grande Sertão: Veredas afundadeira. de minha extração e da minha pessoa: a certeza de que o pai dela nunca havia de conceder o casamento. não consistisse mais do que em uma estória alheia. ditas conforme digo – não toco no nome de Otacília? Nela eu queria pensar. Só um vexame. era feito eu lavrasse falso.João Guimarães Rosa . do Pactário! O que era o direito. a todas as minhas Nossas Senhoras Sertanejas. mas mal que. Mas rebotei de lado aquelas orações.

” – era como eu me aprazava. a célebre aparição. E. com isto. qualquer dia destes.. deveras. sem motivo para não. – “Ah. agora. Só para confirmar constância da minha decisão. Não é que. para satisfazer honra de minha opinião. como quem saca sua faca para relumiar. esperar o Maligno – fechar o trato. Ah. Aquilo – era eu ir à meia-noite. Duma meia-noite. eu decidi comigo: – É hoje. que eu ainda não tinha sido capaz de executar. hoje.. Delonguei. de sopesar minhas seguidas forças. na encruzilhada. não foi de medo. Sem motivo para sim. como quem pula a largura dum barranco. sem assunto.João Guimarães Rosa . antes da hora. eu não cria. Aquilo. Nem.. Ao que. acertar aquela fraqueza. mesmo em tendo vontade. Uma precisão eu encarecia: aí. fazer o pacto! Vejo que o senhor não riu. O que eu tinha.Grande Sertão: Veredas Aquilo. que falei. por mim – só a invenção de coragem. já está ciente o senhor? Aquilo. Mas dessa vez eu ainda remudei. E eu me enviava pelo sério.. ah – tomara eu ter! Rir. Nem eu cria que. engasga. no passo daquilo.. o resto.. E veio mesmo outra manhã. Alguma coisice por principiar. O que – 584 – . qualquer hora. pudesse se dar alguma visão. duma noite. pois digo. O dum dia. alguma espécie aquilo continha? Na verdade real do Arrenegado. Também tive. somente que fosse.

nunca teve instante desiludido. e como se despedia. Diadorim. por aquele tempo eu quase não abria boca para conversação. conforme o vento. mesmo quando estremecia. e se representando. soforma dalgum bicho de pêlo escuro. na morte das horas. Eu não acreditava. T’arreneguei. o tempo mais parava. manquinho. e daí erguido sujeito diante de homem. Com isso. Sempre eu gostava muito dele. passa um bando de papagaios. – 585 – . beiçudo. por um desses impossíveis de Zé Bebelo. esse.João Guimarães Rosa . Do Tristonho vir negociar nas trevas de encruzilhadas. e o rumor deles. faz que nem estivessem retornando. balançando chapéu vermelho emplumado. por que era que eu não ia poder? E o mais – é peta! – nonada.Grande Sertão: Veredas algum tivesse feito. Só que não falasse. depois. Também. canhim. Mas os papagaios estão voando já longe. medonho como exigia documento com sangue vivo assinado. por entre chorinhos e estados austeros. Ao que mais foi que aconteceu ali? Bem. por cima dos pés de bode. no estrondo e forte enxofre. cujo a Coruja era que era o nome. o senhor pensa que eles levaram de sua pessoa alguma diversão. fazia mais de mês que a gente estava naquela tapera de retiro.

Admirei a noção dele: que era uma calma muito sensata e firmada. vestido com brim azul encorpado escuro. de rabejo vasto. Seô Habão estava conversando com Zé Bebelo. com imponência e todo brio. e mais tarde o senhor verá o que ele era. Aí logo se soube: era o dono daqueles lugares. Ele sabia olhar redor-mirado a gente. grande. e ele. E – 586 – . não perdendo azo de reparar em todas as coisas. principalmente. Mas o cavalo – esse me entusiasmou: era um animal gateado. cavalo que debruça bem e que em poço bebia remolhando a testa. seô Habão se chamava. como era que estavam em que pé. dele depois lhe conto. outra vez. quando não se esperava. Era um homem de boa idade. e respirava para dentro dos peitos a maior quantidade de ar que desejava. ele já tinha se apeado. conforme já disse. Quando levantou o olhar. junto com um miúdo comportamento. de beiço mole. Olhares de dono – o senhor sabe. por quantas ventas tão largas ele tinha.João Guimarães Rosa . Ali. do retiro do Valado. um deles se vendo que sendo patrão. e calçando pretas botas joelhudas.Grande Sertão: Veredas E se deu que chegaram lá dois homens. quando dei fé. E vigiava os traços simples do arredor. mas seguro com a mão esquerda na rédea de seu cavalo. e o outro algum vaqueiro de seu serviço. Bem. notei que tinha boa catadura. cavalo de cara alta. estava curvado para o chão. com simpatias ou com desprezos.

a – 587 – .” O homem depressa pronunciou que tinha prazer naquilo. não transportava consigo o dinheiro razoável.. Mas que.. ele havia de fornecer ademais um auxílio. na ocasião. E favor. Mas. isso não. em espórtulas. que temos carneado. estava desprevenido. Zé Bebelo abriu um gesto. como por uma regra. mais ou menos. vi que ele era adiantado e sagaz. mas. E ele falou aquilo com tantas sinceras medidas – a gente se capacitando do profundo que o dinheiro para ele devia de ter valor. na vertente do Resplandor. nem deixando o outro estipular: – “Ah. é a primeira que ouve e se sacode e corre – e mesmo em quando tenha razão. de sobra. dali a umas vinte léguas de lonjura. he. que sua boiada toda estava às ordens. perguntou assim mesmo quantas cabeças. patrício meu amigo.João Guimarães Rosa . mas absolutamente! A gente não é gente da desordem. nós já devemos ao senhorpela pousada em suas terras e pelas cabeças de gado de sua posse.. se a gente desse a ele o gosto de seguirmos até à verdadeira sua fazenda-grande que possuía.. com seus modos guerreiros. Porque: ema. Por aí.Grande Sertão: Veredas assim foi que ele declarou a Zé Bebelo que. no chapadão. à fidalgamente. por precisão de sustento.

para destapar outras serras. que escutava com respeito. sutil. a gente sabia que o mundo não se acabava. com ensejos de ir mostrando a valia declarada que tinha. homem carecesse de cuidar comercial. que era de ver: conheci que fazendeiro-mor é sujeito da terra definitivo. mais. de jagunço chefe famoso. nos trabalhos perdidos daquele ano. devagarzinho pegava a fazer perguntas. se reconhecia da parte dele um certo desejo de agradar ao outro. Por causa que o outro era diferido. Eu pensei: enquanto aquele homem vivesse. inquiria. e espiava gerente para tudo. que era. mas o que se aprende. Vivendo. mas que jagunço não passa de ser homem muito provisório. E ele era sertanejo? Sobre minha surpresa. e das doenças sucedidas. por desando das chuvas temporãs e do sol grave. E seô Habão. – 588 – . com a idéia na lavoura. e do vento suão. é só a fazer outras maiores perguntas. Assim ele dava balanço. se aprende. Tem de todas as coisas. Serras que se vão saindo. Fiquei notando. composto em outra séria qualidade de preocupações.Grande Sertão: Veredas gente já tinha consumido. e daí. Em como Zé Bebelo aos poucos mais proseava. como se até do céu. O que me dava a qual inquietação.João Guimarães Rosa .

que somente a estância dele. o próprio Zé Bebelo se via principiando a ter de falar com ele em todas as pestes de gado. sem glória nenhuma. no feijãoda-seca e nos arrozais cacheando. em tiroteios com os praças e na grande tomada. apesar de toda a cortesia de respeito. mesmo sem sentir. Porque seô Hahão. era para se querer longe da gente. Com efeito. seô Habão. Daí. em que os passarinhos de Deus viram em a má praga. então. de boi-decoice. quando se falava em loca Ramiro. digo – me disse: que um homem assim. conferia e reprovava. Mas. mansoso e manso. fincado sempre para o seu arrumo. da formosa cidade de São Francisco – que é a que o Rio olha com melhor amor.João Guimarães Rosa . verdadeira.Grande Sertão: Veredas E Zé Bebelo mesmo se cansava de falar demonstrado. que logo se exigisse e deportasse. pois. era um toco de pau. no Hermógenes e no Ricardão. já media. só por um doente desejo de necessidade de ver bem se aquilo era. por quinhentos cavaleiros. o certo foi que não sosseguei até poder me – 589 – . ou. nos intervalos daquela dividida conversa. em frente. sei lá. não sei o que Zé Bebelo sentia nem achava. Ele só entendia de assuntos triviais. nem ouvia. não tinha sincero jeito possível: porque ele era de raça tão persistente. no diverso da nossa. que não se destorce. e nas boas leiras de vazante. assim ia sendo que. mas cuidava deles com uma força vagarosa. Do contrário. Eu. E. no mais.

que tinha aprontado para declarar. e vim em fala. E esqueci as palavras primeiras. perguntou nada. Ele nem deu ar de interesse no fato. Assim.. na casa do Valado. Seô Habão me olhou com tantã norma desusada.“A bexiga do Sucruiú já terminou. E nem custoso não me foi.” – eu disse. fazendo como se menos quisesse.Grande Sertão: Veredas presenciar com ele. perto a perto.. Disse: . que de roubos a furtos a gente do Sucruiú tinha devastado..” E o que indagou foi se eu soubesse se tinham feito muitos estragos nos canaviais.João Guimarães Rosa . por ter relido o diploma. E contei a ele que a referida patente eu tinha por cautela apanhado do chão e guardado dentro do oratório... por detrás das imagens dos santos. – “. porque ele passou ali com a gente muitas horas. Dei um jeito. não me agradeceu por isso. – “Seô Capitão Habão. e inventar conversação. e num relance eu conheci que estava também tendo de falar o p’r’ agradar. Estou ciente dos que morreram: foram só dezoito pessoas. quase que o dia todo. que eu senti minhas falsidades.. o que dissertei foi que eu sabia do título de capitão que ele usufruía. e que – 590 – . O que eles deixaram em pé.

era um desadoro. Ao que a rapadura havia de ser para vender para eles do Sucruiú. deu em mim. que seria meditável. de repente. e aquele seô Habão olhava feito o jacaré no juncal: cobiçava a gente para escravos! Nem sei se ele sabia que queria. Disse que ia botar os do Sucruiú para o corte da cana e fazeção de rapadura. Zé Bebelo. milho. com a mesma voz. aqueles do Sucruiú.” Ele repisava. fossem juntas-de-bois em canga. juro ao senhor. Ao que. lá. mesmo. criaturas de toda proteção apartadas. num vagar vago.. que o que se podia estender em lavoura. que depois pagavam com trabalhos redobrados.. e todos os companheiros. O feijão. e colher. com aqueles olhos baçosos – aí eu entendi a gana dele: que nós. boto grandes roças no Valado e aqui.. Mas eu não tinha raiva desse seô Habão.João Guimarães Rosa . que nós éramos.. que ele não era antipático. circunspecto. sem calor nenhum. se Deus quiser. Até enjoei.Grande Sertão: Veredas lobo ou mão-pelada não roeram. sempre há-de dar uns carros.. que a gente pudesse dar os braços. Os jagunços destemidos. Diadorim. Acho que a idéia dele – 591 – . De ouvir ele acrescentar assim.. se move moagem. pensava aqueles capítulos. muito arroz. feito jornaleiros dele. eu. arriscando a vida. foram umas nervosias. para capinar e roçar. Eu tinha era um começo de certo desgosto.” Agora ele conservava os olhos sem olhar. E espiou para mim. – “Para o ano.

ligeiro logo era capaz de ficar cheio de influência: exclamar que assim era assim mesmo. e ai para se ouvir.Grande Sertão: Veredas não arrumava o assunto assim à certa. Pudesse. de reduzir tudo a conteúdo.João Guimarães Rosa . muito diferente da de jagunço. e sangue – 592 – . Estava picando fumo no covo da mão. berrando rifles em todo fogo. E ele dava ordens. porque jibóia constraga mas não tem veneno. Ainda confesso declarado ao senhor: eu não tivesse raiva daquele seô Habão. cada bicho. Cada pessoa. eu antes queria ver chegar duma vez os do Hermógenes. em galopadas e gritos. Zé Bebelo. um seô Habão. economizava até com o sol. ah. os mil alqueires de arroz. para um bom Governo. Era só os carros-de-bois carreando a cana. um condescendido: vinte.. para se transformar aquele sertão inteiro do interior. precisava de todos como escravos. para esse ô-Brasil! Em peta. esse não se entusiasmava. Nós íamos virando enxadeiros. trinta carros de milho. A raiva não se tem duma jibóia. garanto ao senhor que não esperdiçava nem o átomo dumas felpas.. Mas a natureza dele queria. com benfeitorias. com a chuva. havia de ser costumeira e surda. A alegria dele era uma recontada repetição. cada coisa obedecia. que esses projetos ouvisse. que. então. E ele cumpria sua sina. Porque ele era um homem que estava de mim em tão grandes distâncias. Nós? Nunca! Mas. Ordem que dava.

mas não regozijei completo. devagar. De ver o homem. por um despique. feito quem esquenta mãos por cima dum fogo fumacento. foi que acertei meu correão com as armas... feito ceguinho catando no chão o cajado. diante de mim. recrescer e tornar a minguar – isto tudo no meu juízo – nem sei – 593 – . Nem sei se ele sabia que meu Padrinho Selorico Mendes fosse. com a estirpe daquele seô Habão.. em pé. conforme até por estes sertões do gerais se contava. como era. – “Dou notícia. seô Habão.João Guimarães Rosa . muito mais fornecido de renome e avultado em posses. Aí era que iam saber o que sebaceiro é! E. surpreendido mas circunstante. Natureza da gente não cabe em nenhuma certeza. tomassem.” – ele quase que se lastimou. Do que destapei: que um desses. o senhor conhece meu pai. tirassem dele.. A misericórdia. toda a vida. Regozijei. juro ao senhor: ele me olhou com muitos outros olhos. e tatear.Grande Sertão: Veredas para quem ver pudesse. Dou notícia. Seô Habão sacudia em sim a cabeçona. Mas. facilitado. eu quase tive. também. Aquele olhar eu agüentei. fazendeiro Senhor Coronel Selorico Mendes. de repente. e pronunciei: – “Duvidar. que nem criancinha sem mãe. do São Gregório?!” Pensei que ele nem fosse acreditar. tudo aquilo de que era dono – e ele havia de choramingar.

belo. para lá...” E instantâneo expediu. e se foi. no rumo torto do Valado. andavam parapassando. com uns outros. que reconheceu. que acompanhava o seô Habão. de rompido. jagunços também. Depressa então falaram o assunto ciente para Zé Bebelo. ei. fato que ao senhor retardei: devido que mesmo um contador habilidoso não ajeita de relatar as peripécias todas de uma vez. mais dia. em entre o Fazendão Felício – que é na beira da estradamor para esse poente todo – e o Porto velho da Remeira. pelo dito e visto..João Guimarães Rosa . por acasos mencionou que um bando de uns dez homens.Grande Sertão: Veredas de que estimas me esquecia e de que outras me lembrava. como que à espera de destino. pela descrição: – “Chagas de Cristo! É eles. todo o mundo acaba vindo chegando. ele tornou a amontar no seu cavalo gateado. no rebaixar do sol. com pouco. Pois foi que o vaqueiro tal. Isso com a certa alegria se ouviu. menos dia. porque eram novidades acontecendo. Sobre assim. aí corria no meio dos nossos um conchavo de animação. que tocassem ligeiro como sem senões e voltassem trazendo os comparsas amigos. Só pode que pode ser é mesmo o João Goanhá. egüei.. dois próprios. no rio Paracatu – aonde. E. em conversa distraída com algum ou com outro. – 594 – .

Fazia muito tempo que eu não descabia de tão em arrojo. A não me apartar à-toa dali – das VeredasMortas! Sombra de sombra. Porque eu estava sabendo – se não é que fosse naquela noite. Dou: que nunca. E tanto mesmo nas idéias pequenas que já me aborrecendo. Retrocedi de todos. soberbo? Da mão peluda. A resolução final.Grande Sertão: Veredas Afora eu. Senti esse intimado. fuscava. foi entardecendo. e por causa de tantos fatos que estavam para suceder. que nem num transtorno? Mais não sei. por quê? Tem alguma ocasião diversa das outras? Declaro ao senhor: hora chegada. eu firme estava. e que a gente carecia de sair de novamente por ali. feito naquela hora. Ah.João Guimarães Rosa . De Zé Bebelo. que tomei em consciência. Somente com a alegria é que a gente realiza bem – mesmo até as tristes ações. Ao que eu estivesse destemido. Quem que não existe. Eu ia. nunca mais eu ia receber coragem de decisão. e em aquele dia. o Ele. demais: que ele havia de – 595 – . Eu pensava na vinda de João Goanhá. O aquilo.. por terras e guerras. dia contra dia. Achado eu estava. em espécie de necessidade. que – agora eu ia! Um tinha de estar por mim: o Pai do Mal. o Manfarro. E essas coisas desconvinham em mim. o Tendeiro. Agora.. Pensei naquele seô Habão. o Solto-Eu.

tinha um lance de capoeira. A noite viesse rodeando. Um caminho cavado. Ali esvoaçavam as estopas eram uns caborés. Deus deixou que eu fosse. em pé. depois. por meu querer. E escolher onde ficar. Há-de. conforme o senhor sabe. tinha um escrúpulo – queria que ele permanecesse longe de toda confusão e perigos. Deus é muito contrariado. Varei a quissassa. fui surgindo. como nenhuma outra árvore nomeada. Ah. essa lembrança branda. era o cerrado mato.Grande Sertão: Veredas desconfiar. e de ramos muito voantes. dou dito: o que eu gostava tanto de Diadorim. O que tinha de ser melhor debaixo dum pau-Cardoso – que na campina é verde e preto fortemente. como fui. minha Nossa Senhora ainda marque em meu favor. Deus me tenha! Adjaz o campo. sai de seu escondido e vem pastar.João Guimarães Rosa . dizer o que era desordens que cabeça de homem não cogita. no singular de meu coração. Aí. De Diadorim refugi. E eu ia estudando tudo. deixa a agüinha das grotas gruguejar sozinha. de minha ação. friazinha. Lugar meu tinha de ser a concruz dos caminhos. noitinha – hora em que capivara acorda. Depois. então eu subi de lá. Eu caminhei para as Veredas-Mortas. E. Ainda melhor era a capa-rosa – porque no chão bem debaixo dela é que o Careca – 596 – .

em que não cresce nem um fio de capim. próprio para afrontar relance tão desmarcado. vinha para me obedecer.Grande Sertão: Veredas dança. E eu não percebia nada. eu era que dava a ordem. Destes meus olhos esbarrarem num ror de nada. do que eu vinha em cata. O que eu estava tendo era o medo que ele estava tendo de mim! Quem é que era o Demo. a escuridão deu. querendo. com o estado e aspecto. Trato? Mas trato de iguais com iguais. viesse. Viesse. que mesmo com o escuro e as coisas do escuro. A encruzilhada era pobre de qualidades dessas. pendurado morrendo daqueles galhos: quem-é-que quem que me impedia?! Eu não ia temer. era o poder meu. e que por isso de caparosa-dojudeu nome toma. Talentos de lua escondida. o Pai da Mentira? Ele não tinha carnes de comida da terra. Primeiro. Cheguei lá. tudo devia de parar por lá. Medo? Bananeira treme de todo lado. Eu fosse um homem novo em folha. O – 597 – . e por isso ali fica um círculo de terra limpa. Mas eu tirei de dentro de meu tremor as espantosas palavras. não possuía sangue derramável. o Sempre-Sério.João Guimarães Rosa . E ele vinha para supilar o ázimo do espírito da gente? Como podia? Eu era eu – mais mil vezes – que estava ali. Isto é. Minha opinião não era de ferro? Eu podia cortar um cipó e me enforcar pelo pescoço. Eu não queria escutar meus dentes. Desengasguei outras perguntas. Esperar. Não havia.

João Guimarães Rosa . nem cansaço. Arre. aí é que bate o ponto. demorão ou jajão. Feito o BodePreto? O Morcegão? O Xu? E de um lugar – tão longe e perto de mim. entregue ao que outro queira fazer. E. Tinha de vir. quem copia o riso da coruja. existia. o cão que me fareja. ah. Como é possível se estar. e da primeira razão. das reformas do Inferno – ele já devia de estar me vigiando. acho que não queria mesmo nada. E não conheci arriação. se existisse. o que era que eu queria? Ah. por qual era. e mesmo. ou momenteiro com o silêncio das astúcias. que eu tinha comparecido ali. De repente. Ele tinha que vir. Nem eu queria me lembrar de pertencências. de – 598 – . desarmado de si. eu já estava perdido provisório de lembrança. Mas. de quase tudo quanto fosse diverso. com um catrapuz de sinal. E por isso eu não tinha licença de não me ser. A minha idéia não fraquejasse. para mais medo. ele podia se surgir para mim. não tinha os descansos do ar. no se desmedir de tapados buracos e tomar pessoa? Tudo era para sobrosso. o gritado. Naquela hora. espojeiro de bestas na poeira rolarem. Nem eu pensava em outras noções.Grande Sertão: Veredas chirilil dos bichos. em que formas? Chão de encruzilhada é posse dele. Arrepia os cabelos das carnes.

eu podia. E em troca eu cedia às arras. Uma coisa. tudo – 599 – . Tossi.João Guimarães Rosa . Decidi o tempo – espiando para cima. Eu queria ser mais do que eu. Mas.. O que eu agora queria! Ah. Ser forte é parar quieto. de que jeito. quase encostada em mim. mas que o desconhecido era.. para esse céu: nem o setestrelo. uma árvore mal vestida. Carecia.Grande Sertão: Veredas tanto que eu queria só tudo. permanecer. – já tinham afundado. “Deus ou o demo?” – sofri um velho pensar. – “Estou rouco?” – “Pouco. Ah. feito tudo: que eu então havia de achar melhor morrer duma vez.. nem as três-marias. com Ele em trono.” – eu mesmo sozinho conversei. sentado de estadela bem no centro. caso que aquilo agora para mim não fosse constituído. eu queria. duvidável. contravisto. o surro dos ramos. E qualquer coisa que não vinha. O cote que o frio me apertava por baixo. Ao que não vinha – a lufa de um vendaval grande. tudo meu. – A meia-noite vai correndo. Não vendo estranha coisa de se ver. mas o cruzeiro ainda rebrilhava a dois palmos.. – eu quis falar. acho que o que era meu. até que descendo. até.° esta coisa: eu somente queria era – ficar sendo! E foi assim que as horas reviraram. como era que eu queria. que? Feito o arfo de meu ar. a coisa. A vulto.

desses redemoinhos: . toda. p’r’ ali. eu mero me lembrava – feito ele fosse para mim uma criancinha moliçosa e mijona. Aheu. Espremia. Como era que isso se passou? Naquela estação. Feito Ele. Ele – o Dado. a formiguinha passeando por diante da gente – entre o pé e o pisado... Ah.. funil de final. A já que eu estava ali. ele não. A que vem.” –. aquela firmeza me revestiu: fôlego de fôlego de fôlego – da mais-força. de maior-coragem. mesmo. eu nem – 600 – . eu! “Deus ou o Demo – para o jagunço Riobaldo!” A pé firmado. eu podia. se deu. de setenta e setentas distâncias do profundo mesmo da gente. Do Hermógenes. tirada a mando. o Diabo. Deus e o Demo! – “Acabar com o Hermógenes! Reduzir aquele homem!. Eu muxoxava. eh! De dentro do resumo. e tornopio do pé-devento – o ró-ró girado mundo a fora.. em seus despropósitos. dá bote. existido. e do mundo em maior. Cobra antes de picar tem ódio algum? Não sobra momento.. Eu esperava. no dobar. Cobra desfecha desferido.. amassava. eu queria. aquela crista eu repuxei. na rua. Mas. o Danado – sim: para se entestar comigo – eu mais forte do que o Ele.. eu.João Guimarães Rosa . e desalma. no meio do redemunho. do que o pavor d’Ele – e lamber o chão e aceitar minhas ordens. ri. Somei sensatez. Nós dois.. e isso figurei mais por precisar de firmar o espírito em formalidade de alguma razão.Grande Sertão: Veredas o mais – alma e palma. eu ali ficava.

para o desenlace desse passo.” – aí eu bramei. – “Ei. Não. e o sapo-cachorro. horrorosamente.. eu. dos meus Infernos!” Voz minha se estragasse. Ele não existe. esta vida. de verdade: eu estava bêbado de meu. Remordi o ar: – “Lúcifer! Lúcifer!. assim.. Viesse! Chegasse. em mim tudo era cordas e cobras. esta vida é grande. é terrível bonita. Lúcifer! Satanás. Então. Digo direi. eu espantava qualquer pássaro. demais.. Ah. Foi. às nãovezes. desengolindo. então me assustando de que nem gota de nada sucedia. O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo. tão arranhão. O que a noite tem é o vozeio dum ser-só – que principia feito grilos e estalinhos.” Só outro silêncio.Grande Sertão: Veredas sabia maiores havenças. E foi aí. de passarinho ninhante mal-acordado dum totalzinho sono.João Guimarães Rosa . e a hora em vão passava.. – “Lúcifer! Satanás!. ele não queria existir? Existisse. Sapateei. Nada. E que termina num queixume borbulhado tremido. e não apareceu nem respondeu – que – 601 – .

João Guimarães Rosa . Como que adquirisse minhas palavras todas. eu querer saldar: que isso não é falável. quando o que fala. um gozo de agarro. avante. Ao que eu recebi de volta um adejo.. A mor. Aquilo foi um buracão de tempo. As coisas assim a gente mesmo não pega nem abarca. bem na descida. nem firmava em nada minha tenção. – “E a noite não descamba!. Cabem é no brilho da noite. Porque a noite tinha de fazer para mim um corpo de mãe – que mais não fala. Arquei o puxo do poder meu.Grande Sertão: Veredas é um falso imaginado. As quantas horas? E aquele frio. naquele átimo.. no burro do lugar. pronto de parir. Lembrei dum rio que viesse adentro a casa de meu pai. que lubrinam. a gente não entende? Despresenciei. ou. Vi as asas. daí umas tranqüilidades-de pancada. Mas eu supri que ele tinha me ouvido. Dos marimbus. esbarrado lá. que medeia. de meus íntimos esvaziado. fechou o arrocho do assunto. por reles desânimo de me aluir dali. Aragem do sagrado. Me ouviu. que corrubiam.” Assim parava eu. branquejavam aqueles grossos de ar. a conforme a ciência da noite e o envir de espaços. com efeito. Absolutas estrelas! Pois ainda tardei. das – 602 – . Aí podia ser mais? A peta. me reduzindo. Mas como que já estivesse rendido de avesso.

Ao perto d’água.Grande Sertão: Veredas Veredas-Mortas. bebi. O ermo do lugar ia virando visível. Desci.” Soporado. de si. E. Abracei com uma árvore. Curvei.João Guimarães Rosa . Desentendi os cantos com que piam. piorava aquele desleixo de frio. de retorno. Foi orvalhando. fiquei permanecendo. E se aquele gelado inteiriço não me largasse mais. saí. assim mesmo me requeimava forte sede.. Ali era bebedouro de veados e onças. fui vindo m’embora. – “Posso me esconder de mim?. no mermar da d’alva. O não sei quanto tempo foi que estive. bebi. Garoa da madrugada. Eu jazi mole no chato. com o esboço no céu. para a beira dos buritis.. um pé de breubranco. Nunca em minha vida eu não tinha sentido a solidão duma friagem assim. Eu encostei na boca o chão. As barras quebrando. frior de dentro e de fora. no folhiço. Meu corpo era que sentia um frio. no me rigir. feito se um morcegãocaiaria me tivesse chupado. Anta por ali tinha rebentado galhos. Só levantei de lá – 603 – . nos casos de frio real o tempo estar fazendo. e estrumado. a bem dizer por um caminho sem expedição. Eu tinha tanto friúme. A claridadezinha das estrelas indicava a raso a lisura daquilo. os passarinhos na madrugança. tinha derreado as forças comuns do meu corpo. aonde o pano d’água. E a água até nem não estava de frio geral: não apalpei nela a mornidão que devia-de.

Assim eu estava desdormido. o Austero.Grande Sertão: Veredas foi com fome. Isso era um sinal? Porque os prazos principiavam. era que eu pensava sem querer. senhor – o senhor não puxa o céu antes da hora! Ao que digo. nem p’ra que. nem pudesse. fui ecogitando: que a função do jagunço não tem seu que. ligeiro.. aquele jogo fácil de costume. o que eu fazia. no momento. cacei um cobertor e uma rede. cisado. o pensar de novidades. E mesmo com o sol saindo bom. e eu queria aliviar da recordação. pelo chão. Aquilo se arruinava. assaz alguma vez raciocina. ainda avistei uma meleira de abelha aratim.João Guimarães Rosa . não. Arte – o enfim que nada não tinha me acontecido. desperdiçado. O demônio é o Dos-Fins. não digo? Cheguei no meio dos outros. no baixo do pau-de-vaca. Assaz a gente vive. quando o jacaré estava terminando de coar café. o Severo-Mor. no meio das folhas secas e verdes. o mel sumoso se escorria como uma mina d’água. – “Tu treme friúra. o desatino daquela noite. só. Senhor. que de primeiro antecipava meus dias e noites. E. jamais nunca eu não sonhei mais. Tudo agora – 604 – . Aí mesmo. Sonhar. pegou da maleita?” – algum me perguntou. Aporro! Sabendo que. Ao alembrável. de lá em diante. – “Que os carregue!” – eu arrespondi. perdi pago..

o todo tempo. voltou não.. tão falante. remediando o sertão do desdeixo. como que o trivial da tristeza pudesse retornar. assim. E fui vendo que aos poucos eu entrava numa alegria estrita. os sestros de Zé Bebelo. aquilo bem que achei esquipático. E eles. e pensava o qual. quase sem esbarrar. sem nem que fosse por minha própria vontade. assim mesmo. vim aceitando esse regime. nesse falar. eu não me afoitei logo de crer nessa alegria direito. o Alaripe perguntou. – “Uai. normal. não me – 605 – . relatando mediante certos floreados umas passagens de meus tempos. com efeito. Mas. E. mas apressadamente. por imitação de troça. por diversão. por oras. por justo. Mas. neles eu topava outra razão. A dizer. Será que de mim debicavam. eu repetia os ditos vezeiros de Zé Bebelo em tantos discursos. e depois descrevendo. os companheiros. ocupando minhas idéias.” – me perguntaram. não voltava. de fatos esquecidos em muito remoto.Grande Sertão: Veredas reluzia com clareza. Eu estava. Tatarana? Quem te veja. e de tantas coisas passadas diversas eu inventava lembrança. os benefícios que os grados do Governo podiam desempenhar. com o seguinte.. Até eu não puxava por isso. o que eu pelejava era para afetar.João Guimarães Rosa . contente com o viver. Ah. Nos começos.

. Mais me acudiam dessas fantasias. Tanto enquanto riam. e fuxicando o nariz. nesta vida? Pois eu nem costumo nunca xingar ninguém de filho daquela ou dessa.. não longezinho da Vereda-daAldeia: o qual não queria adormecer. Aquilo não tolerei. numa fungação. eu contei a estória de um rapaz enlouquecido devagar.. nos Aiáis. amigo. Tanto.” – o Àlaripe dissesse. por um súbito medo que nele deu. de repente.. está certo. gastando ar demais. Esse vesgueiro Rasga-em-Baixo. apreciando me ouvir. Aí riam.Grande Sertão: Veredas entendiam. o que respirava três vezes forte. E eu relanceei. inteirou. por receio de que seja mesmo verdade. Desentendi e impliquei.João Guimarães Rosa .” Assim a eles eu disse. de que de alguma noite pudesse não saber mais como se acordar outra vez.” – outro. .. que está certo. e falei o que era que a gente precisava: – 606 – . e logo pegaram a rir. mano-velho. o Rasgaem-Baixo. o qual entornava de lado a cabeça.. – “Os mestres.“Deveras. que foi só entenderem. de miséria melhorada. e no inteiro de seu sono restasse preso. – “Certo de que.

Grande Sertão: Veredas – “Urgentemente é se mandar portador..João Guimarães Rosa .” – “A maluqueira. por cima das minhas palavras. Ou que mesmo dê jeito de liquidar mãomente o Hermógenes – proporcionando venenos. que há. – “Maluqueiras – é o que não dá certo. comprar adquirido remédio forte.. me dava raiva. e porque. para no meio deles observar o serviço que se passa. e remeter para a gente as notícias e deixar traço nos lugares.. Portador foi.. curto. Zé Bebelo retardou em me rever. Do fim. e daí todos aprovaram. mais Zé Bebelo com aquilo concordou. porque eu naquela hora achava Zé Bebelo inferior. falei: – “Chefe. por um exemplo. de imediato. Com Zé Bebelo.” – Zé Bebelo me contestou. o que se tem de obrar: enviar algum comparsa esperto. Tatarana. a lugar de farmácia. Mas só é maluqueira depois que se sabe que não acertou!” – eu atalhei. para se terminar com a maleita. que alguém falasse contra. o dizer: – 607 – . isso que você está definindo. em definitividade!” Disse. Eu tinha enjôo de toda pasmacez. que cace de entrar para o bando dos Judas.

sentado perto de seus pertences.João Guimarães Rosa . Ao perante diante de minhas presenças. nasceu morto. de dizer. O José Vereda cachimbava..” A dado sincero. quando retornarem para casa..” – eu cortei.. Ao tanto que Zé Bebelo completava: –.. só mesmo se. ou você mesmo. Mas a gente somos garrotes remarcados. tu é um homem de estúrdia valia. eu senti. caso se um de vocês tem mulher bonita e nova.. eu disse: – “Assunto aí não é capaz que haja? Torto.. para a façanha assim.. Só nos olhos das pessoas é que eu procurava o macio interno delas. Eu queria rixar? Figuro de cientificar ao – 608 – . Tatarana. Esse era maneirasgrossas. O Balsamão estava ali junto.. ele fechou assim: – “Riobaldo... daí... homem de muito sobrecenho. Má vontade me veio. torto. Olh’ lá.” Mas.. todos tinham mesmo de ser sinceros. só nos onde os olhos.” – “Sol procura é as pontas dos aços. Só eu. mesmo porque os dois eram da mesma terra – geralistas das campinas. sem meio medir o razoado. Derradeiramente eles estavam muito amigos.” Isso podia ser razão de desguisado.Grande Sertão: Veredas – “Um homem.. me entendendo bem.

dificultoso e bom era poder não se ter vergonha feito os bichos animais. que é que isso me representava? Tudo eu palpava com os pés. de me dizer: – 609 – . com soltura de palavras: como é que ia tolerar conselho ou contradição? Agravei o branco em preto. Foram deixando de lado aquela mexida igrejeira.João Guimarães Rosa . Mas Diadorim perseverou com os olhos tão abertos sem resguardo. quando uns estavam querendo tirar oração. nisso eu respingava um tardar. Daqui veio que Diadorim mesmo estranhou aqueles meus modos.” Os que riram. riram. Não ter vergonha como homem.Grande Sertão: Veredas senhor: o costume meu nunca tinha sido esse. Amor é assim – o rato que sai dum buraquinho: é um ratazão. é fácil. Agora. é um tigre leão! Conferindo que nem vergonha eu tive.. por ser dia de domingo. Apondo em balança. era que eu me espiritava só para arrelias e inconveniências. não estive que não falasse: – “Reza é começo de quaresma. aí. eu mesmo um instante no encantado daquilo – num vem-vem de amor. naquele mesmo dia. o senhor verá: como é que Diadorim podia ser assim em minha vida o maior segredo? De manhã. ele tinha conversado. e eu reminiquei.. O que não digo. A entender me deu. E.

. Riobaldo.. é que árvore abre tantos braços. o senhor sabe como um rio é bravo? É. de fugida. no sertão. Por que é que separação é dever tão forte?.” – 610 – .. no relembrar: – “Aquele. Parente não é o escolhido – é o demarcado. a gente.. Um nome rodeante: Joca Ramiro – José Otávio Ramiro Bettancourt Marins. eu tinha escolhido para o meu amor o amor de Otacília.. dava para tristeza.” Isso dava para alegria. Otacília – quando eu pensava nela.João Guimarães Rosa . rolando essas braças águas. toda a vida. de longe a longe. de outra parte. No que eu sabia.. coisa que significava. do incerto.. era mesmo como estivesse escrevendo uma carta. por cativa em seu destinozinho de chão. O Hermógenes. o pai dele? Um mandado de ódio. hora destas. Eu vim. eu gostava que você pudesse ter nascido parente meu. O parente dele? Querer o certo. Não venci as ácidas picuinhas. Diadorim.. mas Diadorim sentia ódio.. o Chefe. E uma vez ele mesmo tinha falado: – “Nós dois. você e eu. deve de andar lá por entre o Urucuia e o Pardo. de outra parte. Mas Diadorim pensava em amor.Grande Sertão: Veredas – “Riobaldo.” Aquilo de chumbo era.. esse. Diadorim pertencia a sina diferente. Mas.

e que. Tremeu.. Chefe. ao próprio Zé Bebelo. Revi que era o Reinaldo. foi o único cuja toda coragem às vezes eu invejei.. mas diabrável sempre assim. Sem tenção de descrédito ou ofensa. eu já estava carecendo de declarar aos companheiros todos os erros que vínhamos pagando. em relance em mais.. Aquilo era de chumbo e ferro. no centrozinho dos olhos. por motivo do ultimamente. dos sãos. por isso. com modos. Desde. mas duvido de que bem fizemos em restar todos aqui. Disse. Como era que era: o único homem que a coragem dele nunca piscava. conforme agora eu ladino deduzia. e trazer? Munição já estava aqui.” Zé Bebelo em mal amargo – ele espinoteou com a cabeça. Mais ajuizado certo não seria se ter remetido meia-dúzia de cabras. que isto de mim escutou: – “. como eu agora eu estava contente de ver. que tivessem ido buscar a munição nesse lugar. depressinha. que guerreava delicado e terrível nas batalhas. aos pingos. me explicou a – 611 – . e a gente estava mais garantidos. E. arejou os queijos..Grande Sertão: Veredas Ele acinzentou a cara. comprando cura de doenças. a Virgem-Mãe. semelhasse maninel.João Guimarães Rosa . Diadorim.

e já escumavam e retremiam.Grande Sertão: Veredas maior razão. quando. eu pulei para o meio deles: . e eles redondeavam no aprazível – tropilha grande. porque a gente tinha vindo em má rota. Quando. com palavras baixas. O que é que cavalo sabe? Uns deles rinchavam de medo. Assim ficaram. estavam ajuntando a cavalhada.“Barzabu! Aquieta. Regulava subida manhã. Aí porque a cavalaria me viu chegar. Figuro explicando ao senhor: desde por aí.João Guimarães Rosa . Ardido aquele nitrinte riso fininho. e se estrepoliu. e. Fiz um rebuliz? Dou confesso o que foi: era de mim que eles estavam espantados. Mesmo pus a mão no – 612 – . Em outras ocasiões. eu achava até divertido. uma notícia dessas era capaz de me perturbar. orçado o sol. então. que com as orelhas apontavam. dessa viagem. que uns suavam. tei. trouxeram reunidos todos os animais. cambada!” – que eu gritei. dado o alvoroço de muitos cascos. em vez da Virgem-Mãe para a Virgem-da-Laje. como não podiam se escapulir para longe. pondo poeira. Mas. mas murchando e obedecendo. Porque ele de tudo já soubesse: foi então que me disse que o extravio nosso tinha sido mais completo. Me avaliaram. cavalo sempre relincha exagerado. tudo o que vinha a suceder era engraçado e novo. com uma raiva tão repentina. Eu escutei. servia para maiores movimentos. Com essas levezas eu seguia a vida.

Mas eu me virei. feito fosse minha certeza. deu que veio se esbarrar ante mim. que chegava. Foi o seô Habão saltando em apeio. Isto. . e já se ouvia outro tropel: era aquele seô Habão. homem só vendido ao dinheiro e ao ganho. lão. pôs pernas para adiante e o corpo para trás.Grande Sertão: Veredas lombo dum. O seô Habão estava ali. Só que se riam. juro ao senhor: é fato de verdade. no meio de todos. encurtando e baixando a cabeça. E eu parava. conforme terminou o bufo de bufor. dos cavalos e as minhas maneiras.João Guimarães Rosa . às vezes são os que percebem primeiro o – 613 – . E o cavalão. esses cavalos. E o animal dele. chicoteou alto no ar. que de volta aceitavam minha presença. -“Tu sendo peão amansador domador?!” – que o Ragásio caçoou comigo. rente. lão. o gateado formoso. Vinha com três homens. formados no costume de jagunços. Mas eu acho que. estroteantes – gentinha trabalhosa. o cabresto. que é de frouxas essas leviandades. Ele ficou a vermelho. solto da mão do dono. Me obedecia. “Barzabu!” – ô gente!. arrufava a crina. que emagreceu à vista. Notei que os companheiros reparavam a estranhez daquilo. e ele se empinou: de dobrar os jarretes e o rabo no chão. o Das-Trevas.“Barzabu!” – xinguei. me desentendeu nos olhos. como onça fêmea no cio mor.

A primeira coisa. era meu o cavalo grande. Agora. eu já ali pensei: por que seria que o seô Habão se engraçava de me presentear de repente com uma prenda dum valor desse.. deviam de estar com invejas. Ele não gaguejou.. com caçambas de pau. como ele pisava peso no chão... moço. Meu o bicho era.Grande Sertão: Veredas atiço real das coisas. é topar firme as invejas dos outros restantes. com meu brio. Agradeci. com a ligeireza mais sutil..” Não acreditei? Reafirmo ao senhor: meu coração não pulsou dúvidas. Aquele homem me temia? Da admiração de meu povo todo. Se ele praz ao senhor. borborinho com que me rodeavam. que um para ser alto nesta vida tem de aprender. fosse.. dei fé. Melhor me disse: . quase que nem me conhecia? Aos que projetos ele engenhava em sua mente. ele é seu.. com suas manchas e riscas – ah. por posse..João Guimarães Rosa . com bom agrado: assim como ele está.. peguei a ponta do cabresto. Fosse! E a mãe!. Me rejo. Lhe dou. Mas sendo que. conforme estava – que era com um Bocadinho bom. e assim revestido. amigavelmente. e como ocupava tão grande lugar! Até passeei um carinho nas faces dele. Certo.. e pela tábua-do-pescoço a fora. me calejo! Só por causa – 614 – . que não me devia obrigação. daquela hora. que possança minha ele adivinhava? A pois. dividido o instante. eu que não era amigo nem parente dele.“Se este praz ao senhor.

“Ara. e as peças dos arreios chapeadas de belo metal. .. sem tempo nenhum para pensamento. .. Montei. Tatarana: o nome que ele vai se chamar é mesmo Barzabu?” – algum caçoou de me perguntar. -“É deveras. aprende! – que é: o cavalo SiruizL.“A não.. naquelas condições.... meu compadre torto! Sossega a velha. enfrentava. com o que não tinha refletido. Nome que dou a ele.. Ah...Grande Sertão: Veredas daquele cavalo. Disse logo foi a tenção de maiores idéias em desejos – segundo a como apeirado aquele eu já queria: que arreado à gaúcha.” . Ao que: oferecer e receber um presente daquele. farto e manteúdo.” – assim foi que eu respondi.“Sorte é isto. Animal de riqueza: graúdo. d’ora em diante. Merecer e ter.” Só dissessem. é este – quem que aprender.” . era a mesma coisa que – 615 – .. ligeiro. Disfarcei meu regozijo. até. com peitoral com pratas em meia-lua.João Guimarães Rosa . Não me riram.“Ainda bem que foi bem empregado. as coisas influentes da vida chegam assim sorrateiras. Pois Zé Bebelo estava aparecendo ali.. eu fui ficando mais e mais. e eu atinei. que assim ouvi. conferido. ladroalmente.

. para solércias. Professor. Teria sido uma tenção dessas. era o prestante para cuidar dum animal. Como por um rasgo. só. Em hora!. eu já devia de estar fitando Zé Bebelo com um certo desprezo.. Mas não tirei para trás.João Guimarães Rosa . Choveu para o meu arrozal! Ah. Um dom de tanto quilate tinha de ser para o Chefe..Grande Sertão: Veredas forte ofender Zé Bebelo. Mas eu tinha dado uma ordem. Desapeei. queremos havemos de te ver garboso. poupado risonho: . somente..“Tal te fica bem. Reconheci. guerreando as boas batalhas. Mas Zé Bebelo. dei o cabresto ao Fafafa. Não desapeei. Assim me refiz. tu trata dele. que tanto gostava simples de cavalos. amilha e escova.. aí. E pensei pontudo em minhas armas. porque o Fafafa. e isso fiz. E o seô – 616 – .” – foi o que ele disse. se me seja que gostou pouco.. conforme em mim. e eu não me importei. amontado nesse estampo.” . Aí. de arder a desordem no meio nosso. mesmo só inteligência. era que que era aquele homem. num ínterim. em mesmo que dele não sendo. É de ver que. Disse: – “Tu desarreia. acabando de saber o acontecido. Ia haver o que ia haver. nesses enquantos. esperei. a razão do seô Habão? Pensei o dito. Um qualquer chefe de jagunço havia de ter ímpeto de resolver aquilo fatal. mirou em mim.

com emortecidos braços. Em tanto o seô Habão jantou com a gente. glorial. E dessa derradeira conversa quero – 617 – . Alaripe conversou comigo.. acendido. Será que. O medo nenhum: eu estava forro. direto. fiquei assim parado. O que o Drão – o demonião – me disse. Diadorim meu amigo estava. num relance. Eu estava dando as costas a Zé Bebelo. das pastilhas mais amargosas. leve. Aquela firme possança. Eu leve. assim mesmo. eu podia dar as costas para todos. assim permaneci. Saí.Grande Sertão: Veredas Habão tinha trazido também boa quantidade de remédio para se tomar pela maleita. isto como foi. me expondo especializado diversas coisas que pretendia reformar de fazer. Raimundo Lê repartiu com os carecidos as pastilhas de remédio. disse: seria só? Olhei para cima: pegaram nas nuvens do céu com mãos de azul.João Guimarães Rosa . me atirar por detrás. feito de poder correr o mundo ao redor. Esbarrei em meu caminhar. outro tempo. Zé Bebelo me chamou adeparte. quem ia conseguir audácias para atirar em mim? As deles haviam de amolecer e retombar. Ao senhor eu conto.. me agredir de morte. num dia tão natural. uns passos. eu ia poder me esquecer? Aquele dia era uma véspera. assegurado. Ele podia. Todo o mundo recebia. – atentei. de cousas tão forçosas.

pois então basta que tu me pague só uns vinte mil-réis. o Etelvininho reclamou: . O qual era o seguinte. conforme o que eu defini?” – indagou o José Misuso. e um grito pensar. mesmo por mim. duvidando. não acerta em mim..Grande Sertão: Veredas referir ao senhor. só issozinho.“. eu desejando saber. seu filho duma cuia!.. eu puxando... Só o sangue-frio de fé é que se carece – pra. se é só isso... pois então” – o José Misuso cortou a questão . umas muitas vezes. . como é que se faz a arte de um inimigo ter de errar o tiro que é destinado na gente. fazia tempos. caso sucedido. .“Ara. tu erra.. tu erra.. Um José Misuso uma vez estava ensinando a um Etelvininho..” – o Etelvininho respondeu.. tu erra. tu erra. Foi que.João Guimarães Rosa . se encarar o outro.” – 618 – .“Igualzinho justo..” . somente: Tu erra esse tiro. a bala sai vindo de lado. sem ninguém me ensinar – já fiz. Alaripe então contou uma estória.” Assim ele ensinou ao Etelvininho. a troco de quarenta mil-réis.“. Do que deu o preceito: . no fim. e em breves que fecham o corpo. Só que. pois.. se falou muito nessas orações de curar a gente contra bala de morte. Mas. pois então eu já sabia. no giro do sertão.. o Misuso..“E fez igualzinho. na horinha. eu pensava insultado era: . aí.“Ah. filho de uma cã!. executei assim.

A madrugada com luar. o Isidoro. Madrugada essa boa claridade. Calculei: uns dez. – 619 – .. Mansinho. Assim era. Acordei. Ao que eram. Enquanto isso. com os cabras. o Paspe. Vim dele. alegrias sobejavam.Grande Sertão: Veredas A gente muito rimos todos. João Goanhá. pulando de minha rede. Com pouco o fogo se acendia..” – disse Diadorim. e eu não tinha escutado aviso de sentinelas. o compadre Ciril. a gente se abraçava. mãe.. O João Goanhá. se encompridando se encurtando.“Aí é o nosso João Goanhá. barbudo. Se caçoou. gordo. que tinha a rede dele armada da minha a uns três passos.João Guimarães Rosa . Era a dele uma barba muito fechada. me lembro. Drumõo.. Veio do luar. se bebeu. um cantou o sebastião. forte. Tornar a encontrar companheiros desses. no esquipado. acordei com o rumor de cavaleiros que vinham chegando. chegaram as voltas da noite. Luar que só o sertão viu. quem podiam esses ser? Todos os companheiros nos rifles.. aí é que se põe significado na vida. e que travavam repentino com áspero estremecimento os cavalos: br’r’r’uuu. Dormi com a cara na lua. Levantei. o Bobadela.. para o café. para algum almoço. chegou bom. muito preta. . A hora a ser de satisfa. Todo o mundo falava.

as coisas comuns. eu sei que o Urucuia está sempre. Eu queria a muita movimentação. Mais não sei? Mesmo não tinha botado idéia na cabeça. com as marrecas chocas. no meio das varas do juncal. marimbus. O rio não quer ir a nenhuma parte. O que eu fui. do Couto. conforme foi que se passaram. essas. Diadorim era o que estava alegrinho especial: só se ele tinha bebido. E esses velhos chapadões – dele. de meu amor – põe o pezinho em cera branca. Como os rios não dormem. de Antônio Pereira. Zé Bebelo: conversa. Antes. dos Arrepiados. – 620 – . para ser solto? Um buraquinho d’água mata minha sede. formado em pé. pequena – ô gente! – para o sereno remolhar.João Guimarães Rosa .Grande Sertão: Veredas Zé Bebelo. Casinha que eu fiz. ele quer é chegar a ser mais grosso. Estas árvores: essas árvores. Conversa. horas novas. veredas. mais fundo. o que eu fui. que eu rastreio a flor de tuas passadas. Rebebe o encharcar dos brejos. o chapadão derredor dele. uma palmeira só me dá minha casa. o mais rompante que pudesse. O Urucuia é um rio. ele corre. o rio das montanhas. Diadorim. dos Couros. Mesmo na hora em que eu for morrer. Recolhe e semeia areias. a sombra separada dos buritizais. O Urucuia. ele. acabando de despertar de meu sono. Fui cativo. pedia notícias por interrogação. as verdades. verde a verde. Me recordo de que as balas em meu revólver verifiquei.

João Guimarães Rosa . e mas fora de mim eu vejo um sonho – um sonho eu tive.“Ah.Grande Sertão: Veredas do Arrenegado. desde a outra banda do rio. De forma nenhuma eu não queria afrontar ninguém. como um – 621 – .“Agora quem é que é o Chefe?” Somente eu estava por cima da surpresa deles? Zé Bebelo – o pensante. porém. Ei. eu dei mais um passo à frente: tudo agora era possível. e quem-sabe por excessos daquela minha mania derradeira. Eu caminhei para diante. de me comparecer com as doidivãs bestagens. só disse. Dentro de mim eu tenho um sono. vindo por meio de dificuldades e distâncias. não pronunciei. . no meio do luar da lua – lasca de breu. . agora quem aqui é que é o Chefe?” Só perguntei. Sei por quê? Só por saber. Um para o outro olharam. caçar a lei da companhia da gente. que um tinha de ser o chefe. parlapatal. ô gente. O fim de fomes. boto machado em toda árvore. Não exclamei. Em. Um homem é escuro. João Goanhá – duro homem tão simples. Zé Bebelo ou João Goanhá. soberbo e opinioso. o senhor não julgue. A verdade. Até com preguiça eu estava. Nem não fizeram espantos. Não era de propósito.

que sem isso ele não conseguia direito se pertencer. livrou o ar de sua pessoa. outro tiro eu também tinha dado. Nenhum deles. Com meus olhos.. esse. . olhar e estar. Sanha aos crespos. eu vi aquele mestre quieto se mexer.. no a-golpe. E eu – ah – eu era quem menos sabia – porque o Chefe já era eu. não soubessem. E..“Quem é que é o Chefe?!” – repeti. os companheiros todos. diante das minhas vistas-nem não tinha ossos: tudo nele foi encurtando medidagesto.. pelo que era. E foi esse Rasga-em-Baixo. semeado. fala. Meu revólver falou. o Rasga-em-Baixo se fartou no chão. José Félix: ele tremeu muito lateral. convocados. Saber. Eu felão.. E aí o irmão dele. o principal deles.Grande Sertão: Veredas costume necessário. já sem ação e sem alma nenhuma dentro. – 622 – .” E. bala justa.. Zé Bebelo ainda fosse? Esse pardejou.. . fechavam roda. o João Goanhá.. O Chefe era eu mesmo! Olharam para mim.. em quente e frio.. não podiam como responder: porque nenhum deles não era. pelo visto. Me olharam.“Quem é qu’. tomei conta. Não me entendessem? Foi que alguns dos homens rosnaram.João Guimarães Rosa . oculto inimigo meu – que buliu em suas armas. Ao que o pessoal. luziu faca.

Ali.. para ver o que fazer mais vagarosamente. Isso eu exigia. Assim. era um sangue ou sangues. Zé Bebelo não conhecia medo. Conheci que ele tardava e pensava. – 623 – . encostado. Se viram. Se quis. o Nélson. João Goanhá se riu para mim. Ao então. se sentiram. eu. Eu não aceitava muita parlagem: . era a hora.. esbarrados com tanta singelez de choques. o etcétera que fosse. se asava e abava. Zé Bebelo retardou. meu nome era Tatarana! E Diadorim. – Tenho de chefiar! – eu queria.Grande Sertão: Veredas .“ . de repor o medo mor. . jaguarado. Compadre Ciril. foi com muita serenidade. eu pensava. Zé Bebelo sacudiu uns ombros. é o Chefe?!. Ah. Eu social... o Fafafa. decerto que acertaram: pelos altos de nós dois. mais em pé que um outro qualquer. com ele de barba a barba. Sidurino.” Ato de todos quietos permanecidos. e porque logo aí Alaripe. o Acauã.“Quem é que é o Chefe?” – eu quis. E eu frentemente endireitei com Zé Bebelo. Pacamã-de-Presas – e outros e outrosjá formavam do lado da gente.“Quem é-que?” – eu brando apertei.João Guimarães Rosa . Ele veio marechal.

Assim aprovaram. eu nunca tinha avistado tantas tristezas.João Guimarães Rosa . . glo riando um fervor. em rosto de homem e de jagunço. O Chefe Riobaldo.. A esses resultados. mire e veja. Durasse mais. No que eram com solenidade. Acham que é um falso narrar. e eles me aceitavam. Tudo dado em paz. no sabugo da unha. velho. companheiros.” – ele dissezinho fortemente. tantos homens.” – eu falei para em volta.“A rente. Agora. os nos rifles. é: tu o Chefe fica sendo.Grande Sertão: Veredas Eu sabia do respirar de todos. Minha vontade estroina de paliar: – Seu Zé Bebelo.. baldeados mortos. na ponta de unha. mesmo mudado em festivo. eu. Antes. Rejuravam. a gente vai departir. por estar achando cacete. sinceridade. é porque já estavam ficadas prontas. Zé Bebelo se encolheu um pouco. – eu calei.. . e ninguém crê.. Ali..“Sendo vós. todos aprovavam. chefe. – 624 – . Amém. o senhor: a verdade instantânea dum fato. eu sei como tudo é: as coisas que acontecem. Mas eu temi que ele chorasse. Tantos. a pois. Aos gritos.. Aí ele não tremeu. Riobaldo! Tu o chefe. aquilo eu já largava. por me cansar.. Só aqueles dois amaldiçoados irmãos. Ao que vale!. só. no sucinto dos olhos. noutro ar. enterrar aqueles dois seria faltar a meu respeito. Tudo me dado. O senhor. tu me desculpe..

que nem um urutu branco. Achei.. o Urutu-Branco!. na rudeza deles. Acertar com ele.. Contanto que logo gritavam. – 625 – . riu. . ou aquele apelido apodo conome..” Assim era que. romperam em risos. no reles do momento. . entusiasmados: . Os todos ouviram. mesmo cortês: .. Até porque mais não seria que. eles tinham muita compreensão.. que era de Tatarana. Assim. agora. Ao fim.. rebatismo desse nome.“O Urutu-Branco! Ei.” O nome que ele me dava.“Mas. revi os aspectos de Zé Bebelo. no m’embora.“Não. Assim exato é que foi.. agora ainda me viessem e dissessem Riobaldo somente.Grande Sertão: Veredas e com efeito tudo é grátis quando sucede. .. eu chefe.” – ele me atalhou. e disse.João Guimarães Rosa . Outros é que contam de outra maneira. juro ao senhor. era um nome. Riobaldo. depois que João Goanhá me aprovou. Tu é terrível. achava.” Daí.” – eu quis dizer..“Tenho de tanger urubu. nem segundo. você é o outro homem. Minha fama de jagunço deu o final. Arte que virei chefe. Sei não ser terceiro.. meu.. você revira o sertão.“O senhor..

Zé Bebelo ia s’embora. o julgamento era ele. Aí – 626 – . Tantos e tantos. sim isso. conseguintemente. Mas. Tudo estava sendo repetido. ele pegou caminho. ele mesmo. sacudiam no ar os baixeiros. da vez dessa. para um prazo de fôlego. e eu. eu tinha concebido que carecesse de tirar a vida a Zé Bebelo. deste sertão. no futuramente. Ah. pouco obedecia. e um cargueiro – com mantimento. por julgamento. e fiquei me alembrando daquela vez. Aí vendo que o pessoal meu já me obedecia. o tempo de todas as doideiras estava bicho livre para principiar. homem como aquele. selavam os cavalos. de quando ele tinha seguido sozinho para Goiás. se aprontando para saída. Aí eu mandava. munição melhor. Para o sul.João Guimarães Rosa . Como que corriam e mexiam. Homem como aquele. O divertido havia de ser.Grande Sertão: Veredas Vai. por um raio de momento. parado persisti. eu sabia o nome e o defeito maior de cada um daqueles homens. e tantos seus braços e tantos rifles e coragens. expulso. de levar Zé Bebelo comigo. por maior sossego de meu reger. não se matava. e agora eu estava quase triste. através desse através. De seguida. com pena de ver que ele ia-s’embora. A ele mandei fornecer mais um cavalo. Agora. Dali a hora. mesmo. de sotenente. quem tinha dado e baixado. Vi quando ele se despediu e tocou – com o bom respeito de todos . coisas. prático mesmo antes da hora.

Aí eu desfechava. Mandei os homens ficassem embaixo. os cabras deram vivas. como está dito. incluso. de nova jagunçagem. Atrás de mim. que por diante estivessem. Dali a gente tinha logo de sair. Por perigos. Esbarramos parada. quando eu mandasse uma coisa. para que todos admirassem e vissem. E vi um itambé de pedra muito lisa. Dei galope. De galope. então tinha de se cumprir. quase. gentinha. prazido. eu aumentava os quilates de meu regozijo. Era primeira viagem saída. Minha influência de afã. de qualquer jeito. roceiros em seu serviço. No Valado chegamos. por assim. a limpo de meus tristes passados. muito estarrecido. alegria em artes.Grande Sertão: Veredas eu estava livre. Estradeei. levou bala. O que eu carecia era de uns instantes sempre meus.“Tenho resoluto que!” – e montei. subi lá. . Aquele seô Habão. em vinham. conforme íamos retornar. eu estava em precisão de fazer. não padecesse de se estorvar em monte de pessoas nenhumas. De despiço. Gente. e as extraordinárias cousas. para estribar meu uso. Eles vinham. Os outros me viessem? Cantava o trinca-ferro. Uma arara chiou cheio. com a vontade muito confiada. eles outros esperavam. Nem olhei para trás. ah. segundo ã regra exata. olhei: eles nem – 627 – . o tôo dos cascos. pertencentes. nos rodeou. Sinal como que me dessem essas terras todas dos Gerais. À fé. Eu contava.João Guimarães Rosa .

tinha de tomar. Ah. O senhor havia de gostar de ver o ar daquele seô Habão. Ao que me seguissem. assim. primeiro. não! de mim ele é que tinha de receber. Digo ao senhor: ele beijou minha mão! Ele – 628 – . Aonde se ia. mas que não disse: – Assim não. esse! Ele queria me oferecer dinheiro. Fiquei lá em cima. forçado de aceitar pagamento do que nem eram correntias moedas de tesouro do rei. atarefadinho. Ah.Grande Sertão: Veredas careciam de ter nomes – por um querer meu. Agarrei o cordão de meu pescoço. ele já me sussurrava. umas delas que eu tinha de em desde menino. Ele estava em todos tremores – conforme esses homens que não têm vergonha de mostrar medo. Homem. na mão dele. macio. para viver e para morrer. era que valiam. Antes. E veio perante minha presença o seô Habão. em desde que possam pedir à gente perdão com muita seriedade.. onde tanto boi berra. mais antecipado que todos. com seus meios queria me facilitar. As medalhas.. rebentei. não. para o Chapadão do Urucuia. mas costumeiras prendas de louvor aos santos. não. Tinham me dado em mão o brinquedo do mundo. um tempo. Quando desci. em cata do Hermógenes? Ah. umas coisas eu resolvia. com todas aquelas verônicas. O que foi o que eu pensei. Fiz gesto: entreguei.João Guimarães Rosa . mas.

. inda que ele me reprovasse. naquela hora. dito. que conservava pétalas de flor. mais tarde. Comigo só o escapulário ainda ficou. que é que adiantava? Só se a gente tomasse tudo o que era dele. mesmo. não. adonde ele fosse preta-e-brancamente desconhecido de todos: então. Assim mesmo. de migas a migalhas. em pedaço de toalha de altar recosturadas. indas que assim requeimasse a pele de minhas carnes.. tantos meus malfeitos. em estranhas terras. não podia obrar de outra forma. Aquele escapulário. até porque. Esse eu fora não botava. me agradeceu bem.João Guimarães Rosa . Que. E nem não adiantava: mendigo mesmo. até à data de morrer. Para o começo de concerto deste mundo.. e que consagrava um pedido de benção à minha Nossa Senhora da Abadia. pensei. tornei a pendurar. ajuntar. ele havia ainda de obedecer de só ajuntar. Isso. Ah.Grande Sertão: Veredas devia de estar imaginando que eu tinha perdido o siso. Matar aquele homem. duro tristonho.. não adiantava. e fosse largar o cujo bem longe de lá. em hora e hora. – 629 – . agora podia desdeixar não. e guardou com muito apreço as medalhas na algibeira. As verônicas e os breves ele vendesse ou avarasse para os infernos. num fio oleado e retrançado. que debaixo dele meu peito todo torcesse que nem pedaço quebrado de má cobra. ele havia de ter de pedir esmolas. ah.

eu já estava pensando: o que eu ia fazer com ele..João Guimarães Rosa . cabendo em sua marca de qualidade. de minha parte. Mas não dando razão de nomear minha pessoa pelos altos títulos. o senhor escute. Tirei o embrulhinho. e eu a ele devia. a qual era minha sempre noiva. o senhor cumpra: pega este mimo. já e já. siga rumo dos Buritis Altos. me lembrei. num reverter de mão. com o seô Habão.. à moça da casa. e isso era próprio encargo para ele. Me lembrei da pedra: a pedra de valor. zelando com os dedos todos de suas mãos. trazendo glória e justiça em território dos Gerais de todos esses grandes rios que do – 630 – . Mas somente prezar que eu era Riobaldo. e era. Porque ele tinha vesprado em reconhecer meu poder.. Eu falei: . antes de outro qualquer. ele merecia.. com meus homens.. o senhor viaje. que Otacília se chamava. para a Fazenda Santa Catarina. em fato. num bom animal. tão bonita. que do Araçuaí eu tinha trazido. e mesmo um barão de presente dele tinha sido.. Aí. aquele meu formoso cavalo Siruiz. de uma coisa. por alguma alvíssara de mercê.” E mais disse: que era para entregar. fazia tanto tempo. nem citando chefia de jagunços.Grande Sertão: Veredas E. da bolsa do cinto. cabeceira de vereda.“Seô Habão. Apresentei a ele. em qual eu estava amontado. Porque.

Eu virei a cara. – eu pensei.. andei três passos.. teu nariz. Da amizade de Diadorim eu possuía completa certeza.“O que eu tolero e desentendo.” – pensei. perturbado mas sisudo. dando com Diadorim. carecia de ser repetido. desde que o mundo mundo é. tão grandonas.João Guimarães Rosa . não se consegue ter raiva nem ter pena. a meio. para poder vigiar.. Melhor trazer esse sujeito comigo.” – falei. dele. O quanto. Eu não tinha tido dó de Diadorim. esse homem: que é. Seô Habão pôs atenção. porque. eu tive de experimentar com a mão o tamanho medido das minhas. por causa da pedra de topázio? – eu reconheci. não. – Não vou comer teus peitos. tem tempo. teus duros olhos moles. E mais – 631 – . perto mais perto. o melhor seria desmanchar a presença dele em definitivas distâncias. por todas as partes? Melhor. sem querer. O que ele dizia. Quem era? O que por primeira vez reparei: que ele tinha as orelhas muito grandes. tostões. esfiando o as sunto nas pontas dos dedos. Mas ele também tinha alguma espécie de chefia. “Dei’stá’.. ele cogitava. até.. não: em Deus não falasse. me atanazava.. Diadorim. . Ser rico é um diverso dissabor? Que um pudesse se acautelar assim.Grande Sertão: Veredas poente para o nascente vão. enquanto Deus dura! Ah. tem tempo. condenado que era de tristeza que não quer ceder suas lágrimas. Mas vi um adejo sombrio no meu amigo.

aquietado – até mediante sorriso.João Guimarães Rosa . à gente..“O senhor vá logo.. De sorte que. coração dá tantas mudanças. O pássaro que se separa de outro. dono do São Gregório. Dei licença. logo. De manhã cedo. de ter saudade. espanta e rebate... levava a pedra de topázio. Mas o seô Habão não queria ter terminado: negócio que carecia ainda de algum ponto.. e de outras boas e ricas fazendas?. eu determinei: ... mesmo. não. sonseante: . Ingratidão. Aquela tristeza de Diadorim eu não aceitei... meus dízimos eu pagava. reproduzisse a minha saudação. eu não – rio. o senhor esbarra para pensar que a noite já vem vindo? O amor de alguém. viesse. como coisa sempre inesperada. a vida do mundo ia vivendo. acenei que sim: disse que fosse. E eu estava naquelas impaciências. E de lá não quero nenhuma resposta. de rota abatida. em Otacília. para corrigir em siso a tranqüilidade daquilo. O seô Habão ia.Grande Sertão: Veredas não me amofinei. Ah.. se eu não prazia de enviar por ele algum recado também para o senhor meu pai. verdadeiro eu quase nem cuidava de sentir. nem ceitil não recebi. Eu achei graça. riachos! – não me amofinava. muito forte.” – – 632 – . Otacília estava sendo uma incerteza – assunto longe começado. Trasmente que. o que desse. Ele perguntou. Selorico Mendes. vai voando adeus o tempo todo. para o mais-tarde. Visse. E então foi que o seô Habão levantou a cara.

Ah. Mas trouxeram. pelos demais. a que viessem.. Mas reunir aquela porção de homens. arre melhor! P’r’ apreparo. me trazerem os homens!” Que’s homens? Os todos que fossem e houvesse.João Guimarães Rosa . rebanhal. espalhados sendo.. Com que as músicas. em caçar. eles. lá lá. de lá. não. Dand’ ordens: . era o que de si desejavam. senhor.“Quem tiver instrumento – a toque! Quem gostar de dançar. Me trouxeram. Onde que. os meus. Festa? Eu já estava resolvendo o contrário. de ver como ele me obedecia expresso. Aquilo valia? Os outros não falaram. uns pouquinhos – alguns com as caras – 633 – . Do Sucruiú. eu: por meu renome. trazer as mulheres também.. Saíram.. Ao pois. despachado. A com a gente. Ou quanto mais que. mal dele livre me vi. só mesmo o mover por me agradar. só. sem necessidade de caráter. . gritei. se prazia e mandava? Eu... e formar todos de guerreiros.” Tudo tinha de semelhar um social. os todos possíveis. em boa alarida.Grande Sertão: Veredas enquanto ri. e aquela minha lei era divertida.“A rodar por aí. o Urutu-Branco. decerto não acharam ou acharam. quem era que ordenava.

de refrescos. os catrumanos iam de ser. Haviam de vir. em vozes. todos. eles estavam alertando em si o sair de um pavor. Ah. junto. mas. más marcas. à mansa força. mire e veja: a quantidade maior eram aqueles catrumanos – os do Pubo. Os que fingiam não me temer. destorcidos de suas misérias.Grande Sertão: Veredas secando os brotes das bexigas. Ah. com suas desvalidas armas de toda – 634 – . Iam. Eles. com temor ouviam minha decisão. mesmo. achavam mais favorável querer ter vindo por próprio conselho. Ao depois. quando dei brado. . Ou o senhor não pode refigurar que estúrdia confusão calada eles paravam. Seriam eles assim bons no ruim. Tive de repente fé naqueles desgraçados. solertes. para guerra serviam. Até que fiz. outros um ou outro de semblante liso fresco. que nem onças comedeiras! Não entendiam nada. esses escapos de não terem tido a doença. Aquela gente depunha que tão aturada de todas as pobrezas e desgraças. para meter em formatura? Tanto todo o mundo achava graça. malabriam boca em risos. acho que. de ser chamados e reunidos.“Filhos-da-mãe!” – eu declarei. meus jagunços queriam pagode. Dei que pronto todos provassem gol d’alguma cachaça. assim atarantados. como se por soldados reconhecidos.João Guimarães Rosa . queriam se alinhalinhar. Isso era perversidades? Mais longe de mim-que eu pretendia era retirar aqueles. feito mijo na areia.

o ho mam por nome Teofrásio. era um homem sem pescoço. e só não desamontava do jegue por ordem minha. Tomou um esforço de beira de coragem. Ao vavar: o que era um dizer desseguido. Adivinhei a valia de maldade deles. esses melhor se sabiam se mudos sendo. – Se queriam também vir? – perguntei. feito um bezerro ou um porco. o pai. Visli a sorrateira malícia nos jeitos deles. Mais adiante não deixei. soube que eles me respeitavam. Dei brado. E indicou outro. meus filhos. que em antes eu tinha-dado. Ah. em que mal se entendia nada. Aquele outro.“O mundo. aquele bronzeado jumento – que tinha. conjunto. ou para o que coçava suas costas em pau de árvore. permanecendo de perfil. – 635 – . para me responder.Grande Sertão: Veredas antiguidade. Indaguei dum. Em tudo. feito criminosos? . que Osirino era. as pernas forradas de lama seca. rapaz moço. Respondeu que Sinfrônio se chamava. Respondeu que se chamava Assunciano.“Dou louvor. Não queriam ter cobiças? Homens sujos de suas peles e trabalhos. Deixasse. e cabaças na bandola. e indicou outro – que era o pai.João Guimarães Rosa . e panelas de pólvora escura e fedor de fumaça ceguenta. entendiam em mim uma visão gloriã. Esse aquele era o do chapéu encartuchado. E mais o do jegue – no jegue amontado. Ele me disse: . é longe daqui!” – eu defini. iam de dedo em dedo me passando para o daquelas pernas de fora. Eles não arcavam.

choramingou: . dum. em trabalhar pra o sustento das pessoas de obrigação?.“Dou de comer à mea mul’é e treis fi’o’.. baixinho descoroçoou.. guerreando para impor paz inteira neste sertão e para obrar vingança pela morte atraiçoada de loca Ramiro!. mas com respeito.“. nós. O homem Teofrásio limpou a goela. Mas. seô?” – indaguei.. nesse mundão de ausências? Quem cuida das rocinhas nossas.. e de lá se virou o focinho branco do jumento. Quem é que vai tomar conta das famílias da gente. declarei mais: .” – e era um homem alto...” – escutei..” E mesmo um outro. vos obedecemos. Daí houve porém. de Cristo. observou: . meio chefim deles. completo.” – eu determinei. espingolado.” – ele disse. eu já tinha pensado.. o do jegue: que o jegue pudesse trazer. tinha falado por todos..Grande Sertão: Veredas chefe.. Que um.“..“Assim vós prazido.João Guimarães Rosa .” E eu concedi – que o Teofrásio..” O que falou. por fora. . em debaixo de meu sapé. . . . aí.. o sem pescoço. é ver. com todos os remendos em todos os molambos. Se chamava Pedro Comprido.. jagunceando.“Vamos sair pelo mundo. de mãos postas como que para rezar.“Pois vamos! As famílias capinam e colhem...“Como é a tua graça.. de toda – 636 – . – I j’ Maria. Pedimos vossa benção. chefe. Daí. enquanto vocês estiverem em glórias. Pra os roçados? Pra os plantios. na desengraça. tomando dinheiro dos que têm. e objetos e as vantagens..

e já tiver recebido umas duas ou três mulheres.. ele era muito amarelo.João Guimarães Rosa . pede padre. então. reluzindo aprovação. oh e eles: que todos. Fiz gesto. moças sacudidas. eu sei é pedir muitas esmolas. E. por ser cego. Convoquei todos nas armas. Pecador sem o que fazer. adivinha a vinda das – 637 – . viajando parceiro com a gente. Um cego..” Cego.“Ah. a esmo.“Pecador pior. Quem era que esse Borromeu? Mandei vir. que os cegos fazem. E só vamos sossegar quando cada um já estiver farto. ele tinha direito de não tremer. viesse... É assim.“Responde.” Ah. de certo não sabiam – que um desses. p’ra o renovame de sua cama ou rede!.“Tu é devoto?” . quase todos.“Estou no meu canto. Eu ia transformar os regimentos desses foros. ô gente.... . .. Borromeu: que é que tu faz?” ..” Pois. Levei os olhos. Não vi nada. que viesse também o Borromeu. transformado. geral. Mandei que montassem o dito num cavalo manso. meu senhor. . escreiento.Grande Sertão: Veredas valia. Mesmo os meus homens. Alguns riram. Estou me acostumando com o momentozinho de minha morte.. pede preto. com meu contentamento.. que da banda da minha mão direita devia sempre de se emparelhar. tu velho. pelo que riram.. cá. . Queria o que só me faltou – que foi que o jumento do homem zurrasse. meu senhor.” Apontou com o dedo. Aquele era o bom rumo do Norte.“E o Borromeu? E o Borromeu?” – ainda perguntavam.

Terçando um total de projetos. mas. Ver o seguinte. Os muitos vinham a pé. assim mesmo. tu vem vestido.João Guimarães Rosa . que furtando num saco o que achava fácil de carregar. Quando foi pego. bastados. mordia e perneava. Cavalos que chegassem. no topo da cabeça minha. de sentinelas. do menino pretozinho. Ele estava amoitado. ou nu?” Como que não vinha? Aprontaram um cavalo para ele só. Ele se chamava Guirigó. com olhares demais. meu povo! Todos tocamos. por diante. Há-de há. e mandei acender foguinhos de assar mandioca e fogueiras de iluminar. de repentinamente. com marcha de dez léguas. da banda de minha mão esquerda. com a boca no chão. poder não pude dormir. “Guirigó.Grande Sertão: Veredas pragas que outros rogam. Pernoitamos. no meio do mandiocal. mais me lembrei. E tiveram de campear esse menino. a laço e mãos. espalhados. Eu queria esses campos. conforme aprendi dos antigos. – 638 – . aqueles catrumanos ainda meio vigiados. na noite não preguei os olhos. Mas conversei surgidamente com os que paravam. com os entusiasmos. animais alheios a gente topasse. a gente ia encher os espaços deste mundo adiante. tinha não. mesmo com o cansaço em que estava. o tempo todo. para se assenhorear. por nada. que devia de se emparelhar com o meu. E. Ah. muito espertos. xingava. que na casa do Valado a gente tinha surpreendido. e vão defastando o mau poder delas.

chegamos. Mesmo deitado. E o que aí foi. em que rumo qualquer. lá em sua frente o senhor encontra o mau. João Goanhá. e essas estradas de chão branco. que dão mais assunto à luz das estrelas. Eu não tinha todo tempo? Safra em cima. por via disso. Em perto de sete léguas. Ao entrementes. deslizando com a manhã. Que eu recordava de ver o rio meu – beber em beira dele uma demão d’água. eu de todos era o chefe. os Judas? Ara. e saímos. Marcelino Pampa. quadrando que primeiro. Quando a madrugada bateu as asas. fazenda da Barbaranha.. com o merujo do orvalho. eu já estava abotoando a espora. eu achei graça: em que o Alaripe. de estar em toda a parte. eu em minha lordeza. Ah. e mesmo Diadorim.. eu quis. eu sentia que estava caminhando. o senhor dê um passo. Outra vez. e – 639 – . mais para o norte: para o Chapadão do Urucuia. inimigo. e chinelo velho redomão.João Guimarães Rosa .. O dia ia ser lindo de leveza! – pelas beiradas do céu.Grande Sertão: Veredas Aonde é que jagunço ia? À vã. Tinha minha vontade. Algum medo não palpitava frio por detrás de meus olhos. eu digo: tem botim novo flote. lhe conto. à vã. Eu pensei. mesmo em silêncio singular. galopando. E o Hermógenes. e. O que eu via: altos de mata e além! As coisas todas eu pensava. Forramos o estômago.. Conforme assim. no Pé-da-Pedra. João Concliz. aonde tanto boi berra. Mas. e nada nenhuma não me sombreasse.

. não viessem me dizer que a gente estava só com três dias de farinha e carne-seca.. se tu não abrir boca e choro bué. mesmo só no começar... . A falta de mantimentos. eu indo.. Que não. Eu fosse ter cautela. por isso eu ia encurtar rédeas. para engolir. por medos. só mesmo o que servia era à solta a lei da acostumando. A coragem que não faltasse. a polpa de buriti e carnes de rês brava. da banda de minha mão canhota sempre viesse. Toleima.“Tu está vendo o tamanho do mundo. não carecessem de formar conselho.. a dita faca tu ganha.. eles me seguindo. àquele sacizinho de duas pernas. de metal. E ele.Grande Sertão: Veredas outros mais velhos. Às léguas. As lérias.” eu prometi. era a de repartir o pessoal em turmas.“A pois: no primeiro fogo que se der. – 640 – . A outra receita que descumpri. me remedando. o dioguim. Cautelas. todo dia dão de renovar. enquanto vivo. Guirigó? Que é que tu acha de maior boniteza?” Assim eu perguntei. que preto reluzente afora os graúdos olhos brancos. para mim. travar o passo? A toleima. presenteada. encarapitado sobre seu alto cavalo. a cuja senvergonhice: “De todas as coisas. Meu direito era contrariar as regras todas do chefe que antes fora. boniteza melhor é dessa faquinha enterçada. Razão e feijão. pegava medo. que o senhor travessa na cintura. Todo boi. Aí.” Segundo tinha botado desejo no meu punhal puxável de cabo de prata. pasta.João Guimarães Rosa .

Grande Sertão: Veredas Coragem é matéria doutras praxes. por desfrute. não devo. Por causa que o que me prazia mais era contemplar o volume profundo da ida deles. nós todos.. e aqui a gente merece tudo – vento que não vareia de ser... o rumor constante dos cascos. noutra quietação diversa..” – continuou respondendo. O que não vejo. . em ponta os canos dos rifles de guerra. mas também preparava no silêncio.“Ah. o que esperava a gente.. eu detestava de obrar.” O ditado desses.“Arte de jagunço. .“. cavalaria! Cortejo que fazia suas voltas. Ele gostava de conversar. perguntei. a tiracol. Mas. da minha outra banda. pelos altos. tropeando. pelos ocos. só somente para rir eu aceitava. de esquadrão. . Podia dar conselho? . Com qual seguimento? Só. uma continuação grande. está gostando destes Gerais. para o vivo. só. por oras. Cavalo. hem seo Borromeu?” – ao cego. os chapéus deles quase todos bem engraxados com sebo de boi e nata de leite. não consumo. meu Chefe? Isto é ofício bonito. Todos eles passarem. passeata para a – 641 – . Ia sacolejando em cima da sela do animal. Chefe: é sempre amanhecendo manhã. dividir minha gente.João Guimarães Rosa . Mas vento que vem dos amáveis.” – ele me respondeu.“Seo Borromeu.... a forma duma mistura de gente amontada. De a de lado. pelos ermos. Aí o crer nos impossíveis. solevando para adiante o aprumo de meus homens. era o pouso para jantar.

Ah. do que um falava. do que esses se riam. do cerradão. aquele chio de carne em asso. Me prazia o ranger o couro das jerebas. outro mal ouvia e ria. Só os meus homens. digo. Quem visse. não se achavam. dando de rédeas sem descanso. fuga fugia. Até os bichos. corria: tinham de temer. eu tinha amanhecido. daquele jeito. Me prazia. ocultos no rareamento. Comi carne de onça? Esquipando. Aos dez e dezes. e logo sabem esperar. de seu longe e de seu perto. como por um futuro meu. eu ainda olhei em vão – com as presenças de Zé Bebelo me cismava. outros ainda falavam. em repente de receio. Escutava. e muita má gente matar.Grande Sertão: Veredas estrela-da-tarde. Mas. A poeira avermelhava e branqueava: poeiras que punham o vento mais áspero. raciocinado. Naquilo. os pássaros sempre já tinham revoado. Só às vezes. que escutam o começo de tudo. Aquilo – para mim – que se passou: e ainda hoje é forte. olhava – e eram aqueles: que muitas estrepolias ainda iam decerto agir. Com um arranco de freio. afirmo que me lembro de – 642 – . vigiando com seus olhos escondidos no mato em beiras de estrada. era em alguma grande verdadeira cidade. eu bem que tinha nascido para jagunço. não. Prosapeavam. Se o que sei. derrubei dos ombros aquele meu costume. Zé Bebelo terminara. eu queria que a gente entrasse. Uns homens em cavalos e armas. assim não se viam. Mas. nenhuns. Eu estou galhardo.João Guimarães Rosa .

mesmo como sempre. como prestável jumento. os animais dando dos quartos. Nem é por me gabar de retentiva cabedora. gineta. Eu? Nos estribos de ferro. Os filhos nascidos de distritos de lugares diversos. eu meando os dois. mas agora debaixo da minha estima completa. que era o Reinaldo. nesta minha conversa nossa de relato. O senhor me entende? A mesmice dos cabras jagunços – no contemplar a cavalhada – no passo. bridando bem. nome por nome. Sempre. Até o catrumano Teofrásio. Até os capiaus e os catrumanos copiavam o comportamento. vou destacando a contagem. Mas. dever de coração enérgico. e iam pegando o exato. que não fazem penachos. freio de ferro. que não tiram arredondamentos da magreza. que era o Menino. Esses passam e transpassam na minha recordação.João Guimarães Rosa . E o Guirigó e o Borromeu. mas para alimpar o seguimento de tudo o mais que vou narrar ao senhor. uns amontados. cavalo de olhos pretos conforme como a noite – Diadorim. era Diadorim – montado à baiana. ao alcance de qualquer minha mão. em seu argel travado. um. com estribos curtos e rédea muito ponderada. cumpria bem seu ir. cantaram: – 643 – . outros restantes apressados mesmo a pé. desde que tinha companhia de outros animais. comuns assim. então. que. silha forte e silha mestra – e o par de coldres! Assaz.Grande Sertão: Veredas todos. E eu. em seu jegue. às upas: cavalo bulideiro.

Mas acrescento que o dono. por causa de políti ca. posseiro de sesmaria. tinha valido. compadre que era do Coronel Rotílio Manduca em sua Fazenda Baluarte. Eu faço que vou lá dentro. Ora vez.“De uns três dias foi o São João. com muitos passados. encalço da estrada do rio. e volto do meio p’ra trás.João Guimarães Rosa . respeitante. fomos entortando. no Pé-da-Pedra. O que eu já disse ao senhor. que era por lá.. no atual. Antes..Grande Sertão: Veredas Olererê.. Soubessem que esse seo Ornelas era homem bom descendente.” – alguém disse. que. desse jeito. e se chegou na fazenda cercã. de voz. – 644 – . era um seo Ornelas – Josafá Jumiro Ornelas.. a Barbaranha dita.. em um lugar redondo e simples. então amanhã é o São Pedro. oh Baiana.. . Baiana. por nome todo. soturno sorridente. entre as duas chapadas. eu ia e não vou mais. e ainda valesse. Ao demais eu ouvi.

.Grande Sertão: Veredas .. não dei em nenhuma desbraga. mesmo. mexiam com feixes verdes de mariana e vassourinha e carregavam as latas pretas de assar biscoitos. No mastro. E o fazendeiro.“Ao que ele tem. com proceder seguro. e ainda não esmoreceu os ânimos. Na fazenda tinfiam levantado um mastro. Apreciei a soberania dele. eu amarrei o cabresto do meu cavalo. me deu grandes recebi. Bom homem.“Aí falam em sessenta ou oitenta mortes contáveis. senhor dali. Eu não estava com gosto de aperrear ninguém.. já confortavam meu estômago. As mulheres.. . muita coragem?!” – eu me fiz. que era arvorado para honra de bandeira do santo.. mas tem. – 645 – . mentos. os modos calmos. Só aqueles formosos cheiros das quitandas e do forno quente varrido. Para ele. vi movimentos de gente. os cabelos brancos.” Chegamos. abalável. e o céu por cima dali estava muito sereno.” o Marcelino Pampa afiançou “.. na frente do pátio. por nobreza. Mas não desordeei nem coagi. de dentro saiu. tirei meu chapéu e conversei com pausas.João Guimarães Rosa . veio saudar. na boca do forno fumaçando. convidar para a hospedagem.

bons quitutes ceamos.. me respondeu: . Aquietei o susto delas. para ela pedindo em voz alta a proteção de Jesus. em estado regular. Sendo que galinha e carnes de porco. mais tarde. Onde tive os usuais agrados. A dona fazendeira era mulher já em idade fora de galas.. João Concliz. e com gosto eu cedo. Diadorim. lá na sala. Sem se franzir nem sorrir. Eu disse que sim.. Mas a gente vamos carecer de uns cavalos. com regalias de comida em mesa. e o menino pretinho Guirigó mais o cego Borromeu – em cujas presenças todos achavam muita graça e recreação. eu.. Mas. também falei: ...Grande Sertão: Veredas . meu chefe. mas tinham três ou quatro filhas.” Assim logo eu disse. farofas. requer e merece.” – ele pronunciou. O homem não treteou. casadas ou moças.“Amigo em paz? Meu chefe. meu senhor. em antes de vir a amolecer as situações e estorvar o expediente negócio a boa conversação cordial. e nenhuma falta de – 646 – . a valer: a casa velha é sua. entre. e outras parentas. Alaripe e uns outros.João Guimarães Rosa . sentados. vossa. para evitar algum acanhamento e desajeito.“O senhor. bem orvalhosas.“Dou todo respeito. Marcelino Pampa.” E eu entrei com ele na casa da fazenda. Acho que tenho para coisa de uns cinco ou sete. João Goanhá.

era um sentido sorrateiro fino. Verdade era? Aquele velho fazendeiro possuía tudo. . somente falei também de sérios assuntos.Grande Sertão: Veredas consideração eu não proporcionei nem consenti. eu. assumi incertezas. ainda que eu pelejasse constante.. e com toda cortesia social. que outros e outros caminhos logo tomava. garantidas em suas honras e prendas.“Aqui é que se abancava Medeiro Vaz. para principal. isso. que. Conforme jagunço de meio-oficio tinha sido. então. pelo que disse.. tarde seria para bem aprender. – 647 – . A ceia indo principiando. que se representava. cidadão. Medeiro Vaz tinha regido nessas terras. Aos poucos. e amigo hospedador. mesmo porque meu prazer era estar vendo senhoras e donzelas navegarem assim no meio nosso. que eram a política e os negócios da lavoura e cria. ele conseguia as ponderadas maneiras. quando passou. Na verdade. Só faltava lá uma boa cerveja e alguém com jornal na mão. De ser de linhagem de família. essas coisas tiravam minha vontade de comer farto. Seo Ornelas me intimou a sentar em posição na cabeceira. abastado em suas propriedades.João Guimarães Rosa . Espécie de medo? Como que o medo.” – essas palavras. para alto se ler e a respeito disso tudo se falar. Aquela hora.

Guirigó. que ali nas margens esperavam.” – ele seo Ornelas dizia. E joguei os ossinhos de galinha para os cachorros. O menino Guirigó comeu demais. é só dar um saco vastoso na mão dele. iam passando os ossos para eu presentear aos cachorros. Aquele menino já tinha pedido que um dia se mandasse costurar para ele uma roupa. Para encorpar minha vantagem. assim riam todos. e prover um chapéu-decouro para o tamanho de sua cabeça dele.. . Cada cachorro sungava a cabeça. feito esta. Mas eu dei de ombros.. para dentro e para fora: capaz de supilar os recheios e pertences todos duma casa-grande de fazenda. cochilava afundado em seu lugar. e simpatias.. bem abocava. E todos. Aí caçoei: ..João Guimarães Rosa . despertava com as risadas.“Tu é existível. e janela para pular..“O sertão é bom.” E eu bem que já estava tomando afeição – 648 – . tudo aqui é achado.“O sertão é confusão em grande demasiado sossego. chega estalavam as orelhas. que sacudia. Assim eu mesmo ria.” – eu caçoava. que até não era pequena.Grande Sertão: Veredas . às vezes eu fazia de conta que não estava ouvindo.. Vai pelos proveitos e preceitos. consentidos... perto da mesa com toda atenção. . salvo que seja. rompia fala de outras diversas coisas. e umas cartucheiras apropositadas. com a maior devoção por mim.. Ou. Tudo aqui é perdido. então.” Essa conversa até que me agradou. e aparava certeiro seu osso..“Duvidar.

Isto é.. sestronho. como que só com ele. era como se ele reprovasse minha decisão de trazer para a mesa semelhantes companhias. O moderativo de ser. E quase não comia. como em teatral em circo em pantomima bem levada.“Oxalá.. um homem forte.. e a justa. ele obrava tudo por um estilo velhoso. O menino e o cego Borromeu – aqueles olhos perguntados.“As colheitas. a esta casa Deus o traga. O sertão carece. por criança. eu sentia assim: feito se estivesse pego numa ignorância – mas que não era de falta de estudo ou inteligência.” Solei um vexame. de outras mais arredadas terras – sei se sei. jogava na boca um punhado seco de farinha. O que é igual quase um calar. . elas perdessem o acanhamento de falar. Homem sistemático. com o Guirigó.Grande Sertão: Veredas àquele diabrim. o apertado ensino em doutrinar os cachorros. as senhoras e moças conversavam e brejeiravam.João Guimarães Rosa . . se carece dele. o senhor vai. Mas o seo Ornelas permanecia sisudo.. consoante que quiser.. mais uma minha falta de certos – 649 – . faço que ele afetava de propósito não reparar no menino. Pois. Pelo tudo. O senhor retorne.” – seo Ornelas supracitava. Só. vez outra. À puridade.. ambulante.. nuns casos como esse – resposta que eu achava que devia de ser uma só.. por não saber a resposta concernente. o senhor venha.

O que são bobéias: limpei goela... Defunto amigo Medeiro Vaz.. Adiante comandava em frente.. no ContaBoi. Dobrei. o senhor terá ouvido? Aí o mais esse sertão tem de ver.Grande Sertão: Veredas estados.João Guimarães Rosa . Mas sou.” – o homem descrevia. a outra ocasião.. nos olhos da morte.. castanheteei para os cachorros. Tolomeu Guilherme. daqui a duas léguas. é um que deve de estar presentemente embarcando cargas. mas faltava em barba que cofiasse. . no porto em Pirapora. Assim ele havia de sentir o perigo de meu desprazer. Contra os de um Tolomeu Guilherme. Amigo meu Medeiro Vaz.. Enterramos os melhores mortos...“Pois maior honra é a minha. na pobreza desta mesa. meu Chefe: que em posto de dono.. um pouco enfurecido. me determinou para capitanear e dar governo.. quem mais abre e mais acha!” – assim eu disse. – 650 – . Riobaldo que Tatarana já fui. o Urutu-Branco. somente homens de alta valentia e valia de caráter se sentaram. mudei de cara. mesmo nada tencionando dizer.“... . que a alma dele Deus haja. .” – ele glosou. de mim. ao que Medeiro Vaz mesmo foi que entre todos me escolheu. de costas... sem sobrosso de perturbação. que conheço. travou combates. .“Eu sei!” – eu disse. A ver: e que é que achava de mim aquele surdo velho? Ah.. para o exemplo.“Senhor saiba. ele expunha os cabelos brancos.

um lenço vermelho na cabeça – que para mim é a forma mais assentante de uma mulher se trajar. chamei: . das que estavam servindo.. ah. só gostei de ver como ela se mexia por ficar quieta – vergonhosa como uma coalhada no prato. de mim. quase encostada na parede. reparei que tinha as mãos aperfeiçoadas bonitas. A mocinha essa de saia preta e blusinha branca. Aquele homem.. Mas. que me juntavam com uma das mocinhas de lá.. mãos para tecer minha rede. A ela perguntei a graça. em pé. – 651 – . nos tons do velho Ornelas. recuante. percebi os olhos de Diadorim. aquilo – como o outro diz: .. Ela estava parada.Grande Sertão: Veredas havia de recear.. quando o burro dá as ancas!. .“A senhora meninazinha. a mais vistosa de todas. Administrado. Assussurrada. eu tinha divulgado um extravago de susto..João Guimarães Rosa . me faça obséquio da bondade. no meio das outras.” – foi seo Ornelas quem disse. chega aqui mais perto. no rever do instante. Aí. mas veio.” E ela avermelhou as faces... visconde e portoso em tudo. O olhar de Diadorim era que estava me indicando: que para aquela mocinha ia meu admirar. Isso foi o que me satisfez.“É minha neta. o leve medo de tremor. E mal nem ouvi o nome com que ela me respondeu.

eh. Os olhos de Diadorim não me reprovavam – os olhos de Diadorim me pediam muito socorro. sua família dele. feito ela fosse. caso fosse. eu gostava de dar a ela muito forte proteção. todos de pé. com seu parado de águas. eu – pronto! – o Ornelas estava caído muito a morto. adiada. em toda segurança. Seo Ornelas empalidecido. por um exemplo. A avaliar o de Diadorim. com uma bala entrolheolho. que eu agarrava nos braços. A menina-mocinha. por igual. Aquela formosura. Ela perigou.João Guimarães Rosa . mas que. Não perigou: no instante. Diadorim. como mostrava – outros olhos – o arregalo de ciúmes. também. e meus homens estariam ali. ele eu desarmava. feito quem quer comungar. Aquilo tardou assim: feito o tamanduá a língua põe. Aqui digo: que se teme por amor. Deu silêncio. Diadorim não imaginasse isso. filha minha.Grande Sertão: Veredas pelo mulheriozinho de sua casa ele não encobria o comprado. achei em minha idéia. eu de repente queria. então podiam mesmo ser assim. a boniteza dela esteve em minhas carnes. aquela delicadezazinha. A mocinha. uma razão maior – que é o sutil estatuto do homem valente. por amor. Certo que. é que a coragem se faz. antes de notar sequer que eu tinha pensado em arisco de mover nas armas. fechando praia de mar. num rebimbo de raio. A mocinha me tentando. era uma quanta– 652 – .

que por contentar profundo Diadorim eu tinha feito aquilo resoluto? Ou por outra. de vantagens de bondades. bem apessoado e trabalhador. seo Ornelas. ainda mais ao avermelhar. fortíssimo. carecendo. tu há de ter noivo correto. Mas eu não quis! Ah. Como que. Não vou estar por aqui... em todo tempo. que nesse intervalo de instantes – 653 – ..João Guimarães Rosa . no ar. agora sochupei aquele vapor fresco. outra vez. os altos da cabeça. Ao que debati. atrás do que falei. depois do fogo de ferver. conforme tu merece e eu rendo praça. que está prometida – igual eu fosse padrinho legítimo em bodas!” Alto estive. Mas. quanto e qual não quis. por sempre. vocês. eu – aquele jagunço Riobaldo. há-de-o.. Assim retido.Grande Sertão: Veredas coisa primorosa que se esperneia. quando for hora. Será que será. Ela se assustou. .“Menina. no dia. que votos faço. era um homem danado diverso. nos meus olhos de Diadorim.. digo ao senhor: e Deus mesmo baixa a cabeça que sim: ah. podem mandar chamar minha proteção. por aquele próprio velho homem. Segurei meus cornos. no azeite em corpo de meu sangue todo. era. para festejar. Donde o que eu quis foi oferecer garantia a ela. sem capacidade nenhuma. sosseguei – e melhor. E eu também mercês colhi – da alegria veraz..

O mundo ali tinha de ser de se recomeçar. tudo naquela parte dos Gerais era ilusão de haver e não se saber. Mas figuro que.” – foi o que ele respondeu.” – ele externou. as todas palavras deste grande Chefe. minha filha. ele não sabia nem a preposição. que é declarado sagrado nosso amigo. deveras foi afoito que eu quis com ele outras conversas. esse. .João Guimarães Rosa . também – e que o senhor pode ter conhecido igualmente... O quanto fiz perguntas.. me desfiz de ser... não digo. e prezei a amizade daquele homem dos sertões transatos. perante as voltas todas que o mundo dá e der!” Realmente.. . então eu virei para ele. pois era um que viajava amiúde – 654 – . com capricho desenhada. por me confirmar. Minha gente junto comigo escutava. O chefe próprio dele. daí. nunca ouvi. não. Aceitei o chá de laranjeira.“Zé Bebelo? Pode ser.Grande Sertão: Veredas dizendo estava: . com que sempre dei bem. nem do Hermógenes. Mas. nem do Ricardão. E. Ao que – isso era um fato possível? Ele não sabia.. . meu senhor. uma hora. esse nome. então.“Sou de pouca política.“Agradece. numa tigela grande.. Célebre. feito se eu ignorasse o qual era. ele não citou.“O senhor tem noção de quem Zé Bebelo é?” – eu indaguei. De Zé Bebelo.

por convinhável nas boas normas. com mãozinhas pequenas.. paz. Mas aí eu perguntei a respeito daquele seô Habão. pezinhos – e do ar sempre assustado constantemente.” E como eu atalhei o assunto.“Esse um. rapaz instruído social. e capaz duma conversação tão – 655 – . tinha amizade com o delegado dr. Hilário. o senhor? No barranco do São Francisco – o Coronel Rotílio Manduca – em sua Fazenda Baluarte! Agora. vestido cidadão. pois a lembrança dum inimigo deixa qualquer homem agastado. o que se diz: umas duzentas mortes! Conheceu.. na política de jagunçagem. O qual se deu da parte da banda de fora da cidade da Januária. vem a ser até parente de minha mulher. só mais para variação de conversa. espigadinho. e longe meu aparentado. de muita civilidade. Seo Ornelas. mudando o propósito. conforme vou reproduzir para o senhor.João Guimarães Rosa . Aquele – sequinho. Mas de desde mais de uns dez anos que cortamos conhecimento. o seo Ornelas relatou à gente diversos casos. Em resposta assim ouvi: .Grande Sertão: Veredas até no Rio de janeiro. nessa ocasião. se bem que famanado homem de cabras em armamentos. Dele sozinho. mas variado em sabedoria de inventiva. E o que em mente guardei. foi o seguinte. por esquipático mesmo no simples.

Grande Sertão: Veredas singela. – O doutor é este. e o soldado ordenança. . numa tarde. . Sendo que mesmo a miseriazinha dele era trivial no bem-composta. suplicou informação: – O qual é que é. viajor.” Ao que. que à paisana estava.. que estava lá – o sujeito mau. apareceu aquele homenzém. – o dr. ou da Sambaíba. Nele não se via fama de crime nem vontade de proezas. Hilário mais outros dois ou três senhores. amigo. com o saco mal-cheio estabeleci do na ponta do pau.. Um capiau a pé. o dr. De repente. seo Ornelas – segundo seu contar – proseava nas entradas da cidade.. mó que pergunte.. Hilário mesmo indicou um Aduarte Antoniano.. em roda com o dr.. Sempre só depois do final acontecido era que a gente reconhecia como ele tinha sido homem no acontecer. Hilário. e se aproximou para os da roda.. agarrado na ganância e falado de ser muito traiçoeiro. do ombro. A coragem dele era muito gentil e preguiçosa.“Me ensinou um meio-mil de coisas. – 656 – .. e que tinha um pau comprido num ombro: com um saco quase vazio pendurado da ponta do pau. que era uma simpatia com ele se tratar..“. Mas.” Seo Ornelas departia pouco em descrições: .. veio vindo um homem.. o senhor doutor delegado?-ele extorquiu. Semelhasse que esse homem devia de estar chegando da Queimada Grande.“. aqui.. antes que um outro desse resposta. por osséquio. Aí..João Guimarães Rosa . sem assinalamento nenhum. pois..

. e. o dr... Apre.. ei – e nisso já o homem. perto dos currais. – o dr. para o segundo sono. Acho que esta foi uma das passagens mais instrutivas e divertidas que em até hoje eu presenciei. desempecilhou o pau do saco. e o Aduarte Antoniano socorrido. Mas. senhor de prosa muito renovada. contou o seo Ornelas. ainda que às vezes eu ficasse em dúvida: se competia. E também.Grande Sertão: Veredas para se rir. lá para dentro duma cerca. e eu teimei em rejeitar oferta de cama em catre em quarto ou sala. aquele menino Guirigó. com o tardio da noite. caçar o meio da minha gente. veio a hora de se desapear da mesa... e muito se vê. falsificou.” Tal. mas a gente não pode ser um outro. só me disse: – Pouco se vive. mas fui fora. deixei com ele a mão. Hilário completou. guiando a fala. Ante o que. sendo eu um chefe. mudei de rearmar. com o melor e sangue num quebrado na cabeça. mas sem a gravidade maior. Hilário. A trapalhada: o homenzinho logo sojigado preso. de faveira para faveira. e outras.João Guimarães Rosa . Reperguntei qual era o mote.. – Um outro pode ser a gente. aturar que um outro fiasse e tecesse. com insensata rapidez. por todo o seroar. – 657 – .. por sinal que armei rede por entre cajueiro e jenipapeiro. e desceu o dito na cabeça do Aduarte Antoniano – que nem fizesse questão de aleijar ou matar. na mesa. nem convém. Pelo que. apreciador dos exemplos.

Ao que eu. pesado como um de maioridade. e agora ele estava indo para se deitar no limpo e fofo. nem aproveitasse. retribuí a ele.. ali na Barbaranha. boa noite o senhor tenha. do Sucruiú.“A pois.Grande Sertão: Veredas na senvergonhice inocente de sua pouca geração. tinha adormecido completo antecipadamente.. e levassem para dormir sei lá onde. Chefe. – 658 – .João Guimarães Rosa . eu aplico. e eu consenti que as mulheres carregassem o coitadinho diabinho. regozijado e bem servido. Somente que. nos braços das jovens e donzelas carregado. inteirado no sono. Assim eu tinha trazido o pretinho Guirigó. quase com aquelas mesmas palavras. no não saber por que. por todos remexida e temperada. e entradamente o caso relatado pelo seo Ornelas. com um aprazível amanhecer. do que em sua existência dele era que estava se sucedendo. Mas só porque o compadre meu Quelemém deduziu que os fatos daquela era faziam significado de muita importância em minha vida verdadeira. e desde aí perde o poder de continuação – porque a vida é mutirão de todos.” – assim seo Ornelas me saudou. que se deram ou não se deram. . A vida inventa! A gente principia as coisas. não por vezo meu de dar delongas e empalhar o tempo maior do senhor como meu ouvinte. ele mesmo disso não soubesse. As partes. por entre colchão e lençol.

O senhor me releve e suponha. Além do que quis que eu falhasse. cujos por bem uma meia-dúzia. esse dia com essa noite não se pertencia. mais para diante. Mas eu já estava agastado. para poder ser de vir a colher. gloriando o mastro com a bandeira do santo. Seo Ornelas externou as despedidas. subindo todos em selas. No outro dia. O seo Ornelas honrava os atos. Sincero o dito. exato. outros assim tão bons e melhores. acordei com a boca amarga e doce. Aí. Deciso. Ao que. e o través de baixar alguma ordem comandando. rédea e pernas. O pessoal deu vivas. para a festa. O que nesta vida muda com mais presteza: é lufo de noruega. Hilário se tinha formado. conforme se lembrou de mandar começar a soltação. a gente agradeceu. com o x’totó de foguetes. os cavalos que pudemos – o que foram os dez. em estradas de muita areia.João Guimarães Rosa . Rompemos umas duas léguas. de recrutagem. pondo meu cavalo: com espora. mas achei mais sobressaído ir mesmo embora. e a limpo seguimos – a manhã ainda com diversas claridades. os burros e mulas também contados. narro. com o meu povo. caminhos de anta em setembro e – 659 – . Semeei para trás de mim o bom ensejo. pelo mais. Achamos.Grande Sertão: Veredas que com a lição solerte do dr. puxei em frente.

assim feito doença. Alaripe. Alaripe? Coração dele aguou. sorrateira. de vaqueiro de gado tangedor. salgado como um suadouro de cangalha..“. Apartado de todos – era a norma que me servia – no sutil e no trivial. com retardo.Grande Sertão: Veredas outubro. A culpa minha.” – blasonei. A opinião das outras pessoas vai se escorrendo delas. O tanto que. Alguma instância. Assim. drede em amouco. . mesmo sem a gente saber. em tudo comedido. Isso de estimar os outros. das outras pessoas. era meu costume de curiosidades de coração.. e o cuspe não cabia em minha boca.. com a maneira da idéia da gente! Se sério. guardava o balanceio brando no coxim da sela.“Ah. um tinha de apertar os dentes. debaixo daqueles telhados. pegava na gente. hem. estou lembrado. daí depois. muito ligeiro. e negócios dos sentimentos da gente. como ia em pensar.João Guimarães Rosa . A cuspir para diante.. maior. Do agravo.. essas pessoas andavam em minha desilusão: de repente todos estavam endoidecendo. essa paz – 660 – .. eu achei: que a conversa com aquele seo Ornelas tinha me rebaixado. defeito esse que me entorpecia. e se mescla aos tantos. . Deu por paz. de repente. achei asperezas até na goela. Chamei para ele vir. Aí então. vendo como vi o Alaripe de mim a curta distância – e que. então. Aos poucos eu tivesse perdido a vigiação de minha alçada. o velho entregou os cavalos. no acaso da presença dele. ei. opor seus olhos.

” . eu esbarrado em pé – isto é..“Pode que seja.” . diante de mim.“Ah.Grande Sertão: Veredas não te enjoa?” .” . mas deve de ser. custoso. para ter meus eixos. Alaripe: eu acho que o enjôo da paz será também algum outro medo da guerra.” ..” Assaz essas coisas. A boca do boi quer sal – o sal do barro vermelho. a cavalo. meus aços. em caminho não se descansou um dia. nem podia dizer aos outros o que – 661 – . Riacho desses que os que vão morrer chamam de rio-Jordão. meu chefe... aquela comprida cavalhada.. Eu estava chamando umas bizarrias. eu inventava em fala.. E a gente ia indo. Todo o mundo passou. mal completada.“Mal bem não entendo.“Mas a paz não é boa? Então.“Tudo tu vê.. Força dessa minha maneira: eu estava pelo calor de tudo.João Guimarães Rosa .” . é deveras. viemos. é o que sucede. ou cava de buraco. A uns. vermelho meu.“E mas só o medo da guerra é que vira valentia. por tanto. Agora eram os brejos da beira do Paracatu....“Pois não é? Só quando se tem rio fundo. Somente quis. Um ribeirão raso e estreito se passou – nem bem seis braças.. como é que ela enjoa.. A virar o ar. é que a gente por riba põe ponte.. assim mesmo?” “Natureza da gente. Mas eu tinha conseguido encher em mim causas enormes.. conforme perseguia. Dispor do ror daquilo eu não conciliava.” .

não quis. seguintes: Hei-de às armas.. fechei trato nas Veredas com o Cão... Em tempo de vaquejada todo gado é barbatão: deu doideira na boiada soltaram o Rei do Sertão.. cantavam melhor cantando. Travessia dos Gerais tudo com armas na mão.Grande Sertão: Veredas queria. só por bazófias – mas rogando no estatuto daquela letra e retornando meu rompante. O Sertão é a sombra minha e o rei dele é Capitão!. Ao de que triste. Hei-de amor em seus destinos conforme o sim pelo não. de repentemente. Daí.João Guimarães Rosa .. De todos. Desde que eu – 662 – . e todas as cachaças. não. e como eu ia poder levar em altos aquela tristeza? Aí – eu quis: feito a correnteza. somente então uns versos dei. Arte que cantei.. os meus. menos vi Diadorim: ele era o em silêncios. Depois os outros à fanfa entoaram – mesmo sem me entender. que se puxaram.

nunca esbarra. viemos.“Amigo o amigo. perfiz: . Esses dias em ondas. A esse.João Guimarães Rosa . Aí se viu. Assim atravessamos. Os outros me acompanharam. Sei só as encostas que subi. e qualquer fio de meu cabelo branco que o – 663 – .Grande Sertão: Veredas era o chefe.. o senhor. medi o enrolar dos longes ventos. e do que eu não me tonteava. Tanta doideira fiz? A prazo. Aquelas pedras brancas. E ainda hoje. estando. a festo.. Vai. Como aquela vista reta vai longe. viemos. meu senhor. As caraíbas estavam dando flor. Esbarrei não. um vaqueiro pessoalmente. Assim eu entrei dentro da minha liberdade. Quieto. Demiti meu cavalo n’água. Oi. em seus couros. grita. Sumo bebi de mim. muito quieto é que a gente chama o amor: como em quieto as coisas chamam a gente. aqui é aqui?” Ao que ele confirmou: . araraúna. E já se estava antefrente do Paracatu – que também recovava o pouco e escasso. para a tua voz desenrouquecer! O Chapadão é uma estada. Estrela gosta de brilhar é por cima do Chapadão. Sentei que estava. arara. o suceder deste meu coração copia é o eco daquele tempo.” Aos campos. O Chapadão: céu de ferro. os senhores estão nos andares do rio Urucuia. E era a luanova. que de noite tanto esfriam. longe. assim eu via Diadorim de mim mais apartado. Somente eu sabia respirar. nem examinei o adiante. Por ponto de meu corpo. Só estive em meus dias.“Aqui.

. e para o poente vinham.“A uma coisa eu te digo.“Ah. Foi na descida de algumas ladeiras.Grande Sertão: Veredas senhor arranque.. por livre ir. às larguras de claridade. Ali eu diante de portas abertas. te vejo mesmo.. declara o real daquilo.” – 664 – .. daquilo – sem traslado. Assim. Nas grimpas. Ah. no se costear um barrocão. Riobaldo. naquelas. que depois lhe relato.. eu segurado. Ou era que mesmo desse jeito tinha de ser? Urubus perpassaram. Diadorim vigiou aquelas diferenças: ele temeu. paz!” Ele disse: . Mas alguém me impediu. o propósito para trás. Diadorim disse: . o significado duma coisa tive. ele me puxou.João Guimarães Rosa .“Estou aqui. Diadorim me chamou. só no azul do anoitecer é que o Chapadão tem fim. extremamente. temeu por minha salvação. a minha perdição. Ah.” Eu disse: “Pois. pegando em meu braço. não. Acho que foi assim. Riobaldo!” Eu disse: . Ou foi que minha Nossa Senhora da Abadia mandou que assim tivesse de ser? Mas Diadorim tirou o açoite de minha ação.. fala.

falei uma segunda palavra.” – feito o sussurro.. Sabia disso. assim obedecessem.Grande Sertão: Veredas Diadorim disse – a voz dele se paliava: . Conforme no renovável servisse: ir aonde houvesse política e eleição. não tivessem de me dar a toda aprovação? Ao redor de mim. Riobaldo. – 665 – . que caminhava em triste achar.. que ele queria me fornecer? Aí eu não queria ouvir o que fosse. mão mansa. seria que se atravessasse o do-Chico – ir em cata de vilas e grandes arraiais. a sina tristezinha do pouco povo. e a brabeza do gado. pelo que faltava de água naquelas chapadas. de tardinha. Eu não era pascácio. eu não queria. E mesmo eu sempre tive diversas saudades. de repente eu não queria. para a jagunçagem. Um chefe carece de saber é aquilo que ele não pergunta. No eu no meu. coisas grossas gotas – mesmo me temesse? – aquele suor devia de se gelar. adonde se ajustar pagas e alugar muitos divertimentos. só pobreza. nessas veredas. A chefia sabe chefiar.João Guimarães Rosa . que. Aonde o povo no rareado. fiz de ficar indignado. Por certo.“Por querer bem é que eu falo. Desejar de minha gente. A testa dele merujava. Eu disse: . descabelando o buritizal. A pobreza daquelas terras.“Vai dizendo!” . os Gerais mal serviam. Aí era um aviso.

Diadorim havia de me entender. os Judas? Sim. com coqueiral de macaúbas. no bombalanceio.. Por exemplo. Seguindo. – 666 – .João Guimarães Rosa . que nos extremos dele a gente pode esperar o lãolalão de um sino. eu gostava dele? Tem muitas épocas de amor.Grande Sertão: Veredas Reprazia. . haviam-de. sei. às vezes sossega.“Tempo de guerrear!” – eu disse. Diadorim. suor nosso. e o mimoso pássaro que ensina carinhos – o manuelzinho-da-troa. Aqueles vaqueiros. Sabia isso era eu no coxim da sela. para tomar o instinto do ar. que passou.. das areias tirando brilhos. por ali mesmo. esses com os laços enrodilhados nas garupas. quando os jaós cantavam. eu tivesse muito ódio. sobre morro. Ou silêncio tão devassado. de tardinha. A mal o mundo serenava. Em qualquer parte eu não podia arvorar bem fincado meu mastro-deguerra? Primeiro. em muitos adiamentos – ao homem da branca barba. e o grande revôo baixo da nhaúma. um dia reverter para o rio das Velhas. Amor em perto. e que. o Acauã e o Fafafa: meus contra-guias. no meu ir eles iam vir. o Pacamã-de-Presas. no raso e no monte. Mas. Mas. completo. meio do mato. por prazer. Diadorim não me entendesse? Ele entendia? Assim. para Alaripe. Mas eu estava acontecido. cujos campais de gado. eles. a gente recruzava. na areia roxa. vinha uma boiada. então. dirá o senhor: e o Hermógenes? A guerra não era para ser contra o Hermógenes. para mim.

Eu fui. Abri. por em si desencontradas. Boiada com rumo na barra do Paracatu. destapei a porta – que era simples encostada. Entrei no olho da casa. Conforme fatos houve. Mulher tão precisada: pobre que não teria o com que para – 667 – . Conselhos me davam? Mesmo só o igual ao que pudesse dar o cajueiro-anão e o araticum. Dada a mais cachaça ao menino Guirigó e ao cego Borromeu: para eles falarem coisas diferentes do que certas. só um papiri à-toa. E era noite de luar. e o gosto daquele cheiro se supria forte. essa mulher assistindo num pobre rancho. o naco de carne se torrava como um fumo. Mas a gente ia por lados contrários. só não alembro se era um couro de boi ou um tranço de buriti. Nem rancho. em tudo. Da mulher – que me chamaram: ela não estava conseguindo botar seu filho no mundo. tanto tempo se esbrazeando para estorricar.Grande Sertão: Veredas aboiavam. digo ao senhor. Deles até carneamos duas reses. Se assou carne na moda do povo dos Gerais – que era com espeto de vara de folha-miúda. diversas de tudo. lua me esperou lá fora. pois que tinha porta.João Guimarães Rosa . só por si punha a boca da gente aguando. salvante que mudassem de roteiro. Apreciei de ver como todos souberam jeito de esconder o medo que de mim devia