UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA

MARCELO DE FRANCESCHI DOS SANTOS

PERMISSÃO PARA COPIAR: MAPEAMENTO DA CIRCULAÇÃO DE POSTS DO BLOG JORNALÍSTICO MEIO DESLIGADO

Santa Maria 2010

MARCELO DE FRANCESCHI DOS SANTOS

PERMISSÃO PARA COPIAR: MAPEAMENTO DA CIRCULAÇÃO DE POSTS DO BLOG JORNALÍSTICO MEIO DESLIGADO

Trabalho de Conclusão de Curso Para a obtenção do grau de Bacharel em Jornalismo Universidade Federal de Santa Maria Centro de Ciências Sociais e Humanas Comunicação Social, habilitação Jornalismo

Orientadora: Luciana Mielniczuk

Santa Maria 2010

Marcelo De Franceschi dos Santos PERMISSÃO PARA COPIAR: MAPEAMENTO DA CIRCULAÇÃO DE POSTS DO BLOG JORNALÍSTICO MEIO DESLIGADO Trabalho de Conclusão de Curso como requisito para obtenção de grau de bacharel em Jornalismo Universidade Federal de Santa Maria Centro de Ciências Sociais e Humanas Curso de Comunicação Social habilitação Jornalismo

A Comissão Examinadora, abaixo assinada, aprova o Trabalho de Conclusão de Curso

_____________________________________ Profª. Drª Luciana Mielniczuk (Presidente/Orientador) _____________________________________ Profª. Drª Márcia Franz Amaral (UFSM) _____________________________________ Vivian Belochio Doutoranda em Comunicação e Informação (UFRGS) _____________________________________ Maurício Dias Souza Mestrando em Comunicação Midiática (UFSM) (suplente) Santa Maria, 13 de dezembro de 2010

Para meus pais, Fátima De Franceschi dos Santos e Hélio Gonçalves dos Santos, e meus irmãos, Gabriel De Franceschi dos Santos e Hélio Gonçalves dos Santos Filho.

AGRADECIMENTOS As seguintes pessoas me ajudaram a escrever esta monografia com sua paciência, depoimentos e/ou leituras críticas: Saul Pranke, Leonardo Foletto, Lucas Missau, Luciana Mielniczuk, Charlene Oliveira Trindade, Marcelo Santiago. A meus tios, em especial Leda Bolzan De Franceski, Pedro Milton De Franceschi e Lenita Bolzan De Franceschi. A minha avó Joaquina Gonçalves dos Santos, em memória. Aos integrantes do Diretório Acadêmico Mario Quintana (DACOM) do ano de 2008. Aos colegas da 36ª turma de Comunicação Social, veteranos, bixos, professores e funcionários pela convivência e amizade. À Coordenadoria de Comunicação Social da UFSM e ao GEPFICA pelos anos de estágio. À sociedade brasileira, representada pela Universidade Federal de Santa Maria e pelo Curso de Comunicação Social – habilitação Jornalismo, por financiar a minha formação. Obrigado a você se ler isso.

André Dahmer

RESUMO Mapear a circulação da informação de um blog jornalístico sob licença Creative Commons é o objetivo deste trabalho. Para isso, faz uma delimitação e uma breve revisão histórica dos direitos autorais, relacionando-os com as possibilidades de compartilhamento de obras intelectuais na internet através de licenças jurídicas que permitem a reprodução do conteúdo protegido. Em seguida, mostra como se dá a circulação da informação no ciberespaço, mais precisamente a informação produzida nos blogs jornalísticos, e os modelos de circulação destes. Depois, é utilizado o estudo de caso do blog escolhido, o Meio Desligado, bem como o mapeamento da circulação de dois textos publicados nele. Após a coleta e a análise dos dados, constata-se que a circulação no ciberespaço independe do atual sistema de direitos autorais e conta com uma forte participação dos leitores. Palavras-chave: Direitos Autorais; Circulação da Informação; Blog Jornalístico; Jornalismo Digital; Creative Commons;

ABSTRACT This work aims to map the circulation of the information producted in a journalistc blog under Creative Commons license. To do this, it is done a delimitation and a brief historical review of copyright, relating them to the possibilities of sharing intellectual works on the internet through legal licenses that allow the reproduction of protected content. Then, shows how is the circulation of the information in cyberspace, specifically the information producted in journalistic blogs, and the models of circulations. After, presents the methodology used to map the circulation of two texts producted in the chosen blog, the Meio Desligado. After collecting and analyzing data, it appears that the circulation in cyberspace is independent of the current copyright system and has a strong participation from readers. Key-words: Creative Commons; Information Flow; Journalistic Blog; Copyright; Digital Journalism

SUMÁRIO INTRODUÇÃO ..........................................................................................................12 1 DIREITOS AUTORAIS E CULTURA LIVRE .........................................................14 1. 1 DIREITOS AUTORAIS.......................................................................................14 1. 2 SURGIMENTO DOS DIREITOS AUTORAIS E DA CULTURA LIVRE..............17 1. 3 COPYLEFT ........................................................................................................20 1. 4 CREATIVE COMMONS .....................................................................................24 1. 5 LICENÇAS DO CREATIVE COMMONS .........................................................29 2 CIRCULAÇÃO E BLOG JORNALÍSTICO.............................................................35 2. 1 CIRCULAÇÃO NO CIBERESPAÇO..................................................................35 2. 2 BLOG JORNALÍSTICO......................................................................................39 2. 3 CIRCULAÇÃO DOS BLOGS JORNALÍSTICOS...............................................43 2. 4 MODELOS DE CIRCULAÇÃO DOS BLOGS JORNALÍSTICOS....................52 3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS...............................................................55 3. 1 DESCRIÇÃO E ASPECTOS HISTÓRICOS DO BLOG......................................56 3. 2 MAPEAMENTO ..................................................................................................64 3. 3 COLETA DE DADOS .........................................................................................69 3. 4 ANÁLISE DE DADOS.........................................................................................74 CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................................................77 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .........................................................................79 APÊNDICE ................................................................................................................86 ANEXOS ...................................................................................................................92

LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1: Número de trabalhos licenciados em CC por ano.......................................26 Figura 2: Código Digital (Digital Code).......................................................................27 Figura 3: Licença para Leigos....................................................................................28 Figura 4: Cabeçalho da Licença Jurídica...................................................................29 Figura 5: Google Reader............................................................................................45 Figura 6: Aplicação de widget em blog.......................................................................47 Figura 7: Postagem de Tumblelog.............................................................................49 Figura 8: Compartilhamento de links no Facebook....................................................50 Figura 9: Botões de compartilhamento em blog.........................................................51 Figura 10: Página inicial do Meio Desligado..............................................................60 Figura 11: Exemplo de gráfico com cópias encontradas pelo Plagium......................66 Figura 12: Painel das origens de tráfego exibidas pelo Google Analytics..................67

LISTA DE TABELAS Tabela 1: Elementos das licenças Creative Commons..............................................30 Tabela 2: Selos e as seis licenças Creative Commons..............................................31 Tabela 3: Visitas através de Sites Referenciais para o blog nos dias 9 e 10.............71 Tabela 4: Total de visitas da página Apanhador só nos dias 9 e 10..........................71 Tabela 5: Visitas através de Sites Referenciais para o blog nos dias 15 e 16...........73 Tabela 6: Visitas da página Music Alliance Pact de novembro nos dias 15 e 16.......74

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INTRODUÇÃO O compartilhamento de arquivos através da internet provoca questionamentos sobre a validade, as possibilidades e as consequencias dessa prática em todo o mundo. Principalmente a partir de 1999, com a criação do Napster1, software de rede P2P2, foi posto em xeque o valor das obras intelectuais e artísticas que passaram a ser usufruídas gratuitamente pelos usuários. A reprodução – não apenas a produção – de um produto cultural derivado do intelecto nunca foi tão facilitada com a tecnologia, o que tem gerado processos judiciais efetuados pelos detentores dos direitos autorais das obras compartilhadas nas redes. Tais complicações jurídicas se devem basicamente à inadequação da lei ao avanço tecnológico. A legislação brasileira dos direitos autorais, por exemplo, data de 19 de fevereiro de 1998, anterior aos serviços de trocas de arquivos. Juntamente com o copyright estadunidense, a Lei dos Direitos Autorais é tida por especialistas como uma das mais restritivas do mundo. A irrupção da internet e da tecnologia digital possibilita que os usuários façam circular entre si tanto obras próprias quanto obras alheias por preços mínimos ou nulos, sem a permissão dos autores exigida pela lei. Essa distribuição não autorizada foi chamada de pirataria – que nada mais é do que a infração ao direito de propriedade intelectual – e resultou no debate sobre direitos autorais. No jornalismo, por este ser considerado um trabalho intelectual conforme o parágrafo 1º do artigo 302 da Consolidação das Leis do Trabalho3, também já houve casos de pirataria. Sites copiam textos de blogs sem autorização e sem atribuir crédito ao produtor da informação; ao mesmo tempo em que blogs copiam notícias de sites sem a exigida autorização. Uma das soluções para a contrafação digital – a reprodução sem autorização – é a adoção de licenças livres, em evidência as Creative Commons, que permitem
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Por meio de uma rede P2P, os usuários do programa tinham acesso às músicas digitais dos demais usuários, com a possibilidade de fazer o download dos arquivos de uma maneira descentralizada. Não havia um único servidor fornecendo o serviço. Todos eram servidores e clientes ao mesmo tempo, e assim tinham acesso mútuo ao conteúdo de cada um. Depois de receber ordens judiciais, o Napster foi fechado em 2001, mas outros serviços similares surgiram. 2 Redes em que os computadores se conectam entre si com um computador administrador da rede, possibilitando que todos compartilhem arquivos. 3 “§ 1º - Entende-se como jornalista o trabalhador intelectual cuja função se estende desde a busca de informações até a redação de notícias e artigos e a organização, orientação e direção desse trabalho.”.

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que a informação possa ser legalmente copiada. Ao adotar as licenças livres, autores ou detentores dos direitos autorais permitem a cópia e a distribuição, determinando quais condições são exigidas para a reprodução. Assim, é consentido que o produto circule livre de restrições jurídicas. O objetivo desse trabalho é justamente mapear como se dá a circulação da informação de um blog jornalístico com conteúdo licenciado sob Creative Commons. Os blogs começaram a ser usados desde o início dos anos 2000 para a prática do jornalismo, e possuem um sistema de circulação bastante complexo, no qual o compartilhamento de links e informações é uma peça chave. São, portanto, objetos exemplares da circulação ocorrida no ciberespaço. O trabalho é ainda uma tentativa de contribuir para o debate acerca dos direitos autorais, dos jornalistas inclusive. Para alcançar o objetivo, é preciso delimitar o que são direitos autorais, seguido de um breve histórico sobre o seu surgimento. Relacionado ao crescente enrijecimento das leis, também são descritos os movimentos questionadores das limitações impostas pela legislação, como a cultura livre, o copyleft e o Creative Commons. Portanto, o primeiro capítulo é baseado em autores como Abrão (2002), Silveira (2004), Stallman (2002), Lemos, A. (2005), Lemos, R. (2005), Lessig (2005), Vercelli (2009). O capítulo posterior descreve algumas peculiaridades da circulação da informação no ciberespaço. Depois, apresenta uma definição de blog jornalístico, com alguns aspectos históricos, e algumas ferramentas utilizadas por esses blogs para circular os seus conteúdos. Autores que embasam essa parte são Barbosa (2002), Blood (2002), Gonçalves (2008), Orihuela (2006), Escobar (2009), Foletto (2009). Debatidos o Creative Commons e a circulação do blog jornalístico, é apresentado o blog escolhido para o estudo de caso, o Meio Desligado, e os procedimentos adotados para fazer o mapeamento da circulação. São detalhados os dois instrumentos selecionados para isso – os serviços Plagium e Google Analitycs – e, em seguida, é feita a coleta e a análise dos dados. Escobar (2007), van Peborgh (2010), Moreira (2005), Duarte J. (2005), e Duarte M. (2005), foram os autores utilizados na metodologia.

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1 DIREITOS AUTORAIS E CULTURA LIVRE Este capítulo trata da propriedade intelectual, constando suas divisões, origens e movimentos de contestação. Primeiramente, o foco se dará nos direitos autorais compreendidos pela legislação brasileira. Na sequência, será visto o surgimento dos conceitos e a posterior relativização efetuada pelo compartilhamento de arquivos através das redes digitais, com ênfase sobre os instrumentos que tornam isso possível. 1. 1 DIREITOS AUTORAIS Os direitos autorais são um ramo do Direito que fazem parte de uma classificação maior, chamada pela doutrina internacional de Propriedade Intelectual (PI). Nessa classificação, o ramo dos direitos de propriedade industrial junta-se aos direitos autorais, conforme Castro (2001). Tanto os direitos de propriedade industrial quanto os direitos autorais são normatizados por suas respectivas leis de Estado, com variações em cada país. No Brasil, a regularização é efetuada pela lei nº 9.279/1996, relativa à propriedade industrial, e pela lei nº 9.610/1998, também conhecida como Lei dos Direitos Autorais (LDA). Há ainda a lei nº 9.609/1998, que é tratada como um complemento da LDA, pois dispõe sobre os programas de computador. Os dois subconjuntos de direitos são conhecidos internacionalmente como propriedade intelectual. Chama-se de propriedade intelectual, segundo Abrão (2001, p. 33), “tudo aquilo que, fruto do esforço intelectual, individual ou coletivo, possa ser reproduzido e comercializado como mercadoria especial, sobre a qual exercem-se direitos de propriedade intelectual”. São produtos derivados do intelecto, que nos acompanham todos os dias: livros, jornais, softwares, garrafas de refrigerante, etc. Tudo regulado pelos direitos de propriedade industrial, ou pelos direitos autorais. Os direitos de propriedade industrial são explicados por Castro como sendo relacionados “com marcas identificativas de empresa, marcas de serviços, nome comercial, bem como se relacionam com patentes de invenções e modelos de utilidade, desenhos ou modelos industriais” (CASTRO, 2001, p. 4). São comumente conhecidos como “marcas e patentes”. Para que um bem seja contemplado pela Lei de Propriedade Industrial, exige-se o registro da produção no órgão regulatório de

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cada país – no Brasil isso é feito pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial4 desde 11 de dezembro de 1970. Já no caso da Lei dos Direitos Autorais (LDA), qualquer manifestação física ou digital – o que inclui programas de computador – do pensamento não necessita de registro, sendo um ato facultativo, conforme o artigo 18 da lei 9.610: “A proteção aos direitos de que se trata esta lei independe de registro”. Ressalta-se que a proteção da lei recai sobre a exteriorização, a forma da expressão fixada independente do material, e não sua ideia original. “As ideias são de uso comum e, por isso, não podem ser aprisionadas pelo titular dos direitos autorais” (PARANAGUA; BRANCO, 2009, p. 31). Por exemplo, é coberta uma única notícia de um determinado fato, e não o fato em si, do qual podem ser feitas outras notícias. “Já no caso dos bens protegidos por propriedade industrial, o que se protege inicialmente é a ideia, consubstanciada em um pedido de registro (de marca) ou de patente (de invenção ou de modelo de utilidade)” (PARANAGUA; BRANCO, 2009, p. 32). Os direitos autorais estão relacionados a obras intelectuais. Por sua vez, os direitos autorais dividem-se em direitos morais e direitos patrimoniais. Os direitos morais dizem respeito aos direitos de personalidade, dos quais se destacam à honra; ao nome; e à imagem. Tem como características serem intransmissíveis, inalienáveis, irrenunciáveis, inexpropriáveis e imprescindíveis (ABRÃO, 2001). Ninguém pode vender o seu nome para outra pessoa, nem ter sua autoria retirada, ou renunciar a autoria de uma obra. O nome do autor permite a responsabilização do indivíduo em meio à sociedade (CASTRO, 2001). Os direitos patrimoniais, por outro lado, são passíveis de venda para exploração comercial, seja pelo autor ou por pessoa autorizada pelo autor. Castro (2001, p. 7) compara brevemente as duas divisões de direitos: “o direito patrimonial de autor tem características diferentes daquelas relativas ao direito moral de autor, a saber: alienável; penhorável; temporário; prescritível”. São direitos alienáveis através de um contrato de cessão, por um determinado tempo. Uma série de direitos patrimoniais são elencados pelo artigo 29 da LDA, entre eles os de reprodução, edição, adaptação, tradução e distribuição da obra cessionada. A exploração desses direitos gera ganhos econômicos ao autor, financeiramente chamados de royalties. _______________
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http://www.inpi.gov.br/.

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Um autor pode lucrar com seus direitos patrimoniais, ao vendê-los para difusores de obras intelectuais. Uma banda cede os direitos patrimoniais de um disco para a exploração por uma gravadora; um jornalista cede os direitos patrimoniais de seus escritos para uma empresa através de um contrato, como esclarece o artigo 36 da lei 9610: “O direito de utilização econômica dos escritos publicados pela imprensa, diária ou periódica, com exceção dos assinados ou que apresentem sinal de reserva, pertence ao editor, salvo convenção em contrário”. A utilização econômica se dá através do direito patrimonial de reprodução. No jornalismo, é através do contrato que a empresa adquire o direito de reprodução da obra, ou o direito de cópia. Entretanto, não há na legislação vigente, tanto nacional quanto internacional, definições legais sobre a reprodução de obras intelectuais digitalizadas. A atual legislação considera o meio digital “nada mais que um novo canal de veiculação de obras intelectuais ao qual se aplicam todas as regras de direitos autorais incidentes sobre as outras mídias (impressa, eletrônica, radiodifundida)” (ABRÃO, 2003, p. 1). Ou seja, não há uma adaptação das leis para as novas tecnologias que surgiram após 1998 – a saber as redes P2P, os fóruns de discussão, os blogs, os microblogs, as redes sociais5. Sendo assim, a reprodução e a distribuição do conteúdo do webjornal configura-se como uma infração do direito patrimonial da empresa jornalística. É comum o envio de notícias para grupos de e-mails e a copia de notícias ou artigos de opinião para fóruns de discussão ou para blogs que fazem cópias de sites jornalísticos. Alguns copiam sem intuito de lucro; outros, lucram com o conteúdo copiado através de anúncios – um exemplo é o blog Conteúdo Livre6, que copia conteúdo disponível apenas para assinantes de sites jornalísticos brasileiros. Mas não são apenas os usuários que copiam textos jornalísticos e os distribuem; já houve casos de empresas que plagiaram jornalistas, no Brasil e no Exterior. Um dos casos mais recentes aconteceu com o pesquisador espanhol Ramon Salaverría. Em fevereiro de 2010, o jornalista denunciou - em seu blog e-periodistas - ter sido vítima de plágio. Segundo ele, o portal El Mundo utilizou-se de um texto _______________
O Ministério da Cultura (MINC) abriu uma consulta pública para modernização da Lei do Direito Autoral este ano. De 14 de junho a 31 de agosto de 2010, foram recebidas 8 mil 431 sugestões de mudanças. Segundo O Globo Online, até o fim do ano, o MINC pretende enviar um projeto de lei para votação no Congresso. Mais informações podem ser conferidas no site da consulta: http://www.cultura.gov.br/consultadireitoautoral/. 6 http://sergyovitro.blogspot.com/.
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com trechos iguais ao de um post do seu blog, sem mencionar a origem das informações ou linkar para a postagem7. Existe ainda uma polêmica envolvendo empresas de clipping8 que lucram vendendo para clientes o conteúdo gratuito que coletam de sites da internet9. Ao mesmo tempo em que se constitui em infração, a apropriação do conteúdo traz um benefício para os profissionais e para as empresas jornalísticas: uma circulação maior e até uma maior audiência para a página original da publicação. Se a cópia do conteúdo estiver vinculada com o link para o conteúdo original, o usuário pode se interessar e visitar a página do site – o que também mantém o direito moral do criador. Uma alternativa para o impasse que se firmou é a adoção das licenças livres pelos produtores de conteúdo. As licenças são autorizações que têm a exigência básica da atribuição do crédito ao autor, ou origem, e, assim, permitem que o conteúdo seja copiado. Ao utilizá-las, o autor concede a distribuição da obra, aderindo a um acordo de determinadas liberdades, ou a um sistema no qual ele escolhe quais liberdades autoriza. De surgimento relativamente recente, as licenças têm alcançado uma grande popularidade e derivam de um contexto maior – a cultura livre. 1. 2 SURGIMENTO DOS DIREITOS AUTORAIS E DA CULTURA LIVRE Após uma breve introdução sobre o que são direitos autorais, vale fazer uma curta revisão histórica a respeito de suas origens, terminando na concepção do conceito nos dias de hoje. Segue uma descrição dos movimentos de contestação dos abusos promovidos pelo aumento da duração e da abrangência dos direitos autorais. Dentre os movimentos, destacam-se a cultura livre, o copyleft, o software livre e o Creative Commons. Os direitos autorais começaram a ser regulados há cerca de três séculos, mas suas origens remontam ao século XV. Até a Idade Média, os processos de reprodução das obras artísticas, literárias e científicas eram realizados de forma manual e rudimentar, o que dificultava a divulgação de idéias (VIANNA, 2006, p.
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http://e-periodistas.blogspot.com/2010/02/arranco-por-el-dato-aunque-no-es-lo-que.html. Serviço de coleta de produtos jornalísticos que citam determinados assuntos. 9 http://www.cultura.gov.br/site/2010/03/19/ganhar-com-o-trabalho-alheio/.

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935). Em torno de 1450, com o surgimento da máquina de imprimir com tipos móveis (BURKE, 2003) passou-se a se pensar nos direitos desses textos, devido a facilitação da reprodução textual. Quem tinha os meios de reprodução, recebia dos governantes o direito exclusivo de comercializar os escritos. Os reis ingleses Felipe e Maria Tudor são considerados os primeiros a concederem um monopólio para livreiros, em 1557, conforme conta Abrão (2001, p. 27). A esse privilégio de produzir e comercializar os livros, foi dado o nome de direito de cópia (copyright, em inglês). Os livreiros mantiveram seu domínio até 1664, quando expirou o limite de exploração garantido pelo Licensing Act, um decreto que lhes dava o poder de combater os livros falsificados – que não tinham autorização. Em 1710, a Rainha Ana aprovou o Statute of Anne, considerada a primeira lei de direitos autorais da história, pois reconhecia a propriedade das obras como sendo dos autores, e não dos livreiros. Além de reconhecer o direito patrimonial dos autores, a lei também estabeleceu limites para o direito de cópia (copyright) do livreiro – cada livro poderia ser explorado por 14 anos, com direito a uma renovação por mais 14 anos, se o autor estivesse vivo. Para os livros anteriores à lei, foi estabelecido o prazo de 21 anos. Após esse tempo, o livro poderia ser publicado por qualquer pessoa, passando ao domínio público, um conceito novo para a época. Esse sistema de direito autoral inglês originou o copyright dos países anglo-saxões – dentre eles, o dos Estados Unidos, cuja primeira lei data de 1790. Os direitos autorais do Brasil e dos demais países latino-americanos deriva do sistema “droit d’auteur”, surgido na França pouco depois da Revolução Francesa, e pouco depois do copyright:
“Em julho de 1793, com a classe dos artistas contemplada com algumas normas de proteção, um Decreto-lei do governo francês regulou, pela primeira vez, os direitos de propriedade dos autores de escritos de todos os gêneros, do compositor de música, dos pintores e dos desenhistas” (ABRÃO, 2001, p. 31).

O direito do autor francês se preocupava não só com o direito de cópia da obra – do copyright inglês –, mas também com os direitos morais do autor. Quase um século depois, os dois tipos de sistema de direitos autorais foram debatidos na Convenção da União de Berna, em 1886. A Convenção foi uma tentativa dos países de regular uma proteção mínima para o direito autoral internacional. A normatização ficaria a cargo das legislações internas de acordo com os costumes de cada país. Entretanto, dentre as determinações, ficou estabelecido

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“princípios de proteção mínima”, como o prazo mínimo de proteção a obra (vida do autor, mais cinquênta anos após morte). Em outras revisões do texto, o prazo seria aumentado para setenta anos, como é hoje no mundo e no Brasil. Os Estados Unidos na época não assinaram a Convenção e mantiveram o sistema de copyright, que sofreu muitas mudanças ao longo dos anos. Houve um enrijecimento da lei de copyright, principalmente no prazo do domínio público norteamericano que foi estendido em sucessivos processos de reformulação da lei. Lessig (2005) faz um apanhado histórico das modificações operadas na lei estadunidense:
“Nos primeiros 100 anos de República, o contrato de copyright foi modificado uma vez. Em 1831, o prazo máximo de decadência do contrato foi ampliado 28 anos para 42, ao se aumentar o contrato inicial de 14 para 28 anos. Nos 50 anos seguintes de República, o contrato foi ampliado mais uma vez. Em 1909, o Congresso estendeu o tempo de renovação de 14 para 28 anos, estabelecendo um contrato máximo de 56 anos. Então, no começo de 1962, o Congresso deu início a uma prática que passou a definir exclusivamente a lei de copyright. O Congresso ampliou os contratos de copyright existentes 11 vezes nos últimos 40 anos; por duas vezes nesses 40 anos, ampliou os contratos de futuros copyrights. Inicialmente, as expansões para os contratos de copyrights existentes eram curtas – um ou dois anos apenas. Em 1976, o Congresso prolongou todos os copyrights existentes por 19 anos. E, em 1998, no Ato Sonny Bono de Extensão de Contrato de Copyright, o Congresso prolongou os contratos de copyright existentes e futuros por 20 anos. O objetivo dessas ampliações era apenas anular ou retardar a passagem das obras para o domínio público” (LESSIG, 2005, p. 147).

Além dessas expansões, outro tratado internacional contribuiu para que o copyright fosse visto como um sistema de proteção mundial. É comum vermos no roda pé de páginas nacionais o símbolo do copyright, seguido do ano corrente e a frase todos os direitos reservados. A advertência se deve ao que ficou estabelecido numa outra convenção internacional, a Convenção Universal de Genebra, organizada pela UNESCO10 em 1952. Nela, foi determinado que a obra seria protegida pelo copyright sob duas condições: ser publicada em qualquer país signatário e conter a menção de reserva, formada pelo símbolo ©, pelo nome do titular e pelo nome da obra (ABRÃO, 2001). O Brasil também é signatário da Convenção de Genebra, mas a LDA não faz qualquer menção a segunda condição, ou seja não seria necessário constar o símbolo do copyright. Paranaguá (2006, online) diz que essa medida de proteção não tem qualquer validade jurídica no Brasil _______________
A United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) é uma agência da Organização Mundial das Nações Unidas fundada em 16 de novembro de 1945.
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e a classifica como sendo “resultado da retórica e do imperialismo norte-americano”. Portanto, as pressões estadunidenses têm consequencias globais, e também acarretam ações que se opõem as suas imposições, tal como ocorre com o movimento cultura livre. Para Lessig (2005), deve haver uma adequação na lei de copyright, e não sua extinção, de acordo com as inovações tecnológicas que facilitaram a reprodução e distribuição dos bens culturais. Lessig defende que a cultura deve voltar a ser livre, não livre no sentido de coisas materiais gratuitas, mas livre no sentido de liberdade de expressão, de mercados, de comércios e de iniciativas. O termo “livre” significa que os bens culturais são isentos das restrições impostas pela legislação copyright, que possui como lema os dizeres “todos os direitos reservados”. Reservados, pois a cópia, a reprodução e outros direitos patrimoniais são exclusivos dos seus respectivos detentores. Na cultura livre, apenas alguns direitos são reservados, à escolha do criador da obra cultural para que ela seja copiada e modificada por outras pessoas.
“Uma cultura livre apóia e protege criadores e inovadores. Faz isso diretamente, garantindo direitos de propriedade intelectual. Mas também faz isso indiretamente, limitando o alcance desses direitos, para garantir que os criadores e inovadores subseqüentes permaneçam tão livres quanto possível do controle do passado. Uma cultura livre não é uma cultura sem propriedade, da mesma forma que um mercado livre não é um mercado onde tudo é grátis. O oposto de uma cultura livre é uma “cultura da permissão”, na qual os criadores só criam com a permissão dos poderosos ou dos criadores do passado” (LESSIG, 2005, p. 26).

A defesa por uma cultura livre tem suas bases no copyleft e no software livre, como constatado por Schwingel (2006, online), pois refere-se a “movimentos que extrapolem os preceitos e idéias surgidas a partir da relativização dos direitos de propriedade intelectual e do desenvolvimento colaborativo”. A seguir, será dado um enfoque maior na relativização do direito autoral ocasionada pelo copyleft. 1. 3 COPYLEFT Copyleft é uma palavra criada a partir da inversão do termo copyright, e que quer dizer “deixar copiar”. Ao contrário do que parece, ela não designa um outro conjunto de direitos ou uma outra licença. Determinadas licenças de uso são denominadas copyleft por permitirem a distribuição dos bens culturais.

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O copyleft se origina em meados dos anos 1980 a partir do surgimento do conceito de software livre. Em 1983, o pesquisador estadunidense do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Richard Stallman, criou o projeto GNU (sigla metalinguística para GNU is Not Unix) com o objetivo de “produzir um sistema operacional livre que pudesse fazer o mesmo que o sistema Unix” (SILVEIRA, 2004, p. 18). Stallman queria que todos tivessem acesso ao software e pudessem adaptálo conforme as suas necessidades ou gostos. O projeto GNU tinha o seu código fonte – que contém todas as linhas de instruções do programa – aberto para estudo e modificações, ao contrário dos sistemas operacionais Unix, que tiveram seus códigos-fonte fechados e apropriados comercialmente por uma empresa de telecomunicações, a AT&T (American Telephone and Telegraph). Dois anos depois, em 1985, Stallman fundou a Free Software Foundation, uma organização sem fins lucrativos “que levanta fundos para promover a liberdade para compartilhar e mudar software”11 (STALLMAN, 2002, p. 174). O objetivo de criar um sistema operacional só foi alcançado em 1991, quando o finlandês Linus Torvalds desenvolveu o Linux, que na época obteve uma boa repercussão na rede resultando numa combinação com o projeto GNU. Assim, nasceu o projeto GNU/Linux, uma alternativa aos softwares proprietários. O fundador do movimento software livre diz que, para entender o conceito de livre, é preciso pensar “como em liberdade de expressão, não como em cerveja grátis”12 (STALLMAN, 2002, p. 43). Em 1996, ele definiu quatro liberdades fundamentais para um software ser assim considerado:
“Liberdade 0: A liberdade de executar o programa, para qualquer propósito; Liberdade 1: A liberdade de estudar como o programa funciona, e adaptá-lo para as suas necessidades (Acesso ao código fonte é uma pré-condição para isso.); Liberdade 2: A liberdade de redistribuir cópias de modo que você possa ajudar ao seu próximo; Liberdade 3: A liberdade de aperfeiçoar o programa, e liberar os seus aperfeiçoamentos, de modo que toda a comunidade se beneficie (Acesso 13 ao código-fonte é uma pré-condição para isso.)” (STALLMAN, 2002, p. 43).

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Tradução do autor para: “that raises funds to promote the freedom to share and change software” (STALLMAN, 2002, p. 174). 12 Tradução do autor para: “as in ‘free speech’, not as in ‘free beer’.” (STALLMAN, 2002, P. 43). 13 Tradução do autor para: “Freedom 0: The freedom to run the program, for any purpose.; Freedom 1: The freedom to study how the program works, and adapt it to your needs. (Access to the source code is a precondition for this.); Freedom 2: The freedom to redistribute copies so you can help your neighbor.;
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As liberdades poderiam ser asseguradas ao registrar o programa como domínio público. Entretanto, isso poderia permitir que outras pessoas convertessem o programa para um software proprietário. O fechamento do software negaria a outras pessoas a possibilidade de livre acesso, modificação e de redistribuição – uma consequência que limitaria o desenvolvimento colaborativo. A fim de evitar a apropriação do software construído conjuntamente, Stallman cunhou o conceito de copyleft, que se utiliza do copyright, através de instrumentos legais, para assegurar as determinadas liberdades: “Desenvolvedores de software proprietário usam o copyright para tirar as liberdades dos usuários; nós usamos o copyright para garantir as liberdades”14 (STALLMAN, 2002, p. 91). As condições e as exigências para o uso do software são adicionadas por meio de uma licença jurídica. Para o sistema GNU, foi criada em 1989 a primeira licença copyleft – a GNU GPL (GNU General Public License ou Licença Pública Geral GNU). Conforme apontam Lima e Santini (2006), além de permitir a livre distribuição, essa licença permite que as cópias modificadas sejam comercializadas, desde que não infrinjam alguma das quatro liberdades do software livre. É possível cobrar pelas cópias do software, mas não é permitida a proibição de futuras modificações que possam contribuir para o aprimoramento do programa. É uma distinção importante, uma vez que software livre pode não ser grátis. O livre quer dizer basicamente que a utilização, a modificação e a distribuição são gratuitas. O programa pode ser utilizado comercialmente, desde que seu código-fonte seja aberto. Lemos, R. (2005) delimita basicamente quatro modelos de negócios que envolvem software livre:
“1. distribuição do software livre, acompanhado da posterior venda de suporte a ele (como usualmente mencionado nos Estados Unidos, “distribua a receita e depois abra um restaurante”), ou ainda adaptação do software livre conforme a necessidade do cliente; 2. conquista de mercado, pela qual determinado software é distribuído na forma “livre”, para a posterior venda de outros produtos vinculados a ele; 3. incorporação do software livre junto com a venda de hardware, barateando custos de licença e o preço final do equipamento como um todo;

Freedom 3: The freedom to improve the program, and release your improvements to the public, so that the whole community benefits. (Access to the source code is a precondition for this.)” (STALLMAN, 2002, p. 43). 14 Tradução do autor para: “Proprietary software developers use copyright to take away the users’ freedom; we use copyright to guarantee their freedom” (STALLMAN, 2002, p. 91).

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4. oferecimento de produtos acessórios ao software livre, como cursos, livros, treinamento, desenvolvimento etc.” (LEMOS, R. 2005, p. 76)

Outras licenças livres também foram desenvolvidas pela Free Software Foundation. Uma delas é a Free Documentation License, específica para textos e documentos em formato físico ou digital. Nela, são aplicadas as mesmas liberdades que na GPL: usar, adaptar (traduzir), distribuir e aperfeiçoar. Há, porém, uma exigência importante; o conteúdo deve ser disponibilizado em um formato transparente, ou seja, um tipo de arquivo que pode ser aberto tanto por programas livres quanto por programas proprietários, como as páginas da internet em formato HTML. Do contrário, um formato opaco é aberto somente por um programa proprietário, como as apresentações em Flash (.swf). No jornalismo, alguns portais brasileiros que denominam seu conteúdo como copyleft são a Agência Carta Maior15 e o Jornal Le Monde Diplomatique Brasil16. A editora do site do Le Monde, Maíra Kubik Mano, disse que o jornal se pauta pelo princípio do conhecimento partilhado,
“que visa estimular a ampla circulação de idéias e produtos culturais. A leitura e reprodução dos textos é livre, no caso de publicações não-comerciais. A única exceção são os artigos da edição mensal mais recente. A citação da fonte é sempre bem-vinda” (MANO, 2010, online).

A Agência Carta Maior adota o conceito desde 2001, e todas as notícias veiculadas no portal possuem a palavra “Copyleft” ao lado da editoria e da data de publicação. A circulação de bens simbólicos no conceito de copyleft é citada como uma das principais características da cibercultura por Lemos, A. (2004). Primeiramente, o autor classifica a cibercultura como uma cultura copyleft: “A cibercultura pode ser (em alguns setores já é) um fator de enriquecimento baseado na troca de conhecimentos, na apropriação criativa, no desenvolvimento de uma forma de trabalho coletiva compartilhada” (LEMOS, A. 2004, p. 5). Mais tarde, o próprio Lemos, A. (2005) denomina como ciber-cultura-remix e atribui a ela três características: liberação da emissão, princípio de conexão, e reconfiguração de formatos midiáticos e práticas sociais. Sob esses três aspectos, diversos fenômenos da cibercultura são analisados, dentre eles os softwares livres. O pesquisador os

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http://www.cartamaior.com.br/ http://diplomatique.uol.com.br/

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qualifica como um dos melhores exemplos da ciber-cultura-remix pois potencializam suas três leis:
“liberação da emissão (qualquer um pode trabalhar em códigos e programas), princípio de conexão (trabalho e a cooperação são planetários, realizados através da redes telemáticas), e reconfiguração da indústria dos softwares proprietários como a resposta de flexibilização (abertura de códigos de alguns programas, como o Office, por exemplo)” (LEMOS, A. 2005, p. 7).

Silveira (2007) também enxerga o ciberespaço como um ambiente propício para a circulação de informações e bens culturais:
“Com o crescimento da digitalização e da Internet, cresceu também as possibilidades de compartilhar bens culturais e informações como em nenhum outro período da história. Era possível criar um domínio público global que acompanhasse o ciberespaço. O ciberespaço passou a ser visto com o local ideal para os commons” (SILVEIRA, 2007, p. 6).

Segundo Silveira (2007), os commons são recursos imateriais, tanto produções quanto espaços, que são comuns a todos os participantes de coletivos ou de comunidades. De acordo com Silveira (2007, p.7), através da ampliação dos commons, Lawrence Lessig vê uma reconstrução do domínio público, “pois sem ele, não teremos material para a criatividade e para a inovação”. Inspirado em Richard Stallman e na GNU GPL, Lessig (2005) idealizou o projeto Creative Commons, que disponibiliza um conjunto de licenças para a utilização em qualquer tipo de conteúdo – e assim torna acessíveis bens digitais, sem entraves jurídicos. 1. 4 CREATIVE COMMONS O conjunto de licenças Creative Commons tem uma abrangência muito além do software livre. Elas podem ser aplicadas a qualquer tipo de obra: música, audiovisual, fotografia, software, blogs, jornais ou qualquer outra passível de proteção pelos direitos autorais. O sistema de licenciamento jurídico foi desenvolvido para pessoas ou entidades que queiram disponibilizar suas criações para cópia, distribuição ou modificação. Lemos, R. (2005, p. 83) ressalta que “até o surgimento da internet, da tecnologia digital e de um modelo jurídico como o Creative Commons, não havia meios para que esses autores pudessem indicar à sociedade que eles simplesmente não se importam com a divulgação de suas obras”. Não há uma definição jurídica para licença e nem uma regulamentação, mas há um consenso de que se trata de uma “autorização de uso, de exploração, e não

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de uma transferência de direitos”, de acordo com Abrão (2001, p. 136). A autora diferencia licença de cessão de direitos ao dizer que, na licença, o autor é mais livre para estabelecer os limites de explorações da obra, abrindo mão da facilidade do controle. Por outro lado, na cessão imposta pelo cessionário, relegará o controle financeiro da obra a este. Lemos, R. e Branco (2006) classificam as licenças públicas como contratos unilaterais atípicos, de acordo com o Código Civil, pois geram obrigações para somente uma das partes. Segundo os pesquisadores, o Creative Commons é valido perante a Lei dos Direitos Autorais (LDA) por autorizar a terceiros, nos termos da licença, “faculdades livres e explicitamente licenciadas pelo detentor dos direitos autorais” (LEMOS, R.; BRANCO, 2006, p. 21). Iniciado em 2001, o desenvolvimento do sistema foi idealizado por Lawrence Lessig, professor de Direito da Universidade de Stanford, EUA. Com o projeto Creative Commons – uma organização sem fins lucrativos –, Lessig tem por objetivo:
“construir uma camada de conteúdo regulada por uma camada plausível de legislação do copyright, na qual outros possam se basear. A escolha voluntária de indivíduos e criadores tornará o conteúdo disponível. E esse conteúdo nos permitirá reconstruir um domínio público” (LESSIG, 2005, p. 276).

A partir dos Estados Unidos, o projeto logo se espalhou por vários países através da web. Por terem sido redigidas para o copyright norte-americano, as licenças tiveram que ser adaptadas aos países que aderiram ao projeto. Atualmente os termos foram completamente traduzidos e adaptados para as diferentes jurisdições de 53 nações17 – entre elas o Brasil. O número de trabalhos licenciados ao sistema cresce a cada ano em todo o mundo, com um aumento significativo em 2009, como mostra a figura a seguir, retirada do site da organização.

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A lista completa dos países pode ser vista em: http://creativecommons.org/international/.

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Figura 1: Número de trabalhos licenciados em CC por ano Fonte: http://wiki.creativecommons.org/Metrics.

Em dezembro de 2002, o projeto lançou a primeira versão do sistema de licenças, a 1.0. Desde então, três revisões já foram feitas – em 2004, 2005 e 2007. No Brasil, o Creative Commons foi adaptado pela Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro desde maio de 200418. A versão 3.0, a mais recente do sistema, foi lançada em São Paulo no dia 29 de janeiro de 201019. A escolha das autorizações por parte dos produtores ocorre através do site do projeto20. Nele, é possível encontrar obras já licenciadas, fazer doações ao projeto, e escolher uma das licenças. Para escolher a licença, é preciso preencher um formulário com as condições de uso, modificação e distribuição permitidas aos consumidores. A partir desse questionário, será indicada a licença correspondente aos termos escolhidos. A licença será apresentada de três formas: primeiro, através de um Código Digital; depois, com uma versão para leigos; e, por fim, uma versão jurídica.

http://informatica.terra.com.br/interna/0,,OI308489-EI553,00.html. http://idgnow.uol.com.br/blog/campus-party/2010/01/19/lessig-lanca-versao-brasileira-do-creativecommons-3-0-na-campus-party-2010/. 20 http://creativecommons.org/.
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Depois de escolher as condições que se queiram definir para a reprodução da obra, será gerado um texto para a aplicação/colagem na página em que o produtor disponibiliza a obra. Esse texto contém links que levam o consumidor/usuário à página explicativa das condições e vai ser representado por selos visuais. O texto é chamado de Código Digital (Digital Code) e permite a leitura e a identificação da obra por computadores, para facilitar a busca na internet (VERCELLI, 2009, p. 145). A figura número 2, através da letra A, indica o campo do Código Digital:

Figura 2: Código Digital (Digital Code), indicado pela letra A. Fonte: http://creativecommons.org/

A próxima forma de apresentação das licenças CC é uma página simplificada que explica as condições para o consumidor. É a chamada Commons Deed, ou Licença para Leigos, na tradução para o português. Ela é formada por explicações curtas dos termos, visando o fácil entendimento dos consumidores/usuários. As condições da licença escolhida são explicadas de forma simples, em uma linguagem coloquial e com logotipos representando cada permissão (sobre isso, ver Figura 3, letra A) – que serão vistos com mais ênfase no próximo subcapítulo. A figura a seguir mostra a Licença para Leigos de forma integral:

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Figura 3: Licença para Leigos Fonte: http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/br/

Na Licença para Leigos, existe o link para outra apresentação da licença (sobre isso, ver Figura 3, letra B), a Licença Jurídica (Legal Code), ou seja, a licença integral. Ela é composta de termos jurídicos e técnicos, para ser interpretada por juristas ou advogados. Conforme alerta Vercelli (2009), as cláusulas não implicam a concessão completa dos direitos do autor, mas apenas os que estão ali descritos. Para o que elas não permitem, os usuários devem solicitar permissão ao produtor. A seguir há o cabeçalho da Licença Jurídica:

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Figura 4: Cabeçalho da Licença Jurídica Fonte: http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/br/legalcode

É de se notar, como consta na Licença Integral e como afirma Vercelli (2009, p. 138), que o Creative Commons não é “um registro de obras intelectuais, muito menos um repositório e tampouco concede assoreamento jurídico nem aos autores nem as obras”21. A instituição apenas desenvolve esse sistema de licenças e o adapta para outras legislações. Essas são as três formas de apresentação das licenças Creative Commons: o Código Digital (Digital Code), a Licença para Leigos (Commons Deed), a Licença Jurídica (Legal Code). Através dos logotipos presentes na Licença para Leigos e nos selos que representam cada licença, os usuários podem saber como usufruir a obra. Na seqüência, são vistas com mais detalhes cada licença CC. 1. 5 LICENÇAS DO CREATIVE COMMONS Além de constarem na página de Licença para Leigos, os logotipos do Creative Commons também se apresentam ao consumidor/usuário em forma de pequenos selos encontráveis nas páginas dos produtores. Os logotipos se combinam conforme as escolhas do produtor da obra, formando os seis selos que
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Tradução do autor para: “un registro de obras intelectuales en línea, menos un repositorio y tampoco brinda asesoramiento jurídico ni a los autores ni usuarios de las obras” (VERCELLI, 2009, p. 138).

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representam as diferentes licenças CC. Como já dito, cada logotipo representa uma condição da licença escolhida para se usar, distribuir e/ou modificar a obra. A seguir, a definição de cada um, com base em Vercelli (2009) e na página do projeto22:
Tabela 1 Elementos das licenças Creative Commons para leigos, com base em Vercelli (2009) e na página do projeto. Logotipo Nome Explicação

Compartilhe

É permitido o compartilhamento, difusão, cópia da obra. Permissão presente em todas as licenças Creative Commons.

Remix

É permitido criar obras derivadas.

Atribuição

É exigido o crédito do autor da obra original. É uma condição comum a todas as licenças Creative Commons.

Uso não comercial

Não é permitido usar a obra para um fim-lucrativo, como venda ou aluguel.

Compartilhamento pela mesma licença

As mesmas condições escolhidas pelo autor da obra devem permanecer caso a obra seja distribuída e/ou modificada.

Vedada a criação de obras derivadas

É permitida a livre cópia, distribuição e utilização, mas não é permitido modificar a obra nem criar obras derivadas, como traduções.

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http://creativecommons.org/licenses/.

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Os logotipos constam combinados nos selos dos seis modelos de licenças Creative Commons, para representar cada condição. Antes de apresentar os selos e modelos, é preciso fazer duas observações: os logotipos “Compartilhe” e “Remix” não são mostrados nos selos; e as cláusulas “Vedada a criação de obras derivadas” e “Compartilhamento pela mesma licença” não aparecem ao mesmo tempo por serem incompatíveis – a primeira nega a modificação do trabalho, enquanto a outra permite modificações. Fora essas questões, cada licença é representada por um respectivo selo, tendo por padrão apenas o símbolo do Creative Commons, como mostra a seguinte tabela explicativa com os seis modelos:
Tabela 2 Selos e as seis licenças Creative Commons, de acordo com Vercelli (2009) Selo Nome Atribuição (Attribution / by) Significado Permite que outros copiem, distribuam, remixem, adaptem ou criem obras derivadas, mesmo que para uso com fins comerciais, contanto que seja dado crédito pela criação original. É a licença menos restritiva de todas as oferecidas, em termos de quais usos outras pessoas podem fazer da obra.

Atribuição – Compartilhamento pela mesma Licença (Attribution Share Alike / by-sa)

Permite que outros remixem, adaptem, e criem obras derivadas ainda que para fins comerciais, contanto que o crédito seja atribuído ao autor original e que essas obras sejam licenciadas sob os mesmos termos. Por ter semelhanças com o copyleft, como únicas exigências a atribuição e o compartilhamento pela mesma licenças, essa licença é comparada a licenças de software livre. Todas as obras derivadas devem ser licenciadas sob os mesmos termos dessa. Assim, as obras derivadas também poderão ser usadas para fins comerciais.

Atribuição – Vedada a Criação de Obras Derivadas (Attribution No Derivatives / by-nd)

Permite a redistribuição e o uso para fins comerciais e não comerciais, contanto que a obra seja redistribuída sem modificações, completa, e que os créditos sejam atribuídos ao autor original.

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Atribuição – Uso Não Comercial (Attribution Non-Commercial / by-nc)

Permite que outros remixem, adaptem, e criem obras derivadas sobre a obra original, mas é vedado o uso com fins comerciais. As novas obras devem conter menção a você nos créditos e também não podem ser usadas com fins comerciais, porém as obras derivadas não precisam ser licenciadas sob os mesmos termos desta licença. Permite que outros remixem, adaptem e criem obras derivadas sobre a obra original, com fins não comerciais, contanto que atribuam crédito ao autor original e licenciem as novas criações sob os mesmos parâmetros. Outros usuários podem fazer o download ou redistribuir a obra da mesma forma que na licença anterior, mas é possível também traduzir, remixar e criar novas obras a partir da obra original. Qualquer obra derivada não poderá ser usada para fins comerciais. É considerada a mais restritiva dentre as seis licenças principais. Permite que outros usuários façam download de suas obras e as compartilhem, contanto que mencionem e insiram o link ao autor original. Entretanto não podem modificar a obra de nenhuma forma, nem utilizá-la para fins comerciais.

Atribuição – Uso Não Comercial – Compartilhamento pela mesma Licença (Attribution Non-Commercial Share Alike / by-nc-sa)

Atribuição – Uso Não Comercial – Vedada a Criação de Obras Derivadas (Attribution NonCommercial No Derivatives / by-nc-nd)

Normalmente, os selos são mostrados junto às obras que possuem o seu licenciamento. Eles permitem visualizar rapidamente qual licença específica se está utilizando em cada obra (VERCELLI, 2009). Outro tipo de selo é o que aparece apenas o símbolo do Creative Commons com o lema da entidade – “alguns direitos reservados” (some rights reserved, em inglês). Um exemplo bastante recente da aplicação das licenças no jornalismo é a adoção por parte do site da Revista Wired italiana23. Desde o dia 6 de outubro de 2010, todas as notícias do site exibem o selo de Atribuição – Uso Não Comercial – Vedada a Criação de Obras Derivadas (Attribution Non-Commercial No Derivatives / by-nc-nd). Isso quer dizer que a notícia pode ser copiada e republicada, desde que _______________
http://mag.wired.it/rivista/storie/se-il-web-e-morto-il-copyright-cos-e.html.

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seja atribuída a autoria da Revista, que o uso não renda lucro ao copiador e que este não modifique o conteúdo. Muitos dos produtores de conteúdo optam pelo licenciamento, visando a uma melhor circulação de suas criações, facilitando o acesso a elas e assim alcançando maiores audiências. Com os recursos visuais, o Creative Commons tem a vantagem de ser mais facilmente explicado em relação à legislação do copyright ou dos direitos autorais – além de ser uma forma de popularização da legislação – e vem ganhando a adesão dos mais diferentes tipos de produtores de conteúdo ao redor do mundo. De músicos a cineastas, de cientistas a escritores, de sites de governos, blogs e inclusive de jornais e redes de televisão. A rede de televisão árabe Al Jazeera colocou sua produção audiovisual sob o sistema desde janeiro de 200924. O jornal espanhol 20 minutos licenciou todo seu conteúdo próprio desde julho de 200725. Muitos portais com seções de jornalismo colaborativo já mostram em suas páginas que as notícias podem ser copiadas e coladas com a atribuição da origem – por exemplo, a seção “Minha Notícia” do portal Ig26. O blog do Planalto27 é licenciado em Creative Commons, o que permitiu legalmente que fosse criado um blog igual28 em que é possível fazer comentários – recurso indisponível no original. Uma grande adesão ao sistema das licenças foi feita pelos blogs. Alguns deles foram perseguidos por disponibilizarem conteúdo protegido por copyright e começaram a se engajar na defesa de direitos autorais menos restritivos. Muitos blogs já tiveram suas postagens apagadas por colocarem músicas em formato mp329 para download – caso do blog Um que Tenha30. Os blogs, principalmente os humorísticos, também são alvos de plágio (cópia sem crédito) por parte de outros blogs, tanto que foi cunhado na blogosfera o verbo “kibar”31, em decorrência dos plágios efetuados pelo blog Kibe Loco. No meio literário, a pratica do plágio tem sido denunciada pelo blog Não Gosto de Plágio, licenciado em Creative Commons.

http://www.jornalistasdaweb.com.br/index.php?pag=displayConteudo&idConteudo=3733. http://blogs.20minutos.es/retiario/2007/07/19/el-futuro-la-prensa-es-abierto/. 26 http://minhanoticia.ig.com.br/creative_commons/. 27 http://blog.planalto.gov.br/. 28 http://planalto.blog.br/. 29 MP3 é um formato de compressão de áudio digital com perdas quase imperceptíveis ao ouvido humano. 30 http://blogs.estadao.com.br/link/notificado-blog-um-que-tenha-saira-do-ar/. 31 http://txt.estado.com.br/suplementos/info/2008/04/07/info-1.93.8.20080407.70.1.xml.
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O jornalismo também se mostra preocupado com as cópias não autorizadas. O site Jornalistas da Web32 e o blog do jornalista Tiago Dória33 estão sob respectivas licenças Creative Commons, fato que torna livre a utilização, modificação e distribuição não comercial do conteúdo. O próximo passo deste trabalho será descrever como os blogs jornalísticos distribuem seus conteúdos para os leitores.

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http://www.jornalistasdaweb.com.br/. http://www.tiagodoria.ig.com.br/.

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2 CIRCULAÇÃO E BLOG JORNALÍSTICO O presente capítulo aborda a etapa da circulação do processo jornalístico em blogs. Inicialmente, são apresentados os modos de circulação da informação no ciberespaço, seguidos da definição de blog jornalístico. Então, são vistas as ferramentas utilizadas para a circulação da informação na blogosfera e os modelos de circulação dos blogs jornalísticos. 2. 1 CIRCULAÇÃO NO CIBERESPAÇO O capítulo anterior mostrou as licenças Creative Commons e suas permissões de compartilhamento de conteúdo na internet, e também fora dela. A digitalização do conteúdo permite uma facilidade maior em relação ao meio físico, no processo de copia e distribuição através da rede, como observa Lemos, R. (2005, p. 31): “Várias formas de expressão protegidas podem ser transformadas para o formato digital, tais como textos, vídeos e sons, e a internet permite, de modo muito fácil, a circulação desses bens intelectuais”. Após sua produção, o conteúdo passa a ser disponibilizado de maneiras variadas na rede. A maior ou menor eficácia dessa etapa definirá as possibilidades do sucesso ou do fracasso de todo o processo comunicacional do jornalismo (RODRÍGUEZ, 2008). O processo do jornalismo online é formado por quatro etapas, conforme Gonçalves e Palacios (2007): apuração, produção, circulação e consumo de informações. A etapa da circulação do produto jornalístico necessita ativar relações entre os indivíduos para se constituir como um produto social (GONÇALVES, 2008). As relações ocorrem principalmente através da comunicação interpessoal, ou seja, das conversas no dia a dia, dos bate-papos online, do envio de e-mails, entre outros exemplos. Alsina (2009, p. 76), ao apresentar dados de recepção informacional por diferentes meios, diz que a relação interpessoal “não é só um elemento importante na reinterpretação das mensagens que são compartilhadas coletivamente, mas também um canal de informação”. No meio impresso, em que a distribuição do processo jornalístico historicamente teve início, a etapa de difusão das informações é a chamada distribuição, que vai ocorrer de duas formas: por assinatura, através de entregas; ou envio para os pontos de venda (bancas e ruas). Tais métodos de distribuição

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também implicam alterações no processo de produção, pois como diz Rodriguez (2008) se um determinado jornal é vendido apenas por assinatura, a primeira página importará pouco e valerá muito mais o conteúdo em seu aspecto total; por outro lado, se um jornal é vendido na rua, terá que conquistar cada leitor, apresentando um aspecto local e atrativo de forma que tenham um efeito impactante. Uma lógica que entra em conformidade com o que diz Espínola (2009), segundo o qual a etapa da circulação tem seu início já na da produção dos conteúdos, em que se consideram critérios que validam a publicação de determinada informação. O sistema de distribuição se complexificou a partir do desenvolvimento de grandes empresas que centralizaram e verticalizaram suas estruturas. Elas buscavam alcançar um maior número de leitores em lugares cada vez mais distantes geograficamente. Essa expansão, não só do meio impresso como também do rádio e da televisão, deveu-se a uma estratégia política de integração de grandes territórios nacionais, separados por diferenças culturais e temporais (GONÇALVES, 2008, p. 24). O conceito de notícia nacional nasceu com os telejornais em rede. À medida que esse sistema de distribuição se institui num determinado grupo social, passa a poder fixar o uso do tempo e do espaço em seu território de abrangência. Portanto, o circuito de distribuição de notícias dita o ritmo comportamental das pessoas na esfera pública, por meio da programação. Assim, o circuito envolve uma cadeia maior do que apenas a dos pontos de venda (GONÇALVES, 2008). Na segunda metade da década de 1970, empresas da Inglaterra e dos Estados Unidos se utilizam de videotexto34 para enviar resumos de suas notícias aos seus assinantes (BARBOSA, 2002). Ainda segundo Barbosa (2002, p. 24), durante a década de 1980, jornais dos Estados Unidos “comercializavam resumos selecionados de seus produtos para assinantes com aparelhos de fax”. Até que nos anos 1990, com a popularização da internet, a circulação online dos jornais impressos se inicia – em 1993 para os jornais estadunidenses; e, em 1995, para os jornais brasileiros (PALACIOS; GONÇALVES, 1997). Durante a revisão bibliográfica para esse trabalho, foram identificadas quatro tipos de rupturas na organização da distribuição jornalística, ocasionados pela irrupção da internet. Em comparação aos meios tradicionais como impresso, rádio e TV, em que os conteúdos são organizados de uma maneira vertical e centralizada
Denominação genérica para todo sistema de informação textual eletrônica enviado por um centro emissor, sendo transmitido por ondas para aparelhos de televisão.
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para que cheguem ao usuário, a distribuição nas redes digitais possibilita quatro mudanças: Gonçalves (2001) nos mostra como as informações são armazenadas; Alves (2006), como elas são disponibilizadas; Albornoz (2005), a quem elas podem ser distribuídas; e Silva F. (2009), em quais dispositivos elas são acessadas. A primeira ruptura é na maneira de arquivamento das notícias, como indica Gonçalves (2001). Com o uso de bases de dados35, ocorre a possibilidade de armazenar por tempo indeterminado as edições anteriores de um jornal, permitindo o acesso a elas a qualquer momento através de um sistema de busca. Dessa forma, os arquivos “passam de uma existência interna, nas empresas, para um produto a ser disponibilizado para o público” (MIELNICZUK, 2003, p. 194). Gonçalves (2001) diz que permitir o acesso imediato ao arquivo do jornal beneficia não apenas o usuário, mas também os jornalistas, que podem conferir um contexto maior das notícias:
“Com as publicações articuladas como nós da Rede muda o foco e se alarga a escala das notícias. O evento limitado a um lugar particular, dependendo dos interesses do repórter, pode ganhar um contexto cuja escala inclua feitos similares a nível local, nacional ou mundial” (GONÇALVES, 2001, p. 4).

O ato de disponibilizar os arquivos tem dividido os sites jornalísticos. Existem os que permitem o livre acesso ao conteúdo online e ao impresso – como o Jornal do Comércio36 –, e os que oferecem acesso ao online mas não ao impresso. Nestes, ainda se bifurcam os que exigem cadastro gratuito – como o jornal Correio do Povo37 – e os que cobram assinatura – como recentemente o jornal Correio Braziliense38. Nos blogs, o livre acesso aos arquivos é uma prática comum. Em 1997, Palacios e Gonçalves diziam que “ao contrário de todas as outras formas anteriores de jornalismo que eram, de uma maneira ou de outra, distribuídas, seja pela circulação do papel impresso seja pela difusão de ondas, o jornalismo digital precisa ser acessado pelo usuário” (p. 2). Em 2001, Rosental Alves fez uma metáfora com essa característica do jornal na internet: a tecnologia é baseada num sistema pull (puxar) e não push (empurrar), ou seja, o usuário precisa buscar o

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Uma base de dados é um “conjunto de dados interrelacionados, organizados de forma a permitir a recuperação da informação. Armazenadas por meios ópticos ou magnéticos como discos e acessadas local ou remotamente” (NORONHA, s/d, online). 36 http://jcrs.uol.com.br/site/. 37 http://www.correiodopovo.com.br/. 38 http://www.correiobraziliense.com.br/.
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produto, ao invés do produto chegar até ele, como ocorria com os meios já estabelecidos (ALVES, 2001). O mesmo Alves, em 2006, apontou que a transferência do produto jornalístico para o meio online transformava-o num fluxo contínuo de informações disponibilizadas e acumuladas num site, ocasionando uma ruptura da barreira temporal.
“A transferência dos segmentos noticiosos de televisão e de rádio para a Web também representa uma forma de desconstruir os programas jornalísticos, que antes só eram acessíveis a determinadas horas e na seqüência previamente determinada pelas emissoras” (ALVES, 2006, p. 97).

Assim, se o arquivo das produções jornalísticas estiver liberado para acesso, pode ser consumido a qualquer tempo e em qualquer ordem, propiciando uma mudança na barreira temporal do consumo. A terceira modificação propiciada pela internet é a da barreira espacial na distribuição, dita por Albornoz (2005). Segundo ele, a audiência de um jornal impresso é parcialmente definida pelo espaço geográfico de distribuição, enquanto que no jornal online, o que determina uma potencial comunidade de leitores é o idioma utilizado:
“diferentemente do que ocorre com os jornais tradicionais impressos em papel, cuja comunidade de leitores é parcialmente definida por um espaço geográfico de distribuição, o emprego de um determinado idioma torna se um elemento chave na hora de definir uma potencial comunidade de 39 leitores na Rede” (ALBORNOZ, 2005, p. 10).

Dessa forma, a distribuição do conteúdo jornalístico pode ocorrer entre usuários de vários países, contanto que tenham uma língua em comum. A última das mudanças verificadas é a dos suportes e dispositivos nos quais são consumidas as informações. Antes relegado ao papel ou aos aparelhos de som e TV, o conteúdo pode ser acessado não só em computadores de mesa ou em notebooks, mas também em celulares, netbooks e tablets40. São as tecnologias móveis digitais que permitem uma produção e compartilhamento imediato de informações, bem como permitem o consumo de conteúdos pelas redes sem fio. _______________
Tradução do autor para: “a diferencia de lo que ocurre con los periódicos tradicionales impresos en papel, cuya comunidad de lectores es parcialmente definida por un espacio geográfico de distribuición, el empleo de un idioma determinado se convierte en elemento clave a la hora de definir una potencial comunidad de lectores en La Red” (ALBORNOZ, 2005, p. 10). 40 Netbooks são notebooks menores, com funcionalidades baseadas na internet. Tablets são computadores em formato de pranchetas, sem teclado ou mouse, operados com a mão ou com toque de uma caneta especial.
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“A portabilidade dos dispositivos (celulares, smartphones, iPods) e as conexões disponíveis (3G, Wi-Fi, Bluetooth) reorientam a produção jornalística para a percepção de uma nova camada informacional ubíqua disponível praticamente de qualquer lugar” (SILVA F. 2009, p. 2).

Os dispositivos, conectados pela internet e pelas redes de transmissão de dados sem fio, tornam possível a produção e o acesso de conteúdos em qualquer hora e lugar, cenário esse impensável nas mídias massivas (rádio, TV, jornal). Dadas essas quatro rupturas é preciso apresentar a principal mudança no sistema de envio de informações jornalísticas. Gonçalves (2008) sistematiza a distribuição utilizada na internet daquela tradicionalmente utilizada nos meios de massa. O pesquisador define dois sistemas: o de distribuição e o de circulação.
“Como o próprio termo define, um sistema de distribuição opera de forma centralizada, mantém uma hierarquia rígida entre os participantes e tem como objetivo principal a entrega das informações ao consumidor final. Muito mais flexível, um sistema de circulação funciona sem necessidade de uma hierarquia rígida, adota a descentralização como modelo padrão e tem como objetivo principal a disseminação das informações produzidas nestes diferentes centros. Um simboliza a apologia ao consumo enquanto o outro simboliza a apologia da participação.” (GONÇALVES, 2008, p. 26)

Em seguida, o autor faz uma distinção dos sistemas de distribuição ou de circulação de notícias em estáticos ou dinâmicos. Os estáticos têm como característica exigirem a procura do consumidor pelo produto. Os dinâmicos enviam o produto ao consumidor. Um exemplo deste último é o envio de notícias por correio eletrônico. Um exemplo do outro modelo, o estático, seria a simples disponibilização das informações para o acesso do consumidor. Na primeira fase de desenvolvimento do jornalismo no ciberespaço, de 1995 a 1998, predominava-se o sistema estático. A partir de 1998, desenvolve-se o sistema dinâmico, quando os usuários trocam entre si esses conteúdos – modelo que se consolida em 2004 (GONÇALVES, 2008). Como a atual arquitetura da internet possibilita uma participação do consumidor não só na produção, mas também na circulação de novas informações, os blogs passaram a ser usados como veículos jornalísticos e, portanto, de distribuição de informações. 2. 2 BLOG JORNALÍSTICO Os blogs apareceram em meados dos anos 1990 e se popularizaram na segunda metade dessa década. Inicialmente chamados de weblogs, depois apenas

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de blogs, eram páginas em HTML41 que continham links para outras páginas da Web junto a comentários dos autores (PAQUET, 2002). Aos poucos foi se tornando um formato de publicação com dois elementos fundamentais: as atualizações eram de ordem cronológica inversa, isto é, as mais recentes na parte superior da página; e os textos, de um ou mais autores, possuíam tons pessoais e informais (SILVA, J. 2003). A partir dessas características, surgiram as primeiras ferramentas de edição, ou softwares de edição de páginas online (ARAÚJO, 2004). Em 1999, é criado o Blogger42, considerado por muitos um marco no crescimento dos blogs. A plataforma Wordpress43, lançada em 2003, é outra bastante popular entre os blogueiros. Esses sistemas de publicação visavam facilitar a criação de blogs, tendo em vista que a linguagem de programação necessária para a elaboração de páginas em HTML era, e ainda é, um tanto complexa. O uso dos links pelos autores em seus textos para outros blogs possibilitou a formação de uma comunidade na qual todos os blogs estão inseridos: a blogosfera – que na definição de Orihuela (2006) é “um espaço anárquico, desierarquizado, informal e descentralizado onde convergem a multiplicidade de culturas, comunidades e tradições para gerar de forma coletiva, distribuída e espontânea informação, opinião e conhecimento”44 (ORIHUELA, 2006, online). Os leitores também puderam participar da articulação da blogosfera, por meio da possibilidade de escrever comentários nos textos. Com o passar dos anos, os blogs começaram a ser usados como um suporte para diversos gêneros de discurso – dentre os quais o jornalístico ganhou destaque. Blogueiros começaram a reportar o que se passava ao redor, e jornalistas cobriam assuntos de uma maneira mais pessoal. O primeiro grande momento na história da relação blogs e jornalismo, segundo Bradshaw (2008, online), foi o caso ocorrido com o Drudge Report45, que em 17 de janeiro de 1998 foi o primeiro meio a publicar a revelação de que o presidente dos Estados Unidos na época, Bill Clinton, mantinha um caso extraconjugal com uma estagiária da Casa Branca, Monica
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HyperText Markup Language (Linguagem de Marcação de Hipertexto) é o nome de uma linguagem de programação usada para construir páginas na Web. 42 http://www.blogger.com/. 43 http://pt-br.wordpress.com/. 44 Tradução do autor para: “La blogosfera es un espacio virtual y una cultura real: es el espacio de la web en el que tienen lugar las múltiples conversaciones que se establecen entre los blogs y es la cultura que generan los bloguers” (ORIHUELA, 2006, Online). 45 http://www.drudgereport.com/.

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Lewinsky. O colunista Matt Drudge, editor do blog, quando ficou sabendo da informação - que estava sendo apurada por outra publicação, a revista Newsweek lançou-a antes em seu blog e através da newsletter que mantinha. Um ano depois, aparece um dos primeiros casos de blogs produzidos por jornalistas assalariados em uma empresa: o blog do jornalista estadunidense Dan Gillmor na versão para a Web do jornal San José Mercury News46, da Califórnia, Estados Unidos. Colunista de tecnologia do jornal desde 1995, Gillmor (2003) disse ter sido natural sua ida para o meio online, principalmente pelo fato de seus leitores serem conhecedores e usuários assíduos da internet. Um símbolo da aproximação entre blogs e o jornalismo é o atentado ao World Trade Center em Nova York, em 11 de setembro de 2001. Foletto (2009, p. 39) considera que “a partir desta data, os testemunhos pessoais sobre determinados acontecimentos, situações ou lugares encontrados em blogs passaram a ganhar maior importância como informação de relevância jornalística”. Inicialmente, os jornais adotam os blogs apostando no caráter pessoal do formato, utilizando-o em coberturas e em colunas de opinião. Eclodem os denominados warblogs, que têm como alvo a Guerra do Afeganistão, em 2001, e a Guerra do Iraque, em 2003. Neste ano, O jornal Folha de S. Paulo47 envia dois jornalistas à capital do Iraque para produzirem o blog Diário de Bagdá48. E, nesse mesmo ano, o jornal carioca O Globo Online49 lança blogs para todos os seus colunistas da edição impressa, “acreditando no poder individual e no interesse do público que busca notícias na internet pelos blogs” (QUADROS, ROSA e VIEIRA, 2005, p. 13). Em 2005, um blog chama atenção por divulgar uma série de denúncias e informações exclusivas sobre a política nacional: o Blog do Noblat50, do jornalista Ricardo Noblat. Após a percepção da grande audiência atraída pela cobertura do caso do mensalão51, Noblat passou a ser remunerado unicamente por seu trabalho
http://www.mercurynews.com/. http://www.folha.uol.com.br/. 48 Os textos ainda estão disponíveis no endereço: http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2003/guerranoiraque/diario_de_bagda.shtml. 49 http://oglobo.globo.com/. 50 http://oglobo.globo.com/pais/noblat/. 51 A chamada “crise do mensalão”, deflagrada em maio de 2005, foi a revelação de uma fita de vídeo, que mostrava o ex-funcionário dos Correios, Maurício Marinho, negociando propina com empresários interessados em participar de uma licitação. No vídeo, o funcionário da estatal dizia ter o respaldo do deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ). Acuado, Jefferson decidiu sair para o ataque contra o
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no blog, tornando-se um dos primeiros casos de blogueiros profissionais no país (FOLETTO, 2009). O jornalista recebeu propostas para integrar o blog a diversos portais e sites jornalísticos, aceitando algumas, quando, em 2007, mudou-se para o site do jornal O Globo Online, onde permanece até hoje. Fora das grandes redações, também surgem os primeiros casos de blogs jornalísticos independentes - desvinculados de empresas jornalísticas. São páginas criadas normalmente por interessados em fazer a cobertura jornalística de um assunto ou de uma região específica. Os autores compensam a falta de estrutura de produção equiparável a dos grandes jornais com o aproveitamento do potencial coletivo da blogosfera, por meio dos usos dos links, do reaproveitamento do material jornalístico produzido pelo jornalismo online tradicional ou pelos próprios meios tradicionais (jornal, rádio, TV) onde muitas vezes os jornalistas que editam blogs trabalham (FOLETTO, 2009). Derivaram então questionamentos acadêmicos a respeito da relação entre blogs e jornalismo. No princípio, pensando-se que fazer jornalismo e blogar eram atividades distintas, até concorrentes. Depois, estipulando-se que, para um blog ser considerado jornalístico, a produção de seu conteúdo deve seguir determinadas regras da profissão (ORIHUELA, 2006). Assim, o tratamento da informação, através de uma apuração transparente com links no texto, é determinante para se considerar um blog como jornalístico, na medida em que linkar a origem da informação confere credibilidade à página. “Linkar para uma fonte leva os leitores a julgar por seus critérios a precisão e a originalidade de suas postagens”52 (BLOOD, 2002, online). Outras características dizem respeito a circulação da informação nesses blogs. Escobar (2009) identifica os blogs jornalísticos como uma nova categoria de webjornalismo, descrevendo-os como:
― aqueles cujos endereços são públicos, estando acessíveis a qualquer pessoa com acesso à internet; que se destinem, na totalidade ou na maior parte do tempo, a divulgar acontecimentos reais dotados de atualidade, novidade, universalidade e interesse; e, ainda, cujos blogueiros tenham a preocupação e se esforcem para: a) disponibilizar frequentemente conteúdos novos, ainda que sem periodicidade fixa ou determinada; b) e divulgar seus ―blogs/lugares, tornando-os endereços na web amplamente conhecidos com o intuito de atrair um número expressivo de Governo e, no início de junho do mesmo ano, denunciou um suposto esquema de pagamento de mesada a parlamentares da base aliada em troca de apoio político. Para investigar o esquema, foi criada a “CPI do Mensalão”, em que ganhou destaque a cobertura do Blog do Noblat. 52 Tradução do autor para: “Linking to referenced material allows readers to judge for themselves the accuracy and insightfulness of your statements.” (BLOOD, 2002, online).

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internautas, ou seja, uma grande audiência (que na internet é expressa por número de page views). (ESCOBAR, 2009, p. 225-226)

Partindo-se do conceito de Escobar (2009), será mostrado como circula o conteúdo produzido do blog jornalístico. 2. 3 CIRCULAÇÃO DOS BLOGS JORNALÍSTICOS Uma das primeiras formas de utilização do blog foi o de comentar e indicar links que os autores encontravam na Web – fossem esses links de sites ou de notícias. A prática não tinha a pretensão de atingir grandes audiências, mas sim de receber a atenção de um grupo de conhecidos, ou interessados no assunto. As maiores intenções eram a de se expressar e a de compartilhar conteúdo considerado relevante na Web. “Ao contrário da comunicação de massa, que partia de poucos produtores para uma enorme e largamente passiva audiência, os blogs se apoiam em pequenas e densas audiências constituída de muitos produtores”53 (Walker, 2008, p. 57). Para se formar essas pequenas audiências e se efetuar o compartilhamento na rede, o link torna-se um elo fundamental na relação entre os usuários. O link vira um índice de popularidade de um blog, na medida que potencializa sua visualização por toda a rede: “Se você tem vários blogs linkando para o seu, mais facilmente ele será encontrado não apenas pelos leitores destes outros blogs que seguiram os links para o seu blog, mas também pelos mecanismos de busca e páginas como o Technorati, que indexam links”54 (WALKER, 2008, p. 64). A atividade de referenciar uma determinada informação, ou indicar um conteúdo, através do hiperlink no texto do blog, é chamada por Bruns (2005) de blogging (sobre isso, ver Figura 6, letra B). Assim, a hierarquização, é construída pelos blogueiros numa eleição equilibrada, em que os votos podem ser dados pelos participantes da blogosfera. O blogging é um sistema característico da blogosfera e que nasceu dentro da lógica do ciberespaço, “em que a produtividade da informação _______________

Tradução do autor para: “Instead of mass communication from a few producers to large, mostly passive audiences, blogs support a dense of small audiences and many producers” (WALKER, 2008, p. 57). 54 Tradução do autor para: “If you have a lot of other blogs linking to you your blog will more easily found not only by the readers of those other blogs who follow the links to your blog, but also by search engines and sites like Technorati, that index links” (WALKER, 2008, p. 64).

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depende da capacidade que tenha de circular e de ativar relações entre os participantes do sistema” (GONÇALVES, 2008, p. 34). A troca de links não ocorre apenas nos textos das postagens, mas também em outros elementos do blog. Recuero (2005) descreve três desses espaços:
(a) ferramentas de comentários, que permitem que os leitores possam manifestar-se a respeito do que é discutido no blog; (b) blogrolls, que são as listas de blogs “recomendados” pelo blogueiro e (c) trackbacks, que são ferramentas que permitem que um post de algum blog que está sendo discutido em outro blog possa ser referenciado pelos dois. (RECUERO, 2005, p. 11)

Conversações nas ferramentas de comentários podem gerar novos links na medida em que o usuário pode deixar o link de seu próprio blog ou recomendar novos links. Também podem gerar links de retorno – os trackbacks - ao blog em que houve a conversação. Além dessas consequências, o blogueiro pode adicionar ao próprio blogroll o link do blog do usuário. Por conta dessas características, a blogosfera difere do sistema de distribuição das informações tradicionalmente utilizado pelo jornalismo, que é organizado numa arquitetura vertical onde quem ocupa a posição central é aquele que detêm as condições técnicas e financeiras para isso (FOLETTO, 2009). Ainda que haja uma hierarquia, ela é estabelecida de uma maneira mais democrática e descentralizada do que nos sistemas de circulação anteriores. A posição central, “condição necessária para a efetiva circulação da informação e para a visibilidade do nodo entre os buscadores”55 (ORIHUELA, 2005, p. 74), pode ser alcançada sem que o blogueiro tenha que fazer altos investimentos técnicos e financeiros. O que basta para ele ocupar uma posição de destaque é ativar relações entre os participantes da blogosfera. As relações podem ser ativadas fundamentalmente por meio dos links. Eles servem como critério para a hierarquização realizada pelos sites de busca ou por agregadores de blogs. Quanto mais um blog é linkado, e clicado, maior é a sua posição de destaque dentre os outros blogs. Dessa maneira funcionam as medições do algoritmo PageRank do Google, e dos indexadores Blogblogs56 (brasileiro), Bitácoras57 (espanhol) e Technorati58 (estadunidense). Nesses sistemas, de
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Tradução do autor para: “Condición necesaria para la efectiva circulación de información y para la visibilidad del nodo ante los buscadores” (ORIHUELA, 2005, p. 74) 56 http://blogblogs.com.br/. 57 http://bitacoras.com/. 58 http://technorati.com/.

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participação voluntária, cada vez que um blog recebe uma referência de um link, ele ganha um voto no ranking. A este critério de votação estabelecido pelos links, o Technorati chama de “Authority”, ou “Autoridade” em português. Recuero (2009, p. 113) define autoridade como “uma medida da efetiva influência de um ator com relação à sua rede, juntamente com a percepção dos demais atores da reputação dele”. Ou seja, é um tipo de valor referente à influência do blog entre os outros blogs. Segundo a pesquisadora, os blogueiros que desejam construir uma audiência – mais do que intimidade – são comprometidos com seus blogs. A partir de links, esses autores dedicam-se a gerar conversações na blogosfera. No decorrer dos anos 2000, são desenvolvidas outras ferramentas que vão servir para a circulação dos links no ciberespaço. São tecnologias que atualizam automaticamente o envio de links para aplicativos ou sites, assim que uma nova informação é publicada. Mediante a inscrição do usuário no serviço, os aplicativos – disponíveis em navegadores ou programas chamados de leitores de feeds – recebem um arquivo RSS (Rich Site Summary, Really Simple Syndication), conhecido como “feed”, e que contem dados de título da postagem, data, autor e resumo do conteúdo. Dessa forma, os usuários podem ser notificados a cada nova atualização em um determinado site, sem precisar visitá-lo todo momento para saber se há alguma informação nova (GILL, 2005). A figura abaixo mostra o leitor de feeds mais popular atualmente, o Google Reader:

Figura 5: Google Reader a) Página Inicial do leitor de feed b) Feeds nos quais se está inscrito

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c) Pessoas que se está seguindo Fonte: http://www.google.com.br/reader/view/#overview-page

Existem ainda os aplicativos leitores de feeds que podem ser acoplados na interface de um site, de um blog ou de um site de rede social. São os chamados widgets, que se apresentam como “uma aplicação de tamanho reduzido e com funcionalidade muito limitada e concreta, cuja finalidade é proporcionar ao usuário um determinado serviço de forma rápida e simples”59 (MUNSLOW VILAR, 2007, p. 15). Os widgets podem ser usados no jornalismo, de acordo com Munslow Vilar (2007), para exibir informações e links de notícias. No primeiro caso, podem ser citados os que mostram previsões meteorológicas ou resultados esportivos, por exemplo. No segundo, os que mostram links de notícias de uma ou várias seções dos blogs ou dos portais jornalísticos. “O widget se encarrega de acessar a página, recolher a informação desejada e mostrá-la ao usuário, facilitando a tarefa de consulta”60 (MUNSLOW VILAR, 2007, p. 17). Esses aplicativos, que podem ser incluídos em blogs ou perfis de sites de redes sociais, são capazes de falar sobre o leitor, identificando-o como um membro da audiência de uma determinada página, e também alcançar novos leitores com a exposição da marca (BRADSHAW, 2008). Os widgets, também chamados de “web widgets”61, ainda podem mostrar atualizações de outros sites nos quais o blogueiro tenha perfil, como Youtube, Flickr, Twitter, etc. A figura abaixo mostra um widget de um portal utilizado por um blog:

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Tradução do autor para: “una aplicación de tamaño reducido y con funcionalidad muy limitada y concreta, cuya finalidad es proporcionar al usuario un determinado servicio de forma rápida y sencilla” (MUNSLOW VILAR, 2007, p. 15) 60 Tradução do autor para: “El widget se encarga de acceder a la página, recoger la información deseada y mostrarla al usuario, facilitando la tarea de consulta” (MUNSLOW VILAR, 2007, p. 17). 61 Sobre essa diferenciação ver o artigo de KAAR, 2007.
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Figura 6: Aplicação de widget em blog a) Widget com links para o portal b) Referência de link no texto Fonte: http://olhardeinquietude.blogspot.com/

De forma semelhante aos feeds, funcionam as newsletters, também chamadas de boletim eletrônico. São e-mails enviados periodicamente para o usuário contendo as notícias na íntegra ou resumos com links. “Estes informativos podem ser considerados como um pequeno jornal online, que você recebe após estar cadastrado” (DESCHAMPS, 2009, p. 6). O cadastro funciona como os feeds, ou seja, a partir de uma assinatura, passa-se a receber as newsletters. Os dados exigidos no cadastro variam em cada veículo. Em blogs, geralmente é pedido apenas o endereço do e-mail. Em sites jornalísticos, é comum exigirem que o usuário faça cadastro com senha ou outros dados, podendo haver uma customização ao preencher campos de quais áreas de interesse se prefere receber as notícias. Blogueiros também começaram a se utilizar de variações de blogs para distribuir suas produções, ou links para as produções. O exemplo mais eminente são os microblogs, sendo o Twitter o serviço mais popular. Nas atualizações do sistema, os chamados “tweets”, que contêm 140 caracteres, são colocadas chamadas para notícias de sites jornalísticos ou posts de blogs junto com os respectivos links. Como lembra Zago (2008), as atualizações podem ocorrer tanto de forma automática, logo após a publicação do conteúdo no blog ou site, ou de forma manual, pelo dono do perfil.

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O microconteúdo do Twitter pode ser replicado pelos usuários através do botão de retweet, potencialmente alcançando ainda mais usuários. Essa função de retweet foi implementada devido à prática intensa que os usuários tinham de copiar e colar os tweets que recebiam. O co-fundador da empresa, Biz Stone, declarou no blog do Twitter62 que “a troca aberta de informação pode ter um impacto global positivo e uma disseminação mais eficiente de informação por todo o sistema do Twitter é algo que nós queremos muito apoiar63” (STONE, 2009, online). Outro exemplo de variação de blog usado para a circulação de links são os tumblelogs64, assim chamados por conterem “posts mais curtos e tipos de mídias mixadas”65 (PHOEBE, 2007, p. 1). É mais freqüente encontrar nesse tipo de blog reproduções de conteúdos - como fotos estáticas ou animadas – do que produções de conteúdo original. Eles também podem conter vídeos, áudios, citações, grandes textos ou apenas links. Os atuais serviços para tumblelogs mais populares são o Posterous66, o Soup67 e o Tumblr68. Da mesma maneira que o conteúdo do Twitter, o conteúdo das postagens dos tumblelogs, como Tumblr, pode ser replicado pelos usuários – neste, através do botão de “Reblog” (sobre isso, ver Figura 7, letra B). Numa tentativa de classificar o serviço, o blog Read Write Web69 chamou os tumblelogs de “light blogging”, um meio termo entre blogging e microblogging. O mesmo texto afirmava que o ato de copiar e colar o conteúdo dos outros é mais aceitável no “light blogging” do que no “professional blogging”. A figura adiante exemplifica uma postagem de um tumblelog:

http://blog.twitter.com/. Tradução do autor para: “The open exchange of information can have a positive global impact and the more efficient dissemination of information across the entire Twitter ecosystem is something we very much want to support.” (STONE, 2009, online). 64 Traduções possíveis para o prefixo “Tumble” seriam “confusão” ou “desordem”. 65 Tradução do autor para: “with shorter posts and mixed media types” (PHOEBE, 2007, p. 1). 66 https://posterous.com/. 67 http://www.soup.io/. 68 http://www.tumblr.com/.
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http://www.readwriteweb.com/archives/how_to_use_tumblr_posterous_other_light_blogging_services.php.

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Figura 7: Postagem de Tumblelog a) Links do blogueiro b) Botão de Reblog c) Quais outros blogueiros favoritaram ou repostaram o post Fonte: http://leotonetto.tumblr.com/

Não apenas os blogueiros podem fazer circular o conteúdo produzido, mas também os usuários podem se dar essa liberdade. Além de se inscreverem nos serviços de publicação, para receber links, e nos perfis desses blogs, os usuários também podem compartilhar os links em seus perfis nos sites de redes sociais, como o Facebook e o Orkut, ou em seus leitores de RSS, como o já citado Google Reader. Recuero (2009) considera que os contatos através desses sites aumentam a capacidade de circulação de informações:
“Como as redes sociais na Internet ampliaram as possibilidades de conexões, ampliaram também a capacidade de difusão de informações que esses grupos tinham. No espaço offline, uma notícia ou informação só se propaga na rede através das conversas entre as pessoas. Nas redes sociais online, essas informações são muito mais amplificadas, reverberadas, discutidas e repassadas. Assim, dizemos que essas redes proporcionaram mais voz às pessoas, mais construção de valores e maior potencial de espalhar informações” (RECUERO, 2009, p. 25).

O compartilhamento nesses perfis, tanto por blogueiros quanto por usuários, pode ser feito de duas formas: manual ou automática. Primeira, de forma manual, ao copiar e colar o link no campo de atualizações da rede social, ou também ao selecionar um trecho do conteúdo e torná-lo público no perfil do leitor de RSS (sobre isso, ver Figura 5, letra C). O link então ficará visível na página inicial do site de rede social, no campo de atualizações. Ali, os contatos daquele usuário poderão comentar o link ou ainda favoritá-lo e/ou distribuí-lo para outros contatos.

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Essa circulação efetuada pelos usuários é chamada por Jenkins (2009) de “Spreadability” (Capacidade de Espalhamento, ou Espalhabilidade), um dos sete princípios da narrativa transmidiática70. “Espalhabilidade se refere à capacidade do público se engajar ativamente na circulação do conteúdo midiático através das redes sociais e no processo de expandir seu valor econômico e seu mérito cultural”71 (JENKINS, 2009, online). Adiante, há uma figura que mostra como funciona o compartilhamento de links na página inicial de um dos sites de redes sociais mais populares no mundo, o Facebook:

Figura 8: Compartilhamento de links no Facebook a) Feed de notícias b) Links nos quais se podem “Comentar”, “Curtir”, ou “Compartilhar” uma atualização. Fonte: http://www.facebook.com/?ref=home

A segunda forma de compartilhar links, mais automática, é por meio de botões disponíveis nas páginas das notícias – os chamados “sharing buttons”, ou botões de compartilhamento. São ícones disponíveis no começo ou no fim de cada texto, geralmente identificados com os logotipos dos sites. Eles podem tanto compartilhar um determinado conteúdo, quanto mostrar o número de usuários que fizeram isso. Após se clicar neles, o link pode ser enviado para um amigo, por email, ou pode ficar disponível para os contatos que o usuário possui nos sites de
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Sobre narrativa transmidiática, ver o livro ‘Cultura da Convergência’, de Henry Jenkins, 2008. Tradução do autor para: “Spreadability refered to the capacity of the public to engage actively in the circulation of media content through social networks and in the process expand its economic value and cultural worth.” (JENKINS, 2009, online).

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redes sociais, aumentando o fluxo de informações em toda a rede (RECUERO, 2009). Quando surgiram, os botões eram recursos adotados apenas por blogs, mas jornais online, aos poucos, foram percebendo o potencial de circulação, de avaliação e, inclusive, de busca proporcionado por essas ferramentas (PRIMO, 2010). A seguinte figura mostra os botões de compartilhamento em uma postagem:

Figura 9: Botões de compartilhamento em blog, indicados pelas letras a e b. Fonte: http://quadrinholatra.blogspot.com/

O uso de RSS e de funções que dão possibilidade aos consumidores contribuírem para serviços tradicionais são fatores característicos da chamada Web 2.0 (O’REILLY, 2005). Web 2.0 é um conceito que vê a Web como uma plataforma de serviços online, executáveis a partir dela, e não mais como nos antigos serviços da Web 1.0 em que era preciso aplicar um determinado programa para realizar uma tarefa (PRIMO, 2007). Com os recursos da Web 2.0, o usuário pode editar textos, fotos, áudios e vídeos em programas acessáveis diretamente na Web e, depois distribuir o conteúdo por ela. Dessa forma, a facilidade dos sistemas de publicação dos blogs e seus mecanismos de circulação também os tornam parte da Web 2.0. A partir dos recursos acima mencionados e da classificação de Gonçalves (2008), pode-se dizer que os blogs têm como sistema de circulação predominante o dinâmico, no qual os blogueiros vão ao encontro dos consumidores e/ou dos produtores de informações. Foletto (2009) infere que, para se identificar hoje os

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sistemas de circulação nos blogs jornalísticos, fica mais fácil se falar em sistemas de circulação dinâmicos simples ou complexos do que em de sistemas estáticos ou dinâmicos, na medida em que são raríssimos (para não dizer que não existem) os casos de blogs jornalísticos que não utilizam pelo menos um meio para chegar aos seus leitores de modo que estes não precisem buscá-los. A seguir, esses dois modelos serão caracterizados. 2. 4 MODELOS DE CIRCULAÇÃO DOS BLOGS JORNALÍSTICOS Foletto (2009) trabalha com a concepção de sistemas de circulação dinâmica simples ou de circulação dinâmica complexos. Os de circulação dinâmica simples utilizam até duas ferramentas para distribuir o conteúdo no ciberespaço; os de circulação dinâmica complexos, mais de três. Blogs jornalísticos com sistemas de circulação dinâmica simples se utilizam de poucas ferramentas para distribuírem seus conteúdos. Geralmente, pressupõem uma conversação menor com o usuário, não estimulando a participação na produção e distribuição do conteúdo. Essa tentativa de controle ocorre quando o blogueiro escolhe quais as informações vai por em circulação e/ou a quem essas informações vão chegar. Como exemplos, pode-se dizer que, no caso dos blogs, o uso da newsletter é uma forma de controle; no caso de microblogs como o Twitter, uma forma é tornar as atualizações privadas – não visíveis aos visitantes – o que possibilitará ao microblogueiro aprovar seguidores (RECUERO, 2010). Gonçalves (2000) considera que o uso de newsletter visando empurrar a notícia para o usuário na internet “por si só não significa uma superação imediata do modelo de produção vertical no jornalismo”72 (GONÇALVES, 2000, online). Mesmo tendo esse aspecto tradicional, Bradshaw (2008) avalia que “qualquer boa estratégia de distribuição baseia-se onde os seus leitores estão, então enviar uma newsletter por e-mail, ainda que hoje o formato pareça antiquado, continua a ser uma parte útil de qualquer estratégia de distribuição – quanto mais específica, melhor”73 (BRADSHAW, 2008, online). Foletto (2009) lembra que o uso dessas estratégias não
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Tradução do autor para: “por si sola no significa una superación inmediata del modelo de producción vertical en el periodismo.” (GONÇALVES, 2000, online). 73 Tradução do autor para: “Any good distribution strategy relies on being where your readers are, so email newsletters, while they now seem old-fashioned, remain a useful part of any distribution strategy - the more specific, the better” (BRADSHAW, 2008, online).

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significa que o conteúdo chegue a um pequeno número de pessoas, mas sim que a distribuição das informações pelo blogueiro ocorrerá de maneira mais centralizada, com o emprego e a disponibilização de poucos canais de distribuição. Por outro lado, os blogs jornalísticos com sistemas de circulação dinâmica complexos se caracterizam por atuarem de maneira descentralizada – em várias redes e ao mesmo tempo. São utilizadas múltiplas ferramentas - como newsletters, blogging, RSS, widgets, sites de redes sociais, tumblelogs, microblogs - permitindo que o blog alcance diferentes tipos de públicos. Atuar em diferentes locais do ciberespaço também permite que seja estabelecida uma efetiva conversação entre produtores e consumidores, misturando cada vez mais as duas funções (FOLETTO, 2009). Esse diálogo ainda estimula o usuário tanto a colaborar na produção quanto a distribuir as informações, em contraponto aos sistemas mais simples em que o usuário somente consome as informações produzidas pelos profissionais.
“O jornalista (junto com seus leitores) é agora o distribuidor. Você não pode deixar essa tarefa a outra pessoa. Quanto mais você estiver ativo, social e visível no meio online, melhor será para o seu trabalho, seja 74 comercialmente ou editorialmente” (BRADSHAW, 2009, online).

A hierarquização da circulação é feita de modo natural, a partir da qualidade das relações estabelecidas entre os blogs e os usuários, que são manifestadas através de links nos mais variados locais, desde redes sociais até outros blogs. O estabelecimento desse modelo de circulação torna os blogs participantes de um ecossistema próprio de mídia, onde a blogosfera, concebida como uma rede de ideias, é considerada em sua totalidade e não tomada a cada blog (LASICA, 2003). Conforme Foletto (2009), os blogs jornalísticos fazem uso simultâneo de diversos canais para a circulação de suas informações, ao contrário do que acontece no jornalismo tradicional, centralizado e massivo, em que as empresas jornalísticas tentam manter o controle de acesso. Antes relegada a determinados setores dessas empresas, a circulação mudou para um modelo em que todos os participantes do processo jornalístico podem contribuir. Como se vê, a informação publicada nos blogs jornalísticos é circulada por meio de diversas ferramentas. Essas ferramentas são utilizadas não só pelos autores, mas também pelos leitores dos blogs, que copiam as informações e/ou os _______________

Tradução do autor para: “The journalist (along with their readers) is now the distributor. You cannot leave that job to someone else. The more active, visible and social you are online, the better for your work both commercially and editorially.” (BRADSHAW, 2009, online).

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links e os espalham no ciberespaço. Verificar as diferentes maneiras na qual ocorre essa circulação e em quais lugares os participantes as compartilham é a missão do próximo capítulo.

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3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Neste capítulo, é mapeada a circulação de textos disponibilizados em um blog jornalístico sob Creative Commons. É mostrado como atuam as permissões de cópias de conteúdo sobre o sistema de circulação dinâmica complexo do blog. O blog Meio Desligado é utilizado como objeto empírico. Considera-se o Meio Desligado um blog jornalístico por sua apuração ocorrer de forma transparente – fazendo uso de links para os sites ou blogs que serviram de fontes – e, conforme Escobar (2009), por ter uma certa periodicidade de atualização e por possuir diversas formas de distribuir seu conteúdo. A metodologia empregada será o estudo de caso (DUARTE, M. 2005), a mesma utilizada por Escobar (2007)75, consistindo-se em duas fases: primeiro, conhecer e descrever o blog; segundo, mapear a circulação. De acordo com Duarte, M. (2005, p. 234) o estudo de caso “é o estudo das particularidades, das diferenças daquilo que o torna único e por essa mesma razão o distingue ou o aproxima dos demais fenômenos”. Para o estudo de caso, serão utilizadas duas técnicas para realizar a coleta de dados: a análise documental (MOREIRA, 2005) e a entrevista em profundidade (DUARTE, J. 2005). A análise documental “compreende a identificação, a verificação e a apreciação de documentos para determinado fim” (MOREIRA, 2005, p. 271). Neste trabalho, a documentação analisada foi o arquivo de postagens para conhecer a trajetória do blog. Aplicada essa técnica, realizou-se a entrevista entre junho e novembro de 2010, que ocorreu por meio de troca de e-mails com o autor do blog. O tipo de entrevista escolhido foi a individual semi-aberta que, segundo Duarte, J. (2005, p. 64), pode ser empregada “para o tipo descritivo, em que o pesquisador busca mapear uma situação ou campo de análise, descrever e focar determinado contexto”. As perguntas foram divididas em três blocos: a história do blog e suas ferramentas, como se dá a produção do conteúdo, e sobre a licença Creative Commons do blog. Foram feitas questões prévias, que depois tiveram seus assuntos aprofundados em outras perguntas. Na elaboração da entrevista, houve o cuidado de não influenciar o entrevistado, de não o induzi a falar as respostas esperadas, ou
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Escobar (2007) definiu blog jornalístico como uma nova categoria de webjornalismo a partir do estudo de caso do Blog do Noblat.

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a ponto de fazê-lo modificar qualquer aspecto no blog, tanto na etapa da produção quanto na distribuição de novos textos. Para a segunda fase do estudo – a coleta dos dados da circulação da informação –, a técnica escolhida foi o mapeamento, de van Peborgh (2010), o qual será explicado posteriormente. O mapeamento do blog no ciberespaço é realizado por meio de um sistema de monitoramento de textos e de um sistema de monitoramento de acessos, que servem para a coleta e, consequentemente, para a análise dos dados. 3. 1 DESCRIÇÃO E ASPECTOS HISTÓRICOS DO BLOG A escolha do blog Meio Desligado se deve a quatro critérios: a) é um blog conhecido na blogosfera – já recebeu alguns prêmios e indicações por isso; b) a página já possui uma licença Creative Commons, ou seja, seus leitores supostamente estão acostumados com a concessão da reprodução do conteúdo; c) o arquivo é aberto, o que torna seu conteúdo acessível a qualquer momento; e d) possui um sistema de análise de estatísticas, que serve para rastrear a distribuição do conteúdo. O Meio Desligado foi criado em dezembro de 2006 e, desde então, reúne informações sobre lançamentos e apresentações de bandas nacionais autoadministradas, ou seja, independentes. É mantido pelo jornalista mineiro Marcelo Augusto Santiago, nascido em 1987. Residente em Sabará76, Minas Gerais, Santiago formou-se em jornalismo no ano de 2009 pela PUC-MG, ingressou no Curso de Especialização em Produção em Mídias Digitais em 2010, na mesma Universidade, e escreve em blogs sobre cultura pop desde 200377. O autor relata ter criado o Meio Desligado principalmente por dois motivos: por notar a pouca cobertura que a grande mídia e os blogs fazem sobre a música brasileira; e para ter uma visão crítica acerca dos eventos culturais. “Percebi que havia uma movimentação crescente na cena musical independente e não existia nenhum blog dedicado totalmente a essa cena” (SANTIAGO, 2010). Inicialmente, era para ser um blog coletivo, mas, “com o tempo, aconteceu uma identificação do _______________
http://www.sabara.mg.gov.br/site/. Seu primeiro blog está disponível em: http://mazzacane.blogspot.com/.

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blog com a minha pessoa e acabei desistindo de buscar mais pessoas para transformá-lo definitivamente em algo coletivo” (SANTIAGO, 2010). Na tentativa inicial de tornar o blog coletivo, participaram três colaboradores fixos78: o irmão do autor e também jornalista Leonardo Santiago, e as jornalistas Juliana Semedo e Taís Oliveira. “Todos publicaram poucos textos no Meio Desligado, creio que em torno de dois ou três textos cada” (SANTIAGO, 2010). Com exceção de Juliana Semedo, os outros dois ex-autores continuam registrados na plataforma de atualização do blog como colaboradores, e se em algum momento tiverem interesse em publicar algo, ainda podem fazê-lo diretamente. Marcelo Santiago diz que o blog está aberto a colaborações e que, eventualmente, elas ocorrem. O autor relata que não tem apoio financeiro e sempre trabalhou e estudou paralelamente a sua atuação no blog. Foi redator do site Cinema Em Cena79, organizador de conteúdo do site Palco MP380 e depois trabalhou no setor de comunicação da produtora belo-horizontina Casulo Cultura81, onde atuou na assessoria de músicos e festivais. Outros serviços temporários – como freelancer – foram obtidos por causa do blog. Santiago considera a página como uma vitrine profissional e que, dessa forma, remunera-o indiretamente. Segundo ele, os dois últimos empregos, no Palco MP3 e na Casulo Cultura, foram convites feitos por causa do Meio Desligado. Ele também já recebeu produtos para escrever posts patrocinados82, e ganhou passagens e hospedagem para cobrir eventos. Nessas situações, o autor afirma sempre deixar claro que se trata de uma ação promocional e que as informações não foram reproduzidas diretamente do release. “Posso escrever sobre o produto deles, mas será através do meu ponto de vista” (SANTIAGO, 2010). Em entrevista ao jornal mineiro Hoje em Dia83 - publicada na íntegra no Meio Desligado84-, Santiago declarou ter abandonado o emprego e estar se dedicando em
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http://www.meiodesligado.com/2006/12/equipe.html. http://cinemaemcena.com.br/. 80 http://palcomp3.com/. 81 http://www.casulocultura.com.br/. 82 Um exemplo é a postagem do festival de música FlashRock 2010, que aconteceu em Belo Horizonte. A empresa organizadora do evento, a fabricante de calçados Converse, enviou um par de tênis para ser sorteado no Meio Desligado. A postagem está disponível no endereço: http://www.meiodesligado.com/2010/07/flashrock-2010-ganhe-um-all-star.html. 83 http://www.hojeemdia.com.br/. 84 http://www.meiodesligado.com/2010/10/meio-desligado-no-jornal-hoje-em-dia.html.

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tempo integral ao blog. “Quero viver disso, e para que dê certo, resolvi arriscar” (SANTIAGO, 2010, online). Todavia, ele ainda realiza trabalhos como freelancer. Segundo Marcelo Santiago, as pautas são elaboradas a partir de informações que consegue através da internet e dos contatos pessoais, e a apuração ocorre da seguinte forma: por e-mail, sites de redes sociais, serviços de mensagem instantânea ou entrevistas presenciais. Quanto à frequência de postagens, Santiago diz não se preocupar em ter uma periodicidade definida, apenas tenta não deixar muitos dias sem atualizações. Ele prefere se focar na qualidade e relevância do conteúdo do que na velocidade de atualização. “O Meio Desligado não é o tipo de blog que se caracteriza por posts curtos, notícias simples e coisas do tipo. Normalmente publico isso somente quando estou sem tempo e já faz dias sem material novo” (SANTIAGO, 2010). A média de posts fica em torno de um a cada dois dias, mas podem ser publicados mais de um em um só dia. Santiago estima que o tempo mínimo dedicado para cada post mais elaborado seja de duas horas. Os objetivos e a justificativa do blog foram explicados logo na primeira postagem85. A intenção era de torná-lo uma espécie de guia, com informações úteis sobre o que acontece no cenário da música alternativa brasileira. Também, nessa postagem, ressaltava-se a busca pela qualidade da informação, com espaço e interesse para a experimentação jornalística. Conforme o texto, a escolha do formato blog foi proposital. Por ser mais dinâmico, por se aproximar da proposta de ser independente e por atribuir, aos serviços gratuitos da Web 2.0, o crescimento da articulação dos produtores culturais no Brasil. Santiago (2010) esclarece que preferiu o sistema Blogger porque “já conhecia a plataforma e porque achava o Wordpress muito limitado para quem não tivesse uma hospedagem própria”. Atualmente, ao acessar o blog (sobre isso, ver Figura 1), encontra-se a imagem de cabeçalho sobre as postagens localizadas à esquerda e a barra lateral, à direita. Abaixo do cabeçalho, há os nomes Sobre o Meio Desligado e Contato com links para postagens do blog com textos. No link Sobre o Meio Desligado, há uma descrição do blog juntamente com alguns comentários e premiações recebidas. No

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http://www.meiodesligado.com/2006/12/o-que-meio-desligado.html.

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link Contato, há o e-mail do autor86, e links para os perfis do MySpace87 e do Twitter88. O blog está programado para exibir no mínimo cinco postagens em sua página inicial. A imagem a seguir mostra a página inicial do blog:

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equipe@meiodesligado.com http://www.myspace.com/meiodesligado. 88 http://twitter.com/meiodesligado.

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Figura 10: Página inicial do Meio Desligado Fonte: www.meiodesligado.com

Na parte lateral direita, estão localizados diversos elementos do blog. Os primeiros são as seções organizadas por imagens (sobre isso, ver Figura 1, letra A).

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Elas são definidas por marcadores específicos (tags), que agrupam as postagens de um mesmo tema89. Uma mesma postagem pode pertencer a vários marcadores: • Matérias especiais mostram textos mais longos sobre um determinado assunto, como, por exemplo, o texto sobre o Festival Transborda90; • Shows, entrevistas, festivais, vídeos, críticas/resenhas são seções cujos nomes são autoexplicativos – um exemplo é o texto ‘Uma noite para ficar na história’, sobre os shows das bandas Macaco Bong e Burro Morto91; • Conheça é a seção na qual são postados textos mais longos sobre uma determinada banda, fazendo um apanhado de sua carreira, apresentado-a ao leitor através do texto introdutório, da entrevista e de algumas músicas – por exemplo, a banda Nasa92; • Indefinidos mostra textos e comentários sobre o próprio blog, ou sobre algum assunto que não se encaixa em outra categoria – como a postagem com algumas das ‘piores capas de disco da música brasileira’93; • Downloads disponibiliza álbuns e materiais raros – como vinis e fitas cassetes fora de catálogo - para baixar, como a postagem do primeiro cd da Banda de Joseph Tourton94; • Notícias impopulares é uma seção focada em notícias ou em análises produzidas pelo blog, exemplo da postagem sobre a reformulação do MySpace95; • O que achamos por aí são textos reproduzidos no blog, licenciados através de alguma licença Creative Commons, e que estão relacionados à temática da música – como o texto do jornalista Pedro Alexandre Sanches96; • Dicas de sites inclui tanto sites sobre música alternativa nacional como páginas que podem ser úteis para a produção e divulgação de bandas, como o texto sobre o Twitter97. Juntamente às seções definidas pelos marcadores, há a seção Links, uma espécie de blogroll disponibilizado em uma postagem à parte. Os links são
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Santiago fez uma postagem em que explica cada uma das seções: http://www.meiodesligado.com/2007/05/manual-de-instrues-para-melhor.html . 90 http://www.meiodesligado.com/2010/09/cena-de-bh-fervilha-e-transborda.html. 91 http://www.meiodesligado.com/2009/04/uma-noite-para-ficar-na-historia.html. 92 http://www.meiodesligado.com/2009/01/nasa-north-america-south-america.html. 93 http://www.meiodesligado.com/2009/08/nao-sao-as-piores-capa-da-historia-da.html. 94 http://www.meiodesligado.com/2010/09/banda-de-joseph-tourton-lanca-primeiro.html. 95 http://www.meiodesligado.com/2010/11/novo-myspace.html. 96 http://www.meiodesligado.com/2010/10/sem-lenco-sem-documento-ou-vida-nao-se.html. 97 http://www.meiodesligado.com/2009/04/o-que-e-twitter-e-como-utiliza-lo-parte.html.

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explicados pelos títulos de outras cinco postagens em que estão: Linkania, Clubes, Selos/Gravadoras/Produtoras, Onde ouvir, Onde ver. Ainda na parte lateral, tem-se os links das postagens de arquivo do blog (ver Figura 1, letra B), um campo de busca (ver Figura 1, letra D), um campo para se inscrever na newsletter do blog (ver Figura 1, letra D), dois widgets – um que mostra as atualizações do Twitter do blog (ver Figura 1, letra C), e outro que mostra os cinco comentários mais recentes feitos pelos leitores (ver Figura 1, letra E) –, uma listagem de todas as tags em ordem decrescente de frequência (ver Figura 1, letra F), e, por fim, um selo da licença Creative Commons e um selo do Projeto Yahoo! Posts (ver Figura 1, letra G). O blog está sob licença Creative Commons desde a sua criação. A licença que foi escolhida é a de Atribuição – Uso Não Comercial – Compartilhamento pela mesma Licença. Ou seja, o conteúdo pode ser copiado, desde que seja citada autoria, não seja usado com a finalidade de lucro, e com a possibilidade de ser modificado, contanto que seja dada a mesma licença. Santiago escolheu essa licença porque “é uma forma de garantir que o conteúdo que produzo continuará livre e mantém o respaldo de que sua exploração comercial permanecerá sendo minha (ou de seu respectivo autor)” (SANTIAGO, 2010). O Creative Commons, inclusive, já foi pauta de algumas postagens no blog98. Santiago afirma que já teve o conteúdo copiado e linkado, e avalia isso como sendo positivo: “Vários posts foram republicados e linkados por aí, o que é muito legal” (SANTIAGO, 2010). Entretanto, nem sempre a licença foi respeitada, ele relatou um caso em que o conteúdo do blog foi copiado por outro blogueiro, mas não teve a atribuição conferida. Após descobrir por meio de um serviço identificador de cópias, Santiago disse que clicou no link Denunciar abuso, disponível no sistema Blogger, e assim o blog em que estavam as cópias foi removido depois de um tempo99. Em 2008, o blog Meio Desligado foi escolhido como um dos 100 melhores da língua portuguesa pelo portal Yahoo!. A escolha deveu-se à criação do projeto editorial Yahoo! Posts100, que filtra e sugere o conteúdo desses blogs na página _______________

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http://www.meiodesligado.com/2007/02/sobre-o-creative-commons-e-seu-uso.html. Uma procura na internet pelos antigos links das cópias mostrou que o responsável pelas reproduções era um menino de 11 anos de idade. 100 http://www.yahooposts.com/.

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inicial do Yahoo! e em outras editorias do portal101. Os textos selecionados não são republicados na íntegra, mas sim indicados no portal, com a reprodução apenas de seus sumários linkados para a postagem no blog. Desde janeiro de 2009, o blog passou a fazer parte do projeto ‘Music Alliance Pact’102. Trata-se de uma rede mundial de blogs que abordam a música alternativa produzida em seus países de origem. Todos os meses, os participantes indicam uma música de uma banda de seus respectivos Estados. A seleção de músicas de todos os participantes, com os textos que apresentam as bandas, é republicada em cada blog membro da rede, com links para todos os blogs, sempre no dia 15 de cada mês. Junto aos textos, é disponibilizado o link para o download individual de cada música ou da coletânea completa, em algum site de hospedagem de arquivos. Criada em outubro de 2008 pelo blog escocês The Pop Cop103, o ‘Music Alliance Pact’ inicialmente tinha 15 blogueiros, e conta hoje com representantes de 35 países dos cinco continentes. O autor do blog Meio Desligado também utiliza outros meios para disponibilizar o conteúdo produzido. Os leitores podem se cadastrar e receber os posts por e-mail (newsletter), ou assinar o RSS e ter as atualizações em seus leitores de feeds. Além disso, Santiago faz uso do Twitter e do Tumblr104 como meios para a distribuição de seus textos:
“Comecei a usar o Tumblr por achar interessante a integração que ele proporciona da agilidade e conectividade do Twitter com uma plataforma ‘tradicional’ de publicação de blogs, como Blogger e Wordpress” (SANTIAGO, 2010).

É importante destacar que o nome utilizado nos endereços nas redes sociais não é do autor, mas sim da “marca” Meio Desligado. Marcelo Santiago diz que isso ocorreu devido à ligação dele com a página: “Como muita gente já me conhecia como ‘o Meio Desligado’, resolvi assumir de vez a alcunha” (SANTIAGO, 2010). Segundo van Peborgh (2010, p. 27) essa identidade da marca traz ganhos para o responsável, pois:
“a participação das marcas nas conversações sobre elas que ocorrem na web resulta em benefícios econômicos e culturais, ao mesmo

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Uma postagem foi feita sobre a escolha: http://www.meiodesligado.com/2008/08/um-dosmelhores-blogs-do-brasil.html. 102 http://www.meiodesligado.com/2009/01/meio-desligado-o-representante.html. 103 http://thepopcop.co.uk/. 104 http://marcelo.meiodesligado.com/.
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tempo em que promove uma troca de valores e a adoção de estratégias 105 inovadoras de marketing e comunicação” (VAN PEBORGH, 2010, p. 27).

Santiago também possui perfis em outros sites, como Youtube, Flickr106, Facebook107 e Orkut. Alguns deles estão integrados entre si, como as atualizações do Twitter e do Tumblr que aparecem automaticamente no Facebook e no microblog Google Buzz. 3. 2 MAPEAMENTO A realização do mapeamento de posts do blog segue a metodologia descrita por van Peborgh (2010). No entendimento do autor, o mapeamento consiste na primeira das quatro fases de um programa de recrutamento de promotores de marca na Web 2.0: mapeamento, monitoramento, interação e mediação. Neste trabalho é utilizada apenas a etapa do mapeamento, que possui três momentos: listar as ferramentas, executar as buscas, e desenvolver um relatório (VAN PEBORGH, 2010). A etapa do mapeamento serve para medir a circulação da marca entre os consumidores, ou seja, a circulação das informações efetuada pelos leitores no ciberespaço. O caráter da metodologia é quanti-qualitavo – o que significa que os dados são quantificados e, em seguida, interpretados. No primeiro momento da etapa, é feita uma listagem de ferramentas que vão servir como instrumentos de verificação. Essas ferramentas podem ser buscadores ou diretórios de assuntos com temas relativos à marca, comunidades ou sites de redes sociais, entre outras. Em qualquer caso, “deverão contribuir para rastrear na fase posterior da estratégia todos aqueles pontos de conversação na web que resultam de interesse para a marca”108 (VAN PEBORGH, 2010, p. 89). Esse momento ocorre neste subcapítulo. O segundo momento consiste em executar as buscas em cada ferramenta. “A metodologia consiste neste caso, em entrar no site de cada ferramenta e iniciar uma
Tradução do autor para: “la participación de lãs marcas em las conversaciones sobre ellas que ocurren em la web, redunda em beneficios econômicos y culturales, al tiempo que promueve um cambio de valores y la adopción de estratégias innovadoras de marketing y comunicación” (VAN PEBORGH, 2010, p. 27). 106 http://www.flickr.com/photos/idiota/. 107 http://www.facebook.com/meiodesligado. 108 Tradução do autor para: “deberán contribuir a rastrear em la fase posterior de la estrategia todos aquellos puntos de conversación en la web que resultan de interés para la marca” (VAN PEBORGH, 2010, p. 89).
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busca sobre termos associados com a marca”109 (VAN PEBORGH, 2010, p. 90). Os resultados de cada busca diferem entre si e dão informações variadas sobre diversos aspectos. Em qualquer caso, os dados servem para descobrir as possibilidades que cada ferramenta oferece e determinar quais são os que mais interessam. Os dados são expostos no subcapítulo ‘Coleta de dados’. Por fim, no terceiro momento da etapa do mapeamento, deve-se “organizar a informação obtida para ter as primeiras conclusões”110 (VAN PEBORGH, 2010, p. 91). Os dados coletados no segundo momento vão gerar um relatório com os lugares da presença da marca no ciberespaço, nos quais os consumidores e outros atores conversam sobre a marca. O relatório do mapeamento será descrito no subcapítulo ‘Análise dos dados’. Basicamente, duas ferramentas são utilizadas para a localização dos posts e dos links do blog que circulam no ciberespaço. A primeira, para os textos, é o site Plagium111, que analisa o conteúdo do blog e o compara com textos que encontra na internet. A segunda, para saber o destino dos links, é um sistema de monitoramento de acessos, o Google Analytics112, tendo em vista que a privacidade de sites de redes sociais e de e-mails dificulta a detecção dos links por sistemas de busca comuns. Online desde em junho de 2009, o site Plagium oferece um serviço de rastreamento e comparação de textos na internet. Gratuito, o serviço utiliza o sistema de busca do portal Yahoo!, e funciona de duas maneiras: ao colar o texto inteiro num campo próprio para isso, ou ao colar apenas o link da postagem em um campo menor para que o serviço analise o texto e faça a busca. Verificadas as cópias, é possível constatar quais os termos das licenças foram respeitados. A Figura número 2 exibe a avaliação de uma cópia de acordo com o site:

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Tradução do autor para: “La metodologia consiste en este caso, en ingressar al sitio de cada herramienta e iniciar una búsqueda sobre términos asociados com la marca” (VAN PEBORGH, 2010, p. 90). 110 Tradução do autor para: “organizar la información obtenida para sacar las primeras conclusiones” (VAN PEBORGH, 2010, p. 91). 111 http://plagium.com/. 112 http://www.google.com/analytics/.
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Figura 11: Exemplo de gráfico com cópias encontradas pelo Plagium Fonte: http://plagium.com/

Ao observar a figura, nota-se como funciona a interface de apresentação da busca. É necessário colocar o link das postagens no campo de busca (Figura 2, letra A). Depois, é mostrado o gráfico em uma linha do tempo desde a publicação do texto (Figura 2, letra B). Os círculos que aparecem representam as cópias encontradas, simulando a quantidade de conteúdo copiado (Figura 2, letra C). Logo abaixo do gráfico, é exibida uma lista com os sumários das cópias encontradas (Figura 2, letra D). Todavia, o Plagium não localiza cópias compartilhadas em sites de redes sociais fechados, como o Facebook, nem de microblogs fechados, como o Twitter, e tampouco de leitores de feeds, como o Google Reader. Para verificar os possíveis compartilhamentos nessas redes, é preciso saber de onde vieram os acessos que o blog recebeu, ou seja, as fontes de tráfego. Um sistema de estatísticas, como o Google Analytics, foi escolhido para determinar esses dados.

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O Google Analytics, desenvolvido em abril de 2005, gera relatórios de estatísticas para o autor de um blog ou de um site que criar uma conta no serviço. As medições são feitas por meio de um código de programação, dado pelo serviço, para ser inserido pelo autor no código de programação do blog ou site. Esse código, chamado de “código de monitoramento”113, envia para a conta que se possui no Google Analytics os dados dos usuários que acessaram o blog ou o site, gerando relatórios com diversas estatísticas, disponível no painel do site. A próxima figura mostra o painel em que o Google Analytics exibe as origens de tráfego do blog ou site cadastrado:

Figura 12: Painel das origens de tráfego exibidas pelo Google Analytics Fonte: https://www.google.com/analytics/settings/home

O painel é composto por um menu à esquerda (sobre isso, ver figura 3, letra A) e um campo à direita onde são exibidas as estatísticas em gráficos e tabelas. No menu, há os itens Painel de Controle, Inteligência, Visitantes, Origens de Tráfego,
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http://www.google.com/support/analytics/bin/answer.py?hl=br&answer=33346.

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Conteúdo, Metas e Relatórios Personalizados. O item Painel de Controle exibe um resumo geral sobre os visitantes e as origens de tráfego; o item Inteligência exibe opções para criar alertas para serem enviados por e-mail; o item Visitantes mostra o número de visitantes e as interações deles com o conteúdo; Origens de Tráfego oferece uma visão geral dos diversos tipos de origens que enviaram visitantes ao site; Conteúdo detalha informações de acessos de cada página do site; Metas exibe informações, avisando se o site está cumprindo os objetivos comerciais; e, por fim, há o item Relatórios Personalizados onde é possível criar um relatório com várias métricas que se deseja analisar. As origens de tráfego podem ser de três diferentes tipos: Tráfego direto, Sites de referência, ou Mecanismos de pesquisa. Tráfego direto significa que o usuário acessou diretamente o site no navegador (sobre isso, ver figura 3, letra B); Sites de referência quer dizer que alguém clicou em algum link de um site para chegar até a página, seja de um blog ou anúncio (sobre isso, ver figura 3, letra C); e Mecanismos de pesquisa é quando o usuário acessou o site através de um serviço de busca (sobre isso, ver figura 3, letra D). Nesses links, é apresentado não só o relatório do número de visitantes, mas também os sistemas operacionais que foram utilizados, quanto tempo ficaram no site, no que clicaram, de quais regiões geográficas são, e quais as origens de tráfego, ou seja, os links em que clicaram para chegarem até o site, entre outros dados. O sistema do Google Analytics é o mesmo utilizado pelo serviço de auditoria do Instituto Verificador de Circulação (IVC) para mensurar a circulação de webjornais do Brasil114. Segundo Santiago (2010), o Meio Desligado possui um perfil no sistema do Google Analytics desde a sua criação. Para o autor do blog, a internet é o único meio que permite avaliar a audiência de maneira eficiente, e ter uma ferramenta que analise os acessos é muito importante para isso:
“É através dela que posso ter noção de quem são as pessoas que acompanham o blog, onde elas estão, o que tem chamado mais atenção, como elas conhecem o Meio Desligado, etc” (SANTIAGO, 2010).

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Fundado em 1961, o IVC é uma entidade civil sem fins lucrativos, formado por três segmentos do mercado publicitário (Anunciantes, Agências de Propaganda e Veículos) e mantido através das mensalidades pagas pelas empresas associadas. Desde 31 de agosto de 2009, o instituto mede a circulação de websites (http://www.auditoriaweb.org.br/). Atualmente, webjornais como O Estado de S. Paulo, O Globo, Zero Hora, entre outros, são filiados ao IVC. Em setembro de 2010, o Instituto oficializou a filiação do primeiro blog ao seu serviço – o blog Unha Bonita (http://unhabonita.com.br/), direcionado ao público feminino. Os números do Google Analytics são utilizados a cada mês pelo IVC para produzir um relatório de auditoria, que é publicado para consulta do mercado publicitário.

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Passado um tempo, Marcelo Santiago parou de conferir as estatísticas, pois considerou que elas o influenciavam a escrever sobre pautas que geravam mais acessos. “Veículos comerciais podem agir dessa forma, mas não há sentido que a mídia independente se guie pelos mesmos parâmetros” (SANTIAGO, 2010). Os dados que serão utilizados neste estudo são de 48 horas após a publicação de um texto pelo blog. O corpus de análise é composto por duas postagens, uma do dia 9 e outra do dia 15 de novembro de 2010. A medição pelo serviço do Google também serve para ver se o blog recebeu acesso das cópias em Creative Commons. Este estudo pretende ver quais as origens de acesso ao blog, origens tanto do ciberespaço quanto geográficas. Para complementar os mapeamentos, realizam-se buscas com trechos dos textos e dos links nos sistemas de buscas comuns da Web. 3. 3 COLETA DOS DADOS Dois textos do blog Meio Desligado foram escolhidos como amostra. Primeiro, foram feitas buscas para localizar possíveis cópias na web. Em seguida, os relatórios das estatísticas dos acessos foram analisados: de todo o blog no período de análise, incidindo sobre os sites que levaram ao blog, e depois recaindo para a postagem específica. A postagem ‘Apanhador Só'115 foi publicada no dia 9 de novembro de 2010 às 02h12min. Trata-se de uma resenha crítica sobre o trabalho da banda portoalegrense cujo nome é o mesmo do título do post. O texto é uma contribuição feita pelo jornalista Edwaldo Cabidelli para Marcelo Santiago. O primeiro passo foi a localização de cópias em Creative Commons do texto na web. Para isso, foi realizada no dia 11 de novembro, dois dias após a publicação, uma busca no site Plagium. Nenhuma cópia do texto foi encontrada durante essa busca, bem como em buscas posteriores. O único trecho copiado do texto foram as primeiras frases, como a de abertura “Em tempos de vertigem, acaba-se sempre apanhando sozinho”, juntamente com links que direcionavam para o post completo. Desse tipo de cópia, uma busca no Google acusou três resultados (nos indexadores

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http://www.meiodesligado.com/2010/11/apanhador-so.html.

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sonorika.com, wearehunted.com e plus.blodico.com) além da publicação no Tumblr do Meio Desligado. A postagem do Tumblr foi automaticamente republicada no perfil do Facebook de Santiago. Já no perfil do Twitter do Meio Desligado, o link não foi mencionado. Entretanto, outros usuários do Twitter publicaram o texto para seus seguidores nas horas que se seguiram da publicação. Quatro perfis publicaram o link do texto, entre eles a própria banda de que se tratava a postagem. Duas dessas publicações foram retweetadas, ou seja, alcançaram mais seguidores. No total, seis links circularam, contando os dois retweets. O segundo passo foi a análise dos acessos do link do texto em outros locais do ciberespaço, como e-mails, blogrolls e perfis dos sites de redes sociais. Assim sendo, foram coletados, junto à ferramenta Google Analytics, dados dos acessos de toda a página, e depois os dados referentes à postagem. O acesso aos dados do Google Analytics foi obtido através do consentimento do administrador da conta, isto é, de Marcelo Santiago. Ele autorizou a coleta ao adicionar um perfil116 para que o autor deste trabalho pudesse visualizar os relatórios. Desse modo, foi possível analisar os relatórios do Google Analytics referentes aos dias 9 e 10 de novembro. Nessas 48 horas, foram contabilizadas 555 visitas: 306 no dia da publicação, e 249 no dia seguinte. Do total de visitas: a) 297 foram de Mecanismos de Pesquisa – pelo Google e outros buscadores (53,51%); b) 155 de Sites Referenciais – por meio de links em outros sites ou blogs (27,93%). c) 103 foram de Tráfego Direto – de acessos do navegador (18,56%); Como já dito, de todas as origens de tráfego, 155 vieram de Sites Referenciais, o que representa 27,93% do total de visitas. Dos Sites Referenciais, 16 visitas vieram de blogs, 33 dos links do Twitter, 16 do link Facebook e três visitas do Tumblr para a página principal. Não foram verificadas visitas da newsletter da postagem. Seis blogs enviaram dois visitantes cada um, e 20 blogs enviaram um visitante cada. A Tabela número 3 mostra essas visitas de sites referenciais que levaram a todo o Meio Desligado nesses dias: _______________
116

Esse processo é explicado pelo site na página: http://www.google.com/support/analytics/bin/answer.py?hl=br&answer=55500.

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Tabela 3 Visitas através de Sites Referenciais para o blog nos dias 9 e 10 Origem google.com.br/images twitter.com facebook.com musiqueindieegeste.blogspot.com google.com google.pt orkut.com.br marcelo.meiodesligado.com (tumblr) 6 links de blogs 20 links de blogs Total Visitas 48 33 16 8 4 4 4 3 2 1 155 % 30, 97 21, 29 10, 32 5, 16 2, 58 2, 58 2, 58 1, 94 1, 29 (9, 03) 0, 65 (13)

Na tabela 3, os nomes da coluna ‘Origem’ formam os sites que levaram a todas as postagens do Meio Desligado. Na coluna ‘Visitas’, estão dispostos os números de visitas realizadas pelos visitantes na página inicial. Ao lado, a porcentagem mostra o quanto cada site direcionou comparado com os demais. Os links de blogs que direcionaram dois e um usuários, respectivamente, foram agrupados, visando a uma melhor visualização. As tabelas foram formuladas a partir dos relatórios coletados no Google Analytics, disponíveis na seção Anexos. Após isso, foi conferido o relatório das visitas que somente o post Apanhador só recebeu. A visualização do número total de acessos nos dias permite comparar a quantidade de acessos por sites referenciais das outras formas de acesso e chegar a outras conclusões importantes para a circulação. Para essa página específica, foram registradas 70 visitas: 60 no primeiro dia e dez no segundo. A postagem em questão teve 32 visitas através dos quatro links do twitter, 12 do facebook e cinco de blogs. Todos os visitantes eram do Brasil e todos faziam uso de sistemas de computadores para acessar, o que significa que nenhum se utilizava de celular ou outro dispositivo. A Tabela 4 mostra de onde vieram os acessos da página:
Tabela 4 Total de visitas da página Apanhador só nos dias 9 e 10 Origem twitter.com Tráfego Direto facebook.com alavanca.art.br 5 links de blogs Mecanismo de Busca Total Visitas 32 18 12 2 1 1 70 % 45, 71 25, 71 17,14 2, 86 1, 43 (7, 15) 1, 43

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O segundo texto mapeado foi a postagem Music Alliance Pact de novembro, publicada às 01h21min do dia 15 de novembro. Na busca efetuada no site Plagium depois de dois dias, foram localizadas dez cópias: seis de participantes da rede de blogueiros Music Alliance Pact e quatro de agregadores de conteúdo. Destes últimos, um foi o site ’Indian Electronica’117, que coleta textos que citam a música indiana, sempre linkando para o outro blog de onde copiou o texto. Outros três coletaram o texto de um participante da rede, do blog do The Guardian. Foram eles: Comuniclab.it118, Redaprilus.blogspot.com119 e News 24/7120. Apenas este último não linkava a página inicial dos blogs, ou seja, não respeitava a exigência de Atribuição da licença do blog. Depois da busca no Plagium, também foi conferido cada blog da rede de blogueiros para saber se os participantes tinham publicado a postagem. Verificou-se que 31 dos 34 participantes da rede republicaram o texto coletivo das resenhas na íntegra nos dias 15 e 16. Apenas os blogs da Alemanha, China e Colômbia não publicaram. Isso mostra que as ferramentas de comparação de cópias podem não ser muito eficientes a ponto de rastrear todos os resultados na web. A busca no Google da frase “Epic, dark post-rock is at the core of Sao Paulobased band Labirinto,” do texto também acusou resultados importantes. Embora a rede seja composta por 35 blogs, o blog Popop121, da Estônia, não teve seu texto e recomendação adicionados. Os motivos não foram bem esclarecidos pelo blogueiro, mas ainda assim, ele republicou o texto coletivo em seu blog, afirmando que, no mês seguinte, voltaria a participar. Um tumblelog soup.io122 copiou o texto inteiro, com links, do blog do The Guardian. O blog Wenks666123 copiou o texto do blog da Suécia124, linkando para este. Dois indexadores de conteúdo também copiaram o texto, direcionando para suas fontes: um foi o Blogger-Index125, que copiou o Meio Desligado; e o outro foi o site Music & More126, que copiou o blog irlandês Nialler9127.
117 118

_______________

http://indianelectronica.com/aggregator/. http://www.comuniclab.it/aggregator/. 119 http://redaprilus.blogspot.com/2010/11/music-music-blog-guardiancouk-5.html. 120 http://gb.news-24-7.com/community/. 121 http://popop.wordpress.com/2010/11/15/music-alliance-pact-november-2010/. 122 http://jkdodd.soup.io/. 123 http://wenks666.blogspot.com/2010/11/swedesplease_16.html. 124 http://www.swedesplease.net/. 125 http://www.blogger-index.com/feed850994.html. 126 http://www.increaseyourmyspaceviews.com/. 127 http://www.nialler9.com/.

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Outras buscas foram feitas nos sites de redes sociais. Para a postagem analisada, Santiago não publicou no Twitter, nem outros perfis da rede fizeram isso por ele. O link da postagem apenas foi publicado por Santiago no Tumblr e, consequentemente, no Facebook. Após a busca pelas cópias, partiu-se para o mapeamento dos acessos. No período de 48 horas após a publicação, houve 635 visitas no total: 272 no primeiro dia e 363 no segundo. Essas 635 visitas estão divididas em: a) 375 de Mecanismos de Pesquisa (59,06%); b) 129 de Sites Referenciais, (20,31%); c) 126 de Tráfego Direto (19,84%); d) e cinco de outros, como e-mail e feeds. (0,79%). A tabela 5 mostra as visitas recebidas por meio dos Sites Referenciais nos dias 15 e 16:
Tabela 5 Visitas através de Sites Referenciais para o blog nos dias 15 e 16 Origem google.com.br guardian.co.uk facebook.com google.com twitter.com google.pt indieoteca.blogspot.com 6 links de blogs 18 links de blogs Total Visitas 48 28 6 6 5 3 3 2 1 129 % 37,21 21,71 4,65 4,65 3,88 2,33 2,33 1,55 (9, 3) 0,78 (14, 04)

Esses links da Tabela 5 levaram a todo o conteúdo do Meio Desligado, incluindo posts de arquivos do blog, no período analisado. Especificamente, a segunda postagem mapeada, a Music Alliance Pact de novembro, recebeu poucas visitas: dez – sete no primeiro dia e três no segundo. A postagem foi responsável por apenas 1,01% dos acessos de todo o blog. Nesse determinado post, houve uma visita do facebook e duas da newsletter. O pouco número de acessos pode ser atribuído ao fato de ninguém ter publicado o link no Twitter, nem no Facebook. Quanto à origem geográfica, os visitantes eram do Brasil, dos Estados Unidos, do Chile, e do México. Todos utilizavam sistemas operacionais de computadores para acessar, ou seja, ninguém acessou de celular ou dispositivos móveis. A tabela adiante mostra de onde veio o total de acessos dessa determinada página:

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Tabela 6 Visitas da página Music Alliance Pact de novembro nos dias 15 e 16 Origem Tráfego Direto Newsletter facebook.com Mecanismo de Busca google.com Total Visitas 5 2 1 1 1 10 % 50 20 10 10 10

A maioria das visitas veio de tráfego direto, o que, como na primeira postagem analisada, pode ter ocorrido por meio do feed RSS do navegador dos usuários. Duas visitas vieram do e-mail da newsletter com a postagem enviada aos assinantes e uma visita do Facebook em decorrência do link publicado no Tumblr. Apesar do número pouco expressivo do link dessa postagem, podemos notar que todo o blog recebeu um bom número de visitas. Grande parte veio de outros blogs, o que ocorreu devido ao linkamento realizado pelos outros blogs da rede de blogueiros Music Alliance Pact. O blog do The Guardian foi o que mais enviou visitantes, com 28 visitas vindas dele (sobre isso, ver Tabela 5). 3.4 ANÁLISE DOS DADOS Após a verificação dos dados, chega-se a algumas considerações derivadas do caso. A primeira é da importância de efetuar a circulação nos microblogs e nos sites de redes sociais. Há uma grande diferença entre a primeira postagem analisada – em que o link do post foi publicado no Twitter e no Facebook – e a segunda postagem – em que o link desta não foi publicado em mais nenhum serviço. Percebe-se que, nos posts estudados, o uso de newsletter não foi tão efetivo, embora seja responsável por boa parte dos acessos no segundo texto. Na tabela 4, do primeiro texto, pode-se notar a importância que o Twitter e o Facebook têm no número de acessos da postagem. Juntos, o serviço de microblog (45, 71%) e o site de redes sociais (17, 14%) são responsáveis por mais da metade (62, 85%) das visitas dessa página. Os acessos por Tráfego Direto (25, 71%) podem ter ocorrido por meio do feed RSS do navegador dos usuários. A postagem do Music Alliance Pact, por ter sido copiada por indexadores, um blog e um tumblelog, foi linkada, o que deu mais visibilidade para a rede de blogueiros. Assim, pode se afirmar que a circulação do conteúdo não depende mais

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apenas do envio a partir do veículo, mas conta com os usuários que podem copiar e trocar as informações entre si e também com as parcerias formadas com os demais veículos. Como no post ‘Apanhador Só’, os leitores do blog realizaram o trabalho de circulação do conteúdo para o blogueiro. Na Tabela 5, do segundo texto, é perceptível a influência que o blog do jornal inglês The Guardian tem sobre os acessos, com 21, 71%. Mas outros blogs, tanto através da rede de blogueiros quanto por blogrolls, também enviaram uma porcentagem considerável de visitantes. Contando todos os acessos vindos de blogs – do blog Indioteca.blogspot.com, dos seis e dos 18 links de blogs – chega-se a 25 67%. Isso mostra que os blogs ainda mantêm uma força de divulgação, mesmo com crescimento dos microblogs e dos sites de redes sociais. Ficou nítido que o blogueiro procura publicar poucas vezes o link para seus contatos, como no caso do segundo post em que publicou apenas no Tumblr e no Facebook. Uma estratégia, para atrair mais visitas, é publicar o link do post várias vezes ao dia. Assim, os usuários que não estavam online na hora da primeira publicação, podem acessar o link mais tarde. Foi possível notar que os links compartilhados geralmente direcionavam para a postagem específica, e não para a página inicial (www.meiodesligado.com). É um padrão importante fazer circular o link da página, pois este pode servir de parâmetro para qualidade do conteúdo. A partir da observação do tempo que o usuário ficou na página, é possível dizer se o texto foi ou não efetivo em seu objetivo de ser lido. Embora o texto mais atual esteja na página inicial, não se pode afirmar com precisão se o usuário estava lendo a primeira atualização ou as outras, disponíveis abaixo. Fazer a referência ao link da página, e não de todo o blog, aumenta sua autoridade nos assuntos tratados. Quanto mais referências um link recebe, mais relevante ele se torna, conforme o algoritmo do PageRank do Google. Publicar o link nos microblogs e nos sites de redes sociais também torna possível que outras pessoas compartilhem o link com seus contados, aumentando a referencialidade ao post. Assim, e com o linkamento exigido pela atribuição das cópias em CC na web, o link de determinado texto pode aparecer entre os primeiros resultados na procura do assunto nos serviços de busca. Um bom uso que o blogueiro faz é o das tags. Ao organizar e atribuir palavras-chave ao seu conteúdo, ele faz com que o blog seja encontrado mais facilmente pelos mecanismos de busca. Essa estratégia tem funcionado, tendo em

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vista que, nos dias das postagens, o maior número de acessos ocorreu através de Mecanismos de Busca – 53,51% nos dias 9 e 10; e 59,06% nos dias 15 e 16. Esse grande acesso do tipo Mecanismo de Busca se deve, principalmente, à relevância do seu conteúdo, e também ao fato do arquivo ser aberto, estando disponível por tempo indeterminado.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho consistiu em uma discussão sobre as maneiras de circulação, no ciberespaço e na blogosfera, de informações postadas em um blog jornalístico que adotou uma licença Creative Commons. As licenças servem como uma forma de flexibilização dos direitos autorais de produtores de conteúdo, que permitem a reprodução e a circulação livre, mediante a mínima citação da autoria. Para saber como ocorre a circulação, foi feito um mapeamento de dois textos do blog Meio Desligado. A partir dele, foi percebida a complexidade da circulação das informações na internet. Notou-se que para a distribuição do conteúdo do blog específico são utilizadas diversas ferramentas tais como newsletter, microblogs, tumblelogs e sites de redes sociais. Porém há outras que poderiam ser aproveitadas, como botões de compartilhamento, widgets, e incentivar os leitores a fazerem uso de leitores de RSS. Por outro lado, complementando as ferramentas utilizadas, o blog adota estratégias para reforçar a visibilidade de suas páginas. Um exemplo é a rede de blogueiros Music Alliance Pact, mencionada no caso estudado. Essa união de temas e interesses em comum, com suas indicações de links, potencializa a divulgação do blog entre o público leitor de diferentes lugares geográficos. O público, por sua vez, utilizando-se das mesmas ferramentas de publicação dos autores também toma parte na circulação das informações, ao colocar links em seus blogs e perfis em redes sociais. A publicação do conteúdo pelos leitores entre seus contatos é uma forma do público de participar do espalhamento das notícias (JENKINS, 2009) da mesma forma como ocorria na comunicação interpessoal de Alsina (2009), mas agora no ciberespaço. Além de aumentar o valor econômico dos produtores, o espalhamento nas redes sociais faz com que essa comunicação interpessoal possa ser mensurada e os leitores possam ser monitorados. A estrutura em rede possibilita um sistema complexo de circulação, que se apropria das informações, nem sempre com o intuito de lucro. Muitas vezes, as apropriações se tratam apenas de referências, por meio de links, para os textos ou de cópias para uso pessoal, como arquivo. Assim, a circulação no ciberespaço é de certa forma independente do atual sistema de direitos autorais. Para circular sua produção na rede, o autor pode abrir mão de algumas proteções das atuais leis de direito autoral adotando as licenças Creative Commons.

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A mínima exigência de atribuição, respeitada na maior parte das cópias verificadas deste estudo, garante um retorno de audiência e autoridade, através dos links, para o produtor – uma vez que a reprodução não autorizada do conteúdo disponível na internet é difícil de ser evitada. Dessa forma, pode se entender o Creative Commons como um incentivador do linkamento, benéfico aos blogueiros. Quanto mais um link é referenciado, maior o valor do PageRank e de autoridade da página. E, por conta do linkamento, maiores as chances do texto de ser encontrado em meio à quantidade de textos na internet. Por fim, é preciso lembrar que os dados coletados neste trabalho não podem ser generalizados, mas podem demonstrar tendências. Pretende-se contribuir para estudos que ajudem a pensar a circulação de blogs e webjornais. Busca-se ainda incentivar novas pesquisas sobre os direitos autorais dos jornalistas, não só daqueles que atuam no ciberespaço mas também dos que trabalham em redes de TV, rádio e jornal impresso.

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APÊNDICES APÊNDICE A - Entrevista realizada de junho a novembro de 2010 com Marcelo Augusto Santiago, editor do Meio Desligado, e publicada parcialmente no blog128. BLOG E SEUS DERIVADOS MF - Por que criou o blog? Por que escolheu o sistema Blogger? MS - Resumindo muito: queria fazer algo relevante na internet em vez de ter mais um blog sobre cultura pop e bobagens para entreter as pessoas. Percebi que havia uma movimentação crescente na cena musical independente e não existia nenhum blog dedicado totalmente a essa cena. Além disso, quando outros blogs e jornalistas citavam bandas indie nacionais, na maioria dos casos exaltavam bandas que eu considerava (e ainda considero) ridículas ou falavam das bandas dos amigos, coisas do tipo. Eu pensei: "é por causa desses idiotas que o público em geral acha que não existe bandas independentes boas". Por isso criei o Meio Desligado, para fazer uma análise mais crítica dessa cena, sem ter rabo preso com ninguém, sem medo de experimentar. Fiz no Blogger porque já conhecia a plataforma e porque achava o Wordpress muito limitado para quem não tivesse uma hospedagem própria. Como minha intenção era (e continua sendo) usar serviços gratuitos na internet, o Blogger me pareceu a melhor opção. MF - Quais os ex(s) ou atuais participantes? Por que saiu, se é que saiu? MS - Criei o Meio Desligado para ser algo coletivo, mas com o tempo aconteceu uma identificação do blog com a minha pessoa e acabei desistindo de buscar mais pessoas para transformá-lo definitivamente em algo coletivo. Mesmo assim, continuam acontecendo colaborações de diferentes pessoas com as quais me relaciono de diferentes formas. Na tentativa de construir algo coletivo havia três colaboradores fixos mas que escreveram muito pouco. Meu irmão (Leo Santiago), uma ex-namorada (Juliana Semedo) e uma amiga (Taís Oliveira, que atualmente escreve na revista Billboard Brasil). Todos publicaram poucos textos no Meio Desligado, creio que em torno de dois ou três textos cada. Com exceção da Juliana, os outros dois continuam registrados na plataforma de atualização do blog como colaboradores, se em algum momento tiverem interesse em publicar algo ainda podem fazer isso diretamente. MF - Você disse que está se dedicando integralmente ao blog. Como está se sustentando? MS - Esse "integralmente" é relativo. Eu larguei meu emprego fixo, mas trabalho como freelancer. MF - Por que não usa um Twitter específico para o blog e outro pessoal? MS - Durante muito tempo tentei não relacionar o blog à minha pessoa, mas como todos os outros integrantes participavam pouco e não encontrava pessoas interessantes e interessadas na proposta, o Meio Desligado foi ficando cada vez _______________
http://www.meiodesligado.com/2010/11/meio-desligado-e-construcao-de.html.

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mais ligado a mim. Como muita gente já me conhecia como "o Meio Desligado", resolvi assumir de vez a alcunha. Acho mais interessante desse jeito, creio que aproxima o público de quem está por trás das informações que estão lendo. Sem contar que muita coisa da minha vida particular se mistura com o tema do blog e seria bastante confuso separar o que publicar em cada perfil (pessoal e "institucional"). MF - Por que decidiu utilizar Tumblr? MS - Comecei a usar o Tumblr por achar interessante a integração que ele proporciona da agilidade e conectividade do Twitter com uma plataforma "tradicional" de publicação de blogs, como Blogger e Wordpress. Com o passar do tempo o Tumblr tem se mostrado uma das ferramentas mais versáteis e em constante transformação que conheço, mas o utilizo somente em projetos paralelos ou em trabalhos específicos que realizo, porque a indexação do conteúdo publicado nele é ruim nas ferramentas de pesquisa como Google e Yahoo!. MF - Recebe acesso de outros perfis teus em outras redes? MS - Sim. Muitos acessos do Meio Desligado têm origem no meu Twitter e no Facebook. Atualmente são as únicas redes que uso com frequência. MF - Quantos assinantes tem a newsletter? MS - Cara, não consigo acessar minha conta no Feedburner desde que ele foi comprado pelo Google há alguns anos. Na época, o blog tinha 179 assinantes, a maioria recebendo as atualizações diretamente em seus e-mails. MF - Você utiliza de estratégias como comentar em outros blogs, divulgar em comunidades virtuais, listas de e-mails, ou usar de títulos que sejam mais fáceis de serem achados pelos buscadores? MS - De todas essas ações a única que pratico é relacionado aos títulos das publicações, mas principalmente às urls. Mesmo que um post tenha um título mais literário e menos factual, procuro criar urls que facilitem a indexação em ferramentas de busca. O post "Festival Goiânia Noise 2010: bandas confirmadas até o momento", por exemplo, tem a url meiodesligado.com/2010/10/festival-goianianoise-2010-programacao.html Acho intrusivo e chato comentar em outros blogs para se divulgar, odeio essa prática. Só acho válido quando a pessoa deixa o link para algo que publicou em seu blog e que esteja relacionado ao assunto do post em que está comentando, sabe? Se não for assim é só mais spam. Ninguém precisa de mais spam. Antigamente enviava uma espécie de newsletters do blog, com resumos do que de mais interessante foi publicado no mês, mas parei por falta de tempo. MF - Como funcionam as festas do blog? Desde quando ocorrem, como surgiram? MS - Comecei a fazer as festas para trazer a BH artistas que considero interessantes e nenhum outro produtor trazia. A primeira festa aconteceu com a banda recifense Júlia Says em maio de 2008, se não me engano. A maioria das festas Meio Desligado aconteceu n´A Obra, reduto indie em BH. Como o público era bom, até me perguntaram se queria fazer com maior frequência, mas preferi fazendo poucas por ano, cerca de duas ou três. Assim consigo me dedicar mais a elas.

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Entre as bandas que já tocaram nessas festas estão Black Drawing Chalks, Camarones Orquestra Guitarrística, Jair Naves e Fusile. Uma coisa engraçada é que no fim de 2009 eu tinha uma festa marcada com duas bandas legais e poucos dias antes de iniciar a divulgação as duas tiveram que cancelar por motivos diversos. Em vez de convidar outra banda, montei a minha própria, rs. Aí teve origem a Fanfarra dos Funcionários da Embaixada Colombiana, um aglomerado (meio no sentido "favela" do termo) de músicos locais (gente de bandas como UDR, Fusile, Grupo Porco de Grindcore Interpretativo, FadaRobocopTubarão, Esquadrão Relâmpago Monster Surf, entre outras) tocando punk rock com alguns toques latinos. Acabou sendo uma das melhores noites que já vi na cidade, mais de dez pessoas na banda (incluindo aí gente que eu nem conhecia) com microfone na mão, subindo no palquinho da Obra e tal. E no final ainda rolou um karaokê punk que também foi super divertido. Agora a ideia é juntar a Fanfarra pra fazer apenas um show por ano em cada cidade, sempre com uma formação diferente. MF - Desde quanto tem instalado o Google Analytics? Por que? Costuma monitorar com frequencia os acessos? MS - Alguns dias após criar o Meio Desligado instalei o Analytics. Desde então, somente por alguns dias os acessos ao blog não foram contados porque fiz alterações no código do blog e acabei esquecendo de voltar com o código de rastreamento do Analytics. Ter uma ferramenta que analise seus acessos é crucial para o desenvolvimento de uma ação desse tipo na internet. É através dela que posso ter noção de quem são as pessoas que acompanham o blog, onde elas estão, o que tem chamado mais atenção, como elas conhecem o Meio Desligado, etc. A internet é o único meio que permite esse controle, esse conhecimento sobre sua audiência. Depois de alguns anos parei de ler os dados de acesso do blog pois eles acabavam me influenciando para escrever sobre os assuntos que geravam mais acessos. Agir dessa forma seria repetir uma estratégia que repudio que é focar seu conteúdo no que gera mais acessos, não naquilo que considero mais interessante. Veículos comerciais podem agir dessa forma, mas não há sentido que a mídia independente se guie pelos mesmos parâmetros. MF - Nota alguma participação do público na divulgação dos posts? Não só no Twitter mas em algum outro site (Facebook, Orkut)? MS - Principalmente no Twitter e Facebook. Praticamente não uso Orkut e muitos acessos têm origem lá, então as pessoas estão divulgando o blog por lá. CONTEÚDO MF - Como você seleciona o que vai ser publicado? Costuma consultar fontes por e-mail ou telefone? MS - Acho que nunca liguei pra uma fonte! Isso é muito anos 90 (risos). Falando sério, é tudo pela internet: e-mail, redes sociais, serviços de mensagem instantânea. E muita coisa acontece presencialmente também, claro. Pra selecionar o que vou publicar, acho que as coisas básicas em que penso são: - está na linha temática do blog?;

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- centenas de blogs vão escrever sobre esse mesmo assunto específico? E, se forem, posso abordar de forma mais interessante, mais relevante, mais profunda?; - quem acompanha o blog precisa saber disso em detrimento de outras coisas que deixarei de publicar para me dedicar a esse assunto?. MF - Tem alguma periodicidade definida? MS - Não. Tento não deixar muitos dias sem atualizações, mas não me preocupo em publicar algo todos os dias. Prefiro me focar na qualidade e relevância do que publico do que na velocidade de atualização. No geral, a média deve dar um novo conteúdo a cada dois dias. MF - Entre apuração, edição, redação e divulgação, você dedica quanto tempo diário ao blog? MS - Varia muito. Posso ficar muito tempo sem escrever mas ao longo do dia vou pensando em possíveis temas e elaborando isso na cabeça. O Meio Desligado não é o tipo de blog que se caracteriza por posts curtos, notícias simples e coisas do tipo. Normalmente publico isso somente quando estou sem tempo e já faz dias sem material novo. Creio que o mínimo pra cada post um pouco mais elaborado seja duas horas. MF - Considera seus posts mais opinativos ou mais informativos? MS - Opinativo informativo. Posts diferentes tendem para lados diferentes. Essa é a vantagem de ter um blog: liberdade. MF - Como funcionava a versão em inglês? Ainda recebem acessos da versão em inglês? MS - Ela está sendo reformulada e volta em formato diferente em 2011, se tudo der certo. Antigamente ela deveria funcionar como um resumo do que foi publicado na versão em português, mas a falta de tempo para traduzir tudo sempre foi um grande empecilho. Não confiro seus acessos, mas continuava a ter público vindo de ferramentas de busca. MF - Publica os textos em outros espaços na internet? MS - Já escrevi muita coisa no Overmundo e colaborei em outros blogs e sites, mas atualmente o que escrevo sobre música independente brasileira é direto para o Meio Desligado. MF - Recebe muitos comentários? MS - Eu usava uma ferramenta pra contar o número de comentários, mas parou de funcionar. Sei que desde o começo do blog são mais de dois mil, mas considero o número de comentário baixo. Percebo a mesma coisa em outros blogs. Na maioria dos blogs que usam o Wordpress, por exemplo, se você olhar nos comentários a maioria deles se refere às vezes que aquele post foi citado no Twitter (tem um plugin pra isso). Se eu usasse um plugin como esse no Meio Desligado o número de comentários saltaria pra uns cinco mil, mas acho que isso mais polui do que agrega informação relevante ao blog. Uma coisa que percebo é que alguns anos atrás, até mesmo em outros blogs que tive, muita gente deixava comentários como "massa!", "legal", coisas do tipo. Agora isso diminuiu, mas é pequeno o número de pessoas que realmente participam

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da construção de conhecimento através dessa ferramenta. É claro que muita coisa boa vem dos comentários no Meio Desligado, correções, sugestões, dicas e tal. Até mesmo elogios e críticas são super bem-vindos. Mas, se analisarmos de forma mais geral, é uma pequena parcela dos "leitores" que perceberam que as informações que publicam ali podem resultar em transformações no conteúdo final. MF - Trabalha em outros lugares fora o blog? Ganha algo com ele? Como? MS - Sempre trabalhei paralelamente ao blog (primeiro como carregador de livros em uma biblioteca, depois como ajudante de despachante, passei pra redator do cinemaemcena.com.br, fui pra organizador de conteúdo do palcomp3.com.br e depois fui cuidar da comunicação da casulocultura.com.br, onde posteriormente virei sócio e fazia a produção da Aline Calixto - alinecalixto.com.br e do Renegado arebeldia.com.br, além de produzir festivais como o Stereoteca www.stereoteca.com.br). Esses dois últimos empregos, no Palco Mp3 e na Casulo Cultura, foram convites que me fizeram por causa do Meio Desligado. Ele serve como vitrine profissional e é dessa forma que me remunera, ou seja, indiretamente. Alguns freelas também foram obtidos por causa do blog. Tirando isso, já ganhei alguns produtos para escrever posts patrocinados, passagens e hospedagem para cobrir eventos e uma única vez me pagaram para divulgar algo. MF - Já recebeu propostas de patrocínio, como espaço publicitário ou anúncios no blog? MS - Já recebi grana e produtos para comentar ações específicas, como ganhar alguns tênis para falar de uma revista, ganhar uma grana pra falar de uma ação promocional de uma empresa e tal, mas pouca coisa. Mas sempre que isso rola tento deixar bem claro que se trata de uma ação promocional e não publico as informações do jeito que me enviam. Posso escrever sobre o produto deles, mas será através do meu ponto de vista. MF - Pode me dizer quais foram os posts nos quais houve um "patrocínio"? MS - Teve um sobre o evento FlashRock129, que a Converse fez em BH. Foi neste ano. É o único que lembro exatamente agora. Sei que rolaram outros dois posts que me pagaram com tênis (empresas diferentes) e um outro, mas não estouô lembrando como me pagaram (acho que foi crédito pra pegar umas roupas ou gastar em alguma outra coisa). CREATIVE COMMONS MF - Por que colocaram o conteúdo sob licença Creative Commons? MS - Desde 2005 estudo o Creative Commons e diferentes aspectos da cultura digital. Acredito que o Creative Commons é uma importante ferramenta para a democratização do acesso à informação. MF - Por que aquela licença e com aquelas condições? _______________
http://www.meiodesligado.com/2010/07/flashrock-2010-ganhe-um-all-star.html

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MS - A licença usada no Meio Desligado é a de Atribuição-Uso Não Comercial-Compartilhamento pela mesma licença, porque é uma forma de garantir que o conteúdo que produzo continuará livre e mantém o respaldo de que sua exploração comercial permanecerá sendo minha (ou de seu respectivo autor). MF - Que tipo de duvidas já receberam sobre o sistema de licenças? MS - No início muita gente não entendia o que era o Creative Commons, me perguntava até na rua o que era isso. Agora há tanta informação sobre isso, inclusive no MD, que já faz um tempão que ninguém me pergunta nada sobre isso. O que mais acontecia era gente entrando em contato pra saber se podia republicar algum texto do MD no seu blog particular. Aí eu explicava o funcionamento do Creative Commons e passava o link pra licença usada no blog. MF - Alguma vez teve o conteúdo copiado e linkado? E não linkado? MS - Já, vários posts foram republicados e linkados por aí, o que é muito legal. Somente uma vez descobri um moleque do interior do Rio de Janeiro republicando os textos do Meio Desligado como se fossem dele, mas o blog dele foi tirado do ar. Às vezes os sites puxam um único parágrafo e linkam pro blog. Isso é ok. Se neguinho que copiar o conteúdo tiver alguma visibilidade com isso, essa própria visibilidade vai fazer com que ele se foda, porque aumenta a probabilidade de descobrirem que não foi ele quem produziu. MF - Você se lembra do endereço do menino do RJ que copiava o conteúdo do teu blog? MS - Acabei de achar num e-mail antigo que mandei para uns amigos. Alguns links que ele copiou: http://henriquepicanco.blogspot.com/2008/12/cobertura-do-festival-bh-musicstation.html http://henriquepicanco.blogspot.com/2008/12/se-andy-warhol-tivesse-passado-pelatv.html http://henriquepicanco.blogspot.com/2008/12/se-andy-warhol-tivessepassado-pela-tv_12.html (Após uma busca na internet, descobriu-se que se tratava de um menino de apenas 11 anos.) Eu usava uma ferramenta para "identificar plágio". Você dá o RSS do lugar original onde publica e ela fica sempre buscando a internet para ver se acha esse conteúdo em outros sites. MF - Lembra do nome do "identificador de plágio" que você usava? MS - Não, procurei aqui e não achei. MF - O que você fez quando descobriu os plágios do menino? Você sabe por que foi desativado o blog dele? MS - O blog dele era só plágio. Copiava conteúdo de vários blogs. Acho que marquei naquele botão de denunciar do Blogger e tal. Outras pessoas devem ter feito o mesmo. Ele tinha um blog no Wordpress também e que foi apagado pelos mesmos motivos.

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ANEXOS Anexo A – Relatório do Google Analytics da Visão Geral das Origens de Tráfego nos dias 9 e 10 de novembro de 2010.

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Anexo B – Relatório do Google Analytics das Origens de Tráfego vindas de Sites de Referência nos dias 9 e 10 de novembro de 2010.

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Anexo C – Relatório do Google Analytics das Origens de Tráfego do post ‘Apanhador Só’ nos dias 9 e 10 de novembro de 2010.

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Anexo D – Relatório do Google Analytics da Visão Geral das Origens de Tráfego nos dias 15 e 16 de novembro de 2010.

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Anexo E – Relatório do Google Analytics das Origens de Tráfego vindas de Sites de Referência nos dias 15 e 16 de novembro de 2010.

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Anexo F – Relatório do Google Analytics das Origens de Tráfego do post ‘Music Alliance Pact de novembro’ nos dias 15 e 16 de novembro de 2010.

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