A mídia em massa oferece conteúdo – a inteligência coletiva cria novo conteúdo.

Yochai Benkler [1] leciona direito de comunicação e informação na Faculdade de Direito de Yale. É autor do livro As Riquezas das Redes: Como a Produção Social Transforma Mercados e Liberdade [2] (sem tradução para o português). Henry Jenkins [3] é co-diretor de Estudos Comparativos de Mídia, e professor de ciências humanas da Cadeira Peter de Florez. Seu mais recente livro é Cultura de Convergência: Onde a Mídia Antiga e Nova se Cruzam (sem tradução para o português). Os dois cientistas norte-americanos debatem aqui o tema notícias, informação e a saúde das redes (news, information and the wealth of networks). Portanto, debatem um pouco do que estamos fazendo no Peabirus. Ou seja: discutem as regras do envolvimento, numa perspectiva que mostram que “estruturas com mais de 150 pessoas sofrem fortes mudanças organizacionais, exigindo maior hierarquização para impedir o caos”. Nestas estruturas muito numerosas, vale a "regra da multidão", "rule of many". O fluxo se organiza sem hierarquia, sem organização de cima para baixo, sem editores -- baseado na confiança que cada contribuição é positiva. São Redes Orgânicas capazes de reduzir a barreira econômica à inovação. Apresentam arquitetura mais modular, mais flexível e tornam a computação mais acessível para os empreendedores. Esta inovação coloca no centro o pensamento das pessoas, no eixo da participação democrática. Benkler e Jenkins debatem o fenômeno aqui numa perspectiva sociológica e histórica. Uma leitura atenta, no entanto, leva a naturais ilações sobre o conjunto de ações que estão correndo no Peabirus com o objetivo de facilitar relações de negócios. Valemonos no Peabirus dos mesmos fatores que geraram o movimento analisado pelos dois cientistas. A diferença no nosso caso é que o processo é regido por um modelo de governança e de negócios definido de forma compartilhada e clara para todos. Vamos então para para o resumo de Marie Thibault da segunda das três mesas redondas do mit communication forum. Esta abordando o tema 'Os jornais sobreviverão?' (Neste linque [4], o original e mais informações em Podcast, Audiocast e Webcast). RLM Após as apresentações feitas por David Thornburn and William Uricchio (ambos do MIT), os dois oradores abordaram as questões de mídia, mudança da sociedade, e os

perigos do statu quo. As anotações abaixo são apenas a minha (Marie Thibault) tentativa de capturar o espírito da discussão, e não são citações diretas dos participantes. Benkler iniciou a conversa lembrando do crescimento do negócio do jornal em meados do século 19, e como a criação de um setor de mídia de capital intensivo abriu uma brecha entre os produtores profissionais (comerciais) e os consumidores passivos. Ele então pulou para os dias atuais, destacando que a disponibilidade do processamento de dados – e sua distribuição – mudaram o status quo. Ele ilustrou este último ponto mostrando a capacidade de processamento de vários super-computadores, para então compará-los ao poder de processamento conjunto oferecido pelo projeto SETI@home. Para ele, este fato ilustra a radical descentralização da capitalização e o poder dos recursos conjuntos, em inglês pooled peer resources. Estes mesmos fatores também estão permitindo que as pessoas participem ativamente do processo de criar comunicação através da computação. Isto levou à produção comum, no sentido de produção conjunta, que não possui limites nas contribuições, nos resultados, ou nos indivíduos – tudo isto sem a interferência da mídia comercial. Os indivíduos agora possuem a capacidade e a autoridade de agir. Outro resultado deste processo é a produção entre pares – que é uma cooperação em larga escala, praticamente sem gerenciamento. Alguns dos exemples que ele apresentou incluiram os softwares livres (em especial Sourceforge.com), os Mars Clickworkers e a Wikipedia. A mídia tradicional reconhece a ameaça e a realidade apresentada pela produção conjunta, e busca avidamente conteúdo novo baseado em produção social. A mídia tradicional sabe que a produção social é um fato, não apenas uma moda; sabe também que pode ser mais eficiente na produção de informações que os modelos existentes; sabe, finalmente, que a produção social é uma ameaça. Esta é a realidade econômica da riqueza das redes. Blenker voltou então suas atenções às questões políticas que cercam o tema. A forma que produzimos informações e decidimos o que produzir são escolhas críticas. Como exemplo, ele citou as eleições de 2000 nos EUA, e suas conseqüências. Para assegurar que as questões surgidas em 2000 não voltassem a ocorrer, em 2002 houve um movimento – especialmente na Califórnia – para adesão ao voto eletrônico. Estes eram sistemas proprietários e todos foram assegurados pelo fabricante (Diebold), “confiem em nós”. Bem, nem todos confiaram, e alguém conseguiu acesso ao código fonte dessas máquinas. Esta pessoa postou o código e links para as ferramentas que podiam acessar e analisar este código. Pessoas ao redor do mundo contribuiram e acharam questões mal resolvidas. A história chegou à revista Wired; de acordo com Benkler, a Wired não entendeu a mensagem (que havia problemas no código fonte) e voltou as suas atenções ao fato do software da Diebold ter vazado. A Diebold endureceu e tentou impedir que a matéria fosse publicada. Mas já era tarde demais. Estudantes da Universidade de Swathmore começaram a analisar o software e postar o que encontravam. A Diebold endureceu novamente, e as informações foram removidas. Mas agora já era tarde demais, mesmo. As informações já haviam se espalhado pela internet.

Mais tarde, os problemas das urnas eletrônicas da Diebold chegaram até os tribunais da Califórnia, e muitas delas perderam sua certificação com base nos problemas levantados pelo esforço conjunto realizado ao redor do mundo. A opção de questionar um software fechado e proprietário, a decisão de utilizar uma produção conjunta para análise do software, e, finalmente, a cassação dos certificados das urnas eletrônicas ilustram a capacidade política do poder da rede. Também destacam a importância de criar uma cultura mais crítica, que deseja conectarse, apontar e ver por si mesma. Esta recapitulação não capta toda a extensão dos comentários feitos por Benkler, mas, espero, permite que tenhamos uma idéia de como ele vê as coisas e da importância crítica da produção social. Seu livro está disponível no seguinte endereço: [5]. Henry Jenkins então falou sobre a convergência da cultura de fãs e da mídia em massa, e de como estes dois estão levando a uma mídia social. O primeiro exemplo que mostrou foi uma foto de alguém vestido de stormtrooper de Guerra nas Estrelas, comprando brinquedos de Guerra nas Estrelas. A foto foi feita com uma câmera de celular pelos amigos do camarada fantasiado e postada no Flickr. A mídia achou a foto e a reproduziu em dezenas de jornais em todo o país. Este tipo de coisa assusta os produtores da mídia tradicional, porque eles não têm controle do conteúdo ou do contexto. Jenkins acha que a Lucas Arts provavelmente não se incomodou com o incidente, mas a questão não é esta. O nosso próximo exemplo vem de burtisevil.com, e mostra uma imagem do Beto, de Vila Sésamo, junto a Osama bin Laden. Jenkins mostrou então uma foto de um poster com imagens de bin Laden que estava sendo usado em um protesto no Afeganistão. Uma das imagens incluia o Beto. A PBS, rede pública de televisão americana que detém os direitos de Vila Sésamo, não ficou lisonjeada, e gostaria de processar alguém. Ambos são exemplos da interação entre a mídia chamada top-down (de cima para baixo) e a bottom-up (de baixo para cima). O conteúdo vem de cima, é reinterpretado e redistribuído de baixo. Incidentes como os exemplos acima agitam ambos os mundos. Um é tomado de uma súbita sensação de falta de poder, e o outro pela sensação de aparente poder. Também está criando verdadeiros desafios para advogados de propriedade intelectual e define a noção de cultura de convergência. Não é baseada em tecnologia, mas sim em um processo cultural desencadeado pela tecnologia. A convergência cultural já chegou. Histórias e conteúdo agora são distribuídas através do máximo de plataformas e mídia, de forma legal ou ilegal, de cima para baixo e de baixo para cima. É um processo trans-mídia, participatório e experimental. Exige e se utiliza da inteligência coletiva (aquilo que Jenkins chama de ad-hocracia), à medida que mais e mais pessoas compartilham e combinam informações. Esta inteligência coletiva permite também que as informações sejam processadas com mais rapidez. Um número cada vez maior de pessoas participa e contribui com esta crescente ad-hocracia:

57% dos adolescentes são produtores de mídia 33% compartilham com outros aquilo que produzem 22% possuem suas próprias homepages 19% possuem blogs 19% fazem uma remixagem do conteúdo (de Pew) A mídia em massa oferece conteúdo – a inteligência coletiva cria novo conteúdo. E como isto tudo afeta as notícias? As pessoas estão aprendendo a fazer uma mídia cívica. A cultura dos fãs aprendeu a criar e manipular o conteúdo, por divertimento. Estas habilidades estão sendo aplicadas em outras áreas, criando novas fontes de informação, comentário e ativismo. A título de exemplo, Jenkins mostrou imagens dos atentados terroristas no metrô londrino, feitas por pessoas a bordo do metrô, e imagens do Presidente Bush em Nova Orleans, alteradas com a ajuda do Photoshop. Também mostrou exemplos de agregação e análise de conteúdo, utilizando fotos e legendas do furacão Katrina. Esta combinação de informação e entretenimento está se tornando uma força, moldando conversas sérias, que agora aparecem em toda extensão da cultura de convergência. Seus comentários levaram a vários vídeos que ilustram seu ponto de vista e também as questões maiores da evolução da cultura de convergência baseada em redes e em produção conjunta. Após os vídeos, houve uma sessão de perguntas e respostas. O que precisa acontecer para que as pessoas efetivamente contribuam com a mídia cívica? É necessário apenas transferir as regras atuais de mídia, ou precisamos de algo mais? O que precisamos ensinar a essas pessoas? Benkler: Saber quem é o “nós” e quem nós estamos ensinando – que faz parte do desafio neste nosso caso – é mais fácil quando existe uma classe de produção fixa, que pode definir quais são as habilidades e o treinamento necessários para participar; estamos vendo o início da leitura crítica – em um universo com múltiplos pontos de entrada, os tradicionais detentores da autoridade muitas vezes estão errados – estamos começando a ver mais sobre o desenvolvimento das habilidades de coleta de observações e de inteligência, que respostas a sinais enviados por uma autoridade. Precisamos prestar atenção nos múltiplos pontos de entrada e aplicar o pensamento crítico, de forma a chegar a um parecer temporário. Jenkins: Não estamos aprendendo com uma pessoa; estamos aprendendo uns com os outros, através do processo de inteligência coletiva. Ainda existe uma diferença em níveis de participação, que é diferente da desiguldade digital. A maior parte das pessoas tem acesso, mas nem todas têm acesso às habilidades e experiência necessários para utilizar este tecnologia na participação da mídia cívica. A DOPA (a lei proposta nos EUA em 2006, que visa evitar que jovens tenham contato com molestadores on-line ao usarem computadores instalados em escolas) limitaria o acesso ainda mais. Embora a população possa aprender as habilidades necessárias para a mídia cívica, a existente mídia pode aprendê-las também? Podem ser assimiladas pela elite do poder? As habilidades podem vir de baixo para cima, mas podem também ser empurradas de cima para baixo.

Benkler: É importante não sermos utópicos; isto tudo não é ruim. Sistemas como estes são susceptíveis a ataques? Sim. Quais são as defesas? Na mídia em massa, existe um pequeno número de alvos que podem ser apontados, distorcidos ou controlados; isto é mais difícil fazer na mídia cívica. Jenkins: Um ponto importante a ser observado é que as grandes organizações sentem e reconhecem a necessidade de criar falsos movimentos oriundos da população. Elas sentem a necessidade de usar dos métodos daqueles que não possuem poder para comunicar sua mensagem. O que dizer sobre o argumento que a mídia cívica cria colegas, mas não os une? Benkler: O que podemos observar através dos padrões de uso é que não estamos fragmentados demais, ou unificados demais; não estamos ainda no ponto certo, mas chegaremos lá. Alguns podem dizer que o que está acontecendo na mídia cívica não é uma democratização, mas sim uma concentração – milhões de pessoas se ligam a alguns poucos sites ao mesmo tempo que milhões de sites têm alguns poucos visitantes. A realidade é que alguns sites começam a se reunir em torno de assuntos e questões que são importantes a algumas comunidades específicas; no próximo passo, observa-se que centenas de sites passam a se ligar para sintetizar aquilo que é importante para aquele grupo. Jenkins: No passado, os críticos sociais preocupavam-se com a hegemonia criada pela mídia em massa; agora os críticos estão preocupados com a fragmentação da mídia cívica. . . Precisamos ter cuidado em dar muito ouvido aos críticos. . . O processo de participação é muito complexo – vai de cultura pop a cultura produzida, mas pode ignorar toda a mídia cívica encontrada no meio. Como os modelos produzidos conjuntamente funcionam em questões científicas? Como é que as comunicações cívicas podem ajudar nesta linha de frente? Jenkins: Esta é uma área complicada; sempre existe espaço para especialistas em qualquer modelo; especialistas desempenham papéis vitais na interpretação e orientação de comunicações. Benkler: É importante não olhar para a utopia, mas para a linha que serve de base para a mídia em massa. Se você fizer um apanhado da comunidade científica e suas publicações, por exemplo, não há dúvidas com relação à existência e à causa do aquecimento global. Mas se você olhar para a mídia em massa, a sensação é que os especialistas estão divididos no assunto, metade para cada lado. Algo como a Wikipedia pode disponibilizar uma ampla gama de pontos de visto sobre este assunto. O que pode pôr em risco a criação da mídia cívica? Esta tem sido uma discussão muito positiva, mas o que poderia impedir este tipo de participação? Benkler: Cada vez mais, parece que não existem grandes impedimentos a este processo. Existem algums, tais como as “máquinas confiáveis”, que limitam o uso de sistemas para impedir que sejam utilizados para quaisquer finalidades não específicas, ou que tenham acesso a conteúdo não autorizado. Isto está sendo proposto por Hollywood, com base no fracasso de DRM (Digital Rights Management, técnicas que restringem o uso e

a transferência de conteúdo digital), entre outros motivos. Isto pode levar a uma desigualdade no acesso e no uso de conteúdo. Outro impedimento poderia ser controle imposto por empresas; contudo, as redes mesh podem impedir que isto aconteça. Patentes de software também podem representar um problema; mas o grande número de empresas que vislumbram ganhos financeiros impede que os softwares livres sejam restritos. A falta de acesso à tecnologia e à comunidades de colaboração também pode ser um fator de distorção. O que pode ser feito? Criar, compartilhar e adotar licenciamento do tipo oferecido pela Creative Commons [www.creativecommons.org.br] . Devemos estimular direitos abertos e abrir aqueles restritos. Propriedade intelectual deve ser uma questão política. Estamos começando a ver isto acontecer. Mais e mais pessoas e grupos estão avançando para impedir que aqueles em situação privilegiada ataquem a mídia cívica. Jenkins: A cultura participatória chegou para ficar. A escala e o ambito ainda estão em dúvida, e como esta cultura se relaciona com a mídia principal ainda está por ser visto. A maior ameaça é representada por Hollywood e seus inimigos – democratas liberais – ambos os quais estão trabalhando para limitar a participação: Hollywood quer fazê-lo controlando acesso e direitos de conteúdo, e os liberais querem controlar o acesso a comunidades de colaboração através de leis como a DOPA. Um fator que pode impedir este processo é se as leis não mudarem, as pessoas serão impotentes – algum dia a lei será um processo que vai de baixo para cima? Benkler: Esta é uma questão profunda em termos de teoria do direito; o sistema jurídico é progressivo ou regressivo? A questão vai até a fonte da lei – qual é sua origem e como pode mudar? Não acredito que exista um processo de criação de leis de baixo para cima. Quais são as implicações desta cultura de participação para o mundo tradicional de cobertura de notícias e consumo de notícias? Qual é o futuro do jornal? Jenkins: Na qualidade de alguém treinado em jornalismo, ele está preocupado com os jornais; a mídia participativa contra os jornais é uma questão interessante. O que é interessante observar e considerar é que a blogosfera pode ser vista como uma resposta a aquilo que não é coberto pela mídia tradicional. Esta deveria olhar melhor para as questões levantadas pela mídia participativa, para então ampliá-las através de seus canais. Os jornalistas cidadãos não substituirão os jornalistas profissionais; as categorias de notícias que existem não refletem a diversidade de nossa cultura; a nova mídia é, e continuará sendo, uma medida corretiva. Benkler: As mídias tradicionais desempenham um papel importante, mas são veículos para as elites (incluindo nós), e vêm de cima para baixo; nós valorizamos conhecimento e elites. As mídias desempenham um papel de plataforma para que as elites compartilhem idéias. Esta função não desaparecerá. technorati tags:MIT, Communications, Forum, Media Blogged with Flock

This entry was posted on September 27, 2006 at 1:10 pm and is filed under Technology. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. Responses are currently closed, but you can trackback from your own site. A versao do debate publicada no MIT [6] news, information and the wealth of networks Thursday, September 21 5-7 pm 3-270 Resumo Jornalistas da imprensa, críticos da mídia e visionários digitais discutem as atuais transformações e o aparente declínio dos jornais americanos. Tópicos a serem abordados: o envelhecimento do leitor de jornal, o surgimento da mídia cidadã e da blogosfera, o destino do noticiário local e do jornal local, e as notícias e informações em um futuro em rede. Este debate é parte de uma série de fóruns que discutem a pergunta: Os jornais sobreviverão? Also in the series: The Emergence of Citizens' Media (Sept. 19), Why Newspapers Matter (Oct. 5). Series co-sponsor: Ethics and Excellence in Journalism Foundation Oradores Resumo Sessão de perguntas e respostas William Uricchio: (Ele exibe V for 9/11, um filme de curta metragem que usa a premissa de V de Vingança para fazer uma declaração controversial que afirma que a gestão Bush foi cúmplice com o ataque contra o World Trade Center) Temos um novo conjunto de realidades e práticas. O que precisamos fazer para permitir que os cidadãos se envolvam nesta cultura participativa? Yochai Benkler: Acredito que as pessoas que estudam este fenômeno não podem sequer dizer que são capazes de treinar outras pessoas sobre este assunto. Estamos começando a desenvolver melhores habilidades de leitura crítica, assim como de investigação e de coleta de inteligência. A pesquisa está conquistando nosso respeito. Ceticismo e investigação é o início de um pensamento independente e participação. Henry Jenkins: Neste momento, estamos aprendendo uns com os outros. A curva de aprendizado é alta, graças à inteligência coletiva, mas estou preocupado sobre a desiguldade na participação, que é diferente da desigualdade digital. Algumas crianças não têm acesso às ferramentas ou às habilidades que irão permitir que sejam produtoras de mídia. Da mesma forma, se você não sabe ler ou escrever, também não poderá fazer nada daquilo que andamos conversando. Estaremos publicando um trabalho em outubro, que definirá as principais habilidades que acreditamos os jovens precisam ter. Embora essas habilidades não precisem ser necessariamente aprendidas, é preciso que todas as tenham.

Uricchio: Bem, ao ver os falsos movimentos populares, para mim fica claro que, assim como os cidadãos, as estruturas de poder também aprendem rapidamente. Benkler: Logicamente, sistemas descentralizados, não-hierárquicos, são suscetíveis a ataques. Assim como em qualquer sistema, são desenvolvidos meios de defesa. Uricchio: Algumas pessoas afirmam que essas estruturas apenas capacitam coortes, mas não necessariamente os unem em uma esfera maior e coesiva. Jenkins: Antes de prosseguirmos neste assunto, em uma mudança de poder, é sintomático que grupos maiores sintam a necessidade de forjar uma campanha popular para que sejam ouvidos. Este ato em si é prova que as estruturas de poder estão mudando. Benkler: O problema de credibilidade é um problema da produção de informações. Buscar as falsas campanhas populares faz parte de determinar o que é crível. Existe o temor de fragmentação e polarização, mas, aparentemente, as coisas ainda não estão excessivamente fragmentadas ou concentradas. Temos muitas pesquisas sobre as formas pelas quais as pessoas se conectam a blogs e sites. Isto gerou uma resposta que não é democratização, apenas concentração. Os sites se agrupam em torno de interesses. São dezenas ou até centenas de sites, cada um com cerca de dez links. A interpretação destas pesquisas mostra que não existe democratização, embora tampouco exista fragmentação. Houve tamanha concentração que não existe democratização? Acredito que estamos em situação muito melhor sem fragmentação. Jenkins: Existe aquela velha previsão sobre of futuro feita por Ithiel de Sola Pool: “Seremos informados que estamos sendo soterrados por informações não digeridas em um vasto quadro negro não editado, e o que a sociedade democrática precisa são princípios organizacionais, consensos e interesses compartilhados. Assim como a presente crítica da sociedade em massa, estas críticas serão apenas parcialmente verdadeiras, mas parcialmente verdadeiras elas poderão ser. Uma sociedade na qual cada pequeno grupo possa facilmente satisfazer seus caprichos terá muito mais dificuldade de mobilizar a unidade”. Este pensamento descreve o comportamento de críticos sociais indecisos em sua posição, que primeiramente estão preocupados com concentração, depois preocupados com fragmentação, e de volta com concentração. Precisamos ser cautelosos em ouvir essas críticas. Uricchio: Cada um de vocês leu o livro do outro. Se tivessem de começar novamente, fariam alguma mudança? Jenkins: Estou interessado nas áreas comercial e amadora da cultura participativa. Acredito, também, que deveria ter falado mais sobre o comportamento fora da cultura popular, embora o outro comportamento cada vez mais se torne importante para meu trabalho. Benkler: Sou muito materialista no tocante a minhas explicações. Poder localizar meu trabalho dentro da cultura teria sido útil, mas teria sido difícil ancorar as explicações

sobre as condições materiais em mutação. Teria sido muitíssimo útil ter isso para poder entender a interseção entre as seções cultural e material e política e econômica. Pergunta: Estou interessado em saber como seus modelos funcionam no processo de apresentar ciências para o público em massa. É muito mais difícil apresentar ciência sem ter grande experiência nessa matéria. Jenkins: A ciência é uma área muito complicada, mas acredito que certamente há espaço para especialistas em cada seção da qual falamos. É preciso reconhecer que falar de temas científicos muito complexos, de cima para baixo, assim como fazem os peritos explicando determinados assuntos a júris em tribunais, não funciona muito bem. Se disponibilizarmos mais informações, pelo menos permitiremos que as pessoas as leiam mais criticamente, mas este é um problema difícil de resolver. Benkler: É importante não comparar nada com utopia ou mídia comercial em massa. Se compararmos a porcentagem de artigos publicados em revistas científicas que discordam do aquecimento global, com a porcentagem de matérias deste assunto com o mesmo ponto de vista na mídia normal, descobriremos que a mídia de massa, na maior parte das vezes, dá um tratamento igual a ambos os lados da questão. Neste caso, estamos vendo um esforço de ser imparcial com ambos os lados de uma questão, que na verdade não merece ter um tratamento imparcial. Conforme vimos anteriormente, a Wikipedia é uma enciclopédia gratuita que possui a mesma qualidade da Enciclopédia Brittanica. Desta forma, é possível traduzir-se o jargão científico sem a tendência da mídia de simplificar ou tornar questões mais ou menos controversiais. Acredito que este é um avanço positivo. Pergunta: Ambos os seus livros concluem com uma chamada à ação. Quais são os obstáculos? Para nós que defendemos a causa, onde poderemos voltar nossas atenções? Benkler: Acredito que um obstáculo crítico são os chamados trusted systems, exigências regulatórias que exigem que os fabricantes transformem computadores em objetos que devem ser utilizados conforme sua intenção original, não da forma que seus proprietários desejam. Isto está sendo proposto e promovido por Hollywood, em razão do fracasso da criptografia via software e da gestão de direitos digitais. O que pode ser feito? A solução pode estar em redes abertas sem fio e redes mesh. Estou um pouco mais otimista que costumava ser, porque existe um grande número de empresas que acreditam que vão ganhar dinheiro resistindo a estes obstáculos. Possivelmente eles não se concretizem. Jenkins: Não acredito que existam quaisquer obstáculos com capacidade para encerrar uma era participativa, a qual chegou para ficar, aparentemente. Os termos da participação estão sendo decididos agora, o que é muito importante. Acredito que os democratas liberais são a maior ameaça à cultura participativa, porque eles querem tomar medidas extremas para limitar a relação dos jovens com a tecnologia, para atender os desejos das super-mães. O consumo foi criminalizado e os adultos agora querem impedir que os jovens tomem parte de uma cultura participativa que é a peça central da interação entre os jovens atualmente.

Pergunta: Acredito que as pessoas às vezes temem exercer sua capacidade política porque já viram outros sendo presos por compartilhar arquivos. Algum dia a lei será um processo de baixo para cima? Benkler: Esta é uma questão profunda em termos da teoria do direito. A lei e o sistema que gera as leis são progressivos ou reativos? Existem estudos que pesquisaram se o caso de Brown v. Board of Education (a decisão tomada pela Suprema Corte americana em 1954 que declarou ilegal a discriminação racial em escolas públicas daquele país) foi de fato decisiva no processo de de-segregação racial, ou se o movimento de direitos civis levou a resultados mais significativos durante a Segunda Reconstrução (o movimento de direitos civis dos negros americanos entre 1955 e 1968, liderado principalmente por Martin Luther King Jr.). Na última década, a lei tem sido reativa e conservativa. A reação entre as práticas sociais e comerciais tem sido a força motriz para levar a lei a este novo estágio. Acredito que esta não é uma questão resolvida dentro da teoria do direito, no tocante aos papéis relativos desempenhados pela ação social e ao relacionamento institucional formal com relação à mudança progressiva dentro da forma que a sociedade age e é governada. David Thorburn: O fato de estatísticas aparentemente indicarem que em uma ou duas gerações não haverá mais leitores de jornal é algo que o preocupa? Haverá espaço para instituições equivalentes aos jornais dentro desta cultura participativa? Jenkins: Na qualidade de alguém treinado para ser jornalista há muitos anos, estou profundamente preocupado com o destino dos jornais e acredito que eles continuarão a desempenhar um papel vital em nossa cultura. A atual situação é saudável, com o poder centralizador da mídia principal e o poder diversificador da blogosfera. Se eu fosse jornalista, eu estudaria a blogosfera para tentar descobrir quais a grupos e quais questões não estou dando a devida atenção. A blogosfera ainda é dependente demais das mídias principais para oferecer o conteúdo do qual falam. Thorburn: Vocês não acham que seria útil se os termos utilizados neste debate não viessem entre aspas? Logicamente, “participativo” é bom, e “top-down” é ruim, mas não sei se isto é uma descrição justa das contribuições feitas à nossa sociedade por jornais regionais ou nacionais, com fazem o New York Times ou o Washington Post. Jenkins: Certamente não estou aqui sugerindo que o jornalista cidadão substituirá os jornalistas profissionais, porque precisamos levar em consideração o treinamento, os recursos e a ética. Os jornais não são puramente top-down, mas a blogosfera está tendo sucesso porque identifica aspectos que não estão sendo levantados pelos jornais. Logicamente, não é possível para um único jornal cobrir tudo, de forma que acredito que a blogosfera acrescenta à variedade de informações que recebemos. Benkler: O New York Times, o Washington Post, e o Wall Street Journal são todos jornais top-down, e veículos da elite, porque damos muito valor ao conhecimento e às ponderações cuidadosas. As elites da riqueza, da inteligência e do poder usam estes veículos para estabelecer uma conversa comum entre elas. A televisão mudou os jornais; a internet mudou os jornais; e eles continuam mudando. Os cidadãos fora da mídia top-down podem tornar-se profissionais comprometidos com os valores jornalísticos. O blog “Talking Points Memo” de Josh Marshall é um exemplo disto. Marshal prova que pode sobreviver sem ganhar milhões e fazendo jornalismo

profissional. Pergunta: Parece que o futuro será algo híbrido entre a mídia de massa e a mídia cidadã. Qual será sua natureza? Jenkins: Esta discussão pode ser encontrada aí fora, para aqueles que não podem estar aqui fisicamente por motivos geográficos. Os webcasts e o OpenCourseWare (OCW) fizeram isto. Podemos desempenhar o papel de intermediadores, para aproveitar a diversidade da internet e ampliar sua mensagem. Temos agora a obrigação de ser educadores de um público maior nesta cultura participativa. Benkler: Acredito que o OCW foi especialmente importante porque tentou ampliar o papel do MIT como um educador público gratuito, em um momento no qual outras universidades buscavam aumentar suas receitas. Jenkins: Acredito na missão do OCW, mas a liderança do MIT tem suas falhas, porque esta instituição não está disposta a tornar o OWC totalmente fair use. Deveríamos estar defendendo a proposta de fair use, que permite que materiais sejam circulados amplamente. Gostaria de dar o devido crédito quando uso material de outras pessoas em meus softwares didáticos. Ainda não pensamos devidamente sobre o significado de ser o centro de uma cultura participativa. É por este motivo que ainda não coloquei meus cursos no OCW.

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