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TEXTOS DE FILIPA MELO, JOSÉ MÁRIO SILVA E ROGÉRIO CASANOVA

PARA ALÉM DOS LIVROS ESCOLARES
NA TEMPORADA DOS LIVROS ESCOLARES, FOMOS À LISTA DOS TÍTULOS SUGERIDOS PELO PLANO NACIONAL DE LEITURA – PARA USO FORA DA SALA DE AULA – E ELEGEMOS CERCA DE TRINTA. SÃO A NOSSA ESCOLHA PARA LEITURA OBRIGATÓRIA COM O APOIO DOS PAIS. FAÇAM O FAVOR DE ALARGAR A LISTA DE COMPRAS.

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8-10 anos
LETRAS & LETRIAS JOSÉ JORGE LETRIA (TEXTO) E ANDRÉ LETRIA (ILUSTRAÇÃO) DOM QUIXOTE Através de espontâneas figuras fonológicas, sintácticas ou semânticas, as crianças procuram reproduzir o mundo da linguagem dos adultos. Então, os adultos surpreendem-se com o mundo da linguagem das crianças. E se um adulto decide brincar ao mesmo jogo? O exercício só funcionará se conseguir «recriar» o estado de liberdade de quem pela primeira vez apreende algo fora de si e o procura verbalizar. Os surrealistas e o espanhol Ramón Gómez de la Serna tentaram-no através de «cadáveres esquisitos» e «greguerías». A partir desses dois exemplos e da convicção de que «o poeta é um farol a iluminar as palavras que ainda ninguém usou», José Jorge Letria e o filho, o ilustrador André Letria, compuseram Letras & Letrias. O desafio criativo de imaginação verbal e visual do livro parte de 26 frases, como «a escuridão é o pijama da noite», «o morcego dorme de cabeça para baixo para ver se, assim, o mundo faz sentido» ou «o amor é o que se diz só para confirmar o que se sente». Achados poético-lúdicos, tão divertidos para as crianças quanto para os adultos. FM A ILHA DO TESOURO ROBERT LOUIS STEVENSON PORTO EDITORA Esta aventura de marinharia e cobiça, publicada por Stevenson em 1883, é o grande arquétipo das histórias de piratas, uma narrativa primorosa que inflamou a imaginação de sucessivas gerações de crianças e adolescentes. No centro de tudo está Jim Hawkins, um jovem grumete que mergulha à força na idade adulta, ao partilhar o convés com homens de barba rija e poucos escrúpulos morais (como Billy Bones, o cego Pew ou o mítico Long John Silver, com a sua perna de pau). Um pouco à semelhança do protagonista de Moby Dick, Hawkins sobrevive ao grande espectáculo da loucura humana, acelerada pela busca insana de um baú cheio de moedas de ouro, e regressa a casa para contar as suas provações, tendo ainda a voz afiada do papagaio de Silver a pairar na sua memória. JMS
revista LER ( setembro 2008 )

PETER PAN
JAMES MATTHEW BARRIE RELÓGIO D’ÁGUA Apesar de a idade de Peter Pan nunca ser mencionada no romance, «entre oito e 10 anos» é uma boa aproximação. Esta será, também, a idade ideal para descobrir a imortal criação de J.M. Barrie (1860-1937), um baronete escocês cujas características físicas e insólitos hábitos sociais tornariam a sua vida, nos dias de hoje, tão juridicamente difícil como a de Michael Jackson. Deformado por décadas de adaptações e merchandising, Peter Pan é um dos arquétipos da literatura universal (juntamente com o monstro de Frankenstein) que menos seme lhanças tem com o material original. Qualquer ser humano sabe que Peter Pan é o rapaz que se recusa a crescer, mas muitos serão surpreendidos pela revelação de que Peter Pan também é o rapaz que se recusa a deixar de ser cretino. (O Capitão Gancho, em comparação, comporta-se apenas como um tio rabugento.) Petulante, egoísta, mal-educado e praticamente suicida, ele é a mórbida encarnação dessa perene fantasia das mães: a «má companhia». Na página, contudo, nunca deixa de ser compulsivamente vívido. E não haverá melhor maneira de viciar uma criança na leitura do que apresentar-lhe alguém tão insuportável quanto ela – mas com a capacidade de voar. RC
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MAFALDA – I
QUINO TEOREMA Transferida para uma escola da área metropolitana de Lisboa, Mafalda seria submetida a bullying numa escala épica. Moralismos ecológicos, preocupações com a paz mundial ou alusões crípticas a figuras da política internacional não são a melhor forma de angariar amigos no recreio; não passaria muito tempo até que um dos seus inúmeros globos terrestres lhe fosse arremessado à cabeça. Criada nos anos 60, Mafalda talvez não tenha envelhecido da melhor forma. Já muitos acusaram o humor de ser demasiado datado (ou, mais intrigante, «demasiado argentino»), mas a sua contínua popularidade universal parece contrariar essa ideia. Há muitas tiras banais e muitas fórmulas repetidas de álbum para álbum, mas também há inegáveis recompensas. E tem a grande virtude de todas as bandas-desenhadas de ensemble: por muito que se antipatize com a prota gonista, há sempre um ou outro personagem secundário que redime a obra inteira. Particularmente recomendável é Miguelito, um flâneur precoce com um cacho de bananas na cabeça, que tenta colocar as suas impressões digitais num gira-discos, «só para tirar uma dúvida». RC
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OS MISERÁVEIS ROMANOS TERRY DEARY EUROPA-AMÉRICA Horrivelmente divertida, terrivelmente instrutiva, repleta de ilustrações humorísticas, situações e descrições inconvenientes e de pormenores «nojentos». É essa a imagem de marca da colecção de livros ilustrados de não-ficção infanto-juvenil «Histórias Horríveis», criada pelo inglês Terry Deary (n. 1946), ex-actor, director e professor de teatro e gestor de museus. Desde o primeiro sucesso de vendas, em 1993, Deary tornou-se uma máquina de produção de best-sellers (vai em 185), ao ritmo de mais de uma dezena por ano. Pelo caminho, mesmo que alguns a contragosto, os pedagogos reconheceram-lhes qualidade «científica» e adoptaram-nos para os programas. «Histórias Horríveis» divide-se por várias subséries que têm por denominador comum uma espécie de (des)dramatização criativa do conhecimento. Esquadrinhando os bastidores do saber e da sua transmissão convencional, Deary explora a atracção das crianças pela transgressão. Assim assume, também como pose mediática, um radical questionamento do papel da escola na aquisição de instrumentos cognitivos práticos para a vida. FM JANELA LARGA LEMONY SNICKET TERRAMAR Tu Escolhes, último livro de Teresa Guedes ilustrado por Rita Oliveira, podia emprestar o título a uma lista de títulos para jovens leitores que, mais cedo ou mais tarde, conquistam o seu primeiro território de liberdade. Podem começar por Janela Larga – em Setembro é publicado A Aldeia Infame, o sétimo dos 13 títulos desta colecção intitulada «Uma Série de Desgraças». Lemony Snicket, pseudónimo de Daniel Handler (n. 1970), é o misterioso investigador e narrador das desventuras dos três órfãos Baudelaire. Sobrevivem a adultos excêntricos discutivelmente fiáveis e ao conde Olaf, mestre em disfarces, perfídias e fugas, que tenta apoderar-se da fortuna que hão-de herdar com a maioridade da irmã mais velha. Por agora têm apenas a inteligente capacidade inventiva de Violet, o saber enciclopédico de Klaus, os

dentes da pequena Sunny e a união, infinita paciência e boa educação. Snicket desaconselha a leitura a quem gostar de histórias felizes. Sílvia Alves ENCICLOPÉDIA PRÉ-HISTÓRICA DINOSSÁURIOS ROBERT SABUDA E MATTHEW REINHART ASSÍRIO & ALVIM Há uns anos, em parte devido ao sucesso imenso do filme Parque Jurássico, de Steven Spielberg, os dinos sáurios entraram em força no imaginário infantil e nunca mais de lá saíram. Hoje em dia, qualquer miúdo ou miúda de oito anos sabe perfeitamente o que diferencia um Triceratops de um Tyrannossaurus Rexe a erudição paleontológica dos petizes chega até a esmagar adultos com razoável cultura científica. Foi justamente a pensar nas crianças, sem deixar de piscar o olho aos mais velhos, que Robert Sabuda e Matthew Reinhart, dois especialistas na arte do pop-up (aquelas figuras tridimensionais que saltam literalmente das páginas), criaram este livro. Além da informação relevante sobre os vários tipos de dinossáurios, há 35 «esculturas» de papel que ora maravilham o leitor desprevenido, ora o assustam (abra-se, por exemplo, as páginas dedicadas aos «carnívoros» para ver o que acontece). A adaptação para português foi feita pelo Prof. Galopim de Carvalho, o que é sempre uma garantia de qualidade. JMS

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ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS
LEWIS CARROLL AMBAR Era uma vez uma menina que se pôs a cor rer atrás de um coelho branco e caiu num buraco. No fundo desse buraco há um mundo em que as coisas mais extraordinárias podem acontecer e em que a lógica se suspende. Alice aumenta e diminui de tamanho, participa num chá em que o tempo parou, entra em árvores, responde a adivinhas e encontra os personagens mais inverosímeis: do gato de Cheshire (que deixa o sorriso a pairar quando desaparece) ao Chapeleiro Maluco e à Rainha de Copas (com a sua mania
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de decapitar toda a gente). Poucos livros terão marcado tanto o nosso imaginário colectivo como este devaneio onírico de Lewis Carroll (1832-1898), dado à estampa pela primeira vez em 1865. A sua influência estende-se a outras artes (cinema, música, artes visuais, teatro) e a várias áreas científicas. A versão escolhida pelo PNL tem magníficas ilustrações de Lisbeth Zwerger, mas para ler o texto na íntegra é melhor optar pela edição da Relógio d’Água, traduzida por Margarida Vale de Gato. JMS

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A VIÚVA E O PAPAGAIO VIRGINIA WOOLF RELÓGIO D’ÁGUA As legiões de adeptos pequenotes de Virginia Woolf (1882-1941) que peguem em A Viúva e o Papagaio à espera de um ATL modernista sentir-se-ão cruelmente defraudados. A viúva em questão não se lança num monólogo interior de 20 páginas enquanto poda roseiras apodrecidas, nem o papagaio se revela um suicida verboso, assombrado por memórias de guerra e dado a divagações sobre a arte pelo amor à arte. Escrita num estilo simples e dedicada ao seu sobrinho (e futuro biógrafo) Quentin Bell, esta é uma pequena fábula didáctica sobre as recompensas – espirituais e financeiras – da bondade para com os animais. A moral da história é de fácil assimilação: nunca vendam uma ave psitaciforme por meia coroa. Meia coroa, aliás, não chegaria sequer para adquirir o livro, cujas 35 páginas estão disponíveis pela inacreditável quantia de 15 euros. Dois euros e 33 cêntimos por página: um rácio que irá certamente chocar todos aqueles que, mesmo depois de lerem Virginia Woolf, ainda se sentem capazes de fazer contas de cabeça. RC A VOLTA AO MUNDO EM OITENTA DIAS JÚLIO VERNE LIVROS DO BRASIL Os romances de Júlio Verne (1828-1905) são conhecidos, pelo menos no mundo anglosaxónico, como repositórios de má escrita e iliteracia científica. (Os franceses culpam as más traduções, mas essa é provavelmente a sua desculpa para tudo, desde o caso Dreyfus a Johnny Hallyday.) Se Peter Pan é a visão de um adulto do que seria uma infância perpétua, A Volta ao Mundo em Oitenta Dias é uma visão infantil do que deveria ser a idade adulta. Phileas Fogg, dono de uma inexplicável fortuna, planeia meticulosamente os seus dias em torno da actividade central da sua existência, que é não fazer nada. Num momento de distracção, envolve-se numa aposta ridícula, e propõe-se dar a volta ao mundo nos proverbiais 80 dias.
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Muitos elogios são dirigidos à sua pontualidade, inteligência e estupenda capacidade de organização, mas grande parte dos problemas com que se depara acabam por ser resolvidos através de sucessivas aplicações de di nheiro. E o sucesso final é garantido apenas depois da intervenção desse improvável deus ex machina: o fuso horário. Escrito com um entusiasmo contagiante, o livro acaba por promover as duas virtudes essenciais de qualquer adulto ajustado: montes de massa e um valete competente. RC OS DA MINHA RUA ONDJAKI CAMINHO «Sem dificuldades de palavras compridas» e exaltando o prazer de insólitas experiências infantis, como misturar batata-doce e tomate, banana com pão ou manga verde com sal. Os da Minha Rua, do angolano Ondjaki (n. 1977), oferece «uma poesia mastigada tipo segredos de fim de tarde». São 22 curtas histórias-memórias, registos da infância do autor em Luanda nos anos 80. Longe do país desesperançado da miséria e da guerra civil, Ndalu (Ondjaki) é o pequeno herói de um tempo que passa devagar e em segredo. Acompanhamo-lo, em registo coloquial, melódico e linguisticamente criativo, entre as rotinas do bairro poeirento da avó Nhé, a Escola Juventude em Luta onde a professora Genoveva ensina a ler «sem ter medo de chegar ao fim», as brincadeiras que os adultos espreitam «sem corrigir nada», os comícios e o camarada Presidente Neto, os beijinhos na boca e as telenovelas brasileiras. Com certeza não será difícil para as crianças identificarem-se com este tempo de descobertas e inquietações, sobretudo com os risos «como mil cócegas espalhadas no ar» e neste livro. FM SANDOKAN, O TIGRE DA MALÁSIA EMILIO SALGARI VERBO Incapacitado de ingressar na marinha por causa da má prestação escolar, o jovem Emilio Salgari (1862-1911) decidiu-se pela escrita como passaporte alternativo para explorar o mundo. Autor de mais de 200 narrativas passadas nos cenários e culturas mais exóticos e distintos, nunca chegou a viajar para além do Adriático
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CALVIN & HOBBES HÁ MONSTROS DEBAIXO DA CAMA?
BILL WATERSON GRADIVA Um dia, enquanto folheava o Público, Agostinho da Silva explicou-me que começava sempre a ler o jornal de trás para a frente. «É para fugir à hierarquia das notícias?», perguntei-lhe. «Não», respondeu, «é porque a primeira coisa que me interessa ler – e às vezes a única – está na última página». Referia-se à tira Calvin & Hobbes, para ele «mais filosófica do que muitos livros de filosofia». As histórias do miúdo com excesso de imaginação e do seu tigre de peluche sarcástico conseguem de facto essa proeza: além de serem puro divertimento, elevado aos píncaros pela mestria técnica de Bill Waterson (capaz de transformar cada prancha desenhada num microcosmos), são também dispositivos para pensar, pequenas máquinas de sentido que nos forçam a pôr em causa a maneira como olhamos para o mundo. E não há nada de que os adolescentes e pré-adolescentes mais precisem do que dessa disponibilidade para ver as coisas de outro modo. JMS

e suicidou-se aos 49 anos, na miséria. No entanto, os seus livros proporcionariam inesquecíveis descobertas adolescentes de «outros mundos» a leitores como Jorge Luis Borges, Che Guevara, Umberto Eco, Gabriel García Márquez ou Pablo Neruda. Para os portugueses, ler Salgari hoje, entre os 10 e os 12 anos, será sem dúvida uma experiência diferente da vivida por gerações anteriores, saudosas dos emblemáticos exemplares da colecção «Salgari» da Livraria Romano Torres. É na era da net, dos chats, das playstations, das viagens low-cost e dos wrestlers, que se intensifica ainda mais a importância do contacto com séries como «Sandokan, o Tigre da Malásia» ou «O Corsário Negro»: verdadeiras aventuras de ficção científica e de evasão literária. FM

HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL J.K. ROWLING PRESENÇA Harry Potter e a Pedra Filosofal, primeiro dos sete volumes da série que, ao longo da última década, colocou J.K. Rowling no pódio da mais bem paga autora de sempre (300 milhões de exemplares vendidos). Década de 90 do século XX, Inglaterra. Quase a fazer 11 anos, o órfão Harry Potter contacta pela primeira vez com o universo paralelo da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts e o poder maligno do bruxo Lord Voldemort. Seguir-se-ão seis anos de aprendizagem, ao ritmo de um para cada livro. Para os seus livros que crescem com o leitor-alvo, Rowling convocou um caldeirão de influências: da tradição inglesa de literatura fantástica infanto-juvenil ao bildungsroman (romance de formação) ou ao policial dedutivo, dos temas clássicos da magia do amor e da amizade e das dicotomias bem/mal, vida/morte, à contemporânea procura de formas alternativas de espiritualidade. Inabalável apesar de julgamentos negativos como o do papa da crítica Harold Bloom, a força da fórmula Harry Potter resume-se na expressão comum a uma legião de fãs: prazer na leitura. FM
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POR FAVOR, NÃO MATEM A COTOVIA HARPER LEE DIFEL Uma divertida introdução ao mundo maravilhoso da discriminação racial, Por Favor, Não Matem a Cotoviaé um best-seller mundial há 48 anos. Publicado no auge das lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos, o livro viria a completar o circuito completo da censura imbecil. Condenado, nos anos 60, por reaccionários do Alabama, que não achavam bem que uma personagem branca sentisse atracção física por um negro, viu-se, já nos anos 90, alvo de patrulheiros com sensibilidades sobredesenvolvidas, desgostosos com as 48 vezes que a palavra «nigger» é utilizada. (Sim, há quem as conte. Há sempre quem as conte.) Harper Lee (n. 1926) não voltaria a publicar uma linha – um nobre exemplo, infelizmente não seguido pelo seu amigo de infância Truman Capote. Estranhamente, chegou a haver rumores de que seria ele o verdadeiro autor de Por Favor, Não Matem a Cotovia. A ausência de gatos simbólicos e homossexuais multimilionários deveria servir como prova inequívoca de que Capote não teve nada a ver com isto. RC O TESOURO SELMA LAGERLÖF CAVALO DE FERRO Antinaturalista, apaixonada pelas sagas e lendas da Suécia natal, Selma Lagerlöf (1821-1880) foi, em 1909, a primeira mulher a receber o Prémio Nobel da Literatura. A conquista do título deve-se em grande parte à autoria de A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia, uma das obras-primas absolutas de literatura infanto-juvenil, hoje incluída na generalidade das bibliografias escolares europeias. Parece insólito que o PNL não recomende a obra nem para a sala de aula, nem para leitura autónoma. Em alternativa, propõe O Tesouro, uma novela estranha e poderosa sobre os destinos do peixeiro Torarin e da órfã Eisalill, adoptada pelo poderoso padre Arne, assassinado por causa de um tesouro em moedas que guardava numa arca. Elogie-se, contudo, a escolha de uma obra disponível numa boa tradução a partir da língua original (esta por Liliete Martins), a lembrar que esse deve ser também um dos critérios de selecção e exigência de um bom plano nacional de leitura. FM
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AS MEMÓRIAS DE SHERLOCK HOLMES
ARTHUR CONAN DOYLE EUROPA-AMÉRICA Narcisista, maníaco-depressivo, cocainómano e solteiro; Sherlock Holmes é o modelo ideal para os anos difíceis da puberdade. Tradicionalmente considerado o primeiro detective moderno (completo com toda a parafernália laboratorial de um CSI London), Sherlock é, acima de tudo, um prodígio cerebral, capaz de deduzir, a partir do mais inócuo naipe de evidências, toda a verdade sobre uma determinada situação. Isto, diga-se, poderá não ser muito impressionante para crianças nesta faixa etária, uma vez que as mães demonstram frequen temente a mesma assustadora capacidade. A presente colectânea inclui a mais infame das suas aventuras. «O Problema Final» relata a morte de Holmes e do seu arqui-inimigo, o Dr. Moriarty. Quando a história foi publicada, o volume de boicotes, ameaças e correspondência indignada foi tal que Arthur Conan Doyle (1859-1930) cedeu, ressuscitando o herói algum tempo depois. Talvez os mesmos métodos possam ser usados para intimidar as Publicações Europa-América: a edição recomendada pelo PNL está esgotada há vários anos, e não há planos para uma reedição. RC
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mente por tudo remeter de forma tão clara para o universo da escritora, das relações familiares observadas à lupa ao domínio absoluto da língua portuguesa, que este livrinho pode ser uma excelente porta de entrada para a obra da maior autora portuguesa viva. JMS CONTOS DE MISTÉRIO OS ÚLTIMOS CASOS DE SHERLOCK HOLMES ARTHUR CONAN DOYLE EUROPA-AMÉRICA UM CRIME NO EXPRESSO DO ORIENTE AGATHA CHRISTIE ASA Dos precursores «contos de raciocínio» de Edgar Allan Poe (indicados para leitura orientada na sala de aula no 9.° ano) aos «romances de detective» de Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930) e aos policiais-puzzle «whodunit» de Agatha Christie (1890-1976). Destacando o papel crucial dos personagens C. Auguste Dupin, Sherlock Holmes e Hercule Poirot, as listas do PNL sugerem uma boa abordagem à evolução do romance policial até à idade de ouro dos anos 40. Pela dedução, mas também pelo espiritualismo ou pelo nonsense, as obras escolhidas representam um convite a uma particular ginástica de abstracção da realidade. Para mais, nobilitam a importância do género policial e apontam para a aceitação de que o contacto com representações da morte, do crime, ou mesmo do terror, corresponde a uma necessidade instintiva do adolescente. Afinal, como questionou Agatha Christie na sua autobiografia: «Não precisarão os seres humanos de uma certa dose de perigo nas suas vidas? Alguma criança gostaria da história do Capuchinho Vermelho se dela fosse retirado o lobo?» FM

©Candela Foto Art / Kreuziger/Getty Images

HISTÓRIA GERAL DOS PIRATAS
CAPITÃO JOHNSON CAVALO DE FERRO Escrita no dealbar do século XVIII (1724), debaixo de um misterioso pseudónimo (que muitos acreditaram esconder nem mais nem menos do que Daniel Defoe, autor de Robinson Crusoe), esta foi a primeira obra de envergadura a abordar os feitos, vilanias, rocambolescas aventuras, roubos e assassínios dos grandes piratas, esses homens que prezavam acima de tudo a própria liberdade e afogavam os princípios morais em tonéis cheios de rum. É, ainda hoje, uma verdadeira bíblia que ordena as «vidas» dos mais temíveis marinheiros de todos os tempos. Alguns desconhecidos, como o Major Bonnet e o Capitão Vane. Outros lendários, como o Capitão Kidd ou Mary Read. Profusamente ilustrada, nomeadamente com estampas do pintor Howard Pyle, esta edição da Cavalo de Ferro faz justiça à surpreendente qualidade literária dos textos originais (a tradução é de Nuno Batalha) e permite-nos entender como era difícil e arriscada a vida no mar há três séculos. JMS

VENTO, AREIA E AMORAS BRAVAS AGUSTINA BESSA-LUÍS GUIMARÃES EDITORES Há títulos que se iluminam quando os dizemos em voz alta. Vento, Areia e Amoras Bravas é um desses títulos: «todo ele mexe e convida a dançar e arrasta o movimento da juventude». Segunda parte da história Dentes de Rato (sendo «Dentes de Rato» a alcunha de uma rapariga do Norte chamada Lou48

rença), o livro acompanha as agruras e alegrias desta personagem tipicamente agustiniana. A prosa é um primor de elegância e estilo, a que não faltam sequer os habituais aforismos da autora de A Sibila. Uma criada espanhola diz que «a esperança é o pão dos coitados»; certos olhares são «como uma lâmina a cortar um papel de seda, sem deixar vestígios de ele ter sido cortado». Lourença cresce, absorve tudo o que vê e torna-se escritora. A sua caligrafia parece «renda de Bruxelas» (como a de Agustina). E é justa( setembro 2008 ) revista LER

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OS MISERÁVEIS
VICTOR HUGO PORTO EDITORA Longo, com uma estrutura convencional, mas complexa, muito denso em especifici dades linguísticas e em referências culturais e históricas (França, de 1815 a 1832). Contudo, Os Miseráveis, do líder do movimento romântico francês Victor Hugo (1802-1885), mantém-se imperturbável na maior parte das listas de leitura escolar obrigatória ou facultiva dos alunos europeus ou norte-americanos. A escolha é politicamente correcta e justifica-se pela intemporalidade dos temas centrais do
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romance. Como Jean Valjean e a França revolucionária, todo o homem e toda a nação é passível de redenção moral. O bispo de Digne, Valjean, Cosette e Marius provam que o amor salva. A lei só serve quando defende e promove o bem e a igualdade, e Javert só podia mesmo suicidar-se no final. No encontro com cada leitor, mantêm-se activos os objectivos de Victor Hugo: «Venho destruir a fatalidade humana, condeno a escravatura, persigo a miséria, instruo a ignorância, trato a doença, ilumino a noite, odeio o ódio. Eis o que sou e por que escrevi Os Miseráveis.» FM

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O RAPAZ DO PIJAMA ÀS RISCAS JOHN BOYNE ASA Foi com este livro de 2006 que John Boyne (n. 1971) se tornou uma estrela literária na Irlanda, onde o romance ficou 14 meses consecutivos no primeiro lugar do top de vendas. O êxito internacional que se seguiu foi igualmente merecido, porque a tragédia de Bruno é uma das mais belas e pungentes aproximações ao tema do Holocausto feitas nas últimas décadas. Filho do homem que geria Auschwitz, Bruno olha para a fábrica da morte com os olhos de uma criança, incapaz de perceber a dimensão (ou sequer a possibilidade) de uma tamanha ignomínia. Um dia, aproxima-se da vedação que separa os funcionários do campo dos presos com fatos às listas e faz amizade com um rapazinho judeu. O desfecho, brutal, não convém revelá-lo, para «não prejudicar a experiência da leitura» (como se diz na contracapa). Uma coisa é certa: esta espécie de parábola pode não narrar na primeira pessoa factos reais que aconteceram a pessoas concretas (como o Diário de Anne Frank) mas, enquanto denúncia do nazismo, é tão poderoso e eficaz quanto aquele. JMS CONTOS DA SÉTIMA ESFERA MÁRIO DE CARVALHO CAMINHO Se com o PNL se procura incutir nos jovens o prazer da leitura, então este brilhante volume de contos, com que Mário de Carvalho se estreou literariamente (em 1981), é uma escolha na mouche. Quase sempre num registo próximo do fantástico, o narrador revela um eclectismo assinalável, que lhe permite saltar no tempo e no espaço com enorme facilidade. Tão depressa está a falar de manifestações divinas em civilização arcaicas do Próximo Oriente como da abordagem de um navio português por piratas do mar da China. Ora acompanha a tragédia de um homem que não se consegue livrar do seu anjo-da-guarda, ora nos mostra como uma flecha disparada para as alturas pode fazer com que todos os homens percam as suas sombras. Cereja em cima do bolo, lá mais para o fim aparece um dos melhores contos que já li em língua portuguesa («Coleccionadores»). Estas 206 páginas continuam a ser, 27 anos depois, um regalo para quem gosta de literatura. E quem julga que não gosta, com elas aprenderá a gostar. JMS
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AS AVENTURAS DE TOM SAWYER
MARK TWAIN DOM QUIXOTE Não é fácil dizer o que quer que seja sobre As Aventuras de Tom Swayer sem começar por notar, de sobrolho franzido, a ausência de qualquer afirmação de Hemingway sobre o facto de toda a moderna literatura americana começar aqui. No consenso crítico, Tom Sawyer está para Huck Finn um pouco como Santana Lopes está para Sá Carneiro: um é um peso-pluma, carismático por todos os motivos errados; o outro foi raptado pelo cânone, carregando nos ombros demasiado peso simbólico. O pathos pode estar todo acumulado no seu parceiro de zeitgeist, mas o défice de complexidade literária é compensado com uma panóplia de indiscutíveis virtudes: leveza, inocência, generosidade e humor. Algumas das passagens fazem parte da memória comum – como aquela em que o protagonista se livra de pintar uma cerca através de um engenhoso expediente retórico posteriormente adoptado pelo Conselho de Segurança da ONU. Em vez da edição da Porto Editora recomendada pela comissão pedagógi ca, é aconselhável ler uma versão com o texto integral, até para que não se perca uma única intervenção de Muff Potter, o pescador bêbedo que melhora significativamente todas as cenas em que aparece.» RC
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AVENTURAS DE HUCKLEBERRY FINN MARK TWAIN VEGA Não é fácil dizer o que quer que seja sobre As Aventuras de Huckleberry Finn sem começar por repetir a peremptória afirmação de Hemingway: to da a moderna literatura americana começa aqui. Muitos académicos de joelhos trémulos validaram enfaticamente essa teoria. O livro exibe todas as características associadas à obra-prima que perdura: uma linguagem recém-nascida; um protagonista universal, mas que consegue escapar à clausura do simples arquétipo; e um soberbo símbolo tutelar – o Mississípi. Exibe ainda uma vantagem considerável sobre muitos outros tratamentos literários do racismo: Mark Twain (1835-1910) nunca deixa que as boas intenções asfixiem moralmente a narrativa. Talvez por isso também tenha sido sujeito, tal como o livro de Harper Lee, a periódicas acusações de falta de sensibilidade (o inventário de palavras problemáticas atinge, neste caso, as centenas). Haverá, ainda assim, poucos clássicos me lhor apetrechados para inaugurar uma paixão pelos clássicos. (Nota para a pequenada: o capítulo XVIII termina com um tiroteio, no qual uma família inteira é massacrada.) RC

A PÉROLA JOHN STEINBECK EUROPA-AMÉRICA John Steinbeck (1902-1968) foi, durante décadas, um dos autores mais aclamados, mas também mais contestados e banidos dos currículos de leitura escolar nos EUA. Nobel da Literatura em 1962, cresceu numa família pobre de origens alemã e irlandesa, o que o fez colocar no centro dos objectivos literários a percepção dos mecanismos de estratificação social e de (in)adaptação do homem ao meio social e biológico. O romance As Vinhas da Ira (1939, Prémio Pulitzer) é o melhor exemplo dessa preocupação, com um impacto na discussão pública dos direitos raciais e das reivindicações de populações desfavorecidas apenas comparável ao de A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe (também estranhamente ausente do PNL) ou O Pequeno Grande Homem, de Thomas Berger. A parábola curta A Pérola é a adaptação pessimista de uma história verídica que Steinbeck escutou em La Paz, e trata de como a descoberta de uma pérola valiosa pode destruir a vida de um miserável pescador mexicano-indiano. Espiritualidade, cobiça e opressão social são alguns dos múltiplos temas de discussão que suscita. FM

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A partir dos 16 anos
NA PATAGÓNIA BRUCE CHATWIN QUETZAL Diz a lenda que Bruce Chatwin (1940-1989) abandonou o seu lugar de jornalista na Sunday Times Magazinecom o mais lacónico e libertador dos telegramas: «Fui para a Patagónia.» A Patagónia era o outro lado do mundo, os antípodas, um lugar extremo, uma espécie de utopia do viajante. Depois de deambular durante meses pela região, Chatwin fixou as suas memórias da jornada num livro que de certa forma reinventa o conceito de literatura de viagens. Com capítulos curtos e uma escrita de precisão fotográfica, Na Patagóniacruza todo o tipo de informações, evocando ao mesmo tempo figuras míticas que por ali andaram noutros tempos (a dupla Butch Cassidy-Sundance Kid, por exemplo) e as vidas de pessoas simples que encontrou no seu caminho. O livro foi publicado em 1977, antecipando de certa forma o espírito de algumas obras-primas que escreveu mais tarde, como O Canto Nómadaou O Que Faço Eu aqui?. JMS STARDUST. MISTÉRIO DA ESTRELA CADENTE NEIL GAIMAN EDITORIAL PRESENÇA A capa do livro é a primeira aposta na atenção dos leitores. À semelhança do que foi feito em várias traduções, Stardust reproduz, nesta segunda edição, os personagens do filme homónimo que estreou este ano. E este pode ser um bom começo para a vasta obra de Neil Gaiman (n. 1960), dividida por diferentes géneros, adaptações para cinema e muitos prémios. Tristan Thorn vive em Wall, uma aldeia cercada por um muro. Do outro lado, um mundo mágico que aflora, de nove em nove anos, num mercado junto a uma fenda ciosamente guardada ao longo dos tempos. Para conquistar a bela Vitória, Tristan atravessará o muro pela segunda vez, em sentido contrário – e saberemos porquê. Encontrará Yvaine, a estrela, e muitos habitantes desse mundo mágico. Na escrita de Gaiman, todos os personagens têm individualidade. Podem cruzar a narrativa como uma estrela cadente mas o seu brilho permanece. A magia deste livro é capaz de deixar Harry Potter para trás como leitura para os mais novos. Sílvia Alves
revista LER ( setembro 2008 )

AS NEVES DO KILIMANJARO
ERNEST HEMINGWAY LIVROS DO BRASIL Este livro é uma colecção de histórias. Algumas das histórias são muito boas. Outras não. A história que dá título ao livro não é muito boa. É sobre a morte. No fundo, são todas sobre a morte. Ernest Hemingway (1899-1961) era um homem. Para se ser homem é preciso pensar na morte, é preciso saber morrer. Hemingway via os velhos no canto da taberna e pensava na vida que tinham tido e na morte que os esperava. Pedia outra bebida e falava de touros. A tourada é uma celebração da vida, mas também é uma celebração da morte. Lá fora a chuva começa a cair. O livro tem muitos pontos finais. Algumas vírgulas, mas não muitas; pontos e vírgulas, nem vê-los. As crianças vão adorar. Os professores das crianças também. Os debates literários nas aulas nunca mais serão os mesmos. «Qual é o tema?» «Não sei. Tu sabes qual é o tema?» «Também não sei. Repara como chove.» De facto, chove bastante. Uma vez, em África, Hemingway deu um tiro num adjectivo. O adjectivo ficou deitado no capim a contorcer-se. E depois expirou. Morreu com dignidade. Muitos anos depois, Hemingway ainda o odiava, mas também sentia a sua falta. Lá fora chove torrencialmente. RC
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Notas sobre um
Com o brilho dos verdadeiros sábios, conseguiu transformar um papão num tema apaixonante e esse não será, decerto, o menor dos seus méritos. Em 2006, publicou este livro epistolar em que se corresponde com uma rapariga imaginária chamada Meg, partilhando as suas ideias sobre temas tão diversos como a presença da Matemática na vida quotidiana, os problemas que há séculos desafiam os melhores cérebros, o papel dos computadores na investigação moderna, a importância das demonstrações matemáticas ou a melhor forma de organizar um percurso académico. O estilo é acessível, directo, atractivo. Em mais do que um momento, o leitor identifica-se tanto com Meg que quase deseja seguir os seus passos na via crucis dos aspirantes a matemáticos, mesmo sabendo que já nem consegue resolver uma equação de segundo grau. JMS UMA CANA DE PESCA PARA O MEU AVÔ GAO XINGJIAN DOM QUIXOTE Distante e «estranha». Para muitos adolescentes, a realidade histórica e contemporânea de países não-ocidentais como a China não passa de uma incógnita, não solucionada ao longo do currículo escolar, à excepção de algumas, poucas, noções extemporâneas e fugazes. Pouco aberto a uma pedagogia multicultural e multiétnica, demasiado focado na realidade nacional, o ensino português ainda não forma verdadeiros cidadãos do mundo, que o questionem a partir da diferença. Elogiem-se portanto pequenos sinais contrários, como a recomendação da leitura autónoma deste Uma Cana de Pesca para o Meu Avô, do primeiro Nobel chinês, o dissidente Gao Xing-jian (n. 1940, cidadão francês desde 1997). Em seis contos para um volume espesso e uma estética inimitável, Xingjian descreve a reacção a um acidente de viação, a ansiedade numa noite de núpcias, a perenidade dos laços entre dois amigos, a expectativa da morte ou apenas o quotidiano mais comezinho. Longe da «cor local», mostra a China (o mundo) a partir de buscas existenciais indeterminadas, cruzamentos poéticos da sensibilidade moderna com a tradição chinesa. FM

Escolher é sempre difícil, mas deve-se correr riscos. No caso das obras do Plano Nacional de Leitura, vale a pena fazer uma avaliação dos cerca de 200 títulos seleccionados.
Das centenas de livros recomendados este ano, pelo PNL, «para leitura autónoma e/ou com apoio do professor ou dos pais», pediram-me que seleccionasse dez. À partida, a tarefa parecia fácil: era só identificar os melhores entre os melhores. Mas foi tudo menos fácil. A longlist (chamemos-lhe assim) acabou por resumir-se, e com muito boa vontade, a uns 15 títulos. Se um dos objectivos do plano – elevado a «desígnio nacional» – é fazer com que os jovens desfrutem das «grandes obras da Literatura», o mínimo que se pode dizer é que a escolha feita por uma «equipa de especialistas» acerta quase sempre ao lado. O problema não é haver muito Harry Potter e Alice Vieira, que são perfeitos para «suscitar adesão do maior número possível de leitores» e bastante adequados aos

O DEUS DAS MOSCAS WILLIAM GOLDING TEXTO EDITORA Num território inóspito, onde as ameaças são múltiplas e os recursos são escassos, um grupo de crianças divide-se em dois gangues rivais, revertendo a um estado pré-civilizacional e envolvendo-se em actos de brutalidade hobbesiana. O cenário é familiar para qualquer leitor do Correio da Manhã, mas William Golding (1911-1993) decidiu situar a sua versão numa ilha perdida no Pacífico, e não numa escola secundária em Sacavém. Tanto o cenário paradisíaco como o tom alegórico devem apelar aos fãs da série Lost – desde que não se importem de seguir, uma vez sem exemplo, um enredo não-soporífero. De interesse formativo para futuros pessimistas profissionais, O Deus das Moscas tem a pior opinião possível sobre a espécie humana. O princípio filosófico que coordena o desenrolar da narrativa pode ser encapsulado num singelo epigrama: «Rousseau era um idiota.» O romance também desmonta uma falácia muito popular nos recreios nacionais: por melhor que a ideia pareça em determinadas alturas, bater no miúdo gordo dos óculos raramente funciona como uma solução milagrosa para todos os problemas. RC CARTAS A UMA JOVEM MATEMÁTICA IAN STEWART RELÓGIO D’ÁGUA Ian Stewart é um professor da Universidade de Warwick (Reino Unido) que se tornou conhecido enquanto divulgador científico, sobretudo de questões relacionadas com o mundo da Matemática.
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Se um dos objectivos do PNL é fazer com que os jovens desfrutem das «grandes obras da literatura», acerta quase sempre ao lado.

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grupos etários abrangidos. O problema é a presença excessiva de autores medianos ou medíocres, como António Mota e Maria Teresa Maia Gonzalez, face à escassez de verdadeiros clássicos da literatura infanto-juvenil. Dito isto, vale a pena saudar a inclusão de Sandokan, o Tigre da Malásia, de Emilio Salgari, que permitirá decerto a partilha de entusiasmos e reminiscências com as gerações mais velhas. Incompreensível, seja a que luz for, é a aposta da dita «equipa de especialistas»
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em livros que são manifestamente cartas fora do baralho. Refiro-me em concreto a três: Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach (leram bem: Fernão Capelo Gaivota); Os Portugas no Dakar, de Elisabete Jacinto (uma BD manhosa que faz publicidade ostensiva, na capa, ao patrocinador oficial da piloto de camiões: uma marca de analgésicos para as dores menstruais); e O Meu Livro de Patins em Linha, de Detlev Patz, que suponho ser a me-lhor forma de pôr os miúdos a rolar para longe das bibliotecas. Mas indesculpável mesmo é o chorrilho de gralhas que infesta estas listas destinadas a orientar professores e pais. Numa das referências, Ondjaki passa a «Onjaki». Noutra, Marion Zimmer Bradley transforma-se em «Marian Dimmer Bradley». Já para não falar dos títulos mal transcritos. São lapsos? Sim, mas lapsos que não se admitem em quem se propõe «elevar os níveis de literacia dos portugueses». José Mário Silva por exemplo, contra a inclusão de As Brumas de Avalon, cuja autora é identificada como «Marian Dimmer Bradley». Mas o mais persuasivo é seguramente o argumento da redundância: qualquer aluno do ensino secundário já leu, está a ler, ou irá ler As Brumas de Avalon. Na mais remota das hipóteses, namora com alguém que já leu, está a ler ou irá

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A comissão pedagógica do PNL efectuou louváveis diligências no sentido de polvilhar a selec ção com escolhas para manter toda a gente indignada.

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À terceira página, uma nave espacial desce dos céus e aterra numa pequena aldeia gaulesa que resiste ainda e sempre ao invasor. Esta imagem lamentável pode ser encontrada em O Céu Cai-lhe em cima da Cabeça, a 33ª aventura de Astérix, que a comissão pedagógica atribui ominosamente a «R. Gosciny [sic] e Outro». Uma vez que Goscinny faleceu 23 anos antes da publicação do álbum, podemos, de consciência tranquila, culpar o Outro. As senilidades de Uderzo (em franco declínio criativo desde a viragem do século) têm todo o direito a poluir as livrarias, mas porquê envenenar os jovens contra a melhor banda-desenhada de todos os tempos en caminhando-os precisamente para o seu pior exemplar? Nenhuma lista deste género pode, evidentemente, almejar ao consenso. Nesse sentido, a comissão pedagógica do PNL efectuou louváveis diligências no sentido de polvilhar a selecção com escolhas irracionais em número suficiente para manter toda a gente indignada. Muitos argumentos podem ser montados,
revista LER ( setembro 2008 )

ler As Brumas de Avalon. Qualquer aluno do secundário sabe o enredo – e já aprendeu a grafar correctamente o nome de Marion Zimmer Bradley. A escolha mais subversiva de toda a lista é inquestionavelmente Fernão Capelo Gaivota. Uma catastrófica celebração do individualismo, escrita numa prosa exuberan temente péssima por alguém que só pode ser um embaraçado pseudónimo de Ayn Rand, a história da pequena gaivota não-conformista representa uma ameaça maior à integridade do nosso sistema educativo do que a distribuição gratuita de pornografia nos recreios. Creio que nada justifica a queima pública de livros, mas, em qualquer debate sobre o assunto, Fernão Capelo Gaivota ser virá sempre para lançar a dúvida. Rogério Casanova

O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes Saavedra, é a grande ausência das recomendações do PNL. Uma surpresa, já que a obra setecentista tem lugar cativo no cânone universal como primeiro romance moderno e é um símbolo de como se pode ensinar o prazer e a aventura da leitura. Em 1920, foi mesmo decretada em Espanha a sua leitura obrigatória na sala de aula pelo menos durante 15 minutos diários. Poderá argumentar-se que o clássico é demasiado longo (126 capítulos), mas dele

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estão disponíveis as mais diversas adaptações, entre elas um excelente O Meu Primeiro Dom Quixote, traduzido por Alice Vieira em 2005 para a editora Dom Quixote. Estão também ausentes as versões originais de As Aventuras de Pinóquio (1883) e de O Livro da Selva (1894), de Rudyard Kipling. O carácter de sátira sádica da obra do italiano Carlo Collodi (que a adaptação da Disney ofuscou a partir dos anos 40) pode torná-la uma escolha controversa, mas nem por isso esta deixa de ser uma das melhores alegorias moral e pedagógica na história da literatura infanto-juvenil europeia. Quanto a Mogli, o menino adoptado por lobos, e às fábulas da selva criadas por Kipling (que viveu até aos seis anos na Índia britânica, cenário inspirador da acção), pertencem a uma espécie de património universal do imaginário infantil, cujo acesso pela leitura deve ser garantido. A riqueza e precisão estilística e narrativa dos contos de O Livro da Selva sobrepõem-se às críticas a Kliping como «arquiapóstolo do imperialismo britânico». O autor poderá até ter protagonizado uma moralista e preconceituosa visão vitoriana sobre as relações de poder e as leis de sobrevivência, mas foi exímio a atribuir aos personagens perspectivas distintas sobre

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O Dom Quixote é a grande ausência das recomendações. Uma surpresa já que é um símbolo de como se pode ensinar o prazer e a aventura da leitura.

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uma realidade paralela. Por tudo isto, e porque O Livro da Selva é a obra-prima de Kipling, a única justificação para a recomendação alternativa de Lobos do Mar (a ler na sala de aula no 7º ano) talvez seja o facto de um dos protagonistas ser um corajoso pescador português que salva um menino de um desastre marítimo. Uma justificação que contrariaria o melhor legado de Kipling: a ideia de que «colocar-se na pele de outro homem» é um dos objectivos maiores da criação literária e da leitura. Filipa Melo

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