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Eletrostática

Fundamentos da Eletrostática
Aula 01
Introdução / Operações com Vetores • Neste curso trataremos da parte estática do eletromagnetismo. Ou seja:
estudaremos o eletromagnetismo em situações onde as cargas permanecem em
repouso e os campos elétricos presentes não variam no tempo. Tais situações
Prof. Alex G. Dias são objeto de estudo da eletrostática.
Prof. Alysson F. Ferrari • Esta escolha, para um primeiro curso de eletromagnetismo, deve-se à simplici-
dade : se a teoria eletromagnética é composta por um conjunto de leis que são

descritas matematicamente através de equações envolvendo ρ e os vetores E,


j e B; no caso eletrostático, temos

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>
> ρ = ρ (x, y, z) densidade de carga
<
j=0 densidade de corrente
eletrostática ↔
>
> E = E (x, y, z) vetor campo elétrico
:
B=0 vetor campo magnético

• A eletrostática é bem mais simples que a eletrodinâmica e ainda assim é


extremamente útil na solução de problemas macroscópicos (como por exemplo
problemas de equilíbrio mecânico envolvendo partículas/objetos carregados) e
microscópicos. Em nível microscópico, a eletrostática pode explicar consta-
tações experimentais como a energia de dissociação de compostos químicos
(ex. NaCl), diferença de níveis de energia dos núcleos atômicos como B 11 e
C 11, C 14 e N 14, por exemplo. Veja as Leituras suplementares sugeridas para
aprender mais sobre isso.
• Antes de enunciar as leis que nos ocuparão neste curso, veremos os elementos
da análise vetorial que nos serão úteis. Se o conceito de vetor aparece em cursos
introdutórios de mecânica, será aqui que vamos precisar de muita habilidade
não apenas para somar vetores, mas também para aplicar os conceitos de
derivada e integral a vetores. Principalmente se você não fez um curso de

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cálculo vetorial antes, você precisa concentrar bastante esforço nesta primeira Operações básicas com vetores
parte da disciplina, para poder adquirir prática com as técnicas matemáticas
que serão aplicadas, posteriormente, no estudo da eletrostática.
O protótipo geralmente utilizado para se denir vetores e operações sobre
vetores é o vetor posição de um certo ponto do espaço, relativo a um dado sistema
de coordenadas.

Primeiro, escolhemos um referencial.


Daí, qualquer ponto P1 do espaço pode
ser localizado por um vetor com sua ex-
tremidade inicial na origem, e sua ex-
tremidade nal sobre o ponto P1. O
vetor r1 ca especicado pelas suas pro-
jeções sobre o eixo dos x, y e z , e estes
três números especicam completamente
o vetor, como deve car claro pela gura
ao lado. Podemos assim escrever o vetor
r1 como

r1 = (x1, y1, z1) .

Escolhido um referencial, assim, um vetor encontra-se especicado por três núme-


ros: são as componentes do vetor no referencial adotado.

Outras notações para vetores, mais convenientes na escrita manual: ~


r e r.

A vantagem desta notação é que podemos somar vetores sem precisar fazer
desenhos: por exemplo, se r1 = (x1, y1, z1) e r2 = (x2, y2, z2), o vetor soma
r1 + r2 é dado simplesmente por

r1 + r2 = (x1 + x2, y1 + y2, z1 + z2)

A multiplicação do vetor r1 por um escalar α é dada por

αr1 = (αx1, αy1, αz1) .

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(Norma) Dado um vetor r = (x, y, z), denotamos por |r| ou simplesmente Note que podemos calcular as componentes
ro comprimento (ou norma ) do vetor. Geometricamente pode-se ver que x, y , z de um vetor r usando os vetores unitários
p e o produto escalar. De fato, como o comprimento
r= x2 + y 2 + z 2 de ẑ é 1, tem-se que

(Produto Escalar) Dados dois vetores r1 e r2 , o produto escalar r1 · r2 é r · ẑ = r cos θ


denido como = (projeção de r na direção de ẑ)
r1 · r2 = r1r2 cos θ ,
=z
onde θ é o menor ângulo compreendido entre os dois vetores. Desta denição, é
claro que r1 · r2 = r2 · r1 (comutatividade do produto escalar).

Tomando θ = 0 na última fórmula, podemos escrever alternativamente, para


a norma de um vetor, Ou seja, em resumo:

r = r·r
x = r · x̂; y = r · ŷ; z = r · ẑ.
(Ortogonalidade) Se dois vetores r1 e r2 são ortogonais, temos r1 · r2 = 0.
Isto acontece por exemplo se r1 = (1, 0, 0) e r2 = (0, 1, 0).

(Vetores unitários) É conveniente denir o conjunto de três vetores unitá- Uma propriedade fundamental do produto es-
rios das coordenadas cartesianas calar (veja lista 01):

x̂ = (1, 0, 0) ; ŷ = (0, 1, 0) ; ẑ = (0, 0, 1)


A · (B + C) = A · B + A · C
Cada vetor está na direção de um dos eixos coordenados, e satisfazem
Usando-se esta propriedade, mais as relações (1) e (2), chegamos a uma fórmula
x̂ · x̂ = ŷ · ŷ = ẑ · ẑ = 1 (possuem norma 1) (1)
extremamente útil do produto escalar: se r1 = (x1, y1, z1) e r2 = (x2, y2, z2),
x̂ · ŷ = ŷ · ẑ = x̂ · ẑ = 0 (são mutuamente ortogonais) (2)
r1 · r2 = x1x2 + y1y2 + z1z2
A partir dos vetores unitários, o vetor r = (x, y, z) escreve-se

r = x x̂ + y ŷ + z ẑ . p

Em particular, r = r · r = x2 + y 2 + z 2, como já havíamos visto.

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Produto Vetorial Para os vetores unitários x̂, ŷ e ẑ, temos

Dene-se o produto vetorial entre dois ve- x̂ × x̂ = ŷ × ŷ = ẑ × ẑ = 0


tores A e B como um terceiro vetor A × B,
perpendicular a A e B, com orientação dada pela
regra da mão-direita, e com comprimento dado ŷ × ẑ = −ẑ × ŷ = x̂
pela área do paralelogramo formado por A e B,
ou seja, ẑ × x̂ = −x̂ × ẑ = ŷ

x̂ × ŷ = −ŷ × x̂ = ẑ
|A × B| = AB sin θ .

Com isso, temos explicitamente para os vetores

A = Axx̂ + Ay ŷ + Az ẑ; B = Bxx̂ + By ŷ + Bz ẑ

Exemplo:
o seguinte produto vetorial,
B na direção do eixo dos y ,
A no plano yz ` ´ ` ´
A × B = Ax x̂ + Ay ŷ + Az ẑ × Bx x̂ + By ŷ + Bz ẑ
D = B × A = (AB sin θ) x̂ ` ´ ` ´
=Ax By ẑ − Bz ŷ + Ay (−Bx ẑ + Bz x̂) + Az Bx ŷ − By x̂
` ´ ` ´
= Ay Bz − Az By x̂ + (Az Bx − Ax Bz ) ŷ + Ax By − Ay Bx ẑ

Pode-se escrever esta fórmula como um determinante:

Note que, pela regra da mão direita, ˛ ˛


˛ x̂ ŷ ẑ ˛
˛ ˛
A × B = ˛˛ Ax Ay Az ˛
˛
A × B = −D = −B × A ˛ Bx By Bz ˛

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As seguintes relações envolvendo vetores podem ser diretamente vericadas Propriedades de transformação de um vetor
(Lista 01)

A×A=0 Dado um referencial, todo vetor é especicado por três números  suas componentes neste
referencial. Mas nem toda tripla de números é um vetor  por exemplo, se m, b e l são o número
de maças, bananas e laranjas numa sacola de supermercado, não podemos dizer que (m, b, l) é
um vetor.
A · (A × B) = 0
O que realmente caracteriza uma grandeza como um vetor, é seu comportamento frente a
uma mudança de referencial .
A · (B × C) = (A × B) · C
Suponha, para ser concreto, que r (t) é um
vetor que dá a posição de uma dada partícula,
d
e v (t) = dt r (t) a correspondente velocidade,
A × (B × C) = B (A · C) − C (A · B)
ambos em relação a um referencial O . Temos:

r (t) = x (t) x̂ + y (t) ŷ + z (t) ẑ ,

v (t) = vx (t) x̂ + vy (t) ŷ + vz (t) ẑ ,

Seja O 0 um segundo referencial, obtido de O


por uma rotação de ângulo θ em torno do eixo x. Em cada instante t, os vetores
r (t) e v (t) podem ser expressos em O 0, mas tanto suas componentes quanto os
vetores unitários são diferentes,

0 0 0 0 0
r (t) = x (t) x̂ + y (t) ŷ0 + z (t) ẑ ,
0 0 0 0 0 0
v (t) = vx (t) x̂ + vy (t) ŷ + vz (t) ẑ .

O comprimento de um vetor, contudo, é o mesmo em O e O 0, ou seja,

2 2 2 ` 0´2 ` 0´2 ` 0´2


r·r=x +y +z = x + y + z

Em outras palavras, a norma de um vetor é invariante sob rotações.

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Não apenas o comprimento, mas o ângulo entre dois vetores não muda se Num caso mais geral, podemos escrever
giramos o referencial, isto signica que o produto escalar 2 3 2 3
x0 x
r1 · r2 = r1r2 cos θ , 4 y0 5 = R 4 y 5
z0 z
também é um invariante.
onde R é uma matriz 3 × 3, chamada matriz de rotação. Sua propriedade
(Escalares) Grandezas que são invariantes fundamental é que ela deixa invariante o produto escalar.
sob uma mudança de referenciais são chamadas
escalares. A equação acima expressa a forma mais correta para se denir um vetor: um
vetor é uma grandeza cujas componentes se transformam, sob uma rotação de re-
Podemos relacionar as componentes de um ferencial, da forma acima. Assim, os três números (b, m, l) citados anteriormente
vetor em dois referenciais diferentes, conforme a não são componentes de um vetor porque, frente a uma rotação do referencial,
gura. Temos: eles não são modicados (uma maçã é sempre uma maçã, independente do ângulo
com que seja observada!).
0
x =x
0
y = cos θ y + sin θ z
0
z = − sin θ y + cos θ z

e
0
x̂ =x̂
0
ŷ = cos θ ŷ + sin θ ẑ
0
ẑ = − sin θ ŷ + cos θ ẑ

` ´
Podemos escrever a relação entre as componentes x0, y 0, z 0 e (x, y, z) de
forma matricial como
2 0 3 2 32 3
x 1 0 0 x
4 y0 5 = 4 0 cos θ sin θ 5 4 y 5
z0 0 − sin θ cos θ z

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Leituras Sugeridas

• O livro do Griths possui, começando na página 11, um Advertisement que


situa a eletrodinâmica no contexto geral da física, e relembra alguns conceitos
básicos sobre carga elétrica e unidades de medida.
• Algumas leituras interessantes do livro The Feynman Lectures of Physics, vol
II : seções 1.1, 1.2; as seções 8-3 e 8-4 apresentam interessantes aplicações da

eletrostática.

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