olho d’água

Doença não dá em poste. Doença dá em gente. E gente é tudo igual. mary help

Alguns, como Pé de Cana, chegam aqui desnutridos, cambaios, os dentes apodrecidos pela sarjeta. Outros, como Mary Help, chegam azucrinando a enfermaria, cobertas de pulseiras e anéis, os pés escalavrados de sujeira. Muitos, como Chupa-Molho, são trazidos em camburões da polícia, ou escoltados pelo corpo de bombeiros. Mas todos chegamos impregnados de ódio, medo, solidão e álcool. Eu cheguei de ambulância. Me levaram, amarrado, para a enfermaria de emergência e me aplicaram uma dose dupla da sossega leão. Quando dei por mim, dias depois, estava no meio dessa escória. Fui acordando e dando de cara com Chupa-Molho, um baiano magro, pernas avermelhadas e inchadas, que me ofereceu cigarro. Não sei o que estou fazendo aqui. Não tenho nada a ver com essa gente feia, pobre, mal-encarada. É preciso trancar o armário onde guardo alguns pertences, mas não existe cadeado para todos. De noite, basta adormecer um pouco, e eles surrupiam qualquer coisa que estiver dando sopa. Da enfermaria, ouço os gritos dos que não conseguem dormir. Outro dia, armou-se uma confusão no banheiro, nem sei o que foi, mas ninguém pregou olho com um filho da puta gritando que queria a mãe dele. “Minha mãe, minha mãe!” Que mãe o quê, cara. Sua velha tá mortinha da silva. Morreu de desgosto, a infeliz!
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Me enterraram aqui, isso sim. Não sou como eles. Meu pai é funcionário do Ministério da Saúde, em Brasília. Às vezes vem me visitar em carrão chapa branca. Cansou. Não gasta mais um tostão na minha carcaça. As clínicas bacanas não deram certo. Nada dá certo. Me sobrou esta enfermaria de cachaceiros de sarjeta. Mas não sou como eles. Tive gravata importada, sapatos de cromo, carro do ano. E nem assim o safado do Pipo me vendeu uma cachaça naquele pé-sujo de Copacabana. Disse que me queria bem e que a minha cota estava encerrada. Ali, eu não bebia mais. Mentira. Nunca criei tanto caso assim pra ser escorraçado daquele botequim fuleiro. Deve ter sido dedo de meu pai. Bem feito. Fui beber o que havia em casa. Dizem que álcool 90 graus esculhamba o sistema neurológico. Foda-se. Não há nada a fazer. Fico pelo pátio fumando e tomando café. Mas não se pode estar em sossego. Os loucos se misturam com a gente e vêm pedir cigarro de cinco em cinco segundos. Tenho vontade de meter a mão na cara de todo mundo. Não dou. Que se danem. Mary Help formou um grupinho animado na outra mesa. É engraçada, mas me cansa. Não para de falar. Deve ser a medicação. É doida varrida, mas boa gente. Sabe das coisas. Outro dia me contou que na enfermaria das mulheres a barra é muito mais pesada. Pegaram a Vandinha e fizeram o serviço de madrugada. Mary Help é safa. Faz acordo, arruma alianças, é esperta, não toma alguns remédios que deixam a criatura abestalhada. “Eu gosto de mulher, porra!”, ela me conta. Não deve ser mole encarar um enfermeiro de um metro e oitenta, ainda mais quando se é sapatão. Na enfermaria dos homens não quero nem saber. O problema é o negócio do roubo. Me afanaram um isqueiro. Fiquei puto. E daí? Nem bispo tem, pra reclamar. Ninguém fica no hospital muito tempo. Às vezes uma semana, às vezes um pouco mais. A conta de limparem o sujeito e tocarem pra rua de novo. Chupa-Molho já está aqui há um mês. Foi ele
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quem me ofereceu cigarro quando acordei na emergência. Chegamos quase no mesmo dia, eu de ambulância, ele de camburão. Estava zoando no botequim, bateu em quatro, quase entrou em coma. Juntos, fomos transferidos para a Unidade de Tratamento do Alcoolismo. Chupa-Molho trabalhava na construção civil. Tinha mulher, tinha filhos. Todo mundo aqui tem sua história. Cada uma mais cabeluda que a outra. Chega uma hora, eu nem presto mais atenção. É um rol de desgraças. Fechei o aparelho de escuta. Meu ouvido não é pinico, porra. Isso eu aprendi nos botecos da madrugada. No fundo no fundo, tudo é igual. Uns pés-duros, uns sem eira nem beira, uns zé-manés. Eu venho de outra raça de gente. Tenho outra história, outro passado. Essa cambada nem sabe o que é caviar. O negócio do apelido é de lascar. Foi Pé de Cana quem me botou um. Pegou. Ninguém mais me chama pelo sobrenome: Bonfim. Me rebatizaram de Lord Zé, porque me dou ares de nobreza. Filhos da puta. Não sou um morto de fome, seus pinguços de merda, bando de sacanas, pudins de cachaça. Tive relógio de ouro. Minha estrada é outra, canalhas. Agora fico no meu canto. Não tujo nem mujo. Desço para o pátio e fico bebendo um café atrás do outro. O velho manda cigarro. Tenho conta na cantina. Olho d’Água chegou a pé. Veio de ônibus, fedendo a cachaça, o povo se afastando com medo. Veio em trapos, imundo, mijado e cagado nas calças. Pegou a condução na marra, sentou lá na frente, não disse palavra, exalando álcool destilado. Houve uma espécie de pavor geral. Sei mais ou menos o que é isso. Saltou na guarita do hospital, passou pelos guardas arrastando a perna e foi entrando até cair no meio do pátio. Mas chegou. Ô, raça. – É Olho d’Água! – gritou Nogueirão e, num pulo, atravessou o jardim em direção à trouxa de trapos caída em frente da cantina. Mary Help foi ainda mais rápida. Ao ouvir o berro daquele doido de um metro e noventa, sempre calado e arredio, largou o grupi11

nho que bebia refrigerante e passou por mim em furiosa correria. Nogueirão tinha chegado antes, e segurava o corpo magro de Olho d’Água, indiferente àquele cheiro de merda que se instalara em minhas narinas. “Porra, quem é esse cara?” Chupa-Molho e Pé de Cana já vinham atrás dos enfermeiros, apontando: “É Olho d’Água! É Olho d’Água!” Enquanto a equipe providenciava socorro e levava o camarada para a unidade de emergência, um ranger de fibras passava pelo manicômio inteiro. Como se a corda de um violino fosse ferida pelo arco, segundos antes do acorde inicial de um concerto dodecafônico. Doía no cérebro, nos nervos, nas veias, na alma, na planta dos pés. Eu ainda me lembrava. Mas quem era Olho d’Água? O psiquiatra de plantão passou apressado, entrou no elevador e sumiu no segundo andar – onde, todos nós sabíamos, se fechava a porta de aço da emergência. No pátio, era um ouriço da zorra. “Olho d’Água voltou! Olho d’Água tá vivo!” Eu olhava aquela esculhambação toda por causa de um negro velho e fedido e não entendia coisa nenhuma. Vivo ou morto, ninguém se dava muito ao trabalho de grandes estimas e sentimentos. Nas idas e vindas das internações, cada um se acostumara a receber com indiferença o desaparecimento daqueles companheiros fugazes de um ou dois dias, de um ou dois meses. “Jocilene se matou!” “Galalau morreu de cirrose!” “Zeca foi atropelado!” “Batista se jogou do viaduto!” Tudo vinho da mesma pipa, com algumas gradações e variantes. O Cineasta, por exemplo, se fodeu com droga. Bateu uma esquizofrenia braba, passeava pra lá, pra cá no Hospital, “me dá um cigarro?” e me enchia o saco contando aquela lenga-lenga de ter sido internado à força pelo irmão, que queria roubar seu dinheiro num negócio de herança. Ou qualquer coisa parecida, que tudo dava no mesmo. Pura porra-louquice. “Eu não sou doente não, doutor! Meu irmão é que é um ladrão, safado, filho da puta!” E, enquanto vociferava, a língua batia nos
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cacos de dente que haviam sobrado da cocaína. Mas Cineasta era de outra enfermaria e só enchia o saco durante as manhãs, no pátio comum a todos nós – loucos, débeis mentais, drogados, cachaceiros, alcoólatras, mendigos e até doutores. “Doença não dá em poste. Doença dá em gente. E gente é tudo igual” – dizia Mary Help às gargalhadas. Pois é. Durante uma semana ninguém falou em Olho d’Água. Todo mundo sabia que o velho tava no soro, mais morto que vivo. Eu ficava quieto no meu canto, tinindo de curiosidade. Mas me dava ao respeito. Não ia sair por ali xeretando a vida de ninguém, quanto mais a de um bebum de sarjeta. Sentava na cantina, bebericava meu café preto, fumava um cigarro atrás do outro, mas escondia o maço. Vez em quando um psicótico de merda abria o berreiro quando eu lhe negava uma tragada. “Seu filho da puta!” Eu nem te ligo. “Vai te foder, cara!” Às vezes tinha que chamar os seguranças pra me defender das porradas. Mary Help, naquele jeito despachado só dela, batia longos papos com a enfermagem para saber de Olho d’Água. Depois, reunia Chupa-Molho, Pé de Cana, Nogueirão, Miss Ana, Dona Eva, Professor e Cineasta pra zoar na cantina. Nogueirão era louco de todo, esquizofrênico brabo, não saía nunca, não dava um pio, inchado de Haldol. Professor dormia no leito ao lado do meu, na uta, era formado em Letras, entendia de latins e gregos, conhecia gramática, e aproveitava as internações periódicas pra ler qualquer coisa que lhe caísse nas mãos, fosse o que fosse. Miss Ana, cheia de flores na cabeça e de banho tomado no pequeno chafariz do jardim, vinha do outro prédio, do andar das doentes mentais, de onde se ouvia gritos a noite inteira. Era de lá que Mary Help sabia das madrugadas meladas de esperma e loucura. Dona Eva era a Rainha do Hospício. Doente crônica, a imensa cafuza de peitos fartos tinha os cabelos rajados de branco e muito lisos, dava-se a pouca conversa, e não tinha lembrança de quando pisara o hospital pela
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primeira vez. Agora, já velha, fixara moradia naquele mundo que fedia a suor impregnado de antidepressivos e antipsicóticos. Olho d’Água deixou a emergência numa manhã de domingo, quando o pátio do hospital estava quase sempre vazio. Fazia sol. Eu estava sentado na ponta do banco comprido que ladeia o prédio, pernas cruzadas, ensimesmado, quando o vi espreguiçar-se com um enorme prazer de estar vivo. O uniforme azul com o carimbo no peito dançava em volta daqueles arremedos de pernas que tinham escapado da paralisia infantil. O cambito da direita mal se aguentava sob o corpo, e era preciso que Olho d’Água o apoiasse na ponta do pé, feito bailarina. Mas ele rodopiou lindamente na umidade da manhã, levantou os braços e gritou para si mesmo: “Obrigado, meu Deus, por estar aqui!” O susto me deixou completamente idiota por algum tempo. Mas quem era aquele imbecil, resto de gente, merda humana, rebotalho dos rebotalhos, dançando debaixo do sol todo satisfeitinho e faceiro? Está agradecendo o quê, infeliz? Nogueirão, na outra ponta do banco, levantou-se e, sem dizer palavra, arrastando-se como um enorme sáurio, colocou-se ao lado de Olho d’Água, de onde não se afastou nem um dia sequer durante os dois meses em que o diabo do velho incendiou o hospital com sua absurda alegria de viver. Nogueirão, meu grande amigo! Olho d’Água parecia sinceramente feliz em ver aquele louco furioso, que precisava da sua santa dose matinal de Haloperidol para não matar um safado por dia. Olhei bem nas fuças deste cavalão debiloide e vi uma doçura sem tamanho iluminando seus olhos amortecidos pela medicação. Aqui dentro, o olho de todo mundo fica esmaecido, fosco, às vezes dilatado, às vezes a meio pau, mas todos, todos, guardiães de tristezas imemoriais. Olho d’Água não. Fagueiro como um pardalzinho moleque, Olho d’Água enfiou o braço no braço de Nogueirão e saíram a
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caminhar pelo pátio para assuntar os arredores do prédio. Pararam, encantados, no pequeno jardim com uma fonte no meio, onde Miss Eva adorava tomar banho com os braços para o céu, na lembrança partida de seus tempos de “paz e amor, bicho!” De longe, eu os via fuçando as plantas ressequidas, examinando a folhagem, cavucando aquele pedaço de terra de uns poucos metros quadrados. Foi ali que Mary Help encontrou o velho: – Minha menina! Aquele rosto de mulher marcado pelo álcool transformou-se, subitamente, com a ternura do chamamento. Olhei pra ela e vi, pela primeira vez, em lugar da criatura vulgar e agitada que zoava dia e noite em todos os cantos do hospital, apenas uma criança tímida e sem jeito, frágil e pequenina. Olho d’Água! Que bom te ver, meu irmão! Era boa essa. “Meu irmão!” Estavam bem arranjados de parentela, os doidos. Aquele bêbado sarnento, todo investido de fraternidades, abria o bico e os malucos voejavam em torno dele feito abelhas. Um por um, cada um a seu tempo, foram sendo recebidos com uma pequena palavra, um abraço, um sorriso, um tapinha nas costas, uma gargalhada. Até Cineasta, aquele chato monocórdio a repetir a lenga-lenga do roubo da herança, havia parado a lamúria e cercava Olho d’Água sem abrir a boca. Mas, porra, por que amavam tanto aquele sujeito fodido? Olho d’Água arrumou-se no leito vago à minha esquerda. Eu estava estirado na cama, fumando e coçando o saco quando ele chegou, silencioso. Deu boas tardes e resmunguei qualquer coisa. Só. Não ficou parlapatando pra cima de mim, que não tolero papo de bebum. Os caras têm um prazer indecente em ficar repetindo sempre a mesma história, o que fizeram de horrores pelo mundo afora e quem era o grande culpado filho da puta pelo fato de estarem ali e serem o que eram. Como Zenaide, aquela grandíssima safada com fuças de inocência, que jurava beber por causa da mãe,
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“uma velha desgraçada que me odeia, uma rata de Igreja agarrada ao terço dia e noite”. Coitada da velha! Oitenta e quatro anos pelos cornos e ter que aturar aquela sacana bêbada dentro de casa, dando-lhe porrada e saindo atrás de homem. Zenaide namorava qualquer um. Até os doidos se masturbavam pensando nas suas pernas grossas saindo do uniforme curto. Eu tinha horror a esse tipo de bebum sonso, hipócrita, babaca. Os “vítimas da humanidade” são a pior categoria de pinguço. Você até tira a cachaça dessa escória, mas não tira a dissimulação, a inveja, o mau-caratismo crônico. Durante uma semana não perdi Olho d’Água de vista. Onde quer que fosse, o grupinho estava sempre junto. Continuavam a fazer a maior algazarra no refeitório e no pátio, mas, aos poucos, uma alegria difusa e quieta foi tomando conta de cada um deles. A coisa tinha começado no jardim. Olho d’Água pulava cedo da cama e era o primeiro a tomar café depois de engolir o coquetel de comprimidos matinais. Em seguida, descia para cuidar daquela meia dúzia de arbustos estropiados, comandando Nogueirão e Mary Help na tarefa de catar folhas, buscar água, limpar ervas daninhas. Logo atrás chegavam Pé de Cana, Chupa-Molho e Miss Ana, toda sorridente, embalando o pessoal com uns mantras desafinados. Depois vinha Dona Eva, que se sentava no banco de ferro, apreciando o movimento. Ninguém ficava parado. Olho d’Água não deixava. “Vamos mexer essa bunda, gente!” Estava sempre arranjando serviço, era jeitoso para carpintaria, consertava um treco aqui, pintava uma mesinha ali, trocava uma lâmpada acolá, e assim ia indo no andor dos dias. Em pouco tempo, via-se pequenas marcas de sua passagem pelo hospital, tudo muito simples, coisa singela, como um vaso de folhagens colocado na enfermaria das mulheres ou um armário cheirando a tinta fresca. Topei com ele, de jeito, numa daquelas manhãs em que me deixara ficar fumando na cama, olhando para o teto, acompanhando as voltas do ventilador. Não pensava em nada. Pensar
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dói. Olho d’Água passou por mim e, como quem não quer nada, comentou: “melancolia mata, Bonfim”. Levei um susto tremendo. Não tanto pela filosofia de botequim, mas pelo tom de voz, grave e sereno, e por ter me chamado pelo meu próprio nome, Bonfim. Danei-me. E que tinha ele a ver com minhas inúmeras tentativas de suicídio das quais o álcool era a menos dolorosa? Já nem me lembrava mais quantas vezes morrera. Quantos pedaços de mim largara pelo caminho, esquartejados. A infância se perdera e eu não tinha mais nada que valesse a pena. Fiquei puto, mas alguma nota doce e profunda, sinceramente amorosa na voz daquele velho, me deixou mais assustado ainda. Percebi, em mim, uma espécie de ternura por aquele pobre bebum sem eira nem beira, que dentro de muito pouco tempo seria posto na rua onde teria, ao seu dispor, a vastidão da sarjeta. “Vire-se!” Olho d’Água não esperou resposta e sumiu no corredor dando bons dias a quem encontrasse no caminho. Até os gatos que reviravam as latas de lixo, tristes e magros, tinham sua cota de afagos. Olho d’Água fazia tudo com prazer e quem estava ao seu lado pegava, por contágio, esse jeito grato de estar no mundo. Eu não o perdia de vista. Mas ainda não sabia que o amava tanto. Sabia que em um tempo muito, muito remoto, eu provara a cachaça Olho d’Água, uma das melhores que este país já viu. Melhor ainda que a afamada Imaculada Serra Grande, cujo nome, muito mais que o sabor, me era prazeroso à boca. Mas isso foi na época em que a qualidade da bebida, assim como o violino, ainda significava alguma coisa na minha vida. Hoje meus dedos retorcidos de artrite não tocam mais as cordas do instrumento. E pouco se me dá a procedência do álcool destilado. Mas foi no Engenho Olho d’Água que Raimundo Nonato da Silva tomou o primeiro leite de menino. A paralisia infantil o pegou já taludo. O resto foi um rol de misérias. Escutei uns pedaços dessa história aqui e ali, e não era muito diferente das demais. Não era a história que impor17

tava. O que me intrigava e comovia era aquilo que de si mesmo Olho d’Água fizera, ao ser incapaz de sentir rancor. Todas as terças-feiras, depois do jantar, o grupinho ia para a reunião do aa, nas dependências do hospital. Era um arremedo do aa que eu frequentara em tempos idos, onde se encontrava o bebum de uísque e vodca, a turma chique e bacana da zona sul, gente igual a mim, médicos, advogados, padres, artistas, tudo arrastando pra cabeceira da mesa seu desespero e sua valentia de vinte e quatro horas. No hospital, não. No hospital era o fundo do poço, a lama, a escória, a cambada da rua. Mas todas as terças-feiras, sem falta, Pé de Cana, Chupa-Molho, Professor, Mary Help e Olho d’Água batiam ponto no confessionário. Uma noite, de pura curiosidade, resolvi juntar-me a eles. Apareci sozinho, depois de começada a sessão, e sentei-me na última fileira. “Concedei-me, Senhor, serenidade para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso, sabedoria para distinguir umas das outras” e etcetera e tal. A enfermaria em peso estava lá, e mais uns gatos pingados dos arredores do bairro. No fundo da sala, eu resistia àquela maldita sensação de pertencimento, irritado por me olhar nesse espelho retorcido de caras deformadas pelo álcool e pela fome, pela miséria e pela dor. Uns arrastavam as pernas inchadas até a cabeceira da mesa e purgavam cada detalhe sórdido de suas histórias. Outros, sem jeito, diziam apenas o nome e agradeciam a Deus e aos companheiros por terem aguentado um dia inteirinho sem se encherem de cachaça. De repente, Olho d’Água se levantou, e ao virar-se para a turma, me viu escondido lá no fundo. Ficou um segundo sem dizer nada. Abriu um sorriso largo, apoiou o pé doente no estrado, pousou a mão na mesa e falou meia dúzia de palavras que apenas eu poderia entender. Disse, mais ou menos, que éramos todos iguais e estávamos num barco furado, lutando desesperadamente para sobreviver a nós mesmos. Era preciso nos agarrarmos uns aos outros, e tentar
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fazer da vida alguma coisa que valesse a pena. “Se alguém perdeu seu violino, que aprenda a ouvir passarinhos”. Era comigo. Esse grandíssimo filho da puta sabia que eu tinha sido um violinista, o melhor, o número um, aquele pelo qual a orquestra afinava o instrumento. Como é que aquele sacana soubera disso? E como poderia compreender o que era um spalla? Ouvir a música dos passarinhos! É boa essa. Aposto que o safado jamais ouvira Mozart na vida, soluçando desesperadamente entre espasmos de dor e gozo. Fiquei quieto, paralisado no meu canto, morto de vergonha como se minha identidade secreta fosse subitamente revelada. Mas ninguém havia notado a insinuação de Olho d’Água. Na saída, esperei o grupo para voltar à enfermaria. Sem dizer palavra, ofereci cigarro a todos. Não sei por que fiz isso. Mary Help, falastrona, não me incomodava mais como antes. ChupaMolho e Pé de Cana papeavam sobre suas vidas com Professor. Vim atrás com Olho d’Água, fumando em silêncio. De repente, os grilos fizeram a festa. Era noite já. Parei para ouvir aquele ranger de patas. Olho d’Água parou também. Sem querer, e pela primeira vez desde que chegara ao hospital, esbocei um sorrisinho meio sem graça, que logo se alastrou e se transformou num riso histérico. Olho d’Água me acompanhou e rimos, os dois, até botar os bofes pela boca, lágrimas na cara. Ele tinha razão. A vida era maior que meus dedos tortos. Eu o abracei e disse: “Seu filho da puta. Vou lhe ensinar a ouvir Mozart”. Durante uns quinze dias passei a fazer parte do pequeno grupo de Olho d’Água, sem maiores expansões afetuosas, que não é do meu feitio, mas fruindo de uma certa sensação de compartilhar, com eles, um cotidiano menos desgraçado. Fui aceito como parceiro no carteado que rolava nos fins de tarde, passei a oferecer cigarros com mais frequência, e até me divertia quando um ou outro me chamava de Lord Zé: “Lord Zé tá de bom humor, gente. Aproveita! Olha o cigarro aí!” Professor trabalhava como
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voluntário na biblioteca do hospital, onde acabei indo dar com os costados, cansado de não fazer nada. A biblioteca tinha uns cinquenta volumes, e se distribuía em três ou quatro prateleiras arrumadas por Olho d’Água. Era engraçado ver um ou outro doido chegar, cavucar sem jeito as estantes, folhear as lombadas, e pegar um volume, que levava ao colo como coisa preciosa para ler na enfermaria. Pensei: “Esses malucos bem que iam gostar de ouvir música!” Um mês depois Chupa-Molho teve alta. Parecia inquieto e calado, enquanto arrumava a sacola com seus poucos trecos – cueca, aparelho de barba, sabonete, pasta e escova de dente, uma imagem pequena de São Jorge. Eu percebia, nele, um oscilar indeciso entre o contentamento e o medo. Arranjara uma casa para ficar de favor, num quartinho dos fundos, enquanto desse e pudesse. Mas tudo era provisório – a vida, o trabalho, a sobriedade. Me abraçou tristemente. “Tomara que não volte nunca mais, cara”, disse Mary Help, acompanhada por Pé de Cana e Professor. Nogueirão, Miss Ana, Cineasta e Dona Eva, hóspedes permanentes, eram da turma do adeus. O resto de nós aguardava o dia da partida. Aos poucos, um por um foi ganhando a rua. Alguns paravam no primeiro boteco, bem em frente ao hospital, e ali mesmo enchiam a cara. Outros, na companhia de uma irmã, da mãe, da mulher, suportavam mais algum tempo essa espécie de dor que nos acompanha pelo simples fato de estarmos vivos. Depois enfiavam o pé na jaca e voltavam para o hospital de camburão ou ambulância. Olho d’Água teve alta em uma manhã fria de agosto. Ganhara uma muda de roupa limpa que Professor e eu lhe havíamos arrumado. De todos nós, era o único que não tinha para onde ir. Vivia de uns biscates, com pouso em Copacabana, ao lado de uma barraca de flores. Aguava as plantas, carregava embrulhos e recebia com gratidão o prato de comida que lhe davam. Uma chuvinha
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fina começou a cair quando Olho d’Água correu o hospital afagando os amigos pela última vez e pedindo, com jeito e graça, que cuidassem do “seu” jardim. Abracei aquele pardalzinho contente e levei-o até a saída. Todos nós fomos ao seu bota-fora. Mary Help chorava. Nogueirão também. Eu o vi atravessar a guarita dos guardas, alcançar a rua e parar um instante, indeciso. O movimento dos carros no asfalto o deixou zonzo. Hesitou. Lá fora, a vida, a sarjeta, a fome, o frio, a sobrevivência marcada pela violência, a miséria humana de todo o dia. Voltou-se lentamente e olhou para o pátio do hospital onde, todos juntos, calados, acompanhávamos sua partida. Sorriu e nos acenou. Depois, bruscamente, embarafustou-se, capengando, pelo meio dos carros. “Deus lhe proteja, meu amigo”, eu disse, chorando. Cruzei com Olho d’Água pela última vez, meses depois. O dia amanhecia em Copacabana. Eu vinha bêbado de um quiosque da praia e nem percebi o céu avermelhado sobre minha cabeça. Cambaleando, sujo e desgrenhado, enviesei pela rua lateral em direção à Barata Ribeiro. Um rabecão passou por mim e estacionou na calçada deserta, próximo a uma barraca de flores. Vi um corpo jogado entre a sarjeta e uns vasos de violeta. Duas mulheres saídas da padaria, um mendigo e um garoto cheirando cola pararam para olhar. Me aproximei. Era Olho d’Água. Me abaixei como pude, na intenção de sacudir o velho para uma rodada de cachaça. Puxei seu braço. Ele não se mexeu. Não respirava mais. Estava morto. Quando dei por mim, embalava nos braços o pequeno corpo nascido à sombra do Engenho Olho d’Água, enquanto, bem baixinho, dizia “meu irmão, meu irmão”.

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