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Citado por RABAÇO, Henrique. História de Petrópolis, Petrópolis, Instituto Histórico de Petrõpolis. UCP, 1985, p. 129. Idem, ibidem. CASTRO, Hebe de. "À Margem da História: homens livres pobres e pequena produção na crise do trabalho escravo". Dissertação de Mestrado UFF - Niterói, 1985. Idem, p. 31. Idem, p. 77. Idem, p. 91. tdem, p. 104. Grifo nosso. PITZER, Renato Rocha: Tentativa de construção de um modelo de famílias escravas em economias tipicamente agro-exportado rãs: Vale do Paraíba (1835-1885). Projeto de Pesquisa aprovado pelo CNPq, 1987, sob orientação da Professora Maria Yedda Leite Linhares.

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O DISCURSO DO PRESIDENTE DE PROVÍNCIA E A ECONOMIA FLUMINENSE NA TRANSIÇÃO DO TRABALHO ESCRAVO PARA O LIVRE (1870-1889)*
Ricardo Figueiredo de Castro*

* Este trabalho constitui, salvo algumas alterações, o relatório final apresentado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em cumprimento das atividades de pesquisa previstas pela concessão de uma bolsa de Iniciação Científica, desenvolvida durante o ano de 1984, sob a orientação da professora Nancy P. Smith Naro do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF).

** 24 anos, licenciado e bacharel em História pela UFF, professor do Magistério Público Estadual e membro do Coletivo Editorial da Revista Arrabaldes.

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Revista Arrabaldes. Ano /, n° 1, maio/agosto

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Este texto é fruto de um trabalho de pesquisa documental do Relatório do Presidente de Província do Rio de Janeiro1, do per Todo compreendido entre 1870 e 18892 ; período esse que, a grosso modo, abrange o momento de crise da economia cafeeira escravista fluminense . A pesquisa centrou-se na análise do discurso oficial do governo provincial fluminense em relação à crise, que, veiculado pelo dito relatório, além de nos dar uma visão de como os governantes encaravam a realidade da economia fluminense, mostra-nos como dialeticamente essa compreensão se relaciona com as propostas e as diretrizes voltadas para a resolução das dificuldades com que estes se defrontavam. Não devemos nos esquecer que, embora o presidente fosse diretamente indicado pelo imperador4, ele se relacionava e se defrontava diretamente com os deputados da Assembléia Legislativa Provincial, eleitos em eleições censitárias 5 , e que, em sua esmagadora maioria, representavam os interesses dos grandes proprietários rurais, mais especificamente, dos cafeicultores escravistas do Vale do Paraíba. Ademais, muitos presidentes faziam questão de enfatizar que estavam ali não para impor, mas para ajudar os legisladores na resolução dos problemas da lavoura, pois, segundo um presidente, a platéia a que se dirigia era a mais interessada e mais preparada para resolvê-los, devido ao fato desta ser composta majoritariamente por 'agricultores' 6 . Portanto, embora não seja prudente, a partir do exame do referido documento, ampliar as conclusões que se tirar da análise do discurso para o conjunto da classe proprietária fluminense, podemos certamente, em virtude dos fatores anteriormente mencionados, ter uma idéia de como a fração hegemônica que dominava o Estado provincial compreendia as vicissitudes de sua época e como — formulando um discurso que se pretendia válido para o conjunto da classe proprietária — procurava solucionar as questões que se lhe antepunham; especialmente aquelas relacionadas à crise da lavoura cafeeira do Vale do Paraíba e ao sistema escravista que lhe sustentava. É necessário lembrar ser impossível, para compreendermos o discurso da política econômica proposta nos relatórios, não deixarmos de colocar a questão de como aqueles que o formularam encaravam o presente e projetavam o futuro, dentro de uma visão de mundo que lhes dava sentido, agindo dialeticamente como criado-criador. É, pois, fundamental para entendermos e analisarmos a política econômica e social contida nesses relatórios, a análise e a compreensão dos conceitos e dos valores que sustentavam ideologicamente a visualização das questões concernentes à crise e das soluções propostas e postas em prática em sua estreita relação com a realidade da economia fluminense7. A partir da década de 30 do século XIX, a cultura escravista do café foi o principal sustentáculo da economia brasileira 8 , surgindo primeiramente no Vale do Paraíba fluminense e se estendendo pelo Vale do Paraíba paulista e Oeste Paulista (a partir da década de 70, aproximadamente); tendo sido, estas, importantes áreas de acumulação de capital para o ulterior desenvolvimento

comercial e industrial das cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, nas últimas décadas do século9. Sua implantação nos moldes coloniais — vinculação ao mercado externo, monocultura de produto tropical sujeito às oscilações do mercado internacional, cultivo extensivo, ausência de processo de mecanização10 — prolongou o sistema escravista 11 . No entanto, com a proibição do tráfico negreiro externo em 1850 (Lei Eusébto de Queirós), um vigoroso golpe é desferido na formação econômica brasileira, "ao ferir mortalmente seu principal modo de produção, o escravista"12 . "Nos anos 50 e 60 do século passado, os senhores escravistas fluminenses, ameaçados em sua própria existência, compreenderam que sua sobrevivência dependia do controle que pudessem exercer sobre o Estado"13. Sua reação ao nível do Estado imperial que dominavam teve um duplo caráter: foi ao mesmo tempo conservadora e progressista 14 . Conservadora porque os fazendeiros escravistas do Vale do Paraíba fluminense, ao obterem escravos pelo tráfico interprovincial com o Nordeste, conseguiram manter o ritmo da expansão da economia cafeeira e retardar, assim, o fim do escravismo 15 . Progressista porque, "ao mesmo tempo que era mantida a escravidão no setor fundamental de nossa produção, aqueles mesmos senhores que dela se beneficiavam econômica, social e politicamente, e defendiam o status quo agrícola, tratavam de promover a sua expansão pela modernização da infra-estrutura de serviços, e mesmo do setor industrial, que lhes serviam" 16 . Em suma, "sem transformar seus métodos produtivos, o aumento da produção só era possível pela mais intensa exploração da força de trabalho e pela especialização das atividades produtivas da fazenda. A política de modernização do Brasil, pela introdução de atividades capitalistas fora da produção, era a resposta escravista à dominação capitalista [em termos mundiais]. O sistema se transformava, seu modo de produção fundamental o ['colonial'escravista] permanecia intacto"17. Desse modo, "as atividades capitalistas emergentes [fora da produção] estavam subordinadas aos interesses escravistas, que se valiam do controle sobre o aparato estatal" 18 . Diríamos então que a tese central desse artigo pode ser dividida em 3 teses que se explicam e se interpenetram. Primeiramente, o enfoque dado em relação á 'crise' da cafeicultura do Vale do Paraíba — que dá os primeiros sinais de problemas no início da década de 70 — e o direcionamento das propostas e diretrizes para sua superação foram embasados (enquanto paradigma ao nível do discurso) ideologicamente pelo ideal de progresso. Segundo, nas décadas de 70 e 80 o Estado provincial — nas mãos de governos comprometidos com os interesses dos grandes cafeicultores — exerceu a função de agente capitalista, procurando solucionar a ausência de empreendedores privados com grande quantidade de capitais, seja através do grande auxílio dado à formação de uma extensa rede ferroviária, seja financiando campanhas de manumissao em massa, subsidiando crédito e juros às companhias particulares, às pessoas físicas e jurídicas voltadas para projetos de assentamento de imigrantes e á organização de engenhos centrais (de cana-de-açúcar); isso, continuan-

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do, ao nível do Estado provincial, a política imperial das décadas de 50 e 60, de prolongar a existência do modo de produção escravista com "a introdução de atividades capitalistas fora da produção"19. Finalmente, consideramos que a política dos governos provinciais fluminenses do período analisado, que se propunha a continuar e a aprofundar a política progressista supracitada do Estado imperial das décadas de 50 e 60, esbarrou em profundos problemas estruturais que não só dificultaram e barraram a implantação conseqüente dessa política de classe, como também demandaram uma contínua adaptação da política às condições conjunturais. Nas décadas de 70 e 80 do século XIX o café era a principal fonte de recursos — senão a única digna de atenção — para os cofres provinciais20. Nos relatórios observa-se uma preocupação constante, durante a década de 70, de prover a lavoura cafeeira da infra-estrutura necessária para reeguê-la da 'crise' que a ameaçava 21 , barateando os custos de produção no setor de transportes, já que a inovação não era vista como realmente exeqüível 22 . Já desde o ano de 1870 medidas tais como a construção de escolas técnicas agrícolas, organização de feiras no meio rural para a vulgarização de novas técnicas, desenvolvimento do sistema creditício são propostas e incentivadas pelo Estado provincial23, que se vê na obrigação de prover a agricultura dos meios para se desenvolver, não se vexando de interferir diretamente nessa problemática e que, na falta de capitais privados nacionais de grande monta, agia como atualizador de mecanismos capitalistas24. Os relatórios dos primeiros anos da década de 70, apesar de afirmarem que a "agricultura, fonte principal de nossa riqueza, tem sofrido grandes contrariedades"25, ainda posicionava-se otimisticamente frente ao futuro, visto que se acreditava que a melhora da infra-estrutura dos transportes viria dar condições para o barateamento dos custos de produção26. Outras medidas mais relacionadas com a produção, tais como a adubação dos cafezais, a construção de escolas técnicas, melhora das plantas, etc., ou não foram levados a cabo ou não tiveram resultados satisfatórios27. Portanto, embora se detectasse desde o início da década de 70 uma situação de 'estagnação' da lavoura fluminense (acucareira, de abastecimento e cafeeira, principalmente}28, considerava-se que as estradas de ferro seriam um vital e imprescindível remédio que, barateando os custos de transporte, reergueria a economia cafeeira e fluminense em geral29; dado que esse barateamento não seria possível, como já dissemos anteriormente, através do aumento da produção, pelo melhoramento das técnicas agrícolas ou pelo aumento da área cultivada30. Esse projeto seria realizado através da aplicação pelo Estado provincial de grande volume de capitais em um amplo projeto viário (ferrovias principalmente); os governos provinciais das duas décadas em estudo contavam com o café para fornecer o capital necessário, apesar dos problemas pelos quais o 'ouro verde' passava na década de 70. A despeito da estagnação técnica do cultivo e do fim da fronteira agrícola, o café ainda conseguia grandes safras.

o que aliado aos relativos bons preços no mercado mundial auferia grandes lucros aos barões do café e impostos aos cofres provinciais31. O café era, pois, vital dentro do universo mental dos dirigentes provinciais como solução da crise que afligia a economia cafeeira escravista. O café era encarado como o móvel do progresso provincial e, simultaneamente, como remédio da crise que o afligia; crise esta que punha em risco os planos de dar uma sobrevida ao moribundo escravismo. Outrossim, através dos Relatórios do Presidente da Província do Rio de Janeiro podemos constatar que a ideologia do progresso vislumbrada para o Brasil e, mais especialmente, para a província fluminense, lhe destinava um futuro semelhante àquele das nações industrializadas européias e dos EUA. Só que esse futuro deslumbrante seria alcançado através da lavoura voltada para o mercado externo, mas para tal era necessária a implantação de uma racionalizada infra-estrutura de transportes32. No entanto, esse projeto era prejudicado pelo problemático estado da cafeicultura escravista fluminense. A solução encontrada era a de investir maciçamente na formação de uma infra-estrutura de transportes e na qualificação profissional da população fluminense, incutindo-lhe concomitantemente a noção de trabalho livre e assalariado como móvel do progresso, para fazer frente à questão da inevitável libertação da mão-de-obra escrava33. O problema é que o Estado provincial — instrumento dessa política — além de, ao longo da década de 70, gastar mais do que arrecadava, em meados da década passa a sofrer déficits crônicos, uma vez que o café, principal fonte de renda provincial, começa a sofrer uma queda em seu preço internacional, que nos primeiros tempos é minimizada pelas boas safras34. No entanto, já nos primeiros anos da década seguinte constata-se que o café n3o podia contribuir com mais do que destinava em termos fiscais, e, sendo necessário solucionar o problema deficitário, é proposta uma reformulação do sistema tributário provincial 35 . Tem-se, então, uma contradição historicamente insolúveha solução (de classe) encontrada de aplicar maciçamente recursos provinciais no melhoramento e na construção de uma ampla rede viária para, conseqüentemente, barateando os custos de produção, melhorar o estado da economia cafeeira e retardar o fim do escravismo, entra em choque com a necessidade de se aumentar a receita e diminuir as despesas provinciais; devido ao fato do café, que era a principal fonte tributária, não poder oferecer mais do que já contribuía. Como, então, continuar investindo na construção de vias férreas e levar adiante a política reacionária, sem aumentar o tributo sobre o café e sem aumentar a já então volumosa dívida provincial que complicava a obtenção de novos empréstimos estrangeiros? Para complicar ainda mais o problema, nos últimos anos da década de 70 as ferrovias já não eram consideradas economicamente viáveis, devido, entre outras coisas, à concorrência entre as numerosas ferrovias, à diminuição relativa do volume de carga, a problemas técnicos, etc.36. A partir de 1879, com a constatação de que a renda proveniente do café diminuía consideravelmente desde os últimos anos, há uma crescente

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preocupação com o sistema tributário e com a superação desse crônico problema que ameaçava tornar-se irreversível. Para remediar essa crise orçamentária que afligia a província há algum tempo e que punha em risco seriamente a política econômica em questão, dá-se grande importância á fiscalização mais rigorosa da arrecadação do imposto de 4% sobre o café e daqueles taxados sobre outros produtos, à diversificação das fontes de renda e á economia nas despezas. Ademais, essa questão está inserida na preocupação anteriormente exposta de racionalização da vida econômica provincial, dentro da concepção de progresso expressa nesses documentos. Em meados da década de 80 — 1884 e 1885 —, os relatórios constatam desoladamente que era muito difícil reduzir as despezas e aumentar a receita através duma maior taxação sobre o café e o açúcar. Era tão grave a situação financeira provincial e tão débeis as suas fontes de renda, que um relatório de 1885 afirma que se não fosse decretado o aumento dos impostos, medida que não aconselhava, a província deveria socorrer-se com novos empréstimos externos37. Inserido no projeto político reacionário posto em prática pelos governos provinciais no período estudado, o problema da desagregação iminente do sistema escravista é visto, ao longo da década de 70 e mais insistentemente na de 80, como uma das questões mais vitais dos assuntos provinciais, juntamente com o das obras públicas (ferrovias e escolas públicas, especialmente)38. O Estado provincial — dominado por governos comprometidos com os interesses dos cafeícultores escravistas — realiza então uma ampla campanha a favor das manumissões e da resolução do problema escravo desde meados da década de 70, legislando sobre a matéria; incentivando através do discurso e de resoluções práticas medidas que atenuassem as conseqüências da extinção iminente da escravidão, seja prometendo, seja realizando a vinda de imigrantes estrangeiros39; atuando diretamente no problema, realizando amplos censos da população escrava e criando um fundo público de manumissões, destinado a comprar a liberdade dos escravos40. É importante lembrar que um número não desprezível das manumissões era realizado com o pecúlio dos próprios escravos. Essa política de manumissões, ao mesmo tempo em que libertava os escravos que cada vez mais se tornavam ociosos devido aos problemas da cafeicultura, capitalizava o proprietário, atenuando-lhe o estado crítico em que se encontrava, e, mais importante, usava o poder do Estado provincial para garantir uma transição gradual e indolor para a sociedade pós-escravista. Nessa época de crise, quando a terra encontrava-se desgastada, o grande cafeicultor tinha no escravo, usado para penhora, uma das poucas, senão a única fonte de capitalização. Durante a década de 80, quando se constata de ano a ano que a crise da lavoura cafeeira escravista é irreversível, procura-se de todas as formas encontrar soluções alternativas. Quando em meados dessa década o café é desacreditado como principal fonte de renda e tendendo a cair, busca-se au-

mentar a receita através, entre outras coisas, do aumento dos lucros da Companhia da E. F. de Cantagalo, que é vista, antes de tudo, como elemento aglutinador de capitais41. Outro dado sintomático é a preocupação em diversificar e reformular o sistema tributário provincial, mais especificamente em 1889, através da racionalização da fiscalização sobre o café e outros produtos-: uma atitude de desespero, se levarmos em conta que até há pouco tempo o café era considerado o 'salvador da pátria'. Ademais, para colocar as bases de uma futura economia, propõe-se o revigoramento da economia açucareira que vinha 'renascendo', dando-lhe concessões e juros subsidiados para a construção de engenhos centrais. Outrossim, procura-se revitalizar a pequena lavoura de abastecimento de áreas próximas à Corte através da ligação dessas áreas a ela pelo prolongamento da E.F. de Cantagalo e ramais 42 . Segundo se pensava, com essa medida aumentar-se-ia a receita dessa ferrovia, o que capitalizaria a província que estava em sérios apuros orçamentários. O projeto político da classe dominante fluminense, que se consubstancia na década de 70, ao mesmo tempo que comanda as diretrizes econômicas para fazer frente aos problemas estruturais da província fluminense, sofre com o agravamento de seus problemas, que, devido a sua dependência vital e embrionária em relação à economia cafeeira, dificulta e impossibilita a consecução completa do referido projeto político. Isto é, desde os primeiros anos da década de 70, apesar de se constatarem problemas importantes na agricultura fluminense (na cafeeira, principalmente), acreditava-se que a construção de vias férreas viria solucionar esses problemas e levar a província, calcada no poder econômica do café, a um futuro de progresso econômico e social. No entanto, os crescentes e sucessivos déficits que, a partir de meados da década de 70, se tornam crônicos, demandando aumento de receita e contenção de despezas, freiam um pouco o ímpeto construtor, o que aliado à radicalização da crise da economia cafeeira nos inícios da década de 80, além de tirar a aura salvadora do café, inviabiliza economicamente muitas ferrovias, que se tornam ociosas, em virtude de problemas anteriormente comentados. Uma questão então se coloca: como construir mais ferrovias — vistas como solução da economia cafeeira — se o Estado provincial, agente dessa política, se descapitalizava de ano a ano e aumentava sua dívida, e se as já existentes passavam por sérios problemas financeiros devido â crise do café e à concorrência entre elas. A solução vista para solucionar a crise da economia cafeeira — construir ferrovias — ocasiona problemas orçamentários que impossibilitam a continuação dessa política. A solução proposta, antes de melhorar, agrava o problema. Mas como as ferrovias eram vistas como o remédio mais imediato para lutar contra o problema de caixa, melhorar sua situação era a solução encontrada para a resolução dos problemas que dificultavam a consecução da política viária. No entanto, esse melhoramento da situação da economia cafeeira seria realizado através da construção de ferrovias que demandavam grandes investimentos.

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O que temos então é um círculo vicioso, que põe em xeque a política progressísta-reacionária dos governos provinciais fluminenses do período. Confrontado com todas essas vicissitudes, o projeto político vê-se na necessidade de se adaptar a elas ou sucumbir. Por isso, quando na década de 80 o café perde progressivamente seu antigo papel, o governo provincial além de procurar diversificar as suas fontes de receita, procura incentivar também mais incisivamente a economia açucareira que 'renasce', além de se preocupar mais seriamente com as culturas de 'subsistência' próximas aos centros urbanos (a Corte principalmente) e com a colonização estrangeira. Com isso, pretendia-se povoar a província de trabalhadores livres e dotá-la de uma boa produção agrícola para consumo no mercado urbano. Outrossim, procurava-se formar entre os trabalhadores livres nacionais uma sólida ideologia louvadora do trabalho produtivo43. Quando a esperada mas não desejada extinção jurídica da escravidão se concretiza em 1888, os governos imperial e provincial procuram, através de sua importante capacidade agregadora de capitais, ajudar a lavoura a atravessar a crise pela quat passava44. As medidas são pensadas ainda dentro da política analisada, com forte intervenção estatal: o governo provincial concederia "subvenções ou garantias de juros a 6% às companhias organizadas ou que houvessem de organizar-se, tendo por capital propriedades agrícolas e por objetivo o estabelecimento de imigrantes mediante ônus compensativos do sacrifício feito pelos cofres provinciais"45. No mesmo relatório, podemos nos enteirar mais profundamente do projeto político que se adaptava às novas circunstâncias:"(. . .) tendo o governo geral [imperial] tomado a seu cargo a missão patriótica de socorrer a lavoura, procurando desempenhá-la com a maior solicitude pelos meios mais eficazes e adequados, com o fornecimento de capitais bancários a juro baixo e a longo prazo, tratados internacionais que hão de determinar aumento considerável no consumo de nossos principais produtos e, finalmente, a criação de burgos agrícolas, que em não pequeno número devem localizar-se no território da província, julgo de bom aviso aguardar o resultado das providências, antes de comprometer os recursos da província em cometimentos da mesma natureza, posto que sem igual alcance"46. Vê-se, pois, que no período analisado, não só o Estado provincial, mas também o imperial exerciam importante papel de agente capitalista, sobretudo em um momento em que a província não se julgava em condições financeiras de fazer sua parte. Por conseguinte, concluímos que o projeto político dos governos provinciais fluminenses das décadas de 70 e 80 — de usar o poder do Estado para implantar mudanças infra-estruturais na cafeicultura escravista fluminense (fora da produção; no setor de transportes, preferencialmente) para prolongar o escravismo — teve de se adaptar às circunstâncias adversas. Não só os meios para a consecução da política tiveram que ser revistos, como os próprios fins tiveram que ser redefinidos. Na década de 80, como o escravismo não dava mais esperança de longa

vida, o projeto político em questão esforçava-se para, pelo menos, realizar uma transição para o trabalho livre o mais gradual e indolor possível, inclusive clamando pela sua valorização; ademais, procurava lançar as bases de uma agricultura mais diversificada. Embora, à primeira vista, e em termos regionais, possamos constatar que houve uma redefinição econômica (para a pecuária, especialmente) das antigas áreas cafeeiras do Vale do Paraíba47, com o conseqüente declínio de seu antigo poder econômico e político, só uma pesquisa mais aprofundada poderá nos mostrar como a economia fluminense, como um todo, se organizou nesse período de crise. Todavia, apesar do projeto político sofrer esses reveses e ter de ser adaptar aos novos tempos, o arcabouço ideológico que o norteava não muda substancialmente: os exemplos europeu e estaduniense de progresso são ainda vistos como paradigma de futuro48. Esse projeto político encontra sua gloriosa implantação no Rio de Janeiro do prefeito Pereira Passos, que transforma a antiga Corte, então capital da República, na 'capital do arrivismo', que se esforça para se inserir no glamouroso mundo da 'Belle Époque'49.

NOTAS: Para facilitar a exposição das notas referentes aos relatórios, optei por nomeálos (falas, mensagens e relatórios) de uma forma única e simplificada - Relatório de 8/8/1884, por exemplo —, visto que eles tinham denominações muito variadas e extensas, como por exemplo: "Relatório apresentado à Assembléia Legislativa Provincial do Rio de Janeiro na abertura da segunda sessão da vigésima-sexta legislatura em 12 de setembro de 1887, pelo presidente Dr. Antônio da Rocha Fernandes Le3o". 1 Foram consultados e analisados n9o só os relatórios dos presidentes, mas também os dos vice-presídentes, quando, é claro, no posto de chefe de governo. Os relatórios podem ser encontrados na Biblioteca Estadual de Niterói íSala Matoso Maia}, na Biblioteca Nacional (microfilmados) e no Palácio do Itarnarati no Rio de Janeiro. Nesse período, a província teve 31 chefes de governo, sendo 17 como presidentes e 14 como vice-presidentes. Cf. LACOMBE, Luiz Lourenço. Os Chefes do Executivo Fluminense. Petrópolis, MEC/Museu Imperial, 1973. p. 39-55. Cf. COSTA, Emflia Viotti da. Da Senzala à Colônia. 2? ed. Sa"o Paulo, Livraria Ciências Humanas, 1982. p. 137; MONTEIRO, Hamilton M. Brasil império. Sa*o Paulo, Ed. Atica, 1986. p. 58. O presidente (segundo a Constituição Imperial de 1824) e o vice-presidente (segundo o decreto imperial n°-207 de 18/09/1841) eram nomeados pelo imperador e por ele destituídos. Cf, LACOMBE, op. c/f. p. 8. Cf. MONTEIRO, op. c/f. p. 61-66. Cf. Relatório de 6/8/1884. Rio de Janeiro, Typographia Montenegro, 1884, p. 24.

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Consideramos aqui o discurso enquanto a concretude da ideologia de uma classe ou fração de classe. Ideologia essa que, embora seja a "emanação direta do comportamento material dos homens", tem sua especificidade e autonomia próprias e que, a partir do amplo leque de possibilidade abertas (ao nível do discurso) pela infinitude do real, se vá frente a um emaranhado de caminhos e soluções possíveis dentro daquelas condições materiais dadas. Portanto, a relação entre as condições materiais de existência e a ideologia não é apriorfstica e lógico-formal, mas sim dialética e infinitamente (dentro da finitude) determinada: "(. . .} a mesma base econômica — a mesma no tocante a suas condições fundamentais — (pode) mostrar em seu modo de manifestar-se infinitas variações e gradações, devidas a distintas e inúmeraveis circunstâncias empíricas, condições naturais, fatores étnicos, influências históricas que atuam no exterior etc." MARX, Karl & ENGELS, F. A Ideologia AlemS; MARX, K. O Capital, apud EISENBERG, Peter L, "A Mentalidade dos Fazendeiros no Congresso Agrícola de 1878". IN: LAPA, José R. do Amaral (org.). Modos de Produção e Realidade Brasileira. Petrópolis, Vozes, 1980. p. 168. COSTA, Op. c/t., p. 11. SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão. Tensões Sociais e Criação Cultural na Primeira República. SSo Paulo, Brasiliense, 1963. p. 27; FAUSTO, Boris. Trabalho Urbano e Conflito Social (1890-1920). 3aed. Sá*o Paulo, Difel, 1983. p. 13-14. COSTA, op. c/f., p. 11.

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Relatório de 8/9/1870. Rio de Janeiro, Typographia do Diário do Rio de Janeiro, 1870. p. 51. O pequeno modo de produç3o capitalista estava em gestação no interior do modo de produção escravista, ao qual, nesse momento, estava subordinado. Cf. EL — KAREH.op. c/t. p. 25. Relatório de 1/10/1869. Rio de Janeiro, Typographia do Diário do Rio de Janeiro, 1869. p. 28; Relatório de 8/9/1870. Rio de Janeiro, Typographia do Diário do Rio de Janeiro, 1870. p. 51-52. Cf. Relatório de 15/3/1871. Rio de Janeiro, Typographia de Quirino e Irmffo, 1871, p. 10; Relatório de 8/9/1871. Rio de Janeiro, Typographia Perseverança, 1871 (Anexo: Relatório da Diretoria de Obras Públicas, p. 44); Relatório de 8/9/1875. Rio de Janeiro, Typographia do Apóstolo, 1875. p. 33. Cf. Relatório de 1/10/1869. Rio de Janeiro, Typographia do Diário do Rio de Janeiro, 1869. p. 28. " ( . . . ) a década de 1870 foi especialmente desfavorável para as atividades da grande lavoura". EISENBERG: op. c/t. p. 176. Cf. Relatório de 8/9/1871. Rio de Janeiro, Typographia Esperença, 1871. p. 44. Cf. Relatório de 8/8/1881. Rio de Janeiro, Imprensa Industrial de João Paulo Ferreira Dias, 1881. p. 44. " (. . .) dos altos preços atingidos pelo café até a década de 1880". COSTA, op. c/t. p. 185. Cf. Relatório de 8/9/1870. Rio de Janeiro, Typographia do Diário do Rio de Janeiro, 1870. p. 62; Relatório de 8/9/1871. Rio de Janeiro, Typographia Esperança; 1871. p. 44; Relatório de 8/8/1881. Rio de Janeiro, Imprensa Industrial de JoSo Paulo Ferreira Dias, 1881, p. 48. " (. . .} mas sobejam-nos meios de auxiliar alguns estabelecimentos que se proponham ensinar o que mais carecemos aprender — trabalhar —, preparando, ao mesmo tempo, normalistas — operários". Relatório de 8/8/1885. Typographia Montenegro, 1885. p. 121. Cf. Relatório de 5/3/1879. Rio de Janeiro, Typographia Montenegro, 1879. p. 11. Cf. Relatório de 16/3/1882. p. 55-56. Rio de Janeiro, Typographia Montenegro, 1882,

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tbid. p. 12.
EL-KAREH, Almir Chaiban. Filha Branca de Mffe Preta: A Companhia da Estrada de Ferro D. Pedro II (1855-1865). Petrópolis, Vozes, 1982, p. 27. Ibid. p. 140.

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Id., ib. p. 27.
Id., loc. d t.

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Id.Jb. p. 28.
/d.t loc. c/f.
Id., ib. p. 25.

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Id., ib. p. 28.

35 Relatório de 8/9/1873. Rio de Janeiro, Typographia Apóstolo, 1873. p. 46; Relatório de 5/3/1879. Rio de Janeiro, Typographia Montenegro, 1879. p. 11; Relatório de 8/8/1881. Rio de Janeiro Imprensa Industrial de Jo3o Paulo Ferreira Dias, 1881. p. 71. Essa crise deve ser relativizada e colocada em termos gerais, uma vez que nas décadas de 70 e 80 certas áreas (Cantagalo, por exemplo} estavam em franca produção, concentrando inclusive grande contingente de escravos. Relatório de 1/10/1869. Rio de Janeiro, Typographia do Diário do Rio de Janeiro, 1869. p. 30.

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Cf. Relatório de 8/9/1878. Rio de Janeiro, Typographia da Reforma, 1878 (Plano da Viaç3o, p. 85). Cf. Relatório de 8/8/1885. Rio de Janeiro, Typographia Montenegro, 1885. p. 116. Cf. Relatório de 8/9/1873. Rio de Janeiro, Typographia do Apóstolo, 1873. p. 40; Cf. EISENBERG. op. c/t. p. 176. Cf. Relatório de 12/9/1887. Rio de Janeiro, Typographia Montenegro, 1887. p. 43.

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Arrabaldes

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O Estado provincial destinava determinada quantia para o fundo de emancipação, que, por sua vez, repartia-o em cotas diferenciadas para cada município. Até 1885, realizaram-se 6 libertações coletivas (1876, 1880, 1881, 1882 e duas em 1884), que libertaram da escravidão 4287 pessoas. IN; Relatório de 8/8/1886. Rio de Janeiro, Typographia Montenegro, 1886 (Apensos: "Mapa das libertações efetuadas na província do Rio de Janeiro pelo fundo de emancipação"). Cf. Relatório de 28/10/1883. Typographia Montenegro, 1883. p. 31. Cf. Relatório de 8/8/1885. Rio de Janeiro, Typographia Montenegro, 1885. p. 8283. Ibid.. p. 140. Cf. Relatório de 15/10/1889. Rio de Janeiro, Typographia Montenegro, 1889. p. 69. Ibid.. p. 9. ld.,ib., p. 10. Em Vassouras, por exemplo, "a partir do declínio da produção de café, iniciou-se um novo período em que, coexistindo com os cafeeiros e com a criação de gado que se fazia ainda em pequena escala (com algumas exceções), outras lavouras desenvolveram-se". PADILHA, Sylvia Fernandes. Da Monocultura à Diversificação Econômica, Um Estudo de Caso: Vassouras (1880-1930). Niterói, Universidade Federal Fluminense; ICHF, 1977. p. 2. Cf. Relatório de 15/10/1889. Rio de Janeiro, Typographia Montenegro, 1889. p. 10. Cf. SEVCENKO. op. c/f. Cap. l.

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