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UM De repente a morte estava sobre eles. Um furor de garras. Uma confusão de sons para fazer as orelhas sangrarem. No período de uma pulsação, a criatura despedaçara o abrigo deles, reduzindo-o a lascas. No período de uma pulsação, ela rasgara um ferimento irregular na lateral do corpo de seu pai. Então foi embora, fundindo-se com a floresta tão silenciosamente quanto a neblina. Mas que tipo de urso arma emboscadas para homens - depois some sem fazer a matança? Que tipo de urso brinca com sua presa? E onde está ele agora? Torak não conseguia enxergar além da luz da fogueira, mas sabia que a clareira, também, era uma ruína de árvores jovens quebradas e samambaias pisoteadas. Farejou seiva de pinheiro e terra rasgada. Ouviu o leve e triste murmurar do riacho a trinta passos de distância. O urso poderia estar em qualquer lugar. Ao lado dele, seu pai gemia. Lentamente abriu os olhos e olhou para o filho, sem reconhecê-lo. O coração de Torak se apertou. — Só... Sou eu — gaguejou. — Como se sente?

A dor contorcia o magro rosto pardo do pai. Suas bochechas estavam tingidas de cinza, fazendo com que as tatuagens do clã sobressaíssem palidamente. O suor atapetava seu longo cabelo escuro. Seu ferimento era tão profundo que, quando Torak, desajeitadamente, estancou o sangue com barba-de-velho, viu as entranhas do pai brilharem a

luz da fogueira. Teve que cerrar os dentes para evitar vomitar. Esperava que Pa não tivesse percebido — mas claro que ele percebeu. Pa era um caçador. Ele percebia tudo. — Torak... — ofegou. Sua mão se estendeu, os dedos

quentes agarrando-se aos de Torak tão ávidos quanto uma criança. Torak conteve-se. Filhos seguram a mão dos pais, e não o contrário. Ele tentava ser prático: ser um homem em vez de um menino. — Eu ainda tenho algumas folhas de milefólio — disse ele, tateando

a bolsa de remédios com a mão livre. — Talvez isso detenha o... — — esquerdo. — Torak... parta. Agora. Antes que ele volte. Fique com elas. Você também está sangrando. Não dói — mentiu Torak. O urso o jogara contra um pé de

bétula, machucando suas costelas e ferindo profundamente o antebraço

Torak encarou-o. Abriu a boca, mas não emitiu nenhum som. — Você precisa — insistiu o pai.

—Não. Não. Não posso... — Torak... estou morrendo. Estarei morto quando o sol nascer.

Torak apertou a bolsa de remédios. Havia um rugido em seus ouvidos. —Pa... — suas coisas. A Jornada da Morte. Não. Não. Mas o rosto do pai estava inflexível. Dê-me... o que preciso para a Jornada da Morte. Depois pegue

Meu arco — pediu. — Três flechas. Você... fica com o resto.

— Aonde estou indo... a caça é fácil. Caiu uma lágrima no joelho da perneira de pele de gamo de Torak. Enfiou a unha do polegar na carne. Doeu. Forçou-se a se concentrar nisso. — Comida — arfou seu pai. — A carne seca. Você... leva toda.

O joelho de Torak começou a sangrar. Ele continuou cutucando. Tentava não imaginar seu pai na Jornada da Morte. Tentava não se imaginar sozinho na floresta. Tinha apenas doze verões de idade. Não conseguiria sobreviver sozinho. Não sabia como. —Torak! Mexa-se! Pestanejando furiosamente, Torak alcançou as armas do pai e as colocou a seu lado. Dividiu as flechas, furando os dedos nas afiadas pontas de sílex. Então colocou a tiracolo sua aljava e seu arco, e engatinhou sobre os destroços para apanhar sua machadinha negra de basalto. Sua mochila de madeira de aveleira fora destruída no ataque, teve de abarrotar tudo o mais em seu gibão de couro, ou amarrar no cinturão. Alcançou o seu saco de dormir feito de couro de rena. — Leve o meu — murmurou o pai. — Você nunca... consertou o

seu. E... troque as facas. Torak ficou horrorizado. — — A sua faca não! Vai precisar dela! Você precisará mais do que eu. E... será bom ter algo seu

na Jornada da Morte. — Pa, por favor. Não...

Na floresta, um graveto estalou. Torak girou. A escuridão era total. Onde quer que olhasse as sombras tinham forma de urso. Não havia vento. Não havia canto de pássaro. Apenas o crepitar do fogo e a batida de seu coração. A própria floresta prendia a respiração. Seu pai lambeu o suor dos lábios. — Ele não está aqui — disse ele. — Em breve. Ele virá me buscar

em breve... Depressa. As facas. Torak não queria trocar as facas. Isso seria um ponto final. Seu pai, porém, olhava-o com uma intensidade que não admitia recusa. Apertando as mandíbulas com tanta força que doeu, Torak pegou a própria faca e colocou-a na mão de Pa. Em seguida, desamarrou do cinturão do pai a bainha de couro de gamo. A faca de Pa era bela e mortal, com a lâmina de ardósia azul raiada na forma de folha de salgueiro, e o cabo de chifre de veado-vermelho preso com tendão de alce para uma melhor empunhadura. Enquanto Torak olhava para ela abaixo, a verdade o atingiu. Ele estava se preparando para uma vida sem Pa. — — Não vou deixar você — berrou. — Vou enfrentar ele, eu... Não! Ninguém consegue enfrentar esse urso!

Corvos voaram das árvores. Torak prendeu a respiração.

— O rosto do pai era assustador.. Qualquer urso.. Ele matará. E quando o urso será. Você sabe disso.. Será tarde demais. Torak viu a pulsação latejando em seu pescoço... seu poder crescerá. Todos morrerão. Muito forte.. reunindo forças.... — Um demônio? — perguntou Torak. Torak! Quando o olho vermelho está mais alto no céu. Muito mais forte. A floresta morrerá. Tão fraca: era como se fosse parar a qualquer momento. Seu pai fechou os olhos. — Um urso. do Outro Mundo. tudo. Ele está.— Escute com atenção — sibilou seu pai. — deteve-se. penetraram nele e o tornaram mau. — Com cada morte. Possuído. — Qualquer coisa.. Invencível..... Uma brasa faiscou.. As árvores escuras inclinaram-se mais perto para escutar. a insondável escuridão. Olhando para baixo nos olhos do seu pai.. é quando os demônios são mais fortes.. — Ele vive apenas para matar — falou. — — Uma lua? Mas o que. Os clãs. — — O que quer dizer? — sussurrou.. Você sabe disso. A presa.. — O que. — Pelejou para respirar.. Sob a luz da fogueira. e.. Torak sentiu os pêlos dos braços se eriçarem.. viu as pequeninas veias encarnadas.. — Preciso que você. Mas esse urso. . demônios. — Em uma lua.. no centro... ele não parecia mais com o Pa. É o caçador mais forte da floresta.. finalmente... — Alguns... Pense. O demônio. Jure uma coisa — disse Pa..

? —Não! — exclamou seu pai com uma força surpreendente. —Você pode.. — Que guia? Por que preciso encontrar a montanha? Estarei a salvo lá? E isso? A salvo tinha mais tempo. Ele era um homem prático. —Como? Eu não.. ficou de pé. — Ora. — um caçador. Parecia que ele estava imaginando o quanto mais Torak podia agüentar. Há muita coisa que não contei a você. Do nosso próprio Clã do Lobo. —O seu guia. Não... e ele fitou entre os galhos acima. — Eu pensava que Não compreendo nada disso! — bradou. — Encontre-a — repetiu.. Mesmo. Eu não deveria tentar encontrar. Torak encarou-o. Torak ficou aturdido. você é muito jovem — disse ele.Pa estancou. —Não posso fazer isso sozinho. Muitos dias de caminhada.. Então.. A Montanha. como se enxergasse coisas que ninguém mais podia. Encontre. Vai encontrar você. — Siga para o norte... Torak olhou-o horrorizado. Ninguém pode. —Mas.. Nunca antes seu pai falara daquele modo. Ninguém nunca a encontrou... de um salto.. — O quê? Os olhos de seu pai se abriram. Não vá me odiar depois por causa disso. . Do Espírito do Mundo. — Toda a sua vida eu mantive você afastado.. — do urso? Lentamente... o fitar de Pa deixou o céu e foi pousar no rosto do filho. — É a única esperança.

Desajeitadamente. Torak sentiu a salgada ardência de lágrimas. por entre as árvores. — Ótimo. — — O que quer dizer? Eu não.. — Pegue. Que encontrarei a Montanha do Espírito do Mundo. uma luz cinzenta aumentava. O urso. Torak mordeu o lábio com força. Ótimo. Depressa. Ou morrerei tentando. —Juro... ele fez o juramento. Com uma voz insegura. Em seguida. O que você pode fazer. Minha. e por cada uma de minhas três almas. Não há tempo — cortou o pai. — Não tenho nenhum ocre — murmurou. . em pânico.. ou morrer tentando. pelo meu sangue nesta lâmina. Furiosamente. Por favor.Permaneça longe dos homens! Se eles descobrirem você... Era pesada: a faca de um homem. o totem de seu clã. colocou-a sobre o ombro. passou-a pelo ferimento no antebraço. Coloque as Marcas da Morte em mim... Sobre minha faca. Agora.. limpou-as esfregando-as. Jure que vai encontrar a montanha.. onde a tira de pele de lobo. Seu pai expirou. —Jure — ciciou seu pai. pensou ele. Ainda não. A leste. grande demais para ele... Torak ajoelhou-se e apanhou a faca. estava cerzida ao seu gibão. — Agora jure. Não está longe. ainda não.

em seguida desenhou na pele de seu pai os pequenos círculos que ajudariam as almas a se reconhecerem e permanecerem juntas após a morte. o sangue vermelho-escuro da terra. Mas Torak percebeu com uma pontada de terror que a pulsação no pescoço dele estava mais fraca. Torak encontrou a pequena bolsa de remédio feita de ramificação de galhada de veado que fora de sua mãe.. fez a marca mais importante de todas — um círculo na testa para indicar a Nanuak. e por isso Torak conseguiu apenas um oval inclinado para um lado. Seu pai olhou-o lastimoso e saudoso. eu. Por mim. Desordenadamente. Depois desenhou outro círculo acima do coração. e desenhou um círculo em cada calcanhar para indicar a alma-nome. De repente. para indicar a alma-clã. eu não vou deixar você. parou. Torak cuspiu na mão e fez uma pasta pegajosa com o ocre. pois o peito de seu pai tinha uma cicatriz de um antigo ferimento.. Esperava que aquilo fosse o suficiente. — Pa. — Não posso. — Melhor — murmurou o pai. . Isso não foi fácil. Quando terminou. removeu as botas de couro de castor do pai. o mais delicadamente que pôde. arrancou a tampa de carvalho e sacudiu um pouco do ocre vermelho na palma da mão.Desordenadamente. Primeiro. — Você não pode morrer! — explodiu Torak. — Pode sim. Por último. a alma-mundo. ele estava engolindo lágrimas.

— Torak. Não preciso mais dele. ao enrolar o saco de dormir do pai e amarrá-lo nas costas.. onde a névoa flutuava acima das samambaias e os salgueiros arrastavam seus dedos na água gelada. Depois. . disse Torak a si mesmo. — enfiou a bolsa de remédio dentro do gibão. A luz aumentava e o ar tinha um odor fresco e doce. Em seguida. — Novamente.. Congelou. Sim? Torak fez que sim com a cabeça. — Você sempre. — Forçou um sorriso. escoando o dourado pinho-sangue pelos talhos que o urso lhes infligira.. Estava retalhado. Vá. Você fez um juramento. Fique com o chifre de remédio. — Sim. Torak chegou ao riacho. Quando estiver caçando.. olhe atrás de você. Alguns dos espíritos das árvores gemiam baixinho na brisa da alvorada. A sua volta as árvores sangravam. foi cambaleante por entre as samambaias molhadas em direção ao riacho.. Olhando rapidamente em volta. Olhe atrás de você. arrancou uma folha de azeda e seguiu em frente as botas afundando no macio barro vermelho. Levanto-se e procurou o cantil de couro. sempre lhe falo. Eu. Não vou chorar. Torak virou-se. Tentou retribuir o sorriso. quando o pai murmurou seu nome. Estava para ir. — Agora. Pegue suas coisas. Pa? — Lembre-se... Você. Apanhe água para mim no rio.. esquece. Teria de trazer água em uma folha de azeda. fechou os olhos. — empurrou seu machado para dentro do cinturão.

Bem no fundo. Pinheiro. Ele girou. Um corvo voou baixo até um galho ali perto. e tão fresca que ele podia ver os pontos onde as longas e ferozes garras haviam perfurado profundamente o barro. Não consegue subir mais alto. Abeto gotejante. Você não é capaz de correr mais depressa. um agitar de galhos. Algo enorme. Nada de urso. A ave recolheu suas asas negras e fitou-o com olhos grandes e redondos. Olhe atrás de você. Tentou evitar que os pensamentos de pânico transbordassem. O problema com um urso. Uma pata dianteira: duas vezes o tamanho de sua própria cabeça. . Contra um urso não hã nenhuma defesa. mas sua mente se tornara vazia. Amieiro. grasnou uma vez. Teixo escuro. Não pode lutar com ele sozinho. Torak. Denso. e tentar convencê-lo de que você não é uma ameaça nem é uma presa. Tudo que pode jazer é aprender os modos dele. e voou para longe. Ele pode estar observando você a dez passos de distância sem que você perceba.Ao lado de sua bota direita estava a pegada de um urso. seu pai sempre dizia. Torak olhou na direção que ele parecera indicar. é que ele consegue se movimentar tão silenciosamente quanto a respiração. Em seguida sacudiu a cabeça. Havia algo ali. Salgueiros. porém — não mais do que dez passos de distância —. fazendo com que ele desse um pulo. Impenetrável.

— Torak! — surgiu o grito desesperado de seu pai. Torak tapou a boca com o punho. Sabia que a fera estava vindo atrás dele. Você o deixou passar sem mesmo tentar salvar Pa! Mas o que você podia fazer?. Covarde!. — Corra! Novamente a floresta foi sacudida. Não corra. Ele ouvia o furtivo farfalhar enquanto a criatura avançava em direção ao abrigo: em direção a seu pai... parou de repente. Não corra. Por entre as árvores. Talvez ele não saiba que você está aqui. E então. . Novamente surgiu o grito de seu pai. Foi por isso que mandou você apanhar água. Pa sabia o que aconteceria. perguntou a parte menor de sua mente que ainda conseguia pensar direito. Um rugido sacudiu a floresta — sem parar. até a cabeça de Torak arrebentar. viu de relance uma enorme sombra escura nos destroços do abrigo. Um leve sibilar. gritou no interior de sua cabeça. Esperou num rígido silêncio o animal passar. Novamente os galhos se agitaram. — Pa! —gritou ele. Virou-se e correu. — Corra! Corvos irromperam das árvores.Torak forçou-se a ficar imóvel.

as costelas machucadas doíam loucamente.DOIS Torak atirou-se pelas moitas de amieiro. e ele rosnou de volta. Finalmente. Sob a luz tempestuosa. a árvore murmurou segredos para si mesma. Pela primeira vez em sua vida estava verdadeiramente sozinho. pois carcajus só obedecem a ameaças. O carcaju concluiu que ele falava sério. O ferimento em seu braço ardia e. O javali deu um bufado mal-humorado e deixou-o passar. Chuva nas montanhas. as árvores eram de um verde brilhante. Continuou correndo. mas ele não se atrevia a parar. Continuou correndo. A floresta estava repleta de olhos. ele implorou que não contassem ao urso. Quando ergueu a cabeça para olhar as verdes folhas que estavam mudando de cor. e grunhiu um rápido pedido de desculpas para se precaver contra um ataque. Desabou diante de um carvalho. Sentia como se sua alma-mundo tivesse rompido . Imaginou o urso vindo atrás dele. Silenciosamente.para afastar o horror. Para o leste. pensou Torak indiferente. Um carcaju rosnou para ele. excluindo-o. afundando até os joelhos nos brejos. mandando-o ficar longe. Trovões rugiam. o mais ferozmente que pôde. teve de parar para recuperar o fôlego. o céu era cinza-lobo. com cada respiração. Não se sentia mais parte da floresta. Pés de bétula cochichavam sobre sua passagem. Cuidado com enchentes repentinas. Forçou-se a pensar naquilo . Ele assustou um jovem javali que cavoucava a terra atrás de castanhade-porco. Não funcionou. e disparou para cima de uma árvore.

Agora. fica o vasto bosque banhado pelo sol onde as presas engordam no outono. Talvez um grupo ocasional do Clã do Salgueiro vindo do oeste pelo mar. árvore e pássaro. no mundo inteiro. Para leste. Ele crescera nesta parte da floresta. longe dos clãs. mas eles nunca permaneciam muito tempo. Da bolsa de remédios tirou o último pedaço de entrecasca de bétula e fez um tosco curativo para o ferimento. Torak nunca questionara isso antes. para oeste. Queria berrar. vindo do sul. a rena come musgo no inverno. onde estão os pântanos. Pa dizia que a melhor coisa desta parte da floresta era que muito pouca gente vem aqui. O urso. gritar poderia atrair o urso. Era como ele sempre vivera: sozinho com Pa. mas ideal para uma boa pescaria na primavera. e bagas e nozes são abundantes. .seu elo com todas as outras coisas vivas. caçador e presa. sabia como ele se sentia. Nada. quando o salmão sobe do mar. Cada declive. porém. ou do Clã da Víbora. rio e rocha. em todo o caminho até os arredores da Floresta Profunda. Mas Pa o havia alertado para se manter longe deles. Nada queria saber. caçando livremente como todo mundo fazia na floresta. cada clareira era familiar. — gritar por socorro. ele ansiava por gente. No vale. Simplesmente passavam direto. Então afastou-se do tronco da árvore e olhou em volta. Para o sui. A dor no braço arrancou-o de seus pensamentos. e ignorando que Torak e Pa também caçavam ali. Além do mais. fica Água Vermelha — raso demais para canoas.

O som de um cavalo do mato movendo-se em meio às samambaias. Porém. Será que seu pai estava errado? Seu juízo andara delirando no final? "Seu pa é maluco". . ignore-as". seguindo para o norte. dissera Pa às gargalhadas. ele avistava sinais de presas. Torak deu de cara com o sol — e com um fedor de podridão. Pegadas de alce. "Elas não sabem o que estão dizendo. À medida que corria. Teria brigado com todas elas se seu pai não tivesse aparecido.” Ele estava certo. onde o urso os jogara. Excrementos de auroque. Ele o empurrou para baixo. "Foi por isso que ele deixou seu clã e vive por conta própria. é claro. Os cavalos do mato jaziam. "Torak. Parou bruscamente. Pa nunca mais o levou novamente. como brinquedos quebrados. as crianças haviam zombado de Torak cinco verões antes. Pelo menos. arrastando-o dali.” Torak ficara furioso. mais constantemente dessa vez. Inspirou fundo e começou novamente a correr.O pânico subiu para sua garganta. escarneceram as crianças. as árvores abriam-se para uma clareira. estava certo em relação ao urso? Adiante. Nem mesmo as moscas os tocariam. Nenhum comedor de carniça ousara se alimentar deles. "Dizem que ele engoliu o bafo de um espírito". quando ele e Pa tinham viajado até o litoral para o encontro anual do clã. Fora o primeiro encontro do clã de Torak e se mostrara um desastre. O urso não os tinha afugentado. ainda não.

Ele não matara por fome. Será que ele quis dizer que a floresta estava condenada? E por que ele. Mas esse urso não arrancou mais do que uma única mordida de cada carcaça. não desperdiça nada. come as vísceras e os traseiros. Quando um urso normal se alimenta. Como qualquer outro caçador. Torak. os pequenos cascos ainda cobertos com o barro do rio de seu gole de água final. .Eles não pareciam com nenhuma outra matança de urso que Torak já vira. Aos pés de Torak jazia um potro morto. e então apanha o resto para depois. Claro que seu pai estava certo. Novamente começou a correr. Nunca vira olhos como aqueles. precisava encontrar a Montanha do Espírito do Mundo? A montanha que ninguém jamais vira? A voz do pai ecoou em sua mente. Matara por diversão. O quente. O seu guia vai encontrar você. Ninguém consegue enfrentar esse urso. Que tipo de criatura massacra toda uma manada? Que tipo de criatura mata por prazer? Lembrou-se dos olhos do urso. esfola a presa. Ele mataria e mataria até a floresta morrer. dissera seu pai. vistos de relance durante o aterrorizante período de uma pulsação. Aquilo não era um urso. Como? Quando? Torak deixou a clareira e mergulhou de volta nas sombras sob as árvores. agitado caos do Outro Mundo. Era um demônio. Sua goela revoltou-se. Atrás deles nada havia a não ser fúria sem fim e um ódio por todas as coisas vivas.

Estava vazia. chegou a uma longa encosta arborizada e teve de parar — curvado. seu idiota! Bagunçar as coisas no seu primeiro dia sozinho! Sozinho. deixando uma bagunça de vegetação rasteira molhada e brotos esparramados pela grama. Sua barriga contraiu-se com o pensamento da carne fresca. Correu até não conseguir mais sentir as pernas. As águas já haviam baixado. Ele o reconheceu: o Água Ligeira. Torak. Algum filhote chamando sua mãe. Estava tão faminto que poderia comer um morcego. Seu coração disparou. Olhou abaixo para uma vala estreita através da qual corria um pequeno e veloz rio. Oh. Um pouco antes. mas aquela parte lhe parecia desconhecida. graças ao Espírito! Uma presa fácil. Mais para oeste. Como podia Pa ter ido embora? Ido embora para sempre? Gradualmente. Mas. finalmente. ele e Pa costumavam acampar durante o verão para juntar casca de tília para fazer corda. Não ligava para o que era. Elas também destruíram um covil de lobos do outro lado da vala. tornou-se ciente de um leve miado que vinha do outro lado da colina. Apalpou sua bolsa de comida — e gemeu desgostoso. abaixo de uma enorme pedra . Ali. o peito ofegante. Não era possível. Torak caiu no chão e rastejou por entre os pés de bétula até o topo da colina.Correu uma eternidade. Então percebeu por quê. uma enchente repentina surgira rugindo montanha abaixo. Tarde demais lembrou-se dos caprichados embrulhos de carne seca de veado esquecidos no abrigo. ficou esfomeado. Novamente. De repente.

O arranhão de pequenas garras e cutucadas de pequenos focinhos frios. A mente de Torak conhecia suas formas de expressão. Visões não mantêm a gente viva. E você tem permissão de matar o seu animal de clã para evitar morrer de fome. ficará fraco demais para caçar. De algum modo estranho que não conseguia nem começar a sondar. pensou. O que ela significava? Sua mão apertou a faca do pai. Era franzino e estava molhado. Quente escuridão.vermelha moldada como um auroque adormecido. Não é possível. Lembrava-se deles. o som levara uma alarmante visão à sua mente. A mãe limpandoo com lambidas. Três filhotes mortos flutuavam numa poça. Se você não comer esse filhote. Não importa o que significa. O filhote de lobo parecia ter umas três luas de idade. disse a si mesmo. jaziam dois lobos afogados parecendo capotes de pele encharcados. . Sem aviso. Ouviu os ganidos do filhote. Filhotes fofos trepando em cima dele: o filhote mais novo da ninhada. Pêlo negro. Você sabe disso. A visão era nítida como um relâmpago. O filhote ergueu a cabeça e emitiu um ganido aturdido. Sentiu-os estilar em sua mente. O quarto estava ao lado deles. reconheceu os sons agudos e vacilantes. Torak hesitou. Leite gordo. tremendo. Torak ouviu-o — e entendeu. e reclamava mansamente para si mesmo com um choramingar baixinho e contínuo. nutritivo.

Não um menino. Ele o havia farejado. O que estava acontecendo? Ele não se sentia mais como Torak. arrepiando sua pele. e agora sua mãe. Não emitiam um som. Uma brisa surgiu. perguntava o filhote à sua alcatéia morta. molhado e com muita fome.Por que não brincam comigo?. não um membro do Clã do Lobo — ou não apenas essas coisas.a espécie que se deixa comer. e endureceu seu coração. mas suas compridas orelhas estavam empinadas. o filhote parou de ganir e voltou-se abruptamente para encará-lo. seu pai e irmãos de matilha estavam deitados na lama — e o ignoravam. No fundo da garganta sentiu o início de uma reação. O filhote estava com frio. Seus olhos estavam desfocados. mas da espécie sem-bafo . que vomitasse alguma . Combateu o impulso de jogar a cabeça para trás e uivar. No mesmo momento. não um filho. Ele estava explorando a elevação acima do covil quando o Molhado Ligeiro desceu rugindo. O que eu fiz agora? Isso prosseguiu sem parar. Alguma parte dele era lobo. Muitas vezes lambera o focinho da mãe para lhe pedir. Enquanto Torak escutava. ele andara cutucando-os e mordendo seus rabos — mas continuavam sem se mexer. e ele farejava o ar. Não a presa que sai correndo. Sacou a faca do cinto e começou a descer o declive. Muito antes do Claro. por favor. Os músculos do pescoço tensionaram. algo despertou nele. e tinham um cheiro estranho: como o de presa. Torak olhou abaixo para o pequeno filhote aflito. O filhote de lobo não entendia nada do que estava acontecendo.

e não era nenhum da alcatéia. O gosto era ruim. Jogou a cabeça para trás e uivou.e algo mais — um cheiro novo que ele ainda não aprendera. e agora trazia um pouco de comida para o filhote! . semi-desenvolvido. Imaginou o que fazer a seguir. Girou. que ninguém sequer o notasse. Simplesmente adorava experimentar coisas novas. Cheirava a lobo. algo estranho nele. Isso era muito estranho. mas também era não-lobo. cambaleando um pouco por causa da fome. quando ele estava quieto no covil como um filhote bem-comportado. Uivar animava-o um pouco. No meio de um uivo. Começou a sentir medo. parecia um pouco injusto agora. Podia ouvi-lo descer ruidosamente o declive do outro lado do Molhado Ligeiro. A não ser — a não ser — que isso significasse que o não-lobo era na verdade um lobo que comera uma porção de presas diferentes. Cheirava a rena e a veado-vermelho e a castor. porém. Lobo. Pelo faro. O que ele fizera de errado dessa vez? Ele sabia que era o filhote mais desobediente da ninhada. Sim. Firmou as orelhas e farejou. Vivia sendo ralhado. mas ela nem se mexeu. ele parou. pois isso lhe lembrava todos os uivos agradáveis que dera com a matilha. Foi até a beira da poça onde jaziam seus irmãos de alcatéia e bebeu um pouco do Molhado Parado. soube que era macho.comida para ele comer. Comeu um pouco de grama e duas aranhas. Farejou lobo. Por isso. mas não conseguia evitar. e a sangue fresco . Havia.

Mas havia algo errado. E. As boas-vindas do filhote mudaram para um choramingar. soava lobo. concluiu que era um lobo realmente muito estranho. E o mais estranho de tudo — ele não tinha rabo! Mesmo assim. Esta me caçando? Por quê? Não. embora o lobo estranho estivesse sorrindo. Ele emitia um baixinho uivo-e-ganido amigável que soava um pouco como tudo bem. fez o amigável. O pêlo em sua cabeça era negro. Então o lobo estranho parou o uivar-e-ganir e avançou num medonho silêncio. sou amigo.Tremendo de ansiedade. Por baixo da cordialidade havia uma ta tensa. O filhote não conseguia enxergá-lo com muita clareza porque seus olhos não eram tão aguçados quanto seu focinho e ouvidos. Isso era tranqüilizador. não. mas não amigável uivo-e-ganido. Por um momento o estranho lobo parou. mesmo se ele continuasse falhando nos ganidos mais agudos. o filhote abanou o rabo para se defender. Debilmente. e tão comprido que ia além dos ombros. Então avançou novamente. o filhote recuou. mas enquanto o outro chapinhava pelo Molhado Ligeiro. O lobo estranho deu o bote. agarrou o filhote pelo cangote e o ergueu bem alto. . o filhote balançou o rabo e latiu uma ruidosa saudação. o filhote podia perceber que não era mesmo para valer. Ele caminhava sobre as patas traseiras. Fraco demais para correr.

Irritado. De repente. Mas o lobo estranho também estava amedrontado. O filhote contorce-se para se livrar do aperto da mão do lobo estranho. Suas patas dianteiras tremiam. pôs as patas dianteiras sobre seu peito e ficou de pé sobre as patas traseiras. ele enfiou o rabo entre as pernas. o lobo estranho novamente engoliu em seco e afastou com um puxão a grande pata da barriga do filhote. Que estranho rosto achatado sem pêlo! Os lábios não eram negros. Através do estranho couro sem pêlo que cheirava mais a não-lobo do que a lobo. Mas os olhos eram cinza-prateados e repletos de luz. Começou a lamber o focinho do lobo estranho. Em seguida. como característicos em lobos. O terror do filhote desapareceu. O filhote ganiu. ele podia ouvir um tranqüilizador tum-tum. igual ao som que ele ouvia quando subia em cima de seu pai para tirar uma soneca. sentou-se pesadamente na lama e apertou o filhote contra o peito. o lobo estranho empurrou-o para longe. Destemido. e ele engolia em seco e exibia os dentes. Arreganhando os dentes aterrorizado. O filhote sentiu solidão e incerteza e dor. e ele caiu de costas. O filhote sentiu-se melhor do que já se sentira desde quando viera o Molhado Ligeiro. ajeito-se e ficou sentado olhando acima fixamente o lobo estranho. mas pálidos. Encontrara um novo irmão de alcatéia. — os olhos de um lobo.O lobo estranho levantou sua outra pata dianteira e pressionou uma enorme garra na barriga do filhote. e as orelhas também eram pálidas — e não se movimentavam nadinha. .

Afasto-se correndo a distância de alguns passos. Mas o filhote captou muito bem o significado. Não pense em Pa. usaria uma das carcaças como isca em uma armadilha para animais de grande porte. Procurou alguma comida em volta da margem do rio. As carcaças dos lobos eram muito pesadas para serem arrastadas prá longe. Precisava comer algo depressa. varrendo o chão com a cauda. então sentou-se e olhou para ele. Se . Conhecia apenas os gestos mais simples e algumas das formas sonoras. Pense no que fazer. mas avistou apenas os lobos mortos. esperançoso. o que ele ia comer? O filhote espetou o focinho nas suas costelas machucadas. O desânimo abateu-se sobre ele. talvez você esteja a salvo aqui . — Não quero você! Entende? Você não tem utilidade! Vá embora! Ele nem mesmo tentou dizer isso em linguagem de lobo. portanto decidiu acampar mais adiante. porém. a esta altura já o teria pegado. Por que ele não matara o filhote? Agora. O que devia fazer? Acampar ali? Mas e o urso? Teria terminado com Pa e viria atrás dele? Algo contorceu-se dolorosamente em seu peito. Antes. pois achava que não a falava muito bem. fazendo com que ele gritasse.Torak estava furioso consigo mesmo. O sol estava baixando. chutando-o para longe. — Vá embora! — berrou. Portanto. Se o urso tivesse seguido você. na esperança de pegar algo durante a noite para comer. Torak pôs-se de pé — e o mundo balançou enjoativamente. rio acima. depois encaixar outro galho atravessado para agir como gatilho.pelo menos por esta noite. e eles fediam tanto que nem dava para pensar a respeito. Foi uma peleja montar a armadilha: firmar uma pedra achatada sobre um galho.

Além do mais. não estava na sua época do ano. — Não! — disse com firmeza. e apenas ter agarrado seu focinho se ele não tivesse obedecido. talvez aparecesse uma raposa durante a noite e derrubasse a pedra. Melhor ofendido do que morto. ou por quê? De que adiantava? Levanto-se e seus joelhos quase cederam. O filhote deu uma sacudida no corpo e retirou-se com um ar ofendido. — Fique longe daqui. por conseguinte preparou alguns laços com capim torcido.ele tivesse sorte. Não daria uma comida muito boa. de qualquer modo. e não em bosques de bétula. por que teve a preocupação de alertá-lo? Por que se importaria se o animal passasse por ali durante a noite e fosse esmagado? Para que se importar com o fato de o filhote ser capaz de entender aquilo. Mas estava cansado demais para se preocupar com aquilo. Torak agarrou o focinho dele e empurrou com força para o chão. Só quando chegou lá foi que ele se lembrou que amoras brancas silvestres crescem em pântanos e charcos. Esqueça o filhote. dois perto do chão e dois sobre o tipo de galho baixo para onde às vezes . e que. pensou Torak. Forçou-se a escalar o aclive atrás da grande pedra vermelha para procurar por amoras brancas silvestres. mas seria melhor do que nada. Mal tinha acabado quando o filhote se aproximou correndo e deu uma curiosa fungada na armadilha. Notou que em certos locais o chão estava repleto de excrementos de galinha-do-mato. Sabia que fora injusto: deveria primeiro ter rosnado para avisar o filhote para manter distância. Consiga algo para comer.

Não queria deixar a sua alcatéia. Finalmente encontrou um punhado de empetros. Fique aí. então sentou-se e uivou em direção a ele para que voltasse. Não quero que fique me importunando. Depois alguns arandos encarnados já passados. . em vez disso. preparou uma linha com anzóis feitos de espinhos de amoreira-preta e usou lesmas como isca. seguindo os sinuosos talos até a pequena raiz nodosa. foi rio acima à procura de bagas e raízes. comeu duas. Ele sabia que estava sem qualquer firmeza para tentar fisgar um peixe com uma lança.um pouco bichados. e os enfiou goela abaixo. Estava quase anoitecendo quando ele teve sorte e encontrou uma moita de castanhas-de-porco. Após mais exaustiva escavação. Seu gibão brilhava com o hálito nebuloso da floresta. o filhote o seguiu. cavou cuidadosamente. assim. mas mal dava para encher a boca. Por um tempo. tinha o gosto doce e de noz. e enfiou duas no gibão para depois. À medida que procurava. Ótimo. O ar tornava-se frio. umas lesmas. o sol ia baixando. Ocorreu-lhe um pensamento vago de que deveria construir um abrigo em vez de procurar comida. mas afastou-o da cabeça. Com um graveto afiado. mas não tão ruins. pensou Torak.correm as galinhas-do-mato — tomando o cuidado de esconder os laços com folhas para que a galinha-do-mato não os visse. desenterrou mais quatro. Mastigou a primeira. Então voltou para o rio. um bando de cogumelos do brejo amarelos . Em seguida.

Eles terão de servir. Encontrava-se num interminável túnel escuro de cortar e desfolhar galhos e cortar mais ainda. Não apenas enrugou o focinho e esticou os lábios para trás. Depois fogueira. percebeu alarmado que só conseguira abater dois espigados pés de bétula recém-nascidos e um pequeno e insignificante abeto. Forçou-se a continuar cortando. então ignorou-o. O que faço a seguir? Por que é tão difícil pensar? Abrigo. foi até uma moita de pés de bétula e colocou a mão no menor deles. O filhote estava à espera dele na clareira. . É isso. Ver isso deixou Torak tonto. Mas quando seus braços viraram água e não agüentava mais cortar. mas a enchente levara quase todos embora. Puxou a machadinha do cinturão. mas a mente continuava estranhamente obscura. Murmurou um rápido aviso para que o espírito arbóreo encontrasse depressa um novo lar. um pouco de força retornou aos seus membros. Tremendo e latindo de ria atiro-se para ele com um enorme sorriso de lobo. Achatou as orelhas para trás e pendeu a cabeça para um lado. Depois dormir. Além do mais. ele precisava construir um abrigo. O esforço fez sua cabeça girar.Com comida dentro dele. Olhou em volta à procura de galhos mortos.agitou a cauda e sacudiu as patas dianteiras. se é que ainda tinha forças. O corte no seu antebraço palpitava brutalmente. Teria de cortar algumas árvores novas. e então começou a cortar. e deu grandes saltos enroscados no ar. sorriu com o corpo todo.

Ele não tinha forças para torná-lo à prova de chuva com húmus. pensou Torak. Entretanto. faminto e apavorado. ainda assim senti-se indisposto. embora não restasse nada em seu estômago para vomitar. Cheirava mal. teria de confiar no saco de dormir para manter-se seco. mas teria de servir. Por que aconteceu isso?. e ele vomitou tudo. Parecia algo mais. Ao tocá-lo. Ele suava e tremia e. e rezar para que o espírito do no não enviasse outra enchente. sondou a clareira atrás de lenha para fogueira. mal acabara de engolir a castanha quando seu estômago revirou. coisa de cogumelo ruim.Amarrou os brotos com um pedaço da raiz do abeto para fazer um baixo e mirrado telheiro. a dor revelou-se. para se deitar. pois construíra perto demais da água. Mastigando outra castanha-de-porco. então cobriu três de seus lados com galhos de abeto e arrastou alguns mais para dentro. porém. Uma terrível suspeita o atacou. Será que comi um cogumelo ruim? Não parecia. O ferimento era de um vermelho inflamado. Se chovesse.e o medo pairou sobre ele como uma gélida neblina. O filhote latiu de prazer e devorou o vômito. Um soluço originou-se em seu peito. Abriu o curativo do antebraço . Era quase inútil. Ele estava exausto. e desesperadamente queria Pa. E agora tinha um novo inimigo. Podia sentir a quentura emanando dele. inchado. Febre. .

ele tremia incontrolavelmente. Apalpou o cinturão procurando a algibeira de iscas de fazer fogo. Ansiava por descanso. Esticou uma grande pata cinzenta e deu . A dor foi tão intensa que ele quase desmaiou. Por que não o deixava em paz? Cambaleou até o rio atrás de água. Pegou um pouco de casca seca de salgueiro em sua bolsa de remédios e mastigou-a. Suas mãos tremiam quando ele retirou um punhado de casca de bétula fragmentada.QUATRO Torak precisava fazer uma fogueira. deixando cair continuamente a sua pederneira e errando o riscafogo. Quando estiver doente. Bem a tempo. Os ruídos estrondeavam estranhamente altos: o gorgolejo do rio. o hu-hu de uma coruja. Vagamente. sentindo ânsias de vômito por causa de seu arenoso amargor. O prêmio era sua vida. lembrou-se do que Ha disse sobre não se curvar demais sobre ela. mas sabia que precisava cuidar do braço. os dentes batendo. Espalhou a pasta no antebraço. Rosnava de frustração quando finalmente conseguiu uma faísca para acender. e mal sentia o calor das chamas. Pode cair na água e se afogar. depois cobriu novamente o ferimento com o curativo de entrecasca de bétula. nunca olhe a sua alma-nome na água. ou não teria nenhuma chance. Vê-la deixa você tonto. bebeu até se saciar. O filhote também tentou entrar. depois cambaleou de volta ao abrigo. Era uma disputa entre ele e a febre. o ganido esfaimado daquele irritante filhote. ele observou o filhote correr para o fogo e estudou-o com curiosidade. Ele o empurrou para longe. Quando o fogo já queimava. Com os olhos fechados. Tudo o que conseguiu foi chutar fora as botas e rastejar para dentro do saco de dormir.

Nunca sem Pa. O urso está vindo atrás dele. e deslizou em direção a sonhos maus. não houve o toque de boa-noite da calejada mão amável. aninhando o braço latejante e pensando com amargura na bagunça em que deixara as coisas. Ele conhecia as regras. Nem o cheiro familiar de couro de gamo e suor. disse Torak a si mesmo. Se morrer. O mesmo que esquecer como andar. saltou para trás com um latido indignado.em seguida. Nunca use mais esforço do que o suficiente ao coletar comida. depois seguindo em frente. Fechou-os bem apertado. montando acampamento para uma ou duas noites. a culpa será sua. quando completou sete anos. Você não as merece. esfregando suco de uva ursina na pele perfurada. Com a mão boa tocou suas tatuagens do clã. atolado até a altura dos joelhos. lutando para escapar do urso Os gritos do pai ressoam em seus ouvidos. O filhote sacudiu-se e saltou para o meio da escuridão. Seu primeiro dia sozinho e ele havia infringido todas elas. Era assustador. Nunca em toda sua vida tinha dormido sozinho. Torak enroscou-se como uma bola.uma pancadinha nas chamas . Novamente a dor torceu-lhe o peito. Pela primeira vez. Toda a sua vida vivera na floresta com Pa. Nunca seja pão-duro na construção de seu abrigo. Ele está patinhando no brejo. Nunca deixe para muito tarde a montagem de um acampamento. — Que lhe sirva de lição — murmurou Torak. Foi Pa quem as dera para ele. O olhos de Torak começaram a arder. . seguindo o traçado das duas finas linhas pontilhadas que acompanhavam cada osso malar.

Ele tenta fugir. Torak deu-se conta de que os rugidos estavam bem distantes: muitos dias de caminhada para oeste. Os olhos do urso queimam como o fogo mortal do Outro Mundo . soltou a respiração. Na entrada do abrigo. Pelejou para pegar mais casca de salgueiro na bolsa de remédios. Eram reais.o fogo do demônio.. porém. O crânio parecia prestes a explodir.. Ela enrugou sua pele. Achou aquilo estranhamente tranqüilizador. o filhote estava sentado. Lentamente. mas . Suas enormes mandíbulas abrem-se escancaradamente quando ele ruge seu ódio para a lua. refletiu Torak. Torak acorda com um grito. Seu pai está gritando. O último dos rugidos do urso ecoa pela floresta. uma ameaça muito alta inimaginavelmente imensa. Viu a luz azul do luar através das brechas de seu abrigo. Ele empina-se sobre as patas traseiras-. Não eram um sonho. Torak prendeu a respiração. mas apenas afunda ainda mais no brejo. Pelo menos não estava sozinho. a dor de sua febre voltou crescente. As árvores retesaram-se para ouvir. lembrando-se do pequeno amuleto de foca que Pa usava numa tira de couro em volta do pescoço. Seus olhos esguelhados eram de um dourado-escuro estranho Âmbar. Este o suga para baixo. Novamente a floresta foi sacudida. Sentiu seu coração bater. Viu que o fogo estava quase se extinguindo. Quando as batidas de seu coração voltaram ao normal. Dessa vez. observando-o.

Isso é importante. A febre sumira. De volta às garras do urso. Haverá? Ele afundou na escuridão. Quero morrer com os olhos abertos. Se o urso vier. Em algum lugar bem distante. Torak franziu a testa. . Como Pa. ofegando. Lembre-se. Continuaria seguindo na direção oeste? Ou teria captado o cheiro de Torak e mudado de direção? Quanto tempo levaria para chegar ali e encontrá-lo deitado indefeso e doente? Uma voz calma e firme parecia sussurrar em sua mente. o filhote vai alertar você. Dormira o dia todo. Não conseguia tirar aqueles rugidos da cabeça. Sim.quase como se Pa estivesse com ele. Cães querem dizer pessoas. um cão latiu. encarando o urso como um homem. mas agora o urso parecia estar a oeste. mas seu ferimento estava mais frio e muito menos dolorido. CINCO Estava quase escuro quando Torak acordou. pensou Torak. o filhote vai me alertar. Não um lobo. Arrastou outro galho para a fogueira.deixou-a cair e não conseguiu encontrá-la novamente na semi-escuridão. e não há pessoas nesta parte da floresta. Seus ouvidos são tão apurados que ele é capaz de ouvir as nuvens passando. mas um cão. Senti-se fraco e furiosamente sedento. Onde estaria o urso agora? A clareira dos cavalos mortos ficava ao norte do riacho onde ele atacara Pa. e então deitou-se de costas. . Torak: o focinho de um lobo é tão aguçado que ele é capaz de farejar o hálito de um peixe.

Teve mais sorte com os laços. cutucando com a pata sua fedorenta carcaça. ele começou a correr em sua direção. calçou as botas e foi verificar as armadilhas. Cambaleou até o rio e bebeu. limpas por hábeis mordiscadas. Quando Torak se aproximou. Por que deveria se preocupar? O filhote nada significava para ele. Queria que Torak elucidasse aquilo. o uivo poderia atrair o urso. ganindo indignado. em vez disso. Elas eram duras e muito ácidas. não continha nenhum filhote morto. Torak suspirou. Torak quebrou seu pescoço. amarrou a ave no cinturão e foi verificar a armadilha para animais de grande porte. O esforço deixou-o tremendo. para a loba. Pensou em tentar chamá-lo com um uivo. que se debatia debilmente. Como poderia explicar o que era a morte se ele mesmo não a entendia? . Mas. Sentindo-se ligeiramente mais firme. Tinha um gosto amargo e limoso. Carne. abriu sua barriga e engoliu o quente fígado cru. Então. Murmurando um rápido obrigado ao espírito da ave. mas ele estava faminto demais para ligar para isso. O filhote estava sentado ao lado de sua mãe. depois despertou o fogo adormecido com mais lenha. Os anzóis estavam vazios exceto um. Um deles prendia uma galinha-do-mato. mas fortificantes. e comeu a última castanha-de-porco e algumas folhas de azeda que encontrara na margem do rio. então olhou para trás. seria apenas para pedir comida. Para seu alívio. que segurava as espinhas de um pequeno peixe. Além do mais.E o filhote também. Descansou. O filhote continuava desaparecido. se aparecesse. Torak ficou surpreso em se descobrir imaginando se ele estaria bem.

Sugou dos ossos cada pedacinho de carne e gordura. batendo a cauda. afasto-se correndo para uma distância segura. Torak agarrou o focinho do filhote e o enfiou no chão. Em seguida. As enormes orelhas do filhote giraram para captar o som. Não!. Torak assentiu. e colocou-a acima do fogo para assar. exibiu sua pálida e peluda barriga. rosnou. . Que futuro?. sem se importar de falar lobo. Rapidamente. então. a cabeça educadamente baixada. O filhote tinha de aprender que ele era o lobo líder. satisfeito. Seu futuro não incluía o filhote. Gordura chiava no fogo. De volta ao abrigo. acomodou-se para comer. Forçou-se a ignorar os grandes olhos cor de âmbar que acompanhavam cada dentada. É minha! O filhote ficou ali parado. torceu uma coxa da galinha-do-mato e a enfiou na forquilha de um pé de bétula como uma oferenda para o guardião do seu clã. pensou. Sua boca salivou. depenou e enfiou um espeto na galinha-do-mato. — Não há nada aqui — falou Torak com impaciência. ou haveria intermináveis problemas no futuro. Quando Torak soltou seu focinho. ele rolou de costas. obedientemente. fazendo cara feia. e triturou cada bocado de pele tostada e salgada. Era a melhor coisa que ele já havia provado. O filhote avançou para cima dela. - Vamos embora. O cheiro de carne assada afastou todos os outros pensamentos. e lhe deu um sorriso silencioso de desculpa.— Venha — disse ele.

mas estes ainda serviriam para fazer agulhas. anzóis e caldo.Quando acabou. olhou para Torak. mas sabia que não podia. O filhote triturou-o em instantes. esperançoso. Ele havia limpado os ossos. O filhote ganiu impacientemente e olhou para a carcaça em suas mãos. Agora que se livrara da febre e comera alguma carne. Algum demônio penetrou nele e o tornou mau. limpou a boca com as costas da mão. Pensou na clareira dos cavalos mortos e nos olhos do urso assombrados pelo demônio. sem uma pele de cozinhar. Quando a febre baixou e veio o frio. ele não conseguiria fazer caldo nenhum. — Ora. — Não tenho mais . sentou-se e ficou encarando o fogo. jogou metade da carcaça para o filhote. — se bem que. . Torak também queria dormir. finalmente.falou para ele. pensar com clareza. O filhote a destruiu com suas mandíbulas poderosas. depois se enroscou e caiu imediatamente no sono: uma dócil bola preguiçosa de caloroso pêlo cinzento. está bem — murmurou. podia. Torak soltou um longo bufado. Prevendo que poderia estar guardando problemas para si mesmo. Em seguida. O filhote acompanhava cada movimento. Está possuído. dissera Pa. Arrancou o pé que restava na carcaça e jogou-o para ele.

mas que diziam aparecer. Torak pôs-se de pé num pulo. Até agora. do mesmo modo como os clãs vivem em abrigos. nunca tinha pensado a respeito dele. eternamente à procura de clãs que eles perderam. no verão. Sabia que o Povo Oculto vive no interior de rochas e rios. um espírito que ninguém jamais viu. e que espíritos gemem em árvores sem folhas nas noites de tempestade. o filhote saltou emitindo um tenso grunhido. O peso do juramento que fizera a Pa pesava sobre ele como uma pedra. Ele não sabia. embora tivesse grande conhecimento sobre caçadores e presas. como uma mulher com galhos nus de salgueiro vermelho como cabelo.Mas o que é realmente um demônio?. erguendo-se de dentro do chão para causar doença e destruição. Sabia apenas que guardiães de clãs vigiam acampamentos. que manda a chuva e a neve e a presa sobre isso Torak sabia muito pouco. Era remoto demais: um espírito inimaginavelmente poderoso que vivia muito distante. e que eles parecem bonitos até virarem suas costas. Só sabia que demônios detestam todas as coisas vivas. ele sabia muito pouco sobre as outras criaturas da floresta. Torak baixou a cabeça sobre os joelhos. Enquanto pensava nisso. que são ocas como árvores apodrecidas. e às vezes escapam do Outro Mundo. auroques e cavalos e veados. Perguntou-se Torak. no inverno. deu-se conta de que. — sobre linces e carcajus. De repente. Quanto ao Espírito do Mundo. como um homem com as galhadas de um veado e. em sua montanha. .

Eu já o vi. a mão na faca de Pa. é quando os demônios são mais fortes. Sentou-se novamente. Ouvia-as cochichar umas com as outras.o mais poderoso demônio do Outro Mundo . Em seguida. o grande touro Auroque . Ele sabia muito bem disso. eu sei.. A estrela vermelha do inverno. Eu sei a respeito do olho vermelho. ele galopa mais alto. Torak permaneceu totalmente imóvel. um tordo começou a entoar sua melancólica canção noturna. arremesso-se para fora da área iluminada pela fogueira e desapareceu. Sentiu as árvores observando-o. Se o urso estivesse por perto. porém. pêlos do pescoço eriçados.Os olhos do filhote estavam fixos na escuridão: orelhas rígidas. E quando o urso será invencível . o focinho dócil e sorrindo ligeiramente. o pisco-de-peito-ruivo não estaria cantando. disse a si mesmo. já tinha ido embora ou não era uma ameaça. pensou Torak. A princípio. na Lua do Salgueiro Vermelho. Você sabe disso. e o mal é mais forte. ele se levanta e fica mais forte.escapa para o céu noturno.. Foi o que Pa falou. e por isso apenas o estrelado cintilante de seu ombro pode ser visto. Quando o olho vermelho está mais alto no céu. pateando a terra. Torak relaxou a pressão sobre a faca. E. Fosse o que fosse o que estava lá fora. E quando se vêem seus chifres resplandecentes e seu olho vermelho injetado de sangue. E quando os demônios vagueiam. Sim. tem a cabeça baixa. Você tem de encontrar a Montanha do Espírito do Mundo até a próxima lua. O filhote reapareceu: o pêlo do pescoço baixo. Todo outono. Quando chega o inverno. Em algum lugar não muito distante.

porém. o olho vermelho aparecerá. Torak não queria ir muito para o norte. mas ainda estava apenas no nível das raízes mais meridionais das Montanhas Altas. Era agora o final da Lua dos Veados Berrantes. Mesmo assim . No horizonte oriental. para leste. Torak viu o gelado cintilar das estrelas. pois o espírito sempre afugentava as pessoas com fortes nevascas e traiçoeiras avalanches de pedras. . por causa da febre. Fique aqui mais ou menos um dia. a Lua do Abrunheiro. Durante a Lua do Salgueiro Vermelho. e que elas faziam uma curva do norte para o sul. não vá. Não fazia idéia de como conseguiria ir tão longe por conta própria. Revigore-se.Pa devia acreditar que ele teria uma chance. arqueando externamente à floresta como a espinha dorsal de uma enorme baleia. Sabia que as Montanhas Altas ficavam muito longe. dissera Pa. Apanhou um graveto e atiçou as brasas. o Espírito do Mundo vivia na montanha mais ao norte. e sem condições de iniciar uma jornada. Muitos dias de caminhada. logo acima da distante escuridão das Montanhas Altas. ele será invencível. ou não teria feito com que ele jurasse. O dia todo Torak estivera evitando o norte. jamais chegara perto dele. Siga para o norte. segundo se dizia. pensou. e em direção ao desconhecido. Continuava fraco. ele o encontrou: o ombro estrelado do Grande Auroque. Isso o levaria para fora do pequeno trecho da floresta que ele conhecia.Olhando acima por entre os galhos. E sabia que. E então parta. além da Floresta Profunda. Na lua seguinte. Portanto. Ninguém. Não cometa o mesmo erro duas vezes: não entre em pânico para quase ser morto por causa da pura estupidez. e o poder do urso ficará mais forte.

e isso se revela nos olhos deles. Havia uma porção de coisas que ele explicaria quando Torak fosse mais velho. Torak. Lobos são os nossos irmãos mais próximos. Mas o lobo não vê isso. De repente. para sua surpresa.Tomar uma decisão fez com que ele se sentisse um pouco melhor.. que o filhote o observava. Torak perguntara como ele sabia disso. Ele já tinha algo da beleza de um lobo adulto: o delgado focinho cinza-claro. a voz de Pa ecoou em sua memória. dizendo que explicaria quando Torak fosse mais velho. O filhote continuava observando-o. A única diferença é a cor. enormes orelhas com suas orlas negras. Torak teve a estranha sensação de que o filhote sabia o que ele estava pensando. Apenas prateados e cinzentos. mas Pa sorrira e sacudira a cabeça. elegantes olhos com contornos escuros. Torak fez cara feia e esfregou o rosto.exceto os de um homem. Mais uma vez. pois o mundo dele não tem cores. Gostam de conversar . os lobos são como nós. Tão claros quanto à luz do sol na água de nascente. cochichou Pa em sua mente. Aqueles olhos.. e viu. Eles caçam em alcatéias. Colocou mais gravetos no fogo. ao passo que os nossos são cinzentos. Mais do que qualquer outro caçador da floresta. Os olhos de um lobo não são como os de qualquer outra criatura . Os deles são dourados. Seu olhar era firme e em nada parecia o de um filhote: eram os olhos de um lobo.

O que Pa andou tentando lhe dizer? O seu guia vai encontrar você. Pigarreando. pois. o que o filhote supunha que era sua maneira de rir. Gostava de brincar de pegar usando um pedaço de pele de lebre. sacudiu o rabo. ele dormia o tempo todo. Quando se sentia triste. Têm um amor feroz por suas fêmeas e filhotes. Seria o filhote o seu guia? Resolveu testá-lo. emitindo uivos e ganidos. . E cada lobo trabalha duro pelo bem da alcatéia. Ele era de novo simplesmente um filhote. Quando se zangava. rosnava. O filhote girou as orelhas e olhou para ele. No início.com o baixo e intenso uivar-e-ganir que faz parte da conversa de lobo . ficou de quatro. e por isso resolveu chutar: gesticulou com a cabeça e perguntou . mas agora comportava-se mais como um lobo normal. em conversa de lobo. Ou não? Será que ele realmente imaginou aquele olhar? SEIS Passaram-se muitos Claros e Escuros desde que Alto Sem-Rabo viera. Não sabia como dizer "montanha" em conversa de lobo.e brincar. Torak aprumou-se. e então desviou a vista educadamente. rolava no chão. Nada em seus movimentos disse a Torak que ele entendera sua pergunta. encarar firmemente é uma ameaça. indolentemente. Em seguida levanto-se. ficava quieto. espreguiço-se e. e quando o filhote se lançava sobre ele.se o filhote sabia o caminho.

de muitas maneiras. já que não deixou seu irmão de alcatéia acordá-lo? Hoje. mas cheio de sentimento. nem eriçar seu pêlo. O mais estranho de tudo. e. Alto SemRabo levantou-se após um sono estupidamente longo. Mas. cutucando-o e mordiscando suas orelhas. muito zangado. e durante o Escuro ele gostava de olhar para a Brilhante Besta-que-Morde-Quente. Uma caçada? . desse modo. Bem. ele arrancava suas patas traseiras. Alto Sem-Rabo acordou antes do Claro. Não parecia saber que um lobo só deve dormir durante curtos períodos de tempo. O filhote sentiu seu nervosismo. e numa terrível ocasião arrancou até mesmo sua pele. espreguiçar-se e vira-se. pronto para qualquer coisa. Enfim. Claro que ele não tinha rabo. o filhote deixou que ele dormisse. O uivo de Alto Sem-Rabo era tosco e não muito afinado. no geral. Às vezes. Portanto. Curioso. e com um estado de ânimo muito diferente. porém. o que ele esperava. e não conseguia mover as orelhas. e os dois cantavam seus sentimentos para a floresta. O pobre Alto Sem-Rabo mal conseguia farejar ou ouvir. Se bem que não em tudo. o filhote observou Alto Sem-Rabo seguir a trilha da alcatéia que levava ao Molhado. ele dormia um século. ele era exatamente como qualquer outro lobo. estando. nem alcançar os latidos agudos. e excessivamente malhumorado. O resto de sua conversa era a mesma coisa: rude mas expressiva. Alto Sem-Rabo juntava-se ao filhote num uivado. O filhote tentou ensinar a Alto Sem-Rabo a acordar com mais freqüência. ele se fazia entender. e deve se levantar com freqüência.Às vezes. Em vez de mostrar agradecimento. no Claro seguinte. Alto Sem-Rabo simplesmente ficava muito.

latiu o filhote. mas ele a sentia dentro de si: uma leve. Então caminhou de volta em direção ao filhote. o qual o filhote agora odiava e temia mais do que tudo. Soou como "Quequifoi?". Não conseguiu enxergar nada . A direção certa era subindo a colina. e então latiu para ele parar. Alto Sem-Rabo viro-se.como a influência do covil quando ele se afastava muito. Aquela era a direção errada porque . "Uff". Torak seguiu a direção de seu olhar. O filhote emitiu um baixo "Uff" de alerta . porque vinha de bem longe. Não era apenas porque ele estava seguindo o Molhado Ligeiro. Alto Sem-Rabo caminhava a passos largos. e então seguindo em frente por muitos Claros e Escuros. só que mais leve. Torak observou o corpo tenso de Lobo.como sua mãe costumava fazer quando o queria de volta ao covil já. profunda influência . Adiante. Disparou para o pé da colina e ficou olhando para a trilha certa. E Alto Sem-Rabo estava indo na direção errada. Disse alguma outra coisa na fala dos sem-rabos. O filhote não sabia como sabia essa informação. Alto Sem-Rabo coçou a cabeça. Não é por aí. Perguntou alguma coisa na sua própria fala. Aquilo não era uma caçada. inconsciente. É por aqui. Alto Sem-Rabo repetiu a pergunta.O filhote saiu saltitando atrás dele. O filhote ficou esperando que ele entendesse. Então olhou para Alto Sem-Rabo e depois novamente para a trilha.porque não era a direção certa. Seu focinho preto contrai-se. As orelhas de Lobo movimentara-se para a frente. Impacientemente.

as fendas de cada pequenina pegada eram profundas e alargadas. como se movimenta.através do entrelaçado de aveleiras e espirradeiras. O dia todo. E. Em seguida. No momento. Lobo olhou de relance para Torak. você precisa primeiro conhecê-la como conheceria um irmão. Era apenas um pequeno gamo. Sabia que é preciso parar freqüentemente para ouvir: abrir os sentidos para o que a floresta está lhe dizendo. Torak agachou-se. se conseguisse derrubá-lo.. Silenciosamente. adivinhando aonde ele iria a seguir. Para seguir o rastro de uma presa. mas sabia que o gamo estava ali. Ainda estavam a favor do vento em relação ao gamo: ele não captaria o faro dos dois. seus olhos âmbar passeando pelos do menino. Vinham seguindo o veado o dia todo. e quando e como. Sem um ruído. porque Lobo sabia disso. e Torak aprendera a confiar em Lobo. Torak. ele sabia que o gamo estava cansando. O que ela come. Ele sabia como rastrear. Torak quebrou a cabeça de uma gramínea e dividiu-a ao meio com o polegar. Juntos. Ótimo. mas. avançaram sorrateiramente. Pa ensinara bem a Torak. No início do dia. deixando que as pequeninas sementes flutuassem para longe com a brisa. o que . mascarou seu cheiro esfregando cinzas de madeira na pele. A presa andava muito mais escassa do que deveria naquela época do ano. onde descansa. seria o primeiro abate que teria feito sozinho.. Torak seguira sua trilha de gravetos mordidos e pegadas fendidas: tentando sentir o que ele sentia. seu olhar voltou para a floresta. A cabeça do filhote baixou. Precisava disso. antes de se pôr a caminho. como sempre. puxou uma flecha de sua aljava e encaixou no arco.

ele e o filhote avançaram pela vegetação rasteira. Agora as fendas eram rasas e juntas. Era para ali que o corço devia estar seguindo. pois se mantivera em segurança no meio do mato. Ali. Torak observou-o cheirar o ar e eriçar o pêlo de sua pálida anca em alarme. Lobo congelou: orelhas cravadas à frente. Mais o tempo de uma pulsação e o animal iria embora. dobrou os joelhos e afundou no chão. Suavemente. Cuidadosamente. cerca de trinta passos distante da trilha. mas então afrouxou o passo para deixar Torak ultrapassá-lo. Amieiros só crescem perto da água. ele diminuíra a velocidade para uma caminhada. Sim. Com um elegante estremecimento.significava que ele andara galopando. O corço inclinou-se para beber. O corço ergueu a cabeça. . e com sede. Lobo competiu com ele e venceu facilmente. A oeste através das aveleiras. Colocando a mão em concha sobre o ouvido. onde não havia água. Ela atingiu com um som surdo as costelas do veado logo atrás do ombro. a água pingando de seu focinho. O filhote estava aprendendo a respeitar o lobo líder. captou um leve agitar de água. uma pata traseira erguida. pois não tivera tempo para pastar. vislumbrou uma moita de amieiros. Torak fez a mira. Devia estar com fome. De repente. Torak procurou rapidamente por sinais de um córrego. No meio dos amieiros. Torak deu um grito e avançou pela vegetação rasteira em direção a ele. Ele soltou a flecha.

O animal ficou quieto sob sua palma. Era como .Ofegando. seria a primeira vez. Lobo devorou-as com uma bufada. Onde quer que Pa estivesse na Jornada da Morte. Nada de elos presos em arbustos espinhosos. esticou a mão e alisou delicadamente sua face áspera e suada. Nada de rastros. Torak parou diante do corço. Prometi manter o pacto com o Espírito do Mundo e tratar você com respeito. — Você foi bem — disse-lhe Torak. a floresta deveria estar ecoando com os urros dos veados-vermelhos no cio e o estrépito de suas galhadas enquanto lutavam pelas fêmeas. porém era silêncio. mas a morte estava perto. porém. Aquele foi seu primeiro abate de um animal de grande porte. Senti-se agradecido pelo corço. quase derrubando-o no chão. e continuou avançando o dia todo. estaria contente. Torak virou-se para Lobo. e teria de obter sucesso na tarefa. enrugou o nariz e arreganhou os dentes num sorriso de lobo. obrigado. Torak engoliu em seco. entretanto. Ajoelhando-se ao lado do veado. Torak gargalhou e lhe deu um punhado de amoras-pretas de sua bolsa de comida. — Você foi bravo e esperto. Observou a morte vitrificar o grande olho escuro. Suas costelas ainda se erguiam. Muito bem. pôs a cabeça de lado. Sua voz soava sem jeito. Para ele. mas também orgulhoso. estava errado. Agora vá em paz. Algo. Suas três almas preparava-se para partir. Haviam se passado sete dias desde que eles partiram do Água Ligeira e ainda nenhum sinal do urso. Nada de rugidos de estremecer a floresta. Lobo lançou-se sobre Torak. Agora teria de fazer o que vira Pa fazer vezes incontáveis. Nesta época do ano. Tudo.

Mesmo assim. alertara Pa. com uma brusquidão de parar o coração. que ficara nervoso . Torak não entendeu o que isso queria dizer. Parecia mais como se estivesse se lembrando deles. embora não fosse como se estivesse aprendendo. agora ele tinha Lobo. havia uma coisa que ele sabia jamais ser capaz de dominar. Lobo também tinha seus próprios humores. mas sabia que Pa estava certo. orelhas. Às vezes era o filhote. Os gestos podem ser com focinho.. Ele crescera longe das pessoas. patas.e uma vez.como na ocasião em que se contorceu incessantemente quando Torak realizava um rito de denominação para ele. . com uma adoração infantil por bagas e a incapacidade de ficar quieto.. cheiros e sons. Muitos são bastante sutis: um mero inclinar ou contração. e depois lambeu todo o sumo de amieiro vermelho que cobria suas patas. um grupo de caça: três homens. Fique longe dos homens. Com o passar dos dias. as únicas criaturas que Torak encontrou foram pássaros e ratazanas-do-campo .se a floresta se esvaziasse lentamente. Atualmente. Diferentemente de Torak. pêlo ou o corpo inteiro. Isso era o que ele veio a chamar de 'sentido de lobo": a fantástica capacidade de o filhote sentir os Pensamentos e os humores dele. duas mulheres e um cachorro. eles conheciam cada vez melhor um ao outro. Além disso. Torak começava a entender que a fala lupina é uma complexa mistura de gestos. A maioria não envolvia sons. não queria nada com elas. ombros. Em sete dias. Torak já conhecia uma porção deles. olhares. a presa fugindo de uma ameaça invisível. rabo. porque não era um lobo. Se eles descobrirem o que você consegue jazer. conseguiu escapulir antes que o vissem. Felizmente.

. Lobo deu uma sacudida e sorriu. ele era o guia: misteriosamente seguro do caminho que deviam tomar. Demorou dois dias para Torak reduzir o animal a uma carcaça. O resto do fígado ele cortou em tiras e colocou para secar. Esse era o antigo pacto entre os caçadores e o Espírito do Mundo. se Torak tentasse lhe perguntar a respeito disso. apenas o melhor que conseguiu fazer. Então condescendeu e cortou um pedaço para Lobo. Estava sendo o filhote. — Chega! Tenho trabalho a fazer. e latia insistentemente pedindo mais. Era tudo. Lobo não estava sendo o guia. Torak riu e empurrou-o para longe. porém. Eu apenas sei. No momento. Caçadores deviam tratar a presa com respeito.ao executar um ritual tão importante. depois afastou-se para tirar uma soneca. Era uma tarefa amedrontadora. Torak não realizou um trabalho excelente. Mas. e em troca o Espírito mandaria mais presas. que o devorou ruidosamente. ele não dava o que poderia ser chamado de resposta. abriu a barriga do veado e cortou um pedaço do fígado para o guardião do clã. Seu focinho estava roxo com o sumo de amora-preta. e teria de cumpri-la não desperdiçando nada. Em outras ocasiões. Lobo parecera não ficar impressionado: apenas impaciente para que aquilo acabasse logo. Primeiro. Eram necessários muitos verões de prática para usar bem a presa. Fizera uma promessa ao corço.

possuía um pedaço razoável de couro cru para corda e linhas de pescar. Um pedacinho o manteria metade de um dia.se bem que não imediatamente. cortou a carne em tiras finas e pendurou-as sobre uma fumacenta fogueira de lenha de bétula. Depois de secas. socou-os para torná-los achatados. depois os cuspiria fora para o filhote. A carne era deliciosa. Após a rodada final de molhar e secar. O filhote brincou incansavelmente com eles antes de triturá-los ruidosamente com os dentes. deixou os cascos imediatamente para Lobo. desbastando o couro para livrá-lo de qualquer pedaço de carne. E eram tão resistentes que sobreviveriam a qualquer roupa que fosse cerzida com eles. esmagouas entre duas pedras. As entranhas. uma bolsa extra para iscas de fazer fogo. Mas como ele não tinha pele alguma de cozinhar para fazer cola. Não chegavam nem perto da maciez nem mesmo eram parecidos com os fios que seu pai costumava fazer. Os pulmões eram a quota de Lobo . Lavou o coro em água misturada com casca de carvalho esmigalhada para amolecer os pêlos. Enquanto o couro secava. e depois enrolou-as formando pequenos pacotes compactos. para torná-las ainda mais finas. A seguir. os intestinos guardariam nozes. e depois cardou as estreitas fibras para obter os fios: secando-os e esfregando-os com gordura para se tornarem flexíveis. com uma raspadeira feita de galhada. embebeu em água de casca de carvalho e espalhou sobre um arbusto de zimbro.A seguir. mas serviam. Então rapou os pêlos – de modo inexperiente. ele lavou-as. a bexiga. . fazendo vários buracos — e amoleceu o couro esfregando-o com os miolos amassados do corço. Torak mastigaria pedaços deles nas refeições diurna e noturna. O estômago daria um depósito de água. Torak esfolou a carcaça. para secar. depois esticou-o entre duas árvores novas — fora do alcance de um salto de Lobo. Torak lavou os compridos tendões traseiros que havia separado da carnagem.

quando partiram novamente. Dessa vez. para sua surpresa. Lobo pulou como se tivesse sido picado por um vespão.Finalmente. Para seu desânimo. o ânimo de Torak elevou-se. Precisava de algum meio para chamar o filhote quando este estivesse distante em uma de suas solitárias jornadas: algum meio mais silencioso do que um uivo. Não podia mais se arriscar uivando. Aquele grupo de caça ainda poderia estar por perto. depois ganiu. raspou a galhada e os ossos compridos. e. para mostrar que estava um pouco irritado. feliz pela fartura de carne. Sua expressão deixou bem claro: Torak não deveria chamar a não ser que fosse para alguma coisa. Acabou de talhar e experimentou o apito. . Soprou-o mais uma vez. Mas. Pa havia entalhado inúmeros apitos exatamente como aquele. Torak olhou do assustado filhote para o apito. ele não produziu nenhum som. Já era tarde no segundo dia. para limpá-los e os amarrou num feixe para posteriormente lascá-los e transformá-los em anzóis. Torak pediu desculpas cocando delicadamente debaixo do focinho de Lobo. Torak tentou novamente. e o filhote afundou no chão. talhando um apito de um pedaço de osso de tetraz. agulhas e pontas de flechas. mas não queria ir longe demais e ofender Torak. Sentou-se perto do fogo. Lobo rosnou brevemente. Novamente. quando ele terminou. Ainda nada de som. e sempre produziram um trinado claro de pássaro. nada de som. soprando o mais forte que conseguia. O dia seguinte raiou belo e luminoso. Por que o dele não? Frustrado.

Três armas letais de sílex. . SETE Três caçadores. Pelo menos. Naquela manhã. como uma pedra. E toda aquela carne seca. Torak ouviu um graveto se quebrar atrás dele. Todas apontadas para ele. A mente de Torak girava. Sua barba ruiva era um emaranhado ninho de pássaro. e seu pai ficaria orgulhoso. e minha faca por companhia. Torak havia lutado contra a fome e derrotado a febre. Isso enfraqueceu um pouco a torça do seu pesar.Fazia doze dias que o urso matara Pa. Gordo.a terra onde flechas abundavam e a caça nunca faltava. Ele havia sobrevivido até então. Não conseguia se mexer. O homem que agarrava seu gibão era imenso. Não conseguia ver Lobo. Também cometera muitos erros. Nesse espaço de tempo. Senti-se quase feliz enquanto avançava através da vegetação rasteira sobre a vereda da floresta salpicada de luz do sol. Pa tinha suas armas com ele. o peludo rabo prateado erguido bem alto. e o que quer que o tenha mordido levara uma das orelhas. pensou Torak. O gordo e feliz filhote mantinha-se perto dele. Mas continuava vivo. — uma face era puxada para baixo por uma horrenda cicatriz. feliz e desatento. encontrado Lobo e feito o seu primeiro grande abate. Ele imaginava o pai na jornada à Terra da Morte . Torak sabia que a perda de seu pai nunca o deixaria — que a carregaria no peito toda a sua vida. Um casal de tordos brigava acima. a pedra não parecia tão pesada assim. justamente no momento em que uma mão enorme o agarrou pelo gibão e o ergueu do chão com um puxão.

ficava claro que estava adorando aquilo. e flechas com pontas de sílex apontadas para seu coração. acho que você está sufocando ele..Na mão livre segurava uma faca de sílex com gume. Cuidadosamente. Pelo brilho de seus olhos. Ambos tinham cabelo ruivo-escuro. Para o homenzarrão ela disse: — Oslak. mas errou. alcançando furtivamente sua faca. a ponta espetada sob a mandíbula de Torak. Desferiu um soco no homenzarrão. — Aqui está o nosso ladrão! — Ergueu Torak bem alto — sufocantemente alto. O homenzarrão grunhiu. e pôs o arco a tiracolo. e sua faca permaneceu na garganta de Torak. Oslak colocou Torak de pé. Ainda segurando Torak. agarrado pelo pescoço. A seu lado estavam um jovem alto e uma moça com mais ou menos a idade de Torak. Ele tentou engolir em seco. Não hesitaria em disparar. Torak tossiu e esfregou a garganta. — Não sou. Mas não o largou. ele o aliviou de suas armas e jogou-as para a moça.disse a moça. — Me larga — ofegou. impiedosos. Esperava não parecer tão apavorado quanto se sentia. — Mentiroso — falou friamente o rapaz. O rapaz não fez o mesmo. — Você pegou o nosso gamo . Ela examinou curiosa a faca de Pa. — Eu fico com isso — disse Oslak. a moça recolocou sua flecha na aljava.. — Você roubou isto também? . ladrão — tossiu Torak. rostos lisos.

Por causa de. Isso significa morte. — Não é tão simples assim. — O que interessa é que você pegou nossa presa. mas o rapaz jogou a cabeça para trás.disse o rapaz. — Não é um lugar . Oslak. — Era. amarre as mãos dele. Oslak e a moça trocaram olhares. Não comi muito. — Ficou combinado na reunião de clãs. Torak suava profusamente. Vamos levá-lo a Fin-Kedinn.— Não — exclamou Torak. — Como assim? A floresta não pertence a ninguém. não acreditaram nele. Se é o corço que querem — disse ele —. era do meu pai.. — Você disse que peguei seu gamo.. desdenhoso. — Onde é isso? . . — Agora pertence — disparou o rapaz.. — E um homem... Morte? Como caçar um corço podia significar morte? Sua boca estava tão seca que ele mal conseguia falar. Olhou para a moça. — Se.zombou a moça. — interrompe-se com um ar de desdém..quis saber Torak... Torak ficou intrigado.explicou Oslak. Obviamente. — Você não sabe nada? . Como podia ser seu? — Esta é a nossa parte da floresta . Está na minha mochila. podem pegá-lo e me deixar ir embora. Você é meu prisioneiro.

Fin-Kedinn é meu tio — disse o rapaz, levantando-se. — Ele é

o líder de nosso clã. Eu sou Hord, o filho do irmão dele. — Que clã? Aonde estão me levando?

Eles não responderam. Oslak deu-lhe um empurrão que o derrubou de joelhos. Enquanto pelejava para ficar de pé, olhou de relance por cima do ombro - e viu, para seu horror, que Lobo tinha voltado à procura dele. Permaneceu hesitante, cerca de vinte passos à distância, farejando o cheiro dos estranhos. Eles não o notaram. O que fariam se tivessem notado? Provavelmente, até mesmo eles respeitavam a antiga lei que proibia matar outro caçador. Mas e se afugentassem Lobo? Torak imaginou-o perdido na Floresta. Faminto. Uivando. Para alertar Lobo que ficasse fora de vista, emitiu um baixo e urgente "uff". Perigo! Oslak quase caiu sobre ele, surpreso. — O que foi que você disse?

— Uff! - repetiu Torak. Para seu desespero, Lobo não recuou. Em vez disso, colocou as orelhas para trás e correu direto para Torak. — O que é isso? — murmurou Oslak. Abaixou-se e agarrou Lobo pelo toutiço. Lobo contorce-se e rosnou enquanto pendia da enorme mão ruiva. — mato você! Oslak e a moça caíram na gargalhada. Deixe ele! — gritou Torak, debatendo-se. — Deixe ele ou

— Deixe ele ir embora! Não fez nenhum mal a vocês! — irritação. — Não, — berrou Torak. — Ele é meu guia... não! A moça lançou-lhe um olhar desconfiado. — Ele é seu o quê? — Ele está comigo — murmurou Torak. Ele sabia que não Apenas afugentem ele e vamos embora — sugeriu Hord com

devia revelar sua busca pela montanha, nem que podia falar com Lobo. — Vamos, Renn — grunhiu Hord. — Estamos perdendo tempo. Renn, porém, continuava encarando Torak. Virou-se para Oslak. — Dê ele para mim.

De sua mochila, ela retirou um saco de couro de gamo dentro do qual enfiou o filhote, fechando bem apertada sua boca. Ao jogar para cima do ombro o saco serpeante e uivante, ela falou para Torak: — É melhor você vir quietinho, ou esmago ele contra uma árvore. Torak fitou-a. Talvez ela não fizesse isso, mas garantiu a obediência dele com mais eficiência do que teriam conseguido Oslak ou Hord. Oslak deu outro empurrão em Torak, e partiram por uma trilha de veado na direção noroeste. As amarras de couro cru estavam apertadas, e os pulsos de Torak começaram a doer. Que doam, pensou. Estava furioso consigo mesmo. Olhe atrás de você, dissera seu pai. Não tinha olhado e agora estava pagando por isso - e Lobo também. Não havia mais uivos abafados vindo do saco. Estaria sufocando? Já morto? Torak implorou que Renn abrisse o saco e deixasse entrar algum ar.

Não há necessidade — afirmou sem se virar. — Estou

sentindo ele se mexer. Torak trincou os dentes e avançou cambaleante. Precisava encontrar um meio de escapar. Oslak vinha atrás dele, mas Hord estava bem logo à frente. Ele parecia ter uns dezenove anos, era forte e bonito. Também parecia igualmente arrogante e apreensivo: desesperado para ser o primeiro mas com medo de só conseguir chegar sempre em segundo. Suas roupas eram muito bem-feitas e coloridas, o gibão e as perneiras costurados com tendão trançado, tingido de vermelho, e orlados corri uma espécie de pele de ave colorida de verde. No peito usava um esplêndido colar de dentes de veado-vermelho. Torak estava desconcertado. Por que um caçador ia querer tanta cor? E aquele colar retinia, o que era a última coisa de que você precisava. As feições de Renn pareciam com as de Hord, e Torak imaginou se seriam irmão e irmã, embora Renn fosse mais nova uns quatro ou cinco verões. Suas tatuagens de clã — três barras finas azul-escuras nos malares — salientava-se claramente em sua pele clara, dando-lhe um ar aguçado, desconfiado. Torak não pensava em lhe pedir ajuda. Seu gibão de couro cru e perneiras eram surrados, mas seu arco e aljava eram belos, as flechas habilmente emplumadas com penas de coruja para um vôo silencioso. Nos dois primeiros dedos da mão esquerda, ela usava protetores de couro, e preso em seu antebraço direito havia um protetor de pulso de ardósia verde polida. Torak deduziu que tais protetores de pulso eram usados por pessoas que viviam em função de seus arcos. Era isso que interessava a ela, pensou ele. Nada de roupas bonitas, como Hord. Mas a que clã ela pertencia? Cerzida do lado esquerdo de seu gibão — e nos de Hord e Oslak — estava a pele de seu animal de clã: uma tira de penas

pretas. Cisne? Águia? As penas estavam muito esfarrapadas. Torak não conseguia distinguir. Caminharam a manhã toda sem parar para comida ou água: atravessando vales pantanosos lotados de agitados choupos-tremedores; subindo colinas escurecidas por pinheiros sempre atentos. Quando Torak passava por baixo, as árvores suspiravam pesarosas, como se já lamentassem sua morte. Nuvens obscureciam o sol, e ele perdeu a orientação. O grupo chegou a uma encosta onde o solo da floresta era cheio até a cintura de ninhos de formiga-da-madeira. Como esses bichos só constroem do sul das árvores, Torak concluiu que eles seguiam para oeste. Finalmente, pararam num córrego para beber. — Estamos indo muito devagar — resmungou Hord. — Temos todo um vale para atravessar antes de chegarmos ao rio Sinuoso. Torak aguçou os ouvidos. Talvez escutasse algo útil... Renn percebeu que ele estava ouvindo. — O rio Sinuoso — disse-lhe lentamente, como se falasse com um bebê — fica a oeste, no próximo vale. E onde acampamos no outono. E a dois dias de caminhada ao norte fica o Água Extensa, onde acampamos no verão. Por causa do salmão. É um peixe. Talvez tenha ouvido falar nele. Torak sentiu-se enrubescer. Mas agora sabia aonde estavam indo: ao acampamento de outono de seus captores. Isso parecia ruim. Um acampamento significaria mais pessoas e menos chance de fugir. À medida que caminhavam, o sol ia afundando, e os captores de Torak iam ficando nervosos, parando de vez em quando para escutar e olhar

em volta. Torak achou que eles sabiam sobre o urso. Talvez por isso tivessem adotado a medida sem precedentes de "possuir" a presa. Porque estava ficando escassa, o urso a estava afugentando. Desceram para um grande vale de carvalhos, freixos e pinheiros, e logo alcançaram um extenso rio prateado. Devia ser o rio Sinuoso. Subitamente, Torak farejou fumaça de madeira. Estavam se aproximando do acampamento.

OITO Quando os quatro atravessaram o rio por uma passagem de madeira, Torak olhou abaixo para a água deslizante e pensou em pular. Suas mãos estavam amarradas. Ele se afogaria. Além do mais, não poderia deixar Lobo. Cerca de dez passos rio abaixo, as árvores abriam-se para uma clareira. Torak sentiu o cheiro de fumaça de pinheiro e sangue fresco. Avistou quatro grandes abrigos feitos de couro de rena diferentes de tudo que já vira, e um número desconcertante de pessoas: todas trabalhando arduamente e ainda sem notar a presença dele. Apreendia cada detalhe com um óbvio temor crescente. Na margem do rio, dois homens esfolavam um javali pendurado em uma árvore. Já tendo aberto a barriga, eles embainharam suas facas e estavam descascando a pele com as mãos, para evitar que se rasgasse. Ambos tinham o peito nu e usavam aventais de pele de peixe sobre as perneiras. Pareciam pavorosamente fortes, com altas cicatrizes em ziguezague nos braços musculosos. Da carcaça, o sangue pingava lentamente para um balde de casca de bétula.

Perto do fogo. como ele. mas a semelhança terminava aí. O odor suculento do que quer que fosse que estivesse cozinhando fez a boca de Torak se encher de água. uma velha senhora colocava pontas em flechas: encaixava nas hastes lascas de sílex finas como agulhas. Como Hord. Seu rosto tinha uma cativante tranqüilidade e uma força que fez Torak pensar em arenito esculpido. havia um grupo de mulheres sentadas sobre esteira de galhos de salgueiro. Um pouco distante delas. No meio da clareira. ao mesmo tempo em que três crianças pequenas preparavam solenemente bolos de lama e os recheavam com frutos de sicômoro. O vapor serpeava pelo seu cabelo quando ela usava uma forquilha para deixar cair pedras incandescentes. Torak soube que ela devia ser a maga do clã. Perto dela. O chão em volta delas reluzia com escamas de peixe. Torak imaginou brevemente se. que sonhavam onde estava a presa e que clima faria. depois as grudava no lugar com uma pasta de seiva de pinheiro e cera de abelha. conversando baixinho enquanto descascavam avelãs e selecionavam bagas de zimbro de um cesto. Aquela velha parecia poder fazer coisas muito mais perigosas do que isso. Um amuleto de osso redondo gravado com uma espiral estava costurado ao peito de seu gibão. uma bela garota estava curvada sobre uma pele de cozinhar. Nenhuma delas se parecia em nada com Hord ou Renn. perto de uma fogueira comprida de madeira de pinheiro. Torak . os dois haviam perdido os pais. Pelo amuleto. ele tinha cabelo castanho-avermelhado e uma curta barba ruiva. um homem mais velho ajoelhou-se para assar duas e lebres num espeto. Duas lustrosas canoas de couro pousavam emborcadas fora da água. Uma dupla de cães enormes rondava ali atrás de restos. duas meninas com túnicas de couro de gamo davam risadinhas enquanto enxaguavam as tripas do javali. Pa lhe contara sobre magos: pessoas que eram capazes de curar doenças.No raso.

Rapidamente. . Renn virou-se e revirou os olhos para Hord. mas Renn disparou um olhar cáustico para o irmão. Torak deduziu que ela era sua companheira. Amarrou uma extremidade em volta da ponta do saco contendo Lobo. jogou a outra por cima de um galho de pé de carvalho e içou o saco bem alto: bem longe do alcance dos cachorros. A velha senhora fez um gesto cortante com a palma e os latidos foram reduzidos a rugidos. os cães haviam farejado Lobo. Ele soube. Oslak não pareceu se importar. Eles obedeceram. Com o pêlo do pescoço eriçado. Positivamente irmã dele. Hord ignorou ambas e foi falar com o homem perto da fogueira. que aquele homem exercia o poder. e não Oslak.esqueceu o cheiro da comida. Renn mergulhou no abrigo mais próximo e emergiu com um rolo de corda de casca de árvore trançada. tivesse capturado "o ladrão". Torak notou que deu a entender como se ele. Somente após terminar foi que ele esfregou as mãos na terra e pôs-se de pé. A garota bonita olhou de relance para Hord e sorriu timidamente. Os cães saltitaram. sem que lhe dissessem. Nesse meio-tempo. Todos olharam para Torak. Oslak desfez as amarras e empurrou Torak para a clareira. que continuava calmamente assando as lebres no espeto. relatou o que acontecera. — Guardamos um pouco de caldo para você — disse ela. ou queria ser. eles avançaram para Renn. latindo furiosamente. Todos menos o homem perto da fogueira. — Para trás! — ordenou ela. — Dyrati guardou um pouco de caldo para você — zombou. esperando em silêncio que eles se aproximassem. pensou Torak.

não poderia. — Ora. Torak achou difícil olhar para eles por muito tempo — e mais difícil ainda desviar o olhar. Por dentro. Torak umedeceu os lábios. isso é uma surpresa — observou Renn. Líder do Clã do Corvo. — Lobo. Foi Hord quem respondeu.. e várias pessoas riram. Renn fez contato visual com ele e deu-lhe um sorriso maldoso. seu pequeno pulha miserável. Seus olhos azuis ardentes não se afastavam do rosto de Torak. Seus olhos eram de um intenso. Ele retribuiu com um olhar zangado.. Hord terminara de falar. Não sem Lobo. O homem perto da fogueira assentiu uma vez e esperou que Oslak empurrasse Torak em sua direção. devia aprender a ter mais respeito.. destemido azul: nitidamente vivos naquele rosto impenetrável. — Torak. .. Fin-Kedinn não foi uma delas.E do meu. Agora. mesmo que tivesse uma chance de escapar. o medo causava-lhe enjôos. E você. deu-se conta Torak. — Como se chama? —perguntou o homem numa voz que era de algum modo mais atemorizante por ser tão tranqüila. — Ele é Fin-Kedinn. e então dirigiu-se a Torak. E o seu? — Mas ele achava que já sabia. — Qual é o seu clã? Torak ergueu o queixo. Fin-Kedinn silenciou Hord com um olhar.

. Ele sabia — e. Alguns olharam temerosos sobre os ombros. vivia.— O que faz nesta parte da floresta? — Estou seguindo para o norte . portanto Fin-Kedinn também — que era proibido falar o nome de uma pessoa falecida durante cinco verões após sua morte. Eu vivo. — Já falei para ele que isso agora nos pertence — interveio Hord rapidamente.. A velha senhora deixou suas flechas e aproximo-se deles.respondeu Torak..indagou Torak. Nenhuma emoção transpareceu no rosto de Fin-Kedinn. — — Onde está o resto do seu clã? Não sei . — Não estive na reunião Torak não respondeu. com meu pai. Os olhos do Corvo Líder penetraram nos dele. Um murmúrio percorreu os espectadores.. outros tocaram suas peles de corvo. — Nunca vivi com eles.respondeu Torak com sinceridade. ou fizeram o sinal com a mão para se precaver contra o mal. — Onde está ele? — Morto. Como eu podia saber? . morto por um urso. — Quem era seu pai? Torak estancou.. — de clãs. Em vez disso.quis saber Fin-Kedinn. Pa .. só podiam se referir a ela citando seus pais. Ele foi. — Por que não? .

. não há? — Inspirou fundo. — Depois. seu pai. — Não! — gritou Torak. leve-o rio abaixo e mate-o. pensou Torak. mas Torak sabia seus nomes e de onde tinham vindo. — Eu nem mesmo sabia que o veado era de vocês! Como posso ser culpado se não sabia? — É a lei . A mãe de Pa fora do Clã da Foca. Torak citou o nome de ambos. — Julgamento por combate. Ele conhecia Pa. Era impossível dizer se o pai de Torak fora seu melhor amigo ou seu inimigo mais mortal...raramente falava sobre sua família. Fin-Kedinn falou: — Divida as coisas do rapaz com todos — disse a Oslak. O que significa isso? Observou Fin-Kedinn correr lentamente o polegar sobre seu lábio superior. Vamos decidir numa luta.. — Por quê? Por que? Porque você diz que é assim? — Porque os clãs dizem que é assim. Mas como? Pa nunca falou nele. O reconhecimento é uma das expressões mais difíceis de se dissimular.afirmou Fin-Kedinn. chocado. Oslak pousou uma mão pesada sobre o ombro de Torak. — Vamos. — Escute! Você diz que é a lei. — O q-quê? — ofegou. Finalmente. mas. nem no Clã do Corvo. do Clã do Lobo. NOVE Os joelhos de Torak fraquejaram. há uma outra lei. . Nem mesmo Fin-Kedinn conseguiu ocultá-la completamente.

Fin-Kedinn? . mas olhava curiosamente para os dois cachorros que babavam abaixo dele. Portanto. . — — Não luto com meninos . Torak percebeu que ela havia afrouxado um pouco a ponta do saco para que Lobo empurrasse a cabeça para fora. .Você não tem certeza se sou culpado. Você e eu.O garoto tem razão. Hord deu um passo à frente. morreremos. quando lhe ensinava a lei dos clãs — mas os olhos de FinKedinn estreitaram-se.insistiu Torak. Alguns dos homens davam risadinhas. Viverei. forçando-se a retribuir o olhar do Corvo Líder. — Estou certo. Ele parecia hesitante.Se eu vencer.. sou inocente. eu e o lobo. Eu luto com ele. . . pois não sabe se eu sabia realmente que o veado era seu.afirmou Renn asperamente.Ele não tinha certeza se era isso mesmo — Pa apenas mencionara essa coisa uma vez. — O que diz. Deixe que eles lutem. Uma mulher estapeou a testa e sacudiu a cabeça.É a lei mais antiga de todas. Ele tem o direito de lutar. Será Ela estava encostada na árvore da qual pendia Lobo. Estou mais perto dele em idade. não está? — disse Renn. vamos lutar. Estancou. Se eu perder. . Isto é.alegou Fin-Kedinn. — Não muito . não estou? ..indagou a maga. — mais justo. Mas ele está certo.

Fin-Kedinn fez contato visual com a velha. e por um momento pareceu haver uma batalha de vontades entre os dois. — Vai precisar disso. Oslak revirou os olhos. Discutiam. duvidoso. Torak pegou a lança. seu bafo vaporizando-se no ar trio da noite. batiam os pés. Todos pareciam ter ficado empolgados com a perspectiva de uma luta. Oslak jogou para Torak a faca de seu pai. — Um o quê? — indagou Torak. Oslak fez um sinal com a cabeça para o curativo no outro braço de Torak. Ficou imaginando o que deveria fazer com aquilo. Só um pouquinho. ele assentiu. pensou Torak. Foi até o abrigo mais perto e retornou com uma lança de madeira de freixo encimada por uma aguçada ponta de basalto e o que parecia ser um pedaço de couro de rena três vezes mais grosso. O alívio inundou Torak. — Você sabe lutar. não sabe? — Não — disse Torak. A coisa pareceu tão pesada e de difícil manejo quanto um pernil de veado. Lentamente. E de uma lança e de um protetor de braço. e observou intrigado enquanto Oslak prendia a pele endurecida em volta de seu antebraço direito. — Parece que as chances estão contra você. . e fez uma careta. O homenzarrão coçou a cicatriz onde estivera sua orelha.

Para sua surpresa. um combate significava algo mais. para os corvos. Alguém tocou em seu ombro. sua idéia era a de uma luta corpo a corpo. agradecido. Não usar fogo era a última de suas preocupações. Torak concordou distraidamente com a cabeça. Ela segurava uma caneca feita de casca de bétula. Obviamente. Baixo-se e esfregou-as na terra.Seus olhos encontraram os de Torak e fixara-se neles. como se tivesse adivinhado os pensamentos de Torak. fazendo com que desse um pulo.Você não pode usar fogo. podia ver Hord prendendo seu protetor de braço. Soltou tudo que havia preso em seu cinturão e formou uma pilha no chão. — Entendeu? . e se ele pareceria fraco se perguntasse. Torak observava-o através de uma tremeluzente neblina de calor. era suco de sabugueiro: ácido e fortificante. enrolou um pedaço de corda de capim trançado em volta da testa para manter o cabelo longe dos olhos. e bebeu. Torak ficou imaginando se havia regras especiais. Ele havia tirado o gibão. — Só há uma regra — anunciou Fin-Kedinn. Renn percebeu sua surpresa e deu de ombros. com talvez a inclusão de manejo de faca: o tipo de coisa que ele e Pa costumavam praticar com freqüência. Por trás de Fin-Kedinn. Torak decidiu não tirar o próprio gibão.Quando sugeriu um combate. mas apenas por diversão. Suas mãos estavam escorregadias com o suor. fazendo centelhas voarem. . Era Renn. Em seguida. Ele a aceitou. . Não havia necessidade de enfatizar o contraste. Fin-Kedinn atiçou o fogo. Parecia enorme e assustadoramente forte.

Não havia formalidades. Em alguns lugares. porém um ligeiro sorriso dançava em seus lábios.— Hord tomou uma bebida. — Ali há água. Torak devolveu a caneca. Ele adorava ser o centro das atenções. com Torak e Hord no meio. Cautelosamente. — Quem sabe? Baixou um silêncio. o chão estava viscoso por causa do sangue do javali. É apenas justo. O rosto de Torak ardeu. Hord movimentava-se com a elegância de um lince. Os espectadores formaram um círculo em volta da beira da clareira. Ela hesitou. A lança de Hord deu uma estocada em direção a seu peito. A luta começou. conseguiu ouvir os espectadores darem gritos de incentivo para Hord. flexionando os joelhos e reposicionando os dedos em volta da faca e da lança. Torak não. . próximos do fogo. — Apontou para um balde perto do fogo. Torak escorregou e quase caiu. rodearam um ao outro. Indistintamente. mas suas vozes pareciam abafadas como se ele estivesse debaixo d'água. esperando não parecer imitá-lo. Ele e Hord agora movimentavam-se com mais rapidez. para quando você precisar. — Imitá-lo não levará você muito longe — gritou Renn. e ele esquivo-se bem a tempo. Torak tentou a mesma manobra. Apesar de seu tamanho. O rosto estava tenso. — Não creio que vá durar tanto assim. Sentiu o suor começar a escorrer pela testa. Seu coração martelava contra as costelas.

fazendo beicinho. Os espectadores suspiraram. A haste da lança de Hord partiu-se em duas. em direção à barriga. Fingindo total incompetência. Hord recuperou-se rapidamente. Não esperava que aquilo desse certo. Torak ficou abismado.Ele sabia que não tinha esperanças de vencer pela força. Estourou uma gargalhada. É uma questão de tempo — gritou Hord de volta. Torak tentou seu segundo truque. enfiou sua faca na mão de Torak que segurava a lança. Ele conhecia esse. Investiu a lança contra o pescoço de Hord. O problema era: só conhecia dois truques de combate. o braço com pedaço de couro de Hord levanto-se para o bloqueio. pensou Torak. Vamos lá. mas este conseguiu levar adiante seu plano girando violentamente para cima o protetor de braço. avançou impensadamente. Como era de se esperar. A ponta da lança de Hord afundou na grossa pele protetora. o que não era difícil. e a lança de Torak deslizou inofensiva em seu protetor de braço. mas quando sua lança avançou para atingir. Hord cambaleou para trás sem a lança. — — Vamos. A cada movimento tornava-se óbvio que Hord era um lutador experiente. Torak soltou um grito quando o sílex feriu entre o indicador e o polegar. tentando Hord com um vislumbre de seu peito desprotegido. o protetor de braço de Torak interpôs-se para encontrá-la. Hord engoliu a isca. Perdeu o ponto de apoio e deixou cair a . Arremetendo adiante. e só os havia praticado poucas vezes. Torak tentou um rápido golpe por baixo. — Tire sangue dele. Teria de usar a inteligência. mas Hord o aparou com alarmante facilidade. Hord — berrou um homem. pensou temerariamente. quase derrubando Torak.

Suor escorria pelo seu corpo. O que era? . viu Lobo de relance no alto da árvore. — Depressa. Agora ambos estavam sem suas lanças. embora ele soubesse que era menos um apoio genuíno do que uma agradável surpresa por estar durando mais do que o esperado. Entretanto — algo o perturbava: algo em relação a Lobo. porém. Hord! — gritou um homem. Torak conseguiu apenas rolar no chão para longe e. Hord assumia o controle. com dificuldade. Ele sabia que isso não seria por muito mais tempo. Lobo. Por que você não vem me soltar? Torak saltou para o lado a fim de evitar um golpe cortante transversal à sua garganta. Concentre-se.lança. Debatiase e uivava em meio a uma névoa de respiração vaporosa. disse a si mesmo severamente. voltar a se pôr de pé. Seu peito estava oprimido e a mão ferida latejava. Com o canto do olho. perguntava. — Vamos lá. Lamento. Estava se cansando rapidamente. Esqueça Lobo. Torak escapou para trás da fogueira. Havia um leve incentivo para Torak. A fim de ganhar algum tempo para recuperar o fôlego. e havia esgotado seus truques. Hord investiu novamente. Hord — berrou uma mulher. Ambos restritos às facas. Não acredito que a gente se livre desta. Arrependeu-se amargamente de não ter copiado Hord e despido o gibão. nem todos os gritos eram para Hord. — Foi isso que lhe ensinaram na Floresta Profunda? Aquela altura. — Acabe logo com ele. disse em silêncio ao filhote. O que está acontecendo?.

Torak chutou-a para longe. assomando acima dele para intimidar Torak. Atacando e simulando.Olhou para Lobo uivando na árvore. Torak moveu a cabeça na direção do balde de casca de bétula contendo água. . ainda acocorado. Torak acocorou-se e pegou água com a mão em concha para beber. e então jogou-se contra Hord. Menino. Sibilantes nuvens de vapor elevaram-se para o rosto de Hord. Fez isso lentamente. De repente. Hord bufou com desprezo. Mantendo os olhos em Hord. Torak aproveitou a chance e furou o punho do oponente. sua respiração vaporizando. Cego. Hord urrou de dor e largou sua faca. — Escondendo-se novamente? — zombou Hord.. avançou pela lateral. Os espectadores arfaram. Enfiando a faca no couro duro. derrubando-o no chão. e para desviar a atenção da pele de cozinhar que borbulhava ao fogo. para levar Hord a pensar que ele tramava alguma coisa com o balde. Quero um gole. derramando caldo fervente sobre as brasas incandescentes. dissera Fin-Kedinn.. colocando mais uma vez a fogueira entre os dois. a mente de Torak transbordou de clareza e ele soube o que fazer. “Você não pode usar fogo". derrubou-o. Deu certo. Está bem? Como queira... De repente. Hord aproximou-se do fogo. Torak atacou — mas a pele de cozinhar. — Também quer um gole? — perguntou Torak.

de modo algum. e ele conheceu a ânsia de matar. — Ele trapaceou! Usou fogo! — Não. — Acabou — disse Fin-Kedinn atrás dele. ele ganhou honestamente! — Quem disse? Eles terão de lutar novamente! Tanto Torak quanto Hord pareceram assustados diante daquilo. Torak debate—se no aperto de suas mãos. — Eu já disse que acabou — vociferou Fin-Kedinn. os dois ficaram se encarando. que tinha acabado. Ofegando e olhando com raiva. mas se consigo mesmo ou com Torak era impossível de se dizer. puxando-o. a sacudiu fora. Torak montou em seu peito e ajoelhou-se sobre seus braços para mantê-lo dominado. mas ele. irritado. . Então sentiu mãos fortes em seus ombros. forçou caminho por entre os outros desaparecendo ao entrar em um dos abrigos. Dyrati colocou a mão sobre seu braço. Torak sacudiu-se e enxugou o suor do rosto enquanto observava Hord embainhar sua faca. O caos instalou-se entre os espectadores.Enquanto Hord permanecia sem fôlego. Não achavam. Este estava furioso. afrouxando o aperto sobre Torak. Hord levantou-se de um salto e agarrou sua faca. — O garoto venceu — afirmou Fin-Kedinn. Agarrou um punhado de cabelo ruivo-escuro e golpeou uma vez a cabeça de Hord contra o chão. sua vista cobriu-se de vermelho. Pela duração de um estrondoso batimento cardíaco.

por um momento. Lobo contorceu-se e lambeu o queixo de Torak e lhe disse o quanto tinha sido terrível. Usei vapor. — Não! — A voz de uma jovem ressoou. —Você usou fogo. —Não. Ele parecia muito mais confiante do que se sentia. correndo adiante. não usei — rebateu Torak. e todas as cabeças se viraram. Seria burrice dar um tropeço agora. — Não pode deixar que ele vá embora! — berrou. Então avistou Fin-Kedinn observando-o. . tudo ao mesmo tempo. Torak quis dizer algo reconfortante. Embainhou sua faca e olhou em volta à procura de suas coisas. — Você venceu. Torak sentiu-se fraco e doente. Torak não retrucou. —Eu teria preferido — afirmou Fin-Kedinn — que você tivesse usado água em vez de caldo. —A lei é a lei — declarou incisivamente Fin-Kedinn. mas se deteve. Era Renn. — Não usei fogo. Está livre para ir embora. Foi um desperdício de boa comida. jogando o saco para Torak com tanta força que o fez cambalear. —Você infringiu a regra — disse calmamente o Corvo Líder. houve um vislumbre de humor em seus olhos azuis. Fin-Kedinn examinou-o e.Agora que o desejo por sangue o abandonara. trazendo nos braços o saco contendo Lobo. — Eis o seu filhote! — estrondeou. Oslak enfiou-se no meio deles.

A maga fez uma carranca e assentiu. — Você tem certeza? — Não sei — disse ela. Estou livre. — puxou Fin-Kedinn para um lado e cochichou insistentemente. lançou um olhar estranho. — Não fez nenhum ruído — disse ela acusadoramente.. — Não podemos deixar que ele vá embora. outros se juntaram para escutar. Precisamos de tempo para descobrir.— Ele acabou de deixar — retorquiu Torak. Renn falou com seu tio. Fin-Kedinn cofiou a barba. — Você usa isto para quê? — perguntou-lhe Renn.. para Torak. . Torak não conseguia ouvir o que ela dizia. Ele pode ser. cauteloso. ao ouvir o que eles estavam dizendo. Renn e Fin-Kedinn trocaram olhares. É muito importante. — Você o ouviu. Talvez não.. — Para chamar o filhote — respondeu. — Talvez ele seja. E encontrei isto entre suas coisas. e Torak viu seu pequeno apito de osso de tetraz.. Um tremor de inquietação percorreu a multidão. para seu desânimo. Até mesmo Hord emergiu do abrigo e. — Mostrou o que tinha na palma da mão.? O modo como ele derrotou Hord. Ela o soprou e Lobo contorceu-se nos braços dele. — O que a levou a desconfiar. mas. Fin-Kedinn olhou atentamente para Renn.

—. Quer dizer o quê? — quis saber Torak. Pelo menos por enquanto. eu e Lobo ficaríamos livres! —Não — contestou Fin-Kedinn —. como se procurasse alguma coisa. — Não! — gritou Torak.Torak não reagiu. Alguns de nós até mesmo já o viram.. está de volta. até mesmo matando outros caçadores. amarre-o novamente.Como uma sombra. Renn olhou-o de cima para baixo. — Agora. — Estancou. nossos batedores retornaram do oeste. Ela tem razão — concordou a maga. — Ele veio cerca de uma lua atrás — prosseguiu Renn calmamente. Hord estremeceu e começou a roer a unha do polegar. E você viverá. — Fez uma pausa. matando intencionalmente. Um lince. Ontem. treze dias atrás. escureceu a floresta. . Todo mundo sabe. Era como se. — Você sabe tão bem quanto eu o que isso quer dizer. Um mensageiro do Clã do Javali viu seu rastro seguindo para o sul. — Então. Demos graças ao guardião do nosso clã. Nós sabemos a respeito desse urso. — Você disse que seu pai foi morto por um urso. Oslak. Percebeu num tranco que os olhos dela não eram azul-claros como os do irmão. Pensamos que tinha ido embora. Lobos. Ela dirigiu-se a Fin-Kedinn: — Não podemos deixá-lo ir até termos certeza. Ao lado dela. concordamos que você viveria.. — Fin-Kedinn. se eu vencesse a luta. Perguntou-se se ela também não seria uma maga. ele desapareceu. nós fizemos um pacto! Concordamos que. mas negros: negros como um torrão de turfa.

Todos ficaram em silêncio. três dias atrás. Olhou para a reluzente carcaça do javali pendendo da árvore. Torak umedeceu os lábios. Torak olhou dos rostos amedrontados em volta dele para a faca de sílex no cinturão de Oslak. olhando Torak. O Ouvinte luta com o ar. . A maga prosseguiu de onde ela parou. — “Então vem o Ouvinte. Torak meditou sobre a profecia.O olhar dela recaiu sobre o apito na mão de Renn.—Encontraram muitas mortes.. —Eu não sou o Ouvinte de vocês . Sentiu os olhos de Fin-Kedinn cravados nele. para seu sangue escuro gotejando no balde abaixo. seguindo até o mar." . usara vapor. — O que acontece com o Ouvinte na profecia? — Mas ele teve a terrível sensação de que já sabia. Ninguém consegue se opor a ela. como se ele não tivesse falado. O silêncio na clareira tornou-se mais intenso. —Achamos que talvez seja . pegou uma criança.disse ele.. Ele fizera exatamente isso. O Clã da Baleia contou-lhes que. franzindo as sobrancelhas.rebateu a maga. — O que acontece com ele? — perguntou à meia-voz. Ele luta com o ar fala com o silêncio." — Interrompeu-se. — — O que isso tem a ver comigo? Há uma profecia em nosso clã — explicou Renn. e virou-se para encarar o ardente olhar azul. "Uma sombra ataca a Floresta.

pensou Torak. Debaixo da árvore. Por cima do ombro. observou Oslak amarrar um relutante Lobo à mesma estaca com uma curta correia de couro cru. chupando um dedo mordido. E agora eles também estão decidindo sobre você. DEZ — O que vão fazer comigo? — perguntou Torak quando Oslak amarrou seus pulsos para trás e depois à estaca de sustentação do telhado. — Fin-Kedinn quer isso resolvido até o amanhecer. Os dentes de Torak começaram a trincar. . Quem decide o que acontece comigo? Por que não posso estar presente para me defender? Quem são todas essas pessoas ao longo da fogueira? — Ai! — exclamou Oslak. O amanhecer.. E a Sombra é esmagada. Ploc. Ploc. — O que vão fazer? — Você saberá muito em breve — disse Oslak. o sangue goteja suavemente no balde."O Ouvinte" .” O sangue de seu coração."dá o sangue de seu coração para a Montanha.citou Fin-Kedinn . — FinKedinn enviou mensageiros para convocar uma reunião de clã sobre o urso. Ploc.

Ele não daria muito pelas suas chances. o acampamento estava fortemente vigiado. os rostos iluminados perfeitamente pelas chamas. mas prendia o calor lá dentro. mas na frente não havia parede alguma: apenas um trançado de vigas. Um homem de ombros largos segurando um enorme machado de arremesso. Oslak arrancou as botas de Torak e amarrou juntos seus tornozelos. um pouco distante dos outros. Uma mulher de longo cabelo castanho. Ao amanhecer. que parecia desviar a fumaça da pequena fogueira que crepitava bem à frente. amarrado a uma estaca. antes do amanhecer. depois foi embora levando as botas consigo. Fin-Kedinn não queria arriscar com o urso. Mas como? Estava sentado dentro de um abrigo. Torak viu as pessoas se levantarem uma por uma para falar. Esticando-se para deduzir o que estava acontecendo. que lhe dava a áspera aparência da casca de carvalho. e homens com lanças e cornetas de casca de bétula mantinham vigília. Uma moça de olhar feroz cujo crânio estava estranhamente lambuzado com argila amarela. — e. A ave . Não conseguia ver Fin-Kedinn. ainda que se soltasse. Seu telhado de couro de rena inclinava-se acentuadamente atrás dele. mas pelo menos podia vê-las. a maga estava acocorada no chão observando um grande corvo brilhoso. Torak não conseguia ouvir o que as pessoas diziam na reunião de clã. ele teria de dar o fora dali. um cacho na têmpora coberto com ocre vermelho. graças à estranha construção do abrigo Corvo. De algum modo. um círculo de fogueiras brotara em volta do acampamento. mas. Agora que a escuridão baixara.Torak observou as pessoas acocoradas perto da fogueira comprida: vinte ou trinta homens e mulheres. sem armas ou mochila.

A língua áspera do filhote em seu pulso trouxe-o de volta ao presente Lobo gostava do sabor do couro cru. Mas. Pa soubera da profecia? Não deve ter sabido.. ou enfiálo num espeto para assar como uma lebre? Ele nunca ouvira falar de clãs que sacrificavam pessoas. um homem ergue-se de perto da fogueira comprida e atravessou a clareira em direção a ele. Torak rosnou para que Lobo parasse. exceto no distante passado. Se Lobo pudesse morder em vez de lamber. Torak ficou imaginando se ele seria o guardião do clã. . nos tempos ruins depois da Grande Onda. O Ouvinte dá o sangue de seu coração à Montanha.. Ele estava faminto demais para perceber. Quando você descobrir. por outro lado. Depois. emitindo o ocasional estridente "crác". Era Hord. Enquanto Torak imaginava como colocar isso em fala de lobo. ele também nunca tinha ouvido falar do Clã do Corvo. e continuou lambendo. Mesmo assim — ele fez Torak jurar que encontraria a montanha. — Fin-Kedinn quer a decisão até o amanhecer. O que ele estava dizendo a ela? Como sacrificá-lo? Ou estripá-lo como salmão. Ele dissera. — Não vá me odiar depois.. Torak sentiu uma pontada de esperança. Ele não mandaria seu próprio filho para a morte...pavoneava-se impávida para lá e para cá. Loucamente..

Hord lançou um olhar furtivo sobre seu ombro. Parou perto da pequena fogueira diante da entrada. como se se desviasse de um soco. Ele sentiu Lobo começar a mordiscar o couro cru com seus afiados dentes frontais. quis que eu fosse. não viu? Você viu o urso. Rezou para que Hord não olhasse atrás dele e visse o que Lobo estava fazendo. não pode ser. Andou de um lado para outro. Torak ficou surpreso. — Você o viu. — Eu também o vi. Podemos fazer isso sozinhos. Hord.retrucou Torak.resmungou -. Eu posso fazer isso. Aprendia magia. nossa maga. e mantevese imóvel para não dissuadi-lo. Eu salvarei os clãs. — Eu estava no sul. — Não precisamos de um menino para nos ajudar a matar o urso. — Claro que vi.Hord. porém. — Novamente. não estava interessado em Lobo. roendo a unha do polegar. Ele matou meu pai. — Onde? Quando? Hord retrai-se. parecia agitado demais para notar. e então voltou-se para Torak. Com o Clã do Veado-Vermelho. — Você não teria a menor chance .observou Torak. — Diga isso para os outros . . — Você não é o Ouvinte . Saeunn — gesticulou com a cabeça para a mulher que falava com o corvo —. porém. e encarou Torak.

Depressa. Lobo ainda lambia e mordiscava o couro cru. Torak olhou-o fixamente. botas se arrastaram na terra. — Eu estava lá quando o urso foi apanhado.. Ele não a conheceu. Não pare. e Lobo não parecia conseguir envolvê-los com as mandíbulas. Lobo obedeceu — antes de Renn aparecer na entrada. Torak teve tempo apenas de um rápido "Uff!" de alerta — ao qual. por causa da luta com Hord. "Eu vi ser feito. Mesmo se Lobo conseguisse roer as amarras. Ele estava com medo demais para sentir fome.. Eu vi ser feito. Hord estivera com o Clã do VeadoVermelho. . não pare. a lua moribunda ergue-se e a reunião de clã ainda prosseguia.” Havia algo mais. A metade da noite passou. Mas Oslak amarrara os nós com firmeza. — Feito? O que quer dizer? Mas Hord tinha ido embora. Lá fora... ela morreu quando ele era pequeno. Por favor. mastigando uma coxa de lebre assada. se os corvos eram amigos do clã dela. pediu Torak em silêncio. Eu. também. Eles não podiam Pegar Lobo agindo nos seus pulsos. e seus ombros doíam por estar amarrado há tanto tempo naquela posição. mas. ou passar despercebido pelos guardas. mas se sentia machucado e enrijecido. Continuou pensando no que Hord dissera. então talvez ele conseguisse convencê-los à deixá-lo ir embora. que tinha começado a sangrar. felizmente. ele não estava certo se teria força para fugir..mordeu a unha do polegar. e a mãe de Torak era uma veado-vermelho..

e sentiu que ela cedeu um pouco. A Cabeça de Argila Amarela bem ali é do Clã do Auroque. Apenas forçou a corda em volta de seus punhos. Não se tem certeza do que ela pensa.Seus olhos aguçados captaram Lobo sentado inocentemente atrás dele. Ela sacudiu a cabeça.. mas mui tos dos outros. — Não restam muitos do Clã do Lobo atualmente. Ela permaneceu exatamente onde estava. Portanto. Torak não respondeu. O que ela queria? Fosse o que fosse.. Se ao menos Renn tosse embora. se é o que está pensando. Talvez. — Ela diz que não. depois se fixaram em Torak — que a encarou de volta. orando para o Espírito do Mundo. para manter a atenção dela longe de Lobo. a boca cheia —. você não será resgatado. Talvez aquela mulher ali seja minha parente de osso. Sobre eles é difícil de se dizer. Estava começando a esticar como faz o couro cru quando umedecido. O homem com o machado é do Clã do Javali. ele decidiu ir em frente com aquilo. rezam muito. Ele quer construir uma parede de fogo para forçar o urso em direção ao mar. Ele disse: — Minha mãe era Veado-Vermelho. A mulher com o sangue da terra no cabelo é Veado-Vermelho. . desejando que ela não chegasse mais perto. Ela não vai ajudá-lo. — Ninguém do Clã do Lobo — disse ela. Torak perguntou-se por que ela falava tanto. Eles são gente da Floresta Profunda. Ele moveu a cabeça em direção à reunião de clã e perguntou se havia alguém presente do Clã do Lobo. É assim que eles acham que devemos lidar com o urso.

falou numa voz afetada: — Vá embora. para fazer amigos e talvez encontrar uma companheira. Lobo. Agora não. Torak voltou-se novamente para Renn. — O que esse filhote está fazendo? — Nada — respondeu Torak depressa demais. — São os melhores em magia na floresta. Ele me disse que viu o urso ser "feito". — É quando você fica com outro clã por uns tempos. — Então.. — Que aconteceu depois? Outro olhar. é claro. Atrás dele.disse Torak. O que quis dizer? Ela lhe lançou um olhar duro. — Hord foi adotado por eles. Foi por isso que ele foi.Ele pensou por um momento. agora não.prosseguiu Renn. Vá embora. . Renn examinou a coxa de lebre. — Ficou com eles nove luas . sentiu Lobo farejar novamente seus pulsos. — Sua boca torce-se desanimadamente. não? — Sua voz continha uma pitada de desdém. pensou. — Seu clã é amigo do Veado-Vermelho. — Hord gosta de ser o melhor. — Eu preciso saber — disse Torak. Para Lobo. ela franziu a testa. desconfiado. não é mesmo? Seu irmão disse que aprendeu magia com eles. ignorou-o. Você sabe o que é adoção. dando outra mordida..Ele matou meu pai. mas não funcionou. — Já ouvi falar . —. Tentou afastá-lo com os dedos. — E daí? — Ele. Por favor.

Preso no corpo de um urso. — Quem sabe? Talvez para ter uma criatura sob suas ordens? Mas deu errado. — Assim que o demônio entrou no urso.— Por que pergunta? — Por que você está falando comigo? Seu rosto fecho-se. ele sabia magia. Ou assim disse ele. e subitamente pareceu mais jovem e muito menos confiante —. ele se tornou forte demais.. Ela era boa em manter as coisas preservadas. Matou três pessoas antes que o Veado. uma raposa regougou. Cuidadosamente. . Por essa ocasião.. ela retirou um fragmento de lebre de entre os dentes. o aleijado errante havia desaparecido.Vermelho conseguisse afugentá-lo. — Fez uma pausa. Na floresta. Libertou-se. Não se tratava apenas de um errante. — Hord descobriu. — errante? Renn sacudiu a cabeça. as sombras pareceram ficar mais carregadas. Um errante do Clã do Salgueiro. esse. como Fin-Kedinn. — A luz da fogueira cintilou em seus olhos escuros. Montou um lugar secreto no mato e conjurou um demônio. ele os traiu. — Por que ele fez isso. Mas ele — hesitou. Mas já era tarde demais. Por que? — perguntou Torak. O Veado-Vermelho o acolheu. — Não fazia muito tempo que Hord estava com o Veado-Vermelho — contou ela —. quando um estranho chegou ao acampamento deles. Além do abrigo. aleijado por um acidente de caça.

você está enganada. — Então é verdade.. Lobo não tivera tempo de mastigar tudo. O amanhecer não estava distante. mas elas resistiram. Instantaneamente. —Eu não deixarei que trame contra nós. Os únicos sons eram as árvores sussurrando na brisa da noite. Furiosamente. —Não! — O que andou dizendo para ele? O que estava tramando? — Já lhe disse que não consigo. e agora Lobo tinha ido embora. — Você consegue falar com ele! — — Não! . — Volte! — berrou Torak. Você é o Ouvinte. Renn arfou. Lobo deu um salto para trás e desculpou-se com um sorriso amarelo. — Sacando a faca. E nem Fin-Kedinn. e o raspar da língua de Lobo enquanto ele lambia o couro cru. . Torak virou-se e lançou-lhe um severo grunhido de alerta. Sem pensar. Lobo atingiu a pele de Torak com seus dentes. aninhou-o em seus braços e atravessou correndo a clareira na direção da reunião de clã.Torak ficou em silêncio. Os pássaros já começavam a se agitar nas árvores. — Não lhe darei essa chance — sussurrou ela. A profecia é verdadeira. Colocara todas as suas esperanças em Lobo. deu um puxão nas amarras.bradou Torak. — Não. Eu vil — Seu rosto ficou mais pálido do que nunca. ela cortou a correia de Lobo.. Acidentalmente. O terror abateu-se sobre ele.

Através do ralo cabelo branco.indagou Fin-Kedinn. — Não sou o Ouvinte de vocês — disse o mais firme que conseguiu.Novamente forçou as amarras em volta dos pulsos. — Nada — respondeu Torak. À luz da fogueira. — Não posso ser. Novamente elas resistiram. ele a viu bem de perto. Ele e Saeunn acocoraram-se um de cada lado da entrada.qualquer coisa . — Quanto você sabe? . — Vocês vão me sacrificar? Fin-Kedinn não respondeu.que pudesse usar para cortar o couro cru. Torak inspirou fundo. Fin-Kedinn e a velha mulher chamada Saeunn levantaram-se e começaram a caminhar em direção a ele. Ele se sentia como uma presa. — Mesmo assim. à procura de algo . Seus dedos acharam apenas um galho de salgueiro usado para esteira: macio e inútil. Arrastou as mãos atrás das costas. Saeunn inclinou-se para a frente e esquadrinhou os olhos de Torak. para observá-lo. por que Renn parecera tão certa? O que falar a língua de lobo tinha a ver com isso? Fin-Kedinn virou-se de costas. seu couro cabeludo cintilava como osso .repetiu Fin-Kedinn. na clareira. Jamais conhecera alguém tão velho. perguntou-se. ONZE — Quanto você sabe? . mas Torak viu sua mão apertar a faca. Adiante. Eu nunca tinha ouvido falar na profecia. olhando a faca de osso entalhado no cinturão do Corvo Líder. O rosto era ilegível como sempre.

— De acordo com Renn . Dessa vez — sim! Uma pequena lasca de sílex. não maior do que a unha de seu polegar: provavelmente deixada cair por alguém que amolara uma faca. — Devo lhe dizer — perguntou Saeunn — por que você consegue falar com o lobo? — Saeunn. você consegue falar com o lobo.polido. descobriria aonde Renn levara Lobo. Depois. de que adianta? — disse Fin-Kedinn. Se ao menos Fin-Kedinn e Saeunn voltassem para a reunião de clã.. Seu rosto era pontudo como o de um pássaro. Isso é parte da profecia.. Seus dedos fecharam-se sobre ela. E ficou em silêncio. . . — Não consigo. Seu ânimo abateu-se.. — Ele deve ser informado — insistiu a velha. ele poderia se soltar.Estamos perdendo tempo. Começou a se sentir tonto. Torak encarou-a. — Não minta para nós — exclamou Fin-Kedinn sem virar a cabeça. Então. tocou o amuleto em seu peito e começou a traçar a espiral.. — Renn está enganada — disse ele. passaria furtivamente pelos guardas e. Torak estancou. A idade ressecara todos os sentimentos amáveis para deixar apenas a feroz essência de corvo. Precisava de muita sorte para conseguir tudo isso.. Torak observou sua garra girar e girar. Novamente. ele tateou atrás de si. com um dedo amarelo semelhante a uma garra. A parte sobre a qual não tínhamos falado para você.disse ela asperamente —..

Muitos verões atrás — disse a Maga Corvo —, seu pai e sua

mãe deixaram o clã. Foram se esconder de seus inimigos. Para longe, muito longe, na Floresta Profunda, entre as almas verdes das árvores falantes. — Sua garra continuava traçando a espiral: arrastando Torak para o passado. — Três luas após você nascer — prosseguiu Saeunn —, sua mãe morreu. Fin-Kedinn levantou-se, cruzou os braços sobre o peito e ficou encarando a escuridão. Torak pestanejou, como se tivesse saído de um sonho. Saeunn nem mesmo olhou de relance para Fin-Kedinn. Sua atenção estava toda em Torak. — Você era apenas um bebê — disse ela. — Seu pai não

poderia alimentá-lo. Normalmente, quando isso acontece, o pai sufoca o filho, para poupá-lo de uma morte lenta por inanição. Seu pai, porém, encontrou outra solução. Uma loba com uma ninhada. Ele colocou você na toca dela. Torak pelejou para aceitar isso. — Três luas você ficou com ela em sua toca. Três luas para

aprender a fala de lobo. Torak apertou com tanta força a lasca de sílex que ela penetrou em sua palma. Podia sentir que Saeunn falava a verdade. Era por isso que ele conseguia falar com Lobo. Foi por isso que teve aquela visão quando encontrou a toca. Os filhotes se contorcendo, o saboroso leite gorduroso... Como era possível Saeunn saber disso? — Não — contestou. — Isso é uma armadilha. Você não pode

saber disso. Você não estava lá.

Seu pai me contou — disse Saeunn.

— Ele não pode ter feito isso. Nunca nos aproximávamos de gente... — Ah, mas fizeram isso uma vez. Há cinco verões. Não se lembra? O encontro de clã à beira do mar. A pulsação de Torak começou a bater fortemente. — Seu pai foi até lá para me procurar. Para me falar sobre você. —

Sua garra descansou no coração da espiral. — Você não é como os outros — afirmou com seu grasnido de corvo. — Você e o Ouvinte. Novamente o aperto de Torak se intensificou na lasca. — — N-Não pode ser. Eu não entendo. Claro que ele não entende — falou Fin-Kedinn sobre o ombro.

— Virou-se para Torak. — O seu pai não lhe contou nada sobre quem você é. É isso, não é? Torak fez que sim. O Corvo Líder ficou em silêncio por um momento. Seu rosto estava imóvel, mas Torak sentia uma furiosa batalha sob sua máscara fisionômica. — Tem uma única coisa que você precisa saber — disse Fin-

Kedinn. — É a seguinte. Não foi por acaso que o urso atacou seu pai. Foi por causa dele que a fera foi criada. O coração de Torak falhou uma batida. — Por causa do meu pai? — Fin-Kedinn... — alertou Saeunn.

O Corvo Líder disparou-lhe um olhar aguçado. — Você disse que ele deveria saber. E vou contar a ele.

— —

Mas - interrompeu Torak — foi o aleijado errante quem... O aleijado errante — cortou Fin-Kedinn — era um

inimigo declarado de seu pai. Torak encolheu-se contra a estaca. — Meu pai não tinha inimigos. Os olhos do Corvo Líder cintilaram perigosamente. — Seu pai não era apenas um caçador do Clã do Lobo. Ele era o mago do Clã do Lobo. Torak esquece-se de respirar. — Ele também não lhe contou isso, não? — disse Fin-Kedinn. —

Ah, sim, ele era o Mago Lobo. E é por causa dele que essa... criatura... age violentamente pela floresta. — Não - murmurou Torak. — Não é verdade. — Ele o manteve ignorante de tudo, não é mesmo? — Fin-Kedinn — alegou Saeunn —, ele estava tentando proteger... — Sim, e veja o resultado! — Fin-Kedinn rodeou-a. — Um

garoto crescido que nada sabe! Se me pedir para acreditar que ele é o único capaz de... — Deteve-se, sacudindo a cabeça. Seguiu-se um silêncio tenso. Fin-Kedinn inspirou fundo. — O homem que criou a fera — falou baixinho para Torak — fez isso por um único motivo. Ele criou o urso para matar o seu pai. O céu iluminava-se a leste quando Torak finalmente cortou a corda em volta de seus pulsos com a lasca de sílex. Não havia tempo a perder. FinKedinn acabara de voltar à reunião de clã com Saeunn, onde estavam envolvidos em uma calorosa discussão com os demais. A qualquer momento poderiam chegar a uma conclusão e ir buscá-lo.

Foi um esforço e tanto cortar as amarras em seus tornozelos. A cabeça dele girava. "Seu pai colocou você na toca de uma loba... Ele era o Mago Lobo... Ele foi assassinado...” A lasca de sílex estava escorregadia com o suor. Deixou-a cair. Tateou novamente atrás dela. Finalmente, as amarras foram cortadas. Dobrou os tornozelos — e quase gritou de dor. Suas pernas ardiam por ter estado tanto tempo dormentes. Pior do que isso era a dor em seu coração. Pa fora assassinado. Assassinado pelo aleijado errante, que criara o demônio urso com o único objetivo de caçá-lo... Não era possível. Tinha de haver algum engano. E no entanto, bem no fundo, Torak sabia que era verdade. Lembravase do ar sombrio no rosto de Pa enquanto jazia moribundo. Ele virá me buscar em breve, dissera. Ele sabia o que seu inimigo tinha feito. Sabia por que o urso fora criado. Era demais para assimilar. Torak sentia como se tudo o que ele conhecia tivesse sido varrido embora: como se estivesse de pé sobre o gelo antigo observando as rachaduras se espalharem como relâmpagos sob seus pés. A dor nas pernas puxou-o violentamente de volta para o presente. Tentou esfregá-las para ver se as sentia. Os pés nus estavam frios, mas nada havia que ele pudesse fazer. Não fora capaz de ver aonde Oslak levara suas botas. De algum modo, sem ser visto, ele teria de sair do abrigo e atravessar as moitas de aveleiras que margeavam a clareira. De algum modo, ele teria de esquiva-se dos guardas.

Não conseguiria fazer isso. Seria visto. Se ao menos descobrisse um meio de distraí-los... Na extremidade mais afastada do acampamento, um uivo solitário elevou-se no nevoento ar da manhã. Onde você está?, Berrou Lobo. Por que me deixou desta vez? Torak congelou. Ouviu os cachorros do acampamento reconhecerem o uivo. Viu gente sair da reunião de clã e correr para investigar. Ele sabia que Lobo lhe fornecera a sua chance. Precisava agir depressa. Rapidamente, contornou o lado de fora do abrigo e mergulhou nas sombras atrás das aveleiras. Ele sabia o que precisava fazer — e odiava isso. Precisava deixar Lobo para trás.

DOZE O ar gelado queimava a garganta de Torak enquanto corria através de uma moita de salgueiros em direção ao rio. Pedras arrancavam sangue de seus pés nus. Ele mal percebia. Graças a Lobo, ele saíra do acampamento sem ser notado, mas não por muito tempo. Atrás dele vinha um profundo e ecoante estrondo. Cornetas de casca de bétula soavam o alarme. Ouviu homens gritando, cachorros latindo. Os Corvos estavam vindo atrás dele. Arbustos espinhosos arranharam suas perneiras enquanto ele escorregava ribanceira abaixo e se esparramava num leito de juncos altos. Com a lama gelada até o joelho, apertou a mão sobre a boca para evitar que sua respiração vaporosa o denunciasse.

ele ouviu um uivo. pois foi aonde disse que estava indo quando o capturaram. Onde esta você? Diante disso. . Os Corvos deviam esperar que ele seguisse para o norte. Seus pés estavam congelando. decidiu fazer exatamente isso — pelo menos por um tempo — e depois correr de volta para o acampamento e encontrar um meio de chegar a Lobo. rio abaixo. os cachorros captariam facilmente seu cheiro. é claro. eu não abandonei você — mas. não havia. Não podia deixar Lobo. que continuariam indo para o norte. Tinha de resgatá-lo. Estava sem botas. mas o suor brotava de seu corpo. Pensou rápido. Mais adiante. Se conseguisse escapar.Felizmente. Não sabia se a jogava fora ou se a guardava para o caso de precisar dela. Não tenha medo. A confusão girava em sua cabeça como um rio enfurecido. Precisava sair do rio ou ficariam dormentes demais para poder correr. um graveto estalou. acima do som das cornetas. sem armas — e nada tinha com que pudesse fazer mais desses objetos. Uma imprecação murmurada. estava a favor do vento em relação a seus perseguidores. e ele ainda segurava a corda de couro cru que tirara dos tornozelos. Desejou que houvesse algum modo de uivar em resposta — Estou indo. as dúvidas de Torak terminaram. o que faria? De repente. sem mochila. Torak girou o corpo. esperando ter enganado os Corvos. portanto. Os uivos continuaram. além do conhecimento em sua cabeça e da habilidade em suas mãos. Um leve chapinhar.

e os homens não ouviam. Um deles carregava um arco que era mais alto do que Torak. O céu estava nublado. na tentativa de caçá-lo. Terra vermelha esmigalhava-se abaixo dele. eles o encontrariam. Esta era cheia de salgueiros que davam uma boa cobertura. estaria mais ou menos seguindo para o norte.. . portanto não podia orienta-se pelo sol.. Fora um erro esconder-se no leito de juncos. eles ouviriam o espirro. Cerca de cinqüenta passos rio abaixo. O peito arfando.Ele esquadrinhou por entre os juncos. Penetrou num denso bosque de choupos-tremedores e bétulas. dois homens caminhavam furtivamente pela margem em direção ao leito de juncos. horripilantemente próximo. O mais silenciosamente possível. começou a escalar a ribanceira. se tentasse nadar no rio. mas muito íngreme. Arrastara a corda cedo demais. Os cães já haviam captado seu cheiro. tomando o cuidado de arrastar o couro cru atrás de si para deixar um cheiro bem forte. conseguiu chegar ao topo. mas. Tinha de voltar para a proteção da floresta. Agora. ele sabia que. Se caísse de volta no rio. Seixos escorregaram para dentro da água enquanto ele enfiava as unhas na terra. como o rio seguia para oeste. Felizmente o estrondo das cornetas de casca de bétula encobriam o ruído. Um furioso latido irrompeu atrás dele. seria visto e cravado com uma lança como um lúcio. o outro segurava um machado de arremesso feito de basalto. seguir para o norte. se o mantivesse diretamente atrás de si. com uma flecha já engatada na corda. Movimentavam-se cautelosamente. Se permanecesse onde estava.

Em pânico, trepou na árvore mais próxima — um delgado choupotremedor — e já tinha acabado de fazer uma bola com a corda, jogando-a o mais distante possível em direção ao rio, quando um enorme cachorro ruivo irrompeu através dos arbustos espinhosos. Ele parou debaixo da árvore em que estava Torak e olhou em volta filetes de saliva pendendo de suas mandíbulas. Em seguida, captou o cheiro do couro cru e saiu correndo em perseguição. — Ali! — veio o grito rio abaixo. — Um dos cães encontrou o rastro! Três homens passaram correndo abaixo do choupo-tremedor de Torak, ofegantes, enquanto tentavam alcançar o cachorro. Torak agarrou-se ao tronco da árvore. Se um deles olhasse para cima... Seguiram em frente e desapareceram. Momentos depois, Torak ouviu leves chapinhados. Deviam estar procurando nos juncos. Esperou, para o caso de aparecerem mais perseguidores, e então saltou da árvore. Correu para o norte por entre os choupos-tremedores, colocando alguma distância entre ele e o rio, e então freou e parou. Estava na hora de virar para leste e seguir de volta em direção ao acampamento — desde que conseguisse algum meio de tirar os cães de seu rastro. Desesperadamente, olhou em volta à procura de algo para disfarçar seu cheiro. Excrementos de veado? Não era bom: os cães ainda continuariam atrás dele. Folhas de milefólio? Talvez. O cheiro forte de noz seria potente o bastante para mascarar o seu suor. Ao pé de uma faia, encontrou uma pilha de excrementos de carcaju: torcidos, peludos e tão fedorentos que fizeram seus olhos lacrimejarem. Muito melhor. Prendendo a respiração por causa do mau cheiro, lambuzou os pés,

canelas e mãos. Carcajus têm mais ou menos o tamanho dos texugos, mas brigam com qualquer coisa que se mexa, e geralmente vencem. Os cães provavelmente não arriscariam um contato. O estrondear das cornetas cessou de repente. O silêncio soou em seus ouvidos. Com uma pontada de terror, ele se deu conta de que os uivos de Lobo também haviam cessado. Ele estaria bem? Certamente — certamente os Corvos não ousariam lhe fazer mal? Torak pelejou no caminho por entre a vegetação rasteira em direção ao acampamento. O solo elevava-se e o rio corria velozmente entre tombadas pedras escorregadias cobertas de musgo. Adiante, fumaça espiralava no cinzento céu nublado. Ele devia estar perto. Acocoro-se, esforçando-se para ouvir ruídos de perseguição acima da água corrente. A cada respiração ele esperava ouvir o tuiiim da corda de um arco; sentir uma flecha penetrar entre a omoplata. Nada. Talvez tivessem caído no seu truque, e seguiam seu rastro para o norte. Em meio às árvores, algo enorme e imponente erguia-se e surgia à vista. Torak parou bruscamente. Adivinhou o que era, e torceu para estar enganado. Como um imenso sapo, a elevação artificial de terra estava agachada acima dele. Era uma cabeça mais alta do que ele, e densamente coberta de musgo e arbustos de mirtilo. Atrás havia duas elevações menores, e em volta delas assomava uma densa moita de pés de teixos e de azevinhos sufocados de hera. Torak manteve-se recuado, imaginando o que fazer. Certa vez, ele e Pa haviam topado com elevações de terra como aquelas. Aquele devia ser o

terreno dos ossos do Clã do Corvo: o local onde depositavam os ossos de seus mortos. Seu caminho para o acampamento — para Lobo — passava pelo terreno dos ossos. Mas teria coragem? Ele não era do Clã do Corvo. Não podia se aventurar no terreno dos ossos de outro clã sem enfurecer seus ancestrais... A névoa flutuava nos espaços vazios entre as elevações de terra, onde os pálidos e fantasmagóricos esqueletos de cicuta se empinavam acima de sua cabeça, e os roxos talos de moribundas espirradeiras libertavam sinistramente suas folhas. Por toda a volta estavam às escuras árvores ouvintes: árvores que permaneciam verdes todo o inverno que nunca dormiam. Nos galhos dos teixos mais altos estavam empoleirados três corvos, observando-o. Perguntouse qual deles seria o guardião do clã. Um latido de cães atrás dele. Foi apanhado em uma armadilha. O esperto Fin-Kedinn jogou sua rede na amplidão, e então apertou-a em volta da presa. Torak não tinha aonde ir. O rio corria depressa demais para se nadar e, se ele trepasse numa árvore, os corvos revelariam aos caçadores onde ele estava, e cairia de lá como um esquilo abatido. Se se enfiasse no meio das moitas, os cães o arrastariam para fora como a uma doninha. Virou-se para enfrentar seus perseguidores. Não tinha nada com que se defender; nem mesmo uma pedra. Andou para trás — diretamente para a elevação maior. Sufocou um grito. Fora apanhado entre os vivos e os mortos. Algo o agarrou por trás e o arrastou para a escuridão.

TREZE — Não se mexa — sussurrou uma voz no ouvido de Torak —, não faça nenhum ruído, e não toque nos ossos! Torak nem mesmo conseguia ver os ossos; não conseguia ver nada. Estava acotovelado na escuridão, fedendo a podre, com uma faca pressionada em sua garganta. Trincou os dentes para fazer com que parassem de bater. A sua volta, sentia o frio peso de terra, e dos amontoados e fragmentados ossos dos Corvos Mortos. Rezou para que todas as almas estivessem bem longe, na Jornada da Morte. Mas e se algumas tivessem sido deixadas para trás? Tinha que sair dali. Durante o choque inicial de ser apanhado, ouvira uma pedra sendo arrastada, como se seu captor estivesse vedando a elevação de terra. Agora, com seus olhos adaptados à escuridão, distinguiu uma tênue aresta de luz. O que quer que tenha sido arrastado através da entrada não pareceu fazer um ajuste perfeito. Estava pensando em tentar fugir, quando ouviu vozes lá fora. Fracas, mas se aproximando. Torak ficou tenso. Seu captor também. O esmagar e o farfalhar aproximaram-se e então pararam cerca de três passos distantes. — Ele jamais ousaria vir aqui — disse a voz baixa de um homem assustado. — Pode ter vindo — sussurrou uma mulher. — Ele é diferente. Você viu o modo como ele venceu Hord. Quem sabe o que ele é capaz de fazer?

Torak ouviu o som de esmagamento de musgo. Seu pé se contraiu — e, na escuridão, algo tiniu. Ele estremeceu. — Shi! - fez a mulher. — Ouvi uma coisa!

Torak prendeu a respiração. A faca pressionou mais forte. “Crack!”, ecoou o grasnido de um corvo entre as árvores. — O guardião não nos quer aqui — murmurou a mulher. —

Devemos ir embora. Você tem razão. O garoto não ousaria. Tonto de alívio, Torak ouviu-os se afastar. Após um momento, tentou mudar de posição, mas a ponta da faca o impediu. — Fique quieto! — ciciou seu captor.

Ele reconheceu aquela voz. Era Renn. Renn? — Você está fedendo - cochichou ela.

Ele tentou virar a cabeça, mas novamente a faca o deteve. — de volta. — Eles nunca viriam mesmo aqui, não têm permissão. Torak pensou por um momento. — Como você sabia que eu viria por aqui? E por quê...? —Eu não sabia. Agora fique calado. Eles podem voltar. Após uma fria e apertada espera que pareceu durar uma eternidade, Renn deu-lhe um chute e disse-lhe que podia se mexer. Ele pensou em tentar dominá-la, mas decidiu não fazê-lo. Se houvesse uma luta perturbariam os ossos. Em vez disso, ele empurrou para o lado a placa de ardósia que É para manter os cães distantes de mim - explicou cochichando

Também pendurara no próprio ombro o arco e a aljava dele. se Torak não o tivesse agarrado e garantido. Ao se virar para apanhar sua mochila. percebeu atônito que ela havia encaixado uma flecha em seu arco e mirava nele. Perplexo. O terreno estava deserto. Renn também tivera a previdência de trazê-las. Estou indo — retrucou Torak. — O que está fazendo? — perguntou ele. duas aljavas e arcos — ambos envoltos em pele de salmão para proteger da umidade — e um saco de couro de gamo que se contorcia furiosamente. — Pensei que estivesse me ajudando. Colhendo punhados de musgo encharcados de orvalho. e enfiara no cinto a machadinha e a faca de Torak. sacudiu o traseiro e saudou Torak mordiscando embevecido o seu queixo. . Deu uma farejada e teria fugido. Torak abriu o saco com um puxão e Lobo disparou para fora.uma das quais era a dele.bloqueava a entrada e rastejou para a luz do dia. apoiada nas mãos e nos joelhos e arrastando duas mochilas marrons . Até mesmo os corvos tinham ido embora. Silêncio! — Renn disparou um olhar cauteloso em direção do acampamento. que aquilo era realmente ele e não um carcaju sanguinário. — — Lobo! — exclamou Torak. Lobo abriu um enorme sorriso de lobo. com baixos semilatidos. e depois enfiou-se em suas botas. Torak agachou-se sobre as espirradeiras e observou-a voltar para o interior e emergir com dois sacos de dormir enrolados. — — Depressa — falou Renn atrás dele. suado e sujo. limpou o pior do excremento. Renn saiu depois dele.

mexa-se! Com a flecha de Renn às costas e a acusação dela queimando em seus ouvidos. — Um covarde? — Covarde. Se eu não o forçasse. ao passo que ela se encontrava descansada e alimentada. e Torak achava que talvez pudesse dominá-la antes que ela causasse muitos danos com aquele arco e flecha. Torak seguia a oeste rio abaixo. Ela. Simplesmente viraria as costas e fugiria. fugiu. isso tornaria mais difícil livrar-se de Renn. Torak ofegou. Ele decidiu esperar até que . mentiroso e ladrão.Ela o olhou enfastiada. Porque você é um covarde. Torak achava isso ainda mais perturbador do que as cornetas de casca de bétula. e mentiu ao dizer que não é o Ouvinte. pela última vez. levando-o a perder a luta. — Então por que não me entregou logo? — Porque pretendo cuidar para que você chegue à Montanha do Espírito do Mundo. Renn estabelecia um ritmo veloz e Torak tropeçava com freqüência Estava cansado e com fome. A pergunta era. Agora. porém era menor do que ele. usando os salgueiros como cobertura e carregando Lobo nos braços para evitar que suas patas deixassem um rastro de cheiro para os cães. você nem mesmo tentaria. ela parecia sinceramente interessada em despistar os Corvos. não havia ruídos de perseguição. Espantosamente. Depois. enganou Hord. Você roubou o nosso corço. quando? Por enquanto. — Por que eu o ajudaria? Estou apenas ajudando o meu clã. guiando-o ao longo das sinuosas picadas de veados que forneciam a melhor cobertura.

teria sabido disso. ao fazermos isso. Torak virou-se e olhou para ela. — Eu não sou covarde — falou por cima do ombro. — A profecia podia significar que devíamos sacrificar você e dar o seu sangue à montanha. É isso que Hord acha que significa. enquanto seguiam o rio em meio a um sombreado bosque de carvalhos. Destruir o urso.. Ela olhou-o de cima a baixo.estivessem bem mais distantes do acampamento. — E suponho que vá me dizer — adivinhou Torak —. — Saeunn acha que significa outra coisa-. porque você sabe tudo. Mas o insulto dela o magoava. — Então por que fugiu do nosso acampamento? — Eles iam me sacrificar! — Eles ainda não tinham decidido isso. — Fez uma pausa.. . Se você não tivesse fugido. — Eu. Ele quer matar você. e a ameaça da perseguição parecia diminuir. — E o que eu deveria ter feito? Esperado para descobrir? — A profecia — disse Renn friamente — podia significar duas coisas diferentes. para que ele possa levar o seu sangue à montanha. Era esse o motivo da discussão. que somente você pode encontrar a montanha e destruir o urso. e. destruiríamos o urso. Ela arrancou um suspiro.

exclamou Renn furiosamente. Com todos esses pássaros em volta. O homem que a remava tinha cabelo curto castanho cortado em franja na testa. Luta com ar. Você sabe que é. porque o seu pai o colocou numa toca de lobo quando você era pequeno.. exatamente como diz a profecia. e você consegue falar com eles. Torak estreitou os olhos.. Seguiram o rio para oeste. — Abaixe-se! . duas canoas feitas de troncos inteiriços passaram deslizando. — Como você sabe disso? — Porque eu escutei .. Fala com silêncio: aquele apito. Lobo aguçou os ouvidos e contraiu o bigode. Mas Saeunn tem certeza disso. Momentos depois. Enquanto caminhava. O Ouvinte precisa encontrar a Montanha do Espírito do Mundo. Do mesmo modo como seu colega na outra . Não era possível. — Por que continua negando tudo? . Torak ouvia o leve pipilo dos piscos-chilreiros comendo as amoras-pretas. uma trepadeira-azul batia de leve nos galhos atrás de larvas. com a ajuda do espírito. — Você é o Ouvinte. De repente. destruir o urso.. E eu também. Um machado de arremesso de ardósia preta repousava sobre seus joelhos. Torak teve uma boa visão da que se encontrava mais perto dele. Eles estavam errados. Torak pestanejou.— Eu sei. e tinha uma presa de javali numa correia sobre o peito. E logo as primeiras palavras da profecia dizem que o Ouvinte consegue falar com os outros caçadores da floresta. o urso não poderia estar em algum lugar perto dali. Usava uma capa de couro duro nos ombros largos.disse ela.. e então.ciciou Torak. não parece possível. puxando Renn para perto dele..

ele esquadrinhava as margens ao mesmo tempo que fatiava a água com fortes remadas. — Como você sabia que eles estavam vindo? — Não sabia. está me levando a algum outro clã. não é mesmo? Ele não respondeu.canoa. Ela pareceu surpresa — depois assustada. — Por que eu faria isso? — Pelo que me consta. Era óbvio demais o que ele procurava. pelejando para superar sua inquietação.. . — Você consegue realmente falar com ele. por um momento. — Ou talvez . Lobo me disse. — Como sabiam que viríamos por aqui? Você deixou alguma espécie de pista? Ela revirou os olhos. — Deteve-se. — Clã do Javali .. Então ela sacou a faca e estocou-o para que caminhasse. Está na hora de seguirmos para o norte. impaciente .cochichou Renn no ouvido de Torak.disse ela. Torak ficou imediatamente desconfiado. e.o Clã do Javali esteja passando por aqui porque seu acampamento de outono fica rio abaixo e. Renn levantou-se. — Fin- Kedinn deve tê-los chamado para ajudar a nos procurar. Recolocou a flecha na aljava e pôs o arco a tiracolo. para eu ser sacrificado. — Eles já se foram. Torak pensou que Renn mudara de opinião a seu respeito.

caindo sobre as patas em sua ânsia de alcançar a água. Após arrancar um pedaço com os dentes e jogá-lo para Lobo. remexeu na mochila à procura de um dos rolos da carne seca de corço que ele havia preparado — o que parecia ter acontecido luas atrás. mas ainda com a faca apontada para Torak. Então curvou-se e bebeu até ficar saciado. O gosto era delicioso e salgado. Para surpresa dele. Ofereceu um a ele. Renn hesitou. Finalmente. ela ofereceu um bolo de salmão para Lobo. — aqui! — Já paramos — rebateu Torak. Torak pegou-o e mordeu um pedacinho. Já podia sentir a força do veado correndo através dele. então desatou sua mochila e ajoelhou-se. amassou-as na água e lavou o que restava em seu corpo de excremento de carcaju. — Não podemos parar folhas de saponária. Lobo saltou de seus braços. . Não dormira na noite anterior e já fazia um dia que não comia. começou a comer. Torak começou a se sentir tonto por causa do cansaço. Permanece bom todo o inverno. O sabor era maravilhoso.Chegaram a um córrego que tombava de uma garganta rochosa e iniciaram a escalada. retirou três finos bolos marrom-avermelhados. Apanhou um punhado de O que está fazendo? — berrou Renn. com um penetrante cheiro aromático. — Nós o trituramos com gordura de veado e bagas de zimbro. não conseguiu dar mais um passo. Sentindo-me muito melhor. — Salmão seco — disse Renn com a boca cheia. Enfiando a mão na mochila. e caiu de joelhos.

Renn hesitou e. e depois o ofereceu a Lobo. mas isso não . — E dai? — falou. com um dar de ombros. — Você parecia precisar dele. ser importante. — Isso é porque você vive enfiando-o em sacos — alegou Torak. — É apenas para o bem dele. Você o tirou do acampamento. Não sei por quê. Não confiava nela. Não deve ter sido fácil. — Deu outra mordida no bolo de salmão. Então perguntou algo que o vinha perturbando.Este o ignorou peremptoriamente. Renn tentou não demonstrar sua mágoa. que o engoliu de uma só vez. — Ele não sabe disso. — Por que você o trouxe? — — Por quê? Ela hesitou. — Não pode dizer a ele? — Não há como dizer isso em fala de lobo. mas se conteve. Mas achei que podia Quem? Lobo. Fora útil em ajudá-lo a fugir dos Corvos. entregou o bolo a Torak. Ele o esfregou nas palmas das mãos para disfarçar o cheiro dela com o dele. então. — Eu sei que ele não gosta de mim. Ele ficou tentado a lhe revelar que Lobo era seu guia.

. — Deverá ser fácil vadear o rio onde estão aquelas campinas. Ele desce dos rios de gelo das Montanhas Altas e forma o Lago da Machadinha. — sua voz foi diminuindo lentamente.mudava o fato de que tomara suas armas e o chamara de covarde. . E ela ainda mantinha sua faca apontada diretamente para ele. depois passa pela Queda do Trovão e segue para o mar. Se ela não o tivesse chamado de covarde. e o filhote seguia penosamente diante dele.O maior rio desta parte da floresta. — É o Água Extensa . Torak captou o distante resplandecer de um rio. Lobo não gostava da escalada tanto quanto Torak. Então poderemos seguir para o norte.. Ele estava esperando que os dois o seguissem. Torak achou que já era seguro deixar Lobo caminhar. alcançaram um penhasco que dava vista para amplo vale arborizado. O filhote encontrara a trilha de um alce que serpeava para o interior de um bosque de altos pés de abeto salpicados de barba-de-velho. Por volta da metade da tarde. Às vezes. Apontou para Lobo.. Torak supôs que Renn devia estar imaginando como seu clã a castigaria por ter ajudado o prisioneiro a fugir. . no início do verão. A garganta ficou mais íngreme. se o vento sopra para o leste. para pegar salmão. E não o atravessando. mais animada.mostrou Torak. Por entre as árvores. você consegue ouvir a Queda. — Por ali .informou Renn. — Subindo o vale. — Não — disse Torak subitamente. talvez ele sentisse pena dela. — Vamos cortar através do vale — sugeriu ela. Nós acampamos por ali.. o rabo pendente.

Pegar a direção leste parece uma boa idéia. — — a montanha. — Que caminho tomará Fin-Kedinn? .falou baixinho — que ele conhece o caminho para Lobo detestava a fêmea Sem-Rabo. Ele conhece o caminho. — Não me importa — disse Torak. e depois norte. — Oeste por um tempo. Ela olhou-o fixamente. .— Mas por ali é o leste. ao longo das trilhas. — Não acredito em você. — Pois bem. alcançaremos cedo demais as Montanhas Altas.indagou Torak. Ela franziu a testa. — Isso é algum truque? — Olhe — disse ele. — Esse filhotinho? Torak fez que sim. E então bufou. Isso tornará muito mais difícil seguir para o norte. — Seguiremos para leste porque Lobo diz que devemos. O quê? O que quer dizer? Quero dizer . Se tomarmos a direção leste.

havia o frio. Por que Alto Sem-Rabo simplesmente não rosnava e a afugentava? Agora. Como se o Alto Sem-Rabo fosse alguma espécie de presa! Depois disso. atemorizante cheiro do Molhado Ligeiro. porém. ficou aliviado ao escutar que ela estava vários passos atrás. sentindo a terra seca sob a saliência polpuda de suas patas. Que coisa de se fazer. abaixo deles. onde ele foi tão sacudido que ficou enjoado. a fêmea Sem-Rabo fez coisas terríveis. cuspiu uma que não estava boa. Eram todos cheiros bons. ele e Alto SemRabo tinham de atravessar o Molhado Ligeiro. e seguiu em frente. vários abetos derrubados por tempestades. Parou para mastigar umas amoras alpinas à margem da trilha. Arrancou Lobo de Alto Sem-Rabo e o enfiou num estranho covil sem ar. O local da travessia ainda estava muitos trotes adiante. mas sabia que não poderia. Ela devia permanecer longe. enquanto Lobo corria pela trilha. Havia perigo adiante. e Lobo ansiava por voltar. Pior ainda era o modo como ela se comportava com Alto Sem-Rabo. Era tão alto que em breve até seu pobre semi-surdo irmão de alcatéia conseguiria ouvi-lo. Ergueu o focinho para captar os odores que eram soprados do vale: alguns gaios e uns poucos excrementos envelhecidos de alce. . e a calidez do Olho Quente Brilhante nas costas. A Atração estava ficando mais forte: a Atração era parecida com a atração exercida pelo covil. Ótimo. O medo novamente envolveu Lobo. uma porção de espirradeiras e mirtilos esbranquiçados. De algum modo. mas Lobo já conseguia ouvi-lo rugir. mas não era igual. interessantes. quando ela apontou a Grande-Garra-que-Voa para seu irmão de alcatéia.Detestou-a desde o primeiro momento em que a cheirou. Será que ela não sabia que ele era o lobo líder? Ela era tão dura e desrespeitosa quando gania para ele na fala dos Sem-Rabos.

— Isto é. Mau mau mau. Lobo girou e correu de volta em direção a Alto Sem-Rabo. — Não podemos. Torak apanhou-a aquiescendo com a cabeça. Não conseguia ouvir nenhum pássaro. Torak não acreditava nisso mais do que ela. Zimbros prendiam-se em suas botas. Torak e Renn seguiam o mais silenciosamente possível. — arriscou Renn. os pêlos das costas eriçados. pode ser um lince..De repente. As árvores estavam completamente imóveis: esperando para ver o que ia acontecer. Alargou as narinas para absorvê-lo. Caminhava lentamente à frente: cabeça baixa.sugeriu ela. Ou um carcaju. Suas orelhas foram para trás. olhando fixamente para o filhote aterrorizado. — Talvez não seja. Lobo captou outro cheiro. — Não sei — murmurou Torak. — Devíamos voltar . Renn puxou a faca do rapaz do cinturão e jogou-a para ele. . Os olhos cor de âmbar de Lobo estavam escuros de medo. Barbas-de-velho arrastavam dedos finos sobre seus rostos. Este é o caminho para a montanha. Sua pele começou a formigar. Aquilo era mau.. CATORZE — O que foi? — cochichou Renn. Dobraram uma curva e chegaram a uma bétula caída que sangrava nas profundas marcas de garras entalhadas em sua casca.

— Texugo. Ela pegou a machadinha. — Como é que sabe tudo isso? — indagou Renn. Parou aqui para raspá-las e limpá-las. ou para amedrontar outros caçadores. . — Tem certeza? . Ambos sabiam que ursos às vezes arranham árvores para marcar seu território. — Ele captou o olhar intrigado dela. — Ele tinha as patas dianteiras cheias de terra. o arco e aljava dele e os estendeu. — Bem. não é mesmo? — Pa era melhor. — Foi Lobo quem lhe disse? — Não. — Você é bom em seguir rastros. Torak seguiu — e então soltou um suspiro de alívio. — Deu de ombros. E voltou para sua toca. você é melhor do que eu — concedeu Renn.. — Os arranhões são menores do que os de um urso. — Ainda há pouco. vi um pisco-de-peito-ruivo com uns pêlos de texugo no bico. simplesmente reconhecia um fato.. Lobo aproximou-se da bétula para uma melhor farejada. Foi à floresta. — Mas por que um texugo deixou Lobo com medo? — Não creio que tenha sido ele . — acenou com a mão para leste. Ele vinha do leste. Não pareceu invejosa.disse Torak.Nenhum deles falou.perguntou Renn. e há lama na casca. — Circundou a árvore. por cavar atrás de minhocas. Por ali. — Creio que foi algo mais.

Ela não sabia o pior. compartilhar o alívio de Renn. está quase preto. Então a floresta explodiu. — O sangue da árvore já secou. O urso havia arranhado a casca pelo menos dois dias antes.. Ela gesticulou para o tronco. esquadrinhando atrás de sinais. E melhor você ficar com isso. E do meio das trevas abaixo das árvores propagou-se uma escuridão ainda mais intensa.— Tome. Ela tinha razão. — O quê? . Olhe. Ele estava de volta ao crepúsculo azul de outono ajudando Pa a montar acampamento. mas não tinha muito tempo de vida. esforçando-se para enxergar por entre as árvores. — Ele examinou a árvore. — É velho . e Pa estava gargalhando. Pinheiros estalaram. Torak a seguir. Assustadoramente alto. Lobo na frente. Seguiram lentamente pela trilha. .. porém. e Renn por último. O jovem pé de faia ainda gemia. Torak tinha feito uma piada. — Nenhum urso pode ser tão enorme — sussurrou ela. Torak não disse nada. Corvos gritaram. rasgando a casca em compridos pedaços sangrentos. Tinham dado mais cinqüenta passos quando Torak parou tão abruptamente que ela trombou com ele. O urso se apoiara nas patas traseiras para descarregar sua fúria: arrasou todo o topo da árvore.observou Renn.quis saber Torak. Se Renn trepasse nos ombros de Torak não conseguiria alcançar a marca de garra mais baixa. e talhando profundas fissuras no alto do tronco. Não podia.

porém. Recuou prontamente. e eles acenderam uma pequena fogueira e ... O urso poderia ter voltado por um outro caminho. ele encontrou três compridos pêlos negros presos num galho mais ou menos na altura da cabeça de uma pessoa. Torak expirou aliviado. — Ele foi por ali — apontou abaixo para o vale. Mas não tão imenso. perto de um riacho barrento. não o tranqüilizou.A cada matança. ele era imenso.. dissera Pa. Na noite em que o urso atacara. — O que? — perguntou Renn. Então. Ali estava a prova. veio o agudo tac tac de uma carriça.. do meio da vegetação rasteira. Caso contrário. seu poder crescerá. — Não creio que ele esteja por perto. Torak contou-lhe o que Pa havia dito. Com o cair da noite. com brotos de aveleiras curvados e folhas caídas. Isso. o urso será invencível. — Está ficando maior — comentou. essa carriça não estaria cantando. Pés de azevinho davam um fingimento de proteção. A alguns passos ao largo da trilha.. Quando o olho vermelho estiver mais alto no céu.. — Veja como os galhos foram quebrados em padrões ligeiramente diferentes. — Eu sei. fizeram um abrigo. não passou nem mesmo uma lua. — Mas.

. quando o aleijado errante fez o urso. Era uma noite fria. Renn alcançou um graveto e ajudou o besouro a descer do galho. não poderá simplesmente pedir a ajuda do espírito. você encontrar a montanha. — É sobre a profecia.. E darei o melhor de mim. ele rompeu um pacto. ela rolava o graveto nos dedos. — Antes de morrer — disse Torak — meu pai me forçou a um juramento. pois fez uma criatura que mata sem motivo. Era um novo sentimento. Ele enfureceu o Espírito do Mundo. Renn se arriscara muito para ajudá-lo. Renn estava sentada observando um besouro pelejar para descer da lenha da fogueira. e Torak sentou-se acocorado em seu saco de dormir.. o urso poderia farejá-los a muitos dias de caminhada de distância. Por que Pa nunca lhe falara sobre a profecia? Por que ele era o Ouvinte? O que significava isso? A seu lado. Não ousaram comer os bolos de salmão. Ela assentiu e Torak percebeu que pela primeira vez Renn acreditava nele de verdade. Torak agora sabia que podia confiar nela.. — Franzindo a testa. Precisará provar que é merecedor. — Não sei por que ele me fez jurar. se. . Será necessária muita coisa para se conseguir a ajuda dele. — Fez uma pausa. Ele disse: — Preciso lhe contar uma coisa. ter alguém do seu lado. Mas jurei.comeram algumas tiras de carne seca. — Quando. Encontrar a montanha ou morrer tentando. Saeunn disse-me isso na noite passada. Lobo dormia com as orelhas movimentando-se. e ele não teria conseguido escapar sem ela. Disse que. — Tem uma coisa também que eu preciso lhe falar — disse ela. ouvindo o débil e distante rugido do que Renn dissera ser a Queda do Trovão.

é incrivelmente poderoso. Caçadores. uma parte especial dele se forma. como espuma no rio. Os azevinhos produziram um murmúrio irritadiço. o Espírito do Mundo não o ajudará. Às vezes. — Três pedaços do Nanuak — disse roucamente. Mais fria de todas. árvores. Mais velha de todas.Fechou os olhos e recitou: Mais fundo de todas. presa pedras. — O que significa isso? . a visão afogada. . a luz que anoitece. — Saeunn disse que o Nanuak é como um grande rio que nunca termina Cada coisa viva tem uma parte dele dentro de si. — O que será necessário? Ela olhou-o nos olhos. — Você terá de levar os três pedaços mais fortes do Nanuak.Torak tentou entender. Torak prendeu a respiração. — O que são eles? Como vou encontrá-los? — Ninguém sabe. . Caso contrário. — É isso que você precisa descobrir. — Ela hesitou. Quando isso acontece. E então jamais destruirá o urso. Renn abriu os olhos. a mordida de pedra.quis saber Torak. Tudo que temos é um enigma. Torak olhou-a inexpressivamente. Uma brisa surgiu de repente.

eu não poderia ter transmitido a você. Ele baixou a cabeça até os joelhos. Ela acha que devo ser uma maga quando eu crescer. para libertá-las do urso. Então Renn desvencilhou-se de seu saco de dormir. Outro silêncio. — Você tem de tentar. — Por que Saeunn lhe disse tudo isso? Por que você? — Nunca quis que fizesse isso. Pensou nas milhares e milhares de almas-árvores aglomerando-se na escuridão: esperando por ele. — Então terei de encontrar uma montanha que ninguém nunca viu. . a floresta rangia em seu sono.. sonhando seus sonhos de um verde intenso. Torak ficou em silêncio. E então perguntou. ela simplesmente o fez. — Vou levar nossas mochilas lá para fora. Torak deitou-se de lado e enrosco-se. Se ela não tivesse me falado. Renn inspirou fundo. Em volta dele. talvez haja algum propósito nessas coisas. e apenas ele. E descobrir a resposta para um enigma que ninguém nunca solucionou. Depois que ela saiu. — — E você não quer ser? Não! Mas suponho. perdendose em pensamentos diante do calor ardente das brasas. Não vamos querer que o cheiro de comida atraia o urso..— Ninguém sabe. E matar um urso contra o qual ninguém consegue lutar.

Se o urso não fosse destruído. De um modo estranho aquilo lhe deu força. tinha uma inexpressiva pedra branca. Torak acordou com um sobressalto. em todos os diferentes tipos de madeira e casca de árvore e pedra que estavam ali para se pegar se você soubesse onde procurar.Pensou na bétula dourada e na sorveira-brava encarnada. E daria o melhor de si. Sonhou que Pa estava vivo novamente. em vez de rosto. “Há um propósito nessas coisas”.. Lobo fuçou seu queixo. Lobo levantou-se de um salto e saiu para uma de suas caçadas noturnas. sem dizer uma só palavra. dissera Renn. e então instalou-se junto a ele com um duvidoso "hum". A floresta tinha tudo o que se poderia querer. Até então ele não se dera conta do quanto a amava. . e nos carvalhos de um verde brilhante. Renn retornou. nos lagos e rios repletos de peixes. Torak continuou olhando fixamente a fogueira. em seguida. mas. — A gente deveria ter atravessado mais embaixo — disse Renn enquanto esticavam o pescoço para ver a Queda do Trovão. Ele era o Ouvinte. Sou o Mago Lobo.. Ele havia jurado encontrar a montanha. tudo aquilo se perderia. A floresta precisava dele. e caiu no sono. e os finos dentes como agulhas dando amorosas mordiscadas em suas bochechas e garganta. Sentiu o bafo de Lobo em seu rosto. o penugento roçar do bigode do filhote em suas pálpebras. Dormiu intermitentemente. Eu não sou Pa. Torak limpou o borrifo de seu rosto e ficou imaginando como algo da floresta podia ser tão furioso assim. Ele lambeu o focinho do filhote. enfiou-se no seu saco de dormir. Pensou na presa abundante.

Diante dele. Como Torak. sem se convencer. porém. Seríamos vistos — alegou Torak. Finalmente. ela dormira mal e estivera mal-humorada a manhã toda.perguntou Renn. Mas ele voltará quando encontrarmos um meio de passar por cima da quedad'água. Torak observava Lobo.O dia todo estiveram seguindo para cima o tranqüilo e verde Água Extensa. — Humm . onde é que está então? — Ele detesta água ligeira. Lobo estava à espera deles: sentado debaixo de um pé de bétula a uma distância segura do Água Extensa. — Se ele é o guia. — Você sabe nadar? .fez Renn. — Vamos seguir o rio até ele nos mandar atravessar. enquanto ribombava sobre uma escarpada parede de pedra. — Aqueles prados são muito expostos. tremendo de medo. — — A gente deveria ter atravessado mais embaixo — repetiu Renn. encontraram um caminho de veados que contornava para cima a lateral da queda-d'água. Era íngreme e enlameado e. Renn enrugou os lábios. toda a floresta parecia parar e olhar.ofegou Renn. ele era assustador em sua fúria. estavam exaustos e ensopados com o borrifo. Além do mais. Sua alcatéia afogou-se numa enchente. Lobo quis permanecer deste lado. Nenhum dos dois havia mencionado o enigma. quando chegaram ao topo. . Agora. — Aonde agora? .

Lobo trotava com as orelhas achatadas para trás. mas erguia-se da água o equivalente a uma boa metade de um antebraço. Virou-se para Renn. miando. Talvez fornecessem um meio de travessia. nublado. — — Ele quer atravessar. Começaram rio acima. amarrá- las na mochila e depois enrolar as perneiras.disse Renn. Não tinham ido muito longe quando Lobo começou a correr de um lado para o outro da margem. — Eu irei primeiro — anunciou Renn. perto daquelas pedras? As pedras eram lisas e salpicadas com musgo de aparência traiçoeira. mas está apavorado. A aljava e o arco iam na outra mão. e o vento espalhava folhas de bétula no rio como se fossem pequenas cabeças de flecha cor de âmbar. As moitas espinhosas são muito densas aqui . Torak podia sentir seu medo. Era um dia frio. O rio corria veloz e sereno a caminho da queda-d'água. avançando através de moitas espinhosas e emaranhadas sorveiras-bravas e bétulas. Conseguiu um galho para ajudar no equilíbrio e colocou a mochila sobre um dos ombros. — Que tal mais adiante. para não ser arrastada ao fundo se por acaso ela caísse. Lobo sabe? — Acho que não. Torak fez que sim. ao tirar as botas. — E você? — Sei. .Ele fez que sim. bem acima da cabeça.

Em seus braços.Parecia apavorada. ele nunca mais confiará em mim! Sentou-se no musgo da beira da margem. Lentamente. As pedras pareciam geladas e escorregadias sob os pés descalços de Torak. Após algum tempo. Mas fez a travessia sem vacilar . — Coloque-o dentro de sua mochila! — berrou Renn do outro lado. ao se aproximar da água. Depois disse isso em fala de lobo. Lobo olhou para ele. murmurando suavemente em fala de lobo. encorajando. Torak deixou a mochila e as armas na margem. Ia carregar Lobo para o outro lado e depois retornar para pegar suas coisas. Torak bocejou novamente. acocorando-se e emitindo leves miados tranqüilizadores. Lobo emergiu do zimbro e foi sentar-se ao lado dele. — Vamos. e tirou as botas. Lobo — falou.até a última pedra. Lobo disparou para baixo de um arbusto de zimbro e recusou-se a sair. e deu um enorme bocejo que acabou num ganido. quando precisou saltar para a margem e acabou tendo de agarrar um galho de salgueiro para se manter de pé. Lobo começou a tremer de terror. para mostrar a Lobo o quanto ele estava descontraído. — É a única maneira de fazê-lo atravessar! — Se eu fizer isso — gritou Torak —. . Então bocejou e se espreguiçou. Torak pôs-se de pé e pegou Lobo nos braços.

já que Renn e Lobo estavam ficando para trás cada vez mais e mais distantes. Agarraria aquele galho que se projetava da margem. Contorcendo-se desvairadamente para se livrar dos braços de Torak. — Ultima pedra! — berrou Renn..gritou. . pelejando contra o rio. — Isso mesmo — gritou ela acima do estrondear da queda- d'água —. Depois. Ocorreu-lhe que os arbustos espinhosos deviam ser muito densos. aterrissando com as patas traseiras na água e as garras dianteiras prendendo-se na terra. Torak perdeu o equilíbrio e caiu ruidosamente no rio. QUINZE Torak emergiu balbuciando de frio. Renn segurava com uma das mãos um rebento de bétula. e os latidos prementes de Lobo. enquanto ela corria por entre os arbustos espinhosos.. A coragem de Lobo se desfez. Uma onda lambeu a pedra. Atrás de si. ouviu Renn gritar seu nome. o próximo. estão quase chegando! As garras de Lobo se fincaram no gibão de Torak. e inclinou-se na direção deles. — Eu seguro ele.Na outra margem. saltou para a margem. portanto não ficou muito preocupado. — Peguei-o! . salpicando-os com água congelante. Era um excelente nadador. Renn abaixou-se e o segurou pelo cangote.

como o momento de pegar no sono. seu nariz. Afundou. afogando todas as vozes. Seu gibão e suas perneiras o arrastavam para baixo. e a queda-d'água deslizava para mais perto com espantosa velocidade. Não conseguia mais ouvir Renn ou Lobo. e ficou chocado ao ver o quão distante fora carregado. O rio engoliu-o todo: estava dentro dele e ele rugia em seu interior. .. Não havia tempo para medo. Esperneou o caminho todo até a superfície. e aquilo foi brilhante e suave. Então o rio puxou-o novamente para dentro de suas verdes profundezas rodopiantes. A morte alcançou-o e puxou-o para baixo. Então. agindo sem sentir para manter sua cabeça acima da superfície. tornando-os galhos de carne e osso. A morte lançou-se contra ele. seus ouvidos. e ficou difícil de respirar quando ele tombou. pois ele estará uma bagunça. Quem cuidaria dele agora? E pobre Renn. O frio deixara seus membros dormentes. Apenas uma raiva remota por tudo acabar daquela maneira. Não conseguia enxergar nada além das ondas de espuma branca e um borrão de salgueiros. aquela força marteladora de água. até isso desapareceu quando ele afundou novamente. a água enchendo sua boca. Tomara que ela não encontre o corpo.. Pobre Lobo.. De algum modo ele emergiu. de repente..O rio martelava-o nas costas. engolindo ar. não havia mais rio adiante. Um arco-íris lampejou entre espuma e borrifos. deixando-o sem energia como uma folha molhada contra uma pedra. Mais e mais ele caía. então as ondas tornaram-se lisas como uma pele e. Ocorreu-lhe com bastante clareza que ia desabar de cima da quedad'água e morrer. menos a dela mesma.

Ansiava por desistir e dormir.. começou a lutar em seu caminho de volta à superfície. Havia algo que eles precisavam fazer juntos. Seria fácil demais abandonar seu corpo e deixar que eles o envolvessem para sempre em seu frio abraço. O quão rapidamente suas almas começam a flutuar livres! O quão ansiosamente vêm a nós! Torak virou-se de um lado para o outro como um peixe morto. dois olhos brancos cegos o encaravam de baixo para cima. Lobo precisava dele. A água foi de azul para verde-escuro e para preto. chamou o Povo Oculto do rio. Abanando seus dormentes membros-galhos. vejam. Deixe que suas almas flutuem livres dessa carne grosseira e pesada! Ele sentiu um enjôo. . borbulhante.. Cabelos como verdes elódeas arrastava-se através de sua garganta. Ele estava lânguido e gelado além de qualquer sensação. Bem lá no fundo.e os viu. gargalhou o Povo Oculto. Torak abriu os olhos. como se suas entranhas estivessem sendo puxadas para se soltar.. Rostos cruéis olhavam de esguelha com impiedosos olhos brancos. Mal a havia alcançado quando algo fez com que ele olhasse para baixo .O rugido do rio enfraqueceu. O latido desesperado de Lobo chegou até ele. Afundou. Tornou-se ciente de uma gargalhada tênue. A luz o atraiu. O verde ficou mais brilhante. Luzes lampejaram em sua cabeça.. Bolhas prateadas flutuaram na escuridão enquanto o Povo Oculto fugia. O Povo Oculto estava certo. Venha para nós!. Vejam. Novamente Lobo chamou-o.

mas ele não ousou fechá-los. Algo segurou sua perna e puxou-o para baixo. antes de iniciar a travessia. Tarde demais. esticou-se em direção ao fundo — agarrou um punhado de lama gelada.e não pode ter o Nanuak! . Mais luzes lampejaram m sua cabeça. O frio fazia seus olhos doerem. e não podia correr o risco de abrir o punho. Mas. Deu uma guinada e agitou os pés de volta em direção à luz. O enigma. Afaste-se de mim!. ele havia apertado a tira em volta do cabo. sussurrou o Povo Oculto. Algo agarrava suas perneiras logo acima do tornozelo. mas. gritou dentro de sua cabeça.O que são? Pérolas do rio? Os olhos de um do Povo Oculto? A Profecia. Ele deu chutes. Contorce-se para se livrar. e subia com agonizante lentidão. Não conseguiu se livrar. Sua força. A raiva fervia dentro dele. ele os perderia para sempre. se não mergulhasse agora e pegasse aqueles olhos — fossem o que fossem —. a visão afogada. Dobrou o corpo e agitou os pés com toda a sua força. Fique aqui para sempre.. Mais gargalhadas aquosas. "Mais funda de todas.” Seu peito ia explodir. pois eles poderiam escorregar e se libertar — mas conseguia sentir o peso deles puxando-o para baixo. menino.. Não pode me ter . ele morreria. e não conseguiu afrouxá-la. com as almas à deriva. porém. estava falhando.. Ele os pegou! Não havia como ter certeza — a lama rodopiava espessa à sua volta. empurrando-se para baixo. Se não conseguisse logo um pouco de ar. dificultado pelas roupas encharcadas. Nadou para mais e mais perto. mas o aperto se manteve firme. Tentou tirar sua faca da bainha. Agora jamais conseguirá alcançar a luz! Fique aqui conosco..

Um estatelar desgracioso anunciou a fêmea Sem-Rabo. pensou. Lobo ficou impressionado. Torak disparou para cima. por favor.A fúria deu-lhe forças e ele esperneou selvagemente. engolindo grandes goladas de ar. Seria ele um Sem-Bafo? Lobo pôs o focinho para cima e uivou. A despeito de si mesmo. Seu irmão de alcatéia estava tombado sobre um tronco. Lobo saltou para defender seu irmão de alcatéia. DEZESSEIS A fêmea Sem-Rabo lamuriava-se e agitava as patas dianteiras. Em meio ao clarão do sol. a metade do corpo no Molhado. portanto Lobo deixou-a e disparou caminho abaixo. Lobo lambeu sua bochecha gelada. Algo emitiu um uivo gorgolejante e mergulhou nas trevas. Sabia que não fora nocauteado. mas Alto Sem-Rabo não se moveu.e errou. Ainda podia sentir o jogo do rio e ouvir sua respiração estridente — mas seus olhos estavam abertos e olhando fixamente. A dor explodiu em sua cabeça. vislumbrou uma faixa de rio verde e um galho suspenso aproximando-se dele velozmente. . cego não. enfiou as patas dianteiras debaixo dos ombros do Alto Sem-Rabo e o puxou do Molhado. não. Quando farejou o Alto Sem-Rabo entre os salgueiros. ele também começou a lamuriar-se. O pânico dominou-o. Com a mão livre tentou alcançá-lo . Cego não. Cheirava fortemente a sangue e não se mexia de modo nenhum. mas ela o afastou. Explodiu para fora da água. Não. ele não conseguia enxergar. O aperto em sua perna soltou-se.

o corpo enroscado. A fêmea continuava sem deixar que Lobo se aproximasse de seu irmão de alcatéia. Lobo caminhou ao lado deles. Alto Sem-Rabo começou a tossir! Alto SemRabo tinha bafo novamente! Mas assim que Lobo saltou para cima de seu irmão de alcatéia. Alto Sem-Rabo tinha apenas o longo pêlo escuro de sua cabeça. ela apanhou um graveto e jogou-o para além do covil. foi novamente repelido! Indiferente aos rosnados de alerta de Lobo. que tentava arrancar sua pele. Alto Sem-Rabo foi andando desajeitado pelo meio das aveleiras.Observou-a colocar as patas dianteiras sobre o peito do Alto SemRabo e pressionar com força. sem ventilação. Lobo empurrou-a com seu corpo. descontraindo um pouco quando chegaram a um covil a uma boa distância do Molhado Ligeiro: um covil apropriado. para lamber e fungar no seu focinho. . Ele estava deitado de lado. a fêmea colocou Alto Sem-Rabo de pé e eles saíram cambaleando pela margem. Sua pobre entrepele sem pêlo não tinha nenhuma utilidade. Alto Sem-Rabo aproximo-se do calor. os olhos fechados. Rosnando. Lobo ignorou-a e voltou-se para Alto Sem-Rabo. não muito pequeno. Atento. Em vez de se afastar. e Lobo ficou observando aflito para o caso de suas patas serem mordidas. enquanto a fêmea Sem-Rabo rapidamente deu vida ao Brilhante Bicho-que-Morde-Quente. tremendo de frio. Finalmente. apontando para ele e em seguida para Lobo. Foi aí que Lobo notou que uma das patas dianteiras de Alto SemRabo segurava algo que emitia um brilho estranho. como se não conseguisse enxergar. Lobo recostou-se nele para aquecê-lo.

mas isso saiu como um resmungo.disse ele. Lobo ficou apavorado. Cheirava a caçador e presa e Molhado Ligeiro e árvore. disse ele. Não sabia disso? . Sentiu a língua de Lobo em seu rosto. tudo mastigado junto. voltou outra vez para o fundo! Ele se deu conta de que ela não sabia a respeito do Nanuak. Acima do crepitar do fogo ele ouviu Renn murmurar furiosamente. Torak. — Você estava tentando se matar? — O quê?. O quê? — irritou-se Renn. pois sua boca estava repleta da salgada doçura de sangue. Uma brecha de luz apareceu. tremia incontrolavelmente. Couro cabeludo sangra muito. Sabia que estava na presença de algo muito. — É claro que você pode ver! Você cortou a testa. Mas sua mão estava tão gelada que não conseguia abri-la para lhe mostrar. batia seu coração. enfiado em seu saco de dormir.Lobo farejou a coisa — e recuou. — — Eu bosso ber! . nadou intencionalmente. O ânimo de Torak elevou-se. — Você mal havia alcançado a superfície — contou Renn. e o sangue penetrou em seus olhos. pressionando em sua testa o que parecia ser teias de aranha —. quando atingiu aquele galho. ele não conseguia enxergar. Sua cabeça parecia estar em chamas e sentia todo o corpo como se fosse um único e enorme ferimento. um enorme focinho preto. cego. muito poderoso. Cego. e fez meiavolta e nadou. mas o pior de tudo. e dela vinha um zunido alto e tênue: tão alto que somente Lobo conseguia captá-lo. Em seguida.

deduziu que deviam estar em algum lugar acima da parte lateral do vale. — Agora fique parado! De sua bolsa de remédios. Percebeu que estavam em uma pequena caverna com paredes de terra. Elas grudaram firmemente no ferimento formando uma crosta instantânea. e suas roupas ensopadas. Torak fechou os olhos e ficou ouvindo a fúria incessante da quedad'água. Quando acordou. as botas. Sentiu-se gloriosamente coberto de pele e aquecido enquanto lambia o ombro de Torak. O estrondo da queda-d’água era alto e. não tremia mais e continuava segurando o Nanuak. Lobo rastejou para dentro do saco de dormir com ele. já começavam a emitir vapor. após retirar as teias. pelo seu som e a visão que tinha das copas das árvores diante da entrada da caverna. pressionou as folhas de milefólio na testa dele. ela tirou algumas folhas secas de milefólio e as esmigalhou na palma da mão. Torak lambeu seu focinho. Não se lembrava de ter chegado ali. Uma fogueira com lenha de bétula queimava intensamente. Lobo bisbilhotava os fundos da caverna. Ficou imaginando como ela conseguira fazer isso. A mochila. Em seguida. Renn devia tê-lo arrastado. Ela estava ajoelhada ao lado dele. e Renn separava algumas ervas em seu colo. pendendo de raízes de árvores que se projetavam do teto. muita sorte — disse ela. parecendo agitada. a aljava e o arco de Torak estavam . — Você teve muita. Podia sentir seu peso na mão. Em resposta.Torak ficou tão aliviado que teria gargalhado se seus dentes não estivessem batendo tão violentamente. contorcendo-se até conseguir uma posição confortável.

Era preciso. Ela não respondeu. . — O que foi? — Eu tive de mergulhar. Até mesmo foi apanhar as minhas coisas. Ele deu-se conta de que. ele pôde perceber que ela continuava chateada. Não consigo imaginar. Isto é. — Renn . ela devia ter atravessado o rio novamente. Renn ficou completamente imóvel. como a lua numa noite nevoenta. Sombras saltaram para as paredes da caverna. Trouxe-me por todo o caminho até aqui em cima. foi muita coragem. como no momento seguinte a um relâmpago. Duas vezes. o fogo pareceu diminuir. Pelo tom de sua voz.. O ar parecia estalar. — Por quê? — Desajeitadamente.disse ela sem erguer a vista. — Você me tirou do rio.chamou. Lobo parou de bisbilhotar e emitiu um grunhido de alerta. tirou para fora a mão que segurava o Nanuak e abriu os dedos. — O que foi? . — Renn . brilhando levemente.chamou novamente. para recuperá-los. Assim que fez isso..caprichosamente arrumados atrás dela. Os olhos do rio estavam na palma de Torak em um ninho de lodo verde.

— No rio. voltando logo depois com um punhado de folhas encarnadas de sorveira-brava.Ao fitá-los.. ela encheu-a com as folhas de sorveira-brava. A cor sumira do rosto de Renn. — As folhas nos protegerão — explicou — e a algibeira também deverá nos ajudar. — Era isso que estava acontecendo? — murmurou. comecei a me sentir.. — É isso."Mais funda de todas. — Fez o sinal com a mão para se precaver contra o mal. tonto. se mexa — falou.. pois é de pele de corvo. Ela pareceu horrorizada. . — Ainda bem que há lodo em sua mão — disse ela. — Contou-lhe sobre o Povo Oculto. Não há tempo a perder. Agarrando o pulso de Torak. Assim que o Nanuak foi escondido. não é? . Retirando uma algibeira preta de seu gibão. — Não.disse ele.. Ela poderia ter sugado sua própria parte da alma-mundo. ela despejou os olhos do rio dentro da bolsinha e fechou a boca bem apertada.” A primeira parte do Nanuak. O ar na caverna parou de estalar.. Torak sentiu um eco do enjôo que o arrastara para o fundo do rio. a visão afogada. as chamas aumentaram e as sombras encolheram. — Não podia ter deixado essa coisa tocar em sua pele. e pelejou para sair da caverna. .. — Não acredito que você tenha dormido com essa coisa na mão. — Como ousou? Se eles tivessem apanhado você.

deitar-se ao lado de Renn. DEZESSETE Torak acordou ao alvorecer sentindo-se enrijecido e dolorido. olhar a algibeira em seu colo e ganir baixinho.sugeriu Torak. sem jeito por ter sido vista fazendo amizade com o filhote. — Não sei. portanto concluiu que estava melhor. — Contanto que ninguém mais consiga também. decidiu que podia confiar nela e farejou as bagas. — Melhor. — Como se sente? — perguntou ela. — Você acha que ele consegue farejar essa coisa? — perguntou ela. Renn estava ajoelhada na entrada da caverna. Renn arrepiou-se. enquanto estendia a mão. tentando alimentar Lobo com um punhado de empetros. Ela franzia a testa.Torak sentiu como se um peso tivesse sido tirado de cima dele. com o focinho entre as patas. Mas conseguia mexer todos os quatro membros e nenhum parecia fraturado. — Ou talvez ouvi-la . Finalmente. Lobo contornava-a cautelosamente. concentrada. Ela percebeu que Torak estava olhando e interrompeu a risada. Observou Lobo caminhar com passinhos curtos. indo adiante — e depois dava um salto novamente para trás. . Renn deu uma risada quando seu bigode fez cócegas na sua palma.

mas Torak sempre acabava do lado de fora. seus olhos estavam lacrimejando. Torak ficou surpreso. que se preparava para a caça.. Não lhe disse o verdadeiro motivo. . Era como se tivesse sido engolido. lambuzou cinza na pele para disfarçar seu cheiro e oleou o arco com algumas avelãs esmagadas. Vai precisar descansar por pelo menos um dia. A seguir. Devemos guardar a comida seca para quando precisarmos dela. não notou. Parecia totalmente errado dormir entre paredes maciças.— Pois não parece. assim que abatermos algo. — Eu também vou. — Levantou-se. e preciso me movimentar. Renn. — Não vai não. Torak sentou-se penosamente. Renn suspirou. você voltará para cá para descansar. separado do vento e da floresta. quando terminou. Ela penteou o cabelo com um pente de madeira de freixo entalhada como a garra de um corvo. Vestir-se doeu mais do que ele esperava e. Torak prometeu. — Prometa que. Para seu alívio. tem que descansar.. Ele e Pa às vezes costumavam se abrigar nelas. que detestava cavernas. entoando: — Que o guardião do clã voe comigo e torne a caçada bem-sucedida. — Mas minhas roupas estão secas. depois prendeu-o para trás num rabode-cavalo e enfiou nele uma pena de coruja para sorte na caçada. — Vou caçar.

Pés encarnados de sorveira-brava e bétulas douradas resplandeciam como chamas contra o verde-escuro dos abetos. logo depois que meu Pa foi morto. Ela fez que sim uma vez e em seguida colocou a aljava a tiracolo. quando eu tinha sete anos. e a floresta nunca parecera tão bela. ergueu-o para que a madeira oleada brilhasse. e talvez também estivesse preocupada com ele. Pa era tudo. É de madeira de teixo. e cerne no bojo. para esticar. Arbustos de mirtilo brilhavam com milhares de minúsculas teias de aranha salpicadas de geada. Quando foi morto. chorei tanto. Então Fin-Kedinn veio e o atingi com meus punhos. ele também fez a aljava.. Uma tira em ziguezague de salgueiro vermelho e branco. E não oleamos o arco todas às vezes. Musgo congelado . Alburno na traseira. — Não conheci minha mãe. Ele não se mexeu.— Nós nos preparamos do mesmo modo para uma caçada. Era uma manhã luminosa e fria. e seu rosto torno-se sombrio enquanto se recordava. Então falou: "Ele era meu irmão. Apenas ficou parado ali como um pé de carvalho. Carinhosamente. falou: — Venha. deixando que eu batesse nele. Exceto que dizemos "Que o guardião do clã corra comigo". — Franziu a testa e mordeu os lábios. curada durante quatro verões. Ela fez uma pausa. — Fin-Kedinn o fez para mim. Então. Teceu pessoalmente o vime. Eu cuidarei de você. Para lhe dar tempo." E tive certeza de que faria isso. — Isso é apenas algo que costumo fazer — disse Renn. quando a conduziu através da floresta assombrada pelo urso.. para força. ele fez seus próprios preparativos e juntou suas armas. Vamos caçar. e deixou que eu escolhesse a decoração. Torak sabia que ela estava sentindo falta do tio.

ela afastou-se por entre os arbustos de mirtilo para apanhar a tetraz. Eu pratico muito. Uma dupla de pegas curiosas seguia-os de árvore em árvore. Para sua surpresa. Torak pegou a tetraz. Renn encaixou uma flecha. Além disso. e Torak nem mesmo se preocupou em mirar. brigando. e Renn concluiu que já tinham ido longe o bastante a leste para terem escapado dos Corvos.. Lobo espantou um bando de tetrazes. precisavam de comida quente. O queixo de Torak caiu.estalava debaixo dos pés. — Como conseguiu isso? Renn enrubesceu. Depois que Renn retornou à caverna. Pelo piado de uma coruja nova souberam que o urso estava muito distante. — Lembra de sua promessa? Agora. disparou e uma tetraz caiu com um ruído surdo sobre o musgo. eles fizeram um banquete. jamais teria prometido. — Tome. — Mas. O urso devia estar muito longe. sabendo que não acertaria nenhuma. — — Há alguém melhor? Hum.. — Lançoulhe um grande sorriso de dentes afiados. Torak não teve muito tempo para desfrutar isso. . — Bem. que dispararam em direção ao céu com gorgolejos indignados. Você é a melhor do seu clã? Ela pareceu pouco à vontade. deve voltar e descansar. — Ainda sem jeito. Nunca vi atirar tão bem. Infelizmente. Não realmente. Na metade da manhã. Se ele soubesse que ela atirava tão bem. As aves voaram depressa e contra o sol.

Em pouco tempo. 1 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras. colocou dentro duas pedras em brasa para aquecê-la e juntou a tetraz depenada e desmembrada. Se quiser outros títulos procure por http://groups. encontrara o primeiro pedaço do Nanuak. e finalmente algumas sementes de faia. Renn estava sentada a alguma distância. deixando um pouco para a refeição da manhã. lambendo as patas e deixando-as limpas. Torak sentiu-se como se nunca mais fosse precisar comer novamente. Comeram quase toda a carne. Será um prazer recebê-lo em nosso grupo. e Lobo encontrava-se entre os dois.Renn envolveu dois pedacinhos da tetraz em folhas de azeda e deixouos ali para os guardiães do clã.google. ele a pendurou perto da fogueira. Afinal de contas. Acomodou-se perto do fogo. e Torak sentiu-se contente e até mesmo esperançoso. que eles rebentaram no fogo e descascaram para retirar de dentro as pequenas e deliciosas castanhas. Isso devia valer alguma coisa. Quando acabou. e secaram o caldo com raízes de taráxaco assadas nas brasas.1 Por um momento. houve um silêncio amigável. . já que estava decidido a não passar outra noite lá dentro. para remendar o rasgão em suas perneiras onde o Povo Oculto o agarrara. estava mexendo um cheiroso guisado temperado com alho-das-vinhas e enormes e carnudos cogumelos dos bosques. Depois disso. Enchendo a pele de cozinhar de Renn de água até a metade. enquanto Torak transferia a fogueira para a entrada da caverna. em seguida.com/group/Viciados_em_Livros. usando um galho rachado ao meio. aparando as penas de suas flechas. após ter liquidado rapidamente com a articulação de tetraz que Torak havia separado para ele. veio o maravilhoso mingau feito por Renn de amoras alpinas e avelãs fora de época.

acima da distante escuridão das Montanhas Altas. — Agora é tarde demais .disse Renn. Lobo colocou-se de pé com um salto e correu para longe da luz da fogueira. Era impossível não notar: um malévolo carmesim pulsando com malícia. Momentos depois retornou. — Não devíamos ter acendido uma fogueira ." Algo parecido. Mais fria de todas.disse Renn. Como vamos encontrar os outros dois pedaços do Nanuak? "Mais velha de todas.De repente. consumindo seu próprio desejo de esperança e determinação." O que será que isso significa? . Torak não conseguia desviar a vista daquilo. Torak estava de pé. a pedra mordida. "Matar cheiro. Movendo- se. Torak olhou para cima — e o que restava de seu bom humor dissipou-se. Lobo parou com os grunhidos-ganidos. Sacudiu a cabeça. observando Lobo. — Que chance temos contra o urso? — perguntou ele. Olharam fixamente para a escuridão. que chances reais nós temos? — — Não sei . ergueu o focinho e olhou para o céu. o olho vermelho do Grande Auroque luzia abaixo na direção deles. a luz que anoitece. — Não consigo entender. Para leste. — Isto é. Velho abate.cochichou Renn. circundou a fogueira e emitiu pequenos grunhidos-ganidos agitados. Podia sentir seu poder: enviando força para o urso.rebateu Torak. — O que foi? .

por que você caiu exatamente na parte do rio onde ele estava? Não creio que tenha sido por acaso. A Primeira Árvore significava boa sorte na caçada.. — Acho que é um bom sinal — comentou Renn como se tivesse ouvido os pensamentos dele.. — Eu estive pensando. Torak. Foi realmente sorte você ter encontrado o Nanuak? Isto é. — Olhe. e então a faixa desapareceu e tremeluzentes ondas verdeclaras encresparam-se através das estrelas. A Primeira Árvore estendeu-se eternamente. O olho vermelho parecia encará-lo. Quando o viu no fundo do rio. Ele sempre gostou de olhar a Primeira Arvore em noites geladas. mas caberia a você decidir o que fazer com ele. Eu acho. que você estava destinado a encontrá-lo. um silencioso e constantemente mutável brilho verde encheu o céu. talvez ela também trouxesse sorte para ele. enquanto Pa contava a história do Começo. Talvez. Finalmente. No momento em que Torak a admirava. ele afastou o olhar do céu e sentou-se perto do fogo. . Atrás dele... O olho obscurecera. seja parte do teste. mesmo das brasas. — Talvez — prosseguiu ela lentamente — o Nanuak tenha sido colocado em seu caminho. Mas não considerou. você poderia ter considerado que era perigoso demais tentar pegá-lo. é a Primeira Arvore! Ele levantou a cabeça.Renn não respondeu. Em seu lugar. resplandecendo seu fogo miraculoso sobre a floresta. uma centelha de esperança se reacendeu. Renn agitouse. Ele lançou-lhe um olhar interrogativo. Agora uma vasta faixa de luz enredou-se num vento mudo.

Exceto por aquele cheiro. bem perto e se aproximando. não era um abate antigo. Enquanto corria. e isso fez com que Torak se sentisse um pouco melhor. . Ao se aproximar do penhasco. afinal de contas. seus membros tornando-se mais fortes a cada Escuro que passava. Ele adorava correr. Chegou perto o bastante para observá-la nitidamente no escuro. Correndo de volta para o vale. Para sua surpresa. enquanto Lobo saía correndo da caverna para alguma misteriosa missão por conta própria. e o ruído de uma lebre alimentando-se no vale seguinte. Acima. Lobo ouviu o rugido do Molhado Trovejante. rosnando para si mesma enquanto a baba escorria de seu focinho. e se movia com um estranho andar bamboleante. Estava tudo como deveria estar. Em cima do penhasco. A coisa tinha bafo e garras.Tratava-se de um bom pensamento. Lobo deixou o covil e trotou até o cume acima do vale para captar o cheiro do vento: um cheiro forte de presa podre como um abate muito antigo — exceto pelo fato de se mover. e novamente captou-o. e desejava que Alto Sem-Rabo também gostasse. descobriu que. Lobo sentiu com prazer o modo como a parte polpuda de suas patas endurecia. viu o Olho Branco Brilhante com seus muitos filhotinhos. não demorou a encontrá-la: a coisa rastejante que cheirava tão mal. mas tendo o cuidado de não deixar que ela soubesse que ele estava por perto. Mas às vezes seu irmão de alcatéia podia ser terrivelmente lento. ergueu o focinho para interceptar o vento carregado de cheiros. Adormeceu observando os silenciosos ramos verdes da Primeira Árvore.

Observou-a seguir caminho ladeira acima na direção do covil onde os Sem-Rabos dormiam. Lobo nunca sentira antes uma coisa assim.O que mais intrigava Lobo era que não conseguia captar o que ela sentia. nada havia além de um fedor de carne putrefata e uma inquietante sensação de estar sendo vigiado. o vale abaixo tinha desaparecido. — Eu sei que eu detesto. O Bafo do Espírito do Mundo o engolira totalmente. Mas. cuidado. agitando-se em seu saco de dormir.. a coisa estremeceu e afastou-se bamboleante. Todas as vezes que Torak fora olhar. Bocejou. — Talvez ele apenas deteste a neblina — sugeriu Renn.. Lobo sentiu que ela voltaria. Quando Torak se arrastou rijamente para fora de seu saco de dormir. DEZOITO A neblina os envolvia furtiva como um ladrão na noite. Sua mente parecia rompida. — Não creio que seja isso — contestou Torak. Não fazia sentido. Na neblina. nada é o que parece. correndo de um lado para o outro e dando meio-latidos urgentes: matar cheiro.. irritada. Justo quando Lobo estava para atacar. Lobo o acordara várias vezes durante a noite. esparramada como ossos velhos. em meio à confusão de seus pensamentos interrompidos.. A coisa aproximava-se à espreita. — Bem. observando Lobo farejar o ar. e o que é então? .

— lascar sílex? Torak sacudiu a cabeça. Teremos de ter cuidado. Algo mais. — Nesta neblina? Ela estava certa. Você sabe . ele colocou mais lenha no fogo para aquecer o resto do ensopado para a refeição da manhã. Não os corvos. no próximo verão. E precisaremos de mais carne. — O que quer dizer? — Já lhe disse. Com uma ansiosa fisionomia carregada. E você? — A mesma coisa. A neblina abafava os sons e tornava as distâncias Vinte para nós dois. Pa ia me ensinar. não sei. Mas devemos ficar alertas. enegrecendo bagas e fazendo com que animais de pequeno porte corram para suas tocas. Nem perto do suficiente. É como se houvesse algo lá fora. — Talvez a gente pegue alguma coisa hoje. Cuidadosamente. Era do tipo que os clãs chamam de fumaça congelada: um bafo gelado que desce das Montanhas Altas no início do inverno.— Não sei. A neblina era tão espessa que não conseguiam enxergar Lobo cinco passos adiante. Não dá para saber a distância que falta para a montanha. Lobo guiou-os ao longo de uma trilha de auroque que serpeava norte acima pela lateral do vale: uma escalada friorenta por entre quebradiças samambaias congeladas. Não o urso. Renn contou as flechas deles. — Minhas mãos não são fortes o bastante.

Torak não respondeu. Ficou imaginando o que usaria como roupas de inverno. . Uma vez. Duas vezes. Arvores surgiam com alarmante brusquidão. Às vezes comiam tanto cogumelo que até mesmo tinham o sabor deles. e a tarde inteira para descerem com dificuldade para o vale seguinte. Demorou a manhã toda para escalarem até o cume. cama e roupas. onde engordariam comendo musgo e cogumelos. nada encontrou. Como Renn. Isso significava uma frustrante peleja para arrancar as pontas de flecha que eles não podiam se dar ao luxo de perder. Renn fora previdente em separar as dela antes de partir do acampamento do Corvo. — Você se deu conta — comentou Renn enquanto se aconchegavam em um abrigo feito às pressas. — O que os clãs farão se as renas não vierem? — perguntou Renn. portanto tudo o que ele tinha era a sua pele de veado de verão: nem de perto tão quente quanto a parca e as perneiras de pele que ele e Pa faziam a cada outono. só para descobrir que haviam acertado uma tora. dispararam numa rena.difíceis de serem avaliadas. após uma triste refeição noturna — que não avistamos uma única rena? Elas agora deveriam estar por toda a parte. Torak achou ter visto uma figura na vegetação rasteira. quando correu para olhar. mas. — Também estive pensando nisso — disse Torak. Renas significavam sobrevivência: carne. ele sabia que a neve caindo deveria impelir as manadas para a floresta. onde uma silenciosa floresta de pinheiros vigiava um rio sonolento. mas não conseguira roubar nenhuma para ele.

Mas sempre que acordava no meio da noite sentia aquele estranho fedor de carne putrefata. Renn bufou. Para desânimo deles. e acabou caindo num sono inquieto. — Não pode estar certo! — exclamou Renn. Claramente. o olho vermelho do Grande Auroque escalava cada vez mais alto. desaparecia acima em um úmido barranco. . para a direita. Mas ele parece seguro. O filhote ainda nem tinha quatro luas. — Hum . e não perambulando pelas colinas. Para a esquerda. suas íngremes vertentes uma mixórdia nada convidativa de grandes pedras cobertas de musgo. Com essa idade. não haveria tempo de preparar roupas. que esperava pacientemente. Olhando para Lobo.Mesmo se encontrassem uma presa. e até mesmo Lobo parecia desanimado ao guiá-los rio acima. Além da neblina. Torak sentiu uma pontada de culpa. — A montanha fica para o norte! Por que ele segue constantemente para leste? Torak sacudiu a cabeça. ele deveria estar brincando em sua toca. Torak fechou os olhos para afastar o pensamento.murmurou Renn. Lobo pegou a trilha da direita. Chegaram a um carvalho caído formando uma ponte sobre o rio. — Eu acho — falou — que devemos confiar nele. Logo depois a trilha bifurcou. serpeava por um vale de enevoados pés de faia. O dia seguinte amanheceu mais frio e mais nevoento do que nunca. e rastejaram de gatinhas por cima dele. estava mais uma vez com dúvidas. — Também acho errado.

Não demorou muito e ouviu Renn retornando. Na metade do dia — ou o que parecia ser a metade do dia — pararam para descansar. outra atingiu o caminho logo atrás de Renn. — — Foi bem depressa — observou ele. Tudo o que podiam ouvir era o pinga-pinga de cerração na samambaia. tratava-se de um estranho local de abate. para que voltassem. Uma enorme pedra desabou bem à frente deles. Torak começou a ver formas de urso na neblina. A neblina ficou mais cerrada a ponto de mal enxergarem dois passos adiante. Observava Lobo para não perder o menor sinal de alarme. O fedor de carne podre ficou mais forte. ou o Caminhante corta gargantas! . e Renn livrou-se da mochila nos ombros. mas o filhote continuava caminhando lentamente. Fora! — bradou uma voz atrás dele. Não tinham dado dez passos quando perceberam que a ravina não os queria ali.Erguendo suas mochilas acima dos ombros doloridos. ofegando. Vou trançar um capuz para mim. — Fora do Vale do Caminhante. — Vi alguns juncos ali atrás. Pendurando suas aljavas e arcos num galho. entraram na ravina. ela avançou através dos fetos. pois não ouviam corvos. e o gorgolejo de um riacho que corria entre margens sufocadas de fetos. destemido. Entretanto. Torak acocorou-se na beira do riacho para reabastecer as peles de água. Elevados pés de abetos os alertavam. Seu rosto estava contraído e o cabelo ensopado. se ele vinha de um local de abate. com os braços bem abertos. Lobo desabou no chão. Lobo levantou-se e correu atrás dela.

. O homem não notou. cabelo até a cintura. pois do pescoço do homem pendia a tenra carcaça apodrecida de um pombo.. Este apertou bem o filhote e sentiu o pequeno coração martelar. do qual pendia uma tira de muco amarelo-esverdeado. — Não pretendíamos. pustulenta órbita ocular às negras gengivas sem dentes. — Fora! — berrou. estava explicado o fedor de carne podre. coberto de sujeira. Num instante.! Houve uma agitação nas samambaias e Lobo atirou-se para cima de Torak. Ouvira Renn aproximando-se sorrateiramente por trás dele. percebeu um rosto aniquilado tão áspero quanto a casca de uma árvore. E. tudo nele parecia apodrecer: desde sua vazia. — Mas eles já fizeram mal! — urrou o homem. Não pretendemos fazer mal. para um homem incrivelmente sujo assomando sobre ele com uma faca. uma râncida capa de limosos juncos amarelados. e seu nariz quebrado.. — Narik e o Caminhante dizem fora! Rapidamente. espantado.. agitando uma faca de ardósia verde. Torak colocou ambos os punhos sobre o coração. — Por favor. Aliás.. viemos como amigos.. finalmente. — Eles o trazem consigo para o belo vale! A noite toda o Caminhante vigia! A noite toda espera para ver se trarão o mal para seu vale! — Que mal? — perguntou Torak desesperadamente. como sinal de amizade.Torak virou-se e viu-se olhando acima..

mas isso apenas o deixou mais furioso. não é mesmo? .vociferou. — a água! Ambos sabiam que não tinham escolha. olhando seu arco Então larguem facas e machados. depressa. portanto jogaram suas armas restantes a seus pés. — Mas. Renn esquivou-se para trás. brilhantes arcos? Emudecida de horror. — Chega de truques — vociferou o Caminhante. mas só viram árvores molhadas e neblina. e ele as guardou rapidamente debaixo da capa. .gesticulou para a lateral da garganta.. o coração martelando tão veloz quanto o de Lobo. — Ela os quer na água? — berrou. pegando os arcos e as aljavas do galho e segurando-os acima do riacho. é muito íngreme. — Nós estávamos indo embora — disse Renn. não conseguiremos subir por aí — alegou Renn —.urrou o homem. ou eles vão para na enorme mão. — Que dêem o fora! . — Não vale acima! Fora! . — O que você quer que a gente faça? — indagou Torak. . dando uma guinada e agitando sua faca diante do rosto dela. Renn sacudiu a cabeça.— Furtiva. — Ela quer vê-los nadar as lindas flechas e os brilhantes. fosse lá quem fosse... e arremessou a aljava dela no riacho..O Caminhante falou para eles! Narik falou para eles! E a ira de Narik é terrível! Tanto Renn quanto Torak olharam em volta à procura de Narik.

Se a viagem fora difícil antes. Renn apanhou sua mochila. — Sumiu. — Em frente! . — É tarde demais . aquilo era bem pior.. forçando-os praticamente a subir correndo uma rochosa trilha de alce que às vezes precisavam escalar de quatro. o rosto inflexível. — Vamos fazer o que ele manda. Furiosamente. . Torak virou-se para ir ajudá-lo. Sua adorada aljava desaparecera.. Em pouco tempo. lamentando pela sua aljava. Renn ia na frente. — Eu só quero carregar. Renn dirigiu-se ao Caminhante: — Nós íamos fazer o que mandou! Não precisava ter feito isso! — Ah sim — disse o Caminhante com um negro sorriso desdentado — Agora eles sabem que ele fala sério! — Venha.disse-lhe. Renn — chamou Torak. O Caminhante caminhava a passos largos atrás deles. — Em frente! Renn intrometeu-se.Renn soltou um grito e pulou atrás dela. O riacho era mais profundo e veloz do que parecia. mas o Caminhante cortou o ar à distância de um dedo de seu rosto. mas Torak segurou seu braço.gritou. Lobo começou a ficar para trás.

No final.quis saber Renn. Ha! Corvo adora olhos.resmungou o Caminhante. O Caminhante olhou para ela. seu olho rebentou para fora e um corvo o comeu. exibindo o pescoço. a fim de se manterem vivos. Então seu rosto enrugou-se e ele bateu na cabeça com o punho. — O Caminhante estava fazendo pontas de lança — falou em meio a um ramoso bocado — e o sílex voa para ele e o pica na cabeça. ficaram mal novamente. Renn ficou verde-clara.— Você é do Clã da Lontra. — Arre. a dor! Todas as vozes berrando. — Lontras deixaram ele. — Foi do Clã da Lontra . ele a sugou entre as gengivas sem dentes ingerindo junto uma generosa quantidade de muco. as almas brigando em sua cabeça! Foi por isso que as Lontras o expulsaram. — Deu um latido à guisa de gargalhada. que parecia fazer um esforço supremo de esquecer sua aljava e travar amizade com ele. Torak aproveitou a chance e içou para seus braços o filhote exausto. — Bocados dele ficaram mal. Torak cambaleou. — Por que os deixou? . mas a dor. — Não deixou — disse o Caminhante. foram cerzidos. — torcendo o uma asa do pombo. não é mesmo? Reconheço suas tatuagens. onde a pele crostosa estava tatuada com ondulantes linhas azulesverdeadas. . Renn estancou. borrifando ambos com perdigotos.

— O aleijado. — — Eles sabem o que ele quer dizer — interrompeu o Caminhante. Antes . nós não queremos lhe fazer mal. — Talvez . o Caminhante sempre consegue perceber.. retirando um osso da boca e guardando-o cuidadosamente dentro da capa. — Mas o Caminhante estava esquecendo! Narik pediu avelãs para ele! E agora. sim. ainda vasculhando as encostas atrás de aveleiras. Renn pareceu surpresa. ele parou e vasculhou as encostas.. — Outro latido-gargalhada. — Ah. não é? Nem mesmo sabe o que são eles! Ah. — o urso? Uma cutucada com a faca lembrou-o de continuar andando. sim. Torak evitou o olhar dela.. onde foram parar as aveleiras? Torak ergueu Lobo bem alto nos braços. O urso demônio. é claro! O sábio. — Mas o menino Lobo nada sabe sobre demônios.— Um do meu clã perdeu o olho do mesmo modo — contou. Nós.. — O Caminhante sabe a respeito deles — prosseguiu o homem.disse o Caminhante. sim. — Você quer dizer. o demônio urso. sempre atrás dos demônios para Disse a quem? Refere-se ao aleijado errante? O tal que fez fazerem tudo o que ele deseja.O mal que você pensa que trazemos — disse ele. E o Caminhante disse-lhe para não chamá-lo! Torak parou. — De repente. — Mas ainda trazem o mal com eles. — Meu clã é amigo das Lontras. —.

Tão sábio. Então convoca os mordedores e os caçadores. Renn arfou. mas sem nenhum sentimento de clã para domá-lo. — E o aleijado? — perguntou asperamente. gesticulando para Torak seguir em frente. então o que resta é um demônio. Já vira pessoalmente aquele ódio. ele mesmo era um sábio. Mas nunca são fortes o suficiente para ele. se você morre e perde sua alma-nome. — Ah. — Pense nisso. Torak ficou intrigado. ela sabe! A menina Corvo sabe! . Ele matara seu pai. os escorregadios e os agitados. — O que é isso? O Caminhante gargalhou. e esquece quem é. tão inteligente. Ele sabia que. Inclinando-se à frente. ele mergulhou Torak numa rajada de bafo rançoso. — Deu um sorriso largo. ele só quer os pequenos demônios. Sem alma-clã. O Caminhante sempre sente pena de fantasmas. Mas. um elementar. Torak sabia que Caminhante estava falando a verdade. — O tal que capturou o demônio e o prendeu dentro do urso? Qual era o nome dele? — Ah — fez o Caminhante.. — No final — cochichou — ele chama. apenas a raiva de que alguma coisa foi tirada de você. . O poder do Nanuak em estado bruto.. ele sempre quer mais. Para começar. se você perde sua alma-clã.de o sílex o ferir. libertando sobre Torak outra lufada de carne podre. menino Lobo. você é um demônio. então você é um fantasma. Ainda não basta. É por isso que eles odeiam os vivos.

urrou.. brilhantes almas! Dói! Dói! A culpa é deles. Lobo desvencilhou-se dos braços de Torak e desapareceu no meio dos fetos. — Luminoso demais. porém. luminoso demais.Os olhos de Renn fizeram contato com os de Torak. — Ela lambeu os lábios. — Quanto mais fortes as almas. como eles odeiam os vivos! . Sim. — Não ouse danificar meu arco! — Para trás — rugiu o Caminhante — ou ele os quebra como gravetos! . Os dela estavam muito sombrios.gemeu. — Por quê? O Caminhante nunca fez mal a eles! — Brandindo os arcos deles acima da cabeça. estamos quase no topo. Isso foi demais para Renn. do menino Lobo e da menina Corvo! Trouxeram a coisa com eles para o belo vale do Caminhante! — — Mas já estamos quase fora do seu vale — disse Renn. ele os agarrou por ambas as pontas. pensou Torak atônito. O Caminhante não se acalmou...insistiu Torak —... — Não ouse! . olhe . Essa conversa de demônios. estava deixando o Caminhante novamente perturbado. balançando-se de um lado para o outro. algo como uma queda-d'água ou um rio congelado. Um elementar é o demônio mais forte de todos. como se fosse partí-los em dois. — Por que eles fazem isso? — gritou. todas as brilhantes. — Um elementar surge quando algo imensamente poderoso morre. Um elementar. — Arre.. e suas almas são dispersadas. mais forte o demônio.

Em seguida. saltando para cima dele e tentando em vão alcançar o seu arco. — Ah. o Caminhante alisou o pequeno dorso corcunda com seu dedo imundo. mas este não o pegou. Silenciosamente. Ele segurava meia avelã nas patas e parecia irritado por ter sido interrompido. . Olhava a pedra que o Caminhante usava para quebrar as amêndoas. e em seguida. — Hum. Renn apanhou os arcos e limpou o molhado. Torak teve de agir depressa. retirou um camundongo sarnento. deliciosas e doces.murmurou o Caminhante. para manter o Caminhante falando a fim de que ele pudesse olhar mais de perto. Largando os arcos sobre as pedras. apanhou as avelãs da mão de Torak e sentou-se acocorado. — Avelãs — gritou. Rapidamente abriu sua bolsa de comida. tirou uma pedra de dentro da capa e começou a quebrá-las. espertamente.berrou Renn. — Quem é Narik? — perguntou. — Avelãs . Torak pestanejou. Ofereceu o de Torak a ele. — Por que o menino Lobo não pode? Algo errado com seus olhos? — Mergulhando a mão na capa. — Avelãs para Narik! O efeito foi imediato. — Ele é seu amigo? — O Caminhante pode vê-lo claramente — murmurou.— Coloque-o no chão! . o filho adotivo do Caminhante. Carinhosamente. estendeu a palma da mão. O camundongo espirrou e voltou à sua refeição. Narik vai ficar feliz.

— Boca de pedra — disse ele. teve a mesma idéia. a mordida de pedra. Era mais ou menos do tamanho da mão de Torak: uma garra curva.A pedra ficou de lado. como conseguiria comer? — Onde podemos encontrá-la? — quis saber Renn. no chão. "Mais velha de todas. Ela também tinha visto. e ele pareceu muito cansado. . Então seu rosto se contorceu. atordoado de tanto acariciar seu camundongo. pontuda — feita de reluzente pedra negra. péssimo tempo. — Essa pedra — falou Torak com todo o cuidado." A segunda parte do Nanuak. — Senão. — Muito tempo. . pela sua expressão. Ele está se escondendo. Onde há uma garra de pedra pode haver também um dente de pedra? Torak olhou para Renn. Ousariam arriscar outra explosão? — A criatura de pedra — disse Torak. — Será que o Caminhante me diria onde a conseguiu? O Caminhante levantou a cabeça.Ela tem dentes de pedra dentro da boca de pedra? — Claro! — rebateu rispidamente o Caminhante. — O Caminhante disse! Na boca de pedra! — E onde está a criatura com a boca de pedra? De repente. mas ele ainda não encontrou seu lindo vale. Os Lontras o expulsaram. Novamente Torak e Renn trocaram olhares. E. o rosto do Caminhante ficou inexpressivo.

Não até ser tarde demais. A terra mortal que engole e devora. mas você não os vê. Eles vêem você. — Muito ruim. .— Lugar ruim — sussurrou. — Diga-nos como encontrar a pedra — pediu Torak. Os Vigias estão por toda a parte.

Lobo teria nos dito. Tudo relacionado com aquele lugar parecia errado. mas não admitiria isso. Passados dois dias. Após alguma persuasão. onde a colina fora esfolada. — E que tipo de criatura? Javali? Lince? Devíamos ter perguntado. O único som era o chac-chac. — Ele não nos quer aqui — disse Renn. Mirrados pés de bétula surgiam de dentro para fora da neblina. Atravessamos três vales. — Temos feito tudo o que ele mandou. — Se fosse o caso. Há dois dias inteiros que andamos. ameaçadora. a cara amarrada. — Provavelmente ele não nos teria dito.DEZENOVE — Como. Ela andava de mau humor desde que perdera sua aljava. Acho que ele só estava tentando se livrar da gente. igual a um martelar de um pica-pau alertando seus rivais para não chegarem perto. — Não sei — disse Torak pela décima vez. o Caminhante devolvera o restante de suas armas e os mandara ir por aquele caminho. e estavam subindo a trilha que serpeava em direção ao cume. Renn colocou as mãos nos quadris e sacudiu a cabeça. Era uma sensação desoladora. nada. pode existir uma criatura de pedra? — perguntou Renn. Parecia errado. Seguindo suas instruções. . afinal de contas. Aqui e ali eles viam o lampejo de rocha nua. Seguimos o riacho que ele mencionou. a neblina não dissipara. O mesmo pensamento ocorrera a Torak. Mesmo assim. haviam deixado o riacho ao pé da pedregosa colina cinzenta. — Talvez tenhamos pegado o caminho errado.

— Acredito. — Como? Entendemos errado! — ofegou. Sente esse ar gelado? Ele vem do rio de gelo. o chocalho de seixos enquanto Renn pelejava à frente. De repente. Escalaram em silêncio. não teríamos visto a garra de pedra. — temerosos. Estamos chegando muito perto das Montanhas Altas. as árvores retorcidas alertando-o silenciosamente para que voltasse. Afinal. — Você ainda acredita nisso? — Sim — disse Torak. os olhos arregalados e . Ele podia sentir as pedras ouvindo. Estava ficando cansado de ser o único que não sabia das coisas. Torak tornou-se incomodamente ciente do ruído que produziam: o rangido de sua mochila. Torak parou e olhou fixo para ela. — Talvez. — Que rio de gelo? — O tal no pé das montanhas. — Como pode saber. se ele não nos tivesse conduzido ao vale do Caminhante. Mas ainda acho que viemos muito para leste.Renn pareceu duvidosa. se não conseguimos enxergar dez passos adiante? — Eu consigo sentir. e logo até mesmo o pica-pau foi deixado para trás. Torak comprimiu os dentes. Renn virou-se e veio ruidosamente em direção a ele. e também nada saberíamos sobre um dente de pedra.

. A face de uma rocha revelava-se diante deles. — Cuidado — alertou Renn. De perto. ela o arrastou colina acima. eu. A terra mortal que engole e devora. Torak parou em meio à neblina turbilhonante. E onde eu talvez encontre o dente de pedra. . — É a boca de pedra sobre a qual o Caminhante estava falando. Ao pé dela. O chão ficou nivelado e a trilha acabou. O chão da caverna inclinava-se abruptamente..” — Não mexa a mão — disse Renn ao lado dele. Ao assimilar o que se encontrava adiante. havia uma caverna de escuridão como um grito silencioso: uma boca de pedra escancarada. — Nós. dissera o Caminhante. Ele apenas falou que era uma boca de pedra! Agarrando seu braço. "Muito ruim. um acre afluxo de ar como o hálito de alguma antiga criatura que nunca viu o sol. O frio emanava dela.. vigiada por um solitário pé de teixo. Colocou a mão no lábio de pedra e curvou-se para examinar o interior. o medo instalou-se dentro dele.. Os Vigias por toda parte. preciso — disse Torak. — Não podemos entrar aí — hesitou Renn. cinzenta como uma nuvem de trovão. a boca da caverna era menor do que ele imaginara à primeira vista: um semicírculo escuro não mais alto do que seu ombro.— O Caminhante nunca disse que era uma criatura de pedra! Fomos nós que dissemos. Foi onde ele encontrou a garra de pedra. "Lugar ruim".

Recolheu a dele.. cortou uma correia de couro cru para o filhote. — Lobo não pode ir comigo. Há algo lá embaixo. Talvez uma entrada para o Outro Mundo. Finalmente. Lobo esquivou-se e mordeu até Torak conseguir explicar que ele precisava ficar com Renn. — Não! Se você for. porém quanto mais ele argumentava mais se convencia também. Muito velho. — É velho. Deve ser ruim. Se eu precisar de ajuda. uma precaução contra demônios.. Preparou-se pousando seu arco e aljava debaixo do pé de teixo. Você fica aqui com ele. ele não agüentaria o cheiro. Torak pensou a respeito. — O quê? — perguntou Torak.Olhando acima. Você fica aqui. Eu irei. — O que há lá embaixo? Ela sacudiu a cabeça. ele viu assustado que seus dedos estavam a um fio de cabelo de uma enorme mão aberta que fora gravada profundamente a marteladas na pedra. darei um grito. Somente sua faca teria alguma utilidade na escuridão. Não podemos entrar. — Não creio que eu tenha escolha. Levou algum tempo. para alguém ter entalhado essa mão. — Está vendo as três barras acima do dedo médio? São linhas de poder. junto com sua mochila. saco de dormir e pele de água. — É um aviso — sussurrou Renn. — Ela inclinou-se mais para perto. eu vou também. que resolveu o assunto tirando de sua bolsa de comida um punhado de amoras . e depois desenganchando a machadinha do cinturão. — Não sei.

Ele tateou a procura da parede. Não havia como prever o que poderia acontecer se ele levasse o Nanuak para o interior da caverna. — Vai precisar de luz . e ela a amarrou ao seu cinturão. não toque nele com as mãos nuas. Com uma estranha sensação de se livrar de um fardo indesejável. Renn deu-lhe um ramo de sorveira-brava.alpinas. ajoelhando-se e abraçando Lobo para fazer com que ela mesma parasse de tremer —. Torak sentia-se imensamente agradecido. como carne morta. brilhante. contente por fazer algo prático. se encontrar o dente de pedra. não encontrou um meio de dizer a Lobo que voltaria. Se você precisar de ajuda . . De sua mochila. e uma de suas meias-luvas de pele de salmão numa corda. Fala de lobo não parecia lidar com o futuro. confortante. ela acendeu uma isca de casca de zimbro e uma das velas ganhou vida: uma chama clara.disse Renn. Em seguida. — Lembre-se — disse ela —. Nós iremos correndo. Ela tinha razão. a algibeira estivesse fazendo algum tipo de ruído. Lobo observava o que estava acontecendo com as orelhas girando: como se.disse Renn. grite. Torak concordou com a cabeça. retirou duas velas: medulas de junco descascado embebidas em sebo de veado e depois deixadas para secar ao sol. Torak passou-lhe a algibeira de pele de corvo. Com seu fogo de fricção. para proteção. porém. curvo-se e penetrou na boca de pedra. Ela parecia viscosa. Torak. E é melhor deixar comigo a algibeira com os olhos do rio. pensou Torak.

endireitando-se bem a tempo. Não conseguia respirar. agarrou um ressalto. Ao som de seu grito. A parede do lado esquerdo sumira. deu com uma pedra.. O fedor ficava mais forte à medida que ele seguia pelo túnel. . — Torak? — A voz de Renn soou bem distante. A boca da caverna se estreitara formando uma garganta: ele teria de virar de lado para poder seguir adiante. Com um grito. Ele gelou. enxergando nada mais do que vislumbres de reluzente pedra vermelha. Bem de longe. A luz da vela tremeu e encolheu para uma luz frouxa.Arrastou-se adiante. Após vários passos vacilantes. mas este era mais largo e guinava repentinamente para a direita. algo se agitou. Renn e Lobo. vinha um ecoante plim de água. Olhando para trás. com ela.. sentindo o caminho com os pés. Seixos chocalharam. viu que a luz do dia sumira e. e ele quase escorrega. Ele ainda se encontrava em um túnel. infiltrou-se. Uma repentina friagem à sua esquerda. Sentiu como se estivesse sendo engolido. Uma escorregadela e ele cairia da saliência. O fedor erguia-se da escuridão. lá de baixo. O ar esfriou. ferroando suas narinas. depois caíram no silêncio. Fechando os olhos. escutando nada mais do que sua própria respiração. Outra curva — dessa vez para a esquerda — e uma pedra sob seus pés balançou. Continuava pensando na pressão da superfície rochosa que o comprimia. Ele estava de pé numa estreita saliência que se projetava para a escuridão.

Esse era o motivo da mão de alerta na boca da caverna. o chão ficou nivelado e ele sentiu o espaço se abrir à sua volta. Fora ali que o Caminhante encontrara sua garra de pedra. Aquilo era o que os Vigias protegiam: uma porta para o Outro Mundo. Era como nas ocasiões em que acordava tão pesado de sono que até mesmo mexer um dedo parecia impossível. No meio da caverna. Respire pela boca. Sabia que ele estava ali. Torak podia sentir seu poder. Uma luz fraca devia estar vindo de algum lugar. disse uma voz em sua cabeça. Para baixo. . dando-lhe coragem para descer para o chão da caverna. A amarração de tendão lhe pareceu levemente cálida. porque distinguiu uma vasta caverna sombria. Mesmo a vinte passos de distância.” Forçou-se a seguir em frente. Torak não conseguia dar outro passo. Era isso que ele e Pa costumavam fazer quando chegavam a um fedorento lugar de abate ou uma caverna infestada de morcegos. O que quer que tivesse se movido ficara novamente imóvel: mas era uma imobilidade horrível. Parecia intocada por milhares de invernos. demorada. Eles vêem você. Ele estava nas gotejantes e fedorentas entranhas da terra. Os vapores eram quase opressivos. A saliência em que estava de pé terminou e o chão além dela era estranhamente cheio de corcovas. Não até ser tarde demais. uma enorme pedra com a parte de cima achatada cintilava como gelo preto. "Os vigias estão por toda a parte. embora ainda se agarrasse a seus olhos e garganta. O fedor chegava até ele em ondas. sempre para baixo. colocou a mão livre sobre o cabo de sua faca. Experimentou e o fedor tornou-se suportável. Abruptamente. Para se firmar.Ele não ousaria responder. mas você não os vê.

Ao fazê-lo. com um lugar vazio de onde o Caminhante roubara a sétima. "A terra mortal que engole e devora. Não havia onde se esconder. O fedor era insuportável. A meio caminho da pedra. Uma fétida descida e a coisa estava sobre ele: pele gordurosa obstruía sua boca e nariz. No centro repousava um único dente de pedra negra. Mas ele sabia que aquilo não fora derrotado.. seis garras de pedra haviam sido arrumadas em uma espiral. não havia para onde correr.. sacudindo-se livremente como um nadador ofegando atrás de ar.. O chão cedeu sob sua bota: uma maciez silenciosa sugando-o para baixo. . Na sua antiga maciez. tropeçou e caiu. ele atacou o silencioso agressor. A chama negra voltou a queimar amarelo. O Vigia descera meramente para descobrir o que ele era. A maciez sugava suas botas como areia molhada. não conseguia ver. Assim que soube. Sua mente firmou-se. aquilo foi embora com um suap. vacilante. foi embora. Até mesmo a luz da vela tornou-se escura . Colocou-se de pé. ouviu um movimento furtivo. muito acima dele. não conseguia pensar. Ele chafurdava na sufocante escuridão. soltou um grito de desgosto. Alcançou a pedra.. garras afiadas arrancavam seus cabelos.” Seu grito ressoou nas paredes em volta e. Algo escuro soltara-se do teto e mergulhava em sua direção. um ruído de couro. Finalmente.uma chama negra cintilando acima dele. Mas o que era aquilo? Um morcego? Um demônio? Quantos mais deles havia ali? Torak avançou cambaleante. Rosnando com horror.

Estendeu a mão. Ficou imaginando que poder ele liberaria se tocasse naquilo. amarrada ao seu cinturão. a mordida de pedra. Ela captou o líquido lampejo de olhos. ele avançou para o dente. . Se pegasse o dente. Onde quer que a luz atingisse. Com a vela. e então puxou-a de volta. Novamente a chama escureceu. Suor escorria pela sua espinha. De cima e bem distante veio o impulsivo latido urgente de Lobo. De repente. Novamente a tontura aumentou.e iluminou o lampejo de mil olhos. lembrando-se do alerta de Renn: "Não toque no Nanuak com as mãos nuas. Com a mão suspensa acima do dente. tudo aconteceu ao mesmo tempo. Arrancando-a.” Onde estava a luva? Ele deve tê-la deixado cair." A segunda parte do Nanuak."Mais velha de todas. As paredes fervilhavam de Vigias. A vela apagou-se. Bem a tempo encontrou a luva. enfiando a mão nos montes fedorentos. eles ondulavam e inchavam como uma carcaça infestada de larvas. — Torak! Ele está vindo! Os Vigias explodiram à sua volta. Renn gritou. ele moveu a chama lentamente de um lado para o outro. Algo o atingiu nas costas e ele caiu para a frente sobre a pedra... vasculhou em volta. A luz da vela luziu fracamente na parede da caverna atrás da pedra . iriam atrás dele.

e Lobo puxava com força a correia. Uma brecha na neblina deu-lhe uma visão clara: viu o riacho passar veloz por uma moita de abetos. O pânico borbulhou em sua garganta.Novamente. Então a pedra se mexeu. Renn correu para a beira da trilha e tropeçou na raiz de uma árvore. e uma enorme pedra escura acocorada ao lado deles. Renn gritou. . verdelhão Nesse instante os verdelhões foram embora numa nuvem estridulante e ela olhou colina abaixo. mas que ela apenas achou preocupante. emitindo latidos-grunhidos que Torak teria entendido. ela caminhava de um lado a outro enquanto uma revoada de verdelhões arrancava as suculentas bagas cor-de-rosa do pé de teixo. O que fazer? O que fazer? Apenas momentos antes. espalhando flechas pelo chão. — Torak! O urso! VINTE Agarrando a aljava de Torak.

Puxava-a em direção à caverna — e instantaneamente ela percebeu que ele tinha razão. enquanto a neblina se fechava novamente e ela tenteava atrás das flechas caídas. A enorme cabeça oscilava quanto provava o ar. Ela sabia que os ursos conseguiam se movimentar com muita velocidade: ele estaria ali em momentos. Combateriam juntos o urso. depois ajoelho-se e enfiou a mão pela fenda para arrastar os apetrechos atrás de si. ela viu o urso erguer-se sobre as patas traseiras. Agora. mas cada parte dela gritava para que não entrasse ali. deduziu que a caverna se estreitava repentinamente para uma fenda. batendo a cabeça. Ele captou o cheiro dela e baixou sobre as quatro patas. Foi aí que ela correu até a caverna e gritou para alertar Torak — e nada recebeu em resposta a não ser ecos. A face da rocha era íngreme demais para ela escalar. A escuridão cegou-a. depressa —. Sobrava-lhe a caverna. Seriam apanhados como lebres em uma armadilha. O desesperado esforço de Lobo dando puxões na correia amansou o pânico dela. além do mais. . não podia deixar Lobo. imaginou o urso escalando a colina em sua direção. puxando-a para que o seguisse. Lobo já passara. nunca mais sairiam. superando em altura os abetos. Após um exame apressado.Congelada pelo terror. Correu em direção à pedra maciça. Precipitou-se para o interior. arrastando atrás de si mochilas e sacos de dormir. Ela se virou e arrastou-se de lado — depressa. Torak estava lá dentro.

Não conseguia tirar os olhos daquela estreita brecha de luz solar.. A fenda talvez fosse estreita demais para o urso. Confusa..Ao puxar mochilas e arcos e aljava. mesmo assim impotente para se mover. muito quieta. Mesmo sabendo que era a pior coisa a fazer. — Renn! Estaria Torak pedindo ajuda ou estaria vindo ajudá-la? Ela não podia dizer. Um relance de pesadelo de pele escura tremulando contra um vento que não se sentia. Renn curvou-se adiante e espreitou através da fenda. pensou desalentada. Um forte rugido reverberou através da caverna. puxando Lobo consigo. Talvez eles pudessem resistir. Das profundezas da caverna veio um grito. Ele não consegue passar pela brecha. ela enfiou-se de lado numa depressão da parede. Nada podia fazer a não ser agachar-se com Lobo na depressão. sabendo que estava muito perto da fenda — a apenas dois passos de distância —. Alguma força a mantinha ali. um vislumbre de garras longas e cruéis resplandecendo com sangue negro. A luz do dia tornou-se preta. O sangue estrondeou em sua cabeça. ela sentiu uma centelha de esperança. A pele de água foi arrancada de sua mão com uma força que a atirou violentamente contra a fenda e enviou dores cruciantes através de seu ombro. O urso não poderia ter-se movimentado tão depressa assim. Sua pele formigou. Fique muito. Fique quieta. disse a si mesma. Não podia gritar em resposta. .

ele a queria. Lobo puxou-a pelas costas. desenraizando o teixo e fazendo-o em pedaços. deu um salto para trás. puxando atrás de si o filhote relutante. repetidamente. Renn comprimiu os punhos contra as orelhas enquanto o rugido martelava através dela. Com um grito. Mais negro do que basalto.. Nada de urso. viu a luz do dia. ela rastejou em direção à fenda. Uma face de rocha cinzenta. assustada com o que fazia. ela ouviu um leve murmúrio. Em sua fúria. Novamente Renn escondeu-se na depressão. quebrando o encanto de modo que ela se encolheu para fora do caminho exatamente quando as garras mortais fatiaram a terra onde ela estivera ajoelhada. Silêncio: tão chocante quanto o rugido. até achar que seu crânio romperia. Gemendo. Lobo ofegando. o urso usava as garras na boca da caverna. porém agitando-se com fogo.Um rugido sacudiu a caverna. Novamente. Contra seu ombro. Nada mais. Novamente o urso rugiu. Afastando os punhos das orelhas. . Choramingando. ele a atraiu . Lentamente. uma pedra se moveu. farejou o forte cheiro de uma carnificina. Então a luz do dia foi encoberta. e um olho segurou os dela. Ela inclinou-se à frente. os gemidos de uma árvore moribunda. O pé de teixo com bagas espalhadas abaixo. pressionou ainda mais o corpo para dentro da depressão.. Então ela ouviu novos sons: o tinir de pedras. Um rosnado arrepiante: tão próximo que ela ouviu o úmido ranger de mandíbulas.

uma parte da caverna propriamente dita. Suor escorreu pelo seu corpo. Desamarrou a correia para devolver a liberdade a Lobo: talvez ele conseguisse escapar. lembrando-se das muitas lições que Fin-Kedinn lhe dera.Conseguirei colocar algumas no alvo antes que ele me pegue. expondo magníficas presas brancas. Isso é o mais importante.. Saiu da depressão e tomou posição. não o enrijeça. . — Não somos como formigas da madeira — sussurrou. Ela olhou para Lobo. disse a si mesma. Chocada. Deu-se conta do que estava acontecendo. como ela pensara. os olhos cravados na coisa além da depressão.. não do seu braço. Seus lábios negros estavam contraídos num rosnado. Você precisa se concentrar com uma intensidade tal que seja capaz de queimar um buraco no alvo. ouviu pedras se quebrando e terra sendo arremessada a distância com intenção letal. Então tateou atrás do seu arco. Algo endureceu dentro dela. O urso agia com as garras em suas raízes. cavando-as para fora como se fossem um ninho de formigas da madeira.disse ela. O toque da fria e lisa madeira de teixo deu-lhe força. — Vinte flechas . mesmo se ela e Torak não conseguissem. Sua cabeça estava baixada. A força vem das suas costas. Concentre-se em seu alvo.Do outro lado. E mantenha relaxado o braço do disparo. A rocha que formava aquele lado da fenda não era. percebeu que ele não era mais um filhote. O som de sua voz deu-lhe coragem. Coloco-se de pé. mas simplesmente uma língua de pedra que se salientava do chão de terra. .

ele abriu caminho através do fedor. — Renn! — gritou enquanto forçava caminho para longe da pedra. não é mesmo? — gritou. sacou sua faca da bainha e açoitou os Vigias. quando o tempo todo era onde se encontrava o verdadeiro perigo? Enfurecendo-se interiormente. — Estou indo — gritou. Irrompeu através do fedor — mas. com a vela apagada. — Ah. empurrando-o abaixo para o fedor. O cabo ficou quente em sua mão. Seu grito foi amortecido por asas de couro. Imagens terríveis atulhavam sua cabeça. com o dente no meio. tomem mais. Asas imundas sufocaram sua boca e nariz. Esfolou as canelas em pedra maciça. Garras agarraram seu rosto e cabelo. Arrancou a luva da mão. Estes pareceram se erguer para evitar a lâmina. — Pois bem. e enfiou-a na gola do seu gibão. novamente. vocês têm medo dela. Lobo e Renn caídos mortos exatamente como Pa. Atingira a borda. . Rosnando. Era mais pesado do que ele havia esperado. uma nuvem escura simplesmente fora de alcance. com os Vigias enxameando sobre ele.Torak atacou os Vigias que enxameavam sobre ele. não conseguia sequer enxergar suas mãos diante do rosto. Fracamente e de bem distante acima vieram os uivos nervosos de Lobo: Onde você esta? Perigo! Perigo! Seguiu com dificuldade em direção ao som. eles se ergueram. saindo e iniciando a subida da ladeira. De algum modo conseguiu colocar a luva de Renn e alcançar o dente de pedra. onde era "seguro". Por que mandara que ficassem lá em cima. — Atacou-os — e.

Era íngreme — tão íngreme. Lobo saltou do meio das sombras — saltou não para o urso. fazendo mira com sua última flecha para a coisa que assomava sobre ela. — Lobo — gritou Torak. Os Vigias ergueram-se numa nuvem e desapareceram. A boca da caverna estava a cinco passos de distância e era mais larga do que ele se lembrava. o dente de pedra latejando dentro de seu gibão. incrivelmente corajosa. uma pequena e aprumada figura. Torak tornou-se ciente da pedra sob seus joelhos.. mas para Renn. paralisado pela maldade daqueles olhos assombrados por demônios.gritou ele. Torak esteve de volta com Pa na noite do ataque. quando ia avançar para matar. encontrava-se Renn. até os joelhos doerem e a respiração queimar sua garganta. Com uma única abocanhada de suas fortes mandíbulas. furando a terra a um palmo de onde estivera o filhote. Lobo arrancou a bolsa de pele de corvo de seu cinto — derrubando-a no chão.Um rugido sacudiu a caverna. Entretanto. O silêncio após o último eco ter-se dissipado foi pior. Então contornou a última curva e a luz o cegou. disparando à frente. .. No período de uma pulsação. Pelejou para se pôr de pé e correu para a borda. A fenda pela qual se espremera durante a descida fora arrombada e. prostrando-o de joelhos. diante dela. Renn afrouxou o arco. Por que não vinha nenhum som do alto? O que estava acontecendo lá em cima? Continuou escalando. longe do alcance do urso — e depois saiu correndo da caverna. — Não! . escalando. O urso atacou. O urso enviou-o para longe com uma varrida de suas garras.

Lobo desapareceu no meio da neblina. Lobo não.voltou a gritar Torak. Onde esta você?. VINTE E UM Onde está você?. aturdida. construir um abrigo e uma fogueira. Torak começou a fuçar em volta do destroço. Tive de libertá-lo.Com a bolsa entre os dentes. ecoou da face da rocha o desconsolado uivo de Torak. Primeiro Pa. — Por que você o deixou sem a correia? . devolveram as colinas para ele.berrou. . O urso sumira. Com um grito. O urso fez meia-volta com impressionante agilidade e correu atrás dele. deixando a encosta vazia zombando dele. E então vamos esperar. Vou atrás de Lobo. — O que você está fazendo? — perguntou Renn. Por favor.. — Lobo! . Ela vacilou. E Lobo também. A neblina tragou-os. Esperar que Lobo nos encontre. Renn estava parada diante da boca da caverna.. agora Lobo. — Procuro minha mochila. A velha dor abriu-se em seu peito. — Tive de fazê-lo. — Mas já vai escurecer! — Então ficaremos sentados aqui esperando? — Não! Vamos recuperar nosso equipamento.

e no seguinte estava atrás de Lobo. Isso importa? Talvez. notou que Renn tremia.perguntou ele. Lobo poderia estar morto. Agora.. Não creio que importa. Renn sentou-se pesadamente sobre uma pedra.. — — Você o atingiu? . pela manhã. Torak desenterrou uma flecha do meio do entulho.Ela sacudiu a cabeça. ao enfiar a mão no gibão e tirar a luva. Tinha um arranhão ensangüentado descendo de uma das faces e um machucado do tamanho de um ovo de pombo quase chegando ao outro olho. Ela enfrentara o urso... Até mesmo tivera a coragem de atirar na fera. — Eu não fazia a menor idéia de como seria — disse ela. Não posso rastreá-lo no escuro. — — de pedra? Ele quase esquecera. — Você trouxe o dente . Você tem razão. — Não foi por mal.Torak conteve uma resposta. Por quê? Ele jogou fora a haste quebrada. Por causa do Nanuak. — Deu uma olhada para ele. A haste estava quebrada em duas. estava atrás de mim. Ele não devia ter gritado.. Pela primeira vez. acabaram-se as brincadeiras ruidosas de se esconder e caçar. Acabaram-se as mordidelas no período. Flechas não conseguem derrubá-lo. Sentiu-se envergonhado. . — Lamento — disse ele. — Cobriu a boca com ambas as mãos. Não sei. em que era tratado. - Nunca pensei que pudesse ser tão.. tudo o que Torak queria era se ver livre daquilo. — Num momento.

Mas por que Lobo a levou? Com um esforço. . . Torak. então o quanto mais brilhante.. — E se as almas das criaturas comuns são tão brilhantes . — Foi isso que o Caminhante disse. — Você se lembra — perguntou ele — quando encontrei os olhos do rio. eles detestam o brilho das almas. — Você acha. mais ofuscante.deduziu Renn. Ele não podia perder Lobo. pensativamente . Ou senti-los de algum modo. para conter seu medo. o urso também consegue? — "Todas as brilhantes. Renn franziu a testa. — Temos a segunda parte do Nanuak ..e perdemos a primeira... brilhantes almas" — murmurou ele..Porque ele estava atraindo o urso para longe de nós... Demônios detestam os vivos. porque você tinha os olhos do rio.. Torak forçou sua mente para aquilo que ela dizia. deve ser o Nanuak! — — Foi por isso que ele a atacou. Algo chamejou em sua memória..Ela parou de andar e encarou Torak. Porque ele sabia.disse ela. — Porque. Renn pegou a luva e movimentou-a entre os dedos. . Oh. E foi por isso que Lobo pegou a bolsa. Ele salvou as nossas vidas.Torak mordeu o nó do dedo. foi como se Lobo conseguisse ouvi-los.. levantando-se e começando a caminhar -.

ele ouviu o uivo solitário do Alto Sem-Rabo. Bem longe. esse alguém é ele. não. Lobo corria por entre os pés de faia. lentos sem-rabos o alcançassem. . Ele farejava sua ira e sua terrível fome. Lobo não mais se sentia como um filhote que precisava esperar que os pobres. mas ele era muito mais. Deleitava-se com a força de suas pernas e a distensão de suas costas. sozinho contra o urso? Lobos são mais espertos do que ursos . Se alguém pode encontrar um meio. ouvia sua incansável respiração. Então a apanhou novamente e retornou à sua caminhada. Ele é apenas um filhote. Nem mesmo completou quatro luas. Lobo ansiava por responder. Ele era um lobo correndo por entre as árvores no veloz e incessante trote de lobo. Ah. Mas também é o guia. O vento carregava o cheiro do demônio em sua direção. com a flexibilidade que lhe permitia partir a toda velocidade apoiado em uma única pata. largando a pele de corvo por um momento. Mais forte de tudo. escalando elevações em direção ao Grande Frio Branco que ele só farejara em seus sonhos. A neblina estava clareando finalmente. o demônio jamais o pegaria! Lobo parou para beber em um pequeno e ruidoso Molhado.Torak tropeçou na beira da trilha. mas não podia. o vento em seu rabo e a reluzente e estridente pele de corvo presa bem firme na mandíbula. e abaixo dele a vastidão da floresta marchava para longe em direção oeste. que ele jamais o pegaria. com uma feroz e luminosa alegria. O demônio era veloz. Mas Lobo sabia.lembrou Renn. sentia seu ódio: ódio por ele e pela coisa que possuía. Que chance Lobo teria ali fora. Renn.

Sentiu uma dor percorrer suas pernas acima.Um cheiro novo afastou aquele pensamento de sua cabeça: ele estava entrando na região de uma alcatéia de lobos estranhos. Seu cheiro seria levado pela água. Lembrava-se de quão alegremente sua alcatéia costumava uivar. cada passo atingir as rochas. não podia seguir assim por muito mais tempo. Sentia. Precisava ter cuidado. ele esperava até chegar a outro pequeno Molhado Ligeiro. Quando precisasse despejar seu cheiro. Aquela espera era terrível. os sorrisos e os jogos enquanto encorajavam uns aos outros para a caçada. E o demônio o seguia incansavelmente através do Escuro. quão ardentemente cumprimentavam uns aos outros depois dos seus sonos. Se o avistassem. cheiros e sons eram mais aguçados. e despejava dentro dele. e então chutou a fogueira. Não podia seguir assim para sempre. A cada poucos passos que dava. e nem os lobos estranhos nem o demônio o farejariam. O lamber e o fungar e o esfregar de cheiros uns nos outros. Lobo começou a ficar cansado. í t Torak arrastou o que restava do equipamento para o abrigo feito com galhos de teixo. Estava longe do Alto SemRabo e atravessando a região de alcatéia estranha. como nunca antes. O Escuro chegou. talvez atacassem. Isso deixou Lobo triste. Neste. Onde estava ele? . enquanto pensava em sua alcatéia. Totalmente de repente. Distante dali. Ele andara uivando desde o anoitecer. enviando para o céu velozes fagulhas. Aliás. O medo o atormentava. em vez de marcar uma árvore. a estranha alcatéia começou seu uivado noturno. Começou a sentir dores. Sabia que arriscava atrair o urso. mas Lobo era mais importante. ele passava pelas suas marcações de cheiro. Lobo adorava o Escuro. mas ele conseguia enxergar tão bem quanto no Claro.

O quê? Onde? Ela gesticulou com a cabeça em direção oeste. Ele não desiste . podia sentir o olho vermelho do Grande Auroque cintilando para baixo em sua direção. .. Você demorou . Fin-Kedinn? Ela confirmou com a cabeça..que ele queria me matar? "O Ouvinte dá o sangue do seu coração para a Montanha?" Ela aproximou-se dele. mesmo sem olhar para cima. Eu precisava das coisas certas. Era. Pensei que ele já tivesse desistido. Renn emergiu da escuridão carregando uma braçada de folhas e cascas de árvore. Nenhum sinal de Lobo? Ele sacudiu a cabeça.afirmou Renn. Bem longe. Havia uma sugestão de orgulho em sua voz que o deixou irritado. -Já esqueceu .disse . Cornetas de casca de bétula.Era uma noite fria e estrelada e. Saboreando seu tumulto interno. ouvi cornetas. Torak ficou apavorado.observou Torak brevemente. Quando procurava por essas coisas. Torak fechou os olhos. Renn ajoelhou-se perto do fogo e despejou sua carga no chão.

Se as folhas de sorveira-brava e a algibeira não conseguiram esconder os olhos do rio .- Claro que não esqueci! Mas estou preocupada com eles! Se o urso não está aqui em cima. Se não conseguirmos.disse ele -. portanto ele também estava. Obrigada. Como está seguindo o rastro de Lobo.Mordiscou o lábio. .Estendeu-o diante de si. Para o dente de pedra. Ela olhou-o surpresa. onde eles se encontram. por que você acha que casca de árvore e absinto podem funcionar melhor? Porque vou usá-los para algo mais forte. Por que mais Fin-Kedinn tocaria a corneta? Torak sentiu-se péssimo. pensou Torak.Tenho tentado me lembrar exatamente o que Saeunn faz. Brigar não ajudaria. e.Você agora também pode chamar Lobo. Gostaria de ter dado ouvidos a ela. Tome. . então está lá embaixo. . . . Renn estava. Segui-se um silêncio. ele seguirá o nosso rastro. Ela estava sempre tentando me ensinar magia. Precisamos dar um jeito de escondê-lo do urso. De seu cinturão ele desatou o pequeno apito de osso de tetraz que havia feito quando encontrara Lobo. Torak perguntou-lhe por que precisava das ervas. e eu estava sempre indo caçar em vez disso. A dor no seu peito se intensificou.

as grandes presas irromperam acima dele.. Ainda que Lobo achasse um caminho de volta. a coisa o pegaria. Se conseguisse alcançá-lo. traria o urso consigo. Podia sentir o olho vermelho zombando dele. finalmente. nas montanhas. mas Torak não conseguia vê-la. com a pele pendurada em deliciosos pedaços mastigáveis. enquanto farejava o rebanho no vale ao lado. Rena. O vento rondou e ele captou um novo cheiro. o estrondo de muitos cascos aproximava-se. o desejo de sangue pôs nova força em seus membros e a esperança aumentou dentro dele. Agora o demônio estava muito atrás para poder sentir a pele de corvo. Senti-se realmente sozinho. mas conhecia o cheiro muito bem. galopando com as cabeças galhadas no alto e suas enormes patas cambaias. atraído pelos olhos do rio. Quando. . Lobo nunca havia caçado rena. Agora. Não havia nenhuma solução. Mas e se eu errar? Ele não respondeu. í t Lobo estava se cansando depressa. À medida que se impulsionava encosta acima. Lobo sentia falta das vozes deles. como ansiavam suas patas doloridas. A estranha alcatéia havia muito encerrara seus uivos e fora caçar.o que significaria que não haveria nenhuma chance de destruir o urso. bem longe. De repente. mas ainda o seguia pelo faro e continuaria seguindo-o. pois sua mãe costumava trazer-lhe os galhos que cresciam nas cabeças das renas.- Você tem sorte por haver alguma coisa que possa fazer - murmurou Torak. ele diminuísse a velocidade. Tinha de haver uma solução. E o único modo de Lobo se livrar do urso seria perder os olhos do rio ..

enquanto seguiam por entre os pés de faia como um irrefreável Molhado Ligeiro. e ele mergulhou por baixo dela a fim de escapar de suas patas martelantes. Um touro atacou e Lobo desviou dos galhos da cabeça. outro ruído chegou até ele. mas Lobo sabia que teria de voltar e seguir novamente para a floresta. atraindo-o para fora. mas inconfundível: o chamado alto e claro que Alto Sem-Rabo produz quando coloca o osso de pássaro no focinho! Então outro som ainda mais adorado: o próprio Alto Sem-Rabo uivando por ele! O som mais bonito na floresta! A rena continuava correndo. para ficar longe de seu bezerro. Distante atrás dele. e eles elevaram-se acima enquanto o filhote mergulhava naquele cheiro almiscarado. Ele correu vale acima: seu cheiro engolido pelo do rebanho. Mas em algum lugar mais além fica a coisa que o chamara de seu primeiro covil. Lobo jogou a pele de corvo bem alto no ar e apanhou-a com uma dentada. Deixaram as faias e correram através de uma floresta de abetos. as árvores. Ainda não era tempo de alcançar o Grande . Lobo sabia que essa planície se estendia por um longo trote dentro do Escuro. o demônio urrou. Muito fraco. A coisa perdera o seu faro! Encantado. Após algum tempo. As pedras tornaram-se maiores.. menores. então as árvores foram deixadas inteiramente para trás enquanto riscavam uma planície pedregosa como algo que ele nunca vira. O que era aquilo? Ele não sabia. Pelo cheiro do vento. Uma vaca roncou em sua direção. Mas tão logo o rebanho percebeu que ele não os estava caçando deixou-o de lado. Lobo girou sobre uma pata e saltou para o meio deles. e que depois dela ficava o Grande Frio Branco..

Que direção eles tomaram? Oeste. quando seguir mos os rastros de Lobo.Frio Branco e o que há além dele.Esticou a mão e atiçou o fogo. fazendo-a pular. Achei o rastro . VINTE E DOIS Renn estava aconchegada dentro de seu saco de dormir. Não era apenas a proximidade da caverna. A sensação no arranhão em sua bochecha era de quentura. Renn adivinhou que ele não dormira nem um pouco melhor do que ela. Está na hora de partirmos . Renn imaginou Lobo correndo através da floresta com o urso se aproximando.informou Torak. pensando em se levantar. ou pavor do urso. . e depois descendo para um bosque de faias. ele tinha de voltar e apanhar Alto SemRabo. e o machucado acima do olho doía.O urso estava logo atrás dele.disse ele. Pelas olheiras. acocorando-se ao lado do fogo e entregando-lhe uma tira de carne de veado seca. o fino rosto penetrante com ansiedade. interferindo em seus pensa mentos. Ela sentou-se e deu uma dentada indiferente na sua refeição do dia. . Pior do que isso. Era algo mais: algo sobre o qual ela não queria pensar. Torak . quando Torak surgiu na entrada do abrigo. .sugeriu ela -. era o temor rastejante. também estaremos seguindo o urso? -já. porém. já se deu conta de que. Ela parou no meio de uma mastigada. dando a volta pelo outro lado da colina.

. Quando alguém adoece dissera ela. Você pode ficar aqui.. e nada ainda.- E se o alcançarmos. Esperamos a noite toda. Ah. pode esconder o Nanuak do urso? ... depois toma uma poção especial para soltar suas próprias almas.perguntou Torak seguindo o olhar dela. Saeunn precisa esconder suas próprias almas encontrá-las.normalmente é porque comeu algo ruim. Ela amarra pequenos anzóis nas pontas dos dedos para ajudá-la a apanhar as almas doentes. Mas às vezes é porque suas almas foram atraídas para longe por demônios. Olhou para a luva de pele de salmão pendendo da estaca de sustentação do telhado.. Você acha que vai dar certo? . mas estou farto de esperar. O feitiço parecera tão inteligente quando ela lhe explicara no dia anterior. As almas doentes precisam ser salvas. Já vi Saeunn fazer isso uma porção de vezes.. Não! Claro que vou com você! Eu estava apenas comentando.dissera ela com um olhar tranqüilizador. sentindo-se muito importante . Pelo menos eu irei. a fim de que possam deixar o corpo dela e encontrar o. Para O que isso tem a ver com o Nanuak? Já vou lhe contar . dos demônios. Então se você fizer o que ela faz. Não sei. Precisamos ir em frente e encontrá-lo. Eu sei .interrompeu -.

Mas agora. A Luz está boa e baixa. acho que somos loucos por estar seguindo intencionalmente a pista do urso. na congelante alvorada. ao contrário de você. Renn esquadrinhou fora do abrigo. o que ela sabia sobre magia? Vamos . Afinal de contas.disse Torak com um salto. Mas não adianta lhe dizer nada disso. de certa forma. e amarrou tudo com cachos de seu próprio cabelo e do de Torak. De algum modo. ela lambuza o rosto com absinto e sangue da terra. E o urso? Ele pode ter perdido o faro de Lobo e estar voltando para nos pegar. isso não fez com que ela se sentisse melhor. Ela suspirou. Duvido . dúvidas acumulava-se. eu sou apenas Renn. Para se disfarçar. muita falta do meu clã. Bem. . Fora um alívio fazer algo em vez de se preocupar com Lobo. O que Renn queria dizer era: "Eu sinto muita. Em seguida. colocou dentro o dente de pedra. O que há de errado? .Acho que ele continua atrás de Lobo.Creio que sim. pois. tenho medo de que Fin-Kedinn jamais me perdoe por ajudar você a fugir.” . . e ela sentiu-se orgulhosa de si mesma. e estou preocupada porque nem mesmo deveria estar aqui. E isso que vou fazer. tenho a terrível sensação de que vamos acabar no único lugar aonde jamais eu quis ir. Depois disso.perguntou Torak. não sou o Ouvinte e não estou na profecia. pois tudo em que consegue pensar agora é encontrar Lobo. fez uma caixinha dobrando casca de sorveira-brava e lambuzou-a de absinto e ocre vermelho.As pistas são satisfatórias. depois coloca uma máscara de casca de sorveira-brava amarrada com cabelos de cada membro do clã.disse ele.

.Colocou a mão em concha no ouvi do. e freqüentemente descobrindo minúsculos sinais que a maioria dos caçadores adultos teria deixado passar. Como sempre. . Torak lançou-lhe um olhar descrente e começou a apagar a fogueira batendo nela com o pé.indagou Renn. Ele parecia entrar em transe esquadrinhando a terra com infinita paciência. Corria a metade da tarde e a luz começava a enfraquecer quando ele parou. Leste não. Por favor. O coração de Renn quase parou. É Lobo! Tem certeza? Eu reconheceria seu uivo em qualquer lugar. .Portanto. Venha. Não há nada errado. ela disse simplesmente: .Ali! Está ouvindo? Ela sacudiu a cabeça. Shi! Acho que ouvi algo. . ele está naquela direção. O que foi? .Nada. pensou ela. t i Toda a manhã eles seguiram a trilha através do bosque de faias e depois em meio a uma floresta de abetos.Apontou para leste. no final das contas. leste não. virando para nordeste e escalando constantemente. O rosto dele abriu-se num sorriso. Renn ficou impressionada com a habilidade de Torak em seguir pistas.

encontrava-se o que Renn temia. . é claro. vamos acabar no urzal. Diante dela estendi-se uma vasta amplidão sem árvores. a bolsa de pele de corvo sobre sua cabeça. Lobo estava caído perto dele.Aqui! Olhando para trás. e mais além erguiam-se as Montanhas Altas. uma traiçoeira encosta com pedras soltas amontoadas elevava-se acima do urzal. Cambaleou para trás. enterrando o rosto no molhado pêlo cinzento. o chão se tornava mais pedregoso e as árvores se encolhiam para a altura da cintura. Lobo abriu um olho e sacudiu fracamente o rabo.À medida que Torak seguia o som. Subiu correndo a encosta e contornou a pedra bem diante de um gelado vento setentrional.Se continuarmos avançando. . . estava alheio a tudo isso. À distância. Aos trambolhões.gritou. Ele está vivo! . Desapareceu atrás de uma enorme pedra. ela viu que ele estava ajoelhado na margem de um estreito riacho. ele corria à frente. os olhos fechados.berrou Torak. Renn atravessou as urzes em direção a eles. Torak não a ouviu. onde a urze e salgueiros atrofiados se abraçavam no chão na vã tentativa de evitar o vento. o vento açoitando sua voz para longe.indagou Renn. Mas entre a encosta de pedras soltas amontoadas e as montanhas. iguais a pés de bétula e salgueiros. A borda do urzal. Torak. onde pequenos lagos cor de turfa tremiam em meio ao agitado capim do brejo. Eles haviam chegado à própria borda da floresta. Renn! . vislumbradas apenas como um branco resplendor. Tem certeza de que ele está aqui? . e poucos instantes depois ela o ouviu chamar nervosamente o seu nome.

Sim. Renn ajoelhou-se e remexeu em sua mochila atrás de um bolo de salmão para dar a Lobo. mas ela sentiu-se estranhamente desligada. Muito mais coisas se aglomeravam sobre ela.Podemos fazer um abrigo bem ali. deixá-lo descansar. .afirmou Torak. erguendo Lobo nos braços e pousando-o delicadamente em um pedaço de terra com o macio capim do brejo. colocou-a de volta na bolsa e amarrou-a em seu cinturão. . Os olhos do rio permaneciam em seu ninho de folhas de sorveira-brava. Mas funcionou? Ah. afrouxou a extremidade e verificou seu interior. .Veja todos esses caminheiros do brejo. traga isso .informou Torak. não? Renn olhou em volta. Renn desatou a caixa de casca de sorveira-brava que guardava o dente de pedra e despejou dentro os olhos do rio.e todo molhado. curvando-se para dar uma afetuosa lambida no focinho do filhote.Precisamos esconder isso imediatamente do urso.disse Torak. muitas coisas das quais Torak não sabia a respeito. Desejando partilhar sua confiança. ligeiramente mais forte. em seguida. . Esteve correndo no córrego para enganar o urso em relação ao seu faro. Fazer uma fogueira. sim . Foi muita esperteza.disse Torak sem olhar para cima .Está exausto . Apanhou a algibeira de pele de corvo. temerosa. voltou a amarrar a caixa. Eles não estariam aqui se o urso estivesse por perto. Ele vai ficar bem . Foi recompensada com outra sacudida de rabo. a sotavento daquela encosta. Era maravilhoso ver Lobo novamente.

Devemos voltar para a floresta. E melhor ficarmos aqui . Apontou para o norte. — Ainda precisamos encontrar a terceira peça do Nanuak. — Não me importa! — Ela tentou pensar em algum motivo que ele aceitasse. — Você viu o olho vermelho ontem à noite .Aqui não .insistiu Torak. Por que não? Porque é o rio de gelo! Torak e Lobo olharam surpresos para ela.Naquele urzal assolado pelo vento. E por ali que teremos de ir. mas não há nada lá em cima! — Nada. — Mas. e Renn vi-se encarando dois pares de olhos lupinos.. é claro. como uma lagarta pendurada num fio. Temos apenas poucos dias. O quê? Do que está falando? Lobo me contou. a não ser a morte. a luz que anoitece. A barriga de Renn retesou-se..frisou Torak. . — Está mais alto.falou Renn rapidamente. Isso a fez se sentir completamente deixada de lado.. um cor de âmbar. não podemos subir ali. aquele é o caminho mais curto para a Montanha. Mas. senti-se exposta. na direção da encosta com pedras soltas e o branco resplandecer." Não vamos encontrá-la lá em cima. . acrescentou para si mesma.. o outro cinza-claro. . vamos? Faz frio. Renn — disse Torak pacientemente —. -Aquele é o caminho mais rápido para a montanha. lembra? "Mais fria de todas.

Saeunn precisou fazer um ritual especial para juntar suas almas. O vento sibilava tristemente sobre o urzal. em seguida. Não estou lhe contando isso para que sinta pena de mim — atalhou ela... E disse: — Meu pai morreu num rio de gelo exatamente como aquele. você acha que temos? ..— Não está ouvindo? — berrou ela. Torak olhou abaixo para Lobo. — Foi uma avalanche — contou. — Não podemos atravessar o rio de gelo! — Podemos sim — rebateu ele com uma calma apavorante.. o rio de gelo o matou. — Como? Nós dois só temos uma pele de água e quatro flechas! Quatro flechas! E o inverno está chegando. Que esperança. Metade de um rochedo de gelo desabou sobre ele. mesmo assim. Ela colocou-se de pé com um salto e afastou-se.. Ele era um caçador forte e experiente que conhecia as montanhas. — — Lamento — disse Torak. — Estou lhe contando para que você entenda.. Seu corpo só foi encontrado na primavera. — Ele estava no rio de gelo do outro lado do Lago Cabeça-de-Machado. depois de volta para ela.. — Eu não. que chance. — Encontraremos um meio. retornou. e você só tem roupas de verão! Ele olhou-a pensativo.. — Não é por isso que você não quer subir lá.

Talvez o feitiço do despistamento tivesse funcionado. pois a qualquer momento uma avalanche de neve poderia destruí-los. Era impossível movimenta-se em silêncio. mesmo a respiração dele soava ensurdecedora. Torak esticou o pescoço para os rochedos de gelo que se elevavam sobre eles. como salientou Renn. esses pingentes de gelo mais altos do que árvores. A nova capa de junco de Torak crepitava como folhas mortas.VINTE E TRÊS — Fique muito. A neve era quebradiça e suas botas a trituravam ruidosamente.Qualquer ruído repentino. eles pareceram apenas uma prega no vasto e revolvente rio de gelo. Mesmo assim. Era como se uma enorme onda arqueada tivesse sido congelada com apenas um toque do dedo do Espírito do Mundo. quando ele vislumbrou os rochedos a partir da encosta com pedras soltas. ou talvez.cochichou Renn. onde acamparam em uma concavidade que mal fornecia abrigo contra o vento. . o urso estivesse no oeste. Não houvera sinal do urso. Não esses penhascos afiados como uma faca e fendas profundas. escalaram o flanco do rio de gelo e seguiram para o norte. mas eles não tinham escolha. muito quieto . Na manhã seguinte. eles caminharam penosamente através do pântano e acima da encosta com pedras soltas. Já tinha visto gelo antes. Era loucura caminhar sob os rochedos de gelo. Por toda a volta ele ouvia estranhos rangidos e gemidos ecoantes: o rio de . O caminho para o oeste estava bloqueado por uma torrente de água derretida que cavara um profundo sulco azul. mas nada como isso. e isso pode despertar. Após deixar Lobo descansar durante um dia na beira do lago. levando a destruição para os clãs.

Não há presa.ciciou Renn mais adiante. quando não captou nenhum cheiro ou som. e alisou-o com uma pata. Mas. Cadê? Cadê a presa? Torak espreguiçou-se e bocejou. — Precisamos atravessar antes do cair da noite! Era congelante à sombra dos rochedos de gelo. ganindo convidativamente. esquecendo-se de falar lobo. fizeram luvas e chapéus da pele do salmão de . — Vamos! — cochichou Renn. O quê? Então por que estamos caçando? Apenas fique quieto! Lobo emitiu um leve e magoado ganido. Não parecia que precisaria muita coisa para acordá-lo. Torak fingiu avistar uma presa distante. contraiu os bigodes e olhou para Torak. depois deslizando até parar para ouvir lemingues e ratazanas da neve entocando-se debaixo da superfície. Lobo imitou-o.gelo murmurando em seu sono. isso não parecia incomodar Lobo. — Shi! . Como este não reagiu.ciciou Torak. ele se apoiou nas patas dianteiras e perguntou-lhe se queria brincar. permanecendo completamente imóvel e olhando atentamente. Eles haviam feito o que era possível enquanto estavam acampados à beira do lago: encheram as botas com capim do brejo. Ele amava a neve: lançando-se sobre ela e arremessando pelotas de gelo bem alto no céu. — Shi! . Estranhamente. Agora ele parou para cheirar um pedaço de gelo. Desesperado para calar Lobo.

Ele estava dolorosamente ciente de que. Os Ptármigas. mantendo a voz baixa.. já. Suas provisões também escasseavam: uma pele de água e salmão e carne de rena secos o suficiente para apenas mais dois dias. Torak. Se pensa que é. deixando espertamente que Torak abrisse o caminho a fim de que ele pudesse caminhar nas suas pegadas.. Mas certamente Ora. Os Clãs do Gelo? Os Raposas Brancas.Renn e do resto do couro cru.” A neve ficou mais profunda. tem de cavar para si uma caverna na neve e esperar até ela passar.comentou Torak. e uma capa para Torak. de feixes de junco amarrados com capim do brejo e depois costurados com tendões. Como dissera Renn. com sua costumeira e inabalável exatidão: "Tudo que sei é que torna muito mais fácil seguir um rastro. Os Clãs do Gelo. Ela ergueu as sobrancelhas. acabará morto. — — você. de fato. — Espero que ele saiba o caminho — disse Renn. Torak podia imaginar o que Pa diria. se você for apanhado numa tempestade de neve. Mas isso é tudo que sei. Mas eles vivem nas planícies. e logo eles avançavam com dificuldade com ela na altura das coxas. — Alguém já esteve? . é excelente para se fazer bolas de neve e. — Eu nunca estive tão distante assim ao norte. — rio de gelo. Os Narvais. Lobo ficou para trás. não sabia muito sobre neve. Mas isso estava longe de ser o bastante. Uma jornada na neve não é brincadeira. e não no .

. Torak soltou um demorado suspiro. e esperou que os dois se juntassem a ele. Lobo deu um grunhido urgente. Eu nem mesmo. Renn olhou para o gelo empilhado em volta deles.. chateado. olhou para cima.. Atrás dele.Acho que é seguro. . — Cuidado! — gritou. Agora tudo o que ele conseguia ouvir era o suave assentar da neve. nós agora estaríamos aí embaixo.. — Se não fosse por Lobo. Talvez ele tenha apenas se virado durante o sono. Em seguida. explodindo em cacos letais. Torak sacudiu a cabeça. eles seriam esparramados sobre a neve como amoras alpinas esmagadas. A avalanche terminou tão abruptamente quanto começara. Lobo ficou de pé e sacudiu o corpo. agarrando Renn e empurrando-a para baixo do arco. Torak virou-se e viu o filhote saltar para se abrigar sob um arco de gelo maciço. inspirou fundo. Torak imaginou que ela estava pensando em seu pai.— Não . Torak rezava para que este não desabasse.disse ele. Deu alguns passos. — Eu não. Um estrondoso estalido — e eles foram envolvidos por uma rugidora brancura. Apertado debaixo do arco. — Por que o gelo parou? — ciciou Renn. — Estava pálida e suas tatuagens do clã pareciam lívidas.disse Torak. esmagando a neve. espalhando neve molhada em cima deles. Se desabasse.. Gelo ribombou em volta deles. — Vamos .

Perguntou-lhe se estava bem. . . — — Pensei que você nunca tinha estado tão ao norte. Enquanto se arrastavam à frente. — Sinto-me. vez por outra. ficará cego pela luz refletida da neve. — Aqui . apareciam poças de água derretida na neve. — Acho. Acho que é o Nanuak.— Seguro? . as sombras congelantes tornara-se um perfeito clarão branco. Em pouco tempo Torak estava suando debaixo de sua capa de junco. — Corte ranhuras nisto e amarre em volta dos olhos. À medida que o dia transcorria e o sol viajava para o poente através de um céu nublado.resmungou Renn.chamou Renn. uma placa de neve ou um gigantesco pingente desciam com um som surdo dos rochedos. Ela sacudiu a cabeça e curvo-se. Ele me falou a respeito disso. apoiando as mãos nos joelhos. Torak ficou incomodado em ter de olhar através de uma estreita ranhura. Tornava-se constantemente mais quente.disse ela. mais intensamente azul do que qualquer coisa que Torak já vira. num piscar de olhos. notou que Renn vinha vagarosamente atrás. Nunca estive. quando precisava estar alerta — quando. mas Fin-Kedinn esteve. o sol atingiu os rochedos e. Esperando que Renn o alcançasse. Normalmente ela era mais rápida do que ele. Isso nunca acontecera antes. — Tem sido assim o dia todo . entregando-lhe uma tira de entrecasca de bétula.. ficou chocado em ver que os lábios dela tinham uma coloração azulada.. Por volta da metade da tarde. sugada. Caso contrário.

Perguntou: — Você acha que temos lenha suficiente? Novamente Renn sacudiu a cabeça. Antes de seguirem para a encosta com pedras soltas. Torak calculou que teriam lenha suficiente para durar talvez uma noite. Se soprasse uma tempestade e tivessem de cavar durante dias. Fizeram a troca. Em seguida. para deixar o fogo respirar. O fogo poderia ser carregado o dia todo. para que ficasse apenas em combustão lenta. sem chamas. — Ela fez que sim. mas pronto para ser despertado com isca e sopros quando precisassem dele. cortaram um pequeno pedaço de cogumelo casco-de-cavalo. .. que cresce em pés mortos de bétula. perfuraram a casca várias vezes. Para isso.Torak senti-se culpado. — Me dê aqui — pediu. — Lentos demais — observou ela. dormindo silenciosamente. — Se não conseguirmos atravessar até o cair da noite. e taparam o rolo com barba-de-velho para mantê-lo adormecido. enquanto Renn olhava por cima do ombro para ver o quanto eles haviam avançado. tocaram fogo nele e logo apagaram. Torak amarrou a algibeira em seu cinturão. — Vamos nos revezar. Torak imaginou-os cavando uma caverna de neve e se escondendo no escuro. É justo. o enrolaram em casca de bétula. cada um havia juntado um feixe de lenha e preparado um pequeno fogo para levar junto. Estivera se concentrando tanto em não acordar o rio de gelo que esquecera que todo esse tempo ela vinha carregando a bolsa de pele de corvo. enquanto o rio de gelo inchava e gemia à sua volta.. — Mas carregarei a pele de água. Não precisou acrescentar o resto. eles congelariam.

Renn parou.. indo mais adiante para investigar.Continuaram avançando penosamente. caía em direção ao nada. e logo Torak entendeu por que o Nanuak havia cansado Renn. no seguinte. — Onde foi parar o riacho? . De repente. — Ainda consigo ouvi-Los—. Você acha que isso significa que podemos sair de baixo dos rochedos? Tirando a sua tira de entrecasca.. — Talvez tenha afundado mais ainda debaixo do. Apenas uma minúscula beirada evitara que ele desabasse para a morte. Tinha caído em um buraco de gelo. — A água derretida! Acabei de notar. Ele já podia senti-lo pesando. puxando-o para baixo. Num momento. Mas não estava. Não recebeu qualquer aviso. — O quê? — perguntou Torak.falou. ele caminhava..ofegou. Aquele sulco sumiu. VINTE E QUATRO Torak bateu o joelho tão dolorosamente que soltou um grito. Nenhum estalido no gelo. Não conseguia ver o clarão.. — Torak — sussurrou Renn lá de cima. sim — respondeu ele. . nenhum “vump" de neve desabando. arrancando dos olhos a tira de entre -casca de bétula. Torak olhou de soslaio para a neve. — Você está bem? — Acho que.

De que modo conseguiria sair? Renn e Lobo olhavam abaixo para ele. pensou ele.mas de profundidade incalculável. E se não conseguisse sair? Estava preso lá embaixo.comentou ele. tente agarrar isto.No escuro ele percebeu que o buraco era estreito . mas a palavra saiu como um grasnido. — E meu arco — rebateu. Sem o Nanuak não haveria nenhuma chance de destruir o urso.. eu não tinha pensado nisso. ele ouviu correr a torrente da água derretida. — A algibeira continuava amarrada firme mente no seu cinturão.Você está bem? Ele tentou dizer sim. tentando encorajá-lo. — E pelo menos ainda tem a sua mochila.esticando as mãos podia tocar nos lados . pelejando para se manter calmo. Era como se fossem trinta. ela dependurou sua machadinha.. — Isso pode fazer desabar outra avalanche. e o Nanuak ficaria preso com ele. — Você não está assim tão distante — observou Renn. .. a cabeça à frente e o cabo amarrado em volta do seu pulso. Bem distante. Deviam estar três passos acima. aterrorizado. ou tapar o buraco com você dentro dele.. . — Aqui. lá embaixo. — Obrigado — resmungou ele —. ou. Ele estava dentro do rio de gelo. Agora sabemos para onde foi a água derretida .sussurrou Renn.. — E o Nanuak. — Não tão alto — murmurou Renn.. O Nanuak. esperando não parecer por demais assustado. — Curvando-se perigosamente sobre a borda. A floresta inteira estaria condenada: condenada porque ele não olhou onde pisava. — Torak? .

— — O que vai fazer? . e o joelho doía. Claro que o rio sentiria. ecoou o gelo em volta dele. Isso deu uma idéia a Torak. Ela não respondeu. ele desprendeu a mochila de um ombro e checou para ver se ainda tinha as galhadas do corço. cair".perguntou Renn. Torak pegou a machadinha de seu cinturão.— Você não vai agüentar o meu peso — falou para ela. — Espero que o rio de gelo não sinta. com medo de escorregar para fora da beirada.. — Preciso fazer uns entalhes no gelo — gritou para Renn. talvez pudesse usar as raízes como picadores de gelo e saísse dali como se tivesse garras. e poderíamos cair. garras". Deixando as galhadas na mochila até precisar delas. "Garras. A beirada ficava escorregadia sob suas botas. — Há algum modo de você conseguir escalar o buraco e sair? — quis saber Renn.. — Provavelmente. "Cair. Não tinha tempo para explicar. começando a parecer vacilante. entoou o gelo. Eram curtas e suas raízes tinham bordas denteadas. Se conseguisse amarrar uma a cada pulso e agarrar suas pontas. Se eu tivesse as garras de um carcaju. Lentamente. Você vai ver — disse ele. — Eu puxaria você para baixo. Mas que escolha tinha Torak? . Tinha.

e recuperou o equilíbrio. . Trincando os dentes. Mais fragmentos desceram ruidosamente. apenas um pouquinho mais alto do que a beirada. O gelo era duro e ele não ousava dar muito impulso na machadinha com medo de cair da beirada. usando os dentes para apertar os nós. Esta penetrou e fixou. Com o pé esquerdo. Torak Forçou-se a desferir outro golpe. A neve era abundante em seu pêlo. pressionando o rosto no gelo .e ele não fazia idéia se agüentariam. procurou o primeiro apoio para os pés. Sua mochila o puxava para dentro do buraco de gelo. Enfiando de volta a machadinha no cinturão. Com a mão direita. Mesmo que o rio de gelo não tivesse sentido aquilo. os ecos retumbando sem parar. por causa do frio. Finalmente. Se colocasse seu peso em um dos entalhes talvez este cedesse. tirou as luvas e apalpou a mochila atrás das galhadas e das últimas tiras de couro cru.O primeiro golpe com a machadinha mandou chocalhantes lascas de gelo para o abismo. mas.ciciou Renn para o filhote. Eram assustadoramente rasos — não mais fundos do que a junta de seu polegar . Desesperadamente. curvo-se à frente. — Para trás! . alcançou o entalhe acima de sua cabeça e cavoucou fundo com a borda denteada da galhada. Lobo latiu para ele se apressar. pelo menos devia ter ouvido. após várias ansiosas desbastadas conseguiu quatro entalhes em intervalos mais ou menos uniformes até a altura que conseguiu atingir. levando-o junto. ele conseguiu. Seus dedos estavam descontrolados. e amarrar as galhadas aos pulsos foi furiosamente difícil. Encontrou-o e firmou o pé. com aproximadamente a distância de um antebraço entre uma e outra.

a tal que você machucou na queda! — — Meu joelho está. seu joelho começou a tremer. Renn cedeu a uma risada de pânico. dobrou a perna direita e encontrou o apoio para o pé seguinte. disse Torak a si mesmo. — Só mais um pouco . Seus ombros queimavam — sentia a mochila como se estivesse cheia de pedras. .disse Renn. Torak acabara de fazer isso e viu de relance — o que lhe causou náuseas — o vazio abaixo. Tentou alcançar o apoio seguinte para a mão.Torak ouviu ruídos de uma agitação — mais neve despejando-se abaixo — e então Lobo rosnou impaciente. — Não olhe para baixo. lentamente.. arrancando com um estalo uma camada de gelo que quase o leva junto... Tarde demais. Torak e Renn permaneceram ofegando na borda do buraco de gelo. Você acaba de colocar todo o seu peso sobre a perna errada . Então erguera-se.. Lobo pensou que se tratava de uma grande brincadeira e saracoteava em volta deles com um enorme sorriso de lobo. Lenta. Ah. — Não consigo.. Claro que consegue .. Pelejou pelo apoio para a mão — e a galhada fixou bem a tempo. Entretanto.arfou.incentivou Renn. cerca de um antebraço mais alto do que o que pisara com o esquerdo. ao se erguer apoiado nele. e errou. que eu agarro você. Deu um enorme impulso e seu joelho dobrou. que inteligente. Então uma mão agarrou a alça de sua mochila e ele foi meio que puxado. meio que empurrado para fora do buraco. — Alcance o último apoio para mão. . cambalearam para longe dos rochedos de gelo e desabaram num monte de neve pulverizada.

Estava deitado de costas.Não. provavelmente por uma queda de gelo. — O que é isso? — perguntou Renn. Lobo. Renn explodiu numa risada. e então dava outro salto e a cuspia na cara de Torak. dando um gole na pele de água. peludo e estranhamente achatado. em uma de suas brincadeiras favoritas. Saltava para apanhá-la em pleno ar. Outra brincadeira favorita. — Achatado ao máximo — arfou Torak. deixando a brisa soprar neve sobre seu rosto. rolando na neve. finas nuvens brancas se arrumavam como pétalas.— — Essa foi por pouco! Da próxima vez. porém.. O ar de afronta em seu rostinho pareceu a Torak como inexpressivelmente engraçado. Ele nunca vira algo tão belo. Torak sentiu uma gargalhada brotar dentro de si. — O que você tem aí? . havia libertado sua presa. jogando e apanhando o lemingue congelado. dava umas mastigadas. tentando se conter. enquanto Lobo agitava-se em volta com um andar alegre e sacudido. jogava-a para o alto e a apanhava com as mandíbulas.quis saber Torak. — Um lemingue congelado. Lobo cavava algo no gelo. Atrás dele. Alto no céu. — Cuidado com o que faz! — Então. Finalmente. viu do que se tratava. surpreso! —. borrifando água por todo o gelo.. olhe onde pisa! Vou tentar! — bufou Torak. — Ai! — fez Torak. Era mais ou menos do tamanho de um pequeno punho castanho. — Devia ver o rosto dele! Tão. . pare com isso! — berrou Renn. Eles riram até doer.

deu um espetacular salto sinuoso e o engoliu de uma só vez.murmurou. Renn estava sentada. Então decidiu que estava com calor e. VINTE E CINCO A fúria do rio de gelo irrompeu sobre eles com uma força aterrorizante. Estava ficando mais frio. O rio de gelo acordara. O vento ficara mais forte e a neve pulverizada ondeava do chão como fumaça. — Uma tempestade de neve.ele o jogou excessivamente alto. deixo-se cair numa poça de água derretida. — — Oh. Alguma vez ele apenas foi apanhar uma coisa em vez de jogá-la Ele olhou em volta e viu nuvens se condensarem acima dos rochedos de gelo. As nuvens tipo pétalas haviam coberto totalmente o sol. — Já tentei pedir. E estava furioso. Ele levantou-se. — em sua cara? Torak sacudiu a cabeça. para refrescar. não . limpando os olhos. — Olhe — disse Renn ao lado dele. Ele nunca faz. sim — disse Renn. . Oh. Ela teve de elevar a voz acima do vento. Ela apontava para leste.

Este se despedaçou e se desfez. Mas Renn sumira. . ou mesmo suas próprias botas. — Renn! Renn! — O rio de gelo arrancou o nome dela de seus lábios e o atirou no meio da noite que se formava. e alisou seu rosto com gelo voador. O rio de gelo os tinha em suas mãos e não iria largá-los. alcançado a extremidade do rio de gelo? Renn agarrou seu braço. finalmente. ele vislumbrou um pilar escuro. Através da rodopiante brancura. ou Lobo. Ele se virou para Renn. — Precisamos cavar um buraco e esperar até passar! — Ainda não — berrou. Ele uivou até os ouvidos de Torak doerem. Não era nada além de uma nuvem de neve: o truque cruel do rio de gelo. Lobo cambaleando de um lado para o outro. fez com que andasse em círculos até ele não conseguir mais enxergar Renn. Uma rocha? Um monte de neve acumulada pelo vento? Seria possível que eles houvessem. — Olhe! Estamos quase chegando! Ele se esforçou na direção do pilar. ele poderia jogálo em um buraco de gelo. A qualquer momento. os olhos semicerrados contra o vento. — Você tem razão! Precisamos cavar uma caverna de neve... — Não podemos prosseguir! — gritou. e apertar sua capa para evitar que ela fosse arrancada Através da neve ondulante. ele viu Renn esforçando-se à frente com toda a sua força. só para permanecer de pé.Torak teve de se inclinar para dentro da rajada de vento.

gelo escorregar de seus próprios ombros. Nenhuma resposta. tão baixo que precisou seguir de quatro. Alguém deve tê-la cortado para servir de porta. Uma caverna de neve? Certamente Renn não teria tido tempo de cavar uma tão depressa. Torak pensou ter visto uma figura deslizando através da neve. pois o vento o arremessou contra o gelo maciço.chamou. Lobo desapareceu lá dentro. Com as luvas cobertas de gelo. Com um salto. Caiu para trás. tateou seus arredores. Ele esticou a mão e Lobo deu um grunhido de alerta.Caiu de joelhos e tateou atrás de Lobo. Mas o que conseguiria até mesmo um lobo captar naquilo? Espantosamente. Um teto baixo. uma placa de gelo na entrada do buraco. Lobo empinou as orelhas e partiu direto adiante. e o silêncio se fechou em volta dele. Em sua lateral havia um buraco grande o suficiente para rastejar por ele. Cambaleou para o que parecia ser uma colina de gelo. quase esmagando o filhote. Podia ouvir Lobo lamber a neve de suas patas. Mas quem? — Renn? . . O ruído do rio de gelo esmorecia à medida que ele rastejava para a escuridão. Lobo procurava em volta o cheiro de Renn. mas não foi longe demais. Após um momento de hesitação. — Renn! Lobo saltou atrás dela e Torak seguiu-o. Empurrou a placa para dentro do buraco. Sua luva encontrou pêlo e ele agarrou o filhote. Torak seguiu-o.

ele teria tocado no cadáver — e tocar a morte é arriscar um perigo terrível. Se um dos vivos perambular perto demais. confusas. Levou uma eternidade para encontrá-la novamente. Se Lobo não o tivesse alertado. Quando as almas deixam o corpo. A escuridão gelada pareceu se tensionar. cerosa. as almas desencarnadas podem tentar possuílo. Seus dedos estavam tão frios que deixou cair a algibeira com as iscas de fazer fogo. a vela chamejou. ele sacou a faca. Algo que esperava na escuridão. ou simplesmente relutantes em embarcar na Jornada da Morte. — Quem está aí? — perguntou. havia um homem. Quase encostado a seu joelho. Soltou um berro. Neve penetrara em suas narinas numa cruel paródia de . Ele estava morto. para bater a pederneira no risca-fogo e fazer chover centelhas sobre a pequena pilha de lascas de casca de teixo em sua mão. mas finalmente. Esqueceu o rio de gelo. sua carne era amarela. esqueceu até mesmo Renn.Torak recuou a mão. podem estar zangadas. — Quem esta aí? Ainda nenhuma resposta. Torak achatou o corpo contra a parede de gelo. ou seguI-lo até sua casa. Arrancando suas luvas com os dentes. Seus lábios pareciam ter sido esculpidos em gelo. Tudo isso percorreu a mente de Torak enquanto olhava o homem morto. Tateou atrás de uma das velas de Renn. Os pêlos de sua nuca começaram a comichão Renn não se encontrava ali — mas algo se encontrava.

Qual era o nome daquele homem? O que estivera procurando ali. olhando-o fixamente. encarando algo que Torak não conseguia ver: algo que se encontrava aninhado na curvatura de seu braço morto. Teria sido uma das almas seguindo em sua jornada final? Podia-se ver almas? Torak não sabia. encontraria uma marca semelhante em cada calcanhar. — Não vacilou diante da morte. exceto por um único cacho na têmpora.respiração. O morto usara solto seu comprido cabelo castanho. Lobo parecia não ter medo e estar até mesmo atraído pelo cadáver. — Que suas almas encontrem seu descanso e permaneçam juntas. O homem deve ter sentido a morte se aproximar e desenhou as próprias marcas para que suas almas permanecessem juntas após sua morte. e outro círculo desenhado no esterno. — Fique em paz — falou para o cadáver. Marcas da Morte. Aquele homem seria do mesmo clã? Do mesmo clã que a mãe de Torak? Sentiu a comoção da piedade. A grossa parca de inverno fora aberta violentamente. Torak supôs que. Torak pensou na mulher do Veado-Vermelho na reunião dos clãs de Fin-Kedinn. . mas os olhos revestidos por uma película de gelo estavam abertos. — Lembrou-se da figura que havia vislumbrado na neve. ela usava o cabelo do mesmo modo. Permanecia com o focinho entre as patas. — Você foi corajoso — disse Torak em voz alta. também. Deve ter sido por isso. — Curvou a cabeça para seu parente morto. e como havia morrido? Então Torak viu que na testa morena um trêmulo círculo fora pintado com ocre vermelho. se fosse imprudente o bastante para retirar as pesadas botas peludas. entrançado com ocre vermelho. que deixara a placa entreaberta: para libertar as almas.

Mas quando Torak viu o que era ficou ainda mais intrigado." A luz que anoitece é a última luz que um homem vê antes de morrer.. TratavA-se de uma lamparina comum: uma forma oval de arenito alisado. Os pêlos do pescoço estavam eriçados. Na caverna abaixo da Queda do Trovão. Ele encontrara a terceira parte do Nanuak.. Ao lado dele. Torak aproximoU-se. Segurando a vela com uma das mãos. O morto fitava calmamente a coisa aninhada em seu braço. com uma rasa cavidade para conter o óleo de peixe. Lobo parecia estar escutando. suave.. O pavio havia muito se queimara e tudo que restava do óleo era uma leve mancha acinzentada. Lobo saltou um ganido alto.Lobo sentou-se e empinou as orelhas para o cadáver. . Imaginou seus momentos finais: enroscado na neve. Torak abriu a algibeira de pele de corvo com a outra e derrubou a caixa na neve. — Uff! — alertou Lobo. Torak ficou espantado. Lobo já agira assim antes. O ganido fora. a luz que anoitece. Torak franziu a testa. Torak se deu conta. observando a pequena e luminosa chama enquanto sua própria vida bruxuleava e declinava. e um sulco para o pavio de barba-de-velho torcido. medindo cerca da metade do tamanho de sua palma.. mas ele não parecia temeroso. "Mais fria de todas. De repente. Seus olhos voltaram para o morto. uma saudação.

. pensou ele.. onde se encontrava em segurança. aninhados na curva do dente de pedra preta. como se Renn. os olhos cor de âmbar já bastante dessemelhantes aos de um . Com dedos dormentes. após colocá-la em segurança na caixa e de volta à bolsa. sentava-se sobre os calcanhares. "Se você for apanhado numa tempestade de neve". Rapidamente. O Nanuak seria enterrado com ele. soubesse qual era o seu tamanho. "cave para si mesmo uma caverna de neve e espere nela até a tempestade passar. curvou-se sobre o morto — tomando todo o cuidado para não tocar nele — e soltou a lamparina. Se não fizesse isso. que ele se deu conta de que estivera prendendo a respiração. Ali. naquela caverna de neve. dissera Renn. Renn poderia morrer. Mas. amarrou a bolsa ao seu cinturão. Mas podia — deveria — arriscar a floresta para salvá-la? Como nunca antes. Estava na hora de ir embora e procurar Renn." Se ignorasse aquilo agora — se desafiasse a ira do rio de gelo para procurar por ela — provavelmente não sobreviveria. algo o fez parar. tirou uma das luvas. Torak filhote. A vela tremeluzia em sua mão. Lobo observava-o atentamente. Ele tinha todas as três peças do Nanuak. Os olhos do rio o olharam cegamente de baixo para cima. Toda a floresta estaria condenada. Pa saberia o que fazer. ao fazer a caixa. Ao lado deles havia apenas o espaço suficiente para a lamparina: quase. Ele não podia simplesmente abandonála. ansiou por Pa. Foi só então. Ela era sua amiga.Torak soltou o cordão feito de pêlo e levantou a tampa. ao se virar para empurrar a placa para o lado.

Lobo pendeu a cabeça para um lado. Você. Torak. — Não! . deixando-a dura. Renn abriu um buraco do tamanho suficiente para conter a si mesma e sua mochila. espero. Arrancando a machadinha do cinturão.Mas Pa não estava ali. atingiu uma colina de neve. Você tem de decidir. Pelo Espírito. arrastou-se para dentro do vento.berrou. batendo na neve com os punhos. — Não. se se enroscar-se bem. Com surpreendente velocidade. VINTE E SEIS — Torak! . disse a si mesma.gritou Renn com toda a potência de sua voz. A . ela começou a fazer um buraco. provavelmente. Eles poderiam ter caído em um buraco de gelo e ela jamais teria ouvido os gritos. e o rio de gelo soprou-a para longe. não: De gatinhas. Procure neve sólida. está fazendo a mesma coisa. O vento arremessou-a para um monte. disse a si mesmo. Sozinho. Cave. Fique calma. mas não tão dura que tivesse se tornado gelo maciço. não. Eles poderiam estar a três passos de distância e mesmo assim ela não os veria. e ela sufocou-se com a neve. —Torak! Lobo! Onde estão vocês? Ela estava sozinha na tempestade. O vento a havia compactado. Torak. esperando para ver o que Torak faria. Após uma interminável batalha. Uma de suas luvas escorregou para fora da mão.

soprou-os. Acordou para se descobrir flutuando num magnífico calor. Talvez você tivesse de ser o Ouvinte. viu que seus dedos sem luvas estavam brancos e duros. emparedando-se na congelante escuridão. pensou. teria de cortá-los fora. Aki. Ela morreria sozinha. tateou o pescoço atrás do apito de osso de tetraz que Torak lhe dera. tão sonolenta . Tentou dobrá-los. Desesperadamente. perdera três dedos do pé no inverno passado. Comprimindo bem os olhos. Agasalhou-se nela. Sua respiração logo derreteu o gelo que lhe endurecia as roupas. empilhou na entrada os pedaços de gelo escavados. Estaria fazendo aquilo direito? Lobo seria capaz de ouvir? Talvez funcionasse apenas para Torak. Rastejando de costas. como ela os encontraria? Retirando a luva que restara. Já devem ter se entocado há muito tempo. estes ficariam pretos e morreriam. continuou soprando. Se não aquecesse logo seus dedos. ou morreria também. Ela sabia a respeito da queimadura pelo frio: o filho do líder do Clã do Javali. Novos temores surgiram. Soprou até senti-se tonta e enjoada.escavação esquentou-a. O sabor do apito era salgado. disse a si mesma. Se é que ainda estão vivos. e ela começou a tremer. não mais uma parte dela. ou ela estava chorando? Não adianta chorar.então. porém não conseguia mais sentir a mão que estava sem luva. mas eles não se mexeram. À medida que seus olhos se adaptavam ao escuro. A mão pareceu pesada e fria. Soprou com força. Ele não produziu nenhum som. depois enfiou a mão no gibão e colocou-a debaixo da axila. Seria por causa do osso da tetraz. A neve era tão cálida e macia quanto pele de rena. como seu pai? Nunca mais veria Fin-Kedinn? Onde estavam Torak e Lobo? Mesmo se tivessem sobrevivido. Eles não virão.

que nem mesmo conseguia erguer as pálpebras. Por que ela a fez tão pequena? Por que nunca consegue fazer as coisas adequadamente? — Hord. — Mesmo assim — disse Saeunn —. — Cachorro mau! Vá embora! —Acorde. Ela o empurrou para longe. Gostaria que eles me deixassem dormir. — Ela fez o melhor que pôde.gritou Torak em seu ouvido.. Vozes a mantinham desperta. isso não é verdade — protestou Fin-Kedinn. Renn! . — Eu estava muito cansada . — Estou dormindo — murmurou Renn. a porta abriu-se com o vento. pensou indistintamente. enterrando o rosto na neve. Seu irmão escarnecia como sempre. Nesse momento. . sonolenta demais para rastejar para dentro do seu saco de dormir. Um dos cães do acampamento pulou para cima dela. espalhando gelo por todo o seu corpo. Fin-Kedinn e Saeunn tinham vindo visitá-la. ela poderia ter feito uma porta melhor.murmurou Renn. cobrindo-a de neve e cutucando seu focinho gelado atrás do queixo dela.. — Fechem a porta! — protestou.

os olhos inchados quase totalmente fechados. Uma boa sacudida e a neve saía voando. Ela chutou o saco para longe. . chovendo neles. Enquanto Torak escavava a neve. era Lobo que estava se saindo melhor. Torak terminou a ampliação da caverna de neve e voltou a emparedar a entrada.— Não está não — berrou Torak. e quanto tempo ele e Lobo teriam durado se não tivessem encontrado a caverna de neve dela. após várias tentativas. Ele mesmo ansiava por dormir. Os dedos de sua mão direita estavam duros e com cor de cera. — Acorde! — Deixe-me em paz — disse ela. Então ajoelhou-se ao lado de Renn e. Dos três. — Entre aqui — rosnou ele. esfregou-a no rosto e nas mãos dela. — Renn. Mas não estava. conseguiu arrancar o saco de dormir de baixo dela. — Estou bem. Seu pêlo era tão denso que a neve permanecia no topo dele sem sequer derreter. seria para sempre. Seu rosto estava pustuloso e inflamado. se Lobo não a tivesse encontrado. imaginava o quanto mais ela teria durado. mas antes tinha de abrir espaço para ele e Lobo e acordar Renn. deixando uma abertura no topo para permitir a saída da fumaça da fogueira que ele prometera a si mesmo. Torak estava quase esgotado. por causa do gelo voador. vamos logo! — Agarrou seus ombros e sacudiu-a. Recolhendo neve com as mãos geladas. Se ela adormecesse agora. não teria tido energia para começar a fazer uma nova. como os do cadáver Veado-Vermelho. Cambaleando de exaustão. debilitados.

rebateu indignada. o fogo no rolo de casca de bétula recusou-se a acordar. com o que tinham. portanto usaram parte de sua lenha para fazer uma pequena plataforma a fim de conter o resto da neve e. Ele nunca ficara tão feliz em travar uma discussão. como dói. Com a volta da sensação. a dor também voltou. — — Ai — gemeu. depois tentou aquecê-las nas axilas. você estava falando sozinho. O que foi que disse? — perguntou Renn. — Eu estava falando sozinho? Você é quem estava tagarelando com todo o seu clã! — Não estava não . em vez de se atrapalhar com o manuseio do risca-fogo. De algum modo. — Nada. ai. dessa vez. conseguiram acender uma fogueira. . mesmo quando ele o assoprou lisonjeiramente. — Estava sim — disse ele com um sorriso. — Você está me matando — disparou ela. Sabendo que teria de fazer uma fogueira em breve.— Ui! — uivou ela. A princípio. Ela despertara. ele esfregou as mãos na neve. Fogo precisa de calor tanto quanto de ar. e Renn o alimentou com migalhas de iscas de fogo aquecidas em suas mãos. finalmente. sentando-se e batendo a cabeça no teto. Torak lembrou do rolo de fogo em sua mochila. — Disse sim. — Ai. — Acorde ou vou matá-la — vociferou ele.

sentiu a força retornar..Finalmente ele chamejou. gemendo enquanto a chama descongelava suas mãos e empolava seus rostos. Mas a chama lhes dava um consolo maior do que o calor. Torak encontrou seu último rolo de carne seca de veado e o dividiu entre eles três. — Uma lamparina de pedra — murmurou Renn. pelo menos. Sentiu-se por demais envergonhado. — Mostrou-lhe o apito de osso de tetraz. Com os cabelos pingando e os dentes batendo. mas. Ele. Renn passou-lhe a pele de água. Imaginou como teria sido. — Como você me encontrou? — quis saber Renn. — Isso nunca passaria pela minha cabeça. — Não fui eu — respondeu. A fogueira era uma pequena parte da floresta. Torak pensou nela soprando aquele apito silencioso na escuridão. ao tomar um demorado gole. — Acho que sei. recompensando o esforço dos dois com uma labareda pequena mas viva. se acotovelaram acima dela. Todas as noites de suas vidas eles tinham ido dormir com aquele crepitar sibilante e aquele penetrante cheiro agridoce de fumaça de madeira. Ela refletiu sobre aquilo. — Foi Lobo. Não mencionou o terrível momento em que cogitou não tentar encontrá-la. Ele não sabia que estava sedento. tinha Lobo. ela completamente só.. — Quer vê-la? . Contou-lhe sobre o cadáver Veado-Vermelho e a descoberta da terceira parte do Nanuak. Não sei como.

virou-se para encará-la.. Seus olhos não estavam mais inchados. disse: — Eu pensei duas vezes. — Bem . — Mas o que teria feito — perguntou. — Teria ficado? Ou saído para me procurar? Renn limpou o nariz com as costas da mão. — Sobrevivemos! A tempestade passou — disse Renn — e estou com cãibra . Após um instante. mas o rosto estava vermelho e descascando. — Quem sabe? Mas talvez. Ela ficou calada. Torak acordou para um silencioso brilho azul. teria pensado duas vezes em deixar a caverna de neve.Ela sacudiu a cabeça. e não sair para procurar você. Torak também. Quando ela riu.garantiu ela —. Pensei em ficar. Você estava colocando o Nanuak em risco. — no pescoço. obviamente doeu. Não sabia onde estava. Então deu-lhe seu largo sorriso de dentes afiados. Torak não sabia se se sentiu melhor ou pior por ter-lhe contado. Aconchegado em seu saco de dormir. disse: — Se fosse eu.. quem sabe foi outro tipo de teste? — Não se você seria capaz de encontrar a terceira parte do Nanuak. Torak ficou calado. eu teria feito a mesma coisa. Então. mas se seria capaz de pô-lo em risco por um amigo. — Ai! — grasniu.

A tranqüilidade era absoluta. — Agora. Lobo brincando de morder e arrancar o cabelo de Torak. Torak tentou dar o bote. com o rabo sobre as costas. rolaram várias vezes. arreganhando os dentes e balançando o rabo. Sem aviso. Provavelmente. O céu era de um azul intenso. Antes que ele conseguisse levantar. Então venha! Lobo arremessou-se para Torak e. juntos. Lobo deu um dos seus espantosos saltos torcidos e a abocanhou. mas logo se arrependeu. Torak jogou uma bola de neve bem alto. Torak tateou atrás da sua machadinha e abriu um buraco na neve. tudo o que temos a fazer é sair do rio de gelo — disse ele. derrubando-o em um monte de neve acumulada pelo vento. Ele emergiu em um resplandecente mundo de colinas de neve e espinhaços esculpidos pelo vento. mas Lobo esquivou-se de seu alcance. Lobo lançou-se sobre ele. em seguida girou em pleno ar e curvou a cabeça em reverência. ouviu Renn sair da caverna de neve.Ele devolveu o sorriso. e Torak de agarrar seu focinho e de puxar o pêlo de seu cangote. . pousando num monte de neve e emergindo com um primoroso montinho de neve no topo do focinho. A luz jorrou para dentro e Lobo disparou para fora. Finalmente. Enquanto Torak lutava esbaforido para se pôr de pé. como se tivesse acabado de ser lavado. A sensação em seu rosto era como se este tivesse sido esfregado com areia. Gargalhando. Torak rastejou atrás dele. apoiado nos antebraços. Vamos brincar! Torak abaixou-se. Lobo gania para que o deixassem sair. O rio de gelo voltara a dormir. sua aparência era semelhante à de Renn. Lobo pulou para seu peito.

Espero - bocejou ela - que não estejamos muito longe da floresta.

O que houve com sua capa? Estava para lhe contar que a tempestade a havia descosido e a levado embora, quando se virou — e esqueceu a capa. A leste além da caverna de neve — além do próprio rio de gelo — as Montanhas Altas estavam terrivelmente perto. Por muitos dias a neblina as escondera; então, no dia anterior, os rochedos de gelo haviam assomado tão próximo que nada pôde ser visto além deles. Agora, sob a luz clara e fria, as montanhas devoravam o céu. Torak vacilou. Pela primeira vez em sua vida, elas não eram apenas uma distante escuridão no horizonte oriental. Ele estava de pé sobre as próprias raízes das montanhas: esticando o pescoço para as vastas e abruptas faces de gelo, para os picos negros que perfuravam as nuvens. Sentia seu poder e ameaça. Eram a residência de espíritos. Não de homens. Em algum lugar entre elas, pensou, está a Montanha do Espírito do Mundo. A montanha que eu jurei encontrar.

VINTE E SETE O olho vermelho erguia-se. Torak tinha apenas poucos dias para encontrar a montanha. Mesmo se ele a encontrasse, e daí? O que teria de fazer realmente com o Nanuak? Como conseguiria destruir o urso? Os pés de Renn trituravam ruidosamente a neve para se manter ao lado dele. — Ora vamos — disse ela. — Temos de sair do rio de gelo e

voltar para a floresta.

Naquele momento, Lobo deu uma arrancada e correu para o topo de uma elevação de gelo, virando as orelhas na direção do sopé. — O que foi? — cochichou Renn. — O que ele ouviu?

Então Torak também ouviu: vozes distantes nas montanhas, movimentando-se no vento, a constantemente mutável canção da alcatéia de lobos. Lobo arremessou a cabeça para trás, apontou o focinho para o céu, e uivou. Eu estou aqui! Eu estou aqui! Torak ficou abismado. Por que ele uivava para uma alcatéia estranha? Lobos solitários não fazem isso. Tentam evitar lobos estranhos. Com um ganido, pediu a Lobo que viesse até ele — mas Lobo permaneceu onde estava: olhos semicerrados, lábios negros pressionados contra os dentes enquanto emitia sua canção. Torak notou que ele parecia bem menos um filhotinho. Suas pernas estavam mais compridas, e ele estava desenvolvendo um manto de espesso pêlo negro em volta dos ombros. Até mesmo seu uivo estava perdendo a modulação típica de um filhote. — O que Lobo está falando para eles? — perguntou Renn. Torak estancou. — Está lhes dizendo onde ele está. — E o que eles estão dizendo? Torak escutou, sem tirar os olhos de Lobo. — Estão falando com dois da sua alcatéia: sentinelas que foram

até a urjedos à procura de renas. Parece que... — deteve-se. — Sim, encontraram uma pequena manada. As sentinelas estão dizendo aos outros onde ela está, e que eles devem uivar com os focinhos na neve.

— —

Por quê? Do que adianta? E um truque que os lobos fazem, às vezes, para que as

renas pensem que eles estão mais distantes do que estão na realidade. Renn pareceu preocupada. — Você entende tudo isso?

Ele deu de ombros. Ela cavou a neve com o calcanhar. — — Não gosto quando você fala lobo. É esquisito. Eu não gosto quando Lobo fala com outros lobos —

disse Torak. — Isso também é esquisito. Renn perguntou o que Torak queria dizer com aquilo, mas ele não respondeu. Era doloroso demais colocar em palavras. Começava a se dar conta de que, embora soubesse a fala de lobo, ele não era, nem nunca seria, lobo de verdade. De certo modo, ele sempre viveria separado do filhote. Lobo parou de uivar e desceu correndo da elevação. Torak ajoelhouse e colocou o braço à sua volta. Sentiu os excelentes ossos leves sob a densa pelagem de inverno. Ao se curvar para sentir o odor de capim-cheiroso do filhote, Lobo lambeu seu rosto, depois pressionou delicadamente sua testa contra a de Torak. Torak fechou os olhos bem apertado. Nunca me deixe, quis dizer a Lobo. Mas não sabia como diz-lo. Partiram para o norte. Foi uma longa e exaustiva caminhada. A tempestade compactara a neve em montes congelados, com depressões entre eles na altura dos quadris.

Atentos a buracos no gelo, cutucavam com flechas a neve adiante, o que os retardava ainda mais. Sentiam sempre as montanhas observando-os, esperando para ver se eles fracassariam. Ao meio-dia tinham feito muito pouco progresso, e ainda estavam dentro do raio de visão da caverna de neve. Então, se depararam com um novo obstáculo: uma parede de gelo. Era íngreme demais para escalar, e dura demais para ser atravessada cortando-a. Outra das cruéis piadas do rio de gelo. Renn disse que faria uma investigação enquanto Torak esperava com o filhote. Ele ficou feliz com o descanso: já sentia o peso da algibeira de pele de corvo. — Cuidado com os buracos de gelo — alertou, observando ansiosamente enquanto ela vasculhava o interior de uma fenda entre duas das mais altas presas de gelo. — Parece que há um meio de se passar por aqui - gritou ela. Livrandose da mochila, espremeu-se por ali, e desapareceu. Torak estava para ir atrás de Renn, quando ela enfiou a cabeça para fora. — Oh, Torak, venha ver! Conseguimos! Conseguimos!

Lobo saltou atrás dela. Torak livrou-se de sua mochila e seguiu-os Detestou ter de se enfiar pela fenda — ela lhe lembrou a caverna — mas ao chegar do outro lado, ficou abismado. Ele olhava abaixo para uma baralhada torrente de gelo semelhante a uma queda-d'água congelada. Abaixo dela estendi-se uma longa encosta com pedras cobertas de neve e, logo depois, a uma distância que um seixo jogado dali percorreria facilmente, ficava a floresta.

Nunca pensei que a veria novamente — comentou Renn

ardorosamente. Lobo ergueu o focinho para captar os cheiros, depois olhou de volta para Torak e balançou o rabo. Torak não conseguia falar. Não imaginara o quanto doeria — e ainda doía — ficar fora da floresta. Eles ficaram apenas três noites distantes, mas a sensação era de que tinham se passado luas. Por volta do meio da tarde, alcançaram o último cume de gelo e começaram a descer Ziguezagueando a encosta. As sombras tornavam-se violeta. Os pinheiros acenavam com seus galhos pesados de neve. Foi um enorme alívio estar entre eles, fora do campo visual das montanhas. A quietude, porém, era enervante. — Não pode ser o urso — cochichou Renn. — Não havia sinal

dele no rio de gelo. E se desse a volta pelos vales ele demoraria dias. Torak olhou para Lobo. Suas orelhas estavam para trás, mas o pêlo do cangote estava baixado. — Não creio que ele esteja perto — disse ele. — Mas também não está longe. — Olhe ali — mostrou Renn, apontando para a neve sob um pé de zimbro. —- Pegadas de pássaros. Torak inclinou-se para examiná-las. — Um corvo. Caminhando, e não pulando. Isso significa que

não estava com medo. E aqui há também um esquilo. — Apontou para um bando de pinhas dispersas na base de um pinheiro, cada qual roída até o

Sua carcaça nem mesmo alimentou as outras criaturas da floresta Nem raposas nem martas chegaram perto dela. O auroque estava deitado de lado como uma enorme pedra marrom. A luz esmorecia. — Hum. — Congelada. os auroques são criaturas gentis que somente usam seus chifres para lutar por fêmeas. — Torak espreitou a escuridão. e a distância entre seus negros chifres brilhantes seria quase tão grande. e depois assentiu. Ainda consigo enxergar alguns sinais de pêlo. — Essa não parece uma matança recente — observou Renn. ele conseguiu distinguir as pegadas do urso. alertou Torak. ou defender suas crias. — Se são frescas. correndo em círculos. Em vida e de pé ele se mostraria mais alto do que o maior dos homens.centro. O touro de focinho rombudo não merecia uma morte tão brutal quanto aquela. e não queria que Lobo as tocasse. Muito frescas. — Para trás. não é mesmo? Torak examinou a carcaça. e sentiu um acesso de raiva. — Isso tem importância. Nada tocaria a presa do urso. Cutucou-a com uma vara. mesmo assim. — E pegadas de lebre. . — Mas aquilo não é. nem corvos se banquetearam ali. com o pêlo do cangote eriçado. cuidadosamente evitando tocar nas pegadas.deduziu Renn. Um dia ou mais. Torak olhou abaixo para o enorme animal aniquilado. mas. é um bom sinal . deixando-o em meio a uma agitada bagunça de neve encarnada. Mas o urso abrira sua barriga com um talho. Apesar de seu tamanho. como uma maçã. — Uff! — fez Lobo. pelo menos.

Ele esquecera. e eles foram cercados por várias figuras altas vestidas de branco.. Eu pensei. finalmente — disse Hord.Atrás dele.Ele está tentando nos ajudar! Não pode tratá-lo como a um pária! — Então veja — disse Hord. Torak e Renn encaravam um agitado círculo de flechas. Novamente. Lobo correu para as sombras. — Não sei por que — disse Renn —. — Peguei-o. Olhe atrás de você. arrastando Torak pela neve. ele se aproximou de Renn. agora que estamos de volta à floresta. seu cabelo ruivo-escuro parecia quase negro.. Costas com costas. a neve abaixo das árvores irrompeu. De repente. . Mas Torak nunca soube o que ela pensou. . eu pensei que estaríamos mais seguros. já que a caça não era fresca.mas para aqueles silenciosos assaltantes.berrou Renn. No lusco-fusco. que já encaixara uma flecha no arco. VINTE E OITO — Por que está fazendo isso? . Tarde demais. Torak ficou imaginando por que ele estava tão agitado. Com a faca em uma das mãos e a machadinha na outra. Torak. A mais alta das figuras de branco avançou e jogou para trás o capuz. Torak deu-se conta de que Lobo não estivera rosnando para o auroque . Lobo rosnou.

— Temos de alcançar o acampamento antes da escuridão. Foi um violento golpe no rosto. Fiquei feliz. — Mas ele é o Ouvinte — disse Renn. com as mãos amarradas às costas. — Bem. — O que está fazendo? — gritou Renn. enquanto observava Renn sentar-se.Torak pelejava para ficar de pé. Não havia esperança de fuga: estava cercado por Oslak e quatro homens fortudos dos Corvos. Fin-Kedinn não falou por três dias. — Você não é mais minha irmã — disparou. . Sem alterar o passo. Oslak grunhiu um protesto. — Por que eu deveria? Quem disse que você pode.. —Devolva! — Veja como fala comigo! . sacou sua faca e cortou a bolsa do cinturão de Torak. Um vinco vermelho surgia em sua face. que a fez voar para trás e aterrissar num monte. Você traiu o seu clã e me envergonhou. — Posso provar! — Apontou para a algibeira de pele de corvo na cintura de Torak. Queria que estivesse mesmo morta. mas conteve-se diante da advertência de Hord. — Mais depressa! — insistiu Hord. agora são minhas. mas não era fácil. — Você não devia ter batido nela — disse Torak. — Ele encontrou todas as três peças do Nanuak! — Foi? — murmurou Hord.vociferou Hord. Este respirava com dificuldade. Hord deu-lhe um tapa. Renn passou a mão trêmula pelo lábio.. Estava sangrando. mas eu não sofri. — Pensamos que estava morta quando encontramos a sua aljava no rio.

os olhos esforçando-se para perfurar a escuridão. O acampamento não está longe. — sua voz falhou. um par de olhos âmbar.. Seu coração disparou.Oslak curvou-se e ofereceu sua mão. — Vocês o seguem. a atenção de todos estava em Renn. Felizmente. Perto dali. — Logo colocaremos um cataplasma nisso aí. — Não é tão simples assim — disse Oslak. — Pare de olhar para mim — rosnou. — Matou dois dos nossos. . encontrava-se diante de uma sombra esquelética. — Venha. não havia como se saber o que ele poderia fazer. em vez de Fin-Kedinn? Os homens inclinaram a cabeça. Renn ignorou-o e pôs-se de pé sem aceitar a ajuda. Em vez do jovem robusto com quem lutara há menos de uma lua. — Hord — disse Oslak —. e a mão que agarrava o Nanuak não tinha unhas: apenas feridas secretantes..Hord virou-se para ele: — Não se meta nisso! Torak olhou duro para Hord — e ficou chocado com a transformação ocorrida nele. o urso — murmurou. . — O meu irmão agora é Líder de Clã? — indagou.. Se Hord viu Lobo. Hord virou-se. Renn. Matou. — O urso atacou três dias atrás. Algo o corroía por dentro. — O urso.. Olhando a trilha adiante. O urso. Torak captou um tremeluzir laranja na escuridão que se tornava cada vez mais profunda. nas sombras sob um jovem abeto. como se só de pensar nisso doesse... precisamos continuar andando. Os olhos de Hord estavam descarnados pela falta de sono.

Renn pressionou as mãos contra a boca e saiu correndo em direção ao acampamento. mas. — Renn! — gritou Oslak.. — Se ele morrer.? — Gravemente ferido — disse Hord.O sangue escorreu do rosto de Renn. Certamente. O grandalhão fez que sim e afastou-se. —Ele está. Você sabe disso. mas Hord o interrompeu.. — Sua parte nisso já se encerrou — falou para Torak. tocando a mão de Oslak. Nem mesmo sabia os nomes dos outros homens dos Corvos. eu serei o líder. — E Fin-Kedinn? — perguntou Renn ruidosamente. Ela se aproximou de Oslak. Torak senti-se totalmente sozinho. Como poderia ajudar seu irmão de alcatéia? Por que estava tudo tão confuso? . cuja testa e maçãs do rosto estavam marcadas com argila cinzenta do rio.sussurrou ela. — Não . faça com que Hord me devolva o Nanuak! É a nossa única esperança. — Oslak — implorou —. — Eu levarei o Nanuak para a montanha! Eu oferecerei o sangue do Ouvinte para salvar o meu povo! Lobo estava tão amedrontado que queria uivar. — Volte! — Deixe-a — disse Hord. Quando ela sumiu de vista. Torak não sabia o que significavam as marcas. quando Renn as viu. engoliu em seco. Oslak começou a falar.

e Lobo captou uma onda de cheiros do grande covil dos Sem-Rabos.. Sentia. chamado de focinho molhado distante apenas uma garra. Desviou as orelhas dos distantes uivos da estranha alcatéia: a alcatéia que já não soava como estranhos. pelejava contra a fome mordendo a própria barriga. Sons e cheiros o sobrecarregaram. mau. Tinha de ignorar aquilo tudo. mastigou um galho. mau! Sua coragem falhou. Lobo sentia a dor e o medo dele. Ansiou pela estranha certeza que às vezes lhe ocorria e lhe dizia o que fazer. e o cheiro dos lemingues. mas como parentes distantes. Não eram capazes de ouvir ou farejar muito. Como ajuda para pensar.. Pior de tudo eram os próprios Sem-Rabos. Seu irmão de alcatéia corria perigo. e muitos dos Bichos-Brilhantes-queMordem-Quente. que agora era tão forte que a sentia o tempo todo e o temor do demônio ele farejou no vento. Ela não veio. mas compensavam isso fazendo coisas inteligentes com suas patas dianteiras. a ira dos adultos e seu medo. O vento mudou. depois um pedaço do Frio Macio Brilhante. Lutou contra a Atração. e enviando a Longa-Garra-que-VoaLonge para morder a presa. com cães furiosos que não davam ouvidos. disparou para baixo de uma árvore caída. Choramingando. também. O que ele devia fazer? .Ao seguir os Sem-Rabos adultos através do Frio Macio Brilhante. Eles temiam Alto Sem-Rabo. O covil significava um terrível perigo. Voara como um corvo para o Alto. Nada funcionou. Mau. Lobo não sabia se devia fugir ou ficar. Correu em círculos. Era imenso e intrincado.

batedores ou sentinelas tinham encontrado sinais do urso a apenas dois vales dali. — Mais depressa — disse Hord. Ela não o viu. Torak esqueceu o frio enquanto cambaleava em direção ao clarão da fogueira comprida e ao zumbido de vozes como se ele estivesse numa colméia de abelhas furiosas. — Ele está ficando mais forte — disse ele. Torcia para que não pensassem que ele sentia medo. Parecia até que todo o clã viera para o norte. vigiadas por homens com lanças.. Em volta dele. As pessoas amontoavam-se em volta da fogueira comprida. Oslak desamarrou seus pulsos e colocou a mão em seu ombro para guiá-lo até a clareira. estava congelando. A marcha forçada de Hord o mantivera aquecido mas agora. "Culpa sua".. em seguida um círculo de fogueiras menores e armadilhas no chão. pareciam lhe dizer. falando insistentemente. Agrupados em volta dela estavam os abrigos inclinados do clã. Os Corvos haviam acampado em uma clareira próximo a um riacho das montanhas. as árvores carregadas de neve projetavam na trilha sombras da luz azul. perdera o Nanuak. . Torak começou a tremer. Ele avistou Renn e seu ânimo aumentou. com sua roupa de verão de pele de gamo. A culpa fora toda sua. Estava ajoelhada na entrada de um abrigo do outro lado da clareira. De acordo com Oslak. Por causa de sua negligência. O ar estava denso de medo. uma fogueira comprida formada por três toras de pinheiro ardia na cor laranja. — Rasgando toda a floresta como se. como se procurasse alguma coisa. Hord correu adiante enquanto Torak esperava com Oslak perto de um dos abrigos. No centro da clareira.Torak culpava a si mesmo. cutucando-o nas costas.

— Fez uma pausa. — A pergunta é. Fez-se silêncio. O Corvo Líder fez contato visual com ele. Foi o único sinal que ele deu de seu sofrimento. se virando sozinho? Ou devemos enviar o nosso caçador mais forte: um homem adulto com uma chance muito maior contra o urso? . Renn apareceu. Dyrati observava Hord. a seu lado. não sabíamos quem. sua voz soando clara —. Colocou-o atrás de Fin-Kedinn para ele se apoiar. Hord ainda teria que esperar um pouco mais para se tornar Líder de Clã. o rosto contraído. As pessoas abriram caminho para os quatro homens que conduziam Fin-Kedinn em uma liteira feita de couro de auroque. de pernas cruzadas sobre uma pilha de peles de rena com a algibeira de pele de corvo no colo. devemos deixar que ele leve o Nanuak para a montanha? Um menino. Os olhos azuis estavam mais intensos e impenetráveis do que nunca. O rosto do Corvo Líder revelava cansaço. ele encontrou as três peças do Nanuak. mordia o polegar. Hord. Seu rosto contraiu-se ligeiramente quando os homens o pousaram ao lado da fogueira. depois aconchegou-se a seu lado em uma pele de rena. e Torak sentiu uma descarga de alívio. Desde então. — Quando encontramos este garoto — disse Fin-Kedinn. Oslak cutucou-o nas costas e ele deu alguns passos vacilantes para mais perto da liteira. rolando um pedaço de toro de pinheiro.Avistou Saeunn. mas manteve o olhar no fogo. e sua perna esquerda estava enfaixada por moles ataduras manchadas de sangue. — Não tenho mais dúvidas. Ele é o Ouvinte. E salvou a vida de um dos nossos. Não olhou para Torak. ou o que. ele era.

” — Você seria capaz disso? Torak inspirou fundo. olhando para o céu da noite onde resplandecia o Grande Auroque. por todos os clãs.Em poucos dias. O coração de Torak afundou. ."O Ouvinte dá o sangue de seu coração à Montanha. . — O único ruído era o sibilar e o crepitar do fogo. o urso estará forte demais para ser superado. Não podemos convocar uma reunião de clã. Os Corvos estavam atentos a cada palavra. — Nós o matamos agora e eu levo seu sangue para a montanha! Pelo menos.Hord parou de morder o polegar e aprumou-se. — Se isso for necessário. — Seria mesmo uma loucura! Eu sou o mais forte! Deixe-me ir à montanha e salvar o meu povo! — — Você não é o Ouvinte— alegou Torak. Preciso decidir isso agora. — Mas há outra maneira! — gritou Hord. . — O tempo é curto — declarou Fin-Kedinn. — Há muitos entre nós — prosseguiu Fin-Kedinn — que dizem que seria loucura confiar o nosso destino a um menino. não há tempo. teremos uma chance! Um murmúrio de aprovação veio dos Corvos. nesse caso. E quanto ao resto da profecia? — observou Saeunn com seu grasnido de corvo. Hord levanto-se de um salto.

Abriu os braços. — Dizem que é o pico na extremidade mais ao norte das Montanhas Altas. Hord hesitou. aqui estamos nós. Pois bem. Renn levantou-se. Fiz um juramento. na extremidade mais ao norte das Montanhas Altas. — Também maior do que a vaidade . . — O urso matou meu pai. — Você sabe? — Não — respondeu ele. — Virou-se para Hord. — Você sabe? Não. E falou para Fin-Kedinn — Não me importa ser "o salvador do meu povo". — Encarou Fin-Kedinn. onde está ela? . E isso que me impele. — Você sabe? Ele trincou os dentes. Renn dirigiu-se a Saeunn.rebateu Torak. E você é a maga. — Isso é maior do que vingança . Por que tanto entusiasmo agora? Torak ergueu o queixo. e então falou para Torak: — Você costumava negar que era o Ouvinte. Era Renn. Que povo? — Nunca conheci o meu próprio clã.escarneceu Hord. — Estamos perdendo tempo — disse Hord. — Eu não sei. Mas jurei para o meu pai que encontraria a montanha. — Me dê o Nanuak e eu cuidarei disso! — Como? — perguntou uma voz tranqüila. — Como encontrará a montanha? — quis saber ela. Bem.Fin-Kedinn levantou a mão pedindo silêncio.

— Olhou diretamente para Torak. Torak entendeu o que ela quis dizer. Isto é.Deixe-me levá-lo ao Espírito do Mundo. Fora necessária uma enorme quantidade de coragem de Lobo para responder ao seu chamado. Com a diminuição da barulheira. os cães ficaram como loucos até os homens os enxotarem. — Devolva-me o Nanuak — implorou Torak. Torak uivou. Então deu uma lambida agradecida no focinho do filhote.. Foi somente por sua causa que encontramos o Nanuak. — Fez uma pausa. — Mas alguém sabe. É a nossa única chance. desde que funcione. seus olhos perfurando os dele. Novamente. Renn Esperta. Torak ajoelhou-se e enfiou o rosto no pêlo de Lobo. . Torak levantou a cabeça. e é o Ouvinte. As pessoas murmuraram e apontaram. — Nem mesmo ele sabe onde fica. O Corvo Líder passou a mão pela sua barba ruivo-escura. — Foi ele quem nos trouxe até aqui. . Os Corvos engoliram em seco. De repente. Ele colocou as mãos sobre os lábios e uivou.. Uma criança pequena riu. pensou. — Somente Lobo é capaz de encontrar a montanha — falou para Fin-Kedinn. uma listra cinzenta atravessou velozmente a clareira e chocou-se com ele.Renn apontou para Torak. Os cães do acampamento saltaram em rebuliço.

que media Torak para lhe providenciar roupas de inverno. Tinha olhos cansados e marcas de argila do rio nas faces — e estava furiosa com ele. Disse ele: — Estou acostumado com minhas botas. Finalmente. — — O quê? — perguntou ele. Mesmo se alcançassem a montanha. Os Corvos esperavam a decisão de seu líder.repetiu a mulher. Torak e Lobo se aventurariam na floresta assombrada pelo urso — e Torak não tinha a menor idéia do que faria. ou remendamos as suas? — perguntou rispidamente a companheira de Oslak. Botas . — Hum. o que faria a seguir? Simplesmente deixaria o Nanuak no chão? Pediria ao Espírito do Mundo que destruísse o urso? Tentaria combatê-lo por conta própria? — Você quer botas novas. Hord emitiu um protesto. mas Fin-Kedinn o silenciou com um olhar. dirigiu-se a Torak: — Quando você parte? Torak hesitou.. Amanhã? VINTE E NOVE No dia seguinte. Renn deu-lhe um breve aceno com a cabeça. .. Fin-Kedinn falou: — Nós lhe daremos comida e roupas para a viagem. Novamente. Talvez você pudesse apenas. Quando parte? Torak resfolegou.O fogo crepitava e cuspia. Ele não sabia por quê. Neve caiu com um ruído surdo de um abeto próximo.

comentou ela. sente-se! Torak sentou-se e observou-a dar nós para marcar as medidas. A companheira de Oslak apanhou um pedaço de tendão e virou Torak de costas para medir seus ombros. vai servir perfeitamente — murmurou. — Devo tirar minhas roupas? — Não. as orelhas recuadas. — Está olhando o quê? — Nada — respondeu ele. — se. Ele as entregou e ela olhou-as como se fossem um par de salmões podres. Torak queria agradecer-lhe por ter ficado do seu lado. Você terá as roupas novas ao Ah. Foi um alívio quando ela se precipitou para fora do abrigo. me dê as botas. — Acho que sou capaz — Obrigado — agradeceu Torak humildemente. mas não sabia como começar. Seus olhos estavam úmidos e ela piscava rapidamente. Olhou para Lobo. — Bem. O silêncio alongou-se. Ela coçou atrás das orelhas dele. Agora. Pegou-o olhando. sente- amanhecer. Não fazia muito tempo que havia saído quando Renn entrou. . — Mais buracos do que numa rede de pesca . a não ser que queira congelar.— de fazer isso! Remendá-las? — Deu uma bufada. Lobo foi até ela e lambeu seus dedos. que estava agachado num canto.

Mas não há nenhum E Fin-Kedinn? — perguntou ele. São as suas roupas novas. ficou muito zangado com você? — Ficou. — ruim? — Péssima. Eu vou com você. O machucado na bochecha de Renn tornar-se roxo. Pobre Oslak. ele perguntou se doía. Agora terá de terminá-las para você. — Acho que tem de ser apenas eu e Lobo. — Por que então veio aqui? — Amanhã. — Isso é bom. — Vedna? Ah. Ele deduziu que ela estava envergonhada do que o irmão fizera. — Pobre Vedna. Ela sacudiu a cabeça. Mas não é por isso que vim aqui. Deve ser o modo dos Corvos de manifestar luto. O ferimento vai até o osso. A companheira de Oslak? Não creio que ela goste de mim. — Oh. pensou ele..— Como você se arranjou em companhia de Vedna? ..perguntou Renn abruptamente. Torak mordeu o lábio. — A perna dele está muito sinal de doença de enegrecimento. —Hesitou: — Ele. . — O filho dela? Morto pelo urso. E aquilo explicava a argila do rio. — Não é isso. Ela as estava fazendo para o filho dela. Ela olhou-o fixamente.

. Então. — Você vai fazer a refeição da noite com ele — disse ela. foi até a fogueira na entrada do abrigo. ela condescendeu: — Se quiser. Mas é assim que é. — Esse é um outro motivo. caso você não saiba. Outro silêncio. — Trata- se de uma honra. de um modo estranho. Não. Fazer a refeição noturna com ele parecia desanimador. Tinha medo de Fin-Kedinn. Ele nunca permitiria.— Por quê? — Não sei. Apenas acho. Ela assentiu. posso ficar com Lobo. — — Você também vai estar lá? . — Você parece Fin-Kedinn. E melhor não deixá-lo sozinho com os cães. mas. — Desde quando deixei que isso me impedisse? Ele sorriu. Então viu seus pés descalços. Parecendo ameaçadora. Ela não sorriu de volta. — Obrigado. — Oh. também queria sua aprovação. Torak engoliu em seco. —Talvez. — Isso é estupidez.perguntou.

Torak sentou-se sobre uma pele de rena com as pernas cruzadas. mas as pessoas estavam atarefadas com peles de cozinhar perto da fogueira comprida. Torak seguiu para o abrigo de Fin-Kedinn. e a parca branca de couro de rena. Torak fez a mesma coisa. O homem colocou ambos os punhos sobre o coração e curvou a cabeça. — Este é Krukoslik — anunciou Fin-Kedinn —. mas pararam quando ele entrou. Ficou imaginando quando iriam comer. Não via nenhuma comida. O rosto de Fin-Kedinn nada denunciava. . — Sim falou . tropeçando com suas botas emprestadas. Saeunn parecia furiosa. Encontrou o Corvo Líder numa acalorada conversa com Saeunn. Não era mais distinto do que os outros e da estaca do teto pendia o costumeiro equipamento de caçador mas a corda do grande arco de teixo estava quebrada. Torak notou um homem observando-o das sombras. do Clã da Lebre da Montanha. Algum tempo depois. — Eu lhe falei o que penso . que eram muito maiores. o que o deixou livre para examinar o abrigo de Fin-Kedinn. E o que ele estava fazendo ali.— Verei se consigo um par de botas para você. respingada com sangue ressecado: lembranças vivas de que o Corvo Líder havia enfrentado o urso e sobrevivera. De repente. Não tentaram incluir Torak na conversa.disse Fin-Kedinn indiferente. Tinha cabelo castanho curto e feições escuras e finas.disse Saeunn.

apenas uma pele de água e nada de comida. ele lhe dará algumas dicas sobre como sobreviver nas montanhas. Até mesmo deixei que ficasse com o seu filhote de lobo. não tem serventia para ninguém. — Converse com ele antes de partir. Não foi isso o que seu pai lhe ensinou.— Krukoslik conhece esta região melhor do que ninguém — disse Fin-Kedinn. — Está querendo dizer.. Torak pensou a respeito. — Eu o conheci. — Quer dizer que o conheceu? Saeunn agitou-se. por que me sentenciou à morte? Por que deixou que eu lutasse com Hord? Por que me manteve amarrado enquanto a reunião do clã decidia se eu seria ou não sacrificado? — Para ver do que você foi feito — disse Fin-Kedinn calmamente. — Fez uma pausa. Sem roupas de inverno. que estava me testando? Fin-Kedinn não respondeu.. No mínimo. Saeunn virou-se de costas. — Se você não consegue usar a inteligência. Houve uma época em que ele era o meu melhor amigo. . — Se você foi o melhor amigo dele. Deu-me pena o estado em que você se encontrava quando o capturamos. mas Fin-Kedinn acalmou-a com um olhar. Torak ficou sem fôlego. Furiosa. — Sim — disse ele. Torak também começou a sentir-se furioso. — Você deve se lembrar que não o mantive sob vigilância cerrada.

e um largo cinturão feito de couro de veado-vermelho. Torak estava faminto demais para se preocupar. que pendia até a barriga da perna. Torak nunca vira alguém como ele. Tratava-se de um caldo ralo feito de cascos de alce cozidos e algumas lascas de coração seco de veado. — Essa foi a única referência que fez ao urso. entregando uma delas a Torak. mas a presa está escassa. Krukoslik pendurou sua colher no cinturão e foi se ajoelhar perto da pequena fogueira na entrada do abrigo onde murmurou uma breve oração de agradecimento. Saeunn levou-as de volta para a pele de cozinhar. assam um bolo achatado feito de farinha de bolota de carvalho: muito amargo. . — Lamento não podermos oferecer algo melhor — disse Fin- Kedinn —. Fin-Kedinn jogou-lhe uma colher de chifre e. mas não muito ruim depois de feito em pedaços e misturado ao caldo. — Coma — disse Krukoslik. Juntamente com este. depois retornou ao seu lugar. tingida de vermelho berrante e sua tatuagem de clã era uma tira vermelha em ziguezague de lado a lado da testa. Sua pele de clã era uma capa de pele de lebre sobre os ombros. do comprimento de um dedo. por uns instantes. carregando quatro fumegantes tigelas de madeira de bétula. acompanhado de bagas de sorveira-brava e o duro e sem gosto cogumelo que os clãs chamam de orelha de auroque. Em seu peito pendia um fragmento. de um cristal de rocha enfumaçado. Somente quando lambeu sua tigela notou que Fin-Kedinn e Saeunn mal tinham tocado nas deles.Dois homens vieram da direção da fogueira principal. Vestia um enorme manto de couro de rena parda. Torak esqueceu-se de tudo enquanto se dedicava a aplacar a fome.

— Saeunn não acha que você deva receber mais informações — comentou Fin-Kedinn. . — Eu quero saber de tudo. Torak refletiu a respeito. Saeunn sibilou furiosamente e deixou apressadamente o abrigo. — Mais informações sobre o quê? — quis saber Torak. — Sobre o que você deseja saber. Tente novamente. Fin-Kedinn pediu aos demais que se retirassem para que ele pudesse falar a sós com Torak. — Entendo perfeitamente — disse ele.Ele viu Torak olhando para aquilo e sorriu. — Segundo ela. Torak ficou imaginando o que viria a seguir. — Por que eu? Por que eu sou o Ouvinte? Fin-Kedinn cofiou a barba. Com o final da refeição noturna. — Não é possível. Krukoslik levantou-se e fez uma reverência. isso o distrairia amanhã. Torak lembrou-se do conforto que o fogo dera a ele e a Renn na caverna de neve. Torak cavoucou um rasgão no joelho de sua perneira. O sorriso de Krukoslik aumentou. Clãs da Montanha veneram o fogo acima de tudo o mais. — Fumaça é a respiração do Espírito do Fogo.

Sem virar a cabeça. fascinado por demônios. — É por causa do meu pai? Porque ele foi o Mago Lobo? O inimigo do aleijado errante. sempre tentando controlá-los. Então você deve ser o único na floresta que não ouviu falar. — Os Devoradores de Almas — prosseguiu — eram sete Magos. Um deles era orgulhoso e ambicioso. No início. Nunca ouvi falar neles. . Dizem que um outro podia convocar os mortos. — Novamente. Uma outra pensava em voar mais veloz do que um morcego. atiçou o fogo. — Fin-Kedinn ficou em silêncio.— Isso é uma longa história. não eram maus. apenas parte.. Mas quem era ele? Por que eram inimigos? Pa nunca nem mesmo o mencionou. Cada um tinha sua habilidade particular. Um deles era ardiloso como uma cobra. desejava conhecer as mentes das árvores. — — Não. que fez o urso? — — Isso é. sempre pesquisando a sabedoria as ervas e poções. Ajudavam os seus clãs. Com um graveto. Outro era forte como um carvalho. cada qual de um clã diferente. e Torak viu rugas de dor aprofundand0-se em cada canto de sua boca. o Corvo Líder atiçou a fogueira. FinKedinn indagou: — Alguma vez o seu pai mencionou os Devoradores de Almas? Torak ficou intrigado. a luz da fogueira marcando seu rosto com sombras.. Adorava enfeitiçar pequenas criaturas para cumprirem suas ordens.

Fin-Kedinn o ignorou. — O quê? — murmurou Torak. aconteceu algo que abalou o poder deles. — O homem que você chama de aleijado errante. — Por que são chamados de Devoradores de Almas? — perguntou mal movendo os lábios. pervertidos pela sua fome de poder. proteger contra demônios. Governar a floresta. — Acima de tudo... acreditando que queriam apenas fazer o bem. — Sua boca contorce-se com desprezo.Seu rosto tornou-se distante enquanto se recordava. era um deles. Os dedos de Torak apertaram seu joelho. treze invernos atrás. Alguns ficaram seriamente feridos.. — O que aconteceu? Fin-Kedinn suspirou. Iludiram a si mesmos. eles se uniram em segredo. . — Eles realmente devoram almas? — Quem sabe? As pessoas tinham medo e.. Estávamos enganados. . Achamos que a ameaça acabara para sempre. — Tudo o que você precisa saber é que houve um grande incêndio e os Devoradores de Almas se dispersaram... A princípio chamaram a si mesmos de Curadores. curar doenças. eram sete. — Quebrou o graveto em dois e jogou-o no fogo. Todos seguiram para esconderijos. — Muitos invernos atrás. — Em pouco tempo estavam chafurdando no mal. Então.Como ele não continuou. Forçar todo mundo a fazer o que eles queriam. os Devoradores de Almas queriam poder. o homem que criou o urso. Torak reuniu coragem e falou: — Foram apenas cinco. quando as pessoas têm medo rumores viram-se verdade. Era o motivo de suas vidas. Você disse que.

Saeunn sabia. — Ela nunca me contou. Novamente. Somente um Devorador de Alma poderia ter prendido um demônio tão poderoso — Encontrou os olhos de Torak. Ela não. Era para que eles jamais soubessem que você existia. — Mas.? — — Não — afirmou Fin-Kedinn.... Não entendo — disse Torak. na reunião do clã perto do mar.. — Seu pai fez muitas coisas erradas na vida. — — Ele nunca me contou nada.— — Um Devorador de Alma? Eu soube assim que Hord me falou sobre ele. Nem mesmo eu. cinco verões atrás. . — Isso não parece possível — murmurou.. olhava as chamas. — disse ele. Foi por isso que o mataram. Seu pai. Mas fez tudo o que podia para deter os Devoradores de Almas. — Seu pai era inimigo dele. Torak encarou-o.. — Por que os Devoradores de Almas não podiam saber a meu respeito? O que há de errado comigo? Fin-Kedinn examinou o rosto dele. Era o inimigo jurado de todos os Devoradores de Almas. E foi também por isso que ele o criou afastado de todos. Torak não conseguia afastar a vista do olhar de um azul intenso. Tinha motivos para isso. Pa contou a ela. — Eu? Por quê? Fin-Kedinn não o ouvia. — Ninguém sequer desconfiou de que havia um filho.

Hord tinha razão: aquela era uma luta para homens.. como se houvesse muita coisa a dizer.. seus olhos se detiveram nos de Torak. Torak deu um salto. virão atrás de você. — Mais uma vez. um dia. — Porque.— Nada.perguntou ele.. Mais cedo ou mais tarde. Eles não deviam saber a seu respeito porque. E que eu acredito que precisa saber. Mas com você.. eu estarei arruinando a minha vida? — Eu não disse isso. — — Eu? Como? Não sei. —Balançou a cabeça. Coisas pelas quais eu nunca o perdoarei. Sempre há uma opção. . acredito que ele fez a coisa certa... Torak ficou chocado. Você pode fugir ou lutar. — — Por que Pa nunca me contou nada disso? . Se sobreviver. se for bem-sucedido em destruir o urso.. Torak ergueu a vista para a parca manchada de sangue. se descobrirem que você existe. Uma brasa estalou. — Ele fez algumas coisas ruins. você talvez conseguisse detê-los. Saberão que você existe. Torak não conseguia falar. Seu pai sabia o que estava fazendo — disse Fin-Kedinn. — É isso que Saeunn não queria que você soubesse. Só sei que. — Quer dizer que.. eles virão atrás de você. Os Devoradores de Almas descobrirão o responsável. isso não será o fim. mesmo que sobreviva amanhã. e não para meninos.

— Fez uma pausa.. Ele não lhe ensinou a arte da magia ou a história dos clãs. A usar a inteligência. Mas não sabia onde ela estava dormindo. como sombras vistas de relance em um pesadelo... olhando a vultosa escuridão das Montanhas Altas. não tinha certeza se conseguiria contar-lhe sobre Pa — sobre as coisas ruins que Fin-Kedinn disse que ele fizera.. Torak ansiava por acordar Renn e contar-lhe tudo. . Os Devoradores de Almas. não será o fim. Lobo saíra para sua perambulação noturna. O rosto de Pa enquanto jazia moribundo.” Imagens terríveis rodopiaram em sua mente como uma tempestade de neve. os Devoradores de Almas virão atrás de você.— Pergunte-se isto. Ensinou-o a caçar. Ouvir o que o vento e as árvores estão lhe dizendo. Ouvir o que os outros caçadores e a presa estão dizendo sobre a floresta. Você pode fugir ou lutar.. Sempre há uma opção. Passava da metade da noite. e os únicos sinais de vida no acampamento eram os silenciosos Corvos vigiando as defesas e o ruído dos roncos vindos do abrigo de Oslak. — Se tiver sucesso amanhã. Estava sozinho. Os olhos assassinos do urso. "Se você sobreviver. é desse modo que você conseguirá. Além disso. Esse foi o presente que seu pai lhe deu. Torak: Por que a profecia fala no "Ouvinte"? Por que não o "Falador" ou o "Vidente"? Torak sacudiu a cabeça. — Porque a qualidade mais importante em um caçador é ser um ouvinte.. Usando a inteligência. mas Torak continuava sentado junto à fogueira comprida no meio da clareira.

— Quer ajuda? — perguntou Renn lá da porta. Seu rosto estava pálido e os olhos sombrios. Forçou-se a pensar. teria de usar a inteligência. Por que deixara aquilo para o último momento? Agora Lobo corria impacientemente para lá e para cá do lado de fora do abrigo. — Para que serve isso? — quis saber.” O vislumbre de uma idéia começou a perturbá-lo. devolvendo o chifre. TRINTA O s dedos de Torak tremiam tanto que ele não conseguia tirar a tampa de seu chifre de remédios.. "O Ouvinte luta com o ar e fala com o silêncio. Renn suspirou. O Ouvinte luta com o ar. O Espírito do Mundo somente o ajudaria se ele tentasse ajudar a si mesmo.disse ele. e os Corvos esperavam para vê-lo partir. percorreu as linhas da profecia. Marcas da Morte .Para afugentá-las. Não tinha idéia do que faria no dia seguinte. Mais uma vez.. — Como o homem no rio de gelo? Ele fez que sim... e ele nem mesmo conseguia tirar a tampa do. Se quisesse ter alguma chance contra o urso. levantou-se e começou a caminhar. Torak passou-lhe o chifre de remédios e ela arrancou com os dentes a tampa preta de carvalho... . sem olhar para ela. mas sabia que FinKedinn estava certo.

Não quero correr o risco de minhas almas se separarem. — Acrescentei mais absinto. estendendo a algibeira de pele de corvo. fechou os olhos.. Estou com você. O feitiço do despistamento vai funcionar. Derramou um pouco de ocre vermelho na palma e cuspiu nele. Trêmulo. — Não dá para saber. nuvens haviam descido das montanhas. onde rompia a alvorada azulescura. Ele ficou imaginando se isso o ajudaria ou o atrapalharia. Torak amarrou a algibeira ao seu cinturão. Lobo pressionou o corpo contra o dele. Eu sei. — Obrigado — murmurou ele. Durante a noite. estava muito seca. lambuzou círculos nos calcanhares.. Renn curvou-se e cuspiu em sua palma. Colocou a pata sobre o antebraço de Torak. Torak olhou além dela para a clareira. A última vez que fizera isso tinha sido por Pa. Sua boca. cobrindo a floresta com uma grossa camada de neve. Ao terminar o da testa. — Tem razão. e não conseguia fazer uma pasta. O urso não perceberá o Nanuak. colheu um pouco de neve. Você pode sobreviver. Em seguida. Não quero correr o risco de me tornar um demônio. Ela inclinou-se para afagar as orelhas de Lobo. — Tome — disse Renn. porém. Já podia sentir as Marcas da Morte endurecendo em sua pele. e me informei com Saeunn.— Mas ele sabia que ia morrer. esfregando seu cheiro nas novas perneiras. aqueceu-a nas mãos e acrescentou à mistura. . no tórax e na testa. Torak inclinou-se e esfregou o nariz no focinho dele.

— O que é? Ela pareceu surpresa. e o chifre escorregou de suas mãos. — Por quê? — Bem. Aquilo que levei quase a noite toda para fazer. O Corvo Líder estava de muletas. Isto é. Torak lembrou do chifre de remédios deixado para trás no abrigo. — Renn segurava um pacoti nho embrulhado em entrecasca de bétula. Foi Fin-Kedinn quem o apanhou. o que seria de seu plano? — Coloquei também algumas ervas purificadoras . Como era agradável o fato de Renn pensar à frente.comentou. e correu de volta para pegá-lo. Lobo emitiu um ganido impaciente e Torak inspirou fundo..avisou Renn. Torak ficou aterrorizado. se tornará impuro..— É melhor você levar isto também. o sangue fugiu de seu rosto. Ao examinar o chifre de remédios em sua mão. Ao sair. se você matar o urso. — O que você pediu. abriu sua bolsa de remédios com dedos trêmulos. Quando começaram a atravessar a clareira. . Se. um outro caçador qualquer. Hora de ir. Se partisse sem aquilo. O quanto era tranqüilizador ela pensar que ele tinha uma chance. Você precisará se purificar. Quase tinha esquecido. — Isto era de sua mãe . mesmo se há um demônio dentro dele. ele continua sendo um urso.

e Renn. Hord ajudou-o com sua mochila. — Torak. Torak enfiou o chifre em sua bolsa. Oslak entregou-lhe seu saco de dormir e sua pele de água. — Que o guardião siga com vocês dois. Surpreendentemente. — Sim? — Se sobreviver.. — Como sabe? Fin-Kedinn ficou em silêncio. — E também corra com vocês — disse Renn.Torak vacilou. sua machadinha. seu rosto mais impenetrável do que nunca. Sua aparência era de alguém perturbado. tentando sorrir. As Montanhas Altas pareciam orladas de dourado enquanto Torak atravessava a neve crocante em direção aos Corvos. Fin-Kedinn chamou-o de volta. Se quiser. com Lobo correndo sobre suas pegadas.. e depois acima de Lobo. em vista de onde ele estava indo. Torak ficou surpreso demais para falar. Quando se recuperou. Saeunn fez o sinal da mão acima de Torak. Ele queria ir logo embora. Aquilo pareceu uma coisa estranha de se dizer. Devolveu-o. Os Corvos observaram em silêncio enquanto ele avançava pela neve. há um lugar para você aqui com a gente. mas parecia ter aceitado o fato de que não era aquele que se dirigiria à montanha. — Nunca perca isto. Ao se virar para ir embora. . aljava e arco. Torak lançou-lhe um breve aceno com a cabeça. o Corvo Líder já se afastava.

ela deixara as roupas novas no seu abrigo. enquanto se esforçava na ofuscante neve recente que batia na altura . O sol ergueu-se em um céu sem nuvens. Em pouco tempo Torak estava ofegando. O que quer que tivesse assustado o esquilo havia sumido. estava furioso consigo mesmo. sua respiração fumegando. mas era muito preciosa. Fora preparada por Pa. Um gaio os seguia de árvore em árvore enquanto eles avançavam. Enquanto ele dormia. Torak. Torak caminhava penosamente atrás dele. mas.Ele não olhou para trás. revestidas com pêlo de marta. uma parca com capuz e quentes perneiras para inverno de couro de rena. quando Lobo tomou a dianteira. mas graças a Vedna ele não sentia. um par de luvas de pele de lebre com tiras de couro costuradas às mangas. Lobo virou de repente para investigar alguma coisa. Torak jogou o capuz para trás e olhou em volta. e com tiras de pele de âmia costuradas às solas externas para melhorar a pegada. pareceu impetuoso e destemido. A tira de pele de lobo estava em farrapos e imunda. Fazia muito frio. Pegadas de esquilo: minúsculas e parecidas com mãos. e Torak ficou imediatamente alerta. porém. Vedna tinha até mesmo descosturado sua pele de clã do velho gibão e a costurara na parca. e suas botas velhas habilmente remendadas com o duro couro de canela de rena. A floresta estava totalmente quieta. Ele também devia ter percebido aquelas pegadas. Torak seguiu a pista que ia adiante por entre arbustos de zimbro cobertos de neve e logo se transformava em longos saltos assustados e desaparecia em um pinheiro. A montanha estava silenciosa. Estar alerta. Um subgibão de pele de pato com as macias penas do peito em contato com a pele.

— Meu avô certa vez chegou perto da montanha — explicara ele.. A ravina é íngreme: íngreme demais para ser escalada. — E depois? Aonde vou depois disso? Krukoslik abrira os braços. Por volta da metade da manhã. porém até mesmo ele estava cansado. Por volta da metade do dia. — Tão perto que podia sentila. O Espírito sempre os detém. com seu peito estreito cortando a neve como uma canoa fatiando a água.. Lobo saía-se melhor. e a terra se eleva até você se encontrar na sombra das Montanhas Altas. Talvez.... no final da garganta. Apenas siga por ela.. O meu avô não foi muito longe antes de o Espírito detê-lo. fica a — Ninguém sabe. quando Torak o acordara no meio da noite. A árvore atingida por raio. A terra ascendia de modo constante como Krukoslik dissera que faria. Talvez ela também o proteja. mas o retardariam se ele tivesse de se movimentar com rapidez. — — Que tipo de trilha? — perguntara Torak. . Talvez. Mas há uma trilha que liga ao seu lado oeste.dos joelhos. Daqui você segue o riacho para o norte. Decidira contra sapatos de neve: facilitariam o caminhar. pelejando através da neve. Protege a trilha contra o mal. você chega a um pé de abeto atingido por um raio na entrada de uma ravina. — A que distância? Você segue a trilha. pensou Torak. ela tem o poder de proteger. Em algum lugar. — Quem a fez? Ninguém sabe. talvez com você seja diferente. — montanha.

O que teria percebido? A poucos passos dali. O pêlo do cangote se eriçou. se era apenas um veado. Lobo ergueu a cabeça e farejou. Torak forçou-se a examinar a trilha. — Veado-vermelho . Ele não as vira antes por estarem muito espacejadas. Mas. Cada qual tinha três vezes o tamanho de sua própria cabeça. Podia sentir a floresta com a respiração presa. Caso contrário. mas agora distinguiu os sinais do salto em pânico que o veado dera encosta abaixo. . não haveria uma segunda chance.murmurou. Pela aparência delas. Uma mistura de pegadas confirmou isso. com as pegadas traseiras na forma das de homem diante das pegadas dianteiras mais largas. já que o padrão das pegadas estava virado em sentido contrário. e Torak viu na neve marcas dragadas. O comprimento das passadas era apavorante. por que o cangote de Lobo se eriçou? Torak olhou em volta. Adiante dele. O urso estivera galopando. Para ele ou para a floresta. com as pegadas do urso correndo atrás. Torak percebeu que a neve fora derrubada das pontas dos galhos que ficavam mais ou menos na altura dos ombros. Então encontrou um rebento de zimbro com vários gravetos mordidos. era um único veado. provavelmente um macho: eles não levantam as patas tão alto quanto as fêmeas. As pegadas do urso saltaram da neve à sua frente.Se o seu plano funcionasse — se o Espírito do Mundo atendesse ao seu apelo — o urso seria destruído e a floresta sobreviveria. Lutando para se acalmar.

apressando-o com pequenos grunhidos-ganidos. com o demônio? Presas. Talvez.. outrora. depois correndo de volta para Torak. . A medida que pelejavam encosta acima. ansioso para seguir em frente. Se bem que.. apavoradas? Contornou uma pedra — e ali estava o abeto atingido por um raio. não vai demorar muito para. finalmente. ele devia ter caçado salmão e comido bagas e dormido durante o inverno. ele continuava sendo um urso. Ainda não. Seu significado era claro. estivessem se aproximando da montanha. Torak gostaria de partilhar essa ansiedade. Um rugido distante fendeu a floresta. mas as bordas estão ficando ligeiramente arredondadas. mas tudo o que conseguia sentir era o peso do Nanuak no seu cinturão e a ameaça do urso. Lobo saltou sobre as pegadas. Seu ânimo encolheu. como dissera Renn. O gaio soltou um grasnido e voou para longe. pensou. Enquanto Torak vadeava através da neve. Lobo estava esperando que ele o alcançasse: o pêlo do cangote eriçado mas o rabo bem erguido. Torak apertou com tanta força o cabo de sua faca que doeu. Torak seguiu mais lentamente.São frescas. Afinal. Estava perto? Onde estava ele? Não sabia dizer. imaginava o que acontecera com as almas do urso. Cada arbusto e cada pedra assumiam a forma de urso. Lobo ficava cada vez mais agitado: pulando adiante. Suas almas ainda estariam dentro do corpo. Talvez fosse por isso que Lobo estava ansioso em vez de amedrontado. neste sol.

os olhos em forma de lágrima tão puros quanto a água. Movendo-se sem parar para dentro das montanhas. não de homens. Não posso fazer isso. Conseguia sentir sua ira. um frio intenso e sem vento afluía de seu cume. sua extremidade perdida em uma nuvem impenetrável. . Não conseguiria prosseguir. mais uma vez amortalhada em nuvens. Não consigo subir ali. Torak fechou os olhos. pensou. Aquele era um abrigo de espíritos. Lobo sentou-se diante dele. Lobo olhou-o fixamente. Torak sacudiu a cabeça. inimaginavelmente alta. Torak sentou-se sobre os calcanhares. haviam soltado um monstro na floresta. já que alguns entre eles haviam sido tão perversos? Torak curvou a cabeça.Acima dele. ela perfurava o céu: a Montanha do Espírito do Mundo. Sim. as nuvens na extremidade da garganta abriram-se. a montanha havia sumido. A ravina cortava através delas como um golpe de faca. Por que o Espírito ajudaria os clãs. Nuvens de tempestade agitava-se em seus flancos. Eu estou com você. você consegue. as Montanhas Altas elevavam-se para o céu. e Torak viu o que havia além. serpeando acima de onde Torak estava. Haviam rompido o pacto. Quem fizera a trilha? Com que propósito? Quem ousaria caminhar por ela e se aventurar naquele lugar assombrado? De repente. mas ainda conseguia sentir o poder do Espírito forçando-o a ficar de joelhos. Os Devoradores de Almas haviam conjurado um demônio do Outro Mundo. Quando abriu os olhos. Uma estreita trilha partia de seu lado oeste. Não pertencia àquilo ali. com um branco ofuscante.

Em seguida fez o mesmo com a mochila. As macias patas de Lobo não faziam nenhum som. Pensou em Pa: não em Pa moribundo caído nos destroços do abrigo deles. TRINTA E UM Assim que Torak pisou na trilha. apenas de sua faca. O gelo sob suas botas era quebradiço e cada passo ecoava pela ravina. O Espírito o alertava para voltar. Ofegando. Era como se estivesse feliz por estar ali. Torak olhou para baixo — . Tirou a faca da bainha e livrou-se da luva para pousar a mão no frio azul da ardósia. e em todos os outros clãs que nem mesmo conhecia. do Nanuak na algibeira de pele de corvo e do pequeno pacote de Renn embrulhado em entrecasca de bétula que estava em sua bolsa de remédios. A trilha era tão estreita que havia lugar apenas para ficarem de pé lado a lado. Para Pa. Não precisaria deles. Pensou nas incontáveis vidas da floresta. — Você fez um juramento. a pele de água e a machadinha.Torak pensou em Renn e Fin-Kedinn e nos Corvos. o frio aumentou de intensidade. Virou-se e esperou Torak alcançá-lo: o focinho descontraído. Desatou a aljava e o arco e os apoiou contra a árvore. Com um último olhar para a floresta. Suas pestanas grudavam uma na outra. o rabo sacudindo ligeiramente. A dor pressionou seu peito. A respiração crepitava em suas narinas. — Você não pode parar agora — disse em voz alta. ele seguiu Lobo trilha acima. Torak conseguiu alcançá-lo. mas em Pa como ele estivera um pouco antes de o urso atacar: rindo da brincadeira que Torak fizera. o saco de dormir.

O gelo ficou traiçoeiro. virou-se para ir embora. O sol iluminou o outro lado da ravina. Agora ele teria de fazer o impensável... Cerca de quarenta passos adiante. como fazem os ursos.e desejou não ter olhado. a trilha se alargava ligeiramente abaixo de uma saliência rochosa. o gelo esmigalhou-se e ele quase caiu lá embaixo. Primeiro um movimento no fundo da ravina. Mesmo daquela distância — cinqüenta. ele agitava-se de lado a lado. Quando Torak chegou perto demais da beira da trilha. e o urso surgiu de repente. Tinha de atraí-lo de volta. Ao vê-la. e então apareceu. . sessenta passos abaixo — ele era enorme.. Enquanto Torak permanecia grudado no mesmo lugar. as orelhas para adiante. o fundo da ravina já se encontrava muito distante. cada pêlo de suas costas de pé. Lobo ficou tenso. Pedras cobertas de neve.. Torak esquadrinhou além da borda. atrás de um cheiro. Esperava encontrar algum tipo de abrigo. Ele o observou se virar e seguir ravina afora. Intrigado. o ânimo de Torak melhorou. Precisaria de um. Torak estava muito alto. se o seu plano. e o clarão torno-se ofuscante. Ele olhava ravina abaixo. O urso não sabia que ele estava ali. Subiram ainda mais alto.. Não encontrou nenhum.. A seu lado. Troncos de árvores negros. Abaixo. Nada. Era rasa demais para ser uma caverna: simplesmente um buraco através do qual se via o basalto negro da encosta da ravina. em direção à floresta. Protegendo os olhos.

Torak contava com isso. Os olhos de Lobo refletiram uma fraca e trêmula luz dourada: a luz do Nanuak. Venha buscá-la agora. Se Lobo conseguia vê-la. — É disso que você está atrás: a mais brilhante dessas almas brilhantes que você odeia tanto. que anseia apagar para sempre.. Em seguida fechou-a e enrolou o longo cordel em sua cabeça. Desamarrando a corda de pêlo que a fechava. virou a lamparina. Uma bolsinha de capim nodoso tecido: a malha tão fina que conteria até mesmo os olhos do rio. Tirou as luvas e soprou nos dedos para aquecê-los. o dente de pedra e os olhos do rio para dentro da bolsa de capim tecido. seguindo sem nenhum esforço através da neve.. Enfiou as ervas purificadoras e o embrulho de entrecasca de bétula na gola de sua parca. — Ali está ele — disse Torak. Lobo emitiu um grunhido-ganido baixinho. mantendo a voz baixa para não enfurecer o Espírito do Mundo. Virou-se para encarar o urso. o dente de pedra a lamparina. então soltou do cinto a bolsa de pele de corvo. e o Nanuak encarou-o. mas deixaria passar a luz do brilho do Nanuak. tirou o pequeno embrulho de entrecasca de bétula que Renn lhe dera. a luz que Torak não conseguia ver mas o urso conseguia.Só havia um meio seguro de fazer isso. o demônio também conseguiria. abriu a caixa de casca de sorveira. De sua bolsa de remédios. . Ele estava usando o Nanuak exposto em seu peito. Tomando cuidado para não tocar no Nanuak com as mãos nuas. Este estava a alguma distância ravina abaixo. e olhou abaixo para o que Renn fizera para ele durante a noite. Torak lambeu os lábios rachados pelo frio. Os olhos do rio.

ele estivera fugindo. Um ardente entusiasmo percorreu seu corpo. Tinha de chegar à saliência. O urso era mais rápido do que Torak esperava. Queria correr — subir a trilha até a saliência. O urso havia escalado um terço do caminho. Feito pelo homem. Torak!. estava de volta à floresta. Embora estivesse cinqüenta passos acima. Olhou além da borda.O urso parou. e ele esqueceu o Espírito. Corra! Não conseguia se mexer. quando o urso começou a usar as garras para subir pelo lado da ravina. Desde então. Lobo rosnou. Do abrigo em ruínas veio o grito desvairado de Pa. esqueceu seu juramento para Pa.. como sabia que precisava — mas não conseguia. Reagia. Torak o viu tão claramente como se pudesse esticar a mão e tocá-lo. para baixo. ergue-se nas patas traseiras. Não estava parado em uma gelada trilha da montanha. Pelejou para se pôr de pé. Ouviu o estalar do gelo.. A enorme cabeça girou. Imaginou-o escalando com facilidade letal. Aquele monstro matara Pa. Lobo subiu correndo a trilha. Torak libertou-se e seguiu cambaleando trilha acima.. . Olhar dentro daqueles olhos fora como olhar para o sol: sua imagem circundada de verde permanecia impressa em sua mente. em direção a Torak. Torak escorregou e desceu deslizando sobre um joelho. O urso virou e começou a caminhar de volta. ou não teria nenhuma chance. Agora não fugia mais.. O urso ergueu a cabeça e fez contato visual com Torak. Uma ondulação percorreu seu compacto ombro corcunda. O demônio drenava sua vontade — puxando-o para baixo. em pouco tempo estava abaixo dele.

Lobo reproduziu o uivo. dobrado ao meio.. jogou a cabeça para trás e uivou. Nada aconteceu. o resto de seu plano: chamar o Espírito e pedir ajuda. Espírito do Mundo. atenda meu apelo. Torak. Forçando uma posição aprumada. Ele uivou repetidamente até suas costelas doerem. pelejando para respirar. uivou Torak. para lá e para cá através das montanhas. — Eu tenho de levá-lo à montanha! . deu-se conta de que Lobo também parará de uivar. Agora. — Me dê o Nanuak! — berrou. eu lhe trago o Nanuak! Atenda-me! Envie o seu poder para esmagar o demônio da Floresta! Abaixo ouviu o urso se aproximar. Espírito do Mundo... estilhaçando o gelo onde ele estivera. Alcançou a saliência e jogou-se no interior do buraco rochoso. encheu o peito de ar. De repente. O terror dominou-o. Hord apanhou-a de volta.. O urso estava vindo atrás dele.. O Espírito do Mundo não atendera ao seu pedido. gelo retinindo na ravina. TRINTA E DOIS Torak esquivou-se e a machadinha passou sibilando pela sua orelha. e seus latidos penetrantes golpearam a ravina — para lá e para cá. Olhe atrás de você. Torak parou de uivar.. Ele virou-se e viu a machadinha de Hord girando em sua direção.Ele correu.

Lobo saltou para cima de Hord. Torak mal podia imaginar como ele conseguira segui-los através da floresta assombrada por demônios. Lobo avançou para ele. desafiar a ira do Espírito aventurando-se a subir a trilha. — Me dê o Nanuak — repetiu Hord. enfiando os dentes em seu pulso.protestou Hord. era um jovem lobo feroz defendendo seu irmão de alcatéia.Ele disse que precisava de um urso. O rosto desfigurado de Hord se contorceu de dor. Hord brandiu sua machadinha em direção à garganta de Torak.— Me deixe em paz! . O urso aproximava-se do topo. Torak abaixou-se. desferiu socos na cabeça desprotegida de Lobo. todo o seu corpo estremecendo com um rosnado. Não era mais um filhote. Torak entendeu. — Você estava presente quando o urso foi feito. mas. com a mão livre. Da beira da garganta veio o som de gelo triturado. . Hord urrou e soltou a machadinha. Você estava com o Clã do Veado-Vermelho. — Eu o terei! É minha culpa isso estar acontecendo! Eu tenho de pôr um fim nisso! De repente.. — Eu não sabia! . — Foi você — disse ele. Não sabia o que ele pretendia fazer! Então várias coisas aconteceram ao mesmo tempo. eu capturei um jovem. Você ajudou o Devorador de Alma aleijado a prender o demônio. . Hord ignorou-o..disse Torak.

naquele momento final em que .. pela primeira vez na vida. que estava montado em seu peito..— para Hord. Torak conseguiu soltar uma das mãos e afastou o braço dele. Logo abaixo dele. apanhando-a em pleno ar. resolveu devolver algo que Torak havia jogado. Hord então foi para suas pernas. Horrorizado. errando por pouco as patas de Lobo. Entretanto. fora do alcance de Hord. ajoelhado sobre seus braços.. — Lobo! — gritou Torak. quando Lobo parou com o Nanuak na boca . Torak encolheu-se para ficar fora de alcance. mantendo-os presos. debatendo-se embaixo de Hord. Lobo deu um impulso tremendo e alcançou de volta a trilha. Mas então. quando o urso assomava acima dele. e foi na direção dele com o Nanuak na boca. então contorceu-se e investiu para o Nanuak que pendia do pescoço de Torak. Torak arrancou a bolsa de seu pescoço e jogou-a para cima da trilha. Torak observou o urso erguer-se acima da borda da trilha. E naquele momento final. Lobo endireitou-se com uma sacudida e saltou para a bolsa. derrubando-o de costas no gelo. Um rugido sinistro sacudiu a ravina. um rugido ameaçador — então as garras negras do urso rasgaram o ar. Não — gritou Torak. Se ao menos o braço com a faca não estivesse preso sob o joelho de Hord.. sacando sua faca e arremessando-se Hord agarrou Lobo pelo cangote e jogou-o contra o basalto. mas pousando perigosamente próximo à beira da ravina. enquanto caía. As patas traseiras de Lobo patinavam loucamente na borda. Hord esticou-se para alcançar a bolsa.

Ele jogou-se abaixo da saliência — e. para a morte. apagando Hord. Bem alto. Hord ainda berrava.. Do alto veio um estalido ensurdecedor. . Hord rosnou furioso e foi cambaleante atrás dele — mas escorregou e caiu para trás. Torak tinha de ajudá-lo.Torak lutava com Hord. Torak pôs-se de pé. gritou dentro de sua cabeça. Lobo virou-se e correu pela trilha em direção à montanha. Mas ele sabia o que tinha de fazer. — Não!. gritou para Lobo: — Leve isso para a montanha! Uff! Uff! Uff! O olhar dourado de Lobo encontrou o dele. Torak foi lançado ao chão de joelhos. O Espírito do Mundo ouvira o apelo de Torak. Seus olhos pungiram. — Uff! — arfou Torak. Lobo. apagando o urso — enviando-os abaixo. O estalido avolumou-se para um rugido opressor.” O sangue de seu coração. berrando. Com dificuldade. "O Ouvinte dá o sangue de seu coração à Montanha. urrando. o verdadeiro significado da profecia ficou claro para ele. A trilha estremeceu. desabou a impetuosa. violenta neve assassina. nos braços do urso. um instante depois..

. o Nanuak ainda em sua boca. Mas onde estava Lobo? Pôs-se de pé e cambaleou até a beira da trilha. Ele viu as montanhas através de uma névoa de neve assentando.. O frio mortal cessara.. seguindo para as montanhas. Depois um sussurro. O Espírito do Mundo se afastava. Finalmente. Então: o silêncio.. ele gritou. O som de suas passadas enfraqueceu e virou um sibilar de neve assentando. Abaixo dele.A última coisa que Torak viu foi Lobo. O Espírito do Mundo havia passado acima da saliência e o deixara viver. Torak abriu os olhos. Então o mundo todo ficou branco. Torak não sabia quanto tempo estava agachado junto à face da rocha. O urso era uma casca vazia. Hord pagara com a vida. correndo abaixo da neve trovejante em direção à montanha. Torak cumprira o juramento que fizera a Pa. pois o Espírito banira o demônio para o Outro Mundo. depois de seu longo aprisionamento com o demônio. . Conseguia ver o outro lado da ravina. Talvez agora as próprias almas do urso estivessem em paz. Não fora enterrado vivo. os olhos bem fechados. Entregara o Nanuak ao Espírito do Mundo — e o Espírito destruíra o urso. a ravina havia desaparecido sob um caos de gelo e pedras Enterrados sob eles estavam Hord e o urso. percebeu que o trovejar se transformara em ecos — e que os ecos ficavam cada vez mais fracos. Lobo!.

era inconfundivelmente Lobo. Lobo não estava sozinho. O uivo cessou. um lobo uivou. Enquanto ele ouvia a melodia da canção de Lobo. mais vozes lupinas se juntaram: entrelaçando-se a ela. viu que o caminho para o sul continuava desimpedido. crocitando e dançando no céu com a alegria de voar. ele poderia achar o caminho de volta para Renn e Fin-Kedinn e os Corvos. Uma brisa levantou seu cabelo. Do leste veio um estrondo de cascos. Não era o uivo agudo. do norte — além da torrente de gelo que bloqueava a trilha. Então. Torak sabia o que isso significava.murmurou Torak. . Ele entendeu. Um jovem corvo sobrevoou as montanhas. A dor no peito de Torak desprendeu-se e libertou-se. Lobo uivava um adeus. mas a pura canção comovente de um jovem lobo. Eu nunca mais pedirei outra coisa. — Por favor. Torak baixou a cabeça. Mesmo assim. A floresta retornava à vida. mas nunca abafando aquela voz clara e adorável. Não voltaria. inconstante de um filhote. Tudo que conseguia sentir era a dor em seu peito. Onde estava Lobo? Teria alcançado a montanha antes de a neve desabar? Ou também se encontrava enterrado sob o gelo? — Por favor. esteja vivo . Virando-se. Significava que as renas estavam descendo do urzal. mas não conseguia sentir.Ele sabia disso. mas não trouxe nenhuma resposta. atrás das nuvens que ocultavam a Montanha do Espírito do Mundo —. Os olhos de Torak embaçaram com lágrimas.

o lobo. Curvou-se para pegar um punhado de neve para refrescar seu rosto ardente. Juntos.. NOTA DA AUTORA Se você pudesse voltar ao mundo de Torak. que algum dia ele daria um jeito de os dois ficarem juntos. e sua voz ressoou no ar radiante —. Sabia que Lobo não entenderia. Curvou-se para apanhar mais e limpou a Marca da Morte de sua testa. estaremos juntos. Você teria . algum dia. acharia uma parte dele surpreendentemente familiar e outra parte completamente estranha. — Algum dia — gritou. Desejou uivar uma resposta: dizer a Lobo que aquilo não era para sempre. Em vez disso. Irmão Lobo é o primeiro livro das Crônicas das trevas antigas. Ele fizera a sua promessa. — e a sua voz falhou — Eu prometo. — É isso que importa. Mas não conseguiu pensar como dizer isso. que contam as aventuras de Torak na Floresta e seus arredores e seus feitos para subjugar os Devoradores de Almas. A sensação foi boa. Então virou-se e começou a caminhar de volta em direção à floresta. Ele está vivo. mas também sabia que estava fazendo uma promessa para si mesmo tanto quanto para Lobo. Não houve resposta.. Meu irmão. falou aquilo na sua própria língua. pois na fala de lobo não há futuro. Caçaremos juntos na floresta. Mas Torak não esperava nenhuma.— Mas ele está vivo — disse em voz alta.

comidas. dos vestígios das armas. Que gosto tem a resina de abeto? Ou o coração de rena. plantas e pedras da floresta. os San meridional da África. mas seu modo de vida o surpreenderia por ser tão diferente. Mas isso é apenas uma parte.recuado seis mil anos no tempo. Quando queriam uma coisa. . Eram esplêndidos sobreviventes. roupas e abrigos que os clãs deixaram para trás na floresta. pesquisei as vidas de caçadores-catadores mais recentes. e de onde vieram? Para isso. inclusive algumas tribos de nativos americanos. para uma época quando a floresta cobria todo o noroeste da Europa. metais ou a roda. Eles ainda não tinham ouvido falar em agricultura. portanto os mamutes e os tigres-dentes-de-sabre haviam desaparecido. Não precisavam disso. com cerca de um metro e oitenta de altura na parte do ombro. e você provavelmente ficaria abismado ao ver um auroque pela primeira vez: um enorme boi selvagem com chifres apontando para a frente. Sabiam tudo sobre animais. os Inuit (esquimós). árvores. ou às vezes ficavam por toda uma lua ou uma estação. Mesmo assim. e embora a maioria das árvores. Como eles pensavam? O que acreditavam sobre vida e morte. como os Clãs do Corvo e do Javali. restou a questão de como era realmente a sensação de se viver na floresta. sabiam onde encontrá-la ou como fazêla. As pessoas do mundo de Torak pareceriam exatamente como eu e você. os cavalos da floresta eram mais robustos. A Idade do Gelo terminara alguns milhares de anos antes. e não tinham escrita. Muito disso eu consegui aprender através da arqueologia: em outras palavras. plantas e animais viessem a ser os mesmos de agora. e os Ainu do Japão. ficavam poucos dias em um acampamento. Caçadorescatadores viviam em pequenos clãs e movimentava-se demais: às vezes. como Torak e Pa do Clã do Lobo.

Também quero agradecer ao Sr. Se quiser outros títulos procure por http://groups. é possível descobrir. o Yeoman Ravenmaster da Torre de Londres.com/group/Viciados_em_Livros. 2 Guarda responsável pelo bem-estar dos corvos da Torre de Londres.ou alce defumado? Qual a sensação de se dormir em um dos abrigos de frente aberta do Clã do Corvo? Felizmente. Se você ouvir um veadovermelho berrar à meia-noite. de repente. por último. E. sou profundamente agradecida à obra de David Mech.2 por me apresentar a alguns corvos extremamente majestosos. segundo a lenda. se. É aí que você volta para o mundo de Torak. Michael Fox. ou encontrar pegadas frescas de lobo atravessando as suas. tiver de convencer um urso bastante nervoso de que você não é nem ameaça nem presa. (N. Quero agradecer a Jorma Patosalmi por me guiar através da floresta da Finlândia setentrional. E. pelo menos até certo ponto. Será um prazer recebê-lo em nosso grupo. pois.) Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras. eu gostaria de agradecer a algumas pessoas. inclusive aparando suas asas. a cidade desaparecerá depois que o último corvo morrer ou voar de lá. Com relação a lobos. e por uma porção de outras dicas de caça e informações sobre a floresta. . bastam cerca de três segundos para se voltar seis mil anos no tempo. porque partes da floresta ainda perduram. Finalmente.. por me deixar experimentar uma corneta de casca de bétula por me mostrar como carregar fogo num pedaço de fungo em combustão. quero agradecer ao meu agente Peter Cox e à minha editora Fiona Kennedy pelo seu inesgotável entusiasmo e apoio.. Derrick Coyle. Lois Crisler e Shaun Ellis.google. do T. às vezes. Eu estive lá.

google.google.http://groups-beta.com/group/Viciados_em_Livros http://groups-beta.com/group/digitalsource .

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