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A CRISE URBANA BRASILEIRA

Da necessidade de uma Política de Integração


Urbano-Rural em busca da Cidade Sustentável

Lucidio Guimarães Albuquerque

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A CRISE URBANA BRASILEIRA

• Causas Históricas e Efeitos Atuais


• Da Necessidade de uma Política de Integração Urbano-Rural

No Brasil, a atual crise urbana é o efeito retardado de


um histórico e equivocado processo de apropriação do
espaço natural e dos recursos nele existentes.

Para melhor compreender a amplitude, as causas e os efeitos dessa


problemática urbana, deve-se pesquisar seu passado histórico, recente e atual, muitos
antecedentes e conseqüentes, e avaliar suas repercussões que se projetam e se
desdobram sobre o espaço nacional, diretamente alcançando e envolvendo a
população brasileira, em uma perversa condição de insustentabilidade espacial e
socioeconômica.

Nesse enfoque, utilizando-se dados, indicadores e informações do IBGE e de


outras fontes confiáveis, percebe-se que o atual impasse social brasileiro é o efeito
retardado de uma histórica disfunção entre o território, a população, a economia e o
meio ambiente que, por via de conseqüências, se exacerba à medida que o
crescimento demográfico urbano, historicamente vinculado às seqüentes fases do
desenvolvimento socioeconômico nacional, sempre foi o resultado óbvio de um
inadequado, para não dizer perverso, sistema de posse e uso dos espaços nacionais,
apropriação, explotação e exportação de seus recursos naturais que, ao longo do
tempo, exacerbaram as necessidades e as demandas populacionais e, por via de
conseqüências, provocaram a falência de sucessivos modelos coloniais, assim
desencadeando crises que ainda se desdobram e se interagem, gerando o complexo de
problemas que caracteriza a atual crise urbana brasileira, cujos efeitos são notórios
nas disfunções de seus quatro parâmetros básicos: o território nacional de suporte, a
população que o ocupa, a economia que elabora e o meio ambiente que os envolve e
pouco protege, posto que nem sendo continuadamente danificado.

Para entender a reciprocidade de tais causas e efeitos da atual crise urbana


brasileira deve-se, ainda que resumidamente, identificar e cotejar alguns fatos e
acontecimentos que permeiam e configuram o processo histórico de desenvolvimento
socioeconômico nacional, cujos reflexos e desdobramentos desde os tempos coloniais,
induzem a dinâmica demográfica às disfunções identificadas desde a década de

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1950/60, coincidentemente com a implementação dos parques industriais, do confisco
cambial, da redução do desempenho da economia agrária, da liberação da força de
trabalho rural e do conseqüente fluxo migratório no sentido rural-urbano que,
provocando a inflação populacional nas cidades, também causam elevadas pressões
antrópicas sobre os escassos equipamentos e instrumentos da estrutura urbana, em
especial sobre os setores da habitação, sistema viário, saneamento básico, transporte,
energia elétrica, iluminação pública, assistência médico-hospitalar, educação,
segurança pública, mercado de trabalho, áreas de esporte e lazer, mercados,
telecomunicações, alimentação e nutrição, assim configurando a existência de elevados
passivos urbanos em cidades inadequadamente planejadas e insuficientemente
estruturadas.

Esse elenco de situações e contradições espaciais, demográficas e


socioeconômicas configura um quadro decorrente de condicionantes históricas que
projetadas ao século XXI geram, mantêm e fazem crescer a atual crise urbana
brasileira, assim resumida, tomando-se como referenciais dados e indicadores de
2.005.

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• Fatores Endógenos e Exógenos

No Brasil, os segmentos econômicos historicamente


induzem, comandam, direcionam os segmentos sociais
e condicionam o comportamento demográfico.

O Brasil tem um território de 8,51 milhões de km2 e uma população estimada


em 182 milhões de habitantes, com densidade demográfica de 21,38 habitantes/km2.
Nesse contexto demográfico-espacial, 149,6 milhões de pessoas (82%) moram em
cidades, cujas áreas territoriais estimadas em 372 mil km2, representam apenas 4,4%
do território nacional, com a elevada densidade de 402 habitantes/km2. Assim, 32,4
milhões de habitantes (17,8%) da população nacional, estão dispersos em 8,13
milhões de km2 (95,5%) do território, com densidade média de 2,5 habitantes/km2, em
grande parte da Amazônia e Centro Oeste com média de 1 habitante/ km2, em sua
maior parte (2,8 milhões de km2) com menos de 05 habitantes km2, assim
caracterizando a existência de grandes vazios demográficos.

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A essa contradição demográfico-espacial, acresce a circunstância que dos 8,51
milhões de km2 do território nacional, aproximadamente 15%, são ocupados por águas
interiores, parques indígenas, parques nacionais e cadeias de montanhas, não
utilizáveis em atividades econômicas convencionais. Restam, então, 7,23 milhões de
km2, dos quais 6,8 milhões (723 milhões de hectares) vocacionados a diferentes
tipologias de explotação, dos quais 360 milhões (49,8%) ocupados por atividades
diversas, inclusive mineração, florestas cultivadas, pastagens e extrativismo, e apenas
112 milhões por lavouras com produção de 126 milhões de toneladas de grãos (2005),
cuja produtividade, estimada em 205 toneladas por hectare equivale às mais baixas do
terceiro mundo.
Nesse resumido cotejo de indicadores da economia urbano-rural brasileira
infere-se flagrante dicotomia de desempenho entre espaços cultiváveis, áreas
cultiváveis, habitantes e funções produtivas, à medida que o setor urbano, com 82%
da população ocupando apenas 4,4% do território nacional, elabora 90% do Produto
Interno Bruto, enquanto o setor rural, com 17,8% da população, dispersa em 95,6%
da área geográfica brasileira elabora apenas 10% do mesmo PIB.
Nesse contexto situa-se o impasse social que transforma o Brasil em país
demográfica, econômica e socialmente inviável, visto que a atual crise brasileira
resulta do processo de disfunções e descompassos na dinâmica da correlação de forças
território-população-economia-meio ambiente, na qual a prevalência do setor urbano,
com apenas 4,4% do território mas 82% da população induz, comanda, atrai e
progressivamente destrói segmentos da economia rural e inibe o desempenho da
economia geral, considera-se que no pequeno espaço que lhe é reservado (4,4% do
território nacional), são escassos os recursos naturais disponíveis, e muito baixo o
nível de escolaridade da força de trabalho, razão pelas quais torna-se impossível fazer
o PIB Nacional crescer com elevado grau de sustentabilidade.

MODELO ECONÔMICO E URBANIZAÇÃO

Fatos históricos recentes e atuais demonstram que o modelo econômico


brasileiro, prevalentemente urbano, exportador e concentrador, no pressuposto da
implementação de políticas de substituição de importações promoveu, nos últimos
quarenta anos, grandes programas de industrialização nas regiões Sudeste e Sul, onde
tiveram êxitos relativos em razão de muitos fatores, entre os quais:

• Grandes estoques de recursos naturais e de matérias primas existentes no


território nacional.

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• Abundante oferta de força de trabalho nativa.
• Recursos financeiros captados no setor primário da economia, mediante operações
de confisco cambial e outras modalidades de apropriação.
• Maciças importações de capitais externos que proporcionaram ingressos de
máquinas, recursos financeiros e tecnologias exógenas.
• Intensiva apropriação de recursos naturais por monopólios e oligopólios
prevalentemente multinacionais.
• Maximização do mercado exportador e minimização do mercado interno, a custos
sociais muito elevados para o conjunto da população.
• Exarcebação do endividamento interno e externo, em 2.005 estimado em US$ 1,8
trilhões.

Nesse enfoque, percebe-se que o processo de industrialização foi bem sucedido, ao


ponto de elevar o Brasil à condição de nona economia industrial do mundo mas, em
contrapartida, à 52º posição internacional em termos de desenvolvimento humano. O
efeito mais visível dessa contradição é a urbanização intensiva, a media que a
economia urbana, prevalentemente centrada em significativos pólos industriais e de
serviços, induz a formação de correntes migratórias internas, promove inflação
demográfica, aumenta a demanda sobre o mercado de trabalho, equipamentos,
serviços e empregos urbanos e, como efeito imediato, a exclusão espacial e social de
extensas camadas das populações incorretamente urbanizadas, condição que
realimenta o desemprego da força de trabalho, gera e dissemina a pobreza, a violência
urbana, o déficit habitacional, a marginalidade social, a não cidadania, enfim, enseja a
existência da visível condição de insustentabilidade físico-espacial, econômica, cultural
e gerencial das cidades, sejam grandes, médias ou pequenas, inclusive aquelas que se
inserem nos espaços industrializados do sul e sudeste do Brasil, todas apresentando
grandes passivos urbanos.

Esse quadro de impasses socioeconômicos e de insustentabilidade


socioeconômica é progressivamente agravado por descompassos no processo de
apropriação da renda gerada pelos mecanismos da produção nacional, visíveis no
estado de pobreza que alcança 48% da população brasileira, urbanizada ou não, fato
que transforma o Brasil em país de apenas 98 milhões de consumidores, cuja realidade
sugere as seguintes indagações.

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• Por que num país geograficamente grande e rico em recursos naturais, como o
Brasil, a sua população só encontra lugar para sobreviver em periferias urbanas,
gerando megalópoles carregadas de mazelas sociais?
• Por que a população brasileira ainda não tem acesso aos recursos naturais do seu
imenso país, onde 96% das áreas de solos favoráveis para agricultura pertencem a
apenas 5,1% da população e por que 98% dos recursos minerais conhecidos
pertencem a apenas 1,2% dos nacionais?

Dir-se-á, como resposta imediata, que a crise brasileira, que muitos


equivocadamente supõem de natureza monetária, é historicamente estrutural em suas
origens, causas e efeitos, visto que a inadequada ocupação demográfica do território
gera contradições sociais e espaciais impostas por modelos econômicos exportadores
que continuadamente estimulam e aumentam descompassos entre a economia urbana
e a economia rural, a população urbana e a população rural, continuadamente
agravados à medida que seu desempenho socioeconômico se distancia no tempo e no
espaço nacional, como vem acontecendo desde o remoto passado colonial, ao longo do
qual a posse e o uso da terra produtiva não configuram instrumentos de trabalho, mas
apenas objetos de valor mercantil e reservas de poder político decisório, cujo
perversos efeito de comportamento ético são claramente visíveis no atual processo de
ruptura da corrente democrática brasileira, na qual os elos mais frágeis são pessoas
eleitas pela população, assim demonstrando a face oculta de uma nascente
urbanocultura nacional.
RECURSOS NATURAIS, ESTRUTURA FUNDIÁRIA, EXCLUSÃO ESPACIAL E
SOCIAL DAS POPULAÇÕES BRASILEIRAS

A magnitude das tensões sociais refletidas na prolongada crise urbana nacional


reforçam a convicção da necessidade de redirecionamento do modelo de ocupação
demográfica e socioeconômica do território brasileira, a partir do pressuposto que o
atual regime de posse jurídica da terra produtiva inviabiliza o uso do solo como
instrumento de trabalho e produção, à medida que, improdutivo ou de baixa
produtividade, desestabiliza a economia agrária, na qual se incluem a estrutura
fundiária, as reservas de recursos naturais explotáveis, a força de trabalho e os ganhos
sociais, cuja percepção pode ser feita a partir do seguinte raciocínio:
Existem no Brasil quase dezoito milhões de estabelecimentos rurais, grandes,
médios e pequenos, porém possuídos por apenas cinco milhões de proprietários, em
sua maioria descapitalizados e pouco tecnificados, por isso mesmo de baixa

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produtividade. Adiantaria numericamente aumentar esses indicadores e continuar o
setor primário a produzir em descompasso com o setor urbano, sabendo-se que nos
últimos anos aumentou o número de titulações rurais, mas não significativo acréscimo
no volume de produção de alimentos direcionados ao mercado interno e de matérias
primas que possam ensejar mais emprego da força de trabalho, ganhos
socioeconômicos e melhoria dos padrões de vida das populações envolvidas, em sua
maioria ainda desempregadas e subnutridas.
Neste enfoque, há de se entender que tais disfunções constituem, a um só
tempo, origem, causa e efeito da exclusão espacial da população rural e sua
conseqüente estratificação social urbana, impostas pelo modelo econômico que desde
a segunda metade do Século XVI se instalou no Brasil, prevalentemente centrado no
modelo produtor-coletor- exportador, sem maiores considerações sobre quem lhe dá
sustentabilidade, como por exemplos a da força de trabalho nativa, os recursos
naturais explotáveis e as tecnologias apropriadas e a dinâmica demográfica interna
que exige, a cada an0, 1,3 milhões de novos postos de trabalho.

Assim, a solução da questão urbano-rural brasileira exige revisão e


redirecionamento do modelo de ocupação e uso dos espaços geográficos nacionais,
mediante a estruturação de sustentável processo produtivo, a organização de um
significativo mercado interno de oferta e procura de bens, produtos, insumos,
matérias-primas e alimentos, compatíveis com as necessidades, demandas biológicas,
econômicas e sociais da população. Nesse enfoque, percebe-se que a interiorização da
economia, a partir da abordagem fundiária e dos processos produtivos, por certo
induzirá o redirecionamento das migrações internas, promoverá o reordenamento da
ocupação econômica e demográfica do território, ao mesmo tempo que reduzirá as
elevadas tensões sociais existentes no setor urbano, visto que o Brasil, em razão do
seu mega espaço geográfico, das suas imensas reservas naturais de solos e água para
agricultura e do perfil da sua força de trabalho, ainda por muitos anos continuará em
sua vocação agrária, mineraria e agroindustrial, em que pesem ações em contrário,
próprias do modelo imposto pelo agronegócio exportador que exaure os recursos
naturais explotáveis, melhora o comércio externo, promove o ingresso de moedas
internacionais, porém, em contra partida, provoca disfunções socioeconômicas internas
a custos sociais muito elevados.

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UM PROJETO MAIOR PARA O BRASIL

A reorganização espacial da economia mediante


implementação de programas e projetos de
ordenamento regional, induzirá o redirecionamento de
fluxos migratórios internos, à medida que a população
for espacialmente distribuída em núcleos rurais,
agrovilas e rurópolis produtivas e racionalmente
organizados como nichos ecológicos da população
brasileira.

O Projeto Brasil deve ter como pressuposto a ocupação racional e


ecologicamente equilibrada do território brasileiro é condição fundamental à
redistribuição espacial da população, à medida que os processos de explotação dos
recursos naturais sejam partes de um projeto social adjacente, cujo objetivo central
seja reajustar o progressivo descompasso de crescimento entre os setores da
economia nacional, mediante remanejamento indutivo de populações densamente
concentradas em metrópoles e megalópoles, focos e principais causas do atual
processo de insustentabilidade socioeconômica urbana.

No pressuposto de repensar o modelo de ocupação do território nacional há que


se implantar políticas de ordenamento regional para integração urbano-rural em suas
conotações fundiárias, econômicas, sociais, demográficas, tecnológicas, institucionais e
humanas, dispersar a população e a força de trabalho no território e assim alcançar
razoáveis termos de equilíbrio território-população-economia-meio ambiente
envolvendo em um só contexto a reforma agrária e a reforma urbana, a economia
rural e a economia urbana, as populações rurais e as populações urbanas, como
entidades fundamentais, paramétricos, complementares e interdependentes no
universo geo-espacial e socioeconômico nacional, mediante aportes construídos pelo
poder público como, por exemplo o Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional.

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DIMENSÃO GEOGRÁFICA E ORDENAMENTO SOCIOECONÔMICO REGIONAL

A Constituição Federal promulgada em 1988 ainda tem por enfoques maiores os


princípios gerais de uma ordem jurídica capaz de transpor o Brasil da indesejada
situação de estado autoritário para a condição de estado democrático de direito e, pelo
que se vê, menores preocupações com outros aspectos fundamentais da problemática
nacional, como, por exemplo, transpor o Brasil da indesejável condição de país da
pobreza e da exclusão social e espacial mediante estruturação de uma nova dinâmica
geoespecial e socioeconômica, a partir das oportunidades que oferecem suas múltiplas
potencialidades em recursos naturais jazentes em seu imenso espaço geográfico, e as
reconhecidas aptidões à criatividade da população para o trabalho produtivo.
Assim, no contexto da nossa Lei Maior, o ordenamento jurídico deve preceder,
comandar e ensejar o reordenamento espacial demográfico, espacial e socioeconômico
do Brasil, enquanto condições paramétricas, complementares e interdependentes, cada
uma como pressuposto, aporte e suporte das demais, de modo que a ordem jurídica
deva gerar amplos espaços para que a ordem territorial e o progresso socioeconômico,
possam prosperar, e assim reduzir os efeitos perversos da poluição social
prevalentemente causada por modelos econômicos coloniais, contraditórios, casuísticos
e equivocados que historicamente danificam, exaurem e inviabilizam o tecido social, já
rompido e fragmentado em vários segmentos urbanos e rurais, reconhecidamente
contraditórios.
Há de se entender, também, que a Constituição da República deva estabelecer,
implícita e explicitamente, que a ordem jurídica, a ordem econômica e a ordem social
corporificam objetivos permanentes do conjunto de aspirações do povo brasileiro,
razão pela qual deva ser, por excelência, o instrumento norteador de uma nova ordem
geopolítica e geoeconômica estruturada nas seguintes realidades:

 A magnitude do espaço geográfico nacional abriga reservas de recursos naturais


em condições de explotação imediata pelo seu próprio povo.

 O Brasil dispõe de força de trabalho para realizar a explotação racional de seus


recursos naturais com elevado padrão de sustentabilidade política, econômica,
social e ambiental.
 O País dispõe de condições internas e externas para captar e administrar recursos
financeiros necessários ao desenvolvimento econômico e ao progresso social auto-
sustentados.

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 O País dispõe de tecnologias apropriadas para explotação e utilização racional dos
recursos naturais em seu espaço geográfico.

 Os recursos naturais do Brasil e seus recursos humanos, de capital e tecnológicos


somente devam ser utilizados na construção de uma ordem socioeconômica da
qual a população seja a principal protagonista e a beneficiária final do
desenvolvimento econômico do progresso social, mediante consolidação do
processo de adequação do espaço nacional aos grupos humanos que realmente o
habitam e demandam como nicho, abrigo, domicílio e instrumento de trabalho
produtivo.

 O espaço geográfico nacional é suficientemente grande e diversificado de modo que


inteligentemente organizado ensejará a criação dos nichos ecológicos, abrigos,
domicílios, áreas de trabalho e endereço de cidadania a todos os brasileiros e aos
que, embora não nacionais, possam, neste país, contribuir para o bem estar
comum da humanidade.

OS PROFISSIONAIS DO SISTEMA CONFEA/CREAs NO CONTEXTO DA ORDEM


ESPACIAL E SOCIOECONÔMICA

O processo de poluição social é o fato mais perverso e


degradante de todos quantos existentes no Brasil,
condição que urge superar mediante implementação de
políticas públicas de reordenamento urbano-rural e
socioeconômico.

Uma reflexão sobre os efeitos perversos do equivocado modelo econômico


colonialista ainda em prática no Brasil, expresso nesta resumida análise crítica da atual
conjuntura nacional, por certo apontará a magnitude dos danos que diretamente
envolvem significativos estratos da população e provocam sucessivas rupturas no
tecido social, prevalentemente localizado no contexto urbano que envolve 82% da
população brasileira. Neste enfoque, os profissionais congregados no Sistema
CONFEA/CREAs – os mais diretamente envolvidos nos processos de planejamento e
ordenamento territorial, explotação e transformação de recursos naturais, construção e
operação da infra-estrutura econômica e social brasileira, ora como produtores, ora
aplicadores, ora consumidores de conhecimentos e tecnologias nos mais distintos

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setores produtivos – reconhecem que ainda é profissionalmente frustrante,
economicamente injustificável e socialmente indesejável que o produto final de suas
intervenções, gerando mais de 70% do PIB nacional, não seja politicamente
direcionado à estruturação de uma ordem socioeconômica mais justa, distributiva e
envolvente da população brasileira, cuja exclusão social alcança mais de 40% dos
nacionais, prevalentemente aqueles residentes em periferias urbanas e em áreas física
e socialmente degradadas que, por vias de conseqüências, aceleram as
contraproducentes processos de desorganização espacial, econômica, social e
ambiental ao imporem condições infra-humanas de moradia, transporte, trabalho,
produção educacional, sanitária, alimentação e nutrição, que reduzem a sobrevivência
biológica de significativos segmentos urbanos e rurais da população.
As causas e os efeitos desses fatos, que confluem para o ponto crucial do
inaceitável impasse social brasileiro, merecem dos profissionais vinculados ao Sistema
CONFEA/CREAs uma análise crítica maior e mais profunda e, por via de conseqüências,
a formulação de propostas concretas para construção de uma nova ordem espacial e
socioeconômica na qual estejam envolvidos todos os agentes propulsores do progresso
nacional, de tal modo que o Estado possa assumir a sua condição política de indutor,
coordenador, provedor, acelerador e interventor no processo de desenvolvimento
econômico e progresso social, à medida que:

• Exerça soberania plena sobre o espaço geográfico nacional, inclusive sobre os recursos
naturais nele existentes.
• Utilize os recursos naturais e a força do trabalho do Brasil, preferencialmente na
edificação de uma nova ordem espacial e socioeconômica na qual a população seja,
ao mesmo tempo, protagonista, verbo, sujeito, predicado, agente gerador e
beneficiário final desse processo.
• Reduza a poluição social nos espaços urbanos e rurais, mediante formulação e
implementação de Planos Regionais de Desenvolvimento Sustentável, envolvendo o
território, a população, a economia e o meio ambiente em um só contexto
geoespacial, geopolítico, geoeconômico e antropológico.

• Redimensione a matriz ecológica, matriz energética e a matriz econômica do Brasil.

• Reduza ao mínimo tolerável os passivos urbanos nacionais.

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Tais sugestões são justificáveis, visto que, historicamente, a crise urbana brasileira
tem suas raízes na velha, arsênica e perversa estrutura fundiária, reconhecidamente
indutora do progressivo aumento das populações urbanas que continuadamente
reduzem os espaços vitais demandados, fatos que, a sua vez, provocaram sucessivas
rupturas na capacidade de suporte dos respectivos territórios e seqüentes rupturas no
tecido social das populações urbanizadas, cujos desdobramentos socioeconômicos,
demográficos, culturais e antropológicos se agravam à medida que o complexo de
necessidades humanas cria, desenvolve e dinamiza o continuado processo de
demandas biológicas, econômicas, sociais, culturais e ambientais que, não satisfeitas,
encadeiam ações, reações e interações de imprevisíveis efeitos psicosociais,
demográficos e geopolíticos locais e regionais que exacerbam a violência urbana a
níveis socialmente intoleráveis e politicamente insuportáveis.

Isto posto, entende-se que a crise urbana brasileira é o efeito retardado de uma
grave crise de posse jurídica mas não econômica do espaço nacional brasileiro, que
urge enfrentar e superar, mediante implementação de programas e projetos de
desconcentração e dispersão da população nos espaços territoriais, ainda praticamente
vazio e economicamente ociosos, utilizando-se a reforma urbana e a reforma agrária
como instrumentos de ação geopolítica, observando-se os padrões de sustentabilidade
recomendados no Estatuto da Terra, no Estatuto da Cidade no Tema 3 da Agenda 21
Brasileira, cuja consolidação foi aprovada na Reunião Rio + 10, realizada em
Johannesburgo, em 2004.

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URBANÍSTICA

ORDENAMENTO REGIONAL INTEGRADO

• Ordenar: organizar; por em ordem; harmonizar;


hierarquizar; harmonizar; estruturar. Eis o
enfoque central do planejamento para o
desenvolvimento urbano e regional integrado.

• O processo de ordenamento regional integrado
a um só tempo envolve o ordenamento das
cidades e das regiões onde se inserem.

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ORDENAMENTO REGIONAL INTEGRADO

Ordenar: organizar; por em ordem; harmonizar;


hierarquizar; estruturar; colocar em seqüência lógica;
racionalizar a disposição das partes de um todo, ainda
que supostamente imaterial.

Em urbanística, o ordenamento regional é entendido como um permanente


processo de busca dos termos e equilíbrio território – população – economia – meio
ambiente de um espaço regional, fato que poderá ocorrer se a região dispuser de três
componentes básicas conhecidas: a matriz ecológica que lhe dá suporte, a infra-
estrutura que o dinamiza e a superestrutura social que sintetiza o seu objetivo político
institucional, prevalentemente centrado na consecução do pleno atendimento às
necessidades e demandas da população.

Dessa assertiva emergem os conceitos de matriz ecológica, matriz, econômica e


matriz social, infra-estrutura e superestrutura socioeconômica, todos porém vinculados
ao mesmo processo de ordenamento regional, cujo delineamento é feito a partir do
zoneamento ecológico-econômico do território objeto do planejamento regional que,
em seu contexto, especializa suas potencialidades, fragilidades e capacidade de
suporte físico, biológico e ecológico.

Infra-estrutura econômica – É basicamente formada pelo conjunto de


equipamentos e instalações utilizados nos processos de explotação, transporte,
transformação e beneficiamento de recursos naturais, matéria primas e insumos para
fabricação de bens de capital, produtos acabados e outros componentes da estrutura
socioeconômica regional da qual fazem parte a indústria extrativa mineral, a rede de
transportes ferroviário, rodoviário, aquaviário e seus terminais portuários; os
represamentos hidráulicos para geração de energia elétrica, navegação, turismo,
abastecimento público, irrigação e balneabilidade; centrais termo elétricas e de energia
nuclear; instalações siderúrgicas e metalúrgicas, sistema de saneamento básico e
ambiental, enfim, todos instrumentos de apoio ao processo de desenvolvimento
econômico e progresso social da região e das cidades que a integram.

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Superestrutura socioeconômica – Conjunto de natureza política, jurídica,
social, cultural, monetária, financeira, comercial e de prestação de serviços
historicamente vinculado ao sistema econômico, à força de trabalho e às demais peças
do aparato produtivo de bens e serviços regionais destinados ao atendimento às
necessidades e demandas da população.

Nesses enfoques, para realização do ordenamento regional é necessário


conhecer, no geral e em detalhas, as dimensões, as características, as potencialidades
e as fragilidades ecológicas, demográficas e socioeconômicas do território, em seus
diferentes espaços e subespaços geográficos, tecnicamente identificados no
zoneamento ecológico-econômico.

ZEE
ZONEAMENTO ECOLÓGICO-ECONÔMICO REGIONAL

• Matriz Ecológica, Matriz Energética, Matriz Econômica, Matriz Social

O Zoneamento Ecológico-Econômico Regional tem por


objetivo básico identificar no contexto da matriz
ecológica do território a espacialização e as
potencialidades dos recursos naturais explotáveis e a
proteger, o potencial demográfico e a força de trabalho
disponível e as tecnologias necessárias a tais atividades.

O objetivo básico do planejamento regional é organizar a região e para atender


as demandas das populações, e assim alcançar as melhores condições possíveis de
sustentabilidade em suas necessidades e demandas biológicas, políticas, econômicas,
sociais, culturais, ambientais. Com esse propósito, o zoneamento ecológico-econômico
do território deve ser realizado e utilizado como instrumento básico indicativo da
natureza, diversidade, especificidade, potencialidade, fragilidade e distribuição espacial
dos recursos naturais, humanos, de capital e tecnológicos indispensáveis à realização
do desenvolvimento econômico, progresso social e aperfeiçoamento institucional.

Para que tais condições possam acontecer, é necessário pesquisar, mapear e


conhecer detalhadamente as potencialidades e fragilidade do território em suas
origens, estrutura e particularidades geológicas, geomorfológicas, geoquímicas,
biológicas e pedológicas; seus recursos naturais, nos quais se incluem o clima, os
recursos hídricos, minerais, florestais, pesqueiros, solos e águas para agricultura,

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represamento, geração de energia, navegação, abastecimento público, balneabilidade,
turismo e lazer; os sítios arqueológicos e as paisagens monumentais; as populações
urbanas e rurais; a dinâmica demográfica, a força de trabalho e seu respectivo
potencial produtivo; enfim, tudo o que possa ser utilizado para identificar a Matriz
Ecológica, avaliar as potencialidades e as limitações da Matriz Energética, para
melhor dimensionar e construir a Matriz Socioeconômica compatível com a
capacidade de suporte físico e ecológico do território, consoante as dimensões e porte
dos respectivos equipamentos, instrumentos, meios e modos de atendimento às
necessidades e demandas da população.

Neste enfoque, as componentes da Matriz Ecológica, da Matriz Energética e


da Matriz Socioeconômica do território regional devem ser espacialmente
identificadas, dimensionadas e detalhadas em relatórios, gráficos, memoriais
descritivos, mapas e cartas geográficas que as localizem, identifiquem e quantifiquem,
para que possam ser racionalmente utilizadas como instrumentos de geração de
riquezas e de bem estar social, consoante as modernas técnicas de planejamento para
o desenvolvimento regional integrado, sempre compatíveis com os preceitos da
Economia e do Humanismo. Com esse propósito, deve-se perceber que o zoneamento
ecológico-econômico tem por objetivo maior identificar e demarcar as potencialidades
das áreas vocacionais do território para melhor espacializar as diferentes atividades
antrópicas regionais, pressupondo-se que em cada espaço e sub espaço territórial deva
haver um lugar adequado para cada entidade demográfica e socioeconômica.

METODOLOGIA BÁSICA

A realização do ZEE-regional deve seguir o disposto nas Diretrizes


Metodológicas para o Zoneamento Ecológico-Econômico do Brasil, elaboradas pela
Secretaria de Políticas para o Desenvolvimento Sustentável, do Ministério do Meio
Ambiente, abrangendo as seguintes fases seqüenciais:

Planejamento – Definição da área de abrangência do ZEE e mobilização das


equipes técnicas de pesquisa e estruturação da base de informações geográficas,
demográficas e socioeconômicas, contendo relatórios e levantamentos físico-espaciais,
biológicos, econômicos, sociais, demográficos e ambientais.

Diagnóstico – Identificação e mapeamento do contexto regional, abrangendo o


conjunto formado pelo meio físico, biótico, socioeconômico e institucional, suas

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potencialidades naturais, econômicas e sociais sintetizadas na Matriz Ecológica,
capazes de, em seu conjunto ensejarem as condições favoráveis ao dimensionamento
da Matriz Socioeconômica do território, contendo, entre outros, os seguintes
elementos básicos:

• Geologia e Recursos Minerais – Unidades de formação, estrutura e arquitetura


geológica, unidades crono-litoestratigráficas e suas interfases litológicas; jazidas de
minérios empregados na construção civil; sítios arqueológicos, paleológicos,
arqueológicos e espeleológicos de interesse técnico-científico, histórico e turístico;
mapeamento dos solos e de suas potencialidades para assentamentos urbanos,
agrícolas, agropecuários, engenharia de edificações e de agronomia; aqüíferos do
domínio poroso e fraturado; geoquímica e suas repercussões sobre a qualidade,
dimensões e potencialidades dos aqüíferos locais e regionais confinados.

• Geomorfologia – Estudos, pesquisas, levantamento e mapeamento


geomorfológico, tendo por objetivo identificar as unidades do relevo regional, a
suscetibilidade dos solos aos processos erosivos e os respectivos potenciais de
transporte de sedimentos para as bacias de drenagem; mapeamento do modelado,
indicando declividades, tipos de rochas, fontes potenciais de sedimentos, solos
expostos e suscetíveis a movimentos de massas desagregadas das rochas; feições
do modelado e dos processos erosivos sob influência dos agentes da dinâmica
superficial (erosão-transporte-sedimentação), avaliação dos volumes de detritos
carreados para as redes de drenagem; pedogênese-processo de formação de solos
antigos, recentes e atuais.
• Recursos Hídricos – Estudos e levantamento de dados sobre hidrografia e
hidrogenia regional, pluviometria e igrometria; formação da capacidade hídrica dos
corpos d’água, regime e volume de deflúvios e outras ocorrências que possam
contribuir para a realização do balanço hídrico regional; condições favoráveis ao
represamento e sua utilização em agricultura, agropecuária e silvicultura,
disponibilidades hídricas para abastecimento público, diluição de esgotos sanitários,
balneabilidade, navegação, lazer e geração de energia; hidrogeoquímica-análises
de sedimentos para determinação da qualidade da água e seus efeitos sobre os
corpos d’água; cruzamento das informações do mapeamento geológico,
geomorfológico, hidrográfico, hidrométrico e pluviométrico em relatórios e mapas
hidrogeológicos contendo perfis, tipologias e espacialização de aqüíferos, suas
características físicas e químicas, áreas de abrangência, potenciais de recarga e
favorabilidade à explotação de águas do domínio poroso e do domínio fraturado.

17
• Solos e Aptidões Agrícolas – Mapeamento pedológico e classificação dos solos
segundo suas características morfológicas, físicas, químicas e estruturais para
avaliação de aptidões agrícolas, agropecuária, reflorestamento e usos correlatos.
• Uso do Solo e da Cobertura Vegetal – Levantamento e mapeamento da
vegetação primária e secundária, sua espacialização em florestas, pastagens
naturais e artificiais, agricultura, mineração e assentamento urbanos; áreas de
parques, reservas florestais, unidades de conservação da biodiversidade,
preservação do meio ambiente e de proteção de mananciais; áreas de
reflorestamento, áreas degradadas, barragens, canais e áreas urbanas ou em
processo de urbanização; represamento e formação de corpos d’água naturais e
artificiais, inclusive áreas favoráveis ou impróprias para aterros sanitários,
cemitérios e assentamentos urbanos, rurais, industriais e portuários.
• Geoquímica Ambiental – Mapeamento e identificação da qualidade química das
rochas e dos solos, tendo por objetivo conhecer seus efeitos sobre o meio ambiente
e a saúde pública, mediante análises de sedimentos para determinação dos níveis
de contaminação dos corpos d’água e sua correlação com projetos de irrigação,
navegação, uso público e balneabilidade; mapas de anomalias geoquímicas e
indicadores do estágio de degradação de corpos d’água superficiais e subterrâneos,
condições de potabilidade, salinidade e aproveitamento na economia urbana e
regional, proteção à saúde humana, animal e vegetal.
• Clima – Identificação do macroclima do mesoclima e de suas variáveis climáticas
sazonais, (pluviometria, evaporação, temperatura, radiação solar, insolação,
umidade relativa, freqüências direcionais de ventos), tendo por objetivo conhecer
suas influências sobre a biodiversidade, a hidrografia, as atividades produtivas
sazonais e as disponibilidades hídricas, detalhadas em mapas, gráficos e relatórios
que identifiquem a geografia das águas regionais e locais suas potencialidades e
fragilidade.
• Biodiversidade – Inventário e mapeamento das principais espécies da flora e da
fauna terrestre e aquática, enfatizando as espécies ameaçadas de extinção;
identificação das áreas com potencial para desenvolvimento da pesca e da
piscicultura; recursos da fauna nativa e seu potencial de aproveitamento
econômico; caracterização dos biomas, biotas e ecossistemas naturais, com vistas
a delimitar áreas para desenvolvimento econômico, conservação e proteção
ecológica, ambiental, hídrica, turística e da natureza, florestamento,
reflorestamento, conservacionismo, formação de bancos genéticos e de áreas
favoráveis a assentamentos urbanos e rurais.

18
Mapas da Vulnerabilidade Natural – Nos quais devem ser espacializadas as
potencialidades, fragilidade e suceptibilidades naturais do meio físico hídrico e biótico,
mediante cruzamento de dados geológicos, geomorfológicos, climatológicos,
hidrológicos, pedológicos, florestais e da biodiversidade; determinação da
vulnerabilidade do território a perda de solos por eventos naturais e antrópicos -
desmatamento, explotação florestal, atividades agrícolas, pressões de natureza hídrica,
biológica, eólica e antrópica.

Socioeconômia – Estudos, levantamentos e informações para tabulação e


mapeamento das componentes da matriz socioeconômica existente, envolvendo as
potencialidades naturais, demográficas e socioeconômicas e do território, inclusive sua
capacidade de suporte a diferentes modalidades de ocupação e uso antrópico - urbano,
agrícola, industrial, agropecuário, hídrico, minerário, florestal.

Aspectos Demográficos e Sociais – Coleta e sistematização de dados sobre a


dinâmica demográfica e sua distribuição espacial em cada Unidade Territorial Básica
(UTB) do território para identificação do potencial humano em seus desdobramentos
de grupos etários, perfil de escolaridade, força de trabalho e domínio de tecnologias
aplicáveis ao processo de desenvolvimento socioeconômico e progresso social.

Aspectos Produtivos – Levantamento, tabulação e mapeamento da estrutura de


produção e de suas potencialidades regionais, abrangendo aspectos quantitativos e
qualitativos dos principais produtos, mediante:

• Identificação dos níveis de produção e produtividade regional por tipologia de


produto destinado ao mercado interno e à exportação.
• Análise do mercado interno e externo e de seus reflexos sobre a economia regional
e nacional, suas potencialidades e oportunidades sazonais de crescimento
sustentável.
• Definição dos principais fluxos regionais, nacionais e internacionais dos produtos da
economia regional.
• Cenários de dinamização da economia regional, observada a capacidade de suporte
ecológico do território e o aparato produtivo, considerando-se o conjunto de fatores
que intervém nos processos de produção, uso e aplicação de matéria prima,
insumos, força de trabalho, capital e tecnologias.

19
Aspectos Jurídico-Institucionais – Definição das principais necessidades,
interesses e prioridades dos grupos humanos localizados no território regional e os
dispositivos legais de apoio às seguintes realizações:

• Formulação e implementação de planos, programas e projetos, governamentais de


desenvolvimento regional na área objeto do planejamento-PDOR.
• Identificação das concessões de direito de explotação e uso dos recursos naturais e
suas eventuais superposições e conflitos no território regional.
• Identificação das potencialidades e possibilidades da população regional em
diretamente participar da explotação dos recursos naturais da região mediante
processo de treinamento, capacitação e aperfeiçoamento profissional da força de
trabalho, estruturação e organização dos recursos humanos em empresas,
cooperativas e outras organizações locais, municipais e regionais.

Distribuição Espacial da População – O Zoneamento Ecológico–Econômico


deverá conter dados, informações e subsídios técnicos, que nor-tei em a distribuição
espacial da população, nos quais deverão ser explicitadas e mapeadas as áreas de
explotação de recursos naturais e os assentamentos urbanos e rurais, observados os
aspectos vocacionais dos diferentes nichos ecológicos em suas conotações e
desdobramentos agrícolas, industriais, minerários, extrativistas, pesqueiras, turísticas,
consoante suas respectivas dimensões e capacidade de suporte.

Matriz Socioeconômica – Identificação das potencialidades em recursos naturais


(minerais, solos, flora, fauna, água, clima, paisagens) explotáveis, demonstradas em
memoriais descritivos, planilhas, mapas e cartogramas das unidades territoriais
básicas (UTBs) regionais.

Subsídios à Gestão Territorial – O ZEE deverá indicar e mapear as fragilidades e


potencialidades de cada UTB da área em estudo, levando em consideração os
aspectos físicos, biológicos, geopolíticos, demográficos, econômicos, jurídicos,
institucionais e a capacidade de uso do solo, consoante processo interativo no qual a
sociedade e a natureza possam, em conjunto, assegurar as melhores condições
possíveis ao interativo processo de desenvolvimento socioeconômico regional.

Cenários Prospectivos – O ZEE deverá conter indicadores básicos para


formulação das diretrizes de ocupação racional do território regional – constante de um

20
Plano Diretor de Ordenamento Territorial – PDOT - mediante implementação de
programas e projetos de incentivo às atividades econômicas compatíveis com a
capacidade de suporte da matriz ecológica; formular e criar quadros de articulação
político-institucional para gestão pública integrada envolvendo o território, a
população, a economia e o meio ambiente, expressos em bases cartográficas e
relatórios indicativos dos recursos naturais, geologia, geomorfologia, disponibilidades
hídricas superficiais e subterrâneas, geoquímica, uso do solo e da cobertura vegetal,
aptidão agrícola, clima e variáveis climáticas regionais; biodiversidade, vulnerabilidade
natural do território e suas potencialidades econômicas e sociais, para ocupação
urbana e rural, inclusive solos para engenharia, solos para assentamentos urbanos,
solos para agronomia e outras atividades antrópicas; subsídios à gestão regional
sustentável, mediante cenários prospectivos para formulação do processo de
desenvolvimento socioeconômico, observando-se, em cada caso, as necessidades e
demandas da população.

Banco de Dados e Informações - Embasamento de natureza técnica, tendo


por objetivo estruturar e consolidar dados e informações estatísticas, geográficas,
econômicas, demográficas culturais, ambientais indispensáveis ao planejamento e
implementação do processo de desenvolvimento regional sustentável.

No contexto do planejamento para o desenvolvimento regional integrado, o


zoneamento ecológico-econômico de um território regional deve ser elaborado como
instrumento básico do Plano Diretor de Ordenamento Regional – PDOR – a seguir
delineado no quadro Q.

Q.1 – Estrutura Matricial do Zoneamento Ecológico – Econômico.

III IV

MATRIZ ECONÔMICA MATRIZ SOCIAL

II

MATRIZ ENERGÉTICA

21
I

MATRIZ ECOLÓGICA

Legenda: Interação estrutural Interação conjuntural

I. Componentes regionais e recursos naturais disponíveis


II. Componentes energéticas do processo de desenvolvimento
III. Componentes econômicas – atividades antrópicas
IV. Índices de desenvolvimento humano e progresso social

22
PLANO DIRETOR DE ORDENAMENTO REGIONAL - PDOR

• Organizar para melhor administrar

Diretrizes Básicas

O PDOR tem por escopo estabelecer diretrizes básicas


ao processo de organização físico-espacial, biológica,
econômica, social, demográfica, cultural e ambiental
de uma região geográfica, visando a alcançar as
melhores condições possíveis de sustentabilidade
urbano-rural.

No contexto da dimensão geopolítica e institucional brasileira, cada região,


estado ou município situa-se na base de um sistema federativo no qual deve
prevalecer como objetivo nacional permanente a unidade geopolítica nacional, ainda
que formada de pluralidades geográficas, políticas, econômicas, sociais, culturais,
ecológicas e ambientais, representadas por mais de cinco mil e quinhentos espaços
municipais, doze mil subespaços regionais, estaduais e federais que, no contexto
continental do Brasil ocupam 8,51 milhões de quilômetros quadrados, com mais de
vinte e duas mil bacias e microbacias hidrográficas, e no contexto marítimo 6 milhões
de km2 de plataforma subatlântica, perfazendo o total de 14,5 milhões Km2.
Nesse enfoque, percebe-se, claramente, que o fortalecimento da condição
federativa brasileira, enquanto base do poder geopolítico expresso na Constituição
Federal, apóia-se, fundamenta-se e prospera a partir do multiforme espaço territorial
sobre o qual é construída: as regiões geográficas nas quais se inserem os Estados
Federados e as unidades municipais nas quais se inserem a rede nacional de cidades.
Assim, o fortalecimento da unidade federativa nacional pressupõe o fortalecimento de
sua base geopolítica formada e estruturada no contexto municipal/regional, razões
pelas quais entende-se que tal fortalecimento é condição fundamental à consolidação
da estrutura geopolítica nacional como objetivo permanente que, partindo da
municipalidade perpassa a regionalidade e alcança a nacionalidade como suprema
condição da nossa própria existência de nação independente e estado soberano, em
que pesem as diferentes conotações regionais de pluralidade geográfica, política,
socioeconômica, cultural e ambiental.

Nesse contexto, perceber-se que o processo de ordenamento regional brasileiro


não é um fim em si mesmo, mas o instrumento institucional básico de formulação e

23
implementação de políticas públicas que, envolvendo suas componentes básicas,
(território, população, economia, meio ambiente), deve, por via de conseqüências,
assegurar o máximo de sustentabilidade e perenidade ao crescimento econômico, ao
progresso social, ao aperfeiçoamento institucional, à proteção ambiental e ao exercício
da cidadania, razão pela qual deve ser elaborado e implementado consoante um
roteiro básico, envolvendoo território e todas as suas áreas, setores e atividades
socioeconômicas, demográficas e biológicas, assim resumidamente esboçado:

PDOR – PLANO DIRETOR DE ORDENAMENTO REGIONAL

Roteiro Básico

1. Do Plano Diretor de Ordenamento Regional

1.1. Da Abrangência do Plano


1.2. Dos Objetivos
1.3. Dos Custos e Benefícios

2. Do Processo de Planejamento

2.1- Das Parcerias Institucionais

2.2- Da Legislação Básica

2.3- Do Apoio Técnico, Administrativo e Financeiro.

3. Do Ordenamento Espacial

3.1- Do Zoneamento Ecológico-Econômico

3.2 - Do Macro Ordenamento Territorial

3.3 - Dos Programas Setoriais de Ordenamento

• Programa de Proteção à Natureza e ao Meio Ambiente


• Programa de Uso e Conservação do Solo
• Programa de Mineração
• Programa de Proteção aos de Recursos Hídricos
• Programa de Saneamento Básico e Ambiental
• Programa de Equipamento Territorial e Infra-estrutura Básica

4. Do Ordenamento Econômico, do Progresso Social e do Aperfeiçoamento das


Instituições.

24
4.1 - Das Ações Governamentais

4.2 - Da Iniciativa Privada

4.3 - Das Parcerias e das Ações Combinadas

4.4 - Dos Programas Setoriais

• Programa de Desenvolvimento Urbano


• Programa de Desenvolvimento Rural
• Programa de Habitação Familiar
• Programa de Transportes
• Programa de Turismo
• Programa de Indústria, Comércio e Serviços
• Programa de Educação e Formação Profissional da População
• Programa de Saúde Pública
• Programa de Alimentação e Nutrição
• Programa de Saneamento Básico e Ambiental

* * *

Para elaborar o PDOR, promover sua implementação e alcançar os objetivos


nele delineados, deve-se considerar alguns conceitos, diretrizes básicas e normas de
procedimentos administrativos, técnicos, financeiros e ambientais, entre os quais
aqueles que envolvam questionamentos como, por exemplo, o que é, para que serve e
como se faz um plano diretor de desenvolvimento econômico, progresso social,
proteção ao meio ambiente e aperfeiçoamento institucional em seu conteúdo,
composição, estrutura, compromisso e benefícios sociais a alcançar. Nesse enfoque,
dir-se-á que um PDOR pode ser elaborado em duas fases complementares e
interdependentes, envolvendo esquematicamente as seguintes etapas, sucessivas,
complementares e interdependentes:

Diagnose – que revela o estagio atual da região, em suas


componentes básicas: Território – População – Economia – Meio
Ambiente

Prognose – que pressupõe alcançar o estagio desejado,


PDOR
envolvendo: Território–População–Economia–Meio Ambiente, por
meio de seus cinco desdobramentos básicos, sintetizados no quadro
Q.

25
- Ordenamento Territorial
- Ordenamento Econômico
- Ordenamento Social
- Ordenamento Institucional
- Ordenamento Ecológico e Ambiental

26
ORDENAMENTO REGIONAL INTEGRADO

TERRITÓRIO POPULAÇÃO ECONOMIA MEIO AMBIENTE

ORDENAMENTO ORDENAMENTO ORDENAMENTO ORDENAMENTO


TERRITORIAL POPULACIONAL SOCIOECONÔMICO AMBIENTAL

• ZEE – ZONEAMENTO
ECOLÓGICO
ECONÔMICO • ESPACIALIZAÇÃO • ESPACIALIZAÇÃO • PROTEÇÃO AO MEIO
• Plano Diretor de DEMOGRÁFICA – ZEE ECONÔMICA – ZEE AMBIENTE – ZEE
Ordenamento Territorial; • DESENVOLVIMENTO • D⇒f (Rn, Rh, Rt.Ri.) • Território – População –
• Macro-zoneamento Urbano HUMANO – IDH • Recursos Naturais; Economia – Meio Ambiente.
e Rural; • Força de Trabalho, Mobilidade • Recursos Humanos; • Sustentabilidade aos
• INVENTÁRIO DOS Demográfica, Demandas • Recursos de Capital; processos de crescimento
RECURSOS NATURAIS; Biológicas, Econômicas, • Recursos Tecnológicos; econômico e progresso
• Minerais, Vegetais, Sociais, Espaciais. • Recursos Institucionais; social;
Pedológicos, Biodiversidade, • PROFISSIONALIZAÇÃO DA • INFRA-ESTRUTURA • Melhoria da qualidade de
Ecossistemas, Áreas FORÇA DE TRABALHO ECONÔMICA vida;
Degradadas, • NICHOS ECONÔMICOS; • Energia, Transporte, • Proteção à biodiversidade;
• NICHOS ECOLOGICOS. • NICHOS CULTURAIS. Comunicações, Saneamento • Equilíbrio dinâmico solo –
• Urbanos e Rurais • Urbanos e Rurais Básico, Habitação, Educação, água – clima – flora – fauna
Saúde, Alimentação, Nutrição – Homem – Meio Ambiente;
• Saneamento Básico • Saneamento Básico

27
Esse esquema, embora tenha forte aparência didática, facilita a compreensão da
importância do processo de ordenamento regional e dos objetivos a alcançar, à medida que
enfoca apenas dois parâmetros complementares e interdependentes: Diagnose, e Prognóse,
desdobráveis em cinco enfoques simplificados: ordenamento territorial, ordenamento econômico,
ordenamento social, ordenamento institucional e ordenamento ecológico - ambiental, sintetizados
no seguinte resumo:
Conhecimento da realidade regional, mediante realização de estudos,
pesquisas, investigações e interpretação das condições estruturais e
conjunturais da região envolvendo suas diferentes componentes
Diagnose geográficas, biológicas, socioeconômicas, institucionais e ambientais para
identificação, mensuração e avaliação da espacial e temporal do estágio
atual da conjuntura regional, ao longo de uma série de, pelo menos vinte
anos pretéritos, que enseja a compreensão histórica de recentes
momentos conjunturais e de suas possíveis alterações, consoante
previsto em consistente prognóstico.

Formulação das políticas de redirecionamento do processo de


desenvolvimento socioeconômico regional, mediante instituição de um
Prognose
novo e consistente processo de ordenamento harmônico de suas
componentes geográficas, biológicas, socioeconômicas e ambientais
partir das potencialidades oferecidas pelo território, pela população, pela
economia e pelo meio ambiente natural.

28
Transformação das diretrizes políticas previstas no PDOR em programas
e projetos setoriais de ordenamento econômico, progresso social e
proteção ao meio ambiente a cargo do poder público e da iniciativa
privada, nos diferentes setores da economia e do espaço regional.

Implementação Eleição de prioridades para implementação das políticas públicas


socialmente mais adequadas, em cada caso e em cada oportunidade
visando a solução de cada problema setorial sempre no pressuposto de
uma grande solução de conjunto envolvendo o território, a população, a
economia e o meio ambiente.

Acompanhamento e avaliação periódica dos resultados das medidas


Monitoramento
governamentais e empresariais para eventuais correções de suas
respectivas trajetórias no processo de ordenamento regional integrado.

Sistematização e compatibilização das políticas públicas implementadas


aos objetivos alcançados e a alcançar em etapas seguintes.

Ampliação, diversificação e adequação continuada das políticas públicas


Ajustamentos
bem sucedidas, tendo por escopo manter a trajetória do PDOR em
direção ao estágio desejado, sempre centrado nos termos de equilíbrio
território – população – economia – meio ambiente.

29
DIAGNOSE

• Espaço Cognitivo Metodologia Básica

Diagnose: Conhecimento detalhado do estágio atual da


realidade geográfica regional, que enseje a formulação de um
prognóstico compatível com as possibilidade de alcançar
sucessivos estágios planejados.
A diagnose regional, envolvendo o território, a população a economia e o meio ambiente,
pode resumidamente ter as seguintes fases de procedimentos básicos:
• Estudos, pesquisas, levantamentos e sistematização de dados e informações sobre o espaço
geográfico e seus recursos disponíveis, em todas as suas ocorrências, ações, reações,
interações, interdependência e complementaridade, identificados no zoneamento ecológico-
econômico - ZEE.
• Interpretação do comportamento histórico das componentes regionais e de seus
desdobramentos na formação e evolução da conjuntura regional, envolvendo a natureza
física, demográfica, biológica, socioeconômica, cultural, política, e institucional da região.
• Identificação das origens, tipologias, freqüências, alternâncias e prevalências dos fenômenos
de natureza estrutural e conjuntural expressas nos indicadores do atual estágio de
ordenamento regional e de seus reflexos no comportamento das populações urbanas e rurais.
• Identificação da Matriz Ecológica Regional, suas dimensões, potencialidades e fragilidades,
tendo por objetivo a formulação e dimensionamento da Matriz Socioeconômica
ambientalmente suportável, a partir das potencialidades oferecidas pela respectiva Matriz
Energética a ser utilizada pelos planejadores para realização do ordenamento regional
integrado.

30
PROGNOSE

• Metodologia Básica. Organizar a Matriz Econômica para melhor realiza-la.

Prognose: Antevisão de acontecimentos futuros previstos em


sucessivos estágios do processo de ordenamento regional
integrado.
Diretrizes Gerais - Organizar a região para melhor administrá-la, criar mecanismo para
transformar recursos naturais em recursos econômicos, recursos inertes em recursos dinâmicos,
sempre em busca dos termos de equilíbrio território – população - economia - meio ambiente, eis
a questão básica implícita na prognose do ordenamento regional integrado.

Diretrizes Políticas – Realizar, no menor tempo possível, políticas públicas


conducentes ao ordenamento territorial, ao progresso econômico e social, ao aperfeiçoamento
das instituições e à proteção ao meio ambiente, eis a questão básica do processo de
transformação de intenções políticas em ações políticas no processo de ordenamento regional
integrado.

Objetivos Definidos – Benefícios socioeconômicos a serem alcançados pela população


em diferentes horizontes temporais, em razão da implementação políticas públicas delineadas no
PDOR para alcançar as melhores condições possíveis o atendimento às suas demandas espaciais,
biológicas, socioeconômicas e ambientais, eis a questão básica do questionamento
custo/benefícios sociais.

Ações Planejadas – Elenco de intervenções coordenadas, a cargo do poder público e da


iniciativa privada, visando a alcançar os objetivos definidos mediante implementação de uma
série de políticas públicas de atendimento ao complexo de necessidades e demandas da
população regional, eis a questão básica da gestão pública integrada, resumidamente delineada
no quadro Q.

Objetivos a Alcançar – Elenco de objetivos definidos cujos resultados positivos devem


nortear e aperfeiçoar as políticas públicas implementadas em seqüentes etapas do processo de
ordenamento regional, sempre em direção ao estágio desejado, previsto no PDOR.

O processo de ordenamento integrado de uma região geográfica deve seguir metodologia


centrada nas potencialidades, fragilidades e especificidades regionais, cujos desdobramentos
devem ocorrer ao longo de seis vertentes fundamentais, complementares e interdependentes, em
prazos previamente programados no PDOR:

• Zoneamento Ecológico-Econômico Regional – consoante parâmetros já descritos.

31
• Ordenamento Econômico - visando o crescimento da economia regional como suporte ao
ordenamento social, consoante a capacidade de suporte da Matriz Ecológica.

• Ordenamento Social - visando a ascensão horizontal e vertical da população na escala


social, enquanto agente motor e promotor do desenvolvimento regional sustentável.

• Ordenamento Institucional - visando o aperfeiçoamento das instituições regionais,


enquanto entidades normativas do processo de ordenamento socioeconômico.

• Ordenamento Ambiental – como instrumento de proteção ao meio ambiente, enquanto


envoltório natural do espaço regional.

• Ordenamento Territorial - visando a organização físico-espacial do território, como


entidade suporte da Matriz Socioeconômica Regional.

ORDENAMENTO TERRITORIAL

PDOT

Abrangência Funcional

No contexto do ordenamento regional, o ordenamento territorial


deve ter como escopo básico o planejamento funcional dos
espaços físicos, biológicos, socioeconômicos e ambientais de
uma região geográfica, como condição de suporte à matriz
econômica.

O Ordenamento Territorial de uma região geográfica consiste na organização físico-


espacial, socioeconômica e ambiental do território regional, realizada a partir das suas
potencialidades geográficas, capacidade de suporte e vocações de seus diferentes espaços
ecológicos e ambientais identificados no ZEE, tendo por objetivo básico assegurar:

• As melhores condições possíveis de segurança e funcionalidade aos assentamentos urbanos e


rurais, visando a integração e expansão dos processos produtivos de bens, matérias primas,
insumos e serviços.

• Adequada distribuição espacial do equipamento territorial existente e projetado para


assegurar o pleno atendimento às necessidades e demandas da população demandante.

32
• Delimitar as áreas de preservação ambiental e de interesse científico e paisagístico.

• Estruturar uma rede urbana hierarquizada, compatível com as necessidades e demandas da


população.

• Preservar a biodiversidade, na qual se insere a espécie humana.

• Delimitar áreas de risco natural, acidental, e geológico, hidrológico e ecológico – ambiental.

• Delimitar espaços de explotação econômica de recursos naturais renováveis e não renováveis


e áreas de preservação, conservação e proteção à natureza.

Para alcançar essa abrangência, o processo de ordenamento regional deve observar três
condições básicas, ambas indispensáveis ao processo de ordenamento espacial, socioeconômico,
demográfico e ambiental, como pressupostos básicos aos processos de atendimento às demandas
populacionais, observadas as potencialidades, fragilidade e restrições constantes do respectivo
ZEE.

A primeira condição refere-se ao ordenamento do espaço rural, no qual se inclui o


espaço agrário e seus sub espaços naturais protegidos, considerados áreas de suporte ecológico,
do espaço vital da população, enquanto instrumentos da sustentabilidade urbana e regional.

A segunda condição refere-se ao ordenamento dos espaços funcionais da cidade,


enquanto áreas de adensamento demográfico e socioeconômico que, por força da diversidade e
especifidade das respectivas funções, devem ter seus próprios instrumentos, meios, modos e
condições de atendimento às demandas populacionais.

A terceira condição refere-se ao ordenamento dos espaços naturais relevantes,


componentes do Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC – das Áreas de Reserva
da Biosfera e das Áreas de Proteção de Mananciais – APM – Todas indispensáveis à preservação
da vida no planeta Terra.

Assim, no contexto do ordenamento regional integrado, passam a existir espaços


territoriais hierarquizados por funções, naturais e funções antrópicas, alguns de forte prevalência
urbana, outros de vocação agroindustrial, outros de vocação agropecuária, extrativista, hídrica,
minerária, comercial, turística, esporte, lazer e de proteção à biodiversidade, consoante os
apostes identificados e mapeados no ZEE regional. Nesse enfoque, o planejamento físico-
territorial deve ser realizado como instrumento indicativo e normativo dos usos mais adequados,
e permitidos no território regional para assim criar as melhores condições possíveis à
implementação dos projetos de assentamentos urbanos, agrários, minerários, energéticos - todos
com seus equipamentos territoriais de produção e distribuição de energia elétrica,

33
telecomunicações, represamento hídrico, açudagem, armazenagem e transporte da produção,
habitação, abastecimento alimentar e demais aportes socioeconômicos. Nesse caso, a
organização espacial do território regional deve contemplar, em especial, a criação de espaços
adequados à estruturação de atividades produtivas e conservacionistas, indicados na matriz
ecológica, visando, entre outros objetivos:
• Criar espaços agrários, minerários e energéticos hierarquizados por funções prevalentes, de
modo a ensejar organicidade e sustentabilidade ao desempenho às suas respectivas funções
produtivas nos setores de atividades agrícolas, agropecuárias, extrativismo, mineração,
produção e transporte de energia elétrica e hidráulica, beneficiamento de matérias primas
indispensáveis ao atendimento do complexo de demandas das populações urbanas e rurais.
• Criar e demarcar áreas de apoio às atividades rurais estruturadas em núcleos rurais, colônias
agrícolas, agrovilas e rurópolis, as duas primeiras prevalentemente rurais e as últimas, com
estrutura urbana definida, desenvolvendo atividades agroindustriais, habitacionais e serviços
de apoio às atividades produtivas rurais.
• Criar e delimitar áreas de proteção, conservação e preservação de monumentos geológicos,
paisagísticos, paleológicos, arqueológicos, hidrológicos, áreas de proteção a mananciais e áreas
de proteção aos recursos naturais e à biodiversidade e outras unidades de conservação
indispensáveis à preservação da vida no planeta.
• Criar e delimitar áreas destinadas a assentamentos urbanos e agro-industriais ecologicamente
adequados.
• Criar e demarcar áreas favoráveis à organização do sistema viário regional e de seus terminais
de cargas e passageiros.

Assim, no processo de planejamento para o ordenamento regional, especial atenção deve


ser dada ao ordenamento da rede urbana regional, e de seus espaços de sustentabilidade para
melhor integrá-la à rede urbana nacional e mundial.

Deve-se entender, porém, que o PDOT constitui documento prevalentemente normativo,


valer dizer norteador, normatizador, da espacialização do conjunto de políticas públicas,
regionais e locais, visto que, como plano diretor, limita-se a traçar diretrizes gerais, às
políticas de desenvolvimento regional, razões pelas quais não devem ser confundido com
programas e projetos de governo, ainda que a eles vinculados ou deles decorrentes, consoante
sua abrangência física e socioeconômica.

34
PDOT
Abrangência Econômica

O ordenamento territorial, em sua abrangência econômica, deve


ser compreendido e realizado como base e pressuposto do
progresso social, consoante a capacidade de suporte da
respectiva Matriz Ecológica, potencialidades da Matriz Energética
e dimensão da Matriz Socioeconômica.

No contexto do ordenamento econômico, o PDOT emerge como entidade de suporte e


aporte físico-espacial ao progresso social e ao aperfeiçoamento das instituições enquanto
condição motora do desenvolvimento regional integrado. Esta é a principal razão da estreita
correlação de interdependência e complementaridade entre as causas e os efeitos
socioeconômicos e biológicos ocorrentes no território, de cujo processo flui a economia como
base, pressuposto e moldura do progresso social. Assim, o crescimento econômico está implícito
na própria natureza, escopo e desdobramento de um processo de mudanças estruturais
condicionantes de adequadas utilizações dos recursos disponíveis no território regional,
sintetizados em recursos naturais, recursos humanos, recursos de capital, recursos tecnológicos e
recursos institucionais, expressos no modelo racional.

Dri f (Rn. Rh. Rc. Rt. Ri)

Assim, a abrangência econômica de um PDOT,enquanto condição motora do progresso


social, deve ter como pressuposto e objetivo central transformar a região em espaço organizado
e racionalmente produtivo, ecológico e ambientalmente equilibrado no espaço da matriz Ecológica
regional, sempre compatível com sua condição de abrigo da biodiversidade da qual o Homo
sapiens sapiens faz parte, economicamente nela se integra e dela depende como ser vivente,
universal e produtor de bens, matérias primas, insumos e serviços. Essa a razão pela qual o
PDOT deve também ser entendido e compreendido como espaço de inserção de atividades
antrópicas racionalmente organizadas, porém ecologicamente sustentável.

Nessa visão multidisciplinar, o ordenamento econômico do espaço regional deve ser visto
e entendido como instrumento de geração do ordenamento do espaço social organizado, desde
que centrado em atividades vinculados ao mercado de trabalho, e à produção, comércio,
indústria, serviços e renda, expressos em produto interno bruto, renda per-cápita, índices de

35
desenvolvimento econômico, progresso social e desenvolvimento humano, principais indicadores
do complexo de sustentabilidade espacial, biológica, econômica, social, política, cultural das
populações envolvidas, sempre perseptiveis à medida que aumentam as componentes e as
pressões demográficas que continuadamente diversificam e aperfeiçoam os instrumentos de
atendimento às suas próprias necessidades e demandas.

PDOT

Abrangência Social

Parte do pressuposto que a população, como geratriz da força de


trabalho, é o principal elemento motor-gerador do
desenvolvimento regional, à medida que intervem na geração,
deflagração e propagação dos processos produtivos conducentes
ao crescimento econômico, ao progresso social, ao
aperfeiçoamento das instituições e à proteção ao meio ambiente
natural ou criado.

No contexto do modelo racional de desenvolvimento integrado Dri f (Rn. Rh.


Rc. Rt. Ri), a população (Rh) constitui parâmetro de fundamental importância, à medida que
sendo a geratriz da força de trabalho assume a condição motora nos processos produtivos de
bens, insumos e serviços, visto que em qualquer circunstância o progresso social será tanto mais
dinâmico, abrangente e acelerado quanto mais socialmente organizada for a população e mais
qualificada a sua força de trabalho para o domínio das tecnologias apropriadas aos seus
diferentes fins produtivos, políticos, socioeconômicos e culturais. Assim, coopitar a população
para participação consciente no processo de desenvolvimento socioeconômico, deve-se, antes de
tudo, capacitar a sua força de trabalho para intervir com eficácia nos processos produtivos,
promover sua inserção no contexto do desenvolvimento regional como entidade protagonista e
beneficiária final de tal empresa.

Para alcançar tais objetivos, o planejamento social deve conter, entre outras, as seguintes
propostas, programas e projetos, espacializados no Território, consoante as potencialidades e
fragilidades da respectiva Matriz Ecológica, e da Matriz Energética para suporte da Matriz
Econômica, no contexto do ordenamento regional:

• Adequada distribuição espacial da população no território, consoante a localização espacial


dos recursos naturais explotáveis, por setores produtivos da economia regional, situados em

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áreas de núcleos urbanos, assentamentos rurais, minerários, energéticos e urbano-rurais,
definidos no ZEE e incluídos nos programas e projetos de ordenamento socioeconômico
regional.
• Capacitação da força de trabalho para dominar e aplicar tecnologias apropriadas à geração,
deflagração e propagação dos processos produtivos nos três setores da economia regional.
• Profissionalização da população adulta em centros de capacitação da força de trabalho, para
atuar nas diferentes atividades da economia regional.
• Promover, em consonância com as diretrizes federais e estaduais, a elaboração e a
implementação de planos diretores de desenvolvimento urbano, nos termos do Estatuto da
Cidade, e de desenvolvimento rural, nos termos do Estatuto da Terra, mediante convênios
com agências governamentais.
• Promover, em consonância com agências públicas federais, estaduais e municipais a
implementação de programas e projetos de habitação, saneamento básico, assistência médico
hospitalar, mercado de trabalho e promoção social, tomando-se como meta a alcançar os
indicadores sociais adotados pela Organização das Nações Unidas.

Para implementar políticas públicas de ordenamento social, as ações recomendadas no


PDOR deverão ser transformadas em programas e projetos executivos, cada um contendo
metas e objetivos a alcançar em espaços geográficos e horizontes temporais compatíveis com as
necessidades e demandas das respectivas populações, compatibilizados em documentos
indicativos dos meios e modos a serem utilizados para transformar intenções políticas em ações
políticas, recursos naturais em recursos econômicos, recursos inertes em recursos dinâmicos
identificados no ZEE e referenciados nos programas e projetos executivos do Plano Diretor de
Ordenamento Regional - PDOR.

Nesses enfoques deve-se perceber que a dinâmica espacial e socioeconômica urbana


e regional resulta da eficácia dos instrumentos, meios e modos utilizados pela administração
pública e pela iniciativa privada para realizarem o pleno atendimento às necessidades e
demandas das populações envolvidas no processo de ordenamento regional integrado - PDOR.

Nesse ponto deve-se fazer referencia ao que em 1960 disse o mestre Celso Fundado:

“O que caracteriza o desenvolvimento econômico é o projeto social adjacente.”

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