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Revista
de estudos
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Coordenação deste número
Rui Jacinto
Alexandra Isidro
Apoio à Coordenação
Ana Margarida Proença
Impressão
Marques & Pereira, Lda
Edição
Centro de Estudos Ibéricos
Rua Soeiro Viegas, 8
6300-758 Guarda
cei@cei.pt
www.cei.pt
ISSN: 1646-2858
Depósito Legal:
dezembro 2020
Geograficidades Lusófonas. 19
Caminhos para um Diálogo entre Margens
José Borzachiello; Rui Jacinto
“Heterodoxia”: 367
Historicidade e Tragédia
António Pedro Pita
RUI JACINTO*
*
Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território e Centro de Estudos Ibéricos.
10 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
A convicção que não teríamos “um futuro se nós próprios não nos dermos
esse futuro” não será alheia à sugestão de criar um instituto com as caracte-
rísticas que o CEI viria a assumir. Os ventos pareciam a correr de feição, não
havia dúvidas que o rumo era certo nem engano que o caminho seria plano e
sem rugosidades. Depositava-se crença cega na aceleração que tomava a cons-
trução europeia, não se questionava o alargamento a leste, acreditava-se num
futuro auspicioso que reservava a imparável globalização. Eduardo Lourenço,
que continuava a pendular entre Vence e Portugal, acompanhava de perto a con-
solidação do CEI, a quem emprestou o seu prestígio e capital de conhecimento,
participando em muitas atividades que iam sendo programadas. O desafio que
havia lançado em 1999 para a criação na Guarda do Instituto da Civilização Ibé-
rica, estou em crer, foi um impulso íntimo, sentido e profundo, quem sabe um
apelo subconsciente onde já pairaria a aspiração larvar de iniciar o retorno à sua
mátria, esse regresso sem fim de que falaria mais tarde, antecipação do reen-
contro com as origens, o efetivo regresso a casa do filho pródigo.
1
O mito da Comunidade Luso-Brasileira [1959?]. Eduardo Lourenço (2015) – Do Brasil: fascínio e miragem.
Gradiva, Lisboa: 73-74 (Organização e Prefácio de Maria de Lourdes Soares).
12 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
rica e complexa, onde habitam perto de 280 milhões de falantes que fazem do
português a língua mais falada no hemisfério sul e a quinta a nível mundial.
As geografias dos Países de Língua Portuguesa, como adiante se verá, con-
tinuam de costas voltadas, são ainda relativamente desconhecidas, embora en-
cerrem um campo fértil para debates e estudos comparativos, como os que tem
sido levado a cabo no âmbito do CEI, envolvendo investigadores portugueses,
espanhóis e de diferentes Universidades do Brasil, Cabo Verde, Moçambique e
Angola. As questões ambientais, as dinâmicas socioeconómicas, os processos
de reestruturação, que ocorrem em diferentes contextos territoriais, são vastos
campos de investigação e debate, fundamentais para socializar o conhecimento,
difundir boas práticas e trocar experiências sobre a incidência de políticas publi-
cas, sobretudo as mais focadas na coesão económica, social e territorial, isto é, as
que aspiram um almejado desenvolvimento sustentável.
Tal abordagem requer engenho e alguma arte pois os espaços e os imaginá-
rios lusófonos são multipolares, plurais do ponto de vista cultural e sujeitos a um
forte câmbio: “Mas o espaço da lusofonia, não tanto no seu óbvio sentido linguís-
tico, mas como espaço cultural, é um espaço se não explodido, pelo menos mul-
tipolar, intrinsecamente descentrado. Querer uni-lo pelo que para nós é aproble-
mático, mas também ingenuamente eurocêntrico, quando nós fomos os primeiros
agentes, inconscientes embora, da descentração europeia, é a melhor maneira
de cortar pela raiz o sonho de comunhão, de expansão de nós mesmos como
2
cultura que se quer vincular à ideia-programa, agora ideológica, da lusofonia.”
A institucionalização da Geografia no Ensino Superior dos diversos Países de
Língua Portuguesa conheceu processos distintos que determinaram a evolução
e os posicionamentos em cada um deles, vicissitudes que conduziram ao atual
estado da arte. Nesta apreciação não se pode abstrair das guerras que acompa-
nharam o doloroso processo de descolonização nos novos Países Africanos de
Língua Oficial Portuguesa (PALOP). O Mestre ensinou-nos que “O imaginário lusó-
fono tornou-se, definitivamente, o da pluralidade e da diferença e é através desta
evidência que nos cabe, ou nos cumpre, descobrir a comunidade e a confrater-
nidade inerentes a um espaço fragmentado, cuja unidade utópica, no sentido de
partilha em comum, só pode existir pelo conhecimento cada vez mais sério e pro-
fundo, assumido como tal, dessa pluralidade e dessa diferença. Se queremos dar
algum sentido à galáxia lusófona, temos de vivê-la, na medida do possível, como
inextricavelmente portuguesa, brasileira, angolana, moçambicana, cabo-verdiana
3
ou são-tomense.”
2
“O novo espaço lusófono ou os imaginários lusófonos”. Eduardo Lourenço (1987) – A Nau de Ícaro seguido
de Imagem e Miragem da Lusofonia, Gradiva: 188.
3
“Errância e busca num imaginário lusófono”. Eduardo Lourenço (1987) – A Nau de Ícaro seguido de Imagem
e Miragem da Lusofonia, Gradiva: 112.
TRIBUTO A EDUARDO LOURENÇO NOS VINTE ANOS DO CENTRO DE ESTUDOS IBÉRICOS
13
Rui Jacinto
*
Universidade Federal do Ceará (UFC) e Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC - Rio)
[borzajose@gmail.com].
**
Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT) [rjacintomm@gmail.com].
20 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
1
Trata-se da atual Universidade Federal do Rio de Janeiero - UFRJ.
GEOGRAFICIDADES LUSÓFONAS. CAMINHOS PARA UM DIÁLOGO ENTRE MARGENS
21
José Borzachiello, Rui Jacinto
se seguiu uma administração provisória da ONU até por Portugal, em 2002, reco-
nhecer a independência.
3. A INVESTIGAÇÃO EM GEOGRAFIA
A evolução institucional da Geografia varia, como vimos, nos diferentesPaíses
de Língua Portuguesa, onde se somam a fatores já evocados os que são intrínse-
cos e específicos de cada país, sobretudo nos PALOP, onde a exposição e depen-
dência externa foi em dado momento mais efetiva. A geografia das Geografias
dos novos Países de Língua Portuguesa (PLP) aponta um quadro onde é evidente
a desigual maturidade científica e institucional indissociável de especificidades,
espessuras temporais e trajetórias sociopolíticas de cada país.
Há uma notória desigualdade espacial na oferta formativa em Geografia que
decorre das profundas assimetrias da organização do território, da forte polari-
zação da rede urbana e duma vincada litoralização. É ainda digno de registo a
forte influência que teve a Geografia brasileira passou a ter naqueles países, no
passado mais recente, suplantando o vínculo antigo existente com a Geografia
Portuguesa, tanto no período anterior como no imediato às independências. Esta
tendência é particularmente evidente no caso de Moçambique, onde a escassa
investigação realizada 2006 e 2016, a avaliar pelo número de teses de doutora-
mento produzidas, mostra que das 14 que foram concluídas por geógrafos mo-
çambicanos, 7 foram apresentadas no Brasil e apenas 1 em Portugal. Os trabalhos
incluídos neste número da Revista, ao apontarem igualmente neste sentido, espe-
lham com veemência a realidade da investigação geográfica feita nos PALOP ter
ainda uma expressão relativa em termos quantitativos.
Estamos a viver um momento excecional, num contexto da pandemia do Co-
vid-19, o novo coronavírus, grave doença infeciosa que parou o mundo e ocupa
horas e horas do noticiário da imprensa e das redes sociais. Com nefastas con-
sequências nos diferentes territórios e segmentos sociais a doença se propagou
mundo afora impondo profunda alteração no cotidiano dos povos com as medi-
das de isolamento e distanciamento social. A pandemia provocou uma freada na
economia global com forte redução dos PIB de diferentes países e acentuadas
taxas de desemprego. Esse contexto alterou, sobremaneira, o quadro anterior
marcado pela intensificação da globalização e a emergência dos BRIC’s alterou as
relações geopolíticas e obrigou os Estados a reverem a posição que vinham ocu-
pando no novo xadrez internacional para responderem aqueles novos desafios.
A alteração do equilíbrio Norte-Sul foi acompanhada dum novo cenário polí-
2
tico que emergiu na América Latina, particularmente no Brasil , facto que levou
2
Nesse contexto o Brasil assumia um protagonismo mundial que foi perdido desde o impeachment da
Presidente Dilma Rousseff (2011/ 2016).
GEOGRAFICIDADES LUSÓFONAS. CAMINHOS PARA UM DIÁLOGO ENTRE MARGENS
25
José Borzachiello, Rui Jacinto
3
este país a fazer uma aposta forte no relacionamento Sul-Sul . As antigas colónias
portuguesas, sobretudo Angola e Moçambique, passam a ocupar um lugar central
4
nesta nova abordagem , desencadeando o Brasil algumas iniciativas pró-ativas e
5
a CPLP a alterar a sua agenda. ACPLP, organização criada no governo de Fernan-
do Henrique Cardoso (1 de janeiro de 1995 – 1 de janeiro de 2003),conhece novos
desenvolvimentos no decurso do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (1 de janeiro
de 2003 – 1 de janeiro de 2011), com amplas repercussões tanto no relacionamen-
to entre as Geografias de Portugal e do Brasil, com intercâmbios apoiados pelo
Programa Ciência sem Fronteiras e projetos apoiados por instituições de fomento
(CAPES, CNPq, etc.), como no apoio direto à investigação e ao desenvolvimento
da Geografia dos PALOP.
É à luz de todo isto e do realinhamento do Brasil para um diálogo mais estrei-
to Sul-Sul, em particular com os PALOP, que devemos enquadrar tanto a relação
entre as Geografias brasileira e portuguesa, mais antigas, como a cooperação e
o apoio à investigação geográfica de Portugal e do Brasil nos restantes Países de
Língua Portuguesa (PLP), através de apoio a múltiplos projetos, estabelecimento
de várias parcerias e redes de investigação. Merece ainda destacar a criação de
duas Universidades, orientadas para dois universos regionais, assumidos como
estratégicos pelo Brasil: (i) Universidade Federal da Integração Latino-Americana
3
É referido num trabalho que “a aproximação do Brasil com o continente africano tem se apresentado como
um eixo importante das relações exteriores brasileiras. Alguns críticos, em uma avaliação superficial, definem
a estratégia brasileira como paradoxal na medida em que o país estaria fomentando esforços diplomáticos
em direção a países mais pobres, com pouca influência no contexto geopolítico global e peso ainda mais
baixo na balança comercial brasileira. No entanto, é preciso avaliar algumas tendências políticas e econô-
micas aceleradas pelo aprofundamento e alargamento do processo de globalização. Cabe observar que o
Brasil começa a tornar-se exportador de capital e tecnologia, além de um tradicional (e agora competitivo)
exportador de produtos primários, serviços e manufaturas. A África, nesse sentido, é uma das regiões mais
adequadas aos investimentos das empresas brasileiras, ainda que o continente seja marcado por alguns
regimes instáveis, conflitos armados e outras formas de violência, problemas sanitários significativos e
pobreza. Por um lado, é uma das poucas fronteiras naturais ainda abertas para a expansão dos negócios
em setores como o petróleo, gás e mineração. Por outro lado, é palco de uma disputa global por acesso a
matérias-primas cada vez mais escassas e demandadas” (Pereira, Analúcia Danilevicz, Barbosa Luísa Calvete
Portela (2012) - O Atlântico Sul no contexto das relações Brasil-África. Século XXI, Porto Alegre, V. 3, Nº1,
Jan-Jun 2012, 63).
4
“Nas últimas décadas, pode-se lembrar o vínculo mais estreito, por exemplo, do Brasil com Portugal no governo
de Juscelino Kubitschek de Oliveira e, em outras ocasiões, com Jânio da Silva Quadros ou Humberto de Alencar
Castelo Branco, quando se aventou a possibilidade de formação de uma comunidade luso-afro-brasileira. No
governo de Ernesto Geisel, o reconhecimento de Angola e Moçambique em 1975 foi sinal de aproximação
com esses países, sob a ótica do pragmatismo responsável. Outros momentos parecidos aconteceram com
José Sarney e Itamar Franco antes de ser firmada a carta de criação da CPLP sob o mandato de Fernando
Henrique Cardoso” (Shiguenoli Miyamoto (2009) - O Brasil e a comunidade dos países de língua portuguesa
(CPLP). Revista Brasileira de Política Internacional 52(2)).
5
“Na última semana de setembro de2008 foi firmado pelo Brasil o acordo ortográfico, que uniformiza o uso
da linguagem entre os países de língua portuguesa. Quase ao mesmo tempo, poucos dias depois, a maior
companhia brasileira, a Petrobrás, perdeu a concorrência para a Marathon Oil na exploração de petróleo em
Angola. Em meados de outubro, em viagem a Moçambique, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva queixou-se
de que um projeto para construção de uma fábrica de remédios contra Aids/Sida, prometida desde 2003,
ainda não estava em execução” (idem).
26 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
6
http://www.campo.com.br/proceder/
7
http://www.cciabm.com/informacoes/projeto-prosavana
28 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
REFERÊNCIAS
SPOSITO, Eliseu Savério, LANGA, José Maria do Rosário Chilaúle, JACINTO, Rui
(2017). Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambi-
que. Iberografias, Nº 13 (CEI, Guarda): 71-99.
José Borzachiello da Silva (2012). França e a Escola Brasileira de Geografia: verso
e reverso. UFC, Fortaleza.
JACINTO, Rui (2020). As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: um
lento devir. In As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Coope-
ração e Desenvolvimento. Coleção Iberografias 38, Guarda, CEI- Ancora, pp.
7-21.
JACINTO, Rui (Coord.) (2015). Nós Terra, Nós Geografia: Contributos para uma
Geografia de Cabo Verde. Iberografias, Nº 11 (CEI, Guarda), pp. 181-224. Em
particular os seguintes textos de Rui Jacinto (2015): (i) Cabo Verde segun-
do Maria Luísa Ferro Ribeiro: território e sociedade (pp. 181-193); (ii) Cabo
Verde: uma incompleta bibliografia geográfica (pp. 194-199); (iii) Si kabadu,
katabiradu: Maria Luísa Ferro Ribeiro, a primeira geógrafa de Cabo Verde,
pp. 203-207.
JACINTO, Rui; CUNHA, Lúcio (2017). Geografia de Moçambique: um olhar a partir da
Geografia portuguesa. Iberografias, Nº 13 (CEI, Guarda), pp. 49-70.
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE:
APONTAMENTO SOBRE AS SUAS
GEOGRAFIAS
RUI JACINTO*
MARIA LUÍSA FERRO RIBEIRO**
*
Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT) [rjacintomm@gmail.com].
**
Geografa. Ex-Diretora da do Gabinete de Estudos e Planeamento do Ministério da Educação.
32 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
1
A onomástica dos lugares pode remeter ainda para: ornitónimo (nome de local derivado de pássaros); alónimo
(nome que designando simultaneamente o mesmo lugar, de que serve de exemplo Bizâncio, Constantinopla
e Istambul); hagiotopónimo (nome do lugar relacionado à santidade); odónimo (nome de uma via de comu-
nicação); espeleolónimo (nome da caverna); macrotopónimo (nome do povoado, município, freguesia, zona
ocupada ou habitada); microtopónimo (nome da localidade, lacuna habitada ou não habitada, geralmente
uma parcela cadastral ou um distrito); etc.
2
Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade: “O lugar e o não-lugar são antes pola-
ridades fugidias: o primeiro nunca é completamente apagado e o segundo nunca se consuma totalmente
– palimpsestos nos quais se reinscreve sem cessar o jogo misto da identidade e da relação. Os não-lugares
são todavia a medida da época; medida quantificável e que poderíamos tomar adicionando, ao preço de
algumas conversões entre superfície, volume e distância, as vias aéreas, ferroviárias, das autoestradas e os
habitáculos móveis ditos "meios de transporte” (aviões, comboios, autocarros), os aeroportos, as gares e as
estações aeroespaciais, as grandes cadeias de hotéis, os parques de recreio, e as grandes superfícies da
distribuição, a meada complexa, enfim, das redes de cabos ou sem fios que mobilizam o espaço extra-terrestre
em benefício de uma comunicação tão estranha que muitas vezes mais não faz do que pôr o individuo em
contacto com uma outra imagem de si próprio” (MARC AUGÉ 19925, 68).
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
33
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro
por uma "estabilidade mínima", o lugar nunca aparece, entretanto, numa “for-
ma pura", conjugando-se com aqueles espaços não-identitários, não-relacio-
nais e não-históricos a que Augé denomina, polemicamente, de "não-lugares"”
(HAESBAERT 2002, 138). Aborda a perspetiva do geógrafo Yu Fu Tuan que pen-
sa no espaço como algo que permite movimento, enquanto o lugar é pausa,
para quem o “lugar é um espaço dotado de valor”, contraponto da releitura
do “lugar” feita por outros, como Doreen Massey, que vê a “sua vinculação
cada vez mais indissociável com os processos da globalização”, como "um lu-
gar-encontro, o local de interseções de um conjunto particular de atividades
espaciais, de conexões e inter-relações, de influências e movimentos”. Ao dis-
cutir as relações local-global acaba por propor “uma interpretação alternativa
de lugar", “não como lugar de uma longa herança histórica e identitária, mas
um lugar de relações (encontros) e múltiplas identidades”. Haesbaert conclui
que “a emergência dos “não-lugares" tão alardeada por Marc Augé, tal como
o fim dos territórios ou o discurso da desterritorialização, acaba, de qualquer
forma, sendo bastante relativizados. Primeiro, porque os "lugares" não estão
simplesmente perdendo identidade, relações, história. Tal como em relação à
territorialidade, cada vez mais múltipla, eles muitas vezes estão se redefinindo
pela multiplicidade de identidades, relações e histórias que passam a incorpo-
rar” (HAESBAERT 2002, 139).
Mais recentemente, este mesmo autor reconhece, em outro ensaio a propósi-
to de viagens, que “o lugar é criador de conexões, afetividades, identidades, em
suma, diferenças. É como se, muito mais do que controlarmos concretamente um
espaço, primeiro, em plena interação connosco, o próprio espaço nos convocasse
a habitá-lo, convidando-nos a realizar nossa vida pelo aprofundamento dos elos
afetivos vividos, transformando-se o espaço, para nós, efetivamente, num lugar.
E a partir daí se desdobram diferentes processos que, num neologismo, pode-
mos denominar de "lugarização”. Na combinação com o território, alguns lugares
são mais ou menos territorializados, mais ou menos capazes de nos empoderar”
(HAESBAERT 2017).
O significado e o sentido de pertença aos lugares com os quais se estabelece
alguma identificação acaba por variar com o espaço e o tempo, como acontece,
aliás, com a identidade territorial, que se define, fundamentalmente, “dentro de
uma relação de apropriação que se dá tanto no campo das ideias quanto no
da realidade concreta, o espaço geográfico constituindo assim parte fundamen-
tal dos processos de identificação social”. O autor reforça esta ideia com uma
transcrição de Stuart Hall para quem “todas as identidades estão localizadas no
tempo e no espaço simbólicos. Elas têm aquilo que Edward Saïd chama de suas
“geografias imaginárias”: suas “paisagens” características, seu senso de "lugar”,
de casa/lar, de heimat, bem como suas localizações no tempo – nas tradições
inventadas”. Por isso, “uma das características mais importantes da identidade
34 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
3
Vidal de la Blache (1954 [1922]) – Princípios de Geografia humana. Edições Cosmos, Lisboa: 41.
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
35
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro RibeiroCélia Gonçalves
4
Jean Brunhes, na sua Geografia Humana (1962 [1956]), já nos alertava para estas situações: “Por meio de
um estudo minucioso mais cômodo dos pequenos conjuntos, poderemos e deveremos acostumar-nos a
determinar as conexões estritamente geográficas entre os fatos naturais e os destinos humanos. E, dentre
os pontos do nosso planeta habitado que se apresentam bastante isolados de modo a constituir unidades
separadas e, por isso mesmo, mais simples, quatro tipos de pequenos mundos geográficos, quatro tipos de
ilhas ou ilhotas de humanidade parecem predestinados à nossa observação. Tenho em mente: as ilhas do
mar; os oásis, que são as ilhas humanas do deserto; as ilhas humanas ou oásis povoados da grande floresta
boreal ou equatorial; e os altos vales fechados das regiões montanhosas, que são ainda ilhas humanas ou
oásis isolados nas grandes altitudes”.
36 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
ficou espelhada nos nomes dos lugares, dos habitados ao mais simples acidente
geográfico, que captam e ressaltam certas especificidades ou, noutros casos, o
espírito que deles emana. A partir destes pressupostos e do nome dos lugares
que constam do Recenseamento Geral da População de 2010 adiantam-se consi-
derações sobre a geograficidade cabo-verdiana que representam mais um contri-
buto para (re)interpretar a Geografia de Cabo Verde.
Num outro contexto e com outro propósito foi escrito que “o homem havia
de vir pelas caravelas portuguesas veiculadas pela energia do mesmo alisado de
Nordeste servindo a maior epopeia de todos os tempos – o espantoso empreen-
dimento dos descobrimentos portugueses. Outros homens viriam mais tarde trazi-
dos pelos primeiros. Mas estes vinham agora do continente negro e ao contraste
das configurações oferecidas pelo meio físico juntava-se o contraste do aspecto
físico dos homens oriundos de dois continentes servidos por duas raças. É então
que começa a maior experiência “laboratorial” executada com matéria-prima hu-
mana: brancos e negros vão fundir-se na mais positiva coexistência harmónica
para dar lugar, séculos depois a um povo novo – o crioulo cabo-verdiano” (FERRO
RIBEIRO 1961).
A Geografia sempre estudou a problemática colonial, designadamente a por-
tuguesa, por razões óbvias, como revela este trabalho e os estudos de Alfredo
5 6
Fernandes Martins e Orlando Ribeiro . Um texto de Fernandes Martins, publi-
cado quando ministrava a cadeira de Geografia Colonial, disciplina maquilhada
posteriormente de Geografia das Regiões Tropicais, no âmbito duma reforma
curricular dos Cursos de Geografia das universidades portuguesas, ocorrida em
5
Alfredo Fernandes Martins: Alguns reparos à classificação de colónias proposta por Hardy (1943). Importa
sublinhar que Fernandes Martins foi o orientador da Tese de Licenciatura de Maria Luísa Ferro Ribeiro (1961).
6
Orlando Ribeiro: A Ilha do Fogo e as suas Erupções (1954); Primórdios da ocupação das ilhas de Cabo Verde
(1955).
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
37
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro
7
Continua: “Nos fins do século passado, aproximadamente quatro séculos depois de se ter iniciado a colonização,
escrevia Oliveira Martins a propósito de Cabo Verde: “O clima das ilhas, a natureza das culturas, a idade da
colonização, nacionalisaram portuguez o arquipélago, embora de um modo só de longe comparavel ainda
aos primeiros e felizes ensaios da Madeira e dos Açores. Um milhar de brancos, confundidos com oitenta
mil negros, mais ou menos eivados de sangue berbere ou portuguez, eis os elementos de uma população
que se deve considerar fixa, arrebanhando numerosos gados, cultivando cereaes e legumes, isto é com
autonomia agricola: e creando para o comércio o café, o assucar, a purgueira e o sal. O archipelago appa-
rece-nos pois na transição da condição de colónia, para a de província metropolitana, transição passada ha
seculos já para os archipelagos atlanticos da Madeira e dos Açores”. Considerando que os primeiros esforços
da colonização, tanto no arquipélago de Cabo Verde como na ilha de S. Tomé, se dirigem no sentido de
povoar as ilhas, objectivo que foi atingido, e tendo em vista que nesse povoamento tiveram colaboração
activa colonos brancos, cuja descendência branca pura, embora pouco numerosa, e a mestiça a quase
totalidade da população perpetuam as raízes europeias, ousamos classificar a colonização do arquipélago e
das ilhas do Golfo da Guiné como um caso de enraizamento. (…) De resto, Hardy, quando estuda «Un cas de
repeuplement» refere-se, na rápida introdução, às «iles du Cap Vert», deixando-nos pressupor que considera
essas ilhas como um caso de repovoamento e, por conseguinte, colónia de enraizamento. (…) Simplesmente,
não nos parece que se possa falar de repovoamento tratando de Cabo Verde, desde que na verdade, não
houve mais do que povoamento. Nas Antilhas, depois da chegada dos brancos, a população indígena que
povoava as ilhas começou a decrescer rapidamente e os colonizadores tiveram de levar a cabo uma obra
de repovoamento. Em Cabo Verde as coisas passam-se de diversa maneira: quando começa a colonização,
as ilhas estavam desertas, os colonos, brancos ou negros, que desembarcavam não iam a repovoar, mas
pura e simplesmente a povoar. Repovoamento implica povoamento anterior – o que não acontecia nas ilhas
portuguesas de Cabo Verde: o arquipélago estava desabitado; casais do Algarve, a que se deram escravos,
foram os primeiros colonos; juntaram-se-lhes, «pelo ano de 1500, degredados e, em 1601, cristãos novos».
38 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
frisamos mais uma vez que nos tipos de colonização de Hardy se não encontra um
caso no qual se possam englobar satisfatoriamente as ilhas portuguesas do Atlân-
tico. Talvez lhe tivesse passado despercebido que «los portugueses inauguraron
la época colonial moderna, poblando las islas que iban descubriendo»” (Martins,
1943). A singularidade da colonização de Cabo Verde seria igualmente reconhe-
cida por Orlando Ribeiro quando afirmou que “a 16º de latitude constituem o der-
radeiro eco da Europa e uma das mais curiosas e atraentes soluções do encontro
de raças” (RIBEIRO 1961, 15).
[Fonte: A. Teixeira da Mota (1961) – Cinco seculos de cartografia das ilhas de Cabo Verde. Garcia de Orta]
achamento – o dia 1 de Maio. Mas fica a dúvida. Porque não o nome de S. José
que é o dia deste santo?
Germano de Almeida, aventa duas hipóteses, para o nome da Ilha do Maio
baseado, talvez, na tradição oral, uma vez que pelo menos uma delas está inti-
mamente ligada a actividade na área da pecuária, o que obviamente se afasta do
momento do achamento. Uma das versões seria "uma homenagem aos deuses
Maio e Maia que pontificavam entre os povos da Europa em diversões que mis-
turavam o que ainda sobrava do paganismo com a nova religião cristã". A outra
versão atribui o topónimo à actividade pastorícia ligada à criação de cabras, ao
tratamento da carne e à exportação para a ilha de Santiago. "E chamar-se-ia
Maio porque desde que foi encontrada que se viu abandonada às cabras e de-
mais gado; só no mês de Maio se ia fazer a matança e respectiva salga seguida
do transporte para Santiago com vista ao aprovisionamento dos navios que de-
mandavam essa ilha".
O povoamento foi iniciado de imediato, tendo sido baseado, à semelhança
do que ocorreu na Madeira e nos Açores, no estabelecimento de capitanias-do-
natárias, sendo o donatário responsável pelo povoamento, administração e de-
senvolvimento da circunscrição. Santiago foi a primeira ilha a ser ocupada por
ser a maior, a mais próxima da costa africana com condições mais favoráveis à
agricultura devido à abundância de água nas ribeiras da parte sul da ilha e, ainda,
segundo o historiador António Correia e Silva "a existência da enseada da Ribeira
Grande (com alguma proteção natural) reunia razoáveis condições para os navios
fundearem."
O povoamento ocorreu em etapas, seguindo-se as ilhas da Brava, S. Nicolau
e Santo Antão e já no final do século XVIII e início do século XIX as ilhas de S.
Vicente, Santa Luzia (hoje desabitada, mas que no século XIX tinha um pequeno
núcleo populacional que se dedicava à pesca e à pastorícia) e a ilha do Sal. A ilha
de Santiago foi dividida em duas capitanias: a capitania do Sul (sede Ribeira Gran-
de), entregue a António da Noli, e a capitania do Norte (sede Alcatrazes), doado
a Diogo Afonso.
O povoamento da Ribeira Grande teve início em 1462, sendo o primeiro centro
urbano colonial nos trópicos. A povoação da Ribeira Grande ocupava um vale com
abundante vegetação, entre montanhas abruptas, atravessado pela Ribeira Maria
Parda que desagua numa enseada que oferecia condições favoráveis para a ins-
talação de um porto que favorecia a ligação da ilha com o exterior, em particular
com a costa africana. O modelo de capitanias-donatárias utilizadas na Madeira e
nos Açores, revelou-se pouco motivador para atrair a fixação da população em
Santiago, devido à longa distância entre a ilha e o Reino, às condições climatéri-
cas e à inadaptação dos solos para o cultivo de cereais.
O fracasso da política de povoamento, transposta de ilhas de condições geo-
gráficas muito diferentes, levou à adopção de nova estratégia, consubstanciada
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
41
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro
8
A propósito do território refere ainda: “2. Na sua zona contígua, na zona económica exclusiva e plataforma
continental, definidas na lei, o Estado de Cabo Verde possui direitos de soberania em matéria de conservação,
exploração e aproveitamento dos recursos naturais, vivos ou não vivos, e exerce jurisdição nos termos do
direito interno e das normas do Direito Internacional. 3. Nenhuma parte do território nacional ou dos direitos
de soberania que o Estado sobre ele exerce pode ser alienada pelo Estado.”
44 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
(Fonte: Wikipédia)
9
Uma publicação oficial retrata esta geografia do seguinte modo : “Pequeno
país arquipelágico, (…) com uma superfície aproximada de 4.033 km2 [as suas
ilhas] localizam-se entre os paralelos 14º 23' e 17º 12' de latitude Norte e os me-
ridianos 22º 40' e 25º 22' a Oeste de Greenwich. Ilhas atlânticas, de origem vul-
cânica, distam cerca de 500 km do promontório do Senegal de onde lhe adveio
10
o nome” . A mesma publicação (INE-CV, 2015) fornece ainda informação perti-
nente sobre a toponímia, se nos detivermos nos nomes atribuídos aos pontos
9
Instituto Nacional de Estatística (INE-CV, 2015) – Cabo Verde, Anuário Estatístico.
10
Refere ainda “Em termos geomorfológicos, distinguem-se essencialmente dois grupos de ilhas, as ilhas
montanhosas (Santo Antão, S. Vicente, Santa Luzia, S. Nicolau, Santiago, Fogo e Brava) onde predomina as
paisagens montanhosas, com altitudes que alcançam 2.829 metros e relevos bastante acidentado e por
outro lado as ilhas planas (Sal, Boavista e Maio) caracterizadas por quase inexistência de relevos montanho-
sos e onde marcam presença extensas praias de areia branca, banhadas pelo azul-turquesa do atlântico.
Afigurando-se como o ponto mais ocidental do continente africano (17°02'40.9"N 25°21'39.5"W – ilha de
Santo Antão) as ilhas se apresentam dispostas em forma de ferradura e devido à sua localização geográfica
(integra o grupo dos países do Sahel) apresenta um clima árido e semiárido, quente e seco, com temperatura
média anual a rondar os 25º C, fraca pluviosidade, onde pode-se identificar duas estações que definem o
clima das ilhas: o tempo das brisas (estação seca - Dezembro a Junho) e o tempo “das águas” (estação das
chuvas, que normalmente decorre entre Agosto a Outubro, sendo o mês de Julho de transição)”.
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
45
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro
11
“A ilha de Santiago é das mais acidentadas do arquipélago caracterizando-se pelos seus cumes elevados,
grandes ravinas e desfiladeiros quase inacessíveis. A ilha é totalmente modelada pela erosão que talhou
no basalto formas caprichosas que lembram as coisas mais curiosas: aqui a rocha destaca-se como uma
coluna delgada isolada do resto do material basáltico, ali forma cabeços arredondados, mais além agulhas
elevadas e ao longe recortam-se no horizonte como que um castelo em ruínas. Os nomes de alguns montes
provêm da sua forma extravagante – o “Marquês”, serra que faz parte do Maciço da Antónia lembra ao longe
a figura de Pombal; os Órgãos, Pau de Pilão e outras serras têm a forma evocada pela sua designação" (Ferro
Ribeiro, 1961).
12
Ponta do Sol, de Salina, do Chão de Mangrande (Santo Antão); Marigou, Calhau, Machado (S. Vicente); dos
Piquinhos, da Lage do Espia, Mãe Grande, Branca (Santa Luzia); da Vermelharia, Calheta, Brouco (S. Nicolau);
Norte, do Sinó, de Morrinho Vermelho (Sal); do Sol, Tarafe, Varandinha (Boavista); Cais, Jampala, Banconi
(Maio); Moreira, Temerosa S. Lourenço, da Janela (Santiago); do Pescadeiro, do Vale de Cavaleiros (Fogo);
do Insenso, Nhô Martinho, Rei Fernando, Prainha (Brava). Notar alguns nomes que qualificam a Ponta: Salina,
Cais, Prainha, Chão, Lage, Calheta, Piquinhos, Vale.
46 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
13
O Código Geográfico Nacional de Cabo Verde (CGN-CV), a que se associa o Sistema Estatístico Nacional (SEN), “é
um padrão de nomenclatura geográfica criado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) de Cabo Verde, com o
intuito de facilitar a produção, difusão e compreensão dos dados estatísticos que aumentam de ano para ano.
(…) O código subdivide o território (em conformidade com a divisão administrativa do país) em Ilhas, Concelhos,
Freguesias, Zonas e os povoados, designados estatisticamente por Lugar. Na prática, muitas das zonas acabam
por corresponder a cidades e vilas, sendo os lugares sub-zonas das mesmas. Segundo a descrição do próprio
INE, "A codificação do CGN-CV incluirá um código de 7 dígitos, correspondendo o primeiro à Ilha, o segundo ao
Concelho, o terceiro à Freguesia, os dois seguintes à Zona e o sexto e o sétimo ao Lugar".
14
A Comissão Nacional de Toponímia, criada pelo Decreto-Lei no 5/2012, publicado no Boletim oficial de 28
de Fevereiro de 2012, regula a Toponímia a Nível Nacional e Municipal.
15
Artigo 2º, que refere: “1. A Toponímia de nível Nacional salvaguarda a homogeneidade de tratamento para
todo o território nacional, recuperando numerosas designações notáveis, grandes obras de engenharia,
de nomes das Ilhas e Ilhéus, das baías e praias, dos cabos e pontas, das ribeiras e seus afluentes, das
cidades e vilas, das montanhas e fajãs, bairros, florestas, montes e vales, e ribeiras de cada ilha, situando
nomes mal colocados e corrigindo denominações incorrectas. 2. A Toponímia de nível Municipal salvaguarda
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
47
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro
as particularidades a serem tidas em conta em cada município, principalmente as denominações oficiais das
zonas, ruas e números de polícia, solos urbanos e urbanizáveis, e outros já atribuídos pelas Câmaras Municipais.”
16
Artigo 7.o (Designação antroponímica):
“1. As designações antroponímicas são atribuídas prioritariamente a figuras, que se tenham distinguido pelo
seu carácter benemérito, nas artes, nas ciências, nas letras, no desporto, na educação, na política ou outra
actividade de reconhecido prestígio social, pela seguinte ordem de preferência: a) Individualidades de relevo
concelhio; b) Individualidades de relevo regional; c) Individualidades de relevo nacional; d) Individualidades
de relevo mundial.
2. Sem prejuízo do disposto no número anterior, os antropónimos não devem ser atribuídos antes de dois
anos a contar da data do falecimento, salvo em casos excepcionais e aceites pela família.
3. Não são atribuídas designações antroponímicas com o nome de pessoas vivas, salvo em casos extraor-
dinários em que se reconheça, que por motivos excepcionais esse tipo de homenagem ou reconhecimento
deva ser prestado durante a vida da pessoa e seja aceite pela própria.”
17
Artigo 8.o (Manutenção e alteração de topónimos actuais):
“1. As designações toponímicas actuais devem manter-se, salvo a existência de razões atendíveis que
justifiquem a sua alteração.
2. Os órgãos municipais podem proceder à alteração de topónimos existentes, nos termos e condições do
presente diploma e nos seguintes casos especiais: a) Motivos de reconversão urbanística; b) Existência de
topónimos considerados inoportunos, iguais ou semelhantes, com reflexos negativos nos serviços públicos
48 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
e nos interesses dos munícipes; ou c) Atribuição de designação toponímicas que resultarem de pareceres
inadequados.
3. Sempre que se proceda à alteração dos topónimos pode, na respectiva placa toponímica, manter-se uma
referência à anterior designação.”
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
49
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro
dar origem a novas ruas e lugares, logo a novos topónimos (Bairro, Avenida,
Zona de Expansão, Armazém, etc.).
Sotavento
21
22 1. Tarrafal
2. São Miguel
20
3. São Salvador do Mundo
4. Santa Cruz
19 17 16 5. São Domingos
6. Praia
18 7. Ribeira Grande deSantiago
8. São Lourenço dos Órgãos
9. Santa Catarina
1 10. Brava
2 3 15
11. São Filipe
12. Santa Catarina do Fogo
4 13. Mosteiros
9 14. Maio
5
Barlavento
6
8 7 14
15. Boavista
16. Sal
13 17. Ribeira Brava
18. Tarrafal de São Nicolau
10 12 19. São Vicente
11 20. Porto Novo
21. Ribeira Grande
22. Paul
Fonte: Wikipédia
18
Em 1975 existiam 14 concelhos: Ribeira Grande, Paul, Porto Novo; S. Vicente; S. Nicolau; Sal; Boa Vista; Maio;
Tarrafal; Santa Catarina; Santa Cruz; Praia; Fogo; Brava. Em 1991 junta-se Mosteiros, ficando o Fogo dividido
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
51
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro
em S. Filipe e Mosteiros. Em 1993 é criado S. Domingos e, em 1996, S. Miguel. Em 2005 são criados cinco
(5) novos concelhos: Ribeira Brava e Tarrafal de S. Nicolau a partir do de S. Nicolau; S. Salvador do Mundo,
S. Lourenço dos Órgãos e Ribeira Grande de Santiago; Santa Catarina do Fogo.
52 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
Os nomes dos municípios, em termos gerais, remetem para o nome das ilhas
(naqueles onde existe apenas um concelho: Brava, Maio, Boavista, Sal) ou no-
mes de santos, lembrando a sua origem a partir de freguesias. As freguesias, a
exemplo das velhas paróquias portuguesas, todas têm nomes de oragos: (i) Nossa
Senhora da: Ajuda, Conceição, Graça, Luz (3), Dores, Livramento, Monte, Rosário
(2); (ii) Santa: Catarina, Catarina do Fogo, Isabel; (iii) Santo: Amaro Abade, André,
António, das Pombas, Crucifixo, São Francisco; (iv) São João Baptista (4), São Lou-
renço, São Lourenço dos Órgãos, São Miguel Arcanjo, São Nicolau Tolentino, São
Pedro Apóstolo, São Salvador do Mundo, Santiago Maior; (v) finalmente, Santís-
simo Nome de Jesus. Curiosamente, ao contrário do que acontece no Brasil, não
aparece o nome de Santo António ou de São João: neste país, das “2.500 cidades
brasileiras homenageiam santos católicos” 236 municípios cujo nome está rela-
cionado com Santo Antônio, 220 com São João e 127 com São Francisco” (IBGE).
21
3.2. O NOME DOS LUGARES: ENSAIO DUMA TIPOLOGIA TOPONÍMICA
da Igreja); S. Miguel (Cidade da Calheta de S. Miguel); S. Salvador do Mundo (Cidade de Achada Igreja); S.
Lourenço dos Órgãos (Cidade de João Teves); Ribeira Grande de Santiago (Cidade de Santiago de Cabo
Verde); (viii) Fogo: Mosteiros (Cidade da Igreja); S. Filipe (Cidade de S. Filipe); Santa Catarina do Fogo (Cidade
de Cova Figueira); (ix) Brava (Cidade de Nova Sintra) (INE-CV).
“Em 1858 a vila da Praia foi elevada à categoria de cidade por Decreto de 29 de Abril por ser a principal
povoação do arquipélago tanto pelo número de habitantes, como pelo desenvolvimento do seu comércio.
Contava 2255 habitantes, sendo destes 280 escravos e era cabeça de um concelho que constava de 6
freguesias que abrangiam uma população de mais de 13.000 habitantes. Já nesta altura havia alguns bons
edifícios, dois poços bem construídos e abundantes de água, um mercado diário bem abastecido de géneros
alimentícios, o que evidencia o franco progresso da cidade. Enquanto se desenvolvia a cidade da Praia,
a antiga cidade da Ribeira Grande caminhava a largos passos para a decadência, nada restando hoje do
seu antigo esplendor, antes está reduzida a um montão de ruínas e a um conjunto de casebres de aspecto
miserável" (Ferro Ribeiro, 1961).
20
Santo Antão: Ribeira Grande (Chã de Igreja e Coculi); Porto Novo (Ribeira das Patas); S. Nicolau: Ribeira
Brava (Fajã de Baixo e Juncalinho); Tarrafal de S. Nicolau (Praia Branca); Sal (Palmeira); Boa Vista (Rabil); Maio
(Calheta e Barreiro); Santiago: Tarrafal (Ribeira das Pratas, Achada Tenda); Santa Catarina (Chã de Tanque,
Achada Falcão e Ribeira da Barca); S. Miguel (Achada do Monte); Fogo: S. Filipe (Ponta Verde e Patim); Brava:
Nossa Senhora do Monte (B.O n.º 55 - I Série (Decreto-lei n.º 45/2015; INE-CV).
21
São devidos agradecimentos pelo apoio e informações prestadas: ao Instituto Nacional de Estatística, na
pessoa da sua Diretora; à Câmara Municipal da Praia, designadamente ao Senhor Arq. Rafael Fernandes,
Dra. Aleluia, Barbosa Andrade e Eng. José Constantino Veiga; ao Arq. Adalberto Tavares (Instituto Património
Cultural, Cidade Velha); e ainda a Óscar António Ribeiro, José Pedro Chantre Oliveira, Dr. Maria Miguel Estrela,
Arq. Frederico Hopfer Almada e Doutora Adriana Carvalho.
54 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
abordou o imaginário que nos sugere a toponímia urbana, aspeto a tratar poste-
riormente. Importa ainda desenvolver a rica e subtil informação a explorar a partir
dos nomes compostos, bem como uma análise quantitativa sobre o número de lu-
gares pertencentes a cada um dos grupos. Sem esquecer o comentário qualitativo
mais desenvolvido a fazer com base na sistematização efetuada, correlacionan-
do-a com a geografia toponímica, isto é, com a prevalência dos nomes de certos
lugares em algumas ilhas especificas (p. ex. Tarrafal e a pesca, etc.).
Perante a panóplia de nomes em presença houve a necessidade de ensaiar
uma tipologia especifica para os lugares de Cabo Verde que se enquadram, em
nossa opinião, em quatro grandes domínios que se relacionam com: (i) Elementos
telúricos: água, terra, ar, fogo; (ii) A terra e o mar: morfologia terrestre e acidentes
do litoral; (iii) Condições naturais (e especificidades) locais; (iv) Processo de colo-
nização: do povoamento primordial à matriz identitária.
(i) Elementos telúricos: água, terra, ar, fogo. O número de lugares cujos no-
mes se enquadram nesta tipologia não é muito elevado, embora com signifi-
cado e importância no arquipélago por ter influenciado, ao longo dos tempos,
tanto o modo de vida dos seus habitantes quer as referências culturais do
país. Estes elementos naturais, que expressam uma profunda dimensão telú-
rica, condicionaram a ação humana e a ocupação do território: a água, pela
pena penúria e incipiente hidrografia, a terra, pela morfologia abrupta que
assume em boa parte do território. Completam este quadro o ar, através do
clima, do vento e da chuva, e o fogo, que dá nome a uma das ilhas e se mani-
festa pelo vulcanismo, ativo ou residual, presente na paisagem através duma
morfologia muito própria.
. Água. Em Cabo Verde é o elemento vital e, literalmente, a fonte de vida. Daí a
sua importância que encontramos bem espelhada na toponímia, pelo número
de lugares que remetem para a água como pela diversidade de situação que
revelam as várias formas em que ocorre e que foram aproveitadas. Retirando
o mar deste apartado e levando em consideração estarmos perante uma hi-
drografia incipiente, a hidrotoponímia assume uma riqueza que se expressa
através da água: ÁGUA (DAS PATAS, DE GATO, DOS VELHOS, ÁGUAS PODRES);
NORA; FONTAINHAS, FONTEANA, FONTEANA, FONTE (ALEIXO, LIMA, ALMEI-
22 23
DA); LAGOA, LAGOA DE CATANO; CHARCO, LEVADA; RIBEIRA , RIBEIRÃO (DE
CAL, FUNDO, GALINHA, ISABEL, MANUEL), RIBEIRÃOZINHO, RIBEIRETA
. Terra (geologia e litologia, onde se incluiem nomes como Lageado, Calhau,
Pedreira, Pedra rolada, Sal (Rei), Salina, Salineiro, Terra Branca, etc.): LAGE,
22
RIBEIRA: ALTA, DA BARCA, DA CRUZ, DA VINHA, DAS POMBAS, DAS PRATAS, DE CALHAU, DO ILHÉU, DOM JOÃO, FILIPE,
FRIA, FUNDA, GRANDE, JULIÃO, JULIÃO, PRATA, RIBA, SECA, TORTA.
23
RIBEIRÃO: DE CAL, FUNDO, GALINHA, ISABEL, MANUEL.
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
55
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro
24
MONTE: GRANDE, BODE, FARENEGO, JOANA, LARGO, NEGRO, POUSADA, TABOR, TRIGO, VERDE, VERMELHO.
25
ACHADA: BALEIA, BELBEL, BISCANHOS, COSTA, FAZENDA, FURNA, GALEGO, GOMES, GRANDE, IGREJA, JAGAU, LAGE,
LAGOA, LAMA, LAZÃO, LEITÃO, LEITE, LÉM, LONGUEIRA, LOURA, MEIO, MENTIROSA, MITRA, MOIRÃO, MONTE, POIO,
PONTA, TENDA., TOSSA.
26
CHÃ: DA SILVA, DAS CALDEIRAS, DE BRANQUINHO, DE COQUEIRO, DE IGREJA, DE LAGOA, DE MONTE, DE NORTE, DE
PEDRAS, DE PONTA, DE TANQUE, DE VACA, GONÇALVES
56 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
27
MATO (AFONSO, BAIXO, BRAZIL, CORREIA, ESTREITO, FORTES, GEGE, GRANDE, LIMÃO, MENDES, RAIA, SANCHO).
28
CASA: GRANDE, NOVA, VELHA, BRANCA, CARVALHO, CHOCA, CUTELO, DE MEIO, ESCOLA, TEIXEIRA.
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
57
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro
29
CIDADE DE: ACHADA IGREJA, ASSOMADA, CALHETA DE SÃO MIGUEL, COVA FIGUEIRA. ESPARGOS, IGREJA, JOÃO TEVES,
MANGUI, MINDELO, NOVA SINTRA, PEDRA BADEJO, POMBAS, PONTA DO SOL, PORTO INGLÊS, PORTO NOVO, PRAIA, RIBEIRA
BRAVA, RIBEIRA GRANDE, SAL REI, SANTA MARIA, SANTIAGO DE CABO VERDE, SÃO FILIPE, TARRAFAL, VARZÉA DA IGREJA.
30
CANTO: DE BAIXO, DE CIMA, DE ESPANHA, DE LADEIRA, DE VINHA, SILVEIRA.
31
RUA: ATRÁS, TRAZ, BANANA, CALHAU, CARREIRA, COMPRIDA, DE ÁGUA, DE PAPA, FRIA, D'HORTA, D'HORTA/RIBA
D'HORTA, DIANTE, DIREITA, DOS TRABALHADORES, DUM BANDA, ESCOLÁSTICA, FRENTE, LOURENÇA
32
CRUZ: DE AGUADA, COBOM GATO, DE BARREIRA, DE BEDJA, DE BICA, DE BORRACHA, DE CIMA, DE FUNDURA, DE MORRO,
DE PAPAIA, DE PICOS, GRANDE, NOVA, POILOM, SERR, BAIXO DAS ALMAS, DE CURRAL DAS VACAS, DE MULATO, DE
PORTAL, DE QUEMADA, DE ROQUE, JOÃO EVORA.
58 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
33
CURRAL: GRANDE, VELHO, DA RUSSA, DAS VACAS, DAS VACAS DE BAIXO, DAS VACAS DE CIMA, DE CABRA, DE
MOCHOCURRAL OCHÔ.
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
59
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro
BADJA COXA São Salvador Mundo – lugar de dançar o batuque, pode ser pejorativo
como se conseguiu a terra, dando torno, usa-se “cumpra terra co torno”.
COCULI (Ribeira Grande) tem várias palavras em mandinga semelhantes, pode ter
origem nessa língua.
CUMBA (Santa Cruz) residência; CUMBA (S. Filipe) referente a Casa ou residência em
Mandinga.
CULUMBAN: significa grande, de tamanho descomunal, palavra de origem africana.
DJANGAGO (Santa Catarina): deve ser de origem africana, perdeu significado em CV.
DJAR FOGO São Miguel – ilha do Fogo, pode ser lugar de residência de alguém que
veio do Fogo.
CACHÉU (Santa Catarina; São Salvador Mundo): Cacheu pode estar relacionado com
o Rio da Guiné Bissau de onde vieram muitos escravos para Cabo Verde; mas o
original é “Ca Tcheu” significa escasso em algo, produção ou qualidade das terras.
DJÉU: ilhéu, pode ser rechã de achada entre dois vales; DJEZINHO: pequeno ilhéu;
DJANBAM (Santa Catarina): sítio ermo; DJEU DE METADE (S. Filipe): Ilhéu do maio,
ou de metade; DJEU DENTO (Mosteiros): ilhéu adentro; DJEU DI LORNA (Santa
Catarina do Fogo): ilhéu de Losna, planta endémica de Cabo Verde; DJEU RIBEIRA
GRANDE: ilhéu, planura entre dois vales.
KELEM (São Salvador Mundo): além, vertente além em frente desta casa ou deste
lugar de vista, alternativa; além, Lem de lá; KERLEM (ou Kelem): Corretamente
seria Kelém. KELOTU LADO (Ribeira Grande de Santiago); KELOTULADO (Santa
Cruz) aquele outro lado; o outro lado, Kelém, Lém.
Para mais, mantiveram essa tradição mesmo quando esses lugares passavam a pertencer a outros senhores
imperiais, como quando Nouvelle-Orléans passou a New Orleans, ou Nieuw Zeeland a New Zealand. Não é
que chamar “novo” a lugares políticos ou religiosos fosse em si mesmo assim tão novo. No Sudeste Asiático,
por exemplo, existem cidades consideravelmente antigas cujos no mes incluem também esse elemento
da novidade: Chiangmai (Cidade Nova), Kota Bahru (Vila Nova), Pekanbaru (Mercado Novo). No entanto, o
“novo” nesses nomes tem invariavelmente o significado de "sucessor” ou “herdeiro" de algo que desapa-
receu. “Novo” e “velho” alinham-se diacronicamente e o primeiro aparece sempre para invocar a bênção
ambigua do que morreu. O que é surpreendente nos topónimos americanos dos XVI a XVIII é que “novo” e
“velho” eram compreendidos sincronicamente, coexistindo no âmbito do tempo vazio e homogéneo. Havia
Vizcaya a par de Nueva Vizcaya London a par de London: um idioma de competição entre irmãos, em vez
de um idioma de herança” (p. 249). (…) “Se para os crioulos do Novo Mundo os estranhos topónimos acima
referidos representavam, figurativamente, a capacidade emergente de se imaginarem como comunidades
paralelas. comparáveis às da Europa, alguns acontecimentos extraordinários do último quartel do século
XVIII conferiram repentinamente essa novidade um significado completamente novo” (254). In Benedict
Anderson ([1983] 2005) – Comunidades Imaginadas. Reflexões sobre a orgiem e a expansão do naciona-
lismo. Edições 70, Lisboa.
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
61
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro
DJI D'SAL: refrente do Sr Dji, alguém que veio do Sal e que mora nessa localidade.
Como Mané di Fogo.
NHA NINHA: Dona Aninha, possivelmente a antiga proprietária.
N'Ó N'Ó: N`ho N´ho (Gongon) – Pterodroma feae – lugar onde existe a ave com este
nome, ou onde existe fantasma de Egungun.
TCHON DE REIS: terrenos da família Reis.
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INDICADORES SOCIOECONÔMICOS
DE DESERTIFICAÇÃO NA BACIA
HIDROGRÁFICA DA RIBEIRA GRANDE
DE SANTIAGO (CABO VERDE)
MARIA LOSÂNGELA MARTINS DE SOUSA*
VLÁDIA PINTO VIDAL DE OLIVEIRA**
SÓNIA MARIA MELO DUARTE DA SILVA VICTÓRIA***
INTRODUÇÃO
O presente artigo trata da degradação ambiental e da desertificação em
bacias hidrográficas e tem como principal objetivo analisar como as condições
socioeconômicas podem influenciar na susceptibilidade a desertificação.
A pesquisa tem como estudo de caso a bacia hidrográfica da Ribeira Gran-
de de Santiago, localizada no arquipélago de Cabo Verde, na ilha de San-
tiago, região saheliana da África. A bacia em estudo está localizada ao Sul da
Ilha de Santiago, entre as coordenadas 23°38’00” e 23°34’00” W e 15°02’00”
e 14°54’00” N. Possui cerca de 15,91 km². As nascentes localiza-se no comple-
xo montanhoso do Pico da Antônia e deságua na planície litorânea da Cidade
Velha.Drena parcialmente dois conselhos municipais da ilha de Santiago: São
Domingos e Ribeira Grande de Santiago e possui quatro núcleos populacionais,
são eles: Cidade Velha da Ribeira Grande de Santiago, Calabaceira, Salineiro e
Achada Loura, com aproximadamente 632 famílias e 3096 habitantes, de acordo
com o Censo (2010) do Instituto Nacional de Estatística.
Do ponto de vista metodológico a pesquisa está fundamentada na Teoria
Geossistêmica, tendo na análise ambiental integrada para ainterpretação e com-
preensãoda dinâmica das paisagens da área, associada às condições de vida da
população. Parte-se dos estudos setoriais, visando estabelecer a inter-relação
entre os componentes naturais e a ação humana, através dos estudos geossis-
têmico. Através de estruturação dos geossistemas, dá-se ênfase à dinâmica as
paisagens.
*
Universidade do Estado do Rio Grande do Norte [losangelaufc@gmail.com]
**
Universidade Federal do Ceará [vladia.ufc@gmail.com]
***
Universidade de Cabo Verde [sonia.silva@docente.unicv.eu.cv]
64 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
1. A PROBLEMÁTICA DA DESERTIFICAÇÃO
Ao tratar da degradação ambiental e da desertificação é importante conside-
rar que são termos complexos, necessitando para tanto, compreender os seus
conceitos, além de analisar as principais causas e efeitos. Assim, entende-se
por degradação ambiental a redução dos recursos naturais renováveis por uma
combinação de processosque podem conduzirà desertificação ou ao abandono
das terras (ARAÚJO, ALMEIDA, GUERRA 2010).
De acordo com o Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação
(PAN-BRASIL) a “degradação da terra é compreendida como correspondendo à
degradação dos solos, dos recursos hídricos, da vegetação e da biodiversidade”
(BRASIL 2004, 23), resultando na redução da qualidade de vida das populações
afetadas.
Entre as principais causas da degradação ambiental, pode-se mencionar
além das questões naturais como terremotos, erupções vulcânicas, tsunamis,
as atividades humanas não condizentes com as potencialidades naturais. Quan-
do essas atividades são realizadas sem o devido respeito às limitações de uso,
ocorre o esgotamento gradativo dos recursos naturais. Dentre as atividades hu-
manas mais comuns que provocam a degradação ambiental, pode-se mencionar
o desmatamento; poluição dos solos, das águas e do ar; superpopulação, uso de
técnicas agrícolas inadequadas como queimadas e uso de defensivos agrícolas,
entre outras.
As consequências da degradação ambiental são diversas, a exemplo da re-
dução das potencialidades dos recursos naturais; diminuição da biodiversidade;
empobrecimento dos solos; comprometimento dos recursos hídricos através da
diminuição da disponibilidade hídrica; poluição dos corpos d’água; doenças de vei-
culação hídrica, desertificação; aumento da pobreza, da fome e da desigualdade
social.Sob essa percepção, a degradação ambiental através da deterioração dos
INDICADORES SOCIOECONÔMICOS DE DESERTIFICAÇÃO NA BACIA HIDROGRÁFICA DA RIBEIRA GRANDE DE SANTIAGO
65
Maria Losângela Martins de Sousa, Vládia Pinto Vidal de Oliveira, Sónia Maria Melo Duarte da Silva Victória
Umas das primeiras iniciativas foi a Conferência das Nações Unidas para o
Meio Ambiente, em Estocolmo na Suécia, em 1972, que serviu de base para a
elaboração do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA)
e ali foi proposto um evento que discutisse profundamente a desertificação.
Como resultado foi realizada a Conferência das Nações Unidas sobre Deserti-
ficação (UNCOD) em 1977, em Nairobi, no Quênia. Nessa conferência foi criado
o Plano Mundial de Ação contra a Desertificação, que buscava desenvolver
ações em todo o mundo com a participação do maior número de países (Ma-
tallo Júnior, 2000).
O Plano de Ação de Combate à Desertificação (PACD), utilizou a definição
de aridez a partir do índice desenvolvido pela metodologia de Thornthwaitte.
Segundo esseautor, o índice de aridez é estabelecido dividindo o total de plu-
viometria (P) pela perda máxima possível de água por evapotranspiração (ETP).
Assim, foram identificadas cinco classes de variação do índice (Tabela 1).
2. INDICADORES DE DESERTIFICAÇÃO
Para Abraham, Montaña e Torres (2006, 51), um indicador de desertificação é:
MATERIAL E MÉTODOS
TEMA INDICADOR
População Densidade demográfica
Educação Escolaridade
Estrutura fundiária Propriedade da terra
SOCIOECONÔMICOS
Pecuária
ISED
Extrativismo vegetal
Pobreza Renda familiar
Abastecimento de água
Tratamento da água
Matriz energética
Destino dos resíduos sólidos
RESULTADOS E DISCUSSÕES
INDICADORES SOCIOECONÔMICOS
População Hab/km² V.I Justificativa do Indicador
(Densidade demográfica)
Nula (Não habitado) 0 (5) A densidade da população pode ajudar na com-
Baixa 1 – 100 (4) preensão das atividades humanas capazes que
ISED1
11 – 20 (3) consequências.
1 – 10 (2)
Sem terra (1)
Atividade econômica % de V.I. Justificativa do Indicador
/Agricultura famílias
Muito fraco 1 a 20 (5) As atividades econômicas podem sugerir a
Fraco 21 – 40 (4) intensidade de uso da terra e apontar para as
Moderado 41 – 60 (3) principais causas da degradação ambiental. No
ISED4
1% 5%
14% 4% Analfabeto
Pré-escolar
E. básico
E. secundário
33%
E. médio
Bacharel ou Superior
43%
mais de 80% dos chefes de famílias possuem renda mensal inferior a um salário
mínimo, o equivale a aproximadamente 11000,00 Escudos cabo-verdianos (ECV),
correspondente a cerca de R$ 400,00. Apenas 4% dos chefes de família recebem
acima de 35000,00 ECV, ou R$ 1200,00.
Gráfico 2. Renda Familiar dos chefes de família da bacia da Ribeira Grande de Santiago.
100
80
% Chefes de família
60
40
20
0
<1 entre 1 e 2 >2
salários mínimos
100
80
% Famílias
60
40
20
0
Cidade Velha Calabaceira Salineiro Achada Loura
Gás Lenha
%
100
80
60
40
20
0
Cidade Velha Calabaceira Salineiro Achada Loura
Fonte: Elaboração da autora. ISED1: Densidade demográfica, ISED 2: Escolaridade, ISED3:Estrutura Fundiária,
ISED 4: Agricultura, ISED 5: Pecuária, ISED 6: Extrativismo vegetal, ISED 7: Renda familiar, ISED 8: Fonte
de abastecimento de água, ISED 9: Tratamento da água, ISED 10: Matriz energética, ISED 11: Destino dos
resíduos sólidos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A desertificação é um problema sério que acomete os recursos naturais, es-
pecialmente das áreas submetidas às condições climáticas específicas conforme
propõe o conceito oficial apresentado na ONU. A problemática está fortemente
associada às atividades humanas e não pode ser confundida com qualquer pro-
cesso de degradação ambiental. O poder de depauperação dos geoambientes
contidos nessas ecozonas climáticas e a dificuldade de reversibilidade, chamam
a atenção para este fenômeno.
Na tentativa de melhor perceber a desertificação muitos estudos estão sendo
desenvolvidos. Diante dos esforços de atingir uma metodologia de indicadores
unificada, o que ainda é uma busca, a presente pesquisa optou por trabalhar
com a metodologia proposta por Abraham e Beekman (2006), fortalecida por
trabalhos de Oliveira (2012) em que foramconsiderados os indicadores geobiofí-
sicos e socioeconômicos, a fim de estabelecer índices de desertificação.
Essa metodologia ainda está sendo desenvolvida e aprimorada, e já vem
demonstrando sua importância para detectar o grau de comprometimento dos
geoambientes, frente à desertificação.
As bacias hidrográficas semiáridas são propícias a desenvolverem a deserti-
ficação em face da relação conflituosa entre sociedade/natureza, como ocorre
na Ribeira Grande de Santiago em Cabo Verde. A áreaestá submetida às condi-
ções climáticas agressivas e seus sistemas ambientais encontram-se bastantes
fragilizados. Além disso, as condições socioeconômicas da população são extre-
mamente baixas o que contribui para artificializar e desfigurar os geoambientes
pelas práticas degradadoras.
Os indicadores socioeconômicos mostram que a bacia apresenta alta suscepti-
bilidade à desertificação nas Achadas Parcialmente Dissecadas, nas Planícies Flu-
viais e na Planície Litorânea. Nesses sistemas, ocorre um predomínio de valores
baixos entre 1 e 2, o que indica as piores condições que potencializam a desertifi-
cação. A estrutura fundiária concentrada em que os chefes de família não possuem
82 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
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INDICADORES SOCIOECONÔMICOS DE DESERTIFICAÇÃO NA BACIA HIDROGRÁFICA DA RIBEIRA GRANDE DE SANTIAGO
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86 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
RESUMO
A pesquisa tem como objeto de estudo a problemática da desertificação, especial-
mente em bacias hidrográficas semiáridas. O recorte espacial de análise é a bacia
da Ribeira Grande em Santiago, Cabo Verde. O objetivo principal é analisar a sus-
ceptibilidade à degradação/desertificação dareferida bacia através dos indicadores
socioeconômicos de desertificação. Quanto aos aspectos teóricos e metodológicos,
a pesquisa foi desenvolvida à luz da Teoria Geossistêmica, a qual, através dos estu-
dos integrados da paisagem considera a interação entre os elementos do potencial
ecológico, da exploração biológica e da ação humana. Está estruturada em duas eta-
pas: gabinete e campo. Em gabinete foram desenvolvidas pesquisas documentais,
levantamento de dados, levantamento geocartográfico e de imagens de satélite e
elaboração da cartografia temática.Em campo, foram realizados o reconhecimento
da verdade terrestre, aplicação das fichas de campo e interpretação das imagens or-
bitais. Os resultados obtidos indicam que a bacia hidrográfica em apreço, apresenta
susceptibilidade à desertificação variando de moderada a alta e tem como principais
causas as fortes influências das condições climáticas semiaridez e, principalmente
as atividades humanas, que utilizam técnicas rudimentares e não condizentes com a
capacidade de suporte do ambiente.
PALAVRAS-CHAVE
indicadores de desertificação, bacia hidrográfica, análise ambiental integrada, geos-
sistemas.
EXPERIÊNCIAS DE UMA TRAJETÓRIA
ACADÊMICA EM CABO VERDE E ÁFRICA
CONTINENTAL
VLÁDIA PINTO VIDAL DE OLIVEIRA*
INTRODUÇÃO
O intuito da presente narrativa é fazer uma retrospectiva sobre as minhas ex-
periências acadêmicas em países africanos, com destaque muito especial para
Cabo Verde.
Ao longo dessa trajetória, que remonta ao ano de2009,procurei, tanto nas re-
lações institucionais, como na participação em eventos acadêmicos – dar ênfase
à temática da desertificação, aos entraves naturais ao desenvolvimento susten-
tável, ao ordenamento territorial, dentre outros assuntos.
Sobre os aspectos mencionados, parte-se do pressuposto de que, tanto na
África insular e continental, como no Nordeste o Brasil, há alta vulnerabilidade
às condições de semiaridez. Preocupa-me, sobremaneira, a acentuação dessas
vulnerabilidades às mudanças climáticas com todas as suas repercussões nega-
tivas. Atenta-se ainda, para a forte degradação a que os solos e a biodiversidade
têm sido submetidos, além do que, os recursos hídricos mostram uma tendência
para a insuficiência ou para a exacerbação da poluição. Expõem-se, por conse-
quência, sérios entraves ao desenvolvimento sustentável, com riscos crescentes
à ocupação humana dos territórios em epígrafe.
Pretende-se na presente retrospectiva, tratar seguidamente, dos seguintes
aspectos:
*
Universidade Federal do Ceará [vladia.ufc@gmail.com]
88 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
hídricos tendem para evidente escassez. A biodiversidade, por outro lado, tem
sofrido marcas muito fortes das ações predatórias do homem. Em última análise,
perseguia-se a proteção dos sistemas ambientais fragilizados e a inclusão de
questões pertinentes à pobreza, má estruturação do ordenamento territorial e
deficiências infraestruturais. O evento foi divulgado através de 3 cadeias de te-
levisão: RTP (Rádio e Televisão de Portugal), TCV (Televisão de Cabo Verde) e TV
RECORD de Cabo Verde.
Nesse evento, contou-se com a participação de 4 (quatro) professores da
UFC. Essa parceria gerou vários artigos científicos, culminando com o livro deno-
minado “Cabo Verde: Análise Sócio-ambiental e Perspectivas para o Desenvolvi-
mento Sustentável em Áreas Degradadas” (OLIVEIRA et al.).
O intercâmbio com Cabo Verde foi se mantendo ao longo do tempo. Em 2011,
fui convidada pelo Governo do Estado do Ceará, a fazer parte da Delegação Cea-
rense da Cultura na Feira do Livro do Ceará em Cabo Verde denominada "A terra
da luz na claridade", como parte da Feira Mundial da Palavra. Participei ainda de
Comissão com aUniversidade de Cabo Verde, visando desenvolver estratégias
de intercâmbio sustentável entre as nações.
Em 2014, houve um forte enriquecimento do intercâmbio entre as institui-
ções universitárias dos dois países, através do Programa Internacional de Apoio
à Pesquisa e ao Ensino por Meio da Mobilidade Docente e Discente Internacio-
nal (CAPES/AULP), que foi aprovada sob a minha coordenação e parceria com a
Professora Reitora Judite Medina do Nascimento. Tratava-se da implementação
de um Curso de Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente com parceria
entre a Universidade de Cabo Verde (UniCV) e a Universidade Federal do Ceará
(UFC), contando com a participação de professores do Programa de Mestrado
em Desenvolvimento e Meio Ambiente e do Programa de Geografia. Objetivava
a formação de recursos humanos de alto nível, fundamentada em valores e prin-
cípios do desenvolvimento sustentável. Visava-se capacitar recursos humanos
nas práticas do desenvolvimento e ambiente, fundamentadas nas dimensões da
sustentabilidade ambiental, socioeconômica, político-institucional e científico-
-tecnológica. Ao tratarda mobilidade no âmbito da graduação e pós-graduação,
permitiu-se uma interação entre a teoria e a prática da pesquisa, envolvendo
vários níveis de formação (doutorado, mestrado e graduação) em campos de es-
tudos orientados para a análise da dinâmica das paisagens, além da capacitação
técnica de profissionais através de Programas de Pós-Graduação e graduação
ligados às Instituições.
Como resultado, pode-se considerar que foi um dos Programas de grande
impacto e de exitosa experiência. Quanto à criação do Curso de Mestrado em
Desenvolvimento e Ambiente, contou com 24 (vinte e quatro) profissionais ma-
triculados de diferentes formações como pedagogos, agrônomos, geógrafos,
geólogos, professores licenciados, dentre outros.
92 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
MISSÕES DE ESTUDO
BRASIL/CABO VERDE CABO VERDE/BRASIL
Quantidade Modalidade Quantidade Modalidade
4 Doutorado Sandauíche 2 Doutorado Sandauíche
4 Graduando Sandauíche 4 Graduando Sandauíche
2 Pós Doutorado 2 Pós Doutorado
2 Mestrado Sandauíche
2 Docente Ms (doutorando)
TOTAL DE MISSÕES: 10 TOTAL DE MISSÕES: 12
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com base na exposição dos fatos referentes às minhas experiências aca-
dêmicas em Cabo Verde e na África Continental, há que ressaltar os resultados
extremamente positivos, tanto no que tange às atividades de pesquisa, como
também de ensino e até de extensão.
96 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
REFERÊNCIAS
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ÁREAS PROTEGIDAS DE GUINÉ-BISSAU: O
CASO DO PARQUE NATURAL DOS TARRAFES
DO RIO CACHEU
ANTONIO CORREIA JUNIOR*
EDSON VICENTE DA SILVA**
FRANCISCO DAVY BRAZ RABELO***
*
Universidade Federal do Ceará - UFC [antonio.correiajunior@hotmail.com]
**
Universidade Federal do Ceará - UFC [cacauceara@gmail.com]
***
Universidade do Estado do Amazonas - UEA [davyrabelo@yahoo.com.br]
98 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
Elaboração: Autores
MATERIAL E MÉTODOS
PESQUISA BIBLIOGRÁFICA E DOCUMENTAL
A revisão bibliográfica e documental consistiu na leitura de diversos livros,
teses dissertações, leis, políticas, artigos disponibilizados nas bibliotecas da Uni-
versidade Federal de Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE),
Instituto Federal de Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), nos Laboratórios do
Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará-UFC, Laboratório
de Estudos Agrários e Territoriais (LEAT), Laboratório de Planejamento e Gestão
Ambiental (LAGEPLAN), interpretando entre outros documentos oficiais e editais,
que tratam sobre os assuntos relacionados ao tema em discussão, bem como ao
território da Guiné-Bissau.
Subjetivando compreender abordagem do tema em estudos desenvolvidos
em Guiné-Bissau, recorreu-se a algumas instituições de ensino superior públicas
e privadas como Universidade Lusófona de Amílcar Cabral (UAC); Faculdade de
Direito da Guiné-Bissau (FDGB), Biblioteca Regional de Cacheu (BRC), Memorial
da Escravatura e do Tráfico de Cacheu Negreiro (METNC), Instituto Nacional de
Estudos e Pesquisa da Guiné-Bissau (INEP), Instituto da Biodiversidade e das
Áreas Protegidas da Guiné-Bissau(IBAP) e União Internacional para a Conserva-
ção da Natureza (UICN).
Esta fase permitiu a obtenção das bases teóricas e das linhas ligadas ao tema
e também a construção de mecanismos para a coleta de dados no campo con-
tribuiu para o estabelecimento de limites internos e externos, ligados aos con-
ceitos dos temas estudados. A pesquisa no âmbito da internet, também de igual
modo, apoiou esta fase na busca de informações relacionadas com as temáticas
do estudo. Durante esta etapa, foram analisadas figuras, fotos, quadros, contido
nas informações bibliográficas e documentais pesquisadas ou que estiveram es-
sencialmente ligadas aos inventários dos aspectos ambientais.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
AS ÁREAS PROTEGIDAS EM GUINÉ-BISSAU
A área protegida do Parque Natural dos Tarrafes do rio Cacheu (PNTC) é com-
posta essencialmente por dois setores: Setor Sul, localizado ao sul do rio Cacheu
e setor Norte, localizado ao norte do mesmo município. Salienta-se que dentro
do PNTC.
A maioria das atividades da gestão deste parque concentra-se na parte sul e
que apresenta um área bem conservada de manguezal, a razão de uma relação
harmoniosa de extrativismo da população deste setor, reflete no viver bem e na
melhor conservação dos ecossistemas de manguezais, enquanto que a popula-
ção do setor norte, são essencialmente agricultores da zona baixa e pescadores,
causando maiores impactos no ecossistema.
O setor norte, que tem uma grande área de manguezais, fica situado numa
zona importante no âmbito da conservação dos manguezais, que são utilizados
por um número elevado das aldeias fora dos limites do parque, cujos habitantes
são de diferentes etnias, inclusive estrangeiras, com os seus hábitos e costumes
bem como as formas de exploração diferentes e mais agressivas, o que gera um
risco para a sustentabilidade ambiental.
104 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
na área que faz parte do parque. Todas essas embarcações são fabricadas
nas comunidades locais a partir do corte de grandes arvores.
vi) Agricultura itinerante: grande parte de arroz consumido anualmente no
município de Cacheu, provém delalas (áreas alagadas) ou arroz de sequeiro
(pampam). Essas práticas destroem as zonas onde as matas são mais densas
e desenvolvidas, levando-as a uma degradação progressiva. Após sucessivas
colheitas de arroz, atualmente começam-se a fazer plantações de caju, im-
pedindo a regeneração natural da vegetação original, veja nas Figuras 7 e 8.
Essas práticas constituem uma das principais ameaças ambientais que con-
tribuem para a degradação progressiva da cobertura vegetal no município de
Cacheu, em particular nas zonas de preservação e de conservação do Parque
Natural dos Tarrafes do rio Cacheu, transformando essas áreas de características
florestais em savanas e levando a um empobrecimento do solo e a perda da
diversidade faunística e da florestica.
12%
8%
8%
12%
68%
92%
Pergunta: De quem acha que é a Pergunta: Já fez ou costuma fazer algo para
responsabilidade da promoção e manutenção promoção da qualidade ambiental?
da qualidade ambiental (enumere por grau
de importância)?
3%
8% 12% 12%
12%
1%
88%
68%
Sociedade Civil
Cada morador (individualmente) Sim
Secretaria de meio ambiente Não
Ministério de meio ambiente
Associações comunitárias
ONG´s
CONCLUSÃO
Acredita-se que houve um grande avanço na gestão ambiental de Guiné-
-Bissau ao se instituir a áreas protegidas no município de Cacheu, além das
grandes porções territoriais de área convertidas em áreas de preservação. Nes-
se território tem sido criado espaços estratégicos para a proteção de espécies,
conservação de ecossistemas e a salvaguarda de populações tradicionais, bus-
cando-se o bloqueio de atividades ilegais, promovendo o ordenamento territo-
rial e desenvolvimento de atividades florestais sustentáveis. O grande desafio é
investir na efetiva implementação e fiscalização do Parque Natural dos Tarrafes
do rio Cacheu-PNTC, e seu entorno como áreas protegidas. É preciso aumentar o
número de planos de manejo a serem concluídos, haver uma plena funcionalida-
de dos conselhos gestores formados, bem como reforçar e qualificar o escasso
quadro de funcionários lotados no parque.
O PNTC, não está fora dos quadros das ameaças ambientais devidos aos des-
matamentos as práticas de mineração, a exploração de madeireira e a tentativa
de desafetação de algumas áreas o que são exemplos de impactos diretos sobre
o parque. Outros fatores, como a caça, a pesca, a agropecuária, e os potenciais
impactos indiretos gerados por projetos de infraestrutura e planos de construção
de usinas hidrelétricas não foram abordados, mas também constituem sérias
ameaças sobre essa localidade, indicando que a pressão sobre a áreas protegi-
das é maior do que a considerada na presente pesquisa.
Para garantir a integridade do PNTC, é necessário coibir usos e ocupações
irregulares e o desmatamento, por meio da fiscalização local e monitoramen-
to remoto, garantindo às populações locais seus direitos. Os órgãos ambien-
tais (nacional) e o Ministério Público podem contribuir com a fiscalização e o
monitoramento a partir do investimento em novos recursos tecnológicos, para
aumentar a eficiência e transparência de suas ações, aliado a um programa de
auditoria, capacitação e treinamento do seu quadro de funcionários.
A escassez de recursos humanos e a insuficiência de recursos financeiros
serão os grandes desafios dos próximos anos para a consolidação do PNTC. A
fonte de financiamento do parque deve ser ampliada e os mecanismos de trans-
ferência de recursos devem ser transparentes, garantindo a alocação coerente
ÁREAS PROTEGIDAS DE GUINÉ-BISSAU: O CASO DO PARQUE NATURAL DOS TARRAFES DO RIO CACHEU
111
Antonio Correia Junior, Edson Vicente da Silva, Francisco Davy Braz Rabelo
do que é arrecadado, não apenas aos órgãos gestores (IBAP), mas também de
forma a fortalecer iniciativas sustentáveis e cadeias produtivas que envolvam
saberes tradicionais das comunidades local ou envolvidos. Outras fontes de fi-
nanciamento, como União Internacional para a Conservação da Natureza e Re-
cursos Naturais (UICN) e as outras iniciativas de cooperação internacional, são
instrumentos decisivos para assegurar o futuro do parque como instrumentos de
conservação das florestas de município de Cacheu.
As demais formações vegetais do município de Cacheu, como o mangue
tem sido alvo de grande devastação nas últimas décadas pela ação antro-
pogênica. Essa interferência do ser humano está vinculada ao processo de
exploração de formações arbustiva existentes nesse domínio, voltados para a
produção de lenha, carvão, defumação de peixes, vedação de casas, objeti-
vando aproveitar essas áreas economicamente para construções dos edifícios
(especulação imobiliária).
Perante os obstáculos enfrentadas pela população local, a gestão flo-
restal corresponde a um dos principais caminhos para a resolução dos pro-
blemas. Uma vez que as orientações legais são ignoradas em função da
permanente busca pela sobrevivência, tendo em conta que o Estado não de-
monstra ser capaz de reverter à situação de pobreza vivida pela população
local ao longo do tempo. As populações locais convivem diariamente com
deficiência do sistema de saneamento básico, intensificando as limitações
do sistema de saúde pública, que ainda não tem oferecido à população um
serviço adequado.
A biodiversidade dos manguezais se traduz em significativa fonte de ali-
mentos para as populações humanas. Nesses ecossistemas se alimentam e se
reproduzem mamíferos, aves, peixes, moluscos, crustáceos com suas diversas
espécies, correspondendo também aos recursos pesqueiros indispensáveis à
subsistência tradicional das populações das zonas costeiras.
As destruições dos manguezais geram prejuízos ambientais, econômicos e
culturais, uma vez que parte da fauna natural é fonte de renda, em especial na
região costeira de Cacheu, onde o consumo de peixes faz parte da economia
local, devido ao seu alto consumo. Por esses e outros motivos, a conservação
desse ambiente é fundamental para manter o equilíbrio ambiental e conservar a
fonte de renda a milhões de pescadores na Guiné-Bissau, que dependem desse
habitat para seu sustento.
REFERÊNCIAS
ARASSI, M. T. (1994). Relatório sócio-econômico do Parque Natural dos Tarrafes
do Rio Cacheu.
112 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
RESUMO
As áreas protegidas vêm sendo utilizadas para resguardar parcelas de ecossistemas
em diversos países do mundo. Essa estratégia representa um contraponto ao avanço
da exploração dos recursos naturais pelas atividades produtivas, cuja finalidade cen-
tral é a proteção da biodiversidade. Essa pesquisa foi realizada em Guiné-Bissau e
teve por objetivo compreender a importância do Parque Natural dos Tarrafes do Rio
Cacheu (PNTC) para a conservação dos manguezais de Guiné-Bissau. Sabe-se que os
manguezais são ecossistemas fortemente ameaçados em todo o mundo devido ao
incremento das atividades produtivas no litoral incluindo portos, indústrias e cidades.
No caso de Guiné-Bissau, existe um uso predatório do manguezal que é realizado por
populações que utilizam práticas rudimentares. O PNTC, visa equacionar os proble-
mas e contribuir para a proteção dos manguezais, porém, é preciso contextualizar
como se desenvolve a política ambiental no país e a repercussão da área protegida
para os habitantes e usuários dos recursos dos manguezais.
PALAVRAS-CHAVE
Ecossistema Manguezal. Desenvolvimento Sustentável. Parque Natural dos Tarrafes
do Rio Cacheu.
AS PAISAGENS DA ILHA DO PRÍNCIPE SOB
AS PERSPECTIVAS DA GEOGRAFIA
LÚCIO CORREIA MIRANDA*
EDSON VICENTE DA SILVA**
ADRYANE GORAYEB***
1. INTRODUÇÃO
A Geografia, ao longo da sua trajetória, tem apresentado diferentes aborda-
gens sobre a interpretação da paisagem, sejam elas com víeis predominante-
mente naturais ou antrópicas, ambas têm procurado demonstrar as interações
entre a sociedade e natureza.
Os processos sociohistórico e culturaltecnológico têm interferido nas formas
como se percebe a natureza no tempo e espaço. Deste modo, a percepção da
paisagem é diretamente influenciada, dentre outras, pelas relações que com ela
se constroem na escala espacial e temporal.Pois, trata-se de uma construção
subjetiva entre a relação do mundo interior e exterior do sujeito por meio das
experiências sensoriais, sígnicas e imaginárias (SANTAELLA 2012).
Paisagem é concebida como uma categoria geográfica complexa, abrangen-
do tanto aspectos naturais e antrópicos, concretos e abstratos em permanente
dinamicidade. Mas, nem sempre é analisada na sua totalidade. A concepção da
paisagem e cenário, em muitos caracterizados como sinônimo, paisagem como
panorama, uma cena ou uma representação pictórica, desviando-se o sentido
real da paisagem para a predominância dos aspectos artísticos de sua represen-
tação, como afirma Cauquelin (2007).
Caracterizada de landschap, foi originaria da Holanda, designando lugares
comuns como “um conjunto de fazendas, ou campos cercados, às vezes uma
pequena propriedade ou uma unidade administrativa” (TUAN 2012). Continua in-
dagando o autor, que seu significado artístico acontecera quando transplantada
para Inglaterra nos finais do século XVI, dando-lhe um direcionamento ao “mun-
do de faz de conta”.
As crenças, os mitos, símbolos e signos sempre estiveram presentes nas re-
lações entre a sociedade e natureza, interferindo diretamente nas maneiras de
*
Universidade Federal do Pará - UFPA [lcmiranda-ufc@hotmail.com]
**
Universidade Federal do Ceará - UFC [cacauceara@gmail.com]
***
Universidade Federal do Ceará - UFC [gorayeb@ufc.br]
114 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
2012. Agrega uma população miscigenada, originário, dentre outros, dos cons-
tantes fluxos migratórios de população vinda de diferentes países do continente
africano e alguns europeus durante a era colonial.
O presente artigo tem como objetivo dialogar sobre a evolução da percep-
ção geográfica da paisagem da Ilha do Príncipe, destacando a especificidade
socioambiental local na escala espaçotemporal. Neste sentido, baseou-se nas
pesquisas bibliográficas, como base para o levantamento e catalogação dos es-
tudos realizados para a compreensão das interações sócio-espaciais locais, no
levantamento de campo, efetivado nos anos de 2012 e 2015, para a caracteri-
zação socioambiental no contexto atual, e na elaboração cartográfica, para a
representação espacial das transformações das paisagens locais.
1
Meninos da ilha, como se caracterizam, localmente, os nativos da Ilha do Príncipe na língua local (Lunguiê).
116 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
2
Identificação atribuída, localmente, a Ilha do Príncipe por possuir uma quantidade significativa de papagaio
cinzento (Psittacuserithacus), agrega maior concentração populacional da espécie do país.
AS PAISAGENS DA ILHA DO PRÍNCIPE SOB AS PERSPECTIVAS DA GEOGRAFIA
117
Lúcio Correia Miranda, Edson Vicente da Silva, Adryane Gorayeb
3
Termo usado nacionalmente para designar o período de menor índice pluviométrico anual.
AS PAISAGENS DA ILHA DO PRÍNCIPE SOB AS PERSPECTIVAS DA GEOGRAFIA
125
Lúcio Correia Miranda, Edson Vicente da Silva, Adryane Gorayeb
4
Mineralogista da Missão de Estudos Agronômicos do Ultramar.
5
Orientador do Grupo de Trabalho de Pedologia da Missão de Estudos Agronômicos do Ultramar.
6
Adjunto do Orientador do Grupo de Trabalho de Pedologia da Missão de Estudos Agronômicos do Ultramar.
AS PAISAGENS DA ILHA DO PRÍNCIPE SOB AS PERSPECTIVAS DA GEOGRAFIA
127
Lúcio Correia Miranda, Edson Vicente da Silva, Adryane Gorayeb
Ambos desempenhavam estas funções durante a expedição às ilhas Atlânticas do Golfo da Guiné.
128 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
7
Pequenas habitaçõestradicionalmente construídas de madeira e, em geral, cobertas por folhas de algumas
espécies vegetaislocalizadas nas ilhas de STP.
8
Termo local, de origem colonial, para designar as comunidades agrícolas nas regiões rurais. Em geral se
aplica para se distinguir locais fora da cidade.
132 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
inapropriadas, que diante das condições climáticas locais resistirão por pouco
tempo de uso.
Outro problema relatado pelos moradores se relaciona ao descumprimen-
to das promessas sobre instalação de infraestruturas para o fornecimento de
água para a comunidade. Sendo o acesso à água um problema de extrema
preocupação em todas as comunidades agrícolas e pesqueiras da ilha, des-
tacando as comunidades de Abade, Nova Estrela, Gaspar, Tchada, Aeroporto,
Azeitona, Santa Rita, Praia Inhame, Picão, Paciência. Como medida de mitiga-
ção, o governo tem ampliado a rede de distribuição de água em deferentes
comunidades, porém por falta de manutenção estes equipamentos têm fun-
cionado com muita limitação.
Assim como as mudanças ocorridas na roça Belo Moente, na Praia Sundy
existia, até o ano de 2015, uma comunidade pesqueira constituída por mais de
10 famílias. Dentre estas, três famílias fundaram a comunidade há mais de quatro
décadas. Outras, originadas do bairro Hospital Velho (Cidade de Santo António)
nas imediações da roça São João, frequentavam a praia, inicialmente, de for-
ma sazonal conforme à oscilação do calendário pesqueiro local, mas em virtude
das possibilidades da pesca haviam fixados as suas residências há aproxima-
damente 10 anos. Da mesma forma foram realocados, estes para zona urbana
da cidade da ilha, área de menor interesse dos empreendedores turísticos que
transformou a paisagem desta praia, antes comunitária, com a construção de
hotéis de alto padrão, espaço destinado ao público seleto.
Nesta mesma praia, além da comunidade referida, os pescadores morado-
res da roça Sundytinham ali os seus instrumentos de pesca, inclusive canoas e
botes. Pela transformação seletiva quanto aos frequentadores e usuários desta
praia, estes foram transferidos para a praia de Ribeira Izé, aumentando, deste
modo, o distanciamento entre os lugares de moradia e trabalho. Nesta mesma
conjectura, os moradores da Roça Sundy serão remanejados os seus lugares de
moradia, tal retirada é uma necessidade concreta aos olhos dos gestores públi-
cos e o empreendedor privado, diante da nova exigência econômica.
A desterritorialização que ali se solidifica é um fenômeno de ordem político-
-econômico quase que inquestionável pela idoneidade local, embora existam
rumores dentre os atentos minuiê sobre as suas futuras consequências. Pois, se
trata de um local com extrema relevância para o lazer e praticas tradicionais de
subsistências de muitas outras famílias, mas que se convencionou privatizar o
seu acesso e uso em nome de um desenvolvimento social incerto.
A comunidade agrícola da roça Sundy é constituída por mais de 200 famílias
e se origina no limiar da colonização, pois com séculos de existência, história,
símbolos, signos e vínculo sociocultural e natural. Composta, essencialmente,
por famílias pesqueira e camponesa, sendo estas atividades de grande repre-
sentatividade às suas subsistências. É lamentável afirmar que a imposição para
136 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
a sua transferência para outro lugar de moradia está sendo arquitetada de forma
centralizada.
Os trâmites para a efetivação e aproveitamento da infraestrutura colonial,
atual moradia da população local, como vetor atrativo ao desenvolvimento tu-
rístico, assim como se desenvolve na roça Belo Monte, indicam a exigência da
necessidade do remanejamento da comunidade de Sundy para uma região além
do limite de interesse aos olhos dos empreendedores.
O turismo é uma atividade de extrema flutuação, além disso, percebe-se
que o desenvolvimento se alcança por meio de ações interativas, capazes de
articular, entender e construir, com os sectores da sociedade local, bases fun-
damentais necessárias à resolução, minimização e prevenção dos problemas,
objetivando potencializar as aptidões, os valores e a vida de toda comunidade e
população inserida no sistema, seja ela num contexto social e ecológico.
Além dos impactos social e ecológico, o rendimento do turismo convencional
acontece de forma centralizada e, por outro lado é diretamente proporcional à
dinâmica econômica internacional que pode interferir, inclusive, no abandono
das infraestruturas, como é o caso do resort construído pelos empresários portu-
gueses na Praia Macaco que com poucos anos de funcionamento foi totalmente
desativado ainda no final da década de 2000.
Cabe destacar que a prática turísticafoi desenvolvida nesta ilha antes do pe-
ríodo da independência, segundo Azevedo et al., (1961), as práticas turísticas
desenvolvidas ali durante a era colonial direcionava-se às atratividades das pai-
sagens naturais, sendo muito vinculada ao mar. O turismo tem ganhado impulso
na nas políticas de desenvolvimento regional nos últimos anos, recalcadas na
ampliação de resorts em quase todas as praias do litoral norte.
O reconhecimento da Ilha do Príncipe como Reserva Mundial da Biosfera
tem contribuído para atrair o seu redescobrimento à nível nacional e inter-
nacional, desencadeando mudanças socioambientais locais num ritmo acele-
rado. Teoricamente acredita-se que a sua classificação como Reserva venha
interferir no delineamento das estratégias locais de desenvolvimento, através
da elaboração e efetivação de planos de gestão ambiental sob os preceitos da
sustentabilidade.
Recentemente, tem-se percebido uma ligeira procura à Ilha do Príncipe como
lugar ideal para a fixação de moradia, tanto os cidadãos nacionais quanto dos
estrangeiros. Sua recente valorização, dentre outros fatores, se relaciona ao seu
reconhecimento através das políticas e ações nacionais e internacionais de incen-
tivo à multiplicação do fluxo turístico no seu interior. Com um cenário nacional de
emprego deficitário, e uma nova e ímpar transformação sociocultural, econômica
e ecológica da Ilha, promovida por investimento privado estrangeiro que recente-
mente vem desencadeando o reordenamento territorial, para se adaptar aos re-
quisitos das infraestruturas turísticas existentes e ainda em construção, tem sido o
AS PAISAGENS DA ILHA DO PRÍNCIPE SOB AS PERSPECTIVAS DA GEOGRAFIA
137
Lúcio Correia Miranda, Edson Vicente da Silva, Adryane Gorayeb
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Percebe-se que o conhecimento das especificidades locais se faz necessário
para se pensar e executar ações de gestão ambiental local viável às tradições
e ecossistemas locais. A percepção da ilha foi construída, historicamente, com
base na leitura externa, visão colonizadora, que dispa as nossas paisagens de
beleza na sua existência. E essa forma de ver somente o concreto, com base
nas experiências externas, simplifica e esmiuda a heterogeneidade da paisagem
local, como o produto e palco das múltiplas interações entre agentes naturais e
antrópicos. Em parte, estes reflexos permeiam inclusive a visão de alguns dos
nossos gestores que buscam, à qualquer custos, mudanças socioeconômicas
ameaçadoras das tradições locais.
Nesta perspectiva o fortalecimento de um olhar geográfico sobre as espe-
cificidades locais se apresenta como uma necessidade à aproximação das pro-
postas de desenvolvimento aos valores socioculturais locais. Um dos efeitos
negativos direto do turismo, ali percebido, se caracteriza pela centralização da
população autóctone nas áreas de menor atratividade paisagística, incluindo os
valores arquitetônicos e naturais, em função do interesse econômico. A paisa-
gem, seja ela natural ou cultural, se transforma num produto comercial, onde
as interações socioculturais-naturais são desvinculadas de uma forma esforça-
da através da negociação desenvolvimentista romântica de promessas atrativas
para a resolução de problemas imediatos sem ao menos desencadear um diálo-
go sobre os reais efeitos destas transformações.
138 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
Entende-se que o desenvolvimento local vai além do aumento das taxas dos
indicadores estabelecidos internacionalmente como fundamentais para ultra-
passar as barreiras do subdesenvolvimento. Requer garantir qualidade de vida
mais do que competir em estabelecer um ranking mundial em relação aos índi-
ces de outros países, deve centralizar-se, prioritariamente em resolver os proble-
mas socioambientais internos.
Para isso, carece um conhecimento pleno das problemáticas e das tradições
de cada uma das comunidades existentes, de modo que individualmente as co-
munidades sejam incluídas como participantes do processo e não simplesmente
como um coadjuvante merecedor de qualquer imposição externa à sua realidade.
RESUMO
O presente artigo versa dialogar sobre a percepção geográfica das paisagens da
Ilha do Príncipe e apresentar um panorama das especificidades físiconaturais e so-
cioculturais deste ambiente insular atlântico.Nesta perspectiva, tem-se como ponto
de partida a premissa de que a sua tardia institucionalização como porção territo-
rial de uma nação independente caracteriza-se como um dos motivos pelos quais a
construção de um olhar geográfico autóctone sobre a sua paisagem esteja ainda se
consolidando, embora se apresente registros de estudos que datam o período colo-
nial e isso tem influenciado, de certo modo, o desenvolvimentos de estratégias de
gestão ambiental local.A pesquisa deriva de levantamentos bibliográficos, buscando
a caracterização da ilha em diferentes momentos históricos e no trabalho de campo
realizado em 2012 e 2015, almejando compreender as interações socioambientais
no contexto local, com ênfase na análise das interferências da atual estratégia de
desenvolvimento no modo de vida da população local, bem como as suas conse-
quências à curto e médio prazo. Desta forma, constatou-se a efetivação de transfor-
mações significativas nas paisagens locais, diante das diretrizes políticas e infraes-
truturas turísticas implementadas, principalmente, na última década, determinando
novas dinâmicas ao contexto sociocultural.
REFERÊNCIAS
AGÊNCIA GERAL DO ULTRAMAR (1969). São Tomé e Príncipe: Pequena Monografia.
Lisboa: MCMLXIX.
ALMEIDA, Pedro Ramos de (1978). História do Colonialismo Português em África:
cronologia século XIX. Lisboa: Estampa.
ALMEIDA, Maria Clotilde et al. (2008). São Tomé: Ponto de vista. Lisboa.
ALVES, Renata (2012). Flora de São Tomé e Príncipe. Portugal: Universidade de
Coimbra, 2005. Disponível em: http://www.uc.pt/herbario_digital/Enc_plan-
tas/stome. Acesso em 20 de fevereiro de 2012.
AS PAISAGENS DA ILHA DO PRÍNCIPE SOB AS PERSPECTIVAS DA GEOGRAFIA
141
Lúcio Correia Miranda, Edson Vicente da Silva, Adryane Gorayeb
1. INTRODUÇÃO
O município do Lobito, localizado na província de Benguela, é limitado a Nor-
te pelo município do Sumbe, província do Kwanza-Sul, a Leste pelo município do
Bocoio (província de Benguela), a Sul pelo município da Catumbela (província de
Benguela) e a Oeste pelo Oceano Atlântico. Em Março de 2015, a região foi forte-
mente afectada por quedas pluviométricas e registou, no contexto da província,
o maior número de vítimas mortais decorrentes de enchentes e inundações que
decorreu, em boa medida, do débil ordenamento do território (de um verdadeiro
e prático Plano Director Municipal). Em Março de 2015 o município do Lobito
registou uma das mais tristes páginas da sua história. É que mais de 60 pessoas
perderam as suas vidas por conta da elevada precipitação registada na madru-
gada daquele dia. Embora em grande medida se possa atribuir a causas naturais
(quedas pluviométricas), o factor principal deste percurso menos bom da história
daquele município estará na falta ou na provável ineficácia do Plano de Ordena-
mento do Território, bem como na incapacidade de ajustamento de políticas de
ordenamento às necessidades da população em tempo de crise. Ou seja, apesar
de se reconhecerem tentativas no sentido de melhoria da organização do territó-
rio, a realidade mostra que as acções realizadas não têm vindo a surtir os efeitos
esperados pela população, maior parte dela pobre e vulnerável, pela incoerência
das medidas adoptadas para o ordenamento, que não garantem o cumprimento
de pressupostos como a promoção da qualidade de vida, especialmente de ci-
dadãos desfavorecidos.
*
Instituto Superior de Ciências da Educação/UKB – Benguela [isaacsanto82@outlook.pt].
**
Instituto Superior Politécnico Militar – Lobito [wladimirestevao2012@hotmail.com].
144 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
1
Instituto Nacional de Estatística.
(RE)ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO E POLÍTICAS PÚBLICAS: O CASO DO PLANO DIRECTOR MUNICIPAL DO LOBITO
147
Isaac Simão Santo, Wladimir Estêvão Borges
De acordo com dados recentes, esta região registou, a par de Benguela (sede
provincial) uma população estimada em mais ou menos 500 mil habitantes, gran-
de parte dela distribuída pela Zona Alta (leste do município) sendo, por isso, um
dos mais populosos (Fig. 3). Embora não existam dados actualizados acerca da
população residente na região em estudo, dados recentes apontam para o au-
mento deste número a longo dos últimos anos, especialmente decorrente dos
processos migratórios provocados pela crise financeira internacional, bem como
das oportunidades que podem ser geradas devido ao peso económico do Porto
Comercial e do Caminho de Ferro de Benguela, Instituições que mobilizam uma
série de vantagens em relação aos demais municípios da província e do país,
especialmente no ramo de serviços.
(RE)ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO E POLÍTICAS PÚBLICAS: O CASO DO PLANO DIRECTOR MUNICIPAL DO LOBITO
149
Isaac Simão Santo, Wladimir Estêvão Borges
Social de Direito, que defende uma intervenção mais acentuada nas relações so-
ciais, económicas e culturais; o que pressupõe que para além das preocupações
tradicionais do Estado (Justiça, Segurança e Bem-Estar social) surgiram, para o
Estado, outros encargos, designadamente os que se relacionam com as missões
(atribuições) sociais onde se enquadra a habitação e urbanismo” (GOURNAY 1978
apud SOMA 2018, 40).
Há quem defina “as políticas públicas são a soma das atividades do governo,
sejam elas ações diretas do governo ou dos seus agentes, influenciando a vida
dos cidadãos” (PETERS 1999, referenciado por FERRAZ 2016, 13). Outros enten-
dem “O ordenamento do território é uma política pública transversal que integra
objetivos de organização territorial e desenvolvimento socioeconómico e tem
repercussão em múltiplas áreas da vida social e económica” (CARMO 2016, 100).
Ou, ainda, "corresponde, na maior parte dos casos à vontade de corrigir os de-
sequilíbrios de um espaço nacional ou regional” e "pressupõe por um lado, uma
percepção e uma concepção de conjunto de um território e, por outro lado, uma
análise prospectiva” (BAUD et al. 1997, citado por SANTO s.d.).
No caso concreto de Angola, ordenamento do território “é a aplicação no
território das políticas económico-sociais, urbanísticas e ambientais, visando a
localização, organização e gestão correcta das actividades humanas”, confirme
ficou plasmado na Lei do Ordenamento do Território e Urbanismo (Lei n.º 3/04,
de 25 de Junho, l) do art. 2º). Nesta senda, pouco sentido faria não abordar
o ordenamento do território, enquanto uma das tarefas essenciais de qualquer
Estado e, por isso, política pública pois, como visto, é ainda ao governo de cada
Estado a quem cabe, em última rácio, actuar como garante da organização terri-
torial e Angola não é excepção por, fundamentalmente, ter mais lugar o fenóme-
no de reordenamento do território, cujos critérios, discutíveis ou arbitrários, têm
a intenção jurídica de se ordenar o território.
A guerra civil que grassou Angola promoveu um movimento intenso de po-
pulações idas do interior do país as quais se foram sujeitando às condições de
precariedade. O município do Lobito não foi, por isso, excepção.
Ao êxodo rural associavam-se as dificuldades do Estado em gerir grandes
frentes: a segurança das populações refugiadas, a estabilidade das já residentes
e os esforços para “vencer” a guerra. Desse discurso surge a Estratégia de Com-
bate à pobreza (2005), gizada pelo então Governo de Unidade e Reconciliação
Nacional (GURN), surgido após o conflito armado e em que se previra que “A
construção social permitirá alojar e realojar as famílias vivendo em condições
precárias no espaço urbano e rural, dando-lhes as condições necessárias para
uma vida condigna” (GURN 2015, 6).
Nos termos do que temos vindo a frisar, importa referenciar a alínea f) do n.º
9 do Decreto n.º 2/06, de 23 de Janeiro, que serve de Regulamento Geral dos
Planos Territoriais, Urbanísticos e Rurais. Este documento o qual iremos fazer
(RE)ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO E POLÍTICAS PÚBLICAS: O CASO DO PLANO DIRECTOR MUNICIPAL DO LOBITO
151
Isaac Simão Santo, Wladimir Estêvão Borges
referência, segue a linha do que prevê o n.º 1 do art. 5.º da LOTU segundo o qual
“Incumbe ao Estado promover e orientar a política de ordenamento do território,
nos termos da presente lei e sua compatibilização com as políticas do desenvol-
vimento socioeconómico e cultural”.
A expectativa gerada por aquele Decreto era a melhoria significativa do
processo de ordenamento do território, dado que é objectivo do Sistema de
planeamento territorial “a concretização dos fins do sistema do ordenamento
do território (…) sujeito a critérios de coordenação e valia sócio-económica e
ambiental, a nível regional, e local assegurando, assim, em estreita interacção
com o planeamento económico, a coordenação das políticas do ordenamento do
território com as políticas económica, de ambiente e conservação da natureza,
de educação e cultura, de bem-estar social e de qualidade de vida” (ASSEMBLEIA
NACIONAL 2006).
Prescreve o n.º 2 do art. 11.º da Lei n.º 3/07, de 3 de Setembro, que o Governo
“deve prever nos planos urbanísticos e de ordenamento rural os terrenos des-
tinados a habitações urbanas, bem como os terrenos rurais das comunidades
rurais tradicionalmente estabelecidas ou a implantação de novos aldeamentos
rurais”. Nesta condição, incentiva-se a autoconstrução habitacional, nos termos
do n.º 2 do art. 10.º da citada. Já a alínea a) do art. 17.º da Lei n.º 3/07, de 3 de
Setembro (Lei do Fomento Habitacional, prevê, como uma das competências do
governo, a “elaboração e aprovação prévia (grifo nosso) dos planos urbanísticos
e de ordenamento rural com a previsão adequada dos terrenos urbanos e rurais
destinados a habitação por iniciativa privada ou de autoconstrução, em geral
e em particular aos programas e projectos de habitação social, urbana e rural
apoiados pelo Estado ou outras pessoas colectivas de direito público” (ASSEM-
BLEIA NACIONAL 2007).
Apesar da existência destes normativos legais e outros, percebemos haver,
para o Lobito, um enorme duelo no que ao seu ordenamento diz respeito e que
muita influência tem tido no desenvolvimento harmonioso do território. Como
exemplo podemos destacar as consequências negativas que as instalações de
apoio à exploração petrolífera, situadas no centro da cidade, as quais promo-
veram alterações substanciais ao ambiente, designadamente a destruição dos
mangais, o que afectou o regime alimentar dos Flamingos, outro nome pelo qual
a sua cidade capital é conhecida (cidade dos Flamingos).
Outro factor importante na presente análise tem que ver com a falta e/ou o
incumprimento uma efectiva política de assistência às pessoas vulneráveis e/
ou pobres no que tange ao seu empoderamento em vista a capacidade para a
auto-construção, por si protegida por lei, assim como a regulação do mercado
imobiliário, como previsto no n.º 3 do art. 16.º da citada Lei (Lei n.º 3/07, de 3 de
Setembro). Com efeito, os “mercados não surgem espontaneamente, requeren-
do um poder político que os crie, estabilize e legitime” (RODRIGUES 2011, 135).
152 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
“plano-objecto”, não se podendo imputar tais ocupações, ainda que fora dos
marcos da lei, somente a uma das partes, por si só vulnerável, pois não houve
um trabalho de “elaboração e aprovação prévia (grifo nosso) dos planos urba-
nísticos e de ordenamento rural”, como determina o art. 17.º da Lei n.º 3/07, de
3 de Setembro. Mas não é um aspecto isolado. A esse respeito, Capella, ba-
seando-se em Schneider e Igram (1993), aponta que “na definição das políticas,
os diferentes grupos são tratados também de forma distinta, sendo os grupos
favorecidos entendidos como merecedores, e os desviantes como indignos. As-
sim, problemas envolvendo alguns grupos têm maiores chances de concentrar
atenção, enquanto outros problemas tendem a ser sistematicamente ignora-
dos” (CAPELLA 2018, 24).
Embora seja o Estado proprietário da terra (território), nos termos do n.º 1 do
art. 15.º da Constituição da República, não podemos esquecer que na fundação
de um Estado estão igualmente a soberania e a população. Ainda que eventual-
mente conhecidos tais planos (à data e no presente), as pessoas têm de vencer
outro desafio que é a carestia financeira para responder aos quesitos que as
normas e o excesso de burocracia impõem. Importa levar em consideração que
“os problemas ligados à habitação dos grupos sociais com menos recursos são,
sem dúvida, um dos mais delicados elos da relação entre economia, sociedade
e Estado” (PINTO 2011, 9). Nesta senda, tem de se levar em consideração que
“os períodos de crise acentuam dificuldades, multiplicando casos de precarie-
dade, de salários em atraso, de subemprego, de desemprego. Em tais períodos
costumam também ficar distantes alguns dos direitos sociais inscritos nas cons-
tituições e nas leis” (ALMEIDA 2011, 51), e este é um requisito que não pode ser
colocado de parte na análise das Políticas Públicas de Ordenamento do Terri-
tório, sobretudo quando se tem elevadas taxas de analfabetismo e de pobreza
e nume momento em que se assiste a uma preocupante onda de fenómenos
extremos como chuvas torrenciais ou secas prolongadas em locais e padrões
foram do que há registo.
com o previsto no art. 88.º do citado Diploma. O referido PDM, nos termos do
seu art. 2.º, visa “Promover o desenvolvimento socioeconómico sem prejuízo da
salvaguarda dos interesses de defesa do território e sua segurança interna, do
equilíbrio ecológico e sustentabilidade ambiental e do património histórico-cul-
tural”. Tem ainda como objectivos, entre vários, “Adequar os níveis de densifica-
ção dos aglomerados às potencialidades infra-estruturais (…) de modo a suster a
degradação da qualidade de vida e a prevenir a acentuação de desequilíbrios” e
“Recuperar e reconverter as áreas degradadas existentes, a par da definição de
áreas novas de expansão, programadas de raiz em termos de infra-estruturas e
equipamentos colectivos”.
De acordo com este Diploma, na alíneas a), f); g), h) e i) do seu art. 2.º, o
processo de organização do município deve ter em consideração a “Requalifi-
cação dos bairros urbanos desordenados; Defesa das áreas agrícolas (…); Orde-
namento e regulação da actividade extractiva; Regularização do sistema hídrico
(…) e melhoria da qualidade do ambiente e preservação da estrutura ecológica
municipal”. É constituído por um Regulamento, por uma Planta de Ordenamento
e Planta de Condicionantes, instrumentos os quais apresentam os conceitos pró-
prios, assim como os desenhos quer geral, quer de cada região administrativa do
município do Lobito. Trata-se, com efeito, conforme o art.4.º, de um plano pionei-
ro para o município, já que “Na área de intervenção do Plano não se encontram
em vigor instrumentos de ordenamento do território de âmbito superior com os
quais o Plano tenha de se conformar”. Apesar de ser apontada tal situação, a
ideia passada parece-nos um pouco elástica, dado que imagens e documentos
relatam a existência de planos de ordenamento e um exercício breve é a compa-
ração de duas imagens dos anos de 1970 e de 2020 (fig. 4 e 5).
De outro modo, nos arts. 24.º, 25.º e 26.º estão pré-definidas “Zonas amea-
ças pelas cheias; Zonas com risco de erosão e Escarpas e faixas de protecção”
nas quais estão previstas proibições de construções, o que podia ter impacto po-
sitivo na organização do território se combinado com outros instrumentos legais,
como são os casos da Lei de Terras, de que falaremos adiante. Constituído por
88.º arts., o PDM do Lobito presta uma atenção particular à Zona Alta. Como se
nota no n.º 2 do art. 66.º, nesse ponto da cidade está prevista uma zona urbana
“em pente”, nela convivendo zona habitacional e de comércio e serviço e cuja
reabilitação carecerá de um Plano próprio. Este é um dos vários desafios que
o PDM coloca porque não está prevista a elevação do nível de proficiência dos
quadros que vão tratar da sua elaboração com critérios apropriados.
(RE)ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO E POLÍTICAS PÚBLICAS: O CASO DO PLANO DIRECTOR MUNICIPAL DO LOBITO
155
Isaac Simão Santo, Wladimir Estêvão Borges
Fonte: Plano Director Municipal (PDM) do Lobito, Despacho Presidencial n.º 221/19, de 4 de Dezembro
5. CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES
O estudo permitiu observar uma multiplicidade de desafios às Políticas Pú-
blicas em Angola. Desde as Políticas sociais, de educação, saúde às do ordena-
mento do território, passando por outras para um crescimento sistemático do
país, em vista a diminuição das assimetrias regionais. De modo geral, no quadro
da análise de Políticas Públicas relacionadas ao território e uma vez instalada a
156 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, J. F. (2011). Desigualdades sociais e percepção das desigualdades. In
José Madureira Pinto (Org.), Desigualdades Sociais: Os modelos de desen-
volvimento e as políticas públicas em questão, pp. 11-51. Lisboa: Caleidoscó-
pio – Edição e Artes Gráficas, SA.
158 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
WEBGRAFIA
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Disponível em: https://pt.euronews.com/2019/05/01/o-potencial-economico-
-da-via-ferrea-do-corredor-do-lobito. Data de acesso: 18.09.20.
TOPONÍMIA DOS BAIRROS DE BENGUELA
JOSÉ CHICANHA DELFINO*
ANDRÉ CLEMENTE DE FREITAS*
ANTÓNIO MOISÉS*
ADELINO JOSÉ SAPALO*
PEMBELE MANZINGA*
1. INTRODUÇÃO
A designação dos lugares ou vias de comunicação esteve desde sempre inti-
mamente relacionada aos valores culturais das populações, refletindo e perpe-
tuando a importância histórica de factos, pessoas, costumes, eventos e lugares
(ROE 1992). É importante compreender para além do local onde vivemos os no-
mes reais dos lugares e os seus limites naturais ou artificiais ajudam a criar um
ambiente que facilitam a aprendizagem, instigante na relação entre o homem
e meio a sua volta. A toponímia assume, pois, uma dimensão cultural, que se
determina tanto por sua dimensão territorial como por sua dimensão histórica
(BONNEMAISON 2000).
É um espaço humanizado para fins de orientação, organização e referência,
necessário para registrar e mapear as localidades, atribuindo-lhes nomes. Espa-
ço e cultura são indissociáveis, porque não há sociedades que vivam sem espaço
para lhes servir de suporte (CLAVAL 2001). O ser humano se compreende pelo
ambiente que habita, e habitar um lugar significa conhecê-lo, transformá-lo e
humanizá-lo (BONNEMAISON 2000, 187).
1
No caso de Angola, a Lei n.º 15/16 relativa à Administração local do Estado
*
Universidade Katyavala Buwila, Instituto Superior de Ciências da Educação, Departamento de Ciências da
natureza, Sector de Geografia, Benguela-Angola (Instituto Superior Politécnico Maravilha; Escola de Forma-
ção de Professores; Departamento de Ciências da Línguas, Sector de Linguística Inglês).
1
CAPITULO I (Disposições Gerais)
Artigo 1.º (Objecto). A pressente lei estabelece as bases para definição e disciplina da Toponímia ao nível
nacional e local bem como as regras e procedimentos para efeitos da atribuição de número da Polícia.
Artigo 3.º (Definições). Para efeitos da presente lei, entende-se por:
a) Toponimia: estudo histórico e linguístico de origem e evolução dos nomes próprios dos lugares ou a
designação das localidades pelo seu próprio nome.
b) Número de Polícia: Algarismos de porta fornecidos pelos serviços municipais.
Artigo 4.º (Funções da Toponímia)
a. Orientar e informar os cidadãos dos arruamentos e outros espaços públicos e privados.
b. Toponímias têm os seguintes objectivos a respeito da denominação dos bairros: A possível eliminação
dos nomes estrangeiros ou de pessoas vivas, respeitados os imperativos da tradição e da vontade popular,
bem como as legítimas homenagens; A preferência pela adopção de nomes indígenas ou relacionados a
162 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
factos históricos da região, no caso de substituição de topônimos; A conservação dos nomes já consagrados
pelas populações das localidades respectivas, desde que não contrariasse as disposições acima.
TOPONÍMIA DOS BAIRROS DE BENGUELA
163
José Chicanha Delfino, André Clemente de Freitas, António Moisés, Adelino José Sapalo, Pembele Manzinga
Figura 2. Benguela: (a) a cidade no contexto regional; (b) alguns Bairros da cidade
(a)
(b)
Bairros da Zona A
O Anexo 1 contém os nomes dos 22 bairros da Zona A bem como a sua topo-
génese no período Ante-Independência, segundo as fontes que aferiram estes
166 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
Bairros da zona B
O Anexo 2 tem representado os topónimos dos 25 bairros da zona B criados
nos períodos antes e depois da Independência, permitindo destacar segundo a
sua origem.
A Zona B é conhecida como a zona costeira já que os seus bairros, contíguos
ao mar, apresentam características de solo arenoso. Faz fronteira a Norte com o
Cascurnabo, a Este com a Zona A e a Estrada Nacional (EN100), a Sul com o muni-
cípio da Baia Farta, mais concretamente a Comuna da Baia do Santo António, de
REDE DE ALDEIAS DE MONTANHA: UM TERRITÓRIO E UMA ESTRATÉGIA DE DESENVOLVIMENTO RURAL INTEGRADO
167
Célia Gonçalves
Bairros da Zona C
O Anexo 3 mostra a topogénese dos 7 bairros da Zona C, com expeção do
bairro da Kaponte City. São bairros criados como musseques no período colo-
nial onde se destaca Kaponte City que é um bairro novo, com uma demografia
resultante da sua realidade socioeconómica actual, formado por residências
de renda média e baixa, diferente dos outros lugares na Kaponte. Os bairros
de Benfica, Kassôco, Kapiras, Kaponte, Kaponte City têm uma Geografia muito
limitada, definida a Norte pelos bairros da Zona D, tendo por seu limite a linha
do Caminho de Ferro de Benguela (CFB), a Sul a Zona A, sendo o limite defi-
nido pela Vala do Corrigem e a estrada que liga o centro urbano. Nos bairros
da Pecuária e Kapont a maioria das ruas não possuem nomes, por terem um
ordenamento muito precário; apenas o bairro Benfica possui ruas numeradas
e que dá o nome às mesmas.
168 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
Bairros da Zona D
O Anexo 4 apresenta a topogénese dos 7 bairros correspondentes à Zona
D cujas histórias são completamente distintas e que o facto de a zona não pos-
suir um mapa não favorece a compreensão dos seus limites territoriais. A Zona
é constituída pelos bairros da Asseque, Fronteira, Chingoma, Seta-Antiga, Ka-
lomanga, Kalossongo-Kalilongue, Kaparata, Pecuária. São bairros construídos
sobre o leito do Rio Cavaco, o que reduziu consideravelmente a extensão do
cordão verde do vale. Faz fronteira a Norte com a Zona F e o Rio Cavaco, a Sul
pela Zona C e o Casco Urbano, a Este a Zona E e a Oeste pela Zona A e pela
linha férrea do Caminho de Ferro de Benguela (CFB). A Vala do Corringe não
possui ruas com nomes próprios, embora algumas travessas de ruas e a rua mais
extensa, que liga o Largo da Peça ao centro urbano, conhecida como Estrada do
Asseque (Largo do Cavaco), é uma área encravada, tanto em termos de mobili-
dade como de localização.
REDE DE ALDEIAS DE MONTANHA: UM TERRITÓRIO E UMA ESTRATÉGIA DE DESENVOLVIMENTO RURAL INTEGRADO
169
Célia Gonçalves
Bairros da Zona E
O Anexo 5 inclui a topogénese dos 8 bairros da zona E no período ante e pós
Independência. A existência de poucos bairros faz da zona um lugar que, embora
administrativamente muito pequena, tem uma considerável extensão territorial.
A Zona E com características semelhantes às da zona B, localizada entre a Estra-
da Nacional (EN100) e o Oceano Atlântico, é delimitada a Norte pelo município da
Catumbala, a Sul pelo casco Urbano, a Este pelas zonas D e F e a Oeste o Oceano
Atlântico. Assente sobre o leito sedimentar do Rio Cavaco, é muito pequena em
relação as demais, sendo formada pelos seguintes bairros: Tchioche, Massanga-
rala, Matador, Kotel, Soldoma, Quiotche Maritimo, Kondulem, Compão.
170 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
Bairros da Zona F
O Anexo 6 apresenta o estudo topogénico dos 10 bairros da zona F, cuja
génese ocorreu desde o período anterior à Independência, ocorrendo um rápido
crescimento depois da Independência, sobretudo, após 2004, cujos bairros são
considerados novos. A origem dos seus nomes remonta ao período colonial, pre-
servando alguns lugares a sua origem como campos agrícolas, terras cultiváveis
e zonas residenciais e outros alterados com o passar do tempo. A zona F encon-
tra-se dividida entre a Estrada Nacional (EN100) e o vale do Cavaco, tem a Norte
a Administração municipal da Catunbela, a Sul as Zonas D, E, B, Oeste o Oceano
Atlântico a Este a Administração municipal do Caimabmbo. É formada pelos bair-
ros da Graça, Kalomburaco, Tchipiandalo, Kawango, 27, Taca, Kambangela, Mina,
Cavaco, Kaloburaco e Santa Teresa. Correspondem a um conjunto de localidade
bem definidas, encontrando-se algumas subdivididas em pequenas localidades
que consideramos serem aldeias mais sem uma dimensão demográfica aceite
para tal.
REDE DE ALDEIAS DE MONTANHA: UM TERRITÓRIO E UMA ESTRATÉGIA DE DESENVOLVIMENTO RURAL INTEGRADO
171
Célia Gonçalves
4. CONCLUSÃO
Os topónimos usados para designar os bairros são em boa parte de origem
autóctone, pois derivam da língua local, o umbundo, sendo o resultado de um
processo longo de aceitação da realidade vivida baseada numa estreita relação
entre o Homem e meio à sua volta. A partir da toponímia é possível não só en-
tendermos a estrutura demográfica dos bairros como conhecer a sua história.
A pesquisa mostra que muitos topónimos são escritos de forma errada, que-
brando a essência dos nomes originais na língua local, como os iniciados por
“Ca”, que usamos “Ka”. Escreve-se de forma incorrecta, por exemplo, Caloman-
ga, que na língua local, o Umbundo, se escreve Kalomanga; por outro lado, o
pré-fixo “Ka” é um diminutivo se escrito por “Ca”, lido Xa em Umbundo, elemento
imperioso que importa aplicar para facilitar a concordância gramatical, sendo
correcto os topónimos em umbundo serem escritos com “Ka”.
A síntese dos bairros que foi apresentada contém a sua localização geográ-
fica, os limites e, por vezes, a composição litológica, a que se acrescentaram
fotografias. Inicia-se aqui uma investigação que se pode estender a outras partes
do território nacional, analisando nomes de províncias, municípios, comunas e
localidades, sejam bairros, vilas, aldeias e, mesmo, vilarejos.
172 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
REFERÊNCIAS
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pp. 63-66. Chicago: William Benton Publ., 1964.
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Lei de base n.º 15/16 de 12 de Setembro - Lei da Administração local do estado.
TOPONÍMIA DOS BAIRROS DE BENGUELA
173
José Chicanha Delfino, André Clemente de Freitas, António Moisés, Adelino José Sapalo, Pembele Manzinga
ANEXOS
Anexo 1. Topogénese dos Bairros da Zona A
BAIRRO TOPOGÉNESE
11 de Novembro O nome do bairro foi atribuído em homenagem aos mártires da luta arma-
da angolana, que marca independência nacional; o nome foi atribuído pelos
moradores.
28 de Maio O bairro é urbanizado, de construções definitivas do modelo colonial português,
o nome foi dado em homenagem a campanha do Dombe em 28 de Maio de 1935
data da Inauguração da Estatua do Largo da Peça. No bairro residiam os Senho-
res donos da antiga açucareira do Dombe.
70 O nome antigo do bairro era da Cerâmica, mas devido ao número do carro
dos serviços comunitário para recolha de lixo nº 70, os moradores preferi-
ram adoptar o mesmo nome, a outra versão que fundamenta a existência
no bairro apenas 70 casa achamos ser a versão mais correcta da origem do
topónimo.
71 Administrativamente o bairro nunca existiu mas devido o alargamento da
construção para residências até a vala criou-se outro nome para as novas
residências que é 71 que limita o 70 do Sindiquile uma subdivisão dentro dos
bairros.
Casas Novas O nome foi atribuído pelos próprios moradores a partir de 2012 através da
ocupação das áreas anteriormente não habitadas, o bairro é assim toponi-
zado como Casas Novas atendendo as construções recentes ali edificadas.
Ndokota Como todo o nome na topogenese da localidade provem de um assunto ou
facto ocorrido sendo o nome atribuído pelos primeiros moradores devido a
presença no local de um avião avariado supostamente pela existência de
um aeroporto próximo na localidade e tinha como nome ou marca Ndocata.
Kambanda O nome Kambanda deriva do linguajar local que em umbundo significa (do
Outro lado ou na margem de cima, pode ser também um lugar) o nome é em
homenagem a um soba “Banda” que viveu muito tempo no bairro conside-
rado por muitos como o primeiro morador da zona. Obanda significa terreno
ou lugar.
Kalundo O nome do bairro Kalundo, foi toponizado para caracterizar as casas que estavam
a volta do Cemitério. Era o linguajar dos moradores que diziam Tuenda ko Kalun-
do na língua local traduzido vamos ao Cemitério.
Kalongoloti O nome é atribuído em homenagem a quantidade de árvores que existia no
local, que eram usados para lenha, hoje já não existem pelo abate excessivo.
Hoje é chamado de Jingoloti.
Kamunda O facto de o bairro estar localizado numa zona elevada que na língua local
significa: Kamunda, atribuíram Kamunda (Pequena elevação) foi toponizado
assim.
Kanequetela Kanequetela significa na língua local poeira, devido a quantidade de pó que
se levanta devido acção do vento os moradores atribuíram a toponímia de
Kanequetela.
Kandumbo O nome antigo do bairro foi atribuído em homenagem a um antigo caçador
e guerreiro muito forte Kadumbo, Topónimo autóctone e com fundamentos
que devem ser preservados.
174 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
Kamaninga 1 O nome primário é desconhecido, mas devido aos caçadores que passavam
no local e encontravam fezes na via diziam: apa pali a niñha (ali há fezes). Foi
toponizado por Kamaninga 1.
Kamaninga 2 O nome do antigo bairro era os Morros, devido aos caçadores que passavam
e encontravam fezes na via diziam: apa pali a niñha (ali há fezes). Extensão
territorial do bairro anterior Kamaninga 2.
Kalossombecua O nome do bairro, é atribuído em homenagem aos antigos viajantes que com-
pravam sal e descasavam sobre o Imbondeiro existente na zona e é neste
lugar onde enterravam os mesmo viajantes que morriam por varias doenças
o que na língua local diziam to Sonbeka (vamos guardar) o nome do bairro
é Guardar.
Kambambi O nome na tradução local significa (pouco frio), tudo por que a área estar
próximo das margens do rio Cavaco, pelo excesso de humidade, atribui-se
o nome de “Cambambi” significa frio ou pequena Cabra do Mato Ombambi.
Kovava O nome sucede devido as dificuldades dos moradores no período de chuvas
para poderem passar de uma margem para outra, por passar na área uma
linha de água chamado pelos Moradores de “Kapululo” do Kovava.
Lixeira O nome antigo do bairro diz respeito a uma concentração para o depósito
de lixo que deu origem ao nome do bairro, resultado dos antigos serviços
comunitários da Administração Municipal.
Lupeio O nome do novo bairro Lupeio é toponizado pelos moradores, validado pela
Administração local que Significa do outro lado ou outra margem para o lin-
guajar da localidade.
Manga Toponizado pelos moradores do bairro Manga não é sabida a sua origem
nem a do seu fundador ou primeiros moradores, residem cidadãos de várias
etnias.
Nhime Toponizado pelos moradores do bairro, devido a existência de uma árvore
que as noites os seus ramos secos podem ser usados como lamparina para
iluminação todos os emigrantes e visitantes conheceram assim o local.
Utomba Toponizado como lugar remoto ou na linguagem local terra do fim do mundo,
o nome é atribuído a lugares distantes, neste caso o local dista do centro
urbano e encontramos um cemitério aberto que não têm o real controlo da
Administração.
BAIRRO TOPOGÉNESE
Atlântico Toponizado pela sua localização geográfico próximo ao Atlântico na perspec-
tiva do ordenamento local, por ser um bairro privilegiado pelos moradores da
zona por ostentar um modelo de construção dirigida e padronizada com vista
ao Atlântico, criado no período 2005 à 2010.
Kaota Toponizado como nome de um pescador que viveu na região, desconhecida a
sua origem o nome é usado pela administração local, bairro surge no período
antes de 1975.
Kalonombi Toponizado como lugar remoto, o nome é atribuído a lugares distantes aqui
os antigos viajantes que saiam do interior do Pais para explorar sal na salina
Kalombolo, Kalonombi é o lugar de memória dos finados viajantes enterrados
em arredores na área, nome atribuído antes da independência.
Hoje-Ya-Henda O nome do bairro foi dado em homenagem ao mártire da liberdade e luta
política heróica nacional como modelo de muitos bairros no país, topónimo
foi atribuído para homenagear ao herói.
Bairro do Uchê Toponizado, o nome é atribuído pelos moradores do bairro por se localizar
junto do rio Uché que se estende dos vales do rio Cavaco a Sudoeste ao
monte Saca, nome atribuído depois da Independência entre 2008 à 2011.
Atlântico Ekuikui-II Toponizado pela sua localização geográfico, devido a proximidade ao Ocea-
no Atlântico na perspectiva do ordenamento local, é atribuído o nome pela
ligação que existe entre o Atlântico e Ekuikui atribuído pelos moradores do
bairro, durante os anos de 2009 à 2014.
Talamanjamba Toponizado com o nome, que na língua local umbundo Njamba significa Ele-
fante, pela aproximação a reservava natural do Chimalavera e Kapembawui
supõem ser o local a passagem de Elefantes que fazem ali o seu repouso
então o nome na língua nacional para o local passou a ser Talamanjamba
significa “paragem de Elefantes”, atribuído o nome antes da independência.
17 de Setembro Toponizado o bairro em homenagem ao dia do Herói nacional (Dr. António
Agostinho Neto), o nome foi atribuído pelos moradores do bairro por ter início
a distribuição de terras neste bairro neste dia, depois da independência entre
2005 à 2007.
Condomínio da Toponizado em homenagem à Companhia que construiu as residências ali
Sonangol existentes, atribuído pelos moradores como sendo o Condomínio da Sonan-
gol, localizado entre os bairros da Bela-vista e Miramar.
Agostinho Neto Atribuído o nome em homenagem ao 1º Presidente da República e Herói
nacional, com prestigio alusivo os seus feitos como pai da nação angolana,
nome atribuido depois da independência entre os anos de 2004 à 2007.
Kalombutão O nome Kalombutão deriva do linguajar local que em umbundo significa
(Pequenos botões) o nome é atribuído em homenagem a primeira fábrica
existente na localidade que fabricava botões no período antes de 1975. O
nome é remetido por um prefixo do grau diminutivo na língua umbundo pode
ser (Ka-Lombutão), com obras de restauro sobre a ponte rio Uchê, há uma
tendência de ser toponizado por alguns como bairro das duas pontes.
Viva Paz O topónimo é atribuído em homenagem ao período de declaração dos acor-
dos de PAZ, em 04 de Abril de 2002, sendo também o período que começou
a invasão do bairro na ocupação de terrenos e seu consequente crescimento
demográfico.
4 de Fevereiro O nome do novo bairro é toponizado pelos moradores do bairro, validado
pela Administração local, devido a disputa de terra entre as autoridades
176 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
BAIRRO TOPOGÉNESE
Benfica Sua origem remota o período colonial com a existência da conhecida coo-
perativa de Moçamedes, aceita-se que seja um topónimo igual a de muitos
bairros espalhados pelo pais que homenageiam o bem estar, aqui o bairro
é uma tracção já que é ordenado por ruas inúmeras de 1 à 13, devidamente
urbanizado com arruamento aceitável.
Kassôco Toponizado com o nome de Cassôco em umbundo o Kusokola significa fo-
focar ou falar mal de outros não se sabe se é um hábito no bairro mas o
nome de fofoqueiros é o que caracteriza o bairro, criado o bairro no perío-
do colonial.
Kapiras Sem data da sua toponização Kapiras para de um terreno agrícola cultivado
pelo servo ou conhecido como o Capatas na língua local umbundo significa
espaço de passagem de águas para agricultura.
Kaponte Toponizado com o nome de Kaponte é antecedido com o prefixo Ka que é
um diminutivo de pequena ponte, no bairro existe uma ponte da passagem
da linha férrea, é encontrado no bairro 3 Kapontes sendo a Kaponte Gran-
de, Caponte Pequena e Caponte City que falamos mais abaixo, o nome é
usado desde o período colonial.
Kaponte City Como parte do bairro da Kaponte a actual Kaponte City era uma exten-
sa parte de campos agrícolas da então empresa agrária ENAMA (Empresa
Nacional de Agricultura e Máquinas) o bairro teve o seu surgimento em
2004 conhecido como Kaponte City por ser a parte urbanizada entre as 3
Kapontes. Têm algumas ruas definidas o ordenamento e moderado e não
precário como os outros bairros.
BAIRRO TOPOGÉNESE
Asseque Toponizado com o nome de Asseque na língua local Umbundo significa Es-
seque: areia o nome é atribuído devido a passagem do rio Cavavo. O rio
passava pelo local mas tendo sido alterado o seu curso normal para irrigar
a fazenda do I.E.A (Instituto Experimental Agrário) os agricultores decidiram
ocupar o leito do rio e fixar ali as suas residências, isto é, antes de indepen-
dência não se têm uma data real da fixação do bairro.
Fronteira Topónimo do bairro é parte história de longos conflitos que existiram entre
o casco urbano e os musseques reza a história que no local havia uma pra-
ça e se encontra próximo da linha férrea do caminhos de ferro de Benguela
(CFB), mais a razão do nome é pelo limite entre a periferia que compreende
o vale do Cavaco e o Centro Urbano.
Chingoma Toponizado com o nome de hingoma que na língua local significa Tchigo-
ma: Batuque, os moradores são descendentes de Kilengues (Quilengues)
província da Huíla, como eram muito conflituosos foram expulsos do seu
antigo bairro que era a Calomanga para zona que alagava e mesmo assim,
ali se fixaram e construíram as suas residências onde com o som do batu-
que e do Tchiganje: Palhaço, faziam as suas danças.
178 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
Seta-Antiga A sua topogénese deriva da existência da fábrica de tabaco que existe nas
redondezas da bairro que é um bairro resultante da ocupação dos terrenos
por antigos agricultores e camponeses que trabalhavam na fazenda próxi-
mo do bairro.
Kalomanga Toponizado com o nome de Calomanga na localidade havia várias árvores
de manga como usa-se muito prefixo na língua local como diminutivo (Ka
de poucos ou admiração) no bairro encontramos poucas árvores de manga
mas o nome ficou Kalomanga.
Kalossongo-Kali- Os dois bairros fazem apenas um sendo um lugar com dois nomes onde
longue as diferenças culturais são ais acentuadas entre provenientes das provín-
cias do Huambo e Huíla Kalossongo significa Poucos ou pequenos picos,
Kalilongue significa arranjou-se problemas (forma de chamada de atenção).
Kaparata Toponizado desde 1918 a semelhança do bairro do Kalossongo, devo ao
seu valor de compra na altura por algumas Pratas (dinheiro) seguido as
variantes locais adicionou-se o prefixo Ka-parata sendo o topónimo do local
até a data presente.
Pecuária Existindo no localidade uma senhor português que fazia a criação de ani-
mais e seu abate da espécie bovina e o bairro é toponizado com o nome,
antes da independência, actualmente o local é responsabilidade da Admi-
nistração de Benguela e preserva o mesmo nome.
BAIRRO TOPOGÉNESE
Tchioche Toponizado com o nome de Tchioche devido existência de Leões; que pas-
savam pela zona que na língua local em umbundo Ossi.
Massangarala Toponizado pelos moradores devido a capuca cabo-verdiana que os anti-
gos populares chamavam de missanguinha, na versão do soba este tipo de
bebida era adicionada uma planta medicinal que chamava-se essangarala.
Matador Toponizado com o nome de matador devido a uma estrutura colonial que
no passado era utilizado como matador de animais.
Cotel O nome do bairro Cotel e originário de uma palavra em umbundo Utele que
quer dizer algodão ou linha de algodão que se produzia na zona, onde se
encontravam os maiores costureiros, da região na altura como outros bairros
adicionou-se o prefixo Ko-tele, sendo o topónimo do bairro ate a data actual.
Soldoma O nome é atribuído pelos moradores do bairro soldoma tem a origem um
senhor cristão que fartou-se das confusões dos moradores e disse aos po-
pulares vocês parecem os habitantes da cidade que deus dizimou Sodoma
e Gomorra.
Quiotche Maritimo Toponizado pelo nome Quiotche Marítimo devido a existência de muitos pes-
cadores, que realizam actividade de pesca e venda no local. A semelhança
do bairro anterior toponizado com o nome de Tchioche devido existência de
Leões; que passavam pela zona que na lingua local em umbundo Ossi.
Condulem Toponizado para homenagear o antigo morador Ondulem um senhor de ida-
de avançada que contava sobre as atrocidades do rio cavaco na população.
Compão Toponizado com nome, devido as casas dos trabalhadores do CFB que es-
tavam todas ligadas e divididas apenas por quartos as salas eram comuns.
Segundo o coordenador do bairro.
Fonte: elaboração própria.
TOPONÍMIA DOS BAIRROS DE BENGUELA
179
José Chicanha Delfino, André Clemente de Freitas, António Moisés, Adelino José Sapalo, Pembele Manzinga
BAIRRO TOPOGÉNESE
Graça Toponizado pelos moradores devido a paróquia de nossa senhora da Gra-
ça. No passado o bairro era chamado de Catchicolo em homenagem a um
pastor que se instalou aí por muito tempo com o gado.
Calomburaco Toponizado com nome devido a depressão onde o bairro se encontra e no
passado chamavam de buraco com o tempo os populares passaram a cha-
mar de Caloburaco. Influência do prefixo Ca ou Ka, usado como diminutivo
na tradução directa pequeno.
Tchipiandalo Toponizado por Tchipiandalo derivada de uma palavra em umbundo Ondalo
(fogo). E ainda diz o soba, que os fazendeiros faziam queimadas para caçar
e afugentar alguns animais ferozes. E ainda segundo o soba diz que os
primeiros habitantes da zona construíram as suas casas sobre as cinzas.
Kawango Nome deriva de uma palavra em umbundo, o Wangu (Capim). Os primeiros
habitantes da zona viviam em cubatas de capim. Consideramos o prefixo
Ka o substantivo ideal para valorar os bairro em Benguela como Ka-wango,
significaria Capim.
27 Toponizado, com este nome 27 e devido a quilometragem 27 entre o Lobito
a Benguela. É zona do Km 27.
Taca Toponizado devido a umas estacas onde o Colono depois de fazer as suas
buscas a procura de mercadoria (escravos e marfim) eles estacionavam ali
para comercializar os mesmos produtos.
Kambangela Toponizado pelos moradores da graca de Cambagela: o nome têm origem a
um animal Kambange e outros do Kambabi que havia muito na zona.
Mina Toponizado o bairro da Mina: o bairro no passado chamava-se Osandje,
conhecido como Mina devido a Exploração de inertes que há na zona.
Cavaco Toponizado com o nome de Cavaco pelos moradores tudo pelo bairro esta
localizado no leito do rio Cavaco, onde encontramos os bairros da Santa
Teresa, Os Craques.
Caloburaco Novo Atribuído o nome de Kaloburaco novo que agora chamam de Santa Teresa
ou Santa Teresa devido ao posto de tuberculose que existe na zona propriedade da igreja
Católica.
Fonte: elaboração própria.
APROVEITAMENTO TURÍSTICO DAS
CAVERNAS DE DEUS E MARIA BONITA
NO MUNICÍPIO DO SUMBE (PROVÍNCIA
DO KWANZA SUL EM ANGOLA)
MANUEL FRANCISCO BANDEIRA*
ALBINO KANGOMBE NGONGO**
INTRODUÇÃO
O estudo do relevo é imprescindível para a análise geográfica, já que actua
como factor condicionante para outros elementos da paisagem como a vege-
tação, hidrografia entre outros elementos físico-geográficos, bem como factor
determinante para diversas actividades económicas ligadas a exploração dos
recursos naturais podendo caracterizar geograficamente um espaço territorial.
A geomorfologia cárstica estuda a forma, génese e dinâmica. A província do
Kwanza Sul apresenta solos calcários associados a orla costeira, onde se de-
senvolve interessantes formas do relevo em que se destaca as cavernas subter-
râneas e formas superficiais como dolinas e canhões cársticos. As cavernas de
Deus e Maria Bonita são formas cársicas singulares, localizadas na periferia da
cidade do Sumbe, de grande importancia educativo, ambiental e turístico pela
sua formação, estrutura morfológica, valor cénico e uso turístico. Apesar deste
potencial, se observa alguns problemas de degradação ambiental e a ausência
de estratégias para potenciar estes lugares, como recurso ambiental e turístico
de grande valor para potenciar a economia local, pois são atractivos turisticos
singulares orientados para segmentos do turismo de interesse especial.
Este trabalho faz uma análise e reflexão sobre as características e evolução
das formas morfoesculturais cársicas observadas nas Cavernas de Deus e Maria
Bonita, localizadas na periferia da cidade do Sumbe, Província do Kwanza Sul,
onde se evidencia este tipo de relevo no contexto do país. A ideia central visa
*
Doutor em Ciencias Económicas e Empresariais, Professor Associado do Departamento de Ciencias da
Natureza (DCN) do Instituto Superior de Ciencias da Educação (ISCED de Benguela), da Universidade Katya-
vala Bwila (UKB) e do Instituto Superior Politécnico de Benguela (ISPB), Coordenador do Curso de Gestão
do Ambiente (GA). manuel_bandeira2003@yahoo.com.br; manuel.bandeira@ispbenguela.com
**
Licenciado em Educação na Especialidade de Geografia, Professor do II Ciclo do Ensino na Província de
Benguela.
182 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
1
Carta Geral de Solos de Angola.
APROVEITAMENTO TURÍSTICO DAS CAVERNAS DE DEUS E MARIA BONITA NO MUNICÍPIO DO SUMBE
183
Manuel Francisco Bandeira, Albino Kangombe Ngongo
2
Ver vídeo em Yotube: https://www.pa-angola-tourism.com/portugu%C3%A9s/roteiro/grutas-de-sassa/,12/4/2020.
184 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
3
http://pt.wikipedia.org/wiki/Caverna; 20 /7/2014.
186 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
4
http://pt.wikipedia.org/wiki/Caverna; 28/7/2014.
5
Guano: O guano são excrementos dos morcegos que se acumulam nas cavernas, sendo um fertilizante
utilizado na agricultura, inclusive, existe no Bairro Saber Andar uma fábrica que explora este producto que
pode ser exportado.
APROVEITAMENTO TURÍSTICO DAS CAVERNAS DE DEUS E MARIA BONITA NO MUNICÍPIO DO SUMBE
187
Manuel Francisco Bandeira, Albino Kangombe Ngongo
b) Troglófilos: Animais que podem viver tanto dentro como fora da caverna, em-
bora não possuam órgãos especializados. Essas espécies são suficientemente
adaptadas para viver toda a sua vida dentro das cavernas, mas nada impe-
de que vivam igualmente bem fora dela. Entre eles estão alguns crustáceos,
aracnídeos e insetos.
c) Troglóbios: Animais que se especializaram para a vida dentro das cavernas.
A maioria não possui pigmentação e pode ter os olhos atrofiados ou mesmo
ausentes. Ao invés disso possuem longas e numerosas antenas ou órgãos
olfativos muito sensíveis. Entre esses há diversos tipos de peixes, como o
bagre-cego, insetos, crustáceos, anelídeos e aracnídeos.
Embora se observa poucas plantas na maior parte das cavernas, elas podem
desenvolver-se próximas das entradas e outras aberturas. A água e os animais
trogloxenos e troglófilos podem trazer fragmentos usados para a alimentação
dos animais vegetarianos da caverna. Também existem algumas espécies car-
nívoras, que se alimentam dos animais menores. Algumas bactérias e fungos
vivem no guano do morcego, podendo servir de alimento para alguns dos in-
sectos. Algumas cavernas podem ser iluminadas artificialmente para facilitar a
visitação. Ao longo do tempo, isso pode ter o efeito de permitir o crescimento de
plantas superiores, o que pode alterar diversas condições climáticas, químicas e
biológicas das cavernas.
CONCLUSÕES
O carso perfaz mais de 20% da superfície do globo terrestre; estima-se que
por volta de 25% da população mundial dependa da água subterrânea em re-
giões cársticas; a importância do carste como aquífero é inegável, suas imensas
reservas de água subterrânea são imprescindíveis para a subsistência das popu-
lações que vivem sobre o carste; a riqueza de seu solo, cultivado há milénios em
muitas regiões do planeta, valor económico para a mineração, isto é, a matéria-
-prima para o cimento, cal, ferro, depósitos minerais no carste como zinco, chum-
bo, etc., uso turístico, principalmente relativo às cavernas, entre muitos outros.
Uma vez identificada e cracterizada as duas cavernas, o passo seguinte será
divulgar, promover, dar a conhecer perspectiva de valoração como activo educa-
tivo-ambiental e turístico. Posteriormente, equipas multidisciplinares e multisec-
toriais entre as quais se deve destacar a Universidade, podem desenhar e imple-
mentar projectos de educação ambiental conducentes a valorizar os atractivos
(lugares) como recurso turístico singular inserido no turismo de natureza: ecoturis-
mo, turismo ecológico e científico e turismo espeleológico. Se abre desta forma,
espaço para o fomento do empreendedorismo local (micro e pequenos negócios),
numa altura em que no processo de diversificação da economia angolana, na
geraçao de renda e emprego é fundamental o papel do sector turístico como es-
tratégico para o crescimento e desenvolvimento económico e social do país.
APROVEITAMENTO TURÍSTICO DAS CAVERNAS DE DEUS E MARIA BONITA NO MUNICÍPIO DO SUMBE
189
Manuel Francisco Bandeira, Albino Kangombe Ngongo
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grafia, Kuanza Sul. Equipa de Trabalho do autor. ISCED / Benguela (material
digital, inédito).
190 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
ANEXOS
Figura 1. Etapas de evolução do sistema das cavernas de Deus (Furna do Rio Cambongo)
Figura 2. Etapas de evolução do sistema das cavernas de Deus (Furna do Rio Cambongo)
Figura 3. Processo de Formação das Covas freáticas Maria Bonita (Saber Andar)
*
Universidade de São Paulo
196 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
1
Disponível em http://www.brasilafrica.fflch.usp.br/apresentacao.
2
Idem à nota anterior.
198 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
3
Denominação colonial da atual Universidade Eduardo Mondlane.
4
Contando com o auxílio da FAPESP, Processo 01/13455-9. Disponível em: https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/50151/
manuel-garrido-mendes-araujo-universidade-eduardo-mondlane-mocambique/.
CAMINHOS E EXPERIÊNCIAS DE COOPERAÇÃO ACADÊMICA ENTRE A UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (BRASIL) E A 199
UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE (MOÇAMBIQUE)
Mónica Arroyo e Antonio Gomes de Jesus Neto
13
A revista Geousp Especial África, v. 15 n. 2 (2011), pode ser acessada no seguinte link:https://www.revistas.
usp.br/geousp/issue/view/5735.
CAMINHOS E EXPERIÊNCIAS DE COOPERAÇÃO ACADÊMICA ENTRE A UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (BRASIL) E A 201
UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE (MOÇAMBIQUE)
Mónica Arroyo e Antonio Gomes de Jesus Neto
14
O pesquisador Antonio Gomes de Jesus Neto, que fez parte do convênio entre a USP e a UEM na graduação,
e defendeu seu TGI sobre Moçambique em 2012, continuou estudando a temática no mestrado, e defendeu
em 2016 a dissertação “Entre trilhos e rodas: fluidez territorial e os sentidos da circulação de mercadorias
em Moçambique”, novamente sob orientação da Profª Drª Mónica Arroyo.
15
Nessa ocasião, a professora Inês concedeu uma entrevista à equipe do Boletim Campineiro de Geografia,
publicada no v. 7 n. 2, 2017 (http://agbcampinas.com.br/bcg/index.php/boletim-campineiro/ issue/view/17).
16
A pesquisadora Viviane Alves Vieira, que fez parte do convênio entre a USP e a UEM na graduação, e defendeu
seu TGI sobre Moçambique em 2015, continuou estudando a temática no mestrado, defendendo em 2019
a dissertação “Os reassentamentos da Vale em Moçambique: um estudo sobre mobilização do trabalho e
trabalho supérfluo”, novamente sob orientação do Prof. Dr. Carlos de Almeida Toledo.
17
A última renovação deste convênio realizou-se em novembro de 2019, com vigência até 22/09/2024, con-
forme consta no sitio da Comissão de Cooperação Internacional (CCINT) da FFLCH (http://ccint.fflch.usp.br/
taxonomy/term/32).
202 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
anos de 2015, 2016 e 2017. Sob supervisão da professora Rita de Cássia Ariza
da Cruz, o professor José Guambe esteve em São Paulo como etapa obrigatória
de seu doutorado para realizar sua pesquisa sobre turismo, além de proferir pa-
lestras e apresentações na USP sobre seu tema. Cabe salientar que o professor
José Guambe fez parte da primeira turma de doutorado da UP, onde defendeu
sua tese em 2018 sob o título “Turismo na Zona Costeira de Inhambane: conflitos
na produção do espaço”.
PALAVRAS FINAIS
A convivência, a aprendizagem e o intercâmbio entre docentes e estudantes
da USP e da UEM ao longo das últimas décadas certamente contribuíram para o
reforço dos laços acadêmicos e a compreensão mútua de ambas as realidades,
em suas diferenças e semelhanças. Cabe destacar nessa aproximação a impor-
tância da circulação de ideias e o compartilhamento de experiências e práticas
de docência e investigação.
As breves memórias individuais relatadas pelos estudantes intercambistas
são apenas uma pequena parte de um processo longo e construído por muitas
pessoas e lugares entre o Atlântico e o Índico, mas é também uma forma de vi-
sualizar o que pode ser feito quando duas instituições decidem trabalhar juntas
através de um diálogo duradouro, apesar das dificuldades enfrentadas. Assim
como as memórias aqui apresentadas, outras histórias acadêmicas foram e se-
rão construídas a partir desses esforços.
CAMINHOS E EXPERIÊNCIAS DE COOPERAÇÃO ACADÊMICA ENTRE A UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (BRASIL) E A 205
UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE (MOÇAMBIQUE)
Mónica Arroyo e Antonio Gomes de Jesus Neto
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Salvador, v. 29, n. 76, pp. 13-32, jan./abr.
206 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
1. INTRODUÇÃO
1.1. DESCRIÇÃO GERAL
*
Universidade Federal do Ceará - UFC [ojalane@gmail.com]
**
Universidade Federal do Ceará - UFC [cacauceara@gmail.com]
208 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
que a grande maior da sua população vive e depende dela. Segundo o CAP1 e
o TIA2, a grande maioria desses moçambicanos que sobrevivem da agricultura
ocupa pequenas explorações com menos de 5ha que totalizam cerca de 99%
das unidades agrícolas do país e concentrando acima de 95% da área cultivada
do país. Esta grande concentração da agricultura do país nas mão dos pequenos
agricultores, cujos os objetivos centrais estão virados para a sua própria sobrevi-
vência, sem a acesso as tecnologias agrarias apropriadas para fazer fase as suas
necessidades de produção, isso acresce os riscos da mesma fase as senários
climáticos atuais.
Para muitos atores a exposição da agricultura africana e particularmente Mo-
çambicana aos riscos naturais não está inserido apenas nas alterações do clima
(padrões de chuvas, aumento da temperatura, etc) segundo o (MORTON 2007):
Alguns dos impactos mais importantes da mudança climática global serão sentidos
entre as populações, predominantemente em países em desenvolvimento, conheci-
dos como agricultores de "subsistência" ou "pequenos agricultores". Sua vulnerabi-
lidade às mudanças climáticas vem tanto da localização predominante nos trópicos
quanto de várias tendências socioeconômicas, demográficas e políticas que limitam
sua capacidade de adaptação à mudança.
familiar. Segundo (CORREIA 2013) existe elementos claros para separar os dois
sistemas agrários.
“... agricultura familiar se diz que, mantendo muito dos traços da agricultura de sub-
sistência ou tradicional ou seja, embora fortemente condicionada pelas determinan-
tes naturais e socioeconómicas endógenas, vai estando, cada vez mais ligada aos
mercados isto é, influenciada pelas determinantes socioeconómicas exógenas.Os
sistemas de subsistência, como o nome indica, são sistemas que visam fundamen-
talmente a sobrevivência do agregado familiar o que os torna muito mais resistentes
a qualquer mudança. Naturalmente que os condicionalismos que podem levar ao
desaparecimento do sistema poderão ter razões que não se prendem apenas com as
questões técnicas como por exemplo os conflitos armados. Pelo seu lado, a agricultu-
ra comercial é, no essencial, uma atividade económica que faz da venda da produção
a sua prioridade.
Ainda que o mesmo reconheça que existe uma ligeira diferença da agricul-
tura familiar, baseado na sua integração ao mercado de produtos locais e de
exportação em contraste com o de subsistência que se revela com uma ligeira
exclusividade ao sustento básico da família.
A agricultura de subsistência africana é tida como um elemento de existência
das famílias, esse facto a transforma numa conflito de conceitualidade em rela-
ção a outras realidades extras africanas, se ela é para família então é familiar.
Na agricultura moçambicana e na maior parte da região africana os termos
agricultura de subsistência e agricultura familiar são normalmente considerados
sinônimos, por essa razão os conceitos são na maior parte das vezes conceden-
tes.
Em Moçambique a atividade agraria segundo ao artigo 103 da constituição
1
da República :
1
Constituição geral da Republica de Moçambique
210 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
2
Direção Nacional de Terras-cadastro nacional de terras; http://www.dinageca.gov.mz/dnt
AGRICULTURA DE SUBSISTÊNCIA FASE AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS: CASO DOS AGRICULTORES DO DISTRITO DE BOANE
211
Orlando Inácio Jalane, Edson Vicente Da Silva
Fonte: autor
3
O sistema agrário pode ser definido como um modo de exploração do meiohistoricamente constituído, um
sistema técnico adaptado às condições bioclimáticas de um espaço determinado, que responde às condições
e às necessidades sociais no momento. Um modo de exploração do meio que é o produto específico do
trabalho agrícola, utilizando uma combinação apropriada de meios de produção inertes e meios vivos para
explorar e reproduzir um meio cultivado, resultante das transformações sucessivas sofridas historicamente
pelo meio natural Mazoyer e Roudart (1997) citado por (AMILAI 2008).
AGRICULTURA DE SUBSISTÊNCIA FASE AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS: CASO DOS AGRICULTORES DO DISTRITO DE BOANE
213
Orlando Inácio Jalane, Edson Vicente Da Silva
praticado na sua grande parte nos solos a leste do distrito com grande proximi-
dade as fontes de agua como os casos da barragem dos pequenos Limbobos e
ao longo dos cursos de agua de vários pequenos riachos, como maior destaque
nas margem do rio Umbelúzi, encontramos aqui as pequenas e médias empresas
agrarias do distrito enquanto o sistema de sequeiro é praticada numa peque-
na parte da região norte e em quase toda a extensão da região sul do distrito,
com dependência exclusiva das condições naturais é aonde os efeitos da natu-
reza tem sido mais severos para os agricultores familiares, este é caracterizado
basicamente por desflorestamento constante através de destroco em queima
das savanas como forma de limpeza dos campos. O sistema urbanizado agrário,
seria o último que se destaca na produção avícola e na horticultura virada ao
essencialmente para o consumo urbano
O distrito de Boane é dos poucos com potencialidades agráriasna região sul
de Moçambique, particularmente na província de Maputo onde se encontra in-
serido com uma atração agraria de vulto tanto para os produtores familiares,
bem como da agricultura empresarial e isso deve se aos solos férteis dodistrito
e a grande disponibilidade de água, a partir do seu principal curso o rio Um-
belúzi que é também abastecido por pequenos riachos que cortam de norte a
sul. O maior reservatório de agua da região sul encontra-se nos limites deste
distrito com o da Namaacha a denominada barragem dos pequenos Limbobos
como uma capacidade de 400Mm3, desenhada para o fornecimento de agua
nos campos agrícolas irrigáveis e para o consumo do próprio distrito de Boane e
da região metropolitano de grande Maputo (cidades de Maputo e Matola). Mais
de 80% dos pequenos agricultores do distrito de Boane ainda usam técnicas de
produção do século 18, como são os casos da pratica de queimada, lavouras e
sementeiras manuais, etc.
4
Extrato de uma entrevista ao canal televisivo STV por um dos produtores do distrito de Boane
AGRICULTURA DE SUBSISTÊNCIA FASE AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS: CASO DOS AGRICULTORES DO DISTRITO DE BOANE
215
Orlando Inácio Jalane, Edson Vicente Da Silva
Apesar da importante influência das mudanças climáticas, incluindo variabilidade e além disso,
a adaptação na agricultura não funciona e evolui com respeito apenas a esses estímulos climá-
ticos. Forças não-climáticas, como condições econômicas, políticas, meio ambiente, socieda-
de e tecnologia, têm implicações significativas para a tomada de decisão agrícola, incluindo a
tomada de decisão adaptativa (BRYANT 1994; BRYANT et al. 2000).
5. CONCLUSÃO
Durante a presente analise ficou patente a real situação de exposição de
Moçambique aos eventos climáticos extremos, resultante das mudanças do cli-
ma.Estes impactos serão mais severo na atividade agraria e somados ao fato de
que em Moçambique ela ser exclusivamente dependente das condições naturais
(agricultura de sequeiro), e ainda com a grande parte da sua população depen-
dente dela para a sua sobrevivência. Urge então uma necessidadede desenho
de políticas agrarias urgentes com vista a ajudar aos pequenos agricultores
5
Reportagem do jornal da noite da STV 02/03/2019.
218 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
nacionais a mitigar os efeitos das mudanças climáticas cada vez mais devastado-
res para a agricultura moçambicana.
O nível de exposição aos efeitos anômalas das mudanças do clima sobre os
agricultores de subsistência de Boane quase que duplicou de nos últimos 20
anos desde as cheias dos anos 2000 na região sul de Moçambique. As discus-
sões em torno da agricultura Moçambicana aponta para alguns possíveis solu-
ções, que tem sido aclamado por vários seguimentos acadêmicos nacionais, com
são os casos do aumento da capacidade das represas para a conservação das
aguas que em períodos de chuvas excessivas tem provocado danos severos ao
tecido agrário nacional. Aponta se também algumas preocupações relacionados
a real efetividade destas ações face as mudanças do clima, seria realmente efe-
tivo aumentar a capacidade de represionamento sem que adotemos as comu-
nidades de ferramentas adequadas para o uso sustentável desse recurso e de
tantos outros que são chaves para uma melhor adaptabilidade para a mitigação
dos efeitos climáticos.
A situação atual do País em relação a sua agricultura exige um comprometimen-
to de todos os interessados, que na verdade são todos os moçambicanos desde
os órgãos de desenho das políticas, assim como ao beneficiário final destas. Aos
estados é lhe exigidos mais investimento e compromisso com agricultura nacio-
nal através o incremento do orçamento destinado a este sector, principalmente
uma maior atenção aos pequenos agricultores pós são este que asseguram a
deita alimentar do país.
As mudanças são uma preocupação a frágil economia de Moçambique ba-
seado ainda e em grande escala no agrário, mas tem sido devastado na verdade
pela pouca a atenção que tem sido dispensado a esse sector tão nuclear na vida
de milhões de moçambicanos, através dos poucos investimentos a falta de polí-
ticas agrarias atrativas ao sector. O maior desafio da agricultura moçambicana e
em particular do distrito prende se ainda a grande dependência da mesma aos
fatores naturais, uso restrito de insumos de qualidade, o melhoramento da fertili-
dade dos solos e a fraca capacidade de rega dos campos agrícolas.
RESUMO
O presente trabalho abordaos efeitos das mudanças do clima na agricultura de subsis-
tência Moçambicana particularmente das comunidades do distrito de Boane na pro-
víncia de Maputo. Moçambique é um país costeiro da zona austral de África bastante
vulnerável aos extremos climáticos e a região sul é o que menos capacidade de adap-
tação apresenta para fazer fase a essas mudanças. O mesmo foi desenvolvido a partir
de levantamentos bibliográficos, entrevistas aos produtores locais e da observação
direta do autor que é parte integrante deste ambiente em causa. Os diferentes estu-
dos apontam que em Moçambique já se observa a mudança dos períodos normais de
AGRICULTURA DE SUBSISTÊNCIA FASE AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS: CASO DOS AGRICULTORES DO DISTRITO DE BOANE
219
Orlando Inácio Jalane, Edson Vicente Da Silva
sementeira, isto é os padrões normais das precipitações tem se alterados e cada vez
com maior intensidade, a amplitude térmica cada vez mais alta.
O distrito de Boane é basicamente o principal fornecedor de produtos frescos de ori-
gem agraria as cidades de Maputo e Matola, daí que uma mudança nos padrões de
produção desse, afeta direita e indiretamente os mercados dessas duas cidades.O
padrão das chuvas na região sul de Moçambique tem apresentado mudanças em re-
lação ao período normal, não só mais também tem ocorrido em períodos mais curtos
e concentrados e de forma irregular e cíclico nos últimos 15 – 20 anos. Os efeitos das
mudanças do clima para uma agricultura tradicional, sem grandes entradas tecnoló-
gicas para fazer fase aos problemas cada vez mais frequentes na agricultura tem sido
cada vez mais nefasto. Os moldes da agricultura em Moçambique ainda se apoiam
em técnicas rudimentares (tradicionais), o que confere a ela o rótulo de agricultura
de subsistência”. Esse facto tem levantado um questionamento frequente “até que
ponto as mudanças no clima tem afetado os moldes de produção agrária tradicional
Moçambicana e em especial a agricultura de subsistência no distrito de Boane”. É
uma grande verdade que as mudanças climáticas já pesam nos modos de produção
das populações africanas, principalmente aqueles que praticam a agricultura de baixa
renda.
PALAVRAS-CHAVE
Agricultura de subsistência, Moçambique-Boane, Mudanças climáticas, Impactos,
Adaptação, Riscos, Mitigação
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de-producao-na-bananalandia
http://www.portaldogoverno.gov.mz/por/Media/Files/Constituicao-da-Republica-
-PDF
PAISAGENS E DESENVOLVIMENTO LOCAL:
INVENTÁRIO, ANÁLISE E ESTUDO
DE CHIBUTO (MOÇAMBIQUE)
MARIA GERALDA DE ALMEIDA*
INTRODUÇÃO
Pouco após o Brasil ter sido “descoberto”, em 1500, já em 1550 as relações
Brasil e África tiveram início. Elas foram dissimétricas, marcadas por um intenso
tráfico forçado de povos africanos escravizados, para trabalharem no país no
qual os portugueses buscavam explorar produtos dotados de valor na Europa. O
tráfico teve começo em meados do século XVI (SILVA 2020).
Durante todo o período de existência desse negócio, o Brasil foi o país que
mais recebeu africanos para a escravização no mundo. A quantidade de afri-
canos trazidos para o Brasil foi de 4,9 milhões, estimada pelas historiadoras
Schwarcz e Starling (2015).
Na análise de Alencastro (2018), as regiões das quais a maior quantidade de
africanos foi trazida para o Brasil foram Senegâmbia (Guiné), durante o século
XVI, Angola e Congo, durante o século XVII, e Costa da Mina e Benin, já no século
XVIII. Durante o século XIX, em 1850, os ingleses proibiram o Brasil de traficar
africanos de locais acima da linha do Equador.
Ao todo, Angola correspondeu a 75% do total de desembarques de africanos
no Brasil, e na primeira metade do século XIX um grande número dos africanos
enviados ao Brasil era de Moçambique. Os povos dos quais os africanos vieram
foram variados, com destaque para bantos, nagôs, hauçás, jejes, entre outros.
O Brasil é, portanto, marcado por mais de 350 anos de severo sistema de
tráfico internacional transatlântico de cativos africanos. Fruto de tão cruel po-
lítica é o racismo estrutural e estruturante da nossa sociedade (ALMEIDA 2018).
Sublinhamos que 54% da população brasileira, de acordo com IBGE (2018), au-
todeclaram-se negra.
Isso não impede, todavia, de a história da formação do povo brasileiro até
muito recentemente omitir a participação valorosa e decisiva dos povos afri-
canos para a construção do País, além de ter sido factualmente excludente
*
Universidade Federal de Góias - Goiania [galmeida@ufg.br]
222 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
O PROJETO
Este Projeto resultou da aprovação do citado edital, no ano de 2012. As insti-
tuições que foram aprovadas com o Projeto são a Universidade Federal de Goiás
– UFG –, contemplando o Instituto de Estudos Socioambientais e pesquisadores
do Laboratório de Pesquisas e Estudos de Dinâmicas Territoriais – Laboter– e,
em Moçambique, a Escola Superior de Negócios e Empreendedorismo – Esnec
– da Universidade Eduardo Mondlane. A UFG ainda agregou a Escola de Agrono-
mia, a de Engenharia de Alimentos, de Engenharia Florestal, da Escola de Veteri-
nária e Zootecnia. O Projeto foi desenvolvido entre fins de 2013 e o ano de 2017,
com o código Projeto 004/13.
Neste período foram realizadas mobilidades de brasileiros, sendo seis mis-
sões de trabalho, três bolsas-sanduíches para doutorandos e seis bolsistas de
graduação para Chibuto. No caso dos moçambicanos, estiveram em Goiás sete
missões de trabalho e seis bolsistas de graduação.
Paisagens e Desenvolvimento Local: Inventário, Análise e Estudo Comparati-
vo de Chibuto – Moçambique e Goiás – Brasil preocupou-se em ser um projeto
de pesquisa-ação que promovia o reconhecimento científico, com pesquisas ex-
ploratórias da paisagem no espaço rural e, paralelamente, efetuando um estudo
de potencialidades para o desenvolvimento local. O projeto foi realizado por do-
centes e discentes das Universidades Federal de Goiás (UFG) e Esnec Eduardo
Mondlane (UEM) no distrito de Chibuto na província de Gaza, em Moçambique.
Simultaneamente à pesquisa, ocorreu a ampliação dos conhecimentos locais
com a oferta de oficinas.
Alguns procedimentos foram realizados com discentes e docentes da
Unesc, visando propiciar ferramentas de conhecimento e outras promotoras
de desenvolvimento local. Foram feitos estudos cartográficos, calendários
agrícolas, rodas de conversa, confecção de mapa turístico e produzida uma
cartilha bilíngue.
PAISAGENS E DESENVOLVIMENTO LOCAL: INVENTÁRIO, ANÁLISE E ESTUDO DE CHIBUTO (MOÇAMBIQUE)
223
Maria Geralda de Almeida
1
Estudantes da ESNEC que participaram da oficina e levantamento de dados: Edilton Alberto Matimbe, Osvaldo
Inácio Nhavene, Ivo Daniel, Idilson Benehager F. Pirbay, Ferdinando Dirceu de Nogueira Caetano, Inácio
Ernesto Mirzo, Sónia Elisa Luís Tivane, João Sílvia Virgilio Mahuai, Ninaldo Artur Nhantumbo, Ali Satar Abdul
Paquira, Hélio Paulo Mutombene, Elidio Mário Cumbi, Jordão Humberto, Cristóvão Belém Mahuai.
224 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
A DIVERSIDADE DE PAISAGENS
Para a oficina feita sobre Noções e Técnicas Básicas de Mapeamento, a pro-
posta final procurou realizar o mapeamento de um local público, juntamente com
os participantes da oficina, que neste caso foi o Mercado Central do distrito de
Chibuto. A caracterização da feira – mercadorias, número de bancas, faixa étaria
e sexo dos vendedores – foi realizada com base na observação.
Essas informações completaram o mapeamento e mostraram a importância
do conhecimento espacial.
As mulheres, pelo que pôde ser percebido, representam maior número de
comerciantes no Mercado Central de Chibuto. O fato de 52,18% da população
moçambicana total (28.861.863) corresponder a mulheres (INE, 2018), aliado ao
seu papel em cada localidade que, de acordo com relatos de moradores locais,
varia desde um sistema matriarcal a patriarcal, poderia ser uma das justificativas
para isso. Além disso, segundo Sitoe, Salomão e Wertz-Kanounnikoff (2012), o
processo de migração masculina para as minas sul-africanas pode ter tido um
grande impacto na oferta de mão de obra para a atividade agrícola familiar. Isso
resulta que as machambas sejam exploradas por mulheres e crianças e estas
continuam tendo uma presença expressiva no Mercado Central.
Concluiu-se que o Mercado tem destacado papel para a cidade de Chibuto
como centro econômico, um local de encontro para finalidade da permuta ou da
compra e venda e, também, um espaço de concentração/aglomeração e comer-
cialização daqueles que produzem em machambas.
226 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
CONCLUSÕES
O período de realização efetiva do Projeto permitiu conhecer as potencia-
lidades para o desenvolvimento local. Contudo, as pesquisas exploratórias, os
diagnósticos efetuados e as rodas de conversa com estudantes, docentes, mu-
lheres da feira, moradores dos entornos dos monumentos culturais-históricos e
elaboradores do planejamento participativo também sinalizaram limitações que,
devidamente acompanhadas, pelos profissionais da Universidade Eduardo Mon-
dlane, poderão ser minimizadas e mesmo resolvidas.
No que concerne ao Projeto, ressalta-se que três artigos foram gerados pelos
coordenadores da UFG e UEM, bem como diversas comunicações em eventos,
por parte de graduandos de ambos os países. A mobilidade de graduandos e de
doutorandos permitiu o conhecimento de outras realidades, a convivência cultu-
ral e o intercâmbio de experiências relatadas em comunicações. As missões de
trabalho de professores e pesquisadores enriqueceram as trocas e intercâmbios
entre Gaza e Goiás.
PAISAGENS E DESENVOLVIMENTO LOCAL: INVENTÁRIO, ANÁLISE E ESTUDO DE CHIBUTO (MOÇAMBIQUE)
229
Maria Geralda de Almeida
REFERÊNCIAS
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Moçambique: causas, actores e instituições. Publicação Ocasional 76. CIFOR,
Bogor, Indonesia.
PROPOSTA DE USO E COBERTURA DO
SOLO PARA O MUNICÍPIO DE CHIMOIO
(MOÇAMBIQUE)
INTRODUÇÃO
O conhecimento da dinâmica do uso e cobertura do solo é cada vez mais
importante para a compreensão do espaço, possibilitando inferir tendências de
cenários futuros (BRANNSTROM et al. 2008 apud SARTORI et al. 2013). As ativida-
des produtivas antrópicas têm interferido nos sistemas ambientais, geralmente
desconsiderando as sua capacidades de suporte e resiliência. Dessa forma, elas
são fontes geradoras e potencializadoras de impactos nocivos às diversas for-
mas de vida e ao próprio bem-estar dos humanos.
A análise do uso e cobertura do solo representa uma das respostas para a
crescente preocupação causada pela massiva extração, exploração e consumo
dos recursos naturais, assim como pelas variadas formas de poluição e impactos
socioambientais resultantes das interações dos humanos com o meio ambiente,
permitindo o controle sobre as fragilidades e previsão de ameaças.
O presente texto se propôe a analisar a dinâmica do uso e cobertura do solo
no município de Chimoio, Moçambique, destacando os impactos relacionados
com a supressão da vegetação natural, e a sua correlação com o comportamento
térmico e pluviométrico local. Para tanto, foram utilizados dados multitemporais
de imagens orbitais dos sensores dos satélites LANDSAT, nos anos 2003, 2008
e 2014. Foi necessário mapear os usos e a cobertura do solo para os anos em
questão; quantificar as classes de uso e cobertura do solo predominantes; ana-
lisar a sua dinâmica e a sua relação com o comportamento da temperatura e a
*
Universidade de Brasília - UNB [gudoarmando@gmail.com]
**
Universidade Zambeze - UNIZAMBEZE [jpachecobuzi@yahoo.com.br]
***
Universidade Zambeze - UNIZAMBEZE [jpachecobuzi@yahoo.com.br]
****
Universidade Federal do Ceará - UFC [cacauceara@gmail.com]
232 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
MATERIAIS E MÉTODOS
CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO
RESULTADOS E DISCUSSÃO
DINÂMICA DE USO E OCUPAÇÃO DO SOLO
Tabela 1. Distribuição das áreas e percentagens por classe de uso e cobertura do solo,
2003, 2008 e 2014, no município Chimoio, Moçambique
Gráfico 1. Evolução de Uso e Cobertura do Solo no Município de Chimoio 2003, 2008 e 2014
Fonte: CENARTA
sistema de coordenadas UTM_Zona 36S
Datum_WGS_1984
Escala 1:100000
Fonte: CENARTA
sistema de coordenadas UTM_Zona 36S
Datum_WGS_1984
Escala 1:100000
Fonte: CENARTA
sistema de coordenadas UTM_Zona 36S
Datum_WGS_1984
Escala 1:100000
Sabendo-se que uma das funções das formações vegetais é absorver parte
da energia solar que incide sobre a superfície terrestre, áreas mais abertas, com
menor presença de vegetação, tendem a absorver mais calor, provocando o au-
mento das temperaturas. Porém a cidade não registrou oscilação significativa
das suas temperaturas médias anuais.
Localmente, houve uma redução da área ocupada pela vegetação florestal,
de 53,6% em 2003 para 38,9% em 2014. No mesmo período houve incremento
da área habitacional, que passou de 14,3% em 2003 para 34,1% em 2014, como
ilustrado pelo Gráfico 2 – os indicadores da temperatura média anual e preci-
pitação anual acumulada não registaram a mesma tendência comportamental.
novas áreas e/ou a mudança de limites das áreas estabelecidas. Podem ocorrer
ainda a adoção de outros critérios de avaliação e a incorporação de novas infor-
mações que levem à reavaliação das áreas e ao aprofundamento do trabalho.
A presente proposta, Mapa 2, busca servir como base para o início de uma
discussão no município, cuja população deve repensar o seu espaço geográfico
e a forma como o tem ocupado e utilizado. Deve repensar também a adoção de
uma politica de ordenamento territorial consistente, que respeite as particulari-
dades fisicas naturais do município.
CONCLUSÕES
Este trabalho analisou os dados espectrais obtidos pelos sistemas sensores TM
e OLI dos LANDSAT 5 e 8, para fazer a análise multitemporal do uso e ocupação do
solo no município de Chimoio em 2003, 2008 e 2014. Os resultados embasam
as seguintes conclusões.
O uso de dados de sensoriamento remoto e de técnicas de geoprocessa-
mento é ferramenta muito útil para monitorar mudanças no uso e ocupação de
solo. Os dados do LANDSAT/TM e do OLI mostraram-se eficientes para obter
mapas de uso e ocupação de solo por meio de processos de interpretação
visual, possibilitando a classificação das imagens. A metodologia utilizada foi
a classificação supervisionada pelo método de max ver (distância mínima de
verossimilhança).
Com base na classificação, obteve-se o mapeamento temático que permitiu
a identificação, a quantificação e a medição da variação dos principais usos e
ocupação do solo em 2003, 2008 e 2014. Os principais usos e ocupações do solo
foram agrupados em área habitacional, área com cobertura vegetal, agricultura,
corpo de água e solo exposto. Destas áreas, as de cobertura vegetal e habitacio-
nal foram aquelas que revelaram a maior dinâmica. Houve incremento da área
habitacional, que passou de 14,3% em 2003 para 34,1% em 2014 e redução da
área com cobertura vegetal de 53,6% em 2003 para 38,9% em 2014.
No geral houve crescimento das áreas de solo exposto e das áreas ocupadas
por habitações, o quase desaparecimento dos pequenos corpos de água que
atravessavam a cidade, e a redução das áreas ocupadas por vegetação nativa e
atividades agrícolas. O término do conflito militar (guerra civil, 1976-1992), o cres-
cimento populacional, e o desenvolvimento econômico e social são as possíveis
explicações para a variação do uso e ocupação do solo registrado no período
em questão.
A temperatura e a precipitação entre os anos 2003 e 2016 continuaram está-
veis. Isso pode ser explicado pelo fato de a cidade estar em um local elevado, a
cerca de 1000m de altitude (clima tropical modificado por altitude), pela dispo-
sição do relevo em forma de escadaria orientada no sentido leste-oeste, e pela
relativa proximidade com o Oceano Índico.
Diante dos resultados alcançados pelo estudo que analisou a dinâmica do
uso e cobertura do solo no município de Chimoio e a sua relação com temperatu-
ra e precipitação, mediante manuseamento de dados multitemporais de imagem
satélite e quantificação das classes, constatou-se que a progressiva expansão
de áreas habitacionais e de solo exposto, bem como a drástica redução de áreas
ocupadas por vegetação foram determinadas pelo uso e ocupação desordena-
dos e pela falta de panejamento.
242 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
REFERÊNCIAS
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PROPOSTA DE USO E COBERTURA DO SOLO PARA O MUNICÍPIO DE CHIMOIO (MOÇAMBIQUE)
243
Gudo Bai Armando Maidjelele; Manuel Aguiar Muraçama Namurove; Júlio Acácio António Pacheco; Edson Vicente da Silva
RESUMO
O conhecimento da dinâmica do uso e cobertura do solo é cada vez mais importante
para a compreensão do espaço, do planejamento e da gestão dos recursos naturais,
contribuindo para a preservação e sustentabilidade ambiental. O presente trabalho
foi desenvolvido na cidade de Chimoio, com uma área de 174 km2, localizada na
província de Manica, zona central de Moçambique. Focalizou a dinâmica de uso e co-
bertura do solo em Chimoio, utilizando dados multitemporais de imagem LANDSAT,
entre os anos de 2003 e 2014. A partir das imagens orbitais mapeou-se e quantificou-
-se as classes dos usos e cobertura do solo predominantes, o que permitiu detectar
as mudanças de uso e cobertura que ocorreram no período. Com base nas mesmas
imagens referentes aos anos 2003, 2008 e 2014, foi materializada a classificação
supervisionada, auxiliada de algoritmo Max Ver, o que permitiu gerar mapas de uso
e cobertura do solo. Os usos e a ocupação foram agrupados em áreas habitacionais,
áreas com cobertura vegetal, agricultura itinerante, corpos de água e solos expos-
tos. Foram analisadas ainda as variações da temperatura e precipitação no mesmo
período. A detecção das mudanças do uso e cobertura do solo foi obtida por meio
de análise pós-classificação das imagens. Os resultados obtidos demonstraram for-
tes tendências de crescimento de áreas habitacionais e de redução de área com
cobertura vegetal, ambos motivados pelo crescmento populacional e das atividades
produtivas. Ficaram caracterizados o uso e a ocupação desordenados do solo urba-
no. Contudo, o comportamento da temperatura e a precipitação continuaram seguin-
do os seus ciclos normais. Diante desses resultados, apresenta-se uma proposta de
planejamento urbano de uso e ocupação de solo baseada nas características físicas
naturais e nas potencialidades socioeconômicas, como resposta eficaz e necessária
aos impactos ambientais causados pelos usos inadequados dos solos.
PALAVRAS-CHAVE
Sensoriamento remoto; uso e cobertura do solo; temperatura; precipitação; municí-
pio de Chimoio.
ABSTRACT
The knowledge of the dynamics of the use and land covering is increasingly very im-
portant for the understanding of space, planning and natural resources management,
contributing to environmental and sustainability preservation, enabling thus, infer
trends of future scenarios. The present work entitled Proposal of the Use and land
Covering in Chimoio Municipality was developed in Chimoio town comprising a land
area of 174 km2, located in Manica province, a central area of Mozambique. This work
focused on analysis of the dynamics of the use and land covering in Chimoio Muni-
cipality using multi-temporal data of LANDSAT image, between the years 2003 and
2014, specifically, from satellite images the classes of both land use and covering of
predominant land were mapped and quantified, having enabled the detection of the
244 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
changes of the land use and covering that occurred during this period. Still based on
LANDSAT satellite images concerning the years 2003, 2008 and 2014, the supervised
classification aided by algorithm Max Ver was materialized, having been generated
maps of the use and land covering in the periods in the analysis. The uses and occu-
pation were grouped in residential areas, areas with vegetation covering, itinerant
farming, body water, and exposed soil. The detection of changes of the use and land
covering during this time was obtained through post-classification of image analysis.
The obtained results show a high trend of residential areas growth and reduction of
areas with vegetation covering fostered by the increase in the number of inhabitants
and population growth, socioeconomic activities as well as the use and disorderly
occupation of urban land. However, with regard to the obtained results, a proposal of
urban planning of the use and land occupation based mainly on physical and natural
characteristics and socioeconomic potentialities as the effective and necessary res-
ponse to environmental impacts caused by the inadequate use of land is presented.
KEY WORDS
Remote Sensing. Use and Land Cover. Temperature and Precipitation. Municipality
of Chimoio.
MINERAÇÃO, DESLOCAMENTOS COMPUL-
SÓRIOS E IDENTIDADES EM MOVIMENTO:
UM OLHAR SOBRE AS COMUNIDADES ATINGIDAS
PELA VALE E RIVERSDALE EM MOATIZE
(MOÇAMBIQUE)
INTRODUÇÃO
A exploração da natureza e de seus elementos (florestas; minerais metálicos
e não metálicos, água, solo, entre outros) vive um período inusitado desde as
últimas décadas do século XX e, precisamente, nas primeiras do século XXI. Esse
processo emanado dos países capitalistas "centrais" e comandado, atualmente,
por grandes corporações transnacionais que atuam com aval do Estado em múl-
tiplas escalas, conforme assinalam Marx (1977), Harvey (2004) e Mészáros (2011),
são responsáveis pelos arranjos em curso, um pouco por todo o mundo.
Na lista desses arranjos e, visando permitir a expansão do capital, destaca-se,
principalmente, a construção de infraestruturas de grande peso socioambiental,
tais como: barragens, ferrovias, plantas de mineração, terminais ferro-portuário
que constituem o capital fixo para a produção, resultando, frequentemente, no
deslocamento compulsório da população para áreas, até então, não "incorpora-
das" ao circuito produtivo capitalista.
*
Universidade Pedagógica - Delegação de Nampula [eduardobata1983@gmail.com]
**
Universidade Federal de Góias [celenemonteiro05@gmail.com]
246 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
mundial. Eivado pelo presságio da derrota e das inevitáveis mudanças, James Calla-
ghan adversário e antecessor de Thatcher, disse: "Existem momentos, talvez uma vez
a cada 30 anos, nos quais um mar de mudanças ocorre na política. Nesses momen-
tos, não faz diferença o que você diz ou faz".
que reside o foco desse artigo, isto é, analisar como as mudanças em curso em
Moatize afetam e/ou afetaram, sobretudo, a identidade da população atingida
por esses empreendimentos.
Portanto, com o pretexto da modernização do território, atravessam-se co-
munidades, aniquilam-se sociedades inteiras, destroem-se as condições mate-
riais de vida: solo, subsolo, minerais, água, ar, entre outras, tudo isso, visando
imprimir o "progresso". Sabe-se, no entanto, que esses projectos nada têm de
modernização, mas antes de tudo, "objetivos que não são os de desenvolver o
lugar, tampouco modernizar as pessoas (SILVA 2007, 19)".
De natureza diversa e objetivos inversos aos da população nas suas proxi-
midades, os grandes projetos de investimentos recebem distintas designações
em vários países. Em Moçambique, por exemplo, os grandes projetos de investi-
mentos são denominados megaprojetos. Tal qualificação segue a nomenclatura
utilizada em países como a Inglaterra e outros de expressão inglesa.
Castel-Branco (economista e um dos principais pesquisadores da temática
megaprojetos) toma em consideração alguns aspectos para definir os grandes
projectos de investimento. Com efeito, além da quantia inicial de investimento
(acima de US$ 500 milhões), o autor considera, igualmente, o impacto dessas
actividades na produção, no comércio e na economia do país. Por isso, os me-
gaprojetos destacam-se dentre outras actividades pelo facto de serem: inten-
sivos em capital, sem, no entanto, gerar emprego direto proporcional ao peso
no investimento, produção e comércio; concentram-se em actividades mineiras
e energéticas, com ênfase para o gás e carvão mineral; são estruturantes das
dinâmicas de acumulação e reprodução econômica (CASTEL-BRANCO 2008).
Debruçando-se sobre os megaprojetos em Moçambique, Xiong (2014) assina-
la que são projetos de grandes dimensões financiadas por investimento estran-
geiro; centram-se na apropriação dos recursos naturais; são intensivos em capi-
tal, porém, não geram emprego proporcional ao capital investido; a produção é
destinada à exportação e, por vezes, investem em infraestruturas destinadas a
fins específicos que não servem ao público em geral.
Nos conceitos que apresentamos, salta à vista os seguintes aspectos: os me-
gaprojetos são empreendimentos cujas atividades estão voltadas, preferencial-
mente, para o setor mineral e energético e são intensivos em capital. O primeiro
aspecto ilustra muito bem a posição subordinada de Moçambique, enquanto for-
necedor de commodities de origem mineral, com baixo grau de processamento
e/ou do valor agregado, bem como a tendência extrativista da economia mo-
çambicana. Portanto, há, de acordo com Castel-Branco (2010), fortes sinais de a
economia nacional se tornar uma economia de base extrativa.
O segundo aspecto e, o mais importante para a nossa discussão, reflete a pu-
jança e, principalmente, a natureza excludente e exclusivista dos megaprojetos,
já que a participação nesse setor exige elevadas somas de capital, incluindo
MINERAÇÃO, DESLOCAMENTOS COMPULSÓRIOS E IDENTIDADES EM MOVIMENTO
251
Eduardo Jaime Bata, Celene Cunha Barreira
Negar o processo e ficar fora dele é uma opção, mas quem o fizer expõe-se ao peri-
go, pois o simples fato de se negar a trabalhar para o capital pode tornar o individuo
marginal, fora da sociedade. Gradativamente somos incorporados ao processo de
modernização. E percebemos isto cotidianamente desde os mais simples gestos aos
mais sofisticados.
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Eduardo Jaime Bata, Celene Cunha Barreira
Portanto, foi no âmbito dessas reformas que, a partir dos anos 2000 assis-
tiu-se a entrada massiva de consórcios transnacionais atraídos pelas vantagens
competitivas, isto é, taxas bonificadas referentes ao imposto sobre a terra;
disponibilidade da força de trabalho; baixo grau de organização sindical; fraca
legislação trabalhista e ambiental e, sobretudo, as garantias de proteção aos
investimentos emitidos pelo Estado e especificadas na Lei nº 3/93, lei sobre o
investimento em Moçambique.
Como consequência disso, um conjunto de transformações de toda ordem
foi operado, especialmente, nas regiões "receptoras" dos megaprojetos. Como
se sabe, desde os instantes iniciais até a etapa de operação efetiva de um me-
gaprojeto, observa-se um movimento contínuo, dialético e conflituoso, no qual
interesses econômicos sobrepõem-se às questões sociais (SILVA e SILVA s/a). Na
senda disso, ocorrem modificações "do símbolo, algo, talvez, importante apenas
no local e sem sentido fora do seu contexto". (SILVA 2007, 19).
Considerando esses aspectos e, principalmente, as formas de atuação e de
controle capitalista, podemos dizer que a inserção dos megaprojetos em Mo-
çambique cumpre, objetivamente, as estratégias de acumulação de capital, via
extração de produtos primários, de baixo valor agregado, com destaque para
o carvão mineral. Esse processo, legitimado pelo discurso e necessidade de
modernização do território, autoriza ao Estado, ator e agente político a conces-
sionar os bens naturais, sem a mínima consideração com a autodeterminação
dos povos. Ou melhor, o governo e as grandes transnacionais "se aproveitam
dos aspectos mais sensíveis, a fome, por exemplo, para forçarem os povos a
adotarem estilos de vida com ligação efetiva ao controle geopolítico mundial.
[Sendo assim] os "rios de dinheiro" que são gastos em nome de combate à fome
e modernização, são manobras e novas estratégias de submissão dos povos"
(MACARINGUE 2018, 10, grifos do autor).
das funções entre diferentes frações do território, cada ponto torna-se importante. A
importância de cada fração do espaço decorre de suas próprias virtualidades naturais
ou sociais preexistentes. As especializações na utilização do território- sejam naturais,
culturais ou técnicas, significam uma redescoberta ou uma valorização total, na qual
cada parte ou lugar recebe um novo papel ou ganha um novo valor (SANTOS 1994, 29).
[...] estamos a viver com pessoas que não estávamos juntos e cada um tem seu compor-
tamento. Por exemplo, a minha galinha sair para lá é insultada e até pode matar essa
MINERAÇÃO, DESLOCAMENTOS COMPULSÓRIOS E IDENTIDADES EM MOVIMENTO
259
Eduardo Jaime Bata, Celene Cunha Barreira
galinha. Quando saímos nós de lá não era meu vizinho, só encontrei aqui e o coração
dele não conheço. (Morador, reassentando em Cateme, outubro 2016, grifos nossos).
[...] não é justo tirar as pessoas, separar só porque não trabalhamos, porque aqui na
cidade é fácil pedir ajuda. Isso é isolamento, pobre ficar de um lado e rico do outro,
eu posso pedir ajuda aos outros.
[...] não é justo! Tínhamos que estar juntos porque somos da mesma família, não tem
sido fácil conviver com os familiares que vivem em Cateme. Por falta de dinheiro de
transporte, há vezes que tem falecimento e nem todos conseguem vir ou ir para lá
(Morador reassentado no bairro 25 de setembro, outubro 2016).
gostaria de fazer crer a todos que operam da mesma maneira [em todo o mundo].
Sempre que surgem casos que contrariem essa imagem, algumas empresas transna-
cionais do setor da extração apressam-se a dizer que são meros bodes expiatórios e
de modo algum são as piores da sua área.
[...] os hábitos culturais não mudaram na totalidade, mas alguma coisa mudou. Es-
tamos num espaço municipal, um pouco distante da Vila. Há coisas que hoje não
podemos fazer mais. Havia, por exemplo, a dança malombo [dança que se faz no
advinha – curandeiro, sobretudo, quando alguém está doente] e já não se faz. Uma
e outra tenta voltar, mas tem sido desprezado pelos outros e, é considerada cultura
arcaica, enquanto lá em Chipanga não (Morador reassentado no bairro 25 de setem-
bro; outubro 2016, grifo nosso).
[...] a mente das pessoas mudou porque as pessoas pensavam que só podia viver
entre família, mas agora não. As danças que fazíamos lá, aqui não se fazem mais,
pois as pessoas não querem ninguém dançar mandjole. Quando havia falecimento
as pessoas tocavam batuque à noite para sinalizar que ali há falecimento, mas agora
não fazem. Não querem voltar atrás, estão evoluídos (Morador reassentado no bairro
25 de setembro, outubro 2015, grifo nosso).
262 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
Machamba
Frequências
MINERAÇÃO, DESLOCAMENTOS COMPULSÓRIOS E IDENTIDADES EM MOVIMENTO
263
Eduardo Jaime Bata, Celene Cunha Barreira
A Dona L. ao afirmar que "a minha casa era de palha, mas vivia bem", busca
paralelamente, a outras expressões, como: o que é uma casa sem comida (HU-
MAN RIGHTS WATCH 2013); casa de pedra não mata fome (CHIZENGA 2016); expor
os principais problemas do reassentamento e, sobretudo demonstrar que as ca-
sas (um dos poucos ganhos do reassentamento) per si não são suficientes para
restaurar os meios e as formas de vida perdidas com o reassentamento.
Aparentemente simples, a fala da Dona L. encerra não só um conjunto de
males (falta de terra propícia para a atividade agrícola, escassez de água, falta
de emprego e perda de algumas fontes de renda) decorrentes do deslocamento
compulsório, mas também abre espaço para as seguintes questões: como esta-
vam estruturados os bairros e/ou as aldeias das comunidades antes do reassen-
tamento? É possível apontar a chegada dos megaprojetos como, único e exclusi-
vo, responsável pelo processo de desestruturação social?
À semelhança da casa, para muitos moradores, o Rio (Revubué) não era so-
mente local de socialização, já que é nele que as comunidades tomavam banho,
lavavam roupa, mas também local de produção, tendo em conta que eles apro-
veitavam as margens do Rio para produzir hortícolas, mormente na estação seca.
Portanto, associado à produção de tijolos, abertura de machambas, venda de brita
e areia para a construção (principais atividades da população antes do reassenta-
mento), lá na baixa, ou seja, nas margens do Revubué, havia pequenas hortas. Eu
[...] tinha pequena horta lá na baixa. É onde eu ia plantar meu muliwa [verdura]. Pe-
quena horta, aquele desenho (Foto 1) que a gente fez aí em cima, onde está escrito
machambas, aí ao pé do rio, são baixas, a gente ia regar, tínhamos nossa couve,
tomate e tudo mais. Levava o tomate ia vender no mercado (Entrevista com Dona B.
reassentada em Mwaladzi, outubro 2016).
dito, mas também assinalar que, apesar dos avanços registrados, há aspectos
importantes sobre esses empreendimentos que reclamam uma maior atenção.
De fato, no esforço para visibilizar tais aspectos que aos olhos do Estado
e dos megaprojetos são meros apêndices, tomamos por emprestado a fala da
Dona L. que após horas de conversa recorreu à expressão nyoka haina reverse,
provérbio em língua Shona que significa a cobra não volta pra trás, para desta-
car o caráter irreversível das mudanças induzidas pelos megaprojetos em Moati-
ze. Aparentemente simples; este adágio popular permite entender as alterações
ocorridas em Moatize com o início da extração do carvão mineral, não só como
um fato consumado pra o qual não há retorno, mas também nos instiga a pen-
sar que as comunidades já se aperceberam que o discurso de universalização
dos benefícios dos megaprojetos, no qual sobressai o emprego e a melhoria da
qualidade de vida, não passa disso. Além do mais, tal discurso oculta as relações
assimétricas entre os sujeitos sociais e os megaprojetos, dando a impressão de
que todos se beneficiarão de igual forma com o projeto (BRONZ 2011).
Sem dúvidas, o início da extração do carvão mineral em Moatize transformou
o cotidiano das comunidades atingidas pelos empreendimentos da Vale e Ri-
versdale. Com efeito, além da mudança dos locais de residência, em função do
deslocamento compulsório, concomitante a isso, os símbolos e os objetos/refe-
renciais que eram parte de sua identidade e do dia-a-dia foram transformados,
separados e/ou destruídos. O Rio Revubué, um dos elementos simbólicos mais
destacados pelos moradores, tornou-se um local proibido, no sentido de que, as
comunidades, sobretudo as de Mwaladzi e Cateme não têm acesso a ele devido
às distâncias que as separa do Rio.
Sabe-se, no entanto, que esse Rio carrega consigo diversos significados,
quer como ponto de encontro e de lazer (banho) entre as famílias e amigos,
principalmente adolescentes, quer como local de trabalho (cultivo de hortícolas,
lavar roupa) e/ou de produção. Em qualquer um desses sentidos, o Rio se apre-
senta como um elo entre a população, o trabalho e a vida social dessas comuni-
dades, ou seja, ele simboliza a vida e o cotidiano dos grupos sociais atingidos,
por isso separá-los implica um rompimento com a vida e a dinâmica social dessas
comunidades.
À semelhança do Rio, a antiga casa, o local de lazer e a machamba foram
separados, destruídos e/ou encobertos pelas forças da modernização capitalista
que, buscam através dessa ação apagar esses lugares do imaginário das comuni-
dades atingidas. Porém, como diria Yi fu Tuan (s/a, s/p.), o lugar permanece como
lembrança de tempos passados, daí que "as pessoas se afastam, vão embora,
mas permanecem ligados aos lugares, ou seja, os objetos seguram o tempo."
De resto, o que se pode dizer é que o modelo de desenvolvimento capitalista
adotado em Moçambique, que elegeu a mineração como sua engrenagem prin-
cipal, foi pensado na perspectiva de colocar sobre os ombros das comunidades
MINERAÇÃO, DESLOCAMENTOS COMPULSÓRIOS E IDENTIDADES EM MOVIMENTO
267
Eduardo Jaime Bata, Celene Cunha Barreira
RESUMO
Em Moçambique, o debate sobre os grandes projetos de investimento (GPIs) vem
crescendo significativamente, sobretudo nos últimos dez anos. Dum debate, ex-
clusivamente, dos economistas, a discussão sobre os efeitos dos megaprojetos
em diferentes escalas passou a interessar, igualmente, aos sociólogos, geógrafos,
ambientalistas e especialistas em saúde pública. Sob diversos enfoques, cada uma
dessas áreas busca nas discussões sobre os megaprojetos, explorar uma dimensão
específica, isto é, a que mais interessa aos objetivos da pesquisa. Este artigo analisa
as transformações espaciais ocorridas em Moatize, com o início da extração do car-
vão mineral, buscando compreender como essas modificações afetaram a estrutura
social e a identidade da população atingida. A partir da leitura integrada e dialética
das categorias espaço e território (explorando os seus desdobramentos sobre a iden-
tidade); do trabalho de campo realizado entre 2015 e 2016, em Moatize, assim como
da pesquisa bibliográfica, podemos dizer que com o início da extração do carvão
mineral assistiu-se a uma rápida transformação espacial, afetando assim as referên-
cias sobre os lugares, bem como a identidade das comunidades atingidas pela Vale
e Riversdale. De fato, elementos simbólicos como o Rio, a antiga casa e a machamba,
foram perdidos com o reassentamento.
PALAVRAS-CHAVE
Megaprojetos. Deslocamentos compulsórios. Transformações espaciais. Identida-
des. Símbolo.
ABSTRACT
In Mozambique, the debate on major investment projects (GPIs) has been growing
significantly, especially in the last tem years. From the debate exclusively dominate
268 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
KEY WORDS
Megaprojects. Compulsory shifts. Spatial changes. Identities. Symbol.
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MINERAÇÃO, DESLOCAMENTOS COMPULSÓRIOS E IDENTIDADES EM MOVIMENTO
271
Eduardo Jaime Bata, Celene Cunha Barreira
*
JOÃO CARLOS MENDES LIMA
INTRODUÇÃO
O fundamento da reflexão proposta neste artigo enfatiza que a urbanização
em Mocuba e em Moçambique em geral decorre de um processo muito rápido,
sustentado pela acentuada migração rural. Essa rápida urbanização iniciado no
período pós-independência, mais precisamente na era da municipalização das
cidades e vilas, dificulta implementar um ordenamento territorial capaz de ga-
rantir boa qualidade de vida aos seus citadinos. Vai daí a opção para a tese de
doutorado intitulada “Conflito entre Saberes na Urbanização: as tradições das
comunidades e o planeamento do Estado na cidade de Mocuba, sob orientação
de um professor moçambicano e outro brasileiro. Dessa forma, este artigo apre-
senta parte da referida tese, concluída em 2016, onde participaram na banca dos
jurados como arguentes, professores moçambicanos e brasileiros.
Nas cidades moçambicanas, a exemplo de Mocuba, devido a rápida urbaniza-
ção, verifica-se uma ocupação espontânea e informal das áreas periféricas que
se expandem de forma acelerada em relação ao processo formal de ordenamen-
to territorial dessas urbes. O crescimento urbano rápido que a cidade experimen-
ta está a provocar mudanças no espaço urbano, assim como nas relações so-
ciais, económicas, culturais e ambientais, elevando as desigualdades no espaço.
Mais do que isso, as pessoas que chegam à cidade de Mocuba trazem consi-
go as suas formas de ver as coisas, de ocupar o espaço, de pensar e de agir. Em
suma, a sua cultura, que é diferente daquela que já existe e se instalou na cida-
de. Deste modo, como referiu Baia (2009, 9), “as imposições ou as necessidades
de diversa ordem perpassam a cidade inteira misturando características urbanas
europeias e elementos de modo de vida africano”.
O artigo é constituído por quatro pontos, sendo o primeiro sobre a reflexão
em torno do conceito de cidade média; o segundo enquadra a cidade de Mocuba
*
Universidade Licungo, Quelimane, Moçambique [jocarlima57@gmail.com]
274 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
“[...] a cidade média deve desempenhar o seu papel na distribuição dos bens e ser-
viços, criando uma hierarquia de mercados e a respetiva área de influência [...] a
cidade média deve ser capital regional, com um parque industrial considerável, cuja
atividade tenha um peso de destaque na economia [...] ela deve possuir uma elite
MOCUBA, UMA CIDADE MÉDIA: REFLEXÃO EM TORNO DOS CONFLITOS NA PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO
275
João Carlos Mendes Lima
local, bastante forte, que jogue o papel da burguesia local empreendedora, uma elite
fundiária suficiente e eficiente, com capacidade de inserir os lugares geográficos
nas redes globais e manter essa posição alcançada na hierarquia urbana” (CORRÊA
2006, 28).
De facto, a CMed não pode ser apenas caracterizada pelo tamanho da sua
população, mas é preciso considerar outras variáveis que justificam a dinâmica
deste tipo de cidade e a diferenciam das demais.
Porquanto, Sposito (2001, 329) considera que CMed “tem sido mais uti-
lizada como noção ou como classificação, do que como conceito, porque é
usada para designar cidades com população entre 200 e 500 mil habitantes”.
Para a autora, mais do que parâmetros populacionais é necessário conside-
rar, como indicador para a sua caracterização, os papéis desempenhados
pelas cidades na conjuntura da divisão de trabalho dentro da área urbana e
nas formas de expansão e aglomeração. Do mesmo modo, refletiu sobre as
mudanças na estruturação da cidade a qual propõe que seja estudada com
base na articulação entre a rede urbana e os espaços intraurbanos. Assim
sendo, a autora avalia como são combinados os processos de reestruturação
urbana e reestruturação das cidades, ou mesmo como são redefinidas as
relações entre centro e periferia, nas cidades atuais, no contexto brasileiro.
Ela enfatiza esta dinâmica para facilitar a reflexão sobre as cidades médias,
considerando as múltiplas escalas, que são determinadas pela forma de pro-
dução do espaço urbano e como são redefinidos seus papéis económicos.
Esta análise pode ser perfeitamente usada para verificar o que é específico
em Mocuba.
De facto, a autora enfatiza diversos aspetos que caracterizam uma CMed, tais
como: (i) a relevância do sítio; (ii) a posição geográfica; (iii) as relações espaciais
(consumo) e da sua inserção na divisão do trabalho; (iv) a funcionalidade econó-
mica; (v) o problema da sua distância em relação aos centros urbanos mais im-
portantes hierarquicamente; e (vi) o avanço tecnológico ocorrido na atualidade
facilitado pelas comunicações, pois isso permite dissociar os centros de tomada
de decisão com os centros produtivos.
Contudo, é pertinente revisitar outros aportes a ela ligada, porque o seu con-
ceito varia consideravelmente de país para país, assim como considerando os
critérios utilizados pelos diferentes autores. Alguns países e autores consideram
fundamental o tamanho demográfico relacionado com o tamanho da população.
No entanto, as CMed, segundo Pereira (1997) têm características próprias ineren-
tes à sua dimensão intermédia entre os pequenos e os grandes aglomerados e
às suas tradições socioculturais que lhes são próprias. Pelo que, é esta particula-
ridade e dinâmica interna que se procura captar neste artigo, tomando a cidade
de Mocuba como objeto de análise.
276 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
CMed desde 1980 quando possuía 57.308 habitantes (INE 1983). No entanto, con-
frontando com os requisitos sugeridos por Sposito (2001) e Corrêa (2006) ficam
alguns itens por cumprir, por que, apesar da cidade de Mocuba desempenhar:
i. Uma função económica e regional, por ser um porto seco, para além de ser
uma capital regional, mantém relações com os níveis: provincial, nacional,
regional e internacional;
ii. Uma centralidade na rede urbana da província, por constituir um nó de
transporte rodoviário, ao desempenhar a função de articulação entre os di-
ferentes níveis de centros urbanos, razão pela qual foi instituído o slogan:
Mocuba, onde todos os caminhos se cruzam e Moçambique se abraça;
iii. Uma elite local, uma elite fundiária suficiente e eficiente, com capacidade
de inserir o lugar geográfico nas redes globais e manter essa posição al-
cançada na hierarquia urbana, empreendedora, dinâmica é que influencia na
tomada de decisões;
iv. As funções básicas e necessárias para a existência da cidade, porque
possui infraestruturas e comodidades, bem como presta vários serviços es-
pecializados (financeiros, educação, saúde, fornecimento de água, energia
elétrica, drenagem, saneamento do meio e telecomunicações) e mobilidade
dos sujeitos (vias de acesso pavimentadas e transporte interurbano); e
v. Um centro urbano com condições para atuar como suporte às atividades
económicas de sua hinterlândia, nomeadamente os distritos de Lugela, Ile,
Namarrói, Maganja da Costa e Milanje.
Figura 1. Praça Serpa Pinto (a esquerda) e Retunda da Junta (a direita)no período colonial (1970)
Fonte: www.google.com/imgres.bp.blogspot.com
É neste lugar onde as pessoas de média e alta renda (a elite local) junta-se
para lazer, para estabelecer relações sociais e mesmo para acertar negócios ou
para discutir e encontrar consensos com vista a sua participação na tomada de
decisões da cidade.
Via de regra, as cidades organizam-se e até estruturam-se em função do seu
dinamismo e de sua capacidade de difusão em relação à área de influência ou
meio geográfico envolvente, para formar o sistema territorial. Essa área de in-
fluência está condicionada pela capacidade desse centro urbano, pelo alcance
da sua influência e pela forma como os centros urbanos desempenham esse seu
papel e funções para articular a vida da cidade nos diversos territórios e estabe-
lecer as relações das espacialidades.
Para os propósitos do artigo considera-se que a estrutura de uma cidade,
pode ser condicionada por uma série de aspetos que lhe são próprias, decor-
rentes das atividades nela desenvolvidas, da dimensão e forma em que são im-
plantadas e pelo tipo de relações que estabelece. Numa cidade, segundo Lopes
(1996, 1, op.cit. CONDESSO 2001), “gerem-se funções com características próprias:
habitação em larga escala, inter-relacionada com o comércio, serviços de água,
eletricidade e saneamento; indústria, articuladas com a cidade; a disposição das
habitações, com o perfil das vias de acesso; e as facilidades que a urbe oferece”.
Portanto, o planeamento tem que ser pensado compreendendo a estrutura
das ocupações humanas em termos da sua diversidade, da sua cultura, das suas
inter-relações e interações, da complexidade das razões que justificam cada
uma delas.
Não obstante tal facto, a planificação clássica, não considera as dinâmicas
locais que resultam da história concreta e da cultura dos povos incluindo as
estratégias locais de aproveitamento do espaço urbano. Estas estratégias são
dinâmicas e adaptam-se as pressões da globalização, mas é importante realçar
MOCUBA, UMA CIDADE MÉDIA: REFLEXÃO EM TORNO DOS CONFLITOS NA PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO
281
João Carlos Mendes Lima
“[...] é função da Administração Pública com carácter integral e que corta horizontal-
mente a todas as componentes do sistema territorial, orientar a ocupação do solo
urbano para conseguir o desenvolvimento sustentável da sociedade mediante a
previsão de sistemas territoriais harmónicos, funcionais e equilibrados capazes de
proporcionar a população uma qualidade de vida satisfatória” (OREA 2008, 55)
“Ao lado garantia de bom passadio a alguns, também atraiu a outros tristeza do mal-
-morar porque a carência de moradia se agravou ao desespero fazendo surgir o cor-
tiço promíscuo e insalubre, programa nunca imaginado por estas bandas. Apareceu
na cidade a casa incompleta” (LEMOS 1999, 14).
Por isso:
“[...] uma cidade pode escolher, em escala substancial, o conjunto de pressões sob as
quais deseja existir. Há muitos componentes da atratividade urbana e se um desses
componentes é reduzido, outros podem ser aumentados. A cidade ideal não pode
ser criada. Há muitas coisas que a sociedade e a administração pública de áreas
urbanas podem fazer. Uma coisa que não podem fazer, entretanto, é produzir a ci-
dade perfeita. Podem, contudo, exercitar ampla escolha entre modelos de cidades
imperfeitas”.(BARCELLOS et al. 2004, 137, op. cit. FORRESTER 1975)
MOCUBA, UMA CIDADE MÉDIA: REFLEXÃO EM TORNO DOS CONFLITOS NA PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO
285
João Carlos Mendes Lima
adição à economia formal, nem uma adição de corpos estranhos, mas sim uma
dinâmica interna da geograficidade na urbanicidade de Mocuba. Vai daí, esta
análise pretende introduzir uma reflexão sobre as conexões de espaços relativa-
mente marginais que não têm sido dadas muita atenção, o que se presume ser
um modesto acréscimo à Geografia Urbana. Portanto, a obra mostra a geografi-
cidade desses processos de vida na cidade de Mocuba. Deste modo, um devir de
novas territorialidades ocorre, assim, na cidade de Mocuba, olhando para o tipo
de construções de habitação e lojas, das vias de acesso no subúrbio, da culiná-
ria, da indumentária, de danças e de ensinamentos da vida inclusiva e formas de
solidariedade desses todos atores, que reinventam territorialidades identitárias
com intercâmbios político-culturais bastante ativos (LIMA 2016).
Entretanto, na cidade colonial, os bairros nobres (bairro Central, 25 de Se-
tembro, 3 de Fevereiro e parte de Marmanelo) são constituídos por moradias
condignas onde as comodidades possuem padrão elevado, caracterizadas por
residência em lote, conferindo boa iluminação e ventilação, construídas ao longo
das vias de acesso, com alicerces altos, para evitar humidade no seu interior.
Deste modo, estabeleceu-se um morar mais saudável que contraria com os bair-
ros do subúrbio.
GUISA DO FECHO
espaço, incluindo as dos “vientes”, pressupondo que a possível solução não seja
uma cidade homogênea, mas aquela com capacidade de inclusão dos atores,
podendo albergar sujeitos com valores e perceções espaciais diversas.
RESUMO
A expansão mercantil veio desarticular as relações sociais e económicas nas comu-
nidades da cidade de Mocuba que se traduziu em conflito entre os saberes locais
(saberes indígenas) e do poder colonial, assim como do sistema de economia cen-
tralizada de Moçambique independente, face a necessidade de adaptação a nova
ordem que se impunha. Por isso, um olhar dos espaços urbanos de Mocuba, remete
investigar as razões que podem influenciar o processo de produção do espaço, as
formas de ocupação de solo urbano e as desigualdades espaciais na cidade, incor-
porando os saberes locais na sua relação com o ordenamento territorial. Contudo,
para alcançar os objetivos pretendidos, a investigação refletiu sobre a espacialidade
dos processos, as dinâmicas internas, o papel e a função da cidade, em várias esca-
las. Constitui objetivo deste artigo analisar a problemática da estratégia de inclusão
de saberes locais para reduzir o conflito decorrente do processo de planeamento
urbano numa cidade média do interior do país, a partir de uma reflexão baseada na
cidade de Mocuba. Para a realização do estudo adotou-se a análise textual qualitati-
va das teorias sobre a matéria, seguido do trabalho de campo, realizado nos bairros
e em instituições para o levantamento de dados, factos e fenómenos que interagiram
e interagem no processo. Para complementar a informação foram aplicadas entrevis-
tas aos atores da produção de espaço com vista a captar as sensibilidades e aspetos
que vivenciaram ou têm conhecimento. Conclui-se que, a expansão mercantil alterou
as relações socioeconómicas das comunidades, porque a mercadorização desarti-
culou as formas e tradições quanto a posse de terra, originando conflitos entre os
saberes no processo de urbanização em Mocuba. Na cidade de Mocuba identificam-
-se desigualdades e precariedades dos vários espaços da cidade. Daí que, a adoção
de um planeamento inclusivo poderia constituir um amortecedor para reduzir esses
conflitos, porque poderia acomodar os interesses dos vários atores da produção do
espaço.
PALAVRAS-CHAVE
Saberes locais, nuances, espaço dividido, ordenamento territorial inclusivo.
ABSTRACT
The mercantile expansion came to disarticulate the social and economic relations in
the communities of Mocuba city, which resulted in a conflict between local knowled-
ge (indigenous knowledge) and colonial power, as well as the centralized economy
system of Mozambique independent, in view of the need to adapt to new order that
MOCUBA, UMA CIDADE MÉDIA: REFLEXÃO EM TORNO DOS CONFLITOS NA PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO
289
João Carlos Mendes Lima
was imposed. Therefore, a look at the urban spaces of Mocuba refers to investigating
the reasons that may influence the process of space production, forms of urban land
occupation and spatial inequalities in the city, incorporating local knowledge in its
relationship with land use planning. However, in order to achieve the desired objec-
tives, the research reflected on the spatiality of processes, internal dynamics, role
and function of the city, at various scales. This article aims to analyse the strategy of
inclusion of local knowledge to reduce the conflict resulting from the urban planning
process in a middle city in the interior of the country, based on a reflection of Mo-
cuba city. The qualitative textual analysis of the theories on the subject was adopted,
followed by the field work, carried out in the neighbourhoods and in institutions to
collect data, facts and phenomena that interacted and interact in the process. To
complement the information, interviews were applied to actors of space production
with a view to capturing the sensibilities and aspects that they experienced or are
aware of. It is concluded that, the mercantile expansion altered the socioeconomic re-
lations of the communities, because the modification disarticulated the forms and tra-
ditions regarding the possession of land, originating conflicts among the knowledge
in the process of urbanization in Mocuba. In Mocuba city was identified inequalities
and precariousness of the several spaces of the city. Hence, the adoption of inclusive
planning could be a buffer to reduce conflicts because it could accommodate the
interests of the various players in space production.
KEY WORDS
Local knowledge, nuances, divided space, inclusive spatial planning.
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292 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
*
DORA FERREIRA
**
JOSÉ MANUEL SÁNCHEZ MARTÍN
INTRODUÇÃO
A paisagem é um recurso central da atividade turística muito relacionada com
a cultura e a natureza, resultado de uma construção histórica e cultural. Na lite-
ratura encontram-se abordagens da paisagem como recurso turístico, desde a
paisagem cultural (MALDONADO, RAMOS-LÓPEZ, & AGUILERA, 2019), à paisagem
das áreas rurais Prestia & Scavone (2018), incluindo áreas agrícolas (CHEN, QIU, &
NAKAMURA, 2016; THOMPSON et al., 2016), com a particularidade de, independen-
temente da sua localização, a paisagem assumir um papel fulcral na definição da
identidade do lugar. As áreas rurais e as paisagens agrícolas são, muitas vezes,
percebidas como “genuínas" e há uma tendência que valoriza cada vez mais
a sua “autenticidade” (CARNEIRO, LIMA, & SILVA LAVRADOR, 2015), muitas vezes
marcada pela preservação de elementos naturais, como a manutenção de mo-
delos de produção extensivos e a aposta em espécies autóctones, à valorização
dos elementos culturais construídos pelo homem, como os muros de pedra, os
moinhos, as cercas dos rebanhos, e outros que marcam na paisagem o modo de
fazer e explorar de forma harmoniosa os produtos alimentares. Alguns autores
comentam sobre a importância da paisagem como fator de atração de visitantes
para as áreas rurais (DAUGSTAD, 2008; LANE, 1994; SZNAJDER, PRZEZBÓRSKA, &
SCRIMGEOUR, 2009) e sem dúvida que o crescimento do turismo criou oportuni-
dades ao mundo rural, particularmente com a valorização da multifuncionalida-
de das explorações agrícolas com foco para além da agricultura e na busca de
novas oportunidades de valorização económica dos negócios e das áreas rurais
(HALL & SHARPLEs, 2003; PORCARO, 2010; SHARPLEY & VASS, 2006).
*
Universidade de Extremadura [drodrigucc@alumnos.unex.es]
**
Universidade de Extremadura [jmsanche@unex.es]
298 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
(com 697ha), ou seja apenas 0,1% do território raiano (CORINE LAND COVER,
2018). Porém, esta cultura desempenha um papel importante na definição da
paisagem, onde ainda é possível delimitar manchas de produção em sequei-
ro, principalmente nos municípios portugueses a norte do rio Tejo, enquanto
nos municípios do Norte Alentejo a vinha tem, de forma mais pronunciada,
configurações de explorações mais modernas, com vinhas aramadas, muitas
vezes associadas a modelos de negócio de maior escala. A produção de vinho
em território raiano integra regiões de produção vitivinícola (Beira Interior e
Alentejo) e é possível encontrar a produção de vinho biológico com importante
peso num segmento de mercado, ainda que pouco explorado tem potencial de
procura crescente.
No caso do olival esta é uma cultura com forte tradição no território de estu-
do, principalmente nos municípios da raia portuguesa. Grande parte da produ-
ção encontra-se em modo tradicional e preserva a cultivar galega, em Portugal,
e a cultivar manzanilla cacereña, na raia espanhola. A adaptação desta cultivar
às condições edafo-climáticas são determinantes para a sua integração em
territórios com produtos DOP (Denominação de Origem Protegida). É possível
detetar manchas de olival disperso e com caraterísticas peculiares, sobretudo
ao longo das encostas das principais linhas de água, designadamente nos rios
Erges, Tejo e Ponsul em pleno território do Geoparque da Naturtejo, mas tam-
bém nas áreas correspondentes ao Parque Natural da Serra de São Mamede.
As suas características são distintas, especialmente por se tratar de um olival
com uma história que remonta vários séculos e onde ainda se encontram pre-
servados muros de pedra seca que formam altares perfeitos que, de forma
individual, mantêm viva a estrutura que suporta cada oliveira. Aqueles têm
como função a sustentação do terreno e das plantas, mas também dominam
na paisagem os muros que dividem as parcelas, configurando veredas e en-
cruzilhadas, que na atualidade assumem novos usos com marcas de percursos
pedestres certificados.
O olival tradicional encerra funções importantes dos serviços de ecossiste-
ma ao contribuir para os serviços de produção, mas sobretudo pela sua função
de regulação e papel fundamental de suporte à vida ecológica deste território,
sem esquecer o potencial que os olivais tradicionais desempenham, principal-
mente os olivais de encosta, para a valorização dos serviços culturais devido ao
elevado potencial de paisagem cultural pela preservação de valores estéticos e
ecológicos singulares (Fig. 2). Os olivais são, maioritariamente, explorados por
proprietários privados, encontram-se em regime de sequeiro e ainda prevalecem
os olivais pastoreados por ovinos, principalmente os mais próximos dos aglome-
rados urbanos.
A PAISAGEM AGRI-CULTURAL RAIANA: RECURSOS E PRODUTOS PARA UM TURISMO SUSTENTÁVEL
303
Dora Ferreira, José Manuel Sánchez Martín
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente trabalho tem como objetivo contribuir com um relato da paisagem
agrícola da raia e apontar alguns caminhos para este território, pouco povoado e
onde o investimento na criação de novos empregos é escasso. O turismo, que há
várias décadas se anuncia parece nunca ter chegado verdadeiramente, mas é mote
de esperança para os agentes locais que apostam na renovação de património e
na divulgação do destino com a realização de ações “avulso”, mas muitas vezes,
ignorando a essência do lugar, a particularidade da sua história e sem uma definição
de um elemento agregador que revele a sua identidade, esquecendo, por vezes, a
coerência das suas propostas e a irreverência em apoiar o pequeno agricultor, quem
muito contribui para a existência dos produtos locais que alimentam o fluxo turístico e
que fazem bandeira de eventos e feiras locais promovidas pelas entidades públicas.
Estando o modelo tradicional de turismo (turismo sazonal de massas) em
transformação, a promoção de destinos de baixa densidade que tirem partido
dos seus valores gastronómicos poderão alcançar novos segmentos de mercado,
alcançando públicos que valorizam a história e as tradições locais. O destino
raiano tem características que permitem posicionar este destino como inovador,
competitivo e sustentável, consolidando a esfera económica local, mas também
contribuir para a redução da pegada carbónica, ao valorizar modelos de produ-
ção e de turismo assentes nos princípios da qualidade, sustentabilidade ambien-
tal e justiça social, ao consolidar o seu modelo turístico assente na valorização
da paisagem agrícola.
O território raiano é caracterizado pela diversidade paisagística, porém é
possível delimitar unidades de paisagem que permitem reforçar a sua base iden-
titária assente na dieta mediterrânica e que assume características de paisagem
cultural que urge preservar. A paisagem agrícola raiana retrata um mundo vivo
de sensações que o visitante pode perceber por via dos seus sentidos e emoções
ao beneficiar da sua identidade gastronómica. Um destino que aposta nos seus
valores patrimoniais gastronómicos, ao permitir o maior envolvimento e aproxi-
mação do visitante através de experiências, desde a participação em atividades
agrícolas, transformação de alimentos, degustações guiadas ou representações
culturais, contribui também para a preservação de tradições locais.
A paisagem agrícola como recurso turístico permite ao visitante vivências de
aprendizagem com a visita a lagares de azeite, aos olivais e ao montado para
contemplação da natureza e apreciação da estética de modelos de produção
tradicionais e a possibilidade de “por a mão na massa” ao participar em expe-
riências, como as colheitas ou a transformação de produtos alimentares. Sem
esquecer neste contexto, o papel do rio, ao qual deveria ser dada maior atenção
308 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
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A PAISAGEM AGRI-CULTURAL RAIANA: RECURSOS E PRODUTOS PARA UM TURISMO SUSTENTÁVEL
309
Dora Ferreira, José Manuel Sánchez Martín
RESUMO
A atividade turística tem valorizado a paisagem como recurso, especialmente recor-
rendo à promoção de atividades de recreação e lazer, ao mesmo tempo que tem
crescido o aproveitamento dos recursos agroalimentares para a afirmação de iden-
tidades locais. Tendo em conta a alteração de modelos de produção agrícola que se
têm desenvolvido e implementado nas últimas décadas, com a aposta em modelos
mais intensivos e a introdução novas espécies, são ainda detetadas áreas agrícolas
onde a manutenção de modelos mais tradicionais se encontram preservados e com
a manutenção de espécies autóctones. Este modo de fazer agricultura corresponde
a modelos valorizados por um público urbano que tem procurado ofertas mais “au-
tênticas” e “genuínas”, ao mesmo tempo que se tem assistido a um crescimento da
tendência de procura de produtos alimentares e produtos turísticos mais sustentá-
veis. No presente trabalho pretende fazer-se uma breve apresentação dos recursos e
produtos turísticos existentes no território raiano, apontando caminhos que possam
sustentar uma oferta turística baseada na identidade agrícola.
INSTITUTO INTERNACIONAL DE INVESTIGA-
CIÓN E INNOVACIÓN DEL ENVEJECIMIEN-
TO (4IE): EXPERIENCIA DE UN PROYECTO
DE INVESTIGACIÓN INTERDISCIPLINAR
ENTRE ESPAÑA Y PORTUGAL
*
LUIS LÓPEZ-LAGO ORTIZ
**
BORJA RIVERO JIMÉNEZ
***
CÉSAR FONSECA
****
JOSÉ MANUEL GARCÍA ALONSO
*****
MANUEL JOSÉ LOPES
******
JUAN MANUEL MURILLO
*
Personal Científico Investigador. Universidad de Extremadura
**
Profesor-Adjunto. Departamento de Enfermagem. Universidade de Évora
***
Profesor Contratado Doctor. Área de Lenguajes y Sistemas Informáticos. Universidad de Extremadura
****
Professor-Coordenador. Departamento de Enfermagem. Universidade de Évora
*****
Catedrático Área de Lenguajes y Sistemas Informáticos. Universidad de Extremadura
******
Catedrático Área de Lenguajes y Sistemas Informáticos. Universidad de Extremadura [juanmamu@unex.es]
312 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
sobre la que hay que intervenir, cuando es una soledad no deseada. En se-
gundo lugar, encontramos acciones dirigidas a definir las distintas violencias
relacionadas con el envejecimiento (simbólica, institucional, de género, etc.)
y determinar el riesgo que tienen las personas de edad avanzada de ser víc-
timas de esa violencia según sus características sociodemográficas y su nivel
de funcionalidad, que permita crear un perfil de vulnerabilidad para la zona
transfronteriza. En tercer lugar, están las acciones que abordan el complejo
escenario de los itinerarios terapéuticos, para ello éstas se centran en el co-
nocimiento de los tiempos de demora en la atención médica de la población
anciana, evaluarlos y crear estrategias eficientes de asignación de recursos
que permitan mejorarlos.
• Políticas públicas para el envejecimiento: Se ha realizado una revisión
documental de las principales políticas públicas que abordan el envejeci-
miento, y éstas se contrastarán con diversos actores sociales (responsables
políticos, asociaciones y colectivos de la sociedad civil). Además, se trata-
rán de definir políticas transfronterizas para cuidadores informales y fami-
liares, delimitando las necesidades de intervención y diseñando servicios
innovadores que aminoren la carga mental y física de las personas que se
dedican a los cuidados.
• Soluciones tecnológicas para una sociedad envejecida: Tiene como objetivo
fundamental la validación y puesta en funcionamiento de soluciones tecnoló-
gicas y su traslado a la sociedad. Para ello las acciones a desarrollar girarán
sobre los siguientes tres grandes temas. En primer lugar, el Internet of Thin-
gs, donde se desarrollarán estas tecnologías para la monitorización multidi-
mensional y valoración de los ancianos, para el intercambio de información
contextual entre dispositivos para la salud y simplificando al máximo posible
las tecnologías para que puedan ser usadas por personas mayores. Además,
desde estas acciones se está trabajando en la detección y prevención de
caídas mediante un sistema vestible. En segundo lugar, el uso de Big Data y
Data Analytics, desarrollando técnicas de analítica de grandes volúmenes de
información que permitan abordar en condiciones óptimas los desafíos del
envejecimiento en las regiones de Extremadura y Alentejo. En tercer lugar, se
desarrollan acciones utilizando las técnicas de Machine Learning para pro-
ductos tecnológicos orientados a personas mayores, y para la mejora de los
recursos de las políticas públicas ligadas al envejecimiento.
con diferentes botones en el que los ancianos indican qué alimentos les harían
falta y el vendedor/repartidor les puede hacer un paquete individualizado con
los productos que demanden. Esta botonera está realizada con una Raspberry
Pi 3 modelo B conectada a internet y con diferentes botones conectados (cada
botón referente a un producto determinado: leche, huevos, carne de ternera,
pescado azul, etc.). Cada vez que el anciano pulsa un botón, se envía una notifi-
cación al dispositivo móvil del comerciante con el nuevo pedido, y así tendremos
una mayor correspondencia entre necesidades reales y los productos que se
venden, sin que esto ocasione problemas de deterioro en el almacenamiento de
las mercancías.
Pero quizás el desarrollo tecnológico en el que se han hecho más avances y
que ha tenido una mayor repercusión en la opinión pública es el “A.C.H.O. (Assi-
tant on Care and Health Off-line)”. Se trata de un dispositivo digital que, inicial-
mente, tiene funciones para el recordatorio y aviso de la toma de medicación y la
asistencia a las visitas médicas, para la mejora de la adherencia terapéutica de
las personas mayores. El formato es el de altavoz inteligente que puede funcio-
nar sin internet, hecho que lo distingue de los asistentes de voz existentes en el
mercado y superando igualmente los problemas de confidencialidad y seguridad
de los datos médicos, asunto de crucial importancia. Esto facilitará su implanta-
ción en todos aquellos hogares y territorios de la región independientemente de
si se tiene conexión a internet o de si la zona carece de cobertura 3G/4G. Esta
capacidad para funcionar offline es particularmente interesante para aquellos
territorios de Extremadura y Alentejo donde pueda haber dificultades de acceso
a internet, y en general para los hogares de las personas mayores que no viven
con familiares más jóvenes, donde habitualmente no se contratan estos servi-
cios por por falta de interés, deficiente alfabetización digital o recursos. Así, la
información sobre las tomas de medicación y las citas médicas es introducida
por el personal sanitario, o por familiares en el dispositivo móvil de las personas
mayores para que posteriormente, mediante un sistema de Bluetooth se sincro-
nice con el dispositivo A.C.H.O. y éste pueda realizar los recordatorios. Además,
puede funcionar de forma proactiva, es decir iniciando conversaciones de forma
autónoma, lo que es otro rasgo que lo diferencia de los asistentes de voz con-
vencionales.
Sin duda, en un campo emergente como es el de los asistentes de voz, donde
el interés por las funciones relacionadas con la salud y el cuidado de las perso-
nas mayores es cada vez mayor (Pradhan et al., 2018), una solución tecnológica
como A.C.H.O. nacida del estudio riguroso del entorno rural en las regiones de
Extremadura y Alentejo, tiene muchos horizontes en los que actuar para mejorar
el bienestar de las personas mayores.
320 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
6. CONCLUSIONES
Ante el panorama de envejecimiento de la población, y los problemas que
este fenómeno conlleva en regiones como Alentejo y Portugal, el Instituto
Internacional de Investigación e Innovación del Envejecimiento (4IE) se consti-
tuye en un espacio de investigación y producción científica en el que participan
las instituciones académicas más prestigiosas de ambas regiones.
Desde el 4IE se apuesta de forma contundente por una investigación apega-
da a las realidades de los territorios. De ahí el enfoque etnográfico del trabajo de
campo que analiza las relaciones sociales, económicas y culturales de los mayo-
res extremeños y alentejanos, poniendo un especial énfasis en el mundo rural, y
en aquellas poblaciones donde las problemáticas de soledad, dificultades para
el abastecimiento, envejecimiento poblacional, u obstáculos para el acceso a los
recursos sanitarios y de atención a la dependencia, son más acentuadas.
En el proceso investigador se ha revelado como particularmente interesante
para mejorar la calidad de vida de las personas de edad avanzada la llamada
e-Healtcare, es decir los cuidados sanitarios y a la dependencia apoyados en las
TIC. Desde este enfoque se promueve la autonomía de las personas mayores y
se facilitan los autocuidados. Aunque para ello no sólo se tienen que crear desar-
rollos tecnológicos, sino que hay que realizar cambios profundos en el modelo
de cuidados actual. Por ello el 4IE también tiene abierta una línea de investiga-
ción sobre políticas públicas de envejecimiento en la que poder hacer propues-
tas innovadoras en ese sentido a las administraciones públicas responsables.
Por su parte los dispositivos tecnológicos en los que se está trabajando, “Her-
ramientas para identificación de rutas”, “Botonera alimentaria” y A.C.H.O. (Assi-
tant on Care and Health Off-line)”, surgen del estudio en profundidad de las nece-
sidades de personas mayores y cuidadores en los contextos estudiados. Tienen
un carácter muy innovador y a medida que se avanza en su desarrollo, aparecen
nuevos desafíos para el perfeccionamiento de sus diseños, lo que repercutirá
en mejoras de la calidad de vida de los ancianos en Extremadura y el Alentejo.
En definitiva, el 4IE investiga y propone soluciones en una de las problemá-
ticas más acuciantes de las regiones de Extremadura y Alentejo, el alto grado
de envejecimiento poblacional. De ahí que las investigaciones y los desarrollos
tecnológicos en los que se está trabajando sean de un alto interés para los servi-
cios públicos de salud y dependencia de ambas regiones, así como para el sector
privado. Por ello el 4IE afronta el futuro con perspectivas optimistas en cuanto a
la continuidad de su labor y sostenibilidad, y plantea una mirada de largo plazo
para sus investigaciones, con la convicción de que todavía se tiene mucho que
aportar al bienestar de las personas mayores de Alentejo y Extremadura.
INSTITUTO INTERNACIONAL DE INVESTIGACIÓN E INNOVACIÓN DEL ENVEJECIMIENTO (4IE)
321
Luis López-Lago Ortiz, Borja Rivero Jiménez, César Fonseca, José Manuel García Alonso, Manuel José Lopes, Juan Manuel Murillo
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lities. In Proceedings of the 2018 CHI Conference on Human Factors in Com-
puting Systems - CHI ’18, 1-13. https://doi.org/10.1145/3173574.3174033.
322 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
RESUMEN
El envejecimiento de la población de los países occidentales es una realidad que
cada vez está cobrando una mayor dimensión. Este fenómeno lleva aparejadas una
serie de problemáticas que se acentúan especialmente en regiones como Alentejo
(Portugal) y Extremadura (España), debido a sus particularidades sociodemográficas.
Frente a este desafío, surge el Instituto Internacional de Investigación e Innovación
del Envejecimiento (4IE). A través del trabajo de un equipo multidisciplinar de in-
vestigación se viene realizando una labor orientada a mejorar la calidad de vida de
las personas mayores desde campos académicos tan diversos como la ingeniería
informática, la enfermería, la terapia ocupacional, la sociología o la antropología.
En esta labor cobra un especial protagonismo la e-Healthcare, como paradigma de
los cuidados desde las tecnologías, y fundamento para el desarrollo de soluciones
tecnológicas, derivadas de un profundo conocimiento de las necesidades a través
del trabajo de campo realizado.
QUAL É O MELHOR LUGAR PARA
ENVELHECER?
O AGEING IN PLACE COMO ESTRATÉGIA CENTRAL NA
PROMOÇÃO DO BEM-ESTAR DOS IDOSOS PORTUGUESES
*
ANTÓNIO M. FONSECA
*
Universidade Católica Portuguesa [afonseca@porto.ucp.pt]
324 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
sempre incluir cuidados residenciais previstos para quem deles necessitar. Mas
a questão não se coloca apenas na habitação. Mesmo quando esta reúne todas
as condições necessárias para se envelhecer bem, tão importante como a casa
é o que a rodeia, tanto do ponto de visto físico como social. A casa também é o
contexto onde ela se insere, não apenas o espaço físico que a delimita. A falta
de acesso a redes de suporte, a bens e serviços, ou a falta de acessibilidade a
atividades de lazer e de aprendizagem, estão entre os principais fatores que
podem afetar a viabilidade de envelhecer em casa. Ageing in place supõe a co-
nexão dos indivíduos com os seus espaços residenciais, pelo que a totalidade do
conceito só poderá ser experimentada quando ao domínio privado (residencial)
for acrescentada a possibilidade de exercício de autonomia social no meio onde
essa residência se insere.
Finalmente, há quem encare o ageing in place não apenas como uma estra-
tégia de garantia de um envelhecimento com o máximo bem-estar possível, mas
como algo mais vasto, um verdadeiro movimento de inovação social, propondo
soluções para a resolução de um problema no qual a população idosa se reco-
nhece. Spinelli e colaboradores (2019) apresentam quatro case-studies interna-
cionais que, em sua opinião, se constituem como verdadeiros laboratórios criati-
vos do envolvimento de cidadãos mais velhos no funcionamento das respetivas
comunidades: Lewisham Local, Give & Take Care Community Interest Company,
Hull and East Riding Mutual Aid Network, e Partners in Care. Em conjunto, estas
quatro iniciativas distinguem-se pelo facto de proporcionarem, a pessoas idosas
residentes na comunidade, respostas de acordo com as realidades próprias de
cada comunidade, isto à medida que o funcionamento social e a própria repre-
sentação do que é ser idoso vai sofrendo modificações. Os autores salientam
que não é possível oferecer respostas socialmente inovadoras as necessidades
dos mais velhos sem ter em conta metodologias de co-design e de co-delivery,
de modo a criar consenso em torno de novas linguagens e de novas práticas do
que significa ageing in place.
Recorde-se que o conceito de envelhecimento ativo, primeiro, e de enve-
lhecimento saudável, depois, têm implícitos uma constelação de fatores que os
determinam. Um desses fatores, com forte influência na manutenção da auto-
nomia e do controlo sobre o meio, é a relação da pessoa idosa com o ambiente
residencial, isto é, com a habitação e com o contexto físico e social envolvente.
As preocupações com a definição de ambientes adequados para os mais idosos
encararam tradicionalmente o processo de envelhecimento atendendo sobretudo
às fragilidades a ele associadas e prestando particular atenção a aspetos rela-
cionados com a mobilidade. Mas o desafio atual vai mais além, consistindo em
encontrar soluções que correspondam ao objetivo de promover a qualidade de
vida, nomeadamente, através da integração social. Vasunilashorn e colaboradores
(2012) consideram que, analisando o modo como o conceito foi evoluindo ao longo
QUAL É O MELHOR LUGAR PARA ENVELHECER?
335
António M. Fonseca
do tempo, fica claro que “aging in place is not a one-size-fits-all concept” – há dife-
renças de acordo com uma série de variáveis, como urbano ou rural, rendimento,
funcionalidade ou cultura. Certo é que se no início a habitação ocupava um lugar
importante na discussão a propósito do tema, progressivamente a tecnologia foi
ganhando uma cada vez maior preponderância. Do mesmo modo, o entusiasmo
inicial e quase ilimitado foi sendo progressivamente substituído por um entusia-
mo moderado à medida que as críticas e as limitações do conceito foram sendo
evidenciadas, chamando a atenção, nomeadamente, para os riscos de isolamento
social que, ao contrário precisamente do que preconiza, o ageing in place pode
acentuar, particularmente nos idosos mais frágeis e com menor retaguarda.
Concluindo, o nosso ponto de vista é que o ageing in place seja visto como
a primeira opção, uma “opção natural” como atrás dissemos, dadas as vanta-
gens de inclusão social e de recompensa emocional que traz associadas. Como
vimos, à pergunta "qual o lugar ideal para envelhecer? ", as pessoas mais velhas
respondem geralmente: "aquele que eu já conheço!". Envelhecer no lugar onde
se viveu a maior parte da vida e onde estão as principais referências dessa vida
constitui uma vantagem em termos de preservação da identidade, de um sentido
para a vida e da promoção de sentimentos de segurança e familiaridade. Isto é
alcançado tanto pela manutenção da independência e autonomia, como pelo
desempenho de papéis nos locais onde se vive. Assim, o ageing in place atua
de múltiplos modos, que precisam de ser tidos em conta na definição de ações e
políticas dirigidas aos cidadãos mais velhos.
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REDE DE ALDEIAS DE MONTANHA: UM TERRITÓRIO E UMA ESTRATÉGIA DE DESENVOLVIMENTO RURAL INTEGRADO
337
Célia Gonçalves
A Oficina de História da Guarda é um projeto coordenado por
Rita Costa-Gomes, Professora de História na Universidade de Towson
(Maryland, Estados Unidos da América), que tem como principal
objectivo oferecer aos seus utilizadores conteúdos para
divulgação sobre a história da Guarda e da sua região, incluindo
fontes de arquivo e patrimoniais, trabalhos inéditos devidamente
licenciados pelos seus autores, e trabalhos publicados em edição
impressa, com salvaguarda dos respectivos direitos.
Mais informação em: http://www.cei.pt/ohg/
oficina
de historia
da guarda
Entrando na Guarda pela porta d'El-Rei, parte da muralha medieval da cidade.
Foto: António Prata Coelho
“CORPO E MEMBROS UMA SÓ COUSA”:
OS MESTEIRAIS E O POVO DA GUARDA
NAS CORTES MEDIEVAIS
ANTONIETA PINTO*
ANTÓNIO PRATA COELHO**
*
Agrupamento de Escolas da Sé, Guarda [antonietap@gmail.com]
**
Agrupamento de Escolas da Sé, Guarda [pratacoelho@gmail.com]
1
A explicação sucinta deste processo é proposta por Rita Costa Gomes, A Guarda Medieval, 1200-1500,
Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora, 1987, pp. 27-29.
2
A Guarda Medieval…, p. 105.
3
Segundo leitura feitas por Rita Costa Gomes, A Guarda Medieval…, pp 161-199 e Maria Helena Cruz Coelho,
Luis Miguel Rêpas, Um Cruzamento de Fronteiras. O discurso dos concelhos da Guarda em Cortes, Iberografias
9, Porto, Campo das Letras, 2006.
342 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
4
Joel Serrão (ed.), Dicionário de História de Portugal, Porto, Livraria Figueirinhas,1985, s.v. “Cortes”.
5
Tinha representantes do clero, nobreza e, a partir de 1254 ( Cortes de Leiria), do povo.
6
Um Cruzamento de Fronteiras …, p. 20.
7
Dicionário de História de Portugal…, s.v. “Cortes”.
8
Um Cruzamento de Fronteiras …, p. 12.
9
Armindo de Sousa, História de Portugal, Lisboa, Círculo de Leitores, 1993, vol.II, p. 512.
“CORPO E MEMBROS UMA SÓ COUSA”: OS MESTEIRAIS E O POVO DA GUARDA NAS CORTES MEDIEVAIS
343
Antonieta Pinto, António Prata Coelho
eram o areópago do povo, nunca se realizaram sem a sua presença. Era a única
instituição na qual os representantes concelhios podiam “trabalhar” com o rei,
ao passo que a nobreza e o clero tinham outros meios para chegar à fala com o
monarca.
O trabalho desenvolvido nas diversas reuniões de Cortes registava-se em
Capítulos Gerais e Específicos para cada concelho. Os Capítulos Gerais espelham
os “interesses da maioria dos concelhos […] e a correspondente resposta do mo-
10
narca” enquanto que os Capítulos Específicos já apresentavam os problemas
particulares de cada concelho – questões económicas, jurídicas, fiscais e admi-
nistrativas. São estes últimos documentos que irão merecer a nossa atenção. A
Guarda, no período em estudo, apresentou pelo menos 64 capítulos especiais
em Cortes (outros podem ter existido, mas deles não se conservou registo), sen-
do o concelho da Comarca da Beira que maior participação teve em Cortes, re-
sultado da sua importância como cidade episcopal e com maiores recursos para
levar junto do rei os seus problemas.
10
Um Cruzamento de Fronteiras …, p.10.
11
Um Cruzamento de Fronteiras …, pp. 9 e 10.
12
Nas cortes da Guarda de 1465 queixava-se o povo que “pera estas cortes são lançados aos do povo tres
tres reais que monta em soma três mil reais…” Um Cruzamento de Fronteiras …, p. 131 [texto atualizado na
344 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
15
Para além dos casos atrás assinalados ( Diogo Lopes Portocarreiro, Lopo Fernandes, Duarte Gonçalves) há a
referir, como exemplo, João Afonso do Bispo e Diogo de Pinhel, nas Cortes da Guarda (1465) e de Santarém
(1468); Luís Peres que esteve nas Cortes de Lisboa (1439) e de Torres Vedras (1441).
16
Rita Costa Gomes, A Guarda Medieval…, p. 106.
17
Armindo de Sousa, História de Portugal…, p. 408.
18
Segundo Armindo de Sousa, História de Portugal…, pp.407-409.
19
Ver capítulos especiais das Cortes de Coimbra (1394); Santarém (1396); Lisboa (1439); Torres Vedras (1441);
Évora (1442); Guarda (1465); Évora-Viana (1481-82), in Um Cruzamento de Fronteiras …, pp. 101, 104, 110, 115,
117, 127 e 144.
20
Ver capítulos especiais das Cortes de Lisboa (1455); Guarda (1465); Évora-Viana (1481-82); Évora (1490) in
Um Cruzamento de Fronteiras …, pp.120, 130, 144, e 147.
346 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
capital económico, social e político, a pugnar pelos seus interesses e pelo que
consideravam ser também o interesse da comunidade. A preocupação com o
abastecimento da cidade surgia como uma razão válida para estas queixas e
agravos, mas a defesa dos interesses do grupo era igualmente uma força mobi-
lizadora da participação em Cortes.
Ocupando uma posição intermédia entre os burgueses e os que viviam do
seu trabalho como os serviçais e braçais, incluímos os mesteirais. Eram estes os
excluídos do poder, pois os mesteirais, a par dos lavradores vivendo no termo
da cidade, eram marginalizados como grupo que não tinha acesso durante este
21
período a posições do governo local.
Até ao final do século XVI a palavra “mester” designava o “ofício mecânico”,
ou seja a profissão artesanal, e “mesteiral” designava o artífice. Muitos mestei-
rais vendiam diretamente o que produziam, e transacionavam às vezes a ma-
téria-prima, tal como o produto acabado. Dentro do conceito medieval portu-
guês de “mesteiral” podemos incluir também, como propõem historiadores de
hoje, alguns agentes que se dedicavam ao pequeno comércio de retalho como
almocreves e regatões, os carniceiros, alguns trabalhadores rurais mais espe-
cializados e até pescadores. O termo aplicado inicialmente aos artífices/ofícios
mecânicos designará progressivamente os que emigravam dos campos para as
cidades para nela trabalharem em ofícios, os “novos habitantes da cidade, auto-
22
nomizados e conscientes da sua importância social.”
Na Guarda a atividade artesanal parece ter sido relativamente pouco variada
no final do século XIII, a julgar pelas fontes conhecidas, ainda que os artesãos
surjam mencionados no direito costumeiro local. Progressivamente a ativida-
de artesanal foi-se especializando na alimentação e no vestuário. As escassas
fontes referem a existência de carniceiros e padeiras, sapateiros, correeiros, te-
celões. Nos ofícios da construção encontramos menção a pedreiros, e existiam
23
ferreiros ligados às atividades agrícolas e aos transportes.
24
No Tombo da Comarca da Beira, datado de 1395 , conseguem identifi-
car-se várias profissões, seja de forma direta (ex: Abraão Mamon, sapateiro)
seja de forma indireta através da referência, por exemplo, à “casa de atafona”
ou aos “açougues”. Pode, ainda, referir-se a existência, no pequeno bairro
21
Armindo de Sousa, História de Portugal…, pp.412-414.
22
Dicionário de História de Portugal…, s.v. “Mesteirais”.
23
Rita Costa Gomes, A Guarda Medieval…, p. 108.
24
As referências ao Tombo da Comarca da Beira, aqui apresentadas, resultam da sua versão atualizada em
2017, no âmbito da 1ª Oficina de História da Guarda, e integrada no artigo “A judiaria da Guarda em 1395”,
Iberografias 14, Guarda, Centro de Estudos Ibéricos, 2018, pp.84-96, (http://www.cei.pt/ohg/a-judiaria-da-
-guarda-em-1395.html, consultado em 2019/07/17).
“CORPO E MEMBROS UMA SÓ COUSA”: OS MESTEIRAIS E O POVO DA GUARDA NAS CORTES MEDIEVAIS
347
Antonieta Pinto, António Prata Coelho
25
Segundo Armindo de Sousa, História de Portugal…, p. 286.
26
Mª José Santos Neto, A Toponímia da Cidade da Guarda e a Construção da Memória Pública no século XX,
Guarda, Agência para a Promoção da Guarda, 2013.
27
Joana Sequeira, O Pano da Terra, Porto, Universidade do Porto, 2014, pp. 268-273.
348 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
Capítulos Referência 28
especiais Direta Indireta (sector Texto de Capítulo Especial de Cortes
de Cortes de actividade)
Lisboa, 1439, Construção – “Item senhor da cerca do muro da dita ci-
cap. 3 dade é derribado grande parte. Pedem-vos
por mercê que os mandeis correger.”
Lisboa, 1455, Carniceiros – “os besteiros do conto […] que paguem
cap. 4 em nas soldadas que alguns anos dais aos
carniceiros”
Guarda, 1465, Regatães e – “Pedem à vossa alteza que lhes dês lugar
cap. 4. Taberneiros que pera bodas e bautismos e despesas de
suas casas possam meter vinhos de fora
sem embargo do dito privilégio. E os rega-
tães e taverneiros nom o metam”
Santarém, Artesanato do – ”nom demos sacas de gados por a careza
1468, cap. 1 couro das carnes e coiramas”
Évora, 1490, Estala- Venda de carnes e – “pedem privilégios pera terem esta-
cap. 1. jadeiro; pescado; venda de lagens; […] e bem assim possam vender
Regatães; vinho a retalho quaisquer carnes e pescados”; “[…] fazem
almocre- estas estalagens tem tavernas pubricas dos
ves; vinhos” “E bem assim se alguns pescados
mandam trazer do mar como regatães”
Coimbra, 1394, – “todo los moradores da dita cidade do
cap. 1. corpo dela nom pagassem portagem em
todos [os] seus reinos…”
Santarém, – “… os da dita cidade e termo não pagas-
1396, cap. 1. sem portagens e costumagens per todos os
ditos nossos reinos…”
Torres Vedras, – “… pedimos por mercê que mandeis que
1441, cap. 5. Comércio inter-re- o portageiro este em uma aldeia que cha-
gional mam Misarela a qual aldeia é termo de Li-
nhares e de Celorico e ali recadem a porta-
gem com direito e em esto nos fareis mercê
e ainda senhor a sisa da feira da dita cidade
valerá mais.”
Guarda, 1465, – “E agora novamente Gonçalo de Paiva
cap. 1. escrivão em o porto da dita vila d’Almeida
faz novo costume .silicet. levando aos que
per aí passam pera os ditos lugares dinhei-
ros das armas que levam e das bestas ca-
valares d’albarda e lhas faz escrever e leva
dinheiro d’alvarás e bestas e armas assim
como se pela Castela houvessem de pas-
sar.”
28
As transcrições de textos de capítulos de cortes seguem a edição da obra de Maria Helena Cruz Coelho e Luis
Miguel Rêpas, Um Cruzamento de Fronteiras. O discurso dos concelhos da Guarda em Cortes, Iberografias
9, Porto, Campo das Letras, 2006. Todas as citações textuais no presente texto foram levemente atualizadas
na ortografia [Ver Nota Final].
“CORPO E MEMBROS UMA SÓ COUSA”: OS MESTEIRAIS E O POVO DA GUARDA NAS CORTES MEDIEVAIS
349
Antonieta Pinto, António Prata Coelho
29
Armindo de Sousa, História de Portugal…, p. 413.
30
Joana Sequeira, O Pano da Terra…, pp.132-144.
31
O Pano da terra…, p.128.
32
Maria Helena Cruz Coelho, Joaquim Romero Magalhães, O Poder Concelhio: das origens às Cortes Constituintes.
Notas da História Social, Coimbra, Centro de Estudos e Formação Autárquica, 1986, pp. 24 e 27.
350 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
33
Na metodologia de análise da temática dos capítulos opta-se pela utilização de categorias classificativas
propostas por Mara Helena Cruz Coelho e Luis Miguel Rêpas in Um Cruzamento de Fronteiras ... e anterior-
mente por Armindo Sousa, “O discurso político dos concelhos nas cortes de 1385”, Revista da Faculdade
de Letras da Universidade do Porto, História, série II, vol. 2, 1985, pp. 9-44.
“CORPO E MEMBROS UMA SÓ COUSA”: OS MESTEIRAIS E O POVO DA GUARDA NAS CORTES MEDIEVAIS
351
Antonieta Pinto, António Prata Coelho
34
Capítulos especiais de Cortes de Évora (1460) in Um Cruzamento de Fronteiras …, p. 124.
35
Armindo de Sousa, História de Portugal…, p. 409.
36
Rita Costa Gomes, A Guarda Medieval…, p. 113.
352 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
Parecia existir uma consciência por parte da elite dirigente da cidade da sua
dependência económica e fiscal das aldeias do termo bem como da existência
de interesses comuns uma vez que a comunidade concelhia comungava de “uma
37
comum ruralidade [que] a todos irmanava.” Os recursos do termo serviam, an-
38
tes de mais, para o aprovisionamento da cidade embora, como vimos, se trans-
portasse de lugares mais longínquos outros bens de que a Guarda necessitava.
Todo o entrave, segundo a argumentação do concelho, poderia levar à escassez
e ao consequente despovoamento. Nas cortes de Santarém de 1396 manifestou-
-se a preocupação dos procuradores do concelho da Guarda pelo facto de “[…] a
maior parte dos moradores do termo da dita cidade que pera ela trazem os man-
timentos se vão da dita cidade e termo a morar a outras partes o que dizem que
a nós nom é serviço nem prol da terra […]”. Era o interesse comum que estava em
causa, daí que se entenda esta reivindicação feita pela aristocracia concelhia da
extensão do privilégio do não pagamento de portagem também aos habitantes
do termo.
Esta comunhão de interesses não obstava que pudessem surgir reivindica-
ções e protestos a defender os interesses quer do termo, quer dos habitantes
da cidade. Nas cortes de Coimbra de 1394 os procuradores solicitaram a deci-
são régia que os aldeãos pagassem o mesmo aos “andadores” que os da cida-
de pois “[…] as gentes sam tão poucas que os andadores nom podem ser bem
pagos porque muitas aldeias lhes nom querem mais pagar do que dois soldos
na moeda antiga […]”. Estes oficiais concelhios eram portadores de mensagens
39
e decisões a todo o território concelhio, e mesmo fora dele. Os alcaides e ho-
mens-bons do concelho eram “auxiliados nas suas funções pelos escrivães de
concelho, vigários e andadores […] que aplicavam as normas estabelecidas e
40
puniam ou cobravam as coimas aplicadas a quem não as respeitasse”. Ainda
nas mesmas cortes de Coimbra de 1394 temos os da cidade a protestar contra
os habitantes da vila do Touro que ”[…] nom querem aqui vir velar nem roldar
nem querem pagar em finta nem em talha o que é contra direito estarem em
nosso termo e nom usarem connosco como usam os lugares do termo desta
cidade […]”. Na conjuntura difícil das guerras joaninas, o serviço militar das lo-
calidades do termo era crucial para manter a fortificação da cidade. Nas cortes
de Torres Vedras de 1441, os procuradores do concelho de novo se queixaram
37
Um Cruzamento de Fronteiras …, p. 29.
38
A Guarda Medieval…, p.106.
39
Os “andadores” concelhios surjem repetidamente mencionados nos antigos Costumes da Guarda (século
XIII): Maria Helena Cruz Coelho, Maria do Rosário Barbosa Morujão (eds), Forais e Foros da Guarda, Guarda,
Câmara Municipal, 1999, pp. 117-135. Veja-se especialmente o preceito 237: “Andador que for em mandado
do concelho dêm-lhe que coma e que beba qual comer haveria pera si per u for” (p. 135, texto atualizado
na ortografia).
40
Forais e Foros da Guarda..., p. 6.
“CORPO E MEMBROS UMA SÓ COUSA”: OS MESTEIRAIS E O POVO DA GUARDA NAS CORTES MEDIEVAIS
353
Antonieta Pinto, António Prata Coelho
solicitação para nomear “um procurador o qual haja poder d’estar sempre por o
povo” revela afrontamento em relação à partilha do poder concelhio. Com esta
atitude, os mesteirais e lavradores do termo manifestaram a ambição, ainda que
timidamente expressa, de poder participar no governo reivindicando para si a
denúncia dos abusos, mas também que o seu representante pudesse “contradi-
zer o que contra o povo fazer quiserem sem razão”.
Os capítulos especiais de temática económica confirmam que as questões
ligadas à vida de “aldeãos” e mesteirais raramente ocorrem fora da perspecti-
va do grupo dirigente do concelho. A contínua menção à produção de vinho e
sua importância na vida económica do concelho, em conjunto com a criação de
gado, revela que estas atividades eram uma importante fonte de rendimento
económico para os proprietários.
Os capítulos especiais de cortes dão conta da importância do montado como,
a título de exemplo, se comprova pelo quadro que se segue.
Os parcos rendimentos dos terrenos pobres faziam com que o cultivo da vi-
42
nha, por exemplo “junto ao Mondego e à ribeira de Gaia” , fossem uma alterna-
tiva necessária para um grupo de proprietários do termo que se queixaram da
proibição de entrada na cidade dos vinhos por eles produzidos. Esta proibição
era uma forma de proteccionismo para aqueles que residiam na cidade, que
venderiam o seu vinho sem concorrência dos lavradores do termo. Mesmo para
estes, a medida havia de entender-se de modo restritivo. Nas Cortes de Lisboa o
concelho queixava-se do bispo e restantes membros do clero que não respeita-
vam a proibição de entrada de vinho de fora. Assim, os procuradores solicitaram
que nenhuma pessoa “nom meta vinho de fora do termo da dita cidade salvo o
que houver de suas vinhas próprias”. Nas Cortes da Guarda de 1465 o problema
voltou a colocar-se, com os do termo a solicitar a permissão para a entrada de
42
A Guarda Medieval…, pp. 131,132, 107.
“CORPO E MEMBROS UMA SÓ COUSA”: OS MESTEIRAIS E O POVO DA GUARDA NAS CORTES MEDIEVAIS
355
Antonieta Pinto, António Prata Coelho
vinhos para bodas e batizados, e despesas de suas casas. Como se vê, o conflito
latente entre a oligarquia dirigente da cidade e os habitantes do termo tinha
também uma vertente económica, com interesses divergentes a propósito de um
produto que parece ter tido peso importante na economia da região.
Após esta breve análise dos assuntos tratados em capítulos especiais de cortes,
importa agora compreender o tipo de argumentos que os procuradores do conce-
lho da Guarda esgrimiam para validar as suas petições. A que apelaram os procu-
radores? Quais as amarras onde foram buscar a justificação para os seus pedidos?
43
Capítulos especiais de Cortes de Santarém (1396) in Um Cruzamento de Fronteiras …, p. 104.
44
Capítulos especiais de Cortes de Évora/Viana (1481-82) in Um Cruzamento de Fronteiras…, p. 141.
45
Capítulos especiais de Cortes da Guarda (1465) in Um Cruzamento de Fronteiras …, p. 126.
46
Capítulos especiais de Cortes de Torres Vedras (1441) in Um Cruzamento de Fronteiras …, p. 112.
47
Capítulos especiais de Cortes de Torres Vedras (1441) in Um Cruzamento de Fronteiras …, p. 113.
48
Capítulos especiais de Cortes de Torres Vedras (1441) in Um Cruzamento de Fronteiras …, p. 113.
49
Capítulos especiais de Cortes da Guarda (1465) in Um Cruzamento de Fronteiras …, p. 127.
“CORPO E MEMBROS UMA SÓ COUSA”: OS MESTEIRAIS E O POVO DA GUARDA NAS CORTES MEDIEVAIS
357
Antonieta Pinto, António Prata Coelho
50
A título de exemplo, refira-se que nas Cortes de Coimbra de 1394, capítulo 4, a fundamentação apresentada
pelos procuradores apela aos “foros e privilégios e costumes de que sempre usaram até ora e foi uso e
costume desta cidade”.
51
Armindo de Sousa, História de Portugal…, p. 25.
52
De acordo com a categorização utilizada por Maria Helena Cruz Coelho e Luis Miguel Rêpas: “Por sua vez,
as respostas distribuem-se por seis espécies: deferimentos, delegações, evasivas, non innovandum, adia-
mentos e indeferimentos. Considerámos ainda deferimentos parciais e deferimentos condicionais, pelo que
deferimentos absolutos surgem designados apenas por deferimentos.” in Um Cruzamento de Fronteiras…,
p. 64.
53
Armindo Sousa, “O discurso político dos concelhos nas cortes de 1385”, in Revista da Faculdade de Letras…,
p. 41.
358 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
Mas o rei, sendo a figura de proa de um país e querendo cada vez mais cha-
mar a si a direção do reino, tinha que gerir conflitos, apoiar as petições do con-
celho mas não criar ruturas com os poderes estabelecidos e contra aqueles de
que tantas vezes o concelho se queixou. “No xadrez do jogo de poderes, os
monarcas tinham dificuldade em decidir de imediato, muito em particular se esti-
54
vessem em causa enfrentamentos face à nobreza e à clerezia.” Por essa razão
muitas vezes as suas respostas são dúbias, apelam ao adiamento, à conciliação
das partes, ao não afrontamento.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Concelho da Guarda, que entre 1325 e 1490 enviou numerosos capítulos
especiais às Cortes convocadas pelos monarcas, perdeu em parte a sua pre-
valência militar devido à integração das terras de Ribacoa no território nacio-
nal com o tratado de Alcañizes, em 1297; em contrapartida afirmou-se cada vez
mais, nos finais da Idade Média, como entidade administrativa e religiosa impor-
tante para o rei e para a Igreja.
A Guarda integrava um espaço urbano e uma zona rural – o termo, consti-
55
tuindo-se, no entanto, como um só corpo . Um corpo que sabe que só sobrevive
se estiver unido, o que não invalida nem resolve as tensões, os jogos de forças
entre as suas partes.
De que vive e de que precisa este corpo? Vive da vinha, da pecuária e da exis-
tência de um mercado de comércio do sal, ferro e produtos agrícolas, na Praça
de S. Vicente e na feira anual de S. João.
Quem dominava na Guarda? Quais os interesses que foram levados a
Cortes pelos procuradores do Concelho? Quem foram os procuradores da
Guarda?
A oligarquia citadina era composta por quem produzia o vinho e criava o
gado. São os seus interesses que são levados a cortes – questões comerciais,
de abastecimento da cidade, de facilitação da circulação do gado ou de defesa
do vinho. Já eram essas as atividades económicas que mais frequentemente o
antigo direito costumeiro do século XIII regulamentava e referia.
Esta elite considerava-se, no entanto, porta-voz dos interesses do concelho,
da sua identidade territorial e política e por isso se arvorava o direito de interpe-
lar o rei, de pôr em causa os abusos dos seus funcionários, de fazer valer a sua
54
Maria Helena Cruz Coelho, Luis Miguel Rêpas, Um Cruzamento de Fronteiras …, p. 28.
55
Cortes de Lisboa de 1439,“a cidade é corpo cujos membros sam as aldeias por corpo e membros como sejam
uma coisa”.
“CORPO E MEMBROS UMA SÓ COUSA”: OS MESTEIRAIS E O POVO DA GUARDA NAS CORTES MEDIEVAIS
359
Antonieta Pinto, António Prata Coelho
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eduardo
lourenço
TRIBUTO A EDUARDO LOURENÇO
CEI [2000-2020]
GRAVURA ARTÍSTICA
“Eduardo Lourenço – Heterodoxias”
*
ANTÓNIO PEDRO PITA
1
Este texto foi a base da conferência pronunciada na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, na Guarda, no
dia 6 de fevereiro de 2020, integrado no projeto “A Terra da Escrita”. O texto mantém o tom da oralidade e
a configuração ensaística.
*
Universidade de Coimbra, Faculdade de Letras, Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX –
CEIS20.
368 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
1.
Não é estranho que Eduardo Lourenço, recém-licenciado (1946) em Filosofia,
decida unificar (ou esclarecer a unidade de) um conjunto de textos com um pre-
2
fácio, que intitula “Prólogo sobre o Espírito da Heterodoxia” .
A substância desse prefácio tenta esclarecer antecipadamente a obscurida-
de, o mistério, o enigma do título «Heterodoxia». O esclarecimento do espíri-
to da heterodoxia desdobra-se, aliás, em perguntas que não são propriamente
sinónimas: o que é a heterodoxia? como é a heterodoxia? quais as condições da
heterodoxia? Questões a que esse prefácio propunha responder.
Já é menos vulgar que, dezassete anos depois, em 1967, ao publicar «Hetero-
doxia II», Eduardo Lourenço sinta necessidade de um “Segundo prólogo sobre o
espírito de heterodoxia” (197-215). Quer dizer: alguma coisa não ficou esclareci-
da ou foi apresentada em termos que é preciso corrigir. Ou talvez “heterodoxia”
seja menos um conceito que o nome para uma atitude que pode sempre encon-
trar novas configurações e é, portanto, em rigor indefinível.
Que há um problema com a noção de “heterodoxia” mostra-o facto de, quan-
do pretendeu editar o segundo volume, em 1961, Eduardo Lourenço ter escrito
um “Segundo prólogo” (217-227), diferente, no entanto, do “Segundo prólogo”
de 1967. E, em 1955, ter escrito mas não publicado um breve texto intitulado
“Heterodoxia e liberdade” (185-187).
Poderá ser esclarecedor, então, revisitar as configurações de “heterodoxia”
para nelas identificar não só, nem principalmente, o que se vai sedimentando mas
sobretudo o que pode funcionar como operador de pensamento, o que faz pensar.
O “Prólogo” de 1949 é um texto afirmativo, razoavelmente esquemático, com
uma grande vontade de demarcar com nitidez a heterodoxia das suas vizinhan-
ças mais ou menos afins ou opostas: a ortodoxia e o niilismo. E o propósito de
identificar heterodoxia e liberdade. Em 1949, sublinho: o jovem filósofo de forma-
ção de base católica completara há três anos o curso de Filosofia e, sobretudo,
convivera intensamente com colegas e amigos de formação marxista (Carlos de
Oliveira e João José Cochofel foram seus colegas de curso, como Mário Braga e
Raúl Gomes, igualmente companheiros de aventuras culturais).
É preciso determo-nos nesse processo. No “Prólogo” de 1967, Eduardo Lou-
renço observa: “Desertar uma realidade com o Catolicismo quando se nasceu
aldeão e português é um pouco mais ou outra coisa que a clássica “crise” da
2
Eduardo Lourenço, «Obras Completas. I: Heterodoxias». Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2011, p.
31-49. Todas as citações de Eduardo Lourenço serão feitos desta edição, no corpo do texto.
"HETERODOXIA": HISTORICIDADE E TRAGÉDIA
369
António Pedro Pita
Fé. É uma deserção sem Fim e sem esperança de porto pois nada há que possa
compensá-la” (211; cf. 199).
Só se escreve isto com a espécie de noite alma. Deserção de quê? Da pos-
sibilidade (que era uma convicção) de que se possuía uma chave para a leitura
da aventura humana (cf. 380) e que essa chave era da ordem da transcendência,
embora com todas as implicações políticas no Portugal dos anos 40: o Catolicis-
mo era um aparelho ideológico fundamental do salazarismo. Ao recusar o sala-
zarismo, pelo modo como a sua reflexão pessoal amadureceu no meio cultural e
político antifascista por onde (também) circulava, o jovem Lourenço alarga a sua
3
reflexão aos fundamentos ideológicos da persistência do salazarismo.
Poderemos dizer: Eduardo Lourenço retira-se de uma ortodoxia. Parece-me
claro que a Filosofia, neste processo, cada vez se converte em problema. A Filo-
sofia poderia oferecer ao jovem estudante uma chave imanente e racional que
substituísse a chave da transcendência da Fé. E o aprofundamento da Filosofia
de Hegel poderia desenhar essa solução. Mas, como sublinha no Prólogo de
1961, “a fórmula de Hegel: a essência do espírito é a liberdade guarda todo o seu
sortilégio, mas, de certo modo, convém radicalizá-la no sentido oposto, isto é, no
sentido de Kierkegaard, para que confusão, tão cara a Hegel, de “liberdade” e
“necessidade” não nos encerre numa solução perfeita mas puramente verbal. É
a única maneira de não resumir (…) a exigência suprema do coração e da inteli-
gência (…) à afirmação de uma vivência ontológica, a de um intervalo irredutível
entre nós e a Verdade que nos falta” (224).
Quer dizer: Eduardo Lourenço não se retira da ortodoxia (católica, digamos
assim) para entrar no sistema hegeliano, que poderia funcionar como substituto
racional daquela ortodoxia. A deserção é sem Fim porque Eduardo Lourenço se
retirou ao mesmo tempo da transcendência católica que era a sua primitiva ma-
triz cultural, da racionalidade hegeliana onde fora iniciado universitariamente e
da racionalidade marxista dos seus colegas e amigos.
Porquê? Pelas razões expõe no Prólogo de 1949 e que, quanto a este ponto,
retomará nos textos posteriores, mesmo com formulações diferentes: o eixo cen-
tral da atitude teórica que Eduardo Lourenço quer afirmar é a distanciação ou o
estranhamento daquilo a que poderíamos chamar “mediação total” (expressão
de Hans-Georg Gadamer e de Paul Ricoeur) – isto é, a convicção de que seja
possível elaborar um espaço filosófico em que as dimensões da temporalidade
coerentemente se organizem num discurso capaz de relacionar, num plano da
imanência, o já acontecido do passado, o acontecimento do presente e o futuro
como por-vir sempre já pre-figurado na dinâmica passado-presente. A “media-
ção total” é o exercício em que a Razão, autolegitimada como chave da História,
por si mesma, confere inteligibilidade a todo o devir histórico.
3
O que terá consequências na sua obra posterior.
370 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
Ora, a deserção experienciada por Eduardo Lourenço é sem Fim e sem espe-
rança de porto.
A heterodoxia não é o porto possível, um porto provisório: “a heterodoxia não
é fácil” (Prólogo de 1949: 31). Porque não é simplesmente o oposto da ortodoxia.
2.
O primeiro volume de «Heterodoxia» é uma edição sóbria, cuja imagem visual
está limitada às informações mínimas: nome do autor, título, editora, data. Obser-
vemos melhor: há um arabesco que funciona como ilustração.
3.
Mas as consequências – ou as condições – são mais fundas. Num texto de
1987, Eduardo Lourenço lembra que «Heterodoxia I» “foi publicado quatro meses
após a morte de meu Pai. Minha mãe morrera um ano antes. Sem a sua morte
nem estas páginas nem nenhumas outras (…) teriam existido. Este livro existe,
nasceu sobre a sua morte, não de meros seres humanos, mas de gente que sen-
tia, vivia, pensava, no interior de uma visão da vida que deixara de ser a minha
e lhes seria incompreensível como inconcebível lhes pareceria, e a justo título,
que alguém encontre justificação para o ato, entre todos extravagante, de se
exibir escrevendo” (383). E prossegue: “sem que então tivesse plena consciência
disso, o que não sem vergonha chamaria a minha escrita aparece à nascença
marcado por um intenso sentimento de culpabilidade e remorso” (383).
Ora, sendo o ensaio a forma discursiva adequada a “uma existência que
renunciou às certezas mas não à exigência de claridade que nelas em perma-
nência se configura” (e esta é a existência heterodoxia) é preciso concluir que
“não há ensaísmo feliz” (380): o ensaísmo é uma “escrita do desastre pessoal ou
transpessoal. Para ser mais justo, é uma estratégia natural para tempos calami-
tosos, como os de Montaigne” (380).
Talvez pudéssemos acrescentar: como os de Eduardo Lourenço.
A ARTE DO PENSAMENTO
DE EDUARDO LOURENÇO: A SAUDADE
E A TRANSFORMAÇÃO DO MUNDO
*
ROBERTO VECCHI
*
Università di Bologna/Cátedra Eduardo Lourenço.
"Este artigo resulta do trabalho desenvolvido pelo projeto MEMOIRS – Filhos de Império e Pós-memórias
Europeias, financiado pelo Conselho Europeu para a Investigação (ERC) no quadro do Horizonte 2020,
programa para a investigação e inovação da União Europeia (contrato nº 648624)"
374 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
Sobre este volume de ensaios dorsal circulam inclusive lendas, como a sua
proximidade imagética com o livro do Nobel mexicano Octávio Paz, El laberinto de
la soledad, que teria proporcionado ao crítico português uma imagem sintética e
fundadora do seu conjunto de ensaios, já na fase de revisão das provas do volu-
me, sobre o mosaico de Portugal. Pormenor anedótico, mas que mostra um outro
aspeto conotador do pensamento de Lourenço, a sua solidariedade entre imagem
e palavra.
No breve percurso que aqui se propõe, ilustra-se um aspeto da arte do pen-
samento de Eduardo Lourenço. Em particular, como dentro de dois cenários críti-
cos de dimensões ilimitadas, uma sabedoria atenta e pensativa permite ao crítico
contornar problemas hermenêuticos de vastas dimensões, destilar uma reflexão
atenta, pontual, penetrante sobre tópicos que uma abordagem tratadística ou por
assim dizer “só académica” talvez não conseguisse contornar de modo mais bri-
lhante e eficaz.
Escrevo estas considerações enquanto estou a desenvolver um estudo sobre a
nostalgia colonial referida a África na cultura e na imaginação portuguesa contem-
porânea. A bibliografia sobre o tópico da “colonial nostalgia” (como é definida em
inglês) conta com uma bibliografia ilimitada. Aliás, a nostalgia tem-se vindo a tornar
uma mercadoria relevante no contexto de troca e consumo contemporâneos, de
acordo com críticos quais Fredric Jameson e Arjun Appadurai, como um traço do
capitalismo tardio (1991, 1996).
Eduardo Lourenço captara precocemente una caraterística referida ao colonia-
lismo de Portugal em África: o seu caráter “inocente” (LOURENÇO 2014, 123). O uso
de um passado sem culpa é certamente um traço de articulação de reconstruções
condicionadas pela nostalgia colonial (cfr. ROSALDO 1989, 107). Mas não é só esta
sensibilidade que qualifica a precocidade e acuidade de perceção do crítico. Há um
largo trabalho de configuração do modo em que Portugal entraria neste quadro de
revisões do passado. Refiro-me aqui à articulada e sútil reflexão sobre a saudade no
quadrante da cultura portuguesa, resgatada sempre com um fôlego que vai além dos
perímetros nacionais e projetando as questões num plano pelo menos continental.
As reflexões integrar-se-ão num volume publicado em francês em 1997, Mytho-
logie de la saudade. Essais sur la mélancolie portugaise com tradução de Annie
de Faria, companheira de uma vida do Professor (BENTO 2008, 31). A seleção dos
ensaios que tinham constituído o volume francês é reveladora por alguns moti-
vos. Antes de tudo porque é um movimento que de fora de Portugal (um leitor
estrangeiro que reflete sobre assuntos tão próprios do ethos português) vai para o
âmago do País, acrescentando portanto uma oxigenação europeia que se percebe
na própria construção dos ensaios. Em segundo lugar, porque a integração destes
ensaios num volume maior, na verdade um livro no livro, Portugal como destino
seguido de Mitologia da Saudade (de 1999) acrescenta alguns elementos de
conhecimento suplementares.
376 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
pôr em diálogo as duas tradições com a tradição, ao mesmo tempo própria e im-
própria, da saudade.
Com uma imagem sintética poder-se-ia dizer que a complexidade de con-
tornar a saudade é a complexidade de contornar Portugal. A saudade tem se
tornado uma "palavra-País" o que explica a pluralidade de camadas geológi-
cas, discursivas e críticas, que se formaram. Eduardo Lourenço secunda, numa
perspetiva mais racionalista, no quadro muito movediço come aquele do debate
novecentista sobre a saudade, as teses analíticas, em particular na abordagem
fenomenológica do seu mestre dos anos de Coimbra, Joaquim de Carvalho, a
que acrescenta as próprias teses histórico-críticas, na exegese justamente de
uma “mitologia da saudade”.
O seu importante movimento interpretativo, como vimos, define a morfologia
de um “tempo português". O seu emaranhado de tempos imbricados é o diagrama
de uma temporalidade própria, de tempo vivido, mas que encontra, na forma de
vida, a sua força universalizante. Sempre instável, o tempo da saudade assume
um aspeto de circularidade. A qualidade da mediação com o passado é de certo
modo um traço identificador da saudade, mesmo num quadro que continua em
movimento.
Lourenço avança na elaboração das ideias sobre a saudade na moldura natu-
ral do ensaio, que irá desaguar no livro-não livro, Portugal como destino seguido
de Mitologia da saudade, não por acaso, como se disse, corolário atualizador do
Labirinto da saudade.
Em ensaios escritos em circunstâncias diferentes, Lourenço carateriza-se por
assumir, num desafio titânico, a complexidade da constelação dos sentimentos/
conceitos de elaboração das perdas de maneira dialógica, evidenciando contras-
tes mas também as tangências. Percebe-se bem a proximidade da análise de Joa-
quim de Carvalho quando, na própria delimitação do “tempo português” Lourenço
reconhece à saudade, à nostalgia e à melancolia uma proximidade entre si, o que
faz com que a própria saudade, revindicada como singularidade ontologizadora
portuguesa, na verdade não passe de “sentimentos ou vivências universais” (LOU-
RENÇO 1999, 91).
O elemento de diferenciação decorre da qualidade do tempo e do exercício
divergente da memória que remete para um passado que também pode ser
uma tautologia do mesmo. Traduções diversas de imagens do tempo passado,
portanto. O que constrói uma posição própria, na definição de um “tempo por-
tuguês”, seria que as representações do passado ocorreriam a partir da iden-
tidade mítica, de um lugar onde os Portugueses se veem contraditoriamente
maiores e mais pequenos do que efetivamente são. Ainda mais, são os “regres-
sos específicos” que as três categorias implicam que seria matriz de diferença.
Poucos abordaram com tanta lucidez comparativa os conceitos que constituem
a constelação:
380 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
Povo “não trágico” mas “sonhador” o culto da saudade cria um acesso possí-
vel ao passado, por definição inapreensível: “não recuperamos apenas o passado
como paraíso: inventamo-lo” (Ivi: 93). A literatura torna disponível o arquivo onde
reconstruir as subtilezas que permitem apreciar afinidades e descontinuidades pe-
rante as constelações de “afeções” ligadas ao passado. É o que ocorre no ensaio
“Melancolia e saudade” onde antes de tudo se evidencia a afinidade estreita entre
melancolia (que decorre de uma antiga história, por assim dizer, clássica) e nostal-
gia, portadora de uma visão moderna (Ivi: 98). Também o papel decisivo da cons-
trução de uma vertente situada decorre do papel reflexivo de um “rei melancólico”
como Dom Duarte que no Leal Conselheiro elabora, a partir da tradição da acédia,
a doença sagrada dos antigos, uma meditação fundadora no plano crítico sobre a
afeção da própria alma. Lourenço precisa os contornos a saudade (“Da saudade
como melancolia feliz”). Aqui também emerge com perspicuidade a linha distintiva
entre saudade e nostalgia, a partir de uma explicação aparentemente paradoxal: a
hipertrofia do sentimento da saudade foi o que impediu aos portugueses defini-la,
o que a torna uma “estranha melancolia sem tragédia” (Ivi: 113). A saudade é uma
forma de memória também ou, para ser mais exatos, ao definir uma tipologia me-
morial própria, é “uma outra maneira de ser presente no passado” (Ivi: 114).
A consciência saudosa para Lourenço é “palco de um jogo” (Ivi: 115) onde, ao
lado da memória, atua uma outra faculdade com dignidade análoga, a fantasia. Se
a nostalgia, no sentido com que a define Jankélévitch pelo mito do retorno para Íta-
ca, surge de uma impossibilidade de regresso a um passado que é temporalmente
outro mesmo na identidade de lugar, portanto produtor inexaurível de impossibili-
dades ainda que ilusórias, a saudade alimenta daqui a sua condição de melancolia
feliz, a possibilidade fantasiosa de um regresso possível: é ela “que subtrai a nos-
talgia ao sentimento da pura perda ou ausência, confiando-lhe a missão de trans-
mudar a perda em vitória de sonho” (Ivi: 116). Afirma-se também o traço contagioso
da saudade que afeta outras experiências de impossibilidades e perdas, como no
A ARTE DO PENSAMENTO DE EDUARDO LOURENÇO: A SAUDADE E A TRANSFORMAÇÃO DO MUNDO
381
Roberto Vecchi
caso da nostalgia: a desfiguração do lugar pelo tempo cria assim uma “nostalgia
saudosa”, consciência de uma temporalidade “carnal” associada, no entanto a um
sentimento vago da sua irrealidade (Ibidem). E aforisticamente Lourenço encerra a
análise observando, com elegância refinada, que “quando nada resta de nada, fica
ainda o tudo desse nada” (Ivi: 117).
Através deste percurso, Eduardo Lourenço consegue não só inscrever o senti-
mento da saudade num espaço maior, da elaboração humana das perdas do pas-
sado. Descoloniza o espesso depósito de ideologias e leituras que se depositaram
sobre a saudade, mostra o valor funcional desta dentro do espaço cultural e social
de Portugal, como uma poderosa ferramenta interpretativa sobre os re-usos do
passado.
A leveza e a beleza da escrita com que realiza, de modo simples e direto, o
imenso trabalho de reconfiguração crítica de enormes tradições – aquelas que
constituíram as bases do pensamento ocidental, como melancolia e nostalgia, com
o recorte da saudade a formar um conjunto explicativo, eficaz e forte- é o que
permite invocar a existência de uma verdadeira arte de pensar. Eduardo Louren-
ço – neste caso particular que poder-se-ia multiplicar por inúmeros outros tal é a
vastidão dos mundos que ele contornou, pensou e nos ofereceu – mostra como o
ato de pensar é também um ato de beleza. Que, impercetível e inexoravelmente,
incide e transforma o mundo.
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Studies in the History of Natural Philosophy, Religion, and Art. Montreal: Mc-
Gill-Queen’s University Press
382 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
*
JERÓNIMO PIZARRO
*
Universidade dos Andes (Bogotá). Cátedra de Estudos Portugueses do Instituto Camões na Colômbia
[jeronimopizarro@gmail.com]
384 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
seu Mestre), Lourenço deveio outro depois de ler Pessoa (daí que tome a sério a
sua natureza genial) e eu devim outro depois de ler Caeiro, Pessoa e Lourenço. O
que me surpreende em retrospectiva, é que Lourenço, por um lado reconhece que
deve «uma mais alta existência, ou existência outra», a Pessoa, e por outro, renega
a supremacia do crítico que se situa num ponto em que domina a obra em apreço.
Lourenço não quer ser lido como autoridade na matéria, não quer uma ensaística
isenta de paixão mas não de pendor pedagógico, e defende que, no caso da poe-
sia — e da poesia pessoana — há razões para um «salutar reflexo de humildade»
que «a nossa mais modesta razão de críticos desconhece». Daí uma frase famosa:
«Não temos nem queremos outro guia que o próprio Pessoa». Daí uma certa em-
birração com um crítico que declarou ser o mais lúcido comentador de Pessoa. Daí
esta conclusão: «Mas sempre Pessoa e o que se costuma considerar como as suas
"antinomias" ou "contradições ou paradoxos, ou mesmo aberrações, nos parece-
ram mais luminosos que as considerações em torno deles».
Pensar o lugar de Lourenço, o sentido do verbo exacto do crítico («nada há de
real na vida que o não seja pelo simples facto que foi bem escrito») no âmbito dos
estudos pessoanos, passa por considerar a singularidade de Lourenço, que, depois
de ler a monstruosa Pessoana toda, essa hidra bibliográfica de inúmeras cabeças,
precisou de escrever umas «Considerações pouco ou nada intempestivas», de fô-
lego nietzscheano (talvez como eu precisei de escrever um texto intitulado «Pessoa
existe?»...), para encontrar palavras com as quais alargar a fortuna crítica de Pessoa
e contribuir para uma «crítica-outra», que soubesse honrar a «literatura-outra» pes-
soana. Cito o ensaio que abre Fernando, Rei da Nossa Baviera: «Esta perspectiva
desloca e organiza — ou tenta organizar— as outras perspectivas em nome de
um "partis-pris" de adesão à "demarché" do próprio Poeta, o qual, segundo ela,
precisa menos de ser esclarecido por uma luz crítica heterogénea à fonte da sua
inspiração do que esposar, aderir de imediato à intrínseca luminosidade da poesia-
-conhecimento que Pessoa nos revela». Esta perspectiva é também uma visão, um
entendimento, para voltar a um termo ao qual já fiz referência: «É a visão de uma
Linguagem que não consegue falar o Ser e de um Ser que não pode ser plasmado
na Linguagem»; é a proposta de uma crítica «que se assume e se pensa, por mi-
metismo, metacrítica, jogo de espelhos (...) jogo no limite do silêncio». Quem quer
discutir se a crítica de Lourenço é demasiado clara ou porventura algo hermética,
por causa da sua linguagem, devia regressar aos textos em que Lourenço entra
nessa discussão, com a poesia de Pessoa em mente, para concluir: «De uma ma-
neira geral, toda a poesia é a mais alta "claridade" de uma época e no seu espelho
é o resto que é obscuro».
Aliás, Pessoa tem um texto fundamental para pensar a antinomia claridade
/ obscuridade. Diz em «“A Literatura da Decadencia” — Notas ao livro de M[ax]
N[ordau]»: «É caso de distinguir, como apontasse e fizesse Edgar Poë, a expres-
são da obscuridade da obscuridade de expressão. O obscuro em si lucidamente
O LUGAR DO ANJO: LOURENÇO NO JARDIM DE PESSOA
385
Jerónimo Pizarro
expresso permanece o obscuro em si; o obscuro não claro, mas claramente obs-
curo. A arte que dá ao obscuro uma expressão lúcida não o torna claro — porque
o que é obscuro de essência só por erro de interpretação podia deixar de o ser —
mas torná-lhe clara a obscuridade. Assim Antero de Quental dá, nos seus sonetos,
a mais consumada expressão poética aos assuntos mais abstractos e obscuros.
Torná-lhes luminosa a obscuridade; vemos mais lucidamente do que nunca quanto
essa obscuridade é obscuridade, quanto essa obscuridade é obscura. O mais alto
poeta na mais alta expressão que dê ao mistério do universo, não no-lo torna claro;
o que nos torna claro — na proporção em que a sua arte é sublime — é o quanto
esse mistério é mistério. Exigir mais do poeta, e não saber o que ao poeta se deve
exigir.» Estas palavras tanto podem invocar-se para pensar em Pessoa, que tornou
mais claras tantas obscuridades, como em Lourenço, que, sem ser obscuro na ex-
pressão, soube lucidamente expressar as suas ideias e criar uma crítica que nunca
minimizou o mistério da poesia.
«Como um mineiro da pura Noite», disse Lourenço, Pessoa extraiu «os poemas,
as frases, com que fabricou aquelas constelações que continuam a desfraldar por
ele o esplendor nenhum da vida». Há certo mimetismo, de facto, Lourenço utiliza
palavras que evocam versos do autor da «Ode Marítima» (cf. «Desfraldando ao con-
junto fictício dos céus estrelados / O esplendor do sentido nenhum da vida...») e
recorre a contínuas negações. Mas aquilo que me parece mais notável é o facto de
o ensaísta querer preservar o mistério do mistério. «Pleonástica evocação» termina
assim: «Isso o devemos todos a Pessoa: deixá-lo ao seu enigma para resistir à ten-
tação de imaginar que decifrámos o nosso».
A melhor crítica não é aquela que pretende, para citar um título de João Gaspar
Simões, chegar a O mistério da poesia através da «interpretação da génese poé-
tica», leitura psicologista preocupada pelo que o autor terá sentido (daí a respos-
ta de Pessoa: «Sentir? Sinta quem lê!»); também não é uma crítica de exigências
ideológicas, que entende a literatura como um reflexo do real, da identidade ou
da existência, conceitos que o próprio Pessoa questionou; mas uma crítica infor-
mada e modesta como a de Lourenço, que sem querer ser um mandarim (desses
referidos no «Ultimatum» de Álvaro de Campos), e sem nunca esquecer a «joy for
ever» de Keats, e ainda, «compreendendo a essencial inexplicabilidade da alma
humana» (Pessoa dixit), cerca de «uma leve aura poética de desentendimento» as
tentativas todas de análise da obra pessoana. Quanto celebro que Lourenço não
tenha tentado análises encaminhadas a provar as supostas automitificações, os
alegados absurdos da criação poética, e que não tenha considerado relevante que
o nihilismo grandioso de Pessoa respondesse «diante do tribunal da Sinceridade,
da Ordem Moral, da Ordem Ideológica». Antes da silly season actual, em que obri-
gamos às obras e às produções a responder diante de tais tribunais, Lourenço afir-
mava que aquilo que a poesia é, anulava tais instâncias, tornava-as inadequadas.
«Devemos resistir», disse, «à tentação de nos desembaraçar da singularidade do
386 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
mundo de Pessoa oferecendo-lhe como espelho a luz trivial e cega de uma visão
de boa companhia, onde justamente não há lugar nem para a sua compreensão
nem para a compreensão de coisa alguma».
Quando fui convidado para escrever um texto sobre a importância de Eduardo
Lourenço para os estudos pessoanos, soube logo que voltaria a abrir alguns dos
meus livros e a procurar o antigo leitor desses volumes. Um dos exercícios que a
contingência sanitária multiplicou foi aquele de voltar a abrir livros lidos (em Me-
dellín os alfarrabistas insistem muito neste ponto: nós não temos, dizem, livros
velhos nem usados; temos livros «lidos»). Reler Lourenço permitiu-me verificar a
sua actualidade, quer para ler Pessoa, quer para ler outros poetas (como Camões
e Antero, que fazem parte de Poesia e Metafísica). Precisamente neste último livro,
que é de 1983, encontramos um artigo, de 1960, que foi proibido pela censura.
Nele Lourenço elogia com veemência Um Fernando Pessoa (1959), de Agostinho
da Silva: «A nenhum leitor escapará este acordo íntimo entre a intuição metafórica
iluminante e a sua perfeita tradução estilística (...) não conhecemos outras pági-
nas mais dignas de emparelhar com o verbo genial do qual pretendem servir de
paráfrase superior (...) O máximo elogio que se lhe pode fazer será o de imaginar
que Fernando Pessoa, ele mesmo e o seu cortejo de fantasmas imortais, o teriam
amado». Para Lourenço, apenas Agostinho teria dado um equivalente, no seu li-
vro, «dessa formação espiritual prodigiosa que leva o nome de Fernando Pessoa».
Lourenço, na esteira de Agostinho, também o fez, e parece-me que em Agostinho
encontrou uma confirmação do tipo de crítica que mais lhe interessava. Sem dúvi-
da, Pessoa teria ficado secretamente comovido pelo ensaísta de São Pedro de Rio
Seco. Na crítica pessoana, Lourenço ocupa o lugar do Anjo.
A MARCHA OBSCURA DA HISTÓRIA:
“A FRANÇA EM QUESTÃO OU O FIM DA
LIBERDADE COMO BOA CONSCIÊNCIA”
*
MARGARIDA CALAFATE RIBEIRO
*
Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra.
1
Este artigo resulta do trabalho desenvolvido pelo projeto MEMOIRS – Filhos de Império e Pós-memórias
Europeias, financiado pelo Conselho Europeu para a Investigação (ERC) no quadro do Horizonte 2020,
programa para a investigação e inovação da União Europeia (contrato nº 648624).
Todas as citações do texto «A França em questão ou o fim da liberdade como boa consciência» são do Jornal
da Baía, página 1 e 2 , acervo de Eduardo Lourenço. Biblioteca Nacional, sob a direção de João Nuno Alçada.
Carta do rappeur francês Kery James, “Lettre à la republique” (2012). Disponível em:
https://www.google.com/search?q=lettre+%C3%A0+la+r%C3%A9publique+kery+james+paroles&rlz=1C1GGRV_enI-
T751IT751&oq=Lettre+&aqs=chrome.1.69i57j69i59j0j46j0l2j69i61l2.3632j0j7&sourceid=chrome&ie=UTF-8
388 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
2
Do Colonialismo como o nosso impensado, de 2014 , reúne a maioria dos
textos publicados e inéditos de Eduardo Lourenço relativos à análise da ques-
tão colonial portuguesa em toda a sua complexidade e escritos ao longo de
mais de 50 anos. Muitos destes textos foram escritos na solidão da distância do
auto-exílio, sem perspetiva de publicação, em particular, no Portugal ditatorial
de Salazar. Transformaram-se em monólogos ou diálogos impossíveis com o
ditador ou com os portugueses até verem a luz neste livro. Alguns são de facto
premonições de alguém que não só analisa subtilmente a essência de Portugal,
mas que também o estava a ver de fora e num contexto em que a referência
europeia da liberdade na Europa, a França, se comprometia e dissolvia nas
terras ensanguentadas da Guerra da Argélia. O fim de “une certaine idée de
la France” estava ali anunciado, bem como o mito da pátria da liberdade e da
democracia, pois bastava atravessar o Mediterrâneo para ver a liberdade e a
democracia suspensas pelas ações da “terra da liberdade” contra a luta pela
liberdade e a emancipação dos “outros”.
A publicação de alguns destes textos em Portugal surge depois do 25 de Abril
de 1974 e o texto que marca de facto a análise, sempre subtil e profunda de Eduar-
3
do Lourenço, foi Situação africana e consciência nacional (1976) . Trata-se de um
texto que analisa o contexto português, mas que, na verdade, tem o fôlego de
uma reflexão sobre a “inocência” colonial europeia, a partir das especificidades
do colonialismo português, e sobre o acto colonial e os seus prolongamentos nas
sociedades que o cometeram e naquelas que o sofreram, ou seja, nas sociedades
europeias herdeiras da sua vocação colonial ultramarina e nas suas antigas coló-
nias. Assim França quer dizer Argélia? Portugal quer dizer Angola e vice-versa? É
aqui que entra o texto de Eduardo Lourenço com que pretendo dialogar ao longo
deste ensaio – “A França em Questão – o fim da liberdade como boa-consciência”,
publicado no Jornal da Baía, em 1958. Este é um dado fundamental para o meu
argumento pois pretendo ler este texto não tanto a partir do complexo e rico diá-
logo que Eduardo Lourenço traça com a cultura francesa e a sua mitologia e com
4
a Europa , mas antes identificar o momento-chave em que o fim da liberdade e da
boa-consciência francesa, analisado por Eduardo Lourenço neste ensaio, tem o
seu ponto de não retorno. Na minha leitura ele situa-se na questão colonial e, tal
como em “Situação Africana e Consciência Nacional”, que constituía uma análise
2
Eduardo Lourenço, Do Colonialismo como o nosso impensado, Lisboa: Gradiva, 2014 (org. de Margarida
Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi). Ver Roberto Vecchi “Penser l'impensé: Portugal, et le futur antérieur du
temps européen”, in Maria Graciete Besse (ed.) Eduardo Lourenço et la passion de l'humain, Paris, Sorbonne-
Convivium Lusophone, 2013, pp.51-64.
3
Publicado em Eduardo Lourenço, Do Colonialismo como o nosso impensado, Lisboa: Gradiva, 2014 (org. de
Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi), pp.109-155.
4
Sobre isto ver entre outros o estudo de Maria Dulce Tavares Martinho, A França na Reflexão de Eduardo
Lourenço (dissertação de mestrado apresentada à Universidade de Aveiro, 2009) e mais próximo da minha
abordagem “Penser l'impensé: Portugal, et le futur antérieur du temps européen”, in Maria Graciete Besse
(ed.) Eduardo Lourenço et la passion de l'humain, Paris, Sorbonne-Convivium Lusophone, 2013, pp.51-64.
A MARCHA OBSCURA DA HISTÓRIA: “A FRANÇA EM QUESTÃO OU O FIM DA LIBERDADE COMO BOA CONSCIÊNCIA”
389
Margarida Calafate Ribeiro
“O fim da fase imperialista europeia, ilumina sem piedade alguma o que havia e há
de violência, apenas coberta com o verniz do esplendor cultural, em toda a história
europeia. Nem o manto tradicional de “cristã”, nem o manto moderno de “livre” que
a França exemplificava, como ninguém mais, podem resistir à contradição visível en-
tre essas mitologias e as violências históricas concretas que sempre com elas coexis-
tiram. Enquanto a consciência histórica e sobretudo a fabricação da História, como
imagem dessa consciência foram europeias (e predominantemente francesas) a con-
tradição era assunto interno de europeus e o conhecimento dela contribuía até para
acentuar e transformar a boa-consciência natural em boa-consciência absoluta. A
Europa discute-se entre si, mas ninguém a discute. O mundo extra-europeu pensa-se
com dificuldade a si próprio para poder servir de imagem à Europa que o ensina a ler.
Num século tudo mudou. O espectáculo clássico do dilaceramento intra-europeu tem
agora espectadores. O lugar da Europa no mundo vai-se, pouco a pouco, reduzindo à
estrita dimensão física, começando o doloroso processo de adaptação da realidade
6
presente à ficção da grandeza passada.”
O ponto de não retorno está aqui suficientemente explícito e ele muda a nar-
rativa, ou seja, chama-nos a atenção para o facto de que da mesma forma que a
história dos países ex-colonizados não se reduz a um apêndice da história das
antigas metrópoles colonizadoras, também a história da Europa não coincide com
os seus limites territoriais e sentimentais literais. E na minha leitura esse ponto
identificado por Eduardo Lourenço situa-se nas guerras coloniais protagonizadas
pela França, logo a seguir ao final da Segunda Guerra Mundial, onde a França
5
Eduardo Lourenço, «A França em questão ou o fim da liberdade como boa consciência», Jornal da Bahia,
28 e 30 de Outubro de 1958, Caderno 1, p. 2.
6
Eduardo Lourenço, «A França em questão ou o fim da liberdade como boa consciência», Jornal da Bahia,
28 e 30 de Outubro de 1958, Caderno 1, p. 2.
390 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
perdeu todo o seu prestígio de nação central europeia. O primeiro sinal é dado na
Indochina e atinge o seu pleno na questão da Argélia e na guerra que determinou
a sua independência, só reconhecida pela França como guerra na Assembleia
Nacional francesa em 1999, apesar dos acordos de Evian, que lhe põem fim, e
que conduzem à independência da Argélia, terem sido assinados em 18 de Março
de 1962.
7
Eduardo Lourenço, «A França em questão ou o fim da liberdade como boa consciência», Jornal da Bahia,
28 e 30 de Outubro de 1958, Caderno 1, p. 2.
A MARCHA OBSCURA DA HISTÓRIA: “A FRANÇA EM QUESTÃO OU O FIM DA LIBERDADE COMO BOA CONSCIÊNCIA”
391
Margarida Calafate Ribeiro
1960 – representam o alerta do fim iminente e sem retorno destes dois países
europeus colonialistas envolvidos em longas guerras coloniais e ambos os textos
tratam, de formas diversas e contextualmente diferentes, da análise da falácia
das justificações que o alimentavam – a diferença lusotropical do colonialismo
português em “Brasil: caução do colonialismo português”, publicado em 1960
em Portugal Livre no Brasil e, o que tenho vindo a citar, “A França em Questão o
fim da liberdade como boa consciência”, publicado em 1958, também no Brasil.
Ouçamos as palavras de Eduardo Lourenço numa entrevista, quando questiona-
do sobre a sua breve estadia no Brasil e a sua importância para a sua reflexão
sobre a questão colonial e a sua integração como matéria determinante na sua
reflexão sobre Portugal:
O que une os dois textos para além das circunstâncias temporais que os de-
terminam e que são decisivas – o fim iminente de dois impérios entregues a
guerras anacrónicas – é a denúncia da boa consciência europeia, protagonizada
de diferentes formas por estes dois colonizadores tão diferentes, mas ambos
“inocentes” – um imerso numa ditadura fascista, outro uma democracia ociden-
tal – Portugal e França. Mais cerebral a francesa, ancorada no valor da liberdade
que levou ao mundo real e mitologicamente com a sua Revolução, os seus es-
critores, as suas ideias; mais terratenente e religiosa a portuguesa absolutizada
na frase “Somos colonialistas como somos portugueses”, que depois se explica:
“Desta imagem que foi sobretudo a nossa no Brasil jamais nos pudemos desfa-
zer. (…) E desde então a imagem não mudou. Nem ela nem a inocência de estado
dos portugueses, a quem Deus confiou os “pretos” de toda a Eternidade para
lhes mudar a alma já que a pele é impossível. E tudo serve ao colonialista portu-
guês para se sentir “inocente” (…) Mas chegou o tempo da maturidade africana
8
Eduardo Lourenço, https://www.eduardolourenco.com/biografia/1958-Brasil.html. In “A Miragem Brasileira”
entrevista por Rui Moreira Leite, cf. Colóquio/Letras “Eduardo Lourenço - uma ideia do mundo”, nº171, Maio/
Agosto 2009, pp. 296 e sgs.
392 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
nos dois textos evocados e esta é uma meditação decisiva no seu pensamento e
que passará a integrar a sua reflexão não só sobre Portugal, mas também sobre a
ainda luminosa e excecional França. Terá sido essa exceção, esta aura tão bem dis-
secada por Eduardo Lourenço neste texto, uma aura mais cultural ou até histórica,
do que política, que terá ainda permitido sentar o General De Gaulle na mesa das
negociações dos vencedores na Segunda Guerra Mundial. E Eduardo Lourenço é
claro na sua mensagem, escrita neste texto de 1958:
Mesmo na indigência histórica mais lamentável, um Charles de Gaulle sem nome pôde
obrigar os grandes do momento a dar-lhe um lugar à mesa de uma guerra perdida. Na
11
aparência, pelo menos, este excepcional estatuto aproxima-se do fim.
Terá sido esta exceção (esta aura ou esta miopia), que permitiu definir estes
anos de guerras coloniais e de fim de impérios, como as “Trente Glorieuses”
(1945-1975) em França, evocando assim o crescimento económico, o desenvol-
vimento social e o bem-estar. Ao mesmo tempo esta mesma França desfazia-se
na sua essência nas colónias e estas mesmas colónias ofereceriam a força de
trabalho para esta glória, sujeitos colonizados ou ex-colonizados, novamente in-
visíveis, desprovidos de história e agora definidos como “emigrantes”, ao lado
dos portugueses, dos italianos ou dos espanhóis que, com eles, construíram es-
tas décadas gloriosas a partir de baixo. Como dizia Marguerite Duras o olhar
europeu sobre o Sul é sempre um olhar colonial.
Albert Camus e Marguerite Duras inscreveram na literatura francesa o que
era a colónia e o colonialismo a partir das suas vivências na colónia como “petit
blanc”. Marguerite Duras a partir da Indochina francesa em Un barrage contre
le Pacifique, de 1950, Albert Camus a partir da sua Argélia natal, onde seria
sempre “estrangeiro”. Sartre e Beauvoir, franceses sem vivência do mundo co-
lonial, tardiamente tomariam posição na sua militância pelo Terceiro Mundo,
ainda que Beauvoir pontue o seu diário da incomodidade de ser francesa nesta
situação, até transformarem a guerra da Argélia na sua guerra, com uma grande
proximidade de muitos anti-colonialistas e grande visibilidade mediática. Eduar-
do Lourenço estaria próximo destes textos e de outros franceses que, nem
sempre explicitamente, se manifestavam; talvez não tanto das publicações de
“Présence Africaine”, dos grandes pensadores negros das Antilhas, com Aimé
Césaire, com “Culture et Colonisation”, de 1956, Franz Fanon, com “Racisme
et Culture”, de 1957, ou do tunisino Albert Memmi, Portrait du Colonisé précédé
de Portrait du Colonisateur, publicado também em 1957, com prefácio de Jean-
-Paul Sartre. Eram textos de intensa circulação em determinados círculos, todos
11
Eduardo Lourenço, «A França em questão ou o fim da liberdade como boa consciência», Jornal da Bahia,
28 e 30 de Outubro de 1958, Caderno 1, p. 1.
394 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
“Quando chegou a hora decisiva a coragem faltou para defender na rua uma República
que consentira em empregar os métodos do inimigo: controle da rádio, censura dos
jornais, apreensão de livros por motivos políticos, incapacidade de fazer funcionar de-
mocraticamente a justiça. Tudo isto foi uma pálida sombra se os compararmos com os
actos que nos governos autoritários têm o mesmo significado, mas foi suficiente para
12
dar má-consciência a um povo habituado ao exercício luminoso da frágil Liberdade.”
12
Eduardo Lourenço, «A França em questão ou o fim da liberdade como boa consciência», Jornal da Bahia,
28 e 30 de Outubro de 1958, Caderno 1, p.2.
A MARCHA OBSCURA DA HISTÓRIA: “A FRANÇA EM QUESTÃO OU O FIM DA LIBERDADE COMO BOA CONSCIÊNCIA”
395
Margarida Calafate Ribeiro
13
Eduardo Lourenço, «A França em questão ou o fim da liberdade como boa consciência», Jornal da Bahia,
28 e 30 de Outubro de 1958, Caderno 1, p. 2.
14
Achille Mbembe, “La République et l'impensé de la «race»“, in Nicolas Bancel éd., La fracture coloniale. La
société française au prisme de l'héritage colonia, La Découverte, 2005, p. 137 (pp. 137-153).
396 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
*
VIRIATO SOROMENHO-MARQUES
*
Universidade de Lisboa.
1
Soromenho-Marques, Viriato, "Representações da América no Pensamento de Eduardo Lourenço", Colóquio
Letras, n.º 170, Janeiro/Abril 2009, pp. 251-256.
398 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
ululante, o que estava em causa era a diferença diametral dos lugares ocupados
por Lisboa e Washington no contexto geopolítico da descolonização.
Ao contrário da hostilidade funcional, que jamais abandona o campo da ra-
cionalidade, embora estratégica, as outras duas modalidades de hostilidade, a
“estrutural ou paternalista” e a “ontológica” já entram num terreno movediço da
destruição profunda da identidade e qualidade intrínseca do Outro. Dizer, como o
fez Heidegger na sua clássica entrevista à revista Spiegel, que só se pode pensar
em Alemão e Grego antigo, é lançar na indigência, através de um golpe de sober-
bo paternalismo, o património riquíssimo de pensamento produzido em todas as
outras grandes línguas europeias, só para ficarmos no Ocidente. Mas a recusa mais
brutal do Outro é a “ontológica”. Quando os burocratas nazis decidiram, no início
de 1942, nas tranquilas margens do lago Wannsee, criar uma solução industrial
para a Endlösung da questão judaica, estavam a levar, até ao cabo mais extremo a
longa e milenar hostilidade ontológica de que os Judeus têm sido vítimas.
Com a excepção dos períodos em que os interesses geo-estratégicos de Lisboa
e Washington estiveram abertamente em rota de colisão (1941-2 e 1961, e mais re-
centemente desde que Trump chegou à Casa Branca, em 20 de Janeiro de 2017), a
maioria dos testemunhos que podemos recolher no discurso lusíada sobre a Amé-
rica é francamente favorável, às vezes de um modo surpreendente.
Registemos, apenas, alguns casos. Desde logo o projecto do nosso primeiro
Embaixador nos EUA, o Abade Correia da Serra, amigo de Jefferson e Madison,
que pretendia, a partir do Brasil estabelecer uma parceria estratégica entre um
Portugal brasileiro e monárquico, e uma América do Norte republicana e federal.
Ou, em 1870, o grande João de Andrade Corvo, o primeiro europeu que não se
limitou a antecipar a tendência de fundo para a hegemonia norte-americana no
século XX, mas que a “viu” nos detalhes mais pictóricos: previu a I Guerra Mundial
2
e identificou o papel crucial dos Açores na estratégia atlântica e global dos EUA.
Mais subtil é a posição de Eça de Queiroz, espreitando, na condição de jovem
jornalista, uma nova arma da guerra naval, o couraçado Miantanomah, fundeado
no Tejo, a caminho da Rússia, como parte da corte diplomática que levaria Washin-
gton a obter a cedência, por um preço módico, do grande território do Alasca. Eça,
nesse distante ano de 1866, analisa uma América bifronte. Por um lado, a nação
3
que representaria a emergência de um futuro tecnológico, desumano e sem alma.
2
“Os Estados Unidos são chamados pelas circunstâncias a representar um grande papel na política do mundo;
principalmente se os sucessos da Europa, como infelizmente tudo parece indicar, levarem esta a um período
de lutas desastrosas de nação a nação, de violências contra o direito e contra a independência das pequenas
nações, a um período de opressão e despotismo (….) A posição geográfica de Portugal, com as ilhas dos
Açores situadas no caminho da América, está mostrando que é ele o Estado da Europa, cujas relações mais
proveitosas podem ser à republica americana.”, João de Andrade Corvo, Perigos. Portugal na Europa e no
Mundo, Lisboa, Fronteira do Caos, 2005, pp.205-206.
3
“Nós entrevemos a América como uma oficina sombria e resplandecente, perdida ao longe nos mares, cheia de
vozes, de coloridos, de forças, de cintilações. Entrevemo-la assim: movimentos imensos do capital; adoração
exclusiva e única do deus Dólar; superabundância de vida; exageração de meios; violenta predominação do
REVISITANDO AS REPRESENTAÇÕES DOS EUA NO PENSAMENTO DE EDUARDO LOURENÇO
399
Viriato Soromenho-Marques
Por outro lado, a América que, em nome de um ideal de igualdade, aceitou dilace-
4
rar-se numa guerra civil, que seria a primeira guerra da era industrial.
Surpreendentemente, ou não, foi Salazar quem melhor caracterizou o lugar
da América no mundo após a II Guerra Mundial. Com efeito, o novo poderio de
Washington não se limitaria a ser uma substituição dos impérios anteriores, era
também um novo estilo no exercício do poder, que Salazar designava como “hege-
5
monia plebiscitada”.
Para Eduardo Lourenço, por seu turno, a América é entrevista a partir da condi-
ção permanentemente excêntrica de Portugal. Habitando a periferia ocidental do
Velho Continente, mas sempre dominado por um impulso centrífugo para outros
6
destinos, basicamente não europeus, entre os quais se situa a América.
individualismo; grande senso prático; atmosfera pesada de positivismos estéreis; uma febre quase dolorosa
do movimento industrial; aproveitamento avaro de todas as forças; extremo desprezo pelos territórios (...) e
por fim um profundo tédio pelo vazio que deixa na alma as adorações do deus Dólar.”, Eça de Queiroz, “Eça
de Queiroz, “O «Miantonomah»”, Prosas Bárbaras, Lisboa, Livros do Brasil, 2001, p. 158.
4
“No entanto há muita força fecunda nos Estados Unidos! Ainda há pouco deram o exemplo glorioso de uma
nação que deixa os seus positivismos, a sua indústria, os seus egoísmos, o seu profundo interesse, e arma
exércitos, esquadras, dissipa milhões, e vai bater-se por uma ideia, por uma abstracção, por um princípio, pela
justiça (...) A América do Norte quer a liberdade, o amor das raças, e bate-se pela liberdade, pela legalidade,
pela união, pelo princípio, pela metafísica! E dispersa os exércitos da Virgínia!”, ob. cit., p. 160.
5
“Da última conflagração, esmagados o Japão e a Alemanha, surgiram para a hegemonia mundial dois
grandes poderes: os Estados Unidos e a Rússia [...] Os Estados Unidos sentem, como não sentiram em
1919, a responsabilidade da sua força e da sua vitória, e dá-se com eles o estranho caso de ascenderem ao
primeiro plano da política mundial pelo seu próprio valor, sem dúvida, mas também impelidos, solicitados
pela generalidade das nações. É quase uma hegemonia plebiscitada, tal a consciência da insegurança e da
possibilidade de mergulhar numa catástrofe sem a ajuda da grande nação americana.”, Salazar, “Discurso na
inauguração da I Conferência da União Nacional, em 9 de Novembro de 1946”, Discursos, Notas, Relatórios,
Teses, Artigos e Entrevistas. Antologia 1909-1953, Lisboa, Editorial Vanguarda, 1954, p. 311.
6
“Estamos [Portugal] na Europa (…) mas sem adesão simbólica. Na medida em que o podemos – ao nível das
intenções e não só – estamos sempre fugindo para outro lado: a África, o Brasil, por que não a Inglaterra,
ou melhor, os Estados Unidos.”, Eduardo Lourenço, “Meio Século de Dramaturgia Política Europeia” [1999],
A Europa Desencantada. Para uma Mitologia Europeia, Lisboa, Gradiva, 2001, p., 230.
7
Miguel Real, Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa, Matosinhos, Quidnovi, 2008, pp. 95-101.
400 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
12
Eduardo Lourenço, “América! América!” [1993], A Europa Desencantada. Para uma Mitologia Europeia,
Lisboa, Gradiva, 2001, p. 174.
13
Ob. cit., p. 176.
14
Eduardo Lourenço, “Entrevista”, Paralelo, n.º2, Primavera/Verão, 2008, p. 46 e sgs.
402 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
Por um lado, o recurso cada vez mais frequente ao uso da força militar. Por
outro lado, o contraste insistentemente repetido entre o activismo americano
e a impotência, desorientação e passividade europeias. Na escrita de Lourenço
encontramos uma verdadeira via dolorosa desse duplo movimento: 1991, com a
primeira Guerra do Golfo; 1992, a Europa deixa a guerra civil jugoslava chegar ao
ponto de não retorno e convoca a América para resolver a crise da sua impotên-
cia; 1999, a “não-guerra” do Kosovo, ou a “segunda morte” da Europa; 2003, a
grosseira invasão do Iraque pela mais desastrada Administração da história dos
EUA, antes da entrada em palco de Trump; 2008, a cumplicidade com a aventura
militar do Presidente da Geórgia, aclamado como vítima de uma alegada agres-
15
são russa…
Num artigo de 1 de Setembro de 2008, na sequência da sangrenta farsa geor-
giana, Eduardo Lourenço chega a falar de uma eventual escalada dos EUA para um
“superimperialismo”. Essa ideia parece clarificar-se numa entrevista ao Público em
2010, quando manifesta o receio das esperanças representadas pelo presidente
16
Obama serem “tragadas” pelo próprio país. Nessa mesma entrevista, sugere que,
de algum modo, os EUA poderiam estar a regredir às formas mais grosseiras e
primitivas de imperialismo, como aquele que se manifestou em meados do século
XIX em relação ao Japão. O comportamento da presidência Obama consentindo e
até apoiando aventuras militaristas europeias (de França e Grã-Bretanha) na Líbia
(2011) e na Síria (2012) parece confirmar o crescente desapontamento em relação
a um futuro consistente dos EUA na definição dos assuntos do mundo. A política
errática de Trump, que ganha unidade apenas como processo de transformação
dos EUA no grande demolidor do sistema internacional, o mesmo criado pelos in-
quilinos da Casa Branca a partir de Woodrow Wilson, parecem justificar a crescente
visão lucidamente pessimista do futuro do Ocidente.
O que está a acontecer com os EUA de Trump, que persistem na negação das
alterações climáticas, recusando assinar o modesto Acordo de Paris (2015), que
fomentam a cisão da União Europeia, alimentando o Brexit, que negoceiam amiga-
velmente com ditadores e hostilizam democracias aliadas, que militarizam a com-
petição com a China, que abandonam a sua própria população à devastação da
COVID-19, a maior pandemia desde a gripe espanhola de 1918-1919, não é assim
tão diferente nos resultados do que aquilo que já aconteceu e está a ocorrer à
Europa. Os EUA e a UE atingiram ou estão a atingir os seus limites existenciais. A
América, com uma liderança “activa” que entre guerras regionais e colapsos finan-
ceiros a deixou numa sombra do que foi e numa pálida figura do que poderia ter
15
Sobre a deriva imperialista das Administrações de G.W. Bush, Jr. e o seu enraizamento na história e pers-
pectivas futuras dos EUA, ver: Soromenho-Marques, Viriato, O Regresso da América. Que futuro depois do
Império?, Lisboa, Esfera do Caos, 2008.
16
Entrevista de Eduardo Lourenço a Teresa de Sousa, Público, 5 de Abril de 2010. https://www.publico.
pt/2010/04/05/jornal/eduardo-lourenco-portugal-nao-e-um-pais-facil-de-governar-19107478.
REVISITANDO AS REPRESENTAÇÕES DOS EUA NO PENSAMENTO DE EDUARDO LOURENÇO
403
Viriato Soromenho-Marques
2 de Novembro de 2020
17
Sobre aquilo que a União Europeia poderia aprender com os EUA em matéria de organização federral:
Soromenho-Marques, Viriato, Tópicos de Filosofia e Ciência Política. Federalismo. Das Raízes Americanas
aos Dilemas Europeus, Lisboa, Esfera do Caos, 2011, pp. 197-246.
2020
[http://www.cei.pt/pel/]
2020
ÁNGEL MARCOS DE DIOS
Professor e Escritor
cei
atividades
2019
CEI ACTIVIDADES
413
2020
ENSINO E FORMAÇÃO
[http://www.cei.pt/cv/]
NOVAS FRONTEIRAS,
OUTROS DIÁLOGOS:
COOPERAÇÃO E DESENVOLVIMENTO
O Centro de Estudos Ibéricos (CEI), enquanto plata-
forma de intercâmbio, debate e difusão de conhe-
cimentos sobre os territórios e as culturas ibéricas,
promoveu a XX edição do Curso de Verão subor-
dinada ao título genérico “Novas fronteiras, outros
diálogos: cooperação e desenvolvimento”, nos dias
1 e 2 de julho, em formato online, devido à conjun-
tura de crise sanitária.
O Curso, como os tradicionais Trabalhos de Campo,
substituídos por documentários, funcionaram em
modo virtual, Webinars que foram estruturados em torno dos seguintes temas:
Foi ainda apresentado o livro da Coleção Iberografias (Nº 38), As Novas Geo-
grafias dos Países de Língua Portuguesa. Conhecimento, Cooperação e Desen-
volvimento.
O Curso, creditado pela Universidade de Salamanca de que faz parte da ofer-
ta de Cursos de Verão daquela Universidade, foi coordenado por Rui Jacinto
(Univ. Coimbra) e María Isabel Martín Jiménez (Univ. Salamanca).
TRANSVERSALIDADES
FOTOGRAFIA SEM FRONTEIRAS.
[Ver: http://www.cei.pt/transversalidades/]
PREMIADOS
Melhor Portfólio
Antonio Pérez (Sevilha, Espanha)
Tema 1. Património natural, paisagens e biodiversidade
Vencedor: Mark Anthony Agtay (Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos)
CEI ACTIVIDADES
417
2020
ITINERÂNCIAS DE EXPOSIÇÕES
SALAMANCA (MUSEU DE SALAMANCA)
Esteve patente de 14 de fevereiro a 16 de março no Museu de Salamanca
Exposição “Transversalidades – Fotografia sem Fronteiras" 2019.
A inauguração contou com a presença de Carlos Chaves Monteiro, Presiden-
te da Câmara Municipal da Guarda, Vítor Amaral, Vice-presidente da Câmara
Municipal da Guarda, Rui Jacinto, representante da Universidade de Coimbra
e Membro da Comissão Executiva do CEI, María Isabel Martín Jiménez e Pedro
Serra, representantes da Universidade de Salamanca e Membros da Comissão
Executiva do CEI, Manuel António Brites Salgado, Vice-presidente do Instituto
Politécnico da Guarda, Alberto Bescós, Diretor do Museu de Salamanca, e Ale-
xandra Isidro, Coordenadora do CEI.
PAISAGENS TRANSGÉNICAS
(Casa da Cultura de Melgaço)
A exposição "Paisagens Transgénicas" de Álvaro Domingues, esteve patente na
Casa da Cultura de Melgaço até ao dia 30 de junho. Esta mostra, cedida pelo Cen-
tro de Estudos Ibéricos, integrou o programa do III Encontro "Imagem e Território".
422 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
INVESTIGAÇÃO
[http://www.cei.pt/iit/]
CONCURSO
FRONTEIRAS DA ESPERANÇA: MINHA TERRA, MEU FUTURO
[http://www.cei.pt/fronteiras-da-esperanca/]
Vencedores Temáticos
Tema 1. "Leituras e (re)interpretações do território: diagnósticos prospetivos”
> Escalão 1 – 1º Ciclo: “Eco Kit Tira Nódoas” – de Gustavo Ascensão Nunes,
Íris Lourenço Silveira e Tomás Soares Gadanho (Escola EB Pêro Viseu – Agru-
pamento de Escolas do Fundão)
> Escalão 2 – 2º Ciclo: “Litiografias” – de Salvador José Nunes Raposo, Leo-
nor Martins Isento e Ana Sofia Fonseca Gonçalves (Escola Básica 2/3 de Tor-
tosendo Agrupamento de Escolas Frei Heitor Pinto)
> Escalão 3 – 3º Ciclo: “Tecnologia EM, invisível, mas eficiente!” – de Miguel
Correia, Tiago Rodrigues e Guilherme Marques (Escola Secundária do Fundão
– Agrupamento de Escolas do Fundão)
CEI ACTIVIDADES
425
2020
Menções Honrosas
> Escalão 1 (1º Ciclo): “Alxisto” – de Simão Sobreiro Geraldes Silva e José
Rúben da Silva Tomás (Escola EB1 de Paul – Agrupamento de Escolas Frei
Heitor Pinto)
> Escalão 2 (2º Ciclo): “Borreguinhos da Beira Baixa” – de Leonor Marques;
Núria Canarias; Salvador Ascensão (Escola Secundária do Fundão – Agrupa-
mento de Escolas do Fundão)
“De doce vilão... A bom papão” – Beatriz Belo; Diogo Brito; Rodrigo Nobre
(Escola Secundária do Fundão – Agrupamento de Escolas do Fundão)
> Escalão 3 (3º Ciclo): “Tortosendo” – de Tomás Gouveia Falcão (Escola Se-
cundária Frei Heitor Pinto – Agrupamento de Escolas Frei Heitor Pinto)
”Coma! É leve e nutritivo.” – de Eva Dionísio, Leonor Gomes e Maria Figueira
(Escola Secundária do Fundão – Agrupamento de Escolas do Fundão)
> Escalão 4 (Secundário): “Influência da precipitação em potenciais movimentos
de vertente, na Serra da Gardunha – de Anaís Fernandes, Rodrigo Costa e Sara
Couto (Escola Secundária do Fundão – Agrupamento de Escolas do Fundão)
“A Nossa flora – Etnobotânica da Serra da Gardunha” – de Dinis Pereira,
Simão Pereira e Vânia Bento (Escola Secundária do Fundão – Agrupamento
de Escolas do Fundão)
Menções Honrosas
> Escalão 3 (3º Ciclo): “Uma conversa sustentável” – de Luna Santos Gamanho
e Maria Beatriz Gavinhos (Escola Secundária do Fundão – Agrupamento de
Escolas do Fundão)
> Escalão 4 (Secundário): “Evasão” – de Mariana Francisco Joana (Escola
Secundária de Pinhel - Agrupamento de Escolas de Pinhel)
426 Iberografias Revista de Estudos Ibericos
Menções Honrosas
> Escalão 1 (1º Ciclo): "Um passado futuro" – de Rúben Santos Maceiras (EB1
Largo da Feira – Tortosendo – Agrupamento de Escolas Frei Heitor Pinto)
“Ciga-(Nos): Uma Imagem Inclusiva” – de Miguel Silva Cardoso (EB1 Largo da
Feira – Tortosendo - Agrupamento de Escolas Frei Heitor Pinto)
> Escalão 3 (3º Ciclo): “Iberografias” – de Gabriela Martins Fernandes, Inês
Sofia Mouro Venâncio e Débora Lúcia Bicho Santos (Escola Secundária Frei
Heitor Pinto – Agrupamento de Escolas Frei Heitor Pinto)
> Escalão 4 (Secundário): “Horta D'EL REI” – de Liliana Lopes Tiago (Ensiguar-
da – Escola Profissional da Guarda)
“Fronteira” – de Matilde Florêncio e Ana Ascensão (Escola Secundária do
Fundão – Agrupamento de Escolas do Fundão)
“Desejovenização” – de Diana Maria Matias Amadeu (Escola Secundária de
Pinhel – Agrupamento de Escolas de Pinhel)
Prémio “Escolas”:
1.º Escola Secundária Frei Heitor Pinto
2.º Escola Secundária do Fundão
3.º Escola Básica 2/3 de Tortosendo
OFICINA
HISTÓRIA DA GUARDA
[GUARDA HISTORY WORKSHOP]
[http://www.cei.pt/ohg/]
EDIÇÕES
IBEROGRAFIAS 16 (2020)
O presente número da Iberografias constitui um nú-
mero especial por registar duas efemérides: assina-
lar vinte anos de atividade do CEI e uma singela, mas
sentida homenagem ao Professor Eduardo Lourenço,
seu mentor, patrono e Diretor Honorífico. Os vários
artigos que integram a Revista, além dum capítulo
dedicado a Eduardo Lourenço, foram organizados
nos seguintes apartados: As Novas Geografias dos
Países de Língua Portuguesa, Investigação, Inovação
e Território e a Oficina de História da Guarda. A edi-
ção é rematada com a apresentação das atividades desenvolvidas pelo CEI
ao longo de 2020.
COLEÇÃO IBEROGRAFIAS
CATÁLOGOS
FRONTEIRAS DA ESPERANÇA:
MINHA TERRA, MEU FUTURO
Este Catálogo reúne todos os trabalhos apresentados
no âmbito do Concurso “Fronteiras da Esperança: Mi-
nha Terra, Meu Futuro” promovido pelo Centro de Es-
tudos Ibéricos e pela Comunidade Intermunicipal das
Beiras e Serra da Estrela (CIMBSE), dirigido aos alunos
das escolas da CIMBSE.
Esta iniciativa que, que teve como objetivo estimular a
reflexão dos jovens estudantes sobre os recursos, di-
nâmicas territoriais e perspetivas para o futuro coletivo da região, contou com
a participação de mais de 100 alunos de 12 escolas. Os trabalhos estão organi-
zados de acordo com os escalões etários e os temas do concurso: (i) Leituras
e (re)interpretações do território: diagnósticos prospetivos; (ii) Escrita, literatura
e território: trabalhos de expressão literária; (iii) Arte e território: trabalhos de
expressão artística.