You are on page 1of 2

O COTIDIANO NA VIDA DE JESUS

Nazaré é a escola do Filho do Homem, rodeado de gente comum, com sua


paisagem natal, como um en-
tre tantos; sua linguagem, seu modo pessoal, sua conduta, sua fé...
Para Ele, Nazaré é um tempo de aprendizagem: observar o que lhe cerca.
Cala, vê, escuta nesta escola. Exercício de preparação diante das
urgências do Reino. “Tempo de guardar...”.
É no cotidiano que contemplamos o Filho que vai conhecendo o Pai e realizando
sua Vontade.
A vida cotidiana de Jesus fica patente a Deus somente. Pode-se pensar que a
vida cotidiana de todo ser humano fica patente somente a Deus, vive-se “diante
de Deus”.
Vivemos numa “vida cotidiana” sem muito destaque e sem mui-
tos fatos extraordinários; temos ainda muito que aprender da vida
cotidiana do artesão de Nazaré.
Três considerações a contemplar na oração:
a) Silêncio interior: Contemplar o silêncio de Jesus e sua família.
- O silêncio é muito útil para dar lugar ao Espírito;
- desse silêncio brota a contemplação, a oração escon-
dida, a aptidão para refletir os acontecimentos, aptidão
para escutar a Palavra inserida nos fatos da vida;
- Buscar o silêncio diante de Deus.
“Não desgasteis a Boa-Nova com palavras que não brotam do silêncio”
(Arrupe)
- Buscar o silêncio diante das pessoas, respeitando-as, fazendo-as crescer...

b) Vida de família: Contemplar o lar de Jesus.


- José e Maria deram sua contribuição à personalidade de Jesus.
- Lar: lugar da surpresa, do novo, do desafio... onde a interação pais-filhos possibilita o
desenvolvimento e amadurecimento natural de todos.
- Lar: do “lugar estreito” ao “lugar amplo” onde é possível a expansão de todos.
- Regado pelo amor, o lar torna-se espaço aberto ao futuro.

c) Escola de trabalho: Contemplar uma jornada de trabalho de Jesus.


- Sentido do trabalho humano, perseverante, diário... participando da obra do Pai.
“Meu Pai trabalha sempre e eu também trabalho” (Jo. 5,17).
- Valor profundo do trabalho humano que não se reduz ao produzir, mas é lugar da
transcendência da pessoa, criando coisas, colaborando com a obra do Criador.
- O trabalho é, para muitos, um lugar de luta e não de realização pessoal e de cresci-
mento humano, nem de encontro com Deus na imitação do artesão de Nazaré.

Jesus, na sua vida cotidiana, nos revela que Ele é o homem das “grandes
sínteses”: entre o particular e o
universal, entre o masculino e os traços femininos de afeto, entre o Deus
da intimidade e os irmãos
da convivialidade, entre os momentos de êxtase e as ocasiões de
solidariedade, entre sua interiorida-
de e sua abertura a todos sem restrição, entre ação e contemplação...
Sínteses profundas que nos educam para a “liberdade dos filhos de
Deus” (Rom. 8,21).
“... instruído nas coisas do Reino dos Céus, o escriba inteligente é comparável a um dono
de
casa que tira do seu tesouro coisas novas e antigas” (Mt. 13,52).
Jesus mesmo foi este personagem inteligente, que fez brilhar a “novidade” de
Deus nas vilas e campos da Palestina. Jesus nos fala de “sínteses” com o vigor
de alguém que é modelo e inspirador para nós: Ele sintetiza a ternura de um
irmão, a lucidez de um profeta e a revolução de um Messias.
Foi no cotidiano que Ele aprendeu, aos poucos, a ampliar seus horizontes, seus interlocutores e o sentido
de sua missão. É a vida cotidiana que nos revela que Jesus foi uma pessoa nitidamente humana e hu-
manizante, que vivenciou um processo de maturação, de releitura de suas tradições e assimilação do no-
vo, até chegar à proposta original da Boa-Nova.
Jesus continua luminoso e numinoso, num momento em que as transformações são rápidas e exigem de nós
maturidade, aprendizado, diálogo, novas expressões de fé... Um dos desafios da espiritualidade atual é lutar
sem escravizar-se, celebrando a Aliança apesar da aridez do deserto do cotidiano.
Textos bíblicos: Jo. 5,1-18 Mt. 20,1-16