Homens Com Uma Mensagem - John R. W. Stott

HOMENS C M U A O M MENSAGEM

UMA INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO E SEUS ESCRITORES

JOHN STOTT
Revisado por Stephen Motyer

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HOMENS COM UMA MENSAGEM Uma Introdução ao Novo Testamento e seus Escritores JOHN STOTT Revisado por Stephen Motyer

"A particularidade de cada autor do Novo Testamento não è de modo algum restrita a um único processo de inspiração. Antes, pelo contrário, o Espírito Santo primeiro preparou, e em seguida usou sua individualidade de formação, experiência, temperamento e personalidade, a fim de transmitir por meio de cada um alguma verdade distinta e apropriada." John Stott

O objetivo desta edição completamente revisada da obra clássica do Dr. Stott fo a de torná-la acessível à nova geração, refundindo a linguagem, adaptando-a às versões bíblicas recentes, e acrescentando fotos a cores e mapas informativos.

Homens com uma Mensagem

Homens com uma Mensagem
Uma Introdução ao Novo Testamento e Seus Escritores

por John Stott revisado por Stephen Motyer

Editora Cristã Unida
Associação Evangélica Menonita Rua Venezuela, 318 13.036-350 C a m p i n a s - S P

Homens com uma Mensagem: Uma Introdução ao Novo Testamento
Traduzido do original em inglês: Men with a Message: An Introduction to the New Testament and Its Writers HarperSanFrancisco Texto Copyright © 1951 John Stott 1994 Stephen Motyer e John Stott Esta edição Copyright © 1996 Associação Evangélica Menonita Desenhado e criado por Three's Company 12 Flitcroft Street London WC2H 8DJ Co-edição mundial organizada por Angus Hudson Ltd., Mill Hill London NW7 3SA

Publicado no Brasil com a devida autorização EDITORA CRISTÃ UNIDA Associação Evangélica Menonita Rua Venezuela, 318 Jardim Nova Europa 13.036-350, Campinas, São Paulo Fone (019) 231-1190 Fax (019) 231-7640 Impresso em Cingapura Tradução: Rubens Castilho

Conteúdo

Prefácio de John Stott Prefácio de Stephen Motyer Marcos e sua Mensagem Mateus e sua Mensagem Lucas e sua Mensagem João e sua Mensagem Paulo e sua Mensagem A Carta aos Hebreus Tiago e sua Mensagem Pedro e sua Mensagem A Mensagem de Apocalipse índice
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Prefácio de John Stott

Foi logo depois de minha posse como reitor de Ali Souls Langham Place, em 1950, que, para minha total surpresa, o bispo William Wand (que havia me ordenado e empossado) convidou-me a escrever para 1954 o que era conhecido como "Livro da Quaresma do Bispo de Londres". Como resultado surgiu Homens com uma Mensagem. Foi na verdade meu primeiro livro, dois anos antes de Fundamentalismo e Evangelismo, e quatro anos antes de Cristianismo Básico e O Que Cristo Pensa da Igreja. No início dos anos 50 eu estava lendo e refletindo bastante sobre a inspiração da Escritura e sobre as relações entre seus autores divino e humanos. Eu estava impressionado mormente pela necessidade de enfatizar que a particularidade de cada autor do Novo Testamento não é de modo algum restrita a um único processo de inspiração. Antes, pelo contrário, conforme escrevi na introdução do livro de 1954, "o Espírito Santo primeiro preparou, e em seguida usou sua individualidade de formação, experiência, temperamento e personalidade, a fim de transmitir por meio de cada um alguma verdade distintiva e apropriada". Desta forma, isto se tornou, e permanece, o tema essencial de Homens com uma Mensagem. Agora, passados quarenta anos, sinto-me gratificado pelo fato de o livro experimentar uma espécie de "ressurreição", através da contribuição de Steve Motyer, que aceitou nobremente meu convite para revisá-lo. Somos agora considerados co-autores, embora, na realidade, o livro seja mais dele do que meu. Sensibiliza-me sua disposição de preservar tanto o título do livro original como alguma de sua essência. Ao mesmo tempo, teve ele total liberdade de reescrever, amenizar, expandir e atualizar o texto. Ele executou sua tarefa com atenção conscienciosa e notável habilidade. Creio firmemente que o conteúdo e a nova apresentação do livro revisado o tornarão bem mais agradável de ser lido do que a pesada e condensada primeira edição! Domingo de Páscoa, 1994

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Prefácio de Stephen Motyer

Foi um grande privilégio participar desta revisão do livro original de John Stott. Quando de sua publicação, ele era o reitor recentemente nomeado de Ali Souls Langham Place, no centro de Londres, e eu ainda não estava na escola. E um testemunho da qualidade da pregação usufruída pela congregação de Ali Souls naqueles dias que este livro tenha iniciado ali sua vida como uma série de sermões. Em sua primeira versão ele trazia o selo de qualidade do que minha geração mais nova chamava "safra de Stott": baseado num conhecimento abrangente do texto, marcado por um aguçado rigor intelectual e poder de análise, expresso em prosa exata e vigorosa. Ele teve uma longa permanência nas estantes, quer no Reino Unido quer nos Estados Unidos, passando por numerosas impressões durante vários anos e brindando os crentes evangélicos com uma introdução ao Novo Testamento de excelente nível, num tempo em que havia pouca literatura evangélica nas livrarias. Entendo por que um bispo (anônimo) da igreja da Inglaterra tenha alegado que foi aprovado em Novo Testamento em seu exame geral de ordenação apoiado na força de Homens com uma Mensagem! Espero que tudo o que havia de melhor na primeira versão tenha sido mantido nesta segunda. O objetivo da revisão foi tornar seu conteúdo acessível às futuras gerações, utilizando uma linguagem mais leve, associando-a ao conhecimento bíblico recente, e incorporando o texto ao formato da publicação "user-friendly" associado aos produtos de Three's Company. John Stott permitiu-me uma grande liberdade na revisão, mas senti-me muito bem familiarizado com suas ênfases e análises. Mantive basicamente a estrutura dos capítulos originais, suplementando-os com material adicional e reescrevendo-os em estilo menos marcado pelas características formais da prosa dos anos 50. Acrescentei os capítulos de Marcos e Mateus, que haviam sido excluídos da primeira versão e retirei o primeiro capítulo original sobre Jesus, que desde o início pareceu um tanto fora de lugar. O título Homens com uma Mensagem poderia ser levemente desorientador. Isto não significa sugerir que não há diferenças entre os diversos autores do nosso Novo Testamento. Na verdade, um dos principais propósitos deste livro

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é investigar sua variedade. Eles foram indivíduos com diversas formações, personalidades e experiências, e seus escritos refletem tal diversidade. No caso dos Evangelhos, por exemplo, parece que os evangelistas planejaram suplementar um ao outro à luz de seus propósitos e preocupações individuais. Assim, Mateus expandiu muito Marcos, Lucas incluiu novas ênfases no material extraído dos outros dois e acrescentou ainda mais, e João pintou um retrato de Jesus que foi além dos outros três, tanto em conteúdo quanto em profundidade espiritual. E assim por diante, para cada um de nossos "homens". Eles foram todos escolhidos por Deus, moldados pela experiência, e investidos de poder pelo Espírito Santo, primeiro para compreender a revolucionária Boa Nova de Jesus, e depois para comunicá-la e aplicá-la nas várias situações que enfrentaram. Mas, ao mesmo tempo, eles foram Homens com uma Mensagem, e não homens com muitas mensagens. Por meio de sua variedade, eles comunicaram uma mensagem da graça salvífica de Deus em Cristo. O "evangelho" pode ser expresso em diferentes palavras e aplicado a diferentes necessidades, mas incorpora uma mensagem para todos os homens e mulheres em todos os tempos e lugares. Neste livro é a variedade que é principalmente realçada, porém, através dela, a unidade felizmente também emerge: • a consciência unificada da necessidade do mundo, alienado de Deus e afligido pelo pecado • a crença unificada na iniciativa de Deus, que tem agido para libertar o mundo do mal e reconciliá-lo consigo • a focalização unificada desta iniciativa sobre Jesus Cristo, que foi ungido e designado por Deus para ser o Salvador do mundo • a crença unificada no envolvimento de Deus, que não apenas age através de Jesus, mas age pessoalmente nele • a crença unificada na exaltação de Jesus Cristo, que morreu e ressuscitou, de modo que podemos compartilhar a vida do próprio Deus. Estes elementos estão todos lá, nos escritos de nossos "homens", expressos diferentemente, mas igualmente fundamentais. Somente num caso alguma coisa está faltando: a pequena epístola de Tiago não contém referência à morte de Cristo como o foco de sua identificação salvífica conosco. Porém esta crença não é incompatível com a "mensagem" de Tiago. Ele a rejeitou? Certamente não. Ele não poderia ter liderado a igreja em Jerusalém por tanto tempo se o tivesse feito. Sua carta tratou de suas preocupações imediatas, e estas foram transmitidas sem qualquer referência à cruz. Na verdade, ele não está só. A epístola de Judas também não faz referência à morte de Cristo. Judas é o único "homem" deixado fora deste livro. Esperamos que ele nos perdoe! Sua epístola é poderosa, singular, desafiadora, tão fascinante como qualquer outra parte do Novo Testamento, mas também curta! Cremos que ele pode compreender por que não lhe estamos dando todo um capítulo num livro que tem somente um capítulo para Paulo e outro para Lucas. Afinal de contas, eles dois são responsáveis por metade do Novo Testamento! John Stott e eu somos também unidos em nossa oração e desejo de que este livro continue a ser um meio de levar os cristãos a um conhecimento e amor mais profundos do Livro que tem significado tanto para nós dois—para ele, por quase toda uma existência de serviço e trabalhos escritos que o levaram muito além daqueles dias iniciais em Ali Souls; para mim, por mais de meia existência procurando explanar e ensinar o Novo Testamento com discernimento e entusiasmo.

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Permitamos que Judas tenha, ao menos, a última palavra neste prefácio. D e s e j a m o s obedecer ao seu apelo de e n c o r a j a m e n t o para "batalhar diligentemente pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos" (3) e com ele cantar "ao único Deus, nosso Salvador, mediante Jesus Cristo, Senhor nosso, glória, majestade, império e soberania, antes de todas as eras, e agora, e por todos os séculos. Amém" (25). Queremos expressar nossos agradecimentos em conjunto a Tim Dowley e Peter Wyart, de Three's Company, for sua iniciativa, conselho, habilidade e dedicação, sem o que este livro jamais teria tido uma existência renovada. Dia da Conversão cle Paulo, janeiro de 1994

Marcos e sua Mensagem
Então, convocando a multidão e juntamente os seus discípulos, disse-lhes: "Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome (Marcos 8.34) a sua cruz e siga-me."

O Evangelho de Marcos é destinado aos discípulos. Ele compartilha com os outros evangelistas a preocupação de capacitar seus leitores a compreender a pessoa de "Jesus Cristo, o Filho de Deus" (1.1). Mas ele vai além do que simplesmente apresentar Jesus. Jesus é o personagem principal no drama de Marcos, mas os discípulos vêm logo a seguir. Em toda a história, Marcos se preocupa com o discipulado—seus privilégios, obstáculos, perigos, desafios e perplexidades. Esta é a ênfase marcante do Evangelho de Marcos. De forma muito humana e animadora ele revela o quão difícil foi para os primeiros seguidores de Jesus dar os primeiros passos no discipulado, e quão pacientemente Jesus perseverou com eles, apesar de sua compreensão tão limitada e sua obediência tão frágil. Como veremos, esta ênfase provavelmente amadureceu a própria experiência de Marcos como cristão.

Uma produção pioneira
O Evangelho de Marcos foi provavelmente o primeiro dos quatro a ser escrito, e, assim, tornou-se seu autor um desbravador que preparou o caminho para que os outros seguissem seu modelo. Sua contribuição foi considerável, uma vez que jamais qualquer coisa semelhante tinha sido escrita antes. Em vários aspectos surpreendentes o registro de Marcos a respeito de Jesus difere de outras antigas biografias dos notáveis: • Marcos anuncia no início que o personagem de seu relato não é nenhum simples homem, mas sim o "Filho de Deus". • Ele classifica seu trabalho sob um nome novo: é um "evangelho" (1.1). • Ele nada informa a respeito do nascimento ou infância de seu personagem. • Surpreendentemente, ele faz um pequeno registro do ensino de Cristo, embora mencione com freqüência que Ele ensinava (por exemplo, 1.38; 2.2). • Ele dedica cerca de um terço de seu livro para narrar a morte de seu personagem. • Seu trabalho é estranhamente curto! Não teria ele, na verdade, mais do que estes dezesseis pequenos capítulos para falar sobre esse "Filho de Deus"? • Por que ele reserva tanto de seu exíguo espaço concentrando sua atenção não

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e m seu p r i n c i p a l p e r s o n a g e m , m a s n o s d i s c í p u l o s q u e s e r e u n i a m à v o l t a d e l e ? Todas estas características f a z e m do registro de Marcos sobre Jesus u m a obra singular entre as b i o g r a f i a s d e seu t e m p o . O s o u t r o s e v a n g e l i s t a s s u p r e m a l g u m a s destas o m i s s õ e s . T a n t o M a t e u s c o m o L u c a s d e f a t o r e p r o d u z e m e m seus p r ó p r i o s trabalhos a maior parte do conteúdo do Evangelho de Marcos, combinando-o c o m e l e m e n t o s adicionais, p r i n c i p a l m e n t e histórias d o n a s c i m e n t o e i n f o r m a ç õ e s mais extensas sobre o ensino de Jesus. Por esta razão ambos são consideravelmente mais longos—no caso de Lucas, quase duas vezes mais. Contudo, eles não nos a j u d a m a entender por q u e M a r c o s abriu c a m i n h o c o m tal e x t r a o r d i n á r i o t r a b a l h o . A resposta a algumas destas perguntas p o d e m estar na experiência do próprio Marcos. Q u e m era ele?

A pessoa de Marcos
A semelhança dos outros evangelistas, Marcos não estava interessado e m d i v u l g a r s u a p r ó p r i a i d e n t i d a d e e m seu E v a n g e l h o . E l e n ã o m e n c i o n a a si m e s m o

0 rio Jordão junto ao sul do mar da Galiléia. 0 Evangelho de Marcos inicia com João Batista pregando no deserto e batizando no rio Jordão.

pelo n o m e . P o r é m outros f o r a m zelosos ao inserir o n o m e de seu autor, e " S e g u n d o M a r c o s " f o i a s s o c i a d o a ele d e s d e o s p r i m e i r o s a n o s . S e h o u v e d ú v i d a d i f u n d i d a s o b r e tal a t r i b u i ç ã o , a t r a d i ç ã o e n c a r r e g o u - s e d e d e s f a z ê - l a e se f i x o u n u m a figura da maior proeminência da igreja apostólica. Assim, pois, p o d e m o s estar confiantes d e q u e este livro foi escrito por u m " M a r c o s " . F e l i z m e n t e podemos identificá-lo c o m facilidade, e o testemunho do N o v o Testamento nos p o s s i b i l i t a p i n t a r u m f a s c i n a n t e r e t r a t o dele.

1. Marcos pertencia a uma família fundadora da igreja cristã.

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HOMENS COM UMA MENSAGEM

Palavras Latinas em Marcos
Uma das características peculiares do Evangelho de Marcos é o uso, sem explanação, de vários termos latinos: • Legião (5.9) • Centurião (15.39) • Pretório (15.16)—aqui Marcos acrescenta a palavra latina para explicar a palavra grega "palácio". • Executor (6.27)—a palavra usada por Marcos aqui é o termo técnico para policial militar. • Quadrante (12.42)—a moeda que Marcos menciona aqui circulava somente na metade ocidental do Império Romano, área de língua latina. Marcos escreveu em grego, porém trai seu conhecimento do latim. E, assim fazendo, denuncia uma clara evidência de que estava escrevendo para um público da região ocidental, talvez a própria Roma.

Indubitavelmente ele é o "João, apelidado Marcos", mencionado em Atos 12.12 e 25. Ele não é incomum pelo fato de ter dois nomes que refletem sua formação bilíngüe, e, em seu caso, o fato de um deles ser latino (Marcos) pode apontar para conexões da família com as forças romanas na Palestina. A formação latina de Marcos é indicada também pela presença de algumas palavras latinas em seu Evangelho (ver indicações no quadro acima). Em Atos 12 encontramos a igreja reunida na casa de Maria, mãe de Marcos, para orar em favor de Pedro, que estava na prisão. Essa casa era certamente um centro importante na vida da igreja iniciante de Jerusalém, porque Pedro se dirigiu diretamente para lá quando foi miraculosamente libertado, admitindo claramente que a igreja estaria reunida lá. Deve ter sido uma casa espaçosa, e a família de Marcos era suficientemente abastada para permitir-se ter pelo menos uma criada em casa, a excitada Rode, que deixou Pedro do lado de fora da porta. Alguns estudiosos têm especulado se essa casa não conteria o famoso "cenáculo espaçoso", no qual foi servida a Ultima Ceia (Marcos 14.15), e na qual a igreja se reuniu após a ascensão de Jesus (Atos 1.13). 2. Marcos foi testemunha ocular da morte e ressurreição de Jesus. Marcos pode ter viajado para ver e ouvir Jesus em outro lugar, mas, se ele vivia em Jerusalém, deve ter testemunhado os derradeiros acontecimentos do ministério de Jesus. Podemos imaginar o impacto que eles tiveram sobre o jovem Marcos. Ele meditou sobre o significado da morte de Jesus. E quando decidiu escrever seu Evangelho, ela tornou-se o foco de toda a sua história, pressagiada tão cedo quanto Marcos 3.6, predita freqüentemente por Jesus, que viajava para Jerusalém com o fim deliberado de morrer, e interpretada como morte sacrificial, um "resgate por muitos" (10.45). Vamos examinar abaixo o aspecto central desta mensagem. E provável que ele tenha passado por um doloroso desenvolvimento, semelhante ao que Pedro sofreu (ver capítulo 8): começou com a crença tradicional num Messias conquistador e vitorioso, que reestabeleceria os judeus como o povo soberano de Deus, e terminou vendo o Messias como uma figura sofredora que morreu por seu povo para salvá-lo de seus pecados. Este era o "Cristo, Filho de Deus", cuja história era a "boa nova" para todos os que a ouvissem (1.1).

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3. Marcos teve falhas em seu próprio discipulado. Isto é muito importante para a nossa compreensão da forma pela qual a experiência de Marcos o preparou para escrever seu Evangelho. Paulo e Barnabé estavam presentes na casa de Marcos, participando da célebre reunião de oração, quando Pedro foi libertado da prisão. Barnabé era, na realidade, primo de Marcos (Colossenses 4.10); e quando retornaram a Antioquia, Barnabé e Paulo levaram Marcos com eles (Atos 12.25). Logo depois disso, o Espírito Santo induziu a igreja em Antioquia a enviar Paulo e Barnabé para uma viagem missionária (Atos 13.2). Eles levaram consigo Marcos para auxiliálos (13.5), enquanto pregavam o evangelho em Chipre, e depois cruzaram o mar em direção a Panfília, na província romana da Galácia. Neste ponto, entretanto, Marcos resolveu não continuar, deixando Paulo e Barnabé e retornando a Jerusalém (Atos 13.13). Isso deixou Paulo profundamente contrariado, pois mais tarde ele se recusou a levar Marcos com ele novamente, pois "não achava justo levarem aquele que se afastara desde a Panfília, não os acompanhando no trabalho" (Atos 15.38). A palavra "afastara" aqui lembra a que foi usada na parábola do semeador referindo-se à semente que caiu sobre a pedra: "A que caiu sobre a pedra são os que, ouvindo a palavra, a recebem com alegria; estes não têm raiz, crêem apenas por algum tempo, e na hora da provação se desviam" (Lucas 8.13). Era o que Paulo pensava a respeito de Marcos. Quando enfrentou o teste, ele se desviou e mostrou ser um discípulo sem raízes, relutante em obedecer ao chamado do Espírito. Não sabemos por que Marcos os abandonou. A Panfília era uma área que ficava quase ao nível do mar e era infestada pela febre; além disso, eles estavam enfrentando uma viagem difícil até a Pisídia. Marcos tinha acabado de testemunhar um confronto emocionalmente extenuante com Elimas, o mágico, em Pafos (Atos 13.6-12). E talvez ele tivesse tido algum pressentimento do que iriam encontrar pela frente. Se tivesse continuado a viagem com Paulo e Barnabé, ele enfrentaria perseguição física em Listra, onde Paulo foi apedrejado ao ponto de quase morrer (Atos 14.19). Parece que o esgotamento e o perigo foram demais para que ele pudesse suportar, e então ele fugiu para sua casa em Jerusalém. Podemos supor que, além de jovem, ele era um tanto tímido ou estava saudoso do lar. A história tem seu modo de repetir-se. Seria o próprio Marcos o jovem mencionado em Marcos 14.51,52? A tradição vem de longa data sustentando que era ele. Se assim for, não será difícil imaginar o senso de deficiência que Marcos deve ter experimentado em Panfília, quando se viu, pela segunda vez, incapaz de suportar o desafio do discipulado. Mas podemos ver também como, através desta experiência, ele se qualificou para dar ao seu Evangelho a mensagem inconfundível de ânimo a todos quantos consideram difícil o discipulado. Examinaremos abaixo o ensino de Marcos sobre o discipulado, mas convém antes assinalar duas de suas características, porque elas se ajustam muito claramente à própria experiência de Marcos: a. Marcos destaca com exclusividade o medo sentido pelos discípulos ao seguirem Jesus. Mateus e Lucas amenizam sua linguagem, ou mesmo omitemna completamente, em três episódios em que Marcos menciona esse medo. • Em Marcos 4.40,41ele nos diz que os discípulos estão "possuídos de grande temor" (uma expressão muito forte) quando vêem Jesus acalmar a tempestade—

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Era Marcos o discípulo desnudo?
Tradicionalmente, Marcos tem sido identificado c o m o m e s m o j o v e m que ele m e n c i o n a e m M a r c o s 14.51,52, o qual s e g u e J e s u s até o Getsêmani usando somente u m lençol, e em s e g u i d a f o g e d e s n u d o q u a n d o a g u a r d a do Sinédrio tenta prendê-lo juntamente com Jesus. Três fatores depõem em favor desta identificação (embora nenhum deles seja conclusivo): • Este foi um dos muito poucos incidentes que Mateus e Lucas preferiram não usar em seus Evangelhos, ainda que soubessem que Marcos tinha suas próprias razões para incluí-lo. • Se a Ultima Ceia tinha sido realizada na casa de Marcos, podemos muito bem imaginar que Marcos quis sair com Jesus e seus discípulos. Talvez ele e s t i v e s s e j á deitado q u a n d o ouviu a surpreendente notícia de que Jesus estava saindo, e não permanecido lá como se esperava, e por isso vestiu-se depressa. • O jovem que seguiu Jesus era claramente rico, porque usava um lençol "de linho": geralmente, tais peças eram de algodão. O terror do jovem é realçado tanto por f u g i r d e s n u d o c o m o por sua d i s p o s i ç ã o de desfazer-se de uma vestimenta tão valiosa. Não podemos saber com certeza. Mas, se esta tradição é correta, podemos ver ainda com maior clareza por que Marcos mostra tanta compaixão por discípulos fracos e indecisos.

e muito humanamente torna claro que não são somente as ondas que aterrorizam os discípulos: mais do que isto, é a demonstração da absoluta grandeza e poder de Jesus. • De modo similar, em 10.32 ele registra que os discípulos estão "admirados" e "apreensivos", quando acompanham Jesus até Jerusalém, mesmo antes de Jesus ter-lhes enfatizado mais de uma vez seu próximo sofrimento e morte (10.33,34). • E, o mais extraordinário de tudo, ele termina seu Evangelho com uma nota de espanto e medo, quando conta a reação das mulheres diante do anúncio da ressurreição. Elas foram instruídas a transmitir a mensagem de que o Jesus ressurreto encontraria seus discípulos na Galiléia. Porém, em vez disto, "saindo elas, fugiram do sepulcro, porque estavam possuídas de temor e de assombro; e de medo nada disseram a ninguém" (16.8). Desde os primeiros anos, os copistas acharam que este era um final bastante inadequado para o Evangelho e apresentaram alternativas. E certamente possível que o final original de Marcos tenha sido perdido na transmissão. Entretanto, fica claro pelos antigos manuscritos gregos de Marcos que nenhuma das alternativas apresentadas é original. E, na realidade, o final grego harmoniza com todo o retrato da fraqueza humana dos seguidores de Jesus, com a qual ele deveria terminar seu Evangelho de forma singular. b. Marcos ressalta de forma singular a disposição de Jesus de confiar em discípulos que estão ainda muito inseguros em sua fé. Em Marcos 6.7-13 Jesus envia os Doze revestidos de autoridade para pregar e curar em seu nome. Lemos que "eles pregavam ao povo que se arrependesse; expeliam muitos demônios e curavam numerosos enfermos, ungindo-os com óleo" (6.12,13), e depois "voltaram os apóstolos à presença de Jesus e lhe relataram tudo quanto haviam feito e ensinado". (6.30). A primeira vista estes discípulos parecem gigantes espirituais, mas a história continua em seguida para pintar suas verdadeiras cores: seus corações estão endurecidos (6.52), seu entendimento está obtuso (7.18), e sua memória está obliterada (8.2-5; compare com 6.35-38), de sorte que Jesus tem de contender com eles: "Ainda não considerastes nem

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compreendestes? tendes o coração endurecido? tendo olhos, não vedes? e, tendo ouvidos, não ouvis? Não vos lembrais...?" (8.17,18). E mesmo quando os discípulos finalmente reconhecem que Jesus é "o Cristo" (8.29), eles demonstram apenas um tímido começo. Eles precisam aprender árduas lições sobre oração (9.28,29; 11.21-25), sobre humildade (10.13-16), sobre sacrifício próprio (10.26-31), e sobre status (9.38,39; 10.35-45). E Marcos dá pouca indicação de progresso. Pedro, Tiago e João caem de sono em vez de orar no Getsêmani (14.37-42), e quando Jesus é preso todos o deixam e fogem (14.50). O único discípulo que volta atrás e segue Jesus, em seguida nega-o ostensivamente (14.71). Por trás disto tudo podemos ver a experiência do próprio Marcos. Também ele tinha experimentado os impulsos conflitivos que retrata nos primeiros discípulos de Jesus. Por um lado eles se sentem fortemente atraídos a Jesus (1.16-20), testemunham diretamente seus extraordinários poderes (6.13), identificam-no como "o Cristo" (8.29), deixam tudo para segui-lo (10.28), e se sentem prontos a morrer por Ele (14.31). Mas, por outro lado, são constantemente confundidos e surpreendidos por Jesus, a tal ponto que Marcos faz pouca distinção entre eles e os fariseus no que respeita à compreensão das palavras do Mestre (8.11-21). Como vimos, eles são freqüentemente muito medrosos, e por fim fracassam completamente. Assim, pois, Marcos fala compassivamente a todos quantos sentem extrema dificuldade de seguir este Cristo. Mas, está ele finalmente desesperançado quanto à possibilidade de verdadeiro e vitorioso discipulado? É vital que passemos à quarta característica da pessoa de Marcos, a qual lança mais luz sobre seu Evangelho: 4. Marcos torna-se companheiro tanto de Pedro como de Paulo. Fracasso não foi o fim da história de Marcos. Não sabemos quanto tempo ele ficou em Jerusalém depois de seu retorno. Mas, após o Concílio apostólico registrado em Atos 15, encontramo-lo de volta a Antioquia novamente com Barnabé e Paulo. Paulo recusou a companhia de Marcos em sua visita de retorno às mesmas igrejas. Porém, à custa de sua parceria com Paulo, Barnabé afavelmente ajudou Marcos a retomar seu trabalho missionário, levando-o novamente a Chipre, a cena de seu fracasso (Atos 15.38,39). Não tivemos mais novas notícias de Marcos até que o encontramos em quatro das últimas epístolas do Novo Testamento. Na época em que foram escritas as cartas aos Colossenses e a Filemom (cerca de dez ou doze anos mais tarde). Marcos está com Paulo, que o chama de "cooperador" (Filemon 24; compare com Colossenses 4.10). E então Marcos recebe uma calorosa recomendação na última carta de Paulo, escrita provavelmente pouco antes de sua morte. Paulo diz a Timóteo: "Toma contigo a Marcos e traze-o, pois me é útil para o ministério" (2 Timóteo 4.11). Evidentemente, a ruptura com Paulo tinha sido completamente curada! Marcos aparece, finalmente, em 1 Pedro 5.13, quando Pedro o chama amorosamente de "meu filho", ao fazer suas saudações juntamente com Marcos, que está com ele, aos cristãos localizados "no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia", a quem a carta é dirigida (1 Pedro 1.1). Todas estas cartas foram provavelmente escritas de Roma, onde claramente Marcos ministrava tanto para Pedro como para Paulo, tendo sido um companheiro confiável e muito amado de ambos. Claramente também ele era

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Parte do Fórum, Roma, com o Coliseu destacando-se no horizonte. Marcos devotou tempo ministrando em Roma, e seu Evangelho foi escrito para um público ocidental, possivelmente romano.

nesse tempo conhecido das igrejas na Galácia e na Ásia Menor, a mesma área da qual ele havia fugido quando sua fé arrefecera. Portanto, o cuidado de Barnabé para com seu primo tinha sido amplamente justificado. Marcos havia enfrentado e dominado seus medos, tornando-se totalmente "útil" no serviço cristão. E não somente Marcos. Pedro também tinha saído do malogro para ser a "Rocha" sobre a qual a igreja estava sendo construída. Marcos destaca o fracasso de Pedro mais do que dos outros discípulos. "Ainda que todos se escandalizem, eu jamais!... Ainda que me seja necessário morrer contigo, de nenhum modo te negarei" (14.29,31). Então, com chocante compaixão e ironia, Marcos narra a história de cada uma das negações preditas por Jesus (14.66-72). As negações tornam-se mais enfáticas até que ele "começou a praguejar e a jurar: 'Não conheço esse homem de quem falais!' " (14.71). Talvez a amizade entre Pedro e Marcos foi alicerçada em sua mútua experiência de queda e restauração. E bem possível que o próprio Evangelho de Marcos tenha nascido dessa experiência comum. Em data remota acreditouse que Marcos baseou seu Evangelho na pregação de Pedro. A posição mais antiga desta versão veio de Papias, bispo de Hierápolis por volta de 130 d.C. Ele foi apoiado no fim do segundo século por Irineu (bispo de Lyon, c. 178-195 d.C.), que acrescentou a idéia de que Marcos teria registrado toda a pregação de Pedro em Roma, após a morte deste último. Depois, Clemente de Alexandria (c. 200 d.C.) contribuiu com a sugestão de que Marcos foi pressionado a fazer isso pelo povo que ouviu a pregação de Pedro. Não sabemos a exata seqüência dos acontecimentos, porém podemos afirmar com certeza que: • Marcos dedicou tempo ministrando com Pedro em Roma; • Pedro é destacado mais do que qualquer outro discípulo no Evangelho de Marcos; • Seu Evangelho foi escrito para um público ocidental, talvez romano (ver o

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Pedro em Marcos
Pedro é citado pelo nome não menos do que vinte e três vezes no Evangelho de Marcos. Os personagens mais próximos, por freqüência de menção, são Tiago e João (nove vezes); portanto, Pedro é de l o n g e o m a i s p r o e m i n e n t e dos d i s c í p u l o s e m Marcos. Isto pode bem refletir a própria pregação de Pedro, que forneceu a base do Evangelho de M a r c o s . E esta h i p ó t e s e é f o r t a l e c i d a q u a n d o e x a m i n a m o s essas vinte e três referências, porquanto não menos do que treze se relacionam com quatro incidentes que escassamente mostram Pedro sob um foco predominante! 1. Pedro procura repreender Jesus por predizer sua morte e recebe u m a resposta cáustica: "Arreda! Satanás, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens" (8.33). 2. Pedro diz sem pensar um contra-senso a respeito de construir tendas, porque estava aterrorizado ante a v i s ã o de J e s u s c o m M o i s é s e E l i a s na transfiguração (9.5,6). 3. Pedro, com Tiago e João, dorme três vezes no jardim do Getsêmani, em vez de orar com Jesus. S o m e n t e M a r c o s r e g i s t r a sua r e a ç ã o q u a n d o acordados pela segunda vez: "E não sabiam o que lhe responder" (14.40). No entanto, eles novamente se entregam ao sono! 4. E acima de tudo Pedro nega Jesus, a última vez com imprecações (14.71), muito embora tenha anteriormente, na m e s m a noite, protestado sua eterna lealdade a Ele. Assim, de f o r m a comovente, Marcos nos dá algum discernimento sobre o testemunho de Pedro a Jesus. Seu Evangelho mostra realmente um estreito paralelo com o resumo do ministério de Jesus que o próprio Pedro apresentou a Cornélio em seu sermão de Atos 10.34-43: * A história t e m início na Galiléia "depois do batismo que João pregou", e em seguida afirma "como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele" (Atos 10.37,38). * A história atinge seu clímax "na terra dos judeus e em Jerusalém" com a morte e ressurreição de Jesus (Atos 10.39,40). * P e d r o p õ e ê n f a s e s o b r e seu p a p e l c o m o "testemunha" (Atos 10.39,41), do mesmo modo como, no Evangelho de Marcos, o encontramos no centro de toda a ação. * Pedro também ressalta o cumprimento anunciado pelos profetas sobre Jesus (Atos 10.43), u m a ênfase que encontramos também em Marcos (1.2,2; 1.11; 11.9,10; 12.10,11; 12.36; 14.27). Mas no Evangelho há esta nota adicional, não refletida no breve sermão a Cornélio. Q u a n d o pregou, Pedro deve ter usado seu próprio exemplo para advertir seus ouvintes: Não façam o que eu fiz!

quadro "Palavras Latinas e m Marcos"); • S e u E v a n g e l h o teria s i d o e s p e c i a l m e n t e a d e q u a d o e e n c o r a j a d o r p a r a o s cristãos que enfrentavam o desafio da perseguição. Estas observações levaram o estudioso norte-americano William Lane a admitir seriamente a tradição de que M a r c o s baseou seu E v a n g e l h o sobre a essência da pregação de Pedro, e a sugerir que M a r c o s o escreveu especialmente para a igreja e m R o m a , quando ela foi vitimada pela perseguição sob Nero e m 65 d.C., durante a qual muito provavelmente o próprio Pedro foi martirizado. S e M a r c o s b a s e o u seu E v a n g e l h o n a p r e g a ç ã o d e P e d r o , e n t ã o a l g u m a s d e suas surpreendentes características são explicadas. • Sua extensão: • Seu começo: M a r c o s simplesmente utilizou o material que tinha ouvido Pedro P e d r o n i t i d a m e n t e n ã o u s o u e m seu m i n i s t é r i o h i s t ó r i a s s o b r e o empregar. Ele não procurou fazer u m a pesquisa complementar, c o m o fez Lucas. n a s c i m e n t o d e J e s u s e s u a i n f â n c i a . Q u a n d o ele r e s u m e o m i n i s t é r i o d e J e s u s p a r a C o r n é l i o , e l e f a l a d o seu c o m e ç o " d e s d e a G a l i l é i a , d e p o i s d o b a t i s m o q u e J o ã o p r e g o u " ( A t o s 10.37). • Seu nome: o n o m e q u e M a r c o s e s c o l h e u p a r a s e u livro, " e v a n g e l h o " , r e f l e t e sua origem na pregação da " b o a n o v a de Jesus Cristo", pela qual Pedro e os outros apóstolos foram conhecidos. • Seu enfoque: p o r trás d a ê n f a s e d e M a r c o s s o b r e a m o r t e d e J e s u s , p o d e m o s ouvir P e d r o tentanto persuadir os j u d e u s de que Jesus era realmente " o Cristo,

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o Filho de Deus", muito embora tenha sofrido uma morte criminal. Sua morte cumpriu a Escritura!

Marcos, o escritor
Podemos falar mais sobre Marcos simplesmente com base em seu trabalho escrito. Aqui também ele expõe as qualidades e dons pessoais que o qualificam para a tarefa de ser o primeiro escritor do evangelho. Três coisas em particular se sobressaem. 1. Marcos era um estilista bem dotado. Ele escreve num estilo vívido, direto e vigoroso. Apequena palavra grega euthus é uma de suas favoritas, usada quarenta e uma vezes. Traduzida para "imediatamente", "prontamente", "sem demora" e equivalentes, esta palavra acrescenta um sentido de compasso e movimento. Marcos sublinha isto utilizando sentenças curtas e vocabulário vívido e forte. A história segue um ritmo acelerado de incidente a incidente. Marcos tem um dom especial para o detalhe visual que transmite vida à cena. Com freqüência ele introduz um detalhe que Mateus e Lucas omitem. Por exemplo, ele é o único a mencionar que Jesus tomou uma criança em seus braços e disse: "Qualquer que receber uma criança, tal como esta, em meu nome, a mim me recebe" (Marcos 9.36,37). Somente ele registra que o jovem homem rico "correu" até Jesus e ajoelhou-se diante dele antes de perguntar: "Que farei para herdar a vida eterna? (10.17). E unicamente ele conta como "Jesus, fitando-o, o amou" (10.21), e como o homem "retirou-se triste" (10.22). Os exemplos podem multiplicar-se. Este amor com detalhe plástico geralmente significa que as histórias de Marcos são mais recheadas do que suas equivalentes em Mateus e Lucas. Como exemplo podemos comparar o inventário de palavras contidas nas duas histórias—da filha de Jairo e da mulher com hemorragia: • Marcos faz a narrativa com 416 palavras, 5.21-43. • Lucas utiliza 331 palavras, 8.40-56. • Mateus maneja ambas com somente 162 palavras, 9.18-26. Alguns dos pormenores que Marcos introduz emprestam um "toque humano" a estas histórias: • Jairo não apenas "suplica" a Jesus que vá, mas o faz "insistentemente" (literalmente, "dizendo-lhe muitas coisas"). • A mulher "muito padecera à mão de vários médicos", mas, em vez de ser curada, ficava cada vez "pior" (5.26). • Quando ela tocou a veste de Jesus, Ele percebeu "imediatamente que dele saíra poder", e então virou-se "no meio da multidão", e "olhava ao redor para ver aquela que fizera isto" (5.30,32). • Quando Jesus chegou à casa de Jairo, viu "os que choravam e os que pranteavam muito" (5.38). • Jesus então "tomou o pai e a mãe da criança... [com Ele]", e "entrou onde ela estava" (5.40). • Em seguida, Marcos acrescenta um traço de rara sensibilidade, o que, aliás, ele faz também em três outras ocasiões: mantém a palavra original da voz de comando de Jesus em aramaico, Talitha koum!, "Menina, eu te mando, levantate!" (5.41). Outra técnica empregada pelo estilista Marcos para fazer que sua narrativa se

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torne dinâmica é a chamada "presente histórico". Este consiste do uso repentino tempo presente do verbo numa história passada. Na história de Jairo e sua filha, isto ocorre quando Jairo aparece: ele "chega" e, vendo-o, "prostra-se a seus pés... e lhe suplica". De igual modo, Marcos usa o tempo presente no clímax da história. Quando Jesus chega à casa de Jairo, ele "vê o alvoroço", "fala" aos pranteadores, "entra" com pais, e "diz" à menina. ... No seu conjunto, Marcos é um notável estilista. 2. Marcos foi um convincente contador de história. Esta é uma qualidade complementar numa escala mais ampla. Da mesma forma que Marcos conta suas histórias individuais com grande vivacidade e força, ele compõe todo o seu Evangelho com igual habilidade. Papias, escritor cristão dos tempos primitivos, certamente entendeu isto erroneamente. Na passagem em que ele testifica que Marcos baseou seu Evangelho na pregação de Pedro, Papias também diz que Marcos "anotou cuidadosamente tudo quanto recordava das coisas ditas ou realizadas pelo Senhor, porém não em ordem cronológica". Esta falta de "ordem" ele atribui a Pedro, que "não articulou um relato criterioso das revelações do Senhor". Portanto, Marcos copiou Pedro simplesmente com o propósito de não deixar que faltasse alguma coisa. O Evangelho de Marcos, entretanto, é qualquer coisa menos um amontoado de reminiscências desconexas. Em anos recentes os estudiosos têm apreciado a história de Marcos mais claramente do que nunca. Ela é graciosamente composta, e suas riquezas ainda estão sendo exploradas. Por meio dessa composição bem cuidada. Marcos confere energia à mensagem que procura comunicar. Apenas umas poucas características podem ser aqui mencionadas: a. Estrutura global. Depois da introdução em 1.1 -15, o Evangelho fica dividido em duas partes, com 8.27-30 formando a "dobradiça" bem no meio. A confissão de Pedro de ser Jesus o "Cristo" é o clímax da narrativa até aqui. Mas ela introduz uma dramática mudança: "Então começou ele a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do homem sofresse muitas coisas, fosse rejeitado... [e] fosse morto (8.31). Esta nota do sofrimento vindouro tinha sido antes parte da história, porém não predita por Jesus. Agora a cruz começa a avultar, como se verá abaixo. Num ou noutro lado desta "dobradiça", cada metade se distribui em três seções. Na primeira metade, cada uma dessas seções começa com uma história sobre os discípulos (1.16-20, 3.13-19, 6.6-13), e termina com um pequeno resumo incidente que encapsula a mensagem daquela seção: • 3.7-12: grandes multidões são atraídas a Jesus, que realiza curas e as ensina. Os demônios sabem quem Ele é (compare com 1.1). • 6.1-6: contrastando com 3.7-12, a cidade do lar de Jesus o rejeita, e Ele não faz nenhuma cura ali. O tom de conflito e oposição atravessa toda esta seção. • 8.22-26: esta cura em dois estágios (somente em Marcos) ilustra o que deve acontecer aos discípulos. Em toda esta seção eles têm-se esforçado para entender Jesus. Eles vêem o que Ele faz, mas não compreendem, como o homem que vê as pessoas que parecem árvores que caminham (8.24). Jesus restaura sua compreensão, e imediatamente segue-se a confissão de Pedro: "Tu és o Cristo" (8.29). A segunda metade do Evangelho distribui-se, de igual modo, em três seções: 8.31-10.52 (terminando com a cura de um homem cego, como na seção

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precedente da primeira metade); 11.1-13.37 (enfocando a oposição e o conflito, como na seção do meio da primeira metade); e 14.1-16.8 (que conta a história da morte de Jesus, atingindo o clímax com a confissão do centurião, que nos leva diretamente de volta ao começo, 1.1,11). b. Repetição e reminiscência. Freqüentemente Marcos faz com que a narrativa se repita, e essas repetições são vitais à sua mensagem. • Numa escala ampla, observamos as três ocasiões vitais em que Jesus é identificado como "o Filho de Deus", em conexão com uma palavra vinda diretamente do próprio céu: em 1.10,11 no seu batismo, em 9.7 na transfiguração, e em 15.39 pelo centurião em seguida ao episódio do véu do santuário "rasgarse em duas partes de alto a baixo" (aqui o véu é "rasgado" como os céus "rasgaram-se" em 1.10—Marcos usa a mesma palavra). O testemunho divino é seguido pelo testemunho humano: os leitores somarão suas vozes à do centurião? • Numa escala menor, há as repetidas e miraculosas multiplicações dos pães (6.30-44; 8.1-10), repetidas curas de cegueira (7.31-37; 8.22-26; 10.46-52), e repetidos exorcismos (todos muito diferentes: 1.21-28; 5.1-20; 7.24-30; 9.1429). Em todos estes casos os exemplos posteriores nos lembram os primeiros, e as diferenças enfatizam as diversas facetas do ministério de Jesus, ou os diferentes desafios enfrentados pelos discípulos, ou pelos leitores de Marcos. • Numa escala menor ainda, Marcos cria conexões sutis entre histórias que realçam aspectos de sua mensagem. Ele cria, por exemplo, uma comparação surpreendente entre o pobre menino possuído do demônio, no capítulo 9, e o outro jovem (rico, religioso, bem educado) que Jesus encontra no capítulo 10. Ambos foram alguma coisa "desde a infância"—um foi possuído do demônio, o outro foi obediente aos mandamentos (9.21; 10.20). Ambos, porém, são igualmente escravizados, um pelo mau espírito, o outro por sua riqueza; ambos podem ser libertados somente pelo poder direto de Deus (9.29; 10.27); em ambos os casos os discípulos reconheceram sua própria incapacidade de fazer alguma coisa (9.28; 10.26). Mas um é libertado, o outro não. E o que faz a diferença entre eles é a fé e a oração do pai: "Eu creio, ajuda-me na minha falta de fé" (9.24). c. Justaposições criativas. A conexão entre estes dois "meninos" em capítulos adjacentes é também uma ilustração da "justaposição criativa". Marcos combina histórias, ou as apresenta lado a lado, sem fazer qualquer comentário explícito, mas permitindo que sejam interpretadas conjuntamente. Um exemplo é a combinação da purificação do templo e da maldição da figueira estéril em 11.11-25. Marcos faz a narrativa juntando as histórias e entrelaçando-as—uma técnica que ele emprega também em 5.21-43 e 6.7-31. Cada história completa a mensagem da outra. A "figueira" foi uma das várias árvores usadas com freqüência como imagem para Israel. A inspeção do templo em 11.11 é seguida pelo exame da figueira em 11.12-14—e por sua maldição como sendo estéril. Então, a maldição é seguida pelo que usualmente chamamos de "purificação" do templo, embora ela seja mais um ato de julgamento. Aquele a quem pertence a "casa" (11.17) examinou-a e a encontrou faltosa. No dia seguinte os discípulos notam que a figueira está seca. Um sinal agourento! E então Jesus lhes oferece um novo e radical ensino sobre a oração, que deixa totalmente de lado o templo, a "casa de oração para todas as nações"

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(11.22-25). Não ficamos absolutamente surpresos quando, mais tarde naquele dia, Jesus prediz a total destruição do templo (13.2). Nenhuma das partes desta narrativa combinada teria o mesmo significado, se uma das partes não estivesse ali inserida. Exemplos desta técnica podem ser multiplicadas em outras partes do Evangelho de Marcos. 3. Marcos era um porta-voz persuasivo. O propósito de todo este escrito meticuloso era persuadir. Quem Marcos teria em mente? Os estudiosos não são concordantes. E possível que Marcos tivesse vários propósitos, tanto evangelísticos como pastorais. Sua meta global não é difícil de definir: ele desejava persuadir seus leitores a crer no "evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus" (1.1), e segui-lo. Ele, na verdade, deu a seu livro o título: "Princípio do evangelho de Jesus Cristo" (1.1). As opiniões diferem sobre o significado da palavra "princípio" aqui. Refere-se ela apenas à sua introdução (1.1-15), ou a todo o livro? Uma vez que esta é a frase de abertura, parece mais provável que Marcos esteja se referindo a todo o livro como "o princípio do evangelho". Portanto, ele considera que seus leitores já estão cientes da pregação do "evangelho" e da comunidade de crentes que já o aceitaram. Ele deseja dizer-lhes como tudo isto começou. Há outras indicações de que ele sabe que não está contando toda a história do "evangelho", e admite o conhecimento da história posterior entre seus leitores: • A promessa de João Batista em 1.8 de que Jesus batizaria com o Espírito Santo não se cumpre dentro de seu Evangelho. • De modo semelhante, a promessa de Jesus de transformar seus discípulos em "pescadores de homens" (1.17) não é cumprida em seu Evangelho. • Tampouco o é sua promessa em 14.28 de encontrá-los na Galiléia após a ressurreição (a menos que isto indique que o original de Marcos tivesse incluído a ressurreição). • Ele enfatiza a centralidade vital da pregação e ensino no ministério de Jesus Cristo ("Para isso é que eu vim", 1.38), porém registra pouco mais do que resumos de seu conteúdo. Isto sugere que tanto ele como seus leitores sabiam que esses registros do ensino de Jesus estavam disponíveis em algum outro lugar. • A apresentação dos discípulos realça a fraqueza destes, sua falta de compreensão, medo e infidelidade em tal extensão que parte de sua mensagem parece ser: pense apenas no que Jesus seria capaz de fazer mais tarde com este material humano tão pouco promissor, depois que o Espírito foi derramado! Esses discípulos—particularmente Pedro—tornaram-se grandes líderes da igreja. O próprio Marcos ministrou ao lado deles, e sabia por sua própria experiência que "para Deus ttido é possível" (10.27). A falha não é a última palavra. • Este sentido de história contínua é claramente discernível bem no final, com o registro do medo e desobediência em 16.8. Poderia "a boa nova" terminar desta forma? Tanto Marcos como seus leitores sabem que não. Longe disso! A estratégia de Marcos, pois, é mostrar "o princípio", as fundações, de sorte que os leitores possam compreender por que a mensagem de Jesus Cristo é a "boa nova", e que ela, em essência, significa segui-lo. Voltamos finalmente a um breve resumo de sua mensagem.

A mensagem de Marcos

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Costa do mar da Galiléia. Depois da prisão de João Batista, Jesus foi para a Galiléia, e boa parte de seu ministério concentrou-se no lago e na cidade de Cafarnaum.

Há muitos aspectos na mensagem de um livro tão brilhante. Contudo, podemos resumir seus principais elementos como segue: 1. O Reino de Deus Marcos resume a pregação de Deus como uma mensagem sobre o Reino de Deus: "Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus, dizendo: 'O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho.'" (Marcos 1.14,15). Aqui "evangelho" corresponde a "boa nova". Assim, Marcos liga o "evangelho" com a mensagem sobre a proximidade do Reino de Deus, anunciado por Jesus. Vamos considerar o significado de "Reino de Deus" no capítulo sobre Mateus, porque Mateus faz dele uma característica mais proeminente do ensino de Jesus do que Marcos. Enquanto Mateus se refere ao "Reino do céu" cinqüenta vezes, Marcos o menciona somente quinze vezes. "O Reino de Deus" projetava-se como um futuro brilhante para os judeus (compare com Marcos 15.43). Quando o Reino viesse, ele significaria o esmagamento dos inimigos de Deus e a confirmação de Israel como povo de Deus. Contra este pano de fundo, podemos resumir a mensagem de Marcos como segue: • O Reino está perto, prestes a chegar (1.15)! • Ele está perto porque Jesus veio (11.10; compare com 2.18-22). • O processo que ensejará seu pleno aparecimento já foi iniciado (4.26,30). • Contra toda a expectativa presente, é difícil entrar no Reino (10.24). Esta entrada não é certamente automática. Uma ação drástica pode ser necessária (9.47). Na realidade, a entrada está aberta somente àqueles que deixaram tudo e seguiram Jesus (10.15,21). 2. A morte de Jesus Como observamos acima, a ênfase de Marcos sobre a morte de Jesus é uma das

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mais admiráveis características de seu Evangelho pioneiro. O que ele ensina a respeito dela? O Evangelho inicia com um conflito. O conflito entre Jesus e o sistema religioso vigente é apontado logo cedo, como em Marcos 1.22: "Maravilhavamse da sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas." Torna-se imediatamente claro que este tom de autoridade será olhado como blasfemo pelos fariseus (2.6,7). E quando Jesus alega sua independência e autoridade de associar-se com os "pecadores" (2.15-17), e de reordenar as regras prescritas para o jejum (2.18-22), a observância do sábado (2.23-28), e a cura (3.1-5), o resultado é imediato e execrável: "Retirando-se os fariseus, conspiravam logo com os herodianos, contra ele, em como lhe tirariam a vida" (3.6). Ante a menção de colaboração entre fariseus e herodianos neste plano (os quais viviam geralmente brigando entre si), Marcos salienta a força da oposição a Jesus. O conflito é mais adiante realçado pelo incidente em 3.20-30, onde os "professores da lei" acusam Jesus de estar possuído do demônio, e Ele, em contrapartida, acusa-os de blasfemar contra o Espírito Santo. Com efeito, eles o estavam acusando de ser um falso profeta, para quem a penalidade era a morte (Deuteronômio 13.1-5), ao passo que Ele os acusava de rebelião arrogante contra o Senhor, como aquela dos filhos de Eli, para a qual nenhuma expiação era possível (1 Samuel 2.25; 3.13,14). Indagamo-nos por quanto tempo uma resolução final pode ser retardada. Não obstante, de fato nenhuma tentativa houve para matar Jesus, uma vez que Ele estava na Galiléia. Marcos faz-nos saber que a oposição a Jesus vem de Jerusalém (3.22), e nos relembra isto novamente no capítulo 7, quando "os fariseus e alguns escribas, vindos de Jerusalém" (7.1) acusam Jesus de ensinar a impureza, e Ele replica que eles ensinam a desobediência (7.5-9). Com este conflito tramado nos bastidores, não nos surpreende a reação dos discípulos quando Jesus decide viajar a Jerusalém: eles "se admiravam e o seguiam tomados de apreensões" (10.32). Por esse tempo, contudo, surgem dois desdobramentos adicionais. Primeiramente, a oposição a Jesus se estende. Sua família pensa que Ele está louco (3.21). Os gerasenos pedem que Jesus se afaste deles (5.17). Sua própria cidade ficou escandalizada com seus atos (6.3). Até os discípulos estavam arriscados a ser contaminados com o "fermento dos fariseus" (8.15), e Pedro tenta fazer o trabalho de Satanás contra Jesus (8.33). A desgraça é que esta é uma "geração adúltera e pecadora" (8.38), e todos os que a ela pertencem— inclusive os discípulos de Jesus—se oporão a Ele finalmente. O segundo desdobramento ocorre repentina e inesperadamente quando Pedro, falando por todos os discípulos, declara que Jesus é "o Cristo" (8.29). Jesus imediatamente anuncia sua morte próxima: "Então começou ele a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do homem sofresse muitas coisas, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas, fosse morto e que depois de três dias ressuscitasse" (8.31). Assim, o que os fariseus e herodianos estão tramando por suas próprias razões deve acontecer, porque "está escrito do Filho do homem que ele deva padecer muito e ser aviltado" (Almeida, ed. 1948). A ação transfere-se assim para Jerusalém com um espantoso sentido de inevitabilidade. Por razões inteiramente humanas e políticas, as autoridades querem matar Jesus, enquanto Ele caminha determinado em direção à sua

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armadilha por razões inteiramente celestiais e escriturísticas. Ele reitera a predição de seu sofrimento, morte e ressurreição iminentes em três momentos seguidos antes de chegar finalmente a Jerusalém (9.31; 10.32-34; 10.45). O último destes pronunciamentos é particularmente significativo: "Quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós, será servo de todos. Pois o próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos" (10.43-45). Somente aqui Marcos nos oferece a compreensão das Escrituras, nas quais estava escrito que o Cristo devia morrer. Nesta afirmação Jesus recorre à expressão de Isaías 53, e claramente se identifica como o "servo do Senhor", que carrega os pecados do povo de Deus enquanto é "desprezado e rejeitado" e conduzido a uma morte violenta (53.3ss). Definitivamente, o conflito com as autoridades alcança uma nova intensidade quando Jesus começa a ministrar em Jerusalém (capítulos l i e 12). Mas a história tem uma nova e dramática reviravolta quando Jesus repentinamente anuncia que sua morte não será causada apenas pela oposição das autoridades religiosas: um dos Doze vai traí-lo. A identidade do traidor não é revelada, e todos os discípulos professam total lealdade. Contudo, no final, não há muita diferença entre Judas, que o abandonou e aliou-se à oposição, e os demais, que o abandonaram e fugiram. E assim, no final das contas, não há muita diferença entre os discípulos que consentem em sua morte, e seus francos opositores que a engendram. A questão é que todos, quer discípulos ou inimigos, estão igualmente necessitados de que alguém morra por eles, que dê "sua vida em resgate de muitos" para o perdão dos pecados. Para Marcos é primacialmente sua morte que valida a alegação de que Jesus é "o Cristo, o Filho de Deus" (1.1). Logo após sua morte, o centurião postado junto à cruz se convence da verdade: "Verdadeiramente este homem era Filho de Deus" (15.39). 3. O custo do discipulado Já tivemos a oportunidade de considerar o interesse de Marcos nas dificuldades e desafios do discipulado, bem como sua simpatia ante as fraquezas dos primeiros apóstolos. Esta simpatia, porém, não o leva a diminuir a exigência imposta aos discípulos de Jesus. Isto pode ter sido uma tentação para ele, naqueles dias iniciais quando ele fugiu da Panfília e voltou a Jerusalém. A fé cristã exige realmente tal sacrifício? Mas, ao tempo em que escreveu seu Evangelho, Marcos teve de enfrentar e superar seu medo; e, talvez como resultado de sua batalha, ele apresenta mais agudamente do que outros evangelistas o alto custo requerido dos seguidores de Jesus: "Então, convocando a multidão e juntamente os seus discípulos, disse-lhes: 'Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser, pois, salvar a sua vida, perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho, salvá-la-á'" (8.34,35). Jesus faz esta convocação logo depois de anunciar sua própria morte pela primeira vez. Seus discípulos devem seguir o mesmo caminho, levando sua cruz, prontos para perder suas vidas por Ele e pelo evangelho. O título da autobiografia de Frank Chikane, o Secretário Geral da Concílio Africano de Igrejas, será também o lema de suas vidas: Minha Vida Não Me Pertence! O significado desta auto-renúncia é explanado mais claramente em Marcos

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10.17ss. O jovem rico é desafiado: "Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; então vem, e segue-me" (10.21). Ele, porém, relutou. Pedro afirma: "Eis que nós tudo deixamos e te seguimos" (10.28), e então ouve a promessa de Jesus de que "ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos, por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, [e] com [eles] perseguições; e no mundo por vir a vida eterna" (10.29,30). Os discípulos viviam numa cultura em que as raízes do lar e da família eram muito importantes. Na verdade, os judeus acreditavam que a terra de sua família fora dada a eles por Deus, e assim, basicamente, não deveria ser doada ou vendida. Apesar disso, Jesus os convida a dar as costas a tudo por sua causa. É verdade que Ele promete que eles receberão outro tanto de volta. Porém o que eles receberão não é o mesmo que eles abandonam. Eles abandonam suas famílias humanas, e recebem a família de Deus (3.34,35). E também sofrerão "perseguições", porque estarão desafiando uma "geração adúltera e pecadora", e isto lhes acrescenta mais do que as coisas a que renunciam. Nem todo cristão é instado a deixar lar e família por causa de Jesus. Porém Marcos foi. Ele teve de deixar a segurança e riqueza do lar de sua família em Jerusalém e viajar, primeiro com Barnabé a Chipre, e depois disso não sabemos aonde, exceto que incluía a Ásia Menor, e terminou em Roma com Pedro e Paulo. Ele se tornou um "pescador de homens" ao lado eles, estendendo as mãos, como seu Senhor, aos necessitados e perdidos, esquecido de si mesmo, renunciando a todas as coisas para que possa receber muito mais. E ele também atrai pessoas a Cristo, através de seu soberbo Evangelho, que fala tão vividamente hoje como falou a Mateus e Lucas quando eles estavam buscando inspiração para seu próprio trabalho.

Leitura adicional
Menos exigente:

Donald English, The Message of Mark. The Mystery of Faith (série The Bible Speaks Today) (Leicester: IVP, 1992) R. T. France, Divine Government. God's Kingship in the Gospel of Mark (Londres: SPCK, 1990)

Mais exigente, obras eruditas:
Ernest Best, Mark. The Gospel as Story (Edimburgo: T. & T. Clark, 1983) Adela Yarbro Collins, The Beginning of the Gospel. Probings of Mark in Context (Minneapolis: Fortress, 1992) Morna D. Hooker, The Message of Mark (Londres: Epworth Press, 1983) Jack D. Kingsbury, Conflict in Mark. Jesus, Authorities, Disciples (Minneapolis: Fortress, 1989)

Mateus e sua Mensagem
Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo. (Mateus 4.23)

Se o de Marcos é o Evangelho de Cristo, o Servo Sofredor, e o de Lucas o Evangelho de Cristo, o Salvador universal, o de Mateus é o Evangelho de Cristo, o Rei que governa. O "Reino do céu" é o grande tema do Evangelho de Mateus, mas para Mateus sua importância repousa na identidade de Jesus. Jesus é o Rei, que, por seu nascimento, por seu batismo, pela escolha e ensino dos discípulos, por suas obras de poder e misericórdia, e supremamente por sua morte e ressurreição, fez do Reino do céu tanto uma experiência presente para ser desfrutada como uma esperança futura para ser esperada. (Mateus segue o costume judaico de referir-se ao "Reino do céu" e não ao "Reino de Deus".) Durante séculos os cristão acreditaram que o Evangelho de Mateus tinha sido o primeiro a ser escrito, e, por conseguinte, o mais importante dos quatro. Porém nos últimos 150 anos este ponto de vista tem sido amplamente abandonado, e muitos estudiosos—não todos—hoje consideram o de Marcos como o primeiro Evangelho escrito. O argumento que provocou esta mudança de perspectiva pode ser facilmente exposto. Dos 662 versículos de Marcos, cerca de 600 aparecem também em Mateus. Faz pouco sentido imaginar que Marcos copiou 600 versos de Mateus, acrescentando apenas alguns outros poucos, publicando-o como um Evangelho separado. E mais plausível admitir que Mateus usou Marcos como base de uma produção de maior vulto. Seguindo basicamente o modelo de Marcos, Mateus suplementa-o com material adicional que torna seu Evangelho quase duas vezes mais extenso que o de Marcos (1069 versículos no total). Em virtude do seu íntimo relacionamento com Marcos, pode-se identificar alguns dos temas mais sensíveis ao coração de Mateus, que certamente dedicou especial atenção ao material escolhido, sobre o qual acrescenta seu relato.

Quem era Mateus?
Como Marcos, ele mantém silêncio sobre sua própria identidade. Ele era claramente um professor talentoso, que almejou comunicar o ensino de Jesus e incentivar a obediência a ele. Isto, porém, significava concentrar sua atenção em Jesus e evitá-la para si mesmo. Sobre isto ele registra as próprias palavras

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de Jesus: "Nem vos chameis mestres, porque um só é o vosso Mestre, que é o Cristo. Porém o maior dentre vós será vosso servo. E o que a si mesmo se exaltar será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar será exaltado" (23.1012). Este foi o modelo adotado por Mateus, pois não há nenhuma indicação de autoria dentro do seu Evangelho. Desde o início, contudo, o título "Segundo Mateus" foi vinculado ao seu Evangelho por outros. E precisamente porque Mateus é uma figura tão obscura entre os apóstolos, é difícil saber por que seu nome foi usado, a menos que houvesse alguma sólida razão para a tradição. O primeiro testemunho escrito vem de Papias, bispo de Hierápolis, cuja "Explanação das Palavras do Senhor" foi publicada por volta de 130 d.C. Por muito tempo ele confundiu os estudiosos com seu comentário: "Mateus organizou [ou 'colecionou'] as palavras do Senhor em dialeto [ou 'estilo'] hebraico, e cada qual as interpretou da melhor maneira que pôde." De fato, parece improvável que o Evangelho de Mateus tenha sido originalmente escrito em hebraico; ele não contém nenhuma das marcas típicas que possam sugerir isto. Entretanto, apesar do testemunho confuso de Papias, ele firmemente considera Mateus o autor deste Evangelho. Alguns estudiosos, contudo, rejeitaram este antigo testemunho, principalmente em razão de Mateus, que foi um dos apóstolos, dificilmente ter de depender tão amplamente do Evangelho de Marcos, que não era apóstolo. Esta objeção, porém, a. não leva em conta a extensa capacidade literária de Marcos ao criar a f o r m a do Evangelho, b. não admite a real possibilidade de que Mateus quis endossar o trabalho de Marcos, que foi baseado na pregação de Pedro, e c. subestimar em que extensão o Evangelho de Mateus é muito diferente do de Marcos. Ele não é de modo algum apenas uma expansão ou suplemento do Evangelho de Marcos, mas conta a história no feitio bem distinto de Mateus. O que sabemos sobre Mateus? Podemos traçar quaisquer aspectos sob os quais ele foi preparado por Deus para ser o autor deste Evangelho? Dispomos de pouco conhecimento seguro a respeito dele, mas podemos reunir mais do que parece à primeira vista quando lemos seu Evangelho à luz do que sabemos. 1. Mateus era judeu. "Mateus" é um nome hebraico. Vários de seus companheiros apóstolos tinham tanto nome hebraico como grego, significando suas duplas raízes culturais. Porém o outro nome de Mateus também era hebraico. Ele é chamado "Levi" por Marcos e Lucas em suas narrativas da escolha dos apóstolos por Jesus (Marcos 2.14; Lucas 5.27-29). Seu profundo interesse pelo Velho Testamento é evidente em seu Evangelho, como podemos constatar. Um dos seus propósitos ao escrever foi indubitavelmente persuadir seus compatriotas judeus a crerem que Jesus é "o Cristo, o Filho do Deus vivo" (16.16). Mas antes em sua vida Mateus foi um judeu incomum. Porque— 2. Mateus era um cobrador de impostos. Isto é revelado numa passagem em que ele figura em seu Evangelho. "Partindo Jesus dali, viu um homem, chamado Mateus, sentado na coletoria, e disse-lhe: 'Segue-me!' Ele se levantou e o seguiu" (Mateus 9.9). Por meio de Marcos e Lucas ficamos sabendo que foi Mateus quem ofereceu um banquete, no qual

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Acréscimos de Mateus ao Evangelho de Marcos
M a t e u s p a r e c e ter s u p l e m e n t a d o M a r c o s d e l i b e r a d a m e n t e nos s e g u i n t e s p r i n c i p a i s episódios: * Enquanto Marcos se refere de passagem ao ambiente da família de Jesus (6.3), M a t e u s começa a história com o nascimento de Jesus, dedicando dois capítulos inteiros ao evento. * Enquanto Marcos se refere muito brevemente e m i s t e r i o s a m e n t e às t e n t a ç õ e s de J e s u s (1.12,13), Mateus narra toda a história (4.1-11). * Marcos menciona freqüentemente que Jesus ensinava as multidões reunidas em torno dele (ex.: 1.21; 2.13; 4.1; 6.6; 6.34), porém registra surpreendentemente pouca coisa do conteúdo de seu ensino. Mateus supre esta falta incluindo cinco grandes sermões de Jesus, possivelmente coleções dos ditos de Jesus cuidadosamente compilados ou por Mateus ou numa data anterior: 1. 5.3-7.27, o "Sermão do Monte" 2. 10.5-42, instruções para a missão dos Doze 3. 13.3-52, parábolas do Reino 4. 18.2-35, instruções sobre a vida da igreja 5. 23.1-25.46, o julgamento futuro e a salvação * A narrativa de Marcos sobre a ressurreição é muito b r e v e e não inclui n e n h u m a a p a r i ç ã o de J e s u s ressurreto. Mateus continua a história até ao ponto em que os discípulos encontram Jesus na Galiléia (predito em Marcos 14.28, mas não registrado ali), e envia-os à sua futura missão (Mateus 28.1-20). Além disso, há numerosos pequenos acréscimos, alguns dos quais c o m e n t a r e m o s no curso deste capítulo. N e m t o d o s os e s t u d i o s o s a c e i t a m q u e M a t e u s deliberadamente suplementou Marcos. Recentemente, um estudioso evangélico, John Wenham, publicou uma pesada defesa do ponto de vista de que Mateus escreveu antes de Marcos (veja "Leitura adicional" no final deste capítulo).

Jesus e seus discípulos encontraram "muitos publicanos e pecadores" (9.10)— antes companheiros de Mateus. Ele chama a si mesmo "Mateus, o publicano" na lista dos apóstolos, em Mateus 10.3. O que significava ser um cobrador de impostos naquele tempo? O Império Romano tinha elaborado sistemas de cobrança de impostos, que variavam de um lugar para outro. Naqueles dias vários sistemas operavam na Palestina; a Judéia, ao sul, era diretamente governada por Roma, e isso significava que o governador romano e seus servidores civis eram responsáveis pela coleta de todos os impostos principais. Dois destes se destacavam, o imposto por cabeça arrecadado de todos os adultos e o imposto sobre a terra. Entretanto, os direitos para coletar alguns impostos menores—taxas aduaneiras devidas nos portos e nas principais estradas—eram arrematados pelos maiores licitantes. Zaqueu havia adquirido o direito de coletar esses impostos em Jericó (Lucas 19.1-10). Ele era chamado "maioral dos publicanos" e "rico" (19.2). Podemos imaginar que ele comandava uma organização de bom porte para cobrir toda a área de Jericó, por onde passavam muitas mercadorias. A Galiléia, ao norte, era governada por Herodes Antipas, sob a autoridade direta de Roma. Aqui, Herodes era responsável pela cobrança dos impostos e pela remessa anual a Roma de uma soma global fixa. Não sabemos se ele cobrava os mesmos tipos de impostos dos romanos da Judéia, mas é claro que usava uma grande força de trabalho para efetuar a coleta. "Muitos" publicanos se reuniram na casa de Mateus para encontrar-se com Jesus, e podemos imaginar que somente os da vizinhança imediata de Cafarnaum teriam comparecido. Não sabemos se Herodes empregou todos os seus cobradores de impostos diretamente como servidores civis, ou se, como os romanos, leiloou os direitos para a cobrança. Uma rápida referência de Mateus "aos que serviam" Herodes, em 14.2 (somente em Mateus), pode sugerir que ele tenha sido diretamente empregado pelo rei: teria ele ouvido de um de seus antigos colegas o que Herodes estava dizendo a respeito de Jesus?

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Mas, quer como empregados ou como avulsos, os cobradores de impostos eram sumamente impopulares e vistos como traidores da causa judaica. Muitos deles usavam sua posição para levantar dinheiro extra para si mesmos (naturalmente, era este um dos principais motivos para comprar os direitos de cobrança). Porém, mesmo que não o fizessem, eram vistos como colaboradores dos romanos que ocupavam o poder, ou de Herodes, que somente governava com permissão de Roma e não era judeu. Os judeus somente assumiriam tal emprego se amassem mais o dinheiro do que sua herança nacional como judeus. Os rabinos ensinavam que era perfeitamente admissível enganar um cobrador de impostos. Eles colocavam a "cobrança de impostos" ao lado da prostituição entre as ocupações que nenhum judeu cumpridor da lei podia aceitar—uma vez que isso significava o mesmo que tratar com gentios e trabalhar aos sábados—mantendo-se totalmente separado da ganância e da injustiça. Assim, pois, os publicanos formavam uma classe à parte, banida, afastada da sociedade judaica. Sua presença nas sinagogas seria inaceitável. Assim, em sua maioria, os publicanos, por estas várias razões, tinham pouco interesse na Lei e na adoração do Deus de Israel. Eles punham seus corações nas riquezas terrenas, não nas espirituais. De tudo isto podemos formar um quadro muito claro de Mateus antes de seu encontro com Jesus. Mas a habitual negligência dos cobradores de impostos de tradição judaica dificilmente se enquadra no Evangelho de Mateus, que é abundante em citações do Velho Testamento e repeito pela Lei. Como Mateus conseguiu desenvolver isto? 3. Mateus experimentou uma conversão revolucionária. O encontro de Mateus com Jesus transformou sua vida. Em alguns casos, seus companheiros de apostolado continuaram praticando suas profissões depois de se tornarem discípulos de Jesus. Pedro manteve sua casa em Cafarnaum, e provavelmente continuou em seu negócio de pescaria (compare com João 21.3). Porém Mateus deixou definitivamente seu emprego de cobrador de impostos. Concluímos isto com base em dois pontos de evidência. Primeiro, com ele no grupo dos doze apóstolos estava "Simão o Zelote" (Mateus 10.4)—um exmembro do movimento revolucionário que se opunha à submissão a Roma com violência. Antes de se encontrarem com Jesus, Simão teria visto Mateus com profundo ódio como um colaborador traiçoeiro. Mateus intencionalmente menciona tanto sua profissão como a de Simão em sua lista de apóstolos, em 10.2-4, com o propósito de sublinhar a reconciliação de ambos. Eles não poderiam estar juntos no apostolado, se os dois não tivessem abandonado suas vidas anteriores para seguir Jesus. Segundo, unicamente Mateus se refere ao ensino direto de Jesus sobre o pagamento de imposto (17.24-27). Apenas ele registra este incidente, em que Jesus paga o imposto para o templo (um encargo de todos os judeus adultos para manter o templo e seus serviços), mandando Pedro procurar uma moeda na boca de um peixe. A interpretação desta passagem é controvertida, porém o mais provável é que Jesus está declarando a isenção fundamental, tanto dele próprio como de seus seguidores, em relação a quaisquer impostos obrigatórios. Eles são os filhos de Deus, que é o Rei de toda a terra. Por isso, eles estão "livres" de tal sujeição. Não obstante, Deus provê o meio para o pagamento de tais impostos, apenas para evitar um insulto desnecessário à sociedade.

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P o d e m o s s u s p e i t a r q u e M a t e u s i n c l u i u e s t a h i s t ó r i a p o r q u e ela s i g n i f i c a v a m u i t o p a r a ele. E l e f o i l i b e r t a d o d a i m p o s i ç ã o d e t o d o a q u e l e s i s t e m a — n a realidade, libertado de servir a M a m o m , o deus do dinheiro (6.24). Vamos considerar a seguir c o m o a conversão de M a t e u s p o d e tê-lo afetado, b e m c o m o a o E v a n g e l h o q u e ele e s c r e v e u . M a s v a l e a p e n a p e r g u n t a r t a m b é m a r e s p e i t o d e s s a c o n v e r s ã o e m si: P o r q u e ele e s t a v a t ã o d i s p o s t o a a b a n d o n a r s e u n e g ó c i o n a q u e l e dia, q u a n d o o u v i u a p e n a s d u a s p a l a v r a s d e J e s u s : " S e g u e me"? A r e s p o s t a p o d e estar e m outra f i g u r a q u e d e s e m p e n h a u m p a p e l p r e p o n d e r a n t e e m seu E v a n g e l h o :

4. E provável que Mateus tenha sido profundamente influenciado por João Batista.
Esta possibilidade é especulativa, m a s a evidência aponta nesta direção. S o m e n t e Mateus inclui e m seu E v a n g e l h o a parábola dos dois filhos, e m 2 1 . 2 8 - 3 2 . N e l a , o p r i m e i r o f i l h o , q u e se r e c u s a a t r a b a l h a r n a v i n h a d e s e u p a i , m a s d e p o i s se a r r e p e n d e e v a i , é i d e n t i f i c a d o c o m o " p u b l i c a n o s e m e r e t r i z e s " , que aceitaram a pregação de João Batista. Eles estão agora "entrando no reino d e D e u s à f r e n t e d o s " líderes r e l i g i o s o s , q u e " n ã o se a r r e p e n d e r a m n e m c r e r a m " e m J o ã o . " A v i n h a " n o V e l h o T e s t a m e n t o é u m a f i g u r a d e Israel, o p o v o d e D e u s

Mateus, como Pedro, vivia em Cafarnaum. Excavações realizadas na cidade descobriram o lugar que foi conhecido nos tempos antigos como a casa de Pedro, onde Jesus deve ter estado (Mateus 8.14).

(p.ex.: I s a í a s 5 . 1 - 7 ) . R e f l e t e isto a p r ó p r i a e x p e r i ê n c i a d e M a t e u s ? E s t a v a e l e e n t r e o s c o b r a d o r e s d e i m p o s t o s q u e , c o n f o r m e L u c a s , se a p r e s e n t a r a m p a r a ser b a t i z a d o s p o r J o ã o ? Q u a n d o eles perguntaram a J o ã o c o m o d e v e r i a m mostrar seu arrependimento, ele l h e s d i s s e : " N ã o c o b r e i s m a i s d o q u e o e s t i p u l a d o " ( L u c a s 3 . 1 3 ) . O a r r e p e n d i m e n t o p a r a M a t e u s p o d i a ter s i d o m a i s p r o f u n d o d o q u e a p e n a s c o r t a r o q u e c o b r a v a a m a i s . E s t a e r a t a l v e z o p o n t o e m q u e ele se t o r n o u m a i s s é r i o c o m r e s p e i t o à L e i , c o n v e n c i d o p o r J o ã o d e s u a d e s c o n s i d e r a ç ã o p o r ela, p r o n t o p a r a e s t u d á - l a e o b e d e c e r a ela d e u m a n o v a f o r m a — n a r e a l i d a d e , p r o n t o

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para entrar na vinha, arrependido de sua desobediência. Ele teria ainda ouvido o testemunho de João sobre Jesus: "Aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, cujas sandálias não sou digno de levar" (Mateus 3.11), e teria sido encaminhado por ele. Mateus ouviu Jesus pregar quando Ele "percorria toda a Galiléia" (4.23) repetindo a mensagem de João: "Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus" (4.17; compare com 3.2). Gradualmente ele foi sendo preparado para alcançar um degrau posterior, de João Batista a Jesus. Assim, parece provável que a conversão de Mateus passou por dois estágios, primeiro o da Lei, induzido por João Batista, e depois o de Cristo, movido pela convocação de duas palavras. De repente Mateus se decidiu a abandonar tudo e seguir Jesus. Em poucas semanas ele se viu incluído numa missão com seus companheiros discípulos, avisado de que não fizesse nenhuma provisão para a viagem, nenhuma proteção contra o perigo, nem prévio arranjo para hospedagem (Mateus 10.9-11). Mateus enfatiza muito mais do que Marcos e Lucas o autosacrifício e desamparo que Jesus exigiu de seus discípulos naquela missão. Isto deve ter sido extremamente difícil para Mateus e deve ter evidenciado para ele a enorme mudança que teve lugar em sua vida. Da riqueza para a pobreza deliberada, da autodeterminação para o discipulado, da segurança para a vida perigosa da fé, e, acima de tudo, do eu para Cristo—esta foi a conversão de Mateus. Podemos nós perceber outros aspectos sob os quais esta conversão influenciou tanto Mateus como seu Evangelho?

O novo Mateus
Três características importantes do Evangelho de Mateus podem ser delineadas a partir da sua experiência de conversão. 1. Ele aprendeu o que é misericórdia e perdão. Estas duas virtudes são temas importantes de seu Evangelho. Mateus usa o termo "dívidas", e não "pecados" na versão da Oração do Senhor que registra: "Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores" (Mateus 6.12; compare com Lucas 11.4). Como cobrador de impostos, ele nunca perdoara dívidas—e como poderia? Mas chegou a reconhecer a enorme dívida não paga que tinha para com Deus, a dívida do amor e da obediência. Apenas Mateus registra a parábola do credor incompassivo (Mateus 18.2335). Em sua vida pregressa ele deve ter exercido com freqüência o papel do servo: "Agarrando-o, o sufocava, dizendo: 'Paga-me o que me deves'" (18.28). Mateus talvez nunca tenha agido tão violentamente, mas devia estar acostumado a pressionar as pessoas a pagarem, mesmo quando elas não tinham condições de fazê-lo. Agora, entretanto, ele aprendeu a lição dessa parábola. De muito maior importância é a dívida para com Deus, e nós devemos mais, muito além do que jamais poderíamos pagar. Se aceitamos o perdão que Ele nos oferece como dádiva, podemos recusar-nos a perdoar os outros? De igual modo, somente Mateus registra a parábola dos trabalhadores na vinha (20.1-16). Indubitavelmente, ele deve ter ouvido muitas vezes tais queixas de parcialidade, e talvez ele próprio tenha tratado pessoas injustamente. Agora, porém, o paradoxo o impressiona profundamente: injustamente, com

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parcialidade, ele recebeu a benevolência de Deus, que não exige injustamente, mas injustamente concede muito mais do que merecemos (20.15). Deve ter havido uma profusão de perdões dados e recebidos entre os apóstolos quando juntamente se instalaram em sua nova vida como discípulos de Jesus. Mateus veio de Cafarnaum, como Pedro e André, e Tiago e João. Ele era o "seu" cobrador de impostos—ou, de qualquer forma, conhecido deles como tal. Pode ter havido velhas discussões por acertar, pecados a confessar, injustiças a reparar. Certamente Mateus e Simão o Zelote tinham muito de que se arrepender mutuamente. Um versículo parece ter significado muito para Mateus em conexão com tudo isto. Duas vezes ele registra a citação feita por Jesus de Oséias 6.6: "Misericórdia quero, e não sacrifício." Nenhum dos outros evangelistas menciona o uso que Jesus fez deste versículo. Na primeira ocasião, Mateus relata como Jesus citou este versículo em sua própria casa, durante o banquete que ofereceu aos seus antigos colegas cobradores, logo depois de ter-se tornado discípulo. Alguns fariseus locais expressaram claramente sua desaprovação ao evento perguntando a outros discípulos de Jesus: "Por que come o vosso Mestre com os publicanos e pecadores?" (9.11). Mateus descobriu que os fariseus não gostavam de Jesus tanto quanto não gostavam dele. A réplica de Jesus penetrou claramente em sua memória: "Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. Ide, porém, e aprendei o que significa: 'Misericórdia quero, e não sacrifício'; pois não vim chamar justos, e sim pecadores [ao arrependimento]" (9.12,13). Ele tinha recebido esta misericórdia de Jesus—não apenas porque Jesus estava desejoso de associar-se com ele, mas muito mais porque, por meio de Jesus, ele ficou sabendo que sua enorme e inestimável dívida tinha sido paga. Os anos que ele viveu em desobediência e ganância tinham sido perdoados. Mateus registra o uso posterior de Oséias 6.6 por Jesus, quando Ele estava sendo criticado pelos fariseus por permitir que seus discípulos colhessem espigas de milho no sábado (12.1,2). Após relacionar alguns exemplos similares de quebra do sábado (12.3-6), Jesus conclui: "Se vós soubésseis o que significa: 'Misericórdia quero, e não sacrifício', não teríeis condenado a inocentes. Porque o Filho do homem é senhor do sábado" (12.7,8). A misericórdia que Mateus tinha com freqüência negado como cobrador de impostos ocupa agora o centro do palco em sua vida. Mas posteriormente ele aprendeu que Jesus é aquele que decide o que é misericórdia e como ela será mostrada—na realidade, como textos como Oséias 6.6 devem ser interpretados. Jesus—o "Filho do homem"— é o Senhor que decide tais coisas. Jesus, como o intérprete da Escritura, é o tema central no Evangelho de Mateus, como veremos. 2. Ele desenvolveu uma nova visão do Rei. Não sabemos se Mateus , o cobrador de impostos, tinha sido alguma vez um "herodiano" entusiasta—"herodiano" era o nome dado ao partido monarquista que apoiava a dinastia de Herodes (compare com Mateus 22.16; Marcos 3.6). Mas, se ele chegou a ser, sua conversão assinalou uma dramática mudança também aqui. Mateus, o evangelista, não tinha a mínima confiança em autoridade política. Na verdade, era bem o contrário. Ele registra o dissabor de Jesus a respeito de Israel mais enfaticamente do que os outros evangelistas: "Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor" (9.36). O governo de Herodes deixou o povo

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efetivamente desamparado, aflito e perdido. Mas Deus agiu para salvar seu povo. Mateus apresenta Jesus, em contraste com Herodes, como o verdadeiro Rei de Israel. Logo no início, ele dá a Herodes seu título completo, "rei Herodes", quando ele introduz "o recém-nascido Rei dos judeus" (2.1,2). Herodes percebe a ameaça à sua posição e faz o máximo que pode para matar esse Rei rival (2.16-18). Mas fracassa—e fracassa também em adiar sua própria e próxima morte, que Mateus registra talvez com uma ponta de sarcasmo (2.19). Os estudiosos têm comentado fartamente a proeminência do tema da realeza em Mateus. Sua importância é assinalada logo no primeiro versículo de Mateus, que dá seu próprio título ao Evangelho: "Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão" (1.1). Davi e Abraão são destacados como principais ancestrais de Jesus. A genealogia que se segue em Mateus 1.2-17 é então cuidadosamente construída para colocar ênfase sobre Jesus como o Rei prometido: "De sorte que todas as gerações, desde Abraão até Davi, são catorze; desde Davi até ao desterro para a Babilônia, catorze; e desde o desterro da Babilônia até Cristo, catorze" (1.17). Jesus é "o Filho de Davi" que revive a linha de reis quebrada 600 anos antes, quando os babilônios devastaram Jerusalém. Ele cumpre todas as promessas feitas por meio dos profetas de que um grande "Davi" viria para governar não apenas Israel, mas o mundo inteiro. Depois disto, "Filho de Davi" tornou-se o nome padrão usado pelos rabinos para referir-se ao Messias (compare com Mateus 22.42). Este é também um dos títulos favoritos de Mateus para Jesus. Ele registra seu uso em dez ocasiões (ao passo que Marcos e Lucas apenas somam sete entre si). Ele tem uma ligação reiterada com atos de misericórdia para com os enfermos e pobres (veja os exemplos no quadro a seguir), pois este era um dos papéis principais do rei no Velho Testamento: cabia-lhe defender o fraco e o desamparado. Portanto, o que o "rei" Herodes deixou de fazer, Jesus cumpre perfeitamente. Herodes, de fato, nunca reivindicou ser "filho de Davi". Ele não podia fazê-lo, porque era um idumeu, não um judeu, devendo seu trono inteiramente aos romanos, e por esta razão muitos judeus contestavam seu título e rejeitavam seu governo. Mateus deixou de prestar serviços a um embusteiro falso e inútil para servir ao verdadeiro Rei de Israel. Este "verdadeiro Rei de Israel" governou muito além do minúsculo reino de Herodes. Era parte da expectativa do Velho Testamento que o "Davi" que viria seria um Rei universal. Aqui o cenário do cobrador de impostos pode até haver ajudado um pouco, pois ele teria roçado os ombros com muitos não-judeus, e pode, portanto, ter sido mais fácil para ele do que para os outros aceitar que os gentios seriam levados a desfrutar o governo deste Rei. Repassaremos o tema da "Realeza" em Mateus com mais pormenores mais adiante, quando voltarmos às principais características de sua mensagem. 3. Ele descobriu um novo dom de ensinar. Como vimos acima, é altamente improvável que Mateus, o cobrador de impostos, tivesse tido qualquer oportunidade de estudar a Lei em qualquer profundidade, quanto mais ensiná-la. E, no entanto, seu Evangelho é nitidamente o produto de alguém tanto afeiçoado à Lei como dotado para o ensino. Devemos concluir, pois, que Mateus descobriu um dom do qual não tinha estado consciente

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"Filho de Davi"
E n t r e os p r o f e t a s do Velho T e s t a m e n t o a expectativa se desenvolveu gradualmente no sentido de que Deus traria um poderoso "Davi", cujo governo seria muito maior do que o de q u a l q u e r " f i l h o de D a v i " p r e c e d e n t e . E s t a profecia é encontrada m e s m o quando ainda h a v i a d e s c e n d e n t e s de D a v i r e i n a n d o e m Jerusalém (Isaías 11.1-5; 16.5; Oséias 3.5), porém desenvolvida naturalmente c o m mais vigor quando a linhagem davídica foi encerrada em 587 a.C. pelos babilônios: veja Jeremias 23.5; 30.9; 33.15-22; Ezequiel 34.23,24; 37.24,25; Zacarias 12.7-13.1. O Salmo 2 expressa a visão que sustenta estas profecias. Ali o Rei é chamado "o ungido" de D e u s — i s t o é, seu " C r i s t o " . E o Rei f a l a : "Proclamarei o decreto do Senhor: Ele m e disse: 'Tu és meu Filho, eu hoje te gerei.' Pede-me, e eu te d a r e i as n a ç õ e s p o r h e r a n ç a , e as extremidades da terra por tua possessão. C o m vara de ferro as regerás, e as despedaçarás como um vaso de oleiro" (Salmo 2.7-9). Este salmo é citado com freqüência para referir-se a Jesus no Novo Testamento, e Mateus o reflete na chamada Grande Comissão, c o m a qual seu Evangelho termina: "Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: 'Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações...'" (28.18,19). Jesus é chamado "Filho de D a v i " em dez ocasiões no Evangelho de Mateus (1.1,20; 9.27; 12.23; 15.22; 20.30,31; 21.9,15; 22.42). E m nove delas, o nome é associado ao ministério de Jesus na cura e na atenção aos rejeitados, geralmente usadas num apelo a Ele: * 9.27, os dois homens cegos: "Tem compaixão de nós, Filho de Davi!" * 15.22, a mulher cananéia: "Senhor, Filho de Davi, t e m c o m p a i x ã o de m i m ! M i n h a f i l h a e s t á horrivelmente endemoninhada." * 20.30, dois outros homens cegos: "Senhor, Filho de Davi, tem compaixão de nós!"—um apelo que repetiram quando "a multidão" tentava silenciá-los (20.31). O cenário disto é o entendimento que havia da realeza no Velho Testamento, a qual fez do socorro aos fracos um dos papéis principais do Rei. Por exemplo: * Concede ao Rei, ó Deus, os teus juízos, e a tua justiça ao Filho do Rei. Julgue ele com justiça o teu povo, e os teus aflitos com eqüidade.... Julgue ele os aflitos do povo, salve os fdhos dos necessitados, e esmague o opressor" (Salmo 72.1-4).

quando sua vida estava voltada à busca do dinheiro. Qual é a evidência para a capacidade de ensinar de Mateus? P o d e m o s indicar q u a t r o c a r a c t e r í s t i c a s d o seu E v a n g e l h o : a. Sua narrativa estruturada. Notamos já a ênfase dada por Mateus ao ensino

de Jesus, q u e é apresentado e m cinco grandes sermões. Estes t e n d e m a tratar de d i f e r e n t e s t e m a s ( v e j a as c a r a c t e r í s t i c a s n o q u a d r o d a p á g i n a 3 1 ) . M a t e u s o u outros p o d e m tê-los compilado colocando juntos ditos a respeito de t e m a s c o r r e l a t o s , o u p o d e m e l e s ter-se b a s e a d o e m f a l a s a p r e s e n t a d a s r e a l m e n t e p o r J e s u s . C o m o u m p u b l i c a n o a l t a m e n t e i n s t r u í d o , M a t e u s p o d i a ter t o m a d o n o t a s à medida que escutava Jesus. D e qualquer modo, p o d e m o s facilmente imaginar a u t i l i d a d e d e tais c o m p i l a ç õ e s c o m o m e i o d e e n s i n a r a o s n e o c o n v e r s o s o s f u n d a m e n t o s d a v i d a e d a f é cristãs. b. Seu uso do Velho Testamento. M a t e u s trai a inclinação d o p r o f e s s o r ao

evidenciar a c o n e x ã o entre profecias e seu c u m p r i m e n t o e m Jesus. E m não m e n o s d o q u e o n z e o c a s i õ e s ele a s s o c i a u m e v e n t o a u m a p r o f e c i a c o m u m a afirmação como: "Isto aconteceu para se cumprir o que foi dito por interm é dio

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do profeta..." (21.4). Se a sugestão acima é correta—de que ele primeiro descobriu a Lei por meio de João Batista, e depois o Evangelho por meio de Jesus—então ela nos ajudaria a compreender sua nova e invulgar perspectiva a respeito da Lei. Ele a interpreta de uma forma ímpar, olhando-a através das lentes da fé e do discipulado cristãos. Novamente, examinaremos isto com mais detalhes abaixo. c. Sua preocupação acerca dos fariseus. Este é o correlativo do último ponto. Mais do que qualquer outro escritor do Evangelho, Mateus é crítico em relação aos fariseus e seu ensino. "Hostil" é a palavra usada por muitos estudiosos ao considerar passagens como Mateus 23.27,28: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos, e de toda imundícia. Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade." Os outros escritores do Evangelho hesitaram em incluir a série de "Ais" dirigidos aos fariseus, como ocorre nesta passagem (23.1-36). Porém Mateus não hesita. Entretanto, ele não inclui tais expressões para hostilizá-los, e sim pela preocupação diante do efeito terrível do ensino farisaico. • "Na cadeira de Moisés se assentaram os escribas e os fariseus. Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem. Atam fardos pesados [e difíceis de carregar] e os põem sobre os ombros dos homens, entretanto eles mesmos nem com o dedo querem movê-los" (23.2-4). • "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque fechais o reino dos céus diante dos homens; pois, vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando" (23.13). Os fariseus eram os legítimos mestres, mas sua mensagem era inanimada e aborrecível a todos os que a seguiam. Mateus aspirava substituir o ensino deles pelo seu. d. Seu estilo narrativo. Embora o Evangelho de Mateus seja muito mais longo que o de Marcos, ele geralmente conta as mesmas histórias com muito maior brevidade. Enquanto Marcos inclui muitos detalhes pessoais, Mateus limita a narrativa apenas aos pontos essenciais, porém em seguida freqüentemente expande o "ensino" extraído da história. Por exemplo, Marcos conta a história do menino possuído do demônio em 286 palavras, até o ponto em que os discípulos perguntam a Jesus: "Por que não pudemos nós expulsá-lo?" (Marcos 9.14-28). Aresposta de Jesus a esta pergunta em Marcos é simplesmente: "Esta casta não pode sair senão por meio de oração" (9.29). Mateus, ao contrário, usa somente 117 palavras para contar a história até o mesmo ponto (17.14-20), porém então registra a resposta de Jesus com bem mais amplitude: "Por causa da pequenez da vossa fé. Pois em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele passará. Nada vos será impossível" (17.20). Em todos estes aspectos Mateus expressa sua paixão pelo ensino e discipulado. Ele estava trabalhando para obedecer ao mandamento de Jesus, que ele mesmo registra, de "fazer discípulos de todas as nações" (28.19). Talvez ele pensasse de si mesmo como sendo o "escriba [professor da lei] versado no reino dos

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céus", em 13.52 (novamente, esta pequena parábola aparece somente em Mateus). Ele é "semelhante a um pai de família que tira do seu depósito coisas novas e coisas velhas". Mateus recorre aos tesouros do Velho Testamento para expor a fascinante riqueza de Jesus, que é a "pérola de grande valor" pela qual ele "vendeu tudo o que possuía" (13.45,46).

A mensagem de Mateus
Qual era, pois, a mensagem que ardia no coração de Mateus quando ele escreveu seu Evangelho?—a mensagem que sua experiência com Jesus o havia preparado para proclamar? Podemos resumi-la em cinco tópicos: 1. Jesus é o cumprimento do Velho Testamento. Esta característica da apresentação de Jesus por Mateus está na base de todas as outras. Por todo o seu Evangelho, o que Deus está fazendo em e através de Jesus é explanado e interpretado com referência às Escrituras. Mateus pressupõe que seus leitores estão familiarizados com o Velho Testamento e capacitados a tirar conclusões das citações com as quais ele tempera a história. Por exemplo, Mateus segue Marcos ao relatar as curas realizadas por Jesus ao entardecer (Marcos 1.32-34), porém então introduz uma citação: • "Chegada a tarde, trouxeram-lhe muitos endemoninhados; e ele meramente com a palavra expeliu os espíritos, e curou todos os que estavam doentes; para que se cumprisse o que fora dito por intermédio do profeta Isaías: 'Ele mesmo tomou as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças" (Mateus 8.16,17). Espera-se que os leitores de Mateus conheçam onde em Isaías está contida esta citação. E parte da descrição do "Servo do Senhor" em Isaías 53, o qual toma sobre si não somente as enfermidades do povo de Deus, mas também seus pecados, e que morre em favor dele. Por meio desta breve citação Mateus diz a seus leitores que Jesus é a figura predita por Isaías—uma importante e dramática proclamação. Em 12.15-21, Mateus cita extensamente parte de um dos "Cânticos do Servo", em Isaías (Isaías 42.1-4), aplicando-a novamente a Jesus. Mateus 5.17-20 é a mais importante passagem nesta conexão. "Não penseis que vim revogar a lei ou os .profetas: não vim para revogar, vim para cumprir", diz Jesus (5.17). Por seu comportamento e ensino muitos pensavam que Jesus estava opondo sua autoridade à do Velho Testamento. Mateus deseja pôr as coisas no devido lugar. Jesus não queria remover da Lei sequer um jota ou um til "até que tudo se cumpra" (5.18). Mas isto não quer dizer que as formas correntes de interpretação da Lei sejam aceitas. Longe disso. Já vimos a atitude altamente crítica de Mateus para com os fariseus, os guardiães contemporâneos da ortodoxia judaica. No restante do capítulo 5, Mateus registra a reinterpretação da Lei em seis áreas. Em alguns casos a reinterpretação é de uma abrangência tão ampla que é quase como se a própria Lei, e não apenas a aplicação dela pelos fariseus, está sendo posta de lado. Tal é o tom de autoridade com a qual Jesus ensina. A autoridade de Jesus equipara-se à da Lei, mas não a substitui. Contudo, por causa de sua autoridade como Rei e Filho de Deus, a Lei é reformada e redirecionada, de modo que, em lugar de enfatizar a diferença entre Israel e as nações gentílicas, ela é vista agora para incentivar o amor pelos inimigos (5.38-48) e como uma demolição da barreira entre judeus e gentios (veja aqui especialmente 15.1-28).

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A quem Mateus destina esta apresentação? Muitos estudiosos crêem que ele tinha em mente os cristãos, talvez especialmente os judeus-cristãos que precisavam ser convencidos de que sua fé cristã não estava em conflito com sua herança judaica. Porém parece provável que Mateus também queria convencer os judeus descrentes, e que isso era parte de sua estratégia para mostrar que Jesus cumpre perfeitamente as expectativas do Velho Testamento. Que Mateus tinha em mente os judeus é sugerido pelas passagens 27.62-66 e 28.11-15, nas quais Mateus se empenha em explicar a origem e falsidade da explanação judaica corrente sobre a ressurreição. Descobrimos do cristão apologista Justino Mártir, do segundo século, que escreveu por volta do ano 135 d.C., que os judeus ainda estavam dizendo que os discípulos tinham roubado o corpo de Jesus do túmulo. Se Mateus queria retrucar esta falsa acusação, então parece provável que outras características do seu Evangelho, e em particular seu tratamento do Velho Testamento, teriam também o objetivo de convencer os judeus cépticos. Descobriremos mais sobre o tratamento da Lei por Mateus à medida que delinearmos outros de seus temas centrais: 2. Jesus é o Rei! "Daí por diante passou Jesus a pregar e a dizer: ' Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus'" (4.17). De longa data se reconhece que "o reino dos céus" é um tema crucial em Mateus. Ele é importante para todos os evangelistas, mas acima de tudo para Mateus. Ele usa a expressão cinqüenta vezes, em comparação com quinze de Marcos e trinta e oito de Lucas. Quando colocamos ao lado desta estatística a proeminência do título real "Filho de Davi" (veja acima), vemos claramente quão importante para Mateus é a apresentação de Jesus como Rei. Uma breve consideração sobre o cenário do Velho Testamento é aqui necessária. Deus é freqüentemente retratado como "Rei" no Velho Testamento, e seu "Reino" é um tema poderoso na teologia do Velho Testamento. As palavras grega e hebraica geralmente traduzidas por "reino" têm ambas um interessante significado duplo, que é muito importante para a compreensão tanto do Velho Testamento como da proclamação de Jesus. Elas significam tanto "domínio" (região ou território dominado por um soberano) como "governo" (guia, controlador, legislador), senhorio e atividade própria do rei. No Velho Testamento isto significa que a. Deus é descrito reinando sobre o mundo inteiro (p.ex. Salmos 47; 98-4-6; 99.1); b. Israel é imaginado como o domínio especial de Deus, o lugar onde seu reinado se expressa mais claramente (p.ex. 1 Samuel 8.7; 12.12; Salmo 48.1,2); c. espera-se o dia em que todas as nações se submeterão ao governo de Deus, isto é, quando seu domínio se estenderá para cobrir toda a terra, do mesmo modo que agora Ele reina especialmente sobre Israel. Este Reino vindouro também marcará a libertação final do próprio Israel (p.ex. Salmo 47.7-9; Isaías 52.7-10; Zacarias 9.9-12). Este Reino de Deus esperado é marcado por quatro características no Velho Testamento: justiça (p.ex. Jeremias 23.5,6), paz (p.ex. Ezequiel 34.23-31), estabilidade (p.ex. Isaías 9.7), e universalidade (p.ex. Zacarias 9.10). No tempo de Jesus a expectativa desse futuro "Reino de Deus" era forte, mas as opiniões variavam a respeito de como ele viria. Alguns o entenderam politicamente, e visualizaram o dia em que Israel ficaria livre de todos os seus

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inimigos e seria vingado aos olhos do mundo. Alguns pensavam mesmo que poderiam apressar a vinda do Rei pegando em armas contra os romanos. Outros, porém, o entenderam espiritualmente, e anteviram um tempo em que Deus finalmente salvaria Israel do pecado e traria as nações gentias a conhecê-lo também. Por isso, quando Jesus anunciou que "está próximo o reino dos céus" (4.17), as pessoas reagiram com ansiedade. Mas precisavam aprender o que Jesus entendia por Reino: político ou espiritual? Mateus, de igual modo, precisava revelar a natureza desse Reino claramente aos seus leitores. Ele diz quatro coisas sobre ele: a. Ele focaliza a renovação espiritual de Israel. Mateus mostra Jesus ministrando quase exclusivamente para Israel. "Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel", diz Ele (15.24; compare com 10.5,6). De modo semelhante, Jesus envia seus discípulos com as palavras: "Não tomeis rumo aos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos; mas, de preferência, procurai as ovelhas perdidas da casa de Israel; e, à medida que seguirdes, pregai que está próximo o reino dos céus" (10.5-7). Mas Ele depois reconhece que, na verdade, eles irão "à presença de governadores e de reis, para lhes servir de testemunho, a eles e aos gentios" (10.18). O evangelho que dá vida, endereçado justamente a Israel, vai propagarse. Por isso Mateus dá relevo ao episódio do centurião, que tem fé maior do que qualquer outro em Israel (8.10), pressagiando os "muitos" que "virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus. Ao passo que os filhos do reino serão lançados para fora..." (8.11,12). Israel deveria estar lá, porém não respondeu com a fé necessária. Por isso os gentios serão introduzidos nele para participarem com Abraão do banquete do Reino. Quando os convidados se recusam a vir, os criados são enviados para arrebanhar "todos os que encontraram, maus e bons; e a sala do banquete ficou repleta de convidados" (22.10). E isto exatamente o que Jesus faz depois, no final do Evangelho (28.18-20). b. Ele focaliza o círculo do próprio Jesus. Porque Jesus é o Rei, o Reino—isto é, o governo que Ele exerce—chega com Ele. Mateus associa o Reino intimamente com o ministério de cura de Jesus: "E percorria Jesus todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades" (9.35). Seus milagres apontam para o poder do Reino, presente nele: "Se, porém, eu expulso os demônios, pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós" (12.28). Cabe a João narrar os milagres de Jesus como "sinais", isto é, ações especiais que incorporam uma mensagem e são assim parte de sua pregação e ensino. Mas eles têm esta qualidade também em Mateus. Eles indicam especificamente Jesus como aquele que cumpre a profecia de Isaías: "Ele mesmo tomou as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças" (8.17). Isto, portanto, faz os milagres de Jesus peculiarmente seus, e não necessariamente algo a ser esperado onde quer que o Reino seja proclamado. c. Os seguidores de Jesus entram já no Reino. Quando as pessoas andam sob o comando deste Rei, elas entram no Reino. João Batista inaugurou o processo:

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"Desde os dias de João Batista até agora o reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele" (11.12). Por "esforço" aqui Jesus provavelmente expressa a entusiástica acolhida de muitos ao seu ministério. Seguindo-o, as pessoas estão "se agarrando" ao Reino dos céus—literalmente "tomando-o de assalto", como os fregueses que descobrem a maior liquidação do ano. Uma vez dentro, mesmo o menor do Reino dos céus é maior do que João Batista (11.11). O jovem rico já não está tão certo. Ele deseja a "vida eterna" (esta é uma expressão equivalente a "Reino de Deus"), mas não pode satisfazer à condição: "Vai, vende os teus bens, dá aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem, e segue-me" (19.21). Seguir a Jesus é conseguir o que ele perdeu: entrar "no reino dos céus" (19.23). Um novo estilo de vida é exigido desses seguidores de Jesus—a saber, aquele que aponta para a realidade do Reino dentro deles. É por isso que os Doze, quando enviados a proclamar o Reino, ouvem: "De graça recebestes, de graça dai. Não vos provereis de ouro, nem de prata, nem de cobre nos vossos cintos; nem de alforje para o caminho, nem de duas túnicas, nem de sandálias, nem de bordão: porque digno é o trabalhador do seu alimento" (10.8-10). Deus supre tudo quanto eles necessitam para seu sustento e proteção, bem como tudo o que eles devem oferecer. Eles são em si mesmos sermões vivos, evidência da realidade do Reino que proclamam. Mateus esforça-se por esclarecer este novo estilo de vida para seus leitores, registrando extensamente o ensino de Jesus. d. Ele ainda está por "vir". Lucas, na realidade, enfatiza mais do que Mateus a presença do Reino. A ênfase distintiva de Mateus incide sobre o Reino que ainda virá. Jesus, como "o Filho do homem", virá novamente com grande poder e em juízo, e isto acontecerá logo. "Em verdade vos digo que alguns aqui se encontram que de maneira nenhuma passarão pela morte até que vejam vir o Filho do homem no seu reino" (16.28). Esta "vinda do Filho do homem" compõe o assunto dos capítulos 24 e 25. A interpretação destes capítulos é muito discutida, especialmente a do capítulo 24, mas quase todos concordam que dois tipos de "vinda" estão associados e tratados juntos nestes capítulos: • Por um lado, há uma vinda em juízo, que significará o cumprimento da predição de Jesus de que o templo será destruído: "Não ficará aqui pedra sobre pedra, que não seja derrubada" (24.2). Esta é provavelmente a "vinda do Filho do homem" que deve ter lugar dentro de uma geração (24.34). • Por outro lado, há posteriormente uma vinda em glória (25.31), que anunciará o juízo final do mundo e a salvação do povo de Deus. "O Rei" (25.34)—isto é, Jesus—julgará as nações reunidas diante dele, introduzindo "os justos" na vida eterna, e os "malditos" no castigo eterno (25.46). 3. Jesus é o Filho de Deus! Um dos principais escritores contemporâneos sobre Mateus, Professor Jack Kingsbury, argumenta que "o Filho de Deus" é, na mente de Mateus, o título mais importante dado a Jesus. Se ele é mais importante do que outros títulos é uma questão aberta à discussão, mas seu valor não pode ser suspeitado. Ele é empregado efetivamente em catorze ocasiões em Mateus. E é quase sempre usado por outros a respeito de Jesus: • Pelo Diabo ou demônios: 4.3,6; 8.29

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• P e l o s i n i m i g o s d e J e s u s , e m a c u s a ç ã o ou z o m b a r i a : 2 6 . 6 3 ; 2 7 . 4 0 , 4 3 • P o r M a t e u s , o s d i s c í p u l o s o u o u t r o s e m c o n f i s s ã o d e f é : 2 . 1 5 ; 14.33; 16.16; 27.54 • P e l o p r ó p r i o D e u s : 3 . 1 7 ; 17.5; 2 1 . 3 7 E m a p e n a s d u a s o c a s i õ e s J e s u s r e f e r e - s e a si m e s m o c o m o " F i l h o " : 2 4 . 3 6 ; 28.19. C o m o título ele t e m três c o r r e l a ç õ e s : a. Ele se correlaciona com Israel. N o Velho. T e s t a m e n t o , t o d o o p a í s é t i d o

c o m o " f i l h o d e D e u s " (p.ex. Ê x o d o 4 . 2 2 ) . M a t e u s cita tal p a s s a g e m a p l i c a n d o a a J e s u s . O s é i a s 11.1, c i t a d o e m 2 . 1 5 , r e f e r i a - s e o r i g i n a l m e n t e a o ê x o d o : " D o Egito chamei o meu filho." Alguns estudiosos acusam Mateus neste caso de u s o i n d e v i d o d e t e x t o , c o m o se o e v a n g e l i s t a t i v e s s e p o u c a p r e o c u p a ç ã o p e l o significado original. M a s nada p o d e estar a c i m a da verdade. E m todos estes capítulos de abertura do Evangelho, M a t e u s tenta mostrar c o m o Jesus c a m i n h a n o s c a l ç a d o s d e I s r a e l e r e p e t e as e x p e r i ê n c i a s d e I s r a e l . E l e d e i x a o E g i t o , é s a l v o d a s m ã o s d e u m rei hostil q u e t e n t a e x t e r m i n á - l o , p a s s a p e l a á g u a , é testado e tentado n o deserto, e finalmente chega à m o n t a n h a onde a palavra de D e u s é o u v i d a (5.1). H á d i f e r e n ç a s c e r t a m e n t e . E n q u a n t o I s r a e l f a l h o u n o teste d o d e s e r t o ( c o m pare com Deuteronômio 8.5), este Filho de D e u s passa pela prova v i t o r i o s a m e n t e . E e n q u a n t o Israel o u v e a p a l a v r a d e D e u s n o M o n t e S i n a i , e s t e F i l h o d e D e u s f a l a a p a l a v r a . M a s o s p a r a l e l o s são c l a r o s . J e s u s a s s u m e o p a p e l d e Israel c o m o p r o p ó s i t o d e r e - f o r m a r o p o v o d e D e u s e m t o r n o dele. U m d i a s e u s a p ó s t o l o s se a s s e n t a r ã o s o b r e t r o n o s a o seu l a d o , j u l g a n d o as t r i b o s d e I s r a e l ( M a t e u s 19.28).

Jesus ordenou aos Doze que não se provessem "de duas túnicas, nem de sandálias, nem de bordão", quando os enviou a pregar o Reino. Este par de sandálias de couro que data do primeiro século de nossa era foi encontrado durante excavações arqueológicas em Masada.

46 HOMENS COM UMA MENSAGEM

b. Ele se correlaciona com a realeza. O título "Filho de Deus" era também utilizado pelo rei no Velho Testamento (compare com 2 Samuel 7.14; Salmo 2.7). Sobre este pano de fundo da história, a aplicação deste título para Jesus deve associá-lo a outros temas "reais" em Mateus—especialmente "Reino" e "Filho de Davi". c. Ele se correlaciona com a deidade. Como no Evangelho de João, o título "Filho de Deus" indica um relacionamento da mais profunda intimidade com Deus. Em nove ocasiões Jesus se refere a "meu Pai celestial" ou "meu Pai que está no céu", e numa famosa passagem (somente em Mateus) está especificado o que este relacionamento significa: • "Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai; e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar" (11.25-27). Jesus desfruta uma relação peculiar de conhecimento, devotamente e atividade mútua com Deus seu Pai. Mas, ao mesmo tempo que é peculiar, é também compartilhado. Em não menos do que onze ocasiões Jesus se refere a "vosso Pai celestial" ou "vosso Pai que está no céu", ao dirigir-se aos seus discípulos. Mateus exulta com a nova intimidade com Deus que, ao seguir Jesus, lhe foi concedida. Deus era não mais o juiz a ser temido, mas um Pai em quem se confiava. 4. Jesus é o mestre, o Cristo! Mateus associa estes dois títulos em 23.10. Jesus como um mestre é singularmente importante para ele, como já vimos. E, ajuntando os assuntos tratados nos cinco grandes sermões de Jesus, Mateus procurou claramente prover uma apresentação aprimorada da fé e do discipulado cristãos. Por exemplo, somente ele apresenta o ensino sobre o espinhoso tema da disciplina na igreja (18.15-35). Na verdade, somente Mateus registra o uso feito por Jesus do termo "igreja" (16.18; 18.17). Com base em Mateus e Marcos podemos ter a impressão de que Jesus jamais tencionou fundar a igreja, porém Mateus não permite isto. Indubitavelmente, ele tinha em mente a necessidade da igreja em seu próprio tempo ao selecionar e ordenar seu material. 5. Jesus é o Salvador, o Filho do Homem! Como os demais evangelistas, Mateus coloca grande ênfase no sofrimento e morte de Jesus. Ele não chega apenas a reinterpretar o Velho Testamento e apresentar um novo ensino de Deus—muito longe disto. Mateus inclui o dito tão importante para Marcos: "Quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos" (20.27,28). Ele também interpreta a morte de Jesus antecipadamente ao registrar suas palavras na última ceia: "Isto é o meu sangue, o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados" (26.28). Por meio de sua morte, Jesus forja toda uma nova aliança entre Deus e seu povo, tirando os pecados deste exatamente como o anjo prometera a José: "E lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles" (1.21). Esta ênfase associa-se ao tema peculiar que mencionamos acima, o da

M A T E U S E SUA MENSAGEM

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misericórdia para com o fraco. O Evangelho de Mateus é muito terno: • Somente ele registra as grandes palavras de Jesus: "Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve" (11.28-30). • Normalmente ele encurta as histórias extraídas de Marcos. Mas, no caso da história do homem com a mão ressequida, ele a expande com outro dito famoso: "Qual dentre vós será o homem que, tendo uma ovelha, e, num sábado esta cair numa cova, não fará todo o esforço, tirando-a dali? Ora, quanto mais vale um homem que uma ovelha?" (12.11,12). • E como remate ele traz o último bloco de ensinos a um grande clímax com a parábola das ovelhas e dos bodes (de novo, somente registrado por Mateus). O Filho do homem, o Rei diante de quem as nações do mundo são divididas e por quem seu destino é decidido, tornou-se faminto e sedento, forasteiro e nu, enfermo e rejeitado, e divide todas estas experiências com seus "irmãos". Ele não desconhece o sofrimento de nenhum discípulo, porque Ele mesmo também o conhece e suporta. O Evangelho de Mateus é certamente o do Rei que governa, como indicamos no início deste capítulo. Mas este Rei é diferente dos outros. Ele não governa com autoridade distante nem vive em esplendor pessoal. Ele se assenta num trono e julga as nações (25.3lss), mas somente porque "tomou as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças" (8.17, citando Isaías 53.4). Ele governa como um servo, não com poder mas com compaixão, não com autoproteção mas com total abnegação. Este é o coração pulsante da mensagem do Evangelho de Mateus—mensagem que o arrastou da vida de ganância e egoísmo para a vida e serviço deste Rei.

Leitura adicional
Menos exigente:

Richard A. Edwards, Matthew's Story of Jesus (Filadélfia: Fortress Press, 1985) J. R. W. Stott, The Message of the Sermon on the Mount. Christian Counter-Culture (Leicester: IVP, 1978)

Mais exigente, obras eruditas:
R. T. France, Matthew, Evangelist and Teacher (Exeter: Paternoster, 1989) David E. Garland, Reading Matthew. A Literary and Theological Commentary on the First Gospel (Londres: SPCK, 1993) Jack Dean Kingsbury, Matthew as Story (Filadélfia: Fortress Press. 1988) Paul S. Minear, Matthew. The Teacher's Gospel (Londres: Darton, Longman & Todd, 1984) John W. Wenham, Redating Matthew, Mark anel Luke. A Fresh Assault on the Synoptic Problem (Londres: Hodder & Stoughton, 1991)

Lucas e sua Mensagem
E lhes disse: "Assim está escrito que o Cristo havia de padecer, e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia, e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém. Vós sois testemunhas destas coisas." (Lucas 24.46-48)

O Evangelho de Lucas é, em muitos aspectos, o mais diferenciado dos três Evangelhos sinópticos, e, considerando que Lucas é também o autor do livro de Atos dos Apóstolos, a contribuição literária dele ao Novo Testamento é maior do que a de qualquer outro escritor (mais de um quarto do todo). O Evangelho e Atos juntos constituem uma obra única em dois volumes, cujo tema dominante é a universalidade do Reino de Deus. Assim, Lucas esboça a história da vinda do Reino desde seu começo com João Batista até sua proclamação em Roma, o coração do império. Pondo os olhos no recém-nascido Jesus, Simeão louva a Deus: "Porque os meus olhos já viram a tua salvação, a qual preparaste diante de todos os povos: luz para revelação aos gentios..." (Lucas 2.30-32). Lucas conta a história da irradiação desta luz até, dois volumes depois, concluir sua obra com as palavras de Paulo: "Tomai, pois, conhecimento de que esta salvação de Deus foi enviada aos gentios. E eles a ouvirão" (Atos 28.28).

Lucas, o homem
Lucas era pessoalmente bem equipado para contar esta história. Podemos resumir o que sabemos sobre ele como segue: 1. Lucas era um gentio. Na realidade, ele era o único gentio entre os escritores do Novo Testamento. "Lucas" é um nome latino (uma forma reduzida do nome "Lucius"). Diversos fatores que se seguiram indicam as origens gentílicas de Lucas: a. Quando Paulo envia saudações aos cristãos de Colossos, ele menciona três dos seus companheiros pelo nome como "os únicos judeus [da circuncisão] entre meus companheiros para o reino de Deus". Depois ele envia saudações de três outros, que eram presumivelmente não-judeus. Entre eles, "saúda-vos Lucas, o médico amado" (Colossenses 4.10-14).

MATEUS

E SUA MENSAGEM

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b. Sempre que cita o Velho Testamento, Lucas usa a versão grega e não traduz diretamente do hebraico. Ele se refere quatro vezes à língua hebraica em passos que deixam a impressão de que ele não a falava (Atos 1.19; 21.40; 22.2; 26.14). c. Há uma tradição da primeira igreja de que ele veio de Antioquia da Síria, uma das maiores cidades do Império Romano. Não podemos estar certos da verdade disto, mas ele certamente mostra interesse pelo nascimento e crescimento da igreja de Antioquia (Atos 11.19-30), e não nos deixa esquecer que ela era a igreja-lar do apóstolo Paulo (Atos 13.1-3; .14.26-28). d. Sua obra em dois volumes é a única no Novo Testamento dedicada a um protetor, Teófilo (Lucas 1.3; Atos 1.1). Esta era uma prática comum no mundo greco-romano, e foi também adotada por alguns escritores judeus, como o historiador Josefo, que queria atrair o leitor gentílico para sua história do povo judeu. Mas a dedicação de Josefo de sua obra a seu benfeitor Epafrodito é densa e afetada em comparação com a simples e natural referência de Lucas a seu protetor. Os estudiosos costumavam especular sobre a identidade de Teófilo. Se, como pensavam, ele era um rico aristocrata romano, então o próprio Lucas deve ter participado de tais círculos—talvez na comunidade romana exilada em Antioquia. Mas o nome "Teófilo" significa "o que ama Deus", sendo um provável pseudônimo, talvez dirigido a quaisquer pessoas que, como Cornélio (Atos 10.1,2), eram gentios devotos e tementes a Deus, que buscavam genuinamente a verdade. Lucas sabia como dirigir-se a essas pessoas, e como convencê-las da "certeza" da verdade sobre Jesus (Lucas 1.4). 2. Lucas tinha educação superior. Ele precisaria ter, como médico que era. Um dos mais antigos estudiosos supõe que Lucas recebeu seu treinamento médico em Tarso, a cidade natal de Paulo, que era um grande centro de ensino. Na época a medicina era um ramo especial da filosofia, sendo claras a cultura e a educação de Lucas em seus escritos. Por exemplo, ele dispunha de um rico vocabulário. O Evangelho e Atos têm cerca de 800 palavras que não ocorrem em qualquer outra parte do Novo Testamento. Seu grego é bom: em estilo semelhante ao da carta aos Hebreus, o mais elegante do Novo Testamento. E é também flexível: Lucas demonstra considerável talento literário, por exemplo, pela forma como é capaz de escrever seu prefácio em esmerado grego clássico (Lucas 1.1-4), e logo a seguir mudar para um estilo diferente, moldado naquele do Velho Testamento grego, para as histórias do nascimento e infância de Jesus. Desta maneira, ele comunica um sentido de tempo e lugar aos seus leitores gentios, juntamente com os fatos e as verdades. Avançando além do estilo do grego de Lucas, os estudiosos têm recentemente devotado muita atenção à habilidade literária com que ele compõe a história. Ele chama sua obra modestamente de "uma exposição em ordem" (Lucas 1.3), e a "ordem" está aparente na bela forma com que a história se desenrola. Por exemplo, a importância da morte e ressurreição de Jesus é sublinhada no Evangelho por repetidas referências à jornada de Jesus a Jerusalém, iniciando em 9.51: "Ao se completarem os dias em que devia ele ser assunto ao céu, manifestou no semblante a intrépida resolução de ir para Jerusalém..." Depois deste ponto, mesmo as inocentes referências à caminhada de Jesus pela estrada

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(p.ex. 9.57; 10.38; 11.53) assumem uma notável força dramática. Lucas era certamente um consumado artista literário. 3. Lucas era um historiador. De acordo com 1.3, sua "exposição em ordem" baseia-se numa pesquisa meticulosa: "...depois de acurada investigação de tudo desde sua origem..." Assim, seu talento literário caminhou de mãos dadas com uma preocupação pela exatidão e, portanto, confiabilidade. Esta exatidão foi defendida fortemente nos anos iniciais deste século por meio de pesquisas de William Ramsay, que, quando estudante, adotou o ponto de vista, naquele tempo amplamente sustentado por estudiosos, de que o Evangelho de Lucas foi escrito no segundo século desta era por um autor que inventou francamente muito do seu material. Mas os estudos pioneiros de Ramsay das regiões e cidades cobertas por Paulo em sua primeira e segunda viagens missionárias (Atos 13-18) mudaram completamente seu modo de pensar. Lucas havia mostrado precisão meticulosa em questões de geografia e administração civil—na realidade, em cada detalhe em que ele podia ser avaliado. Em seu livro The Bearing ofRecent Discovery on the Trustworthiness ofthe New Testament (O Significado da Recente Descoberta sobre a Fidelidade do Novo Testamento), publicado em 1915, Ramsay concluiu: "Você pode espremer as palavras de Lucas a um grau acima de qualquer outro historiador, e elas resistem ao exame mais severo e ao tratamento mais rígido." Ele admite que essa precisão demonstrável influencia nossa atitude em relação a toda a obra de Lucas: "Há uma certa pressuposição de que um escritor que prova ser exato e correto num assunto mostra as mesmas qualidades em outros. Nenhum escritor é correto por mero acaso, ou preciso esporadicamente. Ele é exato em virtude de um certo hábito da mente." Lucas claramente possuía este tipo de mente. Muitos outros estudiosos atuais estão aptos a aceitar este julgamento. 4. Lucas foi um viajante. A palavra que ele usa para definir sua "investigação" em Lucas 1.3 presume que ele viajou para poder executá-la. Os chamados "textos nós" (we-sections) em Atos indicam que ele viajou com o apóstolo Paulo em pelo menos três ocasiões. (Os "textos nós" são trechos da história em que o pronome "eles" é substituído por "nós", indicando a presença de Lucas. Veja o quadro com este título.) A experiência de Lucas como viajante é seguramente confirmada por seu notável cuidado ao usar os termos técnicos da navegação em seu dramático relato do naufrágio em Atos 27. Sua precisão a este respeito foi notada em 1848 por James Smith, um escocês Membro da Real Sociedade. Em The Voyage and Shipwreck ofSt Paul (A Viagem e o Naufrágio de São Paulo), Smith, escrevendo como velejador e historiador, confirmou as referências detalhadas de Lucas quanto aos ventos, geografia e construção naval. Este interesse por viagens reflete-se na própria história. Tanto o Evangelho como Atos baseiam-se em viagens: primeiro a de Jesus a Jerusalém, como vimos acima; em seguida a de Paulo (ou mais precisamente do Evangelho) até Roma. Em ambas o relato estende-se por vários capítulos e envolve muitas circunstâncias, incluindo mudanças de rumo. Mas, em ambos os casos, o objetivo é alcançado, porque é do plano de Deus que o seja.

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ü s "textos nós" em Atos
Í . A t o s 16.10-18 Lucas revela que estava com Paulo em sua famosa viagem à Europa, viajando com ele de Trôade a Filipos, onde testemunhou os eventos da prisão e dramática libertação de Paulo. No entanto, parece que ele ficou para trás em Filipos, quando Paulo foi embora. 2. Atos 20.5-21.18 Esta parte começa onde terminou a última, em Filipos, podendo-se deduzir que Lucas acompanhou Paulo no último trajeto de sua terceira viagem missionária, encerrando com a detenção e prisão em Jerusalém. 3. Atos 27.1-28.16 Após dois anos de prisão em Cesaréia, Paulo fez uma longa e acidentada viagem a Roma, acompanhado de Lucas, entre outros. Em Roma Lucas permaneceu ao lado de Paulo, como este testifica em 2 Timóteo 4.1: "Somente Lucas está comigo." Isto sugere que Lucas pode também ter estado com Paulo durante sua prisão em Cesaréia,,e isto, por sua vez, induz à especulação de que durante esse período Lucas e m p r e e n d e u a "investigação" que lhe propiciou o material para o seu Evangelho e os primeiros capítulos de Atos.

Tal é o homem que o Espírito Santo estava preparando para contribuir com mais da quarta parte de todo o Novo Testamento. Ele era um homem do mundo— do extenso mundo greco-romano de sua época. Sua formação gentílica, sua experiência profissional, seus dotes literários e historiográficos, suas viagens e sua ligação com Paulo, tudo cooperou para fazer dele o homem para a tarefa. Seu amor natural pelos aflitos levou-o a dedicar-se à medicina. Sua vasta experiência capacitou-o a ver o evangelho em seu ambiente secular. A influência de Paulo deve ter ocupado sua mente com a mensagem da gratuidade da salvação oferecida a todos, sem restrição de raça ou privilégio. Lucas foi o homem escolhido e preparado pelo Espírito Santo para salientar a universalidade do evangelho. Vamos agora examinar alguns dos temas e interesses de Lucas, antes de tratarmos especificamente de seus dois volumes.

Os temas especiais de Lucas
Ao inspecionar esses temas, notamos como o tema da relevância universal do evangelho permeia todos eles. 1. O Espírito Santo Em anos recentes os estudiosos têm sublinhado a importância deste tema para Lucas. Os outros Evangelhos não deixam de tratá-lo, mas desde o início Lucas assinala seu interesse especial em dar ênfase à ação do Espírito no evento da concepção de Jesus (1.35), e sua inspiração a Isabel (1.41), Zacarias (1.67), e Simeão (2.25-27) para proferirem palavras proféticas sobre o nascimento de Jesus. Todos os Evangelhos relatam a descida do Espírito sobre Jesus no seu batismo, mas Lucas acrescenta duas referências posteriores ao Espírito dando poder a Jesus no início de seu ministério (4.1,14), coroando a seguir estes fatos ao registrar a dramática alegação de Jesus de que Isaías 61.1 estava sendo cumprido nele: "O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu..." (Lucas 4.18). Um de seus destaques distintivos ao retratar nosso Senhor é, pois, que seu

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ministério é realizado sob o poder do Espírito Santo. E esta é também a mensagem de Lucas sobre a igreja. Assim como seu Evangelho inicia com a descida do Espírito sobre Jesus em seu batismo, também Atos inicia com um derramamento paralelo do Espírito sobre a igreja, no Pentecoste. Lucas conta então a história da difusão do evangelho com repetidas referências ao Espírito Santo (cinqüenta e nove ao todo), que inspira a pregação (Atos 4.8), infunde ousadia (4.31), dirige a iniciativa missionária (13.2-4), concede discernimento sobrenatural (13.9-11), orienta decisões (15.28; 16.6,7; 20.22), desvenda o futuro (20.23; 21.11), e dá ânimo (9.31) e alegria (13.52) àigreja. Vários estudiosos têm comentado que o livro Atos dos Apóstolos pode ser melhor denominado Atos do Espírito Santo. Contudo, isto não seria estritamente exato. De modo digno de nota, Lucas considera o Espírito como o dom, não de Deus, mas de Cristo: em seu sermão do Pentecoste Pedro diz a respeito de Jesus: "Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis" (2.33). Isto conforma-se ao relato de Lucas a Teófilo no começo de Atos: "Escrevi o primeiro livro, ó Teófilo, relatando todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar, até ao dia em que, depois de haver dado mandamentos por intermédio do Espírito Santo aos apóstolos que escolhera, foi elevado às alturas" (Atos 1.1). Isto implica que Atos continua a narrativa dos feitos e ensinos de Jesus. Portanto, quando Lucas fala do Espírito Santo orientando e concedendo poder à igreja, equivocamo-nos, a menos que associemos a atividade do Espírito à do Cristo ascenso ao céu. Ele é "o Espírito de Jesus" (Atos 16.7), atuando em favor do Senhor da igreja. O Espírito Santo é concedido indiscriminadamente a todos os que crêem. A profecia cumprida no Pentecoste—"derramarei o meu Espírito sobre toda a carne" (Joel 2.28)—tinha sido renovada e repetida quando se iniciou o ministério de Jesus: "E toda a carne verá a salvação de Deus" (Lucas 3.6). Estas referências à inclusão de "toda a carne" [toda a humanidade] no oferecimento da salvação encontra-se como sinaleiros no início de cada um dos volumes de Lucas. A crença do judeu contemporâneo era que o dom do Espírito Santo era raro e específico. Assim, tanto para os judeus como para os gentios, o derramamento universal do Espírito foi uma notícia dramática e maravilhosa—, com efeito, uma reviravolta na história, algo nunca visto desde o início do mundo. Lucas trata deste ponto inteligentemente pela longa genealogia no início de seu Evangelho (3.23-38): a ancestralidade de Jesus é traçada não apenas desde Abraão, o pai da família judaica (como no Evangelho de Mateus), mas desde Adão, o fundador da raça humana. 2. Preocupação com as pessoas marginalizadas Lucas gosta de mostrar o cuidado de Jesus para com vários grupos e tipos de pessoas que viviam à margem da sociedade, ou eram olhadas como sem importância ou mesmo impuras. O amor de Deus abrange tais pessoas através do evangelho. Podemos destacar quatro desses grupos: a. Mulheres. As mulheres tinham um baixo status social no Império Romano, e no pensamento judaico daqueles tempos elas eram igualmente destituídas de dignidade. Uma das ações de graças rabínicas de cada dia era: "Bendito sejas, ó Senhor Deus, que não me fizeste um escravo, um gentio ou uma mulher." Os escribas e fariseus evitavam falar com uma mulher em público, e muitos deles

LUCAS E SUA MEÍNSAGEM

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O Espírito Santo em Atos 19.21
"Depois dessas coisas, Paulo resolveu passar pelas regiões da Macedónia e Acaia e ir até Jerusalém. Ele dizia: 'Depois de visitar Jerusalém, eu preciso ir a R o m a . ' " (BLH) Este versículo aparentemente inócuo é importante para Lucas. Do mesmo modo que Lucas 9.51 marca o ponto em que se inicia a longa viagem de Jesus a Jerusalém, assim este versículo marca o início da longa jornada de Paulo, primeiro, como seu Senhor, a Jerusalém, e depois a Roma. "Resolveu" seria mais literalmente traduzido "determinado no espírito", ou "determinado no Espírito", sendo esta última provavelmente a correta. Num ponto decisivo crucial de seu ministério, quando Paulo realiza em Efeso um trabalho tão bem-sucedido, o Espírito o impele a fixar suas vistas num alvo ainda maior. Mas surge em seguida uma contrariedade, quando irrompe u m a violenta oposição: parte da mensagem de Lucas mostra que, mesmo quando guiada pelo Espírito, a vida da igreja parece caótica, e surgem contratempos, porque "através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus"(14.22).

sustentavam que as mulheres eram incapazes de estudar as Escrituras corretamente. A atitude cristã era muito diferente. Em sua carta aos gálatas, Paulo já havia feito a notável afirmação: "Não pode haver... nem homem nem mulher, porque todos vós sois um em Cristo Jesus" (Gálatas 3.28). Lucas pode ter sido influenciado por Paulo, mas suas opiniões eram indubitavelmente formadas por seu conhecimento da atitude de Jesus. Lucas é o Evangelho das mulheres, e mais claramente do que os outros Evangelhos ele mostra a atitude aberta e cordial de Jesus para com as mulheres, e o lugar que Ele permitiu que elas ocupassem em seu ministério. Lucas tem sua própria posição pelo destaque que dá às mulheres nas histórias do nascimento de Jesus. E ele que conta, com tão delicada reserva, a história miraculosa da concepção e nascimento de Jesus. Maria, mãe de Jesus, e Isabel, mãe de João Batista, eram parentas, e a história deve ter tido origem diretamente, ou indiretamente, da própria Maria. Intencionalmente, o Espírito Santo faz sua reaparição na cena humana inspirando uma mulher a profetizar (1.41,42). b. Os doentes. A obra de cura de Jesus era uma característica de tal modo predominante em seu ministério que todos os evangelistas dão-lhe grande realce, porém Lucas mais do que os outros. Seus interesses profissionais como médico podem refletir-se aqui. E evidente que este homem benévolo sentiu a compaixão de Jesus para com a humanidade sofredora. Os milagres de cura registrados por Lucas incluem: • o filho da viúva de Naim (7.11-17) • A mulher encurvada curada na sinagoga no sábado (13.10-17) • o homem hidrópico (14.1-4) • os dez leprosos (17.11-19) • a restauração da orelha de Malco, cortada pela espada de Pedro (22.50,51). Em Atos o ministério de cura de Jesus continua, conduzido agora pelas mãos dos apóstolos: • Pedro e João curam o aleijado na porta Formosa do templo, "em nome de Jesus Cristo, o Nazareno" (3.1-4.22). • Filipe cura muitos sofredores em Samaria, levando grande alegria à cidade (8.4-8). • Pedro cura Enéias em Lida com as palavras de confiança: "Enéias, Jesus Cristo te cura! Levanta-te, e arruma o teu leito (9.32-35), e em seguida ressuscita

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HOMENS COM UMA MENSAGEM

As Mulheres em Lucas e Atos
As mulheres desempenham um papel relevante na história, como indicam as referências abaixo. Os demais evangelistas contam as histórias da mulher com o fluxo de sangue, da filha de Jairo, da sogra doente de Pedro e da mulher de Betânia, que unge Jesus, mas somente Lucas fala das seguintes: • profetisa Ana (2.36-38) • viúva de Naim (7.11-17) • mulher pecadora (7.36-50) • mulheres que ministram (8.2,3)—um extraordinário testemunho de violação por Jesus das normas então vigentes • Marta e Maria (10.38-42) • mulher prisioneira de Satanás por dezoito anos (13.10-17) • filhas de Jerusalém que choraram (23.27-31).

Encontramos em Atos uma ênfase semelhante:
• Várias vezes Lucas sublinha a presença de

mulheres entre os novos crentes (1.14; 5.14; 8.3; 17.4,12,34). • Ele pinta um quadro afetuoso de Dorcas (Tabita), que Pedro devolveu à vida em Jope (9.36-43). • Ele inclui a terna referência a Rode, a criada, e sua grande excitação (12.13,14). • A primeira conversão em Filipos foi de Lídia, uma mulher do comércio: Lucas informa que Paulo e seus acompanhantes (todos judeus) realmente se hospedaram em sua casa (16.1315). • Priscila é geralmente mencionada antes de seu marido, Áquila, e aparentemente exerceu um papel preponderante na expansão do conhecimento de Apolo do "caminho de Deus" (18.18,19,26). • Lucas menciona o detalhe casual de que Filipe tinha quatro fdhas que profetizavam (21.9).

Dorcas (Tabita) em Jope (9.36-42). Tão ativa era a cura pela graça do Senhor que se registrou que ela operava através da sombra de Pedro em Jerusalém (5.15,16), e pela apresentação de lenços e aventais a Paulo em Efeso (19.11,12). Além disso, uma série de curas individuais são atribuídas a Paulo: • Em Listra ele cura um pobre aleijado de nascença (14.8-10). • Em Filipos ele liberta uma menina escrava da possessão do demônio (16.1618). • Em Trôade ele restaura à vida Eutico, vítima de uma queda durante um dos sermões do próprio Paulo (20.7-12)! • Em Malta ele restaura a saúde do pai de Públio, e em seguida também de outras pessoas doentes. Para Lucas tais curas são claramente parte da proclamação do evangelho. Mas é interessante notar o papel que elas desempenham na história. Elas muitas vezes servem simplesmente para reunir uma multidão, a qual em seguida ouve a pregação do evangelho. Isto reflete a citação-"manifesto" de Isaías 61.1,2, com a qual o ministério de Jesus inicia em Lucas, onde "evangelizar aos pobres" coloca-se ao lado de "proclamar... restauração da vista aos cegos" (Lucas 4.18). Os milagres de cura não são um fim em si mesmos, mas servem ao grande propósito de possibilitar que o evangelho seja ouvido e crido. c. Os impuros. Lucas vê com grande prazer o ministério de Jesus ao romper a barreira que havia em relação àqueles considerados "pecadores" ou "impuros". De modo geral, os judeus mantinham essas pessoas a certa distância com receio de contrair sua "impureza" ritual. Mas Jesus aproximou-se deles com perdão e aceitação. Os que sofriam de lepra eram um caso relevante. Lucas demonstra uma simpatia peculiar por eles. Até os rabinos costumavam afastá-los atirando-lhes pedras, mas Jesus estendeu sua mão tocou o leproso que veio a Ele (Lucas 5.13). Em vez de contrair dele a impureza, Jesus foi capaz de dizer-lhe com autoridade: "Fica limpo!"

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Somente Lucas menciona que esse homem estava "coberto de lepra" (5.12). Além disso, somente ele registra a cura dos dez homens com lepra (17.11-19), um dos quais é um samaritano e, portanto, duplamente impuro. Na realidade, os samaritanos constituem outro caso de preocupação de Lucas nesta categoria. Ele registra com exclusividade a parábola do Bom Samaritano (10.25-37). O ponto central desta parábola não é tão-somente a lição fundamental de que devemos socorrer os necessitados: muito mais que isto, ela ensina uma dramática lição sobre a pureza e a impureza. O sacerdote e o levita não tocam a vítima do assalto, por receio de contaminar-se com a impureza de um cadáver. Porque não se preocupa com tais questões rituais, somente o samaritano é capaz de cumprir a lei do amor que promete vida eterna. Somente Lucas registra a reação benevolente do perdão de Jesus ante a habitual hostilidade dos samaritanos (Lucas 9.52-56), e em Atos Lucas ressalta o avanço do evangelho em Samaria, onde os apóstolos impõem as mãos sobre os "impuros" porém crentes samaritanos, e o Espírito Santo é derramado sobre eles (Atos 8.14-17). "Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir. E murmuravam os fariseus e os escribas, dizendo: 'Este recebe pecadores e come com eles'" (Lucas 15.1,2). Assim começa o famoso capítulo que inclui as três parábolas dos "perdidos", dois dos quais (a dracma [moeda] e o filho) são relatados unicamente por Lucas. Por meio destas três histórias Jesus declara que o próprio Deus busca o perdido, representado pela multidão de destituídos que o cercam. A comparação que Lucas faz entre Deus e um pastor, na parábola da ovelha perdida, é sem dúvida dramática, pois os pastores eram vistos com muita desconfiança pelos severos fariseus e professores da lei, que murmuravam a respeito da atitude de Jesus aqui. Em razão de seu modo de vida nômade e pela inevitabilidade de trabalhar aos sábados para cuidar dos rebanhos, os pastores eram classificados como "pecadores" sem esperança. Lucas, porém, já fizera o coro celestial cantar a primeira notícia do nascimento do Salvador a um grupo de pastores rejeitados (Lucas 2.10-14): "Hoje vos nasceu na cidade de Davi o Salvador, que é Cristo, o Senhor..." Assim, Jesus agora revela que o ponto central de seu ministério é atrair tais pessoas de volta a Deus com arrependimento e fé. Embora muitos de tais "pecadores" sejam pobres, estão ombro a ombra naquela multidão com os abastados "cobradores de impostos". Apesar de toda sua riqueza, tais pessoas são também rejeitadas. São funcionários da alfândega, direta ou indiretamente empregados pelos odiados romanos, vistos também por muitos como "impuros", por causa de seu contato com os gentios, e temidos por todos porque tiram proveito de qualquer dinheiro extra que possam extorquir de suas infelizes vítimas. Porém Deus os ama—esta é a mensagem de Lucas. João Batista prega a eles (3.12,13). Jesus chama um deles para juntar-se a seus discípulos (5.27,28). E quando criticado por comer com esses novos discípulos, Levi e uma multidão de seus companheiros de profissão, Jesus responde com sua famosa sentença: "Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. Não vim chamar justos, e sim pecadores ao arrependimento" (5.31,32). E Lucas escreve com exclusividade a história de outro cobrador de impostos, o pequeno Zaqueu, que recebe Jesus em seu lar e em seu coração, e dá ensejo à afirmação de Jesus: "Hoje houve salvação nesta casa, pois que também este é

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filho de Abraão. Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o perdido" (19.9,10). De igual modo Lucas é o único a registrar a parábola do fariseu e o cobrador de impostos que vão ao templo orar (18.9-14). A conclusão de que o cobrador de impostos e não o fariseu "desceu justificado para sua casa" deve ter chocado os ouvintes de Jesus no seu íntimo. São estes pecadores indesejáveis os convidados ao Reino, exatamente como o homem que oferece um grande banquete manda que seu servo traga "os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos" para a festa da qual os convidados ingratos estão excluídos (14.15-24). Duas outras histórias, ambas encontradas somente em Lucas, ilustram sua constante preocupação com a graça de Deus aos pecadores. A primeira é a história da prostituta que vem silenciosamente por trás de Jesus quando Ele se reclina sobre a mesa na casa de Simão, o fariseu. A lavagem dos pés que seu hóspede não lhe havia provido, ela lhe propicia—com suas lágrimas. Ela também unge os pés de Jesus com ungüento e os cobre com seus beijos. Ele não afasta seus pés. Ela foi perdoada. Por isso, em retribuição, ela o ama muito, ao contrário de Simão (7.36-50). O outro incidente ocorre bem no fim. Mateus e Marcos dão-nos apenas a informação de que dois criminosos são crucificados com Jesus, um em cada lado de Jesus, e que ambos se juntam ao coro dos impropérios que os escribas e anciãos vociferam contra Ele. Mas Lucas acrescenta a conversação que então se estabelece entre um deles e o Salvador. Em meio aos insultos, o criminoso tem um vislumbre de fé no reinado de Jesus, e então recebe a promessa: "Hoje estarás comigo no paraíso" (23.39-43). d. Os ricos e os pobres. Lucas mostra uma preocupação imparcial para com as pessoas em ambos os poios da escala econômica. De fato, a questão do dinheiro e os problemas que ele causa para o discipulado representam um interesse relevante em ambos os seus volumes. Alguns dos discípulos de Jesus eram ricos (por exemplo, Zaqueu e José de Arimatéia), como foram alguns dos que corresponderam ao apelo missionário de Paulo (por exemplo, Lídia), mas eram em sua maioria pobres. Jesus cumpre a profecia que lê na sinagoga de Nazaré: Ele prega a boa nova aos pobres (Lucas 4.18; 7.22), e promete-lhes o Reino de Deus (6.20). Ele diz a seus discípulos que é preciso renunciar a tudo para ser seu discípulo (14.33). E em Atos vemos isto posto em prática, quando muitos dos primeiros crentes entregam seus recursos para a formação de um fundo que atenda às necessidades dos pobres entre eles (Atos 2.44,45; 4.34,35). Do mesmo modo que Mateus e Marcos, Lucas acreditou que era muito difícil, se não impossível, que uma pessoa rica entrasse no Reino de Deus (Mateus 19.24; Marcos 10.25; Lucas 18.25). Mas ele desenvolve este tema do perigo das riquezas mais do que os outros evangelistas—veja os detalhes no quadro a seguir. 3. Oração O interesse incomum de Lucas pela oração é uma característica fascinante de ambos os seus volumes. Indubitavelmente ele mesmo era um homem de profunda oração, e isto é refletido em suas repetidas referências a ela—ora como uma característica da vida de Jesus, ora como um fator vital para a missão e o crescimento da igreja nascente.

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Lucas—as riquezas e a pobreza
O interesse de Lucas evidencia-se no início pelas palavras de Maria no cântico que somente ele registra: "[Ele] contemplou a humildade da sua serva... Encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos" (1.48,53). Maria é uma pessoa pobre: ela pode trazer somente "um par de rolas ou dois pombinhos" para sua purificação, porque suas p o s s e s n ã o lhe p e r m i t e m o f e r e c e r u m cordeiro (2.22-24; Levítico 12.6-8). E m razão de sua pobreza, o próprio Salvador é então deitado numa manjedoura e visitado por pastores. A medida que o evangelho continua, Lucas tem material em comum com os outros evangelistas sobre este assunto—por exemplo, o ensino de Jesus sobre a p r o v i s ã o p a t e r n a de nossas necessidades diárias (Mateus 6.25-33; L u c a s 12.22-34), e a a d v e r t ê n c i a de Jesus sobre a fatuidade das riquezas na parábola do semeador ( M a t e u s 13.22; M a r c o s 4 . 1 9 ; L u c a s 8.14). Contudo, Lucas também inclui muito material que se encontra exclusivamente em seu Evangelho: • Ele inclui as instruções práticas de João Batista aos c o b r a d o r e s de i m p o s t o s e soldados a r r e p e n d i d o s : " N ã o c o b r e i s m a i s do q u e o estipulado.... não deis denúncia falsa, e contentaivos com o vosso soldo" (3.13,14). • Enquanto em Mateus Jesus exclama: "Bemaventurados os humildes de espírito" (Mateus 5.3), Lucas apresenta uma dimensão terrena desta declaração: "Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de D e u s " (6.20). E m seguida ele contrabalança esta promessa de bemaventurança aos pobres com u m a série de ais contra os ricos (6.24-26). • Ele registra a dependência de Jesus da assistência que recebe de certas mulheres ricas (8.2,3). • Lucas inclui as palavras de Jesus: "Vendei os v o s s o s b e n s e dai e s m o l a " ( 1 2 . 3 3 ) — u m a exortação central aos discípulos em Lucas (compare com 11.41; 19.8). • O homem rico que oferece u m banquete deve c o n v i d a r n ã o seus a m i g o s ricos, v i z i n h o s e parentes, mas "os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos"—na realidade, todos aqueles que não têm condições de retribuir-lhe (14.12-14). • Somente Lucas inclui três parábolas dedicadas a este tema: O rico tolo (12.13-21), o administrador infiel (16.1-13), e o rico e Lázaro (16.19-31). • Apenas Lucas registra esta inflexível afirmação d e Jesus: " T o d o a q u e l e que d e n t r e vós n ã o renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo" (14.33). Passando para Atos, observamos como o interesse de Lucas por este assunto contínua:

• Os primeiros crentes estão dispostos a abrir mão de seu direito a suas propriedades particulares, e entregálas para o bem comum. • Lucas realça dramaticamente a cilada da riqueza quando relata a triste história de Ananias e Safira (Atos 5.1 -11): eles falharam em não atender à austera advertência de Jesus: "Não podeis servir a Deus e às riquezas" (Lucas 16.13). • Lucas acentua o cuidado que a igreja nascente tem ao assegurar que a distribuição de alimentos aos pobres seja conduzida adequadamente (Atos 6.1-7). • São "as orações e esmolas" de Cornélio que fazem Deus "lembrar-se" dele e enviar Pedro para anunciarlhe o evangelho (Atos 10.4). • Lucas evidencia a saúde espiritual da igreja e m Antioquia em sua iniciativa de enviar socorro para aliviar a f o m e na Judéia (Atos 11.28-30). • Ele assinala a afirmação de Jesus: "Mais bemaventurado é dar que receber" (Atos 20.35). Portanto, no seu conjunto isto tudo constitui u m substancial interesse na obra de Lucas, à medida que ele nos adverte do poder do dinheiro para ludibriar, e nos incita a usar o que conseguimos com sacrifício para "ganhar amigos" para o Reino de Deus (Lucas 16.9).

Lucas adverte das ciladas das riquezas. Este conjunto de siclos de prata foi encontrado dentro do lampião de barro acima deles. Datam de 66-70 d.C.

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0 monte Hermom, no extremo norte de Israel, é um dos lugares sugeridos em que se deu a Transfiguração de Jesus.

No Evangelho há nada menos do que onze pontos aos quais Lucas acrescenta uma referência à oração nas histórias que ele apresenta em paralelo com Mateus e Marcos: • 3.21: Jesus está orando quando o Espírito desce sobre Ele em seu batismo. •5.16: Jesus retira-se ao deserto para orar. • 6.12: Jesus ora durante toda a noite antes de escolher os doze apóstolos. • 9.18: Jesus ora a sós antes de fazer a primeira predição de sua morte e ressurreição próximas. • 9.28,29: Jesus sobe ao monte da Transfiguração a fim de orar, e está realmente orando quando se transfigura. • 11.1: é a visão de Jesus orando que leva os discípulos a pedir-lhe: "Senhor, ensina-nos a orar", o que deu como resultado a Oração do Senhor. • 22.32: ao predizer que Pedro o trairia, Jesus, apesar disso, assegura a Pedro: "Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça." • 22.40: no jardim do Getsêmani Jesus insta com seus discípulos a orar "para que não entreis em tentação". • 22.44,45: Lucas acrescenta o detalhe de que Jesus, "estando em agonia, orava mais intensamente", e em seguida, "levantando-se da oração", foi ter com seus discípulos. • 23.34: Apenas Lucas faz constar a oração de Jesus na cruz: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem." • 23.46: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito" está somente em Lucas. Somos capazes de perscrutar a mente de Lucas quando nos detemos a observar esta notável seqüência de referências. Ele apresenta Jesus como alguém

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Exemplos de "E necessário..." em Lucas e Atos
Lucas 4.43: Jesus disse: "É necessário que eu anuncie o evangelho do reino de Deus também às outras cidades, pois para isso é que fui enviado." Lucas 9.22: Jesus disse: "E necessário que o Filho do homem sofra muitas coisas, seja rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas; seja morto e no terceiro dia ressuscite." Compare com 17.25; 24.7; Atos 17.3 V Lucas 13.33: "E necessário [adaptado], contudo, caminhar hoje, amanhã e depois, porque não se espera que um profeta morra fora de Jerusalém." Lucas 22.37: Pois vos digo que é necessário [adaptado] que se cumpra em mim o que está escrito: 'Ele foi contado com os malfeitores.' Porque o que a mim se refere está sendo cumprido." Atos 3.21: "Ao qual [Jesus] é necessário que o céu receba até aos tempos da restauração de todas as coisas, de que Deus falou por boca dos seus santos profetas desde a antiguidade." Atos 9.6,16: "Mas levanta-te, e entra na cidade, onde te dirão o que te é necessário [adaptado] fazer. ... pois eu lhe mostrarei quanto lhe é necessário [adaptado] sofrer pelo meu nome." Atos 14.22: "Mostrando que, através de muitas tribulações, nos é necessário [adaptado] entrar no reino de Deus." Atos 19.21: Paulo decidiu ir a Jerusalém, passando por Macedónia e Acaia. "Depois de haver estado ali", disse ele, "é necessário [adaptado] ver também Roma."
Nestes exemplos da versão Almeida (ERA), a tradução foi ligeiramente alterada para tornar a presença da expressão mais clara, (n.t.)

s

constantemente em oração, e cujo ministério foi todo moldado e orientado por uma profunda consciência da íntima comunhão com Deus, seu Pai. Esta ênfase continua por todo o segundo volume de Lucas. A oração é um dos quatro pilares da vida da igreja (Atos 2.42), a fonte de poder e ousadia quando em face da oposição (4.23-31). Coisas maravilhosas acontecem no contexto da oração (não necessariamente na resposta a ela: 3.1; 10.30; 12.5; 16.25). Em vários momentos cruciais uma orientação específica é dada por meio da oração (9.11; 10.9-16; 13.2,3), e a oração marca eventos significativos na vida da igreja (14.23; 21.5), notadamente curas (9.40; 28.8). Para Lucas, uma igreja que não ora não é uma igreja verdadeira. 4. O plano e vontade de Deus Outra característica vital da mensagem de Lucas é sua profunda convicção de que a história que ele está contando não apenas "aconteceu". Ela é realmente a história de como o plano de Deus se desenvolveu na terra. Esse cumprimento do plano de Deus não exclui evidentemente a responsabilidade do homem. O próprio Jesus ora: "Não se faça a minha vontade, e sim a tua", e então recebe força adicional para fazer a vontade de Deus (22.42,43). De modo semelhante, Paulo tem de comprometer-se com determinação a fazer a vontade de Deus quando também ele está a ponto de morrer em Jerusalém, e outros tentam persuadi-lo a não ir até lá (Atos 21.12-14). O plano de Deus também é combatido por aqueles que resistem a Ele. Mas, apesar de toda a oposição e através de todas as complexidades da atitude humana, a vontade de Deus é feita. Este tema em Lucas foi estudado recentemente por John Squires, em seu livro The Plan ofGod in Luke-Acts (O Plano de Deus em Lucas-Atos).. Squires observa cinco modos pelo quais Lucas sublinha este tema: a. Deus está no comando da história. Desde a criação (Lucas 3.38) até ao juízo final (Atos 17.31), Ele está no comando. Esta constatação é feita sutilmente em Lucas 2.1, em que a mente do imperador romano é induzida a promulgar um

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0 Evangelho de Lucas inicia com o nascimento e a preparação, situando o nascimento de Jesus em Belém, a cidade de Davi. Nesta vista tomada da velha estrada para Belém que atravessa um pomar de oliveiras, pode-se ver ao fundo a fortaleza de Herodes o Grande, em Heródio.

decreto que traz uma jovem camponesa de Nazaré a Belém, de sorte que seu bebê, o filho de Davi, nasça na cidade de Davi. b. Deus está no cornando da igreja. Ele dirige tanto o Senhor Jesus como a igreja, na direção que seu ministério deve tomar. Lucas de modo natural insinua isto por seu repetido uso de uma pequena palavra grega freqüentemente traduzida "é necessário..." Ele usa esta expressão em nada menos do que quarenta e duas ocasiões em seus dois volumes. Se perguntarmos: "Por que é "necessário"?, a resposta geralmente é: porque foi isto que Deus planejou. c. Deus intervém diretamente para dirigir acontecimentos. Isto ocorre em várias ocasiões, especialmente em Atos: por exemplo, em três ocasiões um anjo aparece a Paulo, cada vez dando-lhe orientação a respeito do próximo estágio de sua missão (Atos 16.9,10; 23.11; 27.23,24). As curas são também a direta ação de Deus, possibilitando a difusão do evangelho. d. A Escritura foi cumprida, supremamente em Jesus, mas também na vida da igreja. Lucas constantemente traz o cumprimento de profecias à nossa atenção, e isto salienta a realização do plano de Deus. Ele faz isto de modo convincente no episódio da manifestação de Jesus no caminho de Emaús (Lucas 24.13-35). Uma revelação pessoal de si mesmo teria eliminado a agonia dos dois discípulos, mas Jesus deliberadamente adia sua identificação até que tenha mostrado a ambos que tanto a morte como a ressurreição de Cristo foram preditas pela Escritura (24.25-27,46,47). e. Deus predeterminou certos acontecimentos vitais. Estes se realizam, a despeito

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d a o p o s i ç ã o . P e d r o , e m seu s e r m ã o d o P e n l e c o s t e , a c u s a seus o u v i n t e s d e t e r e m m a t a d o J e s u s b r u t a l m e n t e , m a s a c r e s c e n t a o c o m e n t á r i o : " . . . s e n d o este [Jesus] entregue pelo determinado desígnio e presciência de D e u s " (Atos 2.23). S e m e l h a n t e m e n t e , e m sua o r a ç ã o q u a n d o e n f r e n t a v a m a p r i m e i r a p e r s e g u i ç ã o , o s c r e n t e s de J e r u s a l é m v ê e m o p l a n o d e D e u s p o r trás d a c r u c i f i c a ç ã o : " . . . p a r a f a z e r e m t u d o o q u e a t u a m ã o e o teu p r o p ó s i t o p r e d e t e r m i n a r a m " ( A t o s 4 . 2 8 ) . E difícil definir o relacionamento entre esta soberania de Deus e a r e s p o n s a b i l i d a d e d o s a g e n t e s h u m a n o s e n v o l v i d o s — t a n t o o s q u e se o p õ e m a o p l a n o c o m o o s q u e o b e d e c e m a ele. T u d o o q u e p o d e m o s d i z e r é q u e L u c a s n ã o vê q u a l q u e r c o n f l i t o entre as d u a s idéias. O r e s u l t a d o é u m a p o d e r o s a c o n f i a n ç a : sejam quais f o r e m os problemas que p o s s a m atormentar a igreja, por mais t r a i ç o e i r o s q u e os a c o n t e c i m e n t o s p o s s a m p a r e c e r , p o r m a i s p o d e r o s o s q u e o s i n i m i g o s d o e v a n g e l h o p o s s a m ser. D e u s l e v a r á a d i a n t e o c u m p r i m e n t o d e seu plano. Assim, através de muitos percalços, o evangelho alcança R o m a . o centro d o i m p é r i o , e a h i s t ó r i a t e r m i n a ali c o m u m a p ú b l i c a p r o c l a m a ç ã o ( A t o s 28.30,31). O s e s t u d i o s o s f i c a m d e s c o n c e r t a d o s s o b r e o final d e A t o s . P a r e c e q u e ele termina abruptamente, e nunca f i c a m o s sabendo o resultado da apelação ao i m p e r a d o r q u e levou P a u l o a R o m a . P o d e ser q u e o j u l g a m e n t o a i n d a n ã o tivesse sido realizado q u a n d o Lucas acabara de escrever. Mas, de qualquer m o d o . o a b r u p t o final d á a i m p r e s s ã o de u m a história a i n d a i n a c a b a d a , o q u e n o s p e r m i t e ligar n o s s a e x p e r i ê n c i a à q u e l a d o s a p ó s t o l o s , e a s s i m ter a m e s m a c o n f i a n ç a d e q u e , s e j a m q u a i s f o r e m os o b s t á c u l o s e c o n t r a r i e d a d e s q u e p o s s a m o s e n f r e n t a r , o e v a n g e l h o t r i u n f a r á t a m b é m p a r a nós.

Os dois volumes de Lucas
Vamos finalmente e x a m i n a r o Evangelho e Atos, e extrair deles os meios pelos q u a i s L u c a s e s t r u t u r o u a história e t r a n s m i t e sua m e n s a g e m .

O Evangelho
1.1-4.13 Nascimento e preparação. Após o prefácio, o Evangelho de Lucas começa numa atmosfera totalmente judaica. A cena é colocada no templo em Jerusalém, e a primeira figura a quem somos apresentados é um sacerdote casado c o m u m a d a s f i l h a s d e A r ã o . O f i l h o p r o m e t i d o a este p i e d o s o casal d e v e m a n t e r o a n t i g o v o t o d e n a z i r e u d e s d e seu n a s c i m e n t o ( 1 . 1 5 ) . Ele será u m p r o f e t a , falando " n o espírito e poder de Elias" (1.17). A a t m o s f e r a j u d a i c a e d o Velho T e s t a m e n t o c o n t i n u a a t r a v é s d a p r o m e s s a d o M e s s i a s a M a r i a , a história d e seu n a s c i m e n t o , e o s c â n t i c o s q u e ela. Z a c a r i a s e Simeão entoam (1.46-55. 67-79; 2.29-32). Esta atmosfera não é acidental. E m b o r a escrevendo aos leitores gentios, Lucas não pretende sugerir que o C r i s t i a n i s m o é u m a r e l i g i ã o n o v a , s e m n e n h u m a raiz h i s t ó r i c a n o p a s s a d o . O que aconteceu é um c u m p r i m e n t o do acordo de Deus com A b r a ã o e de suas promessas por meio dos profetas (1.54,55,70,72,73). Mas o cumprimento é m a i s rico d o q u e a e x p e c t a t i v a , e d o t r o n o d e Davi Ele d e v e r á r e i n a r s o b r e t o d o o m u n d o , n ã o a p e n a s s o b r e Israel. Esta p e r s p e c t i v a m a i s a m p l a s u r g e e m 2.1 c o m a r e f e r ê n c i a a o e n t ã o o c u p a n t e d o t r o n o m u n d i a l . C é s a r A u g u s t o . Ele n ã o t e m n e n h u m a idéia d o q u e D e u s e s t á p l a n e j a n d o e r e a l i z a n d o n u m l o n g í n q u o c a n t o d e seu i m p é r i o — p o r i n t e r m é d i o d e u m a f a m í l i a de c a m p o n e s e s p o b r e s , a p o i a d a p o r u m g r u p o d e p a s t o r e s . E s t e

62 HOMENS COM UMA MENSAGEM

contexto terrestre é um pouco adiante enfatizado pelo cântico dos anjos (2.14) e pela forma como Lucas apresenta o ministério de João Batista (3.1,2). Estes capítulos se referem aos preparativos para o ministério do novo Rei: seu próprio crescimento (2.41-52); a pregação de João Batista (3.1-22); sua genealogia oculta, que fez dele um marco divisório na história universal (3.23-38); e sua vitória sobre o Diabo no poder do Espírito (4.1-13). 4.14-9.50 O Ministério na Galiléia. Esta primeira parte importante do Evangelho inicia com a notável narrativa da visita de Jesus a Nazaré (4.16-30). Mateus e Marcos relatam um incidente similar mais ao final do ministério na Galiléia (Mateus 13.53-58; Marcos 6.1-6), mas não fica claro se Lucas está se referindo a uma outra visita, ou se ele alterou deliberadamente a seqüência dos eventos para iniciar sua narrativa do ministério de Jesus com esta história expressiva. De qualquer modo, o sentido do incidente é claro para Lucas. Ele apresenta o ministério de Jesus em três passos: primeiro, a citação de Isaías 61.1,2 afirmase como um moto na fachada da história. Vemos Jesus fazendo todas estas coisas—pregar, curar e até proclamar liberdade, como no caso de Barrabás (23.25), que representa todos os que recebem a libertação imerecida através de Jesus. Segundo, prenuncia a rejeição final de Jesus pelo povo judeu. É realmente uma história sombria: ungido pelo Espírito, Ele é desprezado por seu povo. E terceiro, destaca a missão universal que Ele vai lançar. Seus ouvintes sentemse ultrajados pela referência de Jesus a Naamã e à viúva de Sarepta, que foram estrangeiros abençoados por Deus, preferidos em lugar dos israelitas em idêntica necessidade (4.25-27). Na outra ponta da história, Paulo faz um idêntico desafio aos judeus de Roma, que de igual modo rejeitam o evangelho que ele prega: "Tomai, pois, conhecimento de que esta salvação de Deus foi enviada aos gentios. E eles a ouvirão" (Atos 28.28). Esta missão aos gentios foi legada desde o início por Jesus, muito embora Ele mesmo se dirigisse a Israel. Portanto, durante o ministério na Galiléia Jesus particularmente revela seu amor pelo estrangeiro gentio. O servo do centurião romano é curado (7.1-10). Lucas oferece uma versão desta história mais longa que a de Mateus, registrando a humildade do centurião ("Eu mesmo não me julguei digno de ir ter contigo" [versículo 7]), e mostrando a preocupação dos anciãos judeus por este gentio. 9.51-19.40 Jesus viaja a Jerusalém. Muitos estudiosos vêem 9.51 como o ponto crítico do Evangelho. Agora Jesus deixa a Galiléia e inicia sua jornada em direção de Jerusalém. Um escritor moderno, David Gooding, considera 1.1 -9.50 como a "Vinda" de Jesus do céu para a terra, culminando na revelação da glória na transfiguração. A segunda metade do Evangelho, de 9.51 para frente, é correspondentemente a "Ida" de Jesus da terra para o céu, culminando igualmente em glória, a glória da ascensão. Esta parte longa do Evangelho é composta quase exclusivamente de material não encontrado em Marcos, muito dele peculiar a Lucas, e tem sido chamado de "Narrativa de Viagem" de Lucas. Jesus movimenta-se gradativamente em direção à rejeição final em Jerusalém, em direção ao sofrimento que entendemos é o centro de sua missão, e, de incidente em incidente, descobrimos mais sobre o que significa segui-lo. O discipulado significa estarem movimento, com Ele, deixando para trás a segurança e o lar (9.57-62) em troca de uma vida de fé,

MATEUS

E SUA MENSAGEM

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oração, obediência e sacrifício para alcançar os necessitados. 19.41-24.53 Jesus em Jerusalém. N o c o m e ç o d e s t a p a r t e final J e s u s e n t r a e m

J e r u s a l é m c o m g r a n d e tristeza p o r q u e s a b e q u e a c i d a d e vai r e j e i t á - l o , e a n t e v ê u m j u l g a m e n t o e x e c r á v e l ( 1 9 . 4 1 - 4 4 ) . E s t a p a r t e t e r m i n a , e m c o n t r a s t e , c o m os discípulos entrando e m Jerusalém "tomados de grande j ú b i l o " (24.52), porque e s t a r e j e i ç ã o d e J e s u s p o r Israel s i g n i f i c a q u e as E s c r i t u r a s f o r a m c u m p r i d a s , o E s p í r i t o S a n t o foi p r o m e t i d o , e t o d a s as n a ç õ e s o u v i r ã o a g o r a a B o a N o v a d e arrependimento e perdão (24.45-49). N o intervalo entre as d u a s " e n t r a d a s " d e s c o b r i m o s c o m o u m d e s s e s e v e n t o s — a c r u c i f i c a ç ã o d e J e s u s — p o d e ser d u a s c o i s a s m u i t o d i f e r e n t e s , d e u m l a d o a h o r r í v e l r e j e i ç ã o e e x e c r a n d o c r i m e , e d e o u t r o l a d o u m c u m p r i m e n t o cio p l a n o de Deus para a salvação do m u n d o . É simplesmente u m a questão de olhar o e v e n t o d e d u a s p e r s p e c t i v a s b e m d i f e r e n t e s . A s s i m L u c a s d e s a f i a s e u s leitores gentios: c o m o eles v ê e m isso? C o m o Pilatos, c o n s i d e r a n d o - o u m a disputa religiosa irrelevante de pouca conseqüência? Ou c o m o os discípulos e o próprio Lucas, c o m o o c u m p r i m e n t o do plano de Deus para destruir a morte para toda a humanidade?

64 HOMENS COM UMA MENSAGEM

O livro de Atos
O segundo volume começa exatamente onde termina o primeiro. Os discípulos e s t ã o e m J e r u s a l é m , e s p e r a n d o q u e o E s p í r i t o S a n t o lhes s e j a d a d o (1.5). U m a breve introdução resume o período antes da ascensão e fixa a agenda para o próximo estágio: "Recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis m i n h a s t e s t e m u n h a s tanto e m J e r u s a l é m , c o m o e m toda a J u d é i a e S a m a r i a , e até o s c o n f i n s d a t e r r a " (1.8). Este q u a d r o d e c í r c u l o s g e o g r á f i c o s c o n c ê n t r i c o s f o r m a a e s t r u t u r a d e A t o s . A t é o final d o c a p í t u l o 7. a a ç ã o se d e s e n r o l a e m J e r u s a l é m . M a s , c o m a m o r t e de Estêvão, "...levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, f o r a m dispersos pelas regiões da Judéia e S a m a r i a " (8.1). O c í r c u l o se a m p l i a . J u d é i a e S a m a r i a p e r m a n e c e m c o m o c e n á r i o s d e o p e r a ç õ e s até 9 . 3 1 . q u e é u m d o s b r e v e s r e s u m o s d a " h i s t ó r i a até a q u i " : " A igreja, na v e r d a d e , tinha p a z por toda a Judéia. Galiléia e Samaria, edificando-se e c a m i n h a n d o no temor do S e n h o r e, n o c o n f o r t o d o E s p í r i t o S a n t o , c r e s c i a e m n ú m e r o . " M a s as s e m e n t e s d o d e s e n v o l v i m e n t o p o s t e r i o r j á e s t ã o p l a n t a d a s . V i a j a m o s à Síria para t e s t e m u n h a r a c o n v e r s ã o d e S a u l o e m D a m a s c o (9.1 - 1 9 ) . e o u v i m o s a p a l a v r a d o S e n h o r a ele p o r m e i o d e A n a n i a s : " E s t e é p a r a m i m u m i n s t r u m e n t o e s c o l h i d o p a r a l e v a r o m e u n o m e p e r a n t e o s g e n t i o s e reis, b e m c o m o p e r a n t e o s f i l h o s d e I s r a e l " (9.15). Agora essas sementes c o m e ç a m a germinar. Muito embora, geograficamente, a a ç ã o se c i r c u n s c r e v a b a s i c a m e n t e à J u d é i a e a S a m a r i a n o s três c a p í t u l o s s e g u i n t e s , a h i s t ó r i a d a c o n v e r s ã o d e C o r n é l i o n o c a p í t u l o 10 p r e p a r a - n o s p a r a a e x p l o s ã o q u e t e m l u g a r n o início d o c a p í t u l o 13. A q u i P a u l o e B a r n a b é s ã o e n v i a d o s p e l o E s p í r i t o S a n t o ao m u n d o gentílico, e e m três v i a g e n s m i s s i o n á r i a s consecutivas v e m o s o evangelho crescendo gradualmente mais longe de J e r u s a l é m e m a i s p e r t o d o s " c o n f i n s d a t e r r a " (1.8).

1.9-7.60 As fundações de Jerusalém
O d i a d o P e n t e c o s t e p r o v ê u m c u m p r i m e n t o inicial d a v i s ã o d e A t o s 1 . 8 . 0 d o m d e l í n g u a s c a p a c i t a os d i s c í p u l o s a f a l a r e m seu i d i o m a n a t i v o a t o d o s os q u e visitam Jerusalém. C o m o indica o Professor H o w a r d Marshall, esse d o m não era necessário para realmente comunicar-se c o m os estrangeiros presentes. I n d u b i t a v e l m e n t e , a g r a n d e m a i o r i a e r a c a p a z d e f a l a r o g r e g o koine. Assim, a i m p o r t â n c i a d o a c o n t e c i m e n t o e s t a v a e m q u e eles o u v i a m "as g r a n d e z a s d e D e u s " (2.11) n o s d i a l e t o s d e seus v i z i n h o s p a g ã o s n ã o - j u d e u s . E l e s e r a m , pois, aqueles para q u e m essa m e n s a g e m era destinada. Pedro estende a importância do acontecimento. Ele explica que é um c u m p r i m e n t o d a p r o m e s s a d e D e u s o d e r r a m a m e n t o d e seu E s p í r i t o s o b r e t o d a c a r n e ( 2 . 1 7 , 1 8 ) , n ã o s o m e n t e s o b r e t o d a s as n a ç õ e s , m a s s o b r e a m b o s o s s e x o s ( " f i l h o s e f i l h a s " ) , v e l h o s e j o v e n s , e s o b r e p e s s o a s d e t o d a s as c l a s s e s d a s o c i e d a d e ( m e s m o " s e r v o s , tanto h o m e n s c o m o m u l h e r e s " ) . N a r e a l i d a d e , c o m o P e d r o c o n t i n u a a dizer, a i n d a c i t a n d o Joel, " a c o n t e c e r á q u e t o d o a q u e l e q u e i n v o c a r o n o m e d o S e n h o r será s a l v o " (2.21). N e s t e a p e l o final ele t o r n a c l a r o que a promessa não é somente para "vós e vossos filhos", mas também "para t o d o s o s q u e a i n d a e s t ã o l o n g e " , f r a s e q u e se a p l i c a a o s g e n t i o s . D e u s m a n t e v e seu a c o r d o c o m A b r a ã o p a r a a b e n ç o a r t o d a s as f a m í l i a s d a terra a t r a v é s de s u a d e s c e n d ê n c i a ( 3 . 2 5 ; G ê n e s i s 12.3).

LUCAS E SUA MEÍNSAGEM

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N o s c a p í t u l o s 3 - 7 a igreja e m J e r u s a l é m é c o n s t i t u í d a . N a d a p o d e i n t e r r o m p e r a m e n s a g e m de Deus. Há problemas: perseguição (4.1-31; 5.17-42, hipocrisia ( 5 . 1 - 1 1 ) , e d e s u n i ã o ( 6 . 1 - 7 ) . M a s . n o m e i o de t o d a s e s t a s c o i s a s , " c r e s c i a a p a l a v r a de D e u s " (6.7). E m 2 . 4 1 , há 3 . 0 0 0 c r e n t e s ; e m 4 . 4 . 5 . 0 0 0 ; e m 5 . 1 4 . h á " m a i s e mais... c r e n t e s , t a n t o h o m e n s c o m o m u l h e r e s " , e e m 6.7 " e m J e r u s a l é m se m u l t i p l i c a v a o n ú m e r o d o s d i s c í p u l o s " . Esta p a r t e a t i n g e seu c l í m a x c o m a d e f e s a e m a r t í r i o d e E s t ê v ã o ( 6 . 8 - 8 . 1 ) . Ele é a c u s a d o d e falar contra M o i s é s (6.11). d i z e n d o q u e J e s u s destruirá o t e m p l o e m u d a r á a lei ( 6 . 1 3 , 1 4 ) . A a c u s a ç ã o é séria. A d e f e s a e l o q ü e n t e e hábil d e E s t ê v ã o t o r n a c l a r o o q u e J e s u s e s t a v a e f e t i v a m e n t e e n s i n a n d o ; e L u c a s u s a seu l o n g o r e g i s t r o d o d i s c u r s o de E s t ê v ã o ( 7 . 2 - 5 3 ) c o m o p r e p a r a ç ã o d e seus leitores p a r a as p r ó x i m a s m u d a n ç a s q u e h a v e r á na história. N u m a p a l a v r a , E s t ê v ã o diz q u e o v e l h o p a r t i c u l a r i s m o d á l u g a r a u m n o v o u n i v e r s a l i s m o . D e u s n ã o está a t a d o a u m e d i f í c i o ou a u m país. Ele e s t a v a c o m A b r a ã o na M e s o p o t â m i a , e m H a r ã e n a P a l e s t i n a ; c o m J o s é n o E g i t o ; c o m M o i s é s n a terra d e M i d i ã ; c o m o s israelitas n o d e s e r t o ; c o m J o s u é q u a n d o ele e s t a b e l e c e u a n a ç ã o na terra p r o m e t i d a . E v e r d a d e q u e S a l o m ã o c o n s t r u i u o t e m p l o , m a s o p r o f e t a Isaías diz q u e o t r o n o d e D e u s e s t á n o c é u e q u e a t e r r a é o e s c a b e l o d e seus p é s . A c o n s t a t a ç ã o d o V e l h o T e s t a m e n t o é clara: " n ã o h a b i t a o Altíssimo e m casas feitas por m ã o s h u m a n a s " (7.48). A i m p o r t â n c i a d o d i s c u r s o e m o r t e de E s t ê v ã o é tripla. T e o l o g i c a m e n t e , ela pavimenta o c a m i n h o para a próxima missão aos gentios. Pessoalmente, esses eventos levam à conversão de Saulo, que participa do apedrejamento de Estêvão e, s e m d ú v i d a , o u v e o seu d i s c u r s o . E l e se t o r n a o m a i o r e x p o e n t e d o e v a n g e l h o d e E s t ê v ã o ! E g e o g r a f i c a m e n t e , c o m o v e m o s , a m o r t e de E s t ê v ã o e n s e j a a e x p a n s ã o d o e v a n g e l h o d e J e r u s a l é m até à J u d é i a e S a m a r i a (8.1).

8.1-12.25 A pressão aumenta
T o d a esta p a r t e p o d e ser c o m p a r a d a a u m a á g u a e m f e r v u r a n u m a c a l d e i r a s e m v á l v u l a d e e s c a p e ; a p r e s s ã o a u m e n t a g r a d a t i v a m e n t e até q u e o s r e b i t e s n ã o p o d e m m a i s s u p o r t a r a f o r ç a e o inevitável a c o n t e c e — u m a e x p l o s ã o . A e x p l o s ã o o c o r r e n o c o m e ç o d o c a p í t u l o 13, q u a n d o f i n a l m e n t e o e v a n g e l h o se p r o j e t a e m direção ao m u n d o gentílico, sob o impulso poderoso do Espírito. A p r e s s ã o c o m e ç a a i r r o m p e r c o m a e x p a n s ã o e m S a m a r i a , n o c a p í t u l o 8, t a m b é m marcado por u m a atividade expressiva do Espírito Santo. A conversão d e S a u l o s o m a - s e a isto, e e n t ã o o l o n g o e p i s ó d i o , e m q u e a v i s ã o d e P e d r o e a experiência com Cornélio são relatadas duas vezes, acelera o expressivo d e s e n v o l v i m e n t o d a o b r a . C o m o p o d e a i g r e j a resistir à a t i v i d a d e d o E s p í r i t o , q u e e s t á e v i d e n t e m e n t e d e r r u b a n d o as v e l h a s b a r r e i r a s e n t r e j u d e u s e g e n t i o s ? A i g r e j a multirracial d e A n t i o q u i a p a s s a a existir, p o r é m n ã o c o m o a p o i o f r a n c o d a i g r e j a d e J e r u s a l é m ( 1 1 . 2 0 , 2 1 ) . N o c a p í t u l o 12 p a r e c e q u e v o l t a m o s o b s t á c u l o s . " E n t r e t a n t o a p a l a v r a d o S e n h o r c r e s c i a e se m u l t i p l i c a v a " ( 1 2 . 2 4 ) . A t é q u a n d o p o d e a p r e s s ã o c o n t i n u a r a n t e s q u e a f e r v u r a se e s p a r r a m e ?

13.1-15.35 Primeira viagem missionária de Paulo
U m a vez mais o Espírito dá um passo e impulsiona a igreja a seguir adiante. P o d e n o s p a r e c e r natural q u e p e s s o a s c h e g u e m a t o r n a r - s e c r i s t ã s s e m t a m b é m ser j u d i a s , m a s isto n ã o é a c e i t á v e l d e m o d o a b s o l u t o p a r a o s p r i m e i r o s c r e n t e s . C o m o Paulo e Barnabé e m sua primeira e m p r e s a missionária, eles descobrem por experiência que, q u a n d o os j u d e u s rejeitam o evangelho, "os gentios...

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HOMENS COM UMA MENSAGEM

lACEDONIA Tessalônica Berél&C"C:

Antioquia da Pisídia\ . Icônio \ P I S I D ^ * * , , Listra \
l//a

Atenas

%rgeVerbe

CILÍ

ACAIA

CHIPRE;, Mar Mediterrâneo Pafos Salaminè

Jerusalém

Primeira Viagem

Âs três viagens missionárias de Paulo e a viagem a Roma.

Puzuòit

Siracusa

i almoriâ
CIRENAICA Mar Mediterrâneo 'Jerusalém EGITO

A Viagem a Roma

\y—

LUCAS E SUA MEÍNSAGEM

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regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna" (13.48). O Espírito Santo parece requerer apenas que eles creiam no Senhor Jesus. Não se exige deles que também se tornem judeus. No final de seu roteiro missionário, Paulo e Barnabé alegremente concluem que Deus simplesmente "abrira aos gentios aporta da fé" (14.27). Alguns, entretanto, admitem que a ação do Espírito Santo precisa de cuidadosa interpretação. Alguns deles chegam a Antioquia insistindo em que "se não vos circuncidardes segundo o costume de Moisés, não podeis ser salvos" (15.1). Assim, o episódio relatado por Lucas em Atos 15 é uma conseqüência vital da missão recém-completada. Paulo e Barnabé são nomeados, juntamente com outros, para subirem a Jerusalém a fim de resolverem a questão com "os apóstolos e os presbíteros" (Atos 15.4): devem os gentios também tomar-se judeus para que sejam salvos? É provável que por esse tempo Paulo escreve sua carta aos gálatas como uma circular enviada às igrejas que ele havia fundado em sua viagem missionária. A carta é uma defesa apaixonada do ponto de vista que também prevaleceu em Jerusalém—que nossa "justificação", ou aceitação, diante de Deus não depende de nossa obediência à lei, mas somente a Cristo, a quem estamos unidos pela fé. Com esta questão vital resolvida, a fundação é lançada para que o evangelho avance sem obstáculo "até aos confins da terra". 15.36-18.22 Segunda viagem missionária de Paulo Esta viagem começa como um projeto para revisitar as igrejas fundadas na primeira viagem (15.36), porém novamente o Espírito Santo se antecipa, e em seguida os orienta. Em pouco tempo Paulo e seus companheiros decidem que

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0 gigantesco teatro de Éfeso visto do alto do terceiro lance de degraus ou assentos. Presume-se que foi neste teatro que houve o alvoroço provocado por aqueles cujo sustento dependia da fabricação de nichos da deusa Artêmis (a Diana dos efésios).

devem levar o evangelho até à Grécia (16.10), e acabam ministrando sucessivamente em Filipos, Tessalônica, Beréia, Atenas e Corinto. Paulo permanece mais de dezoito meses em Corinto antes de finalmente retornar ao seu "lar", a igreja em Antioquia. 18.23-21.16 Terceira viagem missionária de Paulo Inclinamo-nos a pensar que Paulo tinha concebido a idéia de fazer de Éfeso o centro do ministério, à semelhança de Corinto (18.21). Ele faz isto agora, despendendo ali mais de dois anos. Éfeso era, como Antioquia, uma das maiores cidades do império e o foco da vida de uma grande área adjacente. Mas de novo o Espírito se interpõe e muda a mente de Paulo sobre tal estratégia: Roma! O itinerário um tanto tortuoso pelo qual Paulo se decide (19.21) é provavelmente em conseqüência da coleta que ele levantou em favor da igreja em Jerusalém (por exemplo, Romanos 15.25-27): ele deseja levá-la pessoalmente até lá. Paulo está visivelmente preocupado com a visita a Jerusalém. Ele pede aos romanos que orem "para que eu me veja livre dos rebeldes que vivem na Judéia, e que este meu serviço em Jerusalém seja bem aceito pelos santos" (Romanos 15.31). Lucas destaca este pressentimento ao relatar as mensagens proféticas que falam a respeito de sua prisão (20.22,23; 21.10-14). E por certo, logo ao chegar a Jerusalém, Paulo se vê em dificuldades com os judeus e cristãos-judeus que desaprovam profundamente seu evangelho desvinculado da lei mosaica. 21.17-28.31 A viagem a Roma Estes capítulos finais de Atos contêm alguns dos mais comoventes escritos de toda a Bíblia. O fato marcante é que, desde o momento em que Paulo é agarrado pela multidão revoltosa em Atos 21.30, ele nunca mais consegue viver em liberdade. Ele passa o restante do livro como um prisioneiro, aparentemente abandonado diante dos caprichos da justiça romana.

LUCAS E SUA MEÍNSAGEM

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Mas o modo como Lucas narra a história dá uma impressão totalmente distinta. Paulo não está s u b j u g a d o e desamparado. O plano de Deus está se desenvolvendo. Paulo tem muitas oportunidades para testemunhar a uma enorme multidão em Jerusalém, ao sinédrio judaico, a dois governadores romanos, ao Rei Herodes e sua esposa, a uma tripulação e passageiros de aproximadamente trezentas pessoas num navio, ao governador de Malta e, através dele, a muitos outros habitantes da ilha, aos líderes de uma grande comunidade judaica em Roma, e, finalmente, a todos os que o procuram e ouvem na capital imperial. Paulo pode ter sido um prisioneiro, mas, como ele mais adiante expressa a Timóteo, "a palavra de Deus não está algemada" (2 Timóteo 2.9). Portanto a mensagem de Lucas é, afinal de contas, um grande estímulo a uma igreja sofredora e fraca. Sob quaisquer dificuldades em que ela opere, e por mais impotente que ela possa parecer, a igreja é sempre conduzida "em triunfo" (2. Co 2.14), se tão-somente seguirmos o exemplo de Paulo: confiar no Senhor da igreja e agarrar-se às oportunidades que Ele nos depara.

Leitura adicional
Menos exigente:

David Gooding, According to Luke. A new exposition of the Third Gospel ( Leicester: IVP, 1987) David Gooding, True to the Faith. Afresh approach to the Acts of the Apostles (Londres: Hodder & Stoughton, 1990) J. R. W. Stott, The Message of Acts: To the ends of the earth (Leicester: IVP, 1990) Michael Wilcock, The Message of Luke: The Saviour of the World (Leicester: IVP, 1979)

Mais exigente, obras eruditas:
J. A. Fitzmyer, Luke the Theologian. Aspects of His Teaching (Londres: Geoffrey Chapman, 1989) W. W. Gasque, A History of the Criticism of the Acts of the Apostles (Grand Rapids: Eerdmans, 1975) I. H. Marshall, Luke: Historian and Theologian (Exeter: Paternoster, 1970) JohnT. Squires, The Plan of God in Luke-Acts (Cambridge: Cambridge University Press, 1993)

João e sua Mensagem
Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome. (João 20.30,31)

Há cinco documentos separados em nosso Novo Testamento que se atribuem a João, a saber, o Evangelho que leva seu nome, as três cartas e o livro Apocalipse. Destes, Apocalipse é tão diferente quanto ao assunto que deve receber um tratamento separado, tenha sido ou não escrito pelo mesmo João. Goza de ampla concordância, contudo, o fato de que o Evangelho e as três cartas provêem da pena do mesmo autor. Não somente o estilo grego é muito semelhante, mas há muitas expressões teológicas surpreendentes que predominam no Evangelho e nas cartas—expressões tais como "Espírito de verdade", "luz" e "trevas", "do mundo", "filhos de Deus", "nascido de Deus", "permanecer" em Cristo, "guardar seus mandamentos", "amor", "testemunha", "vida" e "morte".

João, o homem
Mas, quem era o autor? Esta é uma pergunta complicada e controvertida. O ponto de vista tradicional é que o Evangelho e as cartas foram escritas já em sua idade avançada, em Éfeso, pelo apóstolo João, filho de Zebedeu. Esta interpretação remonta a Irineu, bispo de Lyons de 178 até sua morte em 195 d.C., aproximadamente. Irineu alegava ter uma ligação direta comJoão através de Policarpo, o bispo de Esmirna martirizado em 156 d.C. aos oitenta e seis anos de idade. Numa famosa carta conservada por Eusébio, o historiador da igreja, Irineu conta a um amigo como, quando jovem, sentava-se aos pés de Policarpo e o ouvia discorrer sobre suas conversações com João e o ensino que recebera diretamente do apóstolo. Podemos bem imaginar Policarpo, com seus vinte anos, ouvindo o apóstolo João, que, por sua vez, devia estar então nos seus oitenta anos, parecendo haver pouca razão para duvidar da alegação de Irineu. Quando, portanto, Irineu afirma que João, o filho de Zebedeu, escreveu o quarto Evangelho, e que ele era o "discípulo a quem Jesus amava", o qual se reclinava perto de Jesus na última ceia (13.23), devemos considerar seriamente seu testemunho. Deve ser dito, entretanto, que somente uns poucos dentre os principais

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estudiosos do século vinte aceitam esta evidência. Sua relutância deriva do ponto de vista, compartilhado pela maioria dos estudiosos, de que o Evangelho de João não é fundamentalmente uma obra histórica. Ele é, antes, o resultado de um longo processo de desenvolvimento teológico, refletindo, assim, o pensamento de um período tardio travestido na forma de Evangelho. Uma intepretação recente introduz uma distorção singular nesta visão, argumentando que o Evangelho reflete a história e as experiências, não de Jesus e seus discípulos, mas de uma igreja particular, à qual o evangelista (não João) pertencia. Para reanimar sua igreja esse evangelista escreveu a história de Jesus como se Ele tivesse passado pelas mesmas experiências de rejeição e perseguição que eles sofriam. Esta falta de respeito pelo Evangelho de João como história resulta de três de suas características que certamente requerem uma explanação: 1. Em muitos aspectos João apresenta uma imagem diferente de Jesus comparado com aquele dos Evangelhos sinópticos. Por exemplo, no Evangelho de João Jesus de modo algum é reticente ao alegar publicamente ser o Filho de Deus (p.ex., 5.19-30). 2. Não há qualquer diferença de estilo entre o ensino de Jesus em João e as próprias palavras do evangelista. Isto indica que o evangelista é responsável pela linguagem dos discursos proferidos por Jesus. 3. O Evangelho é belamente construído. Os estudiosos concordam que ele é uma obra-prima literária. Muitos, porém, consideram que um autor que dedicou tanto cuidado à estrutura e composição de sua obra devia preocupar-se em narrar a história. Tomados em conjunto, estes três pontos são sustentados por uma maioria de estudiosos, o que torna improvável que o Evangelho tenha sido escrito por uma testemunha ocular do ministério de Jesus. E, como conseqüência, a atribuição de sua feitura a João, filho de Zebedeu, pelos pais da igreja do primeiro século é rejeitada. Entretanto, devemos questionar seriamente este consenso dos estudiosos. 1. João e os sinópticos As incontestáveis diferenças entre o Evangelho de João e os sinópticos não significam necessariamente que João é historicamente falível. Estas diferenças foram notadas na igreja dos primeiros séculos e constituem a razão do comentário de Clemente de Alexandria (200 d.C., aproximadamente) de que "por fim, sabendo que os fatos 'materiais' estavam esclarecidos nos outros Evangelhos, compôs um Evangelho 'espiritual', incentivado por outros discípulos e inspirado pelo Espírito". A referência de Clemente sobre o Evangelho de João como sendo "espiritual" tem sido mencionada freqüentemente em apoio ao fato de que João não teve interesse na história. Nada, porém, está tão distante da verdade. De acordo com Clemente, João estava preocupado em transmitir a essência interior de Jesus, o "espírito" dentro do "corpo", e, desta forma, prover um relato que pudesse pretender ser tão historicamente confiável como os sinópticos. Além disso, são dignos de observação os muitos pontos em que a narrativa de João suplementa a dos sinópticos. Estes pontos foram expostos e discutidos num famoso ensaio do Dr. Leon Morris (ver no fim deste capítulo Leitura Adicional). E bem possível que João estivesse deliberadamente utilizando tradições e lembranças que não tinham sido utilizadas na tradição dos sinópticos.

72 HOMENS COM UMA MENSAGEM

E m vários aspectos João elabora o retrato que eles pintam. Por exemplo, enfatizando a discrição de Jesus e m proclamar-se publicamente c o m o "o Cristo", os sinópticos p o d i a m l e v a n t a r a a c u s a ç ã o d e q u e as p e s s o a s d i f i c i l m e n t e p o d e r i a m ser censuradas por não crerem nele. P o r é m João torna evidente que o i m p e d i m e n t o para a fé não estava no lado de Jesus. Vista de u m ângulo diferente, s u a a u t o p r o c l a m a ç ã o e r a c l a r a c o m o cristal, e, p o r t a n t o , a r e s p o n s a b i l i d a d e c a b e t o t a l m e n t e a n ó s , se n o s r e c u s a r m o s a crer.

2. A linguagem de João
É n o t ó r i o q u e n ã o h á d i f e r e n ç a estilística e n t r e o s d i s c u r s o s q u e J e s u s p r o f e r e e as p a r t e s n a r r a d a s d o E v a n g e l h o , p e l a s q u a i s o e v a n g e l i s t a é r e s p o n s á v e l . Entretanto, devemos lembrar que Jesus não ensinou em grego. Ele usou o a r a m a i c o , e p o r t a n t o t o d o s os n o s s o s registros d e seu e n s i n o r e s u l t a m de t r a d u ç ã o . E b e m conhecido o fato de duas traduções do m e s m o original diferirem g r a n d e m e n t e u m a da outra p o r q u e o estilo e o vocabulário da tradução são da escolha do tradutor. V e m de longa data a constatação de q u e o grego de J o ã o t e m muitas características h e b r a i c a s e a r a m a i c a s , d e m o d o q u e o a u t o r é c l a r a m e n t e b i l í n g ü e . A l é m d i s s o , se é v e r d a d e q u e J o ã o q u e r i a t r a n s m i t i r a e s s ê n c i a interior d o e n s i n o e da pessoa de Jesus, não é de surpreender que a l i n g u a g e m dos discursos reflita o próprio estilo de João.

3. A estrutura de João
O p r ó p r i o a u t o r r e v e l a o c u i d a d o c o m q u e c o m p ô s seu E v a n g e l h o . E l e o d e s c r e v e e m termos de seletividade: " N a verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos o u t r o s s i n a i s q u e n ã o e s t ã o e s c r i t o s n e s t e livro. E s t e s , p o r é m , f o r a m r e g i s t r a d o s para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, t e n h a i s v i d a e m s e u n o m e " ( 2 0 . 3 0 , 3 1 ) . C o m o p o d e m o s ver, a e s t r u t u r a e m e n s a g e m d o livro f o c a l i z a m os "sinais", os atos miraculosos de Jesus que i n d i c a m a l é m d e l e s as v e r d a d e s s o b r e s u a p e s s o a . E s t e s " s i n a i s " p a r t i c u l a r e s — todos exceto u m exclusivos e m J o ã o — f o r a m escolhidos c o m u m propósito pec u l i a r — o d e c o n v e n c e r seus leitores a c r e r e m e m J e s u s c o m o " o C r i s t o " . Isto q u e r d i z e r q u e os sinais f o r a m e s c o l h i d o s p a r a i n c l u s ã o , t e n d o e m m e n t e as n e c e s s i d a d e s d o s leitores. O e v a n g e l i s t a e s t a v a i n t e r e s s a d o e m m o s t r a r a relevância do ministério de Jesus para suas necessidades. Porém, por outro lado, isto n ã o s i g n i f i c a q u e o e v a n g e l i s t a n ã o t e n h a n e n h u m a p r e o c u p a ç ã o h i s t ó r i c a . Pelo contrário, ele não tinha n e n h u m evangelho por meio do qual convencer s e u s leitores, se J e s u s r e a l m e n t e n ã o r e a l i z a s s e e s s e s " s i n a i s " q u e m o s t r a m seu messiado. S ã o p o u c o s u b s t a n c i a i s , p o r t a n t o , as r a z õ e s f r e q ü e n t e m e n t e a p r e s e n t a d a s p a r a r e j e i t a r o p o d e r o s o t e s t e m u n h o d e I r i n e u . M a s , se a d m i t i m o s q u e o a u t o r de a m b o s o s t e x t o s , o E v a n g e l h o e as cartas, é o a p ó s t o l o J o ã o , o q u e p o d e m o s d i z e r a seu r e s p e i t o ?

1. Ele foi testemunha ocular.
A despeito da a v e r s ã o geral pela tradicional atribuição da autoria a João, estudiosos admitem que o autor exibe u m conhecimento p r o f u n d o da geografia d a P a l e s t i n a (p.ex., 1.28: 4 , 5 , 6 , 2 0 ) , d e J e r u s a l é m (p.ex., 5.2; 19.13), d o t e m p l o a n t e s d e s u a d e s t r u i ç ã o (p. ex., 2 . 2 0 ; 8.20; 10.23), e d o e s t a d o geral d o s a s s u n t o s d e I s r a e l n o t e m p o d e J e s u s . P o r e x e m p l o , J. L o u i s M a r t y n , u m e s t u d i o s o q u e m a i s q u e q u a l q u e r o u t r o m o l d o u o c o n t e m p o r â n e o c o n s e n s o entre eles, c o n f e s s a .

PAULO E SUA MENSAGEM

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n o e n t a n t o , q u e as v á r i a s a f i r m a ç õ e s d e J o ã o s o b r e a f é e v i d a j u d a i c a s " f i g u r a m o r g u l h o s a m e n t e e n t r e as m a i s c o r r e t a s a f i r m a ç õ e s s o b r e o p e n s a m e n t o j u d a i c o em todo o N o v o Testamento". A exatidão de João nestes aspectos deve certamente sugerir u m a preocupação pela precisão em seu registro dos acontecimentos do ministério de J e s u s — a m a i o r i a d o s q u a i s ele d e v e ter t e s t e m u n h a d o d i r e t a m e n t e , c o m o u m d o s D o z e . S u a s n a r r a t i v a s s ã o t e m p e r a d a s c o m a l u s õ e s a o t e m p o e lugar, b e m c o m o c o m o u t r o s d e t a l h e s c a s u a i s , t o d o s o s q u a i s n a d a a c r e s c e n t a m à h i s t ó r i a a n ã o ser para sublinhar a implícita reivindicação de que o autor conhece intimamente seu m a t e r i a l (p.ex., 1.39; 2 . 1 ; 3 . 2 3 ; 4 . 6 , 4 0 ; 11.54; 18.10; 2 1 . 1 1 ) .

2. Ele possuía um conhecimento íntimo de Jesus.
E m 21.24 o autor é identificado, não pelo nome, m a s c o m o "o discípulo que Jesus a m a v a " (compare c o m 21.20). Este "discípulo a m a d o " é m e n c i o n a d o t a m b é m e m 13.23; 19.26; 2 0 . 2 ; e 2 1 . 7 , e m u i t o s e s t u d i o s o s a c r e d i t a m q u e e l e é t a m b é m o "outro discípulo" a n ô n i m o de 18.15,16. E m cada ocasião e m que este discípulo aparece, a intimidade de seu r e l a c i o n a m e n t o c o m Jesus é ressaltada. P r i m e i r o ele a p a r e c e r e c l i n a d o à m e s a p e r t o d e J e s u s n o c e n á c u l o , tão p r ó x i m o d e l e q u e p ô d e sussurrai - a o seu o u v i d o s e m ser o u v i d o p e l o s o u t r o s ( 1 3 . 2 1 - 2 5 ; c o m p a r e c o m 21.20). E m seguida constatamos que, muito e m b o r a Jesus tenha p r e d i t o q u e t o d o s o s d i s c í p u l o s o a b a n d o n a r i a m (16.32), este e s p e c í f i c o d i s c í p u l o o a c o m p a n h a até o p á t i o d a c a s a d o s u m o s a c e r d o t e ( 1 8 . 1 5 ) . N a c r u z J e s u s confia a ele o cuidado de sua m ã e (19.25-27), e é ele a pessoa (novamente c o m P e d r o ) a q u e m M a r i a M a d a l e n a c o r r e c o m a n o t í c i a d o t ú m u l o v a z i o ( 2 0 . 1 , 2 ). Finalmente, é o discípulo a m a d o q u e m primeiro reconhece o Senhor ressurreto n a p r a i a d a G a l i l é i a e g r i t a p a r a P e d r o : " E o S e n h o r ! " (21.7), e q u e m e m s e g u i d a participa de u m a conversa privada que o Senhor tem com Pedro após a refeição da manhã (21.20-23). Se este "discípulo a m a d o " era João, p o d e m o s c o m p l e t a r este retrato de intimidade c o m os Evangelhos sinópticos. Pedro, Tiago e João f o r m a v a m juntos u m c í r c u l o í n t i m o d e n t r o dos D o z e . p e r m i t i d o p o r J e s u s p a r a t e s t e m u n h a r c e r t o s eventos cruciais. Eles v ê e m a ressurreição da filha de Jairo (Lucas 8.51), t e s t e m u n h a m s u a g l ó r i a n o m o n t e d a T r a n s f i g u r a ç ã o ( M a r c o s 9.2), o u v e m seu e n s i n o a p o c a l í p t i c o ( M a r c o s 13.3), e f i c a m a o l a d o d e l e e m s u a a m a r g a a g o n i a n o j a r d i m ( M a r c o s 14.33). D e m o d o geral, João desfrutou o m á x i m o relacionamento íntimo c o m Jesus, e p o r isso e s t a v a m a i s q u a l i f i c a d o d o q u e q u a l q u e r o u t r o d o s D o z e a t r a n s m i t i r n o s a m e n t e r e c ô n d i t a d o S e n h o r . E l e o v i u c o m s e u s o l h o s (1 J o ã o 1.1-3; c o m p a r e c o m 1 J o ã o 4 . 1 4 e J o ã o 1.14); o u v i u - o c o m s e u s o u v i d o s e t o c o u - o c o m s u a s m ã o s (1 J o ã o 1.1-3). E l e h a v i a a b s o r v i d o a p r ó p r i a m e n t e d o S e n h o r , p e n e t r a d o n o c o r a ç ã o d e s u a a u t o - r e v e l a ç ã o , e v e r d a d e i r a m e n t e c a p t a d o o espírito d e seu M e s t r e .

3. Ele fora profundamente mudado por Jesus.
João e Tiago, de acordo c o m Marcos, f o r a m apelidados por Jesus "Boanerges", q u e s i g n i f i c a " f i l h o s d o t r o v ã o " ( M a r c o s 3.17), e v á r i o s i n c i d e n t e s n a s n a r r a t i v a s d o E v a n g e l h o r e v e l a m seu t e m p e r a m e n t o t e m p e s t u o s o . E J o ã o q u e m se irrita e proíbe o ministério do exorcista que não era u m dos D o z e (Lucas 9.49,50). São o s dois f i l h o s d o t r o v ã o q u e j u n t o s f i c a m o f e n d i d o s c o m a r e c u s a d e u m a a l d e i a s a m a r i t a n a d e r e c e b e r J e s u s , e, à s e m e l h a n ç a d e E l i a s , q u e r e m i n v o c a r f o g o d o

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HOMENS COM UMA MENSAGEM

Um antigo poço numa aldeia da Judéia. Teria sido ao lado de um poço como este que Jesus se encontrou com a mulher samaritana. (João 4).

céu para consumi-la (Lucas 9.51-56). E são os mesmos irmãos que vêm com sua mãe pedir que os melhores assentos no Reino pudessem ser reservados para eles (Marcos 10.35-45; Mateus 20.20-28). Quão pequenos pareciam eles então para compreender o espírito de Jesus! Ele tem de repreendê-los: "Vós não sabeis de que espírito sois" (Lucas 9.55), e novamente: "Não sabeis o que pedis" (Mateus 20.22; Marcos 10.38). Entretanto, este filho do trovão tornou-se conhecido por nós como "o apóstolo do amor". E claro que o calor do sol do amor de seu Mestre fez com que se evaporassem as nuvens do trovão. Agora ele está mais do que aberto ao ministério de outros fora dos Doze: a mais eficiente evangelista em seu Evangelho é a mulher samaritana (4.39). E agora ele mostra os samaritanos sob a luz mais calorosa possível: eles excedem os judeus em sua resposta de crença em Jesus (4.42), e "instam" com Jesus para ficar com eles (4.40). E agora, longe de procurar reconhecimento e posição ao lado do Senhor, ele apaga completamente seu nome da história e dá a si mesmo um novo nome, o que registra o único epitáfio que ele deseja: esqueça todo o eu, fui amado por Jesus! João foi assim eminentemente apropriado a comunicar o coração de seu Senhor. Ele desejou apresentar seus leitores à Pessoa que ele veio a conhecer e amar. Ele queria que também tivessem comunhão com Ele (1 João 1.3), e esperava que eles tivessem seu caráter transformado como ele teve. Na realidade, ele explica claramente os propósitos para os quais escreveu. Ele escreveu seu Evangelho para que seus leitores cressem em Jesus e experimentassem a vida por meio da fé nele (20.31), e escreveu sua primeira carta àqueles que já acreditavam, para que pudessem saber que tinham vida (1 João 5.13). Sua teologia é profunda e desafiadora, mas seu propósito supremo é prático. Ele quis que seus leitores recebessem a vida eterna e ao mesmo tempo soubessem que já a receberam. Para que seus leitores recebam a vida eterna devem pôr sua confiança em Jesus Cristo, uma vez que nele está a vida (1.4). Portanto, em seu Evangelho João anuncia Jesus Cristo em toda sua glória divino-humana, que podemos ver e em quem podemos crer. Em particular, ele parece ter dirigido sua obra aos judeus, por enfatizar o meio pelo qual Jesus cumpre e substitui todas as grandes instituições do Judaísmo—o templo, a lei, as festas anuais. O templo e sua adoração se perderam, destruídos pelos romanos no ano 70 d.C.: depois dessa data o Evangelho de João poderia ter tido um apelo signitivamente poderoso para os judeus, cuja tristeza se converteu em alegria pela descoberta de que Deus já havia reparado aquela perda através de Jesus. Para seus leitores saberem que receberam a vida eterna, era necessário que compreendessem claramente as indispensáveis marcas do Cristianismo autêntico. Em suas cartas, especialmente em sua primeira, ele continua a anunciar estas coisas, como veremos.

A mensagem de João: 1. O Evangelho
1. Os fundamentos da fé O caminho para a vida é a fé (3.14-16,36; 6.47; 20.31). Mas sobre o que repousa a fé? João concordaria com a resposta dada por Paulo em Romanos 10.17: "A fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo." A fé nunca está

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i s o l a d a . E l a é s e m p r e u m a r e s p o s t a a u m a i n i c i a t i v a d e D e u s . E m p a r t i c u l a r , ela é d e s p e r t a d a p o r s u a p a l a v r a , ou, c o m o J o ã o diria, p o r seu " t e s t e m u n h o " . C r e r no t e s t e m u n h o de Deus, dado através de Cristo, é tomar os primeiros passos vitais para a fé que leva à vida eterna: acima de tudo, esta é a m e n s a g e m do Evangelho de João. Atualmente é tendência dos estudiosos sustentar que João não argumenta e m favor da fé, mas assume-a. Muitos estudiosos pretendem, assim, que o Evangelho d e J o ã o n ã o é e v a n g e l í s t i c o , isto é, n ã o se d e s t i n a a c o n v e n c e r o s d e s c r e n t e s s o b r e a r e t i d ã o d a f é e m C r i s t o . M a s este p o n t o d e v i s t a m a l se a p l i c a à e v i d ê n c i a do próprio Evangelho. A declaração de João sobre seu propósito e m 20.31 expressa u m intento evangelístico (veja o quadro a seguir). E no Evangelho e s t e t e m a d o t e s t e m u n h o p a r e c e ser d e s e n v o l v i d o p a r t i c u l a r m e n t e c o m o s descrentes judeus e m mente. Que testemunho João apresenta? a. Testemunho humano. Nas palavras de abertura do Evangelho, c o m o naquelas

d a p r i m e i r a c a r t a e d e A p o c a l i p s e , J o ã o t r a z seu p r ó p r i o t e s t e m u n h o s o b r e o S e n h o r J e s u s Cristo: " V i m o s a sua g l ó r i a " (1.14). A s s i m , ele inicia seu E v a n g e l h o c o m u m a afirmação, não c o m u m a prova. D o m e s m o m o d o c o m o Gênesis traz c o m o i n t r o d u ç ã o " N o p r i n c í p i o . . . D e u s " , a n u n c i a n d o a e x i s t ê n c i a d o Pai, a s s i m o E v a n g e l h o d e J o ã o t e m c o m o i n t r o d u ç ã o " N o p r i n c í p i o e r a o Verbo", a f i r m a n d o a preexistência do Filho com Deus. Estas verdades eternas são o produto da revelação divina, não da especulação h u m a n a . A g o r a , p o r é m , s ã o elas c o m u n i c a d a s p e l o a p a i x o n a d o t e s t e m u n h o d e s e r e s h u m a n o s , q u e se t o r n a r a m c o n v e n c i d o s d e l a s . O E v a n g e l h o c o m e ç a e termina c o m esta nota de testemunho apostólico (compare c o m 21.24). N o s c a p í t u l o s i n t e r p o s t o s t e m o s u m a s u c e s s ã o d e p e s s o a s q u e se e n c o n t r a m c o m Jesus e dão t e s t e m u n h o sobre Ele: • O testemunho de João Batista é introduzido j u n t a m e n t e c o m o de João no c o m e ç o ( 1 . 6 - 8 ) , e é o m a i s e l a b o r a d o ( v e j a t a m b é m 1 . 1 9 - 3 6 ; 3 . 2 5 - 3 0 ; 10.4042), talvez porque João Batista era a m p l a m e n t e reconhecido c o m o u m profeta pelos j u d e u s nos dias do apóstolo João. • Uma sucessão de discípulos encontram Jesus e dão testemunho (1.37-51): A n d r é c o n v e n c e seu i r m ã o S i m ã o , e F i l i p e t r a z N a t a n a e l , o q u a l f a z e n t ã o u m a e x p r e s s i v a c o n f i s s ã o d e f é (1.49). • Os samaritanos d ã o u m f o r t e t e s t e m u n h o n o c a p í t u l o 4: p r i m e i r o a m u l h e r t o r n a - s e c o n v e n c i d a d e q u e J e s u s é " o M e s s i a s " (4.29), e d e p o i s seus c o m p a t r i o t a s a f i r m a m que Jesus é "o Salvador do m u n d o " (4.42). • Pedro ( 6 . 6 8 . 6 9 ) , a multidão em Jerusalém ( 7 . 4 0 1 4 2 ) , o homem nascido cego ( 9 . 1 7 ) , Marta ( 1 1 . 2 7 ) , e Tomé ( 2 0 . 2 8 ) t o d o s d ã o d i f e r e n t e s t e s t e m u n h o s d e J e -

sus, d e p e n d e n d o d e s u a s d i f e r e n t e s e x p e r i ê n c i a s c o m E l e . A c o n f i s s ã o de T o m é c o m p õ e u m vigoroso clímax de toda a história. E m sua apresentação João não hesita e m incluir testemunhos contra Jesus (p.ex., 7 . 5 2 ; 8 . 5 2 , 5 3 ; 9 . 1 6 ; 10.20), e a s s i m s e u s l e i t o r e s s ã o f o r ç a d o s a t o m a r p a r t i d o : e m q u a l t e s t e m u n h o eles c r ê e m ? P a r a d e c i d i r isto, é n e c e s s á r i o a p r e s e n t a r e v i d ê n c i a , e t e s t e m u n h o s p o s t e r i o r e s são requeridos. E m b o r a essas testemunhas h u m a n a s sejam importantes, Jesus n ã o d e p e n d e d e s e u s t e s t e m u n h o s p a r a v a l i d a r s u a s r e i v i n d i c a ç õ e s (5.34). E l e até a c e i t a o p r i n c í p i o legal: " S e eu t e s t i f i c o a r e s p e i t o d e m i m m e s m o , o m e u t e s t e m u n h o n ã o é v e r d a d e i r o " (5.31). N o s tribunais j u d a i c o s n e n h u m t e s t e m u n h o

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João 20.30,31 e o Propósito do Evangelho
"Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome." Os manuscritos do texto grego de João variam levemente aqui, de um modo que tem permitido a alguns estudiosos argumentar que o propósito de João não era o de criar a fé, mas mantê-la. A variação afeta o tempo do verbo traduzido "para que creiais". Alguns manuscritos tem o tempo grego aoristo, que produziria a paráfrase "tenhais chegado à fé". Outros têm um tempo presente, que resultaria em "podeis vir a crer", e que pode portanto implicar que João escreveu com os cristãos em mente, tentando apoiá-los e fortalecer sua fé. Entretanto, mesmo que o tempo presente seja correto, a paráfrase poderia igualmente ser "podeis vir a crer e a continuar na fé". O tempo presente é usado com este sentido em João 6.29, dirigindo-se aos não-crentes. Indubitavelmente o Evangelho de João sustenta e fortalece a fé dos crentes, e tem sempre feito isto. Certamente, isto parece ser parte de seu propósito. Mas o plano de João é mais amplamente exteriorizado do que meramente isto. De 20.30,31 podemos inferir três aspectos a respeito de seu propósito: 1. Os "sinais " desempenham um papel vital em seu plano de persuadir seus leitores a crer. 2. Ele tem os judeus particularmente em sua mente, porque eles precisam aprender que Jesus é "o Cristo", isto é, o Messias. 3. Ele quer que a fé cresça, da fé intelectual que Jesus é o Cristo para a fé experencial que significa "vida em seu nome".

p o d i a ser a c e i t o a m e n o s q u e f o s s e c o r r o b o r a d o . O s f a r i s e u s l a n ç a r a m isto a J e s u s e m 8.13: " T u d á s t e s t e m u n h o d e ti m e s m o , l o g o o teu t e s t e m u n h o n ã o é v e r d a d e i r o . " P o r é m J e s u s a c e i t a e s t e r e p t o e r e p l i c a : " T a m b é m n a v o s s a lei e s t á escrito que o testemunho de duas pessoas é verdadeiro. Eu testifico de m i m m e s m o , e o Pai, q u e m e e n v i o u , t a m b é m t e s t i f i c a d e m i m " ( 8 . 1 7 , 1 8 ) . E a s s i m uma segunda testemunha é convocada: b. Testemunho divino. O Dr. A . E . H a r v e y e s c l a r e c e o s i g n i f i c a d o d e ter J e s u s

c h a m a d o a D e u s para testemunhar e m 5.3 7 e 8.18 (compare t a m b é m c o m 8.50; 10.32). N a s c o r t e s j u d a i c a s , o t e s t e m u n h o solitário p o d i a ser a c e i t o se o a c u s a d o invocasse solenemente a Deus para testemunhar que sua declaração era v e r d a d e i r a . E s t e e r a u m p a s s o s é r i o a ser t o m a d o p o r q u e , se e s t i v e s s e d e f a t o mentindo, o acusado expunha-se ao j u l g a m e n t o de Deus. E, de m o d o oposto, seus a c u s a d o r e s t e r i a m d e p e n s a r d u a s a três v e z e s antes d e r e p e t i r s u a a c u s a ç ã o , p o r q u e eles t a m b é m p o d i a m o p o r - s e a D e u s e a t r a i r o j u l g a m e n t o s o b r e si mesmos. E s t e é o e s p í r i t o s o l e n e p e l o q u a l J e s u s i n v o c a a D e u s p o r t e s t e m u n h a e m seu f a v o r . E m q u a l q u e r c a s o , a n a t u r e z a d a r e i v i n d i c a ç ã o d e J e s u s é tal q u e s o m e n t e D e u s p o d i a autenticá-la e apoiá-la: J e s u s a l e g a ser o Filho, u n i c a m e n t e a u t o r i z a d o a dar vida e exercer o julgamento, ambas prerrogativas do próprio D e u s (5.1923). Assim, é não somente u m passo corajoso, m a s essencial e m seu caso, que J e s u s d e v a citar a D e u s c o m o t e s t e m u n h a e m s e u f a v o r . A . E . H a r v e y t e m m o s t r a d o p r o v e i t o s a m e n t e , e m s e u l i v r o Jesus Julgamento, sob c o m o a figura do tribunal de justiça p e r m e i a todo o Evangelho de

J o ã o . J o ã o a p r e s e n t a s u a n a r r a t i v a d o m i n i s t é r i o d e J e s u s c o m o se E l e e s t i v e s s e em julgamento do começo ao fim, e não apenas no final diante do s u m o s a c e r d o t e . N a r e a l i d a d e , n e s t e E v a n g e l h o J e s u s n u n c a é formalmente julgado. E l e é e x e c u t a d o s e m o d e v i d o p r o c e s s o d a lei, m u i t o e m b o r a E l e m e s m o

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pleiteasse que testemunhas fossem convocadas quando compareceu diante do s u m o sacerdote (18.21). O j u l g a m e n t o ocorre neste sentido informal, através de t o d o o livro, d e m o d o q u e o s l e i t o r e s d e J o ã o s ã o e l e s m e s m o s c o l o c a d o s e m c e n a e c o m p e l i d o s a vir p o r s u a p r ó p r i a d e c i s ã o . Eles perguntam, c o m o os opositores de Jesus fazem, c o m o Deus dá testemunho d e s e u F i l h o (p.ex., 8.19). E s t e t e s t e m u n h o d i v i n o , r e s p o n d e J o ã o , é triplo: i. O Pai profere seu testemunho por meio dos lábios de Jesus. Repetidas vezes

Jesus nega que exponha suas palavras por sua própria autoridade. Sua autoridade é d e r i v a d a d o P a i q u e é seu autor. N ã o é E l e p r ó p r i o a P a l a v r a d o D e u s e n c a r n a d o ( 1 . 1 , 1 4 ) ? E n t ã o s u a s p a l a v r a s s ã o as p a l a v r a s d e D e u s ( 3 . 3 4 ) : • " O m e u e n s i n o n ã o é m e u , e s i m d a q u e l e q u e m e e n v i o u " (7.16). • " N a d a f a ç o por m i m m e s m o ; m a s falo c o m o o Pai m e e n s i n o u " (8.28). • " E u não tenho falado por m i m mesmo, mas o Pai que m e enviou, esse m e tem p r e s c r i t o o q u e d i z e r e o q u e a n u n c i a r . ... A s c o i s a s , p o i s , q u e e u f a l o , c o m o o P a i m e t e m dito, a s s i m f a l o " ( 1 2 . 4 9 , 5 0 ) . • " P o r q u e eu lhes t e n h o t r a n s m i t i d o as p a l a v r a s q u e m e d e s t e e eles as r e c e b e r a m . ... E u l h e s t e n h o d a d o a t u a p a l a v r a " ( 1 7 . 8 , 1 4 ) . Jesus espera que todos os que o o u v e m creiam e m suas palavras, p o r q u e elas são as p a l a v r a s d e D e u s . A o f a z e r e s t a s o l e n e a f i r m a ç ã o , E l e está d e l i b e r a d a m e n t e a l u d i n d o à f a m o s a p r o m e s s a d a d a a M o i s é s e m D e u t e r o n ô m i o 18.18: " S u s c i t a r l h e s - e i u m p r o f e t a d o m e i o d e s e u s i r m ã o s , s e m e l h a n t e a ti, e m c u j a b o c a p o r e i as m i n h a s p a l a v r a s , e ele l h e s f a l a r á t u d o o q u e e u l h e o r d e n a r . " J o ã o , n a t u r a l m e n t e , a c r e d i t a q u e J e s u s f a l e as p a l a v r a s d e D e u s n ã o a p e n a s p o r q u e E l e é u m " p r o f e t a c o m o M o i s é s " , q u e as p e s s o a s e s t a v a m e s p e r a n d o ( c o m p a r e c o m 1.21), m a s p o r q u e E l e é m u i t o m a i s q u e u m p r o f e t a : E l e é a p r ó p r i a " P a l a v r a d e D e u s " e m p e s s o a . M a s c o m o tal e l e c u m p r e a p r o f e c i a d e D e u t e r o n ô m i o 18, e s e u s l e i t o r e s p r e c i s a m ser p o s t o s e m s e u s l u g a r e s : e l e s o escutarão? E m relação a isto é digna de ser considerada a admirável nova designação de Deus no Evangelho de João como "aquele que m e enviou". Estas paráfrases dos nomes "Pai" e "Filho" quase sempre ocorrem e m contextos e m que a autoridade do Filho é desafiada ou a do Pai é reivindicada. "Aquele que envia" sustenta a autoridade de " q u e m Ele enviou": • " O e n v i a d o d e D e u s f a l a as p a l a v r a s d e l e " ( 3 . 3 4 ) . • " A q u e l e q u e m e e n v i o u é v e r d a d e i r o , d e m o d o q u e as c o i s a s q u e d e l e t e n h o ouvido, essas digo ao m u n d o " (8.26). • Jesus, pois, enquanto ensinava n o templo, clamou: ..."não v i m p o r q u e eu de m i m m e s m o o quisesse, mas aquele que m e enviou é verdadeiro, aquele a q u e m vós não conheceis. Eu o conheço, porque venho da parte dele e fui por ele enviado" (7.28,29). A validade do testemunho de Jesus é devido à sua vinda do céu (3.11-13). ii. O Pai dramatiza seu testemunho nas obras de Jesus. As "obras" de Jesus,

assim c o m o suas "palavras", foram-lhe dadas por Deus, de m o d o que são realmente obras de Deus, u m dramático testemunho para a condição única de Jesus c o m o filho. D o m e s m o m o d o que Ele p o d e dizer: " O m e u ensino não é m e u , e sim daquele que m e e n v i o u " (7.16), assim p o d e Ele falar das "obras q u e o P a i m e c o n f i o u p a r a q u e as r e a l i z a s s e " ( 5 . 3 6 ) ; c o m p a r e c o m 5 . 1 9 - 3 0 e 10.3139). A s s i m , o Filho age " d a parte do P a i " (10.32), e o Pai age n o Filho (10.38;

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14.10). A s o b r a s s ã o d o Pai, e m b o r a r e a l i z a d a s p o r m e i o d o F i l h o . E s t e d u p l o t e s t e m u n h o d e p a l a v r a s e o b r a s d e v e r i a ter s i d o a d e q u a d o p a r a suscitai- a f é (14.11), e n a r e a l i d a d e m u i t a s p e s s o a s s i m p l e s v ê e m as o b r a s ( 6 . 1 4 ) , o u v e m as p a l a v r a s ( 7 . 4 0 , 4 1 ) e c r ê e m (11.45). M a s c o m o realmente suas obras transmitem u m a m e n s a g e m sobre Ele? A palavra característica de João para os milagres de Jesus é "sinais", porque eles c o n t ê m a m e n s a g e m q u e a f é p o d e discernir. N i c o d e m o s e s t á m u i t o c e r t o a o d e c l a r a r q u e J e s u s p o d e r e a l i z a r tais " s i n a i s " s o m e n t e p o r q u e D e u s e s t á c o m E l e : "...és M e s t r e v i n d o d a p a r t e d e D e u s " (3.2). M a s , indicam eles a l g u m a coisa mais sobre Jesus, além desta m e r a p e r c e p ç ã o ? N i c o d e m o s está c o n f u s o . A l g u n s da m u l t i d ã o e m Jerusalém p e n s a m que os sinais p r o v a m q u e E l e é o C r i s t o ( 7 . 3 1 ) . O u t r o s , p o r é m , d i s c o r d a m : o s i r m ã o s d e J e s u s , p o r e x e m p l o , v ê e m o s sinais e n ã o l h e s a t r i b u e m v a l o r (7.3-5). M e s m o q u a n d o as p e s s o a s c r ê e m p o r c a u s a d o s sinais, J e s u s é, a p e s a r d i s s o , m u i t o cauteloso a respeito da qualidade de sua fé (2.23-25). O f a t o é q u e o s s i n a i s p o d e m s o m e n t e f a l a r se f o r e m i n t e r p r e t a d o s , e é o q u e

Esta sala numa casa de um residente rico na Jerusalém do primeiro século d.C. foi reconstruída de acordo com a evidência revelada durante as investigações arqueológicas.

J o ã o se p r o p õ e f a z e r . A s s i m , p o r e x e m p l o , a c u r a d e u m h o m e m a l e i j a d o e m 5.1-9 n ã o mostra somente o extraordinário poder ou misericórdia de Jesus: antes mostra sua autoridade para dizer ao p o v o de D e u s o que ele p o d e fazer n o sábado, e posteriormente revela seu relacionamento peculiar c o m o Pai, porque E l e e x i b e as " o b r a s " d o p r ó p r i o D e u s p o r m e i o d e s u a a ç ã o ( 5 . 9 - 2 0 ) . D e m o d o semelhante, a alimentação de cinco mil pessoas (6.1-14) é depois interpretada p e l o d e m o r a d o d i á l o g o q u e se s e g u e , n o q u a l J e s u s se p r o c l a m a " o p ã o d a v i d a " (6.25-59). A e s c o l h a d e J o ã o d o s sinais p a r a i n c l u i r e m seu E v a n g e l h o ( 2 0 . 3 0 , 3 1 ) é f e i t a c l a r a m e n t e p o r c a u s a d a c r e s c e n t e m e n s a g e m q u e ele q u e r tirar d e c a d a u m . Voltaremos a falar disto mais adiante. Mas, c o m o p o d e João convencer seus leitores de que tinha interpretado

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c o r r e t a m e n t e o s s i n a i s d e J e s u s ? C o m o p a s s a r d o t e m p o , c e r t a m e n t e , tal convicção seria a obra do Espírito Santo (16.8-11). P o r é m , u m fator importante a q u i , e s p e c i a l m e n t e p a r a o s leitores j u d e u s , e r a o V e l h o T e s t a m e n t o :

iii. O Pai escreve seu testemunho nas Escrituras do Velho Testamento.
• " E x a m i n a i s as E s c r i t u r a s , p o r q u e j u l g a i s ter n e l a s a v i d a e t e r n a , e s ã o e l a s m e s m a s q u e t e s t i f i c a m d e m i m . C o n t u d o n ã o q u e r e i s vir a m i m p a r a t e r d e s vida" (5.39,40). • " S e de fato crêsseis e m Moisés, t a m b é m creríeis e m m i m ; porquanto ele e s c r e v e u a m e u r e s p e i t o . Se, p o r é m , n ã o c r e d e s n o s s e u s e s c r i t o s , c o m o c r e r e i s nas minhas palavras?" (5.46,47). S u p r e m a m e n t e e finalmente, o t e s t e m u n h o do Pai sobre seu Filho está escrito nas Escrituras, c o m o asseveram estes dois dramáticos pronunciamentos. N o desenvolvimento destas declarações, João recorre ao Velho Testamento através d e seu E v a n g e l h o , t a n t o p o r c i t a ç ã o d i r e t a (p.ex., 2 . 1 7 ; 1 2 . 3 7 - 4 1 ; 1 9 . 3 6 , 3 7 ) , e freqüentemente por alusão aos textos ou temas do Velho Testamento. Seu propósito ao usar este recurso é mostrar que s o m e n t e Jesus faz sentido no Velho Testamento. Por exemplo, a afirmação e m 5.46 de que Moisés escreveu a respeito de Jes u s l e v a - n o s a o c a p í t u l o 6, n o q u a l o p a p e l d e M o i s é s c o m o o S a l v a d o r d e Israel, a q u e l e q u e o t i r o u d o E g i t o , é c o m p a r a d o a o q u e J e s u s a g o r a o f e r e c e . U m a m u l t i d ã o e s t á a c a m i n h o d e J e r u s a l é m p a r a a P á s c o a (6.4), a f e s t a e m q u e o ê x o d o d o E g i t o é c o m e m o r a d o . J e s u s o s a l i m e n t a m i r a c u l o s a m e n t e , tal c o m o Moisés fez naquela época. A l g u é m na multidão percebe a semelhança e declara q u e J e s u s p o d e ser o " p r o f e t a c o m o M o i s é s " ( 6 . 1 4 ) . E n t ã o J e s u s d i r i g e - s e a e l e s ( 6 . 2 5 - 5 9 ) , e l h e s diz q u e : • M o i s é s n ã o alimentou Israel; foi D e u s q u e m o fez (6.32). • O m a n á era alimento p u r a m e n t e físico, e e m nada contribuiu para salvar Israel do terrível i n i m i g o — o p e c a d o e a morte (6.49). Moisés, o s u p r e m o receptor e c o m u n i c a d o r d a lei n ã o p o d i a s a t i s f a z e r às n e c e s s i d a d e s m a i s p r o f u n d a s d o gênero humano. • Agora D e u s provê o alimento que dá "vida eterna", e finalmente satisfaz àquelas n e c e s s i d a d e s — o próprio Jesus (6.35). • O próprio Velho Testamento reconhece a necessidade de mais do que Moisés deu; porque os profetas o l h a m à frente para u m t e m p o e m que "serão todos ensinados por D e u s " (6.45, citando Isaías 54.13). A q u e l e t e m p o c h e g o u agora! O desafio de João aos seus leitores é o m e s m o de Jesus aos fariseus e m 7.24, e m que o significado da circuncisão está e m discussão: " N ã o julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça." Se eles reavaliarem sua c o m p r e e n s ã o das E s c r i t u r a s , v e r ã o c o m o J e s u s as c u m p r e .

2. Inspecionando o Evangelho
A e s t r u t u r a d o E v a n g e l h o d e J o ã o é c o m p l e x a ; p o r isso, q u a l q u e r a n á l i s e r á p i d a e s t á s u j e i t a a se t o r n a r s u p e r f i c i a l . E n t r e t a n t o , v a m o s s e g u i r a d i r e ç ã o d o p r ó p r i o João e focalizar nosso resumo nos "sinais". a. Agua em vinho—uma nova ordem. O primeiro capítulo apresenta Jesus c o m o

a Palavra de D e u s falada de u m a f o r m a nova. Anteriormente, D e u s falou através dos profetas, c o m o João Batista. M a s agora sua Palavra "se f e z carne" (1.14). Isto significa todo u m n o v o estágio e m seu relacionamento c o m o m u n d o : " A

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lei f o i d a d a p o r i n t e r m é d i o d e M o i s é s ; a g r a ç a e a v e r d a d e v i e r a m p o r m e i o d e Jesus Cristo" (1.17). E s t a " n o v a o r d e m " é s i m b o l i z a d a p e l o p r i m e i r o sinal, a t r a n s f o r m a ç ã o d a á g u a e m v i n h o (2.1-11). J e s u s t o m a o q u e o J u d a í s m o o f e r e c e c o m o u m m e i o d e p u r i f i c a ç ã o (2.6) e o t r a n s f o r m a e m a l g o q u e r e a l m e n t e s a t i s f a z à n e c e s s i d a d e . Esta m e n s a g e m é então transportada: primeiro Jesus purifica o templo, o f o c o d a r e l i g i ã o d a " v e l h a o r d e m " , e f a l a d e u m n o v o t e m p l o , seu c o r p o ( 2 . 2 1 ) . E m seguida Ele diz a N i c o d e m o s , "mestre e m Israel" (3.10), repositório do aprendizado mais p r o f u n d o disponível no Judaísmo, que ele precisa ser completamente refeito pelo Espírito. E logo a seguir a m e s m a m e n s a g e m é c o m u n i c a d a aos samaritanos, q u a n d o Jesus lhes oferece, através da mulher, " u m a f o n t e a j o r r a r p a r a a v i d a e t e r n a " (4.14), á g u a m a i s i m p o r t a n t e q u e a d o p o ç o de Jacó. b. Duas curas—nova vida, novo julgamento. O s d o i s sinais e m 4 . 4 6 - 5 4 e 5.1 - 9

f o r m a m u m par q u e é então interpretado através do grande discurso e m 5.1947. Neste discurso Jesus faz a mais ousada reivindicação possível: que, c o m o Filho, Ele exerce os privilégios do próprio Deus, particularmente para conc e d e r v i d a ( 5 . 2 1 ) e p r o f e r i r j u l g a m e n t o (5.22). " J u l g a m e n t o " n e s t e c o n t e x t o n ã o q u e r dizer a p e n a s c o n d e n a ç ã o , m a s e x p r e s s a a idéia d e d e c i s ã o real e d e c r e t o . C o m o juiz, Jesus, o Filho, t e m a autoridade de decidir sobre a vida e a morte para todos (5.25-30). Estes dois privilégios são "anunciados" nas duas ações que p r e c e d e m a r e i v i n d i c a ç ã o . J e s u s p r o f e r e u m a f r a s e q u e v i v i f i c a : "Vai, d i s s e - l h e J e s u s ; t e u filho vive" (4.50)—e o filho vive. E m seguida Ele pronuncia o j u l g a m e n t o ao h o m e m a l e i j a d o , n ã o s o m e n t e p a r a o r d e n a r - l h e q u e se l e v a n t e , m a s t a m b é m para dizer-lhe que carregue sua c a m a n o sábado (5.8-10), e adverti-lo: " N ã o peques mais, para que n ã o te suceda coisa pior" (5.14). c. Alimentando os 5.000—Jesus, o pão da vida. E x p l a n a n d o s u a r e i t e r a ç ã o d o ê x o d o , J e s u s a l e g a três v e z e s ser " o p ã o d a v i d a " ( 6 . 3 5 , 4 8 , 5 1 ) . Q u a n d o E l e parte os pães e alimenta os 5.000 ( 6 . 1 - 1 5 — o único milagre registrado pelos quatro evangelistas), Ele está simbolizando a dádiva de sua própria carne " q u e d a r e i p e l a v i d a d o m u n d o " (6.51). E l e e s t á a q u i se r e f e r i n d o c l a r a m e n t e à s u a c r u z . E s u a c a r n e d i l a c e r a d a q u e constitui o "o alimento real", e é seu sangue d e r r a m a d o a "bebida real" (6.55). S o m e n t e p o r m e i o d e s u a m o r t e é q u e a v i d a se t o r n a d i s p o n í v e l p a r a n ó s . C o m e r e b e b e r são a s u r p r e e n d e n t e i l u s t r a ç ã o d a f é , i s t o é, a a c e i t a ç ã o p e s s o a l d e Cristo, a a b s o r ç ã o e s p i r i t u a l d e s u a v i d a p o r n ó s m e s m o s ( 6 . 5 7 ) . C o m p a r a n d o 6.47 c o m 6.54, vemos claramente que "crer" é equivalente a "comer e beber". Se este discurso é histórico, dificilmente ele será u m a referência direta à Ceia do Senhor, que não tinha sido ainda instituída. Entretanto, muitos estudiosos a c r e d i t a m q u e J o ã o e s c r e v e u seu E v a n g e l h o t e n d o c o m o p a n o d e f u n d o o c e n á r i o d o s s e r v i ç o s d e c u l t o d a i g r e j a , e q u e ele p r ó p r i o t e r i a i n t e r p r e t a d o e s t e d i s c u r s o c o m o referindo-se à Santa C o m u n h ã o . E certamente apropriado sentir que, quando reunidos para celebrar a Ceia do Senhor, estamos particularmente aptos a exercer a f é da qual esta p a s s a g e m fala. d. Curando um homem cego—Jesus, a luz do mundo. N o capítulo 6 Jesus

apresenta-se c o m o substituto da festa da Páscoa; nos capítulos 7 - 1 0 Ele faz o m e s m o e m relação à festa maior do calendário judaico, a festa dos tabernáculos. O c e n t r o d e a t e n ç ã o d e s t a p a r t e é a c u r a d e u m c e g o d e n a s c e n ç a ( c a p í t u l o 9).

82 HOMENS COM UMA MENSAGEM

A q u i n o v a m e n t e u m ato físico simboliza u m a verdade espiritual. Por duas vezes nesta parte Jesus proclama: " E u sou a luz do m u n d o " (8.12; 9.5). Esta é u m a referência à f a m o s a cerimônia das luzes q u e tinha lugar durante a festa dos tabernáculos, quando grandes lâmpadas eram colocadas no templo, representando a "coluna de f o g o " q u e Israel tinha para seguir através do deserto. A g o r a , p o r é m , J e s u s c l a m a : " E u sou a l u z d o m u n d o ; q u e m m e s e g u e n ã o a n d a r á n a s t r e v a s , a o c o n t r á r i o t e r á a luz d a v i d a " ( 8 . 1 2 ) . U m a v e z q u e , d e p o i s d e 7 0 d.C., a f e s t a d o s t a b e r n á c u l o s n ã o m a i s e r a c e l e b r a d a no templo, a manifestação de Jesus dirige-se à necessidade sentida por muitos j u d e u s d a q u e l e s t e m p o s . T a m b é m eles, c o m o o c e g o d o s t e m p o s a n t e r i o r e s , o q u a l f o r a e x p u l s o d a s i n a g o g a (9.34), t i n h a m p e r d i d o s e u l u g a r d e a d o r a ç ã o . M a s J e s u s e n c o n t r a - s e c o m o c e g o e r e s t a u r a seu c u l t o , d a n d o - l h e u m a v i s t a e s p i r i t u a l p a r a c o m b i n a r c o m s u a v i s t a f í s i c a . E n t ã o , q u a n d o se c u r v a e m a d o r a ç ã o d i a n t e d o F i l h o d o H o m e m ( 9 . 3 5 - 3 8 ) , ele m a n t é m a e s p e r a n ç a e u m a m e n s a g e m a t o d o s os q u e n e c e s s i t a m d e tal r e s t a u r a ç ã o : a d o r e o F i l h o d o H o m e m , q u e é a luz d o m u n d o , e v o c ê c e l e b r a r á r e a l m e n t e a f e s t a d o s t a b e r n á c u l o s ! e. Ressuscitando Lázaro—Jesus, a ressurreição e a vida. A r e s s u r r e i ç ã o d e L á z a r o

( c a p í t u l o 11) é o ú l t i m o g r a n d e a t o p ú b l i c o d e J e s u s a n t e s d e s u a p r ó p r i a m o r t e . J o ã o p r e p a r a s e u s l e i t o r e s p a r a isto p o r m e i o d o " D i s c u r s o d o B o m P a s t o r " n o c a p í t u l o 10. A q u i a p r e n d e m o s q u e , se J e s u s d e v e ir e m b u s c a d a s " o v e l h a s " e m i n i s t r a r a elas, c o m o o h o m e m c e g o d o c a p í t u l o 9, e n t ã o isto se d a r á a o c u s t o de sua própria vida. C o m o o b o m pastor, Ele dá sua vida pelas ovelhas (10.11,14,15). E s t a a u t o - e n t r e g a d e J e s u s é d r a m a t i c a m e n t e p r e f i g u r a d a n o c a p í t u l o 11. E l e e s c a p a d e u m a v i o l e n t a h o s t i l i d a d e e m J e r u s a l é m e c r u z a o rio J o r d ã o p a r a s u a segurança (10.31,39,40). T o m é sabe perfeitamente b e m que será u m suicídio v o l t a r a J e r u s a l é m (11.16). M a s J e s u s , a p e s a r d i s s o , r e t o r n a p o r q u e s o m e n t e ele p o d e salvar L á z a r o . A r e s s u r r e i ç ã o de L á z a r o está ligada à r e t u m b a n t e reivindicação: "Eu sou a ressurreição e a vida" (11.25). M a s está claro que J e s u s s o m e n t e p o d e ser a " r e s s u r r e i ç ã o e a v i d a " p a r a L á z a r o a o c u s t o d e s u a p r ó p r i a v i d a . E a s s i m n ã o n o s s u r p r e e n d e q u a n d o o s i n é d r i o se r e ú n e e d e c i d e q u e a r e s s u r r e i ç ã o d e L á z a r o é a ú l t i m a g o t a . S e J e s u s c o n t i n u a r s u a m i s s ã o , as conseqüências serão incalculáveis. Ele deve morrer (11.47-53). Assim, tanto a morte de Jesus c o m o sua ressurreição são prenunciadas nos c a p í t u l o s 10 e 11. O c a p í t u l o 10 a p r e s e n t a - o c o m o o b o m p a s t o r q u e m o r r e p e l a s o v e l h a s , e o c a p í t u l o 11 c o m o a r e s s u r r e i ç ã o q u e d á v i d a a o s m o r t o s . A partir d e s t e p o n t o a história t o m a seu r u m o inevitável. A p a r t i d a d e J e s u s d e s p o n t a n o horizonte (13.1). E l e se retira a u m lugar privado c o m seus discípulos e prepara-os para u m a vida e m que a alegria de sua presença física será substituída p o r u m a u n i ã o e s p i r i t u a l c o m E l e ( c a p í t u l o s 14-16). S e g u e m - s e o s m o m e n t o s factuais de sua detenção, m o r t e e ressurreição (capítulos 18-21). Através desta excitante apresentação João almeja que seus leitores v e n h a m compartilhar a fé, experimentar a vida e associar-se à c o m p a n h i a dos seguidores de Jesus Cristo.

A mensagem de João: 2. As cartas
A s c a r t a s d e J o ã o s u p l e m e n t a m s e u E v a n g e l h o , e m b o r a n ã o e s t e j a c l a r o se e l a s f o r a m escritas antes ou depois. A s opiniões entre os estudiosos variam, m a s o

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João ficou intimamente ligado à igreja em Éfeso, e acreditase que tenha morrido lá. Estas ruínas fazem parte da majestosa igreja dedicada a João, construída ali por Justiniano no sexto século.

c o s t u m e d e dirigir-se a s e u s leitores c o m o " a m a d o s " e " f i l h i n h o s " , e o f a t o d e c h a m a r a si m e s m o " p r e s b í t e r o " ( 2 J o ã o 1; 3 J o ã o 1), s u g e r e q u e e l e p o d e e s t a r e s c r e v e n d o e m sua i d a d e a v a n ç a d a . E n t r e t a n t o , s e j a q u a l f o r a data, a m e n s a g e m das cartas desenvolve aquela do E v a n g e l h o . E v i d e n t e m e n t e n ã o p o d e m o s desfrutar u m a dádiva a m e n o s que saibamos que a possuímos. A fé precisa de c e r t e z a . P o r t a n t o , se D e u s d e s e j a q u e r e c e b a m o s e d e s f r u t e m o s a v i d a e t e r n a ( J o ã o 6 . 4 0 ) , o c o n h e c i m e n t o q u e d e f a t o r e c e b e m o s é vital. J o ã o e s c r e v e u sua p r i m e i r a carta, p o r t a n t o , " a f i m d e s a b e r d e s q u e t e n d e s a v i d a e t e r n a , a v ó s o u t r o s q u e c r e d e s e m o n o m e d o F i l h o d e D e u s " (1 J o ã o 5.13). E l e f o i i m p e l i d o a f a z e r isto p e l a s c i r c u n s t â n c i a s d e sua p r ó p r i a i g r e j a . S e João estava escrevendo e m sua velhice, p o d e m o s razoavelmente seguir a e v i d ê n c i a d e I r i n e u e i m a g i n á - l o a g i n d o c o m o u m p r e s b í t e r o líder n a i g r e j a e m Éfeso. É f e s o era u m a grande cidade, e o centro cultural e e c o n ô m i c o de u m a g r a n d e r e g i ã o a d j a c e n t e . P a r e c e q u e as t r ê s c a r t a s d e J o ã o f o r a m e s c r i t a s a c o n g r e g a ç õ e s locais n a " á r e a p e r i f é r i c a d e É f e s o " , s o b r e as q u a i s o v e l h o a p ó s t o l o exercia orientação pastoral e supervisão. A igreja e m Éfeso estava evidentemente sendo perturbada por ensino falso de u m a espécie particularmente perigosa. Os mestres hereges e r a m "anticristos" (1 J o ã o 2 . 1 8 ) , " m e n t i r o s o s " (2.22), " e n g a n a d o r e s " ( 2 . 2 6 ; 2 J o ã o 7), e " f a l s o s p r o f e t a s " (4.1). J o ã o q u e r i a t a n t o e x p o r s u a h i p o c r i s i a c o m o c o n f i r m a r a f é d o s verdadeiros crentes. A heresia parece ter sido u m a espécie de gnosticismo p r e c o c e , m u i t o s e m e l h a n t e , se n ã o i d ê n t i c a , à q u e l a e n s i n a d a p o r u m tal C e r i n t o , q u e p o d e ter sido u m a d v e r s á r i o d e J o ã o e m É f e s o . H a v i a três e l e m e n t o s p a r t i c u l a r e s n e s t e e n s i n o v e n e n o s o .

1. Erro cristológico
J o ã o a c u s a o s h e r e g e s d e " t e r o Pai, m a s n e g a r o F i l h o " ( 2 . 2 2 , 2 3 ; c o m p a r e c o m 2 J o ã o 9). I r i n e u a j u d a - n o s a c o m p r e e n d e r e s t a a c u s a ç ã o . E l e s p r o v a v e l m e n t e

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HOMENS COM UMA MENSAGEM

e n s i n a v a m que Jesus de N a z a r é era u m h o m e m c o m u m , filho natural de José e Maria. Q u a l q u e r idéia de e n c a r n a ç ã o era impossível para eles, p o r q u e consideravam o assunto essencialmente nocivo. Sobre este h o m e m , e m seu batismo, "o Espírito" ou "o Cristo" desceu; apenas para deixá-lo e retornar ao céu antes da cruz. Portanto, q u a n d o João diz que eles n e g a m "que Jesus é o Cristo" (2.22), d e v e m o s naturalmente entender q u e isto significa q u e eles n e g a v a m q u e Jesus e o Cristo são u m a e a m e s m a pessoa. M a i s tarde João comenta este ponto de vista c o m o u m a negação de "Jesus Cristo vindo e m c a r n e " ( 2 J o ã o 7; c o m p a r e c o m 1 J o ã o 4.2), e isto p a r e c e r e f l e t i r a m e s m a distinção entre "Jesus" e "o Cristo". P a r a J o ã o tal d e s p r o p ó s i t o é u m a n e g a ç ã o t a n t o d a e n c a r n a ç ã o c o m o d a e x p i a ç ã o . E l e d e s p o j a a p e s s o a d e C r i s t o d e s u a d i v i n d a d e , d o seu e n s i n o c o m autoridade, e da eficácia de sua morte. João afirma nos termos mais fortes p o s s í v e i s q u e n i n g u é m q u e r e j e i t a o F i l h o p o d e ter o P a i ( 2 . 2 3 , 2 4 ) . J e s u s , o C r i s t o , o F i l h o d e D e u s , é " a q u e l e q u e v e i o p o r m e i o d e á g u a e s a n g u e " (5.6). E s t a é u m a f r a s e o b s c u r a , m a s p o d e b e m r e f e r i r - s e a o seu b a t i s m o e à s u a c r u z , a m b o s os q u a i s , J o ã o d e c l a r a e m o p o s i ç ã o a o e n s i n o herético, f o r a m e x p e r i ê n c i a s através das quais passou o divino-humano Jesus de Nazaré.

2. Auto-engano moral
Os hereges estavam equivocados tanto em ética c o m o em doutrina, e provavelmente pela m e s m a razão básica. Se o assunto é essencialmente nocivo, não somente a encarnação é impossível, mas o corpo humano é meramente u m invólucro para o espírito, e a m o r a l i d a d e torna-se u m a questão de indiferença. N a d a d o q u e o c o r p o f a z p o d e p r e j u d i c a r o e s p í r i t o interior. É p o s s í v e l , e l e s talvez a r g u m e n t a v a m , " s e r j u s t o " s e m " f a z e r j u s t i ç a " — e s t a r n u m r e l a c i o n a m e n t o correto c o m Deus sem a correpondente correção na vida. J o ã o c o m b a t e a r d o r o s a m e n t e e s t e s e g u n d o erro. • " A q u e l e q u e diz: ' E u o c o n h e ç o ' , e n ã o g u a r d a o s s e u s m a n d a m e n t o s , é m e n t i r o s o " (2.4). • "Filhinhos, não vos deixeis enganar por ninguém; aquele que pratica a justiça é j u s t o , a s s i m c o m o e l e é j u s t o " (3.7). • " N ã o imites o que é mau, senão o que é bom. Aquele que pratica o b e m procede d e D e u s , a q u e l e q u e p r a t i c a o m a l j a m a i s v i u a D e u s " (3 J o ã o 11). • "Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a v e r d a d e n ã o e s t á e m n ó s " (1 J o ã o 1.8).

João e Cerinto
Vimos acima o notável rasto de memória que liga João. por intermédio de Policarpo, a Irineu. Isto não pode ser infalível, naturalmente, mas um elemento nele é a tradição de que nos últimos anos de sua vida João se opôs a Cerinto em Éfeso. Irineu refere-se a um incidente particular, que diz ter ouvido de Policarpo. João fugiu de um balneário público em Éfeso, exclamando: "Salvemo-nos! O balneário vai desabar, porque dentro está Cerinto, o i n i m i g o da v e r d a d e ! " Os d e t a l h e s p a r e c e m inverossímeis, mas este episódio ao menos atesta a ardente preocupação com a verdade que caracteriza as três cartas de João. Irineu apresenta um resumo detalhado do ensino de Cerinto, que podemos relacionar à evidência das cartas de João para formar uma imagem da heresia a que o apóstolo se opunha.

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João preocupavase de que os crentes tivessem vidas irrepreensíveis e puras; havia muitas tentações a evitar, Este sinal gravado numa pedra entre as ruínas da antiga Éfeso marcava o local de um bordel.

P o r t a n t o , o f i l h o d e D e u s d e v e " p u r i f i c a r - s e a si m e s m o , a s s i m c o m o ele é p u r o " (3.3). J o ã o é i n f l e x í v e l n e s t e p o n t o : • "Aquele que pratica o pecado procede do diabo, porque o diabo vive pecando d e s d e o p r i n c í p i o . P a r a isto se m a n i f e s t o u o F i l h o d e D e u s , p a r a d e s t r u i r as obras d o diabo. T o d o aquele que é nascido de D e u s não vive na prática de p e c a d o ; p o i s o q u e p e r m a n e c e n e l e é a d i v i n a s e m e n t e ; ora, e s s e n ã o p o d e v i v e r p e c a n d o , p o r q u e é n a s c i d o d e D e u s " (3.8,9). J o ã o n ã o e s t á e n s i n a n d o a t o t a l i m p o s s i b i l i d a d e d e p e c a r , p o r q u e ele d e c l a r o u e m 2.1 q u e h á p e r d ã o g r a t u i t o " s e a l g u é m p e c a r " . E l e e s t á a n t e s e n s i n a n d o a total i m p r o p r i e d a d e d o p e c a d o p a r a a l g u é m q u e f o i t r a z i d o a o n o v o n a s c i m e n t o p o r D e u s . N e s t a ê n f a s e J o ã o se j u n t a a s e u M e s t r e : o J e s u s q u e e x p ô s a v i d a imoral da mulher samaritana (João 4.16-18), disse ao justo N i c o d e m o s que ele precisava nascer de n o v o (3.1-15), advertiu o aleijado que não mais pecasse (5.14), disse aos fariseus q u e eles e r a m meros escravos d o p e c a d o (8.34), incentivou seus discípulos a guardarem seus m a n d a m e n t o s (14.15,21-24), e orou para q u e o Pai guardasse e santificasse os q u e e r a m seus (17.17); este J e s u s era o S a n t o q u e e x i g i a a v e r d a d e n a s c o i s a s espirituais. " F i l h i n h o s , g u a r d a i v o s d o s í d o l o s " (1 J o ã o 5 . 2 1 ) f o r a m as ú l t i m a s p a l a v r a s d e J o ã o a eles.

3. Auto-exaltação espiritual
O terceiro aspecto do sistema dos hereges que merece a condenação do apóstolo era sua atitude de superioridade e m relação a outrem. E r a m religiosos esnobes q u e a l e g a v a m ter u m a r e v e l a ç ã o e s p e c i a l p r ó p r i a ( 4 . 1 - 3 ) . E r a m o s " e s p i r i t u a i s " ,

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a a r i s t o c r a c i a i l u s t r a d a , a elite r e l i g i o s a . E l e s m e n o s p r e z a v a m o s d e m a i s . João contradiz categoricamente sua pretensão. Escrevendo a toda a igreja ele diz: " V ó s p o s s u í s a u n ç ã o q u e v e m d o S a n t o , e t o d o s t e n d e s c o n h e c i m e n t o . . . a unção que dele recebestes p e r m a n e c e e m vós, e não tendes necessidade de q u e a l g u é m v o s e n s i n e " (1 J o ã o 2 . 2 0 , 2 7 ) . N ã o h á r e v e l a ç ã o s e c r e t a . O e n s i n o a p o s t ó l i c o — e a c o n v i c ç ã o p r o f u n d a e í n t i m a d e sua v e r d a d e d a d a p e l o E s p í r i t o — é a possessão de toda a igreja. A l é m disso, os m e m b r o s d a i g r e j a d e v e m a m a r - s e r e c i p r o c a m e n t e . S ã o i r m ã o s e i r m ã s . E m s u a ú l t i m a o r a ç ã o o S e n h o r p e d i u a o P a i q u e seus d i s c í p u l o s f o s s e m u n i d o s ( J o ã o 1 7 . 2 0 - 2 3 ) . P o r t a n t o , n i n g u é m p o d e e s t a r " n a l u z " se o d e i a seu i r m ã o (1 J o ã o 2.9-11). N a v e r d a d e , d e v e m o s e s t a r p r o n t o s a s e g u i r o e x e m p l o d e J e s u s e " d a r n o s s a v i d a p e l o s i r m ã o s " (1 J o ã o 3.16). E s t e a m o r é a b s o l u t a m e n t e fundamental: "Aquele que não a m a não conhece a Deus, pois Deus é a m o r " (4.8). M a s esse a m o r tem sido n e g a d o f u n d a m e n t a l m e n t e pelos hereges. Pelo r o m p i m e n t o da c o m u n h ã o c o m o restante da igreja, eles r e v e l a r a m suas verdadeiras tendências: "Eles saíram de nosso meio, entretanto não eram dos n o s s o s ; p o r q u e , se t i v e s s e m s i d o d o s n o s s o s , t e r i a m p e r m a n e c i d o c o n o s c o ; t o d a v i a , eles se f o r a m p a r a q u e f i c a s s e m a n i f e s t o q u e n e n h u m deles é dos n o s s o s " (2.19). Eles não p o d e m dizer que a m a m a Deus, pois ao m e s m o t e m p o o d e i a m os filhos de D e u s (4.20,21).

J o ã o t r a n s f o r m a o t r i p l o e r r o d o s h e r e g e s n u m t r i p l o teste d e C r i s t i a n i s m o a u t ê n t i c o . A o m e s m o t e m p o q u e d e b i l i t a a c o n f i a n ç a d o s f a l s o s c r i s t ã o s , ele f o r t i f i c a a c o n v i c ç ã o d o s r e a i s c r i s t ã o s . C o m o T i a g o , ele d e s e n h a u m c o n t r a s t e e n t r e o q u e as p e s s o a s a l e g a m ser e o q u e elas r e a l m e n t e são. C o m f r e q ü ê n c i a e l e u s a u m a e x p r e s s ã o c o m o " n i s t o s a b e m o s [ou s a b e i s ] ...", p a r a i n t r o d u z i r o s t e s t e s d e c o n f i a n ç a , e estes testes c o i n c i d e m c o m os e r r o s d o s h e r e g e s : • "Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus C r i s t o v e i o e m c a r n e é d e D e u s " (4.2). E s t e é o teste cristológico. moral. • " N i s t o s ã o m a n i f e s t o s o s f i l h o s d e D e u s e os f i l h o s d o d i a b o : t o d o a q u e l e q u e n ã o p r a t i c a j u s t i ç a n ã o p r o c e d e d e D e u s " (3.10). E s t e é o teste • " N ó s s a b e m o s que j á p a s s a m o s da mortre para a vida, porque a m a m o s os i r m ã o s " ( 3 . 1 4 ) ; " E n i s t o c o n h e c e m o s q u e ele p e r m a n e c e e m n ó s , p e l o E s p í r i t o q u e n o s d e u " (3.24). E s t e é o teste espiritual. J o ã o f a z as m e s m a s a f i r m a ç õ e s n e g a t i v a m e n t e : • " Q u e m é o mentiroso senão aquele que nega que Jesus é Cristo?" (2.22). • " S e d i s s e r m o s q u e m a n t e m o s c o m u n h ã o c o m ele, e a n d a r m o s n a s t r e v a s , m e n t i m o s " (1.6). • " S e a l g u é m d i s s e r : ' A m o a D e u s ' , e o d i a r a seu i r m ã o , é m e n t i r o s o " ( 4 . 2 0 ) . E s t a s são as três p r o v a s d e C r i s t i a n i s m o g e n u í n o . J o ã o r e ú n e todas elas n o c o m e ç o d e seu c a p í t u l o c i n c o : • "Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de D e u s ; e todo aquele q u e a m a a o q u e o g e r o u , t a m b é m a m a ao q u e d e l e é n a s c i d o . N i s t o c o n h e c e m o s q u e a m a m o s os f i l h o s de D e u s , q u a n d o a m a m o s a D e u s e p r a t i c a m o s o s s e u s m a n d a m e n t o s " (5.1,2). A m e n o s q u e os c r i s t ã o s s e j a m i d e n t i f i c a d o s p e l a c r e n ç a g e n u í n a , o b e d i ê n c i a p i e d o s a e a m o r f r a t e r n a l , eles s ã o f a l s o s . E l e s n ã o p o d e m ter n a s c i d o d e n o v o , p o r q u e a q u e l e s q u e s ã o " n a s c i d o s d e D e u s " s ã o os q u e c r ê e m (5.1) e o b e d e c e m (3.9) e a m a m (4.7).

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A linguagem das cartas de João é simples, p o r é m sua m e n s a g e m é p r o f u n d a . M a r t i n h o L u t e r o e s c r e v e u s o b r e 1 J o ã o : " J a m a i s li u m l i v r o escrito c o m p a l a v r a s m a i s s i m p l e s d o q u e estas, e n o e n t a n t o as p a l a v r a s s ã o i n e x p r i m í v e i s . ' ' N e l a s J o ã o destila a e s s ê n c i a d e u m a v i d a d e d i s c i p u l a d o , q u a n d o f i n a l m e n t e d e s c r e v e a v e r d a d e e a decisão, das q u a i s d e p e n d e t o d a a n o s s a existência: " E o t e s t e m u n h o é este, q u e D e u s n o s d e u a v i d a e t e r n a ; e e s t a v i d a e s t á n o seu F i l h o . A q u e l e q u e tem o Filho t e m a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não t e m a vida" (5.11,12).

Leitura adicional
Menos exigente:

A. E. Harvey, Jesus on Trial. A Study in the Fourth Gospel (Londres: SPCK, 1976 ) David Jackman, The Message of John's Letters: Living in the Love of God (Leicester: IVP, 1988) Bruce Milne, The Message of John: Here is your King! (Leicester: IVP, 1993) Leon Morris, Jesus is the Christ. Studies in the Theology of John (Grand Rapids: Eerdmans/Leicester: IVP, 1989)

Mais exigente, obras eruditas:
Gary M. Burge, Interpreting the Gospel of John (Grand Rapids: Baker Book House, 1992) John W. Pryor, John: Evangelist of the Covenant People. The Narrative and Themes of the Fourth Gospel (Londres: Darton, Longman & Todd, 1992) Judith M. Lieu, The Theology of the Johannine Epistles (Cambridge: CUP, 1991) Leon Morris, Studies in the Fourth Gospel (Exeter: Paternoster, 1969): este livro contém o ensaio sobre a relação entre João e os sinópticos mencionados acima

Paulo e sua Mensagem
Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que agora tenho na came, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim.
(Gálatas 2.19,20)

A s treze cartas atribuídas a Paulo e m nosso N o v o Testamento f o r m a m exatamente u m q u a r t o d e todo ele. A l é m disso, de t o d o s os escritores d o N o v o Testamento, P a u l o p o d e i n q u e s t i o n a v e l m e n t e reivindicar ter sido o m a i s influente e m toda a história da igreja. P o r e x e m p l o , é u m a r e d e s c o b e r t a da teologia de P a u l o q u e m o t i v a a R e f o r m a d o século dezesseis, aquela r e v o l u ç ã o teológica que incita u m a s u b l e v a ç ã o dentro da igreja Católica R o m a n a e dá n a s c i m e n t o a todas as igrejas Protestantes dos t e m p o s atuais. P a u l o é t a m b é m singular p e l o f a t o de s a b e r m o s m a i s sobre ele d o q u e sobre q u a l q u e r outro escritor d o N o v o Testamento. L u c a s dedica mais da m e t a d e d o livro de Atos para narrar a história d o ministério missionário de Paulo, e p o d e m o s obter m u i t a coisa sobre P a u l o através de suas cartas.

Paulo, o homem
P a u l o n a s c e u e m Tarso, a principal c i d a d e da Cilicia, n a costa sul da Turquia m o d e r n a (Atos 9.11; 21.39; 22.3). E l e p r ó p r i o c h a m a Tarso de " c i d a d e n ã o i n s i g n i f i c a n t e " e m A t o s 21.39. Tarso é u m a c i d a d e de i m p o r t â n c i a comercial c o n s i d e r á v e l e p o s s u i u m a u n i v e r s i d a d e q u e rivaliza e m f a m a c o m as de A t e n a s e Alexandria. Paulo provavelmente nunca estudou na universidade porque r e c e b e u s u a p r i n c i p a l e d u c a ç ã o e m J e r u s a l é m ( A t o s 2 2 . 3 ) . E n t r e t a n t o ele n i t i d a m e n t e a b s o r v e u a a t m o s f e r a e cultura gregas de Tarso e f a l o u e escreveu e m grego c o m grande fluência. Ele f a z citações de pelo m e n o s três poetas gregos: A r a t o (Atos 17.28), M e n a n d e r (1 Coríntios 15.33) e E p i m ê n i d e s (Tito 1.12). A c u l t u r a g r e g a r e s e r v a p o u c a s s u r p r e s a s p a r a ele, e a s s i m s u a f o r m a ç ã o p r o p o r c i o n a - l h e u m b o m p r e p a r o p a r a a carreira missionária. P a u l o p o s s u í a a c i d a d a n i a r o m a n a p o r n a s c i m e n t o (Atos 22.28), o q u e era e n t ã o u m a distinção i n c o m u m . Isto sugere q u e sua f a m í l i a era i m p o r t a n t e e m Tarso, p o r q u e c o m toda probabilidade seu pai ou avô teria recebido esta cidadania

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o f i c i a l c o m o r e c o m p e n s a p o r s e r v i ç o s p r e s t a d o s à c i d a d e . Isto j u s t i f i c a o f a t o d e ele ter o n o m e r o m a n o " P a u l o " , a o l a d o d o h e b r a i c o " S a u l o " ( A t o s 13.9). M a s " S a u l o " e r a o n o m e q u e ele u s a v a q u a n d o j o v e m . S u a f a m í l i a p o d e ter sido totalmente enraizada na cultura grega, p o r é m para o j o v e m Saulo foi a r e l i g i ã o d e s e u s p a i s q u e o c u p o u t o d o o seu c o r a ç ã o e d e v o ç ã o . C o n t u d o , f o i u m a versão particular daquela religião que o cativou: " E u sou fariseu", foi sua a p a i x o n a d a a l e g a ç ã o ( A t o s 2 3 . 6 ; c o m p a r e c o m F i l i p e n s e s 3.5). O Farisaísmo era então u m movimento separado dentro do Judaísmo, m o v i m e n t o q u e e n f a t i z a v a a o b e d i ê n c i a estrita d a lei, i n c l u i n d o e s c r u p u l o s a observância das festas e outros rituais associados ao templo e m Jerusalém. Por esta razão o Farisaísmo floresceu na Judéia, havendo poucos fariseus em outros lugares. M a s de alguma f o r m a Paulo recebe a influência desse m o v i m e n t o e transfere-se para Jerusalém ainda j o v e m para estudar aos pés de u m dos mestres d o F a r i s a í s m o , G a m a l i e l o P r i m e i r o ( A t o s 2 2 . 3 ) , n e t o d o f a m o s o r a b i n o Hillel, a q u e m t o d o o m o v i m e n t o c o n s i d e r a v a seu f u n d a d o r . O j o v e m Saulo de Tarso lança-se avidamente à tarefa de memorizar e observar os estatutos e tradições do Farisaísmo. E l e fora, e m suas próprias palavras, i n s t r u í d o " s e g u n d o a e x a t i d ã o d a lei d e n o s s o s a n t e p a s s a d o s " ( A t o s 2 2 . 3 ) . e "quanto ao Judaísmo, a v a n t a j a v a - m e a muitos da m i n h a idade, sendo e x t r e m a m e n t e z e l o s o d a s t r a d i ç õ e s d e m e u s p a i s " ( G á l a t a s 1.14). E l e c h e g a a o p o n t o d e a f i r m a r q u e f o r a " i r r e p r e e n s í v e l " n a s u a o b s e r v â n c i a d a lei ( F i l i p e n s e s 3.6). A p r o v a final de sua p a i x ã o para c o m a f é de seus pais é sua cruel p e r s e g u i ç ã o à i g r e j a c r i s t ã ( A t o s 9 . 1 , 2 ; 2 2 . 4 , 5 ; G á l a t a s 1.13; F i l i p e n s e s 3.6; 1 T i m ó t e o 1.13). A conversão de Paulo no c a m i n h o para D a m a s c o é repentina e dramática.

Por que Paulo persegue a igreja?
Por que o evangelho cristão ofendeu tanto este jovem fariseu? O sermão de Pedro no dia do Pentecoste atinge o clímax com a grande declaração: "A este Jesus que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo" (Atos 2.36). Foi provavelmente este elo entre a crucificação e o m e s s i a d o q u e o f e n d e u P a u l o . " O que f o r pendurado no madeiro é maldito de Deus" é o ensino de D e u t e r o n ô m i o 21.23. Portanto o próprio fato da crucificação faz com que a pretensão cristã seja impossível. Entretanto, esses cristãos parecem ter orgulho da cruz! Dois fatores sugerem que Deuteronômio 21.23 pode ter sido uma significativa motivação para o ódio de Paulo contra a igreja. 1. Cem anos mais tarde este mesmo argumento é usado contra a fé cristã por outro judeu, n u m famoso diálogo com o apologista cristão Justino. Trifo, o judeu, argumenta: "Nós duvidamos que o Messias pudesse ter sido crucificado de uma forma tão desonrosa. Pois na lei se diz que um homem crucificado é maldito. Neste ponto você não é capaz de persuadir-me." Mas Justino tenta: "Esta afirmação na realidade fortalece nossa esperança no Messias crucificado. Ele não foi amaldiçoado por Deus, porém Deus anteviu a maldição que você e todos como você amontoariam sobre Ele!" (Justino, Diálogo com Trifo 89.2; 96.1). 2. O próprio Paulo usa o versículo em sua carta aos gálatas de um modo que sugere a revolução nas idéias que ele e x p e r i m e n t o u : " C r i s t o nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar, porque está escrito: 'Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro"' (Gálatas 3.13). Paulo teve a percepção de que Jesus não era pessoalmente maldito de Deus, mas sim vicariamente, tendo tomado a maldição que nos cabia, de modo que ficássemos l i v r e s d e l a . A c o m p r e e n s ã o de P a u l o s o b r e o significado de Deuteronômio 21.23 era mais profunda que a de Justino.

90 HOMENS COM UMA MENSAGEM

Seu zelo é demonstrado p o r sua disposição de realizar u m a longa v i a g e m para desarraigar todos os adeptos desse " C a m i n h o " n o c i v o (Atos 9.2). M a s , r e p e n t i n a m e n t e , u m a luz b r i l h a n t e v i n d a d o c é u o f u s c a - l h e a visão, e ele é a t i r a d o ao solo por m ã o invisível que o subjuga, enquanto u m a voz c h a m a seu nome, e e n t ã o ele v ê J e s u s . N ã o p o d e h a v e r d ú v i d a d e q u e se trata d e u m a v e r d a d e i r a e objetiva "visão celestial" (Atos 26.19) do Cristo ressurreto. N ã o é n e n h u m a alucinação. Paulo é bastante claro a este respeito. É a última aparição tardia de Jesus ressurreto: "Depois de todos, foi visto t a m b é m p o r m i m , c o m o por u m n a s c i d o f o r a d o t e m p o " (1 C o r í n t i o s 15.8). T r ê s dias d e p o i s , ele e s t á p r e g a n d o n a s s i n a g o g a s d e D a m a s c o " q u e este [Jesus] é o F i l h o d e D e u s " ( A t o s 9 . 2 0 ) . Alguns t ê m sugerido que a violência da oposição de Paulo à fé cristã foi u m a tentativa de reprimir dúvidas que j á o estavam preparando para essa m u d a n ç a de opinião. Q u e impressão deixou e m Saulo a visão de Estêvão orando por seus a l g o z e s e n q u a n t o e s t e s o a p e d r e j a v a m até à m o r t e , e n t r e g a n d o s u a v i d a n a s m ã o s d o " S e n h o r J e s u s " ( 7 . 5 9 , 6 0 ) ? Q u e e r a m os " a g u i l h õ e s " c o n t r a os q u a i s P a u l o e s t a v a r e c a l c i t r a n d o ? E r a m eles s u a s e n s a ç ã o i n q u i e t a n t e d e q u e e s s e s cristãos e s t a v a m certos, apesar de tudo? D e m o d o semelhante, alguns têm sugerido que R o m a n o s 7.7-9 nos dá algum i n d í c i o d e seu e s t a d o d e m e n t e n e s s a o c a s i ã o : " E u n ã o teria c o n h e c i d o o p e c a d o , s e n ã o p o r i n t e r m é d i o d a lei; p o i s n ã o teria e u c o n h e c i d o a c o b i ç a , se a lei n ã o dissera: ' N ã o cobiçarás.' M a s o pecado, t o m a n d o ocasião pelo m a n d a m e n t o , d e s p e r t o u e m m i m t o d a sorte d e c o n c u p i s c ê n c i a . . . O u t r o r a , s e m a lei, eu v i v i a ; m a s , s o b r e v i n d o o p r e c e i t o , r e v i v e u o p e c a d o , e e u m o r r i . " E s t á ele d e s c r e v e n d o u m p e r í o d o d e c o n v i c ç ã o a n t e s d e sua c o n v e r s ã o , q u a n d o p e r c e b e u q u e s u a o b e d i ê n c i a à lei n ã o e r a t ã o " i r r e p r e e n s í v e l " c o m o ele t i n h a p e n s a d o ? E possível q u e P a u l o e s t i v e s s e a n g u s t i a d o c o m d ú v i d a s e m tal s i t u a ç ã o . M a s o r a c i o c í n i o e m R o m a n o s 7 é c o m p l e x o , n ã o s e n d o c e r t o q u e ele e s t e j a se r e f e r i n d o à s u a e x p e r i ê n c i a p e s s o a l . A l é m d i s s o , seu p r ó p r i o t e s t e m u n h o d i r e t o não oferece indícios dessas dúvidas. E m duas ocasiões e m que Paulo relata sua c o n v e r s ã o e m A t o s , ele se d e s c r e v e c o m o r e s o l u t o e m s u a c o n v i c ç ã o e i m p l a c á v e l e m seu zelo c o m o perseguidor. Igualmente e m Gálatas 1.13-16 e Filipenses 3.4-12, as d u a s o c a s i õ e s e m q u e ele e s c r e v e a c e r c a d e sua c o n v e r s ã o , n ã o e x p r e s s a qualquer dúvida sobre sua lealdade e orgulho c o m o fariseu "irrepreensível". A e x p e r i ê n c i a n o c a m i n h o d e D a m a s c o p o d e ter s i d o u m r a i o d o c é u azul. Tenha ou não sido prenunciada, a conversão de Paulo foi o fato decisivo de s u a v i d a . U m e s t u d i o s o , Dr. S e y o o n K i m , d a C o r é i a d o Sul, r e s s a l t o u a í n t i m a conexão entre a experiência da conversão de Paulo e o evangelho ao qual depois ele d e d i c o u s u a v i d a p r o c l a m a n d o . N a q u e l e m o m e n t o d o e n c o n t r o c o m o C r i s t o r e s s u r r e t o , o Dr. K i m s u g e r e q u e P a u l o n ã o s o m e n t e se t o r n o u u m c r i s t ã o , m a s t a m b é m r e c e b e u o q u e m a i s t a r d e ele c h a m a " m e u e v a n g e l h o " (p.ex.. R o m a n o s 2.16), c o m o t a m b é m a ordem de pregá-lo universalmente. Isto certamente está d e a c o r d o c o m seu p r ó p r i o t e s t e m u n h o e m G á l a t a s 1.11,12: " F a ç o - v o s , p o r é m , saber, i r m ã o s , q u e o e v a n g e l h o p o r m i m a n u n c i a d o n ã o é s e g u n d o o h o m e m ; p o r q u e e u n ã o o recebi, n e m o a p r e n d i d e h o m e m a l g u m , m a s m e d i a n t e r e v e l a ç ã o de Jesus Cristo." A q u i Paulo escreve literalmente "mediante revelação de Jesus C r i s t o " , e i n d u b i t a v e l m e n t e se r e f e r e à r e v e l a ç ã o d e J e s u s n o c a m i n h o d e Damasco. P o d e m o s e x a m i n a r a v e r d a d e d i s t o se p e r g u n t a r m o s : O q u e se p a s s a v a n a m e n t e d e P a u l o q u a n d o ele r e f l e t i a e o r a v a n a e s c u r i d ã o n a q u e l e s três d i a s até

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"Recalcitrando contra os aguilhões"
Há três relatos da conversão de Paulo em Atos: O registro de Lucas sobre ela (9.1-19), e a seguir dois relatos do próprio Paulo (22.4-16; 26.1218). N a terceira destas, as palavras de Jesus a P a u l o são p r o f e r i d a s de f o r m a c o m p l e t a : "Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa é recalcitrares contra os aguilhões" (Atos 26.14). "Recalcitrar [escoicear] contra os aguilhões" é um provérbio, conhecido por nós tanto por meio dos escritos gregos como judaicos. Ele lembra um cavalo tentando em vão recusar-se a obedecer ao controle de seu cavaleiro, ou um boi no arado resistindo às cutucadas da vara do agricultor. O que ele significa quando aplicado a Paulo? Três interpretações são possíveis: 1. Pode referir-se ao "aguilhão" do próprio entendimento. Paulo não podia resistir ao poder esmagador e à glória do Senhor que agora lhe aparece: ele deve obedecer! 2. Pode referir-se à sua perseguição à igreja. Por este procedimento, ele tinha sido como um boi tentando lutar contra seu verdadeiro Mestre, Jesus Cristo. 3. Ou pode referir-se a dúvidas e agulhadas da consciência que Paulo vem tentando suprimir ao continuar perseguindo a igreja, a despeito da sensação de que esses cristãos podem, afinal de contas, estar certos. Talvez essas dúvidas tenham sido instigadas pela visão da coragem e amor de Estêvão, quando orou por aqueles que o estavam apedrejando até à morte (Atos 7.60). Embora Paulo jamais tenha se referido a essas dúvidas, o Senhor pode ter posto seu dedo sobre alguma coisa que agia dentro de seu coração e consciência.

q u e A n a n i a s v i e s s e e lhe i m p u s e s s e as m ã o s ? A s d i f e r e n t e s ê n f a s e s d e s u a s c a r t a s a j u d a m - n o s a i m a g i n a r seu e s t a d o m e n t a l : 1. Sua mente mudou a respeito de Jesus. A p e s a r d e c r u c i f i c a d o , J e s u s e r a a f i n a l o Messias. Os homens o penduraram n u m madeiro, m a s Deus o ressuscitou d e n t r e o s m o r t o s . P a u l o n ã o t i n h a t i d o n e n h u m a h e s i t a ç ã o a o dirigir-se a E l e c o m o " S e n h o r " . P a u l o s e n t i a q u e h a v i a t i d o u m a v i s ã o celestial, e q u e J e s u s e s t a v a se d i r i g i n d o a ele r e s s u r g i d o e m glória. 2. Sua mente mudou a respeito da Lei. A L e i o l e v o u a p e r s e g u i r o M e s s i a s ! C o m o p o d i a ser i s t o ? E s p e c i a l m e n t e e m s u a s c a r t a s a o s g á l a t a s e a o s r o m a n o s , t e m o s P a u l o r e s p o n d e n d o a p e r g u n t a s c o m as q u a i s ele d e v e t e r d e i m e d i a t o c o m e ç a d o a lutar. E l e q u e s t i o n o u t o d o o seu m o d o d e v i d a c o m o f a r i s e u , e p a r a l e l a m e n t e sua c o m p r e e n s ã o d o Velho T e s t a m e n t o — a t é ser c a p a z de constatar q u e as E s c r i t u r a s t e s t e m u n h a v a m e m f a v o r d e J e s u s , n ã o c o n t r a E l e . 3. Sua mente mudou a respeito da salvação. E s t e p o n t o s e g u e - s e a o anterior. Anteriormente Paulo havia crido que a salvação dependia de sua obediência c o m o fariseu. Ele p o d i a estar seguro de um lugar n o R e i n o de D e u s por causa d e seu z e l o p e l a " t r a d i ç ã o d e m e u s a n t e p a s s a d o s " . E n t r e t a n t o , n ã o p o d e r i a h a ver lugar no Reino para a l g u é m que perseguiu o Messias! Este era o maior pecado imaginável. P o r é m , e m vez de julgá-lo e rejeitá-lo, D e u s lhe havia revelado seu Filho, e o h a v i a c h a m a d o p a r a u m i m p o r t a n t e m i n i s t é r i o . C o m o isto f o i p o s s í v e l ? P a u l o t i n h a experimentado sua d o u t r i n a d e j u s t i f i c a ç ã o , a m e n s a g e m q u e ele a n u n c i o u c o r a j o s a m e n t e através d a Á s i a M e n o r , p o r t o d a a G r é c i a e, f i n a l m e n t e , e m R o m a : D e u s simplesmente o tinha aceitado e p e r d o a d o seu pecado, não porque Paulo tivesse o f e r e c i d o m e t i c u l o s a m e n t e o s d e v i d o s s a c r i f í c i o s n o t e m p l o , m a s p o r q u e Jesus tinha sido sacrificado e m seu favor. 4. Sua mente mudou a respeito da igreja. " P o r q u e me p e r s e g u e s ? " , p e r g u n t o u lhe o Cristo ressurreto. N ã o é c e r t a m e n t e f a n t a s i o s o ver n e s t a p e r g u n t a o nascimento e m Paulo da c o m p r e e n s ã o sobre a igreja. H a v i a tão íntima união entre o Senhor e sua igreja que atacá-la era o m e s m o que atacá-lo. E m

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c o n s e q ü ê n c i a disto P a u l o v e i o d e p o i s a p e n s a r n a i g r e j a c o m o " o c o r p o d e C r i s t o " , unida a Cristo pelo Espírito Santo que habita nela e a vivifica. N ã o surpreende q u e P a u l o tenha sentido v e r g o n h a por toda sua existência pelo f a t o d e ter p e r s e g u i d o a q u e l e s c r i s t ã o s : ele o s o d i o u p o r q u e e s t a v a m c h e i o s d o E s p í r i t o Santo e inspirados por Ele para confessar Jesus c o m o Cristo e Senhor. 5. Sua mente mudou a respeito dos gentios. N ã o está exatamente claro quando P a u l o r e c e b e u s u a c o m i s s ã o p a r a ser a p ó s t o l o j u n t o a o s g e n t i o s . N u m d o s r e l a t o s da conversão de Paulo, Ananias diz-lhe que Deus o tinha escolhido para "ser sua t e s t e m u n h a diante de todos os h o m e n s das coisas que tens visto e ouvido", e logo e m seguida Paulo t e m u m a visão no templo, na qual D e u s o envia aos gentios (Atos 22.15,21). E m outros dois relatos, o próprio Jesus ressurreto, e m sua aparição inicial n o c a m i n h o de D a m a s c o , c o m i s s i o n a - o para pregar o evangelho aos gentios (26.16-18). N ã o há n e n h u m a contradição entre estas versões. E m Gálatas 1.15,16 Paulo Paulo pede a Timóteo que traga à prisão seus livros [rolos] e o s p e r g a m i n h o s (2 T m 4.13). Ele t a m b é m teria u s a d o u m tinteiro c o m o este, q u e data do período r o m a n o e foi descoberto em Qumrã.

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e s c r e v e s o b r e o m o m e n t o " q u a n d o . . . a o q u e m e s e p a r o u a n t e s d e eu n a s c e r e m e c h a m o u p e l a s u a g r a ç a , a p r o u v e r e v e l a r seu F i l h o e m m i m , p a r a q u e e u o p r e g a s s e e n t r e os g e n t i o s " . O c h a m a d o e r a p a r t e d a c o n v e r s ã o , p o r q u a n t o se Deus aceitou e "justificou" pessoas gratuitamente, do m e s m o m o d o c o m o Ele tinha aceitado Paulo, então esse era u m evangelho para toda a raça h u m a n a . Jesus era u m Messias para o m u n d o , não somente para os j u d e u s . A n t e r i o r m e n t e S a u l o , o fariseu, t i n h a c o n s t r u í d o sua v i d a s o b r e a d i f e r e n c i a ç ã o m a i s a c e n t u a d a possível entre Israel e os gentios. Estes p o d i a m encontrar salvação, p o r é m s o m e n t e c o m d i f i c u l d a d e , e s o m e n t e se a c e i t a s s e m a c i r c u n c i s ã o e t o m a s s e m s o b r e si o " j u g o d a lei". E s s e n c i a l m e n t e , e l e s d e v e r i a m t o r n a r - s e j u d e u s p a r a ser s a l v o s . A g o r a , p o r é m , S a u l o t i n h a a p r e n d i d o d u a s c o i s a s . H o r r o r i z a d o , a p r e n d e u q u e a L e i ( c o m o ele a e n t e n d i a ) t i n h a - o l e v a d o a d e s v i a r se d o c a m i n h o . E c o m a s s o m b r o a p r e n d e u q u e D e u s t i n h a - o a g o r a a c e i t a d o l i v r e m e n t e p e l a " g r a ç a " , a p e s a r d e seu u s o e r r a d o d a L e i . C o l o c a r e s t a s d u a s coisas juntas significava abolir a diferença entre Israel e os gentios, p o r q u e " D e u s é u m só, o q u a l j u s t i f i c a r á , p o r f é , o c i r c u n c i s o e, m e d i a n t e a f é , o i n c i r c u n c i s o " ( R o m a n o s 3.30). T u d o o q u e se n e c e s s i t a v a e r a a f é q u e j o r r a v a e m seu p r ó p r i o c o r a ç ã o e m r e s p o s t a à s u a v i s ã o d e J e s u s . C o m o p o d i a ele r e c u s á - l a ? N a v e r d a d e , e l e n ã o queria recalcitrar contra o aguilhão!

Paulo, escritor das cartas
A n t e s d e p r o c u r a r r e s u m i r a m e n s a g e m d e P a u l o , será útil e x a m i n a r s u a c a r r e i r a c o m o escritor de cartas, b e m c o m o o conteúdo de suas cartas. A tabela-resumo adiante apresenta u m esboço amplamente aceito da vida de Paulo, embora muitas das datas e a o r d e m das cartas s e j a m ainda discutidas pelos estudiosos. E s p e c i f i c a m e n t e m u i t o s c o n t e s t a m a a u t o r i a d e P a u l o d e 1 e 2 T i m ó t e o e Tito, as c h a m a d a s " e p í s t o l a s p a s t o r a i s " , b e m c o m o l a n ç a m d ú v i d a s o b r e o p e r í o d o p o s t e r i o r d o m i n i s t é r i o q u e elas p a r e c e m refletir. C o n t u d o , n o r e s u m o a b a i x o c o n s i d e r a m o s q u e P a u l o as e s c r e v e u . Muitos estudiosos têm ainda tentado determinar evoluções no pensamento d e P a u l o e n t r e as c a r t a s . E c e r t a m e n t e p o s s í v e l q u e tais e v o l u ç õ e s o c o r r e r a m , mas precisamos lembrar, primeiro, que o próprio Paulo acreditava que tinha recebido o e v a n g e l h o "pronto para u s o " n o c a m i n h o de D a m a s c o , c o m o j á v i m o s ; s e g u n d o , q u e t o d a s as cartas d a t a m d a s e g u n d a m e t a d e d o seu m i n i s t é r i o , e n ã o d o p e r í o d o inicial e f o r m a t i v o ; e t e r c e i r o , q u e s u a s c a r t a s f o r a m t o d a s motivadas por problemas particulares, de m o d o que suas ênfases eram ditadas p r i m a r i a m e n t e pelas n e c e s s i d a d e s d e seus leitores. N ã o seria i m p r ó p r i o , p o r t a n t o , r e u n i r u m r e s u m o d o p e n s a m e n t o d e P a u l o q u e a b r a n j a t o d a s as suas c a r t a s a o mesmo tempo.

A mensagem de Paulo
N u m a palavra, a m e n s a g e m de Paulo é a salvação pela graça de D e u s e m Cristo. " G r a ç a " é u m a c h a v e e m seu p e n s a m e n t o . E l a o c o r r e o i t e n t a e seis v e z e s e m seus e s c r i t o s . P a r a e l e a " g r a ç a " t e m d e ser c o n t r a s t a d a c o m a " l e i " ( v e j a , p . e x . , R o m a n o s 6 . 1 5 e 5 . 2 0 ; G á l a t a s 2 . 2 1 ) . Isto e r a o q u e ele h a v i a e x p e r i m e n t a d o ; ele tinha seguido o m o d e l o da "lei", crendo que D e u s requeria perfeita o b s e r v â n c i a d a s r e g r a s q u e a b r a n g i a m c a d a d e t a l h e d a v i d a . M a s e n t ã o ele

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d e s c o b r i u q u e isto o l e v a r a a a f a s t a r - s e d e D e u s , e q u e D e u s c r u z o u seu c a m i n h o e s i m p l e s m e n t e o a c e i t o u e m J e s u s . Isto f o i p u r a " g r a ç a " , a m o r i m e r e c i d o e p e r d ã o mostrados a u m b l a s f e m o e perseguidor de Cristo. Para Paulo a graça de Deus não é simplesmente u m a atitude de D e u s (olhar p a r a ele c o m a m o r ) , m a s t a m b é m u m a a ç ã o d e D e u s ( a g a r r á - l o e l i v r á - l o p o r m e i o de Cristo). Esta ação é vista e m dois eventos: n a dádiva de Cristo, e m q u e m " a g r a ç a d e D e u s se m a n i f e s t o u s a l v a d o r a a t o d o s o s h o m e n s " (Tito 2 . 1 1 ) , e n a d á d i v a d o E s p í r i t o S a n t o , p o r m e i o d e q u e m a g r a ç a d e D e u s é t o r n a d a real e eficaz para cada pessoa. C o m o P a u l o escreve e m Tito 3.5-7, "ele nos salvou m e d i a n t e o l a v a r r e g e n e r a d o r e r e n o v a d o r d o E s p í r i t o S a n t o , q u e ele d e r r a m o u sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo nosso Salvador, a f i m de que, justificados por graça, nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna". P o d e m o s recorrer a quatro grandes expressões teológicas, usadas por Paulo, para resumir esta m e n s a g e m da graça de D e u s :

1. Justificação—Deus nos faz justos
E s t e é o t e m a b á s i c o d a s c a r t a s a o s g á l a t a s e aos r o m a n o s . S e r " j u s t i f i c a d o " s i g n i f i c a ser i n o c e n t a d o , s e j a p o r u m t r i b u n a l h u m a n o , s e j a p o r D e u s , o J u i z d e t o d o a r a ç a h u m a n a . É u m a e x p r e s s ã o u s a d a n o Velho T e s t a m e n t o , o n d e a o s juízes foi ordenado que j u l g u e m "justificando ao justo e condenando ao culpado" (Dt 25.1). S e m e l h a n t e m e n t e D e u s d i z s o b r e si m e s m o : " N ã o j u s t i f i c a r e i o í m p i o [culpado]" (Êxodo 23.7). A n t e s d e s u a c o n v e r s ã o P a u l o n ã o t e v e n e n h u m p r o b l e m a a c e r c a disto. C o m o fariseu ele acreditava que jamais era necessário mostrar-se culpado diante de D e u s , p o r q u e D e u s h a v i a p r o v i d e n c i a d o d e t a l h a d a s i n s t r u ç õ e s n a L e i p a r a livrar a raça h u m a n a do pecado—incluindo instruções sobre c o m o fazer a expiação p o r p e c a d o s o c a s i o n a i s q u e v i e s s e m a ocorrer. P o r é m a g o r a , c o m o c r i s t ã o , e l e s u r p r e e n d e s e u s leitores a p r e s e n t a n d o D e u s c o m o a q u e l e q u e " j u s t i f i c a ao í m p i o " ( R o m a n o s 4.5). A q u e l a tinha sido sua e x p e r i ê n c i a — m a s ela parece contradizer o V e l h o T e s t a m e n t o . C o m o é isto p o s s í v e l ? A luz i r r a d i a s o b r e R o m a n o s e G á l a t a s . P a u l o r e f e r e - s e a u m v e r s í c u l o d o s Salmos, para o qual ele não havia talvez atentado c o m o fariseu: " N ã o entres e m j u í z o c o m o teu servo, p o r q u e à tua vista n ã o há j u s t o n e n h u m [nenhum j u s t i f i c a d o ] v i v e n t e " ( S a l m o 143.2), c i t a d o e m R o m a n o s 3 . 2 0 e G á l a t a s 2 . 1 6 ) . E m R o m a n o s esta citação f o r m a o clímax de u m a longa explanação (Romanos 1.18-3.20), na qual Paulo m o s t r a q u e toda a raça h u m a n a , j u d e u s e gentios i g u a l m e n t e , e s t ã o " d e b a i x o d o p e c a d o " ( R o m a n o s 3.9). S u a a v a l i a ç ã o d o p o d e r d a L e i c a i u a o n í v e l m a i s b a i x o ! T u d o o q u e a lei c o n s e g u e é f a z e r o h o m e m " c u l p á v e l p e r a n t e D e u s " e ter " o p l e n o c o n h e c i m e n t o d o p e c a d o " ( R o m a n o s 3 . 1 9 , 2 0 ) — n a v e r d a d e , " d e b a i x o d a m a l d i ç ã o " ( G á l a t a s 3.10). P o r t a n t o , se D e u s vai j u s t i f i c a r - n o s , E l e d e v e " j u s t i f i c a r o í m p i o " : n ã o h á n e n h u m a a l t e r n a t i v a . E isto é possível por causa de Jesus. E m Gálatas 2.17 Paulo escreve: "...procurando ser justificado e m Cristo". A expressão " e m Cristo" é muito c o m u m nas cartas de Paulo e significa estar unido a Cristo, associado c o m Ele inseparavelmente. Vamos considerar abaixo exatamente o que é esta união. " E m C r i s t o " os í m p i o s p o d e m ser j u s t i f i c a d o s — m a s n ã o e x a t a m e n t e p o r q u e e s t ã o " a s s o c i a d o s i n s e p a r a v e l m e n t e " ao F i l h o de D e u s s e m p e c a d o , e assim resguardados por sua impecabilidade. A idéia de Paulo é mais profunda. Ele pensa n u m a espécie de permuta entre nós e Jesus: "Aquele que não conheceu

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Datas aprox. 5 35 35-38 38 38-43 43-46 47-49 50 50-52 52-55 55-56 56 56-59 59-61

E v e n t o s na Vida de Paulo
Nascido em Tarso Convertido no caminho de Damasco Ministério na Arábia e em Damasco (Gálatas 1.17) Visita a Jerusalém após a conversão (Atos 9.26; Gálatas 1.18) Ministério na Síria; e em sua cidade Tarso (Atos 11.25; Gálatas 1.21) Ministério em Antioquia com Barnabé Viagem a Jerusalém (Atos 11.26; 12) Primeira viagem missionária, em seguida Concílio em Jerusalém (Atos 13-15) Após a primeira viagem missionária (Atos 13-15) Durante a segunda viagem missionária provavelmente de Corinto (Atos 18.11)

Cartas

M e n s a g e m principal

Gálatas

Cristo, o libertador: libertação da Lei

1 &2 Cristo, a vinda do Juiz Tessalonicenses e Salvador 1 & 2 Coríntios Romanos Cristo, o doador da lei para a igreja, seu corpo Cristo—caminho de Deus para a salvação do judeu e t a m b é m do qentio

Durante a terceira viagem missionária provavelmente de Éfeso (Atos 19.8-10) De Corinto (Atos 20.3) Viagem a Jerusalém: preso (Atos 21.27ss.) Preso em Cesaréia, viagem a Roma (Atos 24-28) Ministério e prisão em R o m a (Atos 28.30,31)

Efésios, Filipenses, Colossenses, Filemom

Cristo, o Senhor do universo e da igreja (Ef, Cl); Cristo, a fonte de alegria no sofrimento (Fp)

61 61-65 65

Livramento do cativeiro (Filipenses 1.25; Filemom 22) Ministério na Ásia Menor e na Grécia Novamente preso, julgado e martirizado em Roma 1 Timóteo, Tito 2 Timóteo Vida e ministério dentro da igreja de Cristo Guardando a fé pela palavra e pelo exemplo

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pecado, ele o fez pecado por nós; para que nele f ô s s e m o s feitos justiça de D e u s " (2 C o r í n t i o s 5.21). E aí que entra a cruz. Foi sobre a cruz que Jesus "tornou-se p e c a d o " por nós. E s t a e x p r e s s ã o p o d e r i a ser t r a d u z i d a " f e i t o p a r a ser u m a o f e r e n d a p e l o p e c a d o " , e talvez isto esteja na m e n t e de Paulo. Ele t a m b é m o expressa e m Gálatas 3.13: "Cristo nos resgatou da maldição e m nosso lugar, p o r q u e está escrito: 'Maldito t o d o a q u e l e q u e f o r p e n d u r a d o e m m a d e i r o ' . " E l e se f e z p e c a d o p o r n ó s , e tornou-se m a l d i ç ã o por nós, para que p u d é s s e m o s ficar livres de ambos. P e r g u n t a m o s a P a u l o : C o m o a m o r t e de C r i s t o o c a p a c i t a a s u p o r t a r a m a l d i ç ã o por nós e fazer-se pecado por nós por este m e i o ? Ele responde: Porque a morte é a " m a l d i ç ã o d a l e i " e " o s a l á r i o d o p e c a d o " ( R o m a n o s 6.23). B a s i c a m e n t e , a morte é a separação de Deus causada pelo pecado. Esta morte Cristo a morreu p o r n ó s . E l e m o r r e u n o s s a m o r t e . Se, pois, e s t a m o s u n i d o s a C r i s t o , isto é t ã o verdadeiro c o m o dizer: " E u morri e m Cristo", que é o m e s m o que dizer: " E l e morreu por m i m . " S e Cristo morreu a m i n h a morte e eu estou nele, Deus m e vê c o m o se e u m e s m o t i v e s s e m o r r i d o . T e n d o m o r r i d o e r e s s u s c i t a d o c o m C r i s t o , as e x i g ê n c i a s d a L e i s ã o s a t i s f e i t a s , e e u e s t o u l i b e r t a d o . O s v e r s í c u l o s s e g u i n t e s d i z e m isto c o m as p r ó p r i a s p a l a v r a s d e P a u l o : • "Estou crucificado c o m Cristo; logo, j á não sou eu q u e m vive, m a s Cristo vive e m m i m ; e esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé n o Filho de D e u s , q u e m e a m o u e a si m e s m o se e n t r e g o u p o r m i m " ( G á l a t a s 2 . 1 9 , 2 0 ) . • "[Jesus] foi entregue por causa das nossas transgressões, e ressuscitou por causa da nossa justificação" ( R o m a n o s 4.25). • " O a m o r d e C r i s t o n o s c o n s t r a n g e , j u l g a n d o n ó s isto: u m m o r r e u p o r t o d o s , l o g o t o d o s m o r r e r a m . E ele m o r r e u p o r t o d o s , p a r a q u e o s q u e v i v e m n ã o v i v a m m a i s p a r a si m e s m o s , m a s p a r a a q u e l e q u e p o r e l e s m o r r e u e r e s s u s c i t o u " ( 2 Coríntios 5.14,15). • " Q u a n t o a ter m o r r i d o , d e u m a v e z p a r a s e m p r e m o r r e u p a r a o p e c a d o ; m a s , q u a n t o a viver, v i v e p a r a D e u s . A s s i m t a m b é m v ó s c o n s i d e r a i - v o s m o r t o s p a r a o pecado, m a s vivos para Deus e m Cristo Jesus" ( R o m a n o s 6.10,11). A doutrina da justificação apresentada por Paulo foi atacada por alguns outros j u d e u s c r i s t i a n i z a d o s . N a v e r d a d e , e l e t e v e d e r e s p o n d e r a três críticas, t o d a s elas baseadas no argumento de R o m a n o s :

a. Se a salvação é simplesmente pela graça por meio da fé em Cristo, então
qual é o propósito da Lei? Muitos dos compatriotas judeus reagiram contra Paulo, c o m o ele teria feito antes de sua conversão. Q u a n d o ele c h e g o u a Jerusalém, voltando de sua terceira viagem missionária, enfrentou "milhares" de j u d e u s cristianizados q u e estavam p r o f u n d a m e n t e desconfiados dele. C o m o Tiago comentou, "[Eles] f o r a m i n f o r m a d o s a teu respeito q u e ensinas todos os j u d e u s entre os gentios a apostatarem de Moisés, dizendo-lhes que não d e v e m c i r c u n c i d a r o s f i l h o s n e m a n d a r s e g u n d o o s c o s t u m e s d a lei" ( A t o s 2 1 . 2 1 ) . H a v i a mais e x a g e r o do que verdade nesta notícia. Paulo estava contente de q u e os j u d e u s c o n t i n u a s s e m a o b s e r v a r a L e i ( R o m a n o s 14.3,4). M a s e l e c e r t a m e n t e acreditava que guardar a Lei não era necessário para a s a l v a ç ã o — o q u e era bastante radical! P a u l o trata e s p e c i f i c a m e n t e d e s t a q u e s t ã o e m R o m a n o s 7 . 7 - 1 4 e G á l a t a s 3 . 1 9 2 9 . E l e j á h a v i a p e r g u n t a d o c o r a j o s a m e n t e : " A n u l a m o s , p o i s , a lei p e l a f é ? " , e f i r m e m e n t e respondeu: "Não, de maneira n e n h u m a , antes c o n f i r m a m o s a lei" ( R o m a n o s 3.31). Ele tinha diferentes meios de justificar esta asserção, m a s e m G á l a t a s e l e u s a d u a s i m a g e n s q u e r e s u m e m t o d o s eles: " A n t e s q u e v i e s s e a f é ,

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O papel do batismo na união com Cristo
"Porventura ignorais que todos os que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida" (Romanos 6.3,4; compare com Gálatas 3.26,27 e Colossenses 2.12). Em que sentido Paulo usa aqui a palavra "pelo", na expressão "pelo batismo"? Alguns concluíram que Paulo atribui um papel muito significativo ao batismo como meio de união com Cristo em sua morte e ressurreição. Entretanto, pareceria mais exato representálo como o sinal, e talvez também como a ocasião desta união salvífica com Cristo, e não como seu meio. Isto se torna claro pela comparação que Paulo faz entre o batismo e a circuncisão em Colossenses 2.11,12. Ele pensa claramente neles como operando do mesmo modo. No texto que se segue ele define a circuncisão como um "sinal... como selo da justiça da fé que teve [Abraão] quando ainda incircunciso" (Romanos 4.11). Primeiro Abraão recebeu a justificação pela fé, depois recebeu a circuncisão como um sinal e selo da justificação. Da mesma forma estamos unidos a Cristo pela fé, e assim somos justificados, e em seguida recebemos o batismo como um sinal de Deus da nossa justificação, e um selo dela, assegurando-nos que ela é realmente nossa. Martinho Lutero estava certo da compreensão de Paulo sobre o batismo no famoso incidente do tinteiro. U m dia, trabalhando em sua mesa, sentiu-se fortemente tentado a duvidar de sua justificação. Reconhecendo a fonte da tentação,. pegou o tinteiro e arremessou-o violentamente contra o Diabo, gritando: "Baptizatus sum!"—"Fui batizado!"

e s t á v a m o s s o b a t u t e l a d a lei, e n e l a e n c e r r a d o s , p a r a e s s a f é q u e d e f u t u r o h a v e r i a d e r e v e l a r - s e . D e m a n e i r a q u e a lei n o s s e r v i u d e aio p a r a n o s c o n d u z i r a Cristo, a f i m de que f ô s s e m o s justificados por f é " (Gálatas 3.23,24). A q u i ele r e t r a t a a L e i p r i m e i r o c o m o u m a s e n t i n e l a , e d e p o i s c o m o u m g u i a . A L e i n ã o p o d i a p r o v e r a s a l v a ç ã o , m a s p o d i a m a n t e r as p e s s o a s s o b c u s t ó d i a p r o t e t o r a até q u e e l a s p u d e s s e m o u v i r e a c e i t a r o e v a n g e l h o . E ela p o d i a o r i e n t a r as p e s s o a s , c o n d u z i n d o - a s a C r i s t o p o r m o s t r a r c o m o E l e c u m p r e as e x p e c t a t i v a s do Velho Testamento e p r o v ê exatamente o que a própria Lei não podia prover. C o m o P a u l o d i z n u m d e seus s e r m õ e s e m A t o s , " p o r m e i o d e l e t o d o o q u e c r ê é j u s t i f i c a d o d e t o d a s as c o i s a s d a s q u a i s v ó s n ã o p u d e s t e s ser j u s t i f i c a d o s p e l a lei d e M o i s é s " ( A t o s 13.39).

b. Se a salvação é simplesmente pela graça por meio da fé, "qual é, pois, a
vantagem do judeu?" ( R o m a n o s 3.1). P a u l o p a r e c i a s o l a p a r o status e s p e c i a l d e Israel c o m o p o v o e s c o l h i d o d e D e u s , q u e c e l e b r o u c o m e l e s a a l i a n ç a , o c o m p r o m i s s o d e ser s e u D e u s p a r a s e m p r e (p.ex., G ê n e s i s 17.7). Paulo certamente acreditava que havia agora u m meio de salvação, tanto p a r a os j u d e u s c o m o p a r a o s g e n t i o s , a q u e l e d a f é e m C r i s t o . C o m o ele a f i r m a e m Efésios, Jesus "tendo derrubado a parede da separação que estava n o meio, a i n i m i z a d e , aboliu n a s u a c a r n e a lei d o s m a n d a m e n t o s n a f o r m a d e o r d e n a n ç a s " ( E f é s i o s 2 . 1 4 , 1 5 ) . M a s , q u e r isto d i z e r q u e D e u s r e v o g o u as p r o m e s s a s q u e f e z a Israel, seu p o v o e s c o l h i d o ? R e s p o n d e r a e s t a p e r g u n t a é u m a d a s p r i n c i p a i s preocupações de Paulo e m sua carta aos R o m a n o s , porque ele t a m b é m sente c l a r a m e n t e q u e se t r a t a d e u m p r o b l e m a . E m R o m a n o s 3 . 2 , 3 P a u l o i n s i s t e q u e h á g r a n d e v a n t a g e m e m ser j u d e u , e q u e a descrença de Israel n ã o vai fazer que D e u s abandone seu c o m p r o m i s s o c o m ele. D e p o i s e l e v o l t a a o a s s u n t o e m R o m a n o s 9 - 1 1 e d e d i c a três c a p í t u l o s b e m f u n d a m e n t a d o s sobre o assunto. Sua poderosa argumentação está resumida n o próximo quadro.

c. Se a salvação é simplesmente pela graça por meio da fé, então
pecar como nos apraz?

podemos

P a u l o cita e s t a o b j e ç ã o e m R o m a n o s 6.1. A p a r e n t e m e n t e

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Romanos 9-11: O plano de Deus para Israel
É em virtude da essência da doutrina de Paulo sobre a justificação pela fé que há hoje apenas um meio de salvação para todos—fé em Jesus Cristo. Por isso, os gentios não precisam tornar-se judeus para ser salvos. Antes, ambos, judeu e gentio, devem abandonar sua religião anterior e tornar-se cristãos. Isto horrorizou muitos judeus cristianizados. Eles pensavam que, por causa da posição privilegiada de Israel pela aliança, os gentios deviam tornar-se judeus para ser discípulos do Messias de Israel. Sua acusação era: Paulo, você nega a aliança de Deus com Israel dizendo que "não há distinção entre judeu e grego [gentio], uma vez que o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam" (Romanos 10.12). Romanos 9-11 é a resposta de Paulo a esta acusação. Estes fascinantes capítulos tornaram-se um grande centro de interesse dos estudiosos recentes. Paulo começa afirmando o que seus opositores pensaram que ele havia negado. Sim, Israel ainda é o legítimo depositário dos privilégios que Deus lhe deu (9.3-5), e a palavra de Deus para Israel não pode falhar (9.6). Porém Paulo tem algumas coisas importantes a dizer sobre o meio pelo qual Deus vai manter suas promessas a Israel: a. Manter sua palavra para com Israel inclui proferir sua sentença sobre ele em virtude de seu pecado e rebelião. Ela nunca significou uma promessa de salvação generalizada (9.27-29; 11.8-10). b. Manter sua palavra para com Israel não significa um compromisso de salvar cada judeu individualmente. Ser simplesmente descendente de Abraão não qualifica automaticamente os judeus para o céu. Deus realiza uma escolha posterior (9.613). Sim, "todo o Israel será salvo" (11.26), porém se cada judeu vai ser incluído depende dele ou dela aceitar ou não o evangelho. c. Manter sua palavra para com Israel pode envolver o interesse de salvar os gentios. Na realidade, as duas coisas caminham juntas, primeiramente porque Deus promete nas Escrituras de Israel abençoar os gentios (9.25; 10.13,20); e, em segundo lugar, porque um dos documentos pioneiros de Israel, o famoso Cântico de Moisés em Deuteronômio 32, adverte especificamente Israel de que, se ele cair em pecado, Deus lhe responderá derramando suas bênçãos sobre outras nações (10.19; 11.11-14). Foi isto que aconteceu através do ministério de Paulo. d. Manter sua palavra para com Israel não significa afirmar que Israel compreende a Lei. Ele tem grande zelo pela Lei, mas, na realidade, falha por não entendê-la. De modo específico, ele falha em não compreender que a fé cristã é o cumprimento da Lei. Isto porque os que se tornaram cristãos, tanto judeus como gentios, demonstram uma transformação de coração pela qual a Lei sempre ansiou, geralmente em vão (10.1-13). e. E, finalmente, manter sua palavra para com Israel é algo que Deus tem feito durante toda a história humana. As vezes pode parecer que Ele o abandona. E isto parecia acontecer naquele momento, diz Paulo, porque houve "um endurecimento em parte a Israel" (11.25). Mas este "endurecimento", no esquema de Deus, permite que o evangelho chegue até ao mundo gentio—de modo que, finalmente, Israel será trazido de volta ao maravilhoso clímax em que "todos os homens" se regozijarão na misericórdia de Deus para com eles em Cristo (11.25-32). Este breve resumo não pode fazer justiça à complexidade e poder da dissertação de Paulo, que é uma das supremas glórias do Novo Testamento.

ele e s t a v a s e n d o a c u s a d o d e e n s i n a r : " P r a t i q u e m o s m a l e s p a r a q u e v e n h a m b e n s " ( R o m a n o s 3.8). O s j u d e u s c r i s t i a n i z a d o s p e n s a v a m q u e e s t a r e j e i ç ã o d a L e i s i g n i f i c a v a i n e v i t a v e l m e n t e a r u í n a d e t o d a a m o r a l i d a d e . E, c o m e f e i t o , alguns dos gentios convertidos de Paulo f o r a m notoriamente negligentes e m s e u s c o s t u m e s (p.ex., 1 C o r í n t i o s 5 . 1 ; 6 . 1 5 ) . Q u a l f o i a r e s p o s t a d e P a u l o ? E s t a terceira o b j e ç ã o à sua d o u t r i n a d a j u s t i f i c a ç ã o p e l a f é l e v a - n o s a o p r ó x i m o g r a n d e t e m a e m sua teologia:

2. Santificação—Deus nos faz santos
A santificação é instantânea. Tão logo qualquer pessoa pecadora abandona sua v i d a d e p e c a d o s e e n t r e g a - s e a J e s u s C r i s t o , q u e m o r r e u p o r ela e r e s s u s c i t o u , Deus a declara "justa". Ela foi "justificada mediante a fé" e tem "paz c o m Deus p o r m e i o d e J e s u s C r i s t o " ( R o m a n o s 5.1). A s a n t i f i c a ç ã o , p o r é m , é o p r o c e s s o q u e e n t ã o se i n i c i a — p e l a q u a l o p e c a d o r

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é gradualmente t r a n s f o r m a d o na i m a g e m de Cristo (2 Coríntios 3.18). U m a é impossível s e m a outra, pois, c o m o Paulo declara aos filipenses, "aquele que c o m e ç o u b o a obra e m vós há de completá-la até ao dia de Cristo Jesus" ( F i l i p e n s e s 1.6). S e D e u s v e r d a d e i r a m e n t e j u s t i f i c o u a l g u é m , e n t ã o E l e t a m b é m o santificará. P o r isso, n e n h u m c r e n t e p o d e p r o p o r : " H a v e m o s d e p e c a r p o r q u e n ã o e s t a m o s d e b a i x o d a lei, e s i m d a g r a ç a ? " ( R o m a n o s 6 . 1 5 ) . A j u s t i f i c a ç ã o n ã o s i g n i f i c a a r e j e i ç ã o d a L e i , m a s s u a i n j e ç ã o — n o s c o r a ç õ e s d e t o d o s o s q u e c r ê e m e m Cristo, e m c u m p r i m e n t o da expectativa do Velho Testamento (veja Ezequiel 36.26,27). Se somos justificados, então "o amor de Deus é derramado e m nossos corações p e l o E s p í r i t o S a n t o , q u e n o s f o i o u t o r g a d o " ( R o m a n o s 5.5). T o d a a q u e s t ã o acerca de morrer c o m Cristo é que devemos t a m b é m ressurgir c o m Cristo para u m a qualidade de vida toda nova, j a m a i s possível àqueles que simplesmente c o n f i a r a m na Lei ( R o m a n o s 6.4-7). E n t r e t a n t o isto n ã o a c o n t e c e a u t o m a t i c a m e n t e , s e m a t i v i d a d e d e n o s s a p a r t e ; t e m o s d e t r a b a l h a r p a r a isso. C o m o P a u l o a f i r m a b r i l h a n t e m e n t e a o s f i l i p e n s e s : "Assim, pois, amados meus... desenvolvei a vossa salvação c o m temor e tremor; p o r q u e D e u s é q u e m e f e t u a e m v ó s t a n t o o q u e r e r c o m o o realizar, s e g u n d o a sua boa vontade" (Filipenses 2.12,13). Deus está trabalhando e m n ó s — m a s isto não significa acomodar-nos e deixar que Ele faça tudo. Precisamos d e s e n v o l v e r n o s s a " s a l v a ç ã o c o m t e m o r e t r e m o r " , c o m o se e l a d e p e n d e s s e d e nós. P o r i s s o as c a r t a s d e P a u l o f e r v i l h a m d e i n s t r u ç õ e s p r á t i c a s p a r a a v i d a e a t i t u d e c r i s t ã s . V á r i a s d a s c a r t a s p o d e m ser n i t i d a m e n t e d i v i d i d a s e m d u a s , a p r i m e i r a m e t a d e r e f e r i n d o - s e à f é cristã, e a s e g u n d a à v i d a cristã: p o r e x e m p l o , R o m a n o s 1-11 e 12-16; Gálatas 1-4 e 5-6; Efésios 1-3 e 4-6; Colossenses 1-2 e 3-4. As orações de Paulo são particularmente reveladoras. Ele almeja que seus c o n v e r t i d o s se e n c h a m d e v e r d a d e e a m o r , c o m r e t i d ã o e p a c i ê n c i a , c o m a l e g r i a e a ç õ e s d e g r a ç a s ( v e j a e s p e c i a l m e n t e E f é s i o s 1 . 1 5 - 2 3 ; 3 . 1 4 - 1 9 ; F i l i p e n s e s 1.311; C o l o s s e n s e s 1.9-14). O q u a d r o s e g u i n t e d á u m a v i s t a g e r a l d e seu e n s i n o prático. D u a s o u t r a s f a c e t a s d o e n s i n o d e P a u l o s o b r e a s a n t i f i c a ç ã o p r e c i s a m ser mencionadas: meios e incentivos.

а. Os meios de santificação.
c o m os i m p e d i m e n t o s : i. O Diabo—por

O que a i m p e d e ? Para Paulo, os m e i o s c o m p e t e m

isso precisamos revestir-nos "de toda a armadura de D e u s "

( E f é s i o s 6.11). P a u l o a c r e d i t a v a q u e " n o s s a luta n ã o é c o n t r a o s a n g u e e a c a r n e , e sim contra principados e potestades, contra os dominadores deste m u n d o t e n e b r o s o , c o n t r a as f o r ç a s e s p i r i t u a i s d o m a l , n a s r e g i õ e s c e l e s t e s " ( E f é s i o s б.12). Ele n ã o está certamente descrevendo (como alguns sugerem) toda u m a hierarquia dos poderes do mal, de m o d o q u e cada situação tenha seu próprio d e m ô n i o , c o n t r a o q u a l d e v e m o s lutar. M a s e l e está, e f e t i v a m e n t e , s u b l i n h a n d o o p o d e r e a m a l d a d e d e s s a s f o r ç a s e s p i r i t u a i s e m g u e r r a c o n o s c o . N ó s as desconhecemos em nosso perigo. A s s i m , p o i s , n e c e s s i t a m o s d a a r m a d u r a d e seis p e ç a s q u e D e u s n o s d á ( E f é s i o s 6.14-17), e sabemos que a estamos usando eficazmente quando oramos " e m todo o t e m p o n o Espírito, e para isto vigiando c o m toda perseverança e súplica" ( E f é s i o s 6.18). O cristão e f e t i v o e v i t o r i o s o é m a r c a d o p o r u m a v i d a d e c o n s t a n t e oração.

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ii. A carne—e

t a m b é m precisamos "andar n o Espírito" (Gálatas 5.16).

" A c a r n e " é u m a e x p r e s s ã o i m p o r t a n t e p a r a Paulo. A N o v a Versão I n t e r n a c i o n a l geralmente a traduz por "natureza p e c a m i n o s a " , por e x e m p l o e m Gálatas 5.17: " A natureza p e c a m i n o s a deseja o que é contrário ao Espírito, e o Espírito o que é contrário à natureza pecaminosa. Eles estão e m conflito u m c o m outro, de m o d o que não façais o que desejaríeis." " A carne" é a contínua presença do p e c a d o e d a morte m e s m o nos cristãos. O pecado e a morte não mais reinam sobre nós, m a s ainda estão presentes e m nós. I s t o s i g n i f i c a u m a b a t a l h a interior. " A c a r n e " d e v e ser c o m b a t i d a , n o p o d e r d o Espírito. E u m a q u e s t ã o d e v i d a ou m o r t e : " S e viveis d e a c o r d o c o m a n a t u r e z a p e c a m i n o s a , m o r r e r e i s ; m a s se p e l o E s p í r i t o m o r t i f i c a r d e s os f e i t o s d o c o r p o , vivereis, pois todos os que são guiados pelo Espírito de D e u s são filhos de D e u s " ( R o m a n o s 8.13,14). D e v e m o s produzir "o fruto do Espírito", e não "as obras da carne", para que p o s s a m o s "crucificar a natureza p e c a m i n o s a c o m suas paixões e desejos", e " a n d e m o s no Espírito" (Gálatas 5.24,25). Isto é vital. A p r o f u n d a p r e o c u p a ç ã o d e P a u l o a r e s p e i t o d o s c o r í n t i o s e r a o f a t o d e eles s e r e m " c a r n a i s " ( " m u n d a n o s " o u " p r o f a n o s " ) , e n ã o " e s p i r i t u a i s " (1 C o r í n t i o s 3.1). E s t a s e r i a s u a u r g e n t e m e n s a g e m t a m b é m à i g r e j a d o s é c u l o v i n t e . M a i s i m p o r t a n t e d o q u e t o d a s as e s t r a t é g i a s m i s s i o n á r i a s e p r o g r a m a s d e e d u c a ç ã o , m a i s e x t e n s a d o q u e t o d a n o v a iniciativa, m a i s u r g e n t e d o q u e q u a l q u e r outra necessidade, é o c h a m a m e n t o à santidade: "andar no Espírito", de f o r m a a n ã o n ã o s a t i s f a z e r " à c o n c u p i s c ê n c i a d a c a r n e " ( G á l a t a s 5.16). b. Os incentivos à santificação. Paulo raramente faz u m a exortação à santidade de Cristo. Por exemplo, Paulo concita-nos

s e m acrescentar u m motivo. Quais são esses incentivos? i. A l g u m a s v e z e s é o exemplo 7). • a a n d a r " e m a m o r , c o m o t a m b é m C r i s t o v o s a m o u , e se e n t r e g o u a si m e s m o p o r n ó s , c o m o o f e r t a e s a c r i f í c i o a D e u s e m a r o m a s u a v e " ( E f é s i o s 5.2). • a a c o l h e r " u n s aos o u t r o s , c o m o t a m b é m C r i s t o n o s a c o l h e u " ( R o m a n o s 15.7). ii. A l g u m a s v e z e s é a p r e s e n ç a d e C r i s t o : • " S u j e i t a n d o - v o s u n s aos o u t r o s n o t e m o r d e C r i s t o " ( E f é s i o s 5.21). • " P u r i f i q u e m o - n o s de toda i m p u r e z a , tanto da carne c o m o do espírito, a p e r f e i ç o a n d o a n o s s a s a n t i d a d e n o t e m o r d e D e u s " (2 C o r í n t i o s 7 . 1 ) . E m a m b o s os v e r s í c u l o s " n o t e m o r d e " é, l i t e r a l m e n t e , " e m r e v e r ê n c i a a " . E m a m b o s os c a s o s a m o t i v a ç ã o é a m a r c o m r e c e i o d e o f e n d e r a q u e l e e m c u j a p r e s e n ç a v i v e m o s . E n c o n t r a m o s a m e s m a m o t i v a ç ã o e m 1 C o r í n t i o s 11.29 ( p a r t i c i p a ç ã o r e v e r e n t e n a C e i a d o S e n h o r ) , e e m E f é s i o s 4 . 2 9 - 3 1 ( n ã o entristecer o Espírito insultando aqueles e m q u e m Ele habita). iii. M a i s f r e q ü e n t e m e n t e , é a obra de Cristo, s a n t i d a d e . A q u i e s t ã o três e x e m p l o s : • M o r r e m o s e ressuscitamos c o m Cristo; portanto "considerai-vos mortos para o p e c a d o , m a s v i v o s p a r a D e u s e m C r i s t o J e s u s " ( R o m a n o s 6.11), e " b u s c a i as c o i s a s lá d o alto, o n d e C r i s t o v i v e , a s s e n t a d o à d i r e i t a d e D e u s " ( C o l o s s e n s e s 3.1). • Nós nos despimos do "velho h o m e m " e nos revestimos do "novo homem, que se r e f a z p a r a o p l e n o c o n h e c i m e n t o , s e g u n d o a i m a g e m d a q u e l e q u e o c r i o u " (Colossenses 3.9,10). Portanto, d e v e m o s nos despojar da ira e da mentira, e nos por nós e e m nós, que motiva a • a h u m i l h a r - n o s tal c o m o C r i s t o , q u e " a si m e s m o se e s v a z i o u " ( F i l i p e n s e s 2.5-

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Paulo, acerca de viver a vida cristã
As cartas de Paulo estão de tal forma carregadas de instruções práticas que esta visão geral não pretende cobrir todas. Entretanto, ela pode mostrar alguma coisa da ampla gama de tópicos que ele abrange: • Vida familiar: relacionamento entre maridos e esposas (1 Coríntios 7.1-5; Efésios 5.22-33), entre pais e filhos (Efésios 6.1-4), entre senhores e escravos (Efésios 6.5-9; 1 Timóteo
6.1,2).

• Ética sexual, tanto dentro como fora do casamento: Paulo tem algumas coisas particularmente incisivas a dizer sobre as práticas homossexuais, que eram muito difundidas em seu tempo (Romanos 1.24-27; 1 Coríntios 6.9-20; 7.25-40; 1 Tessalonicenses 4.3-8; 1 Timóteo 5.11-15). • Cidadania: a atitude cristã perante a autoridade secular e sobre o pagamento de impostos (Romanos 13.1-7; 1 Coríntios 6.1-8). • Conversação: ele tem muito a dizer sobre a conversação para os cristãos (por exemplo, Romanos 12.14; Efésios 4.25-5.4). • A mente: Paulo dá um destaque especial ao

modo como e o que pensar, porque isto molda todo o nosso ser (Romanos 8.5-8; 12.1-3; Filipenses 4.8; Efésios 4.17-24). • Trabalho: é um dever cristão, diz ele aos tessalonicenses, trabalhar para o nosso sustento e não ser preguiçosos (1 Tessalonicenses 4.9-12; 2 Tessalonicenses 3.6-13). • Vingança: num mundo em que se admitia a vingança, Paulo advertia que o cristão deve deixar a vingança para Deus e amar os seus inimigos (Romanos 12.17-21). • Formação do caráter: é nisto que Paulo insiste com mais ênfase, porque ele sabe que a santificação é primeiramente uma questão de caráter, e, em segundo lugar, de comportamento. Por isso ele admoesta para a prática das virtudes da humildade e do desprendimento (Filipenses 2.1-11); da alegria, oração, paz e contentamento (Filipenses 4.4-13); o "fruto do Espírito" para desarraigar "as obras da carne" (Gálatas 5.19-26); e, acima de tudo, as três qualidades cruciais: a fé, a esperança e o amor (1 Tessalonicenses 1.3; Efésios 4.1-6; 1 Coríntios 13.113), tendo o amor como objetivo supremo (Romanos 13.8-10; Gálatas 5.6,13-15).

Paulo escreveu com alguma extensão à igreja de Corinto sobre viver a vida cristã. Estas impressionantes colunas dóricas fazem parte do antigo templo de Apolo, ao lado da Ágora, em Corinto.

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vestir de "misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, l o n g a n i m i d a d e " ( C o l o s s e n s e s 3.12).

de

• P o r q u e s e u E s p í r i t o e s t á e m n ó s , n o s s o s c o r p o s s ã o " m e m b r o s d e C r i s t o " (1 C o r í n t i o s 6 . 1 5 ) — i s t o é, s o m o s m e m b r o s d e C r i s t o , s e u s b r a ç o s e p e r n a s . P o r t a n t o , d e v e m o s g l o r i f i c a r a D e u s c o m n o s s o s c o r p o s , p o r q u e " n ã o sois d e v ó s m e s m o s " (1 C o r í n t i o s 6 . 1 9 ) . iv. F r e q ü e n t e m e n t e , é a vinda de Cristo que motiva a santidade. Paulo estava s e m p r e t r a b a l h a n d o e o r a n d o e m f u n ç ã o " d a q u e l e d i a " , q u a n d o o S e n h o r viria, e almejava q u e seus convertidos estivessem prontos: • " O qual [Jesus Cristo] t a m b é m vos c o n f i r m a r á até ao fim, para serdes i r r e p r e e n s í v e i s n o dia d e n o s s o S e n h o r J e s u s C r i s t o " (1 C o r í n t i o s 1.8). • "Vai alta a n o i t e e v e m c h e g a n d o o dia. D e i x e m o s , p o i s , as o b r a s d a s t r e v a s , e revistamo-nos das armas da luz" ( R o m a n o s 3.12). • " E t a m b é m f a ç o esta oração: que o vosso amor aumente mais e mais e m pleno c o n h e c i m e n t o e t o d a a p e r c e p ç ã o , p a r a a p r o v a r d e s as c o i s a s e x c e l e n t e s e s e r d e s sinceros e inculpáveis para o dia de Cristo, cheios do fruto d e justiça, o qual é m e d i a n t e J e s u s C r i s t o , p a r a a g l ó r i a e l o u v o r d e D e u s " ( F i l i p e n s e s 1.9-11).

3. Edificação—Deus edifica sua igreja
J u s t i f i c a ç ã o e s a n t i f i c a ç ã o p a r e c e m , à p r i m e i r a vista, d i z e r r e s p e i t o s o m e n t e a o trabalho de D e u s no crente individual. M a s elas t a m b é m t ê m u m a d i m e n s ã o c o m u n i t á r i a vital. P o r e x e m p l o , o " f r u t o d o E s p í r i t o " é c o m p o s t o d e n o v e qualidades, n e n h u m a das quais p o d e ser praticada ou expressada por u m indivíduo isolado de outras pessoas: "amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, e domínio próprio" (Gálatas 5 . 2 2 , 2 3 ) . T o d a s elas p r e s s u p õ e m r e l a c i o n a m e n t o s . A p r o p r i a " a l e g r i a " n ã o p o d e ser e x p r e s s a d a i s o l a d a m e n t e , " p a z " i n c l u i a i d é i a d e v i v e r e m p a z c o m o u t r o s , e " d o m í n i o p r ó p r i o " p r e s s u p õ e as t e n t a ç õ e s e d e s a f i o s , o s q u a i s t ã o f r e q ü e n t e m e n t e se m a n i f e s t a m n a s o c i e d a d e h u m a n a . A justificação certamente t e m u m apelo individual vital para Paulo. A f i n a l de c o n t a s , ele a t i n h a e x p e r i m e n t a d o e m si m e s m o , f a c e a f a c e c o m o S e n h o r , a s ó s n o c a m i n h o d e D a m a s c o . M a s ela t e v e i m e d i a t a s i m p l i c a ç õ e s c o m u n i t á r i a s . O S e n h o r q u e l h e a p a r e c e u i d e n t i f i c o u - s e c o m as v í t i m a s d e P a u l o . E a s s i m , t ã o logo ele foi batizado e t o m o u u m a refeição, Paulo "permaneceu e m D a m a s c o alguns dias c o m os discípulos" (Atos 9.19). Ele f o r a convertido para viver u m a nova comunidade. E e l e r a p i d a m e n t e se c o n v e n c e u d e q u e a " j u s t i f i c a ç ã o p e l a f é " r e s u l t o u n a criação de u m n o v o corpo, c o m p o s t o de tudo o que pertencia a Cristo, n ã o i m p o r t a n d o suas diferenças de f o r m a ç ã o ou posição social: • " N ã o p o d e haver j u d e u n e m grego; n e m escravo n e m liberto; n e m h o m e m n e m m u l h e r ; p o r q u e t o d o s v ó s sois u m e m C r i s t o J e s u s " ( G á l a t a s 3.28). • "Onde não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, b á r b a r o , cita, e s c r a v o , livre; p o r é m C r i s t o é t u d o e m t o d o s " (3.11). Estes dois versículos ilustram a concepção f u n d a m e n t a l de Paulo. A s velhas b a r r e i r a s r e l i g i o s a s , r a c i a i s , s o c i a i s , até m e s m o s e x u a i s , f o r a m d e m o l i d a s , p o r causa d a união d a igreja c o m Cristo. Eles são " u m " e m Cristo, o qual está " e m " todos eles. O q u e cria esta união c o m Cristo? A resposta de Paulo é simples: o Espírito Santo. Estamos acostumados a pensar no Espírito c o m o habitando e m c a d a c r e n t e i n d i v i d u a l , e isto é u m e l e m e n t o i m p o r t a n t e n o e n s i n o d e P a u l o . M a s ele t a m b é m pensa no Espírito habitando na igreja c o m o u m todo. " N ã o

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s a b e i s q u e sois s a n t u á r i o d e D e u s , e q u e o E s p í r i t o d e D e u s h a b i t a e m v ó s ? " (1 C o r í n t i o s 3.16). O s coríntios n ã o s ã o a p e n a s u m a a s s o c i a ç ã o v o l u n t á r i a d e crentes individuais, m a s juntos são u m templo habitado pelo Espírito d o próprio Deus. P o d e m o s e x a m i n a r isto u m p o u c o m a i s . P a u l o d e n o m i n a a i g r e j a " o c o r p o d e C r i s t o " (1 C o r í n t i o s 12.27; E f é s i o s 4 . 1 2 ) o u " u m c o r p o " e m C r i s t o ( R o m a n o s 12.5). A e n t r a d a n e s t e c o r p o é p o r m e i o d o E s p í r i t o : " P o i s , e m u m s ó E s p í r i t o , todos nós f o m o s batizados e m u m corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, q u e r livres. E a t o d o s n ó s f o i d a d o b e b e r d e u m só E s p í r i t o " (1 C o r í n t i o s 12.13). Q u a n d o P a u l o c h a m a a o E s p í r i t o " E s p í r i t o de C r i s t o " ( R o m a n o s 8.9), o c í r c u l o l ó g i c o s e c o m p l e t a . O E s p í r i t o S a n t o é o Espírito de Cristo, habitando no Corpo de Cristo, e trazendo todos naquele que m o r a e m u n i ã o espiritual c o m cada u m , e c o m o Senhor Jesus ressurreto e ascenso ao céu. P a r a P a u l o e s s e c o r p o n ã o é e s t á t i c o : c o m o o c o r p o h u m a n o , ele c r e s c e . Q u a n d o ele e s c r e v e s o b r e o c r e s c i m e n t o d a i g r e j a , e l e g e r a l m e n t e n ã o t e m e m mente aumentar números, mas desenvolver a comunhão: "Mas, seguindo a verdade e m amor, cresçamos e m tudo naquele que é o cabeça, Cristo, de q u e m todo o corpo, b e m ajustado e consolidado, pelo auxílio de toda junta, segundo a j u s t a cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação d e si m e s m o e m a m o r " ( E f é s i o s 4 . 1 5 , 1 6 ) . E s t e c r e s c i m e n t o é o q u e P a u l o c h a m a " e d i f i c a ç ã o " e m 1 C o r í n t i o s 14, o n d e e l e d i s c u t e a q u e s t ã o d e f a l a r l í n g u a s n a i g r e j a d e C o r i n t o . C o m o d e v e r i a e s t a p r á t i c a ser d i s c i p l i n a d a ? O p r i n c í p i o s o b r e o qual Paulo baseia sua resposta é o da edificação: qualquer coisa que edifique a i g r e j a — a u m e n t e sua compreensão, a p r o f u n d e sua adoração, fortaleça seu a m o r — d e v e ser e n c o r a j a d o . Q u a l q u e r c o i s a q u e n ã o o f a ç a d e v e s e r a f a s t a d a . Quais são os m e i o s práticos d e edificação? Para P a u l o h á dois: a. Comunhão. A u n i d a d e d a i g r e j a n ã o d e v e ser c r i a d a . E l a d e v e ser p r e s e r v a d a ,

porque j á existe. Paulo incentiva os efésios, "esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito n o vínculo d a p a z " (Efésios 4.3). Esta "unidade do Espírito" é t a m b é m chamada " c o m u n h ã o do Espírito" (Filipenses 2 . 1 ) o u " c o m u n h ã o d o E s p í r i t o S a n t o " ( 2 C o r í n t i o s 13.13), u s a n d o a p a l a v r a g r e g a koinonia. Esta palavra aponta para o fato de que todos nós nos pertencemos mutuamente, de que pertencemos ao m e s m o Salvador, e de que temos a r e s p o n s a b i l i d a d e d e c u i d a r uns d o s o u t r o s e s a t i s f a z e r às n e c e s s i d a d e s d o s outros: • " É justo que eu assim pense de todos vós, p o r q u e vos trago n o coração, seja nas minhas algemas, seja na defesa e c o n f i r m a ç ã o d o evangelho, pois todos sois p a r t i c i p a n t e s d a g r a ç a c o m i g o " ( F i l i p e n s e s 1.7). • " P o r v e n t u r a o c á l i c e d e b ê n ç ã o q u e a b e n ç o a m o s n ã o é a comunhão d e C r i s t o ? O p ã o q u e p a r t i m o s n ã o é a comunhão do sangue do corpo de Cristo? Porque

nós, e m b o r a muitos, s o m o s u n i c a m e n t e u m pão, u m só corpo; p o r q u e todos p a r t i c i p a m o s d o ú n i c o p ã o " (1 C o r í n t i o s 1 0 . 1 6 , 1 7 ) . A C e i a d o S e n h o r e x p r e s s a v i v i d a m e n t e n o s s a koinonia c o n j u n t a m e n t e e c o m Cristo. • Paulo escreve sobre a ânsia das igrejas da M a c e d ó n i a e m contribuir para a coleta que estava sendo levantada e m favor das igrejas pobres da Judéia: "Pedindo-nos, c o m muitos rogos, a graça de participarem da assistência aos s a n t o s " ( 2 C o r í n t i o s 8.4). • " [ O r o ] p a r a q u e a comunhão d a t u a f é se t o r n e e f i c i e n t e , n o p l e n o c o n h e c i m e n t o de todo b e m que há e m nós, para c o m Cristo", diz Paulo a F i l e m o m (Filemom 6), p o u c o a n t e s d e p e d i r - l h e q u e r e c e b a d e v o l t a s e u e s c r a v o d e s e r t o r O n é s i m o

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" c o m o i r m ã o c a r í s s i m o " (16). S u a koinonia senhor-escravo e torna essencial o perdão. b. Ministério.

e m Cristo solapa a velha relação

Paulo descreve o processo de "edificação" e m Efésios 4.1-16.

Seu ponto central são os dons para ministérios de Cristo para a igreja: " E ele m e s m o concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, c o m vistas ao aperfeiçoamento d o s s a n t o s p a r a o d e s e m p e n h o d o seu s e r v i ç o , p a r a a e d i f i c a ç ã o d o c o r p o d e C r i s t o , até q u e t o d o s c h e g u e m o s à u n i d a d e d a f é e d o p l e n o c o n h e c i m e n t o d o Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à m e d i d a da estatura da plenitude de Cristo" (Efésios 4.11-13). É fundamental observar aqui que os "oficiais" da i g r e j a n ã o se o c u p a m d o " d e s e m p e n h o d o s e u s e r v i ç o " . A n t e s , é s e u p a p e l p r e p a r a r os m e m b r o s restantes d a i g r e j a a o c u p a r - s e d o " d e s e m p e n h o d o s e r v i ç o " . Q u a n d o a i g r e j a t r a b a l h a u n i d a d e s t a f o r m a , e l a é e d i f i c a d a , isto é, t o r n a - s e mais semelhante a Cristo. E m 1 C o r í n t i o s 12 P a u l o d e s c r e v e o m e s m o p r o c e s s o d e u m a f o r m a d i f e r e n t e . E l e a p r o v e i t a a i m a g e m d a i g r e j a c o m o u m " c o r p o " . C a d a p a r t e pertence t o d o . C a d a p a r t e necessita a t o d a s as o u t r a s p a r t e s , e c o n t r i b u i c o m a l g u m a c o i s a s i n g u l a r e m r e l a ç ã o a o d e t o d a s as o u t r a s p a r t e s , e d e p e n d e d e s u a s c o n t r i b u i ç õ e s e s p e c í f i c a s . E c a d a p a r t e sofre c o m t o d a s as o u t r a s p a r t e s , s e n t i n d o a s u a d o r ( o u alegria), c o m o se f o s s e s u a p r ó p r i a . P a u l o a p l i c a t o d a s e s t a s i d é i a s à igreja. C a d a crente tem u m ministério singular, c o n c e d i d o pelo Espírito Santo (1 C o r í n t i o s 12.7), d o q u a l d e p e n d e m a v i d a e a i n t e i r e z a d a i g r e j a . Esta ênfase não está e m conflito c o m a crença e m u m "ministério" ordenado ou n o m e a d o . O p r ó p r i o P a u l o " e s c o l h e u " p r e s b í t e r o s e d e u m u i t o s c o n s e l h o s a T i m ó t e o e a T i t o s o b r e as q u a l i f i c a ç õ e s p a r a o m i n i s t é r i o d o s p r e s b í t e r o s e diáconos, b e m c o m o a respeito de sua conduta. M a s ela está certamente e m conflito c o m u m a nítida distinção entre "clero" e "laicidade". A l é m disso, Paulo c e r t a m e n t e n o s e n c o r a j a a v e r q u e a l i d e r a n ç a n a i g r e j a n ã o é solitária, m a s plural. S o b a superintendência do Espírito Santo, algumas partes contribuem mais do que outras para a orientação e objetivo do corpo, p o r é m cada parte contribui c o m a l g u m a coisa. O fator final e mais importante é o amor: " u m c a m i n h o sobremodo excelente" (1 C o r í n t i o s 12.31), a a r g a m a s s a e n t r e o s t i j o l o s , a s e i v a d a á r v o r e , o l u b r i f i c a n t e das juntas, o sangue que m a n t é m a vida de Jesus fluindo através dos m e m b r o s de sua igreja!

4. Glorificação—Deus nos leva para o lar
O ensino de Paulo sobre o crescimento da igreja sugere um alvo em direção ao qual o crescimento é dirigido. Ele dá a esperança de tornar-se "a perfeita varonilidade, à medida da estatura de plenitude de Cristo" (Efésios 4.13). Aqui e n c o n t r a m o s u m e l e m e n t o f u n d a m e n t a l e m sua teologia, o q u e coloca seu e v a n g e l h o e m n í t i d o c o n t r a s t e t a n t o c o m as v á r i a s f i l o s o f i a s p a g ã s q u e e l e c o n h e c e u e m sua j u v e n t u d e e m Tarso, c o m o c o m o m a t e r i a l i s m o q u e r a p i d a m e n t e se t o r n a a c u l t u r a d o m u n d o n o f i n a l d o s é c u l o v i n t e . O p r e s e n t e é m o l d a d o p e l o futuro, o m u n d o tem u m destino definido, o t e m p o e a história passam, e u m dia D e u s s e r á " t u d o e m t o d o s " (1 C o r í n t i o s 15.28). P a r a os c r i s t ã o s isto s i g n i f i c a q u e " g l o r i a m o - n o s n a e s p e r a n ç a d a g l ó r i a d e D e u s " ( R o m a n o s 5 . 2 ) — i s t o é, a n t e g o z a m o s n o s s a e n t r a d a d i r e t a m e n t e até à p r e s e n ç a d o p r ó p r i o D e u s , f i n a l m e n t e e p l e n a m e n t e livres d o p e c a d o e d a m o r t e ,

Na Ágora, ou grande praça do mercado da antiga Atenas, Paulo debateu diariamente com os filósofos epicuristas e estóicos, provavelmente numa colunata, tal como a de Stoa de Attalus (no detalhe). A corte do areópago, onde Paulo defendeu sua posição a respeito de Jesus e a ressurreição, provavelmente reuniu-se na colunata real.

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prontos para usufruir a perfeita intimidade do amor familiar dos filhos unidos por f i m c o m seu Pai. O E s p í r i t o S a n t o é t a m b é m d e c i s i v o n e s t e p o n t o . E l e n ã o a p e n a s p r o d u z seu fruto e m nós (santificação), e n ã o apenas cria a c o m u n h ã o q u e cresce e se f o r t a l e c e ( e d i f i c a ç ã o ) , m a s t a m b é m a s s e g u r a - n o s este e s t á g i o f i n a l n o p r o c e s s o — nossa glorificação: • " T a m b é m n ó s q u e t e m o s as p r i m í c i a s d o E s p í r i t o , i g u a l m e n t e g e m e m o s e m nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção de nosso corpo" ( R o m a n o s 8.23): aqui o Espírito é "as primícias" d a colheita, a parte que nos permite ver o que é essa colheita e assegura-nos que o descanso está chegando. • " N ã o p o r q u e r e r m o s ser d e s p i d o s , m a s r e v e s t i d o s , p a r a q u e o m o r t a l s e j a a b s o r v i d o p e l a v i d a . O r a , f o i o p r ó p r i o D e u s q u e m n o s p r e p a r o u p a r a isto, o u t o r g a n d o - n o s o p e n h o r d o E s p í r i t o " (2 C o r í n t i o s 5 . 4 , 5 ) : a q u i o E s p í r i t o é u m "depósito" ou primeira parcela de p a g a m e n t o da vida celestial que nos aguarda. • " T e n d o nele t a m b é m crido, fostes selados c o m o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança até ao resgate da sua propriedade" (Efésios 1.13,14): a q u i o E s p í r i t o é u m " s e l o " , a m a r c a d e p r o p r i e d a d e d e D e u s , s e p a r a n d o nos para o m o m e n t o da "redenção". H á três aspectos do ensino de Paulo a respeito desse futuro:

a. A volta de Cristo
• " A i n d a vos declaramos, por palavra do Senhor... Porquanto o Senhor m e s m o , dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de D e u s " (1 T e s s a l o n i c e n s e s 4 . 1 5 , 1 6 ) . Nesta fase de sua vida Paulo esperava que pudesse ainda estar vivo quando o Senhor retornasse: " N ó s , os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados... para o e n c o n t r o d o S e n h o r n o s a r e s " (1 T e s s a l o n i c e n s e s 4 . 1 7 ) . E c e r c a d e d e z a n o s m a i s t a r d e e s t a a i n d a p a r e c i a ter s i d o s u a e s p e r a n ç a : • " A nossa pátria está nos céus, d e o n d e t a m b é m a g u a r d a m o s o Salvador, o S e n h o r J e s u s C r i s t o , o q u a l t r a n s f o r m a r á o n o s s o c o r p o d e h u m i l h a ç ã o p a r a ser igual ao corpo da sua glória" (Filipenses 3.20,21). Porém, m e s m o ao tempo das cartas aos tessalonicenses, ele esperava certos eventos que precederiam a vinda do Senhor: • "Isto não acontecerá s e m que primeiro venha a apostasia, e seja revelado o h o m e m d a i n i q ü i d a d e , o f i l h o d a p e r d i ç ã o " ( 2 T e s s a l o n i c e n s e s 2.3). E q u a n d o escreveu 2 Timóteo, u m p o u c o antes do final de sua vida, P a u l o tornou-se convencido de que morreria antes d o retorno d o Senhor: " O tempo de minha partida é chegado. Combati o b o m combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora a coroa da justiça m e está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, m e dará naquele dia; e não somente a m i m , mas t a m b é m a todos quantos a m a m a sua vinda" (2 T i m ó t e o 4.6-8). Alguns sugerem que, c o m o passar do tempo, Paulo m u d o u suas idéias a r e s p e i t o d a d a t a d a s e g u n d a v i n d a d e C r i s t o . M a s isto é i m p r o v á v e l . N a r e a l i d a d e , ele p r o v a v e l m e n t e m o s t r a - n o s c o m o o s cristãos d e t o d a s as é p o c a s d e v e m e s p e r a r o r e t o r n o d e C r i s t o . D e v e m o s " a n e l a r p o r s u a a p a r i ç ã o " . D e v e m o s v i v e r solícitos e a l e r t a s à l u z d e s t e e v e n t o . E f i c a r e m o s s a b e n d o e m n o s s o leito d e m o r t e q u e ele n ã o vai o c o r r e r e m n o s s a p r e s e n t e v i d a !

PAULO E SUA MENSAGEM

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b. A ressurreição dos mortos. Paulo esperava que a ressurreição ocorresse na volta de Cristo: "Porquanto o Senhor m e s m o , dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos e m Cristo ressuscitarão primeiro" (1 Tessalonicenses 4.16). Este será o m o m e n t o do juízo, q u a n d o "todos nós [compareceremos] perante o tribunal de Cristo para q u e cada u m receba segundo o b e m ou o m a l que tiver feito por m e i o do c o r p o " (2 Coríntios 5.10). Será t a m b é m a ocasião e m que seremos transformados e tornados aptos para a vida n o céu. " A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e q u e o c o r p o mortal se revista da i m o r t a l i d a d e " (1 Coríntios 15.52,53). Paulo é muito cauteloso ao afirmar estas p a l a v r a s — " s e revista da imortalidade". Aressurreição dos mortos não quer dizer a ressurreição de cadáveres. Ele f a z u m a comparação c o m o processo de germinação. A s s i m c o m o as sementes p e r d e m sua existência quando p r o d u z e m u m a planta, assim nossos corpos físicos se dissolverão—mas D e u s os tratará c o m o sementes para p r o d u z i r e m todo u m novo " c o r p o espiritual" que é imperecível, glorioso e poderoso (1 Coríntios 15.35-44). N ã o h á n a d a de a u t o m á t i c o a c e r c a d e s t e p r o c e s s o . E a g r a ç a de D e u s ressuscitando-nos da morte, que é o nosso destino físico, para a vida, que é a s u a d á d i v a e s p i r i t u a l . E n t ã o " e s t a r e m o s s e m p r e c o m o S e n h o r " (1 Tessalonicenses 4.17), vendo-o " f a c e a f a c e " (1 Coríntios 13.12). E m q u e e s t a d o os " m o r t o s e m C r i s t o " e x i s t e m a n t e s q u e a c o n t e ç a a ressurreição? Paulo p o u c o ensina sobre isto, p o r é m sua resposta está contida na pergunta. Eles estão " e m C r i s t o " — o u " c o m Cristo", c o m o ele afirma e m Filipenses 1.23 ante a possibilidade de sua própria morte. N ã o precisamos saber mais do q u e isto. "[Cristo] m o r r e u por nós para que, quer vigiemos, q u e r durmamos, vivamos e m união c o m ele" (1 Tessalonicenses 5.10). c. Julgamento e restauração. Paulo esperava que o j u l g a m e n t o de D e u s caísse sobre o m u n d o no retorno de Cristo. A t é o m o m e n t o , D e u s está retendo seu j u l g a m e n t o para permitir que h a j a t e m p o e oportunidade para arrependimento ( R o m a n o s 2.4,5). M a s virá " o dia da ira e da revelação do j u s t o juízo de Deus, q u e retribuirá a cada u m segundo o seu p r o c e d i m e n t o " ( R o m a n o s 2.5,6). As palavras de Paulo são sombrias: • Q u a n d o Cristo vier, Ele tomará vingança contra os "que não c o n h e c e m a D e u s e contra os que n ã o o b e d e c e m ao evangelho de nosso Senhor Jesus. Estes sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da f a c e do Senhor e da glória do seu poder, quando vier para ser glorificado nos seus santos" (2 Tessalonicenses 1.8-10). A igreja de hoje precisa retomar este ensino de f o r m a ampla, c o m o t a m b é m sentido de urgência q u e ele teve no ministério de Paulo. P o r é m o outro lado desta m o e d a é a restauração de todas as coisas. Paulo tinha u m a visão cósmica do plano de Deus. Ele criou "todas as coisas" por meio de Cristo e para Cristo (Colossenses 1.17). Finalmente Ele planeja " f a z e r convergir nele [Cristo], na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu c o m o as da terra" (Efésios 1.10). Portanto, a vinda de Cristo n ã o significará apenas a salvação para todos aqueles q u e lhe pertencem, m a s a libertação para todo o universo:

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• " A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus. Pois a criação... será redimida do cativeiro e da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de D e u s " (Romanos 8.19-21). Este é o evangelho para o qual D e u s arrebatou Paulo naquele dia a c a m i n h o d e D a m a s c o . T e n d o ele t i d o u m a e x p e r i ê n c i a d a g r a ç a , r e c e b e u t a m b é m u m a t e o l o g i a d a g r a ç a . " P e l a g r a ç a d e D e u s sou o q u e s o u " (1 C o r í n t i o s 15.10). E n f r e n t a n d o m u i t o s s o f r i m e n t o s , p e r i g o s e i n c e r t e z a s e m seu m i n i s t é r i o , ele s a b i a q u e D e u s e m C r i s t o " s e m p r e n o s c o n d u z e m t r i u n f o " (2 C o r í n t i o s 2 . 1 4 ) . Porque o m e s m o grande propósito da graça, que o colocou e m Cristo para aceitação e o estava libertando do poder do p e c a d o na c o m u n h ã o do corpo de C r i s t o , iria p r e s e r v á - l o até a o f i m — e t a m b é m n o s p r e s e r v a r á .

Leitura adicional
Menos exigente:

Steve Motyer. Israel in the Plan of God. Light on today's debate (Leicester: IVP, 1989) Robert Stein, Difficult Passages in the Epistles (Grand Rapids: Baker, 1988; Leicester: IVP, 1989)

Mais exigente, obras eruditas:
F. F. Bruce, Paul: Apostle of the Free Spirit (Exeter: Paternoster, 1977) Martin Hengel, The Pre-Christian Paul (Londres: SCM, 1991) Morna Hooker, From Adam to Christ: Essays on Paul (Cambridge: CUP, 1990) Seyoon Kim, The Origin of Paul's Gospel (Tubingen: J. C. B. Mohr, 1981)

A Carta aos Hebreus
Jesus, porém, tendo oferecido, parei sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus, aguardando, daí em diante, até que os seus inimigos sejam postos por estrado dos seus pés. Porque com uma única oferta aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo
santificados. (Hebreus 10.12-14)

O g r a n d e t e m a da carta aos H e b r e u s é a finalidade de Jesus Cristo. Ele é a última palavra de Deus para o m u n d o , e c u m p r i u todas as expectativas d o Velho Testamento, de m o d o que nada mais será acrescentado. O autor utiliza muitas idéias e p a s s a g e n s do Velho T e s t a m e n t o para e x p o r este tema, de f o r m a que seu raciocínio pode exigir m u i t o dos leitores atuais. P o r é m sua m e n s a g e m básica é clara: Jesus, através de seu sacerdócio eterno e sacrifício único, trouxe-nos u m a " s a l v a ç ã o eterna" (5.9). "Tendes chegado... a Jesus, o M e d i a d o r de N o v a A l i a n ç a " (12.22 e 24). que n u n c a cessará. Cristo se apresenta nos " ú l t i m o s dias" (1.2) e " q u a n d o os t e m p o s estão c h e g a n d o ao f i m " (9.26, B L H ) , d e v e n d o nós, portanto, s o m e n t e esperar a c o n s u m a ç ã o , q u a n d o ele aparecerá n o v a m e n t e para a salvação e o j u l g a m e n t o (9.28). C o m o sempre, a c o m p r e e n s ã o da m e n s a g e m d e p e n d e de e n t e n d e r a situação histórica à qual a carta se dirige. A c a r t a é escrita "aos H e b r e u s " . Este título não é original, p o r é m seu alvo é s e g u r a m e n t e correto, pois o uso p r e d o m i n a n t e d o Velho Testamento indica a posição j u d a i c a tanto d o autor c o m o de seus leitores. M u i t o e m b o r a não c o m e c e c o m o u m a carta. H e b r e u s t e r m i n a c o m o carta, d i r i g i n d o - s e a um g r u p o p a r t i c u l a r c o n h e c i d o d o autor ( 1 3 . 1 9 . 2 3 ) . m u i t o p r o v a v e l m e n t e em R o m a . S a b e m o s que eles tinham sido perseguidos quando se tornaram cristãos (10.3234), e que f o r a m b e m reputados por servirem aos irmãos (6.10) M a s agora o a u t o r está p r o f u n d a m e n t e p r e o c u p a d o c o m eles. E l e s os a c u s a de s e r e m "desatentos à palavra" e "indolentes" (5.11: 6.12), e repetidas vezes os incentiva a não se afastarem d o " D e u s v i v o " (3.12), m a s c o n t i n u a r e m no " e n s i n a m e n t o de adultos" (6.1. B L H ) . A l g u n s estudiosos e x p l i c a m esta e x o r t a ç ã o u s a n d o a teoria de que este g r u p o de j u d e u s cristianizados estava sendo tentado a a b a n d o n a r a fé e retornar ao J u d a í s m o . O u t r o s p o n d e r a m que o autor está p r e o c u p a d o s i m p l e s m e n t e pelo que vê c o m o falta de crescimento, ou f r o u x i d ã o , e m seu discipulado. Seja qual

110 HOMENS COM UMA MENSAGEM

f o r o c a s o . o r e m é d i o é s i m p l e s : se p u d e r e m ter u m a v i s ã o c l a r a d e J e s u s e d a s u p r e m a c i a d e seu s a c e r d ó c i o , s a c r i f í c i o e aliança, e n t ã o sua f é e seu z e l o d e n o v o se i n f l a m a r ã o . Q u e m era o a u t o r ? O r í g e n e s , u m dos pais da igreja inicial, c o m e n t o u e v a s i v a m e n t e : " S o m e n t e D e u s s a b e . " M u i t o s , t a n t o na i g r e j a inicial c o m o m a i s tarde, atribuíram a carta a Paulo. O teólogo Puritano inglês John O w e n , que e s c r e v e u u m c o m e n t á r i o e m sete v o l u m e s s o b r e H e b r e u s , d e d i c o u u m v o l u m e inteiro p a r a p r o v a r a a u t o r i a d e P a u l o , a c e r c a d a qual ele " n ã o t i n h a n e n h u m a d ú v i d a , c o m o se ela t i v e s s e s i d o e s c r i t a c o m a p r ó p r i a letra d o a p ó s t o l o " . S e u e n t u s i a s m o e m p r o v á - l o foi s e m d ú v i d a a l i m e n t a d o p e l o f a t o d e o R e f o r m a d o r J o ã o C a l v i n o ter p e n s a d o d e m o d o d i f e r e n t e ( " E u r e a l m e n t e n ã o p o s s o a p r e s e n t a r n e n h u m a r a z ã o p a r a m o s t r a r q u e P a u l o foi seu a u t o r " ) , e c h e g o u a p r o p o r o n o m e d e L u c a s ou C l e m e n t e ( b i s p o d e R o m a n o final d o p r i m e i r o s é c u l o ) . C e r t a m e n t e H e b r e u s 2 . 3 , 4 p a r e c e e x c l u i r P a u l o , p o r q u e o a u t o r ali se i d e n t i f i c a c o m o um cristãos da segunda geração. Lutero talvez tenha feito a melhor suposição ao sugerir Apolo. O retrato de A p o l o e m A t o s 18.24 c o m o " h o m e m e l o q ü e n t e e p o d e r o s o nas E s c r i t u r a s " a t e n d e à q u a l i f i c a ç ã o r e q u e r i d a ; e sua o r i g e m a l e x a n d r i n a p o d e e x p l i c a r as c o n e x õ e s q u e o s e s t u d i o s o s e n c o n t r a r a m e n t r e H e b r e u s e a l g u m a s d a s idéias d o J u d a í s m o grego especialmente associado com Alexandria. T u d o o que s a b e m o s c o m o certo sobre o autor é o que p o d e m o s inferir de sua c a r t a . M e s m o u m a leitura c a s u a l t o r n a c l a r o q u e ele p o s s u í a u m a c o m p r e e n s ã o completa tanto do Velho Testamento c o m o de Jesus Cristo, e que estava p r o f u n d a m e n t e preocupado em associar um ao outro, mostrando que u m não p o d i a ser c o m p r e e n d i d o s e m o o u t r o . O q u a d r o l o g o a d i a n t e m o s t r a a n o t á v e l e x t e n s ã o d e seu u s o d o Velho T e s t a m e n t o n e s t a " b r e v e c a r t a " ( 1 3 . 2 2 ) . M a s seu t r a t a m e n t o d o Velho T e s t a m e n t o n ã o t e m p a r a l e l o , p o r q u e ele o l h a para ele através de Jesus, permitindo sua c o m p r e e n s ã o da pessoa e ministério de Cristo p a r a r e v o l u c i o n a r a i n t e r p r e t a ç ã o d a s E s c r i t u r a s q u e o J u d a í s m o lhe h a v i a ensinado. De igual m o d o , ele mostra u m a p r o f u n d a c o n s c i ê n c i a de Jesus: uma c o n s c i ê n c i a espiritual, q u e ele vê e m s u a e n c a r n a ç ã o (2.14), na o b e d i ê n c i a ( 1 0 . 5 7). s o f r i m e n t o ( 5 . 7 , 8 ) , m o r t e ( 2 . 9 ) . r e s s u r r e i ç ã o ( 1 3 . 2 0 ) , a s c e n s ã o ( 4 . 1 4 ) , g l o r i f i c a ç ã o (1.3), e na s e g u n d a v i n d a ( 9 . 2 8 ) o s m e i o s p e l o s q u a i s D e u s trata o p e c a d o e a m o r t e q u e a t o r m e n t a m a h u m a n i d a d e . M a s ele n ã o a p e n a s i m p õ e sua c o m p r e e n s ã o de Jesus com base no Velho Testamento. Ele permite que o Velho T e s t a m e n t o lhe e n s i n e c o m o c o m p r e e n d e r a s a l v a ç ã o q u e D e u s p r o v ê p o r m e i o d e seu F i l h o . O autor, portanto, está a l t a m e n t e b e m p r e p a r a d o para a j u d a r - n o s a c o m p r e e n d e r o Velho Testamento: para mostrar-nos, realmente, o que o vinho novo tem feito nas g a r r a f a s v e l h a s . P o d e m o s r e s u m i r a m e n s a g e m d e H e b r e u s s o b q u a t r o títulos:

1. A supremacia de Jesus
A grande preocupação do autor é mostrar que Jesus é maior do que todos os o u t r o s a o s o l h o s d e D e u s . Ele d e s t a c a e s t e f a t o n o s u g e s t i v o p r e f á c i o a o i n i c i a r sua c a r t a ( 1 . 1 - 4 ) , n o q u a l ele p r o c l a m a J e s u s c o m o u m r e v e l a d o r m u i t o a c i m a d e t o d o s o s o u t r o s . A p e s a r d e t o d o o seu a m o r p e l o V e l h o T e s t a m e n t o , ele

A CARTA AOS HEBREUS

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0 Velho Testamento em Hebreus
Estas referências não estão completas. Elas simplesmente ilustram a notável abrangência de seu u s o n u m p e q u e n o livro.

1. Citações de
Gênesis (4.4) Êxodo (8.5) Levítico (9.7) Números (3.5) Deuteronômio (10.3) 2 Samuel (1.5) Salmos (citações de 11) Provérbios (12.5,6) Isaías (2.13) Jeremias (8.8-12) Ezequiel (13.20) Oséias (13.15) Habacuque (10.37.38) Ageu (12.26) Zacarias (13.20)

2. Personagens
Caim e Abel (11.4; 12.24) Enoque, que andou com Deus (11.5,6) Noé (11.7) Os três patriarcas Abraão (7.1-10: 11.8-19) Isaque (11.21) Jacó (11.21) Esaú (12.6) José (11.22) Moisés (3.1-6; 11.23ss.) Arão (5.4: 9.4) Raabe (11.31) Muitos juízes e profetas (11.32-38)

3. Eventos
Criação (11.3: 4.4) A queda (6.8) Moisés no Egito (11.24-27 f A Páscoa (11.18) O êxodo (3.16: 11.29) Eventos no Monte Sinai (9.18-21: 12.18.21) Entrada na terra prometida (3.18.19: 11.30)

4. Instituições e cerimônias
O Tabernáculo (9.1-5) O Dia da Expiação (9.7) O sacerdócio (5.1-3: 10.11) Sacrifícios (7.27: 8.3) Rituais de purificação (9.13) A Lei (7.28: 8.4) A aliança (9,15-20)

corajosamente o classifica c o m o "fragmentário e diversificado" (New English B i b l e ) e m c o m p a r a ç ã o c o m a r e v e l a ç ã o d a d a p o r D e u s p o r m e i o d e seu F i l h o (1.1,2). S e u F i l h o n ã o é a p e n a s u m p o r t a - v o z d e D e u s , c o m o f o r a m o s p r o f e t a s . Ele é " o r e s p l e n d o r da g l ó r i a " de D e u s ( a s s e g u r a n d o a c o m u n h ã o d e sua n a t u r e z a c o m o P a i ) e " a e x p r e s s ã o e x a t a d o seu S e r " ( a s s e g u r a n d o a d i s t i n ç ã o e n t r e sua p e s s o a e o Pai). H e r d e i r o d e t o d a s as c o i s a s , a g e n t e d a c r i a ç ã o , s u s t e n t a d o r d o universo, purificador dos pecados. Ele agora assenta-se "à m ã o direita da M a j e s t a d e nas alturas" (1.2,3). Este é o Filho exaltado, i n c o m p a r á v e l na d i g n i d a d e d e sua p e s s o a e o b r a , p o r m e i o d e q u e m se m a n i f e s t a a r e v e l a ç ã o final. E m s e g u i d a a esta v i b r a n t e i n t r o d u ç ã o , o a u t o r p a s s a a e x p o r a s u p r e m a c i a d e J e s u s e m r e l a ç ã o a o u t r a s g r a n d e s f i g u r a s d o V e l h o T e s t a m e n t o . A l é m d i s s o , ele o proclama superior aos anjos (1.4-2.18). a Moisés (3.1-4.13), e a Arão (4.1410.39). C a d a u m d e l e s é e s c o l h i d o p e l o q u e r e p r e s e n t a m n o p l a n o d e D e u s : o s a n j o s p o r q u e e r a m c o m u m e n t e c o n h e c i d o s c o m o " f i l h o s d e D e u s " , s e n d o a Lei o u t o r g a d a p o r i n t e r m é d i o d e l e s (2.2); M o i s é s p o r q u e era o g r a n d e " s e r v o " (3.5), p o r c u j a s m ã o s D e u s c o n d u z i u Israel à e x i s t ê n c i a e p r o v e u - l h e a L e i ; e A r ã o porque era o s u m o sacerdote, c u j o ministério mediou o perdão dos pecados.

Jesus é maior do que os anjos, 1.4-2.18
C o m o p r o p ó s i t o d e p r o v a r q u e J e s u s o c u p a u m a p o s i ç ã o m a i s alta d o q u e q u a i s q u e r o u t r o s s e r e s n o céu e n a terra, o a u t o r e m p r e g a u m a série de c i t a ç õ e s d o V e l h o T e s t a m e n t o , p r i n c i p a l m e n t e d e S a l m o s ( 1 . 5 - 1 4 ) . A f o r m a c o m o ele u s a e s t e s s a l m o s é b e m i l u s t r a d a p e l a c i t a ç ã o d o S a l m o 8 e m 2.5-9. E s t e s a l m o d e c l a r a q u e D e u s f e z o h o m e m " u m p o u c o m e n o r d o q u e os a n j o s " , a f i m d e c o r o á - l o d e g l ó r i a e d e h o n r a , e " t o d a s as c o i s a s s u j e i t a s t e d e b a i x o d o s s e u s

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HOMENS COM UMA MENSAGEM

p é s " . Isto n ã o p o d e r e f e r i r - s e a o h o m e m a g o r a , a r g u m e n t a o escritor, p o r q u e t o d a s as c o i s a s n ã o lhe e s t ã o s u j e i t a s . P o r t a n t o , isto d e v e r e f e r i r - s e a o H o m e m C r i s t o J e s u s , p o r q u e n ó s e f e t i v a m e n t e o v e m o s " c o r o a d o d e g l ó r i a e de h o n r a " (2.9). T o m a n d o esta linha d e i n t e r p r e t a ç ã o m a i s a d i a n t e , na e x p r e s s ã o " m e n o r d o q u e o s a n j o s " , n o S a l m o 8. o a u t o r e n c o n t r a u m a r e f e r ê n c i a à e n c a r n a ç ã o . D e u s p l a n e j a t r a z e r t a m b é m m u i t o s o u t r o s " f i l h o s " à g l ó r i a ( 2 . 1 0 ) . e isto E l e r e a l i z o u f a z e n d o J e s u s n o s s o I r m ã o m a i s v e l h o (2.11). q u e p a r t i c i p a d e n o s s a c a r n e e s a n g u e , e e f e t i v a m e n t e de n o s s a m o r t e , p a r a q u e p o s s a d e s t r u i r o D i a b o , q u e n o s m a n t é m e s c r a v i z a d o s à m o r t e (2.14). P o r t a n t o , t o r n a n d o - s e m e n o r d o q u e os anjos, J e s u s t o m o u - s e " o A u t o r da s a l v a ç ã o d e l e s " para t o d o s os o u t r o s n a q u e l a p o s i ç ã o (2.10). Ele foi h o n r a d o n ã o apesar de. m a s p o r c a u s a de seus s o f r i m e n t o s !

Jesus é maior do que Moisés, 3.1-4.13
E m 3.1 o a u t o r n o s c o n v i d a a c o n s i d e r a r " a t e n t a m e n t e o A p ó s t o l o e S u m o S a c e r d o t e da n o s s a c o n f i s s ã o . J e s u s " . O t e m a d e J e s u s c o m o " s u m o s a c e r d o t e " s u r g e p e l a p r i m e i r a v e z e m 2 . 1 7 . o n d e Ele é r e f e r i d o c o m o u m " m i s e r i c o r d i o s o e fiel s u m o s a c e r d o t e n a s c o i s a s p e r t i n e n t e s a D e u s " . É i n t e r e s s a n t e n o t a r q u e o t e m a d a f i d e l i d a d e de J e s u s é a g o r a t o m a d o c o m p a r a t i v a m e n t e c o m M o i s é s , e n q u a n t o o d a m i s e r i c ó r d i a de J e s u s é a p o n t a d o e d e s e n v o l v i d o n o p r ó x i m o t r e c h o , q u e está v o l t a d o à c o m p a r a ç ã o dele c o m A r ã o ( v e j a 4 . 1 4 - 1 6 ) . M o i s é s e r a fiel " e m t o d a a c a s a d e D e u s " , c o m o J e s u s t a m b é m foi. P o r é m M o i s é s e r a a p e n a s u m a p a r t e d a c a s a . a i n d a q u e u m a parte v i t a l — e n q u a n t o J e s u s r e p r e s e n t a o c o n s t r u t o r (3.3.4). A q u i n o v a m e n t e a f i d e l i d a d e d e M o i s é s e r a a de u m s e r v o ; a f i d e l i d a d e de J e s u s é a de u m F i l h o . E m a i s , o m i n i s t é r i o de M o i s é s p r o j e t a v a o f u t u r o , as " c o i s a s q u e h a v i a m d e ser a n u n c i a d a s " ; o s b e n e f í c i o s d o m i n i s t é r i o d e J e s u s p o d e m ser d e s f r u t a d o s a g o r a (3.5.6). E s t e c o n t r a s t e leva o a u t o r a u m l o n g o e f e r v o r o s o a p e l o . C o n s i d e r a n d o q u e terríveis c a s t i g o s c a í r a m s o b r e a q u e l e s q u e se r e b e l a r a m n o s dias d e M o i s é s , não d e v e m o s endurecer nossos corações diante de Jesus, que é maior do que M o i s é s . " T a m b é m a n ó s f o r a m a n u n c i a d a s as b o a s - n o v a s , c o m o se deu c o m e l e s " (4.2). Se eles não e n t r a r a m no d e s c a n s o de D e u s por causa de sua incredulidade, devemos fazer todo o esforço "por entrar naquele descanso, a f i m de q u e n i n g u é m c a i a . s e g u n d o o m e s m o e x e m p l o d e d e s o b e d i ê n c i a " (4.11). O a u t o r sente p r o f u n d a m e n t e a a d v e r t ê n c i a d a d a p e l o e x e m p l o da g e r a ç ã o d o ê x o d o , q u e r e c e b e u t a n t o de D e u s e t u d o p e r d e u , e n ã o se e s q u i v a de d i z e r a seus leitores q u e eles c o r r e m o m e s m o p e r i g o .

Jesus é maior do que Arão, 4.14-10.39
A g o r a c h e g a m o s ao c e n t r o d a d i s c u s s ã o . A p ó s u m p a r á g r a f o i n t r o d u t ó r i o , e s t a extensa parte central c o m e ç a e termina com fortes exortações, nas quais o autor a c e n t u a suas a d v e r t ê n c i a s ( 5 . 1 1 - 6 . 1 2 ; 10.19-39). N o m e i o o c o r r e m d u a s l o n g a s p a s s a g e n s , n a s q u a i s ele c o n s i d e r a p r i m e i r o a p e s s o a d e J e s u s c o m o s u m o s a c e r d o t e ( 6 . 1 3 - 7 . 2 8 ) , e d e p o i s seu m i n i s t é r i o ( 8 . 1 - 1 0 . 1 8 ) . O parágrafo introdutório (4.14-5.10) contém a primeira menção de um i m p o r t a n t e p e r s o n a g e m que f i g u r a a m p l a m e n t e nesta parte da carta. Melquisedeque dificilmente aparece no Velho T e s t a m e n t o — s o m e n t e no S a l m o 110.4, c i t a d o e m H e b r e u s 5 . 6 . e n a n a r r a t i v a de G ê n e s i s 1 4 . 1 7 - 2 4 , a o q u a l H e b r e u s 7 . 1 - 1 0 se r e f e r e . P o r é m n o s s o a u t o r o c o n s i d e r a u m a f i g u r a m a i s s i g n i f i c a t i v a , p o r d u a s r a z õ e s . P r i m e i r o p o r q u e s o m e n t e a s u a p r e s e n ç a n o Velho

A CARTA AOS HEBREUS

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MIM:

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Testamento, exercendo um sacerdócio tão diferente do de Arão, mostra que o p r ó p r i o Velho T e s t a m e n t o e s t a v a c o n s c i e n t e d a i n c o m p l e t i t u d e e i m p e r f e i ç ã o d o s a c e r d ó c i o de A r ã o e s e u s f i l h o s : " S e , p o r t a n t o , a p e r f e i ç ã o h o u v e r a sido m e d i a n t e o s a c e r d ó c i o l e v í t i c o . . . q u e n e c e s s i d a d e h a v e r i a a i n d a d e q u e se levantasse outro sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque, e que não fosse c o n t a d o s e g u n d o a o r d e m de A r ã o ? " (7.11). E m s e g u n d o lugar, a v e r d a d e i r a p e s s o a d e M e l q u i s e d e q u e . c o m o r e v e l a d a nas d u a s p a s s a g e n s q u e o m e n c i o n a m , p r e f i g u r a a p e s s o a d e J e s u s de v á r i a s formas: 1. M e l q u i s e d e q u e e r a u m s a c e r d o t e real, u m "rei de S a l é m " (isto é. J e r u s a l é m ) , q u e era t a m b é m " s a c e r d o t e d o D e u s A l t í s s i m o " (7.1). P e l a a p l i c a ç ã o d e v á r i o s s a l m o s r e a i s a J e s u s e m seu p r i m e i r o c a p í t u l o , o a u t o r p r e p a r o u - n o s p a r a imaginarmos Jesus sentado no trono de Davi, cumprindo a expectativa do Velho T e s t a m e n t o d e u m rei q u e p o d e t a m b é m ser c h a m a d o D e u s (p.ex., H e b r e u s 1.8). A g o r a o a u t o r d e s e n v o l v e o a s p e c t o s a c e r d o t a l d o m i n i s t é r i o d o rei d e J e r u s a l é m — s e n d o f a s c i n a n t e o b s e r v a r q u e D a v i e s e u s s u c e s s o r e s p a r e c e m ter e x e r c i d o e f e t i v a m e n t e u m s a c e r d ó c i o c o m o parte d e seu o f í c i o (p.ex., 2 S a m u e l 2 4 . 2 5 ; 1 R e i s 9.25). 2. M e l q u i s e d e q u e s u r g e e m c e n a n a h i s t ó r i a d o G ê n e s i s s e m qualquer a p r e s e n t a ç ã o . N a d a l e m o s s o b r e seu n a s c i m e n t o ou m o r t e ou p a r e n t e l a o u g e n e a l o g i a , e nisto, c o n c l u i n o s s o autor, ele s i m b o l i z a a " v i d a i n d i s s o l ú v e l " d o F i l h o de D e u s (7.3,16). 3. A r ã o e r a d e s c e n d e n t e d e L e v i , e L e v i d e A b r a ã o . P o r t a n t o , quando Melquisedeque abençoou Abraão, e Abraão entregou a Melquisedeque um dízimo, o "sacerdócio levítico" estava sendo submetido a Melquisedeque na p e s s o a d e seu a n c e s t r a l . A o s levitas c u m p r i a r e c e b e r o s d í z i m o s d o r e s t a n t e d e Israel, e e n t ã o f o r a m i n s t r u í d o s a d a r a D e u s , t a m b é m eles, o d í z i m o d o s d í z i m o s r e c o l h i d o s ( N ú m e r o s 18.26). O a u t o r d e H e b r e u s a r g u m e n t a q u e e s t a d á d i v a e s t a v a p r e f i g u r a d a e m G ê n e s i s 14, s u b l i n h a n d o o status d e M e l q u i s e d e q u e c o m o

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a q u e l e a q u e m as h o n r a s d i v i n a s s ã o d e v i d a s ( 7 . 4 - 1 0 ) . 4. M e l q u i s e d e q u e n ã o p e r t e n c i a , pois, à c a s a s a c e r d o t a l d e L e v i . e p o r isso p r e f i g u r o u J e s u s , q u e e r a u m s a c e r d o t e ( c o m o D a v i ) d e s c e n d e n t e da t r i b o de Judá (7.13-14). 5. D i f e r e n t e m e n t e d o s s a c e r d o t e s levíticos. M e l q u i s e d e q u e foi d e s i g n a d o s o b j u r a m e n t o d i v i n o , d e a c o r d o c o m o S a l m o 110: " O S e n h o r jurou e n ã o se a r r e p e n d e r á : "tu és s a c e r d o t e p a r a s e m p r e ' " (7.21). Este j u r a m e n t o n ã o se a p l i c a ao sacerdócio levítico. p o r q u e eles não c o n t i n u a r a m "para s e m p r e " : " s ã o i m p e d i d o s p e l a m o r t e d e c o n t i n u a r " (7.23). P o r é m , c o m o M e l q u i s e d e q u e . J e sus m a n t é m seu s a c e r d ó c i o p e r m a n e n t e m e n t e p o r q u e E l e vive p a r a s e m p r e . C o n s e q ü e n t e m e n t e , Ele " p o d e s a l v a r t o t a l m e n t e os q u e p o r ele se c h e g a m a D e u s . v i v e n d o s e m p r e p a r a i n t e r c e d e r p o r e l e s " (7.25). O autor argumenta encontrando alguma coisa no Velho Testamento que não p o d e ser e x p l a n a d a e m t e r m o s d e Velho T e s t a m e n t o — e m e s s ê n c i a , a p r ó p r i a e x i s t ê n c i a d e M e l q u i s e d e q u e e seu s a c e r d ó c i o : ele e x p l a n a e n t ã o e m t e r m o s d o Novo Testamento quando aponta à frente para Jesus. E m 8.1 n o s s o a u t o r p a s s a a u m a n o v a f a s e d e seu a r g u m e n t o : " T o d o s u m o s a c e r d o t e é c o n s t i t u í d o p a r a o f e r e c e r a s s i m d o n s c o m o s a c r i f í c i o s ; p o r isso era n e c e s s á r i o q u e t a m b é m esse s u m o s a c e r d o t e tivesse o q u e o f e r e c e r " (8.3). Ele p a s s a d a p e s s o a d o s a c e r d o t e p a r a a n a t u r e z a d e seu s a c r i f í c i o — o qual veio a t o r n a r - s e l e g i t i m a m e n t e s e m igual.

2. O sacrifício de Jesus
Este n o v o trecho da carta t e m u m a estrutura ' c o n c ê n t r i c a ' , c o m o se a c h a e s b o ç a d a n o q u a d r o q u e se s e g u e . E s t a e s t r u t u r a r e v e l a o c u i d a d o d o autor na c o m p o s i ç ã o — e t a m b é m nas l i n h a s p r i n c i p a i s d e seu p e n s a m e n t o . E l e a p r e s e n t a a q u i t r ê s c o n t r a s t e s : e n t r e o " t a b e r n á c u l o " ou " s a n t u á r i o " terrestre e celestial (o lugar d o m i n i s t é r i o ) , e n t r e a v e l h a e a n o v a a l i a n ç a (a base d o ministério), e entre o v e l h o e o n o v o s a c r i f í c i o (a função do ministério). Enquanto o antigo s u m o sacerdote entrava no Santíssimo L u g a r do Tabernáculo uma vez por ano, no Dia do Perdão, levando o s a n g u e d o s a c r i f í c i o , J e s u s a g o r a e n t r a n o s a n t u á r i o celestial, o n d e D e u s está. l e v a n d o seu p r ó p r i o s a n g u e , a e v i d ê n c i a de u m s a c r i f í c i o q u e n ã o p r e c i s a ser r e p e t i d o , e o qual a n i q u i l a o p e c a d o u m a v e z p o r t o d a s (9.26). O r e s u l t a d o é t o d a u m a " n o v a a l i a n ç a " : isto é, o r e l a c i o n a m e n t o entre D e u s e seu p o v o foi

8.1-6 [A] O lugar do ministério de Jesus 8.7-13 [B] A nova aliança prometida 9.1 -10 [C] O antigo Dia da Expiação 9.11-14 [C] O novo Dia da Expiação 9.15-22 [B] A nova aliança no sangue de Cristo 9.23-28 [A] O lugar do ministério de Cristo

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colocado sobre um f u n d a m e n t o totalmente diferente. Em todo o curso desta p a s s a g e m o a u t o r r e c o r r e a o ritual d o D i a d a E x p i a ç ã o ( d e s c r i t o e m L e v í t i c o 16). e p r o c u r a m o s t r a r , p o n t o a p o n t o , c o m o o p e r f e i t o s a c r i f í c i o d e C r i s t o c u m p r i u a i m p e r f e i t a p r e f i g u r a ç ã o d o D i a da E x p i a ç ã o . C o n c e n t r a n d o - n o s na c o m p r e e n s ã o da m o r t e de J e s u s , p o d e m o s a p o n t a r p a r a q u a t r o a s p e c t o s n o s q u a i s J e s u s s u p e r a as l i m i t a ç õ e s da " p r i m e i r a a l i a n ç a " :

1. A esfera do sacrifício
N ã o é c e r i m o n i a l , m a s m o r a l . O a u t o r p õ e nisto u m a certa ê n f a s e . O s a n t i g o s sacrifícios realizados para a santificação dos que estavam "cerimonialmente i m p u r o s " — l i t e r a l m e n t e , e l e s se s a n t i f i c a v a m p a r a a " p u r i f i c a ç ã o d a c a r n e " ( 9 . 1 3 ) . s i m p l e s m e n t e " i m p o s t a s até ao t e m p o o p o r t u n o d e r e f o r m a " (9.10). M a s o q u e se n e c e s s i t a é d e u m s a c r i f í c i o c a p a z de " a p e r f e i ç o a r a q u e l e q u e p r e s t a c u l t o " ( 9 . 9 ) — i s t o é. p a r a a l c a n ç a r a t r a n s f o r m a ç ã o real. p e s s o a l e interior. O s a n t i g o s s a c r i f í c i o s t i n h a m d e ser r e p e t i d o s c o n s t a n t e m e n t e , p o r q u e n u n c a a s s e g u r a v a m a o s a d o r a d o r e s a l i b e r t a ç ã o d o s e n t i m e n t o dc q u e e r a m c u l p a d o s p o r seus p e c a d o s (10.2). A g o r a , entretanto, o " s a n g u e de C r i s t o " f o r m a u m sacrifício q u e p o d e p u r i f i c a r "a nossa consciência de obras mortas para servirmos ao Deus vivo!" (9.14). E p o r isso q u e o a u t o r e s t á t ã o p r e o c u p a d o c o m a i n c a p a c i d a d e de os leitores c r e s c e r e m c o m o c r i s t ã o s : eles p a r e c e m n ã o ter e n t r a d o c o m o d e v i a m na p l e n a e x p e r i ê n c i a d o p e r d ã o da n o v a a l i a n ç a .

2. A natureza do sacrifício
Ela n ã o é t e r r e n a , m a s celestial. J e s u s m o r r e u n a terra, p o r é m n a r e a l i d a d e Ele " p e l o E s p í r i t o e t e r n o , a si m e s m o se o f e r e c e u s e m m á c u l a a D e u s " (9.14). S o b r e este s a c r i f í c i o H e b r e u s a f i r m a v á r i a s c o i s a s f u n d a m e n t a i s : Ele foi perfeito. E n q u a n t o "é i m p o s s í v e l q u e s a n g u e de t o u r o s e b o d e s r e m o v a

p e c a d o s " (10.4), J e s u s era v e r d a d e i r a m e n t e " s e m m á c u l a " , e c a p a z d e " a n i q u i l a r p e l o s a c r i f í c i o de si m e s m o o p e c a d o " ( 9 . 2 6 ) . Ele foi espiritual. "Pelo Espírito eterno" (9.14) significa provavelmente que

J e s u s o f e r e c e u - s e e m p e r f e i t a h a r m o n i a espiritual c o m D e u s . u n g i d o pelo Espírito p a r a seu p e n o s o t r a b a l h o c o n t r a o p e c a d o e a m o r t e . Isto q u e r d i z e r q u e . p o r seu s a c r i f í c i o . E l e se c a p a c i t o u a " p u r i f i c a r " o s a n t u á r i o celestial ( 9 . 2 3 ) . ou s e j a . E l e t o r n o u p o s s í v e l q u e nós. p e c a d o r e s , n o s a p r o x i m á s s e m o s d e D e u s s e m m a c u l a r o s a n t u á r i o e m q u e Ele h a b i t a . Ele foi vicário. E s t e é d e t o d o s o p o n t o m a i s r e l e v a n t e . C r i s t o m a n t e v e esta

i m a c u l a d a h a r m o n i a espiritual c o m D e u s . e n q u a n t o p a s s a v a p o r u m a e x p e r i ê n c i a c o m p l e t a d e t e n t a ç ã o e s o f r i m e n t o , p e c a d o e m o r t e , q u e foi c a p a z d e "tirar os p e c a d o s d e m u i t o s " (9.28). H e b r e u s n ã o r e v e l a c o m o p r e c i s a m e n t e a m o r t e d e C r i s t o é e f i c a z ao t o r n a r - s e E l e u m a f o n t e d e " s a l v a ç ã o e t e r n a " (5.9) e m f a v o r d e o u t r e m . P o r é m 9 . 2 8 d e f i n e c l a r a m e n t e s u a m o r t e c o m o u m s a c r i f í c i o vicário, c a r r e g a n d o os p e c a d o s d o s o u t r o s , c u m p r i n d o a p r o f e c i a d o S e r v o d o S e n h o r e m Isaías 5 3 ( v e j a e s p e c i a l m e n t e o v e r s í c u l o 11), e p o s s i v e l m e n t e t a m b é m o ritual d o " b o d e e x p i a t ó r i o " n o D i a da E x p i a ç ã o . N e s t e ú l t i m o , o s a c e r d o t e t i n h a d e c o n f e s s a r os p e c a d o s d c Israel, p o u s a n d o suas m ã o s s o b r e a c a b e ç a d o b o d e . e e m s e g u i d a o a n i m a l e r a b a n i d o p a r a o d e s e r t o , a f i m d e levar " s o b r e si t o d a s

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as i n i q u i d a d e s d e l e s " ( L e v í t i c o 16.22).

3. A singularidade do sacrifício
Ele é s i n g u l a r , n ã o r e p e t i d o . A e x p r e s s ã o " u m a v e z " ou " u m a v e z p o r t o d a s " é u m a d a s f a v o r i t a s d o autor, o c o r r e n d o n ã o m e n o s d e q u a t r o v e z e s e n t r e 9.11 e 10.14, c o m r e f e r ê n c i a à m o r t e de C r i s t o e s u a s c o n s e q ü ê n c i a s ( v e j a o p r ó x i m o quadro). O contraste, naturalmente, é entre o único e não repetido sacrifício de C r i s t o e o s r e p e t i d o s s a c r i f í c i o s t a n t o da c e r i m ô n i a anual d o D i a d a E x p i a ç ã o c o m o d o s rituais d i á r i o s n o t e m p l o . P o r sua m e r a r e p e t i ç ã o , s u s t e n t a n o s s o autor, e l e s p r o c l a m a m sua p r ó p r i a i n e f i c á c i a .

4. O cumprimento do sacrifício
E l e é p e r m a n e n t e , n ã o transitório. A o p a s s o q u e os a n t i g o s s a c r i f í c i o s p r o v i a m u m ritual d e p u r i f i c a ç ã o p a s s a g e i r o e e x t e r n o , o s a c r i f í c i o de J e s u s p r e p a r a - n o s p a r a s e g u i - l o até ao p r ó p r i o s a n t u á r i o . Ele n ã o é a p e n a s n o s s o r e p r e s e n t a n t e , m a s t a m b é m n o s s o p r e c u r s o r (6.20). A g o r a , t a m b é m n ó s p o d e m o s a p r o x i m a r nos de Deus, "tendo os corações purificados de m á consciência, e lavado o c o r p o c o m á g u a p u r a " ( 1 0 . 2 2 ) : a q u i , d r a m a t i c a m e n t e , o a u t o r usa p a r a " n ó s " a linguaguem que é reservada para a ordenação do sumo sacerdote em Êxodo 2 9 . 2 1 e L e v í t i c o 16.4. E x a t a m e n t e c o m o A r ã o foi p r e p a r a d o p a r a sua e n t r a d a a n u a l no S a n t í s s i m o L u g a r , a s s i m t a m b é m n ó s s o m o s p r e p a r a d o s p a r a a e n t r a d a , e. de pé na soleira da porta, e s p e r a n d o pelo alvorecer do " D i a " , q u a n d o poderemos seguir "nosso grande S u m o Sacerdote" através do véu (10.19-25). A idéia d o c u m p r i m e n t o d e C r i s t o p o r m e i o d e seu s a c r i f í c i o a b r e - n o s a p o r t a a o t e r c e i r o t ó p i c o q u e d e s e m p e n h a u m papel crucial n o p e n s a m e n t o d e H e b r e u s :

3. A nova aliança em Jesus
A citação de Jeremias 31.31 -34 em Hebreus 8.8-12 é a mais longa de uma única citação do Velho Testamento encontrada no Novo. E a f a m o s a passagem sobre a " n o v a a l i a n ç a " , na qual J e r e m i a s l a m e n t a a c o r r u p ç ã o d o c o r a ç ã o q u e a r r u i n o u Israel e p r o c l a m a u m a tríplice p r o m e s s a d e g r a ç a d e q u e D e u s e s c r e v e r á s u a s leis nos c o r a ç õ e s e m e n t e s de seu p o v o , r e v e l a r - s e - á a c a d a um deles i n d i v i d u a l m e n t e , e p e r d o a r á s e u s p e c a d o s . E s t a p r o m e s s a d e s a n t i d a d e interior, c o n h e c i m e n t o pessoal e p l e n o p e r d ã o foi c u m p r i d a , s e g u n d o n o s s o autor, a t r a v é s do sacrifício de Jesus. Portanto, Jesus é "o Mediador da nova aliança" (9.15); e esta nova aliança é " s u p e r i o r " à a n t i g a , p o r q u e foi " i n s t i t u í d a c o m b a s e e m s u p e r i o r e s p r o m e s s a s "

"Uma vez por todas"—o sacrifício único e suficiente de Jesus
"Não por meio de sangue de bodes e de bezerros, mas pelo seu próprio sangue, entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção" (9.12). "[Cristo] se manifestou uma vez por todas, para aniquilar pelo sacrifício de si mesmo o pecado" (9.26). "Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para a salvação" (9.28). "Nessa vontade é que temos sido santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas" (10.10).

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O Tabernáculo de Israel estava ensinando seu
O autor considera que seus leitores estão bem familiarizados com a imagem do Tabernáculo. Ele era dividido em dois compartimentos. O primeiro e maior era o "Lugar Santo". O outro, menor, era o "Lugar Santíssimo", o santuário interior. Aqui ficava a arca, encimada por sua tampa de ouro, ou propiciatório, onde a glória do Shekinah, o símbolo visível da presença de Deus, aparecia. Os dois "Lugares" eram separados por uma espessa cortina chamada "véu". Por

meio desta instituição o Santo

povo, tanto a respeito de sua presença no meio dele. como a respeito da inacessibilidade deles perante Ele. Ele estava perto. e. entretanto, longe: os pecadores poderiam aproximar-se, porém não lhes era permitido entrar em sua santa presença além do véu. O acesso a Deus era limitado por quatro condições, mencionadas em Hebreus 9.7: somente o sumo sacerdote podia entrar 110 santuário interior: porém somente uma vez. por ano (no Dia da Expiação), e somente trazendo o sangue do sacrifício com ele, para espargir sobre o

propiciatório; e com isso ele garantia a remissão somente para certos pecados (os pecados "cometidos em ignorância"). Para nosso autor, estas limitações mostravam "que ainda o caminho do Santo Lugar não se manifestou" (9.8); uma vez mais, o Velho Testamento revela sua própria inadequabilidade e sua necessidade de Jesus. Em contraste com o antigo sumo sacerdote, Jesus "entrou no Santo dos Santos [Santíssimo Lugar], uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção" (9.12).

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(8.6). Ela p r o m e t e real t r a n s f o r m a ç ã o d o c o r a ç ã o . A a n t i g a a l i a n ç a era simplesmente ineficaz: "Se aquela primeira aliança tivesse sido sem defeito, de m a n e i r a a l g u m a e s t a r i a s e n d o b u s c a d o l u g a r p a r a a s e g u n d a . ... Q u a n d o ele diz N o v a , t o r n a a n t i q u a d a a p r i m e i r a . O r a , a q u i l o q u e se t o r n a a n t i q u a d o e envelhecido está prestes a desaparecer" (8.7.13). O a u t o r d e f e n d e sua p o s i ç ã o c o m três a r g u m e n t o s : p r i m e i r a m e n t e c o m u m a ilustração humana. A palavra que corresponde a "aliança" no grego e no hebraico pode também significar "testamento". Assim, c o m o um testamento tem efeito somente quando o testador morre, assim t a m b é m o N o v o Testamento entrou em vigor somente quando Jesus morreu (9.15-17). E m s e g u n d o lugar, ele utiliza u m a analogia bíblica. Ele declara que, c o m o a primeira aliança é ratificada pelo d e r r a m a m e n t o de sangue, assim a nova aliança é i n a u g u r a d a p e l o s a n g u e d e J e s u s , q u e é " o s a n g u e d a a l i a n ç a " ( 9 . 1 8 - 2 1 ; 10.29; 13.20; c o m p a r e c o m M a t e u s 2 6 . 2 8 ) . E, e m t e r c e i r o lugar, ele e m p r e g a u m argumento cla experiência. "Com uma ú n i c a o f e r t a a p e r f e i ç o o u para s e m p r e q u a n t o s e s t ã o s e n d o s a n t i f i c a d o s " ( 1 0 . 1 4 ) . U m a vez que o perdão tem sido realmente concedido e experimentado, não há necessidade de qualquer outro sacrifício (10.17.18): a nova aliança está e m vigor. E s t e t e m a d a f i n a l i d a d e d a n o v a a l i a n ç a é p o n t o crucial para o e s c r i t o r d e H e b r e u s . Ele c o m e ç o u s u a c a r t a c o m o c l a m o r : " C o r n o e s c a p a r e m o s n ó s , se negligenciarmos tão grande salvação?" (2.3). Ele temia que seus leitores e s t i v e s s e m f a z e n d o i s t o — i g n o r a n d o ou ( m a i s l i t e r a l m e n t e ) n ã o se i m p o r t a n d o c o m o q u e D e u s t i n h a f e i t o p e l o m u n d o a t r a v é s de J e s u s C r i s t o . C o m o j u d e u s c r i s t i a n i z a d o s eles p o d i a m ter s i d o t e n t a d o s a p e n s a r q u e , afinal d e c o n t a s , J e s u s n ã o t i n h a a c r e s c e n t a d o m u i t o a o seu J u d a í s m o . A isto o a u t o r r e s i s t e apaixonadamente. Jesus é único. Deus tem falado e agido finalmente por meio da pessoa, obra e aliança de Jesus Cristo. P o d e n ã o h a v e r q u a l q u e r i n t e r e s s e e m o u t r o s " s a c e r d o t e s " n u m s e n t i d o sacrificial, u m a vez que, através de nosso grande S u m o Sacerdote, t e m o s acesso direto a Deus e não necessitamos de n e n h u m outro mediador. N o s s o sacrifício é um "sacrifício de louvor" (13.15), não um "sacrifício pelo pecado" (10.18). A n o v a a l i a n ç a é a ú l t i m a a l i a n ç a , e j a m a i s será s u b s t i t u í d a : é u m a " a l i a n ç a e t e r n a " ( 1 3 . 2 0 ) , q u e traz p a r a o p o v o d e D e u s u m a " s a l v a ç ã o e t e r n a " , u m a " e t e r n a r e d e n ç ã o " (9.12), e u m a "herança eterna" (9.15). A m e n s a g e m de Hebreus é inflexível. A um m u n d o e igreja tentados a dizer que muitos caminhos levam a Deus. e que o Cristianismo é simplesmente u m a religião entre muitas, o autor desta carta lança u m a veemente refutação. Tomar tal p o s i ç ã o é n e g a r o q u e D e u s t e m f e i t o p e l o m u n d o e m C r i s t o . A q u a l q u e r c u s t o — a i n d a q u e p e l o d e r r a m a m e n t o de seu p r ó p r i o s a n g u e ( 1 2 . 4 ) — o a u t o r e s t i m u l a seus leitores a agarrar-se à u n i c i d a d e e f i n a l i d a d e de Cristo, q u e c h e g o u , através da vergonha e da morte, à m ã o direita de Deus. Precisamos ouvi-lo hoje.

4. A disciplina de Jesus
E m 1 0 . 1 9 o a u t o r c o m e ç a a d e l i n e a r as c o n c l u s õ e s p r á t i c a s d e s u a a p r e s e n t a ç ã o de Cristo. O trecho 10.19-39 retrocede e a m e n i z a a exortação de 5.11-6.12. E s t a m o s agora diante de u m forte e n c o r a j a m e n t o e sóbria admoestação: u m encorajamento para agarrar-se à fé (10.22), esperança (10.23) e a m o r (10.24),

A CARTA AOS HEBREUS

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q u e d e v e r i a m ser as m a r c a s d o s s e g u i d o r e s d e J e s u s , o " g r a n d e s a c e r d o t e s o b r e a c a s a d e D e u s " ( 1 0 . 2 1 ) , e u m a a d v e r t ê n c i a s o b r e as terríveis c o n s e q ü ê n c i a s p a r a nós se t r a t a r m o s J e s u s l e v i a n a m e n t e e " v i v e r m o s d e l i b e r a d a m e n t e e m pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade" (10.26). H á s o m e n t e u m s a c r i f í c i o p e l o p e c a d o : p o r i s s o , se d e s p r e z a r m o s aquele s a c r i f í c i o , " j á n ã o r e s t a s a c r i f í c i o p e l o s p e c a d o s ; p e l o c o n t r á r i o , [há] c e r t a expectação horrível de j u í z o " (10.26,27). C e r t a m e n e o autor supunha que seus leitores p u d e s s e m p e r d e r sua s a l v a ç ã o e cair s o b o j u í z o d e D e u s . S u a e x o r t a ç ã o c o n t i n u a n o s três s o b e r b o s c a p í t u l o s c o n c l u s i v o s d e s u a c a r t a . E s t e s c a p í t u l o s p a r e c e m d e s e n v o l v e r o t e m a tríplice a p r e s e n t a d o e m 10.22-24, u m a v e z q u e o c a p í t u l o 11 e n f a t i z a a fé; o c a p í t u l o 12, a e s p e r a n ç a ; e o c a p í t u l o 13, o a m o r . A fé " é a c e r t e z a d e c o i s a s q u e se e s p e r a m , a c o n v i c ç ã o d e f a t o s q u e se n ã o v ê e m " (11.1): viver p e l o q u e n ã o se vê é inevitável para a q u e l e s q u e p e r m a n e c e m na soleira d a porta d o s a n t u á r i o e s p e r a n d o q u e o S u m o S a c e r d o t e a p a r e ç a (9.28). P o r t a n t o , n ã o d e v e m o s " r e t r o c e d e r " , m a s s i m " c r e r e ser s a l v o s " ( 1 0 . 3 9 ) , c o m o os h e r ó i s d o V e l h o T e s t a m e n t o , q u e t a m b é m t i v e r a m d e v i v e r p e l a fé p o r q u e p e r m a n e c e r a m f i r m e s " c o m o q u e m vê a q u e l e q u e é i n v i s í v e l " (11.27). A q u e l e s heróis dos velhos t e m p o s f o r a m h o m e n s de esperança e t a m b é m de fé. Pela fé eles herdaram algumas promessas de Deus e m sua existência, mas, n u m outro s e n t i d o , " n ã o o b t i v e r a m . . . a c o n c r e t i z a ç ã o d a p r o m e s s a " (11.39). A s b ê n ç ã o s t e r r e n a s q u e r e c e b e r a m s i m p l e s m e n t e s i m b o l i z a v a m as b ê n ç ã o s e s p i r i t u a i s q u e n ã o r e c e b e r a m . E l e s a g u a r d a r a m e s s a s b ê n ç ã o s c o m e s p e r a n ç a , isto é, c o m a l e g r e e c o n f i a n t e e x p e c t a t i v a . Pela f é , p o r t a n t o , e l e s se f i r m a r a m e m D e u s diante do p r o f u n d o sofrimento.

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D e v e m o s f a z e r o m e s m o . " T a m b é m nós, visto q u e t e m o s a r o d e a r - n o s t ã o grande n u v e m de testemunhas, d e s e m b a r a ç a n d o - n o s de todo peso. e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos c o m perseverança a carreira que nos está p r o p o s t a . " D e v e m o s o l h a r p a r a " o A u t o r e C o n s u m a d o r da f é . J e s u s " . E l e t a m b é m , c o m o o s h e r ó i s d a f é d o Velho T e s t a m e n t o , " s u p o r t o u a c r u z " , p o r c a u s a d a " a l e g r i a q u e lhe e s t a v a p r o p o s t a " , e a s s i m d e v e m o s c o n s i d e r a r " a q u e l e que suportou tamanha oposição", para que nós m e s m o s não f i q u e m o s fatigados e d e s m a i e m o s e m n o s s a s a l m a s (12.1 -3). D e p o i s d e s t a e x c i t a n t e e x o r t a ç ã o , o c a p í t u l o 12 d e s e n v o l v e p o d e r o s a m e n t e o s t e m a s d a d i s c i p l i n a e d a p e r s e v e r a n ç a , à luz d a e s p e r a n ç a q u e n o s inspira: a e s p e r a n ç a d e e n t r a r na " J e r u s a l é m c e l e s t i a l " , e f i n a l m e n t e c h e g a r a " J e s u s , o Mediador da N o v a Aliança" (12.22-24). O ú l t i m o c a p í t u l o trata l i g e i r a m e n t e d e v á r i o s a s p e c t o s d o " a m o r f r a t e r n a l " ( 1 3 . 1 ) , p o r m e i o d o q u a l d e v e m o s v i v e r e n q u a n t o e s p e r a m o s p o r a q u e l e Dia. N ã o d e v e m o s negligenciar a hospitalidade aos estrangeiros (13.2), d e v e m o s lembrar-nos dos prisioneiros (13.3), honrar o c a s a m e n t o (13.4). preferir o c o n t e n t a m e n t o c o m a q u i l o q u e t e m o s à c o b i ç a (13.5), e a r e s p e i t a r n o s s o s líderes cristãos (13.7-9,17,24). Juntamente com o restante dos adoradores de Deus, estamos levando a injúria que Ele suportou, encontrando-o "fora do arraial", o n d e s o f r e u — i s t o é, f o r a d a s n o r m a s e v a l o r e s d o m u n d o , o qual p r o c u r a a s e g u r a n ç a t e r r e n a . P o i s , " n a v e r d a d e , n ã o t e m o s aqui c i d a d e p e r m a n e n t e , m a s b u s c a m o s a que há de vir" (13.13,14). Neste entretempo temos de encher nossas vidas com louvores a Deus (13.15), fazer o bem dividindo nossas posses com os necessitados (13.16), orando uns pelos outros (13.18,19), e v o l t a n d o - n o s para D e u s , a f i m de que Ele nos a p e r f e i ç o e p a r a q u e f a ç a m o s a s u a v o n t a d e e lhe a g r a d e m o s ( 1 3 . 2 0 , 2 1 ) . H e b r e u s d e s a f i a o " i n d o l e n t e " (5.11; 6 . 1 2 ) , t a n t o o i n d o l e n t e m e n t a l c o m o o i n d o l e n t e d a d i s c i p l i n a . E l e d e s a f i a a m e n t e p o r sua a m p l a v i s ã o d e C r i s t o , o F i l h o d e D e u s , o h e d e i r o d e t o d a s as c o i s a s , e q u e , n o e n t a n t o , a p r e n d e u a o b e d i ê n c i a p o r m e i o d o s o f r i m e n t o , o b t e n d o p a r a nós o p e r d ã o c o m o o g r a n d e S u m o S a c e r d o t e ; e ele d e s a f i a a d i s c i p l i n a p o r sua p o d e r o s a e x o r t a ç ã o p a r a q u e a n d e m o s j u n t o s e m suas p e g a d a s a t r a v é s d o s o f r i m e n t o e d a m o r t e , para a g l ó r i a de Deus.

Leitura adicional
Menos exigente:

Raymond Brown, The Message of Hebreus. Christ Aboré Ali (Leicester: IVP. 1982) David Gooding. An Unshakeable Kingdom. The Leiter lo lhe Hebreu sfor Today (Leicester: IVP, 1989) William L. L a n e , Hebreus. A Cali to Commitmenl (Peabody. Massachusetts: (Hendricksen, 1985)

Mais exigente, obras eruditas:
L. D. Hurst, The Epistle to the Hebreus. Its Background ofThought (Cambridge: CUP. 1990) Barnabas Lindars, The Theology of the Letter to lhe Hebreus (Cambridge: CUP. 1991)

Tiago e sua Mensagem
Assim como o corpo sem espírito assim também é morto, a fé sem obras é morta.

(Tiago 2.26)

A carta de Tiago é a p r i m e i r a das "epístolas gerais", assim c h a m a d a p o r n ã o ter sido escrita p a r a u m a e s p e c í f i c a i g r e j a ou pessoa, m a s de f o r m a geral, c o m o u m a circular dirigida "às d o z e tribos que se e n c o n t r a m n a D i s p e r s ã o " (1.1). Isto p a r e c e significar q u e ela f o i escrita p a r a todos os j u d e u s cristianizados de todas as partes. É a ú n i c a n o N o v o Testamento escrita n u m estilo grego l u m i n o s o e r e f i n a d o e utilizando a b u n d a n t e s i m a g e n s . O s cristãos s e m p r e a p r e c i a r a m sua ê n f a s e sobre a obediência, e m b o r a L u t e r o a t e n h a d e n o m i n a d o " u m a epístola d e p a l h a " p e l o f a t o de 2 . 1 4 - 2 6 p a r e c e r contestar o ensino de P a u l o sobre a j u s t i f i c a ç ã o p e l a fé. Vamos considerar este p r o b l e m a abaixo.

Tiago, o homem
P e l o m e n o s três h o m e n s c o m o n o m e " T i a g o " a p a r e c e m nas p á g i n a s d o N o v o T e s t a m e n t o . P r i m e i r a m e n t e , h á Tiago, o f i l h o de Z e b e d e u e i r m ã o de João, u m dos D o z e . E l e foi d e c a p i t a d o p o r o r d e m de H e r o d e s A g r i p a I (Atos 12.1,2), e, p o r isso, n ã o p o d e ter sido o autor desta carta. E m s e g u n d o lugar, h a v i a outro m e m b r o dos D o z e c h a m a d o Tiago. E l e era o f i l h o de A l f e u (p.ex., M a r c o s 3.18), e é provavelmente Tiago, "o M e n o r " ou "o Mais J o v e m " , que é m e n c i o n a d o , p o r e x e m p l o , e m M a r c o s 15.40. N o s s o c o n h e c i m e n t o sobre ele é m u i t o escasso, s e n d o i m p r o v á v e l q u e u m a p e s s o a t ã o o b s c u r a tivesse escrito u m a carta p a r a circulação geral e se a p r e s e n t a d o s i m p l e s m e n t e c o m o "Tiago, servo de D e u s e d o S e n h o r Jesus C r i s t o " (1.1), s e m ulterior q u a l i f i c a ç ã o ou descrição. P o r f i m , e m terceiro lugar, s o m o s d e i x a d o s c o m Tiago, u m dos i r m ã o s d o S e n h o r Jesus ( M a t e u s 13.55,56; M a r c o s 6.3). É p o s s í v e l q u e ele f o s s e o i r m ã o m a i s v e l h o , u m a v e z q u e e n c a b e ç a a l i s t a — " T i a g o , José, S i m ã o e J u d a s " . E l e se tornou c e r t a m e n t e o m e m b r o s m a i s e m i n e n t e da f a m í l i a , depois d o p r ó p r i o Senhor. P e l o m e n o s d e s d e o f i m d o s e g u n d o século p a r a f r e n t e , esta carta foi atribuída a ele e citada c o m o Escritura, s e n d o ele, pois, de l o n g e o m e l h o r c a n d i d a t o c o m o autor. Q u a n t o s a b e m o s a seu respeito? Q u a n d o se iniciou o ministério p ú b l i c o de Jesus, T i a g o e seus outros i r m ã o s

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não acreditavam nele (João 7.5; compare c o m Marcos 3.21),

muito

provavelmente porque Ele lhes parecia negligenciar alguns dos m a n d a m e n t o s da Lei sagrada que eles tinham aprendido a guardar e amar. Eles o a c o m p a n h a v a m evidentemente e m diversas ocasiões durante seu ministério, tanto na Galiléia (João 2.12) c o m o e m Jerusalém (João 7.1-10), mas n ã o tinham até e n t ã o d e c i d i d o s e g u í - l o . E significativo, portanto, que durante os dez dias que s e p a r a m a ascensão do Pentecoste, os irmãos do Senhor são especificamente m e n c i o n a d o s p o r L u c a s p r o c u r a n d o seu l u g a r e m c o m p a n h i a d o s c r i s t ã o s f i é i s e s p e r a n ç o s o s r e u n i d o s e m o r a ç ã o ( A t o s 1.14). A o m e n o s n o c a s o d e T i a g o , P a u l o ( q u e s a b i a q u e m tinha visto o S e n h o r ressurreto) i n f o r m o u q u e " [ J e s u s ] d e p o i s f o i visto p o r T i a g o " (1 C o r í n t i o s 15.7). N e n h u m r e l a t o d e s s e e n c o n t r o s o b r e v i v e u , m a s a i n d i c a ç ã o s e r v e p a r a e x p l i c a r c o m o T i a g o se c o n v e r t e u . T i a g o p a r e c e ter c o n q u i s t a d o r a p i d a m e n t e a c o n f i a n ç a d o s d e m a i s , p o i s e m c u r t o e s p a ç o d e t e m p o é v i s t o c o m o líder d a i g r e j a d e J e r u s a l é m ( A t o s 12.17). Paulo o c h a m a de "apóstolo" e declara q u e o viu e m sua primeira visita a J e r u s a l é m d e p o i s d e três a n o s d e s u a c o n v e r s ã o a c a m i n h o d e D a m a s c o , o c a s i ã o e m q u e e s t e v e q u i n z e d i a s c o m P e d r o ( G á l a t a s 1.18,19). E m Gálatas 2.1-10 Paulo relata u m a segunda visita a Jerusalém, q u a n d o n o v a m e n t e s e e n c o n t r o u c o m T i a g o . N ã o e s t a m o s c e r t o s se e s t a v i s i t a é a q u e e s t á r e g i s t r a d a e m A t o s 11.30 o u e m A t o s 15.2, p o r q u e e m a m b a s as o c a s i õ e s P a u l o v i a j o u c o m B a r n a b é , c o m o e m G á l a t a s 2.1. P o r é m a v i s i t a d e A t o s 15 envolveu u m encontro importante entre Paulo e Tiago, semelhante ao que é m e n c i o n a d o e m G á l a t a s 2. A l i P a u l o e x p l i c a q u e ele e B a r n a b é f o r a m c o n s u l t a r os apóstolos sobre o assunto da circuncisão dos gentios convertidos. Paulo não i m p u n h a a circuncisão aos seus convertidos, p o r é m havia u m a forte corrente de judeus cristianizados que afirmavam: " S e não vos circuncidardes segundo o c o s t u m e d e M o i s é s , n ã o p o d e i s ser s a l v o s " ( A t o s 15.1). N o f i n a l d e s s e e n c o n t r o , " T i a g o , P e d r o e João... m e e s t e n d e r a m , a m i m e a B a r n a b é , a d e s t r a d e c o m u n h ã o , a f i m d e que nós f ô s s e m o s para os gentios e eles para a circuncisão [judeus]" (Gálatas 2.9). E s t e m e s m o a s s u n t o f o i d i s c u t i d o n o e n c o n t r o m e n c i o n a d o e m A t o s 15. T i a g o assumiu a direção, e por meio de sábias deduções da Escritura e experiência, c o n d u z i u a discussão concluindo que a circuncisão n ã o era necessária para os g e n t i o s c o n v e r t i d o s ( A t o s 15.19). A c a r t a d e p o i s e n v i a d a p e l a i g r e j a d e A n t i o q u i a requeria, pois, c o n f o r m e orientação de Jerusalém, q u e os gentios convertidos deveriam f i r m e m e n t e "abster-se" das coisas sacrificadas a ídolos, b e m c o m o do sangue, da carne de animais sufocados e das relações sexuais ilícitas" (Atos 15.29). A s s i m , e n q u a n t o a circuncisão de acordo c o m a Lei não m a i s era requerida, a submissão a algumas regras da Lei foi mantida. Antes de acusarmos Tiago de inconsistência, faríamos b e m e m perguntar por que essas regras particulares f o r a m escolhidas. Indubitavelmente, o propósito dessa imposição era possibilitar que h o u v e s s e confraternização à m e s a entre gentios convertidos e j u d e u s cristianizados, levando e m conta que estes eram e s c r u p u l o s o s a c e r c a d a s leis d o V e l h o T e s t a m e n t o s o b r e c o m i d a . E s s a m e s a d e c o n f r a t e r n i z a ç ã o — q u e incluiria, n a t u r a l m e n t e , c e l e b r a ç õ e s d a C e i a d o S e n h o r — s o m e n t e e r a p o s s í v e l se o s p a r t i c i p a n t e s g e n t i o s c o n c o r d a s s e m e m c o m e r o a l i m e n t o " k o s h e r " [ p r e p a r a d o d e a c o r d o c o m o s p r e c e i t o s j u d a i c o s ] . Isto e s t á inteiramente de acordo c o m o princípio de Paulo de limitar a liberdade de uns

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e m benefício das consciências "mais f r a c a s " (veja 1 Coríntios 8.4-13), e assim n ã o se p o d e a t r i b u i r i n c o n s i s t ê n c i a d a p a r t e d e T i a g o . A o c o n t r á r i o , ele e s t a v a ansioso para que seus concidadãos j u d e u s critianizados aceitassem os gentios convertidos e m sua comunidade. C o n t u d o , é f á c i l v e r c o m o T i a g o p o d e ter s i d o m a l i n t e r p r e t a d o . E m G á l a t a s 2.11-21 Paulo relata u m incidente na igreja de Antioquia antes do segundo encontro e m Jerusalém. Q u a n d o "alguns h o m e n s c h e g a r a m d a parte de Tiago", l e v a r a m o p r ó p r i o P e d r o a retirar-se d a m e s a d e c o n f r a t e r n i z a ç ã o c o m os gentios, " t e m e n d o o s d a c i r c u n c i s ã o " ( 2 . 1 2 ) . F o i c o m o se a p e q u e n a c o n c e s s ã o d a L e i feita por Tiago e Pedro ao princípio básico sobre o qual Paulo insistia—o de a d m i t i r o s g e n t i o s à p l e n a c o m u n h ã o s e m q u e se t o r n a s s e m j u d e u s — t i v e s s e sofrido oposição de alguns. E s t e m e s m o z e l o p e l a lei d e M o i s é s é v i s t o n a ú n i c a p a s s a g e m n o l i v r o d e A t o s q u e f a l a d e T i a g o — A t o s 2 1 . 1 7 - 2 6 . A n o s t i n h a m se p a s s a d o e P a u l o t i n h a completado duas viagens missionárias posteriores à primeira. Centenas de g e n t i o s t i n h a m se c o n v e r t i d o e s i d o r e c e b i d o s n a i g r e j a ; t i n h a m s i d o b a t i z a d o s , m a s não circuncidados. Paulo agora volta a Jerusalém. N o dia seguinte ao de s u a c h e g a d a , ele e s e u s c o m p a n h e i r o s m i s s i o n á r i o s v ã o a T i a g o e lhe f a l a m d a o b r a d e D e u s e n t r e o s g e n t i o s . T i a g o se a l e g r a e g l o r i f i c a a D e u s . M a s a c r e s c e n t a u m alerta; ele l e m b r a a Paulo que h á t a m b é m milhares de crentes j u d e u s q u e "são zelosos da lei" (versículo 20). Eles estão convencidos de que Paulo ensina seus judeus convertidos a abandonarem Moisés. Por isso Tiago sugere que Paulo v á a o t e m p l o e c u m p r a p u b l i c a m e n t e os ritos d e p u r i f i c a ç ã o r e q u e r i d o s p e l a lei d e M o i s é s p a r a p r o v a r s u a l e a l d a d e à s a g r a d a lei d e D e u s . P a u l o p r o n t a m e n t e c o n s e n t e , p o r é m u m a d i f e r e n ç a n a ê n f a s e e n t r e ele e T i a g o e s t á clara. T i a g o é a p r e s e n t a d o e m A t o s c o m o u m c r e n t r e j u d e u c r i s t i a n i z a d o , peocupado com que a aceitação da nova fé não signifique o completo abandono d a a n t i g a . O e v a n g e l h o d e J e s u s t i n h a c u m p r i d o , e n ã o a b o l i d o , a lei d e M o i s é s . N ã o surpreende, portanto, que Tiago recebesse o apelido de "o Justo". O historiador Eusébio, da igreja do quarto século, escreveu: " A filosofia e a religiosidade, que sua vida mostrou a u m grau tão elevado, deu ocasião a u m a crença universal nele c o m o o mais justo dos homens." E continua, citando H e g e s i p o , q u e v i v e u p e r t o d o f i m d o s e g u n d o s é c u l o e q u e a f i r m o u ser T i a g o u m nazireu. " E l e tinha o h á b i t o d e entrar s o z i n h o n o t e m p l o , e e r a f r e q ü e n t e m e n t e e n c o n t r a d o d e j o e l h o s , p e d i n d o p e r d ã o p a r a o p o v o , d e tal f o r m a q u e seus j o e l h o s se e n d u r e c e r a m c o m o os d e u m c a m e l o , e m c o n s e q ü ê n c i a de dobrá-los constantemente e m sua adoração a Deus e pedir perdão para o povo. Por causa de sua notoriamente grande justiça, era c h a m a d o "o Justo..." D e a c o r d o c o m o h i s t o r i a d o r j u d e u J o s e f o , T i a g o foi m a r t i r i z a d o e m J e r u s a l é m , n o a n o 6 2 d . C . A s c i r c u n s t â n c i a s d e seu m a r t í r i o s ã o e x c i t a n t e s e l a n ç a m l u z tanto sobre seu caráter c o m o sobre sua carta. E m b o r a sendo altamente considerado pelo povo de Jerusalém, Tiago era notoriamente temido e odiado pela aristocracia sacerdotal que governava a cidade. O sumo sacerdote Ananos aproveitou u m a oportunidade para colocar Tiago diante do sinédrio, sendo ele c o n d e n a d o e apedrejado (veja o quadro adiante). Josefo t a m b é m nos diz q u e n e s s e p e r í o d o h a v i a m u i t a luta social entre a a r i s t o c r a c i a a b a s t a d a , à qual A n a n o s p e r t e n c i a , e as c a m a d a s m a i s p o b r e s d a p o p u l a ç ã o . Q u a n d o l e m o s as p a l a v r a s c á u s t i c a s c o m as q u a i s T i a g o d e n u n c i a v a a e x p l o r a ç ã o d o p o b r e p e l o r i c o (p.ex., 5 . 1 - 6 ) , é f á c i l e n t e n d e r c o m o ele d e v e ter p r o v o c a d o a ira d e h o m e n s c o m o

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A n a n o s . A " j u s t i ç a " q u e as p e s s o a s v i r a m e x e m p l i f i c a d a s e m T i a g o d e v e ter sido c o m o a de A m ó s , que t a m b é m clamou fortemente e m n o m e de D e u s contra a exploração econômica.

A carta de Tiago
Assim era o caráter do h o m e m que contribuiu c o m o que é provavelmente o mais antigo dos documentos do N o v o Testamento. Muitos comentadores dão à e p í s t o l a u m a d a t a n ã o p o s t e r i o r a 5 0 d.C., e a l g u n s c r ê e m q u e ela f o i e s c r i t a p o r volta d e 45 d.C. N a decisão quanto à data da carta a evidência de 2.14-26 d e s e m p e n h a u m p a p e l i m p o r t a n t e . S e T i a g o f o i o u n ã o intencional, e s t a p a s s a g e m p o d e f a c i l m e n t e ser e n t e n d i d a c o m o u m a t a q u e à d o u t r i n a d e P a u l o s o b r e a justificação pela fé. Isto foi certamente c o m o Lutero a entendeu. Entretanto, v i m o s acima que Tiago ficou feliz e m dar a Paulo "a destra de c o m u n h ã o " ( G á l a t a s 2.9), m e s m o t e n d o seu p r ó p r i o m i n i s t é r i o u m a ê n f a s e d i f e r e n t e . A s s i m sendo, é mais fácil supor que Tiago escreveu 2.14-26 anos mais cedo, antes q u e o ministério de Paulo entre os gentios tivesse realmente iniciado, e não n u m a d a t a p o s t e r i o r , q u a n d o suas p a l a v r a s p u d e s s e m c e r t a m e n t e ser t o m a d a s c o m o crítica a Paulo. N e s t a fase anterior, muitos j u d e u s cristianizados e r a m ainda m e m b r o s adoradores das sinagogas l o c a i s — c o m o naturalmente Tiago o era e m Jerusalém. E b e m p o s s í v e l , p o r t a n t o , q u e a " s i n a g o g a " ( " r e u n i ã o " , NIV, B L H ) à q u a l T i a g o se r e f e r e e m 2 . 2 era, l i t e r a l m e n t e , a s i n a g o g a e m q u e o s j u d e u s c r i s t i a n i z a d o s a i n d a a d o r a v a m a o l a d o d o s j u d e u s até e n t ã o n ã o c o n v e n c i d o s d o m e s s i a d o d e J e s u s . E a s s i m , m u i t o e m b o r a T i a g o se d i r i g i s s e a o s c r i s t ã o s , é t a m b é m p o s s í v e l q u e ele e s p e r a s s e q u e s u a c a r t a f o s s e lida p o r o u t r o s j u d e u s , e q u e ele a t i v e s s e c o m p o s t o c o m eles e m mente. Esta possibilidade é apoiada pelo conteúdo da c a r t a , q u e é p r o f u n d a m e n t e j u d a i c a c o m o t a m b é m c o m p l e t a m e n t e cristã.

Características da carta de Tiago
1. Sua ênfase sobre a obediência prática
A p r i n c i p a l c a r a c t e r í s t i c a d a carta, c o m o seria d e e s p e r a r d e u m h o m e m c o m o T i a g o , é s u a ê n f a s e s o b r e a n e c e s s i d a d e d e j u s t i ç a p r á t i c a n a v i d a cristã. O espírito d a carta é u m a r e m i n i s c ê n c i a dos p r o f e t a s d o Velho T e s t a m e n t o . E i s o l a d o entre os autores do N o v o Testamento, Tiago f a z uso destacado do t e m a "sabedoria" (3.13-18), aproximando-se de alguns dos principais temas dos escritos sobre sabedoria do Velho Testamento (especialmente Provérbios e Jó). Tiago usa mais de cinqüenta imperativos e m seus curtos cinco capítulos, e a p r e c i a m u i t o d i t o s i n c i s i v o s , tais c o m o " A ira d o h o m e m n ã o p r o d u z a j u s t i ç a d e D e u s " ( 1 . 2 0 ) e " A a m i z a d e d o m u n d o é i n i m i g a d e D e u s " (4.4). D o c o m e ç o a o f i m e l e e m p r e g a m e t á f o r a s v í v i d a s e l i n g u a g e m i l u s t r a t i v a , q u e t o r n a m seu ensino altamente expressivo, lembrando o uso de parábolas por Jesus. É a ênfase prática de Tiago que penetra no centro da dificuldade apresentada por 2.14-26. A l g u n s estudiosos ainda e n d o s s a m a posição de L u t e r o ao sustentarem que esta passagem contradiz categoricamente Paulo: Paulo: " C o n c l u í m o s , pois, q u e o h o m e m é j u s t i f i c a d o p e l a fé, i n d e p e n d e n t e m e n t e das obras da lei" (Romanos 3.28). Tiago: " V e r i f i c a i s q u e u m a p e s s o a é j u s t i f i c a d a p o r o b r a s , e n ã o p o r f é s o m e n t e "

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A morte de Tiago, de acordo com Josefo
Ananos, que... tinha sido designado para o sumo sacerdócio, era impetuoso em seu temperamento e extremamente presunçoso. Ele seguiu a escola dos saduceus, que eram, sem dúvida, mais insensíveis do que qualquer outro judeu... quando se sentavam para julgar. Possuidor de tal caráter, Ananos pensou que tinha uma oportunidade favorável, porque Festo estava morto e Albino ainda estava a caminho [isto é, havia um vácuo de poder entre dois governadores romanos]. E assim ele convocou os juízes do sinédrio e trouxe perante eles um homem chamado Tiago, o irmão de Jesus que era chamado o Cristo, e alguns outros. Ele os acusou de terem transgredido a lei e os entregou para serem apedrejados. Aqueles entre os habitantes da cidade que eram considerados os mais honestos e que estavam em estrita observância da lei sentiram-se injuriados diante disso... Josefo, Antiguidades 20:199-201

(Tiago 2.24). E tanto P a u l o c o m o Tiago u s a r a m o e x e m p l o de A b r a ã o para ilustrar estes pontos aparentemente opostos (Romanos 4.1-5; Tiago 2.21-23). P o r é m esta é u m a diferença e m ênfase, não e m m e n s a g e m . E a razão não está l o n g e d e ser e n c o n t r a d a . C a d a u m d e l e s t i n h a e m m e n t e u m c o n j u n t o d i f e r e n t e de falsos mestres. Os opositores d e Paulo e r a m os legalistas judeus, e n q u a n t o os de Tiago e r a m os aristocratas j u d e u s ( c o m o Ananos). O m e i o de salvação d o s l e g a l i s t a s e r a m as " o b r a s " — a t o s m o r a i s e c e r e m o n i a i s r e a l i z a d o s e m o b e d i ê n c i a à lei. O m e i o d e s a l v a ç ã o d o s a r i s t o c r a t a s e r a a " f é " , isto é, m e r a ortodoxia de crença, adesão superficial ao Judaísmo, sem qualquer clara obediência prática. A o s legalistas P a u l o a r g u m e n t a q u e s o m o s j u s t i f i c a d o s n ã o p o r n o s s a s p r ó p r i a s b o a s o b r a s , m a s p o r m e i o d a fé e m C r i s t o . A o s a r i s t o c r a t a s T i a g o a r g u m e n t a q u e s o m o s j u s t i f i c a d o s n ã o p o r u m a o r t o d o x i a estéril ( q u e o s p r ó p r i o s d e m ô n i o s p o s s u e m — " e e s t r e m e c e m " , 2 . 1 9 ) , m a s p o r obras, especialmente assistência aos n e c e s s i t a d o s . P a u l o , e n t r e t a n t o , a p r e s s a - s e e m a c r e s c e n t a r q u e a f é q u e s a l v a g e r a i n e v i t a v e l m e n t e b o a s o b r a s ( E f é s i o s 2 . 8 - 1 0 ) ; G á l a t a s 5.6), e n q u a n t o T i a g o a f i r m a q u e as o b r a s q u e s a l v a m b r o t a m n a t u r a l m e n t e d e u m a f é v e r d a d e i r a (2.14), e a ausência de boas obras revela a ausência da verdadeira fé (2.17). N a realidade, não somos salvos n e m pela f é morta (Tiago 2.17), n e m pelas obras mortas (Hebreus 6.1; 9.14), m a s p o r u m a fé viva que resulta e m " a m o r e b o a s o b r a s " ( H e b r e u s 10.24). N ã o p o d e m o s ser s a l v o s p e l a s o b r a s , e t a m p o u c o p o d e m o s s a l v a r - n o s s e m elas. O p a p e l d a s o b r a s n ã o é g a n h a r a s a l v a ç ã o , m a s evidenciá-la, não é conseguir a salvação, m a s prová-la. A realidade de nossa fé é revelada na qualidade de nossa vida: e nisto Paulo e Tiago c o n c o r d a m ardentemente, apontando diretamente para Abraão, que confiou nas promessas de Deus, e c o n s e q ü e n t e m e n t e obedeceu à o r d e m d e Deus.

2. Sua confiança no ensino de Jesus
H á u m a forte evidência textual de que Tiago tinha familiaridade tanto c o m o S e r m ã o do M o n t e c o m o c o m outros discursos de Jesus, e m razão dos muitos p o n t o s e m q u e as p a l a v r a s e c o a m as d e J e s u s . C o m o o b s e r v o u u m v e l h o comentador, " S e João reclinou-se no colo d o Salvador, Tiago sentou-se aos s e u s p é s . " E s t e a s s u n t o é t ã o i n t e r e s s a n t e e i m p o r t a n t e q u e será útil p a r a e l a b o r a r a comparação entre o ensino de Tiago e o ensino de Jesus: veja o próximo quadro.

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Tiago baseou-se, acima de tudo, n o ensino ético de Jesus. Por estar escrevendo antes que qualquer dos nossos Evangelhos tivesse sido publicado, sua carta dá a m p l o t e s t e m u n h o d o m o d o p e l o q u a l o e n s i n o d e J e s u s t i n h a se t o r n a d o p a r t e d a m e d u l a d a i g r e j a inicial. E m n e n h u m m o m e n t o T i a g o c i t o u f o r m a l m e n t e Jesus: ele ficou tão i m p r e g n a d o d o ensino do Senhor que passou a refleti-lo automaticamente e m suas expressões e e m sua vida.

3. Seu senso de harmonia entre a Lei e o evangelho
Este aspecto segue-se ao último. A o lado desta implícita dependência do ensino d e J e s u s h á u m a e x p l í c i t a d e p e n d ê n c i a d a "lei r é g i a s e g u n d o a E s c r i t u r a " (2.8). T i a g o p a r e c e p e n s a r e s p e c i a l m e n t e n a lei m o r a l , e n ã o n a lei c e r i m o n i a l . P o r é m e s s a lei m o r a l d e v e ser o b s e r v a d a e m t o d o s o s p o n t o s : e l a é a lei " q u e n o s d á a l i b e r d a d e " , e p o r ela s e r e m o s j u l g a d o s ( 2 . 1 2 , B L H ) . P a r a T i a g o o e v a n g e l h o e a lei f u n d e m - s e . C o m o c r i s t ã o s f o m o s t r a z i d o s a o n o v o nascimento pela "palavra da v e r d a d e " (1.18), e esta "palavra" deve iniciar u m n o v o p r i n c í p i o d e v i d a e m n o s s o interior, i m p l a n t a d a e m n o s s o s c o r a ç õ e s (1.21). S o m e n t e assim estaremos aptos a escapar do erro de ouvir a palavra e não praticá-la. Se a palavra está implantada e m nós, seremos c o m o "aquele que c o n s i d e r a a t e n t a m e n t e n a lei p e r f e i t a , lei d a l i b e r d a d e , e n e l a p e r s e v e r a , n ã o sendo ouvinte negligente, m a s operoso praticante..." (1.25). Associada ao e v a n g e l h o , a lei d e M o i s é s t o r n a - s e r e a l m e n t e a " l e i p e r f e i t a , lei d a l i b e r d a d e " . A c i m a d e t u d o , o s c r i s t ã o s d e v e m c u m p r i r " a lei r é g i a " (2.8), a lei q u e g o v e r n a o s c i d a d ã o s d o R e i n o d e D e u s (2.5): " A m a r á s o teu p r ó x i m o c o m o a ti m e s m o " (2.8). P r o m u l g a d a p r i m e i r a m e n t e p o r m e i o d e M o i s é s ( L e v í t i c o 1 9 . 1 8 ) , d e p o i s s a n c i o n a d a p o r J e s u s ( M a r c o s 12.31), e s t a lei a i n d a v i g o r a . S e m o s t r a r m o s f a v o r i t i s m o e x p l o r a n d o o p o b r e (2.9), m o s t r a m o s q u e s o m o s c o m o a p e s s o a d i a n t e d o e s p e l h o : v e m o s q u e p r e c i s a m o s l a v a r - n o s , m a s a f a s t a m o - n o s dali e n a d a f a z e m o s . Saber o q u e é direito e não praticá-lo é p e c a d o (4.17)!

4. Seu senso do perigo da riqueza
Isto é t a m b é m algo que Tiago compartilhou c o m seu Senhor, c o m o pode ser constatado e m quatro vigorosas passagens. Tiago ensina a instabilidade da r i q u e z a ( 1 . 9 - 1 1 ) e a a v e r s ã o d e D e u s p e l a d i s c r i m i n a ç ã o c o n t r a o p o b r e (2.111). E l e e m s e g u i d a a t a c a o s h o m e n s d e n e g ó c i o s q u e c o l o c a m a v o n t a d e d e D e u s f o r a d e s e u s p l a n o s ( 4 . 1 3 - 1 7 ) , b e m c o m o o s p r o p r i e t á r i o s d e terras q u e e x p l o r a m i m p i e d o s a m e n t e seus trabalhadores (5.1-6). T ã o cortante é sua l i n g u a g e m q u e u m r e c e n t e escritor, P e d r i t o M a y n a r d - R e i d , c h e g a a o e x t r e m o de sustentar que para Tiago era impossível que os ricos se salvassem. Isto é s e g u r a m e n t e ir d e m a s i a d o l o n g e , e n t r e t a n t o , p o r q u e e m 1.10 T i a g o s e refere ao "irmão que é rico". Sua m e n s a g e m a esse irmão é que ele não deve gloriar-se e m r a z ã o de sua alta p o s i ç ã o , e s i m d e seu status i n s i g n i f i c a n t e ! P o r q u e , c o m o J ó , e l e " p a s s a r á c o m o a f l o r d a e r v a " d i a n t e d o sol. E n q u a n t o isto, ele t e m a responsabilidade de utilizar sua riqueza e m favor do p o b r e (2.14-16). G e r a l m e n t e , p o r é m , T i a g o p a r e c e ter e m m e n t e p e s s o a s tais c o m o o s u m o s a c e r d o t e A n a n o s , q u e , p o r f i m , m a q u i n o u s u a m o r t e : s a d u c e u s a r i s t o c r a t a s ricos que p o s s u í a m vastas propriedades e p o u c a atenção d i s p e n s a v a m ao bem-estar d o s q u e n ã o t i n h a m t e r r a e t r a b a l h a v a m p a r a eles. C o m o Z a q u e u , tais h o m e n s p r e c i s a m a b a n d o n a r s u a r i q u e z a , se q u i s e r e m ser s a l v o s .

5. Os três pilares da vida cristã

TIAGO E SUA MENSAGEM

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Jesus e Tiago: sobre a vida cristã
Podemos relacionar pelo menos os seguintes vinte pontos em que o ensino de Tiago reflete o de Jesus: 1. O cristão que é levado a sofrer provações é "abençoado": Tiago 1.2; Mateus 5.10-12. 2. O propósito de Deus é que possamos nos tornar perfeitos: Tiago 1.4; Mateus 5.48. 3. Ele dá generosamente a todos os que lhe pedem: Tiago 1.5 e 4.2; Mateus 7.7,8, mas... 4. somente o Pai dá boas dádivas: Tiago 1.17; Mateus 7.9-11, e neste caso... 5. somente àqueles que têm fé: Tiago 1.6; Marcos 11.22-24. 6. Os discípulos de Jesus devem não somente ouvir a palavra, mas praticá-la: Tiago 1.22-25; Mateus 7.21-27. 7. Eles devem tomar cuidado com as riquezas, porque são os pobres os herdeiros do Reino: Tiago 2.5; Mateus 5.3 e Lucas 6.20. 8. Eles devem amar seu próximo como a si mesmos: Tiago 2.8; Marcos 12.31. 9. Eles devem guardar até mesmo os menores mandamentos, cuidando de não violá-los no mínimo ponto: Tiago 2.10; Mateus 5.19; e... 10. mostrar misericórdia para receberem misericórdia: Tiago 2.13; Mateus 5.7 e 18.33-35. 11. Eles devem lembrar-se de que é a árvore que determina o fruto: Tiago 3.12; Mateus 7.15-20, 12. e os pacificadores que são abençoados: Tiago 3.18; Mateus 5.9. 13. Ninguém pode servir a dois senhores. Cada um deve escolher entre Deus e o dinheiro: Tiago 4.4 e 4.13-15; Mateus 6.24. 14. Aquele que se humilha será exaltado: Tiago 4.6,10; Lucas 18.14; compare com Tiago 1.9,10 e Lucas 1.52. 15. Os cristãos não devem falar mal uns dos outros ou julgar uns aos outros: Tiago 4.12; Mateus 7.1. 16. Eles não devem ceder aos planos ambiciosos e mundanos para obter ganho: Tiago 4.13-17; Lucas 12.16-21, porque... 17. a riqueza não dura. As riquezas se corroem, as vestimentas são consumidas pela traça, e o ouro fica embaçado com a ferrugem: Tiago 5.1-3; Mateus 6.19-21. 18. Por tudo isso, ai dos ricos! Tiago 5.1; Lucas 6.24 e 16.19-31. 19. Que aquele que crê espere pacientemente e esteja pronto para a vinda do Senhor, pois Ele está perto, às portas: Tiago 5.7-9; Lucas 12.35-40 e Marcos 13.29. 20. Finalmente, os cristãos não devem absolutamente jurar, pelo céu ou pela terra, ou por meio de qualquer outro juramento. Sua palavra deve ser confiável. Seu sim deve ser sim, e seu não, não: Tiago 5.12; Mateus 5.33-37.

Os estudiosos a d m i t e m que os dois últimos versículos do primeiro capítulo, 1.26,27, c o n t ê m u m r e s u m o d a m e n s a g e m d e T i a g o . N e s s e s v e r s í c u l o s e l e e s t a b e l e c e u m c o n t r a s t e entre a r e l i g i ã o v e r d a d e i r a e a f a l s a , e i n d i c a u m a m e d i d a pela qual ambas são avaliadas. P o d e m o s imaginar que somos religiosos, porém, a m e n o s que nossa religião seja m a r c a d a por certas características nítidas, estamos enganando a nós m e s m o s e nossa religião é "vã". T i a g o d e l i n e i a , e n t ã o , as três c a r a c t e r í s t i c a s d a v e r d a d e i r a r e l i g i ã o , q u e e l e c h a m a d e " p u r a e s e m m á c u l a " . S ã o elas: " r e f r e a r a s u a l í n g u a " , " v i s i t a r o s ó r f ã o s e as v i ú v a s n a s s u a s t r i b u l a ç õ e s " , e " g u a r d a r - s e i n c o n t a m i n a d o d o m u n d o " . Esta é u m a análise penetrante d o dever moral da raça humana. Ela abrange nosso dever tríplice—para conosco, para com o nosso próximo e para c o m Deus. O controle da língua é u m índice do domínio próprio. A visitação aos ó r f ã o s e às v i ú v a s é u m e x e m p l o d e a m o r f r a t e r n a l . M a n t e r - s e i n c o n t a m i n a d o das coisas do m u n d o é o equivalente negativo de tributar a D e u s o louvor devido ao seu n o m e . N o restante de sua carta Tiago r e t o m a e desenvolve estes três temas a l t e r n a t i v a m e n t e e r e l a c i o n a - o s e n t r e si: a l í n g u a n o c a p í t u l o 3, a a s s i s t ê n c i a a o s n e c e s s i t a d o s n o c a p í t u l o 2, e a r e s i s t ê n c i a a o m u n d o n o s c a p í t u l o s 4 e 5. Vamos examinar b r e v e m e n t e seu ensino sobre esses temas à m e d i d a que p r o c u r a m o s resumir sua m e n s a g e m .

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HOMENS COM UMA MENSAGEM

A mensagem de Tiago
1. Domínio próprio
T e n d o e s t i m u l a d o s e u l e i t o r e m s e u p r i m e i r o c a p í t u l o a ser " p r o n t o p a r a o u v i r " , m a s "tardio para falar" (1.19), Tiago amplia a perigosa influência d a língua na celebrada p a s s a g e m d o capítulo 3 (1-12). Ele acrescenta i m a g e m sobre i m a g e m e m vívidos traços descritivos, sublinhando a perniciosa influência da língua, a c i m a d e t o d a e q u a l q u e r p r o p o r ç ã o a o seu t a m a n h o . A s s i m , T i a g o c o n s i d e r a a expressão verbal tão vitalmente importante quanto a vida cristã—um gabarito para medir a realidade do nosso discipulado. Porém, e m si, a l í n g u a n ã o é a f o n t e d e t e n t a ç ã o . A t e n t a ç ã o e m a n a d e n o s s o s d e s e j o s í n t i m o s , q u e p o d e m d a r n a s c i m e n t o a o p e c a d o e, d e p o i s , g e r a r a m o r t e ( 1 . 1 5 ) . Tiago nos diz que qualquer desejo que não tenha raiz n o a m o r de D e u s p o d e p o t e n c i a l m e n t e l e v a r - n o s a u m d e s v i o , d e v e n d o n ó s r e s i s t i r a ele. T i a g o está p r i m o r d i a l m e n t e p r e o c u p a d o a c e r c a d o c o n t r o l e d a ira ( v e j a 1.19,20; 3.9; 3.14; 4 . 1 - 3 ) , e a c e r c a d e seu o p o s t o , a saber, a e x p r e s s ã o v e r b a l q u e p r o m o v e a p a z ( 3 . 1 7 , 1 8 ) . Tal e x p r e s s ã o r e s u l t a d a sabedoria divinamente outorgada.

2. A verdadeira lei
O segundo elemento na religião "pura e sem m á c u l a " é o amor. A exposição deste tema por Tiago tem duas características: P r i m e i r a m e n t e , o amor leva à ação. A b e n e v o l ê n c i a p i e d o s a n ã o s u b s t i t u i a benignidade prática. N ã o h á n e n h u m benefício e m simpatizar c o m órfãos e v i ú v a s ; d e v e m o s c u i d a r d e l e s ( 1 . 2 7 ) . É i n ú t i l d i z e r a u m p e d i n t e : " T r a t e d e se aquecer e se alimentar": d e v e m o s dar-lhe alimento e roupa (2.15,16). O amor cristão não é sentimento, m a s serviço; não é afeição, m a s ação. E m s e g u n d o l u g a r , o amor é imparcial. O amor não admite distinções e a b o m i n a o " f a v o r i t i s m o " . T i a g o retrata p a r a seus leitores u m a c e n a q u e se p a s s a v a e m sua é p o c a nas sinagogas de todos os lugares: o h o m e m rico chega e o c u p a

Domando a Língua: Tiago 3.1-12
Meus irmãos, não vos tomeis, muitos de vós, mestres, sabendo que havemos de receber maior juízo. Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça no falar é perfeito varão, capaz de refrear também todo o seu corpo. Ora, se pomos freios na boca dos cavalos, para nos obedecerem, também lhes dirigimos o corpo inteiro. Observai, igualmente, os navios que, sendo tão grandes e batidos de rijos ventos, por um pequeníssimo leme são dirigidos para onde queira o impulso do timoneiro. Assim também a língua, pequeno órgão, se gaba de grandes coisas. Vede como uma fagulha põe em brasas tão grande selva! Ora, a língua é fogo; é mundo de iniqüidade; a língua está situada entre os membros de nosso corpo, e contamina o corpo inteiro e não só põe em chamas toda a carreira da existência humana, como é posta ela mesma em chamas pelo inferno. Pois toda espécie de feras, de aves, de répteis e de seres marinhos se doma e tem sido domada pelo gênero humano; a língua, porém, nenhum dos homens é capaz de domar; é mal incontido, carregado de veneno mortífero. Com ela bendizemos ao Senhor e Pai; também com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus: de uma só boca procede bênção e maldição. Meus irmãos, não é conveniente que estas coisas sejam assim. Acaso, meus irmãos, pode a figueira produzir azeitonas, ou a videira, figos? Tampouco fonte de água salgada pode dar água doce.

TIAGO E SUA MENSAGEM

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u m a s s e n t o p r i v i l e g i a d o , c o m o se t i v e s s e d i r e i t o a ele, e n q u a n t o o s a d o r a d o r e s p o b r e m e n t e v e s t i d o s d e v e m s e n t a r - s e n o c h ã o . Tais d i s t i n ç õ e s d e c l a s s e s ã o t o t a l m e n t e i n c o n s i s t e n t e s c o m a v e r d a d e i r a lei. J. B . P h i l l i p s p a r a f r a s e i a 2 . 1 nestas palavras: "Meus irmãos, jamais tentem combinar o esnobismo c o m a fé em nosso Senhor Jesus Cristo!"

3. Fidelidade para com Deus
O terceiro e l e m e n t o na religião " p u r a e sem m á c u l a " é "guardar-se i n c o n t a m i n a d o do m u n d o " (1.27). U s a n d o a expressão positivamente, isto s i g n i f i c a ser f i e l a D e u s n o m e i o d e t o d a s as t e n t a ç õ e s e p r e s s õ e s d o m u n d o . P o r " m u n d o " ele q u e r s i g n i f i c a r a s o c i e d a d e m a t e r i a l i s t a e p a g ã c o m u m a s i m p l e s m e n s a g e m : se v o c ê n ã o t e m , c o n s i g a ! M a s e s t e n ã o é o c a m i n h o c r i s t ã o , a d v e r t e T i a g o . O c a m i n h o c r i s t ã o é o d e Jó, que foi paciente no sofrimento (5.10,11), e o c a m i n h o d e Elias, que colocou toda a sua energia na oração (5.16-18). D e u s é "ciumento" e m relação a nós, a n e l a n d o p o r u m a m o r n ã o d i v i d i d o (4.5), s u s p i r a n d o p o r a f a s t a r - n o s d o a d u l t é r i o e s p i r i t u a l q u e o s p r o f e t a s e n c o n t r a r a m e c o m b a t e r a m n o a n t i g o I s r a e l (4.4). E é n i s t o q u e o d i n h e i r o p o d e ser u m a c i l a d a p a r a t o d o s n ó s . S e n d o p o b r e s o u ricos, p o d e m o s concentrar nossos desejos e m coisas materiais, de m o d o q u e nos t o r n a m o s de " â n i m o d o b r e " [inconstantes] (1.8; 4.8), infiéis ao Senhor. Q u e o s c r i s t ã o s s e j a m " r i c o s e m f é " e se a l e g r e m p o r s e r e m " h e r d e i r o s d o r e i n o " (2.5). Q u e e l e s e n c o n t r e m e m D e u s s u a r i q u e z a . Q u e se h u m i l h e m " n a p r e s e n ç a d o S e n h o r " (4.10), s e j a m s u j e i t o s a D e u s (4.7), s e j a m c h e i o s d e o r a ç õ e s e l o u v o r e s ( 5 . 1 3 - 1 8 ) , e s e j a m " p a c i e n t e s até à v i n d a d o S e n h o r " (5.7). A v i d a cristã, d e a c o r d o c o m T i a g o , " o J u s t o " , é, p o i s , e s s e n c i a l m e n t e u m a vida de santidade prática. Ela inicia de fato c o m a f é e m nosso Senhor Jesus C r i s t o (2.1), m a s o c r i s t ã o a c r e s c e n t a : "...e e u , c o m as o b r a s , te m o s t r a r e i a m i n h a f é " 2.18).

Leitura adicional
Menos exigente:
James T. Draper, Faith That Works: Studies in James (Wheaton: Tyndale House, 1988) J. A. Motyer, The Message of James: The tests offaith (Leicester: IVP, 1985)

Mais exigente, obras eruditas:
James B. Adamson, James. The Man and His Message (Grand Rapids: Eerdmans, 1989) P. J. Hartin, James and que Q Sayings of Jesus (Sheffield: JSOT Press, 1991) Pedrito U. Maynard-Reid, Poverty and Wealth in James (Maryknoll: Orbis, 1987)

Pedro e sua Mensagem
Alegrai-vos na medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cristo, para que também na revelação de sua glória vos alegreis exultando. Se, pelo nome de Cristo, sois injuriados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus.

(1 Pedro 4.13,14)

P a u l o a f i r m a q u e as três graças cristãs superiores são a fé, a e s p e r a n ç a e o a m o r (1 Coríntios 13.13). Se ele p r ó p r i o é o a p ó s t o l o da f é , e J o ã o é o a p ó s t o l o d o amor, e n t ã o P e d r o é o apóstolo da esperança. N ã o h á d ú v i d a de q u e esta é u m a simplificação forçada. A p r i m e i r a carta de P e d r o t e m u m a m e n s a g e m m a i s a m p l a d o q u e esta. C o m o afirma E. G. Selwyn, u m f a m o s o comentador britânico, 1 Pedro é " u m m i c r o c o s m o da f é e d o dever cristãos, o m o d e l o de u m ofício pastoral, c o m p o s t o de diversos materiais e n u m e r o s o s t e m a s " . T o d a v i a , a principal ê n f a s e da carta i n c i d e sobre n o s s a e s p e r a n ç a cristã, u m a e s p e r a n ç a gloriosa e certa q u e n o s habilita a suportar o s o f r i m e n t o c o m paciência, e m e s m o c o m alegria. C o m o n o s s o M e s t r e antes de nós, d e v e m o s s o f r e r antes de entrar n a glória.

Pedro, o autor
A p r i m e i r a carta de P e d r o t e m sido aceita c o m o autêntica d e s d e os p r i m e i r o s dias. Ela é citada por C l e m e n t e de R o m a e m sua carta aos Coríntios, c o s t u m e i r a m e n t e d a t a d a de 96 d.C., e m b o r a C l e m e n t e não m e n c i o n e e s p e c i f i c a m e n t e P e d r o c o m o o autor. Entretanto, d e s d e os t e m p o s de Irineu p a r a f r e n t e a carta t e m sido r e g u l a r m e n t e citada c o m o s e n d o de Pedro, e, a l é m disso, ela f i g u r a na lista c o m p i l a d a por E u s é b i o ao l a d o das o b r a s do N o v o T e s t a m e n t o q u e estão a c i m a de discussão. A autoria da carta tem, c o n t u d o , sido discutida e m anos recentes, e m g r a n d e parte d e v i d o ao seu e x c e l e n t e estilo grego, que, objeta-se, d i f i c i l m e n t e p o d e r i a s u p o r - s e ter v i n d o d e u m inculto p e s c a d o r galileu. Entretanto, as r e f i n a d a s q u a l i d a d e s literárias da carta p o d e m ser m e l h o r e x p l a n a d a s s u p o n d o - s e q u e Silas, q u e é m e n c i o n a d o e m 5.12, era p a r a ele m a i s d o q u e u m m e r o secretário. Ali P e d r o a f i r m a que e s c r e v e u " p o r m e i o de Silas [Silvano]", ou através dele, e p o d e m u i t o b e m ser que Silas tivesse u m a participação na c o m p o s i ç ã o da c a r t a — talvez d a n d o - l h e f o r m a a partir de notas ditadas.

TIAGO

E SUA MENSAGEM

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Silas
Silas (ou Silvano) era evidentemente uma figura proeminente nos anos iniciais da igreja. Ele acompanhou Paulo numa parte de sua segunda viagem missionária (Atos 15.40; 16.19,25; 17.4,10,14; 18.5), e era um profeta (Atos 15.32). Ele estava também associado a Paulo e Timóteo na redação das cartas aos Tessalonicenses (1 Tessalonicenses 1.1; 2 Tessalonicenses 1.1). Pedro tinha por ele, nitidamente, uma elevada consideração, chamando-o "fiel irmão" (1 Pedro 5.12). É improvável que Pedro tivesse usado uma pessoa tão proeminente e dotada simplesmente como um secretário ou copista. Contudo, Pedro não inclui o nome de Silas em sua saudação (1 Pedro 1.1). Portanto, mesmo que Silas tivesse participado da composição da carta, Pedro a considerou como sua, assumindo sua própria autoridade (veja, p.ex., 5.1).

A a u t o r i a d e P e d r o é m a i s a d i a n t e s u s t e n t a d a p o r u m a série d e c a r a c t e r í s t i c a s n a carta q u e s u g e r e m suas r e m i n i s c ê n c i a s p e s s o a i s . E l e h a v i a t i d o u m a e x p r e s s i v a experiência da "viva esperança", que veio gloriosamente "mediante a r e s s u r r e i ç ã o d e J e s u s C r i s t o d e n t r e o s m o r t o s " (1 P e d r o 1.3); ele h a v i a s i d o t a m b é m " t e s t e m u n h a dos s o f r i m e n t o s de C r i s t o " (5.1), l e m b r a n d o - s e das bofetadas recebidas por Ele (2.20,21) e seu silêncio diante de seus agressores (2.22,23); e ele não podia j a m a i s esquecer-se da tríplice o r d e m do B o m Pastor p a r a q u e a p a s c e n t a s s e as s u a s o v e l h a s ( J o ã o 2 1 . 1 5 - 1 7 ; c o m p a r e c o m 1 P e d r o 5.2). D e s d e o s p r i m e i r o s t e m p o s d ú v i d a s m a i s sérias c e r c a r a m a a u t o r i a d a s e g u n d a c a r t a . E l a e v i d e n t e m e n t e i n d i c a t e r p r o v i n d o d a s m ã o s d e P e d r o (1.1), e p a r e c e r e f e r i r - s e à p r i m e i r a c a r t a (3.1), m a s o e s t i l o é c o n f u s o e c o m p l i c a d o , e o s e s t u d i o s o s se i n t e r r o g a m se d u r a n t e a v i d a d e P e d r o as c a r t a s d e P a u l o p o d i a m ter sido consideradas c o m o "Escrituras", lado a lado c o m o Velho Testamento (3.16). Estes e outros argumentos são sérios, mas não conclusivos. Se Silas foi responsável pelo estilo polido da primeira carta, segue-se q u e o grego r u d e d a s e g u n d a p o d e r i a ser d o p r ó p r i o P e d r o . A l é m d i s s o , p l e n a r e l e v â n c i a d e v e ser atribuída à a f i r m a ç ã o do autor de ter estado presente na transfiguração (1.1618), d e ter r e c e b i d o d o s l á b i o s d e J e s u s u m a p r o f e c i a a r e s p e i t o d e s u a p r ó p r i a morte (1.13,14; c o m p a r e c o m João 21.18,19), e de ter conhecido "nosso a m a d o i r m ã o P a u l o " (3.15). Se a carta não foi escrita por Pedro, então essas referências foram d e l i b e r a d a m e n t e f i c t í c i a s , i n s e r i d a s p e l o a u t o r a f i m d e criar u m a a p a r ê n c i a d e autenticidade. E m b o r a o m u n d o a n t i g o e s t i v e s s e a b e r t o a tais " p s e u d o - e p i g r a f i a s " , c o m o é c h a m a d a , h á e v i d ê n c i a d e q u e a p r á t i c a n ã o e r a aceitável n a i g r e j a inicial. M i c h a e l Green refere-se à história, registrada por Tertuliano, do que aconteceu ao autor d a o b r a d o s e g u n d o s é c u l o , Os Atos de Paulo e Tecla. N ã o se t r a t a d e u m a o b r a herética, m a s o autor foi deposto d o ofício c o m o presbítero p o r ter colocado seu escrito sob o n o m e de Paulo. D e qualquer forma, a "pseudo-epigrafia" p a r e c e r i a i n c o m p a t í v e l c o m a ê n f a s e n a c a r t a s o b r e p i e d a d e e v e r d a d e (p.ex., 1.5-7; 2 . 2 , 3 ) . U m a e x t e n s a r e v i s ã o d a e v i d ê n c i a l e v a M i c h a e l G r e e n à c o n c l u s ã o de que " a conjetura contra a Epístola de fato não parece, d e qualquer m o d o , c o n s t r a n g e d o r a . N ã o se p o d e d e m o n s t r a r c o n c l u s i v a m e n t e q u e P e d r o f o i o a u t o r ;

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HOMENS COM UMA MENSAGEM

m a s d e v e ser d e m o n s t r a d o c o n v i n c e n t e m e n t e q u e e l e n ã o f o i " .

Pedro, a pessoa
S i m ã o P e d r o é, t a l v e z , o m a i s c a t i v a n t e d e t o d o s os e s c r i t o r e s d o N o v o T e s t a m e n t o . E l e f i g u r a d e s t a c a d a m e n t e n a s n a r r a t i v a s d o E v a n g e l h o e n a p a r t e inicial de Atos, e suas notórias fraquezas, b e m c o m o sua prodigiosa energia, valorizamn o d i a n t e d o leitor cristão. C o m o seu irmão André, S i m ã o era pescador. Eles eram sócios, j u n t a m e n t e c o m outra dupla de irmãos, João e Tiago, os filhos de Z e b e d e u (Lucas 5.10). E l e s v i e r a m d e B e t s a i d a , n a m a r g e m n o r t e d o m a r d a G a l i l é i a ( J o ã o 1.44), p o r é m m a i s tarde S i m ã o estabeleceu seu lar e m C a f a r n a u m ( M a r c o s 1.21,29), na m a r g e m noroeste do lago, onde vivia c o m sua esposa, sua sogra e A n d r é (Marcos 1.29,30; c o m p a r e c o m 1 C o r í n t i o s 9 . 5 ) . N ã o é d i f í c i l i m a g i n a r o t e m p e r a m e n t o d e S i m ã o n a q u e l e s p r i m e i r o s dias. C o m o discípulo, ele era ousado e m exteriorizar c o m f r a n q u e z a e a l g u m e s t a r d a l h a ç o seus s e n t i m e n t o s (p.ex., J o ã o 13.6-9; M a t e u s 2 6 . 3 3 ) , e n a t u r a l m e n t e t o r n o u - s e o l í d e r d e t o d o o g r u p o . E l e é c i t a d o e m p r i m e i r o l u g a r e m t o d a s as listas d o s a p ó s t o l o s , t e n d o a g i d o c o m o s e u p o r t a - v o z (p.ex., M a t e u s 1 6 . 1 5 , 1 6 ) . Podemos imaginá-lo um j o v e m nortista intrépido c o m u m a disposição desordenada. E bastante significativo, pois, que Jesus o tenha apelidado de "a R o c h a " (ou P e d r a ) . E s t e j o v e m i m p u l s i v o se t o r n a r i a a s ó l i d a e e s t á v e l f u n d a ç ã o s o b r e a q u a l a i g r e j a s e r i a c o n s t r u í d a ( M a t e u s 16.18). P o r é m h á m a i s a ser dito. S i m ã o e r a u m g a l i l e u , e a G a l i l é i a e r a u m n o t ó r i o c a m p o fértil d e e s p e r a n ç a s m e s s i â n i c a s r e v o l u c i o n á r i a s . N a G a l i l é i a , m a i s d o q u e e m J e r u s a l é m , as p e s s o a s a g a r r a m - s e às p r o f e c i a s q u e p r o m e t i a m a r e v e r s ã o dos destinos de Israel e o estabelecimento do Reino de Deus. Eles ansiavam pelo dia e m que o Messias acabasse c o m a ocupação r o m a n a do país. O intrépido Simão provavelmente participava desses anseios revolucionários. O temperamento e o ambiente c o m b i n a v a m para fazer dele u m daqueles judeus que esperavam ardentemente "a redenção de J e r u s a l é m " (Lucas 2.38), "a c o n s o l a ç ã o d e I s r a e l " ( L u c a s 2 . 2 5 ) , e o " r e i n o d e D e u s " ( M a r c o s 15.43). N ã o é surpresa, p o r t a n t o , q u e q u a n d o a n o t í c i a c h e g o u a e l e s d e q u e u m p r o f e t a t i n h a a p a r e c i d o n o d e s e r t o d a J u d é i a , S i m ã o e seus a m i g o s d e i x a r a m s u a p e s c a r i a e viajaram ao sul para ouvi-lo. S e m dúvida, João Batista atraiu muitos q u e esperavam que ele fosse u m libertador profético, liderando u m levante contra R o m a . Inflamado de zelo revolucionário, S i m ã o foi batizado por João e tornouse seu d i s c í p u l o . E n t r e t a n t o , J o ã o a p o n t a v a p a r a o u t r o , a q u e m S i m ã o d e s c o b r i u a o ser p r o c u r a d o p o r seu i r m ã o A n d r é e o u v i r d e l e as v i b r a n t e s p a l a v r a s : " A c h a m o s o Messias!" (João 1.41)—querendo dizer não João, mas Jesus. Esta foi a primeira apresentação de S i m ã o àquele que deveria tornar-se o o b j e t o d e t o d a s as s u a s e s p e r a n ç a s . E l e o a c o m p a n h o u , o u v i u - o , o l h o u - o e a d m i r o u - o . G r a d u a l m e n t e , a c e n t e l h a d a c o n v i c ç ã o c r e s c e u d e n t r o dele, até q u e , e m C e s a r é i a d e F i l i p e , e n t r e as c o l i n a s e a o p é d o m o n t e H e r m o m , ela e x p l o d i u e m c h a m a s c o m s u a g r a n d e c o n f i s s ã o d e f é : " T u és o C r i s t o , o F i l h o d o D e u s v i v o ! " ( M a t e u s 16.16). S u a e s p e r a n ç a e s t a v a r e a l i z a d a . E s t e é o m o m e n t o sup r e m o d e s u a e x i s t ê n c i a . O M e s s i a s t i n h a c h e g a d o . J e s u s a c e i t o u o título, d i s s e a S i m ã o que fora o Pai que lhe havia revelado esta verdade, proibiu os discípulos d e c o n t a r a o u t r o s q u e E l e e r a o C r i s t o ( M a t e u s 16.20), e c o m e ç o u i m e d i a t a m e n t e a mostrar-lhes "que lhe era necessário seguir para J e r u s a l é m e sofrer muitas

PEDRO E SUA MENSAGEM

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O nome Pedro
O nome original de Pedro era o grego Simão. Não era incomum aos judeus o uso de nomes gregos, especialmente na Galiléia, e o irmão de Simão, André, também tinha nome grego. De acordo com João 1.42, Jesus deu a Simão o apelido "Pedro", quando o encontrou pela primeira vez. Este nome tinha as versões tanto grega ("Pedro") como aramaica ("Cefas"): em ambas as línguas ele significava "a Rocha" (ou Pedra). Foi, porém, somente mais tarde em seu ministério que Jesus revestiu este apelido de significação mais profunda, apontando para o papel fundamental de Pedro na igreja. Nos primeiros capítulos de Atos, Pedro foi efetivamente o líder da igreja de Jerusalém (Atos 1.15; 2.14; 5.3; compare com Gálatas 1.18; 2.9). Paulo habituou-se a usar a forma aramaica do nome de Pedro (p.ex., 1 Coríntios 1.12; 3.22; 9.5), expressando assim talvez sua apreciação pelo íntimo relacionamento de Pedro com Jesus, o que os fazia voltar ao tempo em que o aramaico, não o grego, era a língua falada por Jesus e seus discípulos.

coisas... e ser m o r t o " ( M a t e u s 16.21). Isto e n s e j o u u m a l i ç ã o e x t r a o r d i n a r i a m e n t e d i f í c i l d e S i m ã o a s s i m i l a r . S u a primeira reação à predição de Jesus de s o f r i m e n t o e morte f o i de horror e n e g a ç ã o . O M e s s i a s n ã o p o d i a ser m o r t o . E l e s e g u r a m e n t e v e i o p a r a reinar, n ã o para morrer. Por isso ele manifestou sua surpresa e decepção: " T e m c o m p a i x ã o d e ti, S e n h o r ; isso d e m o d o a l g u m t e a c o n t e c e r á ! " ( M a t e u s 16.22). M a s a r e s p o s t a de Jesus foi ainda mais abrupta, na verdade quase violenta: "Arreda! Satanás; tu és p a r a m i m p e d r a d e t r o p e ç o , p o r q u e n ã o c o g i t a s d a s c o i s a s d e D e u s , e s i m d a s d o s h o m e n s " ( M a t e u s 16.23). Foi, p a r a J e s u s , u m a tentação p e n s a r q u e p o d e r i a ser u m M e s s i a s d o t i p o desejado por Pedro—vitorioso, reinando, exaltado. O discípulo, que tinha sido p o u c o antes r e c i p i e n t e d a r e v e l a ç ã o d o Pai, f o i e m s e g u i d a o b j e t o d a m a q u i n a ç ã o d o D i a b o . P o i s J e s u s n ã o t i n h a v i n d o p a r a e x p u l s a r as l e g i õ e s r o m a n a s d a T e r r a Prometida; Ele tinha vindo para morrer pelos pecados do m u n d o . O caminho p a r a seu t r o n o e s t a v a n o t o p o d a c o l i n a d o C a l v á r i o . E l e d e v i a s o f r e r a n t e s q u e pudesse entrar e m sua glória; o preço de sua coroa era u m a cruz. M a s P e d r o n ã o p o d i a c o m p r e e n d e r e n ã o m o d i f i c a r i a suas p r e v e n ç õ e s . A p e n a s u m a s e m a n a depois ele viu Jesus transfigurar-se, vestido e m sua glória real, e suas p r e v e n ç õ e s a c a b a m s e n d o c o n f i r m a d a s — m u i t o e m b o r a e l e o u v i s s e J e s u s f a l a n d o c o m M o i s é s e E l i a s s o b r e " s u a p a r t i d a , q u e ele e s t a v a p a r a c u m p r i r e m Jerusalém" (Lucas 9.31), e muito e m b o r a Jesus tivesse falado repetidamente d e seu p r ó x i m o s o f r i m e n t o e m o r t e ( M a r c o s 8.31; 9 . 3 1 ; 1 0 . 3 3 , 3 4 , 4 5 ) . A s s i m , q u a n d o c h e g a o m o m e n t o , P e d r o t e n t a resistir. N o c e n á c u l o , ele n o p r i n c í p i o n ã o p e r m i t e q u e seu S e n h o r f a ç a o t r a b a l h o d e u m e s c r a v o e l a v e s e u s p é s ( l o ã o 13.6-8). N o j a r d i m d o G e t s ê m a n i resiste à prisão de Jesus pelo destacamento: saca sua espada, dá u m a estocada no escuro, corta a orelha de M a l c o , o s e r v o d o s u m o s a c e r d o t e ( J o ã o 18.10). E l e n ã o p o d e p e r m i t i r q u e o R e i s e j a a p r i s i o n a d o s e m l u t a ! M a s ele d e v e s e n t i r - s e f r u s t r a d o e c o n f u s o c o m a r e s p o s t a d e J e s u s a o s e u h e r o í s m o : " M e t e a e s p a d a n a b a i n h a ; n ã o b e b e r e i eu, p o r v e n t u r a , o c á l i c e q u e o P a i m e d e u ? " ( J o ã o 18.11). D ú v i d a s t a l v e z a p e r t a v a m seu c o r a ç ã o q u a n d o e l e s e g u i a J e s u s " à d i s t â n c i a " ( M a r c o s 14.54) e m d i r e ç ã o a o j u l g a m e n t o e m o r t e q u a s e c e r t a . T e r i a e l e se e n g a n a d o ? N ã o seria este o Messias, afinal de contas? Ele tinha alardeado que e s t a v a p r e p a r a d o até m e s m o p a r a m o r r e r c o m E l e ( M a r c o s 14.31), m a s , c o m o p o d i a ele p r e s t a r l e a l d a d e a u m R e i v e n c i d o , r e j e i t a d o até p o r s u a p r ó p r i a n a ç ã o ? E v e i o o t e s t e f i n a l , e e l e n e g o u J e s u s , n ã o u m a , m a s três v e z e s . E e l e e n t r o u

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HOMENS COM UMA MENSAGEM

A Igreja do Santo Sepulcro, Jerusalém, fica no provável local onde Jesus morreu e foi sepultado.

pela noite chorando amargamente, lágrimas não apenas de remorso m a s de cruel d e s i l u s ã o . N ã o h á d ú v i d a d e q u e ele s e g u i u a m u l t i d ã o até a o G ó l g o t a . E l e v i u o f i m . A e s p e r a n ç a q u e ele t i n h a a l i m e n t a d o se e x t i n g u i r a . O M e s s i a s e s t a v a m o r t o . É difícil imaginar os dois dias de agonia pelos quais S i m ã o Pedro passou então. M a s n ã o é difícil sentir c o m ele a f o r m i d á v e l excitação do D i a da Páscoa. Ele correu ao túmulo j u n t a m e n t e c o m João (João 20.1-10). O t ú m u l o estava v a z i o . O c o r p o t i n h a - s e i d o . E m s e g u i d a e l e se e n c o n t r a c o m o S e n h o r (1 C o r í n t i o s 15.5). N ã o s a b e m o s o q u e f o i d i t o n e s t a e n t r e v i s t a p r i v a d a . P o r é m sabemos que Simão Pedro recebeu a regeneração "para u m a viva esperança m e d i a n t e a r e s s u r r e i ç ã o d e J e s u s C r i s t o d e n t r e o s m o r t o s " (1 P e d r o 1.3). E l e se sentiu literalmente u m h o m e m renascido. Sabemos também que na noite daquele primeiro Dia da Páscoa o Senhor apareceu aos apóstolos e m Jerusalém e repetiu o que tinha dito anteriormente n o c a m i n h o para E m a ú s . " Ó néscios", dissera Ele aos dois discípulos, "e tardos d e c o r a ç ã o p a r a crer t u d o o q u e o s p r o f e t a s d i s s e r a m ! P o r v e n t u r a n ã o c o n v i n h a q u e o C r i s t o p a d e c e s s e e e n t r a s s e n a s u a g l ó r i a ? " A seguir l e m o s q u e " c o m e ç a n d o por Moisés, discorrendo p o r todos os profetas, expunha-lhes o que a seu respeito c o n s t a v a e m t o d a s as E s c r i t u r a s " ( L u c a s 2 4 . 2 5 - 2 7 ) . P o r isso, a g o r a n o c e n á c u l o E l e d o m e s m o m o d o e n f a t i z a o cumprimento morte e ressurreição. Q u e Pedro tenha aprendido esta lição deduz-se claramente de seus sermões nos primeiros capítulos de Atos. " V ó s o matastes... p o r é m D e u s o ressuscitou...do q u e t o d o s n ó s s o m o s t e s t e m u n h a s " : isto r e s u m e s u a m e n s a g e m . E l e n ã o m a i s se e n v e r g o n h a v a dos sofrimentos do Cristo, porque, e m b o r a eles tivessem sido causados "por m ã o s de iníquos", f o r a m t a m b é m parte do "determinado desígnio e p r e s c i ê n c i a d e D e u s " ( A t o s 2 . 2 3 ) . D i s s e ele n o t e m p l o : " D e u s a s s i m c u m p r i u o q u e d a n t e s a n u n c i a r a p o r b o c a d e t o d o s os p r o f e t a s q u e o seu C r i s t o h a v i a d e p a d e c e r " ( 3 . 1 8 ) . M a s a g o r a E l e f o i l e v a n t a d o e e x a l t a d o p a r a ser " P r í n c i p e e S a l v a d o r " , a f o n t e d e p e r d ã o p a r a t o d o s o s q u e se a r r e p e n d e m e c r ê e m ( A t o s da Escritura a respeito de sua

A Escritura cumprida
A tristeza dos dois discípulos no caminho de Emaús teria sido imediatamente eliminada se Jesus tivesse revelado sua identidade a eles. Porém Lucas registra a surpreendente discrição de Jesus. "Os seus olhos... estavam como que impedidos de o reconhecer" (Lucas 24.16), até que lhes tivesse ministrado um estudo bíblico mostrando a necessidade escriturística de sua morte e ressurreição. Estas foram suas palavras a todo o grupo reunido em Jerusalém: '"São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco, que importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos.' Então lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras; e lhes disse: 'Assim está escrito que o Cristo havia de padecer, e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia, e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados, a todas

as nações, começando de Jerusalém'" (Lucas 24.44-47). Podemos concluir pela leitura da primeira carta de Pedro como ele aprendeu esta lição: em seus curtos cinco capítulos há não menos de catorze citações do Velho Testamento, além de muitas alusões adicionais a ele. Toda a sua compreensão do Velho Testamento foi transformada, à medida que ele pôde verificar que ele não predizia um Messias guerreiro e vitorioso, mas u m Messias que morreria e ressuscitaria. Ele escreve: "Foi a respeito desta salvação que os profetas indagaram e inquiriram, os quais profetizaram acerca da graça a vós outros destinada, investigando atentamente qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas, indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava, ao dar de antemão testemunho sobre os sofrimentos referentes a Cristo, e sobre as glórias que os seguiriam" (1 Pedro 1.10,11).

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HOMENS COM UMA MENSAGEM

5 . 3 1 ; c o m p a r e c o m 2 . 3 8 ; 3 . 1 9 ; 4 . 1 2 ; 10.43). S i m , u m d i a e s t e P r í n c i p e a g i r á p a r a s a l v a r s e u p o v o e j u l g a r o m u n d o ( A t o s 3 . 1 9 - 2 1 ; 10.42), m a s n ã o s e r á n e c e s s á r i o q u e s e u s s e g u i d o r e s p u x e m as e s p a d a s . T u d o o q u e e l e s p r e c i s a m fazer é esperar—e dar testemunho. A s s i m , o a p ó s t o l o i m p u l s i v o q u e p r i m e i r o d e f e n d e u e d e p o i s n e g o u seu S e n h o r , permaneceu impávido perante o sinédrio, tendo sido submetido h u m i l d e m e n t e a u m interrogatório. Foi açoitado e aprisionado. Dormiu u m a noite c o m a p e r s p e c t i v a d e u m a e x e c u ç ã o ( A t o s 12.6). E , se a t r a d i ç ã o p o d e ser a c e i t a , ele f i n a l m e n t e m o r r e u a m o r t e d e seu M e s t r e , s e n d o c r u c i f i c a d o e m R o m a d u r a n t e a perseguição desencadeada pelo imperador Nero (compare c o m João 21.18,19). O antigo espírito inflamado e belicoso de S i m ã o foi substituído pela nova e v i v a e s p e r a n ç a d e P e d r o . C o m o seu M e s t r e , e l e c h e g a r i a à g l ó r i a p o r m e i o d a cruz. F o i — e ainda é — u m a dura lição a aprender. A tentação de negar a necessidade de sofrimento é sedutora para a igreja. É muito mais atraente crer n u m Cristo q u e n o s l i v r a do s o f r i m e n t o d o q u e através dele. M a s Pedro nos aponta f i r m e m e n t e este s e g u n d o Cristo. O primeiro era seu sonho inicial, abalado naquela m a n h ã da ressurreição, quando a morte foi destruída por alguém que a sofreu, e não apenas vencida à distância. O s p r i m e i r o s leitores d e P e d r o p r e c i s a r a m o u v i r e s t a m e n s a g e m t a n t o q u a n t o nós precisamos.

A mensagem de Pedro
O s c r i s t ã o s a o s q u a i s P e d r o e s c r e v e u , " e s p a l h a d o s p o r t o d a s " as c i n c o p r o v í n c i a s d a Á s i a M e n o r (1 P e d r o 1.1), f o r a m e v i d e n t e m e n t e a m e a ç a d o s p e l a p e r s e g u i ç ã o . Esta não era p r o v a v e l m e n t e u m a perseguição oficial, m a s bastante severa para ser c h a m a d a " p r o v a d e a f l i ç ã o " ( 4 . 1 2 , l i t e r a l m e n t e " p r o v a p e l o f o g o " ) , q u e se d i s s e m i n o u p e l o m u n d o (5.9). P e d r o l h e s e s c r e v e u d e " B a b i l ô n i a " ( 5 . 1 3 ) , q u e é provavelmente u m c o d i n o m e para R o m a : c o m o a antiga Babilônia, R o m a e seu império são agora o centro da oposição mundial a Deus. O s l e i t o r e s d e P e d r o t e r i a m s a b i d o o q u e e l e q u e r i a dizer. V i v e n d o n a Á s i a M e n o r , m u i t o s d e l e s t i n h a m e x p e r i m e n t a d o as p r e s s õ e s d o c u l t o i m p e r i a l , q u e era particularmente forte naquela área. Os estudiosos c o s t u m a v a m crer q u e o c u l t o i m p e r i a l e r a a l g o i m p o s t o p o r R o m a : isto é, p a r a r e f o r ç a r a l e a l d a d e , as a u t o r i d a d e s r o m a n a s e s t a b e l e c e r a m t e m p l o s à d e u s a " R o m a " e e x i g i r a m q u e as pessoas de todo o império o f e r e c e s s e m incenso ao imperador. M a s r e c e n t e m e n t e t o r n o u - s e claro q u e se tratava, n a realidade, de u m m o v i m e n t o popular, embora t a m b é m incentivado pelas autoridades. E m gratidão p e l o s b e n e f í c i o s r e c e b i d o s d o g o v e r n o r o m a n o , as p o p u l a ç õ e s locais f i n a n c i a r a m a construção desses templos, e instituíram festas nas quais o imperador era a d o r a d o c o m o u m d e u s . N a t u r a l m e n t e e l e s o l h a v a m c o m m u i t a d e s c o n f i a n ç a as p e s s o a s q u e se r e c u s a v a m a aderir. M a s o s c r i s t ã o s n ã o p o d i a m f a z ê - l o . A n t e o risco de p a r e c e r e m subversivos, eles se retraíam. Pedro os anima: "Porque basta o t e m p o decorrido para terdes executado a vontade dos gentios, tendo andado e m dissoluções, cuncupiscências, borracheiras, orgias, bebedices, e e m d e t e s t á v e i s i d o l a t r i a s . P o r isso, d i f a m a n d o - v o s , e s t r a n h a m q u e n ã o c o n c o r r a i s c o m eles ao m e s m o excesso de devassidão, os quais hão de prestar contas àquele q u e é c o m p e t e n t e p a r a j u l g a r v i v o s e m o r t o s " (1 P e d r o 4 . 3 - 5 ) . C o m o d e v e r i a m o s c r i s t ã o s c o m p o r t a r - s e e m tais c i r c u n s t â n c i a s ? Q u a l é a

PEDRO E SUA MENSAGEM

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atitude do cristão ante o sofrimento não merecido? C o m o p o d e m os cristãos competir c o m a alienação da sociedade que os cerca? Estas são questões práticas que Pedro tenta resolver, especialmente e m sua primeira carta. Quais são suas respostas?

1. O exemplo de Jesus
P e d r o d e s v i a a a t e n ç ã o d e s e u s l e i t o r e s d e si m e s m o s p a r a C r i s t o . S e t e v e z e s e m s u a p r i m e i r a c a r t a ele u s a as p a l a v r a s " s o f r e r " e " s o f r i m e n t o " c o m r e f e r ê n c i a a C r i s t o (1.11; 2 . 2 1 , 2 3 ; 3 . 1 8 ; 4 . 1 , 1 3 ; 5.1). E l e p a r e c e g l o r i a r - s e n a q u i l o q u e u m a vez rejeitou. Seguindo o e x e m p l o de Jesus, os cristãos d e v e m sofrer. Ele u s a as m e s m a s p a l a v r a s " s o f r e r " e " s o f r i m e n t o " n o v e v e z e s e m r e f e r ê n c i a a o s cristãos (2.19,20; 3.14,17; 4.1,15,16,19; 5.9,10). "Para isto m e s m o fostes c h a m a d o s , p o i s q u e t a m b é m C r i s t o s o f r e u e m v o s s o lugar, d e i x a n d o - v o s e x e m p l o p a r a s e g u i r d e s os s e u s p a s s o s " , e s c r e v e e l e (1 P e d r o 2 . 2 1 ) . A palavra traduzida "exemplo" é única no N o v o Testamento grego. Ela significa o c a d e r n o d e a l f a b e t o d o p r o f e s s o r , q u e c o n t i n h a as letras q u e as c r i a n ç a s tinham de decalcar para a p r e n d e r e m suas f o r m a s . D e igual m o d o , d e v e m o s aprender o a-b-c do discipulado cristão seguindo o m o d e l o da vida de Jesus. E s t a s p a l a v r a s s ã o e l o q ü e n t e s v i n d a s d a p e n a d e P e d r o , q u e t i n h a dito: " S e n h o r , e s t o u p r o n t o a ir c o n t i g o , t a n t o p a r a a p r i s ã o , c o m o p a r a a m o r t e " ( L u c a s 2 2 . 3 3 ) , e que n o evento tinha-o seguido "de longe" (Lucas 22.54). M a i s tarde, na praia da Galiléia, ele tinha ouvido de n o v o o c h a m a d o do Mestre, " s e g u e - m e " (João 2 1 . 1 9 ) , e e s t e c h a m a d o e l e r e p a s s a a o s s e u s leitores. " E l e , q u a n d o u l t r a j a d o , n ã o revidava c o m ultraje, q u a n d o maltratado não fazia ameaças, m a s entregavase à q u e l e q u e j u l g a r e t a m e n t e " (1 P e d r o 2 . 2 3 ) . E l e s d e v e m f a z e r o m e s m o .

2. A razão para o sofrimento de Jesus
P o r é m a p e r g u n t a r e s s u r g e : Por que J e s u s e s t a b e l e l c e u e s t e e x e m p l o ? S e o s cristãos d e v e m sofrer simplesmente p o r q u e são seguidores de Jesus, e Ele sofreu simplesmente porque o m u n d o o odiava, segue-se que ser cristão é u m a perspectiva pobre e s e m atrativo. P e d r o mostra a seus leitores a gloriosa razão d o s s o f r i m e n t o s d e J e s u s , u m a r a z ã o q u e torna d i g n o s d e a c e i t a ç ã o o s s o f r i m e n t o s dos crentes. A m o r t e d e J e s u s n ã o foi u m h o r r í v e l a c i d e n t e . E l e " m o r r e u [ou s o f r e u ] , u m a única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a D e u s " (3.18). O grande objeto de seus sofrimentos era a reconciliação, a p o n t e sobre o a b i s m o e n t r e os p e c a d o r e s e D e u s . "... c a r r e g a n d o e l e m e s m o e m seu c o r p o , sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos aos pecados, v i v a m o s para a j u s t i ç a " (2.24). A q u i o c o n h e c i m e n t o de P e d r o das Escrituras p a g a dividendos. A f r a s e " c a r r e g a n d o . . . o s n o s s o s p e c a d o s " r e l e m b r a a o f e r t a p e l o s p e c a d o s e o ritual d o b o d e e x p i a t ó r i o n o D i a d a E x p i a ç ã o , n o V e l h o T e s t a m e n t o . E l a t a m b é m rec o r d a Isaías c a p í t u l o 53, a p r o f e c i a d o " S e r v o S o f r e d o r " q u e m o r r e p e l o s p e c a d o s d e o u t r o s . P e d r o d e v e ter s a b i d o q u e J e s u s t i n h a a p l i c a d o e s t a p r o f e c i a a si m e s m o e i n t e r p r e t a d o s u a m o r t e à l u z d e seu e n s i n o ( v e j a p . e x . L u c a s 2 2 . 3 7 ) . E m 2 . 2 2 - 2 5 P e d r o u s a c i n c o f r a s e s e x t r a í d a s d e I s a í a s 53, c o m o o q u a d r o a s e g u i r ilustra. A l é m d o D i a d a E x p i a ç ã o e d e I s a í a s 53, P e d r o u s a t a m b é m o s r i t u a i s d a P á s c o a p a r a c o m p r e e n d e r e e x p l i c a r a m o r t e d e J e s u s . "... s a b e n d o q u e n ã o f o i m e d i a n t e c o i s a s c o r r u p t í v e i s , c o m o p r a t a ou o u r o , q u e f o s t e s r e s g a t a d o s d o

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HOMENS COM UMA MENSAGEM

Citações de Isaías 53 usadas por Pedro
1 Pedro 2
22 dolo algum se achou em sua boca 23 quando ultrajado não revidava 24 carregando ele mesmo... os nossos pecados 24 por suas chagas fostes sarados 25 estáveis desgarrados como ovelhas

Isaías 53
9 dolo algum se achou em sua boca

3 desprezado e o mais rejeitado entre os homens 12 levou sobre si o pecado nossos pecados de muitos 5 pelas suas pisaduras fomos sarados

6 andávamos desgarrados como ovelhas Pedro tece estas citações num formoso parágrafo que alguns estudiosos acreditam pretendia ser um hino. v o s s o fútil p r o c e d i m e n t o q u e v o s s o s p a i s v o s l e g a r a m , m a s p e l o p r e c i o s o s a n g u e , c o m o d e cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo" (1.18,19). Por m e i o d o s a n g u e d e u m c o r d e i r o d a P á s c o a f i s i c a m e n t e p e r f e i t o , o s israelitas f o r a m resgatados da escravidão no Egito. Agora, por meio do precioso sangue do Cristo s e m p e c a d o aspergido sobre nós (1.2), f o m o s r e d i m i d o da pior escravidão: nosso "fútil procedimento". O p r o p ó s i t o d o s s o f r i m e n t o s d e C r i s t o é, p o i s , e s c l a r e c i d o . S o m e n t e p o r m e i o daqueles sofrimentos poderia Ele entrar e m sua glória, quando Deus "o ressuscitou dentre os m o r t o s e lhe deu glória" (1.21). Jesus estabelece u m p r i n c í p i o " d a m o r t e à v i d a " q u e P e d r o e n c o n t r a s i m b o l i z a d o n a história d o d i l ú v i o (3.20,21). A água que destruiu o restante do m u n d o foi o m e i o de salvação para N o é e sua família, flutuando na arca. A s s i m t a m b é m o batismo simboliza agora a morte c o m Cristo, a única morte q u e conduz à vida. Ligados a Cristo, p o d e m o s pensar e m nossos sofrimentos c o m o sendo t a m b é m dele; e por isso Pedro nos diz p a r a n ã o n o s s u r p r e e n d e r m o s se D e u s n o s c h a m a r p a r a q u e s u p o r t e m o s a " p r o v a de aflição" (4.12). "Alegrai-vos na m e d i d a e m que sois co-participantes dos sofrimentos de Cristo, para q u e t a m b é m na revelação de sua glória vos alegreis e x u l t a n d o " (4.13). A morte simbolizada e m nosso b a t i s m o torna-se u m princípio diário de vida, à medida que transferimos para Cristo nossos sofrimentos e nos alegramos de que "aquele que sofreu na carne deixou o pecado" (4.1). A s a l v a ç ã o e s t á a c a m i n h o . Esta é uma m e n s a g e m de grande conforto e grande desafio: conforto para aqueles que j á sofrem, desafio para aqueles que evitam ou negam o sofrimento.

3. Sendo povo de Deus
L o g o na abertura de sua carta P e d r o dirige-se aos leitores c o m o "estrangeiros n o m u n d o , e s p a l h a d o s . . . " (1.1), e r e p e t e d u a s v e z e s tal c o n d i ç ã o ( 1 . 1 7 ; 2.11). A q u e l e era o seu problema. Eles e r a m alienados do m u n d o , a n a d a pertenciam e s o f r i a m a rejeição aplicada a todos os "estrangeiros". M a s essa alienação p o d e ser v i s t a d e o u t r o â n g u l o e a p r e s e n t a d a s o b o u t r o n o m e : e l e i ç ã o . O q u e realmente os f a z diferentes é q u e D e u s os escolheu para serem seus, e desta p e r s p e c t i v a e l e s n ã o s ã o e s p a l h a d o s , i s o l a d o s e r e j e i t a d o s , e s i m " r a ç a eleita, s a c e r d ó c i o real, n a ç ã o santa, p o v o d e p r o p r i e d a d e e x c l u s i v a d e D e u s . . . q u e a n t e s n ã o éreis p o v o , m a s a g o r a sois p o v o de D e u s ; q u e n ã o tínheis a l c a n ç a d o

PEDRO E SUA MENSAGEM

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misericórdia, m a s agora alcançastes misericórdia" (2.9,10). Pedro t o m a alguns dos grandes n o m e s usados para Israel n o Velho Testamento (veja, p.ex., Ê x o d o 19.5,6), e o s a p l i c a a o s s e u s l e i t o r e s e s p a l h a d o s . D i f i c i l m e n t e p o d e r i a h a v e r u m a descrição mais vigorosa da igreja. P e r t e n c e n d o - s e m u t u a m e n t e , eles p o d e m s u p o r t a r - s e m u t u a m e n t e a t r a v é s d a s provações que enfrentam: • " T e n d o p u r i f i c a d o as v o s s a s a l m a s , p e l a v o s s a o b e d i ê n c i a à v e r d a d e , t e n d o e m vista o a m o r fraternal n ã o fingido, amai-vos d e coração uns aos outros ardentemente" (1.22). • "Sede todos de igual ânimo, compadecidos, fraternalmente amigos, m i s e r i c o r d i o s o s , h u m i l d e s " (3.8). • " A c i m a de tudo, p o r é m , tende a m o r intenso uns para c o m os outros, p o r q u e o amor cobre multidão de pecados. Sede m u t u a m e n t e hospitaleiros bons despenseiros da multiforme graça de D e u s " (4.8-10). P o r t a n t o , o s c r i s t ã o s n ã o p r e c i s a m ter r e c e i o . D e u s e s t á c o n s t r u i n d o u m a c a s a , f u n d a d a sobre Jesus, a pedra angular, e todos aqueles que pertencem a Ele são c o m o "pedras que vivem... edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a f i m de oferecerdes sacrifícios espirituais, agradáveis a D e u s por i n t e r m é d i o d e J e s u s C r i s t o " (2.5). E m b o r a e s p a l h a d o s p e l o m u n d o , e l e s s ã o o templo de Deus, o lugar onde Ele habita. Portanto, se sofrem, não precisam desesperar-se. Eles p o d e m confiantes e n c o m e n d a r "suas almas ao fiel Criador" (4.19). sem murmuração. Servi uns aos outros, cada u m c o n f o r m e o d o m que recebeu, c o m o

4. Vivendo em esperança
A quarta resposta de Pedro para competir c o m o sofrimento é a esperança—a real q u a l i d a d e q u e p a r e c e ser a m a i s difícil d e m a n t e r q u a n d o c h e g a o s o f r i m e n t o . M a s a esperança de Pedro não é u m sentimento vago e irracional, ou a determinação de u m obstinado simplesmente para "manter a cabeça levantada". Esta esperança é centralizada e m Cristo e ancorada na história. E " u m a viva e s p e r a n ç a " , c r i a d a p e l a r e s s u r r e i ç ã o d e C r i s t o (1.3), e q u e s e r á r e a l i z a d a n a s u a v o l t a (1.7). Q u a n d o E l e se r e v e l a r (1.7), n o s s a s a l v a ç ã o f i n a l t a m b é m s e r á r e v e l a d a (1.5). E n q u a n t o isso, s o m o s " g u a r d a d o s p e l o p o d e r d e D e u s , m e d i a n t e a f é " (1.5), e até q u e C r i s t o s e j a r e v e l a d o à n o s s a vista, p o d e m o s c r e r e a m a r aquele que é invisível, p o d e n d o exultar " c o m alegria indizível e cheia de glória" (1.8). " P o r i s s o " , e s c r e v e P e d r o , " c i n g i n d o o v o s s o e n t e n d i m e n t o , s e d e s ó b r i o s e esperai inteiramente n a graça q u e vos está sendo trazida n a revelação de Jesus C r i s t o " ( 1 . 1 3 ) . Portanto esta esperança é firme. Se participamos dos sofrimentos de Cristo (4.13), certamente participaremos de sua glória (5.1); e p o d e m o s estar seguros de que os sofrimentos que p a d e c e m o s estão purificando nossa f é c o m o o f o g o p u r i f i c a o o u r o (1.7). E s p e r a n ç a , r e a l m e n t e ! A f r a q u e z a a t u a l s i m p l e s m e n t e a p o n t a p a r a a f u t u r a f i r m e z a : " O D e u s d e t o d a a graça, q u e e m C r i s t o v o s c h a m o u à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por u m pouco, ele m e s m o vos h á de aperfeiçoar, firmar, fortificar e f u n d a m e n t a r " (5.10). Esta insistência no f u t u r o de D e u s é u m a das ê n f a s e s vitais da s e g u n d a carta d e P e d r o , e s p e c i a l m e n t e d e 2 P e d r o 3. A q u i e l e se i n s u r g e c o n t r a os " e s c a r n e c e d o r e s " (2 P e d r o 3.3), q u e p õ e m e m d ú v i d a a r e a l i d a d e d o j u í z o f i n a l . E l e primeiramente insiste que virá realmente u m F i m (3.3-7), e e m seguida e x p l i c a s u a a p a r e n t e d e m o r a (3.8-10): isto se d e v e à " p a c i ê n c i a " d e D e u s , p o r q u e

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HOMENS COM UMA MENSAGEM

Esta escultura do Bom Pastor, um antigo símbolo cristão, data do período bizantino e foi encontrada em Al-Minah, perto de Gaza.

E l e d e s e j a p e r m i t i r p l e n a o p o r t u n i d a d e d e a r r e p e n d i m e n t o até q u e o c o r r a o j u l g a m e n t o . F i n a l m e n t e P e d r o f o r m u l a as i m p l i c a ç õ e s p r á t i c a s p a r a o s c r i s t ã o s : " V i s t o q u e t o d a s e s s a s c o i s a s h ã o d e ser a s s i m d e s f e i t a s , d e v e i s ser tais c o m o os que vivem em santo procedimento e piedade, esperando e apressando a vinda d o d i a d e D e u s " (3.11,12). A c e r t e z a d o f u t u r o j u l g a m e n t o d e D e u s é a m o t i v a ç ã o para a nossa presente santidade. E s t a o b s e r v a ç ã o s o b r e o j u l g a m e n t o n ã o e s t á a u s e n t e n a p r i m e i r a carta: " A o c a s i ã o d e c o m e ç a r o j u í z o p e l a c a s a d e D e u s é c h e g a d a " , e x c l a m a P e d r o (4.17). Ele não t e m e o j u l g a m e n t o de D e u s p o r q u e sabe que essa "salvação" está e s p e r a n d o p o r e l e a t r a v é s d e C r i s t o (1.5). E n t r e t a n t o , p r e c i s a m o s e s t a r p r o n t o s , e isto n o s l e v a à q u i n t a r e s p o s t a d e P e d r o s o b r e o s o f r i m e n t o :

5. Ser santos, fazer o bem
A exortação e m 1 Pedro 1.13-16 é particularmente importante, constituindo-se n a p r i m e i r a a d m o e s t a ç ã o m o r a l a o s s e u s leitores. T e n d o - o s i n c e n t i v a d o a v i v e r e m esperança (13), P e d r o continua: " C o m o filhos da obediência, não vos a m o l d e i s às p a i x õ e s q u e t í n h e i s a n t e r i o r m e n t e n a v o s s a i g n o r â n c i a ; p e l o contrário, segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos t a m b é m v ó s m e s m o s e m t o d o v o s s o p r o c e d i m e n t o , p o r q u e e s c r i t o está: ' S e d e s a n t o s , p o r q u e e u s o u s a n t o ' " ( 1 4 - 1 6 ) . S u a s e p a r a ç ã o d o m u n d o d e v e ser m a r c a d a p o r u m a n í t i d a d i f e r e n ç a e m r e l a ç ã o a o m u n d o , a saber, a q u e l a q u e m o s t r a o c a r á t e r do próprio Deus. A exortação para "fazer o b e m " aparece repetidamente na parte central da carta: • " M a n t e n d o exemplar o vosso procedimento no meio dos gentios, para que, naquilo que f a l a m contra vós outros c o m o de malfeitores, observando-vos e m vossas boas obras, g l o r i f i q u e m a D e u s no dia da visitação" (2.12). • "Porque assim é a vontade de Deus, que, pela prática do bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos" (2.15). • Se... q u a n d o p r a t i c a i s o b e m , sois i g u a l m e n t e a f l i g i d o s e o s u p o r t a i s c o m paciência, isto é grato a D e u s " (2.20). • " C o m o fazia Sara... da qual vós [mulheres cristãs] vos tornastes filhas, p r a t i c a n d o o b e m e n ã o t e m e n d o p e r t u r b a ç ã o a l g u m a " (3.6). • " O r a , q u e m é q u e v o s h á d e m a l t r a t a r , se f o r d e s z e l o s o s d o q u e é b o m ? " ( 3 . 1 3 ) . C o m e s t a p e r g u n t a P e d r o c o n c l u i u m a l o n g a c i t a ç ã o d o S a l m o 34, q u e inclui a exortação para apartar-se " d o mal, pratique o que é b o m , b u s q u e a p a z e e m p e n h e - s e p o r a l c a n ç á - l a " (3.11). P o r t a n t o , e m b o r a eles p u d e s s e m ser a c u s a d o s d e s u b v e r s i v o s p e r a n t e R o m a , os c r e n t e s d e v i a m s u j e i t a r - s e " a t o d a i n s t i t u i ç ã o h u m a n a p o r c a u s a d o S e n h o r ; q u e r s e j a ao rei, c o m o s o b e r a n o ; q u e r às a u t o r i d a d e s c o m o e n v i a d a s p o r ele, t a n t o p a r a c a s t i g o dos m a l f e i t o r e s , c o m o p a r a l o u v o r d o s q u e p r a t i c a m o b e m " ( 2 . 1 3 , 1 4 ) . E l e s p o d e m a i n d a ser p e r s e g u i d o s , p o r é m t e r ã o p e l o m e n o s f e i t o " t o d a . . . d i l i g ê n c i a " , a s s o c i a n d o " a f é à v i r t u d e " (2 P e d r o 1.5). Tal e s f o r ç o i n i c i a u m a c o r r e n t e d e o u r o e m q u e a v i r t u d e se liga ao c o n h e c i m e n t o , d o m í n i o p r ó p r i o , p e r s e v e r a n ç a , p i e d a d e , f r a t e r n i d a d e e amor. O r e s u l t a d o é e v i d e n t e : "...porquanto, procedendo assim, não tropeçareis e m t e m p o algum. Pois, desta maneira é q u e v o s s e r á a m p l a m e n t e s u p r i d a a e n t r a d a n o r e i n o e t e r n o d e n o s s o S e n h o r e Salv a d o r J e s u s C r i s t o " (2 P e d r o 1.10,11). Assim, a prescrição final de Pedro p a r a os sofrimentos dos cristãos convocaos a n ã o p e r m i t i r u m d e c r é s c i m o d a a t i v a e o b e d i e n t e e x p r e s s ã o d e s u a f é . S e j a m

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quais f o r e m os seus percalços, diz Pedro, não d e i x e m d e fazer o b e m ! Resta-nos apenas comentar u m tema característico da segunda carta de Pedro. Ele dedica a maior parte de sua carta advertindo seus leitores contra os "falsos m e s t r e s " q u e i n t r o d u z i r a m " h e r e s i a s d e s t r u i d o r a s " (2.1). E s s e f a l s o e n s i n o p a r e c e ter sido u m a mistura de cepticismo e f r o u x i d ã o moral: u m a n e g a ç ã o da segunda vinda de Cristo e do f u t u r o j u l g a m e n t o (3.3-13), a c o m p a n h a d o da entrega de suas vidas aos prazeres sensuais (2.13-22). O ardente zelo dos primeiros anos de Pedro faísca de sua pena enquanto ele expõe, e m palavras de extrema indignação, a iniqüidade impudente desses falsos mestres e seu tenebroso destino

(2.1-10).
Ele mostra t a m b é m c o m o seus leitores p o d e m continuar na verdade s e m vacilar, depois de sua morte (1.13-21). Eles terão ainda duas fontes d e ensino i d ô n e o : a p a l a v r a apostólica p a l a v r a profética e s c r i t a (15), b a s e a d a n ã o e m m i t o s q u e o s a p ó s t o l o s tenham inventado, mas na história q u e eles haviam testemunhado (16-18), e a escrita (19-21). Os apóstolos do N o v o Testamento apenas c o n f i r m a r a m os profetas do Velho Testamento. E esses profetas " f a l a r a m da p a r t e d e D e u s " (isto é, c o m s u a a u t o r i d a d e ) , n ã o p o r seu p r ó p r i o i m p u l s o , m a s q u a n d o e r a m i r r e s i s t i v e l m e n t e m o v i d o s p e l a i n s p i r a ç ã o d o E s p í r i t o S a n t o (21). P e d r o d e s e j a p o u p a r s e u s l e i t o r e s d a c a l a m i d a d e f i n a l , q u e é a d e se d e s v i a r e m do evangelho, o único m e i o que lhes p o d e assegurar a esperança n u m m u n d o de sofrimento. " V ó s , pois, amados, prevenidos c o m o estais d e antemão, acautelaivos; não suceda que, arrastados pelo erro desses insubordinados, descaiais da v o s s a p r ó p r i a f i r m e z a ; antes, c r e s c e i n a g r a ç a e n o c o n h e c i m e n t o d e n o s s o S e n h o r e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, tanto agora c o m o n o dia eterno" (2 Pedro 17,18). O p r o f u n d o a m o r de P e d r o por seu Senhor, e sua ardente determinação de viver exclusivamente para Ele, brilham através destas palavras d e e n c e r r a m e n t o d e s u a s e g u n d a carta.

Leitura adicional
Menos exigente:

Carsten P. Thiede, Simon Peter: From Galilee to Rome (Exeter: Paternoster, 1986) Edmund P. Clowney, The Message of 1 Peter: The Way of the Cross (Leicester: IVP, 1988) I. Howard Marshall, 7 Peter (Downers Grove: InterVarsity Press, 1991)

Mais exigente, obras eruditas: John H. Elliott, A Home for the Homeless. A Sociological Exegesis of 1 Peter, Its Situation and Strategy (Londres: SCM, 1982) Michael Green, 2 Peter Reconsidered (Leicester: IVP, primeira publicação 1961)

A Mensagem de Apocalipse
O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos. (Apocalipse 11.15)

A p o c a l i p s e está b e m situado c o m o o ú l t i m o livro d o N o v o T e s t a m e n t o . E l e foi p r o v a v e l m e n t e u m dos últimos a s e r e m escritos. M a i s d o que q u a l q u e r outro livro, ele e n c a m i n h a seus leitores ao f u t u r o q u e D e u s p l a n e j o u p a r a o m u n d o e p a r a a igreja. Seu retrato de Jesus é u m r e s u m o c o n v i n c e n t e de todas as coisas q u e os restantes livros d o N o v o T e s t a m e n t o e s c r e v e m sobre Ele. E , e n q u a n t o a m a i o r parte dos livros d o N o v o T e s t a m e n t o foi escrita p a r a g r u p o s e s p e c í f i c o s de cristãos, A p o c a l i p s e parece ter sido escrito conscientemente p a r a toda a igreja, e m todos os t e m p o s e lugares. A s s i m , p o r todas estas razões, ele traz o N o v o T e s t a m e n t o a u m a c o n c l u s ã o a p r o p r i a d a e a l t a m e n t e inspirada. A p o c a l i p s e teve u m a história m a r c a d a p o r vicissitudes. E l e c o m e ç o u b e m , p o r q u e d e s d e m e a d o s d o s e g u n d o século os cristãos a c r e d i t a v a m q u e o " J o ã o " q u e o e s c r e v e u (1.4,9) era o apóstolo J o ã o . P o r é m , n o terceiro século surgiram dúvidas. E l e é tão d i f e r e n t e d o E v a n g e l h o d e João, tanto p e l a l i n g u a g e m c o m o p e l o c o n t e ú d o ! — p o d e r i a ele r e a l m e n t e ser d o m e s m o autor? P o r outro lado, n a q u e l a é p o c a vários g r u p o s " f a c c i o s o s " p a s s a r a m a usar A p o c a l i p s e e m a p o i o de suas teorias excêntricas a respeito de D e u s e d o m u n d o , u m p r o c e s s o q u e desde então se m a n t é m incontestado. P o r isso, os cristãos ortodoxos c o m e ç a r a m a sentir q u e A p o c a l i p s e era u m livro inseguro. F o i o ú n i c o livro d o N o v o Testam e n t o s o b r e o qual J o ã o C a l v i n o , o R e f o r m a d o r d o s é c u l o dezesseis, n ã o e s c r e v e u u m c o m e n t á r i o ( a l é m das epístolas 2 e 3 de João). M a r t i n h o L u t e r o f o i aberto e m sua crítica: ele o r e l e g o u a u m s e g u n d o p l a n o , a f i r m a n d o q u e " C r i s t o n ã o é e n s i n a d o n e m r e c o n h e c i d o nele". Entretanto, o século vinte assistiu a u m r e a v i v a m e n t o p e l o interesse a respeito deste livro a s s o m b r o s o , tanto entre estudiosos c o m o n a igreja e m geral. E m a n o s recentes, a corrente de p u b l i c a ç õ e s t e m a u m e n t a d o aos b o r b o t õ e s , e m u i t a luz foi l a n ç a d a sobre seu contexto, p r o p ó s i t o e interpretação. I n e v i t a v e l m e n t e , e m n o s s a avaliação sobre a m e n s a g e m deste livro, d e v e m o s dedicar a t e n ç ã o

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HOMENS COM UMA MENSAGEM

especial aos princípios de interpretação a ele apropriados.

"João", o autor
A identidade do " J o ã o " que escreveu Apocalipse é tão indistinta, c o m o foi h á m i l e o i t o c e n t o s a n o s . R e u n i m o s a l g u m a s c o i s a s s o b r e ele d o p r ó p r i o livro: 1. E l e r e g i s t r a a r e f e r ê n c i a d o a n j o s o b r e " t e u s i r m ã o s , o s p r o f e t a s " , a q u a l s u g e r e q u e e l e é t a m b é m u m p r o f e t a ( 2 2 . 9 ) e seu livro é u m a " p r o f e c i a " (1.3; 2 2 . 1 0 ) . Isto s i g n i f i c a q u e e l e e s t a v a p r o f u n d a m e n t e c ô n s c i o d e s e u c h a m a d o s o l e n e p a r a t r a n s m i t i r a p a l a v r a d e D e u s a o s s e u s leitores ( 2 2 . 1 8 ) . 2. A o m e s m o t e m p o ele d e s e j a ser c o n h e c i d o a p e n a s c o m o o " i r m ã o " d e s e u s leitores, e c o m o seu " c o m p a n h e i r o n a t r i b u l a ç ã o , n o r e i n o e n a p e r s e v e r a n ç a , e m J e s u s " (1.9). 3. N a é p o c a e m q u e e s c r e v e ele se e n c o n t r a n a ilha d e P a t m o s , n o m a r E g e u , p a r a o n d e f o i e n v i a d o p o r c a u s a d a p a l a v r a d e D e u s e d o t e s t e m u n h o de J e s u s (1.9). 4. S u a p r o f e c i a é e n d e r e ç a d a às sete p r i n c i p a i s i g r e j a s d a p r o v í n c i a r o m a n a d a Á s i a (1.11), n o c o n t i n e n t e n ã o m u i t o d i s t a n t e d e P a t m o s (1.9). E s t á c l a r o q u e e l e c o n h e c e as c o n d i ç õ e s l o c a i s ( t a n t o g e o g r á f i c a s c o m o e s p i r i t u a i s ) , e s a b e que p o d e escrever-lhes c o m u m a autoridade que eles reconhecem. 5. E l e u s a u m e s t i l o g r e g o e x t r a o r d i n á r i o , q u e t e m c o n f u n d i d o o s leitores d e s d e então. Alguns concluíram que o grego não era sua primeira língua, enquanto o u t r o s u g e r e m q u e e l e d e l i b e r a d a m e n t e q u e b r a as r e g r a s d a g r a m á t i c a g r e g a porque está descrevendo coisas que ultrapassam a capacidade da linguagem humana. 6. E l e e r a p r o f u n d a m e n t e v e r s a d o n a s E s c r i t u r a s d o V e l h o T e s t a m e n t o , o q u e s u g e r e q u e ele e r a j u d e u . A l é m disso, ele t a m b é m e s t a v a c l a r a m e n t e f a m i l i a r i z a d o n a t r a d i ç ã o " a p o c a l í p t i c a " . Isto é i l u s t r a d o n o V e l h o T e s t a m e n t o p o r D a n i e l e Zacarias, e vários outros judeus "apocalípticos" sobreviveram nos períodos intertestamentário e neotestamentário. Apocalipse tem muito e m c o m u m c o m eles, m a s t a m b é m d i f e r e n o t a v e l m e n t e d e l e s . N ã o p o d e m o s c o l h e r m a i s d o q u e isto d o p r ó p r i o livro. A p r i m e i r a vista, todos estes pontos p o d e r i a m ajustar-se à tradicional atribuição do livro a João, o apóstolo de Jesus e filho de Zebedeu. Contudo, o quinto ponto apresenta u m a d i f i c u l d a d e . F o i D i o n í s i o , b i s p o d e A l e x a n d r i a ( 2 4 7 - 6 5 d.C.), q u e m p r i m e i r o discordou dessa atribuição, por causa das diferenças tanto na l i n g u a g e m c o m o n o conteúdo entre Apocalipse e os outros escritos atribuídos a João: "Ele mal tem u m a sílaba e m c o m u m c o m eles!" E então conclui: " N ã o posso de boa v o n t a d e concordar que o autor foi o apóstolo, o filho de Zebedeu, o irmão de Tiago." Isto l e v o u E u s é b i o , a n t i g o h i s t o r i a d o r d a i g r e j a , q u e r e l a t o u o p o n t o d e v i s t a d e D i o n í s i o p a r a r e f e r i r - s e à v i s ã o d e P a p i a s , b i s p o d e E s m i r n a p o r v o l t a d e 125 d.C., q u e havia duas figuras proeminentes c h a m a d a s " J o ã o " n a velha igreja: João, o apóstolo, e outro a quem Papias chama de "João, o presbítero". Eusébio sugeriu que este segundo João fosse o autor de Apocalipse, e muitos estudiosos modernos têm adotado sua sugestão. H á mais a ser dito, entretanto. D i f e r e n ç a s p o d e haver, m a s há t a m b é m semelhanças marcantes entre o Evangelho de João e Apocalipse. Por exemplo: • E x c l u s i v a m e n t e estes livros c h a m a m J e s u s d e " o V e r b o " ( J o ã o 1.14; A p o c a l i p s e

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19.13), e d ã o r e l e v o a o título " o C o r d e i r o " ( J o ã o 1.29,36; A p o c a l i p s e 5 . 6 e t c . — vinte e oito vezes ao todo). • O t e m a d o " t e s t e m u n h o " é i m p o r t a n t e e m a m b o s (p.ex., J o ã o 15.27; A p o c a l i p s e 12.17). • E m a m b o s o s l i v r o s J e s u s é o d o a d o r d a " á g u a v i v a " [ou " á g u a d a v i d a " ] e a resposta final à " f o m e " e à "sede" (João 4.10; 6.35; Apocalipse 7.16,17). • A m b o s os livros predizem a perseguição contra a igreja (João 15.18-16.4; A p o c a l i p s e 3 . 1 0 ; 13.7), p o r é m a u n i ã o f i n a l c o m C r i s t o e m p r e s e n ç a d e D e u s , o s t e n t a n d o seu " n o m e " ( J o ã o 1 7 . 1 1 , 2 0 - 2 6 ; A p o c a l i p e 2 2 . 3 - 5 ) . • " O templo" é u m tema fundamental nos dois livros—tanto o templo terreno, e m J e r u s a l é m , c o m o s u a c o n t r a p a r t e celestial. O que devemos concluir disto? Revisando a evidência, o Prof. George Caird e s c r e v e u : " E possível levantar u m a h i p ó t e s e d e autoria c o m u m , e m b o r a o b a l a n ç o da probabilidade ainda seja contra ela." Nós, de certa f o r m a , temos de ficar contentes c o m a ignorância sobre este ponto. Parece provável que o " J o ã o " de Apocalipse não era o João do quarto Evangelho, m a s t a m b é m h á alguma conexão entre eles que provocou estas coincidências de p e n s a m e n t o e linguagem. N o final das contas, contudo, sua identificação precisa não é importante. Mais c r u c i a i s s ã o as q u a l i d a d e s d e m e n t e e e x p e r i ê n c i a q u e f o r a m e m p r e g a d a s n a r e d a ç ã o d o livro. E três d e s s a s q u a l i d a d e s r e c l a m a m c o m e n t á r i o p a r t i c u l a r :

1. João estava profundamente familiarizado com as Escrituras do Velho Testamento.
Ele n u n c a citou f o r m a l m e n t e os textos do Velho Testamento, p o r é m h á mais de q u a t r o c e n t a s a l u s õ e s i d e n t i f i c á v e i s a ele, e m b o r a o a u t o r f a ç a m a i s r e f e r ê n c i a s aos Salmos e aos profetas, e entre estes especialmente a Isaías, Ezequiel, D a niel e Zacarias. E m m u i t o s c a s o s ele r e p e t e a l i n g u a g e m d o V e l h o T e s t a m e n t o , t a l v e z a l g u m a s v e z e s i n c o n s c i e n t e m e n t e , p o r é m , m a i s i m p o r t a n t e a i n d a , ele r e c o r r e às g r a n d e s idéias e aos eventos do Velho Testamento. O ê x o d o de Israel d o Egito está freqüentemente e m sua mente; e assim t a m b é m o exílio de Israel na Babilônia e o seu l i v r a m e n t o o p e r a d o p o r D e u s . T o d o o t e m a d a a l i a n ç a d e D e u s c o m Israel é d e c i s i v o p a r a ele. A t r a v é s d e t o d o o l i v r o e n c o n t r a m o s r e f e r ê n c i a s a o templo, seu mobiliário e acessórios, b e m c o m o seu culto. E p r o f u n d a m e n t e escrita e m sua m e n t e e coração é a fé do salmista, que olhava para u m m u n d o g e n t i o q u e n ã o c o n h e c i a D e u s , d e c l a r a n d o : " R e i n a o S e n h o r " (p.ex., S a l m o 99.1). João, entretanto, não reproduz simplesmente os textos ou idéias d o Velho T e s t a m e n t o . E l e o s d e s e n v o l v e , e, n a v e r d a d e , c r i a a l g u m a c o i s a n o v a s u g e r i d a p o r s e u s l i v r o s . Isto p o r q u e :

2. João era o recipiente da revelação profética.
I s t o c o m e ç o u q u a n d o o E s p í r i t o i n s p i r a d o r o t o m o u n o D i a d o S e n h o r (1.10). U m a g r a n d e v o z d i s s e - l h e q u e e s c r e v e s s e o q u e v i a e e n v i a s s e às sete i g r e j a s d a Á s i a (1.11). Ele voltou-se e viu no m e i o de sete candeeiros de ouro " u m s e m e l h a n t e a f i l h o d e h o m e m " (1.13). U s a n d o e s t a e x p r e s s ã o " f i l h o d e h o m e m " , J o ã o t o r n a c l a r a s d u a s c o i s a s : ele s a b i a q u e e r a J e s u s a q u e m v i a , e s a b i a q u e o estava vendo c o m o Daniel o tinha visto u m a v e z — n a visão descrita e m Daniel 7.9-14.

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E m seguida, à medida que descreve o que via (1.12-16), João usa a linguagem extraída de vários lugares do Velho Testamento: • S e u c a b e l o e r a c o m o o d o p r ó p r i o D e u s ( D a n i e l 7.9). • Seus olhos e seu cinto e r a m c o m o aqueles do poderoso anjo que apareceu a D a n i e l j u n t o a o rio T i g r e ( D a n i e l 10.5,6). • S u a v o z e r a c o m o a v o z d e D e u s q u e E z e q u i e l o u v i u ( E z e q u i e l 1.24). • Sua boca era c o m o a do grande "servo do Senhor", cuja vinda foi revelada a I s a í a s (49.2). • S u a s v e s t e s e r a m c o m o a q u e l a s d o s u m o s a c e r d o t e ( L e v í t i c o 8.7), e e l e e s t a v a de p é ao lado de u m candeeiro c o m o o que havia no Tabernáculo onde o sumo sacerdote ministrava (Êxodo 25.37). Inspirado pelo Espírito, João tece todos esses temas juntos, enquanto descreve s u a v i s ã o s o b r e o C r i s t o r e s s u r g i d o e m s u a glória. A s s i m f a z e n d o , J o ã o r e c o r r e a velhos temas para dizer alguma coisa nova: estes diferentes textos e temas v i e r a m juntos, c o n v e r g i n d o sobre Jesus Cristo. À m e d i d a que este processo é repetido seguidas vezes através de Apocalipse, Jesus torna-se a chave para a compreensão de todo o Velho Testamento. P o d e m o s imaginar o Velho Testamento c o m o u m filme e m branco e preto. Apocalipse é " u m filme sobre a produção do filme", em cores gloriosas. S o m o s l e v a d o s p a r a trás d a s c e n a s e v e m o s a a ç ã o r e a l , s o m o s a p r e s e n t a d o s a o D i r e t o r e temos permissão para ouvir por que o Diretor rodou o filme e por que agora r e s o l v e u c o n t i n u a r a h i s t ó r i a n u m s e g u n d o f i l m e , t e n d o c o m o e s t r e l a seu P r i n cipal Executivo. M a s A p o c a l i p s e n ã o a p e n a s n o s l e v a atrás d a s c e n a s d o V e l h o T e s t a m e n t o . M a i s d o q u e isto, ele n o s l e v a atrás d a s c e n a s d o p r ó p r i o m u n d o . E s t e " f i l m e sobre a p r o d u ç ã o d o f i l m e " leva-nos diretamente ao escritório do Diretor—isto é, a o t r o n o d o p r ó p r i o D e u s — e o o b s e r v a m o s p r o d u z i n d o a h i s t ó r i a d o m u n d o , e m p a r c e r i a c o m seu P r i n c i p a l E x e c u t i v o . I s t o é " a p o c a l í p t i c o " , u m a p a l a v r a q u e s i g n i f i c a l i t e r a l m e n t e "tirar o v é u " , p a r a q u e p o s s a m o s v e r o q u e g e r a l m e n t e fica escondido. Isto nos leva à terceira qualidade que João nitidamente possuía:

3. João tinha experimentado o ódio do mundo pela igreja.
Ele tinha sido aprisionado e m Patmos por causa de seu testemunho. Ele sabia q u e a l g u m a s d a s sete i g r e j a s às q u a i s ele r e c e b e u o r d e m p a r a e s c r e v e r j á t i n h a m sido perseguidas (2.3,13), e que outras o seriam b r e v e m e n t e (2.10; 3.10). Esta perseguição parece ter sido devida g r a n d e m e n t e pela recusa dos cristãos d e se a s s o c i a r e m a o c u l t o d o i m p e r a d o r r o m a n o . O " c u l t o i m p e r i a l " , c o m o e r a conhecido, estava crescendo constantemente. Júlio César tinha sido declarado d i v i n o p o s t u m a m e n t e e m 2 9 a.C., e h a v i a u m t e m p l o e m s u a h o n r a e m É f e s o . T e m p l o s f o r a m e r i g i d o s p a r a o i m p e r a d o r s e g u i n t e , A u g u s t o , e n q u a n t o ele a i n d a estava vivo, e t a m b é m ao seu sucessor, Tibério. D u r a n t e o primeiro século, o culto imperial ganhou impulso e m todo o império. Imagina-se que Apocalipse foi e s c r i t o d u r a n t e o r e i n a d o d e D o m i c i a n o (81 - 9 6 d.C.), q u e p a r e c e ter r e a l m e n t e i n c e n t i v a d o as p e s s o a s a dirigir-se d i r e t a m e n t e a ele c o m o " n o s s o S e n h o r e D e u s " . I s t o p o d e e s t a r r e f l e t i d o e m A p o c a l i p s e 11.17; 15.3; 16.7; 19.6: h á somente u m "Senhor Deus", e não é o imperador de Roma. N a Á s i a o c u l t o e r a m u i t o p o p u l a r . C a d a u m a d a s sete c i d a d e s , e x c e t o Tiatira, tinha u m ou mais templos dedicados ao imperador que estava n o poder ou à

A MENSAGEM DE APOCALIPSE

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As cartas às Sete Igrejas
As sete cartas em Apocalipse 2.1 3.22 são as primeiras das várias séries de "setes" que aparecem no livro. Estas cartas são todas ditadas a João pelo Cristo ressurreto. Cada uma delas inicia com a mesma ordem: "Ao anjo da igreja em... escreve", e cada uma delas termina com a mesma mensagem: "Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas." E m cada caso também esta mensagem é acompanhada de uma promessa: "Ao vencedor..." Várias das cartas contêm alusões detalhadas a aspectos da história, religião ou geografia das respectivas cidades. Elas foram estudadas pelo Dr. Colin Hemer em seu livro The Letters to the isso Cristo adverte a igreja ali instalada: "Se não vigiares, virei como ladrão, e não conhecerás de modo algum em que hora virei contra ti" (3.3). • Laodicéia era famosa pelo suprimento de sua água tépida e insípida, que era canalizada a partir das fontes termais até certa distância. Cristo acusa a igreja: "Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio, ou quente! Assim, porque és morno, e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitarte de minha boca" (3.15,16). • Em duas das igrejas um grupo chamado "nicolaítas" era muito ativo (Éfeso, 2.6; Pérgamo 2.15). Isto parece ser uma referência b e m local, porque não temos notícia desse grupo em qualquer outra fonte. Parece que esse grupo de cristãos não sentia qualquer dificuldade quanto à participação no culto imperial e na adoração pagã. Todas essas e outras referências locais assinalam a informação de 1.12,13,20: Cristo está entre os candeeiros "que são as sete igrejas". Ele conhece suas condições, bem como suas necessidades espirituais, já está bem perto delas, e pode proferir palavras de advertência e ânimo diretamente a elas. Cada carta termina com u m a referência ao "que o Espírito diz às igrejas", como se a mensagem a cada igreja fosse também dirigida às outras seis. N a realidade, podemos provavelmente ampliar o alvo e admitir que todas as outras igrejas estão incluídas aqui, não apenas outros membros das "sete". Sete é o número da completitude. C o m toda probabilidade estas sete igrejas representam toda a igreja universal. Assim, todos nós podemos responder às admoestações e perguntar o que o Espírito tem a dizer a cada uma das igrejas hoje, com base nessas mensagens dirigidas tão pessoalmente pelo Cristo ressurreto às igrejas do primeiro século na Ásia.

Seven Churches ofAsia (As Cartas às Sete Igrejas da Asid). Ele
observa, por exemplo: • P é r g a m o , "onde está o trono de Satanás" (2.13), era o centro do culto imperial para toda a região. • A cidade de S a r d e s orgulhava-se havia muito de ser inexpugnável por estar construída no topo de uma colina escarpada: no entanto ela caiu duas vezes à noite em mãos de inimigos, que escalaram os declives sem serem notados. Por

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deusa " R o m a " . O governo local era envolvido n o culto. Festas anuais e r a m p r o m o v i d a s , m a r c a d a s n ã o s o m e n t e p e l a idolatria, m a s às v e z e s p o r g r a n d e i m o r a l i d a d e — e t o d o s t i n h a m d e c o n t r i b u i r p a r a o c u s t o delas, a l é m d e participar. Q u a n d o a p r o c i s s ã o p a s s a v a , as p e s s o a s a p r e s e n t a v a m s a c r i f í c i o s e m p e q u e n o s altares do lado de fora de suas casas. N a q u e l e t e m p o a Ásia era pacífica e p r ó s p e r a , e as p e s s o a s a g r a d e c i d a s a t r i b u í a m isto a o g o v e r n o r o m a n o . Q u a n d o o s c r i s t ã o se a f a s t a v a m d e t u d o isso, e r a m t i d o s c o m o i n g r a t o s e d e s l e a i s . O s n i c o l a í t a s p a r e c e m ter c e d i d o a e s s a s p r e s s õ e s e a c o n s e l h a d o o s c r i s t ã o s a c o n c o r d a r c o m a p r á t i c a p a g ã ( v e j a o q u a d r o a c i m a s o b r e As cartas Sete Igrejas). às M a s p a r a m u i t o s a c o n f i s s ã o " J e s u s é S e n h o r " (1 C o r í n t i o s 12.3)

significava que eles não p o d i a m aspergir incenso sobre o f o g o que ardia diante da estátua do imperador e dizer "César é Senhor". Teria sido por isso q u e J o ã o foi exilado e m Patmos? A l é m desse conhecimento das condições imediatas das igrejas, João t a m b é m s a b i a c o m o r e a l m e n t e e r a a v i d a n e s t e g l o b o . P o r trás d a p r ó s p e r a f a c h a d a d a Á s i a u m a i m a g e m m u i t o m a i s f e i a se o c u l t a v a . O p o d e r d e R o m a b a s e a v a - s e n o p o d e r militar, n a g u e r r a , n a e x p l o r a ç ã o e c o n ô m i c a , n o t r á f i c o d e e s c r a v o s , n o c u l t o i d ó l a t r a d o d i n h e i r o e d o p o d e r , e — J o ã o o c o n s t a t o u p o r si m e s m o — n a temível autoridade do dragão, o próprio Satanás, e nas m e d o n h a s "bestas" a q u e m ele d e l e g a v a p o d e r . A d o r a r R o m a e r a a d o r a r o p r ó p r i o d r a g ã o , r e c e b e r n a f r o n t e s u a m a r c a ( 1 3 . 1 6 , 1 7 ) . O i m p é r i o r o m a n o p o d e ter p a r e c i d o p r ó s p e r o e p a c í f i c o , m a s era, n a r e a l i d a d e , u m a p r o s t i t u t a , m o n t a d a n a s c o s t a s d a b e s t a d o d r a g ã o (17.3), " e m b r i a g a d a c o m o s a n g u e d o s s a n t o s " (17.6), v i v e n d o e m l u x ú r i a às e x p e n s a s d o m u n d o e p r o n t a p a r a a d e s t r u i ç ã o ( c a p í t u l o 18). Os "selos" no capítulo 6 retratam a realidade do governo romano: exercendo o p o d e r i m p e r i a l ( 6 . 1 , 2 ) , a p o i a n d o - s e n a g u e r r a (6.3,4), p r o v o c a n d o a m i s é r i a e c o n ô m i c a (6.5,6), e s p a l h a n d o a m o r t e (6.7,8), e i m p o n d o o m a r t í r i o a o s s e r v o s d e D e u s (6.9-11). J o ã o retira o v é u d e c i m a d e t o d o e s s e horror, j á e x p e r i m e n t a d o por muitos cristãos, de m o d o que p o d e t a m b é m revelar a maravilhosa vitória conquistada por Deus por m e i o de seu Cristo, e prometido por Cristo a seus servos. Ele tinha visto Jesus, ressurgido, triunfante, glorioso, invencível, s u s t e n t a n d o as i g r e j a s e m s e g u r a n ç a c o m s u a f o r t e d e s t r a . E s t a f o i a v i s ã o q u e a igreja perseguida necessitava.

Interpretando Apocalipse
C o m o d e v e m o s c o m p r e e n d e r e s t e livro? E l e f o i o p á t i o d e r e c r e i o d o s e x c ê n t r i c o s d e s d e q u e f o i e s c r i t o — e a i n d a é. E x i s t e a l g u m m e i o d e n o s c e r t i f i c a r m o s d e que estamos lendo este livro do m o d o que João pretendeu? H á essencialmente quatro alternativas para a interpretação deste livro. Todos os esforços para desvendar seu sentido utilizam u m a dessas alternativas, ou tentam combinar duas ou mais. Vamos expô-las e avaliá-las u m a a uma, e s p e c i a l m e n t e à luz d a f o r m a c o m o J o ã o i n t r o d u z seu t e x t o n o p r i m e i r o c a p í t u l o . J o ã o e x p l i c a seu t r a b a l h o l o g o n o p r i m e i r o v e r s í c u l o : " R e v e l a ç ã o d e J e s u s C r i s t o , q u e D e u s l h e d e u p a r a m o s t r a r a o s s e u s s e r v o s as c o i s a s q u e e m b r e v e d e v e m a c o n t e c e r " (1.1). M a s d e v e m o s p e r g u n t a r : " Q u a i s s e r v o s ? " e " Q u e f u turo está sendo revelado?" • A a l t e r n a t i v a preterista enfatiza o sentido de Apocalipse para seus primeiros leitores, e q u e s t i o n a q u a l q u e r i n t e r p r e t a ç ã o q u e n ã o o s t e m f i r m e m e n t e n a m e n t e .

A MENSAGEM DE APOCALIPSE

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Os "setes" de Apocalipse e a estrutura do livro
Muitas propostas têm sido feitas sobre a estrutura de Apocalipse, e é evidente que João teve sua visão como uma sucessão de "setes". Há basicamente seis séries de "setes" no livro: • As sete igrejas, 2.1-3.22 • Os sete selos, 4.1-8.1 • As sete trombetas, 8.2-11.19 • Os sete sinais no céu, 12.1-15.8 • As sete taças da ira, 16.1-21 • As sete visões finais, 17.1-22.21 Além disso, uma sétima série de sete é mencionada: os sete "trovões" que João teve de "selar" e não escrever (10.4), como para nos lembrar que mesmo este livro não é a revelação de todas as coisas. Cada série resulta da série precedente, de modo que todas elas formam um todo unido. Por exemplo, o sétimo "selo" é seguido da série das sete trombetas (8.1,2), e o sétimo "sinal no céu" é seguido da série das sete "taças" (15.1). A série dos sete "sinais no céu" está no meio do livro. Cada "sinal" inicia pela palavra "Vi" ou "Olhei", ou algo equivalente, sendo o primeiro e o sétimo efetivamente chamado de "sinal" (12.1; 13.1,11; 14.1,6,14; 15.1). Este trecho apresenta-nos a realidade do mal em todo o seu horror cru, e a realidade da vitória conquistada por Cristo e compartilhada com seu povo. A última série relacionada acima, as sete visões finais, não é absolutamente uma série óbvia, e nem todos os estudiosos concordam que esses capítulos devam ser considerados assim. Seria melhor considerar essas visões finais simplesmente como uma seqüência e complemento da série das sete taças— equilibrando assim com a forma correspondente à que os sete selos são introduzidos pelas maravilhosas visões do céu nos capítulos 4 e 5. Contudo, é possível analisar os capítulos 17-22 como uma grande série de seis visões, cada qual marcada pelo aparecimento de uma poderosa figura celestial: 1. Um anjo revela a mulher sobre a besta, 17.118. 2. Outro anjo anuncia a queda de Babilônia, 18.1-19.10. 3. O cavaleiro sobre o cavalo branco aparece para destruir a besta, 19.11-21. 4. O anjo com a chave aparece para prender e fechar o dragão, 20.1-10. 5. O próprio Deus aparece, sentado em seu trono do juízo final, 20.11-15. 6. Outro anjo aparece (21.9) para revelar u m a mulher muito diferente, a noiva do Cordeiro, a Jerusalém celestial, 21.1 -22.17. Se esta análise é correta, somos induzidos a perguntar por que não há um sétimo aparecimento e visão nesta parte final. E bem possível que a resposta seja que há, porém ainda não aconteceu. O livro termina com a promessa: "Aquele que dá testemunho destas coisas diz: 'Certamente venho sem demora'", com a oração em resposta: "Amém. Vem, Senhor Jesus"

(22.20).

Analisado desta forma, o livro Apocalipse é estruturado em torno das sete séries de "setes", mas o sete final ainda não está completo, porque Jesus tem ainda de voltar.

Eles são os "servos" que e x p e r i m e n t a m "as coisas que e m breve d e v e m acontecer". • A a l t e r n a t i v a historicista, por outro lado, visualiza Apocalipse c o m o u m a espécie de a l m a n a q u e da história universal, escrita antecipadamente. Esta é a alternativa segundo a qual alguns, por exemplo, t ê m identificado o papa c o m o "a besta", ou t ê m considerado que a C o m u n i d a d e Européia representa os dez chifres da besta (13.1). • A alternativa/Míiiráto interpreta "que e m breve d e v e m acontecer" ainda mais r a d i c a l m e n t e . E l a s u s t e n t a q u e A p o c a l i p s e se o c u p a s o m e n t e c o m o s e v e n t o s do Fim, os reais últimos eventos da história universal, incluindo a vinda de Cristo e o j u l g a m e n t o final. • D i f e r e n t e m e n t e , a a l t e r n a t i v a infinito-simbólica trata o livro c o m o u m a série de parábolas. O q u e é importante, sustenta esta alternativa, é a verdade infinita transmitida pelas poderosas imagens do livro—tais c o m o "o Cordeiro" e "a Jerusalém celestial". C o m o d e v e m o s nós avaliar estas alternativas antagônicas? C o m toda a

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Ruínas do templo p r o b a b i l i d a d e e l a s n ã o s ã o m u t u a m e n t e t ã o e x c l u d e n t e s c o m o p a r e c e m . P o r é m de Artêmis em é fundamental ouvir o próprio João, pois sua introdução nos dá u m a clara Sardes. A igreja de o r i e n t a ç ã o p r e c i s a m e n t e s o b r e e s t e p o n t o . Sardes estava entre as sete 1. João define os recipientes da revelação. igrejas, sobre as D e u s , p o r i n t e r m é d i o d e J o ã o e d o a n j o q u e l h e e n v i o u (1.1), d e u e s s a r e v e l a ç ã o quais João aos " s e u s servos". N a s a u d a ç ã o q u e se segue, esses " s e r v o s " são e n t ã o exerceu mencionados: supervisão.
• " J o ã o , às s e t e i g r e j a s q u e s e e n c o n t r a m n a Á s i a : G r a ç a e p a z a v ó s o u t r o s , d a p a r t e d a q u e l e q u e é, q u e e r a e q u e h á d e vir, d a p a r t e d o s s e t e e s p í r i t o s q u e se a c h a m d i a n t e d o seu t r o n o , e d a p a r t e d e J e s u s C r i s t o . . . " (1.4,5). O livro abre c o m o u m a m e n s a g e m específica, das três pessoas da Trindade p a r a as s e t e i g r e j a s . P o r t a n t o , A p o c a l i p s e t i n h a u m g e n u í n o c o n t e x t o h i s t ó r i c o . J o ã o e v i d e n t e m e n t e e x e r c e u a l g u m t i p o d e s u p e r v i s ã o s o b r e as i g r e j a s e m E f e s o e E s m i r n a , P é r g a m o e Tiatira, S a r d e s , F i l a d é l f i a e L a o d i c é i a (1.11). E l e até m e s m o as r e l a c i o n a n a o r d e m e m q u e s e r i a m a l c a n ç a d a s p o r u m m e n s a g e i r o v i a j a n d o a o l o n g o d a e s t r a d a c i r c u l a r q u e as u n i a . E c o m o v i m o s a c i m a ( n o q u a d r o s o b r e as c a r t a s às s e t e i g r e j a s , p á g . 145), as n e c e s s i d a d e s p a r t i c u l a r e s d e cada igreja são tratadas. Este contexto histórico definido ajuda-nos em nossa avaliação dessas a l t e r n a t i v a s a n t a g ô n i c a s . A a l t e r n a t i v a preterista deve conter u m importante elemento de verdade, ao passo que a escola estritamente/wíMráfa de interpretação n ã o p o d e ser c o r r e t a . S e a m e n s a g e m d o l i v r o s e r e f e r e i n t e i r a m e n t e a o p e r í o d o i m e d i a t a m e n t e anterior à volta do Senhor, então ela não tinha n e n h u m a m e n s a g e m p a r t i c u l a r p a r a as i g r e j a s às q u a i s J o ã o d i z q u e e s c r e v e u . Entretanto, c o m o t a m b é m vimos acima, há evidência de que uma audiência m a i s a m p l a e s t á t a m b é m e m vista. I s t o i n d i c a r i a q u e a e s c o l a preterista não tem m o n o p ó l i o s o b r e a p r e c i s ã o . A m e n s a g e m p o d e ter s i d o d i r i g i d a p r i m a r i a m e n t e aos m e m b r o s das sete igrejas, m a s ela t e m relevância para todos os cristãos e m t o d o s o s l u g a r e s . P a r a i l u s t r a r isto, c o n s i d e r e m o s u m a d a s m a i s i m p o r t a n t e s v i s õ e s d e J o ã o , a d o d r a g ã o e as b e s t a s . U m das mais horripilantes imagens e m Apocalipse é a da m u l h e r m o n t a d a n u m a b e s t a d e sete c a b e ç a s (17.1 -6). E n q u a n t o a v i s ã o se d e s e n r o l a , e s s a m u l h e r é nitidamente identificada c o m o R o m a . A s sete cabeças da besta " s ã o sete montes, nos quais a mulher está sentada" (17.9). R o m a era f a m o s a c o m o a c i d a d e c o n s t r u í d a s o b r e sete c o l i n a s . A m u l h e r é r e a l m e n t e c h a m a d a " B a b i l ô n i a , a g r a n d e " (17.5), m a s os primeiros leitores não teriam n e n h u m a dúvida sobre sua verdadeira identidade. A s s i m , toda a visão era plena de sentido para eles. A m e d i d a q u e l i a m as p a l a v r a s d e J o ã o , v i a m a l u x ú r i a d e R o m a , o c o m é r c i o d o q u a l e l a se n u t r i a , s u a idolatria, a e x p l o r a ç ã o e s s e n c i a l d o s i s t e m a e c o n ô m i c o q u e ela c o n t r o l a v a — e s u a q u e d a v i n d o u r a . M a s , se a m u l h e r é R o m a , q u e m o u o q u e é a b e s t a s o b r e a q u a l R o m a se assenta? Esta m e s m a besta de sete cabeças j á havia aparecido, e m 13.1-10. J o ã o v ê a b e s t a e r g u e n d o - s e d o m a r , o l u g a r d e c a o s e lar d e t o d a s as f o r ç a s hostis a D e u s (13.1). Daniel tivera u m a visão de quatro bestas erguendo-se do m a r (Daniel 7.1-7), que se tornaram representantes de quatro impérios futuros ( D a n i e l 17.17). A b e s t a ú n i c a q u e J o ã o v ê c o m b i n a n u m a só f i g u r a as q u a t r o características distintivas de cada u m a das bestas de Daniel. Essas bestasi m p é r i o s p a r e c i a m - s e r e s p e c t i v a m e n t e c o m u m leão, u m u r s o , u m l e o p a r d o e

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u m e n o r m e dinossauro c o m dez chifres (Daniel 7.4-7). A besta de João repete tais c a r a c t e r í s t i c a s n a o r d e m i n v e r s a : ela t e m d e z c h i f r e s , e " e r a s e m e l h a n t e a u m leopardo, c o m pés c o m o de urso, e b o c a c o m o boca de leão" (Apocalipse 13.2). O que devemos fazer disso? Identificar a besta simplesmente c o m o o império r o m a n o , s o b r e o q u a l a c i d a d e d e R o m a se a s s e n t a , n ã o f a z j u s t i ç a à i m a g e m d e João e a esse cenário e m Daniel. U m a interpretação melhor está à mão, aquela q u e dá a Apocalipse u m a m e n s a g e m para todos os crentes e m todos os t e m p o s e lugares. A besta encontra sua expressão não e m qualquer império isolado, m a s e m t o d a s as m a n i f e s t a ç õ e s d e p o d e r i m p e r i a l q u e se c o l o c a m c o n t r a D e u s e seu p o v o . N a t u r a l m e n t e , n e m t o d o s o s p o d e r e s d o m u n d o p e r s e g u e m a i g r e j a . M a s m u i t o s d e l e s o f a z e m — t a l v e z a m a i o r i a d e l e s , n o c u r s o d a história. P o r que é assim? A resposta está à mão: " E deu-lhe o dragão o seu poder, o seu trono e grande autoridade" (13.2). N o final das contas, o p o d e r imperial deriva d e S a t a n á s , p o r q u e e l e g o v e r n a o m u n d o s e m r e l a ç ã o c o m seu C r i a d o r e r e q u e r l e a l d a d e p a r a si. João recebe u m a visão semelhante de u m a segunda besta, desta vez emergindo da terra (13.11-18). A m a r c a distintiva da primeira besta era fazer guerra (13.4), e e x e r c e r " a u t o r i d a d e s o b r e c a d a tribo, p o v o , l í n g u a e n a ç ã o " ( 1 3 . 7 ) . A m a r c a distintiva desta segunda besta é exigir lealdade à primeira b e s t a — n a realidade, " f a z c o m q u e a terra e os seus habitantes a d o r e m a primeira b e s t a " (13.12). A b e s t a f a z i s s o r e a l i z a n d o sinais q u e " s e d u z e m o s q u e h a b i t a m s o b r e a t e r r a " (13.14), de m o d o que eles lhe prestam culto alegremente. Os leitores originais de João estavam cercados de pessoas que alegremente participavam do culto imperial. Eles o faziam porque tinham absorvido a i d e o l o g i a r o m a n a a c e r c a d a pax romana, e sentiam-se gratos a R o m a por sua prosperidade, ignorantes das realidades do governo r o m a n o tão claramente vistas p o r J o ã o . S e a p r i m e i r a b e s t a r e p r e s e n t a o p o d e r i m p e r i a l o p r e s s i v o , e x p r e s s o e m t o d a s as suas m a n i f e s t a ç õ e s , e n t ã o esta s e g u n d a b e s t a p o d i a r e p r e s e n t a r as m u i t a s i d e o l o g i a s p e l a s q u a i s o s i m p é r i o s se s u s t e n t a m e i m p õ e m l e a l d a d e . O culto imperial era sustentado por u m p o d e r o s o sacerdócio q u e o p r o m o v i a e exercia grande influência, principalmente na Ásia Menor. A propaganda produzida por ele era intensa. É este a segunda besta? Q u a n d o as b e s t a s s ã o f i n a l m e n t e d e s t r u í d a s p o r C r i s t o e m A p o c a l i p s e 19, a segunda besta é significativamente d e n o m i n a d a "o falso p r o f e t a " (19.20). Ele i n d u z as p e s s o a s a c r e r e m n a s a l v a ç ã o a t r a v é s d o p o d e r secular. João, portanto, escreve de u m a f o r m a global, expressando sua m e n s a g e m e m t e r m o s tais q u e ela p o d e ser a p l i c a d a p e l o s cristãos à s u a p r ó p r i a s i t u a ç ã o , m e s m o que esta seja m u i t o diferente daquela de seus primeiros leitores. " S e u s servos" ( 1 . 1 ) i n c l u e m t o d o s n ó s q u e " o u v i m o s " ( 1 . 3 ) as p a l a v r a s d e s t a p r o f e c i a e p r o c u r a m o s aplicá-las ao m u n d o que habitamos. P o r t a n t o , e n q u a n t o h á v e r d a d e n a v i s ã o preterista, a visão infinito-simbólica n ã o d e v e ser d i m i n u í d a . J o ã o p r o v ê a " r e v e l a ç ã o " q u e c a p a c i t a o s c r i s t ã o s d e t o d a s as é p o c a s a v e r e m s e u m u n d o c o m n o v o s o l h o s .

2. João explica o caráter da revelação.
J o ã o c h a m a s e u l i v r o d e " r e v e l a ç ã o d e J e s u s C r i s t o " (1.1). E i m p o r t a n t e n o t a r que isto se refere ao conteúdo, b e m c o m o à fonte, d a m e n s a g e m d o livro. A a l t e r n a t i v a historicista, q u e d e s c o b r e n o livro u m a história d o m u n d o e m c ó d i g o ,

A MENSAGEM DE APOCALIPSE

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O dragão, as bestas, e sua marca
Muitos estudiosos têm observado como o dragão e as duas bestas formam uma imagem terrivelmente distorcida da Trindade do Pai, Filho e Espírito Santo: • Enquanto Deus é o Criador, sendo servido por hostes angelicais, Satanás é o Destruidor (9.11), e tem exércitos de demônios sob suas ordens. • Jesus Cristo congrega um povo para Deus de todas as nações por meio de seu sangue (5.9), mas a primeira besta promove guerra ao povo de Deus (13.7). • Jesus Cristo é o Cordeiro "como se tivesse sido morto" (5.6), aquele que "estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos" (1.18). A primeira besta parodia a morte e ressurreição de Jesus recebendo u m a "ferida mortal", que foi curada (13.3,12). • E ofício característico do Espírito Santo conceder "sinais e maravilhas" para confirmar o evangelho (p.ex., Romanos 15.18,19), e para testificar Jesus (p.ex., Atos 5.32). A segunda besta parodia esses dois papéis, realizando sinais para enganar as nações e induzi-las a adorar a primeira besta (19.20), e agir como um "falso profeta" em seu favor (19.20: 20.10). O mal sempre se veste como se fora o bem, e o pior se parece com o melhor. Deveríamos provavelmente interpretar "a marca da besta" (13.16,17; 19.20; 20.4) à luz dessa paródia. Os crentes recebem uma "marca", um "selo" de Deus, que significa que pertencem a Ele e são protegidos de danos (7.3). Por isso lemos em 14.1: "Olhei, e eis o Cordeiro em pé sobre o monte

Sião, e com ele cento e quarenta e quatro mil tendo nas frontes escrito o seu nome e o nome de seu Pai." Este quadro expressa o compromisso de dois lados presente em todo o discipulado cristão: Deus em Cristo entrega-se a si mesmo por nós, e nós aceitamos seu domínio sobre nós com alegria. Alguns dos leitores de João podem com isto estar-se lembrando do batismo de Jesus. Mas a besta também coloca uma marca sobre o povo: "A todos, os pequenos e os grandes, os ricos e os pobres, os livres e os escravos, faz que lhe seja dada certa marca sobre a mão direita, ou sobre a fronte, para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tem a marca, o nome da besta, ou o número do seu nome (Apocalipse 13.16.17). Comércio—comprar e vender—é fator fundamental à vida nesta terra. Não podemos sobreviver sem ele. Todo regime político é construído sobre ele. Muitos cristãos do primeiro século sentiram diretamente a conexão entre o comércio e os poderes do mal por meio de grupos associados voltados à adoração de um deus "defensor" ou de uma deusa "defensora". Se eles se recusassem a participar de tal idolatria, arriscariam sua subsistência. 1.900 anos mais tarde vivemos numa economia global que alimenta as nações ricas em detrimento das pobres. Os "deuses" são menos ostensivos, mas não menos reais: tecnologia, velocidade, sexo, moda, autodeterminação. Em nosso tempo também precisamos considerar como podemos "comprar e vender" sem por esse meio tomar a marca da besta sobre nós, mantendo nosso verdadeiro testemunho ao Senhor, cujo nome usamos.

t e n t a e s q u e c e r seu p r i n c í p i o e s s e n c i a l . D e i x a n d o t o t a l m e n t e d e l a d o a v a r i e d a d e d e i n t e r p r e t a ç õ e s q u e o s historicistas s u g e r i r a m , a o b j e ç ã o p r i n c i p a l a este m é t o d o de interpretação é que ele perde de vista tanto a necessidade da igreja c o m o o Senhor da igreja. O que u m a igreja perseguida necessita não é u m a previsão d e t a l h a d a d o s e v e n t o s f u t u r o s , a q u a l t e m d e ser l a b o r i o s a m e n t e d e c i f r a d a , m a s u m a visão de Jesus Cristo para confortar o abatido e animar o cansado. O propósito de João é prático, não acadêmico. Ele não é apenas u m visionário; ele é t a m b é m u m pastor. S e u d e s e j o n ã o é o d e s a t i s f a z e r n o s s a c u r i o s i d a d e s o b r e o f u t u r o , m a s e s t i m u l a r n o s s a f i d e l i d a d e n o p r e s e n t e . E l e repetiu, é v e r d a d e , " q u e e m b r e v e d e v e m a c o n t e c e r " (1.1), m a s o f u t u r o que ele antevê está totalmente e m estreita ligação c o m Jesus Cristo, que está reinando agora c o m o " s o b e r a n o d o s reis d a t e r r a " (1.5), e q u e b r e v e m e n t e v i r á (1.7). É p a r a E l e q u e João dirige nossa atenção, não apenas para o futuro. Ele é representado por uma variedade de formas: • P r i m e i r o v e m o - l o entre os candeeiros, supervisionando, e s t i m u l a n d o as i g r e j a s ( 1 . 1 2 - 2 . 1 ) . investigando,

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HOMENS COM UMA MENSAGEM

• E m seguida Ele é visto c o m o u m Cordeiro, j u n t o ao trono do Pai, exclusivamente qualificado para r o m p e r os selos do livro do destino (capítulos 5-7). • Depois Ele é revelado c o m o o Cristo de Deus, que i m p õ e a vitória e o governo d e D e u s s o b r e t o d a s as f o r ç a s o p o n e n t e s ( 1 1 . 1 5 ; 12.10). • A cena m u d a novamente, e agora Ele é o homem-criança ao qual a mulher v e s t i d a d e sol d á à l u z e o q u a l o d r a g ã o t e n t a d e v o r a r ( 1 2 . 1 - 6 ) . • U m a vez mais Ele é "o Cordeiro", porém desta vez à frente de u m exército de cantores redimidos (14.1-5). • D e p o i s E l e é o " f i l h o d e h o m e m " , o a g e n t e d a ira f i n a l e o j u í z o d e D e u s (14.14-16). • A s s e m e l h a n d o - s e a isto, E l e é a p r e s e n t a d o c o m o o g u e r r e i r o q u e c a v a l g a u m cavalo branco à frente dos exércitos celestiais para julgar e fazer guerra contra seus inimigos (19.11-16). • F i n a l m e n t e , E l e é o e s p o s o p a r a q u e m a igreja, s u a noiva, d e s c e d o c é u a d o r n a d a e perfeita (21.1-9). J o ã o t e v e e s s a s v i s õ e s u m a a p ó s o u t r a , m a s isto n ã o s i g n i f i c a q u e elas r e t r a t a m a c o n t e c i m e n t o s n a t e r r a q u e se r e a l i z a m n a m e s a o r d e m . C a d a v i s ã o t r a n s m i t e u m a v e r d a d e e s p e c í f i c a s o b r e C r i s t o q u e o s c r i s t ã o s d e t o d a s as é p o c a s p o d e m a s s i m i l a r e a p l i c a r a si m e s m o s . C r i s t o n ã o d e d i c o u p r i m e i r a m e n t e u m t e m p o e m c o m u n h ã o c o m as i g r e j a s n a terra, s u p e r v i s i o n a n d o , n o m e i o d o s c a n d e e i r o s (2.1), e e m s e g u i d a p a r t i u p a r a o c é u p a r a t o r n a r - s e o C o r d e i r o s o b r e o t r o n o (5.6). A s d u a s v i s õ e s s ã o v e r d a d e i r a s p a r a t o d o s o s t e m p o s , e i n c e n t i v a d o r a s para todos os cristãos. A seqüência histórica, p o r é m , exerce u m papel e m certos aspectos. Vários dos "setes" t e r m i n a m c o m u m a visão do j u í z o final ou da salvação. Isto é verdadeiro para o sexto selo (6.12-17), a sétima trombeta (11.15-18), o sexto sinal d o c é u ( 1 4 . 1 4 - 2 0 ) , a s é t i m a t a ç a ( 1 6 . 1 7 - 2 1 ) , e, n a t u r a l m e n t e , a v i s ã o f i n a l d a n o v a Jerusalém (21.1-22.6). M a s e m todos esses casos os itens precedentes d a s séries n ã o s e g u e m c r o n o l o g i c a m e n t e a s e q ü ê n c i a q u e l e v a a o F i m . C a d a "sete" é como uma equipe de fotógrafos focalizando o m e s m o cenário de u m ângulo diferente, cada qual proporcionando u m a percepção de cada faceta diferente do m u n d o , de seu S e n h o r e de seu futuro. E s t a c o m p r e e n s ã o de Apocalipse foi proposta há mais de cinqüenta anos pelo estudioso norteamericano William Hendriksen, que lhe deu o n o m e de "paralelismo progressivo". S u a teoria baseia-se e m que cada u m a das partes do livro cobre u m t o d o da história, c o m u m a ê n f a s e gradativa sobre o Fim, c o n d u z i n d o ao grande clímax nas visões finais do juízo e da salvação nos capítulos 20 a 22.

3. João indica o método da revelação.
Apocalipse e m p r e g a muitos sinais ou símbolos que a p o n t a m — a l é m deles p r ó p r i o s — p a r a u m s e n t i d o m a i s p r o f u n d o q u e n ó s , l e i t o r e s , t e m o s d e discernir. Recentemente os estudiosos têm enfatizado que algumas verdades somente p o d e m ser e x p r e s s a s p e l o u s o d e s í m b o l o e m e t á f o r a , p o r q u e e s t e s p o d e m d a r v o z às idéias e p e n s a m e n t o s dentro dos limites de n o s s a c a p a c i d a d e d e compreensão. A s i m a g e n s produzidas pelas visões são m u i t o ricas. Elas d e r i v a m da natureza (p.ex., c a v a l o , c o r d e i r o , leão, l o c u s t a , e s c o r p i ã o , á g u i a , á r v o r e , c o l h e i t a , m a r , rios, terra, c é u ) , d a v i d a h u m a n a (p.ex., c o m é r c i o , g u e r r a , i d o l a t r i a , n a s c i m e n t o ,

A MENSAGEM DE APOCALIPSE

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Parte do aqueduto construído para s u p r i r a antiga Laodicéia. A água n e s t a á r e a é rica em minerais; depósitos de calcário p o d e m ser vistos nas paredes internas do aqueduto.

prostituição, agricultura, medicina, governo, edifício), e do Velho Testamento (p.ex., B a b i l ô n i a , J e r u s a l é m , J e z a b e l , E g i t o , S o d o m a , o T e m p l o e seus acessórios, m a n á , a á r v o r e e o livro, a á g u a d a v i d a , J e s u s c o m o C o r d e i r o , L e ã o e R a i z , etc.) T r ê s p r i n c í p i o s d e v e m o r i e n t a r n o s s a i n t e r p r e t a ç ã o d e s s a s i m a g e n s : a. Muito dela é usado simplesmente um sentido independente para dar um efeito dramático em cada detalhe. intensificado

e não possui

P o r e x e m p l o , as p e d r a s

p r e c i o s a s q u e d e c o r a m as p a r e d e s d a J e r u s a l é m c e l e s t i a l ( 2 1 . 1 9 ) p o d e m n ã o s i g n i f i c a r e m si a l g u m a c o i s a d i f e r e n t e . O m e s m o se a p l i c a às p e d r a s p r e c i o s a s q u e a d o r n a m a g r a n d e p r o s t i t u t a (17.4; 18.16)! b. A imagem é simbólica e não pictórica, e entende-se que deve ser interpretada

e não visualizada.

N ã o d e v e m o s ser l e v a d o s a i m a g i n a r c r i a t u r a s c h e i a s " d e

o l h o s p o r d i a n t e e p o r d e t r á s " (4.6), m a s l e m b r a r - n o s d e sua i n c e s s a n t e vigilância. N e m d e v e m o s tentar visualizar u m a besta c o m dez chifres, sete cabeças, e u m a b o c a (13.1,2), p o r é m d e v e m o s impressionar-nos c o m o terrível poder da besta e s u a a s s u s t a d o r a b l a s f ê m i a ( 1 3 . 5 ) . A l g u m a s v e z e s é a i m p o s s i b i l i d a d e literal d a i m a g e m q u e f a z c o m q u e ela s e j a p o d e r o s a , c o m o n o c a s o d a g r a n d e m u l t i d ã o d i a n t e d o t r o n o d e D e u s , q u e " l a v a r a m s u a s v e s t i d u r a s , e as a l v e j a r a m n o s a n g u e do Cordeiro" (7.14). c. Muito embora alguns dos detalhes não sejam "significativos ser olhadas " por si como mesmos, e

basicamente não literais.

todas

as coisas

no livro devem

simbólicas,

A l g u m a s c o i s a s s ã o o b v i a m e n t e literais, tais c o m o as r e f e r ê n c i a s

aos nicolaítas (2.6,15) e a p r ó x i m a prisão de alguns dos cristãos de E s m i r n a (2.10). M a s , se n e n h u m a r e f e r ê n c i a literal f o r ó b v i a , e n t ã o u m s e n t i d o s i m b ó l i c o d e v e ser b u s c a d o — m e s m o q u a n d o e s t e j a c l a r o q u e u m a c a r a c t e r í s t i c a " l i t e r a l " da vida na Ásia M e n o r esteja e m mente. Por exemplo, havia u m a indústria f a r m a c ê u t i c a e m L a o d i c é i a q u e p r o d u z i a u m f a m o s o colírio. M a s , q u a n d o C r i s t o

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HOMENS COM UMA MENSAGEM

diz aos laodiceianos q u e c o m p r e m dele "colírio para ungires os teus olhos, a f i m d e q u e v e j a s " (3.18), o c o l í r i o s i m b o l i z a a l g u m a o u t r a coisa. D e i g u a l m o d o , as p r ó p r i a s i g r e j a s s ã o t a n t o literais c o m o s i m b ó l i c a s : e l a s s ã o i g r e j a s reais, p o r é m representam a igreja universal de Cristo. E o n ú m e r o " s e t e " q u e s u g e r e o q u e as i g r e j a s s i m b o l i z a m . O s i m b o l i s m o d o s n ú m e r o s é u m a d a s características m a i s p r o e m i n e n t e s d a s i m a g e n s d e A p o c a l i p s e (veja o quadro a seguir). Há, portanto, v e r d a d e e m todas as quatro escolas d e interpretação. Os simbolistas e s t ã o c e r t o s e m insistir q u e as i m a g e n s d e A p o c a l i p s e e n s i n a m grandes verdades sobre Deus, Cristo, a igreja, o m u n d o e os poderes do mal, f u n d a m e n t a i s p a r a q u e a i g r e j a as c o n h e ç a e m t o d o s o s t e m p o s e l u g a r e s . O s preteristas estão corretos ao enfatizar a relevância dessas verdades para os seus estão certos c e n á r i o s e l e i t o r e s e s p e c í f i c o s d o p r i m e i r o s é c u l o . O s historicistas s é c u l o . E o s futuristas

e m procurar a relevância para toda a história universal, não apenas a do primeiro corretamente destacam sua preocupação c o m o destino final d o m u n d o e da igreja.

Uma análise pastoral
Resumindo: o que o livro ensina à igreja de Cristo? Podemos analisar muito brevemente sua m e n s a g e m , c o m o segue:

• Capítulos 1-3: A vida da igreja em Cristo. Esta parte é dominada pela visão
d o C r i s t o l e v a n t a d o e g o v e r n a n d o n o c a p í t u l o 1. S u a i g r e j a p o d e ser f r a c a , s o f r e d o r a , a t é c o m p l a c e n t e , m a s ela d e s c a n s a e m s u a s m ã o s e E l e m i n i s t r a p a r a as n e c e s s i d a d e s d e l a .

• Capítulos 4-7: A segurança da igreja por meio de Cristo. As visões nos
capítulos 4 e 5 apresentam Deus de u m a perspectiva do Velho Testamento ( c a p í t u l o 4), e d e p o i s d e u m a p e r s p e c t i v a d o N o v o T e s t a m e n t o . A p e s a r d e t o d o s os s o f r i m e n t o s q u e f a z e m p a r t e d a v i d a n e s t e m u n d o ( c a p í t u l o 6), a i g r e j a é salva, "selada" c o m u m a m a r c a d o d o m í n i o d o senhorio de Deus, q u e governa com incontestável poder do trono do universo.

• Capítulos 8-11:0 testemunho da igreja sobre Cristo. As trombetas anunciam
as a d v e r t ê n c i a s d e D e u s a u m m u n d o p e c a m i n o s o e i d ó l a t r a ( 9 . 2 0 , 2 1 ) , e n q u a n t o a igreja dá testemunho—simbolizado primeiro pelo próprio João, a q u e m é dada u m a profecia para o m u n d o (10.9-11), e e m seguida por duas testemunhas, q u e d ã o u m f i e l t e s t e m u n h o , a d e s p e i t o d e t e r r í v e l o p o s i ç ã o ( c a p í t u l o 11).

• Capítulos 12-14: O conflito da igreja por Cristo. O que se esconde atrás da
o p o s i ç ã o d o m u n d o à i g r e j a ? A q u i o v é u é r e m o v i d o , e v e m o s o s três v e r d a d e i r o s i n i m i g o s , q u e t e n t a r a m d e s t r u i r o p r ó p r i o C r i s t o e a g o r a t e n t a m d e s t r u i r o seu p o v o ( 1 2 . 1 7 ) . M u i t o e m b o r a l h e f o s s e " d a d o [à b e s t a ] t a m b é m q u e p e l e j a s s e contra os santos e os v e n c e s s e " (13.7), entretanto, de outra perspectiva, a igreja está salva, alimentada c o m o Elias n o deserto (12.14), e c o n g r e g a d a c o m o Cordeiro no m o n t e Sião (14.1-5).

• Capítulos 15-20: A vingança da igreja por intermédio de Cristo. A visão

A MENSAGEM DE APOCALIPSE

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Números em Apocalipse
Os números são usados simbolicamente em todo Apocalipse, principalmente quatro, sete, dez, doze e múltiplos destes. • Uma vez que há quatro pontos na bússola e quatro ventos na terra (7.1), o número quatro parece representar o universo criado. Os quatro "seres viventes" que adoram em volta do trono (4.6-9) parecem simbolizar toda a criação animada em sua dependência do Criador. • O número sete denota completitude e perfeição, provavelmente porque a história da criação cobre sete dias no livro de Gênesis. As sete igrejas da Ásia, portanto, embora históricas, também representam a igreja universal. Este simbolismo sustenta o ponto de vista de que cada u m dos "setes" de Apocalipse apresentam um retrato completo do mundo visto de um "ângulo" particular. Ele também sugere a interpretação do "número da besta", em 13.18: 666 indica a total imperfeição, alguma coisa que se esforça para parecer perfeita, mas é notoriamente deficiente. • Doze é o número do povo de Deus, porque houve doze tribos no Velho Testamento e doze apóstolos no Novo Testamento. Os vinte e quatro anciãos assentados em volta do trono devem portanto simbolizar a igreja adoradora de ambos os Testamentos. Este simbolismo figura na descrição da nova Jerusalém, em 21.12-14. • O número dez parece indicar o soberano conhecimento e propósito de Deus. Os cristãos de Esmirna terão uma "tribulação de dez dias", sugerindo que a extensão da perseguição é predeterminada por Deus (2.10). De modo semelhante, os dez chifres e coroas da besta (13.1; compare com 17.12) sublinham a soberania final de Deus sobre os poderes do mal. A mesma idéia é transmitida quando outro número é multiplicado por dez. Exemplo: 144.000 (7.4; 14.1) é 12 x 12 x 1.000, e claramente representa todo o povo de Deus redimido de ambos os Testamentos, cuja extensão é exatamente conhecida por Ele. Do mesmo modo, os "mil dias" de 20.2-4,7 devem quase certamente ser entendidos para simbolizar um longo e não especificado período, cuja exata extensão é determinada por Deus. • Outro número importante é três e meio, u m período simbólico que João extraiu de Daniel (Daniel 7.25; 9.27; 12.7). Este período pode ser considerado como "três dias e meio" (11.9). "um tempo, tempos, e metade de um tempo" (12.14), quarenta e dois meses (11.2; 13.5) e 1.260 dias (11.3; 12.6). Se o mês é contado como trinta dias, este período é o mesmo em cada caso. Ele parece ser a idade da nova aliança, todo o tempo decorrido entre a primeira e a segunda vindas de Cristo, quando a igreja dá testemunho e é perseguida, sendo confortada e alimentada por Deus em face da grande oposição.

d o s i n i m i g o s d a i g r e j a é s e g u i d a p e l a v i s ã o d e s u a d e s t r u i ç ã o . O s selos ( c a p í t u l o s 6 e 7) m e n c i o n a m o q u e D e u s permite 11) m o s t r a m c o m o D e u s adverte i n d i c a m c o m o D e u s julga neste m u n d o . A s trombetas (capítulos 8seu m u n d o . A g o r a as t a ç a s ( c a p í t u l o 16)

seu m u n d o . D e p o i s a d e s t r u i ç ã o d e R o m a é r e t r a t a d a

( c a p í t u l o 18), s e g u i d a p e l a d e s t r u i ç ã o d o s três i n i m i g o s , n a o r d e m c o n t r á r i a à o r d e m e m q u e f o r a m a p r e s e n t a d o s n o s c a p í t u l o s 12 e 13.

• Capítulos 21 e 22: A união da igreja com Cristo. Tendo testemunhado o
j u í z o final d o m u n d o (capítulos 15-20), J o ã o agora v ê o destino final d a igreja. Ela é unida c o m Cristo n u m a " n o v a criação", da qual a m o r t e e o sofrimento são banidos, e a qual traz a u m perfeito c u m p r i m e n t o todo o plano de D e u s para o mundo. A m e n s a g e m d e A p o c a l i p s e é, s e m d ú v i d a , p o d e r o s a . E l a e s t á c e n t r a l i z a d a n a v i s ã o d o C r i s t o q u e p a r t i c i p a d o s o f r i m e n t o e m o r t e d e s e u p o v o e d e p o i s se assenta n o trono de D e u s . Ela nos leva além do caos e d o t r a u m a da história do mundo, e de nossas próprias vidas, à nossa segurança no plano de Deus, tanto para nós c o m o para o m u n d o . Ela nos horroriza c o m seu rígido retrato da morte e do mal, e depois levanta nossos espíritos ao céu p o n d o e m nossos lábios p a l a v r a s d o m a i s s u b l i m e l o u v o r . E n q u a n t o c a n t a m o s c o m as h o s t e s c e l e s t i a i s ,

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HOMENS COM UMA MENSAGEM

sabemos que os poderes do mal foram derrotados, e nós estamos redimidos: " A o n o s s o D e u s q u e se a s s e n t a n o t r o n o , e a o C o r d e i r o , p e r t e n c e a s a l v a ç ã o ! " (7.10).

Leitura adicional
Menos exigente:

John Stott, What Christ Thinks of the Church (Milton Keynes, UK: Word, 1990)—uma exposição de Apocalipse 2 e 3 Michael Wilcock, The Message of Revelation. I Saw Heaven Opened (Série "The Bible Speaks Today") (Leicester: IVP, 1975) Michael Williams, The Power and the Kingdom. Power, Politics and the Book of Revelation (Eastbourne: Monarch, 1989)

Mais exigente, obras eruditas:
Donald Guthrie, The Relevance of John's Apocalypse (Exeter: Paternoster / Grand Rapids: Eerdmans, 1987) C. J. Hemer, The Letters to the Seven Churches of Asia in the Local Setting (Sheffield: JSOT Press, 1986) J. M. Court, Myth and History in the Book of Revelation (Londres, SPCK, 1979)

índice
A p o c a l i p s e 141-156 autoria 142-143 estrutura 154-155 interpretação 146-154 Apóstolos, ver Discípulos e nomes A t o s 59, 61-67 estrutura 61-67 Batismo 95 C o b r a d o r e s de i m p o s t o s Cura 51-52 Discipulado 12,27-28 Discípulos m e d o 16-17 ver também nomes E d i f i c a ç ã o 100-102 E s p e r a n ç a 137-138 Evangelhos 31-32,53-54 individuais

e os E v a n g e l h o s sinópticos 6 9 - 7 0 estilo 7 0 estrutura 70, 7 8 - 8 0 J o ã o Batista 33 J u l g a m e n t o 105 Justificação 92-96 Latim, língua no Evangelho de Marcos Lucas 46-48 Lucas, Evangelho 46-67 estilo 4 7 - 4 8 estrutura 59-61 temas 49-67 M a r c o s 12-24 a b a n d o n a P a u l o 16 c a s a m a t e r n a 14 M a r c o s , E v a n g e l h o 12-28 b a s e a d o e m P e d r o 19-20 estilo 21 estrutura 2 2 propósito 23-24 t e m a s 12-13 Mateus 29-38 conversão 32-34 e J o ã o Batista 33 Mateus, Evangelho 29-45 estilo 38 estrutura 37 temas 39-45 u s o d o Velho T e s t a m e n t o 36, 3 7 M e l q u i s e d e q u e 110-112 M e s s i a s 26-27, 36-37, 39 M i s e r i c ó r d i a , ver P e r d ã o Mulheres 50-52 N u m e r o l o g i a 147, 154 Oração 56-67 Paulo 86-106 c o n v e r s ã o 87-91 e Lucas 48-49 viagens m i s s i o n á r i a s 6 3 - 6 7 Paulo, Epístolas 9 1 - 1 0 6 P e d r o 128, 130-134 e M a r c o s 19-20 seu n o m e 131 Pedro, Epístolas 128-140 autoria 128-129 t e m a s 134-140 Perdão 34-35 Pobreza 55 14

individuais

relação entre 13, 29-31, 6 9 - 7 0 ver também nomes individuais Fariseus 35, 38 F é 73-77, 117 Filho de D a v i 37 Filho de D e u s 4 2 - 4 4 Filho d o H o m e m 4 4 - 4 5 G l o r i f i c a ç ã o 102-105 G n o s t i c i s m o 81 H e b r e u s , C a r t a aos 107-118 autoria 108 t e m a s 108-118 Isaías nas epístolas d e P e d r o Jesus 136

autoridade 26, 39 c o m o Filho de D a v i 37 c o m o F i l h o de D e u s 4 2 - 4 4 c o m o Filho d o H o m e m 4 4 - 4 5 c o m o M e s s i a s p r o m e t i d o 26-27, 36-37, 39 c o m o rei de Israel 35-36, 4 5 m o r t e 14, 25-27, 44, 112-116, 135-136 s e g u n d a v i n d a 104-105 J o ã o (autor de A p o c a l i p s e ) 1 4 2 - 1 4 3 J o ã o (autor do E v a n g e l h o e das epístolas) 6872 João, Epístolas 68, 80-85 João, E v a n g e l h o 6 8 - 8 0

158

HOMENS COM UMA MENSAGEM

Ressurreição dos mortos Santificação 96-100 Segunda vinda de Cristo S e t e I g r e j a s , C a r t a s às Silas Tiago 129 115 119-127 119-123 Tabernáculo

105 104-105

S e t e , o n ú m e r o , e m A p o c a l i p s e 147, 154 145-146

Tiago, Epístola

Velho Testamento cumprido e m Jesus 39-40, 132 exemplificado como evidência por João influência sobre Apocalipse na Carta aos Hebreus nas epístolas de Pedro 109 135-136 143-144

Fotos e Ilustrações

Todas as f o t o g r a f i a s são originárias de Tiger C o l o u r Library, T h r e e ' s C o m p a n y , e x c e t o as das páginas seguintes, q u e f o r a m r e p r o d u z i d a s c o m p e r m i s s ã o de Z e v R a d o v a n : pp. 1, 43, 55, 56, 61, 73, 77, 90, 139. Ilustrações de J a m e s M a c d o n a l d nas pp. 115 e 117.

HOMENS COM UMA MENSAGEM Uma Introdução ao Novo Testamento e seus Escritores
J O H N STOTT

Revisado por Stephen Motyer

"A particularidade de cada autor do Novo Testamento não è de modo algum restrita a um único processo de inspiração. Antes, pelo contrário, o Espírito Santo primeiro preparou, e em seguida usou sua individualidade de formação, experiência, temperamento e personalidade, a fim de transmitir por meio de cada um alguma verdade distinta e apropriada." John Stott

O objetivo desta edição completamente revisada da obra clássica do Dr. Stott foi a de torná-la acessível à nova geração, refundindo a linguagem, adaptando-a às versões bíblicas recentes, e acrescentando fotos a cores e mapas informativos.

l i » . !STA U N I D A

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