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DO LIMITE À TRANSCENDÊNCIA

“Uma vez que aceitemos nossos limites, podemos transcendê-los” (Bendan


Francis)

Um artista havia pintado um magnífico ícone que representava o Cristo


abraçando Adão no inferno. Alguém lhe perguntou:
- “Que significa esse ícone para o senhor?”
E ele respondeu-lhe: “Se o ser humano se reconciliar consigo mesmo em seu inferno – ou
seja, com seu lado obscuro, com sua fragilidade, com seus limites – e, em vez de rechaçar, ele
abraçar tudo isso com amor, neste caso, o divino poderá brilhar... Para mim, eis o que é
Ressurreição”.

Vida nova é aceitar o que é fragilidade e limite em nós mesmos (nossa


sombra). Não existe subida para a luz sem a aceitação e a travessia de nossa
sombra. Não somos tais como “deveríamos” ser, mas somos tais como somos e
é a partir daí que podemos mudar, crescer...
Não se pode pensar o limite como sendo uma falta ou ausência, porque o limite
é uma realidade; somos criaturas e por isso, finitos, imperfeitos, inacabados...
Em outras palavras, o limite é o ser humano mesmo, sou eu mesmo; é a
experiência da própria existência.
O limite em si mesmo não representa um defeito, uma desordem do ser.
O limite é só a realidade onde afundamos nossos pés. Ser limitado não é ser carente de alguma coisa que
lhe era devida, mas é ser aquilo que naturalmente se é.
A realidade do limite se revela na profundidade do ser humano; é algo de constitutivo e íntimo do ser.
O ser humano é pleno do seu limite. Todas as suas atividades são, portanto, marcadas pelo limite: pensar,
conhecer, comunicar, entender, amar, perdoar... são sempre experiências “limitadas”.
Podemos dizer que o ser humano é, literalmente, “ser-no-limite”.

Mas o limite não é uma realidade inoperante, estática... mas dinâmica, porque
é no limite que o ser humano se realiza. No ser humano, o limite é a raiz da sua
abertura aos outros, à Criação, à Transcendên-
cia. Isto se deve ao fato de que, no ser humano, o limite é perpassado pela
vitalidade do espírito.
O limite do ser humano tem uma marca do espírito, pelo qual transcende o
próprio limite.
O limite, de fato, desafia o ser humano a transcender o próprio mundo; é um chamado à realização do
próprio ser. Neste sentido, o limite não o empobrece, mas revela a sua verdadeira riqueza; o limite é a
raiz de uma imensa abertura.
Na “consciência do limite” o ser humano encontra motivos para se abrir aos outros e ao Outro.
Ele é impulsionado a ir para além de si mesmo, num movimento horizontal de encontro com os outros e
num movimento vertical em direção ao Infinito.

Sendo limitado na sua própria essência, o ser humano é um insaciável na sua


busca: é o desejo que jamais se apaga, a inquietude que jamais se aplaca, a
insatisfação que jamais encontra trégua, a realização que não se completa
jamais.
O ser humano está sempre dentro de seus limites, mas é no coração dele que o
homem se abre e transcende a própria finitude. É da experiência da limitação e
da imperfeição que brota o fenômeno da auto-transcendência. No seu próprio
limite o ser humano conhece o infinito. No seu ser finito, mas vitalizado pelo
espírito, o ser humano vislumbra o Infinito.
Podemos dizer, então, que no limite o ser humano não perde seu mistério; o
limite coincide com a profundidade do seu ser. É a profundidade que
impulsiona o ser humano a procurar a altura.
O ser humano é o único ser que, sendo limitado, é totalmente aberto ao infinito.
É da fragilidade e da limitação que nasce também a criatividade.
“Tudo aquilo que no homem é criativo deriva do princípio da infinita insatisfação” (Abraham
Heschel).

Portanto, a acolhida do limite é importante para a saúde da pessoa; quando ela


não aceita o limite, renuncia a viver uma vida emotivamente sadia. A vida se
torna insuportável. Ao acolher o limite a pessoa se torna humana. E “tornar
-se humano” é uma decisão diante da realidade limitada do próprio ser.
Quem não consegue acolher seu limite perde-se de vista como ser humano.
Textos bíblicos:

Na oração: A consciência dos próprios limites tem uma função curativa.


Ela torna possível o movimento para a verdade de si mesmo.
Qual o grau de aceitação da sua fragilidade?