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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO


CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE
NÚCLEO DE ESTUDOS DE SAÚDE COLETIVA
MESTRADO EM SAÚDE COLETIVA

Hom ens - Razã o e Sensibil idade


Ideol ogias de gênero m asculin o
e o cuidad o com a saúde

Dissertação submetida como requisito


parcial para obtenção do grau de
Mestre em Saúde Coletiva

Autor: Baldinir Bezerra da Silva


Orientadora: Regina Helena Simões Barbosa

Rio de Janeiro – 2005


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Resumo

Esta pesquisa analisa as ideologias de gênero expressas nas falas


de homens participantes de Grupos de Reflexão de Gênero, e as
implicações decorrentes desses modelos de masculinidade nos modos
como esses homens se relacionam com o processo saúde/doença.

A base de dados utilizada foram as transcrições de três grupos


focais realizados com homens participantes de grupos reflexivos
formados pelo Projeto “Homens, Saúde e Vida Cotidiana – Uma Proposta
de Pesquisa -Ação”, realizado pelo Núcleo de Gênero e Saúde–
ENSP/FIOCRUZ e Laboratório de Gênero e Saúde – NESC/UFRJ.

Os referenciais teóricos adotados foram o conceito de ideologia,


conforme proposto por John B. Thompson (1995), e o Conceito de
Gênero, focalizando especialmente o viés das masculinidades. A
Hermeneutica-dialética foi escolhida como referencial metodológico para
o tratamento e interpretação dos dados.

Os resultados encontrados sinalizam a emergência de novos


padrões de masculinidade convivendo com padrões hegemônicos
tradicionais. Estes últimos são reconhecidos como fatores
potencialmente agravantes à saúde do homem e à qualidade das
relações humanas. A formação de grupos reflexivos mostrou ser uma
técnica frutífera para o trabalho com homens.
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ABSTRACT

This research analyses the gender ideologies manifested in the


speeches of men that took part on Gender Reflection Groups and the
implications of these male models on the ways these men relate to the
process of health/illness.

The source of the data used are audio tape transcriptions of three
focal groups with men who participated of reflection groups of the
Project Men, Health and Daily Life (ENSP -FIOCRUZ and Gender and
Health Laboratory, NESC/UFRJ).

The theoretical guidelines were the concept of ideology, according


to John B. Thompson’s proposal (1995) and the category of gender, with
special focus on masculinities. Dialectic hermeneutics was chosen as
methodological grounding for data treatment and interpretation.

The findings point to the rise of new masculinity patterns parallel


to traditional hegemonic patterns. The latter are recognized as
potentially harmful to men’s health and to the quality of human
relations. Reflection groups proved to be a fruitful technique for working
with men.
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Ficha Catalográfica

Bezerra da Silva , Baldinir


Homens: Razão e Sensibilidade – Ideologias de gênero Masculino e o
cuidado com a saúde / Baldinir Bezerra da Silva. Rio de Janeiro: UFRJ /
CCS / NESC, 2005. 165 p.
Dissertação – Universidade Federal do Rio de Janeiro, CCS, NESC.
1. Ideologia
2. Gênero
3. Masculinidade
4. Saúde do homem
5. Tese (Mestr. NESC/UFRJ)
I. Título
5

Dedicatória

Aos meus Pais, Francisca e Bartholomeu (in


memoriam), por terem me dado o alicerce para construir
meus caminhos, ensinando-me a ver beleza na vida.

Aos meus padrinhos, Ofélia e Ângelo, por terem


assumido verdadeiramente o compromisso firmado com
meus pais na pia de batismo.
6

AGRADECIMENTOS

No decorrer destes dois últimos anos, me vi agraciado por toda uma


gama de energias impulsoras que, sem dúvida, garantiram que agora eu
pudesse estar apresentando os resultados desse meu trabalho.

O Financiamento concedido pela CAPES, no segundo ano do mestrado,


constituiu-se num ponto crucial para que eu conseguisse levar a termo esta
pesquisa. Sem essa bolsa, teria sido impossível.

À minha orientadora, Regina Helena Simões Barbosa, por todo apoio,


incentivo, tolerância e cuidados manifestos durante toda essa trajetória.
Conheci muito poucas pessoas tão bem resolvidas como a professora
Regina.

A Karen Giffin, juntamente com Regina Helena Simões Barbosa, pela


oportunidade de atuação nos projetos do NESC/URFJ, espaço que abriu
meus horizontes para este objeto de pesquisa, e me possibilitou
experiências de crescimento incalculáveis, como profissional e como
pessoa. Agradeço também pela utilização do espaço do Laboratório de
Gênero e Saúde da ENSP/FIOCRUZ. Foi um previlégio.

Aos colegas de equipe dos projetos da ENSP-FIOCRUZ e NESC/UFRJ:


Lucia Baptista, Mauro Brijeiro, Luis dos Santos Costa, Sinésio Jefferson de
Andrade, Willer B. Marcondes, Cristina Cavalcanti e Irene Lowenstein.

Aos colegas, professores e funcionários do NESC/UFRJ que, junto com


minha orientadora, contribuiram para enriquecer a vivência do Mestrado.
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À professora Maria Lúcia Magalhães Bosi pelo apoio e incentivos


fenomenais.

Ao professor Romeu Gomes que, juntamente com a professora Karen


Giffin, se prestou a uma leitura atenta de meu trabalho, apresentando
contribuições valorosas por ocasião do meu exame de qualificação.

Aos homens, participantes dos diversos grupos de reflexão de gênero do


Projeto “Homens, Saúde e Vida Cotidiana”, em especial os 18 participantes
dos grupos focais que geraram as transcrições que ora analisamos. Estes
homens, através de suas falas, nos permitiram acessar uma parcela de sua
subjetividade, possibilitando a construção de um novo conhecimento sobre
as masculinidades. Quero crer que, a partir daí, tornei-me um homem
mais sensível diante da vida.

Aos meus irmãos, Bernadete, Baldoméro, Byron, Baldomar, Beverly e


Berenilde, e meus respectivos sobrinhos, pela torcida e por tornarem
sempre presente a sensação de pertencimento à uma família deliciosa.

À Vera Joana, Maria das Graças, Anália Lara, Ana Maria Brás, Ana
Cristina Vieira, João Paulo Bezerra, Rogério, Lícia Nara, Paulo Duarte,
Wilson Correa, Clotilde Tavares, Sebastião Juarez, Heloisa Castro Berro, C.
Alberto Soffredini (in memorian), Maria Helena Belalian, Abadia, Gracinha,
Marco Antonio, Elisabete Cataldi, Diva, todas as Donas Marias, Nêga
Simone, e tantos outros que, próximos ou distantes, deram muito estímulo
para que eu prosseguisse até o fim.

A todos os grupos e pessoas que me acolheram num recente período de


caos pessoal, que me fez ver à minha vida de forma realista e serena.da
vez. Nesse rol, um agradecimento especial à, pela sua perspicácia,
competência, e generosidade sem tamanho.
8

“Muitas vezes, as pessoas habilitadas a falar sobre o


mundo social não sabem coisa alguma do mundo
social, e as pessoas que realmente conhecem o
mundo social não são capazes de falar dele... por essa
razão, o processo de autocrítica, que se pode praticar
estudando a mente intelectual acadêmica, é vital. É
por assim dizer, uma condição pessoal necessária
para qualquer tipo de comunicação sobre a
ideologia.”

Pierre Bourdieu
9

SUMÁRIO

1. Apresentação ..................................................................................10
1.1. Introdução.....................................................................................14
1.2. Contextualização ...........................................................................19
1.2.1. Histórico do PHSVC.............................................................20
1.2.2. O Enfoque Conceitual e Metodológico do PHSVC.....................22
1.2.3. Os Grupos de Reflexão de Gênero do PHSVC..........................25
1.2.4. Os temas Geradores...................................................... 26
2. Objetivos........................................................................................ 28
3. Referenciais Teóricos/Conceituais....................................................... 29
3.1. Ideologia.: um conceito reformulado........................................... 29
3.2. Referencial de Gênero............................................................... 32
3.2.1. O Gênero Masculino em foco............................................... 41
3.2.2. A Saúde do homem............................................................50
3.2.3. Masculinidade: Temas emergentes...................................... 57
4. Metodologia......................................................................................67
4.1. Discussão metodológica: Uma Questão de Qualidade..................... 67
4.2. Tratamento dos Dados: Explicando o Vir-a-Ser............................. 70
5. Os Informantes: Participantes dos Grupos Focais................................ 78
5.1. Resultados encontrado: Os informes............................................83
5.3. Bloco 1 - Modelo Hegemônico de Masculinidade.............................85
5.4. Bloco 2 – Modelos Contra-hegemônicos.....................................101
5.5. Bloco 3 – A relação do homem com a Saúde..............................120
6. Conclusões.....................................................................................145
7. Considerações finais........................................................................155
8. Bibliografia.....................................................................................160

Anexo: Mapa de Atuação do Projeto Hom ens, Saúde e Vida cotidiana.


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1. Apresentação

Esta pesquisa se propôs a identificar as ideologias de


masculinidade expressas nos discursos de homens participantes de
grupos de reflexão de gênero, e suas relações com o cuidado com a
saúde. Nos detivemos nas questões inerentes aos diversos aspectos da
masculinidade contemporânea que, caso não sejam devidamente
considerados, tendem a caracterizar pontos agravantes à saúde dos
homens.

Com isso, pretendemos contribuir com subsídios para a


formulação de políticas públicas de saúde voltadas para a população
masculina. Em debate também, a relevância da elaboração de propostas
de trabalho com homens que tenham por objetivo promover o
equacionamento das desigualdades de gênero.

O titulo escolhido, parodiando uma famosa obra da cinematografia


mundial, busca remeter-se à essência das transformações sociais que
ora pretendemos colocar em foco, e que diz respeito aos conflitos em
torno dos tradicionais papéis sociais de gênero masculino. Estes
parecem vir sendo sistematicamente colocados em cheque nas últimas
décadas, o que confronta os homens com a perspectiva de experienciar
novos e originais modos de exercerem sua condição de homem no
mundo.
11

Para uma melhor contextualização do perfil que caracteriza os


informantes, estaremos discorrendo, inicialmente, sobre o Projeto
“Homens, Saúde e Vida Cotidiana – uma proposta de pesquisa-ação”
desenvolvido pela Escola Nacional de Saúde Pública – ENSP, da
Fundação Oswaldo Cruz – FIOCRUZ, e o Núcleo de Estudos de Saúde
Coletiva – NESC, da Universidade Federal do Rio de Janeiro -UFRJ. Isto
porque os dados analisados na presente pesquisa foram gerados a
partir das informações obtidas nesse Projeto.

O detalhamento dessa experiência se justifica como uma forma de


apresentar a contextualização sócio-histórica em que se inserem os
entrevistados, visto que eram todos oriundos dos grupos de reflexão de
gênero formados pelo referido Projeto.

Em se tratando de uma proposta de intervenção sócio-pedagógica


alicerçada na promoção de CONSCIENTIZAÇÂO, nos termos propostos
por Paulo Freire, vamos nos deparar com discursos de indivíduos que
encontravam-se altamente mobilizados pelas atividades desenvolvidas
no Projeto. Atividades estas que lhes possibilitaram um longo período de
reflexão acerca de suas identidades sociais de gênero, das implicações
destas nas relações sociais como um todo, especialmente no terreno da
saúde reprodutiva.
12

A seguir, estaremos dissertando sobre os referenciais teóricos-


metodológicos adotados nessa empreitada. Num primeiro momento,
traçando um panorama dos pressupostos teóricos da Ideologia,
conforme proposta por John B. Thompson, que a descreve, numa visão
ampla, como a análise do “sentido a serviço do poder” (Thompson,
1995). Na seqüência, abordaremos a questão de gênero, focalizando
brevemente o processo desde a estruturação do conceito, a partir das
reflexões levantadas pelo movimento feminista, a questão de gênero
masculino, as temáticas emergentes nesse âmbito e, mais
especificamente, suas relações com a questão da saúde dos homens.

Partimos do entendimento de que, na práxis, as ideologias que


estruturam as relações de gênero correspondem às diversas posições
sociais, com seus significados diferenciados, e traduzem as relações
desiguais de poder, onde se instituem normas morais sobre papéis que
homens e mulheres devem assumir. Para dar conta desse processo,
buscamos alicerce em autores como Giffin , Kergoat, De Lauretis,
Anyon, Scott, Simões Barbosa, entre outros que discutem as relações de
gênero através de práticas sociais do cotidiano e na produção do
conhecimento. O mesmo em termos dos autores que trabalham
especificamente a questão da masculinidade, como Caldas, Costa,
Corneau, Damatta, Nolasco, Mantega, Medrado, Gomes, Kimmel, e
outros.

Com isto, esperamos contribuir para a melhoria na qualidade da


assistência à saúde masculina em suas especificidades, numa
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perspectiva da integralidade, a exemplo do que está prescrito para as


mulheres no Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher
(PAISM), do Ministério da Saúde. Ressalte-se, contudo, que não se trata
de uma disputa entre homens e mulheres, já que é reconhecida uma
grande distância entre o que está previsto na Lei e a sua aplicabilidade
real, e que o quadro de atenção à saúde da população, masculina e
feminina, ainda está bastante longe de ser o ideal.

A metodologia adotada será a qualitativa, uma vez que o objeto de


estudo se insere no campo da subjetividade. A abordagem de análise
será a hermenêutica -dialética, mais próxima de nosso referencial teórico
ao colocar a fala em seu contexto, buscando captar o movimento, as
contradições e os condicionamentos históricos que a envolvem (Minayo,
1998). Serão analisadas as transcrições de três grupos focais realizados
com participantes dos diversos grupos de reflexão de gênero formados
pelo já citado Projeto Homens, Saúde e Vida Cotidiana...”. Os
detalhamentos sobre a constituição desses grupos focais serão
apresentados no capítulo sobre os informantes.

Vale salientar, contudo, que o presente material empírico, obtido


em situação de entrevista grupal face -a-face estará mediado pelas
expectativas e idealizações que validam a própria experiência. Em
conseqüência disto, o que aqui será exposto está situado, justamente,
no âmbito do discurso da apresentação de si mesmo, e não expressa as
práticas dos entrevistados, senão parcialmente.

Por outro lado, sendo os participantes agentes sociais, envolvidos


com trabalhos que implicam no atendimento a muitos outros homens,
estas falas podem ser compreendidas como falas de informantes
14

devidamente qualificados para reportar a experiência desses outros


homens. Dessa forma, nos ajudam a compor um quadro bastante
próximo das ideologias e práticas masculinas, inclusive em termos de
cuidados com a saúde vigentes na atualidade.

1.1. Introdução

Esta pesquisa analisa as ideologias de gênero masculino presentes


na fala de homens participantes de Grupos de Reflexão de Gênero, e as
implicações decorrentes desses modelos de masculinidade nos modos
como esses homens se relacionam com o processo saúde/doença.

Utilizamos como base de dados as transcrições de três grupos


focais realizados com 18 dos cerca de 100 homens que participaram dos
grupos formados pelo Projeto “Homens, Saúde e Vida Cotidiana – Uma
Proposta de Pesquisa-Ação”1 - PHSVC, no qual foi privilegiado o debate
sobre a saúde reprodutiva e a vida cotidiana em grupos reflexivos de
gênero, dentro de uma perspectiva da pesquisa-ação.

Os referidos grupos focais, levados a termo nos dias 19 de maio,


02 e 09 de julho de 2001, nas dependências do NESC/UFRJ, tinham
como meta prioritária coletar de depoimentos coletivos para
organização do livro “Palavra de Homem”, editado pela ENSP/FIOCRUZ
e NESC/UFRJ em 2001, contendo histórias e experiências concretas de
homens, enfocando diversos aspectos de suas vidas. Para tanto, foram

1
O Projeto “Homens, Saúde e Vida Cotidiana – Uma Proposta de Pesquisa- ação” foi
desenvolvido pelo NESC/UFRJ em parceira com a ENSP/FIOCRUZ no período de 1998 a
2001, no Rio de Janeiro- RJ e em Duque de Caxias- RJ.
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elencados temas que permitissem a expressão do modo de ser destes


homens no mundo, em suas relações consigo próprios, com outros
homens e com as mulheres.

Em razão da especificidade do objetivo acima descrito, as


transcrições das falas dos três grupos focais não chegaram a ser
utilizadas em sua totalidade, visto a impossibilidade de publicação de
todo o conteúdo das cerca de 12 horas de gravação. Na ocasião, para
compor a edição do referido livro, foi feita uma seleção de trechos
relacionados aos diversos temas abordados pelos homens, levando-se
em conta, especialmente, a expressividade das falas.

Ressalte-se que, no processo de coleta de dados, foram


criteriosamente considerados os procedimentos metodológicos propostos
para a realização da técnica de grupos focais. Na abordagem qualitativa,
esta técnica é considerada uma estratégia de significativa importância
no que se refere às questões de saúde coletiva, porque viabiliza a
captação de dados representacionais no seio de grupos de interesses e
instâncias diversas, possibilitando formular e precisar questões, coletar
informações sobre peculiaridades locais e desenvolver hipóteses para
novos estudos. (Minayo, 1992)

Vale ressaltar também que nosso interesse pela temática advêm


justamente do fato de termos participado da coleta destes depoimentos,
ocasião que coincidiu com nossa inserção na equipe do PHSVC, na
função de estagiário e co-facilitador de grupos de reflexão de gênero
masculino.

Propus emo-nos a revisitar as transcrições dos referidos grupos


focais em sua integralidade, por considerar tratar-se de importante
16

material de referência para o estudo da subjetividade masculina sob


diversos aspectos e por acreditar que, nas falas desses homens,
encontraríamos subsídios para avaliar os modos como administravam o
processo saúde/doença naquele momento de suas vidas.

Para efeito de contextualização do tema, utilizamos, como


contraponto, uma revisão bibliográfica dos estudos de gênero masculino
realizados no âmbito das ciências sociais, partindo da bibliografia
utilizada pelo PHSVC, alicerçando-a com o material produzido pela
equipe do Projeto (relatórios, textos, etc..), e outras publicações sobre
a temática em questão.

Nesta reflexão, optamo s por fazer a articulação de dois conceitos


que se inserem no campo das ciências sociais, ideologia e gênero, e
que, embora elaborados sob referenciais teóricos distintos, são
convergentes. Essa convergência se dá, entre outros aspectos, na
possibilidade de se pensar a construção da consciência humana dentro
da uma concepção crítica e dinâmica da realidade. A consciência
abordada enquanto constructo social histórico e relacional, inscrito na
ordem do simbólico e, portanto, passível de interpretação, porque
referente ao pólo representacional das ciências sociais.

Isto posto, passamos a uma breve exposição dos referenciais


adotados, que serão melhor explicitados em capítulo específico.

Adotamos o conceito de Ideologia, aqui utilizado a partir do


entendimento de que as idéias têm participação significativa no processo
de reprodução do status quo. Segundo Thompson, Ideologia deve ser
pensada como uma sistema de crenças, valores e idéias manifestadas
de múltiplas formas (imagens, textos, propagandas) e que tem os seus
17

significados orientados com vistas à manutenção de relações


assimétricas (Thompson, 1995: 16). A Ideologia, segundo ele, refere-se
à maneira pela qual as formas simbólicas são mobilizadas para produzir
sentidos que afirmem e corroborem as relações sociais de dominação
existentes nas sociedades.

Paralelamente, trabalharemos com o conceito de Gênero,


entendido como uma construção social que constitui a identidade de
cada indivíduo em seu contexto social, expressa os diferentes
significados atri buídos às posições sociais, com base nas desigualdades
de poder existentes entre homens e mulheres, e que se traduzem em
desigualdades sociais. (Simões Barbosa, 2001-A; Giffin, 1999; Kergoat,
1996; Scott, 1989).

Dentro desse contexto, nos detivemos em abordar a questão do


masculino, entendida como questão de interesse emergente no campo
da Saúde Coletiva, e objeto central desta pesquisa.

A articulação desses referenciais se faz viável na medida em que


apresentam pontos convergentes, especialmente no que se refere à
percepção do ser humano inserido em um campo social, onde a
linguagem opera a mediação entre estruturas objetivas e a ordem
simbólica, subjetiva. Além disso, estes referenciais permitem pensar, de
forma crítica, caminhos que apontam para mudanças.

Assim, acreditamos que as matrizes teóricas eleitas podem


oferecer instrumentos para compreendermos quais ideologias de gênero
masculino permeiam o universo dos homens pesquisados, de que modo
elas se relacionam com o processo saúde/doença, e quais elementos
apontam para a possibilidade de transformações nesse campo.
18

Com esta pesquisa , pretendemos contribuir para que seja dada


uma maior visibilidade ao quadro da saúde masculina, onde aspectos
como saúde reprodutiva, DST/AIDS, controle de fecundidade, gravidez
na adolescência, paternidade, e violência de gênero necessitam ser
melhor investigados, e onde a figura do homem começa a se fazer
presente enquanto “sujeito e objeto” de atenção (Giffin & Cavalcanti,
1999; Corneau, 1995; Giffin, 1995).

Ressaltamos também o interesse de colaborar para a


implementação de programas em serviços públicos de saúde, nos quais
ainda se faz notar uma certa lacuna no que diz respeito ao gênero
masculino.

No sentido de apresentar uma adequada contextualização do


objeto, estaremos traçando inicialmente um retrospecto da trajetória do
Projeto “Homens, Saúde e Vida Cotidiana – Uma Proposta de Pesquisa -
Ação” - PHSVC, uma vez que nossa base de dados para análise será
alicerçada na fala de homens que participaram efetivamente desse
processo de intervenção social.

Nesta perspectiva, estaremos relatando a trajetória de formação


dos Grupos de Reflexão de Gênero, detendo-nos na descrição do perfil
dos participantes e respectivos contextos em que se inseriam, com a
preocupação especial de esboçar o cenário que caracteriza os 18
homens que participaram especificamente dos Grupos Focais que
originaram as falas ora utilizadas como base de dados desta pesquisa.

A metodologia adotada é a qualitativa, e essa escolha se justifica


pelo fato de que o presente objeto de estudo está inserido no campo da
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subjetividade humana. No que se refere ao referencial metodológico da


análise, faremos uso da hermenêutica -dialética, visto que esta
abordagem valoriza a compreensão da fala em seu contexto, e busca
captar o movimento, as contradições e os condicionamentos históricos
que a envolvem (Minayo, 1998).

1.2. Contextualização

Dentro da perspectiva da Hermenêutica, as formas simbólicas são


produzidas, transmitidas e recebidas em condições sociais e históricas
específicas. Na análise sócio-histórica a finalidade é reconstruir as
condições sociais e históricas da produção, circulação e recepção das
formas simbólicas.

Os informantes desta pesquisa foram 18 homens participantes dos


diversos grupos formados pelo Projeto “Homens, Saúde e Vida Cotidiana
- ...”, convocados em uma fase em que a maioria deles já havia
participado, efetivamente, do processo de intervenção sócio-pedagógica
que a proposta representava.

Assim sendo, passamos a retratar o PHSVC, em seus aspectos


histórico e teórico-metodológico, de modo a contextualizar a fala dos
informantes que produziram as representações sobre as quais ora nos
detemos.
20

1.2.1. Histórico do Projeto “Homens, Saúde e Vida


cotidiana – Uma Proposta de Pesquisa-Ação”3

Fruto de um trabalho que se desenvolveu ao longo de quatro


anos, entre o tempo de preparação para entrada em campo, e o campo
propriamente dito, o Projeto “Homens, Saúde e Vida Cotidiana – Uma
Proposta de Pesquisa-Ação” - PHSVC, constitui -se numa experiência de
significativa relevância para a implementação dos debates na área de
Gênero e Saúde na perspectiva das masculinidades.

Esta proposta se tornou possível a partir da articulação entre duas


reconhecidas instituições de ensino e pesquisa: O Núcleo de Gênero e
Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública – ENSP/FIOCRUZ, e o
Laboratório de Gênero e Saúde do NESC/UFRJ, que levaram a termo a
proposta denominada, inicialmente, “Participação Masculina na Esfera da
Saúde Reprodut iva – uma Proposta de Pesquisa-Ação”. Esta proposta foi
submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa do NESC/UFRJ, tendo sido
aprovado para execução. Sua execução foi viabilizada com o apoio das
Fundações Ford e MacArthur.

3
As fontes principais das informações aqui apresentadas foram: o texto original
do projeto “Homens, Saúde e Vida cotidiana – Uma Proposta de Pesquisa-Ação” -
mimeo; o Relatório Final do PHSVC, 2001 - mimeo, e os seguintes textos: Giffin &
Cavalcanti. Homens e Reprodução: o gênero masculino -objeto e sujeito
emergente. Estudos Feministas, ano 7, no. 54, Rio de Janeiro, 1999; Giffin et all.
Homens, Saúde e Vida Cotidiana: Uma proposta de pesquisa-ação. VI
congresso/ABRASCO, Salvador, ago/set, 2000.
21

Contando com uma equipe de nove pesquisadores, com formação


nas áreas da psicologia, antropologia e ciências sociais, e um total de
seis estagiários, graduandos dos cursos de medicina, psicologia e
história, o PHSVC foi desenvolvido com base na formação de grupos de
reflexão de gênero em torno da identidade masculina.

O interesse na implantação dessa proposta foi alicerçado na


convergência de uma série de fatores que contribuíram para fazer
aflorar a necessidade de aprofundamento dos estudos de gênero sob a
ótica do masculino.

Dentre estes fatores, destacam-se as mudanças no papel social


das mulheres, promovidas por sua inserção no mercado de trabalho; o
aumento do número de famílias providas por mulheres; e a repercussão
de suas estratégias organizadas na reivindicação de direitos femininos
no âmbito político e social.

Assim, o PHSVC teve, entre seus principais objetivos, a criação de


espaços coletivos para a discussão da experiência vivida no terreno das
relações de gênero, partindo do pressuposto de que essa prática pode
facilitar o equacionamento de impasses gerados no confronto entre
ideologias sociais que naturalizam o que é “ser homem” e o que é “ser
mulher”.

Essas ideologias dificultam o desenvolvimento de um processo de


convivência em que sejam previlegiados sentimentos de cooperação e
solidariedade, e acabam por interferir negativamente no modo como as
pessoas administram a relação saúde/doença. Na verdade, tendem a
reforçar a continuidade das relações excludentes, onde a mulher
permanece submetida a uma condição de inferioridade perante ao
22

homem. (Besse, 1999; Laurell, 2000; Giffin, 2002).

Interessava ao PHSVC, portanto, a geração compartilhada de


conhecimentos sobre a identidade masculina em sua diversidade social,
priorizando o referencial da saúde reprodutiva, e os serviços de
educação e saúde, com o propósito de contribuir na implementação de
metodologias de abordagem e sensibilização de homens para o debate e
a participação no processo de desvelamento e transformação social das
relações de gênero, e dos cuidados com a saúde.

1.2.2. O Enfoque Conceitual e Metodológico do PHSVC

Apostando na possibilidade de estabelecer uma conexão entre o


processo de Educação em Saúde e o debate em torno das Relações de
Gênero, a metodologia adotada no PHSVC foi a Pesquisa-Ação. Isto
porque essa abordagem de intervenção social, embasada nas vertentes
compreensivas das ciências sociais, parte do pressuposto de que os
sujeitos que dela participam, além de não serem meros “objetos” da
intervenção, também podem ser compreendidos como sujeitos do
conhecimento (Giffin et al, 2000; Simões Barbosa, 2001-C).

Na Pesquisa-Ação, os seres humanos são enfocados como co -


criadores de sua realidade, e devem ser compreendidos a partir de sua
inserção em determinada classe social, raça/etnia, experi ência
geracional e identidade de gênero social e historicamente construída
(Simões Barbosa, 2001-A). O que norteou essa pesquisa foi a premissa
de que as mudanças se dão na ação gerada a partir dos novos
conhecimentos construídos no processo de reflexão coletiva em torno da
realidade vivida.
23

Estes conceitos possuem uma estreita relação com os


pressupostos teóricos das metodologias participativas, que diferem
substancialmente do modelo de educação que tem sido
tradicionalmente aplicado na área da Saúde, onde ainda prevalece o
modelo bio-médico e a ênfase no biológico.

Ao contrário, na Pesquisa-Ação, os diversos tipos de inserção


social aos quais os sujeitos estão submetidos são seriamente
considerados, uma vez que estes podem explicar muitos aspectos que
influenciam no terreno da saúde. De modo que, as doenças devem ser
compreendidas a partir do contexto onde se manifestam, o que nos
permite constatar que as pessoas se expõem de forma socialmente
distinta aos agravos à saúde. (Simões Barbosa, 2001-C:p. 123).

Somando-se a isto, o PHSVC foi buscar apoio na experiência dos


Movimentos de Mulheres, alicerçado na experiência com grupos
reflexivos, e na pedagogia libertária de Paulo Freire. Esta propõe o
estabelecimento de uma relação dialógica e horizontal entre o sujeito e
o objeto do conhecimento, entre pesquisador e pesquisado, objetivando
romper com a tradição daquilo que Freire denominou de “educação
bancária”, onde os conhecimentos são repassados por um educador que
“sabe” para alunos que “aprendem”. (Giffin et al, 2000).

Alternativamente, o Projeto buscou promover a facilitação de


processos grupais de reflexão em torno da vida cotidiana dos
participantes, numa atmosfera propícia à troca de experiências
relacionadas ao corpo, à sexualidade, à saúde e às relações afetivas, de
modo que os participantes se apropriassem não somente de
conhecimentos acadêmicos, mas que também pudessem reconhecer e
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nomear as emoções e experiências vividas no dia-a-dia.

Os Grupos de Reflexão de Gênero se traduzem em um espaço de


interação e construção de conhecimentos com base nos diferentes
saberes de seus membros. Os métodos e técnicas adotados estiveram
voltados não só para a apreensão de conteúdos cognitivos, mas também
para “as transformações no nível das representaçõe s, percepções e
sentimentos, tanto no âmbito do individual como no comunitário”
(Simões Barbosa, 2001-C:p.124).

O eixo das ações em campo foi alicerçado na mobilização de


grupos de agentes sociais masculinos que já atuavam em programas de
intervenção dirigidos para homens. A estratégia inicial foi a de encontrá -
los nos seus locais de referência, tais como espaços de trabalho, lazer e
movimentos sociais. O ponto de partida consistiu na formação de grupos
de reflexão, espaços que a equipe denominou de “ofici nas”, onde foi
priorizada a temática da saúde reprodutiva.

Essas oficinas, que consistiram em um total de 20 encontros


semanais com cada um dos grupos, tinham caráter participativo, a
começar pelo levantamento e eleição dos temas a serem debatidos pelo
grupo. Nelas, foram empregadas técnicas de dinâmicas de grupo,
atividades lúdicas e culturais, com a utilização de vídeos, filmes, textos
literários, reportagens e outros materiais educativos contendo dados e
informações sobre temas específicos, como DST/AIDS, mercado de
trabalho, violência, morbi-mortalidade masculina, entre outros.

Dentre os materiais educativos gerados pelo Projeto, destacam-se


alguns materiais de apoio e divulgação, destinados às intervenções
sociais na perspectiva de gênero: o boletim “Homens Hoje”; o manual
25

“O Facilitador”, com referências metodológicas para intervenções junto à


população masculina: o vídeo “Homens, Saúde e Vida cotidiana”,
produzido com a participação direta de integrantes de alguns grupos; e
o livro “Palavra de Homem”, com depoimentos de 18 participantes sobre
os principais temas geradores que emergiram dos grupos de reflexão.

Este livro representa o primeiro recorte feito nas transcrições dos


grupos focais realizados para a coleta de depoimentos, que agora
resgatamos em sua totalidade para esta pesquisa. (Relatório Final do
PHSVC, 2001, mimeo).

1.2.3. Os Grupos de Reflexão de Gênero do PHSVC

Ao todo, durante o período de atuação do projeto em campo,


foram formados doze grupos de reflexão de gênero, dos quais
participaram cerca de 100 homens de classes e grupos sociais
diferentes. Este homens, em sua maior parte, atuavam como agentes
sociais (ONGS/Associações Comunitárias) ou estavam ligados às áreas
de educação, saúde e segurança.

Para delinear o perfil dos participantes, na etapa de levantamento


de dados, a equipe fez uso de um questionário denominado “Retrato
Inicial”, que possibilitou uma primeira análise das representações sobre
suas identidades de gênero, como também de outros aspectos
relacionados ao seu cotidiano.

A tônica que permeou o Projeto como um todo foi a questão da


diversidade, no que se refere aos mais diversos aspectos: etnia, opção
religiosa, nível sócio-cultural, atividade profissional, nível de
26

engajamento sócio-político e preferências sexuais.

Nesse processo, conviveram brancos, negros, pardos, amarelos,


machões convictos, homossexuais assumidos, portadores de HIV-AIDS,
estudantes adolescentes, profissionais de nível superior,
desempregados, solteiros, casados e descasados, que se dispuseram a
compartilhar um “espaço alternativo e solidário, de confiança e reflexão
entre homens, onde foi possível o reconhecimento de fraquezas, medos
e limitações para além do “foro íntimo” ou de um nível individual
incomunicável.” (Giffin et all, 2000, p.7)

1.2.4. Os temas Geradores

A partir de uma pergunta disparadora, “O que é ser homem?”, e


tendo como base questões estreitamente ligadas à saúde reprodutiva,
a equipe do PHSVC procurou facilitar a reflexão crítica dos atributos de
gênero, dentro de uma atmosfera que permitisse a construção de uma
fala masculina.

Ao responder a essa primeira questão, o discurso dos homens foi


permeado por uma série de temáticas que fazem parte de suas vidas
cotidianas, onde se alternavam sentimentos de tristezas e alegrias, e
onde eram expressas as ambigüidades geradas diante das incertezas de
um mundo repleto de drásticas e urgentes transformações.

As primeiras oficinas tinham por objetivo promover a integração e


esclarecer os propósitos do trabalho em grupo. Nesse processo, os
homens eram convidados a responder questões do tipo “o que somos?”
e “o que queremos?”, questões estas que possibilitavam aflorar as
ideologias e representações de gênero presentes nos grupos.
27

Como parte do processo, havia a elaboração coletiva de um


contrato informal de convivência, do planejamento e levantamento
temático. Ao mesmo tempo em que essas questões eram definidas
coletivamente, os membros mantinham a garantia consensuada de
propor revisão do que fora acordado, a qualquer tempo, enquanto um
direito do grupo exercitar a gestão de seus próprios modos de existir.

Houve uma certa variação nas temáticas levantadas, de acordo


com a realidade de cada grupo. Entretanto, alguns temas se destacam
por se fazerem presentes de forma generalizada, se caracterizando pelo
fato de desencadearem uma série de processos identificatórios.

Os temas gerados nessa intensa experiência reflexiva foram os


seguintes: As alegrias e dificuldades de ser homem hoje; Amor,
relacionamentos; Sexualidade; Paternidade e filiação; Saúde; Trabalho e
desemprego; violência; Política e cidadania; e a própria vivência nos
grupos de homens. (Relatório final do PHSVC, 2001).

Nesse processo, pôde-se constatar que, ao mesmo tempo em que


novas e diversas ideologias começam a se fazer notar, ainda é possível
perceber a presença de velhos padrões de masculinidade, que se fazem
valer não só nas falas mas também nas atitudes daqueles homens.
Segundo Giffin, trata-se de um fenômeno caracterizado pela
dinamicidade, e por ser relacional em sua gênese social, no qual as
velhas e novas ideologias convivem e se entrelaçam dialéticamente
(Giffin & Cavalcanti, 1999).

Para a maioria dos homens, falar de si, ser ouvido, ouvir o outro,
são fatos novos e desafiadores, porque destoam do padrão de
28

masculinidade tradicional, no qual ser forte, nunca demonstrar afeto ou


admitir incertezas, são os comportamentos esperados de um
homem.(Giffin & Cavalcanti, 1999).

A tentativa de classificar os assuntos levantados nos grupos de


reflexão de gênero formados pelo PHSVC é relativizada, na medida em
que se percebe que há uma transversalidade entre eles, que os torna
indissociáveis. Assim, parece que falar de saúde acaba remetendo a
desemprego, ou termina por suscitar a fala em torno das relações sexo -
afetivas, da paternidade, violência, política, cidadania, culminando com
os comentários em torno da experiência no processo de participação em
grupos de homens.

2 .Objetivos:

Geral:

• Analisar as ideologias de gênero masculino expressas entre


homens participantes de Grupos de Reflexão de Gênero, e sua
interface com os padrões de cuidado com a saúde.

Específicos:

• Compreender o modo como os serviços oficiais de saúde são


percebidos pela ótica dos informantes;

• Fomentar o debate acadêmico e político sobre a questão de


gênero no âmbito das masculinidades em sua interface com a
saúde do homem;
29

3. Referenciais Teóricos/Conceituais

3.1. Ideologia – um conceito reformulado

Ideologia é um dos mais complexos conceitos encontrados nas


ciências sociais. Isto porque, no decorrer da história, lhe foram sendo
atribuídos os mais diversos significados, gerando contradições,
ambigüidades e equívocos que contribuíram para que o conceito fosse
caindo no descrédito. Isto é o que explica John B.Thompson (1995),
autor a quem recorremos para o esclarecimento dessa categoria, eleita
como um dos aportes teóricos para esta pesquisa.

Thompson, (1995), apresenta o seu conceito de ideologia


realizando inicialmente um levantamento histórico da elaboração e
utilização do termo para, em seguida, expor sua proposta de
reformulação do conceito, dentro do entendimento que ele tem de que:
ideologia guarda sempre um estreito relacionamento com as relações de
poder, que circulam em contextos sociais específicos. Que essas
relações de poder podem ser explicadas através da análise das formas
simbólicas.

Na realidade, o autor caracteriza uma nova formulação do


conceito de Ideologia, ao invés de reabilitar alguma concepção anterior
do seu significado. Em um primeiro momento, ele acredita que a análise
da Ideologia, de acordo com a sua proposta, está interessada nas
maneiras com que as formas simbólicas se entrecruzam com as relações
30

de poder e de como o sentido é mobilizado, no mundo social, servindo


para reforçar pessoas e grupos que ocupam posições de poder, ou seja,
“estudar a Ideologia é estudar as maneiras como o sentido serve para
estabelecer e sustentar relações de poder'' (Thompson, 1995, p.76).

Segundo ele, trata-se do “estudo de um campo objetivo que


consiste, entre outras coisas, de sujeitos que produzem, recebem e
compreendem as formas simbólicas como uma parte rotineira de suas
vidas cotidianas.” (Thompson, 1995, P.13). Neste enfoque, a análise do
termo ideologia torna-se mais ampla, pertencendo a um interesse mais
geral ligado às características de ação, de interação, às formas de poder
e de dominação, à natureza da estrutura social, à reprodução e à
mudança social, às qualidades das formas simbólicas e a seus papéis na
vida social. Ele próprio faz uma síntese da proposta, quando afirma que
ideologia pode ser entendida, na sua forma mais ampla como “O
SENTIDO A SERVIÇO DO PODER” (1995, p. 16).

Dentro desse novo enfoque, interacionista, crítico, o autor retém


o valor do termo ideologia, mas como parte de uma preocupação mais
abrangente relacionada com a natureza da dominação do mundo
moderno, com os modos de sua reprodução e as possibilidades de sua
transformação. Então, o estudo de ideologia exige que se pergunte se o
sentido construído e usado pelas formas simbólicas serve, ou não, para
manter relações de poder sistematicamente assimétricas.

Porém o autor ressalta que, além das falas lingüísticas e


expressões faladas ou escritas, as formas simbólicas também podem ser
uma imagem ou imagem com palavras. Para ele, formas simbólicas são:
“Um amplo espectro de ações e falas, imagens e textos, que são
31

produzidos por sujeitos e reconhecidos por eles e outros como


construtos significativos'' (1995, p. 79).
Thompson destaca três aspectos que merecem atenção na
abordagem analítica da ideologia, tal como proposta por ele: a noção de
sentido, o conceito de dominação e as maneiras como o sentido pode
servir para estabelecer e sustentar relações de poder.

Para analisar o caráter significativo das formas simbólicas,


Thompson postula que o contexto onde as pessoas estão inseridas, e a
posição por elas ocupada nesse contexto, garantem aos indivíduos
diferentes graus de poder, ou seja, a capacidade que cada pessoa tem
de tomar decisões, conseguir seus objetivos e realizar seus interesses.

Assim, a “dominação'' ocorre quando as relações, estabelecidas


de poder são “sistematicamente assimétricas'', isto é, “quando grupos
particulares de agentes possuem poder de uma maneira permanente, e
em grau significativo, permanecendo inatingível a outros agentes, ou a
grupos de agentes, independente da base sobre a qual tal exclusão é
levada a efeito'' (1995, p. 80).

Thompson ainda levanta uma outra questão, que para nós é


particularmente relevante: de que maneira o sentido serve para
estabelecer e sustentar relações de poder? Ele enumera cinco modos de
operações gerais da Ideologia que, no seu modo de ver, explicam os
modos gerais de operação da Ideologia. São eles: Legitimação,
Dissimulação, Unificação, Fragmentação e Reificação.

Esses cinco modos, através dos quais a Ideologia pode operar


ajudam a analisar as maneiras que o sentido pode servir, em condições
socio-históricas específicas, para manter relações de poder, na medida
32

em que estão ligados à várias estratégias de construção simbólica.


(Thompson, 1995, p. 81):

A categoria de Ideologia, a partir desta concepção, procura


chamar a atenção para as maneiras como o sentido é mobilizado a
serviço dos indivíduos e grupos dominantes, isto é, as maneiras como o
sentido é const ruído e transmitido pelas formas simbólicas, e como
serve, em circunstâncias particulares, para estabelecer e sustentar
relações sociais estruturadas no jogo do poder, do dominado e do
dominante, onde uns buscam preservar e outros procuram contestar.

Consideramos essa categoria bastante apropriada para a análise


da falas de homens que participaram de um processo coletivo de
reflexão sobre suas identidades de gênero, e sobre a questão de como
vivenciam o processo saúde/doença. Acreditarmos que se tratam de
aspectos da vida social onde as relações de poder e de dominação se
fazem presentes mas, nesse caso, sendo problematizadas pelos próprios
sujeitos que supostamente detêm esse poder. O fato é que esses
padrões comprometem sobremaneira a perspectiva de construção de
um mundo onde as relações humanas sejam baseadas na equidade
entres os sexos, e na igualdade de direitos.

3.2. O Referencial de Gênero

Desde que se estruturou a nível mundial, o Movimento das


mulheres tem estado a frente de uma onda crescente e global de
movimentos de grupos minoritários de reivindicação de direitos
(calcados nos ideais de igualdade e liberdade herdados da Revolução
Francesa) que, com objetivo político de transformação social, encaram
de forma questionadora, entre outras estruturas de opressão, o
33

paradigma científico racionalista, dualista, compartimentador, e


reducionista que ainda predomina na sociedade ocidental.(Rohden,
2001).

Frente a este fato, de forma alguma é possível desconsiderar as


transformações sociais decorrentes das múltiplas intervenções
promovidas pelo movimento feminista numa trajetória relativamente
curta, se levarmos em consideração a história de opressão feminina ao
longo dos últimos três milênios em que vem imperando a cultura do
patriarcado no seio da civilização ocidental.

Na década de oitenta, as feministas começaram a utilizar o termo


“gênero” como maneira de referir-se à organização social das relações
entre os sexos, e para denominar uma categoria de análise histórica,
onde o gênero é entendido como elemento constitutivo das relações
sociais, baseado nas diferenças percebidas entre os sexos e forma
primeira de significar as relações de poder. Segundo Scott , a história
descreve esses processos como se estas posições normativas fossem
produtos de consensos e não de um conflito na sociedade. Cada ser
humano nasce com um sexo geneticamente definido. Entretanto, o
gênero não faz parte de seu capital genético, e sim de sua bagagem
sócio-cultural, política e histórica. O Gênero enfocado como uma
categori a sociológica , traz novas possibilidades para se pensar a
questão do homem e da mulher, articulando as relações sujeito e
sociedade (Scott,1989).

Ser homem ou ser mulher e, principalmente, agir de acordo com o


que as pessoas em sociedade acreditam ser natural do homem e próprio
da mulher, pouco ou nada tem a ver com essa natureza biológica e a
fisiologia de cada corpo. Dessa forma, o conceito de gênero não se
34

remete às características biológicas sexuais, mas às formas como estas


são representadas em cada sociedade, em determinado momento
histórico, ou seja, o que social e historicamente se construiu sobre os
sexos feminino e masculino. Isto entendendo-se que as práticas sociais
atuam sobre os corpos, já que é no campo das relações sociais que as
relações entre os sujeitos são estruturadas. (Giffin, 1995; Scott, 1995;
Louro, 2001; Simões-Barbosa, 2001-A).

Conforme ressalta Simões Barbosa,

“...a elaboração histórica e epistemológica do conceito


de gênero – enquanto uma categoria explicativa que
deu visibilidade a questões até então referenciadas à
esfera do natural, do biológico – partiu da reflexão
coletiva de mulheres sobre seus corpos, vivências e
emoções enquanto mulheres para, posteriormente,
gerar teorizações” (Simões Barbosa, 2001-A: p. 124).

As ideologias de gênero, impregnadas na cultura através das mais


diversas vias, desde os “inocentes” contos de fadas que nos são,
carinhosamente lidos na infância até as parábolas das escrituras
sagradas, nos impingiram ideologias com as quais fomos construindo o
nosso modo de pensar e de existir, (Whishire, 1997) e que, no entanto,
podem estar impregnadas de padrões que são auto-destrutivos, na
medida em que nos condicionam a um distanciamento de nós mesmos
e, conseqüentemente, inviabilizam uma relação saudável e construtiva
com o mundo.

Sendo os atributos de gênero frutos de um processo, variam no


tempo e em conformidade com as diversidades culturais inerentes a
cada contexto. Constata-se, também, que tais atributos são de tal forma
articulados que tendem a ser percebidos como parte da natureza de
35

cada um, dando sustentação a toda ordem de relações interpessoais,


quer sejam no âmbito da política, da religião, do trabalho,
relacionamentos sociais, parentais e afetivos. (Louro, 2001).

Dessa forma, as mulhere s colocaram em debate a repressão de


sua sexualidade, caracteristicamente utilizada como recurso de
dominação e controle social sobre as mulheres.

Giffin propõe uma análise da prática educativa e do


desenvolvimento da teoria e epistemologia desse movimento. Para ela,
o processo parte, inicialmente, da compreensão do referencial
dicotômico entre corpo-gênero -poder, onde o masculino se colocou
como sujeito da ciência/razão/mente, delegando ao feminino o papel de
objeto/ expressão da natureza – corpo e emoçã o. (Giffin, 1995).

Esse padrão pode ser percebido desde a idade clássica, em que os


grandes pensadores gregos já falavam da emoção em referência ao
feminino, enquanto que a faculdade da razão era atribuída ao
masculino. De lá para cá, esses conceitos tornaram-se arraigados dentro
da civilização ocidental, contribuindo para que uma série de distorções e
preconceitos sobre as mulheres fossem incorporados como sendo de sua
“natureza”. (Jaggar, 1997).

É como “objeto” que a ciência, dentro desse ponto de vista


androcêntrico, toma o corpo feminino, e o medicaliza. Numa construção
histórica, o corpo da mulher ganhou importância na definição científico -
social da mulher reprodutora (essencialmente mãe, e naturalmente
situada na esfera do privado). A figura das mul heres foi sendo associada
à natureza, e a todos os conceitos que daí derivam, e que se
contrapõem ao racional masculino. Daí decorre que a categoria de
36

Gênero expressa uma rejeição frontal ao destino biológico proposto pelo


discurso sócio-científico e, colocado como categoria teórica, possibilita
que seja dada visibilidade às experiências das mulheres no espaço
privado da vida social. (Giffin, 1995; Simões Barbosa, 1999).

A visão que se tem atualmente é a de que trata-se de um


processo de mão dupla onde, ao mesmo tempo em que a ciência tem
influência na formação das identidades de gêneros, estas também tem
seu efeito sobre a ciência, já que se constituem mutuamente enquanto
produtos de um processo social. (Berman, 1997; Giffin, 1999). Assim,
os objetivos e a maneira de pensar daqueles que fazem ciência,
refletem e derivam do processo social em que estão inseridos, o que
implica dizer que existe controle, por parte da sociedade, sobre os usos
da ciência e sobre sua ideologia.

Segundo Giffin, o feminismo col ocou em pauta a proposta de


construção de uma Ciência de Sucessão, onde as mulheres propõem a
fusão das categorias sujeito/objeto na conceituação e na
operacionalização das investigações. Dentro desse novo paradigma,
passa-se a considerar aspectos que até então não eram valorizados nas
pesquisas, tais como as emoções do investigador, e a participação do
objeto de pesquisa no processo.

“Na discussão da prática educativa, tanto os profissionais


como as usuárias são caracterizados como sujeitos com
direito a um espaço de reflexão sobre suas vivências. A
proposta de discussão em grupos das vivências individuais é
vista como meio de fortalecer a auto-estima e a
possibilidade das usuárias se tornarem sujeitos ativos no
cuidado da sua saúde, na reivindicação dos seus direitos
dentro dos serviços de saúde , e em outros âmbitos vitais”
(Giffin, 1995: p. 31)
37

Para Louro (2001: p.33), os grupos dominados são, por vezes,


“capazes de fazer dos espaços e das instâncias de opressão, lugares de
resistência e de exercício de poder”. Segundo esta autora, através de
diferentes práticas sociais, as relações (entre mulheres e homens ou
entre os sexos em si) são constituídas por “negociações, avanços,
recuos, consentimentos, revoltas, alianças” (op. cit, 2001:39).

Dentro dessa mesma linha de raciocínio, Anyon (1990), mesmo


reconhecendo a presença das chamadas ideologias de gênero, que
definem os papéis sexuais, afirma que as pessoas negociam sua
condição de ser e estar no mundo. Para ela, existe um processo
dialético de acomodação e resistência que se apresenta a partir de
respostas diversificadas dos indivíduos à contradição e à opressão,
sejam estes indivíduos homens, mulheres ou crianças. Com isso, ela
quer dizer que a socialização dos referidos papéis está diretamente
relacionada com as contradições que se apresentam, principalmente nas
diferenças de classe social, raça/ etnia, gênero, e na forma como as
pessoas respondem a isso.

“Grande número de mulheres nem aceita, nem rejeita


totalmente os imperativos da “feminilidade”.
Preferencialmente, a maioria das mulheres
opta(consciente tanto quanto inconscientemente) por
tentativas cotidianas de resistir à degradação
psicológica e à baixa auto-estima que resultaria da
aplicação exclusiva e total das ideologias correntes de
feminilidade enquanto submissão, dependência,
domesticidade e passividade” (Anyon, 1990: p. 16)

Assim sendo, é necessário enfatizar a importância de que a


categoria de gênero seja compreendida a partir das relações que se
estabelecem no âmbito do social, e considerar também as deficiências
das políticas públicas no campo da educação e saúde onde aspectos
38

relacionados aos valores culturais, como as diferenças entre a


experiência social feminina e masculina se fazem presentes.(Anyon,
1990; Rangel & Sorrentino, 1994, Giffin, 1995))

Há que se considerar, ainda, que a categoria de gênero possui um


caráter relacional, o que implica considerar a existência de um processo
de relações em que estão envolvidos tanto homens como mulheres.
Para Rangel & Sorrentino (1994), a nova visão de ciência que as
mulheres estão propondo deve levar em conta, justamente, a
necessidade de resgatar a dimensão relacional da história da
humanidade, ainda que construída em termos das desigualdades
propiciadas pela opressão do masculino sobre o feminino.

Além do aspecto relacional, a categoria gênero possui também


um caráter de transversalidade, caracterizado por sua vez, pelo fato de
que é necessário levar em conta as condições concretas da existência
de homens e mulheres (Giffin, 2002). Em outras palavras, não é
possível desprezar, por exemplo, as diferenças de classe, quando se
fala em conquistas femininas. Ainda parece clara a distinção social que
é feita às mulheres pobres e de origem negra. Dessa forma, as
identidades de gênero só podem ser compreendidas dentro de um
âmbito em que se engloba fatores como as diferenças geracionais, o
capital cultural, a classe social, etnia, entre outros. (Simões Barbosa,
2001-A; Louro, 2001).

O movimento de mulheres desenvolveu muitas experiências de


práticas educativas, em que o "corpo da mulher" foi tomado como
questão de ordem. A partir de uma pergunta chave: "o que é ser
mulher?", iniciou a prática das oficinas de sensibilização, onde as
participantes encontravam espaço para trocar experiências individuais,
39

podendo assim re-significá-las nas vivências em grupo e, com isso, re -


significar sua relação com o próprio corpo e com o mundo.

“A bandeira feminista “nosso corpo nos pertence”,


ponto nevrálgico de uma estratégia de transformação
das relações de gênero, tanto na esfera privada como
na pública, também expressou uma nova consciência
do corpo feminino colonizado por outros interesses –
incluindo em primeiro plano, a ciência médica” (Giffin,
2002: p.104).

Num processo que se assemelha bastante às práticas educativas


da educação popular descritas anteriomente, o Movimento Feminista se
caracterizou pela promoção de experiências alternativas de mobilização
em que a metodologia utilizada se focava na formação de grupos de
reflexão, espaços nos quais se exercitava justamente as perspectivas do
diálogo e da troca de experiências, e onde a mulheres puderam
construir um novo conhecimento e sentido para suas vidas.

Tendo seus corpos com âncora de seus debates, diante da


constatação de sua utilização histórica como alvo de mecanismos de
controle pelo discurso sócio-científico dominante, que tornava
naturalizada a condição da mulher enquanto reprodutora, confinada à
esfera do privado, a prática nos grupos reflexivos acabou por
caracterizar uma proposta i novadora de educação para a saúde.; (Giffin,
1995).

“Não coincidentemente, esse percurso levou a um


profundo questionamento sobre a construção social e
ideológica dos conhecimentos da medicina sobre o
corpo e a sexualidade feminina, o que resultou,
posteriormente, no confronto do próprio modelo
biomédico, resultando na formulação do conceito de
saúde integral e de uma proposta educativa consoante
com essa visão” (Simões Barbosa, 2001-C: p. 126)
40

Um fato é inegável em relação à condição humana: pertencer a


um grupo é exigência “sine qua non” não só para garantir à
sobrevivência, mas também para que nos tornemos sujeitos sociais e
morais. Isto porque o ser humano não consegue se ver a não ser
olhando para fora, para os outros e se re-conhecendo como integrante
de um coletivo, o que significa que ninguém consegue se tornar
realmente humano a não ser na relação.

Um processo de crescimento pessoal desvinculado de sua


consciência comunitária com o mundo não chega a ser um processo de
crescimento verdadeiro. É uma mera ilusão. Segundo Paulo Freire, o
“homem” se revela a si mesmo em sua relação com o mundo: “O
diálogo é esse encontro dos “homens” mediatizados pelo mundo, para
pronuncia-lo” (Freire, 1974,: p.79).

As experiências na formação de grupos de reflexão de gênero com


homens tem demonstrado que esse é um espaço adequado para a
análise coletiva de um necessário processo de desconstrução e
desnaturalização das identidades de gênero socialmente construídas.
Isto porque possibilitam o envolvimento crítico de homens numa
verdadeira “varredura” em torno do que vem a ser a sua introjetada
identidade masculina.

Desse processo, tende a resultar uma gama de novas descobertas


e questionamentos que possibilitam a revisão e modificação de padrões
de comportamento até então bastante arraigados, pois a análise coletiva
de suas vivências cotidianas possibilita que tenham uma melhor
visibilidade das ideologias de gênero que acabam por determinar o
modo como, via de regra, tendem a responder ao mundo diante de
41

situações de conflito e onde, não raro, estão sujeitos a protagonizar


desfechos violentos onde pode ocorrer a vitimização de outros homens,
de mulheres, crianças ou deles próprios.(Giffin et all, 2000).

Não por acaso, a aposta no trabalho com grupos. O espelhamento


que ocorre nas situações coletivas dão a oportunidade dos participantes
realizarem trocas significativas, que só são possiveis porque o ser
humano necessida do outro para se compreender no mundo. Na fala de
Jurandir Freire,

“O grupo deve ser suficientemente sólido e durável


para dizer “o que devemos ser” e “por que vale a pena
viver!” . Identidade pessoal privada, no sentido
semântico ou epistêmico, é uma ficção
emocionalmente inviável. Ou temos acesso a algo além
de cada um de nós, que dê sentido ao que somos ou
poderemos ser, ou não seremos! Somos o que o outro
confirma que somos”! (Freire, 2000)

Nesse entendimento, os Grupos de Reflexões de Gênero


Masculino do PHSVC tiveram como base para a sua estruturação, as
reflexões em torno das experiências cotidianas dos participantes, como
forma de acesso à consciência das identidades de gêneros adotadas no
decorrer de suas vidas, e não-problematizadas até então. (Relatório
Final do PHSVC, 2001, mimeo).

3.2.1. O Gênero Masculino em foco

O século XIX inaugura um novo momento histórico, com


mudanças rápidas e radicais nos mais diversos aspectos da vida
humana. Nestes tempos de assombrosos avanços tecnológicos, políticas
globalizadoras, guerras intermináveis, e imensas e crescentes
42

desigualdades sociais, ocorre questionar, justamente, quais os efeitos


dessas mudanças no âmbito das relações humanas e, particularmente,
entre os gêneros.

São inegáveis as transformações ocorridas no modo como homens


e mulheres passaram a se relacionar nas últimas décadas. Modelos
tradicionalmente impostos são confrontados com uma nova realidade
que exige uma nova forma de ser no mundo, tanto para homens como
para mulheres.

Ao mesmo tempo em que se defronta com rápidas e drásticas


transformações no contexto social, onde o estereótipo do "macho
provedor" e dominador já não atende às demandas da vida cotidiana, os
homens deparam-se também com a dificuldade de estabelecer
parâmetros e valores que possam compor uma nova identidade
masculina. (Luz, 1987; Giffin & Cavalcanti, 1999).

O Neo-liberalismo, sistema global que tende a prevalecer entre as


nações, e no qual a lógica do mercado passa a estruturar as relações
sociais e políticas, é pautado em um individualismo competitivo e
desagregador. Isto provoca a hipertrofia da liberdade individual e a
desvalorização do princípio de igualdade, em prejuízo da cidadania
social. (Rangel & Sorrentino, 1994; Besse, 1999; Moraes, 2000).
Prevalece a política do ‘cada um por si, e Deus pra todos’, ou como
costuma se dizer por aqui, a chamada ‘Lei do Gerson’, onde o que conta
é a perspectiva de ‘se dar bem’, em detrimento de quem quer que seja.
Em decorrência dessa ideologia, assiste-se a configuração de conflitos,
que não se restringem à questão de gênero, e que caracterizam um
cenário de ampla e contínua luta social.
43

Diante desse contexto, parece oportuno que se lance um olhar


atento às repercussões dessas transformações sociais, especialmente no
modo como as pessoas administram suas relações no cotidiano, sejam
homens, sejam mulheres.

Estas últimas, apesar das pretensas e tão propaladas conquistas


feministas, ainda se ressentem de muita discriminação nos mais
diversos âmbitos da vida social. Muitas mulheres, por exemplo,
precisam administrar o ônus de sustentar sozinhas suas famílias,
submetendo-se a salários menores que o dos homens na mesma
função, e encarando duplas jornadas de trabalho. (Simões Barbosa,
2001-A; Giffin, 1994).

De fato, o advento da inserção da mulher no mercado de trabalho


aparece como um dos focos da desestabilização dos homens frente a
sua identidade. Se a princípio, a reação foi de estranhamento, ou
encarada como um “mal temporariamente necessário” (Giffin &
Cavalcanti, 1999), o discurso masculino vem se modificando no decorrer
das décadas. A tal ponto, que alguns homens já passam a afirmar que o
trabalho remunerado é benéfico para suas mulheres (Giffin, 1994). Essa
mudança de opinião parece estar mais ligada ao fato de que eles
próprios já não dão conta de prover suas famílias sozinhos.

Com as mulheres buscando essa inserção no âmbito do público, o


espaço do privado começa a demandar também uma divisão de
trabalho, questão esta que não foi bem equacionada até hoje. Como já
mencionado anteriormente, ao que tudo indica, a tal “independência”
feminina implicou numa sobrecarga de trabalho para as mulheres, visto
que sua saída para o mundo público não encontrou a reciprocidade de
maior entrada masculina na esfera privada. De um modo geral, a fala
44

atual das mulheres ainda expressa queixas que são legítimas, no que diz
respeito à perspectiva de equidade de gêneros. (Giffin, 2002; Simões
Barbosa, 2001-A; Besse, 1999).

Por sua vez, o homem parece estar sendo pego de surpresa ao


confrontar-se com a ausência de um papel previamente delineado para
que ele esteja em cena nesse novo ce nário, já que a performance do
antigo “Homem de Verdade” (Nolasco, 1997) não mais contempla as
demandas destes novos tempos.

Diante disso, constata-se que novos modelos vêm sendo


adotados, fazendo com que a masculinidade passe agora a ser descrita
em termos plurais. (Giffin & Cavalcanti, 1999).

"O homem atual começa a demonstrar sinais de


cansaço, e parece não querer mais suportar a couraça
que o envolve e ao mesmo tempo o aprisiona" (Costa,
1986).

Essa fala, elaborada há quase duas décadas atrás, nos sinaliza que
vem sendo processada uma espécie de reavaliação em torno da
masculinidade tradicional. Chama a atenção, já num primeiro momento,
que o autor tenha feito o uso de uma palavra tão contundente como
'couraça' para descrever a condição em que os homens se encontram. A
palavra dá noção da dificuldade implícita na tarefa de desempenhar o
papel que lhes tem sido historicamente atribuído, face à crise de valores
que atinge as sociedades como um todo.

Couraça, no dicionário Aurélio, designa arm adura de couro ou


metal destinada à proteção das costas e do peito. Tem o sentido de
proteção, defesa, resguardo. Wilhelm Reich, em sua obra "Análise do
45

Caráter", empregou o termo "couraça caracterológica" para descrever as


tensões musculares acumuladas através dos anos pelo indivíduo e que,
impressas no corpo, consolidam todo um conjunto de bloqueios,
desajustamentos e fixações a nível físico e psicológico, que
impossibilitam o fluxo natural de sua energia criativa. (apud Gaiarsa,
1998).

A identidade masculina, nos moldes tradicionais, é estabelecida e


mantida por sucessivas afirmações sociais. Prover e ser ativo
sexualmente, de modo público, ajuda a conformar a identidade
masculina no processo de diferenciação (quando não negação) das
mulheres. No terreno da psicanálise, as meninas se individualizam
identificando-se com a mãe, enquanto que os meninos se definem pela
negação (Gaiarsa,1998). Em casos limites, diante da impossibilidade de
se diferenciar, os homens se envolverão em situações violentas que
reafirmarão sua diferença das mulheres e sua virilidade.

“O resultado é uma tensão entre ser macho e ser


masculino, capaz de manter uma insegurança constante nos
homens, e impulsionar tanto a auto-desvalorização como
reações violentas contra outra/os “ (Giffin, 2004, p.8) e até
contra si mesmos.

O que é possível esperar de indivíduos arbitrariamente


aprisionados à rigidez de uma cultura tão impregnante e exigente,
senão figuras inseguras, controversas, autoritárias, tensas, violentas, e
irremediavelmente solitárias?

Na busca de corresponder à uma identidade em que a


interiorização de valores humanos essenciais, baseados nos afetos e
emoções, são eminentemente descartados, os homens tornam-se tanto
46

mais rígidos e insensíveis quanto possível, de modo a provar aos outros


homens e às mulheres que são “homens de verdade”. (Nolasco, 1997)

Precisam adequar-se às características desse tal “homem de


verdade” que , no fim das contas, são suficientes apenas para definir
um indivíduo solitário, reservado e limitado no que se refere às
pontencialidades de suas experiências pessoais. Ele deve estar
firmemente direcionado para agir, realizar, fazer, ser pragmático,
objetivo, eficiente, viril, versátil, ágil, embora superficial, discreto e
contido nas emoções e sentimentos. (Nolasco, 1997; Gomes, 2003).
Talvez uma máquina pudesse ser programada para atender a esse rol
de proposições eficientemente, mas no que diz respeito ao ser humano,
tal pretensão parece, no mínimo, desumanizadora.

Como afirma Pierre Bourdieu, o tão falado privilégio masculino


não deixa de ser, portanto, uma cilada, visto que, para a manutenção
desse status quo de macho dominador, o homem se vê obrigado a
confirmar socialmente a sua virilidade a todo o momento. É justamente
nesse processo que esses atributos acabam se confundindo, pela
necessidade de recorrência ao uso da força para que seus propósitos
sejam garantidos, ainda que em detrimento de outros sentimentos mais
elevados, que sua condição de macho não lhe permite expressar, quiçá
cultivar.(Bourdieu, 1999)

Segundo Kimmel (apud Giffin, 2004), as imagens de


masculinidades construídas nos Estados Unidos no decorrer dos tempos
podem ser análogas ao modo como essa nação se remete aos outros
países através de sua política externa, política esta caracterizada pela
violência, competitividade abusiva, e uma insegurança constante. Essa
constatação leva o autor a considerar esse país como um perigo
47

eminente para a sobrevivência do planeta. Kimmel afirma ainda que,


nessa visão norte-americana de masculinidade, a homofobia é base para
garantir a afirmação da identidade masculina.

Mas não apenas isso. O autor salienta que, na visão norte-


americana de macheza, outros homens, de acordo com a origem,
etnia/raça, religião, geração, etc., podem ser desqualificados em relação
ao mito de superioridade masculina americana. Teríamos aí uma
verdadeira gradação de masculinidades, sendo que, no topo da pirâmide
estariam os americanos, com a prerrogativa de se auto-designar ao
mais alto grau de masculinidade/poder em relação ao restante da
população masculina do mundo. (Kimmel, apud Giffin, 2004)

A despeito de quão equivocadas possam nos parecer as


idiossincrasias americanas, não podemos nos furtar de sofrer seus
efeitos em nossas vidas, tal o poder de influência a que somos
submetidos na condição de país de terceiro-mundo.

Giffin (2004) nos surpreende ao recordar que a questão do


masculino vem requisitando espaço na pauta das discussões desde os
anos 50, época que antecede o início das primeiras manifestações
feministas. Nesse período, as mulheres descartaram a participação dos
homens no debate sobre suas questões, no intuito de minimizar o
famigerado padrão de dominação contra o qual elas se rebelavam,
envolvidas que estavam na meta de garantir um espaço no âmbito da
vida pública. A autora ressalta, entretanto, que o papel do homem nos
estudos feministas desde esse período era o de “objeto”.

Pesquisando autores como Carrigan, Connell e Lee, a referida


autora const ata a existência de estudos que relacionam a delinqüência
48

e fracasso escolar com a ausência paterna. Vale citar também estudos


desse período relacionados aos conflitos diante da masculinidade
desencadeados pelas demandas emergentes de valores relativos à
“sensibilidade” nas relações sociais, num processo que coloca em
xeque a manutenção dos padrões masculinos socialmente impostos
diante da vida real e suas contradições. (Giffin, 2004).

De qualquer forma, constata -se como relativamente recente o


interesse das ciências sociais por essa temática, onde a questão de
gênero é ampliada no sentido de abrigar também uma discussão sobre
as implicações do modelo de masculinidade hegemônica2 no contexto
global, mas também no que se refere à saúde integral dos homens , e
em especial a saúde reprodutiva. (Giffin, 1995; Silver, 1999).

Outros autores relevantes salientam também que a construção


social da masculinidade dentro dos parâmetros tradicionais e
hegemônicos se dá numa perspectiva de opressão feminina, mas
também estrutura um cenário em que surgem uma gradação de
masculinidades subordinadas. (Connel, 1995; Kaufman 1997; Kimmel,
1997; de Keijzer, 2000)

Sendo o chamado "mundo dos homens" composto, na realidade,


por homens e mulheres, há que se atentar para o fato de que estas
últimas já vêm deixando claro, há algum tempo, uma série de questões
acerca das desigualdades de gênero. De fato, as insatisfações são tanto
de mulheres quanto de homens, e isso apenas reforça as dúvidas

2
Utilizaremos, neste trabalho, o conceito de hegemonia conforme proposto por Antonio
Gramsci. Para ele, o conceito de hegemonia caracteriza a liderança cultural- ideológica de uma
classe sobre as outras. As formas históricas da hegemonia nem sempre são as mesmas e variam
conform e a natureza das forças sociais que a exercem. (Coutinho, 1981).
49

quanto à perspectiva do papel de dominador atribuído aos homens ser


ou não um “privilégio” a ser mantido.

Curiosamente, vários estudos demonstram que a busca


atualmente parece ser, justamente, por uma identidade onde os valores
até então ditos femininos passam a ser levados em conta. Valores estes
que remetem à "sensibilidade", em contraposição à "racionalidade"
eminentemente masculina (Luz, 1987; Giffin, 1999).

Por outro lado, existe a constatação de que essas transformações


estão condicionadas à questão da relação, uma vez que envolvem o
posicionamento das mulheres. Estas podem ou não aceitar as inovações
propostas pelos homens dentro das relações cotidianas. Isto porque, é
no cotidiano dessas relações que os atributos de gênero são
reproduzidos e transformados. Contudo, as mudanças no
comportamento de gênero masculino são de caráter ainda
relativamente tímido e incipiente e, aparentemente, circunscritas a uma
pequena parcela de homens pertencentes à classe média e, portanto,
munidos de um nível de instrução diferenciado. (Giffin e Cavalcant i,
1999)

Alguns estudos apontam para a perspectiva de que esses


questionamentos também venham sendo feitos entre homens de
camadas de baixa renda, onde o estereótipo do “machão” parece não
mais receber a mesma aceitação de algum tempo atrás. (Mota, 1998;
Barker & Loewenstein, 1997). O PHSVC reuniu majoritariamente
homens de classe popular, e estes demonstraram ser provável a
confirmação dessa tendência.

Diante disso, parece importante ressaltar a necessidade de se


50

pensar metodologias e técnicas para se trabalhar a questão da


alteridade, a reflexão crítica dos atributos de gênero e, com isso,
favorecer a construção de uma “fala masculina” .(Giffin & Cavalcanti,
1999), Não por acaso, nos propusemos a revisitar as transcrições que
ora são alvo de análise nessa pesquisa. Registro de um momento
especialmente interessante do “Projeto Homens, Saúde e Vida
Cotidiana”, essas transcrições contemplam a fala de alguns dos homens
que se envolveram, efetivamente, em uma verdadeira maratona
reflexiva sobre suas identidades de gênero, sobre sua saúde e
participação social.

Essas experiências dão indícios de que os homens começam a


perceber que também podem falar sobre si e de que, na medida em que
são ouvidos, descobrem a possibilidade de se permitir escutar o outro, e
identificar-se na fala do outro. Num processo de construção coletiva do
conhecimento sobre a realidade comum, podem chegar a descobrir
juntos que também são responsáveis pela qualidade de vida pessoal e
coletiva, e que a saúde do homens é uma questão de saúde pública, a
exemplo do que ocorreu com os participantes dos Grupos de Reflexão de
Gênero do PHSVC. (Relatório Final PHSVC, 2001).

Descobrem, sobretudo, que são os grandes responsáveis pela


manutenção ou pela transformação da qualidade de suas vidas, e que a
construção de novas identidades de gênero não só é possível, como
também pode lhes permitir a exploração de muitas de suas
potencialidades humanas até então desconhecidas, porque
desqualificadas pelos padrões de masculinidade tradicional.

3.2.2. A Saúde do homem:


51

A pergunta: "O que é ser homem hoje?", permeou todo o trabalho


realizado com os participantes dos Grupos de Reflexão de Gênero
formados pelo PHSVC. Nesse trabalho, a questão de gênero foi
colocada enquanto reflexo de um processo, onde a dicotomia
masculino/feminino, tradicionalmente alicerçada numa relação onde
prevalece a dominação, apresenta-se como um fator preocupante em
termos de saúde coletiva, que diz respeito tanto a saúde das mulheres
quanto a dos homens, demandando ser confrontada em sua
integralidade.

Mas a saúde dos homens, em suas especificidades múltiplas, que


vão desde a questão fisiológica, até a questão da violência doméstica, e
mesmo o fenômeno da violência em seus aspectos sociais mais
abrangentes, precisa ser considerada atentamente como mais um
aspecto da questão de gênero, no sentido da criação de políticas
públicas de saúde que levem em conta as necessidades da população
masculina.

Observa-se também que, na maioria dos países, há ministérios ou


conselhos que defendem o estatuto da mulher. Contudo, o mesmo não
acontece em relação aos homens. A própria busca de cuidados para com
a saúde não faz parte de seu repertório, visto que “ser homem”, a partir
dos parâmetros impostos por essa cultura, implica em não ficar doente
nunca, não amolecer, não chorar jamais, não se mostrar dependente ou
fragilizado. No processo de formação da identidade masculina, forjada
em raízes que se baseiam na cultura patriarcal, os homens adquirem
uma capacidade especial para camuflar os próprios problemas.
(Bourdier, 1997; Nolasco 1995).

A preocupação com a saúde do homem, no entanto, ainda é


52

assunto de pouca ressonância, e os setores de saúde pública


permanecem aparentemente alheios a esta problemática. De um modo
geral, os serviços est ão preponderantemente estruturados para a
assistência às mulheres e crianças, embora atuem de forma bastante
insatisfatória mesmo nessas áreas. Apesar das pretensas conquistas das
mulheres em termos legais, a atenção integral à saúde, conforme
previsto na legislação atual, ainda está longe de se fazer realidade no
Brasil.(Simões Barbosa, 2001 A).

Vale ressaltar, entretanto, que o interesse de colocar em pauta a


saúde do homem nada tem a ver com sexismo machista, ou desejo de
resgatar a prevalência do masculino. Como bem alerta Gomes (2003),
trata-se justamente de fortalecer a busca de equidade dos gêneros. De
forma alguma se invalida a necessidade de garantir programas de saúde
especificamente voltados para as mulheres. Além do interesse de fazer
valer as prerrogativas do Sistema Único de Saúde – SUS, no que tange
aos princípios primordiais de universalidade e equidade, o objetivo é
alertar para um necessário olhar de cuidado sobre as especificidades de
cada gênero.

“Acreditamos que são igualmente válidos os


posicionamentos que enfocam a saúde da mulher e a
saúde do homem, desde que tais posicionamentos não
percam a perspectiva relacional entre os gêneros e não
se distanciem da promoção da saúde voltadas para as
necessidades humanas em geral.” (Gomes, 2003)

Diante desse quadro, ressalta-se a importância de ampliar o


debate e os estudos que instrumentalizem as práticas de saúde, levando
em conta a perspectiva de incluir um número cada vez maior de
homens como participantes e co -construtores desse conhecimento, pois
53

somente a partir de suas falas será possível acessar quais são suas reais
preocupações e necessidades, especialmente no que diz respeito à
saúde. (Gomes, 2003; Giffin & Cavalcanti, 1999).

Observa-se que existe, realmente, uma tendência acentuada dos


homens morrerem antes das mulheres, e não raro em virtude de causas
externas, quase sempre associadas à uma pré -disposição deliberada à
se exporem a riscos e situações perigosas. Nesse processo, somam-se
as experiências com drogas, alcoolismo, situações de violência e
acidentes. Quanto a isso, destaca-se, principalmente, o aspecto que diz
respeito as atividades laborais onde, quase sempre, é o homem que se
compromete com as tarefas mais arriscadas e perigosas e que
demandam maior vigor físico. (Hardy & Jiménez, 1998).

De fato, o corpo masculino é visto como instrumento de trabalho.


Não por acaso, a saúde do homem tem sido relegada ao âmbito da
saúde do trabalhador, justamente em virtude dos fatores de risco e das
conseqüências do trabalho sobre a saúde. (de Keijzer, 2000)

Trata-se de um padrão que parece estar bastante imbricado na


ideologia que prevalece na cultura latino-americana, onde “ser homem é
fazer coisas de homem”. Essa cultura acaba privilegiando uma estrutura
de relações em que a masculinidade é compreendida a partir de três
aspectos: o trabalho, a sexo-genitalidade, e a perpetuação através da
paternidade. Isto, é claro, considerando-se também as variações
relativas a classe, etnia, geração e particularidades sócio-históricas.
(Jiménez & Garcia, 1997, De Keijzer, 2000)

Ser homem, na maior parte dessa cultura, está diretamente


relacionado com a perspectiva de ser pai. Ter filhos é uma forma
54

categórica de provar a masculinidade.

Daí também se depreendem questões ligadas ao processo


reprodutivo, e ao modo como os homens se colocam diante da questão,
especialmente no que se refere à prevenção de dst/AIDS, e à divisão da
responsabilidade em relação ao uso de métodos contraceptivos. De um
modo geral, a tendência é eles se colocarem à margem, assumindo o
papel do provedor de prazer, relegando às mulheres a responsabilidade
por esses cuidados, nem sempre levando em conta o fato de que o uso
de pílulas, por exemplo, pode ser um fator complicador da saúde delas.
(Kalckmann, 1997)

Vários estudos apontam para a resistência demonstrada por


muitos homens em adotarem a utilização da camisinha, apresentando as
mais diversas justificativas para isso. Ainda é preocupantemente
reduzido o número daqueles que se referem a um uso contínuo e
sistemát ico deste método, sendo que os que se mostram mais
reticentes alegam que suas dificuldades estão ligadas à perda de
sensibilidade, à interrupção do clima de erotismo e, consequentemente,
ao medo de perder a ereção, medo este causador de ansiedade pelo
receio de comprometimento do desempenho junto à parceira. (ib idem,
1997).

“Parece que evitar filhos, para eles, já é considerado


direito legítimo das mulheres, o mesmo não
acontecendo quando o desejo é a prevenção de
doenças. Admitem , com orgulho, que podem
engravida-las, o mesmo não acontecendo em relação
às doenças ”. (Kalckmann, 1997: 89).

Nesse aspecto, para muitos homens, o casamento aparece como


55

um fator de segurança uma vez que, nesse contexto, estaria em suas


mãos o controle sobre a seleção de suas relações sexuais. Ao mesmo
tempo, a extra-conjugalidade é tida como uma prerrogativa do gênero
masculino, fato que parece tratar-se de um acordo tácito aceito inclusive
pelas mulheres, especialmente entre as camadas populares. (Almeida,
2002). Com a naturalização desse comportamento, a vulnerabilidade
diante da possibilidade de contrair DSTs/AIDS fica maximizada frente as
ideologias de masculinidades incorporadas no contexto das relações
extraconjugais.

Um outro aspecto digno de nota tem ligação com a di ficuldade dos


homens aceitarem a perspectiva da sua própria infertilidade, o que não
se enquadra no modelo de masculinidade que precisam atender. Dessa
forma, como produto das relações de poder que eles mantém em
relação às mulheres, somente à elas fica delegada a responsabilidade
de submeterem-se a um processo de diagnóstico, muitas vezes
desnecessário, quando o casal não consegue conceber um filho. Assim,
um tratamento preventivo que poderia ser feito a partir de um simples
exame de espermograma, é retardado, ou nem mesmo chega a ser
feito. O fato é que a auto-estima do homem que não consegue procriar
fica irremediavelmente comprometida, visto que este fator interfere
significativamente em sua identidade masculina, na medida em que se
sente diminuído por não poder provar sua virilidade. (Hardy & Jiménez,
1998)

De um modo geral, vários estudos descrevem como a enorme


diversidade de praticas sexuais dos homens, bem como a forma como
essas praticas são atravessadas pelos mecanismos de poder, concorrem
para tornar a sexualidade um campo central para a compreensão das
identidade masculinas, frente as mais diversas repercussões que podem
56

acarretar no campo da saúde. (de Keijzer, 2000)

O quadro que se assiste atualmente é o aumento significativo de


mulheres infectadas pelo HIV, sendo que a incidência maior não é, como
poderia se supor, entre as profissionais do sexo, mas sim entre as
mulheres com um único parceiro e em idade reprodutiva.

“No terreno da dupla moral que rege a cultura sexual,


a maioria dos homens não revela que mantém relações
sexuais fora do casamento. Neste sentido, o eixo de
muitas campanhas informativas centrado na (suposta)
fidelidade mútua é irreal, já que não questiona o
comportamento masculino. O ‘fator de risco’ que
implica estar casada persiste para mulheres em
sociedades culturalmente distintas, desde a América
Latina até a Índia” ( Simões Barbosa, 2001-A:p.19)

O tema da violência também é uma das questões centrais na


relação masculinidade X saúde, haja visto as conseqüências que esse
fator vêm acarretando em termos de prejuízos para a saúde tanto de
homens como de mulheres. Nesse aspecto, a abordagem das ideologias
de gênero podem contribuir para esclarecer os modos como vem sendo
construído esse contexto social de violência que já se apresenta com
dimensões alarmantes, e onde o exercício de poder masculino nem
sempre é expresso de maneiras ‘sutis’, em especial no âmbito do espaço
doméstico.

“Es llamativa la reciente proliferación de programas y


modelos que utilizan diversas estrategias para detener
la violencia com hombres que se acercan
voluntariamente u hombres derivados por los servicios
de justicia.” (de Keijzer, 2000)

Assim, a saúde mental, a saúde reprodutiva, a sexualidade e o processo


57

de socialização do homem são aspectos que vem sendo observados na


literatura recente e em algumas propostas de intervenção na área da
educação popular, a exemplo do PHSVC, onde o trabalho com homens é
considerado de suma importância no sentido de se alcançar as soluções
para a resolução dos conflitos entre os gêneros.

Nesse processo, faz-se necessária a inclusão de um número cada


vez maior de homens que se disponham a dar prosseguimento a esse
debate. Em última instância, o grande desafio é possibilitar que, a partir
daí, eles passem a se perceber enquanto “sujeitos comprometidos com
um processo educativo transformador”, que implica não somente a
apropriação de novos conhecimentos científicos, mas principalmente a
adesão a “um papel social ativo, solidário e engajado”. (Simões
Barbosa, 2001-C; p. 125).

3.2.3. – Masculinidades: Os temas emergentes

Identifica-se nas pesquisas realizadas, alguns temas centrais


relativos às grandes tensões que permeiam a masculinidade
atualmente. Pode se destacar três aspectos como importantes vias de
acesso à compreensão dessa questão: a paternidade, a sexualidade e a
violência. (Giffin & Cavalcanti, 1999)

A paternidade pode ser compreendida como possibilidade de


inserção no mundo do privado, do doméstico, de uma forma diferente
da tradicional, que consistia no papel do provedor absoluto. Entretanto,
as dimensões da afetividade, das emoções e da intimidade ganham
novo contorno, na medida em que se apresentam como um contraponto
ao papel tradicional masculino, colocado em xeque diante da eminência
do desemprego e, o conseqüente isolamento das relações produtivas.
58

.(ib idem, 1999; Noronha, 1997).

Vale ressaltar que essas pressões sociais podem ser responsáveis


por graves implicações na saúde mental e na saúde da família como um
todo.
“Como é que ele se sente dentro de uma sociedade
que o valoriza pelo que possui em bens de consumo e
não pelo que é como ser humano? Como é sentir-se
apenas uma peça de uma engrenagem, com uma
personalidade estereotipada e uma necessidade brutal
de vencer, ser reconhecido e supervalorizar-se para
adquirir o respeito da sociedade e de seus
descendentes? “(Noronha, 1997; p. 37)

Surgem novos discursos sobre novas formas de ser pai. Constata-


se que o homem atual está procurando definir melhor o seu papel, a sua
identidade, reformulando valores no sentido de direcionar seus afetos
para caminhos menos frustrantes. (Noronha, 1997). Percebe-se que tem
havido uma mudança significativa no papel e participação dos pais nos
cuidados e no acompanhamento do processo de desenvolvimento de
seus filhos. Muitos homens vem assumindo a participação nas tarefas
rotineiras do cotidiano, tais como assistir, banhar, alimentar, colocar pra
dormir, ir buscar na creche, na escola e, inclusive, participar das
consultas médicas dos filhos e da mulher. (Nolasco, 1995; Zigoni 2001;
Carvalho, 2004).

Vários estudos vêm comprovando que o suporte emocional que o


pai oferece para sua companheira contribui na adaptação à gestação;
que a presença do companheiro no parto contribui para diminuir a
nece ssidade de uso de anestésicos, além de favorecer uma vivência
mais positiva do pós-parto e da amamentação. O direito da participação
do Pai nos serviços públicos de saúde, principalmente nas maternidades,
já é objeto de lei em alguns estados, como Santa Catarina, São Paulo e
59

Rio de Janeiro. O resultado disso é a presença cada vez maior dos pais
nos hospitais, não como visitas apenas, mas como participantes do
processo. Também nos ambulatórios e consultórios, começa-se a
observar a presença masculina acompanhando os filhos. Esses dados
sinalizam o surgimento de uma nova consciência do papel do pai na
formação da personalidades das crianças. (Giffin & Cavalcanti, 1999;
Carvalho, 2004).

No que diz respeito à sexualidade, o papel do homem dentro do


modelo tradicional, esteve sempre ligado à atividade, sendo o sexo
encarado como uma forma explícita de exercer o poder sobre o outro,
atributo este que é aprendido desde muito cedo (Gomes, 2003; Nolasco,
1995), e onde também fica clara a delimitação do espaço público como
de domínio masculino, na medida em que o processo de socialização dos
meninos é realizado fora do lar.

Desde muito cedo, a educação tradicional busca estabelecer


detidamente as fronteiras entre o que é de menino e o que é da menina.
A rua é o espaço onde os meninos vão encontrar as referências sociais
para a construção de suas identidades, levando em conta a prerrogativa
de descartar qualquer atributo que possa estar relacionado ao feminino.
(Baker & Loewnstein, 1997). Mas não somente isso. Ser homem é mais
que a mera oposição ao ser mulher. Implica em não ser “veado”,
“maricas”, ”corno”, “bicha”, figuras que incorporam as representações
de feminilidade, fraqueza, impotência, subordinação, passividade.
(Mota, 1998).

No terreno da saúde, por exemplo, esse padrão acaba se


refletindo enquanto repressão da sexualidade. A partir daí, supõe-se que
possa ter relação com as altas taxas de incidência e mortalidade por
60

câncer de próstata, o que pode ser explicado a partir da dificuldade de


se promover campanhas preventivas nesse sentido. Como bem ressalta
Gomes (2003), é óbvia a dificuldade que qualquer indivíduo do sexo
masculino, dentro de nossa cultura, tende a apresentar diante da
perspectiva de se submeter a um exame de toque retal.

Pode-se observar, também, um grande distanciamento das


questões afetivas, em contraposição às demandas de satisfação carnal,
o que redunda na constatação de vários pesquisadores de que os
homens, dentro de um padrão tradicional, apresentam uma grande
dificuldade para administrar as questões relativas aos sentimentos, uma
vez que estão condicionados a uma identidade onde têm que se mostrar
sempre fortes, corajosos, potentes, e sempre dispostos sexualmente.
Isso acaba por torna-los incapazes de administrar experiências em que
precisem lidar com o fracasso, embora estas sejam inerentes às
relações humanas. (Barasch, 1997; Ribeiro, 1991).

“A desinformação faz parte do cotidiano de todas as


camadas sociais. Inclui desde a ignorância do sexo
oposto e do próprio, de maneira geral, até a ignorância
dos sentimentos próprios e alheios, o que gera falta de
comunicação e dificulta o conhecimento do potencial
erótico dos parceiros” (Barasch, 1997: p. 101).

Estudos comprovam a necessidade de se observar a concepção


que os homens, em especial os homens jovens, têm a respeito das
práticas sexuais, e dos papéis destinados ao gênero masculino, que
comportam ideologias de gênero que os coloca em situação de grande
vulnerabilidade, na medida em que precisam dar conta do ideário de
macho viril e do “tesão”. No caso de adolescentes, além do ideário
masculino, eles lidam também com a emergência dos hormônios
61

característicos da idade. Isto acaba denunciando a existência, na


prática, de uma grande flexibilidade em relação à assunção de papéis no
que se refere à atividade sexual propriamente dita. (Mota, 1998).

A necessidade de atuar de acordo com essas ideologias tende a


expor esses jovens a uma gama de DSTs/AIDS, que poderiam ser
evitadas, não fosse uma forma de conduta baseada em constructos
mentais do tipo "homem é homem, caia aqui, caia acolá"; "lavou, tá
limpo"; "Deu mole, tem que pegar"; "Homem que é homem, não fica
escolhendo mulher" (sic), entre outros tantos nesse mesmo padrão.
(Paiva, 1996)

Observa-se uma progressiva e exacerbada exploração da figura do


homem, especialmente do corpo masculino, pela mídia e veículos de
comunicação de massa. Numa verdadeira inversão de papel, os homens
deixam de ser sujeitos para tornarem-se objetos de consumo.
Atualmente, as fronteiras dos mercados da moda, da estética, dos
cuidados com a beleza, e com o corpo de um modo geral, ultrapassaram
as costumeiras clientelas femininas. Hoje em dia, a "entidade" que se
convencionou chamar de Mercado descobre um incrível potencial de
lucratividade investindo no mercado masculino. O contexto de intensa
mercantilização que hoje rege as relações humanas, é caracterizado por
uma voracidade sem limites, na qual também o homem vem sendo
transformado em objeto de consumo. (Messeder, 1995).

O corpo masculino está na ordem do dia, nas capas de revistas,


nas esquinas, prostituindo-se, desnudo nas telas das televisões - em
horários os mais diversos, utilizado para vender qualquer tipo de
mercadoria, e sendo ele próprio, ou melhor – seu corpo, um objeto de
consumo para além da mera e tradicional utilização da sua força física
62

destinada ao trabalho. Seu corpo agora é também um produto de


consumo erótico, a exemplo do que tem sido feito com o corpo da
mulher no decorrer da história.(Messeder, 1995)

Parece estar havendo uma visível transformação nos hábitos


masculinos, onde os homens estariam se permitindo dar vazão à
vaidade e, nesse movimento, integrando em seus cuidados pessoais o
uso de cosméticos, e na sua forma de vestir elementos até então tidos
como de exclusividade feminina. Esse movimento, que espelha um
desejo de ruptura com o tradicional, vem sendo rapidamente captado
tanto pela mídia como pela indústria da moda, que investe cada vez
mais na chamada proposta “unissex”, em contraposição à já
aparentemente desgastada figura do machão, que parece ter se tornado
sinônimo de brutalidade. (Caldas & Queiróz, 1997; Macedo, 1997)

“Os publicitários, atentos, detectaram primeiro o


“desejo de realidade” do homem contemporâneo,
cansado de ter de posar sempre de herói ou super-
homem” (Caldas & Queiróz, 1997: p. 155)

Contudo, nesse processo, não ocorreu uma inversão de papéis.


As mulheres não deixaram de serem encaradas como objetos, e
tampouco assumiram o papel de dominadoras. Parece haver, ainda, um
longo caminho a ser percorrido no sentido de que esses padrões
alicerçados na dominação masculina venham a ser remodelados.

Nesse contexto, onde corpos femininos e masculinos se tornam


alvos de toda a atenção, questões relativas à afetividade acabam sendo
desconsideradas. As pessoas parecem buscar alivio para suas tensões e
insatisfações através de uma maratona mecânica e insana de atos
sexuais repetitivos, onde a qualidade da vida afetiva não chega a ter
63

lugar. (Chauí et all, 1981; Giffin, 2002).

Sendo assim, repensar e problematizar cada pólo revela que eles


se contêm e se integram, são plurais e, individualmente, fracionados,
pois existem muitas/os e diferentes mulheres e homens, e a grande
tarefa no momento parece ser a busca da unidade em meio à
diversidade. (Amar, 2003)

Nessa conjuntura, há que ser considerado, ainda, o crescimento


vertiginoso dos índices de violência mundial nos últimos anos. Nesses
episódios, os atores principais são do sexo masculinos, se revezando no
papel de autor e vítima. Na realidade, ser autor ou vítima é condição
que tem a ver com a “encenação dos papéis que, conforme o imaginário
de gênero, cabem às mulheres e aos homens desempenhar” (Suárez et
all, 1999, apud Gomes, 2003: p. 12)

Assim, a violência começa a ser debatida enquanto uma questão


de Saúde coletiva, reconhecida enquanto tal em relatórios que a
Organização Mundial de Saúde tem editado, tratando especificamente
dessa temática (Kruger et all, 2002), enquanto um fenômeno social que
vem apresentando índices cada vez mais alarmantes, especialmente nos
grandes centros. Muitos são os fatores envolvidos, os conceitos que
tentam explica-la, e maiores ainda os índices de morbi-mortalidade
masculina provocados por causas externas onde. Além da questão de
gênero, as questões de classe social, raça/etnia e geração são acionadas
para revelar que esses índices referem-se, em sua maior porcentagem,
a homens jovens, pobres e negros.

Os dados de morbi-mortalidade são categóricos: É o homem o que


mais mata, mas é também o homem quem mais morre, tanto por
64

causas violentas como por questões de saúde, ou melhor, pela falta


dela.(Nolasco, 1995; Corneau, 1995; Vermelho & Mello Jorge, 1996;
IBGE, 1999; Claves/Fiocruz/Cenepi, 2001; Krug Eg et al, 2002l).

São dados que espelham uma significativa fragilidade masculina,


onde os homens figuram como protagonistas de altos índices de
violência criminal, associados ao uso do álcool e outras drogas;
suicídios; distúrbios de aprendizagem; hiperatividade; esquizofrenia e
autismo. (Corneau, 1995).

Estes índices espelham o sofrimento de camadas cada vez


maiores da população, mormente das comunidades periféricas onde
jovens, majoritáriamente do sexo masculino, e em sua maioria de
origem negra, encontram-se submetidos a um regime de exclusão das
condições básicas de uma vida humanamente digna, como educação,
trabalho, moradia, lazer e saúde. Para estes jovens, só resta a
perspectiva de se enquadrar em um contexto de guerra urbana que
parece não ter qualquer possibilidade de equacionamento, ainda que a
longo prazo, e no qual prevalece, como na selva, a lei do mais forte.
(Vermelho & Mello Jorge, 1996; IBGE,1999; KRUG EG et al,2002).

De acordo com pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e


Estatística – IBGE, publicada em dezembro de 2003,
contraditóriamente, a expectativa de vida da população brasileira subiu
6 anos desde 1980, só não sendo maior devido ao aumento no índice de
mortalidade, sobretudo entre os jovens. Entre 1980 e 2003 a esperança
de vida ao nascer, no Brasil, elevou-se em 8,8 anos: mais 7,9 anos para
os homens e mais 9,5 anos para as mulheres. Em 1980, uma pessoa
que completasse 60 anos de idade teria, em média, mais 16,4 anos de
vida, perfazendo 76,4 anos. Vinte e três anos mais tarde, um indivíduo
65

na mesma situação alcançaria, em média, os 80,6 anos. Aos 60 anos de


idade os diferenciais por sexo já não são tão elevados
comparativamente ao momento do nascimento: em 2003, ao completar
tal idade, um homem ainda viveria mais 19,1 anos, enquanto uma
mulher teria pela frente mais 22,1 anos de vida. (IBGE, 2005)

Essa afirmação é confirmada por dados de pesquisa tanto da


área da saúde pública como das ciências sociais a nível mundial. Por
nosso lado, esses informes tornam-se bastante preocupantes, quando
percebemos que a situação no Rio de Janeiro aparece nesse cenário com
índices que permitem um paralelo da situação local com a guerra civil
instalada na Colômbia e outras sociedades em guerra. (Vermelho/ Mello
Jorge, 1996; Krug Eg et all, 2002).

Além disso, a questão das relações de gênero, nesse contexto,


tornam-se, cada vez mais, objeto de estudo e preocupação social, como
atesta o último relatório sobre violência e saúde da Organização Mundial
de Saúde - OMS, onde esse aspecto é reconhecido e reafirmado como
questão de saúde pública que demanda soluções criativas e
compartilhadas com o público alvo (Krug Eg et all, 2002).

Dessa forma, sem a pretensão de desmerecer as questões


levantadas pelas mulheres enquanto objetos históricos da dominação
masculina e, consequentemente, da chamada violência de gênero, neste
momento, o propósito é lançar um olhar sobre essa figura até certo
ponto patética: o homem que, na busca de se entender em um mundo
cada vez mais complexo, individualista e tecnologizado, parece ter
perdido o “fio-da-meada”, passando a se comportar sob os efeitos de
uma tensão crescente e incontrolável que o faz atirar sem ver pra onde,
e sem perceber que, muitas das vezes, o alvo é ele mesmo.
66

Fala-se, novamente, do processo de construção da tal “couraça”


mencionada anteriormente. Neste processo de “tornar-se” homem, o
indivíduo vê -se obrigado a se diferenciar de tudo que NÃO É “ser
homem”. Nesse paradigma, ser homem é não ser mulher, não ser
menino, e não ser homossexual. Em outras palavras, significa não
chorar, não cuidar dos outros, nem de si mesmo, não cantar, não
dançar, nunca expressar os sentimentos, ou sua sensualidade. Cuidar,
chorar, cantar, dançar, ser sensual, mostrar sentimentos, de acordo
com o padrão de masculinidade tradicional, são atributos femininos. Na
fala de Corneau, “Ser homem significa amputar seu corpo e seu
coração, sem poder chorar.” (Corneau, 1995).

Contudo, alguns homens vêm dispondo-se a participar da


proposta de exercitar a reflexão em grupo, espaço onde ocorrem as
trocas de experiências de vida num clima de confiança e abertura
singulares, a exemplo das experiências do PHSVC. Suas falas registram
um desejo sincero de estabelecer relações mais eqüitativas com suas
companheiras, ao mesmo tempo em que expressam uma grande
satisfação por descobrirem que podem se colocar aberta e livremente
para outros homens, sem o receio de que suas masculinidades sejam
colocadas em xeque por conta disso. (Giffin et all, 2000).

Em última instância, a grande questão que se coloca é a própria


capacidade de convivência da humanidade, onde está em xeque a
possibilidade de interlocução, convivência e diálogo entre "diferentes",
que encontram-se necessariamente em constante intercâmbio e relação
(Velho,1996). Se levarmos em conta a impossibilidade de expressão de
sentimentos por parte da população masculina, que construiu sua
identidade de gênero sob os parâmetros do modelo de masculinidade
67

hegemônica, essa afirmação tem alguma razão de ser.

Isto posto, a seguir, passamos à apresentação do referencial


metodológico adotado para esta pesquisa.

4. Metodologia

“Não posso estar no mundo de luvas nas mãos,


constatando apenas. Constatando, intervenho, educo e
me educo. Ensino porque busco, porque indaguei,
porque indago e me indago. Pesquiso para conhecer o
que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a
novidade. O que me faz esperançoso não é tanto a
certeza do achado, mas mover-me na busca. Não é
possível buscar sem esperança, nem, tampouco, na
solidão.” (Paulo Freire, 2000, p.32)

4.1. Discussão meto dológica: Uma questão de Qualidade

A opção por uma abordagem qualitativa é justificada pela


natureza do objeto de pesquisa, que reporta-se à subjetividade e ao
simbolismo inerente ao universo das masculinidades.

A pesquisa qualitativa postula que o mundo social é constituído


por significações passíveis de serem investigadas, onde tanto os
investigadores quanto os investigados são agentes inter-ativos.

Segundo Weber (apud Minayo & Sanches, 1993), mais que se


limitar à mera descrição dos comportamentos humanos, cabe às
ciências sociais buscar o aprofundamento da compreensão do
significado da ação humana em sua singularidade. Nesta pesquisa,
estamos interessados especificamente na análise do caráter significativo
das formas simbólicas expressa nas falas de homens participantes de
68

grupos de reflexão de gênero, visando captar a dialética de acomodação


e resistência às suas ideologias de gênero, e a relação entre essas
ideologias e as práticas de cuidado com a saúde.

É mérito do trabalho qualitativo inclui r no conceito de


cientificidade a idéia do "devir", já que seu objeto está sempre no nível
dos significados, motivos, atitudes, intenções, crenças e valores
expressos pela linguagem do cotidiano (Minayo & Sanches, 1993).

Qualidade é um termo de definição complexa, visto que possui um


caráter pluridimensional e exposto a uma série de definições diferentes
que variam desde “propriedade ou atributo de coisas ou pessoas” (o
que pode ser medido) a “aspecto sensível, e das coisas”.
(Uchimura&Bosi, 2002)

Estas autoras salientam ainda que, na escolha entre as possíveis


definições, sempre se incorre no risco de rejeição de parte da realidade.
A qualidade, em sua dimensão objetiva, é mensurável (generalizável), o
mesmo não ocorrendo com a dimensão subjetiva, que remete às
singularidades expressas nas emoções, sentimentos, sendo que estes
não comportam mensuração. (Uchimura & Bosi, 2002).

Segundo Minayo, há vários métodos e técnicas de análise


qualitativa. Entretanto, sua classificação quanto a ser um bom método
ou não jamais pode ser atribuída ao método em si, mas à maneira como
é utilizado. O trabalho qualitativo descreve, compreende e explica,
atingindo as dimensões simbólicas, contemplando os significados do
sujeito; a dimensão histórica, que privilegia o tempo do espaço real e
analítico; e a dimensão concreta, que refere-se às estruturas e aos
atores sociais em relação. (Minayo & Sanches, 1993)
69

De acordo com Thiollent (1982), numa pesquisa qualitativa, “é o


indivíduo que é considerado como representativo pelo fato de ser ele
quem detém uma imagem, particular é verdade, da cultura (ou das
culturas) à qual pertence” (p.199). Quando se trata, portanto, do fator
humano, as condições objetivas nunca são tudo, assim como as
condições subjetivas. A questão não é, dessa forma, tentar absolutizar
um aspecto ou outro, mas perceber as propriedades de cada realidade.

No que se refere ao objeto desta pesquisa, segundo Konder, para


a apreensão do significado da ideologia em nossas vidas, de forma
consciente, é preciso que se atente para a percepção da realidade
cotidiana, uma vez que esta possível consciência, ao mesmo tempo em
que pode refletir nossa vulnerabilidade aos efeitos das ideologias, por
outro lado também pode sinalizar saídas para a estruturação de
resistências diante da opressão exercida pelos processos ideológicos.
(Konder, 2002).

Assim, apostamos na perspectiva de, a partir dos depoimentos de


um grupo de homens, agentes sociais em processo de reflexão e
problematização do “ser homem”, abordados através de uma
metodologia baseada no diálogo e na participação, capta um momento
significativo de como os homens estão vivenciando suas masculinidades
e o cuidado com a sua saúde atualmente. Nesse contexto, focalizamos
nossa atenção nas inter-relações entre significado e poder, nas
maneiras pelas quais as formas simbólicas podem ser usadas para
estabelecer e sustentar relações de poder, fazendo com que a análise da
Ideologia assumisse um caráter distintivo e crítico.

Vale ainda ressaltar que, apesar da complexidade implícita na


70

perspectiva de se tentar compreender o humano, cabe sempre lembrar


que ‘ciência’ demanda rigor metodológico. Na pesquisa qualitativa, esse
rigor se faz ainda mais necessário. Cientes desta prerrogativa, para
análise do material sobre o qual ora nos desbruçamos, e embuídos do
desejo de fazer o melhor, procuramos nos ater criteriosamente aos
passos da metodologia adotada, os quais passamos a descrever.

4.2. Tratamento dos Dados: Explicando o Vir -a-Ser

Adotamos, para a interpretação dos dados coletados, a


abordagem Hermenêutica-dialética que, de acordo com Habermas (apud
Minayo, 1998), não se propõe a determinar técnicas de tratamento dos
dados, mas sim sua auto-compreensão. Trata-se de uma proposta que
busca compreender a fala dos atores levando em conta o contexto
sócio-histórico em que estão inseridos e no qual a fala é produzida,
buscando captar o movimento, as contradições e os condicionamentos
históricos que a envolvem. Na fala de Thompson,

“o campo-objeto da pesquisa sócio-histórica não é


apenas uma concatenação de objetos e
acontecimentos que estão ali para serem observados e
explicados: é também um campo subjetivo (um
campo-sujeito) que é construído, em parte, pelos
sujeitos que, no curso rotineiro de suas vidas
cotidianas, estão constantemente interessados em
compreender a si próprios e aos outros, em produzir
ações e expressões significativas e em interpretar
ações e expressões significativas produzidas pelos
outros.” (1995, p.33)

A análise hermenêutica-dialética nasceu do debate acadêmico


entre dois pensadores, Habermas (das Ciências Sociais) e Gadamer (da
Filosofia), por volta dos anos 60. Este diálogo acadêmico foi de grande
71

valia para as discussões sobre método nas Ciências Sociais, já que teve
como proposta ser uma metodologia de abordagem da comunicação.
Além disso, não se trata de uma simples teoria de tratamento dos
dados, porque isso seria uma redução da proposta. O objetivo é o
encontro da teoria com a prática transformadora. (Minayo, 1998)

Por hermenêutica entende-se a arte de interpretar o sentido de


um pensamento através da linguagem. Uma compreensão simbólica da
realidade através da palavra. A fala considerada é a da linguagem
cotidiana, núcleo central da comunicação. Abordando a proposta
apresentada por Hans-Georg Gadamer, na visão de Paul Ricouer, a
hermenêutica situa-se na perspectiva da validação da consciência
histórica como referência para a interpretação do conhecimento
humano. Para Gadamer, o homem é marcado pela tradição, e a forma
de estar no mundo comporta o passado como condição para o
desenvolvimento da linguagem, a qual, num constante movimento de
reinterpretação, constitui a realidade. (Ricouer, 1983).

A compreensão será, portanto, sobre as condições cotidianas da


vida. Por esta razão, a hermenêutica será condicionada por um conjunto
de valores sociais que fazem parte do contexto do analista, e este, por
sua vez, também precisa ter claro qual é o contexto de seus
entrevistados, fazendo com que linguagem e práxis se interpretem
mutuamente. Todo indivíduo, pesquisador e pesquisado, é marcado pela
história, pelo seu tempo e sua cultura, e isto será sempre passado para
o texto. A hermenêutica buscará, então, esclarecer sob quais condições
surge este discurso. Daí as possibilidades de interpretação nunca se
esgotarem (Minayo, 1998, 2002).
72

Como já dito anteriormente, usaremos o conceito Ideologia


proposto por John B. Thompson. Segundo esse autor, a Hermenêutica
pode oferecer uma reflexão filosófica sobre o ser e a compreensão como
uma reflexão metodológica sobre a natureza e as tarefas da
interpretação na pesquisa social. (Thompson ,1995). Isto porque
constitui o estudo de construções significativas e da contextualização
social das formas simbólicas, além de fornecer um referencial
metodológico para a condução da análise, em especial, a análise da
ideologia.

A dialética, por sua vez, parte da concepção de que a realidade é


constituída por uma unidade de contrários que, ao mesmo tempo em
que se contém, se afastam. No processo histórico, as faces dialogam,
sem que, contudo, esse diálogo seja sempre no sentido do consenso.
Conforme afirma Pedro Demo, “ é imprescindível haver interesses
contrários (contrariados)” (Demo,1987, p64).

O conflito não é, necessariamente, algo desconstrutivo,


principalmente em termos históricos, que é onde se aplica o termo
dialético. Ao contrário, é o “motor” do processo histórico em que cada
fase gera uma outra fase contrária. Na medida em que esse momento
ocorre, da-se também a transformação da realidade humana, que é
sempre social. (Idem, 1997)

Originalmente, a dialética significava a arte do diálogo, de discutir,


distinguir e analisar as idéias. Ao longo da história, este conceito foi
abordado, abandonado, criticado e resgatado por diversos pensadores,
de acordo com seus referenciais teóricos. No século XIX, com Hegel,
esta abordagem foi formalmente desenvolvida, até que encontrou, no
marxismo, sua maior contribuição, através do materialismo histórico,
73

para quem nada é eterno, fixo ou absoluto, nem as idéias, nem as


instituições. A dialética é, portanto, o método de transformação do real
(Minayo, 2002).

As contribuições de Hegel e do marxismo serviram de base para


os princípios de trabalho do método dialético que, segundo Minayo
(2002), envolve considerar um eterno tornar-se, uma transformação
constante relacionada ao estado anterior mas que não se resume a sua
mera repetição porque não se dá de forma linear nem circular. O
encadeamento dos processos que participam desta transformação
ocorre em espiral, e as mudanças são, ao mesmo tempo, qualitativas e
quantitativas.

A oposição, o contrário, é sempre dialético e complementar nesta


forma de compreender a realidade em processo constante de
transformação, onde cada momento é único, marcado no tempo e no
espaço, podendo se remeter a outros momentos mas sem nunca se
repetir. Qualidade e quantidade, morte e vida, são aspectos de um
mesmo objeto, de uma mesma realidade, que se complementam e
dialogam, se afirmam e negam ao mesmo tempo. (Demo, 1987)

Neste sentido, a dialética estabelecerá uma atitude crítica em


relação ao texto, à fala, pois considera que a linguagem está
fundamentada em relações sociais históricas e contraditórias, e,
portanto, serve de veículo para a dominação, que nunca é absoluta, e
para o exercício de poder entre classes, grupos e culturas diferentes.
(Minayo, 2002).

Thompson (1995) postula que a ideologia, nos moldes que ele


propõe, é parte integrante da luta travada no campo de contestação que
74

caracteriza a vida social. Segundo ele, essa luta se dá não somente no


âmbito da força física propriamente dita, mas também através de
palavras e símbolos. Nesse sentido, ele afirma que a ideologia é “uma
característica criativa e constitutiva da vida social que é sustentada e
reproduzida, contestada e transformada, através de ações e interações,
as quais incluem a troca contínua de formas simbólicas.” (1995, P. 19)

Por esta razão, a linguagem, de acordo com a dialética, esconde e


expressa os conflitos gerados pelas desigualdades, pela exploração e
dominação, bem como os mecanismos de resistência e acomodação
explicitados anteriormente (Anyon,1990), tal como buscamos investigar.

Para Paulo Freire, a realidade concreta é algo mais que os fatos ou


dados tomados mais ou menos em si mesmos. Ela se dá à nossa
percepção a partir de uma relação dialética entre objetividade e
subjetividade (Freire & Faundez, 1985). Ainda dentro da perspectiva
Freireana, não é possível conhecer a realidade em que os indivíduos
participam a não ser junto com eles, tomados como potenciais sujeitos
deste conhecimento.

Assim, no processo de apreensão de cada fenômeno, o método


dialético busca analisar a partir do concreto para, através da abstração,
chegar ao concreto pensado, sem contudo perder de vista a totalidade
de sua inserção histórica. Ou seja, promove a articulação do singular, da
parte com o todo, mas não perde a perspectiva de contínua
transformação a que o mundo está sujeito (Simões Barbosa, 2001-A).
Nesse sentido, as idéias, pensamentos e conhecimentos, de uma certa
forma, devem ser abordados relativamente à sua época e local de
geração, numa condição de provisoriedade.
75

A união dessas duas concepções como formas de produzir


racionalidade sem desprezar a parcialidade do intérprete, pressupõe a
compreensão pelo estranhamento, uma vez que a fala produzida é

“resultado de um processo social (trabalho e


dominação) e processo de conhecimento (expresso em
linguagem) ambos frutos de múltiplas determinações
mas com significado específico. Esse texto é a
representação social de uma realidade que se mostra e
se esconde na comunicação, onde o autor e o
intérprete são parte de um mesmo contexto ético -
político e onde o acordo subsiste ao mesmo tempo que
as tensões e perturbações sociais “ (Minayo,
1998:227).

A Análise: abordagem da Ideologia

É fundamental reconhecer, como propõe Thompson (1995), que o


objeto de nossas investigações se constitui em um campo pré -
interpretado. Sabemos, a priori, que os sujeitos interpelados possuem
suas próprias formas de perceber e interpretar sua realidade, e estas
formas são estruturadas de maneiras definidas e inseridas em condições
sociais e históricas específicas. Portanto, as maneiras em que as formas
simbólicas são interpretadas pelos sujeitos que participam deste campo,
caracterizam pontos-de-vista sustentados e compartilhados entre as
pessoas que constituem os grupos sociais.

Thompson (1995) propõe três fases para o processo de


interpretação, quais sejam: a) Análise sócio -histórica; b) Análise formal
ou discursiva; e c) Interpretação / Re -interpretação
76

a) Análise sócio-histórica

As formas simbólicas são produzidas, transmitidas e recebidas em


condições sociais e históricas específicas. Esta fase tem como finalidade
reconstruir as condições sociais e históricas da produção, circulação e
recepção das formas simbólicas.

De acordo com Thompson, as situações espaço-temporais são


onde as formas simbólicas são produzidas (faladas, narradas, inscritas)
e recebidas (vistas, ouvidas, lidas) por pessoas que pertencem a um
lugar específico, agindo e reagindo a tempo particulares e a locais
especiais, fazendo com que a reconstrução desses ambientes seja uma
parte importante da análise sócio-histórica.

As formas simbólicas estão situadas dentro de um campo de


interação, que pode ser visto como um espaço de posição e um conjunto
de trajetórias, que determinam algumas das relações entre pessoas e
oportunidades acessíveis a elas.

No que tange a esta pesquisa, analisamos depoimentos de um


grupo de homens adultos, provenientes de localidades diversas da
cidade do Rio de Janeiro, mas em sua maior parte, comunidades
populares; nível médio de formação, agentes sociais militantes na área
da saúde, educação; a maioria casados e com experiência de
paternidade. Todos eles participantes do PHSVC, com base em uma
pedagogia que propõe o comprometimento com a transformação; todos
eles encontravam-se envolvidos numa situação de dinâmica de “grupo
Focal”, nas dependências de uma instituição de ensino superior, a UFRJ,
onde se dispuzeram a falar de si, do modo de se viam como homens no
mundo atual, e de como lidavam com sua saúde.
77

Estamos, portanto, lidando com uma série de fatores sócio-


históricos, com toda certeza, imbricados nos discursos destes homens
em relação à sua masculinidade e ao auto-cuidado.

b) Análise Formal ou discursiva:

A Análise Formal ou Discursiva surge em virtude dos objetos e das


expressões que circulam nos campos sociais, que se tratam, também,
de construções simbólicas complexas que apresentam uma estrutura
articulada. As formas simbólicas são produtos contextualizados, que têm
por objetivo dizer alguma coisa sobre algo. Este tipo de análise está
preocupada com a organização interna das formas simbólicas, com suas
características estruturais, seus padrões e relações, servindo, para a
construção do campo-objetivo.
Para nosso objetivos, optamos por uma análise discursiva focada
na questão de gênero, e nos elementos que caracterizam o discurso que
premiam as ideologias de masculinidade hegemônicas. Alguns modos de
manutenção das ideologias de masculinidade, conforme proposto por
Thompson, podem ser facilmente identificados numa proposta de análise
formal das construções simbólicas. No que diz respeito ao nosso objeto,
tendem a se basear na naturalização, na universalização e legitimação
de conceitos que traduzem o masculino como naturalmente superior e
dominante.

c) Interpretação / Re -interpretação

Para Thompson (1995, p. 375), “a interpretação implica um


movimento novo de pensamento, ela procede por síntese, por
construção criativa de possíveis significados''.
78

É, simultaneamente, um processo de re-interpretação. Isto ocorre


por que, como já dito, as formas simbólicas, que são o nosso objeto de
interpretação, fazem parte de um campo pré-interpretado pelos sujeitos
que constituem o mundo sócio-histórico, e também possuem
características estruturais internas. Justamente este conflito que foi
gerado pelas divergências entre uma interpretação de superfície e outra
de profundidade, entre pré-interpretação e re-interpretação, cria o
espaço metodológico que o autor descreve como potencial crítico da
interpretação.

Temos clareza de que não estaremos apresentando uma


interpretação definitiva e completa das falas analisadas, mas um ponto
de vista crítico sobre a questão: o nosso ponto de vista, enquanto
pesquisa dor, profissional de saúde, educador e, sobretudo, também
enquanto homem.

Com certeza, as questões colocadas não se esgotam aqui, mas ao


contrário, tendem a provocar a emergência de outras, passíveis de
novas interpretações e re-interpretações.

A segui r, passamos a apresentar o perfil dos informantes, no


intuito de trazer à luz as formas possíveis e variadas como alguns
homens estão se percebendo, se posicionando e atuando nesse
complexo e conturbado mundo atual, bem como os reflexos dessa
conjuntura em sua saúde.

5. – Os Informantes: Participantes dos Grupos Focais

Estes três grupos focais foram estruturados a partir de uma carta


convite aos homens que compunham os Grupos de Reflexão de Gênero
79

do PHSVC, no momento em que o Projeto já se encontrava em uma


etapa avançada. Nessa ocasião, já encaminhava -se para seu último ano
em campo, tendo consolidado a formação de 12 grupos, dos quais
participaram cerca de 100 homens.

Estas atividades conincidiram com meu ingresso na equipe do


Projeto, e eu tive a oportunidade de atuar como co-facilitador em dois
dos referidos grupos focais.

A carta convite era acompanhada de uma relação de temas


propostos (ver em anexo), para que os participantes tivessem tempo
de, com alguma antecedência, pensar e decidir sobre as questões em
pauta. O convite esclarecia que o objetivo das reuniões era a coleta de
depoimentos para a edição de um livro com histórias de homens:
Palavra de Homem. Rio de Janeiro: ENSP/FIOCRUZ-NESC/UFRJ, 2001.

Responderam a esta chamada 18 daqueles homens, que


assinaram um Têrmo de Consentimento Livre e Esclarecido, referente a
utilização das informações coletadas, conforme prescrito pelo comitê de
Ética do NESC. Estes homens se dividiram, conforme a disponibilidade
de cada um, nas três sessões realizadas em três dias consecutivos. As
reuniões aconteceram nas dependências do NESC/UFRJ, com duração
média de 4 horas cada, com intervalos para lanche e para almoço.

O processo se diferenciou substancialmente da metodologia


aplicada nos GRGs, a começar pelo objetivo que era, especificamente, a
coleta de depoimentos em torno dos temas propostos, quais sejam: ser
homem hoje; saúde; sexualidades e relações amorosas; infância,
paternidade e filiação; trabalho; violência, e os grupos de homens.
80

Assim, com base nesse roteiro de temas previamente elaborado,


os participantes estavam livres para escolher sobre que assuntos
desejavam falar. Aos facilitadores e co-facilitadores, todos do sexo
masculino – três psicólogos, um cientísta social, e um estudante de
história - estava facultado intervir com perguntas ou sugestões para
obter depoimentos mais profundos ou detalhados sobre algum ponto
específico.

A exemplo do que se deu nos GRGs, o que caracterizou os homens


que compareceram aos grupos focais foi a flagrante diversidade em
relação a aspectos como nível sócio-econômico e cultural, raça/etnia,
geração, ocupação profissional, estado civil, orientação sexual,
religiosa, e política.

Por outro lado, além do fato de serem todos homens, havia de


comum entre eles a questão de terem participado do PHSVC por
atenderem a um critério básico: serem agentes sociais atuantes com
populações masculinas, especialmente nas áreas de educação e saúde,
e com preocupações e demandas convergentes quanto ao potencial de
atuação política em seus respectivos contextos.

A faixa etária dos participantes ficou entre 20 e 48 anos. A maior


parte deles eram moradores de bairros periféricos, caracterizados como
de baixa renda (Complexo do Morro de São Carlos; Bangu: Rocinha;
Inhaúma: Complexo da Maré; Andaraí; Duque de Caxias e Belfort
Roxo), apenas 5 eram moradores de bairros considerados de classe
média, ou mais centrais (Jardim Botânico; Tijuca; Rio Comprido; e
Glória). Dentre as ocupações declaradas, a maioria estava envolvida
com algum tipo de projeto social associado às respectivas profissões:
81

• 1 advogado- atuante na área do desenvolvimento social coletivo;


• 1 psicólogo – facilitador de grupos de homens sobre a violência
contra a mulher;
• 1 técnico em eletrônica - agente comunitário;
• 1 engenheiro civil – grupo de auto ajuda de soro-positivos;
• 1 auxiliar de enfermagem - agente de saúde;
• 1 pedreiro - agente de saúde;
• 1 jornalista – elaboração de projetos sociais – Universidade Popular;
• 1 ator – grupo de auto-ajuda de soro-positivos;
• 1 desenhista ilustrador - educador social;
• 1 educador social – militante evangélico
• 1 comerciário – grupo de auto-ajuda para diabéticos
• 1 animador cultural – militante evangélico – organizador de ONG
para trabalho social com crianças;
• 1 universitário - curso de história – animador cultural – facilitador de
grupos
• 1 estudante 2 º grau – produtor de TV
• 1 artesão – animador cultural
• 3 envolvidos somente com projetos sociais comunitários.

Quanto ao estado civil, 10 se declararam casados, 7 solteiros, e 1


divorciado. Dentre eles, a maioria é pai de no mínimo 1 filho ou dois
filhos. Um deles alegou ter 4 filhos, e um outro, 5 filhos. Apenas os dois
mais jovens (20 e 21 anos) declararam não ter filhos, e apenas um dos
participantes declarou sua condição de homoerótico.

Na questão da saúde, dois participantes eram assumidamente


soro-positivos - HIV/AIDS, declarando-se militantes do movimento pela
prevenção contra a epidemia. Um participante declarou ser diabético, e
membro de grupo de auto-ajuda para diabéticos. Outro relatou
82

dificuldades relacionadas ao alcoolismo, e um outro participante, com 20


anos de idade, relatou sua experiência recente com uma úlcera gástrica.

A atmosfera que caracterizou as 3 sessões de Grupos Focais foi de


acentuada harmonia, liberdade e confraternização entre homens
preocupados em debater assuntos relativos a sua condição de gênero e
à sua saúde. Ficou evidenciada a capacidade de auto-expressão
exercitada no percurso das oficinas, através de depoimentos de cunho
extremamente pessoal que, algumas vezes, espelhavam um caráter de
confidência. Essa atmosfera também contribuiu para promover o
entrosamento dos participantes de diversos GRGs do mesmo projeto
que, até aquele momento, não se conheciam.

Quanto aos facilitadores, quase todos já possuíam um histórico de


convivência com os participantes nas oficinas de seus respectivos
grupos. Este foi, com certeza, mais um elemento positivo, que
contribuiu na coleta destas falas masculinas.

Todos os participantes dos grupos focais haviam participado dos


grupos de reflexão de gênero do PHSVC. A maior parte deles, pelo
período previsto para as oficinas, nas quais tiveram a oportunidade de
partilhar das mesmas reflexões sobre masculinidade e saúde
reprodutiva, como também de participar diretamente da eleição dos
temas debatidos no processo. Temas estes resgatados no roteiro para
os depoimentos dos grupos focais.

Os dados encontrados nesse acervo consolidam um painel


relevante a ser considerado na interpretação do discurso desses
homens sobre a questão de gênero e sobre a visão que têm do que é
“ser homem hoje”. Isto porque permitem que se apreenda daí uma
83

noção que abrange a participação masculina nas relações cotidianas e os


modos de cuidado com a saúde, temas estes colocados como foco
central da presente pesquisa.

Embora o perfil dos informantes evidencie um diferencial


significativo em relação à maioria da população masculina que não teve
acesso às mesmas discussões, ou não compartilhem do mesmo nível de
consciência em termos da participação social, considera -se a perspectiva
de que, justamente pelo fato de todos eles atuarem como “agentes
sociais”, suas falas possam expressar as vivências de outros homens, o
que alicerça a pretensão de elaborar um conhecimento significativo
sobre as representações e ideologias do universo masculino neste
momento histórico.

5.1. Os Informes - Resultados Encontrados:

Obedecendo aos pressupostos da hermenêutica dialética, o


percurso adotado no processo de tratamento dos dados foi o seguinte:

Realizamos repetidas leituras das transcrições dos grupos focais


em sua totalidade. Em seguida, de acordo com nosso foco de interesse e
objetivos traçados, foi feito o primeiro recorte delimitado por três eixos
temáticos, quais sejam:

a) modelos de masculinidade hegemônica;


b) modelos de masculinidade contra-hegemônicos; e
c) modelos de cuidado com a saúde

A numeração colocada em cada uma das falas selecionadas refere -


se ao controle adotado para lidar com as transcrições dos três grupos
84

focais respectivamente. Assim, as falas estão numeradas conforme o


grupo a que correspondem, por ordem de ocorrência.

Para chegarmos a estabelecer uma classificação das falas como


sendo referidas ao modelo hegemônico, utilizamos como norte a
literatura sobre masculinidades, na qual vários autores descrevem as
características que constituem esse padrão, conforme descrito
anteriormente.

Dentro dessa lógica, os depoimentos que se distanciavam


substancialmente, numa direção oposta, foram considerados pertinentes
a um novo modelo que aqui, no intuito de oferecer uma explanação
didática, denominamos de contra-hegemônicos. Entretanto, vale
salientar não tratar-se, necessariamente, de momentos estanques e
definitivos, mas sim de um processo dialético onde essas manifestações
convivem, se conflitam, e se alternam, dentro de um mecanismo de
acomodação e resistência à ideologia dominante.

Quanto à questão da saúde, foram selecionadas todas as falas que


tinham referência ao assunto, sendo estas categorizadas, em seguida,
conforme o tema e a categoria a que estavam associadas.

Assim sendo, e concluída essa primeira etapa, foram feitas várias


leituras do material selecionado, o que possibilitou a definição dos novos
recortes em cada um do blocos temáticos acima delimitados, de acordo
com os assuntos que se apresentavam.

Nos recortes feitos no bloco de falas detectou as seguintes


categorias empíricas:
85

• Padrão patriarcal-hegemônico
• Sexo-afetividade
• Paternidade
• Trabalho
• Violência
• Reflexão / grupalização / mudança
• Modelo de criação patriarcal x cuidado c/ saúde
• Novos modelos de Cuidado com a saúde
• Relação com os Serviços de Saúde

Antes de passarmos à descrição dos resultados encontrados, é


lícito recordar aqui que trabalhamos com as transcrições de três grupos
focais realizados em três momentos diferentes, com uma média de nove
entrevistados em cada ocasião, perfazendo um total de 18 participantes.

Estes participantes, submetidos à técnica do Grupo Focal, e à um


mesmo rol de questões, apresentaram seus depoimentos de forma
aleatória e voluntária, inviabilizando a perspectiva de atribuir autoria às
falas, o que poderia facilmente ser feito caso se tratasse de entrevistas
individuais. Diante disso, optamos por registra-las de acordo com a
freqüência com que os respectivos temas foram referidos, para, em
seguida, traçar um paralelo dos resultados encontrados com o que
dizem os autores que abordam a questão da masculinidade na
perspectiva de gênero.

5.3. – Bloco 1 - Modelo Hegemônico de Masculinidade

A grande maioria das falas que apresentam identidade com esse


padrão, descrevem o homem como o Super-homem, o herói que tem
86

que ser forte e que consegue o que quer através da utilização da força
bruta.
“O homem conhece a solução pela força e pela
autoridade” (01/36)

“eu viajava no arquétipo do herói... tanto que, naquela


época, década de 50, eu sou da década de 50, o
arquétipo do homem era ser militar” (02/06)

“você cria ele com aquela coisa do ser forte, e tudo


mais. Ele não é criado para aprender a ter medo. Ele
não sabe como ter medo” (03/13)

Outra característica que aparece de forma bastante acentuada


descreve o homem como sendo insensível, imune à dor, incapaz de
expressar seus sentimentos e que, em última instância, deve apanhar
calado, como pode ser observado nas frases seguintes.

“eu acho que tem um estigma, uma pressão. A


cobrança de não poder expor ou externar, externalizar
os sentimentos.” (01/01)

“se ele se mostrar fraco, ele perde a fêmea ou perde a


masculinidade dentro de casa como pai. O direito de
gritar”. (01/10)

“meu outro mal é esse, eu não consigo expor a minha


mágoa, eu me guardo muito, sou uma pessoa
retraída.” (01/61)

“eu lá, chorando pra caramba. Aquele berreiro mesmo.


A minha mãe foi e disse: ‘Para com isso! Você não é
homem? E não sei o que mais...Me deu uns
tapas....’Tu tem que apanhar calado!” (02/74)

Objetividade, responsabilidade, compromisso com resultados e


competitividade são características bem marcadas dos atributos
referidos ao modo como a identidade masculina é forjada dentro dos
moldes tradicionais.
87

“Eu tinha que ser responsável...uma das coisas que


aprendi na minha vida é a responsabilidade. Eu fui
chamado de moleque...” (02/12)

“Porque eu sou responsável. Eu tenho responsa. E eu


nem dormi. Eu posso chegar lá doidão, mas eu vou
chegar lá. ’Vamos embora!’ Eu vou. A gente também
tem que ser responsável pela não chegada.” (02/12)

“Porque eu queria sempre mostrar que eu era sempre


o melhor, pelo menos mantendo o mesmo nível de
todos.” (03/09)

As referências à questão dos estereótipos de gênero se fazem


presentes nas falas em que os entrevistados ressaltam a necessidade de
diferenciação do que não seja efetivamente masculino, e que
geralmente se expressam na aparência ou ao tipo de atividade adotados
pela pessoa.

“nós enquanto homens ainda temos aquela coisa do


machismo: isso não é coisa pra homem..”. (01/08)

“tem sempre aquela coisa do comedor, do potente,


né? Do fodão.” (02/25)

“O homem, parece que é o todo poderoso. Então há


distinção entre a criação do homem, garotinho e a
garotinha” (03/12)

“O cara é homem e tem uma figura do homem, com


bigode. Então, ele tem que ser respeitado porque tem
uma figura de homem” (01/17)

Como podemos perceber, a socialização na masculinidade


hegemônica percorre o terreno da subjetividade, mas também passa
pela exterioridade, expressa a partir de tudo que materialize a
88

aparência do macho. Esses aspectos ficam bem marcados no âmbito do


que denominamos sexo-afetividade, e que passamos a descrever.

a) Sexo-Afetividade

Em relação a este aspecto, surgem com muita freqüência


depoimentos que denotam a percepção do homem como sendo superior
e, consequentemente, anunciam a desvalorização da mulher,
especialmente enquanto objeto sexual, como algo normal/natural.

“Ó, só estou afim de te comer e nada mais. A hora que


você quiser um piru em pé também tá aqui pra você e
acabou.” (03/66)

“O cara chegava, ela falou que o cara chegava da roça,


não tomava banho, só lavava as coisas e ia pra cima
dela. Papai-mamãe e saía fora: “bota a minha janta
agora!” (02/19)

“até pra desrespeitar todo aquele conceito de mulher...


toda menina que esbarrava na minha frente eu queria
pegar e eu não queria saber, eu achava que mulher
não prestava, mulher era tudo coisa.”. (01/13)

“daqui a pouco a mendiga, a mulher toda suja atrás


dele: ei, ei que dia que eu posso ir lá na sua casa, pra
você me dar comida e fazer aquilo de novo comigo?”
(01/19)

A poligamia é dimensionada, por alguns participantes, com o tipo


de sistema ideal que utilizam como argumento para a obediência ao
padrão em que “ser homem” implica não ter controle diante do sexo,
estar sempre “pronto” para as possíveis demandas, como que
obedecendo a uma “vocação natural” para pegar todas. O mecanismo
89

ideológico da racionalização é bastante evidente numa fala em que


fidelidade e poligamia deixam de ser termos que se contrapõem, visto
que o autor se declara amante das duas as mulheres e, assim mesmo,
fiel a ambas. Também o fato de “gostar de mulher” parece suficiente
para justificar o comportamento poligâmico masculino.

“várias vezes eu estava com uma e estava com outra e


estava amando as duas” (01/22)

“Mas eu me acho super fiel, mesmo nos momentos em


que era mais polígamo” (01/22-23)

“eu acabo me traindo e saindo com mulheres


constantemente, pela facilidade que tem de estar com
mulher e gostar de estar com mulher.” (01/26)

Nesse processo de busca de explicações para o exercício da


infidelidade, até mesmo dogmas religiosos proibitivos são colocados em
xeque, na medida em que, num processo de racionalização, esses
preceitos são confrontadas com outras passagens que descrevem o
modo de vida das culturas patriarcais da antigüidade.

“tudo bem que a palavra é a palavra (Bíblia), mas a


vida em si, as pessoas, os costumes, os desejos, essas
estão em você , você é ser humano, senão você não
estaria aqui, se você foi feito do pó, foi feito homem,
você está aqui na terra pra desfrutar das coisas
maravilhosas que tem aqui...” ((01/30)

“até porque, algumas histórias bíblicas mostram que


alguns homens tiveram várias mulheres e era legal.
Até por conta da cultura, ainda hoje, era legal.”
(01/31)

Dentro desse esquema, em vários momentos, é declarada uma


nítida cisão entre sexo e afeto, expressa na perspectiva do “não
90

envolvimento”. Nesse ponto, razão e sensibilidade são colocadas em


posições contraditórias, embora exista a consciência de que são
dimensões pertinentes a todos os indivíduos.

“pra demarcar meu espaço como homem,... eu me


apaixonava a todo momento, mas nunca me dava, eu
tinha medo de me dar às mulheres,.. eu apenas não
queria me sentir envolvido...” (01/24)

“Eu acho que é da nossa natureza [ser infiel]. Um dos


nossos elementos diferenciais é o racional, e o racional
é difuso, é múltiplo, cada um de nós tem nossa
racionalidade , e confronta isso com a nossa
sentimentalidade...” (01/33)

“eu não quero me sentir preso como homem...”


(01/26)

Por outro lado, diante de um padrão em que o homem tende a se


envolver sexualmente com diversas mulheres, vale registrar um numero
significativo de referências que apontam para a consciência, por parte
destes homens, da irresponsabilidade masculina quanto ao processo
reprodutivo.

“Essa coisa de homem, acaba tirando muito essa


responsabilidade, mas quando você está lá dentro,
está tudo lindo e belo. Aí, tirou, lavou, parece que está
num outro planeta. Fora da responsabilidade daquele
ato.” (02/10)

“Aí, eu tirei a camisinha assim, mas naquela ainda


todo sujo, já botei outra, e já fui embora. Acho que foi
eu botar, encher de ar, na hora, à noite, no escuro, e
pintou aquela atração de dar outra naquela hora, e eu
acabei botando.” (02/14)

“Estou grávida’, aí, eu, 21 anos de idade, aí eu, ’E


agora?’... E ela com 20, estou grávida, sacanagem
91

tinha-se de monte, prevenção, nenhuma...” (03/39-


40)

Vários depoimentos referem-se à questão da iniciação sexual


precoce, como uma prática eminentemente masculina e naturalizada,
atestando o que diz a literatura sobre o fato do homem, dentro da
cultura machista, ser criado para atuar no público na construção de sua
identidade, e isso a partir do exercício precoce de sua sexualidade.

“Com 12 anos ...... com 8 anos eu já tinha aquela


maldade” (02/55)

“depois passou a ter uma escala, segunda, terça, tava


todo mundo na brincadeira, alguém sumia porque
naquela época se a mãe soubesse, faixa de 11, pra 12
anos, de 11 aos 13 aproximadamente...” (01/19)

“o meu contato mais forte com a sexualidade foi no


colégio, já com os amigos de convívio da mesma faixa
etária... minha primeira relação foi dos 15 pros 16
anos, acima mais ou menos da média.”(01/21)

Nesse exercício, a grande questão que se coloca é provar a


eficiência sexual, na qual o falo tem importância fundamental. As
menções ao falo caracterizam-no como um símbolo do poder masculino,
e deixam evidente o temor em relação à possibilidade de sua perda.

“Qual é o mal do homem: câncer de próstata. ...tem a


ver com a impotência. Qual é o grande vilão do
homem? O medo: “Cortar o caralho.” Porra, não pode
cortar o caralho.” (03/17)

“O machista apareceu. Tipo aquela piadinha: “Tira o


pau de Paulista, o Paulista fica sem pau.” (03/17)
92

Um aspecto da sexo -afetividade que se faz notar de forma


evidenciada nos depoimentos, refere-se à questão da homofobia. São,
geralmente, falas calcadas na questão dos estereótipos de gênero, dos
atributos e funções socialmente definidos para os sexos, e no processo
de formação da cultura masculina tradicional.

Aparecem algumas referências à chamada “meinha” (vivências de


experimentação sexual infanto-juvenis) que são sempre motivo de
gracejo entre os participantes, numa verdadeira disputa de poder.

“O F. era vítima de fazer meinha. Todo mundo comia,


comia. Agora sou eu que to comendo...(risos – falas
sobrepostas – riso alto)”. (01/20)

Beijar ou ser beijado por outro homem é tido como impróprio. Os


padrões de criação diferenciados para meninos e meninas deixam isso
bastante evidenciado.

“a questão do beijo, beijo na boca, beijo no rosto, com


o meu padrasto não tinha essa virtualidade, essa
disponibilidade. Eu mesmo ficava retraído.” (01/46)

“Tem coisas que a gente sabe que é uma coisa meio


machista, mas que vai perpetuar o machismo... é
machismo? Então é e acabou, a gente fala a questão
de dar carinho a filha mulher é dar carinho até os 20,
30, 40, 50 anos, é dar beijinho na boquinha dela, é
fazer carinho. Você não vai continuar fazendo isso com
filho homem.” (01/48-49)

Um depoimento utiliza de uma narrativa que pretende argumentar


sobre como a criação doméstica pode ser uma causa provável para a
homossexualidade, já que a formação da identidade masculina se dá no
âmbito do público. Desde cedo, as portas costumam estar abertas para
93

que os meninos tenha acesso à rua, e assim possam aprender a “ser


homem”.

“E quando eu saí de casa com 11 anos de idade, eu


era esculachado na rua pelos garotos, me chamavam
de filho da mamãe, aquilo, assado. “Pô, tu é preso em
casa, saí de casa, saí de casa. Ou vira isso, ou vira
aquilo, e tal.” (02/03)

Outro depoente sinaliza a utilização de uma estratégia de expurgo


do outro [o diferente], quando, dentro de um processo de discussão
sobre a saúde masculina, o sujeito se recusa a admitir a possibilidade de
outras opções sexuais, detendo-se em avaliar apenas os de âmbito
heterossexual, e desqualificando a perspectiva de relacionamentos que
não os convencionais.

“Vou falar só dos relacionamentos heteros .Os homos


não é o caso.” (03/60)

De um modo geral, atividades ligadas à arte, criatividade,


decoração são associadas à homossexuais, assim também como a
possibilidade de um homem demonstrar afeto.

“Meu padrasto é uma pessoa que acha que todo artista


é gay, todo artista é sem moral, todo artista é veado.
O cara que pega no pincel, o cara que...música
não,...esses caras que são pintores, desenho, isso é
coisa pra fresco, está entendendo?” (01/63)

“É muito pouco os homens, nesse papel assim de


decorar, de cuidar do ambiente...” (01/64)

Alguns depoimentos, referem-se, inclusive, ao medo de olhar, de


apertar a mão de outro homem, enquanto fatores que parecem
representar uma verdadeira ameaça à identidade masculina.
94

“Porque o cara, hoje, botou um brinco, ele já é olhado


de outra maneira. ...O homem vai ver o outro nu: “o
que é isso?”....o cara sentou perto de você, aí você já
fica cabreiro. O homem olha para o outro, pensa que
ele é homossexual, que o outro também é
homossexual.” (02/01)

“O homem não vai mudar.... Tem aquele preconceito


em apertar a mão, um homem abraçar o outro...”
(02/01)

Como pudemos perceber, a cultura masculina hegemônica é


marcada por um comprometimento com o “não ser”, mais do que com o
“ser”. A grande preocupação dos homens é não ser feminino, não ser
gay, não ser fraco, e assim por diante. Ser pai, dentro dessa
perspectiva, é um fator conflitante, como veremos a seguir.

b) Paternidade

No tópico que registra as falas onde a paternidade é descrita em


tons que mais se aproximam do discurso masculino tradicional,
registramos vários depoimentos onde surgem diversas referências ao
pai com as características do provedor, aquele que ‘garante’ o aspecto
material. O desemprego, dentro desse contexto, figura como
significativa fonte de stress.

“Eu sempre quis muito ser pai, sempre quis ter um


filho, desde sei lá... desde 10 anos de idade eu acho
que... (risos) se eu pudesse ter sido pai com 14
anos...de idade eu teria sido, tanto que desde cedo eu
trabalho, eu comecei a trabalhar com criança desde
cedo.” (03/35-36)

“Por exemplo, eu tenho um casal de filhos. E a minha


maior dificuldade é estar com a educação deles em
dia. Certinho, bonitinho. Mesmo estando
95

desempregado. .... Em dia, está. A Educação dele


está..., é o papel de pai.” (02/07)

Dentro dessa categoria, alguns depoimentos levam a considerar a


paternidade como um modo de afirmação da masculinidade.

“pra mim, ser pai foi me fazer me ver como gente,


como homem, como trabalhador, como uma pessoa
que tem que ter responsabilidade com o futuro...”
(01/40)

O ciúme extremado da filha mulher aparece como uma


característica desse tipo de pai, num processo bem diferenciado do
tratamento dado ao filho homem.

“fiquei: poxa, a minha filha é tão novinha! Nossa que


mãozão [pretendente da filha], porra, a minha filha
não, meu irmão (risos).” (01/42)

“É ciúme, é egoísmo, eu fiquei com ciúme mesmo.


Ontem , pela primeira vez, eu senti ciúmes da minha
filha.” (01/42)

“Ela tem 19 anos, mas não deixa de ser sempre minha


filhinha...” (01/43)

Alguns depoimentos registram que o nascimento do filho é tido


por alguns homens como fator de reforço ao vínculo do casal.

“nasceu o nosso filho, parece que ele me aproximou


mais da mulher, eu fiquei mais perto dela e isso fez
com que ficasse e eu fui ficando e foi bom.” (01/25)

Aparecem também falas em que o nascimento de um filho é


colocado como condição para a manutenção do casamento. A questão
parece ligada justamente à necessidade de auto-afirmação enquanto
96

homem. Ser pai poderia garantir isso. A recusa da mulher em ter filhos
pode caracterizar uma ameaça à concretização de sua identidade social.

“Falei: porra, seguinte, se não dá pra ter filho, não dá


pra continuar casado não” (ri) (01/46)

A questão das responsabilidades não cumpridas após uma


separação legal torna-se assunto polêmico entre os participantes. Muitas
são as referências ao ônus proveniente das pensões alimentícias, e às
represálias associadas ao não pagamento.

“Que vocês sabem muito bem que a pensão


alimentícia, pai é preso. Mas, eu não tinha como
provar que eu dava dinheiro pro meu filho.” (03/30)

“E nisso, eu comecei a sofrer penalizações que até


então eu não tinha sofrido, que é pensão alimentícia,
justiça, polícia na porta...” (03/45)

“eu já vacilei umas 3 ou 4 vezes com esse negócio de


pagamento pensão . Já atrasei e tal. Até hoje eu ainda
não fui em cana mesmo, algemado, de ter que sair
fugido e o cacete, eu ainda não fui por causa das
minhas filhas. Por causa das minhas filhas.”. (03/57)

Pudemos observar que, também no aspecto da paternidade, o


ethos masculino atua de forma categorica na conformação do quadro.
As dificuldades de exercer seus papeis de macho, previamente
delineados pela cultura, se configuram no confronto com um contexto
socio-econômico extremamente árido e opressivo, em que o fantasma
do desemprego ronda suas vidas o tempo todo. Com isso, introduzimos
a categoria Trabalho e seu significado para a população masculina.

c) Trabalho
97

A perspectiva de encontrar-se numa condição inferior a da mulher,


especialmente no que diz respeito ao salário, figura como um dado
gerador de muitos conflitos de identidade, visto que coloca em cheque
um dos aspectos mais marcantes da ideologia masculina tradicional, que
é justamente o papel do provedor. Ao se perceber destituído do poder
representado pelo seu salário, numa inversão de valores em que a
mulher passa a ocupar sua posição, o homem tende a se mostrar
completamente desestruturado emocionalmente.

“quando eu perdi os empregos começou a pintar as


barreiras e dificuldades, cada vez mais, eu não
conseguia chegar .... não sei porque não conseguia,
porque eu acho que eu só tava concentrado na minha
vida em relação ao salário dela,..... , a firma dela
começou a cair de produção e meses sim precisam do
trabalho dela e meses não, aí começou a voltar ao
normal, o limite passou a ser compatível com o meu,
..... aí ela começou a se pôr um pouco no lugar dela e
pensar um pouco: pô, tá difícil pra caramba, ela
chegou até a me pedir desculpa...” (02/39)

Um depoimento específico, além de constituir o registro de um


momento histórico deprimente para a Saúde Pública do Estado do Rio de
Janeiro, traduz, de forma brutal, a dimensão de importância que o
trabalho pode ter na vida de um homem. Reportando-se a uma
situação real, o participante relata o episódio desencadeado por um
processo de demissões coletivas ocorrido naquele período.

“12 companheiros meus que trabalhavam na Fundação


Nacional de Saúde, eles não agüentaram a pressão do
desemprego e acabaram se suicidando.” (02/42-43)
98

Outro depoimento vem esclarecer um pouco mais sobre a


importância do trabalho na formação da identidade masculina. Em
outras palavras, o autor da fala esta nos dizendo que o trabalho faz dele
um home m, uma pessoa humana digna e respeitada pelos outros.

“Dou resposta com as minhas atuações, com meu


trabalho, com a pessoa pela qual eu sou, eles me
respeitam profissionalmente, como homem” (01/02)

Por outro lado, alguns depoimentos refletem a consciência do


desgaste resultante da necessidade de atender a esse padrão no
decorrer do tempo. O peso da responsabilidade parece contribuir para a
perda de perspectiva do indivíduo ter prazer com o trabalho. Ao mesmo
tempo, existe o mito de que o homem é feito para o trabalho e, sendo
assim, não pode parar nunca.

“Hoje eu acho que eu já passei um bom tempo da


minha vida correndo atrás de grana, por conta desse
arquétipo de que você é homem, você precisa, você é
pai de filho, ou você é responsável pela tua estrutura
de família, ou você é responsável por alguma coisa.
Quer dizer, então a gente acaba se afastando um
pouquinho do tesão de fazer a coisa.” (02/07)

“Pego no trabalho, boto uma luva, mas estou lá...eu


tenho o meu lado rebelde, mas sou responsa. Eu tenho
a minha responsabilidade.” (02/11)

“muitos homens pensam que, que, que, é, como se diz


’ele só foi feito pro trabalho’, enquanto ele tiver
disponível e com saúde pra estar trabalhando, aí tá
ótimo.” (02/74)

Fica evidente o peso do trabalho na estruturação da identidade


masculina, e o potencial de desestruturação que sua perda pode
acarretar na vida de um homem, e na das pessoas que lhe são
próximas. Como poderemos ver, a violência, categoria que passamos a
99

apresentar a seguir, parece possuir estreita ligação com os efeitos


desestruturantes do desemprego.

d) Violência

A violência como sendo um atributo natural do homem é colocada


de maneira categórica e enfática, em um número significativo de
depoimentos, a exemplo deste abaixo. Em várias falas, ela apa rece
como uma prática banalizada, fruto do acúmulo de situações sociais
diversas que geram medo e reações também violentas.

“o homem, o sexo masculino meio que tá com o poder


na mão e meio que é responsável pelas estatísticas
desfavoráveis que a gente tem.” (01/03)

“Enquanto homens e enquanto seres humanos, os


homens no Brasil são aqueles que mais matam e mais
morrem. Morre mais gente no Brasil por causa da
violência do que morre nas guerras que a gente
escuta falar,. Então, está no nosso cotidiano, e a gente
traduz aquilo em práticas também violentas. A gente
reage de formas diferenciadas, o medo está sempre
presente nas nossas vidas, e o medo nos faz reagir
agressivamente, o medo nos faz omitir, o medo nos
torna protetores da nossa intimidade.” (01/33-34)

No entanto, e provavelmente pelo fato de nosso grupo de


informantes ser composto, em sua maioria, por homens casados e pais
de família, podemos constatar que a Violência Doméstica é percebida
enquanto um tema masculino. Sua gênese aparece estar associada à
questão do desemprego, responsável pela desestabilização masculina
diante das dificuldades materiais que impossibilitam ao homem o
exercício de suas atribuições tradicionais no dia-dia, e contribuem, de
forma significativa, para a desestruturação familiar.
100

“Por que que a violência no lar, ela aparece, por que


que a mulher começa a gerar problemas para o
homem, pessoal? Porque 99,9% dos casamentos se
roem, se destroem? Por que? Porque vem a imagem
do desemprego, o desemprego causa a pobreza, traz a
miséria e a miséria traz o fracasso emocional e o
fracasso emocional rói como a família.” (03/04)

Não por acaso, em vários momentos, a questão do desemprego é


referida como fator responsável pelos altos índices de violência
doméstica, e de desestruturação da identidade masculina. Neste
processo em que o homem se vê destituído do seu “poder”, dentre
outros fatores, parece existir uma tendência ao consumo abusivo de
álcool e drogas, fatores que contribuem significativamente para o
agravamento do quadro. Mas fica patente a consciência de que o padrão
em foco é altamente pernicioso, atingindo negativamente a todos os
envolvidos

“a violência intrafamiliar de homem pra mulher, na


maioria das vezes tá embasada pelo desemprego do
homem e com isso o uso abusivo de drogas seja ela
qual for, álcool, cocaína, maconha. Como o
companheiro falou, ele se sente inferiorizado e tenta
compensar esse sentimento com posturas agressivas,
e acaba sendo violento realmente pra demarcar o seu
espaço, e isso acaba generalizando de uma forma
louca. Não posso deixar de ver. Aí o que acontece
gente: o desemprego, ele pra mim é a mola mestra de
vários problemas familiares.” (02/41)

“Eu acho que no âmbito da violência doméstica a


mulher ainda é muito vitimizada. A gente até
compreende que existe todo um ciclo que faz com que
o homem se torne violento na residência, mas a
mulher e os filhos é que saem perdendo. É claro que
tem muito a ver com a questão econômica, mas não é
só isso.” (Lopes et all, 2001: p. 110)
101

Em suma, percorrer estas categorias empíricas da masculinidade


hegemônica foi bastante esclarecedor, visto que foi possível identificar,
com alguma facilidade, os padrões vigentes nessa cultura ainda
bastante expressivos embora, especialmente no caso de nossos
informantes, num processo de confronto com novos modos de perceber
o mundo. Nesse processo, em que suas identidades de gênero são
problematizadas, começam a surgir as resistências ao estabelecido e a
concomitante mobilização para promover mudanças, o que veremos a
seguir.

5.4. Bloco - Modelos Contra-Hegemônicos

Seguindo nosso propósito de estabelecer, a título meramente


didático, o agrupamento de padrões de comportamento masculinos,
conforme explicitado anteriormente, selecionamos as falas que
apresentavam um distancia mento efetivo do modo de ser descrito no
modelo de masculinidade hegemônica. Com estas falas, pudemos
compor um novo bloco, o qual denominamos ‘Modelos Contra -
hegemônicos’, visto que se situam numa espécie de fronteira em que
surgem sinais de sérios questionamentos em torno das ideologias de
masculinidade tradicionais, e anseios por outros modelos de “ser
homem”.

É válido reforçar que este nosso ‘esquema’ classificatório não tem


a menor pretensão de representar posições absolutas, visto tratar-se
de um processo, no qual um grupo de homens se disponibiliza, por um
espaço de tempo determinado, à troca de impressões, experiências de
vida, anseios, angústias, alegrias acerca de suas identidades de gênero
102

e de sua saúde, em um processo marcado por conflitos , avanços e


recuos.

Nesse processo em que novas e diversas ideologias começam a se


fazer notar, a presença de velhos padrões de masculinidade não passa
despercebida, num movimento dinâmico de convivência entre as velhas
e novas ideologias.

“Nós viramos abate de mulher. Então, já que é isso


que elas querem, eu sou a caça delas. Me arrumo
todo, vou todo perfumado pro pagode... Eu queria
tranqüilidade, um lar e uma família. Não estou
conseguindo nesse momento. Então eu danço
conforme a música. Mas tu acha que eu me sinto bem?
Claro que não! Muito pelo contrário. A ponto de às
vezes dar vontade de vomitar, mas é assim que elas
querem.” (Lopes et al, 2001: p. 35)

“Tem coisas que a gente sabe que é meio machista,


que vai perpetuar o machismo. Vamos ser sincero, tem
uma coisa que é assim: o meu filho, eu fico
preocupado com as relações que ele tem, com que
mulher ele tá se envolvendo. Agora a minha filha,
qualquer cara que chegar perto é... porra, ele tá
fazendo mal à minha garota...” (Lopes et al, 2001: p.
67)

Assim, novamente percorreremos as categorias que melhor


expressaram essa dinâmica.

a) Sexo-afetividade

Especialmente no terreno da Sexo -Afetividade, encontramos falas


que reforçam a percepção da mulher enquanto complemento, numa
perspectiva que parece levar em conta a equidade dos gêneros. Essa
103

percepção das relações humanas como complementares abre espaço


para um novo tipo de negociação entre homens e mulheres, objetivando
o prazer de ambos.

“A gente precisa criar ambientes mais solidários, mais


fraternos, mais comuns a homens e mulheres.”
(01/36)

“Você é responsável pelo seu prazer e pelo prazer do


outro.” (02/10)

“Porque, ele vai, de uma certa forma, ele nunca


percebeu a sexualidade feminina como um
complemento da sexualidade dele, né, que é uma
coisa de complemento...” (02/25)

Nesse contexto, em que flui um movimento direcionado para a


mudança, encontramos falas que acentuam a necessidade de maior
disponibilidade para ver o outro, assim como a necessidade de maior
aceitação do outro, ainda que diferente.

“Aceitar você do jeito que você é, não interessa se


você é homossexual, se você é homem, não interessa.
Interessa é que você é um ser humano.” (01/17)

“Importante que a gente se veja como animal


complexo, ajuda a gente a aceitar o diferente, a
observar melhor o que aquela outra pessoa está
falando ou fazendo. Ajuda a gente a conviver.”
(01/33)

Algumas falas apontam para o desejo de ter uma vida sexual de


qualidade, onde valores e sentimentos de afeto e amor, e a valorização
do diálogo são considerados fatores importantes e indispensáveis para
efetivamente garantir o alcance dessa almejada qualidade nas relações.
104

“Ato sexual não vai ser tão gostoso como aquele papo
que você bateu, aquela troca de idéia e isso é muito
legal.” (01/27)

“Amor, da gente amar, da gente ter carinho, ter uma


outra pessoa. Quando a gente sente isso, é muito
legal, é uma coisa que passou, mas que ainda tá vivo.”
(01/54)

“Tudo é válido, porque depende da maneira como


você vai convencer a parceira, né, a dar prazer, e ela
também tem prazer com aquilo, né? não é só
prazeroso pra você, ou pra gente.” (02/26)

Pudemos constatar que, a busca parece ser pela valorização de


aspectos até então relegados a segundo plano, dentro da cultura
masculina. O amor, a proximidade com o outro, a aceitação do outro, do
diferente, a percepção do outro como complemento, são questões que
se mostram passíveis de serem debatidas por homens contemporâneos.

Não por acaso, optamos por utilizar a função dos termos


sexualidade e afetividade, visto ser marcante a cisão desses aspectos
dentro da cultura masculina hegemônica , o que, como já demonstrado,
tende a caracterizar um série de dificuldades na estruturação dos
relacionamentos. Na categoria paternidade encontramos elementos que
endossam este parecer.

b) Paternidade

Com relação à Paternidade, esta é descrita como um ‘motivo de


alegria’, um momento mágico que significa mudança, crescimento como
105

pessoa, reciclagem, atualização enquanto homem e enquanto ser


humano.

“Pra mim, ser pai foi mágico. Foi me fazer me ver


como gente, como homem, como trabalhador, como
uma pessoa que tem que ter responsabilidade com o
futuro.” (01/40)

“Minha experiência como pai foi a coisa mais


maravilhosa! Deus me deu o melhor filho do mundo,
apesar de ter sido criado longe de mim, mas é só eu
ligar e ele fica: “Ah, paizão, como é que você tá? hoje
já tem um assunto mais de homem, ele tá com vinte e
um anos, fazendo faculdade, a gente se escreve, se
fala por telefone, eu mando foto...” (Lopes et al, 2001:
p. 58)

Fala-se também da consciência de que é necessário rever valores


e padrões tradicionais que não se enquadram mais no processo de
criação dos filhos atualmente, especialmente no que se refere à
participação efetiva do pai no processo de cuidar.

“Eu sou um pai super corujão, eu sou pai pra cacete,


[mas] não me coloco como um pai modelo. Não acho
que é uma coisa minha, o pai hoje pega o filho e leva
pra passear, leva na praçinha, ao cinema, tomar um
sorvete, tomar um chope junto. A mentalidade do pai
que bota dinheiro, banca a casa, cobra a mulher,
passou. A dificuldade é estar reciclando, estar
atualizado, não perder o norte, [saber] até onde o filho
precisa do apoio total ou parcial, saber dizer você está
errado, ou você está certo e eu estou errado. Pedir
desculpa aos filhos: foi mal, errei.” (Ib idem: p. 63)

“Ele é tudo pra mim, adoro ele, acho que ele tem boa
parte em todo esse tentar mudar, esse tentar crescer.”
(01/27)
106

“O pai hoje em dia está assumindo um papel de pegar


o filho e levar pra passear, de levar na praçinha, de
levar ao cinema, de tomar um sorvete, de tomar um
chopp junto. A mentalidade do pai que bota o dinheiro,
que banca a casa, ‘cadê o resultado?’, cobra da
mulher, eu acho que passou. Eu toda hora descubro
uma série de motivos pra estar feliz com essa minha
relação com meus filhos. Dificuldade eu acho que é
aquela coisa de você estar se reciclando enquanto pai,
de você estar atualizado, de você não perder o norte.”
(01/39)

“Eu tento transar um relacionamento com o meu filho


diferenciado, o meu filho dá banho no cachorro, ele
varre a casa, ele lava um louça junto comigo às
vezes.” (01/50)

Vários depoimentos falam da paternidade como uma relação de


cumplicidade, companheirismo, amizade, respeito, diálogo, e ressaltam
a responsabilidade com o futuro. Essas descobertas se tornam mais
significativas quando confrontadas com os contextos inóspitos a que a
maioria dos informantes está exposto nas comunidades onde vivem, e
onde criam seus filhos.

“Hoje com os meus filhos eu tenho uma relação de


cumplicidade, de companheirismo, de amizade, em
que pese não morar com os meus filhos.” (01/38)

“É tudo muito construído na base da amizade na base


da divisão de responsabilidades.” (01/38)

“É um respeito que é recíproco, é uma relação que a


gente construiu e eu me sinto super orgulhoso que,
dentro de uma favela, dentro de toda essa onda com
uma porrada de situações, você vê que ainda existe
107

uma relação muito ligada na que eu tive, de criação


com graus de respeito e muito atualizada.”(01/39)

A relação com a filha mulher tende a configurar-se com uma série


de fatores complicadores, estes estreitamente relacionados às ideologias
machistas de dominação e posse, o que é expresso em falas que
descrevem um ciúme que chega à beira do exacerbado, conforme já
descrito anteriormente. Percebe-se um grau de dificuldade considerável
no processo de educação da filha mulher, especialmente no que tange à
questão da sexualidade.

“É difícil de lidar com isso, com essa mudança, né, de


menina pra mocinha, sabe, é mas... cinco meninas já
menstruaram ensaiando lá.” (02/23)

“Eu não vejo gente, entre nós, homens, falar assim:


‘Ah! Minha filha já tá se masturbando, minha filha
tá’...Que bonitinho, hein!” (02/24)

O mesmo não ocorre em relação ao filho homem, já que, segundo


alguns depoentes, parece necessário reconhecer que existe sim ciúme
do filho, mas de forma diferenciada.

“Eu acho que o pai pode sentir ciúme também do filho.


Mas é diferente, o ciúme do pai é diferente, em relação
ao filho homem é muito diferente.” (01/48)

Paradoxalmente, há mostras de que essa relação pode ser


refletida e modificada no processo.

“E eu acho que, o cara que não consegue sair disso,


que continua, ele vai ter dificuldade de se relacionar
com a sexualidade da filha dele. Por que, como ele
não admite que a outra tá ali, que sente a mesma
108

coisa que ele, que tem direitos também, como ele, de


ter prazer, de gozar e de sentir, né ?” (02/25)

“Então, eu acho que esse negócio do ‘mãozão’


[pretendente da filha] mesmo, é meio egoísmo nosso,
paterno mesmo, meio ciúme mesmo.” (01/46)

“A minha relação com a minha filha começou a mudar


quando eu comecei a conversar com ela, da
responsabilidade que ela tinha em tudo.” (02/09)

A preocupação de não reproduzir valores ditos “obsoletos” fica


mais evidenciada quando em referência à criação do filho homem, e à
dificuldade de administrar os padrões, culturalmente tendenciosos na
formação do homem, especialmente os de estimulo à experimentação
sexual precoce. Curiosamente, a preocupação entre os informantes é
justamente a de corrigir rotas traçadas previamente, como esta que se
refere à experimentação sexual em idade precoce.

“A gente tem preocupação com a nossa filha, a gente


tem que ter preocupação com a filha dos outros.”
(01/50)

Em várias falas, percebe-se a consciência de que este tipo de


comportamento não é saudável para o desenvolvimento do menino.
Vale lembrar que nosso grupo de informantes é composto por agentes
sociais que assistem, no dia-a-dia, as conseqüências nefastas dessas
práticas na vida de muitos jovens de suas comunidades. Dentre estas,
os altos índices de gravidez na adolescência.

“Eu acho que nós temos que expandir mais pra outros
pais essa preocupação da sexualidade precoce nos
meninos.” (01/51)
109

“Em outra ocasião, outro pai acharia fantástico isso


que o meu filho faz: pô, o cara vai comer todas, pegar
todas, mas não sabe ele que isso pode acarretar um
problema muito sério pra ele amanhã. Esse pai que
pensaria dessa forma, eu me preocupo muito com
isso.” (01/52)

“E aí, eu comecei a fazer com que ele pudesse ver


também a menina, que também ela tem um universo
todo, né, de...comecei, é, inaugurei com ele um
espaço pra conversar sobre essas coisas... assim como
eu falei pra minha filha.” (02/27)

“Tem todo um discurso de uns pais lá que falaram pra


menina que antes dela casar, ela tem que transar pra
poder ver se gosta do cara? É a mesma coisa que eu
falasse pro meu filho, né, ‘filho, não, não namora não,
sai pegando primeiro pra tu vê’”... (02/27)

Interessante constatar que, ao mesmo tempo que são ditas falas


tão diferenciadas do discurso hegemônico acerca do processo de
formação da identidade masculina, percebe-se ainda a dificuldade de
levar à termo os novos conceitos, que teimam em se chocar com
aqueles mais antigos e já tão bem introjetados.

“A exemplo do pai dele [o próprio depoente], adora


mulher... eu não estou sabendo lidar com isso porque
é meu filho, e tem aquela coisa, eu sou muito
apaixonado.” (01/51)

Como já mencionado anteriormente, a despeito do ato de ‘cuidar’


ser considerado, no âmbito da cultura hegemônica, um atributo
feminino, observamos que um número significativo de depoimentos
trazem a informação de uma acentuada consciência masculina acerca da
110

necessidade de cuidar, entre os entrevistados, como também da


importância da participação dos homens nesse processo.

“A gente ainda tem aquela comunicação que eu tinha


quando ela tava na barriga da mãe dela.” (01/41)

“Eu acho que é pela questão de ter uma coisa cuidada


por mim, fora a minha esposa, de ter uma outra
pessoa dependendo de mim, uma pessoa que eu possa
carregar no braço.” (01/47)

“Então eu acho que é a questão da necessidade de dar


cuidado, eu gosto muito.... eu acho que é a questão do
cuidado, de dar cuidado mesmo...” (01/47)

Ao mesmo tempo em que encontramos expressos alguns medos e


receios diante da perspectiva da paternidade, surgem, paralelas, falas
que resgatam as conquistas alcançadas com a adoção efetiva das
funções paternas, e que informam da prevalência do ‘desejo de ser pai’
em detrimento de outras coisas, como o estudo por exemplo. A
dimensão desse desejo é que pode garantir a energia para criar as
condições necessárias, e para superar todos os obstáculos e
dificuldades.

“Eu acho que ter filho é bom e é ruim, depende muito


da forma que a gente escolhe pra criá-los.” (01/41)

“Como eu não tive um modelo de pai muito presente,


sempre foi uma coisa muito confusa para mim, viver
..., como eu vou ser pai? Como é que eu vou... como é
que vai ser essa minha experiência como pai?”
(02/08)

“Eu falei: ‘Vou me impor como homem, vou ser uma


pessoa digna, uma pessoa certa e vou correr atrás.’ E
111

foi o que aconteceu. E hoje em dia, a minha filha está


aí, e eu tenho muito orgulho de ter ela, certo.” (02/14)

Diferentemente do padrão de masculinidade tradicional, onde o


homem tende a se excluir, ‘naturalmente’, das responsabilidades em
relação ao processo reprodutivo, encontramos várias falas que refletem
a importância do planejamento familiar e da participação masculina no
momento da decisão.

“Eu não planejei ter um filho. Os meus filhos foram


acontecimentos, mas foram acontecimentos
maravilhosos. Mas não foram planejados. E eu vejo
que muita gente sofre pelo não planejamento. “
(02/10)

“Tá sendo bárbaro a experiência de ser pai do Victor.


Então, quer dizer, não foi, né? Não foi nada planejado,
foi um acontecimento. “ (02/22)

Uma fala, em especial, denota uma certa queixa diante da


exclusão do homem na hora de opinar sobre ter ou não filhos, ao que o
participante denomina de ‘Projeto de Maternidade’.

“E a minha filha nasceu, assim, pelo projeto de


maternidade, não de paternidade” (02/22)

Enfim, percebemos a paternidade apontando como um campo de evidentes


transformações no masculino, onde atributos até então relegados ao feminino são
re-alocados para a função paterna, com homens assumindo o ‘cuidar’ de forma
prazeirosa e desencouraçada.

d) Violência
112

A violência está presente na descrição das vivências cotidianas de


forma marcante, tratada a partir do reconhecimento desta questão
como um tema masculino..

“Os homens no Brasil, são aqueles que mais matam e


mais morrem, morre mais gente no Brasil por causa da
violência do que nas guerras que a gente escuta falar.
Então, está no nosso cotidiano e a gente traduz aquilo
em práticas também violentas, o medo está sempre
presente nas nossas vidas e o medo nos faz reagir
agressivamente, o medo nos faz omitir, o medo nos
torna protetores da nossa intimidade. Então eu acho
que a nossa relação com o medo tá muito forte.”
(Lopes et al, 2001: p. 109).

“Hoje o que lota os presídios são homens, eu acho que


essa coisa da violência é um tema muito interessante
pra gente discutir enquanto gênero masculino.”
(03/85)

Neste terreno, é dado foco especial à violência doméstica,


destacando a presença de uma consciência política na crítica à
sociedade, que produz a marginalização dos indivíduos e que, por
conseqüência, desencadeia a violência.

“Eles viram marginais, e essa mesma política pública


pega esses marginais, que foram feitos pela falta da
política pública... E joga lá dentro, de uma instituição
caótica que só produz mais violência, deixando de lado
aquilo que a gente considera, entre aspas, mais
sagrado, que é a educação.” (03/82)

“Hoje, ainda, a mulher e os filhos é que saem


perdendo muito com essa lógica da violência
doméstica. É claro que isso tem muito a ver com a
questão econômica, mas não é só isso. Eu acho que
tem também essa coisa do homem achar que ele pode,
porque a gente pode estar sofrendo um grande
estresse” (03/86)
113

Vale destacar a expressão de uma visão crítica acerca da


tendência que a maioria tem de incorporar a ‘vitimização’, fator que
dificulta o processo de transformação dessa conjuntura, visto que
contribui para a imobilidade.

“A gente fica sempre numa situação da vítima, do


agressor, vítima e vitimizado, e a gente acaba também
não mudando determinadas formas de pensamento.”
(03/88)

Por outro lado, como reflexo das discussões levantadas nas


oficinas das quais eram participantes, alguns homens relatam sua
experiência nestes grupos de homens como sendo efetivamente
transformadora. Isto tanto no que se refere a comportamentos violentos
que antes expressavam em relação à família, como em relação a si
próprios.

“A primeira impressão que se tem é que eram homens


que eram violentos em casa, que de repente resolveu
abandonar a violência doméstica, a violência contra
filho, contra a mulher, contra a mãe, contra o pai..”
(01/03)

“E só o fato da gente trabalhar a questão da violência


doméstica, eu me senti um cara violento antes, hoje
em dia eu tenho até vergonha de falar isso, que eu fui
um...né, um cara violento, de repente não diretamente
com a minha família, mas indiretamente eu era mais
violento comigo.” (02/75-76)

Estas falas parecem configurar descobertas importantes feitas por


estes homens, que expressam, de forma séria, despojada e sensível,
seus desejos de participarem efetivamente da construção de uma
sociedade menos violenta, mais humana e solidária, como veremos a
seguir.
114

e) Reflexões transformadoras

Em contraposição à propalada tendência masculina ao isolamento,


pudemos constatar que um número significativos de falas se reportam
ao desejo confesso de se reunir com outros homens, e que não
economizam adjetivos para falar do prazer e dos ganhos pessoais
auferidos com essa prática.

“A alegria é justamente aquilo que o P. falou, que todo


mundo falou, que é poder se reunir, poder estar com
outros amigos, às vezes eu encontro com o v., dou um
abraço nele, eu me sinto bem, com o V., todo mundo,
então eu acho que isso é legal,. Eu percebo que isso
há algum tempo atrás não era uma coisa muito
comum, mas hoje que tá se tornando uma coisa
comum.” (01/04)

“Quantas coisas sérias a gente tá falando no meio


disso tudo aí.” (01/20)

“Ter interagido como homem no grupo Consciência


Masculina [do PHSVC] me deu mais clareza de poder
trabalhar isso e até me respeitar mais.” (01/25)

Um dado interessante, diretamente ligado à essa questão, é


reportado em relatórios do PHSVC, e refere -se ao sentimento expresso
por vários homens, quando inicialmente convidados a participar dos
grupos de reflexão de gênero propostos pelo Projeto. Em várias
ocasiões, surgiram questionamentos em torno da proposta de formar
“grupos de homens”, alguns destes tratando explicitamente da
possibilidade de haver alguma ligação do projeto com o movimento gay.
A idéia de estar reunido com outros homens, para simplesmente
115

“conversar”, causava um certo estranhamento, denotando ser esta uma


prática estranha aos padrões tradicionais de masculinidade.

De um modo geral, os espaços de encontro masculinos, numa


visão à luz desta cultura, parecem estar bastante bem definidos
socialmente, como o estádio de futebol, o botequim, a rinha de galo,
etc. Mas nesses espaços, o tipo de comunicação que estabelecem
costuma ser regido pelos estereótipos de gênero, no qual cada um tem
que afirmar-se socialmente como forte, auto -suficiente, eficiente e,
principalmente, heterossexual. Ainda numa mesma visão estereotipada,
os temas gerais das conversas masculinas costumam girar em torno do
futebol, de mulheres ou de política.

Entretanto, em grande parte dos depoimentos que ora analisamos,


a experiência de participação no grupo reflexivo é relatada como sendo
a de se deparar com um espaço sério e de confiança, onde esses
homens afirmam se sentirem seguros para estar expressando
livremente seus sentimentos.

“Difícil essa coisa que está acontecendo entre a gente,


é você conversar com outro e se emocionar” (01/57)

“São homens que estão colocando pra fora, todas as


suas questões, todos os seus preconceitos, todos os
seus desejos, todas as suas frustrações, falando, isso é
complicado, é difícil mesmo” (01/57)

“Esta reunião nossa aqui, é muito fantástica, é muito


legal. (...) é muito gostoso, entendeu? E pra gente...
ajuda muito...” (01/57)

São falas que denunciam o desejo de promover mudança, de


reproduzir essa vivência de grupalização, multiplicar os espaços
116

propícios à prática reflexiva em grupo. Esse movimento parece vir em


resposta à consciência da necessidade de construir uma ‘nova história
do homem’, onde afeto, cumplicidade e companheirismo entre homens
não mais ameaçam a ‘virilidade’. Várias falas espelham o desejo de ser
mais coletivo, de participar das questões mais gerais.

“Foi maneira a mudança, a mudança como pessoa,


como gente, como marido, como pai, como filho. E o
que eu tento fazer com essa experiência é tentar
multiplicar isso” (01/55)

“Em função disso estar trazendo outros companheiros


que tão repensando sua situação de homem e tão
tentando modificar. Então na verdade estamos
construindo uma história, masculina sim, com muita
sensibilidade.” (01/03)

“A gente ainda tem a evoluir, eu acho que o homem


pode ser... tem um grande espaço pra ser mais
coletivo, eu acho que um encontro como esse ajuda
muito isso, porque ajudam a gente a desarmar, a criar
ambientes comuns de identificação.” (01/34)

“Os homens que trabalham com a gente são pessoas


que estão buscando esse entendimento mais
participativo.” (01/35)

Outros falam da descoberta do prazer no auto-cuidado,


diferentemente dos padrões de dependência de outrem, e de
alheamento de si próprio, localizados no modelo tradicional. Várias falas
confidenciam sobre a constatação de estar “aprendendo a colocar pra
fora”, ou seja, descrevem a consciência de que é saudável falar sobre os
próprios sentimentos. Essa prática, segundo os informantes, tem efeito
transformador em suas vidas.
117

“A gente tem que falar de coisas gostosas, a gente


tem que falar das nossas experiências.” (01/54)

“Coisas que são traumáticas, que marcam. A gente só


consegue falar essas coisas, quando a gente tá assim
numa reunião entre homens sérios, onde cada um tá
falando de suas frustrações, onde cada um vai falar de
seus desejos. Então a gente se sente à vont ade pra
falarmos a respeito disso...” (01/15)

“É um assunto muito interessante quando a gente fala


a respeito de sexualidade de homem, de sexo, opção
sexual de homem, de criança. Tem muitas coisas
acontecendo. O porque o cara é homem e tem uma
figura do homem com bigode. Então ele tem que ser
respeitado porque tem a figura do homem, mas não é
bem por aí não. Essas reuniões aqui são ótimas pra
gente conversar a respeito disso...” (01/17)

Outros depoimentos refletem sobre a importância da informação,


e da necessidade de melhorar a comunicação, para que, a partir daí,
possam adotar novas posturas em relação, inclusive, à própria saúde.

“Nós homens, hoje, que temos toda essa informação,


todo um lance cultural...por isso que é bom reuniões
iguais a essa, pra gente tirar um pouco essa cabeça.
Infelizmente, nós, enquanto homens, ainda temos
aquela coisa do machismo, ‘isso não é coisa de
homem’. Só de acordo com algumas conversas, alguns
bate-papos, algumas informações pela qual você sai
dessa linha e começa a se cuidar.” (01/08)

“Um problema que o homem precisa vencer, é ter uma


comunicação melhor. (01/07)

De um modo geral, esse processo de construção de um ‘novo


homem’ ao qual vários participantes se referem, parece ter mais a ver
com o desejo de apreensão de valores de humanidade, do que com a
118

mera reafirmação de valores da masculinidade propriamente dita. De


qualquer forma, trata-se de um processo que demanda a abertura
para a participação, como a que eles se permitiram experienciar. O
caráter transformador decorrente dessa participação aparece evidente
em muitos depoimentos, como nos abaixo selecionados.

“Eu me defino hoje em dois momentos: primeiro


momento, antes de eu ter conhecido o grupo de
reflexão, de gênero masculino, o grupo Consciência
Masculina e depois de ter conhecido o grupo.” (01/55)

“Como grupo, e como homem, cada vez mais me


reciclar como homem, me educar como homem e ser
solidário às dificuldades que outros homens possam
estar tendo, ser cúmplice dessa realidade de ser
homem, muito difícil falar” (01/56)

“Esse caminho que o [grupo] Consciência Masculina tá


me ajudando a trilhar como homem, tem prazer em
ser gente, eu tenho muito prazer em ser gente.”
(01/56)

“Eu conheço muitas pessoas que precisam passar por


essa experiência que nós passamos né? E que com
certeza vão se tornar HOMENS MELHORES (ênfase),
né? No seu comportamento no trabalho, com sua
família, com seu filho, ele vai aceitar mais, ele vai
ponderar mais antes de tomar certas atitudes...”
(01/58)

“Vai ficar mais tolerante. Mas isso falta essa coisa né;
do... né, primeiro ele vai ter que vir né, e ouvir, e
aceitar e se posicionar...” (01/58)

Observa-se, em muitos depoimentos, uma enfática valorização do


processo reflexivo, da participação, uma maior auto-aceitação, e o
119

exercício explicito de maior liberdade de expressão, de auto -


descoberta, e de revisão de paradigmas.

“Hoje você tem livre -arbítrio de você falar o que


sente.” (01/15)

“A gente pode estar se escondendo atrás de uma série


de paradigmas pra se justificar....somos estranhos
porque a gente tem um montão de coisas pra poder se
esconder e camuflar essa nossa maneira de ser.”
(01/37)

Nesta perspectiva de consideração da alteridade, aparece uma


acentuada valorização da sensibilidade, da base familiar, da saúde, do
processo de troca. Isto tudo, numa perspectiva que vai ao encontro dos
interesses da coletividade.

“Intimidade é quando você se deixa vulnerável,


quando você desarma todo os seus preconceitos ...
quando você confia naquela assunto, naquela pessoa
pra poder trocar com ela, é um processo de troca.”
(01/21)

“A gente busca estabelecer uma nova relação, criar


novas relações ... é fundamental que a gente cresça
enquanto indivíduo, mas também coletivamente pra
gente criar identidade, identificações que nos
estimulam a seguir.” (01/34)

“Eu acredito que seja a base familiar. Eu acho que


você tem que ter um passado, uma história para você
levar aquilo adiante.” (02/08)
120

Em suma, constatamos que estes homens alegam estar


perdendo o medo do contato, os receios de demonstrar e trocar afeto,
de serem eles mesmos, inseridos em um contexto social passível de
transformação, a partir de ações promovidas por eles. Vamos encontrar
sentimentos correlatos nos depoimentos sobre a saúde, que
apresentamos a seguir.

5.5. Bloco - Modelos de Cuidado com a Saúde

A exemplo de como procedemos à análise das ideologias de


gênero, optamos por estabelecer o mesmo critério em relação ao tema
saúde, percorrendo, inicialmente, as colocações que denotavam a
acomodação e identidade com o padrão de masculinidade hegemônico,
para em seguida apresentar as falas com tons diferenciados.

a) Modelo Hegemônico

No âmbito das falas classificadas como correspondentes ao modelo


hegemônico, a relação com a questão saúde é explicada a partir da
introjeção de padrões de socialização tradicionais, onde o chavão
principal é o de que ‘o homem só procura o médico quando está
realmente mal’. Vários depoimentos dão conta de que esse padrão
também implica na recusa em tomar remédios.

“Aquela coisa já antiga, de criação, de que médico é


pra quando não tá legal.” (01/04)

“Eu não tomo remédio, eu evito qualquer


remédio.”(01/06)
121

“Tenho um medo de médico, eu acho que quando você


vai no médico é porque tá mal.” (01/06)

“O homem só vai procurar quando já está bem ruim.


Caindo aos pedaços é que ele vai.” (02/01)

Neste contexto, onde o adoecimento masculino compromete as


expectativas sociais de desempenho, objetividade, resolução, ação, e
utilização da força bruta pretensamente inegostável, o receio de parecer
fraco impossibilita ao homem a mera expressão de dor.

“Uma coisa muito preocupante, ele [o pai] falava que


homem não expressa dor.” (01/08)

“Então em parte eu penso, homem não pode expressar


dor, homem não pode exp ressar que tá doente,
homem não pode expressar de forma alguma.”
(01/10)

De um modo geral, a visão que predomina é a de que a saúde é


uma preocupação da mulher.

“Quem empurra muito pra saúde é a mulher, cara!


Entendeu? A mulher, devido à gestação, à gravidez,
pré-natal, etc, isso vai acabando, vai levando ela à
conviver com saúde, e se interessar mais sobre saúde.
O homem não, o homem fica naquela, “sou o
poderoso, nada me acontece”, aí quando acontece é,
“estou derrotado, destruído, desarmado”. (03/23)

Outro aspecto bem marcado dentro desse padrão, e que parece


associado à indisposição para o auto-cuidado por parte do homem,
refere-se à declarada dependência do cuidado feminino, ou de outrem,
no cuidado com a saúde.
122

“Desde pequeno, a mãe levou ao médico, fez um


cházinho, deu um remédio, depois a namorada, a
esposa tá sempre dando uma atenção.” [descrevendo
o padrão masculino] (01/04)

“Associo muito a essa coisa de sempre ter alguém,


uma figura feminina, sobretudo, cuidando, dizendo...”
(01/04)

“Eu só tava sentindo dor de cabeça, aí ela me cuidou.”


(01/06)

“Aquela história que a gente foi acostumado o tempo


inteiro com mão feminina apontando, sinalizando,
indicando.” (01/36)

“Quando tá mal, mal mesmo que ele vai procurar um


médico e assim mesmo se alguém levar ele.” (02/65)

Esse perfil é associado ao processo de socialização, mas parece


haver, também, a percepção de que se trata de uma estratégia de
troca, na qual é feito um investimento na saúde mediante a perspectiva
de otimização de seu desempenho como provedor.

“A minha esposa, aliás, inclusive ela cuida mais da


minha saúde do que eu cuido e eu gosto disso. É uma
pessoa que cuida mais da minha saúde do que de
mim.” (01/12)

“Claro que ela não vai se descuidar porque ela gosta


de você, ela quer que você tenha perfeita saúde,, até
pra você cumprir com todas as suas obrigações pelas
quais você tem que cumprir, pagar dívida ...”
(01/12)
123

Os tabus em torno da sexualidade masculina se fazem notar em


diversos momentos, atuando sempre como fator complicador e de risco
no processo de cuidado com a saúde.

Tu vai num consultório médico, aí tu vê um monte de


florzinha. Aí nós como somos homens machistas: ‘Essa
porra é pra viado! Essa porra não é para mim, não.’
Então o cara vai sentindo uma dor, aí começa a olhar
aquelas florzinhas, sei lá, eu acho que ele vê muito
mais mulher.” (03/16)

Nesse aspecto, o tema da homofobia é, com certeza, um fator


que merece a devida atenção, na medida em que muitos dos tabus
existentes em torno da homossexualidade, tendem a dificultar a
prevenção de algumas doenças. O que mais causa espécie, entre os
entrevistados, são as menções ao exame de próstata. As referências a
esse tipo de exame são sempre permeadas de gracejos. A simples
menção ao assunto é, constantemente, motivo de piada, o que denuncia
o temor despertado por um mero exame de toque retal, e o que este
toque pode simbolizar em termos de ameaça à identidade masculina.

“não fez um exame precoce, porque tem toda aquela


imaginação do exame: esse exame não é pra
homem...” (01/08)

“Tabus ainda acompanham o homem, e tem gente aí


morrendo de próstata porque não fez um exame.”
(01/08)

Qualquer problema que venha a colocar sua região anal em


evidência pode deixa o homem inseguro, especialmente diante de uma
mulher. Dentre os aspectos a que este padrão pode estar relacionado,
acentuamos o receio de ter sua virilidade ou seu desempenho como
homem questionados diante de uma mulher. Na visão masculina
tradicional, uma mulher sempre representa a perspectiva de uma
124

‘relação sexual’ em potencial. Ao mesmo tempo, alguns depoimentos


sinalizam novas reflexões e atitudes frente a este padrão.

“A vergonha de dizer, de dizer, não é o meu caso, mas


o cara dizer: “Tô com uma dor no ânus.” Se for
mulher, o cara engole e se for homem, esse cara vai
achar que eu sou viado.” (03/17)

“Nós homens já temos essa: pô, o cara vai me dar


uma dedada e eu vou deixar de ser homem!” (02/65)

O nível acentuado de preconceito homofóbico também se faz notar


no depoimento de um participantes que se queixa de encontrar
informações sobre a questão da saúde do homem, tratada seriamente,
em publicações gay, e não em outras revistas eminentemente
masculinas. Por outro lado, este dado evidencía o quanto a mídia
dirigida ao público masculino desconsidera o cuidado com a saúde.

“até pra você dar uma informação de saúde do


homem, é numa revista que é gay.... ... né, pra você
procurar uma informação como essa né, você não tem
uma coisa oficializada... Ou seja, um homem se
sentiria ameaçado de ter que comprar G Magazine pra
poder saber daquele assunto.” (03/21)

De um modo geral, muitos depoimentos fazem referência às


influências do processo de formação cultural, na qual é estimulado o
exercício da prepotência masculina, a exigência de que os homens se
comportem como super-homens, dotados de uma força sem limite.
Buscar ajuda pode significar um sinal de fraqueza, o que não rima com
masculinidade, nos parâmetros da cultura masculina hegemônica.
125

“Além do que, nós fomos criados, realmente, na


formação de que o homem é machão e tal. Ele não vai
ao médico, não vai ao posto.”(03/25)

“O homem, por ele sentir, pela própria criação, o todo


poderoso, o machão, ele: “Ah, isso não é nada. Isso
vai passar.” (03/12)

“Agora, o mais forte que eu vejo mesmo, é o cultural.


Da gente ser treinado para ser assim. Ser o máximo,
agüentar, sem limite.” (03/16)

“Imprudente também, com a saúde, com todo o tipo


de coisa, a minha infância foi muito assim, não é que
eu não ligasse, até hoje eu sou assim.” (01/09)

“Ele ir a um médico é ele reconhecer que está


passando por uma fragilidade nesse momento. Que ele
está fraco.” (03/13)

Paradoxalmente, constata-se que a necessidade de atender a este


padrão os deixa numa posição extremamente vulnerável em relação à
perspectiva do adoecimento.

“Não aprende a lidar com o medo [o homem], ou


então seja por essa cultura machista que ele se acha o
super homem, e jamais ele vai ser atingido por algo
que venha de fora e que vai criar todo um problema
orgânico e tal.” (03/’14)

“Ele [o homem] acha que é dono da verdade, ele acha


que é dono das coisas mais impossíveis e é por isso
que ele se torna vulnerável.” (02/11)

Nesse processo de reflexão sobre si mesmos, há um resgate da


experiência com as figuras parentais, em especial a figura paterna,
para explicar a reprodução de comportamentos que não levam em
conta a questão da saúde.
126

“Perdi o meu pai também com problema de saúde...e


eu venho construindo a mesma história” (01/06)

“O meu pai morreu com 88 anos, era um cara fortão,


coroa bom de chinfra. Filho tem aquela coisa de
quando eu crescer vou querer ser igual ao meu pai.
Meu pai é um exemplo e era um cara super maneiro,
com 80 anos ainda se masturbava, nunca foi ao
médico Falei porra, se o meu pai nunca foi ao médico,
porque eu vou?” (01/08)

Alguns depoimentos dão conta da dificuldade de externalizar a


respeito da própria saúde, e conseguir que sua queixa seja levada em
conta, já que parece haver uma acirrada cobrança social por uma
resposta masculina efetiva ao estereótipo do super-homem. Aquele que
provê, initerruptamente, a força -de-trabalho.

“Porra, tô com uma dor no estômago.” Não fala. E


quando fala ainda escuta assim: “Ah, toma uma
cachaça que passa.” (03/16)

“Não fui ensinado a: “você tem que ter uma


preocupação com a sua saúde, se alguma coisa está
funcionando fora de uma normalidade, você precisa
sim..., ah não, é uma dorzinha.” (03/14)

Além do padrão de sexualidade desenfreada, aparece o trabalho


como potencial fator de risco à saúde do homem. No regime capitalista,
a exploração do trabalho do homem se dá pelo seu próprio ‘corpo’
produtivo, o que é facilitado com a naturalização do paradigma de que o
homem, para ser ‘homem de verdade’, não pode falhar nem ficar doente
nunca. Isto caracteriza ser esta temática transversalizada pela questão
de gênero, visto que acenam daí algumas luzes para a compreensão do
mêdo causado pela perspectiva do desemprego, por exemplo.
127

“Muitos homens pensam que, é, como se diz “ele só


foi feito pro trabalho.” (02/74)

De um modo geral, parece prevalecer, entre os homens, o


sentimento de impossibilitadade de tornar pública sua fraqueza, uma
vez que há o risco de vê -la desdenhada. No anseio de solucionar
rapidamente suas mazelas, para poder dar conta de garantir seu
trabalho, tende a recorrer a auto-medicação, com suas possíveis
conseqüências para a saúde como um todo.

“Ia trabalhar com o corpo doente e a dengue tava se


agravando, eu não cheguei a ir no posto e acabei me
curando por pura teimosia, e claro me medicando
deliberadamente.” (01/09)

“Eu tava trabalhando com dengue, eu tava suando frio,


tava sentindo dores no corpo, ...que houve tio Márcio?
Nada não , tá tudo bem.” (01/10)

Quanto à sexualidade, os comportamentos de risco ficam


evidentes no numero indiscriminado de parcerias, em que prevalecem
as relações de confiança estabelecidas pelo critério do “conhecimento”
para justificar a relutância quanto ao uso dos métodos contraceptivos e
de prevenção de dst/AIDS nas relações sexuais.

“Eu não sabia usar a sexualidade de uma forma bem


saudável, eu usava mais assim pra me posicionar
como homem, achando que sair metendo é que
era...até pra desrespeitar todo aquele conceito de
mulher..” (01/36)

“É a única que eu pego sem camisinha. Mas eu dou


orientação à ela, eu trabalho num posto... Tô com
minha paraibinha há 3 anos. Essa eu pego sem
camisinha.” (02/19)
128

Por outro lado, o fantasma da concepção de um filho, ou de


contrair alguma doença, convive paralelamente às práticas
inconseqüentes.

“Acho que foi eu botar, encher de ar, na hora a noite,


no escuro e pintou aquela atração de dar outra
naquela hora... “Poxa, o que eu fiz, o que eu fiz, o que
eu fiz?” E depois quando eu ouvi aquilo (som da
camisinha estourando), parece que a vida acabou ali
mesmo.” (02/14)

“Aí, tive que correr atrás lá, pra ela tomar uns
remédios lá [abortivos]....Tomou até Coca-Cola
fervida!” (02/16)

“É. Hoje, nêgo tem que botar camisinha. ... Pra não ter
filho. E hoje, não. Hoje o cara tem que botar
camisinha. É a mesma coisa você comer um arroz sem
sal.” (02/20)

Algumas falas atentam para o fator ‘desinformação’, como um


dado complicador da saúde masculina. Aliado a isso, a visão de que o
Posto de Saúde ‘não tem um perfil para atender homens’, o que
contribui sobremaneira para o afastamento da população masculina da
busca de ajuda profissional.

“As instituições de saúde brasileiras, ou não sei as


brasileiras, mas acho que a carioca que onde eu
convivo, são feminilizadas. Consultório médico, aí tu
vê um monte de florzinha. Aí nós como somos homens
machistas, “essa porra é pra viado! Essa porra não é
para mim, não.” (03/16)
129

“Eu acredito que por timidez eles não procuram


(médico)... Eu acredito que seja por falta de
informação... falta de informação e eles pensam muito
também que posto de saúde é coisa de mulher.”
(02/73)

“Mas a gente é também desinformado e nem se


interessa em se informar com relação a saúde, de
possíveis problemas que podem atingi –lo.” (03/15)

“Muitos homens não vão ao médico porque pensam


que não te m um médico qualificado pra eles.” (02/67)

Um dado que aparece com bastante freqüência em vários


depoimentos, refere-se à inadequação ao atendimento feminino no
Serviços de Saúde, figurando essa questão como um dos aspectos que
mais dificultam a opção por buscar os recursos da medicina. Nesse
aspecto, fica evidenciado o receio de se mostrar enfraquecido, o que
corresponde, no imaginário masculino, o risco de perda do poder sobre
a mulher.

“Dá pra tu ir ali fora comigo, eu saí com uma mina aí


tem duas semanas, porra eu tô com a cueca ficando
amarela, eu fui ali, mas tem uma mulher ali na janela,
eu fiquei com vergonha.” (02/68)

“Ele vai chegar lá na triagem: tô com um caroço no cú.


Ele não vai falar nunca nisso, porque na triagem só
trabalha mulher.” (02/69)

“Vou tomar um café e falar com o rapaz, isso é papo


de homem, é igual pedir uma cerveja num botequim,
se tiver um botequim, tiver uma mulher atendendo
você pede uma cerveja de uma maneira, se tiver
homem atendendo você vai pedir de outra maneira, é
ou não é?” (02/69)

“Nós já temos essa ignorância, a ignorância é de


machão, nós temos essa ignorância, você não pode
130

conversar com uma mulher uma coisa que você pode


conversar com homem.” (02/71)

A desinformação, associada à dificuldade de adequação ao perfil


apresentado pelos serviços, acaba concorrendo para a prática da auto -
medicação, esta realizada aleatoriamente, seja através da indicações de
amigos, ou diretamente junto ao balcão da farmácia, ou então
recorrendo ao terreno da religiosidade, pro curando os pais e mães-de-
santo, benzedeiras e similares.

“Os meninos não descem para posto, não, nem


hospital, não. “Vem cá, chega aí. Pô, me consegue
isso, aí. O que a gente pode fazer?” (02/06)

“O amigo indica uma coisa, vão à drogaria, compra o


remédio.” (02/66)

“Que eles falam que a saúde tá precária, vou chegar e


vou ser destratado no hospital, num posto de saúde,
por isso que ninguém vai,...eles vão numa
farmácia...”, (02/67)

Essa questão remete às relações – tensas e conflitivas – entre o


sistema de saúde ‘científico’ e a cultura popular, denotando que, embora
possamos identificar um aspecto de gênero nesse padrão, a questão não
se reduz a ele.

“Onde nós moramos tem o Milton da farmácia, ele


qualquer coisinha dá o diagnóstico, faz o exa me...
Farmacêutico e tem o vovô vai com Deus lá também,
ele recebe o caboclo,... então ele confia mais nesse
farmacêutico e nos centros de macumba, do que ir no
médico. São dois atendimentos, o santo espiritual e o
farmacêutico.” (02/68)
131

“O homem foge, ele chega assim: to querendo ir no


médico, entra naquela fila ali, meu irmão é ali, aquela
fila ali, o cara vai olhar, cheio de mulher, criança ali, aí
ele olha pro pau e fala: vou lá no vovô.” (02/68)

Constatamos que o fator desinformação, associado à reprodução


de valores tradicionais do “ser homem”, contribuem de maneira
marcante para o agravamento do quadro da saúde do homem.
Entretanto, destacam-se várias falas que nos levam a crer na
emergência de novos modelos, diferenciados, e mais próximos do que
se chama humanização. É o que passamos a descrever a seguir.

a) Modelos Contra-hegemônicos

Numa postura completamente reformulada, em relação aos


padrões apresentados anteriormente, encontramos falas que traduzem
um padrão diferenciado, no qual pode-se detectar uma certa consciência
da necessidade de auto-superação, e de revisão de antigos valores. Isso
num discurso em que a responsabilidade por si próprio é colocada como
opção à postura de vítima.

“Hospital é lugar pra todo mundo, é lugar pra você ver


se está doente .... acho que a gente tem que olhar
mais o nosso lado, que nós não somos onipotentes.”
(01/08)

“Na verdade a nossa saúde, a saúde de cada um, a


gente é que tem que cuidar.” (01/04)
132

“Eu descobri que gemer alivia a dor, então se eu tiver


doente, deixa eu gemer.” (01/11)

“Se você está precisando do médico, você tem que


independente da sua criação você tem que procurar
imediatamente o recurso de saúde.” (03/12)

Outra questão que fica patente, é a noção de que esse processo


de reformulação pessoal tem a ver com as demandas da paternidade.
De um modo geral, parece haver uma preocupação com a necessidade
de atuar como agente norteador de rumos para as gerações futuras e,
nesse processo, tentar garantir escolhas mais saudáveis que as
experimentadas no decorrer da vida.

“Tô começando a ficar preocupado porque a minha


história é uma história muito triste. Eu também vou
morrer rápido, vou morrer de repente, mas eu não
quero isso, eu quero viver, quero passar minhas
experiências.” (01/06)

“(as pessoas)... estão tendo a oportunidade de estar


criando novos homens com novas mentalidades. Novos
jeitos de ser.” (03/15)

A percepção de si mesmos como protagonistas na construção da


história social, fica marcada em depoimentos que expressam a
consciência da responsabilidade com o futuro. No bojo desses
sentimentos, resgatamos também as falas que reportam a preocupação
com a questão coletiva, referindo-se à consciência da necessidade da
prevenção.
133

“Que testemunho você vai dar pra esse jovem? Se o


cara daqui a pouco fala, o fulano tá lá fudido mesmo,
por que tu não se cuidou?” (01/04)

“Fazendo manifestações, mostrando não só com


prospecto, mostrando com slides, na associação
mesmo reunir os líderes comunitários, os moradores
mesmo e passar isso pra eles .... a gente podia
abranger esses temas e trabalhar com a comunidade
também, tirar um pouco desse preconceito, desse
medo de se tratar, mostrar um pouco da saúde do
homem.” (02/71)

“Eu não acreditava na prevenção e hoje essa palavra


prevenção pra mim é tudo.” (01/06)

“Prevenção é a solução em tudo, na saúde, no


trabalho, na violência, nos grupos , na infância, o
primeiro estudo, nossa primeira escola é dentro de
casa... hoje pessoas mal informadas, claro, só podem
estar mal informadas e estarem se contaminando com
doenças sexualmente transmissíveis e com o vírus da
AIDS...” (03/79)

Ao mesmo tempo, também fica clara a percepção de que há algo a


ser revisto no terreno das políticas públicas, na medida em que vários
depoimentos levantam sérias questões sobre a forma como as coisas
são conduzidas nessa área. Um exemplo disso é encontrado nas falas
que questionam a eficácia de algumas campanhas, e em outras que
alertam para a necessidade de campanhas adequadas.

“Se nossa cabeça começar a mudar... vai tudo


mudar... uma conseqüência dessa cultura machista,
que é como a política de saúde pensa essa saúde
preventiva do homem. Porque, na verdade, se a gente
for ver bem, nós temos muito pouca coisa sobre a
saúde do homem, né, cartilha, folder, material.
Sempre a gente vê muita coisa sobre a saúde da
mulher.” (03/20)
134

“Teria que haver uma campanha, um esclarecimento.


Eu achei super bacana, quem viu aí? O Nuno Leal Maia
falando sobre o câncer na próstata?” (03/17)

Paralelamente, várias falas dão conta que a questão da saúde do


homem tem a ver, também, com o fato de que ainda existe muita
desinformação comprometendo o processo, e que é necessária a
formulação de medidas efetivas nesse sentido.

“Enquanto houver a falta de cultura e a desinformação


não vai haver prevenção, não tem como, como é que
você vai prevenir um monte de ignóbil, de pessoas
ignorantes.” (03/89)

Parece que o questionamento tem a ver, também, com a


qualidade da informação, do que simplesmente com a quantidade.

“Porque quando a gente fala da informação, a gente


pensa a informação como uma coisa mágica – AIDS
prova que não é assim. A grande questão é como
fazer que essa informação realmente atinja aquele
menino dentro dos desejos dele, ... gente tem que
encontrar novos mecanismos. Por isso que o ministério
da saúde tem que mudar a forma de fazer as
campanhas... como que a gente vai trabalhar isso? Pra
que essa informação ela faça sentido em você...”
(03/90 -91)

Num possível reflexo da metodologia empregada no processo de


intervenção que caracterizou o PHSVC, podemos perceber a crítica à
educação “bancária”, e a valorização de práticas educativas dialógicas e
horizontais, conforme proposto pela Pedagogia de Paulo Freire.

“Se você tem uma campanha, também, maciça,


educativa, socio-educativa, conduzida pra população,
tem retorno, obviamente.” (03/21)
135

“Deveria ter uma divulgação por parte das


coordenadorias explicando... a televisão mostra um
mundo feminista, você vê que o mundo machista
acabou, agora é só o mundo feminista.” (02/67)

A questão da qualidade também é questionada quando em


referência ao contexto da escola e da mídia. Em um depoimento, é
explicitada a preocupação com a influência da mídia, descrita como
negativa para o processo de formação sexual das crianças. A escola é
vista como uma instituição que necessita ser reavaliada em sua base.
Nesse contexto, há sugestões explicitas de inserção do debate sobre a
questão de gênero no currículo escolar, objetivando a melhoria da
qualidade das relações.

“A medida que a gente leve essa reflexão do gênero


masculino pra dentro a escola, por exemplo, que eu
acho que é um espaço hoje muito forte de se fincar
valores e contra valores, que a família não é mais
tanto, como ela era há 40 anos.” (03/87)

“Um conjunto de relações que influencia muito mais


que a família muitas vezes, eu acho que a escola ainda
é um espaço especial, eu acho que essa necessidade
de refletir o gênero masculino na educação, desde a
educação infantil ela é fundamental. (03/87)

“Eu acho que é mudando o estilo, o estilo de vida, as


educações primárias...” (03/87)

Denotando uma consciência crítica sobre a sociedade capitalista, o


discurso sobre a mídia, de um modo geral, apresenta-a comprometida
com a difusão do consumo, descrita como elemento deformador dos
valores da família, sendo um elemento negativo à formação de uma
sexualidade saudável entre as crianças.
136

“A mesma televisão que fala com droga, sem droga,


coloca um comprimido lá dizendo que aquele
comprimido tomou doril a dor de cabeça sumiu!”
(03/81)

“Hoje essas crianças não tem mais essas regras, e


além de não ter essas regras tem todos esses veículos
de comunicação que, com essas músicas que falam:
‘bota na boca, bota na bunda, bota onde quiser’, estão
influenciando de uma forma totalmente negativa,
sexualmente falando.” (01/51

A experiência nos grupos de reflexão de Gênero demonstrou que,


na medida em que esses desafios são encarados, propiciam
transformações significativas tanto na dimensão do pessoal como na do
coletivo, na medida em que estes homens descobrem que podem se
beneficiar do espaço dos grupos para aprender a lidar com as
insatisfações e inseguranças diante dos papéis de gênero socialmente
impostos.

“Eu me recuso a acreditar que essa possibilidade, a


descoberta dessa reunião de homens, não tenha
surtido um efeito positivo na vida das pessoas. Porque
é notório que tem muita gente procurando uma
situação dessas. Eu gostaria até de perguntar onde
vocês estavam que não apareceram há mais tempo? É
legal você [ver que uma] coisa que você achava que
era só tua, e [encontrar], numa reunião homens que
têm problemas igual eu tenho, igual qualquer um tem,
e discutir essa questão.” (Lopes et al, 2001: p. 129)

Esta vivência é relatada como altamente gratificante e


transformadora. Fica evidente o reconhecimento do grupo como um
espaço de troca de informações e práticas de saúde que promove a
“conscientização”, na medida em que essas atividades permitem a
ampliação da consciência associada ao proce sso reflexivo grupal.
137

“Hoje tá sendo muito importante estar fazendo parte


de um grupo de homens que fala da prevenção de
saúde com homens, hoje eu tenho mais cuidado com a
minha saúde.” (01/06)

“Nós homens hoje, que temos toda essa informação,


todo um lance cultural...por isso que é bom reuniões
iguais a essa.” (01/08)

“Tem um grupo de homens aí, que quer falar sobre a


saúde do homem e falar também sobre doenças e
tratamentos... é uma coisa importantíssima.” (02/71)

“Um homem, que a gente vai se entender com ele, vai


se abrir com ele, vai poder chegar pra ele: ó, eu estou
assim, assim e assim.” (02/70)

Vários deles afirmam terem obtido mais informações, realizado


novas descobertas sobre si mesmos, sobre sua sexualidade, sua saúde,
a constataçã o de sua inserção como sujeito dentro de um contexto mais
amplo. Falam de como se perceberam transformados a partir dessa
experiência, e também do efeito dessas mudanças em seu modo de ver
o mundo, e nas pessoas de suas relações. Fica patente que o
mencionado processo de conscientização se dá a partir da percepção do
particular, ampliando-se em direção ao mais geral, ou seja, a
coletividade, ao sistema social como um todo. A partir da ação de cada
um deles, essa consciência tende a ser multiplicada.

“Muita gente cara, tudo amigos meus , compadre,


sobrinhos, tenho um sobrinho que tá praticamente
louco por causa de droga, ele espanca a mulher.... só
a minha mudança já mexeu um pouco com ele, já
mexeu bastante com ele, já deu um baque nele legal.”
(02/74)
138

“Houve uma mudança assim de ser homem, depois da


minha entrada no [grupo] Consciência Masculina,....
eu vim entender um pouco mais da sexualidade
masculina como homem, na íntegra com a coisa
saudável mesmo, depois de ter um filho.” (01/13)

“Esse tipo de encontro é muito saudável, ...é


fundamental que a gente cresça enquanto indivíduo,
mas também coletivamente... criar identidade,
identificações que nos estimulam a seguir.” (01/34)

Interessante constatar a percepção que estes homens têm de


estarem sendo, praticamente, pioneiros no que tange a perspectiva de
homens se dispondo à grupalização para colocar em cheque suas vidas,
e seus padrões de comportamento social, enquanto homens. Mais que
isso, a consciência do potencial de transformação social que esse tipo de
iniciativa, em que o diálogo é privilegiado, pode acarretar.

“Mas nós somos, nós estamos começando a virar as


exceções! Nós estamos começando a ser as vias de
regra. Nós! foi o que ele falou, é muito comum falar de
machismo de mulher pra homem, não de homem pra
homem. Tá se tornando algo novo.” (03/18)

“Se a gente se dispor a ouvir outros homens, o que


cada um pensa sobre as coisa que permeiam o nosso
cotidiano, saúde, educação, acho que vai facilitar mais
tarde um diálogo e a gente vai ter vários espaços pra
dialogar, na academia, seja no posto de saúde, nas
escolas, na comunidade.” (03/92)

“Os grupo de homens, ele é um caminho pra você


levar mais a sério essa reflexão sobre o gênero
masculino,... levar isso pra outros espaços, inclusive
pra práticas profissionais.” (03/87)

Contrariamente aos efeitos benéficos e transformadores


139

desencadeados pela grupalização, um depoimento descreve a


perspectiva de somatização potencializada pelo ‘encouraçamento’, pelo
‘não-dito’.

“Quando a gente tem uma coisa dentro da gente...e


não tem a sensibilidade de colocar pra fora ... aquilo te
dá uma úlcera, dor de cabeça, aumenta a sua pressão
arterial.” (01/16)

Em um número significativo de depoimentos, destaca-se a


consciência da responsabilidade do Governo em relação à questão da
saúde do homem. Como já percebido em momentos anteriores, a visão
de que a saúde da mulher parece estar em primeiro plano no âmbito
dos Programas Oficiais de Saúde, permeia os discursos constantemente.

“O governo também devia trabalhar mais nessa parte.


Ele faz a prevenção da mulher .., eu acho que o
preconceito já vem daí mesmo.” (02/01)

“Parece que eles tem mais preocupação com a mulher


do que com a gente.” (02/67)

“Tem que ter ali um planejamento pra tanto nós


confiarmos no médico, ter um apoio, ter uma
segurança, pra passar isso pra comunidade, tem que
ter um médico ali pra atender os homens e um médico
pra atender as mulheres.” (02/68)

Algumas falas apontam para uma nova postura masculina em que


pode se vislumbrar um certo reconhecimento da responsabilidade no
processo reprodutivo.

“Tenho usado sempre, agora, a camisinha. Pra evitar


até, dela tomar o remédio, que ela tá com uma
140

inflamaçãozinha, tá se tratando. Mas, há um tempo


atrás, eu ia na hora tirava fora. Acabou
vindo...(risos)...veio dois, né?” (02/20)

Chama a atenção o fato de alguns depoimentos serem incisivos


quanto ao potencial para “colocar ação” no seu desejo de transformar as
coisas em seu entorno. Nesse ponto, evidencia-se a consciência de que
essa transformação é possível quando caracterizada enquanto ação
refletida coletivamente.

“Porque, de repente, a resposta que nós dermos ao


[Centro Municipal de Saúde] Valdir Franco, pode
acabar desencadeando toda uma resposta nos outros
postos.” (01/07)

“Uma sigla que saiu dentro de um presídio, de uma


facção, ela tá tendo uma visibilidade tão grande, tão
potencializando aquela questão de uma forma tão
perigosa como todas as outras e não dão visibilidade
pra questões como essa, que está massacrando, a
gente tem que inverter isso mesmo. (03/91)

Fica evidenciada uma consciência crítica sobre a sociedade, que


gera as condições para manutençlão da desordem nos ambientes que
deveriam funcionar como sistemas de reabilitação da pessoa humana.
Ao contrário, os presídios tornam-se, cada vez mais, espaços de
fomento ao crime organizado, sob os auspícios das próprias autoridades,
como salienta nosso depoente em fala anterior. Também fica clara a
consciência da necessidade de formulação de políticas públicas que
dêem conta dessas questões de forma efetiva. Essa visão questionadora
fica bem marcada com relação aos serviços de saúde, que passaremos a
descrever a seguir.

b) Visão dos Serviços de Saúde


141

A visão que os homens tem dos serviços de saúde oficiais é


permeada por sentimentos de inadequação.

“Me sinto um marciano dentro de um posto de saúde,


parece que é um lugar pra crianças, pra mulheres e pra
senhores, um homem ali só tem que estar ali pra
trabalhar ou fazer alguma outra coisa, mas não pra ser
atendido, pra segurar o filho pra...parece que o espaço
de saúde não parece que tem um perfil pra homem.”
(01/06)

“Literalmente não me sinto bem dentro de um posto


de saúde, não me sinto dentro, fazendo parte daquilo
ali, aquilo ali também é meu.” (01/09)

Muitas falas atestam a dificuldade de sentirem-se à vontade para


recorrer a esses serviços, que parecem passar a imagem de estarem
fazendo um “favor”, a despeito de tratar-se de um serviço público.

“O homem chega dentro de um posto de saúde, parece


que ele vai lá pedir um favor... tem que ser tratado
com um pouco mais de dignidade, eu acho que o
tratamento é que devia ser mais trabalhado.” (01/11)

“Não sabe nada e tá lá, toma, procura isso aí e nem


olha pra tua cara, então não tem como você se sentir
bem num ambiente desses.” (01/11-12)

Essa imagem é refletida também nas queixas que referem-se a


um possível “descompromisso” com a clientela carente. Além de tudo,
alguns depoimentos expressam a opinião de que os serviços públicos de
saúde, ao invés de atuarem como fatores geradores de conforto e
142

confiança, são percebidos como elementos que geram medo nos


potenciais usuários.

“A estrutura hospitalar ela gera um medo. Uma


temeridade no ser humano. O cara bota o pé no
hospital, numa emergência então...porra. Aí o cara
entra em pânico.” (03/17)

No momento em que estas linhas são traçadas (março/2005),


convivemos com as principais manchetes locais, que abordam
justamente este fato, e onde assistimos o processo de intervenção
Federal nos principais hospitais do Rio de Janeiro, após um longo
período em que a saúde do município vinha se tornado visivelmente
caótica, comprovando a procedência do que foi dito acima pelo
depoente.

“Qualquer espaço de hospital, posto de saúde, seja pro


homem, seja pra mulhe r, seja pra criança, ele é
assustador.”

“E garantido mediante políticas sociais e econômicas


que visem o risco de doenças e de outros agravos e ao
acesso universal e igualitário às ações e serviços, para
sua promoção, proteção e recuperação... A pessoa até
quer, né, ter acesso à saúde mas existe dificuldade,
que é aquele que deveria dar acesso, o gestor, o
Estado que está capenga.” (03/25)

Alguns depoimentos denotam a consciência da desigualdade de


recursos, já visível nos grande centros, mas que parece se acentuar nas
regiões do interior do país.
143

“Ele falou lá da dificuldade que às vezes o homem tem


no interior, na parte regional, né? Porque na parte
desenvolvida do país, nos grandes centros, nas
grandes cidades, apesar de tudo isso que nós falamos
aqui, ainda há o acesso!” (03/24)

“Existe uma grande dificuldade não só do homem, mas


de toda aquela população ao acesso a saúde.” (02/26)

Vários depoimentos reforçam a percepção da necessidade de


construção de uma consciência coletiva, e de que o grupo pode
promover mudanças no âmbito das políticas políticas a partir de sua
atuação. Essas almejadas transformações implicam numa atuação séria,
honesta e comprometida por parte dos órgãos públicos, e devem levar
em conta os interesses da maioria, visto que devem ser voltadas para a
melhoria da qualidade de vida de cada cidadão. Observa-se também, a
valorização de um consciência mais ampla, de classe.

“Tem que ser nós aqui botando ação,.... ter a


consciência de querer um mundo melhor pra você ter o
poder interno transformador e influenciar as políticas
públicas...” (03/83)

“Começar a identificar essas questões e produzir


material educativo sobre isso, começar a ter
campanhas, né, é uma necessidade hoje, pra até
mudar esse lance.” (03/23)

“Esse trabalho de divulgação dentro da prevenção não


só no Rio de Janeiro, mas no país tem que ter uma
visibilidade mais séria porque é dinheiro, do nosso
ministério que tá saindo e saindo de forma errônea, a
clareza da necessidade de nos organizarmos de
verdade, cada vez mais, nós estamos entrando em
políticas públicas, e a gente tá entendendo, pelo
menos é o meu entendimento, que nós podemos
melhorar a nossa qualidade de vida e dos outros
homens...” (03/80)
144

Aqui, novamente confirmamos o sentimento genérico de que a


Saúde Pública é dirigida para mulher, e de que esse processo se dá
justamente por conta da maternidade.

“A mulher tem um contato maior com a rede de saúde,


que vai fazer ela se aproximar de lá, por causa da
questão da criança!”

“Fui várias vezes com o meu, levar o meu filho, e


quando eu chegava lá, eu olhava e a grande maioria lá
eram de mulheres. E aí, falava, “não, é porque o cara
tá no trabalho”. (03/22)

“o filho, no posto de saúde, é a mulher.” (03/23)

Contudo, parece haver a clareza que não se trata de um quadro


estanque, visto que a transformação é percebida como possível, e
compreendida como fruto de uma ação coletiva.

“Os postos de saúde sendo caracterizados cada vez


mais pra atender os homens porque é um consenso do
[grupo] Consciência masculina que a característica
pode ser adequada pro homem se sentir mais à
vontade.” (03/81)

“Esses nossos pensamentos, em livros, jornais,


revistas, fazer leis, ajudar, dar apoio, uma coisa que
nós representantes de todos os grupos podemos fazer
é em qualquer segmento a gente pode pedir a nossa
palavra, no caso do [grupo] Pela Vida, não deixar
essas campanhas que a gente julga caótica, que
impressionam o público, vai à mídia mal feita, por uma
única empresa de marketing, sempre a mesma
mesmice.” (03/80)

“Eu acho que essa experiência daqui, né, é uma


experiência muito significativa, porque ela pode
conduzir, né, eu acho que um grande barato dessas
ações é quando começa a ter impacto na política
145

pública e nessa política de saúde, como tá sendo


pensada...” (03/17)

Em suma, pudemos observar que são relevantes os dados


coletados a partir da vivência de grupalização. São inúmeras as
referências que indicam um efetivo processo de conscientização nos
diversos níveis, desde o individual, perpassando questões ligadas ao
próprio corpo, se estendendo para o espaço do grupo e apontando para
questionamentos que se remetem à perpectiva de participação, como
atores, na elaboração de políticas públicas.

6. Conclusões

Aqui vão ser agrupados os dados identificados como os mais


pertinentes aos objetivos propostos por esta pesquisa, num esforço de
síntese que aponte para propostas concretas em práticas de educação
para a saúde, em especial a saúde do homem..

Homens em Movimento

Em conformidade com o que é encontrado na literatura correlata,


pudemos constatar que a grande maioria das falas que apresentam
identidade com o padrão hegemônico de masculinidade, descrevem o
homem como o Super-homem, o herói que tem que ser forte, e que
consegue tudo o que quer através da utilização da força bruta. Essas
ideologias ainda aparecem naturalizadas no discurso da maioria dos
entrevistados, seja para descrever situações de nível pessoal, como
para comunicar o relato de experiências de outros homens.

Paralelamente, surgem muitos questionamentos acerca da


validade dessas ideologias para garantir uma vida relacional e social de
146

qualidade. Muitas falas denotam resistências diante da manutenção de


padrões que comprometem não só as relações destes homens com o
mundo, mas também tendem a comprometer seriamente sua saúde.

Diferentemente do padrão homofóbico e de auto-suficiência


atribuído ao “homem de verdade, encontramos muitos depoimentos que
expressam o desejo confesso de se reunir com outros homens para
realizar trocas de experiências de vida. Nesse processo, se dispõem a
falar livremente de si, expressar sentimentos, e questionar seus
próprios valores enquanto frutos de uma construção social que lhes foi
imposta.

Assim, a experiência de participação no grupo reflexivo é descrita


como muito gratificante, tendo consolidado um espaço onde esses
homens afirmam se sentirem seguros para serem eles mesmos, e a seu
modo. No bojo dessas considerações, observa-se uma enfática
valorização do processo reflexivo.

Muitos fazem questão de ressaltar o desejo de promover


mudanças, entendendo que as mudanças podem ser viabilizadas com a
participação de cada um, mas como um processo coletivo e político
visando transformações sociais mais amplas. Percebe-se ainda, o
entendimento de que esta consciência pode ser fortalecida através da
multiplicação dessa vivência de grupalização, como a que eles fizeram
parte, junto a um número de homens cada vez maior. Associado a isso,
aparecem muitos discursos em torno do processo de construção de um
‘novo homem’. Um homem que, a partir do exercício reflexivo da razão,
passe a encarar o mundo com mais “sensibilidade”.
147

Prazer, eu sou homem!

A afirmação da identidade masculina no padrão hegemônico, se


vale dos estereótipos de gênero. Estes tem a finalidade de reforçar as
diferenças entre homens e mulheres em todas as instâncias da vida
social. Essas diferenças tendem a ser naturalizadas, como pode ser
observado, no âmbito da sexo-afetividade, onde detectamos o padrão
de desvalorização da mulher como algo normal/natural e onde figuram,
com muita freqüência, argumentações que questionam o sistema
monogâmico, a perspectiva do “não envolvimento” amoroso.

Diferentemente do padrão de desvalorização feminina identificado


anteriormente, encontramos falas que declaram a percepção da mulher
enquanto um complemento. Assim, encontramos indícios de que alguns
homens estão considerando importante a valorização do diálogo e do
afeto para a manutenção satisfatória de seus relacionamentos, e para a
obtenção de uma vida relacional de qualidade.

Como nasce o pai da criança

No que se refere à Paternidade, chama a atenção o fato dela


também ser percebida, por alguns homens, como um modo de
afirmação da masculinidade. Nesse sentido, ter filhos garantiria a
afirmação social da sua identidade sexual.

Contudo, de um modo geral, o tema é debatido com grande


envolvimento emocional pelos participantes, sendo que vários deles
fazem questão de expressar o desejo de des-identificação com o modelo
paterno, tal como vivenciado em suas histórias de vida. Vale salientar
148

que a maioria dos entrevistados fala de uma experiência concreta de


paternidade, já que a maior parte tem filhos.

Em suma, parece que "ser sensível" começa a tornar-se um


atributo de significativa importância, e essa noção vem sendo
gradativamente incorporada aos modelos de masculinidade emergentes.

"No passado, o sofrimento de ser homem é que nunca


podia ter sentimento. Muitas vezes, eu me achava
diferente, as pessoas me tratavam diferente, pela
sensibilidade. Hoje vejo que isso ainda continua, [mas
é] mais fácil pra mim agora".

"Não sei quem falou: filhos, para que tê -los? Se não


temos, como sabê-lo? Grita, chora, caga, mas pô, que
bom ter filho." ( Lopes et al, 2001, p. 64).

Diferentemente do distanciamento proposto pelo modo de


paternidade hegemônico, estes homens traduzem suas experiências
como pais, descrevendo uma relação de cumplicidade, companheirismo,
amizade, respeito, diálogo, e fazendo questão de ressaltar seu
comprometimento e sua responsabilidade pessoal com o futuro,
denotando a consciência de que o pai apresenta o mundo ao filho.

No caso da filha mulher, a relação ainda tende a configurar-se a


partir de uma série de fatores complicadores, especialmente quanto às
questões que permeiam o terreno da sexualidade. No entanto, há
mostras de que essa relação pode ser refletida e modificada no
processo, o que implica em ser mais sensível aos interesses do outro.
Ainda que esse outro seja o filho, ou a filha.

Um dado peculiarmente interessante, diz respeito ao conceito de


Paternidade Social descrito nas falas de diversos participantes. Segundo
149

estes, num primeiro momento, parece não haver grande diferenciação


entre a paternidade biológica e a paternidade social, sendo ambas
perspectivas reportadas co mo provedoras de satisfação e prazer. A
Paternidade Social, conforme caracterizada nos depoimentos, se
configura nas relações estabelecidas com os jovens com quem
trabalham nas comunidades em que atuam como agentes sociais. De
acordo com as narrativas, estes homens se sentem realmente
sensibilizados com as histórias de vida dos jovens que acompanham em
seu trabalho, a ponto de terem preocupações filiais semelhantes às que
envolvem seus filhos legítimos. Nesse processo de assumir a função de
‘Pais Sociais’, fica patente a responsabilidade de corresponderem à
‘imagens positivas’ do masculino.

Nessa mesma toada, alguns discursos trazem uma acentuada


consciência masculina acerca da importância do cuidar, contrariando os
preceitos da masculinidade hegemônica, onde ‘cuidar’ é atributo
feminino. Contrariamente, percebe-se o desejo de comprometimento
com questões historicamente ignoradas pelos homens, como a
importância do planejamento familiar e da participação masculina no
momento da decisão de ter ou não um filho.

“Sem o seu trabalho, um homem não tem honra”


(Gonzaguinha)

A questão do Trabalho, e principalmente da falta dele, coloca em


cheque o papel do provedor. Os conflitos e desajustamentos ficam
bastante evidenciados diante da perspectiva do desemprego. Além da
questão da violência doméstica, associada aos problemas materiais
agravados pelo fantasma do desemprego, muitos conflitos acabam se
150

agravando quando a mulher recebe uma remuneração mais alta.


Quando isso ocorre, o homem tende a se sentir extremamente
diminuído, pois se percebe impotente diante da realidade que o impede
de exercer seu papel de provedor.

Da mesma forma, em muitos momentos, o trabalho aparece


identificado como fonte permanente de tensão e de adoecimento, seja
por não corresponder às expectativas de realização pessoal do indivíduo,
seja pela necessidade de corresponder ao estereotipo do homem que
não falha nunca, nem mesmo frente à doença.

Os brutos também amam!

Ainda no que diz respeito à nova condição masculina, destituída


do papel do provedor, algumas falas dão indícios de onde se pode-se
encontrar explicações para a questão da violência de gênero.

Existe a percepção do envolvimento de questões maiores, que


incluem não só a crise econômica e seus reflexos sobre a so ciedade,
mas também a crítica ao modelo penitenciário adotado no país. Mas é
clara a percepção do fator cultural como um aspecto importante,
passível de transformação.

Saúde é o que interessa!

No terreno especifico da saúde, foi possível comprovar a


prevalência de um padrão em conformidade com o que é descrito na
literatura que aborda a masculinidade, e concluir que, diante da
151

necessidade de atender ao padrão de gênero socialmente imposto,


muitos homens colocam-se em posição extremamente vulnerável frente
à perspectiva do adoecimento.

São inúmeras as colocações que fazem alusão ao fato de que o


homem só procura o médico quando está realmente mal, ao mesmo
tempo em que necessita administrar a pressão para se manter na ativa,
visto que o adoecimento masculino compromete as expectativas sociais,
especialmente em relação ao trabalho.

Várias falas endossam a ideologia de gênero na qual o homem é


socializado como sendo naturalmente nascido para o trabalho, do qual
deve se orgulhar, porque demarca socialmente sua condição de homem.
Nesse padrão, a tendência é que os homens se envolvam nas
atividades laborais sem levar em conta os próprios limites físicos. Não
raro, o trabalho costuma preceder o cuidado com a saúde. A
necessidade de “ser responsável” e de garantir a chamada
“estabilidade”, também está ligada a essa questão. Assim, não é de
estranhar que algumas falas denunciem o trabalho identificado como
fonte permanente de tensão e de adoecimento. Este aspecto tem grande
peso no sistema capitalista.

Fica patente uma certa dependência do cuidado feminino em


relação à saúde em muitos depoimentos, e vários deles sinalizam que
essa questão está diretamente relacionada com o processo de
socialização das atribuições de gênero no modelo tradicional. Parece que
a questão do “cuidar” ainda é compreendida como um atributo feminino.
A mulher cuida e o homem, no caso, é cuidado.
152

Por outro lado, alguns depoimentos acusam o entendimento desse


processo como se fosse o de uma estratégia de troca, onde o cuidado
recebido parece possuir estreita relação com a perspectiva de
otimização de seu desempenho enquanto provedor. Em verdade, parece
tratar-se mais de uma questão de sobrevivência do grupo familiar do
que qualquer outra coisa.

Questão que aparece com intensa regularidade nas falas, os tabus


da sexualidade masculina adquirem um significado de grande relevância
para os estudos sobre a saúde do homem e, em especial, os que tem a
ver com a homofobia. Constata-se que esse padrão acaba contribuindo
sobremaneira para comprometer a saúde do homem.

No processo de reflexão sobre a construção social de suas


identidades masculinas, é quase que imediato o resgate da experiência
com as figuras parentais, e o reconhecimento das influências negativas
das ideologias hegemônicas transmitidas geracionalmente à sua
qualidade de vida, enquanto homens, a partir daí. Nesse processo, é a
figura paterna, especialmente quando fortemente identificada com os
valores da cultura masculina, que desencadeia mais questionamentos e
resistências à manutenção de padrões hegemônicos.

A falta de costume de buscar ajuda, associada à confessa


inadequação ao atendimento feminino no serviços de saúde, e à
‘desinformação’ generalizada surgem como fatores considerados
agravantes, que tendem a redundar na prática da auto-medicação, onde
recorrem ao auxílio dos balcões de farmácia, e aos curandeiros.

De um modo geral, a visão que predomina é a de que a saúde é


uma preocupação da mulher, o que parece estar relacionado ao fato de
153

que a mulher pode gerar filhos, e, por conta disso, acaba se envolvendo
com toda uma estrutura de saúde muito antes do nascimento da
criança, prosseguindo em seguida no acompanhamento da saúde do
filho. Observa-se aqui naturalização dos papéis de gênero socialmente
atribuídos, em que prevalece a visão estereotipada da mulher como
procriadora, padrão este que é reproduzido pelos serviços de saúde.

Em contrapartida, encontramos muitas falas que remetem à


emergência de novos valores masculinos em relação ao trato com a
saúde. São falas onde se identifica a consciência da necessidade de
auto-superação, levando em conta a responsabilidade com os filhos e
com o futuro destes. Nesse processo, pode-se observar discursos que
privilegiam a responsabilidade pessoal que cada um tem consigo
mesmo, e com seu corpo, numa dinâmica onde não se colocam na
posição de vítima, e si de responsáveis por si mesmos e pela qualidade
de suas vidas.

Neste sentido, fica patente a consciência da importância da


prevenção, inclusive numa escala coletiva, onde a qualidade da escola, a
partir da educação básica, e nos moldes com hoje se apresenta, são
severamente criticadas. A desinformação aparece identificada como um
fator preocupante, uma vez que informação é compreendida como vital
para a melhoria dos padrões de saúde da população como um todo. O
mesmo ocorre em relação aos meios de comunicação, com ênfase na
programação televisiva, avaliada como sendo de influência danosa ao
desenvolvimento psicosexual das crianças.

Diante desse contexto, surgem declarações sobre a import ância de


campanhas educativas em saúde adequadas, que tenham eficácia junto
à população, sendo que há a percepção de que isso só é possível com a
154

utilização de uma linguagem que fale de perto às pessoas. Nesse ponto,


fica clara a consciência da responsabilidade do Governo com a saúde
dos cidadãos, como um todo, mas de que também existe a necessidade
de uma atenção maior às especificidades inerentes ao gênero masculino.
Dentre estas, destaca-sea questão da violência, refletida como uma
questão masculina, e a saúde reprodutiva, da qual o homem se percebe
excluído.

No que diz respeito à visão masculina sobre os Serviços de


Saúde, de um modo geral, prevalece o sentimento de inadequação,
onde não se sentem a vontade com o perfil ‘feminilizado’ dos postos. O
atendimento é percebido como se fosse ‘favor’, dado o descompromisso
detectado pelos informantes nas atitudes de muitos profissionais da
saúde.

Frente à consciência da desigualdade de recursos identificada nos

serviços, muitas falas ressaltam o potencial que cada um tem para


promover mudanças no sentido de ampliar um consciência coletiva a
esse respeito.

Paralelamente à esta constatação, surge o reconhecimento do


grupo como espaço de troca de informações e práticas no campo da
saúde, o que aponta como indi cativo de estratégias de ação que pode
ser adotado em Programas de Saúde Coletiva, para implementar a
participação masculina no quadro dos usuários dos serviços públicos de
saúde.
155

7. Considerações Finais

Consideramos que nosso propósito de analisar as ideologias de


gênero masculino entre homens participantes de Grupos de Reflexão de
Gênero, e sua interface com os padrões de cuidado adotados frente ao
processo saúde/doença no cotidiano, foi alcançado de maneira
satisfatória.

Atentando para as ambigüidades presentes nas falas dos homens


participantes dos GRGs, em relação aos papéis socialmente atribuídos
ao homem nas relações cotidianas, pudemos constatar a convivência do
novo e do antigo, marcados pelas ambigüidades que permeiam a
dialética dos processos de acomodação e resistência das ideologias de
gênero, masculino e feminino.

Sendo um processo, ficam visíveis as ambigüidades traduzidas no


modo como esses homens resistem ou se acomodam às pressões das
ideologias dominantes. Assim, um homem pode, em um determinado
momento, descrever sua experiência com base na introjeção dos
preceitos de uma formação social tradicional opressiva e profundamente
arraigada. Num outro momento, esse mesmo homem pode estar
expressando sua perplexidade diante do novo, seu de sconforto com o
estabelecido, e sua identificação com a luta por um mundo onde as
relações humanas sejam mais igualitárias e mais justas.

Ficou patente, em nossas avaliações, que os hábitos e costumes


associados ao modo tradicional de ser homem podem comprometer a
saúde do homem seriamente. São comportamentos que permeiam os
grande temas da masculinidade, que são a sexo-afetividade, a
paternidade, o trabalho e a violência.
156

A Sexualidade é uma temática recorrente e de forte apelo para os


participantes. Identificada com o modelo de dominação e descontrole,
em que ao homem cabe a tarefa de garantir um desempenho e
disponibilidade constantes, a sexualidade masculina é um fator que
tende a ser fonte de risco para a saúde reprodutiva e sexual,
especialmente no que diz respeito à contracepção e à prevenção de
DST/AIDS.

As questões referentes às escolhas sexuais diferenciadas


aparecem como tema sempre presente e perturbador, na medida em
que conflita diretamente com valores bastante arraigados da
masculinidade hegemônica. Ao mesmo tempo, representa um subsídio
para a reflexão sobre a possibilidade de expressão das diversas formas
de ser masculino na contemporaneidade.

Os tabus, especialmente os ligados à esfera da sexualidade,


constituem-se em pontos nevrálgicos para a compreensão do padrão de
alheamento por parte dos homens em relação à própria saúde. Frente à
gravidade da questão, e os prejuízos que tais comportamentos podem
acarretar, acreditamos que a questão é merecedora de uma maior
atenção por parte daqueles que são responsáveis pela elaboração de
políticas públicas de saúde.

Outra temática marcante refere -se à questão da paternidade.


Neste ponto, parece ficar claro o desejo anunciado de uma inserção no
espaço do privado. As falas denotam que essa questão é de
fundamental importância na vida dos participantes, sendo fonte de
grande alegrias, mas também de preocupações, isto levando-se em
conta o contexto social vivido atualmente nas comunidades periféricas
157

de uma cidade como o Rio de Janeiro.

Ao mesmo tempo, percebe-se nas falas o reconhecimento e


identificação com novos padrões de paternidade, que diferem em muito
do modo de ser pai tradicional. Fala-se em demonstração de afeto e de
“cuidado” com os filhos, atributo este que, até então, esteve sempre
circunscrito ao âmbito do feminino.

Da mesma forma, a imagem que os homens, de um modo geral,


parecem ter dos serviços de saúde oficiais está longe de ser a ideal.
Além dos padrões que, naturalizadamente, afastam o homem do
cuidado com a saúde, os servi ços são percebidos com estranhamento,
descrédito e desidentificação. A grande maioria parece não se sentir
adequado ao formato adotado pelos serviços, visto como feminilizado, já
que não leva em conta as especificidades da saúde masculina.

Sendo verdadeira ou não esta percepção, acreditamos que cabe aí


uma investigação mais detalhada sobre esse aspecto, uma vez que esse
quadro se caracteriza num grande impedimento para o alcance das
metas previstas no Sistema Único de Saúde – SUS. Este segue os
preceitos de uma medicina preventiva, atrelada à medicina curativa,
com caráter igualitário e universal a todos os cidadãos. Em outras
palavras, no que diz respeito à saúde do homem e da população, em
geral, os princípios de universalidade, equidade e integralidade ainda
estão muito distantes de serem efetivamente incorporados e praticados
pelos Serviços Públicos de Saúde.

A perspectiva de classificar os homens, como fizemos no exercício


acadêmico desta pesquisa, é meramente um recurso didático, já que,
como foi dito antes, esses homens se mostraram participantes de um
158

momento de transição, em que ousam testar novos modos de


colocarem-se no mundo. Mundo este que se mostra cada vez mais
complexo e opressivo para todos, mulheres e homens, e que demanda
novas formas de organização e luta para sua transformação.

A fala dos entrevistados atestou o quanto a proposta de formação


de grupos reflexivos com homens é pertinente, já que esse tipo de
proposta parece atuar como uma contracorrente diante das ideologias
que cultuam o individualismo em nossas sociedades atuais. Parece uma
boa aposta a ser considerada, já que não se tem outras respostas para
a complexidade que representa a perspectiva de reversão do quadro
atual.

Num primeiro momento, o que se destaca é a capacidade de se


auto avaliarem, e perceberem que, no processo de construção de suas
identidades de gênero, a influência das ideologias dominantes na cultura
machista lhes é fundamentalmente perniciosa, visto os prejuízos
acarretados a sua saúde como um todo.

Alicerçada numa proposta pedagógica que privilegia o diálogo e o


exercício da pergunta, a busca de resposta em grupo parece ser uma
boa aposta. São inúmeras as evidências de que essa prática, absorvida
inicialmente das experiências do Movimento de Mulheres, e
implementada com os conceitos da pedagogia libertadora formulada por
Paulo Freire, pode realmente conduzir a uma nova realidade em que os
homens, conscientizados, atuam efetivamente na transformação do seu
mundo, melhorando a qualidade de suas vidas, das mulheres e das
crianças.

É gratificante constatar, também, que a perspectiva de mudança é


159

encarada pela maioria dos nossos personagens como um caminho que


pode, finalmente, conduzir à uma dimensão mais próxima do que se
compreende por felicidade.

“Em determinado momento na minha vida eu pensava


em mudar explodindo, hoje eu penso que o teatro e a
dança e reflexões como essa pode dar uma resposta
que ecoe bem mais do que uma bomba sendo
explodida ali.” (03/92)

Para concluir, e já sem garantia de conseguir expressar os


sentimentos em relação a empreita que constituiu este trabalho de
pesquisa acadêmica, a exemplo de como fizemos no início, recorremos
novamente à clareza e discernimento despojado do mestre Bourdier.

“Meu problema principal é tentar compreender o que


aconteceu comigo. Minha trajetória pode ser descrita
como milagrosa, acho eu – uma ascensão a um lugar
de que não faço parte. Assim, para poder viver num
mundo que não é meu, tenho que procurar entender
as duas coisas: o que significa ter uma mente
acadêmica – como é que se cria isso – e, ao mesmo
tempo, o que foi perdido na aquisição dela. Por essa
razão, embora meu trabalho – todo o meu trabalho –
seja uma espécie de autobiografia, trata-se de um
trabalho para pessoas que têm o mesmo tipo de
trajetória e a mesma necessidade de compreender.”
(Bourdieu & Eagleton, 1996)
160

8. Bibliografia:

Bibliografia:

.
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