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RENÉ LOURAU NA UERJ

1993

ANÁLISE INSTITUCIONAL
E PRÁTICAS DE PESQUISA

UNIVERSIDADE
DO ESTADO DO
RIO DE JANEIRO
APRESENTAÇÃO
UNIVERSIDADE DO
ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Reitor
Hesio Cordeiro

Vice-Reitor
José.Alexandre.Assed

Sub- Reitora de Graduação


Sandra Maria Correia de Sá Carneiro No período de 26 a 30 de abril de 1993, a convite do
Departamento de Psicologia Social e Institucional/Instituto de
Sub-Reitor de Pós Graduação e Pesquisa Psicologia, a UERJ recebeu René Lourau, certamente o mais
Roberto ]osé Á vila Cavalcanti Bezerra conhecido "praticante”- como ele mesmo gosta de se autonomear,
cônscio e crítico das conotações religiosas do termo - da Análise
Sub-Reitor para Assu ntos Comunitários Institucional.
Ricardo Vieiralves de Castro Durante estes cinco dias, o curso por ele ministrado e que
transcrevemos neste volume, intitulado Análise Institucional e
Diretora do Departamento de Extensão Práticas de Pesquisa, reuniu mais de 150 pessoas, evidenciando
Ellen Márcia Peres mais uma vez a ressonância que o Institucionalismo possui no Rio
de Janeiro, fenômeno que o próprio Lourau analisa em seu, agora,
Coordenadora de Programas de Extensão texto.
Liany Bonilla da Silveira Comino Acerca do mesmo, vale uma observação. Tendo sido o
evento cuidadosamente gravado, procurou-se ao máximo
Coordenador de Interação Comunitária preservar o tom coloquial das exposições de Lourau e dos debates
João Costa Batista com os presentes, eliminando apenas as eventualmente agradáveis
redundâncias da fala que se transformam em inevitáveis
Coordenador de Atividades de Extensão no Interior aborrecimentos na escrita.
João José.Abrahão Covarnez Sobre o acontecimento-curso, algumas considerações mais
detalhadas. Julgamos que a universidade pública deva fomentar o
Coordenadora da Divisão de Apoio a Projetos e Programas de internacionalismo do pensamento. Para tanto, é desejável e mesmo
Extensão indispensável que possa receber aqueles convidados estrangeiros
Lúcia Maia
cuja produção seja capaz de expandir, fecundar e confrontar-se
com a nossa. Por isso mesmo, o curso foi oferecido gratuitamente
a rodos os interessados e integralmente traduzido. Aos que
supostamente se paralisam ante as eventuais dificuldades para
organizar um encontro deste tipo, levantando as cansadas
alegações de impossibilidades de trabalhar com grandes grupos
heterogêneos ou de encontrar tradutores habilitados, respondemos
com este curso e a presente publicação. A divulgação por folders
ou pelo velho telefone multiplicou presenças e entusiasmos.
Quatro tradutores não especializados tornaram palestras e debates PRIMEIRO ENCONTRO
acessíveis a rodos.
A presente publicação dá continuidade a este movimento: (26.04.93)
análise generalizada e coletiva das instituições em jogo em todos
os processos sociais, análise em ato das implicações dos
"praticantes".
Heliana de Barros Conde Rodrigues
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Boa noite. Começarei propondo um pequeno programa


que vocês poderão modificar. Não será uma autogestão total mas,
talvez, um início de co-gestão. A autogestão pedagógica é um
empreendimento muito difícil e nós não a poderemos improvisar
no pequeno intervalo temporal de uma semana.
Neste nosso encontro, pensei em fazer urna apresentação
geral da Análise Institucional, pontuando um aspecto muito
importante que chamo de Novo Campo de Coerência.
Toda nova disciplina ou novo espaço de saber entra em
contradição com o saber então instituído. Isso acontece, por
exemplo, com as disciplinas ministradas nas universidades. Essas
se batem, a todo momento, contra novas disciplinas que lutam
para se instituir. A Análise Institucional, qual as disciplinas que a
precederam, tem forças de teor instituinte e entra, portanto, em
contradição com o já instituído. Partindo de tal perspectiva, hoje
desejo começar a expor conceitos paradigmáticos da Análise
Institucional. No encontro de amanhã proponho abordar conceitos
mais operacionais, embora essa distinção não seja absoluta.
Falarei, então, de minhas pesquisas concretas sob o nome de
Socioanálise.
Para o encontro de quarta-feira, penso num tema mais espe-
cífico, a Psicoterapia Institucional, que me permitirá enfocar, rapi-
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damente, urna das dificuldades encontradas, em Análise universitária. Lembremo-nos que os primeiros sociólogos fizeram
Institucional, quanto ao conceito de contratransferência escândalo e foram acusados das piores intenções contra a ordem
institucional. Tentaremos, inclusive, apreciar a relação entre este moral. Eles destronaram a religião ... e a Filosofia.
conceito e o de implicação. As novas explicações para o social que, hoje, formam um
Poderemos abordar as relações existentes entre a Análise novo campo de coerência, não foram aceitas pelo instituído de
Institucional e outras disciplinas, na quinta-feira. Por exemplo, então. Durkheirn, por exemplo, teve inúmeras dificuldades para
com a Psicologia Social ou com a Psicanálise aplicada à pesquisa impor seu trabalho. Não se pode confundir Durkheim com seus
(e não referente à clínica), de George Devereux. Sou um discípulos do século seguinte, pois, não tendo quaisquer
sociólogo, não um clínico. Será possível, ainda, destacar as dificuldades para impor o campo de coerência sociológico, já
relações entre a Análise Institucional e a Sociologia, faziam parte do ora instituído. Durkheim foi instituinte. Seu
principalmenre a Sociologia de campo, e a Filosofia. Tudo isso de campo de coerência aparecia à época como "loucura". O mesmo
forma extremamente rápida, infelizmente, a menos que queiram aconteceu a Freud quando propôs a Psicanálise: seu campo de
insistir em algum desses pontos. Por mim, poderíamos discutir, coerência foi percebido, qual o de Durkheim, como incoerente. Já
durante cinco meses, a relação entre a Análise Institucional e a foi "loucura" pretender, como Freud, que a sexualidade tivesse um
dialética de Hegel. Mas, infelizmente, não será possível. papel essencial em toda e qualquer atividade humana.
Pensei deixar para o último dia, sexta-feira, a discussão Sem querer nos comparar a esses dois exemplos famosos,
sobre as pesquisas em curso no departamento que me convidou, o vale, contudo, dizer que há alguma semelhança entre o surgimento
de Psicologia Social e Institucional. Poderemos ver se faremos do campo da Análise Institucional e a aparição da Sociologia ou
isso ou outra coisa. da Psicanálise. A Análise Institucional teve muitos inícios e,
(Neste momento, o professor Lourau indaga se os presentes tambérn por essa amplitude, há severas dificuldades para se
querem perguntar ou acrescentar algo. Não há resposta.) perceber seu campo de coerência. Creio ser mais fácil reconhecer
Para precisar o novo campo de coerência representado pela e identificar o já conhecido, ou o instituído. Quanto ao "novo" - o
Análise Institucional, darei dois exemplos, por certo bem "estranho", o "desconhecido" -, sempre temos podido isolá-lo
conhecidos de vocês. Em primeiro lugar, a aparição e o triunfo do como incoerente (e assim, ainda hoje, o fazemos).
campo de coerência sociológico; em segundo, a aparição e o Qual é o escândalo da Análise Institucional? Talvez o de
triunfo do campo de coerência psicanalítico. Dois exemplos, entre propor a noção de implicação.
muitos possíveis. Quase todas as ciências estão baseadas na noção de não im-
O campo de coerência da Sociologia surgiu em contradição plicação ou desimplicação. As "teorias da objetividade" se basei-
com a Sociologia ministrada, à época, nas universidades; ou seja, am na "teoria" da neutralidade. É claro que
em contradição com o saber eminentemente teórico da Sociologia também outras disciplinas criticam essa idéia
de objetividade; em particular, a Psicanáli-
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se. De certa maneira, a Análise Institucional se situa no A primeira contradição da Análise Institucional aparece na
prolongamento do "escândalo psicanalítico" e, ao mesmo tempo, preocupação que ternos, por um lado, com a coerência e, por
tenta explorar um outro campo de coerência, o de urna certa outro, com a multi-referencialidade. Por um lado, podem nos
sociologia. acusar de dogmatismo; por outro, podem também nos acusar, só
Sabemos que a Psicanálise e algumas tendências da que de ecletismo.
Sociologia e da Antropologia há muito se interrogam sobre a O segundo nível de contradição existe dentro de nossa teoria
posição do pesquisador frente à sua produção. Portanto, não da instituição. Á diferença da Sociologia, e da Psicanálise, não
somos nem completamente novos nem originais. Propomos, ao consideramos a instituição um "prédio". Infelizmente, a idéia de
contrário da idéia de "originalidade das idéias", a multi- instituição como algo objetivo domina quase todas as ciências
referencialidade. Esta não é sinônimo de pluridisciplinaridade; não sociais. Por exemplo, na França, e talvez no Brasil, os psicólogos
é urna mera coleção de disciplinas justapostas. Refere-se ao apelo dizem: "eu trabalho em uma instituição", como uma forma de
a diferentes métodos e ao uso de certos conceitos já existentes, a capitalizar prestígio. Isso é um absurdo! Com o sentido que estão
fim de construir um novo campo de coerência. dando a esse termo, os operários também trabalham em
Outras disciplinas também fizeram esse tipo de trabalho. instituição. E então, que status privilegiado requerem os
Cito, por exemplo, a Psicoterapia Institucional que, de "trabalhadores das (em) instituições"? Se utilizarmos o modelo de
alguma forma, tomou de empréstimo a Pavlov alguns conceitos. A instituição desses psicólogos, podemos afirmar que uma fábrica é
Análise Institucional, por sua vez, pediu de empréstimo o conceito uma instituição, urna escola é urna instituição, quaisquer quatro
de analisador a pesquisadores como Felix Guattari e, assim paredes/muros ou, mesmo, qualquer forma de organização
fazendo, também "emprestou" - ou "roubou", de maneira bizarra - material ou jurídica é urna instituição.
o conceito de analisador a Pavlov. Aproveitamos o "furto" Esse uso abusivo da palavra instituição tem origem na teo-
realizado por logia cristã, no meu país e no de vocês também. Para nós, todavia,
. nossos amigos da Psicoterapia Institucional, e eu diria, da Análise Institucional, instituição não é uma coisa observável,
com bastante eficácia, em "nosso" conceito de analisador. mas uma dinâmica contraditória construindo-se na (e em) histó-
Em um primeiro ponto de vista, a Análise Institucional ria, ou tempo. Tempo pode ser, por exemplo, dez anos para a
pretende trabalhar a contradição, seguir uma lógica dialética em institucionalização de crianças deficientes ou dois mil anos para a
oposição à lógica identitária característica das demais ciências - à institucionalização da Igreja Católica. O tempo, o social-histórico,
exceção da Psicanálise. Tenta analisar, em permanência, as suas é sempre primordial, pois tomamos instituição como dinamismo,
próprias contradições, visto que só funciona dentro dessas movimento; jamais como imobilidade. Até instituições como
(exatamente como qualquer ciência). Mas, reconhece isso; as Igreja e Exército estão sempre em movimento, mesmo que não
outras ... não o procuram fazer. Nosso campo de coerência se tenhamos essa impressão. O instituído, o status quo, atua com um
apóia, essencialmente, na categoria de contradição. Os referenciais
desse estão tanto em Hegel como em algumas formulações da
lógica moderna.
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jogo de forças extremamente violento para produzir uma certa .autodissolução. O grupo de rock Sex Pistols, por exemplo,
imobilidade; especialmente nos dois exemplos que acabei de dar. produziu um texto de sociologia magnífico, no momento de sua
O que aprendemos, durante esses vinte anos de trabalho, foi autodissoluçâo; assim como os surrealistas, a Internacional
conhecer melhor o instituído e os diversos níveis contraditórios na Situacionista, alguns grupos trotskistas, maoístas, anarquistas ...
instituição. E é a isso que visa toda análise institucional, toda Igualmente rico é o texto de autodissolução da Escola Freudiana
Socioanálise. de Paris. Jacques Lacan me deu a autorização para reproduzi-lo
Não podemos nos contentar em ver apenas as grandes em meu livro. Há também um texto, curto e bom, pertencente a
contradições. Há que se observar a contradição no interior do uma sociedade de proteção aos animais, assinado por Brigitte
instituído e, inclusive, a contradição no interior do instituinte. Por Bardot (não pedi autorização para reproduzi-lo, pois ela já o
volta de 1968, tínhamos uma visão um tanto maniqueísta da publicara em jornal).
instituição. O instituído era imóvel como a morte e sempre mau; o O movimento, ou força de autodissolução, está sempre
instituinte era vivo como um jovem, menino ou menina, e sempre presente na instituição, embora esta possa ter a aparência de
muito bom. Teóricos como Georges Lapassade e Felix Guattari permanente e sólida.
foram, em parte, responsáveis por tal visão. Eu também tenho Há dez anos, quando me dediquei a essa pesquisa, a
responsabilidade sobre isso. institucionalização do Partido Comunista Bolchevista da, então,
Outra contradição paradigmática surge com relação ao União Soviética parecia um fenômeno natural e eterno. Em meu
conceito de institucionalização. A institucionalização é o devir, a estudo, fiz uma brincadeira a esse respeito, perguntando: "quando
história, o produto contraditório do instituinte e do instituído, em o processo de autodissolução do Partido Comunista Bolchevista
luta permanente, em constante contradição com as forças de acontecerá?". Era um humor completamente abstrato, pensava.
autodissolução. A partir do estudo de alguns grupos instituintes Exatamente dez anos depois, essa autodissolução foi instituída.
(que têm, por característica, uma vida curtal, temos investigado Outro nível de contradição relevante para a Análise Institu-
essas forças de autodissolução. Utilizamo-nos, em geral, de grupos cional é a existente na parte política de seu projeto. Para nós, o
de avant-garde - vanguardas político-artístico-culturais; grupos que se passa em algum momento da História - seja no Kremlin,
onde arte, política, cultura e ciência se misturam. Esses costumam por volta de 1920; na Espanha, de 36 e 37 (coletivização da indús-
ser extremamente diferentes uns dos outros, mas todos afirmam a tria, agricultura e serviços); ou na Argélia, nos anos de 62/63,
importância da autodissolução. apenas para citar alguns exemplos conhecidos -é importante como
Em meu livro - A autodissolução das vanguardas1 - ponto de referência. A Análise Institucional não esconde que é
escolhi, como material para a pesquisa, variados manifestos de política, porém tampouco oculta que em sua "política" está, como
motriz, o conceito de autogestão. Ressalto, ainda, que este concei-

1
LOURAU, R. L'autodissolution des avant-gardes. Paris, Galilée, 1980.
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to é um dos mais contraditórios. Faço especial referência à plo, em nosso local de trabalho. Um coletivo de trabalho urge que
autogestão pedagógica. "ocultemos" de nós mesmos, digamos, 80% de seu funcionamento
Nós funcionamos, todos, em todos os lugares, sob a real (ou "relacional"). Inclusive, necessita desse "ocultamento"
heterogestão; ou seja, "geridos" por "outrem". E a vivemos, para funcionar. É a verdade, a realidade. Não é mau, apenas,
geralmente, como coisa natural. A ciência política e todas as contraditório.
novas ciências da racionalidade econômica seguem por essa via. Tomando-me como exemplo: existe o risco de o professor
Pretendendo-se científicas, aceitam a instituído como natural, estrangeiro se perceber como desimplicado, ou "irresponsável" –
como se os homens tivessem uma natureza de escravos, como se ao menos quanto à sua vida pessoal que pensa ter "deixado" em
sonhassem estar sempre submetidos a outros homens, e como se seu país de origem –, quando visita um outro país. Mas é claro
estes outros homens fossem super-homens... como se houvesse que, mesmo "percebendo-me irresponsável", sou responsável pelo
uma raça de homens superiores que naturalmente detém a que faço aqui com vocês. Posso, porém, numa comparação
propriedade privada da gestão "do mundo". As ciências são exagerada, agir como no "mundo dos sonhos". Neste caso, todas
extremamente racistas. Consideram existentes duas raças de seres as implicações de minha vida cotidiana na França são abolidas,
humanos: os dominantes e os dominados. A isso, se acrescente o suprimidas, à exceção de algumas poucas questões. Por exemplo,
racismo sexual: as mulheres como dominados. Esta afirmação penso ter de telefonar para meu filho e minha filha. Eles ficariam
talvez surpreenda; no entanto, é a verdade nua e crua. Nós muito contentes se eu lhes telefonasse do Brasil. Esta é uma
aceitamos, eu e vocês, essas coisas racistas e inaceitáveis. implicação libidinal importante, mas muito limitada.
Aceitamos todas as racionalizações da heterogestão e, em geral, a Com relação à minha vida profissional, sinto-me livre,
pensamos insuperável. Talvez porque não tenhamos, ainda, liberado da pressão dos colegas e alunos da Universidade de Paris
conseguido efetivamente inventar a autogestão. A autogestão que VIII, onde trabalho. Estou "desimplicado" com relação a eles.
existe, a que tem podido existir, acontece dentro de uma Posso dizer besteiras, como jamais ousaria fazer na frente deles.
contradição total, já que a vida cotidiana, a minha e também a de Isso é verdade, por exemplo, em relação às duas pesquisas em que
vocês, se passa no terreno da heterogestão. trabalhava antes de pegar o avião para cá. Sobre estas, poderei,
Gostaria agora de frisar uma outra contradição essencial, já talvez, falar melhor no próximo encontro. A primeira é em um
citada anteriormenre. Refere-se à noção de implicação. Instituto Médico Educativo, que atende a crianças débeis. Dou
Cotidianamente, preferimos não nos colocar muitos problemas e, supervisão à equipe de técnicos. A segunda é um trabalho de
"permitindo" que se dê a heterogestão, "confiamos" a "autogestão'' consultoria num colégio nos arredores de Paris, situado numa zona
a outras pessoas. Isto alguns - Marx, por exemplo - chamam sensível, com muita violência – um ambiente de grandes
"alienação". Amamos nossa "alienação". Sentimos que é muito diferenças étnicas e culturais – e problemas que,
dolorosa a análise de nossas implicações; ou melhor, a análise dos acredito, são também familiares ao país de vocês.
"lugares" que ocupamos, ativamente, neste mundo. Ou, por exern- Esse tipo de trabalho demanda e produz muitas
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implicações. Verão que me conduzirei com "fugas" para discuti- Hoje pela manhã, na televisão, um político brasileiro dizia
las. que a política permite gozar de algumas vantagens. A palavra
Uma outra contradição referente à implicação remete à gozo me chamou a atenção, pois se aplica ao poder político e,
pesquisa propriamente dita. Sabe-se, hoje, que o cientista confere igualmente, ao científico – já que a ciência é um instrumento de
à ciência os seus próprios valores, independente da posição poder político. Por conseguinte, as implicações políticas e
ideológica que possui (seja esquerda, direita ou centro). Logo, a libidinais e, é claro, materiais (financeiras) são uma realidade no
neutralidade axiológica, a decantada "objetividade", não existe. ato científico. Isto não é nenhuma abstração inventada pela
Mas a ciência necessita que ela "exista" e os cientistas, por vezes, Análise Institucional. Penso que tais implicações sempre fazem
nos fazem crer nessa "existência". Também eu, inúmeras vezes, parte do processo de pesquisa, conforme o conhecemos, por mais
acabo caindo nessa dupla armadilha. Sinto-me forçado, obrigado a difícil que seja analisá-las. Reconheço, contudo, que existem
parecer e a fazer acreditar na "neutralidade". Ao mesmo tempo, contradições entre este projeto científico/político de análise das
uma voz interior me acusa e alerta: "és um cretino, um imbecil!". implicações e o sentido "positivo" ou "positivista" de ciência.
Funcionamos com essa voz interior e, não raro, ensurdecemos a Podemos ilustrar melhor a teoria da implicação através de
ela; caso contrário, certamente, ficaríamos definitivamente um pesquisador que, de alguma forma, teve uma participação
ensandecidos. indireta no Brasil e tem o seu templo aqui no Rio: Augusto
Nesse sentido, a História – e em particular, a história das Comte. Parece engraçado, mas Comte e o Positivismo nos
ciências – nos mostra as implicações do pesquisador em situação ensinam muito sobre a teoria da implicação. Antes de passar às
de pesquisa como o essencial do trabalho científico (mesmo tais questões, gostaria de concluir minha exposição falando um pouco
implicações sendo negadas). Por exemplo, os pesquisadores do sobre isso. Não o previ no programa, mas me veio à cabeça ao
programa de energia atômica nuclear puderam negar, durante final, da palestra. Gostamos de improvisação em Análise
muito tempo, suas implicações e dizer: "isso não existe". Mas, Institucional. E nosso lado "músicos de jazz"... Pena os músicos
alguns anos após Hiroshima, os mesmos escreveram mil páginas de jazz não serem, necessariamente, "institucionalistas". Ninguém
de confissão, onde afirmavam: "somos idiotas". E era tarde é perfeito... Comte oferece um exemplo paradoxal, contraditório,
demais. Sequer era "científico". A Análise Institucional tenta, que convém à Análise Institucional. Como bem sabem, inventou
timidamente, ser um pouco mais científica. Quer dizer, tenta não não só a Sociologia como a palavra sociologia. Há, ainda hoje,
fazer um isolamento entre o ato de pesquisar e o momento em que uma certa tendência das ciências sociais de se referirem a ele. É
a pesquisa acontece na construção do conhecimento. Quando curioso observar o lema positivista da bandeira brasileira.
falamos em implicação com uma pesquisa, nos referimos ao Denuncia, sem dúvida, uma influência deste pensamento sobre a
conjunto de condições da pesquisa. Condições inclusive materiais, República do Brasil, em 1889.
onde o dinheiro tem uma participação tão "econômica" quanto Havia dito que o instituído é muito violento, nem um pouco
"libidinal". tranqüilo. O instituído nas ciências sociais não escapa a essa
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regra – nós ainda queremos esconder algumas "coisas incômodas". díveis às mudanças. Talvez o surrealismo tenha contribuído para
Por exemplo, o escândalo de Augusto Comte na "segunda fase", que aprendêssemos isso: é uma das nossas mais apreciadas
quando descobriu a importância do amor, criando um indesejável referências. Gostaria ainda, posteriormente, de pensar um pouco
paradoxo com relação ao "primeiro Comte" – que eliminara de mais com vocês sobre o exemplo de Comte e, quem sabe,
seu modelo científico o papel da subjetividade. Comte encontrou construir relações entre este e a enorme dificuldade que os
inúmeras dificuldades ao tentar fazer uma síntese entre os dois diferentes setores de ciências humanas têm para conviver com a
momentos de sua obra. Talvez porque essa fosse impossível. multi-referencialidade.
A Análise Institucional não pretende "sintetizar" melhor do Uma vez mais, quero afirmar que a Análise Institucional
que Augusto Comte. As tentativas do Freudo-marxisrno, de certa não pretende fazer milagres. Apenas considera muito importante,
forma, tampouco chegaram a conseguir tal síntese. Nem a para a construção de um novo campo de coerência, uma relação
Psicossociologia construiu um campo de coerência unificado ou efetiva, e nítida, com a libido e com os sentimentos em geral. A
uniforme. Os jogos entre método objetivo e método subjetivo nos teoria da implicação, nós veremos, tem qualquer coisa que flerta
aparecem, em geral, como um campo de multi-referencialidade. E com a loucura.
é por isso que Comte tem muitos méritos. Pelo menos, para nós. Agora, seria interessante discutir as perguntas que vocês,
O mais interessante é tentar descobrir como Comte porventura, tenham a formular.
construiu o segundo método, o subjetivo. O primeiro o havia
deixado louco. Ele sempre teve alguns "problemas mentais" ... E Pergunta: Qual é a relação entre o sujeito do inconsciente,
depois, o acontecimento decisivo: por volta de 48 anos, descobre o o sujeito da análise e a instituição? Isso não é uma exclusão?
amor. Até então, freqüentara somente prostíbulos. Mas, de repente Como podemos articulá-los? (A pergunta viera formulada, por
... o grande amor! O amor louco pela jovem irmã de um de seus escrito, em francês. A tradutora pede que a responsável pela
discípulos! Podemos fazer interpretações freudianas questão a formule em português, para todos. Descobre-se que tal
imediatamente. Clotilde, a jovem namorada, infelizmente morreu pessoa já não se encontra no recinto.)
muito nova. E Comte ficou desesperado. Ao mesmo tempo,
sublimou, como diriam os psicanalistas, fazendo uma grande Lourau: A pessoa nos propôs refletir sobre sua questão,
virada em toda a sua obra. É um exemplo, acredito, bastante raro durante sua ausência. O que acham? (Murmúrios dos presentes
na história das ciências. apontam a que se passe a novas questões.) Bem, então,
A construção do paradoxo em Comte se parece um pouco prossigamos.
com a situação concreta da Análise Institucional. Isso não quer
dizer que sejamos todos loucos; sequer sempre amorosos, infeliz- Pergunta: Como você vê o fato de a Análise Institucional se
mente. Mas que o amor e a loucura são "engrenagens" imprescin- desenvolver mais aqui, na América Latina, do que na Europa?
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Lourau: Talvez seja abusar dos paradoxos dizer que a vo à Teoria do Estado nos marcou muito, através da obra de Henri
Análi-se Institucional é mais desenvolvida na América Latina do Lefebvre. O sociólogo Lefebvre foi meu mestre, ainda que eu
que na Europa. Isto é um pouco verdade, mas não tanto, na nunca tenha sido comunista e ele o tenha sido durante toda a sua
América Latina há uma penetração da Análise Institucional nas vida. Seu marxismo aberto e anti-dogmático nos ajudou bastante.
profissões de psicologia que não existe em nenhum país da Na América Latina, talvez não tenham conhecido muito
Europa, nem mesmo na França. Talvez, por serem os principais esse "marxismo da liberdade". Talvez tenham sido mais
pesquisadores franceses institucionalistas – se deixarmos de lado influenciados pelo neo-dogmatismo marxista; quiçá, o de Louis
os primeiros, que foram todos psiquiatras –, em sua maioria, de A1thusser. Não podemos julgar, tão facilmente, como as
formação política e/ou sociológica. Na Europa, não temos muito influências desempenham papéis num continente ou noutro.
diálogo com os "psi"; na América Latina, no entanto, sentimos um
grande interesse, por parte desses profissionais, na Análise Pergunta: Durante sua explanação, você citou a teoria da
Institucional. Minha hipótese é de que isto se deve, em parte, à alienação marxista. Como ela está relacionada à Análise
questão política. Institucional?
Em países que conheceram regimes autoritários, parece que
se reuniram condições para psicologizar a política e, assim, negá- Lourau: Essa pergunta tem muita relação com a minha
la. Alguns psicólogos, na América Latina – quem sabe, os mais resposta anterior, pois Lefebvre trabalhou exaustivamente o
lúcidos –,tendo consciência dessa situação, procuraram, e conceito de alienação. Não integramos completamente esse
procuram talvez, meios diversos para se repolitizar. Agrada-me conceito à Análise Institucional, mas trabalhamos, e com
pensar que a Análise Institucional foi, e é, um desses meios, e que severidade, todos os teóricos marxistas da alienação, assim como,
tem desempenhado um papel, poderíamos dizer, de politização é claro, Hegel, que é a origem dessa teoria e não era marxista.
daquilo que estaria sendo por demais psicologizado. A alienação se refere a um fenômeno real, como assinalei,
Uma outra explicação poderia ser a influência do Marxismo diversas vezes, ao dizer que nós estamos, todos, dentro da
na América Latina. Parece-me, e talvez me engane, que o heterogestão. É uma maneira de descrever nossas condições de
Marxismo não teve, aqui, urna função educativa tão vasta quanto existência e, particularmente, a condição da pesquisa para o
na Europa. Embora possa estar equivocado, assim sinto após pesquisador, da educação para o educador, etc... A separação,
algumas visitas a países da América Latina – México, Argentina, identificada à alienação, não foi estudada pelos marxistas como o
Uruguai e Brasil. A Análise Institucional serviria, penso, um foi por nós, pois o marxismo não possui o conceito de instituição.
pouco como um "substituto'' do Marxismo; mesmo não sendo uma O Marxismo – falo de urna forma vaga, caricatural – considera o
teoria marxista, o reconhecemos, dentro da linha da multi- fenômeno da alienação de um modo muito geral, somente em
referencialidade, como uma de nossas referências. Uma referência termos da relação entre classes sociais. Do meu ponto de vista, tal
entre outras, porém imprescindível. Em particular, todo o relati- concepção, apesar de exata, não nos permite análises concretas,
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favorecendo discursos também muito gerais. Para o Marxismo, a heterogestão ilegítima, é importante que aprofundemos tais
instituição não é relevante: faz parte da superestrutura e não tem qualificações. Elas têm um "ar jurídico" que me incomoda. Ao
existência real, sendo apenas reflexo da base econômica. Quanto a mesmo tempo, entendo o sentido da questão.
essa divisão entre superestrutura e infra-estrutura, nos opomos ao Quanto à existência de um programa revolucionário
marxismo. A instituição tem uma base material e é terrivelmente Contendo a idéia de autogestão, imagino que tenhamos as mesmas
importante. Instituição não é um sinônimo de idéia. Teremos informações. Existem, em diversos países, movimentos e partidos
oportunidade de ver isso melhor nos próximos encontros. políticos que falam da história da autogestão. Penso existirem no
Existe um momento de ideologia nas instituições, usando-se Brasil também. Acredito em micromovimentos autogestionários
o termo no sentido dialético hegeliano: é o momento da no Brasil, como em outros países da América Latina. Em
universalidade. Existe também o momento da particularidade – a Montevidéu, no Uruguai, por exemplo, existe uma comunidade
primeira negação –, onde apreendemos a questão da base social e anarquista, onde irei passar alguns dias na próxima semana, que
das relações entre as classes sociais. Até aí, estamos de acordo pratica a autogestão, ou tenta praticá-la, tendo esta elementos de
com Marx. Mas o terceiro momento não foi percebido por Marx, loucura e misticismo. Eles têm, inclusive, uma editora e publicam
nem pelos marxistas. Não perceberam a importância da base livros sobre autogestão. E também irão publicar um livro meu,
material. O marxismo se diz materialista, mas é idealista, brevemente.
infelizmente. Na Europa, são principalmente as correntes anarquistas que
conservam esse projeto em seu programa. Na França, os partidos
Pergunta: Você coloca a autogestão como um modo de de esquerda ofereceram projetos de autogestão como um
operar legítimo, contraposto a um modo ilegítimo, a heterogestão. programa de governo, nas eleições de 1981. Programa este que
Existe um projeto de revolução que implemente a hegemonia da levou, então, a esquerda ao poder. Mas não foi uma coisa
autogestão? Seria, dentro da lógica dessa normatização, feio, realmente seria.
imoral ou ilegal, que em determinada circunstância se escolhesse
operar num modelo de heterogestão?

Lourau: Não existe questão de legitimidade e ilegitimidade


quanto à hetero/autogestão. Se dei a impressão de falar nesses
termos, ou operar tais separações, cometi um erro. Afirmei que há
uma contradição entre autogestão e heterogestão; que vivemos na
heterogestão, o que nos aliena, nos priva de nossa autonomia, de
nossa liberdade. Talvez essa seja uma maneira de denominá-la
"ilegítima". Mas, para pensarmos numa autogestão legítima ou
numa
SEGUNDO ENCONTRO
(27.04.93)
ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 27

Boa noite. Podemos começar, por favor. Ontem apresen-


tei a Análise Institucional como tendo uma lógica da contradição -
dialética, não identitária -, e introduzi algumas das principais
contradições que formam a base de nossa teoria. Vou recordá-las,
sem maiores comentários.
Primeiramente, a contradição na construção de um campo
de coerência. Um campo de coerência novo em relação ao que
está instituído na ciência, e multi-referenciado nesse mesmo insti-
tuído. Com relação a essa multi-referencialidade, evidencia-se a
recusa de um ponto de vista único.
A segunda contradição situa-se entre o instituído e o
instituinte. Assinalei que há contradição no interior do instituído e
também no interior do instituinte.
A terceira, localizei-a entre a institucionalização – pro-
cesso normal do que "vem a ser" socialmente (e isso vale, por
exemplo, tanto para um time de futebol quanto para uma soci-
edade psicanalítica) - e o processo de autodissolução – dinâ-
mica, em geral invisível, que aparece freqüentemente provo-
cando uma enorme e, não raro, total surpresa. Ilustrei com a
exemplo do Partido Comunista Bolchevista, da extinta União
Soviética.
28 SEGUNDO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 29

Apontei ainda um outro nível de contradição dialética: entre não praticantes. Analogamente, posso dizer: Pierre Bourdieu
a autogestão e a heterogestão. é um sociólogo não praticante; eu sou um sociólogo praticante.
Enfim, o último exemplo de contradição dialética: a O que entendemos por intervenção? Temos principalmente
existente entre a implicação e a neutralidade axiológica do uma influência da intervenção psicossociológica, importada dos
objetivisrno habitual. Esta combate a análise de nossas Estados Unidos, à época do Plano Marshall, Logicamente, não
implicações concretas, seja na pesquisa, na formação, ou em toda inventamos o método intervenção, mas propusemos outro tipo de
e qualquer prática social cotidiana. intervenção psicossociológica, criticando os limites da habitual.
Concluí com um exemplo de que gosto muito, relativo ao A intervenção psicossociol6gica trabalha, em geral, com
fundador da Sociologia, Augusto Comte. Frisei, então, a pequenos grupos. N6s também trabalhamos com pequenos grupos.
importância da ruptura entre o que Cornte chama métodos Mas a Análise Institucional nasce precisamente da crítica à
objetivo e subjetivo - este descoberto após se ter apaixonado Psicossociologia (ou, vulgarmente, à psicologia dos pequenos
perdidamente por Clotilde. Pretendi mostrar, com tal exemplo, a grupos), já que Georges Lapassade fez aparecer o que, de alguma
importância da libido em nossas implicações; certamente tão forma, estava escondido nesse modelo de análise de grupo. Ele
importante quanto o poder e o dinheiro. reintroduziu uma coisa que estava fora dos grupos enquanto fora
Hoje me propus a apresentar os conceitos operatórios da do campo da análise de grupo. E essa "coisa" era a instituição que
Análise Institucional. A apresentação vai caminhar em certa faz, cria, molda, forma e é o grupo.
desordem, pois esses conceitos não têm uma ordem lógica, Por exemplo, a não ser que passe pelo institucional, esse
estando sempre em relação dialética uns com os outros. Para grupo que ora formamos não existe. A sua existência passa pelo
melhor introduzi-los, seria necessário um quadro com três institucional. Esse grupo pode ter também outras características.
dimensões. Vamos representá-los, portanto, numa ordem apenas Podemos analisá-lo partindo de diversos paradigmas: paradigmas
didática. psicológicos, políticos, sistêrnicos, econômicos... No entanto,
Uma primeira noção importante é a de intervenção, todas essas ações "expressam" (e se "expressam"), imprimem,
largamente falada, extremamente banal. Na França, usa-se essa precisamente, a dimensão institucional.
palavra para quase todas as atividades. Talvez no Brasil também. O sentido do termo intervenção quando circunscrito à
Mas existe um significado mais preciso do termo intervenção, em realidade dos grupos é a que chamamos de campo de intervenção.
algumas teorias da Psicologia Social e Sociologia. Neste último A intervenção socioanalítica se caracteriza pela consideração de
caso, falamos de uma sociologia de intervenção, em oposição à um campo de análise e um campo de intervenção que não se
sociologia do discurso (presente apenas em livros e artigos). confundem. O nosso modelo de análise de grupo se funda na
Intervenção significa, aqui, que a pesquisador é, ao mesmo compreensão de alguma coisa que é invisível e terrivelmente
tempo, técnico e praticante. O termo praticante deve ser entendido presente no grupo, como um espectro; isto é, a instituição.
como na religião católica. O católico distingue praticantes e
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Nosso método de intervenção consiste em criar um sob a forma de uma discussão coletiva. Geralmente é muito difícil
dispositivo de análise social coletiva. Pontuamos o sentido do realizá-la. Há sólidas resistências à análise coletiva em todo
termo socioanálise no dispositivo de intervenção. trabalho de intervenção. Essa resistência pode vir do grande
O que é, então, esse dispositivo? Consiste em analisar grupo, chamado grupo-cliente, que é sempre dividido, nunca
coletivamente uma situação coletiva. Nesse sentido, o homogêneo, e tem as suas próprias contradições. Essa resistência
socioanalista tem trabalhos a fazer que não são, necessariamente, pode vir da equipe que organizou o encontro, o acontecimento,
os de interpretação. Alguns, preferencialmente, se utilizam da que passou a encomenda de análise aos socioanalistas. E essa
interpretação; outros quase não a usam. Como em todas as linhas, resistência pode vir... dos socioanalistas,
há vários caminhos. Encomenda é um conceito operatório em socioanálise. Em
Quando falo do trabalho socioanalítico, refiro-me à outros métodos, contudo, vamos encontrar também análises de
necessidade, à tentativa de se colocar em cena o dispositivo. encomenda. A encomenda tem origem em demandas. Em uma
Somos um tanto obsessivos nessa questão do dispositivo; socioanálise, por exemplo, em demandas individuais e dos grupos
descobrimo-lo como um instrumento de análise extraordinário. O que compõem o grande grupo da intervenção em processo. Os
dispositivo pode ser, por exemplo, a formação de uma Assembléia responsáveis, as pessoas que têm autoridade para requerer uma
Geral, onde todas as pessoas envolvidas no processo de intervenção que, enfim, passam a encomenda, também têm
intervenção possam estar presentes. Todas as pessoas envolvidas, demandas individuais. Portanto, existe uma grande diversidade e
juntas num único lugar, onde iremos intervir. Essa Assembléia muitas contradições entre todas as demandas possíveis da
Geral não é necessariamente igual à dos sindicatos e partidos população envolvida. Para ocorrer um pedido de socioanálise, o
políticos. grupo de organizadores, num primeiro momento, deve traduzir
Hoje, pela manhã, houve uma assembléia geral nesta essas diversas demandas numa encomenda que lhes permita entrar
universidade, e não foi socioanalítica. Talvez pudesse ter se em contato com a equipe de socioanalistas. Desde o início há,
tornado uma Assembléia Geral socioanalítica, se os organizadores portanto, uma traição a tais demandas. A equipe de organizadores
tivessem chamado uma equipe de socioanalistas. Certamente há inicia seu trabalho construindo a encomenda. Esta encomenda é
muitos nesta universidade, além de um socioanalista francês. Mas discutida com a equipe de interventores (os socioanalistas), antes
não houve qualquer pedido de socioanálise. A equipe que se comece efetivamente a intervenção. Sabemos, por
organizadora da Assembléia Geral ficou como único mestre do experiência, que antes de iniciada a intervenção, todo o ocorrido
dispositivo. entre essas duas equipes, em geral, fica em segredo.
Na Assembléia Geral socioanalítica, há um dispositivo em A socioanálise consiste em tornar público esse segredo.
triângulo. Existem: as pessoas que, a princípio, apenas vêm à Diante da Assembléia Geral socioanalítica, a equipe-cliente (os
Assembléia - os participantes -, a equipe organizadora, e a equipe
de interventores (socioanalistas), São as relações entre esses três
grupos que estudamos. O que propomos é a análise dessa relação,
32 SEGUNDO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 33

organizadores) e a equipe de interventores restituem em detalhe - geral possível - mesmo que tal desejo comporte um ideal
o que pode ser muito longo - o processo da encomenda. inacessível - são, em resumo, apenas alguns exemplos do que
Há sempre conflitos entre essas duas equipes (equipe- ocorre no processo de intervenção.
cliente e equipe-interventora). O clima socioanalítico é, por Pergunta: Você falou sobre a diferença entre encomenda e
característica, muito tenso. Os organizadores (equipe-clienre) demandas. Estas últimas não podem ser vistas como produzidas
podem ter o interesse em ocultar alguns "pequenos e irrelevantes pela própria intervenção?
detalhes". Por exemplo, sobre dinheiro e poder no Lourau: Creio que podemos responder sim, e não. Há
estabelecimento. Os socioanalistas podem querer também demandas que preexistern ao trabalho socioanalítico. No entanto,
esconder "coisas", já que não são de uma moralidade ou santidade ao pensar uma encomenda de intervenção, consideramos as
incontestáveis. A análise coletiva começa a partir da primeira demandas como "modificadas", pois influenciadas por essa nova
restituição. situação; ou seja, elas têm, agora, relação com o projeto de
No que se refere à Assembléia Geral, freqüentemente convidar certa equipe de interventores.
pessoas ficam ausentes, ainda que sejam muito importantes para o Outra etapa do processo, capaz de modificar e produzir
trabalho. Não raro, nada se faz para que compareçam ou demandas, é o momento de negociação entre a equipe-cliente e a
participem do processo de intervenção. Essa é uma das bem equipe-interventora. Pensamos que a intervenção começa no
conhecidas formas de resistência à socioanálise. instante preciso em que um membro da equipe-cliente retira do
Nesse caso, a equipe dos socioanalistas pode intervir gancho o seu telefone, para ver se uma equipe de socioanalistas
diretamente - de maneira muito enérgica, mas pacífica - para que pode vir fazer uma intervenção. Esse primeiro gesto não é
se tente achar essas pessoas e fazê-las estar presentes. Trata-se de inocente; é fatal.
um trabalho quase material. É preciso que o dispositivo Creio, por conseguinte, que não só é a encomenda
Assembléia funcione e que, a partir de então, possamos analisar a produzida pela intervenção, mas que, em grande parte, também
situação. várias demandas são elaboradas por esse mesmo processo. É um
Esses pequenos acontecimentos, sociais ou materiais, caso não idêntico, mas similar, àquele da situação psicanalítica,
ocorrem não importa em qual assembléia geral. Normalmente, são mesmo que essas duas situações (intervenção socioanalítica e
tratados nos corredores ou escritórios, de forma burocratizada. A intervenção psicanalítica) sejam extremamente diferentes material
Socioanálise luta contra essa "resistência burocrática". É óbvio e socialmente. Freqüenternenre frisamos que a presença de
que a burocracia é sempre o mais forte, mas o confronto com esta, dispositivos criando o trabalho psicanalítico é um pomo em
em geral, é muito instrutivo. comum entre a Psicanálise e a Socioanálise. Trata-se, em ambos
Gostaria de frisar, antes de passarmos às perguntas, que a os casos, de situações completamenre artificiais. Mas, uma
colocação em cena do dispositivo Assembléia Geral, da restituição assembléia geral sindical também é artificial.
da encomenda, da negociação entre equipe-cliente e equipe de A palavra artificial não tem um sentido pejorati-
interventores, o trabalho para que a Assembléia Geral seja a mais
34 SEGUNDO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 35

vo. A Socioanálise se propõe, tão somente, a analisar todos esses realidade, para nós seria a desemprego total. Aquilo que se passa
artifícios, ou dispositivos. Gostaria ainda de tecer algumas espontaneamente num clima revolucionário, quanto ao
considerações suplementares, em torno da questão encomenda- funcionamento de uma assembléia, talvez seja o que tentamos
demandas, de forma a ampliar nosso campo de reflexões. reproduzir com um simulacro. A nossa referência política são,
O trabalho socioanalítico pode parecer monótono, sempre, os movimentos revolucionários de massa.
mecânico, mas na realidade, como afirmei, é sempre muito Aqueles acontecimentos que podem agitar a Assembléia
conflituoso, já que contradições, ocultas até então, podem surgir, Geral socioanalítica permitindo fazer surgir, com mais força, urna
por exemplo, quando uma pessoa toma conhecimento de uma análise; que fazem aparecer, de um só golpe, a instituição
nova informação, uma coisa que ela "não deveria saber" e que "invisível"; a esse tipo de acontecimentos chamamos
estava escondida. Poderão acontecer coisas produzidas por ANALISADORES.
indivíduos, isoladamente, ou ligadas a fenômenos de grupo. O
emergir desses acontecimentos pode ser provocado, simplesmente, Pergunta: Gostaria que fosse esclarecido, através de um
pelo modo de regulação da Assembléia Geral. E a Socioanáljse exemplo, como é feito o processo de trazer pessoas ausentes de
propõe sempre a autogestão. Desta forma, a princípio, nunca um modo enérgico. Pareceu-me um modo ligeiramente
podemos prever o que irá ocorrer no processo da intervenção. A autoritário, já que parto do fato de serem as pessoas livres à não
autogestão é um suporte, um instrumento valiosíssimo à análise. participação.
Não se trata, aqui, de uma autogestão real; não é a autogestão dos
agricultores da Argélia. É uma autogestão-artifício, que faz parte Lourau: Creio, mesmo, ter iniciado minha exposição
do dispositivo Assembléia. dizendo que as pessoa, são livres. Os socioanalistas não têm
No clima habitualmente emocional da Assembléia Geral, qualquer mandato institucional de poder. Não têm sequer o poder
podem acontecer fenômenos de extremismo, tanto emocional de constrangimento. O contrato com a equipe-cliente se baseia
corno político. Tais fenômenos podem igualmente existir também numa regra de maximizar a análise coletiva, sem isso não há a
nas assembléias não socioanalíticas, de tipo sindical, estudantil, Socioanálise. Quando disse que fazemos muita força para realizar
parlamentar, popular, etc. ... Todos os psicossociólogos deveriam o dispositivo Assembléia Geral, fiz referência à energia que nós,
estudar em profundidade essa história. O processo revolucionário de alguma forma, gastamos no esforço de fazer o mais coletiva
em algumas assembléias é de uma riqueza extraordinária e, em possível a análise - não havia qualquer conotação policialesca.
certo sentido, tem vários pontos em comum com a intervenção Não obrigamos quem quer que seja a ficar, sequer a estar, na
socioanalítica. No entanto, quando se instaura, no processo Assembléia. A palavra enérgico pode produzir a confusão. Trata-
histórico, um clima revolucionário - e pudemos constatar isso, em se, porém, de energia dentro do trabalho de análise. Configura a
1968, na França - não se fazem necessários os socioanalistas. Na que chamo de sobreimplicação, que é um elemento subjetivo na
análise das implicações. Isso que podemos nomear como
investimento psicológico, costumo traduzir por gasto de energia.
36 SEGUNDO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 37

Pergunta: Você disse que os interventores são praticantes e freqüentemente os socioanalistas escolhem seu campo. Não é
que têm pontos de vista próprios; como a equipe de socioanálise fácil, mas como não acreditamos na neutralidade axiológica, nem
se posiciona diante de demandas contrárias, de diferentes no apoliticismo, somos levados a tomar posição.
interesses? É também comum, nas intervenções socioanalíticas, ocorrer
um fenômeno, à primeira vista contraditório, que denominamos
Lourau: É uma pergunta muito importante. A análise das caixa preta. A mesma equipe-cliente que nos passou a encomenda
implicações é o cerne do trabalho socioanalítico, e não consiste de intervenção se reúne em separado (caixa preta), por exemplo
somente em analisar os outros, mas em analisar a si mesmo a todo uma hora antes da Assembléia, como se preparando para
momento, inclusive no momento da própria intervenção. As "conduzir", "prever" ou "se defender" dos acontecimentos que,
implicações em jogo podem ser claramente libidinais, por porventura, sejam "disparados" pelo dispositivo. De igual
exemplo. Tanto num pequeno grupo quanto num grande, os afetos maneira, nós, os interventores, sentimos necessidade de uma
heterossexuais e homossexuais estão presentes o tempo todo, em reunião em separado (caixa preta) para avaliação de estratégias,
qualquer situação da vida. Podem ocorrer também variadas análise das implicações e comentários gerais sobre o trabalho.
seduções visando o exercício de uma certa hegemonia de poderes, As duas equipes (equipe-cliente e socioanalistas) podem,
tanto dentro do grupo de interventores como na relação deste com ainda, se encontrar em separado do restante do grupo para falar de
os demais grupos da intervenção. As implicações ideológicas e algumas dificuldades. A esse acontecimento demos o nome de
políticas estão, é claro, presentes a todo momento. caixa vermelha. Tanto a caixa preta quanto a vermelha encontram-
Comumente estamos imersos em graves contradições: a se, hoje, incorporadas ao trabalho socioanalítico.
equipe-cliente - que nos chamou, nos convidou, nos aceitou para Mas, apesar de tais reuniões - ou "encontros" -, é na
fazer o trabalho e nos pagou; em geral constituída de pessoas que Assembléia Geral que verdadeiramente se dá a trabalho de análise.
conhecem nossos pressupostos políticos e ideológicos e, É nela que emergem publicamente os confrontos,
necessariamente, não se contrapõem a estes - na situação concreta independentemente das caixas preta ou vermelha. Confrontos,
de intervenção, pode vir a se antagonizar conosco. Pode-se ter um inclusive, entre os próprios socioanalistas - às vezes, até de ordem
acordo ideológico, e também referências políticas comuns e, no política. O importante é a análise se tornar o mais pública e
entanto, a situação de intervenção - que cria necessariamente coletiva possível. E nem tudo é possível... Há resistências a se
tensões e conflitos - pode, de alguma forma, nos afastar durante o revelar e a se coletivizar “alguns segredos”, mesmo estes não
trabalho. Situação ainda muito comum é a contradição entre a sendo com relação a pertencer à máfia. Há militantes que até têm
ideologia dominante da equipe-cliente - que faz parte do grupo- um lado um pouco "mafioso", que gostam d'O SEGREDO.
cliente - e a dos demais participantes deste grupo-cliente, que Freqüentemente encontramos esse "prazer" no segredo
denominamos "a base". Esta é uma situação real no interior da relacionado à educação católica e/ou protestante, à moral do
situação artificial criada pelo dispositivo. Face à mesma, pecado e do íntimo.
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Retomando a questão anterior, não podemos forçar as pes- acontecer de tempos em tempos, a equipe-cliente se autodissolveu
soas a ir à Assembléia, ou a falar. Mas podemos analisar a blo- - não antes de ter conseguido, com sucesso, reunir uma
queio produzido pela situação de segredo, ou mesmo, de ausên- Assembléia Geral. Desta, saiu um projeto de uma nova equipe.
cia. Em todo caso, é muito difícil lidar com tais situações. Ainda A partir desse ponto, imprimiu-se ao trabalho uma dada
mais se há divergências dentro da equipe socioanalítica. Como regularidade temporal. Vou ao estabelecimento uma vez por mês,
sabem, não temos uma linha política única. Alguns de nós são falamos de uma futura Assembléia Geral, mas não funcionamos
mais próximos do partido socialista; outros, de uma linha marxis- permanentemente com esse dispositivo. Funcionamos, antes, com
ta/trotskista; outros ainda, como eu, do pensamento libertário... um grupo-cliente composto por voluntários. Não temos como
Muitas vezes há divergências, mas tampouco tentamos, forçada- precisar, caso a caso, o quão "voluntária" é a inserção nesse grupo,
mente, criar consensos. pois esta se encontra marcada por uma forte instituição francesa a
Os conflitos geridos na Assembléia Geral costumam reper- da formação continuada - e se vincula a perspectivas econômico-
cutir dentro da equipe de interventores, assim como as questões de profissionais. Compreendemos que a caráter "voluntário" desse
dinheiro e de libido. Podem, inclusive, criar muitos aconteci- grupo se encontra tão atravessado por tais contradições, que não
mentos engraçados, mas não temos tempo para que possa contá- sabemos - e essa é uma das questões de análise - se os membros
los a vocês. do grupo (funcionários do estabelecimento citado) se sentem
Pergunta: Você falou da assembléia socioanalítica como obrigados, individualmente, a vir às reuniões porque estas
um dispositivo. Gostaria de saber se vão ser citados outros ocorrem no tempo da formação permanente - ou contínua -, ou se
dispositivos, ou se a assembléia é a único ou mais importante vêm por razões outras, diversas. É uma difícil análise das
dispositivo. implicações.
Lourau: É necessário que se faça uma distinção entre a Percebe-se as pessoas motivadas para constituir uma
intervenção breve e a longa. No início de nosso movimento, fazía- Assembléia Geral, e resistindo à análise das implicações, ao
mos sobretudo intervenções breves, nas quais a construção da As- "estar" no grupo, ao trabalho de intervenção e, paradoxalmente, à
sembléia Geral era um ponto tão fundamental que resumia, no própria demanda de Assembléia Geral. Assim sendo, há uma
fundo, toda a intervenção. Hoje, nas intervenções de longa dura- permanente autodissolução dessa equipe-cliente, entre constantes
ção, é apenas uma etapa da intervenção, e nada mais. Porém, é "comparecimentos" e "faltas". Encontramo-nos, ainda hoje, como
uma etapa indispensável. numa situação inicial, onde a relação equipe de
Já citei alguns de meus trabalhos recentes como, por exem- socioanalistas/intervenção é efetuada unicamente pela direção do
plo, a intervenção em um instituto para crianças inadaptadas. Não estabelecimento.
falarei sobre o momento de elaboração da encomenda, porque isso Temos ainda uma outra complicação: desde a primeira
seria muito longo. Constituímos uma equipe-cliente – prefe- Assembléia Geral, um grupo de pessoas se recusou a participar da
rencialmente acreditamos que assim o fizemos. Como é costume socioanálise. Portanto, a esse grupo-cliente, não estando "comple-
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to", faltaria uma certa "transversalidade" , como diria Guattari. A dito estabelecimento e, sob esta perspectiva, a questão do poder
categoria que nos boicotou não aceitando participar da ficaria como algo inanalisável.
socioanálise é composta pelo grupo médico do estabelecimento. Se retornarmos à situação original da Psicoterapia Institu-
Parece que têm "alergia" à Socioanálise. Como não sou médico, cional, onde a análise do hospital psiquiátrico era dirigida pelos
não posso cuidar dessa "alergia". Também não posso, é claro, médicos-funcionários - todos psiquiatras, "comandantes do navio"
fazê-los comparecer à força. No entanto, tais questões têm e, freqüentemente, autoposicionados antes e acima de Deus -,
colocado em segundo plano a dispositivo Assembléia Geral. encontraremos graves inconvenientes à defesa da análise interna.
Em resumo, a Assembléia Geral, numa intervenção de longa Ademais, essa pergunta fala de um possível risco para
duração, é um instrumento periódico e, na socioanálise breve, um aqueles que, de alguma forma, têm a iniciativa de fazer uma
instrumento condensador e potencializador do processo. análise "interna" institucional. Isto nos faz retornar ainda ao
argumento que acabei de usar. As pessoas que se arriscam a fazer
Pergunta: O que você acha da possibilidade de intervenção tal análise não sendo protegidas pela triangulação, não
em instituições onde se estivesse trabalhando como funcionário pertencendo ao staff do estabelecimento ou não estando
contratado; onde não houvesse quaisquer encomendas de comprometidas com rivalidades pelo poder, individuais ou
socioanálise, mas a referencial teórico/prático do funcionário em grupais, dentro do estabelecimento ou incidindo sobre este (caso
questão [osse a Análise Institucional? Como ficaria a situação comum nas intervenções realizadas para e/ou pelo Estado), podem
das implicações, incluindo os perigos de perseguição e de sofrer diretamente a repressão das autoridades.
violência simbólica? Em geral, a análise interna acaba se transformando numa
luta interna pelo poder. Posso citar uma tentativa de análise
Lourau: Essa pergunta aborda o problema da socioanálise interna que conheço bem, da qual participei, e que foi um fracasso
interna, que ainda não tive tempo de falar. Estamos muito dividi- total. Ocorreu em março de 1968, na Universidade de Nanterre,
dos com relação a essa questão. Num certo sentido, concordamos dentro do Departamento de Sociologia, de onde partiu a
com a possibilidade de a "análise interna" se efetivar concreta- movimento de 68. À época, eu trabalhava neste Departamento e
mente mas, apesar de considerá-la possível, algo me preocupa: a era assistente de Henri Lefebvre. Junto com alguns outros
supressão da triangulação sobre a qual falei anteriormente. A au- assistentes de Sociologia, Psicologia e Filosofia - e, também, com
sência de um interventor "de fora" - que possa não estar total- psicanalistas da corrente de Psicoterapia Institucional -, tive a
mente comprometido com qualquer dos vários grupos que fazem idéia de lançar uma análise interna da universidade. A
funcionar a estabelecimento - pode favorecer a criação de uma universidade estava em crise, havia muita violência entre grupos
falsa equipe de interventores no interior desse mesmo estabeleci- fascistas e de extrema esquerda. Nós, então,
mento. É claro que essa equipe de interventores interna tem chan- estabelecemos um dispositivo que, no pri-
ces de ser composta por pessoas que comumente detêm a poder no
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meiro momento, remava pôr em análise todas as categorias você insiste, por outro lado, numa caracterização de nova ciência
sócioprofissionais da universidade: estudantes, professores, para análise social, como método novo, conceitos e paradigmas
pessoas ligadas à administração: assim como os sindicatos, que se contrapõem aos da velha ciência. Por que devemos confiar
partidos políticos, grupos religiosos ... que atravessavam tanto nos propósitos dessa nova ciência? Qual a garantia de que esses
estudantes quanto professores e grupo administrativo. novos especialistas realizaram a análise de suas implicações ou
Enviamos uma carta-convite a todos. Propúnhamos uma permitiram que elas fossem analisadas, se são eles que detêm o
Assembléia Geral para dali a 15 dias, e nos propúnhamos como saber especializado de fazer a assembléia acontecer ou de criar
socioanalistas internos (apesar de tal conceito, à época, ainda não uma autogestão artificial? Será que não estamos diante de uma
ter sido inventado). Enviamos cerca de 500 convites e obtivemos nova modalidade de neutralidade axiológica? Assinado: Fluxo
apenas duas respostas. A primeira veio do Reitor e de sua equipe Anônimo.
da direção; a segunda, proponho que adivinhem. Tentem. Do Lourau: Esse pequeno texto é uma excelente análise da
Danny Cohn-Bendit e de seu pequeno grupo anarquista. É claro, situação atual da Análise Institucional na França. Felicito a senhor
ficamos muito surpresos; era um quadro de absurdo e de humor e, Fluxo Anônimo e gostaria de conhecê-lo. (O professor Lourau
naturalmente, as duas respostas foram positivas. Óbvio, não era o interroga com os olhos a platéia e todos se inquietam esperando a
suficiente para colocar em ação a dispositivo Assembléia Geral. identificação do autor do texto. Nada ocorre. O palestrante maneia
Fomos, entretanto, novamente surpreendidos. No momento a cabeça, abandona dramaticamente os braços ao longo do corpo,
escolhido por nós para a Assembléia, a Movimento de 68 saía de emite um profundo suspiro e, se acomodando novamente ao
Nanterre e eclodia em todas as cidades da França. O clima assento, afirma espirituoso: "Ele é livre ... ". A questão, e a forma
revolucionário estava lá e não esperou por nosso convite de como esta foi apresentada, pareceu imprimir-lhe uma nova
análise interna. É a lembrança de um fracasso, mas, mesmo assim, paixão.)
é uma boa lembrança. Foi um fracasso por não termos conseguido Debates e conflitos bastante duros nos agitam quando
reunir a Assembléia que prevíramos. Somente obtivéramos duas pensamos tal questão. Trata-se da institucionalização de nossa
respostas ... um fracasso "técnico". corrente de pesquisa, de seu sucesso relativo, principalmente nas
Pausa. instituições universitária e editorial. Tudo isso oferece, talvez,
(Chega à mesa um texto, sem autor identificado, trazendo a uma imagem nova de nosso trabalho. Como diz a senhor Fluxo,
questão que se segue). podemos ter confiança numa corrente de "análise institucional"
que avança para a sua institucionalização? Não creio que devamos
Pergunta: Ao mesmo tempo em que parece reafirmar a negar essa contradição, mas expô-la, tornando-a, inclusive, mais
existência de uma missão revolucionária da Análise concreta e viva ao falarmos das novas dificuldades no mercado de
Institucional - como, por exemplo, a missão de trabalho francês.
lutar contra a resistência da burocracia -,
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Como sabem, a França também convive com o desemprego. precisemos ficar presos às "origens" por toda a eternidade. As
Este, sem dúvida, atinge também aos trabalhadores intelectuais. empresas formam hoje um novo "terreno" e, acredito, tão
Alguns entre nós, institucionalistas, procuram se profissionalizar; interessante quanto aqueles que tradicionalmente temos explorado.
em particular, nas empresas e indústrias. Por exemplo, há uma Estou de acordo com a análise do senhor Fluxo, mas a
equipe trabalhando regularmente numa central nuclear. (Estas são Análise Institucional está também atada ao fluxo da realidade.
muito importantes na França. Creio ser a país com o maior
número de centrais nucleares do mundo atual.) Tais Coordenadora:
institucionalistas são objeto de críticas, algumas silenciosas e
outras não tanto, por pane de outros institucionalistas. Trata-se de Como estamos a quinze minutos do encerramento, talvez
gerir a contradição, uma vez mais. Tenho ocupado um lugar possam ser formuladas novas perguntas. Não necessariamente
bastante exposto nessa contradição: vejo-me obrigado a apenas por escrito, vocês também podem falar.
estabelecer um certo equilíbrio entre essas duas tendências. Por
minha reputação - consideram-me um tanto puro e duro Pergunta: O senhor falou em alienação, num dado
politicamente -, sou reclamado como uma espécie de "guardião da momento de suas aulas. Existe relação entre este conceito e o de
ortodoxia" e, no entanto, sinto um enorme interesse pelo que desimplicação?
fazem alguns institucionalistas que compõem essa tendência
moderna, dita "oportunista". Creio terem toda a razão para fazer a Lourau: Desimplicação e alienação falam de dois campos
que fazem. Logo, a questão é pensar e analisar a contradição, e de coerência diferentes. Não pegamos de empréstimo o conceito
não ficar placidamente construindo pensamentos maniqueístas do de alienação da teoria marxista, porque não houve necessidade; já
tipo bom e mau. É necessário não se deixar perder as implicações tínhamos o equivalente num outro sistema de referência (falei,
sócio-econômicas, que são reais e estão dadas. Meu principal ontem à noite, no conceito de analisador passando de Pavlov para
interesse por essa tendência "oportunista" deriva de pensar a a Psicoterapia lnstitucional e, depois, para a Análise Institucional).
Análise Institucional como, efetivamente, passível de trazer O conceito de alienação - bem marcado por seu contexto teórico -
contribuições à gestão das empresas; contudo, além dessa questão talvez tenha sido muito mal utilizado pelos marxistas que a
teórico-política relacionada à amplitude de ação de nossa corrente, esvaziaram bastante de significado (acontece ... quando se usa a
há em meu interesse outras fortes implicações libidinais. conceito para qualquer coisa). Tornou-se um conceito muito
Atualmente, alguns de meus antigos alunos de Nanterre, de 1968, amplo, como uma blusa bem larga ... Como dizem os filósofos,
trabalham como socioanalistas para empresas, ou criaram suas perdeu em compreensão e ganhou muito em extensão; é a
próprias empresas. obesidade do conceito. Talvez, por isso, não utilizemos
Sem dúvida, a formação e a saúde foram nossos dois diretamente essa palavra, alienação.
primeiros terrenos de experimentação, mas isso não significa que
46 SEGUNDO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 47

A desimplicação ou não-implicação, do mesmo modo que a Tínhamos, até então, encomendas de consultoria, de
sobre-implicação, exprime, para nós, movimentos dinâmicos, formação, de coisas que, enfim, existiam no mercado. Aos poucos,
sejam positivos ou negativos. No entanto, a noção de alienação construímos, praticamos e teorizamos o desvio dessa já dada
parece não mais ter esse dinamismo e descrever a situação real encomenda. Transformamos encomenda em um conceito
como uma coisa imóvel. Contudo, penso que a falta de dinamismo operacional e a análise desta passou a ser imprescindível à
de tal conceito date de, talvez, menos de um século. O conceito Socioanálise. Acredito que isso tenha relação com a questão
envelheceu, como nós; talvez apenas um pouco mais rápido... apresentada. Há muitas aberturas e possibilidades de se tentar a
socioanálise a partir de encomendas que não são propriamente de
Pergunta: Você falava da dificuldade de se fazer uma Análise Institucional. Seria importante, creio, precisar tais
socioanálise a partir do lugar de funcionário do estabelecimento. possibilidades.
Sua argumentação me pareceu entrar em conflito com a questão
que você coloca depois - essa sim, a meu ver, uma coisa quase Pergunta: Só um esclarecimento. Quando se falou do
impossível de ocorrer: fazer socioanálise partindo do ponto de conceito de alienação, você respondeu à questão formulada, como
vista de uma empresa nuclear ou de uma multinacional qualquer; analista institucional ou como analista institucional específico da
fazer socioanálise tendo sido chamado, contratado como um tendência libertária?
socioanalista. Parece-me relativamente possível alguém, tendo
sido contratado para fazer Desenvolvimento Organizacional Lourau: Acredito que só Deus saiba quem falou pela minha
propor Socioanálise; no entanto, alguém contratado como boca! Mais não posso dizer! ... Tenho uma boa formação marxista
interventor por uma estatal ou multinacional - pelo menos do que mas, antes de tudo, uma boa formação intelectual. Ontem, aliás,
conheço de nossa realidade, pode até ser diferente na França -, falei sobre o meu mestre Henri Lefebvre. Não sou marxista
necessariamente, só poderá fazer D. 0., seja numa iBM ou em praticante, nem membro de nenhum partido, seja marxista,
qualquer outra empresa instalada no Brasil. Como você responde trotskista ou comunista ... Minha cultura marxista é de grande
a isso? riqueza para mim e, no entanto, sempre fui um feroz crítico do
marxismo - certamente trazendo algum desprazer, totalmente
Lourau: Na verdade, retomamos a questão da encomenda. involuntário, a meu mestre. Uma vez, me permiti criticar Lênin
Encomendas bastante diferentes e diversas, não propriamente de diante dele. Ficou enraivecido e foi muito grosseiro. Disse-me:
Socioanálise, mas podendo nos levar a fazer alguma coisa que se "Lênin, meu cu". Isso significava não ter eu qualquer direito a
assemelhe à Socioanálise. Voltemos, por exemplo, ao início de criticar Lênin. É verdade que o que denomino "tendência
nossa experimentação, quando a Socioanálise não existia no libertária" me ajudou, e ajuda, a compreender Marx
mercado. Sem a definição (oferta), não pode haver a encomenda. e o marxismo. Sou resolutamente a favor de Bakunin
48 SEGUNDO ENCONTRO

contra Marx. Faço alusão à história do grande conflito entre


Bakunin e Marx, onde Marx saiu vitorioso, infelizmente.

TERCEIRO ENCONTRO
(28.04.93)
ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 51

Começamos? Lembro que, na primeira aula, expus os


conceitos paradigmáticos da Análise Institucional; recordo ainda
que todos os conceitos socioanalíticos estão marcados pela
contradição. Por exemplo, institucionalização e autodissolução.
No encontro de ontem, falamos principalmente de conceitos
operatórios em Socioanálise. Gostaria de fazer uma observação a
esse respeito. Observei que muitas das perguntas não se referiam a
conceitos operatórios; que vocês preferiram levantar questões
gerais a abordá-los. Creio ter sido assim devido à minha
exposição; foi muito cansativa.
Hoje, estou me propondo a voltar a discutir um desses
conceitos: a restituição. Sobre esta falei pouco, no entanto, é muito
útil para apresentar aquilo que denomino técnica do diário de
pesquisa. Tal técnica não se refere especificamente à pesquisa,
mas ao processo do pesquisar. Acredito que, mais cedo ou mais
tarde, todos aqui estiveram ou estarão envolvidos na descrição e
redação de uma pesquisa.
A restituição, enquanto conceito socioanalítico, supõe que
se deva, e se possa, falar de algumas coisas que, em geral, são
deixadas à sombra. Essas coisas seriam as comumente silenciadas,
faladas apenas em corredores, cafés, ou na intimidade do casal. De
52 TERCEIRO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 53

fato, para nós, tais "coisas" são aquela "fala" institucional que não ridos durante a momento do intervalo ou à refeição, que tenham
pode ser "ouvida" de forma pública. Há, freqüentemente, um sido considerados pertinentes ao trabalho por qualquer pessoa do
aspecto de indiscrição no conceito de restituição e, mesmo, o risco grupo). No início da sessão do dia seguinte, fazemos a restituição
de se cair na denúncia meramente recriminatória. É preciso estar do sucedido na noite anterior, considerando todo e qualquer
muito atento quando se maneja essa técnica e a melhor maneira de acontecimento, inclusive sonhos, como possível material. Se as
combater seus riscos - a mera indiscrição, a acusação revanchista, pessoas resolverem contar as suas aventuras eróticas, podem
as denúncias impotetizantes, as alianças espúrias e, até, irrefletidas também fazê-lo. Nem sempre isso é penineme à socioanálise, mas
... - é aplicá-la a si mesmo. Ou seja, deve-se enunciar "coisas", e ... Os sonhos, ao contrário, têm se revelado um excelente material
não denunciar outrem. à restituição. Pessoalmente, gosto muito de contar, como pane da
Nesse sentido, farei uma restituição sobre as minhas tarefas restituição, meus sonhos ao grupo.
de hoje. Esta manhã, fui convidado a ir à Petrobrás. Perguntei-me, Uma última coisa sobre a restituição como dispositivo
diversas vezes se, indo, não traía a ortodoxia da Análise socioanalítico: não se trata de simples informação. Não raro, para
Institucional; se não estaria me arriscando a me vender à grande causar fortes efeitos no grupo, a ação de restituir independe da
empresa pública de seu país. Devo dizer que não recebi tostão pela aparente importância do conteúdo da restituição. Às vezes é mais
visita, portanto estou "duro", mas bastante tranqüilo com relação à fácil a análise realmente dar a partida, se produzir, mediante a
ortodoxia. restituição de um acontecimento aparentemente banal. Bom, isso é
Após o almoço, trabalhei no Instituto de Medicina Social da o que podemos falar da restituição na técnica socioanalítica.
UERJ. Não era nenhuma empresa, pública ou privada, logo, não Num segundo momento, gostaria de ampliar a noção,
tive problemas por estar ali. E também não fui pago por esse lembrando de coisas que vocês talvez conheçam; ou seja, o papel,
trabalho. . cada vez maior, da restituição em trabalhos de campo das ciências
Como vêem, a restituição na socioanálise, para ser humanas e sociais. Quer dizer, trabalho de pessoas concretas,
verdadeiramente construtiva, supõe o respeito a certas regras. como nós; no caso, sociólogos e psicólogos.
Entre estas, certamente, as regras ontológicas da discrição, e as Restituir às pessoas com quem trabalhamos a saber
regras técnicas relativas à escolha do momento oportuno para a científico que se permitiu construir é uma idéia relativamente
restituição. É um pouco como na vida cotidiana, quando recente que, por muito tempo, escapou completamente aos
escolhemos o que deve ser dito das coisas que pensamos (e pesquisadores.
quando). Realmente nunca dizemos tudo a que pensamos, não Os primeiros sociólogos de campo não se preocupavam em
importa em qual situação. restituir à população estudada os resultados da pesquisa. Ou,
Nas intervenções, procuramos, em geral, reservar o início de simplesmente, falar da importância que teve essa população para a
cada sessão para a restituição. Se a sessão for pela manhã, faz-se a produção científica. Fazendo uma analogia, diria que também
restituição logo após a almoço (inclusive de acontecimentos ocor- Freud não se deu conta da co-produção das mulheres histéricas na
54 TERCEIRO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 55

teoria psicanalítica. E isto, mesmo tendo confessado – como Muitos países outrora colonizados, como uma forma de
outros psicanalistas confessaram - que, sem algumas de suas controle para o Estado local, uma forma bastante atual de controle,
clientes, ele não poderia ter produzido sua teoria; que alguns dos exigem a restituição dos resultados da pesquisa, antes de permitir
conceitos psicanalíticos não foram produzidos por teoria, mas no que sejam tornados oficiais. Ou seja, antes que a pesquisador vá
diva - como, por exemplo, a famoso conceito de cura pela palavra, valorizar o seu trabalho em seu próprio país de origem - obtendo
claramente produzido por uma de suas primeiras pacientes. diploma, prestígio, empregos, graças ao saber que ele roubou aos
A restituição apareceu como um verdadeiro problema no "indígenas" -, essas nações podem exigir, hoje, que os resultados
âmbito da etnologia de campo. Esta tem suas origens na etnologia do mesmo lhes sejam comunicados.
colonialista e não se dá conta de que só poderia ser produzida (ter Em alguns países, o controle vai ainda mais longe: podem
sua gênese teórico-social) numa situação colonialista em fase de exigir do etnólogo uma cópia de todo o material por ele recolhido
destruição. Mais um saber, completamente político, pretendendo- - fitas cassetes, de vídeo, fotos e, até mesmo, o seu caderno de
se "neutro" ... O político que "invadia o científico" não era anotações da pesquisa.
percebido por etnólogos ou demais pesquisadores de campo. Para Fora da etnologia colonialista ou neo-colonialista, alguns
que se realizasse uma verdadeira revolução epistemológica - métodos de pesquisa (pesquisa-ação e pesquisa-participante, por
introduzindo, na pesquisa de campo, a restituição do resultado à exemplo) usados em diversos países - inclusive Brasil - propõem,
população estudada -, foi preciso um outro acontecimento político. dentro do próprio país, a questão da restituição. Tais métodos
Digo "outro", porque a epistemologia é, antes de tudo, política. supõem um mínimo de co-gestão, co-participação, entre objeto e
Esse acontecimento político foi a processo de descolonização, pesquisador. Há formas muito diferentes desse tipo de
ocorrido no mundo inteiro, modificando, na produção do saber colaboração; algumas bastante democráticas, bem participativas, e
antropológico, as sempre presentes e neglicenciadas relações de outras não passando de uma exploração fantasiada. Isto é, a
poder entre ciência e colonialismo. A descolonização produziu um população estudada é tratada como "serviçal doméstico", muitas
efeito analisador enorme. vezes, efetivamente "servindo" ao sociólogo; comumente
Atualmente, os etnólogos não podem fazer aquilo que bem negligenciada, em função da pesquisa, não obtém uma restituição
entendem ou, simplesmente, ir aonde melhor lhes convenha. Não verdadeira, concreta e objetiva de seus resultados - sequer sabe
podem, como diziam fazer, se "restringir à pesquisa de campo", que pode exigir essa restituição. Mas a que entendo por concreto?
pesquisa esta meramente "científica". Hoje têm, freqüentemente, Concreto não significa apenas enviar, um ano mais tarde, um
que pedir permissão às autoridades do país ao qual se dirigem para artigo, um livro publicado pelo sociólogo à população participante
a pesquisa. Essas organizam as possibilidades do trabalho de da pesquisa; concreto compreende uma restituição pessoal,
campo e, às vezes, caso queiram, podem intervir completamente implicada e posta, dentro da pesquisa, como um
nos resultados do mesmo, como a ocorrido na China comunista. procedimento real e necessário do ato de
pesquisar (intervir). Enviar o artigo apenas, é muito fácil.
56 TERCEIRO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 57

Ainda mais, quando muitas dessas populações pesquisadas são Lourau: Eu disse muito rapidamente agora há pouco que,
analfabetas. Como única "restituição", não entendo o que podem em socioanálise, as restituições devam ser pertinentes à
fazer com esses "inteligentes" textos, a não ser que os possam usar intervenção. Pedimos essa pertinência aos intervenientes dos
bem pouco convencionalmente, de uma forma ... não muito socioanalistas; isto é, que o material restituído pelos socioanalistas
adequada. tenha relação com a análise de suas próprias implicações,
A restituição não é um ato caridoso, gentil; é uma atividade obviamente, na situação de intervenção.
intrínseca à pesquisa, um feedback tão importante quanto os dados Por exemplo, quando fiz, ao início dessa aula, mesmo não
contidos em artigos de revistas e livros científicos ou estando em situação de intervenção, uma restituição de minhas
especializados. Ela nos faz considerar a pesquisa para além dos tarefas de hoje, falei sobre alguns fatos relativos aos vínculos
limites de sua redação final; ou melhor, de sua transformação em financeiros de meu trabalho no Brasil e essa pequeníssima
mercadoria cultural para servir unicamente ao pesquisador e à exposição poderia ter funcionado como um "disparador" para uma
academia. A restituição como parte integrante da pesquisa é mais socioanálise. Todavia, não podemos exigir do grupo-cliente que
um denominador comum pelo menos teórico, entre a socioanálise tão gratuitamente ofereça as suas implicações à análise. Essa
e os métodos da pesquisa-participante ou pesquisa-ação que há também é, eu diria, uma regra. Se quisermos, podemos enunciar
pouco mencionei. A pesquisa para nós, continua após a redação várias regras, mas a principal é, em última instância, falar de tudo
final do texto, podendo até mesmo, ser interminável. Se a que se considere pertinente à vida. É bastante amplo, e as pessoas
população estudada recebe essa restituição, pode se apropriar de podem ter vontade de falar sobre literalmente qualquer coisa, não
uma parte do status do pesquisador. se tornar uma espécie de importa o quê. Como disse, o próprio dispositivo já produz certos
"pesquisador-coletivo", sem a necessidade de diplomas ou anos de efeitos. Por exemplo, o clima grupal de uma assembléia, mesmo
estudos superiores, e produzir novas restituições, tanto ao agora quando não se trata de um dispositivo socioanalítico, produz
talvez ex-pesquisador quanto ao presente social mais imediato ou freqüentemente efeitos estranhos que podem provocar risos ou
global. Isso seria, efetivamente, a socialização da pesquisa. reprovação geral e serem reprimidos. Embora, quando instaurada
Basicamente é o que tenho a dizer sobre os dois primeiros a socioanálise nada deva ser considerado insignificante ou risível,
usos possíveis da noção de restituição. Antes de passar ao terceiro na assembléia geral perde-se totalmente a controle sobre o
- necessitaremos de mais tempo -, posso responder a perguntas dispositivo. A restituição é, assim, um movimento para retomar os
sobre o assunto em pauta. acontecimentos, em geral. excluídos.
Podemos, ainda, fazer uma comparação entre o clima
Pergunta: Como se dá a restituição na socioanálise? Como socioanalítico e o de certas assembléias revolucionárias. Isso não
saber se o material restituído ao grupo tem pertinência, ou não, significa que instituamos assembléias revolucionárias, mas que
ao trabalho de intervenção? semelhanças curiosas entre ambas, talvez tenham ligação com o
dispositivo.
58 TERCEIRO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 59

Posso dar um exemplo que sempre me tocou muito: nas Lourau: Não me sinto competente para responder a essa
primeiras assembléias da Revolução Francesa, entre 1789 e 1790, pergunta. Não sou psicanalista, mas acredito que há alguns
as regras do parlamentarismo ainda não tinham sido inventadas e trabalhos escritos, de origem psicanalítica, sobre essa questão. Por
reinava, segundo consta, uma grande liberdade de expressão. Não puro acaso, estive trabalhando em artigos exatamente com esse
havia, é claro, uma equipe de socioanalistas, mas, de certa forma, teor, antes de vir para o Brasil; tenho, contudo, sobre tal assunto
a instituição da representação nacional os substituía. Essa um conhecimento ainda muito limitado. A grosso modo, se
instituição, totalmente nova e perturbadora, tinha efeitos sobre o entendi direito, essa questão se refere à contratransferência:
imaginário, não somente dos deputados como também dos eventuais restituições daquilo que o psicanalista sente diante de
espectadores. seu analisando. No entanto, também sobre esse tema não parece
Numa dessas primeiras assembléias, um homem foi até a haver unidade teórica entre os psicanalistas. Alguns têm,
tribuna sem ser oficialmente um representante do povo - fato, inclusive, uma concepção bastante estreita da elaboração da contra
inclusive, muito comum à época - e se pôs a contar seus transferência, considerando-a, mesmo, como algo ruim que se
sofrimentos. Seu maior sofrimento era a enurese noturna. Assim, deva tentar evitar. Tal concepção, há muito criticada, parece ainda
150 deputados ficaram sabendo que um cidadão fazia xixi na persistir. Um dos primeiros psicanalistas a fazer a crítica a essa
cama e que, por isso, era muito infeliz. A enurese, segundo o postura, se não me engano, foi Ferenczi - junto com toda a Escola
relato, tinha feito sua mulher e filhos o abandonarem. Era um Húngara, que o incluía e a Balint, George Devereux, etc ...
homem infeliz falando de sua infelicidade na assembléia geral, e Confesso que são os meus psicanalistas preferidos, embora eu não
sua intervenção foi muito bem acolhida. Encorajado pelo seja húngaro. Eles têm, dentro da Psicanálise, a maior
presidente da assembléia a continuar sua estória, tal homem a sensibilidade socioanalítica que conheço. Posso dar apenas uma
concluiu sob aplauso geral. Essa restituição não foi vista, então, opinião pessoal, e não uma opinião autorizada.
como um acting out, uma passagem à ação. Há também tal
liberdade no clima socioanalítico. Liberdade de não considerar Pergunta: Existe uma relação entre restituição e o conceito
como meras atuações as restituições de cunho "íntimo". Esse tipo de processamento do psicodrama de Moreno?
de relato é considerado uma restituição normal e, como tal, pode
produzir os mais variados efeitos. Ao dizer isso, gostaria de Lourau: É verdade que existe uma vasta influência do
assinalar que, não raro, há dificuldades enormes em gerir esse tipo psicodrama sobre a socioanálise; mais ainda no que tange à
de acontecimento. Mas faz parte do trabalho do socioanalista. Psicoterapia Institucional. Os primeiros pesquisadores e
praticantes da Psicoterapia Institucional, a partir
Pergunta: Como a restituição pode ser implementada no de uma preocupação com a multireferencialidade, f
trabalho clínico psicanalítico? oram buscar, em Moreno, fontes de inspiração
60 TERCEIRO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 61

Tal afirmação é observável principalmente nos trabalhos do ativamente, tal implicação. Há muitas regras e conceitos que, de
catalão François Tosquelles. fato, são a projeção de uma dada ordem social; uma
Essa pergunta me desencadeia também uma outra racionalização, no sentido próprio do termo. Voltando à pergunta,
associação. Emprestamos a idéia de restituição a um grupo, aliás há várias fontes ou origens para a idéia socioanalítica de
pertencente à Análise Institucional, denominado Centro de restituição. Moreno, sem dúvida, é uma delas.
Socioanálise. Durante dois anos, fiz minha formação neste centro
e aprendi, entre outras coisas, a importância da restituição no Pergunta: É possível considerar a cidade, ou um espaço de
trabalho socioanalítico - bastante diverso do que conhecera em moradia, uma instituição e utilizar a análise institucional para
meu estágio em dinâmica de grupo clássica (Kurt Lewin). Embora descentralizar e democratizar a gestão pública, derivando deste
não considere a dinâmica de grupo tão fechada como, em geral, a proceder, políticas públicas?
acusam.
A forma da restituição, não importando se são Lourau: Esta pergunta nos conduz à própria definição de
psicossociólogos, psicanalistas ou socioanalistas, me parece conter instituição, sobre a qual falei principalmente no primeiro dia, e
ainda uma questão, pessoal, de estilo de intervenção. Tal estilo mostra ser necessário que a precisemos mais. A questão não é
"profissional" está ligado ao homem, ou à mulher, particular; considerar uma cidade ou casa como instituição. Se isso lhe
prende-se, não somente ao que, a grosso modo, chamaríamos agrada, você o pode fazer, mas instituição não é um conceito
"disposições naturais", mas também, a certas culturas e descritivo; não designa coisas passíveis de serem vistas, sólidas,
experiências. Notemos o quão pouco à vontade a cultura burguesa, concretas. Como tenho dito, trata-se de um conceito produzido por
ou pequeno burguesa, parece ficar quando frente à questão da (e para) análises coletivas.
restituição. E não é um fenômeno restrito apenas à Antropologia Não temos a instituição diante de nós no início de uma
ou Etnologia, mas percorre partidos políticos, relações pesquisa, exceto se a tomarmos no sentido banal do termo: o
interpessoais íntimas, a sagrada instituição do matrimônio e, posto jurídico. A questão, para nós, com a cidade e as políticas ligadas à
que alguns dos presentes duvidem, até a Psicanálise e a Análise mesma - e acrescentaria nesta, não só a moradia (paredes, teto ... ),
Institucional. Culturalmente a restituição nos aparece como, no mas também os problemas familiares e de vizinhança - é utilizar a
mínimo, uma indelicadeza, uma dessas coisas que não se deve noção de instituição como campo de análise, seja da cidade ou da
fazer. O que restituir, e quando, vai depender, muitas vezes, do casa. A noção de instituição é um artifício, um modelo teórico que
quão interiorizadas e ativamente irrefletidas estão essas "normas permite compreender o que se passa numa casa, escola, hospital,
pudicícias" no sujeito da ação. São normas sócio-econômico- fábrica, bairro, cidade (desde que não muito grande), etc. .. etc ...
culturais que igualmente estão interiorizadas em cientistas ou O fato de o objeto de estudo não se chamar instituição, não é
pesquisadores, os quais, uma vez mais, apesar de importante. Pode-se, e deve-se, fazer a análise institucional, por
implicados com sua cultura, podem desconhecer,
62 TERCEIRO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 63

exemplo, de clubes esportivos brasileiros sem a necessidade de se Lourau: Não sei se vou me lembrar imediatamente de um
falar da instituição do clube de São Paulo, nem da instituição do exemplo. Esse tipo de problema pode se colocar em qualquer
Estádio do Maracanã. Um clube de São Paulo e o estádio do situação, tanto em um clima socioanalítico quanto em uma reunião
Maracanã são, contudo, elementos da instituição esportiva. Outros social, um teatro, uma universidade... O modo de tratar a questão é
elementos são, talvez, os bancos brasileiros ou, mesmo, que será diferente, se a socioanálise está em curso.
estrangeiros; os jornais e toda uma população de jornalistas, Não é este o nosso caso. Estou aqui numa posição de
dirigentes, jogadores, treinadores, espectadores... Enfim, todos os professor, e não de socioanalista. É difícil me desdobrar e
que estão dentro deste complexo sistema de relações, no qual a imaginar um tipo de simulação que pudesse dar a idéia, a vocês,
"ideologia", ou "religião esportiva", tem um papel tão importante de como funcionaríamos perante esse problema, caso
quanto a questão financeira adequada ao mundo esportivo. estivéssemos realizando uma socioanálise.
É por este caminho que se pode fazer a análise institucional,
qualquer que seja o objeto social da análise: a cidade, a casa, a Pergunta: O conceito de restituição pode ser considerado
família... Certamente existe uma instituição familiar, assim como uma tentativa de dar conta do sujeito na história e vice-versa?
a indústria de construção de casas tem, na organização daquela, Pode ser considerado um dispositivo importante para se instaurar
um valor extremamente político. ou obter a autogestão?
Concluindo, direi sim à pergunta, talvez de um modo um
pouco diverso: sim, é possível fazer a análise institucional da Lourau: A primeira parte da pergunta é excessivamente
cidade ou da casa, sem que para isso, no entanto, tenhamos que geral. Como sugeri anteriormente, não gosto muito de questões
nos preocupar, todo o tempo, com o uso da palavra gerais: não sou dotado para respondê-Ias. Quanto à segunda parte,
INSTITUIÇÃO. Não se faz Psicanálise falando todo a tempo de a que entendo melhor, posso respondê-la afirmativamente.
consciente e inconsciente. Analogamente, a mística cristã nos A restituição, qual os demais conceitos socioanalíticos,
ensina que não basta repetir Deus, Deus, Deus, todo o tempo, para possui uma implicação diretamente política. Para alguns, isso é
se tornar um cristão. Ao contrário, tantas repetições podem, bom; para outros, um grave defeito. Para mim, obviamente não é
inclusive, fazer de você ... um herege! um defeito, pois considero a Análise Institucional um processo
diretamente político. Uma das condições de nossa gestão,
Pergunta: Muitas vezes, as pessoas que estão envolvidas efetivamente, não é buscar uma transparência terrorista, um tipo
numa socioanálise não fàlam certas coisas porque seriam objeto de estado fusional - sempre muito traumático e, em geral, a
de riso das outras. Por conseguinte, me parece que há serviço de um grupo ou chefe -, mas consiste em ir passo a passo,
resistências a esse "tudo dizer", exatamente para não ser objeto etapa por etapa, em direção a novas relações sociais.
de riso. Como a socioanálise lidaria com essa questão? Seria
possível um exemplo concreto?
64 TERCEIRO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 65

A autogestão não é estudável em manuais; é uma construção Lourau: A pergunta seria mais precisa se indicássemos de
política permanente que se apóia, principalmente, sobre a que profissional se trata. O autor da pergunta está aí? Poderia
restituição. A restituição também não significa confissão privada precisá-la um pouco melhor? Bem, posso respondê-la brevemente,
ou pública, como em seitas religiosas, mas consiste em se centrar mesmo ignorando a razão desses profissionais. Entendo que,
numa tarefa - a de análise coletiva da situação presente, no sendo profissionais brasileiros, talvez tenham razões - que
presente em função das diversas implicações de cada um com e certamente ignoro - para fazer tal distinção. Para nós
na situação. É um dispositivo relativamente aberto, mas não tão socioanalistas franceses, não se trata de duas coisas opostas ou
aberto quanto uma casa vazia com janelas quebradas e sem teto. mesmo diferentes.
Historicamente, a Análise lnstitucional surgiu como um
Pergunta: Qual é a relação da restituição com o etbos do prolongamento da Terapia Institucional e da Pedagogia
profissional? Institucional (desta, ainda não falamos); a Socioanálise apareceu
imediatamente em seguida e designa, na origem, um método de
Lourau: É uma questão um tanto erudita e se refere mais ao intervenção, totalmente determinado pela teoria da Análise
trabalho de meu amigo Renê Barbier que, ano passado, esteve no Institucional. Logo, em Socioanálise, conceitos paradigmáticos
Brasil e me contou, por longo tempo, essa sua viagem. são também operatórios. Trata-se, enfim, de nomes diferentes para
Há vários pontos comuns entre as idéias de Barbier e as da um mesmo projeto. A Análise Institucional se refere à questão
Análise lnstitucional. Ele foi, durante muitos anos, um membro teórica, ao núcleo construído tanto por certos psiquiatras -
ativo de nossa corrente. Depois, seguiu por outras trilhas em reconhecidamente os da Psicoterapia Institucional - quanto por
direção a Castoriadis e à exploração do imaginário social. Estou experiência, de Pedagogia Institucional, muitas das quais
plenamente de acordo com a aproximação entre o conceito de participei. A Socioanálise, repito, surgiu depois, como um método
restituição e o de ethos, conforme o define Barbier. Ambos têm de intervenção. Essa é a única distinção que nos parece possível, e
relação com o problema ético, mesmo que nomeado de forma é histórica.
diversa. A ética é, naturalmente, essencial em todas as ciências
humanas e sociais. Vimos isso quando falamos da etnologia Pergunta: São três perguntas, na verdade. Os efeitos da
colonialista e neo-colonialista. Essa talvez seja uma pequena restituição são discutidos e interpretados no (e com) o mesmo
diferença entre eu e Barbier: a terminologia. Tendo a denominar grupo? Complementam a análise das implicações do pesquisador
política aquilo que ele chama ética. Mas, de fato, falamos da no campo? Existe relação com o Grupo Operativo de Bleger,
mesma coisa. Pichón-Rivière, etc?

Pergunta: Alguns profissionai fazem uma diferenciação Lourau: Sim, certamente a autorização da restituição faz
entre Análise Institucional e socioanálise. Você vê alguma parte da assembléia geral. Senão, não seria restituição. Acredito
diferenciação? ter falado disso ontem. O uso das técnicas de anteparo, como as
66 TERCEIRO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 67

caixas preta e vermelha, não significa que o processo


socioanalítico esteja terminado, apenas provisoriamente campo social que ultrapassa a campo do grupo tradicional. Houve
diminuído. É assim como, pela eminência do perigo, frear um deformações tanto da teoria de Lewin quanto da de Pichón-
pouco a carro. Depois se volta a acelerar. Ou seja, a formação Rivière. Tais deformações consistem, basicamente, em minimizar
fechada nas caixas é, indubitavelmente, restituída depois, na o alcance da descoberta desse campo. Mesmo que a dimensão da
assembléia geral, produzindo simplesmente uma retenção instituição não esteja oficialmente presente no trabalho dos grupos
provisória da restituição. operativos, Pichón-Rivière e Bleger tiveram consciência dessa
Quanto à segunda questão, serei muito breve, pois a dimensão. Este fato explica a vasta sensibilidade dessa corrente à
resposta, certamente, é afirmativa. Muitos pesquisadores de Análise Institucional. Foi através dela que a Análise Institucional
campo, hoje, já descobriram essa resposta. Por diversas ocasiões, a começou a se difundir por toda a América Latina. Certamente,
restituição foi considerada marginal à pesquisa e, entretanto, isso não se deu por acaso.
terrivelmente útil à mesma. Compreendia-se que o essencial das Há, no entanto, tendências diferentes nas linhas dos Grupos
coisas restituídas se fazia tomando café ou um copo de vinho, e Operativos. Existem, por exemplo, fortes diferenças entre a
esses momentos eram considerados como fora da pesquisa. Todos tendência que chamo "integristas" - representada, em Buenos
os pesquisadores de campo fizeram confissões sobre esses Aires, pela viúva de Pichón-Rivière - e outras, "bem menos
"aspectos marginais" da pesquisa, no entanto, acredito que só integristas". É com estas últimas que a Análise Institucional tem
quando recentrados, como parte integrante da pesquisa, podem construído relações.
esses "aspectos marginais" funcionar como disparadores para uma Sim, diversas tendências de Grupo Operativo sofreram in-
efetiva análise das implicações do pesquisador. tensos processos politizadores, de uma certa coloração político-
Por esse motivo, considero necessário serem publicadas ideológica, que as aproximou da Análise Institucional. A prova do
essas coisas ditas "à margem" da pesquisa; que não fiquem que ora falo pode ser encontrada nos dois volumes de Questiona-
guardadas na “caixa preta” do pesquisador e de algumas outras mos2. Nesta obra coletiva de correntes de Grupos Operativos, re-
pessoas. Essa "desinstitucionalização" da "marginalidade" da comendo, particularmente, o texto de Marie Langer.
pesquisa muito pode contribuir para uma real análise das
implicações do pesquisador e do ato de pesquisar. Chegamos, Pergunta: Peço que você aprofunde e relacione as análise
assim, à importância da restituição na escrita, assunto do qual. de Gramsci sobre "sociedade civil" com os elementos da Análise
provavelmente, não falaremos essa noite, mas, talvez, amanhã, Institucional.
pois há ainda questões a serem respondidas.
Com referência aos Grupos Operativos, falarei mais ou
menos o mesmo que falei sobre a teoria de Lewin. Na teoria dos
grupos operativos encontramos, indubitavelmente, a idéia de um 2
LANGER, M. (comp.) Questionamos a Psicanálise e suas instituições.
Petrópolis. Vozes, 1973; LANGER, M. (cornp.) Questionamos 2:
Psicanálise institucional e psicanálise sem instituição. 13. Horizonte,
Interlivros, 1977
68 TERCEIRO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 69

Lourau: Não, estou muito cansado para aprofundar isso "encontrar" com o Estado. Por que não? Para a Análise
hoje à noite. Acredito que o autor/autora da questão esteja em Institucional a transversal idade do Estado é total. Mesmo quando
melhor posição para aprofundá-la, pois esta parece ser uma real não totalitário; mesmo se democrático. Então, a distinção de
Gramsci não nos interessa, pois induz ao erro. Nossas sociedades
questão para ele (ou ela). Para mim, tal deixou de ser questão há
são estatizadas até o mais íntimo. Toda análise institucional
mais de 20 anos. Posso, até estar equivocado, contudo, reconheço encontra o Estado; não há reservas indígenas, nem homens
as contribuições de Gramsci à teoria marxista, mas não quaisquer protegidos, fora do Estado.
influências diretas à Análise Institucional. Talvez por ter sido tra- Algumas perguntas nos afastaram um pouco de nosso
duzido muito tarde na França e termos tido conhecimento dele objetivo, tentarei retomar o fio da meada. Não é fácil, pois o
com atraso. Todavia, ele influenciou a Althulsser e este influen- dispositivo pedagógico está sendo perturbado por outro
ciou a muitos intelectuais latino-americanos (infelizmente, pois dispositivo - o da assembléia, onde se colocam perguntas
incessantes e diversas, num clima análogo ao de entrevistas com
Althusser parece que desejou, e conseguiu, transformar Marx em
estrelas de cinema (enquanto estas descem do avião). Não gosto
cadáver: é um coveiro do Marxismo!). de ser confundido com uma vedete descendo do avião,
Quanto ao conceito de sociedade civil, que para minha tris- Vou, portanto, abordar o terceiro ponto que indiquei antes
teza ainda faz sucesso, considero-o falso, tanto do ponto de vista desse pequeno desvio. Falávamos da redação da pesquisa. Ora, a
sociológico quanto político. A sociedade civil não existe, exceto pesquisa e sua redação são inseparáveis. Um pesquisador da
para alguns italianos. Creio que agora, principalmente a partir dos universidade ou do CNPq que nada redigisse, não seria
últimos acontecimentos envolvendo o Estado italiano, até mesmo reconhecido como pesquisador; a redação é, em suma, o critério
absoluto de legitimação da pesquisa e do pesquisador. Essa
esses possam compreender melhor o erro histórico de tal conceito.
legitimação inscreve o escrever como parte essencial da
Muitos intelectuais italianos foram perseguidos pelo fantasma dos institucionalização do pesquisador e da pesquisa. A redação não é,
dois mundos: Estado e Sociedade Civil. É exatamente o oposto da obviamente, apenas um detalhe técnico e marginal.
visão socioanalítica. A redação que chamo de institucional é a que realiza a
Escrevi um livro, editado em 78, chamado O Estado In- espera da universidade ou da instituição de fomento ou, pelo
consciente3, onde afirmo estar o Estado em todo lugar e em todas menos, realiza aquilo que, enquanto pesquisadores, acreditamos
as cabeças e corpos, sociedade civil ou não. Alguns, fazendo um ser a expectativa delas. Penso que, já no momento da elaboração
do projeto de pesquisa, podemos encontrar, facilmente, múltiplas
jogo de palavras intraduzível em português, disseram à época:
implicações libidinais ligadas a tais expectativas e
'L’A.I. au lit", sugerindo que propunha a análise institucional até que estas são essenciais na formulação e
no leito; ou seja, que pensava, nos encontros amorosos em me condução da pesquisa. Aqueles que já redigiram

3
LOURAU, R. L'état inconscient. Paris, Minuit, 1978.
70 TERCEIRO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 71

uma tese de mestrado ou doutorado sabem disso. Sabem que a qualquer livraria. Mas, os diários da pesquisa, embora
instituição segura a nossa mão e escreve o produto final de nosso soubéssemos de sua existência - e a soubéssemos, freqüentemente,
trabalho. de modo clandestino e confuso -, não obtinham aceitação
A restituição escrita, conseqüentemente, desempenha um científica ou editorial. Ainda que produzidos por pessoas com
papel em dois planos. Por um lado, ela deveria ser a restituição de notório status de cientista. A essa escrita quase obscena, violadora
todo o processo, açambarcando inclusive as coisas que, em geral, da "neutralidade", chamei de "fora do texto". "Fora do texto" no
não são inscritas como necessárias, mas que, como vimos, fazem sentido literal e etimológico do termo: aquilo que está fora da
parte do campo produzido pelo pesquisador para realizar o ato de cena; fora da cena oficial da escritura. Penso o texto institucional
pesquisar; por outro, ser a restituição do próprio pensar/redigir qual a palco de uma representação teatral; um palco para peças já
(isto porque a redação supõe a aprendizagem de um código consagradas, onde não se possa fazer outro tipo de representação;
técnico-cultural determinado e desempenha, em nossa cultura, o onde não se possa fazer, simplesmente, a peça que se deseje. Se
papel de produzir, e permitir, um cerco tipo de pensar). diários da pesquisa começaram a ser publicados, não foi acaso ou
Evidentemente, a ato de pensar independe da escrita, mas o pensar "romantismo editorial". Tais publicações se relacionam a uma
escolarizado uma de nossas marcas culturais -, e é desse que perda de confiança no texto institucional gerada nos (e pelos)
falamos, está diretamente relacionado à apreensão da mesma. processos de descolonização. Tal contexto histórico-político
A instituição acadêmico-científica nos faz escrever e explica, e bem, porque antigamente o "fora do texto" inexistia e
escrevemos para sermos validados e valorizados por ela. A porque agora está começando a ter, timidamente, uma existência
produção de nossos textos, o meu e o de vocês, está portanto científica. Um detalhe indicativo à antiga desconsideração para
implicada com a existência de tal instituição. Sequer aquilo que com o "fora do texto" é a enorme distância temporal entre a
pensamos estar "naturalmente observando" é natural. .. Se redação final desses diários e a data de sua publicação.
refletirmos sobre o fato de, pelo menos, 49% da população Há seis anos, escrevi um longo estudo sobre o assunto44 a
alfabetizada não entender sobre o que escrevemos, teremos talvez partir principalmente de diários de antropólogos, sociólogos e
a prova de que somos um artifício completo. Quer dizer, por mais psicanalistas (como Malinowski, Margareth Mead, Ferenczi e
que não o admitamos, escrevemos sempre para, e por, uma outros). À época, usei todos os materiais disponíveis. E estes eram
pequena comunidade de pesquisadores, e só. Tal aspecto, durante bem poucos. Em meu poder, quando me interessei por essa
muito tempo naturalizado, do texto institucional começou a ser pesquisa, havia apenas o diário clínico de Ferenczi. Aliás, um dos
questionado quando do desvelamento de diários da pesquisa de mais belos diários sobre pesquisa de campo que conheço. Ele o
campo (fato ainda muito recente no cenário acadêmico-científico).
Há muito se publicam diários de viajantes, missionários,
escritores ... Isso faz parte de um gênero literário encontrável em

4
LOURAU, R. Le journal de recherche. Paris. Méridiens Klincksicck,
I98H
72 TERCEIRO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 73

escreveu em seu último ano de vida, quando experienciava a Para camuflar um pouco a hipocrisia institucional,
análise mútua. O processo da análise conduziu a um esfriamento descobrem-se sempre "ótimos argumentos". Por exemplo, no
dos laços amorosos que o ligavam a Freud. O relato é, realmente, diário de Malinowski há inúmeras notas reveladoras de um forte
impressionante. racismo. Ora, seu autor fez uma carreira inteira como anti-racista;
Além dos diários oficiais de sociólogos e etnólogos, estudei inclusive formou grande parte da elite independentista africana.
também os diários secretos de Wittgenstein que, não sendo Ambas as coisas não combinam bem. A vivência mais íntima do
sociólogo, etnólogo, nem psicanalista, manteve diários da pesquisador se encontrar em contradição com seu texto
pesquisa durante toda vida. A maioria dos escritos diários de institucional, ou com as suas posições públicas, é algo muito
Wittgenstein foram publicados, porém nem todos. Enquanto vivo, incômodo. Então, é preciso salvar a imagem não contraditória do
Wittgenstein publicou dois livros, sob a forma de tratados. Após pesquisador e, conseqüentemente, da pesquisa. É preciso negar a
a sua morte, publicou-se o terceiro livro, este sobre investigações contradição existente nele, em nós e em todos. É preciso, ainda,
filosóficas. Lendo os diários secretos, percebemos que todas as recorrer à lógica identitária, numa óbvia recusa a quaisquer
demais publicações derivaram desses. Às vezes, passagens inteiras análises desnaturalizadoras (institucionais).
vão diretamente do texto do diário para o institucional (livro). Mas A segunda mulher de Malinowski alegava, antes de se
a escrita "fora do texto" é estritamente supervisionada, vigiada decidir pela publicação do diário, que este era "muito íntimo". A
pelas diversas instituições culturais: ACADEMIA, PESQUISA, intimidade é, como sabemos, uma categoria recusada pela ciência.
EDITORA... O diário de Ferenczi esperou meio século para ser E a intimidade, ainda sob a forma de diário - no caso, o de
publicado. Os diários secretos de Wittgenstein nunca o foram Ferenczi -, também se revelou surpreendente para a Psicanálise.
oficialmente. A data desses diários é 1914/1918. Há quase 80 anos A instituição psicanalítica, como todas as demais, funciona
escritos e, até hoje, só publicados clandestinamente! É um tipo de à base de segredos e não ditos. Em seu diário, Ferenczi diz coisas
censura sempre reincidente. que não se deve dizer. Não são denúncias ou críticas a colegas
Por que a recusa à escrita "fora do texto"? Tratava-se de isso, positivamente, não parecia ser de seu feitio. Ele enuncia a
Ferenczi, Wittgenstein, Malinowski ... todos grandes autoridades sua própria produção, relata os sentimentos e dúvidas provocados
científicas! Mas, seria por isso que se impediu a publicação desses pela arriscada experiência da análise mútua e procura levar, ao
diários; porque traem O SEGREDO da produção intelectual, os limite, a análise da contratransferência. Desta forma, porém,
segredos da pesquisa? atinge um dos principais dispositivos psicanalíticos e desvela ao
Tais textos relevam as implicações do pesquisador e leitor, não só a artificialidade do enquadre mas, o jogo de forças,
realizam restituições insuportáveis à instituição científica. Falam político, que este acoberta. Atingir o dispositivo é "rnacular o
sobre a vivência de campo cotidiana e mostram como, realmente, sagrado". E não somente na Psicanálise, em absoluto. O
se faz a pesquisa. E é isso que não se deve dizer ou mostrar. dispositivo é o que permite funcionar a prática.
Podemos chegar à teoria, mas não ao dis-
74 TERCEIRO ENCONTRO

positivo, pois nele se exprimem, veladamente, as relações de


poder existentes no ato de pesquisar. Esta observação tanto vale
para Ferenczi quanto para Malinowski.
Malinowski escreve em seu diário que, um dia, ainda em
campo, zangado com seu informante, um homem da região
pesquisada, deu-lhe um soco na cara. Segundo o pesquisador, a
QUARTO ENCONTRO
ajudante-tomado-da-região não lhe trouxera, naquele dia, material
suficiente para a adequada continuação de seu trabalho. Isso (29.04.93)
também faz pane do "como se faz pesquisa". Certamente, da parte
secreta dessa atividade; o rol dos acontecimentos não restituíveis.
Mas, como disse, essa restituição, hoje, pôde ser feita, com 70
anos de atraso.
Com relação à publicação dos diários de Wittgenstein,
freqüentemente se ouve o mesmo argumento protetor "do íntimo".
O recurso à intimidade surge então, nas ciências, recobrindo
questões como a erotismo e o racismo, "protegendo" do olhar
público os fatores libidinais da pesquisa. Fatores esses que, como
sabemos, são "naturalmente" excluídos do fazer científico, por
toda e qualquer ciência. Exceto, talvez, pela Psicanálise; mas esta
é outra coisa que não uma ciência.
Em relação a Wingenstein, o "fator pertubador" era
claramente libidinal. Ele contava, muito freqüentemente em seus
diários, suas masturbações e tendências homossexuais. Todos
sabiam de sua homossexualidade, mas esta não era uma restituição
possível no campo das produções do saber científico. Enquanto
servia no exército austríaco e escrevia o seu diário num barco de
guerra, Wittgenstein nos conta que sofria muito com a ausência de
seu querido companheiro. Companheiro este que vivia, à época,
na Suécia. Falando disso em seus diários, pesarosamente
condenou-os à clandestinidade .... Continuaremos, espero, esse
assunto no próximo encontro.
ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 77

Boa noite. No encontro passado falávamos da questão da


restituição, oral e escrita, na pesquisa de campo; na relação desta
com os diários da pesquisa e as instituições acadêmico-científica e
editorial e, abordando esta relação, levantamos o problema de uma
escritura "hors-textuel" - traduzida por "fora do texto" - no campo
científico.
Uma característica da escritura "fora do texto", como o
poderemos constatar lendo os diários de campo, é a de produzir
um conhecimento sobre a temporalidade da pesquisa. Essa
temporalidade não é a dos resultados, a do texto final. Ainda mais
que, muitas vezes, a publicação do diário acontece longe do
término, e edição, da própria pesquisa.
O diário nos permite o conhecimento da vivência cotidiana
de campo (não o "como fazer" das normas, mas o "como foi
feito" da prática). Tal conhecimento possibilita compreender
melhor as condições de produção da vida intelectual e evita a
construção daquilo que chamarei "lado mágico" ou "ilusório" da
pesquisa (fantasias, em torno da CIENTIFICIDADE, geradas pela
"asséptica" leitura dos "resultados" finais). Sem as condições de
emergência dos "dados" da pesquisa, o
leitor vai ter sempre muitas ilusões sobre a
cotidianidade da produção científica. Podemos perceber
78 QUARTO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 79

tais "enganos" no imaginário social através, por exemplo, de Uma outra característica da restituição escrita é a de
cineastas, No cinema, a prática da pesquisa é completamente produzir um tipo de reflexão própria do escrever. Lembrei ontem
caricatural. que o praticante ou adepto de tal exercício passa, em um
O diário da pesquisa - que, por sinal, não é, determinado momento qualquer, a refletir diferente dos demais,
necessariamente, redigido todos os dias - reconstitui a história mesmo se seu interesse é explorar a imaginação com "as
subjetiva do pesquisador. Mostra, entre outras coisas, a vestimentas de domingo". O exercício cotidiano de escrever sobre
contradição entre a temporalidade da produção pessoal e a o cotidiano constrói e se apropria de realidades, num movimento
institucional, ou burocrática. Tomemos, como exemplo, a especular. E a pesquisa não é, certamente, apenas uma
angustiante questão do calendário da pesquisa. A maioria fica "indumentária de domingo".
desesperada por não estar conseguindo respeitá-lo, contudo, só o Encontramos, em alguns diários, esse movimento reflexivo,
diário nos dá acesso à forma singular, ou não, desse desespero. esse jogo de espelhos. Temos, inclusive, diaristas escrevendo a
Existem também as angústias da publicação, os confrontos com as diário do diário! Considero este proceder dos "diaristas" muito
editoras. A demanda das editoras não é, necesssariamente, a produtivo para nos auxiliar a desnaturalizar as construções
mesma das instituições de pesquisa ou universidades. Acontece de científicas, em especial a - já mitológica - NEUTRALIDADE.
o editor recusar-se a publicar um texto considerado muito Agora, gostaria de assinalar brevemente a importância da
"especializado". O diário pode revelar como foram os encontros distância entre a publicação do texto institucional e a eventual
com editores; as recusas à publicação; as exigências, de parte a publicação do "fora do texto". Até o momento, pouquíssimos
parte; os arranjos do contrato; o aprendizado de novas imposições diários da pesquisa foram publicados, apesar de editoras e
institucionais ... e a angústia advinda de todo esse processo. universidades estarem cientes da existência de originais em
Quando o trabalho acadêmico final é recusado pelas editoras, a gavetas de pesquisadores conhecidos.
angústia pode se materializar em nadificação do mesmo, gerando Ontem, recordei casos-limite dessa distância temporal e
um sentimento semelhante ao de ter recebido nota ZERO pela mostrei tratar-se de censura da instituição cultural e/ou editorial.
pesquisa ("Todo um trabalho que de nada valeu!" .... ). E tudo isso Citei o diário clínico do Ferenczi, publicado com 50 anos de
constitui um material muito rico, também de pesquisa, sobre a atraso; o de Malinowski, 70; e os de Wittgenstein, oficialmente
pesquisa. "secretos" ainda hoje, porém tornados públicos, 80 anos após sua
Uma outra vantagem do diário de pesquisa é fazer a redação, por edições clandestinas.
restituição da pesquisa de campo como sendo a de um laboratório. Normalmente as edições dos diários são póstumas. Existem,
Nas ciências exatas, tudo o que se passa no laboratório faz parte contudo, exceções. Por exemplo, Jeanne Favret Saada, etnóloga,
da exposição final. Não são aceitos os discursos meramente belos tendo pesquisado fenômenos de bruxaria na França, publicou um
acerca da descoberta; exige-se a descrição exata de todo a célebre e respeitado livro. Seu diário de campo, no entanto, so-
ocorrido durante a experiência. Mas, as ciências sociais e humanas
são bem menos "exigentes", infelizmente...
80 QUARTO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 81

mente cinco anos após a consagração definitiva do livro citado foi (compôs um livro onde metade pertence, institucionalizadamente,
publicado, pela mesma editora, porém em outra coleção (de menor ao "fora do texto"); Georges Lapassade (mistura, sem quaisquer
prestígio e destinada a assuntos considerados populares e “fidelidades” ou esquematizações, “texto” e “fora texto” na
bizarros). É um exemplo de análise institucional da edição, em elaboração de sua escrita final); e eu, sempre procurando ser o
ato. Mesmo quando o autor é reconhecido e deseja muito publicar mais sistemático possível nessa questão. Espero, sinceramente,
o "fora do texto" este permanece, como por um "destino", na estar funcionando como exemplo para "discípulos" porventura
cozinha, não lhe sendo permitido entrar no grande salão das desejosos de seguir por essa via.
editoras. (Quem sabe não esteja adequadamente vestido ... nunca.) Para terminar, situarei a técnica da escritura "fora do texto"
Ainda assim, há casos interessantes de distâncias temporais como possível instrumento pedagógico na universidade. Usamo-la
menores entre a publicação do texto institucional e do "fora do em Paris VIII, no Departamento de Ciências da Educação. Vários
texto". Por exemplo, Edgar Morin, sociólogo, publicou um livro e, educadores aconselham, principalmente a partir do mestrado, que
três meses depois, um diário. Este se chama Diário de um Livro5, se faça um diário da pesquisa. Esse conselho não é uma ordem
e nos conta, dia após dia, a feitura do livro anteriormente institucional, embora muitos colegas sejam tão diretivos que assim
publicado. o pareça. Considero que a feitura de um diário tem por demais
Há também outros tipos de acontecimentos relativos a esse implicações subjetivas para que a possamos impor como trabalho
assunto que merecem nossa atenção. Por exemplo, o caso de universitário obrigatório. Mas, mesmo quando ocorre como
substituição, nas "ordens" das publicações, do "texto" pelo "fora imposição, surpreendentemente, a maioria dos estudantes faz a
do texto" e, o ainda raro, de simultaneidade editorial entre ambos. trabalho com prazer.
Quanto ao primeiro, tenho apenas uma referência a oferecer: Periodicamente, os alunos dão aos professores trechos de
Michel Leiris, ernólogo e também escritor surrealista, publicou suas futuras teses, para avaliações e críticas, e mostram
seu diário de campo intitulando-o A África Fantasma6. O livro fragmentos do diário. Isso permite conhecê-los melhor, assim
retrata seus dois anos passados na África e quase nos esquecemos, como as dificuldades existentes em seus cotidianos que, apesar de
ao lê-lo, tratar-se de um diário. Leiris não não nos dizerem na conversa face a face, relatam ao papel.
publicou a texto "academicizado", preteriu-o, O diário da pesquisa também pode ser integrado ao texto
elegendo o "fora do texto" como "texto". institucional. Atualmente, alguns de nossos doutorandos se per-
Já, para ilustrar a segundo caso, cito: Gibal, etnólogo francês guntam se devem apresentar, em suas teses, unicamente o diário,
ou não. Fico um pouco reticente ... Talvez não devamos tentar
violentar em excesso a instituição universitária. Digo isso por já
existir um tipo de habilitação acadêmica, reconhecida como exce-
lente, totalmente sob a forma de diário. Tal reconhecimento deri-

5
MORIN, E. Journal d'un livre. Paris, Inter Editions, 1981.
6
LEIRIS, M. L'Afrique fantôme. Paris, Gallimard, 1934.
82 QUARTO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 83

va, inclusive, das fortes qualidades literárias que os trabalhos têm de niteroiense hoje pela manhã, vi-me selecionando "dados"
apresentado. passíveis de interessar às instituições acadêmica e editorial.
Há variações, utilizadas por meus colegas em Paris VIII, Recentemente tive uma experiência péssima relativa à
para tal técnica. Temos, por exemplo, a Diário de Itinerante publicação. Uma revista argentina me pediu um artigo; enviei-lhes
(nome cunhado por meu amigo Barbier) que acompanha o um diário escrito há mais ou menos um ano, quando de uma de
estudante em seus percursos e percalços escolares, anos a fio. minhas visitas a Buenos Aires. Esse diário, já bastante
Um outro colega, Remi Hess, propõe o Diário autocensurado devido a conflitos sérios com pessoas locais, não
Institucional7, técnica já utilizada por ele quando professor do foi publicado. Sem qualquer explicação ou autorização editaram
ensino secundário. Na verdade, trata-se de delimitar como campo um outro texto meu, não inédito (sobre Ferenczi e a relação
o cotidiano escolar e, enquanto educador, aplicar a técnica do adulto-criança), e me enviaram a revista. Pensei: então, meu diário
diário da pesquisa no estabelecimento próprio onde exercita o de Buenos Aires não foi apenas parcialmente censurado; sem
trabalho pedagógico. Nesta modalidade, o pesquisador não anota dúvida, não devo ter me autocensurado o suficiente ... Adoraria
diariamente todos os acontecimentos, somente o especial, aquele discursar, quem sabe, outras 15 horas sobre essa questão que me
que lhe tenha tocado a pele. A narrativa pode, inclusive, asssumir apaixona, todavia, necessito de uma pausa.
dimensões bastante fantasiosas, romanescas.
Quando do início dessa técnica, Hess cogitou em levar todo Pergunta: O tema da reflexão ou reflexividade - não sei se
o conteúdo de seu diário ao conhecimento dos colegas e da entendi direito devido ao jogo de espelhos existente também em
direção do ginásio onde trabalhava. Percebeu, no entanto, que tal sua fila - não poderia ser compreendido como uma apreensão
restituição poderia ser insuportável, tanto para seus colegas quanto nova da Análise Institucional acerca da temática "produção de
para si, e também muito perigosa. Apoiando-me no exemplo de subjetividade"? Penso que a "diarista-das-implicações-na-
Hess, diria que também na escritura "fora do texto", a autocensura pesquisa" se abre, com esse movimento, às condições da
se exerce. Não sei, contudo, até que ponto se deve, ou não, ser produção de si mesmo enquanto sujeito, e pode, assim, deixar de
conivente com mais esse tipo de censura. ver-se como centro e origem neutra do discurso. Nesse sentido,
Questionei-me, esta tarde, enquanto redigia o diário que esse dispositivo não teria, inclusive, a possibilidade de um uso
habitualmente faço, sobre qual parte desse poderia ser publicada. clínico ou psicossociológico que, tirando o grupo do mero aqui-e-
Percebi tal questão norteando a minha narrativa - a priori, íntima! agora, a vinculasse a suas implicações (também produções)?
-, pois enquanto descrevia a visita, breve, feita a uma comunida-
Lourau: Apesar de não ser clínico, a priori, concordo com a
sugestão. Pergunto-me, freqüentemente, qual uso Ferenczi fazia
de seu diário. Não estou certo se comunicava o conteúdo do
mesmo a seus clientes durante a análise mútua. Não é impossível.

7
HESS, R. Le Iycée au jour Ie jour. Paris, Méridiens Klincksieck, 1989.
84 QUARTO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 85

Precisaria relê-lo com tal questão em mente, para buscar sabê-lo. si) pode ser uma forma de se distanciar dos diferentes grilhões
Retornando ao trabalho de grupo, o diário pode, vinculando-o à institucionais que têm, por referência última, o Estado. Falei
questão da produção de subjetividade (consoante Guattari), ontem que a instituição segura nossas mãos quando escrevemos; é
produzir o surgimento, no aqui-e-agora, de novas análises um fato, mas não necessariamente uma eterna maldição. Talvez o
(quebras) através de acontecimentos em geral desprezados para diário (e outros dispositivos inventados ou a inventar) possa
efeito de análise (exame). auxiliar a produzir outro tipo de intelectual: não mais a orgânico
Os diários "subjetivistas" são minas de informações (ou de partido), de Gramsci; nem o engajado, de Sartre (que,
"objetivas", mesmo os mais Iibidinais, românticos ou delirantes. muitas vezes, parece esquecer de analisar as implicações de seu
Tomemos o diário bastante "subjetivista" de Leiris. Sua "engajamento"); mas o IMPLICADO (cujo projeto político inclui
publicação provocou escândalos, menos pelo conteúdo erótico do transformar a si e a seu lugar social, a partir de estratégias de
que pela enunciação das condições da pesquisa etnológica. coletivização das experiências e análises). Talvez, se pudermos
Descrevendo, com todos os detalhes, como se recolhia, tornar tais estratégias cada vez mais populares, possamos sentir
cientificamente, objetos da arte africana, Leiris foi acusado de um pouco os resultados dessa utopia. É uma aposta e, como tal,
destruir a moral dos franceses residentes nas colônias e apresenta seus riscos. No caso do intelectual "implicado", riscos
repreendido pelo governo francês. Segundo o autor, quando ele e a bem maiores do que os do intelectual "analista", creio.
chefe da expedição obtiveram as manufaturas sagradas, material
de grande relevância para as comunidades local e acadêmica, cada Pergunta: Queria fazer uma pergunta em torno da questão
um levava nas mãos um "diplomático" revólver. Isto é a pesquisa de autocensura. A questão do diário da pesquisa estaria ligada,
científica, só que através de seus "detalhes irrelevantes", trazidos a fundamentalmente, à avaliação das condições geradoras da
público por um "texto subjetivo". Creio que o mesmo pode ocorrer pesquisa, certo? Mas, pinta o seguinte problema em torno da
na clínica ou "grupos". autocensura: será que, a partir desta, a gente não está novamente
caindo - e, sem análise ou "vergonha" - na questão do
Pergunta: O diário da pesquisa é um analisador construído "capitalismo acadêmico"; na busca "mercantil" de acumulação de
das instituições em jogo nas situações de pesquisa, certo? Nesse prestígio? Sim, porque a moeda acadêmica nem sempre é o
sentido, o pesquisador que o exclui não estaria dinheiro, mas quantos artigos e teses tenho, quantas palestras dou
instrumentalizando a instituição Estado, tornando-se um ... Todos aqui sabemos bem como funciona. Será que a análise
intelectual estático (no duplo sentido: estático, relativo a estado; das implicações não deveria ter (ou ser) um compromisso -
estático, paralisado e paralisador)? público - em última instância com a verdade (não A VERDADE,
mas aquela construída/observada/vivida pelo pesquisador)? Não
Lourau: Sim, a revelação, ou não, dos múltiplos atos da estou me esquecendo do desejo de publicar o diário.
pesquisa é uma ação política. Tentar fazer dos acontecimentos
cotidianos um caminho para o conhecimento (e transformação de
86 QUARTO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 87

Lourau: Acho indissolúvel o desejo de publicação e o teta a exploração máxima da subjetividade. Isto particularmente
status acadêmico. Ambas instituições, no caso do produto final me apavora. Vemos, claramente, em alguns setores de serviço e
(público) da pesquisa, ditam implícita e explicitamente as ordens. indústria, a exploração da subjetividade tornar-se a linha mais
É isso que a produção do diário da pesquisa tenta subverter. No importante de Recursos Humanos e a produção da subjetividade se
entanto, é inegável também que mesmo esse dispositivo pode ser integrar, perfeitamente, no amplo mercado das economias
submetido, análogo aos demais textos, a forças de mundializadas. Tudo se transforma, então, em mercadoria.
institucionalização. Se uma tese não for defendida, não é Desvela-se uma nova contradição da Análise Institucional: ela
considerada tese e o candidato não poderá tornar-se "mestre" ou existe também como mercadoria cultural e sua divulgação
"doutor" e ser mais competitivo no mercado de trabalho. Não (difusão) depende desse mercado. Há regras e maneiras de
poderá ter um aumento que lhe permita maior tranqüilidade minimamente respeitá-las. O processo de socialização existe e
perante suas contas, por exemplo. De igual maneira, o desejo de passa por todos os atos. No entanto, não devemos tentar? É
publicar o texto, seja institucional ou mais íntimo, tende a integrar verdade que alguns colegas resumem essa minha questão à
o pesquisador às leis do mercado cultural. Contraditoriamente, o argumentação irônica habituai: "Você faz é um exibicionismo".
pesquisador implicado tem também, pelo menos na atualidade, Digo: "sim; por que não?".
que respeitar tais regras. Sob a denominação "autocensura" é o
que ocorre, em geral, aos textos publicados durante a vida do Pergunta: Com a modernização dos textos científicos,
autor. É ainda verdade que o reconhecimento acadêmico está derivada da ação de tomar popular o fazer ciência, temos visto
muito mais relacionado à quantidade das publicações do que às surgirem autores que permeiam, aparentemente por estética (uma
qualidades práticas (de transformação) do trabalho, seja "de nova estética), de poemas, músicas, citações românticas e/ou
campo" ou "pedagógico". Acho-me, inclusive, implicado em todo íntimas seus trabalhos. O diário da pesquisa não poderia ser
esse conjunto de fenômenos, mas alguns "conflitos" provocados apropriado nesse mesmo movimento?
pela publicação (pública/ação) da cotidianidade dos "atos
intelectualizados'' - mesmo pós autocensura -, levam-me a pensar Lourau: Entendo diário qual Max Pagès. Penso em seu faz-
que, talvez, esse seja um caminho possível para a construção de cinante livro O Trabalho Amoroso como um exemplo excelente
uma outra prática (não segregacionista, preconceituosa e estéril de "exploração estética" produzindo restituição. Há uma diferen-
como a atual). ça, aparentemente tênue, entre um poema que brinque com os
Uma pesada crítica é "você quer rentabilizar a sua subjetivi- signos da língua (e seja "concreto", "racional") e outro que pro-
dade", ao usar o recurso do diário. Não compreendo por que só ao duza um incômodo revelar da paralisia ATIVA, da ÉTICA cotidi-
usar esse recurso?! Ao que observo, a economia moderna não se ana. Ambos são poesia, mas ... só podemos observá-los mediante
contenta em explorar apenas a "objetividade" de homens e um- o EFEITO que produzem. A restituição, mesmo integrada a um
lheres (a sua força de trabalho, como bem disse Marx), mas arqui- conjunto de referências poéticas, deve constituir instrumentos para
88 QUARTO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 89

novas reflexões (práticas). Esse é o objetivo. E o quanto da ética é


sobretudo estética? Não sei responder.

Pergunta: A relação transferencial-pedagógica é levada em UNIVERSALIDADE (unidade positiva) – INSTITUÍDO


consideração ao se produzir (ou induzir a produção de) um
diário?
PARTICULARIDADE (negação simples) – INSTITUINTE
Lourau: Sim, especialmente devido ao gênero direto de
restituição que equivale a inúmeras cartas de amor. O trabalho da
transferência pedagógica exclui quaisquer possibilidades de
neutralidade na confecção e divulgação dos diários. Todas as SINGULARIDADE(Segunda negação, – INSTITUCIONALIZAÇÃO
técnicas modificam a relação social, e a do diário, quando não é unidade negativa)
meramente a exercício de um estado narcísico, produz Inicialmente, podem perceber que a dialética compreende
naturalmente efeitos modificadores da relação aluno-professor. três "etapas", não podendo ser descrita, ou adequadamenre
Alguns efeitos libidinais podem ser extremamente produtivos, representada, sobre as duas dimensões da lousa. Essa dificuldade
tanto na transformação dessa relação quanto no que se refere ao assemelha-se a dos mapas. Estes distorcem a realidade, visto que a
trabalho de pesquisa; outros bloqueiam provisória ou projeção da esfera sobre o plano não comporta todos os detalhes
definitivamente os espaços colaborativos (ou produtivos). O diário da mesma. As ciências de um modo geral vão falar de uma
não é neutro, nem política nem afetivamente. Talvez isso a torne oposição entre os "momentos" universal e particular. Essa
ainda uma curiosidade. Falo a partir de meu ponto de vista que, oposição, no entanto, faz parte da lógica identitária e recusa a
talvez, possa ser um pouco perverso. contradição Quanto a mim, interesso-me sobremaneira pelo
Acabaram as questões? Bem, eu tinha previsto, de uma terceiro momento: o da singularidade.
maneira bastante ambiciosa, falar da relação entre a Análise Em Análise Institucional, estabelecemos uma conexão
Institucional e outros campos de saber. Fiz algumas poucas direta entre esses momentos e o processo de institucionalização.
alusões à relação com a Psicologia Social, a Sociologia de Campo, Hegel, inclusive, já fizera tal proposição em seu último livro, A
a Psicanálise e o Marxismo. No que tange à Filosofia, terei de me Filosofia do Direito. Naturalmente, não com o mesmo
restringir à dialética hegeliana. Escrevi ao quadro-negro esse vocabulário da Análise Institucional. Apesar de estarmos muito
pequeno diagrama para orientar os que desconhecem tal teoria. próximos no tocante à teoria da instituição, temos também com
Peço desculpas por meu esquema quase caricatural, mas o esse autor fortes divergências. No jogo dialético dos três
objetivo é, simplesmente, convidá-los a estudar Hegel. momentos, Hegel termina por privilegiar o primeiro, e o condena
a uma "metafísica do Espírito Absoluto". Como bem salientou
Marx, suas convicções eram idealistas, e ele pensava serem as
idéias o motor da história.
90 QUARTO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 91

Talvez devamos a uma ironia histórica a nossa aproximação tão, Hegel, mesmo sendo religioso - e, talvez, até por isso -, sabia
com Hegel. Aplicando suas idéias à Sociologia, Hegel identificou não haver paraíso na terra. A imutabilidade das condições da
o Estado vigente à época na Prússia à universalidade do Estado. existência contida na representação de "paraíso" (perfeito, eterno,
Marx, seu jovem discípulo, escreveu suas primeiras obras como tranqüilo, feliz, atemporal, divino, infinito ... ) não condiz com o
crítica ao ex-mestre e à sua idéia de Estado. Devemos muito a essa "mundo dos homens". Hegel reconhecia que tínhamos história
crítica, que nos aproxima e afasta do velho filósofo. (começo/fim = tempo) e a entendia como sendo a história da
Voltando: o esquema de instituição reproduzido ao quadro contradição permanente que produz História. Essas contradições,
corresponde ao hegeliano. O instituído é o que se impõe como produzindo história, produzem a sociedade e as formas sociais que
uma verdade não produzida. Corresponde à idéia de Hegel denomina - e nós também - instituição. Essas formas, de
universalidade e é, como tal, aparentemente abstraída de modo contrário à visão oficial, não são nunca coisas positivas, não
concretude material (não tendo, em Hegel, necessidade dos têm uma unidade positiva. Ligamos o momento da universalidade
homens para existir). O instituinte, nós a correspondemos ao ao da ideologia e só encontramos essa "positividade" nos
momento hegeliano da particularidade. É neste que o filósofo discursos de governantes (quando falam em Hospital, Escola,
reconhece a existência do humano (vindo negar - sendo partícula Nação ... ).
que se diferencia de si e do todo - a bela positividade do Hegel nos ensina que o terceiro momento nega o segundo;
universal). É a primeira negação ou negação simples; a relação então, trata-se de uma segunda negação e esta corresponde a uma
humana obstaculizando o "paraíso" essência da universalidade. "ação de síntese"; ou seja, o particular e o universal "reagrupados"
Prestem atenção: o particular não se opõe simplesmente ao criam as formas sociais. Na Análise Institucional derivamos que o
universal (isso x aquilo); o particular NEGA o universal. segundo momento hegeliano pode ser apropriado na idéia de
O terceiro momento conecta os dois primeiros e, podemos imaginário social e assim o fazemos. As formas sociais têm
dizer, é um produto transformado dessa (e por essa) primeira necessidade desse "cimento" (universal mesclando particular e
contradição. Ou seja, não estamos lidando com recorte fotográfico vice-versa) para se constituir, o que nos permite, utilizando o
estático, parado -, mas com cinema - movimento constante de esquema dialético, pensar o processo de institucionalização como
cores, formas, sons ... Movimento e constância interagindo ... uma operação totalmente contraditória e, conseqüentemente,
Movimento na constância; constância, no movimento. Não existe, observando o social como história, desconsiderar como justa ou
face a face, dois guerreiros, o Instituído e o Instituinte, parados, eternamente válida qualquer instituição,
prontos a "atacar". Tudo é movimento. Dialeticamente, a Enquanto intelectuais, a nossa implicação nessas
contradição produz movimento e este produz história. contradi-ções é, sem dúvida, diversa da dos pesquisadores
Falei em "paraíso", ainda agora. O paraíso se assemelha a anteriores a Marx e Freud. Radicalizando, diria que
um mundo sem história, não é? Um mundo sem instituição. En- posterior às Guerras Mundiais e, mais precisamente,
a partir de Hiroshima e Nagasaki, é necessário
ser louco (ou canalha) para identificar ciência e neutralidade
92 QUARTO ENCONTRO

(idéia de ciência enquanto positiva e universal). Hiroshima - assim


como a descolonização - permitiu fazer surgir a idéia de
implicação no meio científico.
No referente à revolução epistemológica da Antropologia,
compreendemos não somente que a ciência estava identificada
com o colonialismo - suas condições de possibilidade vinculadas a
QUINTO ENCONTRO
uma condição de poder -, mas que o neo-colonialismo pode ser
tão, ou mais, pérfido quanto o "antigo", e que não podemos nos (30.04.93)
contentar em fazer a crítica ideológica da ciência e continuar
"funcionando", concretamente, como no século XIX.
Infelizmente, isto ainda é feito por 90% dos cientistas de esquerda:
críticas acadêmico-políticas da ciência enquanto ideologia
"burguesa", "opressão" e "marginalização", aliadas a uma prática
perpetuadora dos mecanismos que tornam a ciência um saber
"burguês, opressor e marginalizante". Não me refiro a
pesquisadores da direita, porque, para estes, teoria e prática serem
diferentes e, mesmo, antagônicas, é absolutamente normal. Se
realmente compreendermos que a análise da implicação do
pesquisador deva estar no âmago da pesquisa, talvez isso possa
levar à produção de um novo tipo de intelectual, ao qual a
pergunta se referia. Penso ser isso o que podem fazer os
intelectuais: interessar-se apaixonadamente pela contradição, ao
invés de "levar ao povo" a verdade universal.
ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 95

Hoje é a nossa última reunião. E isso me deixa um pouco


triste. Conforme previsto no programa, dedicaremos a primeira
parte da reunião à exposição de uma pesquisa local. Sonia
Pelegrini vai expor brevemente o trabalho que faz e todos o
poderemos discutir.
Na segunda parte, tentarei rapidamente concluir esse
conjunto de aulas que hoje se encerra. Passo a palavra a Sonia.

Sonia:

Boa noite. Superada a inibição inicial, e tendo de lidar com


a dificuldade do idioma, creio que conseguimos nos sair muito
bem. Retorno desse encontro, em nome dos colegas de mestrado,
bastante fortalecida no direcionamento de meu trabalho. Peço
desculpas por eventuais omissões, equívocos, inclusive a nível
teórico, e desejo a intervenção do Professor Lourau, Heliana e
demais participantes desse auditório, porque esse é um trabalho
em construção. Estamos aprendendo a trabalhar com a pesquisa-
ação na instituição, pois é por onde nós, psicólogos do município
do Rio de Janeiro, temos transitado ao longo desses vinte anos de
prática.
96 QUINTO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 97

Gostaria de fazer um ligeiro histórico. Ontem, em meu conhecendo a dialética entre aquele que ensina e aquele que
relato, destaquei o contexto da pesquisa, e o professor observou aprende.
estar amplo demais. Tive dificuldades em perceber que mal Essa ação, com grupos de educadores do município do Rio
passara um recorte da pesquisa, dada minha ansiedade. Hoje de Janeiro, trabalha no sentido de buscar a emergência de forças
pudemos discutir melhor as questões específicas do trabalho. instituintes, dentre estas, uma outra forma de pensar as relações de
Ontem, falei do contexto; hoje, tento dar conta daquilo que poder entre alunos e professores. Isso faz parte, a meu ver, de uma
imagino possa ser o texto. O que vem apontar para o instituído. proposta de democratização das relações de saber na escola. Nossa
Esse texro foi construído num encontro com educadores, para um pesquisa busca interrogar no grupo, através de encontros de
novo passo institucional na instituição educativa. discussão da prática pedagógica, quais instituições estão em jogo
Nossa pesquisa-ação vem perseguir a produção de um na dialética instituinte/instituído quando se trabalha com uma
intertexto nos espaços de intervenção - o que entendemos por categoria denominada alunos-com-dificuldade-de-aprendizagem.
transversalidade. Tomamos, como sujeito da nossa pesquisa atual, professores
(Gestos de incompreensão e murmúrios contínuos alfabetizadores. A pesquisa surgiu da necessidade de ver, na
percorrem o auditório. A mesa se entreolha, e percebe-se a escola, as contradições levantadas a partir de dados colhidos no
necessidade de esclarecimentos ao público presente). decorrer de um projeto da Secretaria Municipal de Educação em
1992. Este buscava sinalizar as contradições da instituição
Coordenadora: educativa, apontando falhas no sistema oficial e delegando ao
professor a responsabilidade máxima pelo resgate do aluno. O
Deixe-me explicar; há pessoas que não estão entendendo. A recorte de nossa pesquisa vem privilegiar, então, o grupo de
Sonia teve dois contatos com o professor René Lourau, ontem e professores trabalhado através desse projeto.
hoje, e expôs o seu projeto de pesquisa no mestrado de Psicologia Aqui, acho que deveria falar um pouco de como foi a minha
e Práticas Sócio-Culturais. Então, ela fará a vocês um relato entrada no projeto. Surgiu, por parte de um grupo de professores -
similar ao que fez a ele; ou seja, um pouco do "texto" e do responsáveis pela alfabetização de crianças com mais de dez anos
"contexto" de sua investigação, e depois discutiremos, a partir de de idade e, ainda, na primeira série -, a encomenda de encontros
um referencial de pesquisa institucional, produzindo contribuições semanais com um elemento da Psicologia. Esses professores já se
e comentários à pesquisa. reuniam e coordenavam um grupo semanal de reflexão sobre as
questões relativas à Educação. O projeto pertencia à Secretaria
Sonia: Municipal de Educação, vigiria apenas no ano de 1992, e contava
com a colaboração de profissionais da UNI-RlO na con-
O que está instituído? Enquanto psicólogos, a tendência a
denominar uma relação social como nível intersubjetivo, des-
98 QUINTO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 99

fecção de documentos teóricos. O objetivo era analisar a passado e não nos permitiu dar continuidade, esse ano, a uma
dificuldade de alfabetizar "alunos-problema". A proposta foi, a proposta de bloco único em alfabetização.
princípio, trabalhar temas como agressividade, sexualidade, e A minha pesquisa é uma tentativa de proceder a uma
textos construtivistas (Piaget, Emília Ferreiro) e sócio- reflexão crítica sobre a produção do saber, a partir de um projeto
interacionistas (Vigotski). deflagrado pelo sistema oficial, tentando investigar como se
Desenvolvi, enquanto psicóloga de uma equipe inter- produz o pensamento de professores e alunos das classes
profissional de um DEC (Distrito Educacional de Cultura), estigmatizadas de alfabetização da rede pública.
discussões sobre a qualidade da escola pública com a Creio ser um dado relevante, na análise de minhas
representatividade dos diversos grupos que compõem a implicações, o fato de eu ter vindo de um percurso na área de
instituição: pais, alunos, funcionários, professores, direção ... educação - como ex-professora primária e alfabetizadora. Os
Todas as questões giravam em torno da temática cidadania e dados contratransferenciais estão, é claro, permanentemente em
gestão democrática na escola pública. Os eixos de discussão eram jogo nessa investigação sobre o saber-poder.
propostos pela Secretaria Municipal de Educação. O DEC é o E esse percurso me remete ao imaginário do professor e à
intermediário entre o nível de onde emanam todas as propostas sua figura, com questionamentos múltiplos: como a escola pensa a
educacionais e as escolas. produção do fracasso escolar? A partir de quais indicadores a
Esse processo foi iniciado em maio do ano passado. Houve escola pensa os sujeitos desse fracasso? Esses sujeitos-educadores,
uma semana de alfabetização capitaneada pelo DEC em junho, alfabetizadores, produzem um pensar na escola e são produzidos
com várias propostas de trabalho incluindo oficinas da palavra, de por ela; como, então, se auto-representam? Como trabalhar o dado
produção de texto infantil, de arte, expressão, etc ... Com a subjetivo da relação professor/aluno independentemente das
emergência de conselhos de classe dando aprovação a um grande condições concretas? Essas e muitas outras perguntas ecoam em
número de crianças do projeto, este foi oficialmente concluído em minha mente e tento passá-las para o papel, para o grupo, para
dezembro. vocês ... Para que possamos avançar na construção de uma escola
A avaliação de desempenho do aluno se constituiu em democrática. Obrigada.
analisador da relação professor-aluno. Levantamos questões sobre
o imaginário escolar a partir do grupo de professores e de suas Lourau: É importante agradecer a Sonia essa restituição.
crenças quanto ao processo de desenvolvimento do aluno. Em vá- Restituição que não é obrigatória do ponto de vista da instituição
rios casos, a representação social acerca dos alunos incluía "falta universitária.
de prontidão", "maturidade", "falta de estimulação ambiental" ...
Pensava em construir com esses professores e alunos um novo Se tiverem perguntas, é importante fazê-las.
projeto e ter uma permanência mais sistemática ao longo de 1993. Talvez uma pergunta bastante geral
No entanto, a Secretaria Municipal congelou a proposta do ano pudesse suscitar perguntas particulares. Será
100 QUINTO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 101

que compreendemos, realmente, o que Sonia faz em sua pesquisa? Concretamente, havia encontros com professores
(Faz-se um imenso silêncio. Aguarda-se qualquer mínima semanalmente. Dois professores alfabetizadores coordenavam o
resposta, e nada.) Imagino que todos compreenderam bastante; grupo comigo e a orientação teórica provinha da análise de
isto é perfeito!... documentos emanados da UNI-RlO.
Esse grupo de professores iniciou seus contatos comigo,
Coordenadora: muitíssimo contido, com expectativas de psicologização (coisas
como: desenvolvimento psicológico infantil, agressividade,
Eu não compreendi. Sonia, parece-me claro o seu objetivo, sexualidade ... ). Mas essa relação foi se transformando e
mas o que é efetivamente realizado como trabalho cotidiano, isto começamos a construir a nova sob o signo do lúdico, do prazer. O
não ficou muito claro para mim. grupo levava violão, trazia convidados, aprendia outras práticas ...
Um dia, contactou-se um artesão popular, do viaduto do Méier, e
Sonia: esse elemento semialfabetizado, por uma tarde, foi o professor do
grupo de professores utilizando as mesmíssimas técnicas de
Penso que o meu trabalho corno psicóloga vem referendado disciplinarização. Ele pegava garrafas de refrigerante e fazia esses
nessa busca de transformação nos espaços instituídos da escola automóveis que vemos na via pública; pelo Natal, construía
pública. Por isso, venho trabalhando através da análise de árvores. E todos quietinhos, comportados, acompanhavam seus
discurso, da produção de encontros grupais que afirmem movimentos. Foram quatro horas para montar um carro. O registro
estratégias para um coletivo-sujeito, utilizando um referencial das expressões dos professores é algo indescritível: estavam
teórico múltiplo (até, eminentemente não psi) e acreditando na contritos e viviam, no lugar de alunos, a situação de sala de aula.
possibilidade da transformação. E obedeciam.
Trabalhar a nível institucional requer uma certa onipotência Esse grupo foi fazendo um novo percurso. Um dia, um
e, quando não conseguimos voltar no dia seguinte, é muito duro. levava o violão: no outro, recitava-se Cecília Meirelles ...
Isso é um depoimento muito pessoal. Mas afirmar a possibilidade Dramatizando as cenas da sala de aula conseguimos construir um
de os atores da cena institucional-escolar refletirem sobre a sua outro cotidiano que, acho, muitos de nós não acreditavam ser
ação pedagógica, as relações poder/saber instituídas no cotidiano possível para esses professores.
da sala de aula, do DEC, junto à comunidade é também Analisávamos também cartas de alunos aos professores.
necessário. Acredito que, trabalhando com as representatividades, Cito, particularmente, em meu trabalho de mestrado, a de urna
sempre tentando afirmar diferentes saberes, a gente consiga ter aluna que insistentemente pergunta à tia se vai passar de ano.
urna ação político-pedagógica que aponte para urna "Tia, eu acho que eu vou passar de ano, mas eu tenho um
democratização das relações Sociedade-Escola. Não sei se sonho, esse sonho é não repetir o ano. Ô Tia, eu queria tanto
respondi a contento, mas é isso aí. passar de ano. Porque se eu não passar de ano (isso aparece "n"
102 QUINTO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 103

vezes) eu vou para o colégio interno. Ô Tia, como eu não queria ir ser o psicólogo chamado para intervir em situações aparentemente
para o colégio interno”. não-clínicas. (A coordenadora jocosamente reafirma a
Comentei com o grupo, em nosso encontro, que algumas interrogação, manifestando uma maliciosa surpresa.) Ele é
dessas produções seriam levadas para uma disciplina junto à chamado?! Por que ele é chamado?! (Risos da platéia).
professora Circe, onde tentaríamos fazer uma análise da escola via
produção poética desses alunos que, segundo o preconceito geral, Sonia:
nada têm a acrescentar ao universo da instituição educativa.
Depois, retornei ao grupo aquilo que foi comentado na cadeira da Mais uma vez, vou tentar. Essa produção do fracasso
professora Circe. Bem, é isso ... escolar é alguma coisa eternizada pela instituição educativa. Não
apareceu agora, depois que os psicólogos passaram a atuar;
Coordenadora: sempre aconteceu.
Desde a década de 30, essa questão é muito complicada. O
Há algumas perguntas. Talvez fosse bom ler a pergunta, aluno chamado de "fracasso escolar" - fenômeno estudado por
passá-la a Tereza Cristina e, enquanto a Sonia fala, fazer uma Maria Helena Souza Patto, Magda Beck... - pode ser visto como
tradução simultânea para ele. Há inclusive duas que, talvez, "resistente" à aprendizagem e servir, sem sombra de dúvida, como
possamos juntar. analisador (incluso, instituinte) da prática pedagógica vigente.
Agora, por que o psicólogo do estado é chamado a intervir,
Pergunta: Não poderia ser visto como manifestação de é uma questão que necessitaria de análises exaustivas. Falei que
subjetividade e ação instituinte desses sujeitos - os alunos sou ex-professora primaria, porém, devido mais à minha formação
fracassados - o seu próprio fracasso enquanto analisador da psi, fui aproveitada pelo sistema. Essa é a verdade.
contradição do sistema educacional vigente? Caso afirmativo, há A partir de 1979, existe um outro grupo de psicólogos
a preocupação de restituição a esses alunos? entrando concursado para o serviço público; mas, isso já é uma
outra história.
Pergunta: Por que, na escola pública, o psicólogo do
estado é chamado a intervir nessa situação específica que nos foi Lourau: Gostaria de falar alguma coisa sobre a primeira
exposta? questão, a do fracasso escolar. Pergunto-me se a sociologia ou a
psicologia da educação não sofrem de falta de imaginação quando
Coordenadora: estudam problemas vinculados a essa temática. Concordo em des-
tinar o fracasso ao próprio sistema, mas não vejo em que isso pos-
Uma pergunta se refere ao próprio fracasso escolar enquanto sa fazer avançar a pesquisa e, sobretudo, a ação. Isso é uma lógica,
analisador das contradições; a outra, deseja saber o porquê de
104 QUINTO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 105

um pouco cansada, da oposição entre o universal e o particular, da Uma noção que propõe um interessante caminho à análise
qual falamos ontem. dessa problemática é a de desafiliação. A impossibilidade de ter
Penso que devemos avançar um pouco mais na análise dos um mínimo de filiação com a instituição educativa, investindo-a
"fracassos” escolares. A criança considerada "normal" tem mais, afetiva mente e crendo em seu caráter necessário, não tem
ou menos, sucesso na escola, sempre existindo um grau de qualquer vinculação físico-mental (inteligência retardada ou
fracasso relativo que não coloca em perigo o seu futuro. Por que? distúrbios psicomotores, por exemplo) ou sócio-econômica.
Porque a criança e sua família inrernalizararn, um mínimo que Existem graus diferentes de penetração e difusão dos saberes
seja, as normas necessárias à instituição da Educação. Isso não escolares por regiões e camadas sociais, é inegável. Mas, mesmo
tem qualquer relação com a capacidade vinculada à teoria de assim, muitas pessoas oriundas de espaços onde a difusão não-
Piaget ou a demais teorias. Piaget nada tem a ver com o problema. uniforme dos saberes oficiais é severa, aprendem a interiorizar,
Poderíamos dizer-lhe: SAIA! perfeitamente, os valores e crenças veiculados pelo
Tomemos o caso da população estudada por Sonia. estabelecimento escolar. Creio que deveríamos esmiuçar a questão
Contrariando, provavelmente, as expectativas de muitos sobre as da identificação, ou falta de, em relação à instituição educativa,
razões econômico-familiares para o "fracasso" - ou mesmo a tendo sempre em mente o colocar em xeque a universalidade
alegada oferta pequena de escolas, em diversos países -, vemos positiva dessa instituição. Se essa um dia existiu, não existe mais.
que a proporção de crianças iletradas, atualmente, é
assustadoramente grande em inúmeros cantos do mundo (inclusive Pergunta: Os alunos fracassados, enquanto analisador,
Paris - onde todas as crianças vão à escola e existe a fantasia da revelam os furos do sistema educacional ou desvelam a eficácia
erradicação, efetivada, do analfabetismo por essa via - e demais de uma prática de retenção, enclausuramento, vigilância e
cidades francesas). Esse fenômeno, tratado como uma espécie de controle dessa população de alunos?
"patologia" (individual ou social), atinge uma variedade enorme
de crianças que estão sendo normalmente escolarizadas. Quem Sonia:
sabe, a questão não esteja no advérbio, NORMALMENTE.
Se destituirmos tal fenômeno das categorias de fracasso e de Acho perfeita essa análise. Gostaria de retomar a outra
sucesso, talvez encontremos nos "alunos-fracassados" uma ausên- questão, já que com esta não há qualquer discordância de minha
cia de vínculos transferenciais para com a instituição educati- parte. "Por que, na escola pública, o psicólogo do estado é
va. É importante estudarmos as condições dos vínculos entre chamado a intervir nessa situação específica que nos foi exposta?"
crianças, pais e escola, e evitar, o melhor possível, a infértil A inserção do psicólogo no sistema oficial de ensino é
oposição entre conjunto familiar e sistema, ambos vistos como produto de uma demanda que não é produzida somente dentro da
mera abstração. escola pública. No entanto, é necessário acrescentar que os cursos
106 QUINTO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 107

de formação de professores estimulam, e muito, uma visão Quando o objeto de trabalho refere-se aos conceitos da
psicologizante dos problemas da Educação. Não raro, os socioanálise recebo questões sobre Gramsci ou alienação. Sonia
alfabetizadores compreendem a não-alfabetização como uma tenta, corajosamente, falar de seu trabalho como pesquisadora, e
questão de saúde e loucura (saúde x doença). A fantasia vigente é vocês a consideram como uma jornalista ou especialista em
a de que a saúde mental dessas crianças não permite a problemas de educação, e tratam destes com o distanciamento
alfabetização. E saúde mental é uma questão psi. Compete aos midiático cotidiano, objetivando Sonia como origem das
psicólogos desconstruírem essa e muitas outras imagens (inclusive informações, sem qualquer interesse pelo trabalho que, enquanto
as relativas às "divisões" escolar, clínico, industrial). pesquisadora, realiza. Contudo, existem raríssimas ocasiões para
apreender concretamente o que é uma pesquisa, enquanto debates
Pergunta: Gostaria de saber, tanto da pesquisadora quanto gerais sobre o sistema de educação, ou a sociedade, existem
do professor Lourau, qual a avaliação sobre o instituído da milhares.
aprovação automática no primeiro grau das escolas públicas, Parece-me muito mais do que uma simples "resistência"; é
suas implicações sócio-políticas e seu possível comprometimento um desvio nos dispositivos. Análoga à cena da censura burguesa
com a perpetuação de uma situação de alienação social? relativa aos "pudores", parece que temos necessidade de desviar
algumas emoções vinculadas ao processo "íntimo" da pesquisa.
Sonia: Diria que estes tomam uma espécie de cunho obceno e, de repente,
estamos conversando numa sala de visitas e desviamos a conversa,
Apesar da aprovação automática ser uma experiência já pois coisas muito "eróticas" ameaçam incidir sobre nossas
tentada, em São Paulo, com efeitos ainda duvidosos e estarmos em cabeças. O modo de desvio mais comum parece ser o retorno à via
um ano eleitoral por excelência - o que põe em dúvida qualquer bastante conhecida da universalidade, das idéias gerais.
proposta repentina -, creio que é cedo para responder afirmativa Talvez o exibicionismo daquele que fala e o voyeurisrno
ou negativamente a essa pergunta. daquele que ouve tornem impudico, lascivo, o interesse por dados
experienciais contidos em pesquisas. Talvez o ambiente de um
Lourau: Gostaria de fazer algumas observações sobre o anfiteatro não nos anime a formular questões ligadas à experiência
funcionamento que estamos vivendo agora, no presente momento. concreta ... É realmente muito difícil analisar as razões desse
Em outras ocasiões, já tive oportunidade de fazer essas aparente “desinteresse”. Se forem “recatos”, me desculpem, mas
mesmas observações sobre um fenômeno que não é particular aos pretendo assumir o voyeurismo que acabei de invocar. Sinto,
estudantes brasileiros e que sempre me surpreende com meus apenas, falta de outros “perversos”, outros voyeurs, entre nós.
estudantes em Paris. É enfurecedor, visto que ainda não o Uma restituição da pesquisa pode responder a certo número
consegui analisar. de questões bastante simples, mas imprescindíveis à compreensão
da mesma e do ato de pesquisar.
108 QUINTO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 109

As perguntas podem ser: "Qual a sua bibliografia? Tem Antes de concluir, gostaria de dizer algumas palavras sobre
problemas para ir a bibliotecas especializadas' Deseja uma pesquisas que estão acontecendo, no doutorado em Ciências da
autorização para ir à Biblioteca Nacional? Quer ir a minha casa Educação, em Paris VIII. Foi nesta universidade que a Análise
tomar emprestado aquele livro esgotado? Como pensa reunir a Institucional primeiro se institucionalizou. Depois, outras também
documentação necessária? Tem intenção de fazer entrevistas? Em incorporaram essa corrente aos saberes já oficializados.
função da população, qual tipo pretende: semi-diretivas ou Entre os institucionalistas de Paris VIII existem direções
diretivas; individuais ou grupais? Com quem você pensa fazê-Ias? variadas de pesquisa, mesmo se a metodologia é comum. Alguns
Qual o momento delas em sua pesquisa? Se as entrevistas já se interessam pela institucionalização das ciências sociais
ocorreram, como foi escolhida a população? Quantas pessoas aplicando, por exemplo, a Análise Institucional à história das
aceitaram participar e quantas se recusaram a ser entrevistadas? ciências, em especial à constituição da Sociologia. Acerca disso,
Onde aconteceram as entrevistas: no esrabelecimento pesquisado quero enfatizar que a maioria dos pesquisadores de Paris VIII tem
ou fora deste? Quantos dias levou o trabalho de campo? Quais as uma formação sociológica - característica diversa da observada na
dificuldades para realizá-lo? E uma coisa que freqüentemente América Latina, e particularmente no Brasil, quanto aos
acontece: por que foi impossível fazer entrevistas num praticantes da Análise Institucional, É claro que existem
determinado campo? Sua investigação trouxe problemas às psicólogos e psicanalistas na Análise Institucional francesa,
pessoas no que tange a seus próprios horários e obrigações? Se porém, estes estão junto aos sociólogos, basicamente como
utilizou a observação participante, como a fez?" Tomando o esposas e companheiras interessadas em pesquisa. Há muito
exemplo de Sonia: Sonia, por que você não fez observação refletimos sobre essa característica de nossa corrente.
participante? Isso se deveu a obstáculos externos ou você a Reproduzimos, sem dúvida, uma divisão do trabalho entre
considerava como uma técnica pouco eficaz quanto a seus Sociologia (possuidora de um caráter masculino) e Psicologia
objetivos? Se a resposta referir-se à primeira parte de nossa (feminino). Isso é bizarro!
pergunta, então continuamos o inquérito com: "Quais obstáculos? As pesquisadoras têm formado, atualmente, um grupo de
Eram incontornáveis? Foram considerados em sua análise?", etc. pesquisa sobre a primeira infância e as novas técnicas de
Se disser respeito à segunda, então: "Por que? Quais eram seus procriação. Trabalham neste, além dos psis, médicos e biólogos
objetivos? Qual técnica foi valorizada para atingi-los? Por que?", (inclusive um dos inventores do bebê de proveta).
etc ... Um outro grupo, formado por pesquisadores que praticam
De um modo geral, centrar o "voyeurismo" sobre a regularmente a Análise Institucional em uma central nuclear
efetivação de um dispositivo de estudo (ou seja, sobre as reais francesa, se interessa pelo aspecto técnico da Socioanálise.
condições da pesquisa), nos permitirá sempre avaliar de uma Na periferia de nosso grupo, o "grupo-laboratório", se o
maneira crítica os resultados obtidos. Poderíamos ficar nessa podemos chamar assim, inclui pessoas como René Barbier e se
"produção-de-curiosidade-sobre-a-pesquisa-alheia" por horas; no interessa, sobretudo, pelo problema do imaginário social. Há tam-
entanto, a premência do tempo não nos permitirá isso.
110 QUINTO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 111

bém, próximo a nós, um pesquisador especialmente interessado cias). Não devíamos apreender a teoria como aprendemos
pela multi-referencialidade e que tem influído muito na formação catecismo. A pesquisa é uma criação permanente: consiste em
de doutores em Ciências da Educação. interrogar conceitos, criticá-los e nunca meramente aplicar nossa
Colaboramos, ainda, com um grupo de etnólogos que se teoria, de um modo meio mágico, fazendo uma espécie de
interrogam sobre o texto etnológico. É uma pesquisa bem encantação através da repetição mecânica das mesmas palavras.
conceituada, tanto nos Estados Unidos quanto na França, e se Pode dar certo no universo da fé, mas a pesquisa necessita de
refere à técnica do diário de pesquisa como instrumento de dúvidas e não de certezas prévias.
questionamento à instituição científica, após a descolonização. Já mencionei que não é o fato de dizermos instituição,
Então, como vêem, não nos restringimos só a questões instituição, instituição ... que nos faz produzir, ou não, uma
específicas da Sociologia ou da Educação, mas nos vinculamos a análise institucional. Podemos fazê-la, sem jamais usar o termo
problemáticas que existem no campo mais amplo das ciências instituição. Então, a criatividade (imaginação), como atitude face à
humanas e sociais. pesquisa, é ainda o melhor método. No que se refere aos demais
No momento, particularmente, tenho centralizado meus métodos, aos já prontos, creio que devemos sempre desconfiar.
interesses sobre a imaginação socioanalítica e espero escrever, em Um sociólogo afirmou certa vez que o método era, antes de tudo,
breve, um livro com esse título. Poderemos pô-lo ao lado destes uma força social destinada a manter a coesão em um grupo. Se nos
que escrevi à lousa: o livro de Jay sobre a imaginação dialética - contentamos em aplicá-lo simplesmente, bem rápido a teoria por
na realidade, sobre a Escola de Frankfurt (Adorno, Horckeimer trás do método torna-se um cadáver.
etc) -; o do sociólogo americano Mills, já traduzido em português, Há pouco, falei de perguntas sobre o "caminho" de nossas
sobre a imaginação sociológica e, nas ciências exatas, o de Holton pesquisas. No entanto, devemos também prestar atenção à
sobre a imaginação científica8. formulação dos objetivos da mesma. Muitas vezes, o pesquisador
Por que tanta publicidade sobre a imaginação? Isso, de mi- tem dificuldades em dizer o que realmente faz, e prefere falar
nha parte, é uma tentativa para opor forças à tendência - existente sobre o que tem intenção de fazer; ou seja, sobre os seus
também em nossa corrente - de considerar a Análise Institucional "objetivos gerais". Os "objetivos gerais" de uma pesquisa não nos
uma teoria que se aplica sobre uma realidade ou campo. Conside- ensinam nada sobre a pesquisa. Trata-se de "boas intenções"
ro essa premissa falsa, mesmo para as demais disciplinas (ou ciên- expressas em "vocabulário científico". Quando muito, o
pesquisador constrói um tipo de explanação que tem por intuito
eliminar os aspectos contraditórios de sua investigação, dando
uma imagem completamente falsificada ao processo.
Concordo com o grande místico árabe do século XIX, quan-
do escreveu: "Aquilo que procuramos nunca está no lugar onde o
8
JAY, M. Tbe dialetical imagination. Londres. Heinemann. 1973;
MILLS, c. W The sociological imagination. Londres, Oxford Univcrsity
Prcss, 1970; HOLTON, G. L'imagination scientifique. Paris, Gallimard,
1981
112 QUINTO ENCONTRO ANÁLISE INSTITUCIONAL E PRÁTICAS DE PESQUISA 113

procuramos". Seu contexto era a pesquisa mística, mas tal conceito de implicação não é um simples sinônimo de conceitos
pensamento pode, e deve, ser aplicado a toda e qualquer espécie preexistentes em Psicologia ou ciência política; caso o fosse, seria
de pesquisa. Recorrendo, ainda, a um outro exemplo - o do relativamente inútil utilizá-lo numa teoria institucional,
navegador que, acreditando estar descobrindo o Japão ou a China, principalmente sem indicar sua origem teórico-social.
descobriu a América -, eu diria que em toda pesquisa há uma Fora esse adendo sobre o conceito de implicação, gostaria
"síndrome de Cristóvão Colombo". de salientar que, acreditando na autocriação permanente, tanto do
Pensando em quantas vezes essa “síndrome” acontece, social quanto das teorias sobre este, a experiência de nossa
formulei uma teoria dos atos falhos da pesquisa9. Mais imaginação, em referência ao pesquisar, faz (ou não) surgir a
precisamente até, da pesquisa como uma contínua produção de urgência - a necessidade - de certos conceitos, e não o inverso.
atos falhos. É sobre isso meu próximo livro, a ser lançado em As críticas à multi-referencialidade da Análise Institucional
breve, na França. Nele examino, entre outros, os casos de Freud e podem ser também tomadas como sinal de que tentamos, com
Comte10. muitas dificuldades, construir um novo campo de coerência.
E vamos sempre terminar falando da implicação ... O que Espero que vocês possam nos ajudar hoje, e nos próximos anos ou
encontrei sem procurar - fazendo parte de meus atos falhos -, há decênios.
dez anos, foi a inseparabilidade entre nossas implicações enquanto Obrigado por terem sido tão gentis comigo.
pesquisadores e a institucionalização da pesquisa.
A pesquisa, é óbvio, participa da institucionalização de uma Coordenadora:
certa ordem social, mas sendo a institucionalização um processo -
e não mera reprodução mecânica - existem, ou coexistem nele, Em nome da Universidade, do Instituto de Psicologia, do
inúmeras estratégias que o "moldam" nesta ou naquela direção. E Departamento de Psicologia Social e Institucional e,
aí encontramos as nossas implicações-enquanto-pesquisadores. principalmente, dos que estiveram aqui durante esses dias,
Não somos objetos no interior de um modelo puramente abstrato, quero agradecer ao Professor René Lourau, e dizer a vocês,
mas homens (e livres!). É por esse motivo que a análise das restituindo um pouco do processo, que ele realmente teve muito
implicações tem, acredito, um conteúdo muito rico e se situa, trabalho essa semana, e foi muito gentil com as pessoas, tendo
claramente, no terceiro momento da dialética, sobre a qual falei enorme delicadeza em atender a todos os pedidos. Estamos
ontem. tentando fazer um convênio com Paris VIII e, se isso realmente
Mesmo arriscando passar por dogmático, me parece que o acontecer, creio que teremos possibilidades de vê-lo aqui
novamente para, talvez, fazer programações um pouco mais
calmas, nas quais possamos sentar para conversar,
tomar um vinho, ao invés de ficar todo o
tempo correndo atrás dos trabalhos. Agradeço
9
LOURAU, R. Les lapsus des intellectuels. Toulouse, Privat, 1981.
10
LOURAU, R. Actes manqués de la recherche. Paris, PUF, 1994.
114 QUINTO ENCONTRO

a ele em nome de todos.

Lourau: Quero agradecer ao Departamento de Psicologia


Social e Institucional que me convidou e, em particular, à Heliana
AGRADECIMENTOS
Conde, que graças a esse dispositivo-convite, descobriu dons de
empresária que todos ignoravam.

Ana Paula Jesus de Melo, que reviu e organizou carinhosa


e inteligentemente todo o texto, cuidando para que se mantivesse,
enquanto leitura, tão instigante e agradável quanto o foram nossos
cinco encontros do curso.
Andrea Luz Carvalho, Claudia Abbes, Neide Nóbrega e
Teresa Cristina Carreteiro, inestimáveis e corajosas "traidoras",
analistas em ato da instituição da linguagem.
Fernando Spreafico Braga, gentil companheiro, que
provi¬denciou com presteza e qualidade a sempre tão difícil
primeira transcrição.
NAPE/SR-3, especialmente Lúcia e Rô. Sem a primeira, o
palestrante não chegaria de Paris. Sem as duas, ninguém saberia
que chegou. E Marcelo Soares que encerrou, e "encerou", a
revisão com brilho.
Sonia Pelegrini, psicóloga e aluna do Curso de Mestrado em
Psicologia e Práticas Sócio-culturais da UERJ. Apresentando seu
projeto de pesquisa no último encontro, contribuiu para romper o
segredo a que costumam relegá-la os "lapsos dos intelectuais".
Pessoal do CTE, cuidadoso e atento na gravação.
Gráfica da UERJ, pela presteza na impressão dos folders.
Sonia Altoe, que sugeriu o convite ao Lourau e deu início ao NOTAS DE PÉ DE PÁGINA
"processo",
Todos os presentes, cujas indagações e análises fazem do
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texto algo mais do que simples "aulas".
1 - LOURAU, R. L'autodissolurion des avant-gardes. Paris,
Funcionários do Instituto de Psicologia, Regina em especial, Calilée. 1980.
que somaram a seu trabalho diário o cuidado com as inscrições e
______________________
certificados.
2 - LANGER., M. (comp.) Questionamos a Psicanálise e suas
René Lourau, "sociólogo em tempo integral".
instituições. Petrópolis, Vozes, 1973; LANGER, M. (cornp.)
Questionamos 2: Psicanálise institucional e psicanálise sem
instituição. B. Horizonte, lnterlivros, 1977.
______________________
3 - LOURAU, R. L'état inconscient. Paris, Minuit. 1978.
______________________
4 - LOURAU, R. Le journal de recherche. Paris, Méridiens
Klincksieck, 1988.
______________________
5 - MORIN, E. Journal d'un livre. Paris, lntcr Editions, 1981.
______________________
6- LEIRIS, M. L'Afrique fantôme. Paris, Gallimard, 1934.
______________________
7 - HESS, R. Le lycée au jour le jour. Paris, Méridiens
Klincksieck, 1989.
______________________
8 - JAY, M. . The dialetical imagination. Londres, Heinemann.
1973; MILLS, c. W The sociologícal imagination. Londres,
Oxford University Press, 1970; HOLTON, G. L'imagination
scientifique. Paris, Gallimard, 1981.
______________________
9 - LOURAU, R. Les lapsus des intellectuels. Toulouse, Privat,
1981.
______________________
10- LOURAU, R. Actes manqués de la recherche. Paris, PUF,
1994.
NOTAS DO TRADUTOR (para todo o texto)

A palavra sócio-análise e suas derivadas foram grafadas sem


hífen, a pedido da coordenadora da publicação, por considerá-la
de uso corrente no meio acadêmico.