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Espantalhos
Segunda edição

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Produção Editorial – Geraldo Magela
Diagramação – William Haack
Foto da Capa e Contracapa – Thiago Zanotti
Quadro da Capa e Contracapa- Luiz Zanotti
Arte Final – William Haack

©Copyright Luiz Zanotti


2002

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Espantalhos

Jeca Kerouac

Posfácio de Gilberto Gnoato

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Introdução

Eu encontrei casualmente o Jeca Kerouac numa


viagem que fiz pelo interior do Paraná, numa pequena
estrada secundária que dá acesso a Morretes.
O meu carro teve um problema com a parte
elétrica, parando vagarosamente na beira da estradinha,
liguei pelo meu telefone celular para a Companhia de
Seguro, sendo informado, depois de muita espera, que
eles só poderiam ir me socorrer dentro de
aproximadamente três horas.
Fiquei muito puto da cara, mas fui obrigado a me
consolar, o local era bem longe da cidade, não passavam
muitos carros por esta estrada e o sol do meio dia estava
de rachar.
Procurei então, me abrigar do sol debaixo de uma
araucária, de lá fiquei observando a beleza do pico
Marumbi, até que passados alguns minutos notei uma
casa não muito longe no pé de uma colina.
Tomei um gole de coragem e fui caminhando pela
estrada até a casa, lá chegando encontrei um velho calvo,
barba branca que com um sinal de mão me convidou para
entrar. Entrei pela porteira de madeira e me dirigi para a
varanda da casa, onde ele estava sentado, junto de uma
mocinha linda, morena de olhos verdes, que até hoje eu
não sei se é sua mulher ou sua filha.
Convidou-me para sentar, ao mesmo tempo em
que a mocinha pediu licença e se dirigiu na direção dos

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campos de milho, aonde pude notar a presença de vários
espantalhos que inibiam os pássaros de furtar as sementes
e de atacar as espigas.
Jeca, que na verdade é o apelido de José Carlos,
me ofereceu uma cuia de chimarrão, enquanto eu relatava
o meu infortúnio.Começamos a conversar sobre assuntos
variados, tendo ele me contado que já tinha corrido este
mundão de Deus, e que assim como eu apreciava uma
roda de violão e cachaça, hoje em dia era abstêmio, mas
já tinha bebido um volume de cachaça semelhante ao
volume do rio Nhundiaquara quando cheio. Este rio é
famoso nas redondezas por suas corredeiras em meio às
pedras, por onde a molecada costuma descer de bóia, no
famoso boiacross.
Ao saber que eu gostava de literatura foi buscar os
originais de uma estória ou historia, que segundo ele
tinha realmente acontecido.Entregou-me um caderno azul
bastante judiado pelo tempo.
Ele na sua maneira direta e franca pediu que eu
verificasse uma forma de poder divulgar a sua estória,
pois achava que as pessoas poderiam se tornar mais
benevolentes e pacientes, após a leitura da mesma.
Acrescentou ainda o pedido para que eu fizesse a
revisão ortográfica do mesmo, pois gramática não era um
de seus principais predicados, também fez questão de
frisar que ele não se incomodaria com mudanças que eu
achasse necessárias, podendo até mesmo reescrever o
conto, se assim eu desejasse.
Comecei a ler os originais escritos a mão, numa
caligrafia que apesar de simples mostrava um forte traço,

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quando notei passar o caminhão guincho que tinha vindo
me socorrer, fiz menção de devolver os papéis, ao que ele
me solicitou que os mantivesse comigo e na medida do
possível o publicasse.Tentei dizer que não era editor e
que, portanto não teria grandes chances de publica-
lo.Mas foi impossível convencê-lo, sai da sua casa
agradecendo a guarida, tendo em minhas mãos os
originais do conto “Espantalhos”.
O eletricista que veio no caminhão guincho
demorou uma eternidade para fazer os reparos
necessários no meu carro, de forma que quando o meu
carro ficou pronto para eu seguir viagem já era tarde da
noite e eu ao passar pela casa do velho Jeca vi tudo
apagado e fiquei sem coragem de incomodá-lo naquela
hora.
Cheguei na minha casa no meio da madrugada,
exausto pelo dia atribulado, e depois de um banho
reservado para os justos me enfiei na cama. A estória do
velhinho não me saia da cabeça, não consegui resistir ao
ímpeto de pegar os originais e lê-los, meu sono tinha se
esvaído.
O livro como agora vocês poderão notar foi
escrito por alguém que passou a vida procurando pela
liberdade, esconde uma estória ou história que achei
muito interessante pela imaginação, tendo ainda aqui e
acolá, algumas poesias relacionadas com os espantalhos.
Os poemas são bem interessantes e eu acabei
musicando-os nas minhas horas de folga junto com
alguns amigos, estas músicas deram origem a um cd
homônimo do livro. Dez anos se passaram desde aquele

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encontro fortuito, e eu por nunca ter publicado o livro,
me sentia culpado e sem força para visitá-lo. Porém a
poucos meses atrás, eu fui obrigado a repetir aquela
viagem, e fiquei estarrecido ao passar pela sua casa e ver
tudo trancado e abandonado, os campos de trigo tinham
sido devastados, não notei sequer a presença dos
espantalhos. Teria ele se mudado? Teria morrido, e sua
mulher ou filha se mudado?
Com um complexo de culpa imenso resolvi agora
como forma de homenagem, que eu espero não seja
póstuma, publicar esta pequena edição.
Apesar de algumas passagens nem sempre
fazerem sentido, eu fui totalmente fidedigno com a
versão original, uma por razões obvias de respeito ao
autor, e a outra, talvez a mais importante, é a de que Jeca
deixa espaços para que nós mesmos construamos as
nossas histórias, sendo que assim como numa pintura
abstrata, nem sempre percebemos o objeto numa primeira
apreciação, a cada leitura do conto este nos revela facetas
diferentes.
Como não sei o seu sobrenome resolvi juntar o
seu nome Jeca, que muito me recorda ao grande
Monteiro Lobato, na maneira pura e simples de descrever
seus personagens, ao sobrenome Kerouac, grande
romancista americano da geração beat, um dos
precursores da prosa espontânea e de linguagem ácida e
prosa espontânea que de uma certa forma, também
aparece presente no trabalho do velho andarilho.

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Jeca, onde quer que esteja espero que fique
contente se vier a saber que agora as pessoas poderão
conhecer a sua história e aprender com ela.

Luiz Zanotti

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O CONTO

Eram os últimos momentos das velas


que choraqueimavam no altar do lado de fora
da velha catedral. Os seus tijolos a mostra
devido à pintura quebrada. Triste, como
devem ser os templos de Deus, largada do
lado direito de uma praça, que há pouco
tempo atrás estava totalmente habitada, em
seus bancos de madeira e árvores de
concreto, pelas maravilhosas criaturas da
noite, ou seja, prostitutas com as caras
borradas do batom beijado, em sumaríssimas
mini-saias, botas e outros adereços,
homossexuais assumidos ou nem tanto,
travestis maravilhosos ou grotescos, garotos
de rua cheirando cola e outros animais
menores.
O alvoreflorescer dos jasmins preenchia
todos os vãos dos sentidos, inclusive a visão,
com o seu perfume, quebrando a monotonia
do tempo e iniciando uma nova estação, o
bambalançar dos galhos das árvores
anunciando a chegada de uma nova semana,
abandonando subitamente o gatoro
ronrosnar preguiçoso do dia de Domingo.
Os primeiros movimentos da sinfonia
do dia surgindo através do mar, ofuscando os
olhos dos últimos boêmios prostrados sobre

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os bancos da praça, acordando as gaivotas,
soltando a maré.
A brisalenta da noite rapidamente
começa a perder o fôlego para o mormaço do
dia, a cidade desperta e com ela o seu
comércio, a orquestra começara a tocar em
poucos minutos o conserto trincometálico do
destrancar dos ferrolhos, o abrir, levantar e
empurrar das portas e grades de aço,
anunciando o novo amanhecer das lojas do
comercio local.
Plaaa Raaaaapttt
Levanto-me da cadeira do bar, na
mesma calçada da catedral.Tinha estado
fotografando em minha retina, o
japonês inka venuziano da banca de
pastéis, a moça de seios fartos e blusa
rosa choque que se dirigia para uma loja
em frente, a montagem das bancas da
feira de segunda feira, os pastéis, a
moça de pequeninos seios e blusa
branca carregando um guarda sol rumo
a praia, o rapaz vestindo vestes brancas
de capoeira que caminha gingando,
fazendo cada movimento tal e qual, a
seqüência caleidoscópica dos vitrais da
igreja de Jesus e seu calvário.
Pensei por um momento em andar
até a praça, mas como a vida muda de
rumo a cada momento, eu desejei boa

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semana para o garçom Osmar, que deu
graças a Deus quando me viu levantar, e
aos passos trôpegos me dirigi pro meu
carro, se é que pode se chamar de carro
um fusca cor de laranja caindo aos
pedaços.
No caminho passei por uma loja de
tecidos a, onde por um momento vi a
linda balconista na sua calça
jeansapertada esperando na rua pela
abertura da loja.
Sai com o carro com a mesma
direção trôpega, e aqui me encontro
diante dos sons monocórdios do meu
violão, totalmente entediado de vida e
bebida, cercado pela cidade que vomita
cal e areia sobre os tolos como eu, que
transforma em labirintos os meus
sonhos.Vou entre ruas e avenidas que
parecem não ter fim.
Chego em casa, deito na cama
ainda desarrumada do dia passado, da
semana passada, da vida passada,
rapidamente adormeço, durmo o sono
dos bêbados e drogados, quero me
livrar do pesadelo desta
cidademontanha de concreto e olhos de
aço, quero acordar com o sonhoverde da
manhã a entrar no quarto, mas o sonho
é cinza, o mundo é cinza e o ar

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irrespirável.Quero poder abrir a janela e
deixar o sol entrar, sentir a terra com os
dedos e o coração, mas a minha janela
dá de frente para um beco escuro e
fétido.
Acordo, faminto de por o pé na estrada
a procura de novas aventuras, novos e
velhos amigos e pó.
A poucos metros da igreja, o rapaz
franzino e de cabelos em desalinho, vestindo
roupas brancas como se fosse um pai de
santo ou quem sabe, um jogador de capoeira,
caminha em passos curtos, lembrando da
imagem do velho bêbado que ele tinha
observado ao passar pelo bar, sozinho,
bebendo a esta hora da manhã. As roupas
amarrotadas, a camisa xadrez de manga
compridas sobre a camiseta, lembrou a
imagem de Charles Bukowski, famoso
escritor junkie americano, mundialmente
conhecido pelos seus porres e livros.
-Como é que este cara pode ter
estômago para tomar cachaça logo pela
manhã? Também, deve já ter cozinhado o
cérebro. A verdade é que este povo não quer
saber mesmo de trabalhar, plena segunda
feira e o bicho só na boa.
Um pouco mais adiante, pára,
atravessa a rua, olha para a pequena praia
que fica em frente à rua que passa por detrás

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da praça. Chega em frente a uma loja de
tecidos, aonde se encontra uma morena, os
olhos negros e com o formato amendoado,
olhos de cigana, seios voluptuosos querendo
saltar da pequena blusa rosa choque, grande
bunda aprisionada por uma calça Lee.
-Bom Dia Seu Diogo
-Bom Dia, Glória, como é que foi o final
de semana? Você não me traiu muito no baile
de sábado, não, né baby, vai destravando os
ferrolhos da loja, puxa a porta de ferro e
quando a morena entra na loja, ele se coloca
no meio do seu caminho, discretamente
esbarrando o seu traseiro, o famoso derriere
dos franceses, o olhar de cão vadio no seu
decote generoso.
-Glorinha, apesar de ser mês de junho,
hoje o sol promete ser de rachar e a chuva
não vem para aliviar um pouco este calorão,
lá na chácara, as plantações tão tudo
secando.
Glorinha odiava o assedio do patrão,
mas como necessitava do emprego, um dos
poucos na cidade, e ao invés de mandá-lo a
merda, o que era sua vontade, respondeu
com ternura:
-É, o dia começou quente, Seu Diogo, e
ainda nem estamos perto de setembro. Seu
Diogo, antes do senhor começar a fechar o
caixa de ontem, acho que estamos

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precisando começar a pensar na decoração
para as festas de São João. O assessor do
prefeito esteve aqui no sábado para avisar a
respeito do concurso de vitrines, o senhor
sabe que a prefeitura este ano, oferecera um
prêmio para a melhor decoração. Estive
pensando no assunto e tive a idéia de que
poderíamos montar aquelas fogueiras com
papel celofane vermelho em tiras com um
ventilador por baixo, elas dão a impressão
que a fogueira esta ardendo e não fica muito
caro.
-Não sei, acho que isto é muito comum,
você sabe que esta é a festa mais importante
da cidade, e que são distribuídos prêmios em
dinheiro para as melhores decorações, e todo
mundo tem idéia de fazer fogueira de
celofane, colocar carretas e bandeirolas, eu
gostaria muito este ano de ganhar o primeiro
lugar, por outro lado até agora não me
ocorreu nada.
-Bom, eu só quis dar uma sugestão.
A manhã ia transcorrendo
babacalmamente com as pessoas entrando
na loja para comprar, bisbilhotar,
fuçaperguntar, furtar ou simplesmente tomar
um dedinho de prosa, hábitos herdados de
quando a cidade ainda era um pequeno
povoado e não tinha se transformado nesta
bagunça de sujeira e fumaça.

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- Gloria, já é quase meio dia e eu vou
almoçar, em seguida vou dar um pulo até a
minha chácara, pois, eu preciso pagar o
caseiro, já deveria tê-lo pago no sábado, mas
depois daquela feijoada que eu comi no Bar
do Osmar, me deu muita preguiça e eu
desisti, tchau, feche a loja quando for
almoçar.
Quero que as pessoas fiquem
quietas ao meu redor, mas é impossível
o mundo emite ruídos de abrir e fechar
portas metálicas, caixas registradoras,
motores, vozes, muitas vozes, vozes de
crianças, adultos, anciões que remam
contra o martírio das horas inacabadas.
Ai me dá uma vontade imensa de
urinar, colocar pra fora do meu corpo,
mais do que o simples líquido amarelo,
às vezes branco, fruto da cerveja bebida
hoje pela manhã, ontem à noite, a
semana passada, o ano passado, na vida
passada.

Diogo caminhou pela calçada à beira


mar, observando o movimento dos trapiches
e os barcos que voltavam da pescaria
noturna, e pensando o que poderia fazer pela
primeira vez, ter uma decoração original para
a loja e arrebatar o primeiro prêmio. Como
convencer aquela turma de bundões da

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prefeitura, ele tinha que elaborar alguma
coisa realmente fora dos padrões, senão com
certeza, Plínio, o secretário de turismo iria
premiar algum cupincha. Plínio, aquele
cerebrodeostra, que estudou fora do país,
que apesar dos seus jeitos afeminados, fazia
questão de parecer muito macho, coisas de
homossexual enrustido.
Poderia desenvolver um paiol de milho,
uma carroça, alguma coisa envolvendo
informática, sei lá e assim foi, pensando em
como seria bom pegar aquela grana, até
chegar no bolsão do estacionamento.
Encontrou o seu utilitário, cabine dupla
estacionado, entrou deu a partida, primeira
esquerda, segunda direita e lá estava ele na
estrada concentrado nos seus pensamentos.
Bem que no final do dia, a Glorinha podia dar
um mole, para eu dar um peguinha. Filha da
mãe, já estava trabalhando há quase um mês
na loja, e tinha conseguido até agora, se
esquivar de todas as tentativas de uma maior
aproximação. Mas, hoje, a filha da mãe não
me escapa, vamos ter que ficar até mais
tarde decorando a loja, pois é, hoje vai ser o
dia do caçador.
Lá ia ele descendo a serra, imaginando
fantasias sexuais, sem notar a multidão de
hortênsias a observá-lo pelas laterais do

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caminho comentando: -Será que ele não
sabe?
Percorridos vinte serraminutos, ele
observou a placa indicando a saída para
Morretes a duzentos metros, diminuiu a
velocidade, saiu da estrada principal e se
dirigiu pôr uma pequena estrada de terra até
chegar numa porteira de madeira, tocou a
buzina do seu carro afugentando dois tizius
que se encontravam empoleirados nas
travessas da porteira e observou a paisagem
formada pela cadeia de montanhas, com a
imagem prepotente e
preponderante do Pico do Marumbi sempre
com a cume encoberto pelas nuvens. Por um
momento, Diogo sentiu a seus pensamentos,
assim como o Marumbi, ser encoberto pelas
nuvens, e numa visão verdebruxulejante,
sentiu decolar do chão e viajar por sobre a
serra da Graciosa.
Lembrou dos dias felizes da infância,
junto com o irmão mais velho, tardes de
outono, passadas no Rio Marumbi, rio de
pedras, violão, remansos, piscinas de
fantasia, o descer de bóia, um pneumático de
caminhão, o rio, ser o centro daquela rosca
preta e grande.Ser o centro de um universo
de magia e pureza, a bunda de vez em
quando ralando nas pedras, a alegria das
corredeiras, chegar no remanso debaixo da

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ponte, flutuar por uns momentos e depois
tirar a bóia do rio, subir estrada acima e
começar tudo de novo.
Voou sobre a cidade de Morretes, ao
longe o mar de Antonina, viu as casinhas do
inicio do século, passou sobre a pequena
igrejinha, viu os gays e seus blocos brincando
o carnaval, a quermesse, a menina.Viu
começar os folguedos de São João, suas
bandeirinhas, suas brincadeiras, o mês da
alegria.

Não, não vá tão depressa, eu quero


essa menina, que eu tanto amei na minha
infância, quero parar e ficar vendo a vida
passar de uma forma natural como um rio.

Sem álcool e sem cocaína, sem a tosse


do cigarro, sem a chegada do inverno, quero
casar com esta menina que é a estrela do
mar, numa cidade longe do mar. Menina,
mesmo não sendo minha ainda és a rainha,
mesmo não tendo mar.

O encanto foi quebrado pelo barulho


produzido pelo caseiro. Ari vinha correndo,
esbaforido, abrir o portão.
-Boa Tarde, Seu Diogo, deixa que eu
vou abrir o portão.

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-Batarde, que calorão, hem, tomara que
venha chuva logo mais.
-É bom porque, nós plantamos o milho
e uma chuvarada ia fazer bem pra terra, que
tá seca como que.
Entrou com o carro pelo portão,
estacionou em frente a casa, saiu do carro,
olhou para a plantação e estava lá,
exatamente debaixo do seu nariz, bem no
meio do campo, a decoração perfeita para a
sua loja, um espantalho.
-Ari , aqui está o seu salário, mais as
despesas pra gasolina e querosene.
-Ta certo? Agora me diga uma coisa,
posso levar pra cidade aquele espantalho que
tá no meio da plantação do milho? Semana
que vem se você quiser eu devolvo.
-Uai , o que o senhor vai fazer com ele
lá.
-Não é nada não, é só uma idéia que eu
tive. Faça um favor pegue o espantalho que
eu vou precisar dele.
-O senhor que sabe, não precisa
devolver não, eu faço outro.
Ari retirou o espantalho do meio da
roça entregando pra Diogo que tentou socar
o espantalho para dentro do porta mala, mas
não conseguiu, parecia que o espantalho não
queria deixar o sítio, então colocou-o sentado
no banco de passageiros, rezando para não

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encontrar com nenhum amigo curioso e
sarrista pelo caminho.
Deu marcha ré no veículo e se pôs de
volta para a cidade, puxa ele tinha
conseguido sem querer uma solução ideal,
agora utilizando o espantalho como modelo
ele montaria alguns espantalhos para utilizar
na decoração de sua loja.
Sinto-me assim como dizer um
espantalho na cidade, num lugar
sombrio e triste, fruto do espaço
anterior reservado, sei que me repito,
mas a vida é feita dessas repetições.
Com os últimos trocados recebidos
do último subemprego, me preparo para
mais uma viagem, a estação cheia de
gente e eu me sentindo só como nunca
havia me sentido antes, apesar de saber
da vida que existe no meu
ventrecoração. A partida é rápida e eu
garatujo alguns hieróglifos num caderno
que eu chamo de caderno de viagem. As
estradas vão cortar a minha vida para
sempre, independente da direção.
A atração pela estrada.O começo
no nada e o fim no nada, nós somos
protozoários, desde o início até o fim.
Novamente o caleidoscópio da estação
de ônibus e eu até sei que ele não
existe, mas para mim sempre em todas

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estações estarão os caleidoscópios de
pessoas, da vida, espaços criados
dentro da minha imaginação.Graças a
deus o ônibus esta indo embora, estou
dentro, sou parte, vou, amanhã ou
depois, ou depois do depois estarei lá.
E lá estava eu, novamente na
estrada, vagabundo da estrada,
concentrado nos meus pensamentos, a
multidão de hortênsias a me observar
pelas laterais do caminho, comentando:
-Será que ele não sabe?
De repente tive a certeza de ter
visto através da janela do ônibus um
espantalho viajando no banco de
passageiros de um veículo que passou
em direção contrária a do ônibus.
-Acho que vou preciso tomar mais
uma, o delírio tremis esta
começando.Tirou da mochila velha um
cantil cheio de cachaça e deu duas
talagadas.
Diogo esta de volta à loja, contente
pelo achado, chega perguntando:
-Oi, Glória algum recado pra mim.
–Não, senhor, mas nossa, Seu Diogo o
que é esse monte de palha que o senhor tá
carregando.
–Isto aqui é o meu primeiro prêmio no
concurso, tive uma excelente idéia no sítio,

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olhei para roça de milho, lá estava ele,
imponente, no meio da plantação, este velho
espantalho, o nosso primeiro prêmio.
-Vamos fazer a decoração distribuindo
espantalhos pela vitrine, vamos criar um
clima de festa junina, com os espantalhos em
volta da fogueira de celofane. Já posso
começar a gastar a grana do prêmio por
conta.
-Acho que a idéia é boa, quantos o
senhor pretende fazer.
-Sei lá, Vamos fazer três ou quatro.
Acho que quatro. Venha vamos ver o que
precisamos para fazer quatro bonecos como
este. Traga o espantalho aqui para os fundos.
Glorinha saiu na frente carregando o
espantalho, seguida por Diogo que estava
inebriado pelo frescor do perfume da sua
pele.
Lá, num aposento do lado de trás da
loja colocaram o velho espantalho em cima
de uma mesa de madeira bastante riscada
por ter sido por muitos anos usada para
cortar tecidos.
-Bom, vejamos, vamos precisar de
quatro chapéus velhos, quatro camisas...
-Peraí, Seu Diogo por que o senhor não
aproveita este espantalho, daí nós só
precisamos de menos material?
- É verdade.

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E lá se foram a correr atrás de chapéus,
paletós, tábuas, isopor, tintas e cordas de
nylon para fazer a cabeça e as mãos, porque
afinal de contas, eles teriam que utilizar
materiais alternativos, pois não ia ser fácil
conseguir palha em meio à cidade para a
fabricação dos espantalhos.
Recolhido todo o material, os dois
começaram a construir os bonecos, Diogo
esforçava-se o máximo para ficar próximo do
corpo de Glorinha, roçando-se nela sempre
que possível. Glorinha tentava em vão se
esquivar dos ataques do patrão, enquanto
segurava a ripa de madeira, por onde Diogo
trançava a corda de nylon para fazer os
cabelos.
Os minutos passavam, e ficou pronto o
primeiro boneco, com a cabeça de isopor
pintada de amarelo, um punhado de fios de
nylon amarelo como se fossem as mãos, por
mais que se esforçassem, o primeiro
espantalho ficou muito magro e com aspecto
raquítico.
Quase ao final da tarde, estava ficando
pronto o segundo espantalho formado por um
esqueleto de pau, coberto por uma malha
rasgada preenchida por nylon e isopor,
Glorinha estava sentada num banco numa
ponta da mesa, se preparando para a
finalização, pintando seus olhos e nariz,

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quando sentiu o, hálito quente de Diogo
perto do seu pescoço.
-O que esta acontecendo, Seu Diogo,
falou Glorinha empurrando Diogo com as
duas mãos, o senhor é casado, se de o
respeito com a sua esposa.
Na surpresa com o ocorrido, Diogo
desabou no chão junto ao espantalho
raquítico.
-Você bem sabe que eu não gosto da
minha mulher, e desde que você veio
trabalhar aqui, eu não penso em outra coisa,
a não ser beijar você, beijar os seus lábios,
chupar seu pescoço, fazer amor.
-Seu Diogo, por favor, o senhor é um
homem casado.
-Casado, mas não capado, eu vou até o
bar tomar um trago e quando voltar, o
expediente vai ter terminado, vou fechar a
porta da loja e você não me escapa.
-Seu Diogo, não ouse me tocar, porque
se colocar um dedo encima de mim, eu vou
gritar e toda vizinhança vai ouvir os meus
gritos.
Diogo ao ouvi-la tão determinada,
sentiu que seu intuito não seria realizado,
pensou em despedi-la imediatamente, mas
lembrou que precisava dela para terminar
aquela porra dos espantalhos.

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-Tá bom, Glorinha, acho que me excedi,
vou até o bar tomar um café, enquanto isto,
você vai terminando estes bonecos. Assim
falando, foi na sua ginga de malandro em
direção ao bar.
Ela terminou de pintar o segundo
boneco, achou que o seu rosto ficou
parecendo com um passarinho, resolveu
então colocar o nome de sabiá no
espantalho. Glorinha foi uma menina que
após o desaparecimento do pai, quando
ainda era um bebe, tinha ficado órfã pela
segunda vez, já que a sua mãe havia
abandonado o pai fugindo com um dos
melhores amigos dele. Neste estado de
pobreza e solidão foi recebida por uma tia
velha e pobre para morar num sítio no
subúrbio da cidade. Estudou somente até a
quarta série primária, e quando fez dezesseis
anos, uma nova tragédia se desenhou na sua
vida, a tia foi levada por um câncer no
intestino. Glorinha resolveu então tentar a
sorte de arrumar um emprego na cidade.
Por ser jovem e bonita, ela era sempre
selecionada, e a cada emprego se repetia a
mesma dura rotina. O patrão começava a dar
encima, e ela muitas vezes acabava por se
render às vontades do patrão, algumas vezes
fazia até por gosto, mas na maioria das
cantadas era só para manter o emprego. Mas

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era pura ilusão, o patrão transava uma, duas
vezes e depois era mandada embora do
mesmo jeito.
Estava amarrando o nylon na madeira
do último boneco a ser feito, quando se
surpreendeu conversando com o espantalho
caído a sua frente, que por ser muito
magrinho já o apelidará de Graveto.
-Sabe, meu pai desapareceu, sem
deixar vestígios quando ainda era pequena e
não tinha noção das coisas, o nome dele era
José Carlos Almeida, Seu Almeida, assim
como era chamado, era uma pessoa muito
capaz e popular dentro do seu trabalho na
repartição pública da cidade, trabalhava na
parte de atendimento ao público na
elaboração de títulos de eleitores.
Era muito prestativo e por mais de uma
vez, chegou a carregar crianças que vinham
no colo de suas mães, para que estas
pudessem assinar o título de eleitor. Estava
sempre presente nos mutirões para
construção de casas para pessoas menos
favorecidos, mestre pedreiro, carpinteiro,
eletricista, funcionário de Deus.
Aos finais de semana, por ser muito
alegre e festeiro, não suportava solidão,
gostava de encher a nossa casa, convidando
os companheiros de seção para um
churrasco, com muita cerveja e um

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barulhento truco que corria solto até quase
meia noite.
Gostava de cantar, sempre
acompanhado de um violão, canções de
amor para a minha mãe e de estrada para os
amigos. A estrada o acompanhou desde
criança, pois o meu avô fora caminhoneiro, e
gostava de levá-lo junto quando ia viajar pelo
mundão afora. Tinha tido uma infância de
sonho, vivendo aventuras, junto como irmão
menor nos rios perto do sítio onde morava,
até o dia que seu pai numa das viagens
resolveu não mais voltar para a sua mãe, até
hoje sentia saudades dela e do irmão
querido. Por onde andariam? Lembrava de
ter encontrado o irmão uma única vez, mas a
memória embaralhada pode confundir
realidade e sonho.
Era exímio na arte de contar piadas, e
causos pitorescos sobre os habitantes da
cidade, bêbados, vagabundos e outros
personagens, personalidades ou não.
E lá ia o Seu Almeida, vivendo a sua vidinha
de casa até o trabalho, do trabalho em casa.
Sempre dócil e delicado até que um dia,
quando começava a estação da Primavera na
cidade, Almeida ao chegar em casa,
encontrou a filha sozinha, abandonada no
meio do chiqueirinho. Amarrado por um
alfinete na blusinha da menina, um bilhete

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que contava que sua esposa tinha fugido com
o Gumercindo, Seu Gugu, chefe da Seção
Eleitoral, e seu melhor parceiro de truco e
cantorias.
Por ironia do destino, tinha perdido a
mulher ao mesmo tempo que ganhava o
posto de chefe da seção herdado do seu
melhor amigo.
Assim que foi empossado no cargo,
Almeida entrou na sua nova sala e pediu a
secretária Dona Rosinha que riscasse o seu
nome de todas as agendas telefônicas e
retirasse da sua porta da sua nova sala a
plaqueta com os dizeres “CHEFE DE SEÇÃO”.
Após ter verificado que as suas ordens
haviam sido fielmente cumpridas, chamou a
Dona Rosinha, dispensou-a da função,
dizendo que não teria necessidade de uma
secretária, pois o trabalho era pouco, e ele
próprio faria as tarefas de arquivamento,
atendimento de telefone, etc.
Em seguida, chamou todos os funcionários,
atribuindo a todos toda autonomia para que
decidissem todos os problemas, elaborassem
normas, enfim todos os procedimentos
inerentes à atividade de cada um. Os
assuntos relativos a férias, salários, etc,
deveriam ser tratados diretamente com o
setor de Recursos Humanos, compras com o
setor de Compras e assim por diante.

30
Almeida não atendia ao telefone, ele
chegava ao trabalho antes de todos os
funcionários e saia regularmente depois de
todos, adquirira o habito de trazer uma
refeição de casa, almoçando sempre dentro
do seu gabinete, após o almoço passava a
tarde inteira escrevendo, com longos
intervalos, quando bebericava a pinguinha de
alambique que tinha dentro do barrilzinho de
carvalho, que assim que ia terminando, era
automaticamente reposta. Quando precisava
fazer as necessidades, utilizava-se de um
banheiro privativo, que ele próprio fazia
questão de limpar, não deixando nunca
nenhum dos serventes da seção entrarem na
sua sala, até que os mesmos resignados
acabaram se acostumando a não importunar
aquele ser estranho e acabaram esquecendo
daquele lugar. E Almeida acabou por se
habituar tanto com o escritório, que não
voltou mais para casa, abandonando a filha e
vivendo exclusivamente em sua salacaverna.
Os anos foram passando e da mesma
forma como a vida corre, o sonho corre, tudo
corre, a história do Seu Almeida também
correu até o dia quando, numa das poucas
vezes que saiu para comprar provisões e
cachaça, ele estava entrando no seu
escritório e ficou estranhamente surpreso ao
ver uma outra pessoa sentada no seu

31
lugar.Dirigiu-se à seção de Pessoal para
reclamar do ocorrido. Um funcionário
bastante jovem o recebeu, escutou sem a
mínima paciência a sua estória, para no final
concluir:
-O senhor deve ser louco, eu trabalho
neste setor há mais de oito anos, conheço
funcionário por funcionário, e o senhor
obviamente não é um deles.
Almeida agradeceu a atenção e sorriu,
tinha enfim conseguido após muitos anos
alcançar o anonimato tão perseguido.
Esta foi a estória ou história que
Glorinha escutou da tia quando já era uma
mocinha com sonhos de ir para a cidade,
tinha sido abandonada pela segunda vez.
Glorinha sentiu uma lágrima escorrer,
vendo-se abraçada ao pequeno Graveto.
-Puxa, deixa eu acabar de montar este
espantalho antes que aquele bêbado volte,
caramba, faltou madeira, este espantalho
ficou pequeno como quando eu fui
abandonada, parece um toquinho.
Cortou os celofanes vermelhos para
elaborar a fogueira, e por fim começou a
dispor os espantalhos pela vitrine, percebeu
então que tinha dado nome a todos e de uma
maneira estranha se sentiu muito próxima, e
pra falar a verdade até com um pouco de dó
dos pobres espantalhos que teriam que ficar

32
a noite inteira na vitrine no meio da bagunça
que a juventude fazia a noite na praça e na
rua em frente ao mar.
Lembrou do espantalho de palhas
velhas e desbotadas que o Diogo tinha
trazido da chácara e que após ter servido de
modelo para o primeiro boneco tinha sido
abandonado num canto.
As roupas que ele usava era bastante
velha e puída, botinas velhas penduradas,
mas apesar de toda aquela pobreza, o
espantalho guardava um aspecto nobre e
respeitoso. Sim, era a cara e tinha o ar
aristocrático do Visconde de Sabugosa, um
dos poucos livros que tivera a oportunidade
de ter acesso na pobre escolinha do sítio, o
boneco feito de uma espiga de milho no sítio
do Pica Pau Amarelo, das pirações de
Monteiro Lobato. Sem dúvida este era um
visconde.
Armou a fogueira, tentou varias
alternativas de posição para os bonecos, ela
teve uma sensação que a muito não sentia, a
de não estar sozinha, parecia que tinha
acabado de conquistar amizades que eram
realmente puras e que nada exigiam em
troca, ela podia contar de suas tristezas sem
medos de galhofas e zombarias.
A preparação dos bonecos tinha
despendido a tarde inteira e, o crepúsculo já

33
se preparava para saltar de banda nas suas
cores rosazulada por detrás do mar. Diogo
voltava cambaleante, tendo tomado
obviamente uns cafétragos a mais.
-Glorinha, meu amor. Esta sua
decoração esta maravilhosa, você merece
um beijo de eterno agradecimento
-Deixa de graça, Seu Diogo e me ajude
a calçá-los para que não desabem no chão.
Isto, vamos colocar as pilhas de tecidos para
apoiá-los.
Dim Dom, Dim Dom, Pla Raaaapt, Dim
Dom, Dim Dom, Pla Raaaaapt, Dim Dom
Outra vez a orquestra tocava sua velha
música e desta vez acompanhada pelo
badalar dos sinos da igreja. As beatas, as
velhinhas, as viúvas começavam a chegar
para a novena, carregando seus terços de
plástico, pérolas ou marfim
-O que você achou. Dá pra ganhar o
prêmio?
-Acho que ficou bom, a amiga dos
espantalhos estava desanimada porque no
fundo estava claro que logo após o concurso
teria que escolher entre arrumar um novo
emprego ou ir para a cama com o patrão.
-Vamos me ajuda a fechar a grade de
ferro, deixe somente os refletores acesos,
que eles vão dar uma impressão
fantasmagórica, e as pessoas que passarem

34
na rua vão poder vê-los, mas não totalmente,
aguçando a curiosidade para o decorrer do
dia.
Plá Raaaapttt...
Num piscar de olhos o azul claro foi
tomado por um tom vermelho, se enroscou
no brancocinza das nuvens, se tornando um
roxo, azul escuro, escuro, acenderam-se as
luzes dos refletores dos postes na orla
marítima, ao longe se podia visualizar o vulto
negro de um navio mercante. Será que vindo
de terras distantes, o resto é só sonhar?
Os praticantes de Cooper já há algum
tempo, caminhavam ou corriam, assim como
os ciclistas. Na praça as mamães e as babas
recolhiam as crianças relutantes em
deixarem os tanquinhos de areia, e
começavam a retornar para os seus lares.
Grupos de rapazes e moças passavam
em carros, caminhonetes e motocicletas,
vestindo roupas de cow-boy, muitas meninas
com camisas verdelimão, rosa e brancas
amarradas na cintura deixando aparecer os
seus lindos umbiguinhos exalando perfume
de rosa, leite condensado e sexo fácil.
O som do carro no último volume
tocando as canções de Dezé de Camargo e
Marciano, Rico e Mappin, Enganaum e
Enganosotros, e vários mais. Alguns
vaqueiros do asfalto mais afoitos tocavam o

35
berrante, provavelmente a procura de suas
mães.
Uoooooooooó...
O balançar do ônibus me da tesão e me
faz lembrar da moça de seios fartos e blusa
branca, ou seria de blusa rosa choque,
lembro-me que os seios eram fartos e isto é o
que interessa. Ao passar por mim no bar em
frente à praia, ouvi-a dizer que o moço da
motocicleta era extremamente lindo, não vi o
moço, só vi a moça e a desejei ardente e
loucamente ser o moço da motocicleta para
poder beijar aqueles seios fartos, empinados
como se empinam papagaios, pouco poético,
porém extremamente prático, beijar todo o
seu seio, seu ser e sexo também.
Fotografias tiradas no raio
peninsular da tarde, todo mundo tem
um amor, ou ao menos deveria ter, e eu
sempre desejei fazer da vida, algo mais
que uma colcha de retalhos.Ter uma
esposa para a vida inteira, filhos, sim,
milhares deles, escrever poesias e
recita-las para a mulher amada, poesias
que se espalham nas varandas e no por
do sol.
Lembro sempre de você, da minha
mochila jogada junto à sua num canto
qualquer de um lugar comum. Fomos
tão lindos quando jovens, mas não

36
tivemos a força para atingir alguma
coisa a mais, algo a mais juntos, a
felicidade.
Você se foi, deixou um bilhete,
sinto a sua falta, e isso é o que importa
dizer, você é bruxa, me deixou só,
ajude-me a acabar com ela.
Sou um náufrago à procura de
luzes.
Vejo o meu violão encostado,
abandonado na parede de um quarto
comum de um lugar qualquer. Tivemos
toda a força, mas não a vontade para
atravessar a correnteza do rio juntos.
Você ficou, impregnada nas pedras
do rio, e quando as pedras viraram pó,
em cada átomo estava gravado seu
nome, e quando a matéria virou energia
e foi capturada pelo sol. Devo entender
que nem sua morte me livraria dos
reflexos solares.
Uooooooooooó...
Eles na verdade tinham um motivo todo
especial para aquela algazarra, afinal de
contas , na próxima quinta feira começavam
as festas juninas e junto delas um grande
rodeio, que culminaria com um grande baile
sertanejo.
Diogo já tinha se afastado da loja com
seu passo de capoeirista, pra falar a verdade

37
o passo agora era de um bêbado, chegando
ao bar onde, foi efusivamente saudado pelos
freqüentadores, acenou com a mão num
cumprimento geral, puxou uma cadeira e
sentou numa mesa próxima ao mictório, de
onde exalava constantemente um forte
cheiro acre de urina.
-Osmar, salta uma gelada
Observou o grupo na sua frente, um
rapazinho com os cabelos cumpridos muito
parecido com ele, tocava violão, cantando
velhas canções da estrada que lhe
remeteram a um passado distante.
A dor era intensa nos subterrâneos
quando Jeca chegou e pediu para lhe
acompanhar. Mil outonos terão passados até
me habituar novamente sem tua voz de
frevo, balanço e gafieira. Estávamos sós no
mundo, eu e Jeca, rio de pedras, praia e sol
inventados, a areia do rio mudando de cor da
noite no doce precipício em que nossas vidas
andavam dependuradas.
-Sou mais que principio, sorriu ele, sou
meio e fim.
Paramos no supermercado, cada vez
acredito menos na vida de algumas pessoas,
continuou ele. Acredito naquilo que
realmente não podemos ser.
Mestre Jeca, seguro no martelo na luta
contra a vida, arquitetos e engenheiros são

38
incapazes de desafiá-lo nos fios de prumo,
entende dos riscos e risos da profissão.
Cronista da vida, malandro da capital, da
vida, da vila, personalidade máxima, sonho
desaguando num mar de tranqüilidade. As
tardes à beira mar ou à beira do rio, nada
muda, tudo é lento e duradouro. Mestre Jeca,
meu irmão, dono da mais linda voz e o
melhor ouvido para sacar as músicas da
viola.
Os acordes enchiam o ambiente de
som, as perturbações existiam, assim como
gotas caindo na bacia, entre as gotas era
tudo paz na água da vasilha. Estava sentindo
o barulho de morte vindo do rio, parecia que
a nossa vida toda passou entre o intervalo de
dois pingos d’água na bacia.
Daí pela décima vez tocamos a mesma
música, cantamos a mesma letra, eu tão
envergonhado e desafinado, a harmonia
deixou de reinar por uns instantes e enfim a
volta ao eterno silêncio depois que ele partiu.
Estou na frente de um copo de
jurubeba, ou ela esta em frente de mim
num barzinho de uma pequena cidade
no cu do mundo. Todos os habitantes
desta aldeia se encontram no bar
jogando cartas e olhando com os cantos
dos zóios pra mim.

39
A aparente e frágil calma do local é
quebrada pelo barulho de tiros, tais
quais o barulho das rodas de ferro nos
trilhos do trem, alguém tenta ceifar a
vida de alguém, sem ao menos se
incomodar conosco no bar que não
valemos mais do que os tufos de capim
na praça.
O relativo silêncio retorna
enquanto com a sola do meu sapato
enfrento um bando de baratas na
direção do banheiro.
É o algoritmo da vida que segue em
frente no salão camerafotografica com
suas doses de jurubeba. Eu me sinto
infeliz, procuro os espaços abertos no
meu peito, aqueles infinitos anos de
fantasia foram esmagados pela sola do
sapato, assim como as baratas.
Dou um nó na trouxa da vida e
procuro uma pensão barata para passar
à noite em companhia dos pesadelos e
percevejos, ao sair do bar olho para a
lua,
- O amanhã não será melhor.
O latir dos cães e o avanço da
noite, as últimas brincadeiras, as
sacanagens atrás da igrejinha local, o
pingão ofuscando a razão. Descubro o
meu coração e começo a pensar nas

40
coisas pequenas que acontecem no dia a
dia, queimar a boca com café quente,
trocar os pés do chinelo, meias de duas
cores, as coisas acontecem as vezes
sem notarmos, nem sabermos.
Ela então me encontra, sem se
anunciar, na subida para pensão, é
violenta, voraz e passageira, é mulher,
mas tem seu lado masculino, é criança,
explosão no meio da noite.
Explode no meio da noite o nosso
tratado, tenho tentado lembrar e
cumprir, mas eu não sei como é que é,
eu sei não posso ficar de lado, porque te
chamo a partilhar dos meus sonhos,
sorrisos eróticos e infantis, estou
perdido novamente, eu não posso
enfrentar as regras rígidas dos sonhos,
ela é forte, é vida, é barulho, é silencio.
Maldita consciência.
A espuma se solta da boca, é um
novo afogamento contra o travesseiro,
jamais pude sentir o gosto de sol no
travesseiro, mas, eu sei que ele existe e
é passível de ser encontrado na boca
dos moribundos e falecidos.Pois a cama
é um mar revolto e os lençóis, a
espuma, vamos por estas ondas,
adormecemos em meio a suas

41
tempestades e muitas vezes
naufragamos neste oceano.
Vejo a vida passar em
cinemascope, duas horas, a sua vida
discorreu, correu, mostrou, todas as
misérias e, aflições, medos, alegrias,
determinações, sacanagens, afetos,
brigas, desafetos, animal e vegetal,
feminino e masculino.
The end.
A fraca iluminação deixada na loja fez
com que ninguém notasse a nova decoração
da loja de Diogo, também sejamos honestos,
no meio da algazarra com todas aquelas
gostosas com o chapéu e mais nada na
cabeça, com as calças justas misturando suor
e sexo, só alguém muito babaca para se
interessar por decorações de loja, né.
É verdade, ninguém notou os
espantalhos naquela noite a não ser aquela
garota vestida com a sua camiseta cor de
prata, com a imagem de São Jorge matando o
dragão no seu peito, que do alto do
firmamento, prestava atenção, não muita é
verdade.
A história sempre se repete, tal qual às
lamurias do velho junkie, que tinha passado a
noite anterior lembrando de imagens de
espantalhos no campo.

42
Logo que se afastaram algumas nuvens
que embaçavam a sua visão da praia, pode
identificar melhor aqueles estranhos
habitantes na loja de tecidos à beira mar. São
espantalhos.
Esquisito, pensou ela. O que fariam
espantalhos tão longe dos campos, no meio
de uma cidade, no meio de um monte de
tecidos, em meio a tantas coisas estranhas
feitas pelo homem, esta para ela ainda era
nova. Espantalhos foram criados à imagem e
semelhança do homem e portanto de Deus,
para ajudar na lavoura, afugentando os
pássaros que teimam em comer as
sementes.Não foram criados para viver na
cidade, o que poderiam eles contribuir no
meio de tanta poluição.
Enquanto pensava, a noite corria pela
estrada das estrelas, e aos poucos as ruas
estavam vazias, e a lua antes de ser
capturada pelo novo dia que nascia, toma
coragem e desce para a terra através de seus
raioteias prateados.
Quero sentir calor no seu corpo
Quero ouvir as suas palavras
Quero sentir o seu medo
Esta febre que arde.
Acorda, coragem,
Coragem,
Acorda e ria

43
E ria
Seu cabelo é de palha
Uma botina velha, uma rasgada malha
Seu cabelo é de palha
Eu queria tanto ser
Um espantalho como você
Ser espantalho
Mas do campo, não da cidade
Ser espantalho de verdade
E no amanhecer verde, sentir orvalho
E depois dormir cansado pelo trabalho
Ser espantalho
Espantador e cantador.
Toquinho, o menor dos espantalhos,
abre os olhos ao ouvir uma canção vinda de
longe, desperta confuso, estranhando o
lugar, sabe aquela sensação que temos
quando viajamos incessantemente de um
lugar para o outro. Depara com uma nova
manhã cobrindo as calçadas da praia ainda
iluminada, sem entender o que acontecia e
sem perceber a presença da moçalua, que
resignada com o destino dos espantalhos, a
esta altura já tinha se recolhido para os
reinos do céu.
Logo em seguida acorda Sabia, que
imediatamente percebe o gorjeio dos
pássaros a brincar por entre os galhos das
árvores anunciando o amanhecer, em

44
seguida Graveto acorda assustado ao sentir
aquela agitação dos outros espantalhos.
-Uau.
-Quem são vocês? Não sabemos. E
quem sou eu? Também não. Quem é este
boneco que esta roncando aqui do meu lado?
-?????? Vamos acordá-lo.
Visconde cansado pela longa viagem e
pela dífícil vigília ao acompanhar durante a
tarde inteira o nascimento dos outros ainda
dormia copiosamente quando foi acordado
pelos outros três espantalhos.
-Bom Dia. Você sabe onde estamos e
quem somos nós?
-Calma cambada, deixe eu primeiro
acabar de acordar, que assim que eu tirar o
meu pigarro, terei o maior prazer de contar
tudo o que eu sei, apesar de também não
saber muito.
-Bem, eu sou um espantalho e estava
no sítio onde morava, trabalhando em meio a
uma plantação de milho, onde espantava os
corvos para que eles não comessem as
sementes que acabavam de ser plantadas, e
deixassem em paz as espigas, quando
chegou o capataz do sítio junto com o dono,
me arrancaram do meu chão, tentaram me
entuchar no porta malas do carro, não
conseguiram, ai me colocaram no banco de
passageiros pelo que entendi vai ter um

45
concurso de decorações que vai ocorrer
durante esta semana e vocês foram criados à
minha imagem e semelhança para
decorarmos esta loja no qual se encontramos
e portanto são também espantalhos.
-Não sei dizer se o que esta passando
conosco deve ser considerado sonho ou
pesadelo, provavelmente pesadelo. A
balconista da loja, uma menina muito meiga
chamada Glorinha batizou vocês de
Toquinho, Sabiá e Graveto, eu não sei bem
como, ela já sabia meu apelido, Visconde, ao
seu dispor
-Que tipo de concurso é este.
-E o que vai acontecer com a gente
depois deste concurso?
-Não sei, mas provavelmente eu nunca
mais vou ver a terra onde eu nasci, sentir o
cair do orvalho no chapéu, o cheiro da terra
molhada, os campos dourados do trigo, acho
que viraremos sucata.
Bom, é hora de nos calarmos, as
primeiras pessoas já começam a caminhar
pelas ruas.
Após a noite mal dormida, estou
esperando o trem, quero pegar o trem e
voltar alguns anos na minha vida, o
sorriso doce de encontrar uma estrada
de ferro, e percorrer ao lado dos trilhos,
cobras, sorrisos e paisagem de selva só

46
existentes no pensamento, pular os rios
até encontrar a vida.
O barqueiro me espera mais lá
adiante me levara à pequena cidade,
que mais a noite verá passar a novena,
com as senhoras da cidade entoando o
cântico:
-E tudo vem do amor
Tudo volta para o amor
Vamos curtir esta celebração como
curtiram todos aqueles que queriam ver
Jesus enterrado, e aí eu lhe pergunto, se
gostaria de receber “O caminho de luz”
todos os dias pelo período ininterrupto
dos próximos cem anos.
A madrugada em uma nova pensão
dividindo o quarto com outros
vagabundos soltando os seus “puns”,
peidos rompendo na origem o silencio
da noite, são rifles e fuzis, bombardeios
noturnos, apenas sopros de vida saindo
dos traseiros, digo cus.
Queria a alegria de voltar a viver
cada pedaço abandonado, cada coisa
que eu queria que acontecesse, a cada
momento. A madrugada de risos e puns,
a vida embriagada.
Entre os caminhos agitados que me
levam a nada, somente o sorriso tonto e
sem dentes desta manhã.

47
O relógio da igreja badalou as nove
horas, e mais uma vez a musica das grades
ia ser tocada, a loja é aberta e entram os
primeiros fregueses.
Uma senhora bem gorda arrastando os
seus mais de cem quilos, entra na loja, muito
suada pelo calor que já começava a esta hora
e pelas banhas a mais:
-Bom dia, Glorinha, parabéns pela
decoração, a decoração de vocês esta muito
original, bem, estou precisando de dois
metros de flanela para fazer uma camisa
para o baile.
-Pode ser desta aqui xadreizinha em
azul.
-É, parece estar bem. Qual o preço?
–Esta é baratinha.
A lembrança se passa em quinze
minutos de cartão postal, de vida, de
sonho, imaginei já ter vivido muitas
vidas e ter sido pelo menos um, agora
que não sou nenhum. Estes quinze
minutos se tornaram uma eternidade,
quando se agrupam numa série de
momentos que somados a mais
momentos tornam o infinito grande e
passageiro.
Minha bruxa, razão da vida noturna
e do sobressalto na madrugada,
gostaria de saber os ingredientes da

48
poção da felicidade, unhas de dragão,
sais, alka seltzer, orelhas de morcego e
nozes silvestres e um pedaço do meu
coração.
As bruxas continuam alfinetando
as marionetes, eu sou marionete.
À procura do total tem sido tão
difícil, para ser total, o amor deve ser o
ponto máximo e infinito de nossa
existência.
Sinto-me tão distante, gostaria de
poder gritar pelos seus abraços, mas as
feridas abertas, tantas e em tão pouco
tempo são maiores que as distancias
entre os planetas.
Foi uma satisfação te ver, achei
você muito linda, mesmo que fosse por
um breve momento minha filha.
É estonteante te ver, entrar no
meu sonho, ser pelo menos um
parágrafo em meu livro, queria viver
este momento eternamente.
Queria sentar na sua mesa, comer
do teu pão, explicar porque fui e porque
um dia voltarei.A minha mesa pode ser
o centro das discórdias ou concórdias do
universo, eu quero lutar pela paz, quero
ajudar, desculpe o estrago que eu
causei.

49
Agora, com a claridade do dia uma
série de pessoas se aproximam da vitrine
para ver os espantalhos, Visconde esta
cabisbaixo e não consegue esquecer do lugar
de onde veio. Onde era feliz junto aos outros
elementos da natureza, o rio, os corvos, a
montanha, a felicidade total.
Graveto presta atenção no movimento
das pessoas, são baixos, altos, gordos e
magros, cabeludos e carecas, gente de todas
matizes que passam olhando para eles como
peixes no aquário, começa a ficar tonto com
tantas imagens, volta o olhar para dentro da
vitrine e depara com o olhar do Visconde,
sente pena do velho espantalho.
A solidão ocorre e não escolhe hora, o
tempo não para ele corre assim como as
pessoas no meio das ruas e vielas.
Glorinha abre a gaveta da caixa
registradora para cobrar a venda que acabou
de realizar, olha fixamente para a decoração
de espantalhos, olha apesar de não enxergá-
los, se sente só, como sempre, os
espantalhos que ontem pareciam ter vida
voltam a ser bonecos inanimados.
Trimmmmmmm
Estimo a solidão porque acho o mais
nobre dos sentimentos, mais sincero, por
exemplo, do que o amor.

50
Nunca soube de alguém que fosse
traído pela solidão, nem crimes nem juras
pela solidão. Como diz Mestre Paulinho da
Viola, danço eu, dança você na dança da
solidão. A procura imensa e inexata do vazio,
como preenchê-lo e então no final da jornada
se encontramos em nós mesmos. Somos
também e outra vez, um caleidoscópio.
Trimmmmmmm.
Tire da cabeça e ajeita no pé
Esta lembrança e chuta pra longe, bem
longe.
Pra que lembrar se lhe machuca tanto, tanto.
De peito aberto, peito fechado.
Coração desperto, coração magoado.
Eu vou a cada passo errado.
Correndo, me escondendo.
E olhando pra trás.
Vou olhando pra trás.
Vou olhando pra frente e tem tanta gente
rindo da
[minha
dor
De olhos abertos, olhos vendados.
Olhar desperto, olhar parado.
E eu estou cada vez mais triste
Chorando e sorrindo
Rindo da minha dor
Vou rindo da minha dor
Mais eu já sei de tudo

51
Eu sou surdo, eu sou mudo.
Eu sou um bibelô

Visconde quebra a sua reflexão se


dirigindo para Graveto:
-Me sinto um velho inútil neste lugar,
meu cérebro esta povoado por manchas e
carunchos, logo eu, que me vangloriava de
ter um pensamento cartesiano, isto é,
racional e objetivo, conseguindo até me sair
razoavelmente bem na solução de problemas
de relatividade, apesar de isto ser relativo e
ter apenas um breve reflexo no meu coração.
Nada mais poderá ser escrito até hoje a
noite, nada poderá ser falado, nenhuma nova
estória, nenhuma velha estória.
A verdade Graveto é que nós somos
apenas peças de decoração não servimos pra
nada.
-Obrigado Dona Neuza, se a senhora
precisar de mais alguma coisa é só ligar que
eu mesmo levo pra senhora.
A manhã ia percorrendo macilenta em
meio ao mormaço do encontro do meio dia,
Glorinha estava sentada nos fundos da loja
cochilando a espera de novos clientes.
Diogo tinha ido fazer compra nos
distribuidores e não tinha mais nada pra
fazer ou pelo menos não estava lá com muita
vontade.

52
Meio acordada, meio dormindo, ela
sentiu uma certa movimentação dos
espantalhos na vitrine, pensou, será que eu
estou pirando, pareciam conversar entre
eles, pareceu ouvir alguma coisa a respeito
de qual poderia ser a utilidade de um
espantalho fora dos campos. Um deles
chegou a mencionar que poderiam assustar
as pessoas, ao que foi contestado com o
argumento que as armas usadas pela polícia
e os bandidos eram formas mais eficientes de
assustar bichos e pessoas na cidade.
Parecia que as palavras chegavam a
Glorinha como por telepatia, mas ela agora
tinha certeza, ou quase, que quem
comentava sobre este assunto, era o velho
espantalho do campo, e de uma certa forma,
ela também se sentia um artigo descartável,
depois de ter sido abandonada seguidas
vezes.

Olha para o mar


Lá vem o mar lavar minha alma sofrida
Chega de lembrar, chega de azar
Chega de pensar na banalidade
Pois amanhã, o sol vai se abrir, pra mim
Pra você com todo sorrir
A vida vai seguir novos caminhos

53
Dim Dom, Dim Dom, Dim Dom, Dim Dom,
Dim Dom, Dim Dom, Dim Dom, Dim Dom Dim
Dom, Dim Dom, Dim Dom, Dim Dom
Eram meio dia, ela levantou o seu
bundão da cadeira, encostou a grade da loja
e foi fazer um ligeiro lanche, tão logo ela
saiu, Toquinho afoito:
-Escuta Visconde, já que não teremos
serventia após o concurso, o que será de
nós? Viraremos lixo?
-Não sei, Toquinho, mas estou sentindo
uma sensação de fragilidade, não sei o que
fazer era muito mais fácil fazer cara feia para
os corvos do que agüentar estes corvos
urbanos.
Qual pode ser a nossa serventia aqui,
após passado o campeonato? O Diogo não
perderia seu tempo me levando de volta ao
sítio, eu temo que seremos desmontados ou
jogados em algum canto sombrio e longe da
luz do dia. Perderemos a nossa alma que é
constituída pela sombra produzida pelo sol.
-Estava acostumado com os finais de
tarde, quando o sol refletia minha sombra no
infinito, era o momento de introspecção,
saber qual era a minha importância neste
mundo, e depois das orações, era só ficar lá,
seguro fincado no solo, prestar atenção para
conversas dos bêbados no final da tarde
jogando baralho em frente ao sítio, falando

54
simplesmente do nada, falando de planos
simples. Ouvir atento o ruído dos bichos no
mato, sons altos, inteligíveis, compreensíveis,
audíveis, sonoros até o nascer do sol.
Sabiá que até o momento, não tinha
dito, uma só palavra gritou:
-O filho da puta deste velho esta
querendo apavorar a gente, pode ser que ele
vire lixo, pois foi feito com palha e outros
materiais mais baratos, mas nós somos
diferentes, somos de nylon e de isopor,
materiais extremamente nobres, se
deixarmos de ser espantalhos,
provavelmente poderemos ser algo ainda
mais valioso, como um príncipe, por exemplo.
-Cala a boca, Sabiá. Não creio que o
seu fim seja tão glorioso.
-Palha, nylon e isopor é tudo
descartável, mas enfim não posso proibir
ninguém de sonhar, eu particularmente
desde o primeiro momento que pisei aqui,
comecei a pensar em como posso fugir para
voltar para o meu lar.

Meio dia, estou a olhar,


A mesma rua, não posso sonhar.
Da calçada, eu vejo o mar,
Esta tão longe não pode sonhar,
Sinto um medo imenso
Eu quero me libertar

55
E quando à meia-noite
Eu olhar para o céu e
Ver a lua iluminar
Toda liberdade presa no meu chapéu
Sorrindo ao ver seu brilho no mar
Glorinha esta retornando do seu lanche e
encontra com Seu Diogo na entrada da loja.

-O pessoal da comissão de julgamento


devera chegar a qualquer momento para nos
visitar e avaliar a nossa decoração.
-Andei por ai e pude verificar que doze
lojas tinham como enfeite fogueiras de
celofane, cinco com carretas de flores, várias
lojas com bandeirolas de papel. Acho que
este ano, o primeiro prêmio esta no papo.
Veja! Esta chegando a comissão julgadora.
Com o sol do meio-dia a pino era
interessante verificar a chegada de um grupo
de pessoas constando de um homenzinho de
bigode, terno de listras e chapéu coco, uma
mulher gorda na faixa dos seus 50 anos com
um vestido florido portando um guarda-sol
para proteger a sua pele extremamente
branca e suarenta dos raios
colorcancerígenos do sol, um jovem barbudo
de jardineira, talvez o último remanescente
da geração hippie e uma jovenzinha que
lembrava uma professora primaria.

56
-Boa tarde Dr Plinio, faça o favor vamos
entrar.
-Salve, Diogo, mas que linda decoração
temos em sua loja.
-É, deu um pouco de trabalho, mas
ficou boa, num é?
A mulher do vestido florido cutucou a
professorinha e sussurrou no seu ouvido,
parece que ele criou os espantalhos em sua
própria imagem e semelhança obtendo a
resposta de que tanto fazia, já que todo
mundo sabia que o prêmio já estava
destinado a outra loja.
Visconde dirigindo a palavra para
Graveto:
-Puxa vida, nunca vi tanta falsidade na
minha vida, e olha que eu convivia com um
bando de corvos.
Diogo chama o Doutor Plínio,
afastando-o da troupe.
-Sabe, Doutor Plínio, faz muito tempo
que eu persigo este prêmio, e ficaria
extremamente feliz de obtê-lo, se o senhor
me ajudasse. O prêmio é grande e sempre
vai sobrar algum.
Plínio ouviu a proposta sem nada
comentar, desde que tinha iniciado a carreira
política sabia, que o melhor era ficar quieto, e
esperar a melhor oferta, a velha ladainha do
toma lá, da cá, mesmo já tendo se

57
comprometido em dar o primeiro premio para
a esposa do prefeito que tinha uma loja de
chocolates.
De onde estava, ao lado da vitrine,
através dos vidros ele notou a imagem de um
cavalo, provavelmente fugido de algum sítio
das redondezas, pastando ao lado da igreja,
mas adiante o mar. Dizem que foi a primeira
igreja construída no estado.
Sua cabeça pirou e o fez cavalgar o
cavalo, o menino correndo pelas ruas com os
pés descalços, vendendo pãezinhos integrais.
Corre, solto como o vento, vendendo a
poesia da farinha, o sonhoalimento da vida,
acompanha os movimentos do mar, perdido
no cheiro da maresia.
O presente o encontra, pensando na
inocência perdida e no próximo lance a ser
dado neste tabuleiro de xadrez que é a vida.
Com o sorriso maroto, Plínio, deu como
observada a decoração da loja, e
rapidamente foi saindo, dizendo que
precisavam ir andando, pois ainda tinham
muitas lojas para visitar, amanhã pela manhã
Diogo ficaria sabendo do resultado.
Do fundo da sua inocência e pouca
experiência de vida, Graveto pode
depreender que era fácil notar que ali
ninguém tinha muito compromisso com a
verdade.

58
E lá se foi a troupe seguindo caminho
para outras lojas capitaneados pelo
almofadinha e a mulher de vestido florido,
seguidos de perto pelo hippie e pela
professorinha.
- Glorinha, o que você achou da cara
deles.
- Bem, acho que eles ficaram
impressionados com os bonecos.
-Não sei, me deu a impressão que eles
acharam a decoração muito pobre.
O rosto, ou cara se preferirem, de Sabiá
amareloenrubesceu:
-Porra, como podem me chamar de
pobre, fui feito, de legítimo nylon importado,
e o meu paletó é um legítimo Pierre Cardin.
-Pode ser, nestes tempos de tecnologia,
as pessoas esquecem da beleza do simples e
acreditam somente na sofisticação.
O tempo passava, e a cortina
aveludada da noite novamente se preparava
para encobrir a pequena cidade, os carros na
avenida já tinham os seus faróis acesos, a
loja de tecidos já tinha fechado, o mesmo
filme de todos anoitecer feria as retinas das
velhinhas debruçadas nos umbrais das
janelas.
Toquinho observava com atenção o
navio que começava a desatracar no porto,
ao lado esquerdo da cidade, imaginava os

59
viajantes que lá de longe poderiam sentir o
sol cair no horizonte dos seus ombros. O
adeus ficaria para traz, e era hora de
começar travar novos combates. Longos
sonhos por países distantes que nunca ele
iria pisar. Tempo feliz que ele não teria
tempo de viver, num momento que não
existiria. Um tempo distante de tudo isto, um
lugar longe destas amarras. Lançar os olhos
por cima e através das vidraças e viver
mesmo que seja por um simples momento.
Livre.
Aquele era o primeiro anoitecer da sua
vida, notou que o que era branco brilhante se
tornou cinza, o que era cinza ofuscou, abriu
azul marinho, torceu o azul marinho, caiu
preto e assim foi até ascenderem às luzes
das luminárias da orla marítima e o preto
caído se transformou em marrom baluarte, o
marrom do sapato em ocre cocar dos índios,
o cogumelo branco em amarelo
cabelocaracois , com os faróis dos carros
enviando cones para o alto mar onde se
encontravam constelações de estrelajanelas
dos navios.
Era a primeira vez que ele via a sua
sombra projetada pela luz da lua, pois Diogo
por medida de economia tinha apagado os
refletores, e ao invés de um cem números de
sombras, agora ele tinha uma só. Ele se

60
sentiu maravilhado ao perceber a sua
sombra, ele descobriu que também tinha a
sua alma.

De braço erguido procuro a direção do sol


Braços erguidos em cruz
Procuro a sombra nos canaviais
A lua me da a luz
Pra ter sombra é só sonhar
Chega de sombras dos arranha-céus nos
quintais
Sombra sofrida, os varais de roupas.

A vida é tão pouca


E tem sombras demais

Visconde, que a vida inteira acostumou


a ver a sua sombra projetada ao nascer e
morrer do sol, sabia que a sombra dos
espantalhos é sua alma, e que para haver
uma sombra bem definida é preciso que haja
luz forte e radiante.

Numa vitrine é impossível de se ver a


própria sombra durante o dia, e a noite com
os refletores ligados não se tem uma sombra,
e sim várias, e em muitas direções e daí as
pessoaespantalhos se perdem no meio de
tantas almas.

61
É vejam vocês, o Diogo como todas as
pessoas tem uma alma, e como os
espantalhos precisa de uma luz para que a
sua alma esteja iluminada, acontece que
bebida faz com que os bêbados apaguem-se
nos bares feito lâmpadas, jogando-os para as
trevas. Não adianta nenhuma queixa,
nenhum pedido, injuriar contra a obstrução
da luz.

Diogo voltava do bar após ter tomado


várias, pensando que não existia a menor
chance de ganhar o prêmio, todos já sabiam
que a grana tinha endereço certo, encontrou
Glorinha se preparando para fechar a loja.
Tentou mais uma vez agarrá-la, sendo por
mais uma vez evitado. A sua visão se
embaralhou, tomado pela fúria, empurrou-a
violentamente para junto dos espantalhos da
vitrine.
-Você vai passar a noite junto com
estas porras de espantalhos, que me deram
um puta trabalho e não vão servir pra nada.
Saiu cambaleante, fechando a porta de
aço da loja e desligando a chave geral,
Glorinha caída na vitrine no meio dos
espantalhos sabia que a sua sorte não era
muito diferente da deles, após o concurso,
tanto ela quanto eles teriam o mesmo
destino, a rua. Tinha tanto dó deles como de

62
si mesma, todos perderiam o emprego após
aquela maldita festa.
Estamos todos na mesma dimensão,
todos, menos o chefe e o homem da
televisão. Retorno e me projeto novamente
no tempo, os monstros que sempre me
aterrorizaram estão de volta.
Naquele início de noite ela, após ter
chorado muito, se viu observando o
espantalho chamado Sabiá, sentiu nele uma
aflição muito grande e pode mesmo ouvi-lo
falar à medida que se livrava dos grilhões
dos pensamentos contidos:
-Não, não acredito que após o concurso
perderemos o emprego e seremos jogados no
lixo, é bem possível que ganhemos o prêmio
máximo, seremos agraciados com um local
limpo e cheiroso só para nós.
Graveto ouve mas não acredita como
pode haver tanta inocência e presunção num
pedaço de pau e poliéster, como podia ser
tão babaca.
-É preciso acordar e enfrentar os
perigos, lutar contra as trevas, enfim nos
tornarmos seres de luz, temos livre arbítrio,
podemos ser senhores do nosso destino.
Lá fora, o final de uma tarde muito
quente, quando sem fazer nenhum anúncio
começou a desabar uma grande tempestade.
Impedida de ir para a sua casa, Glorinha

63
resolve se acomodar entre os tecidos da
vitrine e ficar em companhia daquelas
estranhas criaturas, que ela conhecia a tão
pouco tempo, mas já se sentia fortemente
amarrada por laços de admiração e amizade.

A chuva cai molha as minhas palhas


E embaralha o meu chapéu
Vai formando rios e cachoeiras
Modificando o carrossel
Transformando em barro a poeira
Diluindo nuvens lá do céu
Depois de amanhã a terra tá seca
Ninguém aproveitou pra plantação
Mas esta terra já tem um dono
Que se utiliza da escravidão
Planta pra dá pros outros
Não planto não
Planta pra da tudo pro patrão

A chuva trouxe as lembranças do sítio,


onde dia após dia de trabalho, ele via o pobre
Ari, sem camisa a arar a terra, semear o chão
com as sementes, e ele na sua função de
evitar que os pássaros impedissem o
caminho natural da fecundação. Depois
vinham as chuvas, e a felicidade de molhar
as palhas, sentir a sua alma lavada, se livrar
de todo o pó, da sujeira dos pássaros, o

64
renascer, o sol brilha e daí a chuva, a limpeza
deles, a pureza, a natureza.
É assim como a prece, a busca de um
caminho de luz e de paz. Precisava voltar
para os campos, precisava buscar a sua luz.
Visconde continuava quieto, pensando,
perdido entre suas lembranças e planos,
quando viu Glorinha sentar-se perto dele na
vitrine, e desabar a chorar. Ergueu a
sobrancelhas num aspecto sério, e começou
a falar com ela a respeito do seu projeto de
fuga, queria partir pela madrugada, sabia
que se não partissem, após a divulgação do
resultado que não seria a favor deles, iriam
direto para o lixo e dali para o lixão prestar
as contas com os abutres.
O pessoal da comissão julgadora já
sabe para quem vai o prêmio, e a ira do
Diogo vai cair sobre nós, se não acabarmos
no lixão, vamos virar fogueira de São João, ou
seja, ao invés de curtirmos a fogueira, nós é
que seremos curtidos.
Sabiá, não escondendo a raiva que
estava sentindo, e na verdade o medo de ter
de encarar o desconhecido, estava a ponto
de pular no pescoço do Visconde.
Só não chegando as vias de fato,
porque na verdade tinha respeito por aquele
homem com o caráter e os músculos forjados
debaixo de sol e de chuva.

65
Não absteve-se porém de começar a
menosprezar as suas palavras:
-O Visconde provavelmente será
realmente jogado na fogueira, pois o Diogo
não tem nada a perder uma vez que este
velho espantalho é de palha e outras
porcarias, e não custou nem um centavo.
Mas nós não, fomos feito com a mais cara
fibra de nylon, além disso, na sua opinião a
comissão tinha ficado extremamente bem
impressionada com a decoração, e eles iriam
vencer.
Glorinha, sem ainda acreditar que
podia realmente falar com os espantalhos,
tomou para si a defesa de Visconde,
concordando que a comissão já tinha um
ganhador, antes mesmo de visitar a loja, e se
dizendo cansada da vida que levava, disse
que se eles quisessem partir durante aquela
madrugada, ela ajudaria-os a fugir e junto
com eles partiria.
Dim Dom...
E mais uma vez a noite quedou, como
que um guri desnorteado ao dar os seus
primeiros passos, bracinhos abertos, venha.
No bar o vozerio dos primeiros
bêbados, a falar juntos num doce cacarejar
tal como as galinhas.

Cabeça de palha, esqueleto de pau.

66
Meu nome é Graveto
Eu quero saber de que lado nasce o sol
Esquerdo ou direito
Em qual horizonte, o lugar exato.
Eu quero antes de morrer vê-lo brilhar
Mais eu sinto medo e já estou cansado
Desta noite escura e fria de espantalhos
Mais eu sinto medo

Glorinha se sente determinada a acabar com


aquela vida de resignação, vê no exemplo de
um espantalho velho, o sonho de liberdade.
Pra que tentar vencer neste mundo, onde os
valores monetários são mais importantes que
a amizade, a fraternidade. Ela sempre se
sentiu como se tivesse sido arrancada do
berço materno para ser jogada diretamente
num covil de lobos. Olha para Visconde com
muita ternura e começa a afagar os cabelos
de Graveto.

Ter medo é recuar de uma grande aventura


Liberdade madura pode chegar
Coragem pra abandonar esta noite escura
E numa vida futura sonhar
Sentir o coração vermelho
Sentir do coração, ouvir do coração.
Um sonho um grito azul
Pelas vitrines, seu sorriso amargo.
Eu quero os campos

67
Com seu sorriso largo
Com um sonho, um gritoazul.
Um sonho, um gritoazul

Glorinha permaneceu sentada com os


espantalhos no meio da vitrine, indiferente às
pessoas que passavam em direção do baile.
Elas davam risadas ao vê-la como se fosse
um manequim descabelado cantando uma
velha canção. Era de novo uma criança,
aprendendo a rolar no chão.
Estava vivendo a vida, sem se
preocupar com o que os outros estavam
pensando. A festa e o prêmio não mais
importavam para ela.
Pegou Toquinho e colocou-o deitado no
seu colo, o pequeno espantalho sentindo-se
embalado naquele colo maternal pergunta
para o Visconde, como que é viver no meio
do campo? Num lugar tão aberto, tenho
medo de pegar uma pneumonia e morrer.
Visconde coçou a cabeça e falou que
viver nos campos é viver simples e perceber
a maravilha da natureza tal qual, ver as
flores, sentir as cores e os aromas da
primavera, tirar a roupa e brincar no rio nos
dias quentes de verão, saborear os frutos que
nos traz o outono e novamente introspectar
durante o inverno. Ter de novo a pureza das

68
crianças, acreditar, observar atentamente,
criar.

O velho sol e arado


Personagens da roça
Adiante vai o menino conduzindo a carroça
Descubro o meu coração para as coisas
pequenas
Presto mais atenção no poema que é esta
manhã de sol
O vermelho da terra, o dourado do trigo
As mãos calejadas faz de você meu amigo
Descubro o meu coração para as coisas
pequenas
Presto mais atenção no poema que é esta
manhã de sol

Toquinho se inflama com a música e


pela primeira vez, o que era mais pequeno, e
que todos não prestavam atenção resolve
falar:
-Eu não vou ficar esperando pra ser
queimado numa fogueira.

A mente dividida era perturbada


pela relação paterna vivida, seria o
mundo um carrossel onde os fatos
haveriam de se repetir, sempre eu como
um vagabundo trilhando a estrada tal e
qual uma fita de Moebius, ou seja, uma

69
eterna volta ao começo?Quero renovar,
trilhar novas estradas e levar junto às
lembranças do passado, mas não como
um fardo pesado e sim como um farnel
de experiências a serem usadas e
oferecidas.A inconstante procura de um
louco amor que é como um punhado de
areia que escorre entre os dedos,
deixando somente vestígios como o
amor nos lençóis.

Se o amanhecer chegar claro eu vou


seguir
Não me importa a coragem
O sangue corre solto em minhas veias
Dilatando a tatuagem, transbordando o
coração
Chorarão os olhos da nova madrugada
O que me importa
Chorarão os olhos de cigana, atrás da
porta
Vendo o sol se impor a estrada morta
O que me importa
Quando eu estiver muito longe e feliz
Aos campos gritarei minhas mensagens
Que os ventos levarão de boca em boca
Transformando em estórias
Transbordando os corações

70
Após saltar da boléia do caminhão,
me encaminhei para a pequena casa de
madeira localizada em meio a um
pequeno bosque. Cheguei na sala e me
adentrei fazendo soar o velho assoalho,
as madeiras que rangiam de forma
lenta, desconcertante, diria até
desafinada e sem ritmo para os meus
passos de vagabundo da estrada
calçados por sapatos velhos.
Na sala encontrei alguém sentado
no sofá verde, de um tecido estranho,
embaçado e puído. Ele olhou fixamente
para o meu olhar e em seguida desviou-
o para o lado da lareira que se
encontrava numa parede decorada com
conchinhas irregulares em cima da
massa pintada de verde claro.
A sala ficava cada vez maior, se
tornando enorme, o fogo devorava as
lenhas da fogueira, transmitindo a todo
ambiente, afeto, traição, procura, as
chamaschamam.
Novos rangidos no assoalho e
desta vez ouço os estalidos da escada, a
sala esta ainda maior, enorme boca nos
consumindo, mais quente e o silêncio se
sobrepondo a todos e a tudo, se
sobrepondo a realidade dos meus gritos.

71
Sim. O silêncio insiste em encobrir o
silêncio dos meus passos.
Meu olhar é projetado de volta à
pessoa sentada no sofá, tem os dedos
pequenos como os meus, numa mão
pequena e suada como a minha, o
mesmo cheiro, porém não tem o mesmo
medo. Outra diferença que percebo
claramente é o tempo.
Volto-me para a escada sabendo
que os cadeados atrelados ao passado,
não podem me prender, a vontade de
ser livre sempre foi muito forte, porém o
medo não pode ser eliminado com o
barulho da chave a rodar e abrir
cadeados.
Percebo que usa a mesma calça
Jeans puída e empoeirada de estrada, a
mesma empoeirada blusa azul jeans,
tem os cabelos e barbas
embranquecidos pela ação delicada e
feroz do tempo, mas que são meus,
tenho a absoluta certeza.
Meu sofá verde, o homem azul, o
frio naturalmente é azul, o rangido
verde, o silêncio azul, o violão verde, o
sonho, o grito, todas as emoções são
azuis.
O silêncio é novamente quebrado,
os ouvidos percebem a presença de um

72
novo som, me irrito, fujo da realidade,
procuro evitar descobrir a origem do
mesmo, confuso e perdido, e o som flui
cada vez mais alto da pessoa azul do
sofá verde.
Mais alto, cada vez mais alto, os
sons atropelam e me derretem,
derramam por toda a sala suas notas,
compassos, cifras, timbre. Ondas que
me foram tão bem ensinadas nas aulas
de acústica. Os sons e os rangidos, qual
a diferença entre ruído e música, entre
o medo e a fome, o pai e o filho, o corpo
e a mente, eu e a pessoa do sofá verde.
A vontade assassina, pela primeira
vez na vida, a forte vontade de matar,
apertar o seu pescoço, sentir o doce
sabor da vida se esvair entre os meus
dedos e o verde e o azul rapidamente se
transformando em vermelho. A mente
em branco, branca somente. Sentir que
os sons e os ruídos podem parar,
observar então o calar dos objetos.
Sinto a vítima, sinto o seu cheiro, a
espreito. O caçador esperando pelo
vacilo da caça. Sinto a vítima, sinto o
seu som, o violão que emite as ondas
nos braços da pessoa do sofá verde.
Salto, tento a aproximação rápida,
mas toda a sala rodopia e muito, os

73
gritos lançados pela lareira, a fumaça, o
crepitar da madeira envernizada, o
trastejar das cordas do violão, sou
lançado novamente no jogo de espelhos
caleidoscópios, meu rosto, seu rosto
azul, meus braços encontram o seu
abraço, meu violão, suas cinzas.
Queda sem fim no vazio, pela tela
da minha vida volta a passar o mesmo
filme, desta vez ingênuo e rápido,
mochilas, latas de feijoada abandonadas
na beira da estrada ou no meio de uma
praia afrodisíaca, acampamentos,
pensões baratas, canções mal
compostas, pinga com leite de coco,
amigos, falsos amigos, mais falsos
amigos, alguns bons inimigos,
vagabundos e eu.
Não posso permitir que a minha
alma seja apoderada pelo homem de
alma azul, os seus instintos são maus,
nega as minhas verdades, institui
mentiras, lança-me de vez à loucura ou
me traz pra realidade, tudo isto é claro
nos seus olhos verdes, seu sorriso azul,
sua meia verdade.
Explode um grito na minha
garganta, detono a bomba H, nervos
retesados liberando neurônios e
veneno:

74
-Saia já da minha casa, eu sou o
senhor dos meus atos e pecados.
Uma voz mansa, confiante e
tranqüila:
-Calma companheiro, não vá se
entregar desta forma à loucura, você
não pode com o seu parco salário de
sangue e dor comprar todo o céu azul,
então se contente com um pequeno
pedacinho, somente.
Eu componho musicas até quando
durmo e você dorme comigo todas as
noites, divide o meu travesseiro, se
protege do frio no mesmo cobertor,
bebemos o mesmo vinho de jurubeba.
Sente-se, por favor, faz muito tempo
que te espero, temos muito sobre o que
conversar.
O vento frio de junho entrava pela
janela, donde podíamos ver o pomar
com as suas dezenas de pés de laranja,
centenas de laranjas, milhares de
folhas, milhões de mosquitos. O vento
balançava incessantemente as cortinas
vermelhas através do vidro quebrado,
recordando a última pelada dos tempos
de criança, os vasos de flores que a
minha mãe tanto amava.
Parado no meio da sala, indeciso
entre fechar as venezianas da janela ou

75
sair correndo pelo corredor afora e
ganhar de novo o mundo cinza. Resolvi
sentar para conversar.
-A minha intimidade não é artigo
para se publicar em jornal de bairro, na
seção de fofocas da cidade, metade do
que faço é bom e a outra metade apesar
de má, não me envergonha. Com que
direito o senhor pode julgar o bom e o
mau, se esta invadindo a minha
intimidade sem ao menos solicitar a
minha amizade, conquistar meu
coração, ou ao menos pedir licença.
Ele olhou pela última vez na
direção da lareira, levantou-se do sofá
verde, fechou a veneziana, esvaziou o
copo de vinha numa única talagada e já
saindo para um novo dia sussurrou no
meu ouvido a passar por mim:
-Eu sou sua metade boa, panaca.
Então um sopro de vida se fez
através do vidro e eu menino pude
caminhar por entre as nuvens na mais
completa alegria. Fui visitar por um
breve instante o colo da minha mãe.
Senti de novo o cheiro dos pãezinhos
integrais recém saídos do forno.
Exausto, porém pela primeira vez
na minha vida, me sentia
completamente feliz, fui andando em

76
passos lentos para o meu quarto
escutando o crepitar do assoalho de
madeira, que agora parecia uma linda
sinfonia para os meus ouvidos. Deitei na
minha cama brancalimpa e adormeci
num merecido e lindo sonho de criança.
Sonhei com um lindo campo de
milho, com espantalhos, com uma
garota extremamente bela. Corríamos
pelos campos, eu tirei uma rosa do meu
jardim para lhe dar.
Acordei com a vida renovada, pus
água na chaleira para ferver, busquei o
meu violão empoeirado num canto da
sala e me surpreendi tocando uma nova
canção, canção que eu nunca tinha
composto ou ouvido.
O baile tinha sido um fracasso, a
violenta tempestade que caía, tinha deixado
a madrugada da cidade fria e abandonada, o
óleo dos automóveis boiava sobre a água
gélida da chuva que tinha caído por toda a
noite formando desenhos multicoloridos ao
refletir a luz das lâmpadas de mercúrio que
iluminavam a rua.
Latinhas de cerveja vazias boiavam nas
poças e entupiam os bueiros, restos de
comida emporcalhavam a praia fazendo o
banquete dos ratos e baratas, o cheiro de
sexo e mentira ainda pairavam no ar,

77
impregnado por todos os bancos da praça,
vazios, sem vida.
Plact pla bra pla
A sinfonia dos cadeados tinha sido
substituída pela sinfonia da quebra, da
ruptura, Glorinha tinha com um pé de cabra
arrebentado a vitrine da loja. Todos
correram, o primeiro a alcançar a rua foi
Toquinho, tão pequenino, mais tão valente,
seguirão então, Graveto e Visconde ajudado
por Glorinha. Sabia quando se viu sozinho,
gritou um esperapormim e acompanhou os
outros.
Cruzaram a praça, notaram alguns
poucos viciados, espantalhos da noite tão
parecidos com eles, embaixo de uma
marquise de ponto de ônibus fumando um
baseado. Eles não perceberam ou se
perceberam acharam que era mais uma “bad
trip”, os espantalhos coloridos e Glorinha,
correndo em bando e dobrando a esquina.
Os fugitivos seguiram um pouco pela
rua transversal até atingirem a rodovia, livres
agora era só botar o pé na estrada.

Você esta perdido entre espelhos


Suas imagens seus vestidos coloridos
Nunca é tarde pra sorrir
Você já esta amigo desta estrada,
Suas lembranças, seus sorrisos de criança,

78
Nunca é tarde pra seguir
Vamos embora temos muitas viagens
Vamos embora temos muitas paisagens pra
sorrir
Vou fincar meu pé em outro chão
Não vou mais temer um novo dia
Minha sombra beija a lua ao por do sol
Fazendo amor sentindo a terra
Eu sou feliz sou espantalho

Caminharam pela rodovia escura por


várias horas, a chuva tinha cedido até ouvir
um barulho de motor. Um caminhão
sacolejante tentava vencer a preguiçosa
ladeira, Glorinha num gesto automático
esticou o dedão, o caminhão parou, o
motorista perguntou para onde iam, ouvindo
a resposta de qualquer lugar, disse para que
todos subissem na boléia.
Sacode daqui, serpenteia pela estrada,
lá vão eles no caminho mais próximo de ver
um sonho realizado.
O escuro, longe das luzes da cidade,
novamente o escuro, mas desta vez o escuro
era diferente, não dava medo, era lindo, em
meio a tanta liberdade, os faróis, tal qual
duas velhas lamparinas, do caminhão, dois
cones vencendo a solidão da estrada. O
caminhão era muito barulhento,

79
amortecedores quebrados, ganido dos freios,
uma festa em meio a tanta alegria.
Agora desciam o morro, observando as
sombras fantasmagóricas das árvores que
muitas vezes passavam a centímetros de
suas cabeças. Todas as imagens sendo
gravadas na retina. Sabia segurando
fortemente na cabine do caminhão
experimentava o vento, Graveto procurava
distinguir as hortênsias em meio à escuridão,
o pequeno Toquinho no colo de Glorinha
dormia o sonho dos justos.
Chegaram numa parte plana da
estrada, uma grande reta cortando a floresta.
Avistaram ao longe a fraca luz de uma
casinha de madeira ao pé de uma colina, a
luz acendia e apagava, ilusão causada pelos
solavancos do caminhão, um vaga-lume
convidando-os para uma visita.
Visconde inspirava o ar nos seus
pulmões da forma mais forte que já
conseguira, o cheiro de terra molhada, o ar
puro do campo renovava suas esperanças.
Aquela casinha lá na frente lhe pareceu
acolhedora, propôs a todos que saltassem do
caminhão e ali pernoitassem. Bateu na
capota do caminhão, solicitando ao motorista
que parasse um pouco mais à frente.
-Obrigado, camarada, ficamos por aqui.

80
Todos desceram pulando da boleia para
o chão de terra que dava entrada para o sitio.
SITIO DO POETA LOUCO
Atravessaram a porteira e se dirigiram
para uma pequena casa de madeira que
ficava ao lado de um pomar. O som do violão
e da terra irradiava por todos os lugares, é
difícil identificar os sons que brotam da terra,
mas se você abrir a sua mente e coração e
deitar no campo poderá sentir o som que
deles vem calçando sandálias de cristal.
Lá estavam eles em frente à porta de
entrada, será que estariam entrando em mais
problemas, poeta e ainda por cima louco, era
tudo o que faltava.Glorinha tomou coragem e
bateu na porta. Foram atendidos por um
velho calvo e de barbas brancas:
-Boa noite, companheiros, já fazia
muito tempo que eu estava esperando por
vocês, vamos entrem. Eu estou muito feliz de
recebê-los.
E lá estávamos nós novamente,
relembrando as aventuras passadas, a casa
tinha de novo o calor humano. Então convidei
Glorinha para que fossemos até o meu
quarto, lá estavam as duas camas de
solteiro, juntamo-las formando um imenso
leito de casal. Riamos muito, conversamos
por toda noite, o quarto escuro, um em cada
cama, os dois na mesma cama, abraçados,

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encontrados. Sou feliz, sou espantalho do
campo, sou realmente gente.
Fomos para fora e deitamos na relva, o
azulnegro do céu a bater no meu rosto
afastava a iluminação brilhante vinda da Via-
Láctea. Era caubói, eu era índio, a deliciosa
sensação no peito, o ardor de saber que a
vida é sagrada.
O velho Jeca, poeta e louco acendeu a
fogueira na clareira que existia na frente da
casa, em pouco tempo a fogueira já crepitava
aquecendo a chaleira posta para um bom
chimarrão.

Vou tendo a lua como minha companheira


Sentado em volta, volta da fogueira
Estrelas rabiscam o céu
Eu acho que é avião
É disco voador, não tenha medo, não.
Barulho que vem do rio
Ecoa no coração
Um pássaro cantor em meio à escuridão
Vou tendo a lua como minha companheira
Sentado em volta, volta da fogueira.
Vou passar a noite inteira
Cravado no chão
Vão pensar que eu sou
Alguma assombração
Atravesse a porteira, ouça a minha canção.
Eu sou espantador da sua solidão

82
Estávamos longe das ruas, nosso
pensamento cada vez mais longe das ruas,
choros, violência, tristezas, solidão.
Estávamos realmente felizes. Tinha me
encontrado comigo mesmo em com os meus
espantalhos.
Os corvos estavam acabando com os
meus sonhos e com a minha plantação de
trigo teriam agora que se ver com a força dos
meus amigos. Muitos corvos ao pressentirem
a chegada, já tinham partido e agora eu
podia ver o tempo correr, feliz pelo capim, e
eu já não tenha saúde, anos de alcoolismo
debilitando meu corpo, a minha visão não era
mais apurada para poder lidar com as aves
de rapina. Meus amigos se apressem, tomem
os seus lugares, vocês vão ter muito
trabalho. E lá se foram invadindo os campos
de trigo, com a emoção de ter renascido.
E mais uma vez a noite que era noite
virou novamente dia, desta vez, no entanto a
sinfonia que vinha era dos bichos anunciando
a sua chegada, do sempre majestoso senhor
sol.
O dia começou com novos acordes
encontrando os velhos e novos amigos,

83
Glorinha nos braços daquele homem, os
bichos da noite, já entocados.
Não éramos mais nós mesmos, éramos
somente uma vida, sentíamos a forte
presença do senhor sol pela manhã,
sentíamos algo que não pude descrever e
quem sabe poderei descrever um dia.
Uma força acima de tudo tinha vindo
habitar a minha casaalma, as pedras dos rios
tinham virado pó, as águas dos sonhos
seguiam lentas, calmas e caudalosas em
direção ao mar, a lua virou um sol, a terra, o
porto e o sal, e as serras no horizonte se
transformando numa montanha só, uma
força invisível e invencível que somente
aqueles que amam ao próximo e tem fé
podem um dia atingir.
DEUS

Posfácio
Gilberto
Gnoato

A idéia de posfaciar "espantalhos" nasceu em sala de


aula, depois de uma conversa sobre fronteira e
identidade.
Resolvi adotar este trabalho como leitura
complementar à disciplina de Indivíduo, Cultura e
Sociedade porque tanto o "conto-romance" quanto
seus personagens não são nada "acadêmicos", no

84
sentido mais desolador do termo. Os acadêmicos são
como espantalhos sem vida própria. Conseguem
apenas repetir e reproduzir o que escutam. A
criatividade, dentro do ensino universitário, não é um
talento bem recomendado pela confraria dos
psitacídeos. E eu, que tantas vezes me senti a próprio
marionete do ensino, um repetidor do óbvio, dando
minhas aulas a quem mais aprendi a zelar neste
mundo: meus queridos alunos.
Adotar numa universidade um "romance", sem teoria
formal, sem método e "ainda" escrito por uma pessoa
sem o conhecimento cientifico, não é apenas uma
forma de contrapor a Ciência com a Arte. É também
uma lição a ser aprendida por nós professores, que o
estilo pessoal e a criatividade foram pássaros banidos
por aquele velho espantalho do campo acadêmico.
Pássaros livres para voar.
Resguardadas as devidas críticas professorais ao
trabalho do autor, devo dizer dele que eu terminaria a
obra na página 76 e não escreveria suas duas ultimas
paginas por traterem de um assunto divino. Prefiro
marionetes, espantalhos, latas de feijão, a busca
identitária que o autor faz para dar vida e liberdade a
seus personagens e encontrar um lugar no mundo.
"Saber qual era a minha importância neste mundo."
Está na hora de abrir aquela velha lata de feijoada
guardada na mochila. Sua importância agora "poeta-
louco", é dar um pouco de feijão aos alunos do curso
de psicologia.

Parte I

Não há presença de humanos na cidade do autor. Os


poucos que existem são canalhas, bêbados e babacas.
No mais, natureza, espantalhos, marionete, loja,

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pensão, bar, estrada, rodoviária, mochila, cama e
janela.
Uma janela da vida insípida, ao menos no início da
obra "minha janela dá de frente para um beco escuro
e fétido."
Também a cama, artefato marcante, com o qual o
personagem estabelece forte relação "deito na cama
ainda desarrumada do dia passado, da semana
passada, da vida passada... durmo o sono dos bêbados
e drogados."
Juntamente com a cama, a mochila é outro objeto
emblemático da metamorfose identitária, e do
"caleidoscópio da estação de ônibus" para um
personagem que está sempre partindo. Às vezes isto
se faz como busca, outras vezes como fuga, como
forma de se livrar do passado, “as estradas vão cortar
minha vida para sempre, independentemente da
direção".
Embora para Jeca seu trabalho, nas palavras do autor,
seja um hino de liberdade, no início da obra esta
liberdade não chega a ser uma procura, é mais uma
desreferencialização caleidoscópica em que ele
precisa apenas ir, porque já não é mais possível voltar.
São fragmentos de um sujeito dividido em pedaços,
sem vida própria. É a própria dissociação ou então, a
psicose.
"... queria a alegria de voltar a viver cada pedaço
abandonado."
Sua luta restringe-se a vencer baratas, esmagado-as
nos banheiros, de vômito, dividindo quarto com outros
vagabundos. "... com a sola do meu sapato enfrento
um bando de baratas na direção do banheiro."
Parece também enfrentar as mulheres, mas não com
os pés. Desta vez, com a cabeça. Porém nem ele e
nem elas teriam na razão, um lugar mais caro que as
baratas; pois, na cabeça do autor, Descartes não teria

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espaço "logo eu que me vangloriaria de ter um
pensamento cartesiano" e na sombra feminina, elas
teriam apenas chápeu e mais nada na cabeça.
Sua luta é, não se identificar com ninguém "enfim
conseguido após muitos anos alcançar o anonimato
tão perseguido... Acredito naquilo que realmente não
podemos ser."
Até este momento do trabalho, personagem de fundo,
o fantasma do autor, esteve preso às "trancas",
"ferrolhos" e "cadeados" e seu movimento identitário é
a repetição de um personagem lúgubre que consegue
se libertar do ruído de chaves e barulhos de cadeado
"volto-me à escada sabendo que os cadeados não
podem me prender."
As pessoas em sua volta nada significam até então.
Preferia a solidão às relações.
"... nunca soube de alguém que fosse traído pela
solidão."
Trágico e ausente ele diz "eu sou marionete" mas, "eu
queria tanto ser um espantalho."
Há aqui um pequeno resto de vida nisto, já que ele
vive como marionete - um artefato animado por um
ser vivo - embora quisesse a morte ao desejar ser um
espantalho - um artefato inanimado.

Parte II

Entre alguns erros mais propositais, os de português e


outros, menos intencionais, como os de afeto, a
presença de Glorinha e do Visconde parece ter
recuperado uma identificação favorável à obra, na
medida que os espantalhos adquirem vida, embora
uma vida vegetal e animal ( Graveto, Sabiá, Toquinho
e Visconde este vindo de um sabugo em Monteiro
Lobato).

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Neste momento, o autor torna-se, mais visível.
Desaparecem outros personagens e há uma projeção
psicológica da história do Jeca no Visconde, como se
fossem uma só pessoa.
"Visconde está cabisbaixo e não consegue esquecer
do lugar de onde veio onde era feliz junto aos outros
elementos da Natureza." Onde termina o Visconde,
onde começa o Jeca? Seria como perguntar onde
termina o eu, onde começa o outro? Onde termina a
mente, onde começa o mundo? Pouco importa.
Tudo parece ser uma só coisa agora. Os espantalhos
acordam têm vida própria e o fantasma do autor está
presente nos personagens como se fosse suas almas.
Sua identidade. Agora estão todos no sítio do Poeta-
Louco.
Todos agora estão juntos, afastados do cenário
rousseauniano do mal social que a vida na cidade
contrapõe às grandes virtudes. Unidos por uma
ideologia identitária comum, todos partem; mais uma
vez no caleidoscópio, mas desta vez, não das
rodoviárias. A seguir encontram um lugar. Identidade
é também pertencer a um lugar e saber "de onde você
é?" Pertencimento territorial ou pertencer a um grupo
tanto faz. Lá estavam eles no sítio do poeta louco,
agora com uma mulher, Glorinha. Percebe-se que
primeiro encontra-se um grupo (espantalhos) depois
um lugar (o sítio) depois um amor (Glorinha).
É preciso continuar a busca em outras portas, abrir
outros cadeados.
Depois de ter abandonado sua mochila (emblema das
partidas e fugas) e as latas de feijoada (emblema do
provedor) ele se sente feliz depois de ter se recordado
da infância.
O poeta louco, o Jeca, o Visconde agora não estão
mais sós. Não é somente um,e também não é três. Ele
é mais um, quando leva Glorinha para o quarto e

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"duas camas de solteiro, juntamo-las formando um
imenso leito de casal..."
Não teria graça se a história acabasse aqui, como
qualquer outro beijo de fotonovela. Mais uma história
de amor. Afinal, sabemos que o amor não é tudo.
Faltava algo ainda a aparecer. Uma entidade maior
que durante todo tempo esteve presente, mas
invisível, dentro das latas de feijoada. Parece assim
que toda sua busca veio terminar com a presença de
uma grande substância provedora na última página da
história. A presença de deus. Mas, que tal chamá-lo de
"Deus - Pai?" Uma espécie de feijão brasileiro.

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