C([0, 1]) e o teorema da aproximação de

Weierstrass
MAT 0317 - Topologia
15 de junho de 2009
O objetivo destas notas é estudar certas propriedades do espaço C([0, 1])
— em especial, o teorema da aproximação de Weierstrass e alguns resultados
a ele relacionados. A principal referência utilizada na composição deste texto
é o livro Introduction to topology and modern analysis, de G. F. Simmons.
1 Preliminares
Sejam X um conjunto e f : X →R uma função. Dizemos que uma sequência
(f
n
)
n∈N
de funções de X em R converge uniformemente para f se, e somente
se, para todo ε > 0, existe n
0
∈ N tal que, quaisquer que sejam n ≥ n
0
e
x ∈ X, tem-se |f
n
(x) −f(x)| < ε.
Lema. Sejam X um espaço topológico e (f
n
)
n∈N
uma sequência de funções
contínuas de X em R que converge uniformemente para uma função f : X →
R. Então f é uma função contínua.
Demonstração. Fixe x
0
∈ X e ε > 0 arbitrários. Como (f
n
)
n∈N
converge
uniformemente para f, existe n
0
∈ N tal que, para quaisquer n ≥ n
0
e
x ∈ X, ocorre |f
n
(x) − f(x)| <
ε
3
; em particular, |f
n
0
(x) − f(x)| <
ε
3
para
todo x ∈ X. Agora, como f
n
0
é contínua, existe uma vizinhança V de x
0
em
X tal que f
n
0
[V ] ⊆ ]f
n
0
(x
0
)−
ε
3
, f
n
0
(x
0
)+
ε
3
[, i.e., tal que |f
n
0
(x)−f
n
0
(x
0
)| <
ε
3
para todo x ∈ V . Temos então que, ∀x ∈ V ,
|f(x) −f(x
0
)| ≤|f(x) −f
n
0
(x)| +|f
n
0
(x) −f
n
0
(x
0
)| +|f
n
0
(x
0
) −f(x
0
)| <
<
ε
3
+
ε
3
+
ε
3
= ε.
1
Assim, f é contínua em x
0
e, como x
0
∈ X foi tomado de maneira arbi-
trária, segue que f é contínua. q.e.d.
2 O espaço C(X)
Seja X um espaço topológico. Denotaremos por C(X) o conjunto de todas
as funções contínuas e limitadas
1
de X em R. Defina, ∀f, g ∈ C(X),
d(f, g) = sup{|f(x) −g(x)| : x ∈ X} ≥ 0.
Temos que d é uma métrica sobre C(X):
É claro que, para quaisquer f, g ∈ C(X), tem-se que d(f, g) = d(g, f) e
que d(f, g) = 0 ⇔ f(x) − g(x) = 0 ∀x ∈ X ⇔ f = g. Além disso, dadas
f, g, h ∈ C(X) arbitrárias,
d(f, h) = sup{|f(x) −h(x)| : x ∈ X} ≤
≤ sup{|f(x) −g(x)| +|g(x) −h(x)| : x ∈ X} ≤
≤ sup{|f(x) −g(x)| : x ∈ X} + sup{|g(x) −h(x)| : x ∈ X} =
= d(f, g) + d(g, h).
Proposição. (C(X), d) é um espaço métrico completo.
Demonstração. Seja (f
n
)
n∈N
uma sequência de Cauchy em (C(X), d). Para
cada x ∈ X, temos que (f
n
(x))
n∈N
é uma sequência de Cauchy em R,
pois |f
m
(x) − f
n
(x)| ≤ sup{|f
m
(x

) − f
n
(x

)| : x

∈ X} = d(f
m
, f
n
) para
m, n ∈ N quaisquer; logo, como R é um espaço métrico completo, existe
lim
n→∞
f
n
(x) =: f(x) ∈ R.
Definimos assim uma função f : X → R. Vamos provar que f ∈ C(X) e
que f
n
n→∞
−→ f em (C(X), d).
Afirmação 1: (f
n
)
n∈N
converge uniformemente para f.
Fixe ε > 0 arbitrário. Como (f
n
)
n∈N
é uma sequência de Cauchy, existe
n
0
∈ N tal que, para quaisquer m, n ≥ n
0
, tem-se d(f
m
, f
n
) <
ε
2
. Fixe
1
Dado um conjunto A, uma função f : A → R é dita limitada se, e somente se, existe
M > 0 tal que f[A] ⊆ [−M, M].
2
agora x ∈ X e n ≥ n
0
arbitrários. Para todo m ≥ n
0
, tem-se que
|f
m
(x) −f
n
(x)| ≤ sup{|f
m
(x

) −f
n
(x

)| : x

∈ X} = d(f
m
, f
n
) <
ε
2
,
logo f
m
(x) ∈ ]f
n
(x) −
ε
2
, f
n
(x) +
ε
2
[ para todo m ≥ n
0
, e segue então
da definição de f que f(x) = lim
m→∞
f
m
(x) ∈ [f
n
(x) −
ε
2
, f
n
(x) +
ε
2
].
Assim, |f(x) −f
n
(x)| ≤
ε
2
< ε e, como x e n foram tomados de maneira
arbitrária, a afirmação está provada.
Segue então do lema da seção anterior que f é contínua. Provaremos
agora que f é limitada.
Como (f
n
)
n∈N
é uma sequência de Cauchy, existe m
0
∈ N tal que, para
quaisquer m, n ≥ m
0
, ocorre d(f
m
, f
n
) < 1; em particular, d(f
m
0
, f
n
) < 1
para todo n ≥ m
0
. Assim, se M > 0 é tal que f
m
0
[X] ⊆ [−M, M], tem-se
que f
n
[X] ⊆ [−M −1, M + 1] para todo n ≥ m
0
, e segue então da definição
de f que f[X] ⊆ [−M −1, M + 1]. Portanto, f é limitada.
Temos então que f ∈ C(X). Provemos, finalmente, que f
n
n→∞
−→ f em
(C(X), d) — o que conclui a demonstração.
Fixe ε > 0 arbitrário. Pela afirmação 1, existe n
0
∈ N tal que, para
quaisquer n ≥ n
0
e x ∈ X, vale |f
n
(x) −f(x)| <
ε
2
; logo, para todo n ≥ n
0
,
tem-se que d(f
n
, f) = sup{|f
n
(x) − f(x)| : x ∈ X} ≤
ε
2
< ε. Como ε é
arbitrário, segue que f
n
n→∞
−→ f em (C(X), d), como desejado. q.e.d.
Note que, dadas f ∈ C(X) e uma sequência (f
n
)
n∈N
em C(X), temos que
f
n
n→∞
−→ f em (C(X), d) se, e somente se, (f
n
)
n∈N
converge uniformemente
para f. Em virtude disso, a topologia τ
d
sobre C(X) associada à métrica d é
chamada topologia da convergência uniforme
2
em C(X).
3 O teorema da aproximação de Weierstrass
Nosso primeiro — e principal — objetivo nesta seção é provar o teorema da
aproximação de Weierstrass. Para tanto, será utilizado o seguinte resultado:
2
Deste ponto em diante, esta será sempre a topologia considerada sobre o conjunto
C(X).
3
Lema. Para todo n ≥ 1, vale a seguinte igualdade de polinômios na variável
x:
n
¸
k=0

n
k

x
k
(1 −x)
n−k

k
n
−x

2
=
x(1 −x)
n
.
Demonstração. Sabemos que
n
¸
k=0

n
k

x
k
(1 −x)
n−k
= (x + (1 −x))
n
= 1
n
= 1.
Tomando a derivada em ambos os lados desta igualdade, obtemos
n
¸
k=0

n
k

[kx
k−1
(1 −x)
n−k
+ x
k
(n −k)(1 −x)
n−k−1
(−1)] = 0 ⇒

n
¸
k=0

n
k

x
k−1
(1 −x)
n−k−1
[k(1 −x) −x(n −k)] = 0 ⇒

n
¸
k=0

n
k

x
k−1
(1 −x)
n−k−1
(k −nx) = 0.
Multiplicando ambos os lados por x(1 −x), obtemos
n
¸
k=0

n
k

x
k
(1 −x)
n−k
(k −nx) = 0
e, novamente tomando a derivada em ambos os lados (sendo x
k
(1 − x)
n−k
um dos fatores considerados), segue que
n
¸
k=0

n
k

[x
k−1
(1 −x)
n−k−1
(k −nx)
2
−nx
k
(1 −x)
n−k
] = 0 ⇒

n
¸
k=0

n
k

x
k−1
(1 −x)
n−k−1
(k −nx)
2
= n
n
¸
k=0

n
k

x
k
(1 −x)
n−k
. .. .
=1
= n.
Finalmente, basta multiplicar ambos os lados por
x(1−x)
n
2
para obter
n
¸
k=0

n
k

x
k
(1 −x)
n−k

k
n
−x

2
=
x(1 −x)
n
.
q.e.d.
4
Podemos agora demonstrar o teorema principal desta seção. Para tanto,
vamos introduzir a seguinte notação: dada uma função f : [0, 1] → R, o
n-ésimo polinômio de Bernstein associado a f é o polinômio na variável x
B
f
n
=
n
¸
k=0

n
k

x
k
(1 −x)
n−k
f

k
n

.
Teorema (Weierstrass). Dada uma função contínua f : [0, 1] →R, existe
uma sequência de funções polinomiais de [0, 1] em R que converge uniforme-
mente para f.
Demonstração. Fixe ε > 0 arbitrário. Provaremos que existe n ≥ 1 tal
que, para todo x ∈ [0, 1], tem-se |B
f
n
(x) − f(x)| < ε — o que conclui a
demonstração.
Tome n ≥ 1 arbitrário. Para todo x ∈ [0, 1], temos que
B
f
n
(x) −f(x) =
n
¸
k=0

n
k

x
k
(1 −x)
n−k
f

k
n


n
¸
k=0

n
k

x
k
(1 −x)
n−k
. .. .
=1
f(x) =
=
n
¸
k=0

n
k

x
k
(1 −x)
n−k

f

k
n

−f(x)

,
logo
|B
f
n
(x) −f(x)| =

n
¸
k=0

n
k

x
k
(1 −x)
n−k

f

k
n

−f(x)



n
¸
k=0

n
k

x
k
(1 −x)
n−k

f

k
n

−f(x)

.
Como f é contínua e [0, 1] é compacto, então f é uniformemente contínua;
logo, existe δ > 0 tal que, para quaisquer a, b ∈ [0, 1] com |a −b| < δ, tem-se
|f(a) −f(b)| <
ε
2
.
Seja
A
n
(x) =
¸
0≤k≤n
|
k
n
−x|≥δ

n
k

x
k
(1 −x)
n−k

f

k
n

−f(x)

.
Temos então que, para todo x ∈ [0, 1],
|B
f
n
(x) −f(x)| ≤
n
¸
k=0

n
k

x
k
(1 −x)
n−k

f

k
n

−f(x)

=
5
= A
n
(x) +
¸
0≤k≤n
|
k
n
−x|<δ

n
k

x
k
(1 −x)
n−k

f

k
n

−f(x)


≤ A
n
(x) +
¸
0≤k≤n
|
k
n
−x|<δ

n
k

x
k
(1 −x)
n−k
. .. .
≤1
·
ε
2
≤ A
n
(x) +
ε
2
.
Se provarmos então que existe n ≥ 1 tal que, para todo x ∈ [0, 1], ocorre
A
n
(x) <
ε
2
, obteremos o desejado.
Seja M > 0 tal que f [[0, 1]] ⊆ [−M, M] — um tal M existe pois, como
[0, 1] é compacto, sua imagem por uma função contínua também é compacta,
e em particular é limitada em R. Temos então que
A
n
(x) =
¸
0≤k≤n
|
k
n
−x|≥δ

n
k

x
k
(1 −x)
n−k

f

k
n

−f(x)

. .. .
≤2M

≤ 2M ·
¸
0≤k≤n
|
k
n
−x|≥δ

n
k

x
k
(1 −x)
n−k
=
=
2M
δ
2
·
¸
0≤k≤n
|
k
n
−x|≥δ

n
k

x
k
(1 −x)
n−k
δ
2


2M
δ
2
·
¸
0≤k≤n
|
k
n
−x|≥δ

n
k

x
k
(1 −x)
n−k

k
n
−x

2
.
Assim, decorre do lema anterior que
A
n
(x) ≤
2M
δ
2
·
x(1 −x)
n
e, como 0 ≤ x(1 −x) ≤
1
4
para todo x ∈ [0, 1], segue então que
A
n
(x) ≤
M

2
n
.
Portanto, se tomarmos n ≥ 1 tal que
M

2
n
<
ε
2
, i.e., tal que n >
M
δ
2
ε
,
teremos que A
n
(x) <
ε
2
para todo x ∈ [0, 1], satisfazendo então a condição
requerida. q.e.d.
6
Note que, como toda função contínua definida num compacto a valores
reais é limitada, este teorema pode ser enunciado da seguinte maneira:
Teorema (Weierstrass). Seja
P = {p ∈ C([0, 1]) : p é uma função polinomial}.
Então P é denso em C([0, 1]).
Com esta formulação, podemos então enunciar o seguinte
Corolário. C([0, 1]) é um espaço topológico separável.
Ideia da demonstração. Seja P
Q
o subconjunto de P constituído pelas funções
polinomiais de coeficientes racionais. Como P
Q
é enumerável, o resultado
estará demonstrado se provarmos que P
Q
é denso em P, ou seja, que, dados
ε > 0 e uma função polinomial f em C([0, 1]), existe uma função polinomial
com coeficientes racionais g ∈ C([0, 1]) tal que, para todo x ∈ [0, 1], tem-se
|f(x) −g(x)| < ε. Para tanto, deve-se usar o fato de que Q é denso em R.
3.1 Generalizações
A título de curiosidade, apresentaremos — sem demonstração — alguns re-
sultados que, num certo sentido, generalizam o teorema da aproximação de
Weierstrass.
Para enunciar o primeiro deles, utilizaremos a seguinte notação: para cada
α ≥ 0, denotaremos por p
α
a função em C([0, 1]) definida por p
α
(x) = x
α
para todo x ∈ [0, 1].
Note que C([0, 1]) — ou, de modo mais geral, C(X) — é um espaço vetorial
com as operações de soma e produto por escalar definidas ponto a ponto.
Tendo isso em vista, o teorema da aproximação de Weierstrass pode ser
enunciado da seguinte maneira:
Teorema (Weierstrass). O subespaço de C([0, 1]) gerado por {p
n
: n ∈ N}
é denso em C([0, 1]).
O próximo teorema fornece uma resposta à seguinte pergunta: se 0 =
α
0
< α
1
< α
2
< . . ., sob quais condições tem-se que o subespaço de C([0, 1])
gerado por {p
αn
: n ∈ N} é denso em C([0, 1])?
7
Teorema (Müntz-Szasz). Nas condições acima, seja S o subespaço gerado
por {p
αn
: n ∈ N}.
(a) Se a série
¸

n=0
1
αn
é divergente, então S é denso em C([0, 1]).
(b) Se
¸

n=0
1
αn
é convergente e α ∈ R
+
\ {α
n
: n ∈ N}, então p
α
/ ∈ S.
Passemos agora ao teorema de Stone-Weierstrass, que é provavelmente a
generalização mais conhecida do teorema da aproximação de Weierstrass. O
objetivo deste teorema é obter um resultado análogo ao resultado original de
Weierstrass para o espaço C(X), sendo X um espaço de Hausdorff compacto
arbitrário, ao invés de C([0, 1]). Naturalmente, o conceito de função poli-
nomial pode não fazer sentido tendo-se um espaço de Hausdorff compacto
qualquer como domínio, de modo que serão necessárias algumas definições.
Seja X um espaço topológico. Dizemos que A ⊆ C(X) é uma subálgebra
de C(X) se, e somente se, A é um subespaço vetorial de C(X) tal que, para
quaisquer f, g ∈ A, a função f · g — definida em cada x ∈ X por (f · g)(x) =
f(x)g(x) — é também um elemento de A.
Dizemos ainda que uma subálgebra A ⊆ C(X) separa pontos se, e somente
se, para quaisquer x, y ∈ X distintos existe f ∈ A tal que f(x) = f(y).
Estamos agora em condições de enunciar o teorema.
Teorema (Stone-Weierstrass). Sejam X um espaço de Hausdorff com-
pacto e A uma subálgebra de C(X) que separa pontos e que contém uma
função constante não-nula. Então A é densa em C(X).
Note que o teorema da aproximação de Weierstrass pode ser obtido a
partir do teorema de Stone-Weierstrass tomando-se X = [0, 1] e A = P.
8

g) = d(g. Defina. Para cada x ∈ X. Denotaremos por C(X) o conjunto de todas as funções contínuas e limitadas1 de X em R. Definimos assim uma função f : X → R. M ]. g ∈ C(X). Seja (fn )n∈N uma sequência de Cauchy em (C(X).d. fn ) para m. uma função f : A → R é dita limitada se. existe ε n0 ∈ N tal que. 2 . existe M > 0 tal que f [A] ⊆ [−M. Temos que d é uma métrica sobre C(X): É claro que. g) = sup{|f (x) − g(x)| : x ∈ X} ≥ 0. logo. g. d). Afirmação 1: (fn )n∈N converge uniformemente para f . Vamos provar que f ∈ C(X) e que fn −→ f em (C(X). fn ) < 2 . h) = sup{|f (x) − h(x)| : x ∈ X} ≤ ≤ sup{|f (x) − g(x)| + |g(x) − h(x)| : x ∈ X} ≤ ≤ sup{|f (x) − g(x)| : x ∈ X} + sup{|g(x) − h(x)| : x ∈ X} = = d(f. para quaisquer f. para quaisquer m. Além disso.e. como x0 ∈ X foi tomado de maneira arbitrária. pois |fm (x) − fn (x)| ≤ sup{|fm (x′ ) − fn (x′ )| : x′ ∈ X} = d(fm . n ∈ N quaisquer. h). segue que f é contínua. temos que (fn (x))n∈N é uma sequência de Cauchy em R. dadas f. f é contínua em x0 e. Como (fn )n∈N é uma sequência de Cauchy. 2 O espaço C(X) Seja X um espaço topológico. d(f. e somente se. Demonstração. d). tem-se d(fm . ∀f. existe limn→∞ fn (x) =: f (x) ∈ R. q. (C(X). Proposição. g ∈ C(X). tem-se que d(f. g) + d(g. h ∈ C(X) arbitrárias. Fixe ε > 0 arbitrário.Assim. d(f. f ) e que d(f. n ≥ n0 . g) = 0 ⇔ f (x) − g(x) = 0 ∀x ∈ X ⇔ f = g. Fixe 1 n→∞ Dado um conjunto A. como R é um espaço métrico completo. d) é um espaço métrico completo.

Segue então do lema da seção anterior que f é contínua. vale |fn (x) − f (x)| < 2 . existe m0 ∈ N tal que. Provemos. finalmente. Para todo m ≥ n0 . e segue então ε ε da definição de f que f (x) = limm→∞ fm (x) ∈ [fn (x) − 2 . e segue então da definição de f que f [X] ⊆ [−M − 1. Temos então que f ∈ C(X). fn ) < 1 para todo n ≥ m0 . fn ) < 1. para ε quaisquer n ≥ n0 e x ∈ X. em particular. d) — o que conclui a demonstração. e somente se. Provaremos agora que f é limitada. a afirmação está provada. esta será sempre a topologia considerada sobre o conjunto C(X). |f (x) − fn (x)| ≤ ε 2 < ε e. 3 . existe n0 ∈ N tal que. n→∞ 3 O teorema da aproximação de Weierstrass Nosso primeiro — e principal — objetivo nesta seção é provar o teorema da aproximação de Weierstrass. Para tanto. ocorre d(fm . para quaisquer m. f é limitada. tem-se que ε |fm (x) − fn (x)| ≤ sup{|fm (x′ ) − fn (x′ )| : x′ ∈ X} = d(fm . Como (fn )n∈N é uma sequência de Cauchy. como desejado. fn ) < . M + 1] para todo n ≥ m0 . Portanto. d) se. Note que. se M > 0 é tal que fm0 [X] ⊆ [−M. temos que fn −→ f em (C(X). arbitrário. que fn −→ f em (C(X). logo. tem-se que fn [X] ⊆ [−M − 1. Como ε é q. M + 1]. a topologia τd sobre C(X) associada à métrica d é chamada topologia da convergência uniforme2 em C(X). segue que fn −→ f em (C(X). dadas f ∈ C(X) e uma sequência (fn )n∈N em C(X). d(fm0 . 2 ε ε logo fm (x) ∈ ]fn (x) − 2 . como x e n foram tomados de maneira arbitrária. Pela afirmação 1. Assim. Fixe ε > 0 arbitrário.e. Em virtude disso. fn (x) + 2 ]. fn (x) + 2 [ para todo m ≥ n0 . será utilizado o seguinte resultado: 2 Deste ponto em diante. f ) = sup{|fn (x) − f (x)| : x ∈ X} ≤ n→∞ ε 2 < ε. para todo n ≥ n0 . d). (fn )n∈N converge uniformemente para f .d. M]. n→∞ tem-se que d(fn .agora x ∈ X e n ≥ n0 arbitrários. Assim. n ≥ m0 .

n Demonstração. k =1 x(1−x) n2 Finalmente. k Tomando a derivada em ambos os lados desta igualdade.Lema. k Multiplicando ambos os lados por x(1 − x). novamente tomando a derivada em ambos os lados (sendo xk (1 − x)n−k um dos fatores considerados). basta multiplicar ambos os lados por n para obter k=0 n k x (1 − x)n−k k k −x n 2 = x(1 − x) .e. Para todo n ≥ 1. obtemos n k=0 n k x (1 − x)n−k (k − nx) = 0 k e. segue que n k=0 n n [xk−1 (1 − x)n−k−1 (k − nx)2 − nxk (1 − x)n−k ] = 0 ⇒ k n k−1 x (1 − x)n−k−1 (k − nx)2 = n k n ⇒ k=0 k=0 n k x (1 − x)n−k = n. n q. 4 . vale a seguinte igualdade de polinômios na variável x: n k=0 n k x (1 − x)n−k k k −x n 2 = x(1 − x) .d. Sabemos que n k=0 n k x (1 − x)n−k = (x + (1 − x))n = 1n = 1. obtemos n k=0 n [kxk−1 (1 − x)n−k + xk (n − k)(1 − x)n−k−1 (−1)] = 0 ⇒ k n ⇒ k=0 n k−1 x (1 − x)n−k−1 [k(1 − x) − x(n − k)] = 0 ⇒ k n ⇒ k=0 n k−1 x (1 − x)n−k−1 (k − nx) = 0.

tem-se |Bn (x) − f (x)| < ε — o que conclui a demonstração. logo n f |Bn (x) − f (x)| = k=0 n n k x (1 − x)n−k f k k n k n − f (x) ≤ ≤ k=0 n k x (1 − x)n−k f k − f (x) . Como f é contínua e [0. Fixe ε > 0 arbitrário. então f é uniformemente contínua. existe uma sequência de funções polinomiais de [0. n f |Bn (x) − f (x)| ≤ k=0 n k x (1 − x)n−k f k 5 k n − f (x) = . 1] → R. Para tanto. vamos introduzir a seguinte notação: dada uma função f : [0. Provaremos que existe n ≥ 1 tal f que. tem-se ε |f (a) − f (b)| < 2 . 1] com |a − b| < δ. Temos então que. para quaisquer a. Seja An (x) = 0≤k≤n k | n −x|≥δ n k x (1 − x)n−k f k k n − f (x) . Tome n ≥ 1 arbitrário. Para todo x ∈ [0. para todo x ∈ [0. b ∈ [0. 1]. existe δ > 0 tal que. 1] em R que converge uniformemente para f . 1]. Dada uma função contínua f : [0. 1] → R.Podemos agora demonstrar o teorema principal desta seção. 1]. o n-ésimo polinômio de Bernstein associado a f é o polinômio na variável x n f Bn = k=0 n k x (1 − x)n−k f k k n . logo. temos que n f Bn (x) n − f (x) = k=0 n k x (1 − x)n−k f k n k n − k=0 n k x (1 − x)n−k f (x) = k =1 = k=0 n k x (1 − x)n−k f k k n − f (x) . para todo x ∈ [0. 1] é compacto. Teorema (Weierstrass). Demonstração.

satisfazendo então a condição q. k 2 2 ≤1 Se provarmos então que existe n ≥ 1 tal que. . e em particular é limitada em R. 1] é compacto. 6 ε 2 < ε . Seja M > 0 tal que f [[0. sua imagem por uma função contínua também é compacta. tal que n > M . segue então que An (x) ≤ M . obteremos o desejado. 2 i.. para todo x ∈ [0. 1]] ⊆ [−M. como 0 ≤ x(1 − x) ≤ 1 4 2M x(1 − x) · δ2 n para todo x ∈ [0.e.e.d. ocorre ε An (x) < 2 . 1]. Temos então que An (x) = 0≤k≤n k | n −x|≥δ n k x (1 − x)n−k f k k n − f (x) ≤ ≤2M ≤ 2M · 0≤k≤n k | n −x|≥δ n k x (1 − x)n−k = k n k x (1 − x)n−k δ 2 ≤ k k −x n 2 = 2M · δ2 0≤k≤n k | n −x|≥δ 2M ≤ 2 · δ 0≤k≤n k | n −x|≥δ n k x (1 − x)n−k k . se tomarmos n ≥ 1 tal que teremos que An (x) < requerida.= An (x) + 0≤k≤n k | n −x|<δ n k x (1 − x)n−k f k k n − f (x) ≤ ≤ An (x) + 0≤k≤n k | n −x|<δ ε n k ε x (1 − x)n−k · ≤ An (x) + . 2δ 2 n M 2δ2 n Portanto. 1]. como [0. 1]. decorre do lema anterior que An (x) ≤ e. Assim. δ2 ε para todo x ∈ [0. M] — um tal M existe pois.

3. Para tanto. 1]) definida por pα (x) = xα para todo x ∈ [0. C(X) — é um espaço vetorial com as operações de soma e produto por escalar definidas ponto a ponto.. sob quais condições tem-se que o subespaço de C([0. como toda função contínua definida num compacto a valores reais é limitada. 1]) gerado por {pαn : n ∈ N} é denso em C([0. Para enunciar o primeiro deles. O próximo teorema fornece uma resposta à seguinte pergunta: se 0 = α0 < α1 < α2 < . ou seja. C([0. Seja P = {p ∈ C([0. 1]). 1]) é um espaço topológico separável. utilizaremos a seguinte notação: para cada α ≥ 0. o resultado estará demonstrado se provarmos que PQ é denso em P. deve-se usar o fato de que Q é denso em R. O subespaço de C([0. Seja PQ o subconjunto de P constituído pelas funções polinomiais de coeficientes racionais. para todo x ∈ [0. que. . Como PQ é enumerável. este teorema pode ser enunciado da seguinte maneira: Teorema (Weierstrass). 1]. apresentaremos — sem demonstração — alguns resultados que. existe uma função polinomial com coeficientes racionais g ∈ C([0. Ideia da demonstração. generalizam o teorema da aproximação de Weierstrass. 1]) : p é uma função polinomial}. de modo mais geral.1 Generalizações A título de curiosidade. Note que C([0. 1]) gerado por {pn : n ∈ N} é denso em C([0. 1]). . Tendo isso em vista.Note que. 1]. Então P é denso em C([0. Com esta formulação. 1]) tal que. podemos então enunciar o seguinte Corolário. denotaremos por pα a função em C([0. o teorema da aproximação de Weierstrass pode ser enunciado da seguinte maneira: Teorema (Weierstrass). num certo sentido. 1]). tem-se |f (x) − g(x)| < ε. dados ε > 0 e uma função polinomial f em C([0. 1]) — ou. 1])? 7 .

ao invés de C([0. 1] e A = P. (a) Se a série (b) Se ∞ 1 n=0 αn ∞ 1 n=0 αn é divergente. que é provavelmente a generalização mais conhecida do teorema da aproximação de Weierstrass. Dizemos ainda que uma subálgebra A ⊆ C(X) separa pontos se. Teorema (Stone-Weierstrass). Sejam X um espaço de Hausdorff compacto e A uma subálgebra de C(X) que separa pontos e que contém uma função constante não-nula. é convergente e α ∈ R+ \ {αn : n ∈ N}. Então A é densa em C(X). 8 . de modo que serão necessárias algumas definições. e somente se. y ∈ X distintos existe f ∈ A tal que f (x) = f (y).Teorema (Müntz-Szasz). g ∈ A. 1]). a função f · g — definida em cada x ∈ X por (f · g)(x) = f (x)g(x) — é também um elemento de A. / Passemos agora ao teorema de Stone-Weierstrass. Dizemos que A ⊆ C(X) é uma subálgebra de C(X) se. Seja X um espaço topológico. então pα ∈ S. e somente se. 1]). O objetivo deste teorema é obter um resultado análogo ao resultado original de Weierstrass para o espaço C(X). Note que o teorema da aproximação de Weierstrass pode ser obtido a partir do teorema de Stone-Weierstrass tomando-se X = [0. Estamos agora em condições de enunciar o teorema. seja S o subespaço gerado por {pαn : n ∈ N}. para quaisquer x. para quaisquer f. Nas condições acima. então S é denso em C([0. Naturalmente. o conceito de função polinomial pode não fazer sentido tendo-se um espaço de Hausdorff compacto qualquer como domínio. sendo X um espaço de Hausdorff compacto arbitrário. A é um subespaço vetorial de C(X) tal que.

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