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04/03/2021 · Justiça Federal da 1ª Região

PODER JUDICIÁRIO
JUSTIÇA FEDERAL
Seção Judiciária de Mato Grosso
7ª Vara Federal Criminal da SJMT

PROCESSO: 1006337-23.2019.4.01.3600
CLASSE: AÇÃO PENAL - PROCEDIMENTO ORDINÁRIO (283)
POLO ATIVO: Ministério Público Federal (Procuradoria)
POLO PASSIVO:CARLA REITA FARIA LEAL e outros
REPRESENTANTES POLO PASSIVO: HELIO NISHIYAMA - MT12919/O, SAULO RONDON GAHYVA -
MT13216/O e CAROLINA ELMA PEREIRA SCHUCK - MT13195/O
 

DECISÃO

O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL denunciou MAURO MENDES FERREIRA e CARLA


REITA FARIA LEAL, imputando-lhes o crime tipificado no art. 299 do Código Penal.

Nas respostas escritas à acusação (Num. 94118385 - Pág. 1-62 e Num. 104173382 - Pág. 1-22), as
defesas sustentaram a aplicação do princípio da consunção, para que o crime de fraude processual (CP, art. 348)
absorva o crime de falsidade ideológica (CP, art. 299). Com a absorção, pugnaram as defesas pela declaração de
extinção da punibilidade, ante a prescrição do crime de fraude processual.

Instado a se manifestar sobre a consunção, o MPF sustentou, em síntese, que o crime de falsidade
ideológica não pode ser considerado como crime meio para o delito de fraude processual, porque a falsidade foi
praticada dois anos após a consumação do crime de fraude processual e serviu para impedir a punição administrativa
da ré na Justiça do Trabalho (Num. 347126368 - Pág. 1-6).

Ad f d d CARLA REITA FARIA LEAL i id d d li ã d i í i


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A defesa da acusada CARLA REITA FARIA LEAL reiterou a necessidade de aplicação do princípio
da consunção e argumentou, quanto à cota ministerial, em síntese, que: a) o MPF inovou a tese acusatória, ao afirmar
que a falsidade ideológica não serviu para possibilitar a consumação da fraude à arrematação, pois na denúncia, a
acusação narra exatamente que a falsidade serviu como meio para assegurar a fraude à arrematação; b) mas ainda
que se acolhesse a nova tese acusatória, a falsidade ideológica seria um pós-fato impunível, ou seja, mero
exaurimento do crime de fraude à arrematação (Num. 361272898 - Pág. 1-8).

A defesa do acusado MAURO MENDES FERREIRA juntou cópia do acórdão de agravo de


instrumento n. 1030091-61.2018.4.01.0000 do TRF1 e reiterou a aplicação do princípio da consunção, nos seguintes
termos: a) ausência de justa causa material para o prosseguimento do processo, pois o TRF1, no julgamento de
recurso da ação de improbidade administrativa movida contra os acusados na 8ª Vara Cível desta SJ/MT, entendeu
que a corré CARLA REITA não atuava como magistrada no processo trabalhista em que houve a arrematação do
imóvel; b) o TRF1 realizou a análise exauriente das provas e concluiu que não existe ilegalidade na aquisição do
imóvel; c) a inaptidão dos novos argumentos lançados pelo MPF para afastar a aplicação do princípio da consunção,
que atribuiu a mera questão da contemporaneidade, o que destoa da narrativa inicial da denúncia, que afirmou
exatamente que a falsidade ideológica teria servido para dar aspecto de legalidade à arrematação apontada como
fraudada (Num. 365892399 - Pág. 1-8).

Em nova manifestação, o MPF ponderou, em síntese, que decisão proferida pelo TRF1 no agravo de
instrumento n° nº 1030091-61.2018.4.01.0000, interposto nos autos da ação de improbidade administrativa nº
0016374-34.2016.4.01.3600 não vincula o juízo criminal, porque as esferas criminal e cível são independentes.
Asseverou também que a decisão do agravo de instrumento não analisou o mérito da ação, mas questão preliminar e
ainda não transitou em julgado (Num. 405487894 - Pág. 1-4).

Relatados. Decido.

Trata-se de ação penal proposta pelo MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL em face de MAURO
MENDES FERREIRA e CARLA REITA FARIA LEAL, imputando-lhes o crime tipificado no art. 299 do Código
Penal.

Passo à análise das teses defensivas apresentadas nas respostas escritas à acusação.

No que concerne ao princípio da consunção, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça


ressalta que para a aplicação do referido princípio, necessário se faz o preenchimento dos seguintes requisitos: a) a
relação de dependência entre os crimes (ausência de autonomia delitiva); b) exaurimento do potencial lesivo da
conduta a ser absorvida; c) inexistência de desígnios autônomos. Nesse sentido, colaciono os julgados.

“AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. DIREITO PENAL. PROCESSO PENAL.


FALSIFICAÇÃO DE DOCUMENTO PÚBLICO. ESTELIONATO. CONSUNÇÃO.
IMPOSSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE EXAURIMENTO DO POTENCIAL OFENSIVO.
CONDENAÇÃO A REPARAÇÃO DE DANOS. NECESSIDADE DE PEDIDO PRÉVIO E
EXPRESSO. AGRAVO REGIMENTAL PARCIALMENTE PROVIDO. 1. "Para que se
reconheça o princípio da consunção é preciso que a conduta definida como crime seja fase de
preparação ou de execução de outro delito e depende das circunstâncias da situação concreta;
no caso das falsificações, também importa o exaurimento do potencial lesivo" (AgRg no REsp
n. 1.640.607/RO, relator Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, SEXTA TURMA, julgado em
28/3/2019, DJe 5/4/2019). 2. No caso, a prática do estelionato não exauriu o potencial ofensivo do
delito de falsificação de documento público, que permitiria a obtenção de outros benefícios de
forma irregular, o que impede a aplicação do princípio da consunção conforme visto acima. 3. "Nos
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termos do entendimento desta Corte Superior a reparação civil dos danos sofridos pela vítima do
fato criminoso, prevista no art. 387, IV, do Código de Processo Penal, inclui também os danos de
natureza moral, e para que haja a fixação na sentença do valor mínimo devido a título de
indenização, é necessário pedido expresso, sob pena de afronta à ampla defesa" (AgRg no AREsp n.
720.055/RJ, relator Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, SEXTA TURMA, julgado em
26/6/2018, DJe 2/8/2018). 4. Agravo parcialmente provido para afastar a condenação a reparação de
danos. (AgRg no REsp 1820918/RS, Rel. Ministro ANTONIO SALDANHA PALHEIRO, SEXTA
TURMA, julgado em 27/10/2020, REPDJe 12/11/2020, DJe 03/11/2020)” [grifei]

“PENAL E PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO


ESPECIAL. INCOMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL. TRANSNACIONALIDADE NÃO
VERIFICADA. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. PORNOGRAFIA INFANTIL NA
INTERNET. COMERCIALIZAÇÃO E ARMAZENAMENTO DE IMAGENS PORNOGRÁFICAS
DE CRIANÇAS. ARTS. 241 E 241-B, DA LEI 8.069/1990 (ESTATUTO DA CRIANÇA E DO
ADOLESCENTE). PRINCÍPIO DA CONSUNÇÃO. INAPLICABILIDADE. DELITOS
AUTÔNOMOS. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. A questão acerca da
incompetência da Justiça Federal, em razão da ausência de transnacionalidade do delito, não foi
objeto de debate pela instância ordinária, o que inviabiliza o conhecimento do recurso especial por
ausência de prequestionamento. Incide ao caso a Súmula n. 282/STF. 2. Há autonomia dos tipos
penais trazidos nos arts. 241 e 241-B, ambos do Estatuto da Criança e do Adolescente, uma vez que
o crime no art. 241-B não configura fase normal nem meio de execução para o crime do art. 241. De
fato, é possível que alguém venda sem efetivar armazenamento, como pode realizar o
armazenamento sem a comercialização. Ou seja, são efetivamente verbos e condutas distintas, que
podem ter aplicação autônoma. 3. Na espécie, o Tribunal de origem ponderou, ainda, que o réu
possuía desígnios autônomos e independentes, inicialmente armazenando, trocando,
disponibilizando, e apenas posteriormente, por sugestão de terceira pessoa, decidiu vender/expor à
venda os arquivos que possuía. É o que se extrai do seu interrogatório em sede policial, não
infirmado durante a instrução criminal. Nesse contexto, não há se falar em consunção, estando
devidamente delineada a autonomia de cada conduta, apta a configurar o concurso material de
crimes, de modo que não merece prosperar a irresignação defensiva, no ponto. 4. Agravo regimental
não provido. (AgRg no AREsp 1714855/RJ, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA,
QUINTA TURMA, julgado em 27/10/2020, DJe 12/11/2020)” [grifei]

“RECURSO ESPECIAL. CRIME AMBIENTAL. ART. 29, DA LEI N. 9.605/1998. CRIME DE


FALSIDADE IDEOLÓGICA. ART. 299 DO CP. APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA
CONSUNÇÃO. CASO CONCRETO. IMPOSSIBILIDADE. CONDUTAS AUTÔNOMAS SEM
QUALQUER RELAÇÃO DE SUBORDINAÇÃO ENTRE SI. RECURSO ESPECIAL PROVIDO.
1. A manutenção em cativeiro de pássaros da fauna silvestre brasileira ameaçados de extinção em
desacordo com a licença obtida constitui conduta delituosa prevista no art. 29 da Lei n. 9.605/1998.
2. A inserção de informação diversa da que deveria constar no registro para constituição da empresa
"Criatório Soberano", bem como em vários outros documentos amolda-se ao tipo penal previsto no
art. 299 do Código Penal. 3. Impossibilidade de absorção do crime de falsidade ideológica pelo
crime ambiental, em face da autonomia das condutas, praticadas de forma distinta e em
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períodos diversos. 4. Recurso especial provido para reformar a sentença de primeiro grau e
condenar os réus pelo crime do art. 299 do Código Penal, com retorno do autos ao juiz de primeiro
grau com o fim de aplicação da pena. (REsp 1745308/MG, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI
CRUZ, SEXTA TURMA, julgado em 07/05/2019, DJe 14/05/2019)” [grifei]

Como bem observado pelo MPF, no dia 02/12/2009 o acusado MAURO MENDES arrematou o
imóvel em hasta pública e dois anos depois, no dia 07/12/2011, o imóvel foi transferido para a acusada CARLA
REITA. Destarte, com a narrativa clara do desdobramento cronológico da ação, está afastada a aplicação do princípio
da consunção, ante a autonomia das condutas, porquanto se houve a falsidade ideológica, ela foi praticada dois anos
depois da consumação do suposto crime de fraude à arrematação. Não há que se falar em relação de crime meio e
crime fim.

Observo que o potencial lesivo, em tese, da fraude à arrematação não se exauriu com a
transferência do imóvel. Esse potencial lesivo, se confirmada a fraude, reflete em muitos outros âmbitos,
notadamente com efeitos fiscais (declaração de bens de imposto de renda), civis (servir de garantia para e crédito) e
penais (decorrentes da utilização desse documento apontado como falso), enfim, caso comprovada a fraude, ainda
persistiria a potencialidade lesiva da falsidade ideológica, não havendo que se falar em exaurimento do falso, ainda
mais considerando que esse falso, em tese, foi praticado dois anos depois da suposta fraude à arrematação.

No que concerne à tese de ausência de justa causa material para prosseguimento da ação penal,
porque o TRF1, no julgamento de recurso da ação de improbidade administrativa movida contra os acusados na 8ª
Vara Cível desta SJ/MT, entendeu que a corré CARLA REITA não atuava como magistrada no processo trabalhista
em que houve a arrematação do imóvel, ressalto que a independência das instâncias, conforme foi reconhecido pela
própria defesa do acusado MAURO MENDES, não traz efeito vinculativo do julgado à esfera penal.

O julgamento cível não possui o condão de alterar a trajetória da ação penal, mormente neste
momento processual, considerando que a denúncia foi recebida à luz de indícios de materialidade e autoria delitiva e
dependeria, para acolher a tese, julgar o mérito da prova documental e concluir a culpa ou inocência dos acusados,
subtraindo a instrução criminal e impedindo os debates em contraditório judicial.

De outro lado, a decisão do agravo de instrumento ainda não é definitiva, como bem ressaltado pelo
MPF.

Por não vislumbrar a ocorrência das situações previstas nos artigos 395 e 397, ambos do Código de
Processo Penal, mantenho o recebimento da denúncia e determino o prosseguimento do processo em seus
demais termos, em conformidade com o artigo 399 do mesmo diploma legal.

Verifico, entretanto, que, até o presente momento, o MPF não se manifestou sobre a possibilidade de
oferecimento de acordo de não persecução penal.

Deste modo, intime-se o MPF para que se manifeste no prazo de 10 (dez) dias sobre a proposta.

Com o oferecimento do acordo, intimem-se as defesas para manifestação no mesmo prazo.

Manifestando-se negativamente o MPF, ou deixando transcorrer in albis o prazo para manifestação,


façam-me os autos conclusos para designação de audiência de instrução.

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Cuiabá/MT, data da assinatura.

(assinado digitalmente)

PAULO CÉZAR ALVES SODRÉ

JUIZ FEDERAL

Assinado eletronicamente por: PAULO CEZAR ALVES SODRE


04/03/2021 10:28:40
http://pje1g.trf1.jus.br:80/consultapublica/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam
ID do documento:

210304102839866000004562
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