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Do livro Histórias da Nossa Terra

• 1911 •

D EPOIS DA
BATALHA
JÚLIA LOPES DE ALMEIDA

grandes viajantes
• 360meridianos •
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divulgado sem prévia autorização

Curadoria: 360meridianos
Projeto Gráfico e Diagramação: Luíza Antunes
Atualização e Edição: Natália Becattini
Revisão: Rafael Sette Câmara e Luíza Antunes
Sobre a Autora: Natália Becattini
Apêndice Histórico: Luíza Antunes
Ilustração: © Open Clipart-Vectors

2ª Edição - Março 2021


360meridianos.com

Í NDICE 

Depois da Batalha 6

Sobre a Autora 19

A história da Guerra do Paraguai 28

Agradecimentos 40
“Adriano fez fogo, — e ia atirar de
novo quando sentiu pousar-lhe no
ombro a mão pesada de um
homem. Voltou-se e viu ali, junto
de si, o general Osório.”
JÚLIA L OP ES DE ALMEIDA

DEPOIS DA
BATA L H A

A batalha de Tuiuti, ou da
Lagoa Branca, tinha cessado,
deixando o campo coberto de
cadáveres. Avizinhava-se a noite, que
prometia ser negra e fria. Todo o céu se
rebuçava em nuvens negras, compactas, e
o cheiro da pólvora vagava ainda no ar
carregado da tarde. 
No chão, sobre a relva esmagada,
empoçava-se o sangue em coágulos
denegridos, e arfavam alguns soldados
moribundos, enquanto outros repousavam,
de braços abertos, na placidez da morte. 
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360MERIDIANOS

Já se não ouvia o estampido dos tiros, nem


sequer o rumor das tropas em retirada,
quando apareceu no campo um rapazinho
esquálido e miseravelmente vestido. Boiava
nas lágrimas dos seus lindos olhos negros
uma infinita e dolorida piedade. Os
cabelos crescidos caíam-lhe sobre os
ombros magros; a camisa, aberta no peito,
punha a nu a sua pele, em que se
desenhavam nitidamente os ossos da
carcaça. 
Quem era e que vinha fazer ali aquele
menino andrajoso e pálido?
Aquele menino, débil como um caniço do
brejo, era um herói, um forte, e ia àquele
campo levado pela misericórdia e pelo
amor dos homens. 
Chamava-se Adriano, era natural da
Paraíba e órfão de pai e mãe. 
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JÚLIA L OP ES DE ALMEIDA

Aquele caíra baleado na guerra; Adriano


acompanhara o pai como um cão
acompanha o dono. Terrivelmente audaz e
paciente, resistia sem queixas às agonias
porque passava o exército: as caminhadas,
a fome, a sede, o leito de pedras, ou as
vigílias forçadas. Ninguém fazia caso dele,
e ele, mesmo depois da morte do pai,
acompanhava a todos, certo de cumprir o
seu destino. 
Mas ah! à noite, quando estendia na terra
dura o seu corpinho frágil, tinha a visão de
outra meninice: o colo materno… as ruas
da sua cidade… uns companheiros para as
suas partidas de pião e a salinha da escola
onde ele aprenderia a ser homem digno de
uma grande pátria. Tudo isso acabara —
mal tinha começado. Por quê? Por causa
da guerra, daquela guerra maldita que lhe

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360MERIDIANOS

fora buscar o pai à casa para o estraçalhar


num campo, longe de tudo o que amava! 
Como se podia dar semelhante injustiça na
terra? Haveria nada mais desumano do
que essa humanidade enfurecida e cruel?! 
Ele ficara no exército pensando em
minorar o sofrimento dos feridos: levar a
gota de água aos beiços ressequidos dos
moribundos, o beijo da paz à face febril do
inimigo vencido.  
Nessa tarde, 24 de Maio, vendo voltar ao
acampamento os soldados exaustos, e
sabendo que o campo ficara juncado de
cadáveres, estremeceu lembrando-se dos
urubus, que desceriam a atacar os corpos
inermes. Que fazer?

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JÚLIA L OP ES DE ALMEIDA

Partir imediatamente. Ele espantaria as


aves com os seus gritos; custasse o que
custasse, defenderia os mortos! 
O combate, que tinha durado desde às
onze e meia até às quatro e meia da tarde,
fora dos maiores, se não o maior que tinha
havido na América do Sul. Brasileiros e
Paraguaios mostravam as faces lívidas ao
céu inclemente do inverno.
Alguns tinham os olhos ainda abertos,
numa expressão de terror ou de saudade;
outros pareciam sonhar com uma outra
vida. 
Adriano ajoelhou-se e rezou por todos;
depois ergueu-se assustado; ouvia um
rumor surdo, que vinha do alto. Seria a
cólera de deus contra a perversidade dos
homens? Levantou os olhos e viu lá em

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360MERIDIANOS

cima uma nuvem negra, que descia


faminta, esvoaçando. Os urubus! 
Como poderia ele defender todo aquele
vasto campo?
Desesperado, começou a gritar tentando
repelir o assalto das aves terríveis. Mas o
som da sua voz aterrorizava-o no meio
daquele silêncio. Lembrou-se das armas,
procurou uma espingarda e achou-a logo a
seus pés. Fez fogo. As aves fugiram
espavoridas, para irem pousar mais
adiante. 
Caiu a noite; um vento áspero uivava na
campina. Sozinho naquele lugar sinistro,
Adriano, entanguido de frio, sentou-se
apertando os joelhos nas mãos, e pensou
que toda aquela gente mutilada e sem
vida, deixava olhos que a chorassem, mãos
que se juntassem em preces dolorosas,
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JÚLIA L OP ES DE ALMEIDA

mulheres e crianças sem arrimo e na


pobreza! A guerra é o mais tremendo de
todos os crimes, porque sacrifica inocentes!
Que pregou Jesus no mundo? Paz,
igualdade, fraternidade. E o homem que se
diz cristão, de que modo cumpre esses
preceitos divinos?!
De vez em quando Adriano parecia ouvir
um soluço. Quedava-se à escuta. O som
não se repetia de igual maneira; vinha
mais forte ou mais fraco, confundindo-se
ora com a voz humana, ora com um
grasnido de corpo. Só tarde apareceu a lua
entre nuvens pretas como véus de luto. 
Dir-se-ia a face pálida de uma viúva triste,
nos seus véus de crepe. Entretanto, vinha à
lembrança de Adriano a sua casinha na
Paraíba, onde a mãe cosia na soleira, e o
pai lavrava a terra, cantando uns versos

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360MERIDIANOS

que nunca esquecera, e em que havia


como que um prognóstico do seu triste
fim:

Quando com água regada,


Toda a terra frutifica;
Mas se é de sangue encharcada,
Estéril fica. 
Vai para a guerra o soldado 
Sempre em marca com afã
Soa o tambor compassado:
Plan… rataplan! 

O que é bom produz bondade, 


E que é que produz a guerra? 
Da pátria e da humanidade
O homem desterra. 

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JÚLIA L OP ES DE ALMEIDA

Batalhões e regimentos, 
À noite e pela manhã
Sem parar marcham, aos centos:
Plan… rataplan.

Quem ame a pátria, conserve


Esta ideia sempre viva: 
Que melhor à terra serve
Quem a cultiva. 

Alta glória retumbante, 


A glória da guerra é vã.
Fuzilai! Matai! Avante! 
Plan… rataplan…
Bons frutos faz a semente
E as feras deixam que as dormem;
Só o homem, unicamente,
É contra o homem! 
Soldados contra soldados, 

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360MERIDIANOS

Na montanha e na rechã
Atiram-se alucinados…
Plan...rataplan!...

Terríveis carnificinas, 
Sangue, horror, crânios abertos…
E os campos e as oficinas 
Ficam desertos. 

Varreu feroz a metralha 


Campina inda ontem louçã…
Travou-se nela a batalha:
— Plan… rataplan…
Quando o amor da humanidade
Dominar por toda a Terra, 
Há de haver paz e bondade, 
Nunca mais guerra. 

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JÚLIA L OP ES DE ALMEIDA

Se a cristandade algum dia


For de verdade cristã, 
Só em tempo de alegria
Se há de ouvir o — rataplan!

Que saudades estes versos acordavam na


alma de Adriano! A noite foi longa; só com
a luz da madrugada seriam perigosos os
urubus, que dormiam agora nos altos
galhos das árvores. Pouco a pouco as
sombras foram-se modificando; uma faixa
de luz alvadia traçava uma linha no
horizonte; depois essa faixa foi-se
alargando, e invadiu todo o céu. Era o
dia. 
Adriano tratou de carregar as armas dos
soldados estendidos a seus pés;
desabotoando-lhes os cinturões, abria-lhes
as cartucheiras com mãos trêmulas, como

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360MERIDIANOS

se com aquele ato faltasse ao respeito


devido aos mortos, ou praticasse uma ação
vil! 
Era tempo. Mal ele acabava de pôr o
último cartucho em uma carabina, quando
ouviu o rumor dos urubus descendo em
bando aterrador! 
Adriano fez fogo, — e ia atirar de novo
quando sentiu pousar-lhe no ombro a mão
pesada de um homem. Voltou-se e viu ali,
junto de si, o general Osório. 
— Que fazes aqui, rapaz?! 
— Defendo os mortos, general… titubeou
ele. 
O general contemplou-o com admiração. 
— Sozinho?! 
— Sozinho…

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JÚLIA L OP ES DE ALMEIDA

— És um herói! Volta para o


acampamento. Deita-te na minha barraca.
Os mortos vão ser enterrados… A
sentinela não te viu? 
— Não sei…
— Dá-me a tua mão. És um homem!
Queres ser soldado? 
— Não! quero ser lavrador. 
— Escolheste bem. Caminha! 
E Adriano caminhou, sentindo
acompanhá-lo um longo olhar de
enternecida simpatia do velho militar. 

FIM


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360MERIDIANOS

SOBRE A AUTORA
JÚLIA LOPES DE ALMEIDA

19
JÚLIA L OP ES DE ALMEIDA

Nascida no Rio de Janeiro, em 1862, Júlia


Lopes de Almeida era filha de portugueses
de família aristocrática. A autora foi um
importante nome da literatura brasileira
da época, mas que acabou relegada pelo
cânone.
“Pois eu em moça fazia versos. Ah! Não
imagina com que encanto. Era como um
prazer proibido! Sentia ao mesmo tempo
a delícia de os compor e o medo de que
acabassem por descobri-los. Fechava-me
no quarto, bem fechada, abria a
secretária, estendia pela alvura do papel
uma porção de rimas…”
Sua criação tradicional a educou para ser
esposa, mas a veia literária a levou a
escrever os primeiros versos ainda menina,
escondida pelos cantos da fazenda onde
viveu dos sete aos 23 anos, em Campinas.
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360MERIDIANOS

Escrever, para mulheres da geração dela,


era um ato solitário de rebeldia, e ser
descoberta poderia levar a ridicularizações
e desencorajamentos. As poucas que se
atreviam a publicar seus trabalhos o
faziam por meio de nomes falsos. “A mim
sempre me parecia que se viessem a saber
desses versos em casa, viria o mundo
abaixo”, confessou ela a João do Rio.
Foi por obra de sua irmã que Julia Lopes
de Almeida acabou descoberta, quando ela
a pegou num de seus esconderijos e
entregou um dos poemas ao pai que,
depois de ler, voltou tranquilamente sua
atenção para o jornal e não disse nada.

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JÚLIA L OP ES DE ALMEIDA

“Tinha uma grande vontade de chorar,


de pedir perdão, de dizer que nunca mais
faria essas coisas feias, e ao mesmo tempo
um vago desejo que o pai sorrisse e
achasse bom. Ele, entretanto, severamente
lia. Na sua face calma não havia traço
de cólera ou de aprovação. Leu, tornou a
ler.”
No dia seguinte, saíram para uma
apresentação de Gemma Cuniberti,
pianista italiana, e, ao final, o pai lhe disse
que haviam encomendado a ele um artigo
sobre a apresentação, mas que ele não
poderia fazer por estar muito ocupado, e
que Julia deveria escrevê-lo em seu lugar.
Foi sua forma de conceder-lhe o aval e o
encorajamento que ela precisava para
continuar a escrever.

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360MERIDIANOS

Entre as obras de maior destaque da


escritora estão seu principal romance, A
Falência; o livro A Casa Verde, escrito em
parceria com seu marido Filinto de
Almeida; o livro de crônicas Eles e
Elas, que trouxe reflexões feministas
avançadas para a época; Pássaro
Tonto, um romance baseado no tempo em
que viveu em Paris; e Jornadas do meu
Pais, no qual ela retrata suas viagens pelo
Brasil.
Júlia era republicana, abolicionista e
feminista e esses temas estão presentes
tanto em seus livros quanto nas
colaborações feitas aos jornais e revistas da
época. Ela foi uma das primeiras mulheres
a publicar em jornais brasileiros, tendo
colaborado com a Tribuna Liberal, A
Semana, O País, A Gazeta de Notícias,

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JÚLIA L OP ES DE ALMEIDA

Jornal do Comércio, O Estado de S. Paulo


e Ilustração Brasileira.
Ela fez parte do grupo de intelectuais que
fundou a Academia Brasileira de Letras e
seu nome chegou a constar na primeira
lista de imortais da entidade, em 1897,
mas foi excluída na primeira reunião por
uma decisão que tornou as mulheres
impedidas de integrar a ABL, com a
justificativa de que sua criação foi baseada
no modelo francês, naquela época
exclusivamente masculino. Seu marido,
Filinto de Almeida, assumiu a cadeira em
seu lugar.

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360MERIDIANOS

HISTÓRIAS DA NOSSA E DE
OUTRAS TERRAS
Como escrever impressões de viagem de
um modo impessoal, se tudo que o
escritor observa tem de ser julgado pelo
seu modo exclusivo de ver e de sentir?
Julia Lopes de Almeida, Jornadas do
Meu País
Muito da matéria-prima das obras de Júlia
Lopes de Almeida vem das suas viagens. A
escritora realizou diversas expedições pelas
mais diferentes partes do nosso país e
registrou aquilo que viu tanto em forma de
crônicas de viagem, casos de Jornadas do
Meu País e Cenas e Paisagens do Espírito
Santo, quanto em contos ficcionais com
viés educativo e voltados para o público

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JÚLIA L OP ES DE ALMEIDA

infanto-juvenil, caso de Histórias da Nossa


Terra.
Júlia fez inúmeras viagens à Europa,
visitou a África e chegou a viver em
Portugal e Paris, mas não tinha interesse
em se limitar a escrever sobre destinos
europeus. Mais do que isso, ela queria
incentivar quem a lia a conhecer a
grandeza e a diversidade do Brasil, sua
natureza, as repercussões das guerras e da
recente abolição da escravatura e o
processo de transformação nacional
inerente à passagem do Império à
República.
No livro Jornadas do Meu país, que narra
a temporada que ela passou desbravando o
sul do Brasil, Julia começa com uma
reflexão sobre as mudanças que a estrada

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360MERIDIANOS

provocava em seu estado de espírito e na


sua capacidade de observação do mundo:
Como sempre que me disponho a partir
para longe, a minha viagem começa, mal
ponho o pé fora da soleira de casa. É
sempre assim: olho então para as coisas
mesmo as mais banais e insignificantes
com redobrada atenção, no desejo
inconsciente de as guardar na retina para
as levar comigo.
Julia Lopes de Almeida, Jornadas do
Meu País
Foi com esse senso de observação que ela
registrou o processo de modernização do
país, ao mesmo tempo em que se
escandalizava com a quantidade de
árvores cortadas para alimentar as
indústrias, mais um traço do senso crítico e
político que marcaram sua obra.

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JÚLIA L OP ES DE ALMEIDA

A PÊNDICE

A HISTÓRIA DA
GUERRA DO
PARAGUAI
A Batalha de Tuiuti, ocorrida durante a
Guerra do Paraguai, segundo nos conta
Júlia Lopes de Almeida, durou de onze e
meia até as quatro e meia da tarde. E
naquele campo coberto de cadáveres
“Brasileiros e Paraguaios mostravam as faces
lívidas ao céu inclemente do inverno”.
Nesse apêndice, recontaremos a história do
maior conflito da América do Sul, que
durou de 1864 a 1870 e terminou com

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360MERIDIANOS

cerca de 400 mil mortos - mais da metade


eram paraguaios.
A história da Guerra do Paraguai pode
variar bastante dependendo da
nacionalidade do seu interlocutor. É que
quem venceu o conflito foram brasileiros,
argentinos e uruguaios, que formavam a
chamada Tríplice Aliança. E como vocês
já sabem, a história é sempre contada pelo
lado dos vencedores.
Mas basta conversar com um paraguaio
para ouvir um lado diferente do conflito.
Por lá, Francisco Solano Lopez é visto não
como um ditador com sede de sangue, mas
como um herói nacional. E os brasileiros
por vezes são acusados de genocidas.

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JÚLIA L OP ES DE ALMEIDA

AS TENSÕES QUE LEVARAM À


GUERRA DO PARAGUAI
Os quatro países haviam se tornado
independentes há poucas décadas e
tinham ideias diferentes sobre o futuro da
região. A pretensão do Império do Brasil
era ser a força hegemônica da área. E a
Argentina tinha as mesmas aspirações.
Entraves à isso eram o surgimento e
fortalecimento das nações do Uruguai e do
Paraguai.
O Uruguai tinha dois partidos políticos.
Os blancos, que estavam no poder e eram
parceiros do Paraguai, permitindo que o
país utilizasse o Porto de Montevidéu
como saída para o mar. No entanto, os
brasileiros tinham interesses diferentes e
apoiavam os Colorados, liderados por
Venâncio Flores.

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360MERIDIANOS

No fim de 1864, o governo imperial, a fim


de apoiar um golpe colorado, invadiu o
Uruguai.
Segundo o historiador André Toral:
“López, por seu lado, planejava a
redistribuição de poder na bacia do Prata.
Através de uma esperada união de
interesses com as separatistas províncias
argentinas de Entre Rios e Comentes, e
com os blancos depostos pelos brasileiros no
Uruguai, sonhava em romper o isolamento
de seu país através do porto de
Montevidéu e contrapor-se às políticas de
Buenos Aires e do Rio de Janeiro.”
A reação de Solano Lopez à invasão foi
partir para o conflito. O historiador
Ricardo Salles explica à Biblioteca
Nacional que Lopez acreditava no
numeroso contingente de seu exército.
“Superestimando as dissensões internas na
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JÚLIA L OP ES DE ALMEIDA

Argentina e no Brasil, após advertir que


não admitiria a interferência brasileira,
invadiu a província do Mato Grosso.” O
ditador paraguaio também sequestrou um
navio brasileiro e entrou no território
argentino para chegar ao Brasil.
Todas essas ações resultaram na união dos
governos brasileiro, uruguaio e argentino,
que formaram a chamada Tríplice
Aliança.
VOLUNTÁRIOS DA PÁTRIA
O personagem do conto de Julia Lopes de
Almeida, um menino paraibano que
deseja ser lavrador e perde os pais numa
guerra travada no Sul do Brasil, a muitos e
muitos quilômetros de distância de sua
terra natal, é um retrato bastante real
sobre quem eram os soldados brasileiros
na Guerra do Paraguai, cuja invasão

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360MERIDIANOS

começou no Rio Grande do Sul e no Mato


Grosso.
É que, inicialmente, o exército paraguaio
era muito mais numeroso. O Brasil, na
época, sequer tinha um exército
organizado. Logo, o Império Brasileiro
decretou a criação do corpo de
Voluntários da Pátria: “Pelo decreto,
aqueles que acolhessem ao chamado
patriótico, uma vez obtida sua baixa,
receberiam uma quantia em dinheiro e
uma gleba de terra em colônias militares
no interior do país. O número de
voluntários que, num primeiro momento,
se apresentou mostrou-se insuficiente”,
escreve Salles.
Segundo Andre Toral, no artigo A
participação dos negros escravos na guerra do
Paraguai, “Ainda em 1865 iniciou-se o
recrutamento forçado para formação
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JÚLIA L OP ES DE ALMEIDA

dos Corpos de Voluntários da Pátria; e o


termo voluntários tornou-se uma piada”.
Desde alistamento forçado de oponentes
políticos ao oferecimento de familiares
para o alistamento, “os cidadãos do
império dispunham de diversas formas de
se esquivarem da convocação”, explica.
Quem tinha dinheiro poderia alcançar
altos cargos no exército ou fazer doações
de recursos ou escravos. A quem era
pobre, “não restava outro recurso para
escapar ao alistamento que a fuga para o
mato”. Essas pessoas, principalmente das
regiões Norte e Nordeste do Brasil, eram
caçadas e despachadas para a guerra.
Além disso, Toral afirma que “a população
brasileira em meados do século 19 era de
aproximadamente dez milhões de pessoas,
das quais uma quarta parte era constituída

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360MERIDIANOS

de escravos”. Logo, os negros faziam parte


desse exercito.
Segundo o autor, “a compra de substitutos,
ou seja, a compra de escravos para lutarem
em nome de seus proprietários, tornou-se
prática corrente. Sociedades patrióticas,
conventos e o governo encarregavam-se,
além disso, da compra de escravos para
lutarem na guerra. O Império prometia
alforria para os que se apresentassem para
a guerra, fazendo vista grossa para os
fugidos.”
Toral conta também que não só o exército
brasileiro era composto por homens
negros: “Soldados negros, ex-escravos ou
não, lutaram em pelo menos três dos
quatro exércitos dos países envolvidos. Os
exércitos paraguaio, brasileiro e uruguaio
tinham batalhões formados
exclusivamente por negros. Como
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JÚLIA L OP ES DE ALMEIDA

exemplos temos o Corpo dos Zuavos da


Bahia e o batalhão uruguaio Florida.
Escravos propriamente ditos, engajados
como soldados, lutaram comprovadamente
nos exércitos paraguaio e brasileiro.”
BATALHA DE TUIUTI E OS
MORTOS NA GUERRA DO
PARAGUAI
A maior e mais sangrenta das batalhas
ocorreu no dia 24 de maio de 1866, em
Tuiuti, no sudoeste do Paraguai. Os
brasileiros eram liderados pelo General
Osório. O conflito terminou com mais de
8 mil mortos e 12 mil homens feridos.
Cerca de 90% das baixas foram dos
Paraguaios, duramente derrotados.
Apesar de no início da guerra o exército de
Solano Lopez ser mais numeroso, também
era despreparado e pouco estratégico. O
36
360MERIDIANOS

conflito se estendeu por tantos anos menos


pelo sucesso paraguaio nas disputas e mais
porque o acordo da Tríplice Aliança era de
que o conflito não terminaria enquanto
Lopez não fosse capturado e morto.
A pior consequência de tantos anos de
guerra foi que os exércitos paraguaios
passaram a convocar pessoas cada vez
mais jovens para os combates. Chegou um
momento em que até mulheres e idosos
foram alistados. O número de mortos
entre os paraguaios é estimado entre 200 a
300 mil pessoas.
FIM DA GUERRA DO PARAGUAI E
SUAS CONSEQUÊNCIAS
Em 1869, o Paraguai já estava arrasado, a
Argentina e o Uruguai já tinham retirado
seus exércitos da Guerra, e o Brasil teve
que substituir o comando de Duque de

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JÚLIA L OP ES DE ALMEIDA

Caxias – cansado do conflito que já não se


justificava, simplesmente deixou o cargo e
voltou para casa – para o Conde d’Eu,
esposo da princesa Isabel.
A cidade de Assunção já tinha sido
tomada, mas ainda assim o exército
brasileiro não conseguia capturar Solano
Lopez – e insistia no conflito. Em agosto
de 1869, ocorreu a última grande batalha
da Guerra do Paraguai: a de Campo
Grande, também conhecida como
“Batalha de Los Niños” ou “Acosta Ñu”
pelos paraguaios. Nessa disputa, 20 mil
soldados brasileiros enfrentaram 3.5 mil
paraguaios. Eram crianças e adolescentes.
Um verdadeiro banho de sangue, que
durou oito horas.
O que seguiu depois disso foi uma caçada
a Solano Lopes, que finalmente terminou

38
360MERIDIANOS

em 1° de março 1870, quando foi


decretado o fim da guerra.
O Paraguai não só perdeu parte do seu
território e população, como permaneceu
invadido pelos brasileiros por seis anos. É
que a Argentina continuou se recusando a
reconhecer a independência paraguaia até
1876. O Paraguai foi obrigado a pagar
uma enorme quantia e essa dívida de
guerra só foi perdoada no governo de
Getúlio Vargas, nos anos 1940.
O endividamento do Império Brasileiro
para manter uma guerra por 6 anos, mais
o fortalecimento do exército, duas décadas
mais tarde trouxeram a República.


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AGRADECIMENTOS
O Grandes Viajantes não é um clube de
literatura qualquer. Somos especialistas no
resgate de livros raros e esquecidos sobre
lugares incríveis. Somos uma comunidade
de pessoas que amam ler e viajar. 
Já editamos várias obras raras. Algumas
delas foram publicadas pela primeira vez
no Brasil pelo Grandes Viajantes; outras
estavam sem novas edições há quase um
século! 
Convide quem ainda não faz parte do
Grandes Viajantes a ser surpreendido com
uma obra incrível todo mês.

40
Viaje no tempo com a gente: 

www.catarse.me/360meridianos

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