UNIVERSIDADE DE SOROCABA

PRÓ-REITORIA DE GRADUAÇÃO CURSO DE LETRAS – LICENCIATURA EM INGLÊS

Jassiara Queiroz de Lima

CONSTRUÇÃO DE SENTIDO EM HIPERTEXTO

Sorocaba/SP 2010

Jassiara Queiroz de Lima

CONSTRUÇÃO DE SENTIDO EM HIPERTEXTO

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como exigência parcial para obtenção do Diploma de Graduação em Língua Inglesa, da Universidade de Sorocaba.

Orientador: Prof. Dr. Luiz Fernando Gomes

SOROCABA/SP 2010

Jassiara Queiroz de Lima

CONSTRUÇÃO DE SENTIDO EM HIPERTEXTO

Trabalho de Conclusão de Curso aprovado como requisito parcial para obtenção do Diploma de Graduação em Língua Inglesa, da Universidade de Sorocaba.

Aprovado em:

BANCA EXAMINADORA: Ass.:___________________________ Prof. Dr. Luiz Fernando Gomes, UNISO

Ass.:___________________________ Prof.ª Ma. Daniela Aparecida Vendramini Zanella, UNISO Ass.: __________________________ 2º Exam.:

Dedico este trabalho aos meus pais queridos, Ariosvaldo e Sebastiana, à minha avó Ana, que me deixou sua sabedoria para recordar e apegar, aos meus padrinhos, Felizardo e Maria de Lourdes, ao professor Luiz Fernando, à minha irmã Ariana e minha amiga Paula, com toda minha afeição.

AGRADECIMENTOS

Ao Professor Luiz Fernando Gomes, que é a epítome da compreensão e incentivo, e quem me estimulou a realizar este trabalho e me ajudou a dar outro olhar ao curso, e quem admiro muito. A todos os professores que influenciaram a minha vida acadêmica, sempre me recordarei de todos eles. Aos meus adorados pais e irmã pelo apoio massivo e por me embalaram nos momentos difíceis. À minha queridíssima amiga Paula, pelas palavras que abrandam, pertinentes e contínuas, por existir e fazer parte da minha vida. Aos meus amigos, meus padrinhos e familiares todos que de uma forma ou de outra contribuíram para este trabalho e por quem sou. A Deus e Nossa Senhora por tudo e sempre.

Se cada dia cai, dentro de cada noite, há um poço onde a claridade está presa. há que sentar-se na beira do poço da sombra e pescar luz caída com paciência. (Pablo Neruda)

RESUMO

Em decorrência do uso cada vez mais contínuo das mídias inseridas na cultura da tecnologia e da comunicação e mediadas pelo computador, o presente trabalho faz um apanhado de estudos teóricos tanto relacionados ao hipertexto como questões tratadas sobre o texto, desde suas concepções, abordagens e também propósitos. São apresentadas inicialmente as estruturas que compõem o texto impresso apresentadas por Koch (2003), de como ele é lido e que processos cognitivos ele demanda; também os tipos de leitores descritos por Santaella (2004), que contempla o leitor do texto digital como leitor imersivo e agente de sua leitura e ainda as estratégias de leitura. Já o hipertexto é tratado desde suas terminologias e concepções até os tipos de leitores, como eles leem e com quais objetivos, para compreender como é que o leitor atribui sentido nas leituras do hipertexto digital, tema que Gomes (2010) analisa. São apresentadas as distinções e semelhanças de ambas as formas de leitura, como a linearidade, intertextualidade, a função tanto do autor como do leitor de textos e as escolhas do leitor, quando do texto na tela do computador. Escolhas que serão feitas através dos caminhos que o leitor deseja traçar, através dos links. O hiperlink também é estudado na pesquisa, pois é parte constituinte do hipertexto; sua disposição, sobre o que trata, a forma como é apresentado e outros elementos que fazem parte dele são intimamente importantes em um hipertexto, pois é partir dele que o leitor irá fazer suas leituras. Através desta pesquisa foi possível concluir que a leitura do hipertexto sendo distinta em partes, da leitura do texto impresso por conter links que podem ou não dar sequencia à leitura e por esse fator, não seguir a linearidade, exige adaptação das estratégias utilizadas no texto impresso e ainda, o desenvolvimento de novas estratégias.

Palavras-chave: Texto. Hipertexto. Leitura. Hiperlink. Construção de sentido.

ABSTRACT

Due to the increasing use of media inserted in the information and communication technology, this research provides an overview of theoretical studies about both text and hypertext and issues such as concepts, approaches and purpose. Initially the main discussions are the composition of the linear text discussed by Koch (2003), how it is read and its cognitive process, intention of readers, reading strategies and types of readers described by Santaella (2004) who contemplates the hypertext reader as an agent of its own reading. Hypertext is studied with emphasis in its conceptions, terminologies, the readers and their ways of reading to comprehend its importance and possibilities and how the readers give meaning to their reading, subject analyzed by Gomes (2010). This research presents the distinctions and similarities of both forms of reading, such as the linearity, intertextuality, the function of both the author and the reader of hypertexts and the reader's choices. Also, the reader of hypertext has a huge chance of being interactive with the text once the information is connected through the hyperlinks. Through this research was possible to realize that the reading of hypertext is in parts distinct from the conventional reading because it contains hyperlinks that may or may not provide sequence to the reading and therefore do not follow the linearity, and it requires adaptation from the strategies from the linear text or the creation of new strategies.

Keywords: Text. Hypertext. Reading. Hyperlink. Meaning.

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ................................................................................................ 9 4 ESTRUTURAS DO TEXTO........................................................................... 10 4.1 O que é texto.......................................................................................................10 4.2 Os processos cognitivos da leitura ......................................................................12 4.3 A intertextualidade do texto .................................................................................13 4.4 Os tipos de leitores..............................................................................................15 4.5 Os tipos de leitura e suas estratégias .................................................................17 5 O HIPERTEXTO E SUAS CONCEPÇÕES ................................................... 19 5.1 Construindo o sentido na leitura hipertextual ......................................................20 6 CONCLUSÃO ............................................................................................... 29 6 REFERÊNCIAS............................................................................................. 30

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1 INTRODUÇÃO

Em consequência da utilização cada vez maior de mídias digitais que nos são proporcionadas atualmente, o hipertexto tem levantado questionamentos em decorrência de seu uso através de suas características distintas daquelas do texto impresso. Ao navegar em sites hipertextuais, o leitor se depara com diversos outros links que o levará a outros hipertextos e que dificilmente manterão uma sequência ou evidente semelhança com o primeiro. Isso pode desestruturar a construção uma vez que o leitor se encontra numa situação em que há diversas informações todas aglomeradas e fragmentadas, intercaladas através dos hiperlinks. O hiperlink é um sistema de informações dispostas pelo autor a fim de construir uma associação entre elas e disponibilizar atalhos para outros hipertextos que podem interferir positivamente ou negativamente na construção de sentido. Esses hiperlinks são distribuídos de acordo com a escolha do autor e é preciso que ele os libere respeitando uma ordem que enriqueça a navegação do leitor, e não que interrompa as leituras. Para que isso ocorra, é importante que os hiperlinks ofereçam coesão e coerência e que o autor use de táticas para fornecer hiperlinks que sustentem alguma similaridade e assim evitar a não-compreensão de quem os utiliza. No hipertexto não existe a linearidade que encontramos no texto impresso, o que implica em uma leitura mediada por escolhas e buscas determinadas pelo leitor que compreende seus limites e objetivos e também uma leitura que pode levar a lugares diversos dentro da concepção do que é hipertexto e de como ele se constitui. Portanto, com o uso cada vez mais constante do computador para (além de outras finalidades) a leitura de informações diversas com as quais leitores se deparam a todo tempo no hipertexto, é preciso esboçar as distinções e similaridades do texto convencional e do hipertexto e também importante que o usuário saiba compreender suas limitações e oportunidades e saiba como lidar com a leitura hipertextual. Com a internet e a hipermídia tomando um espaço cada vez maior no mundo hoje (mesmo que ainda haja a hierarquização do logocentrismo como o maior e mais importante das linguagens), é importante que elas sejam usadas como meio para o letramento vinculado a uma cultura onde o texto impresso é o que mais prevalece. Como vimos, o hipertexto tem conceitos muito diferentes do que se diz respeito à produção de textos em papel, como ressalta Santaella (1981) quando defende que a leitura não se limita apenas à codificação da escrita de livros e nem a empregada no papel, mas faz parte de uma multiplicidade de tipos de leitores. Sendo assim, o hipertexto oferece uma outra forma de produção textual onde o leitor não mais se limita à passividade da leitura e se norteia de acordo com as informações que quer acessar e também há a possibilidade de adicionar suas próprias informações ao hipertexto, onde os fragmentos são peças fundamentais para a não-totalidade da escrita e da leitura, que leva a outros infindáveis caminhos repletos de informações como dito anteriormente. Partindo do tema mencionado anteriormente sobre a crescente utilização do hipertexto e do suporte digital em geral, este estudo tem como objetivo explanar as teorias sobre os moldes de ambos os formatos de texto, o impresso e o digital, e examinar como é feita a construção de sentido no hipertexto, partindo do

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pressuposto de que com a não-linearidade de informações no hipertexto, o sentido vai ser constituído de outro jeito, diferente daquele feito na leitura no papel. Mas como é possível transformar ou mudar as formas de leitura para o formato digital levando em conta os problemas que o hipertexto acarreta quanto à construção de sentido? Como concebê-la no hipertexto? Quais características e exigências o hipertexto determina e que vão diferenciar na forma de construir sentido no suporte digital? Essas questões serão tratadas no decorrer da pesquisa através de estudos teóricos que proporcionem argumentos pertinentes sobre texto e suas semelhanças e disparidades com o texto digital.

4 ESTRUTURAS DO TEXTO

Com a finalidade de pesquisar sobre o texto no suporte digital, faz-se necessário um apanhado teórico das estruturas que constituem o texto desde suas características mais simples e imprescindíveis e assim criar um panorama para embasar as análises sobre a textualidade no hipertexto. Assim sendo, neste capítulo serão abordados temas referentes à construção, composição e leitura dos textos, o que o pressupõe e sua finalidade, de forma que sejam apresentados os temas e teorias mais pertinentes para essa pesquisa, e assim aprofundar essas questões no âmbito digital.

4.1 O que é texto

Por meio das teorias sócio-interacionais, o texto é considerado uma atividade interacional que acarreta um objetivo ou finalidade. Trata-se de indivíduos que em sua relação com os outros através de diversos fatores, é capaz de produzir um texto escrito, pressuposto por uma realização de diversas atividades cognitivo-discursivas (Koch, 2003). A atividade verbal “teoria da atividade (social) humana, que se especifica em uma teoria da atividade (comunicativa) verbal” (Koch, 2003, p.13) tem três fatores importantes: motivação, finalidade e interação. Isso quer dizer que a atividade precisa provir de um interesse e ter uma finalidade, ambos formados através da situação que o indivíduo se encontra.

Podemos dizer, numa primeira aproximação, que textos são resultados da atividade verbal de indivíduos socialmente atuantes, na qual estes coordenam suas ações no intuito de alcançar um fim social, de conformidade com as condições sob as quais a atividade verbal se realiza. (Koch, 2003, p.26).

Koch (2003) define o texto como não sendo totalizador do sentido, e sim como uma ferramenta para tal. O texto pode ser uma forma de obtenção de pistas que leva a leitura a lugares muito mais profundos, que é de onde se pode construir o

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sentido. Para chegar a esse nível e assim, poder construí-lo, é necessário que sejam usadas as estratégias cognitivas e interacionais. As estratégias cognitivas, entendidas aqui como instrução do conhecimento, não se baseiam apenas nas construções e características dos textos, mas também por seus leitores e seus conceitos. Estão relacionadas a objetivos, informações que o texto oferece e questões de personalidade do leitor.

Desta forma, as estratégias cognitivas consistem em estratégias de uso do conhecimento. E esse uso, em cada situação, depende (...) da quantidade de conhecimento disponível a partir do texto e do contexto, bem como de suas crenças, opiniões e atitudes, o que torna possível, no momento da compreensão, reconstruir não somente o sentido intencionado pelo produtor do texto, mas também outros sentidos, não previstos ou mesmo não desejados pelo produtor. (Koch, 2003, p.35).

Assim sendo, pode-se dizer que o leitor adiciona à produção textual, sentidos próprios de seu conhecimento, uma vez que o texto não oferece as informações prontas, mas sim caminhos para a construção do sentido.
O sentido de um texto não advém da soma de frases que o constituem, mas decorre do todo, através de dois planos de organização do texto, o macroestrutural e o microestrutural, que constituem, respectivamente, a coerência e a coesão, dois níveis distintos, porém intimamente relacionados. (Trevisan, 1992, p.20)

A coesão e a coerência são mencionadas pela autora por serem parte imprescindível na construção do sentido. A coesão é o plano da junção apropriada de elementos linguísticos, ou seja, como eles são sequenciados; já a coerência está relacionada a noções mais profundas que encontramos no texto, que contém informações organizadas. A produção textual sustenta a construção do sentido quando o texto é considerado coerente, uma vez que a coerência é elemento essencial na produção e comunicação do texto. A coerência do texto é captada pelo leitor uma vez que ele obtém a ideia macroestrutural do texto, ou seja, a coesão, que lhe permite compreender do que o texto se trata e então chegar ao sentido. Trevisan (1992) salienta que para chegar à coerência, é preciso ter a noção das macroestruturas semânticas.

Ele considera macroestruturas as estruturas semânticas de um nível superior, que se derivam de sequências proposicionais a partir do texto, com a ajuda de macrorregras. As macrorregras têm a ver com estruturas temáticas, e sua função cognitiva é essencial para a compreensão do texto. Sem elas, um usuário da língua será incapaz de estabelecer a coerência textual, de inferir os temas ou conteúdos de discussão global. (van Dijk 1980 apud Trevisan, 1992, p. 21)

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A autora relaciona a coerência com a posição do leitor quanto ao texto, afirmando que ela não está contida no texto, mas é desenvolvida através da interpretação e que diversos sentidos são possíveis, já que é provável tornar frases coesas também coerentes quando relacionando a coerência com o processo cognitivo do leitor. Desse modo, é possível dizer que o leitor, tendo papel decisivo na leitura, toma a coerência como ponto de partida para que o sentido do texto seja criado.

A construção da coerência, portanto, depende fundamentalmente do receptor, de sua atitude de cooperação, de sua habilidade em desvendar o sentido do texto e, especialmente, de sua bagagem cognitiva. (Trevisan, 1992, p. 23)

Vários fatores influenciam para que o leitor tenha papel imprescindível da leitura, tomando como um desses fatores, seu conhecimento de mundo, que engloba todas as informações absorvidas pelo leitor em sua memória. Esse conhecimento está armazenado na memória e auxilia o leitor a fazer relações do que sabe com o que lê. Para essa conexão existir, é preciso que haja uma semelhança entre o conhecimento de mundo tanto do leitor, como do produtor do texto. Um elemento que pode facilitar essa conexão é a inferência. As inferências são definidas pela autora como “conexões realizadas a partir dos elementos formais fornecidos pelo texto” (Trevisan, 1992, p. 53). As inferências têm como desempenho compreender as informações que o texto não traz, ou seja, o leitor faz conexões na leitura para conseguir ter também informações que não estão contidas no texto. São considerados alguns tipos de inferências tais como:

As informacionais (...) realizadas pelo leitor ao tentar responder às questões como “quem, o que, onde e quando”, cujas respostas precisa conhecer para entender o texto. As inferências elaborativas e avaliativas (...) respondem às questões “como” e “por que”, respectivamente. (Trevisan, 1992, p. 56)

A inferência avaliativa implica uma leitura que vai além daquela somente literal que o texto oferece. É uma inferência que ocorre quando o leitor compreende o que está por traz do texto, seu objetivo, o que ele acarreta e o que quer passar. “Assim, o leitor leva em conta o comportamento que não é explicitado no texto e preenche as lacunas existentes através das inferências”. (Trevisan, 1992, p. 56) O contexto, além do papel de cada leitor, também tem sua função no processo de inferência, pois no ato da leitura o conhecimento prévio não acontece apenas através da junção de palavras e frases, mas sim de acordo com as situações contidas no texto.

4.2 Os processos cognitivos da leitura

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Além de questionamentos que tratam da recepção do texto, também são apontados estudos que tratam de como o lemos, sendo eles os processos cognitivos (Kleiman 1993). Os processos cognitivos se iniciam com o movimento dos olhos ao ler o texto. Esse movimento é chamado de movimento sacádico. Assim sendo, o leitor não lê palavra por palavra uma vez que o movimento sacádico não é linear, mas fixa seus olhos em um determinado trecho, processo denominado fixação, e depois muda para outro trecho, e assim acontece o movimento sacádico. As fixações dependem do quão difícil é a leitura e isso influencia no movimento sacádico, que pode ser rápido se o texto tiver informações de fácil compreensão para o leitor.

Lemos 200 palavras por minuto quando o material for fácil, mais devagar quando o material for complexo. Os olhos se movimentam muito mais rapidamente do que a voz consegue pronunciar. (Kleiman, 2000, p. 33)

Os movimentos progressivo e regressivo também são fatores importantes para a velocidade com a qual se lê, sendo o movimento regressivo mais usado quando o texto é mais complicado e isso faz com que o leitor controle a leitura de acordo com a compreensão. Com a fixação o olho lê a palavra claramente, mas com os movimentos sacádicos, a visão é periférica. “Isso aponta para um fato extremamente importante, a saber, que grande parte do material que lemos é adivinhado ou inferido, não é diretamente percebido.” (Kleiman, 2000 p. 33) O fato de o leitor controlar a leitura de acordo com a quantidade de informação do texto que ele já tem conhecimento implica no uso da memória para fazer relações sobre o que está sendo lido e o conhecimento que já está armazenado na memória. Um dos elementos que constituem a memória, é denominado de memória de trabalho, que é o processo em que organizamos o que lemos em unidades sintáticas. É essa memória que dá condição para que o leitor armazene o que lê em unidades com significado. Esse processo é conhecido como fatiamento. Entretanto, a memória de trabalho tem certas limitações, pois só consegue absorver sete unidades significativas por vez. Quando o leitor passa dessa quantidade, “a memória precisa ser esvaziada das unidades anteriormente estocadas, de maneira que sempre trabalha com aproximadamente sete mais ou menos duas unidades (isto é, entre cinco a nove unidades).” (Kleiman, 2000, p. 34) A unidade significativa não precisa necessariamente ser letra ou palavra, mas sim qualquer parte que contenha significado, sendo ela uma frase ou um trecho. “Assim, quanto maior o elemento que tomamos como unidade significativa, maior será a quantidade de material que podemos processar e manter na memória ao mesmo tempo.” (Kleiman, 2000, p. 34)

4.3 A intertextualidade do texto

Outra característica do texto muito discutida, é a intertextualidade, ou seja, as permutações e conexões que acontece entre textos.

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Isso significa que todo texto é um objeto heterogêneo, que revela uma relação radical de seu interior com o seu exterior; e, desse exterior, evidentemente, fazem parte outros textos que lhe dão origem, que o predeterminam, com os quais dialoga, que retoma, a que alude, ou a que se opõe. (Koch, 2003, p. 59)

Koch (2003) ao apresentar a interação entre textos como fator importante e constituinte do texto, partindo do pressuposto de que todo e qualquer texto pode aludir ou conversar com outro, aponta dois tipos de intertextualidade, a de sentido amplo e a de sentido restrito. A intertextualidade de sentido amplo é denominada de interdiscursividade, apontando que um texto não se constrói sozinho, mas que vários textos se relacionam e são mediadores entre si. Outro papel importante que a intertextualidade exerce é o fato de que com a comparação entre textos “se podem detectar as propriedades formais ou estruturais, comuns a determinados gêneros ou tipos (...), que são armazenadas na memória dos usuários sob a forma de esquemas textuais ou superestruturas”. (Koch, 2003, p. 61). Esses esquemas são facilitadores das produções de texto. A intertextualidade de sentido restrito é a relação que um determinado texto faz com outros já produzidos anteriormente. Podem ser de conteúdo, quando os textos tratam de mesmo assunto, explícito ou implícito: explícita o texto com qual se faz intermédio é citado e implícito quando não ocorre citação, semelhanças ou diferenças para argumentação, e outros intertextos de mesma autoria ou de outro autor. “Todas essas manifestações da intertextualidade permitem apontá-la como fator dos mais relevantes na construção da coerência textual.” (Koch e Travaglia, 1989 apud Koch, 2003, p. 64). Sobre polifonia, Ducrot (1980 apud Koch 2003, p. 64) assinala que o termo é utilizado

para designar, dentro de uma visão enunciativa do sentido, as diversas perspectivas, pontos de vista ou posições que se representam nos enunciados. Para ele, o sentido de um enunciado consiste em uma representação (no sentido teatral) de sua enunciação.

Ducrot (1984 apud Koch, 2003) avalia dois tipos de polifonia: quando há um enunciado e mais de um locutor, e quando há um enunciado e mais de um enunciador. Daí, Koch (2003, p.73) delimita as diferenças entre polifonia e intertextualidade.

Na intertextualidade, a alteridade é necessariamente atestada pela presença de um intertexto (...). Em se tratando de polifonia basta que a alteridade seja encenada, isto é, incorporam-se ao texto vozes de enunciadores reais ou virtuais, que representam perspectivas, pontos de vista diversos, ou põe em jogo “topoi” diferentes, com os quais o locutor se identifica ou não.

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4.4 Os tipos de leitores

Santaella (2004) delimita os leitores em três tipos distintos, sendo eles o contemplativo, o movente e o imersivo, e aponta também que a transformação de um desse tipos para outro, requer mudanças cognitivas e perceptivas, aludindo para a importância de se frisar suas diferenças. A autora afirma em um primeiro momento, que a leitura não é aquele que se concebe através da impressão de papel, mas que existe uma multiplicidade de leituras possíveis e também de leitores; esse leitor pode ser o do jornal, da revista, dos quadrinhos, das imagens e vídeos. Também de mapas, fotografias, cinema e pinturas e outras possibilidades incontáveis. Partindo da apresentação desses leitores, Santaella procura explicar quais as características cognitivas de cada um desses leitores acima mencionados. O leitor contemplativo é o leitor da era dos livros, da leitura com o olho, leitura silenciosa e meditativa, uma leitura que permite uma relação maior entre texto e leitor, que não delimita tempo.

O leitor tinha tempo para considerar e reconsiderar as preciosas palavras cujos sons – ele sabia agora – podiam ecoar tanto dentro como fora. E o próprio texto, protegido de estranhos por suas capas, tornava-se posse do leitor, conhecimento íntimo do leitor (...). (Manguel apud Santaella, 2004, p. 20)

Daí surgem as inúmeras possibilidades que o livro permite, como a reprodução e propagação dos textos e a troca dos manuscritos pelo texto impresso.

Longe de ter sido mera realização técnica cômoda, o livro impresso foi um poderoso instrumento para conferir a eficácia à meditação individual, para concentrar o pensamento que, sem ele, estaria disperso, ao mesmo tempo que assegurava, em um tempo mínimo, a difusão de ideias, criando, entre os pensadores, novos hábitos de trabalho intelectual. (Febvre apud Santaella, 2004 p. 21)

Santaella (op. Cit.) ainda acrescenta que:

Esse tipo de leitura nasce da relação íntima entre o leitor e o livro, leitura do manuseio, da intimidade, em retiro voluntário, num espaço retirado e privado, que tem na biblioteca seu lugar de recolhimento, pois o espaço de leitura deve ser separado dos lugares de um divertimento mais mundano. (...) É uma atividade de leitores sentados e imóveis, em abandono, desprendidos das circunstâncias externas. (Santaella, 2004, p. 23)

Enfim, o leitor contemplativo é o leitor do texto tangível, do objeto sólido, o leitor do papel, da meditação e que tem o tempo à sua disposição.

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Já o leitor movente, também denominado por Santaella (2004) de fragmentado, é o leitor da era pós-Revolução Industrial, da comunicação através da publicidade, leitor do jornal e das notícias concisas em meio a uma sociedade crescente e repleta de inovações.

Tudo foi se transformando em mercadoria e com ela nascia um novo tipo de percepção do mundo, cada vez mais voltada para a proximidade, para o imediato, para a segurança contra os riscos da cidade grande. O ser humano passou a se preocupar muito mais com a vivência do que com a memória. (Santaella, 2004, p. 27)

Com a publicidade veio as mensagens visuais e também as imagens, sendo elas o alvo do leitor movente, fugaz, que assimila rápido e assimila muito.

É o leitor treinado nas distrações fugazes e sensações evanescentes cuja percepção se tornou uma atividade instável, de intensidades desiguais. É, enfim, o leitor apressado das linguagens efêmeras, híbridas, misturadas. (...) Aparece assim, com o jornal, o leitor fugaz, novidadeiro, de memória curta, mais ágil. Um leitor que precisa esquecer, pelo excesso de estímulos, e na falta do tempo para retê-los. Um leitor de fragmentos, leitor de tiras de jornal e fatias da realidade. (Santaella, 2004, p. 29)

É este, portanto, é o leitor que tem pressa, transitório, que não se permite atrelar aos detalhes de sua leitura; o leitor mediador entre o leitor que silenciosamente e sem correria lê os livros impressos, e o leitor da era digital; O último leitor ao qual Santaella (2004) se atém é o leitor imersivo, digital.

A inscrição do texto na tela cria uma distribuição, uma organização, uma estruturação do texto que não é de modo algum a mesma com a qual se defrontava o leitor do livro em rolo da Antiguidade ou o leitor medieval, moderno e contemporâneo do livro manuscrito ou impresso, onde o texto é organizado a partir de sua estrutura em cadernos, folhas e páginas. O fluxo sequencial do texto na tela, a continuidade que lhe é dada, o fato de que suas fronteiras não são mais tão radicalmente visíveis, como no livro que encerra, no interior de sua encadernação ou de sua capa, o texto que ele carrega, a possibilidade para o leitor de embaralhar, de entrecruzar, de reunir textos que são inscritos na mesma memória eletrônica: todos esses traços indicam que a revolução do livro eletrônico é uma revolução nas estruturas do suporte material do escrito assim como nas maneiras de ler. (CHARTIER, 1999, apud Santaella, 2004, p. 32)

O leitor imersivo, ainda que sua leitura guarde semelhanças com o texto impresso, se diferencia porque se trata de um leitor atuante, interativo e de uma leitura que leva a outros infindáveis caminhos repletos de informações.

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Trata-se, na verdade, de um leitor implodido cuja subjetividade se mescla na hipersubjetividade de infinitos textos num grande caleidoscópico tridimensional onde cada novo nó e nexo pode conter uma outra grande rede numa outra dimensão. Enfim, o que se tem aí é um universo novo (...), uma biblioteca virtual, mas que funciona como promessa eterna de se tornar real a cada “clique” do mouse. (Santaella, 2004, p. 33)

É, portanto, um leitor que demanda novos processos cognitivos, que tem outras percepções, um leitor da tecnologia digital, que por ser novo, é objeto de muitos estudos.

4.5 Os tipos de leitura e suas estratégias

A leitura é diversas vezes concebida erroneamente como decodificação de palavras, interpretação e acepção e até mesmo uma relação passiva do leitor com a leitura, entre outras questões. Castello-Pereira (2003, p. 49) aponta que o leitor pode fazer uma leitura com diversos escopos, podendo ser:

Com diferentes finalidades – ler para quê (para me informar, para estudar, para me entreter,...); por diferentes razões – ler por quê (por obrigação, por necessidade escolar ou do trabalho, por paixão,...); de diferentes formas, modos, – ler como (leitura pública, leitura individual, leitura coletiva,...) (...) Outros fatores podem ainda gerar diferentes leituras, como os suportes (um mesmo texto pode ser lido de forma diferente dependendo de onde estiver escrito).

Ferreira (2001 apud Castello-Pereira, 2003, p.50) acrescenta outros objetivos de leitura.

Ler para ampliar conhecimento: o aluno lê para buscar conhecimentos, instrução, domínio da norma culta. Ler por prazer: fazendo a apologia do prazer, contesta o discurso da escola com seus deveres e obrigações e se instala numa posição de leitor sem compromisso, que lê por prazer e diversão; Ler para socializar-se: o aluno vê a leitura como um ato partilhado, conjugado com outras pessoas, pela escuta de histórias. Ler para viver uma fantasia – se identifica com o “leitor viajante” das campanhas de leitura e dos slogans de coleções, busca na leitura a superação dos problemas reais.

A leitura de estudo, a qual tem por objetivo extrair tudo que o texto oferece, sua ideologia, seus argumentos, suas discussões, etc. é a leitura dos estudantes e dos intelectuais; é a leitura de quem, de acordo com Paulo Freire (2001, apud Castello-Pereira, p. 55), assume o papel de fazê-lo, de quem tem questionamentos sobre o mundo, faz leituras diversas sobre um mesmo assunto, dialoga com o autor do texto e tem humildade para reconhecer que é preciso ter muitos instrumentos para compreender um texto.

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A leitura com o intuito de estudo apresenta estratégias apresentadas por Britto (2002, apud Castello-Pereira, 2003, p. 57) sendo elas a sublinha, marcas quaisquer que possam orientar a leitura, anotações de margem do texto, fichamentos, resumos, esquema entre outras. A estratégia de sublinhar um texto auxilia na compreensão e ajuda a enfatizar as ideais centrais de um texto.

Permite que se faça um mapeamento do texto, destacando partes ou subdivisões, tese, principais argumentos, contraposições, definições, etc. Para isso, é importante perceber como o autor desenvolveu o texto. Essa marcação (...) auxilia na concentração na hora da leitura, pois com um objetivo, uma tarefa a realizar, uma ação concreta, se tem mais facilidade de fixar a atenção na leitura e na compreensão de ideias. (Castello-Pereira, 2003, p. 57)

A autora ainda acrescenta que a sublinha auxilia o leitor quando este precisa relembrar uma ideia ou para qualquer motivo que implique na retomada do que já havia sido lido. Os comentários ou anotações feitos durante a leitura também ajudam na atribuição do sentido, pois é uma forma que o leitor tem de interagir com o que está lendo (Britto, apud Castello-Pereira, 2003).

Esses comentários podem ser resultantes de alguma ideia que o texto suscitou, da lembrança de outros textos, de possíveis utilizações em trabalhos ou estudos que estejam sendo desenvolvidos, bem como registrar o assunto principal daquele parágrafo, para numa posterior leitura saber do que se trata. (Castello-Pereira, 2003, p. 58)

O esquema é a estratégia que ajuda na organização das informações que o leitor julga mais importantes distribuídas em tópicos ou qualquer outra forma que possa permitir uma visualização rápida, podendo ser as palavras-chave do texto. “Utilizam-se normalmente de colchetes, chaves, setas e outros símbolos que possam ajudar na organização e visualização das ideias.” (Andrade, 1997 apud Castello-Pereira, 2003, p.58) Roteiro de leitura também é uma forma de organização em tópicos que auxilia a orientar a leitura, podendo ser feita tanto pelo professor como pelo próprio aluno e também com a elaboração de perguntas. E como toda leitura, depende do objetivo do leitor. Paráfrase é o excerto de um texto escrito de outra forma, mas que exprime o mesmo conceito do original. “Consiste no desenvolvimento explicativo (ou interpretativo) de um texto. Corresponde a uma espécie de tradução dentro da própria língua, em que se diz, de maneira mais clara, num texto B o que contém um texto A” (Othon Garcia, 1988 apud Castello-Pereira, 2003, p. 58). A síntese (ou resumo) também é uma reescrita do texto original de forma diferente a juntar as informações e conceitos mais importantes de um texto.

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Resumir é uma tarefa complexa porque exige uma série de operações mentais, é necessário analisar, compreender, selecionar, hierarquizar, equivaler ideias, generalizar, suprimir, sintetizar, adaptar, construir, memorizar, portanto envolve abstração. É uma estratégia de estudo extremamente útil, pois além de ajudar na compreensão e desenvolver a capacidade discursiva, possibilita verificar o entendimento e fixar os conhecimentos. (Castello-Pereira, 2003, p. 58)

É importante destacar que existem diversas outras estratégias, e que seu uso vai depender de vários fatores; é possível observar também que o uso ou conhecimento de estratégias de leitura não são determinantes ou suficientes para o valor qualitativo da leitura. O estudante e ou leitor precisa ser dedicado, ter domínio das habilidades de exploração de um texto, ser questionador e reflexivo, praticar e exercitar o ato da leitura. Outro grifo também relevante, é que essas estratégias são usadas na leitura do texto impresso e que podem ser transferidas para a leitura do hipertexto digital, mas que para a leitura na tela, é possível que estratégias sejam modificadas ou até mesmo criadas.

5 O HIPERTEXTO E SUAS CONCEPÇÕES

Apresentadas e entendidas as concepções fundamentadas que moldam o texto, a construção do sentido e suas estruturas, podemos agora compreender a textualidade do hipertexto. O hipertexto tem acatado muitos conceitos e caracterizações ao longo dos diversos estudos desde seu surgimento, sendo eles feitos por diferentes áreas, o que ocasiona grande número de definições e daí, uma confusão quanto à sua relevância e reais possibilidades. O termo hipertexto foi criado nos anos sessenta pelo sociólogo Theodore Nelson (1963), e ainda hoje é definido de diversas formas que variam de acordo com o objeto de pesquisa, como dito anteriormente. O autor (1992, apud Koch, 2007), considera o hipertexto como

um conceito unificado de ideias e de dados interconectados, de tal modo que estes dados possam ser editados em computador. Desta forma, tratarse-ia de uma instância que põe em evidência não só um sistema de organização de dados, como também um modo de pensar.

É importante esclarecer que há inúmeras estratégias que fazem com que a leitura tenha valor qualitativo, mas que elas não são determinantes para a leitura de estudo. O leitor tem que ter um papel de pesquisador, Já Lévy (1993, apud Koch 2007) define hipertexto como:

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um conjunto de nós ligados por conexões. Os nós podem ser palavras, páginas, imagens, gráficos ou parte de gráficos, sequências sonoras, documentos complexos que podem ser eles mesmos hipertextos. Os itens de informação não são ligados linearmente, como uma corda com nós, mas cada um deles, ou a maioria deles, estende suas conexões em estrela, de modo reticular.

Coscarelli (1999 apud Dias 2008, p.25) apresenta uma definição bastante simples e objetiva do termo, apontando que hipertextos “são sistemas que gerenciam informações armazenadas em uma rede hierárquica de nós, conectados através de ligações.” Já Gomes (2007, p. 41) em sua definição mais atualizada do termo, menciona o grande valor dos links para a concepção do hipertexto.

Defino hipertexto como o local e o resultado da interação ativa, verbal ou não, entre interlocutores, enquanto sujeitos ativos que dialogicamente nele se constroem e são construídos, acrescentando a presença de links e uma existência exclusivamente eletrônica do hipertexto, como fatores diferenciadores do texto tradicional. A presença de links altera, como vimos, a intertextualidade, tornando-a mais incisiva e componente fundamental de um hipertexto.

Pode-se concluir que o hipertexto é o texto transportado para o suporte digital, que oferece novas formas de construir um texto e que apresenta características diferentes das do texto impresso, que é fragmentado em partes diversas, que são interligadas por links, e que a disposição destes “implica diretamente a produção do texto e a construção de sentidos” (Gomes, 2007, p. 41), e o autor ainda acrescenta “que o hipertexto representa uma continuidade da linha da oralidade, escrita, e escrita hipertextual; e que ele mantém um caráter de hibridismo”.

5.1 Construindo o sentido na leitura hipertextual

Partindo de estudos linguísticos, o hipertexto traça certas características diferentes daquelas do texto impresso, sem excluir as estruturas fundamentais de como se produz e como se lê um texto. Como essa pesquisa tem por finalidade os estudos da construção do sentido no hipertexto, esse será estudado partindo do pressuposto de que (além de suas outras características) é um texto, e assim apontar quais fatores imperam para que o sentido seja constituído de forma diferente daquela do texto impresso. Porém Koch (2005, apud Gomes, 2007, p. 111) afirma que o leitor de hipertextos empresta suas competências textuais usadas para o texto impresso para a leitura hipertextual e que o leitor hipertextual precisa ter a mesma competência textual que tem para ler textos impressos.

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Admitindo como certo que não existem textos – escritos ou orais – totalmente explícitos, e que o texto se constitui de um conjunto de pistas destinadas a orientar o leitor na construção do sentido; e, mais ainda, que, para realizar tal construção, ele terá de preencher lacunas, formular hipóteses, testá-las, encontrar hipóteses alternativas em caso de “desencontros entre o dito e o não-dito”, tudo isso por meio de inferenciamentos que exigem a mobilização de seus conhecimentos prévios de todos os tipos, dos conhecimentos pressupostos como partilhados, de conhecimento de da situação comunicativa, do gênero textual e de suas exigências, a compreensão terá de dar-se de forma não-linear.

Já Orlandi (apud Gomes, 2007, p. 109) destaca a compreensão como forma de construir sentido e aponta que compreender

é saber como um objeto simbólico (enunciado, texto, pintura, música, etc.) produz sentidos. É saber como as interpretações funcionam. Quando se interpreta já se está preso em um sentido. A compreensão procura a explicitação dos processos de significação presentes no texto e permite que se possam ‘escutar’ outros sentidos que ali estão, compreendendo como eles se constituem.

Gomes menciona a continuidade tópica, ou seja, a manutenção do objetivo da leitura como fator importante na construção dos sentidos na leitura do hipertexto, pois é ela que constrói a coerência.

A mudança do tópico A para o tópico B interrompe o processo de construção do modelo mental do tópico A. Enquanto isso, um novo esquema cognitivo tem que ser ativado para construir um modelo mental para o tópico B. Se o modelo do tópico A for reativado mais tarde, ele será menos vívido e menos detalhado, ficando menos presente do que teria ficado se não tivesse havido mudança de tópico. EM textos com descontinuidade tópica, portanto, o leitor irá detectar menos relações semânticas e, consequentemente, atingirá um nível mais baixo de coerência do que em textos com continuidade tópica. (Schnotz, apud Gomes, 2007, p. 113)

Schnotz (apud Gomes, 2007, p. 113) destaca que a leitura é guiada diversas vezes pelas expectativas do leitor quanto aos padrões do texto convencional. “Assim, quanto mais um texto atender às expectativas dos padrões (genéricos), menos será a demanda cognitiva e maior será o nível de coerência.” A coerência é tratada por Koch mais detalhadamente (2005, apud Gomes, 2007, p. 114).

Ao navegar por toda uma rede de textos, o hiperleitor faz de seus interesses e objetivos o fio organizador das escolhas e ligações, procedendo por associações de ideias que o impelem a realizar sucessivas opções e produzindo assim uma textualidade cuja coerência acaba sendo uma

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construção pessoal, pois não haverá, efetivamente, dois textos exatamente iguais na escrita hipertextual.

Em se tratando do hipertexto e sua característica de não-linearidade e o entrelaçamento de informações apontado por Lévy (1999), é possível dizer que a construção do sentido no hipertexto é alterada de acordo com as relações que existem entre os links, pois essas relações fazem parte do próprio sentido através de associações semânticas, etc.

Caso o leitor, como um flaneur, passei desavisadamente de um link a outro e, a partir do novo texto acessado, por meio de novos links a outros textos, e assim sucessivamente, ele correrá o risco de formar, como foi dito, uma grande conexão em cascata, quebrando a continuidade temática, como é comum acontecer na conversação espontânea, em que um assunto puxa outro, que puxa outro e mais outro, de tal forma que, ao final da interação, já não é mais possível nomear o tópico da conversa, isto é, dizer sobre o que, afinal, se falou. (Koch, 2005 apud Gomes, 2007, p. 112)

Essas características distintas sugerem que o leitor, ao fazer a leitura do texto no computador, possivelmente mudará seu jeito de ler, e consequentemente organizará as informações de maneira diferente. Porém, Perfetti (1996 apud Gomes, 2007, p. 10) aponta que

O processamento do texto implica o processo cognitivo que opera nos domínios do texto e nos propósitos do leitor; portanto, o texto pressupõe um leitor; por outro lado, o uso pressupõe um propósito que é o que motiva o leitor a acessar múltiplos textos. Nesse caso, não se processa o texto, usase o texto para algum propósito; portanto, o hipertexto pressupõe um aprendiz ou alguém que o use para realizar alguma tarefa.

Portanto, pode-se dizer que para o autor, as discrepâncias entre texto e hipertexto estão na escolha de como o leitor vê o texto e em seu objetivo quanto à finalidade deste. “Em outras palavras, há que se distinguir se o foco está no processo utilizado pelos leitores para obter as informações ou no uso que os leitores fizeram dos textos, a serviço de seus objetivos.” (op.cit.). Gomes (2007) aponta para um grande problema nas pesquisas sobre hipertexto questionando como o leitor constrói a coerência quando lê vários textos que não são organizados sequencialmente, atrelados pelos hiperlinks e que influi na linearidade do texto e, por conseguinte, do sentido. Rouet & Levonen (1996 apud Gomes, 2007) defendem que as informações no hipertexto não são sequenciadas e o andamento da leitura é controlado pelo leitor, o que permite que o leitor trace seus próprios caminhos na leitura. Portanto, o progresso da leitura hipertextual depende das decisões do leitor, que precisa de uma representação mental de como a informação está organizada.

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Porém Dias (2008, p. 57) aponta os problemas na compreensão de hipertexto apresentados por autores convencionais, denominados sobrecarga cognitiva e desorientação.

A sobrecarga cognitiva é provocada pela constante necessidade de o leitor tomar decisões sobre o destino de sua leitura, sobre qual link seguir, prejudicando, assim, a sua atenção maior ao conteúdo apresentado no texto. Já a desorientação é quando o leitor fica “perdido no hiperespaço”, ou seja, quando não consegue mais localizar onde se encontra na estrutura (hiper)textual.

O autor não acredita que a sobrecarga seja um grande problema nas leituras de hipertexto pelo fato de que os leitores estão sempre fazendo escolhas e tomando decisões. Já sobre a desorientação, ele observa que pode acontecer pela organização do hipertexto. Ele também cita Roeut e Levonen (1996) para afirmar que a organização e estruturação no hipertexto são relevantes para o leitor. “É importante para o leitor saber qual é a sua localização atual na rede de informações do hipertexto, para que possa ter noção do que já leu e para que possa localizar melhor os nós que deseja.” (Roeut e Levonen 1996, apud Dias, 2008, p.58) Daí o autor defende que para a leitura do hipertexto ter melhor resultado, ela precisa fornecer uma boa estrutura e que problemas nessa leitura podem ocorrer tanto quando o leitor não é experiente como quando o hipertexto não oferece marcas que indiquem sua construção. Gomes (2007), porém, afirma que para a leitura hipertextual ser eficiente, é preciso seguir alguns tipos de estratégias de leitura, pois a estrutura do hipertexto de oferecer diversas informações não garante a compreensão da leitura nem a aprendizagem.

o hipertexto deve ter um impacto na educação e nas atividades de aprendizagem, mas, mesmo assim, é apenas uma tecnologia que armazena, manipula e apresenta informações que poderiam ser apresentadas de outras maneiras. Ele pode ser mais compacto, permitir recuperação mais facilmente e manipulação e assim por diante, mas é ainda um meio de apresentação de informação. (Dillon, apud Gomes, 2007, p. 101)

O fato de estudos apontarem que o hipertexto oferece uma leitura diferente não se adiciona ao fato de que ela seja mais fácil ou que garanta melhores resultados do que outros tipos de leitura. Gomes (op. Cit.) apresenta algumas estratégias que podem ser usadas nas leituras hipertextuais.

No caso do hipertexto, devido à sua adicional flexibilidade de navegação, é de se esperar que os leitores empreguem também uma variedade de recursos, que expandem as estratégias utilizadas na leitura de textos lineares. (Gomes, 2007, p. 103)

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O autor apresenta as pesquisas feitas por Foltz (apud Gomes, 2007), que aponta três tipos de estratégias para a leitura: a direta do começo ao fim do texto, a leitura na qual o leitor lê um trecho e depois retorna revendo as sentenças e a leitura na qual o leitor volta para sentenças anteriores no momento da leitura. Há também as estratégias voltadas para a literatura, sendo elas a casual, sem objetivo e que o leitor clica nos links somente por curiosidade, a leitura com finalidade de procurar informações específicas e a leitura de coautoria. Gomes (2007) afirma que independente da estratégia usada pelo leitor, ele tem a liberdade de escolher os caminhos da leitura e construir sentido.

Não somente as habilidades do leitor e as características estáticas do texto determinam sua compreensão, mas também seus sinais estruturais, sintáticos e semânticos. Esses sinais (...) fornecem evidência para a macrorrelevância das seções individuais do texto e determinam também o que o leitor procura no texto e o que ele ignora. O leitor pode, então, saltar seções que não julgue interessantes, ou seja, ler de maneira não linear. (Foltz, apud Gomes, 2007, p. 105)

O autor ainda ressalta que para o texto ter coerência, não basta apenas fornecer informações, pois para o texto fazer sentido, o leitor precisa recorrer ao conhecimento prévio provido por leituras de nós que fazem parte do nó mais relevante.

A leitura de hipertextos não é apenas um processo de leitura, mas de soluções de problemas (e de navegação) e que os leitores leem as lexias em torno da lexia que contém a informação desejada, a fim de manterem-se sempre dentro de um mesmo contexto textual. (...) Os leitores de hipertexto são oportunistas; procuram por pistas que os levam ao caminho mais coerente dentro do texto. (Foltz, apud Gomes, 2007, p. 106)

Outro ponto discutido pelo autor é o letramento visual, importante para a leitura de certos hipertextos “pois para se ler na tela é necessário saber interpretar diferentes recursos visuais: ícones, imagens, cores, sons, tipos de letras, etc. e integrar informações veiculadas por diferentes linguagens. (Gomes, 2007, p. 107) Alguns autores destacam estudos que assemelham e ou diferenciam o texto do hipertexto, como Koch (2005 apud Gomes, 2007), quando aponta que a diferença entre texto e hipertexto está apenas na agilidade do acesso às informações uma vez que com o texto impresso, o leitor demora mais para chegar a outros textos como, por exemplo, as referências, e no formato digital, para obter uma nova informação basta apenas um clique, mas assemelha ambos e defende que “o hipertexto, sendo também um texto, está sujeito às mesmas condições básicas da textualidade, desde que estas sejam entendidas (...), como princípios de acesso e não de boa formação textual." Outra autora que assinala semelhanças entre texto e hipertexto é Coscarelli (2009). Ela defende que ambos são iguais quando há a eficiência tanto do autor ao produzir os textos, quanto do leitor no processo da leitura, pois são poucas as características que os diferem. Isso acontece, pois muitos pesquisadores discutem

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sobre a diferença do texto para a sua versão eletrônica ser meramente tecnológica, ou seja, o texto transportado do papel para o meio digital. Há de se destacar que a versão eletrônica do texto é muito mais ágil e facilitadora e que novos gêneros tais como o e-mail, são criados quando do texto no formato digital, e como aponta a própria autora, “Isso certamente provoca mudanças no comportamento e no pensamento do leitor e no produtor de textos.” (p.552), mas também afirma que as novas modalidades de leitura advindas do meio digital não têm que substituir as leituras do texto impresso, mas que devem ser adicionadas a ela. Gomes (2007, p. 17), também aponta algumas similaridades entre texto e hipertexto quanto à recepção do leitor e a interação.

O hipertexto também se constitui num evento textual-interativo, embora com características próprias. (...) Estamos tomando aqui, portanto, uma visão sociointerativa de texto e de hipertexto por entendermos que ambos são eventos interativos, abertos a múltiplos sentidos, o que nos permite afirmar que eles têm uma relação de semelhança, ao menos quanto à construção de sentidos.

Como no hipertexto tratamos de várias informações separadas e vinculadas pelos links, é possível dizer que “O hipertexto é, por natureza e essência, intertextual, uma vez que, sendo um “texto múltiplo”, possibilita o acesso a inúmeros textos, através dos links.” (ibidem), e o autor também acrescenta

que o hipertexto representa uma continuidade da linha da oralidade, escrita, e escrita hipertextual e que ele mantém um caráter de hibridismo, como esclarece Braga, decorrente do meio que demanda uma nova modalidade linguística: a escrita digital ou escrita eletrônica.

Braga (2003 apud Gomes, 2007) dá enfoque para diferenças entre texto e hipertexto quanto ao uso de outros textos, por acreditar que no hipertexto o acesso a outro material é disponibilizado, enquanto que no texto impresso a leitura a outros textos é apenas aconselhada e não necessariamente essencial para a leitura. Outra característica do hipertexto que se difere do texto impresso é o limite de associações,

o hipertexto pode remeter a associações que estão não apenas “dentro” dos limites de um mesmo hipertexto, mas também “fora” dele (links internos e links externos respectivamente). Segundo Braga (2003, p. 77), isso se dá por que, enquanto na produção de textos tradicionais somos exclusivos, isto é, selecionamos as informações, devido a questões de espaço, no hipertexto ocorre o contrário, tendemos a ser inclusivos, devido às facilidades do meio. (Braga, 2003 apud Gomes, 2007, p. 18)

Um dos fatores do texto bastante relevante para o hipertexto, é a intertextualidade, componente essencial do hipertexto, já tratado anteriormente.

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De acordo com Araújo e Lobo-Sousa (2009), muitos dos autores que estudam o hipertexto apresentam a intertextualidade de forma genérica, e isso acaba fazendo com que haja uma confusão entre definições de intertextualidade e hipertexto, pelo fato de o hipertexto ser constituído de vários documentos justapostos. Os autores ressaltam que para tratar da intertextualidade, se faz necessário mencionar o dialogismo bakhtiniano, retomado por Kristeva (1969) e sua definição “todo texto se constrói como um mosaico de citações, todo texto é a absorção e transformação de um outro texto” (apud Araújo; Lobo-Sousa, 2009, p. 568) Araújo e Lobo-Sousa (2009, p. 568) explicam que

Essa consideração é importante porque segundo Kristeva, qualquer texto é um conjunto de outros textos, muitas vezes inconscientes; logo, o intertexto, ou seja, aquilo que se possa perceber da relação de dois textos, pode não ser um objeto facilmente recuperável ou perceptível, mas estar diluído por todo o texto ou, ainda, a partir dele.

Gomes (2007), baseando-se em estudos feitos por Koch (2005 apud Gomes) também ressalta a eficiência do evento dialógico na leitura do hipertexto.

O conceito de texto como um evento dialógico, de interação entre sujeitos sociais – contemporâneos ou não, co-presentes ou não, do mesmo grupo social ou não, e em diálogo constante permite- nos, de acordo com Koch, dizer que o hipertexto também se constitui num evento textual-interativo, embora com características próprias. (Gomes, 2007, p. 17)

Koch (2005, características:

apud

Gomes,

2007,

p.

72)

exemplifica

uma

dessas

Uma delas é não haver limitação do interlocutor, que pode ser qualquer um desde que conectado à rede, já que o hipertexto não constitui um texto realizado concretamente, mas apenas uma virtualidade.

Quando da intertextualidade no hipertexto, Araújo e Lobo-Sousa citam Xavier (2003 apud Araújo; Lobo-Sousa, 2009), que explica as duas formas de intertextualidade apontadas por Koch (1990 apud Araújo; Lobo-Sousa, 2009), sendo elas de forma e conteúdo,
a primeira ocorre quando o produtor de um dado texto repete expressões, enunciados e trechos de outros textos. Já a intertextualidade de conteúdo se realiza no interior de uma mesma cultura, por meio de textos de uma mesma época e áreas de conhecimento. A intertextualidade de conteúdo pode se dar explícita ou implicitamente. (Xavier, 2003, p. 285 apud Araújo; Lobo-Sousa, 2009, p. 571)

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Nas leituras hipertextuais, a intertextualidade explícita (também denominada de hiperintertextualidade) é a mais comum em decorrência da presença de links dispostos no hipertexto e que irrefutavelmente apresenta outros. Porém, os autores apontam erros nessa categorização por ela ser muito abrangente e também mal definida, pois o sentido amplo da intertextualidade no hipertexto implica que ela só ocorra em decorrência da existência dos hiperlinks e o fato de os hipertextos estarem ligados, excluindo análises mais a fundo. É como se o único objeto de pesquisa fosse o hipertexto primeiro apenas, e não aos quais está relacionado. Braga (2005, apud Araújo; Lobo-Sousa, 2009) afirma que quando o hipertexto é adotado por esses formatos, o papel do hiperlink acaba sendo eliminado, o que seria um ponto negativo.

Essa consideração negligencia (...) os diversos sentidos estabelecidos pelos links, que vão desde associações semânticas a comentários mais aprofundados. (...) As ligações estabelecidas pelos links vão além de expansões ou relações secundárias, passando a ser centrais na estruturação do texto, já que as próprias relações estabelecidas pelos hiperlinks passam a ser parte constitutiva de seu sentido. (Araújo; LoboSousa, 2009, p. 573)

Outra ressalva dos autores é a de que no hipertexto acontece um processo contrário do da leitura convencional, pois na leitura do texto impresso, a menção acontece a um texto já manifesto, enquanto que no hipertexto, o link leva o leitor a um documento desconhecido. Para finalizar, eles observam que a maior parte de hipertextos apresenta intertextualidade, mas que ela não é inerente ao uso do hiperlink quando se tratando do sentido amplo; já no sentido restrito, a intertextualidade acontece através dos hiperlinks. Os links são comumente citados quando se tratando do hipertexto, pois como aponta Gomes (2007) eles são “elementos constitutivos do hipertexto” (p. 32), porém, diversas vezes sua importância passa despercebida. O link nada mais é do que a ligação entre um documento e outro, e ele pode ser organizados nas páginas hipertextuais de diversas formas, e Mcknight, Dillon e Richardson (1991, p.3 apud Gualberto, 2008, p.57) indicam que não há regra para a disposição deles.
Um link é arbitrário no sentido de que não existem regras para dizer onde o link deve ser feito. O link pode ser feito entre dois nódulos, os quais o autor (ou o leitor) considera ser conectado de alguma forma. Em alguns sistemas, os links são categorizados, isto é, existem vários tipos de links e o autor deve especificar qual tipo gostaria que fosse usado. (MCKNIGHT, DILLON e RICHARDSON, 1991, p.3, tradução nossa)

Gomes (2007) aponta que a forma como os links são colocados nos hipertextos vai ter efeito na construção do sentido. Marcuschi (2005, apud Gualberto, 2008) afirma que as ligações que ocorrem através dos links ajudam na construção da coerência, pois os hiperlinks incitam expectativas por parte do leitor e, consequentemente servem como instrumentos interpretativos. Koch (2005 apud

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Gualbert, 2008) ressalta que o link contribui para a construção da coerência porque oferece caminhos para o leitor. Gualberto (2008) também menciona a relevância dos links para a construção da coerência:

Não há dúvida de que qualquer texto só adquire sentido por meio da leitura, mas pode-se afirmar que, em função de alguns dispositivos específicos como os hiperlinks, o hipertexto potencializa a leitura multisequencial e a construção de sentidos, noções já presentes no suporte impresso. (Gualberto, 2008, p. 58)

A autora também chama a atenção para a linearidade em se tratando de leitura hipertextual ao citar Santaella (2004), apontando que ela é rompida em forma de blocos associativos. Há dois tipos de link, podendo ele ser interno “ou de um local a outro no mesmo documento” ou externo, “ou ainda uma referência de documento a outro” (Gomes, 2007). Outro fator ligado ao link é que ele pode ser confundido com outros termos que fazem parte dele. Esses termos são, entre outros, âncora, lexia, actema e episódio, definidos de forma breve aqui por serem considerados partes integrantes da leitura do hipertexto com construção de sentido. De acordo com o autor, as âncoras são “uma área dentro do conteúdo de um nó que é a fonte ou o destino de um link.” (W3C apud Gomes, 2007). O link é composto por duas âncoras, sendo uma de partida, e a outra de chegada. Já a lexia, “é a unidade básica de informação num hipertexto e é formada por textos hipermodais ou por textos verbais, imagens, vídeos, sons, narrações e ainda ícones e botões.” (Gomes, 2007, p. 63) Os dois últimos são actema e episódio, sendo o primeiro caracterizado como o ato de seguir um link e o segundo, é o conjunto de actemas que são coerentes para o leitor. Ao se fazer distinções entre os significados de termos referentes aos links, de sua recepção, para o local onde ele leva entre outros, evidencia-se a importância de tratá-lo como parte constituinte do hipertexto e atribuição de sentido, porque é ele que tem o papel de atrelar hipertextos, sendo eles na mesma página, ou quando se refere a outro documento, ainda que os autores vejam seu uso de formas diferentes.

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6 CONCLUSÃO

Koch (2007), em seu artigo sobre a construção do sentido em hipertexto, afirma que o conjunto de recursos possível dentro de um hipertexto (som, imagem, animação) é ampliado e que obtém novos significados a partir das diversas opções que o hipertexto oferece a seu leitor. Opções essas que são oferecidas através da conexão entre hiperlinks, elementos indispensáveis na continuidade da leitura e consequentemente do sentido, os quais contêm informações distintas, fato que altera a forma de ler, pois o hipertexto não oferece a leitura linear do texto impresso. Daí a forma diferente nas concepções do que é autor e leitor e quais seus respectivos papeis e também no que é atribuição do sentido, uma vez que o autor é “construtor de dispersões de sentido e o leitor autor de configurações de sentido em um sistema previamente programado (Bellei, 2002, apud Koch, 2007, p.34). O leitor precisa saber organizar as informações do hipertexto.

É ele próprio o responsável pela “edificação” de seu texto. E, para tanto, deverá não apenas mobilizar seus conhecimentos linguísticos, textuais, enciclopédicos, interacionais, como utilizar recursos próprios para a leitura, tendo em vista que o hipertexto é um labirinto formado de uma infinidade de textos, versando sobre infinitos temas, em uma extensa rede que possibilita múltiplos caminhos de leitura, e que lhe exige, portanto, o estabelecimento de conexões coerentes entre os segmentos do texto linguisticamente materializados. (Koch, 2007, p. 35)

Os conhecimentos linguísticos mencionados pela autora referem-se aos estudos sobre o texto impresso, que podem ou não ser aplicados na leitura hipertextual, porém estudos de texto impresso oferecem estratégias que não podem ser aplicadas quando para a leitura do hipertexto. Sublinhas e anotações de margem, por exemplo, estratégias muito usadas na leitura do texto impresso, não poderiam ajudar um indivíduo que lê na tela. Bastante é estudado e especulado sobre outras questões pertinentes ao hipertexto, porém, em uma parte importante que é o leitor e o sentido de sua leitura, certos assuntos se mantêm inexistentes, pois ainda não se sabe as estratégias que um hiperleitor pode recorrer quando precisa de um subsídio na leitura da tela. Sendo essa pesquisa apenas teórica, é importante ressaltar a necessidade de pesquisas empíricas sobre a leitura na tela para verificar quais estratégias são usadas pelos leitores e quais possivelmente podem ser criadas.

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6 REFERÊNCIAS

ARAÚJO, Júlio César; Lobo-Sousa, Ana Cristina. Considerações sobre a intertextualidade do hipertexto. Linguagem em (Dis)curso, Palhoça, SC, v.9, n. 3, p. 565-583, set./dez. 2009

CASTELLO-PEREIRA, Leda Tessari. Leitura de Estudo: ler para aprender a estudar e estudar para aprender a ler. Campinas: Alínea. 2003.

COSCARELLI, Carla Viana. Leitura em ambiente multimídia e a produção de inferências. (Tese) - Faculdade de Letras da UFMG, 1999. _____. Textos e Hipertextos: Procurando o equilíbrio. Linguagem em (Dis)curso, Palhoça, SC, v.9, n. 3, p. 549-564, set./dez. 2009

DIAS, Marcelo Cafiero. A influência do modo de organização de hipertextos na compreensão. 2008. 146 f. Dissertação (Mestrado em Estudos Linguísticos) – Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais, Minas Gerais.

GOMES, Luiz Fernando. Hipertextos multimodais: leitura e escrita na era digital. Jundiaí, SP: Paco, 2010.

GUALBERTO, Ilza Maria Tavares. A influência dos hiperlinks na leitura de hipertexto enciclopédico digital. 2008. 202 f. Tese (Doutorado em Estudos Linguísticos) – Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais, Minas Gerais.

KLEIMAN, Angela. Oficina de Leitura: teoria e prática. 7. ed. Campinas: Pontes, 2000.

KOCH, Ingedore Villaça. O texto e a construção dos sentidos. 7. ed. São Paulo: Contexto, 2003. _____. Hipertexto e Construção do Sentido. Alfa Revista de Linguística, São Paulo, SP, v. 51, n. 1. 2007. Disponível em: http://seer.fclar.unesp.br/alfa/article/viewFile/1425/1126 Acessado em: 21/11/10

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SANTAELLA, Lúcia. Navegar no ciberespaço: O perfil cognitivo do leitor imersivo. São Paulo: Paulus, 2004.

TREVISAN, Eunice. Leitura: Coerência e Conhecimento Prévio (uma exemplificação com o frame carnaval). Santa Maria, RS: Universidade Federal de Santa Maria, 1992.

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