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Directora:

Março/Abril 2021
ISSN: 1645-443X - Depósito Legal: 86929/95 Ano LI- nº 406
Praça D. Afonso V, nº 86, 4150-024 Porto - PORTUGAL
EDITORIAL
CELEBRAR E VIVER A ção); a preparação da pregação multiforme
(com sinceridade), implicam a adopção do
PÁSCOA EM TEMPO DE silêncio como uma de muitas vias possíveis
PANDEMIA para os meses que se vislumbram.
LAICADO DOMINICANO

O silêncio dominicano não é, contudo,


Segundo uma antiga tradição dominica- uma solidão vazia de sentido, porque faz
na, “O silêncio é o pai dos pregadores.” parte da nossa experiência como seres de
Ora, os filhos de São Domingos, indepen- relação (quer seja na família, quer seja na
dentemente do ramo a que pertençam, são, vida sócio-profissional, quer seja nas comu-
nesta Páscoa, especialmente convidados não nidades religiosas). E, quanto mais essa di-
só a celebrar e a viver a Páscoa mediante a nâmica de comunicação interpessoal for
oração contemplativa, mas também a poder permeável à graça e à
recuperar (em circunstâncias especialmente misericórdia, mais actu-
difíceis, é certo) o maior acontecimento da al será o ideal de São
História da Salvação, tomando a consciên- Domingos: a pregação
cia de que Deus nos conhece melhor do orientada para a salva-
que nós, a nós próprios. ção das almas.
Dito de outro modo, a oração; a leitura
meditada da Sagrada Escritura e o seu estu-
do; o contacto com o outro (afastado de nós
fisicamente, mas perto na mente e no cora- José Alberto Oliveira, OP

ORAÇÃO
Deus Pai, Orienta o nosso coração para a verdade,
Tu nos ensinas que é nas nossas fraquezas para a justiça e para a paz que só Tu nos
que mostras a tua força, podes dar.
Antes de nós falarmos contigo, já tu sabes Confiantes na Tua Divina Providência,
quais as nossas necessidades. entregamos-te toda a nossa vida.
Seja esta oração um momento de encon- Concede-nos os talentos de que precisa-
tro sincero e desinteressado. mos, para continuarmos a obra por Ti co-
meçada.
Laicado Dominicano Março/Abril 2021

NOTÍCIAS
IRMÃ MARIA DOMINGOS (1936-2021) RETIRO VIRTUAL DE QUARESMA
Do site Retalhos da vida De 7 a 12 de Março, as irmãs de Santa Catarina
de um frade, do fr. Fiipe de Sena tiveram o seu retiro de preparação para a
Rodrigues op, retiramos Páscoa, sob orientação do Fr. Rui Carlos Lopes, op.
o seguinte texto referen- O retiro funcionou de forma virtual para as diferen-
te à Irª Maria Domingos:
tes comunidades de irmãs (Parede, Fátima, Benfica,
«Faleceu hoje [15 de Paderne, Leiria, Guarda, Castro Daire, Pinheiro da
Fevereiro], na sequên- Bemposta e Estremoz), por meio da plataforma zo-
cia do Covid, a Irmã om. Vários membros das Fraternidades puderam
Maria Domingos, inscrever-se e assistir, também por zoom, ás conferen-
monja dominicana, cias diárias do Fr. Rui, o que para todos constituiu
fundadora do Mosteiro do Lumiar, encerrado há um importante instrumento de preparação quares-
poucos anos. A Ir. Maria Domingos nasceu a 26 de mal. GS
Fevereiro de 1936. Ingressou no mosteiro de Fátima,
SOLIDARIEDADE COM A UCRÂNIA
onde fez o seu noviciado como monja dominicana.
MÊS PARA PAZ DOMINICANO
De lá partiu para o Porto, para o mosteiro dominica-
As diversas iniciativas levadas a cabo na Província
no que então havia lá. Em 1982, juntamente com
Portuguesa por parte dos vários ramos da Família
outras irmãs, depois de terem passado algum tempo
Dominicana renderam um total de 2.520 euros, in-
em Prouille (primeiro mosteiro da Ordem) fundam o
formou o Promotor de Justiça e Paz, Fr. Rui Grácio
mosteiro do Lumiar, propriedade que pertencia aos
op.
frades dominicanos irlandeses. A Ir. Maria Domin-
O Mês Dominicano para a Paz de 2020 que de-
gos distinguiu-se sempre pela sua forma de estar na
correu durante todo o mês de Dezembro teve como
Igreja e no mundo: simplicidade, humildade, discri-
tema a situação de guerra entre aquele país e a Rús-
ção e muita alegria. Prioresa durante alguns manda-
sia. Os frades, as irmãs e os leigos dominicanos da
tos foi sempre a alma do mosteiro, abrindo as suas
Ucrânia estão envolvidos em vários projectos de
portas e portões às várias pessoas e grupos que viam
apoio aos mais frágeis, as vitimas desta guerra san-
no mosteiro um lugar de acolhimento e de paz. Co-
grenta. As verbas recolhidas serão entregues ao Cen-
mo a beleza está muito ligada à simplicidade, junta-
tro St. Martin de Porres em Fastiv, que, tem vindo a
mente com as irmãs da sua comunidade cuidaram
cuidar de crianças socialmente desfavorecidas: ór-
sempre, muito e bem, do exterior e do interior do
fãos, crianças de rua, crianças doentes e crianças de
mosteiro. Ensinaram-nos que a beleza está nos pe-
famílias desfavorecidas. Desde o início das hostilida-
quenos gestos, que o acolhimento é sempre mais be-
des na Ucrânia Oriental, o Centro abriu as suas por-
lo que a recusa, que há mais alegria em dar do que
tas a crianças cuja infância foi envenenada pela guer-
em receber, que ser contemplativo é um acto de uni-
ra. Adoptou mais de 220 crianças da zona de comba-
ão com Deus e com as pessoas. Aquela comunidade
te, e ofereceu-lhes apoio psicológico e espiritual e a
foi um sinal do que significa viver do trabalho: os
oportunidade de recuperarem num ambiente seguro.
doces que fabricavam, os livros que vendiam, as con-
GS
ferências que promoviam, a arte que disponibiliza-
vam fez delas uma verdadeira casa de pregação. A
Ordem Dominicana deve-lhe muito e nós, dominica-
nos, também muito lhe devemos. Acreditamos que
quando morremos voltamos para junto de Deus. Pa-
ra nós, dominicanos, é mesmo ver face-a-face Aquele
que contemplámos e pregámos. Que agora, junto de
Deus, viva na alegria que não tem fim».

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Laicado Dominicano Março/Abril 2021

Era um território desconhecido, cruzado por rios


PERSONAGENS OP
quase intransponíveis, e que ele navegou apesar dos
enormes perigos que corria, para chegar até às diferen-
CELEBRAÇÃO DOS 100 tes tribos e aí levar a Boa Nova de Jesus. Uma das ve-
ANOS DA MORTE DE zes morreram todos os que o acompanhavam e só ele
se salvou.
MONS: ZUBIETA Y LÉS O seu mérito de descobridor, e por tudo o que fez
para levar até esses grupos humanos todo o tipo de
FUNDADOR DAS MISSIO- ajuda , valeu-lhe uma condecoração do Governo do
NÁRIAS DOMINICANAS Peru.
Olhando para a realidade e as condições em que
viviam essas tribos, sobretudo vendo as condições em
que viviam as Mulheres, percebeu de imediato que a
Nós, Irmãs Missionárias Dominicanas do Rosá- presença de Religiosas naquele meio, era absoluta-
rio, estamos de novo a viver um ano Jubilar. mente essencial. Apesar de todas as críticas, por mui-
Há pouco mais de dois anos celebramos o Cente- tos acharem que a ideia era de loucos, ele decidiu,
nário da fundação da Congregação e agora estamos a com a autorização da Santa Sé, vir à Espanha, aos
iniciar este que nos leva ao centenário da morte de Conventos Dominicanos, procurar Monjas que vo-
Mons. Ramón Zubieta y Lés OP, nosso Fundador, luntariamente fossem para essas missões. Logo no
que ocorreu no dia 19 de Novembro de 1921. É uma Convento de Huesca encontrou 4 Voluntárias, entre
feliz coincidência que este centenário ocorra no mes- elas a Beata Ascensão Nicol, nossa Co-Fundadora.
mo ano em que, em Família Dominicana celebramos Foi extraordinário na defesa dos direitos dos indí-
os 800 anos da morte de S. Domingos. São apelos genas, pois já nessa altura, tal como agora, - recorde-
fortes à nossa fidelidade, à nossa gratidão e à nossa mos o que está a acontecer com os fogos sem fim nes-
alegria pelos nossos MAIORES em quem temos a sor- sas zonas amazónicas, promovidos por gente sem es-
te de virem as nossas raízes. crúpulos, que só querem o lucro - eram extremamen-
Mons. Zubieta foi uma pessoa verdadeiramente te explorados. Para e por os defender, sofreu imensas
extraordinária que dá mesmo gosto e prazer conhecer. perseguições, passou enormes sacrifícios, chegando a
A sua vida e missão mereciam um bom livro, um bom refugiar-se na selva, para não ser morto.
filme. Não tenho qualquer dúvida. Era um HOMEM no verdadeiro sentido da pala-
Nasceu em Espanha, Navarra, em 1864. Desde vra: muito humano, aberto, simpático, lutador, empe-
criança teve uma devoção especial a Maria, talvez de- nhado, inteligente, com uma capacidade de organiza-
vido a um Santuário Mariano que ficava perto da sua ção enorme; era, ainda, um amante da EUCARISTIA
terra. Também desde criança quis ser sacerdote e do- - tem coisas muito bonitas neste campo - um amante
minicano. Um dia, sendo ainda muito jovem, disse a do ROSÁRIO, um MISSIONÁRIO, um SANTO,
uma tia que queria ser dominicano, e como esta tenta- uma imagem de S. Paulo do séc. XX... Deixem-me que
va tirar-lhe essa ideia da cabeça, ele respondeu: diga que tenho/temos um enorme orgulho nele e por
"Dominicano hei-de ser, porque a Virgem assim o ele, pela sua vida, pela sua história, e que me/nos sai
quer" . de modo espontâneo: OBRIGADO SENHOR! Esta
O seu sonho era ir para a China, como Missioná- alegria é que me/nos faz dar a conhecer a sua vida.
rio, atraído pelos dominicanos mártires, pois também O seu processo de canonização já está em Roma.
ele queria dar a sua vida por Cristo. No entanto, as Se alguém gostar de o conhecer melhor, de se enco-
Filipinas, foi o seu primeiro destino missionário. mendar a ele, de nos comunicar alguns favores por ele
Aqui esteve preso durante dezoito meses, juntamente concedidos, é com muita alegria e gratidão que o rece-
com muitos outros missionários, tendo sido vítimas bemos
de sofrimentos horríveis que deixaram sequelas na
saúde de Mons. Zubieta
Algum tempo depois da sua libertação, foi nomea-
do Bispo duma extensíssima zona da selva amazónica
peruana, o Vicariato de Puerto Maldonado, que há
dois anos o Papa Francisco visitou e onde se encon- Ir. Deolinda Rodrigues
trou com uma representação de povos indígenas.
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Laicado Dominicano Janeiro/Fevereiro 2021

grado na nossa Lei fundamental.


ASSINATURAS Não podemos aceitar que a morte provocada seja res-
DO LAICADO DOMINICANO posta à doença e ao sofrimento. Aceitar que o seja é
ANO DE 2021 desistir de combater e aliviar o sofrimento e veicular a
ideia errada de que a vida marcada pela doença e pelo
sofrimento deixa de merecer proteção e se torna um
peso para o próprio, para os que o rodeiam, para os
O jornal LAICADO DOMINICANO apenas po-
serviços de saúde e para a sociedade no seu todo. Não
de ser publicado porque os seus custos (impressão e
podemos nunca desistir de combater e aliviar o sofri-
correio) são inteiramente suportados pelos donativos
mento, físico, psicológico ou existencial, e aceitar que
dos seus leitores. E para que não exista quebra na sua a morte provocada seja resposta para essas situações.
periodicidade, apelamos a todos os nossos leitores A resposta à doença e ao sofrimento deverá ser, antes,
que efectuem o envio dos seus donativos respeitantes a proteção da vida sobretudo quando ela é mais frágil
a este ano. por todos os meios e, nomeadamente pelo acesso aos
Poderão fazê-lo directamente através de transferên- cuidados paliativos, de que a maioria da população
cia bancaria para o NIB:000700000026623648323 portuguesa está ainda privada.
(não se esqueçam de mandar o comprovativo para a Para além da política legislativa lesiva da dignidade de
administradora do jornal.) ou por meio de correio toda a vida humana, somos confrontados com um
para a morada indicada na ficha técnico na última retrocesso cultural sem precedentes, caraterizado pela
página deste jornal. absolutização da autonomia e autodeterminação da
O envio de quaisquer quantias por meio de che- pessoa. A ele temos de reagir energicamente. Por isso,
que ou Vale do Correio tem de ser em nome de agora, mais do que nunca, reforçamos o nosso propó-
sito de acompanhar com solicitude e amor todos os
“Jornal Laicado Dominicano”.
doentes, em todas as etapas da sua vida terrena e, de
A todos agradecemos desde já os vossos contribu-
modo especial, na sua etapa final.
tos. GS Lisboa, 29 de janeiro de 2021
_____________________________________
SOBRE A EUTANÁSIA Nota da Redação: Sobre o tema da eutanásia, suge-
Comunicado do Conselho Permanen- rimos a leitura e estudo do pequeno livro «Morte a
te da Conferência Episcopal Portuguesa pedido—o que pensar da eutanásia» da autoria do
Professor Walter Oswald e publicado pela Universida-
de Católica.
Os bispos portugueses exprimem a sua tristeza e in-
dignação diante da aprovação parlamentar da lei que
autoriza a eutanásia e o suicídio assistido.
Essa tristeza e indignação são acrescidas pelo facto de Artigos recentes em:
se legalizar uma forma de morte provocada no mo- LEIGOSDOMINICANOS.ORG
mento do maior agravamento de uma pandemia mor-
tífera, em que todos queremos empenhar-nos em sal- *Irmã Maria Domingos (1936-2021)
var o maior número de vidas, para tal aceitando restri- »Laicado Dominicano Jan/Fev. 2021
ções da liberdade e sacrifícios económicos sem parale- *Textos e documentos referentes ao laica-
lo. É um contrassenso legalizar a morte provocada do dominicano (1982-2020)
neste contexto, recusando as lições que esta pande- »Oração do Jubileu
mia nos tem dado sobre o valor precioso da vida hu-
mana, que a comunidade em geral e nomeadamente
os profissionais de saúde tentam salvar de modo so-
brehumano.
Salientamos que a lei aprovada poderá ainda ser sujei-
ta a fiscalização da constitucionalidade, por ofender o
princípio da inviolabilidade da vida humana consa-

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Laicado Dominicano Janeiro/Fevereiro 2021

CARTA ENCÍCLICA FRATELLI TUTTI ”, PAPA FRANCISCO, 2020

Por Frei Gonçalo P. Diniz, op que paga ao estalajadeiro, ele dá o seu tempo e a sua
proximidade. O samaritano foi capaz de sacrificar o
CAPÍTULO II – seu tempo, com todo o feixe de compromissos que
Um estranho no caminho encerra, para prestar atenção àquele infeliz que não
conhecia de parte nenhuma, ainda para mais um
O segundo capítulo desta carta habitante da Judeia (judeu, portanto), com quem os
encíclica está todo ele construído a vizinhos samaritanos não se entendiam (animosidade
partir da parábola do bom samari- recíproca).
tano, uma parábola que que nos é Enfim, uma lição para todos nós sempre muito
transmitida pelo evangelista Lucas (Lc 10, 25-37). apressados e preocupados com os nossos cuidados
A atenção devida ao irmão que transpira desta pessoais e imediatos, descurando muitas vezes o ir-
parábola, e em particular ao irmão que se vê, por in- mão que está ao nosso lado, tantas vezes sozinho,
felicidade do destino, numa situação de grave carên- abandonado, invisível aos nossos olhos. A este pro-
cia e simultânea dependência de terceiros para a sua pósito, vale a pena antecipar o que o Papa Francisco
própria sobrevivência, não é um tema inédito na Sa- diz no nº224 desta encíclica, texto que também inte-
grada Escritura, como bem sabemos, mas não deixa gra a sua mensagem para a Quaresma deste ano: “Às
de ser um desafio permanente para todos nós, trans- vezes, para dar esperança, basta ser uma pessoa amá-
versal a todos os tempos. Não por acaso, uma grande vel, que deixa de lado as suas preocupações e urgên-
pensadora e filósofa do século XX, Simone Weil, di- cias para prestar atenção, oferecer um sorriso, dizer
zia, com muita verdade: “A capacidade de prestar uma palavra de estímulo, possibilitar um espaço de
atenção a um infeliz é uma coisa muita rara, muito escuta no meio de tanta indiferença”.
difícil; é quase um milagre, é um milagre!”.
Mesmo na tradição judaica, o preceito de amar o
próximo como a nós mesmos (Lv 19,18), evoluiu pa-
ra além das fronteiras do povo eleito. Hillel, sábio
judaico do século I a.C., irá resumir a Lei e os Profe-
tas ao mandamento de não fazer aos outros aquilo
que não queremos que nos façam a nós. A este pro-
pósito, dirá liminarmente: “Isto é a Lei e os Profetas.
Todo o resto é comentário” (F.T. nº59).
Este preceito de Hillel recebe uma formulação
positiva no Novo Testamento, onde se afirma explici-
tamente: “O que quiserdes que vos façam os ho-
mens, fazei-o também a eles, porque isto é a Lei e os
Profetas” (Mt 7, 12), e, mais adiante, nas cartas pauli- Em muitas circunstâncias, lamentavelmente, po-
nas, onde se lê: “Toda a Lei se cumpre plenamente demos estar a fazer o papel dos salteadores da pará-
nesta única palavra: ama o teu próximo como a ti bola – quando espoliamos o nosso irmão mais pe-
mesmo” (Gl 5, 14). É esta formulação positiva, ou queno com as nossas acções e opções de vida
activa se quisermos, do mandamento do amor ao (profissionais, políticas, económicas, sociais, até reli-
próximo, que se encontra plasmada na parábola do giosas, quando mal orientadas, entre outras) -, ou
bom samaritano. então a fazer o papel, talvez mais frequente na práti-
Analisando a parábola, o Papa Francisco, com um ca, daqueles que passam ao lado, que fingem não ver,
apontamento pastoral de grande actualidade, chama autojustificando-se que se tratam de problemas alhei-
a atenção para a principal oferta que o bom samarita- os, muitas vezes criados pelo próprio desgraçado
no presta ao desgraçado que está ensanguentado à (“Ele é que se meteu em alhadas, agora que se desen-
beira do caminho: mais que os cuidados de primei- vencilhe”, ou “Não tenho nada a ver com isso”).
ros socorros que presta – ligando-lhe as feridas e der-
ramando sobre elas vinho e azeite – e o dinheiro com (continua na página seguinte)

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Laicado Dominicano Março/Abril 2021

(continuação da página anterior)


LEITURAS OPortunas
Salteadores ou transeuntes indiferentes ao so-
frimento alheio que povoa o nosso mundo, sempre
que que assumimos um ou outro papel estamos a con- * Título: O clamor do «não homem»
tribuir, inadvertidamente, ou não, para uma socieda- * Autor: Frei Gonçalo Diniz
de de exclusão, assente no individualismo e no egoís- * Ano: 2020
mo. Esta parábola ensina-nos a superar este statu quo * Editora: Universidade Católica
doentio.
Há também que subli- Sob o título O Clamor do “não homem”, A obra de
nhar um dado que não Gustavo Gutiérrez como proposta atual de ética política e
nos deve passar ao lado social, frei Gonçalo Pereira Diniz, actual Prior do Con-
na parábola do bom vento de Cristo Rei, no Porto, apresentou a sua tese
samaritano: os dois per- de doutoramento, sob a orientação do Professor Jorge
sonagens da história Cunha, da Universidade Católica Portuguesa
que fazem vista grossa (Campus do Porto).
ao infeliz que foi assal-
tado e barbaramente
agredido, à beira do
caminho, eram, respec-
tivamente, um sacerdo-
te e um levita, i.e., ho-
mens da religião e do
culto, que exerciam o
seu ofício no Templo
de Jerusalém.
Este facto deve ser motivo de reflexão, não tanto
para pensarmos em fulano ou sicrano, mas para pen-
sarmos em nós próprios, cristãos de prática religiosa,
e, contudo, tantas vezes longe da vida moral cristã, da
religião em espírito e verdade à qual Jesus nos convida
e desafia permanentemente.
A prática religiosa é muito importante, mas é ins-
trumental: deve celebrar, ajudar e dirigir a nossa vida Segundo o próprio orientador “O livro trata do pen-
em ordem ao crescimento contínuo da fé, da esperan- samento teológico de Gustavo Gutiérrez sobre a sociedade
ça e da caridade com que Deus nos cumulou, ao servi- justa”. O autor da tese, na introdução a esta obra, re-
ço do próximo. A prática religiosa não vale por si mes- corda uma visita do teólogo peruano ao Convento de
ma, isolada da nossa vida moral, dos nossos costumes São Tomás de Aquino, em Sevilha, corria o ano de
habituais, e, menos ainda - o que redundaria numa 2005 e refere: “De modo decisivo, Gutiérrez quis que a
lamentável perversão –, deverá servir como fachada teologia “incarnasse” verdadeiramente, assumindo um com-
para parecermos aquilo que não somos nem vivemos. promisso social inequívoco e explícito, ao mesmo tempo que
A terminar, citamos as palavras Santo Padre, na- se libertava do mero academismo em que por vezes redunda-
quela que é, a nosso ver, uma síntese muito bonita do va”. Ainda na introdução, escreve frei Gonçalo Diniz:
verdadeiro espírito cristão, vivido na graça: “O samari- “Por tudo isto, a espiritualidade da libertação assume hoje
tano do caminho partiu sem esperar reconhecimentos uma importância urgente, pois recorda-nos que sistemas e
nem «obrigados». A dedicação ao serviço era a grande organizações que não sirvam a pessoa humana, e, em parti-
satisfação diante do seu Deus” (F.T. nº79). cular, a pessoa humana mais vulnerável, estão a mais e
devem ser reformados (…)”.
(continua na próxima edição) Os editores deste Jornal recomendam vivamente a
leitura deste livro, cuja abordagem é tão urgente quan-
to oportuna nos nossos dias. JAO

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Laicado Dominicano Março/Abril 2021

O PAPA NO IRAQUE: BARRAS NA JANELA


PONTES PARA A PAZ MAS UM CORAÇÃO ABERTO

A visita do Papa ao Iraque Depois da prisão americana em Norfolk, uma pri-


foi uma busca explícita de são belga também tem uma fraternidade leiga domi-
entendimento com a grande nicana, apoiada pelo leigo dominicano Ludovic Na-
religião que tem as suas ori- murois, Presidente Provincial da Bélgica .
gens no profeta Maomé. Tal O trabalho na periferia é característico da espiritu-
como aconteceu com outras alidade dominicana, por exemplo, com estudantes
religiões, também surgiram ou reclusos. "Sem estabelecer planos ou objectivos,
diferenças internas no seio do Islão. Por outro lado, estamos simplesmente presentes. Chamo a isso um
as religiões, incluindo o cristianismo e o islamismo, ministério pastoral de disponibilidade. Se surgir algo,
deram origem a fanatismos, que ainda estão activos e veremos", diz Ludovic. Tudo começou com um pe-
causam confusão. Pois é fácil e tentador identificar queno grupo de oração liderado pelo Sr. Albert Ron-
"todos" com a minoria fanática. delet, op e Frei Patrick Gillard, op que são capelães
na penitenciária de Ittre, 30 quilómetros a sul de
Bruxelas. As discussões com os reclusos mostraram
que eles recebem muito apoio das suas orações. Al-
guns expressaram o seu desejo de aprender mais so-
bre a oração e sobre a espiritualidade dominicana.
Ludovic continua:
“Ao visitar os reclusos, fiquei impressionado com
a qualidade da sua vida de oração, a sua fome de liga-
ção com os outros, dentro e fora das paredes, e por
algo que os transcende".
Durante um período inicial de conhecimento,
Nos seus discursos no Iraque, o Papa desta- alguns prisioneiros receberam uma formação cristã e
cou exemplos de colaboração entre cristãos e muçul- dominicana. Aprenderam a celebrar as Vésperas e
manos que, para além das palavras, mostram o cami- estiveram em contacto com a fraternidade leiga em
nho a seguir: "os jovens muçulmanos voluntários de Norfolk. Juntamente com Albert Rondelet e Patrick
Mosul, que ajudaram a reconstruir igrejas e mostei- Gillard, Ludovic guiou o grupo. O anterior Mestre
ros, construindo amizades fraternas sobre os escom- da Ordem, Bruno Cadoré, encorajou Gillard e Ludo-
bros do ódio, e os cristãos e muçulmanos que hoje vic a trabalhar no que poderia potencialmente tornar
restauram juntos mesquitas e igrejas"; "o testemunho -se a segunda fraternidade dominicana de prisionei-
de Dawood e Hasan, um cristão e um muçulmano ros no mundo.
que, sem se deixarem desencorajar pelas diferenças,
estudaram e trabalharam juntos"; "o exemplo heróico
de Najy, da comunidade mandaeia sabina, que per-
deu a sua vida ao tentar salvar a família do seu vizi-
nho muçulmano".
Fr.Martin Gelabert Ballester,OP

Em Outubro de 2018, dez prisioneiros e o cape-


lão leigo fizeram a sua profissão temporária. No final
deste ano, podem renová-la ou torná-la definitiva.
Desde Novembro de 2019, o grupo é oficialmente
uma fraternidade laical.
Kerk en Leven, via ecldf.org
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Laicado Dominicano Março/Abril 2021

ESTREMOZ: com as irmãs de Santa Catarina de Sena. Foi assim


que se instituiu a Fraternidade Leiga de São Domin-
80 ANOS DE VIDA
gos de Estremoz.
HISTÓRIA DA FRATERNIDADE A 8 de Novembro de 1972, a Ordem Terceira de
DE ESTREMOZ São Domingos reuniu na Associação de Beneficência
Apresenta-se de uma forma sucinta a história da de Estremoz com as irmãs Terceiras Dominicanas,
Fraternidade leiga de São Domingos de Estremoz, des- para lhes dar conhecimento da situação de Fraternida-
de a sua fundação até aos dias de hoje. de, sendo posteriormente a direcção reorganizada com
Pelo ano de 1420, os confrades responsáveis pela a eleição de novos dirigentes por intermédio do Pro-
Igreja do Espirito Santo cederam um terreno para a motor Provincial, frei Estevão Fonseca de Faria. A Fra-
construção de uma Albergaria com o mesmo nome; ternidade organizava a “Festa de Natal” partilhando
anos mais tarde foi designado como Mosteiro de San- com os pobres e velhinhos os agasalhos e alimentos,
ta Clara. O mosteiro foi encerrado em 1551 por Or- sendo responsável pela organização do lanche para o
dem do Papa Paulo III. Em 1740, após várias vicissitu- dia 24 de Dezembro Ricardina Trindade e Maria Emí-
des, habitava no convento uma comunidade de Ere- lia Lopes. Faziam as celebrações eucarísticas na Igreja
mitas Descalços de Santo Agostinho sob a invocação de São Francisco e no tempo do Padre Luís Gonzaga
de Convento de Nossa Senhora da Consolação. Após Martins Gama os elementos da Fraternidade ajuda-
o abandono motivado pelo encerramento dos conven- vam como zeladoras na Igreja do Anjo da Guarda
tos no século XIX, em 1897 é ali fundada a Associa- Em 1983 deliberou o Promotor Provincial que do-
ção de Beneficência de Estremoz (recolhia jovens desam-
paradas), com 13 sócios, sendo os primeiros estatutos
aprovados em 26 de Abril de 1898, com um número
bastante elevado de sócios. A 3 de Agosto de 1906 é
transferida para a parte do Convento dos Agostinhos,
o Asilo de Santa Cruz fundado pelo Dr. João Baptista
Rolo na rua direita, junto ao Castelo. Em Junho de
1907 a D. Evangelina Rolo faz a doação perpétua de
todo o prédio ao Asilo da Infância Desvalida de Estre-
moz. EmJulho de 1940 foi internado o último velhi-
nho no Asilo de Santa Cruz, para somente serem ad- ravante as reuniões da Fraternidade se fariam no Lar
mitidas velhinhas. de Santa Cruz em conjunto com as irmãs e no primei-
Um grupo de Confrades responsáveis na altura ro domingo de cada mês. Assim se mantiveram as reu-
pela Igreja do Espírito Santo, tendo conhecimento da niões no coro da Igreja no Lar de Santa Cruz até ao
situação económica precária e formação dos velhinhos dia vinte e três de Junho de dois mil e dezassete.
na cidade, imediatamente se juntaram às irmãs, uma A Fraternidade Leiga de São Domingos, voltou
vez que estas já distribuíam o “Pão de São Domingos” para a casa mãe a vinte e dois do mês de Outubro
aos pobres. Foi a partir daí (1942) que uma das Irmãs 2017, não à Capela do Senhor Jesus dos Passos, mas
da Confraria, Alice Tabaquinho, assumiu o cargo de sim à Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro,
Prioresa da Fraternidade de São Domingos durante paróquia de Santo André em Comunhão fraterna
30 anos, juntamente com o seu marido Augusto Taba- com o Nosso Cónego Fernando Afonso.
quinho, ficando responsáveis pelos pobres e mais ne-
cessitados durante 32 anos, trabalhando em conjunto
A presidente, Cremilde Rodrigues OP

F I C H A T É C N I C A
Jornal bimensal Colaboram neste número: Fr. Gonçalo Diniz, Ir. Deolinda Rodrigues;
Publicação Periódica nº 119112 / ISSN: 1645-443X Cremilde Rodrigues, Fr. Martin Gelaber Ballester, Kerk en Leven, ima-
Propriedade: Fraternidades Leigas de São Domingos gem na página 5 de Jared Small,
Contribuinte: 502 294 833
Depósito legal: 86929/95 Administração: Maria do Céu Silva (919506161)
Endereço: Praça D. Afonso V, nº 86, 4150-024 PORTO Rua Comendador Oliveira e Carmo, 26 2º Dtº
E-mail: laicado@gmail.com 2800– 476 Cova da Piedade
Directora: Cristina Busto
Redacção: José Alberto Oliveira/Gabriel Silva Os artigos publicados expressam apenas a opinião dos seus autores.
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