Lia Carneiro Silveira1 Arisa Nara Saldanha de Almeida2 Simara Moreira de Macedo3 Monyk Neves de Alencar4 Michell Ângelo

Marques Araújo5

Introdução
As práticas de saúde desenvolvidas na sociedade ocidental contemporânea tomam, como ponto de partida, o sujeito como entidade fixa, definido, sobretudo, nos moldes do pensamento racionalista do séc. XVII. Ao instaurar o cogito “penso, logo existo”, Descartes inaugura o sujeito do conhecimento e, com ele, a certeza de que a razão humana seria capaz de conhecer completamente as paixões e as emoções, governando-as e dominando-as (Chauí, 2000). Segundo Guattari e Rolnik (1999), o que Descartes efetua é uma colagem da idéia de subjetividade consciente à idéia de indivíduo, idéia esta que vem nos contaminando ao longo de toda a história da filosofia moderna. Entendemos que esta perspectiva perpassa a produção científica hegemônica na saúde por meio de uma visão naturalizada de que todo sofrimento humano pode (e deve) ser convertido em objeto de intervenção da ciência médica. Capturar o “indivíduo” como objeto da ciência é o que permite à Medicina constituir-se enquanto saber científico e delimitar seu espaço: a coincidência exata do corpo da doença com o corpo do homem (Foucault, 1994). Esta apreensão se dá às expensas da expulsão de tudo que faz parte da dimensão subjetiva do paciente: a doença é, então, identificada com um processo real de alteração dos tecidos, que o método anatomoclínico trata de desvendar com seu olhar. A fala do paciente, queixa subjetiva e desencaminhadora, é preterida em benefício do silêncio do cadáver (Simanke, 2002). Essa forma de apreensão do humano pelo saber científico se inscreve dentro da proposta da ciência moderna que, segundo Santos (2003), constituiu-se a partir da revolução científica do século XVI. Esse modelo, apesar de admitir uma variedade interna, apresenta alguns princípios que permitem o seu reconhecimento. Em primeiro lugar, conhecer significa quantificar. É preciso separar, cortar e contar para, depois, perceber as relações. Em segundo lugar, “o conhecimento causal aspira à formulação de leis, à luz de regularidades observadas com vistas a prever o comportamento posterior dos fenômenos” (Santos, 2003, p.29). Parte-se da concepção de um mundo organizado e previsível que pode ser observado em suas regularidades. Tudo que escapar a este domínio passa a ser causa de desconfiança.

1 Enfermeira, Curso de Enfermagem e Mestrado Acadêmico em Cuidados Clínicos de Saúde, Universidade Estadual do Ceará (UECE). Av. Barão de Studart, 1891, apto. 304A. Aldeota, Fortaleza, CE 60.120-001 liasilveira@uece.br 2 Enfermeira. Mestranda, Mestrado Acadêmico em Cuidados Clínicos em Saúde,UECE, bolsista FUNCAP . 3-4 Enfermeiras. Departamento de Enfermagem, UECE. 5 Enfermeiro. Faculdade Católica Rainha do Sertão.

COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO

v.12, n.27, p.873-81, out./dez. 2008

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espaço aberto

A sociopoética como dispositivo para produção de conhecimento

uma vez que se propõe a uma experimentação enquanto criação na diferença.A SOCIOPOÉTICA COMO DISPOSITIVO. está diretamente relacionada aos modos de produção de subjetividade. a doença e a violência. Entretanto. em um texto intitulado “As Três Ecologias”. o objetivo do pesquisador não é resolver uma questão empírica. das relações sociais e da subjetividade humana. Finalmente. de preferência. respeitando as suas diferenças. com os ‘mistérios’ da vida e da morte” (Guattari. o crescente desenvolvimento de novos meios técnico-científicos. 2001). Sendo assim. desempenhando um papel de desconstrução do que está posto e a abertura para novas produções a partir da consciência crítica. certamente.18). Guattari (2001). necessariamente. Afirma que as questões relacionadas à produção da existência humana em nosso contexto histórico estão. buscase o envolvimento dos sujeitos no processo de pesquisa. tanto por parte dos/as participantes. Ramos. Sendo assim. palavras ou qualquer outra matéria plástica. como toda construção humana. como a fome.16). out. “da relação do sujeito com seu corpo. Encontramos. de montar algumas linhas capazes de reinventar os modos de ser: “o que quer que seja. a consideração de uma dimensão ética. pois tem. ela implica. Não podemos. É um método de pesquisa que tem. Sendo assim./dez. entre outros). 2001. a valorização de saberes diversos (científico. ao fixar regras e observar repetições. p. pois considera que a constituição das relações sociais. Outra singularidade do método da sociopoética é que ela compreende a produção de conhecimento como um ato coletivo. p. supostamente capazes de dar conta das grandes questões atuais. o método indutivo limita a realidade.. uma abordagem que se propõe a considerar estas dimensões no âmbito da produção do conhecimento. como pressuposto básico. este texto é uma reflexão teórica que tem como objetivo descrever o método da sociopoética delineando suas bases epistemológicas e seus princípios teóricos. por sua independência contra o colonialismo francês (Petit et al. Por outro. 2005). a incapacidade das formações subjetivas constituídas de se apropriarem desses meios para torná-los operativos. como preocupação central. Nessa perspectiva. como do/a pesquisador/a (Silva. trata-se. argila. A pesquisa sociopoética e seus princípios O método sociopoético foi criado pelo filósofo e pedagogo Jacques Gauthier a partir de suas vivências compartilhadas no movimento de luta dos Kanak. 2008 . filosófico. antes. O autor denuncia o paradoxo por trás desta crise: por um lado. de inspiração ético-estéticas” (Guattari. sim. exclui as contradições.873-81. Entretanto. examinar as “verdades” normativas que permeiam o contexto histórico.. artístico.27. desde a negociação do tema da pesquisa até a interpretação/teorização dos dados. enquanto o artista lida com tintas. na sociopoética. articuladas a uma crise envolvendo os registros do meio ambiente. Percebemos que a sociopoética se apresenta como uma caixa de ferramentas que nos permite desenvolver a produção do conhecimento considerando os processos subjetivos e comprometendo-se com uma maior autonomia dos envolvidos. pois participam com seus saberes da produção acerca de um tema (escolhido pelo próprio grupo). intuitivo. com o tempo que passa. situa essa problemática num campo mais amplo. Concordamos com o autor quando ele afirma que a saída (ou as saídas) possível para este paradoxo não passa pela formulação de uma nova ideologia ou modelo unívoco. parece-me urgente desfazer-se de todas as referências e metáforas cientistas para forjar novos paradigmas que serão. povo indígena da Nova Caledônia. n. toma a produção de conhecimento como interessada e politicamente objetivada. na verdade. essa proposta envolve também uma dimensão política. os quais podem ser percebidos em vários âmbitos de nossa vida. com o fantasma. Considera que os sujeitos da pesquisa são co-pesquisadores. negar os inúmeros avanços alcançados por meio da ciência moderna. 2001. estamos nos referindo a uma reinvenção cuja matéria é a própria subjetividade. 874 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. a defesa da produção de vida. p. dos modos de produção.. homogeneíza as diferenças e reduz a complexidade da vida. mas.12. Além disso. Trata-se da reinvenção dos sentidos. A mudança paradigmática aqui proposta anuncia sua dimensão estética ao afirmar que a maneira de operar nesse processo de re-singularização se aproxima mais do artista que do cientista.

é seu teor de liberdade em que se desfaz dos códigos que procuram explicar dando a tudo o mesmo sentido” (Barros. 2008 875 espaço aberto . et al. participando também do processo de criação de conhecimento. é se aliar à ação/criação. criticar e autocriticar (Petit et al. onde não existem a negação nem a falta.SILVEIRA. perpassado pelo desejo. Entretanto. tornando-se “co-pesquisadores”. percebendo-o como um dispositivo. Segundo estes autores. 1996) é a de que possamos considerar uma outra construção do conceito de grupo. o papel da criatividade de tipo artística no aprender. considerando-se algumas divergências. abordaremos cada um desses princípios. podemos afirmar que outro referencial importante da sociopoética são as idéias de Gilles Deleuze e Felix Guattari voltadas para a proposta que ficou conhecida como “Esquizoanálise”. É COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. de valores. p. A valorização desses encontros nos leva a um “processo de singularização”. Um dispositivo caracteriza-se então por “sua capacidade de irrupção naquilo que se encontra bloqueado de criar. um modo de apreensão do conceito de grupo que. a proposta de Barros (1993. Guattari. e que parte do princípio de que o processo de constituição de subjetividades envolve as relações entre desejo e produção. O grupo-pesquisador como dispositivo na sociopoética O conceito de grupo é discutido por diversos autores.C.. Com relação ao seu corpo teórico. Tratase de uma postura de respeito mútuo e de troca entre saberes intelectuais e populares (Petit et al. a sociopoética toma a idéia de dispositivo. Na sua definição etimológica. 2005). foi herdado o método do grupo-pesquisador.104). Entretanto. conforme afirma Barros (1996). o grupo é percebido como “um intermediário entre o indivíduo e a sociedade. é uma unidade.27. ou seja. 1996. entre outros. out. podem e devem se tornar autores da pesquisa e da sua aprendizagem. A seguir. Produção e desejo passam a formar uma máquina que vai gerar formas de existir no mundo (produção de subjetividades) (Deleuze. externo.873-81. não existe um mundo social. L. da análise institucional e da esquizoanálise. uma pequena associação ou reunião de pessoas ligadas por um mesmo objetivo. Finalmente. Outro ponto em comum. mas também de linguagens. uma reunião de certo número de pessoas. objetos da pesquisa. Nesta concepção. de percepções. o grupo é um todo. as quais divergem desde a conceituação até o desenvolvimento da prática em si. valores e serviços. p. Da análise institucional . por René Lourau e George Lapassade -. A sociopoética parte do princípio de que falar em produção de conhecimento remete-nos a uma economia dos processos de subjetivação resultantes do encontro de intensidades e de afetos. de crenças. de saberes. Quando nos dirigimos a um campo de pesquisa e interagimos com os sujeitos. é que estas abordagens percebem o grupo como uma unidade abstrata pairando acima dos indivíduos que o compõem. São inúmeras as modalidades de abordagem grupal. n. individual. Abordar o grupo nesta outra lógica “é pensar efeitos. a sociopoética foi gerada por meio de uma combinação de conhecimentos trazidos da pedagogia do oprimido. 1968). é um objeto de investigação” (Barros. entendido como qualquer estrutura que permita tornar visível o que era escondido na vida ordinária. baseado na produção. constituiu-se. O conceito de produção é retomado com base na proposta marxista que envolve a forma como se organiza a produção de bens./dez. é uma estrutura. a ênfase no sentido ético no processo de construção dos saberes. 2005). considerando como cada um deles permeia o processo de produção do conhecimento.98). modos de criatividade e de relação com o outro. então. idéia que está no centro da própria possibilidade de analisar. é montar situações que articulem elementos heterogêneos acionando modos de funcionamento que produzirão certos efeitos” (Barros. 1996. ou. Não apenas encontros de corpos físicos. pois leva à construção de novos modos de sensibilidade. a importância do corpo como fonte de conhecimento. p.12. o vocábulo “grupo” é uma reunião de coisas que forma um todo distinto. p. a sociopoética fundamenta-se nos seguintes princípios: o grupo pesquisador como dispositivo.. podendo apontar diferentes definições de acordo com o contexto a ser trabalhado.. 2004). O desejo é conceituado com base no conceito freudiano de processo primário. centra-se em torno de algumas constantes.teorizada. De Paulo Freire e da pedagogia do oprimido.105). o grupo se configura como mais um indivíduo (Moreira et al. o qual acredita que os grupos. no conhecer e no pesquisar. Do ponto de vista epistemológico. e outro interno. certamente ocorrem encontros. a partir do século XVIII. 1996.

Considerar o material da pesquisa como uma produção de sentido efetuada entre o pesquisador e o pesquisado permite uma maior implicação dos sujeitos da pesquisa com o conhecimento construído e uma valorização deste conhecimento.873-81. ao invés de tomar o corpo como um universal. que entra em cena o dispositivo. (1998). de diferenças. estão desvinculando-o de qualquer ligação com “falta”. n. ele estará consciente de suas interferências no saber produzido.. Pelo contrário. como pode parecer. territórios. nos contatos entre os corpos. precisamos saber que. passa a ser sujeito na produção de conhecimento acerca do processo saúde-doença. Em primeiro lugar. apenas. o grupo pesquisador é parte ativa de todo o processo. fica o desafio de pesquisar sem utilizar a interpretação como ferramenta de afirmar sempre uma verdade última que se sobrepõe ao saber dos sujeitos da pesquisa. ora nos tornam mais fortes. impondo sua palavra como final. participando da produção de dados. saberes e percepções. o corpo vida. a concepção do dispositivo irá permitir ao grupo-pesquisador tornar-se um agente ativo na produção do conhecimento (Silveira. Cada um com suas crenças. Para que os afetos se expressem. etc. A partir daí. quando os autores falam em “desejo”. O grupo é formado a partir de um convite para a discussão de um determinado tema gerador.. Segundo essa abordagem. porque o contato com outros corpos gera novos afetos que não se encaixam nesses 876 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Uma vez formado o grupo. quando diminuem nossa potência de agir e decompõem nossas relações (tristeza). de singularidades. o corpo sem órgãos não pára de agir. merece. objeto das ciências da saúde. Não apenas corpos humanos. Estes. como por meio de uma demanda do próprio grupo. out.] os afetos são devires: ora eles nos enfraquecem. Para Gauthier et al. uma intervenção institucional ou. ele é pura produção. Na sociopoética. intensidades ou forças desejantes: “[. temos de nos deter um pouco na forma deleuze-guattariana de conceber o desejo. participando da produção como mais um olhar (embora sem perder de vista a relação de poder que envolve a sua participação). por parte do grupo. O corpo humano tem sido objeto de estudo das mais variadas áreas do conhecimento: o corpo biológico. esta concepção de “verdade”./dez. dos antropólogos. a proposta do grupo-pesquisador valoriza o aspecto político da produção do conhecimento em saúde ao promover uma nova relação de forças e ao reverter o modelo baseado na verticalidade de um pesquisador que interpreta a fala dos sujeitos. Para entendermos melhor o que é um Corpo sem Órgãos (CsO). Mas. que tanto pode ser oferecido pelo pesquisador-oficial. Para o pesquisador. quando aumentam nossa potência e nos fazem entrar em um indivíduo mais vasto e superior [alegria]” (Deleuze. Entretanto. Os dispositivos são montagens ou artifícios que propiciam o surgimento de inovações. apesar do “indivíduo”. Ao desejo não falta nada. Nesse contexto. é uma crença historicamente produzida e. o corpo história.A SOCIOPOÉTICA COMO DISPOSITIVO. aí. Nesse momento. A partir daquilo que Foucault define como “momento cartesiano”. A valorização do corpo na produção do conhecimento A sociopoética afirma que o corpo também produz conhecimento. são temporários.. uma apropriação. como tal. Como se dá essa produção? Ela ocorre nos encontros (mesmo que seja um encontro solitário). Quando isso não for possível. à medida que admite que o acesso à verdade seja possível apenas por meio da razão (Foucault. a sociopoética vai recorrer ao conceito de “corpo-sem-órgãos” proposto pela esquizoanálise. como: uma pesquisa acadêmica.73). surgem os afetos. dos filósofos.. pelo menos. 2005). 1998. ou ainda a partir de uma negociação entre os interesses de ambos. o pesquisador-oficial elabora as oficinas nas quais será trabalhado o tema escolhido. de determinado tema que seja relevante para o mesmo. a história da verdade entra em seu período moderno. se não ser desacreditada. pelo menos ser analisada com mais cuidado. p. seus conceitos e suas práticas em relação a ele. como tantas outras que o homem já produziu. aquele que antes era alienado como objeto do saber médico. Para o pensamento racionalista da ciência moderna. 2008 . p. A construção do conhecimento se faz coletiva e cooperativamente. por sua vez. essa afirmação é no mínimo estranha.12. são eles que proporcionam a expressão da transversalidade dos desejos e poderes que agem na vida social. mas de linguagens. então. Este processo pode ser adequado a diversas demandas. além da análise e da socialização dos mesmos. passa a ser valorizado em sua autonomia. 2006). não é um dado natural.27. criamos delimitações. Desses contatos.

intuitivo.SILVEIRA. Para isso. Em muitos serviços de saúde. criando.. portanto. não basta saber o que é o Corpo sem Órgãos. Em qualquer que seja o campo de atividade. uma linha de fuga é uma desterritorialização e os Corpos sem Órgãos são a imantação destas linhas de fuga. São eles que compõem este espaço entre o desterritorializado e o território. Consideramos a criatividade um potencial inerente ao homem. fenômenos relacionados de modo novo e compreensivo em termos novos.]” (Deleuze. a arte dessa prática está. Nesse contexto. formar. Atualmente. um outro corpo [./dez.. mas trata-se de acrescentar elementos do corpo a essa razão que não consegue dar conta de tudo em todo o processo de produção do conhecimento... Estas oficinas resultam em produções materiais... p.. Após a composição do grupo-pesquisador e da escolha do tema gerador.11).] é uma característica da sociopoética buscar além (ou dentro) do corpo. Isso não significa abandonar a razão. configurar. basicamente. como a pintura. se a arte deve ser valorizada nesses espaços.] Este corpo sabe [. ou não. criar é. Entendemos que. ela se apropria de diversos mecanismos. ainda muito voltado para “a cura” do paciente por meio de vertentes da arteterapia. Entretanto. são modeladas no processo de docilização dos corpos. monótona e repetitiva a serviço do combate à ociosidade provocada pelas instituições. (1998. Sua indicação para os sofredores psíquicos surge no bojo das reformas humanitárias e na busca de novos paradigmas na atenção a esses pacientes. pela lógica psiquiátrica... p. como um COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. antes da formação dos estratos. passível de gerar o novo. a pintura. a de relacionar. muito mais do que a razão”. não. out. inicia-se o processo de produção.27.12. Segundo Gauthier et al. até a fotografia e o teatro. exatamente. linhas de fuga. Na prática. a todo momento. a capacidade de compreender. 2002). mas já trazem consigo a potência de criar.] muito mais do que a fala explícita e consciente. O ato de criar abrange. o teatro. imaginativo . A arte aqui é entendida como qualquer produção. saiba fazê-lo. ordenar.] encontre seu corpo sem órgãos. permitindo uma forma de produção do conhecimento que não seja apenas racional. racional.. a forma de apreender essas técnicas artísticas na sociopoética também tem suas peculiaridades e serão discutidas no próximo tópico. O envolvimento do corpo nestas atividades é uma forma de estimular a sensibilidade. É poder dar uma forma a algo novo. isso acontece por meio da realização de oficinas.173): “[. a argila. por ser ela um método inovador que nos dá a liberdade de vivenciar novas experiências por meio da constante produção de outros conhecimentos e verdades.. gestual.. uma das suas necessidades. Ele ocorre por intermédio da realização de oficinas onde utilizamos técnicas artísticas que vão desde a expressão corporal. Para Ostrower (1999). 2008 877 espaço aberto . a fotografia e a literatura. É aí que tudo se decide [. Sendo assim. significar. Com a sociopoética existe a possibilidade de se perceber o corpo como possível de desencadear potências criadoras. as atividades artísticas foram adotadas como exploração do trabalho dos pacientes em atividades de manutenção da própria instituição (Valladares. e a realização desse potencial. é graças ao seu potencial revolucionário de compromisso com a produção de vida. L. A sociopoética considera o corpo inteiro . em saber criar aqueles que irão aumentar nossa potência e. como afirmamos. Apesar de sabermos que ele vai se formar quer queiramos. de tristeza e de alegria. A arte como ferramenta de produção na sociopoética A arte foi apreendida. Guattari. Outro ponto fundamental é que. a arte vem sendo cada vez mais utilizada como recurso terapêutico. apenas aqueles que nos estratificam: “[. de juventude e de velhice.como fonte de conhecimento.C. o devir. et al. territórios. trata-se de novas coerências que se estabelecem para a mente humana. A tarefa do corpo sem órgãos será se opor às estratificações que. esta. p. a diferença.] um corpo recalcado [. então. destacamos que nossa perspectiva não é a da incorporação da arte como uma atividade ocupacional. por sua vez. sensual. sensível.emocional. proveniente do potencial criativo. n. Entretanto. como atividade e trabalho. é preciso saber também como criar um para si.873-81. é uma questão de vida ou de morte. trazendo-os como dispositivos de geração de conhecimento para as oficinas realizadas. Estão antes do organismo. tangível ou não. a escultura. encontramos na sociopoética essa oportunidade de criação. 1996.

27. como afirmam Deleuze e Guattari (1992).A SOCIOPOÉTICA COMO DISPOSITIVO. 878 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Isto é. no sentido exato da palavra (in = dentro + plicare = dobrar). Exatamente ao contrário disso. potência que tem a capacidade de emergir a aleatoriedade das intenções. pois não se trata apenas de produção de saber. compreender ou propor formas de atuação. out. A elaboração teórica é apenas uma parte de um processo onde saber e ser estão intimamente imbricados. Assim. Ao reconstruirmos sentidos por meio do dispositivo do grupo-pesquisador. O que não significa. O que importa é a regularidade do método que. Mas.12. a ciência moderna valoriza uma forma de relação do sujeito com a produção do conhecimento que elimina de seu campo as questões relativas ao modo como o acesso à “verdade” modifica o sujeito. é claro. (Foucault 2006. O acesso ao saber na sociopoética não se resume a conhecer. trata-se de agenciar modos de virtualização.. diz respeito à constante posição do pesquisador no lugar daquele que instiga a co-responsabilização dos sujeitos por aquilo que é produzido. desta forma.. texto ou uma pintura. se for seguido. afirma: Creio que a idade moderna da história da verdade começa no momento em que o que permite aceder ao verdadeiro é o próprio conhecimento e somente ele. A arte. o pensamento é um movimento infinito de ida e volta porque ele não vai na direção de uma destinação sem já retornar sobre si. que a verdade seja obtida sem condição. Ou antes. em si mesmo e unicamente por seus atos de conhecimento. É nesse sentido que a sociopoética envolve um compromisso ético com os sujeitos que envolve em suas realizações. mas abrem espaço. e é nessa dobra que nos constituímos como ser. talvez mais sutil que as outras. não menos importante. o conceito de ética não se coaduna com valores morais preestabelecidos. a agulha sendo também o pólo./dez. O ato de pensar uma determinada realidade não quer dizer contemplação ou reflexão “sobre” algo. sem que mais nada lhe seja solicitado. traz uma dimensão da criação em seu estado nascente.22) A sociopoética parte de uma concepção ética que vai na contra-corrente desse pensamento. possa abrir espaços para a produção de vida dos sujeitos com os quais compõe seus grupos. Pensar nos envolve. permite reproduzir o conhecimento. imagens. 2008 . É neste sentido que se diz que pensar e ser são uma só e mesma coisa. de dar espaços à diferença (Guattari. nos implica. p. Entretanto. para que. também. mas trata-se de um compromisso irrestrito com o desejo do sujeito e com a produção de modos de subjetivação singulares. talvez menos esperada. Ou. de materializar universos imateriais. A dimensão ética na pesquisa em saúde A dimensão ética da sociopoética afirma a responsabilidade constante que o pesquisador (ou quem esteja ocupando o lugar de conduzir um processo semelhante) precisa ter para com a produção de vida nos espaços onde atua. considerada no paradigma estético. Entendemos que nossas pesquisas têm produtos variados: relatórios. documentos. Ocorre também um outro tipo de produção. mas também de produção de subjetividades. p. a recuperação de uma dimensão ética na produção do conhecimento. para a criação de novas possibilidades de saber e de ser. no momento em que o filósofo (ou o sábio. para a sociopoética. é capaz. não podemos deixar de considerar o efeito de transformação. ou o efeito de retorno da verdade sobre o sujeito. ao promovermos uma modificação nesses modos de relação com a verdade. Aqui. de reconhecer a verdade e a ela ter acesso. o movimento não é imagem do pensamento sem ser também matéria do ser. sem que seu ser de sujeito deva ser modificado ou alterado. à medida que envolve a relação do sujeito consigo. É neste movimento que podemos falar de uma dobra entre pensamento e subjetividade. Reconhecer este princípio é. com certeza. A ocupação desse lugar exige do pesquisador a descristalização de seus próprios papéis. ou simplesmente aquele que busca a verdade). essa responsabilização não implica substituir a responsabilidade do outro. 1996). Segundo Michel Foucault. n.873-81. Sua finalidade vai além. Mas não é apenas isso.

1992. et al.873-81. igualmente. DELEUZE. 1968. São Paulo: Ática.B.1. GAUTHIER. é preciso que consideremos o aspecto político. 34. J. 1996. pois trata da produção de vida fora dos modos serializados.97-106. n. Cad. Rio de Janeiro: Editora 34. 1994. Referências BARROS. como tratamos de vidas./dez. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. n. ______. FOUCAULT. Pesquisa em enfermagem: novas metodologias aplicadas. DELEUZE.D. Rio de Janeiro: Forense Universitária. São Paulo: Brasiliense. Finalmente. ______. O que é a Filosofia? Rio de Janeiro: Ed. com modos de subjetivação. Entretanto. n. assim como um artista mistura suas cores e dá forma a sua obra. et al.. Arisa Nara Saldanha de Almeida. In: ______. para não cairmos numa visão ingênua das possibilidades dessa produção. out.SILVEIRA. M. Partimos do princípio de que pesquisar (ou outros mecanismos de geração de conhecimento) envolve trabalhar com sensibilidades. v. Monyk Neves de Alencar e Michell Ângelo Marques Araújo participaram. Grupos e produção. fazendo de cada encontro uma possibilidade de invenção. Sendo assim. O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia. Fazer da produção conhecimento um acontecimento poiético (do grego poiesis = criação) é o grande desafio dessa abordagem.ed. atuamos aqui na tentativa de divulgar suas principais fontes epistemológicas e seus princípios teóricos. 2006. 1996. e não de tintas. R. São Paulo: Hucitec. Convite à Filosofia. L. GUATTARI. esse processo de criação precisa vir perpassado por uma responsabilidade ética voltada exclusivamente para um compromisso com a manutenção do desejo e da potencialização da vida. 1993. 1998. G.H. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v. Saúde loucura: grupos e coletivos.M. p. M. v. A hermenêutica do sujeito. ______. CHAUÍ.C. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. 4.. Colaboradores Os autores Lia Carneiro Silveira. de todas as etapas de elaboração do artigo. p.ed. dissertações e pesquisas desenvolvidas nessa perspectiva).3. ______. 1998. São Paulo: Martins Fontes. Entendemos que a ampliação da discussão acerca da sociopoética pode contribuir para provocar efeitos de singularização na elaboração de pesquisas que requeiram a abordagem da dimensão subjetiva. O nascimento da clínica. G.1. Simara Moreira de Macedo. 2. Dispositivo em ação: o grupo. F.4.12. p. 2000.145-54. Foucault. Lisboa: Assírio Alvim. entendido como a necessidade de lidar com os estratos de poderes e saberes que perpassam os processos de subjetivação. 2008 879 espaço aberto Considerações finais . Subj. A sociopoética é um método de produção do conhecimento relativamente recente e ainda pouco divulgado na comunidade acadêmica (embora já existam registros de várias teses.27. ou em outras práticas de produção de conhecimento comprometidas com a valorização da diferença e o estímulo a novos processos de subjetivação. Esse acontecimento tem a marca da criação estética.

VALLADARES. 2003. SANTOS. 2005. In: SANTOS. 2001. Sobral: Edições UVA. p. página inicial e final do capítulo citado (Série Atualização em Enfermagem.O. In: SCHNITMAN. T. 1999. Introduzindo a sociopoética. GUATTARI. 2002. Petrópolis: Vozes. São Paulo: Discurso Editorial. D. As três ecologias. MOREIRA. O novo paradigma estético. p.. RAMOS. 2001. Prática da pesquisa nas ciências humanas e sociais: abordagem sociopoética. (Org.). São Paulo: Cortez. 1999. Metapsicologia lacaniana: os anos de formação. Trad. F.. Anais. et al..V. Campinas: Papirus.F.). R. cultura e subjetividade. (Orgs.R. 2002. (Série Atualização em Enfermagem. Belém. Belém. OSTROWER. v. v. Porto Alegre: Artes Médicas. São Paulo: Atheneu./dez.27. Criatividade e processos de criação. 2005.E. In: SANTOS. Micropolítica: cartografias do desejo. 5. Novos paradigmas. (Orgs.61-76. In: SEMINÁRIO NACIONAL DE PESQUISA EM ENFERMAGEM. p. MOREIRA.. I. 11.). I. PETIT.C. As linhas epistemológicas do conhecimento científico.A. B.A SOCIOPOÉTICA COMO DISPOSITIVO. 1 CD-ROM.H.873-81.O. A... Petrópolis: Vozes. (Orgs.S. R. ______.). Prática da pesquisa nas ciências humanas e sociais: abordagem sociopoética. et al. 2008 . Um discurso sobre as ciências. São Paulo: Atheneu.V. F. SILVEIRA.ed.224-41. Maria Cristina Bittencourt.12.. et al. A.O. In: BARRETO. R.121-37.T. 2004. De coletivo a grupo: reflexões sobre a abordagem grupal. F. p. SIMANKE.L. Abrindo coisas e rachando palavras: a utilização dos dispositivos na Sociopoética. L.A. ROLNIK. 880 COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v.3). 1996.. et al. Para além das colunas de Hércules: Filosofia e ações de enfermagem.C. J.3). S. GUATTARI. 2001. n. Arteterapia no paradigma de atenção em saúde mental. SILVA. São Paulo: Vetor. S. out.

A pesquisa sociopoética é um novo método de construção coletiva do conhecimento que tem como princípios a valorização dos sujeitos da pesquisa como co-responsáveis pelos saberes produzidos. Palavras-chave: Pesquisa. Sociopoética. through taking the ethical-esthetic and political dimensions of knowledge production into consideration.12. A sociopoética se apresenta como uma caixa de ferramentas que permite desenvolver a produção do conhecimento levando em conta os processos subjetivos e comprometendo-se com uma maior autonomia dos envolvidos. Esta é uma reflexão teórica que tem como objetivo descrever o método da sociopoética delineando suas bases epistemológicas e seus princípios teóricos. Key words: Research. COMUNICAÇÃO SAÚDE EDUCAÇÃO v./dez. Sociopoetics as a device for knowledge production Sociopoetic research is a new method for collective knowledge construction that has the basic principles of valuing research subjects as co-responsible for the knowledge produced and recognizing the importance of the body and artistic creativity. 2008 881 espaço aberto . Metodologia. Percibimos que la socio-poética se presenta como una caja de herramientas que nos permite desarrollar la producción del conocimiento llevando en cuenta los procesos subjetivos y comprometiéndose con una mayor autonomía de los participantes. Metodología. Methodology. Sociopoetics. et al. out. Este texto es pues una reflexión teórica con el objeto de describir el método de la socio-poética. La socio-poética como dispositivo para producción de conocimiento La investigación socio-poética es un nuevo método de construcción colectiva del conocimiento que tiene como principio la valoración de los sujetos de pesquisa como co-responsabels por los saberes producidos. de la creatividad artística.873-81. Palabras clave: Investigación.C. n. Sociopoetics is perceived to be a toolbox that makes it possible to develop knowledge production while taking subjective processes into account and making a commitment towards greater autonomy for the subjects involved. considerando la dimensión ético-estética y política de la producción del conocimiento. L. considerando a dimensão ético-estética e política da produção do conhecimento. Thus. this text is a theoretical reflection that aims to describe the sociopoetic method and delineate its epistemological basis and theoretical principles. Recebido em 09/08/07. p. ou em outras práticas de produção de conhecimento comprometidas com a valorização da diferença e o estímulo a novos processos de subjetivação. Socio-poética. además del reconocimiento de la importancia del cuerpo. delineando sus bases epistemológicas y sus principios teóricos. We take the view that expansion of the discussion regarding sociopoetics may contribute towards provoking singularization effects in drawing up research with a requirement to deal with subjective dimensions or in other knowledge production practices with a commitment towards valuing differences and stimulating new subjectivation processes. Aprovado em 02/06/08.SILVEIRA. contribuyendo para provocar efectos de singularización en investigaciones con dimensión subjetiva.27. além do reconhecimento da importância do corpo. Entendemos que a ampliação da discussão acerca da sociopoética pode contribuir para provocar efeitos de singularização na elaboração de pesquisas que requeiram a abordagem da dimensão subjetiva. da criatividade do tipo artística.