You are on page 1of 68

ORGANIZADORES

Ana Alice Barros Pedrosa


Anízio Lopes de Andrade Filho
Janeide Gomes Franca

Curso de Formação de Agentes Sociais


para a Prevenção da Violência,
Promoção e Garantia dos Direitos Humanos

Realização
Fundação Joaquim Nabuco

Recife, 2006
Fundação Joaquim Nabuco
Diretoria de Formação e Desenvolvimento Profissional

3
Copyright© 2006 Agência Condepe/Fidem

MINISTÉRIO DA JUSTIÇA
Ministro Márcio Thomaz Bastos
Secretaria Nacional de Segurança Pública · Luiz Fernando Corrêa (secretário executivo)

GOVERNO DO ESTADO DE PERNAMBUCO


Governador Jarbas de Andrade Vasconcelos
Vice-governador · José Mendonça Filho
Secretaria de Planejamento · Raul Henry (secretário)
Agência Estadual de Planejamento e Pesquisas de Pernambuco
- Condepe/Fidem · Sheilla Pincovsky (diretora presidente)
Conselho de Desenvolvimento da Região Metropolitana do Recife (Conderm) · Raul Henry (presidente)
Câmara Metropolitana de Política de Defesa Social (CMPDS) · Luciano Siqueira (presidente)

FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO


Presidente Fernando Soares Lyra
Diretoria de Formação e Desenvolvimento Profissional · Miriam Lopes Pires de Freitas (diretora)

Capa Stúdio Dois


Projeto gráfico e diagramação · Clara Negreiros (clara_negreiros@hotmail.com)
Revisão e preparação de textos · Norma Baracho Araújo (nbaracho@uol.com.br)

CURSO DE FORMAÇÃO DE AGENTES SOCIAIS PARA A PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA, PROMOÇÃO E


GARANTIA DOS DIREITOS HUMANOS. Organização de: Ana Alice Barros Pedrosa, Anízio Lopes de Andrade
Filho e Janeide Gomes Franca. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Diretoria de Formação e Desenvolvimento
Profissional; Secretaria de Planejamento - Agência Condepe/Fidem; 2006.72p.

1. Violência Urbana - Brasil


2. Direitos Humanos. I. Título

CDU
351.78(81)

Impresso no Brasil / Printed in Brazil

Secretaria de Planejamento - Agência Condepe/Fidem


Rua das Ninfas, nº 65 - Boa Vista - Recife-PE - Brasil | 50070-050 | 81 3303-5200
http://www.condepefidem.pe.gov.br | agencia@condepefidem.pe.gov.br

Fundação Joaquim Nabuco | Diretoria de Formação e Desenvolvimento Profissional


Rua Henrique Dias, 609 - Recife - PE - Brasil | CEP 52010-100
PABX (81) 3421.3266 | Fax (81) 3421.1409

Reservados todos os direitos desta edição. Reprodução proibida, mesmo parcialmente, sem autorização da
Agência Condepe/Fidem.

4
CURSO DE FORMAÇÃO DE AGENTES SOCIAIS PARA A PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA, PROMOÇÃO E GARANTIA DOS DIREITOS HUMANOS

Apresentação
Este documento apresenta, na íntegra, o articulada à sua teorização, enfatizando-se
conjunto de conceitos e técnicas que foram o movimento da revisão e reconstrução
estudados durante a realização do Curso de coletiva da prática.
Formação de Agentes Sociais para a Preven-
ção da Violência - Promoção e Garantia dos Este documento serve de apoio aos alunos.
Direitos Humanos, realizado pela Fundação Adicionalmente, recomenda-se a leitura dos
Joaquim Nabuco em resposta à demanda livros e textos indicados pelo corpo docen-
apresentada pela Agência Estadual de Pla- te, durante a realização do Curso, além da
nejamento e Pesquisas de Pernambuco - bibliografia aqui apresentada.
Condepe/Fidem no que concerne à execu- O material integra o conjunto de temáticas
ção do Programa de Capacitação Consorcia- estudadas durante o Curso. Cada conteú-
da e Integrada no Âmbito da Prevenção da Vi- do foi concebido por um coordenador te-
olência - Promoção e Garantia dos Direitos mático, apresentado na abertura de cada
Humanos, parte integrante do Plano Metro- temática constante deste trabalho, com re-
politano de Política de Defesa Social e Pre- conhecida experiência profissional na área.
venção da Violência na Região Metropolitana A equipe de coordenadores temáticos, em
do Recife – RMR. conjunto, realizou os ajustes necessários e
O Curso de Formação de Agentes Sociais para validou, sob a orientação da coordenação
a Prevenção da Violência estruturou-se com geral do Curso, a metodologia do processo
base numa linha metodológica construtivis- de capacitação e a grade curricular, garan-
ta, tomando como ponto de partida os co- tindo, dessa forma, o encadeamento dos
nhecimentos e as experiências desenvolvi- módulos e a articulação dos conteúdos, na
das pelos participantes, agregando-se a es- perspectiva da construção do referencial te-
tas o novo referencial a ser construído. órico a que o Curso se propôs.
Dessa forma, o desenho metodológico con- O material está organizado em 6 (seis) par-
cebido para o Curso consistiu no desenvol- tes. Na primeira, são apresentadas algumas
vimento de um processo contínuo de ação/ questões introdutórias e contextuais relati-
reflexão/transformação, compreendendo o vas ao Processo de Capacitação em Direi-
exercício de análise das experiências pro- tos Humanos. Na segunda parte, exami-
fissionais desenvolvidas pelos participantes, nam-se os princípios da Defesa Social e Pre-

5
venção. Na terceira, a abordagem foca o
Atendimento à Violência Sexista/Domésti-
ca. Na quarta parte, a temática trata da
Gestão de Polícia Comunitária e Segurança
Comunitária. Na quinta parte, Prevenção do
Local do Crime e, finalmente, na sexta par-
te, buscando possibilitar aos participantes
as condições necessárias de implantação de
uma cultura pela paz, a temática Relações
Interpessoais e Mediação de Conflitos. Adi-
cionalmente, encerra este documento uma
bibliografia de referência.

Fundação Joaquim Nabuco


Diretoria de Formação
e Desenvolvimento Profissional

6
CURSO DE FORMAÇÃO DE AGENTES SOCIAIS PARA A PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA, PROMOÇÃO E GARANTIA DOS DIREITOS HUMANOS

Sumário
Apresentação ................................................................................................................ 5

INTRODUÇÃO AO PROCESSO DE CAPACITAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS .. 11


Melba Meireles Martins
1a. AULA
Arts. 1 e 2 da DUDH (ISONOMIA) ............................................................................. 14
2a. AULA
Arts. 3, 5 e 12 (Direito à vida, à integridade da vida e direito à vida privada e à honra).
...................................................................................................................................... 15
3a. AULA
Art. 4, 18,19 e 20. (escravidão, liberdade de pensamento, consciência e religião, liberda-
de de opinião e expressão e liberdade de reunião ou associação). .............................. 15
4a. AULA
Art. 6, 7, 8, 9, 10 e 11 (iguais e com garantias perante a lei e justiça). ........................ 18
5a. AULA
Arts. 16, 17, 22, 25, 26,27 ( Família, propriedade, previdência social, educação e cultu-
ra). ................................................................................................................................ 19

DEFESA SOCIAL E PREVENÇÃO .............................................................................. 21


Olga Câmara
Violência ....................................................................................................................... 23
Conceito de defesa social e prevenção ....................................................................... 24
Estado e comunidade como entes indissociáveis ........................................................ 25
Defesa social como instrumento de prevenção e controle da violência ..................... 25
Prevenção, dissuasão e obstaculização ........................................................................ 26

7
Teoria da prevenção situacional e ambiência criminosa .............................................. 27
Fatores predisponentes à violência e conceito de enfrentamento .............................. 27
A interdisciplinaridade como instrumento da defesa social ........................................ 28
A ciência e a tecnologia na produção de um conhecimento na defesa social.............. 29
A nova defesa social ..................................................................................................... 30

ATENDIMENTO À VIOLÊNCIA SEXISTA / DOMÉSTICA ........................................ 31


Ana Farias | Janeide Franca | Mara Perez
Para a Organização Mundial da Saúde, são atos de violência: ..................................... 33
Tipos de violência doméstica ....................................................................................... 33
Violência física .............................................................................................................. 33
Violência sexual ............................................................................................................ 33
Violência psicológica .................................................................................................... 34
Negligência .................................................................................................................. 34
Mitos ............................................................................................................................ 34
Violência física doméstica ............................................................................................ 35
Indicadores orgânicos e na conduta de crianças e adolescentes ................................. 35
Algumas considerações ................................................................................................ 35

GESTÃO DE POLÍCIA COMUNITÁRIA E SEGURANÇA COMUNITÁRIA ............. 37


Humberto Vianna
I - O papel do Estado, da comunidade e dos agentes sociais de prevenção da violência 39
II - Diagnóstico comunitário ........................................................................................ 42
III - Ações comunitárias para prevenção da violência .................................................. 46

PRESERVAÇÃO DO LOCAL DO CRIME ................................................................... 49


Marcelo Barros Correia

RELAÇÕES INTERPESSOAIS E MEDIAÇÃO DE CONFLITOS ................................ 55


Carlos Eduardo de Vasconcelos
O que é conflito? .......................................................................................................... 57
Quais são os elementos do conflito? ........................................................................... 57
O que são procedimentos não adversariais de solução de conflitos? ......................... 58
O que é mediação? ...................................................................................................... 58
Como devem ser a comunicação e o relacionamento? ............................................... 58
Para uma comunicação positiva: .................................................................................. 58

8
CURSO DE FORMAÇÃO DE AGENTES SOCIAIS PARA A PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA, PROMOÇÃO E GARANTIA DOS DIREITOS HUMANOS

Para um relacionamento construtivo: .......................................................................... 59


Quais são as vantagens da mediação
sobre outras formas de solução de conflitos?.......................................................... 60
Quais os conflitos que podem ser resolvidos pela mediação? .................................... 60
Mediação também pode ser utilizada no campo criminal? .......................................... 60
A mediação tem várias etapas? .................................................................................... 60
Como se faz a pré-mediação? ...................................................................................... 60
As seis etapas da mediação: ......................................................................................... 61
Primeira etapa: apresentação e recomendações. ........................................................ 61
Segunda etapa: as partes expõem o problema: ........................................................... 61
Terceira Etapa: resumo do acontecido: ....................................................................... 62
Quarta Etapa: Identificação dos reais interesses: ........................................................ 62
Quinta Etapa: opções com critérios objetivos: ........................................................... 62
Sexta etapa: acordo: .................................................................................................... 62
Como deve se comportar o mediador? ...................................................................... 62
Qual é a ética que norteia a mediação? ....................................................................... 63
Princípios específicos da mediação: ............................................................................. 63
Como obter a mediação comunitária? ........................................................................ 64

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................................. 65

9
10
I INTRODUÇÃO AO
PROCESSO DE
CAPACITAÇÃO EM
DIREITOS HUMANOS

MELBA MEIRELES MARTINS

11
MELBA MEIRELES MARTINS - formada em Direito; Con-
sultora na área da Infância e da Adolescência.

12
Introdução ao
Processo de
Capacitação
em Direitos
Humanos
MELBA MEIRELES MARTINS

Convidados a apresentar uma proposta metodológica que pudesse servir de paradigma


para um processo de capacitação de agentes comunitários sobre Direitos Humanos, le-
vando em conta a diversidade do público indicado e a carga horária disponível, tomamos
por base metodologia aplicada pela Unesco na América do Sul, cujos resultados avaliatórios
foram bastante significativos.
Assim, consolidamos a idéia original da metodologia aplicada em 5 (cinco) planos de aula,
cujos conteúdos perpassam os eixos da Declaração Universal. Cada plano de aula começa
citando um artigo ou mais da Declaração, com um breve comentário, seguido de propos-
ta de dinâmica e sugestão para pesquisa e/ou estudo.
A idéia é que a metodologia aplicada, pudesse buscar conteúdos e experiências, a partir
da realidade dos diversos participantes, que não poderiam ser meros expectadores. Nes-
ta dimensão, nossa proposta é de uma pauta metodológica e não de um conteúdo a ser
apreendido de forma unilateral.
Cumpre ainda destacar que foram fornecidos aos participantes, uma série de documen-
tos e textos que auxiliam nos trabalhos e contextos.
Por último, ante a exiguidade de tempo, uma bibliografia básica foi sugerida, além da
orientação para que os novos agentes mapeassem nas suas áreas, as questões mais rele-
vantes e também os caminhos e canais para solução dos mais diferentes tipos de conflitos.
Foram ainda instados a buscar informações sobre as instituições que atuam na prevenção
e defesa dos Direitos Humanos, públicas e privadas, a fim de que estabeleçam uma rede
de parcerias.
Recife, 27 de dezembro de 2005.

13
MELBA MEIRELES MARTINS

1a. AULA sões, com resposta às seguintes questões:


1. Por que alguns direitos são reconhecidos
Arts. 1 e 2 da DUDH (ISONOMIA) e outros não?
É evidente que o primeiro direito moral do 2. Por que em alguns lugares uns direitos
homem é o direito à igualdade. Ninguém são reconhecidos e outros não?
pode possuir privilégios diante de ninguém
porque ninguém é superior em dignidade a 3. Por que embora a ONU tenha procla-
ninguém. mado os Direitos Humanos, e embora
muitos países o tenham subscrito, eles não
Mas muitas pessoas, quando se fala em igual- são reconhecidos na prática?
dade entre os seres humanos, objetam di-
zendo que não é possível que todos sejam 4. Por que somos tão negligentes em rela-
iguais. Deve-se explicar que a igualdade não ção aos direitos dos outros e tão diligen-
é afirmada em todos os planos, mas no da tes em relação aos nossos próprios direi-
dignidade humana. É evidente tos?
que nem todos os homens são
iguais no que tange à capacidade “O homem vale 5. A que se deve que a consciên-
física e às qualidades intelectuais cia humana vá descobrindo no-
pelo que é, vos direitos da pessoa humana?
e morais.
e não pelo que
Nós homens somos fundamen- 6. Quais os direitos que você
tem.” acha que em futuro próximo
talmente iguais pela nossa origem
e pelo nosso destino. Todos so- deverão figurar na legislação
mos iguais pela natureza humana: todos dos povos?
somos chamados a ser pessoas , à liberda-
de, ao amor e à vida. Isto quer dizer que Plenária:
todos temos direitos fundamentais para nos Quais são, segundo o grupo, os direitos fun-
desenvolvermos como seres humanos. “O damentais, básicos, para toda pessoa?
homem vale pelo que é, e não pelo que
tem.” Como é vista pelo grupo a situação dos Di-
reitos Humanos em nosso País?
A Declaração Universal dos Direitos do
Homem fala também para nos comportar- Quais seriam as tarefas a realizar, para con-
mos fraternalmente. Convém ressaltar que seguirmos um avanço significativo no reco-
o sermos irmãos significa termos uma mes- nhecimento dos Direitos Humanos, não
ma origem. O que se opõe à fraternidade é apenas para alguns, mas para todos?
o egoísmo, tudo aquilo que divide e dispersa
Sugestão para pesquisa:
a família humana e destrói a paz.
1. Quais as dificuldades que enfrentam as
Dinâmica minorias sociais, no meio em que nos mo-
vemos quanto à igualdade de direitos: ce-
· Escrever em um papel (individual) os di- gos, surdos-mudos, presos, portadores de
reitos que cada um crê que possui, distin- deficiência física ou mental?
guindo os que são reconhecidos sem ob-
jeção e os que não são reconhecidos e se 2. Localizar na imprensa sinais de
são, é com muita dificuldade. fraternidade e sinais de ruptura, sinais de
opressão e de liberdade, atos de respei-
· Formar grupos e compartilhar das impres- to ou de repúdio à dignidade humana.

14
INTRODUÇÃO AO PROCESSO DE CAPACITAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

2a. AULA dos supostos incriminados, e ao político-


militar para obter informações.
Arts. 3º, 5º e 12 (Direito à vida, à
integridade da vida e direito à vida Mesa redonda
privada e à honra). O problema da tortura e os Direitos
Humanos.
O primeiro dos direitos consagrados na
Declaração Universal é o direito à vida. Essa Sugestões:
prioridade constitui o suporte fundamental
para a existência e o gozo de todos os de- Assistir aos filmes:
mais direitos. · Z, de Costa Gravas
Ao ser consignada, tanto no Pacto dos Di- · A Casa dos Espíritos
reitos Civis e Políticos, como na Conven-
ção Americana, a obrigação de que o direi- · Missing
to à vida seja protegido pela lei, vai muito
além da simples proteção penal desse di- 3a. AULA
reito. A tipificação do delito de homicídio
deve ser mais ampla, pois atinge por exem- Arts. 4º, 18,19 e 20. (Escravidão,
plo as práticas de eutanásia, aborto ou liberdade de pensamento, consciência
genocídio. e religião, liberdade de opinião e
expressão e liberdade de reunião ou
Devemos observar que não se trata apenas
associação).
de reconhecer o direito a uma vida física,
mas a uma existência de acordo com a dig- Ser livre, desfrutar da liberdade, é algo a
nidade humana. Deste ponto de vista, a dis- que todos aspiramos e temos direito. Mas
posição do art. 3º da Declaração Universal o que é ser livre? É uma maneira de ser no
deve ser entendida em concordância com mundo e de se relacionar que não é fácil de
outras disposições do art. 12, que reconhe- expressar em termos positivos.Por isso,
ce o direito à vida privada, à honra e à boa como na Declaração, podemos intuí-lo em
reputação de cada pessoa. Da mesma for- situações que se opõem à liberdade.
ma, o art. 25 que consagra o direito de toda
pessoa a “um padrão de vida capaz de asse- A Declaração indica duas situações contrá-
gurar a si e a sua família saúde e bem-estar, rias à liberdade: a escravidão e a servidão.
inclusive alimentação, vestuário, habitação, Escravidão é a situação em que alguém, cha-
cuidados médicos e os serviços sociais in- mado amo é dono de uma pessoa (o escra-
dispensáveis....” vo), possuindo-a como pode possuir uma
coisa. Servidão é aquela situação em que
No art. 5º, é tratado um direito absoluto, alguém, chamado servo, entrega ao patrão
pois que não fica sujeito a nenhuma restri- ou amo, a maior parte do fruto de seu tra-
ção, sob circunstância alguma; a dignidade balho em troca de moradia e trabalho nas
humana – como direito fundamental e terras que pertencem ao senhor. O senhor
inviolável – recebe aqui a máxima proteção. é dono do trabalho do servo. Esses dois sis-
temas de relação são reconhecidos pela
A proibição de tortura e das penas e trata-
Declaração Universal como contrários à li-
mentos desumanos e degradantes não atin-
berdade.
ge só o procedimento judicial, incluindo as
penas infamantes, mas estende-se também A escravidão e a liberdade também podem
ao policial, como forma de obter confissão ocorrer em outros planos ou campos da vida

15
MELBA MEIRELES MARTINS

humana. Entre pessoas, grupos, dentro de um mentações e códigos de muitos esta-


mesmo país, entre nações, etc. Podemos ser dos, etc.
em algum aspecto livres, e em outro, simulta-
neamente escravos (das paixões, do egoísmo, Liberdade de expressão – Refere-se ao
etc), e até escravizadores de outros. fato de a pessoa poder expressar a sí pró-
pria e poder conhecer a expressão dos de-
A Declaração diz que ”nascemos livres”, mais, por todos os meios e em todos os ní-
mas, também, poderíamos dizer com razão veis. É parte da propria constituição da pes-
que não nascemos livres,mas que somos soa humana poder comunicar-se com os de-
chamados à liberdade, a ir nos tornando li- mais. Atualmente, a TV a cabo, a Internet,
vres em muitos aspectos da vida. tornam a comunicação quase instantânea
em todo o planeta. Essa liberdade só pode
O mundo deve chegar a ser uma comuni- ser exercida respeitando-se a verdade. E
dade de homens livres... essa liberdade de expressão deve respeitar
As liberdades públicas exigem como pré- duas coordenadas: a primeira diz respeito
requisito, é importante ressaltá-lo, a liber- à informação objetiva – a verdade – sem
dade política para que o homem atue como meias palavras. A segunda é o respeito aos
julgar conveniente, sem ser coagido pela direitos dos demais – sua honra, intimida-
repressão ou pelo medo. de, imagem, etc.

Nos artigos indicados, mencionam-se algu- Liberdade de reunião e associação pa-


mas liberdades básicas: cíficas – A vida humana só é possível em
sociedade. A pessoa necessita dos outros
Liberdade de consciência – Consiste em para viver, para tomar consciência de si, de
que cada homem possa seguir o ditame de seu valor e de seu destino, para se desen-
sua consciência segundo suas convicções volver, cultivar sua mente e coração. Rela-
honestas. Esta liberdade de consciência vale cionar-se com os outros é crescer. E, da
para toda a vida humana e toca de perto o relação, nasce a organização.
campo da liberdade religiosa. O direito de
crer, praticar e professar uma religião im- Para se comunicarem, as pessoas devem
plica que ninguém pode ser impedido de agir poder reunir-se ou pertencer a organiza-
segundo a sua consciência, nem forçado a ções de qualquer classe. Dessa maneira, os
atuar contra ela em nenhum terreno. A his- cidadãos podem pensar, desenvolver inici-
tória nos mostra com profusão os casos de ativas, trabalhar juntos para fins comuns, etc.
“mártires” por seguirem o ditame da cons-
ciência ante poderes ditatoriais. Não existe Dinâmica:
nenhuma autoridade humana, civil, religio-
sa ou familiar que possa substituir a consci- I. Toda notícia é a pura verdade? (Liberdade
ência da pessoa. de Expressão)

É oportuno salientar também que, para que Fato recente e abordagem por três perió-
essa liberdade seja exercida com plenitude dicos sobre o mesmo fato.
e responsabilidade, faz-se necessário um Apresentar ao grupo as noções mais ele-
processo de formação da própria consciên- mentares da linguagem jornalística:
cia, para que ela seja um bom guia, buscan-
do sempre a verdade e o bem. 1. Manchete – o que o jornal ressalta, se-
gundo sua velada ou aberta orientação.
Devemos salientar, também, o direito São importantes o seu tamanho e a sua
à objeção de consciência ante regula- inserção na primeira página ou nas inter-

16
INTRODUÇÃO AO PROCESSO DE CAPACITAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

nas. (primeira seleção). 4. mistura de fatos e juízo de valores


5. vazios sugestivos e boatos sem base
2. Subtítulos e “chamadas”- em letra menor 6. manipulação do passado
que as manchetes, mas em tamanho maior 7. engano
que a dos textos, o diário resume, segundo 8. exemplos insuficientes
sua interpretação, o aspecto mais saliente 9. generalização de fatos parciais
de tal fato para si. (segunda seleção) 10. aproveitamento dos estereótipos
3. Localização e extensão – é diferente in- 11. desvio da atenção pública
serir a notícia nas primeiras páginas ou nas 12. uso das emoções irracionais, etc...
páginas internas. Em canto escondido, · Finalmente, pode-se refletir, a partir dos
bem abaixo, como um remendo, ou aci- direitos humanos tratados, a situação que
ma, no alto e de forma saliente. Pode vivemos no país quanto à liberdade de opi-
abranger uma ou mais colunas (terceira nião e o direito de receber informação e
seleção). dinfundi-la. Todos os grupos da nossa so-
ciedade, com seu pensamento, suas ne-
4. Conteúdo – lendo-se a informação, des- cessidades e seus interesses estão repre-
cobre-se a ênfase que um jornal ou outro sentados na grande imprensa diária?
dão a uns e outros dados reais do fato
(quarta seleção).
II. Estou vendo o que os outros querem que
5. Fotos – podem significar mais motivos eu veja?
de opinião jornalística. Uma boa foto vale
mais que mil palavras... Dinâmica sobre a liberdade de propaganda
Objetivo – descobrir as necessidades artifi-
Análise e debate: ciais criadas pela propaganda e detectar
· Levando-se em conta os elementos indi- quais são as necessidades reais, verdadei-
cados, ver em cada publicação: o que ela ras, sentidas pelo povo.
me diz de fato e como o julgo através do Desenvolvimento: apresentar a história de
jornal? uma cidadezinha do interior que decidiu não
· Após vermos as “discrepantes” formas de se deixar mais ludibriar e que mudou os
apresentar a notícia, elas são comparadas painéis de propaganda que havia na rodo-
entre si. Nesta fase, procura-se ajudar o via. Por exemplo:
grupo a descobrir as distintas motivações
de cada órgão de imprensa, a partir do Não “BEBA COCA-COLA”
juízo de valor, que deixa entrever o con- PRECISAMOS DE ÁGUA POTÁVEL!
texto e a forma de publicação. Esta sele-
ção responde aos interesses econômicos,
mentalidades ou ideologias corresponden- Não “Venha para a terra de Marlboro”
te a cada empresa jornalística. QUEREMOS TRABALHO PARA TODOS!
· Pode-se dizer ao grupo como o exercício
da informação pode estar exposto a mui- Não “Viaje a Miami”
tos desvios:
CONHEÇA SEU PAÍS
1. apresentação parcial da verdade
1. Analisar as propagandas que mais conhe-
2. sensacionalismo
cemos e ouvimos. Para dar esse passo é
3. omissão
preciso pequenos grupos. Que modifica-

17
MELBA MEIRELES MARTINS

ções faríamos nesses anúncios, para que dos órgãos competentes, com cabal reco-
expressassem realmente nossas necessida- nhecimento dos direitos que correspondem
des e as do povo? ao acusado.
2. Refletir sobre a relação que vêem entre É importante ainda observar, o princípio da
as liberdades desses direitos humanos e o igualdade perante a justiça. A organização
problema da propaganda. judicial dos países deve possuir uma carac-
terística fundamental: a unidade do sistema
4a. AULA judicial. Assim, evita-se que situações iguais
sejam decididas de formas diversas, por tri-
Arts. 6º, 7º, 8º, 9º, 10 e 11 (iguais e bunais diferentes. O sistema judicial deve
com garantias perante a lei e justiça). contemplar a existência de um supremo tri-
bunal que controle e unifique os inferiores,
Esses direitos se referem ao fato de que para assegurar que situações iguais recebam
toda pessoa deve poder defender os seus o mesmo tratamento por parte da justiça.
direitos diante da lei e exigir justiça perante
os tribunais. Além disso, ninguém pode ser Regras comuns aos procedimentos ci-
conduzido à prisão sem uma justa causa e vis e penais:
legalmente provada, nem condenado ou · Direito a julgamento equitativo. Igualdade
considerado delinqüente sem que o fato te- de oportunidade para acusação e defesa..
nha sido previamente provado, segundo a
determinação legal.. · Direito a que o julgamento seja público
(exceção para processos em segredo de
Toda sociedade organizada e justa deve ga- justiça)
rantir aos seus integrantes o direito à justi-
ça. Para conseguir isso, deve possuir juízes · Direito a que a causa seja vista num prazo
de comprovada honestidade, deve existir razoável.
uma pessoa ou grupo de pessoas que se en- · Direito a que o julgamento seja feito e a
carregarão de velar pela administração im- causa vista por um tribunal independen-
parcial da justiça. te, imparcial e estabelecido pela lei.
Nesse conjunto de direitos, salienta-se que
o processo constitui uma das restrições le- Regras para os procedimentos penais:
gítimas ao direito à liberdade e à segurança
pessoal. Mas, mesmo no caso de proces- · Direito à presunção de inocência. Ninguém
sos, são reconhecidas aos processados to- pode ser colocado na situação de ter que
das as garantias penais e processuais cor- provar sua inocência; pelo contrário, a cul-
respondentes para eliminar a arbitrarieda- pabilidade é que tem de ser provada.
de e se restringir às prescrições legais. · Direito de ser informado da natureza e da
Convém ter presente, e com clareza, que é causa da acusação. O acusado não deve
necessário distinguir garantia penal de garan- apenas ser informado da causa (fatos ma-
tia processual. A primeira se refere à neces- teriais que lhe são atribuídos), como tam-
sidade que os possíveis fatos delituosos e as bém, da natureza da acusação (a qualifi-
penas que correspondam aos mesmos este- cação jurídica dos fatos materiais).
jam previstos em uma lei (princípio da lega- · Direito de dispor de tempo e de facilida-
lidade), estabelecida com anterioridade ao des e meios necessários para a prepara-
fato punível (irretroatividade). A segunda, que ção da defesa.
se refere à independência e imparcialidade

18
INTRODUÇÃO AO PROCESSO DE CAPACITAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS

· Direito de estar presente no processo e que cada indivíduo procure o lucro em con-
de defender-se pessoalmente ou contar corrência com os demais. O socialismo sus-
com a assistência de defensor. tenta que os meios de produção não po-
dem ser de propriedade privada, mas que
· Direito de obter a citação e o interrogató- devem pertencer à sociedade, para que to-
rio das testemunhas de defesa e de inter- dos tenham o necessário. O perigo em que
rogar ou fazer com que sejam caiu é que o coletivo se interpõe às vezes
interrogadas as testemunhas de acusação. aos direitos individuais ou da pessoa. No
· Direito de não ser obrigado a depor con- caso do capitalismo, ocorre o contrário, al-
tra si mesmo ou se confessar culpado. gumas pessoas usurpando para si os bens
comunitários.
· Direito do indiciado absolvido ou conde-
nado por sentença firmada de não ser no- O importante é organizar a sociedade de
vamente julgado e condenado pelos mes- forma que se evite cair nas armadilhas des-
mos fatos. critas anteriormente, de modo que se res-
peitem os direitos das pessoas e
· Direito à indenização para o simultaneamente os direitos da
acusado injustamente. Não se- ...todos estarão comunidade, para que ninguém
ria este o caso da pessoa que é colaborando padeça de necessidades, porque
processada, mas que finalmen- todos estarão colaborando para
para
te é absolvida na sentença. o bem comum, isto é, de todos.
o bem comum...
Dinâmica: Textos para discussão:
I. situação concreta que motiva julgamento · O Pequeno Príncipe, cap. XIII – “O quarto
de ação penal – roubo qualificado. planeta era o do homem de negócios.”
II. situação concreta que motiva julgamen- · O Rei Midas
to de ação civil – pensão alimentícia.
Previdência Social (22,25) – Previdência
5a. AULA social quer dizer proteção social. A falta de
proteção neste campo significa o desampa-
ro e o temor ante o futuro pessoal e o da
Arts. 16, 17, 22, 25, 26,27 (família,
família.
propriedade, previdência social,
educação e cultura). O artigo da Declaração é claro. É impor-
tante recordar que a previdência social im-
Família (16) – O que prevê a Declaração
plica também em responsabilidade. Os que
Universal e o contraponto da atualização a
podem trabalhar devem assegurar com seu
partir da Constituição Federal de 1988 –
trabalho e esforço os que não podem tra-
alargamento do conceito de família.
balhar por alguma razão válida. Sabemos
Propriedade (17) – Conceito de proprie- que a sociedade não poderá distribuir se não
dade houver produção de bens. Daí a responsa-
bilidade de cada um em cooperar para o
Há dois sistemas na nossa época que dispu- bem de todos.
tam entre si a hegemonia mundial: o capita-
lismo e o socialismo.
Problemas: inatividade, saúde,
O primeiro se baseia na propriedade priva- habitação.
da da produção de bens, e na liberdade para

19
MELBA MEIRELES MARTINS

Educação (26,27) – A educação é a base Objetivos:


do crescimento e da estruturação da pes-
· Pelo desenvolvimento da personalidade
soa. Não se deve confundir o que é propri-
humana e do sentido da dignidade; a edu-
amente um processo educativo com o me-
cação deve estar inspirada nos princípios
ramente instrutivo. Embora se relacionem,
de liberdade, moralidade e solidariedade
a instrução limita-se a transmitir conheci-
humanas.
mentos; fundamentalmente vai criar hábi-
tos, desenvolver a memória e a inteligên- · Fortalecimento dos Direitos Humanos e
cia. Certamente, é um processo-chave no das liberdades fundamentais.
desenvolvimento pessoal, mas não é tudo.
O homem necessita educar-se, isto é, fazer · Capacitar todas as pessoas para participa-
crescer seus talentos e virtudes, dispô-los rem efetivamente de uma sociedade livre.
na ação transformadora, construtiva da re- · Favorecer a compreensão, a tolerância e a
alidade. É por isso que necessita, além de amizade entre todas as nações e entre
se instruir, fortalecer sua vonta- todos os grupos sociais, étnicos
de, dominar o seu caráter, culti- e religiosos.
var o amor, buscar permanente-
mente a liberdade, tornar-se res-
É fundamental · Capacitar as pessoas para que
ponsável peranet os demais se- perguntar-se: consigam chegar a uma subsis-
res. para que tência digna, obter a melhoria do
educamos? nível de vida e possam ser úteis
Nem toda educação contribui à sociedade.
para a realização dos Direitos
Humanos. Muitas vezes se dá · Promover as atividades das
uma educação opressora, uniformizante, Nações Unidas em prol da manutenção
que anula a capacidade crítica e fomenta a da Paz.
passividade além da concorrência individu-
alista . É fundamental perguntar-se: para que Dinâmica
educamos?
Painel: Associação de Aposentados,
Certo tipo de educação é fundamental para ADUSEPS, MTST, Conselho Estadual de
que se aprenda a pensar de forma autôno- Educação.
ma, para exercer responsavelmente a liber-
dade e para ser solidário na construção da
comunidade, transformando a sociedade
em que vivemos.

Princípios:
· Obrigatoriedade 1.º grau (pré-escola).
· Gratuidade
· Igualdade de oportunidade
· 2.º grau ou ensino técnico acessível para
todos.

20
D DEFESA SOCIAL
E PREVENÇÃO

OLGA CÂMARA

21
OLGA CÂMARA é Mestra em Políticas Públicas pela Fundaj,
tem formação jurídica e em comunicação social – Relações Pú-
blicas e Jornalismo. Especialista, formada pela USP-SP, em Estu-
dos contra a Violência à Criança e ao Adolescente. É professora
de Direito Penitenciário, Direito da Criança e do Adolescente,
Direitos Humanos, Criminologia e Defesa Social. Desde 1979,
trabalha com a questão da Criança e do Adolescente no âmbito
nacional e internacional. Livros publicados: O policial Civil e a Lei
nº 8069/90. 2. ed. Recife: Casa do Professor, 1993 (Unicef). De
vítima a infrator: uma nova abordagem policial. Recife, 1998. (Con-
vênio com o Ministério da Justiça)

22
Defesa Social
e Prevenção
OLGA CÂMARA

VIOLÊNCIA de conflitos interpessoais, com atribuições


de prevenção e harmonização das relações
A efetivação da equidade social é uma aspi-
humanas, são independentes, mas se com-
ração universal e inalienável da pessoa hu-
pletam.
mana, cujos direitos estão consignados em
um conjunto de conceitos e princípios O foco dos agentes sociais de prevenção da
norteadores das garantias fundamentais, da violência é a PESSOA, o bem maior, a pre-
liberdade e da democracia, quais sejam, os servação da integridade física e mental, a vida.
direitos humanos.
A violência, quando não desvendada, é
Fica evidente que a violência se dá a partir manipulada apenas como uma prática de
do momento em que os conflitos surgem dominação entre desiguais; por isso, carac-
e não são tratados na sua essência, não há teriza-se por sua instrumentalidade, distin-
possibilidade de se estabelecer o diálogo guindo-se do poder, do vigor, da força e,
em função dos anseios que envolvem as mesmo, da autoridade. A política constitui-
partes, sem que haja uma terceira pessoa se o horizonte de interpretação da violên-
para dirimir aquele conflito. Os agentes cia, que não é nem natural, pessoal ou irra-
sociais de prevenção da violência devem cional. A violência contrapõe-se ao poder;
estar prontos a intervir na modificação das de forma que onde um domina absoluta-
relações sociais em proveito do desenvol- mente, o outro está ausente.
vimento e do interesse coletivo. Tal cons-
trução exige a implementação de mecanis- Embora, muitas vezes, não aprofundado e
mos e ações pragmáticas que se fazem pre- sujeito à influência da mídia, o fenômeno da
sentes no nosso processo histórico e se violência assumiu a proporção de um deba-
impõem sobre a desigualdade e os interes- te popular, expresso tanto na conversa co-
ses aparentemente minoritários. É preci- tidiana dos cidadãos e cidadãs, dos seus
so esclarecer que as ações dos agentes da comportamentos e sentimentos, como na
paz não substituem a ação policial, vez que pauta das instituições que compõem a soci-
a função de ambos como administradores edade.

23
OLGA CÂMARA

As respostas a esse fenômeno têm se mos- dividuais e coletivos, 2) a segurança públi-


trado múltiplas e diversas, abrangendo uma ca, 3) o enfrentamento de calamidades. A
gama de medidas, nos mais diversos níveis: política pública de segurança deixou de ser
individual, comunitário, governamental. As o principal ingrediente para conter a vio-
pessoas se armam e cercam as casas; as lência, incorporou-se à Defesa Social.
comunidades fazem passeatas pedindo paz;
o governo procura implementar medidas Esse novo conceito de Defesa Social carac-
como a restrição à venda de armas; o tema teriza-se pelo fato de que ela envolve,
“segurança” é incluído na agenda do dia de sistêmica e organicamente, a sociedade po-
muitos organismos e grupos. lítica e a sociedade civil. Quando se fala em
segurança pública para conter a violência,
No âmbito da sociedade brasileira têm sido devemos entender que essa política públi-
cada vez mais preocupantes os níveis de com- ca deve agir de maneira integrada às demais
plexidade e banalização da violência, sendo a ações governamentais; traduzindo a Defe-
responsabilidade das ações compartilhada pelo sa Social como prestação de serviços de
Poder Público e pela sociedade civil organiza- caráter preventivo aos chamados “grupos
da. Uma das correntes mais trabalhadas nos de risco”. Significa dizer que a Defesa Soci-
estudos sobre o tema é a sua relação com a al tem um conceito mais amplo do que a
desigualdade social, ou seja, a sua dimensão Segurança Pública.
estrutural. No entanto, a pobreza e suas con-
seqüências, como o desemprego, a desigual- Na Constituição Federal, em seu artigo 144,
dade social e a corrupção, não constituem os quando se afirma que a segurança é dever
únicos fatores determinantes da violência e do Estado e responsabilidade de todos, che-
não explicam a perda dos referenciais éticos gamos ao conceito de Defesa Social. Por
que sustentam as interações entre grupos e isso, programas voltados para a defesa so-
indivíduos. A marca constitutiva da violência cial serão mais eficazes e mais bem aceitos
na sociedade contemporânea é a tendência à pela população pela inclusão de outros se-
destruição, ao desrespeito e à negação do tores no esforço da busca e preservação da
outro, podendo a ação situar-se no plano físi- paz social.
co, psicológico ou ético. Cabe ao gestor público, no seu pensamen-
Há uma cultura da violência em nossa soci- to de Defesa Social, desmontar a violência
edade, principalmente disseminada entre os de maneira articulada, com o objetivo de
jovens pelos meios de comunicação de mas- proteger e preservar a ordem pública. Ou
sa, que valoriza a utilização da força e cons- seja, ao implementar políticas de Defesa
trói uma nova hierarquia social. Em decor- Social deve-se ter como premissa a garan-
rência disso, a familiarização com a violên- tia de que o cidadão irá, de fato, exercer a
cia contribui para a banalização e desvalori- sua cidadania. Quando a idéia da cidadania
zação dos sentimentos humanos. passa a permear, de fato, a estrutura social
de uma sociedade, a pessoa passa a ser su-
jeito de suas conquistas, alijando as estru-
CONCEITO DE DEFESA SOCIAL E turas de exclusão. A efetivação da equidade
PREVENÇÃO social é uma aspiração universal e inalienável
Defesa Social é o conjunto de mecanismos da pessoa humana, cujos direitos estão con-
coletivos, públicos e privados, para a pre- signados em um conjunto de conceitos e
servação da paz social. A defesa do Estado princípios norteadores das garantias funda-
e das garantias constitucionais ocorre em mentais, da liberdade e da democracia, quais
três vertentes: 1) a garantia dos direitos in- sejam, os direitos humanos.

24
DEFESA SOCIAL E PREVENÇÃO

ESTADO E COMUNIDADE COMO fronteiras estatais. De forma isolada, nem


ENTES INDISSOCIÁVEIS Estado, nem setor privado, nem sociedade
civil têm a capacidade de resolver os pro-
A prevenção do crime não interessa exclu- blemas que estão postos para a nação bra-
sivamente ao Poder Público, mas ao princi- sileira. É preciso imaginar um conjunto de
pal alvo, a comunidade. arranjos institucionais que sejam capazes de
O professor norte-americano Peter Evans combinar as potencialidades e os esforços
vem propondo há alguns anos reflexões dos diferentes atores públicos e privados em
sobre a relação que o Estado e a sociedade torno de objetivos comuns. Espaço, esse,
devem apresentar para garantir não só o onde a governança há de ser compartilha-
desenvolvimento econômico, mas, sobre- da, tanto para garantir transparência, quan-
tudo, uma melhor distribuição de renda e to para evitar descontinuidades.
melhores indicadores sociais. Propõe aqui-
lo que ele designa como sendo sinais de uma DEFESA SOCIAL COMO
verdadeira parceria entre a sociedade e o INSTRUMENTO DE PREVENÇÃO E
Estado, possibilitada exatamente porque CONTROLE DA VIOLÊNCIA
ambos conseguem apresentar autonomia
um em relação ao outro. A disciplina Defesa Social e Prevenção nos
remete ao novo conceito de Defesa Social
Um poder público constituído por normas mais abrangente, mais inclusivo, definindo o
claras e objetivas, sem dúvida fortalecerá o Sistema de Garantia dos Direitos, quanto à
Estado Democrático de Direito, tornando promoção, ao controle e à responsabiliza-
a democracia brasileira mais real e menos ção; à importância do exercício e da efetivi-
formal. dade dos direitos fundamentais para alcan-
çarmos a harmonia na sociedade contempo-
Se o século XX foi marcado pelo crescimen- rânea, numa visão ampla do que se define
to da violência (continuando hoje, no início como prevenção primária, secundária e ter-
do século XXI), foi também pelo estabele- ciária. A Defesa Social não se restringe ape-
cimento da democracia: logo, como avan- nas às questões de Segurança Pública, e sim
çar na afirmação dos direitos de cidadania? promoção e garantia de direitos e reparação
Deve-se defender o cidadão, afirmando os quando esses forem violados.
direitos civis especialmente dos cidadãos em
situação de vulnerabilidade. E, nesse pro- “O problema fundamental em relação aos
cesso, será necessário fortalecer a luta pela direitos do homem, hoje, não é tanto o de
garantia dos direitos, acerca dos quais a so- justificá-los, mas o de protegê-los. Trata-
se de um problema não filosófico, mas po-
ciedade civil organizada exerce um papel lítico” (BOBBIO, Norberto,1992)
fundamental no controle social.
A Prevenção Primária da violência é si-
A possibilidade de uma atuação conjunta, nônimo de segurança da comunidade, ex-
Estado e Sociedade, permite, no embate, pressão que evoca o problema das relações
confluências e disputas em torno de varia- entre o poder estatal e a sociedade civil, a
dos temas, uma conseqüente pluralidade colaboração do público e do privado. Por
nas contribuições, exemplo claro da con- isso, é importante enfrentar a violência por
solidação da democracia na sociedade bra- meio da construção da consciência dos ci-
sileira pós-Constituinte. dadãos, com a participação dos movimen-
O esforço de reduzir a desigualdade e, con- tos sociais e da comunidade. Essa preven-
seqüentemente, a violência, passa por uma ção tem como meta a mudança de compor-
redefinição do espaço público para além das tamento, atitude que envolve compromis-

25
OLGA CÂMARA

so e responsabilidade diante do problema ressocialização do homem. Esse tipo de


comum: aglutina, integra, inclui. É o prevenção está distante das raízes, das cau-
gerenciamento da causa, na raiz do confli- sas que levam o homem a delinqüir. É uma
to. Sem dúvida nenhuma a mais eficaz, mas intervenção tardia, não trabalha as causas
ela atua a médio e longo prazo. Contém da criminalidade, e sim o criminoso, mas na
exigências que correspondem a estratégias verdade a prevenção primária, secundária
de política cultural, econômica e social, e terciária completam-se e são compatíveis
numa intervenção comunitária e não ape- quando praticadas corretamente.
nas dissuasiva. Daí, algumas limitações prá-
“Penas mais severas, mais policiais, mais
ticas, vez que a população procura e recla- prisões, determinam, talvez, um incremen-
ma soluções em curto prazo e, lamentavel- to da população reclusa, porém não uma
mente, as identificam com ações drásticas diminuição correlativa e sensível da crimi-
e repressivas. nalidade” (GARCIA, Antônio et alii, 2002)

No tocante à Prevenção Secundária de-


PREVENÇÃO, DISSUASÃO E
senvolve-se uma ação política que se utiliza
OBSTACULIZAÇÃO
de instrumentos de auto-proteção. É uma
estratégia de prevenção centrada em ações Pretende-se colocar travas e obstáculos ao
dirigidas a pessoas motivadas a praticar vi- infrator na prevenção do delito por meio
olências, mais especificamente aos fatores da ameaça de castigo, como elemento dis-
que contribuem para a vulnerabilidade e/ou suasório ou desmotivador, mediante o efei-
resistência dessas pessoas, a fim de evitar o to inibitório da pena, do seu rigor, apostan-
seu envolvimento com a violência ou, ain- do no funcionamento do sistema legal. Pena
da, limitar os danos causados pelo seu e delito constituem os dois elementos de
envolvimento com o crime, bem como a equação linear. Esse modelo é simplista e
pessoas mais suscetíveis a serem vítimas de tenta ocultar o fracasso dessa política pre-
violação de direitos, para evitar ou limitar ventiva (na realidade repressiva).
os danos causados pela sua vitimização.
Quando a repressão policial se faz necessá- Depreende-se que a intervenção penal nem
ria em bolsões de violência, atinge aos jo- sempre é justa e não convence como ins-
vens e adolescentes e a membros de gru- trumento preventivo. A pena não dissuade,
pos vulneráveis e/ou em situação de risco. atemoriza e intimida, reflete, na maioria das
vezes, o fracasso e a impotência da ausên-
Como indicadores da cultura do medo, ob- cia de uma política preventiva de inclusão
servamos o desenho arquitetônico das re- social. Reforça a convicção de que o rigor
sidências, desenvolvidos como instrumen- desmedido longe de alcançar efeitos inibi-
to de autoproteção, segurança privada para tórios e de prevenir o delito, tem efeitos
as classes média e alta, programas de rádio criminógenos. Beccaria, em 1764, já definia
e TV sobre o tema policial e a proliferação que o decisivo não é a gravidade das penas,
de ações ostensivas e restritivas da liberda- que a pena não é um risco futuro e incerto,
de do cidadão. e sim um mal próximo e certo. Esse mode-
lo é pouco convincente, não se deve espe-
Já a Prevenção Terciária tem um destina-
rar muito dele. Lamentavelmente, o exem-
tário perfeitamente identificável, o homem
plo do sistema socioeducativo (adolescen-
privado de liberdade; e objetivo certo “evi-
tes em conflito com a lei) e penitenciário
tar a reincidência”. Tem caráter eminente-
brasileiro são prova de que o Sistema Legal
mente punitivo, apesar da Lei de Execução
deixa intactas as “causas” do crime e atua
Penal (Lei n° 7.210/84), que visa à
tarde demais.

26
DEFESA SOCIAL E PREVENÇÃO

TEORIA DA PREVENÇÃO mo, desenvolvendo o sentimento de culpa-


SITUACIONAL E AMBIÊNCIA bilidade do infrator, condenação moral com
CRIMINOSA a estimulação da consciência inibidora do
comportamento delitivo, substituído pelo
Aqui se contempla o crime como opção respeito às normas.
econômica e racional, esperando-se que o
sistema de justiça e segurança se ajustem, A prevenção situacional é um problema de
tanto no operativo como no decisório, ao todos e não apenas das instâncias de con-
binômio custo-benefício. trole social formal ou informal.
Na prevenção situacional não há interesse
do Poder Público nem da comunidade nas FATORES PREDISPONENTES À
“causas” do delito (prevenção primária), VIOLÊNCIA E CONCEITO DE
para que se atue na raiz do problema, dei- ENFRENTAMENTO
xando-as intactas. O que interessa são as “O crime deve ser compreendido como
manifestações ou formas de ma- conflito ou enfrentamento interpes-
nifestação da criminalidade, bas- soal, histórico, concreto, tão doloro-
tando, deliberadamente, neutra- so como humano e cotidiano; como
Estudos problema social e comunitário, e que
lizar as oportunidades que ofe-
reçam situações de risco ao ci-
sistemáticos penas mais severas, mais policiais,
vêm sendo mais prisões, determinam, talvez, um
dadão, constante atrativo ao in- incremento da população reclusa,
frator, por entender-se que o desenvolvidos... porém não uma diminuição correla-
delito busca o espaço adequado, tiva e sensível da criminalidade”.
o momento oportuno, a vítima (GARCIA, Antonio, 2002)
propícia, etc. O enfrentamento da violência dá-se, exclu-
A sociedade exige do Poder Público a inter- sivamente, por meio da aplicação eficiente,
venção no ambiente propício ao crime no eficaz e efetiva do Sistema de Garantia de
controle do delito, com resultados a curto Direitos.
prazo. Para Felson, quando convergem em O crime recebeu várias conceituações dos
tempo e espaço três (3) elementos: a pre- penalistas, filósofos, moralistas, sociólogos,
sença de um delinqüente motivado, um ob- políticos, etc. Para o penalista não é senão
jetivo alcançável e a ausência de um guar- o modelo típico descrito na norma penal,
dião capaz de prevenir sua prática, o crime uma hipótese, produto do pensamento abs-
se dá. O próprio Felson, em seus estudos trato; para o patologista social, uma doen-
sobre a Criminologia, tem acrescentado mais ça, uma epidemia; para o moralista, um cas-
dois fatores, que para nós são pertinentes; a tigo do céu; para o expert em estatística, um
ausência do supervisor íntimo (pessoa pró- número, uma cifra; para o sociólogo, uma
xima ao infrator – pai, mãe, parente) que conduta irregular ou desviada.
neutraliza ou freia seu potencial delituoso, e
o comportamento denominado gestor do O crime é um produto natural do convívio
espaço ou pessoas com competência técni- social, ou, como afirmou Durkhein, os com-
ca para controlar ou vigiar (policiais, guardas portamentos desviantes são um produto da
municipais, porteiros, vigias). própria coletividade, sendo, portanto, nor-
mais no seio de qualquer sociedade.
Estudos sistemáticos vêm sendo desenvol-
vidos com estratégias para tentar bloquear O delito deve ser contemplado não só como
as oportunidades de risco: barreiras físicas, comportamento individual, mas, sobretudo,
vigilância formal, videovigilância e, por últi- como problema social e comunitário; como

27
OLGA CÂMARA

fenômeno que deve ser definido como “pro- do saber, ressaltando-se o domínio de ca-
blema social”: com incidência massiva na tegorias profissionais nessa produção do
população; que referida incidência é doloro- saber. A evolução das ciências aponta para
sa, aflitiva; com persistência espaço-tempo- um modelo integrado, imposto pela neces-
ral; falta de um inequívoco consenso a res- sidade de se utilizar metodologias interdis-
peito de sua etiologia e eficazes técnicas de ciplinares pela unidade do saber científico.
intervenção no mesmo e consciência social O desenvolvimento das ciências e os avan-
generalizada a respeito de sua negatividade. ços da tecnologia, no século XX, consta-
O crime afeta toda sociedade (não só os ór- taram que o sujeito pesquisador interfere
gãos e instâncias oficiais do sistema legal), isto no objeto pesquisado, que não há neutra-
é, interessa e afeta a todos nós e causa dor a lidade no conhecimento, que a consciên-
todos: ao infrator, que receberá seu castigo, cia da realidade se constrói num processo
à vítima, à comunidade. Somos conscientes, de interpenetração dos diferentes campos
sem dúvida, de que temos que aceitar a rea- do saber.
lidade do crime como inseparável da convi- Uma resposta científica à violência exige um
vência. Que não existem soluções milagro- processo lógico que consta de três fases:
sas nem definitivas. explicativa, decisiva e operativa/instrumen-
É possível concluir que a aplicação do direito tal. A idéia é reunir um núcleo de conheci-
obedece a uma lógica de estruturação e fun- mentos verificados empiricamente sobre o
cionamento de um sistema estratégico-jurí- problema (momento explicativo), transfor-
dico-político-institucional de garantia dos di- mar essa informação sobre a realidade, de
reitos do cidadão, tendo em vista a sua pro- base empírica, em opções, alternativas e
teção. Nessa perspectiva, faz-se mister a ar- programas científicos, a partir de uma ótica
ticulação entre os diversos órgãos públicos, valorativa (momento decisivo): é a ponte
em parceria com a sociedade civil, para es- entre a experiência empírica e as decisões
tabelecer uma rede de proteção que possa normativas.
atuar como um Sistema de Garantia de Di- O termo interdisciplinaridade significa uma
reitos envolvendo diferentes atores, cada relação de reciprocidade, de mutualidade,
uma com sua importância, desempenhando que pressupõe uma atitude diferente a ser
funções específicas, sobretudo imbuídos de assumida diante do conhecimento, ou seja,
fazerem o melhor. A Constituição Federal é a substituição de uma concepção fragmen-
prevê esse sistema, do qual são partícipes o tária para uma concepção unitária de ser
Estado e a Sociedade Civil na formulação, humano. A doutrina humanista de proteção
controle e fiscalização das políticas públicas, social contra o crime, prega a reação social,
exigindo a criação e manutenção de uma rede a análise crítica do sistema existente, e a
de atendimento com ações integradas. Essa valorização das ciências humanas; cabe ao
rede é o Sistema de Garantia dos Direitos, gestor público, no seu pensamento de De-
que é um conjunto de órgãos que devem fesa Social promover os Direitos Humanos
estar articulados e conectados no momento integralmente.
da prestação de serviços à população.
A interdisciplinaridade implica em uma ati-
tude de abertura, não preconceituosa, em
A INTERDISCIPLINARIDADE COMO
que todo conhecimento é igualmente im-
INSTRUMENTO DA DEFESA
portante e o conhecimento individualizado
SOCIAL
anula-se diante do saber universal. É uma
É a integração dos saberes. A tradição aca- atitude coerente, pois é na opinião crítica
dêmica brasileira é de compartimentação do outro que se fundamenta a opinião par-

28
DEFESA SOCIAL E PREVENÇÃO

ticular, supondo uma postura única, engajada crime. Ao se reunir um núcleo de conheci-
e comprometida com os fatos que envol- mentos sobre o delito, o delinqüente, a ví-
vem a questão da violência. tima e o controle social reduzir-se-ão a in-
tuição e o subjetivismo acerca da questão,
“A atitude interdisciplinar nos ajuda a viver
o drama da incerteza e da insegurança. Pos-
submetendo o problema criminal a uma aná-
sibilita-nos darmos um passo no processo lise rigorosa, com técnicas empíricas. As me-
de libertação do mito do porto seguro. Sa- todologias interdisciplinares empregadas
bemos o quanto é doloroso descobrirmos permitem coordenar os conhecimentos ob-
os limites de nosso pensamento, mas é tidos setorialmente nos distintos campos do
preciso que façamos”. (JAPIASSÚ, Hilton, saber pelos respectivos especialistas, elimi-
1976).
nando contradições e suprindo inevitáveis
É fundamental a valorização das ciências lacunas; ou seja, as teorias monocausais, que
humanas, que são chamadas a contribuir, tratam de reconduzir a explicação do deli-
interdisciplinarmente, no estudo e comba- to a um determinado fator em virtude das
te do problema criminal. Urgen- inflexíveis relações de causa e
te repensar os paradigmas apre- efeito e a terminologia conven-
sentados e levados a efeito por ... é na opinião cional, inclinada ao emprego de
todos que exercem funções no crítica do outro conceitos importados das ciên-
sistema de garantia dos direitos, que se cias naturais, como o conceito
para que seja possível implan- de causa.
fundamenta a
tar mecanismos indispensáveis
à concepção da lei.
opinião particular Parece mais realista propugnar
a obtenção de um núcleo de
A base de uma política de De- conhecimentos seguros sobre a
fesa Social moderna é o respeito à dignida- violência, o violador, a vítima e o controle
de do homem, nos seus direitos individuais social, significando um saber sistemático,
e coletivos e a crença no potencial de aper- ordenado, generalizador e não mera acu-
feiçoamento do ser humano. mulação de dados ou informações isoladas
e desconexas. Em outras palavras, o conhe-
O princípio interdisciplinar, portanto, é uma cimento científico obtido com métodos e
exigência estrutural do saber científico im- técnicas de investigação rigorosos, confiá-
posto pela natureza totalizadora deste e não veis e não refutados, que tomem corpo em
admite monopólios, prioridades nem exclu- proposições, depois de contrastados e ela-
sões entre as partes ou setores do seu tron- borados os dados empíricos iniciais. De
co comum. qualquer modo, isso não significa que se
deve estimular a construção de um banco
A CIÊNCIA E A TECNOLOGIA NA de dados gigantesco centralizado, senão
PRODUÇÃO DE UM uma fonte dinâmica de informações, de
CONHECIMENTO NA DEFESA modo que o estudioso da violência tenha
SOCIAL uma tarefa sempre provisória, inacabada,
aberta aos resultados das investigações in-
Para prevenir e intervir com eficácia e de
terdisciplinares, nunca definitiva.
modo positivo na violência, é muito impor-
tante compreender cientificamente o pro- A obtenção de dados não é um fim, mas
blema criminal. A cientificidade da um meio; os dados são material bruto, neu-
criminologia está em condições de ofere- tro, que têm que ser interpretados de acor-
cer uma informação válida, confiável, não do com uma teoria. Não basta apenas sua
refutável, sobre o complexo problema do obtenção e seu armazenamento.

29
OLGA CÂMARA

A ciência e a tecnologia podem, sim, pro-


porcionar informações úteis e necessárias
para a intervenção no cenário de violência,
no ser humano que se apresenta como
violador de direitos e na vítima. De sorte
que o crime seja compreendido em termos
“comunitários”, como problema nascido na
e da comunidade à qual o infrator perten-
ce. Que se busquem mecanismos eficazes
para que essa comunidade receba digna-
mente um dos seus membros.

A NOVA DEFESA SOCIAL


Uma doutrina humanista de proteção soci-
al contra o crime – o respeito ao direito, à
liberdade e à dignidade não significa que o
Sistema de Justiça e Segurança estão fora
do processo de promoção à cidadania.
Uma política pública deriva, forçosamente,
do próprio pacto social que reúne as pes-
soas numa organização social. Ela é feita de
opções que resultam em diretrizes, priori-
dades e, finalmente, normas legais ou
consensuais. Como em todos os produtos
de uma sociedade complexa, uma política
pública se organiza no bojo mesmo das pres-
sões da vida em sociedade e se constrói em
produtos do confronto dessas pressões:
minorias e maiorias, interesses de várias
ordens (incluindo os corporativos). A dife-
rença está em que, quando há consciência
de que se constrói uma política pública há
objetivos claros a serem alcançados e um
rumo definido; o que não acontece quando
os confrontos e pressões são resolvidos de
maneira pontual, sempre tendo como foco
principal, a paz social.

30
A ATENDIMENTO
À VIOLÊNCIA
SEXISTA/DOMÉSTICA

ANA FARIAS

JANEIDE FRANCA

MARA PEREZ

31
ANA FARIAS - Assistente Social. Diretora de Desenvolvimento
Social da SEDESE (Secretaria Desenvolvimento Econômico e
Social da Prefeitura de Camaragibe).

JANEIDE FRANCA - Psicóloga. Coordenadora do Projeto


Nação Criança - Fundaj.

MARA PEREZ – Psicóloga. Consultora do Projeto Nação Cri-


ança - Fundaj.

32
Atendimento
à Violência
Sexista /
Doméstica
ANA FARIAS | JANEIDE FRANCA | MARA PEREZ

PARA A ORGANIZAÇÃO MUNDIAL empurrão, soco, pontapé, beliscão, agres-


DA SAÚDE, SÃO ATOS DE são com instrumentos, queimadura, amea-
VIOLÊNCIA: ça de morte e até a própria morte.
Estapear, sacudir, bater com o punho ou Obs: Cerca de cem crianças morrem por
com objetos, estrangular, queimar, chutar, dia vítimas dessas agressões no Brasil
ameaçar com faca ou revólver, ferir com
armas ou objetos e, finalmente, matar. (Dados do Laboratório de Estudos da Cri-
ança - USP - 2003). Entre 1999 e 2002, um
Coerção sexual através de ameaças, intimi- total de 1.236 mulheres e 15.440 homens
dação ou uso da força física; forçar atos se- foram vítimas de homicídios em
xuais não desejados, com outras pessoas ou Pernambuco (DataSus - 79/2001; e Secre-
na frente de outras pessoas. taria de Defesa Social - 2002).
Ciúme excessivo, controle das atividades da
mulher, agressão verbal, destruição da pro- Violência Sexual
priedade, perseguição, ameaças, deprecia- Corresponde a ato, jogo ou relação sexual,
ção e humilhação. entre um ou mais adultos e uma criança/
adolescente, tendo por finalidade estimu-
TIPOS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA lar sexualmente esta criança/adolescente ou
utilizá-los para obter uma estimulação se-
Violência Física xual sobre sua pessoa ou de outra pessoa.
Corresponde ao emprego de força física na
relação do adulto com a criança/adolescen- Exemplo:
te, para resolver os conflitos ou principal-
mente no processo disciplinador. O adulto consegue a participação da crian-
ça/adolescente sendo gentil, oferecendo
Exemplos: algo em troca como presentes por exem-
Podem começar com simples palmadinhas plo, ou utilizando algum tipo de coerção,
e evoluir para outras como: imobilização, força física e ou agressão física.

33
ANA FARIAS | JANEIDE FRANCA | MARA PEREZ

Violência Psicológica MITOS


Está presente em todos os outros tipos de Mitos são crenças resistentes e evidências
violência, interferindo na condição emoci- empíricas cuja manutenção se explica por
onal, física e sexual da vítima. Ela acontece desconhecimento, ignorância ou interesse
quando há depreciação, humilhação, a víti- ideologicamente camuflados.
ma é ignorada(o), rejeitada(o), sofre discri-
minação. Mitos da violência doméstica que
precisam ser combatidos
Negligência
Gerais
Representa uma omissão do responsável em
termos de prover as necessidades físicas e Produzidos historicamente como artefatos
emocionais de uma criança, adolescente e ideológicos destinados a tornar indiscutível,
ou dependente por quaisquer outras con- sagrada, a autoridade dos pais sobre os fi-
dições. Configura-se quando os responsá- lhos e a obediência dos filhos aos pais.
veis falham em: alimentar, vestir adequada- Específicos
mente, procurar escola, assistência médi-
ca; e quando tal falha não é resultado das Falsas crenças destinadas a acobertar a vio-
condições de vida além de seu controle. lência doméstica (quadro a seguir):

ÿþýüû ýüû
ÿþýüûúû ýüû ø÷üøö ö õöôöó ýüûô òöú ö÷ ñûü ñüú÷ñ ö üòööû ñû ûñüö ûò üòö ñôû
ú÷ òöñ ÷ ýüû ÷ öòöó ÷ôôû÷ û üñöõöñ û öôûô ôûú÷ñ÷ ÷ü û ÷
÷üöòûû ô÷õô÷ñ øöôö òø÷ô øü÷ ÷ôø÷ôöú ö ôööñ û ö÷úûñûûñ

ÿ ñ öøöñó öñ øöúòööñó ø÷ô ûûòøú÷ó ñ÷ þ øü÷ ñö ýüû÷ öüñö ÷ô


ò÷÷ñ ñøúöôûñ÷ øûô÷ñ÷ñó÷ üòö öúöó ø÷ñ ñû÷ ûò
öüñöò ÷ô ôûöú û öòø÷ü÷ ñû ÷ôôûúö÷öò ûñû ÷òø÷ûû÷ øü÷
÷ò ýüöô÷ñ û õ÷úö òöñ ôöõûñ
ÿ ûñò÷ ýüû ö øü÷ ñö÷ ûõû ÷ þñ øûñýüñöñ øñ÷úöñò ò÷ñôö÷ ýüû ÷û
÷òø÷ôöòû÷ öôûññõ÷ó öö ÷ üòö ÷ôö÷ ûôû öñ øöúöõôöñ û öñ öûñ
ò÷÷ ûöú ö ñûô ûòøôûö÷ øôûñöñû òöñ öû÷ ÷ ýüû û÷
÷ ýüû ÷ ýüû ÷ öö öôû

ÿ þ øü÷ ñö÷ ûôûôû ñû ø÷ û ñøúöòû÷ ûôûôû û òü÷ ÷ñ õ üú÷ñ


÷ñ ôûúö÷öòû÷ñ öòúöôûñó ö òûö ûò ýüû ôö÷ö ñûòû÷ñ û
ôöõöó û úûôöó û öñö ÷òø÷ôöòû÷
ûñøûôö÷ ÷÷ øûú÷ òû÷ û øûúö òö÷

ÿû öñ ôööñ ÷ôûò ûñööñ ö ûõöô þ ôûúö÷÷ ö÷ûû üò øúö÷ û ôûñøû÷


ûñôö÷ñ øûô÷ñ÷ñûúöñ÷ ñûô÷ òü÷ û ÷÷øûôö÷ ÷ñ öôûññ÷ôûñ
ñûüöúòûû õòööñ ñ÷ ÷û÷ñ ö ôöö üöúýüûô öüú÷
÷ü ôöö òöñ õûúö ø÷û ñûô üò öôûññ÷ô

ÿ ûü òöú÷ ö öòöñ ñûô ÷öñ öñ ôööñ ñ÷ õüúûôõûñ õòö÷ ñûüöú


ñûüöúòûû õòö÷ ûò ôö÷ û ñüö ÷öó ÷öö ÷ñ öüú÷ñó
öòö÷ó õ÷öû û öôööô û ûûññöû û öû÷

ÿ ñ öôûññ÷ôûñ ñ÷ õûú÷ñ õ÷úû÷ñó ûôöúòûû ÷ñ öôûññ÷ôûñ öøöôûûò ÷ôòöñ ñ÷ õô÷ñ


öú÷úöôöñ û ûñûòøôûö÷ñ öñøû÷ñ ñ ôòûñ ñûüöñò ñ÷ ÷òû÷ñ ûò
÷ ñûüöúòûû ûøôöõö÷ñó ÷÷ñ ÷ñ ôüø÷ñ ôööñó ôûú÷ñ÷ñ û ÷ñ ñ
÷ò÷ññûüöñó öôûññ÷ôûñ ñûüöñó ö òö÷ôöó ñ÷ ÷òûñ
ôûöôö÷ñ ÷ü ú÷ü÷ñ ûûô÷ññûüöñ ûò öûññ÷ ö ôûúöûñ ñûüöñ
÷ò öüú÷ñ

34
ATENDIMENTO À VIOLÊNCIA SEXISTA / DOMÉSTICA

VIOLÊNCIA FÍSICA DOMÉSTICA Estudo feito entre 2000 e 2001 pelo De-
partamento de Medicina Preventiva da Fa-
Indicadores orgânicos e na conduta culdade de Medicina da Universidade de São
de crianças e adolescentes Paulo mostrou que os filhos de 5 a 12 anos
criados em famílias em que a mulher é sub-
· contusões corporais com marcas de cin- metida a violência apresentam mais proble-
tos, fivelas, fios elétricos, etc.; mas, como pesadelos, chupar dedo, urinar
· contusões inexplicadas e em lugares na cama, ser tímido ou agressivo.
incomuns como nádegas, boca, olhos e Na cidade de São Paulo, as mães que decla-
peito; raram violência relataram maior repetência
· queimaduras, principalmente as que lem- escolar de seus filhos de 5 a 12 anos; e na
bram pontas de cigarro ou contorno de Zona da Mata de Pernambuco houve maior
objetos; abandono da escola.

· fraturas inexplicadas de nariz, pernas, vér- Como mostram os dados expostos, a prá-
tebras, etc.; tica da violência sexista/doméstica é uma re-
alidade em crescimento no território naci-
· desconfiam dos contatos, estando sempre onal, principalmente aquela praticada con-
alerta e na defensiva; tra crianças e adolescentes, enquanto a
· evitam a sua casa ou fogem dela; Constituição Federal, no seu art. 227, ga-
rante, nos termos da lei, total proteção a
· comportamento agressivo, ou excessiva- essa faixa da população.
mente tímido, passivo, com dificuldades
“É dever da família, da sociedade e do Es-
nos relacionamentos escolares;
tado assegurar à criança e ao adolescente,
· demonstram pouca preocupação e inte- com absoluta prioridade, o direito à vida,
resse pelo filho; à saúde, à alimentação, à educação, ao
lazer, à profissionalização, à cultura, à dig-
· culpam o filho pelos problemas no lar e na nidade, ao respeito, à liberdade e à convi-
escola, sugerindo aos professores que o vência familiar e comunitária, além de
colocá-los a salvo de toda forma de negli-
punam de forma física severa;
gência, discriminação, exploração, violên-
· exigem perfeição, e desempenho superi- cia, crueldade e opressão.”
or às possibilidades da criança;
· quando questionados, contradizem-se em
relação aos ferimentos da criança;
· sofreram violência na infância;
· empregam e defendem o disciplinamento
corporal severo como método disciplinador.

Algumas considerações
“A violência doméstica é uma epidemia que
contamina todo o tecido familiar. Estatísti-
cas mostram que homens que espancam
suas parceiras também são violentos com
as crianças dentro de casa.’’ (Maria Luíza
Aboim - psicóloga).

35
36
G GESTÃO DE POLÍCIA
COMUNITÁRIA
E SEGURANÇA
COMUNITÁRIA

HUMBERTO VIANNA

37
HUMBERTO VIANNA é Coronel da Polícia Militar, Pós-gra-
duado em Gerenciamento de Cidades pela UPE, Graduado em
Administração de Empresas e Educação Física no Estado do Rio
de Janeiro e Conselheiro Diretor do Fórum Brasileiro de Segu-
rança Pública no Rio de Janeiro.

38
Gestão
de Polícia
Comunitária
e Segurança
Comunitária
HUMBERTO VIANNA

I. O PAPEL DO ESTADO, DA · mar territorial;


COMUNIDADE E DOS AGENTES · subsolo;
SOCIAIS DE PREVENÇÃO DA · plataforma continental;
VIOLÊNCIA · espaço aéreo.
· População;
a. Assuntos
· Governo independente.
· Noções sobre o Estado e seus elementos;
· Comunidade, gestão, polícia comunitária d. Diferenças entre:
e segurança comunitária;
· População - são todas as pessoas presen-
· Política de Segurança Pública X Políticas tes no território do Estado.
Públicas de Segurança.
· Povo - é a população do Estado sujeito às
mesmas leis e regras.
b. Vocês sabem o que é um Estado?
· Nação - um grupo de indivíduos que se
Exemplos que serão trabalhados com o gru- sentem unidos pela origem comum, pe-
po para definição do conceito: los interesses comuns, principalmente,
· Terra por ideais e aspirações comuns.

· América do Sul e. Qual o conceito de Estado?


· Brasil “O Estado é a corporação de um povo, as-
sentado num determinado território e do-
c. Quais os elementos fundamentais tado de um poder originário de mando.”
do Estado? (JELLINEK apud BONAVIDES, 2002)
· Território: “O Estado é a ordem jurídica soberana que
· terra firme; tem por fim o bem comum de um povo

39
HUMBERTO VIANNA

situado em determinado território.” sociais se organizam, e é esse conjunto que


(Carnoy) forma a estrutura social da comunidade.”
(TROJANOWICZ & BUCQUEROUX,
1994)
f. Qual o papel do Estado?
· O Estado é um meio para o homem alcan- j. Quais os requisitos para a existência
çar os seus interesses e desenvolver-se. de uma comunidade?

· É o responsável por criar condições para · uma aproximação habitual dos mem-
que os indivíduos, vivendo harmônica e bros que permita entre eles os contatos
solidariamente em sociedade, desenvol- diretos ou a utilização de serviços básicos
vam suas aptidões físicas, morais e inte- comuns;
lectuais.
· a consciência de interesses comuns, que
· O Estado é o principal responsável em revele aos membros a possibilidade de,
prover a sociedade de serviços públicos unidos, atingirem objetivos que, isolados,
essenciais, promovendo o desenvolvimen- não alcançariam;
to econômico de forma a criar empregos,
· a participação em uma obra comum, que
e assim, gerar e distribuir renda.
é a realização desses objetivos e a força
de coesão interna da comunidade.
g. Você sabe o que é uma
comunidade?
k. Qual o papel da comunidade?
Exemplos que serão trabalhados com o gru-
· Promover o desenvolvimento da comuni-
po:
dade.
· Estado de Pernambuco;
l. Como fazer?
· Região Metropolitana do Recife;
· Trabalho em equipe;
· Município do Recife.
· União dos moradores.
h. O que é uma comuniade?
m. Quais os benefícios?
· Origem da palavra: comunidade vem do
latim communio e quer dizer comunhão, · Diminuição de problemas internos
participação, congregação, união com ou- · Lixo, violência, educação, saúde, etc.
tros.
· Maior atendimento de demandas
· Maior possibilidade para que ruas se-
i. Conceito de Trojanowicz &
jam asfaltadas, creches escolas e pos-
Bucqueroux:
tos de saúde construídos, linhas de
“A comunidade deve encerrar certo núme- ônibus e novas empresas se instalem,
ro de pessoas com interesses, sentimen- um posto de polícia, etc.
tos e atitudes, compartilhados pela parti-
cipação no mesmo grupo social, localiza- · Maior representatividade política:
dos dentro da mesma área geográfica, a · Maior participação nas decisões que
qual é transformada por eles a fim de man- afetam a comunidade, perante a Pre-
ter a vida física e social do grupo; todos feitura, o Governo Estadual;
mantêm relações diretas ou indiretas, uns
com os outros; assim sendo, as relações
· Possibilidade de ter um representante
na Câmara Municipal ou Assembléia

40
GESTÃO DE POLÍCIA COMUNITÁRIA E SEGURANÇA COMUNITÁRIA

Legislativa que defenda os interesses · Coloca a necessidade de proteção física


do lugar. no primeiro nível das necessidades huma-
nas fundamentais.
n. Você sabe o que é uma agente
social?
u. Constituição Federal de 1988
o. Agente social · Art. 6º - São direitos sociais a educação, a
saúde, o trabalho, o laser, a segurança, a
· É qualquer cidadão que assume o propó- previdência social.
sito de promover o desenvolvimento em
sua comunidade. · Art. 144 - atribui ao Estado a responsabili-
dade pela segurança pública:
· São agentes de mudança que visam modi-
ficar o comportamento de outros inte- “A segurança pública, dever do Estado,
grantes da comunidade. direito e responsabilidade de todos, é
exercida para a preservação da ordem pú-
blica e da incolumidade das pessoas e do
p. O que é preciso para ser um patrimônio, através dos seguintes órgãos:
agente social? Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal,
Polícia Ferroviária Federal, Polícias Civis e
· Ser voluntário; Polícias Militares e Corpos de Bombeiro
Militares”.
· Fazer parte da comunidade;
· Ter compromisso com a comunidade. v. Segurança pública
“É uma atividade pertinente aos órgãos es-
q. Qual o papel do agente social? tatais e à comunidade como um todo, rea-
lizada com o fito de proteger a cidadania,
· Contribuir para estimular as pessoas a atua-
prevenindo e controlando manifestações
rem coletivamente dentro da comunidade. de criminalidade e de violência, efetivas ou
potenciais, garantindo o exercício pleno da
· Congregar um número suficiente de pes-
cidadania nos limites da lei.” (Amaral, 2003)
soas dedicadas às tarefas comunitárias, de
forma a criar uma rede de desenvolvimen-
to local. w. Polícia comunitária
“É um modelo de trabalho que reconhece
r. Qual o papel do agente social no que a polícia não pode manter a ordem
âmbito da prevenção da violência? pública sozinha e que, portanto, precisa
contar com o apoio da população.” (Ban-
· Estimular e participar de ações preventi- co Mundial)
vas de segurança na comunidade. Elementos complementares:

s. O que é segurança? · Associação entre a polícia e a comuni-


dade: Permite determinar os problemas
“Segurança: 1. Ato ou efeito de segurar. 2. prioritários da comunidade.
Estado, qualidade ou condição de seguro...
Seguro: 1. Livre de perigo ou de risco...” · Resolução de problemas: Constitui uma
(Dicionário de Aurélio Buarque de ferramenta útil para enfrentar as causas
Holanda)
imediatas que ameaçam o bem-estar da
comunidade.
t. Maslow - a pirâmide das
necessidades humanas

41
HUMBERTO VIANNA

x. Modelo tradicional de polícia expressão que engloba as diversas ações,


governamental e não-governamental que
· Profissionalização do trabalho policial; sofre impacto ou causa impacto no pro-
· Estrutura de comando centralizada e blema da criminalidade e da violência.
hierarquizada; · Políticas de Segurança Pública - É a ex-
· Uso extensivo de patrulhamento preven- pressão referente às atividades tipicamen-
tivo com uso de veículos; te policiais, é a atuação policial stricto
sensu.
· Aumento de pessoal e recursos tecnológicos
destinados ao trabalho policial; II. DIAGNÓSTICO COMUNITÁRIO
· Atitude reativa da polícia (atendia a cha-
mados urgentes sempre que necessário) a. O que é diagnóstico?
Fonte: Banco Mundial Conhecimento ou determinação duma do-
ença pelos sintomas. Conjunto dos dados
y. Modelo de polícia comunitária em que se baseia essa determinação. (Dic.
Aurélio)
· Atividade preventiva enfocada em uma
área reduzida e bem delimitada; Qualificação dada por um médico a uma
enfermidade ou estado fisiológico, com base
· Estabelecimento de relações com a comu- nos sintomas que observa; diagnose. (Dic.
nidade; Michaellis)
· Mobilização da comunidade com relação
às atividades preventivas; b. O que é um diagnóstico
comunitário?
· Estudo sistemático e organizado das con-
dições e circunstâncias que favorecem a · É o processo pelo qual se identificam os
delinqüência; principais problemas de segurança na co-
munidade.
· Ênfase na resolução de problemas e na
prevenção; c. Para que serve o diagnóstico
· Maior atenção a insegurança subjetiva (o comunitário?
medo do crime); · Identificar problemas de segurança que afe-
· Reorganização dos corpos policiais. tem os moradores do local e priorizá-los;

Fonte: Banco Mundial · Analisar a informação sobre delitos, delin-


qüentes, vítimas e locais onde os delitos
z. Conceitos importantes são cometidos;

· Políticas Públicas - É a coordenação dos · Planejar ações para melhorar a segurança


meios à disposição do Estado, harmoni- na comunidade.
zando as atividades estatais e privadas para “O primeiro passo de uma estratégia de
a realização de objetivos socialmente (ou segurança é a realização de um diagnósti-
economicamente) relevantes e politica- co que seja o mais completo possível dos
mente determinados. (BUCCI: 1997). problemas de segurança de uma comuni-
dade.” (World Bank)
· Políticas Públicas de Segurança - É a

42
GESTÃO DE POLÍCIA COMUNITÁRIA E SEGURANÇA COMUNITÁRIA

d. Principais problemas do diagnóstico · Informação socioeconômica da comunidade;


comunitário
· Pesquisas sobre vitimização local;
· Ausência de participação comunitária;
· Consulta/pesquisa direta com a comunidade;
· Ausência de participação de Agentes Sociais;
· Entrevistas com membros da comunida-
· Falta de credibilidade das estatísticas oficiais; de (comerciantes, agentes públicos, agen-
tes comunitários, líderes religiosos, pro-
· Ausência, deficiência e credibilidade das fessores).
informações da comunidade;
· Desconsideração dos principais conflitos g. Estatísticas de registros policiais
que afetam a comunidade. · Homicídios

e. Como elaborar o diagnóstico · Roubo/Furto:


comunitário? · Pessoas da comunidade
· Transeuntes
· Etapa 1 - Levantamento das informações · Residências
gerais da comunidade; · Estabelecimentos comerciais
· Etapa 2 - Oficinas de trabalho com a co- · Veículos
munidade; · Agressão sexual
· Etapa 3 - Identificação das principais ações · Violência doméstica
de prevenção.
· Tráfico de drogas
f. Etapa 1 · Outros delitos
· Estatísticas de registros policiais;

h. Homicídios

Fonte: Secretarias Estaduais de Segurança Pública


MJ/SENASP/DECASP/Coordenação Geral de Informação, Estatística e Acompanhamento das Polícias
IBGE - Estimativas de População 1999, Censo 2000 e Estimativas da População 2001.

43
HUMBERTO VIANNA

i. Brasil · Pobreza
· Áreas de risco
No Brasil, dados estatísticos indicam que no · Analfabetismo
período compreendido entre 1999 e 2001,
nas capitais dos Estados e no Distrito Fede- m. Cenário Brasileiro (1)
ral, ocorreram mais de 41.000 homicídi-
O cenário da violência que se delineia no
os, 820.965 roubos, excluindo-se os rou- país resulta, em parte, de uma malha soci-
bos de veículos e roubos seguidos de mor- al que salienta as desigualdades, tendo a
te, 266.670 roubos e 317.501 furtos de concentração de renda como um dos seus
veículos, e um aumento de 166% no total maiores problemas, pois 52,9% da popu-
de casos de extorsão mediante seqüestro lação com mais de dez anos de idade e com
(Brasil, 2002). rendimento de trabalho ganha até dois sa-
lários mínimos. Nos municípios mais ricos,
o valor do rendimento aumenta, mas au-
j. Você confia nesses dados? menta também a concentração e renda. A
situação piora ainda mais nas pequenas ci-
Esses dados não correspondem à totalida- dades, onde esse rendimento varia de 160
de dos delitos ocorridos, pois as pesquisas a 210 reais (Góis, 2002).
de vitimização apontam que apenas um ter-
ço dos delitos são notificados à polícia pelas Nessa vertente o Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que
vítimas, o que eleva ainda mais os números
das 46.306.278 famílias residentes em do-
oficiais sobre a violência (Kanh, 2002). micílios particulares permanentes, 5,4%
não possuem rendimentos, 43,5% ganham
Fonte: DANTAS, Marcus Leal. Segurança
até um salário mínimo. Dessas, 46,21% ga-
preventiva: conduta inteligente do cidadão. nham até meio salário mínimo (IBGE,
2002). Fonte: DANTAS, Marcus Leal. Segu-
k. Como identficar formas rança preventiva: conduta inteligente do ci-
alternativas de coletas de dados na dadão.
comunidade?
n. Cenário Brasileiro (2)
l. Coletando dados Essas desigualdades contribuem para a for-
mação de verdadeiros bolsões de pobre-
· Pesquisas sobre vitimização local
za, onde a exclusão social favorece o de-
· Entrevistas com: senvolvimento da criminalidade. Nesse
sentido verifica-se que: dos 21 milhões de
· Comerciantes
jovens brasileiros com idade de 12 a 17
· Agentes públicos anos, 8 milhões (38%) vivem em área de
· Agentes comunitários risco. 3 milhões deles não estão na escola.
· Líderes religiosos Apenas 2 milhões, que estão na faixa etária
· Professores de 10 a 14 anos, estudam e trabalham. 3,2
milhões, com idade entre 15 e 17 anos,
· Buscas em: somente trabalham (DIMENSTEIN, 2002).
· Hospitais (postos de saúde) públicos
O Mapa do Analfabetismo no Brasil infor-
· Delegacias de polícia
ma que, na população de 15 anos ou mais,
· Escolas existem mais de 16 milhões de analfabe-
tos, e que são mais de 30 milhões de anal-
· Informações socioeconômicas da comu-
fabetos funcionais (Brasil, 2003). Esses da-
nidade dos, além de mostrarem que parte dos
· Emprego jovens não freqüenta a escola, ficando na
· Renda familiar ociosidade, se refletem na perspectiva de

44
GESTÃO DE POLÍCIA COMUNITÁRIA E SEGURANÇA COMUNITÁRIA

se conseguir um bom emprego, restando- · Deficiência de aprendizado


lhe a informalidade e o convite para ativi- · Exclusão da escola
dades criminosas. Fonte: DANTAS, Marcus · Violência doméstica
Leal. Segurança preventiva: conduta inte-
· Poucas oportunidades de emprego e
ligente do cidadão.
exclusão econômica
· Cultura da violência
o. Cenário Brasileiro (3)
· Superlotação de presídios
· Fatores que estimulam a violência: · Inexistência de adequada política de
· Pobreza relativa e moradia inadequada drogas
· Apoio familiar inconsistente
Fonte: Projeto Segurança Pública para o Brasil.

p. Miseráveis

Fonte: Mapa do fim da fome. Ranking dos Municípios pela Proporção de Miseráveis (P0).Pernambuco - Medidas de Miséria - Linha de R$ 79* - FGV

q. Quais os principais fatores s. Compreendendo a comunidade (1)


socioeconômicos da sua comunidade?
· Como é a relação das pessoas na sua co-
munidade?
r. Etapa 2 - oficinas com a
comunidade · Como estão os serviços de:
· Água e esgoto
· Compreender a comunidade · Pavimentação
· Envolver a comunidade na resolução de · Iluminação pública
seus problemas · Comunicações
· Transporte urbano
· Identificar conflitos de proximidade
· Como está a sua comunidade em relação
· Identificar variáveis que interferem na se- à segurança pública?
gurança da comunidade
· Qual a sensação de segurança das pesso-

45
HUMBERTO VIANNA

as da sua comunidade? e criminalidade na sua comunidade?


A sensação de segurança é um estado de · E para diminuir?
situação harmônica em que a pessoa se
sente em relação a si e ao meio em que · Você reconhece que os fatores abaixo são
vive, sem receio de sair de seu local para variáveis internas?
realizar algo (DANTAS, 2003).
· Estrutura familiar;
· Pobreza, moradia, analfabetismo, edu-
t. Compreendendo a comunidade (2) cação;
· Você confia na polícia? Por quê? · Infra-estrutura de serviços públicos
básicos como água, esgoto, pavimen-
· Você já foi vítima de algum delito na co- tação e transporte.
munidade? Qual?
x. Variáveis externas
· Você acredita em condutas preventivas?
· Que fatores externos à sua comunidade
O condicionamento de condutas inteligen- você identifica que interferem diretamen-
tes, resultante da experiência do cotidia- te para aumentar a vitimização e crimina-
no do cidadão e da auto-reflexão é a prin-
lidade na sua comunidade?
cipal conduta de prevenção da sociedade
contra a vitimização (DANTAS, 2003). · E para diminuir?

u. Identificando conflitos de · Você reconhece que os fatores abaixo são


proximidade variáveis externas?
· Tipo de emprego disponível e critéri-
· São pequenos conflitos envolvendo pes- os para empregabilidade na região (Es-
soas amigas, parentes, vizinhos, etc. tado, Município) e circunvizinhança
· Geralmente não são resolvidos; (comunidades próximas);
· A imagem da comunidade como um
· Têm por conseqüência vítimas de agres- local ideal para atividades criminosas;
são e homicídio.
· Áreas vizinhas de comércio e concen-
Você reconhece a existência de conflitos de tração de riqueza;
proximidade na sua comunidade? Quais? · Eventos sazonais como festas populares.

v. Identificando variáveis y. Qual a importância da sua


participação no diagnóstico
· Variáveis são os fatores internos (endóge-
comunitário?
nos) ou externos (exógenos) que podem
interferir para aumentar ou para diminuir
a vitimização e a violência na comunidade; z. Considerando o cenário
apresentado, quais as principais ações
· As internas dizem respeito às peculiares de prevenção à vitimização e
da comunidade; criminalidade na sua comunidade??
· As externas não são peculiares à comunidade.
III. AÇÕES COMUNITÁRIAS PARA
PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA
w. Variáveis internas
· Que fatores você identifica que interferem a. Definindo ações comunitárias para
diretamente para aumentar a vitimização a prevenção da violência

46
GESTÃO DE POLÍCIA COMUNITÁRIA E SEGURANÇA COMUNITÁRIA

b. Reduzindo fatores condicionantes e. Como ajudar!


· Desemprego · Desemprego
· Moradia · Organizando cooperativas
· Pobreza · Promovendo cursos técnicos
· Impunidade · Organizando mutirões
· Empreendedorismo
· Corrupção
· Educação · Moradia
· Saúde · Financiamentos
· Fome · Mutirões
· Entes políticos
· Alcoolismo
· Iluminação pública · Pobreza
· Doenças mentais · Educação
· Emprego
· Crianças e adolescentes em situação de
risco · Impunidade e corrução
· Acesso precário à Justiça · Juntar provas
· Apatia · Denunciar
· Controle de inquéritos concluídos
c. Controlando as circunstâncias do · Controle de criminosos denunciados
crime · Controle de acusados condenados
· Controle de condenados ressocializa-
· Embriaguez dos e fugitivos
· Aglomeração · Saúde
· Crimes de menor potencial e contraven- · Formar agentes de saúde
ções · Prevenção é o melhor remédio
· Conflitos de proximidade
· Acionando a polícia · Fome
· Orientando as potenciais vítimas · Organizar sopões
· Coletar sobras de alimentos de mer-
cados
d. Integrando-se à polícia
· Alcoolismo
· Assessorando na alocação do policiamen-
to fardado em relação aos locais de risco · Encaminhar ao AA ou hospitais
· Promover sessões de psicoterapia
· Colaborando com a polícia com informa-
ções sobre criminosos · Apatia
· Promover esportes
· Ajudando a polícia em perseguições · Promover Artes e Música
· Promovendo ou participando de encon- · Educação
tros, visitas, reuniões, palestras e confra-
· Aulas de reforço
ternizações com comandantes da área
· Participar dos projetos pedagógicos
· Reportando fatos criminoso nas delegaci-
· Iluminação pública
as
· Contatar os órgãos responsáveis

47
HUMBERTO VIANNA

· Doentes mentais · Criar patrulhas éticas de advertências


· Encaminhar aos hospitais competen- · Pessoas idôneas e que inspirem res-
tes peito na comunidade, incluindo jovens,
desarmados, que coíbam atos poten-
· Crianças e adolescentes em situação de cialmente criminosos, podendo até
risco mesmo ser acompanhados por polici-
· Não encobrir atos criminosos ais ou contratados pela polícia
· Informar e orientar os pais sobre a
situação dos filhos · Assessorando na alocação do policiamen-
· Promover palestras que enfoquem a to fardado em relação aos locais de risco
necessidade de uma formação moral · Em reuniões prévias informar sobre
e ética locais potencialmente perigosos
· Educação, esportes, artes e música
· Criando patrulhas éticas · Colaborando com a polícia com informa-
· Criando tribunais éticos ções sobre criminosos
· Organizar creches · Utilizar-se de informantes
· Não permitir o fornecimento de bebi- · Utilizar-se do disque-denúncia
das alcoólicas · Utilizar-se de ligações anônimas
· Coibir a prostituição infantil · Fornecendo fotografias

· Acesso precário à Justiça · Ajudar a polícia em perseguições


· Criação de tribunais arbitrais · Indicar onde se encontra ou para onde
· Organização de bancas de advogados se dirigiu o criminoso perseguido, pre-
servando sua identidade
f. Como fazer!
· Promover encontros, visitas, reuniões,
· Embriaguez palestras e confraternizações com coman-
· Conduzir a vítima a sua residência dantes da área
· Promover seu desarmamento · Com o objetivo de diminuir a violência
· Aglomeração · Reportar o fato criminoso nas delegacias
· Solicitar policiamento com antecedên- · Importante para o diagnóstico criminal
cia
· Promover o desarmamento
· Coibir o excesso de bebidas alcoólicas
· Coibir crimes de menor potencial e con-
travenções
· Não tolerar, principalmente entre os
mais jovens, pequenas infrações
· Conflitos de proximidade
· Agir com rapidez para acalmar os âni-
mos e desarmar quem armado esteja
· Acionar a polícia rapidamente
· Orientar as potenciais vítimas
· Informar do modo de agir dos crimi-
nosos

48
P PRESERVAÇÃO
DO LOCAL DO CRIME

MARCELO BARROS CORREIA

49
MARCELO BARROS CORREIA é Delegado de Polícia, com
especialização em Ciência Política, e Presidente da ONG Dele-
gados pela Cidadania.

50
Preservação
do Local
do Crime
MARCELO BARROS CORREIA

Presenciamos todos os dias uma triste cena serem mais desfavorecidos em seus direi-
urbana: programas e jornais policialescos tos.
exploram a tragédia daqueles que perde-
Especula-se que haja também um padrão
ram seus entes mais próximos. A quantida-
de criminosos: grupos de extermínio e tra-
de de casos diários revela que as grandes
ficantes locais.
capitais, sozinhas, conseguem superar o
número de mortos em guerras civis ou Havendo um padrão, não há possibilidade
mesmo entre nações. de ações preventivas? Certamente, mas tais
Embora a tendência seja a da banalização, ações dependem de decisão política. Tais
ou de nos acostumarmos com tal absurdo, decisões dependem de diagnóstico da situ-
diante da freqüência com que ocorre, não ação, estratégia de ação, planejamento e
podemos nos esquecer jamais que isso re- execução da ação e avaliação do que foi fei-
presenta uma anormalidade para qualquer to e quais os resultados alcançados. Isso
país ou região minimamente civilizados. demanda esforço, tempo, dinheiro e com-
promisso do governante. Como muitas co-
Mas há outros fatos que nos chamam a aten- munidades da periferia não são organizadas
ção. Os pesquisadores apontam para um para gritar por soluções, os governantes se
padrão entre as vítimas: os crimes, em ge- dedicam a outras prioridades e o problema
ral, acontecem na periferia, a vítima é po- persiste.
bre e de cor parda ou negra. Por que isso
acontece principalmente com esses grupos? Existe ainda um outro problema que se cha-
Porque eles vivem em áreas com pouco ou ma impunidade. O trabalho da Polícia e da
nenhum policiamento, favorecendo a atua- Justiça consiste em garantir que quem co-
ção livre de grupos criminosos que impõem meteu um crime seja punido. Quando isso
suas leis; porque miséria está estreitamen- não ocorre, acredita-se que as pessoas se
te ligada ao fornecimento de mão-de-obra sentem mais seguras para voltar a cometê-
para os grupos criminosos; porque a polí- lo, e isso contribui para o aumento da cri-
cia prefere atuar contra esses grupos por minalidade.

51
MARCELO B ARROS CORREIA

É verdade que os mortos, na maioria, são ação da polícia).


bandidos? Não importa se quem morreu é
bandido ou não, pois vimos anteriormente Qual o impacto dos programas policiais so-
que mortes não esclarecidas concorrem bre a criminalidade? Em geral, eles não dis-
para a impunidade e, conseqüentemente, cutem criticamente a atuação dos organis-
para o aumento da violência. Muitas vezes mos estatais e, tampouco, os caminhos para
o argumento é utilizado como uma descul- sairmos dessa crise. Buscam, tão-somente,
pa para a falta de investigação por parte da explorar a tragédia de terceiros para obter
polícia. Além do mais, até o momento, não altos índices de audiência, além de contri-
há dados científicos que possam apontar, buir para o aumento do clima de insegu-
entre os mortos, quais são criminosos ou rança, utilizando-se de sensacionalismo ao
quais são inocentes. trabalhar nessas matérias.

O que fazer quando o criminoso é um poli- Como a população pode contribuir para
cial? O principal órgão de fiscalização da reverter esse lamentável quadro?
polícia chama-se Corregedoria de Polícia (é Comecemos pelo que mais nos interessa
a polícia fiscalizando a polícia). Mas há ou- neste momento: “a preservação do local de
tros caminhos: a Ouvidoria de Polícia (que crime”.
recebe reclamações sobre o serviço polici-
al); o Ministério Público (cujos Promotores Quando há um homicídio em seu bairro
de Justiça têm obrigação de fiscalizar a atu- (responda marcando verdadeiro ou falso):

A polícia leva mais de uma hora para chegar ao local ( )V ( )F


Os vizinhos colocam lençol e vela sobre a vítima ( )V ( )F
As crianças correm para ver quem morreu ( )V ( )F
As crianças brincam com objetos encontrados no local ( )V ( )F
As crianças disputam para ver quem vai sair na TV ( )V ( )F
Os policiais militares ou civis não isolam o local ( )V ( )F
Os policiais manuseiam o corpo da vítima antes dos peritos ( )V ( )F
Os policiais não utilizam luvas ( )V ( )F
Os peritos também não isolam corretamente ( )V ( )F
Os peritos não recolhem objetos ou impressões digitais ( )V ( )F

52
PRESERVAÇÃO DO LOCAL DO CRIME

Com três opções verdadeiras já há uma boa


chance de o local se tornar imprestável para
uma boa investigação.
Como mudar essa situação?

Vamos recapitular o que já vimos?


· Ao tomar ciência de um homicídio em seu
bairro, escolha um local seguro (em casa,
reservadamente), ligue imediatamente
para o 190 e informe o ocorrido, bem
como o local onde se encontra a vítima.
· Recolha os filhos que estiverem na rua e
não deixe sair os que estiverem em casa.
· Não chegue a menos de 10 metros da víti-
ma ou de onde ela tenha estado, pois é
provável que haja objetos e informações
de interesse da polícia (portanto, nada de
lençol ou velas).
· Caso saiba de informações importantes
sobre o crime, reservadamente (em casa
ou de um orelhão de outro bairro ou lo-
calidade), ligue para o Disque-denúncia –
3421.9595 – e passe as informações sem
receio, pois esse serviço garante o anoni-
mato.

53
54
R RELAÇÕES
INTERPESSOAIS
E MEDIAÇÃO
DE CONFLITOS

CARLOS EDUARDO DE VASCONCELOS

55
CARLOS EDUARDO DE VASCONCELOS é Mestre em Di-
reito das Relações Sociais pela PUC/SP. Gerente de Prevenção
e Mediação de Conflitos da Secretaria Estadual de Justiça e Di-
reitos Humanos. Capacitado em Negociação pela FGV e em
Mediação pelo Centro de Mediação e Arbitragem de
Pernambuco – CEMAPE.

56
Relações
Interpessoais
e Mediação
de Conflitos
CARLOS EDUARDO DE VASCONCELOS

O que é conflito? No mundo atual, cheio de tantas novidades


e mudanças, a capacidade mais importante
Conflito é um fenômeno próprio das rela- para se dar bem na vida - além da respon-
ções humanas. Eles acontecem por causa sabilidade social, da educação e de uma pro-
de posições divergentes em relação a algum fissão - é a capacidade de resolver confli-
comportamento, necessidade ou interesse tos. O conflito pode ser resolvido com
comum. As incompreensões, as insatisfa- ganhos para todas as partes envolvidas.
ções de interesses ou necessidades costu-
mam gerar conflitos. A capacidade de resolver conflitos depen-
de da nossa comunicação, do nosso jeito de
O conflito não é ruim em si mesmo. Ele pode tratar as pessoas. Quando adotamos uma
ser aproveitado como oportunidade para a comunicação positiva, as nossas discussões,
solução de problemas que estavam sendo os nossos conflitos deixam de ser um pro-
“varridos para debaixo da cama”. O proble- blema policial.
ma é que, quando as pessoas não estão pre-
paradas para lidar com os conflitos, estes po- Nem sempre é possível resolver um confli-
dem ser transformados em confronto, vio- to diretamente negociando com a outra
lência. Todos nós queremos ser tratados com parte. Há pessoas de “sangue quente”, que
respeito e igualdade. Mas as pessoas andam rompem relações ou revidam, dificultando
muito impacientes e agressivas. ou impedindo um entendimento direto.
Talvez por causa da instabilidade no empre- Daí porque, muitas vezes, é necessário con-
go, ou do desemprego, ou porque são mui- tar com o apoio de uma terceira pessoa,
tas e muito rápidas as mudanças na vida um facilitador ou um mediador, para recu-
moderna, ou porque são muitas as injusti- perar o diálogo e o entendimento.
ças e necessidades insatisfeitas, esses pro-
blemas são percebidos como ameaças. Quais são os elementos do Conflito?
A família é a principal caixa de ressonância O conflito é composto de três elementos:
desses problemas.

57
CARLOS EDUARDO DE VASCONCELOS

1. A pessoa: é o ser humano, com seus um comportamento que sirva de exemplo


sentimentos e crenças. à comunidade. Ele deve ajudar a construir
relações justas e pacíficas em sua comuni-
2. O problema: são as necessidades e in- dade.
teresses contrariados.
3. O processo: são as formas e os proce- Como devem ser a comunicação e o
dimentos usados para solucionar o confli- relacionamento?
to, que podem ser adversariais ou não.
Os mediadores e facilitadores são treina-
dos em comunicação positiva e relaciona-
O que são procedimentos não mento construtivo. A comunicação positi-
adversariais de solução de conflitos? va e o relacionamento construtivo aperfei-
Procedimentos não adversariais de solução çoam as relações interpessoais mediante a
de conflitos são aqueles em que as partes adoção de uma linguagem de paz, baseada
não são colocadas como adversárias, mas em princípios.
como co-responsáveis na busca de uma so-
lução. A facilitação, a mediação e a concilia- Para uma comunicação positiva:
ção são três procedimentos não adversariais
de solução de conflitos. 1º. Adote a Escuta Ativa, ou seja, apren-
da que as pessoas precisam dizer o que
sentem. A melhor comunicação é aquela
O que é mediação? que reconhece a necessidade de o outro
Mediação é um procedimento simples em se expressar. Em vez de conselhos e ser-
que duas ou mais pessoas, com o apoio de mões, escute, sempre, com toda atenção
mediador devidamente capacitado e livre- o que está sendo falado e sentido pelo
mente aceito, expõem o problema, procu- outro. Somente pessoas que se sentem
ram identificar os interesses comuns e bus- verdadeiramente escutadas estarão dis-
cam alternativas para a solução do conflito. postas a lhe escutar.

A pessoa que atua como mediadora deve 2º. Construa a empatia. Receba o outro
ser capacitada, independente e imparcial. gentilmente. Deixe-o à vontade. Para tan-
to, procure libertar-se dos preconceitos,
O papel do mediador é o de auxiliar as par- dos estereótipos. Preconceitos e estere-
tes a se comunicarem de modo positivo, ótipos são autoritários e geram antipatia.
identificando os seus interesses e necessi- Pessoas que aprendem a respeitar as di-
dades comuns, para a construção de um ferenças são capazes de se libertar dos
acordo. preconceitos e estereótipos. O precon-
Os mediadores comunitários devem con- ceituoso se apega às suas “verdades” e
tar com o apoio de facilitadores de media- condena o que é diferente. A empatia se
ção. O papel do facilitador é parecido com estabelece entre pessoas que se vêem, se
o do mediador, mas o facilitador atua em aceitam e se respeitam como seres hu-
sua própria comunidade, na fase de pré- manos, com todas as suas diferenças.
mediação, preparando as partes para uma 3º. Aprenda a perguntar. Em vez de acu-
futura mediação ou até mesmo ajudando- sar, pergunte. Perguntar esclarece, sem
as, em casos mais simples, a chegarem a um ofender. A pergunta lhe protege contra a
acordo antecipado. pressa em julgar o outro. Através da per-
Portanto, o facilitador comunitário deve ter gunta você ajuda a outra pessoa a enten-

58
RELAÇÕES INTERPESSOAIS E MEDIAÇÃO DE CONFLITOS

der melhor o seu próprio problema. As Para um relacionamento construtivo:


perguntas podem ser fechadas, quando se
busca uma resposta do tipo sim ou não. 1º. Separe o problema pessoal do pro-
Podem ser dirigidas, quando se quer o es- blema material. Quando o conflito for
clarecimento de um detalhe do problema. pessoal e, ao mesmo tempo, material,
Ou podem ser abertas, para um esclare- aprenda a separar o problema pessoal do
cimento pleno do assunto. problema material. Primeiro, enfoque o pro-
blema pessoal (a relação propriamente dita).
4º. Estabeleça a igualdade na comuni- Somente após restaurar a relação, as partes
cação. Fale claramente, mas respeite o estarão aptas a cuidar do problema materi-
igual direito do outro de falar. Após escu- al (os bens e os direitos envolvidos).
tar ativamente o que o outro tem a dizer,
estabeleça uma comunicação em que am- 2º. Passe para o outro lado. Diante do con-
bos respeitam o direito do outro de se flito esteja consciente de que nós, humanos,
expressar. Adote, pois, uma comunicação percebemos os fatos do mundo de modo
de mão dupla. Pessoas que fa- incompleto e imperfeito. Isso
lam e falam sem perceber que porque a mente humana tende a
o outro não está mais a fim de optar e fixar uma posição. Pro-
ouvir comunicam-se negativa- Estabeleça cure sair da sua posição e se co-
mente. a igualdade loque no lugar do outro para per-
na ceber as razões pelo outro lado.
5º. Adote a Linguagem “Eu”. Isso ajudará a descobrir o interes-
Quando fizer alguma crítica
comunicação se comum a ser protegido.
sobre o comportamento de
alguém use a primeira pessoa: 3º. Não reaja. Ao sofrer uma
Exemplo: “em minha opinião isto pode- acusação injusta, não reaja. Dê um tempo
ria ter sido feito de outra forma. O que e repita o que o outro disse, pedindo para
você acha?” Essa forma de comunicação ele explicar melhor. Quem reage se es-
evita que você fale pelo outro. Nunca se craviza ao comportamento alheio. Quem
deve dizer “você não devia ter feito isso reage cede, revida ou rompe, sempre em
ou aquilo”. Fale por você, nunca pelo ou- função do que o outro fez ou disse. Pro-
tro. Diga: “eu penso que isto deveria ter teja-se contra a reação reformulando.
sido feito da seguinte forma...”. A lingua- Quem reformula sai do jogo da reação e
gem “eu” evita que a outra pessoa se sin- recria a comunicação. Reformula-se, pa-
ta julgada por você. rafraseando ou perguntando. Parafrasear
é repetir o que o outro disse com as suas
6º. Seja claro no que diz. Comunicação próprias palavras. Exemplo: entendi que
positiva não é bajulação. Ser claro é ser você disse que eu era um mentiroso; foi
assertivo. Dizer sim ou dizer não com to- isto mesmo o que você disse? Também se
das as letras. Com gentileza deve-se di- reformula perguntando. Exemplo: “e se
zer não ao comportamento imoral, ilegal o problema...” ou “você não acha que...”.
ou injusto. Quem não sabe dizer não tam- Ao reformular você cria oportunidades
bém não sabe dizer sim. O “bonzinho” para que a outra parte volte a praticar uma
não é confiável. Ele quer ser agradável comunicação mais adequada.
para levar vantagem em tudo. Comunica-
ção positiva se baseia em princípios éti- 4º. Nunca ameace. A ameaça é um jogo
cos e não no desejo de simplesmente agra- de poder. Ao ameaçar você está obrigan-
dar o outro. do a outra parte a provar que é mais po-

59
CARLOS EDUARDO DE VASCONCELOS

deroso do que você. Em vez de uma so- A mediação comunitária também pode ser
lução de ganhos mútuos (ganha-ganha), utilizada, especialmente pelos Juizados Es-
passa-se a um jogo de ganha-perde ou de peciais Criminais, como elemento de apoio
perde-perde. Vai-se do conflito ao con- à vítima e à comunidade, na busca de uma
fronto e, até mesmo, à violência. Às ve- reparação que tenha o potencial de restau-
zes cabe advertir a outra pessoa para os rar a relação com o ofensor. Essas media-
riscos que ela está correndo, com base ções penais comunitárias devem contar com
em dados de realidade. Mas nunca em tom a assistência da Defensoria Pública e do
de ameaça. Ministério Público.
Elas são especialmente úteis nos casos em
Quais são as vantagens da mediação que cabe transação penal, antes do julga-
sobre outras formas de solução de mento. Também se recomenda para a fase
conflitos? de execução referente a infrações de baixo
· Na mediação as partes escolhem ou acei- e médio potencial ofensivo, quando, em vez
tam, livremente, o mediador; da reclusão, o juiz pode estabelecer medi-
das alternativas, permanecendo o apenado
· Nas reuniões de mediação o mediador e na comunidade (Lei nº 9.099/95).
as partes se relacionam com respeito e igual-
dade; Exemplos:

· O que é discutido durante a mediação é · Acidentes de trânsito;


sigiloso e não pode ser utilizado para qual-
quer outro objetivo; · Violência doméstica;

· A simplicidade torna a mediação rápida; · Abuso de autoridade;

· Na mediação as pessoas se comunicam po- · Lesão corporal leve;


sitivamente e elas próprias chegam à solu- · Ameaça;
ção, com o apoio do mediador;
· Injúria, calúnia, difamação;
· Através da mediação, obtém-se acordos
de ganhos mútuos, permitindo refazer ami- · Estelionato;
zades e parcerias.
· Furto;
Quais os conflitos que podem ser · Outras infrações em que a pena privativa
resolvidos pela mediação? de liberdade não seria superior a 4 anos.

· Conflitos de gênero; A mediação tem várias etapas?


· Conflitos de propriedade e posse; Sim. Nós costumamos dividir a mediação
· Conflitos de vizinhança; em seis etapas. Antes da primeira etapa da
mediação é feita a pré-mediação.
· Conflitos de relações de consumo;
· Conflitos familiares; Como se faz a pré-mediação?

· Conflitos raciais. Pré-mediação: Alguém procura pela medi-


ação e é recebido por um facilitador (ou por
Mediação também pode ser utilizada um mediador).
no campo criminal?

60
RELAÇÕES INTERPESSOAIS E MEDIAÇÃO DE CONFLITOS

Estão sendo criados Espaços de Mediação · Agradece a presença das partes e destaca
Comunitária nas comunidades, onde os fa- o acerto da opção;
cilitadores atendem as pessoas que neces-
sitam de apoio. Ao receber a parte · Declara a sua independência e imparciali-
solicitante, o facilitador deve criar um clima dade;
de confiança. Atende gentilmente e faz a · Explica as regras da mediação;
entrevista de pré-mediação, verificando se
o caso comporta mediação. · Esclarece a importância do sigilo;

Na entrevista de pré-mediação o facilitador · Solicita o mútuo respeito;


deve, antes de tudo, ouvir, atentamente, o · Esclarece sobre a possibilidade de entre-
que a parte solicitante tem a narrar, formu- vistas a sós (caucus);
lando as perguntas necessárias a esclarecer
detalhes do conflito. Muitas vezes a narrati- · Deixa claro que o acordo vai depender das
va abre caminho para uma solução mais sim- próprias partes;
ples, sem necessidade de mediação.
· Colhe as assinaturas no Compromisso de
Caso caiba mediação, o facilitador explica o Mediação e Sigilo;
que é e como se faz. Em seguida combina
· Assina a Declaração de Independência.
como será efetuado o convite à parte soli-
citada (contato pessoal, telefonema, carta-
convite ou etc); Segunda etapa: as partes expõem o
problema:
Caso a parte solicitada compareça o
facilitador a recebe com a mesma gentileza · Esta segunda etapa se inicia com a solicitação
e imparcialidade, escuta ativamente, efetua do mediador para que cada uma das partes
a entrevista de pré-mediação e explica o que narre o problema trazido à mediação.
é mediação. · Iniciada a narração o mediador deve rela-
Ninguém está obrigado a aceitar a media- xar e prestar atenção.
ção. Caso as partes aceitem, cabe ao · Convém estar na posse de algum livro ou
facilitador ajudá-las na escolha do mediador. caderno de anotações.
Deve, então, telefonar para
· Deve anotar apenas o essencial.
81 – 3303.3320 ou 3303.3321
· O mediador também deve estar atento aos
e agendar dia e hora com um mediador in- seus sentimentos, tendo o cuidado de não
tegrante de Quadro de Mediadores Comu- estabelecer julgamentos precipitados.
nitários da Secretaria Estadual de Justiça e
Direitos Humanos. · Não se recomenda interromper a parte
em suas primeiras intervenções.
As seis etapas da mediação: · Quando a parte tiver dificuldades, deve o
mediador estimulá-la com perguntas;
Primeira etapa: apresentação e
recomendações · Caso a parte que está na vez de escutar
interfira prejudicando a continuidade da
· Nesta primeira etapa o mediador apresen- fala do outro, o mediador deve
ta as partes e se apresenta de modo interrompê-la e esclarecer.
descontraído;
· O mediador pergunta se há, ainda, alguma

61
CARLOS EDUARDO DE VASCONCELOS

coisa a acrescentar. Em não havendo mais Nesta quinta etapa são procuradas as op-
o que expor, conclui-se esta etapa. ções, as alternativas para a solução do pro-
blema. O mediador pode até mesmo utili-
Terceira etapa: resumo do zar cartazes para que sejam anotadas alter-
acontecido: nativas (brain storm).

· A terceira etapa se inicia no momento em Exemplo: uma casa pertencente em comum


que o mediador expõe um resumo do que a duas pessoas pode ser vendida, alugada a
escutou. E pedirá às partes que corrijam, terceiros, alugada a uma delas, convertida
prontamente, alguma inexatidão ou omis- em ponto comercial, permutada por outras,
são. demolida para fazer estacionamento, ficar
com uma das partes, passar para o nome
· O objetivo do resumo é juntar as duas dos filhos, etc.
exposições numa só. A partir do resumo
elas podem despertar para outras parti- As opções válidas devem estar baseadas em
cularidades do conflito. dados de realidade. Os dados de realidade
ou critérios objetivos devem ser, então,
· Neste momento a etapa está concluída. devidamente examinados.

Quarta etapa: identificação dos reais Dados de realidade (ou critérios objetivos)
interesses: permitem saber quais são os valores eco-
nômicos, morais e jurídicos a serem consi-
· Concluído o resumo o solicitante e o soli- derados para solucionar o impasse.
citado estão mais receptivos ao proble-
ma da outra parte. Começam a se desa- Ao se chegar a um consenso sobre a solu-
pegar das posições rígidas do início da ção do conflito conclui-se mais uma etapa.
mediação.
Sexta etapa: acordo
· Neste momento o mediador fará pergun-
tas que levem as partes a identificarem os Nesta etapa final, redige-se e assina-se o
seus reais interesses; acordo.

· Sempre que houver a possibilidade de O acordo é assinado pelas partes, assesso-


acordos parciais o mediador deverá res presentes e, em determinados países, a
incentivá-los. Os acordos parciais podem exemplo do Brasil, também por duas teste-
aumentar a confiança no procedimento; munhas, para que tenha força de título exe-
cutivo extrajudicial.
· Se o mediador constatar que o processo
não está avançando, pode sugerir entre- · Nada impede que os advogados, em com-
vistas em separado (caucus); binação com as partes, aditem ou mesmo
redijam com palavras mais técnicas o acor-
Quinta etapa: opções com critérios do obtido.
objetivos: · Ao final, o mediador deve agradecer e para-
Às vezes as partes tendem a retornar à ter- benizar as partes pelo resultado alcançado.
ceira ou à quarta etapa, repetidamente. O
mediador deve estar atento para observar Como deve se comportar o
se esse retorno é realmente necessário ou mediador?
é mera falta de clareza. · O mediador deve colocar em prática os

62
RELAÇÕES INTERPESSOAIS E MEDIAÇÃO DE CONFLITOS

seus conhecimentos sobre comunicação em princípios (valores universais), com res-


positiva e relação construtiva (relaciona- peito às diferenças.
mento).
· O mediador deve estar vestido decente- Princípios específicos da mediação:
mente e optar por uma mesa redonda ou · Independência (o facilitador de media-
ambiente onde não fique em posição de ção e o mediador não devem ser paren-
superioridade. tes, dependentes, empregadores ou ami-
· Deve ter senso de humor e conhecer as gos íntimos de alguma das partes).
suas próprias fragilidades. · Imparcialidade (as partes devem ser tra-
· Caso possível e ao gosto das partes, pode tadas com igualdade).
utilizar fundo musical relaxante. · Credibilidade (o facilitador de mediação
· O mediador não precisa ter nível superi- e o mediador devem dar o bom exemplo
or. Precisa, sim, ser de confi- para merecerem a confiança).
ança, competente, indepen- · Competência (o facilitador de
dente e imparcial. Profissio- mediação e o mediador devem
nais de psicologia, serviço so- as partes ter a capacitação necessária
cial e direito costumam ser os devem ser para atuar naquele tipo de con-
mais solicitados. flito).
tratadas com
O facilitador e o mediador de- igualdade · Confidencialidade (o facilita-
vem ter perfil cooperativo. Os dor de mediação, o mediador e
quatro perfis: as partes devem guardar sigilo
· Perfil competitivo: quando a preocupa- a respeito do que for revelado durante a
ção com os interesses e necessidades do mediação).
outro é baixa e é alta a preocupação com · Diligência (o facilitador de mediação e o
os seus próprios interesses e necessida- mediador devem realizar as suas tarefas
des; com o máximo de dedicação).
· Perfil acomodado: quando a preocupa- A Mediação baseia-se em duas culturas
ção com os interesses e necessidades do complementares. A cultura da paz e a cul-
outro é alta e é baixa a preocupação com tura da cidadania responsável.
seus próprios interesses e necessidades;
A cultura da paz baseia-se no elemento
· Perfil evitativo: quando é baixa a preo- afetivo da ética. Funda-se no vigor e na ter-
cupação com os interesses e necessida- nura do comportamento generoso.
des em geral;
A cultura da cidadania responsável pres-
· Perfil cooperativo: quando tanto a pre- supõe compromisso com a estabilidade, a
ocupação com os seus interesses e neces- liberdade e a igualdade na convivência so-
sidades quanto a preocupação com os in- cial.
teresses e necessidades do outro é alta.
Os mediadores comunitários estão vincu-
Qual é a ética que norteia a lados ao Código de Ética recomendado pelo
mediação? Conselho Nacional das Instituições de Me-
diação e Arbitragem – CONIMA
A ética em mediação de conflitos é baseada (www.conima.org.br).

63
CARLOS EDUARDO DE VASCONCELOS

Como obter a mediação comunitária?


A pessoa que desejar resolver algum confli-
to através de mediação deve procurar o “Es-
paço de Mediação Comunitária” mais pró-
ximo ou telefonar diretamente para o Nú-
cleo de Mediação Comunitária da Secreta-
ria Estadual de Justiça e Direitos Humanos
(81 – 3303.3320 ou 3303.3321). A media-
ção comunitária é gratuita.

64
R REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS

65
66
CURSO DE FORMAÇÃO DE AGENTES SOCIAIS PARA A PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA, PROMOÇÃO E GARANTIA DOS DIREITOS HUMANOS

Referências
Bibliográficas
ÁVILA, Eliedite Mattos. Mediação familiar: formação de base. Florianópolis: Divisão de Artes Gráficas do
TJSC, 2001. 59 p.

AZAMBUJA, Darcy. Teoria Geral do Estado. 30. ed. São Paulo: Globo. 1993.

BASTOS, Celso Ribeiro. Curso de teoria e ciência política. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 1999.

BOBBIO, Norberto. A era dos Direitos. Trad. Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Ed. Campos, 1992.
p. 24.

BOBBIO, Norberto. Elogio da serenidade. São Paulo: Unesp, 2002. 208 p.

BONAVIDES, Paulo. Ciência política. 10. ed. São Paulo: Malheiros. 2002.

BRASIL. Ministério da Justiça. Projeto segurança pública para o Brasil. Disponível em:
<http://www.mj.gov.br>.

CARNOY, Martin. Para onde vão as teorias do Estado? Estado e teoria política – Texto da apostila do CAO
1997, da disciplina de Ciência Política. Professor Joanildo A. Burity. p. 311-330.

CARVALHAL, Eugenio do. Negociação – Fortalecendo o Processo: como construir relações de longo prazo.
2. ed. Rio de Janeiro: Vision, 2001. 160p.

COMPARATO, Fábio K. A afirmação histórica dos direitos humanos. São Paulo: Saraiva, 2003.

CONSELHO FEDERAL DA OAB. 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos: conquistas e
desafios, 1998.

CONSELHO NACIONAL DAS INSTITUIÇÕES DE MEDIAÇÃO E ARBITRAGEM – CONIMA. Disponí-


vel em: <http://www.conima.org.br>.

CONVENÇÃO SOBRE OS DIREITOS DA CRIANÇA (adotada pela Resolução da Assembléia Geral das
Nações Unidas, em 20 de novembro de 1989 e ratificada pelo Brasil em 20 de setembro de 1990. (Aces-
so: site da DPCA)

CRIADO, Alex (Coord.). Guia de Direitos humanos: fontes para jornalistas. São Paulo: Cortez, 2003.

67
CURSO DE FORMAÇÃO DE AGENTES SOCIAIS PARA A PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA, PROMOÇÃO E GARANTIA DOS DIREITOS HUMANOS

DANTAS, Marcus Leal. Segurança preventiva: conduta inteligente do cidadão. Recife: Nossa Livraria, 2003.

DE VITO, Renato Campos Pinto (Org.). Justiça restaurativa. Brasília: Secretaria de Reforma do Judiciário,
2005. 478 p. (Coletânea de artigos)

ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE – ECA. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990.

FERRARI, Dalka C. A.; VECINA, Teresa C. C. (Orgs.). O fim do silêncio na violência familiar: teoria e
prática. São Paulo: Agora, 2002. 327 p.

FERREIRA NETO, A. Garcia S. Desenvolvimento comunitário: princípios para ação. 1. ed. Rio de Janeiro:
Bloch, 1987.

FISHER, Roger; URY, William; PATTON, Bruce. Como chegar ao sim. 2. ed. Rio de Janeiro: Imago. 1991.
214 p.

FURNISS, Tilman. Abuso sexual da criança: uma abordagem multidisciplinar. Porto Alegre: Artes Médicas,
1993.

GARCIA, Antônio; MOLINA, Pablos de; GOMES, Luís Flávio. Criminologia. São Paulo: Ed. Revista dos
Tribunais, 2002

GOFFREDO, Gustavo S. et alii. Direitos Humanos: um debate necessário. São Paulo: Brasiliense, 1989.

GOMES PINTO, Renato Sócrates. Justiça restaurativa: o paradigma do encontro. Porto Alegre: IAJ, 2004.

INSTITUTO LATINO-AMERICANO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A PREVENÇÃO DO DELITO E TRA-


TAMENTO DO DELINQÜENTE (ILANUD). Pesquisa de Vitimização 2002 e Avaliação do Plano de Pre-
venção da Violência Urbana – PIAPS. Disponível em: <http://www.ilanud.org.br>.

JAPIASSU, Hilton. Interdisciplinaridade e patologia do saber. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

JELLINECK apud BONAVIDES, Paulo. Ciência política. 10. ed. São Paulo: Malheiros, 2002. p. 67.

LAFER, Celso. A reconstrução dos direitos humanos. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

MORAES, Alexandre. Direitos humanos fundamentais. São Paulo: Atlas, 2003.

MOSCA, Juan José; AGUIRRE, Luis Pérez. Direitos humanos: pautas para uma educação libertadora.
Petrópolis: Vozes, 1990.

MUSZKAT, Malvina Ester (Org.). Mediação de conflitos: pacificando e prevenindo a violência. São Paulo:
Summus, 2003. 254 p.

OLIVEIRA, Ana Sofia Schmidt de. Das políticas de segurança pública às políticas públicas de segurança.
Brasília: ILANUD, 2002.

PINSKY, Jaime; PINSKY, Carla B. História da cidadania. São Paulo: Contexto, 2003.

PLANO METROPOLITANO DE DEFESA SOCIAL E PREVENÇÃO A VIOLÊNCIA - RMR. (Acrescentar


mais dados e conferir título)

RICOTTA, L. Quem grita perde a razão: a educação começa em casa e a violência também. 2. ed. São
Paulo: Agora, 2002. 123p.

ROBERT, Cinthia et alii. Direitos humanos, teoria e prática. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 1999.

68
CURSO DE FORMAÇÃO DE AGENTES SOCIAIS PARA A PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA, PROMOÇÃO E GARANTIA DOS DIREITOS HUMANOS

SAFFIOTI, H. I. B. “O estatuto teórico da violência de gênero”. In: SANTOS, T. J. V. (Org.). Violência em


tempo de globalização. São Paulo: Hucitec, 1999. p. 142-163.

SANTOS Jr., Belisário. Direitos humanos: um debate necessário. São Paulo: Brasiliense, 1988. v. 1.

SANTOS, M. de F. de S. “Representações sociais e violência doméstica”. In: RIQUE, C. (Coord.). Direitos


humanos na representação social dos policiais. Vitória: Bagaço, 2004.

TELLES, M. A. de A.; MELO, M. de. O que é violência contra a mulher. São Paulo: Brasiliense, 2002. 116 p.
(Coleção Primeiros Passos)

TROJANOWICZ, R.; BUCQUEROUX, B. Policiamento comunitário: como começar. 2. ed. Tradução de


Mina Seinfeld de Carakushansky. Rio de Janeiro: Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, 1994.

URY, William. Chegando à paz: resolvendo conflitos em casa, no trabalho e no dia-a-dia. Rio de Janeiro:
Campus, 2000. 222 p.

URY, William. Supere o não: negociando com pessoas difíceis. São Paulo: Best Seller, 2003, 151 p.

VASCONCELOS, Carlos Eduardo de. Guia de mediação comunitária. Recife: Secretaria de Justiça e Direi-
tos Humanos de Pernambuco, 2005. 40 p.

VEZZULA, Juan Carlos. Mediação: guia para usuários e profissionais. Florianópolis: Editora Gráfica Dominguez
& Dominguez Ltda., 2001. 82 p.

VEZZULA, Juan Carlos. Teoria e prática da mediação. Curitiba: Instituto de Mediação e Arbitragem do
Brasil, 1998. 84 p.

VILHENA, Oscar V. (Org.). Direitos humanos - Normativa Internacional. São Paulo: Max Limonad, 2001.

WANDERLEY, Waldo. “O processo de mediação”. Revista Resultado, Brasília: CACB, nº 10/11, 2005.

69
CURSO DE FORMAÇÃO DE AGENTES SOCIAIS PARA A PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA, PROMOÇÃO E GARANTIA DOS DIREITOS HUMANOS

Esta apostila foi concluída em janeiro de 2006


e impressa na Gráfica e Editora Liceu Ltda.
Utilizou-se a tipografia Humanist 521, corpo, 12, entrelinha 14.5.
Impressão do miolo em papel polen 90g e capa em papel cuchê 250g

Gráfica e Editora Liceu Ltda.


Tel: (81) 3423-8566
Rua Cap. Lima 173 - Santo Amaro - Recife - PE

70