O QUE FALAR QUER DIZER1

Pierre Bourdieu

Se o sociólogo tem um papel, este seria, antes de tudo, dar armas e não lições. Vim aqui para participar de uma reflexão e tentar dar aos que têm a experiência prática de um certo número de problemas pedagógicos, os instrumentos que a pesquisa propõe para interpretá-los e compreendê-los. Se, no entanto, meu discurso é decepcionante, e às vezes até mesmo deprimente, não é porque eu tenha qualquer prazer em desencorajar; ao contrário. É que o conhecimento das realidades leva ao realismo. Uma das tentações do ofício de sociólogo é aquilo que os próprios sociólogos chamaram de socioloqismo, isto é, a tentação de transformar as leis ou as regularidades históricas em leis eternas. Daí a dificuldade que há em comunicar os produtos da pesquisa sociológica. Temos que nos situar constantemente entre dois papéis: de um lado, o de desmancha-prazeres e do outro, o de cúmplice da utopia. Hoje, aqui, gostaria de tomar como ponto de partida de minha reflexão o questionário que alguns de vocês prepararam para esta reunião. Se tomei este ponto de partida, foi com a preocupação de dar a meu discurso um enraizamento tão concreto quanto possível e evitar (o que me parece uma das condições práticas de toda relação de comunicação verdadeira) que aquele que tem a palavra, que tem o monopólio real da palavra, imponha completamente o arbitrário de sua interrogação, o arbitrário de seus interesses. A consciência do arbitrário da imposição da palavra coloca-se cada vez com mais freqüência, hoje, tanto a quem tem o monopólio do discurso quanto aos que o sofrem. Por que em certas condições históricas, em certas situações sociais, ressentimo-nos com angústia ou mal estar, desta demonstração de força que está sempre implícita ao se tomar a palavra em situação de autoridade ou, se quisermos, em situação autorizada,
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Intervenção no Congresso da AFEF (Associação Francesa dos Docentes de Francês), Limoges, 30 de outubro de 1977, publicada em Le français aujourd'hui, março de 1978, n° 14 e suplemento.

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que é o espaço escolar. porque a questão do ensino se coloca ao ensino quando o ensino é questionado. é. nas fases que podemos chamar de orgânicas. com a linguagem? Este tipo de interrogação não surge em qualquer momento. para dissolver. Pareceme com efeito que a sócio-lingüística teria escapado mais rapidamente da abstração se tivesse considerado como lugar de reflexão e de constituição este espaço particular. a um estado da instituição escolar. ou seja. É porque o ensino está em crise que há uma interrogação crítica sobre o que é ensinar. Eu gostaria de tentar mostrar que a partir das questões concretas colocadas pelo uso escolar da linguagem. Uma das propriedades de um ensino que funciona bastante bem − ou bastante mal − é de estar seguro de si mesmo. o ensino não se interroga sobre si mesmo. isto é. por exemplo. 2 . de ter esta espécie de segurança (não é por acaso que se fala de "segurança" a propósito da linguagem) que resulta da certeza de não apenas ser escutado. Em tempos normais. As questões giram em torno das relações entre o escrito e o oral e poderiam ser formuladas da seguinte maneira: "o oral pode ser ensinado"? Esta questão é uma forma moderna de uma velha interrogação que já se encontrava em Platão: "A excelência pode ser ensinada?" É uma questão absolutamente central. certeza que é própria de toda linguagem de autoridade ou autorizada.sendo o modelo desta situação a situação pedagógica?' Assim. um estado da relação pedagógica. as classes sociais. pode-se colocar ao mesmo tempo as questões mais fundamentais da sociologia da linguagem (ou da sócio-lingüística) e da instituição escolar. mas compreendido. a meus próprios olhos. ela se coloca em tal diálogo de Platão. ela é histórica. Se. Esta interrogação não é. a um estado das relações entre o sistema de ensino e aquilo a que chamamos a sociedade global. portanto. mas muito exemplar. Pode-se ensinar alguma coisa? Pode-se ensinar algo que não se aprende? Pode-se ensinar isto com o que o ensinamos. se ela tivesse considerado como seu objeto este uso muito particular que é o uso escolar da linguagem. É sobre esta situação histórica que eu gostaria de refletir. tomei como ponto de partida questões que realmente se colocaram a uma parte de vocês e que podem se colocar a todos vocês. intemporal. Esta situação está ligada a. a um estado da linguagem. esta ansiedade. parece-me.

o científico e o popular. Assim. na oposição entre o escrito e o oral. me dá vontade de perguntar: ensinar o oral? Mas que oral? Existe algo implícito aí. É preciso perguntar também quem vai definir que oral ensinar. temos todas as chances de introduzir. um certo tipo de cultura. Há um conjunto de pressupostos que cada pessoa traz consigo ao colocar esta questão.Vou tomar o primeiro conjunto de questões: você acha que se ensina o oral? Que dificuldades você encontra nisso? Você encontra resistências? Você se choca com a passividade dos alunos?. ensinaram muito mais o oral e lhe dão uma importância muito maior na atribuição de notas do que o ensino que prepara para o magistério. etc. será que este oral que se quer ensinar não é simplesmente algo que já se ensina. da competência do locutor no sentido chomskyano do termo. Ensinar o oral seria assim ensinar esta linguagem que se ensina na rua. perguntar "ensinar o oral?". de maneira que o oral tem grandes chances de ganhar toda uma aura populista. uma oposição totalmente clássica entre o distinto e o vulgar. na verdade é uma conversa de salão exigindo um certo tipo de relação com a linguagem. As instâncias que preparam para a política como Sciences Po. e isto de uma forma muito desigual. faz-se aquilo que se chama de "grande oral". Sabendo-se que as estruturas mentais são estruturas sociais interiorizadas. na Polytechnique. como um mercado onde o 3 . será que a questão da própria natureza da língua ensinada não importa? Ou então. portanto. como em todo discurso oral ou mesmo escrito.. segundo as instituições escolares? Sabe-se por exemplo que as diferentes instâncias do ensino superior ensinam o oral de uma maneira muito desigual. Não há nada de novo em dizer apenas "ensinar o oral". Uma das leis da sócio-lingüística é que a linguagem empregada numa situação particular depende não apenas. Dito de outra forma. ser o oral da conversa mundana. mas também daquilo que chamo de mercado lingüístico. O discurso que produzimos. portanto. o discurso depende em parte (que seria preciso examinar de maneira mais rigorosa) das condições de recepção. não é suficiente. como o pensa a lingüística interna. Toda situação lingüística funciona. o oral do colóquio internacional. segundo o modelo que proponho.. faz-se resumos. E este oral pode. ou para a técnica. o que já leva a um paradoxo. Por exemplo. "que oral ensinar?". é uma "resultante" da competência do locutor e do mercado no qual passa seu discurso. Imediatamente. ENA. isto já é muito comum. na ENA.

No mercado escolar. com conhecimento de causa. Estas coisas são. um sub-espaço onde as leis do 4 . Um dos grandes mistérios que a sócio-lingüística deve resolver é esta espécie de sentido da aceitabilidade. a nota que muito freqüentemente implica num preço material (se você não tem uma boa nota em seu trabalho final da Polytechnique. De maneira inseparável aprendemos.locutor coloca seus produtos. queiramos ou não. Os alunos que chegam ao mercado escolar sabem antecipadamente das oportunidades de recompensa ou das sanções prometidas a tal ou qual tipo de linguagem. pois ele apenas criará um "império num império". toda situação lingüística funciona como um mercado onde se trocam coisas. nós chegamos com uma antecipação dos lucros e das sanções que receberemos. Nunca aprendemos a linguagem sem aprender ao mesmo tempo as condições de aceitabilidade desta linguagem. das oportunidades de lucro e de perda que têm. dada a competência lingüística de que dispõem.. Portanto. e o produto que ele produz para este mercado depende da antecipação que ele tem dos preços que seus produtos receberão. Ou seja. Um dos problemas que é colocado por este questionário é o de saber quem governa a situação lingüística escolar. mas estas palavras não são feitas apenas para serem compreendidas. a situação escolar enquanto situação lingüística de um tipo particular exerce uma censura formidável sobre todos aqueles que sabem previamente. a falar e a avaliar antecipadamente o preço que nossa linguagem receberá..). Será que o professor é o capitão a bordo? Será que ele tem verdadeiramente a iniciativa na definição da aceitabilidade? Será que ele domina as leis do mercado? Todas as contradições que as pessoas que entram na experiência do ensino do oral encontram decorrem da seguinte proposição: a liberdade do professor é limitada quando se trata de definir as leis do mercado específico de sua classe... no mercado escolar − e nisto o mercado escolar oferece uma situação ideal para a análise − este preço é a nota. E o silêncio de alguns não passa de um interesse que eles compreendem muito bem. aprender uma linguagem é ao mesmo tempo aprender que essa linguagem será lucrativa em tal ou qual situação. é também uma relação econômica onde o valor de quem fala está em jogo: ele falou bem ou não? É brilhante ou não é? É uma pessoa "casável" ou não?. Ou seja. evidentemente. palavras. a relação de comunicação não é uma simples relação de comunicação. você será administrador do INSEE e ganhará três vezes menos.

este professor. é o que se parece mais com a idéia que se tem a respeito do que a burguesia gosta. Elas buscam então. Em todas as circunstâncias revolucionárias. mas sim: "Eu gosto das valsas de Strauss". Todo o trabalho de Labov só foi possível graças a uma série de truques visando destruir o artefato lingüístico produzido pelo simples fato de se relacionar um "competente" e um "incompetente". assim. Antes de continuar. todo o trabalho que fizemos em matéria de cultura. é preciso lembrar o caráter muito particular do mercado escolar: ele é dominado pelas exigências imperativas do professor de Francês. quaisquer que sejam suas intenções. socialmente) assimétrica (e em particular na situação de entrevista). O professor é uma espécie de juiz de menores em questões lingüísticas: tem o direito de correção e de sanção sobre a linguagem de seus alunos. porque é muito provável que a seu lado haja um outro professor que exija o rigor. exclui de seu discurso aquilo que verdadeiramente lhes interessa... por exemplo. Imaginemos. os populistas sempre se chocaram com esta espécie de revanche das leis do mercado que parecem só se afirmar 5 . legitimado para ensinar o que não deveria ser ensinado se todo mundo tivesse oportunidades iguais para adquirir esta capacidade. e será preciso um tempo considerável para que abdiquem de sua correção e sua hipercorreção. a pessoas que não se julgam cultas.mercado dominante são suspensas. que aparecem em todas as situações de uma forma lingüística (isto é. a linguagem mais bela é a linguagem dos subúrbios". numa situação de entrevista (que se parece a uma situação escolar). tudo aquilo que lhes assemelha à cultura. consistiu em tentar superar o efeito da imposição de legitimidade que o simples fato de se colocar questões sobre a cultura provoca. Na realidade. Mas suponhamos que um estabelecimento escolar inteiro seja transformado. jamais ouve-se como resposta “Eu gosto de Dalida". um locutor autorizado e um locutor que não se sente autorizado. a ortografia. um professor populista que recusa este direito de correção e diz: "Quem quiser a palavra que a tome. quando se pergunta: "Você gosta de música?". da mesma maneira. e com o direito de correção no duplo sentido do termo: a correção lingüística ("a linguagem fina") é o produto da correção. permanece num espaço que normalmente não obedece a esta lógica. a correção. porque isto. Colocar questões sobre a cultura. O acontecimento prévio das oportunidades que os alunos trazem para o mercado farão com que eles exerçam uma censura prévia. na competência popular.

sem modificar as relações de dominação? Chego a uma analogia que hesito em formular mesmo me parecendo necessária: a analogia entre a crise do ensino do francês e a crise da liturgia religiosa. que não se compreende mais. a distância. A liturgia em latim é a forma limite de uma linguagem que. isto é. fazer aceitar . Não se pode tocar nesta coisa tão central e ao mesmo tempo tão evidente sem se colocar as mais revolucionárias questões sobre o sistema de ensino: pode-se modificar a língua no sistema escolar sem modificar todas as leis que definem o valor dos produtos lingüísticos das diferentes classes no mercado? Sem modificar as relações de dominação na ordem lingüística. desta linguagem que não funciona mais. ou deixando funcionar livremente a própria lógica das coisas (o estrado. A questão colocada pela crise da liturgia. é porque a instituição está em crise e coloca em evidência a questão da autoridade delegante − da autoridade que diz como falar e dá autoridade e autorização para falar. o habitus dos alunos) ou então deixando atuarem as leis que produzem um certo tipo de discurso. Em situação de crise. não sendo compreendida mas sendo autorizada. para a satisfação dos emissores e receptores. eu queria colocar a seguinte 6 . A liturgia é uma linguagem ritualizada que é inteiramente codificada (quer se trate de gestos ou palavras) e cuja seqüência é Inteiramente previsível. Mas em que medida o professor pode manipular as leis da aceitabilidade sem entrar em contradições extraordinárias durante o tempo em que as leis gerais da aceitabilidade não são modificadas? É por isto que a experiência do oral é muito apaixonante. na qual não se acredita mais. o microfone. ao produzir um certo tipo de situação lingüística.quando se pensa transgredi-las. a cadeira.de se fazer aceitar mesmo que a linguagem não seja compreendida. fazer respeitar. Quando uma linguagem está em crise e surge a questão de saber que linguagem falar. esta linguagem pára de funcionar: ela não produz mais seu principal efeito que é o de fazer acreditar. Por este rodeio através do exemplo da Igreja. não apenas nele próprio mas nos seus interlocutores. pode funcionar em certas condições como linguagem. Voltando ao ponto de partida desta digressão: quem define a aceitabilidade? O professor é livre para abdicar de seu papel de "senhor da fala" que. é a questão da relação entre a linguagem e a instituição. produzem um certo tipo de linguagem.

é preciso que se produza um certo tipo de emissores e um certo tipo de receptores. o professor de francês estava assegurado: ele sabia o que deveria ensinar. mas falem sempre como delegados. encostadas à parede. para que a liturgia romana funcione. se transformaram numa espécie de detentores de empréstimos russos.. de uma violência tão grande como as que se viu em maio de 68 e depois. os pressupostos do funcionamento do sistema.. ou pela ortografia! Da mesma forma que as pessoas que passaram quinze anos de sua vida aprendendo o latim. quando esta língua se desvalorizou bruscamente. como ensinar e encontrava alunos prontos a escutá-lo. seu próprio capital. o professor de francês era um celebrante: celebrava um culto da língua francesa. Elas estão prontas a morrer pelo francês. Atualmente. Pode-se.questão: a crise lingüística é separável da crise da instituição escolar? A crise da instituição lingüística não é a simples manifestação da crise da instituição escolar? Em sua definição tradicional. na fase orgânica do sistema de ensino francês.. a lingüística mais avançada concorda com a sociologia sobre este ponto. colocar a questão sistemática dos pressupostos e se perguntar o que deve ser uma situação lingüística escolar para que os problemas que se colocam em situação de crise já não se coloquem. O essencial do que se passa na comunicação não está na comunicação: por exemplo. Um dos efeitos da crise é fazer com que se interrogue as condições tácitas. Ao fazer isto.. No caso da religião. a compreendê-lo e pais que compreendiam esta compreensão. o essencial do que se passa numa comunicação como a comunicação pedagógica está nas condições sociais da possibilidade da comunicação. quando a crise revela um certo número de pressuposto. o ensino do francês não constituía problema. ele defendia seu próprio valor sagrado: isto é muito importante porque a moral e a crença são uma consciência de seus próprios interesses. através deste produto de mercado que é a língua francesa. a saber. é que. Se a crise do ensino de francês provoca crises pessoais tão dramáticas. ilustrando-a e reforçando seus valores sagrados. É preciso que os receptores estejam predispostos a reconhecer a autoridade dos emissores. como padres mandatários e que nunca se autorizem a definirem por si 7 . algumas pessoas. que os emissores não falem por sua conta. defendem seu próprio valor. defendendo-a. ocultada a si mesma. que o objeto primeiro da pesquisa sobre a linguagem é a explicitação dos pressupostos da comunicação. Nesta situação.

e que têm uma linguagem para os professores. idealmente. enunciado e recebido como óbvio. isto é. e não é a situação pedagógica que o produz. o que supõe que o emissor tenha o poder de eliminação. Para recapitular de maneira abstrata e rápida. É preciso que um receptor pronto a receber seja produzido. uma situação legítima. alguém que reconheça as leis implícitas do sistema e que seja cooptado e reconhecido enquanto tal. a censura do grupo dos "pares" se exerce no mesmo sentido que a censura professoral: a linguagem que não é fina é autocensurada e não pode ser produzida em situação escolar). funcione. (Inversamente. A situação legítima é algo que ao mesmo tempo provoca a intervenção da estrutura do grupo e do espaço institucional onde o grupo funciona. os receptores sejam relativamente homogêneos lingüisticamente (isto é. Pode ocorrer então que a norma lingüística se choque em algumas estruturas escolares com uma contra-norma. receptores legítimos. É preciso também que. Por exemplo. Ocorre o mesmo no ensino: para que o discurso professoral comum. socialmente). há todo um conjunto de signos institucionais de importância e especialmente a linguagem de importância (a linguagem de importância possui uma retórica 8 . É preciso haver destinatários reconhecidos pelo emissor como dignos de receber. uma relação entre um emissor autorizado e um receptor pronto a receber o que é dito. ao professor. afeminada e um pouco "puxa-saco". e pais que dêem uma espécie de crédito. de cheque em branco. homogêneos quanto ao conhecimento da língua e quanto ao reconhecimento da língua. a linguagem que "pega bem". uma linguagem legítima. Mas isto não é tudo: é preciso haver alunos que estejam prestes a reconhecer o professor como professor. É preciso ter um emissor legítimo. isto é. e que a estrutura do grupo não funcione como um sistema de censura capaz de proibir a linguagem que deve ser utilizada. as crianças das classes populares podem impor a norma lingüística de seu meio e desconsiderando aqueles que Labov chama de "caxias".mesmos o que deve ser dito e o que não deve ser dito. a comunicação em situação de autoridade pedagógica supõe emissores legítimos. em estruturas de predominância burguesa. Em alguns grupos escolares com predominância popular. que possa excluir "os que não deveriam estar no lugar onde estão". é preciso uma relação de autoridadecrença.

num lugar consagrado. O discurso de celebração. Esta linguagem de importância se porta de forma muito melhor numa . é possível que seja verdade". a linguagem era quase interjeição. portanto. este sistema de crédito mútuo se desmorona. o estado através do qual a linguagem passa: ela é escutada (isto é. cuja função é dizer o quanto aquilo que é dito é importante). o que é uma das maneiras fundamentais de fazer o falso passar pelo verdadeiro. define a aceitabilidade social. deixa crer que aquilo que diz é verdadeiro. e uma linguagem que além daquilo que diz.situação eminente. Uma linguagem legítima é uma linguagem com formas fonológicas e sintáticas legítimas.2 Nada ilustra melhor a extraordinária liberdade que uma conjunção de fatores favorecedores dá ao emissor do que o fenômeno da hipocorreção. que terminou muito desprestigiado. que freqüentemente era o dos professores de arte ou de literatura. Entre os efeitos políticos da linguagem dominante existe esse: "Ele o diz bem e. No papel de celebrante. diz constantemente que o diz bem. Entre as estratégias de manipulação de um grupo.Assignats: papel-moeda da revolução de 1789. acreditada). 9 . Em situação de crise. . quando não faz a concordância do particípio passado com o verbo ter) manifesta por outras coisas. há a manipulação das estruturas do espaço e dos signos institucionais de importância. isto é. num estrado. etc.particular. uma linguagem que responde aos critérios habituais de gramaticalidade. por exemplo. Uma das propriedades das situações orgânicas é que a própria linguagem − a parte propriamente lingüística da comunicação − tende a se tornar secundária. T. a pronúncia 2 N. a hipocorreção só é possível porque quem transgride a regra (Giscard. aquele dos críticos de arte por exemplo. não diz muito mais do que uma "exclamação". por meias palavras. A exclamação é a experiência religiosa fundamental. quase como sinônimo de dinheiro falso. entendida (compreendida). E através disso. obedecida. fenômeno característico do falar pequeno-burguês. por outros aspectos de sua linguagem. Ao contrário da hipercorreção. A comunicação se dá. Este conjunto de propriedades que fazem um sistema e que estão reunidas no estado orgânico de um sistema escolar. no limite. A crise é parecida com uma crise monetária: pergunta-se se todos os dtulos que circulam não são assignats.

onde as leis do mercado lingüístico dominante continuam a se impor. que se organizam em torno da questão última da delegação. um delegado que não pode redefinir sua tarefa sem entrar em contradições. as leis relativamente autônomas do pequeno mercado que instaura em sua classe. O que nem por isto deve levar a uma demissão. Por exemplo. A idéia de produzir um espaço autônomo arrancado às leis do mercado é uma utopia perigosa enquanto não se coloque ao mesmo tempo a questão das condições de possibilidade política da generalização desta utopia. que poderia falar corretamente. no sentido de tudo aquilo que tornaria legítima uma fala. Além disso você não faz uma reflexão suficiente sobre o fato de que a crise da qual você fala é uma espécie de sub-crise ligada essencialmente à crise de um sistema que nos engloba a todos. continua um mandatário. por tudo aquilo que faz. colocavam-se ao mesmo tempo as questões mais fundamentais da s6ciolingüística (O que é falar com autoridade? Quais são as condições sociais da possibilidade de uma comunicação?) e as questões fundamentais da sociologia do sistema de ensino. ora você identifica o mercado à troca na situação macro e me parece que existe uma ambigüidade aí. ficam às vezes muito no ar. comprometer as chances de seus alunos no mercado matrimonial ou no mercado econômico. no entanto. quer ele queira ou não. quer saiba ou não. Uma situação lingüística jamais é propriamente lingüística. e também por tudo aquilo que é. mas pode. nem colocar seus receptores em contradições. Através de todas as questões colocadas pelo questionário que tomamos como ponto de partida. particularmente a análise sobre o mercado: ora você utiliza o termo mercado no sentido econômico.por exemplo. suas análises da competência.Sem dúvida é interessante ir mais fundo na noção da competência lingüística para ultrapassar o modelo chomskyano de emissor e de locutor ideal. ao fazer isto. Seria preciso refinar a análise de todas 10 . P . um professor que recusa atribuir nota ou corrigir a linguagem de seus alunos tem o direito de fazê-lo. O professor. e principalmente quando pensa que está rompendo com as regras estabelecidas. a não ser quando se transformarem as leis do mercado em relação às quais ele define negativa ou positivamente.

pois é bastante evidente que para defendê-lo de forma completa seria preciso mais tempo e eu teria que desenvolver análises muito abstratas que forçosamente não interessariam a todo mundo.). O que está em questão. sua religião. observa-se que o locutor muda de língua de uma maneira que não tem nada de aleatória. A probabilidade do locutor adotar o francês para se exprimir é muito maior quando o mercado é 11 . estando claro que a microeconomia nunca é autônoma em relação às leis macro-econômicas. numa relação de bilingüismo. . Pude observar. sendo que a propensão a adotar a língua dominante aumenta em proporção à posição que a pessoa a quem se dirige ocupa na hierarquia antecipada das competências lingüísticas: a alguém que se considera importante.as condições das situações de troca lingüística no espaço escolar ou no espaço educativo no sentido mais amplo. assim como das informações que poderiam ser conhecidas antes ou ser antecipadas através de indícios imperceptíveis (ele é cortês. como o espaço escolar ou a situação de entrevista através do qual os executivos são recrutados. seu estatuto econômico.Evoquei aqui este modelo da competência e do mercado após uma certa hesitação. dependendo da estrutura da relação entre os interlocutores. etc. pois sua pergunta me permite fazer algumas precisões. seu direito a falar. Por exemplo. mas também dependendo do mercado. Parece-me inteiramente legítimo descrever como mercado lingüístico tanto a relação entre duas donas de casa que conversam na rua. não apenas sua competência lingüística (seu domínio mais ou menos completo da linguagem legítima). tanto na Argélia como numa aldeia bearnesa que as pessoas mudam de língua dependendo do assunto abordado. é a relação objetiva entre suas competências. a língua dominante domina tanto mais quanto mais completamente os dominantes dominem o mercado particular. quando dois locutores se falam. sua idade. Esta relação passa sua estrutura para o mercado e define um certo tipo de lei da formação de preços. Fico muito contente. há um esforço em se dirigir no melhor francês possível. mas também o conjunto de sua competência social. ele tem uma medalha. que depende objetivamente de seu sexo. Há uma micro-economia e uma macro-economia de produtos lingüísticos. e seu estatuto social. Dou ao termo mercado um sentido muito amplo.

É uma questão muito difícil. em função do que ele quer transmitir. mas acho que sim. você acha que o professor conserva. P . Quanto à segunda parte da pergunta. em injunções econômicas. Faz-se a abstração de um certo número de coisas e trabalha-se no espaço por nós definido. não importando o. ao nível da análise.dominado pelos dominantes. em maior ou menor grau. esta contracultura − e é também uma escolha − pode ser combatida dentro de certos limites. por exemplo. Nesta análise. Conhecê-la é. acho que uma das conseqüências práticas do que disse é que a consciência e o conhecimento das leis específicas do mercado lingüístico que se manifestam numa determinada turma podem. não estaria metido onde estou. por exemplo. Toda comunicação que se pretende eficaz. com uma contracultura. Basta consultar as fichas dos alunos de uma classe para perceber esta estrutura: numa classe onde três quartos dos alunos são filhos de operários.No sistema escolar que você definiu a partir deste conjunto de propriedades. ela coloca o problema do direito científico à abstração. não há economicismo. Mais seriamente. o que supõe que o professor a conheça. ou não. Se eu não estivesse convencido de que existe uma margem de manobra. conhecer o peso relativo das diferentes formas de competência. E a situação escolar faz parte da série dos mercados oficiais. iniciação à literatura moderna ou à lingüística). Mas também não se deve dizer que não existe mercado lingüístico que não implique. deve-se tomar consciência da necessidade de explicitar os pressupostos. Entre as modificações muito 12 . nas situações oficiais. supõe também um conhecimento daquilo que os sociólogos chamam de grupo de pares: o professor sabe que sua pedagogia pode se chocar na sala de aula com uma contra-pedagogia. objetivo que se tenha (preparação para o vestibular. É importante saber que uma produção lingüística deve uma parte importantíssima de suas propriedades à estrutura do público de receptores. uma certa margem de manobra? E qual seria ela? . transformar completamente a maneira de ensinar. Não se trata de dizer que todo mercado é um mercado econômico.

As mudanças na definição do conteúdo do ensino e mesmo a liberdade que é deixada aos professores para que vivam essa crise. Você não acha que esta definição também é muito redutora? Aliás. mandatários. E muitas outras coisas que se pode observar e levar em conta na prática. na AFEF. é porque estamos con- 13 . a atmosfera geral da sala muda. é porque acho que a linguagem também é um instrumento que possui um modo de ser empregado e que não funciona se não é empregado de modo conveniente. que podia ser o veículo dos modelos de classes dominantes. eu estaria agindo como um profeta) definir o projeto de ensino. se deve ao fato de também haver uma crise na definição dominante do conteúdo legítimo. a sociologia não pode responder à questão dos fins últimos (o que se deve ensinar?): eles são definidos pela estrutura das relações entre as classes. Se estou aqui. E. posso simplesmente dizer que os professores devem saber que são delegados. O que não quer dizer que eles não devam lutar para ser uma parte atuante na definição do que têm que ensinar. Eu não posso (seria uma usurpação. onde você diz que a aula de francês e os exercícios orais também poderiam ser o lugar de uma tomada de consciência e que esta mesma linguagem.profundas ocorridas no sistema escolar francês. P .Você apresentou o professor de francês como o emissor legítimo de um discurso legítimo que é o reflexo de uma ideologia dominante e de classes dominantes se expressando através de um instrumento fortemente "impregnado" por esta ideologia dominante: a linguagem. também podia ser. Mas isso tudo se refere apenas aos meios. de fato. há uma contradição entre o começo e o fim de sua exposição. o tipo de relações com os professores muda. a classe dominante sendo atualmente um lugar de conflitos a respeito do que merece ser ensinado. para os outros e para nós mesmos. um meio de aceder ao manejo de instrumentos que são instrumentos indispensáveis. e que seus próprios efeitos proféticos ainda precisam do apoio da instituição. há efeitos qualitativos de transformações quantitativas: a partir de um certo limite estatístico na representação das crianças das classes populares no interior de uma sala de aula. as formas de bagunça mudam.

ao contrário. É claro que eu a emprego. não tem uma afinidade com certos conteúdos? Não exerce efeitos de censura? Não torna certas coisas difíceis ou impossíveis de serem ditas? Esta linguagem legitima não é. será que tudo o que podemos dizer nesta linguagem não é afetado por isto.. eles são muito mais inteligentes do que os mais inteligentes dominantes). para mim. a linguagem que empregamos neste espaço é uma linguagem dominante desconhecida como tal. O que você acha disto? Você acha que a troca oral na sala de aula é a imagem de uma legalidade que também seria uma legalidade social e política? A sala de aula também não é objeto de uma contradição que existe na sociedade: a luta política? . ou uma ação. ou uso que é dominante mas desconhecido como tal. todo meu esforço consiste em destruir os automatismos verbais e mentais. e de maneira rigorosa. a que você emprega para me falar (uma voz: "Você também a emprega!". Mas passo o tempo todo dizendo que o faço!). entre outras coisas. A linguagem que os professores empregam. Também acho que nunca pronunciei aqui a expressão "ideologia dominante". Que quer dizer legítimo? Esta é uma palavra técnica do vocabulário sociológico que emprego cientemente. o que quer dizer que é tacitamente reconhecido.vencidos disso que exigimos maior cientificidade no estudo de nossa disciplina. mesmo se colocamos este instrumento a. serviço da transmissão de conteúdos que se querem críticos? Outra questão fundamental: esta linguagem dominante e desconhecida como tal. É uma linguagem que produz o essencial de seus efeitos aparentando não ser o que é. Isto. (Um dos princípios da sociologia é recusar aquele funcionalismo da pior espécie: os mecanismos sociais não são produtos de uma intenção maquiavélica. Jamais disse que a linguagem era a ideologia dominante. isto é. a 14 . as coisas difíceis. feita para proibir o falar espontâneo? Eu não deveria ter dito "feita para".. Tomando um exemplo irrefutável: acho que no sistema escolar. Dai a questão: se é verdade que falamos uma linguagem legitima. pois somente as palavras técnicas permitem dizer e portanto pensar. isto é. tacitamente reconhecida como legitima.Eu não disse nada do que você põe na minha boca. É legitimo uma instituição. faz parte de malentendidos muito tristes: e. reconhecida como legitima.

3 (. Rio de Janeiro: Marco Zero. é em grande parte porque as pessoas são formadas para falar uma linguagem na qual elas falam para dizer que não dizem o que estão dizendo. uma relação com o mundo completamente des-realizada. novembro de 1975. uma relação com os seres. 4. perguntas que exigem que se adote um estilo que consiste em falar de uma maneira tal que a questão do verdadeiro Ou do falso não se coloca. p. 75-88. 1983. "L'économle des échanges IInguistiques" Lengue Française.. Bourdieu. Pierre. os sindicatos e suas seções locais. Desenvolvimentos complementares sobre este tema poderão ser encontrados em P.. O sistema escolar ensina não apenas uma linguagem. note sur les condltions sociales de l'efficacité du discours rituel". Actes de Ia recherche en sciences sociaeles. "Le langage autorizé. ficassem completamente desarmados e não dissessem mais do que banalidades quando eu lhes fazia perguntas do tipo das que são feitas em pesquisas de opinião e também nos trabalhos acadêmicos. Se os textos são lidos por pessoas que os lêem como se não os lessem. . mas uma relação com a linguagem que corresponde a uma relação com as coisas.linguagem legitima está em afinidade com uma certa relação ao texto que nega (no sentido psicanalítico do termo) a relação com a realidade social da qual o texto fala. maio de 1917. Questões de sociologia. 34.5-6. em conversas faziam análises políticas muito complicadas sobre as relações entre a direção. 3 15 . Jean-Claude Chevalier diz isso muito bem. os operários. com muita ironia: "Uma escola que ensina o oral ainda é uma escola? Uma língua oral que se ensina na escola ainda é oral?" Vou dar um exemplo muito preciso no domínio da política. Isto é. "Le fétichisme de la langue”. Actes de la recherche en sciences sociales. Impressionoume o fato de que os mesmos interlocutores que.) In: BOURDIEU. Uma das propriedades da linguagem legítima é justamente a de dês-realizar o que diz. julho de 1975.

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