A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias

PENSE u Pensamento Social Espírita

A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias

A Descoberta do

Krishnamurti de Carvalho Dias

VITÓRIA - ES OUTUBRO - 2000

PENSE u Pensamento Social Espírita 1

A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias

REVISÃO Krishnamurti de Carvalho Dias PROJETO GRÁFICO E EDITORAÇÃO Gráfica Ita CAPA Cristiana de Souza IMPRESSÃO Gráfica Ita EDIÇÃO DIGITAL PENSE – Pensamento Social Espírita www.viasantos.com/pense Abril de 2010.

1a Edição - 2.000 exemplares. © Krishnamurti de Carvalho Dias, 2000. Todos os direitos reservados. A reprodução não autorizada desta publicação, por qualquer meio, seja total ou parcial, constitui violação da Lei 5.988.

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A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias

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PROJETO IMPACTO

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A meus pais Octávio e Abigail, com amor

a psique. que significa literalmente “ciência do espírito”.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias O espiritismo é uma ciência fundada no século passado. é o corpo perecível. o organismo fisiológico. por um pedagogo francês. a parte somática. Propor a criação de uma nova ciência para estudar o espírito era reconhecer e proclamar a existência deste objeto. a razão. pelo fato de o espíriPENSE u Pensamento Social Espírita 6 . a consciência. o qual era um educador do maior prestígio na sociedade parisiense. a mente. que é a parte efetiva do ser. a memória. nome principalmente da parte não física. os sentimentos. que é o corpo. então revela sua intenção de fazer da nova matéria científica um instrumento de estudo voltado para esse objeto. aquela parte invisível de nós que se tipifica pela reunião de conceitos como o carácter. Quem diz “espírito” está-se referindo ao mesmo que “mente”. ao conjunto de faculdades intelectuais e morais dos indivíduos. excluindo a contra parte corporal. a emoção. O próprio nome de “espiritismo”. A palavra “espiritismo” traz embutida em si a própria finalidade da disciplina criada. a inteligência. que justificou o então neologismo pela necessidade de se dar nomes novos a fatos novos. que é mero acessório do espírito ou mente. o juízo. a esse agregado ideal de conceitos que representa a essência do homem. também um autor didático muito publicado. E que se opõe conceitualmente à outra parte. o “espírito”. o professor Rivail (Hipólito Leão Denizard Rivail 1804/1869). a pesquisa. as faculdades e sentidos. de um objeto determinado. Estava delineado o campo operatório da nova ciência. mas apenas psíquica das pessoas. a individualidade e a identidade. não material. que é a multiplicidade de significados para uma mesma palavra. o conhecimento a nível científico. indicado o seu objeto formal e sua razão de passar a existir. também é criação do professor Rivail. que é o estudo. além do mais. o significado principal da palavra. a personalidade. mais exatamente no ano de 1857. está abstraindo. Quando o professor Rivail forma aquele neologismo. No mesmo ato. residente em Paris. Essa era a acepção dominante. o pensamento. o espírito. para “maior clareza da linguagem e também se evitar a anfibologia”. que tinha ainda outras aplicações.

pois havia uma porção de outras realidades que não tinham sido anteriormente percebidas em suas manifestações. Quer dizer. sob o nome de mente ou psique. reduzindo-se apenas a um modo de se ver o funcionamento corporal num de seus aspectos. em sua existência. (o corpo fisiológico). de quaisquer manifestações psíquicas pós-morte. mas pós-óbito não. era o próprio conceito que cada uma das duas disciplinas fazia sobre o espírito. Essa a diferença entre a psicologia. o espírito se manifestava. Em abono desse seu ponto de vista. que existem como parte da reaPENSE u Pensamento Social Espírita 7 . para psicologia. a psicologia lembrava a cessação completa. já desaparecia com ele a função nomeada por aquela palavra: o espírito morria com o corpo. repensá-lo de modo diferente da outra disciplina já existente. a mente ou espírito não existia por si mesmo. uma ciência já tradicional. e que um belo dia se patentearam. Em outras palavras. já ser também alvo de uma outra ciência. em vida. e o espiritismo. a psicologia enfocava o espírito ou mente sob um prisma muito rígido. Para a psicologia. De fato. o que parecia fundamentar a posição dessa ciência. absoluta. o próprio organismo fisiológico em uma de suas funções. assumindo que era um mero conceito sem nenhuma consistência própria. então ao se extinguir esta coisa. já que o espírito nada era por si e só existia como um conceito formado sobre outra coisa. a psicologia. a saber.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias to. o psíquico. isto é. isso era sinal de que o professor Hipólito pretendia fazer dele uma nova abordagem. Já a ciência espírita entendia que é temerário fechar a questão assim. Como boa prova disso estavam os micróbios e os novos corpos celestes. a partir do momento em que as pessoas puderam captá-las. não tinha existência ou consistência própria. que desaparecia quando o estado de vida era perdido e se desativavam as funções que justamente o formavam. não consistia em nada senão em simplesmente um modo de se apreciar outra coisa. Assim o espírito era um mero componente de certo agregado chamado “vida”.

Podia muito bem acontecer o mesmo com o espírito. passando a fazer parte inarredável do conhecimento científico. pareciam efeitos naturais. que após a morte corporal podia entrar em uma fase de “silêncio”. As ciências naturais estudam a natureza e seus agentes. PENSE u Pensamento Social Espírita 8 . “mesas dançantes” mais tarde “mesas falantes” ou “escreventes” ou ainda de “raps” e “echoes”. tinham conteúdos intelectuais. efeitos. desde então. mesas e outros objetos também. biológicas. uma espécie de eclipsamento. Quer dizer. o espírito. entendido aí como “naturais” no sentido de “ciências naturais”. sem nenhuma impulsão visível de ninguém assim como ruídos. continuava existindo só que sem recursos de ser percebido. desconhecidos. atribuídos à ação de coisas extranaturais. de que fossem sobrenaturais. os quais obviamente continham espírito. barulhos. “knockings” (hoje são chamadas genericamente de poltergeist). apenas. a psicologia humana. Pelo simples acontecimento em si. químicas. tal como antes os micróbios. como duendes. O espiritismo se baseava em uma série de ocorrências. da criação do espiritismo. Tratava-se de coisas então chamadas de “mesas girantes”. que vinham-se registrando havia uma década. podiam-se mover por si mesmos. até serem descobertos pela ciência algumas décadas atrás. Em toda parte. suas forças e era em tal sentido que se procurava explicar os fenômenos (hoje chamados de paranormais) para afastar a hipótese religiosa e as superstições. o tempo todo. igualmente sem explicação. que era então como se chamavam as hoje denominadas ciências físicas. Era um argumento de peso. eram produzidos. professadas por “naturalistas”. anjos. desde então. dotados da maior materialidade e todavia tinham ficado invisíveis. em escala mundial. a inteligência.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias lidade natural. vale dizer. não ser detectado justamente por falta de meios de acessá-lo nessa nova condição. produzidos por forças naturais. da natureza. foi assim que a comunidade científica de então quis explicá-los. gnomos. pois pareciam refletir o caráter. de acontecimentos materiais.

então não se podia concluir outra coisa. enfim. milagres. traduziam a ação da inteligência humana. Porque os fenômenos estudados mostravam irrecusáveis conteúdos de inteligência e cultura. um sinônimo deste. dando inPENSE u Pensamento Social Espírita 9 . fruto da cultura humana. elementos culturais. portanto naturalmente mas independentes do homem e as segundas as culturais. que era justamente uma das acepções de espírito. os fenômenos que tinham claríssima associação com o espírito. O professor Rivail produziu uma conceituação muito interessante: “não há efeito sem causa e se os efeitos traduzem inteligência. tornavam irrecusável o raciocínio de Rivail. esse agregado de conceitos tipicamente psíquicos. eram de conteúdo cultural. necessariamente. pudessem ser as causas dos movimentos e dos sons inusitados. Em que consistiriam esses “conteúdos de espírito” presentes nos fatos? Muito simples. morais. o calor e a gravitação. humanos. as mesas moviam-se de modo acertado. dos fenômenos. significavam respostas a perguntas. senão esta: os agentes que os produziam eram humanos. entidades fora da natureza comum e portanto fictícias. sem risco para ninguém. eram seres humanos. entendeu que as forças chamadas de “naturais” eram de ação cega. já como fruto da ação do homem.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias demônios. entre o que são coisas “naturais” e coisas “culturais”. sem atingir os espectadores nos seus deslocamentos (garantindo a segurança e proteção deles) e justamente com esses movimentos. individualidade. percebendo-se que já naquele tempo o professor fazia uma distinção então ainda inusitada. inteligente”. Pretendeu-se que forças naturais como o magnetismo. Mas o professor Rivail. simplesmente. Não se podia licitamente atribuir só a forças naturais. desprovidas de intenção. a eletricidade (que na época oram pensados separadamente). caráter. até puramente mentais. culturais. vontade. que são atributos humanos. prodígios. Os efeitos em tela. após contatar e estudar muito os fatos. Os conteúdos intelectuais e artísticos. revelavam sê-lo pelo fato de possuírem espírito. as primeiras sendo as fáticas existentes na natureza. então a causa deles há de ser.

que esse sim. não podiam ser pensados como inteligentes por si mesmos mas sim que estavam sendo produzidos por agentes humanos invisíveis. os diversos idiomas nacionais também. Já Rivail. assim como o homem é diferente e separado da roupa.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias formações só sabidas por alguém determinado na platéia e que eram simples respostas certas. Pois do mesmo modo. o seu primado. dotados de inteligência e cultura semelhante à dos pesquisadores. fosse inteligente por si mesmo. Ora. ao bater pontos e traços. naturalíssimo. pelo menos usavam a mesma gama de signos. diferente e separado do seu corpo. fixando-se na visão realista de que só podiam ser agentes humanos. E de resto a globalidade da própria cultura terrestre. Aí começa a guerrinha de nomes e conceitos. o corpo era só a vestimenta da PENSE u Pensamento Social Espírita 10 . pois o que ele pretendia era também repudiar o rótulo de “forças sobrenaturais”. como ninguém poderia pensar que o martelete do telégrafo. mas ao dizerem aquilo. ao recusar a simplória rotulação de “forças naturais”. portanto agentes culturais antropológicos. Por uma espécie de código de movimentos ou barulhos. Os pesquisadores não espíritas. bem como os ruídos codificados. pancadas e raspagens. que é natural também. sua soberania. os autores dos fenômenos. esta não faz parte integrante do homem. uns e outros excluíam o elemento humano. pessoas humanas. naturalíssimos. as respostas eram telegrafadas. telégrafo elétrico. não tem nenhuma sobrenaturalidade. mas sim que estava sendo acionado por um operador invisível. mais ou menos como no então recéminventado. detinha inteligência. também as mesas e outros objetos. haviam pensado em “forças naturais” para guerrearem a explicação dos religiosos quanto a “forças sobrenaturais”. como no código morse. o alfabeto. dado o evidentíssimo conteúdo intelectual e moral dos fenômenos. O espírito era no homem uma coisa em si. O que introduzia a prova da sobrevivência do espírito à destruição do corpo. portanto a prova também de sua independência e autonomia. existente e consistente por si mesmo. isso foi só para afastar o enquadramento como meios efeitos de forças cegas da natureza.

mas também como culturais. começava na concepção e acabava no óbito. a do corpo era finita. inexplicado pela psicologia. comprovados sinais de inteligência. o óbito corporal. o espírito sobrevivia a ele tinham ambos durações diferentes. tal como pensava a psicologia. do organismo e. ao passo que a duração do espírito era indeterminada. um reexame mais aprofundado deles. não tinha fim. Até aí o que se tinha era meramente a prova de que o espírito humano podia-se dissociar do corpo. era isso apenas que os conteúdos intelectuais dos fenômenos permitiam asseverar. continuava existindo postumamente. uma mera função do organismo. pois que o fazia de modo diferente e separado da ciência já existente. cada indivíduo psíquico.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias mente e do espírito. abriu para uma nova frente do comPENSE u Pensamento Social Espírita 11 . sem organismo fisiológico que os produzisse (os SVP. Se o espírito ou mente fosse. determinada. não as chamadas “coisas fáticas”. sensibilidade. Quando o corpo perecia. eram produtos do espírito. Isso justificava a criação por Rivail de uma segunda disciplina científica para abordar e estudar o espírito. não se confundia com este. como uma realidade independente do corpo. pelo menos não aquele que lhe atribuíam. manifestação de caráter e cultura. sem desagregar-se. produzindo-se de modo puro. logo. o que repunha seus autores e agentes como agentes naturais. tratando o mesmo objeto com outro enfoque. sendo não sobrenaturais. os “Sinais Vitais Póstumos”) então teríamos a função sem órgão. de seres humanos. Uma repescagem desses fatos. não meras forças materiais cegas da natureza. eram duas coisas bem separadas. deveria acabar-se com este. Valendo-se do significado dominante que a palavra tinha na cultura francesa. sem corpo. pois que. isolada. extrapolando os limites corporais vir manifestarse isoladamente. lisamente. Mas se eram surpreendidos. outro conceito. seguindo-se a desagregação. o professor Rivail fechou que os conteúdos intelectuais e morais presentes nos fenômenos (justamente chamados de “psiquismo” na língua inglesa) procediam do espírito. vontade. cada mente.

de prazo indeterminado. Sem nunca assumir ou expender teorias a priori. fosse como fosse. ainda ligadas a corpos fisiológicos. A massa de indícios abundantes era de que as duas hipóteses eram possíveis e verdadeiras: tanto havia casos de mentes ainda ligadas a corpos comunicando-se. lúcidos. a comprovação passava a ser de que os indivíduos humanos podiam conservar suas mentes ou espíritos perfeitamente vivos. como sujeito e titular da vida. caso a caso. para a mente havia só vida. vida póstuma. uma duração não finita. Numa palavra: a morte não existia para o espírito. a psicologia restou atingida. para existir. em certas condições. atuantes. só para o corpo. sua personalidade e cultura. E acima de tudo era a certeza de que o espírito existia por si. perenidade próprias e prosseguia incólume. o que se tinha comprovado era o não confinamento da mente no corpo e que esta podia-se liberar. para agir independente. ele produziu uma sistematização que fugia às crenças e opiniões reinantes. corporalizado ou não. após a morte a desagregação do corpo. animando-o. fazendo o mesmo. um fastidioso esmerilhamento de cada um deles. levando uma existência pósóbito. Mas na segunda hipótese. independente. Foi pelo paciente esmiuçar dos fatos. portanto também sua identidade e individualidade. uma sobrevida? Na primeira hipótese. tinha consistência. mas só a posteriori da prova dos fatos. ainda em vida desses corpos. que o professor Rivail chegou às conclusões que compuseram a ciência espírita. Em primeiro lugar. que momentaneamente os deixavam para irem-se patentear extra-corporalmente? Ou seriam pessoas já mortas. em regime de vida pós-óbito. de que a PENSE u Pensamento Social Espírita 12 .A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias compreensão: as inteligências humanas que assim se manifestavam podiam ser definidas como? Exatamente o quê? Eram pessoas vivas. ora ligada a um corpo. naquilo que era sua afirmação fundamental. ora descorporalizada. como também havia espíritos já descorporalizados definitivamente. totalmente descorporalizadas que atuavam numa fase póstuma.

ainda sendo chamada legitimamente de vida. perene. só para o corpo. a morte era só um fato relativo. Podia-se existir em vida. Vida então ficou sendo algo diferente do entendido pelas ciências e que podia extrapolar os limites admitidos para continuar fora destes. de alcance parcial. fora dele. exclusivamente. podendo existir tanto dentro do chamado “estado de vida” como depois dele. com a liberação do espírito ou mente a ele ligado. Se se diz vida só. tanto numa fase (o percurso compreendido entre os limites concepção e óbito) como noutra fase. que continuava a viver noutro regime. quando fixava a concepção e o óbito como balizas da vida. mas sim só como mera função do agregado corporal. assim dogmatizava a psicologia arbitrariamente. não total. nos dois estados em que esta pode existir. Noutras palavras. Em segundo lugar. não havia morte para o espírito. contínua. fora do qual era o não ser. como coisa independente. sequente àquela. em lugar de ser um dado absoluto. repunha que não só o espírito ou mente tinha existência própria e portanto independe do corpo para existir e atuar. A ciência espírita. é sim. a biologia foi alvejada. extra corporalmente. noutro estado. como também sua duração não é finita como a do corpo mas. O que se chamava de morte ficou recarimbado como uma mera continuação de vida em outro meio e por outros meios. só que de modo diferente. contradizendo suas duas colegas. então é o nome que se dá a uma dessas fases. em que se continuava vivo também.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias chamada mente. o chamado espírito não existia por si só. Em suma. estando-se vivo. a de posse de corporalidaPENSE u Pensamento Social Espírita 13 . limites do estado de vida e do ser. puramente. a não vida. apenas. A palavra “vida” ficou sendo o termo comum a duas rotulagens como um nome só dado a ambas as fases do existir geral da mente. isso para a mente ou espírito. o que se chamava de morte não passava de uma cessação da existência útil do agregado corporal.

F F O espiritismo é uma ciência e como tal movimentase com suas co-irmãs. poderá chamar-se de “contravida”. não chamou assim. 1 PENSE u Pensamento Social Espírita 14 . então projeta-se na contravida onde continua pós-vivente ou sobrevivente. em momento algum. só que agora muito mais liberado e mais dono de si mesmo. Aggiornamento é uma expressão italiana utilizada durante o Concílio Vaticano II pelo papa João XXIII para se referir à atualização dos princípios católicos ao mundo contemporâneo. corporal contrastando com o que chamou de “vida espírita”. permanece existindo tal qual era. o professor Rivail liberou seus discípulos para a qualquer tempo produzirem denominações novas. absorvendo a ratificação”. Isso compõe um modelo dotado de “redondeza”. conforme esteja ou não ligado a um corpo e que havia a vida terrena. Fugindo à obsoletização. Rivail chegou a dizer que “se a ciência o corrigir ou desautorizar num só ponto. embora fosse um pesquisador metódico e organizado. ocupando sucessivas posições em cada uma das duas etapas: diz-se que está vivo. Sempre revelando o maior desapego por sistemas. uma “vida maior” pois que se subdivide em vida e contravida. com a ciência e não sem ela.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias de. a concepção e o óbito. são dois conceitos diferenciados como etapas de um processo só. O processo geral de existência da mente ou espírito pode chamar-se de hipervida. na nomenclatura que produziu. ao longo do qual o ser se move. mas já a fase contrária. de posse de maior estado de liberdade para suas faculdades. mas por outros nomes: dizia que o espírito está ou encarnado ou então desencarnado. em vida. para marcar bem que são duas etapas distintas e complementares uma da outra. a que a mente desencarnada passa a ter quando sai do corpo após o óbito deste. Rivail. a de extracorporalidade. Se extrapola esses limites. absorvendo seus avanços e de modo algum resistindo a seus progressos. reverem conceitos e formulações. sob a condição de que todo esse agiornamento 1 fosse feito sob o patrulhamento da ciência. E que ora estou chamando de contravida. como duas etapas do processo. o espiritismo aí se modificará. quando se demora no percurso compreendido entre os dois limites.

não a ninguém mais. a mente encontrase na fase de vida. a maior relativização de que já se foi capaz. de um processo que tem ciclos de 24 horas chamados de “dias” também. É algo parecido com outro modelo dotado de redondeza e repetitividade. a de contravida. capaz de eclipsar até mesmo aquela até aqui tida como a mais brilhante já produzida pela ciência. onde permanecerá até obituar-se. na ideia da hipervida. pode ser até expressado com signos pseudomatemáticos. fez a unificação da vida e da contravida. num existir sem-fim. como sujeito e titular da hipervida. novo. h = vc. pertence ao professor Rivail. Continua nessa fase até ela também esgotar-se e entra no recomeço do ciclo. quando então se exclui dessa fase e passa à outra. se aqui ou alhures. do ponto de vista tópico. repetitivamente. a de Einstein (E = mc2) pois ao passo que esta apenas unificou a massa-energia. aquela. toda rotatividade. terráqueas. que são os giros do planeta em torno do seu eixo. quer dizer. de reingresso na vida. fases de 12 horas cada. Por direito autoral incontestável. seja numa outra das duas condições. pela desencarnação. do lugar do espaço-tempo em que permanece. O processo tem toda circularidade. independente do meio em que está. assim nesta fórmula. (encarnação). a três dimensões. vive-se e depois contravive-se para em seguida voltar a viver. o espírito. nos ciclos de reencarnação. está sempre vivendo. de uma hipervida que é apenas o entendimento de que o espírito existe continuamente. onde se permanece até que sobrevêm o dia outra vez e assim por diante. bem como independente também da fase dessa hipervida em que se encontra. sem descontinuidade de sua existência em si. se a de vida ou a de contravida. a sucessão dos dias e noites. Sai-se do dia e entra-se na noite.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias Por tudo isso tomei a liberdade de produzir este modelo didático. repartida em fases de vida e contravida. a fórmula rivailiana. O modelo da hipervida. Temos assim o professor Rivail como autor da mais portentosa das equações. a honra original desPENSE u Pensamento Social Espírita 15 . em movimento recorrente. Após ter nascido. onde hipervida é o produto constante de vida e contravida.

que tinham de estar presentes. É rigorosamente. Não bastava dizerem “sou fulano”. a massa crítica de dados que possuía. para quem conhecesse o código morse. contraditando-as. fatalmente. o estilo. Prosseguindo nas suas pesquisas informáticas. de modo inconfundível. fazendo do espiritismo o contraditório delas. como o funcionamento do telégrafo elétrico e do código morse. com robustíssimas provas de identidade. Só se tinha isso. como autor genial da teoria da hipervida. precisavam constantemente materializar em provas essa alegação. É bom lembrar que nessa fase primitiva. colhidos nos fenômenos. Se por um lado ele atingiu de saída a psicologia e a biologia. nisso de ter produzido essas formulações. à linguagem. Rivail firmou que as personalidades defuntas. processando de modo informático possível em sua época. produzindo só pontos e traços. já o próprio Rivail a toda hora assim comparava. Maxwel. consagrando-o ao lado de Newton. o mérito dele. o sentido desse ciframento. Precisava que ostentassem os traços psicológicos e culturais. os sons de raspadinhas etc. dentro do monumento geral que nos legou. o caráter. ou seja. o martelete batia numa fita. valor. movimentos e batidas. a ciência e filosofia espíritas. constantemente comprovavam serem mesmo quem diziam ter sido. a reencarnação. a personalidade. para alcançarem a identificação. os maneirismos formais de quem diziam que eram. as mesas apenas traduziam. Só se via o martelete tiquetaqueando dentro da campânula de vidro que o recobria e a fita de papel PENSE u Pensamento Social Espírita 16 . como um formulador. autor de uma fórmula cultural que define um processo natural. Planck e Einstein. já por outro lado ele afetou também a sociologia e a física. as pessoas obituadas. nada mais. por movimentos e pancadas delas contra o chão (isso além dos ruídos e estalidos. isto é. numa decodificação. Arquimedes.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias sa formulação e a posteridade ainda reconhecerá. Neste. fora das mesas) os comunicados dos agentes humanos descorporalizados. como iremos ver. A genialidade de Rivail não se esgota aí. nas suas mensagens. um conjunto de signos que só adquiriam entendimento.

o autor original da teoria da comunicação bem como de boa parte da teoria da informação. seguramente. copiar. com a velocidade da luz ou quase. também a tiptografia.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias escorrendo sob ele. interessado e depois acharia enfadonho e buscaria entreter-se com outra coisa. ficaria a princípio curioso. Quem visse esse quadro e não soubesse do que se tratava. Havendo entendido esse começo. Rivail chamou a esta segunda forma de comunicação por movimentos. se não eles se desentendem (é o caso de um brasileiro tentando comunicar-se com um chinês. sair coberta de pontos e traços. as palavras de um idioma. Entenderia que eram ideias. O princípio de que para haver comunicação tem de existir perfeita comunidade ou nivelamento de cultura entre os dois parceiros. o passo seguinte seria aprender o código morse. os ruídos eram a tiptologia ou tiptofonia. um outro ponto no espaço diferente e bem longínquo dali. parte de uma cultura. valores. significação. cada qual em seu idioma). foi nitidamente enunciado por Rivail. ignorando a primazia histórica do grande pedagogo. por dois tipos de nomes: os movimentos significativos de mesas e objetos eram a sematografia e sematologia. entenderia que o martelete era acionado por um operador humano e pela eletricidade e o magnetismo. informações. que tinha de ser comum aos dois parceiros do ato. percussões e ruídos não localizados. dados. passados em termos culturais já conhecidos. de um ponto distante. aí sim. Mas quem soubesse das coisas. posto que seu mérito nisso não tenha ainda sido reconhecido. só isso. Rivail é. quando estabeleceu que se inteligências que movem as mesas respondiam a perguntas é porque as entendiam e se por nosPENSE u Pensamento Social Espírita 17 . a linguagem cifrada e. sendo o impulso transmitido por fios sustentados por postes. servilmente. o operador invisível e distante e o receptor. a mensagem passaria a ter compreensão. pois criou signos e conceitos no terreno que hoje os usuários das duas teorias só fazem é repetir.

de perguntas não proferidas. tudo com significados. eram todos homo-sapiens sapiens. porém. os signos eram puramente despojados de formalização dos fenômenos. sem nenhum grafismo ou imagem visual. ou então silêncios. é porque uns e outros. isento de quaisquer contaminações: como se fosse uma turma de salvamento e resgate de submarinos. Eram apenas signos não gráficos. Lembrem-se de que não havia aí nenhuma oralização. batendo com martelos no casco da nave para serem entendidos e corresponderem-se com os ocupantes. nenhuma vocalização nem mesmo propriamente escrita. igualmente respondidas nessa mesma língua. certas. como tudo que podiam contar como elementos de significação. tendo-se dado casos de uso até de línguas mortas. de mergulhadores. no casco. acatávamos as respostas delas como válidas.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias sa vez. bem como de meros dialetos tribais. O uso desses signos era analógico. a princípio binária simples. pois além de sons e pancadas com os pés das mesas no chão. não vocalizadas. estavam manejando o mesmo idioma. na fibra dos móveis. Lá de dentro. PENSE u Pensamento Social Espírita 18 . o mesmo nível mental. sem rádio os naufragados só podiam ouvir as pancadas. Foi uma fase muito típica em que os conteúdos intelectuais culturais se apresentavam de modo puro. ciframento: as mesas faziam movimentos convencionados. portanto uma linguagem digital. bem como havia as que eram ditas ou mesmo pensadas em língua estrangeira. quando não batiam seriadamente com os pés no chão ou então pancadas se produziam no ar. havia ainda os movimentos harmoniosos delas. os mesmos signos. apenas pensadas e ainda assim respondidas. de ruído e não-ruído. deslocando-se de um ponto para outro ou flutuando graciosamente no ar. até das extintas. do lado de fora de um submersível afundado. não sabida por aqueles que estavam presentes. os que perguntavam e os que respondiam. coerentes. já no caso dos salões parisienses. a mesma cultura. pausas. no chão e nas paredes. também. Havia casos. tudo se passava a nível de sinalização.

a princípio para eles. dotados da mesma identidade fundamental: eram espíritos. donde mandavam para cá suas mensagens. comunicações. Eles não viam. fora e dentro do espaço. numa fantasia. situados não se sabe em quê outro espaço exterior. probatórias de que eram homo sapiens sapiens que tinham peculiaridades pessoais. quando ao fato crucial de o espírito existir como um elemento independente e sobrevivente ao corpo. Foi isso. culturais e nacionais. para além dos limites de confinamento. circunvolvente do nosso aqui. mas por contatarem a comunidade e equivalência de cultura e nível mental entre eles mesmos e os invisíveis comunicantes. invisíveis. Se os ocupantes do submarino fossem. Uma revolução em antropologia. Pessoas já mortas (ou tidas como tais) continuavam existindo de posse de suas faculdades. percussões ou silêncio e com esses dois bits de significação. (a turma de salvamento lá fora) saberiam que o que quer que fossem estes. essa identidade. Seria portanto incompreensível. no exospaço. os outros seres humanos que ainda não tinham passado para a contravida como os primeiros. como que “de fora” do seu espaço comum. Tudo que tinham eram golpes. Os pesquisadores nos salões sentiam-se como que em contato com turmas de outros seres humanos.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias E como se as pessoas estivessem dentro de um endospaço. pessoas nascidas ali e vida toda confinadas àquele espaço interior. quem estava fora mas comunicavam-se com estes pelos meios precários que tinham. de sua evolução como membros da espécie humana e vinham confabular com seus semelhantes e iguais. PENSE u Pensamento Social Espírita 19 . todos eram iguais entre si. eles não saberiam da existência de nenhum outro espaço externo ao seu e julgariam que todo o universo consistia no que estava intramuros da embarcação. de sua cultura. que de fora proviessem mensagens. de dentro. enquanto que os seus parceiros de comunicação. estivessem fora. todos seres humanos. um espaço interior qualquer. tal como o do submarino afundado. compunham a linguagem que dizia tudo. que pôs Rivail na pista certa.

foi possível primeiro por um padrão de verificações que constitui a origem (e a primazia rivailiana) da mais tarde desenvolvida teoria de informação. até evoluírem para a caligrafia fina elaborada. sem ter em mãos espécimes de caligrafia. os telefones e outros. obviamente). as cestinhas de bico. só pela informação bruta. PENSE u Pensamento Social Espírita 20 . interna. com o avanço das comunicações. para expressar-se. as mesas puderam literalmente escrever. pois ao pé delas a. com elementos de grafotécnica. os fenômenos apuram-se. que as mensagens cifradas acústicas e cinéticas continham. que permitiam comparação com espécimes dos alegados comunicantes ainda em vida. ou mesinhas pé-de-galo (com três pés) escrevendo em folhas de papel. compacta. Mais tarde. pôde-se apurar que eram mesmo tais e tais fulanos que estavam-se pronunciando post-mortem. Sem nenhum formalismo. até atingir a personalização total e surgirem as produções caligráficas. O interessante é nos fixarmos no quase nenhum formalismo que esse espírito tinha no princípio. dos produtos culturais em padrões de signos. materiais de veiculação do espírito. sem textos para neles reparar o estilo e os maneirismos literários. todos são meios físicos. um de seus pés (o das mesas menores e mais leves. de assinatura. pôde-se amarrar um lápis e então elas foram manejadas de forma a produzirem escrita legível. as assinaturas. pois tudo é mídia. personalizada. mas é bom ter presente o referencial do telégrafo elétrico e do código morse. Hoje que temos o telex e os fax.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias A precisa identificação dos comunicantes como sendo aqueles próprios fulanos e fulanas que alegavam ter sido. afuniladas (corbeilles tupia) com as quais a escrita ficou ainda mais caprichada. Esse método foi substituído pelas pranchetas. sem nenhuma pista de quem o movia. no começo meros grafismos de garranchos. fica meio estranho pensar em termos de pranchetas e cestinhas de bico (corbeilles tupia). legível e caprichada. ninguém podia pensar em nada se não no fato bruto visível. via-se apenas o móvel ou objeto movendo-se e escrevendo. mas depois já escrita cursiva.

parciais ou totais. as perguntas e respostas aconteciam. o discurso falado. em que entrava o elemento fala. sobrevivia a este. a oralização ou vocalização. Aqui entra uma outra ordem de considerações. pois sua fala eram coisas do espírito. de estarem descorporalizados) estavam-se manifestando. Quando os espíritos desencarnados se revelaram com sua figura. isto é. e o elemento vocal e oral. cumulativa das duas primeiras. com letra e assinaturas aceitáveis. os bits ou unidades de informação produzindo a comunicação. Só depois que essa fase passou. tudo se passava no puro plano intelectual também. sem nenhuma verbalização. na forma escrita. esta reproduzia os traços fisionômicos e anatômicos. sem nenhuma materialidade. os puros espíritos (puros só no sentido de não estarem associados a corpos.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias E mais uma vez. com pormenores que identificavam quem respondia como sendo fulano ou fulana. as aparições tangíveis. os instrumentos ou objetos materiais. insista-se: se não se podia licitamente atribuir ao próprio aparato físico. que eram as informações. Terceiro. a autoria última das mensagens. daquelas pessoas que eles já vinham alegando terem sido como uma decisiva terceira prova de identificação. tornando impossível negar mais que o espírito existia e era independente do corpo para existir. foi a aparição visível e mesmo tangível. a figura. com o semblante. A mesa batia ou escrevia. o autor só podia ser um agente humano. sua imagem. bem mais tarde. a mente do observador que presenciava o ato. Não havia nada de PENSE u Pensamento Social Espírita 21 . Vou ser mais incisivo e didático nisso: primeiro houve a questão das respostas a perguntas. os sons se produziam. bem como suas comunicações orais e vocais. compreensíveis por outro espírito. mas tudo ficava no rolar de informações. em seguida. de obtenção de apenas um fluxo de informações vertidas através de sinais. é que veio a segunda etapa dos fenômenos. complementadas com a voz. as indicações embutidas nas mensagens. começaram as chamadas materializações. depois a caligrafia e as assinaturas. enquanto as mentes puras. dos agentes antes invisíveis e impalpáveis. que para si não passava de um mero invólucro descartável. Até ali. foram as produções caligráficas.

mas tudo isso sem corpo. Não se conhecia a produção de voz a partir de aparelhos não naturais. não natural. pois aí a exigência de corporalidade. cara.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias voz. É bom lembrar que. um ato mecânico corporal. Como então não se imaginava sequer que um dia fosse possível existirem meios mecânicos e eletroeletrônicos de produção artificial de uma voz (sintetizadores. não acústico. por exemplo) só se admitia que. deslocando os fenômenos do plano de puro espírito e trazendo-o para mais perto do mundo das formas e massas corporais. que é um fato físico-fisiológico. como hoje são os de rádio. a obtenção de voz. o gesto de escrever. mas mesmo assim tudo continuava rolando ainda no plano das coisas informais. procedentes do espírito puramente. os sintetizadores. o som vocal eletroeletrônico. o que havia era algo estranhíssimo. foi acrescentado um dado complicador: a letra. a assinatura. de som vocal. a qualquer nível. só ideias e emoções fluindo por trás da corrente de informações embutidas nos fenômeno. embora pudesse permitir sempre reconhecimentos firmes como sendo a voz de fulano ou fulana. naquele tempo. sem suporte fisiológico visível) e das aparições. o som vocal obtido através da fisiologia da fala. sem dependência propriamente do elemento forma ou corpo do agente para se produzir. Quando as mesas começaram a escrever. forma. o que sai da laringe. PENSE u Pensamento Social Espírita 22 . pelos espíritos desencarnados. a fala. A coisa ficou preta quando entraram os dois super-complicadores da pneumatofonia (que é a produção de voz direta. TV. que toda pessoa traz ao nascer naturalmente embutido em si. ao soarem as vozes dos espíritos desencarnados. crescia. das cordas vocais e dos pulmões. telefone. só se conhecia a voz humana natural. incaracterístico. O som vocal que se obtinha nas sessões espíritas era (e ainda é) muito distante do som vocal natural. apenas com recursos do espírito puro. nos casos chamados por Rivail de “pneumatofonia”. artificiais. implausível. que exigia o gesto gráfico. do uso do aparelho batizado de fonação. Sempre pareceu metálico.

de roubar ao espírito sua espiritualidade. quando o espírito. exatamente para evitar a contaminação semântica entre a noção pura de espírito e essa incompreensível reincidência na matéria. isto é. Rebatendo essas críticas. na condição de caudatário. de novo. essa condição nele essencial. permitindo contatá-los materialmente. antes. Usava. a perdida corporalidade e portanto a materialidade ou substâncialidade. o visual. o auditivo e principalmente o tátil. se descrever com palavras e estas muitas vezes de sentido ambíguo. de “materializar o espírito” desespiritualizando a alma. num plano igualmente só espiritual. pudessem existir fora dos corpos. isso tornou-se espantoso. sem mais nada. uma das raras vezes em que se fez isso no seu tempo. onde imperam as condições semânticas com as dificuldades de se dizer. de repente retomavam a forma e a massa e pareciam materiais outra vez. justamente contornando o impasse linguístico. isso já era admissível. puramente. propriamente. e a representação dos fatos por palavras. a perfeita distinção entre o campo factual. Rivail não costumava usar. um paradoxo ou coisa pior.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias Tudo piorou quando as materializações. Era literalmente uma contradição. de jornalistas que lhe cobravam o que eles mesmos chamavam de “materialização do espírito”. isto é as aparições tangíveis ou mesmo não tangíveis. o que fazia com que esses críticos apressados chamassem Rivail de “materialista”. temporariamente. os fatos. repondo-o. a palavra materialização. de dependente da matéria. Rivail produziu. era plausível. puros (no sentido de “sem corpos”) pudessem se comunicar. Que uma mente ou espírito. voltando a impressionar nossos sentidos. a própria negação da matéria. dizer “aparições tangíveis” ou “não tangíveis”. PENSE u Pensamento Social Espírita 23 . mas mesmo assim foi alvo de críticas de pseudofilósofos. é bom insistir nesse lembrete. apenas diáfanas. já o campo linguístico. por mais revolucionário que tivesse sido aceitá-lo. ou seja. de modo palpável. dos fatos em si. se tornaram banais. Mas que eles revestissem de novo. a mente. para descrever essa retomada da antiga corporalidade.

tinha-se de ter aqueles cuidados de observar tão finas distinções. reparte-se entre dois tipos de coisas. existia. não. a obra que discorria sobre as mentes livres descorporalizadas). um domínio puramente cultural. desprovidos de qualquer corporalidade material. (op. Se no campo semântico. isso seria inexato. por serem consistentes. já no campo factual. sem matéria alguma em si.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias Na própria obra inaugural da ciência espírita. assim como a massa-energia (ou seja. já aparecia uma defesa prévia dessas futuras acusações: perguntava Rivail no livro se se podia dizer que os espíritos livres justamente por serem isso. a matéria) é a substância do corpo fisiológico. O Livro dos Espíritos (isto é. o inexistente e que o espírito era alguma coisa. Em lugar disso propuseram que se dissesse que eram “incorpóreos”. portanto não se podia dizer dele que era imaterial. questão nº 82). o dos próprios fatos naturais em si. diferente do outro campo. essa é uma nomenclatura moderna. constituídos de alguma coisa que não a matéria (esta hoje chamada de massa-energia em física). além da que vínhamos manejando até aqui) que pode licitamente ser pensado como sendo a substância da mente ou psique. atual. pelas palavras. chamado vulgarmente de “espírito”(essa é uma segunda acepção da palavra. posterior portanto à do tempo de Rivail. para não confundir com as coisas inexistentes apenas imaginárias. Mas esse ai é o campo da representação dos fatos. mas tudo mesmo. lexicográfico. cit. Só existem esses dois elementos PENSE u Pensamento Social Espírita 24 . o não ser. E o fato bruto era que as mentes são feitas de um quê qualquer. resguardando assim a ideia de que. o espaço-tempo e a massa-energia. tem-se essa noção fundamental. A pergunta foi endereçada a algumas dessas mentes já desencarnadas. todo o existente no universo. de que tudo que existe. podiam ser chamados de imateriais. Outra vez esbarramos com o campo das palavras: dentro da cultura geral humana. ponderaram-lhe que imaterial queria dizer “o nada”. é a “substância” dos espíritos. o factual. só espíritos. tinham direito a não serem chamados de imateriais. Em resposta.

não sendo muito utilizada então a palavra energia. porém. que representavam os que tiveram corporalmente. glandular. ou “a força”. mas hoje são apenas modalidades de energia. de modo bem claro e ordenado. o magnetismo. uma autonomia. essa constituição universal de então. unicamente. uma propriedade cerebral e neural. a luz o princípio vital. clamam as ciências e nenhum outro mais. o tempo (separados) e a matéria. Norberto Wiener. uma substância indefinida embora muito invocada. A eletricidade. a gravitação. é bom ter sempre bem presente isso. no tempo de Rivail dizia-se que eram só o espaço. que sua natureza e caráter são os de uma ciência e portanto tem-se de aprender as coisas que o integram ou lhe dizem respeito. reduziu-se ao que hoje. PENSE u Pensamento Social Espírita 25 . Porque os espíritos desencarnados se apresentavam com uma forma e um semblante. Não era um elemento independente. A palavra energia como nome de um novo conceito de força. tal como se aprendem regras e noções de quaisquer ciências. Havia os fluidos também. uma fisionomia. Só para constar. então. espíritos não são meros conceitos puramente ideais. O espírito sempre foi inegável. O espiritismo é uma ciência. Voltando ao universo conceituai do tempo de Rivail. impossível de ser negado pois que se impunha como um dado muito ostensivo que se afirmava por si mesmo. mas mesmo assim era pensado como um elemento material e biológico. uma mera manifestação funcional do organismo.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias universais. portanto são parte do continuum massa-energia. como o “pai da cibernética”. que seria um terceiro elemento universal. então uma conclusão se impôs: as mentes desencarnadas não são puras abstrações. como uma das propriedades fisiológicas. propôs também um tertius: “a informação”. só foi incorporada ao vocabulário de ciência bem mais tarde. o calórico (o principio do calor) e o logístico (o do fogo) eram chamados de “fluidos”. bem como as forças. algo intermediário entre a matéria e a energia. em linguagem contemporânea são chamados de espaço-tempo e massa-energia.

Os ingleses nunca aceitaram propriamente a ideia da reencarnação. Isso era pura constatação de fatos. Na língua francesa. do espírito puro. que é uma quase satisfatória descrição do que acontecia nas sessões de materialização. ele continuará tendo uma figura e uma forma tangível) Rivail teve de produzir um conceito crucial. o fato de que pós . essa gama de fenômenos não ficou muito bem definida ou descrita. do já perdido corpo físico. noutras palavras. uma determinada coisa. até mesmo tangível e reproduzir. como essa: “parto astral”. sem passarem pela “fecundação concepção . mas sim que revestem temporariamente a antiga materialidade corporal que tiveram. os médiuns videntes.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias eles tem alguma objetividade. então.parto”. coisa temporária. embora diferente de tudo que seja massa-energia. a alternação de cada espírito entre a vida e a contravida. o perispírito. alguma corporalidade.morte. mas que em certas condições e à vontade do espírito desencarnado. uma PENSE u Pensamento Social Espírita 26 . o médium. numa espécie assim de “reencarnação” sem nascimento. e n° 2. os quasorgs (de “quaseorganismos”) deles surgindo uma espécie de “cordão umbilical” muitas vezes perfeitamente visível. sempre como um envoltório seu. pois via-se sair do corpo dos médiuns a substância (chamada ectoplasma) que ia formar o pseudo-corpo dos espíritos materializados. chegando até (a mal) chamada “materialização”. muitas das propriedades fisiológicas puramente corporais. o de encarnado e o de desencarnado. um certo quê. palavra que não significa crassamente que espíritos deixem de ser espíritos. que no seu estado fundamental escapa totalmente ao sensório dos encarnados. pode tornar-se visível. viam os espíritos livres com a forma que tiveram quando encarnados e estes vinham mostrar-se em variados graus de objetividade. reconhecendo que cada mente ou espírito tem. mas no inglês chegou-se a produzir expressões muito boas. com extrema exatidão. um algo indefinível em termos comuns. ligando a forma materializadora a sua fonte. palavra que Rivail produziu para descrever o processo da alternatividade de existência do espírito nos dois estados. Para contornar o ponto e acomodar as duas realidades numa fórmula única (de um lado o fato n° 1. pois pessoas superdotadas sensorialmente. Ou.

terem uma figura. do tipo “carne e PENSE u Pensamento Social Espírita 27 . descorporalizados. serem agregados temporais de massa-energia (o ectoplasma cedido por outrem) que reproduzem o todo ou parte do que era o antigo corpo carnal do indivíduo revenant (ou retornante). Tudo isso são puras questões linguísticas. a mente que o animava em vida continua existindo perfeitamente agregada e funcional. de uma para outra das culturas nacionais. que é o fato do espírito existir independente do corpo. do que são as palavras. Mas usaram uma palavra equivalente no inglês (rebirth. uma forma. Tal é aquele conceito acessório que Rivail. tangíveis e até essa assombrosa última coisa. que desnorteou muita gente boa: suas aparições tangíveis constituírem pseudo-organismos. perfeitamente periféricas ou marginais à coisa científica central. com expressões. com que se procura exprimir aquela noção e que são inevitavelmente variáveis. ainda por cima associada a um perispírito. atuante. também reencarnando. um organismo. quase-corpos ou (num neologismo) quasorgs. a vida e a contravida. por necessidade lógica teve de admitir e produzir para explicar o porque. a noção em si é o fato bruto de que o espírito não pode ser confundido com seu corpo. até idiomáticas. a terminologia e a fraseologia o discurso enfim. O espírito materializado Kate King foi um dentre as dezenas dos que puderam ser muito bem estudados por cientistas durante o fato da materialização. diferentes. bem como tornarem-se visíveis. No caso. de os espíritos livres. Em ciência temos de sempre separar bem o que é a noção do fato em si. de sobreviver à extinção deste e frequentar as duas condições ou estados. isto é. Não se tratava de um corpo.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias noção ao mesmo tempo científica e filosófica apurada por Rivail. que é independente deste e prova-se isso mostrando que após a desagregação corporal. renascimento) para descrever o fato de o espírito livre reingressar no ambiente propriamente físico (a biosfera) para atuar sobre um médium nos casos de psicofonia (quando usa a voz do médium) ou psicografia (escrever usando o braço e a mão do médium) ou então para rematerializar-se momentaneamente.

feito apenas para permitir que o espírito pudesse resgatar por tão breve lapso de tempo. inspirado no que já se usou (com êxito) no caso do quasar (sigla de “quase rádio emissão”). “alucinação objetiva”. PENSE u Pensamento Social Espírita 28 . Até hoje não se conseguiu produzir um nome. de um espírito livre de novo revestir a antiga corporalidade e exprimir isso corretamente. há outros. o principal deles é o chamado médium de materialização. quasorgs podem ser amavelmente entendidos como “clones ectoplásmicos” Fica perfeitamente sabido que o espírito livre apenas usa e incorpora a si a massa-energia do ectoplasma. a antiga corporalidade ou pelo menos reproduzi-la para fins de identificação. Não é um corpo biológico real. por isso o chamei de quasorg ou quase-corpo. pois não se perde. em boa linguagem. dando perfeita ideia de que trata-se de uma produção não biológica (pois não acontece por um processo genérico de reprodução) de um agregado de massa-energia quase orgânica. é apenas algo que funciona como se fosse isso ou quase isso. cedido por vários doadores. que não foi obtido pela forma usual (esta de dois indivíduos. um casal. não passava de um facsímile. uma espécie de reconstituição ou simulacro parcialmente funcional. aos quais por sinal ela mais tarde retorna. absolutamente não era. O quasorg chegou a ser chamado de “alucinação telepática”.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias osso”. mas sabe-se que este não é o único doador. presentes. uma palavra adequada para descrever e definir o que é o fato da materialização. o corpo fantasmático é um quase corpo. por isso ousei propor o termo quasorg. as demais pessoas e mesmo organismos vegetais e animais. portanto é um quasorg. a ectoplasmia. de duração brevíssima. de “fantasma telepático” pois a linguagem comum tanto como a científica não tinham como acomodar aquele fato totalmente novo. cada um cedendo uma célula sexual. do mesmo modo que o quasar não é uma estação rádio-emissora plantada no espaço sideral. quando o médium e outros doadores cedem a substância biológica tirada de seus próprios corpos. os gametas) e sim por outro modo. no coito.

um certo “banco de memória” embutido em seu elenco de funções. sem ser para fins de reencarnação. a nível bioquímico e biofísico. Quando reingressado na biosfera. O espírito atua sobre esse alcance circunvolvente de si. só ouvindo. pois o espírito é uma fonte natural de ideoplastia ou mentoplastia. por exemplo: que o perispírito é um campo. da materialização. arriscando-me a não ser perfeitamente interpretado (e até censurado por isso). Toda massa-energia capturada nesse campo sofre sua ação organizadora e plasticizante. são palavras muito pobres para descrever ou definir essas funções do espírito. Vou tentar descrever o fato com uma linguagem de alto risco. no todo ou em parte o antigo corpo que teve e suas funções. quem sabe? A obter de outros uma razoável compreensão. muito menos havia-se sequer imaginado o que mais tarde se constatou. partidos dele. contarem a ele um certo fato traumatizante. reconstituindo por uma duração muito limitada. então o seu campo perispirítico atua sobre esse material. apenas ouvindo.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias Na época de Rivail isso era uma perfeita perplexidade pois não se manejavam conceitos como “energia” nem “campo”. esse espaço em torno dele e estabelece aí nessa região o que se chama de “campo perispiritual”. o espírito entra em contato com as porções adequadas de massa-energia (ectoplasma) postas a sua disposição para o fim específico de materialização. uma porção de espaço adjacente ao espírito ou mente. desse espírito. no ambiente geofísico. seria algo vagamente parecido com um certo fenômeno chamado de “somatização” em medicina. por outro lado. uma área que contém padrões virtuais direcionados de energia. a comunidade fundamental proposta por Planck entre a base da massa-energia. Hoje Rivail com certeza diria essa muito melhor. diria que o que se passa nesse momento. expondo-me. mas. entre outras coisas quando alguém. em o qual se manifesta sua função típica de organização e direcionamento da massa-energia (mentoplastia). que são as partículas de emissão de energia (os quanta) e a base da matéria biológica. que são as células e o seu endoplasma. entra numa criPENSE u Pensamento Social Espírita 29 . que é. a partir de uma espécie assim de “memória”.

que atingiu outrem e então muito vivamente sente-se em corpo algo parecido com aquilo que se está ouvindo. no meu imaginário. pela distância lá em cima. náuseas). só ouve uma mera história) ele entra em uma crise de nojo. algo que ela tanto teme. tudo isso quando não há nada em sua boca. Finalmente (e isso já é um caso pessoal meu) essa terrível sensação de desconforto físico que invade quem ouve falar de um acidente. as máscaras fisionômicas de repugnância. uma espécie de reflexo condicionado. Incluem-se os casos das caretas. à sensação real PENSE u Pensamento Social Espírita 30 . apenas por força de somatização. sem nenhum contato físico direto possível. se está almoçando e de repente alguém começa a narrar ocorrências repulsivas. compondo ritos faciais de reação ao que seria cabível acontecer. onde ela está. na perna uma espécie de “friagem” o que corresponderiam. só por ouvir contar (ele de fato não está sendo atingido por nenhum estímulo sensorial real. dezenas de metros abaixo. vê lá em baixo na calçada. nada entrou em contato com seus lábios. Por exemplo. mas só no caso de estarem efetivamente degustando substâncias. de hipersensibilidade) que na janela. Também é uma somatização. de um quinto ou sexto andar de um prédio. visão só por palavras. Para ilustrar: se alguém me fala que viu fulano pisar em cheio em um caco de vidro e este entrou cortando as carnes até o osso. num reflexo inevitável só de ver. alguém ameaçala com o conhecido gesto de fazer cócegas. como tato. Também é somatização. de náuseas e vômitos. pelos sabores e ação química (por exemplo: os ácidos e os adstringentes). em si. de que recua e foge descontroladamente. cheiro. então o indivíduo. uma reação quase física que corresponde ao conteúdo da narrativa. Ou então a pessoa muito sensível a cócegas (e há casos até patológicos. embora em perfeita segurança. de um desastre com lesão corpórea. eu me encolho abalado e sinto algo indescritível no meu pé.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias se de reprodução em si mesmo daquelas coisas que lhe estão contando. nojentas que provocam habitualmente sensações eméticas de asco (vômitos. apenas estão ouvindo contar uma história. repugnante. tal como se realmente tivesse presenciado a coisa repulsiva. língua e nariz.

A mente aí. Somatização é ainda o caso das estigmatizações que pessoas hipersensíveis fabricam. literalmente. nesse processo. acontecimentos muito estressantes. caso eu estivesse no lugar dela. PENSE u Pensamento Social Espírita 31 . quando ela entra no seu campo perispiritual. as chamadas “melancolias”. algo que de fato não foi de ordem corporal mas que nossa mente. enquanto encarnado. subliminarmente. aquelas marcas vermelhas que aparecem no corpo em seguida a fortes dissabores. já que nada está de fato cortando meu pé). corporalizar. quanto à materialização. numa quase-sensação (pois não é uma sensação real. fazer no próprio corpo. talvez. o que a mente ou espírito faz. Talvez seja um caso assim de somatização. para si mesmas. que entram em ação. por um mecanismo totalmente psicológico. eu não preciso pensar. do caco me furando até o osso. à sensação real da vítima. também. rasgando minhas carnes. Essa capacidade que a mente ou espírito tem. mágoas profundas. um incidente estressante muito forte que afeta o paciente (não fisicamente). a febre. eu tenho memória disso. cortante. como são esses padrões virtuais. ao entrar em contato com a porção ectoplasmática a sua disposição. talvez (note bem: eu disse “talvez”) seja a própria facul dade que o mesmo espírito aciona para impor à porção de massa-energia ectoplasmática. um trauma. uso do imaginário e organizo uma certa quantidade de estereótipos mentais do que seria isso. já cortei o pé muitas vezes e faço ideia de como é. de um modo apenas relativo. parcial. de infligir ao corpo tais efeitos. isso a nível puramente de comparação. por mera força mental ou repercussão psicológica.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias responderiam. porque eu imagino. tudo o que se desencadeia por efeito de uma depressão. os surtos de herpes (só para citar um exemplo). um “alerta vermelho” reflexo em minha mente. aquela coisa realmente muito desagradável. eu sentir um pedaço de vidro cortante. quando ele se dispõe a reproduzir o antigo corpo carnal. É a urticária. tais e tais especificações que são o elenco de padrões virtuais desse campo. é uma ação subliminal. Somatizar é. a disenteria. Eu só “sinto”. Quer dizer. somatiza. inflige a ele. refletir para isso. no meu imaginário. perfurante.

formas intermediárias que não afetavam os sentidos mas cujos efeitos eram reconhecidos. que só existe ali. por favor insista neste estudo. reingressando na biosfera.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias A mente atua incessantemente em seu redor e esse “redor de si” é uma região do espaço chamada de “perispírito” por Rivail. caro leitor. Pois a mente é o centro desse campo. enquanto encarnado. só vai fazer o mesmo quando o espírito. onde este atua. Por mais fastidioso e desinteressante que o assunto possa. substituindo a outra ideia anterior. que só existe naquele ponto porque é causado pelo fio condutor e pela força elétrica que nele circula. funciona como uma fonte de constante sustentação do complexo celular. PENSE u Pensamento Social Espírita 32 . naquele espaço em seu derredor. exerce seus poderes. operando a sua continuidade e manutenção. parecer. se dispõe a atuar de modo parecido sobre o ectoplasma . nas sessões de materialização. O perispírito é assim o campo mental. acompanhe-o até o fim. de que o espiritismo é uma mera crença religiosa ou gênero de opinião. do mesmo modo que em torno de um fio condutor há também uma região de espaço coberta de força atuante. a construção da palavra peri (“em torno de”) sugere a ideia intuitiva de campo. a esta altura. compondo um campo eletromagnético. de existir um certo “fluido vital”. o de plasticidade ou mentoplastia que. uma extensão ou porção espacial circundante do espírito. Depois de Rivail a ideia do perispírito como um campo mental. a indução. vingou e prosperou. de todo falsa. do organismo biológico (o corpo) e depois. é aquilo que Maxwell criou e usou esse conceito de campo (dez anos depois de O Livro dos Espíritos) nunca mais abandonado depois disso. Ele é uma ciência e precisa ser entendido como tal ou não se compreenderá tudo a seu respeito. particularmente esse. Dizia-se isso porque a física e por extensão a medicina (fisiologia) estavam na fase mecanicista. que estivesse disseminado no corpo vivo. então eram fluidistas e achavam que entre a matéria e a força (hoje se diz a “energia”) havia os fluidos. a seu benefício. por causa dela. do contrário não se superará nunca a impressão. na contravida.

a gravitação universal. Era o “fluido vital” ou “princípio vital” uma ideia foi herdada da botânica. Pois falta mesmo. entendia-se corretamente que havia uma distinção a fazer entre os dois a de que. podia acomodar-se com aquela noção que durou relativamente muito pouco e imediatamente foi desacreditada. que estava impregnado nos corpos quentes e que já tinha abandonado os frios. tão sábio e superior a sua época. não está falando pro2 Palavra latina: principal dificuldade. uma área de saber que datava do século dezoito e deitava raízes em séculos até bem anteriores. gustado nem ouvido. que não afetava nossos sentidos mas que mesmo assim existia. Quem fala de magnetismo aí. uma área de estudos. e não admira que Rivail falasse tanto em “fluidos”. De fluido em fluido. algo invisível. então era um fluido. correto. era observação do calor. um quê presente no corpo quente e já faltante no corpo frio. prevaleceu até quase este século agora.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias A ideia de que havia fluidos era fundamental na ciência contemporânea de Rivail. vinha do século dezoito. cerne. um quid 2 qualquer fatalmente ausente no cadáver o que em nossos termos de lógica é. eram fluidos também. “fluídico”. quiçá milênios. o magnetismo. no ser vivo existia algo. acertado. repito. um certo quê. numa insistência de linguagem que hoje causa alguma dificuldade de conciliar como ele. que ele era estudioso do magnetismo. aí a ciência antiga desacertava e imaginava que fosse uma coisa que chamava de “fluido vital”. não podia ser negado pois estava no ser vivo e não estava mais no cadáver. até ser desbancada pela ideia muito mais justa. inodoro. inovada por Maxwell. inapalpável. Mas o que era? Bem. como outro quid. ou de antes. cheirando. Como não era visto. PENSE u Pensamento Social Espírita 33 . do “campo”. tinha já 49 a 51 anos (1804 a 1855/1857) e havia uns 35 já. constitui a base da escola filosófica chamada de “vitalismo”. apalpado etc. intocável. o quid do problema. Na física. Perdoe-me a digressão que vai ser longa mas Rivail ao contatar os fenômenos das mesas girantes e criar a ciência espírita. achava-se que a eletricidade. Vendo o cadáver como algo tão diferente do corpo vivo.

A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias priamente do fenômeno conexo com a eletricidade. fossem como magnetizadores ou magnetistas. mostrando que nada passava do magnetizador. aquele fisiológico. O magnetismo tornou-se um território de crença e opinião místicas. doado. havia uma autossugestão (ou heterossugestão). Por exemplo. facilitadas por certas vulnerabilidades do hipnotizado devido a sua arquitetura mental. como a própria medicina. passado por um ser humano a outro. respeitável. química e a astronomia. um dia também tiveram. dizia-se antigamente que era “físico” o doutor de medicina. mas na época de Rivail ainda era um espaço de estudos e metodologias acreditado. Mas foi com Mesmer (Francisco António Mesmer). sem que fosse de fato um físico. organizavam-se em duas áreas e duas corporações diferentes. numa operação chamada de “passe”. por ele chamada de “Celha” uma cuba. como se pretendia. um fluido vital que podia ser cedido. fruto do cansaço. em que ele pensava se acumulasse o fluido magnético ou fluido mesmérico tal qual hoje lidamos com as baterias de autos. mas que a própria mente do hipnotizado é que entrava em ressonância com a mente do hipnotizador. a alquimia e a astrologia também. o sono ou é natural. Foi Braid (Joseph Braid) um médico inglês quem desacreditou o magnetismo. para o paciente ou “sujet”. rendia-se à sugestão desta. como uma espécie de acumulador. Mesmer chegou a construir uma máquina. muito mais do que propriamente um saber científico. com muitos sábios que se dedicavam a ele. imitando os estudos de Volta e Galvani com as pilhas elétricas. primeiro teve a ver com a magia. física. conflitantes entre si. E outra coisa: os estudiosos e partidários do magnetismo estudado por Rivail dividiam-se entre magnetizadores e magnetistas. já no entendimento comum atual) que se consolidou a ideia de existir um fluido magnético humano. que Maxwell unificou na teoria do eletromagnetismo. O magnetismo nasceu da crença muito antiga da influência dos minerais e metais sobre a saúde humana. um físico vienense (que é um nome de médico de antigamente. da acumulação das toxinas nas PENSE u Pensamento Social Espírita 34 . não. com o “passe”.

com nenhuma passagem de nada. um conceito errôneo.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias células. chamada de neguentropia. a coisa é outra. nada escorre de um corpo quente para outro frio. uma manifestação de energia (outra palavra hoje suspeitíssima muito usada nos papos atuais. linguisticamente. dos líquidos e de certos sólidos granulados. substâncias. pela exposição a ruídos. uma ação de constante refecção. que existiria nos corpos vivos e esgotado nos cadáveres é outra balela. isso Benjamim Rumford demonstrou cabalmente. de um para o outro. o que há é que o corpo vivo está mantido assim por se achar contido nos limites do campo perispiritual ou campo da mente que é o seu psicossoma e psicoesfera. operações exploradas pelos hipnotizadores para alcançarem o objetivo da rendição sempre consentida do hipnotizado a sua influência. por sinal errada. metais. há um espírito ou mente associado ao corpo e a massa-energia corporal deste está coberta pela ação (aqueles padrões virtuais inerentes ao perispírito) desse campo. calor é uma forma de movimento molecular. tudo se devia à arquitetura da mente humana e ao elenco de suas funções. passava. a luzes. para as pessoas que com eles entrassem em relação. dizia Braid. ou então é provocado. na pessoa dos magnetizadores. sustentação dos processos básicos vitais. a certos manejos que provocam relaxamento e disponibilidade. A palavra foi aplicada a um conceito. A princípio. PENSE u Pensamento Social Espírita 35 . que já era para hoje ter-se desmoralizado totalmente. como se fossem líquidos passados. e sempre de modo bem questionável) sujeita a entropia. escorre. como por exemplo a areia. Por tudo isso morreu a ideia do tal fluido magnético. “num passe”. induzido. desliza. que nunca tomam uma forma só que. de que havia aquele um certo quê. uma ideia. redução. Mas nada disso tem a ver. aquele “algo mais”. fluido é tudo aquilo que flui. pessoas. Portanto o tal fluido vital. que proviria de pedras. é o que se diz dos gases. no corpo quente. que fluía. Que o calor não é nenhum fluido. tomavam sim é a forma dos vasos que os contêm. escorria. vegetais. portanto. oxidação. fosse própria deles. dessas fontes para outras coisas. no corpo vivo. minerais. animais se acumularia em tais e tais depósitos onde depois seriam retirados e escoados.

chegou-se a chamar de “fluido vital”. depois do óbito. que dirá sendo. no caso particular dos corpos vivos. como se existisse mesmo tal coisa. separada e diferente das outras que são o corpo e o espírito. isto é. por algum tempo. Todavia. não. bioquímicas a nível molecular e atômico. este é que é a fonte principal daquela ação que por um erro de observação e outro de avaliação. mantém neste um certo nível ou gama de funções vitais pela ação do seu perispírito. por neguentropia própria. perfeitamente capaz de autossustentar-se sozinha. o indivíduo anímico. revestido de seu campo chamado perispírito. Há no conjunto corporal a ação de outras forças (energias) além das emanadas do perispírito. dentro do ser humano. que movem-se mesmo depois de separados do corpo. ou aquelas contrações das patas de rãs que Galvani estudou. talvez o fato de que. unicamente mantendo-se devido a propriedades da massa-energia mesmo. de lagartixas. puramente. então é que se acrescentam mais outros parâmetros funcionais típicos desse outro nível de organização.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias E bom entender que não se pode sair de um erro para cair noutro: não é que o perispírito seja a única fonte de conservação da vitalidade. concorrendo e competindo com a ação propriamente mentoperispiritual. sem perispírito nenhum associado a eles. como é. O que há é que o espírito. enquanto que outro nível ou gama restante de funções vitais também. já conteria um elenco adicional de forças inerentes a ele. O indivíduo ou ser “espírito”. uma terceira substância com existência a parte. um agregado também biológico. residente num corpo vivo. a gravidade. é mantida pelas propriedades da massa-energia mesmo. de “princípio vital”. PENSE u Pensamento Social Espírita 36 . mas nunca se esqueça que esse conjunto carnal. exerce sua ação sobre o equipamento corporal. como é um bom exemplo. tudo confluindo. cabelo e unhas crescem por algum tempo e até ações reflexas esboçam-se como no caso do rabo de répteis. a hidrodinâmica. até certo ponto. pois há organismos vivos. justamente por já ser um agregado de massa-energia. dos organismos que estão contidos em campo chamado perispírito. o biológico. o eletro magnetismo e as forças celulares. a entropia/neguentropia. como a cinética.

quando a ciência já fornecia mais base. como ser. pois visa a produzir um ser particular. pois obedece a uma programação geral das espécies. assegurando esse resultado. O par de células sexuais humanas. pois faltariam. garante-se que o embrião vá a termo. quanto é filogenético. naturalista alemão. a evolução da vida no planeta. só descobertos por Crick e Watson em 1953. por ele mesmo. Isso aí parecem ser operações de um processo típico da própria massa-energia. mas que Gabriel Delanne já retomou e expandiu magistralmente em suas obras. do conceito de um perispírito. uns sessenta e poucos anos depois. do filo. 3 Ernst Haeckel (1834-1919). PENSE u Pensamento Social Espírita 37 . Em geral dão em nada. aqueles padrões virtuais típicos do campo mentoperispírito. a dupla hélice do ADN/ARN.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias Isso se coloca muito bem naquilo que Haeckel 3 chamou de ontogênese e filogênese. do indivíduo. a segunda é o desenvolvimento seriado da espécie. a própria marcha histórica de todas as espécies vivas. ao desenvolver-se. a primeira palavra é o desenvolvimento seriado do ser. ao fundiremse na concepção. algo impossível de ser desenvolvido satisfatoriamente em seu tempo. pois há embriões humanos que se desenvolvem sem que houvesse nenhum espírito para habitá-los. fecundação. ontológico. Quando há um espírito dirigindo o processo. de que “a ontogênese confirma a filogênese”. através de algo que Haeckel nem sonhou o código genético. então ao desenvolver-se temos que ele percorre um série de posições que são tanto dele. atinja a fase mamífera e hominal da embriogênese nascendo uma criança viva. Tudo isso são meros exercícios de suposição e raciocínio só meus. O que não estaria garantido em caso contrário dos fetos inviáveis (os natimortos). detonam um processo evolutivo que tanto é individual. por si mesmos progridem como objetos dessa ontofilogênese. logicando sobre os resultados da criação. foi um dos grandes divulgadores do evolucionismo de Charles Darwin. são meros produtos teratológicos. por Rivail. já que cada embrião humano parece que recapitula. como indivíduo. quanto da espécie: por isso Haeckel cunhou a sua célebre frase. F F O embrião é um indivíduo de uma espécie. suponho.

por causa da temperatura. Quando se formulou o conceito maxwelliano. da fita magnética. cada vez que a ciência mostrar a necessidade de inovações e renovação. PENSE u Pensamento Social Espírita 38 . porção de solo. temos de marchar com a ciência e ter coragem intelectual de abrirmos. em heráldica campo é uma região do escudo ou brasão. Ninguém resmungue por que Rivail falava de fluidos. de território (Ager-agri e campus-us). Hoje ninguém fala mais em fluidos no mesmo sentido em que até o fim do século dezenove. tal como se diz isso em informática também. 4 James Clerk Maxwell (1831-1879). Portanto a linguagem espírita. melhor. do disco magnético. que fluem uma sobre as outras e que não tem forma própria. formados de partículas deslizantes. nossa linguagem. hoje se diria. arejarmos. que se subdivide em três níveis de coloração. apenas subjetivo que Maxwell havia fixado. tal como foi depois empregado por Maxwell 4 . bandeira ou o que for. mas formulou corretamente por antecipação o que seria afinal esse futuro conceito maxwelliano. O que se diz hoje nesse sentido é com relação às substâncias e corpos materiais e minerais. que há o perispírito e também a psicosfera. como desdobramentos de sua noção original. além do significado original geral agrário de trato de terra. o espaço em redor do pavio aceso. tevese em mira a imagem anterior da chama da vela.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias Rivail não conhecia talvez em 1855/1857 o conceito formal de campo. o espaço em seu derredor submetido a ação dessa carga elétrica. pois isso hoje seria errado. desenvolveu estudos sobre o electromagnetismo que serviriam de base para a relatividade restrita de Einstein e a mecânica quântica. tal como Rivail lecionava. precisa dar uma reciclada e adaptar-se à física moderna. F F É bom lembrar que a palavra “campo” sempre existiu em todas as línguas cultas. que usa de fluidos a todo momento. com todo respeito a Rivail. tomam a do recipiente que os contém. falando de campos do cartão magnético. físico e matemático britânico. tornando bem objetivo o conceito apenas ideal. Precisa falar mais de campos. nem fique preso a essa palavra só porque foi usada por ele. de que toda carga elétrica gera um campo.

a cinemática. por continuar existindo na contravida. pois a física tem uma parte que trata dos sons. em que outro mais? Havia outro? O chamado espaço euclidiano é o espaço comum. mediata.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias Além de ter esse relacionamento com a medicina. que também se colocou de modo fortíssimo. Além dessas duas noções imediatas. haviam-se separados dos seus. e outra que trata dos movimentos. Ora. já desagregados e extintos. o espiritismo é relacionado ainda estreitamente com a física. conhecido naturalmente de todos. outra mais houve. sons e deslocamento de objetos. homo sapiens sapiens. como por outra razão que iremos desfiar. objeto da física e da geometria. fora dos corpos e sem necessidade mais destes. por suas manifestações. então como era isso? Onde se passava essa contravida humana. Se era assim. portanto não podiam ocupar nenhum lugar no espaço euclidiano. mentes. E se não ocupavam algum lugar neste. espíritos. cuja mais evidente propriedade seja a sua mensurabilidade. ele não só estabeleceu a existência do espírito como coisa a parte. não só porque o conceito de campo é comum às duas ciências. Quando Rivail fixou que eram seres humanos. já que por definição não tinham corpos mais. consiste em se estudar como era o habitat desses espíritos livres. a propriedade de ser medido e definiPENSE u Pensamento Social Espírita 39 . como também que havia uma sobrevivência desse espírito. se espíritos existiam numa outra fase ou etapa além da vida. que moviam as mesas e faziam os ruídos. descorporalizada? Qual espaço era o habitat dos espíritos livres? Que propriedades tinha esse espaço? Seria o mesmo espaço euclidiano? A relação imediata entre o espiritismo e a física começa porque os fenômenos que deram origem à ciência espírita afetaram a segunda ciência em dois pontos. a psicologia. Já a relação mediata (diferente daquela primeira a imediata). em tudo por tudo. que é a acústica. independente do corpo. a biologia. justamente o que os espíritos livres de corpos mais faziam para chamarem a atenção: ruídos. Apenas não tinham mais corpos. enquadrados como seres antropológicos. espíritos são mentes de seres bem humanos.

Só dá ele. O espaço euclidiano é tridimensional. sempre tem de estar em algum ponto do espaço. usando três referenciais. não só eram invisíveis naquele ponto como ainda pior. que não seja mero produto da imaginação. então ela tem de achar-se em algum lugar. os resultados eram desanimadores: impossível detectá-los ali onde apontavam. A verdade é que um experimento crucial foi levado a cabo por Rivail. o comprimento. se uma coisa é reconhecida como existente. como agentes dos fenômenos estudados por Rivail. nele se localizam corpos. de que um corpo. localizado num certo ponto. fazer a plotagem de um corpo. Que eles existiam. em algum lugar. ocupar um certo espaço aí. exclui que outro possa simultaneamente estar ali também. que gerasse sua impenetrabilidade e portanto sua consistência definindo o lugar que ocupavam no espaço. dois corpos não podem ocupar ao mesmo tempo o mesmo lugar. eram impalpáveis. profundidade. esse é um procedimento humano universal. Como corolário. portanto tem de ocupar uma porção deste. longitude e altitude. então dá-se por inexistente essa coisa. Essas regrinhas do espaço euclidiano forma violadas no caso dos espíritos. vedando este a outros mais. isso é o princípio de excludência. Se não acha espacialmente onde está qualquer coisa. devia de algum modo e principalmente. chamadas de dimensões. Em termos geográficos ou em medidas de maior porte. Quando se pedia aos espíritos que informassem onde estavam. intangíveis e não possuíam nenhuma massa. para efeito de sua localização. de estar ocupando esse lugar exclusivamente. isso não se podia negar. coisas. (Revista Espírita de setembro de PENSE u Pensamento Social Espírita 40 . Outra propriedade fundamental do espaço euclidiano é que nele. a largura e a altura ou espessura (a profundidade também). Determinar este lugar. objetos. diz-se latitude. com isso excluindo que outra coisa ocupe o mesmo lugar no mesmo momento. particular seu. só dele. Não há efeito sem causa pois. se o espírito existe. Em contrapartida.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias do ou descrito em termos de algumas especificações. é plotar. qualquer coisa existente.

era só um campo. uma forma vaporosa. de que o princípio de exclusão existe. a do espírito era nula. eram indiferentes. só diz respeito a um determinado espaço. não foi violada porque de um lado estava um corpo. simultaneamente. o de Rivail. Esta. No caso. no instituto nacional do “jeitinho”. essa é apenas uma hipótese. é só um campo. Rivail nela se sentou. a lei de exclusão. Ora seriamos vistos como que interpenetrados.é. selecionado entre PENSE u Pensamento Social Espírita 41 .. só a massa do corpo de Rivail é que tinha. i. numa boa. em derredor de uma mente. parecem que fisicamente. o perispírito. o de Rivail. sem acomodações. Ou é. Rivail não sentia nada estando ali e o espírito também não. perguntando em seguida:”e agora?” “Bem”. do outro lado estava um espírito. “O doutor Glas”) Quando um espírito se localizou pontualmente. dotado de massa no sentido de concentração de massa-energia. não a todos os espaços possíveis de existirem num mesmo lugar geométrico. numa cadeira. portanto os dois podiam estarem juntos. já o espírito não. e que não tem massa. O que é um lugar. não ocupava espaço euclidiano. envolvido por mim como por uma nuvem. funciona. este não tinha corpo. especialmente as brasileiras.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias 1861. nem inercial nem gravitacional. respondeu o informante. você nimbado por mim. ambos localizados nesta cadeira”. agora eu continuo sentado na mesma cadeira. E o princípio de excludência do espaço euclidiano? Bem. na mesma localização tópica. ocupada por um elenco de padrões virtuais. é inexorável mas. não saí daqui. portanto massa gravitacional e massa inercial. em uma certa localização em dimensões. não. há outra. apontando que estava sentado ao seu lado. portanto não tem impenetrabilidade. que tornam-se elásticas para acomodarem interesses. “quantizada”. foi preservado talvez por que não eram de fato dois corpos. ou então não é. Explico-me. uma região do espaço digamos assim. porque só um tinha corpo e já o outro não. como estava antes. “E como alguém nos veria? – perguntou Rivail. por isso podiam ambos ocupar simultaneamente o mesmo ponto espacial. este é que tinha massa. As leis de física não são como as leis jurídicas.. ocupavam rigorosamente o mesmo lugar no espaço. uma localização? É um ponto determinado do espaço euclidiano. mas sim um corpo só. que não tem um corpo. Bem.

que está acima da platéia e abaixo das galerias. então aquele cruzamento de referências deixaria de ser apenas bidimensional. usa-se um processo chamado de “localização” ou plotagem. que ele somou às três variáveis espaciais. “em toda parte de si”. cadeira 22”. sem limites. Isso. isto é. por trás dos camarotes. ou seja. chamada de “isotropia” ou “isotropismo”. lembrem-se de que o espaço euclidiano é plano e infinito e sempre igual em todas as direções. Ou então latitude. é sempre igual. Para determinar um ponto espacial qualquer dentre os demais. a duas dimensões. isso é o máximo que a arquitetura de nossa mente permite. na plateia. cadeira 22 mas. lugares numerados: o bilhete ou entrada tem as duas referenciais. Se houvesse plateia. a duas dimensões: a fila é A e a cadeira é de n°22. a três dimensões ou indicações: a fila A. logo a única dimensão dele (o tempo só tem uma dimensão. uma outra variável adicional. então no alfanumérico A22 eu localizo minha cadeira. estádio que tenham plateias. comprimento. pois o tempo já não é mais o espaço. isso é plotar ou localizar. gerando os limites também de nossa cultura e civilização. fica assim: “Balcão nobre. na fila. para tomar-se tridimensional. isso aí é no balcão nobre. não mais) não poderia a rigor soPENSE u Pensamento Social Espírita 42 . é achar e definir um lugar. perfazendo quatro. Isso se faz corriqueiramente. altura ou espessura (ou profundidade). galeria. Mas isso aí é um artifício. que deu esse nome ao tempo. até ao entrar num teatro ou cinema. pois é infinito. O espaço euclidiano só admite três dimensões. não mais simplesmente na platéia. Não se consegue perceber nada além da terceira dimensão. o que se chegou a chamar de uma “quarta dimensão” foi um artifício de Einstein. a fila e a cadeira. longitude ou altitude (ou profundidade). as três dimensões euclidianas.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias todos os outros possíveis de existirem no espaço tempo geral. esta é outra propriedade dele. isto é. níveis superpostos. balcões e camarotes. é claro. e aqui entra a terceira dimensão. que é medir uma distância convencionada daí desse ponto até três outros pontos anteriormente conhecidos. fila A. ele é sempre o mesmo. só vai até o limite de três dimensões: largura. acho meu lugar. geralmente uma é alfabética e outra é numérica.

A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias mar-se às três espaciais. embora já tenha sido sucedida pela euclidiano-einsteniana (ou simplesmente só einsteniana) do espaço-tempo a quatro dimensões. após ter pesquisado muito. Johann Karl Friedrich Zöllner. por heterogêneas e.(e Zöllner?). Einstein apossou-se da expressão “quarta dimensão” (que na teoria de Zöllner era estritamente espacial. Mais tarde. a noção euclidiana. em matemática. não se trabalha mais com só espaço ou só tempo separadamente e sim com o espaço-tempo e este é tetradimensional ou quadridimensional. O prof. habitualmente. ditas “euclidianas” e sim uma dimensão extra. paredes etc. Ficaram então as duas versões de uma “quarta dimensão”. inabalável. alemão. onde essa dimensão extra é do PENSE u Pensamento Social Espírita 43 . ao virem pra cá. formulou a teoria de que o espaço. sem deixarem traços de sua passagem por limites. A antiga noção euclidiana era também chamada de euclidiana-newtoniana e trabalhava com as mesmas quatro dimensões. estariam. astrônomo. pesquisador. sabe-se. ela era do próprio espaço. a extensão. os espíritos. o que já deslocou totalmente a ideia original de Zöllner. com a mediunidade do Dr. este é que tinha-a. da qual eles proviriam. juntos. procederiam. De volta a sua “quarta dimensão”. nasceu em 1834 e morreu em 1882 (48 anos). eles se ausentariam daqui. a de Zöllner. de nossa tridimensionalidade. isso explicaria que espíritos entrassem e saíssem de recintos fechados. como um número a mais que na teoria euclidiana) e já conferiu-lhe um outro entendimento. para se introduzirem em nossa tridimensionalidade euclidiana. barreiras. Eglington. Todos temos hoje ainda como firme. uma “quarta dimensão” a mais (daí a expressão que se popularizou) em a qual residiriam. dizendo Einstein que o espaço euclidiano e o tempo. Com Einstein já não se pensa mais assim. só que separadamente: três eram só do espaço e havia o tempo com sua única dimensão também. teria não apenas as três dimensões comuns. físico. é que perfaziam quatro dimensões (as três euclidianas e a única temporal). que quantidades heterogêneas não são somáveis. certa.

largura e altura. de pontos. O simples fato de Rivail e o espírito estarem sentados no mesmo lugar do espaço euclidiano a três dimensões resulta de uma medição anterior que se fez. na verdade é um massa finita de pontos tópicos. de achar-se conjuntamente a tantos metros da parede A. a tantos da parede B e a tantos metros do teto. Esse endospaço. contíguo e interpenetrado com este nosso “mundo corporal”. um endospaço. uma plotagem tridimensional pois que as três indicações ou especificações. o conjunto de seus planos forma um box. PENSE u Pensamento Social Espírita 44 . apenas aos 48 anos de idade. um espaço interior a essas delimitações. e a de Einstein. a partir de cada referência (ou dimensão). como são a parede A. forma um agregado de pontos tópicos cada um deles. que goza daquelas especificações. então obtem-se o ponto tópico. Zöllner morreu injustiçado e alvo de injúrias e incompreensões. e a parede B. por sua corajosa teoria espírita de uma “quarta dimensão”. embora esta não aparecesse explicitamente: medindo uma certa distância em metros. Nenhum outro mais. a esses seis planos delimitadores. com o qual se relaciona estreitamente. Aquele ponto é o único. Sem dúvida que Zöllner vislumbrou a realidade: espíritos movem-se em uma dimensão extra além das três comuns (as euclidianas) e que constitui o seu “mundo”. no espaço chamado “sala”. a sala é um número ou quantidade qualquer. (ambos formando um ângulo) e o teto. o lugar no espaço em que ambos estavam.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias próprio espaço e não a do tempo. mas finita. contido no box ou caixa formada pelos seis planos. O espaço chamado de “sala” é um lugar geral formado pela conjugação de seis planos a saber: as quatro paredes. Portanto é uma caixa. ou chão. onde ela já é a própria dimensão temporal somada as três espaciais euclidianas. formando o continuum espaço tempo de Einstein. o chão e o teto. o mundo dos desencarnados. formados pelo cruzamento das três especificações ou dimensões: comprimento. cujo conteúdo é o espaço chamado “sala”.

a camada nº tal dentro da fileira nº tanto delas. de massa-energia. A segunda hipótese é de que ambos. portanto impenetrabilidade. portanto um homem. por sua vez compostas por fileiras verticais. tanto estavam ali o homem e o espírito. era uma mente associada a um corpo e este tinha massa. extensão. força e energia. agora. um milheiro deles. Pareciam poder. é o que o fato bruto dizia. Rivail era um espírito encarnado. sem essa complicação toda. ou dois corpos podem ocupar simultaneamente (isto é. Certo? Então nesse endereço “cadeira”. o homem e o espírito.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias Cada ponto é como se fosse um endereço. pode-se conferir isso pensando numa porção de tijolos. ocupava um lugar no espaço euclidiano a três dimensões e com isso excluía que outro corpo igualmente pudesse ocupa-lo. separadamente. Hoje. fundiram-se em outro continuum. Ou então. na prática a coisa funciona assim: dentro da sala. localização ou endereçamento. talvez o valor que damos às expressões “no mesmo tempo”. ao mesmo tempo. os dois continua (plural de continuum) é que regem nossa cultura. só um corpo e não mais do que ele. “no mesmo lugar” é que tenham de sofrer revisão e flexibilizarem-se para acomodarem o fato bruto da interpretação. normalmente. tempo e espaço converteram-se no continuum espaçotempo. E estas colunas. massa. no mesmo lugar e ao mesmo tempo. Também hoje. também einsteniano. material. “ao mesmo tempo”) o mesmo lugar. pelo princípio de exclusão. acham-se em dois espaço-tempos diferentes PENSE u Pensamento Social Espírita 45 . já estava determinado pela cadeira. numa outra alternativa. este para ser achado tem-se de cruzar os referenciais. o “endereço” ou lugar onde se achavam Rivail e o espírito. o que se pensava que eram. ou então não. Isso é plotagem. sentados na mesma cadeira. Das duas uma. Mas o espírito descorporalizado então podia coexistir naquele ponto. esse endereço chamava-se “cadeira”. cada endereço nesse agregado designa um tijolo individualmente como um ponto particular. poderia achar-se. que podiam sim. empilhados certinhos formando camadas horizontais. Naturalmente. isso só para começar.

parte de uma revolução no pensamento científico geral. pública. que cada ponto do espaço pode possuir como que “um avesso e um direito”. altamente impopular. seja no mínimo dual. nas matemáticas e na física lógica e (principalmente com Boole. que tornou possível a informática aplicada e os computadores). Essa matéria. que produziram as chamadas “geometrias não euclidianas”. transversal. com ênfase na geometria mesma. que ao mesmo tempo é uma coisa e também é a sua anticoisa. havia uns vinte a trinta séculos então. comum a todos. da geometria euclidiana.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias portanto o princípio de exclusão continua dividido também. cada qual em seu próprio espaçotempo. matemática. filósofos e geômetras do pedaço. vigia ainda inexorável. uma unidade versátil. no sentido de não ter-se espraiado ainda pelo povo e não ter-se tornado vulgar. Mas que exige uma revolução muito maior nos nossos pensares para poder aceitá-la. em um mesmo espaço-tempo. também não há um espaço-tempo só. incorporou no século 19 com Boliay. como uma espécie assim de “avesso e direito”. Vamos aprofundar isso? Chama-se topologia a essa matéria matemática nova que propõe isso. Parece ter começado a tomar corpo no século quinze ou dezesseis. por enquanto. a topologia. de que assim como não há um tempo só (Newton e Euclides pensavam que havia. Passando por todos os matemáticos. dois lados de um disco. Lobachevski. quase uma eternidade. mudando a cosmologia. que justificaria então esse nome. Mas um homem e um espírito. desse espaço-tempo aí. Einstein demonstrou que não). aceitar o que essa possibilidade impõe. dois homens não podem interpenetrar-se nem dois espíritos também não. podem e efetivamente se interpenetram. de “universo”. É uma possibilidade cruzada. quando o império euclidiano. tem o seu “outro lado”. Gauss e finalmente Riemann. algo que daria um sentido novo à própria palavra “universo”. é ainda uma das tais meio misteriosas. mas só que agora os espaços é que são diferentes. as quais são coexistentes convivem em cada ponto tópico dele. PENSE u Pensamento Social Espírita 46 . há mais de um ou pelo menos há versões ou edições diferentes. a cosmovisão.

que é um novo antípodas agora. “não apenas um só” e percorrê-los não era mais questão só de ficção e imaginação. o seu equivalente na superfície interna. começou em 1820 e por volta de 1852 já tinha-se consolidado. Antípodas da Terra são dois lugares simétricos entre si mas ambos só “do lado de fora” na superfície externa da esfera do planeta. (um na superfície externa e outro na PENSE u Pensamento Social Espírita 47 . de quem pensa um espaço curvo. a partir daí já teremos de aumentar o conceito de antípodas para outro mais abrangente. vigilante. Especificamente a topologia (literalmente uma “discussão do espaço) coloca que pode haver uma outra face ou “lado de lá” do espaço assim como. Percebeu a diferença. geológico. contraposto ao “lado de fora”. que é o seu simétrico e onde pessoas estão ou podem estar em sentido contrário ao de quem esteja aqui. telúrico. diferente e mais imediato que o antigo. lúcido. em cada ponto da superfície da Terra sempre tem um outro ponto a 180° dele. tridimensional. era uma coisa virtual. portanto um pensamento limitativo e aplicativo apenas ao espaço terráqueo. uma nova simetria. entenderemos que esta tem também um “lado de dentro”. a saber: qualquer o ponto da superfície externa tem o seu novo simétrico. ativo. No novo pensamento não euclidiano. com os pés voltados uns para os outros e as cabeças apontando em direção oposta. caro leitor? Multiplicam-se conceitos de posição e contraposição. 2) os antípodas novos. havia é espaços (no plural) e não só o espaço. possível e que a cada momento se concretizava. aquele outro a 180° na própria superfície externa. permanentemente atualizado e atuante. Se abrirmos mais e pensarmos numa esfera oca. então há o “lado de dentro” da superfície interior e agora temos um novo conceito de simétrico. esférico mas maciço. não? Mas já que agora não é mais o planeta.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias Rivail era um pedagogo. e sim uma esfera oca. não passaria despercebida a ele essa revolução que. Mas isso aí é um conceito apenas geográfico. quando listamos: 1) os antípodas clássicos. pelo que concerne às geometrias e à física. a própria Terra.

invisível dessa nova mirada. uma tira apenas cortada de uma bobina de máquina de somar. enganando o observador. parecerá ser apenas um pontinho. A seu turno. nas mesmas condições. PENSE u Pensamento Social Espírita 48 . no de seu comprimento. muito permissivo. Finalmente um sólido. sem se dar a volta em seu redor. Como as extremidades foram coladas. visto ter “o outro lado”. em nada se distinguirão um do outro se a segunda for “olhada” bem de “frente”. se for olhado apenas de um modo particular. Em topologia coloca-se que uma fita de papel. olhada no sentido da ponta ou do fundo. então esse modelo tridimensional se enriquecerá. quando consideramos o ponto oposto. mas que ao tato revela-se tridimensional. um cubo por exemplo. dessa simples. quando estirada. ficando sua extensão. passando a ter uma superfície ou face externa versus outra interna. perderá sua dimensão linear que ostenta. parece ao olhar apenas um plano. que é o que a faz diferente do ponto. Um cubo é um exemplo fácil. assim: uma linha só parecerá uma linha mesmo se for olhada num certo sentido. quando pensamos de um modo muito condescendente. quando “olhado” de um modo tal. fique ocultado. um plano. só lateralmente que sua segunda dimensão. Um ponto e uma linha. É como uma agulha. ela parecerá e se confundirá com um ponto. Uma esfera pareceria só um círculo e o pentaedro (a pirâmide) vista pela base iludiria ser um quadrado (cubo) não revelaria os quatro planos triangulares mais que também tem. Topologia inclui coisas chamadas de “simetrias de calibre”. por ter espessura. o poliedro de quatro faces. o de sua lateral.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias interna) e mais um terceiro simétrico. perdendo o seu volume. parecerá apenas um plano e não um conjunto de seis faces ou planos que ele é. em nada se distinguirá de uma linha. tudo nessa mesma superfície interna. mas pensem num tetraedro. o comprimento. Se a encurvarmos. mas se for olhada noutro sentido. que visto de uma posição pareceria apenas um triângulo. do que está diretamente sob nossos pés. formando com ela um aro ou anel. a 180° convexos da curvatura interna.

Pode-se supor que uma população de seres imaginários. Isso torna a fita uma realidade dupla. e mesmo que soubessem dele não imaginariam como iriam ter até lá. pois sempre se poderá percorrer o aro externamente. que não permite passar de fora para o lado interior e vice-versa. vivesse só nesta face completamente ignorando a existência do outro lado. o interno. incomunicantes. delimitam a extensão. por causa daquela torção que foi introduzida. do antigo “lado de fora” para o também antigo “lado de dentro”. fazendo os dois lados ou faces delas se desencontrarem: o lado interno de uma ponta não coincide mais com o da outra ponta e sim com o seu lado externo e vice versa. fazemos a fita tornar-se helicoidal só naquele ponto localizado dela e depois recolamos as pontas mas agora já com aquela torção. Ainda assim estamos confinados ao lado de fora. com a rotação. já a extensão não é infinita mais. à superfície externa sem podermos trilhar o lado de dentro.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias então não se poderá passar “de fora” para “dentro” do aro. insensivelmente. pois bordas são limites. Quem começa a percorrer a fita. Mas tudo muda de figura se e quando. isso porque a fita é curvada de um modo tal. irá passar. PENSE u Pensamento Social Espírita 49 . longitudinalmente. sem parecer que se está fazendo isso. habitantes desse “lado de fora”. como um antípoda. descolando as extremidades e dando uma torção numa delas. torna-se finita. sem encontrar interrupção da superfície. pois agora essa divisão caiu e as duas faces foram integradas numa única. como passarem de uma face para a outra. Para um observador externo à fita. que só permite um deslocamento infinito pela superfície no sentido da longitude. o modo continuo. virar lateralmente de fora para dentro. que imprimiu uma rotação de 180° no espaço a quem estivesse num certo ponto da fita. ele teria passado para o lado de dentro e estaria agora de cabeça para baixo em relação à posição anterior. pois “é proibido” cruzar as bordas laterais. na direção das bordas. mas se invertermos o sentido e nos deslocarmos lateralmente. um fulano que se achasse de pé naquele ponto dela. sem perceber. Agora temos que se pode passar de um lado para o outro lado. as duas faces ficarão compartimentadas.

uma compreensão nova do espaço. pois são duas localizações distintas. Quer dizer. A posição no espaço-tempo é a mesma mas a versão ou edição de espaço de cada um. com as “simetrias de calibre”. e não haja múltiplos espaços isso não mudou). já o espírito não) como na segunda hipótese. De tal modo que. uma composição espacial dual. cada uma na sua. tanto numa hipótese já vista (a de que só o homem tem um corpo. cada qual na sua. é perfeitamente racional que um homem e um espírito possam estar ao mesmo tempo no mesmo lugar. Topologia é muito mais do que isso: é uma ciência completa. mais de um espaço. tal como os japoneses ou chineses em relação aos ocidentais. ambos estarão com os pés voltados uns para os outros. as margens. o espaço-tempo pode muito bem ser entendido como tendo até dez dimensões. há um contra . também que ora acabamos de percorrer. A física mais recente adverte que. pois as três euclidianas podem muito bem serem multiplicadas por três e mais a única PENSE u Pensamento Social Espírita 50 . Os dois lados são um somente. de que cada um está no seu próprio espaço ou na “face” de espaço que lhe compete. apurado este por aquela medição em relação a três outros pontos (como a cadeira em relação a duas paredes e ao teto). (ou até mais plural) em cada ponto tópico. e aqui voltamos a ciência espírita. pode haver um espaço e. em cada lugar em que se está. agora. irá se deslocar em perfeita contraposição a ele. uma continuidade indivisa onde não só acha mais o ponto de separação. um outro fulano.espaço. ser decadimensional portanto. contraposto a ele. cada qual no seu lado da fita (por ter havido aquela integração. não se segue que a cada ponto da fita não haja sempre dois lados. Passarão um pelo outro. que se achasse nos antípodas do primeiro. permitindo entender como é que pode haver “espaços”. ou do espaço-tempo. convivendo em cada posição espaço temporal. um outro espaço. no seu próprio lado definitivo de fita sem se notarem. laterais são apenas uma só margem. há um espaço. de costura. Ao mesmo tempo. mas sua ilustração para efeito de entendimento é isso aí. antes duas. dicotomizada. binária. é diferente da outra.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias formando um continuum.

contrastantes entre si. como antípodas da hipervida. De modo parecido.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias temporal. a realidade tridimensional (ou tetra-quadridimensional do espaço-tempo) poderia ser pensada assim. do cosmos. Ou até pelas duas razões congregadas. supõe-se que o plano visível oculta mais cinco planos (caso do cubo). anverso e verso do universo. Invertendo isso. a cento e tantos anos depois dele. O professor Rivail longe estava de todo esse desenvolvimento cultural e até mental. seja por uma razão que está embutida neles próprios. como ocultando outras tantas dimensões até dez. como simétricos uns dos outros. perfazendo dez. o sólido que parece um plano. ao lado PENSE u Pensamento Social Espírita 51 . vistos de um modo limitativo. Coube a ele exclusivamente montar o modelo básico. correspondente a um verso-reverso topológico. a linha visível oculta uma infinidade de outras linhas que formam um plano e o ponto visível esconde uma sucessão de outros pontos formativos de uma linha. portanto é ontológica (o espírito encarnado tem um corpo e o desencarnado não tem). que só se acumulou neste século. como a sala. coabitarem os mesmos pontos tópicos disponíveis num espaço finito como o de uma sala. assim que a ciência fosse avançando e colocando mais recursos. está como um anverso. uns na fase de vida e outros na de contravida. um número que não é arbitrário mas pode ser elastecido conforme novas comprensões cosmológicas se apresentarem. o plano que aparenta uma linha. E que mesmo assim podem comunicar-se. sem violarem a regra de exclusão. quando o espaço tempo é um universo e cada ponto tópico de qualquer espaço finito. acham-se localizados em regiões contraditórias. que de um modo simples espíritos encarnados e desencarnados. Seja por uma razão que não é mais ontológica o sim topológica. a visão fundamental de que há o espírito. O professor Rivail não tinha a missão de explicitar isso mas delegou a seus discípulos e continuadores o trabalho de o fazerem. É bom lembrar que essa multiplicação é por causa daquilo de que a linha que parece um ponto. mas mesmo assim já intuía (e há documentos disso). novos materiais de trabalho a nossa disposição. este é um dos três elementos do universo.

vontade. mas bem entendido. acontecem e depois desacontecem. que sendo infinito não tem contornos. delimitações. beltrano. as coisas. como categoria. pois sua estrutura opõe-se a isso. formado um endoespaço teoricamente diferente do exospaço circunvolvente. à entropia o. Se isso ficou incompreensível. mais. sendo isento da entropia ele mesmo. Mas não se pode isolar de fato o espaço-tempo. Quer dizer. pois sua infinitude é só global como elementos gerais e não como individuações. desagrega-se e se dilui na massa-energia geral. as pessoas são espíritos. dentro do espaço-tempo. vou melhorar: a massa-energia forma e depois reverte à não forma anterior.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias dos outros dois que são o espaço-tempo e a massaenergia (se não considerarmos a proposta de Wiener. o que exerce a neguentropia sobre os demais. isso apenas no sentido de ser sem fim. isto é. teto e o piso. dissemina-se. já demos o exemplo da sala. O mesmo é com o espaço-tempo. de ter um existir ininterrupto. O espírito existe infinitamente. os corpos. um ser. um micro-espaço formado por delimitadores puramente locais. goza de individuação já que se apresenta individualizado. a diferença é que os outros dois elementos o espaço-tempo e a massa-energia não são individuáveis. personalizado. inclusiva de informação). forma-se um indivíduo. Dos três elementos o espírito parece ser o único invulnerável. os objetos. só idealmente. ele não é individuável. podemos quando muito isolar idealmente uma pequena região dele. os mundos. de brincadeirinha. pois gera e leva informação a eles. isto é. é fonte de neguentropia. é sede e fonte de organização e de ordem. ele é individuável. O espírito é o elemento geral universal dotado de inteligência. consciência e fonte de neguentropia. dentre os elementos. pois a nível prático. incessantemente. não gozam de nenhuma infinitude. inconfundíveis umas com PENSE u Pensamento Social Espírita 52 . classe ou gênero. os seres. um corpo celeste. depois a massa que o compunha. as paredes. como individualidades. um objeto. mas isso só por um prazo de duração. tanto quanto o espaço-tempo e a massa-energia. como fulano e fulana. suas formações individuais são precárias. sicrano.

raça. desligado daquelas especificações mas certamente obedecendo a outras. de modo a parecerem uma coisa só. profissão. habitar o ecossistema telúrico. PENSE u Pensamento Social Espírita 53 . cultura. é infinito no sentido de duração. Encarnar é penetrar a biosfera. nome. estejam desencarnados. tomar um corpo ai. ser um membro da sociedade corpórea e acharse assim. ou não. tudo que diz respeito à condição humana. Isso permite entender que vida e contravida são apenas dois lados de uma fita topológica existencial. nacionalidade. pelo prazo de uma vida. duas regiões do espaço-tempo diversificadas. quando se está numa ou noutra das faces de um universo. classe social. de contravida. dentro do modelo cosmológico. a vida e a contravida. em que viverá no estado geral de erraticidade. unidos a um corpo. mas social. as já conhecidas) formas de viver. duas mãos de direção. O sobreviventismo é apenas a capacidade infinita que se tem de tanto existir numa que noutra das duas condições. que vai da concepção ao óbito. isto é. um sistema binário espacio-temporal. O espírito existe em duas (pelo mesmo duas. de tão congruentes que são. conforme estejam encarnados. Nascer é passar de uma versão ou edição desse universo para a outra e morrer é fazer o mesmo trânsito em direção e sentido oposto. ser parte da biodiversidade. liberados de envolvimento direto com a massa-energia. nível de renda. é da humanidade inteira. se desagregarem e a massa (de espírito) que os forma se disseminar e voltar a diluir-se na massa geral de espírito outra vez perdendo a individualidade. que coincidem ponto a ponto. com especificações corporais e mentais de sexo. quando então se retira.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias as outras e isso é sem termo. na contravida. bem como essa sobrevivência não é só individual. pois os espíritos não são passíveis de um belo dia terminarem. Não é isso. religião. se exclui de tudo isso e projeta-se na fase seguinte. enfim. são dois movimentos iguais e contrários. Bem como a própria sociedade é muito mais do que só o conjunto dos seres humanos vivos e sim inclui também os seres humanos desencarnados.

o erro. constitui um entrave ao seu progresso como ciência. caí no domínio público. institucionalizados. Pensado assim como uma ciência e filosofia. repondo as coisas no devido lugar. que facilmente descamba para o plano religioso. de grande poder de sedução. Quando alguém fala em mudar isso. não passa de um terrível equivoco de seus adeptos. para o neutralizar. que ficaram. além de ser um erro. só possam. assim de momento. Muitas vezes. que nela se estabelecem. explorando e fomentado por seus adversários. que esse pirracento aí pensa que é. universaliza-se e se fixa como um patos coletivo (i. abrir PENSE u Pensamento Social Espírita 54 . errado. tivesse fundado uma nova religião. durante algum tempo. Isso generaliza-se. afetiva. como uma religião. pensarem o espiritismo na sua exata dimensão. em lugar de ter fundado o método experimental em ciência e uma nova astronomia e física. quase sempre até. do mesmo modo que teria sido. o motor das civilizações. são charmosíssimos. caem tão bem na alma popular. um determinado fato é pensado pelo avesso por quem é ignorante. Pensa-lo como tantos fazem. por outro lado é um boato. parecem imbatíveis ou irremovíveis. a mentira. deixam raízes. uma deficiência intelectual. em virtude de limitações culturais e até intelectuais. terem dele uma visão puramente emocional. na medida do possível face às limitações gerais de sua época. como aquilo que Rivail tanto combateu. mas é turrão o bastante para obstinar-se na teima de que a coisa discutida só pode ser do jeito torto. Entendo isso. respeito isso também.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias Eis o que é o espiritismo. de que seria uma religião. de quem pensa isso. o equívoco. a ciência filosófica que Rivail começou a criar. por aquele patos. um sentimento ou sensação muito difusa na sociedade) sendo um custo para o podermos remover. Bem compreendo que as pessoas não estão todas capacitadas para. precipitado ou preguiçoso de espírito e só consegue entender as coisas pela metade. A condição original genuína do espiritismo é a de ser uma ciência. apenas como ciência e filosofia e que. caso Galileu. o que vive sendo repetido sobre ele. Isso sempre aconteceu.é um “pathos”. ele é o fermento das culturas.

o “me deixa ficar com meu gostinho mesmo ilusório. falsamente como uma religião. a omissão. nós outros que já não pensamos mais assim. tornou-se “a mentira que deixou saudades”. da qual ninguém está querendo se afastar. o tatibitate tão adorável em que se expressam. Mas.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias movíveis. Estou perfeitamente preparado e tranquilo. para compreender essa problemática das pessoas que afluem. arrebentar com a concha das ilusões e quando ela chega. o “me engana que eu gosto”. cristão ali desfrutarem de sua PENSE u Pensamento Social Espírita 55 . entendo que não podemos. contribuir com o silêncio. até porque a religião vigente em cada país. abrir uma campanha de esclarecimento. que a ciência e filosofia espírita chegasse a ser confundida com mitos e religião. Era inevitável mesmo que isso acontecesse. na esteira do crescimento pessoal. Mas a vida tem um poder irresistível de promover a verdade. para crescerem. medrosos de ousar por nós mesmos. ficarem adultas e independentes. sinceramente. para os primeiros contatos com o espiritismo. criar um território livre para todos os que. é algo que “se não existisse então merecia ser inventado”. a fantasia. vindas das religiões. sinceramente. aquele charme. pois a noção errada. tudo fez para apresentar o espiritismo assim. derrubar fantasias e mentiras. para impedir que as pessoas o entendessem do modo legítimo. Todos deixamos as velhas muletas e amparos em que nos especávamos. o ursinho de pelúcia e bruxinha de pano. pois eu não suportaria uma decepção”. pois sem aquele prestígio. tendo-se libertado do império da religião. de minha parte. Não é assim que se diz? É o próprio império da ilusão consentida e autoacalentada. é aquela grita geral. já são capazes agora da liberdade de consciência laicas. Quando alguém fala em mudar isso. Temos de estabelecer um espaço nosso. compactuar e calar. quem pensa de tal modo. sobra desencanto para todas as direções. embora soubesse muito bem da improcedência disso. à luz da vida. assim como crianças um dia abandonam o “biquinho” e a “dedeira”. a passividade. respeitando embora.

como descobridor da independência e sobrevivência do espírito. é não se necessitar mais de ter religião nenhuma. ter e manter-se na religião que quiser. é não se necessitar mais de ter religião alguma. que não se confunde com a simples liberdade de religião. sentimo-nos comprometidos com a formação de espaços destinados a expandir esse sentimento comum. autor original da sublime equação: h = vc. tornar-se laico. é o tornar-se livre mentalmente quanto a essas angustias confessionais. enquanto assim o quiser. sem angústias nem sentimentos de culpa por não sermos mais religiosos.viasantos.com/pense Março de 2010. E que se reverencie o nome do professor Rivail. Endereçando este livro a quantos como eu já nos libertamos da tutela da religião. para que neles se exercite e se aprimore a consciência espírita. livre a cultura espírita. Edição Digital : PENSE — Pensamento Social Espírita www. nós. Liberdade de religião é o direito de cada um escolher. PENSE u Pensamento Social Espírita 56 . Já a liberdade da religião é a conquista da independência quanto a isso. os que já podemos pensar laicamente o espiritismo. é o tornar-se livre mentalmente quanto a isso.A Descoberta do Espírito u Krishnamurti Dias liberdade da religião.

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