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020 A SABEDORIA DA AUSÊNCIA DE EGO

[...] Imagine uma pessoa que subitamente acorda num hospital depois de sofrer um acidente
de carro na estrada, e percebe que está com amnésia total. Por fora, tudo está intacto: ela tem o
mesmo rosto, a mesma forma, os sentidos e a mente estão lá, mas não tem a menor idéia ou o
menor vestígio de memória de quem é. Exatamente do mesmo modo, não conseguimos nos lembrar
da nossa verdadeira identidade, nossa natureza original. Freneticamente e na realidade apavorados,
procuramos e improvisamos outra identidade, uma em que possamos nos agarrar com todo o
desespero de alguém que vai cair num abismo. Essa identidade falsa e assumida em ignorância é o
ego .
Desse modo, o ego é a ausência do conhecimento verdadeiro de quem somos, juntamente com
o seu resultado: um malfadado apego, mantido a não importa que preço, a uma imagem remendada
e improvisada de nós mesmos, um eu inevitavelmente charlatanesco e camaleônico que está
sempre mudando e que precisa mudar para manter viva a ficção da sua existência. Em tibetano, o
ego é chamado dak dzín, que quer dizer agarrado a um eu . O ego é assim definido como um
movimento incessante de agarrar-se em uma noção ilusória de eu e meu , desse mesmo e do
outro, e em todos os conceitos, idéias, desejos e atividades que sustentam essa falsa construção.
Esse agarrar-se é fútil desde o início e condenado à frustração. Uma vez que não tem
nenhuma base ou verdade, e aquilo a que nos agarramos é, por sua própria natureza, impossível de
reter. O fato de que precisamos nos agarrar a continuar agarrados a alguma coisa mostra que nas
profundezas de nosso ser sabemos que o eu não existe inerentemente. Desse conhecimento secreto
e assustador nascem todas as nossas inseguranças fundamentais e o nosso medo. [...]
E ainda que possamos ver além das mentiras do ego, estamos assustados demais para
abandoná-lo; porque sem um verdadeiro conhecimento da natureza da nossa mente, ou real
identidade, simplesmente não temos outra alternativa .
LIVRO TIBETANO DO VIVER E DO MORRER Sogyal Rinpoche

O EU

A palavra eu foi definida diferentemente por diversas religiões e filosofias do passado até nossos dias. O
bön/budhismo insiste muito na doutrina do não-eu, ou vacuidade (shunyata), que é a verdade última de todos
os fenômenos. Se não compreendermos a vacuidade, será difícil cortar a raiz do eu egoísta e libertar-nos dos
seus limites.
Porém, nossas leituras sobre o tema da caminhada espiritual nos informam também sobre a auto-liberação
e a auto-realização do eu. Parecemos certamente ter um eu. Precisamos argumentar bastante para convencer
alguém que não possuímos um eu, se nossa vida é ameaçada ou qualquer coisa nos é tomada, o eu do qual
proclamamos a inexistência pode ficar verdadeiramente apavorado ou transtornado.
Para o bön/budhismo, o eu convencional existe verdadeiramente. Senão, não haveria alguém para criar
carma, para sofrer e para encontrar a liberação. É o eu inerentemente existente que não tem existência. A
ausência do eu inerente significa que não existe uma entidade central distinta e imutável. Embora a natureza
da mente não mude, ela não deve ser confundida com uma entidade distinta, um ego, uma pequena parcela de
consciência indestrutível que seria o eu . A natureza da mente não é uma possessão individual, não é um
indivíduo. É a natureza da sensação em si mesma; ela é a mesma para todos os seres dotados de sensibilidade.
Retomemos o exemplo do reflexo no espelho. Se observarmos os reflexos, podemos dizer que existe tal
reflexo, depois outro, mostrando dois reflexos diferentes. Eles aumentam e diminuem, vão e vem, e podemos
segui-los no espelho como se tratassem de entidades independentes. Eles são como a imagens do eu
convencional. Os reflexos não são entidades distintas, eles são um jogo de luz, de ilusões despidas de
substância na luminosidade vazia do espelho. Eles não têm existências independentes exceto se os
concebermos como tais. Os reflexos são manifestações da natureza do espelho, como o eu convencional é uma
manifestação que nasce da limpidez vazia da base da existência, kunshi, na qual reside e nela se dissolve
novamente.
O eu convencional com o qual nos identificamos habitualmente e a mente em movimento que lhe dá
nascimento são ambos fluidos, dinâmicos, provisórios, despidos de substância, mutáveis, impermanentes e
desprovidos de existência própria, como o reflexo no espelho. Podemos constatar isso em nossas vidas, se as
examinarmos. Imaginem que preenchemos formulários dando informações nossas. Anotaríamos nosso nome,
sexo, idade, endereço, atividade profissional, relações, descrição física. Faríamos testes que descreveriam
nossa personalidade e nosso cotidiano intelectual. Escreveríamos nossos objetivos, sonhos, crenças,
pensamentos, valores, e medos.
Suponhamos agora que anotamos tudo isso. O que é que faltou? Acrescentemos mais ainda nossos
amigos, a casa, nosso país e tudo o que possuímos. Se perdermos o uso da linguagem para falar ou pensar? Se
perdermos nossas lembranças? Se perdermos nossos sentidos? Onde estará nosso eu? Esse é o nosso corpo?
Quem é ele se perdermos braços e pernas, vivermos com um coração artificial e um aparelho respiratório,
sofrermos lesões e perdermos nossas funções cerebrais? Em que momento cessará de ser um eu? Mesmo se
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continuarmos a nos despojar das camadas de identidades e os atributos sucessivos, de certo ponto de vista
nada é perdido.
Não somos aqueles que éramos há um ano, ou dez anos. Não somos nem mesmo aqueles que éramos há
uma hora. Não existe nada que não mude. No momento da morte, os últimos restos daquilo que parece um eu
imutável desaparecem. Poderemos renascer como um ser completamente diferente, com um corpo diferente,
um gênero diferente, uma capacidade mental diferente. Isso não significa que não somos um indivíduo somos
um, é evidente mas isso não quer dizer que algum indivíduo tenha existência inerente, independente. O eu
convencional é radicalmente contingente. Como a maré dos pensamentos que se eleva sem fim na claridade da
mente, ou as imagens que surgem indefinidamente no espelho, ele é uma sucessão de produções instantâneas.
Os pensamentos existem enquanto tais, mas quando os examinamos durante a meditação, eles se dissolvem
na vacuidade da qual surgiram. É semelhante com o eu convencional: seu exame aprofundado revela que ele
não é senão uma denominação atribuída a um conjunto vagamente definido de eventos mudando
constantemente. Nossas identidades provisórias mudam como os pensamentos que não cessam de surgir.
Identificarmo-nos falsamente com um eu convencional e prendermo-nos a um sujeito cercado de objetos
fundamenta a visão dualista e forma a dicotomia fundamental na qual repousa o sofrimento sem fim do
samsara.

PARADOXO DO EU NÃO- SUBSTANCIAL

Mas como é então possível, se a base individual é pura consciência vazia, que o eu convencional e a mente
em movimento existam? Eis um exemplo baseado em experiências que todos nós já tivemos. Quando
dormimos, um mundo inteiro manifesta-se, no qual podemos viver todas as espécies de aventuras.
Identificamo-nos com um sujeito quando sonhamos, mas também aparecem outros seres, aparentemente
separados de nós, que têm suas próprias experiências e parecem tão reais quanto o personagem que
acreditamos ser. Existe um mundo material semelhante, no qual os assoalhos nos sustentam, nosso corpo tem
sensações, podemos comer e tocar.
Ao despertar-nos, percebemos que o sonho era uma projeção de nossa mente. Passava-se em nossa mente
e era a energia dela que o animava. Mas estávamos mergulhados nele e reagíamos às imagens criadas pela
mente como se fossem reais e exteriores a nós mesmos. Nossa mente pode criar um sonho e se identificar com
um ser que ela aí instala, separando-se dos outros. Podemos mesmo nos identificar com sujeitos bem
diferentes do que somos em nossa vida cotidiana.
Estamos, enquanto seres comuns, identificados da mesma maneira a um eu convencional que é também
uma projeção mental. Relacionamo-nos com objetos e entidades que são, igualmente, projeções mentais. A
base da existência, kunshi, tem a capacidade de manifestar tudo o que existe, mesmo os seres que estão
extraviados de sua natureza própria, exatamente como nossa mente pode projetar seres que são
aparentemente distintos de nós no sonho. Quando despertamos, o sonho do nosso eu convencional dissolve-se
na pura vacuidade e na claridade luminosa.

A VACUIDADE

Está dito no Madhyamakavatara do Mahasiddha Chandrakirti:

N ã o e x ist indo o a t or , nã o e x ist e a a çã o. N ã o pode ha ve r u m e u de u m a pe ssoa que não existe. Se


você que procura a verdade, compreender a vacuidade do eu e do meu, chegará à libertação
pe r fe it a

Estamos preenchidos da sensação de que somos independentes e auto-suficientes, e não de que somos
manifestações interdependentes. Essa é a base de todos os nossos problemas e sofrimentos.
Nossa mente comum sente espontaneamente: Eu existo , Eu existo . Esse é nosso mantra no nível
subconsciente. Temos uma percepção distorcida da realidade de nosso eu ou ego pois, mesmo tendo
conhecimento intelectual de nossa própria morte e impermanência, sentimos nosso eu como completamente
independente e permanente. Não conseguimos integrar o conhecimento intelectual de nossa morte e
impermanência em nosso coração. Por isso, quando a realidade da impermanência invade nossa fantasia de um
mundo e um Eu permanentes, vivemos um monte de problemas e sofrimentos. Esse ego independente do qual
cuidamos tanto e com o qual nos identificamos cem por cento é, na verdade, uma completa alucinação.
O Treinamento Espacial, ou a meditação na vacuidade, na sabedoria ou no espaço absoluto são métodos
para nos fazer aceitar, de uma forma mais suave ou mais firme, que esse ego é uma alucinação, uma ilusão e
um terrível engano. São técnicas para dissolvermos a loucura alienada do apego a si mesmo e devolvermos
nossa mente à sanidade, na qual vivemos diretamente a natureza verdadeira da realidade como espaço
absoluto e manifestações interdependentes de fenômenos.
Tanto no Sutra como no Tantra, o processo de meditação na vacuidade é o mesmo. A diferença é que no
Sutra usamos a mente grosseira, enquanto no Tantra usamos os níveis mentais mais profundos, o que torna a
experiência subjetiva mais poderosa. A vacuidade à qual tentamos unir nossa mente, porém, é a mesma.
Pergunta: O que é essa vacuidade de existência intrínseca que temos que compreender?
Resposta: No nível relativo, você pensa que é uma pessoa bonita, sente fome, dorme, trabalha, sente-se
só, etc. Entretanto, se você tentar encontrar esse você que você acredita tão fortemente existir
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independentemente de todos os outros fenômenos, perceberá que não pode encontrá-lo. Você pode, por
exemplo, dividir seu corpo em muitas partes. Qual dessas partes é realmente você? Não é possível encontrar o
que realmente você é. Porém, dentro da relação interdependente corpo-mente, há alguém que existe. Há muito
para se falar sobre esse tema. É um assunto muito profundo.

Vacuidade significa vazio de existência intrínseca ou independente. Por isso, no primeiro estágio de
meditação no espaço absoluto, tentamos visualizar, imaginar ou identificar claramente como é esse estado de
existência concreta. Temos que procurar esse estado para nos convencer por meio da lógica que ele não existe
de verdade. Só percebemos isso quando o procuramos.
Sempre começamos esse tipo de meditação usando nossa própria sensação de si mesmo ou ego como a
coisa que desejamos fazer desaparecer, pois o impacto emocional de perdermos nosso próprio ego é, ao
mesmo tempo, devastador e libertador. Perceber que o ego de outra pessoa é uma fantasia ou que a montanha
não existe como parece não tem o mesmo impacto e capacidade de transformar nossas distorções e
negatividades mentais. Nosso ego é nosso inimigo numero um e, por isso, precisamos empreender uma guerra
impiedosa contra ele.
Uma vez tendo destruído nosso próprio ego com a arma da sabedoria, toda a estrutura de nosso samsara
pessoal começa a desmoronar e rapidamente colapsa. O primeiro passo é compreender o que é existência
intrínseca independente.
NGELSO AUTOCURA III T.Y.S. Lama Gangchen Tulku Rimpoche

IMPERMANÊNCIA

Nada dura para sem pre

A maioria das pessoas é condicionada pelas sociedades às quais pertencem a aplicar rótulos conceituais à
cadeia em constante mutação dos fenômenos mentais e materiais. Por exemplo, quando olhamos atentamente
para uma mesa, ainda a rotulamos, de modo instintivo, como uma mesa apesar dela não ser uma coisa
única, mas algo composto de várias partes diferentes: uma parte superior, as pernas, as laterais, uma parte de
trás e uma parte da frente. Na verdade, nenhuma dessas partes poderia ser identificada como a própria
mesa . Na verdade, mesa foi só um nome que aplicamos a um fenômeno que surge e se dissolve
rapidamente e que meramente produz a ilusão de algo definitivo ou absolutamente real.
Da mesma forma, a maioria das pessoas foi treinada para relacionar a palavra eu a uma cadeia de
experiências que confirmam nosso senso pessoal de nós mesmos ou o que se convencionou chamar de ego .
Sentimos que somos essa entidade singular e única que continua imutável ao longo do tempo. Em geral,
tendemos a sentir que somos hoje a mesma pessoa que éramos ontem. Lembramo-nos de ser adolescentes e
de ir à escola e tendemos a sentir que o eu que somos agora é o mesmo eu que ia à escola, cresceu, saiu
de casa, conseguiu um emprego e assim por diante.
Mas, se nos olharmos em um espelho, podemos ver que este eu mudou ao longo do tempo. Talvez
possamos ver rugas agora que não existiam um ano atrás. Talvez agora estejamos usando óculos. Talvez
tenhamos cabelos de cor diferente ou, quem sabe, não nos tenha restado nenhum fio de cabelo. Em um nível
molecular básico, as células em nossos corpos estão sempre mudando, à medida que as células velhas morrem
e novas células são geradas. Também podemos analisar esse senso de individualidade da mesma forma como
olhamos para a mesa e ver que essa coisa que chamamos de eu na verdade é composta de várias partes
diferentes. Ela tem pernas, braços, uma cabeça, mãos, pés e órgãos internos. Será que podemos identificar
qualquer uma dessas partes separadas como definitivamente o eu ?
Podemos dizer: Bem, minha mão não sou eu, mas é minha mão . Mas a mão é composta de cinco dedos,
a palma e as costas da mão. Cada uma dessas partes pode ser desmembrada em partes ainda menores, como
unhas, pele, ossos e assim por diante. Cada um desses componentes pode ser definido como nossa mão ?
Podemos seguir essa linha de investigação até os níveis atômicos e subatômicos e ainda nos deparar com o
mesmo problema de sermos incapazes de encontrar alguma coisa que possamos definitivamente identificar
como eu .
Assim, independentemente de estarmos analisando objetos materiais, o tempo, nosso eu ou nossa
mente, mais cedo ou mais tarde, atingiremos um ponto no qual perceberemos que a nossa análise não mais se
sustenta. Nesse ponto, nossa busca por algo irredutível finalmente entra em colapso. Nesse momento, quando
desistimos de procurar algo absoluto, experimentamos pela primeira vez a vacuidade, o infinito, a essência
indefinível da realidade como ela é.
À medida que contemplamos a enorme variedade de fatores que devem se unir para produzir um senso
específico de individualidade, nosso apego a esse eu que achamos que somos começa a se desfazer. Ficamos
mais dispostos a abrir mão do desejo de controlar ou bloquear nossos pensamentos, emoções, sensações e
assim por diante, e começamos a vivenciá-los sem dor ou culpa, absorvendo sua passagem como
manifestações de um universo de possibilidades infinitas. Ao fazer isso, retomamos a perspectiva inocente que
a maioria de nós conhecia quando criança. Nossos corações se abrem para os outros, como flores de
primavera. Tornamo-nos ouvintes melhores, ficamos mais conscientes de tudo o que se passa ao nosso redor e
somos capazes de reagir com mais espontaneidade e adequação a situações que costumavam nos preocupar ou
nos confundir. Aos poucos, talvez em um nível tão sutil que podemos nem reparar que está acontecendo,
vemo-nos despertando para um estado mental mais livre, límpido e afetuoso, com o qual jamais sonharíamos.
Mas é necessário ter muita paciência para aprender a ver essas possibilidades.
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Na verdade, é necessário ter muita paciência para ver.

Patrul Rinpoche The Words of My Perfect Teacher , t raduzido p/ o inglês pelo Padm akara Translation Group.