GABRIEL GOMES PILLAR

CIDADES HÍBRIDAS: Um estudo sobre o Google Earth como ferramenta de escrita virtual sobre a cidade

Monografia apresentada como requisito parcial para a obtenção de título de Bacharel em Comunicação Social, ênfase em Jornalismo. Orientador: Alex Fernando Teixeira Primo

Porto Alegre, RS Novembro de 2006

Este trabalho está licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Não a obras derivadas 2.5 Brazil. Para ver uma cópia desta licença, visite http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5/br/ ou envie uma carta para Creative Commons, 559 Nathan Abbott Way, Stanford, California 94305, USA.

[...] vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a terra, e na terra outra vez o Aleph, e no Aleph a terra, vi meu rosto, minhas vísceras, vi teu rosto e senti vertigem e chorei, porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjectural cujo nome usurpam os homens, mas que nenhum homem olhou: o inconcebível universo. Jorge Luis Borges

AGRADECIMENTOS

Agradeço à Universidade Federal do Rio Grande do Sul e à FABICO pela acolhida nestes 4 anos do curso de graduação, bem como ao meu orientador, Alex Primo, pela amizade ao longo dos anos e apoio na realização desta monografia. Também devo gratidão ao meu pai, Valério Pillar, pelo auxílio na análise estatística dos dados e na revisão da versão final do texto; à minha mãe, Mariza Gomes, pela indicação de referências no campo da Geografia; e à Marta Rocha pelos chocolates que me deram um importante impulso na etapa final da realização deste trabalho. Por fim, devo agradecer à minha namorada, Kristina Garrett, pela inspiração e incentivo, e pelas longas conversas que de alguma forma conduziram às idéias que estão materializadas nas páginas que se seguem.

RESUMO

Este trabalho propõe-se a estudar o aplicativo Google Earth como uma forma de escrita colaborativa sobre o urbano. Para isso, entende-se a cidade contemporânea como um espaço híbrido conectado a múltiplas virtualidades que possibilitam a integração entre os lugares reais e as redes telemáticas que caracterizam uma Sociedade em Rede. Com base na observação de dados coletados da Google Earth Community sobre a cidade de Toronto, no Canadá, este trabalho propõe uma nova tipologia para a análise do conteúdo publicado no aplicativo. Revela também duas tendências principais, de espelho e de narrativa, no uso da Google Earth Community de modo a aumentar o espaço físico e reforçar identidades comunitárias e locais na rede mundial de computadores.

Palavras-chave: cidade, espaços híbridos, Google Earth, internet, sociedade em rede, território, Toronto.

SUMÁRIO

Lista de Figuras ..................................................................................................................... 8 Lista de Tabelas................................................................................................................... 10

INTRODUÇÃO................................................................................................................... 11

2 SOCIEDADE, TERRITÓRIO E CIDADE........................................................................ 14 2.1 Sociedade....................................................................................................................... 15 2.2 Território ....................................................................................................................... 19 2.3 Cidades híbridas............................................................................................................. 22 2.4 Cidades imaginárias ....................................................................................................... 26 2.5 Experiência.................................................................................................................... 30

3 O GOOGLE EARTH........................................................................................................ 37 3.1 Globo virtual.................................................................................................................. 38 3.1.1 Uma visão de pássaro ................................................................................................. 38 3.1.2 Navegação .................................................................................................................. 40 3.1.3 Sistema de Informações Geográficas........................................................................... 42 3.1.4 Outras funcionalidades ............................................................................................... 46 3.2 Google Earth & Google Maps........................................................................................ 47 3.3 Críticas e Limitações...................................................................................................... 48 3.4 Google Earth Community .............................................................................................. 49 3.4.1 Formas de visualização............................................................................................... 50

4 ANÁLISE E DISCUSSÃO ............................................................................................... 54 4.1 Obtenção dos dados ....................................................................................................... 54 4.2 Placemarks..................................................................................................................... 56 4.3 Dispersão espacial.......................................................................................................... 57 4.4 Usuários......................................................................................................................... 58 4.5 Categorias...................................................................................................................... 60

4.6 Tipologia ....................................................................................................................... 63 4.7 Análise dos tipos............................................................................................................ 69 4.7.1 Procedimentos metodológicos ..................................................................................... 70 4.7.2 Associações................................................................................................................. 71 4.8 Discussão dos usos......................................................................................................... 75

CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................................... 80

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................. 82

LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Máquina de Intervenção Urbana e Correção Informacional.................................. 33 Figura 2 – Intervenção artística “Ping Genius Loci”............................................................. 33 Figura 3 - Projeto “Yellow Arrow” ...................................................................................... 34 Figura 4 - Projeto “You Are Not Here”................................................................................ 34 Figura 5 - Projeto "Real Time Rome" .................................................................................. 35 Figura 6 - Interface do Google Earth.................................................................................... 38 Figura 7 - Justaposição de inverno e verão em Montreal, Canadá......................................... 39 Figura 8 - Resultado da busca pelo termo ‘New York”......................................................... 40 Figura 9 - Resultado da busca pelo endereço “11 W 53rd Street, New York”....................... 41 Figura 10 - Resultado da busca pelo estabelecimento “Post Office” ..................................... 41 Figura 11 - Indicação de direções para chegar ao endereço “23 W 43rd St” ......................... 42 Figura 12 - Visualização em 3D de prédios em Nova York, EUA e da Cordilheira dos Andes, Chile.................................................................................................................. 43 Figura 13 - Indicação de ruas no centro de Montreal, Canadá............................................... 44 Figura 14 - Fronteiras e cidades na ilha de Taiwan............................................................... 44 Figura 15 - Indicação da Pizzaria Corleone na cidade de Los Angeles, EUA........................ 45 Figura 16 - Indicações da ocorrência de terremotos nos arredores de Berkely, EUA............. 45 Figura 17 - Indicações do estudo de chimpanzés na costa da Tanzânia................................. 46 Figura 18 - Mulher tomando banho de sol nua em Den Haag, Holanda ................................ 48 Figura 19 - Indicações de posts da GEC em Viena, Áustria.................................................. 50 Figura 20 - Página inicial do site bbs.keyhole.com............................................................... 51 Figura 21 - Placemark da GEC sobre imagem da cidade de Porto Alegre, Brasil .................. 52 Figura 22 - Delimitação do espaço amostral sobre a cidade de Toronto, Canadá .................. 55 Figura 23 - Distribuição vetorial dos placemarks no espaço amostral ................................... 58 Figura 24 - Sobreposição de placemarks sobre CN Tower e Skydome na cidade de Toronto, Canadá .............................................................................................................. 58 Figura 25 - Gráfico da distribuição de posts em Toronto e em todo o sistema da GEC ......... 59 Figura 26 - Caminho em espiral à beira do Lago Ontário ..................................................... 62

Figura 27 - Prédio em construção no centro de Toronto, Canadá.......................................... 66 Figura 28 - Biblioteca Robarts da Universidade de Toronto ................................................. 66

LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - Freqüência de categorias dos placemarks na amostra........................................... 60 Tabela 2 - Freqüência de tipos dos placemarks na amostra................................................... 69 Tabela 3 - Tabela de contingência entre todos os tipos e categorias...................................... 72 Tabela 4 - Proporção da contribuição de cada par ao qui-quadrado total da tabela de contingência ...................................................................................................... 72 Tabela 5 - Tabela de contingência excluindo os placemarks dos tipos IB, VII, VIII e ø ........ 73 Tabela 6 - Tabela de contingência entre tipo e compilação ................................................... 73 Tabela 7 - Contribuição de cada par ao qui-quadrado total da amostra ................................. 74 Tabela 8 - Correlação entre tipo e número de posts em Toronto ........................................... 75

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INTRODUÇÃO

Há pouco mais de uma década a rede mundial de computadores começava a demonstrar os primeiros sinais de que se trataria de uma verdadeira revolução social. No momento em que a conexão foi generalizada, deixando de estar restrita apenas às grandes instituições de pesquisa e assumindo posição cativa nas residências, escritórios e escolas, viuse na WWW um espaço amplo e inexplorado, ao mesmo tempo aberto para a especulação e a livre-criação. Diante deste cenário começaram a ser criadas em larga escala as home pages e páginas pessoais, crescimento que foi impulsionado pela proliferação de inúmeros serviços de hospedagem gratuita que convidavam o usuário a ocupar suas terras devolutas. Assumindo estas páginas como sendo justamente uma “casa” na internet, em 1996 o serviço de hospedagem GeoCities organizava seu sistema em bairros virtuais, cada qual separado de acordo com o conteúdo que ali fosse publicado: “Silicon Valley” para home pages que falassem de computadores e tecnologia; “Area 51” para os adeptos da ficção científica; “Paris” para a poesia e as artes. O serviço propunha-se a criar, como seu próprio nome sugeria, uma verdadeira cidade on-line, chamando seus usuários de Homesteaders – uma referência ao Homestead Act de 1862, legislação através da qual o governo dos EUA passou a distribuir as novas terras do oeste americano. Ao transferir a noção de cidade para dentro da rede, alguns pessimistas imaginavam que haveria também um forte distanciamento do sujeito de seus espaços físicos, a ponto inclusive de vislumbrarem uma total e completa dissociação do corpo. Afinal para que preciso da carne se tudo está ali, ao alcance da mente como pura informação? Viu-se uma década em que o espaço foi tratado como “outro”, e onde o usuário transformava-se e fragmentava-se neste “outro”. Entretanto, ao observar a fundo as estruturas e os usos da WWW, percebe-se que se tratava de uma noção um tanto exagerada, vendo que o usuário nunca deixou de vivenciar e ocupar seus lugares e comunidades reais. O GeoCities, hoje adquirido e remodelado pelo gigante Yahoo!, já não se apresenta como uma cidade de home pages. Similarmente, novos sites e serviços on-line não oferecem apenas espaço para que o usuário crie uma “casa” virtual, mas querem que ele identifique a sua casa que é real, construída de pau-a-pique, em um mapa multidimensional. Este usuário

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passa a visualizar e comentar em seus passeios pela rede os lugares físicos por onde anda; anotar e inscrever-se em duas noções de espaço, simultaneamente no real e no virtual. Ao mesmo tempo, vê-se diante da rápida expansão das tecnologias móveis que estão em contato com as redes globais a todo o momento. A cada dia são lançados novos telefones celulares, pequenos gadgets e aparelhos diversos que interconectam mensagens, finanças e amigos. É claro que esta forma de conexão não substituiu os processos da WWW por inteiro, e tão pouco o fará de imediato. Trata-se, porém, de observar uma nova dinâmica que começa a tornar-se parte do dia-a-dia dos usuários dos grandes centros urbanos, transformando a maneira como utilizam-se tanto do virtual quanto dos espaços da cidade. Não mais uma cibercidade – com suas ruas replicadas nas estruturas da rede – mas uma cidade que é cyber, onde a rede instala-se como uma outra rua sobreposta aquelas já existentes. Diante da realização dessas estruturas, as possibilidades para seu estudo são vastas e as questões que sugerem as mais diversas: Como descrever esta cidade que passa a estar interligada à rede através das tecnologias de informação? De que modo é possível navegar entre duas esferas de espaço que antes julgavam-se distintas? Como as pessoas, saindo da posição de meros usuários e passando a vivenciadores de uma realidade local imbricada em fluxos da rede, transformam-se e relacionam seu corpo à virtualidade? E por fim, quais as implicações desta simbiose entre a rede e a cidade para uma concepção de Estado e da própria democracia? Em meio a estes questionamentos, e tendo em vista os limites estabelecidos para este trabalho, direciono meu estudo a uma breve elaboração teórica sobre os espaços contemporâneos e também à observação de uma forma de escrita virtual sobre a cidade que age de modo a aumentá-la, isto é, expandir as fronteiras de sua contigüidade física para dentro do espaço virtual das redes. Proponho-me, assim, a analisar o uso do aplicativo Google Earth na criação e manutenção de uma camada colaborativa de virtualidade sobre o espaço urbano. Desta forma, no primeiro capítulo faço uma breve revisão teórica acerca da condição contemporânea, observando noções de sociedade, espaço e território, e, por fim, elaborando uma concepção de cidade que é híbrida, múltipla e também imaginária. Faço isso para apresentar a possibilidade de subversão e redefinição social que se inscreve no emaranhado do tecido urbano-virtual. A partir de exemplos de manifestações artísticas que apropriam-se da cidade para apresentar novas perspectivas de vivência tanto no espaço físico quanto no

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espaço virtual, indico a necessidade de observar uma aplicação aberta como o Google Earth para inquirir sobre os usos públicos desta interconexão. No segundo capítulo faço uma descrição da interface e das funcionalidades do aplicativo Google Earth como ferramenta de navegação através de um globo virtual. Ao recriar o planeta a partir da justaposição de fotografias aéreas ou de satélite, o programa oferece também uma tela aberta para a criação e sobreposição de informações. Descrevo assim o funcionamento de um Sistema de Informações Geográficas (SIG) integrado ao aplicativo, e também a possibilidade do próprio usuário publicar e compartilhar seus pontos de interesse (placemarks) através da Google Earth Community. Seja em uma notação vetorial, como ícones sobrepostos aos espaços físicos visualizados no aplicativo, ou listados em uma BBS on-line, essa ferramenta possibilita o compartilhamento e a própria apropriação e redefinição dos espaços coletivos. Por fim, no terceiro capítulo deste trabalho faço uma análise de uma série de placemarks coletados sobre a cidade de Toronto, no Canadá. Esta amostra de dados revela algumas tendências na maneira com que as pessoas estão utilizando a Google Earth Community para referenciar o urbano. Proponho assim uma nova tipologia para definir o conteúdo publicado quanto ao seu interesse e fator comunicacional, e observo, a partir desta classificação, as possibilidades de transformação social que tal uso do entrecruzamento de espaços oferece nas estruturas contemporâneas. Enquanto trabalho monográfico com caráter de introduzir e talvez conduzir futuros estudos na área, justifica-se, portanto, diante de uma temática cujo estudo, acredito, estará cada vez mais presente nos anos que se seguirem. Afinal, o momento parece ser ideal para traçar idéias e ampliar a discussão sobre como poderão ser concebidas as cidades, comunidades, e a própria noção do virtual neste início de século XXI.

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2 SOCIEDADE, TERRITÓRIO E CIDADE

Eis portanto os últimos postos avançados da cultura. Para além deles, começa a conquista da vida cotidiana. Internacional Situacionista

O lugar é um conceito que pode ser historicamente inscrito nas sociedades ocidentais. Na Idade Média, a organização do espaço era hierárquica e dicotômica. Havia o sagrado e o profano, a cidade e o rural. Tratava-se, segundo a genealogia proposta por Foucault em seu texto Des Espaces Autres, um espaço de localização. A partir do século XIV, da expansão das cidades mercantis e da retomada dos questionamento das relações entre o homem e os céus, conhecimento e corporeidade, a idéia de espaço também viu-se transformada. Galileu, ao abrir os olhos para uma noção de infinito, cunhou a possibilidade de um lugar que é amplo e ele próprio extensível a este infinito. A humanidade tornou-se habitante de um espaço de extensão, caracterizado mais pelos seus movimentos do que pela fixação a um local. Na realidade contemporânea a extensão deu lugar ao sítio, e o espaço passou a ser definido pelas “relações de proximidade entre pontos ou elementos”, lugares “formalmente descritos como séries, árvores ou matrizes” (Foucault, 1986, p.23). Tornaram-se essenciais para a compreensão dos fenômenos da modernidade não apenas o movimento, mas também as “relações entre”. Deste modo, enquanto a grande ansiedade do século XIX foi o tempo e a história, Foucault sugere que a nossa época será, acima de tudo, uma época do espaço:
We are in the epoch of simultaneity: we are in the epoch of juxtaposition, the epoch of the near and far, of the side-by-side, of the dispersed. We are at a moment, I believe, when our experience of the world is less that of a long life developing through time than that of a network that connects points and intersects with its own skein. One could perhaps say that certain ideological conflicts animating present-day polemics oppose the pious descendents of time and the determined inhabitants of space (p.22). 1

Tradução do autor: Estamos na época da simultaneidade: estamos na época da justaposição, na época do perto e do longe, do lado a lado, do disperso. Estamos em um momento, acredito, em que nossa experiência do mundo é menos a de uma longa vida se desenvolvendo através do tempo do que aquela de uma rede que conecta pontos e se cruza com sua própria trama. Pode-se dizer, talvez, que certos conflitos ideológicos que animam polêmicas atuais opõem os fiéis descendentes do tempo aos determinados habitantes do espaço.

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Nesta perspectiva, as associações são definidas pelo inter-relacionamento de sítios distintos; pela rede que entrecruza e cria espaços que são, ao fim, heterogêneos e múltiplos; por uma justaposição de lugares fisicamente dispersos. Diante destas idéias de espaço, é preciso fazer uma breve revisão teórica para inquirir acerca da condição contemporânea. Apresento nos tópicos a seguir o conceito de Sociedade em Rede, elaborado por Castells, a partir do qual é possível abordar questões de imbricação tecnológica nas cidades e domínio e exclusão de um espaço imaterial de fluxos. Segue-se uma discussão sobre as possibilidades de territorializar-se nestas estruturas da rede, construindo a partir dela uma visão de cidade interligada a múltiplas virtualidades, seja no hibridismo ciborgue de Lemos ou nas cidades imaginárias de Calvino e Patton. Por fim, apresento algumas sugestões para a subversão do domínio dos fluxos e de um novo potencial democrático para as cidades a partir de exemplos desenvolvidos por movimentos de arte digital. Com esta revisão será possível melhor compreender o fenômeno atual de conexão e de rede onde irão surgir aplicativos como o Google Earth. Esta discussão não pretende, é claro, esgotar a temática do espaço, das cidades, e da experiência urbana, sendo assim somente uma necessária contextualização para a posterior análise desta ferramenta. Apesar disto, torna-se essencialmente caminho a ser trilhado para a continuidade dos estudos nesta área.

2.1 Sociedade As novas estruturas contemporâneas têm nas redes telemáticas seu principal elemento constituinte. Expandindo sobre uma terminologia anterior que definia a existência de uma Sociedade da Informação, Castells irá dizer que são os fluxos desta informação que são fundamentais e estabelecem as condições para uma Sociedade em Rede: um sistema interconectado de relações complexas que determinam as estruturas sociais, políticas e econômicas de nossa época (Castells, 1999). Diante desta organização, tanto noções de tempo, quanto de espaço são alteradas e adquirem novos significados. A cidade, lugar da comunidade e da experiência, passa a organizar-se sob o domínio de um espaço imaterial de fluxos, e nela o próprio tempo é comprimido, alterado ou simplesmente aniquilado por inteiro. Esta estrutura emergiu como resultado da revolução de tecnologia da informação (TI) nos anos 70, que criou as condições materiais necessárias para a configuração do mundo

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interconectado em tempo-real através de uma rede global, que “define o novo espaço como as ferrovias definiram as ‘regiões econômicas’ e os ‘mercados nacionais’ na economia industrial” (Castells, 1999, p.437). Por outro lado, o mesmo autor é enfático ao dizer que a revolução de TI não é o único fator sobre o qual a Sociedade em Rede estaria baseada. Não é uma questão de determinismo dos novos aparatos tecnológicos, tendo em vista que a redefinição dos sistemas capitalistas em torno de uma agenda neo-liberal e as significativas mudanças culturais após a década de 60 também tiveram influência nestas transformações. Aliando-se às teorias de desencaixe (Giddens, 1991), que sugere um alongamento das relações sociais de seus contextos locais, e compressão espaço-tempo (Harvey, 1989), para a qual as inovações tecnológicas teriam encolhido o mundo de forma a reproduzi-lo no nível local, Castells apresenta uma noção de “tempo sem tempo2”. Enquanto a Era Industrial foi marcada pelo ritmo das máquinas na fabrica e governada pelo tic-tac do relógio, e a Era PósIndustrial determinada pelas comunicações em alta velocidade e por iterações nos milisegundos do computador (Bell, 1973, ; Kumar, 1995), a Sociedade em Rede é definida pela total aniquilação do tempo, não apenas comprimida em nano-segundos pelos crescentes desenvolvimentos tecnológicos mas também inscrita na não-linearidade do hipertexto, que elimina qualquer noção de passado, presente e futuro. Ao viver todas as conjugações da ação simultaneamente, é possível reordená-las à revelia dos interesses e fantasias daqueles que estão em controle deste tempo. O que Jameson (1984), similarmente, irá chamar de um presente perpétuo, no qual ocorre a “pura sincronia”, e onde todos os estados temporais comprimem-se sob uma única noção de presença. Esta temporalidade, porém, não é aquela de todos, fazendo com que haja um fator de exclusão da rede e de seus fluxos. Enquanto os grupos sociais dominantes podem transitar e produzir dentro deste “tempo sem tempo”, a maior parte da população ainda vive inscrita no tempo biológico, à margem do processo do instantâneo promovido pelos avanços da tecnologia.

I propose the notion that a fundamental struggle in our society is around the redefinition of time, between its annihilation or desequencing by networks, on one hand, and, on the other hand, the consciousness of glacial time, the slow-motion, intergenerational evolution of our species in our cosmological environment (Castells, 1997, p.146).3

“Timeless time” Tradução do autor: Proponho a noção de que o conflito fundamental em nossa sociedade é em torno da redefinição do tempo, entre a sua aniquilação ou fragmentação pelas redes, por um lado, e, por outro, a
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A Sociedade em Rede caracteriza-se também por uma mudança significativa nos espaços, que passam a estar interconectados e sob influência das redes globais. Um espaço de lugares, aquele historicamente enraizado e onde ocorre a experiência da vida cotidiana, justapõe-se a uma espaço de fluxos. Estes fluxos são caracterizados por “seqüências intencionais, repetitivas e programáveis de intercâmbio entre posições fisicamente desarticuladas, mantidas por atores sociais nas estruturas econômica, política e simbólica da sociedade” (Castells, 1999, p.436). Ou seja, um espaço fluido e em constante transformação onde não há presença e tão pouco memória, e onde a própria noção de tempo é deslocada em vista da velocidade das conexões. Ainda que a lógica espacial de um lugar histórico seja mantida, tanto o espaço de fluxos, quanto o “tempo sem tempo” são dominantes por causa da articulação das elites em torno do seu paradigma. Enquanto fomenta um processo de conexão entre o local e o global, a rede e seus fluxos também conduzem a uma segregação social, onde as distâncias são infinitas em contraponto à distância nula daqueles que estão integrados à ela. Castells identifica uma manifestação espacial das elites, sugerindo que a dominação só torna-se possível a partir da desarticulação dos grupos sociais estabelecidos.
O espaço de poder e riqueza é projetado pelo mundo, enquanto a vida e a experiência das pessoas ficam enraizadas em lugares, em sua cultura, em sua história. Portanto, quanto mais uma organização social baseia-se em fluxos aistóricos, substituindo a lógica de qualquer lugar específico, mais a lógica do poder escapa ao controle sociopolítico das sociedades locais/nacionais historicamente específicas (p.440).

Deste modo, é possível definir o espaço de fluxos por pelo menos três elementos primordiais: os circuitos eletrônicos que conectam os sistemas de informação e criam uma rede global; os nós e centros de comunicação constituintes desta rede; e a organização espacial das elites dominantes. Tal estrutura não significa um fim da cidade, perdida como mera localização em meio aos não-significados da rede, vendo que uma nova Cidade Informacional é definida no predomínio dos fluxos. Esta não adquire forma específica, mas surge como uma nova dinâmica para as cidades, onde o local passa a integrar e ser modificado pelo global. Apesar disto, Castells enxerga no espaço urbano um processo de liberação dos códigos culturais e a redefinição do próprio valor do design e da arquitetura, refletindo uma aistoricidade e

consciência do tempo glacial, da evolução entre gerações e em câmera lenta da nossa espécie em nosso ambiente cosmológico.

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aculturalidade que caracterizam as relações contemporâneas sob domínio de um espaço de fluxos:

[...] a arquitetura que parece mais repleta de significado nas sociedades moldadas pela lógica do espaço de fluxos é o que eu chamo de “a arquitetura da nudez”. Ou seja, a arquitetura cujas formas são tão neutras, tão puras, tão diáfanas, que não pretendem dizer nada. E ao nada dizer, elas comparam a experiência com a solitude do espaço de fluxos. Sua mensagem é o silêncio (p.445).

Augé, em uma visão similar ainda que um pouco mais distópica4, apresenta o conceito de não-lugares: efêmeros espaços de passagem que são super-individualizados e provisórios. São as grandes cadeias de hotéis que replicam um visual estanque ao redor do globo, os saguões de aeroportos e espaços públicos onde não há memória ou qualquer sentimento de coletividade. O autor atenta para a problemática da individualidade e da solidão, constatando que estes não-lugares “mobilizam o espaço extraterrestre para uma comunicação tão estranha que muitas vezes só põe o indivíduo em contato com uma outra imagem de si mesmo” (Augé, 1994, p.75). Fahmi, citando Sotokols e Shumaker, identifica na proliferação destas zonas de trânsito e na atual condição de mobilidade (Urry, 2000) um fenômeno de não-pertencimento onde há um distanciamento entre indivíduo e ambiente, levantando assim questões de autenticidade, identidade e significação dos próprios territórios (Fahmi, 2001). Existe, porém, a possibilidade de subverter o espaço de fluxos através do “poder da experiência”, buscando romper uma verdadeira esquizofrenia entre as duas noções de espaço cujas distâncias os colocam incomunicáveis. Para evitar a transformação do mundo em grandes aeroportos e lugares de não-pertencimento é que faz-se necessária uma penetração dos fluxos por meio de ações sociais de apropriação.

A tendência predominante é para um horizonte de espaços de fluxos aistórico em rede, visando impor sua lógica nos lugares segmentados e espalhados, cada vez menos relacionados uns com os outros, cada vez menos capazes de compartilhar códigos culturais. A menos que, deliberadamente, se construam pontes culturais e físicas entre essas duas formas de espaço, podemos estar rumando para a vida em universos paralelos, cujos tempos não conseguem encontrar-se porque são trabalhados em diferentes dimensões de um hiperespaço social (Castells, 1999, p.451).

4 A “distopia” é um termo apropriado da ficção científica como a anti-utopia. Realidades futuristas de dominação como aquelas criadas por Orwell ou Huxley, estados completamente privatizados como em ‘Snow Crash’, de Stephenson, ou até mesmo futuros “perfeitos” e igualmente assustadores, como mostrado por Gibson em ‘Gernsback Continuum’. Para mais, ver http://en.wikipedia.org/wiki/Dystopia.

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O uso da internet por movimentos sociais como os Zapatistas, no México, ou a conexão de prefeituras e governos locais às macroestruturas políticas através da rede, são exemplos destas transformações nas relações de poder existentes no espaço de fluxos. É, como apresento a seguir, uma maneira de territorializar-se na rede, apropriando-se desta conexão a partir das experiências locais.

2.2 Território A subversão de um domínio dos fluxos passa necessariamente pela apropriação dos mesmos pelo cidadão. Pode-se dizer que é preciso um processo de territorialização na rede de modo a reforçar particularidades e identidades locais. Há portanto a necessidade de inserir o indivíduo em um contexto geográfico e territorial (Haesbaert, 2004). Em uma de suas várias concepções, o território pode ser caracterizado como o “conjunto de projetos e representações nos quais vai desembocar, pragmaticamente, toda uma série de comportamentos, de investimentos, nos tempos e nos espaços sociais, culturais, estéticos, cognitivos” (Guattari e Rolnik, 1986, apud Haesbaert, 2001, p.121). Uma visão mais simplista irá defini-lo pelo simples controle de fronteiras, sejam elas físicas ou simbólicas. O controle dos processos no interior destas fronteiras, e a criação de linhas de fuga e re-significações por entre as mesmas, definiriam a territorialização e

desterritorialização, respectivamente. Para Haesbaert essas territorializações são “as relações de domínio e apropriação do espaço, ou seja, nossas mediações espaciais do poder [...]” (Haesbaert, 2004, p.339). É importante notar que não trata-se aqui de uma visão de território como simples presença, e tampouco de desterritorialização como apenas deslocamento. Haesbaert procura desmistificar a idéia de uma estrutura contemporânea des-espacializante, e critica as demais ciências sociais (isto é, aquelas além da Geografia) por terem redescoberto o território apenas para falar do seu fim – o que Guattari vai chamar de um fascínio da desterritorialização (p.28). Contrário à idéia de dissociação entre tempo e espaço – a partir do qual “o ‘puro’ espaço que, por não existir nunca como tal, quando isolado do tempo simplesmente desaparece” (p.155) –, Haesbaert sustenta que o predomínio das redes e dos fluxos não significa necessariamente um processo de desterritorialização, visão esta que considera simplista demais.

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Um dos principais problemas deste discurso da desterritorialização “informacional” [...] é o de não perceber que os verdadeiros sujeitos do processo não são “ubíquos e desencarnados”, e que o que aparece como “desterritorialização” em uma escala pode estar representando reterritorialização em outra (p.276).

Como contraponto,

Haesbaert sugere uma noção de multiterritorialidades,

argumentando em favor de um sistema complexo onde não há dicotomia entre território ou rede, mobilidade ou fixação. Nesta perspectiva as referências identitárias do indivíduo são múltiplas, sejam estas locais, globais, pessoais ou comunitárias. Ao contrário de mera fragmentação ou ruptura, tal processo implica em uma contínua e recursiva destruição e construção de territórios. Para isso, o autor apóia-se em Deleuze e Guattari, que já falavam em processos de des-re-territorialização. Apresentando o rizoma como um modelo para superar um pensamento binário e genealógico (ainda que sem excluí-lo), estes autores trabalham com a multiplicidade através dos agenciamentos: uma estrutura aberta e heterogênea que comporta tanto a rigidez da organização hierárquica quanto a flexibilidade da rede. O processo de territorialização estaria ligado, então, a um movimento concomitante e indissociável que governa os agenciamentos e seus componentes de pensamento e desejo. Afinal, a sociedade deve ser entendida por sua mobilidade e fluidez, organizada por estas des-re-territorializações, cuja dinâmica “se estabelece mais por movimentos de fuga do que por uma essência imutável das coisas” (Lemos, 2006, p.4). Segundo Haesbaert:
[...] pensar estes agenciamentos é, sem dúvida, pensar em uma Geografia, uma geografia das multiplicidades e das simultaneidades como condição para o próprio movimento, a própria História (ou devir), pois o agenciamento é, antes de tudo, territorial (Haesbaert, 2004, p.117).

Assim como Castells quando este justapõe o espaço de lugares ao espaço de fluxos, Haesbaert propõe duas lógicas de territorialização: o território-zona e o território-rede. O primeiro diz respeito ao controle de áreas e espaços físicos, e o segundo ao controle de fluxos na rede. Ambas não são noções excludentes, e assim como os agenciamentos árvore-rizoma, são constituídos e reconstituídos por movimentos recursivos. Estes seriam acompanhados, ainda, por aglomerados de exclusão, noção que contempla aqueles espaços desencaixados de um ou outro processo territorializante. Enquanto o território-zona é criado nos limites tradicionais ou zonais das fronteiras da contigüidade onde, assim como no espaço de lugares, comunidades estão historicamente

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enraizadas, o território-rede é um espaço dinâmico e dotado de mobilidade, onde territorializar-se significa controlar fluxos e conexões na rede. Diferente do espaço de fluxos, porém, esta noção de território-rede traz em si a apropriação que se julga necessária dos fluxos. Não é, assim, apenas espaço, mas também ato e própria possibilidade de subversão, expandindo a idéia de Castells no que tange a participação e criação identitária. A idéia de multiterritorialidade surge do transitar entre ambas esferas de espaço: entre os lugares ou fluxos, zona ou rede. As diferenças no acesso e na velocidade das relações, porém, são também representantes de uma segregação talvez ainda pior que aquela promovida pelos fluxos: uma população não apenas excluída da configuração das rede telemáticas, mas de toda uma dinâmica socioespacial.

[...] o grande dilema deste novo século será o da desigualdade entre as múltiplas velocidades, ritmos e níveis de des-re-territorialização, especialmente aquela entre a minoria que tem pleno acesso e usufrui dos territórios-rede capitalistas globais que asseguram sua multiterritorialidade, e a massa ou os “aglomerados” crescentes de pessoas que vivem na mais precária territorialização ou, em outras palavras, mais incisivas, na mais violenta exclusão e/ou reclusão socioespacial (p.372).

Ao abordar diretamente o ciberespaço, Lemos identifica na internet as dinâmicas desre-territorializantes propostas por Deleuze e Guattari e seguidas por Haesbaert. Segundo ele, não devemos compreender o virtual apenas como espaço desencaixado sob o controle e domínio das elites, mas também como local de quebra de hierarquias e criação de linhas de fuga que possibilitam novas territorializações (Lemos, 2006). O autor identifica na expansão da produção e colaboração em comunidades virtuais, ações ciberativistas e também nos blogs, elementos que criam novas significações na rede, liberando a emissão e possibilitando o controle tanto dos fluxos quanto dos próprios espaços físicos. Seriam assim territórios-rede, a partir do qual a contestação dos poderes pode acontecer. Para Castells, isso é um fator inerente à expansão e difusão das tecnologias de informação e comunicação (TICs) na sociedade:

As information communication networks diffuse in society, and as technology is appropriated by a variety of social actors, segments of the space of flows are

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penetrated by forces of resistance to domination, and by expressions of personal experience (Castells, 1997, p.147)5.

Além do acesso tradicional à internet através de computadores pessoais no ambiente domiciliar, na escola ou no trabalho, a proliferação das tecnologias móveis, integradas ao espaço urbano, criou novas possibilidades de significação e controle. Com a justaposição ou próprio entrecruzamento do virtual com o real, do ciberespaço com a dimensão física das cidades, a tecnologia pode ser usada como ferramenta de territorialização tanto nos lugares quanto nos fluxos. Deste modo, o virtual torna-se espaço para a fomentação do local, e, interconectado com os espaços urbanos em des-re-territorializações, colocam a cidade do século XXI como palco da experiência e da transformação.
Trata-se de afirmar a potência desterritorializante, mas também reterritorializante, das tecnologias da cibercultura. O que está em jogo é a criação de novas possibilidades de sentido para o espaço das cidades contemporâneas através das tecnologias móveis e do espaço eletrônico mundial, o ciberespaço (Lemos, 2006, p.15).

Ao considerar este entrecruzamento, a cidade contemporânea não deve mais ser compreendida apenas por seu espaço e fronteiras físicas. É preciso uma visão híbrida, que atente tanto para as identidades comunitárias históricas e enraizadas, quanto para as novas relações fluidas da rede, que não estão distantes, mas sim inscritas por entre as ruas da metrópole.

2.3 Cidades híbridas As primeiras aldeias e agrupamentos humanos começaram a definir-se a partir do momento em que a agricultura superou a coleta, e os primeiros esboços de um Estado começaram a ser traçados. Lefebvre (1999), ao delimitar um eixo espaço-temporal da evolução do urbano, identifica o surgimento da cidade política. Organizada em torno da praça de reunião, e determinada pelo poder e pela escrita, tinha entre seus muros um parco comércio de artesanias e trocas que era renegado às regiões marginais. É apenas no final da Idade Média, quando os mercadores viram nas ruínas das cidades antigas um local para combater o domínio dos senhores e seus feudos, que esta estrutura foi reconfigurada. Ao invés do fórum,

Tradução do autor: A medida que redes de comunicação informacionais se difundem na sociedade, e à medida que a tecnologia é apropriada por uma variedade de atores sociais, segmentos do espaço de fluxos são penetrados por forças de resistência à dominação, e por expressões de experiência pessoal.

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a cidade passou a organizar-se em torno da praça do mercado. Surgiu assim a cidade comercial, que transforma o urbano em um local do encontro e da troca, criando movimento a partir da riqueza e invertendo os pólos do campo e da cidade. Da mesma forma, estas estruturas foram transformadas em cidade industrial à medida que a fábrica aproximou-se dos centros de concentração urbana. O fenômeno de explosão destes espaços, e o surgimento da escala global, rapidamente conduziram a sociedade moderna em direção à uma zona crítica, a partir da qual, segundo Lefebvre, a urbanização seria completa, dando início a uma verdadeira Sociedade Urbana. Há pouco mais de trinta anos Lefebvre questionava-se a respeito desta nova cidade que brotava diante da perspectiva pós-industrial. Pode-se dizer que a evolução das estruturas telemáticas da Sociedade em Rede, que hoje permeiam o urbano, transformaram a cidade contemporânea e criaram espaços que são híbridos, múltiplos e ciborgues. Cada vez mais integrada à tecnologia e aos fluxos, o espaço urbano pode hoje ser definido por uma sobreposição de camadas de virtualidades. É também uma cidade transparente, regulada pela vigilância e pelo controle, e cujos limites exatos são desconhecidos. A cidade expande-se ao nível extremo da conurbação e ao sprawl, onde não se sabe onde começa ou termina a metrópole; não apenas cidades como Nova York, Londres e Tóquio interligadas pelos círculos financeiros, mas também San Diego e Tijuana que fisicamente ultrapassam as próprias fronteiras do estado-nação. Seja na Cidade Informacional de Castells, ou na Cidade-Ciborgue que Lemos irá propor (Lemos, 2004b), fica clara a imbricação dos elementos tecnológicos nos espaços públicos urbanos. Não deve-se, porém, determinar esta cidade por suas tecnologias, fazendo-se necessário uma análise vis-à-vis os seus usos, experiências, e um latente poder de contestação e redefinição social. Esta condição das cidades contrasta com um imaginário utópico de dissociação entre o corpo e sua presença cibernética que caracterizou um fetiche do ciberespaço durante as décadas de 80 e 90. A rápida expansão da rede mundial de computadores, aliado ao imaginário de fantasia construído pela ficção científica e suas influências nas subculturas cyberpunk e hacker (Amaral, 2006), criavam no usuário da WWW um desejo de imersão completa em um espaço virtual. A idéia em voga era entrar em uma bolha de informação – uma realidade alternativa, auto-constituída, onde a própria noção de corpo era fragmentada na digitalização do sujeito. A agonia de Case tendo que voltar para “a carne” ao desplugar seu console e sair do cyberspace em Neuromancer (Gibson, 1984), ou o delírio de Hans Moravec ao vislumbrar um futuro onde o “eu” seria transferido para a máquina como padrões de

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informação e o corpo orgânico poderia ser dispensado como “mera geléia” (Moravec, 1990), são exemplos da utopia da virtualidade durante os primeiros anos de expansão da internet. Este é também o discurso de muitos tecno-pessimistas, que vêem nos usuários da internet prisioneiros de uma esfera virtual. Para Casalegno, porém, as cidades estão diante de uma superposição entre espaço real e informações digitais:
I think that the real dimension of the city and information cybernetics are superimposing and supporting each other. The growing number of available digital information that is scattered throughout the territory emphasizes the element of physical places; the environment becomes a real interface of memory, a connective tissue (Casalegno, 2004, p.317).6

Com o recente avanço das tecnologias de conectividade em direção à mobilidade, criou-se um espaço onde as conexões podem ser permanentes, e o virtual assume uma relação quase que simbiótica com o real. Hoje a conexão nas grandes cidades é ubíqua, presente em todos os lugares ao mesmo tempo, e já não há um distanciamento do corpo e nem das próprias estruturas arquitetônicas destes ambientes de bytes. A popularização de tecnologias como o wi-fi7, o telefone celular e até mesmo sistemas de posicionamento global (GPS) permitem que o usuário esteja conectado à rede a qualquer hora e em qualquer lugar8. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento de protocolos de comunicação pervasiva como o RFID e o Bluetooth9 criam novos agentes comunicacionais na cidade. Na virtualidade do século XXI, a rede envolve o usuário em suas atividades diárias pelas ruas da metrópole, criando uma ambiência que integra o virtual e o real, o local e o global.
Trata-se de transformações nas práticas sociais, na vivência do espaço urbano e na forma de produzir e consumir informação. A cibercultura solta as amarras e desenvolve-se de forma onipresente, fazendo com que não seja mais o usuário que se

Tradução do autor: Acredito que a dimensão real da cidade e as informações cibernéticas estão sobrepondo e suportando umas as outras. O crescente aumento da disponibilidade de informação digital que é espalhada pelo território enfatiza o elemento físico dos lugares; o ambiente torna-se uma interface real de memória, um tecido conectivo. 7 Acesso sem fio à internet através de rádios de curta-distância. 8 Isto é, desde que esta pessoa detenha as condições materiais de acesso, é claro, Não trata-se aqui de elaborar sobre a questão de democratização destes acessos, mas sim identificar a existência ou não de um potencial para a fomentação de comunidades e da democracia em si. A partir desta análise pode-se começar a falar em acesso público e generalizado, antes não. 9 RFID, ou “Radio Frequency Identification”, são etiquetas emissoras de ondas de rádio que transmitem informações sobre algum objeto. Atualmente são usadas em produtos como um substituto para o códigos de barras, mas países como os EUA estudam implementá-las em passaportes e documentos de identificação. Bluetooth é uma tecnologia de conectividade de curta distância e está sendo utilizada em “objetos comunicacionais” que transmitem informações como horário do cinema ou dados de um produto para o telefone celular do transeunte.

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desloque até a rede, mas a rede que passa a envolver os usuários e os objetos numa conexão generalizada (Lemos, 2005, p.2).

Apesar de muitas das formas de interação na rede ainda caracterizarem-se pelo imaginário da dissociação do corpo, como é o caso do Second Life10, trata-se aqui de analisar uma nova manifestação que é híbrida, e onde em vez de termos apenas pura informação, carne e concreto são recolocados na equação. Ao tempo que não estamos diante de uma dicotomia rede/cidade, também não se trata de uma cidade inteiramente nova, mas sim o reconhecimento de uma nova dinâmica que reconfigura o espaço e as práticas sociais das cidades (Lemos, 2004a). É nessa “reconquista” do espaço urbano, aliado a práticas de subversão e apropriação dos fluxos, que reside um possível e necessário elemento de transformação na sociedade contemporânea. Esta cidade é vista por Lemos como um espaço híbrido composto de redes sociais, infra-estruturas físicas e redes imaginárias que constituem um organismo complexo. Para isso, o autor recorre a Claude de Saint-Simon, que no século XIX descrevia a cidade como um “artefato complexo composto por diversas redes materiais e espirituais” (Lemos, 2004b). Surge aí a cidade-ciborgue, que é definida como tal por uma simbiose de multiplicidades; da relação organismo–tecnologia que alude à metáfora do ciborgue; um espaço que torna-se recursivamente lugar de influências múltiplas e mútuas. O ciborgue aqui referenciado não é o homem de lata ou a simples integração de circuitos eletrônicos à carne. Para Haraway, muito além de ser apenas um Frankenstein tecnológico, o ciborgue ilustra uma possibilidade de transformação social. A inexistência de um mito de origem da máquina, e consequentemente de um corpo historicamente constituído (e submisso), permite a construção de identidades a partir de novos referenciais.
[Women] are excruciatingly conscious of what it means to have a historically constituted body. But with the loss of innocence in our origin, there is no expulsion from the Garden [of Eden] either. Our politics lose the indulgence of guilt with the naïveté of innocence. (Haraway, 1991, p.157) .11

Nesta perspectiva tecno-feminista, a simbiose homem-tecnologia representa a superação de barreiras historicamente impostas por uma falsa naturalidade. É a utopia de um
www.secondlife.com, site que oferece um mundo virtual onde o usuário pode criar um avatar para si próprio que poderá constituir residência, criar e comercializar objetos e interagir com outros “residentes” 11 Tradução do autor: As mulheres são intensamente conscientes do que significa ter um corpo historicamente constituído. Porém com a perda da inocência na nossa origem, não há também expulsão do Jardim (do Éden). Nossa política perde a indulgência da culpa com a ingenuidade da inocência.
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mundo pós-gênero onde o ciborgue, a quintessência da máquina, fragmentado e dissociável, pode ser livremente codificado a revelia de seus próprios desejos e necessidades. A cidadeciborgue de Lemos é assim a possibilidade de integração de multiplicidades; de um hibridismo não apenas das tecnologias de informação e mobilidade, mas também das relações e estruturas sociais daqueles que transitam no urbano.
Para o entendimento da cidade-ciborgue faz-se necessário uma análise das complexas interações entre os lugares urbanos [...] e espaços eletrônicos como seus diversos fluxos de informações, capital, serviços, trabalho que fluem pelo espaço geográfico. Não estamos inaugurando um mundo pós-urbano, muito pelo contrário, estamos vivendo o reforço do urbano (Lemos, 2004b, p.144).

A integração entre virtual e real na cidade contemporânea possibilita ao usuário/cidadão não apenas um maior acesso à informação da internet – que passa a estar disponível em qualquer lugar a qualquer hora –, mas também permite a construção dos espaços à sua volta. Com o auxílio destas camadas de virtualidade sobrepostas à matriz do real, é possível transformar o urbano em um ambiente aberto para a criação e colaboração. A apropriação das TICs, integradas às cidades, torna-se uma perspectiva de transformação social pela subversão do domínio dos fluxos, regulados e gerenciados pelas elites, na territorialização da experiência. As inovações tecnológicas e o entrecruzamento de espaços na cidade híbrida são elementos que podem contribuir para um reforço democrático na Sociedade em Rede. Não pode-se perder de vista, porém, a perspectiva humana na leitura e apropriação desta cidade. Segundo Lemos, estamos diante da questão de como utilizar a inter-relação de espaços como “uma ferramenta de redemocratização, de aquecimento do espaço público, de melhoria da cidadania e da vida social como um todo” (Lemos, 2004b). Não trata-se de um determinismo dos meios tecnológicos em uma nova utopia do ciberespaço, mas o reconhecimento de que a cidade é, ao fim, inerentemente múltipla, e deve ser compreendida pelos seus inúmeros fatores sociais, humanos e materiais que criam complexos espaços de convergência e participação. São assim, também, cidades imaginárias.

2.4 Cidades imaginárias Ítalo Calvino, ao traçar suas Cidades Imaginárias (Calvino, 1990), descreve a passagem de Marco Polo pela fictícia metrópole de Fedora. Nela haveria um grande palácio

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de metal que reuniria miniaturas encapsuladas em esferas de vidro representando todas as formas que a cidade poderia ter tido mas por alguma razão transformara-se em outra, distinta. Para Calvino, a cidade não é apenas esta diante da qual o viajante se encontra, mas também todas aquelas outras que representam as possibilidades alguma vez imaginadas por seus habitantes.
No atlas do seu império, ó Grande Khan, devem constar tanto a grande Fedora de pedra quando as pequenas Fedoras das esferas de vidro. Não porque sejam igualmente reais, mas porque são todas supostas. Uma reúne o que é considerado necessário, mas ainda não o é; as outras, o que se imagina possível e um minuto mais tarde deixa de sê-lo (p.32).

Patton propõe, à luz de Calvino, que a condição pós-moderna da experiência urbana nos coloca diante de cidades imaginárias, que seriam “não apenas o produto da memória ou do desejo, mas sim objetos complexos que incluem tanto realidades e suas descrições, cidades que se confundem com as palavras usadas para descrevê-las” (Patton, 1995). Isso não quer dizer que estas também não sejam reais e muito menos que elas não surtam efeitos sobre o espaço material, interrelacionando-se recursivamente entre cidade e experiência Assim, o autor segue a linha de Calvino quando este sugere que apenas habitamos uma cidade de signos:

The problem then would not be to interpret or decode these signs, where that would mean attaining a reality beyond signs, but to ‘read’ them (which means to produce further signs) in ways which might enhance our capacities to live in proximity with strangers (Patton, 1995, p.113).12

É preciso, nesta perspectiva, criar cidades legíveis onde seja possível (re)estabelecer um sentimento de lugar tendo em vista a nova significação do local a partir da convergência de múltiplos poderes na conexão global. A existência de inúmeras camadas de virtualidade que sobrepõe-se ao espaço urbano, sugerem uma nova maneira de ver a cidade, assimilando-a como uma colcha de campos interconectados que se influenciam mutuamente (Fahmi, 2001). Percebe-se também uma forte influência das formas narrativas e do mito na arquitetura do espaço, indicando a necessidade de examinar a cidade como transformada pela experiência e práticas culturais.

Tradução do autor: O problema não seria, então, interpretar ou decodificar estes signos, onde isto significaria alcançar uma realidade além dos signos, mas “lê-los” (que significa produzir outros signos) de maneiras que possam aprimorar nossa capacidade de viver em proximidade com desconhecidos.

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The city is regarded as a “partially connected multiplicity which we can only ever know partially and from multiple places”. If we are to fully understand any particular city vision, then, we need to approach the city in a similarly polymorphous way, piecing it together, never losing sight of the “magical” human practices that criss-cross its form, dancing and flickering over real and virtual space (Fahmi, 2001, p.7).13

A compreensão dos processos urbanos passa pela realização da importância do elemento humano, daqueles que habitam, usam seus sistemas comunicacionais, e criam uma experiência comunitária do local. Deste modo, a experiência constrói também um processo de memória social e coletiva – aquela criada e realimentada pelas comunidades ao invés de instituições oficiais. No momento em que o compartilhamento desta memória também significa um compartilhamento da experiência, há necessidade de um reforço das formas narrativas, que são, ao fim, maneiras de criar um sentido em comum (Casalegno, 2004). Estas são formas de comunicação próprias do local e suas comunidades que podem ser impulsionadas através das redes de conexão. Casalegno adota uma perspectiva ecológica (inspirando-se em uma definição de ecologia como sendo o estudo das relações entre seres vivos e seus ambientes) indicando que o fenômeno urbano contemporâneo deve ser compreendido como uma sinergia complexa entre memória, comunidade e comunicação – inter-relação que promove um reforço dos ambientes sociais e culturais. A imbricação das redes possibilita um acesso à memória coletiva pela comunidade a partir de espaços públicos, criando uma nova topologia do urbano a partir da sobreposição do virtual à dimensão real da cidade.

The postmodern city is covered with a new connective tissue; just like we all decorate our houses with objects and memories, members of the community can decorate their social interaction spaces, thus taking part in the construction of their collective memory. Memories of an individual join another individual’s memories, and the link together in a constant dynamics (Casalegno, 2004, p.318).14

Esta cidade pode assim ser vista como uma estrutura aberta de espaço e propriedade compartilhados, propensa à uma urbanidade de livre-criação. Fahmi sustenta que a presença

Tradução do autor: A cidade é vista como uma “multiplicidade parcialmente conectada que apenas podemos conhecer parcialmente e a partir de múltiplos lugares”. Para entender qualquer visão particular de cidade por completo, precisamos nos aproximar da cidade de uma maneira igualmente polimorfa, juntando os seus pedaços, nunca perdendo de vista as “mágicas” práticas humanas que entrecruzam sua forma, dançando e brilhando intermitentes sobre espaços reais e virtuais. 14 Tradução do autor: A cidade pós-moderna é coberta de um novo tecido conectivo; assim como todos nós decoramos nossas casas com objetos e memórias, membros da comunidade podem decorar seus espaços de interação social, assim tomando parte na construção de sua memória coletiva. Memórias de um indivíduo juntam-se às memórias de outro indivíduo, e estas se juntam em dinâmicas constantes.

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das redes globais, interconectadas ao local, pode, de fato, conduzir a uma transformação positiva na maneira como vivemos em comunidade:

Urban public spaces can facilitate the creation of invisible networks of contacts and stopping points that weave together the fabric of people-places relationships. On a cognitive level this assists in creating legible cities (Lynch 1960), with the ability to enhance images and memories of places, and to contribute to identities of people. These are components of place identity which can enrich urban life, and make the anonymous city comprehensible, familiar and manageable, whilst meeting their users’ needs (Fahmi, 2001, p.8).15

Neste momento em que ele considera transitório, Fahmi propõe para o campo das cidades uma arquitetura de imagens. Uma sintaxe arquitetônica que ultrapasse sua própria materialidade e ofereça estruturas multidimensionais conectadas a camadas virtuais de um “hiper-ambiente”. De certa forma uma materialização do Aleph de Borges, este “instante gigantesco” onde tudo e todos são representados. Ao mesmo tempo que glorifica e critica a sociedade informacional contemporânea, Fahmi alerta para a inevitável realização de uma corporeidade latente e a necessidade de conectar a abstração do virtual ao tangível do real.

Although media may conjure up almost anything into presence, the show is only skin deep and, in its virtuality, ultimately inaccessible. The science, architecture, and arts of the virtual can only displace but not replace the real. As this realization grows, an antithesis to the architecture of images may surge seeking to reaffirm the true meaning of being embodied. In turn this will invite a refocusing of architectural work so that it brings together the material and the informational, the tectonic and the abstract, the real and the virtual (Fahmi, 2001, p.15).16

Assumindo-se uma visão da cidade contemporânea como híbrida ou ciborgue, esta pode ser compreendida pelo entrecruzamento do virtual com o real a partir das inovações tecnológicas que imbricam os fluxos e o seu domínio na carne e concreto do urbano. Porém, esta cidade também pode (e deve) ser reconhecida como uma colcha multidimensional de relações sociais, culturais e humanas que nela fomentam e reforçam a comunidade, a
Tradução do autor: Espaços públicos urbanos podem facilitar a criação de redes invisíveis de contatos e pontos de partida que costuram o tecido das relações entre pessoas e lugares. Em um nível cognitivo, isso ajuda na criação de cidades legíveis (Lynch 1960), podendo aprimorar imagens e memórias de lugares, e contribuir para a identidade das pessoas. Estes são componentes de identificação ao lugar que podem aperfeiçoar a vida urbana e tornar a cidade anônima compreensível, familiar e administrável, ainda que suprindo as necessidades de seus usuários. 16 Tradução do autor: Ainda que a mídia possa invocar quase qualquer coisa em presença, o espetáculo é raso e, em sua virtualidade, inacessível. A ciência, arquitetura e artes do virtual só conseguem deslocar mas não substituir o real. À medida que esta realização cresça, uma antítese para a arquitetura de imagens poderá surgir buscando reafirmar o verdadeiro significado da corporeidade. Assim, isto irá conduzir a uma mudança no foco do trabalho arquitetônico para que este abrace o material e o informacional, o tectônico e o abstrato, o real e o virtual.
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experiência e a memória. Para Castells, esta é a fronteira da pesquisa espacial contemporânea, “examining the interaction between the space of flows, the space of places, function, meaning, domination, and challenge to domination, in increasingly complex and contradictory patterns”17 (Castells, 1997, p.148). Trata-se então de analisar a relação entre estas distintas esferas espaciais. Por um lado, o espaço de fluxos sob domínio das elites que organizam-se em torno do seu paradigma e controlam o acesso e criação na rede. Por outro, um espaço de lugares onde acontece a vida cotidiana e a experiência pessoal propriamente dita. Entre ambas, a possibilidade de territorializar-se tanto na rede quanto no local, no território-rede e território-zona, subvertendo aqueles poderes historicamente inscritos e promovendo uma multiterritorialidade que fomente memórias coletivas em cidades também múltiplas, híbridas e imaginárias.

2.5 Experiência Durante as décadas de 50 e 60, o movimento político-cultural da Internacional Situacionista (IS) já propunha uma subversão e apropriação das cidades pela população. Com forte influência nos países da Europa, o grupo defendia que a auto-constituição dos espaços urbanos pelo cidadão era a única maneira de quebrar a alienação e evitar uma queda ao espetáculo. Propondo a participação ativa dos indivíduos em todos os campos da vida social, e tendo o meio urbano como terreno de ação, buscavam combater a passividade dos habitantes de uma sociedade cada vez mais espetacularizada (Jacques, 2003). Fundada por Guy Debord, e influenciada por outras vanguardas como o Surrealismo, a IS queria realizar, ao fim, uma revolução da vida cotidiana. Para Debord o espetáculo está diretamente ligado à não-participação. Há, assim, a necessidade de uma mudança no posicionamento do “público”, saindo do papel de mero ator figurante e tornando-se “vivenciador” das cidades (Debord, 1957, apud Jacques, 2003). Para isso, os situacionistas organizavam intervenções lúdicas como uma maneira de subverter o hábito, criar suas próprias ambiências, e verdadeiramente experimentar a cidade.

A realização completa do indivíduo, assim como na experiência artística que os situacionistas descobrem, passa forçosamente pela dominação coletiva do mundo; antes dela, ainda não há indivíduos, e sim fantasmas assombrando as coisas que lhes
Tradução do autor: examinando a interação entre o espaço de fluxos, o espaço de lugar, função, significado, dominação e contestação à dominação, em padrões crescentemente complexos e contraditórios.
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são confusamente oferecidas por outros (Internacional Situacionista, 1958, apud Jacques, 2003, p.63).

Ao sugerir jogos urbanos como a deriva – o vagar sem rumo pela cidade –, convidavam o habitante para uma maior interação/integração com os espaços à sua volta. Através da criação de situações, “momento da vida, concreta e deliberadamente construído pela organização coletiva de uma ambiência unitária e de um jogo de acontecimentos”, procuravam cunhar um sujeito que pudesse fugir do hábito alienante18 e fazer pessoalmente sua própria história. Não mais o “more aqui”, “trabalhe ali”, “brinque em outro lugar” estanque e asséptico do urbanismo funcional de arquitetos como Le Corbusier, mas uma proposta de Urbanismo Unitário (UU) formado a partir da experiência da cidade. Longe de ser um modelo, o UU era propriamente uma crítica ao urbanismo corbusiano, este que buscava a separação da cidade em funções e condicionava o cidadão a Modulor – o homem moderno ideal –, simples peça usuária da cidade.
Contra a generalidade, a impessoalidade, simbolizadas pelo Modulor corbusiano e pela idéia de Tabula Rasa, eles propunham a busca de identidades, da individualidade e da diversidade, sobretudo das pessoas comuns e reais das ruas das cidades existentes. Contra a homogeneidade e simplicidade ideais modernas, eles propunham a heterogeneidade e a complexidade ligadas à vida cotidiana. Contra a grande escala e a autoridade do Estado e dos próprios urbanistas ligados às pretensões modernas, propunham uma volta à pequena escala, à escala humana, e a participações dos habitantes (Jacques, 2003, p.27).

É possível identificar em diversas manifestações da arte contemporânea uma retomada de certos ideais do movimento situacionista, especialmente no que diz respeito à uma reconquista e apropriação do espaço urbano como local para a subversão de poderes e criação colaborativa. Auxiliados pelas tecnologias digitais que co-habitam os espaços e impulsionam novas formas de intervenção, hoje a apropriação e o jogo na cidade por grupos de artistas passa a ocorrer não apenas entre as ruas e prédios – estruturas físicas que compõe o ambiente urbano –, mas também entre os seus fluxos e camadas de virtualidade que colocam a rede ao alcance dos dedos. Encontros e eventos como a Futuresonic (www.futuresonic.com), Come Out And Play (www.comeoutandplay.org), Conflux (www.confluxfestival.org), e a própria Bienal de Veneza (www.labiennale.org), para citar alguns, têm reunido manifestações desta nova arte digital que passa a trabalhar com o entrecruzamento dos espaços, e onde a própria
18 John Dewey também vai falar do hábito como uma das premissas para uma susceptibilidade à dominação que é inerente ao homem. Apenas através da arte, ou de uma “artful communication”, é que seria possível quebrar a passividade e fomentar o surgimento de um Público e de uma verdadeira democracia participativa (Dewey, 1927).

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Terra torna-se seu meio. Arte esta que, ao fim, representa a materialização de uma nova proposta democrática para as cidades.

As locative and wireless technologies become more widespread, many are not simply "mapping" territories, but seeking to shape and augment them. It becomes possible to treat urban space and the surface of the Earth as a digital canvas, and digital media changes from something placeless into a kind of digital graffiti [...] In the tense play of forces between real and virtual worlds, the lines of distinction become increasingly blurred, creating an ecology of mutual influence where our sense of space and place is multiple, hybrid and continually changing (Futuresonic, 2006).19

Assumindo a função da arte como sendo a de romper com uma camada de consciência rotineira e convencional de modo a “tocar níveis mais profundos da vida para que estes brotem como desejo e pensamento” (Dewey, 1927, p.183), destaco a seguir alguns projetos recentes que poderão ilustrar as inúmeras possibilidades de uso (e contestação) para as cidades contemporâneas. Estes exemplos, em sua condição de modelo, servirão de base para uma análise do Google Earth como aplicação que integra tanto o urbano quando o virtual. MimoSa, ou “Máquina de Intervenção Urbana e Correção Informacional” (www.turbulence.org/Works/mimoSa/) é uma iniciativa brasileira de reapropriação

tecnológica de modo a revelar lugares, pessoas e suas histórias através de ações que despertem a problemática da inclusão digital (FIG. 1). As máquinas são montadas em oficinas populares usando peças recicladas e depois são levadas para as ruas onde possam registrar e transmitir histórias dos transeuntes. Integrando conectividades diversas como telefone celular, transmissão FM ou via web, a mimoSa conecta o espaço urbano e o cidadão que normalmente estaria excluído da mídia. Ping Genius Loci (PGL - www.aether.hu/2005/v4/) é uma instalação arquitetônica de 300 pixels analógicos e “inteligentes” que são conectados entre si através de uma rede sem fios (FIG. 2). Cada unidade, movida a energia solar, tem cores diferentes em cada um dos seus lados, podendo rotacionar-se de acordo com programações enviadas via web ou próprias influências do ambiente como sons e o movimento das pessoas caminhando por entre a instalação. O PGL funciona como uma grande tela penetrável que incorpora um “espírito do

Tradução do autor: À medida que tecnologias de localização e sem-fio se expandem, muitos não estão apenas mapeando territórios, mas querendo moldar e aumentá-los. Torna-se possível tratar o espaço urbano e a superfície da Terra como uma tela digital, e a mídia digital transforma-se de algo sem-lugar a uma forma de grafite digital (…) No tenso jogo de forças entre mundos reais e virtuais, as linhas de distinção tornam-se cada vez mais borradas, criando uma ecologia de influência mútua onde nossos sentimento de espaço e lugar é múltiplo, híbrido e em constante mudança.

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lugar” (genius loci) através da conectividade (ping20), trabalhando assim com uma poética do espaço.

Figura 1 - Máquina de Intervenção Urbana e Correção Informacional

Figura 2 – Intervenção artística “Ping Genius Loci” Yellow Arrow (www.yellowarrow.net) é uma proposta para o compartilhamento de experiências sobre a cidade. A idéia é colar adesivos no formato de uma seta amarela em lugares reais sobre os quais o participante queira deixar algum comentário, relato ou história (FIG. 3). Estas informações são registradas em um site, e cada seta contém instruções de como recuperá-las através de um telefone celular. O transeunte que encontrar uma seta pode receber o relato deixado pelo participante no seu próprio telefone e conhecer histórias as quais provavelmente não teria acesso de outra maneira. YA é assim um projeto de mapeamento
Na computação um ping é a forma de comunicação mais simples entre um ponto da rede e outro, como um cumprimento entre duas máquinas.
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colaborativo de experiências sobre o espaço urbano, usando a internet como um meio de armazenamento de meta-informação.

Figura 3 - Projeto “Yellow Arrow” You Are Not Here (www.youarenothere.org) propõe um jogo contínuo de turismo urbano pelas ruas de Nova York e Baghdad. Fornecendo aos participantes um mapa com a metrópole americana impressa de um lado e a capital iraquiana do outro, o resultado quando visto contra a luz é uma versão sobreposta de ambas as cidades (FIG. 4). Este novo mapa indica a localização de atrações turísticas de Baghdad em Nova York. Lugares como o Palácio Republicano ou o Monumento Shaheed podem ser “visitados” localmente, onde os turistas contemporâneos irão encontrar adesivos da You Are Not Here indicando um número de telefone que fornece informações específicas sobre aquele determinado local.

Figura 4 - Projeto “You Are Not Here”

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Real Time Rome (senseable.mit.edu/realtimerome/) é um projeto que observa a cidade italiana de Roma em tempo real através do monitoramento dos sinais emitidos por telefones celulares (FIG. 5). A cidade torna-se transparente e cada habitante uma unidade anônima que junta-se ao fluxo e vira apenas trânsito. Neste sistema urbano híbrido torna-se possível visualizar o movimento e as dinâmicas da cidade. Criado pelo SENSEable City Lab, do MIT, o projeto propõe-se a buscar um entendimento dos usos espaciais da cidade.

Figura 5 - Projeto "Real Time Rome" Os projetos artísticos que aliam o digital ao urbano trabalham tanto com a construção e modificação do espaço real sob influência do virtual, quanto com o inverso, o monitoramento de estruturas, impulsos ou incentivos na cidade através da rede. Yellow Arrow cria uma realidade aumentada, isto é, expande as fronteiras físicas com o virtual, possibilitando o intercâmbio de informações entre participantes com o auxílio da internet, criando e recriando territorialidades; Ping Genius Loci explora a possibilidade de “ambientes inteligentes”, conectados à rede mas também sob influência do espaço físico à sua volta; You Are Not Here levanta um debate político sobre a cidade, suas fronteiras e barreiras criadas pelo domínio das mídias tradicionais; similarmente, mimoSa avança em questões de acesso, exclusão e controle do espaço de fluxos, promovendo uma subversão e apropriação popular; finalmente, Real Time Rome nos coloca diante do fascínio e terror da vigilância onde cidade e corpo são transparentes, conectados aos grandes bancos de dados e manipulados de acordo. Todos os exemplos aqui citados podem ser considerados tipos ideais, não por sua inatingibilidade, mas pela própria condição de arte que os transformam em simples modelos. São assim, aquilo que é possível atingir diante da condição de entrecruzamento de espaços; do

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real com o virtual, da experência humana com as estruturas da rede. Há uma necessidade de visualizar a aplicação destes mesmos conceitos sob “condições naturais”, em uma ferramenta pública que não seja previamente condicionada e que também esteja aberta à participação na construção de ambiências no espaço urbano híbrido. Ou seja, é preciso sair do campo de mera criação artística e observar a experiência coletiva em sistemas cujo uso é aberto e ampliado. O Google Earth, sistema que oferece ao usuário um globo virtual composto de fotografias do planeta e permite uma escrita coletiva por cima destas representações de espaços reais, apresenta-se como uma possibilidade interessante para esta análise. Faço assim, nos capítulos a seguir, uma descrição do aplicativo, sua comunidade, e as formas de comunicação que estão sendo criadas naquele espaço como uma maneira de aumentar e anotar o ambiente urbano em mapeamentos ou cartografias sociais

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3 O GOOGLE EARTH

“And then came the grandest idea of all! We actually made a map of the country, on the scale of a mile to the mile!” “Have you used it much?” I enquired. “It has never been spread out, yet,” said Mein Herr: “the farmers objected: they said it would cover the whole country, and shut out the sunlight! So we now use the country itself, as its own map, and I assure you it does nearly as well…” Lewis Caroll

O Google Earth (GE) é um aplicativo que oferece ao usuário um globo virtual composto por imagens de satélite ou aéreas de todo o planeta. Da movimentada Nova York ao mais remoto lago na Tanzânia, é possível navegar pelas fotografias em alta resolução e virtualmente explorar o planeta. Além das imagens, o GE também possibilita a sobreposição de camadas de um Sistema de Informações Geográficas (SIG) que podem conter dados como mapas de ruas, localização de prédios e serviços ou até valores de pesquisas mostrando os níveis de violência em determinada cidade ou região. Ainda, o GE permite que estas informações sejam adicionadas pelo próprio usuário e disponibilizadas na internet através da Google Earth Community (GEC), fomentando assim uma escrita sobre a cidade e a criação de uma forma de mapeamento comunitário. Com sua representação tri-dimensional, aliada às possibilidades de criação por parte do usuário, o GE expande os métodos tradicionais de cartografia e navegação. O aplicativo foi lançado em 2005 pelo Google depois da aquisição da companhia Keyhole, que inicialmente havia desenvolvido o software sob o título de Earth Viewer, e é disponibilizado gratuitamente para as plataformas Macintosh, Linux e Windows21. O GE também está disponível em versões comerciais pagas PLUS e PRO que expandem algumas funcionalidades do produto como a qualidade de impressão e a integração a dispositivos de posicionamento global (GPS). Hoje é possível encontrar diversos webblogs22 diretamente

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Disponível em http://earth.google.com/ http://www.gearthblog.com/ e http://www.ogleearth.com/, por exemplo.

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relacionados ao uso do programa, e estima-se que sua base de usuários ultrapasse os 100 milhões23.

3.1 Globo virtual A interface do Google Earth24 é composta por uma janela principal, uma barra lateral de navegação e barras superior e inferior. A janela principal exibe as imagens do planeta e também contêm botões de navegação em forma de bússola sobrepostos ao canto superior direito. A barra lateral oferece campos de busca e seletores de placemarks (marcas de lugar) e camadas. A barra superior contém ferramentas que expandem as funcionalidades do aplicativo e a barra inferior apresenta informações adicionais como localização exata e altitude (FIG. 6).

Figura 6 - Interface do Google Earth

3.1.1 Uma visão de pássaro A janela principal do aplicativo apresenta ao usuário o planeta virtual que serve de base para todas as outras funcionalidades do GE. Esta representação é, na verdade, uma
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Segundo Press Release publicado em 12 de Junho de 2006:http://www.google.com/press/pressrel/geoday.html Neste trabalho utilizo a versão 4.0.1b para a plataforma Macintosh.

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justaposição de inúmeras fotografias aéreas ou de satélite que são “costuradas” para dar forma à Terra. As fotografias não são necessariamente obtidas sequencialmente, resultando em situações como a da Figura 7, onde uma parte da cidade de Montreal, no Canadá, aparece branca, coberta pela neve, enquanto outra já não apresenta os sinais do inverno.

Figura 7 - Justaposição de inverno e verão em Montreal, Canadá É possível também identificar uma grande diferença na definição entre as inúmeras fotografias, com resoluções que variam de cerca de 15m por pixel25 em lugares remotos ao redor do globo até 1m por pixel em capitais e na maioria das cidades norte-americanas. Em termos práticos, isso significa que no primeiro é possível identificar elementos geográficos e construções humanas, porém sem distinção de prédios individuais, enquanto no segundo podemos identificar ruas e até veículos. O nível de definição está muitas vezes ligado à popularidade e ao interesse em determinado local, estando por exemplo a cidade de Baghdad, foco dos conflitos militares no Iraque, em alta resolução. Nela é possível observar prédios, veículos e marcas dos bombardeios na região. Já lugares como a cidade de Las Vegas ou as instalações do Google em Mountain View, na Califórnia, estão registrados com resoluções ainda maiores, tendo uma definição máxima de 0.15m por pixel onde é possível distinguir até pessoas caminhando nas ruas. No Brasil, as capitais dos estados e algumas localidades no interior podem ser vistas a uma resolução de 1 m por pixel, o que virtualmente coloca o usuário cerca de 450 m acima da

Um pixel é a menor parte de uma imagem e também é usado para definir o menor ponto que pode ser mostrado em uma tela de computador. Hoje, a maioria dos monitores podem exibir um mínimo de 1024x768 pixels.

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cidade. Como bem definiu um repórter do jornal The New York Times escrevendo sobre o Earth View em 2002, o programa é “para qualquer um que alguma vez sonhou em voar”.26

3.1.2 Navegação A navegação por este globo virtual pode ser realizada de diversas maneiras. Utilizando o mouse ou um trackpad o usuário pode clicar na bússola de navegação, que oferece comandos de panning, zoom, rotação e tilt do planeta. O mesmo pode ser feito através de atalhos no teclado27. Outra forma de navegar o globo é através da função de busca presente na barra lateral, chamada “fly to”, ou “voar”. Ao digitar “New York”, por exemplo, o programa identifica a metrópole norteamericana no mapa e aproxima a imagem até chegar próximo ao centro da cidade, onde já se consegue distinguir prédios e avenidas (FIG. 8). No caso de regiões com mapas de ruas cadastrados no sistema, pode-se ainda restringir esta busca a um determinado endereço. Digitando “11 W 53rd Street, New York”, por exemplo, chega-se diretamente ao Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) visto a cerca de 1000m de altitude (FIG. 9).

Figura 8 - Resultado da busca pelo termo ‘New York” Além da buscar por país, cidade ou endereço, a barra lateral contém ainda os campos “Find Businesses” e “Directions”. O primeiro oferece a localização de serviços dentro do mapa. Assim, ao buscar “post office”, por exemplo, o programa indentifica as agências dos correios localizadas ao redor do MoMA (FIG. 10). O segundo campo oferece indicações de
http://tinyurl.com/zwrr7 No teclado: setas direcionais, positivo e negativo, page down e page up e shift+setas derecionais, respectivamente.
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como dirigir de um ponto a outro na cidade, no caso deste exemplo, como chegar do MoMA até a agência dos correios na rua 43. O GE apresenta o trajeto rua a rua, além de informar que a distância a ser percorrida será de 1.2 milhas (FIG. 11).

Figura 9 - Resultado da busca pelo endereço “11 W 53rd Street, New York”

Figura 10 - Resultado da busca pelo estabelecimento “Post Office” A barra lateral contém ainda um seletor de “lugares” previamente armazenados ou que foram carregados a partir de um arquivo no formato .KML28, além de seletores de camadas de informação que podem ser sobrepostas às imagens de satélite. Entendo que um dos principais diferencias do aplicativo Google Earth é a possibilidade de visualizar e interagir com essas camadas de informação, como apresento a seguir.

O formato KML (Keyhole Markup Language) é uma linguagem baseada em XML que armazena placemarks do Google Earth. Cada arquivo contêm dados de título, latitude e longitude, além de informações extras como descrições, links e modelos em 3D. Para saber mais, leia http://earth.google.com/kml.

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Figura 11 - Indicação de direções para chegar ao endereço “23 W 43rd St”

3.1.3 Sistema de Informações Geográficas Além das imagens que fornecem um registro fotográfico do planeta, o Google Earth integra um Sistema de Informações Geográficas (SIG), o que possibilita que sejam visualizadas camadas de informação sobrepostas ao globo virtual. Quando habilitadas, apresentam ao usuário dados ou placemarks que complementam as imagens de satélite e as transformam em representações espaciais. Um SIG funciona como uma base de dados que facilita a representação do espaço e dos fenômenos que nele acontecem, permitindo por exemplo, a visualização de localização exata, modelos e clusters indicando dinâmicas em determinada região ou o cálculo de rotas entre um ponto e outro no mapa. Estes dados do SIG, assim como as próprias imagens de satélite, são acessados on demand nos servidores do GE. Isso significa que as informações não estão armazenadas no computador do usuário mas sim “baixadas” quando necessário. Tal sistema tem a vantagem de reduzir o espaço em disco utilizado na instalação do GE, porém requer uma conexão permanente à internet. Ao mesmo tempo, permite uma atualização dinâmica, possibilitando a implementação de camadas com informações em tempo real como dados de trânsito e previsão do tempo. Entre as camadas disponíveis na instalação padrão do GE, identifico as seguintes categorias. É importante salientar que as camadas não estão divididas nestes grupos específicos dentro do aplicativo, porém tal classificação facilitará a compreensão das muitas possibilidades de uso desta ferramenta:

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• Camadas que oferecem renderizações 3D dos acidentes geográficos do planeta e também das construções em algumas grandes cidades. É possível observar, por exemplo, a elevação da Cordilheira dos Andes nos arredores da cidade de Santiago, no Chile, ou a selva de pedra que compõe a ilha de Manhattan, em Nova York, EUA (FIG. 12). As visualizações de terreno estão disponíveis em todo o planeta, porém as camadas de prédios em 3D ainda estão limitadas ao Japão e poucas cidades nos EUA.

Figura 12 - Visualização em 3D de prédios em Nova York, EUA e da Cordilheira dos Andes, Chile • Camadas de navegação que sobrepõem ao globo mapas de cidades, rodovias, estradas de ferro e aeroportos, além de nomes de rios, lagos e montanhas. Como descrito anteriormente, através destes mapas é possível buscar endereços exatos ou indicações de caminhos de um ponto a outro dentro da cidade ou do país (FIG. 13). Mapas de ruas detalhados estão disponíveis para a Austrália, Canadá, Japão, Nova Zelândia, Estados Unidos e a maioria das cidades do oeste europeu, além de Moscou, na Rússia. • Camadas políticas que apresentam dados como nomes de cidades, países e fronteiras. Apesar de a priori parecer algo simples, o Google tem recebido duras críticas devido à nomenclatura utilizada em algumas localidades, especialmente regiões que estão conflito. Uma primeira versão do seu banco de dados mostrava, por exemplo, Taiwan como sendo província da China, o que profundamente irritou os moradores da ilha. As indicações de fronteira foram posteriormente atualizadas (FIG. 14), porém isso fez com que a ira fosse transferida para o lado dos chineses. O mesmo tipo de crítica surge na Índia, onde a disputada região da Cashemira é mostrada como província do Paquistão, e também em Jerusalém,

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Israel, cujo nome está grafado em inglês e hebraico (Jerusalem e Yerushalayim, respectivamente) porém não em árabe (Al Quds).

Figura 13 - Indicação de ruas no centro de Montreal, Canadá

Figura 14 - Fronteiras e cidades na ilha de Taiwan • Camadas de serviços, que indicam a localização de estabelecimentos como restaurantes, hotéis e lojas, bem como órgãos públicos, parques e igrejas (FIG. 15). Apesar da existência destas informações na instalação padrão do GE, entendo que o seu uso é mais proeminente no sistema Google Maps, cujas diferenças discutiremos no ponto 3.2 • Camadas de dados estatísticos, com informações populacionais do censo norteamericano, taxas de crime, e pontos de ocorrência de terremotos e erupções vulcânicas ao redor do globo (FIG. 16). Recentemente disponibilizaram-se também camadas com atualizações dinâmicas, que apresentam informações em tempo real como a formação de

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tempestades na costa do México ou as condições de tráfego na cidade de Paris, França. Essas, porém, não estão disponíveis na instalação padrão do GE, e precisam ser “baixadas” em sites específicos ou através da Google Earth Community.

Figura 15 - Indicação da Pizzaria Corleone na cidade de Los Angeles, EUA

Figura 16 - Indicações da ocorrência de terremotos nos arredores de Berkely, EUA • Camadas de turismo virtual, que indicam pontos de interesse turístico no planeta que podem ser “visitados” sem que o usuário saia de casa. Localidades como as Pirâmides de Gizé, no Egito, ou informações sobre o estudo de chimpanzés em uma remota floresta da Tanzânia, possibilitam ao usuário explorar a civilização humana e a natureza através do globo virtual (FIG. 17). Hoje, além dessas camadas, podemos encontrar inúmeros sites e blogs29 que identificam pontos interessantes nas imagens do GE e conduzem o usuário a populares
O blog Google Sightseeing (http://www.googlesightseeing.com/) é um exemplo da promoção do turismo virtual através do GE e do Google Maps.
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destinos turísticos do planeta, além de indicar locais curiosos como mansões de celebridades ou os estádios onde foram realizados os jogos da Copa do Mundo de futebol em 2006.

Figura 17 - Indicações do estudo de chimpanzés na costa da Tanzânia Além destas, as várias camadas da Google Earth Community apresentam placemarks e indicações deixados pelos próprios usuários. Ela exibe dados que poderiam estar em muitas das categorias anteriores, porém nela existe a participação dos usuários na escolha e publicação das informações, como apresentarei no tópico 3.4.

3.1.4 Outras funcionalidades Algumas ferramentas, acessíveis pela barra superior ou pelos menus, complementam e expandem as funcionalidades do Google Earth. Através do botão “add placemark” é possível salvar pontos de interesse, anotando localização exata e também selecionando ícones e descrições para aquele local. Estes placemarks podem ser posteriormente exportados no formato .KML e compartilhados com outros usuários. A Google Earth Community, por exemplo, funciona exclusivamente com arquivos neste formato. Há também uma ferramenta para medir distâncias no globo, além de botões para imprimir ou enviar imagens por e-mail. O Google Earth pode também ser integrado a um dispositivo de posicionamento global (GPS), revelando latitude e longitude exatas do usuário. Para isso, porém, é preciso adquirir uma versão PLUS ou PRO do produto. Apesar da limitação, diversos aplicativos já foram desenvolvidos por terceiros para burlar esta restrição. O utilitário GPS2GEX30, por exemplo, é uma das implementações que permitem a visualização de dados de
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http://www.grandhighwizard.net/gps2gex.html

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posicionamento em tempo real, sobrepostos às imagens de satélite ou mapas da versão gratuita do GE .

3.2 Google Earth & Google Maps O Google Earth é um programa stand-alone, ou seja, precisa ser instalado no computador do usuário, ao contrário do seu irmão menor Google Maps31 (GM), que é webbased e server-side, o que significa que o programa funciona em um servidor externo e é acessado através de um navegador de internet como o Firefox. Isso faz com que o GM tenha algumas vantagens mas também limitações em relação ao GE. O GM, por exemplo, pode ser rapidamente acessado em qualquer terminal conectado à internet ou até mesmo pelo telefone celular, enquanto o uso do GE está restrito àqueles computadores aos quais o usuário tenha acesso para instalar o aplicativo ou nos quais ele já esteja previamente instalado. O GM é, portanto, dotado de alta mobilidade. O GE, porém, apresenta uma gama muito maior de funcionalidades que o GM, além de permitir ao usuário a visualização de diversas camadas simultâneas de SIG. A versão padrão do GM limita-se à busca de endereços e serviços apenas, porém a existência de uma API (Application Programming Interface32) aberta possibilita que ele seja integrado a outros sites e serviços, assim diversificando e popularizando o seu uso. Essa funcionalidade é implementada, por exemplo, no site Craigslist33, um serviço de classificados on-line que sobrepõe o seu banco de dados de apartamentos para alugar aos mapas de ruas norte-americanas do GM. Ainda que essa expansão e integração de novos bancos de dados seja possível através de sua API, tal processo requer conhecimentos de programação além daqueles de um usuário comum e assim está restrito a webdesigners e administradores de sites e portais. A opção por focar este estudo no Google Earth e não na sua versão Maps surge, assim, pela facilidade com que o usuário comum consegue interagir com o aplicativo, adicionar informações ao mapa e disponibilizá-las para outras pessoas através da rede

http://maps.google.com/ Uma API é a interface de programação que permite que outros software ou hardware acessem funcionalidades e serviços de determinado programa, expandindo as funcionalidades inicialmente previstas pelos desenvolvedores. APIs são bastante utilizadas no universo da computação, tanto na elaboração de um simples plugin quanto na programação de aplicativos que funcionem em determinado sistema operacional. 33 www.craigslist.org
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3.3 Críticas e Limitações Além dos problemas com nomenclaturas de regiões em conflito descritos anteriormente, o Google Earth tem sido criticado por líderes de governos pela quantidade de informações que o sistema disponibiliza sobre seus territórios. O argumento principal é que o programa colocaria em risco instalações estratégicas, além de revelar a localização de bases militares secretas. Recentemente usuários do programa encontraram um complexo militar localizado no meio da província chinesa de Huangyangtan contendo uma réplica em escala da região de Aksai Chin, na fronteira com a Índia. A réplica seria provavelmente utilizada para exercícios militares, o que gerou inúmeras especulações sobre os interesses da China na região34. Anteriormente, o presidente indiano já havia manifestado suas preocupações por causa da existência de imagens em alta resolução de localidades estratégicas do seu país35. A questão da privacidade também tem sido levantada, especialmente com a recente atualização de imagens em altíssima definição que permitem a distinção de pessoas em algumas localidades. O site Google Sightseeing, por exemplo, recentemente publicou a localização de uma moradora da rua Charlotte de Bourbonstraat, na cidade de Den Haag, Holanda, tomando banho de sol nua no pátio de sua casa (FIG. 18). O episódio levou milhares de pessoas virtualmente à intimidade da moradora, fato que rapidamente chegou à mídia local36.

Figura 18 - Mulher tomando banho de sol nua em Den Haag, Holanda

http://www.indianexpress.com/story/9972.html. http://news.com.com/Indian+president+rails+against+Google+Earth/2100-1028_35896888.html?part=rss&tag=5896888&subj=news 36 http://googlesightseeing.com/2006/09/24/
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Uma das limitações da ferramenta é também a falta de uma especificação da imagem. Ainda que seja possível saber a data de alguns blocos de fotografias (especificamente aqueles provenientes da empresa Digital Globe), a visualização final é composta por pequenos fragmentos de inúmeras imagens justapostas que são tiradas ao longo dos anos. Assim, não é possível saber a data exata de cada fragmento que integra o globo e tão pouco quais as condições de coleta destas imagens. Isso impossibilita o uso do GE para aplicações científicas e pesquisas que necessitem de alguma comprovação deste tipo.

3.4 Google Earth Community A Google Earth Community (GEC) é um espaço virtual na forma de BBS37 onde os usuários do Google Earth podem compartilhar os seus próprios placemarks (marcações de pontos de interesse publicadas sobre o globo). Estas informações, que variam desde comentários pessoais como “eu estive aqui” até recomendações de qual o melhor restaurante da cidade, aparecem também em camadas dentro do aplicativo, podendo ser habilitadas para mostrar ao usuário o que visitantes anteriores escreveram sobre determinado local. Assim, a GEC pode ser considerada um SIG colaborativo, cujos dados são adicionados coletivamente, diferente das demais camadas que são mantidas por empresas, institutos de pesquisa geográfica ou especialistas da área. A GEC conta hoje com pouco mais de 620 mil usuários cadastrados que já publicaram 630 mil posts no sistema38. Acredito que a facilidade com que o usuário consegue compartilhar seus próprios dados e impressões é um dos principais diferenciais do aplicativo Google Earth. Após armazenar um ponto interessante no GE, basta clicar a opção “Share/Post”, disponível no menu, para que este placemark seja compartilhado. O usuário é então transferido para o site da GEC, onde deve selecionar uma categoria adequada e adicionar ou modificar o texto do seu post. Para tanto, é necessário que ele esteja cadastrado no fórum, processo realizado através do link “New User” na página principal do mesmo. É possível identificar aqui um processo de escrita sobre a cidade de forma a aumentá-la e criar uma cartografia coletiva no qual o usuário deixa de ser propriamente usuário e passa a interagir e criar os seus espaços reais e virtuais.

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Bulletin Board System, ou simplesmente “fórum de discussão”. Dados atualizados disponíveis em http://bbs.keyhole.com/entrance.php

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3.4.1 Formas de visualização As informações publicadas na GEC aparecem na forma de posts que podem ser acessadas tanto através do seletor de camadas no GE quanto pelo site http://bbs.keyhole.com. A primeira opção é vetorial, sendo que quando habilitada indica uma série de placemarks com o símbolo da GEC (um i azul) diretamente sobre a imagem do globo (FIG. 19). A segunda apresenta ao usuário um fórum on-line onde estão listados os últimos posts que foram adicionados ao sistema (FIG. 20). Neste caso, os placemarks em questão são disponibilizados através de um arquivo .KML, que precisa ser “baixado” e aberto no GE para que os pontos sejam visualizados. É importante salientar aqui a distinção entre placemark e post. Cada ponto vetorial indicado na camada da GEC, ou seja, cada ícone que aparece sobreposto à imagem do espaço físico, é um placemark. Estes são pontos de interesse deixados pelo usuário que fazem referência a uma localização específica no globo. Cada um destes placemarks está relacionado a um post na BBS da GEC, que poderá ser uma compilação de muitos placemarks que não fazem necessariamente referência a uma mesma região.

Figura 19 - Indicações de posts da GEC em Viena, Áustria O fórum da GEC é dividido em sete categorias e respectivas subcategorias, incluindo tanto espaços para adicionar placemarks quanto locais destinados a notícias e discussões de temas diversos relacionados ao aplicativo. São estas: News, reservada às últimas notícias sobre o GE e seu SIG; Earth, onde concentram-se a maioria dos posts com placemarks deixados pelos visitantes virtuais; Other Planets, destinada a futuras implementações de imagens da Lua ou de planetas como Marte; Discover Club, contendo fóruns em destaque;

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Education, destinada às discussões sobre as aplicações do GE em sala de aula; Support, para questões relacionadas ao uso do programa; e Member’s Open Area, uma área livre para conversas e placemarks de caráter estritamente pessoal (e.g. “esta é a minha casa”) ou experimentais/temporários. Dentro da categoria “Earth”, a subcategoria genérica “Earth Browsing” é a mais popular, com 175 mil posts, seguida de “Fun and Games”, um espaço para construções lúdicas sobre o mapa virtual, com 58 mil, e “Travel Information”, para dicas de viagem, com 57 mil posts.

Figura 20 - Página inicial do site bbs.keyhole.com Estes posts podem também ser restringidos através de um mecanismo de busca, que permite pesquisas por palavras-chave contidas no título ou no corpo do texto, bem como por fórum específico, usuário ou data. Não há, porém, maneira de delimitar uma busca por cidade ou região a qual determinado post faz referência, o que surge como uma das principais limitações deste modo de visualização da GEC. Ainda que seja possível fazer uma pesquisa pelos posts que contenham a palavra “Montreal” no título, por exemplo, a grande maioria dos placemarks deixados por usuários não contêm o nome da localidade em questão, fazendo com que tal busca mostre apenas uma pequena parcela dos posts que realmente fazem referência à cidade. Cada post específico, que pode ser composto por texto, links, imagens ou vídeos, tem ainda indicações de data de publicação, usuário e um link para download do arquivo .KML contendo o placemark em questão, caso existente. Ainda, usuários registrados na GEC podem deixar seus comentários e selecionar uma nota de 1 a 5 estrelas para aquele post.

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Na visualização vetorial cada placemark é representado por seu título acompanhado de um ícone na localização exata a qual o post faz referência. Ao clicar em um destes ícones, o GE abre uma nova janela com as informações que foram deixadas sobre aquele placemark (FIG. 21). Além do texto em si, esta janela indica quem adicionou aquelas informações ou comentários, e oferece um link para a página do post no fórum específico. O GE faz ainda uma diferenciação entre placemarks “Showcase”, “Community Forums” e “Unranked”, permitindo visualizar ou ocultar cada um destes grupos através do seletor de camadas. Em “Showcase” estão placemarks selecionados pelos administradores da GEC, como links para webcams, fotografias panorâmicas ou indicações do projeto Degrees Confluence39. Em “Community Forums” estão placemarks deixados nos fóruns da GEC que atendem a valores mínimos de números de visitas, ranking e downloads, enquanto em “Unranked” encontram-se placemarks recentes que ainda não atingiram um mínimo de visibilidade nos fóruns. Ainda, é possível restringir os placemarks de acordo com a categoria às quais foram adicionados. Selecionando “Earth Browsing”, por exemplo, serão exibidos na janela ao lado apenas os ícones dos placemarks categorizados como tal.

Figura 21 - Placemark da GEC sobre imagem da cidade de Porto Alegre, Brasil Tendo em vista a limitação de busca nos fóruns da GEC, citada anteriormente, é apenas através da visualização vetorial que consegue-se observar relações entre os placemarks deixados pelos usuários e o espaço físico representado no GE. Com a sobreposição de camadas, também é possível identificar relações espaciais entre cada um
O Degree Confluence é um projeto colaborativo que pretende fotografar todos os pontos de cruzamento integral entre latitude e longitude no planeta (e.g. 46°N 94°W). As fotos e relatos das visitas a estes pontos de interseção, são publicadas no site: http://www.confluence.org/.
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destes placemarks, que passam a integrar uma neo-cartografia urbana. Estes dois modos de visualização, porém, não são sincronizados em tempo real, fazendo com que haja uma discrepância de um a dois meses entre a publicação de uma informação no fórum e a sua visualização através da camada de comunidade no GE.

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4 ANÁLISE E DISCUSSÃO

A observação de um mapa só se torna suportável se procuro encontrar um caminho, traçar um itinerário e desse modo viajar pelo país ou cidade. Wim Wenders

Após elaborar uma visão de sociedade, território e cidade, e descrever o aplicativo Google Earth (GE) e o funcionamento da Google Earth Community (GEC), parto para uma observação dos seus usos com base na análise de placemarks publicados pelos usuários da GEC sobre a cidade de Toronto, no Canadá. Começo com uma questão em mente: de que forma estaria ocorrendo uma escrita sobre a cidade, de modo a aumentar o espaço físico e defini-lo coletivamente através do virtual? Assim, faço neste capítulo uma análise quantitativa dos dados recolhidos na GEC para, ao fim, considerar o conteúdo de título e texto dos mesmos. Para isso criou-se uma nova tipologia definindo o intuito comunicacional do usuário, ou seja, o seu interesse com a publicação de determinado placemark, para então poder estabelecer uma relação entre os usos da ferramenta e a condição contemporânea das cidades.

4.1 Obtenção dos dados Para poder analisar a Google Earth Community delimitou-se uma área na cidade de Toronto, no Canadá, como espaço amostral. A seção, cujo perímetro é determinado ao norte pela Bloor St., ao leste pela Parliament St., ao sul pelo Lago Ontário e a oeste pela Balthurst St., representa uma área de aproximadamente 12 Km2 do centro da cidade (FIG. 22). O aparente estágio avançado do uso da GEC nesta região, com um grande e variado número de placemarks publicados por usuários sobre a cidade, foi o fator que condicionou a escolha por Toronto, observando que esta permitiria uma melhor visualização dos diferentes usos que estão sendo dados para a ferramenta.

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Entre os dias 13 e 15 de Outubro de 2006 foram coletados e armazenados todos os placemarks visíveis através das camadas vetoriais Community e Unranked dentro da área delimitada, o que resultou em uma amostra de 394 pontos individuais. Optou-se por não registrar aqueles placemarks publicados na camada Showcase pois esta é gerenciada pelos administradores da GEC e não é um espaço de livre criação como as demais. Lembro que o fato de a coleta ter se estendido ao longo de alguns dias não influi diretamente na integridade destes dados, visto que as atualizações da camada vetorial da GEC são feitas mensalmente.

Figura 22 - Delimitação do espaço amostral sobre a cidade de Toronto, Canadá Para cada placemark encontrado foram registrados em uma planilha título do placemark, texto do placemark, título do post na BBS, texto na BBS, data, categoria, usuário, número de posts deste usuário no sistema, presença ou não de comentários ou anexos e integração ou não a uma compilação, além de uma id única para cada post possibilitando que os mesmos sejam recuperados nos fóruns da GEC40. Observei também o conteúdo de título e texto dos placemarks coletados quanto ao seu interesse comunicacional, propondo uma nova tipologia para classificar e assim melhor entender os usos que estão sendo dados para a GEC. Cada placemark recebeu um tipo de I a VIII, cujas características definirão um padrão de publicação no espaço amostral (ver detalhes no item 4.6 mais adiante). Saliento que para o âmbito deste trabalho, o placemark é a unidade mínima, visto que é este que sobrepõe-se ao espaço físico visualizado no Google Earth. Em alguns casos específicos em que o placemark não era uma unidade compatível para a análise, o post foi a unidade utilizada.

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Os dados completos estão diponíveis em http://www.gabrielpillar.com/mono/dadosGE.txt

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4.2 Placemarks O primeiro ponto da série de placemarks coletados sobre a cidade de Toronto foi publicado na GEC em 13 de setembro de 2003, quando o programa ainda chamava-se Earth Viewer, e o último data de 01 de outubro de 2006. Fica clara a evolução do uso do programa após a aquisição do mesmo pelo Google, saltando de meros 23 placemarks no ano de 2004, a 126 em 2005, e 236 no presente ano. Vendo que este número não significa necessariamente uma respectiva quantidade de posts na BBS, cada placemark foi classificado como sendo integrante ou não de uma compilação de pontos de interesse. Ainda que não haja um indicador específico para tal condição, a compilação fica evidente quando (a) o post tem o mesmo número identificador que aquele de outro ponto coletado, (b) o título do post na BBS sugere um número maior de placemarks que aquele observado (e.g. “Canadian Placemarks”41) ou (c) refere-se a uma localização genérica ou global (e.g. “All US and all European Hard Rock Cafe's42”). Tomando como base estas evidências, 58% (229) destes pontos foram identificados como fazendo parte de uma compilação. Estas compilações podem ter abrangência mundial, como o exemplo acima em que todos os Hard Rock Cafés da América do Norte e da Europa foram agregados em um único post com muitos placemarks, ou ter caráter estritamente local, como é o caso de uma compilação das estações de metrô em Toronto. Uma posterior análise irá demonstrar que existe relação entre o tipo do placemark e o fato de este integrar uma compilação de vários pontos de interesse. Convertendo o número de placemarks para a quantidade de posts na cidade de Toronto (ao relacionar o valor com usuário e compilação), constata-se que estes representam apenas 0,03% do total de posts publicados em toda o sistema da Google Earth Community (633.323 quando da elaboração desta pesquisa). Porém, quando considera-se o fato de que os usuários observados em Toronto são responsáveis por 2.5% destes posts no sistema, a amostra passa a ser bastante significativa para observar uma tendência no tipo de informação que está sendo relacionada ao espaço físico. Também foi registrada a presença de anexos, como fotografias ou vídeos, bem como o uso da ferramenta de comentários disponível nos fóruns da GEC. Apenas 33 dos placemarks coletados trazem anexos para ilustrar as informações publicadas, mostrando que a maioria dos usuários utiliza-se apenas de texto e links para fontes e sites externos quando descrevem um
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Tradução do autor: Placemarks Canadenses Tradução do autor: Todos os Hard Rock Cafés dos EUA e da Europa

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local de interesse. Supõe-se que isso esteja fortemente relacionado ao fato do próprio Google Earth ser um programa vetorial bastante rico em imagens e renderizações em 3D, fazendo com que o uso de fotografias adicionais seja desnecessário. Também, somente um pequeno número de posts (64) contém comentários deixados por outros usuários, sugerindo que a Google Earth Community, apesar de ser chamada como tal, talvez não possa ser considerada uma comunidade on-line propriamente dita. Segundo Rheingold (1993), as comunidades virtuais são “[...] social aggregations that emerge from the Net when enough people carry on those public discussions long enough, with sufficient human feeling, to form webs of personal relationships in cyberspace” (p.3)43. Não é o foco deste trabalho, porém, analisar o caráter de comunidade virtual da GEC, mas sim o conteúdo do que está sendo publicado sobre a cidade.

4.3 Dispersão espacial Uma das vantagens de analisar a GEC tendo como base sua camada vetorial é a possibilidade de visualizar relações espaciais entre cada um dos placemarks e destes com a imagem da cidade abaixo. No espaço amostral delimitado sobre Toronto, observa-se uma concentração de pontos de interesse publicados sobre o miolo da região central, onde está localizado o centro financeiro da cidade. À medida que a amostra se afasta para leste ou oeste em direção às suas áreas residenciais, estes pontos ficam mais dispersos (FIG. 23). Tal distribuição sugere que o registro que está sendo feito é primariamente sobre espaços públicos, onde ocorre uma maior circulação de pessoas na cidade. A notação vetorial dos placemarks evidencia também a sobreposição dos mesmos, uns aos outros, sobre locais de grande interesse. Em Toronto isso acontece, por exemplo, na região da CN Tower e seu estádio anexo Skydome, um dos principais destinos turísticos da cidade. Só nesta área são 33 placemarks sobrepostos, a grande maioria destes com conteúdo semelhante (FIG. 24). Ainda que os administradores da GEC procurem alertar para a publicação de posts duplicados, inclusive mostrando um aviso requisitando que o usuário revise o sistema antes de adicionar os seus placemarks, o pedido parece estar sendo ignorado nestes lugares com bastante apelo popular.

Tradução do autor: Agregações sociais que surgem na Internet, quando um número suficiente de pessoas levam adiante aquelas discussões públicas por tempo suficiente e com suficiente sentimento humano, a ponto de estabelecerem redes de relacionamentos pessoais no ciberespaço.

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Figura 23 - Distribuição vetorial dos placemarks no espaço amostral

Figura 24 - Sobreposição de placemarks sobre CN Tower e Skydome na cidade de Toronto, Canadá

4.4 Usuários Foram registrados 141 usuários distintos publicando dentro do espaço amostral. Além do número de pontos inseridos sobre Toronto (394 placemarks), e o número de posts que estes placemarks integram na BBS (217), é possível saber quantas vezes os usuários já escreveram posts em toda a GEC (15.976). Ao relacionar os dois últimos dados (já que a

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informação do número global de placemarks não é oferecida), percebe-se uma tendência à concentração nos baixos valores, conforme mostra a Figura 25 (convertida para uma escala logarítmica para facilitar a visualização). A maioria dos usuários têm apenas um post publicado em Toronto (eixo x) e, de um modo geral, poucos no sistema (eixo y).

Figura 25 - Gráfico da distribuição de posts em Toronto e em todo o sistema da GEC Observando-se tanto os pontos registrados sobre a cidade de Toronto, quanto os posts em toda a GEC, o índice de publicação segue uma distribuição em power-law, o que significa que muitos usuários têm poucos posts, e poucos têm muitos posts. Isso em momento algum é prejudicial ao sistema, vendo que tal distribuição em power-law permite a coexistência de inúmeros pequenos fatores com poucos que são muito grandes (Barabási, 2003). Interessantemente, esta é uma tendência que pode ser constatada em toda a WWW, seja no crescimento e acesso aos blogs ou na quantidade de links entre páginas. Ao enxergar as estruturas da rede como sendo similares à organização fractal da natureza, Huberman (2001) irá dizer que a Internet é uma e-cologia: uma rede dinâmica e não-linear que pode ser analisada em toda a sua complexidade. Para ele, estamos diante de um sistema “caracterizado por relações, ‘cadeias de alimentos’ de informação, e interações dinâmicas que logo poderão tornar-se tão ricas, senão mais ricas, que muitos ecossistemas naturais” (p.13). Caberiam, assim, as mesmas técnicas de análise aplicadas aos sistemas naturais para observar padrões e tendências na rede mundial de computadores. Utilizo-me

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deste pressuposto, porém não aceitando a análise quantitativa sem relacionar seus resultados ao conteúdo daquilo que está sendo tratado.

4.5 Categorias O primeiro passo para analisar o conteúdo dos placemarks, e inquirir os reais usos que estão sendo dados à ferramenta, é atentar para uma categorização destas informações. O próprio formato de BBS da GEC faz com que cada post precise ser publicado em uma seção específica, divididas por tema ou interesse. Como descrito no capítulo anterior, quando o usuário decide compartilhar um de seus placemarks a ele são apresentadas algumas opções para a categorização do seu post. A um primeiro olhar estas categorias abrangem uma grande gama de possibilidades e aparentam ser um sistema eficiente de classificação. Porém, ao analisar os dados constata-se alguns problemas, como apresento a seguir. Os placemarks coletados no espaço amostral estão distribuídos entre 11 categorias da Google Earth Community, listadas na Tabela 144. É possível observar aqui uma tendência à concentração dos mesmos em Earth Browsing, Transportation, e Travel Information. Excluindo a segunda, cujo alto índice é evidente resultado da publicação de três séries de posts contendo a localização de todas as estações de metrô na cidade (para um total de 90 placemarks), as outras são categorias bastante genéricas que podem incorporar qualquer conteúdo. Tabela 1 - Freqüência de categorias dos placemarks na amostra
# 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 Categoria Phil Verney's Discoveries Military History Illustrated Nature and Geography Students Huge and Unique People and Cultures Sports and Hobbies Travel Information Transportation Earth Browsing Freq. 1 1 2 3 4 16 29 35 89 96 117

Tradução do autor: As Descobertas de Phil Verney, Militar, História Ilustrada, Natureza e Geografia, Estudantes, Grande e Único, Pessoas e Culturas, Esportes e Hobbies, Informações de Viagem, Transportes, Explorando a Terra.

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Segundo a descrição na própria GEC, a seção Earth Browsing é “o principal fórum para o compartilhamento e discussão de lugares ao redor do mundo” e Travel Information engloba “dicas de e para aqueles que viajam”. Para citar um exemplo da ambigüidade desta organização, ambos os placemarks abaixo estão categorizados como Earth Browsing:

#36 - Yellow Brick Road "Follow the yellow brick road, Follow the yellow brick road. Follow, follow, follow the yellow brick road!! Couldn't resist!" (Lunatech em 20/12/03).45 #360 - Starbucks @ 4 King St. West This is a starbucks in toronto, ontario. Come round to see it (DylanBradbury em 26/07/05).46

O primeiro (placemark #36 da amostra) é uma brincadeira que o usuário Lunatech faz com a imagem de um caminho em espiral localizado à beira do Lago Ontário (FIG. 26), referenciando um elemento narrativo do filme O Mágico de Oz, de 1939. O segundo (#360), indica a localização de um café da rede Starbucks na rua King. Mesmo tratando-se de conteúdos claramente distintos, ambos estão agrupados sob a mesma categoria. Da mesma forma, os placemarks abaixo, que estão publicados sob a categoria Travel Information, poderiam ter classificações díspares, ainda que a diferenciação entre eles seja um pouco mais sutil:

#21 - China Town This area is the Torontos China Town, you can find Malls, restaurants and meet china people (napaboy, 02/09/06).47 #205 - Theatre Books, Toronto, Ontario, M5S 2B, Canada North America: 1-800-361-3414; others: 1-416-922-7175 fax: 1-416-922-0739 Website: www.theatrebooks.com TheatreBooks was established in 1975 by Leonard McHardy and John Harvey, who met while working in one of Toronto's 'alternate' theatres. The store soon became a mecca for theatre professionals, students and ardent fans. Then, as now, the store stocked plays in English from around the world and, of course, all plays published in Canada. TheatreBooks stocks and sells plays from Dramatists Play Service, Dramatic Publishing Co., Samuel French, and the leading play publishers in Great Britain (Ian_Alexander_Martin em 16/06/06).48

Tradução do autor: Rua de tijolos amarelos. Siga a rua de tijolos amarelos, Siga a rua de tijolos amarelos, Siga, siga, Siga a rua de tijolos amarelos!!! Não pude resistir! 46 Tradução do autor: Este é um starbucks em Toronto, ontario. Venha conhecê-lo. 47 Tradução do autor: Esta área é a China Town de Toronto, você pode encontrar shoppings, restaurantes e conhecer pessoas chinesas. 48 Tradução do autor: TheatreBooks foi fundada em 1975 por Leonard McHardy e JohnHarvey, que se conheceram quando trabalhavam em um dos teatros “alternativos” de Toronto. A loja logo tornou-se a Meca dos profissionais de teatro, estudantes, e ávidos fãs. Na época, assim como agora, a loja oferecia peças em inglês de

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Não há dúvidas de que estes placemarks se encaixam na descrição de sua categoria, porém ambos são essencialmente distintos. Enquanto o placemark #21 é uma breve indicação turística da região de China Town, o placemark #205, ainda que também indicando um local na cidade, tem caráter claramente publicitário. A falta de especificidade é um problema para a análise dos usos da ferramenta, que dependerá de uma devida classificação do conteúdo publicado.

Figura 26 - Caminho em espiral à beira do Lago Ontário O inverso deste fenômeno também é verdadeiro, podendo ser identificado quando conteúdos semelhantes são publicados em categorias distintas. Voltando ao exemplo da CN Tower descrito anteriormente, os placemarks que fazem referência à torre estão publicados em cinco categorias diferentes (são elas Earth Browsing, Huge and Unique, Nature and Geography, Sports and Hobbies e Travel Information), mesmo tratando-se de um conteúdo similar. Novamente o problema da generalização destas seções faz com que o usuário possa publicar seus pontos de interesse onde melhor lhe parecer conveniente. Isso não é dizer, porém, que as seções propostas na GEC são de todo equivocadas. Algumas categorias, como History Illustrated ou People and Cultures, por exemplo, poderiam servir de classificações muito mais adequadas para alguns dos placemarks coletados, porém estas são pouco utilizadas e parecem ser deixadas de lado em prol das categorias genéricas. Alguns fatores podem ser considerados para explicar esta classificação equivocada. Um destes é o de indução às categorias principais em razão do elevado número de posts que
todo o mundo, e, é claro, todas as peças publicadas no Canadá. TheatreBooks estoca e vende peças do Dramatists Play Service, Dramatic Publishing Co., Samuel French, e dos principais editores de peças do Reino Unido.

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já estão publicados nas mesmas. Haveria um receio em utilizar seções diversas por causa da manifestação da maioria, que induz à conformidade. Similarmente, uma categoria com um maior índice de publicação é também aquela que é mais acessada nos fóruns, podendo reforçar ao usuário uma idéia de maior visibilidade para o seu conteúdo. Por fim, a problemática da generalidade pode ser resultado da simples vontade do usuário em nãoclassificar, vendo que é menos dispendioso simplesmente adicionar o seu placemark a uma categoria como a Earth Browsing. Nesta perspectiva, não haveria um ímpeto de contribuir com o grupo para que este possa recuperar os dados com maior facilidade, mas simplesmente uma vontade própria de publicação. Estas são, é claro, especulações sobre os motivos de uma categorização equivocada na GEC. O que os dados mostram com certeza é que a notação de categoria não condiz necessariamente com o conteúdo dos placemarks. Ainda que idealmente estas categorias sejam representativas, a partir da análise é possível constatar que as mesmas não estão sendo utilizadas de maneira a fazer uma classificação adequada. Assim, propus neste trabalho uma nova tipologia que permitirá melhor elencar e analisar o conteúdo publicado pelos usuários na Google Earth Community.

4.6 Tipologia A partir da observação do conteúdo dos placemarks coletados sobre a cidade de Toronto, é possível sugerir uma tipologia que classifique os usos que estão sendo dados à ferramenta. Além de simplesmente registrar o conteúdo, esta tipologia propõe-se a estender a classificação com base em fatores comunicacionais revelados no texto do usuário. Proponho assim nove tipos para os placemarks da GEC, que, se não substituem por completo a categorização feita pelo usuário, servem de complemento para sua melhor compreensão: Os placemarks de tipo IA são aqueles que apenas descrevem ou nomeiam um local ou região. Não há nenhuma visível intenção do usuário com a publicação de placemarks deste tipo a não ser identificar que determinado local existe na cidade e descrever seu funcionamento ou arredores. Os dois placemarks abaixo são exemplos disso, o primeiro (#80) identificando e descrevendo uma residência estudantil da Universidade de Toronto, e o segundo (#98) mostrando a localização de uma antiga igreja na cidade.

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#80 - Woodsworth College Residence Woodsworth College Residence, as part of the University of Toronto's Woodsworth College. Located on the Southeast corner of Bloor and St. George, Woodsworth College Residence offers many restaurants close by, along with being walking distance from all classes, and a short 5 minute walk to the nearby Robarts Library (julian1 em 05/08/06).49 #98 - St Patrick Church one of the oldest church in Toronto (_findingit em 25/06/06).50

Similarmente, o tipo IB (que nada mais é que uma especificação do anterior) indica a localização de pontos de transporte como estações de ônibus e metrô. Ao contrário do tipo IA, porém, não há qualquer descrição dos locais, apenas a indicação de que eles estão ali. Em vista da grande incidência destes placemarks, direta influência da falta de tais informações nas camadas de SIG oferecidas na instalação padrão do Google Earth, vi necessária a criação de um tipo a parte englobando pontos como o #352, que indica a localização da estação de metrô Queen.
#352 – Queen TTC - Toronto subway and bus stations (cubakid em 03/09/05).51

Aqueles placemarks que vão além da simples nomenclatura e são sugestões diretas de locais ou usos para a cidade foram classificadas como tipo II. É possível reconhecer nos pontos deste tipo a presença de expressões como “visite”, “faça isso” ou “não vá aqui”, bem como uma apreciação pessoal do usuário sobre determinado local, indicando seus gostos e predileções. Há uma clara intenção de conduzir futuros usuários através da cidade, como é o caso do placemark #11, que convida o leitor a visitar uma feira multicultural, ou o #20, que dá a dica do melhor restaurante chinês daquela região.

#11 - Multicultural Area Augusta Street is part of this multicultural area, you could find China stuff, Mexican Stuff, India Stuff and more. and Every last sunday of the month there are artistic events, check the dates! (napaboy em 02/09/06).52

Tradução do autor: Residência do Woodsworth College, como parte do Woodsworth College da Universidade de Toronto. Situado na esquina sudeste da Bloor com a St. George, a Residência do Woodsworth College tem muitos restaurantes próximos, e também está a uma curta distância de todas as aulas, e uma curta caminhada de 5 minutos da biblioteca Robarts. 50 Tradução do autor: Igreja St Patrick. Uma das igrejas mais antigas em Toronto. 51 Tradução do autor: Estações de metrô e ônibus de Toronto. 52 Tradução do autor: Área Multicultural. A rua Augusta é parte desta área multicultural, você pode encontrar coisas chinesas, coisas mexicanas, coisas indianas e mais. E todo último domingo de cada mês acontecem eventos artísticos, se ligue nas datas!

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#20 - Kom Jug Yuen ('Kay Jay Why') The best little Chinese Food place in the city. Known and loved by many Gweilo's for years. Shout outs to Blair and Robin, my fellow KJYers since 1982 (trinitymike em 12/03/06).53

Os pontos de tipo III revelam uma ligação pessoal do usuário com determinado local. Assume-se aqui a intenção por parte deste em compartilhar um pouco de sua própria história na ou com a cidade. São exemplos deste tipo o placemark #360, no qual o usuário revela que sua primeira viagem como comissário de vôo foi para Toronto, ou o #391, onde a indicação de uma escola católica vem acompanhada da notação “eu estudei aqui”.
#380 - Toronto Including Toronto in this collection of travel stories has two important reasons for me. My very first trip as a flight attendant was to this city. I will never forget the awe with which I watched the highrise buildings, with which I watched down CN tower. Also, I will never forget the jetlag when I arrived back home the next day… Toronto skyscraper reflecting sun (Around_World_in_80_Clicks em 20/04/06).54 #391 - École Sacré-Coeur French catholic school... Graduated form there in 1993 (jpgodbout em 01/09/06).55

Os placemarks que referem-se às imagens de satélite do Google Earth para fazer algum comentário sobre o espaço físico foram classificados sob o tipo IV. Estes geralmente só podem ser compreendidos por completo quando acompanhados das imagens de satélite, vendo que estão diretamente relacionados ao que o usuário está observando através do aplicativo. Estes são placemarks como o #209, que refere-se à imagem de um guindaste em um canteiro de obras para comentar a crescente urbanização do centro (FIG. 27), ou o #73, que fala de quanto a arquitetura de uma biblioteca da Universidade de Toronto destaca-se na cidade quando vista de cima, uma perspectiva que só é possível ter através das fotografias aéreas disponibilizada no GE (FIG. 28).

#209 - Cranes again! Sometimes I can't imagine 2025 Toronto, construction is going on (as always) (malefic em 30/07/06).56

Tradução do autor: Melhor lugar de comida chinesa da cidade! Conhecido e adorado por muitos Gweilos por anos. Alôs para o Blair e o Robin, meus colegas de KJY desde 1982. 54 Tradução do autor: Incluir Toronto nesta coleção de histórias de viagem tem duas razões importantes para mim. A minha primeira viagem como comissário de vôo foi para esta cidade. Nunca vou esquecer a estupefação com que vimos os altos prédios, com que vimos a CN Tower. Também, nunca vou esquecer do jetlag quando cheguei de volta em casa no outro dia... Arranha-céu de Toronto refletindo o sol. 55 Tradução do autor: Escola católica francesa... Me formei ali em 1993. 56 Tradução do autor: Às vezes não consigo imaginar Toronto em 2025, a construção continua (como sempre).

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#73 - Robarts Library A part of the University of Toronto, Robarts Library is open to all students and faculty. Opened in 1973, the building follows the architectural design of the Brutalist idelogy, and is designed to emulate the shape of a peacock. Viewed from above, its unique shape makes it stand out against the bird's-eye-view of the Toronto landscape (julian1 em 05/08/06).57

Figura 27 - Prédio em construção no centro de Toronto, Canadá

Figura 28 - Biblioteca Robarts da Universidade de Toronto O tipo V incorpora aqueles placemarks cujo conteúdo é claramente comercial. Estes diferenciam-se dos tipos IA e II pela presença de indicadores como endereço, telefone, site ou ramo de atuação, ainda que sem fazer uma apreciação pessoal sobre o estabelecimento ou serviço prestado. Desta maneira, o placemark #113 é um exemplo característico,
57 Tradução do autor: Como parte da Universidade de Toronto, a biblioteca Robarts está aberta a todos os estudantes e professores. Aberto em 1973, o prédio segue o design arquitetônico da ideologia Brutalista, e foi desenhado para emular o formato de um pavão. Visto de cima, sua forma singular faz com que ele se destaque na visão de pássaro da paisagem de Toronto.

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identificando o restaurante italiano Piero’s com suas informações de contato. Já o #337 traz apenas o ramo de atuação do escritório de advocacia, porém é clara sua intenção em reforçar o nome da sociedade através do Google Earth.
#113 - Piero's Ristorante 416 977 1040 254 Adelaide Street West Toronto, ON M5H 1X6, Canada pieros.ca (Pavel1978 em 06/07/06). #377 - Peppin, Tranquada, Baker, & Associates Non-profit consultants inspiring & supporting social sector innovation. Peppin, Tranquada, Baker & Associates (Lor em 14/10/05).58

Placemarks contendo dados históricos ou curiosidades são agregados aqui sob o tipo VI. Estes, além de simples descrições, revelam fatos interessantes ou contam um pouco sobre o passado de um determinado local. O usuário Frankenstein68, por exemplo, faz uma compilação de lugares assombrados em toda a província de Ontario, onde situa-se a cidade de Toronto. No placemark #5, este revela a localização de um cemitério onde os fantasmas de soldados mortos em combate são escutados até hoje. Já o #376 traz curiosidades sobre o ator canadense Keanu Reeves, indicando a escola onde ele estudou quando adolescente.
#5 - The Second Garrison Burial Ground The cries of the soldiers that are buried here have been heard by nearby residents for quite some time. The burial ground dates back to 1814 and many of those killed in the capture of Fort York and the sacking of York are buried here (Frankenstein68 em 22/03/06).59 #376 - Keanu Reeves' high school (an independent co-educational Catholic school) Keanu Reeves' high school (malefic em 13/09/06).60

Ainda no gênero curiosidades, o tipo VII agrega todas aquelas informações que chamarei aqui de “almanaque”. Estes são placemarks que, ao contrário do tipo anterior, não têm como propósito principal descrever uma curiosidade na cidade de Toronto, mas sim ilustrar dados externos e compilações globais. Ainda que seja discutível tentar assumir intenção com base apenas no texto publicado, a análise tanto do placemark quanto do post

Tradução do autor: Consultores sem fins lucrativos inspirando e apoiando inovações no setor social. Peppin, Tranquada, Baker & Associados. 59 Tradução do autor: Cemitério do Segundo Batalhão. Os gritos dos soldados que estão enterrados aqui são ouvidos por moradores das proximidades por algum tempo já. O cemitério data de 1814 e muitos daqueles mortos na captura do Forte York e no saque de York estão enterrados aqui. 60 Tradução do autor: Escola Secundária do Keanu Reeves (uma escola católica independente co-educacional).

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que este integra sugerem tal ímpeto global com maior ou menor relação com o local. O placemark #50 posicionado sobre o estádio Skydome, por exemplo, informa o resultado de um jogo esportivo e o ano de 1993. Somente quem acessar o post saberá que trata-se de uma compilação de todos os times vencedores da World Series de baseball entre 1903 e 2005. Similarmente, o placemark #239 ilustra todos os locais no mundo onde a banda irlandesa U2 já se apresentou.

#50 – 1993 League: American Games Won: Toronto Blue Jays 4, Atlanta Braves 2 Pat Borders 07/02/06).61

(LuciaM em

#239 - U2-Air Canada Center Every venue that U2 has played live. Well, actually I just started it. Is there a way that the community can add placeholders to this post? (dwaltman em 19/07/06).62

Por fim, os placemarks de tipo VIII indicam a localização de eventos que ocorreram ou ainda estão para acontecer na cidade. O ponto #162, por exemplo, indica uma conferência sobre administração de desastres que aconteceu em Toronto em julho de 2005.

#162 - 15th World Conference on Disaster Management 10-13th July 15th World Conference on Disaster Management: ''The Changing Face of Disaster Management - Defining the New Normal,' sponsored by the Canadian Centre for Emergency Preparedness (CCEP), Metro Toronto Convention Centre, Toronto, Canada http://www.wcdm.org/ (philverney em 29/01/05).63

Proponho esta tipologia como uma forma de melhor classificar os dados coletados no espaço amostral delimitado sobre a cidade de Toronto. Levando-se em consideração o nível de uso da Google Earth Community nesta região, e a existência de uma amostra de usuários que é responsável por um significativo número de posts em todo o sistema, é plausível assumir que um mesmo padrão poderia ser generalizado para outras localidades ao redor do globo. Não seria sensato, porém, tomar isso como fato. Assim, a tipologia aqui proposta restringe-se, pelo menos em um primeiro momento, ao âmbito deste trabalho apenas.

Tradução do autor: Liga: Americana. Jogos Ganhos: Toronto Blue Jays 4, Atlanta Braves 2 Pat Borders. Tradução do autor: Todos os local onde o U2 se apresentou ao vivo. Bem, na verdade eu recém comecei. Existe alguma maneira da comunidade adicionar lugares a este post? 63 Tradução do autor: 15 Conferência Mundial de Gerenciamento de Desastres: “A Nova Face do Gerenciamento de Desastres – Definindo o Novo Normal”, patrocinado pelo Centro Canadense para Prontidão Emergencial, Centro de Convenções Metro Toronto.
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Tem-se assim um registro de placemarks que: (IA) fazem uma nomenclatura ou descrevem determinado local; (IB) informam a localização de estações de metrô e ônibus na cidade; (II) contém sugestões diretas como “visite isso” ou “não vá aqui”; (III) revelam uma ligação pessoal do usuário com o lugar; (IV) fazem referência à imagem exibida no Google Earth; (V) têm caráter claramente comercial; (VI) registram dados históricos ou curiosidades; (VII) são compilações estilo almanaque; ou (VIII) indicam eventos que acontecem na cidade.

4.7 Análise dos tipos Os tipos descritos acima distribuem-se sobre o espaço amostral conforme mostra a Tabela 2. Há uma clara predominância de placemarks dos tipos IA, IB e VI, ficando o tipo VII logo atrás nesta listagem. Tabela 2 - Freqüência de tipos dos placemarks na amostra
Tipo IA IB II III IV V VI VII VIII ø Título nomenclatura metrô e ônibus sugestões pessoal imagem comercial curiosidades/histórico almanaque eventos indeterminado Freq. 126 92 19 9 13 9 70 52 2 2

É possível relacionar a alta incidência de tipo IB ao mesmo motivo citado anteriormente para o caso da categoria Transportation, vendo que tratam-se de notações bastante similares. Para os demais, é preciso averiguar suas inter-relações com o conteúdo e com o próprio registro de categoria de cada um dos placemarks coletados. Após uma primeira observação e notação dos dados, observou-se a necessidade de aplicar um cálculo estatístico para medir o nível de associação entre os pares de variáveis tipo-categoria, tipo-compilação e tipo-número de posts, ou seja, identificar o quanto cada uma destas variáveis estaria afetando a incidência da outra. Assim, devo elaborar acerca da técnica utilizada para esta análise.

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4.7.1 Procedimentos metodológicos A análise foi realizada com auxílio do aplicativo Multiv (Pillar, 2006), aplicando-o para o cálculo da estatística de qui-quadrado e correlação, bem como para a realização de testes de permutação. A estatística de qui-quadrado mede a associação entre duas variáveis qualitativas. Para realizar este cálculo é montada uma tabela de contingência para cada par de variáveis i e k (e.g. tipo e categoria), formada por tantas linhas quantos forem os estados da variável i e por tantas colunas quantos forem os estados da variável k. Cada célula desta tabela contém uma freqüência conjunta, ou seja, o número de placemarks que pertencem à classe h da variável i e à
2

classe
ik

j
Sk

da ( f hj

variável
0 f hj ) 2 0 f hj

k.

O

qui-quadrado

é

então

calculado

pela

equação

=

Si

, onde Si e Sk são o número de estados em i e k respectivamente (e.g.

h=1

j=1

quantos tipos e quantas categorias existem para análise), fhj é a freqüência conjunta observada para as classes h e j na tabela de contingência (e.g. quantas vezes o tipo h e a categoria j se cruzam), e fºhj é a freqüência esperada calculada a partir dos totais da coluna e da linha
0 correspondentes a cada célula, definida por f hj = ( f h f j ) f . Deste modo, o somatório das

diferenças (ao quadrado e ponderadas) entre freqüência observada e esperada resultará em um valor específico de qui-quadrado, indicando um grau de associação entre as variáveis estudadas. Similarmente, a estatística de correlação de Pearson também irá avaliar tal nível de associação quando as variáveis forem quantitativas ao invés de qualitativas. No caso deste trabalho, foram correlacionados o número de posts com a média da incidência de tipos, como será explicado mais adiante. Não é possível saber, porém, se um dado valor destas estatísticas representa associação significativa, pois não há uma escala de valores limites. Utilizou-se então um teste de permutação entre as variáveis i e k para averiguar a significância estatística das medidas avaliadas. Neste, uma amostra aleatória é gerada ao permutar os valores observados de uma das variáveis entre si. A cada permutação, a estatística utilizada é recalculada (rikº) e comparada com aquela que fora observada nos dados (rik). Após B iterações (repetições deste processo), obtêm-se uma probabilidade p a partir da freqüência da relação rikº r nas mesmas. Para este trabalho utilizou-se um total de 10.000 iterações e um limiar de probabilidade =0,05. Se p for menor ou igual que , a Hipótese Nula (Ho – idéia que define “nenhuma

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associação”) é rejeitada, sendo possível concluir que a medida obtida é significativa. Já um valor de p maior que aleatórios é alta. Ou seja, o teste de permutação é uma repetição da estatística de qui-quadrado com valores gerados ao acaso. A medida resultante é comparada com aquela que fora obtida com os dados originais, e o processo então repetido com novos dados aleatórios. Após muitas repetições deste processo, gera-se uma probabilidade p de obter aquele valor original de quiquadrado. Se p for menor ou igual que o limiar especificado, o qui-quadrado original é significativo, visto que a probabilidade de obtê-lo de forma aleatória é muito pequena. Procedimento semelhante também foi aplicado para avaliar a significância da correlação entre variáveis. indica que a probabilidade de obter a mesma medida com dados

4.7.2 Associações Poder-se-ia argumentar que a tipologia aqui proposta é muito parecida com aquelas categorias já oferecidas na GEC. Em vista disso, investigou-se a relação entre categoria e tipo quanto à sua função de semelhança. A análise dos dados irá mostrar que a correspondência entre estas variáveis é somente parcial, sendo que a maioria dos tipos propostos são independentes de uma categorização anterior feita pelo usuário. Para comparar as duas classificações, portanto, utilizou-se uma medida de associação através da estatística qui-quadrado ( 2), e a significância (p) desta associação foi calculada utilizando um teste de permutação entre variáveis de modo a comprovar os resultados obtidos. Deste modo, ao comparar todos os tipos que foram adicionados posteriormente com as categorias já existentes cadastradas pelo usuário, conforme mostra a tabela de contingência entre as variáveis (TAB. 3), a associação resultante é significativa (qui-quadrado=846,75, p=0,0001). É preciso investigar, porém, quais destes pares categoria/tipo são responsáveis pelo nível de associação encontrado.

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Tabela 3 - Tabela de contingência entre todos os tipos e categorias
categoria/ tipo ø IA IB II III IV V VI VII VIII total 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 1 2 1 56 1 9 6 8 6 22 8 0 117 3 0 4 0 0 0 0 0 0 0 0 4 4 0 2 0 0 0 0 0 0 0 0 2 5 0 6 0 1 0 1 0 3 5 0 16 6 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 1 7 1 0 0 0 0 1 0 0 0 1 3 8 0 4 0 0 0 1 1 9 14 0 29 9 0 12 0 0 0 0 0 3 20 0 35 10 0 2 91 1 0 1 0 1 0 0 96 11 0 39 0 8 3 1 2 32 4 0 89 total 2 126 92 19 9 13 9 70 51 2 393

A partir do cálculo de proporção da contribuição (chj) de cada par ao qui-quadrado total da tabela de contingência, onde c hj

[f =

hj

0 f hj ]

2

0 f hj

2

, observa-se uma maior incidência

de certas combinações. Conforme indicado na Tabela 4, os tipos IB, VII, VIII e ø são aqueles que mais contribuíram para o qui-quadrado total da tabela de contingência (proporções destacadas). Tabela 4 - Proporção da contribuição de cada par ao qui-quadrado total da tabela de contingência
categoria/ tipo ø IA IB II III IV V VI VII VIII

1 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,230

2 0,000 0,011 0,030 0,002 0,005 0,005 0,005 0,000 0,004 0,001

3 0,000 0,007 0,001 0,000 0,000 0,000 0,000 0,001 0,001 0,000

4 0,000 0,003 0,001 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000

5 0,000 0,000 0,004 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,005 0,000

6 0,000 0,002 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000 0,000

7 0,075 0,001 0,001 0,000 0,000 0,010 0,000 0,001 0,000 0,075

8 0,000 0,004 0,008 0,002 0,001 0,000 0,000 0,003 0,033 0,000

9 0,000 0,000 0,010 0,002 0,001 0,001 0,001 0,002 0,062 0,000

10 0,001 0,032 0,247 0,003 0,003 0,002 0,003 0,018 0,015 0,001

11 0,001 0,005 0,025 0,004 0,001 0,002 0,000 0,019 0,006 0,001

Os placemarks pertencentes a estes tipos foram então removidos da amostra, resultando em uma nova tabela de contingência (TAB. 5) onde a associação não é mais significativa (qui-quadrado=56,44, p=0,2071). Conclui-se a partir desta análise que os tipos remanescentes são completamente independentes da classificação anterior feita pelo usuário,

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corroborando a decisão de criar uma nova tipologia para melhor analisar os dados recolhidos sobre o espaço amostral. Tabela 5 - Tabela de contingência excluindo os placemarks dos tipos IB, VII, VIII e ø
categoria/ tipo IA II III IV V VI total

2 56 9 6 8 6 22 107

3 4 0 0 0 0 0 4

4 2 0 0 0 0 0 2

5 6 1 0 1 0 3 11

6 1 0 0 0 0 0 1

7 0 0 0 1 0 0 1

8 4 0 0 1 1 9 15

9 12 0 0 0 0 3 15

10 2 1 0 1 0 1 5

11 39 8 3 1 2 32 85

total 126 19 9 13 9 70 246

Uma análise similar foi feita para relacionar o tipo do placemark com a integração ou não deste a uma compilação. Para isso também utilizou-se a estatística de qui-quadrado e um cálculo de sua significância estatística. Ao associar a freqüência de todos os tipos com um valor binário 1 (quando o post integra uma compilação) ou 0 (quando não integra), a tabela de contingência resultante (TAB. 6) demonstra que a associação entre ambas as variáveis é significativa (qui-quadrado=175,269, p=0,0001). Realizando o cálculo da proporção da contribuição de cada par ao qui-quadrado total desta amostra, observa-se uma alta predominância do tipo IB-metrô (TAB. 7), indicando que há uma associação entre este e o fator compilação. Tabela 6 - Tabela de contingência entre tipo e compilação
Compilação/ Tipo ø IA IB II III IV V VI VII VIII total 0 2 89 1 16 6 12 7 28 2 0 163 1 0 37 91 3 3 1 2 42 49 2 230 total 2 126 92 19 9 13 9 70 51 2 393

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Removendo os placemarks do tipo IB, e assim sucessivamente para todos os tipos predominantes até que a significância estatística ultrapasse o limiar estabelecido (p>0,05), observa-se que os tipos VI-curiosidades e VII-almanaque também demonstram uma tendência à compilação. Quando estes são retirados da amostra, a associação entre tipo e compilação passa a não ser mais significativa (qui-quadrado=10,535, p=0,0975). Tabela 7 - Contribuição de cada par ao qui-quadrado total da amostra
Compilação/ Tipo ø IA IB II III IV V VI VII VIII 0 0,009 0,147 0,206 0,048 0,008 0,046 0,016 0,000 0,099 0,005 1 0,007 0,104 0,146 0,034 0,006 0,033 0,012 0,000 0,070 0,003

Ainda que haja placemarks dentro destes tipos IB-metrô, VI-curiosidades e VIIalmanaque cujo foco é claramente global – e reforço aqui o exemplo anterior de posts que indicam a localização de todas as apresentações de uma banda de rock – percebo que, em sua maioria, estes não são prejudiciais à navegação na camada na GEC e tampouco nada dizem sobre o espaço físico ao qual estão se referindo. Torna-se assim uma questão de perspectiva. Quando estes placemarks são visualizados através de sua representação na camada vetorial, ainda que façam referência à uma outra escala, estão, ao fim, descrevendo um fato que ocorreu na cidade. Por outro lado, quando os mesmos são vistos através do post que compila os muitos placemarks ao redor do globo, a escala em evidência transforma-se em uma mais generalizada. Com base nos dados de distribuição dos tipos, analisou-se também a associação entre o número de posts publicados por cada usuário com a maior ou menor incidência de determinado tipo de post para cada usuário. Para isso, cada tipo foi tratado como uma variável binária (1 quando o placemark pertencia ao tipo considerado, 0 quando não pertencia) e foi calculada a média desta variável para cada usuário. A partir de uma estatística de correlação (por se tratarem de duas variáveis quantitativas), chegou-se à conclusão de que não há associação entre número de posts por usuário e incidências dos tipos, pois as probabilidades

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das medidas de correlação estão todas acima do limiar estabelecido ( =0,05) e portanto não são significativas (TAB. 8). Assim, o fato de determinado usuário ter uma maior participação em Toronto não tem ligação direta com o que este mesmo usuário está escrevendo sobre o espaço físico. Tabela 8 - Correlação entre tipo e número de posts em Toronto
Correlação com o # de posts em toronto -0,024 0,051 -0,024 0,028 -0,013 0,084 -0,035 0,039 -0,091 -0,024

Tipo ø IA IB II III IV V VI VII VIII

Probabilidade 0,159 0,782 0,509 0,632 0,774 0,063 0,473 0,584 0,207 0,577

4.8 Discussão dos usos Após a análise estatística dos dados e a observação do conteúdo dos placemarks coletados no espaço amostral, é possível chegar a conclusões acerca da forma como está sendo usada a Google Earth Community. Em primeiro lugar, percebe-se que ainda é muito pequena a participação na GEC quando comparado aos quase 10 milhões de downloads do aplicativo. A distribuição da freqüência entre Toronto e o sistema, onde a maioria dos usuários aparece tendo poucos posts em ambos os níveis, mostra que o uso da ferramenta para a publicação não é recorrente, ainda que nada demonstre que estas pessoas não sigam visualizando a camada vetorial ou até mesmo acessando a BBS da GEC. Do mesmo modo, o baixo número de comentários deixados nos posts indica que há pouco retorno ou discussão, e inexistência de uma comunidade virtual propriamente dita. Também observa-se que a categorização dos placemarks não condiz necessariamente com o conteúdo publicado. Contribuem para isso tanto a excessiva generalidade das seções disponíveis na GEC, quanto uma classificação equivocada ou displicente feita pelo próprio usuário. Em vista disso, criou-se uma nova tipologia relacionando o conteúdo a um

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determinado intuito comunicacional, ou seja, o interesse do usuário com a publicação do placemark. Estes tipos não são, todavia, uma proposta para substituir as categorias já existentes e oferecer novas seções ao usuário, mas sim complementá-las no âmbito deste trabalho de modo a melhor entender a dinâmica daquilo que está sendo publicado sobre a cidade. Desta forma, a partir da análise dos placemarks inscritos nesta nova tipologia, percebe-se pelo menos duas tendências principais no uso da GEC, as quais chamarei aqui de espelho e narrativa. A primeira é uma tendência de reprodução das estruturas existentes no real, espelhando aqueles ambientes que englobam o usuário da mesma maneira que o próprio Google Earth, através de suas fotografias aéreas e renderizações de terrenos e prédios em 3D, cria representações-espelho dos espaços físicos. Desta forma, os tipos IA-nomenclatura, IBmetrô, V-comercial e VIII-evento recriam e nomeiam o urbano na virtualidade do GE. Não trata-se, porém de uma representação aistórica ou acultural, vendo que a construção destas representações está nas mãos do usuário que habita e vivencia a cidade. O espelho, na metáfora apresentada por Foucault (1986) ao descrever um “outro lugar”, não é simples reflexo, mas perspectiva de uma experiência múltipla: ao mesmo tempo que materializa um espaço dentro de si, virtual, conduz o olhar de volta para a existência real e as relações do objeto refletido com os espaços à sua volta.
[The mirror] makes this place that I occupy at the moment when I look at myself in the glass at once absolutely real, connected with all the space that surrounds it, and absolutely unreal, since in order to be perceived it has to pass through this virtual point which is over there (Foucault, 1986, p.24)64.

De fato, ao nomear os seus espaços através da GEC, o usuário, além de criar meras reflexões na virtualidade da rede, está também retornando o seu olhar para a cidade e seus entornos. Desta maneira, os placemarks destes tipos, ainda que com intuitos comunicacionais diferentes, criam entre si uma nova cartografia coletiva a partir do qual o cidadão pode navegar e descobrir outros caminhos para o urbano. É a construção de mapas democráticos, vendo que qualquer um pode referenciar aquilo que julga ser mais relevante. Esta não pode, porém, ser considerada similar a outros espaço colaborativos como a Wikipedia65, vendo que

64 Tradução do autor: [O espelho] torna este lugar que ocupo no momento em que me vejo no vidro ao mesmo tempo absolutamente real, conectado com todo o espaço que o engloba, e absolutamente irreal, pois para ser percebido precisa antes passar através deste ponto virtual que está do lado de lá. 65 www.wikipedia.org/

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na GEC há autoria e propriedade das informações, não sendo permitido que outros modifiquem algum placemark já publicado. Durante a realização deste trabalho conheci a iniciativa da Wikimapia66, que utiliza a API do Google Maps para permitir uma escrita colaborativa sobre as imagens da cidade – uma implementação muito similar à GEC, porém onde o conteúdo é modificável por todos. É interessante que uma rápida leitura dos pontos identificados através deste sistema mostram que eles são apenas isso, identificadores ou nomenclaturas de lugares na cidade. Segundo esta definição, o Wikimapia estaria de acordo com uma forma de classificação cartográfica de espelho. Já os tipos II-sugestão, III-pessoal, IV-imagem, VI-curiosidades e VII-almanaque constituem uma segunda tendência, na qual os placemarks promovem a discussão ou comentário sobre o espaço físico. Integram assim um processo narrativo, onde a comunidade pode compartilhar histórias e reforçar os seus laços com o lugar da experiência. Ao invés de simplesmente reproduzir e espelhar, este conteúdo aumenta a cidade através do virtual, expandindo as fronteiras do local para dentro dos fluxos da rede. Ainda que a GEC não seja por si só uma comunidade virtual, o seu uso tende a reforçar as comunidades locais que se organizam em torno da experiência dos espaços vividos. Quando o usuário cooldude13233 indica a localização de uma antiga rodovia de acesso e lembra que ela pode ser demolida em vista de um novo projeto para o centro de Toronto (placemark #41), está promovendo uma discussão sobre os espaços à sua volta. Da mesma forma, o usuário spoken utiliza-se de um placemark para dizer à todos que “eu morei aqui” (#385), reconectando a experiência do local e territorializando-se na rede. Ao discutir e comentar a cidade, o usuário não está apenas “usando” aquele espaço, mas inserindo-se nele como “vivenciador” tanto da experiência quanto dos fluxos.

#41 - This Old Gardiner Exwy might be Demolished Fore More Info Visit http://www.toviaduct.com/TheNewGardiner.pdf (cooldude13233 em 26/01/06).67 #385 - Mike Gamble Lived Here I the great mike gamble lived in this house for two years bahahahahahaha (spoken em 27/05/06).68

66 67

www.wikimapia.org/ Tradução do autor: Esta antiga via expressa Gardiner pode ser Demolida. Para mais informações, visite. 68 Tradução do autor: Mike Gamble Morou Aqui. Eu, o grande Mike Gamle, morei nesta casa por dois anos.

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Os placemarks com tendência narrativa seriam assim uma manifestação concreta da multiterritorialidade sugerida por Haesbaert. Trata-se de um transitar entre o lugar e os fluxos, entre o território-zona, que é a comunidade historicamente constituída, e o território-rede, que é sua manifestação na Google Earth Community. Um processo que promove, ao fim, a discussão entre duas esferas espaciais que não são mais inteiramente distintas, mas tornam-se híbridas, sobrepondo memória, presença e virtualidade. A expansão da forma narrativa tira o cidadão de sua posição de mero usuário dos lugares e funções que lhe são oferecidos, permitindo a este cunhar sua existência à revelia do domínio imposto pelas elites e pelo poder. Ao construir espaços híbridos entre a cidade e o virtual, cria novas fronteiras para os territórios locais, reinserindo a comunidade na dinâmica socioespacial da Sociedade em Rede. Ambas tendências representam assim uma escrita sobre a cidade de modo a expandir com maior ou menor grau de intensidade os espaços e as experiências vividas no urbano para dentro da rede. Apesar disso, o placemark-espelho e o placemark-narrativa não são noções excludentes, vendo que a própria designação como “tendência” indica uma maleabilidade em vista da própria dificuldade e desafio de criar uma tipologia subjetiva. Co-existem, portanto, não apenas como usos para a GEC, mas como apropriações da rede e uma aplicação de uso para a cidade contemporânea. Em uma perspectiva semelhante àquela buscada pelos situacionistas franceses, podese dizer que através da GEC o cidadão cria situações e ambiências próprias, conduzindo-o a uma nova espacialidade que é ao mesmo tempo múltipla, e mútua. Casalegno propõe que esta é uma oportunidade de realizar o que Edgar Morin irá chamar de uma visão poética da existência, como maneira de ocupar o presente através da experiência, e de negar o uso da cidade apenas por suas funções pré-definidas. Do mesmo modo, a Internacional Situacionista buscava uma certa vivência poética, recondicionando a cidade através do jogo, da situação, e da criação de ambiências alternativas para o urbano.

[...] among the birth of human relationships and cyber networks, we have a varied example of expressions coming from current cyber socialities, like pictures of a new social paradigm of the synergy between community, memory, and communication. Thus, “new technologies” are old man-made creations. Use and experience give them a value and a sense; it is the task of mankind to use them to make this poetical vision come true (Casalegno, 2004, p.323).69

Tradução do autor: em meio ao nascimento das relações humanas e das redes cyber, temos um exemplo variado de expressões vindas das atuais cyber-socialidades, como fotografias de um novo paradigma social de sinergia entre comunidade, memória e comunicação. Assim, as “novas tecnologias” são criações antigas do

69

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Desta maneira, a publicação e compartilhamento de placemarks através da GEC é um processo de construção de memória coletiva, onde todos os membros da comunidade podem compartilhar suas narrativas e criar significados em comum. Trata-se de uma forma de aumentar o espaço urbano, conectando a carne ao virtual, e a experiência da comunidade aos fluxos da rede. A ferramenta, assim, não traz imbricada em si um poder de transformação, mas são os usos aos quais é submetida esta tecnologia que modificam a maneira como as pessoas transitam e vivenciam a cidade, suas comunidades e seus fluxos. Sendo a Google Earth Community uma implementação pública, aberta e gratuita, onde não há também regulamentação do tipo de informação que pode ou deve ser publicada, era de se esperar uma grande diversidade de conteúdos. Ainda que a análise demonstre uma predominância dos placemarks que seguem a tendência de espelho (são 230), é significativa a presença de publicações com um caráter narrativo (163), os quais julgo serem mais representativos de uma possibilidade de transformação. Em ambos os casos, vê-se que a GEC demonstra um alto potencial para a colaboração, seja de apenas notação coletiva da cidade ou de um real aumento e expansão da mesma através da rede. Esta, é claro, não é caracterísitca exclusiva do Google Earth, mas sim de uma nova dinâmica que passa a inserir-se nas mais variadas ferramentas e usos para o urbano. Enquanto muitos estudiosos admitirão a perda das próprias capacidades humanas de pertencimento, experiência e memória diante da simultaneidade e da justaposição de todas as relações sob uma única noção de presença, talvez seja o momento de resgatar aquele tempo que é comum e biológico, e através de entrecruzamentos como estes descritos na GEC, buscar reconectar as comunidades, e por que não a própria história, às estruturas contemporâneas. Afinal o Aleph de Borges, ao mesmo tempo incrível e profano, não fora concebido para o olhar dos homens. Pois ao fim de sua narração, tudo que Borges quer é esquecer aquilo que viu e pensar que as coisas simples da cidade poderão voltar a surpreendê-lo.

homem. O uso e a experiência dão a elas um valor e um significado; é papel da humanidade usá-las para tornar esta visão poética realidade.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

A revisão bibliográfica feita no segundo capítulo deste trabalho revela a cidade contemporânea como um espaço híbrido e múltiplo, criado no entrecruzamento de virtualidades tanto pelas inovações tecnológicas que formam as estruturas de uma Sociedade em Rede, quanto pelo fator humano e cultural que habita os lugares e comunidades historicamente constituídos. O espaço urbano diante do qual as sociedades se deparam no século XXI é, assim, ciborgue: imbrica em sua carne (e concreto) as redes telemáticas de comunicação através de conectividades diversas como o wi-fi, o telefone celular e o bluetooth, porém também traz consigo uma perspectiva de transformação social – a possibilidade, segundo revela Haraway, de redefinição e subversão, e quiçá apropriação dos próprios fluxos dentro dos quais se articulam as elites e os domínios de exclusão. É também uma cidade inscrita em uma temporalidade do instantâneo, da justaposição, e do tempo-real. Pode ser que, assim como no conflito com o espaço e o território, exista uma necessidade de recuperar o tempo comum e biológico que manifesta-se nos espaços de lugares, nas comunidades locais e nos relacionamentos humanos em geral. Ao invés da proliferação de espaços aistóricos e assépticos, dominados pela sensação do não-pertencimento onde a própria dissociação do corpo aparece como única saída para o habitante de uma realidade distópica, esta visão de cidade recupera e recontextualiza o urbano como palco da experiência e da memória. Traz consigo, portanto, uma perspectiva de afirmação do “poder da experiência”, aquele identificado por Castells como sendo a única maneira de escapar do domínio de um espaço imaterial de fluxos. Deste modo, a incorporação de novos usos para as mesmas ferramentas que aprisionam torna-se a mais necessária contestação. Afinal, não existem tecnologias boas ou más, mas sim diferentes usos que irão definir os seus impactos e transformações sociais. E impactos que irão quebrar a alienação do espetáculo ao adicionar uma dimensão participativa à sociedade. Deste modo, é possível territorializar-se na rede global ao mesmo tempo que se criam territórios e identidades locais. O transitar por entre o território-rede e o território-zona conduz à noção de multiterritorialidades atenta para uma estrutura social que está em constante e recursiva transformação. Como bem previu Foucault são as relações-entre e os

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lugares que são heterogêneos, dispersos porém justapostos, que caracterizam e conduzem os questionamentos atuais sobre o espaço. O virtual e o cyber envolvem a metrópole e criam uma nova topologia conectiva sobre as cidades onde o cidadão pode não apenas conectar-se à rede, mas também refletir sua identidade, construir narrativas, e fomentar laços com seus espaços e comunidades. A ferramenta do Google Earth aparece em meio a este processo. Além de ser um aplicativo de mera consulta e exploração de informações geográficas através de um planeta virtual, seus ambientes naturais e espaços urbanos recriados em pixels – propiciando ao usuário um certo olhar divino –, é também uma ferramenta de criação à medida que qualquer pessoa pode compartilhar suas próprias realidades através da Google Earth Community (GEC). Esta pesquisa demonstrou que, em sua maioria, as pessoas estão escrevendo na GEC sobre os espaços do seu dia-a-dia, utilizando-se da ferramenta para recriar seus lugares físicos na rede. É também um local para compartilhar histórias, sugerir lugares e assim criar suas próprias territorializações. Seja como placemark-espelho ou placemark-memória, estes estão, ao fim, referenciando os lugares locais, seus laços e narrativas. Pode-se dizer, nesta perspectiva, que este é um uso que reforça a colaboração no âmbito social, colocando nas mãos do cidadão a construção dos espaços à sua volta, transformando-o em “vivenciador” de suas próprias funções e experiências. É também um uso que constrói uma memória coletiva, a partir da qual os habitantes criam suas próprias significações para os espaços e relações sociais. Sendo o espaço contemporâneo um híbrido de conexões, do real com o virtual, do local com o global, as transformações na rede podem exercer um verdadeiro impacto sobre as cidades e seus usos. Apesar da participação na GEC ainda estar em estágios iniciais, percebese um processo muito mais amplo que está acontecendo também em outros sistemas que entrecruzam e emaranham o tecido virtual com o urbano. Deste modo, a colaboração ultrapassa as fronteiras da internet e increve-se na cidade, sendo possível especular que não será no isolamento dos computadores pessoais, mas também (e principalmente) no coletivo das ruas e dos espaços reais da comunidade que ocorrerão as grandes transformações do novo século. Não é mais possível tratar a rede como um lugar à parte, mas sim considerá-la integrada ao espaço urbano. Ao que tudo indica os bordões situacionistas ainda farão bastante sentido na análise, contestação e apropriação das cidades: começa aqui, enfim, a conquista da vida cotidiana.

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