VII International Conference of the Brazilian Studies Association (BRASA

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Mapeando o passado recente:
pressupostos da narrativa histórica sobre a política brasileira contemporânea
Adriano Nervo Codato adriano@ufpr.br Universidade Federal do Paraná Núcleo de Pesquisa em Sociologia Política Brasileira

Nome da Mesa: "As ilusões armadas" em questão: história, poder e sociedade no Brasil pós-64 Núcleo Temático Estudos Históricos Coordenador da Mesa: Adriano Nervo Codato

Pontifícia Universidade Católica Rio de Janeiro, Brasil Junho 9-12, 2004

Adriano Nervo Codato

Resumo Esta comunicação discute a concepção implícita de ―poder‖ contida nos trabalhos de análise histórica do jornalista Elio Gaspari a respeito dos governos militares no Brasil pós1964 (A ditadura envergonhada (2002) e A ditadura escancarada (2002)). Para o autor, dois personagens foram preponderantes no período: os generais Geisel e Golbery. Segundo Gaspari, ―fizeram a ditadura e acabaram com ela‖. Em nossa interpretação, essa hipótese, que guia a narrativa histórica e dá sentido à extensa documentação inédita analisada, não leva em conta os condicionantes estruturais da política e exagera o peso das variáveis centradas exclusivamente na qualidade das lideranças políticas, nas escolhas racionais dos atores e nos tipos de recursos que eles conseguem mobilizar, resultando a ação política das interações estratégicas entre as ―elites‖.

Abstract This paper discuss the implicit conception of "power" contained in the works of historical analysis of journalist Elio Gaspari regarding the military governments in Brazil after-1964 (A ditadura envergonhada (2002) e A ditadura escancarada (2002)). For the author, two personages had been preponderant in the period: the generals Geisel and Golbery. According to Gaspari, "they had made the dictatorship and they had finished with it". In our interpretation, this hypothesis, that guides the historical narrative and gives sensible to the extensive analyzed unknown documentation, does not take in account the structural constraint of the politics and exaggerates the weight of the variable centered exclusively in the quality of the leaderships politics, in the rational choices of the actors and in the types of resources that they obtain to mobilize. The action politics is then the result of the strategical interactions between the "elites".

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Mapeando o passado recente: pressupostos da narrativa histórica sobre a política brasileira contemporânea

MAPEANDO O PASSADO RECENTE: PRESSUPOSTOS DA NARRATIVA HISTÓRICA SOBRE A POLÍTICA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

―Todo particular é representativo — o problema está sempre em precisar o que ele representa‖. Abraham Kaplan

O projeto do jornalista Elio Gaspari, de interpretação da política nacional no período de 1964 a 1979, divide-se em dois blocos que compreendem cinco tomos independentes: a primeira parte, ―As ilusões armadas‖, reúne dois livros: A ditadura envergonhada (que cobre o período de 31 de março de 1964 a dezembro de 1968) e A ditadura escancarada (que cobre o período de janeiro de 1969 a dezembro de 1973/julho de 1974, ou os ―anos de chumbo‖, o ―mais duro período da mais duradoura das ditaduras nacionais‖ 1). A segunda parte, ―O Sacerdote e o Feiticeiro‖, reúne três livros: A ditadura derrotada (que cobre o período que vai de meados de 1973, aproximadamente, a novembro de 1974) e outros dois volumes planejados ainda sem título. Um que vai do início de 1975 a 11 de outubro de 1977 e outro de 12 de outubro de 1977 a 15 de março de 1979. Essa separação corresponde a uma periodização rigorosa, que enfatiza os acontecimentos-chave na cena política nacional pós-1964, com ênfase sobre o comportamento militar, o ―poder militar‖ etc. As qualidades dos livros são mais que evidentes. Destaque-se três aspectos, começando pelo estilo narrativo, que os historiadores profissionais têm deixado de lado. Elio Gaspari definitivamente conta uma história, ainda que faça questão de enfatizar que seu objetivo nunca tenha sido escrever a história da ditadura militar brasileira, pois ―falta ao trabalho a abrangência que o assunto exige, e há nele uma preponderância de dois personagens (Geisel e Golbery) que não corresponde ao peso histórico que tiveram nos 21 anos de regime militar2‖. O apoio empírico do trabalho é notável. O autor pôde consultar, juntamente com a série de documentos textuais (cerca de 4 mil) do governo Geisel depositados no CPDOC/FGV e de acesso público, um conjunto de fontes exclusivas: o arquivo privado do general Golbery do Couto e Silva (cerca de cinco mil documentos); entrevistas (cerca de vinte) com o general Ernesto Geisel entre 1984 e 1996 (das quais só foram recuperadas 3

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doze gravações em fita cassete); o Diário de Heitor Ferreira (dezessete cadernos), assistente de Golbery no SNI (1964-1967), secretário de Geisel na Petrobrás e na Presidência da República (1971-1979) com suas notas e observações entre 1964 e 19763; gravações secretas (cento e vinte fitas cassete com cerca de duzentas e vinte horas) de conversas entre o general Geisel e seus colaboradores feitas entre outubro de 1973 e março de 1974 4, além de uma série de entrevistas com personalidades políticas (civis e militares) do regime militar e da oposição liberal e de esquerda (PCB), que somavam aproximadamente cerca de 200 pessoas5.    A narração dos acontecimentos políticos, do golpe de Estado, em 1964, à extinção do Ato Institucional n. 5, em 1979, comporta, evidentemente, uma interpretação do seu sentido e das relações causais entre eles. De resto, não foi outra coisa que o autor sugeriu quando expôs seu objetivo – ―O propósito era simples: tratava-se de explicar por que os generais Ernesto Geisel (o Sacerdote) e Golbery do Couto e Silva (o Feiticeiro), tendo ajudado a construir a ditadura entre 1964 e 1967, desmontaram-na entre 1974 e 1979‖6 – e a tese a ser sustentada: ―Para quem quiser cortar caminho na busca do motivo por que Geisel e Golbery desmontaram a ditadura, a resposta é simples, porque o regime militar, outorgando-se o monopólio da ordem, era uma grande bagunça‖7. Há, nesses dois enunciados, três proposições ―teóricas‖, ainda que implícitas, que poderiam ser evidenciadas: a que informa a concepção de poder subjacente a esse tipo de interpretação histórica; a que descreve uma certa modalidade de relação entre o(s) ator(es) individual(ais) e a estrutura político-institucional; e a que representa, segundo um entendimento específico, a forma ―disfuncional‖ de funcionamento das instituições do Estado nos regimes políticos de exceção. O que se pretende neste paper é sugerir as dificuldades que relevam dessa concepção implícita de poder e examinar certos pressupostos da apresentação (e explicação) do processo histórico concreto. Pode-se assim, por essa via, chamar a atenção para seus efeitos potenciais sobre o trabalho dos especialistas em Ciência Política, Sociologia Política e História Política. Na impossibilidade de desenvolver os argumentos em todas as suas dimensões vou limitar-me a apresentação de três hipóteses de leitura: 1. a concepção de ―poder‖ – o poder do general Geisel; o poder do general Golbery – é relacional: poder é igual à capacidade de impor a sua vontade a outros agentes sociais; e subjetivista: o poder só existe se exercido conscientemente por um

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indivíduo; já a verificação dessa ―capacidade‖ é substancialista, ou seja, poder é igual à posse de um dado recurso (institucional), que é a fonte mesma desse poder: no caso, a Presidência da República; 2. contraditoriamente, foi o autoritarismo pessoal do Presidente da República (essencialmente um traço de personalidade e uma visão de mundo) que se tornou o substituto prático daquilo que a estrutura organizacional da ―administração pública‖ e, no seu interior a Presidência, viu-se incapaz de prover: a coordenação do conjunto dos aparelhos do Estado e a barragem das tendências autonomistas, centrífugas, descentralizadoras etc. que caracterizaram seu funcionamento; 3. a (des)organização interna do sistema institucional dos aparelhos do Estado ditatorial-militar – problema esse que está na raiz da autonomia relativa de certos ramos, (principalmente aqueles ligados à ―repressão‖), e que é a expressão da concorrência intensa entre as várias facções internas das cúpulas das Forças Armadas, numa palavra: o ―caos‖, – é a forma regular de inter-relação das ―partes‖ do Estado num regime ditatorial-militar8;    A fim de proceder a uma análise mais rigorosa do conteúdo do projeto e dos pressupostos da investigação, interpretação e apresentação dos resultados da pesquisa sobre os quatro governos militares, considere-se três passagens. Elas ilustram a terceira hipótese de leitura que propus para o entendimento do trabalho de Gaspari: Após o ―Ato Institucional n. 5 [...] a ditadura envergonhada foi substituída por um regime a um só tempo anárquico nos quartéis e violento nas prisões‖. A ―tortura e a coerção política dominaram o período. A tortura envenenou a conduta dos encarregados da segurança pública, desvirtuou a atividade dos militares da época, e impôs constrangimentos, limites e fantasias aos próprios governos ditatoriais‖9. ―Os dois generais [Geisel e Golbery] voltaram ao poder no dia 15 de março de 1974. Tinham o propósito de desmontar a ditadura radicalizada desde 1968, com a edição do Ato Institucional n. 5. Queriam restabelecer a racionalidade e a ordem. Geisel‖, em particular ―[...] queria mudar porque tinha a convicção de que faltavam ao regime brasileiro estrutura e força para se perpetuar‖10.

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―Geisel restabeleceu o primado da presidência republicana sobre os comandantes militares, que, desde 1964, viam o presidente como um delegado da desordem a que denominavam ‘Revolução’‖11. Na série das muitas reportagens, resenhas e comentários sobre os dois primeiros tomos, somente Heloisa Starling enfatizou o que nos parece o argumento do Autor. Segundo ela, Gaspari apresenta ―as características peculiares do sistema de poder instaurado a partir do golpe de 1964 por uma coalizão de forças militares que assume o controle do Estado – um Estado, na aparência, muito forte, principalmente em razão de sua capacidade de proceder continuamente ao alargamento dos instrumentos de arbítrio e de violência. Nos termos sugeridos por Gaspari, porém, esse era também um Estado atravessado por uma situação estrutural de constante instabilidade interna – instabilidade que provém de dentro do núcleo de poder, reduz sistematicamente a capacidade de comando do governo já desde o início da Presidência do general Castello Branco‖. A fragilidade do ―regime autoritário‖ acaba por impactar ―a sociedade brasileira na forma de terrorismo, corrupção e barbárie‖. Ou, por outra, ―os ciclos mais intensos de expansão da violência do autoritarismo não projetaram a força do Estado sobre a sociedade; ao contrário, projetaram sua debilidade ou, mais exatamente, projetaram a decomposição de suas funções corroídas pela condição de instabilidade interna constante‖12. Mas essa oposição entre um Estado ao mesmo tempo ―forte‖, em função do aumento da sua capacidade repressiva, e um Estado ―fraco‖, em função da instabilidade interna que o caracteriza, e que impede a institucionalização de um regime autoritário em bases ―normais‖ (isto é, sem o recurso constante ao ―terrorismo, corrupção e barbárie‖), e que por isso mesmo também bloqueia ou inibe a criação de mecanismos institucionais para o controle dos aparelhos responsáveis pelo ―terrorismo, corrupção e barbárie‖, é puramente descritiva e de resto responsável pelo engano essencial que induz à conclusão polêmica do autor: a única saída para esse impasse seria a intervenção do ―homem providencial‖ (Ernesto Geisel) que, através da adoção de um estilo fechado e autocrático de administração, poderia promover a concentração do poder e a centralização do processo decisório nas suas várias instâncias.

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Na verdade, se o progressivo enfraquecimento das capacidades de iniciativa, coordenação e decisão do Estado ditatorial-militar é a causa do aumento da repressão e da tortura, ele é, por seu turno, o resultado necessário do modo próprio de organização do sistema institucional dos aparelhos do Estado brasileiro sob o regime de exceção – e não uma manifestação superficial da anarquia, da irracionalidade e da desordem. Nicos Poulantzas estipulou os traços gerais da forma de Estado/forma de regime de exceção e, no seu interior, os traços específicos da forma de Estado/forma de regime ditatorial-militar13. Em resumo, trata-se de um Estado em crise permanente. Paradoxalmente, a intensificação das contradições internas do Estado – que se cristalizam e se fixam em incontáveis clãs e facções que se eliminam mutuamente – se dá no quadro da estruturação hierarquizada, centralizada e unitária própria às forças armadas, convertidas em aparelho dominante do sistema estatal. O locus dessa luta política (o ―caos‖ que reina no ―Estado militar‖) deve-se, em primeiro plano, à eliminação ou proibição das organizações políticas tradicionais – partidos, associações etc. – e a transferência desse papel de representação para as cúpulas das forças armadas. A forma das contradições internas que atravessam esse Estado deve-se, por sua vez, ao arranjo institucional e às suas características específicas. Há um reforço considerável do centralismo burocrático do Estado, graças à transferência do papel dominante, entre os seus aparelhos, ao aparelho repressivo (as Forças Armadas em primeiro plano). Isso implicará na extrema rigidez hierarquização e superposição dos centros de poder real no seio do Estado e no paralelismo entre seus ramos. A ―ossatura e seu cimento interno, ideológico e repressivo‖, do Estado ditatorial-militar ―estão fundados sobre uma partilha bastante delicada entre clãs e facções, entre ramos e aparelhos prodigiosamente emaranhados, superpostos e [mal] hierarquizados nas suas funções e esferas de competência‖. Esse Estado passa assim a ser ―organizado em ‗feudos‘ cujas relações carecem de flexibilidade‖. Ora, ―é precisamente essa organização do Estado de exceção que [...] permite a autonomização relativa particular, sobre uma base de poder próprio, de diversas facções e clãs, onde alguns, defendendo seus privilégios, podem constantemente obstaculizar as tentativas eventuais de outras facções para ‗normalizar‘ e ‗fazer evoluir‘ o regime‖14. Desse ponto de vista, não é estranho a ocorrência de processos de acumulação e de condensação das contradições existentes no seio dos aparelhos do Estado dos regimes de ditadura militar. Sob a centralização institucional do poder, as contradições de classe, as contradições entre os diversos interesses corporativos dos membros de cada aparelho, as 7

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contradições entre os sub-sistemas ideológicos internos que marcam cada um deles, cristalizam-se em contradições muito importantes entre os diversos aparelhos. A essas contradições juntam-se as internas a cada aparelho15. Olhados mais de perto esses processos derivam, a nosso ver, de três fontes específicas: 1. da ausência característica de centros (políticos/burocráticos) de coesão inter-aparelhos que enfeixem o sistema estatal e confiram a ele uma direção política única; 2. da falta de uma ideologia unificadora que permita a coesão políticoideológica entre os diversos aparelhos que compõem o sistema estatal16; 3. da inconsistência de regras claras e explícitas para a circulação/transferência do poder político entre as várias facções militares presentes no sistema estatal17. Portanto, a consideração dessas três fontes de crise, fontes essas que derivam da estrutura organizacional particular do sistema institucional dos aparelhos do Estado num regime ditatorial-militar, põem em evidência a natureza estrutural e não-contingente do seu caráter ―anárquico‖, além de permitir ler os outros dois problemas – a natureza do ―poder‖ e a questão do ―poder pessoal‖ – em nova chave interpretativa.

Notas
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A ditadura escancarada, p. 14.

A ditadura envergonhada, p. 20. Mesmo essa auto-avaliação não parece ser tranqüila: ―Não há dúvida de que esses cinco volumes não pretendem contar a história da ditadura como Jules Michelet escreveu a história da Revolução Francesa [ ! ], mas sua narração não se limita aos jogos de Geisel e de Golbery, pois, conforme seu contexto vai se ampliando, o vasto panorama resulta num modelo de Histoire événementielle, dessa história que se dedica à narração cuidadosa dos acontecimentos‖. José Arthur Giannotti, Elio Gaspari faz história, op. cit., grifos meus. Aí ―está o mais minucioso e surpreendente retrato do poder já feito em toda a história do Brasil‖ (A ditadura envergonhada, p. 15);
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A lista de fontes consta de A ditadura derrotada, p. 16-17. O critério adotado para o uso da documentação (citações) foi o seguinte: só se reproduziu comentários de natureza pessoal sobre personagens públicos quando envolviam questões políticas. Cf. A ditadura derrotada, p. 18. Gaspari especula as razões da preservação desse material e, surpreendentemente, conclui que foi exatamente ―‗porque [seus proprietários] desejavam preservar o registro histórico de suas atividades públicas‖ (A ditadura envergonhada, p. 16). Para uma crítica da forma de interpretação dessas fontes (a ―monumentalização‖ (Jacques LeGoff) documentação), v. NAPOLITANO, Marcos. Historiografia, memória e história sobre o regime militar brasileiro. Trabalho apresentado na VII International Conference of the Brazilian Studies Association (BRASA). Pontifícia Universidade Católica. Rio de Janeiro, RJ. Junho 9-12, 2004.
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A ditadura envergonhada, p. 16.

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A ditadura envergonhada, p. 13. Na série de resenhas que se seguiu à publicação dos dois primeiros volumes houve uma predisposição dos analistas em descobrir e julgar mais as intenções do autor do que o sentido mais geral do projeto. Assim é que, para comprovar o que se quer dizer, é suficiente avaliar os julgamentos referidos a um aspecto particular de todo o trabalho: qual a imagem projetada do general Geisel para a posteridade? E, nessa linha, qual o peso real das suas convicções, das suas ações e das suas omissões no processo de ―abertura‖? Diante da primeira questão há duas interpretações opostas. Para ficar em poucos exemplos: Marcelo Ridenti (Gaspari demonstra o sabido sempre negado. Folha de S. Paulo, 15 nov. 2003, p. E3.) e Mario Maestri e Mário Augusto Jakobskind (A historiografia envergonhada. http://www.espacoacademico.com.br/024/24res_gaspari.htm. Acesso em: 15 maio 2004) sublinharam a simpatia do autor diante da sua personagem; Janio de Freitas (Passados esquecidos. Folha de S. Paulo, 30 nov. 2003, p. A5) e Mario Sérgio Conti (A tristeza de ―A ditadura derrotada‖. http://nominimo.ibest.com.br. 11 nov. 2003. Acesso em: 15 maio 2004) enfatizaram, ao contrário, que, todas as contas feitas, a exposição da posição do general Geisel diante da tortura (como prática e enquanto ―sistema‖) revela, graças às transcrições feitas, um Geisel mais sombrio que virtuoso. Mario Sérgio Conti lembrou a ironia de Delfim Netto diante daqueles ―que se surpreenderam com a demonstração categórica de que Geisel apoiava a tortura e o assassinato de opositores, bem como o desaparecimento dos seus cadáveres. ‗Ah, eu pensei que ele era um democrata‘, disse Delfim‖ (ibid.). ―A imagem difundida de Geisel, antes ainda de ser ‗candidato‘ à sucessão de Médici, era a de homem de princípios respeitáveis e rígidos. Os modos prussianos e seu silêncio favoreceram a construção da imagem. Mas, sobretudo, consolidou-a depois da posse a crônica política da época, por sua parte principal: tudo era interpretado como indicação de sentimentos e objetivos democráticos, humanitários e éticos de Geisel, em contraposição à arbitrariedade geral em vigor desde 64. [...] esta versão, intocada até aqui, não resiste às transcrições feitas em A Ditadura Derrotada. [...] Geisel enfim se torna portador do espírito antidemocrático (e pior do que isso) que iniciou a ‗lenta, gradual e segura distensão‘ tangido por circunstâncias mais fortes do que sua prepotência‖ (Janio de Freitas, ibid.). Sobre este ponto em especial, v. a ascendência das preferências de Golbery (o ―Feiticeiro‖) sobre o ―Sacerdote‖ no andamento da política de liberalização controlada do regime ditatorial-militar em: Plínio Fraga, Escritos do Feiticeiro. Folha de S. Paulo, 5 nov. 2003, p. E7; e Mino Carta, Deus, perdoai-o, não sabia o que fazia. CartaCapital, Ano IX, n. 218, 4 dez. 2002. Para o último, já a leitura do Ernesto Geisel (op. cit.) demonstrava ―que o protagonista não teve o mais pálido entendimento quanto ao projeto traçado pelo conselheiro-mor, Golbery do Couto e Silva‖ (ibid.)
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A ditadura envergonhada, p. 41, grifos meus. Para o coronel Jarbas Passarinho, note-se, a finalidade do projeto, junto com seu argumento fundamental, revelam desde logo que a história do regime não é apenas contada destacando dois personagens (Geisel e Golbery). É contada em função do ponto de vista do grupo políticomilitar que representavam nas Forças Armadas. ―Pergunta: O senhor tem sérias restrições aos livros do jornalista Élio Gaspari (da coleção "As Ilusões Armadas", sobre o golpe de 1964). A visão é equivocada? Resposta: Não, é altamente facciosa, porque se baseou em cinco mil documentos que Golbery (general Golbery do Couto e Silva) deu a ele. P.: O senhor leu os livros? R.: Vinte páginas. Os documentos do Golbery eram para denegrir Costa e Silva, Médici etc. P.: Mas os livros foram elogiados. R.: Eu sou a voz de uma grande parcela do exército que não tem espaço. P.: O senhor usou a expressão facciosa. R.: Sim, facciosa. Quem lê a história dele, lê segundo Golbery. Gostaria que lesse segundo todos‖. Fernando Rodrigues, Março de 1964 – Entrevista: Jarbas Passarinho. Jornal de Brasília, 28 mar. 2003.
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Marcelo Ridenti, ainda que não tenha desenvolvido o argumento, chamou a atenção para esse aspecto em: A ditadura em questão: 40 anos do movimento de 1964 revisitados por Gaspari. Trabalho apresentado na VII International Conference of the Brazilian Studies Association (BRASA). Pontifícia Universidade Católica. Rio de Janeiro, RJ. Junho 9-12, 2004.
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A ditadura escancarada, p. 14, grifos meus. A ditadura derrotada, p. 15, grifos meus.

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A ditadura derrotada, p. 16, grifos meus. Os mecanismos que permitiram ao presidente Geisel atingir seus objetivos estratégicos serão contados no quarto volume da série.
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Heloisa Starling, Rastros do regime militar. Folha de S. Paulo, Jornal de Resenhas, 10 maio 2003, p. EspecialCf. POULANTZAS, Nicos. La crise des dictatures. Portugal, Grèce, Espagne. Paris: Seuil, s/d.

8.
13 14

Id., ibid., respectivamente p. 35, 107, 55 e 109. As citações textuais são da p. 109. Para uma visão mais sistemática, cf. em especial o cap. V: Les Appareils d'Etat.
15

Id., ibid., p. 146.

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No fascismo, o partido é o aparelho unificador da aparelhagem institucional. A ideologia fascista encarregase de cimentar a coesão dos diversos aparelhos, os quais ela impregna profundamente. Sobre a base desta ideologia, os regimes fascistas erigem um aparelho – o partido fascista – que, além de seu papel frente às massas populares, funciona também como o aparelho que ―solda‖ os outros mantendo sua coesão. Id., ibid., p. 145.
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João Roberto Martins Filho ressalta que o regime ditatorial ficou marcado, desde o início, por uma dinâmica política bastante peculiar: unidade castrense frente o mundo político, dependência civil diante dos militares e impotência paisana face ao avanço do processo de militarização dos mecanismos de representação política e das arenas decisórias estratégicas. Nesse movimento, já estariam presentes dois processos intramilitares que se constituiriam em fatores permanentes de crise no regime militar e iriam configurar sua dinâmica particular: 1) o surgimento precoce de tensões na oficialidade em torno do problema da sucessão presidencial; e 2) a quase imediata aparição de tensões na caserna diante da melhor forma de participação política dos militares no governo. Cf. O palácio e a caserna: a dinâmica militar das crises políticas na ditadura (1964-1969). São Carlos, Editora da UFSCar, 1995, p. 52-53.
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