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DEUS O CRIADOR
WILLIAM LANE CRAIG
Entrevistado por Robert Lawrence Kuhn

RLK: Bill, nós sempre ouvimos que Deus é o Criador. Okey, soa simples. Mas, o que é a Criação? O que é o mundo? Não é tão simples como as pessoas pensam. WLC: Eu acho que a Doutrina da Criação significa que Deus é a fonte de toda realidade fora dEle mesmo. Que, fora de Deus, todo o resto foi trazido à existência por Deus. RLK: O que é "todo o resto"? WLC: Bem, isso incluiria toda realidade. Todos os domínios de realidade que você achar que existem. Seriam todos objetos físicos e concretos, o próprio tempo e o espaço, seriam quaisquer domínios de realidade espiritual que você ache que existe, como anjos e outros seres espirituais, e incluiria qualquer tipo de objetos abstratos, se você acha que essas coisas existem. RLK: Como os matemáticos... 2+2=4 WLC: Conjuntos, números, proposições e assim por diante. Tudo o que existir, que não for o próprio Deus, foi trazido à existência por Deus. RLK: E coisas como Causalidade ou Lógica, operações de idéias? WLC: Eu veria coisas como a Lógica como baseadas na própria mente de Deus. O Evangelho de João refere-se a Deus como o LOGOS, de onde temos a palavra "Lógica". Significa "Razão" ou "Palavra". E ele apresenta Deus como o Criador de todas as coisas, dizendo: “No princípio, era o Logos, o Logos estava com Deus, o Logos era Deus. Todas as coisas foram trazidas à existência por Ele e, sem Ele, nada veio a existir.” Então, a idéia ali é que Deus é o agente

lógico supremo. E a Lógica, como a usamos, é simplesmente uma reflexão da mente do próprio Deus. RLK: Então, Deus é responsável por tudo o que existe além dEle. E isso é um vasto número de coisas que podemos conceber ou não. WLC: Bem, é tudo aquilo que EXISTE. Existem, de certa forma, entidades ficcionais, como Sherlock Holmes. Eu não acho que Sherlock Holmes existe. Esse é um personagem fictício. Então Deus não traz Sherlock Holmes à existência. A menos que você pense que Sherlock Holmes é um objeto abstrato, como alguns filósofos pensam. Então, tudo o que existe deve sua existência a Deus e, eu diria, foi trazido à existência por Deus em um tempo específico, o que significa que a Criação, o mundo, a realidade fora de Deus, nem sempre existiu. Eu acho que muitos não entendem que a idéia de Criação está ligada a considerações temporais. Essas coisas não só dependem de Deus para existir, mas foram trazidas à existência por Deus. RLK: Você diferencia criação, providência, milagres, diferentes tipos de Criação. Ajude-me a entender a diferença. WLC: Sim, essa é uma distinção tradicional que os teólogos têm feito com respeito às relações de Deus com a realidade fora de Deus. Por um lado, a criação propriamente dita é definida como trazer coisas à existência do nada. Deus é a causa eficiente de tudo o que existe. Ou seja, Ele produziu, trouxe à existência. Mas, Ele não é a causa material, não é o material de que as coisas são feitas. Deus não só criou as coisas, Ele criou o material do que elas são feitas. Espaço, tempo, matéria e energia, tudo isso deve sua existência a Deus. E Ele os trouxe à existência em um ponto no passado finito. Agora, em adição a esse ato inicial de Criação, os teólogos têm falado de Deus conservar o mundo existindo, ou seja... RLK: Mantê-lo andando! WLC: Sim! Ele preserva a sua existência! E, se Ele retirasse Seu poder conservador, o mundo seria aniquilado, desapareceria num piscar de olhos! RLK: Isso não parece necessariamente verdade. Você pode ser um Criador, criar algo e não precisar mantê-lo existindo. WLC: Bem, eu acho que essa é toda a discussão. Se, depois da Criação inicial das coisas por Deus, as coisas têm alguma habilidade de existir por si mesmas. Tipicamente, pelo menos na teologia cristã, têm sido argumentado que as coisas são radicalmente contingentes em sua existência e que, por isso, precisam ter sua existência preservada. Então, o polo oposto da Criação é a Aniquilação. E Deus poderia criar coisas, trazendo-as à existência, e poderia aniquilá-las simplesmente retirando Seu poder sustentador e conservador. E elas desapareceriam na não-existência.

RLK: A distinção é que, para Deus aniquilar o que Ele criou, Ele precisa retirar Sua ação preservadora, em oposição a tomar uma decisão afirmativa de aniquilar. WLC: Sim, está certo. O ato de aniquilar um objeto não é como dinamitá-lo ou algo assim. É uma ação mais passiva, é apenas parar de mantê-lo. RLK: Essa distinção é importante? WLC: Yeah... Hmm... "É importante?" Me tirou o chão... RLK: Que bom! Eu gosto de fazer isso! WLC: …

RLK: A diferença entre Deus fazer uma decisão afirmativa de aniquilar, o que significa que o mundo que Ele criou tem uma existência independente dEle, ou se Deus apenas retira sua sustentação ativa do mundo. WLC: Eu acho que, pensando na aniquilação como a retirada do poder sustentador de Deus, em vez de um ato ativo de destruição, isso destaca a dependência do mundo de Deus de uma forma que exalta o poder a majestade de Deus. Ao passo que, se o mundo tivesse uma inércia positiva para existir por si mesmo, exigindo que Deus o explodisse para não existir mais, isso tenderia a fazer o mundo menos contingente de Deus, mais independente de Deus. E, assim, poderia diminuir a grandeza e o poder de Deus. Então, nesse sentido, isso talvez destaque uma diferença importante. RLK: Mas isso não é apenas uma intervenção ou imaginação humana de como seria melhor, nós não temos nenhum conhecimento real de como Deus está fazendo isso? WLC: Bem, a questão seria, "qual análise filosófica é a melhor?" E eu acho que aqueles que argumentam a favor da conservação divina diriam que o status de Deus como Criador e fonte de toda existência exigiria que Ele mantivesse as coisas, em vez de pensar que essas coisas teriam alguma habilidade de existir por si mesmas. RLK: O conceito do envolvimento de Deus com o mundo, essa idéia da Providência de Deus... Como isso se relaciona a Deus como o Criador? Eu acho que isso significa que Deus está envolvido em tudo o que acontece no mundo. E nós podemos distinguir, dentro da Providência de Deus, ou "controle do mundo"... (é isso o que Providência significa: é Deus supervisionar tudo o que acontece no mundo) Nós podemos distinguir entre a Providência Ordinária e a Providência Extraordinária de Deus. Sua Providência Ordinária seria Seu governo do mundo através da instrumentalidade de causas naturais e leis naturais.

RLK: Nas quais Deus está envolvido, como Sua causa primária. WLC: Isso mesmo. Ele não deixa de estar envolvido, mas é uma atividade puramente natural. E, então, Sua Providência Extraordinária seria Deus realizar eventos que estão além da capacidade produtiva de causas naturais. A isso chamamos "milagres". RLK: E você acredita neles? WLC: Sim, eu acho que está bem claro que, se você tem o conceito de um Criador e Designer do Universo, que decidiu quais leis naturais governam o mundo, que elas estão sob Seu poder e, por isso, esse ser transcendental poderia facilmente produzir eventos no mundo natural que estão além da capacidade de causas naturais. RLK: Eu acho que qualquer um concorda com a lógica disso, mas o argumento seria, "isso significa que há alguma imperfeição com a forma como Deus fez a lei natural, se Ele tem que intervir para mudar essa lei natural?" WLC: Bem, eu não acho que devemos pensar nos milagres como mudanças nas leis naturais. As leis naturais descrevem o que acontecerá se não houver outros fatores interferindo. Elas são idealizações do que acontecerá sob condições ideais, sem a intervenção de um agente natural ou sobrenatural. Então, um milagre não deveria ser concebido como quebrar a lei natural. Acho que esse é um conceito impróprio da lei natural, bem como psicologicamente preconceituoso. Conota uma espécie de estupro divino da mãe natureza, sabe? Assim como violar a lei civil, um milagre seria uma violação da lei natural. RLK: Como você define "milagre"? WLC: Um milagre é um evento que ocorre estando fora das capacidades produtivas das causas naturais daquele tempo e lugar. RLK: Você parece um bom advogado dizendo a mesma coisa. WLC: Não, não é, porque eu não estou dizendo que Ele quebra as leis naturais, elas continuam. Mas Deus é capaz de produzir eventos que as causas naturais não são capazes de produzir. Está além do poder delas produzi-lo, mas obviamente não está além do poder de Deus. E, se existe um Criador transcendental, um milagre seria brincadeira de criança para esse ser! RLK: Ninguém duvida da lógica disso. Eu apenas fico pensando em porque Deus tem que projetar um sistema que Ele precisa cutucar para mudar estruturas moleculares aqui e ali. Não fluiria melhor se fosse melhor projetado desde o começo?

WLC: Eu acho que é muito importante entender o propósito dos milagres. Os milagres não existem como ajustes do mundo natural, para retificar imperfeições. Os milagres são revelatórios. Eles são eventos extraordinários que servem como sinais que apontam além do mundo natural para a sua fonte em um Criador sobrenatural. Então, por exemplo, quando Jesus de Nazaré realizou milagres, eles os apresentou como sinais do reino vindouro de Deus em Sua pessoa. Então, os seus milagres não serviam como ajustes em uma máquina funcionando mal. Eles eram revelatórios, eram sinais de que o reino de Deus surgia na história humana nesse ponto. RLK: Porque eu nunca vi um? WLC: Bem, talvez não tenha procurado nos lugares certos. RLK: Eu vim a você! WLC: Certo, eu acho que Deus ainda faz milagres hoje... RLK: Só não se importa comigo. WLC: Bem, não, Ele se importa com você! Isso está indo a um nível bem pessoal... Eu acho que Deus pode fazer milagres hoje nas vidas das pessoas. Mas eu também acho, e isso volta a essa área da Providência Ordinária, que Deus pode operar na sua vida e responder suas orações, sem ter que realizar milagres, através da Sua Providência Ordinária. E a chave aqui é lembrar que Deus, como um ser Onisciente, saberia o que qualquer pessoa livremente faria em qualquer conjunto de situações em que Ele a criasse. De forma que, Deus pode arranjar que coisas aconteçam no mundo sem intervir miraculosamente apenas preparando anteriormente as circunstâncias e agentes de forma que, chegando a hora, os eventos relevantes ocorrerão, talvez em resposta a uma oração, ou algo assim, sem nenhum tipo de intervenção miraculosa. Então, não precisamos ficar procurando por milagres para ver a mão providencial de Deus na história. Ele pode operar através das causas secundárias, conhecendo quais eventos contingentes ocorrerão em qualquer situação em que Ele puser as pessoas. RLK: Eu acho interessante como o conceito de Deus como Criador tem uma multiplicidade de expressões. Da Criação do mundo do nada à sua sustentação de um modo normal. À intervenção, ou ao arranjo de milagres para propósitos específicos. Potencialmente, se alguém acredita nisso. Então, o conceito de Deus como Criador é bem rico. WLC: Realmente, é mais do que apenas trazer coisas à existência. É o ato inicial da Criação do mundo a partir do nada, de toda realidade exterior a Deus. É manter o mundo existindo, é coincidir com as ações de agentes secundários para produzir seus efeitos. É a Sua Providência Ordinária de, pela Sua Onisciência, governar o mundo de criaturas para atingir Seus fins. E, então, é a Sua operação miraculosa no mundo, além da capacidade natural de causas espaço-

temporais de realizar eventos que não aconteceriam na ausência das ações especiais de Deus. Então, é uma doutrina bastante rica e variada. RLK: Me parece um trabalho pesado. WLC: Sim! Mas, para um ser Onipotente, não é algo que Ele não possa realizar eficientemente.