Jürgen Habermas

C O N H E C I M E N T O E INTERESSE com um novo posfácio

Introdução
JOSÉ N.

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Tradução
H E C K

Revisão
GUSTAVO

dc

Texto

BAYJER

Escola ds Ad.nlnlstroçS© % 8I8LIUTÉCA

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EDITORES

RIO

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JANEIRO

T í t u l o original:

Erkenntnis und Interesse

T r a d u ç ã o autorizada da segunda edição alemã, publicada em 1973 por Suhrkamp Verlag, Frankfurt Alemanha Ocidental. Copyright © by Suhrkamp Verlag, 1968, 1971 e 1973.

am M a i n ,

Frankfurt am Main,

Todos os direitos reservados. A r e p r o d u ç ã o não autorizada desta p u b l i c a ç ã o , no todo ou em parte, constitui violação d o copyright. ( L e i 5.988) Edição para o Brasil. ao Capa: L u i z Stein

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(1930-1964) amigo inesquecível

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1982 Direitos para a edição brasileira adquiridos por Z A H A R EDITORES S.A. Caixa Postal 207 (ZC-00) R i o que se reservam a propriedade desta versão Impresso no Brasil

ÍNDICE

Introdução Prefácio I A Crise da Crítica do Conhecimento

1. Crítica de Hegel a Kant: radicalização ou supressão da teoria do conhecimento 2. Metacrítica de Marx a Hegel: síntese mediante trabalho social 3. A idéia de uma teoria do conhecimento como teoria da sociedade II Positivismo, Pragmatismo e Historismo 4. 5. Comte e Mach: a i n t e n ç ã o do antigo positivismo A lógica da pesquisa de C h . S. Pierce: a aporia de um renovado realismo l ó g i c o - s e m â n t i c o dos universais Auto-reflexão das ciências da natureza: a crítica pragmatista do sentido Teoria da compreensão expressiva de Dilthey: eu-identidade e c o m u n i c a ç ã o semântica Auto-reflexão das ciências do espírito: a crítica histórica do sentido

6. 7. 8.

8

ÍNDICE

III

C r í t i c a como Unidade de Conhecimento e Interesse 9. R a z ã o e interesse: retrospecção — Kant e Fichte 10. Auto-reflexão como ciência: a crítica psicanalítica do sentido em Freud 11. O auto-eqiiívoco cientificista da metapsicologia. A lógica da interpretação genéxico-universal 12. Psicanálise e teoria societária. A r e d u ç ã o dos interesses do conhecimento em Nietzsche

INTRODUÇÃO

Posfácio (1973)
B i b l i o g r a f i a

O nome Habermas dispensa, por certo, a p r e s e n t a ç ã o . Sua proximidade com os conhecidos representantes da E s c o l a de Frank¬ furt bem como a ampla r e p e r c u s s ã o de seus livros em inglês e francês e a t r a d u ç ã o de alguns de seus textos tornaram seu pen¬ samento acessível no B r a s i l . Se, assim mesmo, me decidi a uma breve i n t r o d u ç ã o foi para chamar a a t e n ç ã o do leitor para certas peculiaridades de Conhecimento e interesse, O p r ó p r i o autor achou oportuno acrescentar à e d i ç ã o de 1973 um posfácio, relativamente extenso, onde comenta aspectos controverti¬ dos de sua obra. Na esperança de, talvez, facilitar a leitura do livro e poder contribuir para sua c o m p r e e n s ã o , antecipo t r ê s paradoxos que, em meu entender, traspassam a a r g u m e n t a ç ã o do texto.
1

I

O nexo teoria-práxis
A t e n s ã o conceituai deste b i n ô m i o , genuinamente marxista, Habermas a herdou da Escola de Frankfurt. Esta promovera, respeitadas as diferenças entre Horkheimer, A d o r n o e Marcuse,
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1

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Cf. a excelente i n t r o d u ç ã o de Barbara Freitag e S é r g i o P. Rouanet. In Habermas, S ã o Paulo, Editora Á t i c a , 1980, p, 9-67. S L A T E R , Ph.: Origem e significado' da Escola de Frankfurt, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1978.

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Gadamer analisa essa recaída no objetivismo de forma excepcional; de qualquer maneira n ã o sou de o p i n i ã o que o possamos cm base de um d i v ó r c i o entre c i ê n c i a e filosofia vitalista. entender

174) 175) 176) 177) 178) 179) 180) 181) 182) 183) 184)

V I I , p. 213 et seqs. VII, p. 204. V , p. 317. VII, p. 219. VII, p. 213. Ibidem VII, p. 146. I, 49/51 et seqs. V , p. 258. Cf. meu ensaio " Z u r Logik der Sozialwissenschaften", op. cit., cap. III, p. VII, p. 95 et seqs. ; 188 (as n o í a s entre p a r ê n t e s e s s ã o do autor).

III

CRÍTICA C O M O U N I D A D E DE C O N H E C I M E N T O E INTERESSE

A r e d u ç ã o da teoria do conhecimento à teoria da ciência, a qual o positivismo mais antigo encenou pela primeira vez, foi inter¬ ceptada por uma contracorrente que tem em Pierce e D i l t h e y seus p r ó c e r c s mais exemplares. M a s a a u t o - r e f l e x ã o das c i ê n c i a s da natureza c do e s p í r i t o apenas sustou, mas n ã o interrompeu a mar¬ cha vitoriosa do positivismo. Assim se explica por que os inte¬ resses orientadores do conhecimento, uma vez descobertos, pude¬ ram logo mais ser identificados como mal-entendidos p s i c o l ó g i c o s e sucumbir à crítica do psicologismo; o positivismo mais recente foi instaurado sobre os fundamentos desta crítica na forma de um empirismo l ó g i c o e determina, até boje, a a u t o c o m p r e e n s ã o cientificista das ciências. Pela r e c o r r ê n c i a ao conceito do interesse da razão em K a n t , e sobretudo em Fichte, é p o s s í v e l clarear a c o n e x ã o entre conhe¬ cimento e interesse, descoberta metodologicamente, e p r e s e r v á - l a frente às i n t e r p r e t a ç õ e s e r r ô n e a s . Verdade c que uma mera son¬ dagem h i s t ó r i c a junto à filosofia da r e f l e x ã o n ã o é capaz de rea¬ bilitar a dimensão da auto-reflexão. É por isso que o exemplo da p s i c a n á l i s e nos irá servir de d e m o n s t r a ç ã o para o fato desta d i m e n s ã o irromper no seio do p r ó p r i o positivismo: Freud elabo¬ rou uma moldura interpretativa para processos de f o r m a ç ã o , per¬ turbados e obliterados, os quais podem, a t r a v é s de uma reflexão de o r i e n t a ç ã o t e r a p ê u t i c a , ser conduzidos para vias normais. N ã o

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há d ú v i d a de que ele precisamente n ã o concebeu sua teoria como uma auto-reflexão universal em termos sistemáticos, mas como uma ciência experimental em termos estritos. Freud não formula conscientemente aquilo que separa a psicanálise das ciências que procedem de acordo com m é t o d o s e m p í r i c o - a n a l í t i c o s , nem da¬ quelas que operam exclusivamente segundo critérios hermenêuti¬ cos; ele simplesmente atribui a psicanálise aos domínios da técnica analítica. Esta é a r a z ã o por que a teoria de Freud permanece um bocado que a lógica positivista das ciências, desde então, em vão procura digerir e que o empreendimento behaviorista da pesquisa inutilmente tenta integrar; de fato, p o r é m , a auto-reflexão encober¬ ta, a qual constitui a pedra de e s c â n d a l o da psicanálise, não se torna r e c o n h e c í v e l como tal. Nietzsche é um dos poucos contem¬ p o r â n e o s que unem a sensibilidade para a amplitude das investi¬ gações m e t o d o l ó g i c a s com a capacidade de se movimentar, sem alarde, na d i m e n s ã o da a u t o - r e f l e x ã o . Mas exatamente ele, um d i a l é t i c o do antiiluminismo, faz tudo para denegar, na forma da auto-reflexão, a força da reflexão, abandonando ao psicologismo os interesses orientadores do conhecimento, dos quais, na verda¬ de, ele estava plenamente convencido.

9.

Ramo e interesse: retrospecção — Kant e Fichte

Picrce incentivou a auto-reflexão das ciências naturais, Dilthey a das ciências do e s p í r i t o ; ambos até um ponto em que os interesses orientadores do conhecimento se tornaram p a l p á v e i s . A pesquisa empírico-analítica é a continuação sistemática de um processo cumulativo de aprendizagem, o qual se exerce, ao nível pré-científico, no círculo funcional do agir instrumental. A investigação h e r m e n ê u t i c a dá uma forma m e t ó d i c a a um processo de com¬ p r e e n s ã o entre i n d i v í d u o s (e da c o m p r e e n s ã o de si) que, na fase pré-científica, está integrada em um complexo de tradições, pró¬ prio a i n t e r a ç õ e s medializadas simbolicamente. No primeiro caso trata-se da p r o d u ç ã o de um saber tecnicamente explorável, no segundo, da e l u c i d a ç ã o de um saber praticamente eficaz. A anᬠlise empírica descerra o pano da realidade sob o ponto de vista da disponibilidade técnica possível sobre processos objetivados da natureza, enquanto a h e r m e n ê u t i c a assegura a intersubjetividade de uma c o m p r e e n s ã o entre i n d i v í d u o s , capaz de orientar a a ç ã o (horizontalmente, em vista da i n t e r p r e t a ç ã o de culturas es¬ tranhas, e verticalmente, tendo em vista a a p r o p r i a ç ã o de tradi-

ções p r ó p r i a s ) . As ciências experimentais, em sentido estrito, es¬ tão submetidas às c o n d i ç õ e s transcendentais da atividade instru¬ mental, enquanto as ciências h e r m e n ê u t i c a s operam ao nível de uma atividade própria à c o m u n i c a ç ã o . Em ambos os casos a constelação da linguagem, da atividade e da experiência é basicamente diferente. No c í r c u l o funcional do agir instrumental a realidade consitui-se como q u i n t a - e s s ê n c i a daquilo que, sob o ponto de vista de uma p o s s í v e l disponibilidade técnica, pode ser experimentado: à realidade objetivada em con¬ dições transcendentais corresponde uma e x p e r i ê n c i a restrita. A linguagem dos enunciados e m p í r i c o - a n a l í t i c o s acerca da realidade toma corpo sob as mesmas c o n d i ç õ e s . P r o p o s i ç õ e s t e ó r i c a s fazem parte de uma linguagem formalizada ou, no m í n i m o , passível de f o r m a l i z a ç ã o . De acordo com sua forma l ó g i c a trata-se de cál¬ culos que, por meio de uma m a n i p u l a ç ã o ordenada dos signos, n ó s mesmos produzimos e cada qual pode reconstruir a qualquer momento. Sob as condições de um agir instrumental a linguagem pura constitui-se como q u i n t a - e s s ê n c i a de tais c o n e x õ e s simbóli¬ cas, as quais podem ser engendradas a t r a v é s de um ato o p e r a t ó r i o de acordo com leis estabelecidas. A "linguagem pura" deve-se a uma abstração operada a partir do material desordenado das l i n ¬ guagens ordinárias, tanto quanto a "natureza" objetivada deve-se a uma abstração feita a partir do material c a ó t i c o da e x p e r i ê n c i a cotidiana. U m a e outra, a linguagem restrita, n ã o menos do que a experiência delimitada, são definidas pelo fato de resultarem de o p e r a ç õ e s , sejam essas efetuadas com signos ou com corpos mó¬ veis. A s s i m como o agir instrumental em si, t a m b é m o emprego lingüístico que o integra é m o n o l ó g i c o . E l e assegura às proposi¬ ções teóricas uma coerência s i s t e m á t i c a entre si, e isso de acordo com regras dedutivas cogentes. A função transcendental da ati¬ vidade instrumental é corroborada por processos relativos à arti¬ culação de teoria e experiência: a observação sistemática possui a forma de uma d e m o n s t r a ç ã o experimental (ou quase experi¬ mental), permitindo registrar sucessos de o p e r a ç õ e s m e n s u r á v e i s . Estas tornam possíveis a p r e d i c a ç ã o irreversivelmente u n í v o c a de acontecimentos, constados por v i a operativa, a signos interligados de modo sistemático. Caso ao quadro da pesquisa e m p í r i c o - a n a lítica correspondesse um sujeito transcendental, a medida seria a realização sintética que o caracterizaria de forma mais g e n u í n a . É por isso que apenas uma teoria do medir pode esclareeer as condições de objetividade de um conhecimento possível no sen¬ tido das ciências nomológicas.

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No contexto do agir inerente à comunicação a linguagem e a e x p e r i ê n c i a n ã o se apresentam sob as c o n d i ç õ e s transcendentais da ação enquanto tal. Pelo c o n t r á r i o , uma função transcendental cabe, muito mais, à g r a m á t i c a da linguagem cotidiana, a qual regula, ao mesmo tempo, elementos n ã o - v e r b a i s de uma p r á x i s vital exercida habitualmente. Uma gramática dos jogos de l i n guagem entrelaça símbolos, ações e expressões; ela fixa os esquemas de apreensão da mundividência e da interação. As regras gramaticais definem o terreno de uma fragmentada intersubjetividade entre i n d i v í d u o s socializados; e não podemos engajar-nos nesse plano senão na medida em que internalizamos tais regras — como participantes socializados e n ã o como observadores im¬ parciais. A realidade constitui-se ma moldura de uma forma vital exercitada por grupos que se comunicam e organizada nos termos da linguagem o r d i n á r i a . Nesse sentido é real aquilo que pode ser experimentado de acordo com a i n t e r p r e t a ç ã o de uma simbó¬ l i c a vigente. Nessa medida podemos conceber a realidade sob o ponto de vista da m a n i p u l a ç ã o técnica possível, e apreender a e x p e r i ê n c i a operacional correspondente como sendo um caso l i ¬ mite. Este caso limite possui os seguintes caracteres: a linguagem está dissociada das interações nas quais se encontra engajada e . tende a ser m o n o l ó g i c a ; a atividade está separada da comunica- . ção c reduzida ao ato solitário dc uma u t i l i z a ç ã o dc recursos racionais-finalistas; por fim, a experiência biográfica individuali¬ zada está eliminada cm favor da experiência repetitiva dos su¬ cessos do agir instrumental — cm suma, as c o n d i ç õ e s da ativi¬ dade p r ó p r i a à c o m u n i c a ç ã o encontram-se, precisamente aqui, suprimidas. Se concebermos o quadro transcendental da atividade instrumental desta maneira, como uma v a r i a ç ã o extremada de mundos vitais constituídos pela linguagem o r d i n á r i a (e, mais pre¬ cisamente, como realidade na qual todos os mundos vitais, histo¬ ricamente individualizados, devem chegar a um acordo no abs¬ trato), e n t ã o ficará claro que o modelo da atividade de um agir próprio à comunicação não exerce, para as ciências hermenêu¬ ticas, uma função transcendental e q u i p a r á v e l à q u e l a que o qua¬ dro da atividade instrumental possui para as ciências n o m o l ó g i c a s . Pois, o d o m í n i o do objeto das ciências do espírito n ã o se cons¬ titui exclusivamente nas condições transcendentais da metodolo¬ gia da pesquisa; na verdade, deparamos com ele como algo já c o n s t i t u í d o . As regras de qualquer i n t e r p r e t a ç ã o e s t ã o , por certo, fixadas pelo modelo das i n t e r a ç õ e s mediatizadas por s í m b o l o s uni¬ versais. M a s o i n t é r p r e t e , uma vez socializado em sua linguagem

materna e motivado, em termos genéricos, para o exercício da i n t e r p r e t a ç ã o , n ã o opera em junção de regras transcendentais, mas ao nível dos p r ó p r i o s complexos transcendentais. E l e n ã o pode decifrar o c o n t e ú d o da e x p e r i ê n c i a de um texto, legado por tradid i ç ã o , senão em í n t i m o contato com a constituição transcendental de um mundo do qual ele, enquanto tal, faz parte. Teoria e ex¬ periência n ã o se afirmam aqui, diferentemente do que ocorre nas ciências e m p í r i c o - a n a l í t i c a s , como grandezas separadas. A in¬ t e r p r e t a ç ã o , que precisa entrar em ação no momento em que entra em crise uma e x p e r i ê n c i a comunicativa, comprovada sob os esquemas comuns da a p r e e n s ã o do mundo e da ação, n ã o visa só às experiências adquiridas no seio de um mundo c o n s t i t u í d o pela linguagem o r d i n á r i a , mas t a m b é m às regras gramaticais, correspondentes ao ato-de-constituir o mundo enquanto tal. Esta interpretação é, simultaneamente, análise lingüística e experiên¬ cia. E l a corrige, em c o n s e q ü ê n c i a , suas antecipações h e r m e n ê u ¬ ticas, apoiando-se sobre um consenso de interlocutores, a l c a n ç a d o de acordo com regras gramaticais — t a m b é m nesse sentido ex¬ periência e p e r c e p ç ã o analítica convergem de uma forma toda particular. Pierce e Dilthey desenvolvem a metodologia das ciências da natureza e do espírito como lógica da investigação e concebem, cada qual por sua vez, o processo da pesquisa a partir de um complexo vital objetivo, seja este entendido como técnica ou como práxis da vida. A lógica da ciência recupera assim a d i m e n s ã o da teoria do conhecimento, a qual a teoria positivista da ciência abandonara: como outrora a lógica transcendental, assim ela pro¬ cura uma resposta para a q u e s t ã o das condições a priori de todo conhecimento. Não há dúvida, porém, que para a lógica da ciência estas c o n d i ç õ e s n ã o são mais em-si, mas t ã o - s o m e n t e para o processo i n v e s t i g a t ó r i o . O exame l ó g i c o - i m a n e n t e do progresso nas ciências empírico-analíticas e o avanço do modo explicativo da h e r m e n ê u t i c a n ã o tardam a encontrar seus limites: sob o visor da lógica nem a c o n e x ã o dos modos-de-concluir, analisados por Pierce, nem a d i n â m i c a circular da interpretação, apreendida por Dilthey, podem ser consideradas satisfatórias. Como são possí¬ veis a indução, por um lado, e o círculo hermenêutico, por outro, isto não pode ser mostrado por i n t e r m é d i o da lógica mas, exclusivamente, nos termos de uma teoria do conhecimento. Em ambos os casos trata-se de regras que objetivam a t r a n s f o r m a ç ã o lógica de s e n t e n ç a s ; sua validade somente se torna plausível quando as p r o p o s i ç õ e s transformadas são comprometidas, u priori,
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com determinadas categorias inerentes a determinadas experiên¬ cias no interior de um quadro transcendental, seja este da ordem do agir instrumental ou próprio a uma forma vital, constituída pela linguagem cotidiana. T a l sistema de referências possui um peso valorativo transcendental, mas ele determina a arquitetura dos processos i n v e s t i g a t ó r i o s e n ã o a da c o n s c i ê n c i a transcenden¬ tal em si. A lógica das ciências da natureza e dó espírito não se ocupa, como a lógica transcendental, com a organização da razão pura e t e ó r i c a , mas com as regras m e t o d o l ó g i c a s , tendo em vista a o r g a n i z a ç ã o dos processos de pesquisa. Tais regras n ã o con¬ tinuam tendo o status de puras regras transcendentais; elas pos¬ suem um peso valorativo transcendental, mas irrompem em co¬ n e x õ e s vitais p r á t i c a s : a partir das estruturas de uma espécie que reproduz sua vida a t r a v é s de processos de aprendizagem, pró¬ prios ao trabalho social organizado, da mesma forma do que por meio de processos de compreensão, próprios a interações mediatizadas pela linguagem cotidiana. Na i n t e r d e p e n d ê n c i a de tais re¬ l a ç õ e s vitais subjacentes mede-se, por isso, o sentido da validade de p r o p o s i ç õ e s que podem ser obtidas no seio dos sistemas de r e f e r ê n c i a quase transcendentais dos processos i n v e s t i g a t ó r i o s nas c i ê n c i a s da natureza e do espírito: o saber n o m o l ó g i c o é tecnica¬ mente utilizável da mesma forma como o saber h e r m e n ê u t i c o é praticamente eficaz. Remeter o quadro das ciências n o m o l ó g i c a s e h e r m e n ê u t i c a s a um conjunto vital, bem como à correspondente d e d u ç ã o do sentido da validade relativa a enunciados provindos de interesses cognitivos, torna-se n e c e s s á r i o no momento em que um sujeito transcendental e s u b s t i t u í d o por uma espécie que se reproduz em c o n d i ç õ e s culturais, isto é, que não se constitui, ela própria, senão em um processo de f o r m a ç ã o a constituir a espécie. Os proces¬ sos de pesquisa — e esta espécie nos interessa, antes de tudo, como sujeito de tais processos — são partes do processo forma-, tivo global que perfaz a história desta espécie. As condições de objetividade de uma experiência possível, as quais estão fixadas pela moldura transcendental do processo i n v e s t i g a t ó r i o das ciên¬ cias da natureza e do espírito, n ã o apenas n ã o mais explicitam o sentido transcendental de um conhecimento finito, restrito às formas f e n o m ê n i c a s enquanto tais; elas p r é - m o l d u r a m , muito mais, um determinado sentido dos modos m e t ó d i c o s do conhecer, como t a l ; e isso, a cada vez, de acordo com um critério p r ó p r i o à c o n e x ã o vital objetiva, a qual aflora de dentro para fora da estrutura de ambas as direções i n v e s t i g a t ó r i a s . As c i ê n c i a s em-

p í r i c o - a n a l í t i c a s exploram a realidade na medida em que esta se manifesta no raio da atividade instrumental; enunciados nomológicos acerca deste d o m í n i o do objeto e s t ã o assim presos, de acordo com seu sentido imanente, a um determinado contexto de aplicação — eles apreendem a realidade em vista de uma disponibilidade técnica que, em condições específicas, é sempre e em toda parte possível. As c i ê n c i a s h e r m e n ê u t i c a s n ã o explo¬ ram a realidade sob um outro ponto de vista transcendental; elas têm por objetivo, muito mais, uma e l a b o r a ç ã o transcendental de diversas formas fáticas de vida, no interior das quais a realidade é interpretada de maneira diferente, em função de g r a m á t i c a s que formulam o mundo e da atividade que o transforma; é por isso que, rastreando seu sentido imanente, as p r o p o s i ç õ e s da her¬ m e n ê u t i c a visam um contexto de a p l i c a ç ã o correspondente — elas apreendem interpretações da realidade em vista da intersubjetividade de uma compreensão mútua, suscetível de orientar a ação para uma situação hermenêutica inicial. Falamos, portanto, de um interesse técnico ou prático na medida em que, através dos recursos da lógica da pesquisa, as c o n e x õ e s vitais da atividade instrumental e das i n t e r a ç õ e s mediatizadas pelos s í m b o l o s p r é molduram o sentido da validade de enunciados possíveis de tal forma que estes, enquanto representam conhecimentos, n ã o pos¬ suem outra função s e n ã o aquela que lhes c o n v é m cm tais con¬ textos vitais: serem a p l i c á v e i s tecnicamente ou serem pratica¬ mente eficazes. O conceito do "interesse" n ã o deve sugerir uma r e d u ç ã o naturalista de d e t e r m i n a ç õ e s transcendentais a dados e m p í r i c o s mas, pelo c o n t r á r i o , evitar que uma tal r e d u ç ã o venha a ser ine¬ vitável. Interesses capazes dc orientar o saber (o que n ã o posso ainda demonstrar aqui, mas apenas asseverar) mediatizam a his¬ tória natural com base na lógica de seu processo formativo; mas estes interesses não podem ser invocados para reduzir a lógica a alguma base natural. Chamo de interesses as o r i e n t a ç õ e s b á s i c a s que aderem a certas c o n d i ç õ e s fundamentais da r e p r o d u ç ã o e da a u t o c o n s t i t u i ç ã o p o s s í v e i s da espécie humana: trabalho e inte¬ ração. E por isso que cada uma destas o r i e n t a ç õ e s fundamentais n ã o visam à satisfação de necessidades e m p í r i c a s e imediatas, mas à solução de problemas sistêmicos propriamente ditos. N ã o há dúvida de que aqui não é possível falar em soluções de pro¬ blemas senão em termos aproximativos. Pois, interesses capazes de orientar o conhecimento n ã o devem ser definidos em base de c o n s t e l a ç õ e s p r o b l e m á t i c a s ; essas só podem irromper como pro-

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INTERESSE CRÍTICA COMO UNIDADE DE CONHECIMENTO E INTERESSE 219

blemas no interior de um quadro m e t o d o l ó g i c o determinado p o i esses mesmos interesses. Os interesses orientadores do conheci¬ mento deixam-se avaliar unicamente pelos problemas objetivos da c o n s e r v a ç ã o da vida, os quais receberam resposta a t r a v é s da forma cultural da existência. Trabalho e i n t e r a ç ã o englobam ipso jacto processos de aprendizagem e de c o m p r e e n s ã o r e c í p r o c a ; e a partir de um estágio determinado de desenvolvimento tais pro¬ cessos necessitam estar assegurados na forma de uma i n v e s t i g a ç ã o m e t ó d i c a , caso o processo formativo da e s p é c i e n ã o deva correr o risco de uma estagnação. Pelo fato de a r e p r o d u ç ã o da vida estar determinada culturalmente, ao n í v e l a n t r o p o l ó g i c o , pelo trabalho e pela i n t e r a ç ã o , os iriteresses do conhecimento com¬ prometidos com as c o n d i ç õ e s existenciais deste trabalho e desta i n t e r a ç ã o , n ã o podem ser concebidos nos quadros referenciais da biologia, próprios à reprodução e à conservação da espécie. A r e p r o d u ç ã o da vida social — os interesses orientadores do co¬ nhecimento n ã o passariam de um mal-entendido, fossem eles entendidos como mera função desta vida — n ã o pode, de forma alguma, ser adequadamente caracterizada sem o recurso às fon¬ tes culturais da r e p r o d u ç ã o , isto é, sem recorrer a um processo de f o r m a ç ã o que i m p l i c a , sempre já, o conhecimento sob estas duas formas. É por isso que o "interesse do conhecimento" perfaz uma categoria sui gencris, a qual tampouco sc sujeita à d i s t i n ç ã o entre d e t e r m i n a ç õ e s e m p í r i c a s c transcendentais ou fáticas c sim¬ b ó l i c a s como à q u e l a entre d e t e r m i n a ç õ e s inerentes à m o t i v a ç ã o e ao conhecimento. Pois, conhecimento n ã o é nem mero instru¬ mento de a d a p t a ç ã o de um organismo a um circum-ambiente em alteração, nem ato m o m e n t â n e o de um puro ser racional e, como contemplação, subtraído às conexões da vida enquanto tal. Pierce e Dilthey defrontaram-se com os interesses- que cons¬ tituem a base do conhecimento científico, mas eles n ã o os refle¬ tiram. Eles n ã o elaboraram o conceito do interesse capaz de orientar o conhecimento e, na verdade, n ã o entenderam aquilo que tal conceito toma por objetivo. N ã o há d ú v i d a dc que eles analisaram a constituição do fundamento da lógica investigatória nas c o n d i ç õ e s gerais da v i d a ; mas eles só poderiam ter identifi¬ cado as orientações fundamentais da ciências empírico-analíticas e h e r m e n ê u t i c a s como interesses a orientar o conhecimento no quadro que, a rigor, lhes era estranho, a saber: no interior da c o n c e p ç ã o de uma história da espécie considerada como processo formativo. A idéia de um processo de f o r m a ç ã o no qual o su¬ jeito da espécie tem, pela primeira vez, c o n d i ç õ e s para se consti-

tuir, foi desenvolvido por Hegel e retomado por M a r x em termos de p r e s s u p o s i ç õ e s materialistas. Sobre a base do positivismo, o re¬ tomo imediato a esta idéia deveria afigurar-se como um retorno à m e t a f í s i c a ; deste ponto não há senão um legítimo caminho de volta; este é percorrido por Pierce e Dilthey, na medida em que eles refletem sobre a gênese das ciências a partir de um complexo vital objetivo e praticam, assim, a metodologia na perspectiva da teoria do conhecimento. M a s aquilo que fazem, isto nem um nem outro percebem. Caso c o n t r á r i o eles n ã o poderiam ter-se sub¬ traído à experiência da reflexão desenvolvida por Hegel na Fenomenologia. Penso aqui na experiência da força emancipatória da reflexão, que experimenta em si o sujeito na medida em que ela p r ó p r i a se torna, a si mesma, transparente na h i s t ó r i a de sua gênese. A experiência da reflexão articula-se, em termos de con¬ t e ú d o , no conceito do processo formativo; metodicamente ela leva a um ponto de vista a partir do qual a identidade da r a z ã o com a vontade resulta como que espontaneamente. Na auto-reflexão um conhecimento entendido com o fim em si mesmo chega a coincidir, por força do próprio conhecimento, com o interesse e m a n c i p a t ó r i o ; pois, o ato-de-executar da reflexão sa¬ be-se, simultaneamente, como movimento da e m a n c i p a ç ã o . Ra¬ z ã o encontra-se, ao mesmo tempo, submetida ao interesse por cia mesma. Podemos dizer que ele persegue um interesse emancip a t ó r i o do conhecimento e que este tem por objetivo a r e a l i z a ç ã o da reflexão. As coisas por certo se apresentam da seguinte maneira: a categoria do interesse, suscetível de orientar o conhecimento, é chancelada pelo interesse inato à r a z ã o . Interesse cognitivo téc¬ nico e p r á t i c o só podem ser entendidos isentos de a m b i g ü i d a d e — isto é, sem decaírem ao nível de uma psicologização ou reaviva¬ rem os critérios de um novo objetivismo — como interesse orien¬ tador do conhecimento em base de sua c o n e x ã o com o interes¬ se emancipatório do conhecimento da reflexão racional. Pelo fato de Pierce e Dilthey n ã o entenderem sua metodologia como a a u t o - r e f l e x ã o da ciência, que ela na verdade é, eles n ã o atin¬ gem o ponto de i n t e r s e c ç ã o entre conhecimento e interesse. • O conceito do interesse da razão já irrompe na filosofia transcendental de Kant; mas somente Fichte pode, após haver subor¬ dinado a r a z ã o t e ó r i c a à p r á t i c a , desdobrar o conceito no sentido de um interesse e m a n c i p a t ó r i o , inerente como tal à r a z ã o em a ç ã o . • O interesse por excelência é aquele do bem-estar que com¬ binamos com a idéia da existência de um objeto ou uma ação.

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CONHECIMENTO

E

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CRÍTTCA

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UNIDADE

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CONHECIMENTO

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O interesse toma por objetivo o existir, eis que exprime uma r e l a ç ã o do objeto que interessa para com nossa capacidade de desejar. O interesse p r e s s u p õ e uma necessidade, ou então o in¬ teresse engendra uma necessidade. A esta d i s t i n ç ã o corresponde aquela do interesse e m p í r i c o è do interesse puro. Kant a introduz em vista da razão prática. O bem-estar prático naquilo que cha¬ mamos de bem, isto é, a p e r c e p ç ã o prazeirosa das ações deter¬ minadas pelos "princípios da r a z ã o é um interesse puro. Enquanto a vontade age por deferência frente às leis da razão prática, ela possui um interesse no bem mas n ã o age por interesse:
1

"A o

primeira

constelação no

designa objeto

o jmteresso prático na ação. A primeira em da r a z ã o

ação, apenas si,

a segunda mostra a

interesse patológico

da

dependência

da vontade dos

princípios

a segunda dos

princípios da mesma ( r a z ã o ) posta a serviço da i n c l i n a ç ã o , eis que a r a z ã o apenas indicia a regra p r á t i c a pela qual a necessidade da i n c l i n a ç ã o pode ser satisfeita. da ação No primeiro caso me interessa a ação, no segundo o objeto ela me é gratificante)".
2

(enquanto

O interesse ( p a t o l ó g i c o ) dos sentidos naquilo que é agradᬠvel ou útil decorre da necessidade; o interesse ( p r á t i c o ) da r a z ã o naquilo que chamamos de bem desperta uma necessidade. No primeiro caso a faculdade dc desejar 6 estimulada por urna i n c l i ¬ n a ç ã o , no segundo caso ela 6 determinada pelos p r i n c í p i o s da r a z ã o . Em analogia com a inclinação sensitiva, enquanto desejos habituais, podemos falar de uma inclinação intelectual isenta de influências sensuais, desde que ela se tenha cristalizado como uma atitude pennamente a partir de um interesse puro:
"Embora onde deva ser ser possível predicar-lhe admitido um puro interesse da um interesse (provido) da r a z ã o n ã o possa mesmo

pulsos e m p í r i c o s ; uma e x p l i c a ç ã o da liberdade só seria (assim) possível através do recurso às leis da natureza. O que denomi¬ namos liberdade só se deixaria explicar pelo fato de qualificar¬ mos um interesse que leva os homens a obedecer às leis morais. De outro modo a o b e d i ê n c i a de tais leis n ã o e q ü i v a l e r i a a um agir moral e, por conseguinte, n ã o seria um agir l i v r e , caso esta o b e d i ê n c i a tivesse por base uma m o t i v a ç ã o sensitiva. Seja como for, o sentimento moral atesta algo assim como um interesse efe¬ tivo na execução das leis morais, a saber, a i n t e n ç ã o de que se torne realidade "o magnífico ideal de um reino universal de fins em si mesmos (de seres r a c i o n a i s ) , aos quais n ó s n ã o podemos pertencer como membros s e n ã o quando nos comportarmos zelo¬ samente de acordo com as m á x i m a s da liberdade como se fossem leis da natureza". A q u i n ã o pode tratar-se, por d e f i n i ç ã o , de um interesse sensitivo; em c o n s e q ü ê n c i a devemos contar com um interesse puro, na verdade, c o m um efeito subjetivo, o qual a lei da r a z ã o exerce sobre a vontade. Kant vê-se forçado a atri¬ buir à r a z ã o uma causalidade em o p o s i ç ã o à faculdade natural do desejar; para ser p r á t i c a essa causalidade racional precisa ser capaz de afetar a sensitividade:
4

"Para

que

alguém,

racionai

e

simultaneamente r a z ã o possua bem-estar, com isto de seus é,

afetado

pela

sensitividade,

queira aquilo que somente a um sentimento dever; dc duza uma quer cm terminar a todo uma de prazer ou

razão prescreve como imperativo para a ação,, uma faculdade de lhe incutir ao cumprimento do Mas é claro, de de¬ re¬ de ligado

é sem d ú v i d a n e c e s s á r i o que a c o n s e q ü ê n c i a , uma sensibilidade de impossível sensação

causalidade

dela mesma, no sentido de depróprios printíípios. conceitualmente pois, aqui não se tornar

acordo

compreender, de prazer ou

como uma simples i d é i a , a qual n ã o c o n t é m nada de s e n s í v e l em si, pro¬ desprazer; acerca trata e s p é c i e particular de causalidade, causalidade mas
6

inclinação,

da qual única e

podemos

assim podemos, conformando-nos ao uso do linguajar corrente, conceder a uma i n c l i n a ç ã o , mesmo para aquilo que só pode ser objeto de um prazer intelectual, um desejo habitual, e isso a partir do interesse razão; (último) interesse; poderíamos designá-lo a inclinação puro da deste tal inclinação n ã o seria, porém, a causa mas, sim, o efeito

terminar absolutamente nada a priori, para o qual correr à e x p e r i ê n c i a " .

como n ã o o podemos sobre qual¬ exclusivamente,

devemos,

livre-de-sentidos

(propensio mtellectuaUs)".^

A função sistemática do conceito de interesse, peculiar à razão prática pura, fica clara na última seção dos Fundamentos da metafísica dos costumes. Sob o título "Os limites extremos de toda filosofia prática" Kant expõe a questão da possibilidade da liberdade. E x p l i c a r a liberdade da vontade é uma tarefa pa¬ radoxal, eis que ela é definida pela i n d e p e n d ê n c i a frente aos i m -

A tarefa de explicar a liberdade da vontade rompe inespe¬ radamente o quadro da lógica transcendental; pois, a maneira de p ô r a q u e s t ã o — como a liberdade é p o s s í v e l ? — nos engoda com o fato de que, frente à r a z ã o p r á t i c a , nos estamos infor¬ mando acerca das c o n d i ç õ e s da liberdade real e n ã o da liberdade p o s s í v e l . Na verdade, esta q u e s t ã o p õ e - s e da seguinte maneira: como pode a r a z ã o pura ser p r á t i c a ? Este é o motivo por que somos obrigados a nos referir a um momento racional que, se-

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INTERESSE

gundo K a n t é propriamente i n c o m p a t í v e l com as d e t e r m i n a ç õ e s da r a z ã o , a saber: um interesse da r a z ã o . N ã o há dúvida de que a r a z ã o n ã o pode estar submetida às c o n d i ç õ e s e m p í r i c a s da sensitividade; mas a idéia do estar-ajetado-da-sensitividaãe pela razão, tornando p o s s í v e l um interesse através de uma ativi¬ dade que o b e d e ç a às leis morais, tal idéia apenas aparentemente protege a r a z ã o contra ingredientes e m p í r i c o s . Caso o efeito desta causalidade especial da r a z ã o , o bem-estar p r á t i c o puro, forA ape¬ nas contingente e, como tal, t ã o - s ó engendrado pela experiência, e n t ã o t a m b é m a causa deste bem-estar só p o d e r á ser pensada •como um factum. A figura conceituai de um interesse determinado unicamente pela r a z ã o pode distinguir tal interesse _ dos impulsos meramente fatuais, mas isso sob a c o n d i ç ã o de injetar um momento de faticidade no miolo da p r ó p r i a r a z ã o . Um inte¬ resse puro n ã o é c o n c e b í v e l s e n ã o sob a p r e s s u p o s i ç ã o de que a r a z ã o , na medida em que ela inspire um sentimento de prazer, •obedeça ela mesma a uma inclinação, independente da questão •de saber algo sobre a diferença entre essa i n c l i n a ç ã o e as chama¬ das inclinações imediatas — no âmago da razão afirma-se a pul-são que visa a execução do que é racional. Isto não é, porém, c o n c e b í v e l nos termos das d e t e r m i n a ç õ e s transcendentais. E ou¬ tra coisa K a n t n ã o concede nos limites extremos de toda filo¬ sofia p r á t i c a : o nome dc um interesse puro exprime este dado i n c o n c e b í v e l — uma r e l a ç ã o causai entre r a z ã o e sensitividade •como elo que garante a existência do sentimento moral:

perfaz um fato contingente que n ã o pode ser admitido a priori. Neste sentido um interesse engendrado pela r a z ã o i m p l i c a tam¬ b é m um momento que determina a r a z ã o . T a l r a c i o c í n i o conduzA porém, a uma gênese não-empírica da razão, ainda que não intei¬ ramente dissociada da e x p e r i ê n c i a , o que na verdade constitui um absurdo de acordo com as d e t e r m i n a ç õ e s da filosofia trans¬ cendental. Kant é c o n s e q ü e n t e ao abordar este absurdo n ã o como uma aparência transcendental da razão prática; ele se dá por sa¬ tisfeito em constatar que o bem-estar p r á t i c o puro nos assegura que a r a z ã o pura pode ser p r á t i c a sem que estejamos em con¬ dições de compreender como isto seja possível. A causa da l i ¬ berdade n ã o é empírica, mas ela t a m b é m n ã o é apenas intelec¬ tual; nós a podemos qualificar como um fato mas n ã o a entender. O designativo "interesse puro" remete-nos a uma base da r a z ã o : somente essa garante as c o n d i ç õ e s da r e a l i z a ç ã o da r a z ã o , muitoembora ela n ã o possa ser reduzida aos p r i n c í p i o s racionais; pe¬ lo c o n t r á r i o , como fato de uma ordem superior, esta base sus¬ tenta os p r i n c í p i o s da r a z ã o . T a l base da razão está comprovada pelos interesses da r a z ã o , mas ela é arredia ao conhecimento; caso esse chegasse ao nível da liberdade, ele n ã o deveria ser nem e m p í r i c o , nem puro mas tanto um quanto outro, É por isso que Kant previne contra a t r a n s g r e s s ã o cios limites extremos da r a z ã o pura p r á t i c a , pois aqui, diferentemente do que ocorre nos limites da razão teórica aplicada, a razão não ultrapassa a experiência mas, sim, a experiência do sentimento moral vai além da razão. O "interesse puro" c um conceito-limite que articula uma expe¬ riência inconcebível:
"Ora, como uma r a z ã o pura, sem outros impulsos s e n ã o aqueles engendrados por ela mesma, pode ser p r á t i c a , isto é, como o simples princípio da validade universal dc todas as máximas enquanto leis..., sem matéria, alguma da vontade e na qual p u d é s s e m o s dc a n t e m ã o ter interesse, pode conceder a si mesmo uma p u l s ã o e produzir um interesse que c h a m á s s e ¬ mos puramente moral; ou, prática? Para explicar isto
7

" O r a , como esta ú l t i m a (causalidade) n ã o pode oferecer nenhuma i e l a ç ã o entre causa e efeito senão aquela entre dois objetos da experiência, como aqui a r a z ã o pura deve ser, a t r a v é s dc i d é i a s simples (as quais, n ã o liberam objeto algum para a e x p e r i ê n c i a ) , a causa de u m efeito (a saber, a satisfação que se tem ao cumprir o dever) que, por certo, so encontra na e x p e r i ê n c i a , a n ó s homens permanece de todo i m p o s s í v e l explicar por •que e como nos interessam, a universalidade da máxima enquanto lei c, por conseguinte, (também) a moralidade".
0

em outros termos, como pode uma ramo ser r a z ã o humana é, em sua totalidade, abso¬

a

lutamente incapaz, e todo e s f o r ç o e labor para encontrar uma e x p l i c a ç ã o -

O conceito do interesse puro possui um peso valorativo •sui generis no interior do sistema kantiano. E l e determina um fato sobre o qual nossa certeza acerca da realidade da r a z ã o p r á t i c a pode se apoiar. N ã o há d ú v i d a de que este fato n ã o se torna acessível em uma e x p e r i ê n c i a comum, mas é atestado atra¬ v é s de um sentimento moral que deve reivindicar a função de uma e x p e r i ê n c i a transcendental. r ó i s , nosso interesse em obe¬ decer à lei moral é produzido pela r a z ã o e, ao mesmo tempo,

permanecem i n f r u t í f e r o s " .

M a s , curiosamente, Kant transfere o conceito do interesse puro, o qual ele desenvolvera a propósito da razão prática, a to¬ das as potencialidades do sentimento: "A cada faculdade do sen¬ timento é possível atribuir um interesse, isto é, um p r i n c í p i o quecontém a condição sob a qual, e exclusivamente, o exercício do-

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mesmo pode ser incentivado". A r e d u ç ã o do interesse a um prin» cípio ev.'dencia, sem dúvida, que o status do conceito, alheio ao sistema, tem sido abandonado, e que se abstraiu o momento da íaticidade inerente à razão. Também não fica claro o que a r a z ã o teórica adquire ao lhe adicionarmos um interesse racional puro, caso este consista "no conhecimento do objeto elevado até os princípios a priori"? sem que aqui, como ocorre com o interesse da r a z ã o p r á t i c a , possa ser identificado uma e x p e r i ê n c i a de bem-estar. De fato, não é fácil compreender como uma sa¬ tisfação teórica pura possa ser pensada em analogia com a ra¬ z ã o prática pura: pois, todo interesse, seja puro ou e m p í r i c o , determina-se a si p r ó p r i o em r e l a ç ã o com a faculdade por exce¬ lência do desejar e se reporta, assim, à práxis possível; também um interesse especulativo da r a z ã o estaria, como interesse, de todo justificado pelo fato de a r a z ã o teórica ser reivindicada pela prática sem, com isso, ficar alienada de sua intenção genuína: •conhecer pelo prazer de se conhecer. Para que haja um interesse cognitivo é n e c e s s á r i o não apenas promover o uso especulativo da r a z ã o enquanto tal, mas t a m b é m conectar a r a z ã o especula¬ tiva pura com a razão prática pura, e isso a partir das exigências •desta razão prática:
"Mas, de maneira alguma pode ser exigido á razão de especulativa, tudo, invertendo assim c mesmo a depois prático, aquele da r a z ã o p r á t i c a subordinar-se ordem, já da razão que todo interesse especulativa 6 é,
1 0

8

pratica, em vista da qual a r a z ã o teórica é reivindicada Visto desta maneira, o conhecimento conduz, como sabemos à imor¬ talidade da alma e à e x i s t ê n c i a de Deus como postulados da ra¬ zão pratica pura. K a n t e s f o r ç a - s e em justificar este uso interes¬ sara da r a z ã o especulativa, sem distender, ao mesmo tempo o emprego experimental da r a z ã o p r á t i c a . O conhecimento racio¬ nal em termos p r á t i c o s m a n t é m seu status p r ó p r i o , subalterno frente aos conhecimentos que a r a z ã o t e ó r i c a , g r a ç a s à sua pe¬ culiar c o m p e t ê n c i a e sem ser impulsionada por um interesse prᬠtico puro, pode representar:
"Se aquilo realmente e que ela o qi. e,
e

chamamos como a

r a z ã o pura pode ser p r á t i c o para consciência a única visor de da e lei moral o atesta, que, mesma razão

si mesmo e a seja verdade sob o

permanece

sempre

ponto de vista a priori; e formular isso desde essas que a que nao

t e ó r i c o , seja sob o certas deva indissolúvel em seu

p r á t i c o , julga segundo p r i n c í p i o s quando sua capacidade de é insuficiente admitir orálico certo) ao tais da c nem por puraenunciados razão proposta razão admitir uma cui¬

assim n ã o há d ú v i d a contradigam, façam a parte r a z ã o deve

que ela,

peremptoriamente

asserções do solo, c

precisamente interesse mas

verdade é estranha,

aceitar tais

proposições (por

como uma

medraria

suficientemente precisar d. mas
s k

comprovada e deve, com todo poder que lhe está à d i s p o s i ç ã o como especulativa, nao sc procurar compará-las de entrelaçá-las; (o próprias isto, a r a z ã o c trata, e x t e n s ã o cie seu imalidacle pratica, dado cm ao mesmo tempo (próprio) c de que obrigada a aceitar suas fato) j

que aqui <)p seu

prccipuamcnlc,

pcrecpeõo*

(ape¬

emprego para um outro fim, isto n ã o

, é, para uma

nas) condicional e t ã o - s o m e n t e perfeito no emprego p r á t i c o (da r a z ã o ) " .

contradiz., de modo algum

restringir a temeridade especulativa

(que a caracteriza)".12

Finalmente Kant admite que, em termos estritos, n ã o pode haver sentido falar de um interesse especulativo da r a z ã o senão -quando a razão teórica se alia com a prática "para um conheci¬ mento". Há um exercício legítimo da razão teórica em vista de uma finalidade prática. O interesse puro p r á t i c o parece, assim, assu¬ mir a função de um interesse que orienta o conhecimento. Das t r ê s questões para as quais convergem todos os interesses de nossa r a z ã o , a terceira exige um tal emprego da r a z ã o especulativa em vista de um fim p r á t i c o . A primeira pergunta — o que posso saber? — é apenas especulativa; a segunda — que devo fazer? — é apenas p r á t i c a ; a terceira — o que me é permitido esperar? —• é prática e simultaneamente teórica, de sorte que "a ordem prática leva, apenas como fio condutor, à solução da questão teó¬ rica e, no momento em que esta desabrocha, à resposta da r a z ã o 'especulativa". O princípio da esperança determina a intenção
11

Kant n ã o consegue d e s e m b a r a ç a r de todo o uso especulativo da r a z ã o , inspirado pelo interesse, da a m b i g ü i d a d e . Por um lado ele recorre à unidade da r a z ã o , com o objetivo de evitar que a uti¬ lização prática da r a z ã o teórica venha a se apresentar como uma reestruturação ou mera i n s t r u m e n t a l i z a ç ã o posterior de uma facul¬ dade racional por meio de outra. Por outro lado, p o r é m , r a z ã o teór.ca e r a z ã o p r á t i c a perfazem uma unidade tão pouco homo-' gênca que os postulados da r a z ã o p r á t i c a pura permanecem "ofertas estranhas" para a r a z ã o t e ó r i c a . É por isso que o em¬ prego da r a z ã o que só atende ao seu interesse n ã o conduz a um conhecimento em sentido estrito; quem confundisse o alargamento da r a z ã o para fins p r á t i c o s com a d i l a t a ç ã o da esfera do conhe¬ cimento t e ó r i c o p o s s í v e l tornar-se-ia c ú m p l i c e da "temeridade especulativa", contra a qual a c r í t i c a da r a z ã o pura, em especial todo esforço da d i a l é t i c a transcendental, assestou sua argumenta-

2

2

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ç ã o . O interesse p r á t i c o da r a z ã o t ã o - s ó poderia assumir a fun¬ ção de um interesse capaz de orientar o conhecimento em sen¬ tido estrito, caso K a n t tivesse realmente tentado executar a uni¬ dade da r a z ã o t e ó r i c a e da r a z ã o p r á t i c a . Apenas se o interesse especulativo da r a z ã o — que em K a n t ainda tem por objetivo exercer, de forma t a u t o l ó g i c a , a faculdade teórica em vista do conhecimento — tivesse sido tomado a sério como interesse p r á t i c o puro, a r a z ã o t e ó r i c a seria obrigada a ceder sua compe¬ tência, cujo cerne consiste no fato de ela ser independente do interesse da r a z ã o . Fichte dá esse passo. E l e concebe o ato da r a z ã o , a intuição intelectual, como uma atividade refletida retornando a si mesmo, e converte o primado da razão prática em um princípio: a coalescência acidental da razão pura especulativa e da razão prática pura "em vista de um conhecimento" dá lugar à d e p e n d ê n c i a ra¬ dical da razão especulativa com relação à razão prática. A orga¬ nização da razão é submetida à intenção prática de um sujeito que se engendra a si p r ó p r i o . Sob a forma originária da autoreflexão, a razão é imediatamente prática, como a doutrina da ciência o mostra. Ao se tornar transparente a si mesmo em seu gesto autoprodutor, o Eu liberta-se do dogmatismo. Este Eu ne¬ cessita da qualidade moral de uma vontade emancipadora para elcvar-sc até os confins da i n t u i ç ã o intelectual. O idealista "só pode contemplar nele mesmo o ato d i s p o n í v e l do E u , c para po¬ der p e r c e b ê - l o , ele p r ó p r i o o precisa realizar. E l e o produz, nele mesmo, arbitrariamente e com liberdade". Em c o n t r a p o s i ç ã o a tal atitude, a c o n s c i ê n c i a que se concebe como produto das coi¬ sas em seu derredor está presa ao dogmatismo: "O p r i n c í p i o dos d o g m á t i c o s é a c r e n ç a nas coisas em função delas mesmas: por¬ tanto, uma fé indireta em seu p r ó p r i o E u , disperso e, como tal, apenas sustentado pelos objetos". Para poder desvencilhar-se dos limites de tal dogmatismo é preciso apropriar-se antes do in¬ teresse próprio à r a z ã o : "A razão última da divergência entre o idealista c o d o g m á t i c o é, assim, a d i v e r g ê n c i a dc seu interesse". Toda lógica p r e s s u p õ e a necessidade da e m a n c i p a ç ã o e um ato o r i g m á r i o de liberdade para que o homem se eleve até o pon¬ to de vista idealista da maioridade e m a n c i p a t ó r i a , a partir do qual é possível sondar de forma crítica o dogmatismo da consciência natural e, em c o n s e q ü ê n c i a , os mecanismos ocultos da autoconsciência do Eu e do mundo: "O supremo interesse, a r a z ã o de todo e qualquer interesse, é o interesse para conosco mesmos. Ê isso que se passa com o filósofo. N ã o ficar privado de seu
13 14 15

próprio Eu no processo da averiguação, mas conservá-lo e afir¬ m á - l o , eis o ú n i c o interesse que, invisivelmente, guia o pensamento".
18

T a m b é m K a n t , ao expor as antinomias da r a z ã o pura, cita interesses que orientam d o g m á t i c o s e e m p í r i c o s , ambos d o g m á ticosA a sua maneira. M a s o "interesse da r a z ã o nesse seu conf l i t o " — o qual se volta contra ambos os contraentes e dos quais um defende a tese e o outro a a n t í t e s e — K a n t n ã o o v ê , depois de tudo, senão no abandono do interesse como tal: a r a z ã o que se reflete a si mesma deve "despojar-se de toda parcialidade". O interesse p r á t i c o , bem como seu interesse puro, permanecem assim, apesar de tudo, exteriores à r a z ã o especula¬ tiva. Fichte reduz, pelo c o n t r á r i o , os interesses que se introme¬ tem na defesa dos sistemas filosóficos, à ú n i c a o p o s i ç ã o existente entre aqueles que se deixam cativar pelo interesse da r a z ã o na e m a n c i p a ç ã o e na autonomia do Eu e aqueles que permanecem presos a sua i n c l i n a ç ã o e m p í r i c a e, com isso, dependentes da natureza.
1 7 18

"Aconlece que há duas categorias de humanidade; dc nossa espécie, dois tipos básicos antes mesmo dc a última haver de homens. Alguns, os quais

e no desenvolvimento assomado à se superfície, alçaram n ã o

ainda

a o pleno sentimento de s u a l i b e r d a d e e de s u a autonomia absoluta, n ã o sc encontram senão na representação das coisas; esta auloconsciência dispersa, presa aos dade das coisas. se tratasse dc a eles t ã o - s o m e n t e possuem composta coisas, da multiplici¬ objetos,

Sua imagem lhes é conferida apenas pelas coisas, como uma vez subtraídas estas eles perdem

um espelho;

ao mesmo tempo seu E u ; eles n ã o s ã o capazes de dispensar, por amor si mesmos, a fé na autonomia das coisas: do mundo exterior. Quem, de si dc e pois, eles t ã o - s o m e n t e subsisfato, não passa que e de um proe ele seme¬ sua de sua ele tem com estas coisas. T u d o o que s ã o , eles na realidade o conseguiram ser a t r a v é s terá razão . .. duto das coisas, este jamais pode conccber-sc enquanto frente fazer-se necessita lhe são a a falar apenas lhantes pelo Eu; e o Mas quem dc não coisas lhe adquire tudo o si dos consciência por de forma diferente; lhe isso são e autonomia —

daqueles de sua

de

independência fato as qual tudo —

que lhe é exterior força dc que eis em termos

s ó se fica próprio esta coisas;

mesmo, coisas

própria, apoio elas

independente para seu

inaproveitáveis, suprime toda
19

eliminam nas

autonomia e a transformam em mera a p a r ê n c i a . O Eu que interessa e qualquer crença acredita em sua autonomia por instinto, ele se apodera

lhe é p r ó p r i o afeição.

dela por

A fé em si mesmo lhe é imediata".

A fixação afetiva na autonomia do Eu e o interesse pela l i ¬ berdade revelam ainda a afinidade com o sentimento p r á t i c o pu-

2

2

8

CONHECIMENTO

E

INTERESSE CRÍTICA COMO UNIDADE DE CONHECIMENTO E INTERESSE 229

ro do bem-estar em Kant: este adquirira, de fato, o conceito do interesse da r a z ã o p r ó x i m o ao afeto interessado na realização do ideal de um reino de seres racionais livres. Ora, Fichte não concebe este impulso p r á t i c o puro, a "consciência do imperativo ca¬ tegórico", como uma emanação da razão prática, mas como um ato da r a z ã o enquanto tal, como a auto-refléxão, na qual o Eu se torna transparente a si p r ó p r i o como ação que retorna a si mesma. Nas r e a l i z a ç õ e s da r a z ã o teórica Fichte identifica o tra¬ balho da r a z ã o p r á t i c a e denomina de intuição intelectual o pon¬ to de i n t e r s e ç ã o de ambas:
"A intuição feita intelectual, da qual a' doutrina da ciência fala, não possuí

o ser por objetivo mas o agir; (exceção cepção tidão, pura). Não em Mesmo está assim é

ela n ã o se encontra mencionada em Kant onde se fala com deveria de aperexaque possível do demonstrar, onde se imperativo o bastante Dc

sujeito que se afirma a si mesmo, adquire autonomia. O dog-, mático, pelo c o n t r á r i o , ao n ã o encontrar a força que o pode levar à auto-reflexão, vive na d i s p e r s ã o e, à moda de um sujeito de¬ pendente, está determinado pelos objetos e, ele p r ó p r i o , coisificado como sujeito: ele leva uma existência n ã o livre, 'eis que não chega a ter consciência de sua p r ó p r i a espontaneidade re¬ fletida. O que denominamos.de dogmatismo n ã o é menos uma imperfeição moral do que uma incapacidade t e ó r i c a ; é por isso que o idealista corre o risco de se elevar por sobre o d o g m á t i c o , escarnecendo dele em vez de o esclarecer. É neste contexto que se põe a famosa frase de Fichte, n ã o poucas vezes mal-entendida como psicologista:
"O tipo de filosofia que se escolhe depende, portanto, do tipo de homem que se e: pois, um sistema f i l o s ó f i c o n ã o é se possa aceitar ou rejeitar a bel-prazer, mas do homem que o possui. Um e entorpecido pela servidão um u t e n s í l i o inerte por natureza ou o qual debilitado cie e s t á animado pela alma

àquelas passagens, caso se queira, sistema kantiano consciente ele está

a passagem no

ter falado desta em debate, teórica tratava

questão. já na que

Kant

categórico?

C o n s c i ê n c i a e n t ã o se trata? Kant esqueceu de pôr tal q u e s t ã o parte da alguma tematizou em não fundamento dc apenas prática a Crítica razão pura discussão (filosofia) impor". 'o
;

caráter fiácido

toda filosofia;

do e s p í r i t o , escravizado pelo luxo da e r u d i ç ã o os p í n c a r o s do idealismo".2i

(filosofia) e nela se

c da vaidade, n ã o se e r g u e r á jamais até

e nessa

o imperativo c a t e g ó r i c o tão-somente não

podia aparecer;

na Crítica da razão espécie da

prática Kant consciência

visualizou a a se

exclusivamente dc

expor o c o n t e ú d o ; podia chegar

aí a pergunta

acerca da

Pelo fato de Kant haver concebido secretamente a razão prᬠtica dc acordo com o modelo da r a z ã o teórica, a experiência transcendental do sentimento moral, isto é, do interesse que nos leva a seguir a lei moral, devia necessariamente confrontá-lo com o seguinte problema: como é possível que um mero pensamento, o qual n ã o c o n t é m em si mesmo nada de sensível, como pode ele engendrar uma s e n s a ç ã o de prazer ou de desprazer? Esta di¬ ficuldade, bem como os recursos acessórios dc uma causalidade especial da r a z ã o , torna-se supérflua desde que, inversamente, a razão prática libera o modelo para a razão teórica. Eis que então o interesse p r á t i c o da r a z ã o faz parte da r a z ã o enquanto tal: no interesse pela autonomia do E u , a r a z ã o se impõe na mesma me¬ dida em que o ato da r a z ã o produz, como tal, aquilo que cha¬ mamos liberdade. A auto-reflexão é percepção sensível e emancipação, compreensão imperativa e libertação da dependência dog¬ mática numa mesma experiência. O dogmatismo, esse que dis¬ solve a r a z ã o tanto em termos analíticos quanto p r á t i c o s , é uma falsa c o n s c i ê n c i a : erro e, por isso mesmo, existência aprisionada. Somente o E u , o qual na intuição intelectual se flagra como um

Nessa formulação enfática Fichte expressa, uma vez mais, a identidade da razão teórica com a prática. O padrão que si¬ naliza até que ponto estamos impregnados pelo interesse cia ra¬ z ã o , cativos do afeto que busca a autonomia do Eu e amadure¬ cidos no exercício da auto-reflexão, determina ao mesmo tempo o grau de autonomia adquirida e o ponto de vista de nossa con¬ cepção filosófica acerca do ser e da consciência. _ Á trajetória que, de Kant a Fichte, faz desabrochar o conceito do interesse racional conduz, a partir do conceito de um interesse ditado pela razão prática por ações do livre arbítrio, um conceito de interesse que visa a autonomia do E u , e cuja eficácia se lo¬ caliza na razão enquanto tal. O ato-de-se-identificar razão teórica com sua prática, que Fichte realiza, fica esclarecido neste inte¬ resse. Como um ato da liberdade, ele precede o da auto-reflexão, bem assim como ele se afirma na d i n â m i c a emancipatória, pe¬ culiar à auto-reflexão. T a l unidade de razão e emprego interes¬ sado da mesma colide com o conceito contemplativo de conhe¬ cimento. Enquanto o sentido tradicional de teoria pura secciona bas camente o processo cognitivo das conexões vitais, aquilo que chamamos de interesse deve ser apreendido como um mo¬ mento antagônico da teoria, algo que se acrescenta do exterior e obscurece, assim, a objetividade do conhecimento. A inter-rela-; ção toda particular de conhecimento e interesse, com a qual nos
:

A

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deparamos em nosso percurso a t r a v é s da metodologia das ciên¬ cias, corre constantemente o risco' de ser mal-entendida por uma versão psicologizante no momento em que for considerada so¬ bre o pano de fundo de uma teoria do conhecimento puro, con¬ cebida como c ó p i a ; e isso independentemente das v a r i a ç õ e s que esta teoria possa apresentar. Somos tentados a compreender os dois interesses, capazes de orientar o conhecimento e anal sados até aqui, como realidades superpostas a um aparelho cognitivo já c o n s t i t u í d o , como se tratasse de interceptar um processo cog¬ nitivo, alterando-o antecipadamente com base em um direito que fosse p r ó p r i o a esses dois interesses. O emprego da r a z ã o espe¬ culativa em vista de fins práticos guarda, ainda em Kant, resquí¬ cios deste tipo de interesse, muito embora nele o interesse que pretende ser ativado seja já entendido como um interesse puro de uma r a z ã o p r á t i c a , n ã o importa o que sc deva entender com o designativo r a z ã o p r á t i c a . £ apenas no conceito fichtemano da auto-reflexão interessada que o interesse, incorporado à ra¬ z ã o , perde seu c a r á t e r de mero a p ê n d i c e e sc torna constitutivo tanto para o ato-do-conhecer quanto para o ato-do-agir. O con¬ ceito da auto-reflexão, desenvolvido por Fichte como atividade que retroage sobre si mesmo, possui uma significação sistemática para a categoria do interesse que orienta o conhecimento, lam¬ bem a esse nível o interesse antecede o conhecimento, bem assim (aliás) como ele sc efetua exclusivamente por meio deste conhe¬ cimento. ,. N ã o seguimos as pegadas da i n t e n ç ã o sistemática _ da Dou¬ trina da ciência; ela fora pensada com o objetivo de situar seus leitores, em virtude dc um ato solitário, no ponto nevrálgico da a u t o c o n t e m p l a ç ã o de um Eu que produz absolutamente o mundo e a si mesmo. Hegel escolhe, com . r a z ã o , o caminho comple¬ mentar da experiência f e n o m e n o l ó g i c a ; esta nao deixa o dogmatismo instantaneamente a t r á s de si, mas percorre os estágios da consciência que se mostra como os estágios da reflexão. A autoreflexão originária de Fichte é distendida na experiência da reflexão. Tampouco podemos seguir a i n t e n ç ã o da Fenomenologia do espírito, a qual é para conduzir seus leitores ao saber absoluto e ao conceito da ciência especulativa. O movimento da reflexão que toma a c o n s c i ê n c i a e m p í r i c a por ponto de par¬ tida une, por certo, r a z ã o e interesse; pelo fato de este movi¬ mento reencontrar, em cada estágio, a d o g m á t i c a de uma mundividência e de uma determinada forma de vida, o processo ao conhecimento coincide com o processo formativo. Mas nao po-

demos conceber a vida de um sujeito que se constitui em termos de espécie como o movimento absoluto da r e f l e x ã o , eis que as c o n d i ç õ e s nas quais a espécie humana se constitui n ã o são ape¬ nas aquelas que a reflexão p õ e em cena. O processo formativo n ã o é- incondicionado como p é o instaurar-se do Eu fichteniano ou como o é a d i n â m i c a absoluta do e s p í r i t o . E l e depende das eventuais c o n d i ç õ e s da natureza subjetiva, bem como da natu¬ reza objetiva; por um lado, portanto, depende de c o n d i ç õ e s duma s o c i e t a r i z a ç ã o individualizadora de particulares interagindo e é, por outro, devedora às c o n d i ç õ e s da "troca m e t a b ó l i c a " entre os agentes comunicativos e um meio que tecnicamente precisa fazer-se d i s p o n í v e l . Na medida em que o interesse da r a z ã o pe-' la e m a n c i p a ç ã o , o qual é investido no processo formativo da espécie e transpassa o movimento da r e f l e x ã o , volta-se para a efetivação daquelas c o n d i ç õ e s peculiares à i n t e r a ç ã o mediatizada por s í m b o l o s e p r ó p r i a s ao agir instrumental, ele assume a for¬ ma restrita do interesse inerente ao conhecimento p r á t i c o e téc¬ nico. De certa forma torna-se, inclusive, n e c e s s á r i o reinterpretar materialisticamente o interesse da r a z ã o , tal como o idealismo o introduzira: o interesse e m a n c i p a t ó r i o depende, por seu lado, dos interesses que orientam ações i n í e r s u b j e t i v a s possíveis c controlam uma possível disponibilidade técnica. Os intereses que, a t?se nível, orientam processos cognitivos n ã o vigem para a existência de objetos mas, sim, para ações instrumentais e i n t e r a ç õ e s bem-sucedidas — no mesmo sentido Kant distinguira o interesse puro, o qual adotamos nas ações morais, daquele das i n c l i n a ç õ e s e m p í r i c a s , o qual é despertado pela mera existência dos objetos das ações. M a s , bem assim como a razão, ditando ambos os interesses, n ã o é doravante mera r a z ã o práti¬ ca pura, mas uma r a z ã o que une conhecimento e interesse na a u t o - r e f l e x ã o , do mesmo modo os interesses voltados para a ati¬ vidade da c o m u n i c a ç ã o e da i n s t r u m e n t a l i z a ç ã o incluem necessa¬ riamente as categorias do saber que lhes são p r ó p r i a s : eles ad¬ quirem ipso jacto o peso valorativo de interesses capazes de orientar o conhecimento. Tais formas de a ç õ e s n ã o podem, a ri¬ gor, ser estabelecidas a longo prazo sem que estejam igualmente asseguradas as categorias do saber que acompanham estes inte¬ resses, os processos cumulativos de aprendizagem e as interpre¬ t a ç õ e s permanentes, mediatizadas pela t r a d i ç ã o . Temos mostrado que, no c í r c u l o funcional onde se exerce a atividade instrumental, se i m p õ e uma outra c o n s t e l a ç ã o do* agir, da linguagem e da experiência do que no quadro das i n t e r a ç õ e s

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mediatizadas simbolicamente. As condições do agir instrumental e da atividade p r ó p r i a à c o m u n i c a ç ã o são, simultaneamente, as c o n d i ç õ e s da objetividade inerente a um conhecimento p o s s í v e l ; elas í i x a m o sentido da validade de p r o p o s i ç õ e s n o m o l ó g i c a s ou h e r m e n ê u t i c a s . A inserção de processos cognitivos em complexos vitais chama nossa atenção para a função de interesses capazes de orientar o conhecimento: um complexo vital é um conjunto de interesses. M a s , assim como o nível, ao qual a vida social se reproduz, tal feixe de interesses n ã o pode ser definido inde¬ pendentemente destas formas de ações e das categorias corres¬ pondentes do saber. O interesse pela m a n u t e n ç ã o da vida está, no plano a n t r o p o l ó g i c o , comprometido com uma vida organiza¬ da por meio da ação e do conhecimento. Os interesses que orien¬ tam o conhecimento estão, portanto, determinados por dois fa¬ tores: por um lado, eles atestam que os processos cognitivos t ê m sua origem em conjuntos vitais e neles exercem sua eficácia; mas, por outro lado, através destes interesses se expressa igual¬ mente o fato de que a forma da vida, reproduzida socialmente, n ã o poder ser caracterizada adequadamente senão pelo liame es¬ pecífico entre conhecimento e interesse. O interesse está ligado a ações que, se bem que em uma c o n s t e l a ç ã o diferente, fixam as condições dc todo conhecimento possível, assim como estas, por sua vez, dependem dc processos cognitivos. Esclarecemos tal i n t e r d e p e n d ê n c i a entre conhecimen¬ to e interesse ao examinarmos aquela categoria dc " a ç õ e s " que coincidem com a "atividade" da reflexão, a saber: as ações emancipatórias. Um ato da auto-reflexão que "altera a vida" é um movimento da e m a n c i p a ç ã o . De modo igual como aqui o inte¬ resse da r a z ã o n ã o pode corromper a força cognitiva da r a z ã o — eis que, como Fichte não cansa de explicitar, conhecimento e interesse estão fundidos em um único ato — o interesse n ã o permanece exterior ao conhecimento lá, onde ambos os momen¬ tos da atividade e do conhecimento já se dissociaram: ao nível do agir instrumental e do agir p r ó p r i o à c o m u n i c a ç ã o . M a s , mesmo assim, não há dúvida de que não podemos cer¬ tificar-nos metodologicamente dos interesses que orientam o co¬ nhecimento nas ciências da natureza ou nas ciências do espírito senão depois de havermos penetrado na d i m e n s ã o da auto-reflexão. A q u i l o que chamamos de razão se apreende no momento em que ela, enquanto tal, se executa como auto-reflexão. É por isso que nos deparamos com a relação fundamental entre conhe¬ cimento e interesse quando praticamos metodologia de acordo

com a experiência da reflexão, qual c: dissolução crítica do obietivismo, a saber, da a u t o c o m p r e e n s ã o objetivista das ciências a qual omite a p a r t i c i p a ç ã o da atividade subjetiva nos objetos p r é moldados de um conhecimento possível. Nesse sentido nem Pier ce, nem Dilthey conceberam suas investigações m e t o d o l ó g i c a s como uma auto-reflexão. Pierce compreende sua lógica da "pes¬ quisa em intimo contato com o progresso científico, cujas con¬ dições essa lógica analisa: ela é uma disciplina acessória que~ contribuí para a i n s t i t u c i o n a l i z a ç ã o e a c e l e r a ç ã o do processo i n veshgatono em seu conjunto e, como tal, promove a progressiva r a c i o n a l i z a ç ã o da realidade. Dilthey entende, sua lógica das ciên¬ cias do_ espirito em r e l a ç ã o com o avanço da h e r m e n ê u t i c a , cujas condições sua lógica analisa: ela é uma disciplina acessória que contribui para a p r o p a g a ç ã o da consciência histórica e para a atualização estética de uma vida histórica onipresente. Nenhum dos dois leva em consideração se a metodologia não reconstrói, como teoria do conhecimento, e x p e r i ê n c i a s mais radicais da his¬ tória da espécie e n ã o conduz, assim, a um novo estágio da autoreflexão no processo formativo da espécie humana.

10.

Auto-reflexão como ciência: • a crítica psicanalítica cio sentido em Freud

No fim do século X I X nasceu uma disciplina que, no início como obra de um único homem, se movia, já em seus p r i m ó r d i o s no elemento da auto-reflexão e, assim mesmo, reivindicou de ma¬ neira convincente estar legitimada por um m é t o d o estritamente científico. De modo diferente do que ocorre em Pierce e Dilthey, Freud n ã o é um lógico da c i ê n c i a . q u e se pode orientar em uma disciplina já estabelecida, refletindo a partir dela sobre suas pró¬ prias experiências. Pelo c o n t r á r i o , ao desenvolver uma nova dis¬ ciplina Freud refletiu sobre suas premissas. Freud n ã o foi um filósofo. Sua tentativa de m é d i c o em elaborar um arcabouço teór.co das neuroses levam-no a uma teoria sui generis. E l e só se depara com p o n d e r a ç õ e s m e t o d o l ó g i c a s na medida em que o fundamento de uma nova ciência obriga, exatamente, a refle¬ tir acerca do novo ponto de partida: nesse sentido G a hleo não apenas criou a nova física, mas t a m b é m a co¬ mentou em termos m e t o d o l ó g i c o s . A psicanálise é, para nós, relevante como o único exemplo disponível de uma ciência que reivindica metodicamente o exercício auto-reflexivo. C o m o sur-

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CONHECIMENTO

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INTERESSE

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CONHECIMENTO

E

INTERESSE na história através
5

de

expressões

vitais,

estas

que

abarcam por tal

o

espírito sucessão

gimento da p s i c a n á l i s e abre-se, a t r a v é s do caminho peculiar à lógica da pesquisa, a perspectiva de um acesso m e t o d o l ó g i c o a esta d i m e n s ã o disfarçada do positivismo. T a l possibilidade n ã o se concretizou, pois o auto-equívoco cientificista da psicanálise, inaugurado pelo p r ó p r i o Freud, o fisiólogo por origem, obstruiu em gérmen esta possibilidade. O a u t o - e q u í v o c o n ã o deixa, por certo, de ter suas r a z õ e s . A f i n a l , a p s i c a n á l i s e combina a her¬ m e n ê u t i c a com r e a l i z a ç õ e s que, a rigor, estavam reservadas ao domínio das ciências da natureza. A psicanálise c o m e ç a afirmando-se como uma forma espe¬ cial de interpretação; ela libera pontos de vista teóricos c regras técnicas para interpretação de conjuntos simbólicos. Freud orien¬ tou permanentemente a i n t e r p r e t a ç ã o dos sonhos no modelo her¬ m e n ê u t i c o do trabalho filológico. E l e a compara, ocasionalmen¬ te, com a t r a d u ç ã o de um autor estrangeiro, assim por exemplo, com um texto de Tito L í v i o . A M a s o obrar interpretativo do analista n ã o apenas se distingue da atividade do filólogo pela seleção de um domínio particular do objeto; um tal obrar exige uma hermenêutica específica e ampliada, que leva em consideração, frente à interpretação habitual das ciências do espírito, uma 'nova dimensão. N ã o foi por acaso que Dilthey tomou a biografia como ponto de partida dc sua a n á l i s e do ato-do-compreender; a reconstrução de uin complexo autobiográfico, passí¬ vel de ser trazido à m e m ó r i a , é o modelo por e x c e l ê n c i a da inter¬ pretação de conjuntos simbólicos. Dilthey escolhe a biografia como modelo porque esta lhe parece ter a vantagem da transpa¬ r ê n c i a : ela n ã o apresenta àquilo que está por ser recordado a resistência do opaco. A q u i , no foco da memória autobiográfica, concentra-se a vida h i s t ó r i c a como "aquilo que é conhecido a partir do interior; trata-se daquilo a q u é m do qual n ã o é possível recuar". - Para Freud, em contrapartida, a biografia só é objeto da análise na medida em que ela é, ao mesmo tempo, o conhe¬ cido e o desconhecido do interior; de maneira que sc torna ne¬ cessário ir além daquilo que constitui o recordado. Dilthey com¬ promete a h e r m e n ê u t i c a com a o p i n i ã o subjetiva, cujo sentido pode ser garantido pela l e m b r a n ç a direta e imediata:
22 2 1

objetivo por e seus

i n t e r m é d i o do c o n g r a ç a m e n t o

estabelecido

efeitos".-

DUthey está obviamente ciente de que, para a l é m do hori¬ zonte da biografia atualizada, n ã o podemos contar com a garantia subjetiva de uma m e m ó r i a imediata. O compreender volta-se, por isso, t a m b é m para as formas s i m b ó l i c a s e aos textos nos quais a estrutura do sentido se objetivou, com o objetivo de v i r em auxílio da m e m ó r i a adulterada da espécie humana, por meio da r e c o m p o s i ç ã o crítica destes textos:
"A a o ções primeira c o n d i ç ã o das da é nas espécie da quais e para a para a c o n s t r u ç ã o do mundo h i s t ó r i c o c, nela sob muitos isso aspectos, da a que como que corrompidas crítica que mesma, através é, assim,

purificação correlato

confusas humana,

recorda¬ constitui da lín¬ da das

interpretação. a tradição

É por está as

ciência

fundamental da herança em um de

história guas

filologia em passada,

sentido

formal, dos erros

estudo coleção ela

científico

sedimentada, põem o

humanidade cronológica relação seu acessório modo

eliminação

contém, documentos raio

ordenação íntima recurso ação de

combinação, os outros. o
2A

quais

tais

uns com

Filologia n ã o é, mas assinala

nesse sentido, primeiro

historiador,

de proceder".

"A vida é h i s t ó r i c a na sibilidade na de tal

medida em que é apreendida em sua está no fato de se reconstruir

progressão A poscurso o este

temporal e no conjunto d i n â m i c o no qual ela possui sua perspectiva m e m ó r i a , o qual n ã o (apenas) da reproduz o elemento tal,

gênese.

singular mas isto é

Dilthey conta, igual a Freud, com a pouca fidelidade c a a c c n í u a d a confusão da m e m ó r i a subjetiva; ambos v ê e m a neces¬ sidade dc uma crítica que r e s t a b e l e ç a o texto mutilado da tra¬ dição. Mas a crítica filológica distingue-se da psicanalítica pelo fato de reconduzir, pelo caminho da a p r o p r i a ç ã o do e s p í r i t o ob¬ jetivo, ao conjunto intencional da o p i n i ã o subjetiva como base última da experiência. Dilthey superou, sem dúvida, a intelecção psicológica da expressão em favor da compreensão hermenêutica p r ó p r i a à intelecção do sentido; "o requinte p s i c o l ó g i c o cedeu lugar à compreensão de configurações intelectuais". Mas a fi¬ l o l o g i a , voltada para a c o n e x ã o simbólica, permanece limitada a uma linguagem na qual se expressa conscientemente aquilo que sc pretende dizer. Ao tornar' c o m p r e e n s í v e i s as o b j e t i v a ç õ e s , a filologia atualiza seu conteúdo intencional no médium da expressão biográfica cotidiana. Nesta medida a filologia t ã o - s o m e n t e assume funções adicionais a serviço de uma força da m e m ó r i a a u t o b i o g r á f i c a que funciona em c o n d i ç õ e s normais. O que, atra¬ v é s do obrar crítico, ela elimina pela e l u c i d a ç ã o de textos são deficiências acidentais. As omissões e alterações, retificadas pela crítica filológica, n ã o possuem peso valorativo s i s t e m á t i c o , pois
27

próprio conjunto

e seus estágios mais diversos. da s e q ü ê n c i a

O que a recordação reaexecutado

liza na a p r e e n s ã o

vida enquanto

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a estrutura do sentido dos textos, com os quais a h e r m e n ê u t i c a se ocupa, está sempre apenas a m e a ç a d a por influências externas. O sentido pode ser aniquilado pelos canais da t r a n s f e r ê n c i a , l i ¬ mitada de acordo com a capacidade e a eficiência; sejam esses canais próprios à memória ou à tradição cultural. I A interpretação psicanalítica, pelo contrário, não se volta para complexos de sentido, peculiares à d i m e n s ã o daquilo que se i n tensiona conscientemente; seu trabalho crítico n ã o elimina defi¬ ciências acidentais. As omissões e as alterações que ela suprime possuem um peso valorativo, pois os conjuntos s i m b ó l i c o s que a psicanálise procura compreender e s t ã o adulterados por influências internas. As m u t i l a ç õ e s possuem, como tais, um sentido. Um texto adulterado dessa espécie só p o d e r á ser satisfatoriamente apreendido em seu sentido depois que for possível esclarecer o sentido da c o r r u p ç ã o enquanto tal: é isto que caracteriza a tarefa particular de uma h e r m e n ê u t i c a que n ã o se pode limitar aos mo¬ dos de proceder da filologia, mas unifica a análise da linguagem com a pesquisa psicológica de complexos causais. A manifesta¬ ção parcial e deformada do sentido n ã o resulta, nesse caso, de uma t r a d i ç ã o defeituosa; afinal, trata-se sempre já de um sentido inerente ao conjunto biográfico ao qual o sujeito n ã o tem mais acesso. No interior do horizonte de uma biografia atualizada a r e c o r d a ç ã o falece a tal ponto (pie os abalos funcionais da m e m ó ¬ ria postulam, enquanto tais, o recurso à h e r m e n ê u t i c a e exigem, por conseguinte, serem entendidos a partir de uma c o n e x ã o obje¬ tiva de sentido. Dilthey concebera a recordação autobiográfica como condi¬ ção de uma intelecção hermenêutica possível e comprometeu, assim, o ato-do-compreender com aquilo que é conscientemente intencionado. Freud depara-se com ofuscamentos da m e m ó r i a " que, por sua vez, expressam i n t e n ç õ e s ; estas necessitam, e n t ã o , transcender o d o m í n i o daquilo que perfaz a o p i n i ã o subjetiva. Com sua análise da linguagem ordinária Dilthey não fez mais do que tangenciar o caso-limite da d i s c r e p â n c i a entre p r o p o s i ç õ e s , ações e expressões vivenciais; este caso-limite constitui, p o r é m , o caso normal para a p s i c a n á l i s e . A g r a m á t i c a da linguagem cotidiana n ã o apenas regula o conjunto simbólico mas, igualmente, a i m b r i c a ç ã o de elementos da linguagem, modelos de ação e expressões. Numa situação nor¬ mal estas três categorias de e x p r e s s ã o comportam-se de maneira complementar, de modo que aquilo que denominamos de expres¬ são verbal encontra-se, por um lado, "enquadrado" em i n t e r a ç õ e s c

e, por outro, ambas se "adequam" novamente a e x p r e s s õ e s e ISSO independentemente da questão acerca do espaço necessário que um grau incompleto de i n t e g r a ç ã o reserva para i n f o r m a ç õ e s indiretas. M a s , no caso l i m í t r o f e , o jogo da linguagem pode de¬ sintegrar-se de tal forma que as três categorias da e x p r e s s ã o n ã o mais concordam entre si: ações e e x p r e s s õ e s extraverbais des¬ mentem agora o que é expressis verbis asseverado. M a s o sujeito que age desmascara-se t ã o - s o m e n t e frente aos outros, os quais com.ele interagem e observam o seu desvio das regras da gra¬ m á t i c a , p r ó p r i a s ao jogo da linguagem. O agente, como tal, n ã o pode observar a d i s c r e p â n c i a ou, quando o consegue, n ã o e s t á em c o n d i ç õ e s de a entender, eis que ele mesmo se expressa nessa d i s c r e p â n c i a e, ao mesmo tempo, se desentende nela. Sua autoc o m p r e e n s ã o precisa agarrar-se à q u i l o que é entendido conscien¬ temente, à e x p r e s s ã o verbal, ao dado que se verbaliza. M e s m o assim o c o n t e ú d o intencional, que chega à superfície na forma de um agir e de um expressar c o n t r a d i t ó r i o , é introduzido no con¬ junto biográfico do sujeito da mesma maneira como o são os significados subjetivos, apenas supostos pelo sujeito. Este é for¬ ç a d o a se iludir acerca de tais e x p r e s s õ e s extraverbais, descoordenadas que estão com a e x p r e s s ã o verbal; mas como ele p r ó p r i o nelas sc objetiva, cie a c a b a r á se iludindo acerca de si mesmo. A i n t e r p r e t a ç ã o p s i c a n a l í t i c a ocupa-se com tais complexos s i m b ó l i c o s nos quais uin sujeito sc ilude acerca de si mesmo. A hermenêutica das profundezas, a qual Freud contrapõe à versão filológica de Dilthey, reporta-se a textos que indiciam auto-enganos do autor. A l é m do c o n t e ú d o manifesto (e de c o m u n i c a ç õ e s indiretas mas comprometidas em termos intencionais com este c o n t e ú d o ) revela-se nesses textos o c o n t e ú d o latente de uma par¬ te das o r i e n t a ç õ e s p r ó p r i a s ao autor, mas que se lhe tornou ina¬ cessível e estranho, muito embora lhe p e r t e n ç a : Freud cunhou a f ó r m u l a do "território estrangeiro interior" para caracterizar a e x t e r i o r i z a ç ã o de algo que, apesar disto, é parte constituinte do sujeito. N ã o há dúvida de que exteriorizações simbólicas, perten¬ centes a essa classe de textos, d ã o - s e a conhecer por meio de particularidades que t ã o - s o m e n t e emergem num amplo contexto de a r t i c u l a ç õ e s , envolvendo e x p r e s s õ e s verbais e outras formas de objetivações.
28

"Estou, lar o termo

A

por certo, infringindo o significado l i n g ü í s t i c o comum ao postudo pesquisador deve ser palavras mas, da linguagem aqui a para a p s i c a n á l i s e . apenas linguagem a da Sob o de e entendida não expressão mímica

interesse em

linguagem

pensamentos

igualmente,

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E

INTERESSE

CRÍTICA por exemplo a

COMO

UNIDADE

DE

CONHECIMENTO

E

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toda

sorte

de

expressões sendo,

da

atividade

psíquica, as

como

escrita. Assim

pode-se salientar de e x p r e s s ã o ,

que

i n t e r p r e t a ç õ e s da p s i c a n á é familiar".
29

lise s ã o , antes de mais nada, traduções de um método estranho de expres¬ s ã o para outro modo o qual nos

É possível que o texto corrido de nossos jogos de linguagem cotidianos (discurso e a ç õ e s ) seja perturbado por erros, apenas na aparência acidentais: através de omissões ou deformações que, quando se m a n t ê m no interior dos limites da tolerância habitual, podem ser depreciadas como fortuitas e, como tais, esquecidas. Estes atos falhos, aos quais Freud soma casos de esquecimento, lapsos de linguagem, de escrita, de leitura, os equívocos no apa¬ nhar um objeto e os chamados atos descuidados, são indicadores do fato de o texto defeituoso revelar e, simultaneamente, enco¬ brir as a u t o - i l u s õ e s do autor. Falamos de sintomas quando as i n e x a t i d õ e s do texto são mais flagrantes e se situam na esfera do p a t o l ó g i c o . Sintomas n ã o podem ser ignorados nem compreendi¬ dos. Mesmo assim eles são parte de complexos intencionais: a continuidade do texto dos jogos de linguagem cotidianos n ã o é interceptada por influências externas mas interrompida por aba¬ los internos. O que chamamos de neurose distorce complexos simbólicos nas três dimensões acima mencionadas: a expressão verbal (representação obsessiva), ações (compulsão à repetição) c e x p r e s s ã o vivencial amalgamada com o corpo (sintomas hislcrico-somáticos). No caso das perturbações psicossomáticas o sin¬ toma está, na verdade, de tal modo distante do texto original que seu c a r á t e r s i m b ó l i c o necessita, antes de mais nada, de ser de¬ monstrado pelo trabalho interpretativo como tal. Os sintomas n e u r ó t i c o s em sentido estrito localizam-se, por assim dizer, entre os atos falhos e as d o e n ç a s p s i c o s s o m á t i c a s : eles n ã o . podem ser bagatelizados como f e n ô m e n o s ocasionais, mas t a m b é m não é pos-. sível denegá-los a longo prazo em seu c a r á t e r s i m b ó l i c o ; esse os identifica como p o r ç õ e s isoladas de um conjunto simbólico maior: os sintomas n e u r ó t i c o s são cicatrizes de um texto adulterado; o autor se depara com ele como se tratasse de um texto incom¬ preensível.
30

se podem mostrar nas d i s c r e p â n c i a s entre m a n i f e s t a ç õ e s verbais e não-verbais. Mas tal isolamento da p r o d u ç ã o onírica frente ao comportamento é, ao mesmo tempo, c o n d i ç ã o de possibilidade para o extremado espaço de jogo das forças que implodem o texto repercutente da c o n s c i ê n c i a diurna (os "restos diurnos"), transformando-os em um texto de sonho. Freud concebeu assim o sonho como o "modelo normal" das afeições p a t o l ó g i c a s ; a i n t e r p r e t a ç ã o dos sonhos permaneceu sem¬ pre como modelo de e x p l i c a ç ã o em vista do esclarecimento de c o m p l e x õ e s de sentido p a t o l ó g i c a s e deformadas. E l a ocupa, ade¬ mais, uma posição neural no desenvolvimento de p s i c a n á l i s e , por¬ que foi através da decifração h e r m e n ê u t i c a de textos oníricos que Freud deparou-se com o mecanismo da defesa e da f o r m a ç ã o de sintomas:
"A t r a n s f o r m a ç ã o dos pensamentos o n í r i c o s latentes em c o n t e ú d o o n í r i c o manifesto que nos de modo merece é toda a de para nossa outro, atenção; de um trata-se que de c modo do primeiro exemplo de um é com nos conhecido material psíquico transformado expressão que

expressão

imediatamente i n t e l i g í v e l nhecido como uma

para outro que só nossa

podemos vir a psíquica".
3 2

entender

a ajuda de o r i e n t a ç ã o e e s f o r ç o , muito f u n ç ã o de

embora t a m b é m deva

ser reco¬

atividade

Em face dos sonhos, Freud obriga o analista a assumir uma rigorosa atitude dc i n t é r p r e t e . No importante c a p í t u l o V I I de "À i n t e r p r e t a ç ã o dos sonhos" ele declara, n ã o sem satisfação, a pro¬ pósito de suas próprias interpretações:
"Em suma, o que na opinião dos autores (precedentes) não deve ser

mais do que uma i m p r o v i s a ç ã o a r b i t r á r i a , apressadamente plexidade grado".
33

cozida na per¬

(do momento), isto n ó s tratamos

como se fosse um texto sa-

O modelo n ã o p a t o l ó g i c o de um tal texto é o sonho. O sonhador produz, ele p r ó p r i o , o texto do sonho; provavelmente como um complexo intencional; mas, uma vez desperto, o su¬ jeito n ã o mais compreende sua p r o d u ç ã o , embora ele se identi¬ fique de certa forma com o autor do sonho. O sonho é caudat á r i o de ações e e x p r e s s õ e s , o jogo de linguagem completo é ape¬ nas imaginado. E por isso que os atos falhos e os sintomas n ã o

31

Vista sob outro aspecto, p o r é m , a concepção hermenêutica n ã o satisfaz; pois, sonhos pertencem à q u e l e s textos com os quais o autor se vê confrontado como se fosse algo estranho e incom¬ preensível. O analista é f o r ç a d o a recuar, a t r a v é s de perguntas, para aquém do c o n t e ú d o manifesto do texto onírico para poder apreender o pensamento onírico latente que aí se manifesta. A técnica da interpretação de sonhos v a i , nesse sentido, mais além do que a arte da h e r m e n ê u t i c a , uma vez que ela deve n ã o apenas atingir o sentido de um possível texto deformado, mas o próprio sentido da deformação textual, a c o n v e r s ã o de um pensamento o n í r i c o latente em um sonho manifesto; portanto, na medida em

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que ela é obrigada a reconstruir aquilo que Freud denominou "trabalho do sonho". A interpretação do sonho leva a uma reflexão que transita pelo mesmo caminho que o texto onírico, ao surgir, teve que percorrer: frente ao trabalho do sonho ela se comporta de forma complementar. No curso de tal operação o analista pode apoiar-se no processo da livre associação de elementos isolados do sonho e sobre as p a r t i c i p a ç õ e s complementares e s p o n t â n e a s que o paciente acrescenta posteriormente ao texto onírico original. A camada superior do sonho, a qual desta maneira pode ser identificada e desobstruída, é a fachada onírica, o resultado de uma elaboração secundária; esta, apenas c o m e ç o u a operar depois que a recordação onírica assomou, como objeto, à superfície da consciência do sonhador desperto. Esta atividade racionalizadora procura sistematizar conteúdos obscuros, interpolando lacunas e aplainando contradições. A camada seguinte deixa-se reduzir aos restos diurnos incompletos; portanto, aos fragmentos dos jogos de linguagem do dia anterior, os quais depararam-se com obstáculos e não foram levados a termo. O que resta c uma camada mais profunda, com seus conteúdos s i m b ó l i c o s ; esses resistem ao trabalho da interpretação. Freud chama-os de símbolos oníricos propriamente ditos, isto é, representações que exprimem um conteúdo latente cm termos metafóricos ou alegóricos ou cm alguma outra forma de disfarce sistemático. A próxima informação que obtemos acerca de tais símbolos oníricos provem da peculiar experiência da resistência, essa que se opõe ao trabalho interpretativo. Esta resistência, a qual Freud associa a uma censura onírica, manifesta-se não menos na carência associativa, no processo hesitante de associações e em associações que n ã o passam de subterfúgios, do que no esquecimento de fragmentos textuais, os quais posteriormente são acrescentados ao texto o n í r i c o original:

evocar um de seus sonhos. M a s , depois de termos sido capazes de eliminar, no decurso de uma parte do trabalho a n a l í t i c o , uma dificuldade que vinha, perturbando sua relação com a análise, o sonho esquecido assoma, do repente, à s u p e r f í c i e . mais, acrescentada parte é, na Aqui cabem t a m b é m duas forma de um a apêndice. outras Isto observações. ser Fre-

q ü e n t e m e n t e sucede que, no i n í c i o , uma parte do sonho é omitida e, logodeve considerado que no como uma tentativa de esquecer esta parte do sonho. A e x p e r i ê n c i a mostra que esta precisamente, do mais representativa; supomos caminho dc sua c o m u n i c a ç ã o tenha ocorrido uma r e s i s t ê n c i a maior do que nas demais porções sonho. A l é m disso vemos a m i ú d e que o sonhador procura reagir contra o esquecimento de seus sonhos, formulando-os por escrito logo a p ó s estar desperto . . . De tudo isso c o n c l u í m o s que a resistência, essa que flagramos no trabalhoda interpretação sob tênue dos sonhos, deve também ter participado na g ê n e s e destes c aqueles Tal que têm sua origem porém, sob o também efeito dentro de uma de um. sonhos. Dc fato, podemos fazer uma d i s t i n ç ã o entre sonhos que surgiram pressão muito pressão forte. pressão varia,

mesmo sonho, tinuidade

dependendo do lugar em que se impõe; essa pressão é res¬
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p o n s á v e l pelas lacunas, obscuridades e c o n f u s õ e s que podem romper a condos mais belos sonhos".

M a i s tarde Freud concebeu os sonhos punitivos igualmente como uma r e a ç ã o da censura onírica frente aos desejos que os. precederam. A resistência, cuja experiência o analista faz ao tentar separar o pensamento latente do sonho dc seu disfarce, é í) chave para o mecanismo do trabalho o n í r i c o . A r e s i s t ê n c i a c o sinal mais seguro de um conflito:
35

" A q u i deve haver

uma força que quer expressar algo e uma outra f o r ç a

que se e s f o r ç a por evitar sua e x p r e s s ã o . O que e n t ã o se i m p õ e , em conse¬ q ü ê n c i a , como sonho manifesto, pode combinar todas as d e c i s õ e s nas quais se condensou essa luta entre as duas tendências. É possível que num ponto uma dessas forças tenha ao passo que num tido sucesso em afirmar o que queria expressar, oposta que teve a sorte de outro ponto é a instância

eclipsar por completo a c o m u n i c a ç ã o que se pretendia expressar, ou subs¬ "Durante o trabalho ( a n a l í t i c o ) c i m p o s s í v e l n ã o atentar para festações desta resistência. Em determinados primeira pontos as fornecidas sem h e s i t a ç ã o , c já a ou segunda i d é i a as manisão tituí-la por algo que n ã o revele qualquer traço comum com essa força. O s casos mais comuns c mais característicos cia que participa (efetivamente) foi, da formação onírica s ã o aqueles certo, capaz de expressar o nos quais o conflito acabou cm c o n c i l i a ç ã o , de maneira tal que a i n s t â n ¬ por que quis, mas n ã o na forma como quis;.na verdade, apenas numa forma atenuada, distorcida e i r r e c o n h e c í v e l . Quando, portanto, formam um quadro fiel terpretativo se faz trata-se do sucesso pretação dos da
s

associações

que advem formular

espontaneamente à mente do paciente proporciona a e x p l i c a ç ã o . Em outros momentos h á uma interrupção, e o paciente titubeia antes de uma a s s o c i a ç ã o e, com isso, há que escutar uma longa cadeia de i d é i a s antes dc poder contar com algo que ajude a compreender o sonho. Temos certamente r a z ã o ao supor que, quanto mais demorada e repleta de subterf ú g i o s a cadeia associativa for, tanto ência podemos maior a r e s i s t ê n c i a . dos sonhos. Não I d ê n t i c a influ¬ poucas vezes detectar no esquecimento

os sonhos n ã o inambos, então a qual

dos pensamentos o n í r i c o s , transpor o instância renitente,

quando o trabalho entre e limitadora,

n e c e s s á r i o para

hiato

inibidora

inferimos dc nossa p e r c e p ç ã o da r e s i s t ê n c i a sonhos". 6

enr nosso trabalho da inter-

acontece que um paciente, apesar de todos os seus esforços, n ã o consegue

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Podemos admitir que a instância limitante, que durante o dia controla o falar e o agir, relaxa seu d o m í n i o durante o sono, ao confiar na s u s p e n s ã o da motilidade, mas reprimindo os motivos •da ação. E l a impede assim a efetivação de motivações indesejᬠveis, na medida em que retira do t r â n s i t o as i n t e r p r e t a ç õ e s cor¬ respondentes, a saber: r e p r e s e n t a ç õ e s e s í m b o l o s . , Este t r â n s i t o consiste em i n t e r a ç õ e s bem ajustadas, comprometidas que estão com a opinião pública da comunicação própria à linguagem or¬ dinária. As instituições da permuta social não autorizam senão certos motivos de a ç ã o ; a outras necessidades fundamentais, igual¬ mente presas às i n t e r p r e t a ç õ e s da linguagem cotidiana, é vedado o caminho da ação manifesta, seja pelo confronto direto com uma força alheia, seja por meio da s a n ç ã o de normas socialmen¬ te i n q u e s t i o n á v e i s . Tais conflitos, no início apenas exteriores, prolongam-se, enquanto n ã o forem encaminhadas conscientemen¬ te, no interior do psiquismo, na forma de um conflito permanente entre uma i n s t â n c i a defensiva, representando a r e p r e s s ã o social, e (uma i n s t â n c i a de) motivos acionais i n e x e q ü í v e i s . O recurso p s í q u i c o mais eficaz para neutralizar as d i s p o s i ç õ e s indesejáveis daquilo que chamamos de necessidade consiste em excluir da comunicação pública — isto é, em recalcar — as interpretações às quais essas necessidades estão acopladas. Frcucl denomina de desejos inconscientes os símbolos banidos c os motivos assim reprimidos. M o t i v a ç õ e s conscientes, presentes no emprego públi¬ co da linguagem, são transformadas, pelo mecanismo da repres¬ são, em motivos inconscientes, em motivos por assim dizer ca¬ rentes de linguagem. Durante o sono, quando a censura pode ser relaxada devido à suspensão da motilidade, os motivos recal¬ cados encontram uma linguagem através da a s s o c i a ç ã o simbólica de fragmentos diurnos; seus símbolos são publicamente sancio¬ nados, mas trata-se de uma linguagem privatizada, "pois o sonho n ã o é em si nenhuma expressão social, ele n ã o perfaz um meio da c o m p r e e n s ã o (intersubjetiva)". O texto do sonho pode ser visto como um compromisso. E l e resulta, por um lado, da censura social metamorfoseada no Eu e, por outro, dos motivos inconscientes excluídos da comu¬ n i c a ç ã o . O fato dos motivos inconscientes penetrarem, sob as c o n d i ç õ e s excepcionais do sono, no estofo p r é - c o n s c i e n t e — sus¬ cetível à comunicação pública — faz com que a linguagem do texto onírico se caracterize, enquanto compromisso, como um aglomerado sui generis de linguagem p ú b l i c a e privativa. A se¬ q ü ê n c i a de cenas visuais n ã o está mais ordenada segundo regras
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s i n t á t i c a s , eis que os meios de diferenciação, dos quais a lingua¬ gem d i s p õ e para articular r e l a ç õ e s lógicas, estão suspensos; mes¬ mo as regras elementares da lógica encontram-se abolidas. Na linguagem do sonho, carente de g r a m á t i c a , as c o n e x õ e s são es¬ tabelecidas por intermédio da superposição luminosa e através da c o m p r e e n s ã o do material sonhado; Freud fala de " c o n d e n s a ç ã o " . Tais imagens comprimidas da linguagem primitiva do sonho pres¬ tam-se à transferência de acentos significativos e deslocam signi¬ ficações originais. O mecanismo do "deslocamento" está a ser¬ viço da instância responsável pela censura, em vista do desarranjo do sentido originário. O outro mecanismo é o da supressão de passagens inaceitáveis do texto. C o m suas c o m p r e s s õ e s , interliga¬ das apenas superficialmente entre si, a estrutura da linguagem onírica favorece igualmente as o m i s s õ e s . A análise do sonho vê na omissão e no deslocamento duas diferentes estratégias de defesa: o recalque em sentido estrito, di¬ rigido de forma repressiva contra o p r ó p r i o E u , e o disfarce, a qual pode igualmente vir a ser a base para uma p r o j e ç ã o do Eu em d i r e ç ã o ao exterior. Em nosso contexto é interessante obser¬ var que Freud fez a descoberta de tais estratégias defensivas pela primeira vez nas mutilações e deformações do texto. onírico. O mecanismo cie defesa está, de fato, voltado diretamente contra as i n t e r p r e t a ç õ e s de motivos acionais. Esses são neutralizados pelo fato de os símbolos, com os quais disposições inerentes àquilo que chamamos necessidade estão comprometidas, desaparecem do horizonte da comunicação pública. Com isso a tematização da "censura" adquire um sentido bem preciso: a censura psicológica, como a oficial, reprime o estofo s e m â n t i c o e as significações nele articuladas. Ambas as formas da censura servem-se dos mesmos mecanismos de defesa: aos processos de interdição e recomposi¬ ção do texto correspondem os mecanismos psíquicos da o m i s s ã o (recalque) e do deslocamento. Por fim, o c o n t e ú d o latente, o qual a análise do sonho nor¬ malmente libera, lança uma luz sobre a função da p r o d u ç ã o oní¬ rica enquanto tal. Trata-se da repetição de cenas prcnh.es de conflitos, com raízes na infância: "O ato-de-sonhar é um fragmento da vida p s í q u i c a infantil que (já) ficou para t r á s " . As cenas infantis permitem que se chegue à c o n c l u s ã o de que os desejos inconscientes mais produtivos p r o v ê m de repressões relativamen¬ te precoces, portanto, resultantes de conflitos nos quais a pessoa inacabada e dependente da criança, esteve submetida, de maneira constante, à autoridade de suas pessoas de referência e às e x i 38 3 9

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gências sociais, por elas representadas. Freud p ô d e assim, já em 1900, resumir o resultado de uma psicologia dos processos oní¬ ricos na tese segundo a qual "a e l a b o r a ç ã o de um fluxo de pen¬ samento normal só então ocorre, quando este se tornou apto à transferência de um desejo inconsciente, o qual se origina da in¬ fância e se encontra em um estado de r e p r e s s ã o " . Esta elabo¬ r a ç ã o é um f e n ô m e n o típico ao sonho. à análise dos sonhos cabe a peculiar tarefa de "levantar o véu da a m n é s i a que oculta os anos iniciais da infância e trazer à m e m ó r i a consciente as mani¬ festações do início da vida sexual infantil, neles contidas". A r e g r e s s ã o noturna da vida p s í q u i c a ao estágio infantil per¬ mite compreender o caráter singularmente atemporal, p r ó p r i o aos motivos inconscientes. No momento em que s í m b o l o s isolados e motivos recalcados de ações podem ter acesso — contra a censura instalada, como este é o caso do sonho — ao material apto a chegar à consciência ou, como este é o caso nos sintomas das diversas neuroses, ter acesso ao d o m í n i o da c o m u n i c a ç ã o p ú b l i c a e da i n t e r a ç ã o habitual, eles vinculam o presente a c o n s t e l a ç õ e s do passado. Freud transfere as d e t e r m i n a ç õ e s obtidas junto ao modelo normal do texto onírico para aqueles f e n ô m e n o s da vida despena, cuja simbólica está, dc maneira parecida como a linguagem ca¬ rente dc g r a m á t i c a do sonho, mutilada c deformada. C o m isso as síndromes da histeria da c o n v e r s ã o , cia psiconcurosc e das diversas fobias aparecem somente como os casos p a t o l ó g i c o s l i ¬ mítrofes de uma escala de comportamentos falhos que, em parte, se localizam no -interior da esfera normal e, em parte, e x p õ e m eles p r ó p r i o s os critérios para aquilo que vige como normal. "Falho", em sentido m e t ó d i c o estrito, é cada desvio do modelo a caracterizar o jogo de linguagem da atividade comunicativa na qual coincidem motivos acionais e i n t e n ç õ e s , expressas por meio da linguagem. Nesse modelo n ã o há lugar para s í m b o l o s isola¬ dos e para posições p s í q u i c a s , correspondentes àquilo que cha¬ mamos de necessidade, interligadas com tais s í m b o l o s ; admite-se que elas n ã o existam ou, caso existam, p e r m a n e ç a m sem efeito ao nível da comunicação pública, da interação habitual e da ex¬ p r e s s ã o observável. Um tal modelo só poderia, por certo, encon¬ trar aplicação genérica sob as c o n d i ç õ e s de uma sociedade n ã o repressiva. D e v i a ç õ e s do modelo são, por isso, o caso normal sob todas as c o n d i ç õ e s sociais conhecidas.
4 0 511

texto de nossos jogos cotidianos de linguagem é interrompido por símbolos incompreensíveis. Tais símbolos são incompreensíveis porque n ã o obedecem às regras gramaticais da linguagem ordi¬ n á r i a , às normas da a ç ã o c aos modelos da e x p r e s s ã o , cultural¬ mente sancionados. Eles são ou ignorados ou camuflados, racio¬ nalizados pelo trabalho s e c u n d á r i o (caso n ã o forem, eles pró¬ prios, resultados de r a c i o n a l i z a ç õ e s ) ou reduzidos a p e r t u r b a ç õ e s s o m á t i c a s externas. Freud comprova tais f o r m a ç õ e s simbólicas derivadas, as quais ele investigou exemplarmente no sonho, com o t é r m i n o m é d i c o sintoma. Sintomas são renitentes, normalmen¬ te só desaparecem quando s u b s t i t u í d o s por equivalentes funcio¬ nais. A persistência dos sintomas é e x p r e s s ã o de uma fixação de r e p r e s e n t a ç õ e s e modos comportamentais em um modelo cons¬ tante e constringente. Eles restringem a margem de flexibilidade do discurso e da ação comunicativa; eles podem fazer decrescer o c o n t e ú d o de realidade de certas p e r c e p ç õ e s e processos men¬ tais, bem como desequilibrar a economia dos afetos, submeter o comportamento a r i t u a l i z a ç õ e s ou limitar, de forma direta, as f u n ç õ e s s o m á t i c a s . Os sintomas podem ser concebidos como re¬ sultados de um compromisso entre desejos recalcados, de proven i ê n c i a infantil, e i n t e r d i ç õ e s de gratificações do desejo, impostas pela sociedade. H por isso que, na maioria das vezes, eles reve¬ lam ambos os momentos, ainda que cm quantidades v a r i á v e i s : eles t ê m o c a r á t e r dc f o r m a ç õ e s substitutas em vista de uma sa¬ tisfação recusada e s ã o , igualmente, e x p r e s s ã o da sanção com a qual a instância responsável pela defesa psíquica ameaça o de¬ sejo inconsciente. E n f i m , os sintomas são signos de uma autoa l i c n a ç ã o específica do sujeito em q u e s t ã o . Nas lacunas do texto prevalece a violência de uma i n t e r p r e t a ç ã o estranha ao E u , ainda que produzida por este E u . Pelo fato de os s í m b o l o s que inter¬ pretam as necessidades reprimidas serem e x c l u í d o s da comunica¬ ç ã o p ú b l i c a , a comunicação do sujeito que fala e age está inter¬ rompida com ele mesmo. A linguagem privatizada dos motivos inconscientes está s u b t r a í d a ao E u , muito embora ela retroaja internamente, com eficiência, sobre o emprego lingüístico do Eu e sobre a m o t i v a ç ã o de sua atividade — com o resultado de que o Eu se ilude f o r ç o s a m e n t e acerca de sua identidade nas conexões s i m b ó l i c a s que ele, conscientemente, produz. Habitualmente o i n t é r p r e t e tem a tarefa de mediar a comu¬ n i c a ç ã o entre dois interlocutores que falam l í n g u a s diferentes: ele traduz de uma l í n g u a para outra e estatui a intersubjetividade inerente à validade de s í m b o l o s e regras; ele supera dificuldades

1

Ao d o m í n i o do objeto da h e r m e n ê u t i c a profunda pertencem todas aquelas passagens onde, devido a p e r t u r b a ç õ e s internas, o

246

CONHECIMENTO

E

INTERESSE CRÍTICA COMO UNIDADE DE CONHECIMENTO E INTERESSE 247

de c o m p r e e n s ã o entre interlocutores separados por fatores histó¬ ricos, sociais e culturais. Este modelo da h e r m e n ê u t i c a das ciên¬ cias do e s p í r i t o n ã o coaduna com o trabalho p s i c a n a l í t i c o da in¬ t e r p r e t a ç ã o . Pois, mesmo no caso patológico limítrofe da neuro¬ se, a c o m p r e e n s ã o entre o paciente e sen interlocutor, seja este o da conversação (privada) ou da função social, não está dire¬ tamente perturbada, mas apenas limitada, de forma indireta, pelo efeito retroativo dos sintomas. Na verdade as coisas se passam do seguinte modo: t a m b é m sob as condições da r e p r e s s ã o , o neu¬ r ó t i c o zela pela m a n u t e n ç ã o da intersubjetividade da compreen¬ são cotidiana, e se comporta de acordo com as expectativas san¬ cionadas socialmente. M a s , para manter a c o m u n i c a ç ã o desem¬ baraçada em tais circunstâncias da frustração, ele paga o preço do desnorteio da comunicação nele mesmo. Caso, porém, a limi¬ tação da comunicação pública, necessária nas relações de domi¬ n a ç ã o , n ã o deva afetar a ilusão da intersubjetividade de uma ati¬ vidade comunicativa isenta de coação, os limites da c o m u n i c a ç ã o devem ser erigidos no interior do próprio sujeito. Assim a porção privatizada da linguagem excomungada^ junto com os motivos indesejados da a ç ã o , é condenada ao silêncio na pessoa do neu¬ r ó t i c o e se torna inacessível para ele. Tal transtorno de comuni¬ cação requer um i n t é r p r e t e que não medeia entre conlraentcs de línguas diferentes, mas um interprete que ensina a um só c mesmo sujeito a compreender sua p r ó p r i a língua. I n s t r u í d o pelo analista, o paciente aprende a ler seus p r ó p r i o s lexíos, por ele mesmo mu¬ tilados e deformados, e a traduzir, no discurso da c o m u n i c a ç ã o pública, os símbolos de um discurso disforme na linguagem pri¬ vada. T a l t r a d u ç ã o descerra para a memória, até aí bloqueada, as fases geneticamente importantes da história da vida, e torna o sujeito consciente de seu processo formativo: nesse sentido a hermenêutica psicanalítica não objetiva, como a hermenêutica das ciências do espírito, a compreensão de complexos simbólicos en¬ quanto tais; o ato do compreender, ao qual ela conduz, é autoreflexão. A tese, segundo a qual o conhecimento p s i c a n a l í t i c o faz par¬ te da a u t o - r e f l e x ã o , pode ser facilmente demonstrada nas investi¬ gações de Freud acerca da técnica analítica. Com efeito, o tra¬ tamento a n a l í t i c o n ã o pode ser determinado sem a referência à experiência da-reflexão. O que chamamos de hermenêutica rece¬ be seu peso valorativo no processo da gênese da a u t o c o n s c i ê n c i a . N ã o é suficiente falar de t r a d u ç ã o de um texto, t r a d u ç ã o como tal c* reflexão: " T r a d u ç ã o do inconsciente naquilo que é conscien44

te". Somente em virtude da r e f l e x ã o as r e p r e s s õ e s podem ser •suprimidas:
"A tarefa Que o m é t o d o p s i c a n a l í t i c o procura resolver pode ser formulada de diversos modos; pode-se dizer: as. Quando todas em sua essência, p o r é m , eles s ã o do tratamento é remover as lacunas da memória forem as equivalentes. Assim, dissolvendoelucidados mesmo a tarefa amnésias, preenchidas,

43

todos os produtos e n i g m á t i c o s pode todas ser ser (ainda) formulada o de

da vida p s í q u i c a , a continuidade e de maneira diferente: eqüivale, é todas as

.a r e i n c i d ê n c i a do estado m ó r b i d o tornam-se i m p o s s í v e i s . Ou a c o n d i ç ã o repressões em que outra uma que devem desfeitas; trata-se estado tornar psíquico o
4 4

então,

àquele o

as a m n é s i a s foram preenchidas,

Mais ousada

(ainda)

formulação;

inconsciente

consciente,

acontece

pela superação das r e s i s t ê n c i a s " .

Ponto de partida da teoria é a e x p e r i ê n c i a da r e s i s t ê n c i a , pre¬ cisamente esta força que bloqueia e se c o n t r a p õ e à livre e p ú b l i c a c o m u n i c a ç ã o dos c o n t e ú d o s recalcados. O tornar-consciente ana¬ lítico demonstra-se como reflexão pelo fato de tratar-se n ã o ape¬ nas de um processo que ocorre ao nível cognitivo, mas de um processo que dissipa, simultaneamente, r e s i s t ê n c i a s no plano afe¬ tivo. A limitação dogmática de uma falsa consciência mede-sc n ã o apenas pela ausência mas pela inacesssibiíidade específica da i n f o r m a ç ã o ; ela n ã o apenas perfaz uma falha cognitiva, mas esta carência encontra-se fixada em base de atitudes afetivas por meio de critérios apropriados por costume. É por isso que a simples comunicação de informações e a designação de resistências não possuem, por si, um efeito t e r a p ê u t i c o :
uma c o n c e p ç ã o há muito superada, fundada em a p a r ê n c i a s superficiais, a de o doente sofrer dc uma e s p é c i e de i g n o r â n c i a , e se a l g u é m conseguir remover esta i g n o r â n c i a a t r a v é s da i n f o r m a ç ã o (acerca das c o n e x õ e s causais de sua doença com sua vida, acerca de suas vivências de infância, e assim por diante), esse ignorar ele dcya recuperar em si, estas mas a a saúde. O momento p a t o l ó g i c o do não-saber em não 6 fundamentação resistências

internas; foram A participação tão-somente inexperiente porém,

que provocaram, pela primeira vez, que o doente n ã o sabe, para deveria eis a que

a ignorância e o reprimiu, Fosse é

ainda a fomentam. A tarefa da terapia está no combate a essas resistências daquilo uma das em medidas preliminares então terapia, ser o co¬ para a

nhecimento do inconsciente importante assim para o doente como a pessoa p s i c a n á l i s e imagina, suficiente cura, que o doente ouvisse prelcções ou lesse livros. Tais medidas possuem, tanta i n f l u ê n c i a sobre os sintomas nervosos do padecimento (psí¬ quico) como a distribuição de cardápios, numa época de escassez res, tem sobre a fome. A c o m p a r a ç ã o ' é , de v í v e -

mesmo a l é m de sua a p l i c a ç ã o

248
imediata,"

CONHECIMENTO

E

INTERESSE

CRÍTICA ao doente

COMO

UNIDADE

DE

CONHECIMENTO

E

INTERESSE

249

aproveitável; tem, em

pois, regra,

a

participação (ainda)

do

inconsciente que o

(pelo m é d i c o )

por

conseqüência

conflito nele é

intensificado e seus distúrbios se tornam

mais agudos".4s

do recalque de maneira tal que essa não mais f a v o r e ç a a estabili¬ zação da resistência, mas opere a favor de sua r e m o ç ã o crítica:
•"Os impulsos inconscientes n ã o desejam ser recordados da o tratamento nação. Tal de quer que como seus o sejam, nos mas e s f o r ç a m - s e sonhos, o paciente como por acordo com a atemporalidade do acontece despertar O médico maneira como de do

O trabalho do analista parece, à primeira vista, e q ü i v a l e r ao do historiador; mais exatamente ao do a r q u e ó l o g o . Pois, sua tarefa consiste na reconstrução dos primórdios históricos do pa¬ ciente. No fim da análise deve ser possível expor, nos moldes de um relato, eventos relevantes do passado esquecido do paciente significativos para a história da d o e n ç a ; eventos n ã o conhecidos nem pelo m é d i c o nem pelo paciente no início da análise. O tra¬ balho intelectual é dividido de tal maneira entre m é d i c o e pa¬ ciente que aquele reconstrói a partir dos textos defeituosos do paciente, a partir de seus sonhos, de suas idéias fortuitas e repe¬ t i ç õ e s daquilo que está esquecido, enquanto este se recorda, esti¬ mulado pelas construções que o médico lhe p r o p õ e a título de hipótese. Quanto ao método, o trabalho da construção, próprio ao analista, apresenta uma grande c o n c o r d â n c i a com reconstru¬ ções que um a r q u e ó l o g o , por exemplo, empreende cm lugares de investigação arqueológica. Contudo, enquanto a exposição his¬ t ó r i c a dc um processo esquecido ou cie uma " h i s t ó r i a " é o obje¬ tivo do a r q u e ó l o g o , o "caminho que parte da c o n s t r u ç ã o do anal i s t a . . . " se encerra "na r e m e m o r a ç ã o do analisado"." Apenas a r e c o r d a ç ã o do paciente decide a p e r t i n ê n c i a da c o n s t r u ç ã o ; caso confira, ela deve poder "recuperar" no paciente um fragmento da biografia perdida, isto é, deve poder ocasionar a i g n i ç ã o para a auto-reflexão.
A 0

reproduzir-se os produtos e ao

inconsciente e sua capacidade de aluciencara contemporâneos emocionais à reais; nexo

impulsos inconscientes a

procura colocar suas p a i x õ e s em a ç ã o sem levar em conta a s i t u a ç ã o real. tenta e compeli-lo da h i s t ó r i a ajustar esses impulsos a do tratamento de sua vida, submetê-lo consideração

intelectual e a c o m p r e e n d ê - l o s à luz de seu valor p s í q u i c o . Esta luta entre o m é d i c o e o paciente, entre o intelecto e preensão menos da t r a n s f e r ê n c i a " .
4 8

a vida instintual, entre a com¬

e a procura da a ç ã o , é travada, quase exclusivamente, nos f e n ô -

No início dc cada etapa do obrar analítico o saber do m é d i c o que constrói é diferente daquele do paciente que lhe resiste. V i s t a sob a perspectiva do analista, a c o n s t r u ç ã o h i p o t é t i c a , a qual completa os elementos dispersos de um texto mutilado e defor¬ mado em vistaA de um modelo c o m p r e e n s í v e l , permanece tão-so¬ mente "para n ó s " , até que a c o m u n i c a ç ã o da c o n s t r u ç ã o ao pa¬ ciente se transforme cm esclarecimento, a saber, cm um "para isto", para a consciência do paciente: "Nesse momento nosso saber tornou-se, e n t ã o , t a m b é m seu saber". ' Freud denomina de " e l a b o r a ç ã o " o esforço comum que supera a t e n s ã o entre a c o m u n i c a ç ã o e o esclarecimento. Elaboração designa a parte d i n â m i c a de um empreendimento intelectual; ela só leva à identificação cognitiva do passado através da superação das resistências. O analista está em condições de encaminhar o processo do esclarecimento desde que lhe seja p o s s í v e l reorientar a d i n â m i c a
4

O paciente encontra-se coagido a repetir o conflito original sob as c o n d i ç õ e s da censura; ele age seguindo os rastros das ati¬ tudes p a t o l ó g i c a s e das c o n s t e l a ç õ e s substitutas, as quais foram fixadas na infância como compromissos entre as r e a l i z a ç õ e s do desejo e aquilo que denominamos de defesa. O processo que o m é d i c o deve reconstruir não sc lhe apresenta como um aconteci¬ mento h i s t ó r i c o mas como um poder ativo e presente. Ora, o imperativo da situação analítica, sempre concebido cm termos de uma tentativa, consiste no seguinte: por um lado, trata-se dc re¬ duzir os controles conscientes (pelo relaxamento, pela livre asso¬ ciação, pela comunicação isenta de condições p r é v i a s ) , debilitar os mecanismos de defesa e fortalecer primeiro a necessidade do agir mas, por outro lado, deixar sem c o n s e q ü ê n c i a s tais r e a ç õ e s •compulsivas frente a um interlocutor reservado, o qual se apre¬ senta como um opositor virtual, e permitir, com isso, que tais r e a ç õ e s retroajam sobre o p r ó p r i o paciente. Deste modo a neu¬ rose comum é transformada em uma neurose de transferência. A compulsão patológica à repetição pode, sob as condições con¬ troladas de uma d o e n ç a artificial, ser transformada em "uma mo¬ tivação para o ato-do-recordar". O médico aproveita a oportu¬ nidade para dar aos sintomas uma nova significação transferen¬ ciai e, "pelo trabalho da r e m e m o r a ç ã o , resolver o que o paciente gostaria de executar através da a ç ã o " . O controle, por ass m dizer experimental, da "repetição" oferece ao m é d ' c o , nas condições da situação analítica, uma possibilidade tanto de conheci¬ mento quanto de tratamento. O atuar na s i t u a ç ã o transferenciai (e nas s i t u a ç õ e s cotidianas paralelas durante o tempo do trata¬ mento) conduz a c e n á r i o s que liberam indícios para a reconstru4 0 :

250

CONHECIMENTO

E

INTERESSE CRÍTICA COMO UNIDADE-DE CONHECIMENTO E INTERESSE 251

ção das cenas o r i g i n á r i a s , inerentes ao conflito infantil do pa¬ ciente. Mas as c o n s t r u ç õ e s do m é d i c o n ã o podem ser convertidas. em r e c o r d a ç õ e s atualizadas do paciente, senão na medida em que este, confrontado com as c o n s e q ü ê n c i a s de seu atuar em uma situação cuja gravidade encontra-se suspensa na transferencia aprende a se ver com o olhar de um outro e a Yeconhecer nos sintomas os derivativos de seu p r ó p r i o comportamento. A Partimos da tese segundo a qual o processo cognitivo do paciente, iniciado pelo m é d i c o , deve ser compreendido como uma auto-reflexao. A lógica da situação transferenciai e a divisão de trabalho na c o m u n i c a ç ã o , entre o m é d i c o que c o n s t r ó i e o pacien¬ te que converte o atuar em um prpeesso de r e c o r d a ç ã o , sustentam esta tese. A i n t e l e c ç ã o analítica é complementar ao processo formativo que se desencaminhou. E l a devo seu sucesso a um processo de aprendizagem compensatório, o qual reverte os pro¬ cessos de desintegração. Em tal processo de fissão p s í q u i c a tra¬ ta-se da seleção de s í m b o l o s em uso no linguajar p ú b l i c o - em conseqüência, de uma deformação das regras da comunicação re¬ lativas a linguagem privativa, por um lado e, por outro, da neu¬ tralização dos motivos acionais, vinculados a s í m b o l o s isolados A totalidade virtual, tendida pelo processo da s e p a r a ç ã o 6 re¬ presentada pelo modelo da atividade p r ó p r i a ã c o m u n i c a ç ã o pura acordo c o m esse modelo., todas as i n t e r a ç õ e s sedimentadas por habito e todas as i n t e r p r e t a ç õ e s relevantes para a p r á x i s v i t a l sao, a cada momento c com base no aparelho interiorizado da linguagem cotidiana irrestrita, acessíveis para uma c o m u n i c a ç ã o publica isenta de coação, de modo que também a transparência da biografia que rememora fica garantida. Processos formativos que se afastam de tal modelo (e Freud n ã o deixa qualquer dú¬ vida de que, nas c o n d i ç õ e s de um desenvolvimento sexual caracteri¬ zado por um duplo apogeu com l a t ê n c i a forcada, todos os pro¬ cessos de socialização devem nesse sentido ter uma s e q ü ê n c i a anormal) sao o resultado de uma r e p r e s s ã o exercida por instân¬ cias sociais. Esta influência externa é s u b s t i t u í d a por um me¬ canismo de defesa intrapsíquico, p r ó p r i o a uma instância erigida no interior do i n d i v í d u o , de modo tal que se torne permanente ü j a conduz, a longo prazo, a acordos com as exigências da por¬ ção apartada, acordos que se realizam à custa da c o m p u l s ã o patológica e da auto-ilusão. Tal é o fundamento da formação dos sintomas; através dela o texto dos jogos da linguagem cotidiana e deteriorado de forma t í p i c a e chega, assim, a ser objeto de uma possível elaboração analítica.

A análise possui conseqüências terapêuticas imediatas, eis que a s u p e r a ç ã o critica dos entraves da c o n s c i ê n c i a e a repassagem das falsas objetivações dão início a apropriações de um fragmento perdido da biografia, revertendo o processo da d i v i s ã o psíquica. É por isso que o conhecimento analítico é auto-reflexão. F o i por isso que Freud rejeitou a c o m p a r a ç ã o entre p s i c a n á l i s e e análise química. A análise e a decomposição dos complexos em suas partes mais simples n ã o levam a uma multiplicidade de elementos, a qual pudesse e n t ã o ser recomposta por v i a sintética. O termo " p s i c o s s í n t e s e " Freud o qualifica de oco, já que n ã o atina com a realização específica da auto-reflexão; nela a dissolução a n a l í t i c a é enquanto tal, a síntese, o restabelecimento de uma unidade corrompida:
"O paciente n e u r ó t i c o se nos apresenta com a psique dilacerada, atassa-

lhada por r e s i s t ê n c i a s , e quando a analisamos e eliminamos as r e s i s t ê n c i a s , essa vida psíquica sc unidade c unifica; a grande unidade, a qual chamamos dc ego, aglutinados fora delato ajusta-se a todos os impulsos instintuais que haviam estado separados desta encontravam-se

T r ê s particularidades suplementares demonstram que o co¬ nhecimento analítico 6 ama auto-reflexão. Nele estão, de saída e de modo igual, incluídos dois momentos: o momento cognitivo e o afetivo-motivador. O saber analítico, enquanto a u t o - r e f l e x ã o , é crítica no sentido de que a intelecção do paciente possui, nela mesma, o poder analítico de remover atitudes d o g m á t i c a s . A cri¬ tica culmina em uma t r a n s f o r m a ç ã o da base afetivo-motivadora, bem assim como ela tem seu ponto de partida na necessidade por uma t r a n s f o r m a ç ã o . A crítica n ã o teria o poder de se impor sobre a falsa c o n s c i ê n c i a , caso n ã o fosse impulsionada por uma paixão da crítica. No início se localiza a experiência da dor e da c a r ê n c i a , e o interesse pela r e m o ç ã o do estado pesaroso. O paciente procura o m é d i c o porque sc sente torturado por seus sintomas e gostaria de se ver liberto deles — com isso t a m b é m a p s i c a n á l i s e pode contar. M a s diferentemente do que ocorre com o tratamento t e r a p ê u t i c o habitual, o impacto do sofrimento e o interesse na r e c u p e r a ç ã o da saúde n ã o perfazem apenas a ocasião a determinar o início do tratamento, mas constituem, em si, a pressuposição para o sucesso da terapia.
""Durante o tratamento os senhores podem observar que cada melhora em sua c o n d i ç ã o * * reduz a rapidez da r e c u p e r a ç ã o e diminui a f o r ç a instin-

do paciente (N. do T . )

252
tual que o impele f o r ç a instinlual; mente se impõe?

CONHECIMENTO

E

INTERESSE

CRÍTICA

COMO

UNIDADE

DE

CONHECIMENTO

E

INTERESSE

253-

para

a

cura.

N ã o podemos, é,

porém, renunciar a essa ' a resque o

d i s t ú r b i o s de minhas a ç õ e s e ' e s t á ' em mim)". '
5 2

a t r a v é s da c o n f u s ã o de meus também 'age' de mim

sentimentos. fora (de

sua r e d u ç ã o Cruel como

coloca em risco a nossa finalidade Qual possa parecer, devemos cuidar para

Posso fazer a e x p e r i ê n c i a de que aquilo que estou repudiando n ã o apenas mim mas, vez por outra, para

t a u r a ç ã o da saúde do paciente. sofrimento do paciente, afastados e perderam o em um seu

e n t ã o , a c o n c l u s ã o que inevitavel-

grau de um modo ou de outro efetivo • seu sofrimento se atenua, devemos

n ã o acabe prematuramente. Se, devido ao fato de que os sintomas foram valor, r e s t a b e l e c ê - l o alhures, sob a forma de alguma p r i v a ç ã o a p r e c i á v e l - caso' contrario corremos o risco dc jamais conseguir cantes e t r a n s i t ó r i a s " .
6 1

s e n ã o melhoras insignifi¬

Freud postula que a cura a n a l í t i c a se processe sob as con¬ dições da a b s t i n ê n c i a . E l e gostaria de evitar que, no decurso do tratamento, o paciente substituísse prematuramente os sintomas por uma satisfação compensatória, a qual exclua o caráter pou¬ co gratificante da cura. Na prática terapêutica habitual uma tal e x i g ê n c i a deveria parecer absurda; na terapia p s i c a n a l í t i c a , po¬ r é m , ela não é desprovida de sentido, eis que sen sucesso' n ã o depende de uma i n t e r v e n ç ã o tecnicamente bem-sucedida do mé¬ dico no organismo doente, mas do avanço de uma auto-reflexão do paciente. Contudo, a auto-reflexão só se m a n t é m em pro¬ cesso enquanto o saber a n a l í t i c o é instigado a superar as resis¬ t ê n c i a s motivadoras a t r a v é s do interesse pelo auto conhecimento. Uma outra peculiaridade da análise está intimamente ligada a este aspecto do tratamento p s i c a n a l í t i c o . Freud n ã o se cansa dc acentuar que o paciente, 0 qual sc submete à terapia p s i c a n a l í t i c a , não se deve posicionar frente à sua d o e n ç a como se essa eqüi¬ valesse a um sofrimento f í s i c o - c o r p ó r e o . E l e precisa ser levado, a considerar o evento da d o e n ç a como uma parte de si mesmo. Em vez de encarar os sintomas e suas causas como algo exterior, o paciente deve estar disposto a assumir, de certa forma, uma responsabilidade para com a d o e n ç a . F r e u d discutiu este proble¬ ma a p r o p ó s i t o do caso a n á l o g o da responsabilidade perante o. conteúdo dos sonhos:
"Obviamente temos que nos considerar dos próprios sonhos seja inspirado por e s p í r i t o s responsáveis pelos impulsos maus ser.

Pelo fato da análise exigir do paciente a e x p e r i ê n c i a da autoreflexão, ela postula uma "responsabilidade ética para com o conteúdo" da doença. Pois, a intelecção afetiva, à qual a análise deve conduzir, consiste, depois de tudo, apenas no seguinte: que o Eu do paciente se r e c o n h e ç a em seu outro, representado pela doença, como em seu Eu-próprio alienado, e se identifique com ele. Como na dialética da moralidade em Hegel, o criminoso reconhece em sua vítima sua própria essência arruinada, uma a u t o - r e f l e x ã o , pela qual as partes abstratamente em conflito re¬ conhecem a totalidade moral esfacelada como sua base comum" e, por i n t e r m é d i o de tal processo auto-reflexivo, retornam a tal fundamento. O conhecimento a n a l í t i c o é, simultaneamente, intelecção ético-afetiva, eis que na dinâmica da auto-reflexão a uni¬ dade da razão teórica e da razão prática ainda não está supressa.. Uma última particularidade da análise confirma tal caráter. A exigência de que ninguém deva exercer a prática analítica, casonão se tenha antes submetido a uma análise didática, parece cor¬ responder aos p a d r õ e s correntes da qualificação profissional em medicina. Há que aprender primeiro a profissão que se pre¬ tenda exercer. Mas a exigência que acautela contra os riscos de uma a n á l i s e "selvagem'-' postula mais do que a necessidade de uma f o r m a ç ã o adequada. Do analista é exigido bem mais, a sa¬ ber: que ele se submeta à a n á l i s e na p o s i ç ã o do paciente, a f i m . de se libertar precisamente das d o e n ç a s que ele, mais tarde, t e r á que tratar. Esta particularidade é digna de registro:
"Afinal de contas, n i n g u é m sustenta que um m é d i c o s e r á incapaz de tratar' doenças internas, contrario, homem tratamento pode-se se seus próprios órgãos internos n ã o forem sadios; certas pela vantagens no fato tuberculose sc
63

ao-

argumentar que há

de um

que foi ele p r ó p r i o a m e a ç a d o

especializar no

dc pessoas que sofram dessa d o e n ç a " .

(...). A n ã o ser que o conteúdo do sonho — . . . estranhos, ele faz parte de meu p r ó p r i o

Quando procuro classificar os impulsos presentes, cm mim, segundo p a d r õ e s sociais, em bons e maus, tenho de assumir responsabilidade por ambos os. tipos e se, desconversando, digo que o desconhecido, inconsciente e reprimido em mim n ã o é meu 'ego', psicanálise, n ã o pela aceito suas c r í t i c a de meus semelhantes, n ã o estou com os p é s no terreno da posso ser corrigido dos. ser obrigado a aprender por meio chaves interpretativas e

Mas não há dúvida de que a situação analítica encobre pe-, rigos que não são típicos à práxis terapêutica convencional .— "fontes de engano a partir do paralelograma pessoal de f o r ç a s " . . O médico é inibido em seu trabalho de interpretação e erra na elaboração das construções corretas quando ele p r ó p r i o , sob oimpacto de motivos inconscientes, projeta suas a n g ú s t i a s pessoais-

CRÍTICA 254 CONHECIMENTO E INTERESSE

COMO

UNIDADE

DE

CONHECIMENTO

E

INTERESSE

255

sobre seu interlocutor ou n ã o percebe certos modos comportamentais do paciente:
"Enquanto for capaz dc clinicar, um médico que sofre de uma doença

dos p u l m õ e s ou do c o r a ç ã o n ã o se acha em desvantagem para diagnosticar òu tratar queixas internas, ao passo que as c o n d i ç õ e s especiais do trabalho a n a l í t i c o fazem realmente firam em em sua efetivação seu paciente e em sua com que os p r ó p r i o s defeitos do analista inter¬ avaliação correta do estado de
04

de uma

coisas

reação a elas

de maneira

útil".

Numa outra passagem Freud atribui tal estado de coisas a "um momento especial, imanente ao assunto, já que em psico¬ logia, diferentemente do que ocorre na física, n ã o temos a ver com coisas que t ã o - s o m e n t e podem suscitar um glacial interesse científico". Na situação transferenciai, o médico não se com¬ porta de forma contemplativa; antes pelo c o n t r á r i o , ele o b t é m muito mais suas i n t e r p r e t a ç õ e s na medida em que assume metodicamente a função de quem participa do fogo: transformando a compulsão neurótica à repetição em identificação transferen¬ c i a i , promovendo e, ao mesmo tempo, mantendo em estado vir¬ tual as transferências ambivalentes e, no momento oportuno, desfazendo sua ligação com o paciente. No decurso destas ope¬ r a ç õ e s o medico faz-sc, a si mesmo, um instrumento de conheci¬ mento; mas não pelo fato de eliminar sua subjetividade s e n ã o , •e precisamente por isso, pelo fato de engajá-ki de maneira controlada. Numa fase tardia de seu desenvolvimento Freud enquadrou suas suposições b á s i c a s em um modelo estrutural/'" A co-perten•ça. das três instâncias — ego, id, superego — expõe a conexão funcional do aparelho psíquico. O nome das três instâncias não se adequa satisfatoriamente à c o n c e p ç ã o mecanicista fundamental •da estrutura da vida p s í q u i c a , muito embora esses nomes devam servir de explicação para o modo como o aparelho p s í q u i c o ope¬ ra, N ã o é por acaso que as c o n s t r u ç õ e s conceituais ego, id, su.perego m e r e ç a m , a partir da e x p e r i ê n c i a da reflexão, os designativos que as nomeiam. Apenas posteriormente esses t é r m i n o s foram alocados para um quadro de referência objetivista e reinterpretados. Freud descobriu as funções do ego em c o n e x ã o com as duas •outras instâncias, id e superego, ao interpretar os sonhos e no diᬠlogo analítico; portanto, ao interpretar textos especificamente mu¬ tilados e deformados. E l e acentua que "toda a teoria da psica¬ nálise está, em última análise, construída sobre a percepção da
55 60

r e s i s t ê n c i a que o paciente nos oferece ao tentarmos que seu in¬ consciente se lhe torne consciente". Na r e s i s t ê n c i a m a n i f e s t a - s é um obrar defensivo sui generis; ele deve ser entendido tanto em. r e l a ç ã o à i n s t â n c i a da defesa propriamente dita quanto em rela¬ ção ao material que é, enquanto tal, defendido e recalcado. O que chamamos de r e s i s t ê n c i a significa: obstaculizar o aces¬ so à c o n s c i ê n c i a . A s s i m , n ó s contamos com uma esfera do cons¬ ciente e do p r é - c o n s c i e n t e ; este está d i s p o n í v e l no horizonte da. consciência e é, a cada momento, capaz de ser evocado; além disso, ele está acoplado com a comunicação verbal e com ações, comportamentais. Esta esfera satisfaz, em seu todo, os c r i t é r i o s da chamada o p i n i ã o p ú b l i c a ; isso quer dizer: ela satisfaz a imediatez da c o m u n i c a ç ã o , seja em palavras ou a ç õ e s . O que de¬ nominamos de inconsciente está, pelo c o n t r á r i o , subtraído à comunicação pública. Contudo, na medida em que se exterioriza. em s í m b o l o s ou ações comportamentais, ele se mostra na formade um sintoma, a saber, como m u t i l a ç ã o e d e f o r m a ç ã o dó texto dos jogos de linguagem, p r ó p r i o s à vida do dia-a-dia. A expe¬ riência da resistência e a obliteração específica de complexos sim¬ bólicos remetem, de maneira complementar, ao mesmo: ao in¬ consciente; por um lado ele é "recalcado", isto é, reprimido em sua t e n d ê n c i a de se comunicar livremente e, por outro, ele sc intromete no discurso p ú b l i c o c em comportamentos o b s e r v á v e i s através de artifícios e "força", assim, sua passagem até a cons¬ ciência; em suma, r e p r e s s ã o (para um lado) e impulso (para ooutro) são ambos momentos do "recalque". ' Partindo das e x p e r i ê n c i a s de c o m u n i c a ç ã o entre m é d i c o e paciente, Freud apossou-se do conceito de inconsciente ao se apoiar sobre uma forma peculiar de d i s t ú r b i o que afeta a comu¬ n i c a ç ã o da linguagem cotidiana. Para tanto teria sido n e c e s s á r i a , , a rigor, uma teoria da linguagem, a qual n ã o existia na é p o c a e cujos contornos atualmente apenas c o m e ç a m a ser e s b o ç a d o s . Seja como for, há assim mesmo certas o b s e r v a ç õ e s instrutivas.. A espécie humana se distingue do animal por uma
58

"complicação da linguagem; ela

a t r a v é s da qual processos internos no ego podem adqui¬ de ser-consciente. T a l c o trabalho da f u n ç ã o de forma compacta, conteúdos do ego com particular¬ a partir econecta,

rir, igualmente, a qualidade resíduos mnêmicos, mente de seu tiva da processos

p r ó p r i o s a p e r c e p ç õ e s visuais mas, mais ser excitada em

(ainda), a p e r c e p ç õ e s a c ú s t i c a s . D a í por diante, a periferia percepcamada cortical pode cerne mais íntimo, grau bem maior como acontecimentos internos seqüências

de pensamentos podem tornar-se conscientes; c já se requer um

256
.artifício rior) e nos todo especial

CONHECIMENTO

E

INTERESSE

CRÍTICA

COMO

UNIDADE

DE

CONHECIMENTO

E

INTERESSE

25'

para

distinguir

entre

ambas

as

possibilidades —

o

chamado teste da realidade. n ã o faz mais sonhos com sentido.

A equação percepção-realidade (mundo exte¬ Erros, que são doravante resultam com facilidade de alucinações".* denominados

regularidade,

ç ã o normal n ã o oferece oportunidade alguma de fuga, a técnica da defesa de a n g ú s t i a abandona o plano da realidade, enquanto fonte imediata de risco, e volta-se contra as e x i g ê n c i a s pulsionais, identificadas como origens indiretas de perigo.
"Parece, então, claro que o processo (intrapsíquico) de defesa é a n á l o g o

A função da linguagem, visualizada por Freud no texto c i lado, eqüivale a uma estabilização dos processos'de consciência pelo fato de o "interior" ser preso a símbolos e adquirir, deste modo, existência "exterior". Em base de tal função, os limites impostos às r e a l i z a ç õ e s da inteligência animal puderam ser rom¬ pidos, e comportamentos meramente adaptativos foram transfor¬ mados em atividade instrumental. Freud apropria-se do conceito pragmatista de conhecimento conto uma atividade que ensaia, como "uma apalpação motora com pouco dispêndio energético •de descarga". C o m ajuda de símbolos semânticos podem-se ex¬ perimentar cadeias acionais, na verdade, calculá-las. É por isso •que a linguagem perfaz o fulcro das realizações do E u ; delas de¬ pende a capacidade de se efetuar testes-de-realidade. Vistos uma vez sob outro aspecto, tais testes só se tornam indispensáveis, •em sentido estrito, depois que necessidades, com antecipações ver¬ bais gralificantes, forem amalgamadas em lermos alucinatórios e, assim, canalizadas como necessidades culturalmente determina•das. É t ã o - s o m e n t e no médium da linguagem que sc articula, sob a forma dc necessidades intcrprelalivas, a h e r a n ç a da natureza c •cia história, própria ao potencial plástico do impulso, cuja orien¬ t a ç ã o libidinosa c agressiva está, por certo, antecipada mas, no mais, permanece indefinida, uma vez que se encontra separada desta motilidade hereditária. Em nível antropológico as exigên¬ cias pulsionais são representadas por i n t e r p r e t a ç õ e s , a saber, por satisfações alucinatórias de desejo. Pelo fato das exigências l i b i •dinosas e agressivas serem disfuncionais tanto para a autoconserv a ç ã o dos indivíduos quanto para a da espécie, estas exigências •estatelam-se contra a realidade. A instância do E u , responsável pelo teste-da-realidade, faz com que esses conflitos sejam previ¬ síveis; ela reconhece aquelas m o ç õ e s pulsionais que, ao motiva¬ rem ações, provocariam situações perigosas, tornando inevitáveis •conflitos externos. Estes impulsos instintuais o Eu os reconhece indiretamente, enquanto tais, como perigos. E l e reage com an¬ gústia e com técnicas próprias à angústia de defesa. Nos casos •onde o conflito entre desejo e realidade não pode ser solucionado .através de intervenções na realidade, só resta a fuga como alterjiativa. Se, p o r é m , por ocasião de um excesso constante de fan¬ tasia do desejo frente às possibilidades reais de satisfação, a situa00

à fuga por meio fora. (Este)
01

da qual o ego se protege de um perigo que o a m e a ç a de defensivo é uma tentativa de fuga de um perigo

processo

instintual."

Esta tentativa de entender o processo interior da defesa segundo o modelo da r e a ç ã o pela fuga leva a f o r m u l a ç õ e s que, surpreendentemente, concordam com os posicionamentos herme¬ n ê u t i c o s da p s i c a n á l i s e : o Eu que foge, incapaz que é de se sub¬ trair à realidade, é obrigado a se esconder frente a si mesmo. O texto no qual o Eu se compreende a si p r ó p r i o em sua s i t u a ç ã o é, por conseguinte, purificado dos representantes das e x i g ê n c i a s pulsionais i n d e s e j á v e i s , isto é, o texto é censurado. A identidade desta p o r ç ã o censurada da psique com o E u - p r ó p n o é denegada; ela se torna, para o E u , um dado neutro, é reificada ao nível de um isto-aquilo. O mesmo vale para os representantes deste neutro ao nível do complexo s i m b ó l i c o purificado, a saber: para os sintomas:
-O processo agora m-smo do ego sua n ã o apenas derivativos que, pelo recalque, da mas sc t r a n s f o r m o u do todos da os seus com em um sintoma, afirma dela. E desse esses

existência

fora

organização dizer,

ego

c independente e

este processo, em

derivados usufruem onde uma parte da

privilégio; entram

poder-se-ia contato

extraterritorialidade;

associativo

organização com a qual

n ã o é de modo algum certo que n ã o atraiam essa porção para si

p r ó p r i o s c assim se ampliem à custa do ego. Uma analogia,

de há muito estamos familiarizados, comparou um sintoma com um corpo estranho que vinha mantendo uma s u c e s s ã o constante de e s t í m u l o s e r e a ç õ e s no a com tecido no qual luta a defensiva estava um da encravado. impulso sintoma. De fato, ocorreu algumas vezes que é eliminada contra um instintual desagradável M a s em o
2

formação d; O ato (ser) inicial

A t é onde é

sc pode verificar, isto e fre¬ geral o resultado e seqüência se pro¬ instintual

q ü e n t e m e n t e p o s s í v e l na diferente. tediosa longa ou i n t e r m i n á v e l ; até uma luta

c o n v e r s ã o histérica. repressão nela a luta contra contra

acompanhado p o r uma impulso

o sintoma".**

A luta s e c u n d á r i a da defesa contra os sintomas mostra que o processo interno da fuga, com o qual o Eu se esconde perante si p r ó p r i o , substitui um a d v e r s á r i o externo pelos derivativos do i d , neutralizados em corpos estranhos.

258

CONHECIMENTO

E

INTERESSE CRÍTICA COMO UNIDADE DE CONHECIMENTO E INTERESSE 259

A fuga de si mesmo do Eu é uma operação executada na e com.a linguagem; nao fosse assim, seria imposível inverter hermemuncamente o processo de defesa por intermédio de uma 7Cf n o n , / ? — p A d e r o ato d a epr, s sao no quadro í m g u r s ü c o como sendo o apartamento das idéias
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algo se torna p r é - c o n s c i e n t e ? ' E a resposta serh- < V n / i . s e n t a ç õ - s verl-nk ™ , u P a sena. Vinculando-se às repret i u d ç o w s verbais que lhe sao c o r r e s p o n d e n t e s ' " . « 3

_

Ora, a distinção entre representação verbal e representar™
u s

""resistência" do paciente. Freud entendeu o processo de defesa como a i n v e r s ã o da reflexão, isto é, como o processo a n á l o g o à fuga pela qual o Eu se encobre frente a si mesmo. "Id" é, e n t ã o , o nome para a parte do psiquismo exteriorizado pela defesa, enquanto " E g o " é a instância que executa a tarefa do teste-derealidade e da censura pulsional. A d i s t i n ç ã o t o p o l ó g i c a entre inconsciente e consciente (e/ou p r é - c o n s c i e n t e ) parece coincidir com esta diferenciação estrutural. Se for permitido denominar de reflexão a dinâmica do fazer-consciente, então o processo in¬ verso ao da reflexão deverá transformar aquilo que é consciente no que é inconsciente. Acontece que esta mesma e x p e r i ê n c i a clínica, da qual as construções do ego e do id tomaram seu pon¬ to de partida, mostra que a atividade da i n s t â n c i a ocupada com a defesa ( p s í q u i c a ) de forma alguma se processa sempre cons¬ cientemente mas, antes pelo c o n t r á r i o , revela na maioria das vezes uma d i n â m i c a inconsciente. T a l fato torna n e c e s s á r i o segundo Freud a i n t r o d u ç ã o da categoria do "superego":
"O sinal objetivo d a resistência é o fato de seus recursos associativos desfalecercm tilado. lema. ou se separarem (o paciente) sinal demasiadamente do também contudo, tema que e s t á sendo ven¬ a resis¬ Ele liste pode pode, reconhecer subjetivamente ausente.

Hipófèfe de um substrato nao-v<erbal, junto ao qual estas réíníre

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t ê n c i a pelo fato dc ter sentimentos

d e s a g r a d á v e i s quando se aproxima do estar t a m b é m que Dizemos ele e s t á , agora, em

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a

ultimo

e n t ã o ao paciente que inferimos de sua conduta

e s t a d o - d e - r e s i s t é n c i a , c ele responde que nada sabe disso e só se apercebe d a dificuldade q u e t e m e m formular livremente suas associações. (Assim) mostra-se que tínhamos razão; mas, nesse caso, sua resistência era também inconsciente, t ã o inconsciente quanto o reprimido em cuja r e m o ç ã o esta¬ mos trabalhando. Há muito d e v e r í a m o s ter feito a pergunta: dc que parte da vida p s í q u i c a se origina uma tal r e s i s t ê n c i a inconsciente? O principiante em p s i c a n á l i s e terá de imediato uma resposta: é precisamente a resistên¬ Se c o m isso acrescentar: se certa¬ c i a do inconsciente. Resposta ambígua c inaprovcitável! entende que a r e s i s t ê n c i a surge do reprimido, devemos te, um impulso de irromper na mantê-la. Ademais, esta consciência. é a opinião A

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cateTorh > . jp 5 intrapsíquica dc uma determinada en t e r l T Particularmente eviden e cm termos arcaicos: o banimento e o ostracismo, 0 isolamento
6r a

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mente n ã o ! Devemos, antes, atribuir ao recalcado uma t e n d ê n c i a ascenden¬ resistência só pode ser Desde manifestação d o ego, esse q u e originariamente forçou a repressão c deseja, agora, q u e sempre tivemos. que chegamos a admitir uma i n s t â n c i a especial no ego, o superego, o qual representa
P O n t 0 Cm Í Í d a i n ? ' A o à esfera cons st A ? * traduzido - nisto consiste, afinal, a atividade s e m â n t i c o - a n a l í t i c a do terapeuta
Um d i a l e t 0 l i m i t
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U S C e t í v d de se r a i n d

as r e i v i n d i c a ç õ e s de

c a r á t e r restritivo

e o b j e t á v e i s , . podemos (do superego)".
06

dizer q u e a repressão é obra desse superego, e q u e é executada o u p o r ele mesmo, ou pelo ego, posto que e s t á às ordens dele

uma t t e S l T , 0° e do i d resultaram de uma i n t e r p r e t a ç ã o das e x p e r i ê n c i a s que o analista fez junto à
O I S C O n c e i t u a i s

À adaptação inteligente à realidade exterior, a qual p õ e o Eu em c o n d i ç õ e s de efetuar o teste-de-realidade, corresponde a

260

CONHECIMENTO

E

INTERESSE CRÍTICA COMO UNIDADE DE CONHECIMENTO E INTERESSE 261

apropriação dos papéis sociais através do processo da identifica¬ ção com outros sujeitos, que, frente à criança, representam as expectativas sociais sancionadas. Por meio da i n t e r i o r i z a ç ã o de tais expectativas, em base da introjeção, da i n s t a u r a ç ã o de objetos-de-amor abandonados, erige-se a instância do superego.. Os r e s í d u o s , p r ó p r i o s à escolha de objetos já desamparados, d ã o ori¬ gem à instância da consciência moral, que lança na estrutura da personalidade as raízes das exigências repressivas da sociedade, opostas às r e i v i n d i c a ç õ e s pulsionais "excedentes" (do i n d i v í d u o ) e as quais são, por sua vez, identificadas como "perigosas", de¬ vido aos conflitos que podem engendrar. O superego é o pro¬ longamento i n t r a p s í q u i c o da autoridade social, O Eu exerce en¬ tão sua função de censurar os imperativos pulsionais, por assim dizer, a serviço do superego. Ate onde o Eu age como ó r g ã o executivo do superego, lá a defesa permanece inconsciente. Nisto a r e p r e s s ã o se distingue do domínio consciente da p u l s ã o . O Eu dependente da c r i a n ç a é, possivelmente, frágil demais para exe¬ cutar, com base em seus próprios meios, a defesa em cada caso particular de tal maneira que seja t a m b é m eficiente. A s s i m se instaura no E u - p r ó p r i o esta i n s t â u c a que força o Eu a fugir com a mesma violência objetiva como, por outro lado, os derivativos do icl t a m b é m lhe oferecem objetivamente resistência como resul¬ tados da r e p r e s s ã o . Na verdade, o que ocorre é o seguinte: a internalização de normas proibitivas parece ser um processo da mesma ordem, que a dejesa de motivos indesejáveis. Isto fundamenta o parentesco do superego com o i d : ambos permanecem inconscientes. N ã o há dúvida de que os processos da i n t e r n a l i z a ç ã o e da defesa com¬ portam-se de forma complementar: enquanto, no segundo caso, motivações próprias a ações socialmente indesejáveis são repri¬ midas como fantasias de desejo que, originariamente, fazem parte do E u , ações socialmente desejáveis são, no primeiro caso, im¬ postas de fora ao Eu que, por sua vez, lhes resiste. A internalização pode ser comparada com o processo dc defesa da seguinte maneira: igual a este, ela subtrai à discussão os preceitos que, no início, estão articulados em nível semântico. Este isolamento n ã o está, p o r é m , ligado a uma deformação inerente ao linguajar privativo. Em tal contexto Freud acentua •

origem em r e p r e s e n t a ç õ e s verbais ciência; superego partir contudo, a partir fontes das da percepção no

(conceitos, a b s t r a ç õ e s ) , a c e s s í v e l à consconteúdos dc mas a auditiva, id".
G 7

a energia da catexia n ã o chega a esses do ensino, da localizadas

leitura,

"que

o superego
M

(...) n ã o pode denegar sua origem a partir daquilo que uma parte do Eu e permanece, por essa sua

ouviu; cie 6,-na verdade,

Há indícios de que uma espécie de sacralização, afetando certas p r o p o s i ç õ e s , i m p õ e - s e pela i n t e r l i g a ç ã o com motivos acio¬ nais libidinosos e recalcados. Deste modo os s í m b o l o s , os quais exprimem as p r e c e i t u a ç õ e s do superego, n ã o se tornam, como tais, inacessíveis à c o m u n i c a ç ã o p ú b l i c a mas, enquanto enuncia¬ dos fundamentais prenhes de l i b i d o , são imunizados contra quais¬ quer o b j e ç õ e s críticas. Este fato explica, igualmente, a fraqueza do E u , r e s p o n s á v e l pelo teste-de-realidade, frente à autoridade impositiva do superego ao qual, mesmo assim, ele continua preso na base de uma linguagem comum n ã o mutilada. A dedução do modelo estrutural a partir das experiências da situação analítica compromete as três categorias ego, id e superego com o sentido específico de uma c o m u n i c a ç ã o na qual m é d i c o e paciente se engajam com o objetivo de pôr em movi¬ mento um processo de esclarecimento, conduzindo o doente ao exercício auto-reflexivo. Em c o n s e q ü ê n c i a , n ã o faz sentido des¬ crever, por sua vez, a reciprocidade p s í q u i c a , à qual devemos recorrer para explicar o ego, o id c o superego, com ajuda do modelo estrutural introduzido com esta finalidade. É isso, p o r é m , que Freud faz. E l e interpreta o labor de i n t é r p r e t e do médico,recorrendo às e x p r e s s õ e s do modelo estrutural. C o m isso a co¬ m u n i c a ç ã o , descrita no início sob o ponto de vista da técnica" analítica, parece ser entendida em termos t e ó r i c o s . De fato, po¬ r é m , a e x p o s i ç ã o t e ó r i c a n ã o c o n t é m elemento algum que vá além da d e s c r i ç ã o que a precedeu. Pois, a linguagem da teoria c o n t é m predicados b á s i c o s i m p o s s í v e i s de serem introduzidos, a mão ser em relação com a apresentação pré-teórica da técnica. A língua cem da teoria é mais pobre do que a linguagem na qual a técnica foi descrita. Isto vale, sobretudo, para as expressões que se reportam ao sentido específico da análise. De acordo com esta linguagem, diz-se que aquilo que se tornou inconsciente é transformado em consciente e, assim, a t r i b u í d o novamente ao E u , que m o ç õ e s pulsionais recalcadas são detectadas e criticadas, que o E u - p r ó p r i o dividido n ã o mais consegue operar qualquer síntese etc. No modelo estrutural, p o r é m , a instância do Eu carece precisamente desta capacidade, à qual se apela com tais expres¬ s õ e s : o Eu exerce as funções da a d a p t a ç ã o inteligente e da cen¬ sura das pulsões, mas a realização específica, da qual o exercício
08

262

CONHECIMENTO

E

INTERESSE

CRÍTICA

COMO

U N I D A D E , DE

CONHECIMENTO

E

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de defesa nao é senão o lado negativo, está ausente — a á u t o rcflexão. Freud distingue, por certo, entre deslocamento, como pro¬ cesso p r i m á r i o , e sublimação; esta é um deslocamento sob controle do E u . De forma análoga ele distingue entre defesa, enquanto uma reação inconsciente, e domínio racional da vida pulsional; este 6 uma defesa n ã o apenas através do E u , mas t a m b é m sob o controle do E u . M a s a dinâmica da reflexão, que transforma um estado em aqueloutro, o esforço e m a n c i p a t ó r i o c a r a c t e r í s t i c o da c r í t i c a , o qual transforma o estado patológico da c o m p u l s ã o e da a u t o - i l u s ã o em um estado onde o conflito está supresso e a lin¬ guagem excomungada reconciliada — esta dinâmica da reflexão n ã o assoma ao nível metapsicológico como uma das funções do E u . N ã o pode deixar de cair em vista: o modelo estrutural denega a origem de suas próprias categorias, as quais se impuseram a partir de um processo de esclarecimento.

cidade, mas t ã o - s o m e n t e emprega "eletricidade" como o psicó:-, logo utiliza "pulsão" como.um conceito.teórico. - Não há dúvida-, de que foi a psicanálise que, pela primeira vez, fez da psicologia, uma ciência: . . _,:
'

"Nossa s u p o s i ç ã o de espaço, minado

que haja um

aparelho p s í q u i c o desenvolvido

a se estender no, e x i g ê n c i a s .da a psicologia'

convenientemente ponto e sob

amalgamado, condições,

pelas

vida, dando origem aos f e n ô m e n o s da c o n s c i ê n c i a apenas cm um deter¬ certas possibilitou-nos erigir em bases semelhantes àquelas de qualquer outra ciência da natureza, p o r exemplo, à f í s i c a " . "

11. A

O auto-equívoco cientificista da metapsicologia. lógica áa interpretação genérico-universal

F i c i i d confessa cm sua Autobiografia que, já nos anos de juven¬ tude, seu interesse pela ciência se reportara antes "às r e l a ç õ e s dos homens entre si do que aos objetos naturais"; que nem nesta é p o c a , nem mais tarde tivera qualquer preferência emocional para a p o s i ç ã o e a atividade de médico. Mesmo assim, o estu¬ dante n ã o encontrou "sossego e plena satisfação" senão jra fisiologia. Durante seis anos ele se ocupou, no l a b o r a t ó r i o de Ernst B r i i c k e , com problemas de histologia que envolviam o sistema nervoso. Essa dualidade de interesses tenha possivelmente con¬ t r i b u í d o para o fato de Freud haver, de fato, fundado uma nova ciência do homem, mas ter visto nela sempre uma ciência da natureza. A i n d a mais: da neurofisiologia, na qual ele aprendera a manusear questões relevantes em termos a n t r o p o l ó g ' c o s c o m . m é todos p r ó p r i o s às ciências naturais e à medicina, Freud empresta os modelos determinantes para a formação teórica. Freud jamais duvidou que a psicologia fosse uma ciência da natureza.' Da mesma forma como os eventos naturais observáveis, processos p s í q u i c o s podem ser encarados como objetos de i n v e s t i g a ç ã o . As c o n s t r u ç õ e s conceituais em psicologia n ã o possuem peso valorativo diferente do que em uma ciência da natureza; pois, tam¬ bém o físico não libera informações acerca da essência da eletri08 0 ' 1

Freud não recua frente às c o n s e q ü ê n c i a s de tal e q u i v a l ê n c i a ' da psicanálise com as ciências da natureza. Ele não exclui, em" princípio, a possibilidade da aplicação terapêutica da psicanálise vir algum dia a ser substituída pelo emprego f a r m a c o l ó g i c o da" bioquímica. A autocompreensão da psicanálise como uma ciên-:; cia natural sugere o modelo da e x p l o r a ç ã o técnica de i n f o r m a ç õ e s científicas. Se a análise apenas aparentemente se apresenta como"' uma interpretação de textos e, na realidade, conduz a uma pos¬ sibilidade de tornar o aparelho psíquico disponível para o con-; trole técnico, então n ã o há nada de surpreendente na idéia de que a intervenção psicológica venha algum dia a ser substituída cie forma mais eficaz por técnicas somáticas de tratamento:
: ;

1

"O futuro pode ensinar-nos a exercer i n f l u ê n c i a direta, por meio dc subst â n c i a s q u í m i c a s especiais, sobre as quantidades dc energia e sua
7

distri-

buição no aparelho psíquico

(...).

D e momento, porém, nada temos de

melhor à nossa disposição do que a técnica da psicanálise (...)". 4

Tal enunciado já revela, por certo, que uma c o n c e p ç ã o tec¬ nológica de análise t ã o - s ó se adequa a uma teoria que se libertou, da moldura categoria], p r ó p r i a à auto-reflexão, e substituiu um modelo estrutural, adaptado aos processos formativos, por um modelo de repartição energética. Enquanto a teoria permanecer, de acordo com seu sentido, relacionada com a r e c o n s t r u ç ã o de uma parte perdida da biografia e, assim, presa à a u t o - r e f l e x ã o , sua aplicação será necessariamente prática. E l a tem por efeito a reorganização da autocompreensão de indivíduos socializados, compreensão estruturada na linguagem do cotidiano e capaz de orientar a atividade destes i n d i v í d u o s . M a s , nesta função, a psi¬ canálise não pode jamais ser s u b s t i t u í d a por tecnologias adquiri¬ das a partir de outras — em sentido estrito — teorias científicas da experiência. Pois, a psicofarmacologia apenas consegue operar

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265

alterações da consciência na medida em que dispõe sobre funções do organismo humano como se dispusesse sobre processos natu¬ rais objetivados. Pelo contrário, a experiência da reflexão, indu¬ zida pelo esclarecimento, é o ato pelo qual o sujeito precisamente se liberta de uma s i t u a ç ã o em que chegou a ser um objeto para si mesmo. Esta r e a l i z a ç ã o específica deve ser exigida do sujeito enquanto tal. Nada a pode substituir; n ã o pode haver, portanto, tecnologia que a substitua, mesmo que, num outro plano, a téc¬ nica sirva para dispensar o sujeito de suas p r ó p r i a s r e a l i z a ç õ e s . Tomando como ponto de partida os conhecidos modelos da neurofisiologia da é p o c a acerca do movimento t r a ç a d o pelos neu¬ r ô n i o s , Freud e s b o ç o u , em seus primeiros anos, uma psicologia da qual, logo mais, viria a se distanciar.' Na ocasião Freud esperava poder fundamentar a psicologia direta e imediatamente como uma ciência da natureza, a saber, como parte especial de uma fisiologia cerebral que, por sua vez, era pré-moldada de acordo os p a r â m e t r o s da m e c â n i c a . E l a tinha a função de expor "processos p s í q u i c o s como estados, quantitativamente determinados, de partículas materiais passíveis de uma especific a ç ã o " . ' Categorias como t e n s ã o , descarga, excitação e inibição referiam-se à repartição energética no sistema nervoso e à cadên¬ cia cinética dos neurônios, concebidos segundo a mecânica de corpos s ó l i d o s . T a l programa fisicalista Freud o abandonou em favor de um ponto dc partida p s i c o l ó g i c o cm sentido mais estrito. Este conserva, por sua vez, o linguajar ncurofisiolog'sta, mas tor¬ na, sub-repticiamente, seus predicados b á s i c o s acessíveis a uma reinterpretação mentalista. A energia transforma-se em energia pulsional, sobre cujo substrato s o m á t i c o n ã o é possível proferir j u í z o s mais exatos. I n i b i ç ã o e descarga das reservas e n e r g é t i c a s , bem como os mecanismos de sua r e p a r f ç ã o trabalhariam conforme o modelo de um sistema distendido espacialmente; doravante renuncia-se, p o r é m , à l o c a l i z a ç ã o destes processos:
5 0

j

de uma imagem. No microscópio c no telescópio, como sabemos, isto ocorre em parte em pontos ideais, tangível em do r e g i õ e s nas aparelho. quais Não não vejo se acha situado para esfornenhum componente necessidade

desculpar-me pelas i m p r e c i s õ e s desta ou lhante. Analogias desta
I

de qualquer do

outra

imagem seme¬ psíquico,

espécie destinam-se apenas a auxiliar nossos as complicações do funcionamento (...). um

ços

em

tornar

inteligíveis

através da dissecação da função e da atribuição de seus diferentes constituintes a partes componentes diferentes representamos o sistemas. A aparelho seguir, aparelho

Por conseguinte, a
A

psíquico

como

instrumento (por amor sistemas estes

composto, a cujas partes queremos dar o nome de instâncias ou maior clareza) deve-sc prever de lentes que de

podem talvez ficar numa r e l a ç ã o espacial regular uns com os outros, da mesma sidade ordem
j

forma

pela qual os

diversos sistemas

um telescópio

i

e s t ã o dispostos um atrás do outro. Falando de modo estrito, n ã o há neces¬ de supor que os sistemas p s í q u i c o s estejam realmente dispostos numa espacial. Seria suficiente que fosse estabelecida
78

J

uma

ordem

fixa

pelo fato de, num determinado processo p s í q u i c o , a e x c i t a ç ã o passar a t r a v é s dos sistemas numa s e q ü ê n c i a temporal especial".

i

| í
;

,
1

"A

idéia,

que nos

é posta

à

disposição,

ó a

de

uma de o

localização aparelho o

psíquica. psíquico dc uma de
C

Freud estabelece algumas c o r r e l a ç õ e s elementares entre ex¬ periências subjetivas e os dinamismos energéticos concebidos de forma objetiva. Assim, desprazer resulta de uma a c u m u l a ç ã o de excitação; de acordo com a idéia de que a intensidade da excitação deva ser proporcional a uma quantidade e n e r g é t i c a ; inver¬ samente, o prazer se i m p õ e por o c a s i ã o da descarga dc energia acumulada, portanto, através de uma diminuição da excitação. Os movimentos do aparelho são regulados pela t e n d ê n c i a de evi¬ tar uma progressiva acumulação de excitação. Tal coordenação de expressões mentalistas ( p u l s ã o , excitação, desprazer, prazer, desejo) com processos físicos {quantum e n e r g é t i c o , t e n s ã o e des¬ carga de energia e, enquanto propriedade do sistema, a t e n d ê n c i a deste à perda de energia) é suficiente para separar as categorias do consciente e do inconsciente do sistema referencial da autor e f l e x ã o ; estas categorias, adquiridas a partir da c o m u n i c a ç ã o en¬ tre m é d i c o e paciente, são agora alocadas para o modelo da dis¬ tribuição de energia:
'9

Queremos deixar sem do qual preparação

maior c o m e n t á r i o o fato nos ser igualmente e queremos evitar em termos que

aqui se trata,

conhecido na forma cuidadosamente Nós

"O primeiro desejo parece ter sido uma catexia a l u c i n a t ó r i a da l e m b r a n ç a de até satisfação. Tais a l u c i n a ç õ c s , contudo, se n ã o devessem ser mantidas à sa¬ o ponto de e x a u s t ã o , mostraram ser inapropriadas para ocasionar a ou, por conseguinte, do prazer que se liga

anatômica

esforço

determinar a l o c a l i z a ç ã o mos representar o

anatômicos. executa a

nos mantemos no psíquicas correspon-

campo p s i c o l ó g i c o e só nos propomos a seguir as e x i g ê n c i a s de que deva¬ instrumento tipo. nossas realizações como algo semelhante a um m i c r o s c ó p i o composto, como uma c â m e r a foto¬ gráfica ou algo deste Nesta base, localização psíquica !

c e s s a ç ã o da necessidade tisfação.

U m a segunda atividade — ou, como dissemos, a atividade de um segundo sistema — tornou-se necessária, atividade que não permitiria à catexia

d e r á a um ponto do aparelho em que surge uma das etapas preliminares

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INTERESSE j j j i
:

m n ê m i c a a v a n ç a r t ã o longe quanto a p e r c e p ç ã o e, d a í , sujeitar as f o r ç a s psíquicas; ao longo se em vez disso ela desviaria a e x c i t a ç ã o surgida da necessidade caminho indireto que, chegar a uma cm ú l t i m a análise, através do de um

movimento v o l u n t á r i o , alteraria o mundo externo de urna maneira tal que torna p o s s í v e l p e r c e p ç ã o real do objeto da s a t i s f a ç ã o . a t é este . J á delineamos nosso quadro esquemático do aparelho psíquico

<

ponto; os dois sistemas s ã o o g é r m e n daquilo que, no aparelho integral¬ mente desenvolvido, estatuímos como o Inc. e o Pese.".*"

Em c o l a b o r a ç ã o com Breuer, Freud havia publicado em 1895 os Estudos sobre a histeria. Certos f e n ô m e n o s p a t o l ó g i c o s já eram explicados neste texto de acordo com o modelo desenvolvido pos¬ teriormente. A paciente de Breuer deixara perceber, em estado de hipnose, que seus sintomas tinham algo a ver com cenas passadas de sua vida, nas quais ela fora obrigada a reprimir excit a ç õ e s particularmente intensas. Estes afetos podiam ser concebidos como quantidades transferíveis de energia, cujas vias normais de descarga estavam bloqueadas e que, em c o n s e q ü ê n c i a , deviam ser utilizadas de maneira anormal. V i s t o sob um ponto de vista p s i c o l ó g i c o , o sintoma surge, pela a c u m u l a ç ã o de um afeto; tal dado é t a m b é m passível de ser apresentado, no modelo em q u e s t ã o , como resultado da c o n v e r s ã o de um quantum ener¬ gético inibido cm sua tendência dc se esvair totalmente. O mé¬ todo t e r a p ê u t i c o , utilizado por Breuer, fora pensado com o obje¬ tivo dc conseguir "que o quantum dc afeto, empregado para a m a n u t e n ç ã o do sintoma, quantum que se havia desencaminhado e, por assim dizer, estrangulado, fosse dirigido para a v i a normal, onde pudesse chegar, à descarga ( a b - r e a ç ã o ) " . Freud n ã o tardou a reconhecer os inconvenientes da hipnose e introduziu, em seu lugar, a técnica da livre a s s o c i a ç ã o . A "regra fundamental .da a n á l i s e " formula as c o n d i ç õ e s de um reservado isento de re¬ pressão; nele a "situação de perigo", isto é, a pressão de sanções sociais está, de forma n ã o menos convincente do que exeqüível, suspensa durante o tempo em que m é d i c o e paciente estão em comunicação.
S l

processos da c o n s c i ê n c i a e n ã o responsabiliza o sujeito como tcã por esses processos. Freud rejeitou a técnica de Breuer pelo fato de a a n á l i s e n ã o ser um processo natural dirigido mas, ao n í v e l da intersubjetividade entre m é d i c o e paciente, estruturada em ter¬ mos de linguagem o r d i n á r i a , um movimento da auto-reflexão. Este elemento foi destacado por Freud, sobretudo no ensaio já citado "Recordar, repetir, elaborar"; e contudo: no final deste mesmo texto ele compreende a d i n â m i c a auto-reflcxiva, induzida sob as condições da regra básica da análise, segundo os critérios do antigo modelo de Breuer, a saber, recordar como a b - r e a ç ã o :
"Esta e l a b o r a ç ã o das r e s i s t ê n c i a s pode, na p r á x i s , reve;ar-sc uma tarefa

) j [ j I j j ;

á r d u a para o sujeito da a n á l i s e e uma prova de p a c i ê n c i a para o analista. Todavia, trata-sc daquela parte do trabalho que opera as maiores m u d a n ç a s no paciente e com a que distingue o tratamento a n a l í t i c o de qualquer tipo de tratamento por s u g e s t ã o . De um ponto de vista t e ó r i c o pode-se correlacio¬ ná-la 'ab-reação' das cotas de afeto estranguladas pela r e p i e s s ã o , ineficaz".
82

uma a b - r e a ç ã o sem a qual o tratamento h i p n ó t i c o permanecia

, j \

A passagem da antiga à nova t é c n i c a é essencial. E l a n ã o provém de considerações que afetam a utilidade terapêutica mas resulta da intelecção básica de que a r e m e m o r a ç ã o do paciente, a qual foi identificada como relevante para a terapia, deva levar à a p r o p r i a ç ã o consciente de um fragmento recalcado da biogra¬ fia do paciente — eis que a l i b e r a ç ã o h i p n ó t i c a do inconsciente n ã o pode romper definitivamente a barreira que se o p õ e ao esforço da recordação, uma vez que tal liberação apenas manipula

\ j '

Preso desde o início ao mal-entendido cientificista, F r e u d sucumbe a um objetivismo que retorna, sem qualquer m e d i a ç ã o , do estágio da auto-reflexão ao positivismo da época, à moda de M a r c h , c assume, por isso mesmo, uma forma particularmente áspera. Independente cia biografia da obra, o descaminho meto¬ dológico dc Freud pode ser r e c o n s t r u í d o mais ou menos da se¬ guinte maneira: as categorias fundamentais da nova disciplina, as c o n s t r u ç õ e s conceituais, as h i p ó t e s e s acerca dos complexos fun¬ cionais do aparelho p s í q u i c o e sobre os mecanismos que afetam o surgimento dos sintomas, bem como os da r e m o ç ã o de compul¬ sões patológicas — esta moldura metapsicológica foi, primeira¬ mente, desenvolvida a partir de experiências da s i t u a ç ã o analítica e da i n t e r p r e t a ç ã o de sonhos. O sentido de tal c o n s t a t a ç ã o é de ordem m e t o d o l ó g i c a e não se limita apenas à pesquisa psicológi¬ ca. C o m efeito, tais categorias e conjuntos n ã o foram apenas descobertos sob determinadas condições de uma c o m u n i c a ç ã o especificamente protegida; na verdade, independentemente delasnão há como explicitá-los de modo algum. As c o n d i ç õ e s desta comunicação são, assim, as condições de possibilidade do co¬ nhecimento analítico para ambos os contraentes, para o m é d i c a não menos do que para o paciente. Talvez Freud tenha visto este tipo de i m p l i c a ç ã o ao qualificar como uma q u e s t ã o de honra dp trabalho a n a l í t i c o o fato de "nele coincidirem pesquisa e tratamento". Sc, p o r é m , como mostramos pelo. exame de seu modelo
83

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estrutural, a moldura categorial da p s i c a n á l i s e está presa, em ter¬ mos lógico-científicos, às pressuposições de uma interpretação de textos deformados e mutilados, com os quais os autores enganamse a si mesmos, então a f o r m a ç ã o da teoria permanece embutida no contexto da auto-reflexão. Üniea alternativa oferece a tentativa de reformular as hipó¬ teses psicanalíticas no cadinho categorial de uma ciência experi¬ mental estrita. A s s i m , certos teoremas receberam nova formu¬ lação nos quadros de uma psicologia da aprendizagem de cunho behaviorista e, em c o n s e q ü ê n c i a , foram submetidos aos habituais procedimentos vcrificatórios. M a i s pretensiosa é a tentativa de reconstruir, com os recursos do funcionalismo moderno, o mo¬ delo da personalidade, desenvolvido pela psicologia do E u , mas fundamentado numa d i n â m i c a pulsional, como um sistema que se regula a si p r ó p r i o . Em ambos os casos a nova armação teó¬ rica possibilita uma o p e r a c i o n a l i z a ç ã o dos conceitos, em ambos os casos ela exige, em base de c o n d i ç õ e s experimentais, uma verificação das hipóteses deduzidas. Freud por certo supôs, sem fazer maior c o m e n t á r i o , que sua Metapsicologia, a qual liberta o modelo estrutural dos pressupostos da c o m u n i c a ç ã o entre mé¬ dico e paciente e, em vez disso, o entrelaça com o modelo da distribuição energética através de meras definições, representa, nos moldes das ciências experimentais, uma f o r m u l a ç ã o estrita desta espécie. Seu posicionamento frente à metapsicologia, da qual vez por outra fala como se fosse uma "feiticeira" para se defender con¬ tra seu inquietante caráter especulativo, n ã o foi isento de ambivalências. Bem possível que em tal ambivalência sc escondia t a m b é m uma leve dúvida quanto ao status desta ciência, a qual ele, no mais, sustentou de forma tão enfática. Freud iludiu-se ao achar que a psicologia, na medida em que se entende como uma ciência experimental propriamente dita, n ã o se pode satis¬ fazer com um modelo que m a n t é m uma terminologia fisicalista sem conduzir seriamente a h i p ó t e s e s que possam ser operacionalizadas. O modelo da distribuição energética n ã o engendra mais do que aparência, isto é, como se os enunciados psicanalíticos se relacionassem com alterações energéticas mensuráveis. Mas, nenhuma p r o p o s i ç ã o sequer acerca das grandezas quantitativas, deduzidas segundo o ponto de vista da economia pulsional, foi algum dia verificado de acordo com critérios experimentais. O modelo do aparelho psíquico está concebido de tal maneira que algo assim como verificabilidade é associado pelos acontecimen81

tos em nível semântico mas, no plano dos fatos, esta verificabilidade n ã o se reaüza jamais e t a m b é m n ã o o pode ser. É p o s s í v e l que Freud n ã o se tenha dado conta do alcance desta l i m i t a ç ã o pelo fato de haver considerado a s i t u a ç ã o analí¬ tica do diálogo como uma o p e r a ç ã o de c a r á t e r quase-experimental e ter, por isso, concebido a base clínica da e x p e r i ê n c i a como um substituto capaz de satisfazer a verificação experimental. À objeção de que a psicanálise n ã o tolera nenhuma d e m o n s t r a ç ã o experimental Freud contrapõe o argumento da astronomia: essa ciência também não experimenta mas está limitada àquilo que observa. Mas a diferença específica entre a o b s e r v a ç ã o dos as¬ tros e o diálogo analítico está no fato de, no primeiro caso, a seleção quase-experimental das c o n d i ç õ e s iniciais permitir uma o b s e r v a ç ã o controlada de eventos possíveis de serem prognosti¬ cados, enquanto, no segundo caso, o plano do controle dos su¬ cessos, p r ó p r i o s à ação instrumental, " estar totalmente ausente e ser representado através do plano da intersubjetividade, inerente à c o m p r e e n s ã o m ú t u a acerca do sentido de s í m b o l o s i n i n t e l i g í v e i s . Que Freud, mesmo assim, teime obstinadamente em ver no diᬠlogo analítico a única base experimental n ã o apenas para o de¬ senvolvimento da metapsicologia mas t a m b é m para a validade da teoria trai, por outro lado, uma consciência do verdadeiro status desta ciência. Freud por certo pressentia que a r e a l i z a ç ã o con¬ s e q ü e n t e cio programa de uma psicologia " c i c n t í f i c o - n a U i r a l i s í a " ou, no m í n i m o , sua exata execução cm termos behavioristas teria que ter sacrificado a intenção à qual a p s i c a n á l i s e deve, exclusi¬ vamente, sua existência: a intenção do esclarecimento — de acoido com o qual o id deve vir a ser E u . Verdade é que Freud n ã o abandonou tal programa, ele não entendeu a metapsicologia como aquilo que ela tão-somente no sistema referencial da autoreflexão pode ser: como uma interpretação genérico-universal de processos que afetam a formação da espécie.
S5 8

i

Faria sentido reservar o designativo metapsicologia à q u e l a s h i p ó t e s e s fundamentais que se referem ao complexo p a t o l ó g i c o da linguagem cotidiana c da i n t e r a ç ã o , e os quais podem ser expostos em um moaeio estruiurai a mz cia teoria a a l i n g u a g e m . Nesse caso n ã o se trata de uma teoria e m p í r i c a , mas de uma metateoria ou, melhor, de uma meta-hermenêutica que elucida as c o n d i ç õ e s de possibilidade do conhecimento p s i c a n a l í t i c o . A metapsicologia desdobra a lógica da interpretação na situação ana¬ lítica do diálogo. Nesse sentido ela se localiza ao mesmo nível da metodologia das ciências da natureza è do e s p í r i t o . C o m o

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estas, ela reflete o quadro transcendental do conhecimento analí¬ tico como um conjunto objetivo de defesa organizada; e isso sig¬ nifica aqui, simultaneamente, como um conjunto objetivo de pro¬ cessos a u t o - i n v e s t i g a t ó r i o s . N ã o há d ú v i d a de que no plano da auto-reflexão n ã o pode haver, diferentemente do que ocorre na lógica das c i ê n c i a s da natureza e do espírito, algo assim como uma metodologia separada de c o n t e ú d o s materiais, eis que a es¬ trutura da c o n e x ã o cognitiva se confunde com o objeto a ser co¬ nhecido. Entender a s i t u a ç ã o da t r a n s f e r ê n c i a como c o n d i ç ã o de um conhecimento p o s s í v e l significa, ao mesmo tempo, compreen-. der um complexo patológico. Devido a tal conteúdo material, os enunciados t e ó r i c o s , os quais, g o s t a r í a m o s de reservar para a metodologia, n ã o foram conhecidos como p r o p o s i ç õ e s m e t a t e ó ricas e, a rigor, t a m b é m n ã o foram distinguidos das interpreta¬ ções empíricas significativas dos processos de formação que, co¬ mo tais, se desencaminharam. Mesmo assim há que registrar uma diferença no plano metodológico: as interpretações genérico-universais são, como teorias c i e n t í f i c o - e x p e r i m e n t a s , diretamente acessíveis ao controle e m p í r i c o — n ã o importando a diferença de sua base experimental — enquanto as hipóteses meta-hermenêuticas fundamentais sobre a atividade p r ó p r i a à c o m u n i c a ç ã o , sobre a d e f o r m a ç ã o da linguagem e a patologia do comporta¬ mento p r o v ê m de urna reflexão posterior acerca das c o n d i ç õ e s cio conhecimento p s i c a n a l í t i c o p o s s í v e l , o apenas indiretamente, por assim dizer, podem ser confirmadas à luz de uma categoriz a ç ã o global de processos i n v e s t i g a t ó r i o s ou, então, sf finalmente rejeitadas. Ao nível da auto-reflexão, a metodologia das ciências da na¬ tureza pode fazer assomar à superfície uma c o n e x ã o específica entre linguagem e atividade instrumental, ao passo que a metodo¬ logia das ciências do e s p í r i t o pode trazer à luz uma r e l a ç ã o entre linguagem e i n t e r a ç ã o ; ambas podem r e c o n h e c ê - l a como um com¬ plexo objetivo e d e t e r m i n á - l a em sua função transcendental. A mctapsicologia trata igualmente de uma relação fundamental, a saber: daquela entre deformação da linguagem c patologia do comportamento. Ao f a z ê - l o , ela p r e s s u p õ e , uma teoria da lingua¬ gem ordinária, cuja tarefa consiste n ã o menos em clarear, sob o fundamento de um reconhecimento m ú t u o , a validade intersubjetiva de símbolos e a mediação verbal das interações, do que tornar compreensível a aquisição societária da gramática dos jo¬ gos de linguagem como processos de i n d i v i d u a ç ã o . C o m o , de acordo com esta teoria, a estrutura da linguagem determina da
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mesma forma a linguagem e a p r á x i s da vida, os motivos acionais são concebidos t a m b é m como necessidades interpretadas pela lin¬ guagem, de sorte que as m o t i v a ç õ e s n ã o representam impulsos que agem retroativamente mas, sim, i n t e n ç õ e s que orientam sub¬ jetivamente são mediatizadas simbolicamente e e s t ã o , ao mesmo tempo, ligadas umas às outras. A tarefa da metapsicologia é, portanto, demonstrar que este caso normal é o caso-limite de uma estrutura de m o t i v a ç ã o que depende, concomitantemente, de i n t e r p r e t a ç õ e s que afetam tanto necessidades comunicadas publicamente quanto necessidades re¬ primidas e privatizadas. Os símbolos isolados e os motivos re¬ calcados por meio dos mecanismos de defesa desenvolvem seu poder por sobre a cabeça dos sujeitos, e f o r ç a m a i m p o s i ç ã o de satisfações e símbolos substitutos. Desta maneira eles obscurecem o texto dos jogos da linguagem cotidiana e se destacam como perturbação das interações habituais: através da compul¬ são, da mentira, e pela incapacidade de corresponder às expecta¬ tivas sociais obrigatórias. As m o t i v a ç õ e s inconscientes adquirem assim, em face das conscientes, o c a r á t e r de uma p u l s ã o , agindo às costas destas motivações conscientes, o c a r á t e r daquilo que é pulsional por excelência. E como os potenciais motivadores, tan¬ to aqueles que se acham i n c l u í d o s no sistema social da autoc o n s e r v a ç ã o coletiva quanto aqueles que n ã o se encontram inte¬ grados nesse sistema mas são reprimidos, revelam claramente t e n d ê n c i a s agressivas e libidinosas, uma teoria da p u l s ã o se torna i n d i s p e n s á v e l . Importa, p o r é m , m a n t ê - l a isenta de um falso objetivismo. Já o conceito de instinto, o qual é relacionado ao com¬ portamento animal, é adquirido privativamente da p r é - c o m p r e e n são de um mundo humano, restrito por certo, mas sempre já in¬ terpretado no horizonte da linguagem o r d i n á r i a — em termos mais simples, adquirido a partir das s i t u a ç õ e s da fome, do amor e do ó d i o . Tal vinculação com as estruturas de sentido do mun¬ do da vida, por mais elementares que sejam, n ã o perde sua vi¬ gência para o conceito da p u l s ã o , transposto para o homem a partir do eme chamamos de animal. Trata-se de i n t e n ç õ e s enco¬ bertas e erráticas que, de motivos conscientes, se inverteram em causas, submetendo assim o agir da c o m u n i c a ç ã o à causalidade de circunstâncias asselvajadas. Esta causalidade é a do destino e n ã o a da natureza, eis que ela exerce poder por meio dos recursos simbólicos do espírito, razão por que ela também só pode ser dominada pela força da reflexão.

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A t r a v é s da obra de A l f r e d Lorenzcr, o qual entende a anᬠlise de processos d i n â m i c o - p u l s i o n a i s como análise da linguagem no sentido de uma h e r m e n ê u t i c a profunda, estamos em c o n d i ç õ e s de focalizar mais acuradamente os mecanismos decisivos da pa¬ tologia da linguagem, da d e f o r m a ç ã o das estruturas internas da ação e da linguagem, bem como os de sua dissolução analítica. A a n á l i s e s e m â n t i c a , a qual decifra nos sintomas os motivos in¬ conscientes da mesma forma como ela, em base de passagens deformadas, de lacunas de um texto, decifra o sentido recalcado pela censura, ultrapassa a d i m e n s ã o do sentido supostamente sub¬ jetivo da atividade intencional. T a l análise vai além da lingua¬ gem e, na medida em que está a, serviço da c o m u n i c a ç ã o , penetra naquela camada s i m b ó l i c a , onde os sujeitos iludem-se a si mes¬ mos com a linguagem e, ao mesmo tempo, nela se traem. É por isso que a análise pactua com c o n e x õ e s causais; estas se i m p õ e m no momento em que a linguagem, uma vez e x c l u í d a da comuni¬ c a ç ã o p ú b l i c a por meio da r e p r e s s ã o , reage com uma c o m p u l s ã o complementar e obriga a c o n s c i ê n c i a e a a ç ã o comunicativa a se dobrarem frente aos imperativos de uma segunda natureza. N u m lado das extremidades de tais encadeamentos encontram-se, normalmente, e x p e r i ê n c i a s t r a u m á t i c a s de uma cena infantil c, no outro, as a l t e r a ç õ e s da realidade, perpetuadas sob o impacto da c o m p u l s ã o à r e p e t i ç ã o , c atitudes comportarnentais anormais. N u m a s i t u a ç ã o infantil o processo original dc defesa acontece como fuga diante de um contraente superior. T a l processo sub¬ trai à comunicação pública a interpretação lingüística do motivo que levou ao comportamento defensivo. C o m isso, a c o e r ê n c i a gramatical da linguagem p ú b l i c a permanece intacta, enquanto partes deste c o n t e ú d o s e m â n t i c o são privatizadas. A f o r m a ç ã o de um sintoma e q ü i v a l e à c r i a ç ã o de um substituto para um sím¬ bolo, o qual possui agora um peso valorativo alterado. O símbo¬ lo eliminado n ã o é totalmente banido dos conjuntos p r ó p r i o s à linguagem p ú b l i c a ; mas esta p e r t e n ç a gramatical fica sendo, por assim dizer, uma c o n e x ã o s u b t e r r â n e a . Sua força persuasiva lhe advém pelo fato de embaralhar a lógica do uso público da lin¬ guagem através de identificações semânticas errôneas. O símbolo recalcado continua, por certo, inteligível ao nível do texto públi¬ co quando visto à luz de critérios objetivos que, como regras formais, são o resultado'"'de c i r c u n s t â n c i a s contingentes da bio¬ grafia; mas este s í m b o l o n ã o é mais posto em r e l a ç ã o com regras intersubjetivamente reconhecidas. É por isso que o s i n t o m á t i c o encobrimento do sentido e a correspondente p e r t u r b a ç ã o da i n 8'

teração são, de início, i n c o m p r e e n s í v e i s tanto para o sujeito quan¬ to para seus semelhantes. Essa alteração torna-se c o m p r e e n s í v e l no plano da intersubjetividade, a qual precisa ser, antes de mais nada, estabelecida entre o sujeito, como E u , e o sujeito, coma Id; e isso na medida em que m é d i c o e paciente rompem con¬ juntamente a barreira da c o m u n i c a ç ã o . T a l tarefa é facilitada pela situação transferenciai, uma vez que o agir inconsciente fren¬ te ao m é d i c o permanece sem resultado, de maneira que o conflito renovado ricocheteia contra o p r ó p r i o doente e, uma vez reco¬ nhecido seu c a r á t e r compulsivo com o concurso interpretativo do analista, pode vir a ser conectado com as cenas indefinidamente reiteradas fora da análise e, finalmente, ser reconduzido ao cenᬠrio infantil de origem. Esta r e c o n s t r u ç ã o dissolve as falsas iden¬ tificações existentes entre e x p r e s s õ e s p r ó p r i a s à linguagem públi¬ ca e expressões p r ó p r i a s ao linguajar privado, e permite que se compreenda o elo gramatical encoberto entre um s í m b o l o isolado e um texto p ú b l i c o distorcido por um ou mais sintomas. O en¬ t r e l a ç a m e n t o entre símbolos lingüísticos, gramatical em sua es¬ sência, i m p õ e - s e em seu modo de aparição como um encadeamento causai entre eventos e m p í r i c o s e caracteres sedimentados da personalidade. A auto-reflexão remove-o; com isso a deí o n n a ç ã o que caracteriza a linguagem privada desaparece da mes¬ ma nianeíra corno a s i n t o m á t i c a satisfação substituta de motivos acionais recalcados mas, agora, acessíveis ao controle consciente.
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O modelo das três i n s t â n c i a s — E u , Id, Superego — possi¬ bilita uma a p r e s e n t a ç ã o sistemática da estrutura da linguagem e da patologia do comportamento. Os enunciados m e t a - h e r m e n ê u ticos podem ser organizados neste modelo. Eles elucidam o qua¬ dro m e t o d o l ó g i c o no qual as i n t e r p r e t a ç õ e s , empiricamente ricas em c o n t e ú d o , dos processos formativos podem ser desenvolvidos. Estas i n t e r p r e t a ç õ e s genérico-universais precisam, p o r é m , ser distinguidas da moldura metapsicológica. Trata-se de i n t e r p r e t a ç õ e s referentes ao desenvolvimento da primeira infância (relativa à gênese da base motivadora e da formação paralela das funções do Eu) c que servem de matrizes narrativas que, em cada caso particular da biografia, devem ser encaradas como esquemas de i n t e r p r e t a ç ã o , a fim de que possa ser encontrada a cena primeva do conflito n ã o resolvido. Os mecanismos de aprendizagem, com os quais Freud conta (escolha de objeto, identificação com o modelo, introjeção de objetos-de-amor abandonados), tornam compreensíveis a d i n â m i c a do surgimento de estruturas do Eu ao nível de i n t e r a ç õ e s mediadas simbolicamente. Os mecanismos de

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defesa intervém no processo na medida em que as normas sociais, encarnadas pelas expectativas frente às primeiras pessoas de re¬ ferência, confrontam o Eu da criança com um poder insupor¬ tável e forçam-no a fugir de si mesmo rumo à objetivação de si p r ó p r i o . O processo de f o r m a ç ã o da criança é determinado por problemas de cuja solução depende se e em que grau o processo ulterior de socialização será entravado pela h e r a n ç a de conflitos n ã o resolvidos e onerado por limitações de funções do Eu e, assim, por meio de um ponto de partida predeterminado, ser levado a uma a c u m u l a ç ã o de erros, de coações e de fracassos — ou, se o processo formativo possibilita um desenvolvimento rela¬ tivamente estável da identidade do E u . As interpretações genérico-universais de Freud contêm hi¬ p ó t e s e s acerca de diversos modelos de interação entre a criança € suas primeiras pessoas de referência, sobre os conflitos corres¬ pondentes e sobre formas apropriadas para resolvê-los, alem de modelos acerca das estruturas da personalidade, resultantes de tais •soluções ao final do processo de socialização da primeira infância. Tais interpretações apresentam, por seu lado, fatores potenciais para a biografia posterior, permitindo que se façam prognoses parciais. Como os processos de aprendizagem se realizam pelas vias da ação conmnicativa, a teoria pode assumir a forma de uma narração, a qual expõe narrativamenie o desenvolvimento psicodinâmico da criança como uma seqüência continuada de ação: com uma divisão típica de papéis, conflitos básicos que se impõem sucessivamente, modelos de i n t e r a ç ã o que tornam a voltar, enfim, com perigos, crises, soluções, com triunfos e derrotas. C o m o , por outro lado, no plano da metapsicologia os conflitos são com¬ preendidos sob o ponto de vista da defesa, e as estruturas da personalidade entendidas de acordo com a relação recíproca de E u , Id e Superego, esta história é apresentada esqnematieamente como um processo formativo que segue seu curso através das di¬ versas etapas da auto-objetivação c que possui seu telos na autoconsciência de uma biografia, cuja apropriação se efetua pela auto-reflexão. '! -%\ Somente a p r e s s u p o s i ç ã o da metapsicologia permite uma ge¬ neralização sistemática daquilo que, de resto, permaneceria mera história. A metapsicologia fornece uma série de categorias e de hipóteses fundamentais que, a rigor, englobam complexos de de¬ f o r m a ç ã o da linguagem e de patologia do comportamento. As interpretações genérico-universais, desenvolvidas neste quadro, são o resultado de múltiplas e repetidas experiências clínicas:

elas foram adquiridas de acordo com o m é t o d o e l á s t i c o das ante¬ c i p a ç õ e s h e r m e n ê u t i c a s circularmente comprovadas. M a s , mes¬ mo tais e x p e r i ê n c i a s já estavam sob a influência genérica do es¬ quema antecipado de processos de formação perturbados. Ade¬ mais, qualquer i n t e r p r e t a ç ã o que reivindique o status da "univer¬ salidade" subtrai-se ao método hermenêutico, próprio à contínua c o r r e ç ã o da p r é - c o m p r e e n s ã o junto ao texto. Diferentemente do que ocorre com a a n t e c i p a ç ã o h e r m e n ê u t i c a do f i l ó l o g o , a inter¬ p r e t a ç ã o genérico-tiniversal é "constatada" e, enquanto teoria uni¬ versal, precisa ser confirmada a t r a v é s de prognoses dedutivas. Se a p s i c a n á l i s e p r o p õ e uma matriz narrativa, sobre a qual processos de f o r m a ç ã o interrompidos podem ser completados, tornando-se assim uma h i s t ó r i a sem lacunas, os p r o g n ó s t i c o s que são adqui¬ ridos com sua ajuda, servem para reconstruir o passado; mas,, t a m b é m eles são hipóteses que podem gorar. U m a i n t e r p r e t a ç ã o g e n é r i c o - u n i v e r s a l determina processos de f o r m a ç ã o como uma s u c e s s ã o regular de estados s i s t ê m i c o s , al¬ ternados de acordo com os respectivos pontos de partida. É por isso que as variáveis g e n é t i c a s , historicamente relevantes, podem ser analisadas em seu todo, sempre em vista da d e p e n d ê n c i a do sistema. A coerência objetivorintcncional da biografia, a qual não sc torna acessível senão através da auto-reflexão, não é por certo funcionalista no sentido usual do termo. Os eventos ele¬ mentares s ã o , muito mais, c e n á r i o s dc um drama; eles n ã o se mostram sob o ponto de vista instrumentalista da o r g a n i z a ç ã o de meios em relação a sua utilização ou, então, em vista do com¬ portamento adaptativo. A r e l a ç ã o dc conjunto funcional é inter¬ pretada de acordo com o modelo cênico: as cenas elementares aparecem como partes de um conjunto de i n t e r a ç õ e s , através, das quais se realiza o que denominamos de "sentido". Este sen¬ tido n ã o o podemos equiparar aos fins p r ó p r i o s do modelo-deartesão, os quais são executados através de meios especiais. N ã o sc trata t a m b é m de uma categoria dc sentido emprestada do âmbi¬ to funcional da atividade instrumental, como este é o caso, por exemplo, da m a n u t e n ç ã o de um estado sistêmico que se encontra sob c o n d i ç õ e s externas v a r i á v e i s . Trata-se de um sentido que, muito embora n ã o seja visualizado como tal, forma-se por meio da atividade da c o m u n i c a ç ã o e se articula, reflexivamente, como e x p e r i ê n c i a biográfica. A s s i m o "sentido" vai-se descobrindo à medida que o drama de densenrola. No processo de nossa pró¬ pria f o r m a ç ã o somos, por certo, atores e críticos numa e na mes¬ ma e x p e r i ê n c i a . No fim o sentido do p r ó p r i o processo deve

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poder chegar criticamente à c o n s c i ê n c i a , a nós que estamos en¬ volvidos no drama da nossa p r ó p r i a h i s t ó r i a - d a - v i d a ; o sujeito deve poder narrar sua p r ó p r i a h i s t ó r i a c ter compreendido as i n i b i ç õ e s que lhe estavam postas no caminho da auto-reflexão. O estado definitivo de um processo formativo só está, assim, alcan¬ ç a d o quando o sujeito se recorda de suas identificações e aliena¬ ç õ e s , de suas o b j e t i v a ç õ e s impostas e de suas reflexões conquis¬ tadas, como caminhos a t r a v é s dos quais ele se tem constituído. Somente a história sistematicamente universalizada e metapsicologicamente fundada do desenvolvimento da primeira infân¬ cia, com suas variantes t í p i c a s , dá ao m é d i c o condições de compor as informações fragmentárias, obtidas no curso do diálogo analí¬ tico, de tal maneira que possa reconstruir as lacunas da recorda¬ ção e antecipar, em termos de hipóteses, a experiência da reflexão, a qual o paciente é incapaz de formular no início da análise. Ele p r o p õ e i n t e r p r e t a ç õ e s para uma h i s t ó r i a que o paciente não pode contar; mesmo assim, tais i n t e r p r e t a ç õ e s só podem ser corrobo¬ radas pelo fato de o paciente as aceitar e, apoiando-se nelas, narrar sua p r ó p r i a h i s t ó r i a . A i n t e r p r e t a ç ã o de um caso não se revela concludente s e n ã o ao permitir a c o n t i n u a ç ã o bem-sucedida de um. processo de f o r m a ç ã o que se acha interrompido. Interpretações genérico-universais possuem uma posição toda especial entre o sujeito que investiga c o d o m í n i o do objeto inves¬ tigado. Enquanto que, cm casos normais, ó que denominamos clc teoria c o n t é m p r o p o s i ç õ e s acerca de um d o m í n i o dc objeto ao qual estas, como enunciados, permanecem exteriores, a validade de i n t e r p r e t a ç õ e s g e n é r i c o - u n i v e r s a i s depende, precisamente, do fato dos enunciados sobre o d o m í n i o do objeto serem aplicados a eles mesmos pelos "objetos", a saber, pelas próprias pessoas em questão. As informações científico-experimentais comuns só fa¬ zem sentido para os que participam do processo de pesquisa e, a seguir, para aqueles que utilizam tais i n f o r m a ç õ e s ; em ambos os casos a validade das i n f o r m a ç õ e s mede-se unicamente pelos critérios da coerência e da pertinência empírica. Elas apresentam conhecimentos que, pela a p l i c a ç ã o à realidade, têm sido experi¬ mentados junto aos objetos; mas elas t ã o - s o m e n t e possuem vi¬ gência para os sujeitos. Intelecções analíticas, pelo contrário, só podem ter validade para o analista depois de haverem sido, en¬ quanto conhecimentos, aceitas pelo analisado como tal. Pois, a pertinência empírica de interpretações genérico-universais não depende de uma o b s e r v a ç ã o controlada e da posterior comuni¬ c a ç ã o dos pesquisadores entre si mas, ú n i c a e exclusivamente, da

a u t o - r e f l e x ã o executada, seguida por uma c o m u n i c a ç ã o entre o investigador e seu "objeto". Poder-se-ia objetar que a validade e m p í r i c a das interpreta¬ ções genéricas, igual àquela das teorias universais, é determinada por uma reiterada aplicação às reais condições iniciais, e que ela, na medida em que tem sido demonstrada, é o b r i g a t ó r i a para to¬ dos os sujeitos que, de uma ou outra forma, estão abertos àquilo que chamamos de conhecimento. Esta f o r m u l a ç ã o correta en¬ cobre, contudo, a diferença específica: aplicação de hipóteses à realidade permanece, no caso da v e r i f i c a ç ã o de teorias através da o b s e r v a ç ã o (portanto, no círculo funcional do agir instrumen¬ tal), assunto do respectivo sujeito que investiga; mas, no caso do exame de interpretações g e n é r i c o - u n i v e r s a i s a t r a v é s da autoreflexão (portanto, no quadro de uma c o m u n i c a ç ã o entre mé¬ dico e paciente) a aplicação transmuta-se em a u t o - a p l i c a ç ã o do objeto da pesquisa que participa do processo cognitivo. Ó pro¬ cesso de pesquisa não pode conduzir a i n f o r m a ç õ e s v á l i d a s senão ao se transformar em uma a u t o - i n v e s t i g a ç ã o do paciente. Teorias são válidas, caso o sejam, para todos aqueles que podem assu¬ mir a posição do sujeito que examina. As interpretações genéricouniversais valem, caso valham, para o sujeito investigador, e para todos os que podem assumir seu lugar, apenas na medida em que. aqueles que são feitos objetos de i n t e r p r e t a ç õ e s particulares se reconheçam a si próprios em tais interpretações. O sujeito n ã o pode adquirir um conhecimento do objeto sem que este se houvesse tornado um conhecimento para o objeto e este, através daquele, se tivesse libertado e tornado um sujeito. Esta constelação não é, a rigor, t ã o surpreendente. Cada interpretação pertinente, também aquela das ciências do espírito, só é — pelo fato de restabelecer uma intersubjetividade pertur¬ bada da compreensão mútua — possível em uma linguagem co¬ mum ao intérprete e a seu objeto. E l a deve, por conseguinte, valer para o sujeito e o objeto da mesma maneira. Por certo que uma tal posição do pensamento possui, para as i n t e r p r e t a ç õ e s genérico-universais do processo de formação, conseqüências que não se impõem para interpretações na área das ciências do espí¬ rito. C o m efeito, interpretações g e n é r i c a s e teorias universais têm em comum a p r e t e n s ã o mais ampla de permitirem explicações causais e previsões condicionais. M a s , diferentemente do que ocorre nas ciências experimentais estritas, a p s i c a n á l i s e n ã o pode satisfazer tal p r e t e n s ã o sobre a base de uma s e p a r a ç ã o m e t o d o l ó ¬ gica exata entre o domínio do objeto e o plano dos enunciados

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t e ó r i c o s . Isto n ã o fica sem c o n s e q ü ê n c i a s ; primeiro, para a cons¬ t r u ç ã o da linguagem interpretativa; segundo, para as c o n d i ç õ e s do exame e m p í r i c o e, terceiro, para a lógica da e x p l a n a ç ã o en¬ quanto tal. Como toda i n t e r p r e t a ç ã o , assim t a m b é m as chamadas inter¬ p r e t a ç õ e s genérico-universais (I) permanecem presas à d i m e n s ã o da linguagem cotidiana. Elas constituem, por certo, n a r r a ç õ e s sis¬ tematicamente generalizadas; mas, mesmo assim, elas permane¬ cem h i s t ó r i c a s . A exposição histórica serve-se de enunciados nar¬ rativos. Tais enunciados chamam-se narrativos porque apresentam acontecimentos como elementos de uma h i s t ó r i a . E x p l i c a m o s um evento narrativamente quando mostramos como um sujeito é envolvido em uma história. Em cada h i s t ó r i a surgem nomes de i n d i v í d u o s , pois sempre se trata de m u d a n ç a s - d e - c s t a d o de um sujeito ou de um grupo de sujeitos, os quais se entendem como s o l i d á r i o s . A unidade da história é fundada pela identidade de um horizonte de expectativas, possível de ser a t r i b u í d o a estes sujeitos. A narrativa relata, com efeito, a influência modificadora de acontecimentos experimentados subjetivamente, esses que irrompem em um mundo-da-vida c adquirem significação para sujeitos que agem. Em tais h i s t ó r i a s os sujeitos devem poder compreender a si p r ó p r i o s , da mesma forma como devem poder entender seu mundo. A significação h i s t ó r i c a de qualquer acon¬ tecimento está sempre relacionada, de .forma i m p l í c i t a , com a c o n e x ã o de sentido de uma biografia, cuja coesão é mantida pela identidade do E u , ou de uma história coletiva, determinada pela identidade do grupo. É por isso que a e x p o s i ç ã o narrativa está comprometida com a linguagem o r d i n á r i a ; pois, somente a reflexividade sui generis do linguajar cotidiano permite comunicar aquilo que é individual cm expressões que, inevitavelmente, são universais.
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h i s t ó r i a s a sc desenrolar de acordo com alternativas previsíveis muito embora cada uma destas h i s t ó r i a s deva, e n t ã o , poder apre¬ sentar-se novamente com a p r e t e n s ã o de ser a e n c e n a ç ã o autobio¬ gráfica dc um indivíduo particular. Como é possível uma tal ge¬ n e r a l i z a ç ã o ? Em cada h i s t ó r i a , por mais contingente que seja, esconde-se um elemento universal, pois de cada h i s t ó r i a um outro pode destilar algo de exemplar. H i s t ó r i a s são tanto mais compre¬ e n s í v e i s , como um exemplo, quanto maior for o c a r á t e r t í p c o de sua n a r r a ç ã o . O conceito do tipo designa aqui uma qualidade daquilo que pode ser traduzido: uma história é típica em uma dada s i t u a ç ã o e em r e l a ç ã o a um p ú b l i c o determinado quando a " a ç ã o " pode facilmente ser destacada de seu contexto original e transferida para uma outra s i t u a ç ã o , igualmente individualizada. Podemos aplicar o "caso t í p i c o " a nosso p r ó p r i o caso: somos nós próprios quem empreendemos a aplicação, abstraímos o com¬ p a r á v e l do distinto e, respeitadas as c i r c u n s t â n c i a s especiais do nosso caso, concretizamos o modelo derivado pela via desta abstração.
:

Cada h i s t ó r i a é, pelo fato de representar um conjunto indi¬ vidualizado, uma história particular. Cada exposição histórica i m plica a exigência por unicidade. Ainda que não abandone o pla¬ no da exposição narrativa, uma interpretação genérico-universal precisa, pelo c o n t r á r i o , romper esta l i m i t a ç ã o do que é h i s t ó r i c o . E l a possui a forma de uma n a r r a ç ã o , porque deve servir a su¬ jeitos que reconstroem sua p r ó p r i a biografia na forma de uma narrativa; mas ela só pode ser matriz para muitas destas narra¬ ç õ e s , porque n ã o deve ter vigência exclusiva para um caso indi¬ vidual determinado. E l a é uma história generalizada em termos sistemáticos porque fornece o esquema de um s e m - n ú m e r o de

Tal é também o procedimento do médico que reconstrói a biografia do doente com a ajuda dc um material d i s p o n í v e l ; o paciente, como tal, n ã o procede de outra maneira quando, com ajuda do esquema proposto, narra sua h i s i ó r i a - d e - v i d a , t a m b é m em seus detalhes até e n t ã o esquecidos. A m b o s n ã o se orientam, por certo, em um exemplo, mas — exatamente — em um esque¬ ma. Na interpretação genérico-universal faltam os traços indivi¬ duais do exemplo, o passo em d i r e ç ã o à a b s t r a ç ã o já está feito; m é d i c o e paciente n ã o t ê m mais o que fazer senão ativar o es¬ quema. A g e n e r a l i z a ç ã o s i s t e m á t i c a consiste, portanto, no se¬ guinte: em e x p e r i ê n c i a s h e r m e n ê u t i c a s precedentes já se abstraiu de muitas h i s t ó r i a s t í p i c a s , tendo em vista a multiplicidade dos casos individuais. A interpretação genérico-universal não contém nome dc indivíduos, apenas papéis anônimos; ela não contém cir¬ c u n s t â n c i a s contingentes, mas c o n s t e l a ç õ e s que retornam sempre de novo, e modelos de a ç ã o ; ela não contém um emprego idiomático da linguagem, mas um v o c a b u l á r i o estandardizado. E l a n ã o apresenta um processo t í p i c o s e n ã o que descreve, em conceitosde-tipo, o esquema para uma atividade com variantes condicio¬ nais, É desta maneira que Freud e x p õ e o complexo de É d i p o e suas s o l u ç õ e s : com a ajuda de conceitos estruturais com eu, id e superego (os quais foram obtidos a partir de e x p e r i ê n c i a s do d i á l o g o a n a l í t i c o ) ; recorrendo a p a p é i s , pessoas e modelos dâ in¬ t e r a ç ã o (resultantes da estrutura familiar) e, finalmente, pelo

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recurso a mecanismos da ação e da c o m u n i c a ç ã o (como escolha de objeto, identificação e i n t e r i o r i z a ç ã o ) . O emprego de uma linguagem ordinária nos moldes de uma terminologia n ã o carac¬ teriza um estágio fortuito de desenvolvimento da p s i c a n á l i s e . A n ¬ tes pelo c o n t r á r i o , todas as tentativas dc dar à metapsicologia uma forma mais precisa fracassaram porque as c o n d i ç õ e s da a p l i c a ç ã o de interpretações genérico-universais excluem uma formalização da linguagem do dia-a-dia. C o m efeito, os t é r m i n o s que aí são empregados estão a serviço da e s t r u t u r a ç ã o de narrativas; a eles se recorre, procurando contato com a linguagem usual do pacien¬ te, quando ambos, m é d i c o e paciente, completam o esquema ana¬ lítico da n a r r a ç ã o nos termos de > uma h i s t ó r i a . Ao introduzir nomes de indivíduos em lugar de p a p é i s a n ô n i m o s , e preenchen¬ do modelos de i n t e r a ç ã o para deles fazer cenas vividas, eles de¬ senvolvem ad hoc uma nova linguagem; nesta, a linguagem da interpretação universal é posta de acordo com a do paciente. Esta etapa faz com que a aplicação se revele como uma tradução. Isto permanece encoberto, enquanto a linguagem ordi¬ nária da teoria, formulada segundo uma terminologia específica, vem em auxílio da linguagem do paciente sobre o pano de fundo societário comum, próprio à proveniência burguesa c à formação escolar de ura giuasiano. O' problema cia t i a d u ç â o torna-se ex¬ plícito, como tal, quando a d i s t â n c i a social da linguagem se acentua. Ereud tem consciência deste falo. Isto se mostra por ocasião do debate acerca da possibilidade de a p s i c a n á l i s e , no futuro, encontrar uma difusão ao nível das massas:
"Defrontar-nos-emos, hipóteses psicológicas instruídas; mente inteligíveis de então, fará com boa a tarefa de adaptar a nossa as técnica às

cia, basta constatar se o acontecimento singular corresponde à definição operacional pela qual a e x p r e s s ã o t e ó r i c a é determina¬ da. Esta aplicação operacional move-se, necessariamente, no quadro do agir instrumental. E l a n ã o satisfaz, portanto, a aplica¬ ção de expressões teóricas que afetam interpretações genéricouniversais. O material, ao qual estas i n t e r p r e t a ç õ e s são aplicadas, n ã o consiste em eventos singulares, mas se c o m p õ e de e x p r e s s õ e s simbólicas, próprias a uma biografia fragmentária; portanto, de partes constituintes de um complexo individualizado em termos específicos. Neste caso, depende da c o m p r e e n s ã o h e r m e n ê u t i c a daquele que libera o material, se um elemento de sua biografia for ou n ã o adequadamente interpretado por uma e x p r e s s ã o teóri¬ ca proposta. Esta aplicação hermenêutica movimenta-se, neces¬ sariamente, na moldura de uma c o m u n i c a ç ã o inerente à lingua¬ gem cotidiana. Sua r e a l i z a ç ã o n ã o é, p o r é m , a mesma da aplica¬ ç ã o operacional. Enquanto nesta se decide se, para a teoria, con¬ dições empíricas disponíveis podem servir de aplicação — o me¬ canismo da d e d u ç ã o teórica permanece aqui, enquanto tal, in¬ tacto — a aplicação h e r m e n ê u t i c a p r o p õ e - s e a tarefa de trans¬ formar a matriz narrativa das i n t e r p r e t a ç õ e s g e n é r i c o - u n i v e r s a i s em urna n a r r a ç ã o ; portanto, sc ocupa cm plenijicar uma história individual, fazendo dela urna e x p o s i ç ã o narrativa: as c o n d i ç õ e s relativas à aplicação definem uma execução da interpretação que, no plano da i n t e r p r e t a ç ã o g e n é r i c o - u n i v e r s a l , deve, como tal, ser evitada. As deduções t e ó r i c a s e s t ã o , por certo, mediatizadas por uma c o m u n i c a ç ã o com o m é d i c o ; na verdade elas precisam, po¬ r é m , ser empreendidas pelo paciente enquanto tal. Isto tem a ver com a particularidade m e t o d o l ó g i c a (II), a saber: interpretações g e n é r i c o - u n i v e r s a i s n ã o obedecem aos mes¬ mos critérios de refutação que são p r ó p r i o s às teorias universais. Se uma prognose condicional, deduzida de uma h i p ó t e s e nomológica c dc certas condições iniciais da operação, for falsificada, a h i p ó t e s e p o d e r á ser vista como refutada. U m a i n t e r p r e t a ç ã o genérico-universal nós a podemos verificar de forma a n á l o g a , de¬ duzindo uma c o n s t r u ç ã o a partir dc suas ( p r ó p r i a s ) d e d u ç õ e s e das c o m u n i c a ç õ e s do doente. A tal c o n s t r u ç ã o podemos dar a forma de um prognóstico condicional. Caso ele confira, o pa¬ ciente será levado a produzir determinadas r e c o r d a ç õ e s , a refletir um certo fragmento dc sua biografia esquecida e a superar as perturbações da comunicação e do seu comportamento. Mas, nesse caso, o caminho da falsificação n ã o é o mesmo das teorias universais. Pois, se o paciente rejeitar uma c o n s t r u ç ã o , a inter-

novas condições. N ã o tenho mas precisaremos

dúvidas de que a pertinência de nossas novas impressão também as formas as nossas sobre pessoas mais
81

pouco facil-

buscar

mais

simples e teóricas".

expressar

doutrinas

Os problemas da a p l i c a ç ã o , com os quais as teorias científico-experimentais sc confrontam, são apenas aparentemente anᬠlogos. Na aplicação de hipóteses nomológicas às condições ini¬ ciais de uma o p e r a ç ã o , os eventos singulares, expressos em pro¬ p o s i ç õ e s de existência ("esta pedra"), são igualmente postos em relação com as expressões universais das proposições teóricas. M a s este tipo de s u b s u n ç ã o n ã o apresenta maiores problemas, eis que os acontecimentos singulares só entram em c o n s i d e r a ç ã o na medida em que preenchem os critérios dos predicados universais ("esta pedra" está, por exemplo, para "massa"). Em c o n s e q ü ê n -

282.

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p r e t a ç ã o , da qual esta c o n s t r u ç ã o foi deduzida, n ã o poderá, já por isso, ser vista como refutada. H i p ó t e s e s psicanalíticas repor¬ tam-se, depois de tudo, a c o n d i ç õ e s onde a e x p e r i ê n c i a está sus¬ pensa, muito embora elas devam-se corroborar exatamente junto a essa experiência: a experiência da reflexão 6 a única instância na qual aquilo que chamamos de h i p ó t e s e s pode vir a ser confir¬ mado ou falsificado. Quando esta i n s t â n c i a n ã o se i m p õ e , fica sempre ainda uma alternativa: ou a i n t e r p r e t a ç ã o é falsa (isto é, a teoria ou sua aplicação a.este caso particular) ou, pelo con¬ t r á r i o , as r e s i s t ê n c i a s , corretamente diagnosticadas no mais, são demasiadamente fortes. A 'nstância, na qual c o n s t r u ç õ e s errôneas podem fracassar, n ã o coincide nem com uma o b s e r v a ç ã o contro¬ lada, nem com uma experiência comunicativa. A interpretação de um caso n ã o se corrobora s e n ã o , ú n i c a e exclusivamente, pela continuação de um processo de formação, isto é, junto à auto-reflexão que se executa e não j á , com certeza, naquilo que o pa¬ ciente profere ou na maneira como ele se comporta. Sucesso e insucesso n ã o são aqui, como no horizonte do agir instrumental no quadro da atividade comunicativa, cada vez constatáveis em termos intersubjetivos. Mesmo o desaparecimento dos sintomas n ã o permite que se chegue a uma c o n c l u s ã o i r r e v o g á v e l : eles po¬ deriam muito bem ter sido subslituídos por outros sintomas, ini¬ cialmente inacessíveis tanto à o b s e r v a ç ã o quanto à experiência da i n t e r a ç ã o . T a m b é m o sintoma está basicamente comprome¬ tido com a significação que ele possui para o sujeito engajado na defesa contra ele; ele está incorporado ao complexo da auto-objetivação e da auto-refJexão e não possui, além deste, nenhum po¬ der falsifieatório ou verificatório. Freud está consciente desta di¬ ficuldade m e t o d o l ó g i c a . E l e sabe que o n ã o do analisado, deste que rejeita uma c o n s t r u ç ã o proposta, é a m b í g u o :
"Em tima. que, alguns raros casos ele mostra ser a expressão de uma recusa legí-

um campo muito grande. Desta maneira, a ú n i c a i n t e r p r e t a ç ã o segura de seu 'não' é que ele que aponta para as elocuções a qualidade diretas do de n ã o lhe disse paciente, provas ser completo; que não foi pode haver dúvida de que Parece, portanto, oferecida uma a construção não tudo. depois lhe sobre a os questão fide-

c o n s t r u ç ã o , fornecem de c o n f i r m a ç ã o ,

muito poucas que s ã o ,

de saber sc estivemos certos ou errados. formas indiretas dignas". 9

É do maior interesse que existam sob todos aspectos,

Freud pensa nas a s s o c i a ç õ e s c o r r ò b o r a n t e s do sonhador, o qual libera fragmentos de textos até e n t ã o esquecidos ou sonha novos sonhos. Por outra parte, surgem d ú v i d a s se os sonhos n ã o podem estar influenciados pela sugestão do m é d i c o :
"e S um sonho traz à tona situações que podem ser interpretadas como

referentes a cenas do passado do sonhador, parece em indagar se em conteúdos de sonhos deste tipo. E essa questão

especial importante

a i n f l u ê n c i a do m é d i c o t a m b é m pode desempenhar algum pape! é a mais urgente de que, por assim dizer,

todas, no caso dos sonhos chamados corroborativos,

'seguem atrás' da análise. Com alguns pacientes, esses s ã o os únicos sonhos que se consegue. Tais pacientes reproduzem apenas as e x i g ê n c i a s passadas de sua infância depois dc havê-las construído a partir de seus sintomas, a dúvida às palavras sonhador. associações e outros sinais, e proposto a eles então, vista os sonhos c o r r ò b o r a n t e s acerca de saber se n ã o podem essas construções. Seguem-se, contudo,

dos q u a i s s u r g e ,

ser i n t e i r a m e n t e d e s p i d o s de v a l o r p r o b a t ó r i o , e m imaginados ambígua em s u b m i s s ã o

da possibilidade dc terem sido essa situação está

d o analista, cm lugar de trazidos à luz desde o i n c o n s c i e n t e do l\'ão se pode fugir a esses pacientes, obtemos acesso na análise,
03

de vez que, com

e a menos que se interprete, construa e proponha, jamais ao que neles reprimido".

Muito mais f r e q ü e n t e m e n t e , expressa uma dc modo igualmente fácil, pode ter

r e s i s t ê n c i a que pode ter' lhe foi apresentada, mas de algum outro fator

sido evocada pelo tema geral da c o n s t r u ç ã o que surgido da complexa s i t u a ç ã o a n a l í t i c a . consiitui prova de mente compatível com ela.

Um ' n ã o ' de um paciente, portanto, n ã o ainda que seja construção perfeitaque toda desse tipo é de fato, disna parte (do

c o r r e ç ã o de uma c o n s t r u ç ã o , Uma vez

incompleta, pois abrange apenas um pequeno fragmento dos eventos esquecidos, estamos livres para supor cutindo o que lhe foi dito, mas psiquismo) timento nté que o paciente n ã o esteja sua contradição baseando

Freud está convencido de que a sugestão do médico encon¬ tra seu limite no fato de o mecanismo da f o r m a ç ã o do sonho n ã o poder, como tal, ser influenciado. M a s , mesmo assim, a s i t u a ç ã o analítica concede um peso valorativo especial n ã o apenas ao " n ã o " mas também ao "sim" do paciente. Também as confirmações do pacente, o médico n ã o as pode encarar como se fossem moeda desprovida de valor. Certos críticos acham que o analista n ã o faz outra coisa do que induzir uma r e i n t e r p r e t a ç ã o da interpre¬ t a ç ã o — até aí válida — da biografia, ao sugerir ao paciente uma nova terminologia. A isso Freud objeta que, para a veri¬ ficação da construção, a c o r r o b o r a ç ã o do paciente n ã o possui outro significado afora o de sua d e n e g a ç ã o :
94

que ainda n ã o foi revelada. V i a de regra, n ã o dará seu assenque tenha sabido de toda a verdade, e esta abrange amiúde "É verdade que n ã o aceitamos plenamente um menos ainda concedemos a seu 'sim' a 'não' de do analisado, mas seu valor nominal validade

CRÍTICA 284 CONHECIMENTO E INTERESSE

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285

N ã o há

j u s t i f i c a ç ã o para

que

nos

acusem

de

que Na tal

reinterpretemos realidade maneira

inva-

riavelmente sua e x p r e s s ã o d e c i s ã o nos seja f á c i l . O

em uma c o n f i r m a ç ã o .

as coisas que uma

n ã o s ã o t ã o simples assim, n ã o simplificamos de

'sim' direto c imediato do analisado é a m b í g u o . de que ele reconhece como correta a

Na verdade, pode ser que lhe foi feita,

sinal

construção

diferença para com os procedimentos analítico-causais c, de qual¬ quer forma, certa afinidade com o m é t o d o explicativo-hermenêu-¬ tico. Freud retoma esta q u e s t ã o sob um aspecto m é d i c o , ao se. indagar se a p s i c a n á l i s e pode ser seriamente chamada de (uma) terapia causai. Sua resposta é a m b í g u a ; a pergunta em si, parece ter sido mal posta:
"Na medida em que a terapia a n a l í t i c a n ã o ' se p r o p õ e , como sua tarefa sc comporta como uma terapia causai.é. Ocorre que, h á . das causas da intensidades meio relati¬ origem de da seqüência suas de seu

mas esse que,

'sim' pode t a m b é m n ã o ter sentido ou ainda — o que podemos é mais c ô m o d o para sua r e s i s t ê n c i a — a verdade (ainda) não descoberta possui quando a ele produz, como adendo 'sim' como arremate de uma tal anuência,

ehamar de ' h i p ó c r i t a ' , porquanto por meio

primeira, remover os sintomas, ela muito doença, vas, até tempo das na atrás, rastreamos às fosse a

deva continuar encoberta. Um valor este sim apenas seguirem confirmações Somente indiretas, tal quando o paciente o imediato a seu sim, novas l e m b r a n ç a s , as construção. em
i > È

Em outro sentido, os senhores podem dizer, ela n ã o o repressões que disposições instintuais, desvios curso possível, época, ou talvez,

quais completam e ampliam a

caso

reconhecemos '

c o n s t i t u i ç ã o c nos

desenvolvimento. q u í m i c o inà custa .de.

do ponto em q u e s t ã o " .

Supondo, agora, presente cm

por algum um

terferir IKN' e mecanismo, aumentar ou diminuir a' quantidade de libido

Mesmo a confirmação indireta através da associação não tem senão um valor relativo, caso for considerada isoladamente. Com razão Freud insiste que apenas a c o n t i n u a ç ã o da análise pode decidir algo sobre a utilidade ou inutilidade de uma cons¬ t r u ç ã o : tão-somente o contexto do processo da formação em seu todo possui o poder de corroborar òu de falsificar. Mesmo no caso em que sc trate de i n t e r p r e t a ç õ e s g e n é r i c o universais, a verificação dc hipóteses só pode obedecer àquelas regras que são adequadas à s i t u a ç ã o cio exame; somente estas garantem rigorosa objetividade da validade ( c i e n t í f i c a ) . Quem, pelo contrário, reclama que interpretações genéricas sejam trata¬ das como as i n t e r p r e t a ç õ e s filológicas dc textos ou como teorias universais e sejam, em c o n s e q ü ê n c i a , submetidas a critérios que, do exterior, determmam o curso da i n v e s t i g a ç ã o — quer se trate dos critérios do jogo da linguagem em vigência, quer dos critérios da observação controlada — coloca-se de saída fora da dimensão da auto-reflexão, o único domínio no qual os enunciados psican a l í f c o s podem fazer sentido.
90

determinada

reforçar

instinto

outro, tal coisa seria, então, uma terapia causa] no verdadeiro sentido da., palavra, para a qual nossa a n á l i s e teria efetuado preliminar existe de reconhecimento. método de atacamos, No em momento os conjunto, as semelhante os influenciar serem o i n d i s p e n s á v e l trabalho como sabem, não. com
;

atual,

processos diferentes dos

libidinais; pontos fenômenos,
37

nossa terapia exatamente acessíveis

psíquica pontos a

— - não mas.'

que sabemos algumas

raízes assaz

ainda assim, bem distantes dos sintomas; devido

os .pontos que sc nos tornaram peculiares". , •;.

circunstâncias

Uma última particularidade da lógica, própria às interpreta¬ ções genérico-universais, resulta (III) do vínculo da compreensão hermenêutica com a explicação causai: o ato-do-compreender adquire, ele próprio, poder explanatório. A circunstância de as cons¬ t r u ç õ e s poderem assumir, em vista dos sintomas, a forma de hi¬ p ó t e s e s e x p l i c a t ó r i a s revela o parentesco com os procedimentos a n a l í t i c o - c a u s a i s . O fato de uma c o n s t r u ç ã o ser, enquanto tal, uma interpretação, e a instância da verificação um ato da remem o r a ç ã o e da a n u ê n c i a do paciente, mostra, ao mesmo tempo, a

A comparação cia psicanálise com a análise bioquímica revê-: la que suas h i p ó t e s e s não abarcam c o n e x õ e s causais entre eventos; empíricos observáveis; não fosse assim, as informações científicas nos dariam c o n d i ç õ e s de alterar uma determinada s i t u a ç ã o pela mera m a n i p u l a ç ã o de seus dados. A p s i c a n á l i s e n ã o nos concede uma disponibilidade t é c n i c a sobre o psiquismo doente, o qual seja semelhante à q u e l a que a b i o q u í m i c a exerce sobre o organismoenfermo. E, mesmo assim, ela realiza mais do que um mero tratamento de sintomas porque, ainda que n ã o seja ao nível de eventos físicos, ela n ã o deixa de abranger c o n e x õ e s causais — e isso cm um ponto "que se nos tornou a c e s s í v e l por meio dc cir¬ c u n s t â n c i a s assaz peculiares". Este é, precisamente, o ponto em. que linguagem e comportamento são patologicamente deformados pela causalidade de s í m b o l o s isolados e motivos reprimidos. C o m Hegel podemos distingui-la da causalidade da natureza e c h a m á la de uma causalidade do destino; pois, a r e l a ç ã o causai entre cena primeva, defesa e sintoma n ã o e s t á ancorada, segundo leis-' naturais, em uma invariância da natureza mas, de forma asselva-

CRÍTICA CONHECIMENTO E INTERESSE

COMO

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CONHECIMENTO

E

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28'

286 iada em uma invariância da biografia, representada pela compulsão à repetição, mas suscetível de ser removida pelo poder da
r e í l C

As 'hipóteses que deduzimos, a partir de interpretações gené¬ ricas n ã o se reportam à natureza, como é o caso das teorias uni¬ versais, mas à esfera que, pela a u t o - o b j e t i v a ç ã o , , tornou-se uma •secunda natureza, a saber: ao "inconsciente". Este termo foi pen¬ sado para designar a classe de todas as c o a ç õ e s motivadoras, m•dependizadas de seu contexto, que emanam daquelas disposições .da necessidade, desautorizadas pela sociedade e cuja existência pode ser evidenciada na conexão causai entre, por um lado a s i t u a ç ã o da frustração originária e, por outro, certas atitudes anormais da linguagem e do comportamento. O peso de motiva¬ ções desta espécie constitui uma medida para avaliar perturba•ções e desvios do processo formativo. Enquanto, pela disponibi¬ lidade técnica sobre a natureza, fazemos com que esta, em vir¬ tude de nosso conhecimento acerca das c o n e x õ e s causais, trabalhe para n ó s a i n t e l e c ç ã o analítica envolve a causalidade do incons¬ ciente como tal: diferentemente do que ocorre na medicina so¬ m á t i c a , "causai" que é em sentido estrito, a terapia nao repousa sobre um ato-do-reivindicar a pertinência dos conhecidos elos •causais; pelo c o n t r á r i o , a terapa deve muito mais sua eficácia a wvressão das c o n e x õ e s causais em si. A metapsicologia contem, de qualquer maneira, hipóteses referentes ao mecanismo da de¬ fesa da disjunção de s í m b o l o s , do recalque de motivos, alem de h i p ó t e s e s sobre o modo complementar do trabalho da auto-reflexão, isto é, hipóteses que "explicam" a gênese e a remoção de uma causalidade do destino. Um complemento para as hipóteses n o m o l ó g i c a s das teorias universais seriam, cm c o n s e q ü ê n c i a as hipóteses básicas da metapsicologia acerca da estrutura da lin¬ guagem e do agir; mas exatamente estas são desenvolvidas em n í v e l m e t a t e ó r i c o e não possuem, assim, o status de hipóteses n o m o l ó g i c a s ("comuns"). . O conceito de uma causalidade do inconsciente permite, outrossim, compreender o efeito terapêutico da "analise' ; uma pala¬ vra na qual, n ã o por acaso, somaram-se crítica como conheci¬ mento e crítica como m u d a n ç a . U m a análise causai so atinge as •conseqüências imediatamente práticas da crítica pelo tato de o •complexo empírico, o qual ela abarca, ser simultaneamente um •complexo intencional, passível de uma c o m p r e e n s ã o e reconsí r u ç ã o segundo regras gramaticais: podemos conceber, antes ae

mais nada, uma c o n s t r u ç ã o proposta pelo m é d i c o ao paciente como uma hipótese explicativa, deduzida de uma interpretação' genérico-universal e de condições suplementares; pois, a c o n e x ã o causai em debate vige entre uma s i t u a ç ã o conflitante do passado e as reações c o m p u l s i v a m e n t é reiteradas no presente (sintoma). M a s , quanto ao c o n t e ú d o , as h i p ó t e s e s referem-se ao conjuntode-sentido, o qual está determinado pelo conflito, pela defesa, frente a desejos capazes de gerar conflito, pela s e g r e g a ç ã o do. símbolo de desejo, pela satisfação substituta do desejo censurado,, pela f o r m a ç ã o do sintoma e pela defesa s e c u n d á r i a . Em termos h i p o t é t i c o s , um complexo causai é formulado como um conjuntode-sentido hermeneuticamente compreensível. T a l f o r m u l a ç ã o pre¬ enche as condições de uma h i p ó t e s e causai e, ao mesmo tempo,., as de uma i n t e r p r e t a ç ã o , (em vista de um texto deformado por meio do sintoma). A c o m p r e e n s ã o inerente à h e r m e n ê u t i c a pro¬ funda assume a função da e x p l i c a ç ã o . E l a corrobora sua força explanatória na auto-reflexão, suprimindo uma objetivação que' entende e, concomitantemente, explica: esta é a e f e t u a ç ã o crítica, daquilo que Hegel subsumiu sob o título do compreender ("agar¬ rar pelo pensamento"). De acordo com sua forma lógica, a c o m p r e e n s ã o explanat ó r i a distingue-se, por certo, em um ponto decisivo da e x p l i c a ç ã o . , formulada em termos rigorosamente c i c n t í t i c o - c x p e r i m c n t a i s . A m ¬ bas a p ó i a m - s e sobre enunciados causais, adquiridos com ajuda de c o n d i ç õ e s suplementares a partir de p r o p o s i ç õ e s universais, isto é, de i n t e r p r e t a ç õ e s deduzidas (variantes condicionais) ou de hipóteses nomológicas. Ocorre que o conteúdo das proposições t e ó r i c a s permanece inalterado frente à a p l i c a ç ã o operacional à realidade; nesse caso podemos apoiar as e x p l i c a ç õ e s sobre leis,. sem contexto. No caso de uma e x p l i c a ç ã o h e r m e n ê u t i c a , pelo contrário, asserções teóricas são traduzidas de tal forma na exposição narrativa de uma história individual que o enunciado causai não cria corpo sem este contexto. I n t e r p r e t a ç õ e s g e n é r i c a s só podem, abstratamente, manter sua p r e t e n s ã o por uma validade universal porque suas d e d u ç õ e s são, além disso, determinadas pelo contexto. As explicações narrativas distinguem-se das o p e r a ç õ e s estritamente dedutivas pelo fato de os eventos ou as circunstân¬ cias, para as quais reivindicam uma r e l a ç ã o causai, receberem uma d e t e r m i n a ç ã o suplementar no curso de sua a p l i c a ç ã o . O que chamamos de i n t e r p r e t a ç õ e s g e n é r i c o - u n i v e r s a i s n ã o autorizam, em. c o n s e q ü ê n c i a , explicações isentas de um contexto.
88

'

2 8 8

CONHECIMENTO

E

INTERESSE CRÍTICA COMO UNIDADE DE CONHECIMENTO E INTERESSE 289

12.

Psicanálise e teoria societária. A redução dos interesses do conhecimento em Nietzsche
00

Preud entendeu a sociologia como uma psicologia aplicada. Em seus escritos teóricos sobre civilização e cultura ele p r ó p r i o tentou afirmar-se como sociólogo. Foram q u e s t õ e s de p s i c a n á l i s e •que o conduziram ao campo de uma teoria da sociedade. Ao conceber determinados distúrbios da c o m u n i c a ç ã o , do •comportamento e dos órgãos como sintomas, o analista recorre a um conceito preliminar de normalidade e desvio. M a s este p r é -conceito está, possivelmente, determinado em termos culturais, e n ã o pode ser definido pela mera referência a um estado-de-coisas já fixado (conceitualmente):
"Vimos •entre o que n ã o que
10

lado, da a u t o c o n s e r v a ç ã o — que, sob os imperativos da natureza exterior, precisa ser garantida a t r a v é s do esforço coletivo de in¬ divíduos socializados — e, por outro, do potencial exuberante da natureza interior, das necessidades libidinosas e agressivas. A l é m disso, a i n s t â n c i a do superego, edificada sobre i d e n t i f i c a ç õ e s pos¬ teriormente abandonadas com as expectativas das primeiras pes¬ soas de referência, atesta que um E u , comandado por seus dese¬ jos, n ã o é imediatamente confrontado com a realidade do mundo exterior; a realidade com a qual ele se defronta, e frente à qual as m o ç õ e s pulsionais prenhes de conflito aparecem, elas p r ó p r i a s , como fontes de perigo, é o sistema da a u t o c o n s e r v a ç ã o , é a socie¬ dade cujas e x i g ê n c i a s institucionais são representadas pelos pais para o i n d i v í d u o em f o r m a ç ã o . A autoridade externa, prolongada intrapsiquicamente pelo surgimento do superego, possui assim uma base econômica:
"O m ó v e l da sociedade humana é, em ú l t i m a a n á l i s e , de ordem e c o n ô m i ¬ ca; como não dispõe de meios de vida suficientes para manter vivos sexual,
1A

é cientificamente v i á v e l e

traçar

uma

linha

demarcafória que esta

é psiquicamente normal o

anormal,

dc maneira

d i s t i n ç ã o , apesar de sua i m p o r t â n c i a p r á t i c a , possui apenas um valor con¬ vencional".

todos os seus membros,

a menos que trabalhem, ela é obrigada a limitar atividade as eternas e'

o número de seus membros c desviar suas energias da

reorientando-as para o trabalho. Em suma, defronta-se com

Caso, p o r é m , aquilo que a cacla vez deve ser considerado •como processo formativo normal ou desviado determina-se uni¬ camente, segundo os critérios cio quadro institucional de uma •sociedade, esta poderia, comparada com outras, encontrar-se ela mesma, possivelmente em seu todo, em um estado p a t o l ó g i c o , muito embora cia fixe para cada caso particular, a ela subordi¬ nado, os p a r â m e t r o s daquilo que chamamos de normalidade:
"Numa neurose individual tomamos como nosso ponto de partida o contraste que distingue o paciente de seu meio ser 'normal'. Para pelo ser buscado em mesmo distúrbio, n ã o um outro ambiente, o qual sc presume ele teria de um grupo, no qual todos os membros estejam afetados pode haver esse pano de fundo; lugar qualquer".
101

primevas e x i g ê n c i a s da vida, as quais nos assediam a t é o dia de hoje".

O que Freud denomina de diagnose das neuroses coletivas postula uma investigação que vai além dos critérios da moldura institucional dada e visualiza a história do desenvolvimento cultural da espécie humana, o "processo c i v i l i z a t ó r i o " . T a l perspectiva filogenética é, ademais, sugerida por uma reflexão adicional, lambem ela advinda da psicanálise. O fato central da defesa frente a m o ç õ e s impulsoras indese¬ j á v e i s remete a um conflito fundamental entre f u n ç õ e s , por um

M a s , se o conflito fundamental está definido pelas c o n d i ç õ e s do trabalho material, pela penúria econômica e pela carência de bens (de p r o d u ç ã o e de consumo), as frustrações impostas por esse conflito perfazem uma grandeza historicamente v a r i á v e l . A p r e s s ã o da realidade e a correspondente dose de r e p r e s s ã o social dependem, e n t ã o , do grau de disponibilidade t é c n i c a sobre as forças da natureza, bem como da organização dos bens explo¬ rados e da d i s t r i b u i ç ã o dos bens produzidos. Quanto mais au¬ menta o poder de dispor tecnicamente sobre a natureza e en¬ fraquece o imperativo da realidade, tanto mais se debilita a censura pulsional, imposta pelo sistema da a u t o c o n s e r v a ç ã o , tan¬ to mais se avoluma a o r g a n i z a ç ã o do Eu e, com ela, a faculdade de exercer um controle racional sobre as frustrações. Sendo assim, não há por que n ã o comparar o processo h i s t ó r i c o - u n i v e r s a l da societarização com o processo de socialização do indivíduo. En¬ quanto a c o a ç ã o da realidade é toda-poderosa e a o r g a n i z a ç ã o do Eu frágil, de modo que a r e n ú n c i a pulsional n ã o pode ser im¬ posta senão através de forças efetivas de repressão, a espécie en¬ contra, para o problema da defesa, soluções coletivas que se assemelham às soluções neuróticas em nível individual. As rp.es-

CRÍTICA

COMO

UNIDADE

DE

CONHECIMENTO

E

INTERESSE

291

290

CONHECIMENTO

E

INTERESSE re da vida dos animais — e desprezo ter que como sabemos, o o fim de dois e inclui todo conhecimento distinguir toda as a entre cultura que e os e por

mas constelações, as quais levam o indivíduo à neurose, motivam a sociedade a erigir suas i n s t i t u i ç õ e s . A q u i l o que caracteriza as instituições constitui, ao mesmo tempo, sua similaridade c o m formas patológicas. Assim como a compulsão à repetição do in¬ terior, a violência institucional provoca, do exterior, uma repro¬ dução imune à crítica e relativamente rígida, própria a um com¬ portamento constante e inalterado:
"Nosso conhecimento das de a u x í l i o para neuroses o problema mostraram ser d o e n ç a s n e u r ó t i c a s ' dos i n d i v í d u o s foi dc grangrandes i n s t i t u i ç õ e s sociais; pois, as para das tentativas de encontrar s o l u ç õ e s
103

c i v i l i z a ç ã o — apresenta, Por um a lado, homens extrair outro, adquiriram engloba com

aspectos

para

o observador. natureza

capacidade da

controlar

forças

riqueza desta para a s a t i s f a ç ã o das necessidades humanas; todas as i n s t i t u c i o n a l i z a ç õ e s n e c e s s á r i a s para os outros e, especialmente, a dos homens uns com

ajustar as

relações

distribuição

da riqueza d i s p o n í v e l . As duas t e n d ê n c i a s da c i v i l i z a ç ã o n ã o s ã o inde¬ pendentes uma da outra; em primeiro lugar, porque dos homens são a profundamente qual a influenciadas existente pela torna fação puisional, riqueza as r e l a ç õ e s m ú t u a s quantidade possível; em de satissegundo a

a c o m p r e e n s ã o das

lugar, porque, individualmente, um homem pode, cionar como riqueza em outra pessoa faz uso de objeto sexual; um tualmente um inimigo da interesse relação a sua capacidade ademais, universal".

ele p r ó p r i o , vir a fun¬ ou o escolhe como que essa deva

individuais

outro homem, na medida em que de trabalho porque se
1 0 ( i

de compensar os desejos insatisfeitos, receber uma s o l u ç ã o social".

que por intermédio

i n s t i t u i ç õ e s devem

em terceiro lugar, humano

todo

i n d i v í d u o é vir¬

civilização,

embora

suponha

Disto resulta t a m b é m o ponto de vista para decifrar o patrimônio cultural da tradição. Nele se sedimentaram os conteúdos da p r o j e ç ã o das fantasias de desejo, as quais exprimem i n t e n ç õ e s reprimidas. Tais c o n t e ú d o s podem ser concebidos como sublimações que apresentam satisfações virtuais e garantem uma indenização publicamente autorizada para a r e n ú n c i a imposta pela cultura (e civilização).
"Toda relato fim de a h i s t ó r i a da cultura acerca dos diversos sujeitar seus desejos (e/ou c i v i l i z a ç ã o ) que os sob insatisfeitos as nada mais c do tentaram condições que um a —

constituir

caminhos

homens

trilhar

canibiantes

e alteradas pelo a v a n ç o t é c n i c o — da garantia e da f r u s t r a ç ã o por parte da realidade".NH

Esta é a chave psicanalítica para uma teoria societária que, por um lado, converge de maneira surpreendente com a reconstrução marxista da história da espécie e, sob outro aspecto, traz à tona pontos de vista especificamente novos. Da mesma forma como M a r x com o termo sociedade, F r e u d compreende com "cultura" aquilo pelo qual a espécie humana se eleva para além das condições da existência animal. E l a é um sistema dc autoc o n s e r v a ç ã o que, antes de mais nada, preenche duas f u n ç õ e s : a da afirmação do homem contra a natureza e a da organização das relações dos homens entre s i . Igual a M a r x , Freud distingue — ainda que sob outros t é r m i n o s — as forças produtivas, as quais indiciam o estágio da disponibilidade técnica sobre os processos naturais, das relações de p r o d u ç ã o :
1 0 3

A última formulação, a saber, que cada um é um inimigo virtual da civilização, remete já para uma d i f e r e n ç a entre Freud e M a r x . Este concebe o quadro institucional como uma regula¬ m e n t a ç ã o dos interesses que, no p r ó p r i o seio do sistema do tra¬ balho social, são fixados com base, nas r e l a ç õ e s existentes entre indenizações sociais c obrigações socialmente impostas. Em conseqüência, o poder das instituições provém, para M a r x , do fato ele estatuírem uma distribuição de compensações e encargos; esta d i s t r i b u i ç ã o assenta sobre a violência e está deformada em ter¬ mos específicos de classe. Freud entende, pelo c o n t r á r i o , a mol¬ dura institucional na conexão existente entre ela e a r e p r e s s ã o das m o ç õ e s pulsionais; esta repressão precisa, segundo Freud, ser i m posta ao sistema da a u t o c o n s e r v a ç ã o de maneira geral, indepen¬ dente do fato dc haver uma d i s t r i b u i ç ã o de bens e encargos, de acordo com critérios específicos de classe (pelo menos enquanto uma economia de escassez pôr sobre cada s a t i s f a ç ã o o sinete coercivo da compensação):
"É digno dc registro que, civilização por pouco que n ã o obstante, a os homens dc sejam capazes de a vida

existir isoladamente, sintam, crifícios que a víduo; za,

como um pesado fardo os sa¬ fim tornar possível o indi¬

deles espera,

c o m u n i t á r i a . A c i v i l i z a ç ã o precisa, portanto, ser defendida contra

c seus regulamentos, instituições e imperativos põem-se a serviço de também manter essa distribuição; na verdade, têm de proteger

tal tarefa. N ã o apenas objetivam efetuar uma certa d i s t r i b u i ç ã o da rique¬ mas contra os impulsos hostis dos homens tudo o que contribui para a con¬

"A c i v i l i z a ç ã o humana, e x p r e s s ã o pela qual quero significar tudo aquilo em que a vida humana se elevou acima de sua c o n d i ç ã o animal, e dife-

quista da riqueza e a sua p r o d u ç ã o . As c r i a ç õ e s humanas s ã o facilmente

292
destruídas, e a

CONHECIMENTO

E

INTERESSE CRÍTICA COMO UNIDADE DE CONHECIMENTO E INTERESSE 293

ciência

e

a

técnica,

que

as

construíram,

também

podem

ser utilizadas para sua

aniquilação".i°7

Freud demarca os limites daquilo que chamamos de institui¬ ções em um contexto diferente daquele que caracteriza o agir instrumental. N ã o é propriamente o trabalho mas, sim, a coerç ã o para o trabalho socialmente dividido que necessita de ser regulamentada:
"Com o reconhecimento de que toda a oposição de dos atingidos c i v i l i z a ç ã o repousa por essas exigências, numa compul¬ inevita¬ claro tornou-se

s ã o ao trabalho e numa r e n ú n c i a à p u l s ã o , provocando, portanto, velmente,

que a c i v i l i z a ç ã o n ã o pode consistir, principal ou unicamente, na p r ó p r i a riqueza, nos meios de vez nos que essas com adquiri-la e' nas d i s p o s i ç õ e s para sua s ã o ameaçadas da c i v i l i z a ç ã o . pelos quais se a outras, que pela rebeldia e distribuição, coisas os pela mania desser defendida: os homens

trutiva dos participantes agora de medidas coerção e

Junto com a riqueza deparamocivilização a pode reconciliar
8

meios

destinam sacrifícios.

com ela e a r e c o m p e n s á - l o s por seus descritas como o

Estas últimas podem ser

p a t r i m ô n i o p s í q u i c o da c i v i l i z a ç ã o " . i °

mo tempo, uma parte destas satisfações c o m p e n s a t ó r i a s pode ser reelaborada em l e g i t i m a ç ã o de normas vigentes. As fantasias co¬ letivas de desejo, as quais compensam a r e n ú n c i a imposta pela, cultura, pelo fato de n ã o serem privadas mas p o s s u í r e m , como tais, uma existência isolada ao nível da comunicação pública, na verdade, uma existência s u b t r a í d a à crítica, essas fantasias s ã o . ampliadas, adquirindo a d i m e n s ã o de i n t e r p r e t a ç õ e s de mundo e, como racionalizações do d o m í n i o , são postas a serviço das normas sociais vigentes. É o que Freud denomina "o p a t r i m ô n i o ; psíquico da civilização (e/ou cultura): mundividências religiosas e ritos, ideais e sistemas de valores, estilizações e produtos artís-, ticos, o mundo da formação-em-projeção e da aparência objeti¬ va; em suma, o mundo das " i l u s õ e s " . Freud por certo n ã o é t e m e r á r i o a ponto de reduzir a superestrutura cultural a fenômenos patológicos. Uma ilusão que, sob o plano da tradição cultural, assumiu uma forma objetiva, como por exemplo a religião judaico-cristã, não é uma idéia delirante(alucinação):
" P a r a as i l u s õ e s permanece c a r a c t e r í s t i c o deles a o f a t o d e d e r i v a r e m d e desejos c o m p l i c a d a dos d e l í r i o s . ou seja, irrealizávcl ou

A a r m a ç ã o institucional do sistema do trabalho social serve à o r g a n i z a ç ã o do trabalho, na medida em que. sc trata da coope¬ r a ç ã o c da d i v i s ã o do trabalho, bem como da d i s t r i b u i ç ã o dc bens, isfo c, desde que se trate de inserir o agir racional-jinalista em utn complexo dc interações. Esta rede do agir, p r ó p r i o à comu¬ n i c a ç ã o , serve, sem d ú v i d a , t a m b é m às necessidades funcionais do sistema do trabalho social; mas, ao mesmo tempo, cie precisa ser consolidado ao nível das instituições, eis que, sob a pressão da realidade, nem todas as necessidades interpretadas encontram sua s a t i s f a ç ã o , e nem todos os motivos acionais, a transbordar os l i ¬ mites sociais impostos, podem ser recalcados conscientemente, mas apenas com a ajuda de forças afetivas se deixam reprimir. É por isso que o quadro institucional consiste num feixe de nor¬ mas o b r i g a t ó r i a s ; elas n ã o apenas legalizam necessidades inter¬ pretadas por meio da linguagem, mas t a m b é m as rcorientam, metamorfosciam e reprimem. A d o m i n a ç ã o das normas sociais repousa sobre uma defesa que, enquanto é devedora a mecanismos inconscientes e n ã o está submetida a um controle consciente, postula, por sua vez, satis¬ fações c o m p e n s a t ó r i a s e engendra sintomas. Estes adquirem seu caráter institucional estável e imperscrutável precisamente por meio da c o m p u l s ã o n e u r ó t i c a coletiva, a c o e r ç ã o encoberta, essa que substitui a v i o l ê n c i a manifesta das sanções abertas. Ao mes-

h u m a n o s ; nesse s e n t i d o elas s e a p r o x i m a m dos d e l í r i o s p s i q u i á t r i c o s , m a s t a m b é m d i f e r e m , à parte da estrutura mais c o m o essencial necessariamente
9

N o caso destes e n f a t i z a m o s ilusão não precisa ser estar e m

a c o n t r a d i ç ã o c o m a realidade; falsa,

c o n t r a d i ç ã o com a realidade", i*

Para o i n d i v í d u o , o quadro institucional da sociedade estabe¬ lecido é uma realidade i n a m o v í v e l . Desejos i n c o m p a t í v e i s com essa realidade m a n t ê m o c a r á t e r de fantasias de desejo, transfor¬ mados que são em sintomas c f o r ç a d o s a encetar o caminho da satisfação compensatória. Para a espécie em seu conjunto, porém, os limites da realidade podem ser deslocados sem maiores pro¬ blemas. O grau dc r e p r e s s ã o , socialmente necessária, mede-se pelo alcance variável do d o m í n i o t é c n i c o que uma sociedade determi¬ nada dispõe sobre os processos da natureza. A s s i m , o quadro institucional que regula a d i s t r i b u i ç ã o de encargos e compensa¬ ções, estabilizando uma ordem social assentada sobre a domina¬ ção e a renúncia imposta pela c i v i l i z a ç ã o , pode, à medida que o progresso técnico a v a n ç a , distender-se, transformando em rea¬ lidade porções sempre maiores da t r a d i ç ã o cultural, antes de tudo essas que possuem um c o n t e ú d o - d e - p r o j e ç ã o , isto é, traduzindo satisfações virtuais em satisfações sancionadas pelas instituições. As "ilusões" não são apenas falsa c o n s c i ê n c i a . Como naquilo que

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INTERESSE

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M a r x chama de ideologia, há nelas t a m b é m o que chamamos de utopia. Desde que o progresso técnico abra a possibilidade obje¬ tiva de reduzir as repressões socialmente inevitáveis a um nível inferior àquele postulado pelas instituições, o conteúdo utópico pode ser liberado de sua j u n ç ã o com os elementos a l u c i n a t ó r i o s , ideológicos, próprios à legitimação • do poder, e passar à crítica dos complexos de d o m i n a ç ã o historicamente obsoletos. Em tal contexto, t a m b é m a luta de classes encontra seu lugar. Enquanto o sistema de d o m i n a ç ã o que assegura as r e p r e s s õ e s gerais, impostas a todos os membros da sociedade de forma igual, for administrado por uma classe social, privações e frustrações gerais virão acopladas com carências e decepções específicas de classe. T r a d i ç õ e s que legitimam a d o m i n a ç ã o de uma classe são obrigadas a indenizar a massa da p o p u l a ç ã o t a m b é m por tais frus¬ trações específicas, as quais vão além das privações gerais. É por isso que são sempre primeiro as massas exploradas que n ã o tole¬ ram ser oprimidas por legitimações que se tornaram precárias, invertendo contra a cultura estabelecida os c o n t e ú d o s u t ó p i c o s da tradição:
"Sc nos voltarmos para as restrições que só sc aplicam a certas classes flagrante e q u e tudo o que

nas experiências da reflexão. Por outro lado, M a r x não pôde pres¬ tar contas ao status da c i ê n c i a cuja f u n ç ã o , enquanto crítica, seria, a de reconstruir o ato-da-autoconstituição da espécie: sua con¬ cepção materialista de s í n t e s e entre homem e natureza continuava limitada à a r m a ç ã o categorial da atividade instrumental. Em tal armação conceituai um saber de p r o d u ç ã o podia ser justifi¬ cado, mas n ã o o saber inerente à reflexão. Tampouco o modelo da atividade produtiva era adequado para reconstruir as r e l a ç õ e s , entre d o m i n a ç ã o s o c i e t á r i a e ideologia. Na metaps cologia Freud adquiriu', em contrapartida, um quadro de atividade comunicativa deformada; este permite que se apreenda a gênese das institu*ções, se avalie o peso valorativo das i l u s õ e s ; portanto, que se entenda d o m i n a ç ã o e ideologia num e no mesmo complexo. Freud pode, expor uma c o n e x ã o conceituai, a qual M a r x n ã o chegou a flagrar em sua intimidade.
111 :

<la sociedade, encontraremos uni estado de coisas que é vilegiadas invejem os privilégios das favorecidas excesso de c dc

jamais deixou dc ser r e c o n h e c i d o . K dc esperar q u e essas classes siibprifaçam podem para se libertarem de seu próprio n ã o for p o s s í v e l , no rém, parte esta uma privação. Onde isso

permanente parcela foi a l é m do ponto depende assim da

descontentamento p e r s i s t i r á de uma parte — é

seio desta cultura, o que pode conduzir a perigosas revoltas. Se, po¬ uma cultura n ã o cie talvez seus maior — c que para parceia. com (... ) em que a s a t i s f a ç ã o opressão da outra participantes as pessoas uma Não número parte, atuais

este é o caso em todas as culturas oprimidas cuja cultura é existência que cias uma

compreensível hostilidade pelo mínima

desenvolvam' uma intensa tornam possível que do que uma c os im¬

seu trabalho, mas dc cuja riqueza n ã o possuem mais preciso acentuar

civilização

deixa insatisfeito um pulsiona à duradoura", no

t ã o grande dc seus participantes

revolta, n ã o tem nem merece a perspectiva dc uma e x i s t ê n c i a

M a r x havia elaborado a idéia do ato-da-autoconstituição da espécie humana em duas d i m e n s õ e s , a saber: como um processo de autoprodução, impulsionado pela atividade daqueles que par¬ ticipam do trabalho social, o qual é acumulado nas forças pro¬ dutivas; e como um processo de formação, levado em frente pela atividade c r í t i c o - r e v o l u c i o n á r i a das classes, o qual é conservado

Freud concebe as i n s t i t u i ç õ e s como um poder que substitui: uma aguda v i o l ê n c i a exterior pela constante c o m p u l s ã o interna de u m á c o m u n i c a ç ã o deformada e autolimitadora. De maneiracorrespondente, ele entende a t r a d i ç ã o cultural como um incons¬ ciente coletivo, de uma ou outra forma sempre censurado e v i - , rado ao avesso; nele os s í m b o l o s isolados orientam para as vias da satisfação virtual os motivos que, embora exilados cia esfera da c o m u n i c a ç ã o , são constantemente reativados. Estes motivos constituem as forças que, cm lugar da ameaça cie fora e do perigo da sanção imediata, forçam a consciência a ficar presa ao inevitável, ao legitimarem a d o m i n a ç ã o enquanto tal. M a s eles são, simultaneamente, as f o r ç a s das quais a c o n s c i ê n c i a cativa, das ideologias pode vir a ser libertada pela a u t o - r e f l e x ã o , no momento em que um novo a c r é s c i m o no potencial de d o m i n a ç ã o da natureza desacredite as antigas formas de l e g i t i m a ç ã o . Marx não pôde flagrar dominação e ideologia como uma co¬ m u n i c a ç ã o distorcida porque p r e s s u p ô s que os homens se distin¬ guiram dos animais no dia em que c o m e ç a r a m a produzir seus meios de s u b s i s t ê n c i a . M a r x estava convencido de que a e s p é c i e humana se elevara outrora sobre as c o n d i ç õ e s animais da existên¬ cia pela fato de haver ultrapassado os limites da i n t e l i g ê n c i a ani¬ mal, podendo, em c o n s e q ü ê n c i a , transformar um comportamento adaptativo em um agir instrumental. Como base natural da his¬ tória lhe interessa, por isso, a organização corpóreo-especificada da espécie sob a categoria do trabalho possível: o animal que fa¬ brica instrumentos. O olhar de Freud, pelo c o n t r á r i o , n ã o estava voltado para o sistema do trabalho social mas para a família. E l e

i

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s u p ô s que os homens se distinguiram dos animais no momento em que tiveram sucesso em inventar uma agência que socializasse a prole biologcamente a m e a ç a d a e dependente por um p e r í o d o re¬ lativamente longo. Freud estava convencido de que a espécie hu¬ mana se elevara outrora sobre as c o n d i ç õ e s animais da existência pelo fato de haver ultrapassado os limites da s o c i e t a r i z a ç ã o ani¬ mal, podendo em c o n s e q ü ê n c i a transformar um comportamento regulado pelo instinto em um agir p r ó p r i o à c o m u i v c a ç ã o ("huma¬ na). Como base natural da h i s t ó r i a lhe interessa, por isso, a orga¬ nização corpóreo-especificada da espécie sob a categoria do exce¬ dente impulsionai e sua respectiva c a n a l i z a ç ã o : o animal inibido em suas pulsões e que, ao mesmo tempo, fantasia. O desenvolvi-' mento da sexualidade humana com seus dois zênites, interrompido pelo período da latência em base da repressão edipal, e a função da agressividade no estabelecimento da instância do Superego, fa¬ zem com que o problema antropológico bás'co não lhe pareça ser a organização do trabalho, mas o desenvolvimento de instituições capazes de resolver, de forma estável e duradoura, o conflito entre o excedente pulsional e a c o e r ç ã o da realidade. É por isso que Freud n ã o c o m e ç a rastreando aquelas funções do Ego que sc de¬ senvolvem, em nível cognitivo, no quadro da atividade instrumen¬ tal. E l e concentra sua a t e n ç ã o sobre a gênese do fulcro motivador, p r ó p r i o à atividade da c o m u n i c a ç ã o . Jnlcressa-Jhe compreender o desfno dos potenciais p r i m á r i o s da p u l s ã o nos meandros dc uma i n t e r a ç ã o entre o ser que sc desenvolve e seu tiico ambiente, inte¬ r a ç ã o determinada pela estrutura familiar da qual este i n d v í d u o que-cresce fica dependente durante uma longa fase de adestra¬ mento. M a s caso a base natural da espécie humana estiver essencial¬ mente determinada pelo excedente puls onal e pela prolongada de¬ pendência infantil, e se o surgimento das instituições puder ser, com base nessa i n t e l e c ç ã o , compreendido a partir das c o n e x õ e s de uma c o m u n i c a ç ã o deformada, então, aquilo que chamamos de do¬ m i n a ç ã o c ideologia adquirirá uma outra função, um peso valorativo mais substancial do que aquele .que M a r x lhe predicara. C o m isso a lógica da dinâmica reflexiva,-dirigida contra dominação e ideologia, recebendo seus impulsos pelo progresso que ocorre no sistema do trabalho social (ciência e t é c n i c a ) , torna-se intelec¬ tualmente acessível: trata-se da lógica da tentativa e do erro, mas transposto para o plano da história universal. Sob os pressupostos da teoria de Freud, a chamada base natural não faz uma promessa — a saber: pelo desenvolvimento dás forças produtivas haveria a
:

t

possibilidade objetiva de libertar totalmente o quadro institucional do c a r á t e r repressivo que lhe é peculiar — mas t a m b é m n ã o pode, em princípio, desencorajar uma tal esperança. Freud indicou cla¬ ramente qual a d i r e ç ã o de uma h i s t ó r i a da e s p é c i e determinada, ao mesmo tempo, por um processo de a u t o p r o d u ç ã o sob a cate¬ goria do trabalho e por um processo de f o r m a ç ã o sob as c o n d i ç õ e s de uma c o m u n i c a ç ã o deformada: o desenvolvimento das forças produtivas engendra, em cada etapa, a possibilidade objetiva de atenuar a v i o l ê n c i a do quadro institucional e "substituir a base afetiva de sua o b e d i ê n c i a c i v i l i z a t ó r i a por uma (base) r a c i o n a l " . Cada passo no caminho da r e a l i z a ç ã o de uma idéia, posta em cena com a contradição de uma c o m u n i c a ç ã o deformada pela força, é marcado pela t r a n s f o r m a ç ã o da moldura institucional e pela des¬ truição de uma ideologia. O objetivo é "a fundamentação racional das prescrições culturais", portanto, uma organização das relações sociais de acordo com o p r i n c í p i o de que a validade de toda e qualquer norma, com c o n s e q ü ê n c i a s de ordem política, venha a depender de um consenso, obtido por meio de uma c o m u n i c a ç ã o isenta de d o n r n a ç ã o . M a s Freud insiste em que todo esforço no sentido de incorporar tal idéia no plano da ação e de promover, em termos r e v o l u c i o n á r i o - c r í t i c o s , o progresso do esclarecimento está rigorosamente comprometido com a n e g a ç ã o determinada, própria ao sofrimento facilmente identificável — c chama atenção para a c o n s c i ê n c i a h i p o t é t i c o - p r á t i c a , a saber: executar um expe¬ rimento que t a m b é m pode n ã o dar em nada.
113 1 1 3

'

As idéias do iluminismo p r o v ê m da reserva das ilusões trans mitidas historicamente; r a z ã o por que devemos entender as ações do iluminismo como a tentativa de testar, em c i r c u n s t â n c i a s dadas, os limites de exeqüibilidade do conteúdo utópico, próprio ao par trimônio cultural. Não há dúvida de que a lógica da tentativa e do erro exige que se façam r e s t r i ç õ e s no plano da r a z ã o , algo que a lógica do controle c i e n t í f i c o - e x p e r i m e n t a l pode dispensar: em um teste que se proponha experimentar as c o n d i ç õ e s de uma possível " r e s t r i ç ã o do sofrimento", o risco de um aumento do sofrimento n ã o deve fazer parte do programa em q u e s t ã o . Dessas pondera¬ ções resulta a prudente p r e c a u ç ã o de Freud frente ao "grande exr perimento cultural que se encontra atualmente em fase de aplicar ção no imenso p a í s que se estende entre a Europa e a Á s i a " . Q progresso do conhecimento na d i m e n s ã o das c i ê n c i a s , bem como o da crítica, funda a e s p e r a n ç a "de que seja possível adquirir, pelo trabalho científico, um saber sobre a realidade do mundo através do qual possamos aumentar nosso poder e em vista do qual posr
r 1 1 4

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samos organizai: nossa vida". Esta e s p e r a n ç a , e somente essa, se¬ para basicamente a i n t e n ç ã o de uma filosofia com raízes iiuministas das tradições dogmáticas: "minhas ilusões não são incorrigíveis como as ilusões religiosas, elas n ã o possuem o caráter alucinatório. Caso a e x p e r i ê n c i a mostrar que nos enganamos, renunciaremos a nossas expectativas. Considerem, pois, minha tentativa a partir da¬ quilo que ela é. . . " ; na verdade, como algo que pode ser prati¬ camente revidado. T a l p r e c a u ç ã o n ã o emperra a atividade crít i c o - r e v o l u c i o n á r i a , mas interdita a certeza totalitária, a saber: a idéia, pela qual essa certeza se deixa orientar, é realizável sob qualquer c i r c u n s t â n c i a . Para Freud d o m i n a ç ã o e ideologia pos¬ suem r a í z e s demasiadamente profundas para que, em lugar de uma lógica da e s p e r a n ç a fundada e da tentativa controlada, ele possa proclamar uma confiança (irrestrita no futuro da humanidade). Esta é a vantagem de uma teoria que incorpora, na base na¬ tural da história, a herança flexível de uma história natural, patri¬ m ô n i o de um potencial instintual que engloba tanto tendências libidinosas e agressivas quanto a possibilidade de romper o meca¬ nismo da satisfação imediata. M a s , paradoxalmente, este mesmo ponto de vista pode, igualmente, levar a uma construção objetivista da história, a qual conduz Freud a um estágio dc reflexão an¬ terior à q u e l e que M a r x atingira, e o impede de elaborar a intel e c ç ã o básica da psicanálise cm termos de uma teoria da sociedade. '' Pelo fato de M a r x haver comprometido o ato-da-autoc o n s t i t u i ç ã o da espécie com o mecanismo do trabalho social, ele nunca se v i u seduzido a dissociar a d i n â m i c a do desenvolvimento h i s t ó r i c o da atividade da espécie, enquanto um sujeito, e a conce¬ ber assim tal a u t o c o n s t i t u i ç ã o nas categorias da r e v o l u ç ã o natural. Freud, pelo contrário, introduziu, já em nível metapsicológico, um modelo energético dc dinâmica pulsional que visualiza naquilo que chamamos de objetivo sua objetividade preferida. A s s i m Freud vê t a m b é m o processo cultural da espécie como uma realidade presa à d i n â m i c a das p u l s õ e s : as forças libidinais e agressivas, potestades p r é - h i s t ó r i c a s da e v o l u ç ã o , perpassam por assim dizer o sujeito da espécie e determinam sua história. Ocorre que o modelo biológico da filosofia da h i s t ó r i a não é outra coisa do que a sombra refletida do modelo t e o l ó g i c o , ambos igualmente pré-críticos. As pulsões como primum movens da história, cultura como resultado de sua luta — uma tal c o n c e p ç ã o teria esquecido que acabamos de ad¬ quirir privativamente o conceito do impulso pulsional, única e ex¬ clusivamente, a partir da d e f o r m a ç ã o da linguagem e da patologia do comportamento. No plano a n t r o p o l ó g i c o n ã o deparamos com
115 111

í

necessidades que não estejam já interpretadas em termos de lin¬ guagem e nao estejam simbolicamente fixadas em ações virtuais A h e r a n ç a da história natural, a qual consiste em um potencial de impulsos desprovidos de qualquer e s p e c i a l i z a ç ã o , determina as con¬ dições iniciais de reprodução da espécie humana, mas os meios de tal reprodução societária emprestam, de saída, à conservação da espécie a qualidade da autoconservação. Verdade é que devemos acrescentar imediatamente que a experiência da a u t o c o n s e r v a ç ã o coletiva fixa já o conceito da p r é - c o m p r e e n s ã o , a partir do qual inferimos privativamente algo assim como c o n s e r v a ç ã o da espécie em vista da pré-história animal da espécie humana. Seja como for, uma r e c o n s t r u ç ã o da história da espécie, a qual n ã o abandone o terreno da crítica, precisa recordar-sc da base de sua experiência e conceber a espécie a partir do "instante" em que esta n ã o pode reproduzir sua vida senão em c o n d i ç õ e s culturais, como um sujeito que necessita, antes de mais nada e de qualquer forma, de se re¬ produzir como sujeito. M a r x , nesse sentido herdeiro da t r a d i ç ã o idealista, manteve tacitamente a síntese como ponto de referência: a síntese de uma p o r ç ã o de natureza subjetiva com uma natureza objetiva para esta síntese; isso supõe que as c o n d i ç õ e s contingentes da síntese reme¬ tam a uma natureza já explorada cm' si. "Natureza em si" é, po¬ rém, uma c o n s t r u ç ã o ; ela designa uma natnra naturanx que engen¬ drou do mesmo modo a natureza subjetiva como aquela que se lhe opõe como natureza objetiva, mas sempre de tal maneira que nós, enquanto sujeitos cognoscentes, n ã o possamos, em princípio, to¬ mar posição fora ou até "por baixo" da divisão da chamada "na¬ tureza em si" em uma natureza subjetiva e uma natureza objetiva. Os potenciais reconstruídos do impulso natural fazem, como tais, parte da natureza incognoscível; mesmo assim tais potenciais são acessíveis ao conhecimento na medida em que determinam a cons¬ telação inicial do conflito, em cuja solução a espécie humana está engajada ao ponto dc esmorecer. As formas pelas quais o conflito é decidido são, pelo contrário, dependentes das condições culturais de nossa existência: trabalho, linguagem e poder. Certificamo-nos das estruturas do trabalho, da linguagem e do poder não de uma forma ingênua, mas graças a uma auto-reflexão do conhecimento; essa toma como seu ponto de partida uma teoria da ciência, assume posteriormente uma versão transcendental e, por fim, certifica-se dá conexão objetiva dessas estruturas. O processo de investigação das ciências da natureza está or¬ ganizado no quadro transcendental da atividade instrumental, de
A

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('<)Nlli:ClMENTO E INTERESSE

CRÍTICA C O M O UNIDADE DH CONHECIMENTO E INTERESSE

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sorte que 6 n<N«IMl iamentc do ponto de vista da disponibilidade técnica possível que a natureza se torna um objeto de conhecimento. O processo de pesquisa das ciências do espírito articula-se no plano transcendental da atividade própria à comunicação, de maneira que a explicação de complexos significativos está necessariamente subordinada ao ponto de vista que preserva o maior grau possível de intersubjetividade em vista da compreensão mútua. Devido ao fato de refletirem as estruturas de trabalho e interação, portanto, serem reflexo das conexões-de-vida, havíamos entendido estes dois pontos de vista transcendentais como a expressão cognit'va de interesses que orientam o conhecimento como tal. Contudo, este vínculo entre conhecimento e, interesse não resulta de maneira concludente senão em base da auto-reflexão de ciências que satisfaçam os critérios típicos à crítica racional. Como exemplo escolhemos a psicanálise. O processo de pesquisa, o qual deve ser ao mesmo tempo um processo de auto-investigação, está comprometido aqui com as condições do diálogo analítico. Estas condições são transcendentais na medida em que fixam o sentido da validade de interpretações psicanalíticas; mas elas são, simultaneamente, objetivas na medida em que permitem atualizar um tratamento fático de fenômenos patológicos. É supérfluo reduzir um ponto de vista transcendental a um conjunto objetivo e a um interesse cognitivo correspondente, uma vez que a dissolução analítica de uma comunicação deformada, a qual determina a compulsão do comportamento e a falsa consciência, é ambas as coisas num e mesmo processo: teoria e terapia. No ato da auto-reflexão o conhecimento de uma objetivação, cujo poder repousa unicamente sobre o fato de o sujeito não se reconhecer nela como em seu outro, coincide direta e imediatamente com o interesse pelo conhecimento, isto é, com o interesse de se libertar desta coerção. Na situação analítica a unidade da intuição sensível e da emancipação, da intelecção sensível e da l i bertação frente à dependência dogmática, tal unidade entre razão e o uso interesseiro da mesma — o que Fichte elaborou no conceito da auto-reflexão — é efetivamente real. Ocorre, porém, que a auto-reflexão não mais se realiza como atividade de um Eu absoluto mas, sim, sob condições que afetam a comunicação entre m é dico e paciente, motivadas, por sua vez, por imperativos de ordem patológica. Sob os pressupostos materialistas, o interesse da razão n ã o pode mais, por conseguinte, ser concebido como uma auto' explicação autárquica da razão. A fórmula segundo a qual o interesse é inerente à razão assume tão-somente no idealismo um

c a r á t e r plenificante, isto é, apenas no momento em que estamos convencidos de que a razão pode vir a ser transparente a si mesma através do exercício da autofundamentação. Mas, caso concebamos a capacidade cognitiva e a força crítica da razão a partir de uma autoconstituição da espécie humana em condições naturais contingentes, então resulta disso que a razão é, enquanto tal, inerente ao interesse. C o m esta unidade de r a z ã o e interesse Freud depara-se na situação onde a maiêutica do m é d i c o n ã o pode incentivar a auto-reflexão do doente senão sob o impacto da coerção patológica sob o interesse correspondente de a remover. As ponderações sobre a relatividade histórica dos critérios, que prescrevem o que é ou n ã o é patológico levaram Freud a trilhar, o caminho que vai da c o m p u l s ã o doentia na esfera individual até a patologia da sociedade em seu conjunto. Freud compreende as instituições de domínio e as tradições culturais como soluções temporárias de um conflito básico entre os potenciais dos impulsos pulsiona's excedentes e as condições indispensáveis da autoconservação coletiva. Tais soluções s ã o temporárias porque geram, sobre o fulcro afetivo da repressão, a coibição de soluções patológicas substitutas. Mas, assim como na situação clínica, também na sociedade a coerção patológica e o interesse por sua remoção são inseparáveis. Pelo fato de a patologia das instituições, igual à patologia da consciência individual, estar instalada no seio da linguagem e da atividade comunicativa, assumindo assim a forma de uma deform a ç ã o estrutural do entendimento entre os homens, o interesse resultante da compressão dolorida é, direta e imediatamente, no sistema social, t a m b é m um interesse pela clarificação desta sit u a ç ã o — e a reflexão constitui a única dinâmica possível pela qual esse interesse pode chegar a se afirmar. O interesse da razão tende à progressiva execução revolucionário-crítica, mas sempre a título de ensaio, a saber: para a realização das grandes ilusões da humanidade; nelas os motivos recalcados t ê m sido burilados em fantasias da esperança. Nas pegadas do interesse da razão o interesse pela autocons e r v a ç ã o segue o seu curso; vista sob este aspecto, t a m b é m a raz ã o possui seu fundamento na história natural. M a s o interesse pela autoconservação é indireto: cie n ã o perfaz nem uma necessidade empírica, nem representa a propriedade sistêmica do organismo. De fato, não é possível definir o interesse pela autoc o n s e r v a ç ã o independentemente das condições culturais — trabalho, linguagem e poder. O interessp pela autoconservação n ã o

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pode ter por objeto direto e imediato a r e p r o d u ç ã o da vida da e s p é c i e , eis que esta espécie precisa primeiro, ela p r ó p r i a , inter¬ pretar o que merece ser vivido sob as condições de existência da cultura. Estas i n t e r p r e t a ç õ e s orientam-se, por sua vez, nas i d é i a s da vida que é boa em e para si mesma. O "bem" n ã o é aqui nem uma c o n v e n ç ã o nem uma essência, ele é, muito mais, fantasiado; na verdade, ele o deve ser com tal precisão que reencontre e articule o interesse que subjaz a essa fantasia. Isto significa aqui: reencontrar e articular o interesse pela porção e m a n c i p a t ó r i a que historicamente for p o s s í v e l tanto sob as condições d i s p o n í v e i s quanto sob as c o n d i ç õ e s m a n i p u l á v e i s do momento. Enquanto houver homens que necessitem conservar sua vida por meio de trabalho e de i n t e r a ç ã o sujeita à renúncia pulsional — portanto, sob a coerção patológica de uma comunicação distorcida — o interesse pela a u t o c o n s e r v a ç ã o assumirá necessariamente a forma do interesse da razão, o qual tão-somente se desenvolve na crítica e se confirma pelas conseqüências práticas de tal exercício crítico. Apenas no momento em que esta unidade dc conhecimento e interesse for percebida em sua p e r t e n ç a recíproca, junto aquele tipo de saber que caracteriza a ciência crítica, a predicação de pontos de vista investigatório-transcendentais aos interesses orien¬ tadores do conhecimento pode ser entendida como uma r e l a ç ã o necessária. Como a reprodução da vida social está vinculada às c o n d i ç õ e s culturais do trabalho e da interação, o interesse pela a u t o c o n s e r v a ç ã o não tem por objetivo imediato a satisfação de necessidades " e m p í r i c a s mas, sim, as condições de funcionamento de trabalho e i n t e r a ç ã o : este interesse abarca de modo igual as categorias i m p r e s c i n d í v e i s a esse saber, os processos acumulativos de aprendizagem e as i n t e r p r e t a ç õ e s permanentes, mediatizadas a t r a v é s da t r a d i ç ã o . Desde o momento em que esse saber coti¬ diano estiver assegurado cm uma forma m e t ó d i c a adequada, e desta maneira estiver t a m b é m clistendido, os processos corres¬ pondentes dc pesquisa se irão inserir nas coordenadas de tal interesse. Enquanto o interesse da a u t o c o n s e r v a ç ã o continuar um m a l entendido naturalista, será difícil compreender como ele possa assumir a forma de um interesse que oriente o conhecimento e que, mesmo assim, n ã o p e r m a n e ç a exterior à função deste co¬ nhecimento. Acontece que mostramos, a partir de um exemplo de c i ê n c i a crítica, que o interesse da a u t o c o n s e r v a ç ã o n ã o pode ser pensado de forma c o n s e q ü e n t e senão como um interesse que

age através da própria razão. Mas, se conhecimento e interesse constituem uma única realidade na dinâmica da auto-reflexão, então também a dependência de interesses técnicos e práticos do conhecimento, a qual caracteriza tanto as c o n d i ç õ e s transcenden¬ tais das ciências da natureza quanto as do espírito, n ã o pode im¬ plicar uma heteronomia do conhecimento. O que uma tal depen¬ dência visualiza é o fato de os interesses orientadores do conheci¬ mento, os quais determinam as c o n d i ç õ e s de objetividade da vali¬ dade de enunciados, serem eles mesmos racionais, de sorte que o sentido do conhecimento, e com isso t a m b é m o critério de sua autonomia, não pode, de forma alguma, ser elucidado sem um retorno àquela i n t e r - r e l a ç ã o que une conhecimento e interesse. Freud reconheceu esta c o n e x ã o de conhecimento e interesse, cons¬ titutiva do conhecimento enquanto tal; mais ainda, ele a susten¬ tou contra o mal-entendido psicologizante, de forma tão incisiva como se a d e m o n s t r a ç ã o da validade de tal mal-entendido fosse equivalente a uma d e p r e c i a ç ã o subjetivista do conhecimento:
"Tentou-se desvalorizar o e s f o r ç o consideração organização, cessível. ção, cm Mas c, dc que, n ã o poderia isso nosso c i e n t í f i c o de uma maneira radical, pela ligado às c o n d i ç õ e s de sua p r ó p r i a exterior a n ó s , diversos lhe permanece inadecisivos exatamente deve nos segundo, para a

achando-se ele

produzir nada mais s e n ã o resultados subjetivos, desprezar psíquico, grau sem de fatores

enquanto a natureza real das coisas, significa aparelho o um é certo c o m p r e e n s ã o do trabalho c i e n t í f i c o . isío sua do esforço de explorar estrutura aparelho psíquico investigar ção; mundo

E m primeiro lugar, nossa organiza¬ dcscnvolvcu-se senso do através nosso a ter realizado dispusemos

exterior c, portanto, mundo que

utilitarista;

parte admite,

constituinte

e que ele

maiores

problemas,

uma tal

investiga¬

terceiro, a tarefa

da c i ê n c i a e s t a r á bem descrita se a limitarmos a em quarto lugar, os por nossa (nossa) derradeiros resul¬ por final¬

demonstrar como o mundo nos deve aparecer em c o n s e q ü ê n c i a do c a r á t e r e s p e c í f i c o de nossa o r g a n i z a ç ã o ; ç a d o s , n ã o apenas aquilo uma que exerceu estão tados da ciência, precisamente por causa do modo pelo qual foram alcan¬ determinados sobre dc organização, organização; mas e, influência esta

mente, o problema do m o d o - d c - s e r - c o n s t i t u í d o abstração em vazia, despida nosso (qualquer) psíquico (...)".
1

do mundo n ã o passa de caso n ã o

interesse prático, perceptivo.
1 7

levarmos

conta

aparelho

N ã o , nossa ciência n ã o é uma ilusão

F o i precisamente isto que Nietzsche, em oposição a Freud, tentou demonstrar. Nietzsche v i u a í n t i m a relação entre conhe¬ cimento e interesse mas, ao mesmo tempo, a psicologizou, estatuindo-a como elemento b á s i c o de uma d i s s o l u ç ã o metacrítica do p r ó p r i o conhecimento. Nietzsche levou a cabo aquilo que,Hegel

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empreendera e M a r x continuou (a seu modo), a saber: a autosupressão da teoria do conhecimento como auto-recusa da reflexão.
"Desconfiado apreciava com um rossímil atentava ções essa rista — em os extremo ora desta, dos ora dogmas daquela da teoria eles; sua do e, conhecimento, finalmente: um é eu veEu

mundo, (bons) uma tal

sempre costumes:

também a a quiser

uma

porção foi

respeito

perante em
1

a

autoridade Quem

dos em

moralidade não se

sacrificada

seu

todo.

contrapartida,

reafirmar,

deve saber evitar que os sucessos' (de controláveis".* ™

reafirmação)

tornem

espiar deles, que muito que um

janela, todos

evitava própria

comprometer-me utilidade?

considerava nocivos instrumento possa para o ou fato de

criticar que

mais tal

jamais possui, tanto época

surgira na

ceticismo um valor e

t e ó r i c o - c o g n i t i v o ou uma ceticismo de a

d o g m á t i c a que n ã o contivesse segundas inten¬ dogmática fundamental: cétjca da verdade, quanto a que, no fundo, os obrigou a tomar Kant quanto Hegel atitude histo-

s e c u n d á r i o desde que se considere o posição. Ponto tanto vista postura Schopenhaucr,

ou pessimista possui uma origem moral. "ns

Nietzsche recorre ao argumento que Hegel utilizou contra Kant para justificar sua recusa de entrar na área da teoria do conhecimento; de fato, p o r é m , sem disso tirar a c o n s e q ü ê n c i a de que não é possível limitar-se à metodologia; pelo contrário, ele n ã o deixa de entrar em contato com uma a u t o - r e f l e x ã o das ciências, mas sempre apenas com um ú n i c o objetivo: subtrair-se a ambas, à crítica não menos do que à c i ê n c i a . Por outro lado, Nietzsche compartilha com o positivismo o conceito dc ciência. Tão-somente as informações que correspondem aos critérios dos resultados das ciências experimentais po¬ dem, em sentido estrito, ter a validade que c o n v é m ao conheci¬ mento. C o m isto se estatui um p a r â m e t r o frente ao qual a tra¬ dição em seu todo decai ao nível da mitologia. C o m cada etapa do progresso científico as c o n c e p ç õ e s arcaicas de mundo, as per¬ cepções religiosas e as interpretações filosóficas perdem terreno. As cosmologias, bem como o conjunto das m u n d i v i d ê n c i a s p r é científicas, as quais possibilitam orientações e justificam normas no plano da a ç ã o , perdem sua credibilidade à medida que uma natureza objetivada é reconhecida cm suas c o n e x õ e s causais e submetida ao poderio da disponibilidade t é c n i c a :
"Na medida em que o sentido da ência do reino e moral se se é reduz: necessários com hoje de um causalidade aumenta, o raio dc sempre que se entendeu separados de todos nelas se os Cpost hoc), os influ¬ efeitos

Igual a Comte, anteriormente, Nietzsche compreende as con¬ seqüências críticas do progresso técnico-científico como superação da metafísica; como M a x Weber, posteriormente, ele entende as conseqüências práticas de tal processo como uma racionalização da atividade e uma s u b j e t i v a ç ã o daquelas autoridades de c r e n ç a capazes de orientar a a ç ã o . Teorias científicas podem anular a pretensão de validade das interpretações transmitidas por tradi¬ ção que, mais ou menos encobertas, são sempre t a m b é m interpre¬ t a ç õ e s que afetam a p r á x i s ; nesse sentido tais teorias são críticas. M a s elas devem deixar livres o e s p a ç o aberto das i n t e r p r e t a ç õ e s revidadas, eis que estas teorias n ã o são aptas a estabelecer uma r e l a ç ã o com a p r á x i s : nesse sentido elas são apenas destrutivas. As teorias científicas possuem, como c o n s e q ü ê n c i a , um saber que é tecnicamente aplicável, mas nenhum saber normativo, o qual poderia orientar a atividade p r á t i c a :
" A c i ê n c i a sonda h o m e m . O que tação homem ponível e o curso da natureza, mas jamais isso isto tudo a ciência pode dar ordens que ao o dis¬

d e n o m i n a m o s d c i n c l i n a ç ã o , amor, p r a z e r , d e s p r a z e r , exaldesconhece. Aquilo e l e p r e c i s a interpretar a e s c o l h e r " . 120 p a r t i r dc algo

esmorecimento, vive e vivência, c (assim)

aprender a

pois

capaz de p e n s á - l o s de o

possíveis

acasos isentos dos sem

ocasionais fatos posteriores fundamento ainda que dos

aniquilou-se acreditou a t ê o mundovarrida ào

O processo do esclarecimento, possibilitado pelas c i ê n c i a s , é crítico; mas a remoção crítica dos dogmas não liberta, mas deixa indiferente: ela não é emancipatória, mas niilista. Fora do raio que abarca a pertença de teoria c práxis, o qual as ciências rom¬ pem sem poder substituí-lo satisfatoriamente por uma c o n e x ã o de teoria e técnica, as informações não têm "sentido". Nietzsche segue, primeiro, as pegadas da c o m p u l s ã o imanente do i l u m i n i s mo positivista; deste o separa, p o r é m , a c o n s c i ê n c i a da i n t e n ç ã o abandonada, a qual algum dia já estivera comprometida com o conhecimento. Nietzsche, o filósofo que n ã o ,* -is .0 pode ser, não está cm condições de subtrair à m e m ó r i a "que sempre foi pressuposto que da i n t e l e c ç ã o da origem das coisas devesse de¬ pender a salvação do homem"; ao mesmo tempo ele vê
"que agora, pelo c o n t r á r i o , nos participamos quanto mais perseguimos a origem tanto me¬ com os nossos interesses; de fato, que

número

causalidades fantásticas; (bons) de

como se fossem angústia,' uma

costumes — coerção foi

real é, p o r é m , bem menor do que o fantasiado — e cada vez um pouco fração ínfima

(desta pesquisa)

todas as nossas apreciações valorativas e nossas 'veleidades', as quais pro-

306
jctamos nas mos das

CONHECIMENTO

E

INTERESSE CRÍTICA COMO UNIDADE DE CONHECIMENTO E INTERESSE 307

coisas, c o m e ç a m a perder seu sentido; como tais".
12

e

isso na medida em de de compreenderem e poderem melhor nem o presente, a a saber, considerando o de processo anforma rn' s aber hi

que retrocedemos coisas

sempre mais com nosso conhecimento e nos aproximai

terior

(assim)

aprender

desejar o futuro

-ntensa;

eles nao chegam

apesar de todo o seu

O conceito positivista de ciência torna-se particularmente am¬ bivalente pela maneira como Nietzsche o avalia. Por um lado concede-se à ciência moderna um m o n o p ó l i o de' conhecimento; este é corroborado pela d e s v a l o r i z a ç ã o e d e s c r é d i t o da metafísica. Por outro lado, o conhecimento monopolizado é, por sua vez, desacreditado pelo fato de dispensar necessariamente o elo com a. p r á x i s , algo específico à metafísica, e perder com isso nosso interesse. De acordo com o positiyismo, n ã o pode haver um saber que transcenda o conhecimento m e t ó d i c o das ciências experimen¬ tais; mas Nietzsche, ao a c e i t á - l o , n ã o consegue convcncer-se de que um tal saber m e r e ç a o designativo do conhecimento. Pois, a t r a v é s da mesma metodologia que garante certeza a seus co¬ nhecimentos, a ciência é alienada daqueles interesses que, ú n i c a e exclusivamente, seriam capazes de darem sentido a estes seus conhecimentos. Frente aos objetos que suscitam um interesse que vai além da disponibilidade técnica, a "ciência cultiva uma soberana ignorância, um sentimento de que o 'saber' n ã o ocorre jamais, de que foi uma espécie de orgulho sonhar em algo assim como o conhecimento; mais ainda, de que n ã o conseguimos pre¬ servar nem o mais ínfimo conceito o qual nos pudesse lcgiiimar que o 'saber' nos vale algo, nem que fosse a mera possibilidade de saber".
122

tonco, o quanto pensam e agem de maneira n ã o - h i s t ó r i c a e a t é que ponto orna ? n e c s i d a d
S í

de'

5

conhecimento puro". 1-3'

A

comandado'"o

r

Nietzsche acredita poder identificar um momento do n ã o histonco na reflexão utilizada pela p r á x i s da vida, nesta que pro¬ cedera vida, e que retorna a sua p r á x i s , pelo fato de tal "cons¬ telação da vida e da h i s t ó r i a " se transformar logo que esta se torne aencia.A Para o sujeito cognoscente ficam sem conse¬ qüência os objetos de uma h i s t ó r i a universal que, quais raridades enclausuradas cm um museu, se objetivam numa fictícia simulancidade para a consciência que apenas frui a c o n t e m p l a ç ã o . U m a vez reibcada metodicamente, a t r a d i ç ã o é precisamente neutralizadacomo t r a d i ç ã o , e n ã o pode mais fazer parte do processo de t r a n s f o r m a ç ã o : "O saber. .. cessa de agir como um fator de transformação, como um impulso que leva o motivo a se exterionzar, e permanece (assim) escondido em um determinado munoo caótico do interior".
125

Já em sua "Segunda c o n s i d e r a ç ã o intempestiva" Nietzsche havia exposto, quanto à história, uma reserva a n á l o g a à q u e l a frente à "insignificância" das ciências naturais. T a m b é m as ciên¬ cias do espírito ficarão, no momento em que obedecerem aos critérios do m é t o d o científico, alienadas do complexo da vida. A c o n s c i ê n c i a h i s t ó r i c a só é útil para a práxis da vida enquanto se apropria de uma t r a d i ç ã o e a continua elaborando sob a pers¬ pectiva do presente. A história viva faz com que o passado e o estranho sejam elementos constitutivos de um processo atualizado de formação. A formação histórica constitui o parâmetro da "força p l á s t i c a " , pela qual um homem ou uma cultura se torna transparente a si mesmo no momento em que presentifica o pas¬ sado e o estranho. Aqueles que pensam historicamente
"acreditam _ que o sentido da e x i s t ê n c i a c h e g a r á sempre melhor à luz à

A polêmica de Nietzsche contra o ócio mimado dos virtuo¬ sos do hislorisrao dc sen tempo está fundada cm uma crítica da cicntijuriaçao da história. O objetivismo ainda não é flagrado por Nietzsche como uma errônea autocompreensão cientificista, -mas aceito como a incscusável implicação da ciência do espírito' Nietzsche acredita, por conseguinte, que uma história "a serviço da vida" necessita dos elos pré-científicos com o não-histórico e o supra-lustónco. ™ Tivesse ele, por ocasião de sua crítica às ciências do espírito, retomado o conceito da " i n t e r p r e t a ç ã o " , de¬ senvolvido dois anos antes em seu ensaio "Sobre a verdade e a mentira em sentido extramoral", não teria sido possível manter tal confrontação por mais tempo. A categoria da interpretação sc teria então, muito mais, imposto como fundamento encoberto do m é t o d o histórico-füológico, e o objetivismo se teria revelado como a falsa consciência de um m é t o d o inevitavelmente ligado ao processo de f o r m a ç ã o do sujeito cognoscente. O e m b a r a ç o de Nietzsche frente às ciências do espírito é idêntico àquele frente às ciências naturais: ele não pode prescin¬ dir das reivindicações do conceito positivista de ciência e, ao mesmo tempo, não é capaz de dispensar o conceito mais exigente de uma teoria que possui significação para a vida. No que con¬ cerne à história, Nietzsche recorre à evasiva, sugerindo que ela

medida que o processo avança;

eles olham para trás com a única finalida-

308

CONHECIMENTO

E

INTERESSE

CRÍTICA

COMO

UNIDADE

DE

CONHECIMENTO

E

INTERESSE

309

se despoje da c a m i s a - d e - f o r ç a da metodologia, nem que seja à custa de sua p o s s í v e l objetividade. E ele gostaria de se apazi¬ guar, considerando que "o que caracteriza nosso século X I X não é o triunfo da ciência mas o triunfo do método científico sobre a ciência". N ã o era, p o r é m , possível aplicar esta fórmula às c i ê n c i a s da natureza. Frente a ela, a exigência a n á l o g a de rom¬ per as cadeias do pensar m e t ó d i c o se teria condenado a si pró¬ pria. Caso quisesse ter unificado as h e r a n ç a s i n c o m p a t í v e i s do positivismo e da filosofia clássica, Nietzsche teria sido obrigado a criticar aqui, de forma imanente, o objetivismo das ciências como uma falsa a u t o c o m p r e e n s ã o , a fim de trazer à tona o liame secreto com a p r á x i s da vida. , A teoria do conhecimento de cunho nietzscheniano, por mais aforísticas que suas f o r m u l a ç õ e s sejam, consiste na tentativa de compreender a moldura categorial das ciências da natureza (es¬ p a ç o , tempo, evento), o conceito de lei (causalidade) e a base operacional da e x p e r i ê n c i a (medida), bem como as regras da l ó g i c a e do c á l c u l o , como apriori relativo de um mundo de apa¬ r ê n c i a objetiva, o qual foi engendrado com o fim de dominar a natureza e assegurar, assim, a c o n s e r v a ç ã o da existência humana:
127

como necessulade imposta, mos um mundo que nos é

a

saber, torne

nos

retocar um possível simplificado,

mundo

de tal nós

ma cria"

neira que nossa estenda se

(nele)

- com

isso

previsível,

inteligível,

etc "i30

"Todo o coisas: os um

apnrelho-do-eonhcchnento c voltado e Com que seja níio para o tão e 'meio' estão

um aparelho distantes com da

de

abstração (das

e dc sim¬ das como po-

plificação, 'fim'

conhecimento,

mas

para a

dominação coisas)

essência

'conceitos'. processo

'fim'

'meio'

apossamo-nos
1 2 8

do processo

(inventa-se

perceptível),

'conceitos'

apoderamo-nos,

rém,

das coisas que constituem

o processo".

Nietzsche entende ciência como a atividade pela qual trans¬ formamos a "natureza" em conceitos, com o objetivo de dominar a natureza. Sob o rigor coercivo da e x a t i d ã o lógica e da perti¬ nência empírica, a imposição do interesse pela manipulação téc¬ nica dos processos objetivados da natureza se torna cogente, e a pura força se impõe como uma lei de conservação da vida através de tal coerção:
" N ã o importa o quanto nosso intelecto seja e n ã o o t e r í a m o s assim, mesmo "Não tos, se pudéssemos caso n ã o uma conseqüência das condi¬

Esta frase poderia ser entendida nos termos de um pragma¬ tismo logico-transcendental. O interesse a orientar o conhecimen¬ to para a dominação da natureza fixaria, ele próprio, as condiçõe* de uma objetividade possível do conhecimento da natureza Em vez de suprimir a diferença entre ilusão e conhecimento este interesse iria, pelo c o n t r á r i o , primeiro determinar o quadro no qual aquilo que denominamos realidade é, para n ó s , objetiva¬ mente conhecivel. C o m isto a p r e t e n s ã o crítica de um conhe¬ cimento cientifico permaneceria, por um lado, de pé frente à metafísica mas, por outro, a reivindicação monopolista da ciência moderna seria, igualmente, posta em q u e s t ã o : ao lado do inte¬ resse técnico poderia haver outros interesses que orientassem e legit.massem o conhecimento. Esta n ã o é, muito provavelmente, a concepção de Nietzsche. A redução metodológica da ciência a um interesse pela a u t o c o n s e r v a ç ã o n ã o está a serviço de uma determinação lógico-transcendental de um conhecimento possível mas, sim, a serviço da negação da própria possibilidade dc se conhecer: "Nosso aparelho cognitivo n ã o está organizado para o saber'". -' A reflexão acerca do novo critério, desenvolvido pela ciência moderna, continua apresentando razões para uma crí¬ tica das interpretações tradicionais de mundo, mas a mesma critica abarca t a m b é m a ciência enquanto tal. Metafísica e ciên¬ cia produziram ambas, do mesmo modo, a ficção de um mundo previsível de casos idênticos; a ficção do apriori científico reve¬ lou-se, de qualquer forma, mais digno de crédito. O descaminho objeüvista, este que Nietzsche, motivado pela a n t o c o m p r e e n s ã o positivista da ciência, prova ser uma propriedade filosófica, é o mesmo ao qual t a m b é m a ciência sucumbe:
1 1

"O descaminho da filosofia deve-se ao fato dc que, em vez de ver na lógi¬ ca fins ut.1), e nas categorias da r a z ã o meios de organizar o mundo em vista de da uma razão em vista de falsificação o critério ções de existência, n ó s n ã o o teríamos se n ã o tivéssemos necessidade dele, fosse assim que dele necessitássemos, diferente".' que
29

utilizáveis

(portanto, na

'basicamente' lógica e nas

acreditava possuir

categorias

viver

de forma esta leis

da verdade ou a (própria) realidade. ein casos formar concei-

O 'critério da verdade' era, de fato

nada mais do que a utilidade biológica, própria a um tal sistema de fal¬ convém compreender fins, imposição {'um temos de gêneros, formas, mundo idênticos')..corno sificação fundamental; e como uma e s p é c i e animal n ã o conhece nada de mais importante do que se manter em vida, l e g í t i m o seria aqui, de fato, falar de verdade. Mas a ingenuidade consistia apenas nisso: tomar a

se com isso estivéssemos em

condições de fixar o mundo verdadeiro, mas

3

1

0

CONHECIMENTO

E

INTERESSE

CRÍTICA como critério in-

COMO

UNIDADE

DE

CONHECIMENTO

E

INTERESSE

311

idiossincrasia norma

antropocêntrica como medida das coisas,
1 3 2

dicativo do 'real' e do 'irreal' — em suma, a de haver absolutizado uma condicional".

Sempre de novo ele e x p õ e o mesmo argumento contra a possi¬ bilidade de uma teoria do conhecimento:
«Dever-sc-ia e assim por dade para do esta saber, (...) o que é certeza faz sentido: nem em (moral), o que é conhecimento de que maneira de se o instrumento definir a si

O interesse que se encontra na raiz do conhecimento afeta a possibilidade do conhecimento enquanto tal. Como a satisfação de todas as necessidades é abarcada pelo interesse da autoconserv a ç ã o , qualquer ilusão, por mais arbitrária que seja, pode pre¬ tender possuir a mesma validade, basta que nela se manifeste, por m í n i m a que seja, uma certa necessidade de i n t e r p r e t a ç ã o de mundo. A c o n e x ã o de conhecimento e interesse, entendida sob o visor naturalista, remove por certo a a p a r ê n c i a objetivista em todas as suas formas mas não sem, novamente, justificá-la sob um ponto de vista subjetivista: " N a medida em que o termo 'conhecimento' possua como tal um sentido, o mundo é conhecível: na verdade, porém, ele é passível de várias interpretações, ele n ã o guarda por detrás de si um sentido, mas um sem n ú m e r o de sentidos (diferentes) — 'perspectivismo'. São as nossas ne¬ cessidades, as que interpretam o mundo; nossas p u l s õ e s , o sercontra c o ser-a-favor destes impulsos". Nietzsche conclui disto A que a teoria do conhecimento deva, no futuro, ser substi¬ tuída por uma doutrina que realce a perspectiva dos afetos. Na verdade, n ã o é difícil constatar que Nietzsche n ã o teria chegadoao perspectivismo, caso não houvesse, desde o início, desacredi¬ tado a teoria do conhecimento como uma alternativa i m p o s s í v e l .
133 1

diante. Mas, como n ó s não o sabemos, uma c r í t i c a da facul¬ apenas d i s p õ e de si mesmo

conhecimento n ã o

deveria ser capaz de se criticar a si p r ó p r i o , se c r í t i c a ? Ele n ã o está
13 3

condições

próprio!"

Hegel havia recorrido a este argumento contra K a n t , com o objetivo de f o r ç a r a crítica do conhecimento a fazer, por sua vez, uma crítica de seus p r ó p r i o s pressupostos, e levar assim adiante uma a u t o - r e f l e x ã o interrompida. Nietzsche, pelo c o n t r á r i o , adota este argumento para se assegurar da impossibilidade de toda e qualquer a u t o - r e f l e x ã o . Nietzsche partilha a cegueira de uma era positivista face à auto-reflexão; ele nega que a memória crítica de uma aparência autoproduzida mas independizada frente ao sujeito, que a autoreflexão cie uma falsa c o n s c i ê n c i a seja conhecimento: "Sabemos cpte a d e s t r u i ç ã o cie uma i l u s ã o n ã o perfaz ainda uma verdade mas representa tão-somente uma porção a mais de ignorância, r.m alargamento de nosso ' e s p a ç o v a z i o ' , um aumento de nossa ' s o l i dão'. N ã o há dúvida de que esta recusa da reflexão cm Nietzsche n ã o resulta, como cm seus c o n t e m p o r â n e o s positivistas, de •um encantamento do investigador a t r a v é s da a p a r ê n c i a objetivista da c i ê n c i a , essa que precisa ser p r á t i c a intentione recta. N i e tzsche, c isso o distingue de qualquer outro, denega a força crítica da r e f l e x ã o , ú n i c a e exclusivamente, com meios inerentes à própria rejlexão. Sua crítica da filosofia ocidental, sua crítica da ciência, sua c r í t i c a da moral dominante s ã o um atestado i n c o n f u n d í v e l de uma pesquisa do conhecimento a t r a v é s da a u t o - r e f l e x ã o e somen¬ te com base na a u t o - r e f l e x ã o . Nietzsche sabe disso: " N ó s somos, desde sempre, seres ilógicos e, em c o n s e q ü ê n c i a , injustos e somos capazes de o reconhecer: esta é uma das maiores d i s c r e p â n c i a s da existência, impossível de ser removida". Mesmo assim Nietzsche está a tal ponto preso às c o n v i c ç õ e s positivistas b á s i c a s que n ã o pode reconhecer, de maneira s i s t e m á t i c a , a função cog¬ nitiva da a u t o - r e f l e x ã o , da qual paradoxalmente vive como autor de textos filosóficos. A i r ô n i c a c o n t r a d i ç ã o de uma auto-recusa da r e f l e x ã o é, na verdade, t ã o tenaz que n ã o pode ser desfeita por
1 3 0 137

Pelo fato de Nietzsche encontrar-se aprisionado de tal ma¬ neira no positivismo, a ponto de n ã o lhe ser mais possível reco¬ nhecer que sua crítica da autocompreensão objetivista da ciência chegava a constituir uma crítica do conhecimento, ele foi neces¬ sariamente obrigado a entender mal, isto é, entender segundo critérios naturalistas, o interesse orientador do conhecimento, com o qual se havia deparado. T ã o - s o m e n t e quando interesse e p u l s ã o forem, direta e ime¬ diatamente, uma e mesma realidade, as condições subjetivas da objetividade do conhecimento possível, postas pelo interesse, po¬ dem afetar a diferença como tal entre ilusão e conhecimento. M a s , nada há que force uma i n t e r p r e t a ç ã o empirista do interesse orientador do conhecimento enquanto a auto-reflexão da ciência, a qual se apossa da base do interesse, n ã o for, por sua vez, mal entendida em termos positivistas, a saber, enquanto for negada como crítica, É exatamente a isso que Nietzsche se vê obrigado.

312

CONHECIMENTO

E

INTERESSE

argumentos mas apenas atenuada por meio de esconjuros. A re¬ flexão que se auto-aniquila n ã o pode contar com o recurso de uma r e g r e s s ã o complacente; ela necessita da a u t o - s u g e s t ã o para ocultar a si mesma aquilo que, ininterruptamente, n ã o pode deixar de exercer, a saber: a crítica:
N O T A S : "Nós, psicólogos neração somos de e do futuro, n ã o temos instrumento procura boa vontade suficiente para nos 'conhecer-se a si próprio'", n ó s a ingenuida¬ 1) 2) K A N T , I. — Kritik der Urteilskrajt Weischedel, v. 5, p. 280 et seqs. KANT, _ ; 3) 4) 5) 6) 7) 8) 9) 10) 91) 12) 13) I. a — Grundlegung der Kant (Crítica do j u í z o ) . der Sitten entre (nota). dos costumes) Werke, ed observar a n ó s mesmos: n ó s achamos inclusive que é um sinal de degequando um ferramentas do saber e g o s t a r í a m o s de possuir toda

toda a p r e c i s ã o de um instrumento; por conseguinte, n ó s n ã o deve¬

mos analisar a n ó s mesmos, nos 'conhecer'". 138

Metaphysik a

(Fundamenum interesse

t a ç ã o da m e t a f í s i c a dos costumes). Op.
o u t r

cit., v. 4, p. 42 (nota). Em p. 97,

A história da dissolução da teoria do conhecimento em me¬ todologia constitui a p r é - h i s t ó r i a do positivismo mais recente. F o i Nietzsche quem redigiu o seu ú l t i m o c a p í t u l o . C o m o virtuose de uma reflexão que se denega a si mesma, ele ao mesmo tempo elaborou a p e r t e n ç a r e c í p r o c a de conhecimento e interesse e a interpretou mal ao nível e m p í r i c o . Para a mais recente v e r s ã o do positivismo, Nietzsche pareceu haver provado que a a u t o - r e f l e x ã o das ciências não leva senão à psicologização de relações que, en¬ quanto lógicas e m e t o d o l ó g i c a s , n ã o devem ser colocadas no mesmo plano com as relações e m p í r i c a s . A " a u t o - r e f l e x ã o " das ciências podia, assim, aparecer como um renovado exemplo para o paralogismo naturalista, tão freqüente e tão rico em conseqüên¬ cias na h i s t ó r i a da filosofia moderna mais recente. Acreditou-se, assim, que bastava renovar o hiato b á s i c o entre os problemas da validade e aqueles da gênese de enunciados c i e n t í f i c o s ; e com isso se achava estar em condições de poder confiar a teoria do conhe¬ cimento à psicologia da pesquisa, inclusive esta que se desenvol¬ vera dc forma imanente a partir da lógica das ciências da natu¬ reza e das ciências do espírito. F o i sobre este fundamento, e n t ã o , que o positivismo mais recente construiu uma metodologia pura, purificada sem d ú v i d a daqueles problemas que, a rigor, consti¬ tuem as questões-de-interesse por excelência de uma metodologia científica.

passagem —

precisa der

distinção

empírico e um interesse puro; ibidem., KANT, Op,
IV,

I.

Metaphysik

Sitten

(Metafísica

cit., v. 4, p. 317. p. 101.

Ibidem, p. 98. Ibidem. Ibidem, p. 99. K A N T , I. — Kritik der Praktischen tica). Op. cit., v. 4, p. 249. Ibidem, p. 250. ibidem, p. 252. der Reine» Vennmfi (Crítica da razão pura), Vernunjt (Crítica da razão prá-

K A N T , I. - - Kritik v. 2, p. 677.

K A N T , I. — Kritik der Praktischen tica), v. 4, p. 251. FICHTE, J v. 3. . G . — Ausgew. Einleilung in

Vernunjt (Crítica da razão prá¬

Werke (Textos Seletos). E d . Medicus, die Wissenschaft 43 et seqs. Wissenschaft Op cit v der Logik 17 3 n • , y der Logik (Segunda

Zweite J.

introdução à 14) 15) 16) 17) 18} 19) FICHTE, (Primeira Ibidem. Ibidem.

ciência da lógica), p. ciência da

G . — Erste Einleitung in die lógica)

introdução à

K A N T , I. — Kritik der Reinen v. 2, p. 440 ct seqs. Ibidem, p. 450.

Vernunjt

(Crítica

da

razão pura),

FICHTEA J . G . — Erste Einleitung in die Wissenschaft der Logik (Primeira introdução à ciência da lógica). Op. cit., v. 3, p. n et seqs. F I C H T E , J . G . — Zweite Einleitung in die Wissenschaft der Logik (Segunda i n t r o d u ç ã o à cièneia ciência da l ó g i c a ) . in die da lógica). Op. Op. cit., cit., v. v. 3, 3, p. p. 56. 18. FICHTE, (Primeira J.G. — Erste à Einleitung Wissenschaft der Logik

20) 21)

introdução

22)

APEL, K. O

— "Die Entfaltung der sprachanalytischen Philosophie

und das Problem der Geisteswissenschaften" (O desenvolvimento da

314

CONHECIMENTO

E

INTERESSE

NOTAS

315

filosofia analítica e o problema das c i ê n c i a s do e s p í r i t o ) . In: Pliilos. Jahrbücher (Anais e Filosóficos), crítica v. 72, 1965, In: p. 239 and et seqs. I, 196S, XIII. de FrankHoffer, ào lado as braA P E L , K . O. — "Szientifik, Hermcneutik, Ideologiekritik (Cientismo, hermenêutica p. 37 et seqs. 23) FKEUD, p. 304 1940, S. — Gesammelte v. em 19, p, Londres; Werke Cito (Obras de em Completas). com a quarta E. V . (ESB, surgida Main 142). acordo edição ideológica). Man World

36) 37) 38)

X V , p. 14f — E S B , v. 22, p. 26. X V , p. arquiva fazer era 8 — ESB, v a edições, que 22, p. 19. livros indesejáveis, outros de "Um confisca e antigamente métodos dos e o modo mas isso para Enquanto com censura interdita hoje prevaleceram um caso

texto permanecesse

inócuo:

métodos copista lacunas era o

riscar do e

acintosamente as passagens livro produzia e, um

ofensivas,

a ficarem

ilegíveis; seguinte em bastante indicação a

nesse

elas n ã o podiam ser texto talvez, ininteligível.

transcritas, Ou

atualmente por A.

edição,

inatacável

com não

furt a. da

1963. Editada Isakower ao texto vernáculo Editora

Freud,

Bilbring, W.

certas

passagens que o

E. K r i s e O. referência no das passagens sileira Rio 24) 25) 26) 27)
28) 29)

(18 volumes). em de língua acordo

[Nota do tradutor: alemã .indicamos com de Edição

(em c o n s e q ü ê n c i a ) texto.

queria-se t a m b é m ocultar qualquer partia-se, eram em portanto, para isoladas colocava o texto não omitidas seu ou subs¬ outras

também

de

texto fora mutilado; Palavras e se

STANDARD

d e f o r m a ç ã o do passagens quais

obras psicológicas

completas Imago, 1977

Sigmund Freud

(ESB),

t i t u í d a s por outras, c novas frases eram interpoladas. Melhor ainda: riscava-se novas, peita, autor as mas seguinte inteiras lugar O diziam expressamente falsificado; com ele contrário. que não transcrilor o que o

de

Janeiro,

(24 volumes)]

D I L T H E Y , \ V . — Ges. Schrijten (Obras Completas), v. 7, p. -261. Ibidem Ibidem III, p. 260.
FREUD, FREUD, S. S. — — G. G. W., W., v. v. XV, p. p. 62 — 403 ESB, — v. ESB, 22, v. p. 13, 75. p. 211. . VIII,

podia, então, produzir um que estava

despertava sus¬ o texto n ã o

continha mais

quisera comunicar e, não se exercite a

toda probabilidade, em termos

fora corrigido em vista da verdade. Caso (A comparação demasiadamente cauhestros, pode-se dizer que a e nas diferentes maneiras de r e p r e s s ã o e s t á para os outros m é ¬ tal falsificação podemos identificar ego é alte¬

30) 31)

Cf. F K E U D , S. — Zur Psychopathologie des Alltagslebcns, v. IV psicopatologia da vida cotidiana, E S B , v. 6). Para tanto cf. Die Traiimdeutung, G. W ., v.

todos dc defesa como a o m i s s ã o e s t á para a d e f o r m a ç ã o do texto, (A interpretaparalelos com a multiplicidade de 39) 41) 42) formas pelas quais o

ç ã o d o s sonhos, E S B , v. 4 c 5 ) ; Über den Traum, v. II/III, p. 643ff (Sobre os sonhos, E S B , v. 5, p. 6 7 1 et seqs.); "Dic Handhaubuiuj der 'Iraiimdeutung in der Psychoanalysc", G. \ Y . , v. VIII, p. 349ff (O Manejo da i n t e r p r e t a ç ã o dc sonhos na p s i c a n á l i s e , E S B , v. p. 11 2 ct seqs.); G . \ V . v. 12, "Metapsychologische Ergànzung zur Traumlehre",

rado" ( G . \ V . , v . X V I , p . 8 1 - 2 - - E S B , v . 2 3 , p . 2 6 9 ) . II/III, p . 5 7 2 - 3 — E S B , v. 5, p . 6 0 4 . X V , p. 29 — E S B , v. 22, p. 42. Cf. sobretudo: FKEUD, S. — "Über die Vilde' Psychoanalyse", 1, p. 2 0 7 ) ; 126ff (Re¬ o amor G . W . , v. VIII, p. 118ff ( P s i c a n á l i s e 'silvestre', E S B , v. cordar, repetir e elaborar, E S B , v. 12, p. Überíragungsliebe", Therapie", v. XII, v. p. X, 12, 183ff p. p. 306ff 208); transferenciai, E S B , v. n a l í t i c a , E S B , v.

40) U/ff), p. 603 -- E S B , v. 5, p. 636.

X , p. 412ff (Suplemento m e t a p s i c o l ó g i c o à teoria dos

sonhos, E S B , v. 14, p. 253 et seqs). 32) G. W., II/III, p. 655 edição lemos: quais de sua obra (ESB, v. 5, p. 6S1). No p r e f á c i o à primeira A interpretação dos sonhos já o sonho é o pri¬ obsessões e

" E r i n n e r n , Wiederholcn und Durcharbeiten", v. X, p. (Observações "Wege

revolucionária

193); "Bemerkuflgcn zur sobre der psychoanalytischen terapia psicaPraxis

"Pois a pesquisa p s i c o l ó g i c a mostra que outros membros, fadados, tais por como

meiro membro de uma classe de f e n ô m e n o s p s í q u i c o s anormais dos fobias h i s t é r i c a s , práticos, prática, a delírios, não estão motivos constituir seu valor assunto teórico

(Linhas dc processo na

17, p.

201);

"Bemerkungen zu Thcorie und 19, p. und e

de p r e o c u p a ç ã o para os m é d i c o s . Como se verá podem reivindicar importância mas

a seguir, os sonhos

der Traumdcutung", v. truktionen terminável vamente. 43) 44) 45) 46) 47) 48) in e

XIII, p. 3 1 Tf ( O b s e r v a ç õ e s sobre a teoria 0 1 3 9 ) ; "Konse "Dic v. endlichc 18, p. die unendliche p. 247), respecti¬

c a p r á t i c a da i n t e r p r e t a ç ã o dc sonhos, E S B , v. der Analyse" interminável,

como paradigma é, por outro lado, proporcionalmente maior. Quem quer que tenha falhado em explicar a origem das imagens o n í r i c a i quase que n ã o pode esperar compreender as fobias, o b s e s s õ e s ou delírios, ou fazer com que uma influência t e r a p ê u t i c a se faça sentir sobre elas" ( G . W . , II/III, p. V I I — E S B , v. 4, p. X X X I ) . 33) 34) 35) II/III, p. 518 — E S B , v. 5, p. 54S. X V , p. 13ff — E S B , v. 22, p. 25-26. X V , p. 28ff — E S B , v. 22, p. 40 et seqs. Quanto à primeira con¬ cepção cf. A interpretação dos sonhos, II/III, p. 479f e 563f — E S B , v. 5, p. 508 et seqs. e p. 593 et seqs.

Analyse", v. X V I , p. 43ff e 59ff ( C o n s t r u ç õ e s na a n á l i s e e a n á l i s e ESB, 291

X I , p. 451 - - - E S B , v. 16, p. 607. V , p. 8 — E S B , v. 7, p. 260. VIII, p. p. 123 — E S B , v. 1 4 — ESB, 0 11, p. v. 23, 12, 211. p. p. 205. 143. X V I , p. 52ff — E S B , v. 23, p. 300. XVIII, .VIII, p. 374 — E S B , v.

316
49) 50) 51) 52) 53) 54) 55) 55)

CONHECIMENTO

E

INTERESSE O

NOTAS

317

modelo por e x c e l ê n c i a os ligado objetos à está

da

internalização já normal 69. do

é

o

ato

de de

erigir ato Édipo

in¬ c

X , p. 133 — E S B , v. 12, p. 200. X I I , p. 186 — E S B , v. 17, p. 204. X I I , p. 188 — E S B , v. 17, p. 190. I, p. 567 — E S B , v. 19, p. 165. X V I , p. 93-4 — E S B , v. 23, p. 281-2. Ibidem, p. 94 — E S B , v. 23, p. 282. XVII, Um apenas p. é 127, ESB, v. 23, p. 226. de uma análise didática não a análise, autocontrole adquirido para através 67) 68) 69) 70) 71) 72) 73) 74) 75)

teriormente erigir

paternos

abandonados;

este

de-se-

dissolução 19, p.

complexo

"instaura" o superego. XIII, p. 282 — E S B , v. X V I I I , p. 106ff — E S B , v. 23, p. 207 et seqs. X I V , p. 34f — E S B , v. 20, p. 18 et seqs. "O que ela deveria ser mais?", X V I I , X V , p. XVII, XVII, XVII, foram den cf. and 76) 77) 78) 79) 80) 81) 82) 83) 84) 85) 86) 87) p. p. p. 1 1 — E S B , v. 22, p. 195. 7 142 16 2 18 0 — — — ESB, ESB, ESB, v. v. v. 23, 23, 23, p. p. p. 316. 225. 210. Fliess em outubro de 1895 Cartas. 1, Aus da V. psicanálise); London p. 143 — E S B , v. 23, p. 317

necessário

salvaguardar, no decurso da

superioridade de quem faz parte de i n t e r a ç õ e s , nelas conserva uma certa d i s t â n c i a e modifica o modelo interacional segundo um plano • estabelecido. onde b Mais importante ainda é o fato de que o paciente só se confronta mas com ele. Auto-reflexão comprometido com semântica não com o que é a uma ina se pode elevar, de qualquer modo, até o e s t á g i o da a u t o - r e f l e x ã o médico de dinâmica solitária uma um movimento

As t r ê s partes que F r e u d remeteu a W. publicadas der 1953, E. apenas no Anfàngen JONES, N. York Psychoanalyse p. 347. 572. 573. (Dos Life

a p ê n d i c e do volume das primórdios and Work.

— Sigmund Freud;

tersubjetividade reconhecimento

comunicação Quando o

outro; o

a u t o c o n s c i ê n c i a s ó se constitui, depois de tudo, em base de um mútuo. médico "permite" paci¬ ente se desprenda da situação modo tal identidade mento. 57) Das /c/i und das lis, Cr. \ V . , v. X l l l , p. 235ff (O ego e o id, E S B , v. 19, p. 23 eí seqs); Ilenimung, Symptom und Angsl, v. X I V , Vorlesungen zur Einjührung in die Psychoanalyse, ESB, 63ff p. l l l f f (InibiçOcs, sintomas e ansiedade, E S B , v. 20, p. 107 et seqs); Neue Folge der v. 22, p. 58) 59) 60) 61) 62) 63) 64) 15 v. X V (Novas c o n f e r ê n c i a s introdutórias sobre a psicanálise, (Esboço dc psicanálise. XVII, p. 84 — ESB, E S B , v. 23, p. v. 23, p. 187. 168 et seqs.). transferenciai e o libera como um

C f . Ibidem, p. 416.

U/IU, p. 541 — E S B , v. 5, p.
II/III, p. 542 — E S B , v. 5, p. Ibidem. X I V , p. 4 6 f X , p. 136 VIII, p. 3S0 X V I , p . 69 X V , p. 2 3 nipulação LORENZEIÍ, nalítica das A. — —

E u a u t ô n o m o , os sujeitos devem encarar-se reciprocamente de um que o convalescente saiba que a identidade do Eu n ã o senão que, por pela identidade do outro que o rcconhece-aceita, reconhecisua vez, depende de seu p r ó p r i o é possível

1I/I11, p. 604 — E S B , v. 5, p. 636. E S B , v. 20, p. 34. E S B , v. 1 2 , p . 2 0 2 . ESB, v. 32, p. 153. 35. um substituto para Versiehens in . , a afetiva ma¬ E S B , v. 23, p . 301. E S B , v. 22, p. a escolha é condições

Ou quase-atividacle:

essenciais. der psychoanaly-

— Der Prozess des manuscrito).

et seqs); Abriss der Psychoanalyse, v. X V I I , p.

tischen Operation 88) 89) 90) 91)

(O processo do compreender na operação psica-

X V , p. 74 -- E S B , v. 22, p. 88 et seqs. X I V , p. 14 — E S B , v. 19, p. 299. X I V , p. 176 — E S B , v. 20, p. 169. X I V , p. 125 — E S B , v. 20, p. 119-20. XIII, de p. 247 — E S B , v. Lorenzer como 19, p. 33. de forma elucidativa este conceito linguagem o r d i n á r i a privativa, Alfred desenvolveu

A s u p e r a ç ã o entre motivo e causa que A . C . Maolntyre faz em The inconscious Cf. DANTO, 143. 1961, p. (Londres, A. C. 1958) torna essa relação irreconhecível. Cambr . — Analytical Phitosophy of History,

Cf. mais acima § 6. X I I , p. 193 — E S B , v. 17, p. 210. X V I , p. 49f — E S B , v. 23, p. 297-8. XIII, p. Cf. A. 307 — E S B , v. C. Maclntyre, Op. 19, p. 146. p. 112. cit.,

92) 93) 94) 95) 96)

repressão

d e f o r m a ç ã o da

apoiando-se sobre o exemplo da fobia-de-cavalo do pequeno Hans. Cf. L O R E N Z E R , A . — Der Prozess des Versiehens in der psychounalytischen operação 65) 66) Operation, Manuscript (O Processo da compreensão na psicanalítica, manuscrito).

X V I , p. 49 — E S B , v. 23, p. 296-7. " E m suma, comportamo-nos segundo o modelo de uma conhecida, figura de Nestroy, todas o criado, que tem nos lábios uma única resclaroposta para as perguntas e objeções: 'Tudo se tornará

X V , p. 74ff — E S B , v. 22, p. 88-9. Partindo do estudo da melancolia, Freud concebe a i n t e r i o r i z a ç ã o como o mecanismo pelo qual um objeto-de-amor abandonado é 97)
98)

uo decorrer dos acontecimentos' ", X V I , p. 52 — E S B v 23 p 300 X I , p. 452f — E S B , v. 16, p. 508-9
Cf. DANTO, A. C : Op. cit., cap.-X, XI, p. 201.

"novamente erigido no interior"; assim, uma i d e n t i f i c a ç ã o pode afirrnar-se t a m b é m l á , onde a catexia do objeto deve ser removida.

318

CONHECIMENTO

E

INTERESSE NOTAS 319-

99)
100) 101) 102) 103) 104) 105)

X V , p. 194 —— E S B , v. 22, p. 218. XVII, p. 15 2 — ESB, v. 23, p. 224. ponde o da uma interesse e m a n c i p a t ó r i o do dos interesses conhecimento pela r e m o ç ã o c o n s c i ê n c i a . Ao fazermos do conhecimento de Ego, Id, às. SupróX I V , p. 505 — E S B , v. 21, p. 169. — X I , p. 322 — E S B , v. 16, p. 364-5. VIII, p. 416 —— E S B , v. VIII, p. 415 —— E S B , v. 13, p. 222. 13, p. 221. r e p r e s s ã o e pela d i s s o l u ç ã o da falsa vinculação

orientadores

f u n ç õ e s do Ego no quadro do modelo estrutural Ego, Id, Superego, precisamos ficar conscientes de que perego foi, precisamente, isto adquirido for claro, a prias à r e f l e x ã o tateórico. poderá entre de metapsicologia favorecer não este modelo partir uma de experiências em elo uma

X I V , p. 448f — E S B , v. 21, p. 108-9. X I V , p. 326f — E S B , v. 21, p. 16. X I V , p. 327 —— Ibidem. X I V , p. 331 — E S B , v. 21, p. 21. X I V , p. 353 X I V , p. 333 Cf. acima § 3. X I V , p. 369 — E S B , v. 21, p. 57. FREUD XIV, Cf. desenvolveu p. 330 — T. esta v. — 1966, idéia 21, junto p. 19; ao cf. exemplo também da XV, proibição S. 196Í de — n ã o matar; cf. X I V , p. 363f — E S B , v. 21, p. 54 et seqs. E S B , v. 21, p. 44. — E S B , v. 21,'p. 23.

106)
107) .108) 109) 110) 111) 112) .113) 114) 115)

e, em c o n s e q ü ê n c i a , se localiza em um plano meinterpretação do que termos, existente análise obrigalógica, conheci¬ dos interesses orientadores uma se psicologização avançar e, a do conhecimento n ã o

Enquanto

apressada muito, rigor, que eis

conhecimento e interesse. Por outra parte, com uma tal in¬ conseguiu o pensamento o terreno da a teoria do

terpretação nos da a

mais demorada dos interesses que orientam abandonar Aqui a metapsicologia se da pesquisa, f o r ç a n d o - n o s espécie.

a voltar à c o n e x ã o objetiva da h i s t ó r i a

ESB, W.

mostra novamente

E S B , v. 22, p. 218-20. ADORNO, "Weltgeist und p. 293 et seqs. dc H . Marcuse sobre a teoria VhiBrasil 119) 120) 121) 122) 123) 124) 125) 127) Naturgeschichte" (Espírito 118) de mundo e história natural). gativa), Frankfurt 116) Também a excelente In: Negative Dialeklik (Dialética ne¬

mento s ó pode ser pensada c o n s e q ü e n t e m e n t e como teoria da so¬ ciedade. NIETZSCHE, Org. 1. III, I, p. III, I, I, I, III, p. p. p. p. p. p. p. por p. 1021. 343. 862. 217. 231. 232. 281. 814. (Os fundamentos da hermenêutica o confesse, filosófica esta de GadaCf. o ainda, embora n ã o 1965. cit.. 111, p. 442. intenção. 1044. F. K. -Werke 2= . in ed., 3 Bànden (Obras 1960, em III, três p. tomos). Schlechta, München, 486.

interpretação

d a sociedade, i m p l í c i t a n o s mente d e s t e perigo. losophicil Inquiry por .117) Zahar Editores inlo

escritos dc Freud, n ã o sc evade totalBoston, Bros 1955 c (Publicado no civilização).

ÍVIAKCUSE, 1!. — Bros and Civilhjation: A Breud, o sob título

X I V , p. 380 — E S B , v. 21, p. 70-1. Freud distinguira cessidade quando forma do são entre necessidade e interesse. D i s p o s i ç õ e s da neconstituintes ligadas do "Id"; falamos do Ego. de interesses Par¬ repousa funa funções Formulado de partes

126) . 1,

m o t i v a ç õ e s estão paradoxal:

interesses constituem funções do Ego. que O se

necessidades do Ego. tesíe-de-realidade desenvolve no

mer segue método), 128) 129) 130) 131) 132) 133) 134) 135) 136) 137) 138) NIETZSCUIÍ, III, III, III, III, III, I, p. p. 440.

tindo de tal sobre uma

d i s t i n ç ã o podemos vincular cognitiva

os interesses orientadores círculo

p r e f á c i o à segunda e d i ç ã o de Wahrheit und Methodc (Verdade eTübingen, F. — Op.

conhecimento às

operação

cional do agir instrumental e da externas da vida. conduta, sobre A essa controlada pelo sucesso, objetivados. realização A

a d a p t a ç ã o inteligente às c o n d i ç õ e s operacional das regras de O interesse do co¬ pelo corresponde

aprendizagem

526.

III, p. 440. p. 726. 903. 560. 446. 471. 790f p. p. p. III, p.

nhecimento t é c n i c o ; processos uma contrário,

cie visa o aumento daquele poder que d i s p õ e censura instintual nos pressupõe, cognitiva, gerada complexos intera-

cionais por meio da identificação e da interíorização. A esta apren¬ dizagem moral dos p a p é i s sociais resse ld e do conhecimento própria à prático subjetividade, corresponde, por sua vez, o inte¬ vista da consolidação Por fim, a da intersíntese de mútua. em

III, p. 499.

compreensão

III, p.

Superego,

portanto, a i n t e g r a ç ã o de inerentes a uma

p o r ç õ e s inconscientes no especificamente corres-

Ego é executada por uma nexões patológicas, deformada. A tal processo

o p e r a ç ã o cognitiva, que surge em co¬ comunicação de aprendizagem auto-reflexiva