IMPRESSO ESPECIAL CONTRATO Nº 050200487-8/2001 ECT/DR/RJ IBASE

(INSTITUTO BRASILEIRO DE ANÁLISES SOCIAIS E ECONÔMICAS)
ENVELOPAMENTO AUTORIZADO - PODE SER ABERTO PELA ECT

Uma publicação do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas

Ano 9 • Nº 115 • Fevereiro 2003

Este foi o recado que 5 milhões de pessoas de 60 países mandaram a George W. Bush, presidente norteamericano, no último dia 15. O repúdio à guerra também foi o principal tema do Fórum Social Mundial 2003, encontro no qual 100 mil pessoas celebraram a vida.
Pág. 8

Polêmica das cotas expõe racismo à brasileira
Pág. 3

Entrevista: Marcelo Yuca
Pág. 4

O desafio da autogestão em Porto Alegre
Pág. 12

FUSÃO DIGITAL DE IMAGINATTO SOBRE FOTOS DE NANDO DIAS E SAMUEL TOSTA

2 • Jornal da Cidadania • Nº 115 • Fevereiro 2003

• mrco@imagelink.com.br • Amigo do Ibase

Pelo terceiro ano consecutivo, o Fórum Social Mundial proporcionou às sociedades dos países participantes um início de ano mais esperançoso. No caso do Brasil, esse sentimento tem um sabor a mais, proporcionado pelo tempero local – a cidade de Porto Alegre. E também por acontecer no momento de instalação de um governo que nos aponta perspectivas férteis de adoção de um modelo de desenvolvimento diferenciado, desta vez baseado na justiça social. A própria ida de Lula ao evento e o carinho com que foi recebido pela população que ali se instalou – cerca de 70 mil pessoas que se apertaram no Anfiteatro Pôr-do-Sol para ouvir um discurso rápido, não mais que meia hora, e que depois ganharam as ruas apenas para acenar enquanto seu carro partia – são uma demonstração da confiança que vem sendo depositada no novo governo. Essa confiança está embasada em atos que ultrapassam a barreira das promessas de campanha. Durante os seis dias de Fórum – de 23 a 28 de janeiro – tivemos o anúncio da criação de três espaços valiosos de interlocução entre governo, sociedade e empresariado: o Conselho de Segurança Alimentar, do qual o Ibase fará parte; o Fórum Brasileiro de Economia Solidária; e o Conselho Nacional de Política Urbana. Todos são frutos da reivindicação social. Os dois últimos estão relacionados a pastas inéditas na nossa história política – a Secretaria Nacional de Economia Solidária e o Ministério das Cidades. Também foi durante o Fórum que se consolidou o movimento antimilitarista no Brasil, que já vinha circulando a passos de gigante na Europa e mesmo nos Estados Unidos, mas não aqui. Durante as palestras, proferidas por pensadores respeitados mundialmente – como o escritor Eduardo Galeano e o lingüista Noam Chomsky – ficou clara a necessidade de cada pessoa reagir contra a absurda guerra que o presidente norte-americano George Bush resolveu perpetrar para atender a seus interesses econômicos e eleitoreiros. A despeito dos riscos que possa trazer não apenas para as populações dos países envolvidos, mas para toda a humanidade. Como afirmou sabiamente o estadista Mário Soares, durante entrevista concedida ao Ibase em Porto Alegre, “todos sabem como se começa uma guerra, mas ninguém sabe como ela termina. O melhor é não começar”. Como nos anos anteriores, o Fórum Social Mundial 2003 foi uma oportunidade de exercitar o respeito à diversidade, de conhecer quem é diferente, mas igualmente valoroso. Todos os movimentos sociais e grupos historicamente excluídos marcaram presença. Dos sem terra aos sem emprego, passando de maneira bem-humorada – por sinal, uma marca do evento – pelos que protestaram sem roupa; representantes indígenas; jovens; negros(as); mulheres; homossexuais; pessoas com necessidades especiais: todos tiveram voz e vez; até as crianças, pela participação no Forunzinho. Este ano, a mídia rompeu os limites da transmissão da informação para ser assunto nas mesas de palestras. Além de ter sido um dos principais eixos enfocados neste III FSM, a influência do chamado Quarto Poder foi tratada transversalmente em todos os outros eixos. A imprensa alternativa também entrou na pauta e mostrou o quanto contribui para fortalecer a corrente que o Fórum Social consolida anualmente. A partir de agora, até 2004, fica a expectativa de saber como nos sairemos na Índia, onde acontecerá o próximo Fórum.

Saudações Mário Osava, venho através desta parabenizá-lo por seu artigo “Sem diploma” (publicado em dezembro). Eu, na qualidade de líder comunitário da Associação de Moradores do Conjunto Residencial Santo Inácio, do bairro Jardim das Palmeiras, em Uberlândia, pude ler tal artigo há três semanas. Creio que é de suma importância trocar idéias sobre este tema e pretendo colocar isso em prática aqui na minha cidade.
João Amper de A. Pinto, Uberlândia/MG

damos encadernar e deixamos na Biblioteca Diocesana, que tem 45 mil volumes. Em 2002, passaram pela nossa biblioteca 31.634 estudantes.
D. José Rodrigues de Sousa, bispo de Juazeiro/BA

Estou voltando de Roma, da visita ao Papa, com os demais bispos da Bahia. Agradeço-lhes o expressivo cartão de Natal, bem como o Jornal da Cidadania que distribuo entre as comunidades. No fim do ano, man-

Sou membro da Associação de Moradores do bairro Jardim Pedro Braga, que representa mais de 600 famílias. Gostaria de mantê-las informadas sobre as ações do Ibase em todo o país. Desta forma, preciso continuar recebendo o Jornal, em uma cota de 100 exemplares para distribuição em nossa comunidade.
Agnaildo Barbosa, Amigo do Ibase, Alagoinhas/BA

Ano 9 • Nº 115 • Fevereiro 2003
Uma publicação do Ibase – Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas
Av. Rio Branco, nº 124, 8º andar – Centro CEP 20040-001 Rio de Janeiro – RJ Tel.: +(21) 2509.0660 Fax: +(21) 2224.8474 E-mail: jcidadania@ibase.br Web site: www.ibase.br

Co n s e l h o E d i to r i a l • Presidente: Herbert de Souza - Betinho (in memoriam) • Carmen Luz • Cláudia Werneck • Fernando Pinheiro • José Júnior • Marco Carvalho • Mário Osava • Nilda Alves • Patrícia Lânes • Sonia Mesquita

Direção Institucional • Cândido Grzybowski Coordenação de Comunicação • Iracema Dantas Edição • Editora: AnaCris Bittencourt (Mtb 17884) • Subeditora: Jamile Chequer (Mtb 22493) Redação • Flávia Mattar • Marcelo Carvalho • Elaine Ramos (estagiária) Produção • Geni Macedo Distribuição • Íris Patrícia Batista

Projeto Gráfico • Mais Programação Visual Diagramação • Imaginatto Design Capa • Fusão digital de Imaginatto sobre fotos de Nando Dias e Samuel Tosta Tiragem • 57.500 exemplares

As matérias assinadas não traduzem necessariamente a posição do Ibase

Fevereiro 2003 • Jornal da Cidadania • Nº 115 • 3

Maria Cláudia Cardoso e Marcio André dos Santos *

A legitimidade das cotas
A lei que obriga às universidades estaduais do Rio de Janeiro e do Norte Fluminense (Uerj rios às cotas geralmente ignoram – ou omitem – o fato de que mais de 70% das vagas e Uenf) a adotarem cotas para grupos historicamente discriminados vem gerando críticas e, nas universidades públicas estejam concentradas para o grupo branco. como já esperado, muita polêmica. Segundo as diretrizes do Ministério da Educação, o aluno ou aluna estará apto para Cedendo ao conjunto de reivindicações dos movimentos negros por políticas públicas freqüentar uma universidade se concluir o ensino médio e for aprovado no vestibular. O de ação afirmativa e às resoluções que propõem medidas de discriminação positiva para vestibular foi criado para comprovar conhecimentos básicos adquiridos ao longo da negros – das quais o Brasil é signatário –, o governo do estado do Rio de Janeiro estiputrajetória escolar, estabelecendo uma pontuação mínima para o ingresso. Em outras palalou que o concurso para ingresso nessas instituições deveria reservar 40% de suas vagas vras, as cotas visam possibilitar o ingresso daqueles estudantes que numa outra situação para estudantes que se autodeclarassem “negros” ou “pardos”. A mesma lei também estipu– por exemplo, num vestibular para medicina menos concorrido em outro estado – la que sejam destinadas 50% das vagas para alunos oriundos de escolas públicas. atingiriam a média necessária para cursar o ensino superior e não o fazem porque dispuA medida é um passo importante na redução da desigualdade no acesso ao ensino tam vagas com alunos que tiveram condições de estudar em escolas com padrão de superior público, mas há um sério problema no que se refere à formulação da lei. Foram ensino comparável ao das elites européias. estipulados como equivalentes dois padrões classificatórios: um baseado na noção de “cor” Será que os tais cursos de “prestígio”– muito concorridos nos grandes centros urbanos (pardo) e outro na idéia de identificação racial (negro). O IBGE usa como critério classificatório e com menos procura em outras regiões – formam profissionais desqualificados onde não há a noção de “cor”, estabelecendo basicamente cinco categorias censitárias: tanta procura? Ou seja, não há relação direta entre a pontuação obtida branco, preto, pardo, amarelo e indígena. no exame de vestibular – se elevada ou não – e a qualidade da formação Os protestos contrários No entanto, para os movimentos negros e parte dos especialistas na profissional futura, o que não nos redime do questionamento e da coquestão racial a idéia de “cor” é apenas mais um dos componentes utilibrança por um ensino fundamental e médio com mais qualidade. às cotas geralmente zados para auferir a idéia de “raça” e, mesmo assim, não é um critério Mas afinal: cotas resolveriam, isoladamente, o problema da excluignoram ou omitem objetivo válido. Para definir “raça” são utilizados outros tantos elementos, são de negros e negras na universidade? A resposta não poderia deio fato de que mais tais como: ancestralidade, matriz cultural, identidade etno-racial e o senxar de ser negativa, na medida em que cotas e mesmo outras ações timento de pertencimento a um grupo que historicamente partilha a mesafirmativas não visam modificar estruturalmente o sistema vigente no de 70% das vagas ma experiência de discriminação e subordinação racial. Evidentemente ensino superior. Ao mesmo tempo, são medidas revolucionárias por nas universidades que tal noção não se estende a todo e qualquer contexto social, sendo colocarem na ordem do dia a responsabilidade do Estado e da sociepúblicas estejam entendido somente no interior de relações sociais específicas. dade brasileira com a redução da desigualdade entre negros e brancos – além de por a nu a perversidade do racismo. concentradas para Questão de lógica Corroborando o pensamento do compositor Marcelo Yuka – “paz o grupo branco Para reduzir margens de arbitrariedade e erro, a lei poderia ter sido sem voz não é paz, é medo” – é tempo de não mais silenciar injustiças formulada da seguinte maneira: “Serão reservadas cotas de 40% para cometidas em nome de uma suposta igualdade formal que nunca concandidatos autodeclarados “negros”; especificando que são consideratemplou os afrodescendentes, salvo algumas exceções como Milton dos “negros” aqueles inseridos no conjunto de noções definidoras de “negritude”. SuSantos, Muniz Sodré, Benedita da Silva e Paulo Paim. pondo que – diante da reflexão feita anteriormente – estivesse resolvida a questão da As leis que propõem políticas específicas – neste caso em especial reservas de vagas classificação etno-racial, haveria ainda um outro problema: o questionamento por setores por cotas na Uerj – devem ser entendidas como um esforço conjunto da sociedade na da sociedade sobre a ampliação do número de vagas para o grupo negro. O estabelecitentativa de diminuir desigualdades sociais e raciais. Numa perspectiva positiva, o grupo mento do percentual de 40% corresponde aproximadamente ao contingente populacional hegemonicamente privilegiado (brancos), erroneamente considerado prejudicado, estaria de negros (conjunto de “pretos” e “pardos”) no estado do Rio de Janeiro, verificado no contribuindo para reparar injustiças históricas. Ainda com a letra de Yuka, vale perguntar: último Censo do IBGE, em 2000. Portanto, a legitimidade da lei de cotas se estabelece “Qual a paz que eu não quero conservar pra tentar ser feliz?” dentro da compreensão de uma lógica matemática simples: a de que devemos ter pelo menos 40% de negros nas universidades – ainda que a cota racial não seja a mais * Maria Cláudia Cardoso, historiadora, e Marcio André dos Santos, cientista adequada medida de ação afirmativa existente. Interessante notar que os protestos contrásocial, são afrodescendentes, formados pela Uerj e colaboradores do Ibase
FOTOS: SAMUEL TOSTA

Durante o III FSM, ocorreram várias manifestações pelo fim do preconceito racial e pela aplicação de medidas reparatórias às populações afrodescendentes

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Por Marcelo Carvalho

Marcelo Yuca
Desde o tempo em que era baterista da banda O Rappa, Marcelo Yuca sempre foi mais do que apenas músico e letrista (o que já é muito). Yuca é falante (refletindo em suas opiniões um pouco do que pensa a juventude brasileira) e atuante. O músico, e não é de hoje, faz questão de desenvolver trabalhos sociais. Esteve no Fórum Social Mundial (FSM) em 2002. Este ano, repetiu a dose, participando, entre outros eventos, da Marcha de Abertura no dia 23 de janeiro.
Você participou de dois FSMs. Qual sua opinião sobre o movimento?
tendem que esse sentimento não pode ser passageiro e vão educar seus filhos dessa forma. Assim como as pessoas rezam ou fazem exercícios, elas precisam buscar o que eu chamo de amor no plural. E pô-lo em prática participando de ações de interesse coletivo que sejam também sentidas como parte de suas vidas. Olha, fico empolgado quando vejo os mais novos e os mais velhos. As crianças estão sendo educadas e os mais velhos mostram que é possível passar a vida toda na batalha.

WARNER MUSIC GROUP: BRAZIL

A ex-governadora do Rio de Janeiro, Benedita da Silva, foi muito combatida com relação à violência, que teria saído do controle do Estado. Qual a sua opinião a respeito?

O governo da Benedita foi muito positivo porque, na época, acabou com o acordo entre cavalheiros que era de praxe entre os governos do Rio e a bandidagem, algo que possivelmente pode voltar agora. A oposição que ela enfrentou era muito por conta de ter peitado o crime. Havia resistência também ao fato dela ser negra. A elite não quer ser governada por uma mulher negra que veio da favela.

Houve racismo?

Por parte da Zona Sul do Rio, sim. Preferiram o alisamento japonês.

Você continua trabalhando com o AfroReggae, de Vigário Geral?
Estou um pouco distante deles agora porque o projeto tomou proporções imensas. O grupo tem hoje ajuda governamental, está ótimo. Mas o José Júnior, diretor do AfroReggae, me convidou para ajudá-lo a organizar uns grupos no Cantagalo. Estou dividindo meu tempo com grupos menores. Tem o grupo de dança Magemolê, do Alto José do Pinho, em Recife; sou parceiro de um grupo que dá aula de grafite em São Gonçalo, no estado do Rio, e na Mangueira; e trabalho com a Fase, onde, na verdade, estou trabalhando com diversos outros grupos pequenos. Como na Roda da Solidariedade, um projeto que sempre participo.

É a coisa mais importante no mundo acontecendo atualmente. A sensação que se tem da atmosfera do evento é de muito otimismo. Em 2002, participei de uma palestra na tenda do hip hop, no Acampamento da Juventude, estava lotado. Este ano, dei um depoimento pessoal, contando minhas experiências. Também falei na Cidade das Cidades, que foi o nome do Acampamento da Juventude em 2003. O espaço ficou maior com relação à área que ocupava no ano passado. O público pra quem falei foi mais eclético. Acho que tenho empatia com os jovens. Mas como havia palestrantes de outras partes do mundo na mesa, pude atingir um público que não era só de jovens.

Foi algo diferente, nunca tinha feito dessa forma, falar sobre a minha vida. Minha trajetória se mistura com as minhas idéias, com as causas que defendo. Eu espero – e encerrei minha participação dizendo isso – que essa vontade de fazer mudanças e de participar nas questões coletivas da sociedade não seja apenas um ímpeto juvenil. As pessoas mais radicais que estavam no FSM eram as de mais idade. Eduardo Galeano e Noam Chomsky, por exemplo. Pessoas como eles, infelizmente, estão em menor número.

Como foi a experiência do testemunho no FSM?

Com relação a isso não mudou nada. Continuo pensando como antes. Existem vários fatores que contribuem para aumentar a violência. Como a corrupção policial. Mas está acontecendo outra coisa também. O bandido é cada vez mais jovem. O garoto não teve tempo de se formar e de desenvolver respeito pela comunidade. O respeito que ele está tentando adquirir com as pessoas é através de atos cada vez mais violentos. Muitas vezes até, luta em uma comunidade onde não nasceu. Perdeu-se o vínculo com a comunidade.

Mudou alguma coisa com relação ao que pensava sobre a questão da violência urbana depois do atentado? (Yuca foi atingido por cinco tiros quando dirigia no bairro carioca da Tijuca em 2000. Perdeu parte dos movimentos dos braços e pernas.)

Qual sua relação com O Rappa hoje?
Eles me botaram pra fora da banda, fui despedido. Não faço mais música pra eles. Estou montando um trabalho novo, uma outra banda. Até o final do ano devemos ter alguma coisa. Não tem nome ainda. Ainda não quero divulgar muito o assunto.

Você está articulando também um projeto de rádio comunitária?
Sim, estamos tentando achar uma maneira de agir contra a guerra faccional no Rio utilizando as rádios comunitárias. Essa coisa das facções, dos comandos do crime, está barrando a circulação de cultura e informação entre os morros cariocas. Antigamente, os compositores de samba podiam passear livremente entre as comunidades. As partidas de futebol entre os moradores dos morros eram mais freqüentes. Havia uma transpiração entre as comunidades. Hoje não está havendo. E já que eu não posso ir por baixo, vou por cima, pelas ondas das rádios comunitárias. Estamos tentando fazer uma rede com programas parecidos em diferentes comunidades aqui no Rio. A gente ainda está tentando viabilizar o projeto.

O desejo de liberdade e a revolta natural dos jovens vão sendo tirados deles conforme entram no mercado de trabalho. Com o tempo, o período da juventude passa a ser algo como um sonho, uma fase da vida. Isso não deveria ser sentido como uma fase, mas como parte da pessoa, presente na vida dela para além da juventude. As pessoas mais conseqüentes en-

Por que essa ousadia dos jovens arrefece com a idade?

A longo prazo, investimento social e desenvolvimento. A curto prazo, a sociedade civil precisa lutar pelo fim do comércio de armas de fogo em todo o território nacional. Isso até agora não foi feito porque o lobby dos fabricantes de armas é muito forte, eles têm um braço político consolidado no Congresso Nacional. São eles que não deixam que o assunto venha à tona. É o negocio mais lucrativo que existe.

E o que fazer para diminuir a violência urbana?

Fevereiro 2003 • Jornal da Cidadania • Nº 115 • 5

AnaCris Bittencourt

Ei criança, já pra escola!
Durante o Fórum Social Mundial 2003, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgou que 180 milhões de pessoas adultas estão desempregadas no planeta. Ironicamente, pesquisa realizada sobre trabalho infantil mostra que existem 180 milhões de crianças e adolescentes, entre 5 e 17 anos, realizando serviços que só poderiam ser feitos por adultos. São as chamadas piores formas de trabalho infantil.
A oficina Um futuro sem trabalho infantil, realizada no dia 26 de janeiro, foi uma das mais concorridas da PUC-RS neste III Fórum. Na sala, com capacidade para 70 pessoas, não faltavam outras sentadas pelo chão, em pé, encostadas nas paredes ou que se espremiam na porta para não perder a exibição do documentário que mostrava crianças em situações de insalubridade em várias partes do mundo, inclusive no Brasil. Foi realizada por OIT; Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância); FNPETI (Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil); Sinait (Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho); Anamatra (Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho); e Ajufe (Associação dos Juízes Federais do Trabalho). Para Pedro Américo Furtado de Oliveira, coordenador do Ipec (programa da OIT para eliminação do trabalho infantil), existe uma relação direta entre a globalização da economia e o aumento do trabalho infantil no mundo, resultante da intensificação da pobreza. “Cada vez mais famílias pobres precisam contar com suas crianças para complementar a renda doméstica. Além disso, existe aquele erro cultural de achar que a criança que trabalha será um adulto mais responsável. Na verdade, o que fica claro é que a criança que trabalha hoje é o adulto desempregado de amanhã, pois, trabalhando, não lhe sobra tempo para mais nada”, afirma. Entre as principais causas apontadas, além da pobreza e da própria cultura, estão a falta de acesso à educação e as vantagens que um empregado-mirim representa para o empresariado – aliando o baixíssimo custo à subserviência infantil, a criança é considerada um trabalhador não-problemático. Entre as piores formas estão: escravidão ou trabalho forçado; atividades ilícitas, como tráfico de drogas e prostituição; e atividades perigosas, insalubres e degradantes. Segundo os dados da OIT, de cada 6 crianças do planeta, 1 trabalha. São ao todo 246 milhões. No caso das piores formas, a relação seria de 8 para 1. Até os 14 anos de idade, não existe diferença entre meninos e meninas, existindo uma maioria masculina a partir daí. Dos 180 milhões, 111 milhões têm menos de 13 anos. mas persistem hoje. Outra atividade que cresceu no início do século XX foi a operária, quando milhões de crianças passaram a engrossar a mão-de-obra das nossas fábricas, o que também se repete um século depois. O Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo, o Estatuto da Criança e do Adolescente, uma das conquistas obtidas com a Constituição de 1988. Esta determina a proibição do trabalho antes dos 16 anos, permitindo o trabalho aos 14, no caso do menor aprendiz, mas na prática nada está funcionando. Segundo dados do IBGE, existem no Brasil entre 9,7 milhões e 7,7 milhões de trabalhadoras e trabalhadores-mirins. O trabalho doméstico é a tarefa que mais emprega no país, prejudicando a formação educacional e proporcionando à criança um futuro incerto. Além dos riscos de lesões permanentes, deformidades e doenças decorrentes da exposição a materiais perigosos, a criança que trabalha sofre danos emocionais que a acompanham para sempre. Ela tem dificuldade de estabelecer vínculos afetivos em razão da exploração e maus-tratos geralmente recebidos. Por realizar tarefas sem a maturidade do adulto, acaba por afastar-se do convívio social com pessoas da mesma idade. Trabalhando, deixa de exercer direitos básicos, como brincar e estudar. “Isso impede sua ascensão social, impede que sua renda melhore ao longo da vida, pois as chances aumentam para quem passa pela escola com qualidade. Está comprovado que 99% das crianças brasileiras estão matriculadas nas escolas, mas isso não demonstra o aproveitamento escolar”, lembra Daniel de Bonis, coordenador do projeto Empresa Amiga da Criança, da Fundação Abrinq. Dados do IBGE confirmam o fato – crianças que trabalham estão 1 ano atrasadas na escola; as que trabalham mais cedo têm 3 a 4 vezes menos anos de estudo e uma renda 3 a 4 vezes menor na vida adulta. Assim como Pedro Américo, Daniel coloca a questão cultural como um dos principais empecilhos para superar o problema. “São conceitos historicamente apreendidos, que passam gerações como verdades absolutas, tais como: ‘crianças e jovens devem ajudar a família a sobreviver’ ou ‘o trabalho enobrece a criança, antes trabalhar do que roubar’”. O representante da Abrinq enfatiza que a responsabilidade da subsistência familiar é do adulto, não importa o que diga o inconsciente coletivo. E lembra que, muitas vezes, essas máximas são convenientemente utilizadas pela classe média, que tem uma visão preconceituosa contra a população pobre.

A cara da dor
O trabalho infantil tem a mesma fisionomia no mundo inteiro, da exploração, da perda de direitos e da falta de oportunidade. A maior parte se concentra na Ásia e ilhas do Pacífico (60%); seguida da África Subsaariana (23%); América Latina e Caribe (8%); Oriente Médio e Magreb (6%). Quanto às atividades, a maioria (70%) se concentra nos setores agrícola, pesqueiro ou extrativista; 8,3% estão na indústria ou no setor atacadista e varejista; 6,5% desenvolvem serviços comunitários sociais; 3,8% estão em transporte, armazenagem e comunicação; 1,9% na construção; e 0,8% na mineração. A OIT alerta para o aumento de formas de trabalho que passam despercebidas, por terem sido naturalizadas pela sociedade. É o caso do trabalho infantil doméstico, em que além do esforço diário sem interrupção, envolve geralmente abuso sexual.

Produto nacional
O trabalho infantil no Brasil tem suas origens na escravidão, quando as crianças filhas de escravos eram obrigadas a trabalhar na casa grande, realizando todo o serviço doméstico, ou nos canaviais junto com os pais. Mesmo com a Abolição da Escravatura, o grave é perceber que essas for-

J. R. RIPPER

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Marcelo Carvalho • mpascoa@ibase.br

Bê-á-bá da cidadania
Se você é pai ou mãe e procura um presente para seu filho(a), ou é professor(a) do ensino fundamental e está interessado(a) em uma dica de leitura para a turma, que tal dar uma olhada na Coleção Valores? Estão sendo lançados mais quatro livros da série: Verdura? Não!, Quer uma mãozinha?, É meu!, Não empresto! e Falou comigo? Os livros abordam assuntos como nutrição, colaboração desinteressada, generosidade e desenvolvimento da atenção. Os novos volumes somam-se aos já lançados Com Licença?, Deixa que eu faço!, E eu com isso?! e Não fui eu! – sobre convivência, desenvolvimento de responsabilidade, respeito e honestidade. São publicações paradidáticas, têm declaradamente como primeira intenção ajudar na formação das crianças (a partir das que acabaram de aprender a ler, lá pelos 7 anos). Até parecem chatas. Mas não são, pelo contrário. São leituras divertidas (textos e desenhos bem-humorados) e as ilustrações, simples e coloridas, estão ao gosto da criançada. Temos a impressão – talvez mais até do que uma simples impressão – de que está cada vez mais difícil criar nossos filhos(as) dentro de valores que consideramos justos, aqueles que giram em torno do sentimento humano de fraternidade. Certo, não há valores absolutos, tudo depende da sociedade, da época etc. Mas que há um descompasso evidente entre os, digamos, bons valores e o mundo ao redor, cada vez mais dominado pelo individualismo egoísta, o consumismo desenfreado e a espetacularização da violência, isso há sim. E o que é pior, todo o pacote vem embalado de maneira encantadora, de apelo quase irresistível para as crianças. Pais, mães e professores(as), tens trabalho árduo pela frente. Para quem quiser encarar o bicho medonho, esses livros podem ser aliados de primeira hora, lá onde a personalidade ainda pode ser moldada. Boa sorte.
Editora Scipione 32 págs. R$ 9,90 cada volume Textos: Claire Llewellyn Desenhos: Mike Gordon Tradução: Irami B Silva

China aos pedaços
A cultura chinesa está em foco na exposição China – Os Guerreiros de Xi’an e os Tesouros da Cidade Proibida, de 20 de fevereiro a 18 de maio, na Oca do Parque Ibirapuera, São Paulo. Os objetos, de diversos períodos e dinastias da China, estão pela primeira vez expostos no Brasil. São peças da Cidade Proibida e do Exército de Terracota (guerreiros de Xi’an, guardiões do túmulo do primeiro imperador chinês), declarado Patrimônio Histórico da Humanidade pela ONU. A mostra divide-se em dois grandes núcleos: Shaanxi e Cidade Proibida – Museu do Palácio Imperial de Pequim, representadas respectivamente por 11 guerreiros e 2 cavalos de terracota em tamanho natural e por peças da última dinastia chinesa (sala do trono, objetos de decoração, roupas, enfeites, cerâmicas, quadros etc).
DIVULGAÇÃO

Conversa sobre a temática racial
Lançado pelo Ibase no III Fórum Social Mundial, a publicação Sonhar o futuro, mudar o presente (60 págs.) é o resultado das três reuniões dos Diálogos sobre a Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, realizadas entre julho de 2001 e setembro de 2002 no Rio de Janeiro. Os encontros, assim como a publicação, foram organizados em parceria com instituições que trabalham com as questões de raça e gênero. São elas: Centro Feminista de Estudos e Assessoria, Articulação de Mulheres Brasileiras, Articulação de Mulheres Negras Brasileiras, Comunidade Bahá’í, Centros de Estudos Afro-Brasileiros e de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, Geledés e Criola. Dividido em sete capítulos, o livro traça um perfil da atuação da sociedade e do governo em relação à temática racial no Brasil, apontando, com ousadia, seus principais desafios, mas também suas conquistas. A forma como o assunto é apresentado demonstra um esforço de levar o tema para além das fronteiras do movimento negro, fortalecendo a idéia de que se trata de debate fundamental a todos os setores. Durante a leitura, chamam a atenção contundentes depoimentos de participantes das reuniões e os 11 boxes com intervenções realizadas durante os Diálogos.
Distribuição gratuita. Pedidos: (21) 2509-0660 ou www.ibase.br

Bonde do tigrão
O cartunista Cássio Loredano é conhecido também por sua veia de pesquisador. São de sua autoria coletâneas de desenhos sobre Nássara, Guevara, Figueroa e J. Carlos. Sobre esse último, então, Loredano é especialista. Já publicou três livros, remexendo em um acervo de 30 mil desenhos, aproximadamente. É dele também o mais recente trabalho sobre o maior cartunista brasileiro, O Bonde e a Linha – Um perfil de J. Carlos, lançado pela editora Capivara. Loredano passeia pela vida e obra do mestre e sua cidade, o Rio de Janeiro, indissociável da obra de J. Carlos. Prefácio de Chico Caruso. Preço R$ 20.
www.capivaraeditora.com.br

Por AnaCris Bittencourt

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Marcelo Carvalho *

A Comunicação que também olha para si
por câmeras nos caças. O efeito visual produzido não passava de fumaça e algumas fagulhas. O tema Comunicação teve presença bem mais expressiva no III Fórum Social Mundial, se Chegou a ser bonito. E excitante, como uma batalha comandada por crianças com joysticks comparado às outras edições do evento. Foi dedicado ao assunto um eixo inteiro, Mídia, nas mãos. O Iraque ensaiou uma guerra de contra-informação, divulgando o número de Cultura e Alternativas à Mercantilização e Homogeneização, com vários painéis. O Fórum mortos civis e os alvos não-militares atingidos. Ação sem qualquer efeito no Ocidente, que Nacional pela Democratização da Comunicação, por sua vez, também promoveu seminários manteve um braço em Bagdá, Peter Arnet, repórter da CNN, na delicada posição de canal de e oficinas sobre o tema. Quais as causas da relativa ausência nas edições anteriores? E por comunicação entre dois mundos. que ganha em importância agora? As causas são complexas e transcendem aos limites deste O Pentágono encontrou uma fórmula que, se não garantia completamente a derrota do texto. Por outro lado, podemos ressaltar a importância do tema na contemporaneidade. inimigo nos campos de batalha, passou a ser vital para a vitória em casa: guerra justificada, A Economia e as questões de Estado ganharam uma proeminência que não é de agora meios de comunicação domados. A prática deu um passo adiante no Afeganistão. Dessa vez e tendem, nos meios de comunicação, a explicar a sociedade e o mundo. Evidentemente que não vimos imagens, salvo a movimentação monótona de tropas americanas na terra calcinada são questões de importância capital. A direita e a esquerda mais tradicional apostaram – do centro da Ásia, longe do teatro de operações propriamente dito. Diferentemente da ainda apostam – nesses vieses. No entanto, cada vez mais os temas tidos como menores Guerra do Golfo, não foi montado um show televisivo para as platéias que se divertem com ganham o cenário, como o racismo, por exemplo, que a duras penas se descola do chavão o espetáculo diário dos telejornais no horário nobre. A vanguarda da ação contra o Mulá da sociedade (economicamente) igualitária que resolveria naturalmente as injustiças raciais. Omar, dirigente do Afeganistão, foi entregue às tropas afegãs contrárias ao regime. A festa As chamadas questões menores têm sim, muita importância. A guerra está na pauta do pirotécnica na Guerra do Golfo foi substituída pela ação punitiva contra Bin Laden, regado dia e poderíamos seguir esse caminho para tentar pôr em relevo um pouco do fenômeno ao sentimento de revanche pela destruição do então símbolo maior do capitalismo triunfancomunicativo nos dias de hoje. E se uma guerra novamente nos bate à porta através da te, as torres gêmeas do World Trade Center. pesada mão da máquina americana de destruição, talvez fosse interessante comparar, em Como na Guerra do Golfo, o pretexto era evidente: eliminar o mal dos tempos atuais, o linhas gerais, as diferentes estratégias de comunicação dos EUA em algumas das guerras terrorismo internacional. Quem se colocasse contra a intervenção dos EUA estaria do lado dos promovidas por esse país: contra o Vietnã; a Guerra do Golfo; o conflito de retaliação terroristas. Bin Laden atingiu os EUA mais fundo do que se pensava a contra os Talebans do Afeganistão; e a guerra que Bush e seus aliados princípio. Não pôs o império no chão, mas contribuiu decisivamente para das companhias petrolífera e armamentista preparam contra o Iraque. turvar o que faz dos EUA o que eles são. As garantias jurídicas e a liberA ação dos EUA no Vietnã, na década de 1960, foi um dos ponNa Guerra do Golfo, dade individual foram por terra ao serem adotadas medidas de exceção tos culminantes da Guerra Fria. A antiga Indochina Francesa era paltão importante quanto contra suspeitos de envolvimento em atividades terroristas. Somando-se co privilegiado da luta ideológica entre a economia de mercado a estratégia de guerra ao escândalo das fraudes nos balanços das grandes empresas (golpe conocidental e a experiência socialista. A expansão da guerrilha dos tra o sistema econômico) e a eleição suspeita do próprio presidente (o que vietcongs e a simpatia que sua luta despertava entre os vietnamitas foi a elaboração de teria acontecido nos colégios eleitorais da Flórida?), o que ainda restaria? assustavam os capitães de indústria e os políticos conservadores. uma estratégia de Resposta: a imprensa livre. Bem, livre ela jamais foi. Mas tinha, O medo de alastramento da ideologia comunista empurrou os EUA comunicação nos anos 1970, flexibilidade suficiente para detectar, apurar e denunpara o conflito. Entraram no Vietnã. E perderam a guerra. ciar para os(as) cidadãos(ãs) dos EUA o escândalo de Watergate, que A mídia americana, gozando de uma liberdade que nos espanta hoje forçou o então presidente Richard Nixon a apresentar sua renúncia, em dia, passados mais de 30 anos do conflito, trouxe para os lares das acusado de espionagem nos arquivos do Partido Democrata. famílias americanas as atrocidades da guerra real. O americano médio chocou-se com a ação Os EUA têm uma outra imprensa hoje. Não há opinião dissonante quanto à necessidade de dos seus soldados sobre uma população indefesa, utilizando inclusive arma química (o napalm). bombardear o Iraque que encontre nos grandes meios de comunicação dos EUA um canal de Mais contundente do que isso, apenas a imagem dos seus filhos voltando para a América expressão razoável. Logo nessa guerra, onde as justificativas de desarmamento do Iraque não se cobertos com a bandeira nacional. sustentam quando cotejadas com os motivos subterrâneos: os interesses petrolíferos e da indúsA imprensa – incluindo TV – mostrou para a América o que estranhamente não parecia tria armamentista e o controle geopolítico do Oriente Médio e do mundo. Sem o oponente evidente para a população do país: a carnificina sem sentido que se cometia. As imagens soviético, a Casa Branca percebeu que tem agora uma oportunidade única de domínio sobre o causaram comoção nacional e os EUA perderam a guerra duas vezes: nas florestas vietnamitas mundo, se necessário, pela força. para os vietcongs e, em casa, para o próprio contribuinte americano, que viu o dinheiro dos A Comunicação é uma força essencial para os que desejam o domínio do planeta. impostos (ponto vital da cidadania americana) ser usado para esse fim. Paradoxalmente, também para os que desejam espalhar o poder entre todas as pessoas. No Guerra na TV exemplo das recentes guerras travadas pelos EUA, foi essencial. A Comunicação é criadora de opiniões, posicionamentos, tradições, antagonismos, simpatias, enfim, plasmadora de O Pentágono, sede do poder militar americano, aprendeu a lição. Na Guerra do Golfo, tão mundos. É necessário que seja também um objeto de análise e de preocupação da sociedaimportante quanto a estratégia de guerra foi a elaboração de uma estratégia de comunicade. E também para quem vive da comunicação, redirecionando um pouco o foco, tradicioção. Havia uma justificativa para a intervenção militar bem mais palatável do que a de hoje, nalmente exterior a seu próprio cotidiano (a Biologia interessa ao biólogo, a Matemática ao expulsar o invasor Iraque do Kwait. E, com as bênçãos da ONU, os americanos fizeram o matemático; ao jornalista, interessaria apenas a pauta). Um mundo mais democrático e mais serviço à frente de uma força internacional. O conflito foi tratado como um espetáculo, meio solidário precisa também passar por aqui. cinema americano, meio videogame. A guerra, isto é, o que nos foi dado a conhecer dela, foi limpa, sem corpos nem sangue, com imagens das bombas estourando lá embaixo colhidas * Jornalista

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AnaCris Bittencourt e Flávia Mattar / Fotos: Samuel Tosta

Não à guerra

ecoa pelo mundo
No último dia 15, cerca de 5 milhões de pessoas em vários países repudiaram a ameaça de bombardeio que paira sobre o Iraque diretamente da Casa Branca, visando atender aos interesses financeiros do presidente George W. Bush. A sociedade civil planetária mostrou aos ditos “donos do mundo” que não quer a guerra – e, ao contrário, vai continuar buscando alternativas para que possamos viver em paz e melhor. O Fórum Social Mundial 2003, realizado em Porto Alegre, de 23 a 28 de janeiro, foi um bom exemplo. Ali, representantes de movimentos sociais, sindicatos, organizações, escolas e universidades de 156 países mostraram que é possível esquentar ainda mais esse caldeirão de boas idéias, criado há 3 anos.
As discussões no FSM giraram em torno de cinco eixos: Desenvolvimento democrático e sustentável; Princípios e valores, direitos humanos, diversidade e igualdade; Mídia, cultura e alternativas à mercantilização e à homogeneização; Poder político, sociedade civil e democracia; e Ordem mundial democrática, luta contra a militarização e promoção da paz. Este último foi a grande vedete dos debates, com presenças ilustres e auditórios abarrotados, como o lingüista Noam Chomsky, o escritor Eduardo Galeano e o filósofo Boaventura de Sousa Santos. Palestrantes de todos os cantos do mundo deram um recado muito claro contra a guerra. O Ginásio de Esportes Gigantinho, onde aconteciam as grandes conferências, ficou lotado no dia 25 para debater Direitos e diversidade. “Cidadãos de um determinado país não podem comprar sua segurança se isso implicar a insegurança de populações de outros países. Na guerra contra o terrorismo, não deve haver zonas livres de direitos humanos. Essas guerras procuram desviar nossa atenção do que diz a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Leiam a Declaração e pensem no quanto seria importante se todos vivêssemos como está escrito lá”, enfatizou o representante da Anistia Internacional nos Estados Unidos, Paul Hoffman. “É muito difícil falar sobre direitos. Religiosamente, todos nascemos iguais perante Deus. A Declaração diz que não deve haver distinção entre raças e reconhece o direito de todos à alimentação e à saúde. Mas não diz como vamos exercer esses direitos. Para os povos indígenas, essa tem sido uma tarefa muito difícil porque tudo o que conquistamos é visto como dádiva, presente, e não como direitos”, denunciou a líder indígena Blanca Chancoso, do Equador, integrante do Fórum Social das Américas. “O mundo transpira violência, uma cultura que ensina a matar e a mentir. Mas o ser humano não é inclinado à violência. Ao contrário do que se supõe, não é fácil ensinar a matar. Esse treinamento árduo começa nos quartéis, aos 18 anos, e fora dele, a partir dos 18 meses, pois a TV ministra esses cursos a domicílio”, afirmou Eduardo Galeano. O escritor uruguaio, que é jornalista, criticou a atuação da grande imprensa durante a conferência Paz e valores, realizada dia 26. No dia seguinte, a conferência Como enfrentar o Império? teve que ser retransmitida em telões em outros pontos da cidade, tamanho foi o assédio do público no ginásio – cerca de 16 mil pessoas interessadas em escutar as palavras de Chomsky sobre o assunto. “Os Estados Unidos proclamaram que pretendem dominar o mundo pela força. Essa doutrina não é nova, mas nunca foi tão arrogante. A maioria sabe que basta criar um mundo diferente, que não seja baseado no medo e na violência, para acabar com isso. Há ótimos modelos para acabar com essa atrocidade, a Via Campesina é um desses exemplos”, disse o norte-americano. “Os segredos dos Estados Unidos estão vindo à tona. A mais profunda dessas mentiras é o declarado compromisso americano de querer ajudar a população do Iraque. Ninguém duvida que Saddam Hussein seja cruel, assassino, os iraquianos poderiam ficar muito bem sem ele. Mas o mundo também ficaria muito melhor sem George Bush”, incitou a platéia a indiana Arundathi Roy. Para mostrar que a tolerância e a paz podem sim ser os símbolos de um novo mundo, nessa conferência foi apresentado um documento, intitulado Carta de Porto Alegre, redigido por judeus e palestinos presentes ao Fórum. “Clamamos à comunidade internacional e às Nações Unidas, em particular, para urgentemente intervir para colocar um fim a esta situação trágica e à violência em ambos os lados”, pediam, em um dos momentos mais emocionantes de todo o evento. Viva a diferença A bandeira da diversidade foi criada no III Fórum Social Mundial. Parte dos panos, das faixas que tremulavam e gritavam anseios por um outro mundo possível na Marcha de Abertura, realizada no dia 23, foram utilizadas para a confecção de uma grande bandeira que circulou por um Gigantinho lotado e foi exposta no último show, realizado no Anfiteatro Pôr-do-Sol, no dia 27. Representou a voz de todas as pessoas, indepen-

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dentemente da cor, da opção sexual, da luta – que por mais que tenha um objetivo comum, é também rica em diversidade. Na PUC, negros e negras organizaram o Quilombo Milton Santos e Lélia Gonzales, espaço onde foram apresentadas diversas atividades com a temática racial. “Aqui conseguimos uma maior concentração da comunidade afro nacional e internacional. Esse quilombo para a gente é uma referência. É o segundo ano consecutivo que estamos aqui. Nossa intenção é ampliar cada vez mais o debate sobre políticas de ação reparatória, de ação afirmativa etc. Mas existe um ponto negativo, o fato de estarmos falando para nós mesmos. Aqui, acabamos ficando concentrados com a comunidade afrodescendente”, avalia Manoel Crispin Flores, integrante do Comitê Afro e da Federação Nacional dos Sindicatos de Trabalhadores em Saúde, Trabalho, Previdência e Assistência. Foi na Usina do Gasômetro, espaço cultural que recebeu o Planeta Arco-Íris, que estiveram reunidos gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, travestis e simpatizantes para debater questões como união civil de pessoas do mesmo sexo, homofobia, violência, abordagem policial, políticas públicas, direitos humanos, negritude e homossexualidade, Aids etc. “Esse foi o primeiro ano do Planeta Arco-Íris. Os outros fóruns foram muito mais centralizados, mas aqui está sendo bem legal porque à tarde tem um movimento muito grande de pessoas de vários países. Isso nos dá visibilidade. Apesar disso, a partir do próximo Fórum, queremos estar junto com os outros movimentos sociais, o que é superimportante. Não queremos mais formar guetos e grupos separados”, diz Cassandra Fontoura, coordenadora da entidade Igualdade – Associação de Travestis e Transexuais do Estado do Rio Grande do Sul. Consciência indígena Os indígenas não contaram com um espaço específico para a realização de seus debates. Em cada um dos pólos visitados era encontrada a sua presença, seus cocares, suas cores. No dia 26 de janeiro, por exemplo, índios e índias entraram no Gigantinho – onde os cineastas Citto Maselli, da Itália, e Fernando Solanas, da Argentina, falavam sobre Cinema e política: contra a homogeneização do imaginário – chamando a atenção dos(as) presentes com a faixa Nós existimos, unidos pela vida e contra a impunidade. “Essa é uma campanha lançada no III Fórum Social Mundial pelos povos indígenas de Roraima junto com a Central Única dos Trabalhadores, a Comissão Pastoral da Terra e outros aliados. É um esforço para unir a luta de três segmentos bastante excluídos em Roraima: os indígenas, os trabalhadores rurais e os trabalhadores da periferia da cidade”, conta o assessor de imprensa do Conselho Indígena de Roraima, André

Vasconcelos. Participaram da campanha mais de 20 povos de todo o Brasil. “Estou aqui pela primeira vez. Para mim e para todos está sendo de extrema importância. Estamos tendo a oportunidade de encontrar com vários irmãos de outros países, com outros povos, com os negros etc. Temos a esperança que o governo Lula fará tudo o que prometeu, o que está dito na carta com relação às populações indígenas”, acrescenta o indígena Lindomar Santos Rodrigues, do povo Xokô. Quem participou do Fórum Social Mundial 2002 e ficou encantado com as atividades oferecidas no Planeta Fêmea, voltou decepcionado para casa nesta edição do evento. Mas a peruana Virgínia Vargas, da Articulación Feminista Marcosur, tem uma explicação para o fato: “uma das coisas que discutimos foi a importância de haver um espaço de concentração para determinadas ações, mas nos interessa com a mesma força estar inseridas em todas as dinâmicas do Fórum. Como conciliar um espaço próprio com a necessidade de estarmos transversalmente em todas as atividades é um esforço gigantesco. A aprendizagem do que foi o ano passado e o que foi este ano vai permitir que seja feito algo mais equilibrado no Fórum seguinte. Assim espero”. Segundo Gina, foram 12 as ministras responsáveis por 2 dos 5 eixos estratégicos do Fórum, diferentemente do ano anterior, quando as mulheres estavam presentes apenas em alguns painéis sem muita responsabilidade. “Entretanto, sinto que houve uma marginalização de muitas formas nas conferências e nas mesas de controvérsias. Há feministas participando ativamente do Fórum e do Comitê internacional, poderíamos ter feito parte desse esforço, entretanto não foi assim”. O advogado Caio Leonardo participou do III Fórum Social Mundial representando a Associação Brasileira de Apoio Educacional ao Deficiente (Abaed). Ele se mostrou insatisfeito com a pequena abordagem de temas ligados às pessoas portadoras de necessidades especiais (PNE) no evento. Durante a palestra Direitos e diversidade, corajosamente, ele tornou esse sentimento público. Por falta de tempo, o debate tradicional não foi realizado. Em seu lugar, cinco pessoas, representando diferentes países e grupos sociais foram selecionadas para dialogar com a mesa. Caio não estava entre elas, mas conseguiu subir ao palco, depois disso, com a ajuda dos próprios seguranças, que carregaram sua cadeira de rodas: “sou da cidade invisível onde impera a exclusão solidária”. Ele explicou que o conceito de exclusão solidária passa pela forma caridosa com que a sociedade trata as PNE, ao mesmo tempo em que não prepara os espaços urbanos para recebê-las, sugerindo que o lugar dessas pessoas é sempre em casa ou nas escolas especiais, mas nunca nas ruas, integradas à população.

Grito mundial pela paz

Marcelo Carvalho

Dia 15 de fevereiro será lembrado como o dia do não a Bush, com manifestações em todo o mundo contra a guerra ao Iraque. A amplitude dos atos públicos ao redor do planeta dão a medida da indisposição das pessoas de várias nacionalidades e etnias com relação à guerra. No Brasil, as maiores manifestações ocorreram no Rio de Janeiro e em São Paulo. No Rio, os manifestantes saíram às 16h da praia do Leme, em frente à Avenida Princesa Isabel, e foram em marcha até a rua Siqueira Campos, já em Copacabana. “Essa manifestação é um átomo na condenação que se espalha por todo o planeta desse ato criminoso do governo imperialista de Bush. Os EUA promovem o pior tipo de imperialismo, total, da ocupação territorial, política e econômica. É um expansionismo com interesse no petróleo. O que está em jogo é a riqueza material. Mas não é nem um negócio de Estado, é particular, da família Bush”, afirma Milton Temer, ex-deputado federal pelo PTRJ, lembrando as ligações da família do presidente americano com empresas de petróleo. Não faltou criatividade e bom humor aos 20 mil cariocas (segundo os organizadores; 10 mil para a PM) que compareceram à manifestação, com cartazes e slogans contra o presidente americano. A família da jornalista Bia Cardoso veio a caráter: “a idéia foi do meu marido. Ele disse, ‘vou à passeata fantasiado de morte com uma máscara de Bush’. A família veio junto: meu filho de Bush filho e eu vim de lady Blair”, afirma, também vestida de morte e com uma máscara do primeiro-ministro inglês Tony Blair no rosto. Estavam presentes à passeata artistas, estudantes, políticos, sindicalistas, intelectuais, punks e grupos de gays e lésbicas. Uma grande bandeira branca com a inscrição “não à guerra” foi assinada por diversos manifestantes para ser colocada em frente ao consulado americano no Rio. A passeata foi encerrada com um ato ecumênico e apresentação do Afoxé Filhos de Gandhi. É difícil precisar o número de pessoas que participaram das manifestações ao redor do mundo. Algumas estimativas dão conta de 5 milhões de manifestantes, distribuídos por mais de 600 cidades em 60 países. Os atos aconteceram quase sem distúrbios (apenas em Atenas ocorreu um incidente, onde ninguém ficou ferido). Em Roma, 3 milhões saíram às ruas; em Barcelona foram 1,3 milhão; em Londres, 1 milhão. Os números são proporcionais ao apoio que os governos da Itália, Espanha e Inglaterra dão à intenção de Bush de atacar o Iraque. Bush também teve o dissabor de 100 mil pessoas manifestando-se contra a guerra em seu próprio país. Pior, em Nova Iorque, cidade onde caíram as torres do World Trade Center, fato detonador da atual blitz dos EUA no mundo.

CÁSSIO MARTORELLI / ARQUIVO PESSOAL

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Por Marcelo Carvalho

AUDIOVISUAL LIBRARY EUROPEAN COMMISSION

Mário Soares
Uma das figuras centrais da história portuguesa dos últimos 30 anos, notabilizou-se pela luta contra o regime salazarista, sendo um dos fomentadores da Revolução dos Cravos (25 de abril de 1974) que pôs fim à ditadura em Portugal. Fundador e secretário-geral do Partido Socialista português, já ocupou os mais altos postos da vida pública do país: ministro dos Negócios Estrangeiros (deu início, por parte do governo provisório, ao processo de descolonização), primeiroministro (1976/1977, 1978 e 1983/85) e presidente da República (1986/1990 – foi o primeiro civil eleito diretamente na história portuguesa – e 1991/1996). Hoje, vicepresidente da Internacional Socialista e deputado do Parlamento Europeu, ele participou do III FSM, ocasião na qual concedeu uma pequena entrevista coletiva. A sociedade civil organizada, com mobilizações como a do FSM, pode realmente transformar a realidade social hoje existente?
Por outro lado, há um tal peso militar nas relações internacionais hoje em dia que penso ser muito difícil barrar essa guerra. A guerra parece ser uma convicção nas instituições do governo dos Estados Unidos, é a única nação no mundo que tem poder para fazer isso tudo. Ora, mas não pode. Há o sistema das Nações Unidas e estão lá representados todos os outros Estados. Agora, é preciso não confundir a atual administração dos EUA, o governo Bush, com o povo americano, um povo fraterno, pioneiro e de gente que também quer a paz. São nossos aliados no esforço pela paz.

âmbitos local, regional e internacional. E é necessário também que os Estados assumam esta luta, só assim o processo vai caminhando e as mudanças serão implementadas. Penso que a vitória do presidente Lula é um bom contributo para isso.

De que forma?

Fiquei muito entusiasmado com a vitória do presidente Lula. Tenho confiança nele, é uma grande figura. As idéias solidárias vão ter um grande impulso com o advento desse governo. Mas o mais importante da eleição de Lula é que o fato expressou uma vitória do povo brasileiro, que se viu em um homem que veio de baixo, que foi pobre, que migrou do Nordeste brasileiro para São Paulo, que foi sindicalista, trabalhou com os pobres e que chega hoje com méritos à chefia da nação.

E no plano internacional, o que representa?

Uma grande esperança para aqueles que acreditam num mundo melhor e diferente. A vitória de Lula é a prova de que é possível começar a construir um mundo melhor.

Para onde caminha a Europa hoje, para se fechar em seus próprios interesses ou para a construção de um mundo solidário?

Espero que caminhe para um processo de abertura e no sentido do progresso. E que desenvolva relações muito especiais com o Mercosul, que não tem tido até agora, devo dizer, e a Europa é culpada nesse sentido. Que possamos ser um fator de paz e desenvolvimento do mundo e não de guerra.

Acho que sim e já está fazendo da maneira possível. Mas não é somente com o Fórum Social, não são somente as organizações da sociedade civil, mas todas as forças que contribuem nesse sentido, incluindo as forças políticas que acreditam na pluralidade.

O que estaria atrapalhando essa relação entre União Européia e Mercosul?

Que continuem fóruns como este, que se intensifiquem os diálogos, que se aprofundem, ganhem expressão mundial, como está a acontecer. Tem havido fóruns na Europa, África, Ásia, em toda a parte. Ele agora está a se mudar para a Índia. A experiência do FSM tem sido realmente extraordinária e essa idéia precisa ser desenvolvida. É uma idéia que está em marcha e que deve continuar.

O que o senhor sugere que possa ser feito de imediato?

Há um panorama econômico inconsistente, visto que há uma recessão que teima em permanecer e pode redundar em uma grande crise mundial. A guerra contra o Iraque, então, se houver, vai aprofundar a situação econômica mundial e trazer uma crise que poderá ser tão grave quanto a crise econômica de 1929. Isso seria seríssimo. E, o que é pior, todos sabem como se começa uma guerra, mas ninguém sabe como ela termina. O melhor é não começar.

Como o senhor vê a situação do mundo hoje?

Há grandes interesses envolvidos, motivados pelo egoísmo humano, pelo desejo de alcançar seus objetivos a qualquer preço sem olhar para o próximo, sem considerar o bem do próximo. Em vez de promovermos guerras, deveríamos, sim, investir no desenvolvimento econômico e social sustentável para atender a população mundial e não apenas os ricos.

Qual é a causa de tantos e continuados conflitos?

Fora o interesse de alguns dos grandes agrários europeus, é o resultado de uma política chamada PAC (Política Agrária Comum – dispositivo da União Européia que regulariza e homogeneíza a economia rural dos países membros), foi isso que impediu que as nossas fronteiras se abrissem aos produtos de exportação da América Latina.

A vitória de Lula é a prova de que é possível começar a construir um mundo melhor

Através da vontade dos cidadãos, da ação das organizações não-governamentais, da promoção da cidadania, da participação nas lutas políticas e sociais e da discussão em rede para formar associações entre cidadãos de toda ordem, nos

Como uma globalização solidária pode ser concretizada?

Com grande satisfação. Tenho uma grande amizade, uma grande estima pelo presidente de Timor Leste, Xanana Gusmão, que é um grande homem. Espero que, não obstante ser um país pequeno e bastante pobre, desenvolva-se rapidamente. Portugal ajuda o quanto pode Timor Leste, está a ajudar muito. Vamos ver o que acontece, agora que vão começar a explorar as reservas marinhas de petróleo e gás de Timor.

Como o senhor vê o novo Timor Leste independente?

O socialismo tem futuro no mundo?

O futuro do mundo é o socialismo. O socialismo democrático e como liberdade, que não se confunde com o comunismo da forma como foi implantado no passado.

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Flávia Mattar e Marcelo Carvalho

Um Conselho que precisa ser ouvido
A sociedade civil brasileira e o governo federal dão mais um passo no esforço de acabar com a fome no país. Tomaram posse dia 30 de janeiro os membros do Conselho de Segurança Alimentar (Consea). A entidade já tem data da primeira reunião: 25 de fevereiro. “Para que se cumpra a prioridade de combate à fome, é fundamental a participação da sociedade de forma articulada com o governo. Essa é a essência do Consea, garantindo a formulação de propostas e de políticas públicas a partir da mobilização da sociedade”, afirma Francisco Menezes, diretor de Programas do Ibase, que tomou posse no Consea como um dos conselheiros.
Na posse, os(as) conselheiros(as) discutiram a proposta de regimento interno e elaboraram a pauta da primeira reunião. Entre as intervenções, o ex-deputado Plínio Sampaio (PT-SP) falou da necessidade de se dar início à análise do plano de safras. Dona Zilda Arns – coordenadora nacional da Pastoral da Criança – ainda na abertura, propôs que fossem apresentados os programas bolsa-alimentação, bolsa-escola e de erradicação do trabalho infantil. Ela enfatizou a necessidade dos(as) conselheiros(as) de se informarem sobre os programas. Ressaltou ainda que é preciso articular esses programas com as novas políticas que estão sendo implementadas pelo governo. A entidade, ligada diretamente à Presidência da República, tem como atribuição discutir e propor diretrizes políticas para a segurança alimentar e o combate à fome no Brasil, sendo um espaço de busca de acordos e articulação entre governo e sociedade. O Consea terá amplitude para discutir todas as políticas do governo Lula ligadas à alimentação e nutrição em todos os ministérios. Como o programa Fome Zero, de combate emergencial à fome, e a merenda escolar, de responsabilidade do Ministério da Educação. O Consea é formado por 38 representantes da sociedade civil, mais 14 dos ministérios. Ao todo, são 60 conselheiros(as), somados os(as) 8 representantes internacionais e de outros conselhos da República, que terão assento e direito à voz nas reuniões, mas sem direito à voto. A entidade se reunirá de dois em dois meses, salvo convocações extraordinárias. A estrutura do Consea prevê um(a) presidente e um secretário que, pelo decreto de criação assinado pelo presidente, será o próprio ministro extraordinário de Segurança Alimentar, José Graziano. O(A) presidente do Conselho deverá ser um(a) dos(as) representantes da sociedade civil, indicado por Lula nos próximos dias. A composição do Conselho foi pensada a partir de quatro categorias. A primeira, personalidades públicas da sociedade com histórico de trabalho com a questão, como o bispo da Arquidiocese de Duque de Caxias, Dom Mauro Morelli, Dona Zilda Arns e o ator Marcos Winter. A segunda categoria é a de representantes de articulações, redes e organizações da sociedade envolvidas com o tema, como o Ibase, o Fórum Brasileiro de Segurança Alimentar e Nutricional, movimentos negros, movimentos indígenas, Contag, Asa (Articulação do Semi-Árido) etc. Duas outras representações contemplam os diferentes credos religiosos com relevância na sociedade brasileira e representantes do setor privado envolvidos de alguma forma com a questão. Entre as organizações empresariais com representação no Conselho estão a Associação Brasileira da Indústria Alimentícia, a Associação Brasileira dos Supermercados e a Organização das Cooperativas do Brasil. Há diferenças entre o novo e o antigo Consea, posto em prática pela primeira vez É necessário investir no governo de Itamar Franco, em 1994. na construção de “Na época, foram designadas apenas perindicadores de sonalidades da sociedade para o Consesegurança alimentar lho, egressos do Movimento pela Ética na Política. No Consea atual estão agregadas que permitam ao mais organizações e pessoas conhecedogoverno e à sociedade ras do tema. Há uma grande vantagem nisacompanhar os so. O governo seguinte, de FHC, não via programas, se estão como uma prioridade a segurança alimensendo bem tar, o combate à fome. A questão acabou se diluindo no Comunidade Solidária. Foi gerenciados ou se um período no qual não se realizaram parprecisam ser alterados cerias entre sociedade e governo, necessárias para se implementar um programa de combate à fome”, lembra Menezes. Outra grande novidade que diferencia o atual Consea da experiência desenvolvida anteriormente é a criação das câmaras temáticas. Serão espaços de aprofundamento de determinados temas entre as reuniões ordinárias do Conselho, municiando os(as) conselheiros(as) com dados, informações e até propostas que propiciem a agilização dos trabalhos. Ainda no âmbito das câmaras, mais um ponto novo será a presença de técnicos do governo e da sociedade civil, que ajudarão os(as) conselheiros(as) em aspectos mais específicos de determinados temas. A próxima reunião do Conselho vai definir os temas das câmaras temáticas. “A princípio, estamos pensando em três câmaras. Acredito que a primeira deva se referir à safra agrícola. Qual será a política de produção de alimentos? Isso deve ser permanentemente acompanhado. O segundo tema é o da nutrição. Fome e nutrição não são a mesma coisa. O combate à fome tem que se preocupar com a qualidade dos alimentos, a adequação nutricional, questão contemplada na segurança alimentar. Em terceiro lugar, e para mim o mais importante, será preciso criar mecanismos de acompanhamento e avaliação das políticas que serão implementadas. É necessário investir na construção de indicadores de segurança alimentar que permitam ao governo e à sociedade acompanhar os programas, se estão sendo bem gerenciados ou se precisam ser alterados. Estarei propondo isso já na próxima reunião”, revela Menezes. Mas, afinal, quantas pessoas famintas existem no Brasil? O dado já clássico do Ipea estabelece 32 milhões vivendo abaixo da linha de pobreza. “Talvez ninguém saiba precisar com segurança o número. Depende do critério utilizado, da metodologia aplicada. Quando o Programa Fome Zero anunciou que deveria atender 44 milhões de famintos, quis dizer que 44 milhões de pessoas viviam em um estado no qual potencialmente estariam passando fome. Mas não significa que todas essas pessoas estejam passando fome. É preciso reconhecer que são montados diversos sistemas de sobrevivência dentro das famílias para socorrer as pessoas mais necessitadas”, explica.

WALTER/ARQUIVO IBASE

MARCO/ARQUIVO IBASE

12 • Jornal da Cidadania • Nº 115 • Fevereiro 2003

Mariana Santarelli*

Novo mundo na prática
A riqueza do Fórum está nas múltiplas possibilidades de entrar em contato com novas formas de ação, redes, familiarizar-se com outras temáticas e realidades, conhecer gente, articular e buscar inspiração para continuar na luta por um mundo melhor. Só isso já seria motivo para levar cerca de 25 mil jovens que participaram do Fórum a Porto Alegre. Mas a juventude sempre quer mais, radicalizar propostas, ousar, protestar e, mais do que tudo, experimentar. Não se contenta em ouvir falar de idéias como autogestão, consumo crítico ou bioarquitetura. Quer a oportunidade de praticá-las. É dessa vontade coletiva que emerge o III Acampamento Intercontinental da Juventude como um laboratório social. Durante 11 dias, jovens do mundo inteiro se juntaram no Parque Harmonia num desafio de autogestão: fazer funcionar a Cidade das Cidades, colocando em prática algumas alternativas de um mundo melhor. Seu funcionamento depende da participação de cada pessoa presente. Estar acampado significa muito mais do que “descolar” um lugar barato e divertido para participar do FSM em Porto Alegre. É a oportunidade de exercitar práticas transformadoras e o compromisso com a gestão e a ocupação do espaço, de forma responsável e solidária, tudo regado a muita festa e descontração, ingredientes indispensáveis. Quem participou do Acampamento em suas versões anteriores, percebeu que este ano houve maior integração com o Fórum Social Mundial. O fato da Orla do Guaíba, em frente ao Acampamento, ter se tornado um dos pólos de realização de painéis e seminários possibilitou maior participação da juventude nos eventos oficiais. Os axônios – espaços para oficinas construídos pelos próprios acampados com técnicas de bioconstrução – também foram instalados na orla, o que não deu muito certo. Muita gente preferia ir às oficinas que aconteciam dentro do Parque Harmonia. Ser surpreendido por uma oficina de reciclagem ou de sexualidade no caminho do chuveiro tornava o dia-a-dia ainda mais interessante. muito gostoso, era gratificante saber que estávamos incentivando práticas agrícolas sustentáveis e gerando trabalho e renda para empreendimentos autogestionários. A Cidade das Cidades também tinha suas próprias moedas, o sol e a lua. O sol podia ser trocado por diferentes moedas e tinha como objetivo demonstrar a viabilidade e o potencial de moedas locais para estimular a economia interna de pequenas localidades. A lua servia para facilitar as transações em feiras de trocas que aconteciam diariamente. Uma rede de contra-informação se formou, com 80 computadores conectados à internet e uma rádio comunitária. Na usina de comunicação, nada de Microsoft. A tecnologia utilizada foi o software livre, programas de computador com o código-fonte aberto, que não são propriedade de nenhuma empresa. Por isso, permitem que os benefícios da informática cheguem às populações excluídas pelo mercado. A Cidade contava também com dois palcos, fora as atividades culturais que aconteciam espontaneamente pelo Parque. O maior desafio foi mesmo o processo de autogestão. No Acampamento, os(as) jovens não deveriam ser meros moradores, mas governar e administrar, organizar-se para garantir a segurança e a limpeza do lote onde habitavam e participar das assembléias, nas quais eram tomadas decisões importantes para a gestão do espaço. Na Cidade das Cidades não adiantava reclamar. Se algo não funcionasse, quem tinha que buscar a solução era o reclamante. Tivemos que lidar com todas as dificuldades típicas de uma cidade super-habitada, lixo, desordem, problemas de segurança e saneamento. Pouca gente de fato percebeu o que estava acontecendo por trás daquilo que, para pessoas mais desatentas, parecia uma grande festa. Isso comprometeu o processo de autogestão, que só funciona quando há um real envolvimento, cooperação e participação. Se nem tudo funcionou como se esperava, era nos momentos de maior dificuldade – por exemplo, durante o temporal que quase transformou o Acampamento em brejo – que o espírito de cooperação e solidariedade apareceram com força. A noção de responsabilidade pelo espaço fez com que muita gente colocasse a mão na massa, fosse construindo pequenas calhas ou decidindo coletivamente o que fazer com quem chegava de ônibus, das partes mais remotas do Brasil, e não tinha um lugar seco para instalar sua barraca. Apesar da boa vontade de transformar o Acampamento em um espaço onde impera a democracia e a diversidade, faltaram esforços para incorporar e dar voz às juventudes tradicionalmente excluídas. Poucas e subrepresentadas estavam as pessoas negras e jovens da periferia de Porto Alegre, quanto mais de outros estados. Pena que o Fórum Nacional de Hip Hop tenha se realizado fora do Parque Harmonia, seus debates certamente teriam enriquecido e trazido de forma mais marcante a questão racial para dentro do Acampamento. Bem representada estava a juventude latinoamericana. Não faltaram bandeiras da Argentina, Chile e Uruguai flamejando no Parque Harmonia. É importante dizer que as pessoas que orquestram esse grande encontro da juventude são todas jovens e voluntárias. Nada recebem, além da gratificante sensação de fazer parte de um processo de transformação e serem protagonistas desta experiência de organização e vivência. O que fica em cada um(a) de nós após os dias passados em Porto Alegre depende do quanto nos deixamos envolver com aquele espírito comum presente em todas e todos que estiveram, de corpo e alma, no Parque Harmonia. Para algumas pessoas, apenas uma grande festa; para muitas, a oportunidade de vivenciar e aprender construindo. Para todas elas, inspiração para continuar exercendo no dia-a-dia a transformação que pretendemos causar no mundo. E, é claro, muita festa. Afinal, somos jovens.
* Assistente da Coordenação de Captação de Recursos do Ibase, participou de organização de atividades relacionadas à juventude desde o I Fórum Social Mundial
FOTOS: SAMUEL TOSTA

Sol e lua
A grande interação foi mesmo o fato do Acampamento ter sido o local do FSM onde mais se transformou o discurso em prática. A bebida oficial não era a coca-cola, mas sim o suco de uva orgânica, bebido não em copo descartável, mas na clássica caneca verde pendurada por um barbante, que este ano foi o símbolo do acampado. O comprometimento com a redução de lixo não parou aí. A central de gestão ambiental distribuía, para quem já tivesse sido capturado pelo vício do cigarro, potinhos para depositar as “bitucas”, como diz a população gaúcha, e sabonetes orgânicos a serem usados nos chuveiros. Na hora de se alimentar, nada de grandes redes de fastfood. As cooperativas locais foram as fornecedoras oficiais de “rango”, quase tudo orgânico e preparado por famílias de agricultores, muitas delas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Além de ser tudo

Fevereiro 2003 • Jornal da Cidadania • Nº 115 • 13

Patrícia Lânes *

Abram alas que vamos passar
No terceiro ano do Fórum Social Mundial, a juventude protagonizou importantes momentos, dando exemplo de autonomia e criatividade. Uma vez mais, mostrou-se em toda sua pluralidade, ocupando espaços já consolidados nas edições anteriores, caso do III Acampamento Intercontinental da Juventude. Mas revelando, também, seu interesse por outras plenárias. Os painéis, propostos por redes e movimentos sociais para discutir os cinco eixos temáticos e inicialmente restritos a delegados, acabou sendo “ocupado” pela juventude. Os(as) jovens estavam por todo lugar. Era fácil notar nas ruas de Porto Alegre e nos mais diferentes pontos ocupados pelo Fórum. Com sua diversidade, novidades, bandeiras e ousadias. E trazendo a pulseira colorida, que comprovava presença no Acampamento. Se nos anos anteriores, muitas atividades culturais surgiam quase que de forma espontânea, este ano, seja pela organização setorial dos jovens, seja pela relevância política desses protagonistas, elas se consolidaram através de programações paralelas às do “fórum oficial” a partir, principalmente, do Acampamento. Mas não circunscritas a ele. Nesse sentido, a importante representação de tantas juventudes em um mesmo lugar, ao mesmo tempo possibilitou o reconhecimento e legitimação de muitos grupos. Como o movimento Hip Hop, que promoveu um Fórum Nacional durante o FSM com intensos debates e programação cultural. A pluralidade que se fez sentir por meio das diversas juventudes presentes nesse grande encontro político mundial também coloca limites e obstáculos. As diferenças expuseram dificuldades no diálogo dentro de um grupo heterogêneo que chamamos de juventude. Afinal, é possível tematizar as questões dos jovens do campo e da cidade conjuntamente? Ou colocar na mesma mesa para pensar questões comuns integrantes de juventudes partidárias e de movimentos culturais?

Iguais, mas diferentes
A troca possível entre essas e esses jovens, que estiveram no Acampamento e nas oficinas, seminários, painéis, testemunhos e conferências, aponta mais uma vez seus caminhos e fronteiras. Se nos assuntos mais amplos, as muitas juventudes convergiam, ainda se faz necessário avançar para transformar a questão juvenil em um tema capaz de ser compartilhado de modo fraterno por setores tão diferentes que têm em comum o fato de estarem em momentos semelhantes em seu ciclo de vida. Mas que expressam suas expectativas, vontades e criatividade de formas muito distintas. A importância de ampliar o debate da juventude por meio de suas semelhanças (ainda que seja prerrogativo que o debate não mascare as diferenças) evita o risco de ter que se criar guetos entre os(as) jovens para que determinadas questões sejam tratadas (como o Fórum Nacional de Hip Hop). É preciso refletir muito ainda sobre o que agrega as diferentes juventudes nesse espaço de criação e interlocução que o Fórum se tornou.

Nas manifestações, passeatas, shows ou grandes conferências (com renomados à frente), a juventude se fez presente, indistinta, todos e todas por uma mesma causa. E talvez seja mesmo isso. Talvez cada jovem se veja muito mais como representante de seu partido, movimento ou grupo cultural do que simplesmente jovem. No entanto, é impossível não reconhecer que a identidade de um dos espaços mais ricos e plurais do Fórum se dá através deste recorte: juventude. O Acampamento Intercontinental tem a juventude no nome e as possibilidades de inovação e experimentação que se dão a partir dele, tendo o jovem como protagonista, são prova de que o peso dos jovens no Fórum deve ser tratado com mais atenção. É preciso formular com a juventude, assim como com tantos outros grupos sociais com demandas específicas (mulheres, negros etc), mecanismos de inclusão que, cada vez mais, possibilitem a maior atuação dos(as) jovens – não só na participação como ouvinte, mas na organização de mesas, na tematização dos mais diversos eixos etc – sem deixar de fora suas especificidades e as possibilidades de encontro dadas por suas próprias iniciativas. É preciso reconhecer, no entanto, que, nesses três anos, o Fórum e a juventude vêm avançando no sentido de abrir novos espaços, de agregar semelhanças e respeitar diferenças. Mas ainda falta pensar em como dar conta de tanta diversidade que se expressa dentro de uma identidade só, que é a juventude. Essa questão deve ser colocada não apenas para organizações e movimentos que lidam com jovens, mas também para a própria juventude. Analisar semelhanças e diferenças a partir de um espaço privilegiado como o Fórum Social Mundial é aprender a construir conjuntamente o futuro a partir do presente. Os(as) jovens que estiveram no III Fórum – não apenas no Parque Harmonia e arredores, mas nas arquibancadas do Gigantinho, nas salas e auditórios da PUC e nos Armazéns – darão o tom das mudanças que estão por vir. Por esse motivo, é fundamental avançar no diálogo com sua diversidade, ouvindo idéias e reconhecendo potencialidades e conquistas.
*Jornalista, assistente de Pesquisa da Coordenação de Participação e Desenvolvimento Local Sustentável do Ibase
FOTOS: SAMUEL TOSTA

14 • Jornal da Cidadania • Nº 115 • Fevereiro 2003

AnaCris Bittencourt - anacris@ibase.br

Informação Infor mação a toque de caixa
O jornal Terra Viva foi uma valiosa ferramenta para quem esteve no III Fórum Social Mundial, mas não conseguia acompanhar todos os eventos. Com edições diárias, trilingüe – português / inglês / espanhol –, a publicação mostrou um pouco de tudo que aconteceu em Porto Alegre. A iniciativa foi da Inter Press Service, agência de notícias que vem desde 1964 contribuindo para democratizar a informação na América Latina. “Os exilados foram uma mão-de-obra fundamental para o nascimento e expansão da IPS. Eu sou um exemplo disso, entrei na IPS quando exilado em Portugal, em 1978. Deixei a IPS-Lisboa para o Brasil em 1979, mas me reintegrei aqui no Rio em fins de 1980, e aqui estou até hoje”, conta o jornalista Mário Osava, que representa a agência no Brasil. O Terra Viva já tem quase 11 anos. Nasceu na Rio 92 como uma publicação para ser distribuída nas grandes conferências da ONU. A estréia no Fórum aconteceu no ano passado. A tiragem foi de 40 mil exemplares de 24 a 27 de janeiro e de 20 mil no último dia, por conta do menor número de atividades. Para a tarefa, contou com uma equipe de 15 jornalistas, sendo 10 repórteres, editores ou diretores e 3 tradutoras. Uma empresa local foi contratada para fazer a impressão e distribuição, além de 2 fotógrafas e ilustradores.

É de pequeno que se aprende aprende
SAMUEL TOSTA

Feito em casa
Durante o Fórum Social 2003, o Ibase presenteou o público com duas valiosas produções: um boletim sobre meio ambiente e injustiça social e uma edição especial da revista Democracia Viva sobre o Fórum. Os materiais ficaram à disposição no estande, localizado no Ginásio de Esportes Gigantinho, mas também foram distribuídos em conferências, seminários e oficinas durante os seis dias do encontro em Porto Alegre. O boletim Justiça Ambiental, organizado por Ibase, Fase e Ippur/UFRJ, traz os primeiros resultados do Projeto Mapa de Conflitos Ambientais no Estado do Rio de Janeiro, realizado pela Rede Brasileira de Justiça Ambiental, com apoio da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Estado do Rio de Janeiro. A Rede, criada em setembro de 2001, reúne 55 entidades, entre movimentos sociais, sindicatos, ONGs e universidade. O entrevistado da edição é o pescador Jorge Barcellos, vice-presidente da Associação de Pescadores de Carapebus, um dos municípios dentro dos limites do Parque Nacional de Jurubatiba, criado em 1998. A entrevista mostra o conflito entre pescadores, comunidade científica e governo, que no intuito de preservar a área, tornou a pesca ilegal na região. A edição especial bilíngüe (português/inglês) da revista Democracia Viva tem 84 págs. Traz 9 artigos de pensadores reconhecidos no Brasil e no mundo sobre a atuação política do Fórum Social Mundial: Cândido Grzybowski, Celina Whitaker, Chico Whitaker, Henri Acselrad, Kjeld Jakobsen, Lílian Celiberti, Patrick Viveret, Pierre Vuarin, Sueli Carneiro e Njoki Njoroge Njehu. A revista publica também uma mesa-redonda, baseada nas discussões realizadas no Fórum Social Europeu, em novembro de 2002, na Itália, e um artigo de Boaventura de Sousa Santos sobre a proposta de uma universidade popular.
Pedidos de exemplares ao Ibase: (21) 2509-0660 ou pelo site www.ibase.br

Paralelamente ao III Fórum Social Mundial, aconteceu em Porto Alegre o II Forunzinho. O espaço não se resume a uma creche para que os pais possam participar do evento oficial. Existe a preocupação em transmitir para os(as) participantes-mirins um pouco do que está acontecendo no grande Fórum, mas claro, em linguagem de criança. Segundo os cálculos da Comissão Organizadora, 2.500 crianças participaram diariamente. Foram realizadas, por dia, 40 oficinas e 6 atividades culturais. Na ocasião, aconteceu o I Encontro Internacional de Contadores de Histórias, que reuniu 200 contadores do Brasil, França, Espanha e Argentina. Este ano, o principal tema de discussão foi a Carta da Terra, na perspectiva de educação para liberdade e transformação social. A paz também entrou em cena nas discussões, enfocada durante o Piquenique Social. O evento reuniu centenas de crianças, pais e amigos e contou com presenças ilustres, como a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, além de um coral de 400 vozes.
Mais informações: www.forunzinho.org.br

Um, dois, feijão arroz com arroz
No dia 27 de janeiro, recebemos no estande do Ibase, no Ginásio Gigantinho, um amigo de longa data, Getúlio Ferreira Brunes, secretário-executivo do Coep Goiás (Comitê de Entidades Públicas e Privadas no Combate à Fome e pela Vida) e do Centro Nacional de Pesquisa Arroz e Fejjão da Embrapa. O agrônomo entrou em contato conosco pela primeira vez por conta da Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida, lançada em 1993. Na ocasião, ele criou um comitê de funcionários da Embrapa para o desenvolvimento de projetos sociais na região. Algumas iniciativas foram temas de reportagens no Jornal da Cidadania, como o projeto de lavouras comunitárias para comunidades indígenas, ainda em prática no Pará e no Paraná. Em dezembro do ano passado, Getúlio deu o pontapé inicial para um novo projeto, que quer contribuir para a sustentabilidade da agricultura familiar no Brasil. A idéia é atender pequenos produtores e famílias do MST. “Plantamos em terras cedidas por fazendeiros 100 hectares de lavoura de arroz. Em 4 de maio, devemos colher 400 toneladas de sementes. As sementes não serão doadas, mas vendidas a preços baixíssimos para que eles possam reproduzi-las. Em fevereiro, iremos lançar também em Goiás uma lavoura de feijão”, disse. Com a venda das sementes, será constituído um fundo para atender as associações de produtores que não tiverem condições de comprar.

Fevereiro 2003 • Jornal da Cidadania • Nº 115 • 15

Cultura afro nas escolas
No dia 10 de janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou decreto que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas do país. A lei, de autoria da deputada Esther Grossi (PT-RS), foi recebida com alegria pelo Movimento Negro. Mas existe uma corrente que acredita que não se pode obrigar o que deveria acontecer naturalmente, pela conscientização da população. Será? Confira a seguir dois artigos sobre o assunto.

Amauri Mendes Pereira * Inquestionável o acerto da medida. Porém, o que cabe a cada um agora é estar atento para a plena efetivação da lei. Uma questão fundamental é: como qualificar rapidamente alguns milhares de professores e professoras, para formar muitos milhares de outros, que vão trabalhar diretamente com milhões de crianças e adolescentes? Não interessa chorar o leite derramado e reclamar que estes assuntos nunca foram muito prestigiados na sociedade, como nos setores acadêmicos, que os temiam. “África, Estudos Afro-Brasileiros, relações raciais, hummm, Isso é problema!” O que valia era a síndrome da avestruz... Se não os vemos, esses problemas não existem. Se o ato de educar Afinal, o Ministério da Educação tem sido exige empatia entre sempre um reduto inexpugnável à discussão da educandos e questão racial e educação e às demandas por essa educadores e entre formação específica. Não conseguiu sequer apoiesses e o tema, essa ar os dois Congressos Brasileiros de Pesquisadores Negros, nos quais as apresentações de empreitada vai trabalhos e os debates sobre História e Cultura exigir muito de quem resolva chegar Afro-Brasileira alcançaram seus mais exuberantes momentos – inclusive criando, no último, a Associação Brasileira de Pesquisadores Negros. E apenas em 2002 uma mulher negra – Petronilha Beatriz Gonçalves – doutora em Educação, com história de vida pessoal e acadêmica vinculada ao tema, assumiu um cargo de conselheira no Conselho Federal de Educação. Vai ser necessário, portanto, um profundo exercício de autocrítica e desprendimento, por parte dos que têm concedido menor importância à temática. Felizmente, não estamos partindo do zero: há iniciativas preciosas, subterrâneas, consistentes porque elaboradas e realizadas, quase sempre abnegadamente, por parte de organizações do Movimento Negro e de educadores e educadoras que acreditaram na causa. Muito antes da existência da lei, vêm construindo esses conhecimentos e programas, cursos e metodologias adequadas à sua implementação pedagógica. É um imperativo ético levantar esse quadro, sondar as possibilidades de aperfeiçoar e ampliar tais iniciativas, além de criar outras e multiplicá-las. Atenção: se o ato de educar exige empatia entre educandos e educadores e entre esses e o tema, essa empreitada vai exigir muito de quem resolva chegar! Há tanta emoção a se vivenciar! As vontades políticas do MEC e das Secretarias Estaduais e Municipais de Educação serão decisivas. Felizmente estamos mais do que alertas, entusiasmados. O que não podemos é repetir a outra Lei Áurea. Seria irresponsabilidade inadmissível lançar o objeto dessa lei à sua própria sorte.
* Pesquisador do Centro de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Cândido Mendes, RJ

Edmilson de Sena Morais * É um contra-senso a obrigatoriedade da inclusão desse conteúdo nas escolas. Afinal, respira-se e transpira-se africanidades neste país. A origem do homem está na África, a história do Brasil inicia-se com a presença africana maciçamente durante quatro séculos de translados (diáspora forçada) de variadas etnias das quais somos herdeiros. Nossa produção cultural está toda, praticamente, sob a influência da cultura negra africana. Até mesmo o Norte do país, com a forte presença indígena, recebe influência da cultura negra caribenha. Se tudo isso não é suficiente, quem são os sujeitos da educação no Brasil? Afrodescendentes na sua maioria. Se os nossos colegas professores, nos seus repertórios pedagógicos, não discutem e não incluem em seus planos de curso/aula a cultura negra africana, é sinal que a concepção de currículo ainda está baseada no universalismo iluminista. Neste momento, temos que repensar o currículo em suas bases epistemológicas e numa perspectiva pós-moderna. Será que o que se produz em termos de currículo em nossas academias ainda não é suficiente para podermos refleti-lo em nossa conjuntura atual? Tudo nesse país, normalmente, é estabelecido por um grupo pensante, uma elite togada que estabelece e normaliza. Faz-se o pacote e envia para o seu destino. Aí se transforma em lei, pra ver se assim as pessoas seguem a lei. Que está na LDB, está nas Diretrizes Curriculares etc. Entretanto, não há repercussão. Não chega no interior das escolas. Pior, não chega nos ouvidos dos professores. E, quando chega, ouve-se o discurso: “não há material”. Ainda são dependentes do escrito, do normatizado. Ainda é necessário o respaldo do produtor, do intelectual, do mestre, do cânone, porque os sujeitos professores não se refletem como afrodescendentes ou mesmo resultado de uma cultura eminentemente multicultural. Será que nesse É assim que as coisas ainda acontecem: vêm de cima Brasil de meu para baixo. Apenas um problema nisso tudo: não há resDeus, algo tão sonância nos quatro cantos do nosso país. Nem mesmo peculiar a nós nas metrópoles, quanto mais nas regiões interioranas. Nossa educação se resume em um tripé: escola, professor tem que ser feito e aluno, segundo uma determinada Secretária de Educade maneira ção. “Se a educação não vai bem é porque os professores coercitiva? são os responsáveis.” Esse é o discurso. Pelo que parece, isso contraria completamente o conceito de educação e de escola numa perspectiva progressista. Infelizmente, a escola que está aí é cada vez mais manipulada pelo capital, por isso não vê os sujeitos culturais dentro dela. Esses sujeitos não se vêem refletidos nos livros didáticos e nem mesmo no que essa educação formal quer transformá-los. Será que nesse Brasil de meu Deus, algo tão peculiar a nós tem que ser feito de maneira coercitiva? O mundo mudou! Estamos em plena pós-modernidade. Acorda Brasil! Tomara que não dê em vatapá.
* Professor de História da rede estadual e municipal de ensino da Bahia

16 • Jornal da Cidadania • Nº 115 • Fevereiro 2003

O Fórum é uma festa
O Fórum Social Mundial é o grande encontro da diversidade humana, da diversidade de militâncias e idéias. É o momento do diálogo entre as mais variadas causas que antes marchavam paralelamente, dispersas. O sucesso do Fórum se deve à consciência de que só o casamento dessas causas, dos diversos movimentos sociais, das ONGs e outras entidades poderá gerar uma nova utopia capaz de transformar o mundo. Isso leva tempo, mantém-se a tendência de reuniões separadas de sindicalistas, camponeses(as), profissionais de educação, pessoas que defendem os direitos humanos, interessadas em temas econômicos etc. O mundo se tornou muito complexo, multiplicaram-se as demandas específicas e as questões a enfrentar na construção de “um outro mundo possível”. Já não se espera que as conquistas do movimento operário produzam o bem-estar de todas e todos. Temos agora o ambientalismo, o feminismo, os movimentos étnicos, de marginalizados urbanos, homossexuais, portadores de deficiência, jovens, todos com suas reivindicações próprias, às vezes até conflitantes com as do sindicalismo. Acolher e valorizar essa diversidade, facilitar o diálogo e as articulações é o papel do Fórum, um “laboratório de idéias”. Trata-se de um espaço aberto da sociedade civil, de diálogo horizontal, sem hierarquias. O FSM não é uma instituição representativa do conjunto de seus participantes, por isso não delibera nem emite declarações, explicam membros do Comitê Organizador. Manter esse caráter exigirá conter ansiedades, principalmente de militantes políticos que anseiam pela definição de estratégias, pela politização e institucionalização do Fórum, o que supõe direção central e disputa pelo poder. Mas o Fórum é também uma festa e, como toda festa boa, reúne gente demais. As 100 mil pessoas participantes deste ano às vezes não cabiam nos auditórios distribuídos entre a PUC, o estádio Gigantinho, quatro armazéns do porto e outros locais. O acampamento de 25 mil jovens extrapolou as instalações do Parque Harmonia. Os(as) representantes de mais de 150 países só não se sentiram perdidos(as) numa Torre de Babel porque 120 intérpretes fizeram a tradução simultânea das principais palestras e seminários, ao espanhol, francês, inglês e português. O Fórum monopolizou 80% do total desses profissionais existentes em todo o Brasil, segundo Sérgio Ferreira, coordenador do serviço. Isso permitiu democratizar a participação. Mas não foi suficiente. Cerca de 80 tradutores e tradutoras, voluntários de vários países, também ajudaram na comunicação. Ainda assim houve confusões. Uma delegada americana, por exemplo, pediu ao público presente levantar as mãos e gritar “wage war” para uma foto. O público brasileiro obedeceu, mas não o de fala inglesa. Ela repetiu o pedido, mas os anglófonos não reagiram. Só então se deu conta do erro. Pedia “faça a guerra” numa reunião pacifista, contrária aos planos belicosos de Bush. Corrigiu para “wage peace”, todos e todas a atenderam e ela pôde tirar sua foto. Um colega jornalista sofreu outro tipo de engano, não tanto por falar apenas inglês. Perdeu boa parte do seu primeiro dia em Porto Alegre tentando chegar a um dos locais do FSM. Perguntou a transeuntes pelo “Fórum”, seguiu as indicações e foi parar no Tribunal de Justiça. Levou tempo até se convencer que não foi vítima de trote.

Jornalista, correspondente da agência IPS e Amigo do Ibase mosava@uol.com.br

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