"A POLÍTICA

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Introdução Considerado por alguns como o maior pensador de todos os tempos, Aristóteles nasceu no ano de 385 a.C., em Estagiros, pequena cidade da Trácia, fundada por colonos gregos. Nicómaco, seu pai, era médico pessoal do rei Amintas II e consideravam-no como um dos homens mais sábios e cultos na profissão. É natural que Aristóteles dele tenha herdado não apenas alguns conhecimentos de medicina mas também o gosto pela observação direta das coisas que evidencia nas suas obras. Seguiu em Atenas as lições de Platão na Academia. Afastou-se no entanto do mestre para seguir o seu próprio caminho. Ficou célebre a frase que se lhe atribui a justificar a ruptura: "Sou amigo de Platão, mas ainda mais da verdade". Aliás, quando, mais tarde, já preceptor de Alexandre, foi por este interrogado sobre quem tinham sido os seus mestres, pôde responder com certo orgulho: "Foram as próprias coisas que me instruíram e nunca me ensinaram a mentir". É enorme a obra que nos legou e em que se condensa praticamente todo o saber humano do seu tempo. Ao analisá-la, não se pode deixar de ficar impressionado com a vastidão enciclopédica dos seus conhecimentos, com o seu rigor lógico e a sua profundidade metafísica, que fizeram que os historiadores da cultura pudessem falar de um "milagre grego". Tratado da Política é uma das obras que nos dão bem a medida do gênio de Aristóteles, que nela não só esboça uma filosofia sistemática do Estado, mas lança também as bases daquilo a que hoje chamamos o Direito Constitucional, encarado já nos seus vários aspectos: histórico, nacional, geral e comparado. 1. A obra A Política de Aristóteles, embora talvez surpreendentemente, é um dos grandes clássicos da filosofia política, e em que pulsa o gênio aristotélico da apreensão global de uma realidade. Adquiriu esse estatuto apesar de ser um texto incompleto e provisório, com imperfeições, repetições e remissões obscuras, e redigido a partir de uma primeira versão destinada ao ensino oral. Mas foi nesta sua obra genuína que o filósofo verteu o essencial de mais de quarenta anos de investigações que repercutem a sua concepção ampla de ciência política como filosofia das coisas humanas. O estatuto da Política surpreende menos se pensarmos que as propostas

que nela emergem são a culminância de investigações presentes em obras, entretanto perdidas e noutras que permaneceram. Entre as obras perdidas relevantes contam-se os quatro livros Da Justiça e os dois sobre o Político, sugeridos pelos diálogos de Platão; os tratados Alexandre ou a colonização e o Da Monarquia, preciosos para avaliar melhor a relação do autor com Alexandre Magno, e a desconfiança perante a criação de uma monarquia mundial, das 158 constituições do mundo helênicas, recolhidas pelos discípulos do Liceu, perderam-se todas exceto a Constituição de Atenas, escrita pelo punho de Aristóteles, possivelmente como modelo de redação do corpus. Por outro lado, a Política pode, e deve ser comparada, com obras que permaneceram e que expõem o papel arquitetônico da ciência política no conjunto do saber, tais como a Metafísica e o conjunto das Éticas (a Nicómaco, a Eudemo e Magna Moralia), remanescentes de tratados (como o Protréptico) e correspondência vária. Tal como chegou até nós pela tradição manuscrita, a Política, mais que um tratado, é uma coleção de formulações, destinadas a servir de base à exposição oral. A crítica minuciosa - e em curso - estabeleceu indubitavelmente que os oito livros da Política não resultaram de um impulso criativo único. Aristóteles foi membro da Academia Platônica desde 367 a. C., quando com dezessete anos chegou a Atenas vindo da longínqua cidade natal de Estagira, até à morte de Platão em 348 a.C. Após ensinar três anos em Assos e dois em Mitilene, foi tutor do príncipe Alexandre. Regressado a Atenas em 335 a.C. aí criou, e ensinou, no Liceu. Abandonou a cidade em 323ª.C. "para evitar um segundo crime contra a filosofia", e morreu o ano seguinte em Calcis, na ilha de Eubeia. Nos trinta anos que decorrem entre os primeiros e os últimos livros, o discurso reflete a tensão entre duas orientações, a um tempo divergentes e conciliantes, das investigações de Aristóteles: as experiências da vida criativa racional, inculcadas pela Academia platônica, e o estudo da multiplicidade das manifestações do ser. Em política, tratava-se de confrontar o bem supremo com os regimes da cidade-estado que estava a ser ultrapassada pela monarquia mundial. Tratando-se de obra não sistemática, e sem o fulgor imaginativo das construções platônicas que tanto impressionaram autores como Cícero e Agostinho, apagou-se a repercussão imediata da Política no mundo antigo - uma vez extinta a palavra que a animava - até a tradição hermenêutica a reavivar. A partir do comentário de Andrônico de Rodes, undécimo escolarca do Liceu, no séc. I a.C., e em particular do comentário de Alexandre de Afrodísias no final do séc. II d.C., Aristóteles tornou-se a base de todas as escolas de filosofia política no mundo inter cultural da Idade Média - árabe, judaica e cristã; a polis é o domínio de atualização da natureza humana; para a compreender temos

formado pelos Livros II. No essencial. numa pretensa seqüência prístina dos tratados. defensor da classe média. Se respeitarmos esta intenção. No mais antigo. consideraremos o que preserva e o que destrói as cidades bem como as respectivas constituições e quais são as causas de que umas sejam bem governadas e outras não. João de Salisbúria. A melhor cidade será aquela em que for possível a felicidade . de 1928. para o realismo da maturidade que ultrapassaria o idealismo platônico inicial. a simples leitura dos textos originais desfaz a maior parte dos equívocos hermenêuticas. iniciaram aqui perspectivas inovadoras. a seqüência dos oito livros foi determinada pelo próprio Aristóteles no parágrafo final da Ética a Nicómaco: "Primeiro. a tradição romântica oitocentista chegou a reordenar a Política. a confusão ideológica persistente do séc. Como é regra geral. impressão reforçada pelos humanistas do séc. fascista. resulta de dois estratos cronologicamente distintos. são muito perigosos. Na forma atual. como cada uma deve ser ordenada e de que leis e costumes carece". III. republicano. Estudadas estas questões. Após o eclipse iluminista do aristotelismo. defensor da aristocracia. quando idealismo e realismo como concepções sistemáticas da filosofia fizeram o seu caminho até à edição. Os grandes medievais como Avicena. XXI fazer melhor. tornam-se mais claros os arranjos sucessivos introduzidos na Política. juntos. dois anacronismos que. podemos compreender melhor qual a melhor constituição. conservador. com base na nossa recolha de constituições. Não será difícil ao séc. procuraremos rever o que foi dito pelos nossos predecessores que investigaram este assunto. e democrático. Os historiadores da filosofia especularam sobre a eventual evolução do jovem Aristóteles. XX apresentou leituras diversas e contraditórias da obra: Aristóteles foi apodado de liberal. monárquico. A recepção escolástica criou a impressão de um pensador sistemático. sobretudo. Averróes. A situação agravou-se com traduções infiéis da Política que visaria estudar o "estado ideal". transparece a preocupação de descrever o melhor regime de acordo com critérios derivados de considerações sobre o bem. Depois. Entretanto. VII e VIII. Marsílio de Pádua e. A Política é uma obra unitária na qual convergem oito tratados relativamente independentes cuja datação aproximada e concatenação ficaram estabelecidas na interpretação clássica de Werner Jaeger. Tomás de Aquino. xenófobo.que compreender a natureza do homem que a forma. XVI que exageraram a dissociação entre Aristóteles e Platão. esse preconceito assumiu a forma de crença num autor que se libertara das dependências idealistas platonizantes. Maimónides.

e bacia do Mediterrâneo. VII . De forma por vezes prolixa. que ocupou longamente Aristóteles e os discípulos do Liceu está na base do segundo estrato de livros: o inventário dos regimes permite apurar as condições limitadoras da ação política e as possibilidades de aperfeiçoar a legislação.sobre as revoluções . tomadas isoladamente.A pluralidade de regimes constitucionais.A crítica das constituições. III . pais e filhos. ou esotérico. A cidade visa o bem maior porque abrange outras comunidades menores e porque possui uma auto-suficiência que as comunidades maiores não alcançam. Ásia Menor. V e VI descrevem os regimes constitucionais do mundo helênico. A natureza da cidade A finalidade da obra é introduzida pela consideração de que cada cidade é uma comunidade política estabelecida em ordem a um bem. acumulam-se detalhes sobre os regimes de cidades e colônias da península Grega. 2. II . Nesta problemática platónica.seja uma interposição posterior entre o IV e o VI. VIII .A natureza da cidade e os seus elementos.. compõem um puzzle intelectual cujo desenho é sugerido pela finalidade presente em cada peça. vistas em conjunto. A metodologia utilizada é a de análises e sínteses sucessivas que.C.A educação dos jovens. V . surge a tensão entre os critérios da cidade melhor e os regimes políticos atualmente existentes. com base no imenso material recolhido. IV . senhores e servos. A aldeia resulta da reunião de várias . Aristóteles introduz a nova metodologia: em vez da construção discursiva de uma cidade paradigmática que não existe na história.obtida pela vida criativa da razão. VI . em Atenas. Os livros IV. À felicidade individual deve corresponder a cidade feliz. ajuda a datar este segundo conjunto de livros. Magna Grécia. a forma da cidade melhor tem que ser procurada na experiência política imanente. A componente inicial é a família ou casa com as relações entre marido e esposa.A teoria das revoluções. A primeira análise aborda as partes estáticas da comunidade política.A felicidade e o regime melhor.Democracias e oligarquias. Pormenores como a referência ao assassinato de Filipe da Macedônia em 336 a. designado por acromático. aparecem como outras tantas simplificações e complicações mas que. Esta linha de investigação.A teoria da cidadania e tipos de regime. A sua finalidade é satisfazer as carências elementares quotidianas. Com a redação do livro I como introdução geral. É possível que o livro V . ficou completo o tratado da Política. por ser para ensino oral e que comporta os oito livros seguintes: I .

comportando-se "como um deus ou uma besta". de categorias arqueológicas do princípio. Aristóteles aceita a escravatura e considera-a mesmo desejável para os que são escravos por natureza. enfim. Aristóteles anuncia a intenção de analisar as componentes da cidade segundo as relações entre marido e esposa. mas restringese a estas últimas. Uma das maneiras de aceder ao centro. apresentado como causa. ou finalidades. dos princípios e das finalidades não impede a livre intervenção do sujeito humano. O impulso inicial do fundador e o processo político do legislador são tão decisivos quanto o processo orgânico de crescimento da cidade. (e já não paternal). A cidade. ou etiológicas para abordar a vida política. princípio ou finalidade. Na análise inicial da seqüência casa-aldeia-cidade. Mas quer abordemos a existência do homem político procurando causas. resulta da associação de várias freguesias. pais e filhos. E ao afirmar que "quem primeiro a estabeleceu foi causa de grandes benefícios". a natureza de qualquer realidade seja criatura viva. ser vivo . abaixo ou acima do nível de plena realização da polis. carecemos de categorias teleológicas. é seguir o desenrolar da teorização do processo de busca do fundamento nas obras de Aristóteles. As categorias deste pórtico da obra . homem. A política é libertadora. felicidade. em parte. deparamo-nos sempre com o fundamento de que participa a razão humana. e é uma comunidade superior que constitui o fim por natureza para o qual tendem as anteriores associações. caracteriza-se pela auto-suficiência e por promover uma vida boa. cidade. Se considerarmos o termo para expressar o fundamento procurado. em parte um processo da liberdade humana.famílias ou casas. É necessário ter presente esta perspectiva global de Aristóteles. A metafísica das causas. se for arché. uns estão destinados por natureza a serem regidos. outros a reger. finalidade. A natureza do indivíduo humano só é realizável através da comunidade social e política. princípios. contexto que surge a mais célebre das fórmulas da obra: "o homem é. um ser vivo político. um processo biológico. A polis é. deve ser procurada num fundamento. instrumento ou comunidade. por natureza. necessitamos de categorias causais. senhores e servos. uns . O homem não é um animal gregário. bem. Se privilegiarmos a finalidade. Desde o nascimento. possui um poder político. O indivíduo isolado torna-se insociável e apolítico. cuja natureza visa libertar o indivíduo dos modos deficientes e incompletos de associação.natureza. Aristóteles situa a evolução da cidade no quadro da história.tocam o centro da filosofia de Aristóteles. é regida por modelos derivados do poder paterno e satisfaz carências mais complexas. mas um animal político porque a comunidade assenta no discernimento do bem e do mal.

sobre o sentido da atividade econômica. não nos podemos permitir ser sentimentais neste tema. nem do debate. E. contudo. os escravos por natureza devem submeter-se ao governo do senhor no interesse deste e de si próprios. o poder conferido pela força não confere o direito de escravizar prisioneiros de guerra. tem por objeto a riqueza doméstica embora os preceitos da "lei ou administração da casa". a crematística. por testamento. Em paralelo com afirmações anteriores da Ética a Nicómaco (EN. A categoria social de escravatura é recorrente na história. pois se dirigem ao pai de família e ao político. assinalar que a condenação ética do escravo por convenção e a aceitação do escravo por natureza era um dilema significativo para o Aristóteles que. também se apliquem à cidade. livre. A problemática inovadora da economia no Livro I. a avaliação dos regimes de Esparta. A economia destina-se a produzir bens de consumo próprio. de opinião. ainda. Contudo. A forma de aquisição econômica de riqueza consiste em obter os bens necessários à vida com moderação e sobriedade. apreciando programas visionários e constituições. e menos ainda é lícito escravizar Gregos. de reunião. Justifica a escravatura natural pela suposta incapacidade de certos homens se governarem a si mesmos. nas religiões cristã. Convém. por natureza. bem como a Fáleas de Calcedónia e Hipodamo de Mileto. convertia a esmagadora maioria dos habitantes em escravos por convenção. de escolha) nos países comunistas antes de 1989. noutros tempos. já a aquisição crematística de bens é especulação. islâmica e judaica. o povo helênico é. porém. Surge a grande crítica a Platão. Mas se a economia tem um limite porque o seu fim não é aquisição ilimitada. Condena. decerto não está recordado dos motivos que levaram Adam Smith a investigar os meios de riqueza das nações em ordem a estabelecer os fins da economia. Surpreende esta avaliação moral da economia. foram aproveitadas como justificação política. outros são escravos por natureza.1161b3) alega ainda a necessidade econômica: o escravo é um "instrumento animado" que maneja instrumentos inanimados. libertou os seus próprios escravos. resultantes de contrato ou conquista. Tais afirmações sobre a escravatura são chocantes e mesmo indignas.nascem livres. exige a criação de dinheiro e funda-se na conveniência em facilitar as trocas. a ausência de liberdades (de circulação. a existência de escravos por convenção. na medida em que pretendem conciliar a existência da escravatura com uma idéia de natureza humana universal. ocupar-se de trocas por dinheiro. O Livro II da Política transita da natureza estática da cidade para a sua atualização. Creta e Cartago e das . proporciona bens com vista ao lucro.

e as excelências humanas que eles geram. Outra razão para recusar a uniformização é a teoria da amizade. que deve ser "domesticado" pela educação. mas deve evitar o impossível. Mas qual? E quanta? E como? O problema teórico é saber o que deve ser possuído em comum. "Existem duas coisas que fazem com que os seres humanos sintam solicitude e amizade exclusiva: a propriedade e a afeição".legislações de Sólon. Aristóteles insiste num problema muito claro: os habitantes da cidade têm que possuir uma certa unidade. mulheres e filhos como surge na intrigante proposta da República de Platão. Este ponto tem conseqüências programáticas evidentes. A demorada crítica a Platão pode suscitar a impressão de uma oposição ao platonismo. Carondas e Pítaco. O conjunto das críticas à comunidade que Sócrates descreve na República é bem indicativo do realismo de Aristóteles. se nenhumas. dependente da ação individual dos seus membros. a cidade perde capacidades. Filolau. Através das lições derivadas de críticas e encômios vários. A regulamentação da propriedade deve permitir a cada um dispor de uma esfera de ação individual. é a substância do relacionamento humano e a dinâmica de todas as relações sociais duráveis. "sociedade aberta" é o da propriedade. O mínimo comum imediatamente aceitável é o território. sendo a desregulamentação a causa da maior parte das revoluções. "Acreditamos que a amizade é o maior dos bens para as cidades". Se nada existe para preencher essas relações. a ser liminarmente rejeitado. A amizade. seria a posse comum de bens.". "Cada um pode imaginar hipóteses. A primeira crítica contra a comunidade somática de mulheres e filhos é realizada em nome da liberdade. Ora a comunitarização das relações sexuais faz desaparecer o relacionamento saudável de pais e filhos. a força viva de cada sociedade. segundo Bergson. já que isto tem que ocorrer entre indivíduos livres e iguais". tal como já foi referido na Ética. "A igualdade na reciprocidade é a salvaguarda das cidades. não é o caso num discípulo da Academia que continua o essencial do platonismo. Esta impossibilidade . O excesso de unidade liquidaria a cidade. se todas as coisas. Cada indivíduo apresenta-se como o centro de uma rede de relações diversificadas. A propriedade comum dos bens é contrária ao amor próprio que irradia da individualidade para a propriedade privada. se algumas. e de onde os governos retiram estabilidade. O máximo comum. O terceiro argumento em prol do que chamaríamos. As causas das revoluções não residem na existência de propriedade privada mas no apetite ilimitado de riquezas. também pode ter a conotação de amor e comunicação.

ordem constitucional. regime constitucional). coloca um problema de regressus ad infinitum. as crianças. A comunidade de cidadãos é comparada a uma comunidade de marinheiros numa embarcação. cidadão é. o que participa na vida política. constituição. é mediadora entre a introdução à natureza da cidade. Aristóteles exclui da cidadania as mulheres. e os cidadãos que participam na vida política. e designa-se por cidade a multidão de tais cidadãos em número suficiente para alcançar a autarquia. A cidade é por Além da natureza da cidade. esta investigação sobre o domínio de ação do legislador. corresponderia ao primeiro tratado. pode ser assegurado a estrangeiros mediante tratado. e as aplicações legislativas nos Livros IV. O direito de processar e ser processado judicialmente são insuficientes. saudável ou doentio. Seguindo a concepção misógina corrente no mundo helênico. os cidadãos. Quanto à pergunta sobre o que é um cidadão. têm como tarefa comum a segurança da comunidade. Aristóteles procede por eliminação de critérios. A forma da cidade O Livro III sobre a teoria da cidadania é o centro de gravidade da Política.não reside na descrição platônica da natureza do homem nem no sistema educativo proposto. O excesso de uniformização da sociedade destrói a capacidade de atualizar as potencialidades humanas através da livre realização do bem. 3. Aristóteles introduz agora a cidade como um composto. e de corrupção. Na versão original. os estrangeiros residentes (metecos) . forma de governo. (regime. Analogamente. o teórico apenas teria que relatar o processo de crescimento. cuja combinação de dinamismo e ordem é necessária à segurança na viagem. através de funções deliberativas ou judiciais. Se a unidade política fosse apenas o resultado de um processo biológico. A descendência materna ou paterna também não basta. o legislador tem que conhecer a politeia. embora desiguais. Em ambas ocorre uma divisão de funções. os anciãos que ultrapassaram um limite de idade. Assim. de que cada cidadão é uma parte. verdadeiramente. nos livros I e II. V e VI. mas precisamente nos meios imaginados por Platão que indicam falta de confiança no processo educativo e um radicalismo insustentável nas instituições. na forma definitiva da obra. A residência no território é critério insuficiente porque estrangeiros e escravos também a podem possuir. uma multidão diversificada. e os fundadores da cidade acabariam por não se enquadrar no critério. Mas a cidade-estado também resulta dos atos libertadores dos fundadores originais e dos fundadores permanentes que são os legisladores e os governantes.

podemos concentrar-nos nos dois pólos opostos desta escala social: o indivíduo responsável e o escravo (spoudaios e doulos).e os escravos. acaba por admitir que a ascendência por via paterna é importante para se ser cidadão. idade. Aliás. a noção de perfeição é singularmente vazia. profissão. Esta nova problemática da tensão entre natureza da cidade e forma dos regimes políticos é a resposta teórica aos materiais de 158 constituições helênicas. Para efeitos de descrição. posição econômica e destino pessoal. Como pode a diferença de tipos humanos reconciliar-se com a idéia de unidade da natureza humana? Tendo o escravo a capacidade de virtude. Cada polis é uma multidão com tipos humanos extremamente diversificados. em ciência política. No grau inferior desta escala estarão os escravos por natureza. mas a . como se distinguirá do homem livre? E se é humano. Esta preocupação é ética e política. Aristóteles descobriu que. forçosamente possuem diferentes formas de governo. Se diferentes tipos humanos buscam a felicidade de diversos modos.desejável. A variedade de tipos humanos resultante é enorme e mostranos uma sociedade pluralista. segundo Aristóteles apenas um pequeno grupo de indivíduos responsáveis (insistentemente designados por spoudaoi) atingirá uma estatura moral completa ou perfeita. tal como os metecos. A natureza é idêntica para todos devido à razão. outros serão bons cidadãos. a par de diferenças de personalidade. sendo mais importante investigar de que modo a natureza comum do político se atualiza de modo diferente nas inúmeras variantes constitucionais. Aristóteles sustenta a igualdade da natureza humana. A diferença entre seres humanos é de espécie. nem talvez fosse pretendida como tal. A desigualdade evidente entre homem livre e escravo não significa uma diferença de natureza. E a escala é ainda mais complicada devido a interferências de sexo. e mesmo estética e religiosa. A resposta não é teoricamente muito satisfatória. Esta listagem de exclusões mostra que Aristóteles tem dificuldades em criar um critério de cidadania. mas impossível de estabelecer Aristóteles verifica que as imperfeições dos regimes resultam da falta de protagonismo dos cidadãos livres e iguais que deveriam constituir o grupo predominante na vida política. Em vez de procurar fazer coincidir natureza e forma para obter uma "cidade ideal" . como pode deixar de ter razão? A sua solução reside na descrição de caracteres em termos de predominância de um dos componentes. segundo os significados modernos dos termos. condições da sociedade e da civilização e fatores geográficos e étnicos. sem serem forçosamente homens de bem: outros nem possuem os requisitos necessários para a cidadania. e não de grau nem de gênero. Aristóteles está consciente de uma aporia.

existiam as pressões para desvalorizar a vida do desejo e para o filósofo se retirar da vida política. ou de animais. em particular as virtudes éticas e dianoéticas em vários graus de atualização. da ação e da contemplação criadora por parte do intelecto ativo do ser humano. A eudaimonia será alcançada mediante a vida ativa proporcionada pelas virtudes dianoéticas. para Aristóteles. nem um recinto amuralhado cujo fim seja evitar a injustiça e facilitar as trocas comerciais. ou vida ativa. Mas uma vez que as excelências ou virtudes humanas apenas são realizáveis na esfera da sociedade política. Em Ética a Nicómaco. Nas correntes filosóficas da época e na Academia em particular. deve tornar-se representativo da cidade e criar um regime político em que conflua a natureza e a melhor forma. A cidade não é apenas uma comunidade de lugar. vontade e razão. caso contrário também poderia existir uma cidade de escravos. cirenaicos e megáricos e no posterior sucesso das correntes estóico e epicurista. definira os três tipos de busca da felicidade que se caracterizam pela predominância respectiva do desejo.científica. O fim da . artística e mística . a cidade tem que preocupar com a virtude. A cidade não existe apenas para viver. é a ciência política. Toda a ação humana está orientada para o bem e para a felicidade que se define como criatividade da alma dirigida pela virtude perfeita. A virtude mais humana consiste na busca do bem e da felicidade". Quando um grupo realiza a excelência humana. Mas pelo contrário.Aristóteles é resolutamente a favor da vida política. sem abdicar do primado da razão . O melhor regime será aquele em que o grupo governante exibir a excelência humana. A Política de Aristóteles resume os preceitos finalistas e eudemonista da sua Ética: "Todos aspiram a viver bem e à felicidade. Quanto ao homem bom (spoudaios). O escravo por natureza é um caso de máximo afastamento das virtudes dianoéticas e éticas. Mas. ciência da conduta individual do homem formado pelo nous. e na mente misógina de Aristóteles. como meio de alcançar a felicidade. O homem atinge a felicidade através da virtude. justifica-se se proporcionar uma vida do bem. subordinando a política à ética. Uma interpretação moralista diria que o fim do governo é tornar os homens virtuosos. Aristóteles segue a mesma metodologia de descrição do caráter em termos de predominância de um dos três componentes da alma: desejo. também as mulheres e crianças se afastam desta culminância. a ciência da conduta do homem em sociedade que engloba a ética.disposição interna desta é extraordinariamente diversa. Era o que se verificava nas propostas de cínicos.

o homem feliz na . A antropologia e a ética clarificaram o significado da felicidade na dimensão pessoal que assenta no bem. E isto é impossível porque estes não participam da felicidade". Mas discordou da transformação deste projeto em ofensiva para a conquista e criação de uma monarquia mundial. Os elementos apresentados sublinham que para viver bem "a cidade é uma comunidade de homens livres". não deveria ser tratados segundo as regras correntes. herdado de Filipe. referindo explicitamente a identidade da felicidade com a atividade virtuosa. a melhor comunidade é a que proporciona a melhor vida para o indivíduo. Tal império exigiria uma violência ou não aprovava. a fim de preservar as cidades helênicas da zona. Poderia. ter concebido um modo de existência semelhante ao das comunidades religiosas órficas ou das escolas filosóficas. explora a hipótese de o poder supremo ser o mais excelente dos bens porquanto permite realizar ações nobres mas rejeita a hipótese: a excelência inicial seria perdida com a violência exercida para obter o poder. Por "vida boa" não se deve entender abundância de bens materiais que caracteriza o que correntemente se chama a sociedade de consumo. A vida ativa da cidade helênica de homens livres é. sob a hegemonia da Macedônia. além do anacronismo. Aristóteles tinha outras conclusões disponíveis para os seus silogismos. Uma segunda possibilidade seria conceber a cidade-estado segundo o modelo da monarquia mundial presente na formação do império helênico. senão para viver bem caso contrário haveria cidades de escravos e de animais. ou mais vulgarmente. a boa vida. A idéia teórica é convertida em critério para julgar a cidade e as categorias podem ser transferidas: o homem excelente tem o seu paralelo na idade excelente. o modelo definitivo de existência humana em sociedade.comunidade política é assegurar aos cidadãos a vida boa. A vida boa é conforme a virtude. estas respostas parecem demasiado teóricas para resolver os problemas da vida política. que estavam a iniciar processos semelhantes ao que o cristianismo designaria por santificação da vida. tais propostas seriam consideradas perigosamente apolíticas por Aristóteles. pois. Noutro contexto. seria "como um deus entre os homens". por exemplo. passagem que alguns interpretam como referida a Alexandre Magno. se escolhesse outros termos médios. "Não só se associam os homens para viver. analogamente. contra as satrapias persas da Ásia Menor. Apesar de tudo. Sabemos que Aristóteles aprovava o plano de guerra defensiva de Alexandre. embora nada no texto o sugira. Que sucederia se aparecesse um indivíduo ou um grupo de indivíduos superiores pelas virtudes? Aristóteles indica que se um homem destacasse acima de todos os outros. Mas.

As raízes das dificuldades são bem conhecidas: resultam da aplicação de categorias ontológicas. a cidade e o divino sob o modelo da auto-suficiência. Forma e matéria foram categorias concebidas para definir entidades como organismos. artefatos. É preciso a todo o custo sustentar a filosofia da cidade como a comunidade em que o homem pode realizar a sua natureza de modo pleno. mas não participam na vida da cidade. No livro III. Por um lado existem indivíduos que pertencem. Natureza. Após analisar a natureza da cidade nos livros I e II.Aristóteles solicita ao legislador que se aproxime da natureza. e a ação intencional. a observação das evoluções constitucionais fê-lo criar a nova categoria de forma da cidade. omphalos) e assim a pretende manter sem unificação política do mundo. através da legislação. De acordo com sua teoria da distribuição dos caracteres étnicos.cidade feliz (polis eudaimon). Cada cidade-estado helênica deve ter um fim em si mesma e unificarem as suas partes sob a ação da vida ativa do indivíduo responsável. a forma é imposta à matéria num animal. O problema reside em saber se as categorias de Aristóteles descrevem este processo. o desenho é imposto pelo artesão ao material. Contudo esta segunda relação levanta duas novas dificuldades. De tal modo Aristóteles conhece as dificuldades de transformação das . a intenção é a forma imposta aos meios para alcançar um fim. São membros da cidade. poderia haver coincidência entre ambos. da sociedade e da história. forma e legislação Na análise empreendida nos três primeiros livros. Pensar o indivíduo. admitida a distinção entre o homem de bem e bom cidadão. 4. combinam-se na identidade helênica o ânimo (thymos) típico dos povos da Europa e a habilidade dos povos da Ásia. e a tensão entre ciência ética e ciência política cujas conseqüência prática seria entregar o governo aos expedientes sofísticos ou aos tiranos e remeter o indivíduo para a existência amorfa e apolítica . Aristóteles recorreu a importantes distinções metodológicas. é um modelo que melhor transmite a grandeza e os limites do próprio Aristóteles. na dimensão da pessoa. Para evitar a quebra da filosofia das coisas humanas. o regime (politeia ) adquiriu essa função de ser a forma da cidade perante a matéria que são os cidadãos. Como Aristóteles tem um evidente orgulho helênico. A felicidade da cidade é alcançada quando os cidadãos estão treinados de modo a que todos os estratos da existência humana estejam desenvolvidos. mas não são cidadãos segundo a forma. só em circunstâncias excepcionais. e no quadro do cosmos. e considera a Hélade como o centro do mundo (literalmente o umbigo. criadas para analisar a natureza aos problemas da existência humana. Por outro lado.

porque os homens livres perdem o direito de votar ao contrário do que sucede em democracia. Acresce que Aristóteles expôs claramente que a forma política da cidade é apenas uma fase de um ciclo mais amplo constituído por realeza. Isso é sustentável. comprometida pelas longas guerras civis que se sucederam à épica resistência contra as invasões persas. à história grega e à comparação entre civilizações. Mas apesar de tudo isto. tirania e democracia. Mas surge. ser um indivíduo moralmente detestável. que a sua exposição é o melhor guia de resolução das dificuldades. mas insiste em articular a essência da polis. a politeia será a forma e os cidadãos a matéria? Todos. desaparecera em virtude da unificação Macedônia. Uma vez que estes dados eram óbvios. Admite um modelo proveniente das investigações históricas. tal como narrado na epopéia da conquista de Tróia. é apenas uma rede de instituições políticas que existe no tempo histórico. à nação helênica. através dos mitos atenienses de Teseu. Aristóteles é um filósofo: interessa-se pela estrutura e não pela história da sociedade. A decisão de eleger a polis como a única unidade de inquérito depende do que lhe parecia relevante no seu conceito de ciência política e dentro da experiência helênica. Quer reter o regime como a forma da cidade e os cidadãos como matéria. então. Ademais. Se as categorias forem aplicadas a uma polis. aristocracia. oligarquia. Finalmente. o futuro imediato do mundo helênico estava marcado pela expansão Macedônia e pela conquista da Ásia por Alexandre. Porquê? Que motivos tinham para assim proceder? Aristóteles estava consciente que o regime constitucional (politeia) não pode ser construído como essência ou forma da sociedade porque não possui estatuto ontológico próprio. o mundo helênico como unidade de civilização prolongava-se no passado até aos Aqueus. assim. é preciso justificar por que razão Aristóteles não investigou na Política a seqüência que conduzia desde o regime até ao ciclo político. Admite que definir o cidadão como o participante no processo de decisão só vale em democracia. A primeira exposição deste ciclo remonta a Heródoto. Aristóteles não modificou o paradigma de análise. e até Creta. Platão conferiu-lhe um alcance geral para todas as cidades helênicas cujo decurso histórico se tornava assim uma unidade plausível de investigação.categorias em tópicos fora do âmbito original. o novo problema de uma cidade mudar de identidade cada vez que muda de regime e o caso perturbador de o homem de bem poder ser mau cidadão ou o bom cidadão cumpridor das leis. A independência das polis helênicas. deverão ser cidadãos? Ou sós os que participam no governo e votação? Numa tirania ou oligarquia seria impossível. desde . mas não insiste demasiado neste ponto. A tensão entre as exigências da ética e da política tornava-se inconfortável e a unidade da análise ético-político ficaria destruída.

sejam eles mais ricos ou mais pobres. E. os que apenas atendem aos interesses dos governantes são defeituosos e todos eles desviados dos regimes retos". Ao invés das constituições justas. exige-se o conhecimento da realidade política. A parte determinante numa democracia será o povo.que se admitam os pressupostos: a natureza do homem atualiza-se através do culto do bios theoretikos. e o governo é o próprio regime". em qualquer cidade. especificamente. sendo a democracia e a oligarquia os dois regimes mais freqüentes. é introduzido o exame dos tipos de ordem constitucional mediante uma nova definição de politeia: "Um regime pode ser definido como a organização da cidade no que se refere a diversas magistraturas e. Cada um destes três grupos funda a sua pretensão de governar a cidade num . e também pelo anticristianismo e pela pós-modernidade. 5. na perspectiva da justiça absoluta. Para reconstruir a sociedade presente. A pluralidade dos regimes A partir do cap. e assim sucessivamente. Um segundo critério de diferenciação entre regimes é o interesse comum (sympheron): "os regimes que se propõem atingir o interesse comum são retos. então há todo o interesse em conhecer a estrutura empírica da cidade de modo à nela realizar a ordem perfeita. as injustas apenas olham aos interesses particulares dos governantes. o filósofo e o legislador não. Se a constituição perfeita é realizável. é precisamente a decisão teórica de Aristóteles de cercear a investigação à cidade-estado segundo a natureza. existe um terceiro grupo de indivíduos que intervém nos conflitos políticos . contudo não se trata tanto da famigerada intervenção do "realismo" de Aristóteles a suprir um pretenso "idealismo". sobretudo. as magistraturas supremas. econômico. Nenhum destes pressupostos aristotélicos é hoje admissível num quadro de referências muito mais diferenciado pelo cristianismo. a manifestação da humanidade do só é possível numa cidade-estado. que o obriga a efetuar a análise prática da forma ou regime constitucional. Aristóteles está consciente das limitações desta classificação jurídicopolítica de origem platônica. Da combinação destes dois princípios resulta a célebre classificação dos seis tipos de politeiai em duas séries de regimes justos e injustos. O erudito poderia ficaria satisfeito com este estado da questão.os virtuosos . pela modernidade. o elemento supremo (kyrion) é o governo.6 do Livro III. Em regra os ricos são poucos e os pobres muitos. numa oligarquia o grupo dirigente. Na prática. que não se coaduna à realidade política e corrige-o com a preocupação do concreto social e.

senão para os iguais. A realização de ações dignas na cidade exige a participação dos indivíduos virtuosos. O conflito decorrente entre ricos e pobre não pode ser resolvido em favor exclusivo de uma das partes. de modo a conferir fundamento e coesão e à vida social. "A justiça é própria da cidade já que a justiça é a ordem da comunidade de cidadãos e consiste no discernimento do que é justo". pronuncia-se pela superioridade das leis não escritas. é indispensável para contribuírem com as excelências de que a cidade carece. os ricos devido à posição econômica. as soluções possíveis assentam no estabelecimento de uma ordem justa. com efeito. cria conflitos: os possuidores de riquezas tendem a generalizar a sua desigualdade relativa. Quando um destes princípios parciais de justiça é aplicado isoladamente. os pobres falam em nome da liberdade.ao nível da consideração ontológica sobre os fins da existência humana. não para todos. Mas perante interpretações parciais. senão para os desiguais. nem minorado por uma solução contratual. afinal o que é a justiça? Segundo Aristóteles. Aristóteles distingue entre leis escritas (oi kata gramata nomoi) visionadas e promulgadas pelo legislador.que ele reconhece . às quais se deve ajustar a conduta dos cidadãos: e o critério de igualdade (isonomia) não para todos. e é. A justiça política (politikón dikaion) que é própria do homem articulado em sociedade tem dois aspectos: a obediência às leis. e leis não escritas ou consuetudinárias (kata to ethe). os que são iguais em liberdade de nascimento generalizam esta sua característica. já que a desigualdade parece justa.critério parcial de justiça. O que é justo beneficia a cidade e cada cidadão. porque a força da lei deriva do hábito e do costume e ganha vigor com o decorrer . não é um luxo. Tal como a natureza impulsiona os seres humanos a agruparem-se em comunidade. A cidade é uma comunidade de aldeias e de famílias. baseada na amizade entre seres humanos e a amizade apenas se alcança através da realização do supremo bem. mais seguras e fortes. as leis (nómoi) fundamentais também possuem uma origem na natureza. consiste na igualdade de tratamento para os iguais e no tratamento desigual para os que têm méritos desiguais. A visão ambiciosa de Aristóteles exige que a cidade seja mais do que uma associação fundada para a segurança e defesa e para a troca de bens. A fidelidade e a consistência do método de Aristóteles pode ser bem apreciada nesta elevação do problema politológico do conflito de classes . os virtuosos pelo desempenho da excelência: é inevitável o conflito político entre estas pretensões. A justiça deve presidir e regular as relações sociais entre os membros da cidade. Uma vez que não existe uma solução final dos conflitos sociais.

ser contrariado pela intervenção justa e oportuna dos legisladores. A concentração da riqueza nas mãos de um só indivíduo gerou a tirania. é melhor ser governado por leis do que por homens. o conflito de classes sociais e o ciclo de evolução dos regimes constituem três variantes de análise política que. surgiram oligarquias sem o sentido da honra. massas de homens livres apenas no nome. Em termos atuais. a democracia tornou-se a única constituição aceitável na área helênica.8. estranhamos a referência da desigualdade. enfim. Uma vez que a constituição depende dos diversos grupos sociais. assim. acidentes históricos. a análise é inconcludente porque não situa a evolução da cidade. a célebre análise do ciclo das formas políticas. Atinge-se. Surge. mas notamos que a base de idéia de justiça é a supremacia da lei. mas sem a virtude de saberem governar em democracia. devido ao crescimento histórico da massa populacional. uma pluralidade de formas constitucionais que . A classificação político-jurídica de boas e más constituições falha devido ao critério insuficiente da observância das leis já que "as leis devem ser estabelecidas de acordo com o regime". torna-se necessário analisar o respectivo equilíbrio de forças. sempre sujeitos às paixões. estabelecida a exigência de equilíbrio entre as pretensões de vários grupos para impedir a instabilidade e a revolução. o caráter e o número da população.do tempo (diachronon plethos) (II. Nenhuma delas é suficiente. A supremacia da lei resultante do tempo é fonte de força para a comunidade e de estabilidade da constituição. mas é evidente que o processo de deterioração e corrupção da virtude dos fundadores pode . A realeza surgiu como forma primitiva de governo quando um homem preeminente em virtude impunha as suas qualidades de fundador da cidade com proveito comum.e deve . surgiu um grupo de barões que não aceitavam submeter-se e que criaram uma república aristocrática. A classificação histórica acrescenta o ciclo político da evolução provável dos regimes políticos. Contudo. A tirania. Quando este governo virtuoso fez crescer a prosperidade. "as leis devem ser feitas segundo a constituição e não a constituição segundo as leis". Quando esta classe de aristocracia degenerou e enriqueceu a expensas da população. Aliás. por comodidade. sociológica e histórica. Por isso mesmo. 1269ª20). podemos designar de constitucional. As dificuldades em encaixar estas novas peças de puzzle é resolvida pela apresentação das formas de regime político como fases de um processo histórico. assim. A apresentação dos tipos básicos de regime. cedeu o lugar aos regimes dominados pela plebe urbana. fundada na natureza. A estes três princípios acrescentam-se outros tais como condições geográficas.

Uma vez mais assistimos ao trabalho da enteléquia. V e VI que correspondem à elaboração tardia da Política e à última década da sua vida. Aristóteles não articula a finalidade para onde se encaminha a análise porque isso seria antecipar indevidamente a contribuição das particularidades investigadas. neste caso. é o espetáculo aparentemente zoológico da pluralidade de constituições que forma o objeto da recolha pelo Liceu e de que os Livros IV. cada cidade possui conjuntos variáveis de um determinado número de funções necessárias. e que faz jus ao gênio aristotélico de inventariarão dos materiais empíricos. juizes e membros da assembléia. Após a introdução do novo esquema abstrato. mas formatos diversos. Compete à ciência política examinar. "a melhor forma de regime em absoluto". e "a forma de regime que melhor convém ao conjunto de todas as cidades". oligarquia e democracias tornam-se os regimes mais eminentes e em função dos . 6. os números de regimes a analisar é muito extenso. por seu turno. ou eleger um como determinante. e ricos proprietários. artesãos. As funções necessárias à cidade são as de agricultores. guerreiro e magistrado: rico e pobre ao mesmo tempo é que é impossível. no início do Livro IV. Como riqueza e pobreza são as partes eminentes (malista) da cidade em relação a outras menos determinantes. mercadores. sucessivamente. estes critérios dependem de princípios de apreciação do que é melhor para a cidade. Como são possíveis diversas combinatórias destas funções. seguem-se considerações concretas. Compara a cidade a um animal com vários órgãos. "a forma de regime que se estabelece segundo um pressuposto". Aristóteles extrai um programa muito claro. Em primeiro lugar. Como. Analogamente.ultrapassa em muito os seis originais. em número definido. a "forma melhor tendo em conta as circunstâncias". duas destas funções podem surgir no mesmo indivíduo. mas em por isso esse telos deixa de ficar patente e luminoso através dos dados aduzidos. trabalhadores manuais. Seria empobrecedor unificar os diversos tipos de análise num só. V e VI dão uma antevisão. Desta interação entre elementos paradigmáticos e pragmáticos que percorre toda a obra. militares. A fim de cumprir este ambicioso programa nos livros IV. é possível ser simultaneamente artesão e deliberados. magistrados. o problema do regime melhor não se pode reduzir a uma fórmula política definitiva. Aristóteles introduz um novo método analítico para distinguir mais do que as seis formas de regime. Os vários regimes ideais A coexistência de princípios gerais e materiais empíricos exigem critérios de classificação.

oligárquico ou democrático . estão reunidos todos os elementos para o legislador confiar na classe média como o bastão mais seguro da cidade. insolência. ação de demagogos. . Entrando em contacto com os platônicos Erasmo e Corisco da vizinha cidade de Scepsis. dirigiu-se para Assos. Mesmo que tenha de atuar num regime que não seja imediatamente favorável .o legislador procurará favorecer a classe média. As revoluções resultam do agravamento de incidentes mínimos. Existe uma pseudo-aristocracia em que a escolha segundo a riqueza ou o nascimento substitui o critério da meritocracia. Segue-se que a melhor vida é uma média que cada indivíduo possa atingir e o melhor regime deve refletir esta mediania. e a virtude é um justo meio (mesotes). se deixam reconduzir à desigualdade de condições sociais e à parcialidade no exercício da justiça por parte dos governantes. embora também sejam tratadas as realezas. Todos os regimes políticos se tornam deficientes relativamente à aristocracia como a melhor constituição (orthotatos). Uma vez que. sob a proteção persa. Os regimes aristocráticos ou permanecem pouco acessíveis ou aproximam-se dos chamados regimes constitucionais. Todo o Livro V estuda as revoltas e as revoluções com o duplo objetivo de conhecer o fenômeno revolucionário e os meios de preservar a estabilidade. medo. O debate sobre estes dois regimes ocupa a melhor parte do Livro IV e todo o Livro VI. Tal regime que "melhor convém ao conjunto de todas as cidades" ajudaria a resolver os conflitos sociais entre ricos e pobres. Em todas as cidades encontramos um estrato social com uma quantidade média de posses. intriga. Quando Aristóteles saiu de Atenas em 347 a. a vida feliz decorre conforme à virtude. Se acrescentarmos que a riqueza excessiva gera a insolência e a pobreza gera a criminalidade e malícia. "A melhor forma de regime em absoluto" é apresentada através de uma redefinição do regime aristocrático. O essencial da aristocracia é a "identidade absoluta entre homem bom e bom cidadão". desprezo. regime constitucional. de acordo com os princípios desenvolvidos na Ética. algo psicológicas. Entre as suas causas contam-se ressentimentos. Hermias de Atarneus elevarase da condição humilde até à situação de tirano.C. acabou por seguir-lhes o conselho.quais todos os outros devem ser analisados. aristocracia. Para Aristóteles não se tratava apenas de uma recomendação teórica. concedendo liberdades à classe média. já debatida no Livro III. e que a amizade apenas cresce entre os que são iguais em qualidades. era um dado comprovado historicamente e com repercussão direta na sua vida.C. mas todas estas causas. Na década iniciada em 350 a. transformou o regime tirânico em moderado.

A autenticidade do episódio e a sua importância decisiva para Aristóteles são comprovadas pelo hino à Virtude que depois.território e população excessivas ou escassas. localização com proximidade ao mar mas não tanto que o influxo de estrangeiros através de porto descaracterize a cidade. impõem-se as oligarquias e as democracias. da felicidade. defenda. administre. Para voltar a propor o melhor regime político. caráter servil do povo . Após breve exposição da teoria dos bens. Os livros VII e VIII reafirmam que o melhor regime é o que permite a mais plena atualização da natureza humana com estabilidade política. A cidade carece de quem a alimente. As condições de Atarneus. governe. da auto-suficiência e de outros pontos de filosofia já referidos. o dos helenos parece ser o mais adequado. das partes da alma. Em parte nenhuma existem "cem homens bons e bem-nascidos" que possam executar a política de moderação que convém à classe media. e como a atualização da natureza humana não é possível para todos. Dídimo deixou registradas as últimas palavras do governante antes de ser crucificado. escreveu em Atenas. O êxito deste levou a que várias cidades se submeteram e a esfera de influência helênica na região alargou-se. a ponto de os Persas se sentirem ameaçados. contudo. corajosamente. mas grandioso tributo. território com autarquia agrícola e facilmente defensável. negocie. economia desregulada. Deve procurar. Mas como a cidade é uma associação de indivíduos semelhantes em busca da vida melhor. quanto ao caráter. Hermias foi atraído a uma armadilha em Susa e torturado para confessar os segredos de relações diplomáticas com a Macedónia. e em que revestem de formas poéticas estes fatos históricos bem conhecidos. Aí casou com Pítias. em tempos de impopularidade da aliança Macedônica. "Digam aos meus amigos e companheiros (pros tous philous kai hetairous) que nada fiz que desmerecesse a filosofia". pois. Como a classe média é pequena. Na cidade melhor. nem todos podem partilhar na associação de iguais. os condicionalismos materiais dentro dos quais o legislador deve agir. localização e caráter natural forem insatisfatórias à partida . território. os cidadãos membros da associação governante devem ter o lazer necessário para desempenhar . E a mais importante recomendação pragmática de Aristóteles adquire o som mais de um lamento do que um programa. Se as condições de população.nem o melhor legislador pode agir bem. a polis é redefinida como um conjunto (systasis) do qual nem todos os componentes são considerados partes. eram excepcionais.entretanto concedida aos conselheiros platônicos. e embora todos sejam indispensáveis à sua existência. sobrinha e filha adotiva de Hermias. Aristóteles introduz o estudo inovador das choregiai. a quantidade de população necessária à autosuficiência. um breve.

guerreiros. Como proporcionar o quadro político para a manifestação das excelências humanas? Onde existe um grupo humano suficientemente grande para estabelecer esse regime? Não existem os "cem homens capazes". mesmo que inclua seres vivos. 7. a guerra em função da paz e as coisas necessárias em função das coisas nobres. Após as recomendações sobre o ensino da música. ginástica. oficiais e sacerdotes devem possuir a maior porção da propriedade. também depende do esforço educativo a institucionalizar. Por isso. deve preparar o homem para as atividades criadoras da vida ativa. aliás. de modo a realizar a ordem política.7 de Livro VI começam as reflexões sobre educação que ocupam todo o curto Livro VIII. A ciência política na escala das ciências e na vida A Política é um verdadeiro puzzle intelectual que só a tradição política helênica global ajuda a resolver. nem Aristóteles está a sugerir uma teoria da conquista do poder e do golpe revolucionário. Os negócios existem em função do lazer. Será isto "fascismo"? Ou oligarquia dos virtuosos? Ou platonismo às avessas? Para avaliar Aristóteles a mais de vinte e três séculos de distância é preciso ter presente que o seu problema teórico é o de reconhecer o regime melhor.os cargos de modo excelente. Aristóteles nunca perde de vista a coincidência entre o ponto de partida . A finalidade educativa é a formação de homens livres com excelências éticas e dianoéticas. como em Esparta. o manuscrito incompleto nada nos diz sobre os demais saberes liberais a ensinar: leitura e escrita. Um dado é certo: os saberes são liberais porque são libertadores. para bem da própria democracia. Mas ao longo dos meandros da obra. De fato. A recomendação da classe média era vital. não é parte da cidade. se a existência da cidade depende de circunstâncias materiais externas. a educação não é um jogo que visa relaxar e divertir após o trabalho. 1264b8-25) e. e desenho. mas esta é um instrumento (organon. No cap. Mas esta necessidade histórica não substitui um critério de apreciação. A educação não deve servir só o necessário e o útil. nem só a guerra. Mesmo os jogos das crianças devem ser antecipações das futuras atividades criativas. Além disso. Fica incompleto o programa educativo que deveria atuar sobre as pré-condições étnicas e psicológicas da população. interrompido no debate sobre a educação musical. Os ricos possuem muita propriedade. Aceita que só a democracia urbana pode ter estabilidade em época de proliferação das massas. O contexto serve para reiterar o princípio da complementaridade entre natureza e cultura. Daqui emerge a questão da separação entre negócio (ascholia) e ócio (schole).

e a Ética.Aristóteles distingue entre ciências teóricas. que é ciência da administração da casa e da família. podemos recuperar a evidente universalidade do empreendimento aristotélico que lançou as bases do que chamamos Direito Constitucional. A tradução deve-se a António Amaral. e se tivermos noção de atualização da natureza humana podemos ter critérios para julgar o valor da cidade-estado. . a Economia. Economia. A ciência práticas analisa desde a ação dos fundadores de cidade até anarquia de multidão. desde a excelência da razão até à psicologia de massas. Universidade Católica Portuguesa. poder e razão . avaliar e influenciar a vida política. fica o campo extensíssimo da ação humana. a partir do conhecimento da natureza humana e procurando saber em que consiste a felicidade (eudaimonia). A presente edição A edição bilíngüe da Política era indispensável para restituir Aristóteles ao pensamento político português e lusófono. Neste momento fundaste da filosofia prática . Pelo caminho.a filosofia política ocupa o topo da hierarquia das ciências prática porque o seu objeto engloba todas as ordens sociais e atividades humanas e seus critérios servem para ler. Sociologia. Assim se compreende que o texto da Política que chegou à posteridade constitua a segunda parte de uma ciência política (episteme politike) cuja primeira parte é a Ética. Em paralelo com as finalidades últimas da vida humana . numa época de plena constituição das ciências humanas. A finalidade da ciência política é estudar o bem humano na vida política a eudaimonia da polis é mais completa que a do indivíduo. Psicologia Social. Antropologia. A Ética estuda o que é o bem supremo.a ciência do agir público do homem ser racional (zoon noun echon) que se realiza na vida da cidade .prazer. a fim de saber o que o Estagiarista efetivamente diz e não apenas do que fala. é descritivo e valorativo: para compreender a unidade política da cidade-estado. ou sobre a razão. e ciências práticas entre as quais se contam a Política cujo objeto é o interesse comum e governo da cidade. que é a ciência da conduta do indivíduo formado. 8. temor e cupidez. Relações Internacionais. delimitado pela teoria antropológica no início da Ética (Livro I) e pela descrição do melhor regime no final de Política. é preciso compreender o homem que dela faz parte. E só hoje. O procedimento desta philosophia peri ta anthropina. ciências produtivas que visam às técnicas de bem-estar. Ciências Militares. Teoria da História.e o ponto de chegada: a política é a atualização da natureza humana. e cujo tratamento exige uma filosofia das coisas humanas. geridas através de desejo.

Barker. VEGA. 1887. Oxford.e Carlos Gomes. resumo e retirada de tópicos: INTRODUÇÃO à Política de Aristóteles Edição Bilíngüe. Berlim. 1967. a R. e a castelhana. Teubner. Madrid.P. Assírio Bacelar. W. Enfim. Lisboa. no âmbito do GEPOLIS. Paris. e outras diligências editoriais. expressamos o nosso agrado pela revisão científica do texto grego e o prefácio oportuníssimo que dignifica esta edição. a francesa. Plato and Aristotle. The political thought of Plato and Aristotle. 1906. A Manuel Silvestre agradecemos os índices de conceitos e de nomes. 2ª ed. Bekker. de salientar um par de obras que realçam a continuidade entre Platão e Aristóteles: E. The Politics of Aristotle. Oxford. Texto integral. Politica.. realizada por I. 1968 et sq. 1ª ed. Aubonnet. Belles-Lettres. Ross.. 1872 e de O. . Rosado Fernandes. cujos volumes I e II apresentam o texto paginado em duas colunas. helenista distinto. e do diretor da coleção em que a presente obra é editada. Bibliografia Leitura.U.. A João Constâncio. ao patrimônio cultural português de uma obra que.P. de W. agradecemos as facilidades concedidas para a obtenção do texto grego. 1923. a e b. 1870. 1957. Torrieri Guimarães. Leipzig.D. uma palavra especial para o discernimento do editor.. O texto grego está conforme à edição da Academia Borussica. Bonitz.17-38 Mendo Castro Henriques. de J. Ross. O. Leipzig. 1957.M. Na literatura copiosa e centenária sobre a Política de Aristóteles. L Newman. em boa hora proporcionaram a restituição. de Berlim. Oxford. Enfim. MARTIN CLARET. Marías e M. 1998 pp. A sequência dos livros foi respeitada. A Política de Aristóteles.U. Immisch. trabalho abnegado iniciado em 1994. apesar das dificuldades debatidas em obras como a grande edição comentada de W. 1909.. João Bettencourt da Câmara. Os títulos dos capítulos seguem de perto as lições de Susemihl. 2002 . 1º ed. Araujo. Universidade de Oxford. da Universidade Católica Portuguesa. O. 4 vols. 1951. Aristotle: Fundamentals of the history of his development. Aristotle. já o integrava. de J. Voegelin. E. da Universidade Clássica. Werner Jaeger. Foram ainda consultadas edições bilingues mais modernas da Política: a inglesa. da Universidade Nova. e que todos os anos se enriquece. de direito.. O volume V é o Index Aristotelicus de H.

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