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História e história da educação matemática: recuperando contribuições de uma

‘Arqueologia do saber’

Jane Bittencourt

Pensar a história da educação matemática a partir das teorias contemporâneas da


história implica recompor pressupostos sobre os saberes, os sujeitos, e suas respectivas
inscrições temporais. A esse respeito, as contribuições de Foucault em sua obra ‘A
arqueologia do Saber, datada de 1969, parecem importantes. Destacaria principalmente
dois aspectos desta obra, relevantes para pensarmos a história em sua interface com a
educação matemática: a proposta de uma outra episteme1 e a questão da enunciação.
Em primeiro lugar, destaco a proposta de Foucault de uma história
arqueológica. O autor ressalta que, nesse caso, procura-se evidenciar as práticas
discursivas, na medida em que estas dão lugar a um saber. Procura-se mostrar como a
instauração de uma ciência pode ser encontrada nas modificações, no jogo de diferenças
e relações, mas também nos desvios, defasagens, independências através dos quais
diferentes historicidades se articulam. É isto que Foucault sugere denominarmos
episteme, contrapondo-se ao que aproximamos de “uma visão do mundo, uma fatia de
história comum a todos os acontecimentos e que imporia a cada um as mesmas normas
e os mesmos postulados, um estágio geral da razão, uma certa estrutura de pensamento a
que não saberiam escapar os homens de uma época” (1995, p. 217). Esta episteme é
então definida como “o conjunto das relações que podem unir, em uma dada época, as
práticas discursivas que dão lugar a figuras epistemológicas, a ciências, eventualmente a
sistemas formalizados” (p. 217). Nessa perspectiva, não se procura estabelecer qual
seria o sistema fechado de idéias que nos possibilitaria compreender um objeto de saber.
A episteme nos permite acesso ao jogo de relações que, em certo tempo, se impõem ao
discurso, permitindo, por suas possibilidades e limitações, identificar o tecido das
práticas históricas. O exemplo dado pelo autor ilustra muito bem seu ponto de vista:
“Para analisar um quadro, pode-se reconstruir o discurso latente do pinto; pode-
se querer reencontrar o murmúrio de suas intenções que não são, em última análise,
transcritas em palavras, mas em linhas, em superfícies e cores; pode-se tentar destacar a
filosofia implícita que, supostamente, forma sua visão do mundo. É possível,
igualmente, interrogar a ciência ou pelo menos as opiniões da época, e procurar
reconhecer o que o pintor lhes tomou emprestado. A análise arqueológica teria um outro
fim: pesquisaria se o espaço, a distância, a profundidade, a cor, a luz, as proporções, os
volumes, os contornos, não foram, na época considerada, nomeados, enunciados,
conceitualizados em uma prática discursiva; e se o saber resultante dessa prática
discursiva não foi, talvez, inserido em teorias e especulações, em formas de ensino e em
receitas, mas também em processos, em técnicas e quase no próprio gesto do pintor.
Não se trataria de mostrar que a pintura ;e uma certa maneira de significar e de ‘dizer’,
que teria a particularidade de dispensar palavras. Seria preciso mostrar que, em pelo
menos uma de suas dimensões, ela é uma prática discursiva que toma corpo em técnicas
e em efeitos.” (1995, p. 220).
Este ponto de vista parece importante em relação à matemática considerando-a
ao mesmo tempo como uma ciência e como um saber que são temporalmente densos,
isto é: cujos processo de formalização, no caso da matemática enquanto ciência, e de
múltiplas configurações, no caso da matemática enquanto saber, apresentam um

1
Neste breve texto, o itálico se refere à significação foucaultiana desses termos.
longuíssimo percurso. Como sugere Foucault em suas conclusões, é exatamente nesses
casos, que a abordagem arqueológica se mostraria tão interessante.
Inseparável desta importante contribuição de Foucault situamos a noção de
enunciação, tão desenvolvida nessa obra. Ressaltamos a busca pela evidência do campo
de enunciações possíveis associadas aos saberes, que se expressa através de ‘modos de
falar’, ou seja, um jogo de escolhas que são inseparáveis de sistemas de valores. A
consideração de enunciações nos permite tratar de outra forma, por exemplo, os
registros de representação semiótica, evidenciando o deslizamento da episteme para a
ética.
Contribuição essa de grande relevância já que, no caso da matemática, como
ressalta Foucault nessa mesma obra, os enunciados são aparentemente atemporais e
impessoais (quem é o sujeito que enuncia ‘duas quantidades iguais a uma terceira são
iguais’?). Por outro lado, frases como ‘assim demonstramos que...’, tão comuns no
ensino, passam a ser acontecimentos enunciativos marcados no tempo e em múltiplos
contextos.
Concluindo, aponto, como reconheceu Foucault em sua conclusão, que à
tentativa de escapar do ‘estruturalismo’ impõe-se, muitas vezes, um método. Nesse
caso, um método que se reconhece provisório: um arquivo que faz parte das coisas ditas
e que precisa ser analisado. Quantos arquivos possíveis temos a respeito da educação
matemática!

Referência bibliográfica:

Foucault, M. A arqueologia do saber. 4ª. edição. Rio de Janeiro: Forense Universitária,


1995.