GONÇALVES DIAS

I - Prodígio
Naquele instante em que vacila a mente Do sono ao despertar, quando pejada Vem doutros mundos de visões etéreas; Quando sobre a manhã surge brilhante A luz da madrugada, - eu vi!... nem sonhos Era a minha visão, real não era; Mas tinha d'ambos o talvez. - Quem sabe? Foi capricho falaz da fantasia, Ou foi certo aventar d'eras venturas? A ira do Senhor baixou tremenda Sobre uma vasta capital! - em pedra Tornou-se a gente impura. Muitos homens Às portas férreas, largas, vi sentados. Melhor do que um pintor ou estatuário A morte, que de súbito os colhera No ardor, no afã da vida, conservou-lhes A ação - partida em meio, com tal força, Que a mente seu malgrado a completava. Um tinha os lábios entreabertos; outro Parecia sorrir; mais longe aquele Derramava um segredo, baixo, a medo, Nos ouvidos do amigo; austero o guarda Com rosto carregado e barba hirsuta, Nas mãos calosas sopesava a lança. Dos mercadores na comprida rua Passavam muitos compradores; - este Contava montes d'oiro; - à luz aquele Expunha a seda do Indostão, de Tiro A púrpura brilhante, a damasquina Custosa tela entretecida d'oiro. Cortês sorrindo, o mercador gabava As cores vivas, o tecido, o corpo Do estofo que vendia. Nos serralhos Era o Eunuco imperfeito; das Mesquitas Bradava à prece o Muezim... - Num largo, Fofo e vasto divã sentado, um velho Os versos lia do Alcorão; - só ele Dentre tanto punir ficara ileso.

O canto do guerreiro
I Aqui na floresta Dos ventos batida, Façanhas de bravos Não geram escravos,

Que estimem a vida Sem guerra e lidar. - Ouvi-me, Guerreiros. - Ouvi meu cantar. II

Valente na guerra Quem há, como eu sou? Quem vibra o tacape Com mais valentia? Quem golpes daria Fatais, como eu dou? - Guerreiros, ouvi-me; - Quem há, como eu sou? III Quem guia nos ares A frecha imprumada, Ferindo uma presa, Com tanta certeza, Na altura arrojada Onde eu a mandar? - Guerreiros, ouvi-me, - Ouvi meu cantar. IV Quem tantos imigos Em guerras preou? Quem canta seus feitos Com mais energia? Quem golpes daria Fatais, como eu dou? - Guerreiros, ouvi-me: - Quem há, como eu sou? V Na caça ou na lide, Quem há que me afronte?! A onça raivosa Meus passos conhece, O imigo estremece, E a ave medrosa Se esconde no céu. - Quem há mais valente, - Mais destro do que eu? VI Se as matas estrujo Co os sons do Boré,

Canção do exílio

Mil arcos se encurvam, Mil setas lá voam, Mil gritos reboam, Mil homens de pé Eis surgem, respondem Aos sons do Boré! - Quem é mais valente, - Mais forte quem é? VII Lá vão pelas matas; Não fazem ruído: O vento gemendo E as malas tremendo E o triste carpido Duma ave a cantar, São eles - guerreiros, Que faço avançar. VIII E o Piaga se ruge No seu Maracá, A morte lá paira Nos ares frechados, Os campos juncados De mortos são já: Mil homens viveram, Mil homens são lá. IX E então se de novo Eu toco o Boré; Qual fonte que salta De rocha empinada, Que vai marulhosa, Fremente e queixosa, Que a raiva apagada De todo não é, Tal eles se escoam Aos sons do Boré. - Guerreiros, dizei-me, - Tão forte quem é? Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores. Em cismar, sozinho, à noite, Mais prazer eu encontro lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá.

Do tamarindo a flor jaz entreaberta. Não permita Deus que eu morra.. Tu que fazes gemer pendido o cedro. Onde o frouxo luar brinca entre flores. Outro amor nunca tive: és meu. Do tamarindo a flor abriu-se. ou dia ou noite. De Primeiros cantos (1847) Leito de Folhas Verdes Por que tardas. Já nos cimos do bosque rumoreja. Não sentiram meus lábios outros lábios. Sem que disfrute os primores Que não encontro por cá. à noite± Mais prazer eu encontro lá. Onde canta o Sabiá. Brilha a lua no céu. De luz. Vai seguindo após ti meu pensamento. Turbar-se o claro rio? A. No silêncio da noite o bosque exala. Já solta o bogari mais doce aroma! Como prece de amor. Sejam vales ou montes. Melhor perfume ao pé da noite exala! Não me escutas. brilham estrelas. Que tais não encontro eu cá. melhor que a vida! A flor que desabrocha ao romper d'alva Um só giro do sol. ousara Da glória o poderio. Correm perfumes no correr da brisa. E trêmulo . A cujo influxo mágico respira-se Um quebranto de amor. Jatir. como estas preces. não mais. Sem qu'inda aviste as palmeiras. HERCULANO Um raio Fulgura No espaço Esparso. que em vão te chama! Tupã! lá rompe o sol! do leito inútil A brisa da manhã sacuda as folhas! A Tempestade Quem porfiar contigo. Minha terra tem palmeiras.Minha terra tem primores. Sem que eu volte para lá. Jatir! nem tardo acodes À voz do meu amor. Onde quer que tu vás. há pouco. como estas flores. movendo as folhas. Jatir. que não as tuas A arazóia na cinta me apertaram. Em cismar ±sozinho. sou tua! Meus olhos outros olhos nunca viram.. Onde canta o Sabiá. Já solta o bogari mais doce aroma Também meu coração. lago ou terra. Nem outras mãos. Eu sob a copa da mangueira altiva Nosso leito gentil cobri zelosa Com mimoso tapiz de folhas brandas. vegeta: Eu sou aquela flor que espero ainda Doce raio do sol que me dê vida. que tanto a custo À voz do meu amor moves teus passos? Da noite a viração.

mirra o tronco. Inda ronca o trovão retumbante. Remexe-se a copa dos troncos altivos. O forte peso em turbilhão mudado. estoura. E o penedo. Parecendo mudar a terra em lago. De negro a tingir. Da nuvem densa. Seduz! Vem a aurora Pressurosa. . E atira-os raivoso dos montes além. Até que lascados baqueiam no chão. Cor de rosa. Disseras que viras vagando Nas furnas do céu entreabertas Que mudas fuzilam. mas bela. fulge. Já por fim. ² dum ponto a outro corre: Devorador incêndio alastra os ares. ² salgadas As ondas s¶estanham. S¶esquiva Rutila. É mudo quanto habita Da terra n¶amplidão. Logo um raio cintila e mais outro. Doirando a fonte. No ar s¶encapela Já pronta a rugir! Não solta a voz canora No bosque o vate alado. Fogem do vento que ruge As nuvens aurinevadas.E puro Se aviva. Os troncos enlaça nas asas de ferro. A coma então luzente Se agita do arvoredo. que as nuvens devassa. Que alpestres cimos mais veloz percorre. Ardendo na usada sanha. Um clarão momentâneo que brilha. Transtorna-se. atroa. Nos últimos cimos dos montes erguidos Já silva. E um manto belo De vivas cores Adorna as flores. Eis outro inda mais perto. Que um canto d¶inspirado Tem sempre a cada aurora. Estorcem-se os leques dos verdes palmares. Enquanto a noite pesa sobre os mares. Inda o raio fuzila no espaço. que no espaço ondeia. ² incertas Fantasmas do gênio do mal! E no túrgido ocaso se avista Entre a cinza que o céu apolvilha. pesadas Batendo no frouxo areal. E o prado e o monte E o céu e o mar. O céu. Deixando a palhoça singela. que os sentidos nos enleia. Troveja. Oh! vede a procela Infrene. Ainda outro veloz. Das ruínas completa o grande estrago. Cega o triste que iroso ameaça. Que eram belas. A seus raios As estrelas. Da chuva. E o corisco num rápido instante Brilha. doudejam nos ares. E o vento. baqueia também. já ruge do vento o pegão. inda mais rouco. e fugiu. Rasga-se o negro bojo carregado. Estilham-se como as velas Que no alto mar apanha. Subitâneo vendaval. Como tronco sem viço partiu. Que se cora De carmim. Mas se à terra desceu. e dentro em pouco Do Norte ao Sul. rutila. Tem desmaios. rebramam. Que entre verdores Se vê brilhar. fascinante. e n¶amplidão do espaço morre. Que o dia entristece. Um som longínquo cavernoso e ouco Rouqueja. tolda. que as rochas abala no cerro. Qual centelha que em rápido instante Se converte d¶incêndios em mar. Sentindo opresso o peito De tanta inspiração. Um ponto aparece. Sem das nuvens o seio rasgar. Como ovelhas assustadas Dum fero lobo cerval. O sol desponta Lá no horizonte. E enquanto a luz do raio o sol roxeia. E o vate um canto a medo Desfere lentamente. Humilde labor da pobreza. Volteiam. onde cresce. Bem como serpentes que o frio Em nós emaranha. Onde parece à terra estar colado.

Que a foice do tempo poupara.Da nossa vaidosa grandeza. ² Imitam as nuvens de um céu anilado. E treme E cai. me responde. . Tal a chuva Transparece. Responde anojado. têm meigo brilhar. Cresce a chuva. Pobres regatos s¶empolam. Quando desce E ainda vê-se O sol luzir. flutuantes. Que viu crescer a enchente E desce descuidoso Ao vale. são cor das safiras. qu¶inda há pouco No torrado leito ardia. De Deus o farol. Dão antes crua morte. luzentes. Inda outro arqueia. Depois chora E torna a rir. Nivela os fastígios sem dó. Inteiros. os rios crescem. quando sente Crescer dum lado e d¶outro O mar da aluvião! Os troncos arrancados Sem rumo vão boiantes. Como embotado De tênue véu. Quase apagado. E os tetos arrasados. Que numa hora Ri-se e cora. Palpita. É já torrente bravia. Mais desbotado. A folha Luzente Do orvalho Nitente A gota Retrai: Vacila. Que da praia arreda o mar. Nas águas pousa. "Tu és Marabá!" ² Meus olhos são garços. Que asilo e proteção! Porém no ocidente S¶ergue de repente O arco luzente. Como a virgem. E a base viva De luz esquiva. Sucedem-se as cores. Palácio ou mesquita preclara. Mas ai do desditoso. Marabá Eu vivo sozinha. Mais grossa Hesita. ² Têm luz das estrelas. Em breves momentos é pó. ninguém me procura! Acaso feitura Não sou de Tupá! Se algum dentre os homens de mim não se esconde: ² "Tu és". "mas és Marabá: "Quero antes uns olhos bem pretos. E a curva altiva Sublima ao céu. Qu¶imitam as flores Que sembram primores Dum novo arrebol. E nas turvam ondas rolam Grossos troncos a boiar! O córrego. ² As cores imitam das vagas do mar! Se algum dos guerreiros não foge a meus passos: "Teus olhos são garços". E os templos e as grimpas soberbas.

são belos. Se ainda me escuta meus agros delírios: ² "És alva de lírios". bem lisos. Onde livre corre a mente." ² Meu colo de leve se encurva engraçado. ² Como um soluçado suspiro de amor! ² "Eu amo a estatura flexível. não cor d'anajá!" ² É alvo meu rosto da alvura dos lírios. ² Da cor das areias batidas do mar. indolente. Doces terras d'além-mar! Oh! dias de sol formoso! Oh! noites d'almo luar! Desertos de branca areia De vasta. "tu és Marabá: "Quero antes o colo da ema orgulhosa. nem cor d'anajá. "mas és Marabá: "Quero antes um rosto de jambo corado. resvalo no prado. ² As brisas nos bosques de os ver se enamoram ² De os ver tão formosos como um beija-flor! Mas eles respondem: "Teus longos cabelos. chorando mesquinha. Livre bate o coração! Onde a Ieda caravana Rasga o caminho passando. "Um rosto crestado "Do sol do deserto. ² Como hástea pendente do cáctus em flor. ² As aves mais brancas. imensa extensão."Uns olhos fulgentes. "Bem pretos. Qual duma palmeira". ² Mimosa. "Mas são anelados. "São loiros. tu és Marabá: "Quero antes cabelos." ² Meus loiros cabelos em ondas se anelam. ² O oiro mais puro não tem seu fulgor. Sorrindo responde. ligeira. Preso à cinta do Africano! ." ²²²² E as doces palavras que eu tinha cá dentro A quem nas direi? O ramo d'acácia na fronte de um homem Jamais cingirei: Jamais um guerreiro da minha arazóia Me desprenderá: Eu vivo sozinha. "Cabelos compridos. não flor de cajá. não têm mais brilhar. ó doux nom que l'exil fait comprendre! Marino Faliero Oh! doce país de Congo. Onde bem longe se escuta As vozes que vão cantando! Onde longe inda se avista O turbante muçulmano. corridos. Que sou Marabá! A escrava O biem qu'aucun bien ne peut rendre. Que pisa vaidosa. "Não cor d'oiro fino. retintos. Então me respondem. O Iatagã recurvado. "Que as flóreas campinas governa. as conchas mais puras ² Não têm mais alvura. O Patrie. onde está.

Quando sequer uma estrela Não se pintava no céu. Acaso temes alguém? "Não receies de ser vista. medroso. não fui eu. ² Pois a vida Seja instantes de prazer. depois morrer Só nos resta!. Falam Deuses nos cantos do Piaga." Assim praticando amigos A aurora nos vinha achar! Oh! doces terras de Congo. que o acendi! Eis rebenta a meus pés um fantasma. onde fores!" E tremendo e palpitando Me cingia aos meus amores. Um fantasma d'imensa extensão. Onde vivera tão ditosa. Tudo agora jaz dormente. Manitôs! que prodígios que vi! Arde o pau de resina fumosa. O canto do Piaga I Ó Guerreiros da Taba sagrada. Mísera escrava! no sofrer cruento. não tenhas medo: Vem comigo... porque tinha um peito. Feia cobra se enrosca no chão. Expressão de amor ardente? Quem o ouviu? ² o som perdeu-se No fragor desta corrente. Onde nascera.. carnes ² tremi.Onde o sol na areia ardente Se espelha. não me fujas. Rouca voz começou-me a chamar. Frio horror me coou pelos membros Frio vento no rosto senti. inquieto. Eu o aguardava ² sentada Debaixo da bananeira. Sem o pranto enxugar a triste escrava Pávida voa. Minha Alsgá. que habito. Doces terras d'além-mar! Quando a noite sobre a terra Desenrolava o seu véu. Quando só se ouvia o sopro De mansa brisa fagueira. Minha voz mesmo se perde No fragor desta corrente. Ó Guerreiros da Tribo Tupi. Era feio. Um rochedo ao pé se erguia. e onde Morrer devera! Sofreu tormentos. Esta noite ² era a lua já morta ² Anhangá me vedava sonhar. .. por que estremeces? Por que me foges assim? Não te partas. "Congo!" dizia. vem sentar-te Sobre o cimo do rochedo. Eis na horrível caverna. Não fui eu. medonho. como no mar. E ele às vezes me dizia: ² "Minha Alsgá. Mas era em mora por cismar na terra. Ele depois me tornava Sobre o rochedo ² sorrindo: ² "As águas desta corrente Não vês como vão fugindo? "Tão depressa corre a vida. Dele à base uma corrente Despenhada sobre pedras. Liso crânio repousa a meu lado." E eu respondia animosa: ² "Irei contigo. Doces terras d'além-mar! Do ríspido Senhor a voz irada Rábida soa. Abro os olhos. Oh! doces terras de Congo. Ó Guerreiros. "Minha Alsgá. "Os olhos em torno volves Espantados ² Ah! também Arfa o teu peito ansiado!. O meu sangue gelou-se nas veias. tremendo. Todo inteiro ² ossos. Murmurava docemente. Qu¶inda sentia. Que a vida me foge a mim! "Outro beijo acaso temes. meus cantos ouvi.

Hartos troncos. Tu não viste nos céus um negrume Toda a face do sol ofuscar. Triste asilo por ínvio sertão. Falam Deuses nos cantos do Piaga. O marinho arcabouço arrancar? Nossas terras demanda. Esse monstro. menos esgotado ao menos que o sentimentalismo tão fasbionable desde Werther até René. Vossos Deuses. Hão de os velhos servirem de escravos Mesmo o Piaga inda escravo há de ser! Fugireis procurando um asilo. e não sabes. o espectro que eu vi. uma caricatura de Rabelais. e vem. ó Piaga divino? Começou-me a Visão a falar. isto aqui é um tema. Vendo os vossos quão poucos serão. . Susta as iras do fero Anhangá. fareja . Tais e quais. Maracá. Manitôs já fugiram da Taba. um . é só! Negro monstro os sustenta por baixo. robustos. conjura. leitor. Ó Guerreiros. Fígaro e o Sganarello de D. Por um espírito de contradição. Vem roubar-vos a filha. Quixote. Traz embira dos cimos pendente ²Brenha espessa de vário cipó ² Dessas brenhas contêm vossas matas. Seus estrídulos torva soltar? Tu não viste dos bosques a coma Sem aragem ² vergar-se e gemer. É que a unidade deste livro funda-se numa binomia: ² duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro. Bardolph. Manitôs já fugiram da Taba! Ó desgraça! ó ruína! ó Tupá! III Pelas ondas do mar sem limites Basta selva. E não podes augúrios cantar?! Ouve o anúncio do horrendo fantasma. Vem trazer-vos algemas pesadas. Não ouviste a coruja. ó Piaga divino! E Anhangá te proíbe sonhar! E tu dormes. Vem quebrar-vos a maça valente.. Nem a lua de fogo entre nuvens. Qual em vestes de sangue. Quase que depois de Ariel esbarramos em Caliban. sir John Falstaff. sem folhas. Ouve os sons do fiel Maracá. quando os homens se vêem inundados de páginas amorosas preferem um conto de Bocaccio. o que quer? Vem matar vossos bravos guerreiros. nascer? E tu dormes. mas com folhas. verdadeira ilha Baratária de D. ao voltar esta página! Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico. onde Sancho é rei e vivem Panúrgio. verdadeira medalha de duas faces. senão mais novo. meus cantos ouvi! II Por que dormes. impiedade ² Dons cruéis do cruel Anhangá. Anhangá de prazer há de rir-se. Que nos ares pairando ²lá vão. uma cena de Falstaff no Henrique IV de Shakespeare. A razão é simples. Com que a tribo Tupi vai gemer. Oh! quem foi das entranhas das águas. . Ó desgraça! ó ruína! ó Tupá! Lira dos Vinte Anos/Prefácio da Segunda Parte Álvares de Azevedo Cuidado. Profanar Manitôs. ó Piaga. Como um bando de cândidas garças. Brancas asas abrindo ao tufão. Vossas matas tais monstros contêm. terra fantástica. João Tenório: ² a pátria dos sonhos de Cervantes e Shakespeare..Ó Guerreiros. ó Piaga. de dia. gigantes. Vamos entrar num mundo novo. Demais. a mulher! Vem trazer-vos crueza. Por que dormes? O sacro instrumento De per si já começa a vibrar. perdoem-me os poetas do tempo. ² o que vem cá buscar? Não sabeis o que o monstro procura? Não sabeis a que vem.

poeta ardente Que ilumina o clarão das gotas pálidas Do nobre Johannisberg! Nos teus romances Meu coração deleita-se... divisível até ao extremo. Agora basta. o que pode senão fazer o poema dos amores da vida real? Poema talvez novo.. LAMARTINE. mon baton. a alma ainda trêmula e ressoante da febre do sangue. Antes da Quaresma há o Carnaval. sem companheiro. vem a sátira que morde. descarna e injeta de fel cada vez mais o coração. Parece-me que vou perdendo o gosto. dos liliputianos poetastros. Tem na lira do gênio uma só corda... é um ente que tem corpo. O poema então começa pelos últimos crepúsculos do misticismo. É assim. nem poetar. o que é mais. Goethe depois de Werther criou o Faust. Ficarás tão adiantado agora. Vivo fumando. Mas pranteia uma eterna monodia.. Depois a doença da vida. A poesia puríssima banha com seu reflexo ideal a beleza sensível e nua. Minha casa não tem menores névoas Que as deste céu d¶inverno. Homero escreveu o poema irônico. Fantástico alemão. tem fibra e tem artérias ² isto é. É quando a poesia cegou deslumbrada de fitar-se no misticismo e caiu do céu sentindo exaustas as suas asas de oiro.. de amor suspira. e que sem ser obsceno pode ser erótico. O Lamartine É monótono e belo como a noite.. Basta de Shakespeare. como se não lesses essas páginas.. antes e depois de ser um ente idealista. brilhando sobre a vida como a tarde sobre a terra. mon chapeau.. sem esses elementos. a Deus se volta. até prefácios! Idéias Íntimas Fragmento La chaise où je m¶assieds. sonha de noite as belas visões palpáveis de acordado.provérbio fantástico daquele polisson Alfredo de Musset. / De cet espace étroit sont tout l¶ameublement. la natte où je me couche. Depois de Parisina e o Giaour de Byron vem o Cain e Don Juan ² Don Juan que começa como Cain pelo amor e acaba como ele pela descrença venenosa e sarcástica. destinadas a não serem lidas. Se pranteia por Deus. sente e. Há uma crise nos séculos como nos homens. Nos mesmos lábios onde suspirava a monodia amorosa. a alma que ama e canta. meu leitor. Tem nervos. Demais. Deus me perdoe! assim é tudo!. não há poesia. O poeta acorda na terra. O que acontece? Na exaustão causada pelo sentimentalismo.. a todas as ternuras elegíacas dessa poesia de arremedo que anda na moda e reduz as moedas de oiro sem liga dos grandes poetas ao troco de cobre. Vou ficando blasé: passeio os dias Pelo meu corredor. ouve. Vem tu agora. o poeta é homem: Homo sum. como dizia o célebre Romano.. ² Fibra de amor e Deus que um sopro agita! Se desmaia de amor. Jocelyn I Ossian ² o bardo é triste como a sombra Que seus cantos povoa. Sem ler. Digam e creiam o que quiserem: ² todo o vaporoso da visão abstrata não interessa tanto como a realidade formosa da bela mulher a quem amamos. sem ser monótono. Como a lua no mar e o som das ondas. Contudo. E. que sou o primeiro a reconhecer muito prosaicos.. /La table ou je t¶écris Mes gros souliers ferrés. porque sua vida é amor e canto. Depois dos poemas épicos. mas que encerra em si muita verdade e muita natureza. Solitário . que não dá ao mundo objetivo cores tão azuladas como o nome britânico de blue devils.. digam o que quiserem. / Mês libres pêle-mêle entassés sur leur planche. Vê.

Desce a teia de aranha as bambinelas À estante pulvurenta. o volumoso abdômen. Pálida sombra de mulher formosa Entre nuvens azuis pranteia orando. Talvez sonhando desatei sorrindo Alguma vez nos ombros perfumados Esses cabelos negros e em delíquio Nos lábios dela suspirei tremendo. Homem sublime! O poeta de Deus e amores puros! Que sonhou Triboulet... Foi do homem secular as esperanças: No berço imperial um céu de agosto Nos cantos de triunfo despertou-o. ou Lamartine Mostra que o romantismo se descuida E que a poesia sobrenada sempre Ao pesadelo clássico do estudo. Como um Éden de noites deleitosas. E dizem que. Além o romantismo! Borra adiante folgaz caricatura Com tinta de escrever e pó vermelho A gorda face. e ao lado dele Childe-Harold entreaberto... Naquele seio Porventura sonhei douradas noites. os livros Sobre as poucas cadeiras se confundem. Olhar de Bonaparte em face austríaca. Só pode o menestrel sagrar-te prantos! VI Junto a meu leito. Ao longo das paredes se derramam Extintas inscrições de versos mortos.. inda verbera As águas d¶oiro do Cognac ardente: Negreja ao pé narcótica botelha Que da essência de flores de laranja Guarda o licor que nectariza os nervos. Odeio o lasquenet. ou Valasco. E mortos ao nascer!. A história dele?. ² Um sonho de mancebo e de poeta. As águias de Wagram e de Marengo Abriam flamejando as longas asas Impregnadas do fumo dos combates Na púrpura dos Césares.. à flor das ondas De um rio que se perde na floresta. Alma de fogo na mundana argila Que as harpas de Sion vibrou na sombra. Um roxo dominó as costas volta A um cavaleiro de alemães bigodes. Como outrora do mundo os elementos Pela treva jogando cambalhotas.. Aos grossos beiços a garrafa aperta. Como a beleza que o Sultão despreza. Cabeça de profeta. El-Dorado de amor que a mente cria...... A terra Tremeu ao sepultar-se o Rei de Roma Pode o mundo chorar sua agonia E os louros de seu pai na fronte dele Infecundos depor. ungido crente. cabelos soltos. Por ele a George Sand morreu de amores.. III Reina a desordem pela sala antiga. Foi-se a minha visão. Como c¶roa soberba. Um preto beberrão sobre uma pipa. Olhos fitos no céu... Pela noite do século chamando A Deus e à liberdade as loucas turbas. É um retrato talvez. Estrela morta..Passo as noites aqui e os dias longos.. Meu quarto. A roupa. Dei-me agora ao charuto em corpo e alma: Debalde ali de um canto um beijo implora.. Marca a folha do Faust um colarinho E Alfredo de Musset encobre. mundo em caos.. sombria. Metido num tonel. às vezes De Guerreiro. um texto obscuro. Meu cachimbo alemão abandonado! Não passeio a cavalo e não namoro. Palavra d¶honra! Se assim me continuam por dois meses Os diabos azuis nos frouxos membros... aquele moço Pálido. Defronte. ² Na larga fronte Erguidos luzem os cabelos louros. E diz a crônica Que foi aos tribunais parar um dia Por amar as mulheres dos amigos E adúlteros fazer romances vivos. guardando-o. espera um Fiat! IV Na minha sala três retratos pendem: Ali Victor Hugo. E um passado de lágrimas. com as mãos unidas. A mesa escura cambaleia ao peso Do titâneo Digesto. E o gênio do futuro parecia Predestiná-lo à glória. E a grossa penca do nariz purpúreo Do alegre vendilhão entre botelhas. Na minha cômoda Meio encetado o copo.... Ali mistura-se o charuto havano Ao mesquinho cigarro e ao meu cachimbo..... E resta agora Aquele vaga sombra na parede .. Aqui voa um cavalo no galope. pensativo. II Enchi o meu salão de mil figuras. Marion Delorme E Esmeralda ² a Cigana.... a fronte erguida. V Aquele é Lamennais ² o bardo santo.... Era ali que eu podia no silêncio Junto de um anjo. Resta um crânio nas urnas do estrangeiro. Ali na alcova Em águas negras se levanta a ilha Romântica. Dou na Praia Vermelha ou no Parnaso...... Um loureiro sem flores nem sementes.

. a mão no seio. a sala muda! Amorosa visão. embalde as minhas lágrimas Banham meus olhos.. E quando a fada Que diviniza meu pensar ardente Um instante em seus braços me descansa E roça a medo em meus ardentes lábios Um beijo que de amor me turva os olhos... Mais trêmulo que Faust. VII Em frente do meu leito.. Imploro uma ilusão. O encanto do meu sonho se evapora.² Fantasma de carvão e pó cerúleo! ² Tão vaga. sentado no leito. Oh! quanta s vezes. mulher dos sonhos.. E como a nívea mão recata o seio.. Junto deles Meu velho candeeiro se espreguiça E parece pedir a formatura... E a mente errante devaneia em mundos Que esmalta a fantasia! Oh! quantas vezes Do levante no sol entre odaliscas Momentos não passei que valem vidas! Quanta música ouvi que me encantava! Quantas virgens amei! que Margaridas. Porque ser tão formosos. No doce berço do moreno seio Minha vida embalou estremecendo. se devíeis Me abandonar tão cedo. Foram sonhos contudo! A minha vida Se esgota em ilusões. Meu leito juvenil. pelas noites minhas Passam tantas visões sobre meu peito! Palor de febre meu semblante cobre. Quando louco. É uma estampa De bela adormecida.. As longas horas olvidei libando Ardentes gotas de licor dourado. Em teu asilo Eu sonho-me poeta e sou ditoso. Shakespeare e Byron Na mesa confundidos.... Mais feliz que Don Juan e Lovelace Não apertei ao peito desmaiando! Ó meus sonhos de amor e mocidade...... nas minhas pálpebras O alento fresco e leve como a vida Passar delicioso. e suspiro e gemo. Como padrão às lâmpadas futuras! XII Aqui sobre esta mesa junto ao leito Em caixa negra dois retratos guardo: Não os profanem indiscretas vistas. Perfumada visão romper a nuvem.. A febre aponta da noturna insônia. E a donzela ideal nos róseos lábios. E das nuvens de nácar da ventura Rolo tremendo à solidão da vida! IX Oh! ter vinte anos sem gozar de leve A ventura de uma alma de donzela! E sem na vida ter sentido nunca Na suave atração de um róseo corpo Meus olhos turvos se fechar de gozo! Oh! nos meus sonhos... Um espírito negro me desperta.. tão extinta e fumacenta Como de um sonho o recordar incerto. A rósea face Parece em visos de um amor lascivo De fogos vagabundos acender-se. Quer eu perdesse a noite sobre os livros. Bate meu coração com tanto fogo! Um doce nome os lábios meus suspiram.. Eu sou tão infeliz. Tu não me abandonaste nas vigílias. Quero-te muito bem.. Aqui lânguido à noite debati-me Em vãos delírios anelando um beijo. ó velador noturno. vindo a pachorra.. e vejo lânguida No véu suave de amorosas sombras Seminua. me enlanguece a fronte. eu não beijava. Não encheste minh¶alma de ventura.. Esqueci-as no fumo. . eu sofro tanto! Nunca virás iluminar meu peito Com um raio de luz desses teus olhos? X Meu pobre leito! eu amo-te contudo! Aqui levei sonhando noites belas. pensativo Relesse as minhas cartas de namoro. ideal mimoso.. Um nome de mulher.. e eu acordava Arquejando a beijar meu travesseiro? XI Junto do leito meus poetas dormem ² O Dante... ó meu comparsa Nas doudas cenas de meu drama obscuro! E num dia de spleen. A minha amante dorme.. sedento e arquejante Meus tristes lábios imprimi ardentes No poento vidro que te guarda o sono! VIII O pobre leito meu. Que Elviras saudosas e Clarissas. inda a procuro: Embalde a chamo. da minha vida És a página d¶oiro. tudo é silêncio! Só o leito deserto.. Ó meu amigo.. Quer. na leitura Das páginas lascivas do romance. a Bíblia. Eu beijo-os cada noite: neste exílio Venero-os juntos e os prefiro unidos. Que delírios! Acordo palpitante. abatida. Sentar-se junto a mim. Hei de evocar-te dum poema heróico Na rima de Camões e de Ariosto. desfeito ainda... Me ateia o sangue. em negro quadro..

Sobre meu peito Lancem-os em meu túmulo... fogoso Cognac! É só contigo Que sinto-me viver........ XIV Parece que chorei. Onde a lua na praia macilenta Vem pálida luzir. Derrama no meu copo as gotas últimas Dessa garrafa negra. Na minha terra Laisse-toi donc aimer! Oh! l¶amour c¶est la vie! C¶est tout ce qu¶on regrette et tout ce qu¶on envie. ao menos.......... Se posso no viver sonhar com ela. que dorme e que suspira... Vibram-me os nervos e as artérias queimam... Eia! bebamos! És o sangue do gênio. E o céu azul e o manto nebuloso Do céu de minha terra. Quando os eflúvios dessas gotas áureas Filtram no sangue meu correndo a vida... traz fogo e dois charutos E na mesa do estudo acende a lâmpada.. Não os abra ninguém. Mas ela não o quis........ La beauté c¶est le front.. Nos lábios frios comprimir chorando.. Sinto na face Uma perdida lágrima rolando..... meu pagem.. Eu me esquecia: Faz-se noite. Quand on voit sa jeunesse au couchant décliner! ..... murchas....... Sua imagem divina ter no peito.. Satã leve a tristeza! Olá.. Como véu de donzela em branco seio. ..² Meu pai e minha mãe! Se acaso um dia... Que seus braços me estende. Mais doce Será certo o dormir da noite negra Tendo no peito essas imagens puras.. XIII Havia uma outra imagem que eu sonhava No meu peito...... As estrelas do céu. na vida e no sepulcro. A restinga d¶areia onde rebenta O oceano a bramir. Na minha solidão me acharem morto... Essa trança beijar de seus cabelos E essas violetas inodoras... Onde eu pintara meus dourados sonhos... l¶amour c¶est la couronne: Laisse-toi couronner! V... Não poderei na sepultura... .... o puro néctar Que as almas de poeta diviniza. HUGO I Amo o vento da noite sussurrante A tremer nos pinheiros E a cantiga do pobre caminhante No rancho dos tropeiros. E os monótonos sons de uma viola No tardio verão. E a névoa e flores e o doce ar cheiroso Do amanhecer na serra. E o longo vale de florinhas cheio E a névoa que desceu........ E a estrada que além se desenrola No véu da escuridão....... Dentre a sombra Vejo num leito d¶ouro a imagem dela Palpitante. Os meus olhos ardentes se escurecem E no cérebro passam delirosos Assomos de poesia.. O condão que abre o mundo das magias! Vem.. rompeu a tela... Inda palpito..

Que Deus abriu no peito do poeta.. a argêntea praia Que beija o mar do sul.. Como de um anjo na cheirosa trilha Respiro o amor do céu! Melhor a viração uma por uma Vem as folhas tremer... Nas praias lisas a maré enchente S'espraia cintilante d'ardentia.. Onde os serros fantásticos roxeiam Nas tardes de verão E os suspiros nos lábios incendeiam E pulsa o coração! Sonho da vida que doirou e azula A fada dos amores. a alvacenta aurora Da montanha natal.. E a floresta saudosa se perfuma Da noite no morrer. E eu amo as flores e o doce ar mimoso Do amanhecer da serra E o céu azul e o manto nebuloso Do céu da minha terra! Luar de verão O que vês. Mas venha triste... . és sempre bela.II Não é mais bela. ó minha lua. eu curvo a fronte ao sentimento Sobre os joelhos seus. Então.. Que me importa? se as tardes purpurinas E as auroras dali Não deram luz às diáfanas cortinas Do leito onde eu nasci? Se adormeço tranqüilo no teu seio E perfuma-se a flor. trovador? . No azul do firmamento inda é mais pálida Que em cinzas do fogão uma candeia.e tremo de paixão ao vê-las As nuvens a dormir. Inda pálida a vida Como o sono inocente da donzela No deserto dormida! No italiano céu nem mais suaves São da noite os amores. como carneiros. Que saudades e amor que influi na mente Da montanha o frescor! E quando. não doire embora O verão tropical Com seus rubores..... Nem tão doirada se levante a lua Pela noite do céu.. não. pensativa e nua Do prateado véu. E é saudoso viver nessa dormência Do lânguido sentir. Não tem mais fogo o cântico das aves Nem o vale mais flores! III Quando o gênio da noite vaporosa Pela encosta bravia Na laranjeira em flor toda orvalhosa De aroma se inebria.... à noite no luar saudoso Minha pálida amante Ergue seus olhos úmidos de gozo E o lábio palpitante. trovador? . No luar junto à sombra recendente De um arvoredo em flor. na sombra do horizonte.Eu vejo a lua Que sem lavar a face ali passeia.. Mais formosa não é..No céu formoso Ao sopro dos favônios feiticeiros Eu vejo . Orando por seu Deus. Brilhando em nuvem negra estrela viva Como na treva a ponta de um charuto... Teu romantismo bebo. trovador? .. Torno-me vaporoso. E a alma pura nos seus olhos brilha Em desmaiado véu. além se encontra a luz sobre um rochedo Tão liso como um pau de cabeleira.No esguio tronco Vejo erguer-se o chinó de uma nogueira.. E vejo além.. Como viúva moça envolta em luto.. E quando sua voz entre harmonias Sufoca-se de amor E dobra a fronte bela de magias Como pálida flor. Onde eterno perfume a flor desmaia E o céu é sempre azul.. Nos enganos suaves da existência Sentindo-se dormir. Cheia da argêntea luz do firmamento. A teus raios divinos me abandono. O que vês.. Em vez de aromas as doiradas ondas Respiram efluviosa maresia! O que vês. Onde a mangueira ao vento que tremula Sacode as brancas flores. e só de ver-te Eu sinto os lábios meus se abrirem de sono.. Gotejante de amor? Minha terra sombria.

... ² Aretino! essa incrível criatura Lívida... Boileau e o fabuleiro LaFontaine E tantos que melhor decerto fora De poetas copiar algum catálogo. onda de lodo Em que do gênio profanou-se a pérola............. Calderón.... Vaso d¶ouro que um óxido terrível Envenenou de morte.. Por ti . É mentira! Desde Homero (que até pedia cobre).. Pela rubra maçã não se perdera: Preferira decerto o louro amante Que tine tão suave e é tão macio! Se não faltasse o tempo a meus trabalhos.......nos sonhos morrerei sorrindo! .as noites eu velei chorando. Que vibra musical em todo o mundo.. impura e bela. Todos a mil e mil por ele vivem E alguns chegaram a morrer por ele! Eu só peço licença de fazer-vos Uma simples pergunta: ² na gaveta Se Camões visse o brilho do dinheiro.. Provo com isso que do mundo todo O sol é este Deus indefinível. ou mesmo cobre.. Malfilâtre. à noite.. Horácio... Na sua hora primeira.. Acaso blasfemando morreriam? Pálida à Luz Pálida à luz da lâmpada sombria. Como a lua por noite embalsamada.O Editor A poesia transcrita é de Torquato. Se houvesse o Deus-Vintém no Paraíso Eva não se tentava pelas frutas. Filinto Elísio e Tolentino o sonham. tenebrosa.. Copiei-a do próprio manuscrito. infelizmente é bem verdade Que Tasso lastimou-se da penúria De não ter um ceitil para a candeia. Desse pobre poeta enamorado Pelos encantos de Leonora esquiva. Sublime.. alma ² poeta Que tudo profanou com as mãos imundas E latiu como um cão mordendo um século... meu anjo lindo! Por ti ...... Ouro... para prova da verdade pura Deste prólogo meu.. Gilbert..... Racine.. Mistura de borrões e linhas tortas! Trouxe-ma do Arquivo lá da lua E decifrou-ma familiar demônio. e sem pudor. basta que eu diga Que a letra era um garrancho indecifrável. o altivo Chatterton Se o tivessem nas rotas algibeiras.. na escuma fria Pela maré das águas embalada! Era um anjo entre nuvens d'alvorada Que em sonhos se banhava e se esquecia! Era mais bela! o seio palpitando Negros olhos as pálpebras abrindo Formas nuas no leito resvalando Não te rias de mim.... Eu mostraria quanto o povo mente Quando diz que ² a poesia enjeita e odeia As moedinhas doiradas.. Quem não ama o dinheiro? Não me engano Se creio que Satã.... Sobre o leito de flores reclinada. Entre as nuvens do amor ela dormia! Era a virgem do mar. papel....... Demais. Mais santo do que os Papas ² o dinheiro! Byron no seu Don Juan votou-lhe cantos.... prata.. ........ E. Virgílio... veio Aos ouvidos de Adão adormecido..... murmurar-lhe Essa palavra mágica da vida... Foi o Deus de Bocage e d¶Aretino.

É ela! É ela! . E o vinho faz sonhar com os amores. Abri cioso a página secreta.murmurei tremendo. É ela! É ela! . E quem vive de amor não tem pobreza. Mas cantou nesse instante uma coruja.. minha fada aérea e pura A minha lavadeira na janela! Dessas águas-furtadas onde eu moro Eu a vejo estendendo no telhado Os vestidos de chita.. Eu durmo e vivo ao sol como um cigano.Sonhando-te a lavar as camizinhas! É ela! É ela! meu amor.... drink.. Fumando meu cigarro vaporoso..eu mais te adoro .repeti tremendo. E o eco ao longe murmurou . roubei do seio dela Um bilhete que estava ali metido.. what can the rest avail us? BYRON. Não invejo ninguém.é ela! Vagabundo Eat.. sem bolsos nem dinheiro.... Eu beijei-a a tremer de devaneio. Oito dias lá vão que ando cismado Na donzela que ali defronte mora. Namoro e sou feliz nos seus amores Sou garboso e rapaz. Como roncava maviosa e pura!.. Tremi de febre! Venturosa folha! Quem pousasse contigo neste seio! Como Otelo beijando a sua esposa.. Ela ao ver-me sorri tão docemente! Desconfio que a moça me namora!. sufocante. minh'alma. Quando bebo. E o eco ao longe suspirou . sou mendigo e sou ditoso! Ando roto.. entrei medroso... O degrau das igrejas é meu trono. (pensei) é doce página Onde a alma derramou gentis amores.... a Beatriz que o céu revela. as saias brancas. Mas tenho na viola uma riqueza: Canto à lua de noite serenatas. Minha mãe é a lua macilenta.. Palpitava-lhe o seio adormecido. Quando a noite na treva em mim se entornam Os reflexos do baile fascinante. Nas noites de verão namoro estrelas.. Oh! de certo.. A Laura... Vê-la mais bela de Morfeu nos braços! Como dormia! Que profundo sono!. sou rei como um poeta.. É ela! É ela! É ela! É ela! É ela! É ela! . Minha pátria é o vento que respiro. nem ouço a raiva Nas cavernas do peito... Eu a vejo e suspiro enamorado! Esta noite eu ousei mais atrevido Nas telhas que estalavam nos meus passos Ir espiar seu venturoso sono.. Oh! Meu Deus! Era um rol de roupa suja! Mas se Werther morreu por ver Carlota Dando pão com manteiga às criancinhas Se achou-a assim mais bela .. Tinha na mão o ferro do engomado. Passeio a gosto e durmo sem temores. Tenho meu por meu palácio as longas ruas.. que amanhã de certo Ela me enviará cheios de flores. Fui beijá-la.é ela! Eu a vi... Uma criada Abrasada de amor por um soneto Já um beijo me deu subindo a escada.. São versos dela.murmurei tremendo.. E a preguiça a mulher por quem suspiro. and love. Quase caí na rua desmaiado! Afastei a janela.. Don Juan. Sou pobre.

Hino a Preguiça Bernardo Guimarães « Viridi projectus in antro« (Virgílio) Meiga Preguiça. Mas vamos perto. Aí. Sou filho do calor. Com a luxúria sempre dás uns visos. E é por isso. À sombra do arvoredo. se te apraz. . Há de achar-me na Sé. amiga minha. e onde se chegue Sempre por bom caminho. na rede sonolenta. Vamos dormir ao som d¶água. Pensaremos conosco: ± são as horas. Tu. Sinto-me um coração de lazzaroni. odeio o frio. Porque também não é do teu programa Fazer vida de monge. Até que ao doce e tépido mormaço Do brando sol do outono Em santa paz possamos quietamente Conciliar o sono. velha amiga minha. Como as aves do céu e as flores puras Abro meu peito ao sol e durmo à lua. Caluniam-te muito. Ou. Rezo a Nossa Senhora e sou vadio! Ora. sempre tranquila. que aos festins da gula Não tens ódio mortal.Escrevo na parede as minhas rimas. Em desleixada cisma deixaremos Vogar a fantasia. O que tens de comum com a soberba?« E nem com a cobiça?« Tu. Donzela inofensiva. De painéis a carvão adorno a rua. E para o quente.. Onde haja relva mole. Recebe-me em teus braços. domingo. tens as faces Tão nédias e vermelhas? Jamais a feroz ira sanguinária Terás por tua igual. Dos pecados mortais te colocando Na horrenda comitiva.. que. ± Feita esta reflexão sublime e grave De sã filosofia. Para dormir à sesta às garras fujo Do improbo trabalho. Lhana e santa Preguiça? Com a pálida inveja macilenta Em que é que te assemelhas. que às honras e ao ouro dás as costas. conchegado leito Vem dirigir meus passos. à Missa. Porém muito de longe. vendo cair uma por uma As folhas pelo chão. que jorra Do próximo rochedo. Que aos poucos lá se vão. à orla solitária De algum bosque vizinho. E venho em teu regaço deleitoso Buscar doce agasalho. se por aí alguma bela Bem doirada e amante da preguiça Quiser a nívea mão se unir à minha. Não creio no diabo nem nos santos.

Tudo a dormir convida. manando entre pedrinhas A fonte se esqueceu. Calou-se o sabiá. que corria À sombra da floresta. Sem dor te concebeu entre as delícias De um sonho inconsciente. E corre em paz a vida. a mente e o corpo Nesta hora tão serena Lânguidos vergam. Gentil cabocla de fagueiro rosto. Que o vate nos teus braços Deixa à vontade a fantasia ardente Vagar pelos espaços?« Maldigam-te outros. Ó céus!« com que saudade! . Quando sozinha vago amor delira Cismando na janela?« Não é também. Mas ai!« dos braços teus hoje me arranca Fatal necessidade!« Preguiça. deixando em meio O canto harmonioso. os sonhos alimenta Da cândida donzela. Dos ares é princesa. adejando sobre as nuvens. Que feitiço não tens!« que eflúvios vertes De mórbida indolência!« És discreta e calada como a noute. Quem. E para o ninho junto da consorte Voou silencioso. E o rio a deslizar de vagaroso Quase que estava quedo. e ao pé de teus altares Sempre cochilarei. E eu também já vou sentindo agora A mágica influência De teu condão. De índole indolente. A águia. os membros se entorpecem Em branda sonolência. dos inertes dedos Sinto cair-me a pena. E nos imóveis cálices das flores A brisa adormeceu. Por todo o mundo o manto do repouso Então se desdobrou. E até dizem. Longe espancas cuidados importunos. Repousa o corpo. que o sol naquele dia Seu giro retardou. Até dos claustros pelas celas reinas Em ar de santidade. é tempo de dizer-te adeus. que. Nasceste outrora em plaga americana À luz de ardente sesta. E nessa hora as auras nem buliam Nas ramas do arvoredo. que à tardinha Se esbate pela veiga. E agitações fragueiras. És carinhosa e meiga. Sentiu frouxas as asas. o espírito se acalma. Junto de um manso arroio. Como a luz do poente. na minha lira Mil hinos cantarei Em honra tua. Emudece do ríspido trabalho A atroadora lida. ao descair da tarde. Quando apareces.Quando volves os mal abertos olhos Em frouxa sonolência. e do bico Deixou cair a presa. senão tu. De murmurar. coroada a fronte De roxas dormideiras. eu. E no gordo toutiço te entronizas De rechonchudo abade.

.. O mar em troca acende as ardentias. Doudo no espaço Brinca o luar ² dourada borboleta...... Que Deus na Mancha ancorou)... Veleiro brigue corre à flor dos mares.. sublimes... Ou do golfo no regaço Relembra os versos de Tasso.. Belos piratas morenos Do mar que Ulisses cortou.. 'Stamos em pleno mar. Azuis.. Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas. Leviathan do espaço.. Do Espanhol as cantilenas Requebradas de langor. Tostados pelo sol dos quatro mundos! Crianças que a procela acalentara No berço destes pélagos profundos! Esperai! esperai! deixai que eu beba Esta selvagem.. Donde vem? onde vai? Das naus errantes Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço? Neste saara os corcéis o pó levantam... Tu que dormes das nuvens entre as gazas.. orgulhoso. Que ao nascer no mar se achou. Lembram as moças morenas. As andaluzas em flor! Da Itália o filho indolente Canta Veneza dormente. . 'Stamos em pleno mar. Galopam. .. Do firmamento Os astros saltam como espumas de ouro... voam... Junto às lavas do vulcão! O Inglês ² marinheiro frio... (Porque a Inglaterra é um navio.. Que a vaga jônia criou.. ....... mas não deixam traço. cansam Como turba de infantes inquieta. plácidos.. O Francês ² predestinado ² Canta os louros do passado E os loureiros do porvir! Os marinheiros Helenos.......... Dois infinitos Ali se estreitam num abraço insano.. .. Como roçam na vaga as andorinhas.... Donde é filho.. Bem feliz quem ali pode nest'hora Sentir deste painel a majestade! Embaixo ² o mar em cima ² o firmamento..... ² Terra de amor e traição.. 'Stamos em pleno mar... E o vento... que nas cordas assobia. E no mar e no céu ² a imensidade! Oh! que doce harmonia traz-me a brisa! Que música suave ao longe soa! Meu Deus! como é sublime um canto ardente Pelas vagas sem fim boiando à toa! Homens do mar! ó rudes marinheiros. E as vagas após ele correm.. II Que importa do nauta o berço. livre poesia Orquestra ² é o mar. Abrindo as velas Ao quente arfar das virações marinhas.... ² Constelações do líquido tesouro. Rijo entoa pátrias glórias. Qual dos dous é o céu? qual o oceano?..... que ruge pela proa. qual seu lar? Ama a cadência do verso Que lhe ensina o velho mar! Cantai! que a morte é divina! Resvala o brigue à bolina Como golfinho veloz. dourados... Sacode as penas. ..Castro Alves Navio Negreiro I 'Stamos em pleno mar.. Lembrando.... barco ligeiro? Por que foges do pávido poeta? Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira Que semelha no mar ² doudo cometa! Albatroz! Albatroz! águia do oceano... Presa ao mastro da mezena Saudosa bandeira acena As vagas que deixa após... Por que foges assim. Homens que Fídias talhara.. histórias De Nelson e de Aboukir.

.... não pode olhar humano Como o teu mergulhar no brigue voador! Mas que vejo eu aí. Em ânsia e mágoa vãs! E ri-se a orquestra irônica. E da ronda fantástica a serpente Faz doudas espirais .. Gritos... Astros! noites! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares. . desertos só.. outro enlouquece. Legiões de homens negros como a noite... bravos.. ó águia do oceano! Desce mais . Senhor Deus! Se é loucura. Que nem o leite de pranto Têm que dar para Ismael. bem longe vêm. sem ar. Depois no horizonte imenso Desertos. Viveram moças gentis... Vós sabeis achar nas vagas As melodias do céu! . adeus!... Ontem simples. fortes. São mulheres desgraçadas.. marinheiros! Fazei-os mais dançar!. Negras mulheres. se é verdade Tanto horror perante os céus?! Ó mar. estridente... audaz!. Tão puro sobre o mar. sem razão. V Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós. amores.. preces ressoam! E ri-se Satanás!. Que cena infame e vil.. tufão! Quem são estes desgraçados Que não encontram em vós Mais que o rir calmo da turba Que excita a fúria do algoz? Quem são? Se a estrela se cala. inda mais. Qual um sonho dantesco as sombras voam!.. Outro. Como Agar sofrendo tanto. Depois. E chora e dança ali! Um de raiva delira. Horrendos a dançar. A multidão faminta cambaleia.... Que tétricas figuras! . cujas bocas pretas Rega o sangue das mães: Outras moças.. N'alma ² lágrimas e fel.. Tinir de ferros.. E após fitando o céu que se desdobra. E da ronda fantástica a serpente Faz doudas espirais. o oceano de pó.... . III Desce do espaço imenso. Se o velho arqueja.. Trazendo com tíbios passos. Lá nas areias infindas..Vão cantando em noite clara Versos que Homero gemeu . Passa um dia a caravana.. se no chão resvala. Onde vive em campo aberto A tribo dos homens nus. .. Depois. Diz do fumo entre os densos nevoeiros: "Vibrai rijo o chicote. ó choça do monte. mas nuas e espantadas........" E ri-se a orquestra irônica. Das palmeiras no país. ais.... São os filhos do deserto.. o chicote estala.. suspendendo às tetas Magras crianças. .. E voam mais e mais. Meu Deus! Meu Deus! Que horror! IV Era um sonho dantesco. Como Agar o foi também. Se a vaga à pressa resvala Como um cúmplice fugaz. ... estalar de açoite.. Nautas de todas as plagas.... o areal extenso... Sem luz.. Hoje míseros escravos. Que sedentas. Em sangue a se banhar. . Adeus. Onde a terra esposa a luz. ... alquebradas.. Nasceram crianças lindas. Cantando... palmeiras da fonte!. Musa libérrima.. maldições. Ouvem-se gritos.. que martírios embrutece.. por que não apagas Co'a esponja de tuas vagas De teu manto este borrão?... Quando a virgem na cabana Cisma da noite nos véus . Dize-o tu. Filhos e algemas nos braços... São os guerreiros ousados Que com os tigres mosqueados Combatem na solidão... Adeus. Que quadro d'amarguras! É canto funeral! . . geme e ri! No entanto o capitão manda a manobra. Adeus. estridente. Perante a noite confusa.. severa Musa. o tombadilho Que das luzernas avermelha o brilho. No turbilhão de espectros arrastadas.... Presa nos elos de uma só cadeia. De longe.....

. chora.. Ganges amoroso beija a praia Coberta de corais . Se eu deliro. E assim zombando da morte... fundo. E o sono sempre cortado Pelo arranco de um finado. da liberdade após a guerra. Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas Dos harèns do Sultão... Da etérea plaga Levantai-vos. são ditosas. Mas o chacal sobre a areia Acha um corpo que roer. lúgubre serpente ² Nas roscas da escravidão. Infecto..E a fome. Como um íris no pélago profundo! Mas é infâmia demais! . Ai! quanto infeliz que cede. Estandarte que a luz do sol encerra E as promessas divinas da esperança. Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta. Senhor Deus... Ó mar.. Quando o chicote do simoun dardeja O teu braço eternal.. Nem são livres p'ra morrer.. por que não apagas Co'a esponja de tuas vagas Do teu manto este borrão? Astros! noites! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares. a caça ao leão.. Dança a lúgubre coorte Ao som do açoute. O sono dormido à toa Sob as tendas d'amplidão! Hoje. VI Existe um povo que a bandeira empresta P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!.. a sede. Irrisão!. Que embalde desde então corre o infinito.. . Foste hasteado dos heróis na lança Antes te houvessem roto na batalha.. E o baque de um corpo ao mar. Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós. Que impudente na gávea tripudia? Silêncio.... Ou no dorso dos brancos elefantes Embala-se coberta de brilhantes Nas plagas do Hindustão. a dor poreja. ou se é verdade Tanto horror perante os céus?!. Hoje. Tu que. Minha garupa sangra.... Que a brisa do Brasil beija e balança. Minhas irmãs são belas.. O cavalo estafado do Beduíno Sob a vergasta tomba ressupino E morre no areal. A vontade por poder. . A guerra. A brisa de Misora o céu inflama... Por abutre ² me deste o sol candente. Fatalidade atroz que a mente esmaga! Extingue nesta hora o brigue imundo O trilho que Colombo abriu nas vagas. E cai p'ra não mais s'erguer!. Por tenda tem os cimos do Himalaia. tufão! . cúm'lo de maldade. Que servires a um povo de mortalha!.. Musa.... Tendo a peste por jaguar. Onde estàs.. E a terra de Suez ² foi a corrente Que me ligaste ao pé. Ontem plena liberdade.. Qual Prometeu tu me amarraste um dia Do deserto na rubra penedia ² Infinito: galé! .. Senhor Deus?... o cansaço. Ontem a Serra Leoa.. Prende-os a mesma corrente ² Férrea. e chora tanto Que o pavilhão se lave no teu pranto! ... imundo.. Vaga um lugar na cadeia...... E deixa-a transformar-se nessa festa Em manto impuro de bacante fria!. em qu'estrela tu t'escondes Embuçado nos cèus? Há dois mil anos te mandei meu grito...... heróis do Novo Mundo! Andrada! arranca esse pendão dos ares! Colombo! fecha a porta dos teus mares! Vozes d¶África Deus! ò Deus! onde estàs que não respondes? Em que mundo.. o porão negro... Auriverde pendão de minha terra.. apertado.

Não basta inda de dor. ² Serei tua Eloá... Senhor!.. inexaurìvel De vingança e rancor?.... Artista ² corta o mármor de Carrara. Velo a cabeça no areal que volve O siroco feroz.. E nem tenho uma sombra de floresta. Senhor? que torvo crime Eu cometi jamais que assim me oprime Teu glàdio vingador?! .. Vi meu povo seguir ² Judeu maldito ² Trilho de perdição. E o camelo monòtono...... Que o silêncio campeia solitàrio Por sobre o peito meu.... Ave da escravidão....... As tribos erram do areal nas vagas. Eu triste abandonada Em meio das areias esgarrada... Eu ² pasto universal.... bebe o pranto a areia ardente...' Como o profeta em cinza a fronte envolve... Para cobrir-me nem um templo resta No solo abrasador. De Tebas nas colunas derrocadas As cegonhas espiam debruçadas O horizonte sem fim ... Lá no solo onde o cardo apenas medra Boceja a Esfinge colossal de pedra Fitando o morno cèu.. ó Deus terrível?! É... A mulher deslumbrante e caprichosa. No glorioso afã! .. sombrio... E que é que fiz....... . Quando subo ás Pirâmides do Egito Embalde aos quatro céus chorando grito: 'Abriga-me.... Descia do Arará.... Basta.. Poetisa ² tange os hinos de Ferrara.. meu Deus!!. Onde branqueia a caravana errante..... a gloriosa! .. Rainha e cortesã... Senhor!.... Sempre a làurea lhe cabe no litígio.. escuta o brado meu lá no infinito.... Quando eu passo no Saara amortalhada... A Europa é sempre Europa...... p'ra que meu pranto.... Foi depois do dilúvio.. ... talvez.. Hoje em meu sangue a América se nutre Condor que transformara-se em abutre. Senhor! De teu potente braço Role através dos astros e do espaço Perdão p'ra os crimes meus! Há dois mil anos eu soluço um grito.....E ela dorme nos templos do Deus Brama. Vi a ciência desertar do Egito... teu peito eterno.... Perdida marcho em vão! Se choro...... ó Deus clemente! Não descubras no chão... ... E o Nômada faminto corta as plagas No rápido corcel. serás meu esposo bem-amado. por fado adverso. Depois vi minha prole desgraçada Pelas garras d'Europa ² arrebatada ² Amestrado falcão! . ' Nem vêem que o deserto é meu sudário. ora o barrete frígio Enflora-lhe a cerviz.......... Universo após ela ² doudo amante Segue cativo o passo delirante Da grande meretriz.. ' Desde este dia o vento da desgraça Por meus cabelos ululando passa O anátema cruel... Meu Deus! Senhor... Ela juntou-se ás mais... Cristo! embalde morreste sobre um monte Teu sangue não lavou de minha fronte A mancha original... ..... Meus filhos ² alimária do universo....... pálido.... pois... ² Pagodes colossais... Ora uma c'roa... arquejante... um viadante.... Negro.. irmã traidora Qual de Josè os vis irmãos outrora Venderam seu irmão.... Mas eu.. .. Ainda hoje são.......... E eu disse ao peregrino fulminado: 'Cão! . arquejante Que desce de Efraim .. ...... Ai! dizem: 'Lá vai África embuçada No seu branco albornoz.

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