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O jovem e o mercado de trabalho

Pesquisa aponta "empresas dos sonhos" dos universitários, mas especialistas alertam
para que o jovem se prepare para uma nova realidade no mundo do trabalho

Por Carlos Brazil

Recente pesquisa realizada pela Cia de Talentos e a LAB SSL - consultorias especializadas
em programas voltados aos jovens - mostra as preferências dos universitários entre 22 e 26
anos em relação às "empresas dos sonhos" para início de carreira. Entre os 6.796
pesquisados, a companhia preferida desses jovens é a Petrobras, com 14,82% das escolhas,
seguida pela Microsoft (13,4%), Natura (12,52%), Unilever (11,01%) e IBM (9,16%).

Apesar de ser um interessante indicador, o resultado da pesquisa gera uma certa


preocupação entre especialistas em psicologia do trabalho ouvidos pelo Universia, já que,
segundo eles, o mundo do trabalho passa por uma fase de transição, na qual o instituto do
emprego formal, estável, com registro em carteira, está em extinção.

"Nós estamos vivendo um processo de transição no mundo como um todo, e no Brasil


também, que é o fato de que estamos saindo de uma sociedade do emprego. A sociedade do
século XX era baseada no emprego. Agora, não há mais emprego. O emprego acabou para
todo mundo", afirma o professor Wanderley Codo, coordenador do Laboratório de
Psicologia do Trabalho da UnB (Universidade de Brasília).

Para Codo, a realidade das relações trabalhistas mudou profundamente neste século XXI e
as características específicas do emprego como era conhecido no século passado não
existem mais. Cabe ao jovem e ao trabalhador em geral desenvolver seu espírito
empreendedor.

"É preciso mudar a cultura. No Brasil, essa é uma coisa muito forte. Você quer dizer que é
trabalhador, diz: `Eu tenho carteira assinada´. Se você trabalha como free-lancer, a
sociedade não te considera trabalhador. E você mesmo não se considera trabalhador e fica
querendo carteira assinada", lamenta o acadêmico.

Segundo ele, a Universidade tem um importante papel a desempenhar nesse momento para
mudar essa realidade e mentalidade: "Em primeiro lugar, é preciso que os professores
universitários tomem consciência disso (das novas relações de trabalho existentes na
sociedade atual). Eles precisam repensar seus currículos, a sua formação, não em termos do
empregado, mas em termos do empreendedor. Precisam atualizar a formação universitária
para a conjuntura real que está acontecendo no mundo."

Ione Vasques-Menezes, também pesquisadora do Laboratório de Psicologia do Trabalho da


UnB, avalia que o caminho que a Universidade usa é muito lento, porque depende da
conscientização do professor. Como o professor, geralmente, só leciona, ele acaba
perdendo esse vínculo com o mundo prático na maioria dos cursos, diz. "Acho que um
papel importante é de mudar isso, e é uma cultura que tem de ser mudada na Universidade,
na família, na sociedade, em todas as instâncias. Então, é lento o processo", avalia.

A pesquisadora considera que o problema está também na fonte que os jovens buscam para
orientear suas carreiras. Segundo ela, o jovem que busca informações acaba recebendo essa
orientação pela lógica de orientadores que foram formados na universidade que ainda está
mergulhada na lógica do emprego. Ela lembra que a família também valoriza essa lógica do
emprego.

"A orientação acaba sendo no sentido da busca de emprego. E a lógica, como a gente está
em um momento de transição, acaba se espalhando por todo mundo, e o jovem fica
pensando que se ele não escolher uma lógica de emprego, vai se dar mal, porque está em
um momento de transição", diz Ione.

Em razão disso, a pesquisadora lembra que o trabalho autônomo acaba sendo pouco
valorizado, e não chega a ser considerado emprego: "Então, a busca acaba sendo, também,
por alternativas de trabalho que não o autônomo".

Por outro lado, o professor Aguinaldo Neri, da Faculdade de Psicologia do Centro de


Ciências da Vida da PUC Campinas (Pontifícia Universidade Católica de Campinas)
entende que o jovem atual (o qual enquadra no que chama de Geração Y) tem
características de personalidade que o impele ao empreendedorismo. "No fundo, no fundo,
todo ser humano gosta de estabilidade. Mas já começamos a vislumbrar uma transição,
fruto do tipo de educação que esse jovem da Geração Y recebeu", diz.

Neri lembra que justamente pelo fato de estarmos em um momento de transição, pode
parecer contraditório a Petrobras ser escolhida como empresa dos sonhos, mas é preciso
atentar para outros fatores que influenciam essa percepção. "Esse jovem também está vendo
esse desemprego grande que está aí. Por isso dá esse choque: Petrobras como primeira e
depois Microsoft como segunda. Empresas como a Microsoft estão ocupando esse espaço
do novo jovem. São trabalhos muito ágeis, muito variados, que não têm perspectiva de
continuidade por muito tempo, mas que deixam que eles se auto-gerenciem. Em suma, um
novo tipo de contrato entre capital e trabalho está surgindo por aí, mais flexível, mais de
acordo com este jovem da Geração Y."

Sobre o posicionamento da Universidade em relação a essa fase de transição, Neri diz que
algumas delas começam a perceber que, mesmo empregado com registro em carteira, o
funcionário precisa ser mais autônomo. "Então, aquela idéia de que eu me formei em uma
determinada profissão e tudo que vou fazer nos próximos 20 anos é igual ao que aprendi é
absolutamente inaceitável. As universidades estão começando a perceber, de uma maneira
lenta, que o intra-empreendedor vai bem em qualquer tipo de situação. O mundo do
trabalho muda em uma velocidade muito mais rápida que a Universidade."

À parte da discussão sobre o novo tipo de mercado de trabalho que vem se consolidando
neste novo século, Heitor Chagas, gerente-executivo de Recursos Humanos da Petrobras,
destaca os indicadores que levaram sua empresa a ser a preferida entre os jovens para o
início de carreira "Ela tem o fato, primeiro, de ser a maior empresa do país. Segundo, é uma
empresa que tradicionalmente investe no desenvolvimento das pessoas: elas entram aqui
para fazer um projeto de vida, porque sabem que vão ter investimento na carreira. Terceiro,
é que quando elas entram aqui ficam tão felizes, se sentem tão integradas, que dizem para
os outros. Aí essa preferência que os jovens universitário - e outros jovens, mesmo - têm de
trabalhar na Petrobras. Eles ficam sabendo pelos funcionários que vale a pena", analisa o
executivo.

Escolha consciente

Ione alerta para o fato de que o jovem deve, hoje, fazer uma escolha consciente daquilo que
pretende fazer de sua vida profissional. Para ela, é essencial que se goste do que se pretende
fazer, pois não adianta querer se enquadrar em áreas que aparentemente oferecem mais
oportunidades, pois essas oportunidades são ilusórias. "Acho que essa lógica da segurança
(e estabilidade no trabalho) - que está agora muito mais na competência do sujeito do que
na formalidade do contrato - é que precisa ser mais evidenciada: essa mudança da lógica,
em que a segurança está na sua competência, não no seu vínculo", indica a pesquisadora.

Para concluir, Wanderley Codo afirma: "O principal conselho que eu daria ao jovem, hoje,
é abrir os olhos, se informar sobre o que está acontecendo a seu redor".