DEMOCRACIA, DESENVOLVIMENTO E DIREITOS

Um debate sobre desafios e alternativas

UMA PUBLICAÇÃO - IBASE

Rio de Janeiro, janeiro 2007

DEMOCRACIA, DESENVOLVIMENTO E DIREITOS Um debate sobre desafios e alternativas
Uma publicação do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase)
COORDENAÇÃO GERAL

Cândido Grzybowski
COORDENAÇÃO EXECUTIVA

Iracema Dantas Moema Miranda
ASSISTENTE DE COORDENAÇÃO

Manoela Roland
EDIÇÃO

AnaCris Bittencourt
REVISÃO

Flávia Leiroz
PRODUÇÃO

Geni Macedo
FOTOGRAFIA

Samuel Tosta/Arquivo Ibase-FSM 2006
TRADUÇÃO

James Mulholland Lêda Maia Patrick Wuillaume
PARCERIAS

ActionAid Brasil Fundação Rosa Luxemburgo Fondation Charles Léopold Mayer pour le Progrès de l´Homme Observatório Eurolatino-americano de Democracia e Desenvolvimento Social (Euralat)

PEDIDOS DE EXEMPLARES

Ibase Av. Rio Branco, 124, 8º andar – Centro 20040-916 Rio de Janeiro/RJ Brasil Tel: + 55-21 2509-0660 Fax: + 55-21 3852-3517 <ibase@ibase.br> < www.ibase.br>

Esta publicação foi impressa em papel recilado.

SUMÁRIO
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Moema Miranda

De que Brasil o mundo precisa?
Cândido Grzybowski

Radicalização do feminismo, radicalização da democracia
Maria Betânia Ávila

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O movimento social e a histórica “guerra de posição”
Pierre Beaudet

Tendências dominantes da nossa época Nosso tempo estará se esgotando?
Edgardo Lander

APRESENTAÇÃO
MOEMA MIRANDA
Antropóloga, coordenadora do Ibase

O Ibase organizou, como parte das atividades de celebração dos 25 anos da instituição, o seminário “Democracia, desenvolvimento e direitos, que Brasil o mundo precisa”, nos dias 12 e 13 de maio de 2006, no Rio de Janeiro. A iniciativa buscou articular diferentes atores do Ibase e fez parte do projeto “Agenda pósneoliberal: alternativas estratégicas para o desenvolvimento humano democrático”, publicado em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo e a ActionAid Brasil. O seminário contou com o apoio da Fondation Charles Léopold Mayer pour le Progrès de l´Homme e do Observatório Eurolatino-americano de Democracia e Desenvolvimento Social (Euralat). Esta publicação traz alguns dos textos apresentados no encontro e outros, inéditos, sobre temas correlatos. Ao completar 25 anos de luta pela radicalização da democracia no Brasil – tema que nos identifica –, o Ibase assumiu a tarefa de produzir uma inflexão programática institucional: discutir o desenvolvimento em todas as suas dimensões – ambiental, cultural, política, econômica e social –, e os limites que o tipo de desenvolvimento adotado impõe para o exercício da democracia e para a universalização dos direitos. Essa preocupação se articula com a proposta de muitos outros movimentos sociais, redes e ONGs de refletir e buscar formas de superação da desigualdade em nosso país, levando em conta a necessidade de articular estratégias em âmbito local, nacional e internacional. O Brasil é o nosso foco, mas sabemos que muitos dos impasses aqui observados se repetem em outras nações. Não podemos tratá-los de forma isolada, sem levarmos em conta a inserção do Brasil no mundo e o papel que o nosso país ocupa no contexto internacional. Nossos trabalhos, nossas ações e reflexões nos indicam a hipótese de que, para se concretizar, a democracia (no sentido que damos ao termo) precisa incorporar a discussão sobre as dimensões e as estratégias de desenvolvimento, repensando e discutindo os sentidos do próprio conceito. Desejamos que o desenvolvimento induza à democracia ampla e profunda e radicalize direitos.

O Brasil necessita imaginar novas formas de desenvolvimento para, finalmente, superar uma dívida histórica com sua população, cuja maioria tem sido sistematicamente excluída dos benefícios que se poderiam originar de uma nação com as características do Brasil. Da mesma forma, precisamos incorporar o sentido de sustentabilidade e o cuidado na relação com os bens comuns da natureza. Nossa reflexão começou constatando que, no caso brasileiro, a onda democratizadora que vivemos nas últimas décadas, embora fundamental e absolutamente relevante, foi incapaz de desafiar a estrutura de dominação, as relações, os processos e as políticas em que se baseia nosso modelo de desenvolvimento claramente excludente. Supondo que algo equivalente se repita em outros povos e países, gostaríamos de compartilhar essa hipótese. Buscamos, além da ênfase na democratização das instituições políticas e da perspectiva de repolitizar a vida e nossa ação pública, imaginar pressupostos e elaborar alternativas de desenvolvimento que incorporem o enorme avanço político que a sociedade brasileira alcançou em décadas mais recentes, e que exige uma democracia sem fronteiras com raízes profundas. A reflexão que apresentamos necessita ser radical para ser efetiva. Assim, propomos o seguinte questionamento para nós mesmos(as) e para nosso público leitor: será que o modelo de desenvolvimento e suas estratégias são

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os impedimentos verdadeiros para o exercício pleno da democracia e para a imperativa ampliação de direitos? É nessa direção que devemos seguir para ultrapassar os limites que percebemos no sistema democrático? A hipótese, que aqui lhes apresentamos, é correta? Precisamos debater com nossos parceiros, com movimentos sociais e organizações da sociedade civil sobre o caminho que planejamos seguir. Vale ressaltar que a dimensão do novo, aqui, não significa ineditismo. Várias questões tratadas já são gestadas em diferentes movimentos e espaços, em alguns dos quais o próprio Ibase atua, como o Fórum Social Mundial. Pretendemos, a partir do diagnóstico de que a política perdeu espaço para o econômico-financeiro, contribuir para a produção de uma nova etapa de reflexão sobre caminhos que resgatem a economia para a política e restaurem o verdadeiro sentido do espaço político como momento de concertação de estratégias na direção do desenvolvimento, no sentido de vida digna para todos e todas, com democracia e direitos, sustentabilidade ambiental, justiça social e solidariedade. Convidamos você, leitor e leitora, a participar desse diálogo.

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DE QUE BRASIL O MUNDO PRECISA?

CÂNDIDO GRZYBOWSKI
Sociólogo, diretor do Ibase

O ponto de partida deste artigo é uma reflexão sobre o Brasil, seu povo, sua terra, sua cultura, sua economia, sua organização política. Brasil de enormes potencialidades e contradições, que precisa encontrar seu caminho, mas como parte de um mundo cada vez mais interdependente. Brasil do grande território e patrimônio natural, que deve gerir como bem comum da humanidade. Queiramos ou não, com a globalização neoliberal que domina o mundo inteiro, que concentra riqueza com estratégias globais, que marginaliza grupos e povos inteiros e que acelera assustadoramente o processo de destruição do meio ambiente, o mundo deixa de ser visto como algo externo, distante, e invade nosso lugar, nosso cotidiano. Essa é uma questão incontornável hoje, presente em toda parte, mas é forçoso constatar um enorme déficit teórico, analítico e, sobretudo, político em termos de propostas e práticas sobre a mundialização de nossas sociedades e de nossas vidas. Na tentativa de dar sentido e humanizar tal percepção nasceu o Fórum Social Mundial (FSM), fazendo convergir muitas organizações e movimentos sociais, redes, coalizões e campanhas que, de algum modo, se opunham à centralidade dos mercados nos processos globais em curso. O FSM contribui para um grande movimento de idéias em busca de alternativas, movimento de intrínseca dimensão mundial, centrado numa nova consciência e prática de cidadania que abarca todos e todas que vivem no planeta. Ele se alimenta da tomada de consciência da comum humanidade na diversidade de culturas e identidades e do patrimônio natural da vida – a natureza e seus recursos – como bem comum maior, que precisamos compartir hoje e preservar para gerações futuras. O FSM inspira em grande parte essa iniciativa. Para pensar e construir outro Brasil, precisamos pensar o mundo. E, para pensar e edificar outro mundo, também é necessário pensar o Brasil. Isso muda radicalmente a perspectiva para onde olhar e como olhar se pretendemos ver, entender, propor e agir. Essa mudança implica rever conceitos, análises e propostas, em particular para todos e todas que se pautam pelos direitos humanos e pelos valores fundantes da democracia como base da vida em sociedade.

BRASIL POTÊNCIA OU DEMOCRÁTICO, SOLIDÁRIO E SUSTENTÁVEL?

As turbulências políticas da conjuntura brasileira, por mais graves que sejam, não conseguem encobrir os enormes desafios que temos pela frente. Vivemos nos últimos 20 a 25 anos, como os povos vizinhos da América do Sul, uma aventura fundamental: a redemocratização. Assistimos à emergência dos mais diversos sujeitos sociais, com novos e vibrantes movimentos dos muitos antes sem identidade e voz, alargando e fortalecendo o tecido social e a capacidade de intervenção de uma cidadania ativa na afirmação e conquista de direitos. Ao mesmo tempo, foi sendo moldada uma institucionalidade política do estado de direito para desmontar o autoritarismo e criar condições para a participação democrática. Foi, por isso, um extraordinário processo de reconquista de liberdades e instituições democráticas, de construção de espaços de participação e concertação política, de formulação de demandas de inclusão econômica e cultural, de maior justiça social e de mudanças profundas. Entretanto, começam a ficar claros os sinais de esgotamento desse ciclo democratizador. Para além da crise política brasileira, a questão de fundo são os limites da própria onda portadora de democracia, incapaz de ir muito à frente de um modelo formal representativo e de desafiar e transformar o poder, a estrutura, as relações, os processos e as políticas em que se baseia a sociedade e o seu desenvolvimento econômico. Como resultado, continuamos a ser uma emergente economia e um poder ascendente na geopolítica do mundo, mas que se alimenta internamente na manutenção da exclusão e desigualdade social, no racismo e na violência, e num sistemático extrativismo do patrimônio natural de que é dotado o nosso país. A democracia brasileira, até aqui, apesar dos enormes ganhos, não consegue incluir todas e todos nos direiAS TURBULÊNCIAS POLÍTICAS DA CONJUNTURA tos humanos e produzir uma base econômica justa, solidária e sustentável, nem um poder político mais BRASILEIRA, POR MAIS participativo, mais cidadão. GRAVES QUE SEJAM, NÃO Hoje, o Brasil surpreende em sua política externa, CONSEGUEM ENCOBRIR OS seja nas negociações sobre a Área de Livre Comércio ENORMES DESAFIOS QUE das Américas (Alca) e na Organização Mundial do TEMOS PELA FRENTE Comércio (OMC); no acordo entre Índia, Brasil e África do Sul, na cúpula entre países árabes e a América do Sul; seja em termos de iniciativas de integração regional, como a Comunidade de Nações da América do Sul, a retomada da Integração da Infra-estrutura Regional Sul-americana (IIRSA), o anúncio de um gasoduto da Venezuela até a Argentina e, sobretudo, na desenvoltura

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com que o Brasil financia empreendimentos por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) nos diferentes países da região e até na África, num verdadeiro processo de multinacionalização de empresas controladas por capitais brasileiros. Emerge um Brasil potência sub-regional? A quem interessa? Ao diverso, multifacetado e sofrido povo brasileiro? Aos povos das Américas? Sem dúvida, nunca o Brasil exportou tanto e conseguiu superávits comerciais de tamanha monta – o que cria um ambiente externo mais favorável à nossa economia, que patinava em termos de crescimento desde a rendição de nossos dirigentes ao receituário neoliberal. Em última análise, isso cheira à retomada do projeto desenvolvimentista, expansionista de negócios e concentrador de renda, destruidor do meio ambiente, fundado numa lógica de exclusão social. Sim, devemos tratar da superação da exclusão, da desigualdade social em suas múltiplas formas e da destruição ambiental se quisermos um desenvolvimento radicalmente democrático. Até aqui, porém, em vez de mais democracia participativa e mais direitos como parâmetros das relações sociais, assistimos ao recrudescimento de contradições, conflitos e disputas sociais. Vivemos um momento crucial para definir o Brasil que queremos. Temos diante de nós a possibilidade de fincar as bases de um modelo de desenvolvimento cidadão para o país, que tenha a democracia radical e os direitos como suas forças de indução, rompendo o histórico divórcio entre economia e sociedade, entre poder político e cidadania. Na prática, entretanto, somos empurrados por relações, estruturas, processos, interesses e forças, internos e externos, para a continuidade e intensificação de um desenvolvimento que aprofunda uma economia que funciona contra a sociedade, concentradora de riquezas e poder, socialmente excludente, destruidora dos bens comuns. Economia e poder que se combinam com racismo, machismo, violência, patrimonialismo e clientelismo, presentes com leis pétreas no seio da sociedade brasileira. As dificuldades de emergência da opção que radicaliza a democracia nos levam naturalmente para a aceitação quase inevitável da agenda de crescimento a todo custo, medido pelo Produto Interno Bruto (PIB), pelo comércio externo e superávit comercial, pelos lucros e pela acumulação, ou seja, para o desenvolvimento puxado segundo os interesses das grandes corporações e suas estratégias globais. Superar esse impasse é o desafio para a democracia brasileira. Não enfrentar tal impasse pode nos levar a uma crise ainda maior. Pior, a própria democracia corre grande risco, limitada ao seu formalismo representativo, incapaz de gerar uma nova sociedade cidadã e participativa, responsável, justa e solidária, diversa e sustentável.

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QUE OUTRO PAÍS A DEMOCRACIA BRASILEIRA DEVE E PODE CONSTRUIR?

O momento é de inovar com ousadia, coragem e determinação. Trata-se, mais uma vez, de reconhecer os novos desafios para a democracia brasileira, atualmente num contexto de maior abertura ao mundo e maior interdependência. Isso nos remete de imediato para as grandes questões do Brasil no mundo: de que Brasil o mundo precisa e a democracia brasileira pode produzir? Essa tarefa torna imprescindível a repolitização do tema do desenvolvimento, da economia, da ciência e da tecnologia, da apropriação e uso dos bens comuns, do poder estatal, enfim, da vida com uma perspectiva radical de direitos e de democracia. Processo que só se fará a contento num diálogo aberto com outros povos e sujeitos do planeta, reconhecendo que aqui decidimos nosso futuro e também influímos no da humanidade, como gestores que somos de um imenso patrimônio natural. A democracia, por definição, é uma aventura incerta fundada num pacto que estabelece a disputa permanente como modo de escolha de rumos e projetos coletivos. Seu pressuposto constitutivo é a participação cidadã na esfera pública, definindo o poder e a institucionalidade política. O berço da democracia é a sociedade civil, na qual a cidadania ativa gesta os grandes movimentos de opinião e se organiza em forças sociais portadoras que dão forma à participação cidadã. Os sonhos, as esperanças e os projetos são componentes fundamentais de qualquer processo democrático. São eles que motivam a cidadania, a participação e a disputa democrática, permitindo que, entre avanços e recuos, se molde o próprio desenvolvimento do país. O sentido último da democracia é criar, pela via política, condições para que os direitos civis e políticos, econômicos, sociais, culturais e ambientais, assim como as equivalentes responsabilidades, sejam referências para toda a sociedade e para que, de forma sustentável, desenvolvam-se estruturas e relações capazes de incluir todos e todas. O que move a democracia não são as instituições, mas a cidadania em ação e a responsabilidade cidadã inspirada nos direitos comuns. Ao longo das últimas décadas, a aventura democrática brasileira foi capaz de decantar muitos sujeitos coletivos inspirados em princípios e valores da democracia e de avançar na moldagem de um estado de direito. Essa democracia, porém, perdeu força e intensidade e está sem capacidade para transformar a sociedade racista, machista e profundamente injusta, bem como a natureza produtivista e destruidora do desenvolvimento. Estamos diante de enormes desafios que, se não forem enfrentados, limitarão o processo democratizador, sem capacidade de avançar e perigosamente engolido pelas contradições autoritárias, excludentes e destruidoras

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de relações e estruturas econômicas, políticas e culturais que construímos. Ainda não fomos capazes de enfrentar e derrotar o patrimonialismo incrustado na nossa cultura, que apropria e privatiza o público a serviço de interesses e privilégios privados. Pior, perde força o princípio da responsabilidade pública de todas e todos, por meio da luta e da vigilância cívicas, expressas na participação cidadã, nas mobilizações, nos debates e na pressão da rua. Prospera com perigo, especialmente entre estratos médios urbanos do Brasil, a cultura do cinismo, de cada pessoa por si mesma, de dar as costas e isolar-se em condomínios protegidos por grades e guardas privados. Precisamos encarar sem medo as coisas como são: a democracia brasileira ainda não alterou a lógica excludente e destruidora em que assenta a sociedade, a economia e o próprio Estado. O privilégio tende a se sobrepor ao direito. A cidadania para muitas pessoas é restrita ao direito de votar quando convocadas. Aproximadamente, metade da população brasileira, nos enormes bolsões de pobreza no campo e nas gigantescas periferias sociais dentro e à margem das nossas cidades, vive em condições tão difíceis e violentas que não tem identidade social, não tem voz, não tem poder real nos processos políticos. Restritas à formalidade de uma democracia representativa liberal, emergem e se tornam visíveis todas as contradições da democracia brasileira. A delegação que a cidadania faz ao eleger representantes e governantes facilmente se transforma em apropriação dos mandatos pelos eleitos e pelas eleitas segundo conveniências políticas e interesses pessoais, sem nenhuma ética política e sem respeito aos princípios democráticos. Governantes, uma vez empossados, desrespeitam os programas que os(as) elegeram e muito rapidamente se compõem com os grupos e as forças que controlam com mão de ferro as riquezas do país. Como resultado, a própria institucionalidade política democrática, duramente conquistada – no Congresso e nos Legislativos, nos Executivos, em âmbito federal e estadual –, acaba dominada pelos velhos patrimonialismos e clientelismos, limitando o potencial democratizador de políticas públicas de desenvolvimento e de promoção da justiça social. Assim, se mantém e se aprofunda a perversa concentração de renda, transferindo recursos públicos para grupos privados, numa distribuição de renda às avessas, de indivíduos pobres para ricos. Foi isso que sempre fizemos, mas agora aperfeiçoamos os métodos, com transferência escandalosa de patrimônio público a grupos privados multinacionalizados e com a prioridade absoluta na geração de superávit fiscal para pagar os especuladores da dívida pública. A democracia brasileira – uma importante conquista, sem dúvida, para um povo longamente submetido a regimes ditatoriais – perde intensidade e pode acabar. Ou, então, pode virar simplesmente

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um rito formal, sem conseguir transformar todos e todas em reais cidadãos e cidadãs, em pleno gozo de direitos fundamentais e no exercício de seu dever cívico de sujeitos responsáveis e constituintes do poder e das políticas. A crise atual mostra de forma exemplar os impasses da democracia até aqui praticada. Os princípios e valores éticos da democracia não estão no centro do poder estatal, das políticas, das leis, das decisões judiciais, das estruturas e das relações que regem a produção e distribuição de bens e serviços na economia. De uma perspectiva de radicalização da democracia fundada em princípios e valores éticos, não podemos limitar nosso olhar e nossa agenda às instâncias políticas representativas, mesmo reconhecendo que precisamos rever e aperfeiçoar a institucionalidade política e eleitoral, para avançar na democratização do poder estatal. No entanto, isso é insuficiente e incapaz de dar nova vitalidade ao processo democratizador entre nós. Os princípios e valores fundantes da democracia devem ser as referências da economia e de seu desenvolvimento, devem estar no centro de todas as relações na sociedade e na sua cultura. A ética na política, um pilar incontornável da democracia, continua sendo solapada, e não só na prática política de nossos(as) representantes eleitos(as), que facilmente desrespeitam o mandato delegado pela cidadania. O pior é o sentido e a direção para onde apontam as políticas adotadas, antiéticas e, portanto, antidemocráticas em sua essência. O princípio ético da inclusão de todos e todas, sem discriminações, buscando a justiça e a eqüidade, permitindo o acesso sustentável aos bens comuns, é desrespeitado em nome de direitos adquiridos e de relações consagradas pela tradição – verdadeiros privilégios pétreos – de quem tem dinheiro e propriedade, é homem e branco, dos donos de gado e de gente, enfim. A nossa democracia não se mostra capaz, até aqui, de igualar pela política em favor de todos e de todas o poder que emana do patriarcalismo, da propriedade e do capital, até do legado da escravidão. Por não se pautar

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por uma ética que produz igualdade na diversidade, com liberdade e participação, com solidariedade cidadã, a democracia brasileira perde vitalidade. Frustração, decepção, cansaço. Será isso o que teremos pela frente? Precisamos reconhecer que o ciclo democratizador inaugurado na luta contra a ditadura se esgotou. O melhor que produziu foi isso aí, incapaz até de garantir segurança pública para as grandes maiorias condenadas a viver na pobreza. Precisamos voltar às bases, à cidadania ativa, ampliar o espaço público, a consciência dos direitos e dos deveres, a capacidade de intervenção política além dos momentos eleitorais. Precisamos ser capazes de imaginar e propor uma democracia que seja referência do próprio desenvolvimento e da inserção do Brasil no mundo. Só um grande movimento de idéias, cívico e civilizador, com portadores e portadoras convencidos de seus sonhos e projetos democráticos pautados pelos princípios e valores éticos da democracia, será capaz de dar vitalidade nova ao processo. Tarefa árdua, longa e paciente, mas gratificante. Temos que começar logo, tirar os olhos do Planalto, do poder estatal, e olhar mais para a planície onde vivemos e onde está o país real. Precisamos de uma agenda positiva, envolvente, ousada, vibrante, que nos dê ânimo para produzir um novo grande movimento de idéias democráticas e democratizadoras, que penetre em todos os poros da sociedade, em todos os seus bolsões de pobreza e miséria, capaz de romper o avanço de cercas e condomínios gradeados (reais e simbólicos, que privatizam, isolam e segregam) e de desmontar o renascimento de um projeto excludente e destruidor, para dentro e para fora, de um Brasil potência emergente. O nosso foco deve ser a política e a ética – o espaço público dos direitos e da participação –, reconquistando a capacidade autônoma da cidadania sobre o poder de Estado e a economia de mercado.

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MOMENTO PARA REVISAR O BRASIL

Com o governo Lula, o país contribui para a ebulição que tomou conta da América do Sul, com vários governos eleitos tentando romper com o modelo da globalização neoliberal – com pouco sucesso, diga-se de passagem –, num verdadeiro mosaico de caminhos alternativos. Em 2006, voltamos às urnas em outubro. O debate travado no processo eleitoral ficou mais restrito à crise política e ética que envolveu o governo e toda a institucionalidade política. Apesar disso, pode também ser visto como uma oportunidade de reação da cidadania até aqui “encurralada” pelas esperanças e pelos sonhos partidos. Não podemos esperar tal possibilidade dos partidos e dos(as) candidatos(as), porque isso depende, sobretudo, de iniciativas cidadãs, concebendo e alimentando um processo virtuoso de debates sobre os rumos que queremos dar ao Brasil, à democracia e ao desenvolvimento e a nós, brasileiros e brasileiras, cidadãos e cidadãs do Brasil e do mundo. A conjuntura eleitoral pode ser um momento para pensar o presente e o futuro, o local e o global, as conquistas e as faltas, a onda que rebenta na praia e a nova onda de democratização que precisamos desencadear. Queremos criar um espaço de reflexão e iniciar atividades que alimentem o debate na atual conjuntura brasileira, que finquem bases na sociedade civil e que visem a um processo de longo prazo. Trata-se mais de avaliar o futuro e contribuir para a construção de alternativas que alimentem movimentos amplos de cidadania, do que simplesmente diagnosticar problemas e heranças do passado. O momento é propício para articular redes e grupos brasileiros com o debate em curso em vários lugares do mundo, trazendo seus promotores para um confronto direto com as questões e as perspectivas que temos. Mas é também oportuno que, assim como o Brasil precisa se pensar a partir do mundo, outros e outras, em outros países e outras realidades, se pensem a partir do mundo e do Brasil. Essa é a melhor forma de integrar a mundialização como questão e como possibilidade na construção de alternativas democráticas, solidárias e sustentáveis para o planeta, para todos os seres humanos e para cada um de seus povos.

O MOMENTO É PROPÍCIO PARA ARTICULAR REDES E GRUPOS BRASILEIROS COM O DEBATE EM CURSO EM VÁRIOS LUGARES DO MUNDO
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DEMOCRACIA + DIREITOS HUMANOS + DESENVOLVIMENTO

Como se trata de iniciar um processo de reflexão, análise e debate, o que importa, acima de tudo, é uma busca que estimule um processo de produção intelectual e política de longo alcance. Um objetivo básico é apresentar uma agenda ousada, olhando para o futuro. Trata-se de um esforço de construir pensamento para a ação, para os emergentes movimentos e as organizações de cidadania de dimensões planetárias, localizandoos sempre em realidades econômicas, políticas e culturais concretas. Ao longo dos anos, diferentes instituições, redes e fóruns pelo mundo realizam um esforço sistemático de investigação, análise e troca. Existe um acúmulo de indagações, rupturas, críticas, com pressupostos diversos, num esforço de revisão de idéias e propostas de muitos e muitas diante da crise de paradigmas do passado e de suas experiências históricas, bem como diante da avassaladora hegemonia do pensamento neoliberal, com seu fundamentalismo de mercado. A busca continua e cada vez mais se torna evidente a importância de pôr em diálogo, confronto e sistematização o que foi acumulado. Juntar esses esforços é uma das razões de ser do FSM, mas seu caráter de espaço aberto e de encontro não dá conta da tarefa que se impõe. Por isso, outras e diversas iniciativas se fazem necessárias. O próprio Ibase, além de seu papel e engajamento no FSM, desenvolve alguns esforços na mesma direção. Um exemplo é o acumulado no projeto Agenda Pós-neoliberal, com uma rede de parceiros no Brasil, nas Américas e na Europa, de intelectuais e ativistas. Em recente publicação para o FSM em Caracas – Miradas y reflexiones: bases para la construción de una agenda postneoliberal –, estão condensados

alguns pontos de referência do grupo. Vale destacar também o projeto Monitoramento Ativo da Participação da Sociedade (Mapas) no contexto do governo Lula. Existem outras iniciativas, mas o que importa é a necessidade de ir além de projetos pontuais e a busca de uma estratégia que dê rumo e sentido ao conjunto da intervenção pública. É um convite para construir outra visão, outra abordagem, os fundamentos de uma estratégia que combine democracia + direitos humanos + desenvolvimento. O desenvolvimento capitalista, exacerbado na sua versão global neoliberal, na busca do lucro privado a todo custo, cria estruturas e processos econômicos de poder político, culturas de exploração e domínio do capital que têm no centro o produtivismo e o consumismo como valores máximos a serem alcançados por meio de uma desenfreada competição entre pessoas, empresas, setores e países. Como base científica e técnica desse desenvolvimento, vemos a riqueza crescer, mas contra nós – pela exploração, exclusão e desigualdade social – e contra o bem comum maior, que é o patrimônio natural, num verdadeiro extrativismo destruidor. A experiência do socialismo real, centrada na capacidade planificadora e executora do Estado, tanto em relação à organização produtiva como em relação à distribuição dos bens e serviços, em nome da justiça social, mostrou seus enormes limites em termos de desenvolvimento. A sua base científica e técnica também estimulou o produtivismo a todo custo e a conseqüente destruição ambiental, sem contar que suas conquistas na área da justiça social não são sustentáveis, exatamente por falta de ativa participação cidadã. Ainda vale destacar que, em ambos os modelos,

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a questão da cidadania e dos direitos humanos, bases de uma democracia radical, não estão presentes. O que importa, porém, é o fato de tais modelos, como paradigmas, serem ainda hegemônicos e funcionarem como estruturas mentais subjacentes, verdadeiros códigos de referência para o pensamento e a ação. Em oposição à lógica desencadeada por esses modos de pensar o desenvolvimento, suas políticas, as relações sociais e os processos que priorizam, devemos afirmar aqui o primado dos valores da igualdade, liberdade, diversidade, solidariedade e participação cidadã, tendo como referência todos os direitos humanos, para todas as pessoas. Um aspecto fundamental na construção de paradigmas novos, com novas culturas políticas democráticas para o desenvolvimento, é articular e fundir a idéia da busca da mais ampla igualdade com radical respeito à diversidade que nos caracteriza como seres humanos e caracteriza nossas culturas, bem como à natureza, seus recursos e biodiversidade, que compartimos. Um princípio fundamental, em tal perspectiva, é partir da afirmação que homens e mulheres, em sua condição de detentores de direitos e de cidadania, são capazes e podem, responsavelmente, construir a história, a sociedade, a economia e o poder. Para isso, é fundamental resgatar e reinventar a política, o espaço público de debate e disputa, a afirmação da prioridade do bem comum e público sobre o individual e privado, ou seja, da política sobre os mercados. Mas política aqui não fica limitada ao estatal. Trata-se de politizar todas as relações, na economia, na comunidade, na cidade, na cultura, no poder, na apropriação e no uso da natureza, na vida.

Estamos diante de realidades complexas, com muitas e diversas culturas e, portanto, com muitas identidades e alternativas possíveis. Os próprios sujeitos sociais da promoção da democracia, dos direitos humanos e do desenvolvimento são diversos. Não existem protagonismos a priori. É no processo de disputa que se constrói a democracia como modo de vida e organização do poder e se definem as prioridades de desenvolvimento. Nesse sentido, temos muito a aprender com os movimentos feministas, que buscam construir subjetividades alternativas como condição para novas formas de participação e organização social. A partir desses movimentos, somos levados a perceber dimensões de raça, de gênero e de orientação sexual com a mesma importância que anteriormente se atribuíam a relações de classes sociais. A radicalidade de uma perspectiva fundada nessas dimensões repõe em outro plano a questão dos direitos humanos, da responsabilidade cidadã, da democracia e do desenvolvimento da sociedade, capaz de incluir todas e todos. Os espaços de disputa política e definição dos rumos democráticos e do modelo de desenvolvimento são diversos, pois são espaços de experimentação, de novos modos de organização e convivência humana, de novas formas de família e sociabilidade, de emergência de novos direitos. É fundamental debruçarmos sobre as alternativas embrionárias, marcadas pela capacidade decisória de seus participantes, baseada na responsabilidade coletiva, na coesão social e na ação solidária. Os pressupostos aqui levantados implicam outra sociedade, outra política e outra economia para frear tanto o absolutismo do mercado como o poder estatal absoluto e abrir condições para a plena realização das capacidades humanas.

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PRECONDIÇÕES PARA A FORMULAÇÃO DE UMA NOVA AGENDA

• Um profundo ancoramento ético: toda política e sua institucionalidade devem ter como princípio absoluto o respeito aos ditames da cidadania de todos e todas, numa verdadeira equalização do poder. O enfrentamento da desigualdade e exclusão social é prioridade para a democracia, como responsabilidade e dever do Estado na definição de políticas e alocação de recursos, antes de qualquer imposição dos mercados. Reconhecer as várias formas de diversidade da cidadania e buscar a igualdade é um imperativo ético e democrático. O uso sustentável e eqüitativo dos bens comuns naturais é também uma imposição ética e condição incontornável para o desenvolvimento humano democrático. • Um grande projeto mobilizador: o sonho e a esperança precisam renascer. Para cimentar a vontade coletiva em torno de um projeto de Brasil democrático, é necessário que a agenda de uma nova onda seja capaz de despertar o sonho e captar a esperança ainda presente em nossa cultura popular. Essa é uma condição para enfrentar o ressurgimento do cinismo e da perda de valores, especialmente nos estratos médios urbanos, levados a crer na exacerbada competição e no individualismo, da atitude de “salve-se quem puder”. Mas é, também, condição para que não prospere a fragmentação de movimentos e lutas sociais, na desesperança de soluções à vista e na falta de mediação política legítima. Solução democrática de inclusão de todas e todos, de bem com o nosso patrimônio natural, é possível. Entretanto, precisamos acreditar. • Um modo de fazer radicalmente democrático: a solução dos problemas do Brasil passa pela cidadania, e não pelo Estado ou pela economia. Quem faz a diferença somos nós, mulheres e homens, jovens e velhos(as), brancos(as) e negros(as), indígenas de todas as tribos. Enfim, nós, em nossa comum qualidade de cidadãs e cidadãos. A tarefa essencial e imprescindível é alargar o espaço público, o debate sobre todos os direitos a todas as pessoas, sobre a legalidade que deve dar conta da legitimidade. A participação responsável, a mais direta possível, é o caminho. Só o poder democrático baseado na participação direta é legítimo e capaz de enfrentar as tarefas que a democracia exige.

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RADICALIZAÇÃO DO FEMINISMO, RADICALIZAÇÃO DA DEMOCRACIA
MARIA BETÂNIA ÁVILA
Socióloga, coordenadora geral do SOS Corpo Instituto Feminista para Democracia

Podemos definir democracia como governo pelo povo ou governo pelo poder do povo. Mas quando foi, de fato, que o povo governou? Para o feminismo, desde a sua origem, se impõe a questão sobre as mulheres como parte do povo que governa. A esfera política foi historicamente construída como um domínio dos homens, e está relacionada com a dominação sobre as mulheres no espaço da vida privada. O feminismo, como movimento político, nasce confrontando a relação entre liberdade pública e dominação privada – o que já traz uma exigência de radicalidade, de pensar a democracia não só como um sistema político, mas como uma forma própria de organização da vida social. A organização política do feminismo surge com a revolta das mulheres, forjada em uma experiência histórica concreta de relações sociais de desigualdade. A práxis feminista é ação política e pensamento crítico. Portanto, a radicalidade da ação está relacionada com a reinvenção da prática política e com a produção teórico-analítica feminista nos vários campos do saber. Para a construção do sujeito, conhecer e agir são dimensões inseparáveis. Isso fica mais claro quando constatamos que a produção de saber é também uma esfera da dominação masculina. Dominação simbólica diretamente voltada para reprodução da dominação e da exploração material – patriarcal e capitalista.

ENFRENTANDO OS CONFLITOS

Há, no movimento feminista, diversidade de organizações e lutas e há desigualdade entre as mulheres que as compõem: mulheres de classes desiguais; de raças diferentes (transformadas historicamente em desigualdades); mulheres negras; mulheres indígenas e rurais; trabalhadoras domésticas, que constituem, majoritariamente, a classe das mulheres pobres; mulheres cujas desigualdades de classe, de raça e de gênero encontram-se entrelaçadas; mulheres lésbicas, que radicalizam contra as heranças do padrão heterossexual dominante; portadoras de necessidades especiais; mulheres de várias gerações, que trazem os conflitos inerentes entre transmissão e reinvenção. Por isso, a necessidade de radicalizar, de viver o conflito interno no movimento – enfrentando democraticamente as várias tendências e proposições –, de produzir conflito na sociedade em torno das suas proposições, de entender que radicalizar também é ser referência para outras mulheres fora do espaço da sua própria organização. A radicalização do feminismo diz respeito à sua própria forma de organização e à sua ação no mundo. Se o movimento é radical, a sua organização exige, de imediato, os meios para enfrentar as contradições da mulher na vida cotidiana, que deve exercer o direito de existir como sujeito político – já que uma das conquistas do feminismo é a instituição da mulher como sujeito. Para pensarmos em uma proposta radical de luta feminista, é importante pensarmos no acesso aos espaços de luta. Caso contrário, a desigualdade social e as discriminações se transformam perversamente em um déficit do sujeito. No cotidiano, há bloqueios para as mulheres se movimentarem entre as esferas pública e privada, como a violência sexual e doméstica, o preconceito, a dupla jornada de trabalho e a falta de tempo. O trabalho das mulheres nas esferas produtiva e reprodutiva está marcado pela desigualdade da divisão sexual do trabalho. Precisamos responder teórica e politicamente à transformação dos fundamentos econômicos dessa divisão e das relações sociais por ela produzida. A mercantilização do corpo das mulheres, do prazer, e a banalização da exploração sexual são dimensões importantes da globalização econômica. As mulheres são consideradas alvos estratégicos do consumismo, e o apelo sexual é o elemento central desse método. A indústria cultural, por intermédio dos diversos meios de comunicação, produz, cotidianamente, as mais enlouquecidas formas de alienação e apreensão de todas as propostas de liberdade e igualdade. É também no terreno da sexualidade que a força repressiva das instituições religiosas e fundamentalistas têm produzido controle e abusos em nome de princípios transcendentes.

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A ilegalidade e a clandestinidade do aborto, por exemplo, sempre serviram aos interesses mercantis e ao poder das igrejas na dominação sobre a vida das mulheres. Na América Latina e no Caribe, o poder do Estado esteve historicamente nas mãos de homens, em sua maioria, ligados aos senhores da terra, da indústria e do capital financeiro, subordinados e aliados dos senhores do Norte. O patrimonialismo, que teve grande peso na conformação desses Estados, a violência no campo, a violência sexual, o racismo, a homofobia, a violência sobre o povo indígena, a concentração de renda e seu reverso, a pobreza, são marcas que persistem a partir de uma imbricada relação entre dominação simbólica e reprodução da desigualdade social.
ATUAÇÃO MAIS POPULAR

Um projeto político que propõe a democratização da vida social deve ser radicalmente contra o racismo, a heterossexualidade como modelo hegemônico, as formas autoritárias de gerir o poder político e contra as instituições que sustentam a dominação e a exploração: igreja, família, Estado e mercado. Enfim, deve ser radical no seu confronto com o sistema capitalista e patriarcal. As mulheres, sobretudo negras e indígenas, são a maioria nos povos pobres da América Central, da América do Sul e do Caribe. Assim, se o feminismo na América Latina e no Caribe não enfrentar a pobreza das mulheres, a democratização da terra – e o acesso das mulheres a ela – e o direito ao próprio corpo, não pode radicalizar. O feminismo deve se popularizar, se estender por todos os cantos onde as mulheres são exploradas e violentadas, criar raízes como uma organização política voltada para a transformação social. Por isso, duas questões devem ser assinaladas como relações dialéticas entre o feminismo e o movimento de mulheres no geral: qual é a capacidade do movimento feminista de reconhecer todas as expressões de lutas cotidianas de milhares de mulheres que produzem mudanças nas comunidades onde vivem, nas instituições onde trabalham, que se definem como feministas (ou não), e que forjam um amplo movimento de mulheres? Como o feminismo se relaciona com essa movimentação de mulheres? A radicalidade também passa pela não aceitação da idéia de que os fins justificam os meios. Radicalizar é lutar contra a hegemonia de uma visão liberal de democracia, contra a visão da democracia liberal como a única experiência histórica e a única definição possível de democracia.

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RECUPERAR A UTOPIA

A CAPACIDADE DE ENFRENTAR AS DIFERENÇAS E OS CONFLITOS DEMOCRATICAMENTE, POR MEIO DO DIÁLOGO, É UM DESAFIO PARA A ORGANIZAÇÃO DO FEMINISMO

Quais são as formas de democracia política que forjamos, teorizamos, praticamos, defendemos e alteramos? É a representativa, a participativa, a democracia direta? Como podemos democratizar o sistema de poder político? Como o feminismo enfrenta, de fato, o sistema de poder político, produz crítica e confronto? Como se apresenta, agora, para o movimento feminista, a questão do poder? Enfrentar esse sistema – no qual as estruturas que reproduzem as desigualdades se imbricam – requer uma capacidade imensa de organização, solidariedade e generosidade em nossas articulações, bem como uma capacidade crítica para combater, em nós mesmas, as formas de agir herdadas da tradição desse sistema e das tradições políticas autoritárias. Entre a fragmentação atomizada e os modelos totalitários, temos que inventar processos de democracia radical, capazes de alterar a ordem social vigente e as formas de fazer política. A capacidade de enfrentar as diferenças e os conflitos democraticamente, por meio do diálogo, é um desafio para a organização do feminismo. Negar o conflito só fragiliza a luta e diminui a capacidade de organizar uma resistência coletiva. A democracia política radical exige uma nova cultura política. É preciso repensar os métodos feministas utilizados para construir autonomia e relações não hierárquicas dentro do movimento e também em relação a outros movimentos, reafirmando sempre a pluralidade dos sujeitos. O Fórum Social Mundial nos impõe um grande desafio nesse sentido.

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Diante dos desafios que temos, a mobilização e a consciência crítica são elementos estratégicos. Logo, a organização política, a socialização dos saberes e os processos educativos, voltados para a formação de sujeitos, são indissociáveis como método para uma práxis transformadora. Há uma relação dialética entre os processos coletivos de ação política transformadora e as experiências alternativas, as “microrevoltas”, as aquisições de direitos e a luta dentro das instituições que, na vida cotidiana, forjam novas experiências. Temos que fortalecer as bases organizacionais de um internacionalismo crítico e ativo, capaz de se opor, verdadeiramente, ao neoliberalismo, ao terror e à guerra, à mercantilização da vida e dos bens comuns da natureza, ao fundamentalismo. Um internacionalismo que atravesse desde a luta na aldeia mais recôndita até os grandes centros urbanos. Devemos recuperar a utopia – no sentido defendido pela filósofa feminista Françoise Collin – como fratura permanente com o que há, como abertura para transformar, e não como representação de um modelo. A feminista Cristina Buarque defende a necessidade de mostrar claramente o que rejeitamos, de expressar com determinação o nosso confronto. O momento da ação política transformadora também é o momento da invenção de novas relações, de construção de subjetividade e, portanto, da reinvenção coletiva e da reinvenção de nós mesmas.

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O MOVIMENTO SOCIAL E A NOVA “GUERRA DE POSIÇÃO”
PIERRE BEAUDET

Em 2001, realizava-se o primeiro Fórum Social Mundial (FSM), em Porto Alegre. Naquele momento, poucas pessoas tinham uma idéia clara sobre seu significado e seu alcance. Percebia-se, intuía-se, que algo “estava no ar”. A insurreição “de baixa intensidade” dos Zapatistas, os avanços do movimento social, particularmente na Europa Latina e na América do Sul, as gigantescas manifestações anti-neoliberais realizadas em quase todo o mundo, sacudiam a ganga de chumbo do capitalismo e questionavam as “teorias” do fim da história e do triunfo da civilização ocidental.1

A revolta dos Zapatistas, no Chiapas mexicano, ocorreu no início de 1994, quando o governo mexicano aderiu ao Acordo de Livre Comércio com o Canadá e os Estados Unidos. Os movimentos sociais despontaram a partir de meados da década de 1990, notadamente na França (greves de 1995), na Bolívia (“guerras da água”) e em outros lugares. Então, poderosas coalizões se estruturaram para paralisar conferências e cúpulas organizadas por Estados em torno de propostas neoliberais promovidas pela Organização Mundial do Comércio, do projeto de criação de uma Área de Livre Comércio para as Américas e das reuniões de cúpula do G-8, como ocorreu em Seattle, em Gotenburgo, em Gênova, em Quebec, em Johanesburgo e em várias outras cidades do mundo.
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SEIS ANOS DEPOIS

Reunidos na capital do estado do Rio Grande do Sul, no Sul do Brasil, por iniciativa dos movimentos brasileiros e com o apoio da municipalidade petista, os movimentos sociais projetaram-se usando uma complicada inteligibilidade. Eles percebiam que as linguagens que falavam eram, ao mesmo tempo, semelhantes e diversas. Embora aparentemente desconectados uns dos outros, estavam em rede, mesmo que apenas através dos tênues fios da Internet. Os movimentos sociais começavam a adotar, pelo menos intelectualmente, um itinerário de ruptura parcial, ambíguo e aparentemente sem horizontes bem definidos. Para a maioria dessas organizações, com efeito, não havia como invocar alguma “megateoria” ou alguma “grande utopia”, como ocorrera com os movimentos sociais do século XX. Assim, sob o sol de Porto Alegre, surgiu uma nova experimentação durante os próprios trabalhos, por meio de novas gramáticas, de novos códigos e de novas expressões. Mas, seis anos depois, o que foi feito do movimento social? Sabe-se, é claro, que seis anos, numa temporalidade histórica, não correspondem a mais de seis segundos! Seria preciso, portanto, uma grande arrogância, (e alguns a tinham, mas não diremos quem) para propor esquemas explicativos globais. Nesse processo, é necessário prudência, modéstia, respeito e paciência.2
A IRRUPÇÃO DOS SUBALTERNOS

SOB O SOL DE PORTO ALEGRE, SURGIU UMA NOVA EXPERIMENTAÇÃO DURANTE OS PRÓPRIOS TRABALHOS, POR MEIO DE NOVAS GRAMÁTICAS, DE NOVOS CÓDIGOS E DE NOVAS EXPRESSÕES

Na esteira do sucesso do FSM e da intensa ciranda das mobilizações sociais que continuam a se ampliar, o movimento social retomou a confiança. Trata-se de um grande avanço, que se apóia, sem determinismo, nas transformações profundas de longa duração de nossas sociedades, como o explica tão bem Immanuel Wallerstein.3 O ritmo das mudanças imediatas é bem visível e intenso, notadamente na América do Sul.4 As classes populares continuam a dizer “basta” aos dominantes

2 3

Pensamos na pequena frase de Groucho Marx: “Pode-se prever tudo, menos o futuro”.

Ver especialmente seu comentário sobre o FSM. Disponível em: <http://www.binghamton.edu/ fbc/130en.htm>. Acesso em: 18 dez. 2006. As mobilizações não cessam de cruzar o continente. A direita pró-americana foi vencida eleitoralmente em quase todos os lugares, com exceção do México. Lá, segundo todas as aparências, ela se manteve no poder graças a uma monumental fraude.
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nas ruas e pelo voto. Os grupos subalternos, e entre eles os povos originários e os camponeses, não querem mais, enquanto as elites, sobretudo brancas e urbanas, não podem mais.5 A América do Sul se tornou um vasto laboratório onde se experimenta um novo diálogo entre um aprofundamento democrático e uma espécie de “neokeynesianismo” de esquerda. Sem cinismos ou desilusões, imensas massas agem para alterar os termos do poder, sem esperar, ingenuamente, por um milagre qualquer, que viria de cima para baixo, de um “salvador”. Essas massas exercem pressões sobre os interlocutores políticos para que eles empreendam grandes reformas, de modo a restabelecer certa redistribuição social e a proteção do bem comum. Será que isso vai funcionar? As opiniões se dividem, mas quer façamos parte dos otimistas, dos pessimistas ou dos “otipessimistas”, constata-se que a estrutura do poder foi efetivamente abalada.
A DIREITA SOB O CHOQUE

Em outras partes do mundo, os setores mais arrogantes e os mais agressivos da direita estão sofrendo duros revezes. É o que ocorre na Índia, na Espanha, na Itália e, mais recentemente, nos Estados Unidos.6 É claro que o jogo dos partidos e da alternância nas democracias representativas tem um forte impacto nessas mudanças. Entretanto, seria essa a única razão? As massas em ação e os movimentos fluidos lançam sobre essas direitas um descrédito total, principalmente ao revelarem a amplitude da “malandrocracia” que se apoderou do poder em vários países ditos democráticos. Setores cada vez mais significativos da população se dão conta das empreitadas que solapam a democracia pelo viés de derivas militaristas e

É uma paráfrase da afirmação de Lenine: “Uma revolução sobrevém quando os de cima não podem mais e os de baixo não querem mais”.
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A direita “dura” (o BJP) perdeu as eleições na Índia em 2004. O governo Aznar foi vencido, a despeito das expectativas na Espanha, por uma formidável mobilização antiguerra organizada pelos jovens, que pôs a nu a grande mentira da direita contra os movimentos bascos, por ela acusados de serem responsáveis por grandes atentados terroristas. Mais tarde, Berlusconi foi vencido e, finalmente, mais recentemente (novembro de 2006), os eleitores americanos rejeitaram a administração Bush e sua política de guerras no escrutínio para a renovação do Congresso.
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repressivas que criminalizam as classes “perigosas”, a começar pelos “elos mais frágeis” (imigrantes, refugiados e jovens). Em quase todos os lugares, contra essa realidade, retumba um formidável NÃO. Como resultado, o grandioso projeto de “reengenharia” do mundo, promovido principalmente pelos neoconservadores (mas não apenas por eles) nos Estados Unidos, é contido pela resistência dos povos, por um feixe complexo e diversificado de movimentos, de expressões organizadas ou espontâneas. Por outro lado, esse projeto é freado por uma combinação de forças políticas, sociais e culturais, numa espécie de “arco de tempestades” que atravessa o globo terrestre de Jacarta a Casablanca, passando por Cabul e Bagdá. É uma grande reviravolta. Há alguns anos acontecia o deslanche de uma ofensiva reacionária que visava reconstituir um “consenso” entre os dominantes e fazer com que os dominados recaíssem na impotência e na indiferença.
O TURBOCAPITALISMO SEM FÔLEGO

Enquanto isso, o capitalismo, que afirmava ser o “fim da história” após ter “triunfado” sobre o socialismo, esbarra em suas próprias contradições. As turbulências econômicas se aceleram: de um lado, há a intensificação da competição entre a “tríade” (Estados Unidos, União Européia, Japão); do outro, entre a tríade e alguns países ditos “emergentes”, notadamente a China. A “bolha” financeira americana, dopada por um dólar abusivamente superavaliado, está se tornando cada vez mais frágil, sem que a União Européia, e mesmo o Japão, estejam em condições de reverter a tendência profunda ao decrescimento. A incessante canibalização dos pequenos pelos grandes e dos grandes pelos ultragrandes concentra a riqueza num processo de polarização de classes, cuja evolução havia sido prevista por Marx. Até hoje, os cenários dos dominantes para a “saída da crise” contentam-se em forçar os dominados a aceitar o inaceitável, como ocorria antes de Keynes.7 Isso não funciona mais. Paralelamente, os “crashes” e as catás-

O feito genial de Keynes foi, justamente, salvar o capitalismo. Não o fez pela repressão, mas pela formulação de um compromisso social no qual os dominantes concederiam uma parte da riqueza social aos dominados em troca de uma estabilidade a longo prazo e de sua aquiescência ao capitalismo. Naturalmente, essa grande transação havia sido imposta aos dominantes pelo contexto da época, quando a hipótese de uma ruptura revolucionária com o capitalismo estava ao alcance da vista.
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trofes financeiras proliferam, fazem desabar, umas após as outras, as “sucess stories” da bíblia “bancomundialista” (Argentina, Tailândia, Indonésia etc.). O trabalho pioneiro de Robert Brenner sobre os ciclos longos e a inexorável contradição que mina a acumulação capitalista, nos trazem de volta a realidades fundamentais que diversas ideologias do tipo “panela de pressão”, ditas pós-modernistas, queriam mascarar.8 A crise semipermanente, a competição destruidora das ferramentas econômicas e das vidas que as animam, o assustador desperdício de recursos, não são “acidentes” ou “danos colaterais”, mas sim características constitutivas do capitalismo que nenhum “corretivo” interno poderá resolver. No entanto, diversamente do que reza uma outra bíblia (desta vez a da esquerda), é preciso saber que esse processo de autodestruição sem fim não levará necessariamente à autodestruição do capitalismo. Muito pelo contrário.
UM (OUTRO) FIM DA HISTÓRIA?

Por meio de uma série de processos, a relação de forças entre dominantes e dominados limita, bifurca, se fragiliza e desequilibra todos os futuristas mais ou menos experimentados, sejam eles de direita ou de esquerda. Diante desse vazio analítico, alguns concluem, com demasiada pressa, que estamos “às vésperas de uma grande reviravolta”. A grande noite, o dia D, o ponto de ruptura está chegando, dizem eles. Para alguns, o declínio do capitalismo está marcado na história. Sob sua forma neoliberal, ele entra na fase “senil”, sem capacidade de renovação, deixando atrás de si a devastação, as guerras e os confrontos permanentes. Para outros, as “multidões” sem nome aprontam-se para desferir o golpe fatal contra o “poder biopolítico”. De uma forma ou de outra, vários prevêem, diversamente dos neoliberais de Washington, um outro “fim da história”: um “happy end” dos movimentos sociais, desde que, esclarecem alguns, eles saibam abandonar suas veleidades autonomistas e reconheçam a linha e a tática justas que possam “capturar”, numa surpreendente síntese do futuro da contestação social.

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Ver sua última obra: The Economics of Global Turbulence. London: Verso Press, 1998.

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A PESADA HERANÇA DO CATASTROFISMO

Não é a primeira vez que um movimento social, embriagado pelo seu próprio sucesso e por uma crise aparentemente “terminal” do capitalismo, prediz um outro fim da história. A Segunda Internacional, da mesma forma que a Terceira, incrustaram no seio do movimento social a idéia herdada do Século das Luzes, ou seja, a de que a “modernidade” e o “progresso”, e até mesmo o socialismo na sua versão proletária, iriam necessariamente triunfar em um futuro próximo!9 A crise, a verdadeira crise, a grande crise, a crise com C maiúsculo, iria inelutavelmente sobrevir. O movimento social deveria agir para “precipitar” essa crise inelutável (pela insurreição) ou para aguardar que o “fruto maduro” do capitalismo caísse por si só e fizesse evoluir a sociedade, por meio de um processo “natural”, em direção ao socialismo (socialdemocracia). Esse catastrofismo “de esquerda” acompanhou, durante todo o século XX, sob uma pluralidade de formas, o pensamento crítico. Mercê da atração de sua argumentação e munido da força desenvolvida por toda uma geração de movimentos, ele se cristalizou numa “sociologia” das relações dominantes-dominados, que se reproduz até hoje.
O CAPITALISMO SE REPRODUZ PELA DESTRUIÇÃO DO CAPITAL

As crises políticas, sociais e econômicas do capitalismo realmente existente, sem dúvida alguma, se multiplicam. Elas expressam processos complexos e contraditórios. Marx havia demonstrado, de forma magistral (e isso foi esquecido posteriormente), que o capitalismo se nutre de crises e se amplia por meio das crises.10 A destruição do capital assegura sua reprodução. Paralelamente, a despeito de outras interpretações fechadas, o capitalismo se desenvolve pela competição, pela concorrência – e por meio dela –, pelo deslocamento incessante dos atores e das forças. Hoje, o modelo neoliberal, que é evidentemente um constructo político – e não uma fatalidade –, domina e reestrutura o capitalismo de várias maneiras. Ele se desloca “geograficamente”, pelo menos de forma parcial, em direção a partes do “Sul global”, que se transformam em novas zonas de acumulação intensiva. Ele força reconfigurações onde as burguesias da “tríade” são confrontadas por potências capitalistas emergentes, especialmente a China, sem mencionar os outros pólos em situação de devir (Índia, Brasil e

Dissidentes precoces, como Rosa Luxemburgo ou Walter Benjamin, já tinham enxergado essa opacidade analítica.
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“As crises do mercado mundial devem ser vistas como a síntese real e o achatamento violento de todas as contradições dessa economia”. MARX, Karl. Matériaux pour l’économie (1861-1865). Œuvres. Paris: Gallimard, 1968.v.2.
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Rússia). O modelo neoliberal “reestrutura”, na destruição, as classes populares e as chamadas classes “médias”, tanto no Norte quanto no Sul, excluindo algumas (uma boa parte dos assalariados “fordistas”, que proliferaram notadamente no período keynesiano) e incluindo outras camadas (entre 10 e 15% da população do Sul global que tem condições de tornar a oferta capitalista solvente), ao mesmo tempo que condena à morte centenas de milhões de “não-cidadãos”, em sua maioria camponeses. Nada indica que esse modelo não seja “sustentável”, a não ser pelo esgotamento acelerado dos recursos, um fenômeno que é muitas vezes mal interpretado, de forma catastrofista, por certo ecologismo.
AS DIFERENTES “GESTÕES” DA CRISE

Nessa evolução, os dominantes dispõem de várias “estratégias”. Mesmo que o edifício de sua hegemonia esteja fissurado aqui e ali, suas fundações permanecem sólidas. Em larga medida, a “guerra sem fim” é uma dessas estratégias, pois ela permite repolarizar o mundo e, ao mesmo tempo, põe os dominados na defensiva. O objetivo dessa guerra é o de estender o império sob formas mais tradicionais, diretamente coloniais. O projeto, porém, esbarra em obstáculos formidáveis (o contra-exemplo do Iraque). Os neoconservadores teimam e planejam alçar essa guerra a um nível “superior”, mediante o uso, por exemplo, de armas nucleares,11 mas encontram diante de si os “neo-realpolitiks”, que consideram os velhos métodos do “indirect rule” mais eficientes, com a realização de alianças interestados e com a cooptação de uma parte das elites locais na gestão da dominação. Além de divididos por interpretações diferentes da crise e de suas possíveis soluções, os dominantes se vêem assediados e importunados por uma competição imperialista crescente. Os Estados Unidos, para manterem sua dominação frente à União Européia e frente aos países emergentes, não têm outra escolha, racionalmente falando, senão apoiarem-se em certa remilitarização. No entanto, falta entusiasmo em seus concorrentes. Eles não são menos “imperialistas”, mas suas armas de dominação são mais econômicas e tecnológicas do que militares. Esse é um problema sério para os dominantes, mas não devemos subestimar a capacidade que eles têm de refazer certo número de consensos, principalmente porque estão conscientes das ameaças representadas por um movimento popular ascendente.12

No início de 2006, a administração Bush contemplou seriamente a possibilidade de lançar mísseis nucleares de “terceira geração” sobre o Irã. Considerou-se, entretanto, no mais alto escalão, que o projeto era “prematuro” e comportava riscos em demasia.
11

Durante a grande crise entre as duas guerras, a burguesia européia, que tinha medo de Hitler, receava ainda mais os movimentos sociais e a influência da União Soviética. Os dominantes franceses, principalmente, inventaram este slogan: “Melhor Hitler que o Front Populaire”.
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O SOCIAL-LIBERALISMO COMO PORTA DE SAÍDA

Há limites objetivos e subjetivos contra esses cenários de gestão de crise. Os dominantes sabem que é preciso continuar a guerra de posição contra os dominados por outros meios. A gestão “socioliberal” (o neoliberalismo com “rosto humano”) apresenta-se como uma tática tentadora. Trata-se, substancialmente, de oferecer a uma parte dos dominados uma redistribuição marginal da riqueza social ou apenas assegurar que a parte que eles já detêm não sofrerá qualquer redução, desde que aceitem as regras do jogo: a perda dos “direitos adquiridos”, a flexibilização do trabalho e o encolhimento do guarda-chuva da seguridade social. Estamos, naturalmente, longe da grande solução de compromisso oferecida por Keynes, que propunha, ao contrário, uma redistribuição substancial e uma melhora visível das condições de vida das classes populares. De uma forma um pouco perversa, a gestão socioliberal joga os pobres contra os “ultrapobres”, as classes médias proletarizadas contra os camponeses excluídos, oferecendo a estes últimos, contra os interesses dos outros, certa garantia de que eles não se tornarão os excluídos. E aqui, mais uma vez, não devemos subestimar o impacto dessas políticas e suas capacidades reais de estabilizar o espaço político em proveito dos dominantes.
O MOVIMENTO SOCIAL EM DESAFIO

O movimento social é, ao mesmo tempo, forte e fraco. É forte em razão de diversas vitórias que forçam os dominantes a recuar e por conseguir impor, aqui e ali, novos avanços democráticos. É fraco por estar longe de reunificar as classes populares em torno de um projeto utópico e factível. Ele ainda é enganado pelas táticas da direita e permanece enredado em nosso passado catastrofista e vanguardista. Para alguns, a alternativa é a de se tomar de “assalto ao céu” e forçar a ruptura entre nosso movimento social e os dominantes, até mesmo na sua apropriação do espaço político. É preciso, portanto, que a “esquerda da esquerda”, que repousa no movimento social, se projete no anteplano, mesmo que isso signifique a realização de dolorosas rupturas. Para outros, uma tal virada comporta mais desvantagens do que vantagens. A força do movimento social repousa sobre sua exterioridade relacionada com certa temporalidade política, sobre sua definição

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pela ação mais do que numa adesão a um programa de transformação que, necessariamente, acaba delimitando o horizonte das lutas. Ele extrai sua força da proximidade que mantém com a galáxia das reivindicações e das resistências, principalmente por não tentar “reduzi-las” ou hierarquizá-las. Ele se redefine perpetuamente pela inclusão de novas identidades de luta, com as reviravoltas das relações de força e dos ciclos do capitalismo. O esforço de coligação desses processos heterogêneos é conseguido pelo movimento social ao reunificá-los, sem achatá-los, a partir de evoluções necessariamente conjunturais e efêmeras.
“SER” OU “FAZER” POLÍTICA

Nesse contexto, o movimento social “é” político, mas não “faz” política. É preciso continuar a funcionar, a exercer influência no espaço político tal como este existe – e não como se fosse num outro “planeta” – ou aguardar que a grande noite sobrevenha como resultado da grande crise. No imediato, esse espaço é limitado. Há, de um lado, o neoliberalismo militarizado; do outro, o socioliberalismo que se exprime de várias maneiras. Para além dessas versões, o socioliberalismo, herdeiro de uma socialdemocracia em farrapos, aparece como aliado por falta de outro. As massas em movimento aceitam apoiá-lo sem muitas ilusões (e às vezes até tampando o nariz), não como uma capitulação, mas como uma forma de desestabilizar a direita.13 Acima, entretanto, dessas diferenças táticas, importantes entre aqueles que querem avançar diretamente no terreno político e aqueles que querem determiná-lo “de fora”, existe um forte consenso que se rearticulou na esteira das idéias do FSM. Todo mundo (ou quase) interiorizou a idéia de que não se trata mais de subordinar o movimento social a projetos políticos imediatos. A maioria dos movimentos reconhece que é inaceitável censurar grupos subalternos em nome da “linha justa” ou da “contradição principal”. Em suma, está emergindo, há alguns anos, uma idéia estruturante. Como ela continua a fazer progredir as coisas, os movimentos estão, de uma maneira geral, conscientes de que não se deve desviar do itinerário empreendido para estimular uma força popular consciente e proposicional.

Isso foi, notadamente, a escolha do movimento social na Índia. Desde a derrota da linha dura (o BJP), a diretriz majoritária (existem dissidentes) é a de apoiar partidos centristas como o do Congresso, esperando que isso crie mais espaços para as forças de transformação.
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JUSTAMENTE A “GUERRA DE POSIÇÃO”

Devemos nos lembrar do contexto no qual Gramsci utilizou essa imagem. O movimento social ascendente na Europa do século XX esbarrava no muro do capitalismo militarizado, secundado por uma poderosa esfera política antiinsurrecional. O sensacional golpe da revolução russa, pensava Gramsci, não tinha como ser repetido. A extraordinária conjunção de forças entre o desmoronamento de um império declinante, a decomposição rápida de seu exército e a explosão do campesinato, acoplados ao surgimento de um movimento social dinâmico nos centros capitalistas, não tinha como se “reproduzir”. De uma “guerra de movimento” ofensiva, e que queria chegar aos últimos limites, o movimento iria passar de uma “guerra de posição, uma guerra de trincheiras”, a um movimento lento, a uma constante corrosão das posições do adversário, a uma série de combates laboriosos, esgotantes, duros, tanto no plano das forças quanto no plano das idéias. Nessa visão, o Estado, contrariamente a uma percepção bem enraizada, não era simplesmente um “objeto” ou um local a ser “capturado”, tal como um “palácio de inverno” (Lenine já o havia percebido), mas uma relação multidimensional de forças a serem transformadas. Na esteira da revolução de outubro e do imenso entusiasmo que ela tinha suscitado, as massas em movimento não se sentiram atraídas por essa perspectiva e se lançaram, efetivamente, ao “assalto ao céu”, acabando por desembocar numa série de catástrofes, como aquela que sobreveio na Alemanha. No outro extremo do mundo, entretanto, os cruéis fracassos da primeira revolução chinesa forçaram o movimento social a construir outra estratégia. As massas urbanas e o Partido Comunista, totalmente dizimados nos assaltos O MOVIMENTO SOCIAL SABE frontais contra o poder, tiveram a inteligência de QUE DEVE EVITAR A DERROTA pensar em recuar para transformar a derrota em vitória, além de fazer uma releitura da ciência da E GUARDAR SUAS FORÇAS E MANTER SEUS ESFORÇOS guerra de classes como a arte da sobrevivência, do PARA CONSTRUIR UMA NOVA contornar e da paciência. Mais tarde, na década de 1960, a proposta gramsciana ressurgiu, mas logo HEGEMONIA foi marginalizada, em virtude da torrente de uma nova insurreição terceiro-mundista. Atualmente, impõe-se uma nova exploração do tema. É claro que a situação mudou bastante. Intuitivamente, o movimento social sabe que deve evitar a derrota e encontrar uma forma de guardar suas forças, sua ascendência moral, e manter seus esforços para construir uma nova hegemonia.

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INVADIR AS TRINCHEIRAS DO ADVERSÁRIO

Hoje, nos confins do planeta, em um país cujo nome a maioria das pessoas ignora, estão em jogo consideráveis interesses. No Nepal, um movimento camponês organizado por um partido que se define como maoísta, chegou às portas do poder. Somente às portas, pois suas lideranças tiveram a inteligência de perceber que a ruptura está fora de seu alcance, não apenas em bases estritamente militares, mas em razão da ascensão dos grupos subalternos (camponeses, minorias étnicas, mulheres) que essa coalizão representa. Ela precisa negociar politicamente um espaço com uma fração dos dominantes e uma parte das classes populares urbanas. Os formidáveis avanços do movimento popular contra os objetivos do imperialismo americano e contra a hegemonia indiana souberam destituir a ditadura e transformar a correlação de forças. O movimento dos subalternos, essencialmente composto por camponeses armados, não se apresenta “na cidade” de “mãos vazias”. Ele envolve, tanto geográfica quanto politicamente, a cidade, que não é apenas uma urbanidade, mas também uma cultura, uma relação social e uma forma de gerir o poder. Ele procura destacar desse espaço classes populares semiproletarizadas para propor-lhes uma outra utopia. É, evidentemente, um imenso partido, que pode degringolar em sentido oposto e nada está antecipadamente assegurado.14
NÃO SER MAIS VÍTIMA

Em outro universo, os subalternos se revoltam contra suas condições de pestilentos em uma África do Sul pós-apartheid ou neo-apartheid. A criminosa gestão dos dominantes criou uma situação em que mais de 5 milhões de pessoas foram atingidas pela epidemia do HIV/Aids, que as está matando, a despeito da existência de ferramentas para interromper o massacre. Porém, em vez de se contentarem com seu papel designado de vítimas, essas populações se organizaram e desestabilizaram os dominantes. Mais ainda: com sua corte de movimentos nacionais e locais, eles elaboram o contorno de um novo movimento popular que objetiva criar, sob o edifício do poder, fissuras que enfraqueçam consideravelmente o projeto socioliberal no qual se transformou o African National Congress (ANC).15

A respeito da insurreição nepalesa, convém ler o analista indiano Siddharth Varadarajan. Disponível em: <http://svaradarajan.blogspot.com>. Acesso em: 18 dez. 2006.
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Ver a experiência do Treatment Action Campaign (TAC).

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UM MILHÃO DE “BATALHAS DA ÁGUA”

Em quase todos os lugares, sob a inspiração das formidáveis mobilizações de Cochabamba, articulam-se coalizões vencedoras que estão “gripando” a máquina neoliberal com grossos e, às vezes, enormes grãos de areia, que impedem a privatização e a pilhagem do bens comuns. Vimos isso acontecer na França com a resistência dos jovens e dos sindicalizados contra o projeto chamado de contrat première embauche (CPE), cujo objetivo era o de “flexibilizar” (dualizar) o mercado de trabalho. Foi o caso também da greve, bem-sucedida, em 2005, dos 300 mil estudantes de Quebec contra a mercantilização da educação. Em todos os lugares, massas inéditas se põem em movimento para recusar suas condições de excluídos e para pensar em escolhas que possam, a longo prazo, reconstruir uma alternativa para os vivos. As condições nas quais esses movimentos atuam são extremamente difíceis, principalmente pela hostilidade e pela violência dos dominantes. Porém, o maior desafio pode não ser esse. Muitos desses movimentos sociais não querem ser utilizados por projetos que têm por objetivo, simplesmente, diminuir a miséria. Eles sabem perfeitamente que não estão prontos, que não têm a capacidade hegemônica de impor um novo curso de ação. Não se trata, obviamente, de permanecer à margem, de esperar uma milagrosa contravolta das coisas ou de se manter longe da política definida como “política suja”. É preciso intervir, mas com discernimento e sem ilusões.
A “LIÇÃO” BOLIVIANA

Ao eleger o movimento ao socialismo (MAS), os camponeses e os povos originários bolivianos agiram com discernimento, paciência e determinação. Com relação a esse “partido não-partido”, guardam um afastamento necessário. Assim, previnem os líderes do novo governo, que permanecerão extremamente vigilantes e mobilizados. Eles os advertem que qualquer comprometimento acarretará, inevitavelmente, sua queda. Dizem a esses líderes que estão prontos a propor, a resistir, a participar de avanços sociais modestos, mas significativos, desde que não sejam utilizados como buchas de canhão. Diante disso, Evo Morales sabe que está, na verdade, numa crista de onda. Realisticamente, não podem levar o projeto do movimento social para além de uma “acomodação razoável”, como o admite Álvaro Garcia Linera, uma das cabeças pensantes do MAS.16 Então, nas planícies rurais e nas favelas do altiplano, se permanece paciente, mas alerta.
Segundo Linera, “o projeto de transformação que o MAS pretende implantar não pode ser qualificado nem de comunista, nem de socialista, nem mesmo de comunidades indígenas. Ocorre uma implosão das economias comunitárias no seio das estruturas familiares, que constituíram a estrutura a partir da qual surgiram as revoltas sociais. É necessário, nesse contexto, uma espécie de capitalismo andino. Trata-se de construir um estado forte, que possa articular de forma equilibrada as três plataformas ‘econômicoprodutivas’ que coexistem na Bolívia: a comunitária, a familiar e a ‘moderna-industrial’. A Bolívia continuará sendo capitalista durante pelo menos 50 ou 100 anos.” Bolivie depuis l’election d’Evo Morales. Entrevue avec Alvaro García Linera. Points de Repère, Alternatives International, Montreal, p. 16, hiver 2006.
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CONTESTAR O PODER, CONTESTAR A NÓS MESMOS

Essas duras lutas de longo fôlego abrem um horizonte imenso para o movimento social que tenta navegar em águas turbulentas. Para isso, está em andamento uma pesquisa para reconfigurar os movimentos e as estruturas que tornam suas ações possíveis. O fato não é mais segredo nem tabu. Os movimentos de transformação social reproduzem os códigos e as culturas que se expressam nas sociedades de onde eles emergem. Como poderia ser diferente? Para nós, materialistas, o pensamento dos humanos está inscrito no meio ambiente, mas não determinado por ele. Os humanos fazem sua história num mundo que eles mesmos criaram, como explicou Marx. A sociedade muda, novas idéias emergem contra as idéias dominantes. E assim segue a humanidade.
RUPTURAS

Uma linha de pensamento ascendente indica a necessidade de lutar contra hierarquias que impedem os subalternos de se expressarem. Isso se traduz de diversas formas na articulação das reivindicações e dos programas, mas também na sua maneira de ser e de agir. O horizontalismo de muitos movimentos sociais e, em maior escala, do FSM, poderá parecer excessivo, até mesmo paralisante, mas geralmente é o meio para quebrar o verticalismo, o “sim-chefismo” e o “eu-sei-tudismo” que caracterizaram várias gerações de movimentos. Os movimentos sociais devem se transformar, ainda mais explicitamente, no centro de gravidade de nossas análises.

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TENDÊNCIAS DOMINANTES DA NOSSA ÉPOCA. NOSSO TEMPO ESTARÁ SE ESGOTANDO?
EDGARDO LANDER1
Sociólogo, professor da Universidade da Venezuela

Este texto se propõe a fazer uma leitura angustiada sobre as condições com as quais estamos nos confrontando hoje no planeta, tanto do posto de vista das condições de sobrevivência da vida, como do ponto de vista das possibilidades de construção de sociedades democráticas, eqüitativas, culturalmente plurais e diversificadas, sociedades que vivam em paz orientadas para a celebração da vida e não para a guerra, a destruição e a morte. Dentre a multiplicidade de tendências e de processos aos quais se poderia fazer referência para a caracterização dos tempos atuais serão apenas abordados aqui cinco processos globais que se retroalimentam, como as principais tendências que formam o presente e o futuro da humanidade e da vida: As tendências à destruição das condições que tornam possível a vida no planeta Terra; a crescente mercantilização de todas as dimensões da vida, tanto social como natural; a guerra permanente e a crescente militarização do planeta; o ocaso histórico da democracia liberal; e as múltiplas e variadas expressões de resistência e de re-existência de povos, comunidades, organizações e movimentos que, a partir da maior pluralidade de experiências históricas e culturais em todo o planeta, opõem-se a esses processos destrutivos e reivindicam a vida, a democracia e a diversidade cultural dos povos.

Versão parcial da conferência apresentada na Seção Plenária No 4: “Panorama e desafios das ciências sociais na América Latina e no Caribe” da XXII Assembléia Geral da IV Conferência Latinoamericana y Caribenha de Ciências Sociais (Clacso), “Heranças, crises e alternativas ao neoliberalismo”, Rio de Janeiro, 25 de agosto de 2006.
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TENDÊNCIAS À DESTRUIÇÃO, A CURTO E A MÉDIO PRAZO, DAS CONDIÇÕES QUE TORNAM POSSÍVEL A VIDA NO PLANETA

A mais grave de todas as ameaças com as quais a humanidade e a vida no planeta hoje se defrontam é precisamente a destruição das condições que tornaram possível a existência da vida. Se não forem detidos os processos destrutivos acelerados que hoje nos ameaçam, se não houver mais vida, tudo o mais carece de sentido. As principais ameaças à vida são claramente uma conseqüência da ação do ser humano, das suas dimensões demográficas, das suas modalidades de ocupação territorial, dos seus modelos e estilos tecnológicos, dos seus padrões de consumo, dos seus imaginários e das suas concepções daquilo que constitui a riqueza e a boa vida. Já faz algumas décadas, ao soarem os primeiros sinais de alarme global2, que as tendências à destruição da vida – e que a inviolabilidade dos padrões atuais de relacionamento dos seres humanos com o resto da natureza – são cada vez mais conhecidos. Basta ler os principais meio de comunicação para se dar conta disso. Celebram-se inúmeras conferências e pactos internacionais. Os estudos ambientais e ecológicos ocupam um espaço cada vez maior no âmbito acadêmico. Generaliza-se, em todos os países, a criação de organismos públicos, como os ministérios do meio ambiente e de leis e regulamentos ambientais. Assim mesmo, os processos de destruição da vida não apenas não foram freados, mas têm se acelerado cada vez mais. Há muitas maneiras de conceitualizar e de avaliar e/ou medir o impacto da atividade humana sobre os sistemas de vida da Terra. Existem níveis significativos de incerteza sobre as dimensões assumidas por esses problemas, gerando continuadas discussões a respeito. O que parece claro, entretanto, é que, além das polêmicas em torno das conceitualizações e medições, há alguns lustros que os seres humanos, de forma extremamente desigual, estão utilizando a capacidade de carga do planeta muito além de suas condições de regeneração. Um dos métodos mais conhecidos de avaliação desses impactos é a utilização da chamada impressão ecológica. Trata-se de uma medida que registra de forma sintética o impacto humano sobre o planeta, tanto por meio do consumo de recursos e energia, como pela capacidade de processamento de rejeitos que os sistemas naturais possuem. Essa medida é

Entre os primeiros textos que contribuíram para dar inicio a esses debates globais a partir das décadas de 60 e de 70 do século passado, destacam-se: Silent Springs de Rachel Carson (Boston: Houghton Mifflin Co., Boston, 1962); e o famoso relatório comissionado pelo Clube de Roma, The Limits to Growth, de Donella H. Meadows, Dennis L. Meadows, Jorgen Randers y William W. Behrens III, (Universe Books, Nueva York, 1972).
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expressa em termos da superfície biologicamente produtiva exigida para fins humanos. Estima-se que o impacto da atividade humana ultrapassou a biocapacidade global do planeta na década de 1980, e não cessou de crescer desde então. Entre 1960 e 2001, a impressão ecológica global cresceu em 160%. De acordo com esses cálculos, no ano 2001 a impressão ecológica global já superava a biocapacidade do planeta em cerca de 21%.3 O índice do planeta vivente é um calculo do estado da sua biodiversidade que mede a densidade das populações das espécies vertebradas que vivem em zonas terrestres, na água doce e nos sistemas marinhos. Estima-se que esse índice reduziu-se aproximadamente 40% entre 1970 e 2000.4 Não se trata, entretanto, de uma responsabilidade abstrata “da humanidade”. Essas condições de sobre-utilização da capacidade de carga do planeta se dão numa situação de profundas e crescentes desigualdades no acesso aos bens que tornam possível a vida humana. Centenas de milhões de pessoas, sobretudo no Sul, mas não unicamente nele, carecem dos bens necessários para viver dignamente. Os habitantes dos países do Norte têm uma impressão ecológica quatro vezes maior do que os habitantes dos países do Sul. Enquanto a população dos países que não pertencem à OCDE está vivendo apenas no limite da capacidade produtiva biológica dos territórios ocupados por seus respectivos países, o conjunto dos países da OCDE está utilizando mais que dobro da capacidade produtiva biológica dos territórios que ocupam.5 Isso quer dizer que seus níveis de consumo são mais que o dobro dos níveis de consumo sustentáveis. Para isso, utilizam grande parte da capacidade produtiva biológica que caberia aos habitantes dos países que não pertencem à OCDE, isto é, da maioria das populações do Sul. De acordo com esses cálculos, 100% do excesso de impressão ecológica atual da humanidade (relativamente à capacidade produtiva biológica da Terra) é produzida pelos países da OCDE. Assim, por exemplo, enquanto a população africana utiliza apenas 77% da capacidade produtiva ecológica do território que ocupa, na Europa Ocidental a impressão ecológica ultrapassa em 53% a capacidade produtiva ecológica disponível no seu território. Esse número é de 55% nos Estados Unidos, apesar da densidade

WWF, The UNEP World Conservation Monitoring Centre, Global Footprint Network, Living Planet Report 2004, Gland, Suíça, 2004, p.10. [http://assets.panda.org/downloads/lpr2004.pdf].
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Op. cit., p. 2.

World Wide Fund International, The UNEP World Conservation Motinoring Centre, Redefining Progress, The Centre for Sustainable Development e Norwegian School of Management, Living Planet Report 2000. Table 2. Ecological Footprint Data: 1996., p. 24.

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populacional relativamente baixa desse país, da imensa extensão de seu território, e da extraordinária dotação de recursos naturais com os quais esse país conta.6 Isto significa que, com a deterioração da capacidade produtiva biológica dessas regiões, apela-se para proporções cada vez maiores da capacidade produtiva biológica do resto do planeta. Dada a crescente preocupação ambiental dos habitantes dos países do Norte e à incorporação do ambiente como critério de qualidade de vida nas últimas décadas (e dadas as profundas desigualdades na distribuição do poder, existente entre os países do Norte e do Sul), o crescimento da impressão ecológica dos países do Norte não provocou uma deterioração significativa de seus ecossistemas entre os anos de 1970 e 1999.7 A maior parte da deterioração dessas três décadas tem ocorrido nos ecossistemas do Sul. Isto significa que o aumento sustentado dos níveis de consumo dos habitantes dos países do Norte é diretamente responsável por essa deterioração, pela via de níveis de vida muito mais elevados do que o nível que seus próprios recursos naturais lhe permitiriam sustentar. Isso quer dizer que os padrões de consumo dos países do Norte (situados normalmente nas zonas temperadas) são os principais responsáveis pelas perdas em riquezas naturais que estão ocorrendo nas zonas tropicais e nas zonas temperadas do Sul.8 A partir do momento em que a atividade humana ultrapassa a capacidade produtiva biológica do planeta, as relações entre as populações, com relação ao uso que elas fazem da capacidade produtiva ecológica da Terra, passam a operar dentro de um jogo de soma-zero. Nessas condições, enquanto os ricos do planeta (independentemente de onde vivam, no Norte ou no Sul), continuarem a aumentar seus níveis de consumo (e sua impressão ecológica), estarão se apropriando de proporções crescentes da capacidade produtiva ecológica que caberia aos habitantes excluídos. A partir dessas condições de jogo de soma-zero, quanto mais ricos forem os habitantes do Norte, quanto menos, necessariamente, as maiorias do Sul terão acesso aos bens da vida. Mas a despeito das possíveis inovações tecnológicas que possam melhorar de forma acelerada e radical a eficiência no uso dos recursos e energia e venham a reduzir drasticamente a

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Op. cit. p. 27. Op. cit. p. 1.

Op. cit. p. 1. O consumo de recursos e de capacidade de carga do planeta é, entretanto, profundamente desigual, tanto no Norte como no Sul. As cifras correspondentes a essas definições territoriais, em razão de tratar-se de porcentagens, apresentam como homogêneas o que são, na verdade, profundas desigualdades no interior de cada território. Essas cifras, portanto ocultam as dimensões significativas da desigualdade que existem no acesso aos recursos da natureza.

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produção de rejeitos – tecnologias essas que não estão à vista –, esse jogo de soma-zero levará também ao consumo dos recursos e da capacidade de carga que caberiam às futuras gerações (humanas e não-humanas). Isso é evidentemente, insustentável. O assunto, que talvez recebe a maior atenção – e o reconhecimento da urgência implicada – nos debates sobre as transformações dos sistemas que sustentam a vida, é o das mudanças climáticas. Aqui se torna indispensável fazer referência a algumas pesquisas recentes que ilustram dramaticamente a gravidade das mudanças em curso e apontam para a necessidade urgente de transformações profundas nos padrões e imaginários da vida humana. O que parece estar além de qualquer dúvida é que a ação humana é a maior responsável pelo maior parte do aquecimento global ocorrido durante o último meio século, bem como pela continuação projetada dessas tendências. De acordo com o Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática: “há novas e maiores evidências de que a maior parte do aquecimento global observado durante os últimos 50 anos é atribuível à atividades humanas”.9 Hoje em dia, só os lobbies e os cientistas assalariados de algumas transnacionais do petróleo, como a Exxon-Mobil, os “think tanks” da direita estadunidense (defensores fundamentalistas de um mercado livre de toda regulamentação), e o governo Bush negam a responsabilidade humana nas mudanças climáticas.10 Desde o início da revolução industrial, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera aumentou em 35%. A temperatura média global aumentou em 0,6 graus centígrados. Segundo cálculos da Agência Meteorológica Mundial das Nações Unidas, o período de 1990 a 2004 foi um dos mais quentes desde que se começou a manter registros confiáveis, em 1861.11 E a temperatura continua a aumentar. De acordo com a Nasa, o ano de 2005 foi o mais quente sobre a superfície da Terra desde que se conta com registros fidedignos.12 O Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática considera provável que, como conseqüência da continuidade da concentração de gases de efeito estufa, ocorra um aumento da temperatura média da superfície do planeta “ de 1,4ºC - 5,8ºC no período entre 1990 a 2100.

WMO, UNEP, Intergovernmental Panel on Climate Change, Climate Change 2001: Working Group I: The Scientific Basis [http://www.grida.no/climate/ipcc_tar/wg1/007.htm]
9

Para um olhar crítico sobre essas atitudes, ver: ClimateScienceWatch, Promoting integrity in the use of climate science in government. Global Warming Denial Machine, [http://www.climatesciencewatch. org/index.php/csw/C25/]
10

Kevin Gray, “2004 Among the Hottest Years on Record” Associated Press, Buenos Aires, 16 de dezembro de 2004.
11

Timothy Gardner, “Undersea gas could speed global warming - study”, Reuters, 20 de julio, 2006.[http:// today.reuters.com/news/newsarticle.aspx?type=scienceNews&storyid=2006-07-20T192854Z_01_ N19270382_RTRUKOC_0_US-ENVIRONMENT-METHANE-SEAS.xml&src=rss]
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Essa quantidade é de 2 a 10 vezes superior ao valor central do aquecimento observado durante o século XX, e é muito provável que a velocidade estimada do aquecimento não tenha tido precedentes durante, pelo menos, os últimos 10.000 anos”.13 A tendência não é somente de ocorrerem temperaturas médias mais elevadas, mas também a de que ondas de calor, como as que produziram na Europa mil mortes nos últimos anos, ocorram de forma cada vez mais freqüente.14 O primeiro estudo sistemático das alterações que se manifestam em toda a região do Ártico caracterizou tendências a transformações do clima global ainda mais aceleradas e graves do que aquelas que foram previstas até o momento.15 De acordo com as conclusões desse volumoso estudo, na região do Ártico a temperatura aumentou a um ritmo quase duas vezes maior do que no resto do planeta. Estima-se que a temperatura média da região aumente entre 4oC e 7oC durante os próximos 100 anos.16 No Alaska e no Canadá Ocidental, a temperatura média aumentou entre 3 e 4 graus nos últimos 50 anos.17 As superfícies cobertas por neve, as geleiras e os gelos marinhos, se reduziram de forma significativa durante as últimas décadas como conseqüência desses aumentos de temperatura. Durante os últimos 30 anos, a área coberta por gelo marinho se reduziu em aproximadamente 8%. A redução no verão foi ainda maior, de 10% a 15%, atingindo, em algumas áreas, cerca de 40% entre 1960 e 1990.18 Dependendo das hipóteses assumidas – especialmente no que diz respeito aos níveis de emissões futuras de gases de efeito estufa – estima-se que daqui até o fim do século sobrevenha um desaparecimento de 50% a 100% da calota polar ártica.19 A cobertura de neve reduziu-se de 10% na região ártica nos últimos 30 anos. Estima-se que ela encolha mais 10% a 20% até o ano 2070.20 A superfície das geleiras que se derretem no verão aumentou em 16%, na Groelândia,

United Nations Environmental Program (Unep) e World Meteorological Organization (WMO), Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática (IPCC), Mudança Climática 2001: Relatório Síntese. Resumo para os Responsáveis de Políticas, Wembley, Reino Unido, setembro de 2001. [http://www.grida.no/climate/ipcc_tar/vol4/spanish/009.htm]
13

Kovats, R Sari y otros, “Climate change and human health in Europe”, British Medical Journal, no. 318, pp.1682-1685, 19 de junho 1999.
14

Susan Joy Hassol, Impacts of a Warming Arctic, Arctic Climate Impact Assessment, Cambridge University Press, Cambridge, 2004. Este é o primeiro estudo compreensivo de avaliação global do impacto das mudanças climáticas no Ártico, e suas conseqüências planetárias. Centenas de cientistas de todos os países que circundam o Ártico (Canadá, Finlândia, Rússia, Estados Unidos, Noruega, Reino Unido, Suécia, Islândia) trabalharam durante quatro anos, contando também com a participação das comunidades locais.
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Op. cit., p. 9. Op. cit., p. 22. Op. cit., p. 25. Op. cit., p. 30. Op. cit., p. 12.

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de 1979 até hoje.21 Paralelamente, está ocorrendo, também, o descongelamento de vastas extensões de tundra. Tudo isto aumenta a descarga de água doce, aumentando o nível do Oceano Ártico e diminuindo sua salinidade. Estima-se que todas as geleiras do Ártico, e as mais importantes são as que cobrem a Groenlândia, contém água em volume suficiente para elevar o nível de todos os oceanos em cerca de 8 metros22 aos quais iria se agregar o aumento dos níveis do mar atribuíveis ao aumento do volume da água como conseqüência da elevação da temperatura. Além das traumáticas conseqüências regionais que essas transformações aceleradas estão produzindo sobre a vida dos seres humanos e as espécies de animais e plantas que ocupam esses territórios, são previsíveis grandes impactos produzidos por essas mudanças sobre o clima global. Segundo os autores desse estudo, a maior parte dos modelos de mudanças climáticas se baseiam na suposição de um aumento progressivo da temperatura. Mas existe a possibilidade de que a mudança climática gradual possa – depois de determinado ponto de inflexão não conhecido, e portanto não-previsível – desencadear uma dinâmica de mudança climática em padrão não-linear.23 Essa possibilidade de mudanças abruptas, não previstas, torna-se mais previsível, tanto pela evidência de que mudanças climáticas anteriores na região verificaram-se em curtos períodos de tempo,24 como também pelos efeitos retroalimentadores potenciais que as mudanças na região do Ártico podem produzir nos sistemas climáticos globais. Três potentes mecanismos que podem exercer uma ação nesse sentido são descritos nesse relatório. Em primeiro lugar, em conseqüência do descongelamento das calotas polares, das geleiras e das superfícies cobertas de neve, produz-se uma redução da superfície terrestre responsável pela reflexão e pela devolução à atmosfera de uma proporção significativa da luz solar. Tanto os mares como a terra sem cobertura de neve absorvem mais calor, contribuindo, dessa forma, para acelerar a elevação da temperatura.25 Em segundo lugar, podem manifestar-se alterações nas correntes marinhas que desempenham um papel vital na regulação dos sistemas climáticos globais. As diferenças de temperatura e de salinidade entre as águas da zona tropical e as da zona temperada é a responsável pelas correntes que regulam as temperaturas do Atlântico Norte e que levam chuva e moderam os invernos da Europa Ocidental. Esse processo depende de um

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Op. cit., p. 40. Op. cit., p. 32. Susan Joy Hassol, op. cit., p. 33. Op. cit., p. 36.

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delicado equilíbrio que poderia se interromper se as temperaturas do Ártico se elevarem ou se sua salinidade diminuir. Em terceiro lugar, na medida em que os aumentos de temperatura descongelem milhões de quilômetros quadrados de superfície da tundra, uma grande parte da matéria orgânica presa no permafrost seria libertada. As conseqüentes emissões de metano e de dióxido de carbono poderiam acelerar os aumentos de temperatura produzidos por gases de efeito estufa.26 Existem outros processos com efeitos potencialmente realimentadores que podem acelerar a mudança climática global e levar a rupturas abruptas com transformações lineares. Foi amplamente comentada, nesse sentido, o papel das florestas na regulação do clima, dos ciclos hídricos e na absorção dos gases de efeito estufa. A redução da superfície coberta por florestas, sobretudo a floresta tropical, avança de forma sustentada tanto como resultado da ação humana voluntária – como a expansão da fronteira agrícola da soja transgênica na Amazônia brasileira27 – quanto como resultado dos incêndios florestais, cada vez mais freqüentes em razão das secas e da elevação da temperatura. Assim, a cada vez que se aumenta a emissão global de gases de efeito estufa, reduz-se a capacidade das florestas para contrabalançar parcialmente seus efeitos. Existe um consenso crescente sobre a probabilidade de que essas alterações abruptas, não-lineares ocorram. Segundo o relatório do Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática: As simulações indicam que a crescente concentração atmosférica de gases de efeito estufa trará como resultado mudanças na freqüência, na intensidade e na duração de fenômenos extremos... Muitas dessas mudanças estimadas poderiam provocar o risco de inundações e secas em muitas regiões, além de impactos predominante adversos nos sistemas ecológicos, nos setores econômicos e à saúde humana. Algumas das mudanças repentinas e não lineares nos sistemas físicos e nas fontes naturais e poços de gases de efeito estufa, poderiam ser irreversíveis, mas não se conhecem totalmente alguns dos processos subjacentes.28
Op. cit., p. 38; Janet Wilson, “Global Warming Threat Is Seen in Siberian Thaw”, Los Angeles Times, Los Angeles, 16 de junho de 2006. E também, extraordinários volumes de metano, cujo efeito estufa é muito superior ao do dióxido de carbono, poderiam ser liberados na atmosfera como conseqüência do impacto do aquecimento do mar sobre os imensos depósitos de hidratos de metano existente no fundo dos oceanos.Ver: Timothy Gardner, “Undersea gas could speed global warming - study”, Reuters, 20 de julho, de 2006.[http://today.reuters.com/news/newsarticle.aspx?type=scienceNews&storyid=2006-0720T192854Z_01_N19270382_RTRUKOC_0_US-ENVIRONMENT-METHANE-SEAS.xml&src=rss]
26

Daniel Howden, “Huge soya farms financed by Cargill, the largest privately owned company in the world, are the rainforest’s new worst enemy”, The Independent, Londres, 17 de julio, 2006.
27

UNEP. WMD, Intergovernamental Panel on Climate Change, Mudanças climáticas 2001: Relatório Síntese. Resumo para os Responsáveis de Políticas. (Pergunta quatro). [http://www.grida.no/climate/ ipcc_tar/vol4/spanish/010.htm]
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Vários estudos recentes mostraram que o aumento da intensidade dos furacões que ocorreram nos últimos anos é o resultado da elevação da temperatura do Oceano Atlântico causada pela ação humana.29 Porta-vozes do Pentágono advertiram que as mudanças climáticas abruptas representam uma severa ameaça à segurança mundial e poderiam levar a guerras, conflitos nucleares, secas, fome e outros desastres.30 Os impactos das mudanças climáticas recairão de forma desproporcional sobre os países do Sul e as populações mais desfavorecidas de todos os países, o que continuará a avultar as desigualdades em matéria de saúde e acesso a alimentos adequados, água limpa e outros bens. A população dos países do Sul se encontra mais propensas a sofrer os impactos adversos produzidos pelas mudanças climáticas. Como demonstraram os furacões que afetaram a América Central e o Caribe nos últimos anos, inclusive o Katrina que destruiu a cidade de Nova Orleans, em 2005, tanto a possibilidade de tomar medidas preventivas quanto à capacidade de recuperação após eventos climáticos extremos é quanto menor, como a população em questão for mais pobre e excluída, e quanto menos poder político ela tem. Além disso, “na maioria das zonas tropicais e subtropicais, estima-se que o rendimento das colheitas venha a diminuir com a maioria dos aumentos previstos de temperatura”.31 São muitos os processos destrutivos que hoje ameaçam a sobrevivência da vida no planeta. Está em curso uma acelerada redução da diversidade genética, processo esse que poderá levar em muitas áreas a colapsos dos sistemas ecológicos. A vida marinha tem sido super-explorada, chegando-se a situações em que grandes extensões oceânicas se encontram praticamente sem vida orgânica. Os volumes de muitas das principais variedades de peixes comestíveis reduziram-se de forma extremamente drástica. As fontes de água doce estão sendo exploradas além de sua capacidade de reposição, e estão sendo também contaminadas. Tende a diminuir a disponibilidade de terra agrícola como resultado da super-exploração e da contaminação com agroquímicos. Pode-se afirmar, a partir desse diagnóstico sombrio, que não existe, para a humanidade de hoje, questão mais premente. E que fora das declarações genéricas, esse é um problema que deve ocupar o primeiro lugar em todas as agendas nacionais e internacionais e que deve constituir a parte expressa, principal, de todo debate e de toda política pública, assim como
United nations Environment Programme, Geo-Yearbook 2004-2005. An Overview of our Changing Environment, Nairobi, 2005, p. 3.
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Idem.

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da produção de conhecimento na academia. Evidentemente isto não está ocorrendo. As políticas públicas dos modelos produtivos da quase totalidade dos países do planeta continuam avançando numa espécie de sonambulismo irresponsável, como se bastasse ignorar esses assuntos para que eles desaparecessem por si só. Há mais de 30 anos que existem informações globais sobre as conseqüências previsíveis das mudanças climáticas. Os limites do planeta já foram reconhecidos e poderia se esperar que algumas medidas já tivessem sido tomadas, e que houvesse alguma indicação de que os acordos internacionais e as conferências sobre o clima tivessem algum impacto. Na realidade, é muito difícil saber se esses esforços chegaram a, pelo menos, diminuir o ritmo de aumento dos fatores destrutivos. As decisões que estão sendo tomadas no presente, longe de frear, estão, na verdade, acentuando essas tendências destruidoras. O modelo de desenvolvimento chinês, neste aspecto, é ilustrativo. Quando, há poucos anos, o governo chinês deu impulso ao seu atual modelo de desenvolvimento capitalista (neoliberal), ele se encontrava numa situação na qual ainda era possível definir um modelo de transporte alternativo ao do automóvel individual. Entretanto, assumindo o modelo de consumo dos Estados Unidos como um padrão a ser imitado, optou-se pela cultura do automóvel. Com taxas de crescimento sustentadas de cerca de 10% durante as últimas duas décadas, o mercado interno de automóveis na China passou de 220 mil em 1999 a 2 milhões em 2003, com um aumento de vendas de 69% no ano 2003. Se essa tendência continuar, o país terá 30 milhões de automóveis em 2010 e mais automóveis do que os Estados Unidos no ano de 2030. Estima-se que 40% do aumento da demanda global de petróleo entre os anos 2000 e 2004 ocorreu na China. Para que se tenha uma média, como nos Estados Unidos, de dois carros por família, serão necessários 600 milhões de automóveis, mais do que o total existente em todo o planeta.32 A continuidade da vida no planeta só será possível se se houver uma radical distribuição do acesso aos recursos do planeta, o que exigiria uma profunda e fundamental redução dos padrões de consumo energético e de recursos por parte das minorias ricas da Terra. Passaria também por uma transformação cultural igualmente radical nos imaginários – e modos de produção do conhecimento – no que diz respeito à riqueza e à boa vida. Do contrário, avançaremos de modo aparentemente inexorável para crises ambientais cada vez mais profundas, com afetações profundamente desiguais. Enquanto que as populações que não têm acesso a recursos ou que tenham

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Newsday “Editorial: 1.3 Billion Reasons to Worry about Oil”, Domingo, 15 de agosto, de 2004.

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sido vítimas dos maiores desastres naturais procurarão se deslocar para lugares onde tenham maiores chances de sobrevivência, a reação dos privilegiados será um aumento do racismo, das barreiras antimigratórias, e das guerras. Um dos cenários (ou pesadelo) para os quais a falta de ação imediata poderá levar, é aquele no qual – uma vez reconhecidas as ameaças reais à sobrevivência – os mais poderosos, frente ao crescimento demográfico e ao consumo “irresponsável” da população, criem um Estado global de autoritarismo ambiental, um big brother, para salvar a vida no planeta. Esse Estado autoritário-tecnológico regularia, supervisionaria e controlaria de tal modo as ameaças destruidoras representadas pela ação humana, que a vida, nessas condições, deixaria de ser propriamente vida.
TENDÊNCIAS À MERCANTILIZAÇÃO RADICAL DE TODAS OS ÂMBITOS DA VIDA

Faz parte da lógica do regime capitalista a tendência inexorável e expansiva à incorporação cada vez maior de territórios, mercados, recursos naturais, capacidade de trabalho e conhecimentos às suas exigências de acumulação. Em toda a história do capitalismo, ocorreram discussões e debates ligados aos processos de apropriação e privatização daquilo que, em diferentes contextos têm sido considerados como bens comuns. As tendências à mercantilização de tudo não constitui, de modo algum, uma novidade histórica. Entretanto, após cinco séculos de expansão global do capitalismo, parcelas significativas das atividades humanas e das condições que tornam possível a vida na Terra não se encontram ainda plenamente submetidas à lógica do capital. As tendências à mercantilização têm encontrado limites e obstáculos das mais diversas espécies. Os bens comuns são valorizados e defendidos por comunidades, povos e movimentos em todo o planeta. O que constitui hoje uma novidade histórica, o que define um novo momento na expansão do capital, são as formas pelas quais ele procura superar esses limites e vencer as múltiplas e simultâneas confrontações de âmbito global

A CONTINUIDADE DA VIDA NO PLANETA SÓ SERÁ POSSÍVEL SE SE FIZER UMA RADICAL DISTRIBUIÇÃO DO ACESSO AOS RECURSOS

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relativamente a eles. É possível destacar, grosso modo, quatro tipos de obstáculos históricos à apropriação/mercantilização de modos de vida, saberes e recursos: geopolíticos, democráticos, tecnológicos e ideológicos /culturais/comunicacionais. Em torno de cada um desses obstáculos, a lógica da mercantilização que a acompanha a expansão do capital procura destruir as barreiras ao seu avanço e está gerando com isso novos âmbitos de confrontação civilizatórios contra aqueles que resistem. Limites geopolíticos – referem-se aos territórios, recursos e populações que, de alguma forma, têm estado à margem das possibilidades de apropriação por razões geopolíticas. Historicamente, esses limites eram representados principalmente por territórios não-colonizados ou não-submetidos ao domínio imperial. No século XX, o limite geopolítico mais importante foi a existência do bloco socialista. Com o colapso do socialismo soviético e a guinada capitalista da China, esses limites ficaram cada vez menores. A incorporação da maioria dos países à OMC é uma prova cabal do ponto que esse processo atingiu. Limite democráticos – esses obstáculos são a conseqüência das múltiplas formas pelas quais as lutas populares em diferentes partes do mundo conseguiram conquistar direitos que impuseram limites à submissão de todos os processos da vida à lógica do capital. Esse âmbito se refere fundamentalmente à existência de uma esfera pública, aos direitos econômicos e sociais, (educação, saúde, seguridade social, água etc) que, graças às conquistas das lutas democráticas, têm operado com critérios políticos, e não formam diretamente parte dos processos de valorização do capital. Hoje, uma das principais áreas da luta política global é a defesa da esfera pública e área dos direitos contra as tendências à privatização

e à mercantilização desses interesses que impulsionam a agenda neoliberal. As transformações ocorridas nas últimas décadas têm sido muito radicais. Tem havido um cerceamento radical daquilo que é público, e os direitos têm sido transformados em mercadorias. Do acesso aos bens e serviços como um direito, uma exigência coletiva, política na esfera pública, passa-se a uma relação contratual privada entre uma empresa e um cliente que só tem acesso ao bem ou ao serviço na medida em que ele tenha a capacidade de pagá-lo. Essa agenda tem sido imposta mediante o dispositivo político da dívida externa, as políticas de ajustes estruturais e as privatizações. A transformação do papel do Estado e a consolidação dessas reformas como normas de cumprimento obrigatório foram sendo estabelecidos por meio dos tratados chamados “comerciais”, pela via da Organização Mundial do Comércio, e dos TLCs, que vêm construindo uma nova ordem constitucional global. Limites tecnológicos e/ou de custos – referem-se aos limites encontrados pelo processo de mercantilização, em razão da tecnologia disponível. Não é possível converter um determinado bem em mercadoria, ou só é possível fazê-lo a um custo demasiadamente alto para ser rentável. Característicos desses limites são os recursos naturais pouco acessíveis e com elevados custos de produção ou transporte até os mercados, como é o caso dos depósitos de hidrocarbonetos não convencionais – areias betuminosas, petróleo pesado, jazidas em mar alto ou a grandes profundidades – os depósitos de minerais em regiões pouco acessíveis, etc. A progressiva superação tecnológica atual desses limites pode ser hoje constatada na exploração de petróleo a grandes profundidades, em mar aberto, na selva amazônica ou nas areias betuminosas do Canadá.

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A água vai se convertendo em mercadoria não só em razão de sua escassez, mas pela criação de capacidades tecnológicas que tornam isso possível. A busca para ultrapassar esses limites envolve, de maneira ainda mais fundamental, os processos científico-tecnológicos de manipulação e apropriação da vida e da matéria (biotecnologia, nanotecnologia e as combinações dessas ciências com a informática e a observação por satélite) por meio dos quais foram realizados passos colossais em direção ao controle das capacidades geradoras da vida visando a sua conversão em mercadoria. Esse processo é acompanhado por ações de biopirataria e outras modalidades de apropriação dos conhecimentos de povos indígenas e camponeses de todo o planeta para transformá-los também em mercadoria. A atividade agrícola representa hoje a principal fronteira de expansão da lógica mercantil em todo o planeta. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), aproximadamente 60% da terra cultivável do planeta é cultivada por camponeses tradicionais ou de subsistência, majoritariamente mulheres (FAO, 1998). Essa agricultura é assumida como um modo de vida e não fundamentalmente como uma atividade econômica dirigida para a produção de mercadorias. A diversidade genética das plantas presentes nas fazendas, campos e florestas do Sul, tem estado, tradicionalmente disponível a todos,33 pois é concebida como um bem comum. A atividade agrícola, desempenhada por centenas de milhões de camponeses e produtores independentes – com uma extraordinária

diversidade genética, numa vasta pluralidade de contextos ecológicos, com uma extrema variedade de modalidades e técnicas de cultivo, utilizando experiências e conhecimentos também variados, e com uma produção destinada principalmente ao autoconsumo e aos mercados locais e/ou regionais – constitui um grande obstáculo para que seja apropriada ao processo de valorização das grandes empresas e seja subordinada a elas. A transformação da agricultura campesina e a dos produtores independentes numa atividade submetida ao controle e à valorização do capital requer uma uniformidade genética e a padronização dos padrões de produção. Exigiria a repetição da exitosa (para o capital) experiência histórica da chamada organização científica do trabalho,34 e a realização de um processo sistemático de apropriação/valorização do conhecimento dos camponeses e demais produtores independentes, e sua substituição por um conhecimento científico-tecnológico controlado pelas empresas da agroindústria. Para atingir esse objetivo ambicioso, a agroindústria dispõe de dois instrumentos paralelos: o primeiro de natureza científico-tecnológica e o segundo de caráter jurídico. Os novos desenvolvimentos da biotecnologia que tornam possível a manipulação genética para a criação de novas variedades padronizadas de sementes com algumas características específicas consideradas como valiosas, buscam substituir a imensa diversidade genética (não controlável nem comercializável) por umas poucas variedades. Os instrumentos jurídicos da defesa da propriedade industrial permitem patentear essas novas variedades e incorporá-las aos pacotes tecnológicos orientados

FAO, Food and Agricultural Organization of the United Nations Sustainable Development Department (SD) 1998 “Special: Biodiversity for Food and Agriculture”, SD Dimensions, fevereiro. [http://www.fao.org/WAICENT/FAOINFO/SUSTDEV/EPdirect/EPre0040.htm]
33 34

Taylor, Frederick W. 1971 Principios de la administración científica del trabajo (México: Herrera y Hermanos, Sucs., S.A.).

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A GLOBALIZAÇÃO DA COMUNICAÇÃO ATRAVÉS DA TELEVISÃO POR SATÉLITE CONVERTEU-SE EM UM PODEROSO INSTRUMENTO DE DIVULGAÇÃO DA EXPECTATIVA DE ACESSO UNIVERSAL AO PADRÃO DE CONSUMO

para a ampliação do controle por parte das empresas agroindustriais, com a conseqüente perda de autonomia dos produtores. Vai ocorrendo, dessa forma, um deslocamento do conhecimento dos camponeses e dos produtores diretos, conhecimento que responde à particularidades dos diferentes contextos ecológicos e culturais (tipo de solo, regime de chuvas, modalidades produtivas etc) e à diversidade genética de seus cultivos, por umas poucas ou apenas uma variedade genética e pelas normas padronizadas estabelecidas pelas empresas onde as sementes são compradas. Isto representa uma ameaça de morte para a vida agrícola-camponesa do planeta. Limites culturais/ideológicos e comunicacionais – esses limites dizem respeito a uma gama de áreas. Um deles, estreitamente ligado às mudanças tecnológicas, e extraordinariamente significativo nas últimas décadas, refere-se ao campo dos meios de comunicação social e à crescente expansão planetária desses meios. A globalização da comunicação através da televisão por satélite converteu-se em um poderoso instrumento de divulgação da expectativa de acesso universal ao padrão de consumo representado pela imagem que o cinema e a televisão dos Estados Unidos difundem de sua civilização. Um aspecto relativamente recente e particularmente significativo dos processos de expansão da lógica mercantil em áreas nas quais, há poucas décadas, não se considerava adequado fazê-lo, é o processo acelerado de submissão da pesquisa científica e tecnológica, de uma forma cada vez mais direta, às exigências da valorização do capital. Está se operando aqui uma profunda transformação cultural que está transformando e resignificando as concepções anteriores sobre a ciência e a universidade. Isto se dá com um maior vigor nas disciplinas associadas à biotecnologia

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e à biomedicina.35 Esses deslocamentos culturais estão deixando par trás, de forma acelerada, o ethos da ciência e da academia tal como este aparece no modelo idealizado descrito por Robert Merton. Segundo essa formulação clássica do ethos da ciência como instituição da sociedade liberal moderna, a atividade científica se caracterizaria pelo atendimento às seguintes prescrições normativas: universalismo (supõe que o conhecimento científico transcende as culturas particulares); comunalismo (o conhecimento científico é fruto de um esforço compartilhado e não pode ser apropriado, mas sim tratado como um conhecimento público), e é um saber desinteressado (na busca do conhecimento científico e investigador, não se deve buscar o proveito próprio, e sim se orientar pela busca da verdade e do bem comum).36 As exigências imediatas de valorização do capital, por meio, principalmente

do controle sobre o financiamento, – estão definindo, de modo crescente, as agendas da pesquisa, a seleção de especialidades por parte dos novos alunos, o regime de remuneração e de premiação do pessoal docente, as modalidades da divulgação e de utilização dos resultados das pesquisas e, de modo geral, a cultura acadêmica por inteiro. Se é verdade que é nas universidades dos Estados Unidos que essa submissão da ciência, da tecnologia e da academia às exigências diretas do processo de valorização do capital está numa etapa mais avançada, constata-se, entretanto, que as universidades do resto do mundo estão caminhando hoje na mesma direção. Cada uma dessas tendências à mercantilização, como se verá mais adiante, gera áreas de embates, resistências e confrontações sociais que podem ser propriamente caracterizadas como combates de uma guerra civilizatória total.

Ver: Edgardo Lander, “La ciencia neoliberal”, en Ana Esther Ceceña, Los desafíos de las emancipaciones en un contexto militarizado, CLACSO, Buenos Aires, 2006.
35

Krimsky, Sheldon 2003 Science and the Private Interest. Has The Lure Of Profits Corrupted Biomedical Research?, Rowman & Littlefield Publisher, Inc., Lanham, 2003:, pp., 76-77.
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OCASO DA DEMOCRACIA LIBERAL

A democracia liberal – como construção de uma sociedade de cidadania universal, com o reconhecimento da igualdade de direitos políticos, com a conquista de crescentes direitos econômicos e sociais, que tornaram possível uma redução tendencial das profundas diferenças sociais características da sociedade capitalista – tem sido historicamente uma experiência excepcional, concentrada em alguns poucos países centrais do mundo. Este não foi o caso na maior parte do Sul, do mundo ex-colonial. Hoje, no momento em que os centros do poder celebram a universalização desse modelo de democracia, este último se encontra globalmente em franco processo de esgotamento ou de reversão, inclusive nos poucos países nos quais a construção de experiências históricas de democracias liberais mais avançou: a Europa Ocidental e os Estados Unidos. A ordem global de mercantilização – a crescente prioridade dos direitos do capital sobre os direitos das pessoas – e a militarização que caracterizam a globalização neoliberal estão minando as condições de viabilidade desse regime político. Na União Européia, cuja experiência do Estado de bem-estar social nas décadas do pós-guerra representou o grau máximo de democratização da sociedade sob o regime liberal, esse modelo de Estado se encontra em franco retrocesso. O debate político no interior da União Européia não gira hoje em torno de opções sociais básicas (modelos alternativos da sociedade que se quer), ou em torno de novas conquistas democráticas. Os debates se centram sobre a velocidade com a qual irão erodir-se as conquistas sociais e políticas do Estado, da época de ouro do Estado do bem-estar-social, para melhor adaptar-se – competir – nas condições criadas pela globalização neoliberal. A Constituição da União Européia busca consolidar, constitucionalizar, e, por essa via, tornar irreversíveis as reformas neoliberais das últimas décadas. Isto explica a recusa dessa Constituição nos referendos realizados na França e nos países-baixos. Para diagnosticar o estado de saúde da democracia liberal ,não há um melhor exemplo que o do país que atribuiu a si próprio a missão divina de levar a democracia e a liberdade a todos os povos do mundo, se necessário pela força: os Estados Unidos. Esse país vive hoje uma profunda crise constitucional. A situação atual do sistema político dos Estados Unidos está muito distante da utopia de Lincoln sobre um governo do povo, para o povo e pelo povo. Como nunca, o poder dos grandes financiadores das campanhas e o controle corporativo de todos os meios de comunicação determinam quem pode ser candidato e quem pode ser eleito. As fraudes

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eleitorais nas eleições da Flórida, no ano 2000, e em Ohio, em 2004 – fraudes que tornaram possível tanto a primeira eleição quanto a reeleição de George Bush – foram documentadas de forma ampla e convincente.37 O controle simultâneo do Executivo, da Corte Suprema e do Congresso por parte de um Partido Republicano cada vez mais controlado por interesses corporativos, a direita radical e o fundamentalismo religioso cristão produziu, nos últimos anos, profundas transformações no sistema político. A chamada “Guerra contra o Terrorismo” e a promoção sistemática do medo na população se converteram em instrumentos eficazes para justificar, passo a passo, um significativo cerceamento dos direitos políticos que se imagina estarem garantidos pelo “Bill of Rights38 – a Carta de Direitos que faz parte da Constituição – e também um debilitamento severo do princípio da separação de poderes, concentrando-se cada vez mais as decisões nas mãos do Executivo. Iniciam-se e se justificam guerras contra Estados “soberanos” com base numa manipulação sistematicamente distorcida das informações de inteligência. O governo amplia o âmbito das áreas em que opera em segredo para impedir a avaliação pública de sua gestão. Aprovam-se novas leis severamente restritivas aos direitos dos cidadãos, como é o caso das Atas Patrióticas I e II, e reinterpretam-se de normas legais por parte dos Tribunais para autorizar políticas que, até este momento, haviam sido consideradas claramente anticonstitucionais, o que mostra o deslocamento profundo do sistema político. Tudo isto acompanhado por meios de comunicação crescentemente controlados pelas grandes corporações e cada vez menos dispostos a questionar e/ou denunciar as ações do governo. Isto ocorre, em parte, como resultado de ameaças e perseguições contra quem divulga informações prejudiciais ao governo,39 mas é principalmente um reflexo dos interesses das empresas matrizes dos grandes conglomerados da comunicação. Poderia-se esperar por parte da NBC – cadeia de televisão de propriedade da General Electric e uma das principais contratantes militares dos Estados Unidos – um olhar crítico sobre a invasão do Iraque?

Sobre as eleições de 2000, ver: David Margolick, Evangelina Peretz e Michael Shnayerson, “The Path to Florida”, Vanity Fair, outubro de 2004; e Greg Palast, The Best Democracy Money Can Buy, Plume, Nueva York, 2003; Sobre as eleições de 2004, ver: U.S. House of Representatives, Status Report of the House Judiciary Committee Democratic Staff, Preserving Democracy: What Went Wrong in Ohio, 5 de Janeiro de 2005. [http://www.house.gov/judiciary_democrats/ohiostatusrept1505.pdf]; Bob Fitrakis, Harvey Wasserman and Steve Rosenfeld, Did George W. Bush Steal America’s 2004 Election? Ohio’s Essential Documents, The Free Press, The Columbus Institute for Contemporary Journalism; Robert F. Kennedy Jr., “Was the 2004 Election Stolen?”, Rolling Stone.1o de junho de 2006.
37

Ann Fagan Ginger, Editora, Challenging U.S. Human Rights Violations Since 9/11 (Report by Meiklejohn Civil Liberties Institute), Prometheus Books, 2005.
38 39

The Associated Press, “Fearing Legal Battle, Ohio Newspaper Holds Stories”, 9 de julho de 2005.

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Uma das expressões mais alarmantes da crescente concentração de poder numa presidência cada vez mais imperial tem sido a utilização recorrente da figura dos chamados signing statements, mediante os quais Bush, quando discorda de algum aspecto de uma lei aprovada pelo Congresso, em lugar de vetá-la, ao firmá-la (convertendo-a assim em lei de cumprimento obrigatório para todos, inclusive para o presidente) se reserva o direito de não cumprir a citada lei quando ele considere que esta entra em contradição com sua interpretação da Constituição. Assim, ele avoca a si o poder de formular e interpretar tanto as leis quanto a própria Constituição, atribuições que a Constituição só outorga ao Congresso e aos Tribunais.40 Essa prática tem sido considerada uma grave ameaça ao sistema constitucional da separação de poderes.41 A American Bar Association criou um grupo de trabalho formado por notáveis constitucionalistas para avaliar as implicações dessas práticas. Em seu relatório, o grupo de trabalho conclui, por unanimidade, que os signing statements constituem uma violação do Estado de Direito e da separação dos poderes estabelecida na Constituição.42 O relatório final de uma exaustiva investigação sobre a crise atual da ordem constitucional dos Estados Unidos, preparada sob a responsabilidade do deputado John Conyers, Jr. (Democrata de Michigan),43 conclui, entre muitos outros assuntos, que o governo Bush violou as leis e a Constituição nos seguintes casos: Declaração de guerra ao Iraque antes de obter a necessária autorização do Congresso; manipulação de informações de inteligência sobre a posse de armamentos por parte do governo do Iraque, para justificar a chamada “guerra preventiva”; perseguição e castigos contra críticos da guerra e das políticas do governo, muitos deles funcionários públicos; mentiras e falsidades sobre o desenvolvimento da guerra, sobre seus custos e seu impacto; espionagem ilegal de cidadãos inocentes sem a autorização dos tribunais; encobrimento de atos ilegais nos quais a responsabilidade do governo estava envolvida; negar-se a dar informações ao Congresso e à população; e deterioração geral das liberdades civis. Entre os aspectos mais controversos do Patriotic Act, segundo esse relatório, está a autorização ao FBI para supervisionar, sem ordem judicial, e sem aviso prévio, as chamadas

40 41

Charlie Savage, “Bush Challenges Hundreds of Laws”, The Boston Globe, 30 de abril de 2006.

Statement of Senator Patrick Leahy, Ranking Member, Judiciary Committee, Hearing on Presidential Signing Statements, June 27, 2006. [http://judiciary.senate.gov/member_statement.cfm?id=1969&wit_ id=2629] American Bar Association, Task Force on Presidential Signing Statements and the Separation of Powers Doctrine, 2006. [http://www.abanet.org/op/signingstatements/]
42

The Constitution in Crisis, Final Investigative Report Prepared at the Direction of Rep. John Conyers, Jr, August 2006. [http://www.house.gov/judiciary_democrats/iraqrept2.html].
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telefônicas e comunicações pela Internet e o acesso, por parte de agências de informações, a fichas e cadastros médicos, a registros de compras em livrarias e consultas a bibliotecas, assim como a históricos de consumo.44 Em flagrante violação à Constituição, o governo defende seu direito a prender os cidadãos americanos sem que seja formulada qualquer acusação.45 Denominando os prisioneiros de guerra de “combatentes ilegais”,46 o governo dos Estados Unidos declara que a eles não se aplicam as normas da Convenção de Genebra. A prática generalizada de tortura foi amplamente documentada tanto em Guantánamo47 quanto em Abu Ghraib.48 O governo Bush argumenta que tem direito de utilizar a tortura como parte de sua “guerra contra o terrorismo”.49 Não se sabe o que ocorre na ampla rede de centros secretos de detenção que os Estados Unidos mantêm em diversas partes do mundo e aos quais nem a Cruz Vermelha tem acesso.50 A conseqüência do exercício dessa modalidade de governo do capital e para o capital é a redução dos impostos para os ricos, um aumento acelerado das desigualdades sociais, a deterioração da educação pública, milhões de pessoas sem seguro médico, muros, guardas e milícias armadas para impedir a entrada de imigrantes etc. Na maior parte dos países do Sul, e certamente na América Latina, não chegaram a se constituir Estados nacionais democráticos nem soberanos. Com significativas diferenças entre países, com avanços e retrocessos, a maioria da população desse continente, após as independências políticas do início do século XIX, continuou a viver em sociedades com um padrão

Op, cit., p. 132. Ver: Barton Gellman, “The FBI’s Secret Scrutiny”, The Washington Post, 6 de novembro de 2005.
44 45 46 47

Tom Jackman, “US a Battlefield, Solicitor General Tells Judges” The Washington Post, 20 de julio, 2005. Patrice de Beer, “Illegal Combatants, a False Debate”, Le Monde, Paris, 29 de junho de 2004.

AFP y The Independent “A Cruz Vermelha Internacional constata torturas em presos de Guantánamo”, La Jornada, México, 1o de dezembro de 2004; Neil A. Lewis, “Fresh Details Emerge on Harsh Methods at Guantanamo”, The New York Times, 1o de Janeiro de 2005; Carol D. Leonnig, “Further Detainee Abuse Alleged”, The Washington Post, 26 de dezembro de 2004; Andrew Buncombe, The Independent, Londres, “Green light for Iraqi prison abuse came right from the top”, 3 de abril de 2005; Rosa Miriam Lizalde, “La tortura, estimulada por Bush, acusa vocero de grupo de juristas estadounidenses”, La Jornada, México, 26 de novembro de 2005. Suzanne Goldenberg, “Abuse ‘continued after Abu Ghraib’”, The Guardian, Londres, 9 de dezembro de 2004.
48

Edward Alden, “Dismay at Attempt to Find Legal Justification for Torture”, Financial Times. Londres, 10 de junho de 2004.
49

Andrew Buncombe “Bush ‘operating secret gulag in eastern Europe’”, The Independent, Londres, 3 de novembro de 2005; AFP Y DPA “Cerrar centros de detención secretos, exigen ONU y OEA a Washington”, La Jornada, México, 29 de julho de 2006; John Hendren, “CIA May Have Held 100 ‘Ghost’ Prisoners”, Los Angeles Times, 10 de setembro de 2004; AFP e Notimex, “Detectan más de mil vuelos secretos de la CIA por naciones de la UE”, La Jornada, México, 27 de abril de 2006; DPA, Reuters e AFP, “Estuvo en Polonia el mayor centro de detención secreto de la CIA: HRW”, La Jornada, México, 10 de dezembro, 2005; Afp, The Independent y DPA, “EU ha creado un archipiélago de centros de detención, denuncia AI”, La Jornada, México, 6 de junho de 2005.
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de poder colonial, racialmente hierarquizadas, com padrões de cidadania altamente excludentes.51 As profundas e recentes desigualdades sociais que caracterizam a América Latina nos dias de hoje permitem constatar a persistência e a continuidade histórica desses mecanismos de exclusão. Países que nunca foram propriamente soberanos têm sofrido, nestes tempos neoliberais, reduções tendenciais de sua autonomia. Operam em um contexto global dominado pelo capital transnacional, por um pequeno grupo de países do Norte e pelas instituições financeiras, comerciais e militares que defendem os interesses desses países. A base territorial da democracia liberal, o Estado nacional, está deixando de ser a esfera pertinente para a tomada das principais decisões que afetam as populações desses territórios. O direito internacional democrático, que com retrocessos e avanços, conseguiu ampliar as definições dos direitos das gentes e dos povos no período que se seguiu à 2a Guerra Mundial, se encontra hoje em franca regressão. Em uma ordem global imperial, as normas do direito internacional e suas instituições só são acatadas na medida em que correspondem ao interesse da potência hegemônica. Os projetos de desenvolvimento, de industrialização, de integração sub-regional ou continental latino-americanos atuais estão montados em imaginários e previsões sobre padrões de produção e níveis de consumo e abundância material que não são sustentáveis. Tudo parece indicar que já é demasiadamente tarde para isso. No presente contexto global, a aspiração dos povos do Sul de construir Estados nacionais “desenvolvidos”, com uma democracia liberal inclusiva, capaz de garantir a igualdade e os direitos universais efetivos para todos, constitui uma corrida para o passado. Já é tarde demais. Outras opções são agora necessárias.

AS DESIGUALDADES SOCIAIS QUE CARACTERIZAM A AMÉRICA LATINA PERMITEM CONSTATAR A PERSISTÊNCIA E A CONTINUIDADE HISTÓRICA DESSES MECANISMOS DE EXCLUSÃO

Aníbal Quijano, “Colonialidad del poder, eurocentrismo y América Latina”, em Edgardo Lander, La colonialidad del saber. Eurocentrismo y ciencias sociales. Perspectivas Latinoamericanas, CLACSO, UNESCO, Buenos Aires, 2000.
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ÉPOCA DA GUERRA PERMANENTE

Outra característica da nossa época é o estado de guerra permanente, tal como Orwell o havia previsto em 1984. Uma guerra que não tem fim. Na medida em que as tensões entre acumulação e legitimidade, tão características nos tempos da democracia liberal, se resolveram em favor da acumulação, foi se constituindo um regime de crescente dominação sem hegemonia. A busca do consenso e da legitimidade é cada vez mais substituída pela promoção do medo e do uso da força. Esse exercício descarnado do poder gera necessariamente múltiplas formas de resistência. Por isso, na ordem neoliberal, a dimensão militar é essencial e constitutiva. O complexo industrialmilitar tem crescente poder econômico, político e comunicacional e encontrou um novo âmbito de valorização, ao operar como subcontratante nas novas dinâmicas de privatização corporativa da guerra. No Afeganistão, no Iraque, na Palestina, com bombas chamadas “inteligentes”, assassinase sistemática e impunemente a população civil e se tem o cinismo de chamar esses massacres de “danos colaterais”. O homicídio indiscriminado de civis – preferivelmente a distância para não ter de presenciá-lo – banalizam-se como um fato inevitável da vida contemporânea e suas imagens, televisionadas pela Fox News e pela CNN, diferenciam-se pouco na sua estática e no seu impacto moral nulo, dos filmes de Hollywood. A política imperial tem como conseqüência inevitável uma crescente militarização do planeta. O Iraque não foi invadido pelo fato de possuir armas de destruição em massa, mas,

precisamente porque as agências de inteligência dos Estados Unidos e do Reino Unido sabiam que o governo de Saddam Hussein carecia da capacidade militar para resistir a uma invasão. O pesadelo da guerra nuclear que parecia ter sido superado com o fim da Guerra Fria foi colocado novamente no tapete. As principais potências nucleares descumprem as obrigações que assumiram com a celebração do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, de reduzir seus arsenais nucleares. Países “amigos” dos Estados Unidos, como Israel, o Paquistão e a Índia, não encontram obstáculo algum na chamada “comunidade internacional”, na Agência internacional de Energia Atômica, nem nas Nações Unidas para desenvolver seus programas de armamentos nucleares. O mesmo não ocorre, entretanto, com o Irã e com a Coréia do Norte. O que ocorrerá quando mais e mais países decidirem que somente a possessão de mísseis e de armas nucleares pode oferecer algum nível de proteção contra um ataque militar dos Estados Unidos, quando este país decidir que alguma nação abriga ou patrocina “terroristas” que pertencem ao “eixo do mal”, ou simplesmente que não gostam de suas políticas? Para os Estados menores, o grupo de subestados que não têm essas possibilidades militares, sempre existirão outras opções. O chamado terrorismo e o fundamentalismo religioso e étnico identitário parecem estar se convertendo na resposta dos mais fracos, dos desesperados, dos acossados e dos povos cuja própria existência está sendo ameaçada. Nada disto augura um futuro de paz.

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DA RESISTÊNCIA E DA RE-EXISTÊNCIA: A LUTA PELA VIDA

Esses processos civilizatórios que apontam em direção à morte estão hoje afrontados com uma extraordinária gama de formas de existência e de resistência, de mobilização e de luta de povos, comunidades, organizações, movimentos e redes locais, regionais e mundiais, que, a partir de sua vasta gama de experiência, reivindicam a defesa da vida. Não se trata apenas de uma confrontação com o regime do capital, com suas formas de propriedade, com sua exploração e com suas formas de exercício do poder. Trata-se também da recusa de um modelo de civilização caracterizado historicamente pela idéia de controle e de submissão da natureza, – mesmo dos seres humanos –, modelo que se não for detido, conduzirá inexoravelmente à destruição das condições que tornam possível a vida no planeta Terra. Por isso, a luta anticapitalista, a resistência a esse modelo civilizatório, não é principalmente uma expressão de contradições internas no regime do capital, contradições que operam dentro de uma jogada compartilhada por uma sociedade industrial, (tal como foi imaginada pelo marxismo, no seu investimento no papel protagonista do proletariado industrial), mas uma luta a partir da experiência, a partir da memória, a partir da comunidade, a partir da vida que está sendo submetida e ameaçada. É esse caráter propriamente civilizatório que torna possível a convergência da mais extraordinária diversidade de indivíduos em todo o planeta. Essa convergência não se baseia em acordos sobre um modelo de sociedade alternativa, mas se faz em torno de princípios de preservação das culturas, dos saberes, da natureza, da vida, da re-existência.
NOSSO TEMPO ESTÁ SE ESGOTANDO?

Como se disse anteriormente, o regime do capital dispõe de novos recursos geopolíticos, tecnológicos, comunicacionais, militares e jurídicos-políticos com os quais busca a superação dos múltiplos obstáculos que têm impedido, no curso da história, a plena mercantilização de todas as dimensões da vida, e a realização da utopia do mercado total.52 Retomando e integrando o que foi assinalado anteriormente, é possível identificar duas novas condições que definem com precisão uma nova época histórica. A primeira é a capacidade dos seres humanos de destruir em curto prazo as condições que tornam a vida possível, tanto por meio do impacto de suas atividades de produção como por meio de um holocausto

Edgardo Lander, “La utopía del mercado total y poder imperial”, Revista Venezolana de Economía y Ciencias Sociales, vol. 8, no. 2, maio-agosto de 2002.
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nuclear global. A segunda se refere às confrontações – que ocorrem pela primeira vez em nível global, já que operam de forma muito diversa, mas simultânea em todos os rincões do planeta – em torno dos processos de mercantilização de todas as dimensões da cultura e da vida, para submetê-los de forma direta, não mediada, às exigências de valorização do capital. Essa dinâmica de mercantilização da vida, por sua vez, só faz acelerar os processos de destruição. Essas duas condições obrigam a repensar as formas pelas quais foi concebido o tempo. Nos principais imaginários sobre o futuro da sociedade, associados à experiência moderna e ao capitalismo, sejam eles de celebração ou críticos, o tempo foi concebido como um bem infinitamente disponível no futuro. Assim, a sociedade do bem-estar, da abundância, da liberdade, da igualdade seria possível no futuro. Aquilo que fosse impossível conseguir no presente e no curto prazo, o seria, com segurança, num prazo maior. Mas o que ocorreria se reconhecêssemos que esses pressupostos deixaram de ser sustentáveis? Que implicações teria a assunção de que nos encontramos numa época histórica decisiva, num ponto de inflexão tal que se não conseguirmos como humanidade, nas presentes gerações, deter o avanço desses dispositivos de sistemática destruição das culturas e da vida, que garantia de futuro existirá? Essas considerações sobre a concepção do tempo e sobre sua disponibilidade se fundamentam nas duas condições de nossa época mais acima indicadas. Os cálculos e as projeções dos diversos modelos sobre o futuro do planeta podem variar e estar sujeitos a polêmicas, mas não resta dúvida de que os padrões de civilização atuais não são sustentáveis e que estão destruindo as condições que tornam a vida possível. Quanto

tempo nos resta antes que esses processos destrutivos se tornem irreversíveis? Não muito, evidentemente. Do ponto de vista das lutas civilizatórias em torno da lógica produtivista-depredadora da sociedade industrial radicalizada nas suas atuais expressões neoliberais, esse tempo histórico é crítico. A maior parte das capacidades de resistência contra a mercantilização de todas as expressões da cultura e da vida não se faz a partir de imaginários ou de projetos de sociedade alternativa para o futuro, mas como já dissemos, a partir de experiências, tradições, histórias, identidades, vida em comunidade, vivências e memórias. Isso ocorre a partir do tecido sociocultural da própria existência histórica dos povos, a partir da subjetividade do que tem sido a experiência humana. Se hoje se resiste de forma tão vigorosa à transformação da água em mercadoria, não é apenas porque a água é uma condição de vida. É também porque, na experiência dos povos e comunidades, a água tem sido um bem comum, porque o acesso à água como direito humano tem sido uma conquista das lutas democráticas em diferentes partes do mundo. Se essa memória histórica e essa defesa das conquistas democráticas forem derrotadas, e se o capital global conseguir impor a plena privatização e mercantilização da água, as próximas gerações irão considerar a água como uma mercadoria a mais. Aceitar-se-á como natural que as pessoas que não têm como pagá-la, não possam ter acesso a ela. As discussões se deslocariam para questões de qualidade e de preço na relação entre os clientes e as empresas de comercialização que vendem o serviço. Da mesma forma, depois de uma ou duas gerações, nas quais o acesso à educação, aos serviços de saúde ou de seguridade social só seja possível pela via mercantil,

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AS CONDIÇÕES MATERIAIS E TERRITORIAIS QUE TORNAM POSSÍVEL A EXTRAORDINÁRIA DIVERSIDADE DE CULTURAS OU MODOS DE VIVER NO PLANETA ESTÃO SENDO AMEAÇADAS

poderiam desaparecer da memória coletiva os padrões culturais que hoje definem o acesso a esses bens como direito. É este exatamente o mesmo padrão que define, por exemplo, as confrontações globais atuais entre o modo de vida campesino e o modelo produtivo da agroindústria. Isto não é apenas uma confrontação, mas, na progressiva expansão histórica da fronteira da agricultura capitalista, uma batalha que continua, tendencialmente, as dinâmicas de décadas e de séculos anteriores. Hoje, como se assinalou anteriormente, o capital conta com novas disponibilidades tecnológicas (especialmente na biotecnologia) e jurídico políticas (OMC, TLC e as correspondentes normas de propriedade intelectual). Poderíamos estar em presença de uma grande confrontação final, de uma arremetida global, na qual está em jogo a própria existência dos complexos culturais que constituem a vida campesina, não em algumas regiões afastadas do mundo, mas em todo o planeta. O impacto devastador que, há alguma décadas apenas, o Nafta teve sobre milhões de indígenas e camponeses produtores de milho no México ilustra a extraordinária velocidade com a qual esses processos operam. As condições materiais e territoriais que tornam possível a extraordinária diversidade de culturas ou modos de viver no planeta estão sendo ameaçadas. Tudo isto define o presente – e aqui seria necessário debater sobre a faixa temporal que devemos entender como sendo “o presente”, um momento no qual deverá resolver-se, se isto é possível, a continuidade da vida e da diversidade de culturas no planeta. Nosso tempo está se esgotando. Nas formas atuais de resistência, de criação e de recriação de outras formas de viver que lutam para frear a lógica de expansão da mercantilização, da submissão e da destruição, isto é, o padrão civilizatório do progresso está em jogo o futuro da vida.

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