UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ COMUNICAÇÃO SOCIAL – PUBLICIDADE E PROPAGANDA PROJETO EXPERIMENTAL III

REPRESENTAÇÕES DO NEGRO BRASILEIRO NOS TEMPOS DA RETOMADA Allan Martins Terra

Rio de Janeiro Junho de 2006.

ALLAN MARTINS TERRA

REPRESENTAÇÕES DO NEGRO BRASILEIRO NOS TEMPOS DA RETOMADA

Monografia apresentada à disciplina Projeto Experimental III como requisito à obtenção da graduação no Curso de Comunicação Social – Publicidade e Propaganda ORIENTADOR: Prof. Luiz Flávio La Luna Di Cola.

Rio de Janeiro Junho de 2006.

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ALLAN MARTINS TERRA REPRESENTAÇÕES DO NEGRO BRASILEIRO NOS TEMPOS DA RETOMADA

grau

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BANCA EXAMINADORA

Professora Sandra Almada

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Professora Irene Black

___________________________________ Professor Flávio Di Cola ___________________________________

Rio de Janeiro Junho de 2006.

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Samantha (irmã) e Panda (bebê).Dedicatória Sonia (mãe). iii . Obrigado pela paciência.

Sua confiança.Agradecimentos Ao meu orientador e mestre Flávio Di Cola. Rafael e Carlos Henrique) e da vida (Simone. Sebastião e André). Aos amigos da Estácio (especialmente para Raquel. dedicação e amizade estarão sempre em minha Aos meus familiares (em especial para mãe. Para as professoras Irene Black e Sandra Almada (minha inspiração para este projeto). uma das pessoas mais importantes ao longo memória. Renata. irmã. desses meses de trabalho. pelo apoio nas horas certas. tio Zé e Eduardo). que enriqueceram minha banca e minha vida acadêmica. pela trajetória já percorrida e pelos futuros passos. iv .

basta estar: ‘forte. Mas é raro o diretor que lê isso e diz para um ator negro: ‘Tem aqui um personagem para você’. 33 anos’. bonito. Não tem que estar ali escrito: ‘negro de 30 anos’. e você pode dizer: esse sou eu. ator é ator. Não. Antônio Pitanga v . bemapessoado. Que é o que nós queremos”.“Negro ou branco.

cinema da retomada. cinema e propaganda). exemplos para a diversidade cultural vi . E ainda. o momento da retomada brasileira (econômica. política e cultural). quando o afro-descendente desfruta de um novo cenário que. através da fotografia. no capítulo 1 foram estudadas as relações entre colonizadores e escravos negro brasileiro em três dos principais produtos da cultura de massa nacional (telenovela. Já no capítulo 2. Homem Que Copiava e Meu Tio Matou Um Cara).Resumo Este projeto pretende promover o debate sobre a representação do negro brasileiro no cenário cultural a partir dos anos 90 e aborda como esses personagens vem revertendo um quadro de branqueamento racial. Lázaro Ramos. é o mais democrático da história. construído desde o descobrimento do no século XVI no Brasil e a visão pitoresca e “domesticada” da elite oitocentista sobre o exótico brasileiro. E no capítulo 3. Assim. apesar de ainda limitado. a presença estereotipada do país. Palavras-chave: mídia e raça. a trajetória de duas personalidades (Lázaro Ramos e Jorge Furtado) e a análise de duas obras (O brasileira. Jorge Furtado.

...............................................capa DVD – Meu Tio Matou Um Cara .............................p..................................................................................... 71 Figura 2 – Aplicação do castigo (Debret) .................................................. 70 Foto 4 – Socagem do café ............ 69 Foto 3 – Ama-de-leite ..................p..p...................................................................... 71 Figura 1 – Capitão do mato (Rugendas) .............................................................................................p...... 69 Foto 2 – Tipos de escravos .................................................................................p............................. 70 Foto 5 – Caça aos piolhos ..p........................................................................p...........................................capa vii .......... 72 DVD – O Homem Que Copiava ...................................Lista de anexos Foto 1 – Dona Marcellina ..................................

.......p.. 40 Capítulo 3 – O negro brasileiro no cenário da retomada ................................. 68 viii ..................Sumário Introdução .............. 44 Luzes na escuridão da sétima arte – o cinema brasileiro da retomada .........p..........................................44 Black is beautiful – o novo momento da raça negra brasileira ........................................................................................................ 31 O negro brasileiro na publicidade – o mercado e a diferença ... 17 Capítulo 2 – O negro brasileiro na cultura de massa nacional .......................... 52 Cara .. 11 retrato nacional ........................................................... 64 Anexos .................... 23 O negro brasileiro na telenovela – da estrutura americana ao tímido multirracial brasileira .........p........................p............... p.................p........................................... 62 Referências bibliográficas ...... 11 Negros e brancos na terra dos índios – a trajetória da formação O negro na fotografia brasileira do século XIX – uma relação pitoresca entre o Brasil e a Europa ............................................................ 48 Lázaro Ramos e Jorge Furtado – personagens do cinema brasileiro Análise dos filmes O Homem Que Copiava e Meu Tio Matou Um da retomada .....................................................................................................................p........... 09 Capítulo 1 – O negro no Brasil do século XVI ao XIX ....p.............................p.................................................................................................................................................................p..........p........................................ p......p.... 23 O negro brasileiro no cinema – da Era muda à Era Collor ............................p..........p............................................................................. p......................................... 59 Considerações finais .................

9 INTRODUÇÃO O abandono das temáticas do início do século XX (importadas de outros países). ao contrário. Esses mitos e tabus. as telenovelas com a temática escravagista apresentaram um negro participativo no processo da abolição. como a ideologia do branqueamento e a utópica democracia racial. principalmente. documentários. A trajetória de luta contra a discriminação parece finalmente alcançar o cenário da cultura nacional e integrar um pacote de ações positivas em relação à representação da raça negra brasileira. ocorridas a partir dos anos 90. As obras anteriores. No final da década de 80. fizeram com que os meios de comunicação diversificassem suas programações. a concorrência entre as emissoras de televisão e. ratificando o poder desses produtos culturais na sociedade. hoje são reconhecidos pela sociedade e os seus desusos conferem uma representação mais natural e realista do afro-descendente brasileiro. A realidade brasileira surge em filmes. por exemplo. O resultado desse momento cultural é único na história do Brasil: o debate sobre a multirracialidade brasileira está em foco e o negro brasileiro ganha destaque. sustentavam o abolicionista branco como o único herói da libertação. telenovelas. achei interessante associá-lo às demais mudanças e definir como uma “retomada brasileira” todas essas mudanças culturais. os interesses da população por produções que abordam a realidade brasileira. Aproveitando o retorno da produção cinematográfica. . perpetuando uma relação de gratidão dos subordinados aos seus senhores. reportagens de jornais e revistas.

10 Para a compreensão do tema. Mas valorizar as conquistas obtidas. O objetivo desta monografia não é traçar um perfil superpositivo da atual representação do negro na sociedade brasileira. . são importantes para direcionar a construção de uma verdadeira diversidade cultural no país. e as conquistas da raça negra no cenário da retomada (a representação na revista Raça Brasil. os personagens modernos do cinema e os sucessos da dupla multirracial Lázaro Ramos e Jorge Furtado em O Homem Que Copiava e Meu Tio Matou Um Cara – com os filmes disponíveis em anexo no formato DVD). cinema e publicidade) com a atuação do negro brasileiro. estão inseridas ao longo do estudo a histórica relação entre brancos e negros do século XVI ao XIX (com anexos de fotos e figuras da época para a compreensão do tratamento do negro na fotografia oitocentista). o surgimento de três importantes produtos culturais de massa (telenovelas. até porque ainda existe muito a se fazer. mesmo que ainda desproporcionais ao tamanho da população afro-descendente.

Em 1500. entre os . a luta contra a escravidão e o interesse da elite oitocentista em mostrar ao mundo como era pitoresca e “domesticada” a relação entre os habitantes e a bela terra do Novo Mundo. Na colônia recém-descoberta “só havia índios. O potencial de exploração comercial era imenso. os escravos foram adaptados aos hábitos e costumes daqueles líderes. todos esses elementos resistiram e o negro conquistou o seu lugar dentro de uma sociedade tão diversificada? Nas próximas páginas. Mas como. empenhados nas navegações. Mas seria preciso ocupar o território com mão-de-obra a fim de explorar as riquezas. quando Portugal descobriu o Brasil. Apesar dessa “domesticação”. Negros e brancos na terra dos índios – a trajetória da formação multirracial brasileira. diante de um cenário tão controlador vivido nos séculos da escravidão. os homens estavam longe. o leitor encontrará o começo dessa história – que passa pelo interesse português na mão-de-obra escrava.11 CAPÍTULO 1 – O NEGRO NO BRASIL DO SÉCULO XVI AO XIX. o crescimento populacional brasileiro através da miscigenação dos povos. os portugueses logo avistaram não só uma terra rica em belezas naturais. Importados pelos portugueses. A história do negro brasileiro começa quase que simultaneamente ao do descobrimento do Brasil. A culinária. os rituais religiosos e a música de origem africana venceram obstáculos e fazem parte do cotidiano nacional. é inquestionável a contribuição da cultura negra para a cultura brasileira. Em Lisboa ou em outras cidades da metrópole.

1. pois via nesta figura um colaborador para o crescimento da população. A autoridade do patriarca criou vínculos de subordinação entre ele e suas mulheres (brancas. A estrutura da família patriarcal ajuda a explicar o alto grau de miscigenação entre brancos e negros no Brasil. As fazendas constituíam verdadeiros clãs e todos os membros deste grupo (esposas. índias. porém ainda não existiam pessoas suficientes para o trabalho. filhos. era preciso aumentar a população para ocupar o imenso território brasileiro. Já em 1516. 2004: 20. entre outros) obedeciam e viviam sob as regras de um senhor. . Capturados. os índios morriam facilmente. Em contato com os brancos. responsável pela ordem pública e indiferente às questões familiares. procurava muitas vezes não contrariar o patriarca. Nesta época. “(. afilhados e escravos. a sociedade brasileira organizava-se através do sistema patriarcal..1 Aos navegantes que ficaram. resultando no alto grau de mestiçagem da época. à espera de uma chance para guerrear e se livrar dos invasores”. mas principalmente a falta de homens em quantidade suficiente para ocupar e defender o território. as primeiras levas de negros escravos chegaram ao Brasil. os nativos tinham pouca imunidade. A população de mestiços mamelucos cresceu rapidamente. equipados com arco-e-flexa e tacape. Para as lideranças. mulatas ou negras). mais tesouros: a beleza das índias. concubinas. Até mesmo o Estado.12 quais alguns antropófagos. amigos. ERMAKOFF.. A solução encontrada foi buscar escravos na África para o cultivo da cana-de-açúcar. Além disso.) o problema não era apenas a falta de mulheres brancas com as quais os colonos pudessem se casar.

Em 1933. Para Gilberto Freire.(RUY. agora surgem novos cenários. 2005:01). O país começa a se modernizar: “são as cidades. as novas profissões. O próprio se vê obrigado a estabelecer negócios e conhecer novos contatos nos centros urbanos.as ocupações dentro do sistema colonial e escravista”. Com a instalação da República.historianet. ambientado dentro da casa grande. que ameaçam o patriarca”. defendeu que a relação entre os senhores e suas escravas marcou um convívio harmonioso entre brancos e negros. Nesta teoria. http://www. os imigrantes.br/conteudo/default. Idem. esse processo de mistura racial produziria um enriquecimento para a cultura brasileira. promovendo uma cordial “democracia racial”.com. “Chega também o momento de abandonar a casa-grande e se mudar para um palacete na Capital”. Sua tese insere o negro e o mestiço na sociedade brasileira e defende a não existência de um preconceito racial por parte dos colonizadores e patriarcas. Os filhos do senhor começam a estudar nas faculdades e formam laços com famílias ricas e prósperas da capital. o patriarcalismo demonstra sinais de fraqueza. A proibição do tráfico escravo (1850) acabou com o comércio de negros trazidos 2.2 Se antes os parentes e subordinados do patriarca viviam dentro de um sistema fechado. quando escreveu a grande obra “Casa Grande & Senzala”. em meados do século XIX. a luz elétrica.3 E a situação do negro também começa a mudar a partir da metade do século XIX. as indústrias. .13 Foi isso que abriu a brecha para a promoção de mestiços . os bondes. negros e mulatos dependeriam apenas de sua própria força de vontade para chegar aos mais elevados níveis sociais. as lojas comerciais.aspx?codigo=412 3.

o abolicionista e o republicano. A Guerra do Paraguai (1864-1870) deu impulso ao movimento abolicionista. A situação da escravidão também não era vista com bons olhos no exterior e diversos manifestos chegavam.14 da África. ARAÚJO. pedindo a libertação dos escravos. 2000: 29. já que milhares de ex-escravos retornaram vitoriosos e alguns até condecorados.3% de pardos e 19. O exército nacional pediu publicamente que não fosse mais solicitado para a captura de fugitivos. “Em 1872. http://pt. que fugiam das fazendas e buscavam liberdade nas cidades ou em bandos. se uniram e tornaram mais fortes as vozes pelas mudanças no Brasil. 38.wikipedia.6 No final do século XIX.1% de brancos. formando pequenas sociedades nos quilombos. os dois movimentos mais importantes da época.5 A luta dos negros pela própria liberdade foi tão importante que suas ações repercutiram no país e no mundo. todos engajados no fim do sistema escravagista. a Abolição da Escravatura (1888) foi assinada e a 4.7% de negros”. incentivou a libertação dos negros e gerou a formação de dezenas de outros grupos e de publicações como o jornal O Abolicionista. principalmente da Europa.4 A Lei do Ventre Livre (1871) deu liberdade aos filhos de escravos nascidos desde então. Assim. liderada por importantes políticos da época como Joaquim Nabuco e José do Patrocínio. apesar de mantê-los sob tutela dos seus senhores até completarem 21 anos. A Sociedade Brasileira Contra a Escravidão (1880). Idem. 5. Todos esses acontecimentos deram início a inúmeras revoltas de negros escravos.org/wiki/Abolicionismo_no_Brasil 6. E a Lei do Sexagenário (1885) tornou livre os negros com mais de 60 anos. a distribuição percentual da população brasileira era de 38. de Ângelo Agostini. . de Nabuco e a Revista Illustrada.

primeiro habitante. Em 1890. Na nova ordem. O Estado adota a ideologia do branqueamento e promove a imigração de italianos.) mas tomar-lhes o lugar nas lavouras de café. O índio. 2000: 27 . espanhóis. vinham na verdade acalmar o medo que as elites urbanas e fundiárias tinha do indivíduo de pele escura.7 Começa uma série de medidas para o embranquecimento cultural e racial do Brasil. “(.. mas excluído da sociedade. foi dominado e isolado. O objetivo foi incentivar a ocupação do território brasileiro com mão-de-obra qualificada e civilizada. não previa nenhum mecanismo de incorporação do ex-escravo ao regime baseado no ideário liberal. mendigos. 2000:239). japoneses e alemães. O negro estava livre. importados para uso da colônia. (SODRÉ. Quando o liderado se mostra próximo ao líder (crescendo dentro da sociedade. fazendo o possível para tornar o país livre da presença de não-brancos. Era o fim da época oitocentista brasileira.. Parte da elite nacional temia a presença de negros no país e considerava-os desqualificados para o trabalho e uma ameaça para a construção cultural e racial do país. Os imigrantes que chegavam não se juntaram aos negros para construir. a maioria populacional ficava sistematicamente excluída do processo eleitoral. O que fica claro nesta relação entre brancos e negros no Brasil é uma constante defesa dos líderes por seus ideais. indigentes e indígenas da Ásia e da África’. A discriminação seria a forma defensiva do líder 7. O líder português descobriu. onde predominavam os negros”. ARAÚJO. por exemplo). acontece a discriminação. ocupou e se apropriou do território. controlada por oligarquias regionais.15 Proclamação da República (1889) tornou-se fato. Os africanos e asiáticos só poderiam ser admitidos mediante autorização do Congresso Nacional”. conferindo a ele a posse do país. um decreto determinou a proibição da “entrada de ‘criminosos. A república proclamada. foram domesticados e liderados. o que eliminava as chances de representatividade política das camadas subalternas. portugueses. por sua vez. E os negros.

(SODRÉ. porém “domesticado”). Mas como o negro foi apresentado.) e deste modo conspurcando a pureza pressuposta de uma hierarquia territorial”. O avanço científico da época registra a relação entre líderes e liderados através de uma das mais surpreendentes invenções de todos os tempos: a fotografia.. diferente. Assim.. isto é. E a identidade da liderança brasileira . o diferente. O Outro é aquele que supostamente não conhece o seu lugar – assim se expressa o senso comum discriminatório -. ainda durante o século XIX. o Outro (o imigrante. onde o negro foi ausente. .construiu-se a partir do território. encontra no momento oitocentista brasileiro a elite (dominadora) branca .16 preservar seu poder e espaço.desde o colonizador português até a elite republicana . “(.) a semelhança sugere proximidade de territórios e de corpos. mostrando à sociedade que o liderado é diferente e não pode fazer parte como indivíduo daquela identidade.seduzida pela temática do pitoresco e encantada pelo poder de controle sob a natureza.. 2000:261). rompendo com a separação dos lugares em todas as suas configurações possíveis (. da cultura e do sistema capitalista europeu. daí implicar sempre o racismo uma desterritorialização – do Mesmo e do Outro. aproxima-se demais. Abandonando o seu lugar predeterminado. para os brasileiros e para o mundo? A idéia de apresentar o negro como o outro (intruso. o negro) é conotado como o intruso que ameaça dividir o lugar do Mesmo hegemônico.

amigo do inventor. no dia 17 de janeiro de 1840.17 O negro na fotografia brasileira do século XIX – uma relação pitoresca entre o Brasil e a Europa. sem a emoção do desenho e da pintura. No dia 19 de agosto de 1839. O imperador foi “o primeiro fotógrafo de 8. dezenas de pessoas acompanharam a exposição daquilo que seria o primeiro passo para a evolução da fotografia. em suporte bidimensional. Surpresas e encantadas. Pedro II. Sua idéia foi estimular profissionais a trabalharem com o aparelho e nomeá-los como Fotógrafos da Casa Imperial. as obras de pintores e desenhistas sempre contavam com suas interpretações e estilos próprios. passou por diversas evoluções. aparelho que levou o seu nome. O menino Pedro de Alcântara. Anos mais tarde. A fotografia. veio ao Brasil e fez uma apresentação do invento na praça em frente ao Paço Imperial. ERMAKOFF.8 Por mais realistas que fossem. o inventor Louis-Jacques Mandé Daguerre criou o primeiro processo de reprodução de imagem: o daguerreótipo. mas com um objetivo inicial: ser fiel ao que era registrado. A idéia era desenvolver “uma nova técnica que. conferisse fidelidade total à imagem produzida”. 2004: 106 . como hoje é conhecida. depois de assumir o trono brasileiro e ser intitulado D. encantado com a invenção. em Paris. O abade Louis Compte. diversos inventores e cientistas de todo o mundo trabalharam para criar uma nova técnica que pudesse registrar imagens. Desde o início do século XVI. logo encomendou um aparelho para reproduzir seus próprios daguerreótipos. deu importante impulso ao invento.

11. No estúdio fotográfico. também eram clientes. ficava a mensagem: o cliente queria ser registrado tão moderno e interessante quanto os 9. inclusive aqui no Brasil.18 nacionalidade brasileira e o primeiro soberano fotógrafo do mundo”. a quem pagava por ele. O cartão de visita começou a declinar a partir de 1870. Minas Gerais e São Paulo. A classe senhorial. Da escolha do profissional à pose para a fotografia. principalmente.5 x 6 cm montada sobre um cartão rígido de cerca de 10 x 6.11 utilizado para enviar como lembrança ou decorar a sala da família. o foco e o enquadramento. Formato de apresentação de fotografias inventado pelo francês André Adolphe-Eugène Disdéri em 1854. comerciantes e prestadores de serviço à Corte. tornou-se um modismo em escala mundial e foi produzido aos milhões em todo o mundo. dona de terras e escravos. concentrados geralmente no centro da cidade – na rua do Ouvidor. mas que o bom profissional precisava estar apto para atender. e a população urbana. o retrato dava ao fotógrafo e. . tal exigência era considerada um simples capricho do cliente. para profissionais da época. também era possível dispor de outros excelentes estúdios. já que “a fotografia era fiel ao momento registrado”. ERMAKOFF. Em 1870. uma realidade. principalmente. como na Bahia. Mesmo que inventada. VASQUEZ. não tiravam a originalidade e nem interferiam no resultado. 38 profissionais exerciam seus ofícios com estúdios próprios. Recebeu este nome em virtude de seu tamanho reduzido (apresentava uma fotografia de cerca de 9. Pernambuco. a possibilidade de fazer daquela cena.5 cm). e anúncio fixo no Almanaque Laemmert.9 Os Fotógrafos da Casa Imperial dedicaram-se a fotografar. 10. 2003: 5. importante publicação da época. a família imperial. embora tenha sido empregado por alguns fotógrafos até o fim do século XIX. 2004: 38. No século XIX. Recursos como a iluminação. Em 1860. O trabalho mais pedido na época era a carte-de-visite.10 Nas demais províncias do país.

). “(. pois. A própria paisagem da capital do Império – o Rio de Janeiro – foi um exemplo desse processo. Acreditava-se.) produto de um longo processo de intermediações culturais suscitadas pelas Luzes do século XVIII. não lhe competia.13 A curiosidade européia pelo exótico encontra 12.. (DI COLA. também que fazia parte da natureza do mar rejeitar. Na fotografia. como: “a competência do fotógrafo em controlar a tecnologia fotográfica. a poética do pitoresco continua. Entre 1858 e 1860. diferente do discurso anterior – o sublime. deixando-o à vontade para a descoberta de novas sensações. povos e costumes brasileiros.itaucultural..19 acontecimentos oitocentistas. muitas vezes. a idéia de performance.br. 1997:2). ligada ao fato de o cliente assumir uma máscara social que. Pinturas e desenhos mostram uma natureza com “imperfeições e assimetrias em cenas repletas de detalhes curiosos e característicos que procuram remeter a uma natureza acolhedora e generosa”. 2003: 18. O processo seguia algumas tendências. A “domesticação” do europeu à natureza e ao desconhecido. . Não é difícil perceber como esse olhar atento e entusiasmado sobre a natureza. 2003: 13). Antes do invento da fotografia. o europeu adota a estética do pitoresco para compreender e admirar obras da época. ocorreu de forma sistemática e racional. a partir do século XVIII. VASQUEZ. e a produção de uma nova forma de expressão visual adequada aos tempos do telégrafo e do trem a vapor”. (MAUAD. suas secreções e impurezas (. e como a redescoberta e a valorização cultural do mar e da praia serão importantes para a futura projeção do Rio de Janeiro e de sua paisagem no imaginário ocidental”. o fotógrafo francês Victor Frond realizou um projeto com registros de paisagens. Brazil Pittoresco foi considerado o “mais ambicioso trabalho fotográfico realizado no país durante o século XIX”.12 O pitoresco. 13.org. a natureza era considerada a morada das forças demoníacas e o mar o grande recipiente universal de todos os detritos. convida o espectador à uma reflexão dos elementos. Itaú Cultural – www... até então. ao longo das praias.

. mas com elementos exuberantes (a riqueza da fauna e flora brasileira). O anexo foto 1 mostra uma exceção.20 no Brasil um rico cenário para o despertar deste espírito pitoresco. Justamente por ser considerado tão exuberante quanto às terras do Novo Mundo. através de um ritmo elaborado de gestos. Dona Marcellina.br/nove/6.html?studium=index. Um dos “objetos exóticos” foi o negro.studium. os fotógrafos brasileiros exploraram o negro na fotografia. Para compor o cenário. Na foto. O retrato foi anexado ao processo de pedido de anulação de casamento (em 1887) movido pela esposa branca de seu Antônio. o fotógrafo escolheu uma ambientação rústica (também em moda no período)”. algumas tendências da época: “uma mulher vestida e penteada à moda européia.unicamp. Cristiano Júnior.iar. A principal diferença que se observa nas fotos dos senhores e dos escravos é a 14. pois era um símbolo de distinção e frescura..). uma coisa muito própria para quem se retira para a Europa”.http://www. ex-escrava do senhor Antônio. denotavam que a elegante era afeita aos usos da sociedade.html. Publicado no Almanaque Laemmert de 1866. posa sua nova condição de mulher livre. que o acusava manter a amante negra na Corte. Studium 9 . cujo uso e manuseio corretos. fez a seguinte propaganda de seu trabalho na publicação: “variada coleção de costumes e tipos de pretos (. E o Brasil encontra na fotografia o modo de se divulgar civilizado e moderno (registrando a construção de cidades e estradas). um dos principais fotógrafos da época.14 Aproveitando a relação entre o europeu e as exuberâncias do Brasil. o negro quase sempre foi mostrado em situações ou com temáticas que em nada representava o seu cotidiano real. O leque era um detalhe importante.. com seu leque.

No anexo foto 4. Basicamente. “se o retrato do senhor é uma forma de cartão de visita. após conseguirem a alforria. mas sem calçados. Singular. O anexo foto 3 tem o mesmo teor. Havia a 15. estes são trabalhos que representam um indivíduo. Victor Frond. a idéia é mostrar uma domesticação da escravidão. os escravos trabalham na socagem do café.15 Nas séries de cartões de visita especializadas em negros brasileiros ao longo dos séculos XIX e XX. 2003: 10. . fotógrafo francês que se dedicou a fotografar o Brasil entre 1857 e 1862.21 temática do singular e do generalizado. E eram produzidas para uso pessoal. buscavam representar um grupo ou tipo da “espécie” e seu destino eram as mãos dos curiosos viajantes ou para quem se fizesse interessante. o que era civilizado e apropriado para o consumo europeu. As imagens eram categorizadas. únicas. o retrato do escravo é uma forma de cartão postal”. Como mostra o anexo foto 2. adquiriam algum tipo de calçado. eles eram fotografados em estúdio e encenavam a realização de afazeres domésticos. A fotografia dos negros. os fotógrafos representavam os escravos por estarem com os pés descalços. VASQUEZ. registrou alguns momentos dos negros fora dos estúdios fotográficos. 16. em 1858. Muitos escravos.16 A temática é registrar o negro em seu habitat natural. DA CUNHA. 1988: 3. Mesmo manipulados. um momento de lazer entre três mulheres: a caça aos piolhos. Frond foi o primeiro a focalizar. mas representa uma ama-de-leite. produzida para fins comerciais. o escravo no Brasil. Mesmo que bem vestidos e elegantes. No anexo foto 5. pois assim são as fotos dos senhores. não representava a história do indivíduo que ali posava.

aparece domesticado. Para quem visualiza a foto. regula e fiscaliza. os de Christiano Junior são deprimentes e melancólicos. em franco desenvolvimento. porém. colaborador de Frond na obra Brazil Pittoresco: “as penas disciplinares infligidas aos negros são o chicote. realizados em locações externas ou no estúdio. bem tratado e serve como um “manequim” que. com o auxílio de poses e cenários. O escravo. Exuberante. transmite a civilização e a modernidade da sociedade brasileira. a missão era mais delicada. O equipamento era robusto. seria possível documentar os maus tratos a um escravo. a prisão e a golilha. Mas sempre única e bela. (VASQUEZ.22 preocupação em se registrar o cotidiano. fica a idéia de uma nação civilizada. Os dois trabalhos. . a informação era complementada por textos como o de Charles Riberoylles. Apenas para pintores. a palmatória. mostrando-os em situação de trabalho ou lazer. 2003: 15). pitoresco. O artista guardava o momento em sua memória e posteriormente pintava-o. nos casos de falta grave ou deserção. Nestes casos. atendem ao público ávido por exuberância. desfila os elementos desta nova pátria. feitos em locações externas. A diferença é clara: “ao contrário dos retratos de escravos de Frond. de chegar mais próximo da realidade daquele povo. seja estrangeiro ou mesmo brasileiro. Nas fazendas. incentivado pelo imperador. espalhando o cruel absurdo da dominação de uma raça humana por outra”. a vontade do senhor decide e os feitores executam. (VASQUEZ. por exemplo. A realidade da escravidão foi pouco registrada. fotossensível e os senhores dificilmente permitiriam registrar uma cena de agressão a um escravo. A fotografia de tipos de negros do século XIX vendia a imagem de um Brasil que ao mesmo tempo em que se constituía como uma nação moderna e civilizada. 2003: 82). também permitia a existência de tipos exóticos. Que cenas terríveis não se passarão nessas solidões”. Nas cidades a lei intervém. Para o fotógrafo. o tronco. O fotógrafo. como Rugendas (anexo figura 1) e Debret (anexo figura 2).

O negro brasileiro no cinema – da Era muda à Era Collor. jornais.chamado pelo pesquisador Vicente de Paula Ribeiro como “bela época” por ter sido um dos momentos de maior número de produções realizadas. nas telenovelas e nas propagandas nacionais. em 1896. A cultura de massa produz os mais variados produtos para um grande público. que mostram velhas ideologias (como o desejo de uma elite pelo branqueamento e pela euro-norte-americanização de obras nacionais) limitando a participação desses personagens no cenário brasileiro da cultura popular. receptor dessas mensagens. revistas. Mas nem sempre toda a massa brasileira se vê representada nos filmes.23 CAPÍTULO 2 – O NEGRO BRASILEIRO NA CULTURA DE MASSA NACIONAL. A representação do negro brasileiro nesses três produtos culturais ganha destaque nas próximas páginas. rádio. a população assiste à exibição do seu retrato cultural pela televisão. . etc. quando pouco restou deste período cinematográfico mudo brasileiro . No Brasil. No Brasil. São meios que se desenvolveram a partir do final do século XIX e até hoje produzem atrações de enorme empatia com o público. o cinema surge pelas mãos do italiano Affonso Segretto. cinema. tendo a importante função de trabalhar no imaginário de milhões de pessoas conceitos para a apresentação e valorização da brasilidade.

no primeiro filme proibido no Brasil por motivos políticos.com. A Filha do Advogado (1926).17 São elas: O Segredo do Corcunda (1924).filmagem da adaptação para picadeiro do romance de José de Alencar . RODRIGUES. Outros filmes.mnemocine. O registro de negros em documentários foi quase zero. o negro estava presente. ambientados no Rio de Janeiro. A censura 17. revelam posições ambíguas. A Vida de João Cândido (1912). popularíssimo palhaço/ator dramático negro do Circo Spinelli. O pouco movimento de câmeras e o excesso de diálogos marcam o estilo cinematográfico do período. à feitiçaria e ao mal”. 2001:79. e Thesouro Perdido (1927). contava a história sobre a revolta dos marinheiros negros da Marinha de Guerra contra os castigos corporais. uma versão paulista de A Cabana do Pai Tomás. também desaparecidos. numa apologia romanceada do líder da Revolta da Chibata.24 O final do século XIX foi marcado por ideologias discriminatórias contra os negros e pela perseguição da polícia aos cultos afro-brasileiros. animal associado à feiúra. surge o cinema sonoro. Mnemocine (Memória e Imagem) – www. porém expressivas. Das primeiras produções.br . Os Guaranis (1908) . duas versões silenciosas de A Escrava Isaura.protagonizado com grande sucesso por Benjamin de Oliveira. no tratamento dos personagens negros”. em que “o perfil de uma criança negra é intercalado na montagem com as fuças de um sapo. com atores brancos pintados.18 No final da década de 20. As obras cinematográficas de 1930 a 1945 sofrem muita influência do rádio e do teatro. 18. contavam com a presença negra: Os Capadócios da Cidade Nova (1908) e A Quadrilha do Esqueleto (1917). Mas. ainda restam fragmentos de três obras “que mesmo centrado nos personagens brancos.

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limita os temas e o personagem negro é, em poucas oportunidades, abordado com uma visão paternalista. O Despertar da Redentora (1942), média-metragem produzida pelo Instituto Nacional do Cinema Educativo (um órgão governamental do período getulista), é um bom exemplo das produções da época. Esse filme conta um episódio da vida de Princesa Isabel ainda jovem, em que jurava libertar todos os escravos brasileiros ao ser afrontada por não conseguir impedir o castigo de uma proprietária à sua escrava. O filme exibe cenas fortes de violência contra o negro e termina com um ex-escravo sorrindo, agradecido à princesa pela assinatura da Lei Áurea. Como defendido no Estado Novo, o personagem branco aparece como único salvador da raça negra. “Nenhuma menção das fugas em massa das fazendas, das centenas de mortos, nem da campanha dos abolicionistas, que durou quase 70 anos e empolgou negros e brancos de todo país”.19

E é do teatro que surgem os primeiros grandes atores negros do cinema nacional. Grande Otelo, Pérola Negra e Chocolate traziam no nome artístico o orgulho por suas etnias. Mas ainda sob forte intervenção da censura, os atores negros tiveram quase nenhum espaço. Dois sucessos musicais da época exemplificam essa situação. Favela dos Meus Amores (1935), dirigido por Humberto Mauro, foi um dos primeiros filmes realizados fora do estúdio. O cenário era uma favela verdadeira do Rio de Janeiro e os protagonistas (brancos e mulatos claros) interpretam sambistas e compositores. Na obra, o negro aparece como figurante. A obra foi censurada “porque mostrava muito pobre e muito preto”,20 mas liberada posteriormente. Já em O Ébrio (1945), dirigido por Gilda de Abreu, apenas três negros integram o elenco. Seus personagens são empregados
19. Mnemocine (Memória e Imagem) – www.mnemocine.com.br. 20. Idem.

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domésticos que cuidam bondosamente de seus patrões brancos (protagonistas). O dramalhão conta as desgraças de um cantor alcoólatra, que é enganado pela própria família. O filme foi o maior sucesso do cinema brasileiro da época, ficando em cartaz por duas décadas. Nos quatro primeiros anos de exibição, num Brasil que contabilizava 50 milhões de habitantes, estima-se que foi visto por mais de quatro milhões de espectadores.21

A redemocradização política de 1945 trouxe ao cinema nacional uma nova fase. Com a censura mais tolerante e o fim das restrições à importação de negativos, o número de produções cinematográficas explodiu. As famosas chanchadas (gênero que mescla humor e música) eram dirigidas ao grande público analfabeto e semi-analfabeto da época, que não conseguia ler as legendas dos filmes norte-americanos. Essas comédias musicais satirizavam os filmes hollywoodianos e faziam críticas à sociedade. “Encontramos personagens satirizando portugueses, italianos, libaneses, judeus, americanos, franceses - e também os negros”.22 Em O Mundo se Diverte (1948), de Watson Macedo, o personagem de Grande Otelo se descreve por telefone a uma desconhecida admiradora, encantada por sua voz: “- Sou alto, branco, louro, de olhos verdes etc.”.23 Em O Caçula do Barulho (1949), do italiano Ricardo Freda (diálogos de Alinor Azevedo), o personagem de Oscarito reclama quando tem que distrair uma criada negra e gorda: “- Eu vou ter que me declarar... a isso?!”, “- Eu cheguei perto da macacada etc. etc.”.24 Em Vou Te Conta (1958), de Alfredo Palácios, o personagem de Chocolate exerce o racismo ao contrário quando comenta sobre o personagem Bonitão,
21. Adoro Cinema Brasileiro – www.adorocinemabrasileiro.com.br. 22. Mnemocine (Memória e Imagem) – www.mnemocine.com.br. 23. RODRIGUES; 2001: 122. 24. RODRIGUES; 2001: 113.

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um bandido: “- Sujeito quando não é banco nem preto, cuidado com ele!”. 25

Estudos apontam que Cajado Filho (1912 – 1966) foi o primeiro cineasta brasileiro negro. Foi um ótimo cenógrafo e escreveu algumas das melhores chanchadas de todos os tempos: O Petróleo é Nosso (1954), De Vento em Popa e Garotas e Samba (1956), e O Homem de Esputinique (1958). Ele é também o diretor negro com a filmografia mais extensa: dirigiu, entre 1949 e 1951, três filmes: Estou Aí, Todos por Um e Falso Detetive. Depois, na Atlântida, acumulou as funções de diretor, argumentista, roteirista e cenógrafo na produção E o Espetáculo Continua (1958), e dirigiu Aí Vem a Alegria (1959).

Outro negro de destaque no cinema brasileiro foi Grande Otelo (1915 – 1993). Estrelou dezenas de comédias ao lado de Oscarito e, depois, Ankito, comediantes brancos. Mas o talento também fazia dele um excelente ator dramático, que participou de dois filmes importantes para o negro no cinema nacional. O primeiro é Também Somos Irmãos (1949), de José Carlos Burle, que “trata abertamente do preconceito racial na história de dois irmãos negros, um advogado, o outro marginal, e como a sociedade reage diferentemente a um e outro”.26 Foi considerado, pela crítica especializada da época, o melhor filme do ano. Já em Rio, Zona Norte (1957), dirigido por Nelson Pereira dos Santos, vive o personagem Espírito da Luz; “negro, favelado, compositor de sambas, que morre ao cair de um trem, no exato momento em que sua música alcança o sucesso nas rádios”.27 É considerada a melhor atuação de Otelo.

25. RODRIGUES; 2001: 113. 26. RODRIGUES; 2001: 123. 27. Idem.

Como exemplo. Mas quando o assunto era os cultos religiosos afro-brasileiros. produzido pelo estúdio Vera Cruz e premiado no Festival de Veneza. participativo junto com abolicionistas brancos no processo da abolição da escravatura. narra a história de um intelectual negro superando as dificuldades de se viver em São Paulo. a liberdade temática ficou assegurada e importantes filmes para a afirmação da imagem do negro e da cultura afro-descendente foram produzidos. o Brasil entra num regime autoritário e nacionalista. dirigido por Tom Payne e Osvaldo Sampaio. de Carlos Diegues. enquanto A Tenda dos Milagres (1977). RODRIGUES. que durou até 1983. uma adaptação do clássico de Jorge Amado. mulatos e brancos). Compasso de Espera (1969). de Trigueirinho Neto. Em Barravento (1962). em conflito com personagens brancos. é uma importante produção sobre a miscigenação 28. primeiro filme de Glauber Rocha. Nos filmes sobre a escravidão. na Salvador dos anos 30.28 A partir da década de 50. os investimentos de estatais no cinema nacional foram altos.) condena os cultos afro-brasileiros como perpetuadores do subdesenvolvimento”. A história é de um grupo de adolescentes marginais (negros. dirigido por Antunes Filho.. o paternalismo de filmes anteriores foi abandonado. 2001: 102. Já O Amuleto de Ogum (1974). aparece um negro mais atuante. o cineasta “aceita a máxima marxista de que a ‘religião é o ópio do povo’ e (. Em Bahia de Todos os Santos (1960). 28 Com o Golpe Militar de 1964. . Apesar disso. a perseguição da polícia do Estado Novo ao culto do candomblé é reproduzida logo nas primeiras cenas do filme. temos: Sinhá Moça (1953).. as discriminações estavam representadas. e Ganga Zumba (1964). conta uma história policial ambientada nos bastidores do culto da umbanda.

. Somente a partir de 1993 o país retoma a 29. no intuito quase sempre bem-sucedido de estabelecer metáforas com a época contemporânea”. Rugendas e Franz Post (. 30. A estética da cenografia e dos figurinos “se baseiam nas gravuras de viajantes europeus como Debret. dirigiu. dos figurinos e até da interpretação dos autores (. a ascensão social se faz sem a perda da dignidade”. Ao contrário de Xica. dirigida por Carlos Diegues. A produção anual despenca de uma média de 70 filmes anuais para apenas quatro. baseia-se na história verídica de uma escrava que consegue liberdade e ascensão social quando conquista a mais alta autoridade lusitana na região de Vila Rica. a maior produtora mundial de ouro do século XVIII. Olá Balogun. 2001: 139.31 A ajuda estatal foi suspensa no início dos anos 90.29 Walter Lima Júnior dirige Chico Rei (1985) de forma oposta. na extinta Rede Manchete. Ambos foram dirigidos por Nelson Pereira dos Santos. em 1979.30 A história conta a lenda de um rei africano vendido como escravo para o Brasil. Através de seu trabalho nas minas de ouro. . Enquanto Diegues opta por uma “carnavalização de cenários. 2001: 65. Foi uma das maiores bilheterias da história do cinema nacional e repetiu o sucesso quando exibida na televisão em forma de novela. Xica da Silva (1976).. Ainda no gênero da ficção... escreveu e co-produziu. RODRIGUES. RODRIGUES. 2001: 65.). coincidindo com o fim do governo militar e a chegada da crise econômica. conquista sua liberdade e a dos demais integrantes da sua tribo. “O argumento é sobre um intelectual africano que vem ao Brasil à procura do amuleto de um antigo antepassado escravizado. A Deusa Negra. 31. RODRIGUES.29 brasileira na Bahia. conhecendo assim as comunidades negras do Rio de Janeiro e Bahia”. cineasta nigeriano com extensa filmografia na língua ioruba.).

Ainda assim. O negro brasileiro aparece em algumas dessas produções. mas nem sempre o papel destinado a esses atores condiz com a realidade do povo que está sendo dramatizado. o retrato do povo negro brasileiro foi mostrado de forma tímida nas telas do país. Outro grande produto cultural é a telenovela. obras memoráveis foram produzidas. E fora delas também. Nestes cem anos de cinema. a prostituta e o malandro. a cabeleireira e o intelectual. Representou o bom e o mau. O sucesso deste fenômeno de audiência em todo o território nacional estreou um ano após o surgimento da televisão no país (1950) e em poucos anos tornou-se o programa de maior influência e mobilização da população brasileira. sempre regida pelo comando dos brancos (dentro e fora da tela). O negro representou o marginal. fazendo com que o próprio negro não se interessasse em assistí-lo. Representou também o advogado. Mas a contribuição para a valorização da raça negra ainda ficou adormecida. O personagem negro vive no cinema do Brasil os mesmos problemas em todas as épocas: sua composição é estereotipada e seus resultados acabam por ser negativos. Esta fase será estudada do capítulo 3. resultando na folclorização da sua cultura. . O negro espectador brasileiro assiste a uma sucessão de papéis que não inspiram nele o orgulho de pertencer a uma raça afro-descendente.30 produção cinematográfica.

Colgate-Palmolive e Kolynos-Van Ess patrocinaram cerca de dois terços das produções da época. Empresas como Gessy-Lever. as novelas brasileiras sofreram forte influência das indústrias de sabonete e dentifrício. O esquema foi o mesmo adotado pela soap opera 32 norte-americana. “Autores brasileiros se destacaram nas décadas seguintes. 2000:83). empresas do ramo de higiene pessoal como a Procter and Gamble. A consolidação do gênero se deu justamente em meados da década de 60. que nada têm em comum com a realidade brasileira daqueles dias março e abril de 1964”. “Eram velhos clichês folhetinescos. O nome soap opera surgiu da seguinte combinação: soap faz referência aos patrocinadores. da Argentina e da Venezuela”. na televisão. telenovela produzida pela primeira vez no Brasil em 1964 pela TV Tupi. caracterizados pelo caráter musical e dramático. quando o país vivia os dias do golpe militar. iniciaram sua carreira na telenovela. as novelas abordavam temas e estereótipos de outros países da América Latina. Mesmo com a adaptação brasileira. a história era outra. trabalhando no interior dessas agências de publicidade das ‘fábricas de sabão’ e tendo como função selecionar e adaptar scripts de sucesso do México. Mas na telenovela.33 O Direito de Nascer. A trama. 2000: 82. de Cuba.31 O negro brasileiro na telenovela – da estrutura americana ao tímido retrato nacional. tornou-se a primeira produção de sucesso da televisão brasileira. (ARAÚJO. como Walter George Dürst e Benedito Ruy Barbosa. . Até os anos 70. e opera pela semelhança com os espetáculos teatrais. ARAÚJO apud FERNANDES. 32. posteriormente. 33. As tramas brasileiras eram adaptações de obras de diversos países da América Latina. realizadas por autores que trabalhavam nas agências de publicidade dos patrocinadores. programa que surgiu nos anos 30 em rádios dos Estados Unidos e.

transposição de um estereótipo norte-americano de sucesso”. .). A Rede Globo..(ARAÚJO. 2000: 90. recém-formado em medicina. apresentada em 1979. sempre foi uma prerrogativa unilateral dos atores euro-brasileiros. em 1969.34 utilizando o recurso do blackface (muito usado no início do cinema norte-americano). Interpretada pela atriz negra Isaura Bruno. que fora adotado desde bebê por uma criada negra. representar outras raças. Na época. já que era comum dar a eles papéis secundários. “No Brasil.. Mamãe Dolores (como era chamada carinhosamente pelo público) foi um dos principais papéis da novela e entra para a história ao se tornar a primeira personagem negra a despertar no público brasileiro total empatia. encurtando a trama. de pessoas subalternas. Em Aritana. e não dos atores afro-brasileiros (. que estreou sua primeira novela em 1965. caracterizada pelo seu amor extremo ao filho e abnegação sublime de qualquer outro relacionamento social e amoroso – e a mammie. o 34. levou ao ar A Cabana do Pai Tomás. O papel do negro Pai Tomás foi interpretado pelo ator branco Sérgio Cardoso. ARAÚJO. a novela era a que mais havia apresentado atores negros em seu elenco. tais como negros e índios. Sérgio era “pintado de preto e usava rolhas no nariz e atrás dos lábios para aparentar uma pessoa negra de nariz largo e beiçudo”. Para dar vida ao personagem. 2000:85). O personagem é uma mistura de dois estereótipos: “a mãe negra – presente na literatura e no teatro brasileiro desde o período da abolição da escravatura. atores e o público. conta a história do jovem branco Albertino Limonta (vivido por Amílton Fernandes). Maria Dolores Limonta. A possibilidade é de que os produtores da época não acreditavam no talento de atores negros para assumir o personagem principal. mas também protagonizou um dos mais polêmicos episódios sobre a questão racial na televisão brasileira.32 do autor cubano Félix Caignet. O acontecimento criou um mal-estar terrível entre produtores.

foi interpretado pelo ator Carlos Alberto Ricelli. Da mesma forma. Mas o affair entre os dois não aconteceu por pressões do público e da censura política. E foi para Milton o papel negro de maior destaque desenvolvido pela autora: o psiquiatra doutor Percival Garcia.. .35 Na novela Selva de Pedra (1972). a atriz Léa Garcia interpretou uma secretária negra de classe média. o sucesso Irmãos Coragem.33 personagem principal.)”. Janete Clair foi a autora que menos utilizou personagens estereotipados e “quem mais contribuiu para a revalorização do negro (. quando protagonistas. como Bráulio Pedroso da TV Tupi e apostou tudo nesse novo jeito de fazer telenovelas. junto com Daniel Filho e Reynaldo Boury. são sistematicamente representadas por atrizes brancas”. 2000:95). inteligente e sofisticada. (ARAÚJO.. Milton Gonçalves atuou e co-dirigiu. buscou dramaturgos inovadores de outras emissoras. mulher branca. Mas foi na Rede Globo que a busca por uma novela mais brasileira encontrou espaço e sucesso. com um romance entre ele e Vitória (Tereza Amayo). A emissora contratou grandes nomes do teatro brasileiro. Mas foi com Janete Clair que a rede conseguiu seu primeiro sucesso: Irmãos Coragem (1970). a participação do personagem sofreria uma ampliação. Para o ator Milton 35. com ingredientes que faziam parte da realidade nacional. ARAÚJO. sexual e profissional. um índio. sempre abordando a luta pela emancipação familiar. sendo o primeiro diretor negro da televisão brasileira. como Dias Gomes. Ao longo da trama. irmã de sua paciente. em Pecado Capital (1975). 2000: 115. A novela Beto Rockfeller (1969) da TV Tupi torna-se um marco ao abordar a vida urbana no Brasil e criar diálogos mais próximos do dia-a-dia nacional. as personagens mulatas dos romances de Jorge Amado. A autora ficou famosa pelos personagens femininos que criou.

mesmo sendo um cara altamente estruturado”. A personagem homônima foi interpretada pela atriz Lucélia Santos. para ser a escrava heroína.36 Se para os consumidores dos romances oitocentistas era difícil imaginar uma negra inocente e pura. a relação entre os personagens seria um acontecimento natural. “Mas foi uma enxurrada de cartas protestando. no 36. para os produtores da novela de 1977 também existiu esse preconceito. 2000: 202. Sinhá Moça (1986) – de Benedito Ruy Barbosa . O escravo era dócil. O fim da falta de ousadia na televisão brasileira só viria a ser decretada quase 20 anos depois. começaram as novelas ambientadas no período da escravidão. o personagem se apresentou isolado de um núcleo negro e despreocupado com questões raciais. ARAÚJO apud BROOKSHAW. Ainda na década de 70. na Rede Manchete. o escambau. A Escrava Isaura foi escrito em 1875. Nos anos 80. as novelas que abordavam a escravidão na Rede Globo sempre apresentavam o abolicionista branco como o responsável pela libertação dos escravos.34 Gonçalves. mesmo o cara tendo diploma em Harvard.mostra. não tinha orgulho pela raça e nem lutava contra a escravidão. com a telenovela Xica da Silva. A escolha de uma “mulata quase branca”. refletia a necessidade “de provar uma exceção à regra de que negros eram escravos por natureza e para não ofender suscetibilidades de um público leitor fundamentalmente pró-escravatura”. pelo autor abolicionista Bernardo Guimarães e virou um grande sucesso na televisão. Apesar do destaque. e por isso os escritores da época precisassem aproximá-la o máximo possível de uma branca. . Até o fim da década de 70.

exibida na Rede Globo e dirigida por Herval Rossano. A novela foi ao ar justamente no período de comemoração de cem anos da abolição e “a imagem do Brasil como um paraíso da democracia racial. que a telenovela sempre promoveu. foi arranhada”. O núcleo familiar gira em torno da personagem.35 fim da trama. ARAÚJO. . abordou de forma mais equilibrada as relações entre brancos e negros pela luta abolicionista. Angela Corrêa (a líder guerreira Baoni). Pacto de Sangue (1989). novela de Regina Braga.38 Em Pátria Minha (1994). apesar de continuar trazendo nas tramas principais romances de personagens brancos. Nenhum dos personagens lutam nas questões de conflitos raciais. Sônia. uma arquiteta de classe média. interpretada por Zezé Motta. 2000: 227. A trama de Gilberto Braga foi o cenário de “uma das cenas mais 37. Atores negros de destaque como Ruth de Souza (a babalorixá Mãe Quitinha). um momento crítico pós-abolição: os imigrantes italianos chegavam para substituir o negro e os ex-escravos vagavam pelas estradas do país. 38. O orgulho negro. Haroldo de Oliveira (Damião) e Zezé Motta (Maria) fizeram parte da história que. Simplesmente adotam “uma postura dócil e subalterna”. 2000: 228. as ricas vestimentas africanas e a autoestima foram abordados e ganharam vida nas mãos de grandes personagens.37 A família de classe média negra só apareceu em 1985. na novela Corpo a Corpo da Rede Globo. ARAÚJO. o protesto de negros aconteceu na vida real. exibida na Rede Globo. vive um romance com Cláudio (Marcos Paulo). mostrou a luta contra a escravidão liderada por personagens brancos e negros.

negro safado’. declara: “o jardineiro não se portou com dignidade (.36 abertamente racistas da televisão brasileira”. vai estar fazendo o jogo dos safados. ARAÚJO apud CARNEIRO. Isso tudo fica martelando na minha cabeça’. a trama levaria ao ar uma cena em que Kennedy desabafa com sua madrinha Zilá (Chica Xavier). 2000:272). mas sim o do personagem de Kennedy. Kennedy. de cabeça baixa. Raul Pelegrini (Tarcísio Meira).’. Suely Carneiro. num momento em que a audiência estava morna. 40. Se você. Foi vingança? Vingança porque não deixei você estudar? Você pensa que conseguiria aprender alguma coisa? Não sabe que o cérebro de vocês é diferente do nosso?’ Kennedy. tem muita gente que acha que.. diz que não vez nada daquilo. não reage. sujam na saída. . Depois de mais manifestações (de outras entidades negras paulistanas e de poucos atores negros). assustado e intimidado. O vilão da história. Zilá faria um longo depoimento em que concluiria. Raul retruca (. evidenciando o tabu: ‘Que negro é inferior a branco?’. Kennedy. Zilá o interromperia energicamente. não se defende. o jovem expressaria seu medo em aceitar o trabalho em uma loja de bijuterias: “‘às vezes. entrar nessa de complexo. ARAÚJO. 39... acusou injustamente o seu jardineiro Kennedy (Alexandre Moreno) de ter roubado seu cofre. A entidade paulista Geledés/SOS Racismo recorre na justiça e avalia que o problema não foi o comportamento do vilão.39 A cena foi ao ar nos dias 1º e 2 de novembro de 1994. não. dos burros. (ARAÚJO. 2000: 272. Na conversa.). a entidade pedia que o personagem fosse conscientizado por outros personagens negros. A coordenadora da entidade.40 Na notificação. 2000: 270. fico achando que não é só o doutor Raul. Ele: “Não sei.): ‘Desde quando acredito na palavra de um crioulo? Vocês quando não sujam na entrada. não enfrenta o vilão e foge da sala”. Começam as agressões verbais contra o empregado: “‘Você abriu meu cofre. E eu vou ficar muito decepcionada’”. Teve uma conduta que não reflete o comportamento do negro contemporâneo”... 2000: 274). A partir daí. (ARAÚJO. com veemência: ‘Nunca deixei safadeza de racista atrapalhar a minha vida..

ARAÚJO. de Sílvio de Abreu e exibida na Rede Globo. acabou por acertar em cheio o desejo histórico do segmento populacional negro brasileiro”. o negro é representado dentro dessas 41. Cléber (Antônio Pitanga). o vilão Raul demonstra sinais de regeneração e a novela acaba com o tradicional final feliz em que brancos e negros estabelecem amizades sinceras e os vilões se arrependem. Sidney (Norton Nascimento). mais uma vez ressaltando a ideologia da democracia racial. O preconceito acontece de forma invertida. a família Noronha conquistou a simpatia do público. filho mais velho. O conservadorismo dentro da própria família acaba sendo o principal obstáculo tanto no namoro inter-racial quanto na carreira de modelo que a jovem Patrícia quer assumir. Em A Próxima Vítima (1995). para jantar com a família. A polêmica serviu para mostrar que a população negra. também compartilha da opinião do pai. “uma família de classe média comum e tradicional. quando a filha caçula do casal Patrícia (Camila Pitanga) leva o namorado Cláudio (Roberto Bataglin). Há anos.41 Na história da telenovela do Brasil.37 No final. patriarca machista. A trama foi um sucesso de público porque o autor criou um núcleo negro com pessoas bem sucedidas. através de entidades políticas. conseguiu visibilidade para a valorização da auto-estima e conscientização racial. não gosta quando a sua esposa Fátima (Zezé Motta) pensa em voltar a trabalhar como secretária. gerente bemsucedido de uma agência bancária. 2000: 294. um fotógrafo branco. . profissionais da elite televisiva brasileira aderiram à ideologia do branqueamento e aos padrões da euro-norte-americanização para a construção da cultura nacional.

42 mas nas telas a abordagem é diferente. E com o personagem Paco.38 fronteiras e o resultado gera uma distorção da realidade racial. na produção homônima da extinta Rede Manchete (1996) e reprisada pelo SBT (2005). a telenovela conquistou ótimos índices de audiência. Nas 98 produções realizadas neste período. na Rede Globo. A primeira foi ambientada no período do século XVIII. entre outros. 42. Nelson Xavier. a atriz vive a personagem Preta. ARAÚJO. interpretado por Reynaldo Gianecchini. Ruth de Souza. protagonizar uma novela. 2000: 29. Taís Araújo interpretou Xica da Silva. com exceção das que traziam como tema a escravidão. Grande Otelo. época que marcou a ascensão do negro na teledramaturgia. Zezé Motta. sendo este o maior percentual encontrado nas tramas da televisão. Mas somente uma atriz negra conseguiu. até terminarem juntos. Muitos atores negros se destacaram ao longo desses mais de 50 anos de telenovelas no Brasil. até o momento. Já na segunda. mais um casal de raças diferentes sofre nas mãos de vilões. o contratador João Fernandes. brancos e negros. o número de personagens afrodescendentes conseguiu ultrapassar 10 por cento do total do elenco. e Da Cor do Pecado (2004). Jacyra Silva. A atriz interpreta Xica. A audiência foi ótima e o público se identificou com a trama. . A população brasileira é constituída por cerca de 50 por cento de afro-descendentes (mulatos e negros). Milton Gonçalves. A constatação foi feita em pesquisas realizadas por Joel Zito Araújo nas telenovelas dos anos 80 e 90 produzidas pela Rede Globo. escrava que luta para viver ao lado da maior autoridade da região. não foram encontrados personagens negros em 28 delas. Em 29 obras. E por duas vezes. Nas duas ocasiões em que foi ao ar.

43. as análises do mercado publicitário e a situação dos afro-brasileiros dentro do mundo da propaganda. A propaganda. o patrocínio de empresas e grupos investidores. A abordagem passou a ser mais natural e o negro ganhou papéis de maior destaque dentro da trama. a natureza. ou da realidade das ruas. importando o esquema de patrocínio semelhante ao da soap opera americana. O que sobra ao ator afro-brasileiro é atuar sobre a folclorização de sua cultura em cenários e sobre seres subalternos. mostrando ao grande público a existência de relacionamentos entre diferentes raças dentro de uma só nação . o estilo de vida) para criar uma identificação entre o transmissor e o receptor da mensagem. Somente a partir dos anos 90. “que buscam compor o espaço da domesticidade. Os produtos da cultura de massa recebem. que usam a publicidade para anunciarem seus produtos e serviços.mesmo que ainda de forma desproporcional à realidade. os personagens negros começaram a aparecer com freqüência nas novelas. geralmente. 2000: 308. em especial das favelas”. . ARAÚJO. o que se vê são personagens negros estereotipados e subordinados às ações dos protagonistas da trama. Mas como o negro brasileiro está representado nesta enorme teia de negócios? A seguir. Ao longo dos anos.43 Na construção de uma identidade positiva dos afro-brasileiros. representados por brancos. também usa os elementos nacionais (o povo. veiculada nos principais meios de comunicação do Brasil. uma das poucas contribuições da telenovela foi a revisão da história oficial do período da escravidão. trazendo para as telas heróis negros na luta pela liberdade.39 Os produtores e os donos das redes de televisão do Brasil assumem sua preferência pela euro-norte-americanização já na sua estréia.

acontecendoaqui.44 Com a chegada da televisão no Brasil.com. vindo para servir a conta da General Motors. as revistas e o rádio eram os veículos em que uma grande empresa poderia anunciar seu(s) produto(s). Antes. em 1950.40 O negro brasileiro na publicidade – o mercado e a diferença. então. Walter Thompson cria o primeiro escritório no país. Em 1913 nasce a primeira empresa de propaganda brasileira. dos empresários e dos publicitários – e que aponta para o fato do negro ser sinônimo de pobre e que. portanto. A propaganda brasileira se desenvolveu a partir do modelo americano. Markteam – www. com que o seu departamento de propaganda fechasse. . A especialização veio depois das Revoluções de 1930 e 1932. no outdoor ou no jornal. começa no Brasil uma nova maneira de apresentar produtos para o grande público. Nos anos 40. As empresas foram exigindo cada vez mais das revistas. a J.br 45. Em 1900. é igual a 44. “A lógica da sociedade. Seja em revista ou na televisão. o negro não servia. sua presença era apenas solicitada quando era preciso expressar uma situação coadjuvante dentro do anúncio. com o lançamento da Revista da Semana. fazendo. Idem. As grandes agências internacionais começaram a atuar no país e passaram a ditar o tom da criação.45 O negro brasileiro praticamente não apareceu nas campanhas publicitárias do século XX. as agências de publicidade intensificaram o poder da propaganda no Brasil. que tentavam acompanhar os pedidos para manter suas publicações. Quando se tratava de uma campanha para anunciar marcas e/ou empresas de renome. que paralisaram totalmente as propagandas.

41 consumo de subsistência -. (ARAÚJO. d) a publicidade é um reflexo da sociedade preconceituosa e racista”. Esse encontro revelou um pouco mais sobre esse cenário limitado para a atuação de negros na publicidade. ARAUJO apud SUBERVI-VELEZ & OLIVEIRA. 47. no qual quase não existem negros. nas capitais do Rio de Janeiro e Minas Gerais.500 comerciais assistidos durante 59 horas de programação em horário nobre. Solange Couceiro de Lima. Hasenbalg conclui que o negro brasileiro sofria com o branqueamento promovido na tevê. anunciavamse produtos da indústria musical). diante de um debate entre representantes da população negra paulista e um grupo de publicitários renomados da época. os pesquisadores Subervi-Velez e Oliveira divulgaram um levantamento minucioso. comemoravam-se os 100 anos da Abolição da escravatura. em maio de 1992. c) os clientes não aceitavam a inclusão do negro no seu produto. em toda a sua extensão”. . Carlos A.48 A pesquisadora da ECA-USP. b) o negro não é consumidor. 2000: 67. Foram escolhidas as três maiores redes de tevê no período. ARAÚJO apud HASENBALG. fez menção ao que caracterizaria os ideal perfeito na estética publicitária: 46.46 Tal pensamento pôde ser constatado em 1986. 2000: 66). é arraigada no pensamento destes. SANTOS. Apareceram em 39 comerciais. sendo que em apenas 9 representavam papéis com fala. Em resumo: “a) a propaganda trabalha com um modelo de família classe média brasileira. 2000: 67 48. pois sua presença só se deu em 3% dos comerciais. com base em 1. O resultado foi o seguinte: somente em 4 comerciais os negros apresentaram papéis proeminentes (em 1. Em 1982. e nos outros 3. 2003: 28. em um artigo publicado na Revista da Comunicação e Artes.47 Em 1991.

O caso comprova que a elite publicitária ainda não via no grupo negro brasileiro uma força econômica para integrar o mercado publicitário. Coelho.51 49. Enquanto no Brasil o destaque em anúncios publicitários são para personagens brancos. magra. 2000: 69. magro. a empresa de chocolates Lacta colocou. que é igual a consumo de subsistência”. institutos de pesquisa passaram a investigar também a vida do negro brasileiro. mulatas e japoneses nas propagandas dinamarquesas do que nas campanhas brasileiras. ARAÚJO. chamada a família do senhor Natalino F. enviadas pela leitora. 28% dos brasileiros que têm uma renda superior a vinte salários mínimos são negros50 começou a mudar a visão de algumas empresas. Roberto Pompeu de Toledo escrevia exatamente sobre essa diferença. A constatação foi ratificada com recortes de diversas publicações. No mesmo ano.). 2000: 67 51. . enquanto a mulher é sempre linda. em 1997. “Na lógica dessa maioria. ARAÚJO apud HASENBALG. o feio. O mercado sofre mudanças contínuas e a notícia de que. charmosa e. que vivia em uma cidade da Dinamarca. preto é igual a pobre. em rede nacional. De acordo com uma leitora brasileira. bonito e elegante.49 As vésperas do século XXI. Na revista Veja. em 23 de junho de 1993. em alguns países essa situação não é a mesma.42 “o homem é retratado com branco. ARAUJO. 2000: 68).. existiam muito mais negros. os atores negros representavam uma família de classe média negra. (ARAÚJO apud LIMA.. sem cérebro. o negro são ‘defeitos’ de uma minoria desprezada”. Nele. um comercial de ovos de Páscoa. muitas vezes. Contrapondo-se a esse ideal. o deficiente (. 2000: 39 50.

Com exceção do case Sebastian. (SANTOS apud CORREA.portalafro. Portal Afro .). No caso. destinando aos negros uma posição de coadjuvante no mercado publicitário. por parte do público receptor da mensagem publicitária.www. Para o ator.br/entrevistas/sebastian/internet/sebastmodamix. Desde 1990. “o uso do modelo negro levou à decodificação. a modelo internacional Gisele Bündchen”.htm ..com. despertam em empresários e publicitários uma nova visão sobre o consumidor negro (principalmente a partir dos anos 90. de que a loja vendia roupas para as camadas mais pobres da população (.43 A C&A foi pioneira em apostar no negro brasileiro para representar sua marca. A publicidade também usa a ideologia do branqueamento para exaltar a mensagem de que belo é ser branco. o personagem Sebastian dividiu pela primeira vez o posto de garoto-propaganda. Na visão do publicitário Eduardo Correa. ainda é comum assistir a utilização limitada do negro em campanhas do governo. 2003: 28).. a loja optou pelo mineiro Sebastião Fonseca. Assim.52 Em 2001. o Sebastian. em propagandas de produtos e bens semi-duráveis ou nas já tradicionais participações em que interpreta papéis secundários. 52. As recentes pesquisas apontam para o crescimento da renda do afro-descente que. como veremos no capítulo 3). A parceria foi com a top model brasileira Gisele Bündchen. a escolha faz da empresa uma multinacional mais brasileira: “A C&A completou 25 anos no Brasil e assumiu uma postura de brasilidade trazendo um cidadão afro-brasileiro para representá-la”. junto com as ações de entidades e organizações pró-negros. a contratação da personagem branca para a campanha trouxe uma aproximação dos ideais da ditadura do branqueamento. obrigando-os à necessidade de fazer um up-grade de imagem a partir da contratação de um outro protagonista.

A palavra impeachment ganhou as ruas e o país parou. “(. o destaque pelo reconhecimento e valorização do negro brasileiro. Na política. tanto de esquerda como de direita. um negro elegeu-se prefeito de São Paulo. Mas a partir dos anos 90. Um grande número de bandas e grupos musicais negros passou a freqüentar os dispositivos da cena pública. (SODRÉ. da economia e da cultura nacionais que. Nas próximas páginas. As histórias de Lázaro Ramos (ator – negro) e Jorge Furtado (diretor – branco) como personagens deste momento cultural e a análise de duas obras da dupla: O Homem que Copiava e Meu Tio Matou um Cara..) alguns prefeitos e governadores começaram a instituir ‘secretarias de assuntos negros’. . A idéia era desmascarar o mito da democracia racial e incentivar políticas anti-racismo. as ações se tornaram mais eficazes. a cidade mais próspera do país. 2000:248).. movimentos pela valorização da cultura negra começaram a mudar a história dos afro-descendentes. Desde a década de 70. sempre com discursos de politização da identidade racial”. o reinício polêmico da produção do cinema nacional e as novas oportunidades para o ator afrodescendente neste produto cultural. criou-se no âmbito do Governo Federal a Fundação Palmares. além das interferências internas. Cidadãos de pele escura começaram a entrar em partidos políticos.44 CAPÍTULO 3 – O NEGRO BRASILEIRO NO CENÁRIO DA RETOMADA. Os anos 90 começam abalados pela política do Brasil. sofreram a influência da globalização. Os anos seguintes foram marcados pela retomada do desenvolvimento nos cenários da política. destinada à promoção da cultura afrobrasileira. Black is beautiful – o novo momento da raça negra brasileira.

um das funções da Raça Brasil é valorizar a cultura negra e aumentar auto-estima da população afro-descendente. como devem ser os outros leitores e outros 53. Em 1999. a quatro cores. Raça Brasil passou por um novo projeto a fim de tentar superar uma crise nas vendas. o orgulho de ser negro. matérias e anúncios comerciais específicos para o leitor afro-descendente. Com Ciência – O Brasil negro. 54. refletia sobre o desinteresse do leitor: “O que aconteceu com a Raça. Hoje. principalmente. 1999: 253. . formado por um grupo de paulistas afro-descendentes (1915). Durante quase 50 anos. a revista Raça Brasil é a única no país dedicada ao público negro. atingiu uma tiragem de 280 mil exemplares. leitor. produtos de higiene e beleza étnicos. é que esse leitor negro é meio arredio. na época colaboradora da revista. as seguintes palavras: “Dar a você. diversos periódicos foram produzidos.comciencia. No seu lançamento. SODRÉ. O público negro só voltaria a ter uma publicação específica para os seus interesses mais de 30 anos depois dessa repreensão. Aborda questões sociais.53 virando um verdadeiro fenômeno editorial. A revista Raça Brasil.br/reportagens/negros/08. chegou às bancas em 1996. com a ditadura militar. Todo cidadão precisa dessa dose diária de auto-estima: ver-se bonito.45 Um movimento conhecido como imprensa negra. Mas em 1964.shtml. Sua publicação passou de trimestral para mensal e seus anúncios publicitários vendem. fazendo sucesso. no meu modo de ver. inaugurou uma linha alternativa no campo da comunicação. Sandra Almada. consumindo. da Editora Símbolo. o movimento teve seu fim decretado pela perseguição política. como nos primeiros periódicos do início do século XX. dançando. Vivendo a vida feliz”. http://www. No primeiro editorial.54 Nota-se que.

“Cheios de Raça”. Uma das pesquisas mais comentadas sobre o consumo da raça negra brasileira foi realizada pela empresa Grottera Comunicação.7 milhão de famílias eram formadas por negros com alto nível de escolaridade (45% do colegial completo e 34% de nível superior completo) e que a renda familiar média chegava a pouco mais dois mil dólares mensais. In: Revista Veja. 2002:56). a utilização de negros em campanhas 55. Esse nicho era bem atrativo e mereceu do mercado uma atenção especial para motivar uma grande variedade de negócios. São Paulo. A empresa Shizen oferece a linha Essenza para tratamento capilar desde 2003. com investimentos de R$ 8 milhões em 2004. dentre eles. que corresponde a 5% do seu faturamento no país e por 25% em São Paulo. Abril. o setor de higiene e beleza promoveu uma imensa variedade de produtos direcionados ao afro-descendente brasileiro. A partir de 1999. p. A Unilever.55 De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal e Cosméticos. O estudo revelou que 1. multinacional gigante do ramo.46 telespectadores. lançou quatro produtos especialmente ao público negro. ed. (ALMADA. o desodorante Rexona Ebony. sendo R$ 1. Com toda essa dedicação da indústria. em 1997. edição 1789. foi realizada em 22 estados brasileiros. . O mercado brasileiro percebeu a diferença e começou a investigar.3 bilhão referentes a produtos étnicos. 21/01/2004. Será que somos ainda tão subservientes a tudo que a mídia nos coloca como produtos a serem consumidos? Penso que as novas perspectivas em termos de pesquisa de comunicação mostram a necessidade de um olhar mais complexo para analisar essa questão”. 60. o mercado faturou em 2003 R$ 25 bilhões. Intitulada Qual é o pente que te penteia? – o perfil do consumidor negro do Brasil.

refletindo um desejo do próprio consumidor: em pesquisas sobre o tema. Funcionando como um verdadeiro turbilhão de informações e técnicas (vindas de outros produtos culturais de massa como a telenovela. 1999: 253 57. 21/01/2004. 56. . os videoclipes musicais e a propaganda). SODRÉ. edição 1789. “um negro na tela evoca a identidade brasileira. o cinema da retomada conquistou a atenção de público e de crítica especializada.57 A seguir. São Paulo. cerca de 71% dos afro-descendentes entrevistados declaram estar dispostos a consumirem produtos cuja as propagandas utilizassem negros.56 Para Jaques Lewkowicks. Abril. In: Revista Veja. a beleza estética e a diversidade”. Lara.47 publicitárias cresceu. ed. dentro e fora do país. 61. p. “Cheios de Raça”. outro movimento de luta pelo resgate da cultura nacional. sócio-diretor da agência de publicidade Lew.

A. justamente por marcar o reinício da produção cinematográfica nacional. Em 1992. dentre eles.). Em 1990. Collor rebaixou o Ministério da Cultura a Secretaria e extinguiu vários órgãos culturais. O Prêmio de Resgate do Cinema Brasileiro promoveu três seleções entre 1993 e 1994. NAGIB. assumiu o mandato. . uma das piores fases de toda a sua história. Carlota Joaquina (1995. alguns chamaram este momento de Retomada do Cinema Brasileiro.”. 59. Em 1993.58 No mesmo ano. Entre eles. Itamar Franco. A partir dessas iniciativas. sucessos de bilheteria.48 Luzes na escuridão da sétima arte – o cinema brasileiro da retomada. quem é experiente no assunto já sabe que “essa história de ‘renascimento’ do cinema brasileiro já foi vista tantas vezes. sua função era aperfeiçoar leis antigas de incentivo fiscal. foi promulgada a Lei nº 8. 2002: 13. Para José Joffily. contemplando 90 projetos (dentre eles 56 de longa-metragem). o Brasil escolheu o primeiro presidente pela democracia: Fernando Collor de Melo. O 58. Para o cinema... Logo após assumir a Presidência. a Embrafilme (Empresa Brasileira de Filmes S. Collor foi deposto por impeachment e o seu vice. NAGIB apud JOFFILY. produzindo. o primeiro grande sucesso da retomada brasileira.59 O cinema brasileiro voltou a ser prestigiado pelo público e pela imprensa. a situação ficou tão grave que apenas duas obras de longa-metragem foram lançadas no Brasil. 2002: 13. de Carla Camurati). Conhecida como a Lei do Audiovisual. já nas primeiras obras.685. Outros acreditam que o termo “retomada” funcionaria antes de tudo como uma estratégia de marketing.

Ivana Bentes. Cineastas de todas as regiões do país começaram a despontar. mesmo com distribuição e exibição deficientes. Profissionais de áreas diferentes da cultura de massa (como a televisão e a publicidade) passaram a atuar no campo cinematográfico. que alcançou números surpreendentes na segunda metade da década de 90. uma medida provisória na Lei do Audiovisual elevou de 1% para 3% o limite de dedução de impostos das empresas. exibindo as desigualdades sociais em cenas deslumbrantes. lamenta que a “estética da fome” do Cinema Novo tenha se transformado 60. que será comentado ainda neste capítulo). . E a participação feminina na produção e na direção cinematográfica. as leis de incentivo (em especial a Lei do Audiovisual) e as premiações tornaram o cenário da cinematografia brasileira um terreno democrático.49 Quatrilho (1995. 2002: 14. Cineastas dirigem suas câmeras às classes pobres e aos costumes populares. aberto para quem nele quisesse trabalhar. de Walter Salles).61 Uma grande característica do cinema da retomada é a diversidade. 55 novos cineastas surgiram no país. considerado filme-símbolo da retomada. Esses filmes ultrapassaram a casa de 1 milhão de espectadores. conhecida pelas críticas contra este tipo de tendência. 61. dão uma nova “roupagem” ao cinema brasileiro.60 As mudanças políticas. A partir de 1996. A linguagem publicitária e a dinâmica da televisão (principalmente a agilidade dos videoclipes popularizados pela MTV Brasil). mostrando um Brasil além do eixo Rio-São Paulo (como Jorge Furtado. José Álvaro Moisés. de Fábio Barreto) e Central do Brasil (1998. NAGIB. do Rio Grande do Sul. declarava que entre 1994 e 2000. Idem. ex-secretário do Audiovisual.

de Fernando Meirelles). o som”. Adoro Cinema Brasileiro – www. fotografia. a câmera. Meirelles fez questão de levar à tela jovens de diversas comunidades e favelas do Rio de Janeiro. 64. No cenário internacional. “a retomada se dá num momento em que estamos na rabeira tecnológica. Inácio Araújo. O longa trouxe à tona a realidade local e escandalizou com cenas fortes de tiroteios e crianças armadas ou em situação de risco.br. Para outros. nos últimos tempos.com.br/revistadecinema/edicao31/estética/index. Até no exterior. surgida nos anos 60. entre outros. gerando mais de 2000 entrevistas e testes para capacitar parte do elenco. já que em ambos existe semelhança de se abordar a identidade nacional como temática. Revista de Cinema – www2.63 E foi com esse turbilhão imagético que o filme “Cidade de Deus” (2002.50 numa “cosmética da fome” da Retomada.uol. outras nem saíram do papel. Ganhou prêmio de melhor edição no BAFTA 2003 (considerado o “Oscar britânico”) e 9 prêmios do Festival de Havana. NAGIB. ao contrário do que acontecia nos anos 60. .62 Para uns. o longa foi indicado a quatro Oscar 2004 (roteiro adaptado. Mas.64 A retomada do cinema brasileiro está longe de ser constituída apenas por casos de sucesso. Muitos deles nunca tiveram contato com a arte de atuar. Entre a retomada e o Cinema Novo mudou praticamente tudo: o público. O filme foi baseado no romance homônimo de Paulo Lins e conta a história da favela carioca. o momento é de 62. 2002: 16. Algumas obras fracassaram. nunca se assistiu tanto aos filmes nacionais.com. tal comparação entre esses dois momentos é pertinente. como o crítico do jornal Folha de São Paulo.adorocinemabrasieliro.shtml. 63. montagem e diretor) e concorreu na categoria de melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro 2003.

66..51 destaque. NAGIB apud CARIRY. A atriz Fernanda Montenegro. o negro brasileiro.66 As influências da publicidade e da televisão fizeram uma aproximação entre o espectador brasileiro e o seu cinema esquecido. 2002: 15. protagonista de Central do Brasil. tal fato é pertinente porque a abertura do cinema da retomada à diversidade ainda não é plena.. Nas próximas páginas. NAGIB.67 Mas para o ator afro-descendente a situação é de destaque. Três obras foram indicadas ao Oscar de melhor filme estrangeiro65 e um Urso de Ouro em Berlim conferido a Central do Brasil em 1998. 65. O Que É Isso. que têm acesso às verbas das grandes empresas”. duas personalidades que fazem desse momento cinematográfico uma realidade mais aproximada da verdade multirracial do Brasil: Lázaro Ramos (ator) e Jorge Furtado (diretor). 67. O resultado é a experiência de um cinema tão diversificado quanto o seu tempo e o seu público. indicado em 1998). Dentre eles. mas outros grupos ainda continuam fora da direção de filmes e documentários. foi indicada ao Oscar de melhor atriz. . Para o cineasta Rosemberg Cariry.)”. também em 1999. de Bruno Barreto. do Cinema Marginal. “A admiração pela geração do Cinema Novo. 2002: 17. restringindo as produções aos “grandes produtores brasileiros estabelecidos no Sudeste. imprimindo um ritmo mais moderno e uma qualidade técnica comparada aos blockbusters hollywoodianos. A diversidade deste momento é tão grande que outros ciclos do cinema são referências para os novos cineastas. O cinema da retomada diversificou para uns. do Cinema de Boca. Companheiro? (1997. e Central do Brasil (indicado em 1999). mesmo da chanchada e da pornochanchada é explícita (. O Quatrilho (indicado em 1996).

Rio Grande do Sul. A vontade de fazer cinema surgiu nessa época. Principalmente quando. Em 1984. baseado numa história de Luiz Fernando Veríssimo. No cinema nacional. Só vim a conhecer Glauber Rocha no programa de televisão Abertura. Competência do ator? Com certeza.. mistura de jornalismo e ficção. “(. entre 1979 e 1980. a situação muda. por duas vezes seguidas. na cidade de Porto Alegre. Ousadia do diretor? Talvez sim. dos Trapalhões. ser interpretados por um profissional branco. apresentado pelo próprio Glauber. que passei a me interessar por cinema brasileiro. isso acontece. O Temporal.) em 1981. Mas foi com o jornalismo que teve sua primeira experiência audiovisual: na TV Educativa. também. . (NAGIB apud FURTADO. fazia um programa semanal chamado Quizumba. E do diretor também. Mas quando um diretor escolhe. Lá. Não terminou nenhum curso. filmes infantis ou similares. nas histórias. em 1981. foi produzido com o mesmo grupo do programa de TV.52 Lázaro Ramos e Jorge Furtado – personagens do cinema da retomada. largou. Lázaro Ramos e Jorge Furtado. optou por Artes Plásticas. Jorge Alberto Furtado nasceu em 09/06/1959. protagonizar seus filmes com um ator negro. A brasilidade se mostra mais diversa na história desses dois personagens do cinema brasileiro da retomada. esses personagens principais não carregam fardos da discriminação e poderiam. Começou a cursar Medicina. 2002: 209). Antes disso só conhecia filmes de Teixeirinha. desistiu.. e seguiu Jornalismo. quando o movimento já tinha acabado”. Um ator negro e um diretor branco. Vi os filmes do Cinema Novo que ficaram famosos muito tempo depois do lançamento. do Mazzaropi. fez seu primeiro curta.

a fome e a exclusão social. Brasília e Gramado. no meu entendimento.. (NAGIB apud FURTADO. maior até que Glauber. é seu filme brasileiro preferido. Considero Nelson Pereira dos Santos o maior cineasta brasileiro. então. Começou.) gostava de filmes como espectador.). O projeto lhe rendeu descobertas. do filme Felicidade É. dividiu o prêmio de melhor curta-metragem no Festival de Gramado com outros dois filmes. Furtado dirigiu o episódio Estrada. . como Pedro Cardoso e Débora Bloch. Ilha das Flores (1989).. apesar do resultado comercial fraco. curta-metragem famoso de Furtado. mas confesso que não sou um ardoroso defensor do nosso cinema (. como o filme Limite (1931). de Mário Peixoto. Gosto de certos filmes brasileiros. no mínimo cinco obras-primas: Rio Zona Norte. Assim. O elenco contou com a participação de atores renomados. que se confunde com ficção e documentário. 2002: 210). Furtado conta que Cabra Marcado para Morrer (1984).. imprimindo um ritmo acelerado.). aborda questões como a pobreza. Em 1986. O projeto.. o desperdício alimentar. dirigido por Furtado e José Pedro Goulart. em razão de sua filmografia incluir. conquistou três prêmios de melhor filme do júri popular no festivais brasileiros de Cuiabá. Sua edição lembra uma verdadeira colagem. mas declara que o cinema brasileiro não fez parte da sua formação cinematográfica.53 Depois de dois anos como diretor de televisão. Memórias do Cárcere e Vidas Secas”. não tive uma formação teórica (.. Em 1995. uma produção que. A narração do ator Paulo José orienta o espectador e se torna um marco nas obras de Furtado (como será visto na última parte deste capítulo). continua: “(... a promover mostras de cinema no local. Amuleto de Ogum. Rio 40 graus. o curta O Dia em que Dorival Encarou a Guarda. Furtado foi convidado a dirigir o Museu de Comunicação Social de Porto Alegre.. uma espécie de Museu da Imagem e do Som. segundo ele. de Eduardo Coutinho..

melhor montagem e mais quatro prêmios regionais (melhor filme.). sem grandes invenções. suas dúvidas e ansiedades com irreverência e fidelidade. Houve Uma Vez Dois Verões (2002).http://www.htm . O jornalista da Folha de São Paulo." Sobre o incentivo fiscal e a participação da televisão neste no momento cinematográfico. (..) No lugar de pirotecnias tecnológicas. gente comum que você acha que pode encontrar a toda hora em qualquer lugar.com.. No Brasil. conta de forma suave. Guilherme Werneck. com um humor sutil. 2002: 212) 68. dentre eles. (NAGIB apud FURTADO. mas consistente.casacinepoa. o governo está direcionando dinheiro para a produção cinematográfica.). Furtado constrói personagens que têm como trunfo uma aparente normalidade. melhor direção. Furtado produz seu primeiro longametragem. como acontece em vários países (. as emissoras deveriam ser obrigadas a co-produzir filmes”... seguro. que caiu nas graças do público e da imprensa. Furtado usou duas armas: um roteiro bem estruturado.54 ganhou inúmeros prêmios nacionais e internacionais. CasaCinePoa .br/port/filmes/ilhadasf. e um modo de filmar clássico.. Outro fator primordial seria a participação da televisão nestas produções. júri popular e prêmio da crítica).. e isto é muito bom. melhor filme de curta metragem (júri oficial. São jovens sem afetação e sem rótulos estampados na testa.). pois penso que o cinema é uma forma de expressão cultural estratégica. melhor roteiro. a história do relacionamento entre dois adolescentes durante as férias. Furtado também assinou o roteiro do filme. fundamental (. Além da direção. Furtado declara: “De todas as formas de produzir cultura (. Houve Uma Vez Dois Verões consegue retratar os adolescentes... melhor roteiro e melhor montagem) no Festival de Gramado (1989) e Urso de Prata para melhor curta-metragem no Festival de Berlim (1990). onde a televisão é uma concessão pública.68 Assinando novamente roteiro e direção. fez a seguinte crítica em 16/09/2002: "Em cartaz em São Paulo.

Bahia. Sua primeira participação no cinema foi em Cinderela Baiana (1998). Aos 10 anos. todos os personagens foram escritos já com os seus respectivos atores escolhidos. substituindo o primo numa peça infantil. Vencedor do prêmio de melhor roteiro no 21º Festival Internacional de Miami em 2004. num hospital de Salvador. Depois. No mesmo ano. menos André: “Eu testei vários atores antes de escolher o Lázaro. A voz era muito importante.http://www.”69 Luiz Lázaro Sacramento Ramos nasceu em 01/11/1978. . mas nunca foi a uma aula sequer. No intervalo entre uma produção e outra. porque nos primeiros 40 minutos ele praticamente não tem um diálogo. o filme marca a estréia da dupla com Lázaro Ramos. A partir daí. Depois desse filme. tem uma longa narração em off. surgiram vários convites para atuar no cinema. na cidade de Salvador. parou de trabalhar como técnico em patologia.br/index_textos. uma boa vivência de teatro.php?id_texto=276. da diretora venezuelana Fina Torres. que assinou roteiro e direção da obra. Lázaro foi convidado por João Falcão para fazer o espetáculo A Máquina. junto com Wagner Moura. Ele tem uma voz muito boa. chega aos cinemas brasileiros mais um sucesso de Furtado: O Homem Que Copiava. participa da comédia O Sabor da Paixão. ao lado de Penélope Cruz e Murilo Benício. estrelado por Carla Perez. Lázaro passou no vestibular para bioquímica na Universidade Federal da Bahia. Segundo Furtado. começou a fazer teatro. A escolha foi um contato de olhar. atuou em 14 espetáculos com o Bando Olodum.cineweb. escolhido após diversos testes com outros atores. Vladmir Brichta e Gustavo Falcão. Em 2000. 69.55 Em 2003. CineWeb .com.

70 Lázaro conta sobre como foi escolhido: “Vários fizeram testes e o Jorge [Furtado] me escolheu pelas minhas qualidades. Atuou ao lado de Leandra Leal.com. edição 10. Fiz musculação. capoeira. edição 10. Lembro de uma reunião em que surgiu a pergunta ‘Ih. No filme Madame Satã. na Espanha. transformista que virou o mito Madame Satã da boemia carioca na década de 30. Mas claro que gosto de fazer coisas relacionadas à minha cor”. me incomoda quando as pessoas me limitam à minha cor. de Furtado. p. na Rede Globo.. Lázaro interpreta João Francisco dos Santos. 14. Lázaro atuou também em Homem do Ano (2003). Na televisão. ed. com quem fez par romântico. Mas seu segundo protagonista seria o personagem André em O Homem que Copiava (2003).br. . (“Homem Invisível”..56 Mas foi em 2002 que o ator virou sucesso nacional. Mas foi só três semanas antes de começar a filmagem que o Karim me convidou. O ator conta sobre a preparação para o personagem: “O primeiro teste para o Madame foi três anos antes de filmar. de José Henrique Fonseca. no Equador. de Karim Aïnouz. no Peru).) Depois. registrando na primeira semana de exibição mais de 66 mil espectadores. Lázaro protagonizou com Wagner Moura. Aí. O filme lhe rendeu dois prêmios nacionais de melhor ator (Mostra de São Paulo e Troféu APCA) e mais três internacionais na mesma categoria (festivais de Huelva. Ele inventava tanta mentira [risos]!”(“Homem Invisível”. Não sabia se ia dar conta – mas sabia que seria um presente: não é toda hora que você encontra um personagem lírico desse. 18. você se entrega. Lázaro é negro. É um salto muito grande. e Lima. In: Revista V.adorocinemabrasileiro. São Paulo.). Parágrafo. O filme foi um sucesso do cinema brasileiro. Os quatro atores 70. Parágrafo. São Paulo. 01/02/2005. Lúcio Mauro Filho e Bruno Gracia a série Sexo Frágil (2003). Quito. Como ator. p. 01/02/2005. estudei a entrevista dele no Pasquim. In: Revista V. Adoro Cinema Brasileiro – http://www. ed. Luana Piovani e Pedro Cardoso. um vídeo com imagens já velho. o que a gente vai fazer com o texto agora?’ Jorge disse: ‘Nada’.

correiodabahia.).). na minissérie Pastores da Noite.. ed. uma história de uma família comum. que. rendeu as seguintes palavras do ator: “(.br. havia atuado na mesma emissora. In: Revista V. Existe também uma dor ali e é isso que eu acho bacana no personagem”. gente! Olha para onde ele foi!’ (. O ator conta sobre como foi interpretar esse papel: “Muito bom. quando chega o roteiro. mais quatro filmes chegaram aos cinemas com a participação de Lázaro. carismático. de Luis Fernando Veríssimo. Antes.. edição 10. Foguinho. Jorge Furtado. na trama de João Emanuel Carneiro. Também em 2005. bem-humorado – mas é burro... de Heitor Dhalia... faz as pessoas rirem porque é azarado. mais uma vez. Em Meu Tio Matou Um Cara (2005). também na Rede Globo. por exemplo. o personagem mais surpreendente que já vivi. O Foguinho é. em 2006. Esse não. porque é um anti-herói. Nunca tinha feito uma comédia assim”. os negócios dele todos vão à falência. A cada semana. . Mas seu primeiro papel em novelas só surgiu este ano. de Clóvis Bueno e Paulo Betti. faz coisas erradas.. em 2002. interpretou o quarto 71. Parágrafo. pois nunca sei o que vai acontecer com ele e para onde vai. Geralmente faço personagens heróicos. talvez. É muito engraçado. de Hector Babenco. 19. Em Cafundó. Cobras & Lagartos. se apaixona pela mulher errada. 01/02/2005. Seu personagem.) é um personagem sem código nem similares. Por isso não se compara a nenhum outro papel que eu tenha interpretado antes. mais uma parceria com Furtado. contou inteligentemente.57 interpretavam personagens femininos. sem ser demasiadamente dramático.. Correio da Bahia – http://www. ele é uma mistura de vários outros.71 Lázaro atuou no sucesso Carandiru (2003). como o surfista Ezequiel e fez uma pequena participação em Nina (2004). de classe média. Na verdade. baseados na peça Homem Objeto. O Foguinho. o personagem Éder lhe rendeu outro protagonista. ele é encantador.com. São Paulo. mas o olhar que tenho dele foge um pouco à comédia. só que formada por negros. tipo o Madame Satã. p. (“Homem Invisível”. É o primeiro personagem burro que eu faço. o terceiro da sua carreira no cinema. penso: ‘Olha o que o Foguinho está fazendo. E é a história de uma família também.

Mas não deixa de ser também um novo caminho. ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante no Cine Ceará.adorocinemabrsileiro.htm . O filme foi rodado em 2003. aumenta o debate da multirracialidade brasileira.72 Lázaro é o ator mais requisitado do cinema brasileiro da retomada. o afrodescendente ganha destaque e as velhas ideologias discriminatórias começam a ser abolidas. de João Falcão. como Jorge Furtado.br/Materias/Noticias/noticia_24153. onde Lázaro também atou em 2000. inspirada em um personagem real saído das senzalas do século XIX. até hoje. Em Cidade Baixa. quando fez uma pequena participação em Jenipapo (1996). sendo quatro como protagonista. E as investidas de diretores. Em julho deste ano. Adoro Cinema Brasileiro – http://www. Trata-se de uma ficção. Com a imagem em circulação nos principais meios de comunicação do país (na televisão.br. em negros para a interpretação de seus personagens. Seu talento e empatia com o público explicam a tamanha demanda de trabalho. o sétimo personagem onde atua ao lado de Moura.com. de Sérgio Bianchi. Já na obra Quanto Vale ou É por Quilo. Para o ator negro brasileiro. O Fuxico . mais um papel principal. agora dividido com o amigo Wagner Moura.com. no estado do Paraná. a análise dos dois projetos da dupla: O Homem Que Copiava e Meu Tio Matou Um Cara.http://ofuxico. E em A Máquina. o caso de Lázaro Ramos ainda é uma exceção. De 1996.73 A seguir.58 protagonista da carreira cinematográfica: João de Camargo. são 14 personagens vividos em 10 anos de carreira cinematográfica. 72. no cinema e em revistas). mais uma obra com a parceria de Jorge Furtado e Lázaro Ramos se somará à lista de filmes do cinema brasileiro.uol. O filme foi baseado na peça homônima de Falcão. 2006. 73.

em comentários no DVD. . fica clara a preferência do diretor em contar a história sem se ater à ordem cronológica dos acontecimentos. com problemas reais. Jorge Furtado constrói personagens comuns. assim como ele. Em casa.59 Análise dos filmes O Homem Que Copiava e Meu Tio Matou Um Cara. acrescentando seu talento a dois grandes sucessos do cinema nacional. a estrutura da trama lembra muito a do seu curta-metragem Ilha das Flores. desenha histórias em quadrinhos e observa Sílvia (Leandra Leal). o ritmo acelerado e a sobreposição constante de imagens imprimem um estilo ágil. mas que encontram caminhos inusitados para resolver seus problemas. jovem por quem é apaixonado. do seu quarto. Nas obras O Homem Que Copiava e Meu Tio Matou Um Cara. No início do filme. ele não tem como pagar a roupa. Na realidade. E o ator Lázaro Ramos protagoniza essas tramas. Em ambos. Começa. então. um jovem que mora com a mãe e a ajuda com as despesas. ganha um salário modesto. De acordo com o próprio Furtado. Um dia. Promete voltar no fim daquela semana e comprar um chambre de presente para a mãe. uma série de planos para conseguir dinheiro e mudar sua vida. de binóculos. Entre eles. resultando numa verdadeira colagem audiovisual. com o intuito de impressionar a moça. o rapaz resolve seguí-la e estabelece o primeiro contato com a moça na loja onde ela trabalha. Sílvia trabalha numa loja de roupas e. O narrador. Trabalha em uma papelaria tirando xerox. O Homem Que Copiava conta a história de André (Lázaro Ramos). copiar cédulas de R$ 50 e assaltar um banco. que estão disponíveis na seção anexos no formato DVD.

Em nenhum momento da obra existem questionamentos ou atitudes discriminatórias em relação à cor de André. como veremos a seguir. Duca – o sobrinho (Darlan Cunha). Laerte – pai de Duca / irmão de Éder (Ailton Graça) e Cleía – mãe de Duca / cunhada de Éder (Dirá Paes). formada por Éder – o tio (Lázaro Ramos). O formato também aparece quando o personagem Duca descobre informações importantes . jovem de quinze anos. Apaixonado por sua amiga de infância Isa (Sophia Reis). Outra característica é a mistura de quadrinhos animados que divertem e acrescentam informações ao espectador. com uma participação mínima). começa a desconfiar da história contada pelo tio e resolve investigar o caso. que é apaixonada pelo amigo Kid (Renan Giolli). os personagens Marinês (Luana Piovani) e Cardoso (Pedro Cardoso) entram na trama e participam dos planos com André. Duca. A preferência por relacionamentos amorosos inter-raciais é abordada nas duas obras por Furtado. os três amigos se envolvem em diversas aventuras. as ações estão concentradas em uma família de classe média afro-descendente. ajuda no desenvolvimento e compreensão do roteiro. Em Meu Tio Matou Um Cara.60 André. Ao longo do filme. A trama conta a história de Éder. O personagem de Lázaro Ramos é o único negro de destaque na trama (o outro é a mãe dele. Furtado monta um verdadeiro jogo de vídeogame já nos créditos iniciais. aficionado por jogos e Internet. O final é feliz para o nosso anti-herói e seus amigos: ele vai para o Rio de Janeiro com Sílvia. que mata o ex-marido de sua namorada Soraya (Deborah Secco). que atua quase 40 minutos em off.

que seu tio Éder não era o assassino e acaba conquistando o amor de Isa. conferindo à trama o segundo relacionamento inter-racial (o primeiro é o de Éder e Soraya). Duca descobre. principalmente para corrigir pequenos deslizes de produção e uma mudança de planos do diretor. Meu Tio Matou Um Cara apresenta pequenas questões sobre discriminação. de Zeu Britto. Ao contrário da outra obra. Vários recursos de computação gráfica foram utilizados. mas gera visibilidade. o negro ganha uma invisibilidade em relação aos questionamentos da raça. que mostra-se sempre superior aos comentários. orienta o espectador dentro da trama. mudou de nome e virou Soraya. que lutam para viver e vencer os obstáculos do dia-a-dia. Nos dois filmes. como defende Antônio Pitanga na epígrafe deste projeto. como na outra obra. .61 sobre o caso do tio. A personagem de Deborah Secco. Ao “ator sem cor” . que originalmente se chamava Fátima. mas sempre muito bem resolvidas pelo personagem Duca. São representações de pessoas comuns. surge mais uma oportunidade de trabalho. Os patrocinadores são inseridos de forma eficiente e oportuna dentro do filme (como o provedor Terra. que não denigre nem enaltece. a presença de relacionamentos entre negros e brancos (praticamente) não cria conflitos discriminatórios e nem apresenta personagens estereotipados. Na temática de Furtado. que sempre aparece quando Duca consulta à Internet). como a maioria dos afro-descendentes brasileiros. A narração é feita por Duca e. depois que Furtado ouviu a música Soraya Queimada. no final. muitas vezes utilizados na dramaturgia de forma inadequada e mal-resolvida.

Inserido nessa temática. as velhas ideologias discriminatórias (como a do branqueamento e da democracia racial) cedem lugar a uma abordagem natural e contemporânea do afro-descendente. a dedicação de ONGs (Organizações Não-Governamentais) à vítimas de discriminação racial. surgem relações interraciais sólidas e personagens negros livres de estereótipos. E o resultado dessas ações ratifica. Alguns indicadores merecem destaque. como a presença de negros militantes em instituições do poder executivo. mas da população no interesse pelas “coisas” do Brasil. Nas telenovelas e no cinema (como analisado nos filmes O Homem Que Copiava e Meu Tio Matou Um Cara).62 CONSIDERAÇÕES FINAIS A década de 90 foi um marco na produção cultural de massa brasileira. o negro brasileiro conquista uma visibilidade inédita nos meios de comunicação. uma posição segura para o caminho personagens da cultura brasileira. A condição favorece ao descobrimento de sua própria identidade. . hoje. Depois do momento Collor. a Raça Brasil. o sucesso de uma revista exclusiva para o público negro. Essas temáticas imprimem. judiciário e legislativo. O trabalho contra a discriminação e pela valorização do afro-descendente começou antes dos anos 90. e a existência de uma classe média negra consumidora. No campo cultural. com demandas étnicas definidas. provocando na sociedade um debate sobre a diversidade cultural. houve uma retomada não só do cinema.

O sol. 26% dos negros com mais de 25 anos não sabiam ler e o salário chegava a ser menos da metade do trabalhador branco. uma oportunidade de enxergar o grande cenário da multirracialidade. “Cheios de Raça”. 74. a ideologia do branqueamento perde espaço para a diversidade e o mito da democracia racial vira realidade. Neste processo. p. 21/01/2004. o papel de diretores como Jorge Furtado são fundamentais para o desenvolvimento de personagens geradores de visibilidade aos afro-descendentes.74 Mas a dedicação da indústria em diversificar seus produtos e a visibilidade que a publicidade vem proporcionando ao afro-descendente (conquistados depois da constatação de uma classe média negra consumidora) aumenta as chances de negócios no setor e ajuda. O negro brasileiro. E o preparo de atores como Lázaro Ramos vitais para a sustentação da obra dentro e fora da tela. edição 1789. de acordo com os interesses do próprio espectador. 61 . As novas representações do negro na sociedade brasileira ainda não são regras. In: Revista Veja. começa a achar o seu. uma compreensão mais brasileira e moderna. Mas cada um precisa conhecer o seu lugar. Esses acontecimentos não mudaram a situação social do afro-descendente brasileiro. Em 1992. mas exceções que exercitam a auto-estima da própria raça. que continua ruim (e se torna péssima quando comparada aos índices da população branca). na questão sócio-econômica do negro. agora. Para a outra parte da população (cidadãos brancos). Aos poucos. segundo o ditado. Abril. direta ou indiretamente. ed. São Paulo.63 nas produções nacionais da retomada. nasce para todos. por exemplo.

Muniz. O negro brasileiro e o cinema. O cinema da retomada: depoimentos de 90 cineastas dos anos 90. RODRIGUES. Claros e escuros: identidade. . Joel Zito. NAGIB. São Paulo. In: Jr. São Paulo: Editora SENAC São Paulo. Rio de Janeiro. Imagem e auto-imagem do 2º Império.). Editora Pallas. Olhar escravo. São Paulo: 1998. João Carlos. 2001. In: RAMOS.). Luiz Felipe de (Org. Rio de Janeiro: Pallas. História da vida privada. VASQUES.64 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Livros: ALMADA. A negação do Brasil: o negro na telenovela brasileira. São Paulo. 2002. O negro na fotografia brasileira do século XIX. Metalivros Editora.. Rio de Janeiro: George Ermakoff Casa Editorial. Rio de Janeiro: Editora 34. Mídia e racismo. Petrópolis: Vozes. ERMAKOFF. 1999. ARAÚJO. In: ALENCASTRO. 2002. O Brasil na fotografia oitocentista. Lucia. Companhia das Letras. Silvia (Org. Cristiano (Org.). Escravos brasileiros do século XIX na fotografia de Cristiano Jr. A imprensa e o racismo. Manuela Carneiro. Pedro. Ser olhado. 1997. povo e mídia no Brasil. MAUAD. Sandra. DA CUNHA. George. Ana Maria. Império: a corte e a modernidade nacional. SODRÉ. 2000. 2003. 2004.

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http://www.br/aplicExternas/enciclopedia_ic/ index.br/entrevistas/sebastian/internet/ sebastmodamix.66 Correio da Bahia. http://www. 2004.itaucultural. O Fuxico.com. Produção: Paula Lavigne.com.uol.com. Revista de Cinema. http://www. color. http://www.br – consultado em 09/05/2006 Portal Afro.com. http://www..br/revistadecinema/edicao31/ estética/index. Guel Arraes.com.htm consultado em 16/06/2006. http://pt. Markteam.br/conteudo/default.wikipedia.org/wiki/Abolicionismo_no_Brasil .aspx?codigo=412 consultado em 03/04/2006. Histórianet. 1 DVD (85 min.br .br . 35mm.historianet. http://www.consulta em 01/06/2006.br/Materias/Noticias/noticia_24153. http://ofuxico.com. Direção: Jorge Furtado.com. Roteiro: Jorge Furtado e Guel Arraes.correiodabahia. Wikipédia.portalafro.mnemocine. . DVD: MEU TIO MATOU UM CARA.consultado em 06/04/2006. Nora Goulard e Luciana Tomasi.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete= 3641 – consultado em 23/05/2006. http://www2.htm – consultado em 09/06/2006.com.consultado em 10/06/2006.). Itaú Cultural. Brasil: Natasha Filmes e Casa de Cinema de Porto Alegre.acontecendoaqui. Mnemocine (Memória e Imagem).org.uol.shtml – consultado em 02/06/2006.

1 DVD (124 min. Roteiro: Jorge Furtado. Produção: Nora Goulard e Luciana Tomasi. 2002.. Direção: Jorge Furtado.67 O HOMEM QUE COPIAVA. Brasil: Casa de Cinema de Porto Alegre. 35mm. . color.).

68 ANEXOS .

Foto 2 – Tipos de escravos. Anexada ao processo de anulação de casamento do Sr. sem data. .69 Foto 1 – Dona Marcelina. Antônio em 1887. De Carneiro e Gaspar. 1871. De Cristiano Junior.

Foto 4 – Socagem do café. 1862.70 Foto 3 .1867 . De Victor Frond. Da Coleção Francisco Rodrigues.Ama de leite Mônica com Arthur Gomes Leal.

1842.71 Foto 5 – Caça aos piolhos. . De Rugendas. 1862. Figura 1 – Capitão do mato. De Victor Frond.

72 Figura 2 – Aplicação do castigo do açoite. . De Debret. 1834.

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