Por um pensamento ambiental histórico: O caso do Brasil

Duarte, Regina Horta.
Luso-Brazilian Review, Volume 41, Number 2, 2004, pp. 144-161 (Article)

Published by University of Wisconsin Press DOI: 10.1353/lbr.2005.0005

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para o presente. como uma prática. sendo a história uma operação que articula um lugar social. político e cultural. o historiador contemporâneo certamente sabe da impossibilidade de interpretações ou análises que suprimam a particularidade do lugar de onde ele fala e do domínio no qual realiza sua investigação. O projeto de elucidação das formas passadas de existência de outras sociedades adquire pleno sentido como parte do projeto de elucidação de nossa própria existência. Como afirma Michel de Certeau . que pudesse compreender e explicar exaustivamente as sociedades passadas. uma disciplina do conhecimento e a construção de um texto.Por um pensamento ambiental histórico: O caso do Brasil Regina Horta Duarte Through analysis of some environmental historical studies and their methodologies. cujo objetivo é compreender e transformar. Determinism is the first epistemological process discussed. e “toda pesquisa historiográfica se articula a um lugar de produção sócio-econômico. assim. this article discusses how this literature can incorporate three important epistemological issues of historical knowledge. A história é. esvai-se qualquer presunção de uma história total. © 2005 by the Board of Regents of the University of Wisconsin System . parte da realidade da qual ela trata. The third crucial point involves a discussion of some relevant historical ontological premises. numa interpretação do passado mesclada à consideração de “um porvir que deve ser feito por nós. Fortalece-se o pressuposto de que a história é sempre uma história para nós. portanto. followed by the traditional tendency of searching for historical origins.”2 A 144 Luso-Brazilian Review 41:2 ISSN 0024-7413. o debruçar-se sobre o estudo das sociedades do passado.”1 Nessa perspectiva em que o conhecimento histórico se assume como uma operação. inseparável do nosso fazer atual. o gesto do historiador liga suas idéias aos lugares sociais de onde fala.

Caminhos e Fronteiras (1957) e Visões do Paraíso (1959) de Sérgio Buarque de Holanda e Formação do Brasil contemporâneo (1942).Duarte 145 Nesse sentido. principalmente. pela violência e cerceamento dos direitos políticos. a cultura e a natureza. rejeitou as propostas de conservação em Estocolmo. Esses foram anos duros na história da nossa sociedade. os movimentos ambientalistas já assumiam uma organização sistemática. em consonância com representantes de outros países pobres. diante da ausência de democracia no Brasil. Relacionaram fortemente a sociedade. a questão ecológica aparecia nos meios intelectuais e acadêmicos como um tema de exclusivo interesse do chamado Primeiro Mundo. ao analfabetismo. pela censura. de Caio Prado Júnior.”4 Na mesma época. por sua vez. como Indira Gandhi que apontou a pobreza como “a pior poluição. leis e costumes dos homens. O governo militar brasileiro. como pela sofisticação teórico-metodológica. nas décadas de 60 e 70. pensando como as relações dos homens com a natureza são indissociáveis das relações que os homens mantém entre si. ao desemprego. a relação com a natureza foi muitas vezes considerada como uma temática secundária frente à miséria.3 A sensibilidade ambiental presente nas obras desses importantes autores foi obscurecida pela emergência de outros debates nos meios intelectuais brasileiros. Nessa situação limite. valores. incluindo formação de partidos verdes e a ação de entidades não-governamentais. à falta de moradia e. Apesar da emergência dos movimentos ecológicos internacionais. Refletiram sobre como o diálogo com a natureza se amalgamou às percepções. como se esses problemas só fizessem parte de um patamar superior de preocupações. . Tais obras precisam ser valorizadas na construção de uma nova historiografia ambiental brasileira pela grande contribuição que representam. Esses importantes historiadores brasileiros incorporaram a consideração das variáveis ambientais como parte das condições sociais. 1972. em países da Europa e nos Estados Unidos. acredito que a compreensão do interesse crescente dos historiadores brasileiros pelos temas ambientais e do surgimento de uma tendência de pesquisa direcionada pela busca de uma inserção na chamada história ambiental deve ser guiada pelo exame do lugar social em que essas pesquisas começam a ser realizadas. de Capistrano de Abreu. Monções (1946). marcados pela ditadura militar. Construíram análises históricas baseadas no estudo das práticas materiais da sociedade brasileira. tanto pela impressionante pesquisa documental. A historiografia brasileira conta com uma fértil tradição de análise histórica em que as relações entre a sociedade e natureza encontram-se privilegiadas. exemplificada por trabalhos magistrais como Capítulos de História Colonial (1907).

A difusão de propostas de ecodesenvolvimento. das mulheres. no México. Ativistas indianos e latino americanos acrescentaram o questionamento do autoritarismo. trabalhos escritos em tom de denúncia realizaram narrativas de pilhagem. África e Ásia. da constituição de movimentos sociais ecológicos e também. tantas vezes presente nas políticas ambientais impostas por organismos internacionais e pelos governos. conceito proposto por Ignacy Sachs.146 Luso-Brazilian Review 41:2 como o WWF (1961) e o Greenpeace (1971). além das propostas pacifistas e anti-nucleares enfatizadas pelos movimentos ambientalistas europeus ou da ênfase na preservação e contestação do antropocentrismo tão presentes nos EUA e na Austrália. livre da preocupação com necessidades mais urgentes.”7 Também a sociedade brasileira viveu uma intensa movimentação social entre fins dos anos 1970 e início dos 80. contrariam essa hipótese ao delinear um verdadeiro “ambientalismo dos pobres.6 O ambientalismo nesses países trouxe a emergência de outros debates. movimento contra florestas comerciais em Chipko. Brasil e Venezuela (primeiro país do continente a instituir um ministério de ambiente.5 A ascensão das ONGs também se apresentou como um elemento impulsionador das questões ambientais.” combativo e afinado às condições de vida e trabalho de suas populações. sem necessariamente lançar mão de linguagens ambientalistas: lutas de populações de vilarejos do Peru contra a poluição das águas ou do ar por grandes companhias. devido à ascensão internacional das exigências ambientais. Nas academias. recusa de comunidades da ilha de Chiloé contra a empresa florestal Golden Spring. cuja riqueza garantiria uma situação pós-materialista. campanha contra as represas de Narmada. last but not least. denunciando um verdadeiro “imperialismo verde” e propugnando a necessidade de uma etnoconservação oposta ao “mito de uma natureza intocada. instituições financeiras internacionais credoras de países pobres. dos seringueiros da Amazônia e da liderança de Chico Mendes. por onde riquezas se esvaíam pelas “veias abertas da América Latina. .” Curiosamente. engrossadas por militantes de esquerda e pelo trabalho pastoral. da luta das mulheres nordestinas em defesa das plantações do babaçu. no início dos anos 70. com a ascensão de lutas dos operários. Muitos interpretaram esse pioneirismo como decorrência do refinamento dessas sociedades. ou seja. como o BID e o Banco Mundial passaram a condicionar seu apoio ao respeito a cláusulas de conservação. da defesa dos direitos indígenas. alcançando países como Colômbia. ocorreu através da criação do Centro de Ecodesarrollo. em 1978). do delineamento de novas percepções culturais e diferentes atitudes e interação com o meio ambiente. e tantos outros. oposição contra a Shell na Nigéria. protestos de populações indígenas da periferia de Quito contra o despejo do lixo. dos negros. Movimentos ocorridos em países da América Latina.

inaugurando uma nova e ousada perspectiva de luta ecológica no Brasil.9 Se a ascensão dos movimentos sociais ecológicos mostra-se essencial para a compreensão da sociedade brasileira nas últimas décadas. processo em que os movimentos sociais ambientalistas são uma das expressões de novas sensibilidades ou de novas “racionalidades ecológicas. Nesse entrecruzamento de práticas sociais renovadas. mas certamente também como uma referência no cenário internacional. rompendo assim com uma longa tradição de atribuição da defesa do meio ambiente à ação exclusiva do Estado. a organização da Rio-92 e do Fórum Social Mundial.”10 A historiografia brasileira dedicada às análises das interações entre as sociedades e a natureza ao longo do tempo pode ser então pensada como uma das inúmeras práticas constituintes de uma nova postura cultural desta sociedade em relação ao seu meio ambiente.Duarte 147 Em 1986. Certamente tal postura se faz também em diálogo com os acontecimentos internacionais. elaborada por parlamentares democraticamente eleitos. A Constituição de 1988. trouxeram ainda grande ressonância do debate ambiental internacional no seio da sociedade brasileira. cultural e histórica de novas percepções sobre a natureza e novas formas de interagir com ela. Há que se considerar ainda a escolha.8 Nesse cenário de mudanças. dedica um capítulo inteiro às questões ambientais. pela ascensão de movimentos ambientalistas e pelo surgimento de uma historiografia norte-americana e européia dedicada aos temas ambientais. pelo questionamento do desenvolvimentismo. mesmo que uma boa parte das obras em que o tema é tratado não se apresente como uma história ambiental. enfatizando a necessidade de se falar de um “inteiro ambiente. reunidos no Partido Verde. os membros do Partido dos Trabalhadores propunham um sentido político para as lutas ambientais. ao instituir mecanismos de controle diretamente relacionados à atuação da sociedade.” o Brasil não apenas apresentou-se como ator.11 . pela primeira vez no Brasil. marcados por uma profunda crise global. No processo de constituição de uma verdadeira “Era da Ecologia. pelo presidente Lula. torna-se importante também sublinhar o ambientalismo como algo que ultrapassa a ação dos ecologistas e certamente aponta para a constituição social.” com a inclusão dos aspectos sociais e políticos no debate ecológico. desde janeiro de 2003. os ecologistas se envolveram nas disputas eleitorais. Simultaneamente. por grandes desastres ambientais. de Marina Silva—filha de um seringueiro do Acre e companheira de lutas do líder assassinado Chico Mendes. considerado um dos ícones do ambientalismo mundial—para a pasta do Ministério do Meio Ambiente. realizado anualmente em Porto Alegre desde 2001. a temática ambiental se faz cada vez mais presente na historiografia contemporânea brasileira e certamente se constitui no debate do historiador com seu tempo.

é importante notar que. Muito do que se escreveu sobre o meio ambiente no Brasil reside em preciosas análises de cientistas políticos. à medida que enfrentarem alguns temas epistemológicos decisivos na reflexão da disciplina histórica. Entretanto. de Karen Macknow Lisboa(1997). ou sobre uma extensa tradição crítica luso-brasileira frente aos aspectos predatórios da ocupação do Brasil. Ricardo Arnt.” com textos de Donald Worster. como Milton Santos. o que distingue a história dedicada ao estudo das relações entre o homem e a natureza de todas as outras ciências ambientais.13 Minha hipótese é a de que os historiadores serão capazes de oferecer uma contribuição original aos estudos ambientais.” de José Augusto Pádua (2002). Nesse debate tão amplo e urgente sobre o meio ambiente. Surgem aqui algumas questões a serem analisadas. e a “Varia Historia” da UFMG (2003). como “A Nova Atlântida de Spix e Martius. garantindo que ela se apresente como um campo do conhecimento diferenciado? Em que se funda a especificidade do saber histórico na constituição de uma história ambiental obrigatoriamente interdisciplinar? Como serão enfrentados os perigos de dissolução epistemológica e os riscos de uma história sem identidade?12 Somado a tudo isso. e tantos outros campos do conhecimento. dos saberes da biologia. O determinismo aparece como uma primeira questão epistemológica. como “Floresta da Tijuca. Aziz Ab Saber. José Augusto Drummond e Warren Dean. antropólogos e geógrafos. até porque para que exista diálogo são necessários diferentes interlocutores. desde o século XIX. natureza e civilização na Viagem pelo Brasil (1817 –1820). se a história se faz no diálogo com seu tempo. Recentemente. da ecologia. a revista “Estudos Históricos” lançou o dossiê “História e Natureza. pouquíssimos historiadores brasileiros se dedicaram a esta área.” de Cláudia Heynemann (1995). um caráter muito específico—o de dedicar-se ao estudo do passado—diferenciando-se assim das outras ciências humanas. Foram publicados alguns importantes trabalhos sobre a Mata Atlântica.” de José Drummond (1997). o historiador necessita da geografia. natureza e civilização. Nesse intenso diálogo. apesar da existência de alguns estudos. Antônio Carlos Diegues. seguido da tradicional tendência histórica à busca de . a “Revista de História” da PUC-SP (2002). da geologia. simultaneamente.148 Luso-Brazilian Review 41:2 Em 1991. possui.14 Mas torna-se importante situar o metier do historiador. como apontei acima. “A Ferro e Fogo—a história e a devastação da Mata Atlântica Brasileira. focalizada no estudo “Um sopro de destruição—pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista (1786 –1888). “Devastação e preservação ambiental no Rio de Janeiro. mais duas revistas de história dedicaram dossiês ao tema da natureza. dos estudos climáticos. e outros. sociólogos. Certamente não se deseja afirmar a história como “província” ou “jardim” exclusivo dos historiadores strictu sensu. Outros trabalhos se debruçaram sobre as representações da natureza tropical brasileira criadas nos relatos de viajantes.” de Warren Dean (1996).

nos anos 1930 e 1940. estabelecendo uma matriz interpretativa determinista das relações entre sociedade e natureza no Brasil. no século XVIII. desde o XVII.Duarte 149 origens. o clima. na região sudeste. o ouro. como o pau-brasil. a partir do XIX.15 Essa perspectiva influenciou toda uma geração de intelectuais brasileiros. com pressupostos claramente ancorados em Ratzel. como exemplifica um dos primeiros livros de história ambiental sobre o Brasil. em 1901. a paisagem. uma ordem da exploração de seus recursos naturais. a vegetação e as conseqüências da ação humana sobre o ambiente da caatinga. Após uma segunda seção sobre as raças. ecológicos e étnicos sob a perspectiva da antropogeografia. preparando o advento de subraças e atuando sobre as sociedades constituídas. com complexos desdobramentos em uma concepção orgânica do Estado. História.”16 Delineava-se a construção da natureza como uma realidade primordial e essencial. 1. Estaríamos assim. em novas configurações da mitologia da identidade tropical da Nação. e do café. determinados por uma lógica inexorável de ciclos veiculados à divisão internacional do trabalho. que considerava Euclides da Cunha como um naturalista que via “a Natureza como ela é.” por Euclides da Cunha. O autor argumentava como a variabilidade do meio físico refletia-se na história da região. inglês e norte-americano. natureza e determinismo Um dos grandes marcos da reflexão sobre a natureza no Brasil é a publicação de “Os Sertões. que a ciência mal pode separar. cheia de entrelaços e entrefolhos. explorando fatores ambientais. esse livro privilegiou as relações entre a geografia e a história. no século XVI. seus desafios e seu destino. A primeira parte de “Os Sertões” enfoca a terra. ao mesmo tempo. como que traídos justamente pelas nossas exuberantes riquezas naturais e abundância de terras agriculturáveis. Nossa história ambiental passa a ser uma seqüência de destruições. cenário onde se desenrolou o sonho milenarista e sua repressão pelas tropas do governo republicano. Finalmente. moldando os homens como representantes naturais do meio em que nasceram. Dedicado à análise exaustiva da campanha contra Canudos. com minuciosas análises sobre a geologia. na seqüência dos domínios português. o regime de chuvas.17 Delineou. algo mais verdadeiro sobre o qual a sociedade humana se desenvolveria. segue-se a narração detalhada dos eventos. cidadela construída em pleno sertão por um movimento milenarista. na região nordeste. Outra vertente do pensamento brasileiro subordinou o entendimento da história dos mais variados aspectos da nossa sociedade a ciclos econômicos definidos pela inserção forçada em uma lógica exclusivamente externa e internacional. os pressupostos ontológicos da história apresentam-se como terceiro item a ser debatido. além do esgotamento da terra pelos plantios da cana de açúcar. cuja .

na qual o homem. em que o homem se percebe como um ser naturalmente competitivo. Isso tem sido esclarecido por novas abordagens historiográficas que. mostrando que ele foi praticamente inexistente. possuíam íntimo conhecimento sobre as florestas e suas árvores. para aqueles colonos. escrito pelo norteamericano Warren Dean.18 Não nos espreitaria aí. afasta-se do meio natural. a questão não era a da destruição da floresta. evidenciam como os colonos. a perspectiva do homem unicamente como um elemento destruidor acaba por sintonizar-se à arraigada oposição entre a sociedade e a natureza. nem de refletir sobre as implicações de tal fato. ganância e imprevidência da sociedade brasileira. mas a de sua utilização. Constatando que a extinção das florestas não caminhou passo a passo com a abertura de terras agriculturáveis. O monopólio português teve como conseqüência o fato de que a aniquilação das madeiras de lei se tornou uma escolha mais racional para os colonos . Miller critica ainda a visão de Dean segundo a qual haveria uma absoluta ignorância sobre as variedades de espécimes vegetais e do seu valor: fontes documentais. econômico. o autor lança a indagação sobre o papel dos recursos florestais na acumulação de capital e riqueza dos colonos residentes no Brasil. levando o autor a defender a obrigatoriedade de ensino. com matrizes hobbesianas. Não há sentido. numa perspectiva certamente anacrônica. portanto. tais como relatos de naturalistas e documentos dos séculos XVII e XVIII. usando os seus recursos como uma espécie de armazém. em que a ocupação humana é sempre vista como a causa da destruição e o homem aparece como o único grande erro da natureza?19 Finalmente. sem deixar de considerar a realidade de uma herança de devastação. Construir uma história de mão dupla implica necessariamente na consideração do fato que. belicoso e destrutivo que o contrato social deve conter através de regras estabelecidas?20 Como substituir uma história antropocêntrica por uma história antropofóbica? É improvável que a história da sociedade brasileira seja o mero desenrolar de um processo linear e crescente de destruição. Entretanto. em culpá-los ou mesmo criminalizá-los. não se reforçaria um traço marcante da autoconsciência ocidental moderna. pelos manuais escolares. Shawn Miller busca outro caminho que não o da crônica de destruição. já que comprometida com os termos e valores do ambientalismo moderno.150 Luso-Brazilian Review 41:2 tradução para o português alcançou grande ressonância. “A Ferro e Fogo” narra a história da Mata Atlântica através do desfile cronológico das mazelas. resgatam outras tradições culturais e outros aspectos das condições históricas. muitas vezes filhos de Europeus e povos nativos. para criar a cultura. do verdadeiro holocausto da Mata Atlântica. o pressuposto de incompatibilidade. Em um instigante estudo sobre as atividades madeireiras no Brasil colonial e os efeitos da política monopolista da Coroa Portuguesa. dissimulado.

é uma professora refinada. bastante heterogênea—sobre a natureza do Brasil. já que lhes era vedado qualquer exploração legal das reservas. entre 1786 e 1888. por muitos atores históricos. O autor mostra ainda como inúmeras recomendações. é muito recente em nossa história.22 José Augusto Pádua realizou um importante resgate de uma tradição reflexiva—e certamente. observadores privilegiados das mudanças no solo. Miller abre um novo caminho para as análises sobre a natureza e a sociedade no Brasil. como a experiência.”23 José Luiz de Andrade Franco realizou ainda uma cuidadosa releitura das práticas científicas de biólogos de instituições de pesquisas brasileiras. A condição periférica colonial e pós-colonial do Brasil não impediu ou “atrasou” a emergência de uma nova postura em relação ao meio natural. Conclui. críticos das práticas imprevidentes de muitos de seus contemporâneos. e só o período do pós-guerra. entre . mas antes se mostrou essencial para sua gênese no mundo moderno. em muitos pontos do território da então colônia do Brasil. A comparação da destruição das florestas no Brasil com o ocorrido em outros locais. Através da crítica ao determinismo e ao anacronismo das interpretações obcecadas pela denúncia da destruição. em textos publicados.Duarte 151 do que sua conservação. ressaltando que “a História. contrapõe-se às afirmações de Warren Dean de que os colonos luso-brasileiros teriam demolido a floresta em níveis e dimensões sem paralelos em toda a história. criaram formas de manejo de algumas espécies arbóreas. O autor conclui que o desmatamento em larga escala de algumas áreas da Mata Atlântica. também.”21 O trabalho de Abreu Castro sobre o Brasil Colonial também demonstrou como as atitudes em relação ao meio natural eram heterogêneas. assim como do desaparecimento dos espécimes. médicos. nos rios e no clima. denunciaram os danos causados pelo monopólio das madeiras pela Coroa Portuguesa e propuseram outras práticas onde a destruição inútil das madeiras seria evitada. em fins dos anos 1940. artistas. por naturalistas. representações e ensaios. o autor afasta-se das matrizes explicativas em que a história do Brasil é contada a partir da lógica européia . como no caso de uma extensa área no sul da Bahia. O autor argumenta que o ambientalismo moderno se constituiu na intensidade dos contatos entre a Europa e o mundo tropical. políticos e abolicionistas. datando principalmente da década de 1940. como o preço do atraso. habitantes do mundo tropical. pois alguns portugueses e colonos luso-brasileiros. A visibilidade dos efeitos da devastação aliada aos saberes científicos dos intelectuais formados na Universidade de Coimbra fez desses atores sociais. Nessa perspectiva. como a Nova Inglaterra. como a destruição da natureza foi considerada. traria a vitória completa da idéia de que a destruição da natureza seria o “preço do progresso. mas apenas se mantivermos em mente como o passado é diferente do presente. evidenciando a singularidade da experiência histórica brasileira na constituição de novas sensibilidades. alguns deles anônimos.

a Sociedade dos Amigos da Flora Brasílica. mostrando a multiplicidade de possibilidades em nosso passado.152 Luso-Brazilian Review 41:2 os anos 1920 e 1940. como mostra Willian Cronon. em 1937. Também a idéia da natureza como uma realidade pura. tais análises evidenciam o importante fato de que a história ambiental—renovada pela busca da compreensão de como os humanos foram afetados pelo meio ambiente ao longo do tempo e. porque eterna. é também importante ressaltar que o historiador não pode deformar o passado pela projeção de suas próprias categorias.” Se for certo que a história se faz no diálogo dos homens com seu tempo. dentre outras. a natureza se torna uma autoridade moral. assim como algum espaço junto às instâncias decisórias do governo. a Sociedade dos Amigos de Alberto Torres. eterno. Esse é o caso da idéia da natureza como imperativo moral. . inegociável. 2. aquela que desenrola fios do passado tão somente para tranqüilizar nossas escolhas presentes e dar a elas um verniz de verdade inquestionável. estes cientistas obtiveram alguma penetração na sociedade civil através de ações educativas no Museu Nacional e atividades de várias associações então fundadas. já que trazem à luz muitos acontecimentos e discursos perdidos. é justamente a história o saber que deve conjurar a quimera da origem.” Nesse tipo de lógica. como os humanos afetaram o meio ambiente e os resultados disso—deve ser revigorada pela premissa de que as relações dos homens com a natureza são indissociáveis das relações que os homens mantém entre si ao longo do tempo. essencial. História ambiental e busca de origens Marc Bloch lamentou o esquecimento da sabedoria oriental de um antigo provérbio árabe. a heterogeneidade do que era apresentado como único e. entretanto. como as primeiras leis de proteção ambiental e a realização da Primeira Conferência de Proteção à Natureza. Sua pressão obteve alguns resultados. simultaneamente. justificativa e razão de tudo. uma deidade secular—origem. principalmente. Afinal. Encontraram.24 Essas pesquisas acabam por assumir um importante papel na reflexão sobre a nossa história. Afinando-se ao discurso nacionalista então predominante. segundo o qual “os homens parecem-se mais com o seu tempo que com os seus pais.25 Por outro lado. em que se pressupõe a existência de uma forma natural segundo a qual o mundo é regulado em caráter “inato. A cada momento do passado. completamente autônoma dos contextos históricos e culturais. fortes limites quando da instalação da ditadura do Estado Novo. o futuro apresentava-se indeterminado e era algo a ser construído. onipotente e imutável em qualquer tempo e espaço. permitindo a consideração de afrontamentos entre várias tendências no devir histórico. mostrando sua atuação como grupo relativamente coeso e organizado em torno de ações pela proteção da natureza. como a Sociedade dos Amigos das Árvores.

não podemos nos esquecer que muitas sociedades indígenas construíram relações sociais baseadas em esquemas de reciprocidade com o seu entorno. significando o mundo a seu redor e agindo em sua transformação. surgindo como tentativas embrionárias de implantação de . uma segunda questão epistemológica essencial para a constituição da história ambiental brasileira. portanto. justificando-o ou condenando-o. Ao comparar diversas sociedades. “sem muita reflexão.26 Alguém poderia ainda apontar a existência de um fator biológico transcendente ao tempo histórico no fato de o homem sempre ter modificado a natureza. Na busca de origens da consciência ecológica. paradoxalmente.Duarte 153 implica.” como se sua cultura não representasse o consumo de recursos naturais e provocasse mudanças (esse discurso. ainda que limitadas e mesmo frustradas. acaba por ser a busca de um começo que explica o presente. deparamos com inúmeros exemplos de práticas que resultaram em destruição ou conservação da natureza. ao longo dos quinhentos e poucos anos de nossa história. Nisso os homens não diferem das focas. numa verdadeira naturalização desses povos com sua “absolvição ecológica. ou das árvores. entretanto. tão comum como indesejável entre os que se dedicam à história. não se constitua como a busca da origem das nossas percepções ambientais atuais. Por outro lado. que a natureza é Uma Coisa com Um Nome. ao tentar “defender” os índios. Ao fazer isso. servir como um fio condutor de uma narrativa histórica linear. dos pássaros. de um processo que só o presente tornou visível. nem se erija como base para julgamentos morais—positivos ou negativos— das práticas dos vários atores. Sob esse prisma. construiu-se a imagem das populações indígenas como possuidoras de uma relação originária e idealizada com o meio ambiente. para que. a análise de vertentes críticas na sociedade brasileira se deu pela busca das origens do pensamento ecológico atual e das políticas ambientais contemporâneas.”28 Aqui se delineia. O essencial das sociedades humanas e o que elas compartilham. retirando dela o seu sustento. acaba por negar-lhe a própria condição humana). Esses aspectos não podem. o rol das necessidades biológicas não é partilhado apenas pelas sociedades humanas. sendo o “demônio das origens apenas um avatar daquele outro satânico inimigo da verdadeira história: a mania de julgar. é o fato de se instituírem criando cultura. em relação ao meio natural. na qual a produção envolve a subordinação de tudo ao desígnio humano. mas são comuns a todos os seres vivos. são interpretadas como etapas.27 A obsessão pelas origens. um monólito que pode ser descrito holisticamente da mesma maneira como Deus o é” na cultura ocidental cristã.29 Outras vezes. inventando inúmeras outras. absolutamente diversas da lógica capitalista. Entretanto. os homens extrapolam suas necessidades biológicas. constituindo-se em um diálogo com nossa contemporaneidade. diferenciando-se dos outros seres vivos.

sendo tudo uma interpretação.30 Abandonar o mito da busca das origens é instaurar a possibilidade de que o saber historiográfico sirva ao nosso diálogo com o passado e à possibilidade da transformação do nosso presente. principalmente. Poderia se concluir ainda que. como alerta Cronon. modificando-o. objeto fixo e imutável. Apresentar a idéia de natureza como um conceito historicamente construído não implica em concluir que a natureza seja apenas uma idéia. as florestas. mas sim de pensar nas relações humanas em que se constituem formas de pensar e agir sobre o mundo natural. entidade de sentido transhistórico.” constitui-se como um saber sobre a duração e. a fauna.31 A história ambiental tem discutido amplamente a necessidade do abandono do dualismo entre a sociedade e a natureza.33 A consideração da natureza como uma idéia humana não deve implicar. buscando uma nova compreensão de uma relação entendida para além de uma mera influência do meio sobre os homens ou vice-versa.32 Para o historiador. Como exemplo. Natureza e devir Chegamos assim ao terceiro ponto e último ponto desse debate.154 Luso-Brazilian Review 41:2 uma política ambiental adequada. Desejava-se simplesmente reservar os benefícios do comércio da madeira à Coroa Portuguesa e seus concessionários. qualquer visão seria tão válida ou aceitável como qualquer outra. Não se trata de substituir uma perspectiva objetivista por outra subjetivista. O conhecimento histórico evidencia a importância de uma reflexão ontológica que oriente o estudo do passado. cada uma delas se apresentando como universal e mais verdadeira. as doenças que as atingiram. Entretanto. Se considerarmos a sociedade e a natureza em seu devir histórico. podemos citar a recorrente atribuição de um sentido preservacionista às leis portuguesas de 1605 e 1797 de controle da exploração do pau-brasil. em um relativismo segundo o qual o mundo não humano seria irreal ou mero reflexo de nossa imaginação. . a proximidade dos rios ou a escassez da água. estável e estabelecido. Não existe a natureza. Mas também interessa como as sociedades deram respostas diferentes às condições do meio natural e como dele se apropriaram. percebemos que as significações e os simbolismos construídos acerca da natureza são tão dinâmicos e mutáveis como as identidades que as sociedades constroem para si. mas é também um “terreno de debate” (contested terrain) no qual se enfrentam concepções diversas. Definido como “ciência dos homens no tempo.34 . 3. a forma como representaram a paisagem. A natureza é uma realidade inegável. importa o que as diferentes sociedades instituíram e significaram como sendo a natureza. as catástrofes naturais. nosso espaço e nossa cultura. Tais práticas pertencem ao nosso tempo. as restrições não possuíam o sentido de uma regulamentação ambiental. sobre a constante mudança.

35 Ao estudar as investigações sobre a natureza no Brasil colonial do século XVIII. como no caso do estudo de Heynemann sobre a Floresta da Tijuca. viajantes e cientistas. Tornamo-nos. Se. publicada em 1959. com a emergência de uma outra natureza. utilitários e urbanizados. Utilizando a fotografia como documento da transformação das paisagens. preservação e extinção assumem sentidos diferentes nos discursos ecológicos do século XX. no Brasil. em tempos e lugares variados. a operação historiográfica viabiliza. Sua indagação dirige-se ao estudo da maneira como visões específicas do que é a natureza constituíram-se como práticas históricas diferentes. capazes de entrever novas formas dos homens se . Termos como conservação. Obras recentes também trazem análises agudas sobre essa historicidade. Pedro II. a história da América hispânica e luso-brasileira. Este “mundo singularmente aquático. onde a exuberância da paisagem atraiu pelas riquezas e pelo desafio que representou. geografia mutável e território evanescente ganhou significados diversos ao longo do tempo.37 Em estudo dedicado ao Pantanal. transformálas. é um exemplo pioneiro dessa problemática. Costa apresenta a invenção histórica daquela região.” de paisagens alagadas.36 Arruda analisou a constituição simbólica dos espaços geográficos de fronteira. por um lado. nos esforços de ereção de um conhecimento silvícola. assim. Se a história traz o encontro com os outros possíveis do homem. em compensação. sucessivamente. principalmente. repensá-las. exemplificando um processo de reificação da natureza.Duarte 155 A clássica obra de Sérgio Buarque de Holanda. em representações que privilegiavam aspectos plásticos.38 Enfim. não podemos compreender o outrora e o alhures da humanidade a não ser em função de nossas próprias categorias. retornar tais categorias. As propostas de racionalização da exploração que se seguiram à ameaça de escassez dos recursos naturais distanciavam-se das percepções contemporâneas. nos séculos XVI e XVII. plantada no Rio de Janeiro entre 1861 e 1874 por ordens de D. no qual o conceito de ecossistema delimitou novos campos de investigação e novas concepções de mundo. Prestes demonstrou como a percepção dos naturalistas luso-brasileiros formados na Universidade de Coimbra possuía um caráter utilitário. ao discutir os simbolismos que constituíram uma natureza edênica no Brasil colonial. compreendê-las e. jesuítas. Visão do Paraíso. mistério e riquezas escondidas. traz também o conhecimento das outras maneiras de significar a natureza. integrando. mundo em que realidade e fantasia se mesclaram na narrativa de aventureiros. representada ora como um paraíso repleto de belezas. expresso na idéia de sua utilidade. esse autor buscou demonstrar a existência de uma inflexão na concepção de natureza no Brasil em fins do século XIX. a pergunta a ser realizada pelo historiador pauta-se pelo desejo de compreender o que se constituiu como natureza para os homens de diferentes sociedades. mas também na inscrição da floresta e suas paisagens em uma história nacional. ora como lugar inóspito e mortal.

Além destas ameaças à continuidade biológica da espécie humana. comerciantes.40 É certamente um erro considerar a biodiversidade separadamente da sócio-diversidade que a povoa. que se esvaem no desperdício de um consumo frenético. possui uma incrível. de ingenuamente defender uma “preservação de tradições. missionários. certamente.” ou seja. constituída pela diversidade de populações e. mas também pelas práticas de inúmeros atores sociais que percorrem seus territórios e neles constroem suas vidas (índios. turistas. migrantes e imigrantes. uma floresta tal como ela não existe. em um mundo moderno que se erige sobre o sofrimento de milhões de pessoas. desde que elas estivessem dispostas a pagar “o preço do progresso. como alerta Escobar.”39 Inúmeros pesadelos rondam nossa sociedade contemporânea: o acirramento do efeito estufa. já que “toda elucidação que empreendemos é finalmente interessada. savanas e cidades). militares. mas para fazer ser o que não é. quando o modelo desenvolvimentista passou a sistematizar um padrão a ser alcançado pelos países “subdesenvolvidos”—implicaria no gradual e inexorável desaparecimento da diversidade das culturas humanas. a transformação da Amazônia em um deserto. a utilização de armas químicas. A história das últimas décadas traz a história do domínio dessa representação. a possibilidade de uma total homogeneização das sociedades em um mundo neoliberal e globalizado. mas também da continuidade do empobrecimento e da exploração.” reestruturando-se completamente em busca de prosperidade material e progresso econômico. porque não existimos para dizer o que é. a escassez da água e de outros inúmeros recursos naturais. assim como toda a América Latina. ambientalistas . há uma outra não menos terrível. pescadores. rios e animais selvagens. não apenas por outras paisagens (pântanos. Em sua emergência. é para nós em sentido efetivo. Mas não menos impressionante é a sua multiplicidade cultural. mas também outras maneiras de significar o meio natural. na verdade.41 O Brasil. O caso da Amazônia é um bom exemplo: sempre mostrada em imagens fabulosas de árvores. a saber. deslumbrante biodiversidade. constitui-se. a supressão de culturas locais e a destruição da natureza. Claro que não se trata. Paralela à variedade de espécies. seringueiros. mineiros. pela multiplicidade de formas de relação com a natureza ao longo de sua história.156 Luso-Brazilian Review 41:2 inter-relacionarem. há uma variedade da experiência humana: reconhecer isso implica em uma postura diferenciada. as conseqüências ainda imprevisíveis da produção e do consumo de alimentos geneticamente modificados. o discurso desenvolvimentista apresentou-se como um sonho de um futuro promissor para as nações pobres. mestiços. que ultrapasse a visão da preservação de uma floresta imaginariamente “intacta. descendentes de escravos.” A lógica histórica nos ensina a inadequação . cientistas e tantos outros). Tal tendência—certamente já delineada desde fins dos anos 1940.

A conquista do oeste. Meio ambiente. 24. 196 –197. pp. Notas A autora agradece ao CNPq e à Fapemig. apresentando-se como um metier que possui indagações e métodos específicos. 1989. vol. 215 –231. Regina Horta Duarte. Rio de Janeiro: Forense Universitária. ver: Ricardo Benzaquém Araújo. 4. 2003. 1. 1994.3. In. Petrópolis: Vozes. 2000. São Paulo: Cortez. In.” Iberoamericana – América Latina España Portugal . Azib Nacib Ab’Saber. A instituição imaginária da sociedade. tais como a crítica ao determinismo. ao reinventar a sociedade. Cornelius Castoriadis. Belo Horizonte: Editora UFMG.Maria Àngela D’Incao. 1997. A Escrita da História. História e Ideal. Rio de Janeiro: Editora 34.Duarte 157 das análises que atribuíram um caráter estático a certas sociedades e o perigo da idealização do passado. 1982. José Augusto Pádua. Justiça ambiental (local e global). O estudo das sociedades humanas ao longo do tempo pode contribuir para um pensamento ambiental no qual o homem não seja compreendido como um elemento externo à natureza ou por ela determinado. Antes. Rio de Janeiro: Paz e Terra. mas como aquele que continuamente. 5. O nascimento da política verde no Brasil: . n. desenvolvimento sustentável e políticas públicas. 1999. 23 –36. valores diversos e outras formas de instituição social que ultrapassem a mera busca de bens e serviços. 65 –66. Renovando o pensamento geográfico. In. importa alertar para como esse pluralismo cultural e suas lutas podem carregar alternativas de ser e fazer. 65 –102.2.Maria Àngela D’Incao. p. diferenciando-se dos outros campos do saber voltados para a mesma questão. Guerra e Paz – Casa Grande e Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30.Clóvis Cavalcanti (org). Joan Martinez-Alier. reinventa a natureza. Sobre esses autores e a análise da história e natureza. Milton Santos. Berlin. Campinas: Textos Nepam (Série Divulgação Acadêmica). p. o abandono da busca de origens e a percepção da constituição histórica e social da natureza pelo homem. 1992.42 Há uma série de aspectos da reflexão ambiental para a qual o conhecimento histórico traz perspectivas e possibilidades analíticas muito especiais. Michel de Certeau. “Nature and Historiography in Brazil (1937 –1942). Ambiente e Sociedade – possibilidades e perspectivas de pesquisas. 2. Robert Wegner. Andréa Zhouri. 3. 1982. História e Ideal São Paulo: Brasiliense. José Carlos Barbiere.10. n. A maturação do verde na construção do inteiro ambiente. Desenvolvimento e meio ambiente: as estratégias de mudanças da Agenda 21. a fronteira na obra de Sérgio Buarque de Holanda. Tempos e espaços na mira de um historiador.

novos rumos para a conservação da natureza. octubre 2002.158 Luso-Brazilian Review 41:2 fatores exógenos e endógenos. O termo “era da ecologia” é de Donald Worster. ver Donald Worster. 2000. Sobre a necessidade de descentrar o ambientalismo dos movimentos sociais.Hector R. 198 –215. o Rio de Janeiro abrigou três conferências simultâneas: a UNCED. 161–180. Coimbra: Centro de Estudos de Historia do Atlântico. ver o editorial Histoire et sciences sociales. . Ilse Sherer-Warren. 2001. 6. O mito moderno da natureza intocada. 26. ONGs na América latina: trajetória e perfil. . mars/avril 1988. Ambiente e Sociedade. . ver Manuel Gonzáles de Molina.Antônio Carlos Diegues (org). A morte social . 8. José Drummond. São Paulo: Hucitec. 1998. Em julho de 1992. São Paulo: Perseu Abramo. Sobre esses dilemas da historiografia contemporânea. 127 –149. Porto Alegre: Pallotti/ APED. 39. Invitación a la historia ambiental. Enrique Leff. o Fórum global e a reunião do Business Council for Sustainable Development. La crisis de la modernidad historiográfica y el surgimiento de la historia ecológica In. Um artifício orgânico. Sobre as repercussões dos eventos na sociedade brasileira. transição na Amazônia e ambientalismo. Antônio Carlos Diégues. V. Sobre o surgimento da História ambiental e sua relação com a crise contemporânea e com a ascensão dos movimentos ambientalistas. Etnoconservação. La crisis de la modernidad historiografica y el surgimiento de la historia ecológica. 10. comentários de um cientista ambiental simpático ao conservacionismo. 2. 2001. Rio de Janeiro: Vozes. Florianópolis: Cortez. 2003. 135 –142. Rio de Janeiro: Rocco. 1998. desafios para as Ciências Sociais. Ramachandra Guha. Manuel González de Molina. Estudos Históricos. 1998. 2000. In. Território e sociedade. 7 –21. 3. Rio de Janeiro. Leis. Varia Historia. Antônio Carlos Diegues. p. ver: Eduardo Viola e Héctor Leis.Historia e meio ambiente. ed. Stefania Gallini. janeiro 2002. Ignacy Sachs y el ecodesarrollo. 134 –160. Mauro Leonel. Um tournant critique? Annales ESC. 81–100. 11.Meio ambiente. archivística y estudios sociales. São Paulo: Cortez. 13. Ecologia e política mundial. Ambientalismo e antropologia: descentrando a categoria de movimentos sociais. 1998. Milton Santos. Azib Nacib Ab’Saber. dez. 161. São Paulo: Hucitec/Nupaub. 1991. Historia ambiental (feita) na América Latina. 2. desenvolvimento e cidadania: desafios para as ciências sociais. Guillermo Castro Herrera. In. II (3/4). Ricardo Arnt & Stephan Schwartzman. Cuadernos Digitales: publicación electrónica en historia. 8. o impacto da invasão européia. 10–29. O ambientalismo multissetorial no Brasil para além da Rio-92: o desafio de uma estratégia globalista viável. 1996. Teoria e Sociedade. Para fazer história ambiental. A legislação ambiental brasileira de 1934 –1988. 165 –172. In. 135 –161. ed. ver Andréa Zhouri. 12. Panamá: Imprenta Universitária. 1992. São Paulo: Hucitec. 291–293.Meio Ambiente. 1991. 1999. 2001. ed. 33 –45.6(18).Desenvolvimento e meio ambiente no Brasil. O biólogo autoritário e a arrogância do anti-humanismo. ver: José Augusto Pádua. 2. Sobre a expressão internacional da ecologia. são Paulo: Ateliê Editorial. 17 –51. 4(8). Transformaciones de la tierra. O nascimento da política verde no Brasil. O mito moderno da natureza intocada. Os domínios da natureza no Brasil. 7. desenvolvimento e cidadania. Sobre a racionalidade ecológica no sentido amplo de como cada sociedade humana constrói diferentes modelos produtivos e idéias de natureza. In. In. 9.

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