INTRODUÇÃO Qual será o sabor da crônica?

Esse gênero literário muitas vezes pouco divulgado possui um sabor peculiar, que você poderá apreciar nesse site da TV Cultura. A idéia de produzir um site que tivesse a crônica como tema central surgiu a partir do programa "Sabor da crônica", da Rádio Cultura FM. Nele, o jornalista Rodolfo Konder lê crônicas de sua autoria, levando o ouvinte a refletir sobre acontecimentos passados e presentes. Agora, através do site "Sabor da crônica", você poderá degustar antigas e novas tendências, conhecendo a origem e evolução da crônica, lendo textos de escritores consagrados e até fazendo sua própria crônica! A mesa está posta. Escolha seu prato preferido e bom apetite!

A palavra crônica deriva do Latimchronica, que significava, no início da era cristã, o relato de acontecimentos em ordem cronológica (a narração de histórias segundo a o rdem em que se sucedem no tempo). Era, portanto, um breve registro de eventos. No século XIX, com o desenvolvimento da imprensa, a crônica passou a fazer parte dos jornais. Ela apareceu pela primeira vez em 1799, no Journal de Débats, publicado em Paris. Esses textos comentavam, de forma crítica, acontecimentos que haviam ocorrido durante a semana. Tinham, portanto, um sentido histórico e serviam, assim como outros textos do jornal, para informar o leitor. Nesse período as crônicas eram publicados no rodapé dos jornais, os "folhetins". Essa prática foi trazida para o Brasil na segunda metade do século XIX e era muito parecida com os textos publicados nos jornais franceses. Alencar foi um dos escritores brasileiros a produzir esse tipo de texto nesse período . Com o passar do tempo, a crônica brasileira foi, gradualmente, distanciando -se daquela crônica com sentido documentário originada na França. Ela passou a ter um caráter mais literário, fazendo uso de linguagem mais leve e envolvendo poesia, lirismo e fantasia. Diversos escritores brasileiros de renome escreveram crônicas: Machado de Assis, João do Rio, Rubem Braga, Rachel de Queiroz, Fernando Sabino, Carlos D rummond de Andrade, Henrique Pongetti, Paulo Mendes Campos, Alcântara Machado, etc. Ainda hoje há diversos escritores que desenvolvem esse gênero, publicando textos em jornais, revistas e sites

A crônica é, primordialmente, um texto escrito para ser publicado no jornal. Este, como se sabe, é um veículo de informação diário e, portanto, veicula textos efêmeros. Um texto publicado no jornal de ontem dificilmente receberá atenção por parte dos leitores hoje.

Geralmente. bomba em cima de bomba com . na maioria dos casos. mas cru e vivo. que constituem a base da crônica. expondo a sua forma pessoal de compreender os acontecimentos que o cercam. Ao desenvolver seu estilo e ao selecionar as palavras que utiliza em seu texto. as crônicas apresentam linguagem simples. Logicamente. Com base nela.. fantasia e criticismo. o próprio escritor está "dialogando" com o leitor. na verdade. espontânea. há elementos que distinguem um texto do outro. Mas. Até aí tudo bem. Paulo. Crônica publicada no jornal Folha de S. Esta semana foi interessante aqui. você verá algumas dicas para escrever sua própria crônica. cruzado ou cruz-credo. o cronista está transmitindo ao leitor a sua visão de mundo. Após cercar -se desses acontecimentos diários. o camarão deu um salto de samurai de volta para o prato. e o cronista pode ser considerado o poeta dos acontecimentos do dia -a-dia. ou seja.. Ele está. aqui vai uma atividade que pode ajudá-lo a observar melhor esse gênero literário. O fato de ser publicada no jornal já lhe determina vida curta. E assim progredia a visita ao Japão. incluindo em seu texto elementos como ficção. o conforto de botar alguns iens no banco e saber que ainda estará lá quando for verificar o extrato. Isso contribui também para que o leitor se identifique com o cronista. em 28 de julho de 1991. já tinha comido peixe cru em restaurante japonês. disse que os japoneses não sabem viver. Entretanto. o cronista dá-lhes um toque próprio. ganhar dinheiro verdadeiro é uma razão. que acaba se tornando o porta-voz daquele que lê Adiante.O mesmo tende a acontecer com a crônica. Paulo no dia 23 de julho de 1991. O pessoalzinho daqui ficou uma vara. elementos que o texto essencialmente informativo não contém. que mais parecem umas formigas. Mas fico pensando se o desespero é parte vital da decisão e se os nossos nisseis sabem no que estão se metendo. situada entre a linguagem oral e a literária. Em vez de trocarem o seu esforço por uma moeda-piada do tipo cruzeiro. pois à crônica de hoje seguem-se muitas outras nas próximas edições. Passados alguns dias. Descer no aeroporto de Narita leva à reflexão sobre o que incentiva milhares de nisseis a abandonarem o Brasil à procura de uma oportunidade no Japão. A primeira-ministra da França. O danado estava vivo! Posso parecer um pouco caipira. é um texto curto e narrado em primeira pessoa. Há semelhanças entre a crônica e o texto exclusivamente informativo. caso você ainda não esteja muito confiante. Isso faz com que a crônica apresente uma visão totalmente pessoal de um determinado assunto: a visão do cronista. o cronista se alimenta dos acontecimentos diários. É de puxar os olhos E o camarão se mexeu. Ricardo Semler escreveu a crônica abaixo. Com base nisso. Edith "menina-veneno" Cresson. Assim como o repórter. "Escândalos derrubam financista japonês" Essa manchete foi publicada no jornal Folha de S. A crônica. nunca! Foi só pegar no bicho com os tais pauzinhos e vuupt. pode-se dizer que a crônica situa-se entre o Jornalismo e a Literatura.

Aí. 1992.. Atividades com base na crônica Com base na crônica e na manchete do jornal acima. a maior corretora de bolsa de valores do mundo. Rumar para o Japão à procura do pote de ouro do fim do arco -íris é uma ingenuidade. a Itoman vê os seus executivos saírem algemados por envolvimento em . mas só deixa japoneses legítimos assumirem qualquer cargo de importância nas empresas. É a meca da inovação. O Japão é moderno. E. foi a vez da Nomura. São Paulo. a exemplo de um comercial muito popular por aqui com o nosso "acerera A -i-roton"! Aos nisseis que pensam em vir para cá.. que andou desviando dinheiro e dando propina para políticos. É líder em tecnologia em diversas áreas. Ricardo Semler. Texto extraído do livro Embrulhando o Peixe . 3) Em que parte do texto Semler menciona o acontecimento que dá origem à sua crônica? No início? Ao longo do texto? 4) Como Semler encerra sua crônica? Há alguma ligação entre a frase que encerra e a que inicia a crônica? 5) O escritor estabeleceu alguma relação entre o Brasil e o fato ocorrido no Japão? 6) Qual o "recado" central que Semler quer dar com esse texto? Existe. mas é uma das nações mais protecionistas e paternais do globo. Editora Best Seller. p. E foram três casos totalmente independentes um do outro. para finalizar a novela da semana. que se acabe comendo cru. como no caso do meu camarão rebelde. 2) Será que você tem a mesma opinião sobre esse assunto? Faça uma lista com as suas idéias.. É bom colocar tudo no prato para evitar.desvio de fundos e propinas para políticos. mas os seus ídolos de comerciais não têm nem mesmo os olhos puxados. Começou com o Marubeni. Tem ares de liberdade de mercado. 58 . . Nivelar as expectativas com os pés no chão fará com que nossos imigrantes voltem algum dia ao Brasil para ajudar a desatolar o nosso país com o que vivenciaram fora. mas é também o país que mais copiou produtos na história industrial.. mas as suas tradições milenares desafiam qualquer análise ou compreensão superficial.59. cabe a mesma reflexão que vale para Nova Jersey ou Lisboa. na crônica. Todas as nações têm muito a ensinar. Fã do capitalismo livre. é mestre inigualável de intervenção estatal e poupança forçada. alguma frase que sintetize essa idéia? Muito bem! Você pode fazer exercícios como esse usando crônicas recentes. que são publicadas em jornais e revistas.casos magistrais de corrupção nos mais altos níveis (ao leitor distraído reafirmo que estou em Tóquio e não em Brasília). 2ª ed. acusado de desvios de propinas para políticos. mas também muito a aprender.Crônicas de um Empresário do Sanatório Brasil .pasmem! . tente realizar as atividades a seguir: 1) Quais são as idéias defendidas por Semler ao longo do texto? Tente fazer uma lista com essas idéias. É nação orgulhosa de sua raça.

horror. Escolha algum acontecimento atual que lhe chame a atenção. 3. Com o tempo. as pessoas estão dizendo que. felicidade. em 1959.. Tão interessante quanto isso é você mesmo tentar encontrar a sua forma de ver e questionar o mundo ao seu redor. Ficou bastante conhecido graças ao seu livro Virando a própria mesa." "Esse fato está relacionado com a minha realidade. É importante que o tema escolhido desperte o seu interesse." "A solução para isso. é muito importante que o seu ponto de vista. Muito bem. 2. você estará exercitado sua redação ao tentar construir textos claros e." "Se eu estivesse nessa situação... Agora que você já selecionou um acontecimento interessante. você conhece a visão de mundo daquela pessoa que escreveu o texto. cause em você alguma sensação interessante: entusiasmo. Foi eleito o empresário do ano em 1990 e em 1992.. Agora é a sua vez! Ao ler crônicas. passou a escrever crônicas para o jornal Folha de S. Além de observar mais atentamente as pessoas e situações que fazem parte do seu dia-a-dia. indignação... Seu ponto de partida pode ser o próprio fato... Tudo pode ser assunto para uma crônica. pois.. tente formular algumas opiniões sobre esse fato. conversar com as pessoas. Você pode procurá-lo em meios como jornais. Esse é um dos elementos que caracterizam a crônica: uma visão pessoal de um evento.. abrir a janela. Como? Escrevendo sua própria crônica. a primeira idéia que me vem à mente. Mais tarde. Outra boa forma de encontrar um tema é andar." "Na minha opinião esse fato é. Agora que você já formou opiniões sobre o acontecimento escolhido. Frases como as que seguem abaixo podem ser um bom começo para você fazer a sua lista: "Quando penso nesse fato. no qual relata suas experiências ao propor uma gestão democrática em sua empresa. sem que seja necessário seguir etapas definidas.. Paulo. Você pode fazer uma lista com essas idéias antes de começar a crônica propriamente dita." Como você deve ter notado.Ricardo Semler O empresário Ricardo Frank Semler nasceu em São Paulo. mas esse também pode ser mencionado ao longo do texto. criativos. entrar em contato com a infinidade de coisas que acontecem ao seu redor.. é hora de escrever sua crônica.. Etapas para escrever sua crônica: 1. ao mesmo tempo. As etapas abaixo podem servir como um guia caso você esteja começando a se aventurar pelo mundo da crônica. desânimo." "Sobre esse fato.. Isso pode ajudá-lo a escrever uma crônica com maior facilidade. como ocorre na crônica exemplificativa de Ricardo Semler. revistas e noticiários. a sua forma de ver aquele fato fique evidente. .. eu. abordando assuntos polêmicos de forma crítica e bem humorada. você desenvolverá seu próprio processo criativo e o texto surgirá de forma natural.. ou seja." "Ao saber desse fato eu me senti.

A criação literária . Editora Cultrix.Prosa. Foi advogado. e um literário. como fêz com as horas. pediria emprestado a algum dos tipos da grande galeria feminina as feições e os traços para desenhar o meu original. político. professor. Editora Ática José de Alencar Biografia José Martiniano de Alencar (1829-1877) é um dos grandes nomes da literatura brasileira. quando me viesse uma semana alegre e risonha. esses textos foram reunidos num livro. pois o escritor desenvolvia um estilo próprio de escrever seus textos. em 19 de novembro de 1854.O Gênero. Mais tarde.Escreva! Pratique! E procure usar a criatividade para criar seu próprio estilo. que recebeu o mesmo nome. e outros límpidos e brilhantes. aqui vão algumas dicas de livros que você pode consultar: . Série Princípios. Massaud Moisés. de fada ou ninfa. Com isso. jornalista. Crônica publicada no jornal Correio Mercantil. . Assim. já que tinha a função de informar os leitores. pois é isso que faz de um escritor um bom cronista. seu texto tinha dois aspectos: um informativo. Jorge de Sá. . e a lembrar-me de fatos e coisas passadas.A crônica. jurista. iluminados pelos raios esplêndidos do sol. . Editora da UNICAMP. Escreveu livros que foram marcos do Romantismo brasileiro: O Guarani e Iracema. às semanas.A Crônica . a parafusar novidades. que foram publicadas no Correio Mercantil em forma de folhetins. romancis ta. Se você está interessado em saber um pouco mais sobre crônicas. Alencar escrevia textos comentando fatos ocorridos durante a semana. não me veria às vêzes em tão sérios embaraços para escrever esta revista. poeta e dramaturgo. mas muito inconstante. sua fixação e suas transformações no Brasil. Na época de Alencar a crônica era um pouco diferente da que conhecemos hoje e parecia-se muito mais com os folhetins publicados na Europa daquele período. com uns dias cheios de nuvens. 19 de novembro Se a mitologia dos povos antigos tivesse dado formas de mulher. Em lugar de estar a cogitar idéias. Rio. Escreveu também algumas crônicas. orador. chamados Ao Correr da pena. São Paulo.

Seu único aspecto (da mulher) valia um discurso acadêmico. Em São Pedro de Alcântara o aparecimento de João Caetano produziu uma noite de entusiasmo e um novo triunfo para o artista distinto. Ao contrário. um modêlo que a caracterizasse perfeitamente? Lembro-me de uma mulher. e livrava-me assim de meter-me em certas questões graves e importantes que ocupam a atualidade. que acontecimentos se deram nestes dias. um poema. em que os dias corressem puros e serenos. Então escreveria uma poesia. se fôsse uma semana bem calma e bem tranqüila. que descreveu Byron. dia por dia. e os poetas já se prepararam para cantar a nova Ilíada e as causas terríveis de tão funesta guerra. Dêstes sete dias muitos foram de chuva. como dizem os espanhóis. quando me acertasse cair uma semana como esta passada. a qual num formulário de botica podia bem traduzir -se pela seguinte receita: uma dose de sol. cada um de seus olhos era um sermão. em que fizesse umas belas noites de luar bem suaves e bem calmas. . completando -se assim o número das três deusas que devem disputar o pomo de ouro. e limitar-me-ia às pequenas coisas que me tivessem interessado. pedir-lhe-ia que me contasse com tôda a graça e travessura do seu espírito os segredos de suas horas e de seus instantes. As noites foram quase tôdas de inverno e de teatro. só êste tipo imitado de D. perguntando com os vossos botões que fatos são êstes que descobri na semana passada. porém. que sentia-se a gente renascer com o sol que vivificava a natureza. esqueceram-se dessa invenção de personificar a semana. de olhos grandes. Nugae. ojosadormidillos. Dir-se-ia uma correspondência ou alguma velha polêmica que se houvesse despegado do seu competente jornal.Etteterrimas belli causas. não já escrever simplesmente. um romance ou um idílio singelo. tão frescos. que fizeram tanta coisa boa. e alguns estiveram tão belos. Com efeito. tão puros. de faces côr de jambo. duas de chuva e três de maçada. que valham a pena. Ides ver.uma semana elegante de teatros e de bailes. Em primeiro lugar. imaginaria alguma fada de formas graciosas. É verdade que. de céu azul e de estrêlas cintilantes. Os antigos. Enfim. lembrar-me-ia de alguma moreninha da minha terra. e por conseguinte não há remédio senão deixar as comparações e voltar ao positivo da crônica. contar-vos-ei que a semana teve sete dias e sete noites. com algumas modificações. Juan poderia dar u ma ligeira idéia da semana passada. talvez me pudesse bem servir para o caso. onde iria eu procurar um tipo. com uma certa altivez misturada de uma dose sofrível de loureirismo. a qual. era uma aritmética ambulante. na sua fronte estava estampada uma dissertação gramatical. quarumpars parva fuit. desfiando fato por fato. Vestiria a minha fada de branco com algumas fitas côr-de-rosa. Faria como o poeta. No Provisório estreou a nova cantora. O público dilettante está por conseguinte arvorado em Paris. tal e qual como as outras. Admirável receita para curar a população desta côrte da febre de novidades que tem produzido a guerra do Oriente. para andar pelo mundo a discutir e argumentar. o qual também foi pomo da discórdia. mas contar. Aposto que já estais a rir dêste meu projeto. único representante da arte dramática no Brasil.

porém. O crime de moeda falsa é um dos mais severamente punidos em todos os países. em vez de vãs ostentações. que se preparava a montar uma fábrica dessa indústria lucrativa. fundar uma escola dramática que conserve os exemplos e as boas lições do seu talento e a sua experiência. O gôverno não só conhece a falta de artistas. visto que não há melhor. verá abrir-se para êle uma nova época. e até um elogio. se não preferimos ficar em casa. Sua alma já deve estar saciada destês triunfos e dessas ovações pessoais. Hoje cumpre-nos fazer-lhe uma justiça. Uma das coisas que têm obstado a fundação de um teatro nacional é o receio da inutilidade a que será condenado êste edifício. ùnicamente no teatro que a polícia tem dado provas de atividade. . com o qual decerto se deve despender avultada soma. É a êste fim que deve presentemente dedicar-se o ator brasileiro. se. que outros. que no nosso país ainda se acha completamente na infância. corrigindo pelo estudo alguns pequenos defeitos. Se João Caetano compreender quanto é nobre e digna de seu talento esta grande missão. antes de mim. o apoio e a animação da imprensa desta côrte. nas quais nem o sentido nem a pronúncia é nacional. Entretanto não acho razão no legislador em ter punido ùnicamente o falsificador de moeda. já lhe apontaram. já fêz muito para sua glória individual. pela resolução que nos consta ter tomado de reparar o edifício e iluminá-lo a gás. O govêrno não se negará certamente a auxiliar uma obra tão útil para o nosso desenvolvimento moral. que apregoam postiços de tôdas as qualidades. Não é. quer cante a Casaloni. como sente a dificuldade de criá-los. Dêste modo ficamos reduzidos ùnicamente ao teatro italiano. A polícia também tem-se esmerado em fazer cessar as cenas tumultuárias e desagradáveis que se iam tornando tão freqüentes naquele teatro. Todos os dias lemos nos jornais anúncios de dentistas. que ela merece sem dúvida alguma. quer encante a Charton. se continuassem. deixando impunes muitos outros falsificadores bem perigosos para a nossa felicidade e bem-estar. terá o que lhe tem faltado até agora. Tudo é muito bom. e que. não têm dado lugar a que João Caetano forme uma escola sua. porque ameaça a fortuna do Estado e a dos particulares. de cabeleireiros e de modistas. e trate de elevar a sua arte. não havendo elementos dispostos para êsse fim. e. A única cena onde se representa em nossa língua ocupa-se com vaudevilles e comédias traduzidas do francês. Efetuou -se esta semana a prisão de um moedeiro falso. acabariam por afugentar dêle os apaixonados da música de batuque. é preciso que agora como artista e como brasileiro trabalhe para o futuro de sua arte e para o engrandecimento de seu país. Não temos uma companhia regular. sem que a lei se inquiete com semelhantes coisas. para onde somos obrigados.Infelizmente as circunstâncias precárias do nosso teatro. quer descantem as coristas. que são apenas a manifestação de um fato que todos reconhecem. nem esperanças de possuí-Ia brevemente. a dirigirmo-nos tôdas as noites de representação. Já algumas vêzestemos censurado a diretoria do teatro por certas coisas que nos parece se podem melhorar sem grandes sacrifícios. de coroas e de versos que se procuram engrandecer ùnicamente pelo assunto. ou outras causas que ignoramos. Como ator.

quando a cabeleira. Não temos tempo de tratá-la com a profundeza que exige. Tôdas estas vãs declamações dos poetas sobre êsse animal. sem refletir. e muitas vêzes mesmo nos revoltamos por um mal entendido sentimento de humanidade. enriquecem e riem-se à nossa custa. certos erros consagrados e que todo o mundo repete. 2ª edição. desde a antiguidade se diz que o cão é o amigo fiel do homem. e que desgraçam uma existência. Um dos maiores obstáculos que êle encontrou sempre foram certos prejuízos. diz o escritor francês. Entretanto aquêles que falsificam uma mulher. tendo-se casado. Quando chegar o momento da decomposição dêste todo mecânico . Êste consentimento unânime. pois. e para o qual olhamos indiferentemente. se submete a todos os caprichos e a tôdas as vontades sem distinção. roja-se aos pés de seu senhor e caricia a mão que o castigou. E é isto o que o homem chama um amigo! Já se vê que o sentimento não é tão nobre como o parece a princípio. abusando de sua confiança e boa-fé. resumiríamos o quadro de tôdasas desgraças que produzem não só aquelas falsificações do corpo. Ediçõ es Melhoramentos. Não é. O que cumpre é zelar a sua execução para que não se torne letra morta. José de Alencar. o prazer de possuir um autômato. ou uma palavra mentida. mas também muitas outras. que dizem representar o símbolo da fidelidade. p. que pode compensar um dos maiores riscos a que estamos sujeitos.quem poderá avaliar a tristíssima posição dessa infeliz vítima dos progressos da indústria humana! Nem ao menos as leis lhe concedem o direito de intentar uma ação de falsidade contra aquêles que o lograram. leva para casa uma mulher tôda falsificada. quando o castigam. É uma injustiça clamorosa que cumpre reparar. e faça cessar o perigo que corremos todos os dias de encontrarmos a cada momento na rua ou no passeio a morte do hidrófobo. que se move a nossa vontade. as anquinhas se forem arrumando sôbre o toilette . os dentes de porcelana. temos ainda de falar de uma outra medida do chefe de polícia a respeito dos cães. e que interessa extraordinàriamente a segurança pública. senão. em vez de um corpinho elegante e mimoso. e de um rostinho encantador. 87-92 . Assim. Deixemos esta importante questão aos espíritos pensadores.Entretanto imagine-se a posição desgraçada de um homem que. a que ordinàriamente damos tão pouco cuidado. Afonso Karr levou dois anos a escrever para conseguir que a polícia de Paris adotasse est a útil medida de segurança pública. onde tôda a casta de falsificadores pendurou um produto de sua indústria. é condenado a uma porção de anos de cadeia. Um homem qualquer que nos dá a descontar uma letra de uns miseráveis cem mil réis. Demais. e que de repente. o ôlho de vidro. falsificada por êle. O cão obedece sem reflexões. São Paulo. é uma singular revelação do caráter do homem. um sorriso fingido. o tipo e o môdelo da amizade. aos amigos da humanidade. como um olhar falso. dão uma bem mesquinha idéia do coração humano. Texto extraído do livro: Ao correr da pena. o peito de algodão. apresenta-lhe o desagradável aspecto de um cabide de vestidos. em vez de se defender. nem compreender o sentido das palavras que profere.

Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. que havia ocorrido no dia 13 de maio de 1888. que estava à espreita. Alforriá-lo era nada. conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo). em falta de outro melhor. Bons dias! Eu pertenço a uma família de profetas après coup. entrou na sala. e pediu à ilustre assembléia que correspondesse ao ato que acabava de publicar. tanto que na segunda-feira. e entreguei a carta ao molecote. um dos seus principais fundadores. que a liberdade era um dom de Deus. que os homens não podiam roubar sem pecado. restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio. provavelmente. como um furacão. começou a trabalhar como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional em 1856. A crônica brasileira moderna tem. mas eu prefiro falar a minha língua). finalmente. entendi que. para ajudar a família. Ouvi cabisbaixo. Dentre suas principais obras estão seus contos (O Alienista e A Cartomante estão entre os mais famosos) e os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas. De noite. Quincas Borba e Dom Casmurro. que tôda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista. Pancrácio. post factum. e juro se necessário fôr. reuni umas cinco pessoas. depois do gato morto. Crônica publicada no jornal Gazeta de Notícias. antes mesmo dos debates. e suponho que a óleo. pessoa de seus dezoito anos. Caí na cadeira e não vi mais nada. em 19 de maio de 1888. perdido por mil e quinhentos. tratei de alforriar um molecote que tinha. em Machado de Assis. Na crônica abaixo.Machado de Assis Biografia Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é considerado o maior escritor realista do Brasil e. chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza: . Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça. brindando ao primeiro dos cariocas. recebi muitos cartões. o maior escritor da literatura brasileira. levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo. Só 40 anos após sua morte é que se descobriu o verdadeiro autor das chamadas Crônicas de Lélio. que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo. a que meus amigos deram o nome de banquete. perdido por mil. Neste jantar. Por isso digo. Nasceu numa família muito humilde e. no intuito de lhe dar um aspecto simbólico. De 1858 em diante escreve para diversos jornais importantes com regularidade. No dia seguinte. No golpe do meio (coup dumilieu. Creio que estão pintando o meu retrato. mais ou menos. há dezoito séculos. Foi o principal fundador da Academia Brasileira de Letras e o seu primeiro presidente. fiz outro discurso agradecendo. ou como melhor nome tenha em holandês. Machado de Assis aborda com ironia a questão da abolição da escravatura. e dei um jantar. Machado escrevia suas crônicas sob pseudônimos. e veio abraçar-me os pés.

Boas noites. Aqui tens casa amiga. quero ser deputado. daí pra cá. 3ª edição. não são os que obedecem à lei. Precisou. Tu vales muito mais que uma galinha. . mas que há de crescer. Vol III. olha. Rio de Janeiro. eras um pirralho dêste tamanho. . escrever e contar. Fundou diversos jornais que duraram pouco tempo.. tu cresceste imensamente. aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte. já eu. mas os que se antecipam a ela. trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra. Oito ou sete. Deixa ver.. Pois seis mil-réis. No fim de um ano. .. O meu plano está feito. entretanto. hoje estás mais alto que eu. conta com oito.. mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. (simples suposições) é então professor de filosofia no Rio das Cobras.. Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio. Mas eu expliquei -lhe que o peteleco. podes ir para onde quiseres. também..491. p.Artura não quédizê nada... Essa maleabilidade de Bilac é um bom exemplo da adaptação que os escritores tinham (e ainda têm) de fazer na hora de escrever crônicas a fim de tornar o texto mais descontraído e simples.Justamente... não. É um dos principais representantes do Parnasianismo brasileiro. diversas crônicas. e (Deus me perdoe!) creio que até alegre. Bilac escreveu. no jornal Gazeta de Notícias. ato que comoveu a tôda a gente que dêle teve notícia. Tudo cresce neste mundo. 1973. Sempre esteve muito envolvido com política. e chamo-lhe bêsta quando lhe não chamo filho do diabo. tenho -lhe despedido alguns pontapés.e. Machado de Assis. Profissão de Fé e O caçador de esmeraldas.Pequeno ordenado. eu de mau humor.* Menor Perverso . Crônica publicada. provavelmente. efeitos da liberdade. cousastôdas que êle recebe humildemente. Êle continuava livre. uns seis mil -réis. Pancrácio aceitou tudo. és mais alto quatro dedos. antes que o digam os poderes públicos. Foi jornalista e poeta. um ou outro puxão de orelhas. senhô. em casa. quase divinos. dizendo ao escravo: és livre. não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. simplificar bastante a linguagem rebuscada que costumava usar em seus poemas e textos em prosa. na circular que mandarei aos meus eleitores. se andares bem.Tu és livre. 489 . que os homens puros. para satisfação do céu.Um ordenado pequeno.Oh! meusenhô! fico. muito antes da abolição legal. Quando nasceste. um ordenado que. merecendo destaque poesias como Via-Láctea. sempre retardatários. eram dois estados naturais. que êsse escravo tendo aprendido a ler. libertava um escravo. por me não escovar bem as botas. na modéstia da família. sendo um impulso natural. . grandes e verdadeiramente políticos. . ch egando a ser perseguido e preso. José Aguilar. direi que. antes. Olavo Bilac Biografia Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac (1865-1918) é dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e o autor de nosso Hino à Bandeira. Texto extraído do livro Obra Completa. repito. já conhecida e tens mais um ordenado.

. o nosso dever não é castigá-lo: é salvá-lo de si mesmo. banhado em lágrimas. um grande espalhafato. (.. p. estão arriscados a ficar cada vez piores. das suas tendências para o exercício do mal. dos seus maus instintos. mas.É este o título. que os jornais consideram um grande criminoso. escolas correcionais. Um criminoso de dez anos não é positivamente um criminoso. Mas onde? É aqui que surge a dificuldade. . e é aqui que somos forçados a reconhecer que. cujos instintos precisam ser refreados"..uma criança de três anos assassinada por outra de dez. Mas. já tarde. p. consumado o seu ato de perversidade (ou de imprudência?) o pequeno fugiu. à espera de novo escândalo. os pequenos maus. em condições que ainda não foram bem tiradas a limpo. comovendo-nos ou indignando -nos. Então. Se é verdade que esse menino conscientemente praticou a maldade de que é acusado. logo depois.. que "se castigue esse precoce facínora. Olavo Bilac escreve: "Quase todas estas páginas foram publicadas na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro. Como? naturalmente. penitenciárias.)" ( Obra reunida. Tudo quanto se refere à assistência pública ainda está por fazer no Brasil: asilos. Olavo Bilac. dos que há dentro delas.porque não lhe podemos dar o tratamento que a sua enfermidade requer. quando um escândalo. O fato é que. Já sei que há por aí uma Escola Correcional. o que se soube da vida íntima dessa escola serviu apenas para mostrar que. há uma grita convulsa. presídios. foi encontrado na praça da República e conduzido para uma delegacia policial... E os jornais. não têm fiscalização efetiva. Rio de Janeiro. por nossa culpa. faz explosão cá fora. Diz-se que o "menor perverso" ensopou em espírito de vinho as roupas da vítima e ateou-lhes fogo. pedem quase todos. e andou vagando pelas ruas. . Texto extraído do livro: Obra reunida. que integra Obra reunida. tudo volta ao mesmo estado.. Propositalmente? parece impossível. se estamos muito adiantados em matéria de politicagem e parolagem. pelo vício da organização do estabelecimento. dando-lhe uma educação especial. que uma brincadeira funesta (ou uma inconsciente moléstia moral. com que aparece em todos os jornais a notícia de um caso triste. perfeitamente curável) levou à prática de um ato tão cruel.. em quase unânime acordo de idéia e de expressão. ainda há pouco tempo... lá dentro. Tive muita pena da pobre criança de três anos.. * No início do livro Ironia e piedade. 715) . até que. Só pensamos nessas casas de beneficência ou de correção. Editora Nova Aguilar. 737-738. Nesse pequeno infeliz. Mas tenho também muita pena dessa outra criança. exausto. como? Metendo-o na Correção? mandando-o para o Acre? fuzilando-o? A ocasião é oportuna para mais uma vez se verificar quanto estamos mal aparelhados para atender às múltiplas necessidades da assistência social. morta no meio de horríveis torturas. há um homem que se vai perder. terminando a narração do caso triste. um grande dispêndio de artigos pelas folhas e de atividade pela polícia.. Que se castigue. uma certa disciplina de espírito. Mas nada é impossível na vida. 1997. ainda estamos atrasadíssimos em matéria de verdadeira civilização.

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