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Práticas sociais de brincantes de maracatu da comunidade de Brasília Teimosa: um


olhar a partir da perspectiva do Capital Social
Debora Gabrielly Pimenta de Oliveira1
Juanna Amélia Cordeiro Silvestre2
Cristiane Maria Galdino de Almeida3

RESUMO
Esse texto apresenta os resultados do nosso Trabalho de Conclusão de Curso, que teve como objetivo
geral investigar o acúmulo do capital social refletido nas práticas sociais (ligadas à arte) que os brincantes
do Maracatu Nação Erê realizam para além dos muros do CEPOMA, sob algumas perspectivas da teoria do
capital social de Bourdieu. Utilizamos como instrumentos metodológicos o questionário, aplicado juntamente
aos brincantes, bem como de conversas informais com duas coordenadoras do projeto e uma das mães dos
sujeitos. Os resultados apontaram que as práticas sociais, descritas pelos brincantes, revelam retratos de
seu acesso a bens culturais. Tal acesso se dá de forma diferenciada entre os brincantes de acordo com a
herança cultural e o acúmulo de capital (econômico e simbólico) que cada sujeito revela. Verificamos,
também, que as práticas sociais, dentre elas, o gosto musical, não são influenciados por uma única via, mas
pelas diversas redes de relações sociais das quais se tem acesso.

Palavras-Chave: brincantes de maracatu; capital social; educação musical não formal.

INTRODUÇÃO

As grandes mudanças econômicas ocorridas no século passado demandaram


ampliações no que diz respeito ao papel da educação. Nessa perspectiva, a expansão do
ensino, de modo geral, parte do pressuposto de que a educação possibilita a inserção de
indivíduos no mercado de trabalho e tal discurso vem agregado de valores das “teorias
educacionais que consideram a educação um instrumento capaz de produzir a igualdade
social, bem como garantir a integração de todos os indivíduos do corpo social”
(CARVALHO, 2009).
A educação, desde então, é vista como o principal caminho para o progresso
econômico e humano das sociedades e passa a assumir o papel fundamental no que diz
respeito ao desenvolvimento social e à formação do homem. Tal visão colaborou para
atribuir à educação, por si só, um valor de ferramenta para mobilidade social, acesso ao
mercado de trabalho, etc.
Agregado às mudanças econômicas e com o intuito de atender às necessidades e
demandas sociais de populações primariamente periféricas, em todo território nacional,

1
Concluinte de Pedagogia – Centro de Educação – UFPE. deulbara@gmail.com
2
Concluinte de Pedagogia – Centro de Educação – UFPE. juannasilvestre@hotmail.com
3
Professora Adjunta do Departamento de Música – Centro de Artes e Comunicação – UFPE.
cmgabr@yahoo.com.br
2

houve uma ampliação do conceito de educação, não mais restrito às instituições formais
de ensino. Diversos espaços passaram a ser utilizados para processos de ensino-
aprendizagem, a partir dos anos 1980, a exemplo das organizações não governamentais
– ONGs – movimentos sociais, espaços religiosos e diversos outros tipos de organizações
civis sem fins lucrativos, dando corpo ao que chamamos hoje de educação não formal
(GOHN, 2005; SOUZA, 2010).
No que diz respeito aos espaços de educação não formal, em muitas partes da
Região Metropolitana da cidade do Recife, podemos notar diversas iniciativas sociais 4 em
favor de grupos menos favorecidos, destacando-se o público de crianças, adolescentes e
jovens que têm sido focalizados sob a prerrogativa da formação cidadã e do acesso à
educação e cultura. Em linhas gerais, estas instituições elaboram suas ações com o
intuito de aproximar seu público aos mais variados bens sociais e culturais, numa
tentativa de suprir a lacuna deixada pelo Estado no que diz respeito à saúde, educação,
arte, entre outros.
Há um grande contingente de ONGs que desenvolvem trabalhos ligados a arte
popular, com o intuito de aproximar as pessoas a uma determinada “realidade” e afastá-
las de outras. No debate sobre educação e arte, muitos autores reafirmam suas
contribuições para a formação cidadã/integral/humana dos indivíduos e no ambiente das
ONGs, “a arte é quase sempre tomada como uma diretriz pedagógica fundamental”
(CARVALHO, 2009, p. 295).
Podemos dizer ainda que dentre as diversas ações empreendidas no universo das
organizações civis, atividades de música, dança e teatro se destacam como um forte
atrativo, mantendo a frequência da clientela, principalmente de jovens.
No caso da música, sua prática educativa em espaços não formais é entendida como
educação musical não formal, pois ainda que obedeça a sistematizações de conteúdos e
desenvolvimentos de ações pedagógicas, não ocorre em tempos e espaços definidos.
Suas ações são realizadas “[...] a partir da prática e da convivência, sendo os
conhecimentos musicais transmitidos a partir de uma organização que se diferencia dos
processos formais e (ou) escolares” (SOUZA, 2010, p. 35).
O autor ainda afirma que

[...] é através da observação e da prática imitativa ou criativa que o participante se


relaciona com a música, aperfeiçoando e, principalmente, aguçando a percepção
dos elementos musicais e corporais que constituem a manifestação. O executante,
seja qual for o seu domínio com relação ao material musical, ao ser inserido na

4
Organizações civis sem fins lucrativos como: Cepoma, Arricirco, Daruê Malungo, etc.
3

manifestação, precisa ouvir, interagir e adaptar a sua execução à dos outros


integrantes do grupo (SOUZA, 2010, p. 35).

Em ambos os espaços – escolas regulares ou ONGs – há compartilhamento de bens


culturais e sociais próprios do ambiente e que foram construídos historicamente, sejam
eles transmitidos de maneira formal, não formal ou informal. Nessa perspectiva, os bens,
aos quais as pessoas têm acesso, formam um conjunto de recursos sociais, o qual
Bourdieu chama de Capital Social. Segundo o ponto de vista de alguns tópicos da teoria
do Capital Social, o simples acesso à escolarização, bem como a atividades realizadas
por ONGs, como rodas de leitura, aulas de música, dança e demais expressões artísticas,
por exemplo, não podem ser consideradas, necessariamente, fatores de transformação
social. Foi este entendimento que nos incomodou e nos fez tematizar nosso Trabalho de
Conclusão de Curso por este viés.
A fim de compreender melhor o panorama descrito acima, nos indagamos acerca de
como se dão algumas as práticas sociais, que, segundo Garcia-Montrone et al (2004), são
as relações estabelecidas entre as pessoas e os grupos sociais, de sujeitos envolvidos
em organizações e instituições sociais.
Para entender esse movimento de práticas sociais decidimos investigar algumas das
práticas de sujeitos aproximados da música, conforme nossa afinidade e vivências
anteriores e atuais com tal linguagem, em bandas, coros, oficinas e cursos de extensão.
Neste artigo expomos os resultados obtidos a partir de questionários (Ver Anexo B)
respondidos por brincantes do Maracatu Nação Erê (MNE), grupo idealizado pelo Centro
de Educação Popular Maílde Araújo (CEPOMA), localizado no bairro de Brasília Teimosa,
Região Metropolitana do Recife.
Desta maneira, nossa problemática nos levou aos seguintes objetivos: Como objetivo
geral, investigar o acúmulo do capital social refletido nas práticas sociais (ligadas à arte)
que os brincantes do Maracatu Nação Erê realizam para além dos muros do CEPOMA. E,
como objetivos específicos, traçar um perfil sócio-cultural dos brincantes do Maracatu
Nação Erê; conhecer os objetivos pedagógicos da Instituição em relação ao trabalho
musical realizado com o Maracatu Nação Erê; verificar a frequência de atividades que os
sujeitos têm dentro do CEPOMA; identificar algumas práticas sociais, exteriores ao
CEPOMA, realizadas pelos brincantes do Maracatu Nação Erê; compreender que
concepções os brincantes têm de sua participação no Maracatu Nação Erê.
Discutindo as questões lançadas como objetivos de nosso estudo, nos deparamos
com interrogativas acerca da concepção de que o acesso aos bens culturais, aqui
discutidos e presentes no contexto da educação musical não formal, ocorrente no campo
4

eleito deste estudo, por si só, deságua resultados permeados de concepções de mudança
social e transformação da realidade.
Fazendo uma analogia com a acessibilidade ao ensino superior, podemos
compreender que o fato de frequentar uma universidade não implica necessariamente
mobilidade social. Além disso, o acesso à universidade é diferente para cada indivíduo,
pois os recursos sociais aos quais os sujeitos tiveram e têm aproximação, é que dizem
quais perspectivas profissionais terão posteriormente.
Essa discussão se pauta sob o pensamento de Bourdieu acerca de capital social. O
autor defende que a aquisição e apreensão dos bens culturais se dão por uma série de
fatores que vão além da simples acessibilidade a esses bens. Durante nossa vida nos
deparamos com diversas situações onde precisamos fazer escolhas, seja no campo
profissional – na escolha pelo tipo de trabalho que iremos exercer e sua função social –
seja no âmbito pessoal – quando escolhemos as pessoas que farão parte do nosso meio
social. O fato é que ao optarmos por alguma coisa, em detrimento de outra, está implícito
ali todo um legado de valores e posturas adquiridos através de nossa inserção em meios
sociais (BOURDIEU, 2008).
A obtenção desse legado ou herança é o que molda nosso comportamento, de
maneira inconsciente, durante toda a nossa vida. É o que Bourdieu denomina “capital
social”. Segundo o autor,

capital social é o conjunto de recursos atuais ou potenciais que estão ligados à posse
de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de
interconhecimento e de inter-reconhecimento ou, em outros termos, à vinculação a
um grupo, como conjunto de agentes que não somente são dotados de propriedades
comuns (passíveis de serem percebidas pelo observador, pelos outros ou por eles
mesmos), mas também são unidos por ligações permanentes e úteis (BOURDIEU,
2008, p. 67).

Em outras palavras o capital social se configura como um sistema de valores


implícitos, transmitido pelos agentes sociais e que engloba atitudes, concepções e
disposições compartilhadas pelos sujeitos pertencentes a uma mesma classe social,
determinando o caminho a ser seguido perante a trajetória de cada indivíduo. Diante
disso podemos supor que as diferenças entre indivíduos e entre os grupos sociais
acontecem em decorrência da aquisição deste capital social.
Entender como os agentes sociais interferem em nosso comportamento e nas
nossas escolhas é de suma importância para que compreendamos a dinâmica das
relações sociais nas quais estamos inseridos. Frente a esse contexto, vimos a
5

necessidade de conhecer algumas práticas sociais dos brincantes do MNE, a fim lançar
um olhar a partir de algumas perspectivas da teoria do Capital Social.

TRAJETÓRIA METODOLÓGICA

Para realização desta pesquisa abordamos quinze sujeitos, que foram eleitos
segundo a disponibilidade de cada brincantes em responder o questionário, participantes
do Maracatu Nação Erê, grupo artístico-educacional organizado pelo Centro de Educação
Popular Maílde Araújo (CEPOMA), situado no bairro de Brasília Teimosa 5 (Ver anexo A),
na zona Sul da cidade do Recife, nas proximidades dos bairros de Boa Viagem e Pina 6,
numa área privilegiada,

bem próxima da praia, Brasília Teimosa surgiu da ocupação de uma área


denominada Areal Novo. [...] Essa comunidade foi sempre marcada por uma intensa
luta em defesa de seus anseios, conseguindo permanecer num local valorizado e de
interesse de grupos econômicos e políticos poderosos (GASPAR, 2009).

Tratou-se de uma pesquisa qualitativa, em que foram utilizados como instrumentos


de pesquisa o questionário e conversas informais. A escolha do método qualitativo se dá
por ser a realidade algo não mensurável. Segundo Minayo (2000), a pesquisa qualitativa
“trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, com valores, crenças,
atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e
dos fenômenos, que não podem ser reduzidos a operacionalidade de variáveis” (p. 22) .
A escolha do campo de pesquisa se deu por diversos fatores, dentre eles a
localização de fácil acesso para ambas as pesquisadoras, o contato anterior que uma de
nós tivemos com a coordenadora 2, em circunstâncias que não desse estudo. Foi
importante, também, o fato de se tratar de uma instituição que tematiza a Educação
Popular e o resgate da Cultura Popular Pernambucana; por desenvolver um projeto de
educação musical, no caso, o Maracatu Nação Erê; e por se localizar em uma
comunidade periférica.

5
A fim de caracterizar socialmente o bairro, elegemos duas informações como Taxa de Alfabetização da
População com mais de 15 anos: 85,45%; bem como o rendimento Nominal Médio Mensal dos
Responsáveis por Domicílios com Rendimento Mensal: Total: R$358,11.
Fonte:http://www.recife.pe.gov.br/pr/secplanejamento/inforec/bairros.php
6
Com o intuito de estabelecer um parâmetro com bairros vizinhos, disponibilizamos também as mesmas
informações dos bairros de Boa Viagem e Pina, respectivamente: Taxa de Alfabetização da População com
mais de 15 anos: 96,32% e rendimento Nominal Médio Mensal dos Responsáveis por Domicílios com
Rendimento Mensal: R$3.012,16; Taxa de Alfabetização da População com mais de 15 anos: 87,64% e
rendimento Nominal Médio Mensal dos Responsáveis por Domicílios com Rendimento Mensal: R$868,23.
Fonte:http://www.recife.pe.gov.br/pr/secplanejamento/inforec/bairros.php
6

A fim de estabelecer um primeiro contato pessoal com os sujeitos participantes do


estudo – brincantes7 do MNE e coordenadoras8 da instituição – realizamos um visita
informal ao CEPOMA, quando tivemos conversas informais com a Coordenadora 1 e
presenciamos o ensaio do MNE. Nossa segunda ida à instituição objetivou a abordagem
aos brincantes para que respondessem ao questionário, instrumento de coleta deste
estudo. Ao empreendermos a terceira ida ao CEPOMA, coletamos mais alguns
questionários respondidos por meninos/meninas que não estavam presentes na visita
anterior. Nesse mesmo dia, conversas informais também ocorreram com uma das
coordenadoras da instituição.
Os sujeitos responderam a um questionário dividido em três blocos: dados sociais,
questões de práticas sociais e questões relacionadas à sua vivência no CEPOMA.
Conforme explicitado na Tabela 1, dos jovens abordados quatro são do sexo feminino e
onze do sexo masculino, e têm faixa etária entre de 09 a 30 anos de idade. A maioria dos
sujeitos reside no bairro de Brasília Teimosa. Todos os jovens são solteiros e não têm
filhos.

Sujeito Idade Sexo


D.M. 18 F
D.F.S. 21 M
D.R.L. 30 M
I.M. 14 F
J.M. 10 M
J.F.S. 15 M
J.E. 10 M
L. 9 M
L.T. 16 M
M.B.A. 15 M
M.L.A.O. 13 F
M.F. 11 M
R.M. (1) 14 M
R.M. (2) 14 M
T. 14 F
Tabela 1. Indicação da faixa etária e sexo dos
sujeitos.

Dentre os quinze sujeitos abordados, três deles apresentam características que


diferem do perfil dos demais integrantes, dentre os quais, D.M., que tem 18 anos e é a
professora de percussão do MNE, é filha de pais bailarinos/educadores da Instituição em
questão (apenas a mãe trabalha no CEPOMA atualmente e possui graduação) e desde os
2 anos de idade frequenta as atividades do CEPOMA. Seu pai também teve acesso ao

7
Os jovens brincantes de maracatu são identificados pelas iniciais do nome informado por eles.
8
As coordenadoras são tratadas no texto por: Coordenadora 1 e Coordenadora 2. Não havendo nenhuma
justificativa hierárquica para tal.
7

ensino superior, mas não concluiu o curso. D.F.S. tem 21 anos e é instrutor de percussão
do MNE. E, finalmente, D.R.L. de 30 anos de idade (faixa etária que se distancia do perfil
dos demais sujeitos), que possui um histórico familiar de pais e avós escolarizados a nível
superior (Graduação e Pós-graduação), não reside no bairro de Brasília Teimosa, tem
Síndrome de Down, e frequenta o MNE há 11 anos.
A religião que predomina entre o público pesquisado é a católica, aparecendo dois
representantes do espiritismo, dois evangélicos, e quatro sujeitos que não definem
posição religiosa ou afirmam não ter religião. Um fato que nos chamou atenção foi a não
ocorrência de seguidores de religiões de matriz africana. O MNE não está associado a
cultos e rituais afro-descendentes. Todavia, em um estudo sobre a atividade musical do
CEPOMA, escrito por Cristiane Maria Silva, como monografia do curso de especialização
em Etnomusicologia da Universidade Federal de Pernambuco, a autora informa que os
brincantes têm “conhecimento pleno da tradição do cortejo desta manifestação cultural”
(SILVA, 2003, p.15).
Em relação à escolarização dos genitores dos brincantes abordados, pudemos
constatar que a grande maioria não conseguiu ultrapassar o Ensino Médio. As ocupações
profissionais das primeiras e segundas gerações anteriores (pais e avós) dos brincantes,
em sua maioria, podem ser classificadas como profissões manuais. Na área das Ciências
Sociais, essa nomenclatura é recorrente em estudos sobre mercado de trabalho e
emprego, designando “profissões ligadas à execução de tarefas reconhecidas como
„pesadas‟ ou „perigosas‟ (pedreiro, mecânico), ou mesmo [...] (que envolvam) uma relação
de sujeição a um chefe ou profissional mais experiente (RANGEL, 2010, p. 74).
Destacamos que dois sujeitos têm pais com profissões não manuais, sendo D.M. com
avós de profissionais manuais e D.R.L. com um avô de ocupação não manual. A Tabela
abaixo descreve mais claramente como se dispõem as profissões e ocupações das
gerações anteriores aos jovens.

Tipo de profissão ocupação 1ª Geração 2ª Geração


anterior anterior
Manual 12 8
Não Manual 2 2
Não responderam 1 5
Total 15 15
Tabela 2. Disposição dos tipos profissões e ocupações dos pais e avós dos
brincantes do MNE.

Dos quinze sujeitos participantes deste estudo, apenas dois não frequentam mais
instituições escolares. D.R.L. frequentou a escola regular até a 2ª série do Ensino
Fundamental I (atual 3º ano do E.F.). Ao passo que D.R.L. respondia ao questionário
8

aplicado por nós, sua mãe o auxiliava, apenas oralmente,quando ele não compreendia a
questão lida, e também conversava conosco: ela nos informou que D.R.L. passou 15 anos
frequentando a escola regular, nesse período, cursou até a 2ª série, passando dois anos
em cada série e conseguir avançar para a seguinte. Na segunda vez que cursava a 2ª
série, sua professora chegou à conclusão de que ele não teria condições de seguir para a
3ª série, a atitude de sua mãe foi tirá-lo da escola regular, e a partir de então, D.R.L.
passou a estudar em casa e a frequentar diversos cursos ligados à música no
Conservatório Pernambucano de Música (CPM), onde sua mãe leciona. Atualmente ele
faz parte do MNE e faz aula de capoeira na Universidade Católica de Pernambuco
(UNICAP), num grupo para alunos especiais.
O outro sujeito que afirmou não mais frequentar a escola foi D.F.S., de 21 anos, e
disse estar desempregado. Porém, em conversa informal, constatamos que ele trabalha
com o primo, pescando, mas ele não admite tal atividade, prefere dizer que está
desempregado. O sujeito cursou até a 7ª série (atual 8º ano do E.F.) e afirmou não
frequentar mais a escola por “falta de incentivo”.
Todos os sujeitos da pesquisa já foram alfabetizados, embora dois deles tenham
tido dificuldades em responder sozinhos ao questionário: um deles pediu nossa ajuda
para perguntar e escrever por ele, o outro respondeu sozinho, mas suas respostas às
questões abertas foram difíceis de analisar devido a sua escrita. E os que estão
frequentando a escola básica se encontram entre 2ª e 8ª séries (3º e 7º anos, na
nomenclatura atual do Ensino Fundamental de nove anos).
A jovem D.M., aluna do 2º período do curso de Educação Física da Universidade
de Pernambuco (UPE), é a única que frequenta uma universidade. Dos quinze sujeitos,
nove deles sempre estudaram em escola pública; cinco afirmaram ter estudado tanto na
rede pública quanto na rede privada; apenas um (D.R.L.) disse ter estudado sempre em
escola privada.
Dentre os pesquisados, apenas dois disseram trabalhar: D.M. e L.T., que disse
realizar atividades de pesca com o primo (experiência citada acima). Ambos declararam
não trabalhar além de 5 horas por dia. Todos os jovens revelaram morar com familiares e
em conversa informal, tomamos conhecimento de que alguns têm os pais falecidos, ou
não mantêm contato com os genitores.
O questionário aplicado não aprofundou tais questões familiares, apenas revelou,
quantitativamente, as condições de moradia e de sustento do lar. Verificamos, com base
nas respostas obtidas, que muitos dos familiares dos brincantes estão desempregados,
sendo que em dois lares todos vivem essa realidade.
9

Além da utilização de tais instrumentos de coleta, nos valemos de conversas


informais e outras formas de comunicação com as coordenadoras da Instituição e com a
mãe de um dos sujeitos (D.R.L.) participantes da pesquisa.
Para a análise dos dados, nos baseamos na análise do conteúdo, que, segundo a
orientação de Bardin (2002), é definida como

um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por


procedimentos, sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens,
indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos
relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas
mensagens (p. 42).

A análise de conteúdo possibilita uma leitura profunda das comunicações, indo


além da leitura aparente. O objetivo da análise do conteúdo é descobrir as relações
existentes entre o exterior e o próprio discurso. Ou seja, ao confrontarmos dados sobre
gosto musical dos sujeitos desta pesquisa, com sua opinião sobre a influência do MNE
em suas escolhas musicais, por exemplo, sob o ponto de vista do Capital Social,
podemos tirar algumas conclusões a respeito. Foi nessa perspectiva que analisamos os
dados desse estudo.

ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

O Centro de Educação Popular Maílde Araújo – CEPOMA – é uma organização


não governamental sem fins lucrativos, que assume um caráter filantrópico, social,
educacional e cultural e desenvolve um trabalho com cerca de 150 crianças e
adolescentes em situação de vulnerabilidade social ou não, da comunidade de Brasília
Teimosa e de seu entorno.
Dentre as atividades oferecidas à comunidade, a organização mantém uma
biblioteca, através da qual realiza um trabalho de fomento à leitura por meio de rodas de
contação de história, leitura compartilhada e empréstimo de livros, atendendo cerca de
120 pessoas, entre crianças, jovens e adultos. Desempenha, também, um trabalho no
âmbito da Educação infantil, com duas turmas funcionando durante a semana (de
segunda à sexta) que atende cerca de 50 alunos. Além disso, promove, pautada na
premissa de incentivo à valorização das raízes da cultura pernambucana, oficinas de
dança, com o grupo de dança popular Prá-Pular, e de música (percussão e canto), com o
Maracatu Nação Erê.
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As atividades resumidas acima refletem as intenções das ações do CEPOMA,


quais sejam, “desenvolver o vínculo entre Educação Popular e música” e “ destacar a
importância da identidade cultural em nossa sociedade, através de práticas educativas”,
como apontadas por Silva (2003, p. 1). Conforme a fala de uma das coordenadoras, tal
intenção contribui “para a valorização dessa cultura, combatendo, na prática, atitudes de
preconceito e propiciando uma rica oportunidade de aprendizagem” (Coordenadora 2).
Os jovens sujeitos participantes desse estudo, além de brincantes do MNE,
participam das atividades de dança e leitura, desenvolvidas pela Instituição. Segundo a
Coordenadora 1, dentre os brincantes do maracatu que frequentam tais atividades, a
maioria é do sexo feminino, fato que, genericamente, concorda com a ideia de que
existem comportamentos e gostos, necessariamente distintos, entre mulheres e homens.
Após a coleta dos dados, em meio às análises, percebemos a ausência, no
instrumento de coleta, de uma questão a respeito de outras atividades frequentadas pelos
brincantes, além do MNE, a fim de trazer dados da própria fala dos brincantes acerca da
informação sobre a preferência das meninas pela dança, e dos meninos pela percussão.
Sabemos que ser homem ou mulher em nossa sociedade significa adotar
comportamentos, atitudes, deveres e direitos determinados historicamente. Não obstante
a tomada de consciência acerca das transformações ocorridas na forma como se
relacionam os gêneros, termo que, de acordo Scott (1995), “é utilizado para designar as
relações sociais entre os sexos” (p. 75), ainda nos deparamos com atividades realizadas
apenas por mulheres e atividades atribuídas aos homens.
Essa segregação de gêneros, que reforça os estereótipos e paradigmas sociais, pode
ser refletida no comportamento dos brincantes em relação à escolha das atividades de
dança e música, pois, com base nas informações obtidas por meio do questionário,
constatamos que nenhum brincante do sexo masculino participa das atividades do grupo
de dança. Em relação às atividades de percussão do Maracatu Nação Erê, apenas quatro
dos sujeitos que responderam o questionário são do sexo feminino.

● Brincantes do Maracatu Nação Erê: um retrato de algumas de suas práticas


sociais.

No que se refere a algumas práticas dos brincantes do MNE, contextualizadas em


ambientes externos ao CEPOMA, buscamos saber quais locais são frequentados, que
músicas são apreciadas, que estações de rádio são ouvidas, que sites são acessados,
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entre outras questões. As respostas obtidas nos questionários apontaram um norte para
compreensão de algumas práticas sociais dos sujeitos envolvidos com o Maracatu.
Dos quinze participantes, onze realizam atividades extra-CEPOMA, destacando-se as
áreas de esporte e de artes (dança e música). Podemos considerar que estes sujeitos
possuem recursos sociais que os demais não possuem. Contudo, tanto as atividades do
CEPOMA quanto as externas, são permeadas, genericamente, por intenções de
assistência social. Desta forma, o tipo de recurso social adquirido não ultrapassa os
recursos já existentes, pois, embora a “natureza” de algumas atividades seja diferente, no
caso do esporte, elas comungam o mesmo contexto. Com isso, percebemos que os
recursos sociais se apresentam em função do ambiente no qual está inserido.
Em relação às ações realizadas nas horas vagas pelos brincantes, como jogar
bola, ir à praia, brincar na rua, ficar em casa estudando, estão entre as mais comuns
dentre as respostas obtidas. Apenas um dos sujeitos disse frequentar ambientes como
festas, teatros, restaurantes e realizar viagens. Para entender este resultado, retomamos
os dados sociais do sujeito em questão e constatamos que ele não se enquadra no perfil
social dos demais respondentes, pois além de um histórico de acesso ao ensino superior
em gerações anteriores, sua família dispõe de um capital financeiro superior ao dos
demais sujeitos.
Nesse grupo de brincantes de maracatu, quatorze afirmaram ter acesso a internet,
dentre os quais seis o fazem em casa, quatro em lan houses e os demais, em lugares
como casa de amigos ou parentes, escolas e cursos de informática. A maioria dos
participantes demonstrou ter interesse por sites de jogos e de relacionamentos. Tal
prática revela algo em comum entre os sujeitos, visto que, atualmente, a internet é uma
ferramenta de comunicação acessível as mais diversas classes sociais.
Onze participantes responderam frequentar cinemas e sete já visitaram museus.
Em relação a idas ao teatro, apenas um sujeito respondeu nunca ter estado nesse
ambiente. É importante salientar que as idas a teatros e museus foram proporcionadas
pela instituição, conforme as falas que a maioria dos indivíduos empreendeu no momento
em que respondiam o questionário, com exceção de um dos sujeitos, que além de
participar da ida coletiva aos passeios que o CEPOMA promove, realiza outras atividades
culturais com sua família.
O baixo capital financeiro, no caso da maioria dos sujeitos, pode-se apresentar
como impedimento ao acesso a tais espaços. Porém, este não é o único fator. Há a
questão da herança cultural que pode influenciar o interesse em determinadas atividades,
bem como na construção de sentidos de tal prática (BOURDIEU, 2008).
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No que diz respeito ao acesso e à audição musical dos brincantes, na prática,


acontece através de idas a concertos musicais, escuta de estações de rádio, downloads
de arquivos da internet, entre outros. Oito sujeitos informaram frequentar apresentações
musicais, sejam elas pagas ou gratuitas. Dentre os estilos musicais eleitos pelos
participantes, apesar de apresentarem um gosto musical bem variado, o mais citado foi o
brega, bastante difundido na Região Metropolitana do Recife. Para Bourdieu, a
“vinculação a um grupo, como conjunto de agentes que não somente são dotados de
propriedades comuns, mas também são unidos por ligações permanentes e úteis” (2008,
p. 67), corresponde ao conjunto de recursos sociais que ele chama de capital cultural.
Neste caso, acreditamos que o fato de os brincantes elegerem um estilo musical em
detrimento de outro, não está diretamente ligado a fatores econômicos, mas a questões
de grupo, de vivências em determinados ethos, e da influência dos recursos sociais aos
quais têm acesso.

Isso significa que, embora seja relativamente irredutível ao capital econômico e


cultural possuído por um agente determinado ou mesmo pelo conjunto de agentes a
quem está ligado [...], o capital social não é jamais completamente independente
deles pelo fato de que as trocas que instituem o inter-reconhecimento supõem o
reconhecimento de um mínimo de homogeneidade „objetiva‟ e de que ele exerce um
efeito multiplicador sobre o capital possuído com exclusividade (BOURDIEU, 2008,
p. 67).

Noutras palavras, o grupo exerce influência na postura do indivíduo, dotado de um


capital cultural exclusivo, no momento em que há um reconhecimento (de forma
inconsciente) do papel que cada um assume no grupo e da influência dos papéis entre si,
de forma objetiva.
Os grupos sociais influenciam no modo como enxergamos o mundo e interagimos
com as pessoas. Eles se formam mediante a característica do ser humano em
estabelecer vínculos através da identificação e interação com alguém ou alguma coisa.
Nessa perspectiva, quando indagados sobre a influência do MNE em relação ao gosto
musical, oito brincantes afirmaram que a vivência com o grupo percussivo não o
influencia. Em contrapartida, sete sujeitos confirmaram essa interferência. Desses
resultados, podemos constatar que, embora haja uma cisão do grupo ao expressar
opinião acerca da influência exercida pelo MNE sobre seu gosto musical, os dados sobre
estilos musicais preferidos apresentam semelhanças.
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Estilo Sujeitos que afirmaram a não influência do Sujeitos que afirmaram a influência do
musical MNE no gosto musical MNE no gosto musical
Samba 5 4
Brega 7 6
Hip Hop 2 0
Pop 3 3
Funk 4 3
Rock 2 1
Rap 2 1
Forró 1 3
MPB 1 2
Clássica 0 2
Chorinho 0 1
Tabela 3. Cruzamento dos dados: preferência de estilo musical x opinião em relação a influência do MNE na preferência musical.

Noutras palavras, como demonstra a tabela acima, os mesmos sujeitos que outrora
afirmaram ser influenciados pelo grupo percussivo, são os ouvintes do mesmo estilo
musical dos sujeitos que declararam não ser influenciados pelo MNE.
As questões que permeiam os efeitos da aproximação dos sujeitos ao CEPOMA
são, de certo, subjetivas e complexas. Tais indagações sugerem um estudo mais
aprofundado a fim de aferir as “reais” influências da instituição na vida dos indivíduos.
Contudo, tomamos, para esta pesquisa, como ponto de partida, a “fala” dos brincantes e
suas próprias concepções sobre a vivência no CEPOMA. A seguir, trataremos dos
resultados acerca deste imaginário.

● Os brincantes do Maracatu Nação Erê e suas relações e concepções sobre o


CEPOMA.

Com o intuito de compreender quais as concepções dos brincantes acerca de sua


participação no Maracatu Nação Erê, bem como refletir sobre as relações existentes entre
os sujeitos e a Instituição, descrevemos e discutimos, a partir de agora, o último bloco de
dados coletados junto aos jovens do MNE.
A aproximação entre os sujeitos eleitos para este estudo e o Centro de Educação
Popular Maílde Araújo, deu-se por diversas vias. Dos quinze participantes, dez afirmaram
tomar conhecimento das atividades do CEPOMA através de amigos, enquanto quatro
foram levados por parentes (pais, irmão e tia). O fato de a maioria dos sujeitos ter
conhecido a Instituição através de amigos, nos remete à ideia de que há pouco
entrosamento entre os seus familiares e a Instituição. Entretanto, esta interpretação perde
força ao constatarmos que, em outro momento do questionário, quando buscamos saber
a posição dos pais dos sujeitos em relação a sua participação no MNE, a maioria dos
14

jovens respondeu que os pais aprovam e incentivam suas atividades musicais no


CEPOMA.

Frequência
Opinião/posição dos pais
da citação
Me deixam participar 3
Aprovam e me incentivam 9
Me deixam participar;
Aprovam, mas querem que eu
3
me dedique mais à escola;
Aprovam e me incentivam
TOTAL 15
Tabela 4. Opinião dos pais em relação a participação das
crianças e jovens no MNE.

Nessa questão os sujeitos tinham as opções: 1) Eles desaprovam, tenho


problemas em casa por vir aos ensaios e apresentações; 2) Me deixam participar; 3)
Aprovam, mas querem que eu me dedique mais à escola; 4) Aprovam e me incentivam; 5)
Outros9. Mesmo os sujeitos que marcaram três opções da questão, inseriram a alternativa
4) “Aprovam e me incentivam”. Nenhum deles declarou a desaprovação dos pais para
com a atividade.
O posicionamento dos familiares, no tocante a participação dos brincantes nas
atividades do MNE, acaba por influenciá-los a manter, ou não, o contato com o grupo
percussivo. A família, no contexto das práticas sociais, assume o caráter de grande
potencializadora da construção de valores culturais que, internalizados, norteiam a vida e
interferem na dinâmica das relações que estabelecemos em nossa trajetória social, tendo
em vista sua proximidade (afinidade) espacial, econômica, social e simbólica com o
sujeito. Outro fator a contribuir para o acúmulo de capital cultural está na força que o
ambiente exerce em nossas vidas. Sendo assim, o ambiente se constitui como um dos
elementos que influencia a forma como nos comportamos, chamada de ethos, que para
Amossy (2005), a partir dos estudos de Bourdieu, é o “conjunto de princípios
interiorizados que guiam nossa conduta de forma inconsciente” (p. 26).
Constatamos que a maioria dos brincantes participa das atividades de percussão
no MNE há mais de dois anos, porém, dois sujeitos informaram frequentar a instituição há
onze anos. D.M., professora de percussão, relatou participar das atividades há mais
tempo, dezesseis anos e apenas quatro sujeitos se encontram no MNE há menos de seis
meses.

9
Com espaço para descrição da opinião dos pais.
15

As atividades musicais realizadas pelo CEPOMA se mostraram como um forte


atrativo para os participantes de nosso estudo, visto que, quando questionados acerca do
que havia despertado seu interesse em participar destas, crianças e jovens citaram, em
sua maioria, o fato de aprender a tocar, de acordo com as citações a seguir: “...
aprendemos vários instrumentos...”; “... eu queria aprender a tocar maracatu”. Além do
fato de demonstrarem gostar de tocar maracatu: “... por que é bom”; “Por que eu gosto”;
“Por que é legal”. Na Tabela 5, adiante, podemos verificar todas as citações referentes às
razões pelas quais as crianças e adolescentes se interessaram pelas atividades do MNE.

Motivos de interesse citados pelos brincantes Número de Citações


Gostar de tocar maracatu 6
Aprender a tocar 7
Amizades 1
Conhecer outros lugares 1
Aprender outras culturas 1
Outras atividades do Cepoma 1
Não especificou 1
Tabela 5. Número de interesses citados pelos brincantes, em relação ao que despertou vontade de
participar do projeto.

Todos os sujeitos afirmaram gostar de frequentar os ensaios e apresentações do


grupo e dez deles justificaram esse fato por “gostar de tocar maracatu”. Esse “gostar”, nos
remete à ideia de satisfação e identificação com a prática musical, implícita nas
entrelinhas das respostas da maioria dos sujeitos. Citações do tipo “... é divertido”; “eu
gosto...”; “... adoooro dançar e tocar!”; “... eu gosto de tocar, fazer amigos e visitar outros
lugares”; “é animado”, demonstram a existência de tal afinidade para com estas práticas
musicais.
As atividades empreendidas pelo CEPOMA e, mais precisamente, no contexto do
MNE, segundo o relato dos brincantes, contribuíram para mudanças no âmbito
pessoal/social. Em suas falas10, os sujeitos apontaram aspectos como: mudança de
comportamento e na forma de se relacionar com o outro, mudança no modo de ver a
cultura e na obtenção de conhecimento específico. Ideias de maior dedicação nos
estudos e de direcionamento profissional foram citadas apenas uma vez, cada.
Vale salientar que as categorias “mudança de comportamento” e “mudança nos
relacionamentos” interpessoais, foram citadas pela maior parte dos sujeitos. Dez ao todo.
Eles citaram diversas vezes o fato de que, antes de frequentarem o CEPOMA, viviam “na
rua fazendo coisa errada” ou “vagabundando”. Seis brincantes citaram o ambiente “rua”

10
No sentido de conteúdo escrito, em resposta ao questionário.
16

em uma acepção pejorativa, sinônimo de fazer nada, fazer coisa errada, vagabundar. Os
demais sujeitos declararam ter havido uma mudança em seus relacionamentos
interpessoais e fizeram as seguintes citações: “...me ensinou a ser mais compreensivo...”;
“[Influenciou na] Minha socialização...”.
Em relação a tal categoria, podemos dizer que essa se configura como um
elemento que reflete, segundo o dizer dos sujeitos, o significado atribuído a sua
participação nas ações desenvolvidas pelo MNE. A mudança de comportamento, então,
pode estar ligada ao tempo em que o sujeito despende com o grupo percussivo. Dessa
forma, podemos nos remeter, novamente, à ideia de que o aumento no volume do capital
social está atrelado à extensão da rede de relações as quais o indivíduo consegue
mobilizar de forma objetiva e ao ethos (BOURDIEU, 2008). Ou seja, ao considerarem a
mudança de comportamento consequência de sua inserção no MNE, os sujeitos, de
forma inconsciente, afirmam a internalização dos valores e recursos sociais transmitidos
pelo grupo.
Apenas um sujeito citou a categoria mudança no “modo de ver a cultura”. Esta
jovem (D.M.) apresenta características sociais que destoam da maioria dos colegas do
MNE. Como já relatado anteriormente, ela é filha de pessoas que estiveram diretamente
ligadas ao CEPOMA desde sua fundação e tiveram acesso ao ensino superior; frequenta
a Instituição desde os dois anos de idade e hoje faz parte do corpo de funcionários da
mesma como educadora, além de frequentar uma universidade pública. Este capital
cultural acumulado não condiz com o dos demais sujeitos que compartilham, com ela,
vivências do maracatu, pois a forma como a jovem teve acesso a determinados bens
culturais e a extensão de suas aproximações sociais se mostram diferentes dos demais
sujeitos. Para Bourdieu,

o volume do capital social que um agente individual possui depende então da


extensão da rede de relações que ele pode efetivamente mobilizar e do volume do
capital (econômico, cultural ou simbólico) que é posse exclusiva de cada um
daqueles a quem está ligado (2008, p. 67).

Outro aspecto pontuado na fala dos sujeitos, sobre o que mudou com o ingresso ao
MNE, foi o acesso a um “conhecimento específico”, no caso, o toque do maracatu, que foi
citado por três brincantes. Esse conhecimento se torna acessível aos sujeitos na medida
em que apreendem e internalizam as informações que lhes são transmitidas (BOURDIEU,
2008).
O objetivo do trabalho do CEPOMA não é, necessariamente, formar músicos.
Porém, quando indagados sobre sua posição em relação à música, se se consideram
17

músicos/musicistas, treze sujeitos responderam que sim. Os brincantes justificaram suas


respostas com o fato de saberem tocar um instrumento musical.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao final desse estudo, percebemos que a teoria do Capital Social nos proporcionou
uma visão diferenciada sobre educação. Uma perspectiva distanciada da concepção que
tínhamos e que, de certa forma, se mostrava como a solução de problemas sociais, pelo
simples acesso ao espaço pedagógico. Essa teoria nos fez entender que a educação não
é, por si só, um instrumento, por exemplo, de transformação social. Ela, a educação,
mediada pelos espaços educacionais, se mostra um ethos em que os recursos sociais
são trocados entre os agentes numa dinâmica material e simbólica, como acontece em
todos os grupos sociais.
Os grupos sociais não são apenas dotados de propriedades comuns entre seus
agentes, mas de ligações que, segundo Bourdieu, são úteis e permanentes. Entendemos,
por esses termos, a funcionalidade e a frequência de determinado recurso social. Ou seja,
se a troca de recursos sociais acontece numa dinâmica material e simbólica, a obtenção
de recursos sociais é irredutível à relação objetiva de proximidade (física, geográfica) com
espaços educacionais.
Além disso, queremos chamar a atenção para algumas percepções que, ao longo
do estudo, nos inquietaram e motivaram dúvidas no percurso de escrita deste artigo.
Durante a caminhada para o desenvolvimento deste estudo, percebemos que, embora
tenhamos utilizado como embasamento teórico os estudos de Bourdieu acerca do Capital
Social, não tivemos a intenção de emitir juízo de valor em relação às culturas e às
práticas relacionadas à arte, realizadas pelos brincantes. Tal concepção assemelha-se à
defendida por Snyders, quando admite a legitimidade das diversas culturas.

Eu luto em duas frentes: de um lado face àqueles que só veem a descontinuidade


entre a cultura primeira e cultura elaborada, que negam todo prolongamento de
uma na outra e estabelecem um fosso intransponível; e eu luto também contra
aqueles que tendem a confundir cultura primeira e cultura elaborada, aqueles que
não querem reconhecer entre elas diferenças significativas nem na natureza, nem
na qualidade das produções: eles dirão que as histórias em quadrinho, as canções
de consumo, são tão válidas quanto Victor Hugo (SNYDERS, 1981, p. 47 apud
BRAYNER, 1995, p. 29).

Frente a essa perspectiva, percebemos que nossa expectativa quanto às práticas


sociais dos brincantes, relativas, por exemplo, à audição de estilos musicais, se mostrou
uma visão purista. No que diz respeito ao gosto musical dos sujeitos, esperávamos nos
18

deparar com respostas que remetiam a ritmos considerados mais específicos da cultura
pernambucana. No entanto, as respostas sugerem que o acesso a determinados
conhecimentos, mediados por instituições, não são fatores de mudança ou transformação
das práticas sociais dos sujeitos.
Por fim, podemos considerar, a partir dos resultados, que as práticas sociais não
são influenciadas diretamente por uma única via ou um único grupo social, mas pelas
diversas redes de relações sociais das quais se tem acesso. No entanto, por se tratar de
um estudo exploratório, esse trabalho aponta a necessidade de se aprofundar, entre
outros aspectos, as maneiras de aquisição dos recursos sociais e as relações de gênero
nas linguagens artísticas desenvolvidas no CEPOMA.

Referências

AMOSSY, R. Da noção retórica de ethos à Análise do Discurso. In: AMOSSY, Ruth (org.).
Imagens de si no discurso: a construção do ethos. São Paulo: Contexto, 2005. p. 26.

BOURDIEU, P. O capital social – notas provisórias. In: CATANI, A.; NOGUEIRA, M. A.


(Orgs.). Pierre Bourdieu: escritos de educação. 10. Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008, p.
63-69.

BRAYNER, F. H. A. Ensaios de critica pedagogica. Campinas: Autores Associados,


1995.

CARVALHO, L. M. Reflexões sobre o ensino da arte no âmbito de ONGs. In: BARBOSA,


A. M. e COUTINHO, R. G. (Orgs.). Arte/educação como mediação cultural e social.
São Paulo: Editora UNESP, 2009.

GARCIA-MONTRONE, A. V., JOLY, I. Z., GONÇALVES JÚNIOR, L., OLIVEIRA, M. W.,


SILVA, P. B. G. Práticas sócias, o que são? São Carlos: PPGE/UFSCar (material
produzido pelos docentes da disciplina Práticas Sociais e Processos Educativos do
Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Sâo Carlos),
2004.

GASPAR, L. Brasília Teimosa. Pesquisa Escolar On-Line, Fundação Joaquim Nabuco,


Recife. Disponível em: http://www.fundaj.gov.br. Acesso em: 6 nov. 2010.

GOHN, M. da G. Educação não-formal e cultura política: impactos sobre o


associativismo do terceiro setor. 3. Ed. São Paulo: Cortez, 2005.

MINAYO, M.C. S. Ciência, técnica e arte: o desafio da pesquisa social. In: MINAYO, M.C.
S. et al (Orgs.). Pesquisa social teoria, método e criatividade. 17 ed. Petrópolis: Vozes,
2000.

SILVA, C. M. Nação Erê: o maracatu de baque virado no processo de arte educação.


Monografia. Curso de Especialização em Etnomusicologia. UFPE. 2003.
19

SNYDERS, G. Escola, classe e luta de classes. Lisboa: Moraes, 1981.

SOUZA, E. C. de. A presença da educação musical em espaços não-formais: um campo


de possibilidades. Revista Espaço Intermediário, São Paulo, v.I, n.I, p. 33-42, maio,
2010.

RANGEL, A. da S. Desfiliação: um processo ou um status. Revista Proposta, Rio de


Janeiro, n.115, p. 72-76, julho, 2010.
20

Anexo A
21

Anexo B
1.
Universidade Federal de Pernambuco
2.
1. Centro de Educação
Departamento de Psicologia e Orientação Educacionais

QUESTIONÁRIO
Data de aplicação: ____/_____/____
1. Dados pessoais e familiares

1.1) Nome: _______________________________________________________________


1.2) Idade: ____________ 1.3) Sexo: ( ) feminino ( ) masculino
1.4) Bairro que você mora: __________________________________________________
1.5) Estado civil: ( ) solteiro(a) ( )casado(a) ( ) viúvo(a) outros: _______________
1.6) Tem filhos? ( ) não ( ) sim Quantos? _______
1.7) Religião:_________________
1.8) Grau de escolaridade do pai: 1.9) Grau de escolaridade da mãe:
( ) Não frequentou a escola ( ) Não frequentou a escola
( ) Fundamental incompleto ( ) Fundamental incompleto
( ) Fundamental completo ( ) Fundamental completo
( ) Médio incompleto ( ) Médio incompleto
( ) Médio completo ( ) Médio completo
( ) Superior incompleto ( ) Superior incompleto
( ) Superior completo ( ) Superior completo
( ) Outros____________________ ( ) Outros____________________
1.10) Profissão do pai. 1.11) Profissão da mãe.
______________________________ ____________________________
1.12) Profissão do avô paterno. 1.13) Profissão do avô materno.
______________________________ ____________________________
1.14) Profissão da avó paterna. 1.15) Profissão da avó materna.
______________________________ ____________________________
1.16) Você frequenta a escola? ( ) não Por qual motivo? ___________________________
( ) sim Está em que ano (série)? ______________
1.17) Até hoje você estudou em escolas:
( ) Públicas ( ) Privadas ( ) Parte em privada, parte em pública
1.18) Você trabalha? ( ) não ( ) sim
1.19) Aonde? ____________________________________________________________
1.20) Em que função? _____________________________________________________
1.21) Quantas horas por dia você trabalha? _______h.
1.22) Quantas pessoas moram na sua casa? __________________
1.23) Quantas trabalham? ________________
22

2.Você e o Maracatu Nação Erê [CEPOMA]


2.1) Como ficou sabendo das ações do CEPOMA?
( ) amigo ( ) parente ____________ ( ) panfletos ( ) outros ________________

2.2) Há quanto tempo você frequenta os ensaios e encontros do Maracatu Nação Erê?
________________________________________________________________________

2.3) O que despertou o seu interesse pelas atividades musicais do CEPOMA?


_________________________________________________________________________
_________________________________________________________________________
_________________________________________________________________________

2.4) Você gosta de frequentar os ensaios do Maracatu Nação Erê?


( ) sim ( ) não ( ) às vezes Porquê? _____________________________________
________________________________________________________________________
________________________________________________________________________

2.5) Em que momentos você mais gosta de estar com o grupo do Maracatu Nação Erê?
( ) ensaios ( ) apresentações ( ) outros
Qual/quais? ______________________________________________________________

2.6) Que instrumento(s) você toca no Maracatu Nação Erê? ________________________


________________________________________________________________________

2.7) Se você toca mais de um instrumento, de qual você mais gosta? _________________
Com qual você tem mais domínio? ____________________________________________

2.8) Qual a opinião/posição de seus pais ou responsáveis sobre sua participação no


Maracatu Nação Erê?
( ) Eles desaprovam, tenho problemas em casa por vir aos ensaios e apresentações.
( ) Me deixam participar.
( ) Aprovam, mas querem que eu me dedique mais à escola.
( ) Aprovam e me incentivam.
( ) Outro _________________________________________________________________

2.9) O que mudou na sua vida a partir do momento em que começou a participar das
atividades do Maracatu Nação Erê?
_________________________________________________________________________
_________________________________________________________________________
_________________________________________________________________________
_________________________________________________________________________
_________________________________________________________________________

2.10) Você se considera um(a) músico/musicista?


( ) sim ( ) não Por que?
_________________________________________________________________________
_________________________________________________________________________
_________________________________________________________________________
_________________________________________________________________________
23

3. Práticas Culturais

3.1) Como você utiliza seu tempo livre?


________________________________________________________________________
________________________________________________________________________
________________________________________________________________________
________________________________________________________________________
3.2) Frequenta Museu?
( ) sim ( ) não ( ) frequentemente ( ) raramente
3.3) Vai ao Teatro?
( ) sim ( ) não ( ) frequentemente ( ) raramente
3.4) Qual foi a última peça que assistiu?
________________________________________________________________________
3.5) Vai ao Cinema?
( ) sim ( ) não ( ) frequentemente ( ) raramente
3.6) Frequenta locadoras de DVD?
( ) sim ( ) não ( ) frequentemente ( ) raramente
3.7) Qual foi o último filme que assistiu?
________________________________________________________________________
3.8) Você vai à praia?
( ) sim ( ) não ( ) frequentemente ( ) raramente
3.9) Que praia você costuma frequentar?
________________________________________________________________________
3.10) Você costuma ir ao shopping?
( ) sim ( ) não ( ) frequentemente ( ) raramente
3.11) Que shopping você costuma ir?
________________________________________________________________________
3.12) Você costuma ir a shows/concertos musicais?
( ) sim ( ) não ( ) frequentemente ( ) raramente
3.13) Que show você assistiu da última vez?
________________________________________________________________________
3.14) O show foi: ( ) gratuito ( ) pago
3.15) Você ouve rádio?
( ) não ( ) sim
3.16) Se sua resposta foi “sim”, qual ou quais destas rádios você mais escuta?
( ) 103 FM ( ) Rádio Mix FM ( ) Recife FM ( ) Clube FM ( ) Transamérica FM
( ) Jovem Pan FM ( ) Nova Brasil FM ( ) Oi FM ( ) Outra(s)
Qual/quais? ______________________________________________________________
3.17) Você tem acesso à internet?
( ) não ( ) sim
3.18) Se sua resposta foi “sim”, diga em que local você acessa internet.
( ) em casa ( ) lan house ( ) escola ( ) biblioteca ( ) outro(s)
Qual/quais? ______________________________________________________________
3.19) Que sites você acessa na maioria das vezes?
( ) sites de relacionamento
( ) sites de fofoca
( ) sites de bate-papo
( ) sites de ciência e cultura
( ) sites de conteúdo adulto
( ) sites de jogos
( ) outro(s) _______________________________________________________________
24

3.20) Marque com X as opções que você utiliza para ter acesso a músicas:
( ) Compro CD´s
( ) Baixo da internet
( ) Copio de amigos
( ) Outros ________________________________________________________________
3.21) Que gênero musical você mais gosta de ouvir?
( ) Samba ( ) Forró ( ) Brega ( ) Mpb ( ) Pop ( ) Rock ( ) Clássica/Ópera
( ) Chorinho ( ) Funk ( ) Instrumental ( ) Outro ___________________________
_________________________________________________________________________
3.22) Seu gosto musical foi influenciado pelo contato com o Maracatu Nação Erê?
( ) não ( ) sim
3.23) Se sua resposta foi “sim”, escreva abaixo que tipo de música você ouve hoje,
influenciado(a) pelo Maracatu Nação Erê.
_________________________________________________________________________
_________________________________________________________________________
_________________________________________________________________________
3.24) Você frequenta outras atividades ou grupos fora do CEPOMA?
( ) não ( ) sim De que tipo? ( ) musicais
( ) teatrais
( ) dança
( ) esportivas
( ) outras Qual/quais? ___________________________
________________________________________________________________________