5 - O Ocidente Carolíngio: A Europa nos Séculos VIII e IX

(Pág. 140 do livro) A EMERGÊNCIA DE UMA DINASTIA Na década que se seguiu à batalha de Tertry em 687, Pepino de Heristal, prefeito do palácio do reino franco, estendeu o domínio até à Frísia. Na esperança de consolidar a sua conquista pela extensão da religião cristã a esses territórios, Pepino enviou a Roma o monge Willibrord, onde o papa o investiu como metropolita. A abertura de Pepino a Roma iniciou uma nova política: a aliança da monarquia franca com o papado. A Pepino sucedeu o seu filho Carlos Martel, que prosseguiu o relacionamento com Roma e as missões como parte de uma política de extensão da sua influência para leste do Reno. O monge beneditino da Saxónia ocidental Wynfrith evangelizou com algum sucesso a Germânia e o papa Gregório II, que lhe atribuiu o nome de Bonifácio, encarregou-o da conversão dos germânicos que viviam a leste do Reno. A missão de Bonifácio seguida, mais tarde, do trabalho de Alcuíno na corte de Carlos Magno, seria o culminar dos missionários do norte da Inglaterra no império franco: foi nomeado arcebispo de Mainz e criou alguns mosteiros, o mais famoso dos quais foi o de Fulda na Germânia central. A sua organização episcopal a leste do Reno precedeu a incorporação formal dessas áreas no reino franco, já sob o domínio de Carlos Magno. Carlos Martel não era um instrumento da Igreja e utilizava as terras desta, que tinham sido na sua grande maioria doadas pelos réis, para financiar a sua organização militar. Os seus filhos Pepino o Breve e Carlomano estavam mais receptivos à persuasão de Bonifácio, que se serviu da sua influência junto destes para reorganizar a Igreja franca, tendo sido fundamental no fortalecimento dos laços francos com Roma.

A REVOLUÇÃO DE 751 Em 747 Carlomano retirou-se para um mosteiro, deixando a prefeitura a Pepino, que à semelhança dos anteriores prefeitos do palácio, exercia a autoridade de vice-reis sobre o reino. Como o papa Zacarias II defendia que aquele que exercesse o poder de facto deveria ser o soberano, pensa-se que Bonifácio ungiu Pepino como rei em 751. A nova dinastia seria mais tarde chamada “carolíngia”, segundo Carlos Magno, o maior rei que ela produziu. A ajuda do papa teve, porém, um preço, já que Pepino passou a maior parte do seu reinado em Itália a
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combater os inimigos do papa, os lombardos, o que Carlos Martel tinha recusado fazer. As suas conquistas foram entregues ao papado pela Doação de Pepino, cujo texto original não sobreviveu; é mencionado na Vida do Papa Estêvão II, sendo confirmado por Carlos Magno. Inspirou uma das mais notáveis falsificações da Idade Média, a Doação de Constantino, que foi escrita na corte papal antes de 800. Este texto alega que o imperador Constantino, antes de partir para Constantinopla, doou Roma, os palácios em Latrão e todo o Império ocidental ao papa Silvestre I, afirmando que nenhum governante secular era indicado para governar o trono da fé cristã. A implicação clara era que, através da doação do imperador, a Igreja tinha autoridade legítima na Europa ocidental, possuindo o poder de decidir quem exerceria esse cargo. A Doação de Constantino teve pouco impacto a nível prático.

A CARREIRA DE CARLOS MAGNO Com a morte de Pepino em 768, o reino foi dividido pelos seus filhos rivais Carlomano e Carlos, que entraram em guerra que só terminou com a morte de Carlomano. O reinado de Carlos Magno estabeleceu padrões governativos, relações políticas e culturais que iriam dominar a Europa durante séculos. Embora a unificação da Europa sob um só rei constituísse um feito pessoal que sobreviveu apenas uma geração após a sua morte, a transformação que ele fez das instituições locais permaneceria, sob diferentes formas, ao longo de toda a Idade Média. Como ninguém conseguia governar contra os nobres, Carlos Magno recompensou-os ricamente com os despojos das conquistas, pois ao longo dos anos 790 efectuou várias campanhas militares. Normalmente nomeava francos para os cargos elevados, germanizando, a pouco e pouco, a nobreza europeia, mas não fez qualquer tentativa para impor uma lei uniforme e, com excepção para os saxões, respeitou os costumes dos povos que conquistou. Fomentou o estudo e fez que tanto os seus filhos e filhas fossem educados nas artes liberais. Aprendeu a ler e a compreender o latim e o grego, mas nunca aprendeu a escrever. Carlos Magno casou-se quatro vezes e teve numerosas concubinas e filhos ilegítimos. Ele e Carlomano casaram-se com filhas de Desidério, rei dos lombardos, mas Carlos Magno repudiou a sua mulher quando Desidério recebeu a viúva e os filhos de Carlomano na sua corte. Em 774 Carlos Magno apropriou-se do reino e coroou-se a si próprio rei dos lombardos. As campanhas militares de Carlos Magno tiveram resultados mais duradouros no norte. Como os francos já tinham hegemonia na Germânia, a leste do Reno, desde a época de Carlos Martel, ele apenas formalizou a conquista, estabelecendo bispados, um ducado e a organização por condados entre o Reno e o Elba. Carlos estabeleceu uma Linha Militar de Leste na fron2/160 Capítulo 5

teira leste da Baviera, que mais tarde seria o núcleo do ducado da Áustria e aniquilou o reino dos Avaros no sudeste da Europa. No norte da Germânia os saxões, pagãos, tinham sempre resistido aos francos, apesar de Carlos Magno ter realizado contra eles campanhas militares entre 772 e 804. De todas as vezes que regressava, os saxões revoltavam-se e voltavam à antiga religião.

A COROAÇÃO IMPERIAL DE 800 E A MONARQUIA TEOCRÁTICA Carlos Magno manifestou uma grande preocupação em proteger as igrejas, os seus funcionários e as suas propriedades: as igrejas recebiam um décimo da propriedade, do trabalho e de todos os tributos que chegassem ao tesouro real. Governou uma área mais vasta do que qualquer príncipe desde os imperadores romanos, mas o imperador bizantino, cuja ortodoxia era suspeita por causa da questão iconoclasta, era o senhor temporal da cidade de Roma. O papa Leão III mostrou-se incapaz de controlar os turbulentos nobres de Roma, acabando por ser preso. Pediu então a ajuda de Carlos Magno que, como rei dos lombardos, era o mais poderoso príncipe de Itália. Carlos Magno foi a Roma, onde convocou um sínodo que ilibou o papa dos crimes de que o acusavam. Talvez como paga, Leão III coroou Carlos Magno em Roma no dia de Natal de 800: ao erguer-se depois das preces matinais colocou-lhe a coroa sobre a sua cabeça, declarando-o imperador e Augusto. Embora existam discrepâncias cronológicas nos registos, nenhuma fonte contemporânea declara francamente que Carlos Magno estivesse descontente com a coroação. Nessa altura estava a negociar o casamento com a imperatriz bizantina Irene e é provável que Leão o tenha coroado para os afastar, fortalecendo a sua posição no Ocidente. Na verdade a negociação falharam e as relações francas com Constantinopla só seriam normalizadas momentos antes da morte de Carlos Magno. A Vida de Einhard, que foi escrita após a morte de Carlos Magno, alega que o papa surpreendera o rei com a coroação imperial. Carlos aproveitou-se da situação pois, em 802, repetiu a coroação imperial em Aachen, tirando, desta vez, a coroa das mãos do sacerdote e colocando-a sobre a sua própria cabeça. Assim, proclamava implicitamente que tinha recebido o poder imperial directamente de Deus e não através do papa. Os historiadores têm conferido um considerável significado simbólico ao processo da coroação imperial. Quando os seus netos dividiram o reino, a parte do mais velho incluiu Roma e o título imperial, que acabou por se extinguir em 924. O impacto da coroação nos contemporâneos de Carlos Magno foi nebuloso: ele não deu a Carlos Magno mais nenhuns direitos. Alguns historiadores fazem notar que os decretos legislativos de Carlos Magno depois de 802
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com alguma extensão. desse modo. um princípio que acabaria por se tornar o modelo para toda a Europa. e essa mudança pode reflectir tão somente o facto de ele estar a envelhecer e querer. ordenou que cada rapaz com mais de 12 anos de idade jurasse a mesma fidelidade para com ele enquanto imperador que tinham jurado anteriormente enquanto rei. Através da sua Admonição Geral. Os oficiais da casa real tinham posições de poder pessoal mas ainda não institucional: a figura dominante tanto podia ser o chan4/160 Capítulo 5 . Embora os governantes francos tenham colaborado com o papa desde o tempo de Pepino de Heristal. mas não adoradas. assegurar a sua salvação. Enquanto governador nomeado por Deus. Carlos Magno estava profundamente interessado na teologia. A ordem indica.demonstram maiores preocupações com os assuntos religiosos do que os anteriores. contendo o que seria a posição ocidental: as imagens deveriam ser veneradas. O GOVERNO NA ÉPOCA CAROLÍNGIA Carlos Magno normalizou o Governo franco e efectuou consideráveis avanços na Administração. Mais de metade das cláusulas da directiva dizem respeito à disciplina da Igreja e à atitude dos laicos para com ela. e muitos das suas capitulares estavam preocupadas tanto com a manutenção das obrigações para com Deus como para com o rei ou. uma doutrina semelhante à heresia nestoriana: os adopcionistas alegavam que Cristo era humano no momento do seu nascimento. o que essa fidelidade significava: que todos viveriam sob a lei de Deus. mas o elemento teocrático nunca esteve ausente antes. o imperador. Manifestou grandes preocupações com a iconoclastia: o sínodo de Frankfurt promulgou os Livros Carolíngios. mas os protectores dos papas entre meados do século IX e meados do século XI foram os reis germânicos. que tinha funções militares. o último carolíngio com suficiente poder para ser mais do que um mero auxiliar foi Carlos. os reis capetos iriam reavivar a aliança papal como parte do seu esforço para se ligarem aos lendários carolíngios. mas que fora adoptado por Deus Pai. O Governo estava centrado no palácio do rei. O conde do palácio presidia à corte e aos outros oficiais. com a missão de proteger o povo cristão e de espalhar e salvaguardar a fé. Em 802. Existem razões para apelidar Carlos Magno de rei teocrático. Alguns oficiais do palácio executavam mais do que os simples deveres domésticos. No século XII. como era o caso do condestável (conde do estábulo). Na tradição de Constantino. tais como o senescal (que estava encarregue da mesa real) e os vários camareiros. mais tarde. o Calvo. Ele via-se como um delegado de Deus. presidiu aos sínodos da Igreja. Este sínodo também anatematizou o adopcionismo. Carlos Magno tentou regular normas de comportamento.

O conde era nomeado pelo rei. era já uma figura importante. o sucessor de Carlos Magno.celer. Muito do impulso dado ao aumento de registos escritos deve-se ao facto de Carlos Magno pretender saber qual o serviço militar que lhe era devido. o poder temporal da maior parte dos bispos estava confinado às civitas. A maior parte dos documentos que sobreviveram até aos nossos dias dizem respeito às relações do governante com os magnatas laicos e eclesiásticos. Era uma unidade de terra de dimensões variáveis. Segundo a legislação de Carlos Magno. que aparece pela primeira vez em fontes do século IX. No período de Carlos Magno existiam perto de 200 a 250 condados no reino franco. enquanto cada doze mansos deveriam dar um homem de cavalaria. um território mais pequeno do que a civitas. convocava a assembleia do condado em nome dele. recursos reais. mandou compilar para Inglaterra. O chanceler era um funcionário da capela real de Carlos Magno. e deveriam ter a presença de todos os proprietários do condado. o senescal ou o conde do palácio. Carlos Magno e os seus sucessores tinham de confiar nos poderosos senhores locais e nas suas redes de clientes. As assembleias do condado reuniam-se todos os quatro meses no Império Carolíngio. mas na época de Luís. O rei era um líder militar itinerante. o poder dos condes estava frequentemente centrado no pagus. Por volta do século VII. mas ainda inadequados. dos quais sobrevivem apenas fragmentos. o Pio. No norte. dependendo das suas personalidades e das relações que mantinham com o rei. pelo que encorajava os abades a fazerem listas das suas terras e das obrigações dos seus arrendatários e. apesar de este período ter assistido a grandes desenvolvimentos na manutenção de registos. O manso era um território correspondente ao lote inglês e ao germânico Hufe. todos os seis meses na Inglaterra. As assembleias militares anuais também eram ocasiões em que o rei consultava os magnatas. obtinha a indicação das somas que estes tinham de pagar para cumprir a sua obrigação militar. ficava com uma percentagem das taxas tributadas e controlava os tributos militares do seu condado. Abaixo Capítulo 5 5/160 . Carlos Magno tentou fazer do manso uma unidade de percepção militar e talvez mesmo de percepção fiscal. que são comparáveis ao Livro do Julgamento Final que Guilherme o Conquistador. dentro das muralhas da cidade. cada quatro mansos eram obrigados a fornecer um homem de infantaria ao Exército real. Num período de fracas formas de comunicação e de crescentes. enquanto os condes governavam no exterior. cujo jugo era suficiente para sustentar uma família. apenas para ser substituído pelo xerife no século XI. Era semelhante ao lorde anglo-saxónico. pelo que pouco sabemos da corte de Carlos Magno para além dos títulos dos seus principais oficiais. A chancelaria de Carlos Magno emitia ordens administrativas chamadas capitulares (organizados sob capitula). destas. A Europa do século IX passou a ter registos de posse de terras e de lucros.

subordinados dos duques. em grande parte. presidido por um vigário ou por um homem do cento. era-lhe devido serviço laboral de todos os homens livres em pontes. sobrepondo-se aos condes. um laico e um clérigo. da Neustria e da Burgúndia. Este período é justamente conhecido como a Renascença Carolíngia e foi um genuíno renascer. que tinham sido francas no período merovíngio. a uma clara transformação de atitude na corte real. cujas funções eram militares. Na Aquitânia e nas zonas da Germânia recentemente conquistadas os condes eram. em larga medida.da assembleia do condado existia a assembleia do vicariato. colectas e tributos. devido. Carlos Magno ordenou que pelo menos uma pessoa que soubesse ler e escrever latim estivesse ligada a cada assembleia. onde quer que a sua corte itinerante aparecesse. Ao rei também se devia hospitalidade. O seu número aumentou para quatro com o neto de Carlos Magno. apenas através deles podia realizar o seu objectivo de cristianizar a Europa. serviços laborais e os lucros da justiça. portagens. pago por aqueles que não prestavam serviço militar. A propriedade pessoal do governante era o domínio real. O rei também obtinha rendimentos ocasionais da «oferta pública» dos magnatas e das igrejas. Dele o rei retirava rendas em géneros e em dinheiro. Houve um súbito aumento da actividade criativa nos finais do século VIII e princípios do IX. e que se reunia de quatro em quatro semanas. O poder do real era ainda essencialmente pessoal. As estruturas básicas pelas quais a Europa seria governada durante séculos. pois. Pepino e Carlos Magno dispensaram muitos dos seus apoiantes de alguns impostos e ofereceram terras à Igreja. tomaram a sua verdadeira forma no período de Carlos Magno e. tanto laicas como clericais. Uma preocupação de Carlos Magno dizia respeito a um clero letrado. para verificar as actividades dos condes. Reis anteriores já tinham utilizado missi (emissários) para supervisionar os seus interesses locais. que correspondia aos cem em Inglaterra. em geral. estradas ou fortificações. já que Carlos Magno esperava recriar a Roma cristã. serviço militar público e impostos de terras e do heribannum. Circulavam apenas nas áreas centrais da Austrásia. Embora a pretensão de conseguir 6/160 Capítulo 5 . pois praticamente toda a actividade criativa desde o século XI resultava do apoio e incentivo das autoridades. mas já não era somente o «primeiro entre iguais» no grande conjunto de aristocratas. no do seu filho e netos. Em 802 Carlos Magno regularizou esta prática na Capitular sobre os Missi e enviou dois. A RENASCENÇA CAROLÍNGIA A atitude pessoal do governante era de suprema importância na vida intelectual medieval. Carlos o Calvo. Tal como em Inglaterra.

Nos juramentos de Estrasburgo. No início do século IX assistiu-se a uma explosão de escrita epistolar neoclássica. de forma a poderem ser compreendidos. Grande parte das obras romanas que mais tarde se encontraram eram cópias carolíngias. este modelo foi sendo adoptado e hoje é Capítulo 5 7/160 . é uma escrita arredondada e legível. As letras eram muitas vezes feitas de linhas separadas. após o declínio na época merovíngia. Luís o Germano. a verdade é que deu ordens a cada bispado e mosteiro para manterem escolas e darem instrução a todos os que a desejassem. juraram. estabeleceu a missa de acordo com o ritual romano. Impulsionou a escola palaciana. o panegírico do mecenato constitui uma excepção que foi sempre defendida. Alcuíno de Iorque. anteriores ao século VIII. as palavras eram colocadas pegadas umas às outras e as ligações e abreviaturas eram comuns. mas a escrita deveria ser deixada para os homens adultos. que depressa foi imitado pela maioria dos copistas da Europa continental. sobretudo. o que constitui um tributo aos copistas carolíngios. sobretudo no norte da Bretanha.uma literacia massiva seja exagerada. com alguma pontuação. Também se compôs alguma poesia latina bastante boa. divisões claras entre palavras. As regras de ortografia e de gramática latina foram regularizadas na escola palaciana. Os romanos tinham utilizado maiúsculas nas suas inscrições mais formais e nos manuscritos. uma mistura de maiúscula com minúscula. houve um declínio catastrófico na qualidade da escrita. Gramática e Retórica. A influência de Alcuíno transcendeu esta escola. Alcuíno restituiu-lhes um lugar de honra na escola palaciana. Embora as cortes da Europa germânica não fossem reconhecidas por apoiarem a literatura. O estudo das sete artes liberais tinha sido proibida nas escolas episcopais desde os finais do século VI. para os outros casos. Conhecido como o carolino minúsculo. Assumindo que os romanos tinham escrito dessa forma. A Idade Média Central e a Baixa Idade Média deram lugar à escrita angular e mais apertada a que os modernos chamam ou gótica. Na época de Carlos Magno começou a praticar-se um estilo particular na abadia de São Martinho de Tours. que se tornou a liturgia padrão no reino. e tinham uma «meia-uncial». cada um na língua vernácula do outro. compensando em frescura e originalidade de expressão o que lhe faltava em profundidade: na verdade. uma vez que outras cedo a imitaram. A Renascença carolíngia está associada também à reforma do estilo de escrita. As escolas carolíngias ensinavam. os seguidores dos netos de Carlos Magno. alguns manuscritos começaram a ser escritos de uma forma mais legível. Na Gália germânica e na Itália. Alcuíno foi. Ordenou que os rapazes aprendessem a ler. abreviaturas normalizadas e poucas ligações. e Carlos o Calvo. dirigia grande parte das energias criativas para o galanteio. sobretudo no século IX. para a dirigir. trazendo o maior intelectual da época. é o mais antigo exemplo do francês vernáculo. talvez. No início do século VIII. o responsável pela sugestão de uma coroação imperial de Carlos Magno.

Carlos Magno era um modelo difícil de seguir. nomeadamente o touro. praticamente todos os governantes ordenaram que os seus feitos fossem colocados por escrito. a partir desta altura. Algumas tinham fachadas maciças. mas com uma total ausência de perspectiva. tinha enfatizado os desenhos geométricos abstractos e as iluminuras do século VII apresentam desenhos de animais extremamente realistas. A arte carolíngia representa um avanço substancial. Os edifícios de estilo romano também aparecem nas pinturas carolíngias. Carlos o Calvo (840-877). Todavia. os humanos são muitas vezes vistos em estruturas mais pequenas do que eles. Esse estilo foi adoptado pelos tipógrafos italianos e da Europa ocidental. a partir do período carolíngio. Os escritos históricos diversificaram-se depois da morte de Carlos Magno e. muitas vezes representadas em trajes romanos e sempre de uma forma estilizada e simbólica. como símbolos de três dos quatro evangelistas (Mateus. no lado oeste. Um aspecto de originalidade era o ênfase na forma como as igrejas ocidentais terminavam. em qualidade e quantidade. Carlos Magno compreendeu que as obras escritas podiam vir a servir os propósitos da sua dinastia. era a única concessão à Humanidade). normalmente interseccionada com um transepto e com arcos arredondados. mais conhecido por o Pio. O clima intelectual era também particularmente benéfico na corte do neto de Carlos Magno. a arte passou a utilizar cada vez mais figuras humanas. sobretudo em joalharia. por torres gémeas. OS ÚLTIMOS CAROLÍNGIOS Carlos Magno sobreviveu a todos o filhos excepto a um: Luís. juntamente com as crónicas mantidas nas abadias que ele apoiava. simbolizado pelo homem. de tal forma que levou a que alguns falassem de duas renascenças carolíngias. Os estilos nas artes plásticas também se alteraram.conhecida como «humanista». embora a impressão em gótico fosse mais utilizada na Germânia. Os Anais Reais Francos. O período carolíngio também testemunhou um renascimento no design da arquitectura romana. constituem um registo inestimável dos feitos do rei. extremamente adornadas. o leão e a águia. enquanto outras tinham a nave central flanqueada. A arte da Alta Idade Média. O mecenato real das artes continuou depois de Carlos Magno. um irlandês que era um dos poucos europeus do Ocidente que sabiam grego. já que o realismo estava confinado à mensagem teológica. Se bem que certos aspectos do seu reinado possam ser comparados ao do seu pai. Em 8/160 Capítulo 5 . onde se notabilizou João Escoto Erígena. em relação aos seus antecessores. Os carolíngios utilizavam a forma de basílica. sobretudo à medida que as dificuldades se acumulavam.

ficou conhecido como Lotaríngia. por sua vez. em 870. exigindo que ele fosse incluído. Embora antes da morte de Carlos Magno nada sugerisse a magnitude do problema que se seguiu. no reino Franco de leste. a sua segunda mulher. e o título imperial. enquanto a Flandres e depois a Normandia e a Bretanha eram condados com origem em domínios fronteiriços carolíngios. Mais tarde. Este incluía os Países Baixos. Era um soldado hábil. constituída pelo noroeste da Germânia e o sul dos Países Baixos foram para Lothair II. que teve mais sucesso do que outros reis do seu tempo na luta contra os invasores. Capítulo 5 9/160 . deixando o título imperial para o mais velho. o reino de Lothair foi. Os ducados da Burgúndia e da Aquitânia remontam a unidades políticas existentes no período merovíngio. Luís o Pio aceitou em 816 a coroa imperial das mãos do papa. derrotando os escandinavos em 891. Judite. Provença e Lombardia. depuseram Luís e exilaram a madrasta. forçaram Lothair àquilo que viria a ser o delinear de um acordo duradouro: Luís ficou com a maior parte da Germânia. O Reino Central era uma impossibilidade política. A parte norte. A incapacidade de Carlos o Gordo em proteger o seu reino dos escandinavos levou a que os magnatas francos o depusessem em 888. O Império de Carlos Magno foi brevemente reunificado por Carlos o Calvo e depois por Carlos III o Gordo. Carlos com a maior parte da França e Lothair com o Reino Central. no qual dividiu o reino pelos seus três filhos. sofrendo os ataques muçulmanos. Carlos e Luís uniram-se contra Lothair. O sul da Gália permaneceu como uma área de fronteira.793 os escandinavos tinham atacado a costa norte de Inglaterra. o reino foi dividido em três (um dos filhos tinha. Em 817 emitiu o Ordenamento do Império. Em 855. O seu filho e sucessor. No entanto. a Burgúndia e a Itália até Roma. sendo dividido pelos seus tios. sendo o último carolíngio a ser coroado imperador. entretanto. o filho mais velho. as sucessivas divisões e recombinações tinham feito do sul do Reino Central e de partes do oeste um ducado da Burgúndia e reinos separados da Burgúndia. Quando o rei morreu. os filhos mais velhos colocaram-se à frente de uma coligação de monarcas dissidentes. deu à luz um filho. Os reis ficavam enredados nas lutas políticas do papa em Roma. Durante o século IX e início do século X estabeleceram-se os maiores principados territoriais francos. Em 829. Luís o Menino. No Tratado de Verdun. filho de Luís o Germano. em 810 a Frísia foi saqueada pelos dinamarqueses. dividido em três. que sucedeu aos seus irmãos na Germânia e na Lotaríngia e aos seus primos na França. que governou até à sua morte. Por volta do início do século X. o Gordo sucedeu. Carlos o Calvo. o último rei carolíngio da Germânia. depois da sua morte. morrido). o seu sobrinho Arnulfo. A Carlos. morreu em 911 sem deixar herdeiros.

fizeram da região uma presa fácil para os ataques navais. os magiares atacaram o norte da Itália até à Burgúndia. OS ESCANDINAVOS E O IMPÉRIO CAROLÍNGIO As lutas internas entre os descendentes de Carlos Magno são por vezes dadas como responsáveis pelo sucesso dos ataques viquingues à Europa. Os suecos tinham fundado o principado de Kiev e os dinamarqueses atacavam a Inglaterra e a costa da Escócia. A actividade muçulmana tinha aumentado no Mediterrâneo: a Sicília e partes do sul da Itália foram ocupadas e a costa mediterrânica da França foi constantemente atacada. Os noruegueses atingiram a Islândia. Uma segunda vaga de escandinavos dirigiu-se para ocidente nos finais do século X. a 10/160 Capítulo 5 . a Irlanda. No século V os magiares tinham-se deslocado para o sul da Rússia. o País de Gales e a Escócia ocidental. e no século IX foram empurrados para ocidente pelos pechenegas e depois pelos búlgaros para a Hungria. A costa da Islândia foi colonizada pelos noruegueses a partir dos finais do século IX. enquanto os dinamarqueses concentravam a sua actividade nos Países Baixos e ao longo do Sena e Somme. Por volta de 930 já tinham estabelecido uma assembleia geral. a Althing.AS NOVAS INVASÕES O desmantelamento do Império de Carlos Magno foi intensificado em todo o lado pela crescente pressão vinda de fora da Europa ocidental. No continente. com rios facilmente navegáveis pelas pequenas embarcações viquingues. enquanto outros se estabeleceram na Gronelândia. Os primeiros ataques não tiveram consequências significativas porque os viquingues se limitavam a atacar. Mas os factos não são assim tão simples. A geografia da Europa do noroeste. os noruegueses atacaram a Bretanha e os territórios ao longo do rio Loire. Embora o continente europeu tenha sido poupado a este grupo. A ISLÂNDIA O mais duradouro colonato escandinavo além-mar foi o da Islândia. retiraram-se e estabeleceram-se permanentemente na Hungria. eles atacaram a Inglaterra ajudados pela numerosa população escandinava que já aí se encontrava. Daí. Depois de o imperador germano Otão I os ter derrotado no rio Lech. alcançando a margem leste da América do Norte por volta do ano 1000. Os viquingues eram bastante móveis e o facto de atacarem pelo mar fazia que fosse extremamente difícil preparar uma defesa eficaz contra eles.

Outros identificam-no com a descentralização da função governamental. Alguns definiram o feudalismo de uma forma muito lata. As relações feudais desenvolveram-se gradualmente desde o final dos períodos merovíngio e carolíngio. viria a ser chamada Normandia. Eduardo o Mais Velho. enquanto a Germânia não feudal e a Itália se dividiram em numerosos principados. O padrão alterou-se quando os dinamarqueses saquearam Rouen e Paris e. Depois de 880. a pouco e pouco. deixando pequenos contingentes de homens para guardar as conquistas enquanto os Exércitos principais se moviam para o interior. pois o «feudalismo» sugere mais rigidez do que aquela que alguma vez esteve presente. O seu filho. enquanto Alfredo ficou com a Mércia ocidental e a área a sul do rio Tamisa. o chefe dinamarquês converteu-se ao Cristianismo e os dois reis partilharam a Mércia: Os dinamarqueses ficaram com o leste que. mas ele conseguiu recuperar. uma vez que «feudalismo» é uma palavra moderna que não era utilizada na Idade Média. acabando por obter uma vitória decisiva em Edington. É aplicado pelos marxistas e por alguns políticos capitalistas em relação a um regime económico ou político que é considerado aristocrático ou opressivo. A utilização da expressão «relações feudais» parece preferível.saquear e a partir novamente. Muita desta confusão é originada pela abordagem «tudo ou nada» de alguns historiadores. mas as fontes pouco Capítulo 5 11/160 . mas isso ignora o facto de aqueles países onde os laços feudais estavam mais desenvolvidos. A GÉNESE DAS RELAÇÕES FEUDAIS NA EUROPA DA BAIXA IDADE MÉDIA O termo «feudalismo» tem dado origem a grandes controvérsias entre os estudiosos. viria a ser chamado Danelaw. se terem tornado estados centralizados. a França e a Inglaterra. Passaram então a atacar deliberadamente os grandes centros. os Escandinavos permaneceram mais a sul. foram permanecendo ao longo do ano. No início de 878 os dinamarqueses derrotaram-no. OS ESCANDINAVOS E A EMERGÊNCIA DE UMA MONARQUIA INGLESA Em 874 os dinamarqueses conquistaram os reinos Anglo-Saxões e só o Wessex de Alfredo o Grande restou como reino inglês independente. no início do século XI. Mais tarde. Edgar o Pacificador (944-975) foi o primeiro a intitular-se rei de Inglaterra. Com a paz de Wedmore. Outros preferem evitar completamente o termo. juntamente com a Nortúmbria. onde ocuparam gradualmente a área do noroeste da França que. Embora alguns senhores feudais compilassem listas dos seus arrendatários. nunca existiu um «sistema» feudal. que inclui os laços não honrosos entre o servo e o senhor das terras. conquistou a Mércia dinamarquesa.

acrescida à dos seus descendentes. que obedecia a condições de posse bastante diferentes das propriedades não feudais. devia obrigações de honra. Quando os registos começam. a vassalagem começou a perder gradualmente o seu cunho de dependência na Europa. a oeste do Reno. A palavra latina vassalus é uma transliteração do céltico gwas (criado). Uma vez que o serviço honrado era a via mais segura para o avanço social. era antes uma situação onde uma das partes. uma relação militar do estilo dos laços feudais. nos finais da Europa romana e germânica. a parte subordinada. se tornou dependente de um senhor nobre. durante toda a sua vida. nomeadamente serviço militar. A utilização da palavra sugere um elo entre a suserania local galo-romana e a vassalagem medieval. os clientes romanos não mantinham. O feudo era uma relação de propriedade entre o vassalo e o senhor. mais frequentemente. em troca do pagamento de rendas em dinheiro. A parte menor perdia o seu estatuto com este estado de coisas. A vassalagem era um laço pessoal entre um homem e um senhor. Na Germânia. o latim e as línguas vernáculas tinham palavras para vassalo e feudo. O vassalo. Os camponeses que se 12/160 Capítulo 5 . nomeadamente o Estado romano.dizem até aos séculos XI e XII. as relações de dependência serem normais em todos os níveis sociais. durante os séculos V e VII. dando-lhe usualmente as suas terras e recebendo-as de volta depois. Os vassalos que mantinham feudos não eram sustentados directamente pela casa do senhor e deveriam utilizar os lucros das propriedades para pagar os custos das suas obrigações de vassalagem. claramente inferior. mas a vassalagem desenvolveu-se num laço mais honorífico. o que não se passava com a vassalagem feudal. ele era um «homem livre numa relação de dependência». A confusão sobre o estatuto dos vassalos reflecte o facto de. continuou a denotar uma pessoa de baixo estatuto. Na linguagem dos textos da época. em género e/ou trabalho por um período de anos ou. VASSALAGEM Há quem encare o sistema romano de clientes como a origem do laço feudal. no entanto. que não comprometiam o seu estatuto social. O sistema de clientes era um sistema de servidão. no qual uma pessoa previamente livre se entregava a um senhor. Apesar de a palavra feudalismo não existir. mostram que os laços feudais tinham vindo a evoluir em muitas partes da Europa. os componentes necessários do vínculo feudal. A distinção faz parte da natureza das obrigações em que incorria a parte menor. em princípio. que a protegia e a representava nas relações com as autoridades mais elevadas. Embora isto possa ter sido verdade. que desenvolvia características particulares diferentes de quaisquer outros compromissos.

A Igreja desempenhava um grande papel no desenvolvimento legal do feudo. A igreja continuava. Através da precaria pela palavra do rei. a deter a posse da propriedade. que era mantido em propriedade directa. alienar a sua propriedade sob qualquer razão. O FEUDO Os reis merovíngios tinham dado terras às igrejas. como tal. pois a vassalagem tinha-se transformado numa relação honrosa. estas concessões chamavam-se precaria. tendo sido também generosos para com os magnatas laicos. não eram honradas de acordo com o sistema de valores da época. Carlos Magno assumiu o compromisso de fazer que as igrejas detivessem «precaria pela palavra do rei». mas permaneciam como propriedades da Igreja. aos senhores perdiam estatuto. assim. por mais vantajosa que fosse. garantindo direitos. desde que o seu detentor desempenhasse determinados serviços. quando os gwas se tornaram «vassalos» no século VIII. tornando possível o desenvolvimento do feudo. reforçavam o seu próprio estatuto aumentando o número dos seus dependentes. O benefício (que mais tarde foi. A Igreja não podia. Se. a si e às suas terras. pois as suas obrigações. geralmente. concedia o uso da terra como um «favor» (beneficium) em resposta às «preces» (preces) do beneficiário. segundo a lei canónica. Para pagar as suas guerras. continuou a ser a forma dominante de posse de terra no sul da Europa romana e nas áreas do norte que não faziam parte do reino franco antes do tempo de Carlos Magno. esta estava a tornar-se cada vez mais honorífica. o benefício ficou associado ao serviço militar para com o monarca. Na Capítulo 5 13/160 . sobretudo o serviço laboral. Estas terras deviam serviço militar ao rei. em princípio. A prática propagou-se então para terras que não eram propriedade da Igreja.«entregavam». também se testemunhou uma alteração na natureza das guerras e das obrigações militares. A ORGANIZAÇÃO MILITAR DA EUROPA FRANCA Da mesma forma que no século VIII se assistiu na Europa ocidental a uma mudança nas leis da terra. chamado feudo) era uma propriedade condicional. todavia. Os seus senhores protegiam-nos e. causando a oposição de uma organização cujo apoio a dinastia não se podia dar ao luxo de perder. O alódio. todos os homens livres deviam a obrigação militar ao rei. Carlos Martel começou a recuperar algumas terras que os reis tinham dado às igrejas. isso já não acontecia. e. Embora tenha havido alguma confusão entre servidão e vassalagem.

foram concedidos benefícios que garantiam um rendimento em rendas que utilizavam para pagar o serviço militar ao rei. ao serviço de senhores nobres que lidariam com as necessidades militares do rei em nome deles. Isto foi confirmado pela Capitular de Meersen. Vimos que Carlos Magno ordenou que cada quatro mansos de terra juntassem recursos e fornecessem um homem de infantaria para as hostes reais. de outra forma.época em que os germânicos eram essencialmente nómadas. Em 816. muitas vezes definido como o condado. Muitos deles entregavam-se. No entanto. uma capitular de Luís. enquanto cada doze mansos forneceriam um homem de cavalaria equipado com armas. proibia os vassalos de deixarem os seus senhores a não ser que estes tivessem tentado reduzir o vassalo à servidão. só poderiam obter através da contratação de mercenários. equipamento de construção e comida para três meses. que foi emitida conjuntamente pelos três netos de Carlos Magno. Torna os «homens» de 14/160 Capítulo 5 . em que cada um tinha obrigações limitadas e de honra para com o outro . inevitavelmente. e isso envolvia armamentos dispendiosos.no século VIII e sobretudo no século IX. normalmente. os senhores tinham serviço militar que. que coincidiam com as épocas de plantação. Por volta do século IX. Os vassalos deviam. o serviço do homem livre normal estava. fisicamente hábeis. não constituía um fardo pesado. Por volta do século VIII os homens livres já não podiam deixar as suas quintas durante as campanhas da Primavera e do Verão. serviço de cavalaria e não de infantaria. Embora os exércitos francos tivessem utilizado a cavalaria antes do século VIII. atacado com uma espada desembainhada ou recusado defendê-lo quando se encontrava fisicamente apto para o fazer. o Pio. a um grupo seleccionado de pessoas. Através dele. a guerra tornou-se mais aristocrática depois do século VIII. onde era necessária mais mão-de-obra na quinta. A SUSERANIA TERRITORIAL E O LAÇO FEUDAL O crescimento da suserania territorial e a detenção de cargos reais passaram a ficar associados à vassalagem . geralmente. promovendo o desenvolvimento dos laços feudais. limitado à defesa do seu território natal. a requisição do serviço militar através de campanhas sazonais de todos os homens livres da tribo.um laço contratual entre pessoas livres. O serviço militar estava agora para além das posses da maioria dos agricultores livres. cometido adultério com a sua mulher. de 847. Este sistema seria utilizado em guerras defensivas ou ofensivas e era apenas restringido pelos termos do contrato individual entre vassalo e senhor. e continuassem a utilizar a infantaria após isso. conspirado contra a sua vida. uma vez que as mulheres e os escravos tratavam da agricultura. os vassalos.

muitos condes tornaram-se vassaCapítulo 5 15/160 . a requisitarem os grandes homens das suas terras como seus vassalos. deviam ao rei como personificação do Estado. enquanto súbditos e funcionários reais. A vassalagem impregnava. de um modo geral. Uma vez que os vassalos que tinham feudos possuíam. A natureza do feudo também conferia. Carlos Magno encorajava os grandes homens do seu reino a tornarem-se seus vassalos. Foi um passo importante tanto na criação de uma base de propriedade de terras para o poder dos nobres. e uma invasão da terra. assim. como também na própria definição do estatuto de nobre. Também distingue entre o serviço devido ao seu senhor. as condições de vassalagem tornaram-se gradualmente hereditárias. Na verdade. embora existam outras fontes onde se sugere que a vassalagem de retaguarda (um vassalo de retaguarda é o vassalo de alguém que é vassalo em vez de um outro) se tornou hereditária na França apenas no século XI. e na Germânia apenas no século XII. À medida que o controlo real enfraquecia. as terras que não se chamavam benefícios ou feudos. Este facto tornou-se um estatuto na Capitular de Kiersey. Encorajava os condes. quando Carlos o Calvo. Durante este mesmo período. por sua vez. Vimos que. À medida que os condes e os duques tomavam as suas posições hereditárias.cada rei habilitados a prestar serviço se se encontrarem nas terras de um dos outros reis. toda a hierarquia de proprietários de terras até aos mais pequenos. o que conferia o direito de governar o território em questão. uma vez que os homens estavam proibidos de abandonar os seus senhores sem causa aparente. alguma autoridade governamental. também os condes tomaram as suas posições gradualmente hereditárias. os direitos aliados aos seus cargos começaram a ser associados à imunidade que detinham nas suas propriedades feudais e alodiais. cuja posição era fundada na posse da terra e não na especificidade feudal (embora pudessem manter tanto feudos como alódios). por volta do século VII. imunidade sobre eles. enquanto se excluíam os parentes colaterais. Isto equivale ao direito de governar o território. eram concedidas em imunidade. usualmente. vinculou os reis subsequentes a respeitarem a posse do cargo do pai pelo filho. tanto na relação com a nobreza mais antiga ligada à terra. O mesmo texto também reconhece o estatuto hereditário de ambos os vassalos reais e o dos outros grandes homens. este facto dava-lhes outro meio de elevarem o seu estatuto. As relações com a suserania territorial também envolvem a união da detenção de cargos com o feudo. com um vínculo privado de homem para homem a lealdade que os condes. assim. Por volta dos finais do século IX. fortalecendo. textos posteriores indicam que um nobre tinha de possuir o bannum (poder de mando sobre homens livres). como na relação com aqueles vassalos que não possuíam terras. segundo este sistema. que necessita do serviço militar de toda a população.

mas isto quer dizer que é provável que a prática já existisse em tempos anteriores. Os homens menores. embora as mulheres pudessem herdar feudos. servisse apenas um senhor. a partir daí. A DIFUSÃO GEOGRÁFICA DAS RELAÇÕES FEUDAIS As relações feudais encontram-se. começaram a declinar. podiam ascender em posição. O primeiro exemplo registado de um vassalo com mais de um senhor é de 895. como os vassalos no sentido original do termo. que deveria ser encarada como uma forma. a vassalagem múltipla enfraquecia o carácter pessoal da mesma. em troca. Este termo abarcava tanto os arrendatários como as terras mantidas segundo acordos semelhantes ao do feudo. Mas a marca do aristocrata era a sua posse de «terra registada» num livro ou numa carta e era semelhantes ao alodial do continente. uma área com uma nobreza belicosa. mas. Também era bastante fortes nos Países Baixos até ao início do século XII. no coração do Império carolíngio. de organização do poder territorial. numerosos camponeses e solo suficientemente fértil para sustentar os enormes gastos que o vínculo feudal exigia. mas não a única. Os reis do início do século IX esperavam.los reais e. uma vez que o vassalo não podia desempenhar serviço militar a mais de um ao mesmo tempo. naturalmente. que cada homem. Apenas depois de 1066 é que os normandos in16/160 Capítulo 5 . O casamento era um outro meio de ascensão porque. Existia. a relação feudal já tinha assumido uma nova dimensão. Quando isto aconteceu. Por estas terras deviam serviço militar público em defesa da terra (recrutamento geral). uma vez que ambas eram posses «precárias». mas. à medida que as cidades desenvolveram sistemas que revolucionaram tanto as relações de suserania e de propriedade rurais como urbanas. sobretudo. Mesmo se os vários senhores do vassalo se encontrassem em paz uns com os outros e não houvesse nenhum conflito de lealdades. vassalo ou não. recebiam tanto feudos como cargos reais. já que a distinção entre os dois se tinha distorcido por mais de um século de costumes que haviam deixado terras e cargos hereditários na mesma família. por cada cinco áreas de terra (de cerca de 120 acres cada uma) eram responsáveis pelo fornecimento de um homem de cavalaria. assim. não apenas por servirem senhores de estatuto elevado como também pela obtenção de feudos de mais de um senhor. A Inglaterra anterior à conquista normanda conheceu a suserania pessoal e a laenland (terra emprestada). os seus maridos deveriam administrá-los desempenhando as obrigações que lhes estavam incumbidas. Isto era semelhante às relações pré-feudais do tempo de Carlos Magno. tendo então de enviar substitutos. uma vez que os cargos territoriais no principado faziam parte do feudo. uma considerável mobilidade dentro da relação feudal. entre os rios Loire e Reno.

onde o poder dos reis e dos senhores era mais forte. os senhores na França e nos Países Baixos fortaleceram o seu poder através do controlo das defesas locais. em teoria. nos finais do século XI. A situação da Germânia era muito parecida com a de Inglaterra. A maior parte da terra era alodial e os cargos concedidos pelos reis não eram associados aos feudos. Todavia. para colocar esta estrutura em prática. aliava Governo. Sobretudo na área entre os rios Loire e Reno. Depois de os normandos terem conquistado o sul da Itália e a Sicília. Na Itália os carolíngios introduziram os laços feudais na Lombardia. vinculada aos reis através da detenção de cargos e terras. e entre os finais do século IX e o início do século XI dominaram estas áreas com quase nenhum envolvimento directo dos reis. que mais tarde se tornou o baluarte dos imperadores a sul dos Alpes. introduziram um feudalismo superficial. assim. os governantes carolíngios tiveram de confiar numa aristocracia cada vez mais poderosa.troduziram na Inglaterra os laços feudais. Durante a confusão das invasões do século IX. à criação de um Governo que. por volta do século IX. mas o termo «vassalo» tinha conotações de servilismo. dependência militar e propriedade de terras. o elo entre o monarca e os seus súbditos mais poderosos tomou a forma da relação feudal que. permaneceria como tal ao longo de todo o período medieval. pelo menos no caso da Inglaterra. era controlado pelo rei e pela sua corte. Até aos finais do século VII não se conheciam os laços feudais: a Germânia conhecia a suserania. Os vínculos feudais também se encontram na Espanha e no sudoeste da França. mas as semelhanças com o feudalismo da zona do Loire e Reno é apenas de terminologia e não institucional. O poder dos reis era mais forte na Inglaterra e na Germânia e. O período de Carlos Magno assistiu. Capítulo 5 17/160 .

preferidos pelos germânicos. O resto da Europa.6 . Por volta de 1150 o frio regressou. seguido de graves fomes e de declínio populacional a partir dos anos de 790. com os edifícios no centro. Por volta de 700. as escavações feitas nos locais das aldeias e das cidades e os nomes de vários locais sugerem que a população diminuiu até ao início do século VII. Os séculos intercalares. o privilégio politico e os valores sociais continuaram a basear-se na propriedade de terra. Mesmo após o enorme crescimento das cidades e do comércio na Idade Média Central. o que normalmente favorece o crescimento populacional. entre o Reno e os Alpes e os Pirinéus. sofreu vários graus de romanização. tal como em Inglaterra. em 543. O auge dessa influência na Gália verificou-se no final do século II. o nível do mar começou a subir inundando as costas da Bretanha e dos Países Baixos nos finais dos séculos IV e V. surgiu uma peste semelhante à do século XIV. Por volta do final do século III. Depois houve crescimento. Os dados arqueológicos identificaram campos quadrados utilizados pelas populações residuais celtas ou romanas perto dos campos rectangulares. e aí. quando a maioria da população agrícola do norte da Europa parece ter vivido em vilas. de clima temperado e ameno. Os estudiosos distinguem três tipos de povoações rurais do início do período medieval. Entre 400 e o início do século IX o clima foi frio e húmido. sobretudo quando próximas de cursos de água ou de aldeias. favoreceram a expansão demográfica e económica. as vilas altas começaram a ser abandonadas a favor das terras mais baixas. que permaneceu endémica até ao século VII.Transformações na Terra (Pág. 174 do livro) VILA E ALDEIA NA ALTA IDADE MÉDIA A economia do início da Europa medieval era esmagadoramente agrária. Mesmo nestas. depois surgiu um período de temperaturas mais amenas. No final do período romano. Na bacia do Mediterrâneo continuaram a predominar os campos quadrados romanos. a dispersão das povoações era maior no norte do que no Mediterrâneo. Os germânicos parecem ter evitado os vales dos rios até ao século VIII. e viria a ser mais intenso no final do século XIII. A Germânia a leste do Reno foi pouco afectada pelos romanos. Em áreas que foram povoadas 18/160 Capítulo 6 . Ocorreram fomes no início da Idade Média e. já só existiam vestígios da organização de vilas romanas no norte. Embora os germânicos estivessem em fase de sedentarização. os campos tendiam a ser alongados.

As terras estavam divididas em «mansos» de vários tamanhos. A maior parte das comunidades tinha vários campos. No século X e sobretudo no século XI os crescentes poderes dos senhores permitiram estabelecer uma aldeia «nucleada» com campos regulares. Até ao final do século XII mesmo as grandes casas do campo. que se tornaram a unidade de percepção tributária. Houve constantes mudanças na configuração dos campos durante a Alta Idade Média. que não chegava a tocar o solo. Muito se tem dito sobre as vantagens da rotação de três campos em vez da de dois. com a casa deste situada na melhor terra e rodeada pelas casas dos seus dependentes. mas a maioria utilizava apenas dois. algumas cabanas afundadas tinham lareiras. para manter o calor. era bastante comum até ao ano 1000. significava que não poderia haver todos os anos rotação da mesma área cultivada. mas ainda sabemos pouco sobre ela no período anterior ao grande aumento de registos da época de Carlos Magno. que eram cultivados em esquema rotativo. Algumas aldeias germânicas praticavam uma agricultura de três campos. Na Europa eslava. à excepção da do senhor. Nas primeiras povoações germânicas foram encontrados vários tipos de casas. As casas senhoriais eram raras até ao século XI. na qual viviam humanos e animais. desenvolveram-se povoações mais estruturadas. O facto de a sementeira da Primavera ser maior do que a do Outono. Os agricultores mais ricos e os senhores das aldeias viviam em casas rectangulares com apenas uma divisão grande. só se encontrava ao longo da costa do mar do Norte e apenas em épocas remotas. e com um telhado em declive. mas não aparece depois disso. Os aldeões tinham lotes de terra em cada campo. À excepção das zonas desbravadas. A ECONOMIA DA PRODUÇÃO AGRÍCOLA Os dados arqueológicos e toponímicos aprofundaram a nossa compreensão da agricultura do início da Idade Média. mas não no oeste. como o estilo de povoação dominante no coração da Europa do norte. os animais eram alojados em edifícios separados e as casas dos humanos eram mais pequenas. As cabanas construídas sobre postes eram utilizadas como celeiros. com dois deles cultivados anualmente enquanto o terceiro ficava em pousio. Capítulo 6 19/160 . eram construídas com madeira ou barro e com telhados de palha ou colmo. A «casaestábulo». de modo a que ninguém ficasse privado de sustento num ano em que um campo permanecesse em pousio. à medida que os agricultores se adaptavam às alterações climáticas e aos recursos e mercados disponíveis. as herdades dos senhores eram formadas pelas doações e pelas terras que os agricultores anteriormente livres entregavam em troca de protecção. A agricultura na maioria das tribos germânicas.durante as migrações sob o domínio de um senhor. A cabana com o piso escavado abaixo do nível do chão. No interior.

sendo o arado de garfos ou de baloiço o mais comum. por vezes. 20/160 Capítulo 6 . embora essa quantidade tenha diminuído com a evolução da tecnologia agrícola. mas portavam-se bem em condições adversas. era mais sofisticada do que em tempos se julgou. crianças e pessoas que não tinham possibilidade de trabalhar nos campos. que necessitavam de melhores condições para crescer. Nas melhores condições. que os romanos consideravam erva daninha mas que se dava bem em solos pouco produtivos. não podiam ser cultivados com lucro em quintas pequenas. a agricultura da Europa germânica podia produzir colheitas de 2 ou 3 partes por 1 parte de semente. e pelos agricultores pela sua capacidade de adaptação aos solos. O trabalho artesanal da Alta Idade Média era feito sobretudo pelas mulheres. tal como a canga para cavalos e bois. Um agricultor numa área pouco fértil poderia ter de guardar cerca de metade da sua colheita para utilizar na sementeira do ano seguinte. A partir do século X existem cada vez mais indícios de centeio na Europa do norte. As sementeiras da Primavera da cevada. mas estavam separadas umas das outras por floresta e terras impróprias para cultivo. causadas provavelmente pelo agravamento do clima. A espelta era provavelmente o cereal mais cultivado. espelta e aveia davam pouco rendimento. Os germanos semeavam aveia. sobretudo a do trigo. Uma vez que a sementeira do Inverno era mais pequena do que a da Primavera. que exigiam um trabalho intenso. pela sua transportabilidade e conservação. Poucos trabalhadores podiam ser dispensados dos campos para os trabalhos artesanais. Eram preferidos pelos senhores. Os cereais. As aldeias desenvolviam-se em áreas férteis. Na Gália merovíngia eram necessários pelo menos 30 acres de terra para sustentar uma família de quatro pessoas. estas colheitas eram artigos de luxo. Ainda existia um elemento pastorício considerável na economia da maior parte das tribos. com áreas de pasto centrais.ainda que primitiva. os arados eram demasiado leves para fazerem um sulco suficientemente fundo de modo a proteger as sementes dos pássaros e da erosão do vento e da água. geralmente rodeadas por campos e. Os cereais do Inverno eram o trigo e o centeio. mas existem poucas provas de que tenham sido utilizados antes do século VIII. As florestas eram abundantes e o gado era tido em tão elevado preço que muitos valores eram calculados em função de cabeças de gado. Nos séculos VIII e IX ocorreram fomes graves e numerosas. Os arados com relhas e rodas de ferro eram conhecidos no período pré-histórico. Os germanos cultivavam essencialmente cereais e poucos pomares ou hortas. mas era frequentemente mais baixa. à medida que a plantação do Outono se tornava mais importante devido ao aquecimento climático e ao aumento da população. Sem rodas. A maioria das aldeolas possuíam casas de camponeses dispersas. que muitas vezes servia de renda para os senhores das propriedades.

De certa forma. Temos de considerar a mobilidade vertical ou mudança de estatuto e a mobilidade horizontal. sobre as terras e as obrigações dos seus rendeiros. As migrações também trouxeram a reanimação da escravatura por toda a Europa: os escravos eram um bem importante. A maioria dos escravos estavam ligados à propriedade ou à reserva (mais ou menos um quarto ou um terço da herdade. as estimativas da população das propriedades das abadias não podem ser representativas da situação no norte da Europa. As propriedades do início do período medieval exigiam bastante trabalho manual. Assim. as grandes abadias da Gália central compilaram estudos. mostram que as propriedades carolíngias eram consideravelmente maiores do que as dos seus antecessores merovíngios nos mesmos locais. algumas regiões estavam a ficar de tal modo povoadas que. mantinham-nos em vez de os venderem. As propriedades monásticas eram áreas de maior densidade populacional. por volta de 900. Como resposta ao desejo de Carlos Magno em ter mais informações sobre a obrigação do imposto militar. Na bacia do Mediterrâneo. Muitas das terras que tinham voltado a ser parte das florestas durante as invasões estavam agora a ser novamente desbravadas. mas os germanos. na qual um indivíduo muda de residência. indo de vinte a trinta e cinco habitantes por quilómetro quadrado. não podiam ser sustentadas apenas pela tecnologia agrícola existente. Os mais antigos destes registos que sobreviveram remontam ao início e meados do século IX. tornandose servos em troca de protecção. deixada de lado Capítulo 6 21/160 . chamados polípticos. A SOCIEDADE CAMPONESA A sociedade rural na Europa tribal era extremamente móvel. todavia. Mas as áreas de intensa agricultura eram separadas por florestas ou pântanos e as comunicações difíceis. À excepção dos escravos que adquiriam terras. baseado principalmente em villas. As pessoas livres que não tinham meios de defesa entregavam-se frequentemente aos senhores. A Lei Sálica concedia às aldeias o direito de expulsarem um recém-chegado que considerassem indesejado. uma vez que a maioria dos códigos de leis germânicos conferiam às crianças filhas de pais com diferentes estatutos a condição do progenitor com posição mais baixa. um costume que sugeria tanto uma considerável deslocação de pessoas no século VI como a existência de sólidas organizações de aldeia.CRESCIMENTO ECONÓMICO DEPOIS DE 700 A força dos senhores laicos e eclesiásticos proporcionou um regime agrícola mais controlado entre o Loire e o Reno. grande parte da mobilidade vertical entre os camponeses era para baixo. que precisavam de mãode-obra.

pelo que alguns agricultores procuravam evitá-lo. com predominância nos pagamentos em géneros. os colonos carolíngios do norte da França eram servos vinculados às pessoas dos seus senhores. em princípio. mesmo os que nos polípticos são chamados servos. mas alguns eram «escravos domiciliários». O servo medieval tinha direitos de posse sobre a terra que ocupava . A maior parte das aldeias também tinha «prebendários». Assim. Na maior parte do sul da França. mas não era provável que a abandonassem. estes eram todos homens livres de deixarem a terra. 22/160 Capítulo 6 . Essas pessoas não estavam vinculadas à terra. Com a excepção dos escravos. tornando-se dependentes dos grandes senhores que o fariam por eles. todavia. eram terras dadas a escravos como incentivo para as desbravarem e cultivarem. servos que tinham lotes de terra. retomando depois a ocupação das terras por uma renda simbólica. que tinham originalmente sustentado uma só família. sobreviveu. Alguns documentos apresentam distinções entre mansos livres e servis. Uma outra importante distinção entre o colono romano e o servo medieval. Os polípticos também apresentam registos de descendentes dos laeti. é que enquanto os colonos carilíngios. elas ficavam na família durante três gerações. que eram normalmente mais pequenos. Ao contrário dos colonos romanos. mas sim para evitar as obrigações públicas. onde a ocupação romana tinha sido mais forte. por vezes. estavam apenas vinculados à terra. germânicos não livres que os romanos tinham colocado em aldeias em troca de serviço militar. legalmente livre. os mansos servis. faziam pagamentos aos senhores. tanto em dinheiro como em géneros. eram enormes. que estavam vinculados aos seus senhores e não à terra. mas estava vinculado à pessoa do seu senhor. mas. Os primeiros mansos. mas impossibilitado de abandonar as terras onde trabalhavam. e talvez também os laeti. Os mansos livres eram. ao passo que os colonos romanos e os seus descendentes. aparentemente. a si e às suas propriedades. não propriamente devido a pobreza. Embora muitos servos levassem uma existência miserável. a servidão não era sempre uma consequência de dificuldades económicas: sobretudo a partir do século VIII. os colonos romanos não executavam serviços laborais na reserva como parte da renda. o serviço militar se tornou mais oneroso.não podia ser desapossado dela se pagasse a renda e desempenhasse as funções requeridas -. os que eram ocupadas por agricultores livres na altura das partilhas das terras no século VII. como os servos. assalariados que podiam ter pequenos lotes de terra mas não o suficiente para sustentarem uma família. Os polípticos carolíngios mencionam um numeroso grupo chamado colonos. um colonato neo-romano. os homens livres entregavam-se. às igrejas. A maioria dos servos só tinham. o usufruto das terras durante a sua vida. Esta forma de arrendamento rural foi gradualmente convertida num direito hereditário em ocupar a terra. ou seja. pelo menos durante o período merovíngio.para o senhor).

famílias que tinham herdado ou comprado direitos no manso mas que não viviam neles. Muitas destas pessoas mantinham. A venda de terras e os casamentos conduziram a uma mistura de estatutos sociais nas propriedades carolíngias. no entanto. obtivessem a permissão do senhor. de modo a que cada unidade de terra. característica da ambiguidade jurídica que rodeava as posses de terra dos camponeses. A maioria dos agricultores tinha de complementar os seus parcos ganhos com o cultivo de pequenas hortas em volta das suas cabanas . sem dúvida. sobretudo em zonas recentemente desbravadas. Os rendeiros deviam pagamentos pela sua terra em géneros e em serviços laborais feitos na reserva do senhor e. e não cada família. cuja obrigatoriedade foi um sinal de servilismo até tarde na Idade Média. Os camponeses mantinham. Alguns camponeses também pagavam um imposto por cabeça. Torna-se assim evidente que os rendeiros que possuíam terras constituíam uma classe de elite.mas. Alguns escravos tornaram-se servos pela aquisição de terras e de direitos sobre elas. frequentemente.uma fonte principal de colheitas de raízes e outros vegetais. juntamente com a execução de tarefas específicas («trabalho por tarefa»). Algumas delas eram. devesse os mesmos serviços. terras de vários senhores e nem sempre na mesma aldeia. A obrigatoriedade ao trabalho semanal. frequentemente. claro. mencionam-se já vários mansos fraccionados. por volta do século IX. porque as herdades tinham numerosos escravos e assalariados. um pagamento em dinheiro. no entanto. havia uma preponderância de homens. pesca e criação de pequenos animais e aves de capoeira. enquanto o trabalho por tarefa era sinal de um homem livre. outras terras de mais senhores do que aquela cujo registo sobreviveu. para cultivar toda a reserva do senhor. que não eram exigidos como renda pelos senhores. Os inventários mostram casamentos entre pessoas livres e não livres. nem eram vendidas a dinheiro -. com a prática da caça. pelo que nestas zonas muitas mulheres livres casavam-se com homens não livres que Capítulo 6 23/160 . recolha de nozes nas florestas. Muitos dos mansos também eram mantidos por várias famílias. Isto sugere que tinha havido algum desenvolvimento nas tecnologias agrícolas (uma vez que uma família já não precisava de tanta terra para sobreviver) e que os rendeiros podiam alienar a sua terra desde que. Em algumas propriedades. Os polípticos apresentam listas de mais pessoas a viverem numa aldeia do que as terras poderiam ter sustentado. era encarada como uma marca de servilismo. claramente. enquanto homens livres se tornaram servos para obterem a protecção de senhores poderosos. A totalidade dos serviços laborais que eram exigidos aos rendeiros nunca chegava. As abadias que compilavam os polípticos tentaram normalizar os serviços no manso. muitos rendeiros faziam os dois tipos de trabalho. Os serviços laborais significavam que o rendeiro tinha de se colocar à disposição do senhor dois ou três dias por semana («trabalho semanal»).

que tinham grandes quintas. Assim. Nos Países Baixos. Os rendeiros pagavam. seriam constituídas por propriedades em vários locais diferentes que respondiam a uma sede situada numa delas. que era aí menos ubiquitária do que na região Loire-Reno. geralmente. a maioria dos camponeses eram livres. Nas terras altas ou montanhosas. criando o campo «bocage». Este género de organização agrícola era raro. cujo trabalho era essencial para o cultivo das terras. de24/160 Capítulo 6 . Os rendeiros eram livres. a população era dispersa e a economia permaneceu pastorícia até meados da Idade Média. onde os senhores eram suficientemente fortes para impor uma organização e controlo centralizado sobre os camponeses. Em regiões de solos rochosos e pouco férteis. tais como as do sudeste da França. a propriedade de um senhor podia incluir várias villas. do sul da Alemanha e de grande parte da Itália. Na cordilheira do Jura. normalmente.possuíam terras. depois da conquista normanda. Os agricultores limitavam-se a pagar renda ou a deter as suas propriedades directamente. A maioria das propriedades tinha especializados. pelo que a economia estava dirigida para a criação de animais e a agricultura assentava na técnica da «queimadas e desbastes»: a terra era ocupada durante alguns anos e depois o restolho era queimado. A DIFUSÃO DA VILLA A «herdade» ou «villa» refere-se a terras e direitos que eram controlados a partir de um único centro administrativo. embora existissem algumas grandes quintas. Era possível apenas em áreas de grande densidade populacional e com solos férteis. mas pobres e confinados às suas casas e a terrenos anexos. A villa «clássica» que é descrita nos inventários carolíngios era uma forma de agricultura. os agricultores pagavam rendas em dinheiro e em géneros. No sul. rendas em vez de serviços laborais. a agricultura extensiva era impraticável. tal como a Bretanha. permitindo à terra voltar ao estado selvagem. A França do sul estava familiarizada com a villa clássica. invulgarmente centralizada e eficiente. que ainda hoje se pode encontrar nessa zona. mas as villas. herdeiros dos colonos romanos. O norte da Itália era demasiado montanhoso para sustentar grandes propriedades. no sudeste da França e na Suíça. excepto na zona entre os rios Loire e Reno e nas zonas centrais da Inglaterra. As villas tinham supervisores que. com sebes ou rodeados de rochas. Estes homens deviam pelas suas terras menos serviços onerosos e menos pagamentos. por sua vez. o laço entre a reserva e a terra detida pelo camponês era menos forte do que o que acontecia entre o Loire e o Reno. A França central era uma área montanhosa e florestal de propriedades fechadas. vinham dos próprios grupos dos camponeses. nomeadamente ferreiros. em vez de ser em trabalho.

mesmo após o casamento. elas podiam herdar nas mesmas condições dos homens. a herança.senvolveram-se algumas villas. Uma mulher estava sob a tutela do seu parente masculino mais próximo. eram tarefas das mulheres que trabalhavam em oficinas mantidas em várias propriedades. como era mais usual no norte. o dote reverso (no qual o marido presenteia a mulher no casamento) e o «presente da manhã» (que o marido oferecia à sua mulher na manhã seguinte à consumação do casamento. AS MULHERES. podendo ser legados aos seus descendentes num casamento posterior. Uma vez que as mulheres podiam herdar. A sociedade aberta da antiga Gália franca permitia que algumas mulheres ascendessem a posições de influência. O sul da Itália e as ilhas costeiras eram importantes produtores de cereais. a Rhineland e a Baviera estavam fortemente divididas em herdades. estendido aos próprios colonos pelos seus poderosos senhores. O dote. para as quais os germânicos se deslocaram depois do século X. Nas zonas eslavas da Europa de leste. pois. alimentando as grandes cidades do continente. A maior parte dos homens aristocráticos mantinham concubinas. de dividir as suas propriedades com os filhos. em primeiro lugar. sobretudo depois de os normandos terem conquistado essa região. mas. só no século XI é que a tecelagem se tornou principalmente um trabalho dos homens. nomeadamente a fiação e a preparação de alimentos e de bebidas. de um modo geral. segundo regimes de heranças partilhadas. À excepção de alguns chefes que eram bígamos ainda no século VIII. eram-lhes dados trabalhos de manufactura. como o preço da virgindade) eram todos utilizados. Na Alemanha. de um modo geral. tanto segundo a lei romana como segundo o costume germânico. tanto para uso local como para exportação. então. mas a servidão era desconhecida na Turíngia e muito rara na Saxónia. AS CRIANÇAS E A FAMÍLIA No período carolíngio o parentesco. os casamentos possibilitavam transferências significativas de bens entre famílias. Isto dava às viúvas alguma segurança. na maioria das regiões. tinha-se tornado agnático (paterno). A fiação da lã e a fabricação de tecidos de linhos. os casamentos eram monogâmicos. Estes bens pertenciam à esposa que os recebia. sendo o divórcio possível. os servilismo iniciou-se quando os recém-chegados subjugaram os eslavos nativos e foi depois. embora existisse uma considerável diferença entre tribos. fosse ele o seu pai ou algum dos seus irmãos. As mulheres tinham. uma situação económica mais próspera segundo os costumes germânicos do que sob a lei romana. no século XI. As mulheres das classes mais baixas trabalhavam nos campos. Capítulo 6 25/160 . numa altura em que a servidão já estava a tornar-se rara nas zonas mais a ocidente. ou então sob a tutela do seu marido. embora tivessem.

Escavações demonstraram que os produtos orientais continuaram a entrar na Itália. apesar de em quantidades consideravelmente pequenas. geralmente de bens de primeira necessidade. embora o preço de sangue aumentasse à medida que iam crescendo. era em géneros. sobretudo nos séculos III e IV. o azeite. cujos desejos sexuais não se enquadravam com a vida monástica. A rarefacção da população rural foi rápida. As escolas monásticas parecem ter sido bastante humanas para com as crianças. O comércio do Mediterrâneo só foi interrompido no século VII pelos muçulmanos e não pelos germânicos. quando as povoações das terras baixas se mudaram para os topos das colinas. O historiador belga Henri Pirenne sugeriu uma cronologia do desenvolvimento comercial do início do período medieval. Com os adolescentes. Depois de 600. os metais preciosos e os escravos continuaram a circular de leste para oeste. Até ao século XI a prática da oblação era corrente: os pais entregavam as crianças. embora na economia europeia nunca tenha sido «natural» e sempre a tenham evitado. A maioria das operações de troca. e o comércio de longa distância. no início da Idade Média. o declínio tornou-se ainda mais rápido. Os «Estados 26/160 Capítulo 6 . aos mosteiros para aí serem criadas. Embora no início da Idade Média o comércio na Europa ocidental fosse menos intenso do que viria a ser depois. Devemos distinguir. a tecnologia primitiva e o crescimento ou declínio da população eram factores que criavam oferta e procura de trabalho e de outros serviços e bens. que eram comparadas aos inocentes das escrituras. nomeadamente as especiarias. o papiro. e as migrações germânicas acentuaram inicialmente este défice comercial. O COMÉRCIO DE LONGA DISTÂNCIA NA EUROPA DA ALTA IDADE MÉDIA As alterações políticas e climáticas. com a moeda a ser utilizada para pagar a diferença entre os dois artigos de troca que se julgava possuírem um valor diferente. Pirenne encarava a economia dos primórdios da Europa tribal como. devido às elevadas taxas de mortalidade. mais defensáveis. A época de Carlos Magno assistiu a um mínimo económico quando o comércio declinou e a produção se tornou quase totalmente agrária. A unidade comercial do Mediterrâneo permaneceu inquebrantável e os artigos de luxo.Sabemos pouco sobre a educação das crianças. que era sobretudo de artigos de luxo. as tâmaras. entre 400 e 600. tendo as cidades diminuído. essencialmente. eram mais severos. normalmente em idades muito tenras. uma continuação da antiga Roma. ainda que não de uma forma rígida. não era de negligenciar. No final do período romano assistiu-se ao declínio do uso da moeda. entre comércio local e regional. Todos os códigos de leis bárbaros atribuíam um alto valor às crianças. O Império romano do Ocidente sempre importara mais do Leste do que exportara.

mas ganharia novamente alguma força no século VIII. sob o estímulo da corte carolíngia. Em Châlons. A actividade económica deslocou-se abruptamente para norte. o comércio por terra era importante mesmo assim. Apesar das estradas serem poucas e más. Na época de Carlos Magno o comércio de escravos declinou significativamente. Declinou. nos arredores de Paris. após um período de estagnação no século Capítulo 6 27/160 . para o território controlado pelos franco e colónias de mercadores judeus. a Frísia e a França. Os estabelecimentos comerciais da costa do mar do Norte e o comércio através do canal da Mancha. durante a época do papa Gregório o Grande. cresceram bastante durante o século VII. continuaram a circular durante algum tempo. da Provença. nos séculos IX e X.sucessores» germânicos emitiram uma pequena moeda de prata. da Espanha. O COMÉRCIO INTER-REGIONAL NO SÉCULO VIII O comércio oriental reanimou-se no século VIII. nomeadamente em Marselha e na Espanha visigoda. Do Mediterrânico para o interior. O comércio continuou activo ao longo do Reno. mas até mesmo esta deixou de existir no terceiro quartel do século VI. embora se preferissem as rotas fluviais. A Inglaterra também foi incluída no núcleo comercial bizantino através da renovação dos laços com Roma. as rotas principais eram as dos rios Ródano e Saône. sobretudo para o comércio de escravos. sendo depois reavivado com a colonização do território eslavo. gregos e sírios estabeleceram-se nos portos da Gália. onde as moedas de prata passaram a serem cunhadas. Este crescimento do comércio entre o Leste e o Oeste foi ameaçado quando os bizantinos tiveram de enfrentar várias ameaças nas suas fronteiras do leste. e os reis bárbaros emitiram moedas de ouro a partir das cunhagens romanas. onde todos os anos os comerciantes da Lombardia. que tinha sido a fronteira romana até cerca de 600. no Saône. depois de 600 declinou abruptamente. da Inglaterra e do reino franco podiam trocar aí os seus produtos. O comércio do Mosa também era vital. uma viagem por terra dava acesso aos rios Sena e Mosa e daí para a Inglaterra e para a Frísia. sendo Verdun era o principal mercado de escravos da Europa. depois em favor dos portos do mar do Norte e do comércio do Sena para Inglaterra. No Ocidente também se reanimou a moeda senhorial nativa. As moedas de ouro. ao longo dos quais se estabeleceram portagens. As moedas de ouro bizantinas seguiram este movimento até ao início do reinado de Heraclio (613-29). a conquista lombarda do norte da Itália forçou os comerciantes gregos a moverem-se para Ocidente. Nos finais do século VI. pelo que a Provença. que eram utilizadas no comércio de longa distância. Prova desta reanimação é a feira de Saint-Denis. que tinha sido a zona intermediária entre o Mediterrâneo e as áreas comerciais do norte. tanto no Leste como no Oeste. entre a Inglaterra.

apesar do comércio com o estrangeiro. mas no século VIII desenvolveu-se um grupo mercantil nativo. a sceatta. tinha surgido de uma aldeia piscatória que crescera quando as pessoas. era cunhada nos dois lugares. embora a maior parte da cerâmica fosse feita localmente. A lei de 750 de Aistulf da Lombardia dividiu os mercadores do seu reino em três grupos. semelhante aos utilizados pelos omíadas em Espanha. No século VII a maioria dos mercadores profissionais na Itália eram judeus e sírios.VII. à medida que o comércio local se reanimava. A origem desta prata pode ter residido nos contactos frísios com os muçulmanos através da Rússia. As escavações de aldeias rurais mostram que. O comércio com Inglaterra fazia-se pelo Sena. tornou-se o porto de entrada para o Império carolíngio. em 794. também se importava uma quantidade considerável. sobretudo nos centros comerciais da Frísia e dos vales do Mosa e Reno. O agravamento do clima provocou a perda de várias colheitas e fomes. enquanto os islâmicos controlavam a África. o período de Carlos Magno. dos tecidos e das especiarias. efectuado com as zonas do interior. do azeite. situada em território bizantino. Dorestad. Apenas no século X surgiria um estatuto inglês que equiparava as obrigações militares de um mercador que fazia três viagens além-mar às suas próprias custas. A procura nas cortes reais era de importância crítica no estabelecimento das redes comerciais no início da Idade Média. pelo que. com as de um possuidor de cinco lotes de terra (cerca de 600 acres). O crescimento comercial das regiões do mar do Norte continuou mesmo depois da reanimação do comércio do Mediterrâneo no século VIII. importante no abastecimento de mercadorias inglesas. mas também para artigos de utilidade. Em 755 o rei Pepino emitiu um novo penny de prata. No século VIII. Achados arqueológicos mostraram que as redes comerciais não eram utilizadas apenas para bens de luxo. Veneza. em meados do século VII. do sal. de acordo com a sua riqueza e fez com que o primeiro grupo fosse responsável pelas mesmas obrigações militares que os possuidores de sete ou mais mansos de terra. Carlos Magno ordenou que se vendesse cereais 28/160 Capítulo 6 . O comércio dos cereais. O final do século VIII. Em Itália. os reis lombardos cunharam moedas de ouro. percorria o rio Pó e os seus afluentes. Os bizantinos recuperaram as rotas do mar Negro. que fugiam dos Lombardos. na Holanda. porto localizado perto de Southampton. os governantes francos merovíngios recomeçaram a cunhar moeda de prata. que era controlado pelos lombardos e pelos portos bizantinos. se deslocaram para as lagoas do continente. Carlos Magno incrementou a cunhagem e normalizou-a por todo o seu reino em unidades de doze pennies. tais como cerâmica. O comércio de lã entre a Frísia e a Inglaterra era tão intenso que uma moeda. e os numismáticos não conseguem distinguir uma da outra. Por volta do início do século VIII estava a tornar-se o principal porto do mar Adriático. foi uma época de difícil crescimento económico. entre Quentovic e Hamwih.

a Córsega. consequentemente. Mesmo antes da morte de Carlos Magno. revelam um contacto considerável com os gregos e com os muçulmanos. para perto do Scheldt. Apesar da destruição. a Sicília. saqueando-a. O comércio sueco era extremamente importante. se bem que na maioria dos casos fosse apenas de forma temporária. Grande parte do comércio com o Leste no início do século IX era conduzido pelos escandinavos: estes eram marinheiros perfeitos e uma mesma expedição podia praticar o saque e. pelo que. O centro de comércio dos Países Baixos transitou. a Sardenha. em meados do século IX. Dorestad atingiu o clímax e declinou depois de 830. finalmente. A actividade da cunhagem de moeda cresceu durante o reinado de Carlos o Calvo. durante cerca de trinta anos. continuando para norte através do vale do Ródano. O seu mercado de Haithabu competia com os centros francos.dos domínios reais a um preço reduzido. Mais a norte. o comércio legítimo. tentou fixar os preços dos alimentos. tendo os dinamarqueses completado a sua ruína. o impacto dos escandinavos no comércio é difícil de avaliar. mas tornou-se importante no comércio de Leste. que dava acesso às capitais carolíngias. capturando as Baleares. a deficiente tecnologia agrária e as flutuações do clima impediram-nas de o conseguirem. mas muitos dos objectos de igreja de ouro e prata roubados acabaram por circular como dinheiro. o declínio do poder real carolíngio não só deu origem a desordens. As dificuldades de comunicação e. de comércio. simultaneamente. Malta. principalmente com a Rússia. As frotas viCapítulo 6 29/160 . forçaram as comunidades a tentarem ser auto-suficientes. Em 805. os dinamarqueses saquearam a Frísia e. Não conseguiram estabelecer bases permanentes no continente. proibiu a exportação de cereais e ordenou que todos aqueles que possuíssem terras em benefício do rei alimentassem os necessitados nas suas propriedades. tal como o dinamarquês. O entesouramento nessa região. Estes ataques iriam destruir todos os centros de comércio significativos a norte do Loire. a maioria na primeira metade do século X. quando os ataques escandinavos atingiram o auge. durante o século IX. por volta de 834. controlavam o mar do Norte e o canal da Mancha. do Mosa. que estava melhor situado para o comércio com os ingleses e escandinavos. o Império franco tinha perdido o seu acesso ao Mediterrâneo. Birka era pouco utilizada pelo mercadores ocidentais. o principal porto do Mediterrâneo central. como também diminuiu o mercado de artigos de luxo destinados aos príncipes. Pilharam os mosteiros. Atacaram os portos do sul da França. Creta e. que prejudicaram o comércio local. mas saquearam Roma e ocuparam Bari. O COMÉRCIO NOS SÉCULOS IX E X Os muçulmanos fizeram uma ofensiva no Mediterrâneo ocidental.

porque nessa altura o comércio entre o Ocidente e a Espanha e o norte de África muçulmanos estava activo. O termo civitas sofreu uma alteração de significado: enquanto para os romanos designava uma subdivisão administrativa de uma província. O núcleo pré-urbano tinha alguma indústria. A maioria das «cidades» até ao século XI tinha uma função largamente distributiva. embora aí os homens do norte não se tenham envolvido em operações militares. ou portus. pagando com prata. mas a maior parte dos produtos eram manufacturados nas propriedades rurais. se se situavam em rios. as «cidades» do Ocidente cristão anteriores ao século XI eram verdadeiros «núcleos pré-urbanos». O Islão ocidental. mas as civitates também 30/160 Capítulo 6 . também. foi responsável por grande parte das novas cunhagens. em que os centros de comércio não se diferenciados das áreas circundantes. tais como bispados ou mosteiros. madeira e outros produtos florestais. ao contrário do oriental. Outros. peles. capturados pelos francos. povoações com apenas uma rua ao longo de uma estrada ou curso de água. Muitos eram wike. um período de grande cunhagem na Inglaterra. A maioria das civitates da Gália estiveram desprovidas de habitantes laicos após terem caído nas mãos dos invasores. trocando-os por escravos eslavos. também se reanimou com o Ocidente no século X.quingues encontravam-se no Mediterrâneo por volta de 870. As reservas ocidentais de ouro e prata muçulmanos cresceram ainda mais no século XI. assim como ferro do Ocidente. em troca do ouro adquirido aos muçulmanos. No século X os muçulmanos importavam escravos. AS ORIGENS DA VIDA URBANA Grande parte do comércio estava centrado nas igrejas e nas cortes dos príncipes. O comércio bizantino. talvez. utilizava tanto a prata como o ouro. A História dos Francos de Gregório de Tours sugere que os bispados recuperaram rapidamente no século VI. e não o de longa distância de artigos de luxo. durante as conquistas militares cristãs. Os gregos vendiam tecidos e outros artigos manufacturados no Ocidente. mas os anos de 970 a 980 foram. Alguns wike e portus desenvolveram-se como subúrbios no exterior de fortificações. que utilizava apenas o ouro. Os ricos e eruditos bispos constituíam o principal mercado para os produtos de luxo do Leste. na Alemanha. Com a excepção. como Dorestad e Quentovic. na Alta Idade Média passou a significar apenas a área de uma antiga cidade romana dentro dos limites das muralhas. couros. onde o bispo exercia o controlo secular. Na maioria dos locais era este comércio local. eram abertos e sem fortificações. que providenciava a base populacional necessária para o desenvolvimento urbano. A descoberta das minas de prata de Rammelsberg. de Roma.

nomeadamente ferro. que eram mais vastas do que seria necessário para alimentar o clero e os monges. pelo menos. origem em mercados agrícolas e em centros de distribuição entre as áreas que tinham excedentes e faltas de alimentos. Com a excepção do caso peculiar da Itália. Nenhum deles parece ter sido realmente grande antes do século VII. madeira e trabalhos em osso e marfim. assim. cerâmica. a maior parte das cidades do continente desenvolveram-se em locais que tinham. durante a fome de 585. a espalhar-se na direcção de onde recebia os mantimentos. Pepino ordenou que os bispos se assegurassem de que cada diocese tinha um mercado e que os preços estavam de «acordo com a colheita». que ilustra o facto de que. A área nos rios maiores permanecia suburbana ou era utilizada apenas como distrito de armazenamento. uma população dependente dos mercadores de cereais e o mecanismo de mercado era suficientemente sofisticado para permitir que estes. mas o crescimento foi rápido daí em diante. sucumbiu facilmente aos ataques. pelo menos. da mesma forma que os carolíngios utilizavam Dorestad. o bispo e os aristocratas ficavam. que se situava mais para oeste e para o interior. que tinha indústrias. a população estabelecia-se. amealhassem e especulassem. chumbo. bronze. No reino franco e na Itália. Tendia. mesmo nas cidades perto dos grandes rios. uma ruína de uma muralha ou de um edifício Capítulo 6 31/160 . Como não era fortificada. As cidades italianas de Pisa e Génova cresceram com o comércio com os muçulmanos. Um bom exemplo é a cidade de Huy. no leste dos Países Baixos. enquanto Hamwih era o centro de comércio que servia o mercado aristocrático. o excedente permitia que os mercados se desenvolvessem em povoações controladas pelas igrejas. A maioria dos núcleos pré-urbanos tinham. mesmo quando estes começaram a expulsar os seus habitantes das ilhas costeiras. que o comércio estava em expansão e que o rei receava a exploração ilícita do mesmo. alimentou o comércio e a concentração de populações não agrícolas em centros fortificados. Tours tinha. Os reis da Anglia de Leste no século VII poderão ter-se servido de Ipswich como porto de entrada.precisavam de bens utilitários. juntamente com o influxo de metais preciosos do Oriente. perto de uma fortificação ou de uma abadia. Os primeiros locais na Grã-Bretanha reconhecíveis como cidades situavam-se na costa e estavam orientados para o comércio continental. Uma vez que as igrejas e abadias recebiam pagamentos em géneros das suas propriedades. Hamwih e Winchester complementava-se: esta era a civitas onde o rei. nas povoações que não estavam associadas a bispados. O regresso a condições mais estáveis no século X. No século X as suas funções foram assumidas por Southampton. Isto sugere que nem todas as dioceses possuíam mercados agrícolas. prata. no Wessex. as povoações se desenvolverem primeiro ao longo dos pequenos cursos de água ou das estradas que conduziam ao interior. Em 744. de matérias primas ou de trabalho. inicialmente. então. A maior cidade saxónica era Hamwih.

estabelecendo aí um arcebispado e construindo um novo mercado para os judeus administrarem o comércio. ao contrário das povoações do século IX e início do século X. Embora a intenção dos reis em fundar as cidades fosse a de providenciar fortalezas defensáveis. A maioria das cidades que se desenvolveram entre 950 e 1050 não fundações planeadas. para o comércio inglês. Alguns mercados foram criados com o objectivo de incentivar o comércio de longa distância. 32/160 Capítulo 6 . O comércio germano nos finais do século X dirigia-se cada vez mais para o sul e leste. os reis do século X também tentaram centralizar aí as actividades comerciais. tal como Tiel no Waal. Os escandinavos rapidamente se adaptaram à vida nas cidades. os judeus do Mediterrâneo a estabelecerem-se nas suas cidades episcopais. que eram os primeiros beneficiários do crescente fornecimento de metais preciosos orientais. o desenvolvimento das cidades ocorreu precocemente e sob iniciativa real. provavelmente. respondendo a condições económicas em constante mutação. Em Inglaterra. Era. exigindo que as grandes transacções fossem autorizadas perante um corregedor real dos portos. mantendo estreitas relações religiosas e económicas umas com as outras. na fronteira com a Saxónia. existiam comunidades judaicas na maior parte das cidades do norte da Europa. O rei Otão I preferia a cidade de Magdeburgo. construindo um palácio real na cidade central. A conversão ao Cristianismo oriental do príncipe Vladimir de Kiev e a conquista bizantina dos búlgaros removeu as últimas barreiras ao comércio terrestre entre o Ocidente e Constantinopla. os dinamarqueses restauraram e aumentaram a muralha romana de Iorque. Os reis concediam alvarás de mercados às cidades mais importantes. e Bremen para o comércio escandinavo. Os reis germanos. tinha uma população multinacional e até mesmo uma colónia frísia no tempo de Carlos Magno. colocando mercadores e mercados sob a sua protecção. Iorque. Os judeus rapidamente se espalharam pela França e. Durante o século X. não eram normalmente fortificadas e não revelam um grande planeamento das ruas. A Alemanha foi a primeira área a recuperar dos ataques do século IX e início do século X. por volta do ano 1000. o maior porto do mundo viquingue. sobretudo às que tinham bispados. uma vez que as povoações civis se deslocaram para as fortalezas estabelecidas por Alfredo o Grande e seus sucessores. começaram a incentivar. Os produtos muçulmanos podiam encontrar-se novamente na Germânia por volta do final do século X.público romano Na Inglaterra. no entanto. no final do século IX.

instituições governativas que iram constituir a fundação institucional do Estado. a Universidade. A Igreja transformou-se numa formidável máquina administrativa mas também encorajava um vasto leque de expressão espiritual. desenvolveu-se uma vibrante cultura vernácula. entre os séculos X e XIII. criaram-se. cujas origens explorámos em capítulos anteriores. Os desenvolvimentos. Desenvolveram-se verdadeiras cidades que fomentavam o comércio e a interdependência regional.TERCEIRA PARTE A maturidade de uma civilização: A Europa na Idade Média Central c. um pouco mais tarde. Paralelamente à estruturada cultura Latina das Universidades. A população aumentou e a produção agrícola intensificou-se de modo a poder responder ao maior número de bocas que era necessário alimentar. juntamente com o aumento do fornecimento de ouro e prata. 920-1270 INTRODUÇÃO No século X iniciou-se um período de recuperação das invasões e dos desastres climáticos. atingiram a sua plenitude de crescimento durante a Idade Média Central. Os curricula e as instituições escolares. Na Alemanha e na Inglaterra e. fornecendo a mão-de-obra necessária para o primeiro desenvolvimento industrial significativo da Europa. foram transformadas de modo a corresponder ás necessidades desta sociedade e economia cada vez mais complexas. nomeadamente as instituições mais medievais de ensino. desde a simples religiosidade de um monaquismo reavivado às sofisticadas especulações dos teólogos sobre a natureza da divindade e do cosmo. tal como o conhecemos hoje. A crescente procura de alimentos. conduziram a uma inflação monetária que contribuiu para a emancipação dos servos na maior parte da Europa ocidental. Capítulo 7 33/160 . na França.

Estes tinham concedido a maior parte das suas terras às igrejas e aos senhores temporais da aristocracia. quando a dinastia franco-carolíngia de leste se extinguiu. em 955. Saxónia. O poder do rei franco do Ocidente continuou a declinar ao longo do século X. Francónia e a Suábia. mas. Por volta de 911. designou para seu sucessor o seu mais importante rival. Os subordinados dos duques eram os condes.7 . Os ataques escandinavos não foi o único problema dos carolíngios. o conde germano não obtinha qualquer jurisdição territorial em função do seu cargo. Os carolíngios tinham tentado. A Germânia era composta por cinco ducados: Turíngia. que era puramente honorário. expulsando-os para o que viria a ser a Hungria. Em 911 os duques escolheram Conrado de Francónia como rei. Baviera. Compensou os seus outros filhos tornando-os duques. o duque da Saxónia. os reis germanos tinham o direito de nomear duques. As suas campanhas militares contra os eslavos 34/160 Capítulo 7 . conseguiu derrotá-los em Lechfeld. que eram mais fracos. duque da Baviera. que deveriam controlar as populações. passar por cima dos poderosos duques na Germânia e governar localmente através dos condes. As incursões dos magiares ensombraram os primeiros anos do seu reinado. nenhum monarca poderia governar efectivamente sem controlar directamente um vasto domínio. no entanto. Otão I o Grande (936-973) enfrentou vários problemas. no leito da morte. mas o advento de uma nova dinastia na Germânia levou à recuperação do poder da monarquia. ao passo que os reis germanos fizeram tudo o que estava ao seu alcance para impedir que tanto os condes como os duques solidificassem as suas posições associando terras aos cargos oficiais. o que hoje corresponde à Alemanha e ao norte de Itália. Enquanto os ducados e os condados eram hereditários e mantidos como feudos no ocidente. 202 do livro) Os príncipes mais ricos e poderosos da Europa do século X e início do século XI eram os da zona mais a Leste do reino franco. O seu sucessor. mas enquanto o «condado» era uma subdivisão local do ducado tanto na Germânia como na França. Isto fez da Coroa uma instituição pública em vez de uma propriedade da família passível de ser repartida. sem sucesso. reclamou o trono com base no facto de ter sido o primeiro filho de Henrique o Passarinheiro a nascer depois de o pai se ter tornado rei. O seu irmão Henrique. esta incluindo partes do «Reino Central» e a Burgúndia. Este fez campanhas contra os magiares e contra os eslavos e acabou com a antiga tradição de dividir o reino entre pelos filhos do rei. designando um deles como monarca.Governo e Política: Imperadores e Papas (Pág. a grande maioria das suas terras encontrava-se em Lorraine. e este. Henrique o Passarinheiro.

Otão II passou pouco tempo na Germânia. que esperava fundir o passado greco-romano com o mundo germânico da sua época. Enquanto em França os reis tinham perdido o controlo sobre a maioria dos bispados. os eslavos atacaram a fronteira de leste. requisitando cavalaria armada. No entanto. Otão I casou o seu filho.foram bastante mais longe do que as de seu pai. separou a Polónia e a Hungria da Germânia. concedendoCapítulo 7 35/160 . mas Otão antecipou-se. invadiu a Lombardia. com a princesa bizantina Teófana. assim. Liudolf da Suábia e o irmão daquele. recebendo depois a coroa imperial das mãos deste. que estava vago desde 924. ainda criança. utilizando o termo do século XII. Entretanto. este tornava-se imperador designado. Otão o Grande é conhecido pela restauração do título imperial. um matemático e astrónomo que tinha sido educado na Espanha muçulmana. A manutenção do controlo das igrejas era. Quando as notícias do seu desaire chegaram às regiões do norte. Gerbert de Aurillac. Em 980 foi para Itália. Ele contava com os homens da Igreja como administradores locais. segundo o modelo bizantino. Depois da morte de Otão. Encetou negociações com Roma pelo título imperial. sugerindo a sua preocupação com a jurisdição temporal do papado. Otão o Grande continuou a tradição carolíngia de utilizar as igrejas para controlar as populações recentemente subjugadas. Assumindo o poder. no ano seguinte. Otão III tentou unir os seus domínios italianos à Germânia. instalou o seu primo Bruno como papa (Gregório V). quando o papa João XII procurou a sua ajuda. de importância política e militar para os reis germanos. filha do rei Rodolfo da Burgúndia e viúva de Lothair da Provença. foi feita prisioneira pelos lombardos. Em 999 fomentou a escolha para papa do seu tutor. colocando oficiais germanos numa série de castelos. A coroação de Otão o Grande estabeleceu o «Sacro Império Romano». Otão III esperava fundir as comunidades secular e eclesiástica numa única comunidade cristã dominada pelo imperador. chegando mesmo a ameaçar Magdeburgo. casou-se com Adelaide e coroou-se a si próprio rei dos Lombardos. e agindo com considerável perícia conseguiu restaurar a fronteira de leste. Teófana tornou-se regente do seu filho Otão III. os bispos germanos ainda prestavam serviço militar e pagamentos em géneros ao rei: uma ordem de mobilização datada de 982. Gerbert adoptou o nome Silvestre II. que lhe sucedeu como Otão II. já que o papa Silvestre I tinha sido o suposto beneficiário da «Doação de Constantino». tinham ressurgido reinos independentes na Lombardia e na Burgúndia. desencadeando-se uma guerra quando Adelaide. um acto que implicou o reconhecimento da sua coroação pelo imperador de Constantinopla. mais do que alguma vez algum antecessor seu havia feito. levando ao estabelecimento de postos fronteiriços a leste. Otão III foi um jovem impressionante. Quando os nobres germanos escolhiam um novo rei. Marchou sobre Roma. Henrique da Baviera. O filho de Otão I. onde foi derrotado pelos muçulmanos. intervieram. que conseguiu em 962. revela que as igrejas forneceram três quartos das tropas.

Henrique III. Por volta de 900. mas serviu-se dos seus direitos como rei para consolidar os domínios da sua família. Conrado II era um turíngio que descendia. pelo lado da mãe. Surgiam novas famílias. A Querela das Investiduras entre os reis germanos e os papas é considerada como tendo sido o início da separação da Igreja do Estado. enquanto as igrejas beneficiavam materialmente do apoio dos reis e de outros potentados seculares. tornando-os uma ameaça maior para a independência da aristocracia. de Otão I. intitulando-se a si próprios condes. que era o único homem laico a receber a unção. Os seus territórios raramente formavam blocos coerentes: a maioria das vezes eram domínios espalhados e direitos exercidos sobre essa mesma área. que se julgava trazer a bênção de Deus ao seu povo. com a excepção da França a norte do Loire). Conrado II tentou limitar a autoridade da Igreja.lhes os seus próprios arcebispados. Conhecido pela sua bondade. que chegou a intitular-se a si próprio rei da Boémia. O GOVERNO REAL NA ALEMANHA DA ALTA IDADE MÉDIA O estudo da política germana tornou claro que os reis tinham de manter um forte domínio e controlar a Igreja para serem bem sucedidos. algumas dos ramos mais recentes das dos condes. que começavam a adquirir alodiais (e. A unção do rei conferia-lhe carisma. tinha funções sacras. Henrique II. A insatisfação aumentou e. graças à maior sedentarização da população. Henrique despendeu energias consideráveis na contenção das ambições do rei da Polónia. 36/160 Capítulo 7 . No entanto. Ao contrário do reformador da Igreja Henrique II e do seu próprio filho e sucessor. mas não na Lotaríngia e na Germânia. Aparentemente. Henrique II dependia dos bispos mas controlava firmemente as suas nomeações. com deveres de supervisão sobre a Igreja. feudos. o rei. a organização por condados tinha-se enraizado no reino Franco do Ocidente. o que levou outra dinastia ao trono germânico. quando o tio de Henrique II morreu sem deixar filhos. Conrado II anexou a Burgúndia. Anteriormente. após a sua morte prematura. dando-lhes o direito de herdar feudos. menos frequentemente. Apoiou os vavassalos do arcebispo de Milão contra os seus senhores. sucedeu-lhe o seu primo. pela qual acabou por ser canonizado. durante o século X e início do século XI. a autoridade em muitos condados carolíngios fragmentou-se. que tinham coexistido em simbiose até então. Henrique II não teve filhos. com grande desagrado dos aristocratas germanos que se tinham habituado a um rei que passava parte do tempo em Itália. Henrique limitou a sua actividade à Germânia. a construir castelos e a convertê-los em centros governativos e de tributação. filho de Henrique da Baviera. os nobres escolheram-no por ele possuir pouquíssimas terras. A exploração das minas de prata de Rammeisberg deu aos novos governantes recursos financeiros.

eventualmente.complementados com as relações pessoais feudais e de lealdade. convenientemente esquecida quando os condes se faziam independentes de facto. davam-lhes imunidade sobre elas e depois faziam com que eles próprios fossem nomeados seus advogados. o que lhes conferia um estatuto nobre. ao desempenharem este serviço honrado. Os condes. geralmente. que gozavam de imunidade. pessoas laicas como advogados para protegerem as suas imensas riquezas e propriedades de outros poderes seculares. os reis germanos concediam terras alodiais às grandes igrejas. eles próprios os despojadores das igrejas que protegiam até começarem a ser limitados pelos príncipes nos séculos X e XI. exercido. exerciam o direito de ban porque o rei tinha delegado neles essa autoridade. os costumes que orientavam a sua condição. cujos antepassados haviam sido nomeados por carolíngios. tornar-se cavaleiros. os reis serviram-se de ministeriales para governar as imunidades eclesiásticas. assim. A autoridade dos condes franceses era baseada no poder que os reis carolíngios haviam. De modo a enfraquecer o poder local dos condes e dos duques que. Aqueles abades e bispos que não nomeavam advogados para as suas imunidades também as governavam com ministeriales. o governo estava mais intimamente ligado aos extensos territórios da Igreja e daqueles que agiam em seu nome. tecnicamente. muitas vezes. Daí que o controlo da Igreja fosse muito mais vital para os reis germanos do que para os da França ou Inglaterra. contudo. embora a origem real do poder fosse. também exerciam o poder ban. iriam. Os «proprietários» laicos da maioria das igrejas locais nomeavam o sacerdote da paróquia. Já desde a época de Carlos o Calvo que os próprios imperadores nomeavam homens laicos como abades. Mas muitas das novas famílias com estatuto de conde. Os ministeriales eram servos sem terras que. a mais baixa posição da nobreza germana. complementada com outros direitos e propriedades adquiridos mais tarde pelos condes. os advogados eram. como haviam feito anteriormente. Hoje chamar-lhes-íamos apenas «autoridade governamental». em tempos. que envolvia funções militares e guarda aos castelos. eram os seus funcionários. Quando no século XI os condes adquiriram mais poder os reis sentiram necessidade de os controlar e nomearam duques de entre os proprietários locais e não de fora. e mesmo alguns bispados franceses tinham de se sujeitar a estas ignomínias. por escrito. sobretudo na Lotaríngia e na Burgúndia. Na Germânia as coisas seguiram um rumo diferente. uma vez que as igrejas nomeavam. O poder do senhor estava ligado ao conceito de ban (bannum): o poder de comandar pessoas livres. Faziam-no. colocando. No Reino Central e na Germânia. Por volta do século XI os ministeriales tinham desenvolvido uma consciência de classe. Capítulo 7 37/160 . mas na Idade Média Central era bastante mais complicado do que isso. como abades laicos ou «advogados» de igrejas. Sobretudo a partir da época de Conrado II. Na França e na Burgúndia.

o rei tinha de controlar as nomeações para as abadias e. O imperador Henrique III juntou a esta a investidura com o anel. Uma vez que os imperadores germanos se consideravam sacerdotes através da unção. O ímpeto 38/160 Capítulo 7 . Ao recusar-se a investir um candidato. As atitudes alteraram-se em face a vários desenvolvimentos: um movimento de reforma dentro da Igreja. fazendo. Se os reis perdessem os seus poderes sobre as nomeações da Igreja. Depois de o bispo ter sido investido pelo rei. Os detentores laicos de cargos e de feudos eram «investidos» nos seus cargos ou terras. que permaneceria apenas eleito pelo clero. mas os reis germanos tinham muito cuidado em colocar homens eruditos e devotos nos altos cargos da Igreja. sendo-lhes entregue. normalmente. depois. As posses temporais e as funções sagradas eram. simbolizando o casamento com Cristo. investiam bispos com o báculo. ficariam numa posição perigosamente exposta. um galho ou um pedaço de terra simbolizando a propriedade.A INVESTIDURA LAICA E A REFORMA DA IGREJA De modo a que isto funcionasse no seu interesse. Mais tarde. um juramento de fidelidade. uma oportunidade para os papas estenderem os seus domínios na Itália central e uma criança-rei na Germânia entre 1056-1065. Na França. Os bispos eram. e os imperadores omitiam com muita frequência a parte formal da eleição. desta forma. uma intensificação dos poderes dos reis germanos na Itália. se bem que quem tivesse sido designado para um tal lugar não pudesse exercer os seus poderes até ser formalmente empossado. assim. mas estavam mais interessados em consolidar a sua posição material e teórica do que na reforma da Igreja. Os abades de mosteiros que não eram controlados por proprietários laicos. poucos foram os sacerdotes ou homens laicos europeus a questionar este estado de coisas até meados do século XI. e o báculo o pastor do rebanho. usualmente atribuídas numa única cerimónia. influência e uma riqueza considerável com o apoio dos governantes seculares. investidos com os bens temporais das suas dioceses mas também recebiam investidura com os sinais do cuidado das almas: o anel. Além disso. fazendo eles. um juramento de fidelidade ao imperador. O impacto da reforma da Igreja na Querela das Investiduras tem sido não somente exagerado como deturpado. sendo mesmo comprados e vendidos. os bispados tornaram-se possessões hereditárias das famílias. Alguns papas do século IX eram homens hábeis. depois. sobretudo. Encarar a investidura laica como uma usurpação da autoridade da Igreja não é correcto. os papas fizeram da intervenção laica na Igreja germana um assunto de discussão. que era feita pelo clero e pelas pessoas da diocese. um rei estava a vetar a escolha de um bispo. para os bispados. era normalmente consagrado pelo arcebispo. enquanto os bispos eram escolhidos pelo clero local e depois aclamados pelo «povo». eram escolhidos pelos monges das fundações individuais. uma vez que a Igreja obtinha protecção.

Talvez ainda mais importante que isto. Estes reformistas viam na simonia não só como a compra de um cargo. colocando o mosteiro directamente sob o papado e garantindo a sua independência em relação aos senhores seculares. o impacto da abadia na vida religiosa sentiu-se principalmente em França. assim. O imperador Henrique III era um governante forte que também se sentia responsável pelo bem-estar da Igreja. Matilde. Os papas reclamaram realmente a Toscânia aquando da morte de Matilde. cujo poder estava mais a norte. mas sim uma atenção particular à rígida regra beneditina. na Lombardia. a maioria dos mosteiros germanos tinham já sido reformados segundo o modelo lotaríngio. Os eremitas consideravam que a Igreja deveria separar-se do mundo material e davam particular atenção à simonia. Ao contrário de Cluny. tornando-os menos dependentes dos reis germanos. Antes de meados do século XI o poder papal significava pouco. que foi colocado no trono pelo seu parente. Em 910. bem como a das suas paróquias. o duque da Aquitânia fundou a abadia de Cluny na Burgúndia. Um outro movimento reformador foi iniciado na Lotaríngia por João. mas sim dos mosteiros. não existia nenhuma direcção centralizada para o movimento lotaríngio. para a Toscânia. Embora os monges de Cluny tenham sido conselheiros de bispos e de chefes políticos. O movimento da reforma italiana foi influenciado por Cluny e pelos mosteiros lotaríngios. que mais tarde se tomaria o papa Gregório VII. Por volta de 1050. abade de Gorze. Matilde queria deixar as suas terras na Toscânia ao papado. uma vez que a posse da Toscânia lhes daria uma base de poder mais segura no centro de Itália. forneceu um outro laço com os reformistas lotaríngios. e difundido pelos monges influentes de S. condessa da Toscânia. Maximiano de Trier. Este assunto era particularmente importante para os papas. conjugando-se também com a tradição reformista do movimento eremítico centrado em Pedro Damião e Humberto. pois era uma ardente patrona do movimento e amiga de Hildebrando. o papa Leão IX. mas o imperador estava igualmente interessado nelas. mas nunca a conseguiram controlar efectivamente. Leão IX considerou como excepção a prática de os homens laicos investirem Capítulo 7 39/160 . Gorze foi mais influente do que Cluny na reforma dos mosteiros na Germânia e nos Países Baixos. mas também o pagamento de um imposto sobre as possessões temporais das igrejas e a necessidade de se ter ligações com o poder secular para a obtenção de um cargo da Igreja. A reforma da Igreja e os objectivos territoriais dos papas em Itália confluíram. o imperador Henrique III. mas Cluny conseguiu manter a sua autonomia.inicial para a reforma não veio do papado. bispo-cardeal de Óstia. num mundo caracterizado por uma Igreja dominada . Alguns reformistas consideravam que o juramento de fidelidade que os bispos germanos faziam perante o imperador constituía simonia. foi um lotaríngio que trouxe as reformas para Roma.

Guiscard considerou as suas terras como feudo do papa. cuja oposição ao seu senhor. Também em 1059. cada um deles convencido de que era o líder de uma comunidade cristã unificada. os cardeais e bispos das igrejas fundamentais de Roma formaram em 1059 o Colégio de Cardeais. o mais poderoso príncipe no sul da Itália. apareceram normandos no sul da Itália. o bispo de Milão. A instabilidade política crónica convidava os aventureiros e. o próprio Guiscard tomou a cidade de Palermo. o cardeal Humberto provocou a separação final entre as Igrejas grega e latina. O causa foi o uso pela Igreja de Leste de pão ázimo na missa e a sua posição de que o Espírito Santo procedia do Pai através do Filho e não do Pai e do Filho. ignorado. pouco depois do ano 1000. embora o decreto fosse. Leão IX também viajou pelo norte da Europa. a investidura laica com o anel e o báculo. A IGREJA E A POLÍTICA NA ITÁLIA DO SÉCULO XI As condições do século XI permitiram que a Igreja ocidental iniciasse uma ofensiva política e doutrinal contra o Leste e. com o objectivo de regular a eleição papal e que depressa se tornou num conselho permanente. O ponto fulcral do conflito entre o imperador e o papa era o norte da Itália. emitindo decretos reformistas nos conselhos de igrejas locais e levando ao norte da Europa o papado como uma força espiritual. Os patarenos («apanha-farrapos») de Milão eram vavassalos. as alianças tinham mudado desde que Conrado II se tinha aliado aos vavassalos contra os seus senhores. pela primeira vez. irromperam novas hostilidades. estavam a tornar-se tensas quando Henrique III morreu em 1056. Este era. No ano de l059. As relações entre o rei e o papa. os levou a aliarem-se ao papa na questão da eleição de bispos pelo clero e pelas pessoas da diocese. em 1054. Os bizantinos governavam a maior parte do sul da Itália no início do século XI. da Córsega e da Sicília. Rogério. de um modo geral. Guiscard continuou a concentrar-se no continente. por altura da sua morte em 1085. Os emires muçulmanos detinham as ilhas da Sardenha. que incluía tanto um ramo secular como um eclesiástico. iniciou a invasão da Sicília em 1061. Robert «Guiscard» («astuto»). A queda de Bari acabou com a presença bizantina na Apúlia. Os regentes de Henrique 40/160 Capítulo 7 . concordando em ajudar o recém-estabelecido Colégio de Cardeais para as eleições papais. enquanto o seu irmão mais novo. o papa proibiu formalmente. já tinha conquistas tão vastas que o papa Nicolau II se aliou a ele abertamente. e em 1072. Em troca do reconhecimento papal pelas suas conquistas. A Igreja serviu-se da menoridade do rei para tomar medidas a fim de assegurarem a sua independência. Assim. Em Milão. deixando uma criança de 6 anos como seu herdeiro. por volta de 1059.bispos com o anel e o báculo e tomou medidas contra a simonia e o casamento clerical. o mais célebre destes.

nomeou um antipapa e expulsou Gregório VII de Roma. mas o resultado imediato de Canossa foi o de privar os nobres germanos das razões para a revolta. A Querela das Investiduras iniciou um processo de separação da Igreja e do Estado. Os nobres germanos. pois. eles escolheram um novo rei. Ambas as partes fazeram circular «cartas». o rei interceptou Gregório em Canossa. oferecendo a sua submissão como penitente. enquanto se reuniam forças militares na Germânia. O conflito entre Gregório VII e Henrique IV constituiu a primeira guerra de propaganda sobre um tema político ou religioso desde o fim do período romano. A QUERELA DAS INVESTIDURAS: A PRIMEIRA FASE Durante o pontificado de Alexandre II a principal figura da corte papal era o monge Benedito Hildebrando. não podia recusar-se a absolvê-lo. Pedro de ligar e separar na Terra e no Céu. Henrique derrotou e matou Rudolfo. que se tornou o papa Gregório VII. instalando o seu próprio candidato como arcebispo. sem lhe restaurar a Coroa. Optando por uma retirada estratégica. Depois de protelar durante três anos. Apesar de tudo. mas Henrique IV ignorou-o. mas as relações do imperador com o papa deterioraram-se. o que iria sair caro à Igreja em bens maternais. um castelo da condessa Matilda da Toscânia. A revolta foi silenciada. Em 1077 Gregório VII dirigiu-se à Germânia para presidir a uma assembleia de nobres que ia julgar Henrique. embora o papa duvidasse da sinceridade de Henrique. serviram-se da excomunhão do rei como desculpa para se revoltarem. expulsaram os germanos de Roma. pouco depois. Foi um golpe de mestria diplomática. quanto Henrique IV esmagou os patarenos. um instrumento retórico utilizado na antiguidade e reavivado durante a RenascenCapítulo 7 41/160 . o papa reafirmou a deposição e excomunhão de Henrique IV e libertou os súbditos do rei dos seus juramentos de fidelidade para com ele. Mais tarde afirmou que apenas libertara Henrique da excomunhão. As tropas de Robert Guiscard vieram em auxílio do seu senhor papal. que se revoltaram em 1073 contra Henrique IV. que estavam agora unidos pelos bispos. Gregório renovou em 1075 a proibição da investidura de bispos com anel e báculo pelos homens laicos. justificando a sua acção pelo poder que Cristo havia dado a S. Gregório VII reclamou o direito de arbitrar entre Henrique e Rudolfo. No entanto. Gregório VII excomungou e depôs o rei no início de 1076. pilharam a cidade e levaram com eles o papa. uma vez que a reacção dos príncipes sobre a reclamação de poder dos papas no mundo temporal iria inaugurar um período de domínio secular sobre o braço eclesiástico. que morreu sob custódia normanda em 1085. Rudolfo de Rheinfelden. Este aliou-se aos senhores saxões.IV apoiavam o arcebispo e os tumultos prolongaram-se até 1073.

A RESOLUÇÃO DA QUERELA DAS INVESTIDURAS Embora Henrique IV estivesse vantagem em 1085. Na Sicília. Os magnatas germanos continuaram a servir-se da disputa do rei com a Igreja.ça carolíngia. o poder do rei sobre a Igreja era enorme. Apesar de alguns bispos germanos terem apoiado o rei no despoletar do conflito. mas ascendia do povo. como forma de combater os bispos. Henrique V (1106-1125). Em 1105. governada desde 1100 pelos aliados normandos do papa. Os papas não tiveram maior sucesso na tentativa de levar os governantes ocidentais a reconhecerem as suas pretensões políticas. Henrique respondia à excomunhão. O seu poder não vinha de Deus. sobretudo na Rhineland. argumentava que a jurisdição do papa estava confinada à esfera espiritual. uma vez no poder. que o imperador rejeitava. Henrique IV e sobretudo o seu sucessor. e porque sentia que a personalidade do seu pai era o verdadeiro obstáculo. Henrique defendia que o poder provinha de Deus e acreditava que só podia ser deposto se se afastasse da fé. de forma a combatê-lo e a consolidarem o seu poder sobre as suas próprias igrejas. o autor anónimo dos Tractos Anglo-Normandos. Implícita às duas ideias. quebrava este contrato e libertava os seus súbditos dos votos de obediência. onde o apoio ao rei era mais forte. atirando calúnias sobre o papa e acusando-o de instigar à violência sob a máscara da religião. Quando agia injustamente. as hostilidades continuaram na Germânia e na Itália. Isto ocasionou conflitos nas suas cidades. Apenas dois controversistas afirmavam que o poder do Estado não estava divinamente instituído e. O seu maior defensor. por volta de 1100 o clero germano já se encontrava fortemente do lado do papa. acreditando que o papa estava errado em se envolver nas actividades políticas. o filho de Henrique IV juntou-se aos rebeldes. pois acreditava que se tinha de chegar a um acordo com a Igreja. a ponto de ser ele o representante papal e nomear bispos e abades. um deles era partidário do papa. reconheceram diversas associações de cidades. Pedro. As de Gregório eram dirigidas a S. Negava que os bispos derivassem o seu poder do papa. que era apenas o bispo de Roma. O jurista Pedro Crassus argumentou que o poder de governar na Terra assentava em leis civis e não canónicas. enquanto o monge saxónico Manegold de Lautenbach afirmava que o rei tinha assumido um contrato com a comunidade para governar com justiça. Os conflitos na Inglaterra e na França eram menos graves do 42/160 Capítulo 7 . curiosamente. veio a demonstrar o mesmo empenho que tivera o seu pai em combater a Igreja. pois o rei não conseguia controlar as terras da Igreja. estava a noção do rei enquanto homem laico e não como sacerdote. obtendo-o antes directamente de Deus. ou quando oprimia a Igreja. Henrique IV morreu no ano seguinte e Henrique V.

O papa foi mais firme com Filipe I de França. e os apelos judiciais a Roma tinham aumentado. de facto. pois apenas controlava um terço dos bispados de França. era a supremacia do clero sobre o braço secular. a Concordata de Worms. a ponto de o direito dos laicos em nomearem candidatos para cargos vagos na Igreja ser reconhecido na legislação emitida pelo rei Henrique II. em termos práticos. de facto. mas. Guilherme o Conquistador rejeitou a ideia de Gregório VII de que ele detinha a Inglaterra como feudo do papado. Na Burgúndía e na Itália. como arcebispo de Cantuária. foi o início da Capítulo 7 43/160 . Em 1107 chegou-se a um compromisso no qual o rei desistia da investidura com anel e báculo. Em contrapartida. quando o rei Guilherme II nomeou Anselmo. onde Henrique governava como imperador. O rei Henrique I voltou a chamá-lo. de um modo geral. tentando. Em consequência. Gregório excomungou-o. onde governava como rei. após a sua morte. ser um laico. As relações inglesas com o papado tornaram-se tensas a partir de 1093. Este tratado. se a eleição lhe desagradasse.que na Germânia. Henrique prescindiu do direito de investir os bispos com anel e báculo. Gregório ordenou a Filipe que proibisse a investidura laica com o anel e o báculo. na Germânia. tal como fora adoptado pelos papas. Anselmo recusou-se a aceitar a investidura do rei. exercer a sua função sem as terras da sua diocese. abade de Bec na Normandia. mas mantinha o direito de receber as homenagens da Igreja pelas suas terras. foi banido. Filipe não teve possibilidade de impor esta medida (que decerto não lhe agradava). mais tarde. uma vez que um bispo eleito canonicamente não podia. Henrique I foi. A MONARQUIA PAPAL E A COMUNIDADE CRISTÃ O objectivo do movimento da reforma eclesiástica. Como resultado. o direito de vetar as eleições episcopais. Este acontecimento teve pouco impacto. o bispo. assim. existe tanto numa versão papal (Calisto II) como numa imperial e. os representantes papais já tratavam usualmente das nomeações para os altos cargos da Igreja. reconhecendo. os papas afirmaram que se referia unicamente a Henrique V e não aos seus sucessores. talvez porque ele fosse mais fraco ou talvez porque os seus arranjos matrimoniais ofendessem o Santo Padre. apesar da falta de entusiasmo dos outros bispos. Isto conferia-lhe. a eleição de bispos e abades seria feita na sua presença. libertar a Igreja do controlo secular. mas entraram em conflito quando Anselmo se recusou a consagrar bispos e abades nomeados pelo rei. embora o que se atingiu. tendo ele o poder de resolver disputas e de recusar a investidura do poder temporal. deveria ser investido com os bens temporais da sua diocese no prazo de seis meses. uma vez consagrado. capaz de manter os papas à distância. Em 1122 chegou-se a um acordo para a Germânia e a Itália.

com as acções contra a cobrança de juros em empréstimos. lidavam com tudo o que estivesse relacionado com o estatuto legal do casamento. excomungar livremente e libertar súbditos da sua fidelidade a «homens pérfidos». o que tinha inconvenientes. apresentava declarações surpreendentes em relação à supremacia papal sobre os príncipes laicos: o papa podia utilizar a insígnia imperial. Gregório reclamava o direito de determinar a doutrina. os estudantes inseriam-se nas ordens menores. também se alargava a pessoas de «ordens menores» através dos subdiáconos. ordenando que os casos mais importantes dos tribunais das igrejas locais fossem remetidos para Roma. monges e abades eram julgados pelos tribunais da Igreja. pelo que os seus crimes passaram a estar sob a jurisdição dos tribunais das igrejas. apostados em clarificar aquilo que tinha sido até então a ambígua área de interacção do braço secular com o eclesiástico. das vinte e sete proposições do Dictactus. que. nesta altura. embora a fraude que não en44/160 Capítulo 7 .separação da Igreja e do Estado. Mas. O papa Urbano II reformou os cargos centrais do papado numa curia dominada pelos cardeais. o que significava que os imperadores detinham os seus poderes a partir dele e não de Deus. Assim. chamada «benefício do clero». transferir e reinvestir bispos. muitas vezes. cobrando uma substancial taxa de confirmação. na medida em que lidavam não só com pessoas mas também com tipos específicos de acções legais. já que os tribunais da Igreja. funcionavam por toda a Europa separados dos tribunais laicos. A maioria dos bispos ainda eram escolhidos localmente. apenas cinco dizem respeito às relações do papa com os poderes seculares. Os papas do século XII eram jurisconsultos canónicos. com o perjúrio. porque os juramentos eram um compromisso com Deus. legal e religiosa. Uma vez que antes do século XIII a maioria das escolas estavam associadas à Igreja. Esta prática. o estado da alma e os sacramentos. uma vez que era um sacramento. recusavam-se a entregar estudantes ao braço secular. que entraria na lei canónica apenas no século XIV. As outras reportam-se ao governo da Igreja e à posição do papa no topo da hierarquia. Gregório VII reclamava o direito de depor. detendo-se a apenas alguns passos de declarar a infalibilidade. A Dictactus Papae de Gregório VII. Os tribunais eclesiásticos diferiam dos tribunais senhoriais. que estava inserida no registo papal de 1075 talvez como uma lista de tópicos para um conjunto de cânones a serem desenvolvidos posteriormente. Previu um crescimento do poder dos tribunais das igrejas. Os membros das ordens religiosas. mas o papa reclamava o direito de confirmar as eleições. não só pessoalmente mas também através de um delegado. e de combinar e dividir os bispados. Encorajou os apelos. Os tribunais das igrejas ouviam casos relacionados com a crença. A preocupação do papa estava cada vez mais dirigida para a administração política. cónegos. podia depor imperadores. consoante a sua vontade. nomeadamente bispos.

árabe e criou uma administração tendo o árabe. A revogação do estatuto clerical era a pena mais frequentemente aplicada. em troca de homenagem e fidelidade. a maioria dos casos continuavam a ser ouvidos localmente. Na Idade Média Central a lei da Igreja estava a transformar-se em lei papal. Detinha o título de «Delegado Apostólico» e nomeava bispos. provavelmente. Enquanto a teologia se ocupa da doutrina religiosa e da natureza de Deus. Rogério apoiava os artistas e escritores. mas Rogério II também possuía um exército mercenário profissional e uma forte marinha. a Querela das Investiduras estava a ter consequências graves para os reis germanos: os magnatas constituíam exércitos privados e Capítulo 7 45/160 .volvesse um juramento fosse uma ofensa secular. tornando Rogério o governante mais rico da Europa. seria julgado como laico num tribunal secular. A abundância de ouro muçulmano possibilitou o aumento da cunhagem de moeda. foi reconhecido como rei pelos dois candidatos à sucessão. Os normandos mantiveram as estruturas administrativas dos muçulmanos. o que significava que. O primeiro conjunto de leis canónicas foi o Decretum. Rogério II falava grego e. O rei introduziu gradualmente os ritos latinos da Igreja. Enquanto se desenvolvia uma forte monarquia na Sicília. Por volta dos finais do século XIII os bispos lidavam com tantos litígios que começaram a delegar os seu juízo em «oficiais». embora desconfiasse da reforma gregoriana. nomeadamente o gabinete financeiro central que fazia auditorias às contas dos funcionários locais. No entanto. Euclides e Ptolomeu. o Grande Conde. numa segunda vez. em 1130. o objecto da lei canónica é a vida do cristão no mundo terreno. consequentemente. Aquando do cisma do papado. Em 1128 Rogério II uniu a Sicília à Calábria e à Apúlia. dependiam muitas vezes da vontade dos governantes laicos em fazer cumprir os seus veredictos. A ITÁLIA E A GERMÂNIA NO SÉCULO XII: SUCESSO E FRACASSO DO ESTADO TERRITORIAL-INSTITUCIONAL A Sicí1ia normanda teve um dos mais sofisticados sistema de governo da Europa do século XII. Em meados do século XIII estabeleceu-se o Rota Romana como o supremo tribunal papal. a maior parte dos quais recrutados em França. que foi compilada pelo monge italiano Graciano por volta de 1140. Os barões sicilianos prestavam serviço militar sobre os feudos. o latim e o grego como línguas oficiais. e a sua corte era conhecida como um centro de tradução das obras de Platão. ao passo que na Itália reinava a desordem após as mortes dos filhos de Robert Guiscard. Mas os tribunais da Igreja não possuíam jurisdição coerciva e. As fontes da lei canónica incluíam as resoluções dos concílios da Igreja e os decretos papais. com Rogério I. cujos julgamentos só tinham apelo apenas para o arcebispo.

Lothair de Suplinburgo. Os reis haviam tentado governar a Itália segundo princípios feudais e. os barões escolheram o fraco Conrado III. para os condes. e duque da Saxónia através da mãe. por volta do século XI. O REINADO DE FREDERICO BARBA-ROXA: A REORGANIZAÇÃO E FEUDALIZAÇÃO DA GERMANIA Frederico Barba-Roxa foi o rei mais forte desde Henrique III. que possuía apenas uma pequena propriedade no sudoeste. a filha do rei Lothair. parece ter dificultado o governo dos seus sucessores. A filha de Lothair casou-se com Henrique o Orgulhoso. os senhores estavam a perder rendas com a tutela de herdeiros menores e sobre o direito de casar as herdeiras com homens apropriados. em 1157. Os barões compreenderam que os seus interesses eram melhor servidos por uma monarquia enfraquecida e. Manteve a sua posição pessoal na Germânia. No entanto. em retrospectiva. em últi46/160 Capítulo 7 . preterindo o duque Frederico II da Suávia. Frederico enunciou dois importantes princípios: a «reserva de fidelidade». duque da Baviera. Contudo. A sua dinastia. Conrado III nunca recebeu o título imperial. Henrique o Orgulhoso. quando Henrique V morreu sem deixar filhos. Barba-Roxa pensava em termos do sistema feudal carolíngio. que se tinha tornado duque da Baviera através do pai. pela qual todos os juramentos de lealdade feitos pelos detentores de feudos. Henrique o Leão. Frederico I. Hohenstaufen. Enquanto os reis franceses e ingleses e muitos príncipes locais desenvolveram instituições governativas sólidas.tornavam as suas posições hereditárias. que passaria a ser o sucessor lógico de Lothair. duques e mesmo cavaleiros. em vez dele. nessa altura. a fim de fortalecer a autoridade e compensar o que os reis tinham perdido para as igrejas. em França e Inglaterra o feudalismo estava a tornar-se fiscal. o duque da Suávia. eram entendidos como «reservando» a lealdade suprema para o rei. Foi sucedido pelo seu sobrinho. os monarcas germanos foram incapazes de o fazer. que havia herdado as terras de família de Henrique V. enfrentava dois problemas imediatos. conhecido como Frederico Barba-Roxa. desconhecia o auxílio (dever de herança) e. escolheram o idoso duque da Saxónia. mas. uma vez que os príncipes utilizavam pagamentos em dinheiro. o controlo sobre as igrejas mais pequenas. entre si. O feudalismo germânico. e que todas as concessões de terras da Coroa partissem. Barba-Roxa tentou feudalizar as classes mais altas da sociedade. os reis deixaram de ser escolhidos como “advogados” e perderam para os bispos e abades o controlo sobre as grandes igrejas e. pelo contrário. o filho mais novo do duque da Suávia. mas. Os domínios de Frederico na Germânia eram mais pequenos do que os do seu parente. Em 1133 Lothair aceitou algumas terras italianas em feudo do papa. rendendo-lhe homenagem e pedindo a confirmação do título.

em 1180. Com a sua posição no sul comprometida. OS GERMANOS EM ITÁLIA Os imperadores tinham exercido pouco controlo na Lombardia. O papa foi forçado a fugir para França e excomungou Arnaldo e os seus seguidores. Em 1156 criou o Condado Palatino do Reno e. Em 1159 Frederico recusou-se a aceitar Alexandre III como papa. Frederico tentou recuperar os direitos imperais na Lombardia. da família Babenberg. Mas Barba-Roxa nunca foi capaz de impor estas regulamentações. Henrique estava interessado na promoção do comércio. a cujos mercadores ofereceu concessões de comércio em Lubeck. mas que na Germânia queria dizer «feudo». do rei. sobretudo com a Escandinávia e com a Rússia. já tinham governos municipais próprios. Os Babenbergs transformaram a Áustria num Estado poderoso. Barba-Roxa comprometeu a integridade dos ducados tribais. Utilizou a palavra latina benefícium. o papa enviou uma carta a Frederico em que afirmava que a Igreja romana tinha depositado a coroa imperial sobre ele. o papa insistiu que o imperador segurasse o seu estribo e aquele só concordou depois de declarar que os seus direitos como imperador não seriam prejudicados por essa acção. a Marca de Leste (a Áustria) da Baviera e deu-a a Henrique de Jasomirgott. e o resto à dinastia Ascaniana. fundando novas cidades (incluindo Lubeck. serviu-se da queda de Henrique o Leão para dividir a Saxónia na Vestefália. Henrique o Leão concentrou-se no fortalecimento da sua posição na Saxónia. Mas após uma reunião da assembleia imperial em Besançon. na Europa ocidental. por volta de 1155. Henrique desencadeou também uma «cruzada» contra os Vendes. Os nobres ficaram ofendidos e atacaram o delegado papal e só a intervenção de Frederico foi capaz de salvar a sua vida. pelo que as cidades desenvolveram-se sem a sua influência e. Henrique o Leão casou-se com a filha de Henrique II de Inglaterra. nomeando um antipapa. Barba-Roxa separou. o rival de Henrique o Leão na Baviera.ma instância. que nesta altura. Em 1155 Barba-Roxa restaurou o papa Adriano IV e executou Arnaldo de Brescia. significava apenas «bondade». as Capítulo 7 47/160 . Na coroação de Frederico como imperador. cujas cidades tinham no papa um grande aliado contra Barba-Roxa. Em 1143 foi instalado em Roma por mercadores hostis ao papa um «Senado». que acabou por se radicalizar sob influência de Arnaldo de Brescia. Ao criar novos principados. que deu ao arcebispo de Colónia. De modo a confinar o poder de Henrique no sul da Germânia. que se tornaria o principal porto do Báltico) e estendendo a colonização germana para leste. em 1155.

e recebiam feudos dos duques e não do rei. mas exerciam em muitos casos os mesmos poderes que eles. continuava a ficar privado de uma importante ferramenta centralizadora. mas não o contrário. a fim de garantir um veredicto favorável. Além disso. Mas o Estado dos Príncipes Imperiais. tinham sido antecipados pela Constituição da Lei dos Feudos. mas a malária dizimou o seu Exército. num segundo nível. tendo prometido aos barões concessões. Em 1183 Frederico teve de aceitar a Paz de Constância. depois de ter passado um quarto de século em Itália. Mas Henrique recusou-se a comparecer. Este era composto pelo imperador.cidades da Lombardia. num quarto nível. na altura em que os reis ingleses e franceses estavam a instituir esses poderes O rei apenas podia lidar com eles através dos duques. O seu problema imediato era agora a sua posição na Germânia. nomeadamente os respeitantes à relação dos vavassalos com o imperador e os senhores mais próximos dele. ao controlo do rei. mas foi incapaz de subjugar toda a aliança lombarda. forçando-o a voltar para a Germânia. sendo então julgado em contumácia. Fez ainda um derradeiro esforço contra as cidades lombardas. completamente. aliaram-se ao papa. e pelos príncipes laicos (duques). Tomou Roma e exilou o papa. continuando a ser o príncipe mais rico da Germânia. que tinham começado por ser ministeriales não livres. Em 1180. e seguramente depois de 1180. emitida em Roncaglia em 1158. que tinham uma aliança defensiva contra o imperador. Henrique foi exilado por três anos e os feudos distribuídos pelos príncipes. o rei germano não era já capaz de reabsorver feudos quando estes eram confiscados na ausência de um herdeiro: tinha de os conceder a outros no prazo de um ano e um dia. Frederico fracassou no seu esforço para criar um domínio real com base na Lombardia e na Suábia. pelos príncipes eclesiásticos. escapando. uma vez que a maior parte das suas terras eram alódios. o imperador destruiu Milão e forçou os habitantes a suplicarem o seu perdão. mas o seu pedido foi recusado com base no facto de que este não devia serviço fora da Germânia. A luta começou. Barba-Roxa levou Henrique o Leão a julgamento com base na sua recusa de serviço em 1178. não foi muito afectado. As concessões que Frederico Barba-Roxa fez aos barões em 1180 significavam que as instituições governati48/160 Capítulo 7 . Embora os desse frequentemente aos seus próprios parentes. Alguns aspectos do acordo de 1180. para o que requisitou ajuda militar do seu vassalo Henrique o Leão. que garantia às cidades lombardas direitos régios dentro das suas muralhas. Os cavaleiros. os príncipes laicos podiam tomar feudos dos homens da Igreja. num terceiro. grandes barões que eram locatários feudais em nome do rei foi estabelecida em 1180. muito utilizada pelos reis franceses e ingleses. O rei germano perdeu qualquer domínio que ainda pudesse ter sobre os vavassalos. Os condes eram «fidalgos livres». estavam abaixo dos condes. talvez a partir de 1152. todavia.

embora unisse o seu opositor tradicional com um aliado seu. que protelou o veredicto. A maior parte dos príncipes apoiou Filipe da Suábia. governou a Germânia como herança e a Sicília e o sul da Itália em nome de sua mulher. irmão de Henrique VI. Inocêncio não teve outra alternativa senão reconhecer as pretensões de Frederico II na Germânia. tia do rei Guilherme II da Sicília. em 1189 ela tornou-se rainha da Sicília e Henrique VI. uma facção minoritária escolheu Otão de Brunswick. enquanto «Ghibelline» vem de Wainblingen. No entanto. mas a Sicília parecia constituir a principal preocupação de Henrique.vas na Germânia se desenvolviam ao nível dos principados territoriais e não da monarquia. como se poderia prever. Em 1184 Barba-Roxa arranjou o casamento de Henrique. decidiu a favor de Otão de Brunswick. Na Germânia o poder real era electivo e não hereditário. A ÉPOCA DE FREDERICO II Frederico II herdou da sua mãe a Sicília. que era um feudo em nome do papa. o papa concordou com o casamento. Negociou o casamento de Frederico com Constância. A ascensão de Henrique VI ao trono significava uma grande mudança política. Constância era bastante mais velha do que Henrique e o casal parecia desprezar-se mutuamente. seu filho e herdeiro. rivais dos Hohenstaufen. de modo a tornar impossível a situação de qualquer um dos candidatos. com Constância. foi assassinado. tiveram um filho: o futuro Frederico II. Uma vez que era improvável que Constância sucedesse ao seu sobrinho. e depois. que sucedeu no ano seguinte a Barba-Roxa. filho de Henrique o Leão. em 1208. A maior parte dos anteriores governantes germanos tinha-se servido dos interesses na Itália para combater as ameaças que surgiam na Germânia. Em troca do apoio do papa. uma vez que os Welf. O nome «Guelf» é uma italianização de «Welf». Esta eleição foi o começo dos conflitos Guelf-Ghibelline. filha do rei de Aragão. Mas. Frederico concordou em partir em cruzada e jurou não unir as coro- Capítulo 7 49/160 . não inspiravam muita confiança devido aos laços com os ingleses e à vontade em se subordinarem aos papas. expulsando Otão de Itália. invadindo a Itália. se virou contra Inocêncio III. para grande consternação do papa e espanto de toda a gente. fosse ele quem fosse. de seguida. que iriam devastar a Itália. A disputa continuou e Filipe da Suábia estava prestes a alcançar a vitória quando. No entanto. Ambos os lados apelaram ao papa Inocêncio III. Os seus partidários aceitaram Otão que. Frederico dirigiu-se para a sua coroação em Mainz e depois voltou para o sul. um dos castelos preferidos dos Hohenstaufen. As facções Guelf italianas tornaram-se os principais suportes do papa contra o imperador.

que lhe sucederia como imperador e não voltou à Germânia depois de 1235. exercessem direitos régios. incluindo a suserania sobre as suas cidades. Assim. fosse submetido à sua consideração. designando funcionários para as controlarem. Emitiu moeda de ouro. Emitiu leis severas contra os súbditos muçulmanos. em troca de estes reconhecerem a sua soberania. Nos seus Regulamentos de Cápua ordenou que a concessão de todos os privilégios. abdicando do trono siciliano quando se tornasse imperador. O governo da Sicília tinha desviado Frederico da sua promessa ao papa de partir em cruzada. o Estatuto a Favor dos Príncipes permitiu que todos os senhores germanos. Anulou as liberdades das cidades. e não somente os príncipes imperiais. O filho de Frederico. embarcou para a Palestina. Contudo. Quando Frederico voltou a partir. que ele colocara como rei na Germânia. impôs uma normalização cristã rigorosa. rainha titular de Jerusalém e. Conrado. quando em 1220 foi coroado pelo papa Honório III não cumpriu a promessa. Em 1231. Frederico concedeu independência aos príncipes sobre os seus territórios. a heresia. 50/160 Capítulo 7 . não tinham mais capacidade de controlar os seus principados do que o imperador tinha de manter a unidade do Império. estava em desacordo com a política do pai e aliou-se às cidades germanas e à Coligação Lombarda. em 1227. a blasfémia. Gregório voltou a excomungá-lo por ir em cruzada sem ter sido absolvido da primeira excomunhão.as da Germânia e da Sicília. colocando toda a autoridade nas mãos dos oficiais imperiais e o poder legislativo na exclusiva dependência do rei. Restituiu as terras que as cidades tinham apreendido aos príncipes. Aboliram praticamente todos os direitos locais de governo. permitindo-lhe virar-se para Itália. às igrejas e aos ministeriales. As Constituições de Melfi (mais tarde chamadas Liber Augustalis) foram o culminar das reformas de Frederico na Sicília. Controlava as importações e exportações através da requisição de produtos para os armazéns do Estado. que eram mais numerosos do que os judeus. Na Germânia legitimou os poderes dos barões germanos e reconheceu os privilégios dos bispos. Henrique. No entanto. o sacrilégio. embora o comércio na Sicília fosse feito com prata. que sob os termos do acordo de 1180 de Frederico I não tinham qualquer controlo sobre os seus vavassalos. Em 1225 casou-se com Isabella. O papa Gregório IX pensou que se tratasse de um truque e excomungou o imperador. Henrique suicidou-se quando Frederico o colocou sob prisão. proibindo a usara. mas regressou de seguida por motivo de doença. Na Sicília Frederico tentou manter a posição de um governante absoluto. Chegou mesmo a aceitar que a cunhagem imperial não tivesse prioridade sobre o dinheiro do príncipe local. a prostituição e ordenou que todos os homens judeus adultos usassem barba. Embora tenha desfrutado de uma reputação póstuma de tolerância religiosa. augustalis. a maioria dos príncipes germanos. desde 1189. e obrigou os estrangeiros a pagarem os produtos sicilianos em ouro. Frederico deu o poder a outro filho.

Os seus principais interesses iam para as obras médicas e estudos legais. que tinha muitos adeptos no norte da Itália. Frederico estabeleceu uma paz de dez anos com os muçulmanos. a Coligação Lombarda abriu hostilidades: a batalha de Cortenuovo pareceu virar a maré a favor do imperador. Depois de simular negociações de paz. o filho ainda criança que teve da já falecida Isabella. Num conselho em Lião Inocêncio depôs Frederico. forçando o papa a reconhecer o seu Governo na Sicília. pois Luís IX de França já estava comprometido com uma cruzada no Leste. nomeadamente Luís IX de França. os muçulmanos mantiveram os seus santuários na Palestina. correspondia-se com intelectuais eminentes. Gregório IX engendrou uma invasão da Sicília por João de Brienne. mas Frederico sobreviveu. Durante a ausência do imperador de Itália. que não lhe sobreviveu. pai da rainha Isabella. que há muito estavam adormecidos. mas apenas em nome de Conrado IV. Aí combateu a heresia cátara. Embora perseguisse menos os judeus do que a maioria dos seus contemporâneos. mas a melhor hipótese para os Capítulo 7 51/160 . que não deu quaisquer frutos. voltando a excomungar Frederico sob a acusação de abusar da Igreja e de enviar delegados e frades mendicantes às cortes do norte da Europa para obterem tropas e dinheiro. Quando o patriarca se recusou a coroar Frederico rei de Jerusalém. Quando voltou do norte. o que enfureceu o papa e o patriarca cristão. sendo impiedoso para como os heréticos cristãos. em 1235. Frederico voltou e derrotou o exército invasor. Frederico II tinha uma personalidade interessante. que se considerava o rei legítimo de Jerusalém. nunca os tolerou. Após a morte de Gregório IX foi eleito Inocêncio IV. mas a sua reputação póstuma como patrono das artes é exagerada. Entretanto. fundando uma Universidade em Nápoles. Conrado IV. A DESINTEGRAÇÃO DO IMPÉRIO HOHENSTAUFEN Frederico II teve apenas um filho legítimo. bem como várias actividades intelectuais. Quando morreu em 1250 ainda combatia Inocêncio IV. Gregório IX aliou-se abertamente às cidades. libertou todas as pessoas dos juramentos de lealdade e convocou uma cruzada contra ele. o papa e os cardeais deixaram Itália e foram para França. ganhando o controle Jerusalém e alguns locais costeiros a norte dela. o apelo do papa foi bem sucedido na Lombardia. este coroou-se a si próprio.Preferindo negociar. mas as cidades continuaram a lutar quando Frederico insistiu em pôr cobro à sua autodeterminação. Os problemas da Germânia ocuparam a atenção de Frederico no início de 1230. Frederico tentou reavivar os direitos imperiais na Lombardia. Como seria de prever. Versado em alquimia e astrologia.

Conradino. Numa guerra com o rei da Boémia conquistou a Áustria. filho do rei Henrique III de Inglaterra. que se tornou a base da fortuna da família Habsburgo. Esperava utilizar a Sicília como base para a tomada de Constantinopla. levou os príncipes germanos a eleger em Rudolfo de Habsburgo como novo rei. O trono foi então oferecido ao rei Pedro de Aragão. Os barões germanos reagiram contra o seu abrupto aumento de poder. o que levou o sobrinho de Carlos. cuja filha Constância estava casada com Pedro. A Coroa esteve nas mãos dos Habsburgos durante várias gerações e o poder na Germânia. principalmente. Na Germânia os papas apoiaram vários reis-fantoche. mas os Aragões tomaram a Sicília. Carlos enfrentou apenas uma oposição simbólica. Daí em diante. mas acabou por provar não ser nenhum incapaz. a passar grande parte do seu reinado em guerra contra Aragão. mas este foi deposto em favor do filho de Rudolfo de Habsburgo. Depois de um interregno de dezanove anos. quando Alfonso o Magnânimo da Sicília se tornou rei em Nápoles. Rudolfo utilizou os restantes recursos do Império nos interesses da sua própria família. que nesta altura receava mais Carlos de Anjou do que os germanos. o irmão mais novo de Luís IX de França. fora do extremo sul. escolhendo Adolfo de Nassau como imperador. o governante dos reinos de Aragão e Catalunha. O antigo reino normando permaneceu dividido até 1435. passou a ser exercido por coligações urbanas e príncipes regionais. Apercebendo-se de que não tinha qualquer hipótese de reconquistar a Itália. Carlos e os seus descendentes conseguiram manter Nápoles e os outros domínios na Itália continental. passando o reino a ser conhecido como as «Duas Sicílias». mas aquele foi morto nessa batalha. mas este esquema desmoronou-se com as objecções dos barões ingleses. uma vez que detinha apenas algumas propriedades na Suíça. Alberto. Inocêncio IV ainda prometeu o trono siciliano a Edmundo. depois de 1254. Manfredo derrotou Carlos em Benevento. invadiu a Itália. o papa Gregório X. Rudolfo foi escolhido. o jovem filho de Conrado IV. porque era fraco. Manfredo. genro de Manfredo. mas foi impedido pelas «Vésperas Sicilianas». um tumulto que começou por um motim antifrancês em Palermo e que se espalhou pelos domínios de Carlos. mas foi derrotado e executado. o papa Clemente IV prometeu o trono siciliano a Carlos de Anjou. as condições tornaram-se caóticas. mesmo antes da morte de Frederico II e. À medida que o poder de Manfredo crescia. Carlos de Anjou era visto com antipatia em Itália pois comportavase de forma arrogante e governava através de oficiais franceses. OS GERMANOS NO LESTE ESLAVO 52/160 Capítulo 7 .Hohenstaufen residia no seu filho bastardo. em troca o juramento deste em pagar as dívidas do papa. o rei Filipe III de França.

mas os interesses territoriais dos príncipes germanos do norte coincidiam com a cruzada de Henrique o Leão contra eles. com a excepção da Prússia de Leste. como ainda expandiram os seus territórios à custa dos principados russos. na Prússia de Leste. A RÚSSIA Depois de Jaroslav o Sábio. Em 1410. da família Hohenzollern e último grão-mestre. Alberto de Bradenburg. O rei Valdemar IV expandiu a marinha dinamarquesa. Tomou o nome de Ladislas II e converteu-se à religião da sua mulher. uniu as três Coroas. Os grão-duques da Lituânia não só resistiram aos livonianos. enfrentaram uma derrota esmagadora em Tannenberg.Os ocidentais continuaram a expandir-se para leste durante toda a Idade Média central. Embora a cruzada tenha sido mal sucedida. de Kiev. A Suécia reafirmou a independência no século XV. Estabeleceram um Estado separado sob soberania papal. foi conquistada no século XIII pelos Irmãos da Espada. embora os duques polacos continuassem a reclamar a ordem como seu vassalo colectivo. contudo. As Coroas polaca e lituana voltaram a separar-se no século XV. mas no início do século XIII mudaram-se para o leste da Europa. em 1397. A Lituânia foi cristianizada quando o grão-duque Jagiello se casou com Jadwiga. A Livónia. a filha de Valdemar IV. filha do Rei Luís I da Polónia e da Hungria. mas a Noruega permaneceu até 1814 sob a Coroa dinamarquesa. Margarida. Em 1308 os Cavaleiros Teutónicos tomaram aos polacos a Pomerélia. uma ordem filiada nos Cavaleiros Teutónicos. nomeadamente Riga e Tallinn tornaram-se importantes centros da Hansa. Em 1346 os Cavaleiros compraram os interesses dinamarqueses na Estónia e as principais cidades. para travar a expansão germana. ter morrido os seus filhos dividiram o Estado em princiCapítulo 7 53/160 . às mãos de uma força conjunta de polacos e lituanos. Os Cavaleiros Teutónicos foram criados em 1190 como uma ordem de cruzados na Palestina. que compreendia a actual Estónia e parte da Letónia. Em 1226 os Cavaleiros responderam a um pedido polaco para uma cruzada contra os pagãos prussianos. tornou-se luterano e foi investido como duque da Prússia pelo rei Sigismundo I da Polónia. foi conquistado antes de 1200. mas foi derrotado pela Hansa. pela União de Kalmar. A Pomerélia foi devolvida à Polónia e os Cavaleiros tiveram de mover a sua capital para Konigsberg. os Vendes foram gradualmente subjugados e grande parte do que constitui actualmente a Alemanha. Os Vendes tinham-se valido dos problemas dos sucessores de Otão o Grande. A Dinamarca era o mais forte poder do Báltico ocidental. Em 1525. Daí em diante o poder dos Cavaleiros Teutónicos declinou rapidamente. que englobava o porto de Gdansk. A Noruega e a Suécia eram politicamente menos coesas do que a Dinamarca e.

sobretudo. o norte da Rússia atravessou um período de considerável crescimento económico durante os séculos de domínio mongol. Apesar da instabilidade política. O príncipe Alexandre Nevsky venceu os suecos no rio Neva. Alexandre Nevsky considerou que era impossível resistir contra os germanos e mongóis ao mesmo tempo. pelo que se tornou um súbdito mongol. a metalurgia e. estava reservado para o mais velho. Mais tarde os mongóis retiraram-se da Hungria. enquanto os mongóis cercavam Chernigov mais a sul. já que Moscovo se desenvolveu à custa dos refugiados do Leste: a população aumentou e a agricultura. 54/160 Capítulo 7 . Por volta de 1241 existiam exércitos mongóis na Hungria e na Polónia. Os príncipes russos não se uniram contra os invasores. pois consideraram os Cavaleiros Teutónicos e os suecos uma ameaça maior. Os mongóis conquistaram toda a Rússia em 1237. em si mesmo. os têxteis e as peles desenvolveu-se segundo padrões semelhantes aos do Ocidente. mas continuaram a controlar a Bulgária. Kiev.pados que governaram individualmente.

Harold. entretanto. Mais tarde Harold renunciou ao juramento. alegando tê-lo feito sob coacção. A assembleia do distrito. controlando os portos onde se registavam as grandes transacções comerciais. Era claro que Eduardo o Confessor iria morrer sem herdeiros. coroando-se a si próprio rei. o conselho real (Witan) tinha. reunia-se mensalmente. que mais tarde seria chamado o Confessor. Cnut da Dinamarca. mas as suas frequentes ausências de Inglaterra deixavam o poder nas mãos de quatro condes. no século XI. naufragou ao largo da costa da Normandia. Segundo o costume anglo-saxão. 240 do livro) A Inglaterra A ALTA INGLATERRA ANGLO-SAXÓNICA A conquista da Inglaterra em 1066 pelo duque Guilherme da Normandia foi uma mera casualidade que minou seriamente o seu desenvolvimento politico e económico de Inglaterra.8 . A população do cento. Os reis do século X estabeleceram um monopólio sobre a cunhagem da moeda. uma subdivisão do distrito. o filho sobrevivente de Godwin e seu herdeiro como conde de Wessex. Mas Eduardo. engendrou o regresso a Inglaterra de Eduardo. Em 1016. o duque Guilherme da Normandia. conde de Wessex. que só o libertou depois de jurar apoiar as pretensões deste ao trono inglês. tinha prometido a sucessão ao seu parente. Em 1042 os dois filhos de Cnut morreram sem deixar herdeiros e Godwin. tendo sido feito prisioneiro pelo duque Guilherme. A unificação política da Inglaterra foi atingida sob a dinastia de Wessex. Por volta de 1045. expulsou os herdeiros do rei Ethelred II para a Normandia. era presidido por oficiais nomeados pelo rei: o dignitário. Eduardo. Os trinta e nove distritos de Inglaterra tinham sido estabelecidos por volta do século X. o direito de escolher o novo rei. Cnut tinha uma personalidade forte. ou xerife. já de meia-idade e que passara a sua vida adulta no exílio na Normandia. no século X. o filho mais novo de Ethelred II. que se reunia duas vezes por ano par a lidar com casos importantes. tratando dos litígios mais correntes. com o qual o rei não estava familiarizado. nestas circunstâncias. e o corregedor do distrito. foi pressionado a casar-se com a filha de Godwin. mas Guilherme fez bom uso da divulgação da quebra dessa promessa e iria in- Capítulo 8 55/160 .Governo e Política: a Inglaterra e a França na Idade Média Central (Pág. no período que se seguiu aos ataques dos viquingues. Em 1063.

Este teve de enfrentar não só a invasão da Normandia. decidiu deixar que Guilherme forçasse a batalha. que Guilherme tinha conquistado. cujas principais posições eram ocupadas por membros seus. mas também a da Noruega. os escoceses invadiram a Inglaterra e o rei francês frustrou a sua campanha na Bretanha.vadir a Inglaterra desfraldando a bandeira do papa. Quando o filho mais velho de Guilherme. Este invadiu o norte da Inglaterra. Uma revolta no Yorkshire e outra no Maine. Harold encorajado pela sua vitória sobre os noruegueses. fazendo apenas algumas mudanças nos cargos de chefia. Por volta do século XI. de facto. os reis da Frância ocidental e os príncipes vizinhos. A COLONIZAÇÃO NORMANDA DA INGLATERRA Embora não existisse uma força de oposição. Os ataques escandinavos tinham causado uma tremenda devastação antes de o norueguês Rolf ter aceitado o baptismo. Guilherme foi coroado rei no dia de Natal de 1066 pelo arcebispo de Iorque. O rei construiu castelos e proibiu os barões de fazerem o mesmo sem a sua autorização. Guilherme tinha inúmeros inimigos. se insurgiu contra ele. foram apoiadas pelos reis Malcom da Escócia e Filipe I de França e ainda por uma frota escandinava. Manteve a maioria dos funcionários de Eduardo o Confessor. a sul da Normandia. mas foi derrotado em Stamford Bridge. A NORMANDIA E OS SEUS DUQUES As estruturas governativas dos territórios conquistados pelos normandos funcionavam bastante melhor do que as da Normandia. em 911. Esta aconteceu em Hastings. franceses e passavam a maior parte do tempo em lutas contra os seus conterrâneos. os duques consideravam-se. onde contava com o apoio dos dinamarqueses. nomeadamente os condes da Flandres. Guilherme da Normandia atravessou o canal e desembarcou sem encontrar resistência. já que Harold e os condes ingleses tinham perecido em Hastings. as tropas de Harold foram derrotadas e este perdeu a vida na batalha. O poder de uma «nova» aristocracia foi acompanhado por uma reforma da Igreja normanda. Guilherme teve o mais sofisticado sistema governativo conhecido na Europa fora da Sicília. Introduziu a multa murdrum: o cento onde fosse encontrado 56/160 Capítulo 8 . Robert. e ter obtido terras em torno de Rouen. uma vez que um dos filhos de Cnut havia prometido o trono ao pai do rei norueguês. As guerras que se seguiram à morte do seu pai deram ao duque Guilherme a oportunidade de redistribuir terras pelos seus leais seguidores. Eduardo o Confessor morreu em 1066 e o Witan escolheu Harold como novo rei. Em Inglaterra.

Em 1086 Guilherme I enviou delegados para inquirirem em cada cento relativamente ao valor dos arrendamentos em três épocas distintas: na altura da morte de Eduardo o Confessor. privado da sua terra. a unidade de terra que suportava um cavaleiro. A «quota do Cavaleiro». senhores. aproximava-se da unidade inglesa das cinco parcelas. que quaisquer acordos de vassalagem que tivessem feito entre eles constituiriam uma excepção à fidelidade suprema que tinham para com o rei Esta provisão era contrária aos princípios da relação feudal. a maioria dos cavaleiros normandos detinha bastante menos de cinco parcelas. assim. a pessoa morta era tida como sendo normanda e a população do cento tinha de pagar o preço de sangue. o proprietário inglês da terra continuava a ocupá-la. A introdução dos laços feudais em Inglaterra alterou a estrutura de impostos. Cada honraria era detida por um vassalo directo do rei e consistia. Exigiam. o mais célebre feito administrativo dos primeiros normandos. como era usual. mas descia um nível no estatuto social. oferece a melhor imagem da colonização normanda em Inglaterra. mas não a detinha directamente do rei. que detinham cinco parcelas de terra (cerca de 500 a 600 acres). provando que o corpo encontrado era o de um inglês. Grande parte da terra era alodial e os homens livres tinham. deviam prestar serviço de cavalaria. que os seus vassalos fornecessem cinco cavaleiros ou contingentes em múltiplos de cinco. Os normandos aumentaram os poderes do xerife. onde a lealdade primária era em relação ao senhor imediato. Todos os homens livres na Inglaterra anglo-saxónica tinham devido serviço público de infantaria. Os reis normandos. em territórios dispersos. em muitos casos. mas. Guilherme introduziu as relações feudais na Inglaterra. O Doomsday Book. Da mesma forma que todos os anglo-saxões tinham devido lealdade ao rei. mas não implicava serviço militar. quando o actual locatário ou o seu antepasCapítulo 8 57/160 . chamadas honrarias. em 1086. Guilherme I forçou os seus vassalos a jurarem. mas as pessoas de estatuto de thegn. em 1130. a maior parte dos rendimentos do rei vinha dos pagamentos feudais. A base das contribuições anglo-saxónicas tinha sido o tributo ou Danegeld. mas. quando os normandos combinaram os lotes dos thegn anglo-saxões em menos de 200 unidades jurisdicionais. em propriedade feudal. não ficava.um cadáver tinha de fazer uma «apresentação de inglesidade». terras que tinham confiscado aos anglo-saxões. tal como se tinha desenvolvido no continente. pois os normandos introduziram as contribuições. geralmente. A maior parte destas medidas foram executadas depois de 1069. os incidentes e as taxas feudais. não compreendendo este estado de coisas. Estes vassalos constituíam um tribunal real que reunia três vezes por ano. na realidade. concederam aos normandos. a Inglaterra tinha conhecido a laenland (terra de empréstimo) que era uma tenure. Antes de 1066. Não o conseguindo. muitas vezes. transformando-o num cobrador de impostos. Os normandos continuaram a cobrar o tributo. No entanto.

Guilherme II. A INGLATERRA ANGLO-NORMANDA: A SEGUNDA GERAÇÃO A Guilherme o Conquistador. arcebispo de Cantuária. Matilde desposou Geoffrey o Plantageneta. O resultado constitui o mais impressionante registo de posses de terras a nível local e dos laços destas com a monarquia. Um juiz (chefe de justiça) agia como vice-rei quando o rei estava no continente. o mais novo. recebeu uma compensação em dinheiro. as duas áreas desenvolveram sistemas administrativos distintos. Robert Curthose («calças curtas»). estava viúva e sem filhos e o seu estado civil tornou-se alvo da preocupação. A filha de Henrique. Uma vez que os condes de Anjou tinham sido inimigos dos duques normandos. o casamento 58/160 Capítulo 8 . O Doomsday Book mostra que cerca de um quinto de Inglaterra se encontrava no domínio real. O Tesouro Público (oficial real de contas) é mencionado pela primeira vez no reinado de Henrique I. pelo que o parente masculino mais próximo era Guilherme “Clito”. sucedeu na Normandia o seu filho mais velho. Quando Guilherme II morreu. que iria sobreviver desde o século XI ou mesmo bastante depois disso. O segundo filho. já que ele estabeleceu as bases das mais conhecidas transformações do seu neto. havia uma grande discrepância entre os maiores bispados. filho do seu irmão Roberto e um aliado de Luís VI de França. Para a Normandia estabeleceu-se um Tesouro Público distinto. enquanto Henrique. conde de Anjou (o cognome provém do ramo de giesta que usava no chapéu). Embora a Normandia e a Inglaterra tivessem um só governante e algumas famílias baronesas possuíssem propriedades nos dois lados. O único filho de Henrique I tinha morrido. A igreja controlava aproximadamente um quarto da terra. o rei Henrique II. tal como acontecia com as baronias laicas. retirando-as.sado directo recebeu a terra e no momento do inquérito em si mesmo. já que a ideia de uma mulher como monarca era estranha ao espírito masculino da época. as abadias e os restantes. Henrique tomou a coroa inglesa e. Anselmo. violando uma promessa de não casar fora da Inglaterra sem o consentimento dos barões. mais tarde. O rei nomeou um juiz para cada distinto ou grupo de distritos para lidar com os apelos à Coroa (tipo de casos que eram colocados perante o tribunal real e não como apelo). a Normandia. Matilde. mas. que tinha sido casada com o imperador germano Henrique. reunindo os domínios do seu pai. assim. chamado Rufus (“cabelo vermelho”). tornou-se rei de Inglaterra. uma vez que o rei tinha tomado as terras de Eduardo o Confessor e dos Godwins. Guilherme II estabilizou a fronteira escocesa. da competência do xerife local. mas teve sérias divergências com St. O reinado de Henrique foi mais importante para o desenvolvimento de instituições governamentais do que o de Guilherme o Conquistador. Em 1127.

que nem sequer era sacerdote. filho de Matilde. O arcebispo de Cantuária recomendou a sua nomeação como chanceler ao novo rei Henrique e rapidamente se tornariam amigos. mesmo antes de ascender ao trono inglês. Stephen foi libertado e recuperou a fidelidade dos seus aliados. planeou um golpe de mestre diplomático ao casar-se com Eleanor. Henrique II foi um vassalo da Coroa francesa com mais territórios em França do que os próprios reis franceses. HENRIQUE II: O NASCIMENTO DA LEI COMUM INGLESA O reinado do rei Henrique II é um dos mais cruciais na história de Inglaterra. e através de Eleanor. os seus principais apoiantes. tomando-se um acérrimo defensor das liberdades da Igreja. mas acabou por perder a vantagem ao cobrar taxas aos londrinos. O casamento de Matilde com Geoffrey produziu três filhos. era considerado um usurpador. títulos que detinha em feudo da Coroa francesa. ele ficou conhecido como o «pai da lei comum inglesa». Henrique manteve Eleanor em reclusão honrada até ao fim do seu reinado. mas os barões acabaram por aquiescer. Um outro candidato ao trono pela morte de Henrique I. Henrique I. Em 1139. os reis Ricardo I e João. mas os barões ingleses preferiram-no. herdou o Maine e Anjou (Geoffiey tinha conquistado o Maine.criava a ameaça de complicações vindouras. deu-lhe oito filhos. como arcebispo de Cantuária. mais velha onze anos do que Henrique. Becket alterou imediatamente a sua posição. Grande parte da opinião popular do reinado de Henrique II foi formada com base na sua divergência com Thomas Becket. Henrique. Como o filho de Stephen morreu. que se situava entre Anjou e a Normandia). o filho mais velho de Matilde. Henrique nomeou Becket. Henrique. a suceder-lhe. Quando morreu. Embora muitas das suas reformas tenham sido antecipadas pelo seu avô. perturbado pela permissividade demonstrada para com os funcionários criCapítulo 8 59/160 . Eleanor. Henrique deu principados individuais aos seus filhos quando eles se tomaram adultos. Stephen de Blois. que governava o maior principado do sudoeste da França. Por seu direito próprio. tendo Thomas. Em 1152. nomeadamente dos seus tribunais. derrotou e capturou Stephen em Lincoln. Como conde do Maine e de Anjou e Duque da Normandia. por várias vezes. mas ela tornou-se uma preciosa conselheira dos seus filhos. A causa de Matilde teve mais sucesso na Normandia devido à perícia de Geoffrey. ele concordou que fosse Henrique. Eleanor fartou-se das infidelidades sexuais de Henrique e encorajou os seus filhos a rebelarem-se contra ele. Matilde invadiu a Inglaterra. A dinastia angevina ou plantageneta de Henrique iria governar a Inglaterra até l399. filha e herdeira do duque da Aquitânia. colocado os interesses reais à frente dos da Igreja. Henrique era uma figura importante.

um período de doze anos. Assim que se encontrou em Inglaterra. Becket foi exilado. os antepassados do júri de acusação moderno. Segundo a regulamentação de Novel Disseisin (Despossessão Recente) um homem livre que reclamasse ter sido privado da sua terra poderia ver o seu caso transferido para o tribunal real. assim chamada porque era comum a todos os homens livres ingleses. assassinos ou receptadores destes criminosos. No entanto. O ultraje obrigou Henrique a penitenciar-se publicamente e a retirar as Constituições de Clarendon. num ataque de fúria. Durante o reinado de Stephen. que declaravam que os clérigos que fossem dados como culpados e expulsos nos tribunais das igrejas recebessem. um dos mais importantes decretos da história legal inglesa. enquanto costume. tinham a força de uma lei. assaltantes. O rei. uma vez que se reapossavam de terras de camponeses livres que devim pagamento de direitos por morte. Para contornar os tribunais dos barões. encontrando uma inesperada e calorosa recepção do papa.minosos pelos tribunais da Igreja a que respondiam. Esta prática foi retomada por Henrique II nas Constituições de Clarendon. desde o início do reinado do rei. Jurados de «apresentação». Henrique II permitiu que os litigantes comprassem mandatos judiciais (documentos de apelo) que transferiam casos de um tribunal de barões para um tribunal real. As pessoas que fossem indiciadas 60/160 Capítulo 8 . o veredicto do braço secular para lhes ser administrado o castigo apropriado. o Governo de Henrique II não teve grande notoriedade. constituídos por doze homens em cada cento e quatro em cada aldeia. Estes poderes eram exercidos «desde o início dos tempos» e. emitiu as Constituições de Clarendon. Já na época de Henrique I o tribunal real estava sobrecarregado com trabalho e ele enviava juízes em digressão pelos distritos. os tribunais dos barões tinham muitas vezes tomado precedência sobre os direitos reais nos centos e o poder dos xerifes tinha-se tornado diminuto. sob juramento. entre esse ano e 1170. que precisava que o seu filho mais velho fosse coroado rei pelo arcebispo de Cantuária. perguntou se alguém o ajudaria a livrar-se de Becket e quatro cavaleiros tomaram isso como uma ordem e mataram-no no altar da Catedral de Cantuária. que estabeleceram a base da «lei comum». como tal. Acusado de corrupção fiscal durante a sua chancelaria. Os mais famosos decretos de Henrique foram as regulamentações de Clarendon. Henrique. Até 1164. posteriormente. Becket excomungou os clérigos que tinham participado numa anterior coroação do príncipe Henrique pelo arcebispo de Iorque. emitiu várias medidas judiciais e administrativas importantes. deveriam «apresentar». os nomes das pessoas que tinham sido ladrões. chamou Becket de volta. Os barões estavam particularmente descontentes com a Mort d’Ancestor. Segundo a regulamentação de Mórt d’Ancéstór (Morte de Antepassado) o litígio residia no facto de um antepassado reclamante ter detido ou não a terra.

o seu se- Capítulo 8 61/160 . Com a Grande Regulamentação criou-se uma solução parcial. se muitos homens de posição na comunidade os considerassem indesejados. assim. praticamente todos os assuntos que agora chamamos acções criminosas eram ouvidos num tribunal real. Henrique II também limitou as prerrogativas militares dos detentores de cargos e dos barões. Henrique também profissionalizou a casa real. Um representante do chanceler estava. essencialmente. uma relação amigável com Luís VII de França. Embora não fossem permitidos exércitos privados. As pessoas de nascimento humilde. normalmente. por volta de 1186. tornando-se o seu representante como chanceler do Tesouro. o rei aplicou a taxa sobre os cavaleiros em excesso.eram julgadas perante um tribunal de juízes em digressão. Os rendimentos do rei provinham. a Inglaterra tinha feito a transição para o Estado institucional. muitos barões obtinham o serviço de mais cavaleiros por meio da feudalização do que era devido ao rei. de qualquer modo exilados. O Inquérito sobre o Serviço dos Cavaleiros de 1166 ordenou aos júris que informassem quantos cavaleiros tinham sido devidos ao rei durante o reinado de Henrique I. agia como um tribunal. onde se permitia ao réu de uma acção civil declinar o julgamento por luta e ver o seu caso decidido por um júri de cavaleiros. quantos eram agora devidos e quantos tinham os barões. Depois. de um modo geral. da provação e ordenou que aqueles que eram ilibados por ela fossem. o Governo inglês encontrava-se quase um século à frente do seu parceiro francês. Mais tarde essa figura ficou permanentemente ligada ao Tesouro Público. Existia uma estrutura burocrática e judicial permanente que podia funcionar de modo efectivo sem o rei estar presente. A nível do desenvolvimento institucional. RICARDO I E JOÃO Henrique II teve. As formas de provar permaneceram pouco sofisticadas. Henrique II desconfiava. cresceu de tal forma que. permitindo que os barões os mantivessem e utilizou o dinheiro para contratar soldados mercenários para o seu Exército. A lista de «casos reais» que era levada perante um tribunal real. da cobrança de impostos e dos incidentes feudais e não dos domínios reais. para os casos que envolviam finanças reais. escapar a uma forma de julgamento onde a vantagem estava sempre do lado do nobre. sobretudo quando comparadas com os tribunais das igrejas da época. Os julgamentos sob a Regulamentação de Clarendon eram conduzidos pelo julgamento de Deus (ordália). os aldeões e os camponeses livres. que fazia auditorias às contas e. que tinha treino de luta. O Tesouro Público tornou-se uma instituição com funcionários permanentes. Nos finais do século XII. contudo. presente nas suas actividades. podiam.

que era do agrado de Ricardo. provavelmente. filho do seu falecido irmão. Conspirou com os dois filhos sobreviventes de Henrique. Era um general talentoso e. que se serviu das rivalidades entre os príncipes angevinos para seu proveito. que lutaram contra o seu pai. João foi sempre uma figura mal compreendida. lhe deram o novo cognome de Espada-Macia. a prometida de Hugo de Lusignan. antes de Ricardo. Enquanto os barões o desprezavam. Apesar de não gostarem de João. ficando conhecido por João Sem Terra. Hugo apelou para Filipe II de França. mas morreu prematuramente ferido por uma flecha durante o cerco a um castelo. Parte dos problemas de João eram causados por ele próprio. que era seu vassalo em La Marche. consideram João como um homem de considerável perícia e capacidades administrativas. o senhor supremo de ambos. Forçou Filipe Augusto a retirar-se das terras que ele tinha tomado. como tal. porque se punha em jogo propriedades e alianças políticas entre os nobres. Quando Filipe Augusto voltou para a Europa. que se interessou particularmente pelos tribunais e pelas finanças. Na Idade Média a promessa de casamento era um laço muito forte.nhor feudal nos principados continentais. Ricardo e João. De um reinado de dez anos. O seu pai tinha planeado uma cruzada. a imagem de João era prejudicada por ser de baixa estatura e um general medíocre. e somente foi libertado em troca de um resgate. a quem tinha insultado na Palestina. Geoffiey Greymantel. os historiadores modernos. popular entre os barões. Filipe Augusto tentou utilizar Artur contra João. deixando o seu irmão João como regente. Como João não compareceu a nenhuma das três convocações para responder a essas acusações. impondo-lhe uma paz humilhante pouco antes de morrer. Filipe II Augusto. Filipe de62/160 Capítulo 8 . Ricardo não deixou filhos e os herdeiros possíveis eram o irmão João e o seu sobrinho Artur da Bretanha. depois agravados pelas desventuras em França. no sudoeste da França. mas este capturou-o e. O sucessor de Luís. mandou assassiná-lo. os barões escolheram-no para rei. Ricardo foi capturado pelo duque Leopoldo da Áustria. pelo que o novo rei partiu de imediato. Chegou a Inglaterra no final de 1194 e depois partiu para França para nunca mais voltar. onde os problemas militares. Foi-lhe dada a soberania sobre a Irlanda. Numa era em que a perícia militar e a destreza física eram mais importantes do que o talento governativo. dado o seu carácter ambíguo. No regresso. em 1200 criou problemas desnecessários quando anulou o casamento com a sua esposa e casou com a Isabelle de Angoulême. mas não mostrava interesse nem aptidão para o Governo. Assim. reclamando justiça. Ricardo I Coração de Leão não permaneceu por muito tempo como um fantoche francês. era demasiado novo para beneficiar da primeira divisão do reino que Henrique II fez pelos seus três filhos mais velhos. João aliou-se a ele contra o irmão. Nascido em 1167. pelo contrário. passou apenas seis meses em Inglaterra. era um diplomata frio e astuto.

Tomou esta atitude Capítulo 8 63/160 . precisava de dinheiro e a perda da Normandia tinha-lhe custado um terço dos seus rendimentos. mas João pouco combateu. pelo que o seu valor facial não podia ser aumentado para combater a inflação. assim. tinha perdido tudo menos a Aquitânia. Filipe agiu rapidamente. mas agora Filipe estava em posição de as fazer cumprir. aumentou o montante das ajudas feudais. O arcebispo de Cantuária morreu em 1205 e. Em 1213 João estabeleceu a paz com o papado. O rei não tinha. uma vez que as vagas nos cargos das igrejas não podiam ser preenchidas durante o interdito e. o rei podia tomar os rendimentos das igrejas que estivessem vagas. retirando-se para Inglaterra. concordando em pagar uma indemnização. segundo o direito régio. os monges elegeram o seu prior Reginaldo. a maioria dos lucros do rei. ordenou aos monges de Cantuária que se encontravam casualmente em Roma que escolhessem um terceiro homem. o «dízimo saladino» em 1188. Tanto o rei como a casa do capítulo objectaram. em aceitar Langton como arcebispo e em deter a Inglaterra como um feudo do papa. em 1203 e 1207. quando João nomeou João de Gray. A vida de João foi ainda complicada pelas divergências com a Igreja. mas. o que não provocou grandes distúrbios e aliviou os embaraços financeiros do rei. eram fixos em termos nominais. exerceu o direito arcaico de casar as herdeiras com pessoas da sua escolha e explorou ao máximo o direito de receber os rendimentos dos feudos dos tutelados durante a sua menoridade. Este género de declarações não eram novas. e outro tinha sido cobrado em 1193-1194 para o resgate de Ricardo. sem esperarem pela posição de João. os monges também confirmaram a eleição. Stephen Langton. Henrique II tinha cobrado a uma taxa sobre propriedades. que os franceses só tentaram tomar bastante mais tarde.clarou-o vassalo por contumácia. Além disso. João passou a maior parte dos restantes anos a tentar reunir forças para retomar os domínios perdidos mas. um clérigo inglês que tinha estudado em Paris e que passara duas décadas na corte papal. João instituiu dois. em Inglaterra vivia-se uma crise inflacionária devido a um súbito influxo de prata para pagar a lã inglesa. nomeadamente as rendas. Ora. Para além disto. mas o aspecto mais grave da contenda foi o facto de sentirem que a humilhante perda da Normandia representava uma afronta à sua honra. que eram pagos pelos arrendatários principais. O papa Inocêncio III reclamou o direito de decidir a disputa mas. em vez de se decidir por um dos candidatos eleitos. para isso. Eram relativamente poucos os barões que possuíam terras na Normandia e em Inglaterra e que. tinham de escolher entre uma soberania francesa ou inglesa. confiscando-lhe os feudos da Coroa. Inocêncio excomungou João e impôs um interdito a Inglaterra. Transformou a taxa militar num pagamento anual dos barões que se ofereciam para lutar pessoalmente. outra hipótese senão a de explorar ao máximo as ajudas e os incidentes feudais. por conseguinte. instituiu ajudas extraordinárias em várias ocasiões. Por volta de 1205.

o texto passa a dirigir-se aos que são arrendatários do rei e a quem é prometido que não haverá abusos nas ajudas feudais. Mas o plano de João desfez-se. De volta a Inglaterra. reconheceram 64/160 Capítulo 8 . Os tribunais de João. porque Filipe Augusto estava excomungado nessa altura e João esperava que Inocêncio considerasse a sua invasão como uma cruzada. para armar cavaleiros os filhos mais velhos e para casar. em menor grau. mas reagia contra os expedientes financeiros e os abusos jurisdicionais de João. pois os seus aliados. mas o seu montante não era fixado. Não se tratava de um julgamento por júri. sendo garantido o julgamento por pares (socialmente iguais). A «MAGNA CARTA» A Magna Carta é mais um documento para a defesa dos interesses dos barões do que uma carta de liberdades. forçaram-no a selar a Magna Carta. Inocêncio III que era agora aliado de João e não partilhava dos sentimentos do arcebispo. Várias cláusulas restringem as acções arbitrárias dos xerifes. nomeadamente o estabelecimento dos tribunais centrais. Duas das mais discutidas cláusulas da Magna Carta dizem respeito aos procedimentos nos julgamentos e aos meios de criar impostos extraordinários.quando se preparava para invadir a França. Filipe estabeleceu a paz com o papa e João encontrou-se a braços com uma dívida e com o descontentamento dos barões. os barões insurgiram-se contra ele e. As multas seriam proporcionais à ofensa. João forjou alianças com os príncipes dos Países Baixos e. pela primeira vez. regulamentam o procedimento dos tribunais criminais e civis dos distritos. nas taxas de tutela e de casamento. incluindo o seu sobrinho Otão de Brunswick e o conde flamengo. sobretudo o do Tesouro Público. A Magna Carta lida com vários assuntos. e os barões ressentiam-se por terem de responder perante eles. em Junho de 1215. as filhas mais velhas. Consignava algumas reformas de Henrique II. Os barões. O Parlamento inglês não teve origem na Magna Carta. declarou a Magna Carta nula e sem significado. Em vez disso. O rei tinha direito a obter imposto especial dos «homens livres» em três casos: para os resgatar do cativeiro. O montante da ajuda feudal é fixado para diferentes categorias de feudos e a obrigação das viúvas e dos seus herdeiros perante os juros dívidos a judeus é limitada. foram derrotados pelos franceses na batalha de Bouvines. Depois de uma cláusula de garantias das liberdades da Igreja e dos homens livres. com os germanos de Rhineland. com o intuito de conseguir uma invasão da França em múltiplas frentes coordenadas. e instigados per Langton. um dos mais importantes decretos da história legal da Inglaterra. contudo. desgostosos perante a sua submissão ao papa. funcionavam com juízes de nascimentos diversos. As ajudas deveriam ser «razoáveis».

Os barões forçaram João a aceitar a Carta em 1215. mas a necessidade de controlar o Capítulo 8 65/160 . uma área que nunca estivera completamente sob domínio real. no comando da milícia e na nomeação de jurados. A verdadeira questão não era o Parlamento enquanto instituição separada. em 1259. Os grandes arrendatários deveriam ser convocados. e quando o rei necessitava de estabelecer imposto em vez do serviço militar. Praticamente todos os revolucionários do núcleo duro vieram do norte de Inglaterra. Um núcleo de opositores continuou a lutar. As apelos eram dirigidos aos tribunais comuns.que o rei podia precisar. mas alterou o seu comportamento. mas só era reunido quando o rei queria. sem prejuízo de haver sessões especiais para assuntos específicos. agindo como oficial de processo. Os casos mais importantes eram levados perante os juízes reais itinerantes. enviando notificações individuais aos «maiores barões». que anteriormente tinha reclamado como alódios que detinha por direito. Baiona e Gasconha. Henrique III e Luís IX de França tinham temperamentos semelhantes e. A maior parte do tempo do xerife era ocupada na execução dos decretos reais. enquanto o Tesouro Público lidava com os casos relacionados com as finanças. deveria convocar um «conselho de comuns» de todo o reino. aceitando Luís como o seu soberano feudal em Bordéus. O grande conselho er formado por bispos. concordaram com um esquema através do qual Luís cedia Périgueux. Mainz e Touraine. João repudiou a carta logo na primeira oportunidade. barões e condes. de dinheiro para outras ocasiões. Poitou. pelos xerifes e meirinhos dos condados. A Magna Carta também nomeou um comité de vinte e cinco barões que iriam forçar o rei a implementar as suas determinações. este abdicava de todas as pretensões sobre a Normandia. O xerife continuou a exercer um poder considerável. Limoges e Cahors a Henrique III. um grupo bastante mais pequeno do que o envolvido no Parlamento. Anjou. o futuro Luís VIII. mas a sua jurisdição civil estava limitada a casos que envolvessem valores de 40 xelins e a sua jurisdição criminal estava confinada a pequenas infracções. a vir a Inglaterra combater o rei. e o Tribunal do Rei com os assuntos onde o rei tinha interesses. Embora o Parlamento viesse a ter dois grupos. Em troca. aqueles que recebiam notificações individuais e aqueles que eram convocados em grupo para falar pelos constituintes. enquanto grupo. HENRIQUE III As funções dos tribunais comuns foram clarificadas na época de Henrique III. na confiscação de bens. a Magna Carta dizia respeito apenas aos arrendatários principais do rei. com legitimidade. A maioria dos tribunais distritais reunia-se mensalmente. a ponto de satisfazer muitos barões. convidando mesmo o herdeiro do trono francês.

o jovem Simão de Montfort. Ficava também estabelecido que o parlamento se reuniria 3 vezes por ano para acompanhar a actividade deste grupo. No ano seguinte convocou pela primeira vez os representantes dos burgos para um parlamento. claramente como manobra para ganhar o seu apoio. Luís decretou que o programa dos barões era uma restrição ilegal ao poder do governante ungido por Deus. impondo as Provisões de Oxford. conde de Leicester. confiando. Em 1265.conselho real. O líder dos barões era um cunhado do rei. Mas os barões não conseguiram chegar a acordo sobre até onde agir contra o velho rei. uma vez que ele raramente convocava todo o grupo dos principais arrendatários. irrompeu a guerra aberta e as forças reais foram derrotadas na batalha de Lewes. o Estatuto de Marlborough adoptou a maioria das Provisões de Oxford. Os barões aceitaram Luis IX de França como árbitro na sua divergência: no Pacto de Amiens. Eduardo derrotou e matou Montfort na batalha de Evesham. tendo Montfort se tornado o verdadeiro governante de Inglaterra. que estabeleciam que um grupo de 12 membros supervisionariam o governo. pondo cobro à revolta. 66/160 Capítulo 8 . cuja posição era fortalecida pela ascensão do seu filho Eduardo. Em 1264. administração local e os castelos reais. Comportou-se cautelosamente e. num grupo de conselheiros mais restrito. enquanto reservava o direito de nomeação de funcionários para o rei. em 1267. em vez disso.

mas novos territórios foram acrescentados no reinado de Filipe I. o impacto tenha sido mínimo. No período de Henrique I as alienações conduziram o domínio real à sua menor extensão de sempre. que deu início a uma nova dinastia. as mulheres. subjugando-os. nomeadamente os condes (mais tarde duques) da Normandia e os condes da Flandres. nomeadamente os duques da Normandia e da Aquitânia e os condes de Anjou e da Flandres. A paz do rei estendia-se a pessoas que precisavam de uma protecção especial. Enquanto condes de Paris na Ile-de-France. tal como a Burgúndia e a Ile-de-France. A Trégua de Deus. MUDANÇAS NO GOVERNO FRANCÊS DURANTE O SÉCULO XII O século XII foi um período de centralização. centrada em Paris e em Orleães. Os ducados do sul da França eram muito vastos e alguns fragmentaram-se em mais de cem condados e viscondados no século X. eram mais poderosos do que eles. um rei cuja indelicadeza e indiferença pessoal em relação à Reforma gregoriana da Igreja lhe concedeu uma infeliz reputação póstuma. Durante a Idade Média Central a expansão dos «movimentos de paz» ajudava a conter a violência. Alguns condes e duques. os carolíngios foram substituídos por Hugo Capeto. proclamada pelos bispos. que mais tarde iriam recuperar. como os condes da Flandres e da Champanha e os duques da Burgúndia. Outros perderam território. Em 987. os capetos actuaram do mesmo modo. reclamavam os direitos que tinham sido assumidos pelos castelões durante o século XI.A França OS PRIMEIROS CAPETOS Os reis francos do Ocidente tinham pouco poder fora dos seus próprios territórios devido à fragmentação da autoridade política. Os primeiros capetos exerceram o poder numa área cada vez menor. e não apenas ao nível das monarquias: nobres. as crianças e os não combatentes. nomeadamente a reserva da justiça de sangue (casos onde a pena por condenação era a morte ou a mutilação). proibia os combates nos territórios do bispado desde o pôr do Sol de sexta-feira até ao Capítulo 8 67/160 . até ao final do século XI. A Paz e Trégua de Deus foi promulgada pela primeira vez pelas igrejas do noroeste da Europa nos finais do século X. A Paz abrangia as pessoas com ordens sagradas. resistiram a esta fragmentação. Alguns condados tinham apenas um único distrito e muitos destes dividiram-se em castelanias no final do século X e início do século XI. Vários dos seus vassalos. como o caso dos mercadores. que proporcionava a protecção de Deus àqueles que viviam nas proximidades imediatas. embora. As igrejas tinham uma paz especial.

eventualmente. mas ainda era inferior ao dos angevinos da Normandia e da Inglaterra e de Filipe da Alsácia. O reinado de Luís VI o Gordo constituiu o ponto de viragem na monarquia dos capetos: iniciou a prática de manter os registos numa chancelaria real. que eram cobradores de impostos. O preboste era mais um funcionário do domínio do que um funcionário governamental efectivo. Comparativamente. proclamando uma paz de Deus universal. o seu filho Filipe II. que foi o único até 1307. Por ter repudiado a sua segunda mulher. e negociou o casamento do seu herdeiro. 68/160 Capítulo 8 . reunida em 1155. juntamente com o resto das bagagens. Filipe Augusto aumentou os recursos da monarquia ao conseguir. Luis VII reavivou a prática carolíngia de convocar os grandes senhores de todo o reino para assembleias. que era bastante maior do que o domínio real. A chancelaria encontrava-se sob a orientação de um «guardião de selo». o condado de Artois. conde da Flandres. o futuro Luis VII com Eleanor. Na mais famosa destas últimas. (como dote pelo seu casamento com Isabella. Por volta de 1146. sendo por isso semelhantes aos xerifes ingleses. os reis franceses utilizaram a casa dos Cavaleiros Templários como tesouro. Os próprios flamengos foram subordinados em 1226. pela primeira vez desde os finais do século IX. para os quais a pena era a morte ou a mutilação. Luís proibiu as igrejas de julgar casos de violação. em 1180. O REINADO DE FILIPE AUGUSTO A Luis VII sucedeu. em 1180. Ingeborg da Dinamarca. O Governo francês só constituiu um arquivo fixo depois de os documentos de Filipe Augusto terem sido destituídos. No século XI a Casa Real de França estava a assumir prerrogativas já assumidas pela sua congénere inglesa. Em 1180 o poder da monarquia estava em crescimento. numa batalha contra Ricardo Coração de Leão. em 1194. herdeira da Aquitânia. conde de Hainault). a administração do domínio real era confiada a cerca de quarenta prebostes (prévôts). Filipe conseguiu pela duplicidade o que os seus antecessores não fizeram pelas armas. presidiam tribunais e convocavam a milícia local. Luís tomou-se o primeiro monarca francês a legislar para todo o reino. foi excomungado e a França interditada em 1200. em contraste com a prática anterior do simples selamento das cartas. assassínio e fogo-posto. Serviuse das ambições de João contra Ricardo e. mas esse período foi gradualmente alargado. filha de Balduíno. fora do domínio real. a anexação da Normandia e dos territórios angevinos adjacentes em 1205. mediante o Tratado de Melun. a cunhagem real começou a circular. No final do seu reinado. acabou por instigar Artur da Bretanha contra João. os angevinos tinham cinco tesouros em Inglaterra e três na Normandia. que ficou conhecido como Filipe Augusto.nascer do Sol de segunda-feira.

deixou uma dívida esmagadora. era um homem competente mas morreu prematuramente. tinham roteiros que se sobrepunham. Depois de ter perdido os seus documentos em batalha. mas no século XIII foi-lhes concedido territórios fixos. tinham de permanecer na região durante quarenta dias. mas que difícil de governar. causada em grande parte pelas Capítulo 8 69/160 . Os meirinhos eram itinerantes e. estabeleceu um arquivo permanente. por volta de 1202 recolhiam rendimentos e tratavam das multas judiciais. Depois de deixarem o seu cargo. meirinhos e senescais. Os ganhos territoriais de Filipe Augusto fortaleceram as finanças da monarquia. Luís deixou um legado misto: centralizou e institucionalizou o Governo. tendo a aquisição da Normandia inclinado a balança a seu favor. que era importante para o comércio do vinho. Branca de Castela.O reinado de Filipe Augusto foi crucial para a administração da França. Não tinham funções específicas. À medida que se juntavam áreas do sul da França aos domínios reais. nas localidades onde estavam estacionados. se criou um corpo permanente de juízes e se iniciou o registo regular (os registos Olim. inicialmente. estando proibidos de casar ou de comprar terras durante o período das suas comissões. sendo colocado no trono sob a regência da sua mãe. Luís VIII. Por volta de 1200. embora tivesse vários rivais. O tribunal real central durante a época de Filipe Augusto permaneceu itinerante. enquanto se faziam auditorias às suas contas. Quando Filipe Augusto morreu era o mais poderoso príncipe francês. O filho de Filipe. Filipe tinha expulso os angevinos da zona norte do seu domínio. Cobrou elevadas taxas a todos os príncipes que herdavam feudos da Coroa. que existem desde 1254). A maior parte da justiça real era administrada através de prebostes. Todavia. presidindo a tribunais três vezes por ano. alargou a jurisdição apelativa do tribunal real e não era uma ferramenta nem dos papas nem do clero francês. SANTIDADE E INSTRUMENTO DE ESTADO: A ÉPOCA DE LUÍS IX Luís IX tornou-se rei aos l2 anos de idade. Apenas sob o Governo de Luís IX se estabeleceram reuniões regulares. Os meirinhos. tais como Ricardo e João e Balduíno IX. os senescais desempenhavam aí as mesmas funções que os meirinhos exerciam no norte. os capetos estava financeiramente igualados aos angevinos. Perseguiu os judeus e com a confiscação dos seus bens financiou todo o seu programa político ao longo de 1190. servindo como homens para todos os ofícios. Os meirinhos e senescais eram designados para partes da França de onde não eram nativos. que começaram por ser simples oficiais judiciais. Filipe substituiu os barões na corte por homens de posições inferiores que lhe deviam a ascensão social. deixando-os apenas com a Gasconha (a região da Aquitânia em volta de Bordéus).

cobrando imposto de cruzada aos súbditos. à Igreja e contraindo empréstimos junto dos genoveses e dos Cavaleiros Templários. que abdicou das suas pretensões no Languedoque e na Provença. enquanto Luís fazia o mesmo em Barcelona e no Roussillon. mas não tomou parte activa na acção. em regra frades. Cobriu a diferença tomando propriedades aos judeus. para ele próprio e para o Estado francês: a sua saúde ficou arruinada e o tesouro vazio. para os controlar. Os casos reservados para a Coroa foram alargados e o Parlamento obteve o direito de intervir quando os juízes achavam que se estava a negar justiça. As reuniões do conselho real tornaram-se raras. Em nenhum dos casos os resultados foram permanentes: as hostilidades com os ingleses em relação à Gasconha irromperam em 1290. sendo utilizadas mais para sessões solenes. pelo que o condado de Tolosa reverteu para a Coroa. Filipe Augusto permitiu aos nobres do norte participarem na cruzada contra os «albigenses» do sul da França. Os procedimentos do tribunal do rei (o Parlamento) foram passados a escrito pela primeira vez durante o seu reinado.suas duas cruzadas. A outra única grande adição de Luís IX ao domínio real foi a compra do condado de Mâcon em 1239. Luís regularizou as relações com Inglaterra e negociou uma trégua semelhante com Jaime I de Aragão. No entanto. O reinado de Luís IX foi importante para a regulação da justiça francesa. mesmo que não houvesse qualquer apelo. tais como a emissão de ordenações. Embora os príncipes tenham continuado a governar os seus territórios. O Parlamento de Paris tornou-se o supremo tribunal e os apelos feitos par a ele tornaram-se mais numerosos para o final do reinado de Luís. o irmão mais novo de Luís. estas em consequência do apoio deste a Manfredo contra Carlos de Anjou. fez com que em França não houvesse uma «lei dos comuns» semelhante à de Inglaterra. alguns abusos dos meirinhos levaram Luís a nomear inquisidores. Também existia uma diferença considerável entre a lei escrita do sul da França e a lei normal das regiões do norte. Pelo contrário. mas recusou aceder aos pedidos do papa para uma cruzada contra o imperador Frederico II. à medida que os meirinhos e senescais eram colocados acima de grupos de prebostes. O facto de as leis usuais das várias províncias se terem desenvolvido antes da jurisdição real. O Governo francês foi fortalecido e o comando da administração regularizado. a partir da época de Luís IX as ordenações reais eram cumpridas fora do domínio real. A sua primeira cruzada foi um verdadeiro desastre. bem como as com Aragão. Nem a monarquia francesa nem a inglesa implementaram novas formas de angariar receitas 70/160 Capítulo 8 . Luís permitiu os tribunais papais na França. Luís VIII e Luís IX perseguiriam os albigenses. As sessões judiciais do conselho real passaram a ser fixas e em Paris. pois o seu rendimento anual em 1244 era cerca de um quarto do que a expedição lhe tinha custado.

a obrigação dos homens livres em prestarem serviço militar.senão depois de 1270. A prática da lei Romana estava dependente dos locais e das circunstâncias. As maiores fontes de rendimento dos governantes franceses eram as ajudas e os incidentes feudais. cobrando uma taxa àqueles a que não serviam no Exército real. o que significava que toda ela era tributável. apesar de ter sido extremamente significativo. segundo ela. muito menos. A natureza da lei e dos tribunais implicava que a justificação para práticas e condições tinha de ser encontrada na lei escrita. A MUDANÇA DA NATUREZA DA LEI Nas regiões da Europa com população galo-romanas surgiu na Alta Idade Média a lei comum neo-romana a partir das compilações feitas pelos governantes germânicos. Isto tinha consequências tão diversificadas como a permissão de os príncipes escaparem à responsabilização por actos ilegais cometidos pelos seus oficiais. ou nos estatutos reais que os complementavam. mas a lei romana permitia a concessão de poder de procuração a um representante. Era paternalista e concedia extensivos direitos aos chefes masculinos das famílias sobre as mulheres e as crianças. normalmente no Corpo da Lei Civil ou no Corpo da Lei Canónica. pois os rendimentos aumentaram como resultado de uma mais eficiente exploração dos direitos que o rei já possuía. na Europa do sul. enquanto forma corrente de legitimidade. mas não era de todo estranha às noções legais correntes na Europa germânica e. estando menos preocupados com os procedimentos do que com a determinação da culpa ou da inocência. Os tribunais que funcionavam sob a lei romana enfatizavam o papel do juiz. e não a pessoa que desse a ordem para o fazer. Luís IX tomou a cruzada como um incidente feudal. cobrando os ajudas às cidades. Os reis também fiscalizavam o «recrutamento geral». A lei neo-romana fornecia um corpo unificado e autoritário de jurisprudência ao qual os advogados e príncipes podiam recorrer. O costume oral declinou. A lei romana era uma lei de Estado unitária que enfatizava os direitos do governantes sobre os dos seus súbditos. a pessoa que cometesse realmente o acto era responsável por ele. Capítulo 8 71/160 . Não se deve exagerar sobre o impacto do reavivar da lei romana. A lei romana de intermediação era mais fraca do que a da Europa germana. o júri era menos utilizado do que nos tribunais de lei normal da Europa germana. O norte germânico tinha uma forte tradição da representação de facto pelo cidadão. Os legisladores reais defenderam que toda a terra em França era detida como feudo do rei.

Os códigos tribais demonstram. a sua posição não devia nada à relação feudal e o estatuto nobre estava ligado exclusivamente ao serviço honrado prestado a uma pessoa de elevado estatuto. Na época de Carlos Magno o serviço na administração real. eram descendentes de vassalos reais carolíngios e alguns deles ascenderam à nobreza suplantando mesmo as mais antigas famílias dos condes. Os duques e condes germanos eram nomeados pelo rei. pelo menos. ou através de casamentos com famílias da nobreza. Mas para se ser um nobre também se tinha de ser reconhecido como tal pela comunidade. por volta do final do século IX e X. por volta do século XIII. que a proximidade física com o rei concedia aos guerreiros um Wergeld (preço de sangue) mais elevado. Os vassalos tornaram-se. nomeadamente na Germânia do norte e na Inglaterra anglo-saxónica. No entanto. Ao exercer autoridade pública em nome do rei.Nobres e Cruzados Pag 276 do livro NOBREZA E ARISTOCRACIA: O ESTABELECIMENTO E COMPOSIÇÃO DA ELITE GOVERNATIVA EUROPEIA A partir do século V os vassalos nas áreas a oeste do rio Reno foram-se tornando. mas a detenção de cargos também se tornou cada vez mais importante. Mesmo em zonas onde os reis não tinham muito poder. no século XII. constituindo uma aristocracia com pretensões de nobreza. Muitos castelões. gradualmente. Por sua vez. grupo que ficou conhecido. ao serem escolhidos para desempenhar serviço militar. distintos dos outros servos. o primeiro de vários grupos que. uma pessoa de 72/160 Capítulo 9 . o estatuto mais elevado estava associado à posse de alódios e não à detenção de feudos. a partir do século VI. um pai nobre e. assim. Em alguns locais. Os vassalos consolidaram a sua ascensão pela obtenção de terras dos seus senhores. Assim. uma vez que o feudo não era propriedade do vassalo mas sim do seu senhor. um homem tornava-se um «homem livre nobre». o facto de a maioria dos feudos comportarem concessões de imunidade também envolvia o exercício delegado do poder de ban. por volta do ano 1000. em algumas regiões. era também um meio de elevar o estatuto de uma pessoa. os filhos mais novos de alguns condes usurparam o poder de ban. o que significava ser-se descendente de. sem olhar às proezas militares. ascenderam à nobreza através do serviço de honra prestado a uma pessoa de estatuto mais elevado. dos dois.9 . gozavam de imenso prestígio numa sociedade organizada por estatutos sociais. como os «barões». A posse da terra constituía a base do poder dos nobres.

sem terem para com eles laços feudais. por sua vez. Os dois níveis de nobreza tinham em comum a posse do bannum e justicia (o poder de comandar e de julgar) e a profissão militar. Só depois da conquista normanda é que a «taxa de cavaleiro» (knighy fee) se tornou uma unidade de serviço de cavalaria e. e pessoas que provinham de ramos das casas titulares e que haviam convertido o serviço militar ou a guarda do castelo em poder de interdição sobre o distrito administrativo de um castelo. a quem eram dadas posições de responsabilidade pelos reis germanos e pelas igrejas. eram de dois tipos. estava acompanhada por uma nobreza menor e. que embora o estatuto fosse comummente determinado pela mãe. Não tinham. mas. muitos cavaleiros não tinham uma taxa total. como tal. Constatamos. constituída por castelões. a genealogia sugeriria que o estatuto da mãe iria determinar o dos descendentes. que tinham usurpado o poder ou se tinham casado com membros de famílias mais antigas. sobretudo depois do ano 1000. Estes. em algumas partes da Europa. originalmente. Houve outros que entraram para a nobreza a seguir aos vassalos rurais. em Inglaterra e na França. pessoas que se encontravam entre os senhores locais. por volta do século XII. o estatuto nobre fosse herdado através da mãe. Quando a filha de um senhor se casava com um «homem novo». os sargentos. foi subdividida tão rapidamente que até na época de Guilherme o Conquistador.baixo nascimento podia ganhar terras e até títulos. O estatuto de cavaleiros estava ligado ao serviço militar a cavalo. mas tal parece não ter sido verdade na Inglaterra anterior a 1066. seriam talvez servos móveis. mesmo nessa altura. e em praticamente todo o lado. durante as migrações isso alterou-se para a descendência paternal. As estratégias familiares tornaram-se cruciais mas. de um modo geral. onde o cniht era uma pessoa livre de filiação indefinida. embora os casamentos diluíssem sempre essas distinções: pessoas de baixo nascimento. e os artesãos e assalariados. as famílias nobres eram cada vez mais fechadas. no século XIII. Por volta do século XIII o estatuto de cavaleiro na Inglaterra era uma distinção social baseada no rendimento que vinha da terra e não do serviço militar. Por volta do ano 1000 existiam dois níveis de nobreza em França: uma nobreza feudal com títulos e cujas famílias tinham exercido o poder de ban desde tempos imemoriais. legalmente. adoptando frequentemente o nome de um castelo. o que deu origem a que. que era a base do seu poder. da Lotaríngia e da Flandres eram semelhantes aos sargentos. porém. Os ministeriales da Germânia. não feudal. Existiam claras distinções de prestígio entre os dois. quando a cavalaria se tornou importante na definição da nobreza. quaisquer terras e. o que nos leva à relação entre a cavalaria e a nobreza. As suas funções eram semelhantes às dos castelões franceses que estavam a surgir por volta Capítulo 9 73/160 . eram a mesma coisa em muitas regiões. Abaixo do nível de cavaleiros existiam. mas a sua linhagem só era reconhecida como nobre quando fizesse algum casamento com famílias nobres.

Henrique de Inglaterra. A VIDA NOBRE A noção de cavaleiro tomou forma no continente europeu durante as Cruzadas. Henrique II proibiu-os em Inglaterra e. 74/160 Capítulo 9 . Os concorrentes derrotados. Passava a noite anterior a essa cerimónia a rezar e em rituais de purificação e. por vezes. O maior herói foi o Jovem Rei. ajoelhava-se e jurava seguir os preceitos cristãos Um outro cavaleiro tocava-lhe no ombro com uma espada e erguia-o. Os cavaleiros germanos foram reconhecidos como nobres de facto no final do século XII. o mais influente homem da Igreja do século XII. para ser treinado nas artes da caça e da guerra. mas que não estavam armados cavaleiros.do ano 1000. eram detidos sob resgate. Alguma literatura de «amor cortês» do século XII idealizou um país de fantasia e de amor platónico combinado com bravura militar. especialmente no que dizia respeito a cavaleiros que procuravam relíquias ou buscavam o Santo Graal. no qual louvava os que morressem na luta pela fé. curvar-se-ia perante ela para lhe dedicar a vitória. normalmente. era «armado» cavaleiro. muitas vezes o senhor do seu pai ou um parente próximo. depois. Os primeiros faziam-se. Bernardo de Clairvaux. que morreu prematuramente em 1183. O objectivo era capturar o adversário e não matá-lo. O papa prometeu remissão plenária dos pecados daqueles que morressem na luta contra os infiéis e S. filho de Henrique II. O posto mais baixo na «ordem dos brasões» correspondia aos homens de linhagem de cavaleiros. a partir de 1130. Os poetas exaltaram as virtudes dos jovens príncipes. levando normalmente o lenço dela ou um outro talismã para a luta e. Nos torneios observavam-se elaboradas convenções sociais: o cavaleiro agia como campeão da sua dama. Depois de o jovem escudeiro ter recebido a sua educação. escreveu um tratado intitulado Sobre a Nova Cavalaria. juntamente com os seus cavalos e armaduras. enquanto os ministeriales não o eram. com lanças de madeira. um fardo que recaía sobre os vassalos e/ou arrendatários dos perdedores. Os torneios eram importantes no treino dos guerreiros. a diferença residia no facto de os castelões serem de origem livre e. embora tenham perdido formalmente o estatuto de servos apenas no século XIII. mas o nobre verdadeiramente desportista utilizava as armas normais. A mística da cavalaria era enfatizada por um elaborado cerimonial: o filho de um cavaleiro era enviado com a idade de 7 anos para a casa do um outro cavaleiro. já como cavaleiro. caso ganhasse. a Igreja emitiu decretos contra eles. nobre. Mas mesmo Henrique enviou os seus filhos para o continente para serem treinados num «circuito» de torneios no norte de França e na Flandres.

nomeadamente naqueles que incluíam um título. Constatámos o enorme poder de Eleanor da Aquitânia. sobretudo. mas existem inúmeras excepções. sobre os dos seus filhos. havia em 1150 cerca de 100 linhagens nobres. À medida que as propriedades foram ficando mais pequenas e passaram a valer menos. o grupo de pessoas que podiam ser encaradas para potenciais casamentos sem derrogação do estatuto era limitado e o resultado só podia ser a extinção gradual. forçando um deles. a repudiar a sua primeira mulher e a casar-se com uma princesa lombarda. através de alterações no estatuto de cavaleiro. no oeste da Germânia. o próprio Carlos Magno. Quando ambos os pais tinham de ser nobres para que o filho fosse nobre. A primogenitura. Teria de haver uma mudança e ela chegou no início do século XIV. Pelo seu lado. No século X. mas o número decresceu para 12 em 1300. na Vestefália. Judite. herança de toda a propriedade pelo filho mais velho. A rainha Bertrada. rainha de Luís VIII de França e mãe de S. adquiriam mais autoridade sobre os seus próprios destinos e. Carlos. no noroeste da França. foi uma forte figura que arbitrou as querelas dos seus filhos. Por volta do século XI as mulheres aristocratas casadas estavam limitadas a influenciar os seus maridos. ele próprio.A DAMA NOBRE As rainhas aristocráticas. como Brunilde e Fredegunda. era comum apenas nos feudos. a criar e a educar as crianças Uma vez viúvas. a favor do filho dela. Luís o Pio foi atormentado pelas manobras politicas da sua segunda mulher. cujos rendimentos provinham principalmente de rendas fixas. deteve um poder enorme sobre o filho. passou de 120 para 29 durante esse período. rainha de Luis VII de França e de Henrique de Inglaterra. mas o seu papel foi ainda maior quando se tornaram rainhas-mães. Capítulo 9 75/160 . influenciado pelas suas duas mulheres. o filho mais velho ou subfeudalizava os seus irmãos. que também era. ou obtinha a permissão do seu próprio senhor para dividir o feudo com eles. todos os filhos sobreviventes de pais nobres eram considerados nobres e os patrimónios eram divididos entre eles. o imperador Otão III foi controlado pela sua avó Adelaide e pela sua mãe Teófana. de quem foi regente no período em que ele esteve em cruzada pela primeira vez. Luís. Em muitas regiões. as linhagens tenderam a desaparecer. de Pepino o Breve. Na Picardia. Bianca de Castela. tiveram um papel importante na política da Europa germana. No período carolíngio a crescente influência da Igreja circunscrevia o papel da mulher. O FINANCIAMENTO DA NOBREZA A renascença económica da Idade Média Central atingiu a posição financeira dos nobres.

MUDANÇAS NO RELACIONAMENTO FEUDAL: A VASSALAGEM A aquisição de títulos e terras em feudo era apenas uma das várias formas de elevar o estatuto social de uma pessoa. A natureza do laço feudal também passou por grandes transformações durante a Idade Média Central. Existem poucas informações do processo pelo qual os laços militares feudais, no período carolíngio, evoluíram para o feudalismo fiscal e governativo do século XII. Os vassalos e senhores do período carolíngio tinham tido obrigações específicas de se sustentarem mutuamente. Por volta de 1020 o duque da Aquitânia pediu a Fulbert de Chartres que especificasse o que o juramento de fidelidade envolvia. A resposta foi dada em termos vagos: a conduta do vassalo não deveria, de modo algum, atentar contra o seu senhor ou contra os desígnios deste, mas nada foi dito em relação às obrigações de tomar parte em actividades que aumentassem os interesses do senhor. À medida que o elemento proprietário do laço feudal se intrometia cada vez mais com o pessoal, passou a desenvolver-se um cerimonial para simbolizar o vínculo dos homens honrados aos seus senhores. O senhor perguntava ao vassalo se estava disposto a tornar-se um homem seu e a resposta afirmativa era seguida, em muitas regiões, por um beijo. Depois fazia-se um juramento de fidelidade no qual o vassalo jurava cumprir os termos da sua homenagem. O vassalo era investido depois de ter prestado homenagem e jurado fidelidade: o senhor colocava na mão do vassalo um símbolo da propriedade: um galho ou um torrão de terra. Por volta do século XI, o costume de os vassalos terem vários senhores tinha criado uma situação altamente complexa na qual as suseranias locais eram reunidas e subdivididas continuamente. Os vassalos tentaram desenvolver uma hierarquia de obrigações, fazendo que um senhor fosse o «suserano» ou senhor supremo, normalmente aquele de quem era detido o maior feudo ou que estava na família do vassalo há mais tempo. Mas uma geração após o aparecimento da homenagem suserana, aparecem fontes que se referem a múltiplas homenagens semelhantes, perdendo o seu significado. A evolução demográfica e económica justifica muitas das mudanças na natureza da vassalagem. O aumento populacional trouxe um aumento da disponibilidade de mercenários e tornou-se mais barato contratá-los do que convocar as hostes feudais, sobretudo se os nobres precisavam mais de infantaria do que de cavalaria. Especialmente depois das Cruzadas, os castelos tornaram-se de tal modo sofisticados que muitas das campanhas se concentravam mais na utilização de formações massivas do que em ataques de cavalaria. Mesmo as batalhas campais eram cada vez mais travadas a pé, sobretudo depois de se terem desenvolvido grandes milícias no início do século XIII. No início do século XII, os reis ingleses cobravam um
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pagamento anual ao vassalo em vez do serviço militar. Por essa altura, a extensão do serviço devido por vassalos era limitada em quase todo o lado (por exemplo, a quarenta dias por ano na Inglaterra e na Normandia). Se o senhor desejasse mais, tinha de pagar ao vassalo por ele. As «ajudas» e os «incidentes» feudais desenvolveram-se na França por volta dos finais do século XI e início do século XII. A ajuda e conselho era obrigação do vassalo: tinham de aconselhar o senhor sempre que lhes fosse pedido. A ajuda militar era devida, por princípio, todos os anos, mas já observámos que isto, no século XII, estava na prática muito limitado A ajuda financeira era devida em ocasiões específicas: quando o armava cavaleiro o seu filho mais velho, quando dava a sua filha mais velha em casamento pela primeira vez, quando era capturado e mantido sob resgate e quando partia em cruzada. A primeira ajuda feudal que se encontra registada em França foi quando o rei casou em 1137, seguida de uma ajuda para uma cruzada em 1147. Os reis germanos juntaram uma quinta ajuda para a viagem a Roma para a coroação imperial. O montante da ajuda era negociado entre o senhor e o vassalo, mas por volta do século XIII já se tinham fixado valores normalizados.

MUDANÇAS NA RELAÇÃO FEUDAL: O FEUDO O feudo era propriedade do senhor, porém, era o vassalo quem usufruía da sua utilização. O senhor tinha de consentir com as vendas, com a substituição de um vassalo por outro, com as subdivisões e com a subfeudalização, mas a maioria dos senhores permitia estas práticas em troca de uma taxa. Os feudos entraram, assim, no mercado de terras. Isto, combinado com a múltipla vassalagem e detenção de feudos, sobre os quais os senhores não exerciam qualquer tipo de controlo, originava responsabilidade por feudos extremamente complexas, e pequenas querelas podiam resultar em grandes conflitos. A alienação do serviço militar e o acompanhamento de pagamentos tornou-se de tal forma grave que o rei inglês Eduardo I proibiu a subfeudalização, decretando que, de futuro, os feudos pudessem ser transferidos apenas por venda e substituição. O novo locatário não ficaria a dever qualquer serviço ao vendedor, assumindo simplesmente as obrigações do vendedor para com o senhor. Os incidentes feudais eram pagamentos inerentes ao feudo e não à vassalagem, como reconhecimento da posse do senhor. Por volta do século XIII, as ajudas feudais e alguns dos incidentes eram rigidamente regulados, constituindo apenas um pequeno rendimento dos príncipes. Outros incidentes continuaram a ser importantes fontes do rendimento real na Inglaterra e na França, embora isso não acontecesse na Germânia, de tal forma que os reis pressionavam os proprietários de terras para que estes convertessem os seus alódios (terra pública e não suCapítulo 9 77/160

jeita a pagamentos feudais) em feudos. Os incidentes feudais incluíam o auxílio, uma obrigação herdada que era o equivalente a um ano de rendimento do feudo (?). A Magna Carta fixou o montante da assistência atribuída a diferentes categorias de feudos; à medida que os valores da terra aumentavam, o valor real da assistência declinava em proporção. Quando um menor herdava o feudo, o senhor tinha o incidente da tutela que lhe permitia criar a criança em sua casa, ficando com o rendimento do feudo até que o vassalo atingisse a maioridade. Isto levou a abusos tais que se estabeleceu um tribunal de tutores em Inglaterra de forma a remediar a situação. Quando o feudo era herdado por uma mulher, o senhor gozava do incidente do casamento: podia casá-la com um homem leal, da sua escolha, de modo a que o serviço militar pessoal do feudo fosse garantido. Finalmente, quando não havia nenhum herdeiro o senhor do feudo gozava do incidente de confiscação, através do qual o feudo revertia para ele enquanto sua propriedade. A confiscação era regulada e complicada pelos costumes locais. Os algumas regiões os parentes colaterais (primos, sobrinhas e sobrinhos) podiam herdar na ausência de filhos, mas não em todo o lado. Os reis capetos tentaram tomar o controlo do rico condado da Champanha em 1201, quando Filipe II explorou os seus direitos de tutela sobre o ainda criança conde Thibaut IV. Talvez nada exemplifique tão bem a fiscalidade do feudalismo como a concessão em feudo de artigos, tal como o direito de cobrar uma portagem. Os pagamentos anuais em dinheiro também eram dados como feudos por volta do final do século X e, já no século XII, eram bastante comuns no noroeste da Europa. Os feudos em dinheiro (rendas) tinham muitas das características do feudo de terra, com a excepção de que não era hereditário ou transferível e, consequentemente, não devia os incidentes feudais que eram pagos quando o feudo de terra trocava de mãos. Era utilizado mais frequentemente na aquisição de serviço militar de pessoas a quem os senhores não podiam conceder terras em feudo. Os detentores de feudos em dinheiro deviam serviço militar conforme lhes fosse requerido, e não anualmente. O feudo em dinheiro podia ser utilizado para circunscrever o espírito, mas raramente a prática das outras obrigações do vassalo. Os reis ingleses faziam usos do feudo em dinheiro, de modo a cercarem a França com inimigos, nas suas fronteiras do norte e do leste.

CASTELOS E ARMAMENTO A guerra era o modo de vida e o lazer do cavaleiro. As fortificações da Alta Idade Média eram muito diversas, indo de ruínas romanas a propriedades rurais, defendidas por muralhas

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antes de completar a sua conquista. A torre de menagem do castelo era. eram mais elaborados mas. tal como a balista. bolas de fogo ou até mesmo homens ou animais mortos. trincheiras ou paliçadas de troncos. Alargaram-se e aprofundaram-se as trincheiras.significava que existiam aberturas na maioria das fortificações. Os castelos com torres de menagem de pedra não tinham. na maioria dos casos. que pudessem causar a peste entre os defensores.de defesa. outras torres. sobretudo nos séculos XII e XIII. Capítulo 9 79/160 . durante o século X e século XI. mesmo assim. Os castelos em pedra apareceram pela primeira vez no final do século X e esse novo estilo espalhou-se rapidamente. A construção de castelos tornou-se cada vez mais complexa e cara. À medida que os castelos se tornavam mais imponentes. As muralhas tinham normalmente torreões para abrigar archeiros e balestreiros. depois atravessar para a terra-de-ninguém para atingir a segunda muralha e tomar a muralha interior. as cidades fortificadas tornaram-se objecto de planeamento militar. incluindo mineiros e operadores de máquinas de cerco. de início. ainda bastante pequenos. Enquanto os castelos mais antigos tinham sido fortemente aleatórios em design. mas também de acesso . algumas das quais permaneciam incompletas. para disparar dardos ou grandes flechas. em meados do século XIII. e o trabuco para lançar pedras. aumentaram consideravelmente. Os castelos que formavam o núcleo em volta do qual se desenvolveram as castelanias. de madeira.de terra. A dupla necessidade dos homens da cidade . Os exércitos. enquanto as muralhas eram feitas cada vez mais altas e mais grossas. o invasor tinha de ultrapassar uma muralha exterior. O castelo de «torres e muralhas» dos normandos foi um avanço fundamental. Muralhas de pedra concêntricas substituíram a paliçada de madeira. por volta do século XIII já eram quase todos planeados. embora se tenham reconstruído algumas em pedra. muitas vezes. A força de assalto utilizava aríetes e uma grande variedade de catapultas. contando muitas vezes com cerca de 15 000 a 20 000 soldados.

Os bizantinos só conseguiram repelir os normandos contratando venezianos. através da qual os peregrinos cristãos viajavam para a Palestina. mas esta situação alterou-se com a chegada dos turcos Seldjúcidas que. De facto. como os condes Fulk Nerra. de Anjou. os bizantinos encorajaram um regime separatista na Ásia Menor. sobretudo a Jerusalém. assim. caiu para Robert Guiscard. da Normandia. Para enfraquecer Alp Arslan. que os atacou depois mais a leste. Robert Guiscard. os turcos já tinham expulsado os gregos da Ásia Menor. o último posto avançado dos bizantinos em Itália. Em 1071. Até ao século XI o mundo muçulmano tinha sido dominado pelos árabes. Os turcos conquistaram rapidamente um império que incluía a Pérsia. não eram supostamente armadas. A Palestina tinha (e ainda tem) os santuários sagrados e a vida espiritual do crente atingia o auge com a viagem a esses locais. ao contrário das cruzadas. por volta de 1092. tendo o imperador emitido a «Bula Dourada». embora se saiba que houve grupos de peregrinos que defrontaram exércitos muçulmanos. fizeram peregrinações verdadeiramente públicas. As peregrinações. justificou as suas campanhas na Sicília em nome da religião. A noção de guerra santa foi fundamental para o movimento das Cruzadas. a Síria e grande parte da Palestina. Os acontecimentos do Leste também apressaram as Cruzadas. e Roberto o Diabo. levaram a que ele fosse considerado o santo patrono da Reconquista. em 1055. de um modo geral. a Mesopotâmia. que ficou conhecido como o sultanato de Rum. especialmente aqueles que eram conhecidos pelos seus temperamentos violentos. que concedia a estes o direito a colónia mercantil em Constantinopla e o direito de controlarem as docas e o monopólio do comércio bizantino com o Ocidente. uma hostilidade não só entre cristãos e 80/160 Capítulo 9 . em 1071. tornando-se Compostela o local mais importante de peregrinação no Ocidente. melhores relações com os cristãos latinos do que com os bizantinos. A lenda de que as relíquias do Apóstolo Santiago foram trazidas para Espanha.As CRUZADAS As Cruzadas não foi somente um movimento de entusiasmo religioso alimentado pelo desejo de libertar os santuários da fé cristã. os muçulmanos tinham. Tughrul Beg. o sultão Alp Arslan aniquilou um exército bizantino em Manzikert e. Os bizantinos também tinham problemas na sua fronteira ocidental. Bari. Alguns líderes do século XI. O século XI trouxe uma maior consciência religiosa e isso foi responsável por um aumento de peregrinações. tomaram Bagdade. Os bizantinos tinham-se servido da hostilidade religiosa como uma arma política nas suas conquistas do século X e Carlos Magno agiu como agente militante da Cristandade na divulgação da Palavra entre os ímpios. O prólogo das Cruzadas envolvia. vassalo do papa depois de 1061. O califa concedeu o título de sultão ao seu chefe. que passou a deter o verdadeiro poder.

mobilizou vastos exércitos. Aleixo Comneno recusou-se a permitir a entrada dos peregrinos na cidade. declarando uma moratória sobre as suas dividas. massacrando judeus por onde passavam . o imperador Aleixo I Comneno pediu ao papa Urbano II ajuda para reunir um exército. Urbano II tinha os seus próprios objectivos. a única militarmente bem sucedida. que se separavam do corpo do ExérciCapítulo 9 81/160 . evocaram visões para convocar as massas dos Países Baixos e da Rhineland. o papa apelou. Os sacerdotes que recrutavam os exércitos para as cruzadas ainda foram mais longe. formaram os principais fomentadores da Primeira Cruzada. onde os costumes da partilha de heranças haviam enfraquecido os nobres. para que os reis de França e da Lotaríngia parassem de lutar contra os seus pares crentes. Os grupos de atravessaram o vale do Reno. Mesmo antes de o Exército estar pronto. Mas no seu sermão do encerramento. Também prometeu a remissão plenária dos pecados aos que fossem martirizados na cruzada. cujos comandantes lhe escapavam por completo. Respeitando os ocidentais como guerreiros e como pensadores. Na ausência de reis e de duques. Em vez disso. onde acabaram por ser dizimados pelos turcos. A PRIMEIRA CRUZADA Ao convocar o famoso conselho de Clermont. já uma «cruzada popular» se tinha posto a caminho. a Cidade Santa tornou-se o objectivo dos cruzados. seguindo. O impulso para o movimento das Cruzadas veio do imperador bizantino. Pedro o Eremita e Walter o Pobre. Vários bispos tomaram imediatamente a cruz. Alguns chefes. os duques Godofredo de Lorraine e Roberto da Normandia e o conde Roberto II da Flandres foram os participantes mais importantes da Primeira Cruzada. O efeito foi electrificante. mas deu-lhes passagens através do Bósforo.apesar dos esforços dos bispos para os proteger -. matando onde mais importava.muçulmanos mas também entre os cristãos normandos e os cristãos gregos. o conde Raimundo IV de Tolosa. cada um sob o seu próprio comandante. a que agora chamamos de Primeira Cruzada. em 1095. convergiram para Constantinopla em meados de 1097. dizendo que tanto a culpa como o castigo eram perdoados. depois. pelos Balcãs até Constantinopla. Os exércitos. seguidos por numerosos príncipes laicos: os príncipes da Lotaringia. Urbano II colocou a propriedade dos cruzados sob a paz de Deus. os príncipes do sul da França e os normandos do sul da Itália. nomeadamente a reunificação das Igrejas grega e latina. que eram rivais nas suas terras e nas disputas pelos saques muçulmanos. Parece ter tido em mente uma força de elite composta por mercenários que lutariam sob o seu comando. Embora não se tenha a certeza de o papa ter chegado a mencionar Jerusalém.

As querelas sobre a sucessão do sultão Malik-Shah deram aos ocidentais uma oportunidade. nomeadamente o de Antioquia. Como seria de esperar. estabeleceram principados na Terra Santa. O REINO LATINO DE JERUSALÉM Os cruzados tinham de estabelecer uma administração ou. a quem era dado o direito de terem colónias residentes nas grandes cidades do reino. pelo normando Bohemund. Os bizantinos ainda feriram mais a sensibilidade dos cruzados ao tentarem impedi-los de saquear Niceia. O «Reino Latino de Jerusalém» estava literalmente entre o mar. quebrariam. seguindo-se uma carnificina sem precedentes. baseada na cistercense. sargentos e capelães. A ordem cresceu muito rapidamente. os muçulmanos e bizantinos e o acesso de mercadorias. preferindo não se misturar com os muçulmanos.to principal. Templários. menos Raimundo de Tolosa. Quando Godofredo morreu. Longe de aprenderem com o contacto com os muçulmanos. sendo colocada directamente sob o controlo do papa. a primeira cidade a ser capturada. Os Cavaleiros de S. A maioria dos cruzados voltou para a Europa e o reino latino viu-se obrigado a oferecer estímulos para conseguir colonos. foram criados para cuidar dos peregrinos doentes e pobres. Jerusalém foi tomada a 15 de Julho de 1099. Os Cavaleiros do Templo de Jerusalém. foram fundados em 1119 pelo cavaleiro Hugo de Payens. pelo menos uma autoridade na Palestina. alguns dos quais ajudaram os invasores. para defender os peregrinos. Tomavam votos monásticos e a sua regra. o seu irmão Balduíno foi coroado rei de Jerusalém. em 1100. tendo como vassalos os governantes dos outros principados latinos. sobretudo através do controlo dos castelos. Os bizantinos forçaram os ocidentais a jurar que restaurariam todo o território que tinha sido bizantino antes das conquistas turcas. As ordens de 82/160 Capítulo 9 . As «Ordens Militares» detinham um poder considerável no reino latino. Godofredo de Bouillon foi nomeado defensor do Santo Sepulcro. Quando Raimundo de Tolosa recusou a coroa. Os Cavaleiros Templários eram dirigidos por um mestre. sendo inicialmente compostos por homens laicos e clérigos. João de Jerusalém. sobretudo nas cidades costeiras. já que o império era controlado por emires locais. os cristãos mantiveram as suas próprias escolas. chamados Hospitalários. o reino tornou-se dependente dos mercadores italianos. sob o qual existiam três graus de cavaleiros. juramentos que todos. Os poucos que ficaram na Palestina permaneceram nos seus próprios enclaves. peregrinos e recrutas militares era crítico. acreditando que o povo de Cristo nada tinha a aprender com os pagãos. Foram reconhecidos como ordem militar por bula papal de 1113. foi escrita por Bernardo de Clairvaux.

e só depois as forças restantes dos dois exércitos se juntaram. mas foi persuadido pelos sermões de S. Nur ed-Din e Amalrico morreram ambos em 1174. mas em 1169 o vizir Nur ed-Din entrou no Cairo. em 1146. Bernardo.Calatrava e de Alcântara. unindo a Síria contra os cruzados. Saladino expulsou os franceses do Egipto. a filha rei Balduíno II (Fulk era o pai de Godofredo Plantageneta). em nome de sua mulher Melisende. príncipe de Mosul e de Alepo. sofreram uma desastrosa derrota. Luís VII de França tinha planeado a sua própria expedição. teve de se separar da sua mulher. em 1171. Enquanto o reino latino se dividia entre facções apoiantes de Balduíno III e da sua mãe. assim. O seu principal interesse em relação ao estrangeiro era atacar o Egipto. na Espanha. mas concordou em combinar os esforços com os germanos. ignorando um anterior acordo para esperarem pelos franceses. a unidade do Islão sunita. O assassinato de Zengi. seguiu à frente e foi derrotado. Balduíno IV era um leproso de 13 anos que acabou por ficar paralisado. O seu sobrinho. O Exército germano. Jerusalém foi governada por Fulk V de Anjou. Decidiriam. Amalrico e Nur ed-Din combateram-se durante alguns anos. o Estado cruzado sofreu a sua primeira perda territorial significativa quando Edessa caiu nas mãos de Zengi. Amalrico demonstrou algum talento para legislação. Grande parte do problema consistia na insurreição de Ronaldo de Châtillon. Nur ed-Din tomou Damasco. por sua vez. atacar Damasco. Os franceses. foram formadas por imitação dos Templários. acabou com a dinastia fatimida e colocou o Egipto sob o califado abássida de Bagdade. Nur ed-Din. seguiu-o pouco depois. No ano seguinte. embora o seu governante fosse aliado de Balduíno III contra Nur ed-Din. tentando limitar o poder das ordens militares. um aventureiro francês que casou com a viúva de Raimundo II de Tripolis. mas o seu segundo filho. conquistou os pontos fortes no mar Vermelho e. Formaram-se diferentes partidos em torno de Ronaldo de Capítulo 9 83/160 . A SEGUNDA CRUZADA E AS SUAS CONSEQUÊNCIAS A queda de Edessa levou o papa Eugénio III a apelar para uma nova cruzada. depois. mas conseguiu assegurar uma declaração de legitimidade para os seus dois filhos. Saladino. Fulk morreu em 1143. Conrado III da Germânia estava relutante. restaurando. O resultado foi uma catástrofe previsível: a Segunda Cruzada não conseguiu nada. Sibila e Balduíno IV. para silenciar a oposição da Igreja. A Balduíno III sucedeu o seu irmão Amalrico que. tendo-lhe sucedido sua mulher e seu filho de 13 anos Balduíno III. que prometia fundos para o defraudado tesouro real. provou ser um oponente formidável. Depois de 1131. impediu os muçulmanos de consolidarem as suas vitórias.

O próprio rei era controlado pela sua mãe. o filho da sua irmã Sibila e de Guilherme. até 1474. a meia-irmã de Sibila. a Síria e Mosul. A Terceira Cruzada teve resultados ambivalentes. que tinha poucos apoios no reino latino. justificava a sua pretensão com o casamento com Isabella. Uma vez na Terra Santa. Os ingleses e os franceses passaram o Inverno na Sicília.Filipe Augusto. rumando depois para a Palestina. Tiro e Trípolis permaneciam nas mãos dos cristãos. Os reis do ocidente . Entretanto. Os germanos chegaram primeiro e derrotaram um exército turco. Saladino aniquilou os cristãos em «Chifres de Hattin». Balduíno V. mas a maior parte das tropas de Barba-Roxa voltaram para casa depois de ele ter morrido afogado. pouco depois. Sucedeu-lhe o seu sobrinho. mas foi entretanto assassinado por uma seita fanática. Os Lusignan governariam Chipre. capturando Jafa. os exércitos foram desviados para as guerras locais. no inicio de 1187. A corte franca continuou dominada pelas intrigas e. marquês de Montferrat. Guy de Lusignan. em 1176 Saladino tinha consolidado a sua posição no império de Nur ed-Din e. dos senhores Courtenay de Edessa e dos Lusignans. Na Primavera de 1190 apenas Antioquia. Ricardo vendera Chipre aos templários. Ronaldo de Châtillon emboscou uma caravana e deu assim a Saladino o pretexto para atacar. de França. cercou os Estados cruzados. Ricardo tomou Chipre aos bizantinos. de Inglaterra . comprasse os seus interesses. Frederico I o Barba-Roxa. Conrado de Montferrat. Balduíno V morreu passado um ano. uma família do Poitou angevino. mas Ricardo permaneceu na Palestina. mas permitiu que Guy de Lusignan. voltou para França. Acre caiu para os cruzados em Julho de 1191. a oeste do mar da Galileia. ao controlar o Egipto. e Henrique II. Filipe Augusto.planearam uma campanha conjunta para recuperar os santuários. que se tornou uma base indispensável para o acesso militar e económico ao reino latino. o rival de Guy para a Coroa de Jerusalém. que colocou no poder o seu segundo marido. da família Courtenay. No caminho. 84/160 Capítulo 9 . capturando Guy e decapitando pessoalmente Ronaldo de Châtillon. Quando soube dos esquemas do seu irmão João com Filipe.Châtillon. negociou uma trégua de três anos e um salvo-conduto para os peregrinos cristãos nos santuários de Jerusalém e voltou para casa. e depois da sua morte. Depois des breves reinados dos dois subsequentes maridos de Isabella terem terminado os descendentes de Conrado governariam o reino latino até ele cair em 1291. sendo sucedido por Sibila. A 4 de Julho de 1187. A TERCEIRA CRUZADA A queda de Jerusalém chocou a Cristandade. do Império romano-germânico. Jerusalém capitulou a 2 de Outubro sem resistência. Ricardo I.

o imperador Isaac II Ângelo tinha-lhes restituído o direito de comércio em qualquer zona do império. Em 1261. até l432. Apercebendo-se de que a rivalidade entre os reis tinha impedido o sucesso da Terceira Cruzada. mas os venezianos ofereceram-se para as adiar se os cruzados tomassem Zara. governante de Niceia. pois estes pareciam ter ajudado os muçulmanos contra os ocidentais durante a Terceira Cruzada. sobretudo franceses. Em resposta. os cruzados e os venezianos irromperam sobre Constantinopla e saquearam-na durante três dias. O Império bizantino nunca recuperou do choque da Quarta Cruzada e apenas as mortes fortuitas de vários governantes mongóis e turcos. O ducado de Atenas foi tomado em 1311 a Valter de Brienne (cujo filho seria famoso na história da cidade de Florença). A casa de Anjou deteve o principado de Acbaia. Em 1187. e evitando. Os cruzados desembarcaram em Veneza e contraíram enormes dívidas. Depois de dividido o saque. uma cidade na costa da Dalmácia que o rei da Hungria tinha conquistado aos venezianos. Miguel VIII Paleólogo. enviou emissários pedindo apoio e prometendo somas avultadas aos venezianos e aos cruzados e que forneceria um exército para a expedição palestiniana. mas eles acabaram por ser depostos e assassinados. filho de Isaac II. enquanto lutava contra os búlgaros. embora. impediram que o Ocidente fosse invadido no final do século XIII e século XIV. assim. Esta envolvia uma alteração de estratégia. utilizando barcos venezianos. Assim o fizeram. O novo empreendimento consistia em realizar um ataque naval contra o Egipto. por mercenários catalães Capítulo 9 85/160 . Balduíno foi capturado era 1205. as estradas através de Constantinopla. Miguel VIII pôs fim aos monopólios dos venezianos dando valiosos direitos comerciais aos genoveses. Isaac II foi deposto a favor de um imperador anti ocidental. Aleixo II. e nunca mais foi visto. incluindo a biblioteca imperial e os seus insubstituíveis manuscritos. levando milhares de relíquias e destruindo toda e qualquer estatuária que não conseguissem transportar. o papa solicitou nobres menos poderosos. no sul da Grécia. o império latino de Constantinopla. em 1195. mas. sendo excomungados pelo papa por terem quebrado os seus votos de cruzada. Os Venezianos obtiveram enormes concessões. Os venezianos ainda tinham outros interesses no Oriente. tomou Contantinopla com grande facilidade e expulsou os ocidentais.A QUARTA CRUZADA A perda de Jerusalém levou o papa Inocêncio III a convocar uma outra cruzada. incluindo importantes portos e três oitavos da cidade de Constantinopla em si mesma. As relações com os bizantinos tinham-se deteriorado. o conde Balduíno IX da Flandres e de Hainault foi escolhido como imperador da «România». excepto os venezianos. fossem pouco depois libertados dessa expulsão. queimando toda a cidade. que expulsou os venezianos. Os cruzados reinvestiriam Isaac II e Aleixo II. fora do poder bizantino.

uma família banqueira florentina. tornaram-se duques de Atenas. mas outros conseguiriam voltar para a Europa. A guerra entre o Exército imperial e as forças de João de Ibelin. que agora se tornava a região-chave da Palestina. Chegou à Palestina apenas em 1228.que serviam nominalmente Constantinopla. alguns padres defendiam que o orgulho humano é que tinha causado o fracasso das cruzadas: o que os reis não tinham concretizado podia ser feito por pessoas inocentes e pobres. terminou com a solidez militar que o reino de Jerusalém ainda pudesse ter. cujas vidas imitassem Jesus e os seus discípulos. 86/160 Capítulo 9 . 1217. Já antes da Quarta Cruzada. Compreendia os nobres. os bispos. tecnicamente um tribunal de pares. Em. Grupos de adolescentes pobres dirigiram-se para Génova e Marselha e embarcaram rumo à Palestina. O imperador Frederico II tinha jurado ir em cruzada como condição pelo reconhecimento papal da sua Coroa. As cidades italianas e Marselha lucraram bastante com a organização de viagens regulares para os peregrinos de e para a Terra Santa. mas era tanto um corpo legislativo como um supremo tribunal. 1204-1244 No século XII formou-se um Supremo Tribunal. no Nilo. O MOVIMENTO DAS CRUZADAS. Os acontecimentos que se seguiram à morte de Saladino causaram uma transferência de poder do mundo islâmico para o Egipto. Vários barões cunhavam as suas próprias moedas e muitos deles possuíam jurisdição independente. Francisco de Assis juntou-se aí à Cruzada. que escutou delicadamente e. cercando Damieta. Damieta foi tomada. mas os cruzados detiveram-na apenas durante dois anos. depois. os cruzados estrangeiros de altas patentes e os mestres das ordens militares. mas conseguiu uma trégua de dez anos e a restituição de Jerusalém para os cristãos. rendendo-se aos turcos em 1456. Frederico teve de regressar rapidamente a Itália. reconduziu-o aos seus montado num grande elefante. atravessou o Mediterrâneo em barcos venezianos. Pregou o Cristianismo e a virtude espiritual da pobreza ao sultão al-Kamil. Os muçulmanos tomaram Jerusalém pela última vez em 1244. Em 1383. Foi um grupo com essas características que empreendeu a muito mal compreendida «Cruzada das Crianças» em 1212. O rei tornou-se pouco mais do que uma figura representativa. Como resultado. deixando a regência na Palestina a cargo do seu jovem filho Conrado IV. alguns foram vendidos como escravos pelos turcos. que era apoiado pela maioria da nobreza da Palestina. um exército maioritariamente austríaco e húngaro. a «Quinta Cruzada». os Acciaioulis.

contraindo para tal enormes empréstimos com os banqueiros genoveses. Os cruzados trocaram Damieta pela pessoa do rei. mas não havia nenhuma possibilidade de se recuperar Jerusalém. Em 1291. Carlos de Anjou. dominava o sul de Itália. que acabou com uma humilhante derrota às mãos dos turcos. Os papas continuaram a convocar cruzadas. Entretanto. tal deu-lhe o controlo de importantes portos. nomeadamente as ameias e muralhas. quando este tentava perseguir os muçulmanos pelo rio Nilo. mas a única que conseguiu reunir um grande exército foi a «Cruzada de Nicopólis». gasta pelos seus envolvimentos políticos nos séculos anteriores. pela primeira vez.AS CRUZADAS DE S. enquanto estes aprenderam sofisticados estilos de arquitectura de castelos. Na Terra Santa. IMPACTO DAS CRUZADAS Muitas mudanças ocorridas na Europa ocidental têm sido atribuídas às Cruzadas. que permaneceram até 1523. LUÍS Luís IX de França tomou a cruz no final de 1244. impondo elevados impostos ao clero e às cidades. mas a maior parte da evolução tecnológicos foi militar. mas em 1250 capturou todo o exército de Luís (incluindo o rei). A presença cristã no Oriente não estava completamente extinta. As Cruzadas tiveram impacto nas finanças públicas. Em 1310. moinhos de vento. negociaram uma trégua de onze anos com Baibars. Acre. o sultão Baibars foi anulando os pontos fortes cristãos na Palestina. Os exércitos viviam com o que retiravam Capítulo 9 87/160 . Pelo Exército pediu-se um enorme resgate. Sem dúvida que fortaleceram a autoridade moral dos papas. os ibelinos. os Hospitalários ocuparam a ilha de Rodes. mas Luís serviu-se de uma revolução palaciana do Egipto para libertar o seu Exército. Os cruzados viram. simultaneamente. As Cruzadas permitiram aos papas angariar vastas somas de dinheiro e aos príncipes oportunidade para adquirirem reputação militar. mas Luís acabou por desviar a Cruzada do Egipto para Tunis. As tropas inglesas. sob o comando do futuro rei Eduardo I. as rivalidades entre os descendentes de Frederico II. o que forçou ao regresso do Exército. que tinha capturado os últimos castelos das ordens militares na Palestina. os venezianos. Luís IX tomou novamente a cruz. a última cidade cristã no reino de Jerusalém. os pisanos e as ordens militares continuaram e. Como o seu irmão mais novo. Aprenderam-se novas tecnologias. Quando partiu. em 1248. seguiu a táctica de atacar através do Egipto. de 1396. caiu para os muçulmanos. Os muçulmanos aprenderam a utilizar a cota de malha dos cristãos. As primeiras duas cruzadas parecem ter tido pouca necessidade de receitas extraordinárias. onde morreu. os genoveses. O sultão abandonou Damieta.

alguns italianos continuaram a comerciar com Alexandria e Damieta. Depois de 1100 o comércio com os muçulmanos tornou-se muito arriscado. Embora se tenham salvo alguns manuscritos. produtos florestais e soldados para o Oriente. sobretudo. mas Ricardo I cobrou a «taxa de Saladino» que o seu pai tinha estipulado. ao aumentarem a disponibilidade de dinheiro. Às Cruzadas atribuiu-se o reavivar do comércio entre o Leste e o Oeste. mas essas afirmações são um pouco exageradas. à excepção de breves períodos de hostilidade inspirada por rivalidades políticas ou religiosas. Frederico o Barba-Roxa e Filipe Augusto parecem ter-se contentado com os seus recursos pessoais e com as ajudas dos barões. à moeda muçulmana roubada. os ocidentais ainda recorriam a Constantinopla ou a Bagdade. Para especiarias. de modo algum. na Espanha e na Sicília. As Cruzadas também têm sido consideradas responsáveis pelos entendimentos culturais entre o Oriente e o Ocidente. Génova e Veneza comerciavam activamente com os gregos e muçulmanos já antes das Cruzadas. mas a criação de uma base comercial capitalista na Europa do século XII. Pisa. Fizeram. Isto alterou-se radicalmente com a Terceira Cruzada. mas não existem certezas. em troca de têxteis de luxo e de especiarias e este comércio continuou a existir. Os cristãos capturaram quantidades substanciais de moeda muçulmana na Palestina. sem dúvida. as de Luís IX. mas esta não era um dos grandes exportadores de materiais necessários ou desejados no Ocidente. em grande parte. O ritmo deste comércio acelerou-se depois de 1100 mas também aconteceu o mesmo com o comércio interno na Europa. Os muçulmanos e os cristãos permaneceram separados na Palestina. Como resultado. pois os estrangeiros eram frequentemente expulsos e os seus bens apreendidos. As Cruzadas de Frederico II e. a quem compravam artigos de luxo importados do Oriente. A cultura não era difundida mais rapidamente através dos conflitos militares. e no Cairo estabeleceu-se uma colónia de pisanos. antes das Cruzadas. com que fosse mais fácil para os ocidentais obter produtos da Palestina. Desde o período romano que o Oeste enviava escravos. exploravam-se apenas as minas de prata de Rammelsberg. A Europa ocidental não tinha grandes reservas de metais preciosos e. os banqueiros genoveses e os cavaleiros templários. devido. O saque de Constantinopla foi um desastre cultural do qual o pensamento ocidental nunca recuperou. claro.saqueavam e não existem quaisquer registos de impostos especiais. As Cruzadas fortaleceram a economia da Europa ocidental. na Germânia. foram extremamente caras. e as manufacturas que começavam a desenvolver-se nas cidades europeias. O maior impacto das Cruzadas pode ter sido não a promoção do comércio entre o Ocidente e o Oriente. o facto de termos ape88/160 Capítulo 9 . O papel dos cruzados nestas transformações não é. Luís morreu em dívida para com os seus próprios súbditos. as cortes tornaram-se ricas e financiavam os mercadores urbanos. No entanto.

da mesma forma que com os muçulmanos. que se considerava o herdeiro do reino visigodo. Por volta de 1147. assistiu-se ao primeiro interesse de Espanha. beduínos que seguiam o ascetismo. A área fronteiriça a sudeste de Leão. A zona mais fértil do intercâmbio cultural era a Sicília. que consideravam os almorávidas tão heréticos como os cristãos. Os almorávidas desencorajavam a vida cultural que tinha florescido sob os reis taifa. sobretudo em relação aos conhecimentos médicos e farmacêuticos muçulmanos no Ocidente.as principais figuras do século X foram a rainha Toda de Navarra e o seu genro e rival Fernando Gonzalez. uma nova seita. Aristóteles e dos dramaturgos gregos testemunha a verdadeira a latitude do flagelo. o fundador da nova dinastia. Afonso III o Grande. Capítulo 9 89/160 . sucedendo-lhe vários pequenos Estados em constante competição (os reinos taifa). MUDANÇAS EM AL-ANDALUS O califado omíada enfraqueceu depois da morte do califa al-Hakim e caíu em 1031. a rígida aderência ao Corão e a prática da guerra santa. que passou a dar o nome ao reino. bem como muitos dos seus novos súbditos. em 1106. O avanço cristão foi travado pelos almorávidas. já tinha subjugado toda a Espanha muçulmana. pela literatura e pensamento persa.nas pequenos fragmentos do corpus original de Platão. e Navarra. povoada por muçulmanos e cristãos. excepto Saragoça. perseguiram os cristãos e os judeus. Toledo caiu em 1085 para Afonso VI de Leão. deslocou a capital de Oviedo para Leão. os almóadas. que governou Castela como conde – seguiram uma complexa politica dinástica que os colocou em conflito uns com os outros. travou o avanço cristão e. grego e árabe. Os príncipes cristãos . Os cristãos da Espanha do noroeste aproveitaram-se da situação para expandir as suas fronteiras para sul. e tornou-se no século X o condado de Castela. Yusuf ibn Tashfin. A ESPANHA DURANTE A IDADE MÉDIA CENTRAL Até aos finais do século VIII existiam duas zonas governadas pelos cristãos na península Ibérica: o reino das Astúrias. Também em Toledo os contactos entre muçulmanos e cristãos atingiram o auge. como resultado. nomeadamente os mercadores e intelectuais. desde o século IX. derrubaram o governo em Marrocos e tomaram a maior parte dos territórios dos seus territórios. O rei de Aragão. Os almóadas reconheceram o califado abássida em Bagdade e. era terra-de-ninguém.

conde de Portugal. Depois da morte de Afonso. Durante o seu longo reinado (até 1185). as suas fronteiras actuais. Este acordo permitiu a Ramon Berenguer exercer a soberania em Aragão até os seus filhos atingirem a maioridade. declarou-se. tomando Lisboa aos muçulmanos. A Coroa era forte e a aristocracia menos poderosa. Ramiro que. os aragões tomaram Valência e os castelhanos Sevilha. mas. chegando mesmo a tomar o título de imperador. Castela e Leão foram para diferentes filhos. rei de Portugal. Afonso VI de Castela e Leão morreu sem deixar um herdeiro masculino. Afonso promoveu a colonização e a formação de aldeias em volta dos mosteiros de Cluny. mas em 1072 acabaram por ser reunidas sob o filho mais novo. Afonso I. em 1139. O filho de Teresa e de Henrique. e este teve de reconhecer a hereditariedade dos domínios e títulos que detinham.é muito provável que o princípio «liberdade após um ano e um dia» tenha vindo da península Ibérica . Afonso Henriques. Sob Afonso III. auxiliado por algumas tropas francesas. Afonso VII. Granada. aniquilou o Exército almóada em Las Navas de Tolosa. Em 1212 um Exército unido de vários reinos da península Ibérica. utilizando os caballeros villanos e estabelecendo novas aldeias. com Afonso I o Lutador. que travou guerras constantes com os muçulmanos. que influenciaram as que se davam no norte .DE TOLEDO A SEVILHA Quando Fernando I morreu. Os catalães tomaram Maioca. acabou por governar tanto Castela como Leão. talvez porque pagasse tributos consideráveis a Castela e constituísse um abrigo para 90/160 Capítulo 9 . As cartas (fueros). sensivelmente. Tal como em Castela. que morreu sem deixar um herdeiro. os nobres de Aragão serviram-se da guerra civil no início do reinado de Afonso I para fortalecer a sua posição. para contrabalançar a influência de Afonso VII de Castela e Leão. criando pontos de acolhimento e melhores estradas. Portugal atingiu. foi sucedido pelo seu irmão mais novo. Afonso VI proclamou Henrique da Burgúndia. A maior parte deles resumiam-se a comunas rurais. o marido da sua filha bastarda Teresa. Contudo.estabeleceram conselhos nas cidades com jurisdição sobre a área rural circundante. mas alguns tornaram-se verdadeiras cidades. a conquista deslocou-se para sul. que se tornou a capital do reino. O seu neto. O crescimento de Aragão foi mais lento do que o de Castela. Não tentaram capturar o único posto muçulmano restante. quase duplicou o tamanho e tomou Saragoça. Afonso VI. casou a sua filha Petronila com o conde Ramon Berenguer IV de Barcelona. Portugal expandiu-se para sul. com poucos muçulmanos e judeus. Afonso promoveu a peregrinação a Santiago. Assim. Portugal era mais homogéneo etnicamente do que Castela e Aragão. o conquistador de Toledo. a nobreza de Aragão tornou-se mais forte do que a de Castela. os reis esperavam limitar os poderes dos nobres.

as cortes. conhecidos como os mudéjares. com base no seu descontentamento com a centralização implícita no seu código de leis. A Andaluzia tornou-se. foram no século XI governados por cristãos. Castela desenvolveu uma exportação substancial de lã. Os governantes espanhóis ignoravam. depôs Afonso X o Sábio. da nobreza e da burguesia. mas não escrito. sobretudo depois de Afonso X ter licenciado a Mesta. na verdade. Ora. o Siete Partidas. levando a que os cristãos espanhóis os começassem a expulsar. que tinha vastas populações muçulmanas e judaicas. Agora os muçulmanos começaram a ser expulsos. aos soldados castelhanos tinham sido dadas quintas e eles mantiveram os muçulmanos como trabalhadores e arrendatários. assim. Consideravam-nos úteis e. que no tempo muçulmano tinha sustentado uma agricultura diversificada. LEI. Por volta de 1300. uma região de grandes quintas entregues à criação de animais. SOCIEDADE E ETNIA NA ESPANHA DO SÉCULO XIII Os muçulmanos. de aprovar novos impostos. Estas instituições representativas não se estendiam ao sul. em 1282. fosse entregue à criação de gado e a uma «monocultura cerealífera». As cortes castelhanas permaneceram mais fracas do que as de Aragão e da Catalunha. em vez de coexistir com eles. geralmente. as cortes castelhanas tinham estabelecido o direito comum. A conquista da Andaluzia reforçou a posição dos judeus no comércio e no crédito.os muçulmanos que estavam a ser expulsos das comunidades cristãs. o que levou a que a terra de cultivo. protegiam-nos. as restrições dos papas para evitar contacto com os judeus. Os reis utilizavam-nas para contrariar o poder dos nobres. mas o seu número aumentou dramaticamente no século XIII. apresentar petições ao rei e confirmar a sucessão do trono. uma associação de criadores de ovelhas. compreendendo os três grupos do clero. Capítulo 9 91/160 . de um modo geral. Na Península Ibérica surgiram instituições representativas.

usualmente. O crescimento demográfico é difícil de medir. A ALDEIA A expansão demográfica da Idade Média Central e o crescente poder dos senhores para alterarem os costumes locais criaram a aldeia nucleada a partir de aldeolas dispersas. A população vinha a crescer desde que os germanos se estabeleceram em locais permanentes. facilitando o desenvolvimento de feudos. Além disso. com as casas dos agricultores. mas este padrão não se verifica em todo o lado. A expansão foi. A quantidade de homens ou mulheres no total da população variava: parece ter existido uma predominância de homens nas áreas rurais e de mulheres nas zonas urbanas. À excepção do Doomsday Book inglês. e sobretudo nos séculos XIV e XV. a igreja da paróquia (embora. Depois de 1100.10 As transformações sociais e económicas da idade média central O Sector Agrícola Entre meados do século X e finais do século XIII a Europa teve uma expansão económica sem precedentes. Cada um destes problemas foi ultrapassado depois de 950. tendo a forma circular. os senhores muitas vezes impunham os seus próprios planos das aldeias. dificultada pelas pragas intermitentes ao longo de grande parte do século VI. um lago ou um poço e um campo onde se apascentavam os 92/160 Capítulo 10 . As tentativas para calcular a população total da Europa são demasiado variáveis e inexactas para poderem ter algum significado. O núcleo da aldeia era. pelas invasões do século IX e pelas alterações climáticas nos finais do século VIII e IX. A maior parte das aldeias do início da Idade Média que nasceram de aldeolas tinham ruas irregulares. rectangular ou estavam organizadas em redor de uma praça central. esta se pudesse encontrar nas zonas limítrofes). mas aquelas que foram fundadas na Idade Média Central eram frequentemente regulares. a maior parte das fontes são listas de chefes de família que devem ser corrigidas para se chegar a uma ideia sobre o número dos dependentes. os edifícios do senhor. nas novas aldeias. a rua principal. reestruturando-a em torno da casa senhorial. Fontes sugerem que as pessoas com menos de 15 anos de idade constituíam cerca de 40% da população total. contudo. a maior parte dos números que nos chegaram reportam-se a pequenas áreas ou até a propriedades individuais. que originaram inundações e Invernos rigorosos e encurtaram a estação de gestação das culturas.

onde as actividades da família se desenrolavam sob um mesmo tecto. Além disso. Até as paredes serem constituídas com materiais resistentes ao fogo. a manufactura. tinha de se colocar. que tinha um cano duplo para levar o ar até ao fogo e o fumo para foi a da casa. Isto criava o problema de fumo e de aquecimento. Isto levou-os a utilizar técnicas administrativas mais complexas e a manter registos mais exactos. na reserva ou nas terras. espalhando-se depois às outras zonas da Europa. no centro da casa. A maioria das casas dos camponeses tinham janelas cobertas por pergaminho ou peles. No século XII. tornou possível aquecer vários andares. A CASA CAMPONESA A cabana afundada. embora isso não se verificasse em todos os casos. A administração das propriedades do senhor tornou-se mais sistemática do que anteriormente. Antes do século XIV era raro verem-se vidros nas janelas.animais. À medida que se requisitavam menos serviços de mãode-obra aos arrendatários. tendo de pagar taxas de utilização ou uma parte dos bens produzidos pelas máquinas do senhor. A chaminé de parede. que tinha estado localizada nessas cabanas. A chaminé de parede desenvolveu-se em França e espalhou-se depois por Itália e Inglaterra. os senhores obtinham rendimentos consideráveis das banalités (monopólios derivados do seu poder bannum): os arrendatários eram obrigados a utilizar os moinhos. as padarias e as fábricas de cerveja do senhor. uma vez que o fumo tinha de sair através de um buraco no telhado. Por volta do século XII. tornou-se comum. A maioria delas tinha duas salas. não tinham separação entre elas e os ocupantes confinavam com os animais. Algumas. As ruas laterais conduziam aos campos de cultivo que se situavam nos arredores. que tinha sido utilizada na Alta Idade Média para a indústria leiteira e armazenamento de produtos. nomeadamente de tecidos finos. os senhores tinham de contratar assalariados para cultivar as terras. apesar de a maioria deles nomear delegados ou meirinhos que podiam agir tanto nos seus próprios interesses como nos do senhor. deslocou-se para as cidades. todavia. incluíam agora celeiros e estábulos separados. o feudo e a aldeia eram. uma para os humanos e outra para os animais. As únicas excepções eram o fabrico de alimentos e o trabalho dos ferreiros. lareiras para aquecimento e para cozinhar. Capítulo 10 93/160 . Esta mudança também for impulsionada pela prática cada vez mais frequente de colocar a aldeia sob leis ou costumes escritos. A câmara comum surgiu primeiro no norte da Germânia. em parte porque muitos dos agricultores mais prósperos. um mesmo território. normalmente. deixou de ser utilizada. A casa unitária. que podiam custear edifícios exteriores.

substituindo os postes de madeira. No entanto. No sul da Europa as casas tinham sótãos baixos e uma ligeira inclinação no telhado.A maior parte das casas na Idade Média Central eram construídas com materiais inflamáveis e o problema do fogo era agravado pela prática de cobrir o chão com palha. que começou no norte da Noruega e na Ânglia de leste. a sementeira da Primavera era maior do que a de Outono nas propriedades carolíngias. sobretudo nas mais a norte. As transformações na tecnologia agrícola tiveram um papel importante. A maioria dos telhados da Alta Idade Média eram feitos com matérias vegetais. a maioria das casas dos camponeses eram construídas com madeira. durante a Idade Média Central. Até ao século XIV não eram utilizadas telhas senão nas cidades. a madeira tornou-se tão cara que as casas começaram a construir-se com pedra. coexistindo por vezes com três. em estruturas de «cabanas de troncos» ou utilizando tábuas unidas umas às outras. Todavia. Algumas cidades mantinham. foram. A pedra só era utilizada nas casas dos aldeões mais ricos. uma vez que a pedra e o barro eram demasiado pesados. com a parte restante em descanso e utilizada para apascentar animais. com as fendas tapadas com lama ou barro. Grande parte delas tinha uma estrutura de troncos ou vigas entrecruzadas. apoiados numa base de pedra. Os pilares. Um grande avanço foi o fabrico de tijolos. TECNOLOGIA AGRÍCOLA E ROTINAS DO CAMPO Alguns historiadores atribuíram o aumento de população a uma longa conversão da agricultura de dois campos para três campos no norte da Europa. sobretudo em França. que é frequentemente encarada como o coração dos campos abertos sem vedações e da forma agrícola das aldeias nucleadas. que a iam fertilizando com os seus excrementos. mas no norte existem inúmeras 94/160 Capítulo 10 . por volta de 1300. mas os casos de conversão deliberada para rotação de colheitas eram raros. mas depois dessa altura tornaram-se comuns. O desbravamento de terras poderia adicionar um terceiro campo à estrutura de dois campos. Se dois terços de uma dada área. O facto de serem semeadas duas ou três colheitas parece ter sido determinado por costumes locais e por condições climáticas e não tanto por uma decisão consciente. O arado de relhas continuou a ser utilizado nos solos arenosos do Mediterrâneo. gradualmente. espalhando-se pelas regiões costeiras. mas os blocos de barro com ervas encontram-se em algumas zonas. a produção de colheitas deveria aumentar cerca de 50 %. por volta do século XIII. Muitos locais em Inglaterra. em meados do século XII. enquanto que no norte os sótãos eram altos e os telhados mais inclinados. Na Alta Idade Média. e não metade. as suas próprias fábricas de tijolos e de pedras de pavimento e as suas próprias pedreiras. tinham dois campos. fossem sempre cultivados.

As mudanças eram lentas em zonas com este tipo de prática agrícola de comunidade. permitindo-lhes puxar arados mais pesados durante mais tempo. A produção parece ter aumentado de cerca de 2 ou 3 por 1. uma vez que o indivíduo tinha de se subordinar às necessidades da aldeia. os cavalos passaram a ser utilizados nos Países Baixos e em partes da Inglaterra de Leste como animais de arado. Embora os laços da maioria dos aldeões com o senhor viessem a diminuir durante a Idade Média Central. Ilustrações da Alta Idade Média mostram os animais presos por um cabresto que lhes cortava a respiração. Um importante avanço foi o desenvolvimento. apesar de o cultivo de legumes em campos abertos ter aumentado lentamente depois de 1200. Os moi- Capítulo 10 95/160 . de cavalos. em relação à maior parte dos cereais no período carolíngio. Os cavalos são mais ágeis e inteligentes. As aldeias reuniam muitas vezes os seus recursos para comprar e manter parelhas de arados de seis a oito bois. mas comem mais do que os bois e não tem tanta força. O arado «nórdico» era puxado por uma parelha de bois e. Os campos abertos da maior parte das aldeias eram cultivados com cereais. A produção era muito baixa e os agricultores tinham de separar uma parte substancial das colheitas para usarem como semente na estação seguinte. Os dados sobre a produção de cereais são inconclusivos. por volta do ano 800. mas nunca substituíram os bois. Depois da expansão da ferradura da Ásia para o Ocidente. A lâmina do arado «nórdico» criava padrões estriados no solo. os arados tornaram-se bastante mais pesados. Com a canga veio a prática de prender os animais um ao lado do outro. as rotinas de arado e outros assuntos de interesse comum eram regulamentados por leis ou costumes. Os vegetais cultivavam-se em volta das casas. para que ninguém ficasse de fora devido ao sistema de rotação. Pelo menos até ao século XII.provas do arado de rodas. geralmente. Cada aldeão tinha tiras de terreno em cada campo. à medida que a exploração mineira do ferro se desenvolvia. mas o que foi publicado sugere que a produtividade aumentou mais lentamente do que a população. A canga transferia o peso do arado para a cernelha do animal. Depois disso. que tinham estes equipamentos. por vezes. em vez de numa única fila à frente do arado. que ainda hoje se praticam em alguns locais. Embora o feudo se desenvolvesse mais em áreas planas. no século X. que se davam melhor em condições adversas e se transportavam mais facilmente. em vários segmentos lavrados em ângulo. os «campos» consistiam. Os limites do campo. para 3 ou 4 por 1 no século XII. da canga. A produtividade também foi aumentada pela divulgação dos moinhos. impedindo-os de puxar uma carga pesada durante muito tempo. de modo a minorar a erosão e a um melhor aproveitamento topográfico. permaneceram vinculados às práticas agrícolas comuns da aldeia. a maioria dos arados. eram leves e a relha tinha apenas um dente de ferro e não uma lâmina completa. em relação uns aos outros.

nhos de água existiam em quase toda a Europa. Os grandes mosteiros da Gália, que possuíam os recursos financeiros e a mão-de-obra necessária para construir grandes moinhos, foram cruciais para a divulgação do seu uso. O Doomsday Book dá conta de mais de 5000 moinhos de água em Inglaterra. O moinho de água tinha aplicações industriais e agrícolas óbvias. À parte a drenagem, o moinho foi utilizado para a amassagem desde finais do século XI na Normandia. Tinha martinetes para bater a terra utilizada para amaciar os tecidos de lã. O moinho de tratamento de peles, que triturava a casca de árvore necessária para o curtimento, apareceu em meados do século XII e a serra hidráulica no século XIII.

A EXPANSÃO DOS TERRENOS DE CULTIVO Até final do século XII o crescimento da população foi acompanhado pelo aumento de terras cultiváveis, como consequência do desbravamento de florestas e drenagem de pântanos. A expansão das áreas cultiváveis assumiu duas formas. De início, a maior parte dos desbravamentos eram iniciativa de agricultores individuais que precisavam de mais terra. Os novos terrenos, desbravados na orla das aldeias ou dos campos eram pequenos e acabaram por ser incorporados nos campos das aldeias. Os senhores tinham todo o interesse em ver mais terrenos desbravados e ofereciam condições favoráveis de arrendamento, incluindo muitas vezes rendas fixas, aos agricultores que conseguissem limpar ou drenar a terra e lavrá-la. A segunda forma de expansão das zonas aráveis consistia na fundação de aldeias planeadas ou «novas cidades», nomeadamente a partir do final do século XI. Os príncipes e outros senhores, tanto temporais como espirituais, ofereciam cartas de liberdade para levar os colonos a desbravarem terras e a estabelecerem-se nelas. Os contratos de pariage eram frequentemente feitos entre os príncipes laicos que tinham o poder bannum e, por conseguinte o direito de conceder liberdades, e as instituições eclesiásticas, que podiam promover a nova aldeia por entre os arrendatários das suas casas. Os sócios partilhavam os lucros da pariage. Estas actividades eram especialmente atractivas para os forasteiros que não tinham terras suficientes nas suas aldeias de origem para conseguirem sustentar uma família e, assim, procuravam oportunidades noutros locais. Muitas igrejas promoveram activamente a colonização. As abadias cistercienses compravam terras e administravam-nas utilizando irmãos laicos e trabalhadores assalariados. Em alguns locais, nomeadamente no norte de Inglaterra, despovoaram-se aldeias para arranjar espaço para as ovelhas, tendo em vista a procura de lã nas cidades. A fundação de povoações chegou à Europa central meio século depois de ter começado na Europa ocidental. Eram particularmente numerosas no Leste durante os anos de 1190, tendo
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aumentado ao longo do século XIII. Em Inglaterra, quando se fundava um burgo dentro de um feudo os rendimentos do senhor aumentavam substancialmente com as rendas adicionais e, sobretudo no século XIII, com as multas judiciais. Praticamente todas as novas aldeias que recebiam cartas de foral tinham o direito de constituir feiras e aos mercadores era-lhes concedida isenção de portagem e oferecido um salvo-conduto. A maioria das cartas de foral fundadoras interessavam apenas aos agricultores, pois regulamentavam o governo do senhor local, mas não concediam autodeterminação à povoação. Ambos os aspectos contrastavam com as genuínas cartas de foral das cidades, que só aparecem mais tarde no processo evolutivo. As cartas estabeleciam frequentemente rendas de fundo, cujo valor facial permanecia fixo e hereditário. Algumas concediam a mesma renda fixa a terras adicionais que os habitantes adquirissem: era um encorajamento para que os arrendatários desbravassem mais terras. As rotinas agrárias, as rendas de alimentos e o controlo dos animais eram regulamentados. A obrigatoriedade de um imposto sobre cabeça terminou, na maioria dos casos, pois era considerado uma marca de servidão. Os serviços laborais dos arrendatários estavam, de um modo geral, restringidos às épocas de sementeira e colheita, sendo o trabalho extra substituído por uma renda em dinheiro. Os aldeões tinham o direito de vender a sua propriedade e de abandonar a aldeia sem o consentimento do senhor, desde que não fossem acusados de crime. Por fim, aqueles que tivessem residido na comunidade por um ano e um dia sem terem sido reclamados pelo senhor como servos, ou pelo tribunal como estando sob uma acção judicial, tinham o direito de ficar permanentemente na aldeia. Esta medida teve origem na fundações de aldeias em Espanha e espalhou-se depois para muitos outros locais. As aldeias privilegiadas eram locais mais desejáveis para se viver e muitos locais que tinham sido fundados anteriormente compravam as cartas aos senhores por elevados preços. Assim, e à excepção da Inglaterra, na Idade Média Central as distinções importantes passaram a ser entre as aldeias com alvará ou não, em vez de ser entre pessoas livres e não livres. As novas aldeias não estavam organizadas segundo uma base «feudal» tradicional, que tinha ido de encontro às necessidades dos senhores num período com menos população e menos mercados, onde os senhores arranjavam mão-de-obra para as suas reservas vinculando os trabalhadores à terra. Uma vez que a maior parte dos serviços eram avaliados pela unidade de terra e não pela pessoa, os arrendatários podiam enviar um membro da família para desempenhar «trabalho semanal», enquanto os restantes trabalhavam nas terras da família. A emancipação de servos em relação aos serviços laborais foi uma consequência das mudanças orgânicas dentro da economia. De facto, os servos vendiam o seu trabalho no desbravamento de terras em troca de alvarás que lhes dessem liberdade e determinados privilégios. A servidão estaCapítulo 10 97/160

va, no século XII, praticamente extinta nas zonas governadas por grandes senhores, tais como a Normandia, a Burgúndia e a Flandres. No Midi francês, em Dauphiné e nas regiões alpinas, na Provença e na Itália central, a servidão resistiu ao longo de toda a Idade Média.

AS CONSEQUÊNCIAS SOCIAIS DA EXPANSÃO ECONÓMICA RURAL À medida que as rendas em géneros se transformavam em rendas em dinheiro, durante o século XII, tornando-se fixas, o valor real das despesas dos camponeses diminuiu. Os agricultores orientavam a produção para os mercados e para as cidades em desenvolvimento, que precisavam de grandes abastecimentos de comida. Com o crescimento da população havia, no entanto, cada vez mais agricultores com falta de terra suficiente para sustentar uma família. Enquanto o crescimento populacional colocava algumas famílias nobres em relativa penúria, os costumes de heranças regionais podiam determinar o destino das famílias camponesas. À excepção dos feudos, que normalmente passavam para o filho mais velho, a primogenitura não era comum senão em Inglaterra e, em muitos locais as filhas e os seus maridos herdavam tal como os filhos homens. Nas zonas onde o filho mais velho ou o mais novo herdava toda a propriedade, os outros irmãos subalugavam-lhes uma parte ou pagavam uma soma ao senhor para obterem permissão para se irem embora. Tornavam-se trabalhadores rurais semimigratórios ou então iam para as cidades. Nestas zonas desenvolveu-se uma classe superior e inferior dentro do grupo dos camponeses. Por volta dos finais do século XIII, as aldeias tinham, de um modo geral, uma pequena classe alta, que controlava a maioria das actividades administrativas locais, agindo, por vezes, em nome do senhor ou do príncipe. Existia um grupo intermédio de proprietários prósperos, que constituíam um quarto ou um terço dos habitantes da aldeia, que tinham terra suficiente para sustentar uma família e produzir ainda alguns excedentes para comercializar. Os restantes viviam no limiar da subsistência, tendo de complementar os seus rendimentos com a execução de outros trabalhos. As heranças partilhadas, pelo contrário, deixavam muitas vezes todos os herdeiros sem meios adequados de subsistência. O mercado de terras no século XIII tornou-se muito activo, numa altura em que os agricultores tentavam consolidar a posse das terras que tinham sido divididas pelas heranças. As cidades tendiam a desenvolver-se em áreas de heranças partilhadas, uma vez que a subdivisão de terras significava, frequentemente, que nenhum deles conseguiria sobreviver sem comprar as partes dos outros e, como tal, muitos agricultores tinham de procurar trabalho no sector urbano. Assim, durante a Idade Média Central, o estatuto social era menos importante entre os camponeses do que os factores económicos. A distinção entre livre e não livre não tinha tanto signi98/160 Capítulo 10

MEIO SÉCULO DE CRISE: 1175-1225 Apesar de não possuirmos valores exactos. a Inglaterra. com vários graus de sucesso. onde a taxa de inflação era mais elevada do que no continente. A maior parte dessa expansão deu-se depois de 1150: antes disso o aumento populacional tinha sido absorvido pelo sector agrário. O excesso populacional deu vantagem aos que possuíam terra. em zonas de colinas. mas também menos férteis. enquanto as mudanças económicas do período anterior a 1175 beneficiaram principalmente os camponeses. Embora as rendas. cujos antepassados se tinham evadido. os senhores tentaram extrair o máximo possível de cereais das suas reservas e das rendas em grão dos seus rendeiros. Os servos permaneciam sujeitos a serviços e a pagamentos senhoriais que as pessoas livres não deviam. Os principais beneficiários foram os grandes proprietários que tinham um maior excedente do que os camponeses. agora a situação favorecia os senhores. o aumento das cidades originou uma grande procura de cereais. O SOBREAQUECIMENTO DA ECONOMIA EUROPEIA. por vezes. À medida que a população continuava a aumentar. tais como os impostos e o serviço militar. A expansão para terras mais pobres foi apenas parcialmente compensada pelos desenvolvimentos das tecnologias agrícolas. 1225-1275 A situação dos camponeses piorou gradualmente durante o século XIII. A partir de 1175. menos sujeitas a inundações do que os vales dos rios. A partir do último quartel do século XII. a maior parte da terra adicional que era desbravada situava-se em áreas pouco férteis que não eram apropriadas para a agricultura. mesmo os mais abastados. Sobretudo em Itália. Os camponeses que ainda estavam sujeitos a serviços laborais não tinham possibilidade de os comutar por dinheiro. as maiores densidades populacionais verificavam-se.ficado como tinha a terra que o agricultor detinha. a disponibilidade de mercado para os excedentes e as suas obrigações contributivas. aumentando os preços dos alimentos. a expansão das áreas dentro dos limites das muralhas e da fortificação dos subúrbios sugerem que as populações de muitas cidades quadruplicaram entre 1000 e l300. tal como o uso de arados mais pesados. os salários e as margens de lucro Capítulo 10 99/160 . durante o século XIII. A situação era mais grave em Inglaterra. tinha a mais alta incidência de servidão da Europa ocidental. durante o século XIII. Assim. enquanto os homens livres estavam obrigados a exigências que lhes eram impostas. tornar a impor-lhes os serviços laborais. tentando os senhores.

No final da Idade Média. especialmente as mulheres. Além disso. enquanto as rendas subiram devido à crescente procura de terras originada pelo aumento populacional. pelo que os doutores de 100/160 Capítulo 10 . a expansão contínua para zonas sub povoadas só era possível nas áreas germano-eslavas da Europa de Leste. A fiação era uma ocupação maioritariamente feminina e rural. arranjavam trabalhos em part-time independente ou assalariado. inicialmente. os senhores podiam voltar a ceder terras a arrendatários. as taxas de entrada. As rendas fixas. obtiveram mais rendas do que anteriormente. Por volta do século XIV. encorajado não apenas pela pressão demográfica mas também pelo desenvolvimento das leis A maioria das cartas das aldeias não tinham abolido completamente os serviços laborais e os pagamentos. Por volta de 1300. daí em diante os salários reais estagnaram e. em detrimento das rendas de terras. corrigir alguns estragos causados pelas concessões de rendas perpétuas generosas dos seus antepassados. Alguns senhores impunham impostos fixos por pessoa. declinaram. no século XIII. muitas aldeias tinham já dois tipos de rendas: as rendas fixas sobre terra mais antiga. os senhores não emancipavam aldeias indiscriminadamente: mais facilmente emancipavam as grandes populações que não se podiam controlar facilmente e as aldeias dispersas. não estavam sujeitas a tais restrições. De um modo geral. que se localizavam perto do centro dos seus domínios. ficavam sobrepovoadas. No século XIII existiu algum reavivamento da servidão. nos arredores e que deviam rendas mais elevadas. mas com rendas mais elevadas e apenas por um limitado número de anos. até ao último quartel do século XII. Estavam menos inclinados a emancipar as aldeias mais pequenas. Estes tentaram obter dinheiro fomentando o desbravamento de novas terras e pela oferta de estímulos que se revelassem necessários para arranjar rendeiros para elas. Só em raras situações é que as cartas concediam aos aldeões o direito de se governarem a si próprios totalmente. e as propriedades arrendadas a termo. ou a complementar os seus rendimentos com trabalhos para os senhores ou para outros aldeões. À medida que as famílias se extinguiam. em alguns casos. rapidamente no final do século XIII. as multas e os honorários consistiam na maior parte dos rendimentos de muitos senhores. Mesmo quando as rendas sobre a terra eram fixas por costume e não podiam ser aumentadas. prejudicado os senhores. Muitos agricultores viam-se obrigados a emigrar para as cidades. pois tinham sido influenciadas pela inflação. que eram pagas quando um herdeiro tomava posse. por sua vez. que eram concedidas pela maioria das cartas das aldeias. que. Muitos. perto do centro da aldeia. Os senhores também puderam.tenham aumentado entre 1100 e 1250. Os senhores serviam-se da falta de terras para impor obrigações económicas mesmo às aldeias livres. subindo. tinham. mesmo considerando a inflação. exercendo-se também nas áreas rurais grande parte da pisoagem.

mas tinham de passar a noite em algum lado. o declínio dos rendimentos tornou-se no século XIII um verdadeiro problema. No noroeste da França adoptou-se um regime agrícola mais flexível: os campos eram cultivados continuamente ao longo do ano. Mesmo para aqueles que tinham a sorte de manter consideráveis lotes de terra. a ser transformada em pasto ou em terra para madeira. e o direito de se libertarem de propriedades sem terem de pedir a autorização do senhor. devido a algumas características dos seus forais. A presença de um bispo atraía os comerciantes de longa distância. por volta de 1100. Os mercadores eram. estava. que era normalmente aquela que tinha sido desbravada em último lugar. tendo evoluído a partir de planos irregulares de ruas sobre locais romanos ou em volta de abadias ou de castelos de príncipes. As «novas cidades» constituíam um elo jurídico e económico entre a expansão da economia agrária e o desenvolvimento da vida urbana. A maioria das cidades eram «orgânicas». particularmente pesado na Alemanha. Os tribunais dos príncipes eram importantes para a protecção. os bens de mão-morta (obrigações de herdeiros em darem ao senhor o melhor animal da propriedade do defunto). os pagamentos quando um servo casava com um dependente de outro senhor e o imposto de cabeça. ambulantes. existiam grandes cidades no norte. permanecendo elevados ao longo de todo o período medieval. Por volta de 1200 o mapa urbano da Europa estava praticamente completo. por definição. e a maior parte do tráfico para o interior era feita em barcaças planas. A maior parte delas eram mercados agrícolas que possuíam alguma manufactura. tais como a liberdade para migrantes depois de terem residido na cidade por um ano e um dia. três tipos de pessoas: os consumidores ricos que viviam dentro da fortificação.leis re-introduziram a servidão e os pagamentos inerentes: as heranças. A terra de cultivo menos produtiva. pois continuava-se a cultivar quase exclusivamente cereais. mas que tinham de se ausentar durante grande parte do Capítulo 10 101/160 . os comerciantes de longa distância que providenciavam os produtos de luxo que eram pedidos pelos primeiros. o que fomentou o desenvolvimento de povoações ao longo dos principais rios. uma vez que o solo começava a ficar exausto. cultivavam-se forragens. Nos campos que permaneciam em pousio. No século XIII. conseguindo movimentar-se grandes quantidades de mercadorias entre os vários centros urbanos. A VIDA URBANA NA IDADE MÉDIA CENTRAL A Europa durante a Idade Média Central desenvolveu uma verdadeira vida urbana e. os rendimentos subiram abruptamente nestas áreas. assim. Os «núcleos pré-urbanos» incluíam. por volta de 1270. Depois do ano 1000 existiam canais. mas algumas desenvolveram-se a partir de novas aldeias a quem tinham sido concedidas cartas de formação pelos seus senhores.

Durante a Alta Idade Média. tanto para os habitantes do «castelo» como para os mercadores. No entanto. à medida que a evolução tecnológica tornava possível a manufactura de uma mais vasta variedade de bens de consumo. desde negociantes de alimentos a artesãos de pequenos artigos. funcionavam como mercados para os excedentes agrícolas das zonas limítrofes. a maioria das manufacturas eram primitivas e executavamse em propriedades rurais. sobretudo cereais. 102/160 Capítulo 10 . Os mercadores urbanos também transportavam comida. não só para a moagem de cereais. para áreas onde faziam mais falta. uma vez que a grande procura de cereais fazia com que os preços subissem. Os mercadores de alimentos contavam-se entre as pessoas mais ricas das cidades. Isto começou a alterar-se no século XI. Parecem ter promovido. No século XII. algumas cidades já importavam cereais de regiões bem mais distantes do que os seus arredores. a emancipação dos camponeses que viviam perto delas. mesmo aquelas com comércio de longa distância ou indústria. Essas povoações estavam. A maior parte das povoações comerciais do norte da Europa desenvolveram-se em rotas terrestres e ao longo de rios que davam acesso ao interior agrícola. Muitas pessoas dos dois grupos produtivos viviam em subúrbios. onde uma grande população com necessidade de trabalho podia obter matérias-primas utilizáveis na indústria. um pouco mais tarde. tais como a de pisoagem e a de curtumes. Os núcleos pré-urbanos eram comerciais por natureza e não industriais. beneficiando os agricultores. e um grupo de pessoas de suporte. fora do castelo ou da muralha romana. que providenciavam mais produtos e serviços mundanos.ano. As grandes cidades flamengas obtinham cereais do norte de França e. cujas rendas e outras obrigações eram expressas em termos monetários fixos. Nos rios fizeram-se moinhos. As cidades ofereciam preços elevados pelos produtos agrícolas. do Leste germano-eslavo. A INDÚSTRIA URBANA Em praticamente todas as cidades desenvolveu-se primeiro o comércio e só depois a indústria. localizadas em zonas onde a oferta e a procura se cruzavam: um excedente agrícola podia ser vendido a uma população que necessitava dele ou. a produtividade dos cereais era tão baixa que apenas os agricultores com grandes quantidades de terras conseguiam produzir excedentes suficientes para compensarem o transporte até uma cidade distante. inicialmente. vendendo-os nesses mesmos locais. mais tarde. sem fortificações. enquanto as cidades do norte da Itália obtinham os seus mantimentos da Sicília. Praticamente todas as cidades. mas também para servirem as indústrias. de outras ilhas costeiras e do norte de Africa. geralmente.

Por fim. sobretudo por mulheres. pois os germanos envergavam peles e utilizavam vestes de couro. exagerada. os curtidores e os cervejeiros. limitando o tamanho do tecido às dimensões da estrutura. eram utilizados nas propriedades rurais e algumas famílias de camponeses tinham como obrigação fornecer tecidos como parte das suas rendas. e só podia ser utilizado por um trabalhador de cada vez. foram utilizadas como pastos antes de serem convertidas em terras aráveis.Os pequenos artesãos que produziam para um mercado local viviam nas ruas laterais às principais vias públicas e os artesãos que produziam em maior volume estabeleceram-se perto do centro. enquanto os tecelões se encontravam. para se aproximarem das lãs. tais como os tintureiros. mais afastados da água. sobretudo no período anterior a 1200. mais específicos em relação à avaliação e cumprimento Capítulo 10 103/160 . Os teares verticais primitivos. de um modo geral. de um modo geral. nos subúrbios. que tinham dominado os tecidos até ao século XI. Era operado normalmente por dois ou três homens e produzia um tecido mais longo e denso. Segundo um padrão que era ditado por considerações sanitárias. mas a verdadeira extensão do comércio têxtil nas cidades da Europa medieval tem sido. os abastecimentos de lã de grande qualidade tornaram-se cada vez mais abundantes. Além disso. A prosperidade de muitas cidades baseava-se na manufactura de finos tecidos de lã. Os talhantes e os vendedores de peixe estavam localizados nas áreas centrais devido à necessidade de vender os produtos deterioráveis com que lidavam. como Ghent. Enquanto as cartas normais para «novas cidades» reconheciam simplesmente os direitos dos indivíduos e da cidade nas relações com o senhor. as povoações maiores também recebiam direitos limitados de autodeterminação. semelhantes aos utilizados pelos romanos. Terras que anteriormente tinham estado abandonadas. começando talvez por surgir na Champanha. de algum modo. sobretudo ao longo da costa do mar do Norte. os trabalhadores de curtumes estabeleceram-se primeiro que os tecelões. O tear vertical era operado manualmente. a tecelagem de lã não constituiu uma indústria caracteristicamente urbana senão após o século XI. Mesmo em alguns dos maiores centros têxteis. que não foram fundadas deliberadamente pelos seus senhores. Os seus forais eram. estabeleciam-se ao longo dos numerosos canais que percorriam a cidade e que chegavam mesmo a estender-se até à periferia. Os gostos dos consumidores afastaram-se dos linhos. as actividades que necessitavam de água. A SOCIEDADE E O GOVERNO URBANO NA IDADE MÉDIA CENTRAL A maioria das cidades. No século XI desenvolveu-se o tear horizontal no noroeste da Europa. ganharam privilégios através das associações de habitantes. Aldeias inteiras no norte de Inglaterra foram despovoadas para criarem pastos para ovelhas.

que eram.das dívidas e à abolição do duelo judicial (?). Embora no início do século XII a comuna e o arcebispado escolhessem. legislar com a autorização do príncipe. Por vezes a comuna funcionava como uma associação de paz. Sobretudo nas cidades do norte da Europa. o estatuto de membro de uma associação parece ter estado limitado aos habitantes mais ricos. A palavra «comuna» não é utilizada para todos os locais com autodeterminação. excepto na Germânia e na Flandres. por vezes. os ministeriales e os proprietários de terra nobres faziam parte da elite. funcionários do senhor da cidade. ocasionalmente. os scabini 104/160 Capítulo 10 . a vida urbana teve início nas antigas cidades romanas da Rhineland. a maioria delas já tinham atingido. porque neles eram formadas associações de habitantes que possuíam um objectivo comum. ter um tesouro público e. que tinha sempre funcionado para vantagem dos nobres nos litígios com os homens da cidade. Algumas dessas cidades serviam-se das lutas dos bispos com os imperadores Henrique IV e V como pretexto para a rebelião. mas tem um significado mais preciso: um grupo de «pais» (patres). cada um. apesar de muitos deles terem acabado por se dedicar ao comércio. Da mesma forma. Havia um colégio de scabini (Schõffen. mas em lado algum estava completamente ausente. O elemento nobre era mais forte nas primeiras cidades de Itália. originalmente. os que procuram leis). que eram centros de bispados. por volta de 1200 a oligarquia de mercadores do Richerzeche (clube rico) ou meliores (os melhores) era de tal forma dominante que os órgãos normais do governo da cidade perdiam importância ao lado dela. este grupo tinha privilégios especiais. A maior parte das cidades eram dominadas por uma oligarquia de mercadores ricos. por volta do início do século XII. Na Germânia. o senhor da cidade confirmava o costume local e garantia o direito da comunidade em escolher os seus próprios funcionários. O termo «patrício» é. Particularmente nas cidades que tiveram origem no território de um bispo. aliando-se a quem quer que lhes prometesse mais. por vezes. na maioria delas. alguns funcionários. da França mediterrânica e da Germânia. chamados «comunas». Algumas comunas flamengas ou do norte da França tinham o direito de exercer vingança colectiva sobre quem quer que atingisse um membro seu e não o corrigisse devidamente. Espanha. embora a veracidade desta afirmação estivesse dependente do tamanho da cidade e do grau de diferenciação económica dentro dela. pelo menos. Em algumas cidades. nem todas as «comunas» eram associações revolucionárias. A mais bem documentada cidade germana deste período é Colónia. um reconhecimento limitado enquanto comunas. englobava todos os cidadãos do sexo masculino. utilizado para referir um grupo governativo da cidade. Na maioria das cidades do noroeste da Europa. Os locais com maiores liberdades eram. em dirigir um tribunal. cujas famílias possuíam alódios dentro da cidade e não apenas as casas e os estabelecimentos. mas.

que consistia em três conselhos rotativos e autocooptativos de treze membros. geralmente. que tinham tido origem em associações de habitantes dirigidas contra o senhor da cidade e que. conduzindo uma política independente. No entanto. ao contrário dos procuradores de leis. Os conselhos da cidade tinham. possuíam cidades poderosas. Também estavam mais independentes do senhor da cidade do que os procuradores de leis. mandatos de apenas um ano e os membros não podiam suceder-se a si próprios. Ao contágio das cidades imperiais normais. portanto. No sul da França as cidaCapítulo 10 105/160 . Um exemplo famoso é a comissão «Trinta e Nove» da Ghent do século XIII. os procuradores de leis eram substituídos por um conselho que exercia o controlo real Embora os procuradores de leis lutassem para não serem absorvidos pelos conselhos. ganharam um elevado grau de autonomia. provinham ambos do mesmo grupo social: os mercadores ricos. A escolha do conselho era feita por meio de mecanismos complexos. Nas cidades flamengas. Os cargos tendiam a ser rotativos entre os membros de uma oligarquia. Em zonas dos Países Baixos. Isto era um meio para permitir que o imperador as empenhasse aos senhores locais. os melhores governavam directamente enquanto grupo. A França medieval tinha três zonas básicas de desenvolvimento urbano. este grupo. controlava as suas próprias milícias e fortificações. O termo Reichstadt (cidade imperial) foi utilizado pela primeira vez por Frederico II. encontrando-se agora sob a protecção directa do Império. mas esse cargo era detido apenas por um ano e possuía um carácter largamente honorifico. a confirmação pelo senhor da cidade ou a combinação destes dois métodos.foram substituídos por jurati ou jurés. os conselhos tinham um número fixo de membros que eram escolhidos através de um processo eleitoral. a maioria das cidades tinha mais de um conselho e a restrição à reeleição podia ser rodeada pela tomada de um lugar na outra comissão. os procuradores de leis detinham um poder mais efectivo. as oligarquias que controlavam a associação tomavam simplesmente o controlo sobre a comissão de procuradores de leis. geralmente. no final do século XII e início do século XIII. mas em situações normais controlavam apenas o colégio dos procuradores de leis. Na Germânia. homens ajuramentados que eram funcionários da associação da cidade. Por vezes. alterando primeiro o número e mudando depois a sua composição. em meados do século XIII. Muitas das maiores cidades tinham um ou mais burgomestres ou presidentes da câmara como chefes oficiais do Governo. as regiões mais próximas da Flandres e da Germânia. O subgrupo de cidades imperiais livres era constituído por cidades episcopais que tinham escapado ao controlo dos bispos. muitas delas com indústrias. para designar cidades que eram propriedade imperial. utilizava-se a eleição feita pela anterior comissão de magistrados. O norte e o leste. juntamente com alguns proprietários de terras e ministeriales do senhor da cidade. que incluía algumas das maiores cidades da Alemanha. No entanto.

Os membros faziam juramentos de assistência mútua e de obediência aos regulamentos da guilda. a sociedade urbana da França mediterrânica era semelhante à italiana. Os tecelões. mas funcionavam sob rígida supervisão real. facultando um funeral apropriado aos que dele cadenciavam. Alguns senhores das cidades tinham o direito de confirmar ou anular a eleição dos cônsules. As guildas cobravam taxas que eram utilizadas para ajudar a sustentar os membros mais pobres. mas tentaram enfraquecer os outros senhores pela confirmação de comunas nas cidades deles. mas. Os reis capetos reprimiram as comunas quando elas começaram a aparecer. Algumas guildas de artesãos abrangiam diversas ocupações numa mesma organização. fiador. as «comissões de tecidos» locais supervisionavam a produção. Os seus cidadãos tinham considerável liberdade individual. que começaram por aparecer nas cidades do norte de Itália. já que nenhum trabalhador podia manufacturar uma peça de tecido completa do princí106/160 Capítulo 10 . mas só podem ser documentadas a partir do século XIII.des eram governadas por síndicos ou cônsules. eram verdadeiros conselheiros da cidade. As mais antigas de que se tem conhecimento eram confrarias de caridade formadas com o intuito de promover o culto da Virgem Maria ou de um santo patrono. Mesmo depois de as guildas de mercadores terem perdido poder político para as organizações de artesãos. que escolhiam os seus próprios magistrados. É possível que nessa altura também tenham existido organizações de outras actividades. vendedores de peixe e padeiros. pisoador. AS GUILDAS A guilda é uma associação ou corporação de pessoas que geriam colectivamente um aspecto da sua actividade. apesar de ainda se encontrarem subordinados ao senhor da cidade. por exemplo. A maioria das cidades do domínio real eram deste tipo. Os síndicos tinham pouco poder. trabalhavam normalmente por conta dos mercadores de lã. Paris tinha no século XII guildas de talhantes. Cada artífice (tosquiador. acabando estes por limitar o poder dos senhores das cidades. continuando o tipo de cidade romana. Sobretudo a partir do início do século XIV. as viúvas e órfãos. não os podiam nomear. mas as corporações tinham apenas algumas liberdades elementares e não privilégios administrativos ou jurídicos. Na França central existiam cidades«livres». geralmente. enquanto outras eram mais especializadas. as «boas cidades». os cônsules foram retirados sobretudo da pequena nobreza. a monarquia tendeu a fundir as comunas e as cidades livres de domínio real num outro tipo de cidade. Na sua forte componente nobre. No século XIII. tintureiro) aplicava a sua especialidade particular ao tecido sob a supervisão da guilda de mercadores. A maior parte das cidades do norte da Europa tinham guildas de mercadores e de artesãos. mas os cônsules.

e faziam um produto acabado que vendiam ao consumidor. que controlavam os abastecimentos. de empregar trabalhadores e de treinar aprendizes. no século XIII. Por volta de 1293 já tinha reconhecido cinco guildas «médias» e nove «menores». Enquanto se surgiam diferentes níveis entre as guildas. indo de um mínimo de dois anos. A duração da aprendizagem variava de guilda para guilda e mesmo de cidade para cidade. Por volta do século XIV. um aprendiz trabalhava à «jornada». as guildas deste tipo assumiram o controlo da maior parte das administrações urbanas. que tinham a sua própria organização. Depois de os conselhos terem assumido o poder nas cidades. As guildas de ofícios eram cuidadosamente hierarquizadas. Os grupos das guildas tinham direito a um determinado número de lugares no conselho. Cada guilda tinha um conjunto de membros diversificado. mas eram mais independentes do que os trabalhadores de tecidos. Um mestre era um membro de pleno direito da guilda. durante o século XIV.pio ao fim. como os sapateiros. De início. isso era difícil e muitos trabalhadores passavam toda a vida como contratados ao dia. aos artesãos mais pobres. a oito anos ou mais para ferreiros especializados. uma vez que nem todas eram constituídas por artesãos. Um trabalhador podia poupar dinheiro e tentar tornar-se num mestre. O aprendiz começava por fazer alguns trabalhos subalternos na oficina. simplesmente rodear a fase de trabalhador e tornar-se um mestre após a aprendizagem. Os aprendizes eram jovens colocados ao serviço de um mestre nos primeiros anos da juventude. consoante o seu prestígio. muitos ofícios já não exigiam a apresentação da obra ou então utilizavam-na apenas como pretexto para excluir pessoas indesejáveis. exigido para carpinteiros. a maioria das organizações de artesãos davam prioridade para estatuto de membro aos filhos de mestres que Capítulo 10 107/160 . enquanto as cidades italianas possuíam usualmente regimes baseados em organizações de artesãos. logo após terem adquirido alguma escolaridade. tinha sete guildas “maiores”. contudo. por exemplo. o novo mestre tinha de apresentar aos outros mestres da guilda a sua «obra». Compravam o couro aos curtidores. por guildas de mercadores. Um jovem bem relacionado podia. aprendendo a pouco e pouco as especialidades do ofício. Florença. Quando um mestre precisava de mais mão-de-obra contratava pessoas ao dia ou à semana e quase não existindo contratações fixas. na maior parte delas também se desenvolviam hierarquias internas de mestres. mas por volta do final do século XIII. não eram ricos. uma das quais era a dos juízes e dos notários. Os membros de guildas. a maior parte dos governos do norte eram controlados. Tinha direito de possuir a sua própria oficina. Depois de terminar o treino. trabalhadores e aprendizes. Depois de os regimes de artesãos terem alcançado o poder nas cidades do norte. no século XIII. como por exemplo um pedaço de tecido trabalhado com as especificações técnicas que eram exigidas pela guilda dos tecelões. desde mercadores ricos.

já faziam parte da guilda, ou fazendo a obra a apresentar por eles ou baixando os requisitos de entrada para novos mestres. Isto não significava que apenas os mestres conseguiam arranjar trabalho, mas sim que, para as pessoas de fora da guilda, existia um limite que não conseguiam ultrapassar e os forçava a viver com as incertezas do trabalho temporário. O problema da hereditariedade do estatuto de mestre tornou-se mais grave no século XV. Os governos urbanos da Europa medieval exerciam um controlo rígido sobre a actividade dos artesãos. A maioria das guildas podia regulamentar os seus próprios salários, horas e condições de trabalho e inspeccionar as obras dos seus membros. Muitas vezes, contudo, os conselhos das cidades também emitiam regulamentos, sobretudo em relação aos ofícios cujos produtos eram exportados, tais como os têxteis, e que necessitavam do trabalho de inúmeros especialistas antes de serem enviados. Quando os tecidos ou outros produtos passavam na inspecção das autoridades competentes, podendo então ser exportados, colocava-se-lhes um selo para certificar a sua boa qualidade. Uma vez que as cidades eram amuralhadas e o acesso feito através de portões controlados, as inspecções revelavam-se bastante eficazes. Neste aspecto, as cidades e as guildas eram extremamente cuidadosas, porque a reputação e mercado de todos podia ser arruinado por um único trabalhador que fizesse mercadoria medíocre que escapasse à detecção. Claro que a preocupação com a qualidade era, frequentemente, um pretexto para limitar o mercado de exportações aos membros de uma elite. É difícil determinar até que ponto a preocupação com a qualidade era genuína, pois em todo o lado se encontrava paternalismo e estreita cooperação entre a guilda e as autoridades da cidade.

AS CIDADES E O DESENVOLVIMENTO DE UMA ECONOMIA INTERNACIONAL A Europa do século XIII tinha áreas urbanas que estimulavam a produtividade agrícola, ofereciam ocupações a quem a economia rural não conseguia sustentar e desenvolviam bens regionais especializados passíveis de serem trocados. Devido à criação de vilas por Alfredo o Grande, e seus sucessores, a Inglaterra era, no século X e início do século XI, a zona mais urbanizada do norte da Europa, mas depois da conquista normanda a vida nas cidades atrofiouse. As cidades inglesas cresceram menos rapidamente nos séculos XII e XIII do que as do continente, uma vez que os governantes normandos e angevinos favoreceram os seus domínios em França. No século XII, sobretudo depois de os monges cistercenses se terem estabelecido e terem criado campos de pastos para ovelhas no Yorkshire, a Inglaterra começou a exportar mais lã do que tecidos, principalmente para a França e para a Flandres. As cidades flamengas eram, inicialmente, mais pequenas do que as inglesas, mas cresceram
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depois de 1050. Os lanifícios flamengos e do norte de França tornaram-se os mais valiosos da Europa. A área ao longo da costa do mar do Norte, da Flandres até à Normandia, tornou-se uma zona industrial, com grandes cidades, cada uma delas com os seus próprios tecidos. As cidades mediterrânicas tinham um mercado interno substancial e facilitavam o acesso dos produtos do norte a Bizâncio e ao mundo islâmico. Veneza vendia as matérias-primas do vale do Pó e os produtos trazidos do norte da Europa aos bizantinos, em troca de sedas e especiarias. Pouco se sabe das cidades interiores italianas, mas o mercado de Pavia atraía os europeus do norte, e uma carta de foral de 952 menciona uma «ordem de mercadores» em Milão. As sedas, que mais tarde se concentrariam em Lucca, eram feitas em Brescia no século X. Roma, a maior cidade do Ocidente cristão, atraia os peregrinos que gastavam grandes fortunas para adquirirem relíquias para as suas igrejas. O poder económico e político das cidades da Toscânia e da Lombardia cresceu no final do século XI e no século XII. Negociavam com o Oriente, mas mantiveram sempre ligações com o norte da Europa. A maioria das cidades do norte e do centro da Itália tinham cônsules antes de 1125. As cidades emitiam as suas próprias moedas, regulamentavam os seus mercados, estabeleciam portagens e administravam o contado (a área rural que rodeava a cidade). A elite governativa das cidades era originária dos arredores rurais e, no início do século XI, alguns governos obrigavam-nos a viver parte do ano dentro da cidade, onde podiam ser melhor controlados.

AS FEIRAS O elo entre as economias do Mediterrâneo e do mar do Norte foi possibilitado pelas feiras. No início do século XII, os condes da Champanha estenderam a sua protecção aos mercadores que entravam nos seus territórios e, por volta de 1180, já se tinha desenvolvido um ciclo de seis feiras em quatro cidades importantes. Estavam distribuídas ao longo do ano, com intervalos entre elas de modo a permitir que os mercadores as visitassem. As feiras parecem ter sido estabelecidas para atrair o comércio têxtil no norte da França e da Flandres, mas transformaram-se no último quartel do século XII, quando apareceram os primeiros mercadores italianos. Os mercadores das cidades germanas começaram a frequentar as feiras, do mesmo modo que os mercadores de Barcelona e das principais cidades do sul da França. Nas feiras da Champanha operaram-se melhoramentos nas técnicas comerciais e na utilização do dinheiro. Embora as cidades, dentro de um mesmo reino ou principado, fossem muitas vezes rivais, os seus mercadores uniam-se e organizavam associações para o comércio com o estrangeiro. Tratavam dos negócios uns dos outros, apresentando uma frente comum quando um
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membro se via em dificuldades com as autoridades. O súbito crescimento do comércio internacional no século XII encontrou os mercadores sem os meios adequados para as trocas, pois, com excepção da Inglaterra, a cunhagem não era um monopólio do rei e muitos principados, e mesmo cidades, tinham as suas próprias emissões de moeda. A troca em dinheiro era uma parte essencial dos negócios das feiras, mas parece ter-se efectuado um considerável número de trocas em géneros, uma vez que era perigoso transportar grandes quantidades de prata ao longo de uma perigosa viagem por terra. Instrumentos notariais, promissórias pagáveis numa feira posterior e transferências por vales foram utilizados para facilitar a troca de dinheiro e produtos. A «carta de feira» designava uma nota promissória negociável. Um mercador reconhecia a sua dívida para um outro, pagando-a numa feira mais tarde no ano. As notas podiam ser transferidas do devedor de um mercador para o credor de um outro A última semana de cada feira era dedicada à clarificação de obrigações por liquidar. A última feira do ano, a de Troyes, funcionava como uma ocasião para pagar as obrigações ainda em dívida, embora algumas pudessem ser transferidas para o ano seguinte. Nas feiras desenvolveram-se tribunais para tratar dos litígios de dívidas, acabando por surgir também uma lei mercante geral. Em Inglaterra chamavam-se tribunais pie powder, de acordo com os pés poeirentos dos mercadores de longo curso (pieds poudrés.). Uma vez que os Governos dos mercadores lesados exerciam represálias sobre os cidadãos da nacionalidade daqueles que não tinham pago as suas dívidas, e a comunidade de mercadores não era muito grande, as faltas não constituíam um problema verdadeiramente sério. Os contratos feitos noutros locais eram, muitas vezes, pagos num dos representantes da Banca italiana dentro da cidade-feira. As feiras da Champanha continuaram a ser importantes até serem suplantadas, no final do século XIII, pelas viagens directas das galeras de Génova até ao mar do Norte.

A BANCA E O CRÉDITO Na base de uma qualquer estrutura económica encontram-se os meios pelos quais ela atrai os recursos e concede crédito. A «Lei Mosaica» proibia os «irmãos» de cobrarem juros um ao outro. Até às perseguições dos judeus por S. Luís, os cristãos e os judeus não eram, todavia, considerados irmãos, pelo que os judeus podiam cobrar juros aos cristãos. O crédito judeu foi, assim, muito importante nas primeiras fases do desenvolvimento comercial do Ocidente. O crédito ocasional era alargado, tanto localmente como nas feiras, por muitos europeus do sul. Os termos «cahorsino» e «lombardo», segundo a cidade francesa de Cahors e da Lombardia, tornaram-se sinónimos dos emprestadores de dinheiro que cobravam abertamente juros.
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pagáveis consoante pedidos a curto prazo. compravam partes fixas que eram negociáveis e ficavam com uma parte dos lucros proporcional ao investimento. Os depósitos do sopracorpo não eram. as partes investidas eram dois terços e um terço. À medida que o comércio se tornava mais complexo. recebiam o direito de cobrar impostos e operar casas de cunhagem. de um modo geral. frequentemente. Na commenda. sem a utilização de moeda. enquanto o sopracorpo era providenciado por investidores posteriores e pelo reinvestimento dos lucros. como penhoristas. Por volta dos finais do século XII em Génova e noutras cidades italianas alguns cambistas aceitavam depósitos pagáveis a pedido (investindo-o entretanto) e transferiam pagamentos entre os seus próprios clientes e entre os clientes uns dos outros. A banca teve várias origem: no empréstimo de dinheiro por sociedades. Apesar disso. além de concessões comerciais. os italianos iniciaram os contratos de sociedade tomando uma ideia dos muçulmanos e dos gregos. Os lombardos e os naturais de Cahors funcionavam. como garantia para os enormes empréstimos. Muitas companhias arriscavam financiar a ascensão dos príncipes do norte da Europa e. O DINHEIRO E A CUNHAGEM DE MOEDA Capítulo 10 111/160 . Assim. o número de emprestadores de dinheiro que viam os seus negócios falhar era extremamente alto. Os lombardos e cahorsinos depressa suplantaram os judeus no negócio de emprestar dinheiro durante o século XIII. dividindo os lucros igualmente. tais como licenças de exportação isentas de alfandega e monopólios sobre a exportação de determinados produtos.5% anualmente). por volta do século X. A Igreja começou a defender que o estabelecimento de uma taxa de juro era intolerável. mas as pessoas que se preocupavam com as suas almas. os emprestadores necessitavam de um mecanismo que os protegesse contra os devedores faltosos. devido sobretudo à perseguição destes pelos reis da Europa ocidental. mas que os honorários pela compensação do risco e do trabalho eram lícitos. para fugir às restrições à usura. Muitas destas sociedades tinham antecedentes: o capital dos sócios originais chamava-se corpo. nos cambistas. emprestando a taxas de 20% a 40%. Os investidores recebiam juros dos seus investimentos sob a forma de dividendos. bom nome e que desejavam ser enterradas em terreno consagrado não as podiam cobrar. mas a estes chamavam-se «ofertas». começando por Filipe Augusto.Alguns príncipes estabeleceram taxas de juro legais (uma taxa comum era 2 pence por libra por semana ou 43. Isto facilitava as transferências de fundos entre feiras ou entre estados. As sociedades anónimas apareceram em Itália no século XIII: os mercadores reuniam recursos. e a divisão dos lucros era feita em metades. um sócio passivo investia três quartos do dinheiro necessário para uma viagem e um sócio activo investia um quarto. nas feiras e na «banca mercantil». Segundo o collegantia.

Os xelins e as libras eram dinheiro de contagem. O COMÉRCIO DO MAR BÁLTICO E O NORTE As regiões que se centravam no mar do Norte e no Mediterrâneo estavam servidas pelas feiras da Champanha. pelo januino de Génova e pelo influente florim de Florença. S. a conquista mongol cortou os abastecimentos normais de ouro africano aos egípcios. um papel crucial no abastecimento de matérias-primas para a Europa ocidental. provocando a desvalorização da moeda de prata no Ocidente. ao passo que as anteriores exportações se tinham resumido a matérias-primas e escravos. especiarias e tecidos de luxo. As cidades germanas que participaram na expansão nór112/160 Capítulo 10 . Luís emitiu a «coroa» de ouro. Parte dele provinha de roubos durante as Cruzadas. Sardenha e. o ouro estava sobrevalorizado no Ocidente e a prata no Oriente. não correspondendo a moedas. emitiu a sua Augustalis. em 1100. À medida que a prata se deslocava para leste. A região que compreendia o Báltico. tinha sido o penny de prata. O sucesso das cunhagens em ouro sugere que. em meados do século. o balanço do comércio com o Oriente favorecia a Europa. desempenhando. mas muito também resultava do comércio legitimo. O influxo de metais preciosos em barra do Leste bizantino e islâmico também foi importante. A base da cunhagem. recebendo prata ocidental em troca de algodão. No início do século XIV as cidades de Veneza e de Florença emitiram moedas de prata mais valiosas. mas o comércio de Inglaterra com o Mediterrâneo era tão diminuto que a moeda não vingou e aquele país só conseguiu emitir uma moeda de ouro bem sucedida em 1344. tendo algumas moedas de ouro bizantinas e muçulmanas continuado a circular em Itália. Em 1231. Como os mongóis negociavam apenas em prata. Boémia. a primeira moeda de ouro cunhada no Ocidente desde os finais da era merovíngia. artigos que eram desejados no Oriente. O equilíbrio sofreu alguns reveses quando. desde a era carolíngia. Em 1257.As transformações da Idade Média Central basearam-se no aumento da moeda disponível. equivalente a meia libra. enquanto o penny de prata não se adequava a grandes transacções. as reservas de metal começaram a declinar. Os muçulmanos pagavam em ouro. esta era bastante procurada no mundo muçulmano e. que promoveu um aumento de cunhagem ao longo do último quartel do século XII. a Rússia e a Escandinávia começou a desenvolver-se. depois de 1300. uma vez que a Europa ocidental manufacturava. sobretudo. pelo menos já em 1200. o imperador Frederico II. Henrique III de Inglaterra seguiu lhe os passos. seguida. em meados do século XIII. Uma outra solução foi a retoma da cunhagem do ouro no Ocidente. cujos súbditos comerciavam com os muçulmanos. Veneza emitiu o seu ducado de ouro em 1248. em parte devido a novas minas de prata da Misnia. em 1252.

As mulheres urbanas raramente apareciam na vida pública. uma companhia em Novgorod. AS MULHERES DURANTE A IDADE MÉDIA CENTRAL Existem pouca informação sobre a situação das mulheres das classes média e baixa antes de 1200. dominava a Hansa. ajudando os seus maridos na loja da família ou nos campos. as cidades da associação já eram capazes de empreender acções comuns no final do século XIII. Compravam peles. Lubeck. para as madeiras. as cidades do Báltico tornavam-se importantes na Hansa. A ilha de Gotland tinha dominado o comércio ocidental com a Rússia. na Idade Média Central a sua situação declinou quando a oferta de mão-de-obra masculina nas cidades excedeu a procura de produtos. exportando cereais da Prússia e da Polónia para o Ocidente. conjuntamente. mas em 1200 os germanos e os gotlandos mantinham. quando se desenvolveu o tear horizontal. muitas vezes. com o sacrifício da segurança económica. mas a independência era conseguida. de um modo geral. que foram unificadas no final do século XIII numa única «Hansa Germana. mel e cera. daquilo que é agora a Alemanha oriental e a Polónia. À medida que os germanos colonizavam o interior. Muitas guildas permitiam que uma viúva seguisse o ofício do marido. como padeiras. ou mais habitualmente. o que demonstra que se esperava que as mulheres participassem no negócio da família. Muitas mulheres tinham empregos. pois a sua localização fazia dela o ponto de união entre o comércio do mar do Norte e do Báltico. Embora a organização formal da Hansa tenha evoluído gradualmente. Quando as mulheres e os homens eram contratados para o mesmo trabalho. as mulheres. frequentemente. sobretudo. entre o rio Elba e o rio Oder. recebiam menos do que os homens. Tinham mais liberdade de acção do que as mulheres aristocráticas incluindo. a liberdade de poderem escolher os seus maridos. No início do século XIII foram fundadas várias cidades ao longo da costa báltica. tornando essa zona mais produtiva a nível agrícola. mais tarde. Embora em algumas cidades pudessem ser membros de guildas. As mulheres não eram funcionárias das guildas. na Noruega. mas tornou-se uma profissão masculina nas cidades. ou fora de casa. Em meados do século XIII os germanos tinham uma companhia em Bergen.dica estabeleceram associações regionais. vendendo tecidos flamengos nos mercados orientais. A tecelagem era uma ocupação essencialmente feminina nas áreas rurais durante o início da Idade Média. de modo a poderem aprender Capítulo 10 113/160 . que viria a tornar-se tão importante para o comércio do peixe como Novgorod era para as peles e. fundada por Henrique o Leão. podiam transmitir o direito de mestre aos seus filhos. mas depois de o estatuto de membro de uma guilda ter desenvolvido características hereditárias. Empregavam-se como enfermeiras e.

esta limitação era muitas vezes ignorada. chegando mesmo a comprometer as suas heranças. Durante a Baixa Idade Média parece ter havido falta de mulheres. que poderá ter sido originada por um equilíbrio na proporção de sexos. foi criado durante a Idade Média Central. os pais atrasavam a emancipação dos seus filhos. verdadeiramente inconcebível.os seus aspectos essenciais. contribuiu para o desaparecimento das propriedades orientadas para a mera subsistência. Nas cidades. A procura de alimentos nos mercados urbanos. para lhes arranjarem maridos convenientes. a Europa experimentou uma expansão populacional sem precedentes. que aprofundou o conhecimento dos letrados. contudo. para poderem dar às raparigas dotes suficientemente lucrativos. Na Idade Média Central. Esta tendência. causou problemas sérios nas relações familiares durante a Baixa Idade Média. o valor do dote da mulher subiu vertiginosamente na maior parte da Europa. a maior oferta de mão-de-obra foi utilizada para produzir grandes quantidades de produtos manufacturados exportáveis. até para Carlos Magno. pai ou irmão. enquanto o donativo do marido diminuiu. O capitalismo comercial. mas. mas os produtos de luxo também eram produzidos para vendida no estrangeiro e a europeus ricos. Fontes medievais sugerem que a maioria das mulheres de negócios independentes nas comunidades rurais eram de classe média ou baixa. na prática. expandindo os rudimentos da literariedade a um nível que seria. as mulheres só podiam negociar através dos seus guardiães masculinos. A não ser que fossem emancipadas. o marido. A sofisticação do mundo dos negócios da Idade Média Central e a crescente complexidade dos governos secular e eclesiástico foram consequência das transformações tecnológicas e de uma revolução educacional. tendo os homens de oferecer dotes substanciais para conseguirem obter esposas com propriedades. Os têxteis de lã eram a mais importante dessas manufacturas. que iria dominar a economia europeia antes da Revolução Industrial. combinada com a disponibilidade de moeda. 114/160 Capítulo 10 . Sobretudo a partir do século XII. Especialmente em Itália.

na verdade. Os desenvolvimentos intelectuais acompanharam estas mudanças. mas o começo da cultura humanista em Itália assinalou uma transformação da natureza do latim e de outros estudos clássicos que iriam ter um profundo impacte nos programas educacionais do próximo meio milénio. culminaram numa grande crise. apesar disto. agora. agravados agora pelas pragas. Escrevia-se muita literatura nas línguas vernáculas. Estabeleceu-se uma verdadeira rede comercial regional interdependente. as transformações nos sistemas e técnicas comerciais conduziram a um aumento do nível de vida. no século XIV e XV os governos reais não conseguiram impedir um grande colapso da ordem pública.A maturidade de uma civilização: a Baixa Idade Média. Apesar de se terem dado grandes avanços na administração pública e na manutenção de registos. nomeadamente a pobreza e o desemprego. as assembleias de cidadãos serviam-se das necessidades financeiras do Estado para conseguirem concessões que institucionalizavam um papel consultivo do Governo para os súbditos e seus representantes. mas o braço eclesiástico continuou a desempenhar um importante papel político. as igrejas. Capítulo 13 115/160 . pronunciaram-se sobre uma enorme variedade de assuntos doutrinais. guerras e más colheitas do século XIV e XV. tanto laicos como homens do clero. Um período de guerras intermitentes e brutais devastou as zonas rurais europeias. Os estados seculares dominavam. 1270-1500 Os dois últimos séculos do período «medieval» testemunharam mudanças de tal magnitude que muitos são os que afirmam que 1300. No entanto. o início da era «moderna». Os problemas económicos que se tinham surgido durante o século XIII. Os críticos da Igreja. Em algumas áreas. e não o tradicional ano de 1500. aumentaram tanto nas cidades como nas áreas rurais. durante os séculos XII e XIII. Os problemas sociais. é que marca. tornando disponíveis mais e variados produtos em todas as zonas da Europa. As guerras dinásticas da Baixa Idade Média foram tão ruinosamente dispendiosas que os príncipes se viram obrigados a pedir ajuda aos seus súbditos para pagarem as contas. devotando também grande atenção àquilo que consideravam ser as preocupações seculares de um corpo espiritual. Princípios legais tinham fornecido o pano de fundo para o grande aumento de poder das monarquias nacionais. embora não em todo o lado.

sobretudo na França. uma vez que os exércitos desocupados eram deixados soltos no campo. a maioria dos agricultores não tinha terra suficiente que lhes permitisse sustentar uma família. os arrendatários «normais» ou não livres eram protegidos pelos costumes senhoriais das extorsões arbitrárias. por volta de 1300. Embora a guerra aberta fosse prejudicial para a agricultura e para o comércio. Muitos agricultores livres tinham pequenas propriedades. A cobrança de impostos contribuiu para uma falta séria de metal precioso no século XV. No entanto. colocaram embargos na exportação da lã.Reorientação económica e crise social na Baixa Idade Média Pag 439 do livro AS ORIGENS DE UM PROBLEMA A LONGO PRAZO As condições políticas contribuíram decididamente para a crise económica do final do período medieval. que era necessária para as cidades flamengas. no final do século XIII. sob contrato. o problema fundamental não era político mas sim ecológico. O valor das rendas das terras também variava tremendamente dentro de uma mesma aldeia. tinha sido feita para regiões pouco férteis ou montanhosas. enquanto as propriedades dos servos tanto podiam ser pequenas como grandes. mesmo nos sítios de 116/160 Capítulo 13 . Os exércitos reais eram formados principalmente por mercenários. Os reis ingleses. A inflação tornou-se um problema cada vez mais sério. os frequentes períodos de tréguas eram piores. A população continuou a aumentar e. A cobrança real aumentou em todo o lado e os impostos tornaram-se opressivos nas cidades. Os impostos papais eram levados a novos e refinados níveis. com as rendas dos arrendatários livres a tenderem a ser mais elevadas que as dos servos. Sobretudo depois de l297. de forma a tentarem forçar os condes da Flandres a renegar a aliança com os franceses. que tinham de reconstruir e fortalecer as suas fortificações. As devastações das guerras também atingiram a economia. Essas terras só podiam ser utilizadas alguns anos de cada vez. por exemplo. que não eram próprias para a agricultura. Tais condições criaram uma procura de terra tão extrema que os arrendatários acabavam por aceitar quaisquer condições. pagos pelos seus capitães com o dinheiro que haviam recebido dos reis. Os príncipes também começaram a praticar a guerra económica. o que não acontecia com os arrendatários livres. Sobretudo em Inglaterra. para pilhar e destruir. Muitos arrendatários da Toscânia estavam de tal forma endividados com os seus senhores que. A maior parte da expansão das terras aráveis.13 . os reis franceses desvalorizavam frequentemente a sua moeda para poderem fazer face às emergências do tempo de guerra. o que prejudicou a liquidez da economia.

O trabalho para os trabalhadores à jornada tornou-se raro e a pobreza no século XIII passou a ser um grave problema. A população começou a diminuir em zonas do sul da Europa desde a segunda metade do século XIII. e a maioria delas perdeu entre um quarto a um terço da população. Alastrou-se depois para o nordeste. A PESTE NEGRA As fomes. pela Inglaterra e Países Baixos. Uma vez que as taxas de mortalidade eram mais elevadas nas cidades do que nas zonas circundantes rurais. Se rebentassem. As estações de crescimento encurtaram e os anos de más colheitas tornaram-se frequentes. as pragas e os desastres causados pelos humanos criaram problemas sérios. Em 1340. em 1316. O clima também se tornou errático. A peste «bubónica» foi apenas uma de três epidemias que surgiram em 1348. As inundações do início do século XV no mar do Norte desfizeram muito do trabalho de desbravamento de terras que tinha sido feito nos séculos XI e XII. Uma série de más colheitas começou em 1310 e culminou em 1315. O declínio de população é evidente no campo.rendimentos elevados. uma vez que estas ainda atraíam a população rural. Apareciam pústulas nas virilhas ou nos sovacos. Estes problemas foram exacerbados por um clima cada vez mais adverso. embora noutros locais a expansão continuasse a um ritmo ainda mais rápido. a morte era inevitável. havendo anos de chuvas torrenciais que eram seguidos por períodos de seca. Por volta do início do Verão de 1348. passando a haver uma fome generalizada. mas os anos de 1290 assistiram ao início de uma fase de clima frio e húmido. as guildas de muitas cidades começaram a restringir o acesso ao estatuto de mestre. No entanto. para a Escandinávia e Europa eslava. Os preços dos cereais subiram em flecha. quando praticamente todas as colheitas do norte da Europa foram destruídas por chuvas torrenciais. se não. semelhante ao da era carolíngia. não conseguiam saldar as suas dívidas. A Capítulo 13 117/160 . A «peste negra» de 1348-1349 foi uma grande catástrofe. seguiuse uma outra fome. a recuperação era possível. Em termos humanos. afectando o Mediterrâneo da mesma forma que o norte. tendo sido trazida para Génova através das pulgas que vinham nos navios e que se alojavam no pêlo de ratos castanhos. antes de o ser nas cidades. Poucas regiões foram poupadas. a peste foi um desastre. no final de 1349. A má nutrição de 1315 deu origem. à peste. Começou na China. pois muitos estavam demasiado fracos para resistirem à doença. Na primeira metade do século XIII parece ter havido mais más colheitas do que no século XII. já se tinha espalhado pela França central e. Apenas por volta de 1325 se voltou a atingir o anterior nível de produtividade. as áreas urbanas dependiam da imigração para conseguirem manter populações equilibradas.

seguido de uma tendência de nivelamento ao longo de grande parte do século XV. 1361. Assim. surgindo apenas uma outra em 1400. Muitas aldeias inteiras deixaram de existir.mortalidade era mais alta nas cidades. simplesmente. As pestes ocorriam geralmente durante os meses quentes. até ao final dos anos de 1370. em 1368-1369 (severa nos Países Baixos) e uma outra. que foi particularmente grave em Inglaterra. aplicar o Estatuto dos Trabalhadores. A partir daí. muitas dessas crianças eram levadas em pestes posteriores. muitas das quais perderam metade dos seus habitantes. no entanto. tentando os pais substituir os filhos perdidos. Houve pragas em 1358. obviamente. Em Inglaterra. pelo menos. Embora as taxas de natalidade aumentassem após cada praga. aumentando as probabilidades de serem atingidos pela epidemia que se seguisse. A mortalidade das pestes foi agudizada pelo facto de muitos agricultores terem migrado para as cidades. por mais lamentáveis em termos humanos que os desastres fossem. Embora as cidades tivesse perdido parte da população (as da Hansa alemã constituíam excepções). quando as colheitas estavam a ser ceifadas. a maioria das quais nos anos de 1430 e 1470. em 1374-1375. A migração e a devastação da guerra combinaram-se com as pestes para levar a população rural a declinar mais severamente do que a população urbana. A catástrofe não terminou em 1349. O IMPACTE DAS PESTES: O SECTOR AGRÍCOLA As pestes afectavam. os empregadores de trabalho agrícola pagavam ordenados avultados para terem trabalhadores.as crianças e os velhos . os preços subiam abruptamente logo após uma peste.mais severamente do que os jovens e os adultos de meia-idade. A Inglaterra sofreu. Uma geração separou esta última de uma peste em 1438. os mais fracos . sete epidemias entre 1430 e 1480. para evitar morrerem à fome. o que provocava falta de cereais. funcionaram como uma correcção do excesso populacional até cerca de 118/160 Capítulo 13 . vários tribunais tentaram. antes de conseguirem amadurecer e ter os seus próprios filhos. havia uma maior percentagem de população a viver em cidades em 1500 do que em 1300. O quadro geral. onde se juntavam ao número de trabalhadores temporariamente empregados. as pragas abrandaram. Seja para tirar partido dos preços momentaneamente elevados ou. O Estatuto Inglês dos Trabalhadores fixou o ordenado legal naquele que era pago em 1346. era o de um rápido aumento dos ordenados dos trabalhadores agrícolas na segunda metade do século XIV. que afectou toda a Europa. Alguns indícios económicos sugerem que. Foram emitidos estatutos semelhantes na França e em vários principados alemães. mas entre essa e as de 1480 ocorreram epidemias frequentes. com algum sucesso.

os preços baixos dos cereais prejudicavam os agricultores mas eram benéficos para os habitantes das cidades. o azeite e a cerveja diminuíram apenas ligeiramente. criando uma crise de excesso de produção. muitos migraram para as cidades. das áreas ao longo do mar Negro. As cidades flamengas.1370. Embora todos os agricultores tenham sido afectados. o vinho. Daí em diante. Muitos agricultores reagiam aos baixos preços dos cereais migrando para as cidades. pelos cereais oriundos do norte de África e das ilhas costeiras e. Os preços dos vegetais não desceram e algumas propriedades começaram a modificar a «monocultura de cereais» clássica. As frotas de navios duplicaram de tamanho durante o século XIV e novamente entre 1400 e 1450. durante séculos. o impacte mais grave foi sentido pelos pequenos e médios proprietários. no norte da Europa. tinham-se tornado tão dependentes dos cereais franceses como o eram da lã inglesa. Os interesses económicos dos produtores e dos consumidores raramente estavam sincronizados. À medida que as terras ficavam vagas. Apesar das flutuações a curto prazo. que tinham de lidar com elevados custos laborais e cuja margem de lucro era menor do que a dos senhores. que criavam alternâncias de escassez e de abundância. os preços começaram a oscilar em diferentes direcções: os preços dos bens manufacturados subiram. por volta de 1200. Os preços dos cereais ainda foram atingidos por dois outros factores. mais recentemente. mas outros limitavam-se a mudar de colheitas. A partir de 1400. de modo a incluir feijões e ervilhas. algumas cidades começaram a armazenar cereais na altura em que os preços estavam baixos e a utilizá-los para alimentar as massas nos períodos de escassez. grandes carregamentos de cereais para o noroeste da Europa. enquanto a carne. ter sido tão responsáveis como os excedentes de produção na manutenção dos preços baixos dos cereais. Mais importante ainda foi o desenvolvimento de um comércio de longa distância. em meados do século XIV. nomeadamente os homens da cidade que pretendiam investir em propriedades. Este facto constituiu uma oportunidade para aqueles que tinham capital disponível. as rendas e os preços destas caíam. Uma vez que começava a aparecer muita terra vaga por falta de trabalhadores. Para fazer face à crise. Como tal. e até 1390 em Itália. Era mais barato para os mercadores urbanos de cereais obter carregamentos de regiões distantes e trazê-los para os mercados por barco do que fazê-lo em animais de carga e carros por estradas terrestres. A Hansa alemã trazia. uma resposta óbvia era convertê-la em terra de pasto. o queijo. A libertação da pressão populacional sobre a Capítulo 13 119/160 . os preços dos cereais aumentaram até aos anos de 1370. o que significava mais carne e produtos lácteos na alimentação do que anteriormente. O desenvolvimento dos transportes e a concentração dos mercados nas cidades podem. As grandes cidades italianas tinham sido alimentadas. as colheitas elevadas inundaram o muito reduzido mercado nas cidades. mas os cereais caíram abruptamente. assim.

o que. destinando-se àqueles que não tinham esperança de entrar nas guildas. Eram várias as razões para o declínio da indústria têxtil em centros como Florença e Ypres. que eram normalmente oferecidas duas ou três vezes por semana. O estatuto de mestre era em muitas guildas uma distinção social. Isto beneficiou os mestres. bem como o omnipresente pão. os ajustamentos que foram feitos conduziram a um nível de vida mais elevado para os sobreviventes e seus descendentes. algumas cidades no sul dos Países Baixos. Desde que as comunas da Toscânia e da Lombardia tinham ganho a sua independência. a criar cidades-Estado. Embora os salários dos trabalhadores à jornada tivessem subido ligeiramente no final do século XIV. pela subordinação da nobreza local à cidade. haviam passado a governar áreas substanciais fora das muralhas da cidade. chegando mesmo. Os mestres artesãos não eram simples artífices. Algumas delas faziam do estatuto de mestre um factor hereditário. chegando. Por volta do século XV. embora continuassem a fabricar grandes quantidades de tecidos de alta qualidade. em muitos casos. a estabelecer taxas de entrada para os estrangeiros. desceram em relação aos aumentos gerais do custo de vida no século XV. por sua vez. à medida que o ritmo de trabalhadores migrados para as cidades aumentava. em alguns casos. significava que a resistência às pestes era mais elevada. seguir o exemplo. Embora as pestes tivessem sido uma tragédia humana. as associações de trabalhadores à jornada existiam já em várias cidades. incluía uma grande variedade de carnes. contribuiu para uma dieta mais equilibrada. por vezes. para os habitantes da área rural adjacente serem proibidos de fazer certos tipos de tecidos.terra. Primeiro surgiram mais tipos de tecidos: as tradicionais lãs pesadas estavam restringidas a um mercado 120/160 Capítulo 13 . As cidades tinham de assegurar um abastecimento regular de alimentos. A produtividade per capita subiu depois das pestes e os preços da maioria dos bens manufacturados eram bastante elevados. A nutrição melhorada afectou os pobres e os ricos. em determinado grau. sobretudo depois de 1370. na Alemanha e na Suíça conseguiram. Durante a Baixa Idade Média. mas a maioria limitavam-se a restringir o número de pessoas que podiam entrar. O proteccionismo industrial era motivo. A alimentação regular nos hospitais. que eram a especialidade dos trabalhadores das cidades. que tinham uma fonte disponível de mão-deobra. qualificando um determinado cidadão para cargos públicos. sopas e vegetais. para os pobres e para os doentes. O IMPACTO DAS PESTES: AS CIDADES Praticamente todas as cidades passaram por um influxo de trabalhadores oriundos das áreas rurais e as guildas tomaram-se cada vez mais restritivas.

que tinha sido durante séculos o monopólio da cidade italiana de Luca.de luxo. Gall. a dos tecidos manufacturados aumentou. Além disso.começaram a cobrar elevados taxas alfandegárias e. mesmo no século XII.desconhece-se se como forma de angariar dinheiro ou de desencorajar a exportação de lã . perto de St. Os documentos da Igreja estão cheios de pedidos para cuidar dos pobres. difundiuse com a migração dos trabalhadores para o norte da Europa. cujos regulamentos não eram tão rígidos como nos centros têxteis mais antigos. atingiu uma breve prosperidade através da «Grande Companhia de Ravensburgo». Por volta de meados do século XV. sendo difícil estabelecer comparações. As transformações económicas da Idade Média Central. sobretudo o crescimento populacional. devido a uma crescente melhoria das vias de comunicação. não permitindo um nível de vida capaz. que monopolizava a exportação dos linhos rurais da região em volta do lago Constance. praticamente todos viviam na miséria. O linho da Vestefália era particularmente conceituado. As cidades do sul da Alemanha também começaram a expandir o fabrico de tecidos. sobretudo do fustão. tanto nas áreas rurais como nas cidades. O trabalho da seda. O PROBLEMA DA POBREZA Embora o nível de vida estivesse a subir juntamente com a produção per capita. a pobreza era um grave problema na Baixa Idade Média. As indústrias têxteis para exportação desenvolviam-se agora em Inglaterra. grande parte dos tecidos mais leves eram agora fabricados em centros rurais ou em pequenas cidades.viúvas. Alguns agricultores adoptaram a tecelagem como um trabalho em part-time e algumas cidades permitiram manufacturas têxteis. os tecidos de qualidade ingleses. Em segundo lugar. uma mistura de algodão e linho. As frequentes fomes exacerbaram o problema. O trabalho do linho expandiu-se para o norte. tinham já conquistado uma parte do mercado do norte da Europa. mas na terminologia latina da época «pobre» está mais próximo de «fraco» do que de «sem recursos económicos». É difícil medir a extensão da pobreza na Alta Idade Média. Ravensburgo. à medida que a exportação de lã declinou. mesmo no início da Idade Média era feita uma distinção entre aqueles que eram pobres no sentido bíblico . que eram mais baratos e ligeiramente mais leves do que os mais finos tecidos flamengos. oferecendo roupas mais baratas para um vasto mercado. órCapítulo 13 121/160 . Segundo os padrões modernos. Os reis ingleses . mas os «tecidos leves» começavam a aparecer por exportação. significava que enquanto muitos enriqueciam outros ficavam mais pobres. estando também envolvida no negócio do cânhamo e do algodão. nos Países Baixos de leste e no sul da Alemanha. Isto é particularmente verdade para as pessoas cujas parcelas de terra estavam demasiadamente subdivididas.

Muitos «hospitais» eram mais hospícios para os pobres e apoio para os viajantes do que instituições para os doentes. vivia na margem da subsistência na maioria das cidades. Por 122/160 Capítulo 13 . A maior parte delas mantinha e revia anualmente listas de pessoas que eram elegíveis para receber assistência. Enquanto que no início do século XIV a maior parte das instituições de caridade mal conseguiam fazer face aos pedidos do indigente. pelo menos um terço da população. Algumas guildas estabeleciam casas de esmolas para cuidar de membros indigentes e dos seus dependentes e descendentes. produzir o suficiente para se sustentarem a si mesmos continuamente ao longo do ano. Tais estabelecimentos. a maioria deles situados nas cidades. As autoridades tornavam-se mais conscientes do problema e a existência de fontes quantificáveis permite-nos medir a sua extensão.fãos e fisicamente incapacitados . à medida que as guildas encerravam. A grave inflação deu origem a um grupo cuja existência mal tinha sido reconhecida anteriormente: os trabalhadores pobres em oposição aos não trabalhadores. Tais trabalhadores não conseguiam. Um mandato de um ano era comum para magistrados nas cidades do norte. por volta do século XV os mesmos nomes voltavam depois de uma «licença» imposta de um a três anos.e aqueles que estavam fisicamente capazes de trabalhar. As cidades no final da Idade Média tinham uma elevada incidência de pobreza. forneciam aos indigentes cereais. uma vez que muito do trabalho era sazonal e. As esmolas tornaram-se mais comuns na Baixa Idade Média do que anteriormente. Embora a rotação de conselheiros pareça sugerir uma descontinuidade na administração. A SOCIEDADE E O GOVERNO NAS CIDADES Em meados do século XIV a maioria dos governos das cidades eram controlados por organizações de artesãos. carne e sapatos. o acesso ao mercado era severamente limitado. Embora os membros dos conselhos se revezassem. sendo em muitas mais de metade. a maior parte das cidades do final do século XIII possuía um quadro de funcionários profissionais que exerciam as funções durante muitos anos. Trabalhavam intermitentemente. enquanto os mandatos de dois a seis meses se praticavam mais em Itália. os donativos eram maiores depois de 1348 e as contas demonstravam frequentemente um balanço positivo. pão. Mesas dos Pobres e Bolsas Comuns foram criadas por pessoas laicas e por igrejas. muitas vezes. como seja a alimentação dos pobres pelos mosteiros nos dias festivos. A pobreza que resultava da ausência de trabalho e de ordenados demasiado baixos para sustentar a família raramente era alvo das instituições de caridade antes do século XIV. As isenções de impostos que eram dadas com a justificação de pobreza sugerem que. Alguma caridade era simbólica.

cujos membros residiam na cidade há uns meros duzentos anos. a maior parte dos orçamentos das cidades eram dedicados à manutenção das muralhas da cidade. normalmente. ou então impunham-lhes taxas reguladoras.volta de 1400 a maior parte dos secretários possuía. algumas das quais eram tão pobres que tinham de utilizar os salários dos cargos municipais para conseguirem fazer face às despesas. Embora os impostos indirectos atingissem os pobres. tais como o vinho. concessionada aos cobradores de impostos. Nas maiores cidades. em 1378. As alianças familiares e as rivalidades também eram importantes no estabelecimento de lealdades nas disputas sobre o governo da cidade. um elemento de continuidade entre regimes. mas não impenetráveis através da riqueza ou do casamento. a assistência aos pobres e a indústria (na qual o governo da cidade costumava agir em conjunto com as guildas). Mas as despesas aumentaram no século XIV. uma inscrição pro forma numa guilda que tivesse direito a um ou mais lugares no conselho da cidade. uma vez que a comida estava. pelo menos. embora algumas facções ricas se servissem da histeria das massas. sujeita a eles. As funções dos governos das cidades do final do período medieval incluíam o saneamento. eram nomeados pelos secretários e não pelo conselho da cidade. À excepção do caso da rebelião de Ciompi em Florença. bastante largo. o estatuto de mestre de artes e muitos conselheiros tinham estudado leis. de linhagens mais antigas. A chegada ao poder de regimes de artesãos raramente constituía uma «democracia». Sobretudo depois dos anos de 1330. As cidades colectavam multas. geralmente. o grupo governativo era. Capítulo 13 123/160 . nenhuma revolta da Baixa Idade Média atiçou os ricos directamente contra os pobres. onde era geralmente avaliada de acordo com a riqueza estimada. foram inscritos num Livro Dourado. Com vista às frequentes rotações dos conselhos. os membros do antigo patriciado que desejavam participar na vida pública tinham de fazer. Em 1297 os nomes das novas casas. 10% a 15% da população. que eram simples copistas. necessariamente. na maior parte das cidades. assim. chegando a constituir. A colecta destes rendimentos era. oferecendo. Apenas estas famílias podiam deter cargos. A cobrança directa pelas cidades tornou-se mais comum no século XV. no século XIV. as ruas. taxas de mercados. Nem mesmo a oligarquia de Veneza era excepção. os mais altos incidiam sobre os artigos de luxo. As cidades protegiam as industrias e/ou proibiam os cidadãos de importar bens manufacturados que fossem fabricados na cidade. sobretudo em Itália. os delegados. de um modo geral. por volta do século XV. rendas sobre terras das corporações da cidade e taxas cobradas a grupos específicos. compras de cidadania. e as velhas casas. estes incluíam um largo número de pessoas. Depois de as guildas terem tomado o poder. no entanto. A maior parte das revoluções urbanas do século XIV não eram sublevações de massas. tais como os cambistas e usurários. As oligarquias urbanas eram fechadas.

no século XIII. Durante o século XV. Uma das mais famosas era o Casamento do Mar. mais vulgar os reis venderem os títulos de nobreza e os motivos da compra depressa deixaram de ser sociais: durante o século XV. que se encontrava totalmente em desacordo com as brutais realidades militares da época. que decorria em Veneza para celebrar a vitória naval de 997. contudo. O sentimento de identidade também se estendia aos arredores. A NOBREZA NA BAIXA IDADE MÉDIA A identificação da nobreza com a cavalaria desfez-se no final do século XIII. simbolizando o elo indissociável da cidade com o mar. enquan124/160 Capítulo 13 . os preços das terras e os elevados ordenados agrícolas. As festividades culminavam quando o doge atirava um anel para a água. estabelecida como imitação da Jarreteira pelo rei João o Bom de França. Patrocinavam torneios e os reis alimentavam esse tipo de sentimentos. Tornou-se. que assegurou aos venezianos o controlo do Adriático. em França e em Castela. e a nobreza que podia ser comprada e era entendida com um estatuto inferior. bairros e paróquias. depois da batalha de Courtrai. para assistência aos pobres. verificou-se o começo da «nobreza de manto». e a Ordem da Estrela. Desenvolveu-se então a diferença entre. atingiram-nos economicamente. os reis franceses reclamaram o direito de armar cavaleiros. um caso digno de nota foi quando ele armou cavaleiro o seu talhante. Nas procissões havia uma forte hierarquização das guildas. Enquanto os cavaleiros armavam outros cavaleiros o grupo manteve-se estreitamente definido mas. fundada em 1348 pelo rei Eduardo III de Inglaterra. as rendas em declínio. muitos dos quais tinham os seus próprios tesouros. que permaneciam relacionados com a linhagem antiga. Praticamente todas as cidades tinham festividades em honra do santo patrono. uma nobreza distinta da mais antiga. Também se tornou possível ascender à nobreza através do serviço pessoal ao príncipe.O orgulho cívico era muito forte e encorajado pelas autoridades em cerimónias públicas. à medida que os governos das cidades francesas ficavam sob controlo real. das confrarias religiosas e sociais e dos dignitários. os nobres obtiveram o reconhecimento do princípio de que estavam isentos do pagamento de impostos. a «nobreza de espada». As famílias nobres mantinham um código de cavalheirismo cada vez mais elaborado. Assim. Muitos nobres tentaram recuperar algum equilíbrio económico ligando-se pelo casamento às famílias ricas das cidades. Filipe IV de França recompensou os seus favoritos armando-os cavaleiros. os cavaleiros e os gentishomens. Embora os senhores tivessem beneficiado da falta de terra do final do século XIII (que elevou o seu preço). depois de 1348. por um lado. os mais prestigiados clubes nobres da Europa eram a Ordem da Jarreteira.

era exigido como equipamento militar de todos os proprietários ingleses e dos homens ricos da cidade. A Europa medieval tinha uma sociedade de «estatuto» e não de «classes». mas até ao final do século XIII a cavalaria foi. O arco contribuiu para a crescente proeminência da infantaria nas guerras do século XIV. a nobreza inseriu-se nesta definição. geralmente. por meio de pagamentos simbólicos. que tinham mais terras do que os seus vizinhos livres. sem dúvida. as guildas e os burgueses mais ricos contra os nobres. um insulto podia ser mais grave do que uma agressão física. mas parece ter havido outras forças envolvidas. da mesma forma que é errado assumir que ela era sempre determinada por aspectos económicos. Em Inglaterra o arco acabou por suplantar a besta. também os vilões. As cidades que tinham um próspero comércio de longa distância. a qual persistiu durante no continente. se os proprietários subiam de estatuto era. É mencionado pela primeira vez no século XII e. Reavivou-se a vendetta e as famílias agruparam-se em associações de «paz». A batalha de Courtrai foi a primeira derrota de um grande exército de cavaleiros por um exército composto unicamente por soldados a pé. O domínio dos nobres sobre a profissão militar também foi abalado. tais como Breslau. mas aí também durante o século XV. Alguns historiadores interpretaram estes conflitos como guerras entre classes sociais. os artesãos se aliassem aos nobres contra os burgueses. eram atormentados pela perpetuação do seu estatuto de não livres. Durante parte do período medieval. Grande parte do problema devia-se à ausência de uma definição de «classe» social. eram homens da cidade. à excepção de Inglaterra. Capítulo 13 125/160 . Agora. No entanto. Leipzig. Uma classe é um grupo de pessoas com critérios fixos para os seus membros. Muitas lutas davam-se entre diferentes grupos de pessoas ricas que procuravam ganhar ou assegurar poder. As rebeliões nas cidades alemãs instigavam. frequentemente. A maioria dos exércitos medievais utilizavam tanto a infantaria como a cavalaria. através da consolidação de várias propriedades. a maioria dos novos promovidos no final da Idade Média. É erróneo assumir que toda a violência resultava da opressão. em 1252. a violência tornou-se uma ocorrência banal e impossível de conter. embora. mais significativas do que um mero antagonismo entre ricos e pobres. AS GRANDES REVOLTAS Com o desmoronar da autoridade na Baixa Idade Média. o corpo de elite. a crescente importância da guerra de cerco e as milícias das cidades começavam a dar relevo à infantaria.to anteriormente parte da ascensão à nobreza tinha acontecido com prósperos proprietários. por vezes. à excepção da nobreza. Assim. seguindo-se o casamento dentro de famílias com antepassados mais distintos.

Em 1323. excluindo os artesãos do poder. O conde foi expulso e Van Artevelde. onde foram aniquilados. Os seus líderes estabeleceram contactos com o governo da comuna de Paris. Tal como noutras rebeliões. mas tal não passou de um engodo. o chefe dos revoltosos. Em meados dos anos de 1330. Uma rebelião que começara por uma questão de privilégios para os mercadores ricos transformara-se numa sublevação contra a ordem social. Os camponeses levantaram-se contra o pagamento. mas somente porque os senhores pareciam preferir o arrendamento. em parte de França. No seu leito de morte. onde assassinaram o arcebispo de Cantuária e o chanceler do rei. que se estendeu ao resto da Flandres. que era praticada. Acompanhado por homens da cidade. Na base de algumas das rebeliões do século XIV encontra-se a noção de que a cobrança directa de impostos era iníqua. O rei Ricardo II. Mais tarde. pois ele conduziu-os para fora da cidade. Para forçar o conde. A liderança passou para as mãos de camponeses prósperos. o rei francês João II e outros nobres foram capturados em 1356 pelos ingleses e detidos sob um enorme resgate. Outras rebeliões eram políticas e algumas eram revoltas de contribuintes. No século XIV houve três revoltas importantes de camponeses. sobre a pessoa e os outros que residiam com ele. permaneceram patrícias. apoiados pelos endinheirados de Bruges. cujas indústrias têxteis dependiam da lã inglesa. todas ligadas às cidades. Noutro caso. As atrocidades cometidas levaram à sublevação geral da Ile-de-France. Confrontados com o tesouro vazio. Isto precipitou uma crise nas cidades flamengas. o exército rebelde dirigiu-se para Londres. A servidão extinguiu-se em Inglaterra durante o século XV. as rebeliões urbanas apresentavam ainda menos relações com classes sociais do que as rurais. o rei Eduardo III impôs um embargo às exportações de lã. mas foram esmagados em Junho. os registos dos confiscos sugerem que a maior parte dos participantes vivia bem. o rei Carlos V aboliu a taille. a Inglaterra estava a aliciar o conde flamengo numa aliança contra o rei francês. Em 1381 o Parlamento inglês instituiu o terceiro imposto de cabeça em quatro anos e irrompeu a rebelião no Essex. os regentes do seu jovem 126/160 Capítulo 13 . com 14 anos de idade. A rebelião constitui um episódio na história do nacionalismo flamengo e na luta contra a influência francesa na Flandres e não dos trabalhadores contra os aristocratas. e que estavam a atingir níveis nunca antes vistos. com pregadores a exigir a abolição das distinções sociais e o conde acabou por pôr fim à revolta com a ajuda do rei francês. deteve o poder até pouco antes de ser assassinado. quando o conde da Flandres revogou os privilégios de Bruges em Sluis. Com uma única excepção.Nuremberga e Regensburgo. Os rebeldes exigiam o fim da servidão e das rendas baixas. a rebelião adquiriu um carácter radical. em 1345. encabeçou o exército rebelde. irrompeu uma revolta que depressa alastrou às zonas rurais.

em 1368. mas a restauração dos gregos em Constantinopla deu vantagem aos genoveses. Samarcanda e China. quando a antiga oligarquia voltou ao poder. A rota do mar Negro perdeu a sua importância nas especiarias. já que estas eram cada vez mais trazidas através do Egipto. a dinastia Ming expulsou todos os estrangeiros da China. Muitos dos ciompi eram fiadores de lã que só podiam trabalhar na cidade durante o Inverno. entrou para o conselho. Do Irão. Durante o século XIV os asiáticos tornaram-se mais hostis para com os ocidentais. cujos membros pudessem ser eleitos para cargos de direcção. pois eram necessários como mão-de-obra agrícola no Verão. os governantes mongóis da Pérsia foram substituídos por muçulmanos nativos e. A mais importante rota terrestre para a Ásia começava na cidade grega de Trebizonda. também entraram no comércio de longa distância. no final do século XV. bem como as nozes e as amêndoas. muçulmano e mongol desde antes das Cruzadas. Em 1335. Capítulo 13 127/160 . significou o fim do monopólio egípcio e que os produtos eram agora disponíveis directamente da Ásia. Embora os rebeldes viessem de todos os grupos. os europeus também podiam navegar para o oceano Indico. incluindo da aristocracia. O comércio dos cereais. Os frutos. na margem sul do mar Negro. tornava-se agora um importante a longa distância. Os principais centros eram Veneza e Génova. A circum-navegação portuguesa de África. seguindo depois a rota das caravanas para Tabriz. quando Salvestro de Medici. Este regime durou até 1382. que eram muito procuradas pelas pastelarias finas. que tinha sido essencialmente local antes do século XIV. o que provocou rebeliões em Paris e em Rouen. sobretudo os secos. AS ROTAS E TÉCNICAS DO COMÉRCIO: OS ITALIANOS E O SUL Os italianos dominavam as rotas para o leste grego. um inimigo aristocrático do governo. As companhias florentinas também importavam cereais. tanto nas áreas do Mediterrâneo como do Báltico.filho Carlos V reimposeram-na. O resultado foi um notável aumento na quantidade de produtos orientais nos mercados ocidentais. que estabeleceram bases na região do mar Negro. a insatisfação para com a influência da guilda da lã era um factor importante. Também pretendiam uma nova guilda do popolo minuto (o pequeno popolo). a partir de Ormuz. A rebelião de ciompi (cardadores de lã) irrompeu em Florença em 1378. Exigiram uma revisão dos impostos e o fim dos direitos disciplinares da guilda da lã sobre os trabalhadores. Os genoveses transportavam carregamentos da Crimeia e da Ucrânia e Veneza vendia cereais da Macedónia e da Anatólia em Creta e em Chipre. Os venezianos tinham sido os principais beneficiários da Quarta Cruzada.

com cotações regulares disponíveis nas cidades comerciais. sobretudo. as especiarias e as tintas exóticas tornaram-se comuns em todo o lado. na maioria dos casos na sua moeda local. já utilizavam cheques para transacções locais. Bruges. Um homem de negócios utilizava a sua moeda nativa para comprar uma letra que valeria o valor facial indicado de uma moeda estrangeira. Por volta de 1400. dando-lhes isenção de algumas portagens e. existia um mercado de dinheiro conduzido por corretores profissionais. A letra era dirigida a um credor ou sócio do comprador e não podia ser cobrada antes de passar um determinado tempo. Os italianos mantinham há muito tempo colónias mercantes residentes nas cidades do Próximo Oriente. e a de Génova. tendo de passar pelos corretores locais. A contabilidade com dupla entrada foi utilizada. devendo ser paga num porto estrangeiro. os frutos do Mediterrâneo. A sua mais importante mercadoria era o alúmen. Os reis ingleses e os condes flamengos concediam-lhes privilégios nos seus portos. os genoveses começaram a fazer viagens directas aos portos do mar do Norte. que era utilizado como mordente na tinturaria. “freedom from arrest”. Os italianos confinavam-se à exportação e à importação. Em 1400. Em 1300. O contacto por mar entre a Flandres e a Itália levou ao declínio das feiras da Champanha. À medida que os luxos de uma geração se tornavam as necessidades da seguinte. Os seguros marítimos desenvolveram-se antes de 1250 em Génova. Em 1278. Embora pudesse ser utilizada para pagar produtos em trânsito. As letras de câmbio não teriam sido concebidas sem a existência de um contacto frequente e regular entre portos.AS ROTAS E TÉCNICAS DO COMÉRCIO: OS ITALIANOS E O NORTE As técnicas comerciais mudaram radicalmente na Baixa Idade Média. pois. As feiras que cresceram foram as de Antuérpia. mas no início do século XIV alargaram esta prática aos principais portos do norte: Southampton. principalmente. uma vez que até 1459 as minas dos genoveses em Foceia constituíam a única fonte conhecida deste mineral. pela pri- 128/160 Capítulo 13 . tornaram-se o principal meio para transferência de fundos internacionais nos séculos XIV e XV. nestas áreas não podiam vender directamente aos consumidores. sem violar a proibição da Igreja contra a usara. espalhando-se depois por toda a Itália. desenvolvidas pelos italianos no século XIII. Londres e. Controlavam a maior parte do comércio do sul com o norte da Europa. os cheques e as letras de câmbio eram transferíveis por endosso. e proibir os mercadores franceses de comerciarem em Génova. As letras de câmbio. Os italianos também foram responsáveis por outras inovações técnicas. de Francoforte e de Leipzig. era também um meio de emprestar e investir dinheiro com a aplicação de juros. geralmente seis meses. geralmente quatro vezes por ano. que lidava com a maior parte do comércio italiano até o rei Luís XI estabelecer a feira de Lião.

por outro lado. se o emprestador vivesse muito tempo. desta forma. registavam as obrigações e bens das firmas e possibilitava a verificação dos negócios em qualquer altura. o que causou uma séria contracção no crédito depois de 1370. mantendo uma reserva limitada. Algumas cidades. capazes de avaliar o valor das moedas ao longo de uma série de anos. As sociedades raramente se faziam além da comenda. no final do século XIII. À medida que a noção de obrigatoriedade limitada para dívidas se espalhava. Enquanto os italianos emprestavam dinheiro. mas não utilizavam as letras de câmbio. Os pais utilizavam este método para assegurar dotes aos seus filhos. tal como acontecia com os grandes banqueiros. envolvendo apenas ramos específicos. os mercadores de diferentes cidades da Hansa agiam frequentemente como correspondentes uns dos outros. Os cambistas desempenhavam. o que não deixava de constituir um notável avanço. não se estendendo à representação geral da situação da firma. as pessoas que estavam envolvidas com estrangeiros mantinham contas com os cambistas locais para que os pagamentos pudessem ser feitos através de transferências sem a utilização de espécie. Também existiam rendas perpétuas que vin- Capítulo 13 129/160 . registando cada transacção sob débitos e créditos. Vendiam e especulavam sobre a moeda doméstica e. Os Governos municipais também vendiam rendas pelo tempo de vida do comprador e. As colunas paralelas. Os livros de contas de dupla entrada eram parciais. tinham uma casa de câmbio municipal ou um Banco público. O risco do emprestador era que ele podia morrer sem conseguir reaver o total do empréstimo e os seus herdeiros não tinham qualquer direito à renda. os nórdicos especulavam com a taxa de mortalidade através da renda de anuidade: uma pessoa que precisasse de dinheiro recebia um empréstimo em troca de um pagamento anual garantido durante o tempo de vida do emprestador. como Barcelona e Estrasburgo. as mesmas funções que as casas banqueiras em Itália. os cambistas tinham de ser pessoas com uma considerável competência técnica. chegaram à emissão dos títulos obrigacionistas. No entanto.meira vez. sobre as estrangeiras. Sobretudo depois de os mercadores da Hansa alemã terem obtido o direito de possuir uma colónia residente em Bruges. acima de tudo. que os italianos utilizavam desde o século XII. Devido às súbitas desvalorizações da moeda durante o século XIV e ao impacte da grave falta de metal precioso na economia europeia. Preservaram métodos mais antigos de registos de contas e de contabilidade. nos centros do norte. especulando sobre a taxa de câmbio. enquanto outras simplesmente financiavam os cambistas. podia conseguir obter um lucro considerável. as técnicas comerciais no norte da Europa continuaram primitivas em comparação com as italianas. Tomavam dinheiro em depósito e investiam-no. as firmas rivais tratavam frequentemente dos negócios umas das outras. Uma vez que os estrangeiros eram vulneráveis à hostilidade nativa.

o elo de ligação com os portos marítimos. embora tivesse sido capaz de travar uma guerra bem sucedida contra os ingleses e continuasse a excluir os holandeses do Báltico. O nexo do comércio italiano com a Alemanha situava-se principalmente no sul. Na Baixa Idade Média. podendo transportar-se mais carregamentos e mais produtos. O declínio de Bruges. era evidente por volta de 1470. uma vez que grande parte do mercado para os têxteis ingleses e dos Países Baixos se situava agora na Alemanha. em Bergen na Noruega. produtos da floresta e outras mercadorias. Os alemães compravam peles. mais importante ainda. A HANSA ALEMÃ No seu auge. os italianos não se aventuraram para norte de Bruges e os alemães tiveram um papel irrisório no comércio do Atlântico até meados do século XV. sobretudo. no século XIV. A ascensão de Antuérpia como o principal porto dos Países Baixos colocou a Hansa em directa competição com os alemães do sul. MULHERES. madeira e outros produtos florestais aos escandinavos e aos russos e cereais do leste germano. a Europa industrial do noroeste tornou-se muito dependente dos italianos para produtos de luxo e dos alemães para os cereais. 130/160 Capítulo 13 . Os Estados da Europa ocidental eram muito dependentes dos transportes alemães. onde se mantinham alojamentos para eles. Isto era mais conveniente para a maioria dos italianos do que o comércio com os hansardos em Bruges. Curiosamente. já que o sul da Europa produzia a maior parte dos seus tecidos. Os mercadores alemães sequiam para Veneza. em Londres e. CRIANÇAS E A FAMÍLIA NA BAIXA IDADE MÉDIA As estruturas familiares também se alteraram em resposta às crises do final da Idade Média. O grande tamanho dos navios da Hansa fez que fosse possível uma crescente internacionalização do comércio.culavam os herdeiros. A coligação tinha uma assembleia onde os assuntos de interesse comum eram discutidos. da costa do mar Báltico. devido a problemas internos na Flandres e ao assoreamento do Zwin. mas os boicotes económicos eram o único meio de fazer cumprir os desejos da maioria sobre os membros que não queriam cooperar. que tinham melhores acessos àquela através do Reno. a Hansa alemã incluía mais de oitenta cidades da Rhineland germana. O poder da Hansa começou a declinar no século XV. Os alemães tinham colónias residentes em Novgorod na Rússia. em Bruges. da Saxónia e.

Muita da violência existente era perpetrada pelos jovens. normalmente. dos seus próprios assuntos. mas também em algumas cidades do norte. embora estes agissem frequentemente sob as ordens de um homem mais velho da família. eram as linhagens que controlavam os Governos das cidades. As hostilidades podiam prolongar-se durante gerações. tanto no norte como no sul. havia uma conCapítulo 13 131/160 . As «casas» genovesas participavam em cargos municipais e. mas. o mesmo aconteceu nos séculos XIV e XV. A família conjugal tratava. Sobretudo no século XIII. em parte. Sobretudo em Itália. incluindo a educação das crianças. a não ser que houvesse disputas em tribunal. mantendo fundos para dotes de raparigas pobres do clã e investindo o tesouro comum em títulos públicos. Os alberghi (casas) de Génova eram alianças que consistiam em cerca de oitenta famílias distintas. Algumas delas agiam como associações de caridade. remontando a uma ofensa ou agressão feita no passado. tinham as suas próprias igrejas através do controlo que possuíam nos bairros. As rivalidades tinham. de um modo geral. à existência de ricos líderes políticos a viverem em grandes casas rodeadas pelas pequenas habitações dos seus clientes. Estudos recentes demonstram que muitos conflitos nas cidades. RIXAS E GOVERNO CIVIL Tal como no início do período medieval a família teve um papel na paz e na guerra. tornando-se mais tarde confederações artificiais que constituíam redes de clientes. por vezes. como tal.Muito se tem escrito sobre a relativa importância da família alargada e da família nuclear. sendo frequentes as segundas núpcias. eram afinal lutas entre diferentes facções de famílias aristocráticas. que em tempos se pensou terem origem em trabalhadores contra empregadores ou guildas pobres contra as ricas. envolver os seus parentes era muito grande. tornando-se os governos das cidades impotentes para acabar com a violência. uma vez que raramente se deixavam registos escritos. mas ambas foram muito significativas. o grupo familiar acabava por ser bastante grande. tal como os parentes de sangue. O conhecimento do funcionamento interno das famílias conjugais é limitado. uma vez que os aparentados. A probabilidade de um membro da família se meter em sarilhos e. Algumas destas linhagens começaram como unidades familiares. prestando auxílio aos pobres. A maioria das famílias definiam os seus laços bilateralmente e. FAMÍLIAS. quando o desmoronamento da ordem pública depois da peste negra conduziu ao reavivar das vendettas. eram considerados como pertencentes à família. O facto de a maioria dos bairros urbanos conterem tanto famílias pobres como ricas deve-se. muitas vezes as questões eram puramente pessoais. origem nas atitudes para com o príncipe ou o senhor da cidade.

cimentar alianças entre famílias. Mas a competição por homens elegíveis tornou-se tão intensa que as famílias das raparigas se viam obrigadas a oferecer incentivos financeiros para lhes arranjarem maridos. Com a excepção do Languedoc. depois. onde os bens do casal eram divididos. mas. querendo isto dizer que os rapazes não se viam privados. prometendo os filhos em casamento desde tenra idade. Isto protegia as viúvas e mesmo os viúvos. Até ao século XII. permanecia nos bens da mulher e era passado para os herdeiros de sangue dela. As relações emocionais e financeiras entre esposos eram muito mais recíprocas no norte da Europa. em zonas do norte da França e dos Países Baixos. Em muitas zonas do norte da Europa existiam regimes legais de propriedade conjunta ou comum. recebendo grandes dotes dos seus sogros. Isto significava que os casamentos dos rapazes eram protelados. as propriedades mudavam de mãos. que tentava. entre o esposo sobrevivente e os herdeiros de sangue descendentes. mas. a maioria dos dotes eram de volume mediano. em alguns casos. enquanto as raparigas se casavam normalmente no fim da adolescência. mas apenas entre a aristocracia. Desenvolveu-se o costume de homens amadurecidos casarem com mulheres muito mais novas. Mesmo que os es132/160 Capítulo 13 . poderem partilhar do total das propriedades com os irmãos dela. para lhes providenciar um dote substancial ao atingirem a idade de casar. À excepção da aristocracia. O dote era controlado pelo marido durante o casamento. mas os do século XIV atingiam proporções inacreditáveis. as grandes famílias tentavam controlar o acesso às suas praças comprando as propriedades que as rodeavam.passavam para os seus irmãos -. com vencimento de juros. Em Itália.siderável vida social centrada em torno da praça pública. O CASAMENTO E A FAMÍLIA Quando se contraía casamento. O casamento adolescente é mencionado ocasionalmente na literatura do norte. ela e o marido tinham a hipótese de devolver o dote para. Uma vez entregue o dote de uma mulher italiana pela sua família. Os dotes tornaram-se a norma e o preço da noiva diminuiu substancialmente. o pai tinha o direito de reter a propriedade dos seus filhos homens para pagar os enormes dotes das filhas. onde os pais podiam investir desde a infância das suas filhas. nem mesmo temporariamente. o noivo tinha o costume de pagar um preço de noiva aos pais dela. sendo a idade do primeiro casamento mais tardia. os maridos e as mulheres tendiam a estar mais próximos no nível etário do que em Itália. das suas heranças. Os dotes no final do século XII eram bastante grandes. por volta dos 20 para ambos os sexos. ela deixava de ter qualquer direito sobre as propriedades dos seus pais quando eles morressem . por ocasião da morte de um deles. Em Florença estabeleceu-se um fundo especial. se ele morresse primeiro.

posos sobreviventes não obtivessem uma parte dos bens do casal em posse directa, tinham, em praticamente todo o lado, o direito vitalício de usufruir um quarto a um terço, embora a posse permanecesse vinculada aos herdeiros.

PAIS E FILHOS É difícil fazer generalizações sobre a educação, uma vez que a relação dos pais com os filhos variava entre o mimo e a brutalidade. A maioria das crianças eram criadas de uma forma mais rígida do que actualmente, com o pai a ser, mais do que a mãe, a figura de autoridade. Muitas crianças eram claramente desejadas pelo casal, valorizadas e alimentadas no máximo das capacidades e entendimento dos pais. Os pais que tinham posses contratavam amas, que podia ter mais impacte na formação emocional da criança do que eles. Os pais mais pobres, que não podiam contratar amas, mantinham os seus filhos em casa e, como tal, parecem ter tido uma proximidade emocional mais íntima com eles do que os pais de famílias ricas. Por volta dos 7 anos de idade, muitos rapazes e algumas raparigas iam para a escola, que, antes do século XI, era, em geral, nos mosteiros. Daí em diante, as catedrais, as fundações mendicantes e uma variedade de escolas fundadas por entidades privadas ou pelos municípios tornaram a educação disponível para muitas mais pessoas. Sobretudo nas cidades, praticamente os filhos de todos os mercadores e de muitos artesãos faziam, pelo menos, a escola primária. As elevadas taxas de mortalidade significavam que muitas crianças não chegavam à maioridade com ambos os pais ainda vivos. As crianças italianas eram entregues, normalmente, à família do pai falecido; se a mãe desejasse continuar a estar com eles, tinha de ficar na casa dos seus sogros, não podendo voltar a casar ou retornar para a sua própria família. A situação era bastante mais fluida no norte da Europa, onde as crianças eram criadas, de um modo geral, pelo progenitor sobrevivente, a não ser que o padrasto, no caso de um segundo casamento da mulher, não quisesse os filhos dela. Nesse caso, ela teria de os entregar aos parentes do pai. Muitos viúvos entregavam a custódia dos seus filhos aos seus familiares femininos, mas outros mantinham-nos, já que muitas ocupações eram desempenhadas em casa e as crianças podiam fazer trabalhos úteis à medida que iam crescendo. A admissão como aprendiz, normalmente para os rapazes, embora também admitissem raparigas, era feita nos anos da adolescência, depois complementada a escola primária. No norte da Europa, o rapaz ficava geralmente alojado com a família do seu mestre, mas em Itália era mais comum ele voltar para casa dos pais ao fim do dia. Outros jovens da classe baixa e média eram colocados ao serviço doméstico. As raparigas das classes mais elevadas eram feitas
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damas-de-companhia, enquanto os rapazes eram escudeiros. Isto significava que os laços da criança com a sua família eram frequentemente distantes, sobretudo nas cidades. À medida que as famílias alargadas se tornavam mais influentes, no final da Idade Média, esperava-se que tomassem conta dos órfãos dos seus membros. Para aqueles que não tinham familiares, algumas cidades estabeleceram asilos para enjeitados. Os orfanatos representam um considerável avanço, mostrando que as autoridades estavam conscientes do problema. A maioria dos Governos das cidades também se encarregavam da administração dos bens dos órfãos, nomeando guardiães ou tutores para os gerirem. A ilegitimidade é difícil de documentar estatisticamente, mas é mencionada com tanta naturalidade nas fontes, que nos leva a pensar tratar-se de algo bastante comum. Os bastardos, que estavam em desvantagem em relação aos filhos legítimos, por vezes eram transformados em criados do pai e dos filhos legítimos. Em algumas zonas, os filhos ilegítimos podiam herdar bens da mãe, mas nunca directamente do pai, a não ser que ele os legitimasse.

AS MULHERES NA FORÇA DE TRABALHO Enquanto as mulheres nobres e as das classes urbanas mais elevadas estavam confinadas à gestão das suas famílias, tomando um papel activo no negócio da família apenas por ocasião da ausência do marido, as mulheres da classe média e baixa tinham, em muitos casos, empregos, assistindo os seus maridos ou agindo independentemente. Muitas mulheres de mercadores eram bem educadas, uma vez que a maioria das escolas primárias estavam abertas a ambos os sexos. Grande parte do trabalho nos ofícios que envolviam cuidados de saúde e preparação de alimentos, tais como o fabrico do pão e da cerveja, era feito por mulheres. Sobretudo em Inglaterra, muitas mulheres do campo complementavam os rendimentos das suas famílias como cervejeiras, enquanto os seus maridos trabalhavam nas terras. Eram pessoalmente excluídas da possibilidade de se tornarem mestres na maior parte das guildas, mas o estatuto de mestre podia ser transmitido pela linha feminina. As viúvas de mestres eram autorizadas, na maioria dos casos, a prosseguir com os ofícios dos seus maridos, caso tivessem trabalhado em conjunto com eles, mas somente enquanto permanecessem sem marido. As mulheres por vezes obtinham salários iguais por trabalho igual, mas não na maioria dos casos e, de um modo geral, era-lhes dado trabalhos sem qualquer qualificação. Dados das guildas de Paris, de 1296 e de 1313, apresentam algumas mulheres em muitos ofícios, mas o mais vulgar era serem criadas domésticas, costureiras, fiadoras, ourives, fabricantes de velas, hospedeiras, merceeiras, chapeleiras e estalajadeiras. À medida que as guildas, dominadas
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pelos homens, se tornavam vez mais oligárquicas, tomando controlo sobre os Governos das cidades, restringiam o papel das mulheres e, por volta de 1500, as mulheres estavam confinadas, essencialmente, a profissões que podiam ser exercidas em casa. O trabalho da mulher proporcionava um rendimento suplementar ao do marido. Dentro da casa, os trabalhos tendiam a ser específicos a cada sexo. Os homens desempenhavam as tarefas mais pesadas da quinta ou do artesanato, enquanto as mulheres cuidavam da horta. Eram elas quem tratava da preparação dos alimentos e da educação das crianças, à excepção dos rapazes adolescentes, que tendiam a seguir os seus pais para os campos ou para as lojas. Uma vez que as famílias com dois rendimentos eram muito comuns, sobretudo no norte da Europa, tanto os homens como as mulheres ficavam debilitados economicamente com a morte de um esposo. Isto explica por que razão no norte da Europa ambos os sexos tendiam a casar-se novamente; as segundas núpcias para os homens eram comuns em Itália, mas as viúvas costumavam permanecer solteiras. Todavia, a morte de um esposo causava mais facilmente dificuldades económicas à mulher do que ao homem, que podia simplesmente continuar a exercer a sua profissão. A maior parte dos costumes faziam com que as viúvas tivessem de partilhar os bens do marido com os seus filhos e com os seus outros herdeiros de sangue, o que significava que o seu nível de vida baixava. Alguns maridos tomavam medidas para circunscrever as leis de herança, deixando, por exemplo, terras ou rendimentos ao cuidado da mulher. Uma técnica comum era a de comprar rendas de anuidade para as esposas, filhas solteiras e filhos em ordens religiosas. Isto garantia-lhes um rendimento, mas o principal permanecia com os parentes de sangue para ser transmitido aos herdeiros legítimos. Registos de auxílios aos pobres mostram um número desproporcionado de mulheres com filhos, comparado com homens. As mulheres que não se casavam novamente, podiam ficar à mercê da caridade dos seus parentes. Outras conseguiam trabalhos ocasionais como fiadoras, amas e criadas domésticas. Algumas viam-se forçadas a recorrer à prostituição. A Europa atravessou, assim, uma reestruturação fundamental nos dois últimos séculos medievais. As regiões tornaram-se economicamente interdependentes e as vias de comunicação desenvolveram-se de tal modo que só viriam a sofrer pequenas modificações no século XVIII. Os problemas «modernos» da pobreza e do desemprego apareceram pela primeira vez com o vínculo ao mercado, substituindo o vínculo ao senhor.

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depois de 1305. mas rivais. Em 1399. um descendente de Carlos de Anjou. depois de 1404. Eles e os governantes Della Scala de Verona eram guibelinos. Enquanto bastião do sentimento guelfo. mas os seus soldados tiveram de passar duas décadas a «pacificar» a área. enquanto a Sicília era dominada por um ramo da Casa de Aragão. Afonso V de Aragão retirou os angevinos do poder. governando Nápoles como rei e unindo depois essa cidade à Sicília. Nenhuma cidade italiana desta época se conseguia defender-se com uma milícia de cidadãos. Estranhamente manteve instituições aristocráticas que eram também republicanas. Nápoles era governada. Desordens intermitentes prolongaram-se até o rei Ladislau da Hungria se estabelecer em Nápoles. conduziu uma vigorosa política expansionista. controlada pelos guelfos. A retirada dos papas para França. de um modo geral. As cidades-Estado de Veneza. deixou a Romagna mergulhada no caos. A família Visconti. em diferentes alturas.14 . Inocêncio VI decidiu reconquistá-la. e. Veneza até ao século XV não teve ambições no continente. O crescente poder de Ladislau levou as cidades do norte a formarem uma coligação contra ele. pelo rei Roberto o Sábio. na época de Gi136/160 Capítulo 14 . Morreu em 1414. PAZ E POLÍTICA A ITÁLIA DEPOIS DOS ANGEVINOS O fim do Império Hohenstaufen e o desmantelamento do de Carlos de Anjou deixaram um vazio de poder na Itália. sob o poder de Milão. enquanto a Toscânia era. estando. A Roberto sucedeu em Nápoles a sua neta Joana I. que controlava Milão. Génova era economicamente poderosa. pelo que os Governos contratavam capitães mercenários (condottieri). por volta de 1435. mas o trono foi contestado por Luís o Grande da Hungria. Florença ficava em perigo sempre que um imperador germano ia a Itália ou se os partidos guibelinos tomavam o poder noutras cidades toscanas. Enquanto os Governos das cidades italianas tinham sido repúblicas oligárquicas no século XIII. Milão e Florença tomaram o controlo gradual da maior parte do norte de Itália. a maior parte deles passaram a ficar sob o controlo de um senhor depois de 1300. um rival da Casa de Anjou. mas politicamente impotente. convidando um estrangeiro para ser o senhor da cidade. era dominada por facções nobres. a mais poderosa cidade continental do norte da Itália.Governo e Política na Baixa Idade Média GUERRA. Por várias vezes Florença teve de reagir contra ameaças externas. no início do século XIV. fazendo da Lombardia um bastião desse partido.

cobrou impostos punitivos a outros e manipulou as eleições para o priorado. que também estabeleceu uma paz separada com Veneza. até à invasão francesa de 1494. em 1412. A Boémia foi governada pelos alemães depois de 1305. tendo apenas conseguido agitar as rivalidades entre guelfos e guibelinos. Embora tenha detido poucos cargos. Como consequência. os barões alemães afastaram-se dos Habsburgos. em 1268. a Hungria e a Polónia eram grandes reinos com monarquias fracas. assumiu. o Estado dos cavaleiros teutónicos na Prússia e a marca de Brandenburgo. a tentar reconquistar a Itália. Florença tomou ou comprou a soberania de vários centros secundários do norte da Itália. Em parte como reacção aos embaraços militares. Por volta de 1313. o controlo da cidade depois de uma luta de poder. fosse reconhecido como rei da Boémia. os príncipes alemães estavam divididos entre facções pró e anti-habsburgos. sucedendo-lhe como duque em 1450.angallazzo Visconti. que governou como Henrique VII. casou com a filha de Filippo Maria. chefe da oligarquia florentina. A fragmentação territorial era extrema no Ocidente. escolhendo o duque do Luxemburgo. Henrique foi o primeiro príncipe germano desde Conradino. mas essa mesma ameaça foi extinguida com a morte de Giangallazzo. Exilou alguns dos seus oponentes. governando habilmente como duque. A dinastia de Luxemburgo governou a Boémia até 1438. João. Durante as ameaças dos milaneses e depois de Ladislau de Nápoles. mas a Alemanha oriental tinha vários Estados bem administrados: os ducados da Baviera e da Áustria. Cosimo reverteu a política tradicional da cidade. Depois de o imperador Alberto da Áustria ter sido assassinado em 1308. Depois do final dos tumultos ciompi em 1382. O feito duradouro de Henrique VII foi ter conseguido que o seu filho. parece ter existido a ameaça real de que Milão pudesse dominar os outros Estados. O seu filho mais novo. Uma vez que João da Boémia era ainda muito novo. mas depressa se retirou. Florença foi governada por uma rígida e estável oligarquia mercante. a quem foi dado o cobiçado título de duque pelo imperador Venceslau. Na fronteira de leste do império. Geralmente em aliança com Veneza. aliando-se a Milão. PRÍNCIPES E POLÍTICA NA ALEMANHA PÓS-HOHENSTAUFEN Nenhuma monarquia nacional se desenvolveu na Alemanha durante a Baixa Idade Média. Foi coroado imperador em 1312. Em 1454. a Itália viveu um período de calma generalizada. o mercador e banqueiro Cosimo de Medici tornou-se. Filippo Maria. nomeadamente Pisa e Laghorn. Florença prosseguiu as lutas com Milão. em 1433. O mais famoso condottiere. os inimigos dos Habsburgos escoCapítulo 14 137/160 . Francesco Sforza. a sua rede de patronatos deu-lhe o controlo de toda a Florença até à sua morte em 1464.

As movimentações territoriais de Sigismun138/160 Capítulo 14 . que reverteu a política pró-francesa do pai. depois de consultar os príncipes. iria causar sérios problemas no século XVII. filha do rei angevino Luís o Grande. Depois de Luís ter derrotado definitivamente Frederico. Este também era rei da Hungria através do seu casamento com Maria. acabando por ser deposto como imperador em 1400. na última batalha travada na Alemanha sem a utilização de armas de fogo. O seu reinado testemunhou o começo do problema hussita e o aguçar das tensões entre as coligações urbanas e os nobres.o conde palatino do Reno. A exclusão dos Habsburgos da Áustria e dos duques de Wittelsbach da Baviera. Luís levou esta declaração mais longe. Os nobres não o apreciavam. Este documento reconhecia que os príncipes eram supremos nos seus domínios. Trier e Colónia e quatro príncipes laicos . Em 1356. Mas Luís desagradou aos príncipes da Alemanha ocidental quando se aliou aos ingleses contra os franceses. rei da Boémia. Rupert III do Palatinado. Luís morreu no ano seguinte e Carlos consolidou a sua autoridade no sul da Alemanha confirmando as possessões dos apoiantes dos Habsburgos. como rei dos Romanos em 1346. Os eleitores viraram-se então para o segundo filho de Carlos IV. desejoso de explorar a perseguição dos franciscanos por João XXII. Os outros optaram pelo Habsburgo Frederico da Áustria. em Muhldorf. em 1419). um Wittelsbach. mas nunca tinha sido composta por estes príncipes em particular. por uma coligação de barões (permaneceu como rei da Boémia até à sua morte. inimigos de Carlos IV. embora fosse rei da Boémia. Os barões alemães apoiaram-no: na Declaração de Rense afirmaram que a dignidade real era detida directamente a partir de Deus e que o escolhido como rei não precisava da confirmação do papa. Depois da viagem a Roma para a coroação imperial. Carlos IV foi sucedido pelo seu filho mais velho. Luís. mas a sua base territorial não era a mais adequada para um imperador. tinha a reputação de ser anti-eslavo. Uma comissão eleitoral já tinha vindo a eleger imperadores desde o século XIII. era hábil. Invadiu a Itália e recebeu a coroa imperial das mãos de um franciscano que ele tinha nomeado papa. O novo governante. Para evitar conflitos futuros sobre a eleição imperial. dizendo que a pessoa escolhida como rei tornava-se imperador sem necessitar da aprovação do papa. O papa João XXII tomou a causa Habsburgo e Luís respondeu dando refúgio aos oponentes do papa.lheram Luís IV. Venceslau. Venceslau era um bêbado. Carlos IV praticamente esqueceu a Itália. acusou-o de heresia. o duque da Saxónia. Os barões retaliaram. casando a sua irmã Ana com o rei Ricardo II de Inglaterra. duque da Baviera. elegendo Carlos do Luxemburgo. o primeiro membro da família Wittelsbach a usar a coroa imperial. promulgou a Bula Dourada. o imperador estabeleceu uma comissão eleitoral de sete membros: os arcebispos de Mainz. o margrave de Brandenburgo e o rei da Boémia. os barões alemães uniram-se a Luís. Sigismundo.

mas os Habsburgos iriam recuperar a Hungria no século XVI. A Liga do Reno. seguida por Zurique. em 1422. Frederico III era um hábil diplomata que reuniu gradualmente todos os domínios dos Habsburgos (as propriedades da família tinham sido divididas depois de 1365). Hungria. como o humanista e futuro papa Eneias Sílvio de Piccolomini.do na Alemanha tiveram consequências de longo alcance. As comunidades que se juntaram à confederação mantinham o seu governo interno. para os Habsburgos. O seu sucessor. À medida que o poder Habsburgo se desvanecia no início do século XIV. que também governava os Países Baixos. iriam desempenhar um importante papel nos assuntos internacionais do século XVI. os cantões tornaram-se mais independentes. na Alemanha. assim. como feudo confiscado. Muitos suCapítulo 14 139/160 . Casou a sua filha e única herdeira. as cidades formaram ligas defensivas contra os barões que procuravam manter as suas pretensões através da pilhagem. que. começaram a surgir sentimentos nacionalistas. Uma vez que não existia nenhum poder central efectivo na Alemanha ocidental. A primeira cidade a aliar-se à confederação foi Lucerna. ele deu o ducado. Alberto seria o primeiro de uma linha contínua de imperadores Habsburgos. mas os suíços asseguraram a sua independência ao derrotarem em 1386 os austríacos em Sempach. prometendo ajuda mútua contra aqueles que quebrassem a paz. Conforme ia ficando claro que a Alemanha não podia ser governada por uma coligação de príncipes nem por um imperador. A ameaça Habsburgo foi reavivada mais tarde. filha do duque Carlos o Ousado da Burgúndia. Quando se extinguiu a dinastia ascaniana da Saxónia. em 1331. As propriedades do Luxemburgo passaram. Isabel. nesta época. AS AUTORIDADES REGIONAIS E AS INSTITUIÇÕES NO IMPÉRIO DA BAIXA IDADE MÉDIA A Suíça foi uma criação política importante da Baixa Idade Média. com o Habsburgo Alberto da Áustria. Perdeu os reinos luxemburgueses da Boémia e da Hungria para as dinastias nativas. burgrave de Nuremberga. Países Baixos e Espanha. A mais famosa aliança de Frederico foi o casamento do seu filho Maximiliano com Maria. A Suíça foi a mais bem sucedida das coligações regionais na Alemanha do final da Idade Média. à família Wettin e a marca de Brandenburgo a Frederico de Hohenzollern. Schweiz e Underwalden. por exemplo. Administrou bastante bem os territórios da sua casa. possuíam não só a Áustria mas também a Caríntia. empregando grandes sábios. Os Habsburgos governavam os Cantões de Uri. a Carniola e o Tirol. Os descendentes de Maria e de Maximiliano. e por Berna. a maior cidade da região. era uma associação regional que incluía tanto cidades como senhores.

incluindo o califa. que daria ao imperador mais poderes enquanto preservava a autonomia local dos príncipes. saqueando Bagdade e massacrando os seus habitantes. grande parte da Trácia e da Macedónia e algumas ilhas e territórios da Grécia. reconstituído em 1261. As divisões internas dos mongóis. ignorando as pretensões de isenção das comunidades privilegiadas. e apenas a morte do seu filho fez abrandar o avanço mongol. Na realidade. conduziu a lutas de poder e a guerras civis. A família de Saladino. nunca foi capaz de restaurar um governo controlado por Constantinopla. GREGOS. o seu neto Ivan IV o Terrível proclamar-se-ia czar. para o transporte e a defesa naval. tinham de se servir de mercenários. o neto de Gengis. que eram caros e pouco fiáveis. teve de confiar em apanágios que eram concedidos a membros da família imperial. anexou Novgorod. MUÇULMANOS E MONGÓIS O Império bizantino. A frota bizantina tinha praticamente deixado de existir. Um dos seus sucessores. No início do século XIII as áreas orientais controladas pelo Islão caíram para Gengiscão. Os imperadores não eram poderosos e. a desunião e desordem crónicas da Alemanha ocidental começaram a ser ultrapassadas na segunda metade do século XV: mais príncipes adquiriram o reconhecimento da primogenitura e da indivisibilidade das suas heranças e os proprietários impuseram impostos que se aplicavam a todo o principado. o Grande Khan. A RÚSSIA E O LESTE Os mongóis em 1240 controlavam a maior parte da Rússia. Ivan III deixou de pagar tributo aos mongóis. voltou a dirigir-se para ocidente. sobretudo dos genoveses. continuaram a governar o Egipto até 1250 e a Síria até 1260. O verdadeiro 140/160 Capítulo 14 . Em 1547. embora disputassem o poder com os suecos e com os cavaleiros teutónicos. como tal. Dirigiu-se depois para a Síria. As pressões exercidas pelos turcos e por Carlos de Anjou. nos anos de 1360. enfraqueceram-nos e o seu poder declinou abruptamente durante o reinado do grão-duque Basílio I de Moscovo. casou com uma princesa bizantina e iniciou relações com os poderes ocidentais. Em 1253. os aiúbidas. combinadas com o crescente poder dos proprietários de terras. compreendia a zona noroeste da Ásia Menor. estando o império dependente dos italianos. em vez disso.geriam uma «reforma imperial». Hulagu. mas voltou para a Pérsia por causa da morte do seu irmão. No entanto. O mais poderoso Estado islâmico durante a Baixa Idade Média foi o Egipto.

onde Baibars o fez califa. O Egipto tornou-se no final do século XIV o principal centro do comércio de especiarias. Orkhan. Baibars tomou os principais pontos fortes dos cruzados na Síria. e parecem não ter compreendido a necessidade de encorajar o comércio e a agricultura. incluindo o Magrebe. controlando assim as rotas do mar Vermelho. OS TURCOS OTOMANOS O Oriente foi durante vários séculos devastado por ondas de invasores turcos. à medida que as rotas comerciais começaram a voltar para o mar Vermelho pelo golfo da Pérsia. o norte da Síria e a costa ocidental da Arábia. quando Baibars. depois da morte do imperador Andrónico III ficaram enfraquecidos por questiúnculas dinásticas intermináveis. de modo a obter ajuda contra os turcos. aniquilou um exército mongol perto de Nazaré. Mais tarde o Magrebe separou-se do Egipto. João V dirigiu-se a Roma para fazer essa promessa. Damieta não foi reconstruída depois da Quinta Cruzada. e estabeleceu um sultanato que incluía o Egipto. Os mamelucos foram essenciais no fim da ameaça dos cristãos europeus para o Islão. A cunhagem do ouro foi substituída pela da prata e as rotas comerciais do Oriente deixaram o Cairo. Alguns eram iletrados. Baibars assassinou o último sultão aiubida. Depois da queda de Bagdade. A regulamentação do comércio pela administração egípcia estagnou-o. Os sultões mamelucos eram violentos. As desordens entre facções de mamelucos continuaram até 1260. que tinham começado por ser escravos não muçulmanos treinados como tropas de cavalaria. Foram depois convertidos ao Islão e emancipados. expulsou os bizantinos da Ásia Menor. que avançavam pelos Balcãs. Mas. o sucessor de Osman em 1326. e tanto em Marrocos como na Argélia e Tunísia governavam dinastias independentes. a Palestina. tendo sido dispersas pelo norte de África. O Egipto do início do século XIV experimentou um declínio económico. cobravam impostos altíssimos aos seus súbditos e não promoviam a cultura. De volta para o Egipto.poder pertencia aos mamelucos. Os turcos otomanos tomaram o seu nome de Osman. Houve algum crescimento na segunda metade do século. salvando o Egipto. o que quebrou o avanço mongol na Síria. mesmo quando o estava a fazer. voltando os mercadores ocidentais outra vez a Alexandria e ao Cairo. o irmão do califa fugiu para o Cairo. Os governantes bizantinos utilizavam frequentemente a promessa de uma união com a Igreja de Roma para obterem ajuda militar do Ocidente. Capítulo 14 141/160 . um turco do corpo de guarda pessoal do sultão. Os gregos. o patriarca de Constantinopla incitava os crentes ortodoxos a resistirem à mudança. usurpando o título. tendo a indústria têxtil declinado. que governou um emirado na Ásia Menor no início do século XIV.

A expansão otomana para ocidente foi temporariamente quebrada. mas pelo mongol Timur o Coxo. duque da Burgúndia e conde da Flandres. Murad I tomou o título de sultão e conquistou a Grécia e a Sérvia. não pelos europeus. Manuel II tentou. A justiça começava a centralizar-se e a normalizar-se. esperança que era veiculada pela atitude dos chefes mongóis. De novo esse gesto se limitou a suscitar o antagonismo de Constantinopla e da Rússia e a 29 de Maio de 1453 os turcos tomaram Constantinopla. para que o novo proprietário devesse serviços feudais ao senhor do vendedor e não ao vendedor. Em 1278. A Hungria era agora o bastião defensivo da Europa contra os turcos. não é surpreendente que nos anos de 1290 se tenha desenvolvido oposição a Eduardo 142/160 Capítulo 14 . mas durante algum tempo o poder turco ficou enfraquecido. O Império romano tinha caído definitivamente. Eduardo emitiu o Estatuto de Gloucester: as ordens dos tribunais privados ou dependências jurídicas tinham de mostrar «por que mandato» as aplicavam. com o intuito de atacar os chineses. Trebizonda. Assim.No reinado de João V os turcos estabeleceram-se na Europa. caiu em 1461. mantendo Bajazid cativo até à morte. A sub-feudalização foi proibida pelo estatuto de 1290. da pessoa do rei. Financiou um exército de cavaleiros galantes. mas virou-se para leste. Derrotou os turcos em Ancara. A reacção inicial do Ocidente em relação aos mongóis foi a de tentarem que eles se lhes aliassem numa cruzada contra os muçulmanos. aliciar o apoio ocidental. a Cruzada de Nicópolis veio em auxílio da cidade. no mar Negro. Bajazid I cercou Constantinopla. a manter registos escritos das dívidas. através da sua mulher. em vão. o último posto avançado grego no Leste. pelo Estatuto dos Mercadores de 1283. Timur podia ter atacado o Ocidente. os feudos deveriam ser vendidos ou dados. em última instância. Em troca de ajuda militar. João V viu-se obrigado a fornecer serviço militar a Murad. A INGLATERRA E A FRANÇA ANTES DA GUERRA DOS CEM ANOS Eduardo I foi o governante mais influente no desenvolvimento dos tribunais ingleses e da lei comum desde Henrique II. presumia-se que os tribunais se reuniam em derrogação da prerrogativa real. As cidades foram obrigados. que foi celebrada na catedral de Florença em grego e latim. descendo Bizâncio ao estatuto de Estado cliente. A não ser que conseguissem provar que os seus antecessores haviam mantido tribunais no tempo de Ricardo I. Quando o sucessor de Murad. A força por detrás da Cruzada era Filipe o Ousado. e utilizavam a lei romana para sustentar esta afirmação. João VIII concordou com a união das igrejas. Os tratados legais da época defendiam que a justiça derivava. O Império de Timur não lhe sobreviveu. em vez disso. O imperador bizantino. que foram massacrados pelos turcos.

mas existem provas do seu envolvimento pessoal. essencialmente. enquanto anteriormente ao seu reinado o Parlamento estivera.I quando ele se envolveu em dispendiosas guerras: por volta de 1282 subjugou os galeses e depois deu essa região ao seu filho mais velho. e governou até 1327. A oposição era liderada por Thomas. envolvido em assuntos legais e respeitantes aos estatutos. uma vez que ele permanecia silencioso no conselho real. Em 1297. primo do rei. Servindo-se do reconhecimento de Henrique III da suserania francesa sobre a Gasconha. o ordenador dos Lordes. Em 1311 os barões forçaram Eduardo a aceitar um comité baronal. o conde Roger Mortimer. Em 1322 Eduardo aniquilou os seus oponentes. os escoceses esmagaram o exército de Eduardo II em Bannockburn. que governou através do seu filho adolescente Eduardo III. lutou contra os ingleses e contra os flamengos numa breve. que era o filho da filha de Filipe o Belo. filha de Filipe IV. De modo a impedir a ascensão ao trono de Eduardo III de Inglaterra. Eduardo esperava anexar a Escócia. Desde essa época que o herdeiro do trono inglês possui também o título de «príncipe de Gales». matou Mortimer e confinou a sua mãe num castelo. quando foi deposto e assassinado num golpe liderado pela rainha Isabel e pelo seu amante. com o objectivo de ouvirem os apelos dos tribunais ingleses. Casou com a herdeira da Champanha e utilizou a força militar contra a Flandres. O tratado que terminou com esta guerra estipulava que o futuro Eduardo II de Inglaterra casaria com Isabel. pondo fim às esperanças inglesas de controlar a Escócia. As despesas das suas guerras dinásticas com a França forçaram-no a admitir as pretensões do Parlamento sobre as finanças reais. Em 1314. enviou oficiais de justiça para essa região. Eduardo tomou controlo da sua própria administração em 1330. fazendo que a dinastia dos capetos se extinguisse na linha masculina. A principal luta dava-se em França. conde de Lancaster. acabou por se deixar envolver numa série de guerras inconclusivas. A maioria dos contemporâneos de Filipe consideravam-no uma figura simbólica. executou Lancaster. O reinado de Filipe IV o Belo foi o ponto de viragem. inconclusiva e dispendiosa guerra. a ponto de se poder afirmar que ele controlava cuidadosamente a política. o conselho real invenCapítulo 14 143/160 . Eduardo III alimentou a cavalaria quixotesca. Esperava juntar os grandes feudos da Coroa ao domínio real. quando as iniciativas diplomáticas falharam. mas. Thomas desperdiçou a sua vantagem e revelou-se militarmente incompetente. que era defendida pela Ordem da Jarreteira. A GUERRA DOS CEM ANOS (1337-1453) Os três filhos de Filipe o Belo tinham morrido sem deixarem descendentes. Os Lancaster estariam no coração da rivalidade entre a Coroa e os barões durante o resto do período medieval.

como base para as exportações de lã. 144/160 Capítulo 14 . No entanto. O núcleo inglês cedeu à cavalaria francesa. Os barões escolheram. Em 1360 o Tratado de Brétigny cedeu a Gasconha aos ingleses. Em Setembro de 1340. as tropas inglesas e contingentes de vários principados dos Países Baixos tentaram em vão tomar Tournai. Os ingleses não possuíam a força necessária para uma invasão da França. Eduardo III não estava em posição de reagir. os franceses começaram a reconstruir as suas forças sob o novo rei. Nesse mesmo ano. até 1453. No entanto. O rei fugiu e muitos nobres pereceram. em Ghent. intermitentemente. não podia passar para herdeiros através da linha feminina. irrompendo a guerra em 1337. Eduardo III embargou a lã para a Flandres. Desta vez o rei e muitos nobres franceses foram feitos prisioneiros e detidos sob resgate em Inglaterra. o filho mais velho de Eduardo III. Carlos V e o seu marechal Bertrand Duguesclin. porque tinham poucas tropas no terreno. chegando mesmo a prestar homenagem a Filipe VI. e aceitou um substancial resgate por João II. A Guerra dos Cem Anos durou. Esta fazia alegadamente parte da lei dos francos sálicos. levantando o embargo. Luís fugiu para França e as grandes cidades levaram a Flandres a estabelecer uma aliança com os ingleses. Filipe VI. ao contrário de outro tipo de propriedades. que foi o primeiro da dinastia dos Valois. João II o Bom. em plena soberania.tou uma Lei Sálica. o título de rei de França. A derrota francesa foi absoluta. sobrinho de Filipe IV pela linha masculina. excepto da cidade de Calais. os franceses emboscaram o exército inglês liderado pelo próprio rei. mas. em troca. então. que era considerada o ponto de entrada para França. Quando se retomaram as hostilidades. estabeleceu-se uma trégua que durou até ao final do ano de 1345. A primeira fase da guerra foi um sucesso para os ingleses: é improvável que Eduardo III tenha pensado seriamente em tornar-se rei de França. Num esforço para obrigar o conde flamengo Luís II a abandonar os franceses. mas os cavaleiros foram aniquilados pelas de flechas que partiam dos flancos. encurralou os ingleses em Poitiers de forma semelhante à utilizada pelo seu pai em Crécy e os franceses voltaram a atacar o núcleo inglês com a cavalaria. Eduardo III abdicou da sua pretensão em ser rei de França. Eduardo seguiu a política tradicional inglesa de isolar a França por meio de alianças com os príncipes das fronteiras norte e leste. os ingleses contentaram-se com pilhagens. que mantiveram até 1558. Mas depressa mudou de ideias. Em 1356 o novo rei francês. em 1340 venceram uma batalha naval ao largo da costa flamenga de Sluis. metade do qual foi pago. como o novo rei. segundo a qual a Coroa. Em 1355 o Príncipe Negro. liderou os exércitos ingleses no continente. o que provocou desemprego generalizado de artesãos têxteis. terminando com a expulsão dos ingleses de todo o território francês. em Crécy. Eduardo III assumiu em 1340. mas desejava a posse da Gasconha.

Carlos começou a virar-se para a Gasconha. De acordo com a versão oficial. quando João de Gaunt morreu. não só os que sabia serem-no como aqueles de quem apenas desconfiava. sucedeu ao seu avô com apenas 10 anos de idade. Filipe o Ousado. com Margarida de Male. pelo que Eduardo III retomou o título de rei de França. o Parlamento ofereceu a Coroa a Henrique (Henrique IV) de Lancaster e Ricardo foi feito prisioneiro. De facto. Carlos VI foi dominado nos seus primeiros anos pelos impopulares conselheiros do seu pai. agravados por problemas de saúde e pela oposição aberta do seu filho. Em 1382. o seu irmão mais novo. Não fez nada de radical até 1397. conhecidos pejorativamente como marmousets («diabretes»). exilou o seu filho Henrique. No final de 1368. apelidando-se de «lordes apelantes». Em 1387 vários nobres. Henrique de Derby regressou de França com um exército. filha do rei Pedro o Cruel. em 1369. um erro nas suas relações com a casa de Lancaster. reclamou o trono de Castela por direito da sua mulher. Em 1392 Carlos sofreu o primeiro de uma série de ataques de loucura Capítulo 14 145/160 . pois. foi um rei muito mais activo do que o seu pai. Henrique V. O rei foi forçado a admitir éditos contra ele e abdicou do trono. duque de Lancaster. quando teve de se deslocar à Irlanda para sufocar uma revolta. De seguida os franceses invadiram a Gasconha. Ricardo II. dispensaram alguns conselheiros próximos do rei. deixou-se morrer à fome em 1400. De repente. Ricardo cometeu. Para além de negociações com barões franceses dissidentes. em violação do Tratado de Brétigny. e passou aí vários anos. pois o rei Carlos V tinha sido sucedido em 1380 pelo seu filho. embora tomasse medidas subtis contra os aristocratas que apoiavam os lordes apelantes. pouco fez para prosseguir com as ambições inglesas na Gasconha. Gaunt apoiara o jovem rei e a sua ausência permitiu aos oponentes do regime liberdade de movimentos. para quem era necessário um regime de menoridade. a herdeira da Flandres. obteve o apoio da aristocracia e capturou Ricardo. confiscando as suas terras.Carlos V conseguiu um sucesso diplomático ao casar. REVOLUÇÃO E RESOLUÇÃO: O FIM DA GUERRA DOS CEM ANOS Henrique IV enfrentou problemas em Gales e uma sublevação dos barões. o filho mais velho sobrevivente de Eduardo III. conde de Derby. Henrique V estava convencido de que Deus o tinha chamado para ser rei de França. João de Gaunt. Enquanto as pretensões de Eduardo III ao trono francês tinham sido um artifício político para obter a Gasconha. ficando sob regência dos seus tios. no entanto. mas em 1389 Ricardo tomou o controlo do governo e dispensou os lordes apelantes. o filho do Príncipe Negro (que entretanto morrera). atacou os seus opositores políticos. que controlavam o Parlamento. O momento era oportuno para uma ofensiva inglesa.

na batalha de Agincourt. os arqueiros ingleses tornaram a vencer a cavalaria francesa. Os dois partidos transformaram Paris num mar de sangue no Verão de 1413. A rivalidade entre Orleães e a Burgúndia transformou-se em guerra aberta em 1407. Henrique consolidou as suas pretensões na Normandia. Nunca houve uma proposta para a deposição do rei. em Maio de 1420. quase cercou o domínio real francês com uma faixa de território que se estendia da Holanda e da Flandres. Grande parte do dinheiro que financiava a diplomacia da Burgúndia provinha dos cofres da Coroa francesa. O tio do rei (o duque da Burgúndia). O resultado foi o Tratado de Troyes. assassinando João o Destemido numa conferência de paz. Henrique V tornava-se regente do envelhecido Carlos VI. Em 1421. O nome «Armagnac» é associado ao de Orleães. não se arriscando a mover-se para sul do rio Loire com Orleães ainda nas mãos dos Valois. de acordo com o conde Bernardo de Aimagnac. o seu irmão mais novo (o duque de Orleães) e a rainha Isabel da Baviera passaram a controlar o governo. invadindo a França em 1415. enquanto a facção dos burgúndios permanecia na capital controlando o rei. No mês de Setembro desse ano. sucedendo-lhe como rei e casando com a sua filha Catarina. até ao ducado e condado da Burgúndia. Filipe o Bom aliou-se a Henrique V contra o delfim. um dos líderes do partido no sul da França. por volta de 1433. tornou-se o regente da criança em França. morreram Carlos VI e Henrique V. Carlos confiava no partido de Orleães. quando enlouquecia. Neste mo146/160 Capítulo 14 . Durante os momentos de lucidez. os ingleses controlavam a maior parte do noroeste da França. tornou-se em 1348 conde da Flandres. Henrique e Catarina tiveram um filho. João. Orleães assumiu as pretensões que os condes de Anjou tinham em Itália desde os anos de 1260. Com mais sucesso. os ingleses foram bloqueados no cerco de Orleães. formandose facções em redor dos dois duques. o irmão mais velho de Henrique V. contudo. O novo duque burgúndio. no noroeste. que se retirou para o sul. quando o duque de Orleães foi assassinado em Paris por malfeitores contratados por João o Destemido. no sudoeste. quando o filho mais velho de Carlos VI deixou Paris. através da sua mulher. Ele e os seus descendentes construíram gradualmente um Estado que. Era um homem hábil e. Henrique V de Inglaterra tirou partido do caos para fazer uma aliança secreta com o duque da Burgúndia. Isto deserdava o delfim. duque de Bedford. era a Burgúndia que governava. sendo o suposto herdeiro das duas Coroas o bebé Henrique VI. Mais tarde. Filipe o Ousado da Burgúndia. por volta de 1428. As campanhas prosseguiram inconclusivamente até 1419. os servidores do delfim vingaram a morte do duque de Orleães. filho e sucessor de Filipe o Ousado. No ano seguinte. Nesse ano.e os marmousets foram afastados. nesse ano. Tanto Orleães como a Burgúndia serviam-se dos seus períodos de controlo da administração para alimentarem os seus interesses fora da França.

Joana d'Arc foi capturada pelos burgúndios em 1430 e queimada como bruxa no ano seguinte. da Burgúndia contra o seu pai. As negociações de paz continuaram. tinha revelado uma instabilidade emocional que se desenvolveu em insanidade. extinguindo-se a monarquia de Lancaster. Luís XI. Carlos VII de França foi sucedido pelo seu filho. não voltando a acontecer nada de conclusivo até 1435. embora a família real tenha conseguido ocultar o seu verdadeiro estado. começando a tributar as aides e a taille sem o consentimento dos proprietários locais. Eduardo. Joana d'Arc.mento crítico. no Tratado de Arras. a situação militar estagnou. o descendente do terceiro filho de Eduardo III. naquilo que os historiadores chamaram a Guerra das Rosas. uma sobrinha de casamento de Carlos VII. conseguiu convencer o delfim Carlos de que vozes divinas lhe haviam dito que ela fora enviada para levantar o cerco. mas a sua mais séria ameaça era o rico e bem administrado Estado da Burgúndia. Depois. Carlos VII tem sido criticado pela sua inactividade. que é conhecido como o Rei Aranha por causa da sua aparência física. embora não de uma forma continuada. da sua astúcia. filho de Filipe o Bom. com Joana presente. o delfim foi coroado rei Carlos VII na catedral de Rheims. Em 1461. separou-o do seu aliado Eduardo IV de Inglaterra. Mas os franceses apressaram as operações militares e por volta de 1453 tomaram a Normandia e a Gasconha e a guerra terminava. A partir de 1455. na sua maioridade. Mas falhou e Henrique foi executado. duque de Iorque. chegando mesmo a arranjar-se um casamento em 1444. Os barões aproveitaram-se da derrota em França e da incapacidade do rei para se virarem para Ricardo de Iorque. assegurou a concessão de dinheiro à Coroa em reuniões com assembleias locais. as facções de Iorque e de Lancaster lutaram abertamente. Os exércitos franceses começaram a recuperar outras cidades e. Henrique VI. Henrique VI retirou-se para França e tentou em 1471 uma invasão. Quando Carlos se tornou duque esperava obter a Lorena. e ela assim fez em Maio de 1429. desonestidade e tenacidade diplomáticas. mas foi bem sucedido na erradicação dos ingleses de França sem enfraquecer a posição institucional da monarquia. uma camponesa de Domrémy. Nunca apelou para os Estados gerais. em 1475. Em 1461. segundo as armas dos líderes de cada parte: a rosa vermelha de Lancaster e a rosa branca de Iorque. a Alsácia e a Champanha. que separavam os seus domínios do norte e do sul. Luís XI isolou progressivamente Carlos dos outros nobres franceses e. chegaram novos governantes tanto ao trono francês como ao inglês. Luís serviu-se de Carlos o Ousado. oferecendo-lhe uma Capítulo 14 147/160 . entre Henrique VI e Margarida de Anjou. Nos primeiros anos do seu Governo sobreviveu a uma guerra civil da «Liga do Bem Público». Em vez disso. expulsou Henrique VI e governou como Eduardo IV. a 17 de Julho de 1429. o duque da Burgúndia estabeleceu a paz com Carlos VII. Daí em diante.

a maior parte das tropas foram reunidas ao longo da primeira metade do século XIV. na prática. Filipe o Garboso. primeiro. sentimentos que já existiam em Inglaterra. Todos os príncipes utilizaram propaganda. o último feudo semi-independente. Em 1482 a Paz de Arras devolveu a Picardia e o ducado da Burgúndia a França. enquanto outros eram contratados (contratos feitos pelos reis com capitães. feito pelos três Carlos que governaram a França. um servi148/160 Capítulo 14 . sobretudo com a utilização do canhão e da pólvora. servissem em situações de emergência. O resultado foi que o principal braço de ataque francês continuava a ser a cavalaria. Em França. entre 1364 e 1461. Aquilo a que alguns chamaram o «Estado teatro» dos duques burgúndios. canções políticas e cerimónias públicas para inculcar a crença da santidade da monarquia e da nação. Com a excepção de alguns pequenos enclaves. entre os 18 e os 60 anos de idade. caiu para a Coroa quando a sua herdeira se casou com o rei Carlos VIII. no século XVI. Alguns soldados eram voluntários. que depois pagavam às suas tropas). Carlos foi morto na batalha de Nancy em 1477. mas também lhes dava menos mobilidade. permitia-se-lhes que comutassem o serviço por um pagamento em dinheiro e a maioria dos soldados servia apenas nos seus distritos de origem. é um dos exemplos mais evidentes. Luís XI havia adquirido o Maine. Os domínios burgúndios passaram. A tecnologia militar foi revolucionada nos séculos XIV e XV. a Provença e o condado de Bar. que se caracterizava pelas suas ordens hierárquicas e rituais elaborados. todas as muralhas ficassem obsoletas. tornou os soldados menos vulneráveis. fazendo com que. os seus líderes e as virtudes simbólicas da conduta cavalheiresca das ordens nobres. Promoveram escritos históricos e memórias que glorificavam a nação. em meados do século XV. quando o último duque de Anjou morreu em 1480. O uso das armaduras de placas. Anjou. a Bretanha. a França estava unida territorialmente. Em 1491. que foram introduzidos no Ocidente nos anos de 1290. filha de Fernando e Isabel de Espanha. começando pelas dos braços e das pernas e depois estendendo-se a todo o corpo. que casou com Joana a Louca. Alimentou um crescente sentimento nacional em França. através do recrutamento geral. de um modo geral. Por volta do final do século XIV eram utilizados por todos os príncipes e pela maioria das cidades. A Guerra dos Cem Anos teve consequências importantes tanto para Inglaterra como para França. aumentando o risco de se ferirem numa queda de cavalo.pensão anual que. e depois para os descendentes do filho deles. Mas. Um outro é o culto da memória de Carlos Magno como fundador da França. Os exércitos tornaram-se bastante maiores durante a Guerra dos Cem Anos. que exigia que todos os homens fisicamente habilitados. para a sua filha Maria que casou com o futuro imperador Maximiliano de Habsburgo. mesmo antes de Carlos VII de França ter estabelecido um exército permanente em 1438. o tornava independente do Parlamento.

Em 1273 Afonso X autorizou uma associação de criadores de ovelhas. Pedro obteve a ajuda do Príncipe Negro contra Henrique e contra os franceses. Henrique de Trastamara derrotou e matou Capítulo 14 149/160 . num conflito que não envolveu os ingleses. pelo contrário. Isto provocou a erosão das terras cultiváveis. o príncipe derrotou os franceses. Este era um governante poderoso. mas era já de 10% em 1377. governado por uma dinastia francesa. Em 1369. que eram dominados pela aristocracia proprietária. sobretudo sobre a lã. e Navarra era um reino a oeste dos Pirinéus. Este facto estimulou o comércio naval e terrestre castelhano de outros produtos. nomeadamente o mel. Ultrapassou as Cortes. Henrique era apoiado pelos franceses e apelava ao particularismo nobre e ao sentimento antijudaico.ço que tinha como base a obrigação feudal. o azeite. teve de combater o seu meio-irmão bastardo. pela comunidade judaica e pela facção dos nobres que defendiam as reformas centralizadoras de Afonso XI. a compilação de grande parte da lei romana ordenada por Afonso X no século XIII. proclamando que as Siete Partidas. tivessem força de lei. Pedro era apoiado pelas cidades. a cera de abelhas e o vinho. que tinha sido estabelecida em 5% em 1269. a conduzi-las através de Castela. Tanto os ingleses como os franceses intervieram na guerra civil de Espanha. Na batalha de Nájera. A principal exportação de Castela era a lã-de-merino. a Mesta. no principal exportador europeu de lã de alta qualidade. O resto da península Ibérica estava dividida entre Aragão e Castela. as peles. mas a Mesta transformou Castela. A PENÍNSULA IBÉRICA Depois de 1248 os muçulmanos em Espanha detinham apenas o Estado de Granada. Esta campanha levou à retomada das hostilidades directas entre Inglaterra e França. o qual. Em Inglaterra. Portugal já tinha as actuais fronteiras. As guildas eram fraternidades caritativas e não grupos profissionais preocupados com o mercado. depois de 1354. num percurso regular de pastagem. capturando Bertrand Duguesclin. O reino de Castela era grande mas economicamente atrasado. Afonso repeliu os últimos esforços muçulmanos. durante o século XV. Henrique de Trastamara. em 1367. A Afonso XI sucedeu o seu filho Pedro o Cruel. cobrando impostos sobre os quais elas não tinha qualquer controlo. que era produzida por uma ovelha do Norte de África. tendo uma nobreza extremamente poderosa. o senhor feudal raramente era chamado no século XIV e nunca depois de 1385. apoiando-se na alcabala (imposto sobre venda). que nunca abundaram em Castela. Engendrou novos tributos alfandegários. A deposição de Afonso X pelas Cortes originou guerra civil e regimes minoritários que culminaram com o rei Afonso XI. que limitou o poder dos nobres e das cidades.

mas os seus reis tinham pretensões ao Governo de Maiorca. Aragão era um reino fechado. Por outro lado. o confessor de Isabel. o que pôs cobro às pretensões de Lancaster ao trono castelhano. Uma nova dinastia portuguesa instalou-se no trono com João I. Eram popularmente chamados marranos (porcos). No século XIV Barcelona era o mais importante porto e centro banqueiro do Mediterrâneo ocidental. O declínio económico da Catalunha e de Barcelona. da Grécia e das ilhas ao largo da costa italiana. a João II de Castela sucedeu em 1454 o filho Henrique IV o Impotente. Afonso o Magnânimo. juntamente com o crescente poder dos portos de Castela. Catalunha e Valência estavam ligados pelo facto de terem o mesmo rei. que casou com a filha de João de Gaunt. sob os auspícios de Torquemada. João II de Aragão. Mas os envolvimentos estrangeiros não terminaram. Com a morte do seu filho. Aragão. Desenvolveu-se uma facção em torno de Isabel. tomando a Coroa de Castela. A Inquisição começou em 1480. A tolerância limitada dos judeus quecaracterizara a Espanha na Idade Média Central foi uma consequência das guerras civis do final dos séculos XIV e XV. pressionando os reis a arranjarem discussões entre eles e os rabis e provocando tumultos quando os rabis apresentavam melhores argumentos. Granada. a filha do segundo casamento de João II. caiu em 1492. excepto Portugal e Navarra. embora tivesse declinado a favor de Valência. o último posto avançado muçulmano. altura em que a Espanha possuía o principal núcleo de judeus a oeste do Reno. Castela e Aragão começaram a avançar para a união dinástica quando o tio do rei João II de Castela foi coroado rei de Aragão em 1412. Em 1385 os ingleses e os portugueses derrotaram o exército castelhano em Aljubarrota e no ano seguinte consolidaram uma aliança perpétua. matando centenas de judeus e forçando outros a converterse ao Cristianismo. Fernando e Isabel acabaram por governar toda a península Ibérica cristã. Aragão passou para o seu irmão mais novo. por sua vez. A outra filha de João de Gaunt casou com o futuro Henrique IV de Castela. levou a que os interesses castelhanos predominassem cada vez mais em Espanha.Pedro o Cruel. que. de Sevilha e de Cadiz no século XV. filho e herdeiro de João II de Aragão. como Fernando I. embora Aragão e Castela mantivessem administrações separadas. embora Fernando tivesse governado sozinho até 1516. uma vez que João de Gaunt (casado com uma filha de Pedro o Cruel) juntou-se a Fernando de Portugal contra a casa de Trastamara. suspeitando-se de que se tinham convertido sem sinceridade. A populaça de Sevilha destruiu as sinagogas em 1390. com uma monarquia fraca e uma nobreza poderosa. Os mendicantes eram os principais perseguidores dos judeus. se casou com Fernando. a maior parte deles mudava de religião devido ao medo e não à convicção. Embora alguns convertidos se tenham tornado perseguidores dos judeus. 150/160 Capítulo 14 .

Algumas cidades e príncipes mantiveram embaixadores residentes em capitais estrangeiras. o poder da chancelaria em Inglaterra dependia mais da personalidade do chanceler e do grau de influência que ele exercia sobre o rei. ofertas. no final do século XIII.O NASCIMENTO DO ESTADO ADMINISTRATIVO A INGLATERRA Na Baixa Idade Média o Governo assumiu formas institucionais a um nível nacional em França e Inglaterra. eram laicos. O ponto fulcral do Governo real era o conselho. geralmente em assembleias. os departamentos tendiam a cair sob o poder dos barões e os reis estabeleciam ou favoreciam outros cargos. Durante o século XV os homens das cidades que possuíam formação académica começaram a participar nas administrações dos príncipes. mas a oportunidade de acumulação de diversos cargos. Depois de 1200. À medida que o rei perdia o controlo sobre o Grande Selo. ou Grande Conselho em Inglaterra. que permaneciam nas famílias que melhor respondiam à sua vontade. e nas aldeias e cidades praticamente em todo o lado. Ao longo do século XII. que permaneceu na Casa Real até ao final do século XIV. a chancelaria guardava o Grande Selo que era colocado nos documentos para os validar. Sobretudo depois de o Parlamento se ter desenvolvido a partir do Grande Conselho. formado por conselheiros mais próximos. Capítulo 14 151/160 . os barões controlavam este Conselho. o conselho feudal. Em 1377. Uma vez fora da corte. Os reis tinham um conselho mais pequeno. A chancelaria saiu da corte no início do século XIV. Desenvolveram-se administrações para lidar com as finanças e com as relações diplomáticas. e que estavam em contacto regular com o príncipe. era composto por vários milhares de pessoas e raramente se reunia. Por volta do século XIII. eram frequentemente «promovidas» para esse tipo de serviços. as comunidades locais e os seus representantes foram sendo gradualmente incorporados nas estruturas das monarquias nacionais. O poder da Igreja afrouxou com o aumento do número de homens laicos a receberem educação e formação nas leis. A maioria dos juízes reais. Pessoas que começavam nos governos das cidades. A administração central era conduzida pela casa real e pelos departamentos que nela tiveram origem. embora o domínio clerical tenha durado mais tempo em França. Os salários não eram muito elevados. do que do cargo em si. que foi chamado Conselho Privado (Privy) no século XV. por volta do início do século XIV. patronato e corrupção eram imensas. emitiam ordens sob o Pequeno Selo e o Segredo ou Sinete. o termo «Conselho» passou a referir-se a este grupo. Por volta do século XIII.

O primeiro imposto percentual sobre propriedade móvel foi estabelecido em 1166. mas eles tentaram evitar pedir ajudas «extraordinárias». Apesar de os rendimentos dos Governos terem aumentado durante o século XIII. Também podia acontecer serem enviados para a Câmara ou para o Guarda-Roupa. entre 1200 e cerca de 1340. o Tesouro Público declinou significativamente. centradas na Câmara. de um ponto de vista puramente administrativo. sobretudo o «maltote» (imposto mau) sobre a lã. O século XIV foi crucial no desenvolvimento da tributação regular. tal ultrapassava o Tesouro Público. para os reis canalizarem as riquezas dos homens das cidades e dos gentios rurais. juntamente com os direitos de «herdades». os xerifes receberam ordens para entregar parte dos seus rendimentos aos cobradores locais do rei. Os seus vassalos deviam-lhes ajudas e incidentes feudais. supostamente. O auge do poder do Guarda-Roupa surgiu com Eduardo I. O rei João também co152/160 Capítulo 14 . As alfândegas. originalmente. as despesas ultrapassaram-nos e os reis tiveram de contrair enormes empréstimos. Assim. em vez de irem para o Tesouro Público. Incluía rendas e outros rendimentos do domínio real. que não eram seus vassalos directos.Embora as finanças do rei estivessem estado. que não se pagavam automaticamente e eram concedidas apenas após negociações sobre a forma como o dinheiro seria gasto. ser pagos ao Tesouro Público. depois de 1270. quando funcionou como gabinete de guerra. Até 1200. passaram a ser a principal fonte de rendimentos do rei. mas declinou depois de 1340. Os rendimentos ordinários deveriam. em vez de os levarem para o Tesouro Público. Em 1215 o Guarda-Roupa era o principal departamento financeiro da casa real. apenas os aristocratas proprietários de terras eram suficientemente ricos para poderem ser úteis aos reis como fontes de rendimentos. que estava sob controlo dos barões. Embora. Isto começou quando se criaram as alfândegas para as importações e exportações. Embora os nobres continuassem a ser os principais alvos dos oficiais financeiros reais. isto fosse sensato e eficiente. que tinha começado no reinado de Henrique II como dependência da Câmara para guardar as roupas e outros valores do rei. A institucionalização do Governo estava directamente ligada ao aumento brutal das despesas de guerra. mas nenhum foi cobrado antes do famoso «dízimo de Saladino». O Tesouro Público era o gabinete de contas central. mas foi aceite como prática geral um século mais tarde. em vez dos dinheiros do domínio real. esse cargo foi eclipsado no século XIII pelo Guarda-Roupa (Wardrobe). podem ter dado conta de cerca de um terço dos rendimentos normais do rei. Foi depois revitalizado quando os impostos aprovados pelo Parlamento. desenvolveram-se meios. no início do século XIV. de terras e direitos régios dos xerifes. cuja taxa base foi estabelecida em 1275. Mas. A tributação directa a nível nacional ainda era rara em 1300. no final do século XIII.

Uma vez que estes eram rendimentos extraordinários. mas nenhum dos dois adquiriu a importância que o Guarda-Roupa tinha para a administração inglesa. enquanto a administração pública inglesa cresceu a partir da Casa Real. a França não estava unida territorialmente. Henrique III conseguiu sobreviver apenas com sete tributações de taxas percentuais. necessitavam do consentimento. consideravelmente menos sofisticado. A FRANÇA Parte do problema com o imposto capitação residia na noção que era como uma marca de estatuto servil. mas existiam diferenças significativas em relação a Inglaterra. Este sentimento era ainda mais forte em França do que em Inglaterra. abrangendo quem tivesse mais de 14 anos de idade. contudo. Uma diferença entre os dois reinos é a de que. era. quando a chancelaria foi reinstituída depois de ter desaparecido no século XII. em 1370. A Chambre aux Deniers (Câmara dos Dinheiros) era o equivalente à Câmara inglesa. A administração real francesa na Baixa Idade Média também evoluiu para formas «modernas» através do alargamento das competências da corte e da casa real. Embora o Governo francês fosse estruturalmente semelhante ao inglês. As iniquidades desta fórmula foram reconhecidas e. que consistia nos vassalos directos do rei. O chanceler presidia ao Parlement (o supremo tribunal do domínio real) até 1362. sendo assim cruciais no desenvolvimento do Parlamento. Havia um tribunal da Casa Real. a oposição a este sistema foi tão estrondosa que se abandonaram estas taxas em favor dos impostos percentuais.brou taxas percentuais em 1203 e em 1207. simplesmente porque os primeiros capetos haviam sido menos bem Capítulo 14 153/160 . Em primeiro lugar. enquanto as despesas normais do Governo deveriam ser enfrentadas com os recursos do domínio real. separou-se da Câmara dos Dinheiros. o que só aconteceu no final do século XV. A corte real em França era. e os reis governavam apenas o domínio real. que era um pouco semelhante ao Tribunal do Rei. o Governo lançou taxas de capitação de montante fixo. quando o Parlement começou a escolher o seu próprio oficial de presidência. semelhante ao Guarda-Roupa. A tributação deveria ser utilizada apenas para fazer face a emergências. e um décimo quinto para os imóveis. em 1200. o mesmo não se passou em França. tendo a estrutura judicial evoluído do tribunal real. Por volta de 1334. menos feudal do que a inglesa. o Apelo da Casa Real. inicialmente. Uma Argenterie (Gabinete de Dinheiro). O departamento de documentação francês esteve nas mãos do «Guardião do Selo» (Garde du Sceau) até 1318. sobretudo terras. a taxa normal era de um décimo do valor anual para a propriedade móvel. mas a partir de 1290 estas foram cobradas com mais frequência para financiar as guerras francesas de Eduardo I.

Embora as ajudas feudais fossem devidas. a Câmara de Contas era o seu órgão financeiro. Originalmente. um Conselho (Conseil) de conselheiros próximos tomou-se distinto da Corte (Cour) no final da Idade Média. A Corte preenchia tanto funções judiciais como financeiras. sendo a de 1328 considerada o primeiro imposto fixo nacional em França. da Câmara de Contas e da Casa da Moeda. do domínio. com três câmaras (Apelos. apenas pelos vassalos directos. os rendimentos extraordinários. Assim. a maior parte dos rendimentos do rei ainda provinha. As taxas de família. O imposto sobre o sal (gabelle) foi introduzido em 1341. os Esta154/160 Capítulo 14 . cobrou uma taxa percentual sobre o valor das terras. A Câmara de Contas existia por volta dos anos de 1270. Tributou os judeus antes de os expulsar. Mais importante ainda foi a conversão da obrigação de todos os franceses em servirem no recrutamento geral num imposto nacional sobre aqueles que não serviam. em França nunca evoluiu para além disso. que até 1356 consistiam sobretudo em subsídios de guerra concedidos pelos Estados.sucedidos do que os ingleses na implementação do hábito de corte junto dos barões. ao passo que o Parlamento inglês se tornou uma assembleia legislativa. A Câmara fazia auditorias às contas dos oficiais locais e dos oficiais da casa real. em 1307. com o qual partilhava uma origem comum enquanto corte. Filipe alargou esta obrigatoriedade aos seus vassalos de fundo e às cidades com alvarás. e por volta do início do século XIV existia um Parlement. em 1300. confiscou os bens dos cavaleiros templários. Em 1356. Tornou-se altamente profissionalizado. o domínio. Para pagar o seu resgate. no início do século XIV. como uma «ocasião» judicial. em princípio. Tal como em Inglaterra. Tal como acontecera em Inglaterra. desvalorizou a cunhagem de moeda e. Inquéritos e a Grande Câmara Suprema). os apanágios dados aos príncipes de sangue real. dos carregamentos e das mercadorias. que tinham sido os seus banqueiros. Desde 1250 que se reunia oficialmente. A administração financeira em França também era semelhante à inglesa. a igreja. o rei João II foi capturado na batalha de Poitiers. As dispendiosas guerras de Filipe o Belo forçaram os monarcas a desenvolver novos expedientes. a Corte francesa tinha sempre muitos conselheiros reais para além dos príncipes. fixando taxas sobre a exportação de muitos produtos. dos parlements provinciais. Ouvia apelos dos tribunais dos meirinhos e senescais. O Parlement francês deve ser distinguido do Parlamento inglês. as comunidades urbanas e todas as pessoas sob a protecção do rei. inicialmente. mas a tributação era a principal fonte em 1400. controlando. e com regularidade. foram acumuladas nesta impressionante panóplia. Enquanto o braço judicial do Conselho era o Parlement. o Parlement tinha jurisdição sobre todos os casos que envolvessem a prerrogativa real e o direito régio. Filipe deu início ao serviço de alfândega francês. e com funcionários fixos. tendo sido formalmente constituída por um decreto real em 1320.

a taille. e não somente os reis. originalmente. Sob cada um. A Magna Carta regulamentava que as ajudas extraordinárias necessitavam da aprovação do conselho real. impostos sobre venda e gabelles. no final do século XII os reinos da península Ibérica desenvolveram Cortes. Distinguia os grandes barões. era o principal braço financeiro da monarquia no século XV. assim. corpos de consultores cuja composição social dependia dos tópicos que o governante desejava discutir. Todos os vassalos deviam ajudas feudais aos seus senhores. Desde 1127 que os nobres e as associações juramentadas dos homens das cidades se reuniam na Flandres para aconselhar os condes em relação a assuntos de interesse público. em vez da Câmara de Contas. e os barões sobre assuntos relacionados com a guerra e com a paz. que se baseavam no princípio semelhante ao que mais tarde sucederia em França. depressa se transformou na mais importante fonte de riquezas dos reis e. mas passaram a ser nomeados pelo rei depois de 1360. Vimos que. que foi possibilitado pelas taxas de 1356. Seis «superintendentes gerais» (généraux) foram encarregues de os cobrarem. que eram convocados em grupo pelos xerifes. bem como as especialidades dos grupos que se encontravam fora do laço feudal. também era um imposto sobre a família. Este tribunal. durante toda a Idade Média consultavam os seus súbditos em relação a assuntos de interesse geral. Por volta do início do século XIII os «anciãos da Flandres» formavam um corpo corporativo. dos menores. no início do século XV. no sul. apenas um pequeno número se encontrava em relações feudais com os reis. a começar por Aragão. em 1390. com poder de limitar um eleitorado mais vasto. que eram convocados individualmente às reuniões dos conselhos. o seu número aumentou para três no século XV. No entanto. cujo consentimento era necessário para os condes poderem agir em assuntos de guerra. As mais antigas assembleias «representativas» eram. diplomacia ou economia política. Não havia qualquer regulamento em relação a indivíduos. Os príncipes consultavam os mercadores sobre assuntos de cunhagem e de política comercial. Os élus e os généraux eram. Embora Carlos V tenha abolido a fouage. responsáveis perante os Estados Gerais. Os governantes precisavam de canalizar os rendimentos. assumindo este carácter por todo o reino em 1480. criou-se um Tribunal de Ajudas para lidar com elas. que. Este conceito legal de poder por procuração ou representação encontra-se na lei romana e Capítulo 14 155/160 . DESENVOLVIMENTO DAS INSTITUIÇÕES REPRESENTATIVAS: INGLATERRA Os príncipes. No entanto. no norte da França. O rendimento extraordinário. tornou-se uma taxa sobre a terra. esta taxa foi substituída pela taille. havia duas «pessoas escolhidas» (élus).dos gerais votaram um imposto de família extraordinário (fouage).

na Confirmação das Cartas. O rei chamava quem quer que desejasse para o aconselhar. Na verdade. O assunto era depois levado à consideração pelo rei e ao seu Conselho. uma vez que os delegados já estavam presentes para consulta. obrigaram o rei a convocar três «parlamentos» por ano. Em 1297. seguida depois de uma separação do Parlamento do Conselho. de um modo geral. que nessa altura detinha o rei prisioneiro e chefiava o Governo real enquanto líder de uma efémera coligação de barões. não se tornava uma tributação perpétua. não era normal chamar a estes grupos parlamentos até cerca de 1290. mas tinha de ser votado sempre que fosse necessário. sessões alargadas do Conselho. alguns textos referem-se aos Comuns como «peticionários» e aos Lordes como «juízes». exigindo que o rei respeitasse «as justas leis e costumes que a comunidade do vosso reino determinar». obviamente.foi adoptado pela prática inglesa durante o século XIII. de 1258. o parlamento antes de dar o seu juízo. que podiam dizer respeito a acções legais privadas ou a assuntos de política de Estado que desejavam ver alterados. referenciando um grupo de «parlamentares» por petições e respondentes. Tornou possível incorporar as ordens sociais mais baixas nas reuniões dos conselhos. evitando diferentes conjuntos de negociações. No entanto. quando Eduardo I começou a convocar parlamentos para se aconselhar. Os Comuns não começaram a participar regularmente senão a partir do final do reinado de Eduardo II. As Provisões de Oxford. ao longo do século XIV. os Estados Gerais desenvolveram-se sem ligação ao Conselho. Sob a forma legal de uma petição. O monarca dispensava. eles enviavam os seus delegados que os vinculavam. aproximou-se de um estatuto. e «a comunidade do rei156/160 Capítulo 14 . as pessoas que esperavam apresentavam os seus problemas. uma vez concedido. A maior parte dos primeiros parlamentos não englobava pessoas que não fossem os principais arrendatários. Em França. A essência das instituições representativas em Inglaterra foi o alargamento das funções e dos funcionários do Conselho Real. significando. em 1308. o rei começou a pedir-lhes para aprovarem concessões de dinheiro como uma simples e mais conveniente forma de tratar dos assuntos necessários. O termo «parlamento» aparece pela primeira vez não em registos governamentais mas na Crónica de Mateus Paris. Tanto eles como os burgueses das cidades foram chamados em 1265 por Simão de Montfort. Mas. Eduardo I concordou que tais ajudas e impostos podiam ser praticados apenas com o «consentimento comum de todo o reino». O juramento de coroação do Rei Eduardo II. Esta nova função do parlamento significava que ele estava habilitado a negar fundos ao rei se este se recusasse a responder às exigências contidas nas suas petições. Os cavaleiros do condado foram convocados pela primeira vez em 1254. o Parlamento forçou o rei a confirmar a Magna Carta e a concordar que o dinheiro.

mas com três câmaras Capítulo 14 157/160 . Os grandes senhores dominavam desta forma os parlamentos medievais. em 1475. e aqueles que representavam os constituintes seriam. sobretudo pela associação. em cenas que chegavam a violência aberta. através de convocações individuais. entre 1340 e 1360. Em 1388. o «impiedoso» Parlamento colocou o rei sob o controlo de cinco «lordes apelantes». que se sentavam afastados na maior parte das assembleias continentais. mas a base institucional para a eventual ascensão dos Comuns já estava estabelecida. impugnava e executava conselheiros reais. Aqueles que participavam no Parlamento. O DESENVOLVIMENTO DAS INSTITUIÇÕES REPRESENTATIVAS: A ESPANHA As Cortes de Aragão tinham duas câmaras ou «braços» (brazos) para os nobres: uma para os ricos hombres (homens ricos). onde as decisões necessitavam de um voto unânime. Apenas depois de as guerras com a França terem terminado. mais tarde. em 1453. assim. Os cavaleiros do condado e os burgueses reuniam-se frequentemente por volta de 1320 e de uma forma regular em 1340. Também havia um brazo popular. de modo a obterem mais influência. o Parlamento. Embora Ricardo II tivesse reconquistado a iniciativa. o que lhe custou o Trono e a vida. À medida que a consulta se tornou um hábito. O Parlamento inglês tomou-se. enquanto um único corpo de dois grupos sociais nobres (cavaleiros e burgueses). as bulas de dinheiro tinham de ter origem nos Comuns. Nas primeiras fases da Guerra dos Cem Anos. No reinado de Ricardo II. no tribunal do condado. a Câmara dos Comuns. tornando-se a selecção dos cavaleiros. alguns burgos escolhiam mesmo cavaleiros para os representarem. em 1389 foi completamente incapaz de governar sem o consentimento do Parlamento. Depois de 1407. as assembleias tendiam a reunir-se regular e frequentemente. e outra para os hidalgos (fidalgos). é que os reis gozaram de rendimentos suficientes para poderem libertar-se da dependência do Parlamento durante muito tempo. seriam chamados Câmara dos Lordes. tanto um corpo legislativo e judicial como um órgão de votação de impostos. os Comuns serviram-se da sede de fundos do monarca para estabelecer dois importantes princípios: a reparação de ofensa antes da provisão e que o decreto real não pudesse anular um anterior estatuto do Parlamento. Aos lugares dos condados estava inerente um maior prestígio. quase de certeza.no» significava. As Cortes da Catalunha desenvolveu-se de uma forma semelhante. uma ocasião para os grupos locais utilizarem a força para impor os seus desejos. o Parlamento. e sobretudo depois de Eduardo IV se ter tornado um beneficiário francês. que representava vinte e duas cidades e três comunidades rurais. Poucas eleições eram «democráticas». Uma quarta câmara foi adicionada para o clero em 1301.

ao contrário do Parlamento inglês. A nobreza incluía grupos que. a maioria das assembleias que eram convocadas pelos reis franceses incluíam um ou mais dos três Estados: clero. desde os pequenos escudeiros aos príncipes. As Cortes controlava as finanças e a sucessão ao trono. Assim. ou Estados de todo o reino. e também para promover a causa de Filipe IV na sua disputa com o papa Bonifácio VIII. Os Estados Gerais fizeram da sua aprovação do resgate do rei uma condicionante da aceitação do Governo real da sua «Grande Ordenação». deu-se em 1302 para fazer face à emergência causada. as Cortes catalã não desenvolveu uma iniciativa legislativa. Daí em diante. Ganhou mesmo mais liquidez financeira do que o Parlamento inglês. no entanto. O DESENVOLVIMENTO DAS INSTITUIÇÕES REPRESENTATIVAS: A FRANÇA As instituições representativas em França não seguiram o modelo inglês. Os Estados Gerais reuniam-se. O clero era dominado pelos grandes bispos. agindo como um conselho governativo e como supremo tribunal. não se tendo tornado uma ferramenta para a nobreza. pela derrota dos franceses pelos flamengos na batalha de Courtrai. ao longo dos anos de 1340. Mas a estrutura de Estados privou a burguesia francesa da possibilidade de conjugar forças com a pequena nobreza. As cidades castelhanas nunca foram fortes politicamente e os pequenos nobres conseguiram ganhar o controlo da representação do Terceira Estado nas Cortes. Tinha um conselho permanente. Estes deviam 158/160 Capítulo 14 . As distinções sociais eram muito mais agudas em França. na qual a classe média tinha pouca palavra. com a representação das preocupações financeiras aos súbditos. A burguesia incluía pessoas que viviam em burgos com cartas de foral e era um grupo mais vasto do que a moderna «burguesia». nobreza e burguesia. se encontravam geralmente separados: os cavaleiros e os grandes barões. frequentemente. perderam interesse na Cortes. mas atingiram o auge da sua influência na crise de 1356-1358. A primeira reunião dos Estados Gerais. que decretava reuniões regulares dos Estados.(apenas uma para os nobres). que se reunia em sessões contínuas. já que os nobres estavam isentos dos impostos. As Cortes de Castela atingiram o auge do poder no final do século XIV. em Inglaterra. Durante o século XIII. contentando-se. onde a nobreza era uma classe legalmente definida que incluía todas as pessoas de estatuto de cavaleiro. quase inteiramente. quando foram chamados para votar os impostos para o resgate do rei João II. a sua influência diminuiu abruptamente. avaliava e cobrava impostos. No entanto. nesse ano. o Diputació del General de Catalunya. talvez porque muitos nobres catalães estavam envolvidos no comércio. Reuniam-se anualmente entre 1385 e meados do século XV. as únicas assembleias de Estados que os monarcas consultaram reuniam-se para províncias individuais.

mas era a Inglaterra que tinha a fama de ser o país mais desordeiro da Europa. a maioria dos quais no sul e que estavam directamente sob a jurisdição dos élus. os reis. em converter as colectas para o resgate em taxas permanentes se o rei não cobrasse mais impostos sem o seu consentimento. A vendetta foi ressuscitada. também fizeram que fosse bastante difícil para as autoridades condenar os crimiCapítulo 14 159/160 . Como o clero e a nobreza conseguiam reclamar a isenção da tributação directa. ao assassínio ou morte em batalha de cinco dos seus nove reis entre 1327 e 1485. Muitos crimes eram perpetrados por grupos nobres. dadas as constantes guerras e os grandes gastos envolvidos. tais como Artois e a Normandia. Na Flandres. cujas assembleias se tornavam demasiado poderosas. o facto de o país estar parcamente unido significava que nenhum sistema administrativo era válido para todo o lado. o que é confirmado pelas estatísticas de crimes violentos. Em França. em 1360. e em Itália nem isso. todo o fardo da tributação directa era empurrado para cima da burguesia que. QUÃO EFICAZ FOI O GOVERNO DA BAIXA IDADE MÉDIA? Os governos aumentaram as dimensões das suas burocracias e reuniram somas substanciais de dinheiro. Isto deve-se. não tinha aliados nas ordens mais elevadas. impedindo mesmo os oficiais públicos locais de os prenderem. Os Pays d'Election. Houve uma quebra geral da ordem pública a nível local. As províncias com assembleias de Estados bem desenvolvidas. chamadas Pays d'Etats (Terras de Estados). isso fosse bastante raro. Os cronistas queixavam-se de que as pessoas se estavam a tornar litigiosas e violentas. conseguiam escapar com razoáveis taxas de impostos. Mas o rei anulou a Grande Ordenação e os Estados Gerais não voltaram a tentar aliar as bulas de dinheiro à legislação.escolher os membros do Conselho Real e um comité fixo de quinze elementos controlava o Governo quando os Estados não se encontrassem em sessão. Quando os Estados Gerais concordaram. tinham taxas elevadíssimas. passando para as do rei. negociavam com as assembleias locais de Estados evitando convocar Estados Gerais nacionais. mas na Alemanha existia um Governo nacional apenas no papel. estabelecendo os impostos. que eram difíceis de perseguir e de condenar. o índice de violência era assustador. embora. a cunhagem e a política estrangeira. ao contrário dos homens das cidades inglesas. em grande parte. Isto não era tão verdade para Inglaterra. a máquina da contribuição nacional saiu das suas mãos. As salvaguardas para os acusados. Muitos nobres protegiam criminosos nos seus domínios. contidas nos decretos e nas regulamentações que haviam sido elaboradas e desenvolvidas desde o século XII em Inglaterra. agora conscientes do que podia acontecer aos governantes. Durante o século XV.

do que o seu antepassado medieval tinha sido capaz de ultrapassar a combinação de pestes e de guerras dinásticas. por volta de 1380. reabrindo casos sob diferentes acções legais. não conseguiam aplicar os princípios legais de uma forma consistente. os juízes da paz podiam julgar todos os casos criminais excepto os de traição. os juízes itinerantes. incluindo. Em França. os castigos para as ofensas morais e públicas assumiram um carácter altamente ritualizado. No entanto. de um modo geral. com a excepção dos casos mais graves. Sobretudo depois de 1350. 160/160 Capítulo 14 . pensados para serem um exemplo intimidante. as instituições estabelecidas para as administrações foram tornadas mais eficientes. A tortura era utilizada principalmente naqueles que não confessavam ou que se recusavam a apelar. A prisão era utilizada. até mesmo os recursos alargados do Governo do final do período medieval. esse direito limitava-se ao poder de excluir uma pessoa que tivesse mais probabilidade de optar pela condenação. O Estado «moderno» não era mais eficaz a enfrentar as crises de existência. frequentemente. quando condições mais favoráveis voltaram a surgir no final do século XV. por outro lado. uma certa relutância em condenar quando o castigo normal para os crimes era a forca. sobretudo àqueles que se mostravam dispostos a engrossar as fileiras do exército. com grandes procissões públicas até ao local de execução. Os defensores podiam desafiar até trinta e seis potenciais jurados. mesmo a criminosos condenados. compreensivelmente. Os xerifes e os juízes itinerantes eram impotentes na contenção da violência. Um estatuto de 1327 estabelecia que os homens bons e cumpridores da lei deveriam receber indiciações e julgar todos os crimes e abusos em tribunais que se reuniam quatro vezes por ano. Muitos castigos eram simbólicos. mas não se alteraram nos seus fundamentos. A guerra. apenas para deter as pessoas que aguardavam julgamento e não como sentença de crime. Os seus poderes foram gradualmente alargados até que.nosos. Suplantaram gradualmente os tribunais dos condados e. A corrupção era flagrante e os jurados tinham. enquanto. os juízes parecem ter aplicado castigos exemplares em alguns casos. a reorientação económica e os problemas sociais dominaram por completo. mas houve algum alívio com o estabelecimento de juízes de paz. quando estas eram complicadas por «guerras de religião». Os reis concediam perdões totais. Uma vez que os jurados tinham de ser escolhidos entre o cento onde se realizava o julgamento e eram júris de presença. uma confissão forçada. Eduardo I nomeou «guardiões da paz» para assistirem o xerife na apreensão de criminosos. onde os jurados eram menos utilizados do que em Inglaterra. em circunstâncias que tinham por objectivo a dramatização da gravidade da ofensa.

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