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Ciclo de seminários Fórum Social Brasileiro, Belo Horizonte, 7 e 8 de novembro de 2003

Ciclo de seminários Fórum Social Brasileiro, Belo Horizonte, 7 e 8 de novembro de 2003

Um projeto Ibase, em parceria com ActionAid Brasil, Attac Brasil e Fundação Rosa Luxemburgo

Tendências da nova ordem mundial e o lugar do Brasil

César Benjamin

A esquerda tem debatido há vários anos a possibilidade de uma crise do

capitalismo, em escala mundial. Alguns chegam a defender que essa

crise já se instalou. Não compartilho dessa opinião. De um lado, ela

banaliza a expressão “crise”, conferindo - lhe um sentido elástico demais;

de outro, perde de vista a especificidade do capitalismo. O aumento da

exclusão social, a concentração da riqueza, as tendências militaristas e

realidades afins, tão visíveis no mundo contemporâneo, não devem ser

apresentados como argumentos e evidências nesse sentido, pois o

funcionamento normal do sistema pode provocar esses efeitos. O

capitalismo só entra em crise quando o processo de acumulação de

capital se interrompe. Sob este ponto de vista, ele permanece

funcionando, com as dificuldades e contradições que lhe são inerentes.

A idéia de uma “crise iminente”, por sua vez, não é despropositada, se

usarmos como referência teórica a análise clássica de Marx. Porém, as

leis formuladas por ele são insuficientes para compreender a dinâmica

que predomina em cada momento. É preciso observar a configuração

real do sistema, o modo como ele se articula em determinado período. Era assim, aliás, que o próprio Marx trabalhava, estabelecendo todo o tempo uma relação estreita entre teoria e história (sua crítica a Ricardo, por exemplo, insistia na importância da forma dos processos, aspecto que o grande economista inglês subestimava). Para ele, a história nunca foi um conjunto de fatos a serem selecionados para legitimar uma teoria. A história constitui organicamente a teoria, de modo que esta não existe sem aquela. “O modo dialético de exposição só é correto quando conhece seus próprios limites”, escreveu nos Grundrisse, onde descreve seguidamente como são insuficientes os raciocínios baseados apenas em arranjos lógicos de conceitos. Por isso, ele nunca pensou que pudesse fazer previsões a partir das leis fundamentais que formulou, às quais, aliás, deu o nome de leis de tendência, o que pressupõe a existência de contratendências, que freqüentemente prevalecem (não fosse assim estaríamos diante de leis positivas, absolutas).

Desejo propor outra abordagem. Ela parte da constatação de que os elementos potenciais de crise sistêmica, reiteradamente apontados, estão presentes há muitos anos. Por que, então, essa crise ainda não se instalou? Como tem sido adiada? Até quando será adiada? Indefinidamente? Que elementos têm permitido o prolongamento de uma espécie de “fuga para a frente” do próprio sistema?

Para responder a questão assim reformulada, muitas análises enfatizam o desenvolvimento tecnológico, ou a chamada Terceira Revolução Industrial. Também me parece um caminho insuficiente. É verdade que a mutação tecnológica contém dois elementos capazes de adiar a crise. De um lado, tem permitido expandir o espaço geográfico abrangido pela acumulação capitalista, incorporando vastas regiões e populações (antes só marginalmente incorporadas) ao sistema produtivo diretamente controlado pelo capital; por essa via, grande quantidade de

trabalho vivo e novos mercados em ascensão, não saturados, tornaram - se disponíveis para o capital nas últimas décadas, somando- se aos “estoques” mais antigos. De outro, o desenvolvimento técnico permitiu encurtar o tempo da acumulação, ou o ciclo do capital, tornando mais rápido o circuito de produção, circulação e realização de bens e serviços — o que, como se sabe, também é um mecanismo de sustentação das taxas de lucro (“Circulação sem tempo de circulação é a tendência do capital”, dizia Marx).

Ao permitir simultaneamente expandir o espaço (leia- se,

populações) sob controle efetivo do capital e contrair o tempo da acumulação, a mutação da base técnica pode ter contribuído, de fato, para que a crise potencial não se instalasse, como já aconteceu em outros momentos da história (não há nada de novo nisso: esta é a mais importante função do progresso técnico no capitalismo). Mas, paradoxalmente, essa mesma mutação contém também elementos que deveriam apressar a crise: o aumento da produtividade tem sido muito superior ao aumento da produção; a capacidade de incorporar trabalho vivo nas regiões velhas (especialmente nas mais desenvolvidas) diminui dramaticamente; a acumulação fictícia (D- D’) crescu muito mais que a acumulação produtiva; a tendência à superprodução se torna mais nítida em um mundo no qual o desemprego aumenta, os salários reais diminuem, os gastos anticíclicos dos Estados nacionais se contraem.

incorporar

Com a integração plena do planeta em uma economia- mundo e a realização de uma acumulação “na velocidade da luz”, a expansão do espaço e a compressão do tempo atingem limites não ultrapassáveis. Assim, a ênfase no desenvolvimento técnico deveria, ao fim e ao cabo, repor e aprofundar a idéia de uma crise iminente. Privilegiando- se essa abordagem, as segundas tendências (as tendências à crise) deveriam acabar prevalecendo necessariamente sobre as primeiras (as tendências ao adiamento da crise). A questão que formulamos acima — por que a

crise iminente não se transforma em crise real — permaneceria sem solução.

Para resolver a nossa questão precisamos reduzir o nível de abstração. Poderemos então observar algumas características muito importantes, que chamarei de anomalias, presentes na configuração atual do sistema. Destacarei três delas, relacionadas entre si.

A primeira: a economia mais importante do mundo funciona com déficits externos colossais e tornados permanentes. O déficit comercial norte- americano só tem feito crescer, superando hoje, com folga, US$ 500 bilhões por ano. A ele se soma um déficit fiscal que também atingirá US$ 500 bilhões neste ano. Para perceber a enormidade desses números, basta lembrar que, quando o déficit comercial brasileiro atingiu “apenas” US$ 8 bilhões por ano, nosso país – que não é pequeno – mergulhou em crise aguda, que forçou a mudança de seu regime cambial.

Em tese, uma economia não poderia funcionar como a americana o faz. Isso, aliás, era o que pensavam os arquitetos da ordem capitalista do após- guerra, que criaram o Fundo Monetário Internacional (FMI) exatamente para construir maneiras de reequilibrar balanços de pagamentos em desequilíbrio, considerados incompatíveis com o funcionamento normal do sistema internacional.

Só podemos compreender o padrão de funcionamento da economia americana quando o observamos junto com uma segunda anomalia:

essa economia gigantesca e altamente deficitária emite, sem lastro e sem regras de emissão, a moeda do mundo. Por isso, sua capacidade de endividamento é incrivelmente elástica, em uma escala quase impensável nos moldes tradicionais. Recordemos como chegamos a isso: ao transformar o dólar em moeda de referência internacional, a

Conferência de Bretton Woods (1944) entregou a senhoriagem da economia capitalista mundial aos Estados Unidos, mas impôs a esse país duas regras de emissão: a conversibilidade dólar- ouro e a paridade fixa entre os dois. Ambas as regras foram garantidas em tratado internacional assinado pelo Estado americano.

Criou- se assim um sistema em que a reserva americana de ouro lastreava o dólar, que por sua vez era a referência para as demais moedas, de acordo com taxas de câmbio fixas (ajustáveis segundo certas regras). Nesse contexto, o poder de senhoriagem do Estado americano era contido e disciplinado, pois a emissão de dólares representava a hipoteca de sua reserva de ouro e, de alguma forma, era limitada por ela. Em 1972, como se sabe, 28 anos depois de Bretton Woods, os Estados Unidos romperam unilateralmente o tratado e se descomprometeram com as regras de emissão nele previstas. Desvincularam o dólar e o ouro, repudiando a conversibilidade, e em seguida desvalorizaram a moeda, abandonando a paridade, tendo em vista recuperar a competitividade de sua economia. Os demais países tiveram de seguir caminho semelhante, efetuando suas próprias desvalorizações competitivas, logo tornadas sucessivas.

O sistema de Bretton Woods deixou de existir, dando lugar a um “não- sistema” de moedas sem lastro e câmbios flutuantes. Desenvolveram - se então, vigorosamente, os processos que viriam a formar o que mais tarde foi chamado “globalização”, especialmente a financeirização da riqueza, pois os mercados de câmbio (estreitamente vinculados aos de juros) tornaram - se fontes de receitas extraordinárias para empresas, fundos e bancos multinacionais capazes de operar simultaneamente em diferentes moedas e praças financeiras, realizando todo tipo de operações de arbitragem.

Como o sistema internacional não tinha – e ainda não tem – substituto para o dólar, o Estado americano reteve, na prática, o direito de senhoriagem sobre a economia internacional, agora porém sem as limitações das regras de emissão. Não foi uma decisão técnica. Relacionou- se, antes de tudo, com um ambicioso projeto de retomada (ou reafirmação) da hegemonia norte- americana, àquela altura ameaçada pelo vigor das economias alemã e japonesa reconstruídas, o poderio político- militar soviético em aparente ascensão e as veleidades contestadoras de grande parte do então Terceiro Mundo. Sem compreender esse projeto, em todas as suas dimensões (econômica, militar, política, cultural, ideológica), nada se compreende da evolução da conjuntura internacional nas últimas décadas. (Reiteremos, de passagem, este aspecto da história: o chamado processo de globalização deslancha a partir do momento em que é impulsionado pelo Estado nacional hegemônico, em defesa de seus interesses; confundir “globalização” e “enfraquecimento [ou fim] da ação dos Estados” não tem sentido nenhum.)

Para o que nos interessa aqui, ressaltemos que um Estado nacional passou a emitir, sem regras e praticamente sem limites, a moeda do mundo. Trata- se de uma situação que não pode perdurar indefinidamente, pois introduz uma assimetria estrutural nas relações internacionais. Imaginá- la como uma situação normal e permanente é admitir que os demais integrantes do sistema aceitarão passivamente, para sempre, uma posição subordinada, o que contraria toda a experiência histórica.

Vimos, porém, que a decisão norte- americana data da década de 1970. Só muito recentemente surgiu uma possível resposta a ela, com a criação do euro, que ainda engatinha. Por que esta segunda anomalia se prolonga tanto?

Um primeiro motivo é claro: é muito difícil transitar de um padrão

monetário a outro. O trânsito da libra para o dólar, por exemplo, só se

completou muito depois de a Inglaterra ter perdido, de fato, a

hegemonia mundial, e a fase de transição exigiu duas guerras mundiais.

O segundo motivo nos interessa mais, pois remete à terceira anomalia

do sistema internacional atual, a que me referi antes: a região

ascendente do sistema – o Leste da Ásia – é estruturalmente

superavitária. Não poderia funcionar se não tivesse como formar e para

onde escoar o seu enorme superávit. O déficit americano – ou seja, a

necessidade de financiamento da economia americana – é que abre

espaço para a acumulação acelerada na Ásia e para a reciclagem do

capital sobrante dessa região. Essa afirmação pode ser generalizada,

sem nenhuma perda de rigor: o déficit americano cria aquele que é, de longe, o mais importante pólo de demanda efetiva para a economia

internacional, pois os dois outros grandes centros a Europa e o Japão –

vivem períodos prolongados de recessão ou baixo crescimento.

Se esta visão é correta, o que mantém em funcionamento a ordem

mundial atual, chamada de neoliberal, não é o que ela anuncia como

sendo seu grande trunfo (o desenvolvimento tecnológico e a formação

de uma “nova economia”), mas sim um mecanismo tipicamente

keynesiano: a sustentação da demanda efetiva por meio da emissão de

dívidas. Emissão incrivelmente elástica porque o mesmo agente, de um

lado, se endivida e, de outro, fabrica a moeda (não lastreada) em que

sua dívida deve ser paga.

Esse padrão monetário, que podemos chamar de dólar- flexível, produz

conflitos no núcleo do sistema mundial de poder. A posição especial do

Estado americano incomoda, pois sua hegemonia está inscrita nas

regras do jogo, tal como elas existem hoje, que são regras viciadas. Mas, além de conflito, também há cooperação, pois se o dólar desabar todos

desabam, já que todos são credores do dólar. Eis o paradoxo: o mecanismo

que mantém a economia mundial funcionando (a capacidade de endividamento americana) depende da posição especial do dólar; porém, enquanto essa posição perdurar, os Estados Unidos manterão um grau de hegemonia que não é facilmente tolerado pelos demais participantes do grande jogo de poder mundial.

Em outras circunstâncias históricas isso poderia se resolver por meio da guerra entre os integrantes do núcleo do sistema, mas esta possibilidade está afastada. Hoje, a guerra é alternativa para lidar com regiões periféricas. Não há, pois, via rápida e radical de promover mutações, nem pela economia (pois a ruptura do padrão monetário seria dramática para todos) nem pela confrontação militar. Por isso, a atual configuração só pode se modificar lentamente. A posição do dólar é o elemento-chave para o desenlace da crise latente. Esta posição, embora já muito instável e precária – pois é evidente a tendência à desvalorização –, se beneficia da inexistência, hoje e pelos próximos anos, de alternativas à moeda norte- americana como reserva de valor no sistema mundial.

A abordagem que estamos desenvolvendo permite enfocar as duas dimensões fundamentais do sistema – riqueza e poder –, que não são compreensíveis isoladamente. Muitos não se dão conta disso, enfatizando apenas a dimensão da riqueza, ou da economia, e sendo capturados pela ênfase abusiva nos modos de produzir. Terminam enxergando apenas, ou principalmente, o enfoque da técnica. Marx nunca pensou assim, nem mesmo em suas obras especificamente econômicas (basta lembrar as centenas de páginas que escreveu sobre o dinheiro nos Grundrisse, que formam, talvez, a parte mais complexa e fascinante de sua vasta obra).

Se incorporarmos a dimensão do poder como fundamental para explicar os movimentos do sistema internacional, devemos admitir, quase

axiomaticamente, que em condições normais esse sistema tende a algum tipo de multipolaridade. Na economia- mundo contemporânea, a existência de um só centro, esmagadoramente hegemônico, só pode ser uma situação excepcional e transitória. A unipolaridade criada no imediato após-Guerra Fria não é uma configuração estável.

Se essa abordagem está correta, a leitura da conjuntura internacional precisa tentar decifrar um grupo delimitado de questões: como a configuração unipolar, intrinsecamente instável, está se desdobrando na direção de uma nova multipolaridade? Qual a forma desse processo? Em que ritmo ele avança? Que dificuldades enfrenta? Como se comportam os principais agentes? Será que já se podem ver os contornos da configuração que virá? Tais questões permitem diferentes abordagens que não posso desenvolver aqui. Privilegiarei duas delas. A primeira abordagem possível é de natureza regional. Vejamos, passo a passo, o que ela nos mostra.

Os Estados Unidos vivem o auge de seu poder e ocupam um duplo centro: o centro da economia- mundo e o centro de uma área econômica regional já constituída pelo Nafta. Em seu entorno imediato, temos uma América Latina sem projeto próprio, em trânsito para ser tragada pela área regional americana. Assim ampliada, esta área regional poderá vir a ser, explicitamente, a futura “área do dólar”, se outras regiões conseguirem escapar da senhoriagem norte- americana.

Grandes movimentos estruturais em curso na região apontam para o fortalecimento dessa condição: a proposta de criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) em 2005, que extingue os espaços econômicos nacionais e cria um só espaço hemisférico, centrado na economia americana; o enfraquecimento e abandono de diversas moedas nacionais, com a dolarização progressiva do continente; a desnacionalização galopante dessas economias; a transformação dos

Estados nacionais em reféns do sistema financeiro internacional; o isolamento ideológico e enfraquecimento das forças armadas do continente; a intervenção direta dos Estados Unidos na região amazônica, importante depositária de recursos estratégicos para o novo ciclo econômico de longo prazo que se inicia (pela primeira vez na história, essa intervenção inclui a montagem de bases militares americanas dentro da região).

Se não forem contidos e revertidos, esses movimentos redefinirão profundamente a geopolítica continental ainda nesta década.

Continuemos nossa viagem. Para compensar a relativa fraqueza de seus Estados- membros, tomados isoladamente, a Europa acelerou seu processo de unificação. Formou uma região econômica integrada cuja capacidade produtiva se equipara à dos Estados Unidos; constituiu uma área monetária própria, iniciando um incipiente movimento de escape em relação à senhoriagem do dólar; harmonizou sua legislação em quase todos os âmbitos; unificou seu mercado de trabalho e concedeu cidadania continental às suas populações; está em processo de unificação de suas forças militares, dotando- as de alta capacidade de intervenção.

O que é isso, se não a criação de um novo Estado?

Enquanto nossas elites vocacionadas para a subalternidade saúdam o “fim do Estado”, assistimos no centro do sistema ao surgimento de um megaestado, um Estado continental, multinacional, que manterá as sociedades européias no grande jogo mundial da riqueza e do poder no século XXI. É um projeto geopolítico de fôlego, cujas maiores dificuldades atuais parecem ser as seguintes: (a) na esfera econômica, destaca- se a assimetria decorrente da existência de um Banco Central europeu e de Tesouros ainda submetidos aos Estados nacionais, o que

impede a adequada coordenação de políticas monetárias e fiscais; sem essa coordenação (que o Estado norte- americano realiza com grande competência, graças a uma arquitetura institucional que garante elevada sintonia entre Banco Central e Tesouro), a Europa perdeu a capacidade de realizar políticas anticíclicas e deixou- se prender na armadilha do baixo crescimento; a própria Alemanha já percebeu a necessidade de alterar essa situação, mas todos os movimentos da União Européia, por sua própria natureza, são especialmente complexos e lentos; (b) na esfera política, destaca- se a dificuldade de definir uma política externa européia unificada, por motivos históricos e geopolíticos, que se traduzem por exemplo na tendência alemã de olhar para o hinterland do Leste, de um lado, e na elevada dependência da Inglaterra (que continua a ser uma praça financeira importante e a deter uma capacidade militar também importante) em relação aos Estados Unidos, de outro; (c) as incertezas que cercam o futuro da Rússia e de várias ex- repúblicas soviéticas, que pesam diretamente sobre o continente.

A África está fora do jogo; nas palavras de um alto tecnocrata internacional, “é um problema para a Cruz Vermelha”. A Rússia ainda luta para conter sua própria decomposição, para então reposicionar- se. Mantém - se na arena internacional graças ao peso de seu arsenal atômico, mas ele é inútil para ajudá- la a lidar com o mosaico de contradições internas resultantes da falência do socialismo burocrático, de uma transição inepta ao capitalismo (que a lançou em uma inusitada acumulação primitiva de capital privado em uma sociedade industrializada) e das múltiplas questões de natureza social, étnica e nacional que a paralisam.

Ao lado da América Latina – mas num patamar de importância muito superior –, o Oriente Médio é a outra área de intervenção direta permanente dos Estados Unidos. O abastecimento de petróleo é uma conhecida vulnerabilidade americana. Com reservas, em seu território,

de 28,6 bilhões de barris e um consumo diário de 19,5 milhões de barris, os Estados Unidos têm petróleo próprio para abastecer- se durante apenas quatro anos. A evolução do cenário no Oriente Médio foi favorável à posição americana até recentemente: a principal potência regional não subordinada, o Iraque, fora destruída na Primeira Guerra do Golfo e permanecia sob bloqueio, remetida a uma posição passiva e

defensiva, e a maioria dos Estados árabes já reconhecia (ou se dispunha

a reconhecer) Israel. Com o fim da União Soviética, desaparecera o

espectro de uma guerra entre Estados na região, pois os países árabes ficaram sem retaguarda. O regime iraniano trabalhava para sua própria consolidação e não parecia capaz de uma ação desestabilizadora. O conflito reduzira- se a uma escala local na Palestina, de baixa intensidade, envolvendo helicópteros e grupamentos de soldados, de um lado, homens- bomba e atiradores de pedra, de outro, em escaramuças suficientes para alimentar noticiários, mas incapazes de colocar em risco a oferta de petróleo.

A evolução recente do quadro regional, porém, traz complicadores,

causados em parte, paradoxalmente, pela ação dos próprios Estados Unidos na segunda guerra do Iraque, que resultou num atoleiro. Multiplicam - se grupos que pretendem estimular uma desestabilização de regimes pró- americanos instalados na região, mas, até onde se pode ver, é improvável que tenham êxito. A resposta dos Estados Unidos seria igualmente imediata e violenta, apoiada por inúmeros Estados cuja existência seria ameaçada por um movimento pan- islâmico desse tipo. Mesmo assim, a situação atual é claramente mais explosiva do que a de alguns anos atrás.

A médio e longo prazos, a Ásia – e não o Oriente Médio – é a grande

incógnita do sistema. Tem a segunda maior economia nacional do mundo (o Japão), a potência emergente (a China), grandes massas demográficas dotadas de alta laboriosidade, elevado dinamismo

tecnológico, experiências de desenvolvimento rápido, empresas e bancos de grande porte, Estados nacionais vigorosos, poder nuclear (ainda claramente inferior ao dos Estados Unidos e da Rússia, porém crescente). Será uma jogadora de grande peso no século que se inicia.

Mas tem limites: está longe de criar uma área econômica integrada e nem se vislumbra a possibilidade de que algum dia venha a constituir um megaestado continental, em moldes europeus. Não se vê sequer como poderia constituir uma área monetária. Mantém- se altamente dependente do mercado norte- americano e do dólar, moeda em que estão denominadas suas volumosas reservas. Além disso, abriga grandes populações em estado de pobreza e é portadora de enormes tensões internas de natureza nacional, étnica e religiosa. Não consegue marchar junta. A Índia permanece às voltas com um grave contencioso com o Paquistão, a China (que ainda não completou seu processo de reunificação nacional) precisa ganhar tempo, o Japão tem fraquezas estruturais de grande monta, e assim por diante.

A ordem mundial norte- americana não foi – e não será capaz

enquadrar a Ásia, que por isso ainda não encontrou sua posição no

É grande demais e forte demais para

ser engolida (como a América Latina), marginalizada (como a África) ou

derrotada (como a Rússia). Ali ocorrerão os principais processos de transformação da ordem internacional.

sistema- mundo contemporâneo.

de

Do ponto de vista dos Estados Unidos, a Ásia tem de ser mantida dividida, até mesmo por uma questão de estratégia militar. O Departamento de Estado considera que o quarto objetivo estratégico da geopolítica americana é o mais difícil de ser mantido no longo prazo. Ele é assim definido: “Que nenhum poder, ou conjugação de poderes, do hemisfério oriental possa desafiar o domínio norte- americano sobre os oceanos.” Compreende- se a preocupação: como as armas atômicas

prestam- se muito mais à dissuasão do que ao uso efetivo, o controle simultâneo dos oceanos é, de longe, o elemento central na supremacia militar em escala mundial. Tendo- o conquistado, os Estados Unidos detêm o monopólio da capacidade de deslocar e projetar suas forças em qualquer parte do planeta.

Criar uma poderosa marinha de guerra exige recursos imensos, incompatíveis com manter grandes exércitos envolvidos com questões territoriais. Daí o permanente esforço americano de fazer com que seus competidores potenciais – especialmente os asiáticos – mantenham- se às voltas com ameaças terrestres, que os próprios Estados Unidos, por sua posição geográfica – tendo como vizinhos apenas o Canadá e o México , não enfrentam. Esse tem sido, há muito tempo, o jogo americano na Ásia. Quando a extinta União Soviética começou a desenvolver uma marinha de guerra de alcance mundial, baseada em porta- aviões, os Estados Unidos, em um lance de gênio, a atolaram em uma prolongada guerra terrestre no Afeganistão, puxando- a de volta para dentro.

Tensões duradouras no coração da Ásia – se necessário, ampliando- se as diversas guerras civis latentes na região – ajustam - se perfeitamente aos interesses estratégicos dos Estados Unidos. Enquanto essas turbulências persistirem, todos os Estados asiáticos precisarão manter - se voltados para questões regionais, com forças militares territoriais, relativamente estáticas. Assim, a grande esquadra americana poderá continuar a navegar pelo mundo, soberana. Essa condição geopolítica, que é estrutural, mostra uma importante fraqueza da Ásia, quando considerada como pólo de poder mundial.

Não se vê, pois, nem mesmo a médio e longo prazos, o surgimento de um contrapoder à altura de desafiar a capacidade de projeção do poder militar do Estado norte- americano. Mas já se podem ver os limites deste

poder: (a) os Estados Unidos são capazes de atacar e derrotar países não

portadores de armas nucleares, como o Iraque e o Afeganistão,

independentemente de sua posição geográfica; porém, para

estabilizarem sua dominação, dependem da existência de grupos de

apoio minimamente legítimos nas sociedades locais; se esses pontos de

apoio lhes são negados, sua vitória militar inicial se transforma em um

pesadelo; (b) países portadores de armas nucleares permanecem

invulneráveis à máquina militar norte- americana, por sua capacidade de

causar danos inaceitáveis aos próprios Estados Unidos ou a seus

aliados; é o caso da Coréia do Norte, cujos mísseis podem alcançar as

principais cidades japonesas e as bases militares americanas em toda a

região; por isso, aliás, a agressividade dos Estados Unidos pode

desencadear uma corrida, de conseqüências imprevisíveis, em direção à

posse dessas armas por parte de países que se sintam ameaçados; (c)

ações militares unilaterais têm altos custos políticos, diplomáticos e

financeiros; em princípio têm de ser financiadas inteiramente pelo

atacante; (d) embora, pelo sólido controle dos oceanos, os Estados

Unidos venham a manter por muito tempo o monopólio da capacidade

militar ofensiva em escala planetária, nada impede que outros países

desenvolvam estratégias defensivas eficazes em escala regional;

ninguém poderá competir com a esquadra dos Estados Unidos em alto-

mar, mas alguns poderão capacitar- se, com custos acessíveis, a impedir

que ela se aproxime de seus territórios.

A posição do Brasil é, em larga medida, definida por sua condição de

integrante do espaço regional latino- americano, a cujo destino imediato

me referi. Porém, nosso país mantém uma especificidade importante:

somos o grande país periférico das Américas, um dos cinco ou seis grandes países periféricos do mundo, que podem ser chamados de “países

intermediários”. Essa constatação nos introduz em um segundo recorte

possível para a abordagem do sistema internacional. Tentemos

entendê- lo.

Desde sua constituição, nas origens do mundo moderno, o sistema internacional foi fortemente polarizado por um centro relativamente pequeno e uma grande periferia. Processos de crescimento rápido, fora dos países centrais, ocorreram basicamente em regiões que dispunham de abundantes recursos naturais (potencial agrícola, minérios), eventualmente valorizados. Quando esses recursos se esgotavam ou perdiam importância, suas regiões produtoras caminhavam para a decadência, reafirmando sua condição periférica.

O século XX alterou parcialmente esse padrão. Nele, economias não centrais conheceram casos notáveis de crescimento que não se basearam na exploração de recursos naturais abundantes, mas em processos intensivos de industrialização. Esses ciclos de crescimento – que, em diversos casos, promoveram mutações nos sistemas produtivos locais – foram impulsionados de diferentes formas, por diferentes regimes, que se baseavam em diferentes classes sociais, anunciavam diferentes metas e valores, mas tinham um traço comum: lançavam mão de mecanismos de coordenação supramercado para acelerar a industrialização e processos correlatos de modernização. As sucessivas disputas pela hegemonia no centro do sistema, que marcaram fortemente o período que Hobsbawm chamou de “breve século XX”

(1914- 1991),

desenvolviam em alguns espaços tradicionalmente periféricos.

criaram condições favoráveis a esses projetos que se

Surgiu assim um grupo de países intermediários, ou semiperiféricos, alguns de grande porte, entre os quais o Brasil. As condições estruturais desses países, somadas aos processos de modernização que experimentaram no século XX, os tornaram suficientemente fortes para que não devam ser confundidos com os países mais pobres e desassistidos, em geral de pequeno ou médio porte, que neste

momento

emancipatórios próprios.

enfrentam dificuldades insuperáveis para sustentar projetos

Justo por isso, um dos fenômenos mais importantes na construção da

“nova ordem”

sucessiva das diferentes estratégias desses países intermediários que

buscavam industrializar - se e diminuir a distância em relação ao centro

(ou, no caso da União Soviética, disputar o centro). A primeira vaga de

desarticulação, associada às crises das dívidas externas na primeira

metade da década de 1980 e ao desdobramento na direção de políticas

neoliberais, destrói os projetos em curso na América Latina. A segunda

vaga, que ocorre no fim da mesma década e início da seguinte,

desarticula a antiga União Soviética e os países de sua área de

influência. Em meados da década de 1990, chega a vez do acerto de

contas com as estratégias de emparelhamento em curso em países da

Ásia. Só a China resiste, apoiada em sua configuração estrutural –

território, recursos, população –, em sua vontade política e na

especificidade de seu sistema, cuidadosamente preservado, na medida

do possível, das ondas de choque oriundas do sistema internacional (a

experiência chinesa de crescimento rápido é recente, pertence a uma

“nova geração”, sendo difícil fazer qualquer prognóstico claro sobre seu

desdobramento de longo prazo).

mundial no fim do século XX foi a desarticulação

Todos os elementos comuns dos processos de desarticulação, a que nos referimos, estão contidos na estratégia de recuperação da hegemonia

americana: o choque dos juros, a aceleração da corrida armamentista, a

financeirização da riqueza e assim por diante.

É claro que essas desarticulações sucessivas só se tornaram possíveis

porque as diferentes estratégias dos países intermediários continham

importantes fraquezas. Não é o caso de analisá- las aqui, caso a caso.

Observemos apenas um aspecto geral, especialmente relevante para

entender a desarticulação do projeto brasileiro.

Nas relações econômicas internacionais, obtêm vantagens os países que

conseguem controlar uma parte maior do excedente produzido no

conjunto do sistema. Para ocupar uma posição de vanguarda, um país

deve estruturar sua economia em torno de atividades geradoras de um

ganho diferenciado, situado acima – preferencialmente, muito acima –

da média. Tais posições são, por definição, excludentes (caso contrário,

o ganho que propiciam não seria diferenciado). Portanto, tal como está

organizado, o sistema econômico internacional é estruturalmente

assimétrico.

Como as atividades que garantem ganho diferenciado modificam - se ao

longo do tempo, a conquista e manutenção de uma posição de

vanguarda não podem depender do controle de um setor, uma

tecnologia ou uma mercadoria específicos (um setor, uma tecnologia ou

uma mercadoria que garantem ganho diferenciado hoje podem deixar

de fazê- lo amanhã). Elas exigem liderança sobre o processo de

inovação, ou seja, capacidade permanente de criar novas combinações

produtivas, novos processos, novos produtos. Por isso, sob esse ponto de vista, o núcleo do sistema internacional são os espaços que concentram em

si a dinâmica da inovação. Eles capturam sucessivamente as posições de

comando justamente porque conseguem recriá- las, obtendo dessa

forma benefícios extras na divisão internacional do trabalho. No outro

pólo, a dependência também se repõe dinamicamente.

Visto sob essa óptica, torna- se claro que o esforço desenvolvimentista

brasileiro (1930- 1980) manteve- se preso aos limites de uma

modernização periférica e nunca nos aproximou, de fato, do centro do

sistema mundial. Conseguimos internalizar progressivamente atividades

produtivas que, em algum momento, sustentaram a liderança dos países

centrais. Mas o problema é que tais atividades perdem essa característica diferencial justamente quando a periferia em via de modernização consegue capturá- las, pois aí elas ficam sujeitas a uma pressão concorrencial que diminui sua importância e sua rentabilidade. Quando isso acontece, essas atividades são relegadas a segundo plano pelas economias centrais, que renovam sua posição privilegiada alterando as combinações produtivas mais eficazes. A desigualdade se repõe.

Uma impossibilidade lógica impede que “estratégias de emparelhamento”, do tipo usado pelo Brasil e por outros países em seus ciclos desenvolvimentistas, alterem as posições relativas no interior do sistema. Não se consegue superar a condição periférica nem mediante o uso extensivo de recursos naturais nem mediante a cópia de produtos e tecnologias (e seus estilos de vida associados) que já estão maduros nos países centrais. O desafio aberto às grandes economias retardatárias — ou “países intermediários” — é duplo: internalizar seletivamente elementos técnicos e culturais do paradigma vigente e, ao mesmo tempo, preparar condições para um salto que lhes permita romper a lógica da dependência, lançando- as na vanguarda de um novo paradigma. Este, por sua vez, já não pode ser pensado apenas no âmbito da técnica e da economia (neste caso, na melhor das hipóteses, haveria um desdobramento do mesmo paradigma), mas fundamentalmente das relações sociais. A problemática do rompimento da dependência se articula, pois, com a questão mais geral da transição a um novo tipo de sociedade.

É fácil ver por que a construção da nova ordem econômica mundial associou - se à desarticulação de estratégias antes disponíveis aos países intermediários. A ordem “globalizada” atinge as sociedades de forma completamente diferente. No caso dos países centrais, o âmbito da economia e da técnica, de um lado, e o âmbito das decisões políticas (aí

compreendidas aquelas que têm desdobramentos militares), de outro, permanecem estreitamente vinculados, pelo forte vínculo entre megacorporações empresariais e Estados nacionais poderosos. No caso dos demais, esses âmbitos se dissociam, pela dispersão geográfica das cadeias produtivas, em escala mundial, feita sob o comando de corporações empresariais que não têm compromissos com os Estados e sociedades mais fracos, onde apenas instalam filiais.

De modo mais ou menos geral – ressalvada a exceção da China –, as capacidades diplomáticas, econômicas, militares e culturais desses Estados e sociedades, bem como suas próprias vontades de desenvolver essas capacidades, foram quebradas. O centro do sistema sustou a penetração dos intrusos. Mas isso não os eliminou da história. Eles continuam a existir, mesmo enfraquecidos. Contam com massas demográficas muito expressivas, detentoras de capacidade técnica,

associada aos processos de industrialização experimentados. Seus projetos de desenvolvimento, tal como definidos em períodos anteriores, foram desarticulados, mas essa capacidade não desapareceu; em larga medida, continua depositada em seus povos. Além disso, mantêm sua vocação de pólos de sustentação de projetos regionais de desenvolvimento e podem constituir uma importante rede internacional

de apoio recíproco. Seus territórios podem ser defendidos de qualquer

ameaça externa pela formação de infantarias extensas, imbatíveis em

seu próprio terreno.

A condição desses países é cheia de tensões e potencialidades.

Simultaneamente atraídos e repelidos pelo centro do sistema – com suas economias profundamente inseridas nos processos internacionais de acumulação, porém sem acesso às benesses monopolizadas pelos que controlam tais processos –, eles podem vir a constituir um elo fraco da nova ordem capitalista, pois podem ensaiar movimentos de ruptura, hoje bloqueados no centro. Por outro lado, vimos que a configuração

atual evolui de uma situação de unipolaridade para alguma outra

configuração multipolar. Com o tempo, os espaços de manobra dos

países intermediários tenderá a voltar a crescer. Por isso, é vital que consigamos impedir que, neste curto intervalo de unipolaridade, o Brasil e a

América Latina sejam tragados pela área regional americana, o que tornaria

“permanente” — ou, pelo menos, muito prolongada e custosa — uma

condição marcada pelo estreitamento de possibilidades.

O Brasil pertence a esse elo fraco do capitalismo contemporâneo, o

conjunto de países intermediários. Nossa crise é imensamente grave,

mas o potencial para superá- la é igualmente imenso. Para que isso

ocorra, dependemos, de um lado, dos espaços que vão se abrir para nós

naquela evolução do sistema como um todo: historicamente, nossos

espaços aumentam em períodos em que a hegemonia está em disputa,

sendo redefinida; de outro, dependemos da nossa própria capacidade

de colocar importantes mudanças internas na ordem do dia. Grandes

países periféricos, como os Estados Unidos e a China, já passaram por

desafios semelhantes, cada um ao seu jeito, e só obtiveram êxito

quando ousaram contrariar o lugar que lhe fora atribuído pela ordem

internacional de seu tempo. Isso tem custos. O problema é saber se

estamos dispostos a pagá- los.

Prevalece neste momento a tendência de voltarmos a ser um país

primário exportador, inserido de forma subordinada em um sistema

regional. A primeira condição é a de que resistamos a isso. Nossa

estratégia, hoje, começa por tentar preservar a possibilidade de termos

uma estratégia, o que depende da recuperação dos instrumentos

necessários para exercer nossa soberania. Em paralelo, deveríamos

buscar uma posição independente, fortalecida pela formação de um

bloco regional autônomo, capaz de manter relações extensa e

geograficamente diversificadas e, com o tempo, assumir um papel

próprio no mundo. O Brasil é insubstituível na criação do núcleo

histórico de um novo rearranjo regional de cooperação e desenvolvimento — latino e americano —, que poderá vir a configurar um novo bloco, ou um novo megaestado, no futuro. Por isso, em última análise, as negociações em torno da Alca são negociações entre Brasil e Estados Unidos sobre o destino do continente.

Qual a nossa chance de alterar o curso atual das coisas?

Depois de mais de dez anos de experimento neoliberal, uma parte minoritária da sociedade brasileira efetivamente alterou seus padrões de consumo, suas expectativas e seus valores, adotando os padrões, expectativas e valores das populações afluentes do capitalismo globalizado. Esse processo conquistou setores expressivos das classes médias e penetrou até a medula de nossas elites. Bem- posicionados para participar diretamente do mercado mundial — como sócios menores, rentistas ou consumidores —, esses grupos ficam cada vez mais tentados a desfazer quaisquer laços de solidariedade local, desligando seu próprio destino do destino da sociedade como um todo. Suas opções apontam para o rompimento dos vínculos históricos e socioculturais que até aqui mantiveram juntos, em algum nível, os cidadãos. Essa parte da sociedade brasileira proporcionalmente pequena, mas a mais influente – verá o ingresso formal do Brasil na “área regional americana como uma enorme benesse.

Outra parte da sociedade ainda deseja preservar direitos sociais abolidos ou ameaçados, mantendo por isso alguma referência, ativa ou difusa, em partidos, sindicatos, movimentos ou organizações não governamentais. Sozinha, ela não tem peso para alterar o rumo das coisas: não é maioria numérica nem detém os principais aparatos de poder. Exerce uma influência às vezes importante, mas não decisiva.

Resta a maioria do nosso povo, que foi, simplesmente, desligado desses processos. Refiro- me aos grandes contingentes humanos de que o capitalismo não mais necessita. Sobrevivem no desemprego, no subemprego, na economia informal, em atividades sazonais, incertas ou ilegais. Por insistirem em sobreviver e por estarem relativamente concentrados, ameaçam. E, de alguma forma, se organizam. São dezenas de milhões. Mas, até aqui, não se tornaram agentes da transformação. Este é o desafio central colocado para a esquerda, o ponto cego de qualquer estratégia transformadora.

Pelo menos desde o fim do escravismo, nunca os diversos componentes da nação viveram situações tão desiguais e tiveram interesses tão conflitantes. Isso mostra que o modelo neoliberal tem menos potencial estruturante da sociedade – e, nessa medida, menos potencial hegemônico que o modelo de acumulação anterior. A necessidade de se buscar alternativas é mais evidente a cada dia. Mas ninguém é capaz de prever o que virá pela frente, pois o Brasil atual é um país muito mudado e muito desconhecido. É como um quebra- cabeças que ninguém montou. Peças isoladas, ou encaixadas em pequenos grupos, nos trazem fragmentos de informação, mas não temos uma nítida imagem de todo o conjunto. Creio que três mudanças estruturais mais ou menos recentes são especialmente importantes, por suas implicações para o nosso futuro imediato.

Durante a maior parte do século XX, o Brasil foi uma economia capitalista dependente, desigual, geradora de pobreza, concentradora de renda e de propriedade, porém foi também, ao mesmo tempo, uma economia muito dinâmica. Nossa capacidade produtiva cresceu 7% ao ano, em média, durante cinqüenta anos. Hoje, somos uma economia capitalista dependente, desigual, etc., e de baixo crescimento. Ficamos com o que havia de ruim, perdemos o que havia de melhor. Não nos iludamos com os anúncios, sempre reiterados e sempre frustrados, da

“retomada do crescimento”. Há duas décadas não temos nada parecido com crescimento sustentado, mas apenas miniciclos de crescimento dentro de uma economia travada. Nada indica que essa condição tenha sido alterada. Essa transição estrutural – de uma economia dinâmica para uma economia de baixo crescimento – é muito importante, pois o grande dinamismo da economia brasileira até 1980 foi um fator decisivo para conferir relativa estabilidade a uma sociedade tão desigual como a nossa.

A ela se soma uma segunda transição. Em nossos 500 anos de história, durante 470 anos fomos um país cuja maioria da população estava no campo. O primeiro censo demográfico que indicou um equilíbrio campo/cidade foi o de 1970. Hoje, mais de 80% da nossa população já estão vivendo nas cidades. Quase 40% da população total do país concentram - se em apenas nove aglomerados urbanos, as Regiões Metropolitanas, já que, como regra geral, também a rede de pequenas cidades perdeu dinamismo. É outra mudança estrutural cheia de conseqüências. Destacarei apenas uma delas: famílias que vivem em um pedaço de terra, no campo, têm uma casa, uma roça, um pomar e uma criação de animais. A relação direta com a natureza lhes garante o mínimo essencial para sobreviver. Precisam de dinheiro para comprar aquilo que não conseguem produzir. Na cidade, a vida é muito diferente. Ninguém tem roça ou criação, e freqüentemente não se tem nem mesmo uma casa própria. Essa família urbanizada precisa agora obter uma renda em dinheiro para cobrir todas as suas necessidades. Para a grande maioria, essa renda depende de um emprego.

A terceira mutação, a que me referi, é a seguinte. Muitos estudos indicam que, até mais ou menos 1990, apesar de injusto como sempre foi, o Brasil contava com vários mecanismos que garantiam à sua população, na média, mobilidade social ascendente: os setores modernos da economia absorviam força de trabalho; a fronteira agrícola

estava em expansão; o Estado aumentava sua oferta de serviços e contratava mais gente; chegou a existir em muitas regiões uma escola pública de razoável qualidade, etc. Na década de 1990, porém, todos esses mecanismos foram quebrados, e o resultado disso é que represamos a mobilidade social. Os pobres não conseguem mais sair do lugar. Nem a oferta de trabalho, nem o deslocamento no espaço, nem a possibilidade de estudo abrem mais alternativas significativas. As periferias das Regiões Metropolitanas viraram depósitos de gente sem perspectivas.

Ninguém sabe dizer como nossa sociedade se comportará. Porém, contrariando as aparências e o pessimismo de muitos, nunca o povo brasileiro ocupou uma posição potencialmente tão forte. Essas multidões concentradas em grandes cidades, com acesso a redes de informação e sem alternativas dentro do sistema são – em tamanha escala – um fenômeno novo em nossa história. Já ensaiaram mover- se nas diretas- já, na campanha de 1989, no impeachment de Collor. Três vezes em oito anos. Ensaiaram mover- se, mas ainda não aprenderam a caminhar firmemente sobre os próprios pés, nem a levar suas demandas até o fim. Não entraram no palco para valer. Mas já podem entrar. O destino da nação está em suas mãos.

Vou concluir, recapitulando.

(a) A unipolaridade que marca o mundo após- Guerra Fria está dando lugar, gradativamente, a uma nova configuração multipolar muito complexa. O trânsito entre as duas situações é lento, pois há disputa e cooperação no centro do sistema. A solução pela guerra está afastada, e a conjugação de três anomalias econômicas criou até hoje uma possibilidade muito elástica de adiamento de uma grande crise. Isso desaparecerá se o dólar perder sua centralidade atual, o que só poderá ocorrer em um prazo de pelo

menos dez ou quinze anos. Não está clara a configuração exata da nova ordem multipolar, que dependerá crucialmente dos acontecimentos na Ásia.

(b)

Os Estados Unidos estão em via de incorporar formalmente todo o Hemisfério Americano em sua área regional de controle direto, que poderá vir a ser, explicitamente, a “área do dólar”, contrastada à “área do euro” e a algum tipo de arranjo asiático que ainda não é claro.

(c)

O destino do Brasil está atrelado ao do seu continente, porém com uma importante especificidade: somos o grande país intermediário da região, um país que ainda tem alguma margem de manobra. É fundamental usá- la, apostando em uma nova multipolaridade futura e preparando um outro caminho: a formação de um bloco regional latino- americano com presença global. Isso impõe uma estratégia de enfrentamento das pretensões norte- americanas no hemisfério.

(d)

A base social interna dessa nova estratégia é o povo brasileiro, cujo destino depende inteiramente do destino que terá o Brasil. As elites podem, no máximo, negociar certas condições para nossa inserção subordinada no projeto americano. Por isso, um reposicionamento estratégico no mundo e a realização de profundas reformas políticas e sociais internas, que garantam a hegemonia popular, são faces gêmeas de um mesmo projeto.

(e) O Brasil experimentou, em pouco tempo, mutações estruturais de largo alcance, cuja combinação aponta para contradições graves e, eventualmente, explosivas: deixou de ser uma economia dinâmica e passou a ser uma economia de baixo crescimento, que

não gera empregos; urbanizou maciçamente sua população, que agora, mais do que nunca, precisa de empregos para sobreviver; destruiu os caminhos abertos à mobilidade social, nos níveis (insuficientes) que já tivemos. A crise do modelo neoliberal, que se projetará pela nova década adentro, terá como pano de fundo essa crise maior, que questiona as estruturas do capitalismo dependente brasileiro.

Esse é o contexto dentro do qual temos de nos posicionar. Justamente nele, a maior parte da esquerda brasileira se convenceu de que não é possível propor mudanças importantes, de que mais vale uma bolsa- família na mão do que uma soberania no ar, de que grandes transformações não estão na ordem do dia, e assim por diante. A história a julgará.

Ciclo de seminários Fórum Social Brasileiro, Belo Horizonte, 7 e 8 de novembro de 2003

Ciclo de seminários Fórum Social Brasileiro, Belo Horizonte, 7 e 8 de novembro de 2003

Um projeto Ibase, em parceria com ActionAid Brasil, Attac Brasil e Fundação Rosa Luxemburgo

As culturas brasileiras da participação democrática

Introdução

Juarez Guimarães Professor de Ciências Políticas da UFMG

O objetivo desta exposição é responder a uma pergunta básica: por que o

Brasil é hoje um dos países do mundo com uma maior participação

democrática e riqueza associativa? Trata- se de investigar as mudanças

recentes na cultura política dos brasileiros e que dizem respeito a

desenvolvimentos de processos enraizados socialmente e que já se

configuram em tradições.

Não possuímos um painel comparativo entre países. Mas creio que é

possível fundamentar a afirmação contida na pergunta. Do ponto de vista

das tradições socialistas, em qual país do mundo observamos tanta

vitalidade e expansão de um partido político (o PT, que nas eleições de

2002 tornou - se o partido

de maior expressão eleitoral do Brasil, mas não

apenas ele), de uma central sindical de trabalhadores (a CUT recém realizou o maior congresso de sua história) e de um movimento de trabalhadores rurais (O MST tem ampliado significativamente a sua atividade nos últimos meses)? Em várias capitais do país, a realização de orçamentos participativos indica experiências de democracia participativa sem paralelo nas democracias ocidentais. Movimentos sociais, em particular, na área da saúde, reforma urbana e assistência, vêm construindo todo um trabalho de participação institucional. O cálculo de estudiosos da participação popular animada pela Igreja Católica (Frei Beto, Helena Salem, Rogério Valle e Marcelo Pitta, Pedro Ribeiro de Oliveira) estima em cerca de 70 mil Comunidades Eclesiais de Base atuando no Brasil (agrupando em torno de dois milhões de fiéis). A realização dos Fóruns Sociais Mundiais tem estimulado o florescimento de ONGs e redes associativas que percorrem todo um espectro de temas de questionamento à globalização neoliberal. Em São Paulo, este ano realizou- se uma das maiores passeatas do Orgulho Gay do mundo. A participação eleitoral no Brasil vem crescendo e hoje o país é seguramente uma das maiores democracias eleitorais do planeta. Também o Direito e o sistema judiciário vem sendo objeto de um processo permanente de reivindicações e construção de novos direitos, mais claramente após o processo da Constituição de 1988.

O que anima todo este trabalho democrático?

Não seremos capazes de responder a esta pergunta se nos fixamos em uma perspectiva que fica retida no par sociedade tradicional/ sociedade moderna, tão típica das visões preconceituosas erigidas na ciência política norte- americana sobre a sociedade brasileira. Por esta visão, somos católicos e latinos, logo, incapazes de criar cultura cívica, submissos à dominação patriarcal ou patrimonial, cevados pelo coronelismo e pelo

clientelismo, sem tradição de verdadeiros partidos, afeitos à corrupção e ao favoritismo etc etc. Educarmo- nos para a democracia implicaria em afastarmo- nos de nossas origens e aproximarmo- nos do padrão anglo- saxão.

Não se trata aqui de fazer apologia do iberismo ou da tradição política brasileira, construindo uma visão idílica e adocicada das vertentes agressivas de dominação e violência nela contidos. Mas de visualizar a trajetória do trabalho reflexivo das tradições republicanas brasileiras, no sentido de trasnformá- las por dentro, atualizando e democratizando seus fundamentos e valores. Dois exemplos apenas. É evidente que a cultura socialista brasileira transformou profundamente seus valores nas três últimas décadas em relação aos padrões dominantes nas décadas anteriores, estabilizados a partir da influência central do antigo Partido Comunista Brasileiro. Por outro lado, a Igreja Brasileira em seu conjunto foi profundamente modificada pelo Comunitarismo Cristão e pela Teologia da Libertação. Seus valores, sua percepção da sociedade brasileira, suas relações com o poder foram profundamente transformadas em relação ao padrão dominante até os anos cinqüenta. É a análise deste trabalho das tradições que nos permite entender as mudanças na cultura política dos brasileiros.

e o ritmo destas mudanças em curso é

um grande desafio. Penso que podemos aqui apenas indicar cinco grandes

vetores:

Entender a direção, a profundidade

um deslocamento para a centro- esquerda e para a esquerda dos valores de identidade política dos brasileiros;

uma retomada profunda da identidade da experiência da civilização brasileira consigo mesma, ao mesmo tempo, latina, universalista e cosmogônica;

uma expansão da identidade feminina, que se alimenta continuamente da conquista de posições no mercado de trabalho e na educação;

uma pressão política e cultural cada vez mais intensa no sentido da democratização racial do país;

a expansão libertária dos Eros, em uma sociedade que nunca foi marcada pela ascese puritana e nem nunca aceitou a divisão platônica cristã do corpo /alma, com as suas vertentes sacrificiais, mas sempre se pautou pelos ritos da festa e do lúdico.

Todo este processo de mudança de valores e atitudes convive com dimensões regressivas ( culto da violência, das linhas esterilizantes do mass media, da regressão social) mas parece- nos tendencialmente dominante. Esta dominância do dinamismo democratizante exige e reclama o encontro das tradições republicanas brasileiras, sua mútua configuração, que estudaremos a seguir.

O comunitarismo cristão

O fato decisivo para a construção desta tradição brasileira foi a fundação da CNBB, liderada por Dom Hélder Câmara, em 1952. Esta fundação já traduzia uma primeira síntese no interior da tradição católica brasileira que recebia, então, o impacto de pensadores como Jacques Maritain e Emmanuel Mounier. No processo de radicalização vivido pelo país naquele contexto, nascia assim a esquerda católica brasileira como expressão do que, poderíamos chamar, de a ala esquerda do comunitarismo cristão. No

período do regime militar, esta tradição ganhou vasto enraizamento social com a experiência das CEBs.

Assim, quando houve uma reação conservadora, desde o centro da Igreja,

nas últimas décadas às teses do Concílio Vaticano II, esta tradição já havia alcançado um nível de sedimentação social que lhe permitiu resistir,

renovar- se e continuar expandindo - se.

O que parece é que, longe de exaurir- se, esta tradição renovou- se no

encontro com a democracia brasileira em reconstrução, relacionando o seu associativismo de base com os marcos institucionais, direcionando a opção preferencial pelos pobres para os temas da cidadania, incidindo sobre a cultura política brasileira com as exigências cristãs da solidariedade, da ética e da igualdade. O seu impacto na problemática agrária, indígena e na crítica ao neoliberalismo nos anos noventa não pode ser subestimado. Nos anos recentes, esta tradição tem se aberto ao ecumenismo, ao tema dos direitos das mulheres, embora conserve uma atitude conservadora frente aos desafios que, em sua visão, comprometem a vida familiar (direito do aborto, direitos dos homossexuais, permissividade etc).

A última conferência da CNBB parece ter sido marcada por uma dinâmica

unitária entre as tradições herdeiras da Teologia da Libertação e as

correntes mais moderadas, inclusive aquelas vinculadas aos carismáticos.

O fundo comum desta dinâmica que desdramatiza as diferenças entre os

compromissos sociais e espirituais da Igreja parece ser exatamente o comunitarismo cristão quem sempre buscou manter um equilíbrio entre as duas dimensões.

O nacional-desenvolvimentismo

Nenhum outro país da América Latina viveu no pós- guerra um florescimento da cultura nacional- desenvolvimentista como o Brasil. Herdeira do primeiro ciclo varguista, ela se conformou e se enraizou no período que vai de 1945 - 1964, recebendo o impacto da tradição da Cepal no continente, combinando projetos sistêmicos de nação com uma agenda de inclusão social e florescimento dos sentimentos e criações de identidade cultural. A criação da Petrobrás, do BNDE, da Sudene, de Brasília, entre outros, tornaram - se marcos duradouros da afirmação brasileira. O período foi marcado também por uma agenda especialmente criativa no plano das artes, marcando o amadurecimento estético de toda uma geração formada no Modernismo de 1922 – Cinema Novo, Bossa Nova, CPC etc.

É interessante que mesmo o regime militar brasileiro não foi desnacionalizante mas desenvolveu um projeto de integração ativa na ordem internacional, inclusive com pretensões geopolíticas no continente. A tradição nacional- desenvolvimentista permaneceu, então, como uma espécie de repertório que retornou no período após o regime militar. Nos anos noventa, alimentou a crítica ao neoliberalismo e hoje participa ativamente da base política, social e intelectual do governo Lula, como na condução de sua política externa.

A importância desta tradição está exatamente em ter desenvolvido, em civilizações criadas a partir de uma experiência de colônia e submetidas a graves processos de desvalia de amor próprio, a consciência cívica da nação, a noção de um pertencimento e de um destino comuns. Em um país marcado por tão fortes heterogeneidades e clivagens de classe, ela contribui para estabelecer um solo republicano comum.

O nacionalismo, em uma certa cultura acadêmica, foi criticado desde sempre como mistificador dos interesses de classe. A crítica é

simplificadora em dois sentidos. Em primeiro lugar, pelo fato de que o nacionalismo expressou- se através de muitas vertentes, desde a direita até

à esquerda, passando pelo centro. Em segundo lugar, porque mesmo o

desenvolvimento da consciência das classes trabalhadoras no Brasil não pode ser pensado por meio de um padrão europeu, separado das condições nacionais de sua existência e experiência social, isto é, de seu lugar no mundo do capitalismo, de sua cor, de sua religião etc.

Quando encontrou a cultura democrática, as vertentes mais decisivas deste sentimento nacional – como aquela desenvolvida na obra de Celso Furtado

– expressaram- se não através da idéia de uma autarquia mas de uma autonomia nacional, não de expansão subimperialista mas de integração soberana em uma ordem mundial transformada.

O socialismo democrático

O grande animador da luta democrática e do protagonismo organizativo no

Brasil nas últimas duas décadas tem sido o Partido dos Trabalhadores.

Junto a ele, há um conjunto de forças políticas que se reclamam do socialismo democrático que têm exercido um papel importante.

São poucos os países do mundo hoje em que partidos de esquerda têm tal enraizamento social e força eleitoral. Isso se explica, a nosso ver, por três razões.

Em primeiro lugar, por ser um partido de esquerda tardio, crítico às tradições do estalinismo e da social- democracia européia. Esta identidade de origem explica porque este partido conseguiu resistir à crise definitiva da URSS no final dos anos oitenta e nem se pasteurizou nas chamadas “Terceiras Vias” dos anos noventa. O seu pluralismo matricial transformou - se em certas condicionalidades democráticas de sua vida interna e sistema de decisões que tem permitido até agora a experiência se desenvolver em um grau alto de pluralismo e de divergências internas.

Em segundo lugar, ele soube desde o início recusar o dualismo sociedade/Estado, movimentos sociais/institucionalidade, buscando de forma criativa combinar estas duas dimensões em sua experiência. É esta dialética entre vida social e vida político institucional que tem permitido este partido renovar- se nas diferentes conjunturas brasileiras desde o seu nascimento.

Em terceiro lugar, o PT alcançou nos anos noventa uma dimensão rara na vida dos partidos brasileiros, um enraizamento nacional, crescendo no nordeste e no norte do país. Sua base social também se diversificou muito, para além da origem classista original. De alguma forma, o PT tornou- se brasileiro, acolhendo em seu interior diferentes dimensões étnicas, regionais e religiosas.

A chegada ao centro do Estado brasileiro não deixa de ser, no entanto, um grave desafio que expõe todas as carências programáticas, de unidade e capacidade de gestão de um partido cuja experiência governativa é basicamente municipal e apenas limitadamente estadual.

O liberalismo ético

Uma característica particular da experiência democrática brasileira tem sido um grande dinamismo no que diz respeito à juridificação de novos direitos, procedimentos e salva- guardas democráticas. Este dinamismo constitucional contribui de modo decisivo para a institucionalização da vida democrática em expansão.

Seria incorreto falar, deste ponto de vista, de uma ordem jurídica fechada, cristalizada, marcada por um conservadorismo. Se a segunda metade dos anos oitenta foi profundamente galvanizada pela experiência constituinte, os anos noventa foram seguidos de um reformismo constitucional, em geral direcionadas por uma pauta neoliberal. A experiência democrática do governo Lula dá- se, assim, em meio a uma ordem institucional em movimento, híbrida, aberta à renovação.

É neste contexto que cabe falar da presença central e importância decisiva

de um liberalismo ético, de vertente social e receptivo à defesa dos direitos do cidadão. Esta tradição sempre foi expressiva na vida cultural brasileira mas marginal na ordem política. Ela atingiu um ponto de fixação na alta cultura brasileira por meio da obra de Raymundo Faoro, que estruturou

uma narrativa de nossas origens, identidades e destinos vocacionada para

a crítica de todo projeto de modernização assentado em um Estado avesso

à democracia e à separação das esferas do público e do privado.

Nos anos recentes, a cultura jurídica brasileira tem sido dinamizada pelas correntes do direito alternativo, do comunitarismo cristão, da legitimidade discursiva, enfim, pela criação coletiva e social dos direitos. É este dinamismo jurídico que pode distensionar conflitos, dar cobertura institucional a novas práticas associativas e deliberativas, além de exercer

uma

concentradora.

pressão

civilizatória

Cultura popular

sobre

a

ordem

mercantil

excludente

e

Por fim, caberia identificar uma fonte difusa mas vital da civilização brasileira: a cultura popular. Rousseau nos dizia que as festas populares são como que o momento lírico de expressão da vontade geral. No Brasil, a vida associativa e participativa sempre se alimentou de um sentimento comunitarista que coube a nossos grandes criadores transformar em expansão de nossa imaginação civilizatória.

Excluído da comunidade política, não tendo reconhecida a dignidade de seu trabalho, o povo brasileiro refez- se através da cultura. Ali ele foi, ao longo do tempo, republicanizando o país, cindido pela escravidão, pela diferença social e pelo mercado. Conformou, assim, uma espécie de casa comum dos brasileiros, para além da adscrição de raça, origem, credo, classe, sexo ou ideologia.

Mário de Andrade já no final dos anos vinte identificou na música a expressão de vanguarda dessa matriz civilizatória. Nos anos do nacionalismo, o samba fez- se expressão da identidade nacional, tornando - se irradidador do que poderíamos chamar de o contágio benigno da fraternidade. Entre os países ocidentais, o Brasil ,junto com os EUA, é o único país cujo mercado de consumo musical é basicamente nacional, sem deixar de verter para uma identidade própria todo tipo de ritmos e experiências de musicalidade do planeta.

É mais que provável que no próximo período, em compasso com avanços democráticos, vivamos uma nova época de ouro da cultura brasileira tão ou mais rica que a dos anos que precederam o golpe militar de 64.

Ciclo de seminários Fórum Social Brasileiro, Belo Horizonte, 7 e 8 de novembro de 2003

Ciclo de seminários Fórum Social Brasileiro, Belo Horizonte, 7 e 8 de novembro de 2003

Um projeto Ibase, em parceria com ActionAid Brasil, Attac Brasil e Fundação Rosa Luxemburgo

Democracia versus Guerra Civil Global Qual é a agenda pós-Neoliberal?

Mark Ritchie

Economista

Este fórum social está voltado para três dimensões específicas do mundo

que estamos tentando criar.

Primeiro, as cidadanias individual e coletiva – nosso papel e

responsabilidades dentro do desenvolvimento humano sustentável.

Segundo, a questão sobre como produzimos e tornamos disponíveis os

produtos de que necessitamos para sobreviver – sem esquecer daqueles

com quem devemos compartilhar este planeta agora e no futuro.

Foi- me solicitado que focalizasse um terceiro aspecto, os elementos-

chave das relações – recíprocas, ou no conjunto – entre nações- estado,

instituições internacionais e povos. Minha missão específica é a de falar

sobre a nova situação e os desafios que se configuraram depois de

Cancun, especialmente à luz das crescentes ameaças de unilateralismo,

mercantilismo, nacionalismo neo- conservador e militarização.

O que se pode dizer no espaço de um breve paper sobre temas tão amplos

é, obviamente, limitado. Meu objetivo, nestes poucos minutos que tenho

com vocês, é simplesmente o de iniciar um debate, focalizando apenas um dos elementos- chave da ordem internacional – o comércio e a principal instituição de elaboração de políticas de comércio, a Organização Mundial

do Comércio (OMC). Usando a OMC como exemplo, investigarei alguns dos pensamentos que emergiram do seio da sociedade civil sobre as maneiras de reformular nosso sistema global de forma que tanto os estados- nação como as agências internacionais possam nos dar um melhor auxílio na nossa tarefa coletiva de construir um desenvolvimento humano social, econômica, ecológica e politicamente sustentável.

Como introdução às minhas observações, permitam- me determinar qual é

a minha opinião geral sobre comércio, a Organização Mundial do

Comércio e a legislação e política de comércio como um sistema mais

amplo. Primeiramente, sou a favor do desenvolvimento e da preservação, ao máximo possível, das culturas, das comunidades e das economias locais. Criar e defender um alto grau de diversidade econômica, social, cultural, artística, política e biológica é tanto uma questão básica de direitos humanos quanto de sobrevivência humana. Minha tendência a pensar desta forma é cada vez mais intensa, à medida que meu temor vai aumentando diante do desconhecimento sobre os riscos relacionados à predominância atual de um modo de vida baseada na indústria centrada

no hidrocarboneto.

Ao mesmo tempo, sou viciado em café e vivo num país cujo clima frio e sem montanhas não é apropriado para se produzir essa droga maravilhosa. Isto significa que preciso ser muito simpático para com as pessoas que vivem no Brasil e em outros países produtores de café para que eu possa suprir minha dose de cafeína diária e a um preço que eu possa pagar. Ademais, preciso produzir alguma coisa que os produtores e

trabalhadores que me fornecem o café queiram em troca – do contrário, fico na dependência da caridade alheia que pode ser, no caso dos brasileiros, extremamente generosa mas certamente não sem limites. Tenho de produzir ou dar como moeda de troca algo que seja econômica, ecológica e socialmente sustentável para ambos – senão, não vai durar e as condições serão entendidas como uma forma de exploração das pessoas e/ou do nosso planeta.

Dado que meus objetivos se complementam – apoio ao comércio local ao mesmo tempo em que se beneficiam da troca de produtos e serviços à longa distância – estou sempre buscando o equilíbrio entre os dois. Um bom exemplo deste equilíbrio, do meu ponto de vista, é o selo de certificação de comércio justo utilizado em inúmeros produtos e commodities, que vão desde bolas de futebol até o café. Outro exemplo é a Convenção sobre Diversidade Biológica que determina as condições de comércio visando a proteger nossa herança genética. Um terceiro exemplo é a Bolsa Amazônia que promove o comércio que protege especificamente a ecologia na bacia do rio Amazonas. O que há em comum entre cada uma dessas disposições sobre comércio legal é um conjunto de regras de comércio estabelecidas de comum acordo. Tenho a forte convicção que o comércio pode e deve ser organizado de forma a promover o desenvolvimento humano sustentável e a solução para isso seria através do comércio de importação e exportação baseado em normas estabelecidas que sejam monitoradas e cumpridas.

Uma vez que o comércio na sua maioria é realizado por empresas – e não por governos – a chave para a elaboração de normas consistentes e que num momento posterior podemos ver o cumprimento delas estaria na combinação de forças – inclusive de negócios bem instruídos, consumidores conscientes, governos nacionais e agências/instituições internacionais progressistas. Dados os atuais desequilíbrios em nível mundial em termos de poderio econômico e militar, creio que esses

acordos têm de ser forjados e buscados em todos os níveis e em combinações diversas a fim de proteger o nível local e promover a sustentabilidade econômica, ecológica e social.

Acredito que de fato saibamos como organizar o comércio para que ele seja sustentável, mas isto não acontecerá por acidente, ou pela magia das mãos invisíveis ou dos punhos calçados com luvas de veludo. O comércio, como todos os outros negócios, tem de ser administrado em prol da sustentabilidade – preços justos, lucros e salários para que cada um possa estar contribuindo com o produto final. O comércio sustentável inclui o crescimento contínuo em termos da produção de produtos com maior qualidade a baixo custo para o meio ambiente e, portanto, para consumidores e para a sociedade como um todo.

Dada esta perspectiva, como vejo a OMC e a política de comércio, no geral, na próxima etapa?

Sou otimista quanto à próxima fase por três razões principais.

Primeiro, graças à feliz convergência de muitos fatores, inclusive pela importante liderança do governo brasileiro, a OMC inicia um processo de transição, passando de meramente uma extensão dos acordos neo- coloniais pós- Segunda Guerra Mundial – onde uns poucos países ditavam ordens à maioria – para uma nova maneira de operar que pode ajudá- la a se tornar uma verdadeira instituição da economia internacional. A reunião ministerial da OMC em Cancún, na minha opinião, foi a primeira vez na história dessas conversações sobre comércio – voltando lá atrás no passado, desde a Conferência de Havana, em 1947 –, que as negociações sobre comércio chegaram perto de ser realmente globais. Sobre os dois temas mais importantes que estavam em discussão, agricultura e os temas de Cingapura propostos, cerca de 100 países do mundo em desenvolvimento engajaram- se num debate verdadeiro e em duras

negociações com as meras duas dúzias de países industrializados que compõem a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCED). Como órgão do sistema global das Nações Unidas, as instituições que elaboram políticas de comércio historicamente têm produzido parte do mais avançado pensamento e da retórica nessa área. Infelizmente, na prática, nunca cumpriram sua missão progressista de pleno emprego, justiça e processo democrático globais.

Segundo, a OMC tornou- se a instituição de economia internacional sobre a qual a sociedade civil e cidadãos individualmente detêm mais informação e sobre a qual suas ações de exigibilidade (advocacy) têm sido as mais eficazes. A natureza altamente reservada e anti- democrática do GATT, a antecessora da OMC, e as conseqüências bastante negativas sofridas por produtores, trabalhadores e pelo meio- ambiente, resultantes das negociações anteriores, que combinadas fizeram da OMC o alvo provavelmente do maior movimento mundial desde a guerra do Vietnam.

Tanto através da ação direta e organizada de exigibilidade como da participação ampliada pelo trabalho dos parlamentares, cidadãos do mundo todo vêm contribuindo na definição de uma agenda e influenciando no próprio processo. Somente agora estamos começando a compreender o processo de lobby e exigibilidade mundiais e, com certeza, somos fracos em muitos aspectos, porém dentre todas as ações de exigibilidade cidadã em nível mundial do momento, a ação frente a OMC é a mais avançada. As lições tiradas de outras importantes iniciativas da cidadania mundial, como o boicote à Nestlé, o Tratado de Minas Terrestres, e a Convenção sobre Diversidade Biológica, começam a se fundir e amalgamar, depois de quase 20 anos de ação de exigibilidade cidadã frente ao GATT e a OMC, para então tomar a forma de uma estrutura de efetiva ação de exigibilidade cidadã em nível global. Essa estrutura que está se formando não é sinônimo de democracia global, mas ainda assim é importante.

A terceira razão tem a ver com a estrutura da OMC. Nela é necessário haver consenso em muitas áreas para que as negociações possam prosseguir e isso a torna uma instituição ideal para a construção de acordos verdadeiramente globais – aqueles que são bons tanto para o Norte quanto para ao Sul. A Índia esteve praticamente isolada na sua posição quanto aos temas de Cingapura durante a reunião ministerial da OMC realizada anteriormente em Doha, no Qatar. Em Cancún, a Índia integrou uma enorme coalizão. O ativismo cidadão sobre essas questões foi crucial para que os governos pudessem perceber o que estava em jogo e compreender que havia espaço para resistir, porém esta resistência teria sido inútil caso a Índia não tivesse se posicionado com firmeza em Doha. Se por um lado a pressão e o desrespeito sofridos pelos países que exercem seu direito de dizer não aos EUA e a EU ainda sejam extremamente fortes – insuportáveis para alguns –, por outro lado, a reunião de Cancún mostrou que alguns governos, em especial quando se articulam numa ampla coalizão, conseguem exercer seus direitos dentro desse modelo de consenso.

Considero Cancún um sucesso. Esse ponto de vista tem sido criticado por alguns amigos que acreditam que Cancún foi um fracasso, uma vez que os governos perderam a chance de avançar em algumas questões importantes e de preocupação para o mundo em desenvolvimento. Se Cancún se constituiu verdadeiramente num novo começo ou meramente em outra oportunidade que se deixou escapar, somente daqui a cinco ou dez anos será possível avaliar melhor. O importante, entretanto, é que nós, que acreditamos no sistema multilateral, devemos tomar esse caminho que se vê através da janela aberta em Cancún, apropriando - nos do “momentum” que foi gerado, para avançar no desenvolvimento humano sustentável. A História nos julgará não pelo que fizemos em Cancún, mas pelo que fizemos de Cancún.

Mas o que isto significa em termos concretos para cidadãos e movimentos sociais? Creio que existem cinco tarefas importantes à nossa frente.

Primeiro, temos de prosseguir na orientação geral de tornar as negociações realmente globais. Isto significa dar apoio a todo e qualquer esforço para se obter um maior engajamento de todos os países membros da OMC numa participação ativa nos debates importantes. Isto poderá demandar o desenvolvimento de uma relação de consultoria técnica junto às ONGs e mesmo a realização de treinamento e elaboração de programas e material didáticos. Por exemplo, se as políticas agrícolas do governo federal americano tendem a ser um tema de suma importância, então o melhor a fazer seria dar treinamento aos negociadores e seus assessores sobre o real conteúdo e abrangência dessas políticas, do que ter uma retórica sobre política agrícola vazia e desprovida de instrução que tão freqüentemente ouvimos tanto da parte das ONGs quanto da parte dos governos.

Segundo, temos de ampliar de forma significativa nossos esforços junto às pessoas e às organizações buscando elevar o nível de conscientização, análise crítica e capacidade de desenvolver propostas alternativas. Em alguns setores, como o da agricultura, há muitas pessoas que já estão capacitadas nesses aspectos, entretanto é preciso um trabalho anterior com elas para que possam efetivamente produzir algo inovador e realizar ações de exigibilidade em arenas globais. Isso tem de ser buscado em todos os níveis – na base (p.ex.: junto a cada grupo formados nas igrejas) e na mídia de massa –, utilizando todos os meios disponíveis. Trazer mais dos nossos representantes, democraticamente eleitos, especialmente os parlamentares, para dentro do processo de elaboração de políticas de comércio também faz parte desse esforço. A presença em Cancún, pela primeira fez, de um grande número de parlamentares federais e estaduais, bem preparados, talvez tenha tido mais impacto no resultado das reuniões do que a presença das ONGs.

Terceiro, precisamos usar este momento na história da OMC – onde parece haver uma abertura para um novo pensamento e para a reformulação – e pressionar por reformas estruturais no modo de operação dessa instituição. Por exemplo, uma boa maneira de começar seria através de um processo de revisão, aberto e público, dos potenciais candidatos ao cargo de Diretor Geral, e do estabelecimento de normas de procedimento de negociação que fossem monitoradas e cumpridas. A metodologia usada na realização das sessões de negociação – “informalidade”, participação limitada de representantes e inexistência de documentação sobre as posições tomadas pelos negociadores – tornam o processo de negociação não transparente. Essa situação pode ser revertida executando- se reformas no procedimento, tais como as que foram propostas por países membros antes de Cancún.

Quarto, precisamos esclarecer qual o papel de uma gama de instituições regionais e globais em relação à política de comércio e dar um sentido a esse grupo de instituições. Por exemplo, a maioria dos assuntos “explosivos” levantados pelos governos do Terceiro Mundo em Cancún, como os problemas desastrosos enfrentados pelos produtores de café e algodão no mundo em desenvolvimento, são questões relacionadas a commodities que normalmente seriam tratadas no âmbito da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). A propósito, a 11 a . Conferência Ministerial da UNCTAD será realizada em São Paulo, em junho do próximo ano. Um dos principais focos dessa reunião tratará do aspecto do suprimento no comércio. Em todo o globo há muitas pessoas sérias, inclusive líderes conservadores como o ex- primeiro ministro canadense, Brian Mulroney, pedindo por uma Segunda Conferência de São Francisco, numa alusão à fundação das Nações Unidas em São Francisco há quase 60 anos atrás. O secretário geral da ONU, Kofi Annan, já pôs em andamento uma ampla revisão do sistema das Nações

Unidas que poderia formar a base de uma séria reforma de todo o sistema de Bretton Woods.

Quinto, precisamos atacar alguns problemas globais mais prementes, os quais os governos parecem incapazes de tratar no momento. Por exemplo, a persistência dos baixos preços globais para o algodão, café e outras commodities continuam sendo um entrave ao comércio e ao desenvolvimento sustentáveis. A natureza dramática das intervenções dos governos da África Ocidental, que se encontram perigosamente dependentes dos preços mundiais para o algodão, que não têm controle sobre coisa alguma, foi um dos pontos culminantes da reunião de Cancún. Pequenos produtores dos estados mexicanos de Chiapas e Oaxaca falaram com eloqüência sobre a situação desesperadora dos cafeicultores do mundo inteiro. Temos experiência suficiente e somos capazes de apresentar soluções concretas que podem ser implantadas com ou sem apoio governamental.

Estes e outros assuntos

Se eu estiver correto, então a OMC entrou num processo de mudança de composição e enfoque, distanciando- se do papel de ser apenas uma via por onde os EUA e a EU impõem seus acordos e aproxima - se de um lugar onde as políticas de comércio são avaliadas e negociadas em termos do seu alcance para concretizar metas de desenvolvimento.

Há dezenas de questões que emergiram antes e durante Cancún que exigem propostas concretas e campanhas mundiais para que sejam implementadas. O que está faltando é a constituição de um processo global de apropriação das melhores idéias que estão aí borbulhando e transformá- las em propostas concretas, e talvez competitivas. Estas, depois, vão passar pelos vários canais e processos nos níveis da sociedade, do comércio e dos governos para constituir um consenso

global. Com o surgimento do Fórum Social Mundial estamos começando a caminhar em direção a um processo de produção de consenso no âmbito da sociedade, o que cria a perspectiva real de algum dia irmos em direção a um verdadeiro processo global.

Entretanto, a minha interpretação otimista dos resultados da reunião ministerial de Cancún e a oportunidade de termos um avanço no nível global, ao que se pode denominar Momento Cancún, não é a única interpretação. Aqueles que preferem o unilateralismo, o mercantilismo, e o uso da força sobre o cumprimento da lei, estão tirando outras lições de Cancún.

Dentro dos EUA, existem quatro grandes classificações das visões sobre o papel do comércio na política externa. Primeiro, há aqueles que estão no poder e aprovam o unilateralismo como a forma mais eficiente e efetiva de exercer o poder americano para manter o acesso privilegiado a matérias primas, mercados e pontos estratégicos para o posicionamento avançado de forças militares. Há inúmeros congressistas e altos funcionários da Casa Branca que retirariam os EUA das Nações Unidas e da Organização Mundial do Comércio imediatamente, se pudessem fazê- lo impunemente.

Num segundo grupo estão aqueles que acreditam que a forma mais eficiente de manter os EUA no poderio mundial é manifestando este poder através do multilateralismo e através de instituições globais, como o sistema das Nações Unidas, que inclui a OMC. Uma vez que acredito que os recursos mundiais precisam ser compartilhados de forma mais eqüitativa e que isso requer uma redefinição do atual equilíbrio de forças no mundo, não aceito essa suposição de que o sistema multilateral deva ser usado para manter o status quo. No entanto, acredito que possa me articular com pessoas que vêem nesse pensamento a perspectiva de formar alianças táticas.

Um terceiro e grande grupo de pessoas, e me incluo nele, acredita na cooperação mundial e no multilateralismo como um meio de alcançar o desenvolvimento sustentável, os direitos humanos, a justiça e a igualdade. Isto nos coloca numa posição difícil às vezes, já que nos encontramos pelejando tanto contra os unilateralistas, que substituiriam o sistema global seguindo as ordens de Washington, como contra aqueles que apóiam o multilateralismo, mas que o fazem principalmente para preservar esse inaceitável status quo.

Este é um dilema terrível para nós que acreditamos firmemente no multilateralismo e na cooperação mundial. Isto nos obriga a fazer duras críticas às muitas das ações praticadas por estas instituições quando percebemos que sua principal motivação está no desejo de manter o status quo. Todavia, nossa crítica deve ser encaminhada de tal forma a nos distinguir dos ataques feitos à ONU e a OMC com o propósito de destruir totalmente a idéia de um sistema internacional. Temos de deixar claro que apoiamos o sistema mundial, porém não apoiamos muitas das ações perpetradas por importantes instituições. Nossa crítica deve vir acompanhada de sugestões de reformas que fortaleçam o sistema como um todo, ao invés de enfraquecê- lo.

Um elemento- chave dessa corrente de pensamento é o desenvolvimento de idéias sobre as formas de reduzir o poder ou o escopo de instituições globais que tenham extrapolado seus mandatos ou competências, ou que sejam obviamente incapazes de liderar. Importantes demandas vindas das muitas vozes críticas à globalização demonstram a necessidade de reforma radical, inclusive propostas feitas por governos do tipo “Enxugamento ou Encerramento”, referindo - se ao escopo da OMC. Uma demanda conseqüente dessa posição é a do movimento global de produtores exigindo a “Retirada da OMC da Agricultura”, como uma forma de resolver as muitas injustiças e problemas relacionados à segurança alimentar que são, em parte, resultantes do atual Acordo Agrícola da OMC.

Há um quarto ponto de vista compartilhado por muitos amigos e aliados que acreditam que as instituições estão tão cooptadas por interesses especiais e tão comprometidas por manobras da guerra fria há cinqüenta anos, e outros elementos da luta geopolítica global, que muitas instituições globais devem simplesmente ser fechadas. Esta visão também é compartilhada por alguns dos fundadores das principais instituições globais.

Há dez anos atrás, minha organização reuniu os fundadores das instituições de Bretton Woods qua ainda estão vivos, para discutir sobre o que desejavam e o que pensavam do qüinquagésimo aniversário de fundação do Banco Mundial e do FMI. Acompanhei várias dessas discussões noite adentro, onde alguns desses fundadores debatiam entre si sobre qual dessas instituições teriam se desviado em muito de sua missão original e qual deveria ser fechada primeiro. A veemência de suas críticas e a urgência com que manifestavam a necessidade de reforma fundamental, ou de extinção dessas duas instituições, eram muito mais fortes do que as que ouvi no Fórum Social Mundial ou em outros encontros.

Existe o grande perigo de que a terceira e quarta correntes – e mais as nossas duras críticas às muitas ações realizadas pelo sistema multilateral – sejam utilizadas por alguns integrantes da administração Bush para incrementar a contínua retirada dos EUA das questões globais e promover a agenda unilateralista. Acredito que encontros como os fóruns sociais tenham um papel vital na garantia de que nossas críticas não sejam apropriadas e usadas para destruir o sistema no seu todo.

Qual deveria ser o perfil da Agenda Pós-Neoliberal / Neo-Conservadora?

Enquanto muitas das normas globais, supervisionadas pela OMC, foram negociadas numa época onde a agenda neoliberal era preeminente, agora estamos numa nova era – num tempo onde a agenda neo- conservadora dos assuntos externos e militares está casada com políticas neo- liberais para os assuntos de negócios e da economia. Enquanto os efeitos desastrosos dela podem ser vistos em cada lugarejo do planeta, as chances de mudança como resultado desse casamento arrasador são igualmente dramáticas. Eu argumentaria que sem os resultados cruéis da sinergia entre comércio e o militarismo neo- conservadores, a articulação entre o governo brasileiro e o G-20 em Cancún não teria sido possível. A combinação entre a perpetuação de políticas de comércio mercantilistas (você tem de comprar conosco, mas nós evitaremos comprar de você, ou se possível não vamos comprar nada) e “hegemonia global”, através de uma política externa militarizada, criou uma situação política quase insustentável para os EUA.

Enfraqueceu a parceria entre os EUA e Europa de forma drástica – impossibilitou que formassem um front sólido em Cancún. Significou que os EUA ignoraram os apelos desesperados de países sem recursos, como as nações dependentes do comércio do algodão na África Ocidental, que deixaram perfeitamente claro que, sem uma flexibilização, eles não teriam razão para negociar nada. Em cima dessas questões específicas de política havia também a arrogância e a cegueira decorrentes da motivação ideológica. Muitos integrantes da delegação americana, tanto do governo quanto do setor empresarial, ficaram bastante satisfeitos com o resultado de Cancún. Viram ali a oportunidade para colher argumentos em favor de sua causa pelo futuro abandono do processo multilateral e pelo uso das negociações bilaterais e regionais, como a ALCA, como o espaço onde os EUA podem obter tudo o que querem sem ter de fazer concessões, além das promessas de que se empenharão ao máximo.

Talvez o que vou dizer seja excessivamente otimista, mas meu palpite é de que temos a chance de desbancar os domínios tanto neoliberal quanto neo- conservador exatamente porque estão evidentes agora. Até há pouco tempo, a separação entre essas agendas – por exemplo, na administração anterior – tornava quase impossível reunir forças tanto dentro quanto fora dos EUA para se criar um autêntico desafio a qualquer uma dessas duas forças. Hoje, porém, podemos comemorar o início da verdadeira negociação do comércio no âmbito da OMC – graças em grande parte aos esforços empreendidos pelo Brasil e o G-20 em Cancún – e agora estaremos nos ocupando de um debate concreto no nível global sobre o papel das Nações Unidas, da força militar e do unilateralismo.

Talvez, tão importante quanto ter alçado essas questões ao nível global seja, ao mesmo tempo, ver a projeção delas dento dos Estados Unidos. Não vou me atrever a fazer uma crítica de todos os pormenores desse extenso debate hoje, mas permitam- me dizer que em toda a minha vida nunca vi uma época de maior perigo político nos EUA – e isso inclui o de Richard Nixon e outros e nunca houve um momento de maior debate público sobre o papel do governo nos assuntos internos e externos, e o papel dos EUA especificamente nas questões globais. Como nação, fomos partidos ao meio sobre a guerra mantida pela administração Bush contra o Iraque e continuamos profundamente divididos hoje. O importante, entretanto, não são os números das pesquisas sobre a política de guerra, mas o nível, a profundidade e o escopo do debate em que estamos engajados. Grande parte da sociedade – muito, muito mais do que jamais possa me lembrar está engajada na discussão de questões importantes sobre economia, comércio, direitos humanos, guerra e paz. Esse debate se intensificará à medida que entrarmos nas próximas eleições.

Nossa agenda política externa e interna depois do neoliberalismo e neo- conservadorismo tem de ser um retorno à democracia e prevalência da lei. E temos de dar uma ênfase especial à garantia de que estamos todos,

através de procedimentos democráticos e dos direitos humanos, aptos a participar da criação de leis que nos governarão.

Vivo em um país onde as questões de raça são o elemento definidor da vida pública. Até hoje, apesar de anos de trabalho com afinco, sacrifício, e grandes avanços, uma raça, e grande parte da classe governante pertence

a essa raça, elabora a maioria das leis que outros devem obedecer.

Sabemos que o governo da elite pela elite não funciona na realidade nos níveis local e nacional. Não é difícil de adivinhar que no nível global fariam o mesmo. Uns poucos elaborando leis, como insignificantes instrumentos de governança, em benefício de si mesmos. A agenda pós- neoliberal é a democracia em todos os níveis – os detalhes ficam por conta daqueles que virão depois de nós. Porém se, e somente se, tivermos êxito em suplantar

o domínio desses poucos, que é imposto com armas de destruição em massa e podem ser usadas contra os muitos. Até que de fato suplantemos esta elite e sua forma de governança aterradora, continuaremos todos a ser aterrorizados pela guerra civil em escala global.

Devemos rechaçar qualquer opção que nos faça rolar ladeira abaixo em direção à guerra civil. É um futuro demasiado terrível para se imaginar. Devemos contrapô- la tomando o caminho da democracia, reiteradamente defendida através da não- violência. Esta tem de ser a nossa agenda pós- neoliberal e neo- conservadora.

Nove anos atrás, reunimos os fundadores da maioria das instituições criadas depois da II Guerra Mundial – incluindo ONU, FAO, Declaração Universal dos Direitos do Homem, e de todas as agências de Bretton Woods, como o Banco Mundial e o FMI. O motivo do encontro era o 50º aniversário da Conferência de Bretton Woods. Aprendi muitas coisas naquele encontro, mas sem termos de comparação, a mais importante lição foi quando insistiram firmemente em dizer que a fundação desse sistema deu- se principalmente e acima de tudo numa tentativa

desesperada de encontrar um caminho para a Paz Mundial e assegurar a justiça econômica, social e política. Precisamos retomar esse foco primordial – este é o momento de maior abertura, mas não vai durar muito. Esse futuro democrático, porém, não nos será entregue nas mãos. Teremos de trabalhar dia e noite para superar aqueles que escolheram a guerra civil mundial ou como forma de defender seus privilégios, ou como forma de resistência à exploração.

Talvez a agenda pós- neoliberal para muitos de nós seja rigorosamente a mesma de antes. Devemos continuar a usar a não- violência assertiva e mesmo agressiva na luta pela segurança, sustentabilidade, e por um sentido de comunidade dentro de um contexto global. Devemos ser contrários à guerra civil nos níveis local, nacional e global através da luta pela contínua expansão da democracia e dos direitos humanos dentro da arena internacional.

A

democracia em todos os níveis – no local de trabalho, em nossas cidades

e

nações, na arena global – deverá ser ganha, depois ganha de novo, e

depois novamente ganha outra vez.

Devemos

conheceremos.

fazer

isso

por

nós

mesmo

e

por

outros

que

nunca

Devemos fazer isto pelo hoje e por eras que jamais veremos.

Ciclo de seminários Fórum Social Brasileiro, Belo Horizonte, 7 e 8 de novembro de 2003

Ciclo de seminários Fórum Social Brasileiro, Belo Horizonte, 7 e 8 de novembro de 2003

Um projeto Ibase, em parceria com ActionAid Brasil, Attac Brasil e Fundação Rosa Luxemburgo

O imperativo do pleno emprego no Brasil contemporâneo

J. Carlos de Assis Economista

Gostaria de abordar o tema deste painel na perspectiva do exercício da

liberdade. Liberdade, essencialmente, como direito de escolha. Foi

proposta a discussão de um novo modo de produção e de consumo de

massas. Supõe- se talvez

padrão único de produção e consumo que seria único, e que devamos

procurar uma alternativa, ou eventualmente valorizar alternativas já

existentes. É este, pelo menos em parte, o pressuposto

dos organizadores.

que tenhamos esgotado, no capitalismo, algum

latente da proposta

Vou cometer uma pequena descortesia, de uma forma muito fraterna, aos

que me convidaram para este seminário. Não vou falar das escolhas ou das

alternativas, mesmo porque não sou um especialista no assunto. Vou falar

das condições objetivas para que as escolhas mencionadas, qualquer delas,

possam ser feitas. Não é uma fuga completa do tema, porque outros itens

– na realidade, todos os demais itens da ementa que me deram – serão abordados. Mas é a questão das condições de escolha que me interessa focar centralmente.

Para se escolher com liberdade um outro modo de produção e consumo é preciso ter acesso, pelo menos em tese, ao modo de produção e consumo dominante. Do contrário, não se estará fazendo uma escolha real. Muito provavelmente, se estará seguindo uma das muitas estratégias de sobrevivência a que milhares, na verdade milhões de brasileiros, de latino- americanos e de marginalizados de outros países procuram trilhar por imperativo das circunstâncias sociais e econômicas. Isto, insista- se, não é escolha. Nem liberdade.

As circunstâncias que estão produzindo e reproduzindo o fenômeno de marginalização em massa nos nossos países não são uma característica intrínseca do capitalismo. São uma característica intrínseca, sim, do

liberalismo. O capitalismo é um modo de produção relativamente flexível.

A Europa do Norte é capitalista, os Estados Unidos são capitalistas, o Japão

é capitalista, a China avança segundo o modelo de produção capitalista.

Ninguém dirá, obviamente, que o modo de vida e mesmo a busca individual de felicidade sejam nestes países exatamente iguais. Poucos ignoram que estes países vivem ou viveram em algum momento situações

de virtual pleno emprego.

O

capitalismo é uma categoria econômica. O liberalismo econômico – para

o

distinguir do liberalismo político, que é outra coisa – é uma categoria

política. É o liberalismo econômico, na sua radicalização na defesa do primado absoluto da propriedade privada, que torna o capitalismo um modo de produção anti- social e um coveiro da liberdade de escolha. Pois o supremo ato de propotência liberal consiste exatamente em privar

desnecessariamente milhões de pessoas do trabalho remunerado, pelo que

a maioria delas não têm escolhas reais a fazer, a não ser a busca desesperada da sobrevivêncica.

O desemprego em massa tem sido, nas duas últimas décadas, um instrumento deliberado de política fiscal e monetária para assegurar estabilidade financeira e de câmbio, de uma forma “amigável” para os especuladores financeiros planetários. No tempo de Marx, falava- se em exército industrial de reserva. Era considerado, porém, um fenômeno conjuntural do ciclo capitalista determinado pela concorrência tecnológica. Do fim dos anos 70 para cá, tornou - se crônico, e aceito politicamente como tal, desde a Europa (exceto do Norte) até a América Latina, para não mencionar a África e outros países do Oriente.

Os ideólogos do capitalismo liberal, tendo os economistas vulgares à frente, cunharam a expressão desemprego estrutural como uma fatalidade permanente, diante da qual todos, inclusive o mundo político, deveriam se acomodar. Aqui entre nós, acadêmicos pouco escrupulosos inventaram a expressão “crise de empregabilidade”, pela qual atribuíram a culpa pelo desemprego aos próprios desempregados. Não vou perder tempo com a refutação dessas sandices: o desempenho norte- americano dos anos 90 mostrou que o capitalismo de ponta não precisava ter crise de desemprego mesmo com grandes avanços tecnológicos. E candidatos com curso superior completo na fila de 131 mil pretendentes a uma das 800 vagas de gari da Comlurb no Rio de Janeiro, no segundo trimestre deste ano, evidenciaram a falácia da “empregabilidade”.

A crise de desemprego

intensidade, os países industrializados da Europa Continental é consequência direta da política macroeconômica ditada pela ressurgência

por que passa a América Latina e, com menos

liberal nos anos 80. Ela só tem um paralelo na história: a Grande Depressão dos anos 30. Também na Grande Depressão a prolongação da crise de desemprego depois do crash da bolsa de Nova Iorque resultou de políticas liberais, exatamente as mesmas que nos recomendam agora, baseadas no que chamam de “austeridade” fiscal e “finanças saudáveis”. Por uma estratégia de marketing, chamam agora o velho liberalismo de neoliberalismo. É essencialmente a mesma coisa, com os mesmos resultados.

No caso brasileiro, por ainda não sermos industrializados, a Depressão dos anos 30 nos atingiu apenas marginalmente, via queda do mercado de café. Já a crise atual nos atinge em cheio. Em 2000, pelos resultados do Censo, o desemprego no país todo atingia 15,04% da força de trabalho. Os dados mais recentes de amostras do IBGE dão conta de uma taxa de desemprego aberta de 13% nas seis maiores metrópoles, seguida de perto por uma taxa de 13,5% de ocupados com remuneração inferior a um salário mínimo. Já as taxas do DIEESEapontam desemprego de 20% em São Paulo e de quase 30% em Salvador e no Recife. É uma situação que pode caracterizar- se como depressão profunda.

Para se ter uma base de comparação, o pico do desemprego nos anos 30 nos Estados Unidos e na Alemanha foi 26%. Tratava- se então, como se trata agora, de uma tragédia social. Por trás do emprego vem o subemprego, por trás do subemprego a marginalidade, por trás da marginalidade o aumento da violência, a perda da auto- estima, a marginalização, o fim da liberdade. E a revolta. É justamente aí que mora o perigo, mas é também aí que mora a salvação. Pois a revolta, sem condução política coerente, não vai além das sublevações. Entretanto, ela também pode ter direção política bem definida, no rumo da regeneração e da prosperidade. É a isso que voltarei mais adiante.

Nos anos 20 e 30, que assinalam a primeira grande crise do capitalismo numa situação de cidadania ampliada – onde pobres, trabalhadores e mulheres passaram a participar plenamente do corpo político via direito de voto e de ser votado - , abriram- se, diante da grave crise social, quatro alternativas de projeto nacional: o fascismo italiano (o desemprego na Itália já era excessivamente alto nos anos 20), o nazismo alemão, a social- democracia sueca e o New Deal norte- americano. Os dois primeiros, embora bem sucedidos no campo do combate ao desemprego, degeneraram em guerra; o último, junto com o modelo sueco, definiria o perfil das sociedades industriais no pós- guerra.

O New Deal, no próprio coração do sistema capitalista, foi uma revolução política sem precedentes. Contrapôs ao capitalismo liberal o capitalismo regulado, e ao liberalismo econômico a democracia social. O êxito do New Deal se projetou sobre o quarto de século do pós- guerra no mundo industrializado, caracterizado como a era do ouro do capitalismo. Era de ouro não apenas por conta do tremendo desenvolvimento tecnológico, mas, sobretudo, em razão da notável afluência social. O desemprego praticamente desapareceu e a prosperidade avançou rapidamente nos países industrializados avançados. Entretanto, foi justamente este êxito espetacular que está na origem da contra- revolução liberal.

Na economia, os anos da idade de ouro caracterizaram- se pela aplicação de políticas keynesianas expansivas, baseadas no crédito generoso e barato para a produção, e no gasto público, inclusive deficitário, para melhorar e ampliar os serviços públicos básicos e a infra- estrutura econômica. Nós próprios, no Brasil e na América Latina, participamos na margem desse processo, através das chamadas políticas desenvolvimentistas iniciadas por Vargas. Foram políticas visionárias, que

lançaram os alicerces de nossa industrialização, mas que ficaram a meio caminho no campo social, por razões, a meu ver, políticas.

O mundo industrializado convergiu, com diferenças apenas de grau, para um projeto comum de sociedade de bem estar, solidária, com a coesão interna mantida pela situação real ou virtual de pleno emprego. Era o

único projeto compatível com a realidade política de cidadania ampliada. Como ficara demonstrado nos anos 30, teria sido impossível manter a estabilidade política num quadro em que a maioria do corpo político era vítima direta ou indireta de uma taxa alta de desemprego, de subemprego

e de marginalização. Nós, contudo, marchamos na direção inversa: antes de nos defrontarmos com as demandas da cidadania ampliada, limitamos,

manipulamos ou cerceamos a liberdade política e os direitos de cidadania. Nesse sentido, não fizemos a revolução da sociedade do bem estar porque

a própria sociedade não tinha meios políticos de demandá- la.

Disso já fora um prenúncio a reação brasileira à crise do café, o mais notável efeito da Grande Depressão sobre a economia brasileira. A queima dos estoques determinada por Vargas foi uma típica medida keynesiana avant la lettre (Keynes ainda não havia escrito a sua “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”). Em termos econômicos, era um expediente inteiramente defensável de se proteger a demanda efetiva e o emprego. Contudo, a força política que estava por trás da decisão não foram naturalmente os trabalhadores urbanos e rurais do café, cuja maioria sequer votava, mas a oligarquia cafeeira que participava do condomínio do poder.

Se fizemos a industrialização, sem que o desenvolvimento social a acompanhasse, foi porque tínhamos um corpo político dissociado do corpo social. Na medida em que o corpo político foi- se ampliando, incorporando

pobres, trabalhadores, mulheres, as classes dominantes tiveram que ceder de alguma forma às demandas da sociedade. Os conservadores, tradicionais donos do condomínio do poder, burlaram por todas as formas, inclusive pelo recurso a ditaduras, as demandas sociais crescentes, sendo que os seus intelectuais orgânicos sempre tentaram desqualificar estas últimas como populismo.

Foi pelo atraso político – isto é, pela negação da cidadania a uma grande parte da população não proprietária – que nos marginalizamos, assim como foi pelo avanço político rumo à cidadania ampliada que os países industrializados convergiram para uma sociedade do bem estar. É claro que estávamos todos, industrializados ou não, no contexto da Guerra Fria, e isso teve influência considerável no processo. Só que, nos países industrializados avançados, o progresso social foi uma resposta ao perigo vermelho, enquanto, entre nós, o perigo vermelho foi o pretexto para a reincidência no atraso político e no autoritarismo.

A derrocada do autoritarismo em toda a América Latina abriu novas perspectivas políticas e econômicas para nossos povos a partir dos anos 80. No Brasil, tivemos uma experiência singular de democratização pacífica, confirmada pela Constituição- cidadã de 88, que consagrou entre nós a cidadania ampliada. De fato, reconhecemos o direito de voto do analfabeto – ainda uma parte considerável da população não proprietária – e até a menores acima de 16 anos. Hoje, a população maior de idade coincide com o corpo político virtual. E a história política brasileira das últimas duas décadas é um testemunho eloquente da força da cidadania em influir nos processos de poder, que se manifestou tanto na eleição de presidentes contra as classes dominantes, quanto na destituição de um presidente que traiu o mandato popular.

Entretanto, continuamos um país atrasado socialmente. E são nossas condições sociológicas, mais que as condições econômicas, que nos diferenciam dos países industrializados avançados. É que, na economia, construímos alguns espaços de modernidade que se articulam através da globalização com os espaços mais avançados do Primeiro Mundo. Constituiu - se assim uma mesma rede de relações de dominação que mantém estrito controle sobre o sistema econômico interno, levado a se atrelar, dos anos 80 para cá, às formas mais especulativas do capitalismo monetário e financeiro, responsável último pelas políticas fiscais e monetárias que generalizaram o desemprego e o subemprego tanto em alguns dos países industrializados quanto em quase toda a América Latina.

Entretanto, nosso desemprego não é da mesma natureza do desemprego numa economia de bem estar social. Países como Alemanha, França, Itália e Espanha, os mais populosos da Europa Ocidental, exibem taxas médias de desemprego de 10%, o que é extremamente elevado para seus padrões históricos. São, por outro lado, nações de cidadania ampliada, que criaram nas últimas décadas uma forte tradição de democracia política e social. A pergunta que se faz é: Como essas sociedades toleram taxas de desemprego tão elevadas, por tanto tempo?

A resposta mais superficial é que não toleram. As eleições européias, desde os anos 80, mas sobretudo a partir dos 90, têm revelado uma frenética troca de partidos no poder, independentemente de coloração ideológica, o que indica uma clara insatisfação com o poder político incumbente, qualquer que seja. Mas há uma razão de fundo, de natureza sociológica. O declínio da Idade do Ouro do capitalismo coincide com o fim do acordo de Bretton Woods, que garantia a estabilidade monetária internacional, e com o início de um processo inflacionário renitente em escala planetária – exceto no bloco socialista. A instabilidade inflacionária e

monetária criou o ambiente de cassino nas relações financeiras internacionais, e os donos do cassino, para atender a sua clientela, passaram a propor um tipo de estabilidade que preservasse o jogo.

As políticas keynesianas de expansão fiscal e monetária, de notória eficácia

uma recessão e garantir o pleno emprego, verificaram - se

impraticáveis para o controle da inflação. Por outro lado, como consequência de seu próprio êxito, moldaram uma sociedade de classes médias afluentes, despreocupadas com o desemprego (havia se perdido a memória dos anos 30) e incomodada pela inflação, que corroía sua renda e seus ativos financeiros acumulados. Em uma palavra, inverteu- se a motivação da maioria do corpo político nos países industrializados: antes, ela queria proteção social e garantia de emprego; agora, tendo- se tornado afluente, passou a reivindicar estabilidade financeira, demanda de que logo se apropriaram os ideólogos liberais.

para reverter

Sem a rememoração desses processos seria incompreensível a eleição de Margareth Thatcher na Grã- Bretanha e de Helmut Kohl na Alemanha. Thatcher, antes de Reagan, simboliza o grande momento inicial da contra- revolução keynesiana. Mais sofisticada intelectualmente que o presidente norte- americano, ela recolheu os destroços do velho liberalismo e os remontou numa doutrina coerente de suposta modernidade, ancorada no primado da iniciativa privada e na liberdade irrestrita dos mercados, em confronto não apenas com o socialismo moribundo mas com a própria social democracia européia.

É evidente que a classe dirigente de uma antiga potência industrial decadente, nas bordas da Europa, não teria como formular a ideologia do mundo industrializado e exportá- la para a periferia, não fosse por sua associação com Reagan, alimentada por motivações idênticas. Neste caso,

porém, ficamos diante desses casos singulares da história em que a potência hegemônica absorve uma ideologia, pratica uma outra e exporta, através de seus mecanismos de influência, principalmente o crédito, uma terceira.

É justamente isso o que foi o Governo Reagan: um missionário do liberalismo retórico, fazendo gigantescos déficits fiscais na melhor tradição keynesiana, e impondo ao resto do mundo, através das agências multilaterais que controla, o FMI e o Banco Mundial, as políticas fiscais e monetária mais restritivas de que se tem notícia. A União Européia, ao contrário, alinhou - se fielmente ao neoliberalismo: pelo Tratado de Maastricht impôs aos países membros tremendas restrições fiscais (déficit orçamentário máximo de 3% do PIB, dívida pública máxima de 60% do PIB) e, através do Banco Central Europeu, restringiu extremamente a política monetária – de forma que, nem pela política fiscal, nem pela política monetária, qualquer país da União pode fazer hoje políticas anti- cíclicas de pleno emprego. (Contudo, Alemanha e França já avisaram que vão romper os limites do déficit.)

Não se pode perder de vista, porém, as condições sociológicas diversas dos Estados Unidos e da Europa Ocidental. Nesta última, a sociedade do bem estar avançou muito mais que na América. Por isso, a sociedade americana tolera menos o desemprego que a sociedade européia, onde a proteção ao desemprego é muito mais abrangente. O fato realmente extraordinário dessas últimas duas décadas não são as ambigüidades políticas das nações do Centro do sistema capitalista, mas a forma subalterna como as nações da periferia, com a Argentina e o Brasil à frente, aceitaram alinhar sua economia a um modelo em total contradição com a sua realidade sociológica.

E aqui, depois dessa longa volta, regressamos ao ponto inicial: como pode a sociedade brasileira, que não é uma sociedade de bem estar, e cuja maioria do corpo político não é formada por afluentes, mas por miseráveis, acatar uma doutrina econômica e incorporá- la na política cotidiana quando isso implica tolerar taxas de desemprego de 20% e até 30% em algumas metrópoles?

Não há uma resposta simples para esta pergunta, sobretudo porque não há uma classificação simples da sociedade brasileira. A extrema heterogeneidade, recoberta por um dos mais elevados índices de concentração de renda e de riqueza do mundo, reflete- se necessariamente numa grande ambigüidade no corpo político, ideologicamente dominado pelas classes afluentes. Mesmo assim, é um equívoco supor que os resultados das quatro últimas eleições presidenciais tenha sido produto de manipulação. Os candidatos vitoriosos, sem exceção, se apresentaram como portadores de mudanças que eram objetivamente reclamadas pela maioria do eleitorado.

Numa época em que a inflação atingia sobretudo as classes baixas, não protegidas pela moeda indexada, Collor não se apresentou como o campeão do neoliberalismo, o que acabou sendo, mas como o único capaz de liquidar a inflação. Não conseguiu, nem poderia conseguir com seu plano maluco, e acabou posto para fora. Itamar, no seu curto mandato, percebeu que sairia como um fracassado se não vencesse a inflação. Deu a Fernando Henrique a oportunidade de acabar com ela e, com isso, eleger- se. A vitória contra a inflação de décadas rendeu a Fernando Henrique não uma, mas duas eleições. Não conseguiu, porém, fazer o sucessor. E não conseguiu porque incorporou, com o neoliberalismo, a indiferença em relação ao desemprego, que recrudesceu a partir de 99. Lula pareceu ao povo mais confiável neste terreno do que o candidato oficial.

O que acontecerá com o governo Lula se não conseguir reverter o

desemprego? Escrevi recentemente um ensaio, que está no site do Movimento Desemprego Zero, sustentando que Lula está entre a alternativa

de manter a estabilidade financeira à custa do agravamento do quadro social, ou de enfrentar a crise social impondo uma mudança nas regras da economia financeira. É uma decisão de economia política, não simplesmente de política econômica. Alguém terá de perder, não em termos de estoques de riqueza, mas de expectativas de ganhos especulativos, para que possamos enfrentar a crise social a partir do revigoramento do sistema produtivo pela retomada do desenvolvimento e

do

emprego.

Na

verdade, nosso desafio é refazer o caminho percorrido por Roosevelt no

New Deal: deslocar o eixo de acumulação capitalista do sistema monetário

especulativo para o sistema produtivo. O neoliberalismo foi o caminho inverso: desestruturou os sistemas produtivos seguindo sucessivamente pela liberação cambial, pela liberação monetária e financeira, e pela completa liberalização comercial. Quer continuar avançando, criando uma constituição de liberdade ampla para os investimentos, as patentes, as compras governamentais, ou impondo o acordo assimétrico da Alca, numa verdadeira marcha forçada sobre empresas e empregos dos países do Terceiro Mundo, os quais, como nós, estão regredindo à situação de primário- exportadores e povoando nossas metrópoles e nossas zonas rurais de mais desempregados e subempregados.

Para confrontar com eficácia essas políticas, não podemos nos limitar a criticá- las. Temos que apontar alternativas. Foi este o sentido do Manifesto dos Economistas, que lançamos em junho último. E é este o sentido do Movimento Desemprego Zero – Por uma Política de Promoção do Pleno

Emprego no Brasil, reunindo vários movimentos sociais e com um portal na Internet (www.desempregozero.org.br). Para ter êxito, qualquer proposta alternativa deve estar colada à realidade sociológica. E como a realidade sociológica que nos caracteriza é a realidade do desemprego generalizado, inspiramos nossa proposta no New Deal dos anos 30, o grande plano de Roosevelt que reverteu a Grande Depressão.

O Movimento Desemprego Zero não é uma iniciativa de gerar empregos de um ponto de vista microeconômico. Isso, como dito acima, corresponde a estratégias de sobrevivência que temos de respeitar, seja na forma de camelôs ou perueiros, de vendedores ambulantes ou sacoleiros, de pequenos artesãos a coletadores de lixo. Entretanto, não pode se constituir num projeto de sociedade. O Movimento Desemprego Zero é uma proposta política. A política de pleno emprego, num plano mais geral, é um projeto de sociedade solidária, politicamente coesa, um ponto intermediário para o socialismo democrático.

Tecnicamente, no plano econômico, a política de pleno emprego pode ser resumida em três pontos: (i) aumento do dispêndio público, via redução ou eventual eliminação do superávit do orçamento primário; (ii) redução drástica da taxa de juros básica para patamares internacionais e expansão do crédito interno; (iii) controle da conta de capitais e administração do câmbio, sem o que é inviável estabelecer as duas medidas anteriores. No que diz respeito ao aumento do dispêndio público, a prioridade deve ser a reforma agrária (as classes dirigentes brasileiras nos devem isso desde 19850), a educação, a saúde, a segurança, a habitação, o saneamento, a Defesa, assim como a infra- estrutura. Todos são setores que podem ser contemplados com pesados investimentos internos sem pressionar as importações e sem gerar tensões inflacionárias, gerando, ao contrário, milhões de empregos.

Os neoliberais contestam a política de pleno emprego sob o argumento de que gera inflação. É uma falácia técnica. Enquanto houver alto desemprego, o dispêndio público, mesmo deficitário, não gera inflação de demanda. E na medida em que a economia se aproximar do pleno emprego, pode- se e deve- se recorrer a políticas de rendas, no âmbito de um grande pacto social, para compatibilizar as reivindicações salariais com o aumento da produtividade, contra a alternativa perversa de usar a política monetária de juros estratosféricos, como temos feito, para conter a inflação. Aliás, a relativa estabilidade da Idade do Ouro do capitalismo na Europa Ocidental se deveu fundamentalmente aos pactos sociais em torno de políticas de rendas.

Não se trata de uma fantasia, pois a política de pleno emprego já foi aplicada com êxito para enfrentar as anteriores grandes crises de desemprego no capitalismo: foi aplicada na Suécia, na Alemanha, nos Estados Unidos antes da guerra. E praticamente em todos os países industrializados depois da guerra, até a contra- revolução liberal dos anos 70. Poderia ter sido aplicada aqui, e num sentido limitado o foi, se não tivéssemos classes dominantes tão dissociadas das demandas sociais por um sistema político restrito. Agora, porém, estamos numa situação de cidadania ampliada, e já votamos num Presidente que se comprometeu a gerar em seu mandato 10 milhões de novos empregos.

Ele não poderá fazer isso a não ser por uma política de promoção do pleno emprego. Para aplicá- la, terá de romper com o modelo neoliberal. Terá de ser um Roosevelt brasileiro, um campeão do capitalismo regulado, um realizador de esperanças.

Quero terminar apresentando uma visão concreta das políticas de pleno emprego, a fim de inspirar uma antevisão do que pode vir a ser no Brasil. No New Deal, o governo norte- americano criou uma agência, a Works Progress Administration, para gerenciar todos os programas governamentais de estímulo à economia e ao emprego. Sob esta agência, foram construídos ou reconstruídos 820 mil quilômetros de rodovias (temos 54 mil km de rodovias federais!), 124 mil pontes e viadutos, 120 mil prédios públicos, várias hidrelétricas, projetos de regularização de três cursos de grandes rios junto projetos de irrigação; milhares de artistas foram contratados pelo Estado para dar concertos de graça, pintores foram contratados para ornamentar prédios públicos com obras de arte, milhares de professores, médicos e enfermeiros foram contratados para os programas de educação e saúde. Em uma palavra, o New Deal fez dos Estados Unidos a potência que são hoje.

Nós não podemos nos privar do sonho de também chegar lá, com uma sociedade mais justa e solidária que a sociedade norte- americana, apenas por conta dos preconceitos liberais que seus ideólogos tentam nos impor através da manipulação das nossas necessidades financeiras, que eles mesmos fizeram escalar com choque dos juros dos anos 80. De fato, o cordão umbilical que une ao neoliberalismo é a dívida externa. É por causa da dívida externa que capitulamos às políticas do FMI e do Banco Mundial. Temos de romper este cordão. A forma de fazer isso não é não pagar, mas só pagar com o crescimento do produto, da renda e sobretudo do emprego internos.

Ciclo de seminários Fórum Social Brasileiro, Belo Horizonte, 7 e 8 de novembro de 2003

Ciclo de seminários Fórum Social Brasileiro, Belo Horizonte, 7 e 8 de novembro de 2003

Um projeto Ibase, em parceria com ActionAid Brasil, Attac Brasil e Fundação Rosa Luxemburgo

Limites e potencialidades da expansão democrática no Brasil

Leonardo Avritzer Cientista político, Universidade Federal de Minas Gerais

O século XX foi um século de intensa disputa em torno da questão

democrática. Essa disputa, travada ao final de cada uma das guerras

mundiais e ao longo do período da guerra fria, envolveu dois debates

principais. Na primeira metade do século, o debate centrou- se na

desejabilidade da democracia (Weber,1919; Schmitt,1926; Kelsen,1929;

Michels,1949; Schumpeter,1942) 1 . Se, por um lado, tal debate foi

resolvido em favor da desejabilidade democracia como forma de

governo, por outro lado, a proposta que se tornou hegemônica ao final

das duas guerras mundiais implicou em uma restrição das formas de

participação e soberania ampliadas em favor de um consenso em torno

1

Este debate iniciara- se no século XIX pois até então e por muitos séculos a democracia tinha sido considerada consensualmente perigosa e, por isso, indesejada. O seu perigo

o

consistia em atribuir o poder de governar a quem estaria em piores condições para

fazer:a grande massa da população, iletrada, ignorante e social e politicamente inferior.

(Williams,1976:82;McPherson,1972)

de um procedimento eleitoral para a formação de governos (Schumpeter,1942). Essa foi a forma hegemônica de prática da democracia no pós- guerra, em particular nos países que se tornaram democráticos após a segunda onda de democratização.

O segundo debate que permeou a questão no pós- segunda guerra mundial foi acerca das condições estruturais da democracia (Moore,1966; O’Donnell,1973; Przeworski,1985), que foi também um debate sobre a compatibilidade ou incompatibilidade entre a democracia e o capitalismo (Wood,1996) 2 . Nos anos sessenta, Barrington Moore inaugurou esse debate por meio da introdução de uma tipologia de acordo com a qual se poderia indicar os países com propensão democrática e os países sem propensão democrática. Para Moore, um conjunto de características estruturais explicariam a baixa densidade democrática na segunda metade do século XX: o papel do estado no processo de modernização e sua relação com as classes agrárias; a relação entre os setores agrários e os setores urbanos e o nível de ruptura provocado pelo campesinato ao longo do processo de modernização. (Moore,1966).

O objetivo de Moore era explicar por que a maior parte dos países não eram democráticos nem poderiam vir a sê- lo senão pela mudança das condições estruturais. Entretanto, um segundo debate se articulava ao dos requisitos estruturais da democracia, o debate sobre as virtualidades redistributivas da democracia. Tal debate partia do pressuposto que na medida em que certos países venciam a batalha pela democracia, junto com a forma de governo, passavam a usufruir de uma certa propensão distributiva caracterizada pela chegada da social democracia ao poder (Przeworski,1985). Haveria, portanto, uma tensão entre capitalismo e

2 Este debate, como de resto quase todos os outros sobre a democracia, tinha sido antecipado por Rousseau quando afirmava no Contrato Social que só poderia ser democrática a sociedade onde não houvesse ninguém tão pobre que tivesse necessidade de se vender e ninguém tão rico que pudesse comprar alguém.

democracia, tensão essa que, uma vez resolvida a favor da democracia, colocaria limites à propriedade e implicaria em ganhos distributivos para os setores sociais desfavorecidos. Por isso, no âmbito desse debate discutissem- se modelos de democracia alternativos ao modelo liberal: a democracia popular nos países da Europa de Leste, a democracia desenvolvimentista dos países recém- chegados à independência.

A discussão democrática da última década do século XX mudou os termos do debate democrático do pós- guerra. A extensão do modelo hegemônico e liberal – para o sul da Europa ainda nos anos setenta e, posteriormente, para a América Latina e a Europa do Leste (O’Donnell e

Schmitter,1986) – tornou desatualizadas as análises de Moore e de Przeworski. Parecem pouco atuais as perspectivas sobre a democracia da segunda metade do século XX com as suas discussões sobre os impedimentos estruturais da democracia, na medida em que passamos a ter muitas dezenas de países em processo de democratização – países esses com enormes variações no papel do campesinato e nos seus

respectivos processos de urbanização. Reabre- se, assim,

sobre o significado estrutural da democracia, em particular para os assim

chamados países em desenvolvimento ou países do Sul.

a discussão

A medida que o debate sobre o significado estrutural da democracia muda os seus termos, uma segunda questão parece também vir a tona: o problema da forma da democracia e da sua variação. Essa questão recebeu a sua resposta mais influente na solução elitista proposta por Joseph Schumpeter, de acordo com a qual o problema da construção democrática em geral deveria ser derivado dos problemas enfrentados na construção da democracia na Europa no período de entre- guerras. A partir dessa resposta funda- se o que poderíamos chamar de concepção hegemônica da democracia. Os principais elementos dessa concepção

seriam a tão apontada contradição entre mobilização e institucionalização (Huntington,1968; Germani,1971); a valorização positiva da apatia política (Downs,1956); a concentração do debate democrático na questão dos desenhos eleitorais das democracias (Lijphart,1984); o tratamento da pluralismo como forma de incorporação partidária e disputa entre as elites(Dahl,1956;1971) e a solução minimalista ao problema da participação pela via da discussão das escalas e da complexidade (Bobbio,1986; Dahl,1991).Todos esses elementos que poderiam ser apontados como constituintes de uma concepção hegemônica da democracia não conseguem enfrentar adequadamente o problema da qualidade da democracia que voltou a tona com a chamada “terceira onda de democratização”. Quanto mais se insiste na formula clássica da democracia de baixa intensidade, menos se consegue explicar o paradoxo de a extensão da democracia ter trazido consigo uma enorme degradação das práticas democráticas. No caso da América Latina, em pouco mais de uma década de democracia, três presidentes foram impedidos por corrupção e, no caso da Argentina, dois em quatro presidentes eleitos não conseguiram completar os seus mandatos.

Ao mesmo tempo e paradoxalmente, o processo de globalização (Santos, 2002) suscita uma nova ênfase na democracia local e nas variações da forma democrática no interior do Estado nacional, permitindo a recuperação de tradições participativas em países como o Brasil, a Índia. Renova- se, assim, a propensão a se examinar a democracia local e democracia participativa a partir da recuperação de tradições participativas solapadas no processo de construção de identidades nacionais homogêneas, tal como foi o caso no Brasil e na Índia. O Fórum Social Mundial pode trazer contribuições decisivas nesse processo: por um lado, ele coloca em evidência experiências participativas no Brasil,

especialmente o orçamento participativo que, tal como o Fórum, tem sido reconhecido pela sua marca porto- alegrense. Mas, a contribuição do FSM pode e deve ir muito mais além: pode colocar em contato as experiências de países do Sul sem que elas passem pela mediação das experiências do Norte. E pode, pela primeira vez, tornar as experiências dos países do Sul referência no debate democrático global.

Nesse artigo, que faz parte do eixo extensão da democracia participativa do seminário “Pos- neoliberalismo: alternativas estratégicas para o desenvolvimento humano democrático e sustentável”, iremos partir da experiência do OP para mostrar a sua contribuição para o debate atual sobre democracia participativa. Também iremos apontar alguns dos limites que, uma vez ultrapassados, podem tornar o OP referência obrigatória no debate internacional sobre democracia participativa.

Surgimento do orçamento participativo

O Brasil é um dos países cujo panorama político foi profundamente alterado pela terceira onda de democratização. Portador de um sistema político altamente instável no período do pós- guerra, no qual todos os presidentes enfrentaram tentativas de golpe de estado ou tiveram suas eleições questionados como ilegítimas, o Brasil experimentou uma ruptura da ordem democrática em 1964. Entre 1964 e 1985, o país sofreu a sua pior experiência autoritária: o Congresso foi fechado duas vezes pelo regime autoritário, uma em 1968 e a outra em 1977. As eleições para presidente foram suspensas e a partir de 1968 a maior parte das garantias civis também foi suspensa.

Ao mesmo tempo, a forte desigualdade social que caracterizava o país

cresceu.

Em 1984, o último ano de vigência do autoritarismo no país,

mais que 35% da população era pobre ou muito pobre e, no caso do Nordeste, mais de 50% da população era pobre ou muito pobre. O processo de modernização econômica do Brasil gerou enormes iniqüidades sociais no âmbito local. As maiores cidades brasileiras cresceram a taxas inacreditáveis entre 1950 e 1980 e se tornaram os principais locais de concentração da pobreza. No caso da cidade de São Paulo, a sua população passou de 2.198.000 habitantes para 8.493.000 habitantes nesse período; no caso de Belo Horizonte, sua população passou de 352.000 habitantes para 1.780.000 e, no caso de Porto Alegre, a sua população passou de 394.000 habitantes para 1.125.000 nesse mesmo período (IBGE,1983). O aumento da população urbana e a criação e expansão de uma administração pública racional não foram seguidas por um aumento proporcional dos serviços públicos. Pelo contrário, na maior parte das cidades brasileiras as carências de serviços urbanos eram enormes no início da década de 80. Em 1984, somente 80,2% da população do Sudeste do Brasil – a região mais rica do país – e 59,6% da população da região Sul tinha acesso à água tratada. O acesso à rede de saneamento era ainda menor: somente 55% da população urbana tinha acesso à rede de saneamento (Santos, 1985).

A

democratização brasileira envolveu momentos de continuidade política

e

momentos de inovação democrática derivadas de propostas trazidas

pelos movimentos populares para o interior da Assembléia Nacional

Constituinte. No interior da Assembléia Nacional Constituinte propostas de fortalecimento do poder de influência dos atores sociais foram apresentadas através das chamadas “iniciativas populares”, levando, com

a sua aprovação, a um aumento da influência dos atores sociais em

diversas instituições. O artigo 14 da Constituição de 1988 garantiu a iniciativa popular como iniciadora de processos legislativos. O artigo 29 sobre a organização das cidades requereu a participação dos

representantes de associações populares no processo de organização das cidades. Outros artigos requereram a participação das associações civis na implementação das políticas de saúde e assistência social. Sendo assim, a Constituição foi capaz de incorporar novos elementos culturais surgidos no âmbito da sociedade na institucionalidade emergente. São esses elementos que estão na origem do orçamento participativo.

O orçamento participativo é uma política participativa local que responde a demandas dos setores desfavorecidos da população urbana por uma distribuição mais justa dos bens públicos nas cidades brasileiras. Ele inclui atores sociais, membros de associações de bairro, e cidadãos comuns em um processo de negociação e deliberação dividido em duas etapas: uma primeira etapa na qual a participação dos interessados é direta e uma segunda etapa na qual a participação corre por meio da constituição de um conselho de delegados.

O orçamento participativo foi implantando pela primeira vez na administração Olívio Dutra, em Porto Alegre no ano de 1990. O Partido dos Trabalhadores 3 venceu as eleições para a Prefeitura de Porto Alegre em 1988 e, depois de um ano de gestão, começou a implementá- lo. O orçamento participativo em Porto Alegre consiste em um processo de decisão pela população sobre as prioridades de obras da Prefeitura do município. Esse processo envolve duas rodadas de assembléias regionais intercaladas por uma rodada de assembléias em âmbito local. Em uma segunda fase, ocorre a instalação do Conselho do Orçamento

3 Está além dos objetivos desse artigo traçar uma história dos Partido dos Trabalhadores no Brasil. Valeria a pena, no entanto, ressaltar que o PT é criado no decorrer do processo de organização da sociedade brasileira contra o autoritarismo e teve como seus fundadores membros do chamado novo sindicalismo, membros das Comissões de Base da Igreja Católica e intelectuais e membros dos movimentos de classe média. Nesse sentido, ele esteve próximo à luta dos movimentos comunitários no Brasil desde a sua fundação ainda que a sua concepção de governo não fosse a princípio dirigida para esses atores. Vide (KECK, 1991 E UTZIG, 1996).

Participativo, um órgão de conselheiros representantes das prioridades orçamentárias decidas nas assembléias regionais e locais. A confecção administrativa do orçamento ocorre no Gaplan (Gabinete de Planejamento da Prefeitura), órgão ligado ao gabinete do prefeito.

Porto Alegre é uma cidade dividida em 16 regiões administrativas (vide mapa 1). Na primeira fase do OP são realizadas 16 assembléias regionais e as assembléias temáticas (vide figura 1 abaixo).

01 Humaitá/Ilhas/Navegantes 02 Noroeste 03 Leste 04 Lomba do Pinheiro 05 Norte 06 Nordeste

01 Humaitá/Ilhas/Navegantes

02 Noroeste

03 Leste

04 Lomba do Pinheiro

05 Norte

06 Nordeste

07 Partenon

08 Restinga

09 Glória

10 Cruzeiro

11 Cristal

12 Centro Sul

13 Extremo Sul

14 Eixo Baltazar

15 Sul

16 Centro

As assembléias são realizadas em cada uma das 16 regiões com a presença do prefeito. O número de participantes constituirá a base para o cálculo do número de delegados que irão participar na próxima fase nas assembléias intermediárias e nos fóruns de delegados. Os moradores se inscrevem nas assembléias individualmente. No entanto, a sua participação em associações civis é indicada no processo de inscrição nas assembléias. Critério para retirada dos delegados: até cem presentes na primeira assembléia regional, 1 delegado para cada dez presentes; entre 101 e 250 presentes, 1 delegado para cada 20 presentes; entre 251 e 400, 1 delegado para cada 30 presentes; mais de 401 presentes, 1 delegado para cada 40 presentes. Todos os presentes têm direito a um voto.

O conselho do Orçamento Participativo é instalado no mês de julho de cada ano. Sua composição é a seguinte: dois conselheiros por cada regional (32) + dois conselheiros eleitos por cada assembléia temática (10) + um representante da Uampa (União das Associações de Moradores de Porto Alegre) e um do Sindicato dos Servidores da Prefeitura. Total de membros: 44. Suas atribuições são: a) debater e aprovar a proposta orçamentária do município confeccionada no Gaplan, tendo como base as decisões sobre hierarquização e prioridades de obras tomadas nas assembléias intermediárias; b) rever a proposta orçamentária final elaborada pela Prefeitura; c) acompanhar a execução das obras aprovadas; discutir os critérios técnicos que inviabilizam a execução de obras aprovadas.

É possível afirmar que a introdução do orçamento participativo pela administração Olívio Dutra durante o ano de 1990 marca um divisor de águas em termos de políticas participativas no Brasil. Se, por um lado, é verdade que a conjuntura política da democratização já apontava na

direção de políticas participativas, devido à introdução da forma conselho e de outras formas de participação durante o processo constituinte (Raichellis, 1999; Dagnino, 2002), por outro lado, nenhuma cidade abraçou tão rapidamente e tão amplamente a idéia de participação quanto Porto Alegre. Alguns dados empíricos podem corroborar essa afirmação: em primeiro lugar, a baixa participação inicial no orçamento participativo em algumas regiões de Porto Alegre como a do Cristal, Navegantes e a Glória com médias entre 10 e 15 participantes mostram a enorme vontade política por trás da decisão inicial de implantação do OP. Em segundo lugar, o enfrentamento do conflito político criado pelo OP, que levou a demissão do primeiro secretário do Planejamento da administração Olívio Dutra e à criação do Gaplan (Fedozzi,1997), mostra uma determinação de enfrentar os conflitos políticos em torno da continuidade e das características do OP. Em terceiro lugar, o enorme envolvimento das associações civis nos primeiros anos do OP, período no qual 71,28% dos participantes eram vinculados a associações comunitárias (Fedozzi et all,1993), mostra o apoio à proposta no interior da sociedade civil. Todo esses dados quando comparados, por exemplo, com a experiência limitada do orçamento participativo em São Paulo no mesmo período, mostram que a introdução da proposta e a vontade política capaz de forjar o seu sucesso inicial apenas poderiam ter ocorrido em Porto Alegre devido às condições anteriormente descritas.

É possível também caracterizar o sucesso distributivo do orçamento participativo em Porto Alegre. Se partirmos de um conjunto de variáveis relacionadas com a desigualdade social em cidades brasileiras: baixo rendimento nominal médio do chefe de família; porcentagem de mães com primeiro grau incompleto; número de domicílios irregulares e o número de habitantes com menos de quinze anos por família podemos perceber que o orçamento participativo tem um impacto na redução

dessas realidades na cidade de Porto Alegre (Marquetti,2003). Esse argumento é extremamente importante para a discussão sobre democracia participativa porque consegue corroborar a idéia de formas de racionalidade associadas às formas ampliadas de participação 4 , isto é, mostra que os atores sociais quando devidamente munidos da capacidade de deliberação conseguem identificar lacunas distributivas na sociedade e agir de forma a corrigi- las. O argumento mostra também que os atores sociais são capazes de realizarem rankings de prioridades e, até mesmo, agirem altruisticamente na medida em que o ator médio que participa do OP de Porto Alegre – caracterizado como um indivíduo de renda familiar até quatro salários mínimos (Baierle, 1999) – consegue identificar que existem indivíduos mais carentes do que eles e privilegiá- los no processo de distribuição de bens públicos.

É possível mostrar também, no caso do orçamento participativo, o impacto da forma ampliada de democracia na organização do Estado. Dois tipos de evidências podem corroborar esse argumento: a capacidade do Estado de melhorar a proporção entre o número de funcionários dedicados às atividades meio em relação aos funcionários que se dedicam às atividades fins da administração pública; a capacidade do estado de melhorar o seu desempenho em áreas críticas, tais como, a coleta de lixo e a capacidade de instalação de pontos de luz. Esse argumento é relevante para nos posicionarmos em relação à determinadas discussões sobre reforma do Estado e teoria do Estado. Afinal, o espectro huntingtoniano da pressão das massas ainda assombra

4 Essa é uma questão polêmica no interior da teoria democrática contemporânea. A teoria hegemônica a esse respeito, o assim chamado elitismo democrático, supõe que a participação constitui apenas uma forma de pressão das massas sobre o sistema político. Apesar de uma série de críticas teóricas a essa perspectiva terem sido formuladas (Avritzer,1996), o trabalho de Marquetti aponta na direção de uma crítica empírica.

alguns intelectuais brasileiros (Reis,2000). O OP nos fornece elementos para pensarmos as sinergias entre reforma do Estado e formas ampliadas de participação ao mostrar que a pressão da população sobre a administração local melhora a performance da máquina administrativa.

É possível mostrar também que existe uma correlação entre o efeito distributivo do OP e a capacidade da administração municipal de aumentar a oferta de serviços públicos. Em 1990, a capacidade de investimento da prefeitura era de 8,4% do orçamento municipal. Nos anos de consolidação do OP (1992,1993 e 1994) passa para 14,5% chegando a 18,6% em 1994. A variável capacidade financeira de realizar investimentos foi fundamental para que as obras decidas no OP pudessem de fato ser realizadas. Essa questão pode ser mostrada avaliando o aumento da oferta de três serviços: coleta de lixo, número de pontos de iluminação pública e metros quadrados de asfalto utilizados na conservação ou construção de novas vias. Em todos os três itens, aumentos significativos que implicam em melhora da capacidade administrativa: a quantidade de lixo coletada dobra entre 1988 e 1998 ao passo que ela havia diminuído ligeiramente nos seis anos anteriores (1982- 1988); o número de pontos de luz instalados se multiplica por quatro, e mais uma vez, é necessário observar que esse número diminuiu entre 1982 e 1988; e, finalmente, a quantidade de metros quadrados de asfalto usados na construção e manutenção de novas vias praticamente triplica ao passo que ela havia pouco mais que duplicado entre 1982 e 1988 (Marquetti,2003).

Assim, podemos afirmar que o sucesso do orçamento participativo em Porto Alegre se assenta em pelo menos quatro pilares, todo seles ligados, a uma proposta alternativa de democracia que tem sido discutida pelo Fórum Social Mundial: o primeiro deles é o pilar da

ampliação da democracia expresso no caso da experiência porto alegrense tanto na capacidade de crescimento da participação no OP. O FSM trabalha com a idéia de uma democracia de alta intensidade, isso é, uma democracia na qual atores sociais com preferências fortes têm um papel ampliado no sistema político. OP reforça essa visão ao mostrar a viabilidade das formas de participação ampliadas. O segundo pilar é o associativo- deliberativo, expresso no caso porto alegrense por diversos elementos tais como, a presença constante das associações de moradores no OP e a capacidade do OP de ter se tornado a forma dominante de distribuição de recursos públicos na cidade, diminuído sensivelmente, senão anulando, o papel do clientelismo na distribuição de bens públicos. Mais uma vez, o Fórum Social Mundial e o OP parecem ter uma afinidade eletiva.

Uma das linhas norteadoras do FSM é a idéia de uma contribuição positiva das associações civis e ONGs no debate público. O OP mostra essa viabilidade e reforça essa concepção. O terceiro desses pilares é constituído pelas características específicas do desenho institucional: a capacidade de introduzir as assembléias regionais conciliando - as com a forma conselho, assim como a capacidade de redesenhar as regiões da cidade de modo a adequá- las ao processo deliberativo e a capacidade de criar novas instituições. Mais uma vez, acreditamos existir uma relação entre essa característica do OP e concepções de fundo presentes no FSM. Nesse caso, trata- se de reforçar uma visão de democracia que não aceite como dadas as instituições políticas existentes, mas vá mais além incentivando o surgimento de instituições que associem mais intimamente participação e distribuição, dois dos eixos fundamentais dos debates propostos pelo FSM.

O quarto elemento é a capacidade distributiva do OP abordada acima e

sua vinculação com o processo de reforma do Estado. Nesse caso, o OP aponta para uma diferente perspectiva de entender o estado, que

poderíamos localizar justamente no eixo do pós- neoliberalismo. Nessa perspectiva, a eficiência estatal não se dá pela diminuição do tamanho do estado e sim pela inversão da relação entre funcionários ligados à máquina e funcionários ligados a atividades fins das políticas sociais. Mais uma vez, entendemos haver uma afinidade eletiva entre essa visão e

as concepções defendidas pelo FSM.

No entanto, defender a adoção do orçamento participativo como paradigma de uma possível extensão da democracia participativa exige mais do que apontar essas afinidades recíprocas. Afinal, não poderia o OP ser um caso de “glocalização” (Robertson,1992; Santos, 1996), isto é, de experiências locais que se tornam conhecidas globalmente mas que são indissociáveis do seu contexto de surgimento? Na próxima seção deste artigo, irei discutir a expansão do orçamento participativo no Brasil.

Expansão do orçamento participativo no Brasil

O orçamento participativo constitui hoje, no Brasil, o principal motor da

expansão da democracia participativa no país. Entre 1989 e 1992, apenas 12 municípios praticaram o OP em todo o Brasil. Entre 1993 e 1997, 36 municípios realizam o OP e entre 1997 e 2000, 103 municípios praticaram o OP. (Teixeira, 2003). Estamos falando, portanto, de uma forte expansão do OP como prática democrática – ainda que percentualmente essa prática vigore apenas em 5% do total dos municípios brasileiros. O que torna o OP influente enquanto proposta de democratização do orçamento é o peso dos municípios nos quais ele é

praticado. No ano de 2002, o OP foi praticado nos municípios de São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre, cidades com um enorme peso nacional e regional. No entanto, discutir, a prática do OP é também reconhecer as enormes variações que existem entre essas cidades ou entre os 103 municípios que praticaram o OP entre 1997 e 2000. O OP foi praticado entre 1997 e 2000 em 9 cidades com mais de 500 mil habitantes (entre elas, 4 cidades com mais de 1 milhão de habitantes). (Teixeira, 2003, Ribeiro e Grazia, 2003). Por outro lado, o OP tem a maioria das experiências a ele relacionadas localizadas em cidades entre 20 mil e 100 mil habitantes. Assim vemos dois elementos distintos na extensão do OP: a sua extensão para pequenas cidades das regiões Sul e Sudeste e sua extensão para grandes capitais das regiões Sul, Sudeste e Nordeste (no caso a cidade do Recife).

Estimativas preliminares apontam para mais de 300 experiências de orçamento participativo no Brasil entre 2000 e 2004 (Avritzer, 2003). O orçamento participativo tem mostrado também uma capacidade de expansão em países da América Latina: o Peru recentemente aprovou uma lei propondo a realização de um orçamento participativo nacional; a Venezuela tem discutido essa proposta. Existem rudimentos de experiências de orçamento participativo em diversas cidades latino- americanas, entre as quais valeria a pena destacar, Montevidéo, Buenos Aires, Córdoba e Vila Salvador, esta última no Peru. Portanto, a questão que se coloca no debate sobre a extensão do orçamento participativo é a seguinte: teria o OP potencial para se tornar uma política participativa geral, capaz de organizar, a distribuição de políticas sociais, a incorporação de minorias culturais e o debate participativo? Ou, estaria o OP condicionado às pré- condições que o geraram, isto é, uma situação de alta organização da sociedade civil e dos movimentos comunitários em uma situação de carências urbanas acentuadas? Se for possível

estender o OP, em quais condições ele pode funcionar? Dois tipos de evidências contraditórias podem ser apresentadas para problematizarmos essa questão: (1) o desempenho do OP no decorrer das tentativas de torná- lo uma política social; (2) o desempenho do OP em relação a integração de setores desfavorecidos, minorias culturais e problemas de gênero.

Em relação aos problemas de política social foram feitas algumas tentativas em Porto Alegre e em Belo Horizonte de expandir o OP nessa direção. Afinal, se tomamos os planos de obras do OP em Porto Alegre, Belo Horizonte e na recente experiência na cidade de São Paulo esse parece ser um problema constante: o OP parece ser uma boa forma de discutir novos investimentos em infra- estrutura, mas não parece ter sido capaz até o momento de introduzir novas políticas sociais. A Tabela 1 mostra as principais prioridades do OP de Porto Alegre por região no ano 1999. A análise da Tabela 1 mostra que, no caso das chamadas assembléias regionais em Porto Alegre, a grande maioria das decisões continua envolvendo distribuição de recursos materiais e não programas de governo. No caso das primeiras prioridades em Porto Alegre em 1999, 6 decisões foram relativas à pavimentação, 6 foram relativas à política habitacional, perfazendo um total de 12 decisões relativas à questão material no total de 16. Em apenas uma região a educação apareceu como prioridade. Ou seja, a maioria das decisões são decisões sobre obras públicas. Tais decisões não envolvem alteração do perfil dos gastos de custeio das prefeituras e tampouco envolvem uma democratização das decisões sobre alternativas de políticas, tais como, o tipo de educação pública, a concepção de saúde pública, a concepção de preservação do meio ambiente.

Tabela 1 Prioridades escolhidas em Porto Alegre em 1999

 

Região

1ª Prioridade

2ª Prioridade

Nota 5

Nota 4

Humaitá/

Saúde – ampliação e construção de postos de saúde

Saneamento básico – Esgoto pluvial – DEP

Navegantes

/Ihas

Noroeste

Áreas de lazer

 

Política

habitacional

 

Reassentamento

Leste

Política habitacional – Regularização fundiária

 

Pavimentação

Lomba do

Pavimentação

Saneamento

Básico – Esgoto

Pinheiro

cloacal

Norte

Política habitacional – Regularização fundiária

 

Saneamento básico – Arroio (drenagem e dragagem)

 

Nordeste

Educação

Ensino

Política

habitacional

fundamental

Urbanização

Partenon

Pavimentação

Política habitacional – Regularização fundiária

 

Restinga

Saneamento básico – Esgoto cloacal

 

Educação – Educação infantil

 

Glória

Pavimentação

Saneamento básico – Esgoto pluvial – DEP

Cruzeiro

Política habitacional – Regularização fundiária

 

Pavimentação

Cristal

Política Habitacional- Regularização Fundiária

 

Saneamento básico – Esgoto pluvial – DEP

Centro- Sul

Pavimentação

Saneamento básico – Esgoto pluvial – DEP

Extremo- Sul

Pavimentação

Saneamento básico – Rede de água – DMAE

Eixo

da

Política Habitacional – Reassentamento

Saúde – Reforma, ampliação e construção de postos de saúde

Baltazar

Sul

Pavimentação

Saneamento básico – Esgoto pluvial – DEP

Centro

Política habitacional Construção de U.H.

Educação – Programa SEJA

Fonte: Prefeitura de Porto Alegre.

Em 1999, Belo Horizonte começou um movimento no sentido de delegar à população que participa do OP o controle sobre algumas políticas de governo em um processo chamado de “OP Cidade”. A alteração introduzida pela Prefeitura de Belo Horizonte tem a intenção de tornar a população co- partícipe na decisão sobre prioridades de políticas sociais. No assim chamado “OP Cidade”, a Prefeitura apresenta à população a forma como ela prioriza programas de diversas secretarias e a população através da sua participação pode aceitar o ranking proposto pela Prefeitura ou propor um ranking alternativo. No caso de divergência uma assembléia da cidade com poder de decisão de 50 + 1 porcento decide a ordem de prioridades. É muito cedo para avaliar os resultados desse processo, mas tudo parece indicar que um movimento na direção da participação da população no estabelecimento de prioridades entre programas é o caminho que o OP deve seguir para ampliar a participação da população na gestão local.

A Tabela 2 mostra o tipo de priorização de políticas sociais feita pelo OP-

Cidade.

Na curta experiência em Belo Horizonte, foi possível observar

que à medida que avança o OP- Cidade encontra mais opositores na administração pública e entre o pessoal técnico da prefeitura. Tal oposição parece lógica, tendo em vista que esses são os casos nos quais o OP redireciona preferências da máquina administrativa ou exige dos administradores públicos mudanças nas suas preferências em relação a políticas. No entanto, se o OP não pode ser apenas um programa de ampliação do acesso a obras públicas, ele tem que envolver ampliação do acesso a políticas e em alguns casos, mudanças na orientação dessas políticas.

Tabela 2 Prioridades do OP Cidade em Belo Horizonte na área de assistência social

 

Classificação

dos

Classificação

do

 

Programas

da

programas

segundo

programa segundo

Secretaria

de

critério

interno

da

decisão

do

OP

Resultado

Assistência Social

Secretaria

Cidade”

final

Criança

e

adolescente

Qualificação

profissional

Portadores

de